GRAMÁTICA PORTUGUÊS – 10º Ano

Língua, comunidade linguística, variação e mudança • Língua e falante (Sujeito considerado enquanto utilizador de uma língua, possuidor de um conhecimento linguístico ou elemento de uma comunidade linguística. O termo é sinónimo de falante-ouvinte.)

-Competência linguística: Capacidade intuitiva que o falante tem de usar a sua língua materna. Expressões sinónimas são "faculdade da linguagem" e "conhecimento da língua", ou seja, o principal objecto de conhecimento da linguística generativa. -Competência comunicativa: Capacidade que o falante tem de usar a competência linguística de forma adequada a situações sociais específicas, o que só consegue mediante o domínio de conhecimentos extralinguísticos e contextuais. -Competência metalinguística: Capacidade que o falante tem de trazer para o nível do consciente traços inconscientes da sua língua por meio de múltiplas estratégias, entre as quais se contam os trocadilhos e os jogos de palavras. • Variação e normalização linguística

-Variedades do português: Resultado linguístico da história de Portugal: da independência no século XII, da Reconquista terminada no século XIII, da expansão extra-europeia a partir do século XV e do esforço colonizador em África, na América e na Ásia durante toda a Idade Moderna. Ao longo desta história, a população de língua materna portuguesa entrou em contacto com falantes de outras línguas e daí resultaram diferentes variedades do português: variedade europeia, variedades africanas e variedade brasileira. * Variedade europeia: Português falado em Portugal continental e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, dividido dialectalmente em dois grandes grupos (setentrional e centro-meridional) e aceitando a variedade de Lisboa como língua padrão. Os falantes do grupo setentrional distinguem-se dos do grupo centro-meridional por, em áreas variáveis, não oporem b a v, conservarem sibilantes apicais (o "beirão" é a sua variante mais pronunciada), pronunciarem os ditongos ou e ei bem diferenciados e conservarem uma africada medieval quando no caso da consoante que se escreve ch. Ao contrário do que acontece no português do Brasil, o português europeu tem, em todos os seus dialectos, uma geral redução do vocalismo pretónico e, já a nível sintáctico, uma posição dos pronomes pessoais átonos que, nas orações principais, é uma posição enclítica. * Variedade brasileira: Português falado no Brasil, sujeito a uma variação geográfica que separa, sobretudo, os estados do litoral acima do estado da Bahia (inclusivé) dos que estão abaixo. Os falantes do Norte e Nordeste pronunciam as vogais pretónicas abertas e os do Sul e Sudeste pronunciam-nas com uma abertura média. A variação social do português do Brasil é muito pronunciada: os falantes do sociolecto não culto, por exemplo, a nível morfológico, flexionam muito pouco as formas dos paradigmas verbais. Sintacticamente usam um pronome pessoal tónico ou uma categoria vazia em posição de complemento directo, usam os pronomes átonos (que são proclíticos, ou préverbais) sempre junto do verbo principal, usam construções de sentido passivo e forma

activa sem marcas de passivização e dão uma interpretação impessoal a verbos da terceira pessoa do singular em frases com sujeito nulo. * Variedades africanas: O português de Angola (só o de Luanda) e o de Moçambique são as duas variedades africanas de língua portuguesa que têm sido alvo de descrição e, portanto, as únicas sobre as quais se podem fazer afirmações. A variedade africana de português falada em Luanda tem muitas influências do contacto com o Kimbundu, língua do grupo bantu. Para além dos inevitáveis empréstimos lexicais, o vocalismo átono é mais aberto, os ditongos são monotongados e as sílabas são regularizadas segundo um padrão Consoante Vogal (CVCV).A nível morfológico, a marca do plural é apenas carregada pelo nome, mas em posição inicial, de prefixo e o pronome átono dativo e acusativo da terceira pessoa têm a mesma forma. Sintacticamente, não há concordância explícita entre sujeito e predicado. No português de Moçambique, falando apenas a nível sintáctico, e também por influência do contacto com línguas bantu, os verbos têm tendência para se tornarem transitivos, os pronomes pessoais átonos, nas orações subordinadas, são enclíticos (pósverbais) e as orações subordinadas são introduzidas por conjunções diferentes (ou com estatuto diferente) das da gramática do português europeu. Fonologia • Nível Prosódico

- Propriedades prosódicas: * Altura: Atributo da sensação auditiva de acordo com o qual um som pode ser ordenado numa escala de grave a agudo. Acusticamente, corresponde à frequência dos sons. Fonologicamente determina o tom. * Duração: Quantidade de tempo durante o qual uma unidade linguística é produzida. Fonologicamente, determina a quantidade dos sons. * Intensidade: Quantidade de energia acústica de um som. A intensidade depende das variações na pressão do ar. A sua unidade de medida é o decibel (db). Fonologicamente, determina o acento em línguas como o português. -Constituintes prosódicos: * Frase fonológica: A frase fonológica, frase entoacional ou sintagma entoacional é um constituinte prosódico superior à palavra prosódica e baseia-se em noções sintácticas muito gerais. A frase fonológica possui mais do que um acento principal, sendo mais proeminente o que ficar à direita. 1. Entoação: Utilização de diferentes tons em sequência, em interacção com a duração e a intensidade. A entoação de uma palavra, grupo de palavras ou frase tem funções sintácticas, semânticas, pragmáticas e de comunicação de atitudes pessoais (por exemplo: alegria, raiva, surpresa). A variação dos tons em sequência forma uma curva entoacional. -Declarativa: A entoação declarativa apresenta uma curva caracterizada por uma descida suave e pequena duração.

expressões lexicalizadas ou outras unidades linguísticas. sendo que o primeiro impõe sempre as suas propriedades ao segundo. entre eles. Permite muitas vezes distinguir constituintes sintácticos e/ou entoacionais. • Relações entre palavras *Hiperonímia: Relação hierárquica de inclusão semântica entre duas unidades lexicais. 2. Tem duração média. -Persuasiva:A entoação persuasiva apresenta uma curva descendente e uma duração maior do que a dos restantes tipos de entoação. possui os seus próprios traços diferenciadores. quer autonomamente. unidas semanticamente por traços comuns em torno de um conceito chave. *Hiponímia: Relação hierárquica de inclusão semântica entre duas unidades lexicais. Semântica frásica • Valor semântico da estrutura frásica . mas funcional do ponto de vista da organização entoacional de um enunciado. Semântica lexical • Estrutura lexical: Organização interna do léxico de uma língua que obedece a particularidades fonéticas. que pode corresponder a uma suspensão de voz (pausa silenciosa) ou a uma articulação não linguística por hesitação (pausa preenchida). -Exclamativa: A entoação exclamativa apresenta uma curva ascendente e descendente com duração média. quer em combinação e com durações variadas. uma dependência semântica. sintácticas e semânticas próprias do sistema dessa língua. fonológicas. partindo do específico (hipónimo) para o genérico (hiperónimo). Pausa: Intercepção na produção do discurso. * Campo lexical: Conjunto estruturado de unidades lexicais reunidas pelas relações semânticas existentes entre si e referindo um campo conceptual comum. criando assim. -Imperativa: A entoação imperativa apresenta uma curva ascendente seguida de uma descida abrupta. morfológicas. sendo que o primeiro.-Interrogativa:A entoação interrogativa apresenta uma curva ascendente e descendente-ascendente com grande duração. -Preenchida: Pausa entre constituíntes sintáticos e/ou entoacionais que envolve tipicamente o uso da vogal central [a] e da consoante bilabial nasal [m]. -Silenciosa: Pausa não preenchida com suspensão de emissão de voz. partindo do genérico (hiperónimo) para o específico (hipónimo). * Campo semântico: Conjunto estruturado de unidades lexicais. para além de conservar as propriedades semânticas impostas pelo segundo.

os segundos designam situações ou estados de coisas. * Tempo: O tempo linguístico é uma categoria gramatical que exprime a localização de uma situação representada por um conteúdo proposicional num sistema referencial definido pelas coordenadas enunciativas locutor e tempo da enunciação. concretos ou abstractos. Estas expressões .nominais ou pronominais . geralmente. Por ser. É assim possível a interpretação referencial desse conteúdo proposicional. dependente das coordenadas enunciativas. O tempo de um enunciado pode não ser directamente localizado em relação às coordenadas que definem a enunciação.Predicador: Um predicador (ou uma expressão predicativa) é uma expressão linguística que designa uma propriedade de entidades ou uma relação entre entidades. um predicador dá origem a um conteúdo proposicional básico. abstracções . Combinado com os argumentos que selecciona. Pode também não haver localização em relação às coordenadas enunciativas. Pode ser construído linguisticamente um outro ponto de referência. a partir de uma coordenada temporal que se constitui como ponto de referência. * Aspecto: Categoria gramatical. Essa relação de ordem permite estabelecer os valores temporais. O tempo intrínseco ou interno de uma situação é expresso no seu aspecto lexical. O conteúdo proposicional completo de uma frase. cuja presença é essencial para a boa-formação de uma predicação. um valor aspectual. O tempo associado a um enunciado é definido como um instante ou como uma sequência de instantes. No exemplo (1). .e caracterizamse por terem um sentido e um valor referencial. . o conteúdo proposicional básico corresponde à combinação do predicador partir com os seus dois argumentos. implica ainda um valor de localização temporal (ver Tempo). ou seja.* Conteúdo proposicional básico: A combinação de um predicador com o número de argumentos que obrigatoriamente selecciona dá origem a um conteúdo proposicional básico. o tempo é por vezes considerado uma categoria deíctica. a sua omissão dá origem a estruturas agramaticais.Argumento: Elemento seleccionado por um predicador. Os argumentos internos são aqueles que ocorrem no interior do grupo verbal. . desempenhando a função de sujeito. indivíduos. que corresponde à representação elementar de uma situação ou de um estado de coisas.referem objectos. salvo se for possível recuperar contextualmente o elemento omitido. . O seu tempo extrínseco define-se como uma relação de ordem cronológica entre o tempo do enunciado e uma coordenada temporal que se constitui como ponto de referência. a completa especificação do valor semântico da estrutura frásica. Os argumentos podem ser nominais ou oracionais: os primeiros designam objectos ou indivíduos. É o caso dos enunciados habituais e dos enunciados genéricos. e um valor de polaridade. O número de argumentos seleccionado por um predicador depende da semântica desse mesmo predicador. Exprime a forma como uma situação é perspectivada na sua estrutura temporal interna. e o argumento externo é aquele que ocorre no exterior desse grupo. um valor de modalidade. o Pedro e um braço. Sendo o argumento um elemento essencial da predicação. Os argumentos identificam as entidades que verificam uma determinada propriedade ou entre as quais se estabelece uma relação.Expressões referenciais: Às expressões nominais que ocupam lugares de argumento numa proposição dá-se o nome de expressões referenciais.

o "aqui" correspondente ao espaço ocupado pelo locutor. cá. marca um valor de anterioridade relativamente ao momento da enunciação. através da categoria gramatical de pessoa. Assim. ao nível da sua estrutura. Integram a deixis espacial advérbios e locuções adverbiais de lugar (por ex. aqui.* Polaridade: Aplicado à semântica da estrutura frásica. lá) e os demonstrativos. já que a construção do seu valor referencial depende do conhecimento de uma coordenada enunciativa: se não se souber quando foi produzido o enunciado. presente no contexto verbal. o advérbio temporal ontem é deíctico. a 2ª pessoa codifica a referência ao(s) interlocutor(es). quer de outro termo-origem. o João tinha desaparecido. A forma verbal foi. expressa através do pretérito mais-que-perfeito tinha desaparecido. aí. a forma verbal chegou marca um valor de anterioridade relativamente ao momento da enunciação e simultaneamente fixa o ponto de referência a partir do qual se estabelece uma nova relação de anterioridade. quer do momento da enunciação. as línguas naturais possuem. será impossível interpretar ontem. o demonstrativo esse aponta para um livro presente no contexto situacional e localiza-o num espaço próximo do interlocutor. No enunciado (1). este termo envolve dois valores: afirmativo e negativo. A categoria de 1ª pessoa corresponde à gramaticalização da auto-referência do falante.1). (2) Quando o táxi chegou. Diz-se que um enunciado tem uma polaridade afirmativa quando expressa uma asserção positiva. . o tu a quem esse sujeito se dirige. Exemplo (1) Passa-me esse livro. A categoria de pessoa manifesta-se nos pronomes pessoais e possessivos e na flexão verbal. * Deixis espacial: Designa a especificação da localização espacial de objectos ou indivíduos. ali. Exemplo (1) O João foi operado ontem. formas ou expressões que permitem aos falantes a tomada da palavra.2). assumindo-se como locutores e instituindo uma relação intersubjectiva com uma instância de alteridade. Em (2). Assim. * Deixis temporal: O tempo linguístico. Secundariamente. a ordenação faz-se a partir de um ponto de referência discursivamente construído (ex. expresso através dos tempos verbais e das locuções adverbiais temporais. está organicamente ligado ao exercício da fala e ordenase em função desse ponto de referência fundamental que é o momento da enunciação (ex. Em (1). a interpretação referencial dos tempos verbais e das locuções adverbiais temporais é sempre dependente. Um enunciado com uma polaridade negativa é aquele que expressa uma asserção negativa. a partir de um ponto de referência . A presença ou ausência de operadores de negação marca o valor de polaridade do enunciado. • Referência deítica * Deixis pessoal: Designa a codificação dos papéis dos participantes no acto comunicativo. no mesmo enunciado.

Na configuração do produto verbal intervêm duas dimensões interactuantes: uma estrutura global materializada através de uma sequência de enunciados. entendido como linguagem em uso e como acontecimento social. Vi-o na semana passada. O valor referencial da locução adverbial no dia seguinte constrói-se a partir da interpretação do termo antecedente. (3) A sala de aulas está degradada. No exemplo 3. No exemplo 1. designam a mesma entidade. há uma relação parte-todo (ver meronímia e holonímia) que sustenta a relação anafórica. [No dia seguinte] parte para uma grande viagem pela Europa. O enunciado (4) exemplifica um caso de anáfora temporal. dos participantes do acto enunciativo. Assim. O animal já conhece todos os cantos da casa. e uma rede complexa de determinações extralinguísticas de envolvente contextual de onde se destacam. total ou parcialmente. o pronome pessoal o é o termo anafórico. a expressão referencialmente não autónoma (o termo anafórico) retoma. (4) O João faz 18 anos no dia 2 de Julho de 2001. que realizam uma específica estratégia comunicativa que o locutor activa. e às relações interpessoais. Há casos de anáfora em que o termo anafórico e o antecedente são co-referentes (isto é. No exemplo 2. Neste sentido. Exemplo (1) O João está doente. o conhecimento do contexto da troca verbal. única e irrepetível que deriva da interacção estabelecida pelos participantes do acto enunciativo num contexto espácio-temporal efectivo. visto como produto pertencente ao domínio do sistema linguístico. informação relativa ao estatuto. que retoma o valor referencial do antecedente o cão. Entre os lexemas em causa. o valor referencial do antecedente. afasta-se da noção de texto.3). discurso. que retoma o valor referencial do grupo nominal o João. a interpretação referencial do grupo nominal as carteiras depende da sua relação anafórica com o grupo nominal a sala de aulas. entre outros factores (saber compartilhado). como os exemplos 1 e 2 ilustram). a expressão temporal no dia 2 de Julho de 2001. as suas formas usuais de interacção e informação acerca das formas social e cultural assumidas em determinado acto ilocutório.• Anáfora Fala-se de anáfora quando a interpretação de uma expressão (habitualmente designada por termo anafórico) depende da interpretação de uma outra expressão presente no contexto verbal (o termo antecedente). mas há também casos de anáfora sem co-referência (ex. referencialmente dependente. . Mais concretamente. (2) A Ana comprou um cão. É a relação de hiponímia/hiperonímia entre cão e animal que suporta a co-referência. o dia seguinte designa o dia 3 de Julho de 2001. procurando agir sobre o alocutário em ordem à alteração do seu conhecimento ou à modificação dos seus comportamentos. As carteiras estão todas riscadas. o termo anafórico é o grupo nominal o animal. Pragmática e linguística textual • Interacção discursiva * Discurso: Produção verbal concreta.

por vezes. como o de «prometer». distinguindose entre si pelo grau de comprometimento do locutor. Enquanto os actos directivos colocam o interlocutor sob uma obrigação.Tipologia dos actos ilocutórios: *Assertivo: Acto de fala que o locutor realiza pela enunciação de uma proposição. *Compromissivo: Acto de fala que. perfilam-se actos como «convidar». dá expressão a uma intenção do locutor. Entram na categoria de assertivos verbos como «afirmar». a intenção do locutor de levar o interlocutor a fazer ou a dizer alguma coisa. *Directivo: Nesta categoria incluem-se actos que têm em comum. ser submetida ao teste do verdadeiro ou falso.». «ordenar» obedece a uma condição preparatória adicional segundo a qual o locutor tem que estar numa posição de autoridade em relação ao interlocutor. o modo verbal. a pontuação. mas contanto com as capacidades inferenciais do ouvinte para a interpretação correcta do discurso.. num específico contexto enunciativo. «requerer». Exemplo A) Parto para a Austrália na próxima semana..». portanto. Exemplo A) Quero esse trabalho terminado dentro de meia hora. As perguntas são uma subclasse de directivos. Tendo em comum o facto de darem expressão a uma vontade ou desejo do locutor em levar o interlocutor a realizar uma acção futura.. «Prometo que. «Afirmo que.». em relação a «pedir».». «sugerir» ou «colocar uma hipótese». Tal proposição pode. «pedir». suficiente para a determinação da força ilocutória desse mesmo enunciado.. os compromissivos exercem essa obrigatoriedade sobre o locutor. «Peço desculpa por. o contorno entonacional. a situação enunciativa é. No entanto. vinculando-o à realização de uma acção futura que poderá afectar o interlocutor de um modo positivo (no caso da promessa) ou de um modo negativo (no caso da ameaça). Exemplo A) Ligo-te amanhã. Pode-se ainda indicar o tipo de acto ilocutório que se pretende realizar. É importante salientar que. tendo em conta que o objectivo é obter do interlocutor a execução de um acto de fala. «suplicar» ou «avisar».. embora difiram pela natureza própria de cada um. dispensando-se a explicitação dos verbos performativos. começando a frase por «Aviso que. São vários os marcadores da força ilocutória de um enunciado: a ordem das palavras. embora com matizações.] .[Prometo que te ligo amanhã. com cujo valor de verdade se compromete em maior ou menor grau.. «ordenar».* Força ilocutória: Conteúdo accional (ou dimensão da significação) de um enunciado que permite ao interlocutor. os verbos performativos... . O conteúdo proposicional consiste na acção futura a que o locutor se propõe. o reconhecimento do objectivo comunicativo do locutor.

apesar do seu formato interrogativo (que poderia realizar um acto ilocutório de pergunta). Exemplo Expressões paradigmáticas desta categoria são: A) «Baptizo este barco com o nome de . como o de «agradecer» ou «dar os parabéns».. tais como os que se relacionam com as informações enciclopédicas/conhecimento do mundo (saber compartilhado).*Expressivo: Acto de fala que. como a igreja. caso em que dizer é fazer (criar a própria realidade). Para a desmontagem do mecanismo dos actos ilocutórios indirectos. em que intervém um conjunto de saberes diferenciados. Tais declarações [ver exemplos] alteram o estado de coisas envolvente: alguém fica baptizado. além de obedecer às regras linguísticas. Exemplo A) Lamento profundamente tudo o que te aconteceu. expressa gratidão ou apreço. ou alguém excluído de um concurso. Agradecer apresenta como conteúdo proposicional um acto passado feito pelo interlocutor em benefício do locutor que. princípio de cortesia). que está investido de uma autoridade específica. contando com as capacidades inferenciais do interlocutor para o reconhecimento da sua intenção ou objectivo ilocutório. «congratular-se». Exemplo . por tal. por exemplo. como o de declarar alguém inapto para o serviço militar. *Declaração: Acto de fala que cria um estado de coisas novo pela simples declaração de que elas existem. o tribunal. por exemplo). numa classe autónoma. «lamentar». dentro da qual o locutor e o interlocutor desempenham papéis sociais pré-estabelecidos (o padre perante os noivos.» B) «Declaro-vos marido e mulher. O enunciado «Importas-te de me passar o sal?». surja inscrito numa específica instituição extra-linguística. o locutor. o interlocutor recorre ao que Grice denomina implicatura conversacional. com o conhecimento relativo aos actos ilocutórios. o estado. com os princípios reguladores da interacção discursiva (princípio de cooperação. é responsável pela tomada de decisões como as do árbitro num jogo de futebol ou um chefe de secção numa empresa. Fazem parte do paradigma dos actos expressivos verbos como «agradecer». os assertivos que. alguém deixa de ser solteiro para assumir o estatuto de casado.» *Declaração assertiva: Dentro dos actos declarativos circunscrevem-se. reúnem os objectivos ilocutórios de asserções e de declarações. Para que a realização dos actos declarativos seja bem sucedida é necessário que o enunciado. deve antes ser entendido como um pedido (acto ilocutório indirecto). o locutor quer dizer algo diferente daquilo que expressa em sentido literal. *Acto ilocutório indirecto [os anteriores são directos]: Num acto ilocutório indirecto. Nestes casos.. pretende exprimir um estado psicológico relativo ao estado de coisas contido no conteúdo proposicional da frase.

a desaprovação. as perguntas representam para a face negativa do alocutário. até todo o complexo jogo de estratégias conversacionais cujo objectivo se orienta no sentido de evitar que a troca verbal seja ofensiva ou ameaçadora para qualquer dos actantes (locutor e/ou alocutário). introduzido por H. Descurar as máximas conversacionais é pôr em risco a eficácia do acto comunicativo. desde fórmulas ritualizadas. dividem-se em quatro categorias: (1) a autocrítica. Uma dessas estratégias é. em particular pela inclusão de uma introdução explicativa ou desculpabilizadora. Muitas interacções verbais constituem potenciais ameaças à face (nas suas componentes de face positiva e face negativa) dos actantes. As estratégias de cortesia variam. social e cultural em que se inscreve. máxima da quantidade. ou seja. assim.A) Será que vocês gostariam de vir passar o fim-de-semana a Lisboa comigo? pergunta que realiza um convite. o recurso a estratégias várias de cortesia verbal é um jogo constante numa interacção discursiva. como por exemplo em "Desculpe mas está enganado" em vez de simplesmente "Está errado". de acordo com o seu objectivo específico. a justificação constituem uma ameaça à face positiva do locutor. máxima da relevância. ou "Do meu ponto de vista. como é claramente visível pelo confronto de enunciados como "Está tanto calor aqui dentro!" e "Abra a janela. assim. uma ameaça à face positiva do alocutário. procurando diminuir o impacto negativo dos actos de fala. é também culturalmente dependente nas suas formas de ocorrência: cada língua natural tem. Outros actos indirectos contribuem para a diminuição da ameaça à face positiva provocada por desaprovações ou desacordos. as acusações e interrupções. Embora o princípio interaccional da cortesia seja universalmente válido. Devido a esta vulnerabilidade. máxima do modo. uma ameaça à face negativa do alocutário. uma ameaça à face negativa do locutor. como um fenómeno linguisticamente pertinente que toma para objecto de estudo elementos de complexidade variável. um particular sistema de cortesia. Grice. • Princípios reguladores da interacção discursiva *Princípio de cooperação: O princípio de cooperação. o uso de actos de fala indirectos que contribuem muitas vezes para diminuir a ameaça que as ordens. a saber: máxima da qualidade. os pedidos. Assim. de acordo com a comunidade linguística. de cultura para cultura. (4) todos os directivos (ordens. P. *Princípio de cortesia: A cortesia linguística é considerada um princípio pragmático fortemente determinante do desenrolar da interacção discursiva entre os actantes. pedidos. Ao princípio de conversação cooperativa subsumem-se as máximas conversacionais que se assumem como princípios descritivos do comportamento linguístico dos falantes e não como normas específicas de conduta linguística. se faz favor". define a boa-formação conversacional. a contribuição cooperativa dos falantes a fim de que a interacção discursiva em que participam se desenvolva do modo requerido. os actantes procuram accionar meios e estratégias de mitigação das ameaças à face de cada um. instruções). expressões convencionalmente tidas por corteses. . a confissão. os actos que ameaçam a face. no quadro das interacções verbais. Conhecer os princípios de boa-formação conversacional é possuir uma competência conversacional capaz de levar o falante à condução eficaz e eficiente de uma interacção discursiva. as injúrias. Inscreve-se. acho que está errado". por exemplo. a censura. (2) as ofertas e as promessas. Quando os actos de fala constituem uma ameaça à face do locutor e do interlocutor. (3) os insultos.

intervalos. o que requer a exploração de conhecimentos reflectidos sobre a língua e o funcionamento textual (coesão. de uma relação física. entre eles. sintaxe. das formas de tratamento. na reciprocidade interactiva das trocas verbais. sexo. etc). de um mesmo campo perceptivo e a instauração. cognitiva e funcional. coerência.meio oral e escrito -: a escrita afirma-se pela sua especificidade linguística. (iii) ser lugar de tensão na busca de exercício de influência sobre o receptor. (iv) cumprir necessidades comunicativas imediatas. etc. da modalização. de implicaturas. etc. explicitação dos pontos de vista. É o "a quem se vai dizer" que condiciona o "o quê/como se vai dizer". passando pela gestão da pressuposição. atitudes. tipologização textual). espaços. conhecido ou anónimo do escrevente. o que exige da parte do escrevente uma prévia análise das circunstâncias concretas da produção textual. expressãoes faciais. (iii) exigir a realização de precisões. manchas de página.ouvinte -.• Adequação discursiva *Uso oral: Modo de expressão verbal que. pelo emissor e receptor. Exemplo "--Ora vai ver se eu lá estou fora!" "--Faça o favor de sair. de um conjunto alargado de variáveis da situação interlocutiva. (ii) convocar esses elementos constitutivos da situação interlocutiva." . enfim. pontuação. identificação do emissor. determinada pela situação de interlocução: diferentes tipos de contexto situacional requerem diferentes tipos de activação linguística relativos ao léxico. (v) realizar-se por movimentos discursivos de acrescentamento. (ii) implicar a activação de meios linguísticos que explicitem o papel dos elementos contextuais na comunicação. descrição de circunstâncias. mas não de substituição. entre outros). *Uso escrito: Modo de expressão verbal que. se caracteriza por: (i) dispensar a referenciação de objectos. dos actos ilocutórios indirectos. semblante. situacionalidade. estímulos sensoriais. vestuário. não é uma transcrição do registo oral. idade. cognitiva e emotiva. (iv) cumprir necessidades comunicativas imediatas. (v) accionar uma competência semântico-discursiva: gestão das decisões sobre a selecção do material linguístico. em vigor no momento da elocução oral. ortografia. que não precisam de ser explicitados. no tempo e no espaço. intensificada pela exigência de realizar eficazmente operações de inflexão comunicativo-argumentativa imediatas. se caracteriza por (i) requerer a explicitação das coordenadas enunciativas "lá"-"então" da recepção: datação. na reciprocidade interactiva das trocas verbais. As escolhas linguísticas efectuadas são determinadas pelo tipo de relação social/posição relativa entre interlocutores ( matizadas sob diferentes factores: grau de instrução. É importante notar que a distinção entre meio de expressão oral e escrita se desprende largamente da distinção do tipo de suporte físico . substituições. reformulações. ordenação micro e macroestrutural. dos princípios conversacionais. fonologia e prosódia. para a construção do sentido. progressão informativa. dirigido a um destinatário ausente. pressupondo a partilha. (iv) envolver uma competência gráfica (disposição de linhas. *Registo formal e informal: Dimensão da variação da língua. presença/ausência de co-participantes . gestos.

A ideia de que o discurso directo é uma reprodução literal. • Relato de discurso *Discurso directo: Modalidade de reprodução do discurso de um locutor no discurso do mesmo ou de outro locutor. itálicos. nobiliárquico (Sua Majestade. de natureza formal. por exemplo. Futuro. travessões.para os eventos referenciados antes e depois da enunciação original: Pretérito Perfeito. pelo locutor-relator. genuína. sua eminência). o significado do discurso citado se altera. Presente. com a função discursiva de regular eficazmente as faces do locutor e interlocutor.para o momento em que disse: agora.Facilmente reconstituímos os possíveis contextos em que um e outro enunciado foram proferidos. Professor Doutor). permite a criação de ilusão de imitação perfeita. assenta. o discurso directo escrito é marcado por operadores citacionais: aspas. quer o interlocutor contam com a activação de formas adequadas à situação interactiva. portanto. Tal facto prova que a língua incorpora múltiplas possibilidades de se realizar em discurso. fraseologia própria da oralidade. etc. conservando as formas deícticas da enunciação original. eclesiástico (monsenhor. *Formas de tratamento: Um recurso da língua. O enunciado que compreende o discurso citado opera uma transposição enunciativa para outro espaço e outro tempo.distância psicossocial e quer o locutor. -. Para além disso. cópia fiel do discurso citado. em discurso directo podem ser mantidas interjeições. A opção por uma forma de tratamento em detrimento de outra é determinada por um sentido de familiaridade/proximidade . em dois espaços enunciativos: um reconstituído (o do segmento discursivo relatado). já que: (i) apenas pela transferência de contexto. -. amigo). por modulações tonais ou expressões faciais. etc. honorífico (senhor Presidente. pura. Mecanismos como este marcam o exercício verbal e situam-se no estudo que cruza as relações entre as acções discursivas. Sua Alteza). alheia a qualquer intervenção interpretativa do locutor-relator é um efeito com valor comunicacional e não um princípio inerente à caracterização desta modalidade de relato de discurso. .para o lugar onde disse: aqui -. A transferência de contexto que ocorre no discurso directo. que perseguem determinados objectivos sociocomunicativos. Tipos de formas de tratamento: familiar (tu. outro. com vista a obviar obstáculos ou rupturas na comunicação. estruturas clivadas. frases de tipo exclamativo.interacção. ritualizados que estão estes procedimentos.para quem disse e a quem disse: eu-tu. Assim. senhor Ministro). e na oralidade pode ser assinalado. O discurso directo mantém todas as formas deícticas ligadas à enunciação primeira: -. entre outros. contingente ao acto de fala (o do discurso relator). parágrafos. vocativos. e princípios conversacionais como o da cortesia e ainda um "código de boas maneiras" vigente numa sociedade. académico (senhor doutor. uso afectivo dos determinantes.

clarificações."agora. como já foi referido. dado que. como acontece no discurso directo: "A Ana disse que não aceitava o cargo" -." . a partir dele.momento da enunciação do locutor-citador. em diferentes graus. ao contrário do discurso directo. em jogos de intertextualidade (’Homicídio’. O objecto de relato de discurso no discurso indirecto é o próprio sentido do dito anterior.(ii) o discurso directo corresponde a um segmento do discurso original. entre esses eventos encontra-se o acto de fala do primeiro locutor . textual. resumos. É justamente este efeito de literalidade e correspondente dramatização ou presentificação do discurso relatado. Exemplo "Ela disse que tinha ido ao médico. atendendo às orientações argumentativas e construção de sentido da totalidade do discurso do locutor-relator. O enunciado que realiza um discurso indirecto descreve necessariamente todos os eventos relativamente a um único marco de referência temporal principal . ou seja. por parte do locutor-relator. "Ela disse-me que tinha ido ao médico na véspera. o sistema de coordenadas enunciativas é sempre o do locutor-relator. ou seja. explicitado verbalmente "Ela disse". a ponto de ser impossível reconstituir. mas tramaste-te!´) ou com valor alusivo (Tanto vale que digas ‘mata!’ como que digas ‘esfola!’) ou com valor proverbial (Nunca digas:--’Desta água não beberei’). "na véspera". A acção de dizer é uma acção que ocupa um intervalo de tempo calculado. estão ancorados secundariamente num ponto de referência intermédio.‘Tens a mania."A Ana recusou o cargo".V+ Conjunção+ Oração subordinada . o discurso original. (iii) o discurso directo pode ser activado num contexto futuro (Eu então direi:-. O discurso indirecto. "ir ao médico" e "ir trabalhar" estão direccionados indirectamente em relação ao momento de enunciação do locutor-relator. às quais preside prévia interpretação do enunciado primitivo. com base nos elementos da situação enunciativa e do contexto verbal. após uma operação de selecção e de interpretação prévia. é enunciativamente homogéneo.não é possível concluir que a oração subordinada é o resultado de uma transformação sintáctica de uma possível frase subjacente em discurso directo. deve ser mantida. dado que se encontra adaptado ao sistema de coordenadas do locutor-relator. glosas. e não o dizer e o modo de dizer. em relação ao "momento em que falo contigo". Da caracterização sintáctica da frase que enforma um discurso indirecto . relativo ao momento do acto de fala do locutor-relator. portanto. directamente. basicamente: autenticar o discurso do outro de modo a que esse segmento possa cumprir funções de prova ou testemunho. ou mostrar a especificidade formal do discurso discurso citado que. no instante em que falo contigo" . o discurso indirecto admite reformulação total da enunciação primitiva. reformulações. disse ela). que permite ao locutor-relator cumprir intenções e subintenções comunicativas específicas. que estava bem e que viria trabalhar brevemente". o espaço de enunciação. A forma original (material lexical ou sintáctico) do discurso reproduzido não é mantida. *Discurso indirecto: Modalidade de reprodução do discurso de um locutor no discurso do mesmo ou de outro locutor. A enunciação que relata está sempre ancorada no mesmo e único eixo de referência primordial. sendo que o locutor-relator efectua. De entre todas os modos de relato de discurso é o discurso indirecto que corresponde plenamente a uma narração de falas. Também neste sentido há uma reformulação o enunciado relatado. que estava bem e que viria trabalhar brevemente. etc.

Ele há coisas do diabo. Detectar a função dos diferentes modos de discurso relatado e a sua função na construção de sentido unitário do texto em que se inserem passa por seguir as indicações que os verbos em referência fornecem ao leitor/receptor. Agora já estou bastante melhor. atalhar. acrescentar." *Verbos introdutores de relato de discurso: interligação sintáctica entre o discurso relatado e o discurso do relator e a inserção do segmento em discurso directo. rosnar. refutar. são seleccionados nestes contextos. Outros verbos há que.. • Texto *Coesão: Termo que designa os mecanismos linguísticos de sequencialização que instituem continuidade semântica entre diferentes elementos da superfície textual. julgar." "--Estou pronta para outra. (ii) verbos de opinião: crer. de um modo geral. (v) verbos que exprimem valores conotativos do acto de dizer: gorjear. prometer. etc. Livra! Nada que se compare. dado que. Agora é pôr-me a trabalhar e pronto. etc. lastimar. para além de especificarem uma operação de inserção do discurso relatado no texto a que pertence. murmurar. felicitar.. queixar.. (iii) verbos de sentimento: desabafar. afirmar. (vi) verbos que explicitam a força ilocutória dos actos de fala relatados: asserir. Esses mecanismos envolvem processos léxico-gramaticais diversos. continuar. instrucionam no sentido de se apurar qual a leitura/audição. comunicar. ou seja. dos quais destacamos as . não são equivalentes àqueles do ponto de vista semânticopragmático: (i) verbos que especificam características fónicas do acto de dizer: sussurrar. considerar. cumprindo as mesmas funções sintácticas. verbos que referenciam o acto de dizer: declarar. (iv) verbos que denotam dimensões interactivas: começar. berrar. balbuciar. são verbos de comunicação ou verbos "dicendi". Até já estou a preparar umas aulas.. pá! Aquele médico tinha umas mãozinhas de fada! Não tarda nada.Este enunciado pode constituir um relato de: "--Recuperei forças muito rapidamente com estes medicamentos e com esta alimentação. como mecanismo de coesão e coerência textual. Não se pensa mais nisso. proferir." "--Só te digo que não tive outro remédio e ir ao médico. indirecto ou indirecto livre no todo textual realiza-se através do recurso a verbos introdutores de relato de discurso. lamentar. Os verbos que. ordenar. já vos vou chatear a cabeça.

1. o nome próprio João. dado que o referente das formas pronominais é estabelecido pela expressão nominal. para a mesma entidade do mundo. A unidade semântica do texto é assim garantida por uma organização formal que permite articular e interligar sequencialmente diferentes componentes. os conectores interfrásicos (coesão interfrásica). presente no contexto verbal. cujo valor depende da interpretação de uma expressão presente no contexto discursivo subsequente. presente no contexto verbal. o termo catáfora substitui o termo anáfora. cuja interpretação depende do valor referencial de uma expressão presente no discurso anterior (anáfora) ou subsequente (catáfora) estamos perante uma cadeia de referência. Fala-se de elipse para designar essa categoria vazia referencialmente dependente. assegurando a referência à mesma entidade no interior do texto. dado que o referente das formas pronominais é estabelecido pela expressão nominal. Os colegas apoiam-no incondicionalmente e estão do lado dele em todas as situações". No enunciado "O Pedro lidera a turma. a expressão nominal [O Pedro] e os pronomes pessoais [o] e [ele] formam uma cadeia de referência. Exemplo . em que o termo anafórico precede o antecedente. Os colegas apoiam-no incondicionalmente e estão do lado dele em todas as situações". a ordenação correlativa dos tempos verbais (coesão temporo-aspectual). Quando a cadeia de referência exibe esta ordenação linear. cuja interpretação convoca necessariamente um antecedente. as reiterações e substituições lexicais (coesão lexical). . a expressão nominal [O Pedro] e os pronomes pessoais [o] e [ele] formam uma cadeia de referência. o termo anafórico (ver anáfora) pode não estar lexicalmente realizado. As três estruturas sublinhadas reenviam para o mesmo referente. a forma dativa do pronome pessoal (lhe) retoma anaforicamente a expressão nominal [o miúdo]. ou seja.cadeias de referência. Catáfora designa este tipo particular de anáfora. ou seja. No fragmento textual "A irmã olhou-o e disse: . As três estruturas sublinhadas reenviam para o mesmo referente. cuja interpretação depende do valor referencial de uma expressão presente no discurso anterior (anáfora) ou subsequente (catáfora) estamos perante uma cadeia de referência. 2. o pronome pessoal o é uma expressão referencialmente não autónoma. Tinham-lhe dito que ia ser interrogado pela polícia": neste fragmento textual. para a mesma entidade do mundo.Cadeia de referência: Quando num texto há um ou mais fragmentos textuais sem referência autónoma. Anáfora: Quando num texto há um ou mais fragmentos textuais sem referência autónoma. a expressão que estabelece o referente pode ocorrer no discurso subsequente àquele em que surgem as expressões referencialmente dependentes habitualmente designadas por termos anafóricos (anáfora). Catáfora: Numa cadeia de referência. 3.João. Exemplo "O miúdo estava inseguro. estás com um ar cansado". No enunciado "O Pedro lidera a turma. Elipse: Numa cadeia de referência.

na classificação dos textos e no reconhecimento dos mesmos como exemplos mais ou menos próximos de determinado protótipo. preenchendo as três categorias da lógica triádica das acções .Na frase "O Rui caiu e fracturou uma perna". é habitual surgirem sequências de tipo descritivo e sequências de tipo conversacional-dialogal). A classificação tipológica deverá ser equacionada ao nível da sequência textual. mas esse sujeito continua a ser interpretado anaforicamente. No texto "O Rui foi trabalhar para África. num mesmo texto costumam ocorrer sequências de diferentes tipos (por exemplo. num texto narrativo. de co-referência não anafórica (ver anáfora). histórias. Co-referência não anafórica: Duas ou mais expressões linguísticas podem identificar o mesmo referente. complicação e resolução. as expressões ‘O Rui’ e ‘o marido da Ana’ podem ser co-referentes. ou numa zona mais ou menos periférica. verifica-se a elipse do sujeito da segunda oração. • Tipologia textual *Protótipo textual: Os protótipos textuais são modelos mentais. por retoma do valor referencial do antecedente ‘O Rui’. então. De facto. A maior parte dos textos é constituída por numerosas sequências. Os eventos representados encadeiam-se de forma lógica e orientam-se para um desenlace. reportagens. Exemplo Existem múltiplas e diversificadas formas de actualização do protótipo textual narrativo. podem identificar a mesma entidade. temporalmente correlacionados. notícias e relatos de experiências pessoais (protagonizadas ou não pelo locutor). só informação de carácter extralinguístico permite afirmar se há ou não co-referência entre as duas expressões nominais. verificando-se então uma conformidade parcial. Os textos com que nos deparamos no dia-adia situam-se. fábulas. o marido da Ana conseguiu concretizar o seu sonho".situação inicial. . ou próximos da conformidade total em relação às propriedades do protótipo textual a que pertencem (o que se verifica raramente). que configuram o desenvolvimento de uma acção global. Naturalmente. Correspondem ao que vulgarmente se designa como "tipos de texto".Narrativo: Os textos (ou as sequências textuais) que actualizam o protótipo textual narrativo caracterizam-se por representar eventos. por certas propriedades que os caracterizam. descritivo. Os textos/discursos actualizam. É também característica dos textos narrativos a unidade de personagens (pelo menos uma). construídos por abstracção a partir de características textuais gerais. parábolas. Finalmente. podendo algumas destas características ser constantes e outras variáveis. argumentativo. por exemplo. ou seja. por exemplo: contos. injuntivoinstrucional e dialogal-conversacional. Fala-se. sem que nenhuma delas seja referencialmente dependente da outra. expositivo-explicativo. de forma mais ou menos evidente e de forma mais ou menos cabal. Cada protótipo textual define-se por um determinado grupo de características. 4. as quais poderão actualizar diferentes protótipos textuais. os protótipos de base disponíveis na memória dos falantes. sem que nenhuma delas funcione como termo anafórico. . O conhecimento destes modelos mentais manifesta-se. Discriminam-se geralmente os seguintes protótipos textuais: narrativo.

com o objectivo de expor e explicar algo. a estes contextos: de facto. poder-se-á dizer que um texto argumentativo se caracteriza. por um lado. As sequências textuais descritivas surgem frequentemente articuladas com sequências textuais de outros tipos. pela expressão de uma opinião que. Os textos descritivos são uma exposição de diversos aspectos que configuram o objecto sobre o qual incide a descrição. espaços (físicos. Podem constituir objecto de descrição. é frequente surgirem sequências descritivas que permitem caracterizar uma personagem ou um espaço social. rua. obter a sua aprovação relativamente a uma determinada tese. ..Descritivo: As sequências textuais que actualizam o protótipo textual descritivo são construídas em torno de um dado objecto. Exemplo Como exemplo do protótipo textual descritivo. acerca do qual se predicam diversos atributos. psicológicos ou sociais). por outro lado. . suscita uma defesa e abre um espaço de contestação e. Quem produz um texto argumentativo visa convencer o(s) seu(s) interlocutor(es). nos debates televisivos sobre questões polémicas e mesmo em situações informais de interacção sobre aspectos práticos como optar por usar o transporte público ou o automóvel privado. sendo controversa. etc.). quer atributos psicológicos). pela expressão de argumentos a favor ou contra uma determinada tese. este protótipo adequa-se a situações diversificadas em que se apresentam problemas e propostas de resolução dos mesmos. por forma a motivar o desenrolar da acção. móvel. por exemplo: pessoas e personagens (quer traços físicos. Exemplo Podemos encontrar numerosos exemplos de actualização deste protótipo textual nos manuais escolares das disciplinas do ramo das ciências naturais. todavia. . onde abundam textos em que se passa constantemente da exposição (sucessão de informações com o objectivo de dar a conhecer algo) à explicação (com o intuito de fazer compreender o porquê do problema e a sua resolução). em textos narrativos.Argumentativo: O objectivo central dos textos/discursos que actualizam o protótipo textual argumentativo consiste em justificar e/ou refutar opiniões. eventualmente acompanhadas de justificação. poderemos referir textos ou sequências textuais em que se faz a enumeração dos atributos de uma determinada pessoa ou das propriedades de um determinado objecto (casa.Expositivo-explicativo: Estão associados ao protótipo textual expositivo-explicativo (também designado simplesmente "explicativo") os textos em que se apresentam análises e sínteses de representações conceptuais.Assim. A ocorrência de textos do tipo expositivo-explicativo não se restringe. fenómenos atmosféricos e todo o tipo de objectos. visto tratar-se de situações de comunicação em que se pretende explicar conhecimentos previamente construídos. Exemplo As sequências textuais e os textos de tipo argumentativo são muito frequentes nas interacções verbais do nosso dia-a-dia: na propaganda política. Por exemplo. ou refutar uma opinião alheia. Textos deste tipo são particularmente frequentes em contextos pedagógicos.

simplesmente. (ii) literário -. nas interacções quotidianas orais. títulos sugestivos (predominam a função fática e apelativa. sendo simultaneamente informativo e apelativo. dois interlocutores que tomam a palavra à vez.. fornecem instruções sobre as etapas e os procedimentos que deverão ser seguidos de modo a alcançar um determinado objectivo. por exemplo: receitas de culinária. desde enunciados simples como "Proibido fumar" até às regras de utilização de um software extremamente complexo. *Índice: Listagem discriminada da denominação de unidades ou elementos constitutivos de uma publicação. exigir esforços de interpretação acrescidos ao leitor. Estes textos são constituídos por um número variável de trocas verbais. vulgarmente.Dialogal-conversacional: O protótipo dialogal-conversacional. explícita ou implicitamente. Os enunciados dos diversos interlocutores presentes numa interacção dialogal são mutuamente determinados . corresponde geralmente a uma frase e reparte-se pelos seguintes tipos: título síntese (sem verbo conjugado). com indicação da página respectiva e com uma determinada ordem: (i) os elementos surgem referenciados pela ordem em que surgem no corpo da obra -índice geral (segue-se. títulos descritivos (com verbo conjugado). de tal modo que esta se configura como uma realização interactiva. uma categoria da narrativa (personagem. numa formulação evasiva. Estes textos estão sempre orientados para um comportamento futuro do destinatário. Trata-se de textos que incitam à acção. impõem regras comportamentais ou que.o título pode realçar. Exemplo Este protótipo textual é actualizado numa grande diversidade de textos. nos debates e nas entrevistas. . conduzindo-o ao levantamento de hipóteses de leitura a invalidar no processo de interpretação da obra. tempo) e classificar a obra quanto ao género literário.Injuntivo-instrucional: Os textos que actualizam o protótipo textual injuntivoinstrucional têm subjacente o objectivo de controlar o comportamento do(s) seu(s) destinatário(s). por exemplo. portanto a ordem da paginação). ou pode. é actualizado em textos produzidos por. instruções de montagem . os intervenientes cooperam na produção do texto. sem verbo). também designado apenas "dialogal". pelo menos. incluindo.o título expressa o conteúdo semântico geral e dominante que preside à construção textual. numa conversa telefónica.ou seja. Exemplo O protótipo textual dialogal manifesta-se. • Paratextos * Título: Elemento paratextual fundamental de identificação de um texto: (i) não literário-. espaço. acção.

Na referência de livros. nome da editora. mas qualquer desses tipos deverão obrigatoriamente mencionar os seguintes elementos: 1º Nome do autor (apelido seguido de nome próprio). que não o autor. John. e do mérito do autor (segmento redigido por alguém. assim como alargar e/ou circunscrever afirmações do texto. assinado e com indicação do local e data de redacção. Esta secção. Aparece. dispostos por ordem alfabética do apelido do autor. em pé de página ou no fim da publicação. *Nota de rodapé: Conjunto de anotações/observações. circunstâncias. Tem. etapas que presidiram à constituição de uma produção textual. *Posfácio: Elemento paratextual de uma obra que surge. Cambridge. do percurso de trabalho aí implicado). objectivos. por norma.indicação facultativa). na parte final. dado como conhecedor da obra. An Essay in the Philosophy of Language. tradução (se o livro está em língua estrangeira e existe uma tradução portuguesa. Speech Acts. a de indicar a fonte das citações. acrescentar indicações bibliográficas de reforço e informações suplementares ou marginais ao texto principal. dada a público (da responsabilidade do autor).. o título português. escrever s. justificações de opções. número de páginas e eventual número de volumes de que a obra se compõe (indicação facultativa). em secção autónoma. data de edição (se no livro não consta. Cambridge University Press.índice ideográfico ou remissivo. *Prefácio: Elemento paratextual reservado: (i) à exposição das motivações. sem que tenha necessariamente de ser escrito pelo autor. surgindo. se houver várias). local de edição (se não consta no livro. geralmente. (ii) à apreciação valorativa da obra. sem local). utilizam-se cinco tipos que diferem apenas na disposição das informações relativas à obra.l. possivelmente. colecção (indicação facultativa). necessárias à compreensão de um texto. Exemplo SEARLE. data de edição . da área temática em que aquela se inscreve e. sem data). (iii) os elementos listados são assuntos tratados em momentos diversos do texto e ordenam-se alfabeticamente -. 1969. escrever s. *Bibliografia: Enumeração das obras a que directa ou indirectamente se faz referência num texto de natureza científica. localizada na parte final de um trabalho.índice onomástico.(ii) os elementos inventariados são nomes de autores citados e surgem ordenados alfabeticamente -. especifica-se o nome do tradutor. título e subtítulo da obra (que destacado em itálico).d. de âmbito literário ou científico. . em formato ligeiramente mais reduzido. obedecendo a determinadas regras gerais.. local de edição. deve conter todos os dados bibliográficos necessários. editor. nº de edição (indicação facultativa. entre outras finalidades.

a origem. acompanhados ou não de suas respectivas definições.Lexicografia *Dicionário: Obra didáctica constituída por um conjunto de artigos lexicográficos. 2. organizados em função de uma classificações documental da informação (usado em Terminologia e em Documentação). técnico ou tecnológico). nem sempre por ordem alfabética. de termos próprios de um domínio especializado (científico. Almeida Fontes: http://www. Léxico formado de termos utilizados por um autor. *Terminologia: Nomenclatura organizada. por uma ciência ou uma técnica.org/programasDisciplinas/portugues_10_11_12_cg_ct_homol_nova_ver. Denise S.prof2000. *Enciclopédia: Obra de cariz conceptual.pt/users/primavera/ http://www.pdf . 2. na cultura de uma dada comunidade linguística. Dicionário que repertoria palavras raras ou pouco conhecidas. mas organizada por matérias do conhecimento mostrando o uso. o estatuto das palavras e das noções.exames. acompanhadas de uma pequena definição ou de uma tradução. Conjunto de termos normalizados. alfabeticamente ou conceptualmente. ou de grafia. cujas respectivas entradas são ordenadas alfabeticamente e servindo para responder a dúvidas de significado. *Glossário: 1. *Thesaurus: 1. dentro de um domínio especializado. Dicionário alfabético pretendendo apresentar com exaustividade o léxico de uma língua. respeitantes ao vocabulário de uma língua.

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