CADERNO Nº.

7 - SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS

CARTA DE SÃO VICENTE

São 3 as principais funções da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Proteção da Biodiversidade Desenvolvimento Sustentado Conhecimento Científico

Caderno nº 7

realização:

CONSELHO NACIONAL DA RESERVA DA BIOSFERA DA MATA ATLÂNTICA
Rua do Horto 931 - Instituto Florestal São Paulo-SP - CEP: 02377-000 Fax: (011) 204-8067

UNESCO - Programa MaB - "O Homem e a Biosfera"

SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS

CARTA DE SÃO VICENTE 1560

Secretaria São Paulo do Meio Ambiente

Governo do Estado de São Paulo

Instituto Florestal

Padre José de Anchieta

CADERNO Nº. 7 - SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS

CARTA DE SÃO VICENTE

SÉRIE 1 - CONSERVAÇÃO E ÁREAS PROTEGIDAS Cad. 01 - A Questão Fundiária Cad. 18 - SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação

Caderno nº. 7

Padre José de Anchieta

SÉRIE 2 Cad. 02 Cad. 05 Cad. 06 Cad. 09 -

GESTÃO DA RBMA A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no Estado de São Paulo Avaliação da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Comitês Estaduais da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

CARTA DE SÃO VICENTE 1560

SÉRIE 3 - RECUPERAÇÃO Cad. 03 - Recuperação de Áreas Degradadas da Mata Atlântica Cad. 14 - Recuperação de Áreas Florestais Degradadas Utilizando a Sucessão e as Interações planta-animal Cad. 16 - Barra de Mamanguape SÉRIE 4 - POLÍTICAS PÚBLICAS Cad. 04 - Plano de Ação para a Mata Atlântica Cad. 13 - Diretrizes para a Pollítica de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Mata Atlântica Cad. 15 - MATA ATLÂNTICA - Ciência, conservação e políticas - Workshop científico sobre a Mata Atlântica Cad. 21 - Estratégias e Instrumentos para a Conservação, Recuperação e Desenvol vimento Sustentável da Mata Atlântica Cad. 23 - Certificação Florestal SÉRIE 5 Cad. 08 Cad. 11 Cad. 12 Cad. 22 ESTADOS E REGIÕES DA RBMA A Mata Atlântica do Sul da Bahia A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica em Pernambuco A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro

SÉRIE 6 - DOCUMENTOS HISTÓRICOS Cad. 07 - Carta de São Vicente - 1560 Cad. 10 - Viagem à Terra Brasil

SÉRIE 7 - CIÊNCIA E PESQUISA Cad. 17 - Bioprospecção Cad. 20 - Árvores Gigantescas da Terra e as Maiores Assinaladas no Brasil

V. P. Joseph Anchieta Soc. Jesu (O Pe. José de Anchieta em corpo ; incolume entre indios bravos e bestas feras ; em uma paisagem. Allegoria) . Gb por Frezza (João Jeronymo), segundo Lesma (Antonio). S. d. E' o nº. 1531 da Coleção Barbosa Machado, que está na Bibliotéca Nacional (cotado sob o nº. 17648)

SÉRIE 8 - MaB-UNESCO Cad. 19 - Reservas da Biosfera na América Latina

Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

tornando a proteção de seus remanescentes uma das maiores prioridades ambientais em termos planetários. Na área originalmente ocupada pela mata atlântica e seus ecossistemas associados se concentram hoje cerca de 2/3 da população brasileira. A ocupação desordenada dessa região fez com que mais de 90% dessas florestas tenham sido devastadas.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE A Warren Dean. Com este caderno o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica inicia uma série dedicada à história dessa floresta que. em grande parte se confunde com a própria história do Brasil. 7 .CADERNO Nº. que deu continuidade ao trabalho de Anchieta ensinando-nos a como desvendar os segredos e as virtudes da Mata Atlântica. .

Projeto Gráfico e Editoração: Elaine Regina dos Santos Revisão: Clayton F. 7 . Clayton Ferreira Lino. João Lucílio Albuquerque Caderno nº 7 CARTA DE SÃO VICENTE 1560 Primavera de 1997 É uma publicação do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Albuquerque São Paulo Primavera 1997 Autoriza-se a reprodução total ou parcial deste documento desde que citada a fonte. com o patrocínio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e do Instituto Florestal do Estado de São Paulo. Impressão: Instituto Florestal do Estado de São Paulo. Lino e João Lucílio R.CADERNO Nº.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE SUMÁRIO Série Cadernos da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Editor: José Pedro de Oliveira Costa Conselho Editorial: José Pedro de Oliveira Costa. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ BIOGRAFIA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ NOTAS ○ ○ ○ ○ ○ CARTA AO PADRE GERAL DE SÃO VICENTE AO ULTIMO DE MAIO DE 1560 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ PREFÁCIO 07 09 36 49 .

descrevendo "as coisas naturais da Capitania de São Vicente" detalhando a diversidade e exotismo de nossa fauna e flora e seu uso pelos indígenas e pelos primeiros brasileiros. Os arvoredos se vão ás nuvens de admiravel altura e grossura e variedade de especies.000 km². quando a pedido de seus superiores. os mais pequenos de todos. como na "Informação da Província do Brasil para nosso Padre . milhares de indígenas com ela conviviam. 7 . antes o enriquece. que se gera da borboleta. daí tirando todos os bens necessários à sua alimentação.100. Também em outros documentos posteriores. Anchieta volta a descrever nossa floresta e sua incrível biodiversidade. dos quais um. a Mata Atlântica compunha ainda um maciço florestal de mais de 1. os mitos se confundem com a realidade. chamados guainumbî. ao fornecer elementos culturais fundamentais ao conhecimento de nossa história. Em alguns trechos. em perfeito equilíbrio. o Padre José de Anchieta com excepcional capacidade de observação.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE PREFÁCIO Em 1560. sobre plantas medicinais e importantes elementos de nossa culinária. nos oferece um dos mais completos e belos documentos sobre a Mata Atlântica de então. ao contrário. abrigo e cultura material e espiritual." Isto todavia não lhe rouba o valor documental. Não era uma grande área desocupada. A carta de São Vicente traz também informações preciosas sobre os costumes e a língua de nossos índios.1585". dêsses há vários generos.CADERNO Nº. escreve a carta de São Vicente. resultantes da mescla daqueles com os europeus aqui chegados. afirmam todos. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que ha neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade 06 07 . alimentam-se só de orvalho. Anchieta. saúde. como quando descreve os beija-flores: "Há ainda outros passarinhos. o que sempre faz com grande conhecimento e admiração e também com sensibilidade poética como atesta o trecho a seguir: "Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvores nem erva sêca. cuja erudição é notável no trato dos mais variados temas.

incluindo a ortografia. na direcção do Sul.Informações. no momento em que os 400 anos de seu falecimento são celebrados. A Paz de Cristo seja comnosco Pelas tuas cartas. . "que é a última povoação dos portugueses na Índia Brasílica voltada para o sul. que desejas (para que se atenda ao voto e desejos de muitos) que escrevemos acêrca do que suceder comnosco que seja digno de admiração ou desconhecido nessa parte do mundo. na qual a razão da aproximação e do afastamento do sol. . Pio Lourenço Correia.Tempestades.Galinhas silvestres. quanto me fôr possivel. . Sucuriuba. .Disputa com um feiticeiro. Reverendo Padre em Cristo. A versão aqui apresentada reproduz integralmente. no ano do Senhor 1560. e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo.Preguiça. Olivério Mario de Oliveira Pinto. então diretor do Instituto Butantan.Jararaca.Veados. chamada São Vicente.Aves de rapina.Criança monstruosa. . Paulo Nogueira .Pinheiros. . aquela publicada em 1933 pela Editora Civilização Brasileira sob o título de "Cartas .Ervaviva.Bicho da taquara. beija-flores e outros pássaros. . Em respeito ao documento manteve-se sem alterações informações taxonômicas. . . . essa carta é a primeira descrição detalhada da Mata Atlântica de que se tem conhecimento. Ha muitas árvores de cedro. .Espectros noturnos ou demônios.Lontras.Jacaré. . .Abelhas.Caranguejos." A Carta de São Vicente é um dos diversos documentos do "apóstolo do Brasil" que chegaram aos nossos dias graças à pesquisa de vários historiadores e publicações dos séculos dezessete. Afrânio do Amaral. .Raízes medicinais. a prescrita obrigação.Entrada dos peixes. . . . gentilmente cedida a esse Conselho pelo Dr.Neto.Papagaios.Anta .Enchentes dos rios.Boi marinho. sandalos e outros paus de bom olor e várias côres e tantas diferenças de folhas e flores que para a vista é grande recreação e pela muita varidade não se cansa de ver. (1554-1594)".Macacos.Um porco hermafrodita. as declinações das sombras e como se fazem 09 08 . que é para louvar ao Senhor.Lhama do Perú. cumprirei diligentemente. . .Divisão das partes do ano.Capivara. . J. Anhima. .Guará e outras aves marinhas. As notas que a seguem são da autoria do Dr.Tamanduá. dezoito.Tatu. vimos. Fragmentos Históricos e Sermões do Padre Joseph de Anchieta.Aranhas. . . dezenove e vinte. Modo indígena de curar o cancro. Clayton Ferreira Lino Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica AO PADRE GERAL DE SÃO VICENTE AO ULTIMO DE MAIO DE 1560 (01) Descrição das coisas naturais da Capitania de São Vicente. Narração de uma tempestade no mar.Arvores medicinais. A nota de número 1 indica outros colaboradores. do Dr. que dista da Equinocial vinte e três gráus e meio medidos de Nordeste a Sudoeste. Pedra elástica. . . no fim do mês de maio". Por essa razão o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera. homenageando simultaneamente a floresta-mãe da Nação Brasileira e o Padre José de Anchieta. -Tatoranas Panteras.Conchas e pérolas. . . e canarios de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por êste caminho.Formigas. . . . cascavel.Ouriços. 7 . Moscas e mosquitos..Piolho de cobra. aquila.Gambá. . colorinos.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE e em seu canto não dão vantagem aos rouxinois. Escrita em São Vicente. coral e outras serpentes.Gatos monteses. pintasilgos. . Em primeiro lugar certamente (o que fiz de passagem nas anteriores cartas) tratarei desta parte do Brasil. S. . . propôs a declaração do 27 de maio como dia nacional da Mata Atlântica. . . . mesmo que tenham sido posteriormente alteradas pela ciência. Conformando-me com tão salutar mandado. assistente do Museu Paulista e do Sr.CADERNO Nº. que ha pouco nos chegaram ás mãos. .Raras deformidades entre os Brasis.Saída dos peixes. gamos e javalis.Mandioca e “Yeticopê”.

que sopra algumas vezes com ímpeto tão forte. Poucos dias depois de se passarem estas cousas. de maneira que nem o inverno é demasiadamente rigoroso. nem deixaram de dansar e beber. chegando ao Nordeste. menos aquilo que não fôra fóra de proposito para advertí-lo. a que vim com alguns sacerdotes aplicar a medicina da alma e do corpo a um enfermo. não tocarei nessas cousas. mas raras vezes arremessam raios. lamentarás certamente a cegueira e escarnecerás da loucura. e respondendo-lhe o sacerdote: “Tu mentes!”. tambem. Vou entretanto referir um fato. estando nós em Piratininga. não se aterraram com tanta confusão de cousas. costuma contudo em alguns anos a cerrar-se o céu e a escassearem as chuvas. pronunciam claramente. a árvores de colossal altura arrancou pelas raizes. caem as árvores e todos se aterram. a isto se ajuntam os violentos e furiosos pègões de vento. que diminuem e ofuscam totalmente a vista. nem a frase “tu mentes” parece proferida com menos reverência. eu chamei o filho de Deus que me trouxesse remédio. começou. das partes do ano é cousa inteiramente diversa: são na verdade de tal maneira confusas. na verdade. pois os Brasis não costumam usar de rodeio algum de palavras para explicar as cousas: assim. levantando-se então o vento sul a envolver pouco a pouco a terra. uns por outros. sem nenhum vexame. em uma certa aldeia de Indios. irado contra o cão. o qual. de três em três. pois de quatro em quatro. não tanto pela fôrça do calor. escarnecendo de certo da estulticia do feiticeiro. a cohabitação e outras da mesma natureza. Assim falou ele. Os trovões no entanto fazem tão grande estampido. alternativamente. de tal maneira que ficaram obstruidas 10 as estradas. como o exortassemos muito que deixasse de mentir e reconhecesse um só Deus. caiu com tanta violencia que parecia ameaçar-nos o Senhor com destruição: abalou as casas. que nos leva a ajuntarmo-nos alta noite e corrermos ás armas da oração contra o assalto da tempestade. que soprou ha pouco para que derrubasse as matas e vingasse o dano que me causara o cão”. no meio de tudo isso. algumas vezes. como o filho de Deus. depois do pôr do sol. depois duma (por assim dizer) longa disputa. ou de dois em dois dias. vacilam as habitações abaladas pelos trovões. encontrámos um feiticeiro de grande fama entre os Índios. que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam). e a sairmos algumas vezes de casa por fugir ao perigo de sua quéda. a amiudarem-se os relampagos e trovões. pois ha pouco. que não se podem facilmente distinguir. Na divisão. a enublar-se o céu. porém. era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso). é que os Indios. nem o verão incomoda pelo calor. as palavras que significam os órgãos secretos de um e outro sexo. que por si mesmo julgarás mais digno de dôr do que de riso. de onde quasi sempre costuma vir a tempestade. por isso. como pela carencia de água.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE as diminuições e crescimentos da lua. se tornou mais digno de admiração. em nenhuma quadra do ano faltam os aguaceiros. despedaçou outras. os relampagos lançam tanta luz. como se tudo estivesse em completa traquilidade (02). 11 . de tal modo que os campos se tornam estereis e não dão os costumados frutos. a palavra “mentes”e outras nesse sentido são ditas sem ofensa alguma: pelo contrário. arrebatou os telhados e derribou as matas. respondeu: “Eu conheço não só Deus. não me é facil explicar. que não é excessivo. Omito outras cousas porque não são para aqui. não puderam conter o riso as mulheres já cristãs ás quais ensinamos as cousas da fé.e. pela muita abundancia de chuvas. se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo. o ar a turvar-se de repente. mordendo-me o meu cão. que causam muito terror. veiu ele sem demora e. Não ha muitos dias. partiu pelo meio outras menores. e parecem de certo modo disputar com o dia na claridade. até que. apodrecem as raizes que temos para alimento. O que. porém. nada poderia resistir a tamanha violência e tudo caíria por terra. Creador e Senhor de todas as cousas. 7 . e nenhuma passagem havia pelos bosques. trouxe comsigo aquele vento impetuoso. nem marcar o tempo certo da primavera e do inverno: o sol produz com os seus cursos uma certa temperatura constante. nem vejo nelas razão para que sejam diferentes do que aí se observa.CADERNO Nº. se sucedem a chuva e o sol.

Na primavera. em cuja retirada sóe ser mais rigoroso o calor e febres agudas com dôres de lado molestam os corpos. Todavia. e no estio. deixam os rios e se metem pelas ervas em pouca água para desovar. com que nada. como grandes inundações dos campos. não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe: da sua gordura. sendo maior em Junho. e não sei se a excederá. que fica no interior das terras. há não só enchentes de rios. com grande tormenta de trovões e relampagos. se os dias se tornam extremamente calidos por causa do calor abrasador (cuja maior fôrça é de novembro a Março). é coberto de uma péle dura. os grandes calores do verão são moderados pela muita abundancia de chuvas. nesse tempo vimos muitas vezes não só as geadas espalhadas pelos campos a queimarem arvores e ervas. por quanto. porém. entre as ervas. situada (como já disse) á beira-mar. e em outros lugares que se lhe seguem para o ocidente. O undecimo dia de Junho. levada ao fogo faz-se um môlho. assemelhando-se na côr á do elefante. 7 . que saem da agua para pôr ovas. frequente na Capitania do Espirito Santo e em outras localidades para o norte.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta á maneira por que aí se compreende. que não faltam no tempo de inverno os calores do sol para contrabalançar o rigor do frio. e é ornada de campos espaçosos e abertos. dura 14 horas e não passa além do Sul. “a saida dos peixes”. a que chamamos boi marinho. é êste peixe de um tamanho imenso. êste tempo é esperado com avidez. alimenta-se de ervas como o indicam as gramas mastigadas prêsas nas rochas banhadas por mangues. que pode bem comparar-se á manteiga. seja regada em quasi todas as estações do ano pelas águas da chuva. completando o sol sua carreira em Piratininga. Julho e Agosto. porém (passado o outono que. que está inerente á péle e mòrmente em tôrno da cauda. que principia em Setembro. e compensam por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão dos rios. como alívio da passada carestia: a isto chamam os lndios pirâcema.CADERNO Nº. e no qual o sol está muito afastado de nós. ou vêm á tarde. de sorte que se acostuma apanhar à mão. a natureza procede de tal maneira que. sem aprêsto algum (03). acaba numa temperatura agradavel). Ha um certo peixe. É excelente para comer-se. daí. Então esvasiamse os rios e baixam até o fundo. ou é algum tanto diminuto e menos que entre nós. Para explicar isso em breves palavras: no inverno e no verão há grandes chuveiros. esse dia que é muito longo e em que não há declinação alguma de sombras. que começa a vigorar em Dezembro. duas vezes cada ano. deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas. Aos 13 de Dezembro. grande porção de peixes. onde o frio ou não é tão rigoroso. a fôrça do frio torna-se horrivel. a vinda da chuva lhes vem trazer refrigério: cousa que aqui acontece agora. tem junto aos peitos uns como dois braços. nem no estio para tornar agradaveis os sentimentos. porém são de tal modo temperadas. o seu oleo serve para temperar todas as comidas: a 13 12 . uma imensa multidão de peixes. Então. Até aqui falámos do movimento do tempo. tem a bôca inteiramente semelhante á do boi. ambas. chega a maior altura. que servem para temperar os ardores do sol. quando lá é primavera. de sorte que ou precedem de manhã ao estio. quasi sempre em Setembro e Dezembro e algumas vezes mais frequentemente. volta para o Norte. aleita os proprios filhos. posto que esta terra. mas no estio. Finalmente. saem em mais consideraveis cardumes e são apanhados em pequenas redes e até mesmo com as mãos. e vice-versa. a 30 milhas do mar. os Indios o denominam iguaragua. e embaixo deles têtas com que. dura (segundo creio) cerca de dez horas desde o romper do dia até o ocaso (04). as chuvas caem abundamentemente. em Piratininga. que é curtissimo. no inverno. aqui é inverno. como é maior a inundação dos campos. nessas ocasiões. Assim. como tambem a superfície da água toda coberta de gêlo. começando em Março. as brandas aragens e os humidos chuveiros. Excede ao boi na corpulencia. porque. passo agora a tratar de outras cousas. isto é. cessam as chuvas.

e que. expondo as reliquias dos Santos. estendendo-se para o mar na distância de 90 milhas. Em uma palavra. esperavamos ficar tranquilos até o romper da aurora. e lançando ás ondas um Agnus Dei. aí deitando a cada passo a sonda. levados por 15 . e oferecendo uma como muralha em linha réta.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE todo o seu corpo é cheio de ossos solidos e durissimos. que nos atira para apertados estreitos. concertámos da melhor maneira as velas e. e cujas orações. não nos servindo das velas nem de auxílio algum humano. ninguem podia conservar-se a pé firme. Ao romper do dia. mas. pelo meio de estreitos canais entrincheirados por montes de areia. 7 . e muita consolação me dava a idéa de que. caimos em um pégo mais fundo. os ventos sopram com violencia do Sul. toda a esperança de salvação estava posta em uma corda e. quando. flagelados por tremenda tempestade. lembrámo-nos de implorar o socorro divino. recobrando algum alento. escritas há mais de dois anos. e mais curasse salvar a alma do que o corpo. levados para um lugar baixo e inclinando-se a embarcação toda para um lado. Tendo eu e quatro Irmãos (06) saido da cidade do Salvador (que tambem é chamada Baía de Todos os Santos). aqueloutros preparavam as cordas e amarras: neste comenos. julgando-se já livres de perigo. de certo. por seus suspiros e gemidos. pediam auxílio para nós outros. mas andando de gatinhas e para dizer corriam uns pelo tombadilho. partindo-se o cabo que a prendia. fundeada a embarcação. porém. reunidos felizmente todos á tarde. revolvido em todos os sentidos. Convem relatar aqui algumas cousas que vêm a proposito e que. Era um lugar fechado de todas as partes por cachopos e monticulos de areia e sómente para o lado da prôa havia uma estreita saida. desejavamos ao menos encalhar o navio na praia. a nave ia inevitavelmente despedaçar-se nos baixios que a cercavam pela pôpa e pelos lados. naquela mesma ocasião. e. temiamos que se fizesse todo em pedaços. pelo máu exito da incerta navegação. no dia seguinte. como tambem no patrocínio da Santissima Virgem Maria. a mim. tornam dificil a navegação. outros cortavam os mastros. deitando-se a cada passo a ancora e colocado o leme em seu lugar proprio com pequeno trabalho e com grande admiração de todos nós. estava tudo coberto dagua. confiavamos não só nas reliquias dos Santos. por causa dos frequentes solavancos. de repente sem ninguem o esperar. Entretanto. Entretanto. que estava atada á extremidade do navio. muitos dos nossos Irmãos que andavam por diversas regiões. tranquilizaram-se e não pensaram mais nele. expostos á chuva.CADERNO Nº. para dizer a verdade. aplacou-se a tormenta. a divina piedade pudesse trazer-nos os beneficios da sua costumada misericordia. então começávamos todos a tremer e a sentir veemente terror: viase a morte deante dos olhos. eis que tudo se perturba na ameaçadora escuridão da noite. depois de fazermos 240 milhas por um mar tranquilo á feição do vento. Muitas vezes (creio) nos veiu isto ao pensamento. julgo não terem chegado aí. exgotava-se o porão em cima para as chuvas quatro ou cinco vezes por hora e. para onde a corrente nos arrebatava. o mar abalava violentamente a embarcação. foi arrebatada pelo mar. caem imensos aguaceiros. passámos toda aquela noite sem dormir. eramos levados sãos e salvos pelo meio dos escolhos. subindo á presença divina. já gasta pelo tempo. tais que podem fazer as vezes de marfim (05). o navio era arrastado sulcando areias e. pouca resistencia oferecia: aberta embaixo para as ondas. a lancha. nunca se esvasiava. quando no entanto se começava a descansar. mas dois a dois e o mais depressa que cada qual podia. fôra fastidioso contar tudo que se passou. o leme salta fóra dos eixos e encalha o navio. tinham todos o espirito alçado para Deus. finalmente movida. procurando a terra. gastámos todo o dia e. por onde se costumava navegar. onde. sobrevem ao mesmo tempo uma repentina tempestade de vento e aguaceiros. chegámos a uns bancos de areia que. corre-se á confissão: já não vinha cada um por sua vez. 14 qual. vendo a morte a cada instante. rompeu-se a amarra: “Está tudo acabado”! gritaram todos. os marinheiros. na vespera de cuja Apresentação tinham acontecido estas cousas. Todavia. quebrada esta. no meio de tudo isso não deixavamos de confiar com toda a fé em Deus. que comnosco traziamos. se bem que cada um contasse com certeza morrer ali. e esperando a todo o momento que se despedaçasse a embarcação.

O que vou agora referir é admiravel. uno ore as afirmam. visitando eu com alguns Irmãos as habitações do Indios. e até na doença. e algumas horas depois foi levada para o céu. habitado por lndios. certos animais grandes. apesar de serem tão grandes não romperam a rede. voltando. deixando apenas uma pequena abertura. afim de pôrem as ovas (07). onde nos acolheram eles benignamente. como dos Santos. impelido por um vento próspero. porquanto vem inumeros deles de diversas partes do mar. quão grande fôra a misericordia do Senhor para conosco. mas unanimemente comprovado e verificado por notoria experiência: dez ou doze dos maiores sobem 16 á tona dagua como exploradores. e colheram de um só lanço dois dos tais bois marinhos. a qual não duvidamos que nos fosse propícia. a isso os Indios chamam pirá-iquê. o qual. saem porém ás vezes para a terra e os acometem nos atalhos. Os peixes são mui saudaveis nesta terra e podem-se comer todo o ano sem prejudicar á saúde. fizemos o resto da viagem. matam-os introduzindo-lhes a cauda pelo anus. se porventura lhes fazem alguma ofensa. Falo. não só pelos merecimentos e preces da bemaventurada Virgem. como começara a fazer menção de peixes. encalhara na praia e se despedaçara. uma inumera multidão de peixes por estreitas entradas (pois que já todo o sítio está cercado. foi nos apresentada uma criancinha quasi prestes a expirar e falando nós a seus pais para batizá-la. quando um só deles era suficiente para rasgar e despedaçar muitas redes: e assim. isto tem sido observado por todos. encurralados aí. Feliz naufragio que conseguiu tal resultado! Aí demorámonos oito dias por causa dos ventos contrarios que reinavam. engolem um veado inteiro e até animais maiores. de que tratarei ao deante. batizámo-la. prosseguirei. chegámos a um porto bastante seguro. tanto os Indios. e concertámos o nosso já meio despedaçado navio. porém. 7 .SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE uma corrente mais favoravel do que esperavamos. ficou bem manifestado pelo desgraçado naufragio de outro navio que nos precedera. para que com certeza nenhum mal façam aos que têm de entrar) tudo lhes parece estar em segurança e vêm que o lugar é apropriado. caem por terra como mortas. são apanhados sem o minimo trabalho muitas vezes mais de doze mil peixes grandes. sem receio da sarna. torno de novo ao propósito e. os quais. mas. com seus aparelhos e utensilios nos ressarcimos dos que haviamos perdido. cujas relíquias traziamos conosco. entram para os lugares estreitos e de pouco fundo do mar. Não é facil acreditar-se na extraordinaria corpulencia destas cobras.CADERNO Nº. Isso é de tal sorte comum em muitos lugares que. de maravilhoso tamanho: vivem quasi sempre nos rios. pensou que era um mastro de navio. No dia seguinte ao da nossa arribada. em que costumam correr daqui para ali. alguns dos nossos irmãos o viram com espanto. voltam. e triturando-os com a bôca os devoram inteiros. quando os apanham em abundância. “entrada dos peixes”. lançaram os marinheiros a rede ao mar. por causa da pouca porção de agua). onde apanham para comer os animais terrestres. Em certa quadra do ano apanha-se uma infinita quantidade de peixes. e embriagados com o suco de um certo lenho que os Indios chamam timbó (08). depois de ter saido para lugares de vau. eles anuiram de boa mente a isso. A êste respeito contarei cousas estupendas e não sei se serão criveis. provendo-nos com fartura a munificiencia divina. e como pouca provisão nos sobrasse para o resto da viagem. os deixam atirados na praia. como que pressentindo a traição. Estas cobras engolem. Se porém (o que já foi acautelado. as aves de 17 . disso só de passagem. e até um deles vendo uma serpente a nadar no rio. arrebatado todavia não só pelo vento Sul. sem poderem mover-se. como os Portugueses que passaram muitos anos de sua vida nesta parte do globo. mas tambem pela violência do mar. introduzem. a qual se póde com facilidade fazer. Encontram-se no interior das terras cobras a que os Indios denominam sucuryúba. como porém o seu estomago não os pode digerir. que aqui não existe em parte alguma. isto é. e olhando e examinando o lugar todo. que os Indios chamam tapiiara. para conduzir a outra parte o seu rebanho. Dizem que não têm dentes e só se enroscam nos animais. como disse. até que apodreça o ventre juntamente com a comida: então. Finalmente. que a miudo os atravessam a nado. e nos trataram com humanidade.

que é onde esta a maior fôrça do cheiro. que trazendo com dificuldade o que havia morto. com o qual sôa quando assalta alguem. de modo que podem engulir um homem. com dentes como os da lebre. outros ainda têm duas cabeças. uma quasi do tamanho do corpo todo e outra proporcional a êste (15).CADERNO Nº. o cancro se solta e cai por si. munidos de dentes e unhas agudissimas. de côr verde-mar e muito maiores do que os aquáticos (14). Vivem nos campos. não todavia sem bastante custo e perigo. “que pastam ervas”. cobertos de escamas durissimas e armados de agudissimos dentes. designados no entanto por nome diverso entre os Indios e que têm identico uso (13). são proprios para se comer. e suas variedades e diversas fórmas. Ha pouco tempo tendo um Indio atravessado com a flecha a um deles e saltando na agua para apanhá-lo. que são bôas de comer-se. Ha muitas lontras (12). exceto entre nós. que para si mesmos cavam. onde acontece serem mortos enquanto dormem. apareceu uma multidão de outros que estavam debaixo dagua. Isto foi ha pouco provado com experiência em uma escrava dos Portugueses. posto que se lhe possa aplicar remédio e evitar algumas vezes a morte. com que se fazem vasos. estende-se-lhe por cima a pele. donde lhes provém o nome. “cobra que tine”. tratarei agora dos terrestres. disforme. onde muitas vezes as encontramos: a sua mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas. que quer dizer. como sentem até menos dôr. nas matas e até mesmo nas casas. dêstes. em buracos que 19 . crescem-lhe as carnes. passam a vida na agua. os quais morrem pouco a pouco. ás vezes sobem até as ribanceiras. 18 que vivem em cavernas subterraneas. cheiram a almiscar. Ha igualmente lagartos que vivem do mesmo modo em rios. e tão quente quanto a carne possa suportar o aplicam aos braços do cancro. acometeram-o com unhas e dentes. pouco diferentes dos porcos. e volta á antiga fórma (09). chamados capiyûára. o que tivemos mais de uma vez ocasião de observar. Dão a essa doença o mesmo nome que entre nós. não só não correm risco de vida. pouco maiores que os gatos. dos quais alguns estão fixos nas mandibulas e outros no meio do céu da bôca. mordidos daí por deante. A outra variedade denominam bóicininga. exceto os molares. alguns têm as pernas vermelhas e o corpo negro. fazem-se cintos. e passaram-se muitos dias primeiro que lhe sarassem as feridas. 7 . e a que chamam jacaré (10). e tantas vezes repetem êste curativo até que. como sucede com o elefante. alguns dos quais são desconhecidos dessa parte do mundo. a qual sofria desta doença (16). os mais cavam cavernas para si nos braços de mar (mangues). porém. Êstes animais são quasi pretos. isto é. em toda a parte são frequentes. começa a reformar-se. Algumas. As suas carnes. Ha tambem outros animais quasi do mesmo genero.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE rapina rasgam-lhes a barriga e a devoram toda com o seu conteudo. chamadas jararacas (17). Deixo de falar dos que são terrestres. Isto acontece com certeza entre os Indios: se forem mordidos uma só vez e escapam à morte. São êstes animais de excessiva corpulencia. maximè nos testículos. depois a cobra. outros são um tanto azulados e cheios de pelos. Ha tambem outros animais do genero anfíbio. porque tem na cauda uma especie de chocalho. meio devorada. Até aqui tenho falado dos animais que vivem na agua. curam-a. saiu quasi em pedaços. Seria fastidioso referir os generos dos caranguejos. comem ervas. de tal maneira. Alguns dos aquáticos estão sempre debaixo dagua: a natureza deu-lhes os ultimos braços planos proprios para nadar. das suas peles cujos pelos são muito macios. que vivem nos rios. abundam nos campos. não têm cauda. O “cancro” (que é aí de tão dificil cura) é facilmente curado aqui pelos Indios. mortas as pernas. dêste modo: aquecem ao fogo um pouco de barro bem amassado. Primeiramente direi das diversas especies de cobras venenosas. de côr um tanto ruiva. domesticam-se e criam-se em casa como os cães: saem para pastar e voltam para casa por si mesmos (11).

pouco maiores que aranhas: têm duas cabeças. se não se observa com cuidado. que são denominadas pelos lndios bóiguatiára. quando estão ocupadas na procreação atacam a gente. conquanto maiores do que as outras. O que direi das aranhas. pois as outras têm apenas quatro dentes curvos. 21 . não ha mais remédio: paralizam-se a vista. Não raro temos caído em semelhantes perigo. que habitam em certos montes de terra feitos pelas formigas: a estas chamam os Índios bóiquíba. encontrei uma cobra enroscada no caminho. de branco. andando assim por cima de serpentes. chamadas jararáca e tambem bóipeba. Ha tambem outras admiravelmente pintadas de várias côres. porque a sua mordedura comunica ao corpo um grande frio. o andar e todas as ações do corpo. outras pintadas.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE subterraneos. 20 não se póde viajar sem grande perigo: vimos cães. Senhor nosso. não só grande cópia. uma só vez que mordam. lagartos. só descansamos em Jesus. na qual têm uma unha tambem curva. neles é que está a peçonha (22). porque elas no rojarem fendem a terra à maneira de toupeiras. Ha tambem outras. Pouco depois começaram três ou quatro pequenos filhos a andar pelo chão. Todas estas. porém. cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas. isto é. “terra cavada”. até que no fim de vinte e quatro horas se expira (18). estas. mas tambem diversidade. de encarnado semelhante ao coral. isto é. o ouvido. que os Indios dizem que elas voam. poder-se-há supor que os não têm. o que não se dá com as outras. andam pela grama em saltos de tal modo apressados. exceto as que são venenosas. ratos e outros animais dêsse genero (18-A). como os caranguejos. com que ferem. para onde a obediencia me fizera ir com outro irmão a ensinar a doutrina. são menos venenosas (por isso que não causam a morte). contraemse e ficam mais largas. de maneira que só a sua vista parece trazer deante de si veneno (25). por causa das suas diversas variedades de pintura. e admirando-nos de onde aquelas que antes não apareciam tinham saido tão de repente. de maneira que a dôr que produzem não passa antes de vinte e quatro horas (24). a mordedura dessas é também mortal (21). “cobras pintadas”. outras côr de terra. de uma outra em cujo ventre foram encontradas mais de quarenta (23). porque quando feridas. que se chamam bóiroiçanga.CADERNO Nº. bati-lhe com o bastão e matei-a. tal é o tamanho do seu corpo: são horriveis de verse. Entretanto. Ha ainda outras. Ha tambem outras quasi semelhantes. isto é. “cobras chatas”. Ha tambem outras como pequenos escorpiões. as quais os Indios apelidam ibîbobóca. exceto dois. são tão frequentes. por pessoas dignas de crédito. em numero de onze. ficando sòmente a dôr e o sentimento do veneno espalhados pelo corpo todo. estas são igualmente mortíferas (20). porém mais raras (19). estas são as mais venenosas de todas. 7 . e confiamos mais nele do que em contra-veneno ou poder algum humano. Ouvi tambem contar. Não matam. Uma vez. porcos e outros animais sobreviverem quando muito seis ou sete horas á mordedura delas. tão subtis e ocultos que. o Senhor nos conserva incolumes. Todavia. quasi todos os Indios torram ao fogo e comem dessas cobras e de outras. de preto. e a cauda recurvada. isto é. que é o unico que póde fazer com que nenhum mal soframos. mas incomodam extraordinariamente. piolhos de cobras: são vermelhas. fazendo primeiramente o sinal da cruz. tendo-as encontrado muitas vezes correndo pelos caminhos de um lado para outro em alguns povoados. todas cabeludas. “cobras de pés pequenos”. das quais ha. eis que começaram a sair outros do ventre materno: e sacudindo eu o cadaver apareceram outros filhos ainda. “cobras frias”. têm toda a bôca armada de dentes agudos. isto é. todos animados e já perfeitos. depois de lhes tirarem a cabeça. voltando eu para Piratininga de certa povoação de Portugueses. no meio de uma multidão tão grande e frequente delas. julgarias que são caranguejos. assim como tambem não poupam aos sapos. a que nos tem chamado o nosso dever.

são em tudo semelhantes aos gatos e bôas para se comerem. inimigo destas. de que ha vários generos. A' beira de um rio. não saem das casas. tendo tambem um nome diferente do destas e que exalam muito mau cheiro: são frias por natureza. dotadas porém de grande força. mas tambem com a agilidade do corpo. causam uma grande dôr que dura muitas horas. outras são malhadas e pintadas de várias côres: destas encontramse em todos os lugares (29). esta ficou junto da árvore. deitou-se. arcos e lanças. donde vem que muitas vezes o prepucio se fura em diversos lugares. mata-as com o ferrão. Quarenta homens armados de balas. bastará referir dois ou três para mostrá-lo. o que.CADERNO Nº. escondem as presas debaixo da terra. um dos homens fugiu. dêste fato poderiam ser apresentados muitos testemunhos. ou antes na rêde de um. persegueas encarniçadamente. dormia um lndio debaixo da cama. 7 . até que. acometeu a um deles. tencionando matar um tigre que tinha feito muitos estragos trucidando com grande ferocidade e devorando a muitos. feio de ver-se.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE Um certo animalejo do genero dos vespões. a féra. Ha aqui umas aranhas de genero diverso. ou derribou o homem. conquanto possa ser comprovado por muitos fatos. que aqui se suspende sustentada por duas cordas. São de 22 extrema ferocidade. saiu-lhes ao encontro uma pantera e investiu contra ambos. labutou toda a noite (porque isso se passou quasi ao entrar do sol). e algumas vezes o mesmo membro viril contrai uma corrupção incuravel: não só se tornam eles feios pelo aspecto horrivel da doença. e matá-loia com as unhas enterradas pela cabeça e pelo peito. vendo se achava alguma subida. subindo á árvore. como tambem mancham e infeccionam as mulheres com quem têm relações (28). e aí as come (26). Passando dois Indios por um caminho perto de Piratininga por onde sempre vamos e voltamos. tendo todos a mesma fórma (27). pelo menos. arrebatou-o. Ha outro bichinho quasi semelhante á centopéia. que as mesmas onças arrebatam no primeiro sono do meio de muita gente. Ao amanhecer. que já tinham vindo inutilmente na vespera em auxílio do 23 . Os lndios costumam aplicá-los ás partes genitais que assim incitam para o prazer sensual. de maneira que não pôde ser apanhado pela féra. arrancar-lho das garras e dos dentes. estando alguns Cristãos descansando uma noite em pequenas cabanas. no qual ele ao cair afogou-se. não se temendo de tão grande fôrça de homens armados. Encontram-se tambem entre nós as panteras. são acometidos de um excessivo frio e tremor. não podendo a multidão que ali se achava reunida. incham elas de tal modo que em três dias apodrecem. combateu valorosamente não só com flechas. diferem entre si na côr e no nome. que sucessivamente e de quando em quando se dão. os pelos de outros (que são compridos e pretos. Em baixo era um lugar alagadiço. o outro. e aí as vão comendo até consumirem. todo coberto de pelos. Se alguns deles tocarem no corpo de alguem. para isso o vinho é excelente remédio. pois as mulheres brasilicas muitas vezes soem preparar bebidas envenenadas. leva-as para pequenosburacos que cava para si. menores essas e mais bravias. pois são dotadas de grande destreza. por essa razão os que bebem delas. o que experimentámos algumas vezes. segundo afirmam os Indios. ou ele mesmo cansado de tão grande luta e cheio de pavor. caiu. que por acaso tinha estendida. com um só golpe das unhas ou uma dentada dilaceram tudo quanto apanham. excedem no tamanho a um carneiro. das quais ha duas variedades: umas são côr de veado. chegando os outros. se dirigida com a ajuda do Senhor ao coração. coberto de lôdo. o que aconteceu com muitos outros. são de ordinario medrosas e acometem pela retaguarda. de cabeça vermelha) são venenosos. afinal cansada. os machos. a qual gastou debalde o resto da noite em diligências para tirá-lo dali. pois as femeas são menores. e bramiu. porém nem mesmo êste meio é bastante seguro contra tais féras. e provocam desejos libidinosos. eis que sobrevem um tigre alta noite e agarrando-o por uma perna. até que trepou em uma árvore. senão quando o sol está muito ardente. repilindo os impetos da féra. uma flecha não a tivesse deitado por terra. embora grande.

a lingua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fóra da bôca. com tanta tenacidade se agarra no meio da árvore. proprio para se comer. 24 É uma fera semelhante á mula. dirias que é carne de vaca. tem o corpo grande. separando os ramos daqui e dalí. quanto tempo leva em mover um braço. vagaroso. As patas deanteiras são robusticissimas. ele a recolhe para dentro da bôca. as quais são armadas de unhas muito duras. com as unhas.CADERNO Nº. come as cascas das árvores. passa depois para outra. nutre-se de diversos frutos. Quando perseguida dos cães. são mais rijas e compridas que as do porco. tem os braços comprido. ao certo. quando muito. com o qual. sem contar a que fica para dentro (que eu medi). com que o dotou a natureza para poder trepar em certas árvores. As suas cerdas. bastante frequente. tendendo para o preto. que é provida de cerdas compridas. algumas vezes tambem antes de chegar ao cume. um pouco mais curta de pernas. até que consuma a árvore toda. estender nas covas das formigas. a parte superior do beiço é muito proeminente: de côr entre a do camelo e a do veado. pondo-a para fóra. sendo todavia mais mole e macia (31). tendo a medida de um ou. quasi iguais á coxa de um homem. outras transversalmente. senão cortando-lhe os braços. em vez de crinas. mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão. senão em sua defesa própria: quando acontece ser atacado pelos outros animais sentase e. tem na parte inferior da barriga uma especie de saco dividido de cima a baixo. a do ventre é mais mole. de grande grossura. umas dispostas de cima a baixo. ou lançase ao rio e fica por muito tempo debaixo dagua. a qual costuma. com as quais não só recebe. que são negras entremeiadas de cinzento. e acharam-lhe no ventre o dedo polegar do referido Indio. no que gasta uma bôa parte do dia e alimenta-se das suas folhas e rebentos (36) : não se póde dizer. não faz mal a ninguem. tem os pés divididos em três partes. Avantaja-se no tamanho ao maior cão. na verdade preguiçoso. por isso. e esta é a sua refeição ordinaria: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente. faz-lhes frente a dentadas e coices. a que os Indios chamam tamanduá (30). maximé na cauda. por isso vive quasi sempre perto dos rios. agarra cada um em 25 . uma das quais principalmente excede em comprimento ás de todas as demais féras. E' saborosissimo. pois é mais vagaroso que um caracol. corre de um lado para outro. os Indios fabricam broqueis completamente impenetraves ás flechas (34). de dia dorme e descansa. Do seu couro. munidos de unhas tambem compridas e curvas. espera o ataque. a sua cara parece assemelhar-se alguma cousa de rosto de uma mulher. Ha tambem outro animal de feio aspeto. bôca redonda. cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo. podendo ser vencido pelo homem na carreira. é coberto de uma pele tão dura que é dificil de se atravessar pelas flechas. Ha outro animal. Há outro animal que os Indios chamam aig (35) e nós “priguiça”. chamado pelos Indios tapiíra (32) e pelos espanhois "anta". do mesmo modo ferozes. de noite. e entrando para ele os filhos quando os pare. endurecido apenas pelo sol. que já não podia mais mover-se pelo excessivo trabalho que tivera. é. Existem aqui tambem outros animais (querem que sejam leões). mataram a féra. que se supõe que ela devorara quando ele subia á árvore: viam-se ainda nesta os vestígios das suas unhas. ali se demora finalmente. de um só golpe penetra-lhes as entranhas e mata-os. tendo porém subido. em que estão escondidos os seios. por causa da sua excessiva lentidão em mover-se. como é um tanto mais alto. dois aneis. porém mais raros. côr de cinza. arma toda a fronte e abre caminho por espessos bosques. e. um musculo desde as cruzes até a cabeça. Levanta-se-lhe pelo pescoço. dá um grande assobio em vez de grito. com as patas deanteiras levantadas. como rechassa os golpes das armas. julgo que é o que em latim se chama "alce” (33).SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE homem. que não se póde arrancá-lo dali. Ha tambem outro semelhante a uma pequena raposa e ao qual os Indios chamam sariquéa (37). que exala muito mau cheiro e gosta muito de comer galinhas. Tem o pescoço comprido e fino. e logo que estas a enchem de todos os lados. desprovida de crinas. Tem a cauda muito curta. quando não os ha. 7 . em cujas ribanceiras costuma cavar a terra e comer barro.

fazendo uma especie de ponte.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE sua têta e dali não saem até que. por causa da pequenez do corpo. das quais ha várias naturezas e nomes. Um dos nossos Irmãos. do que a ele da cova: é de delicioso sabor. onde se. Existe também outro animal muito comum entre nós. como jumentos. pela maior parte sôbre o palido. que omito por incriveis. a que chamam Nova Espanha. as mulheres brasilicas costumam servir-se delas para furarem as orelhas. entram pouco a pouco por si. o que muitas vezes provámos. chamam-o tatú (41). que constroem a sua habitação debaixo das mesmas taquaras. pretas na ponta. que habita pelos campos em covas subterraneas. o que. di-lo-ei de 27 . mais facil será destacar-se esta do corpo. mas tambem para comer-se. quando se mete em sua toca. curvando um ramo. aos quais os Indios chamam rahú (46). indistintamente amontoados. Já matámos muitas e entre elas uma com sete filhos encerrados na mencionada bolsa. Existem tambem certos pequenos animais do genero dos ouriços (38). não podem passar desta árvore para aquela que é maior. da grossura de um dedo. As femeas têm mamas como as mulheres. não só vira comer. o chefe da tropa. porém. de gamos. se tocarem em alguma cousa. uns como os nossos de chifres. não precisando mais do auxílio materno. e assim passam com facilidade todos. nem de contar-se. que andou muito tempo por aqueles lugares. só com muita dificuldade podem ser arrancados vivos de suas têtas. cobertas de uma lã branca e linda. êstes. Dêstes insetos uns se tornam borboletas. se não lhe arrancares a perna. e quasi semelhante aos lagartos pela cauda e cabeça. Vivem sempre nos matos. Contam-se deles cousas maravilhosas. de javalis (44). e costumam comer assados e torrados. vulgarmente escritas em espanhol. que ele segura com a cauda e com os pés. Ha os em tão grande porção. as quais. mas tambem comêra da carne delas. embora lhe segures a cauda. debalde te cansarás em puxá-lo para fóra: agarra-se á terra com as conchas e os pés com tanta fôrça que. antes pastam sempre em magotes pelas planicies. principalmente carne. dá caminho aos restantes. sem chifres. das quais se servem os Indios para levar e trazer cargas. impenetravel ás flechas. depois da morte da mãe. Seria muito dificil representar por palavras as diversas especies de formigas. os filhos pequenos agarrados sempre ás costas e ombros das mães. até que possam andar sòzinhos. ha umas ovelhas selvagens (45). outros. afirma que. (42) Ha abundante multidão de gatos monteses muito ligeiros (43). para os lados do Perú. e que nunca entram nos matos. sem sentirem dôr. sem ninguem as empurrar. que fazem com eles um guizado que em nada difere da carne de porco estufada. saltando em bandos pelos cumes das árvores. e segurando outro macaco com as mãos. Nascem entre as taquaras certos bichos roliços e compridos. mas antes. transpassado de lado a lado no espaço de uma noite por uma cerda dêsse modo introduzida por si mesma. semelhante á armadura de um cavalo. Eu vi um couro dobrado. outros saem ratos. é comida mui saudavel para doentes (40). que entendi dever omitir. raros. de não pequena grossura. Tem o corpo todo coberto da parte de cima por uma concha muito dura. todas elas mui proprias para se comer. Encontram-se muitos outros animais de diversos generos. todos brancos.CADERNO Nº. de côr branca. correm daqui para ali. por não serem dignos de saber-se. Trata-se largamente dessas ovelhas nas cronicas do Perú. que roçam as ervas. 7 . serve não só para amolecer o couro. são. Longe daqui no interior da terra. Dois generos ha de veados. outros porém se transformam em lagartas. iguais ás vacas no tamanho. cobertos de cerdas compridas e mui agudas. dos quais ha várias especies. 26 Cava com muita velocidade a terra para se esconder. possam ficar em pé e andar por si. Ha uma infinita multidão de macacos dos quais se contam quatro variedades (39).

que ansiosamente esperam êste tempo. do rato e de muitos outros animais. contrai os nervos. produz dôr e tremôr. não é facil dizer quanta diversidade ha de aves ornadas de várias côres. fazem sair o enxame dos filhos. Quão deleitavel é esta comida e como é saudavel. sentes-te queimar e não ha fogo em parte alguma. ficando com todo o corpo muito cheio e distendido. não ha nome generico da formiga. e de seu ventre geram-se inumeros outros filhos. quando descem para comer. donde sucede que haja grande abundancia de cera. espiando o lugar por todos os 29 . que são quasi infinitas. e enchem os seus vasos. devoram-lhes os ventre. outros ha que. que saram facilmente pela proteção divina. Os papagaios são mais comuns aqui do que os corvos. quer dizer. Para ver quando elas saem de suas cavernas ajuntam-se as aves. Na primavera. outras debaixo da terra. sugando-nos o sangue. como de vigia. Outros chamados mariguî. isto é. quasi sempre no dia seguinte ao de chuva e trovoada. de corpo maior. os quais. em qualquer parte que caiam cavam imediatamente a terra. se defendem da raiva dos pais e apanham os filhos que saem das covas. se o sol estiver ardente. fazem de maneira que. assam-as em vasilhas de barro e comem-as. 7 . por isso que dão diversos nomes ás diversas especies e raras vezes os generos são conhecidos por uma denominação propria. sabêmo-lo nós. como disse. onde. que a provámos (49). depois. porém. Em verdade. não sabes de onde te veiu repentinamente semelhante incômodo. alguns deles produzem prisão de ventre. e que habitam á beira-mar. furam a pele e chupam o sangue. são tão pequenos que mal os podes perceber com a vista. No entanto. estando. se te coças com as unhas. certas cabaças grandes. muitas especies de mel. das formigas só parecem dignas de comemoração as que destroem as árvores. isto é. Mas umas aves semelhantes ás andorinhas. comendo o milho quando está granado. e assim acontecem que mui poucas escapam (50). outros imitam a voz humana. assim torradas. até fazer sangue. das quais umas fabricam o mel nos troncos das árvores. do caranguejo. de pouco tempo morrem. falarei unicamente de um. Logo que se bebe dêste mel. és mordido. é muito usual na lingua brasilica. 28 e cortam pelo meio com admiravel celeridade aquelas formigas que saem voando. uns têm o ferrão e as pernas compridas e subtilissimas. aglomeram-se quasi sem conta no ar. aproximam-se das entradas dos formigueiros e enchem de agua os pequenos buracos que elas fazem. maximé no verão. provoca vomitos e destempera o ventre. Encontram-se quasi vinte especies diversas de abelhas (51). todos bons para se comerem. ajuntam-se os Indios. das especies. estas são chamadas Içâ (47). nenhuma deixa de ter o seu nome proprio. sem se corromperem. correndo com a bôca aberta de um lado para outro. construindo cada um a sua habitação. quando os campos estão alagados. de maneira que não admira haja tão grande multidão de formigas. como mulheres. e daí em diante. os quais. os pais vão adeante e. “mel de muitos buracos”. e não vês quem te morde. assim. até que. seguem-lhes os filhos com asas (48). porém. deixam as suas casas. e logo voam á procura de novas casas para si. em Setembro. mordem cruelmente. tanto homens. Usamos do mel para curar as feridas. contra êstes é bom remédio a fumaça com a qual se dispersam (52). voltam para casa. apressam-se. toma todas as juntas do corpo. conservam-se por muitos dias. de maneira que com razão te admirarias de tão grande cópia e variedade de palavras. outras em cortiços construido entre os ramos. quando de uma só nascem tantas. enchem todos os caminhos. e pregam mordidelas mais crueis do que em outro qualquer tempo.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE passagem. Havendo porém. porque estas abelhas têm muitas entradas nas colmeias. e de diferentes especies. fiquem sempre um ou dois no alto de uma árvore. cavam para si grandes casas debaixo da terra. trituradas cheiram a limão. das quais ha três variedades. deixando a cabeça com as asas e pernas. maior dôr sentes. correm com grande alegria e saltos de prazer para colher os frutos novos. renovase e aumenta por dois ou três dias o ardor que deixaram no corpo (53). tão numerosos muitas vezes que formam uma nuvem no ar. voam em bandos e quando estão nesse trabalho. são uma praga terrivel. Ha pelo mato grande cópia de moscas e mosquitos. que os Indios chamam eiraaquãyetâ. mal podem voar.CADERNO Nº. são um tanto ruivas.

os porcos e os bois as comem cruas impunemente. quando os outros fartos sobem. abrindo as asas para protegê-los. se não forem preparadas pela indústria humana para se comerem. pois na primeira idade cobre-se de penas brancas. de bico comprido e adunco. quando ela não póde voar nem andar (61). não voa. por nome guará (60). 7 . os mais pequenos de todos. estas penas são de grande estimação entre os Indios. iguais aos esporões dos galinaceos. afirmam todos. é um violentíssimo veneno. mas todas as outras aves que vivem de rapina. em lugar de asas. quando acossada pelos cães. que usam delas para enfeitar os cabelos e braços em suas festas. do que em desamparar os filhos. porém de pernas mais compridas. Ha tambem outro. passado algum tempo tornam-se segunda vez brancas. mal nenhum isso lhes faz (62). chamados guainumbi (56). semelhantes ao rabão. que constroi no mais alto da árvore. porém muito mais rijos. 30 para a qual. Ha tambem avestruzes. que se gera da borboleta (58). Isto quanto aos animais. Ha ainda galinhas silvestres. antes os afugenta. Passa por uma metamorfose. das quais algumas são de tal tamanho que matam e despedaçam até veados. conserva-se imóvel. tem pequenos membros. quando está no ninho. que depois se transformam em côr de cinza. Ha outra ave que se chama anhima (63). trazem comida como a um principe: têm isto comsigo. assadas ou cozidas comem-se.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE lados. muito apropriadas para acalmar a tosse e molificar o peito. está muito tempo debaixo dagua a comer peixes. se porém beberem o suco que delas se expreme. tem os pés quasi na cauda. alimentam-se só de orvalho (57) . igual ao mergulhão. dêsses ha vários generos. ferindo-os gravemente com as asas assim armadas. outras verdes. e. como que perpétua. se o caçador sobe para tirá-los. de que nos utilizamos como alimento são venenosas e nocivas por natureza. Ha ainda uma ave marinha. Ha ainda outros passarinhos. quando está aquecendo os filhotes recem-nascidos no ninho. de agradavel sabor. A sua semente. não só seus pais que têm com ela particular cuidado. incham de repente e morrem. Das aves de rapina ha muitas especies. de menor corço. alimenta-se de caranguejos e é muito voraz. vestidos de macia penugem. outras pardacentas. maximè uma. mas. que as raizes a que chamam mandioca (66). que mesmo que passem muitos dias sem comer. Ouvi falar de outro genero ainda de aves de prêsa. de pescoço igualmente alongado. que não podem voar por causa do extraordinario tamanho do corpo (55). todavia. um tambem na cabeça. 31 . Ha outras raizes chamadas yeticopê (67). parecido com o ganso por causa do bico.CADERNO Nº. Das ervas e árvores não quero deixar de dizer isto. dos quais um. em vendo alguem aproximar-se. que. muito grande. consentindo antes que a apanhem. comidas cruas matam a gente. e outras aves todas côr de purpura. Ha outro passaro semelhante ao corvo. que se assemelha a favas. de menos alvura todavia das da primeira. mas. que as árvores parece que caem por terra (59). não foge. vistosas na sua multiplice variedade de côres (65). descem os vigias por sua vez para comer (54). Ha ainda outra ave marinha semelhante á ádem. de maneira que não podem sustentar o corpo e só lhe servem para nadar. a qual. mas se não houver perigo algum. Tem em cada asa com que três cornos (64). das quais se contam três especies: perdizes. faisões. tocam rebate e fogem todos. o qual mergulhando nos rios. quando sacode as asas faz tanto barulho. quando grita parece o zurrar de um asno. por fim ornam-se de uma côr purpúrea lindissima. ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar.

que pretendem seja o balsamo. e pode-se facilmente julgar do seu tamanho pelas castanhas que contém. relaxa o ventre e limpa o estomago por violentos vomitos: por pouco. util para remédio. Deve-se. exposta por uma noite ao sereno. porém. se abre por si mesma quando está maduro: aparecem então dentro muitos frutos semelhantes a castanhas. se não se fizer assim. Uteis á medicina não ha só muitas árvores. todavia bebe-se sem perigo de vida (74). além disso. fechando-se sôbre si mesmas. O vaso ou urna. Ha. de casca mole. Ha tambem outras árvores que enchem por toda a parte os esteiros do mar. daí a pouco tornam a abrir-se. mata. Os Indios dão aos seus frutos. imediatamente as suas folhas. além destas. Ha uma certa árvore. maximè das que são proveitosas como purgantes. Os lugares que ficam para o sententriãonão produzem destas árvores. o qual. porém. onde nascem. se a tocares de leve com a mão ou com qualquer outra cousa. e de mui deleitavel sabor. se se beber em pequena porção. se bem que provoque o vômito com bastante violencia. o que é comum ás de que falei ha pouco. não é menos duro que a pedra. muitissimo agradaveis ao paladar. se ajuntam e como que se grudam. 33 . mas muito maiores. as suas folhas parecem as do bordo. cuja tampa. Das árvores uma parece digna de notícia. a que chamamos viva (68). depois. cujas raizes. propagam profusamente ocupando o espaço de seis ou sete milhas. o ventre com abundante fluxo. tomar dele tanto quanto caiba em uma unha e isso mesmo diluido em muita água. de tal maneira que em pouco tempo (como dizem ter-se por experiência provado) nem mesmo sinal fica das cicatrizes (69). que a princípio corre como oleo por pequenos furos feitos pelo carancho ou tambem por talhos de foices ou de machados. direi. desembaraça. que é tida em grande estima e com razão. Na povoação que se chama Espirito Santo é muito comum uma certa árvore muito alta. da qual. quanto para o prender. como que trabalhada a tôrno. ou do galho quebrado. quasi que nenhum remédio eficaz se encontra. Exceto os frutos de certas árvores. que cessa logo que se tome algum alimento. de cuja casca cortada com faca. corre um líquido branco como leite. escorre um suco suavissimo. bebe-se de manhã sem dificuldade. várias outras que servem muito para soltar o ventre. com que está pendente da árvores. quasi do comprimento de uma lança. nem produz fastio. são compridos como 32 os nossos. não causa nausea. raspa-se e bebe-se misturada com agua. que se come assada ou bebe-se esmoida com agua. Êste é semelhante a uma panela. outras do ponto em que os ramos que rebentam se dirigem para cima. 7 . porém mais denso. que passam de cincoenta (71). muitos de suavíssimo cheiro. chamada vulgarmente marareçó. porém suavissimo e é otimo para curar feridas. Ha.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE Entre outras. ainda que outras haja que distilam um líquido semelhante á resina. abundante nos campos. como raizes de plantas. alguma cousa. porque parece ter tal ou qual sentimento: pois. queima a garganta e mata (73). semelhantes á amendoa das castanhas. cujo fruto é admiravel. o nome especial de ibá. porém que exceda na dose. fruto (nome aliás comum aos demais frutos). até que no fim de muitos dias chegam ao chão (70). isto é. emfim. em que estão encerrados. a raiz pequena e redonda.CADERNO Nº. utilissima para o mesmo fim. contundida e deixada de infusão em agua pelo espaço de uma noite. ha aqui certa erva espalhada por toda a parte e que muitas vezes vimos e tocámos. incomoda extraordinariamente. pinheiros (72) de altura estupenda. Ha tambem outra. Descobriu-se ultimamente outra. esta. exala um cheiro muito forte. por antonomasia. se inclinam pouco a pouco para a terra. separadas por delgadas tiras como interposto septos. Ha uma certa raiz. coalha depois e parece converter-se em uma especie de balsamo. Esta é oblonga e delgada. Ha diversas árvores de frutos excelentes para comer-se. algumas brotadas quasi do meio do tronco.

que por asperas brenhas vai ter ao interior das terras. A esta morte condenam tambem os que suspeitam terem sido concebidos em adulterio. que não conhecem a Deus. que são desconhecidas a nós. assim que nasceu. que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios. que moram n’agua. onde eram muitas vezes afogados por eles. cujo nariz se estendia até ao queixo. de maneira que não parece uma pedra só. nenhum nascido fóra de tempo (79). no cume da mais alta montanha. a que chamam Igpupiára (77). Dêstes Brasis direi. que matam do mesmo aos Indios. quer o demonio tornar-se formidavel a êstes Brasis. acha-se raramente um cego. e são chamados baetatá (78). muitas conchas. a que os Brasis chamam corupira. ha pouco tempo. nasceu uma criancinha. Escrito em São Vicente. Isto é quanto me ocorre dizer das árvores. Ha tambem outros. Não é talvez menos para admirar o ter nascido em Piratininga um porco hermafrodita que. um mudo ou um coxo. cobertas de horrendas escamas as partes genitais perto dos rins. penas de aves. que qualquer parte dela que tocares em as mãos se torna flexivel como o couro e a moverás como cousa apertada por um nó. nas quais se criam certas pedrinhas transparentes. ou antes um monstro. a uma ou duas milhas de Piratininga. costumam os Indios deixar em certo caminho. no ano do Senhor 1560. São testemunhas disto os nossos Irmãos. tinha a bôca abaixo dêste. como pude. Todavia. ainda está vivo. que querem sejam perolas: têm o tamanho do grão de bico e algumas maiores. Acrescentarei agora poucas palavras acêrca dos espectros noturnos ou antes demonios com que costumam os Indios aterrar-se. machucam-os e matam-os. os peitos e as costas semelhantes ao lagarto aquatico. em último lugar. Não longe de nós ha um rio habitado por Cristãos. Narrei essas cousas brevemente. queiram tomar o trabalho de orar por nós e pela conversão dêste país. dão-lhes de açoites. a qual seu pai. É cousa sabida e pela bôca de todos corre que ha certos demonios. 7 . rogando fervorosamente aos curupiras que não lhes façam mal (76). O minimo da Companhia de Jesus.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE Até nas pedras se encontra o que admirar e com que exaltar a onipotencia do supremo e otimo Deus. acomete rapidamente os Indios e mata-os. antes que os Cristãos para lá fossem. mas sim muitas reunidas por diversas juntas (75). quando por êstes e outros meios semelhantes. um surdo. o que não admira. plantas e pedras. que acometem aos Indios muitas vezes no mato. em uma aldeia de Indios. no fim do mês de Maio. que é a última povoação dos Portugueses na India Brasilica voltada para o Sul. que fazem de um só tronco ou de cortiça. Encontram-se em certo rio habitado pelos inimigos. Rogamos entretanto aos que achem prazer em ler e ouvir estas cousas. Por isso. que quer dizer “cousa de fogo”. flechas e outras cousas semelhantes como uma especie de oblação. maximè em uma que servepara afiar espadas. 35 . quando por cá passam. que não só assaltam os Indios. como lhes causam dano. o que os Indios atravessavam outrora em pequenas canôas. ainda não se sabe com certeza. segundo creio. que longo fôra enumerar. o que é o mesmo como se dissesse “o 34 que é todo fogo”. que viram algumas vezes os mortos por eles. mas tem isto de maravilhoso. abanadores. Não se vê outra cousa senão facho cintilante correndo daqui para ali. e exercer contra eles tão cruel tirania.CADERNO Nº. posto que não duvides que haja muitas outras dignas de menção. a umas 50 milhas de Piratininga. isto é. como os curupiras: o que seja isto. Ha tambem nos rios outros fantasmas. fez enterrar viva. que quasi nenhum se encontra entre eles afetado de deformidade alguma natural. maximè nas praias. Ha tambem outros espectros do mesmo modo pavorosos. ainda aqui pouco praticos.

Oliverio Mario de Oliveira Pinto.. . comilão. Alt. conforme definição de B. no ano de 1582. Cardim. .). in 4°. hoje S. Não numeradas e 46 p. A. p. diz “eu e quatro irmãos”. Lisboa. 135). . Não existe até. cephalus). 275-305. 1900.. C. 1812. p. o peixe entra. . sendo de notar que muitas “permanecem nos rios litoreaneos indefinidamente” e outras. morador em enseadas”(nota a F. considerando a refração da luz. 2. entretanto. Cardim.ed. similarmente. á procura das cabeceiras. Por isso. os padres Leonardo Nunes. fl. . dr. M. suprimindo dez dias e providenciando para o futuro. Da Bibl. nos “Anais da Biblioteca Nacional”. n.). sirenio da familia dos Triquequideos. em que pese a maneira antropomorfica por que é narrada e interpretada. R. M. ainda aqueles cujo psiquico se nos mostra mais embotado e rudimentar. páginas 66-7). É assim muito provavel que fossem realmente cinco os jesuitas que embarcaram na Baía. Realmente eles duram. De pirá-peixe e cêsair ou cema-saindo. c. em que de fato “se metem pelas ervas em pouca agua para desovar”. da autoria do dr. ao abrigo relativo das causas naturais de destruição”. e.CADERNO Nº. No número dêstes peixes contam-se no Brasil. submetemos á revisão de um técnico do Instituto Biologico de São Paulo. come-come. de 22. 15072. sendo uma de errata. goáragoá (G. transcritas sem nenhuma indicação de obra.A procura “de aguas salobras ou mesmo perfeitamente doces” para a desova. corrigiu. de Vasconcelos (Cron. curema Cuv.. 3 fl. com escala pelo Espirito Santo. c. diretor do Instituto do Butantan. ainda. O tupi na Geogr. 1. S. Pio Lourenço Corrêa. foram especialmente escritas para esta edição. ressaltando os serviços que por essa ocasião prestaram aos indios o padre Luiz da Grã e o irmão Manuel de Chaves. nenhum vocábulo para designar na fala usual o curioso fenomeno da entrada dos cardumes de peixes potamotocos (assim são chamados os peixes marinhos que desovam nos rios) pelo estuario dos rios acima. (08) Timbó . 1. “monção em que saem os peixes”. cujo nome se ignora. da familia das Sapindaceas (Paulinia pinnata L. ao passo que as costas e grandes rios da Africa Occidental são frequentadas por uma outra (Manatus senegalensis Desmarest). desde o ano 325.). frequentemente nos maravilham pela clarividencia dos seus instintos relacionados com a procreação”. (04) Nota de Lara Ordoñez (1. c. & Va. Em italiano nos Diversi nuovi acisi. Perequê.Observação de Oliverio Mario: “Piraiquê é nome cuja tradição dir-se-á perdida na linguagem vulgar. assim. 1. ao que parece. Anchieta julgou solsticiais os dias 11 de junho e 13 de dezembro. o qual depois. A observação do jesuita sôbre o tino admiravel de proteção e de defesa posto em prática pelos peixes no ato de procurarem lugar adequado á desova. graças á gentileza do dr.Observação de Oliverio Mario: “Propriamente não ha o que retificar na descrição de Anchieta. Soares). peculiar ao litoral atlantico da America Meridional e ás Antilhas. na Coleção de Notícias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE NOTAS (01) Copiada do livro de registro Cartas dos Padres da Companhia de Jesus sôbre o Brasil cit.Observação de Oliverio Mario: “A especie referida por Anchieta é indubitavelmente Trichechus manatus Lin. de aguas mais rasas e remançosas. Paulo”(T. Nac. “corr. porém. Adalberto de Queiroz Teles. João Vieira de Almeida.” (05) Boi-marinho é o peixe-boi. Uma especie vizinha (Manatus inunguis Matterer) vive nas bacias do Orenoco e do Amazonas.As notas que se seguem. as tainhas e curimãs. a 12 de junho e a 12 de dezembro. corrigida. partiram para São Vicente. com o concurso de Martinho Corrêa de Sá. com um prefacio do dr. 7 . Paulo. (03) Piracema ou piracê.. Soares. segundo Lara Ordoñez”. em grande parte. voltam para o mar” (A. Novamente traduzida pelo prof. Agenor Couto de Magalhães (Monografia brasileira de peixes fluviais. Ao concursos dêsses competentes devemos. no “Diario Oficial”. porque. R. . É esse o sucesso que Anchieta narra.V. Vicente Rodrigues e Braz Lourenço com os irmãos José de Anchieta. Vicentii (nunc S. Pauli) provinciam incolunt sistens descriptionem. no fasciculo Carta fazendo a descrição das inumeras coisas naturais que se encontram na provincia de S. Porque. 36’. Trat. Garcia declara melhor “ guaraguá. senão que sobem o curso dos rios. e depois.Ao sumo “extraido de cipós batidos para matar o peixe nos rios e lagoas”. 37 . fl.. senão a ambas. datada de Lisboa. p. Sampaio. Sampaio. da Academia Real das Ciências. o. foi pbl. chamavam os indios tingui (T. o. notal 203 a G. acham nos rios meio tranquilo e farto de alimentação para a futura prole”. Pirá-ikê. seguida de outras cartas ineditas escritas da Baía pelo veneravel Padre José de Anchieta. 24 e 26 de dezembro de 1887 e 2 e 7 de janeiro de 1888. 10 h. S. abbula (? . parte III. Designa o estuario ou esteiro aonde o peixe entra para a desova ou para comer.). e sr. de que ha duas especies brasileiras. O nome tupi é de dificil explicação. segundo Lara Ordoñez (l. 13 h. dadas as exigencias biologicas... 257). por causa do comprimento dos dias 11 de junho e 13 de dezembro ou dos passados. n. a embarcação de Anchieta ficou bastante danificada e a de Leonardo Nunes inteiramente perdida.). a alguma delas (talvez Helicore dugung Erxleben). Caetano (Vocabulario da Conquista. (02) A essa tempestade volta a se referir Anchieta na carta seguinte (XI). no ano de 1559. S. . os quais cairam realmente. (07) Piraiquê. Chamado pelos indios iguaraguá (Anch. 1. etc. como o ano civil excedesse o solar em 11’. o comentario ou esclarecimento do que de mais curiosos ou menos claro contém a admiravel carta de Anchieta. 136). Pontifice Maximo.): “Esta maneira de calcular o verão e o inverno é conforme o antigo Calendario. o 1° Ecumenico. 3ª ed. A versão portuguesa feita por Teixeira de Melo. Paulo. e não seis. pelo conselheiro Diogo de Toledo Lara Ordoñez.. p. 1758. Com a tempestade. no tempo do verão. isto é. que tirou edição a parte. Garcia (nota a F. 24’. de que ha muitas especies: Mugil brasiliensis Agassiz. a pedido nosso. 1879. Venetia. Couto de Magalhães. que se traduz por guára-guára . segundo. assistente do Museu Paulista. Trat... 86). como pretende S.M. “logo após os meses de procreação. conta forçosamente algum apoio na realidade. Gregorio Serrão e (segundo é corrente) um terceiro. Joseph de Anchieta Epistola quanplurimarum rerum naturalium quæ S. Afranio do Amaral. C. Os portugueses da Africa Oriental o conhecem por peixe-mulher. M. de Miranda Azevedo e as anotações de Lara Ordoñez. Piraquê.. pois é sabido que os animais. 1931. 66). 35. aplicar-se-á o apelido dado pelos portugueses. goáraguá ou guarabá (Varnhagen. 143). no inverno. foi primeiro pbl. No Oceano Indico e nas costas da Africa Oriental encontram-se duas especies pertencentes a um genero afim. p. VII). C. Outras. nos “An. Anchieta. no original anotado. em latim. os solticios precediam outros tantos dias. que na noite de 20 para 21 de novembro surpreendeu a missão nos Abrolhos. Nacional”. com os seus mais importantes representantes do ponto de vista economico. Vicente. do Rio. S. Paulo. (06) Da Baía. Gregorio XII. . justifica-se “em determinadas especies. incilis Hancock. ou dos seguintes. Pbl. 1799. em outubro de 1553..Cf. de Vasconcelos (o. no qual se marcou o tempo da celebração Pascoa no Concilio de Nicea. apenas não se poderá dizer com inteira propriedade que os peixes “saem d’agua para pôrem ovos”. ou ainda por yguá-riguá. A êstes peixes se referirá com toda probabilidade o trecho de Anchieta.

Soares e D’Abbeville. boicinunga ou boiteninga é a cascavel. 230). Cardim.Aliás. A lontra pequena ou simplesmente lontra (Lontra paranensis Rengger) é especie muito menor. Garcia (nota a D’Abbeville. “corr. o capim. os diferentes neoplasmas malignos que a tecnologia médica especifica sob os nomes de epiteliomas. D’Abbeville.). 248 v. (14) Deve ser o guanhumig de F.No mesmo trecho. outros decididamente não podem ser senão os siris.).SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE (09) Sucuryúba (Anch. Da Acad. c. sucuriuva. Paraguai e Argentina”. Sampaio. História da missão dos Padres Capuchinhos. que com tanto mais convicção acredita na lenda quando mais milagrosas e ocultas se lhe aparecem as causas dos fatos nela contados. sucuriú. 103). A suposta ausencia. o. Tratado da Terra do Brasil. e guará. o. que envenena a quem agarra" (nota de R. corresponderia pari passu o deprendimento paralelo da massa tumoral cuja extirpação se intentava. Rio. que pasta ervas. E Anchieta tambem. erva.). da familia dos Grapsideos ( Aratus pisoni. disposição esta que não existe em nenhum mamifero. Cardim (o. M. partindo-lhes os ossos.Observa Afranio do Amaral: “A Sucuriuba é dotada de 4 séries de afilados e recurvos dentes na parte superior da bôca e de 2 na inferior. c. Afranio Amaral (Boletim do Museu Nacional. Pode ser. Sampaio. Segundo B. a circunstancia de ser êste animal um roedor e não um carnivoro”.. Dessa fôrma consegue reduzir-lhes rapidamente a grossura ou diametro transverso e engulí-los com mais facilidade.. isto é. como ainda hoje o fazem os menos entendidos em coisas de medicina. p. ou tupi yararáca. capyyuare (C. G. ou desliza”(T. c. c. muitas delas perfeitamente curaveis. Garcia a F. (11) Capyûára (Anch. que se caracteriza por extrema imobilidade do reptil. mas de prêsas chanfradas ou ocas que no Brasil só ocorrem. Cuucurí-yú. amiúde encerram verdadeiras enormidades em materia de zoologia. Esta orientação dos dentes. Portanto.mais profundamente fica implantada nos dentes da cobra. andar para trás”. Soares (o. Garcia (nota a F. VII. 25) dá: "Tupi yára-ag. c. p. fl. desconjuntando-os e estourando-lhes o ventre e o tórace. p. c. pois a cicatrização entre os ofidios é sempre muito precaria.. 56). sarcomas. c. "que tem o bote venenoso". Cardim (o. nas corais verdadeiras e nas crotalideas.. (16) Nota de Oliverio Mario: “É quasi certo que Anchieta.. boiçununga. capibara (G. 100). inclusive Mata Grosso). da familia dos Boideos (Eunectes murinus L. roedor da familia dos Caviideos (Hydrochorus Hydrochorus L. . p. p. forma contrata de çuucuriyuba. Mas não padece nenhuma dúvida de que ha mais do que abusão no processo curativo a que o catequista atribui tão maravilhosas quanto estupefacientes virtudes. A informação no particular deve ser lendaria. refere-se Anchieta ao uçá (F. p.. Sem serem propriamente do mesmo feitio. Soares. ás vezes tambem chamado impropriamente lontra.Ao que eu tenho observado. 38 39 . o. nada ha a estranhar. representada no Brasil pelos generos Caiman e Jacaretinga. o.). 2. p. reptil omidosaurio da familia dos Crocodilos. sucuri. os molares da capivara assemelham-se perfeitamente aos das lebres e aos da maior parte dos roedores”. Ya-caré. Garcia a F. nadador). y-echá-caré. atira o bote”. o que envenena mordendo. tumidus. . 144): “O nome tupi vem de capyi. para onde tambem são dirigidas todas as pontas. giboiossú (Gandavo. etc.. 1922. alguns “outros no meio do céu da bôca”. boiuna (Amazonia). propria do Brasil meridional (de São Paulo ao Rio Grande do Sul. boissú. referida por Anchieta. As 4 séries superiores são formadas de 68 dentes. c. Cardim (o. 267) ou oussa (D’Abbeville. . ou boiguassú (Amazonia e centro) e viborão (Alto Amazonas e Acre). como diz Anchieta. Cardim. c. belo e néctes. ornatus.CADERNO Nº.). p. quer dizer “o que corre. e outros caranguejos descritos por F.). aquele que olha de banda”(T. . p. Çuúcuri. crustaceo braquiuro da familia dos Gecarcinideos (Ucides cordatus L. boiçuninga. morde rapido. comer: o que come capim. Edw. No caso. cuja côr é azul. R. de que diz Anchieta que “a natureza deu-lhes os ultimos braços planos proprios para nadar”. fl. Escreve R. p. etc. como as neoformações sifiliticas. 91). Deve ter sido esse o que o autor mais particularmente conheceu”. (18) Boicininga . sucuriú (G.). ao qual. c. p. fato em que consiste a autotomia dos fisiologistas”. que se encontra em todos os ofidios. participio do vermo ú. etc. 248). deve ser. de que ha nos mares brasileiros mais de uma especie (C. c. cujas eximias qualidade de nadadores inspiraram ao zoologista a denominação generica de Callinectes (calós.. pois esta especie causa a morte dos animais por simples enroscamento ou contricção progressiva.). ou sinuoso. (10) Nota de R. por um reflexo inconciente de defesa. (13) Nota de Oliverio Mario: “O outro animal.. larvatus. Sampaio. “corr. p. como diz Anchieta. c. o.). Escusa criticar a asserção de que a capivara apresenta. não de dentes propriamente ditos. c.. aquele que é torto.Jacaré. (15) Nota de Oliverio Mario: “Os caranguejos aquaticos. Caetano. C. p. c. Soares.). Será talvez o caranguejo (Edipleura cordata L. ao destacamento do corpo do martirizado crustaceo. guayamum ou guaiamú. ainda. ao duplo fim de apreensão facil da vítima e sua melhor retenção: a prêsa. Todos esses dentes diminuem de tamanho para o fundo da bôca. Bothrops atrox L.. p. pois a sucuri tem ao todo 102 dentes. sucurijuba (F. sucurijú.). Carece de grande interesse a identificação zoológica do “cancro” referido por Anchieta. imperfeita e seguida de deformações mais ou menos profundas”. como á generalidade dos crustaceos.. Sampaio (o. segundo Goeldi (Mamiferos do Brasil. o. c. capijuara (F. a sucuriuba não introduz a cauda pelo anus da vítima para matá-la. da familia dos Crotalideos (Crotalus terrificus Laur. crustáceo braquiuro da familia dos Gecarcinideos (Cardisoma guanhumi Latr. a sucuri amarela”(T. no caso. o. O jacaré do papo amarelo é o mais comum da Baía para o Sul. não ha opôr-se... Bothrops Neuwiedii Wagl. Cardim. é facil o destacamento dos membros. fl. 71) a denominação indigena de jagoacaca.. e não verde-mar. 60) dá mais o significado de “afastar-se.)”. pbl. socori. Sucuri. C. com afecções outras de natureza inteiramente diversa. 240). . ouégnon-moin de C’Abbeville (o. quasi do mesmo genero (sic) da lontra é provavelmente o ratão do banhado ou nutria ( Myocastor coypus).. “corr. p. o nome tupi do crustaceo siri. . o. 143): “Jacaré. 7 . De bói-cininga. (12) Nota de Oliverio Mario: “Lontras ha no Brasil de duas especies e de dois generos diferentes. cobra de chocalho. tão do gôsto e da credulidade do povo. n. c. ussá (G. o erbivoro”. e tambem arygboia (centro e litoral). 239).Observação de Oliverio Mario: “As descrições de Anchieta. capiguara ou capivara.). C. confundia o cancer da patologia. distribuidos pelos 2 maxilares e pelo par palatino-pterigoideu: as inferiores são constituídas por 34 dentes insertos na mandibula direita e esquerda. boi-assú .). quanto mais tenta escapar. bem como ao aratú. aplicar-seia tambem. respetivamente. Soares. A’ especie maior ou ariranha (Pteronura Brasiliensis Zimm. 1924. 92).O apodrecimento do ventre da sucuriuba alimentada e a consequente intervenção das aves de rapina parecem-me deturpação fantastica do longo periodo digestivo. o. e apenas encontradiça nos vertebrados poecilotermicos. Cardim.). Bras. 117) ou. na defesa das especies. nas palavras de T. da familia dos Crotalideos (Bothrops jararaca Wied. afóra as series laterais de dentes.). cobra muito má (Montoya)”. Paris. 248).. serve. “pode derivarse o nome de yara-roág. (17) Gereraca de G. É o processo das curas por simpatia. O processo de reparação tecituaria assinalado não é possível. o. Cardim. sapidus.

148) e Léry (Histoire d’un voyage . não estarão representados naquele hemisferio. XV. o. “cobras de pés pequenos”ou “piolhos de cobra”. Cardim (o. Sampaio (o. Amaral. Cobra enroscada no chão” (nota de R. p. entretanto. araramboia. p. da familia dos Colubrideos (Micrurus leniscatus L. c. super-familia Vespoidea) pertencem os mais notaveis caçadores de aranhas existentes no Brasil: mais notaveis pelo seu tamanho (aparentam enormes vespas) e tambem pelo seu número. sucuri e salamantas) e crotalideas em geral (cascavel.. 11. Gandavo (o. cobra pintada (T. o que. Amaral. Amaral. Many a hard-fought battle do these spider-wasps have with these enormous spiders. boicotiara. 1. (26) Nota de Pio Lourrenço Corrêa: “A familia dos Pompilideos (ordem dos Himenopteros. na qual têm uma unha tambem curva.). trad. Nicolas Barré (carta reproduzida por Paul Gaffarel. boiuru’.. por efeito psiquico.CADERNO Nº. de se achatar” (T. no estado atual de nossos conhecimentos…” (18-A) Cf. 44 . Amaral. o. (21) Boipeba. 48). Cardim (o. . Os ovos do primeiro grupo são postos. Do tupi mbói-peua ou peba. p. P. cutiara.Observação de Afranio Amaral: “As corais verdadeiras são chamadas de ibiboboca. de mera coincidencia. ainda. e alguns. Os escorpiões mais comuns entre nós pertencem aos generos Tityus. a mussurana ou boirú seria uma boirussanda”. Centrurus e Bothriurus. genero Helicops e outros afins.). nas “Memorias do Instituto do Butantan”. cobra chata (A. c. p.”A carne de cobra. Paris. e Lasiodora. 1878. vermes e larvas de insetos. c. as boideas (gibóias. Isto é: cobra fria. Entre as primeiras se encontram: todas as colubrideas áglifas com exceção das cobras dagua. “que tem a propriedade. pertencem aos generos Grammostola. which store their burrows with tarantulas. que ás vezes é o vespão que vem a ser comido. p. 57) e G. p.). Por esse nome de caranguejeiras são conhecidas no Brasil as Migalomorphae . pelo menos. uma vez por ano. seja a boiru’. c. biboca.. a mussurana.). Elaps Marcgravii Wied). B. 241). sendo Tityus bahiensis a mais espalhada e abundante de todas as especies”. Afranio Amaral (1. c. p. Rio. c. Da sua biologia extraio de Comstock (An introduction to entomology. A reptação da cascavel é das mais lerdas que se conhecem. F.). III. Dêsse modo. “Rev. igbigboboca (F. não come a aranha. o que fura a terra”. ibiboca . ou cobra-coral. Assim Anchieta conheceu um dos cem insetos. e a crotalidea Lachesis muta ou surucutinga (Amaral. (…) Among the giants of this family are the well-known tarantulahawks of the genus Pepsis of the Southwest. Colect. p. . da familia dos Crotalideos (Bothrops cotiara Gomes). 21) dá: “Tupi ibi-boca ou boboca. que são todos do hemisfério norte. generos Tomodon e Dryophylas . I. them the passage leaging to the coll is filled with earth. en matiere de viandes. (24) Nota de Afranio Amaral: “ Boiquiba devem ser os escorpiões. como diz Anchieta). c. l. Geografia Fisica. quando vitorioso.. ed. as elapideas ou corais verdadeiras (A. The wasp first finds a spider and stings it until it is paralyzed. ububoca (G. Soares. 1880. p.). Segundo T. A. (23) Nota de Afranio Amaral: “As nossas serpentes são oviparas ou ovo-viviparas. no caso. p. esta é sempre destinada a alimento da larva do vespão. as opistóglifas. Ithaca. Ha a notar. Wappaeus. como é mais conhecida no Centro do país. 163 e s. nhandú-guassú ou nhambú (J. Os filhotes do segundo grupo nascem já bem desenvolvidos e em ninhadas de 12 a 40 e até 60. boipeva ou boipeua. 7 . E. and then digs a burrow which is enlarged at the lower end. unicos animais venenosos a que se pode aplicar a descrição de Anchieta: “têm duas cabeças. significa “saido ou tirado do chão”. (25) Refere-se Anchieta á nhanduaçú (G. Thevet (Singularitez. em virtude de lhe ser pequena a fôrça muscular em relação ao volume do corpo.. 1878. dos nossos de cá. c. l. Vellard. As especies maiores. Cardim. c. além de “terra rachada ou fendida” (“terra cavada”. 25) ou ainda jararacopeba de F. 1930. c.21). forming a cell for the reception of the spider: the spider is then dragged down into the cell and an egg attached to it. 21). and sometimes theu are conquered and ignominiouly eaten. onde encontram pequenos lagartos ápodos. c.). dada a dificuldade de seu rapido reconhecimento até por parte dos indigenas. como os caranguejos. Dipluridae e Theraphosidae . . p. Ou talvez não viu nenhum dêsses. Neste caso. c. (22) Havendo comunicado a Afranio Amaral a suposição nossa de que a bóiroicanga referida por Anchieta e chamada pelos portugueses boiroy. naturalmente.. (…) More than one hundred species legonging tothis family was published bya Banks (1911)”. ou ainda. (20) Bóiguatiara. uricana e outras).. êste último número tendo sido registrado em relação á sucuri”. É bem verdade que o etimo pareceria antes indicar as lacraias ou escolopendras. que não é venenosa e tem habitos ofiofagos. Entre as ovo-viviparas se encontram. Histoire du Brésil Français au seizième siècle. que os Indios dizem que elas voam”.. c. E. porque furam a terra e penetram em galerias. 243 e segs. 48). p. usados na apreensão das vítimas. só encontradas no Centro e Norte do país (Vital Brasil e J. é representado pelo aperfeiçoamento do aparelho venenifero: o ser torna-se aparentemente tanto menos agil quanto maior confiança parece depositar em sua nova arma. c. Sampaio. da familia dos Colubrideos (Pseudoboa cloelia Daud. segundo Lara Ordoñez (l. p.. boicoatiara. pelo fim da primavera e em número de 2 a 40 ou mais.. lhe pareceu “fort fade et douçastre”. a que se refere Comstock. da familia dos Colubrideos (Xenodom merremii Wagl). Cardim. Soares (o. jararacas. ie ne chantois que de lezarda. Sampaio. urutú. 381). 118). Inst. de que fala Anchieta. 388) ou caranguejeira. o. com exceção da corredeira e da ubiracoá .. de que ha dezoito especies brasileiras conhecidas.. Cardim (o. c. o. de que se nutrem”. do Museu Paulista”. com que ferem”. Caetano “deduz o nome de mbói-iby-pebabac. Contribuição ao estudo do veneno das aranhas.1921). p. Soares. observou o diretor do Instituto do Butantan: “Parece antes que boiroiçanga se aplica a qualquer cobra desprovida de presas deanteiras (colubrideo áglifo ou opistóglifo ou mesmo boideo).Observação de Afranio Amaral: A boicininga não pode andar “pela grama em saltos de tal modo apressado. beiru’ou bairu’. cujo contato dá sempre a sensação de frio ou cuja picada pode provocar frio. Ha outros 40 41 . Do tupi mbói-quatiara . Butantan . jararacussú.. 187 . As especies indígenas se subordinam a quatro familias: Paratropidae. quando acuada. p. de que existem no Brasil quatorze especies já descritas.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE Tambem descrita por F. Questão. Bras. boicutiara. (19) Ibibobóca (Anch. A jararaca tambem chamada boipeva é a jaracambeva ou jararacambeva (A. p. Ctenisidae. e a cauda recurvada. cuja explicação ainda escapa. 47). além das colubrideas acima excetuadas. mas a êstes os indigenas costumavam distinguir pelo nome de boissó. ibiboca. 247). as “duas cabeças”seriam as pinças ou tentaculos. Com esta serpente costuma-se até exemplificar o fato biológico de a involução do sistema muscular coincidir com o aparecimento de qualquer meio especial de defesa da especie. p. conforme diz Anchieta.. 240). 934) o seguinte: “Most of the Pompilidae make their nests in the ground. p. cotiara. Garcia a F.1927). o. c. ed. mais apres que I’en cus tasté. aludindo á classificação de Banks. 165). Êste último bastante apreciou a carne do lagarto: “Vrai est que du commencement I’avois cela en horreur.

. Rio. Moeurs des insects. da Acad. Sampaio. o c. alce e grã-besta em português. Soares (o. (36) A preguiça vive na ambauba (varias especies do genero Cecropia L. C. p. 236) ou preguiça. O primeiro étimo. “tão amigos da carne que se não contentam. o.). Paris. Thevet grafa haût . mencionadas por Anchieta.. coandú. As designações mucura e gambá aludem tambem ao fato do sariguê carregar os filhos na bolsa que tem no ventre (T. l. Cron. mucura. de que o Brasil possui muitas especies. verdadeiro. explica Varhagem (nota 01) a G. quer com o aumentativo açú quer com o diminutivo mirim. mais de seis meses. 113). particularmente o Didelphis aurita L. c. c. Aí é voz onomatopaica. 39). 227). em geral menores que os Pompilideos.). O fato foi referido por Grinoeus. 1. e Bradypus torquatus Illg. Soares. (28) A tatarana que provoca “desejos libidinosos” e a socauna (lagarta preta) a que se refere G. 1.). Cardim. vem do fato de assim designarem a êsse tempo as especies dos generos Bison e Buffelus “que havia na África e no Sul da Europa. o. p. nome com que os latinos designavam as especies maiores de cervos do Norte da Europa. E o que lhe davam os castelhanos (ante e danta ). ahy (G. e cujas péles curtidas de côr amarela.. n. nome generico dado ás quatro especies de desdentados da familia dos Bradipodideos. Vicente Yañez Pinson. de que existem nove espécies no Brasil.CADERNO Nº. são a onça parda ou sussuarana (Felis concolor L. Do Tratado cit. c. o c. descreveu o animal. serigué.). (35) p. Garcia (nota a F. Cardim descreve duas especies. que são as maiores. (38) É o ouriço cacheiro ou porco espinho dos portugueses. 101). “não se conhece esse animal na nomenclatura vulgar” (nota de R. (34) Cf. p. Diz R. Garcia (nota a F. Cardim. facil de mudar-se em nduai. p. Cardim (o c p. tapyretê (Piso e Marcgrav). De 1858 registra carigão). Soares. ainda a nota de R. 40-1). A carne do sanhy . c.. “semelhante a fogo” (T. cujas folhas e brotos constituem seu principal alimento. n. E é ainda R. 237).V. é pessima a carne de qualquer das quatro espécies. .. I. das quais Anchieta deve ter conhecido melhor as duas que ocorrem no Sul do Brasil: Bradypus tridactylus L. 37) e G. p.. porém. c. 113). 113). o nome guarani é tapii. que muito se empregavam nos vestuarios e armaduras no seculo XVI. notadamente os Sfegideos (J. 254). Contração de tacy formiga. Garcia a F. p. 111 e segs. 40). o. 7 .. p. Garcia a F. (32) Tapiira (Anch. Cardim. ils deuiendroient foibles & n’auroient point de force ny de courage à la guerre”. orçam por cêrca de cincoenta as especies de simios brasileiros. e Léry (o. seguido de um curto e aspirado” (T. Sampaio. 63). c. “não se comem nem prestam mais que para desençar os formigueiros”. o. Cardim.). melhor. A três delas. sariguê. sendo portanto erronea a suposição de Anchieta. 100).). Bras. 250). sob o de tapiroussu. tapira. 111): “O nome tupi é suscetível de várias explicações. D’Abbeville chama unau e Marcgrav unäu (nota de R. (33) Aliás alces. como ele o chama. p. 157). Oviedo. com referencia á particularidade anatomica que caracteriza essa classe de mamiferos. de tatá-rana. “Et quov qu’il soit bom & que les plus Anciens d’entre les que s’ils mangoient de set animal qui se nourrit de Fourmis. fl. 2 das Not. 224)... . Esta descrição estapafurdia: “quadrupede semelhante ao asno no tamanho e á cobra na forma”. c.). 2 das Not.. A anta é também descrita por Thevet (o. e o qual chamaram tapyra” Segundo T. de Vasconcelos. p. para seguirem seus apetites. Sampaio (o c. (39) Como é sabido. em sua viagem de principios daquele ano...). ha mais sete na fauna brasileira. refere-se G. Batista Caetano prefere derivar o vocabulo de tama de pêlos. I. H. com o membro genital como a natureza o formou”. p. têm o nome brasilico de tataurana. ”De ta. Soares (o. (40) Segundo Wappaeus (o. são os nomes genericos “das espécies maiores de marsupios da familia dos Didelfiideos. “que lho faz logo inchar. as duas últimas encontradiças apenas na Amazonia. p.” (nota de R. das quais a maioria habita o Norte. tamanduá mirim (Tamandua tetradactyla L. Cardim (o. F. sendo que a ed. achou nas costas da Guiana uma sariguê femea com seus filhos. na Historia natural y general de las Indias (1535).. “derivado do arabigo que é semelhante (lanta). 1924. c. pareceu a Léry (o. vulgarmente conhecido pelo nome de macaco de prego . tapira-etê. cerigoê (Gandavo. tatarana. acrescentando: “O sariguê foi assinalado desde o ano de 1500. mas nenhuma satisfatória: o sufixo etê . Soares (o c. existentes no Brasil. e levou-a para a Espanha. 246 e 286-7) e cujo pêlo os tupinambás. puderam substituir pelas do nosso tapir. da família dos Tapirideos (Tapirus terrestris L. (27) As lagartas. O étimo é assim explicado por R. que queima como fogo” (Lara Ordoñez. c. Cardim. E S. (29) As duas especies de Felideos. que os tupis só conheceram depois do contato europeu. legítimo. com o nome de canduaçú e candumiri (o. Ao alces se referem Cesar (l. sendo a primeira a maior da familia ( Coendu villsus Lich.).). roedor da familia dos Coendideos. c. c. isto é.. que desde logo passou a figurar com o seu nome indigena em todos os tratados das regiões americanas”.. explicando Vom Tschudi “que esse nome procede do grito do animal que articula um a fechado muito prolongado.. na mesma ed. Informação confirmada por D’Abbeville (o c. tatorana ou. o. Sampaio. sarigue... p. c. cuim e queiroá..). Na realidade. c. preguiça-real (Choloepus didactylus L. F. 105. animal de saco ou bolsa. só os índios velhos comem a carne do tamanduá. Garcia. com o que tem grandes dôres. 161-2) “tendre et bonne”. o. “que os mancebos têm nojo dela”. c. o.). Entretanto. (37) Seriguéa (Anch. p. XXVII) e Plinio (15 e 16). (31) Segundo F. c. Dele dá Saraiva no seu Dic. Fabre.. de Vasconcelos. os "'indios comem a carne de algumas especies de macacos e particularmente da especie Cebus macrocephalus Spix. cerigão (Lara Ordoñez. VI.) e a onça pintada ou jaguar (Felis onça L. serigoé (G. Além dessas. c. condiz melhor como o modo de viver do animal”. A’especie maior. História da Provincia Santa Cruz. c. 116). p. Aig (Anch. a saber: tamanduá bandeira (Myrmecophaga tridactyla L. 228). o.). p. (30) Pelo nome generico de tamanduá são conhecidas as quatro especies de desdentados da familia dos Mirmecofagideos.). c. p. l.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE caçadores de aranhas entre os himenopteros.).).. folha 249v. Cyclothurus didactylus L. sarigueya (Marcgrav) çarigué (S. com mais vantagem ao menos no preço”. p. tapir ou anta. Garcia quem ensina vir o nome tupi de “ coó-r-iguê.. serviu para diferençar o ungulado do bovino. 270). p. e Tamanduá sellata Cope.). sob o nome de tapihire.-50). c. sôbre êste colocavam. passa por saborosa 42 43 . p. micuré (Rio da Prata) ou gambá . e monduar caçador: caçador de formigas.. Soares (o. pbl. Garcia a D’Abbeville (o.A carne do sarigoy. que se lhes vão gastando por espaço de tempo. e uguai cauda. Soares. com o que se lhe faz o seu cano tão disforme de grosso que os não podem as mulheres esperar. nem sofrer”. em seu Novus Orbis (1532). sarigué (F. tapyyre-été (D’Abbeville. No dizer de G. 1924. “cujos pêlos produzem dôr.

o. o.. Soares (o. 160) refere-se tambêm ao taiassou. “corre com estrépito. pica-flos ou beija-flor. De nhã-dú. Anchieta referese evidentemente a todos os membros da grande familia dos Psitacideos.. . cabendo ao Brasil aproximadamente uma oitava parte (73 para Miranda Ribeiro. veado dos mangues (Odocoelus suaçuapara). algumas ocorrendo de São Paulo ao Amazonas. reportam-se as observações de Anchieta”. o. virote. o. Mais avant de manger le bicho da taquara. de ta-tu. Cardim.). catigueiro. Entre os passaros que se alimentam de formigas. genero (Ulicoides). De guanã-oby. o. Garcia. parte II. 169). e como sucedaneo da manteiga. entretanto. no sentido restrito). I. il a vu des forêts brillantes. ainda segundo T.Léry (o. era então e durante ainda mais de três seculos completamente insuspeita”.Brésil.. mão-curta. cuja qualidade de pais é virtualmente insinuada. 222). Soares (o. Soares. (52) Nota de Oliverio Mario: “Refere-se Anchieta aos pernilongos (moriçocas na Baía. e boro’ro. p. (53) Mariguî é o margui de G. Dénis ( L’Univers. nanduguassú ou nandú é a ema (Rhea americana L. o. nada informa com respeito á sua verdadeira significação de individuos reprodutores. Sampaio. Note-se. p.). guatá-pará. 113. a corredora” (T. 227). p. coutumes. o. (56) p. genero Taiaçú.. A ação malefica dêstes hematofagos junto á especies humana. 37).. c. dizendo que sabem a passas de Alicante”. p. e alguns homens brancos que andam entre eles. o. significando gordura. o. (Mazama americana Exl.. 432-4. cujas observações são reproduzidas por F.). de leurs religions. Cardim (o. e fazem-lhe muita festa. gauiaumbig (F. isto é. . marauim ou maruim.). guaçú-pita. o paludismo (as sezões.c.. Soares (o. gaivambú (G. 216). Ducke o genero Trigona) de que conta o Brasil mais de sessenta especies e muitas varidades. 1830... p. . do Mus.. A essas especies F. 112). nome aplicado indistintamente a grande número de dipteros Quironomideos. individuos inferteis. T. “O vocabulo yçá é contração de yçaba.). (50) Diz G.). da familia dos Tanagradidae. etc. guaçú-bira. machos ( bitús ou vitús) e femeas (içás ). "individuo preto azulado”(T. Celui qui a mangé un ver désseché du bambou raconte. segundo Batista Caetano (nota de R. c. tagaçú (G. c. são denominações peculiares aos genero Ateles. de sexualidade abortada”. guaçúpucú (Dorcephalus dichotomus Illg. c. enquanto que os outros destituidos de asas (saúva. “résiderait uniquement dans le tube intestinal”. a que em Portugal chamam agudes”. Sampaio. il a gouté des fruits exqui. guaçú-eté. de que existem duas especies brasileiras: a queixada (Dicotyles pecari L. Vocabulo tupi. 206). de agua. Com chamar de “filhos” os individuos alados da saúva. o. no dizer dos indios. porco medroso. suaúú-catinga.”. (43) Pela denominação geral de gatos do mato são conhecidos vulgarmente os pequenos felideos do Brasil. (54) Nota de Oliverio Mario: “Sob a denominação generica de papagaios. 7 . c. que formam a familia dos Apideos. Sampaio (o. que l’on regarde comme um poison dangereux”. . denso. Dentre eles se destaca. 325 e 327). p. (47) Explica T. 1863.). e tayaçupigta. O mesmo vocábulo designa também a aranha (V. A propriedade narcotica do bicho da taquara. p. tanto mais pura quanto é ela no caso o fruto da 44 45 .. (46) Por bichos da taquara são conhecidas as formas imaturas da mariposa Pyralidae Myelobia amerintha. muitas das quais pertencentes ao genero Cebus. Paris. Soares (o. 4)”. Soares). c. 25): “… a estas formigas comem os indios torradas sôbre o fogo. as intermitentes da lingua popular) e a febre amarela. c. p. Garcia a F. p.). 56). o. guanumby. c. cugnaçú-apára. c. casco encorpado. Ás últimas. que o comem “lorsque l’amour leur cause des insomnies (…) et alors ils tombent dans une espèce de sommeil extatique qui dure plusieurs jours.) e o caitatú. Sampaio. escreve Saint-Hilaire.Cf. Ao seu emprego como alimento e narcotico. e o Tanagra auneapilla. não passam de operarios. a que transmite. Soares. Sampaio. isto é. Guainumbî (Anch. (Mazama simplicicornis Illg. Soares (o. des songes merveilleus. (48) Nota de Oliverio Mario: “A descrição de Anchieta é nêste ponto sobremodo impropria. Nota 25). c. catête ou cateto (Tayassu tajacu L. (mazama rufina Baur.CADERNO Nº. Sob a denominação mico são designadas vagamente as especies menores de macacos. a jaguatirica ou maracajá (Felis poardalis L. 250) escreve içan. G. Os guaranis a denominavam tanajura .). as maleitas. macaco-aranha. c. 217) que o suiriri (ou bemtevi) “se mantem com bichinhos e formigas. dividem-se em dois grandes grupos naturais: Solitarias e Sociais. e II. caitetú. I.). sendo a primeira maior. (42) No Estado de São Paulo têm sido registradas as seguintes especies de veados: veado-galheiro. (55) Nhandugoassú (F. porco montês (F. p. veado-virá. das que tem asas. “como mensageiro da outra vida”. entre os portugueses. Cardim. p. ou Histoire et description de tous les peuples. entre os indios. Cardim. e os mestiços têm por bom jantar. tanhaçú ou porco do mato . etc. nome generico da familia dos Troquilídeos. 229). pelo seu porte acentuadamente maior. porco vermelho (nota de R. Paul.. das quais a Myiothera domicella é a mais voraz. p. “Rev.). é o ungulado artodactilo da familia dos Suideos. que macaco-prego. p. 52). c. p. Cardim dá o nome de tayaçutirica (tajaçutirica de G. Era tido pelos indios. entre outros (Wappaeus.. refere-se Saint-Hilaire (Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes. veado mateiro. e o gabam de saboroso. etc. (44) Javali (Anch. p. c. Soares. (41) Tatú. etc. c. ou a grand soin d’en ôter la tête.). c. maragui. 83). de que ha cêrca de dezeseis especies brasileiras. veado pardo. representada no Brasil por grande cópia de generos e numerosissimas especies..SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE iguaria entre os selvagens”.). ou mais precisamente ao grande genero Melipona (com que foi fundido por A. 43) e G.. de que ha em todo o orbe perto de 600 especies. (49) Cf. p. dipteros da familia dos Culicideos. etc. nhandú (G. guanamby ou gainambí é o chupa-flor. F. o. (51) Nota de Oliverio Mario: “As abelhas. c. Paris. outras só nesta região. tayaçú. c. XII. Cardim. ). pois tinham os indios por tal o que se contém no abdomen desta formiga”. entre outras molestias. de que ha várias especies. grosso. a que tambem pertence o mosquito-polvora. c. p. depois de derretido. nome generico dos desdentados da familia dos Dasipodideos.. citam-se muitas especies de Erioridae. carapanãs na Amazonia). (45) É a lhama (Camelus glama L. (57) Nota de Oliveiro Mario: “É das afirmações mais pitorescas esta de que os beija-flores vivem á custa do orvalho. p. c. en se réveillant. Existem três especies desse genero. G. p.

(73) Talvez seja a árvores a que se refere Gandavo (o. p. çapucaya (S.. conforme se vê em M. a que vi mais flexivel. e vermelha (Copaifera Langsdorffii Desf. (71) É a jaçapucaya (F. Morphnus guyanensis Daud. quando se viaja pelos rios e se ouve alguma pancada longínqua no meio dos bosques. da familia dos Palamedeideos (Anhima cornuta L. Rio.. que algumas vezes em sua caçada atirava sôbre uma borboleta. de que ha várias especies. embora muito diferentes nos seus caracteres morfologicos. que sabem procurar tambem em outros sitios. p. afirma isso mesmo: “…comem (os beija-flores) aranhas pequenas e fazem os seus ninhos das suas teias. c.). espreitando as aranhas” (o. Sampaio (o. p.. sabucai AGL Soares. (60) Guará. XII). Garcia. Garcia (nota a F. assim explicada em Wappaeus (o. como sugere Lara Ordoñez. codornas. p. XI): “Será a gameleira. Soares. á ipecacuanha.. 383): “É interessante a observação de Bates de que ao lado de uma das maiores borboletas esfingides. mas não me pareceu de modo algum elastica. 1. Soares (o. como querem os poetas.. em busca das mesmas flores. observador admiravel. os beija-flores alimentam-se principalmente de pequenos insetos. referindo-se Anchieta ao mangue vermelho. com propriedades terapeuticas semelhantes. mas na observação biologica ha preconceito absurdo e evidente”. Cardim. 1. Pachyrrhyzus angulata. c. como os seus afins. 59). c. p. p. p.. Ou Thrasaëtus Harpya L. (70) Mangues. vulgo pedra elastica. atribuindo a estas aves três esporões em cada uma das asas: têm unicamente dois em cada uma”. indagando Miranda Azevedo (1.. Cardim (o. Nada a acrescentar quanto á valentia da ave. 172).). No Pará. macucos) e Galiformes (urús. cupa-yba. tanto no Norte como no sul do Brasil. Cardim. c. p. (69) Trata-se da cupaigba (F. tomou a forma de um arco de 20º”. 187) ou poaia. de 1585. (64) Nota de Lara Ordoñez (1. chamada juruty”. Pio Corrêa (Dicionario das Plantas Uteis do Brasil. 157): “O curupira é o deus que protege as florestas.. çapocaia (Lara Ordoñez. Cardim. figura em uma infinidade de lendas. o. C. v. presentemente guardada no Museu da Academia Real. o. jaós. 124). c. copauva. com cêrca de 16 polegadas de comprimento e 4 linhas de altura.) que é “frequente a troca de guirá.): “Arenarius flexilis. nota a F.).). fala hiperbolicamente. do Inst. o. verdadeira (Copaifera officinalis L. (61) Nota de Oliverio Mario: "A ave a que se refere Anchieta é visivelmente um Podicipedideo. ou meio algum de chegar até aos seus. (59) Segundo Lara Ordoñez (1. da familia das Rizoforaceas (Thyzophora mangle L.. c. Sampario (o.c. observando T. de maneira que não ha estranhar que Anchieta houvesse se referido linhas acima a outro mergulhão. na onomastica popular. É dêste fato que resulta a crença dos indigenas de que as borboletas se transformam em passaros”. 183). C.” Ermano Stradelli (Vocabularios da lingua geral português-nheêngatú e nheêngatú-português..). p.). a ver se as árvores estão suficientemente fortes para sofrerem a ação de alguma tempestade que está proxima. como nós lhe chamamos no Sul.. (63) Anhima (Anch. como nas teias de aranha. pecacuem de G. copiuba ou cupahyba. cupay. têm as asas pequenas e andam sempre bailando no ar. os remeiros dizem que é o curupira que está batendo nas sapupemas.”.. (62) Nota de Oliverio Mario: “Refere-se Anchieta aos gaviões de penacho ou reais.”. c. de Vieira de Almeida. copiiba (Marcgrav). provavelmente Podilymbus podiceps L." (68) É a sensitiva. leguminosa da sub-familia das Mimosaceas. é punido por ele com pena de errar por tempos imensos pelos bosques. copaíba (G. o. esvoace o pequeno beija-flor. jacús. c. Das Not. 158). A função do curupira é proteger as florestas. das quais as mais importantes são a copaiba do Pará (Copaifera reticulata Ducke). E Anchieta. II. p. As tradições representam-o como um pequeno tapuio.) ou sapucaia. raiz bulbifera grossa. produzindo 10% de fecula saborosa e apreciada. "da descrição bem evidencia-se que se aplica tudo ao jacatope. copayva (Lara Ordoñez. e tão usada ainda no Interior em várias infecções?” (74) Talvez se refira Anchieta. Lophornis Gouldii. Garcia (nota a F. p. 7 . É de certo flexivel. supondo apontar para um pequeno passaro. de etimo dificil de explicar”(R. c. genero Lecythis. Cardim. a Macraglossa annulosa. Ainda hoje a nomenclatura vulgar aplica o termo a várias aves mergulhadoras. F. C. 97). 100). Hist. Rich. nem muito flexivel. página 199). pelo que a gente do Pará diz que ele é mussiço. p. apenas se depreende que os Podicipedideos eram naquela epoca anonimos.). nome generico das várias especies de Lecitidaccas.). Todo aquele que derriba. provavelmente Sula leucogastra Bodd. copahyba. nome comum a váras especies da familia das Leguminosas. Canapaúba de G. p. Ficus doliaria de Martius. anhuma ou inhuma. igpecacóaya de F. p. Hist. (65) Nota de Oliverio Mario: “Faz-se aqui alusão ás aves Tinamiformes (perdiz. passaro. etc. 56). bela árvore de dez a doze metros de altura. c. 216). 1913. 1931). c. t. (75) Nota de Lara Ordoñez (l.G. da familia dos Ibidideos (Eudocimus ruber L. (66) A' mandioca (Manihot utilissima Pohl) refere-se Anchieta mais detalhadamente na Inf. De "etimo incerto”. c. Cardim.. o. Cardim.CADERNO Nº. Cardim. sem poder atinar com o caminho da casa. anhigma (F. 46 47 . Por tal forma se iludiu êste observador. p. da familia das Rubiaceas.. 62).): "Engana-se Anchieta. 73). C. ou que tem jazida”. ave. (67) Segundo Miranda de Azevedo (pref. p. ed.). (76) Escreve Couto de Magalhães (O selvagem. inambús. Para T. de Vasc. o. a árvore de depósito. cit. (58) Era essa a crença do tempo (cf.. (72) Pinho do Paraná.. p. na “Rev. zabucaes (Gandavo.. p. c. ou de qualquer modo estraga inutilmente as árvores..86). L. divisão das Caesalpiniaceas. c. da familia das Coniferas (Araucaria brasiliana. “corr.. mutuns)”. mau grado não desprezarem eventualmente o mel das flores.).. conhecido. n. C. O nome tupi é “de etimo discutivel”. por guará ”. sob a baixa temperatura da manhã. com o nome indigena de obirá paramaçací. 104. Anchieta “parece falar da pomba do mato.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE condensação recente da humidade atmosferica. Soares (o. á trad. dizendo-a “maleavel como couro”. que no mês de agosto fornece em mais abundancia o suco lactescente pelas incisões que sofre? Ou será o jaracatiá. o. com os pés voltados para trás e sem os orifícios necessarios para as secreções indispensaveis á vida. jacutingas. Carica dodecophylla de Veloso. O curupira ou currupira . 1. Soares. Em verdade. 52). ou de nome vulgar desconhecido do autor”. 142). pelo nome de mergulhão. segundo R. segundo R.c. 122).

Veio na frota de D. capital da ilha de Tenerife. é o fogo fatuo. Partiram de Lisboa no dia 8 de maio de 1553 e chegaram a Salvador. c.. p. No noviciado em Coimbra a rígida disciplina enfraqueceu ainda mais o organismo naturalmente débil de Anchieta. Anchieta tinha dezenove anos. que encontrado sob diversas formas. em que aparecem os elementos y agua. curupyra. Anchieta chegou com outros jesuítas à São Vicente em 24 de dezembro de 1553. uma escada caiu-lhe com violência nas costas. Métraux ( La réligion des Tupinamba. Sua etimologia consigna Batista Caetano em upypcara. o nome era tambem atribuido a peixes.c.V. um dos genios da mitologia selvagem. 1928. o. 134) ou ipupiara. Cardim. “genio das fontes. Nome de um genio da mitologia selvagem. 7 . upupiara (G. igualmente não achou “saida etimologica” para a significação dada por Maregrav. por sua vez. Stradelli. foi à Coimbra para cursar a Universidade. é um espirito-do-mato caçoista. o. trabalhando com a catequese de índios. É o “monstro marinho” que em 1564 se matou em São Vicente.): “Curupira. escreve R. ofícios grosseiros.c. de curub sarna. na terceira leva de jesuítas enviados ao Brasil. Anchieta foi enviado ao Brasil. E. Êste “é sempre propício ao caçador que se limita a matar conforme as suas necessidades” e castiga o que “mata por gôsto”. relatando os sucessos de Iperoig. nomeado segundo governador geral. hipupiara (Gaudava. nas Ilhas Canárias.CADERNO Nº. (77) Igpupiára (Anch. Duarte da Costa. c. Na capitania vicentina. menino. do íntimo: o que é de dentro dagua. Soares. de acôrdo com a definição T. tendo reunido ali três aldeias de índios.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE serve-se quasi das mesmas palavras de Couto de Magalhães. maetatá ou boitatá. persegue as femeas e “os pequenos ainda novos”.. p. pedidos insistentes de novos missionários chegavam do Brasil. Maregrav e Nieuhofs.. Batista Caetano (nota a F. Acrescenta.. p. animal misterioso que os indios davam como o homem marinho. 102). Paris. no dia 19 de março de 1534. ou y-pypiára. assistência penosa aos índios” recuperara a saúde. (79) Na carta XV. e por isso mui raramente se acha algum coxo. Nesta época o Padre Nóbrega achava-se em São Vicente. s. A escolha de Portugal e não da Espanha é ponto de sua biografia ainda não esclarecido. luzeiro”(T. inimigo dos pescadores.). Quando chegou ao Brasil. Após breve temporada na Bahia. c. je ne sais trop pourquoi”. aludiria ele à sua moléstia: “como minhas costelas ainda cansem e doem como soiam e têm mui poucas forças. o. Anchieta explica a ausencia de deformidades entre os indios. o que vive no fundo dagua. torto ou mudo em esta nação”. em 13 de julho do mesmo ano. curupira pode “ser traduzido literalmente por sarnento. 139): “O nome tupi serve de prova de que a idéa era familiar ás gentes dêsse grupo importante. o curupira . Hist. desperta ou entretem sentimentos de inimizade entre individuos e com malícia observa as desgraças humanas”. e pira. A proposito do etimo. ficando corcovado para o resto da vida. . 48 49 . o jesuíta havia planejado fundar uma povoação nos campos de Piratininga. c. (78) Baetatá. Cardim. porém. escreve A. Para Spix e Martius (Reise in Brasilien.. que presidia aos maus sonhos e pesadelos”. p.. Biografia do Padre José de Anchieta José de Anchieta nasceu na cidade de São Cristóvão da Laguna. era tratado no Colégio de Coimbra. III. No Brasil onde “as medicinas são trabalhos. Segundo o autor do Vocabulario da Conquista. corpo: corpo de menino. Cardim. segundo Gandavo. a fosforescencia. 1109). que não só a floresta mas tambem a caça se acha sob a “guarda direta”do curupira. dá (o. o aquatico. A mesma significação tinha o vocabulo macaièra. p. 256). menos terrivel que o jurupari. 123). 2378). Sampaio.c. sem esperança de cura.. Em 1550. A. o chagado . Garcia (nota a F. com a missão de fundar o Colégio de Piratininga. o. que enterravam os nascidos “com alguma falta ou deformidade. especialmente á baleia”. para onde havia seguido com Tomé de Souza. sofreu um acidente sério. o individuo coberto de pustulas. 65). mariscadores e lavadeiras”. finalmente. 89). Métraux (o.. Sampaio. ypupiaprae (Barlaeus.” Enquanto. Além disso. e pir pele”. faz derivar o vocabulo de curu abreviação de curumi . p. e F. p. T. Sampaio (o. p. p. dia de São José. e traduz-se por “coisa que é toda fogo. “qualifient curupira d’esprit des passions (nu mentium). longas caminhadas. entra em conversa com os indios. “Por conselhos médicos”.). e pypiára de dentro. Mais de dez anos depois.

chegava a frota enviada por Portugal. Perambulou pelo litoral paulista catequisando. partindo para a Bahia afim de receber as ordens sacras. Finalmente. Aí levantaram os índios de Tibiriçá e Caubí a “paupérrima e estreitíssima casinha” em que se disse a primeira missa a 25 de janeiro de 1554. “por isso a ele dedicámos a nossa casa”. que foi publicada em Coimbra em 1595. um lugar de evidência na comunidade. seu devotamento deram-lhe logo. Após deixar o cargo em 1595. percorreu mais de uma vez as residências da província e continuou seu imenso trabalho de ensino e catequese por praticamente toda a costa brasileira. entretanto. nova invasão francesa ajudada pelos tamoios. em janeiro de 1565. Sem receber novos esforços a situação era desfavorável aos portugueses. disse Anchieta. Foi também a primeira gramática desde os gregos antigos. ensinando e batizando índios. escrita por um ocidental. espanhol. com a intenção de expulsar os franceses do Rio de Janeiro que ali haviam se instalado e feito aliança com os tamoios. “por um dos mais trabalhosos caminhos que há em muita parte do mundo”. Anchieta ficou trabalhando como auxiliar de Nóbrega na direção do Colégio no Rio de Janeiro. e deixando a mata acampou no local escolhido por Nóbrega. arcando com as imensas responsabilidades apesar 51 . Na Bahia. Anchieta dedicava-se a escrever. quando foi para a Bahia onde prestou a profissão solene dos quatro votos e recebeu a patente de reitor do colégio. o que somente aconteceu no início de março de 1566. No desempenho de suas novas funções. As necessidades da catequese e do ensino dividiam a atividade de Anchieta entre as vilas do mar e de São Paulo.se para dormir em uma pedra conhecida como “cama de Anchieta” em Itanhaém. A frota foi formada e Anchieta veio junto para o Rio de Janeiro.guarani. No Rio de Janeiro. A 31 de março Anchieta deixou o Rio de Janeiro. hoje Ubatuba. que isolados e cerceados não poderiam resistir muito tempo. apesar da simplicidade de irmão. Diz a lenda que ele costumava abrigar . sua disciplina de ferro. especialmente dos tupis. que havia se transformado no principal colégio do Brasil. falava quatro línguas: português. ao qual ficaram subordinadas as casas de Espírito Santo.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE A missão fundadora galgou a serra de Paranapiacaba. entre os riachos Tamanduateí e Anhangabaú. Sua superioridade de letrado. fazendo dele seu auxiliar predileto nos trabalhos da catequese. Piratininga e São Vicente. Não chegou. 50 Nóbrega e Anchieta fizeram parte da expedição que experimentava graves dificuldades para levar a cabo sua missão indo desta forma buscar reforços em São Vicente. Anchieta interveio junto ao governador Mém de Sá para que se mandasse ao Rio de Janeiro armada bastante forte capaz de dominar a região e fundar a povoação projetada. Anchieta foi nomeado superior da casa do Espírito Santo. 7 . passando antes pelo Espírito Santo. dia da conversão do apóstolo são Paulo. a aldeia de Piratininga florescia. Entre outros escritos foi o autor de inúmeras e divertidas peças de teatro que encenava para os índios e o primeiro a formular a gramática da língua mais falada na costa do Brasil. foi refém dos tamoios e nessa situação escreveu o seu famoso poema à Virgem Maria. Nóbrega não podia deixar de se utilizar. foi ordenado. Na antiga Iperoig. a mando de Nóbrega para visitar a casa da Companhia e as aldeias de índios. latim e “brasílica”. Embora eleito reitor do colégio do Rio de Janeiro em 1573. Em fevereiro de 1564. sob o comando de Estácio de Sá. que não se baseava nas regras do latim. no sentido de fazer com que eles se aliassem ao portugueses. Tiveram papel preponderante junto aos índios. em todas as oportunidades de tanta inteligência e tanto zelo. Estácio de Sá pode partir para a conquista do Rio de Janeiro. Apesar de sofrer alguns ataques indígenas. Logo após a expulsão definitiva dos franceses. a exercer o cargo porque foi nomeado provincial logo depois. Anchieta continuou em São Vicente até 1577. aprendida na Companhia de Jesus. o tupi .CADERNO Nº.

9 de junho de 1957. desde suas origens até nossos dias. sua gente e seus recursos naturais. como por exemplo em "A Industrialização de São Paulo" de 1967.CADERNO Nº. É um trabalho que consolida sua contribuição ao campo da história ambientalista e principalmente ao Brasil e à Mata Atlântica. Nessa época estava escrevendo sobre o altiplano andino. uma vez que os temas subjacentes eram sempre questões fundamentais para se entender o desenvolvimento histórico do Brasil. causou impacto notável não apenas em seu campo de atuação. Foi autor de vários livros sobre o Brasil que provocaram grandes debates. Warren Dean Professor de história na Universidade de Nova York.se dos índios. 52 . é um estudo fundamental dessa floresta. 46 de Companhia e 44 de missão no Brasil.A História da Devastação da Mata Atlântica Brasileira". onde abordou os grandes problemas sociais da maior cidade industrial da América Latina antes da 2ª. Num domingo. Tinha 63 anos de idade. morreu cercado por seus companheiros e discípulos. o que refletia seu compromisso e amor pelo Brasil. além de chamar a atenção da comunidade internacional. em 1994. Quando deixou a casa partiu a pé para Reritiba.SÉRIE DOCUMENTOS HISTÓRICOS CARTA DE SÃO VICENTE da idade. Então adoeceu para morrer. 7 . "A Ferro e a Fogo . com o propósito de despedir . Guerra Mundial. nasceu em 1932. Sua última obra. mas também sobre aqueles que tiveram a oportunidade de com ele trabalhar ou simplesmente ser amigo. Manteve sempre postura favorável aos colegas e alunos brasileiros em relação à políticas que interessavam exclusivamente ao seu país. Admirado por seus alunos e colegas. Durante as cerimônias de sua missa fúnebre foi pela primeira vez proclamado José de Anchieta o Apóstolo do Brasil. Nessa época estava ocupado em escrever a biografia dos jesuítas mortos no Brasil. na Flórida. Era um importante historiador quando morreu em um trágico acidente em Santiago do Chile.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful