Nosso Lar

(OBRA MEDIÚNICA) I

Série André Luiz
I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI Nosso Lar Os Mensageiros Missionários da Luz Obreiros da Vida Eterna No Mundo Maior Agenda Cristã Libertação Entre a Terra e o Céu Nos Domínios da Mediunidade Ação e Reação Evolução em Dois Mundos Mecanismos da Mediunidade Conduta Espírita Sexo e Destino Desobsessão E a Vida Continua...

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Nosso Lar
Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.

DITADO PELO ESPÍRITO

ANDRÉ LUIZ

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil

ISBN 85-7328-023-9 45ª edição

Do 1.101º ao 1.125º milheiro
Capa de CECCONI B.N. 6.802 864-AA;000.25-O;2/1996

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ÍNDICE

Novo Amigo Mensagem de André Luiz
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Nas zonas inferiores Clarêncio A oração coletiva O médico espiritual Recebendo assistência Precioso aviso Explicações de Lísias Organização de serviços Problema de alimentação No bosque das águas Notícias do plano O Umbral No gabinete do ministro Elucidações de Clarêncio A visita materna Confidências Em casa de Lísias Amor, alimento das almas A jovem desencarnada Noções de lar

9 13 17 21 26 31 36 41 45 50 54 59 64 69 74 80 85 90 95 100 105 110

enfim Em serviço A visão de Francisco Herança e eutanásia Vampiro Notícias de Veneranda Curiosas observações Com os recém-chegados do Umbral Encontro singular O sonho A preleção da ministra O caso Tobias Ouvindo a senhora Laura Quem semeia colherá Convocados à luta A palavra do Governador Em conversação As trevas No campo da música Sacrifício de mulher A volta de Laura Culto familiar Regressando à casa Cidadão de "Nosso Lar" 115 120 126 131 136 141 146 152 157 162 168 175 180 185 190 195 200 207 214 219 225 231 237 242 247 253 259 264 270 276 .8 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 - Continuando a palestra O bônus-hora Saber ouvir O impressionante apelo Generoso alvitre Novas perspectivas O trabalho.

para não ferir corações amados. cerrar a cortina sobre si mesmo. igualmente. exaltando-lhes o mérito e comentando-lhes a personalidade. porém. Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo. André precisou. em geral. nem perturbar a lavoura verde. apresentam autores.9 Novo amigo Os prefácios. o anonimato é filho do legítimo entendimento e do verdadeiro amor. mas sim o novo amigo e irmão na eternidade. Aqui. modificam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação. Os que colhem as espigas maduras. . ainda em flor. não devem ofender os que plantam a distância. Por vezes. Funciona o esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia. É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre e autor humano. inclusive a do próprio nome. Para redimirmos o passado escabroso. necessitou despojar-se de todas as convenções. Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção. a situação é diferente. envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão.

entretanto. Quem não sorriria. embora intimamente ligadas ao planeta. além-túmulo. Reportamo-nos. não deve o homem descurar de si mesmo. Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contacto de determinadas passagens das narrativas. O inabitual. aplicando-os. É mais que natural. doutrinar consciências alheias. modalidades. de há muito desejamos trazer ao nosso círculo espiritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria. causa surpresa em todos os tempos. Outras entidades já comentaram as condições da vida. Não comentaríamos. Milhares de criaturas interessam-se pelos seus trabalhos. desse modo. a perplexidade e a dúvida são de todos os aprendizes que ainda não passaram pela lição. da radiofonia? A surpresa. Não basta investigar fenômenos. nas esferas invisíveis ao olhar humano.10 Reconhecemos que este livro não é único. todavia. É indispensável cogitar do conhecimento de nossos infinitos potenciais. é justíssimo. com todos os detalhes possíveis à legítima compreensão da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosos e bem-intencionados. fazer proselitismo e conquistar favores da opinião. melhorar a estatística. aderir verbalmente. É filho de Deus. da eletricidade. O Espiritismo ganha expressão numérica. Nesse campo imenso de novidades. Entretanto.. pois. anos atrás. Todo leitor precisa analisar o que lê. por nossa vez.. no plano físico. nos serviços do bem. por mais respeitável que seja. tão-somente ao objetivo essencial do trabalho. O homem terrestre não é um deserdado. em trabalho construtivo. na Terra. envergando a roupagem . qualquer impressão alheia. quando se lhe falasse da aviação. experiências.

André Luiz vem contar a você. do ESPIRITISMO e do ESPIRITUALISMO. onde precisa aprender a elevar-se. . mas precisa saber aproveitá-la dignamente. todavia. onde edificamos o céu. em qualquer escola religiosa. EMMANUEL Pedro Leopoldo. que a maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com própria consciência. em nosso campo doutrinário. que os passos do cristão. e que ninguém a menosprezará. no lugar que ocupa pela vontade do Senhor. se descuide das necessidades próprias. vem lembrar que a Terra é oficina sagrada. de ESPIRITUALIDADE. muito mais.11 da carne. em função restauradora do Cristianismo puro. aluno de escola benemérita. 3 de outubro de 1943. que ninguém. O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado. em verdade. A luta humana é a sua oportunidade. e que. devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo. estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal. Guarde a experiência dele no livro dalma. a sua ferramenta. leitor amigo. mas. sem conhecer o preço do terrível engano a que submeteu o próprio coração. precisamos. Ela diz bem alto que não basta à criatura apegar-se à existência humana. o seu livro.

antes de tentar a suprema equação da Vida Eterna! É indispensável viver o vosso drama. antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria. no longo processo do aperfeiçoamento espiritual!. como a troca de vestidos nada tem que ver com as soluções profundas do destino e do ser. misteriosos caminhos do coração! É mister percorrer-vos. Copiando-lhe a expressão. conhecer-vos detalhe a detalhe. O grande rio tem seu trajeto. Oh! caminhos das almas. Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente simples. Permutar a roupagem física não decide o problema fundamental da iluminação. também recebe afluentes de conhecimentos...13 Mensagem de André Luiz A vida não cessa. a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas. . antes do mar imenso. A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões. aqui e ali. Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito. avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade.

meus amigos! Manifestamo-nos. quantos séculos. Grato. efetuando o curso difícil. em primeiro lugar. Aliás. Não atormentaremos alguém com a idéia da eternidade. algumas ligeiras notícias ao espírito sequioso dos nossos irmãos na . Um triunfo . Que os vasos se fortaleçam. portanto. nossa jornada laboriosa. pois. quantos triunfos. que não podem conter ainda toda a verdade.ele só. Um século . Muito longa.um dia. quase sempre. Forneceremos.uma aquisição. senão a experiência profunda. de estranha maneira . no anonimato que obedece à caridade fraternal. A existência humana apresenta grande maioria de vasos frágeis.uma experiência. os cultos em doutrina e os analfabetos do espírito! É preciso muito esforço do homem para ingressar na academia do Evangelho do Cristo. Um corpo . Um serviço . junto vós outros. quantas mortes necessitamos ainda? E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais e posições definitivas! Ai! por toda parte. somente. na companhia do Mestre. recebendo lições sem cátedras visíveis e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas. Quantas existências.um sopro renovador. Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma idéia dessa verdade fundamental. quantos serviços.uma veste.14 Uma existência é um ato. ingresso que se verifica. Uma morte . quantos corpos. com os seus valores coletivos. não nos interessaria. agora.

Que o Senhor nos abençoe. amor e júbilo moram na alma. e que compreendem conosco que "o espírito sopra onde quer". Atração e reconhecimento. que meus agradecimentos se calem no papel. recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão. agora. no santuário do coração. ANDRÉ LUIZ . amigos. a vosso respeito. E.15 senda de realização espiritual. Crede que guardarei semelhantes valores comigo.

rostos alvares. na verdade. Formas diabólicas. que os meus. como que amortalhada . no entanto. de quando em quando. lamentos mais comovedores. implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito. Cabelos eriçados. meus pulmões respiravam a longos haustos. a meu ver. respondiam-me aos clamores. amargurado duende nas grades escuras do horror. Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis? Impossível esclarecer. muita vez gritei como louco. A paisagem. prisioneiro da loucura.17 1 NAS ZONAS INFERIORES Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo. quando não totalmente escura. quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentórica. expressões animalescas surgiam. parecia banhada de luz alvacenta. coração aos saltos. Sentia-me. Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encarnados no mundo e. agravando-me o assombro. A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito. mas. medo terrível senhoreando-me. Algum companheiro desconhecido estaria. Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente.

entretanto. Em momento algum. Seres monstruosos acordavam-me. incidentes numerosos impeliam-me a considerações estonteantes. porém. os filhos? Perdera toda a noção de rumo. que os raios de Sol aquecessem de muito longe. Mal delineava projetos de solução. logo que me desprendera dos últimos laços físicos. Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro. o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. a caminho de gloriosa destinação. em minutos raros. felicitava-me a bênção do sono.. a esfera diferente a erguer-se da poalha do mundo e. a esposa. bruscamente..18 NOSSO LAR em neblina espessa. Reconhecia. Esse algo é a fé. tardiamente. a sensação de alívio. valioso patrimônio nos planos da Terra. O medo me impelia de roldão. De fato. contudo. todavia. o não-ser. era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração. Semelhante análise surgia. agora. Identificavaas . irônicos. em pleno sepulcro! Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total da razão. políticos e científicos. manifestação divina ao homem. a meu ver. Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual. era tarde. Onde o lar. era imprescindível fugir deles. conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho.. as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto e apenas.. Com que fim? Quem o poderia dizer? Apenas sabia que fugia sempre. E a estranha viagem prosseguia. O receio do ignoto e o pavor da treva absorviamme todas as faculdades de raciocínio. Significavam. Interrompia-se. De início. mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos. figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana. Os princípios puramente filosóficos.

Filho de pais talvez excessivamente generosos. onde estacionara voluntariamente. conquistara meus títulos universitários sem maior sacrifício. Deliciara-me com os júbilos da família. Não adestrara órgãos para a vida nova. no meu próprio conceito. restituído ao rio infinito da eternidade. algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido. gozara-lhe os bens. esposa e filhos que prendera. no desejo incontido de bem estar. Possuíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto da angústia. absorvera-me. esquecido de estender essa benção divina à imensa família humana. Enfim. com a silenciosa acusação da consciência. Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minhalma. não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum. Tivera pais. sem sair jamais do círculo de contradições. porém. não suportava agora o clima das realidades eternas. organizara o lar. ferozmente. que a morte transformara. Era justo. pois. compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo. que aí despertasse à maneira de aleijado que. examinando atentamente a mim mesmo. colhera as bênçãos da vida. surdo a comezinhos deveres de fraternidade. mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme. ou em pleno desacordo com as verdades essenciais. não fora um criminoso.19 NOSSO LAR através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência. A filosofia do imediatismo. Sufocara-os. interpretava-as com o sacerdócio organizado. criminosamente. perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüilidade econômica do meu grupo familiar. mas. cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei. A existência terrestre. conseguira filhos. nas teias rijas do egoísmo destruidor. Habitara a Terra. como a flor de estufa. Noutras ocasiões. não pudesse . Em verdade.

que. ou como mendigo infeliz.20 NOSSO LAR acompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante das águas. perambula à mercê de impetuosos tufões. Buscai a verdade. Oh! amigos da Terra! quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra. Suai agora para não chorardes depois. antes que a verdade vos surpreenda. . exausto em pleno deserto.

cercavam-me de todos os lados. escorregadios na treva espessa e. Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos. enquanto os vultos negros desapareciam na sombra. mas aquelas vozes. esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento. Irritavam-me.gritos assim. quando meu desespero atingia o auge. A circunstância mais dolorosa. esmurrava o ar nos paroxismos da cólera. Desejava ponderar maduramente a situação. a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência. mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros. Onde os sicários de coração empedernido? Por vezes. mobilizando extremas energias. enxergava-os de relance. aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias. Em vão. Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos. Crescera-me a barba.21 2 CLARÊNCIO "Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" . no entanto. na região desconhecida. porém. aqueles la- . não é o terrível abandono a que me sentia votado. Para quem apelar? Torturava-me a fome. a sede me escaldava. atacava-os.

suicida? . Firme e resoluto a princípio. incessantemente repetidas. perturbavam-me o coração. Entretanto. a meu ver. a realidade da vida. a família e o doce convívio dos meus? O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional. Meus conhecimentos. o pique desagradável da agulha de injeções e. longe de prosseguir na fortaleza moral. Recordava meu porfiado duelo com a morte. lembrava a assistência desvelada que tivera. infeliz! Aonde vais. não eram procedentes.22 NOSSO LAR mentos misturados de acusações nominais. Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe. a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me. extravasando do coração. os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos. sim. Por que a pecha de suicídio. e.Que buscas. A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo. mas. Sentia. por ignorar o próprio fim. suicida? Tais objurgatórias. a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial. quando fora compelido a abandonar a casa. comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo.. no curso dessas reminiscências. agora. não poderia alterar. desnorteavam-me irremediavelmente. Perguntan- . o contacto do termômetro. senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais freqüência. Infeliz. Eu havia deixado o corpo físico a contragosto. enunciados na Casa de Saúde.nunca! Essas increpações. Depois. semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens. Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos. ante o infinito. o despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim.. . por fim. no terror da eterna separação.

quais feras insaciáveis. Quanto tempo durou a rogativa? Quantas horas consagrei à súplica. Muita vez suguei a lama da estrada. esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo. deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes. Eram quadros de estarrecer! acentuava-se o desalento. sem forças para reerguer-me. em torno de humildes filetes dágua a que me atirava sequioso. enquanto mo permitiam as forças irresistíveis. imitando a criança aflita? Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto. E. que detestara as religiões no mundo. então. Essa idéia confortou-me. vertendo copioso pranto. Persistiam as necessidades fisiológicas. e. recordei o antigo pão de cada dia. Eu. pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais. que passavam em bando. Estaria. impunha-se-me atitude renovadora. colava os lábios à nascente turva. nada obstante. Castigava-me a fome todas as fibras. que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa. a que me consagrara orgulhoso. Tornava-se imprescindível confessar a falência do amorpróprio. quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra. encontrava a consciência vigilante. experimentava agora a necessidade de conforto místico. De quando em quando. completamente esque- . de mãos-postas. sem modificação. Não raro.23 NOSSO LAR do a mim mesmo se não enlouquecera. Devorava as folhas desconhecidas. era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos. fosse onde fosse. a impelirem-me para a frente. em tão amargurosa emergência. com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida. quando as energias me faltaram de todo. Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração. o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão.

e falou: . acrescentou: . Inclinou--se. Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. É preciso descansar para reaver energias. E. quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia.Coragem.Chama-me Clarêncio. generoso emissário de Deus? O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu: . é necessário haver conhecido o remorso. filho de Deus. Alvo lençol foi estendido ali mesmo. a flor tenra dos campos agrestes? Ah! é preciso haver sofrido muito. para entender todas as misteriosas belezas da oração. Emocionado.24 NOSSO LAR cido? Não era. Amargurado pranto banhava-me a alma toda.Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência. a humilhação. embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana? Por que não me perdoaria o Eterno Pai. igualmente.Quem sois. meu filho! O Senhor não te desampara. chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou: . emissário dos Céus. Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu. generosamente. pude apenas inquirir: . comentar a consolação que me chegava. quis traduzir meu júbilo.Agora. à guisa de maca improvisada. . mas. aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me. percebendo o meu esgotamento. fixou nos meus os grandes olhos lúcidos. reunindo todas as forças que me restavam. Em seguida. sou apenas teu irmão. para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança. permanece calmo e silencioso. a extrema desventura. bondoso.

25 NOSSO LAR Quando me alçavam. Clarêncio meditou um instante e esclareceu. Preciso atingir "Nosso Lar" com a presteza possível.Vamos sem demora. cuidadosos. como quem recorda inadiável obrigação: . .

que se apoiava num cajado de substância luminosa. Tateando um ponto da muralha. envergando túnicas de níveo linho. Branda claridade inundava ali todas as coisas. Ao sinal de Clarêncio. Clarêncio. então. A medida que avançávamos. Dois jovens. ouvi o generoso ancião recomendar. a porta acolhedora de alvo edifício. para me conduzirem cuidadosamente ao interior. carinhoso: . e quando me acomodavam num leito de emergência. situadas em extensos jardins. cobertos de trepadeiras floridas e graciosas. Ao longe. gracioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes primaveris. a maca improvisada.26 3 A ORAÇÃO COLETIVA Embora transportado à maneira de ferido comum. A meus olhos surgiu. através da qual penetramos. conseguia identificar preciosas construções. detevese à frente de grande porta encravada em altos muros. lobriguei o quadro confortante que se desdobrava à minha vista. silenciosos. acorreram pressurosos ao chamado de meu benfeitor. à feição de grande hospital terreno. os condutores depuseram. fez-se longa abertura. devagarinho.

Meu ego. esforcei-me por lhes dirigir a palavra. Semelhava-me assim ao cego venturoso. e a claridade que irradia provém do Autor da Criação. meditando na imensurável bondade dAquele que no-lo concede para o caminho eterno da vida. A estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal. Nosso Sol é a divina matriz da vida. que abre os olhos para a Natureza sublime. por quem sois. e o Sol que nos ilumina.27 NOSSO LAR . ricamente mobilado. De que estrela me vem. Não saberia di- . esta luz confortadora e brilhante? Um deles afagou-me a fronte. através das janelas. agora. então. Enderecei-lhe um olhar de gratidão. como se fora conhecido pessoal de longo tempo e acentuou: . Recordei. Aquela reduzida porção de liquido reanimava-me inesperadamente. conseguindo dizer por fim: .. Amanhã cedo voltarei a vê-lo. ao mesmo tempo que era conduzido a confortável aposento de amplas proporções. que me pareceu portadora de fluidos divinos.Amigos.. explicai-me em que novo mundo me encontro. que nunca fixara o Sol. entretanto. depois de longos séculos de escuridão. Aqui. é o mesmo que nos vivificava o corpo físico. nossa percepção visual é muito mais rica.Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita. nos dias terrestres. neste momento.Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra. fixou a luz branda que invadia o quarto. seguido de água muito fresca. onde me ofereceram leito acolhedor. serviram-me caldo reconfortante. e perdi-me no curso de profundas cogitações. Esperam agora por mim. Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhecimento. como que absorvido em onda de infinito respeito. A essa altura.

se alimentação sedativa. Seguindo vacilante.Não poderei acompanhar-vos? . fique em paz. ao passo que mal . todavia. Da abóbada cheia de claridade brilhante. atencioso: . Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia. todavia. Voltarei logo após a oração. cheguei a enorme salão. bondoso: É chegado o crepúsculo em "Nosso Lar". formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior.. reservava-se para instantes depois. divina melodia penetrou quarto a dentro. suplicante. . se remédio salutar.Está ainda fraco . que permanecia ao lado.Agora.esclareceu. profundas comoções vibravam-me no espírito.. Novas energias amparavam-me a alma.perguntei. gentil -. Mal não saíra da consoladora surpresa. Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração. parecendo suave colmeia de sons a caminho das esferas superiores.28 NOSSO LAR zer que espécie de sopa era aquela. despediu-se. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho. Ninguém parecia dar conta da minha presença. Aquela melodia renovava-me as energias profundas. Ante meu olhar indagador. caso sinta-se disposto. o enfermeiro. Empolgou-me ansiedade súbita. esclareceu. profundamente recolhida. . Minha maior emoção. consagrada ao Cristo. E enquanto a música embalsamava o ambiente. onde numerosa assembléia meditava em silêncio. que vinham do teto à base. pendiam delicadas e flóreas guirlandas. há ligação direta com as preces da Governadoria.

esclareceu em voz baixa. e. em tela gigantesca. setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio. Mal terminara a explicação. notei que ao fundo. Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente. de sublimado reconhecimento. com estrias douradas. quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato. em plano elevado. repleto de indefinível beleza. Obedecendo a processos adiantados de televisão. surgiu o cenário de templo maravilhoso. O cântico celeste constituía-se de notas angelicais. Todos os circunstantes.29 NOSSO LAR dissimulava eu a surpresa inexcedível. entre os que cercavam o velhinho refulgente. no círculo dos veneráveis companheiros. desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.Conserve-se tranqüilo. reparei Clarêncio participando da assembléia. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e. Sentado em lugar de destaque. (Nota do Autor espiritual. pareciam aguardar alguma coisa. figurou-se-me tocada de mais intensa luz. um coração maravilhosamente azul (1). Todas as residências e instituições de "Nosso Lar" estão orando com o Governador. em atitude de prece. através da audição e visão a distância. Cariciosa __________ (1) . que mais se assemelhava a leve sopro: .Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes da colônia. Apertei o braço do enfermeiro amigo. envergando alva túnica de irradiações resplandecentes.) . atentos. A fisionomia de Clarêncio. Altamente surpreendido. Louvemos o Coração Invisível do Céu. compreendendo ele que minhas perguntas não se fariam esperar. desenhou-se ao longe. as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino. um ancião coroado de luz fixava o Alto. Em plano inferior.

procedente talvez de esferas distantes. operara em mim completa transformação. depois de anos consecutivos de sofrimento. amparado pelo amigo que me atendia de perto. se fixávamos os miosótis celestiais. Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós. em "Nosso Lar". A primeira prece coletiva.30 NOSSO LAR música. Entretanto. experimentando eu. em seguida. por minha vez. Conforto inesperado envolvia-me a alma. ao tocar-nos a fronte. respondia aos louvores. singular renovação de energias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração. enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança. Terminada a sublime oração. o pobre coração. mas. regressei ao aposento de enfermo. saudoso e atormentado. à maneira de cálice muito tempo vazio. não conseguíamos detê-los nas mãos. não era mais o doente grave de horas antes. Pela primeira vez. . As corolas minúsculas desfaziam-se de leve.

Na alma. Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral. tornava-se-me impossível deixar o leito. gozar o espetáculo da Natureza cheia de brisas e de luz.a saudade do lar. inundando o recinto de cariciosa luz.31 4 O MÉDICO ESPIRITUAL No dia imediato. Não voltara a mim das surpresas consecutivas. prestando informações. apenas um ponto sombrio . após reparador e profundo repouso. a longos haustos. o apego à família que ficara distante. quando se abriu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpático desconhecido. atenciosos. Quis levantar-me. Tinha a impressão de sorver a alegria da vida. Acorreu o enfermeiro. experimentei a bênção radiosa do Sol amigo. Claridade reconfortante atravessava ampla janela. qual suave mensagem ao coração. mas tão grande era a sensação de alívio que eu sossegava o espírito. Sentia-me outro. Energias novas tocavam-me o íntimo. mas não o consegui e concluí que. sem a cooperação magnética do enfermeiro. Numerosas interrogações pairavam-me na mente. Cumprimentaram-me. . longe de qualquer interpelação. desejando-me paz.

e estes. sorriu e explicou: . Nun- . A moléstia talvez não assumisse características tão graves. melindrado -.Creio haja engano . não calei a incriminação. Sofri duas operações graves. demonstrando a mesma serenidade superior -. atencioso.32 NOSSO LAR Sorridente. no campo da sífilis. O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo. mas a oclusão radicava-se em causas profundas.Vejamos a zona intestinal .exclamou. do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual. Henrique auscultou-me demoradamente. Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular. . disse. Talvez o amigo não tenha ponderado bastante.. Lutei mais de quarenta dias.. Trajado de branco. muita vez exasperado e sombrio.É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio. se o seu procedimento mental no planeta estivesse enquadrado nos princípios da fraternidade e da temperança. senti que singular assomo de revolta me borbulhava no íntimo. captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam. do irmão Henrique de Luna. por sua vez. meu regresso do mundo não teve essa causa. de algumas leviandades do meu estimado irmão. Enquanto Clarêncio permanecia sereno. . Tratavase. indicava determinados pontos do meu corpo: .Sim . devido a oclusão intestinal. E inclinando-se. seu modo especial de conviver. traços fisionômicos irradiando enorme simpatia.esclareceu o médico. o velhinho amigo apresentou-me o companheiro. na Casa de Saúde.A oclusão derivava de elementos cancerosos. Entretanto. Suicídio? Recordei as acusações dos seres perversos das sombras. .asseverei. tentando vencer a morte.

segundo os desígnios do Senhor. Aliás. que lhe foi confiada pelos Maiores da Espiritualidade Superior. continuou: . continuava o médico. de muito. talhando-as conforme as situações. no entanto. não poderia supor. que me seriam pedidas contas de episódios simples. aparentemente sem importância. Tal circunstância agravou. Meditei nos problemas dos caminhos humanos.33 NOSSO LAR ca imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos? A ausência de autodomínio. noutro tempo.Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reservas. Como vê. até ali.Já observou. conduziam-no freqüentemente à esfera dos seres doentes e inferiores. a inadvertência no trato com os semelhantes. foi reduzida a meras tentativas de trabalho que não se consumou. conseguia ajustar numerosas máscaras ao rosto. Todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas. estranho aos códigos. O meu amigo. segundo os preceitos da criminologia. que seu fígado foi maltratado pela sua própria ação. esperdiçado patrimônios preciosos da experiência física. esclarecendo: . que costumava considerar como fatos sem maior significação. o suicídio é incontestável. com terrível menosprezo às dádivas sagradas? Singular desapontamento invadira-me o coração. Na vida humana. iludiu excelentes oportunidades. Devoroulhe a sífilis energias essenciais. o seu estado físico. A longa tarefa. entraria na . Depois de longa pausa. que os rins foram esquecidos. aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir. os erros humanos. em que me examinava atentamente. Todo acontecimento insignificante. meu amigo. Parecendo desconhecer a angústia que me oprimia. Conceituara. refletindo nas oportunidades perdidas.

Oh! meu filho. Rosto entre as mãos. Não me dilacerava o desejo de reação. outro sistema de verificação das faltas cometidas. nas mes- . doía-me a vergonha. a inflexão de ternura do médico. sentando-se no leito. agora. Não desejas ser grato. Todavia. a calma fraternal do enfermeiro. abafando os impulsos vaidosos. de tridente nas mãos. penetravam-me fundo o espírito. dos planos mais altos. Não havia como discordar. reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos. longe das vistas paternas. a bondade exuberante de Clarêncio. não te lastimes tanto. tua posição é a do suicida inconsciente. Perante minha visão espiritual só existia. Henrique de Luna falava com sobejas razões. visitado por figuras diabólicas a me torturarem. mas é necessário reconhecer que centenas de criaturas se ausentam diariamente da Terra. benfeitores sorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada. agora. Aquele interesse espontâneo. Talvez que. nem me surpreendiam abismos infernais. qual menino contrariado e infeliz.34 NOSSO LAR relação de fenômenos naturais. Foi então que o generoso Clarêncio. perdera o ensejo precioso da experiência humana. pus-me a soluçar com a dor que me parecia irremediável. A falsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça. mantendo-te tranqüilo no exame das próprias faltas? Na verdade. a meu lado. no entanto. contudo. porém. uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida. Deparava-se-me. Busquei-te atendendo à intercessão dos que te amam. feria-me a vaidade de homem. não passava de náufrago a quem se recolhia por caridade. Tuas lágrimas atingem seus corações. E chorei. afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido: . encontrasse forças para tornar a derrota menos amarga. Por fim. Não me defrontavam tribunais de tortura.

mergulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente. Confia no Senhor e em nossa dedicação fraternal. Sossega a alma perturbada. pois. porque muitos de nós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos. embora tardio. Aproveita os tesouros do arrependimento. Ante a generosidade que transbordava dessas palavras. . sem esquecer que a aflição não resolve problemas. Acalma-te. guarda a bênção do remorso.35 NOSSO LAR mas condições.

não só coopero na enfermagem. acentuou: . . explicou: . Meu diretor. designou-me para servi-lo.indaguei. como quem conduzia apetrechos de assistência. ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados.Sou visitador dos serviços de saúde. O amigo ingressou agora na colônia e.É enfermeiro? . . seu irmão. ignora a amplitude dos nossos trabalhos.É você o tutelado de Clarêncio? A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão. Nessa qualidade. o assistente Henrique de Luna. naturalmente. Notando-me a surpresa. mostrou-se à vontade e.36 5 RECEBENDO ASSISTÊNCIA . endereçava-me ele sorriso acolhedor. Para fazer uma idéia. .Sou Lísias. Grande bolsa pendente da mão. maneiras fraternas. Ao meu sinal afirmativo. enquanto precisar tratamento.Nas minhas condições há numerosos servidores em "Nosso Lar". como também assinalo necessidades de socorro. basta lembrar que apenas aqui.

porque temos trabalho. que gastou os olhos no mal.Sim . a região do fígado revela dilacerações.exclamei. Sorrindo. Já pensou nisso? Sabe que o homem imprevidente. explicando que devo esses distúrbios a mim mesmo. acrescentou: . E talvez ignore que existem. Somos felizes. bondoso.repliquei . . prosseguiu: . a dos rins demonstra característicos de esgotamento prematuro. e a ale- .Tudo isso é maravilhoso! . atento.. quando não é recolhido absolutamente sem pernas? Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura? Identificando-me a perplexidade natural. Adivinhando que minhas observações iam descambar para o elogio espontâneo."Nosso Lar" não é estância de espíritos propriamente vitoriosos. os mutilados. o médico esclareceu ontem. apressou-se a consolar: .. e note que este é um dos menores edifícios do nosso parque hospitalar. .37 NOSSO LAR na seção em que se encontra. interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos. Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa. Lísias levantou-se da poltrona a que se recolhera e começou a auscultar-me. se conferirmos ao termo sua razoável acepção.Sabe o irmão o que significa isso? .A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos do câncer. cinqüenta e sete se encontram nas suas condições. por aqui. experimenta a desolação da paralisia. existem mais de mil doentes espirituais. impedindo-me o agradecimento verbal. aqui comparece de órbitas vazias? Que o malfeitor.Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária.

doentes e ignorantes. convocam as criaturas ao banquete celestial. Resultado: milhares de criaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em doloroso estado de incompreensão.Acreditaria. porventura. Se temos débitos no planeta. Multidões sem conto erram em todas as direções nos círculos imediatos à crosta planetária.Continue. Aproveitando a pausa mais longa. interrogou: .Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra. agrava-se o capricho de cada um. onde os que atendem ao chamado? Com raras exceções. elimina-se o corpo físico a golpes de irreflexão. da noção de Deus. a massa humana prefere aceder a outro gênero de convites. no planeta. meu amigo. mas. para retificar. Sinto-me aliviado e tranqüilo. um dia. meu amigo.As religiões. é imprescindível voltar. constituídas de loucos. por mais alto que ascendamos. a serviços pesados e não basta isso. esclareça-me. ninguém que se tenha aproximado. Notando-me a admiração. exclamei sensibilizado: . que a morte do corpo nos conduziria a planos de milagres? Somos compelidos a trabalho áspero. desatando algemas de ódio e . acentuou: . Incontável é o número dos chamados. Em sã consciência. Não será esta região um departamento celestial dos eleitos? Lísias sorriu e explicou: . como a fixar experiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas. Gasta-se a possibilidade nos desvios do bem. pode alegar ignorância nesse particular. E vagueando o olhar no horizonte longínquo. lavando o rosto no suor do mundo. porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado do serviço.38 NOSSO LAR gria habita cada recanto da colônia.

o visitador colocou a destra carinhosa em meus lábios. O Senhor não esquece homem algum. até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina. será um dos melhores colaboradores em "Nosso Lar". entretanto. meu caro. com as próprias mãos. objetei: . mas o trabalho de cura é peculiar a cada espírito. raríssimos homens o recordam. A carne terrestre.Cale-se! meditemos no trabalho a fazer. que agregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo de gozar mais que os outros. para construir de novo. Em seguida. Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros.Como fui perverso! Contudo. antes que me alongasse noutras exclamações. No arrependimento verdadeiro é preciso saber falar. esclareceu: . sentir-se-á forte como nos tempos mais belos da sua juventude terrena. Abanando a cabeça. todavia. creio. aplicou-me passes magnéticos. Não seria justo impor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos de espinhos. Fazendo os curativos na zona intestinal.39 NOSSO LAR substituindo-as por laços sagrados de amor. a causa dos seus males persistirá em si mesmo. murmurando: . diante de tão grandes noções de responsabilidade individual. atividade de socorro justo. trabalhará muito e. Meu irmão será tratado carinhosamente. acrescentava: .Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa? Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor. atenciosamente.Caso dos muitos chamados. onde abusamos. é também o campo bendito onde conseguimos realizar frutuo- .

terminou o tratamento do dia. afagou-me carinhosamente a fronte abatida e despediu-se com um ósculo de amor.40 NOSSO LAR sos labores de cura radical. quando permanecemos atentos ao dever justo. chorei copiosamente. Desabafe o coração. sempre constituem remédio depurador. meu amigo. Lísias. Tão humildes e tão preciosas. Sem elas.Quando as lágrimas não se originam da revolta. na exaltação da sensibilidade. Chore. . ponderei a bondade divina e. E abençoemos aquelas beneméritas organizações microscópicas que são as células de carne na Terra. que nos oferecem templo à retificação. Meditei os conceitos. tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço. com serenidade. quantos milênios gastaríamos na ignorância? Assim falando. contudo. e falou: .

Clarêncio me procurou em companhia do atencioso visitador.Não posso negar que esteja melhor.. comecei a explicar-me. após a oração do crepúsculo. sem o menor gesto . estranhas sensações de angústia no coração.. Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência. Obedecendo ao velho vicio. sofro intensamente. Muitas dores na zona intestinal. às vezes. Ah! como tem sido pesada a minha cruz!.41 6 PRECIOSO AVISO No dia imediato. Fisionomia a irradiar generosidade. Agora que posso concatenar idéias. entretanto. creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis. enquanto os dois benfeitores se sentavam comodamente a meu lado: . perguntou.Como vai? Melhorzinho? Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra. abraçando-me: .. atencioso. meu amigo. amolecendo as fibras emotivas. No mundo. demonstrando grande interesse pelas minhas lamentações.. o carinho fraterno é mal interpretado. Clarêncio ouvia.

. os sofrimentos da morte do corpo. então. o vendaval da queixa me conduzira o barco mental ao oceano largo das lágrimas.. abafando escassas notas de alegria. deseja você. Não sei desde quando vivo o pesadelo da distância.. generoso benfeitor!. Que desventurado destino.. continuou: . continuei: . se um dia eu lhe faltasse. contudo. de fato. a vida? Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas? Não haverá recurso à semeadura da paz? Por mais que deseje firmar-me no otimismo. Amainada a tormenta exterior com os socorros recebidos. martirizações no alémtúmulo! Que será.. meus sofrimentos morais são enormes e inexprimíveis.42 NOSSO LAR que denunciasse o propósito de intervir no assunto. incompreensões e amarguras. de meus filhos? Teria o meu primogênito conseguido progredir. Clarêncio. doenças. Chegado a essa altura. segundo meu velho ideal? E as filhinhas? Minha desventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de saudades. Admirável esposa! Ainda lhe sinto as lágrimas dos momentos derradeiros.Além do mais. Em seguida. No planeta. vicissitudes. sinto que a noção de infelicidade me bloqueia o espírito. levantou-se sereno e falou sem afetação: . Encorajado com essa atitude.Meu amigo. como terrível cárcere do coração. Que terá sido feito de minha esposa. volto agora às tempestades íntimas. a cura espiritual? Ao meu gesto afirmativo. desenganos. Continuadas dilacerações roubaramme a noção do tempo. ou nalgum recanto escuro das regiões da morte? Oh! minha dor é muito amarga! Que terrível destino o do homem penhorado no devotamento à família! Creio que raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!.. depois. Onde estará minha pobre companheira? Chorando junto às cinzas do meu corpo.

prosseguiu Clarêncio. no círculo da personalidade. temos. o programa não é diferente. mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas. sói identificar indesejável cegueira dalma. nesta colônia. Além disso. aprenda a pensar com justeza. Lamentação denota enfermidade mental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. enquanto nós vivemos onerados de dívidas. embora envergonhado da minha fraqueza. a não falar excessivamente de si mesmo.43 NOSSO LAR . bondoso -. É indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios. oferecendo-lhe teto generoso. chamado a brios pelo generoso instrutor. Se deseja permanecer nesta casa de assistência. abrindo o coração ao Sol da Divindade. sob a Direção Divina. Apenas di- . Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro. enxergar padecimentos onde há luta edificante. . mas não dispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação.Aprenda. o compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de realização. considerando que a Providência desborda amor.Não disputava você. O mesmo Pai que vela por sua pessoa. Nesse ínterim. as vantagens naturais. Devemos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção. nesta casa. decorrentes das boas situações? Não estimava a obtenção de recursos lícitos. assumi diversa atitude. com possibilidades de atender à família? Aqui. mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Família universal. ansioso de estender benefícios aos entes amados? Não se interessava pelas remunerações justas. nem comente a própria dor. Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora. então. Somente conseguiremos equilíbrio. secara-se-me o pranto e. atenderá aos seus parentes terrestres. na carne . pelas expressões de conforto. Quanto mais utilize o verbo por dilatar considerações dolorosas.

a luta constitui caminho para a divina realização. respondi. nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes. deitam-se para se queixarem aos que passam. Compreendeu a diferença? As almas débeis. para nós. tornou a perguntar com um belo sorriso: . Se ama. ante o serviço. na movimentação do qual se preparam. a caminho da perfeição. Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência. todavia. Ninguém lhe condena a saudade justa. à maneira da criança que deseja aprender. as fortes. Nos círculos carnais. para melhor compreender a Vontade Divina.Então. é preciso bom ânimo para lhe ser útil. como passa? Melhor? Contente por me sentir desculpado. A palavra de Clarêncio levantara-me para elucubrações mais sadias. porém. aqui.Vou bem melhor. Fez-se longa pausa.44 NOSSO LAR vergem os detalhes. que o pranto da desesperação não edifica o bem. . Acresce notar. em verdade. confortado: . significa possibilidade de enriquecer a alma. a família terrena. o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imortal. Dor. a convenção e a garantia monetária. qual o pai que esquece a leviandade dos filhos para recomeçar serenamente a lição. recebem o serviço como patrimônio sagrado. meu benfeitor.

substâncias mais delicadas. alteavam-se graciosos edifícios. Nenhum sem flores à entrada. Deleitava-me. Quase tudo. sobretudo. a recordações mais fortes dos fenômenos físicos. A pequena distância.45 7 EXPLICAÇÕES DE LÍSIAS Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atenção diária de Lísias. Apesar de tudo. Alinhavam-se a espaços regulares. Forrava-se o solo de vegetação. sensações de desafogo me aliviavam o coração. que. Notava. encontrava mais segurança dentro de mim. Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil. melhorada cópia da Terra. contemplando os horizontes vastos. Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. pomares fartos e jardins deliciosos. porém. em continuidade à planície onde a colônia repousava. Grandes árvores. Desenhavam-se montes coroados de luz. o receio do desconhecido. Impressionavam-me. destacando-se algumas casinhas . debruçado às janelas espaçosas. os aspectos da Natureza. À medida que procurava habituar-me aos deveres novos. exibindo formas diversas. Cores mais harmônicas. agora. a mágoa da inadaptação. me voltavam a angústia.

Lísias. Por que. dizia. cercadas por muros de hera. não regateava explicações. onde rosas diferentes desabrochavam. Afinal. havia muitas semanas. Todo processo evolutivo implica gradação. Das janelas largas. Nas minhas lutas introspectivas. adornando o verde de cambiantes variados. me haviam precedido. a se erguerem retilíneas. curioso. . permanecer ali. aqui e ali. sem a visita sequer de um conhecido do mundo. o movimento do parque. Há regiões múltiplas para os desencarnados. lembrando lírios gigantescos. todavia. então. observava. de quando em quando.46 NOSSO LAR encantadoras. A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas. formas e coisas. considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual. Preocupava-me. obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa. Meus pais me haviam antecipado na grande jornada. noutro tempo. o companheiro amável de todos os dias. Almas e sentimentos. pousavam agrupadas nas torres muito alvas. Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e. identificava animais domésticos. Amigos vários. não apareciam naquele quarto de enfermidade espiritual. como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre. rumo ao céu. Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta. num parque de saúde. perdia-me em indagações de toda sorte. Extremamente surpreendido. entre as árvores frondosas. enfileiradas ao fundo. para conforto do meu coração dolorido? Bastariam alguns momentos de consolação. não fora eu a única pessoa do meu círculo a decifrar o enigma da sepultura.

prosseguiu o enfermeiro visitador -.. assim.No dia em que você orou com tanta alma . fez a grande viagem. sempre contei com a abnegação maternal.esclareceu Lísias -. sua mãe o tem ajudado dia e noite. não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador: . acha possível. Minha mãe.. Meu pai. desde a crise que antecipou sua vinda. Desejei conhecer os processos de proteção imperceptível. mas não consegui. Por que não me visitam? Na Terra. igualmente. . Minhas cordas vocais estavam entorpecidas. o encontro com aqueles que nos antecederam na morte do corpo físico? . se afastasse um tanto. . é indispensável nos colocarmos . quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime. Rogou os bons ofícios de Clarêncio. muitas vezes. duplicou-se o interesse maternal a seu respeito. a fim de surgir o filho dos Céus. . com o nó de lágrimas represadas no coração. entretanto.Como não? Pensa que está esquecido?!. aqui. Não sabe que há chuvas que destroem e chuvas que criam? Lágrimas há também. É lógico que o Senhor não espera por nossas rogativas para nos amar. Ignorava o número de anos que me distanciavam da gleba terrestre.Meu caro Lísias. que começou a visitá-lo freqüentemente. até agora não deu sinal de vida. em "Nosso Lar".47 NOSSO LAR Um dia. Ela jamais desanimou. Talvez não saiba ainda que sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos. Quando se acamou para abandonar o casulo terrestre. até que o medico da Terra. três anos antes do meu trespasse.Sim. a seu favor. seu pranto era diferente. no entanto. Intercedeu. Compreendeu? Eu tinha os olhos úmidos.Pois note . vaidoso.

generoso. Quando alguém deseja algo ardentemente.esclareceu Lísias -. quero vê-la. Lísias sorriu com inteligência. Se me é permitido. mas. antes mesmo do que pensamos. afirmou ao despedir-se: . nesse particular. quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino. a lição do próprio caso. habita esferas mais altas. as tristezas e desilusões. Desse modo.Desejarei. por certo. resoluto: .. segundo me contaram. exclamei. ajoelhar-me a seus pés! .. chorou de alegria. porém. onde trabalha não somente por você. acrescentou. como pluma.48 NOSSO LAR em determinada posição receptiva. Um espelho enfuscado não reflete a luz. . abraçá-la. mas convenhamos que as penitências prestam ótimos serviços a nós mesmos. Entendeu? Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo.Não vive em "Nosso Lar" . fraterno: . . ela virá. demorou muito a encontrar Clarêncio. ela virá. por fim. já se encontra a caminho da realização.. você. encorajado pelo esclarecimento recebido.E onde está minha mãe? . então. dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e socorro. E quando sua mãezinha soube que o filho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração.Virá vê-lo. Anos a fio rolou.exclamei. a fim de compreender-lhe a infinita bondade. com todas as minhas forças. e. atendendo aos apelos de sua carinhosa genitora da Terra. . como quem previne... o Pai não precisa de nossas penitências.. Observando meu desapontamento. albergando o medo. Tem você. Olhos brilhantes.

ou. vontade ativa. . sorridente. a saber: primeiro.Convém não esquecer. merecer. que a realização nobre exige três requisitos fundamentais. contudo. saber desejar. O visitador ganhou a porta de saída. segundo.49 NOSSO LAR . desejar. e. trabalho persistente e merecimento justo. terceiro. enquanto eu me detinha silencioso. a meditar no extenso programa formulado em tão poucas palavras. por outros termos.

atende-se a doentes. pela primeira vez. selecionam-se preces. esclareceu solícito: . em companhia de Lísias. mas outras me dirigiam olhares acolhedores. Algumas pareciam situar a mente em lugares distantes. Impressionou-me o espetáculo das ruas.Estamos no local do Ministério do Auxílio.50 8 ORGANIZAÇÃO DE SERVIÇOS Decorridas algumas semanas de tratamento ativo. enfeitadas de árvores frondosas. saí. Ar puro. ou aos que choram na Terra. Incumbia-se o companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam ininterruptas. edifícios. porque as vias públicas estavam repletas. estu- . representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição. qualquer sinal de inércia ou de ociosidade. atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual. Orientadores. casas residenciais. Entidades numerosas iam e vinham. Não havia. organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral. preparam-se reencarnações terrenas. Nesta zona. porém. Percebendo-me as íntimas conjeturas. operários e outros serviçais da missão residem aqui. ouvem-se rogativas. Vastas avenidas. Tudo o que vemos.

Não tem visto. sob a orientação dos que nos presidem os destinos. do Esclarecimento. comovido: . da Comunicação.Há. os dois últimos nos ligam ao plano superior. quando orientada pela mente do homem. selvagem na criatura primitiva.esclareceu Lísias -. no mundo. orientados. nosso Governador Espiritual cercado de setenta e dois colaboradores? Pois são os Ministros de "Nosso Lar". . Clarêncio. transforma-se em potencial criador.. prosseguiu: .perguntei. que é essencialmente de trabalho e realização. e o pensamento humano.51 NOSSO LAR dam-se soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento. nos atos da prece. visto que a nossa cidade espiritual é zona de transição. . Fixando em mim os olhos lúcidos. depois da morte do corpo físico!. procede do plano superior. é um dos Ministros do Auxílio..Oh! nunca imaginei a possibilidade de organizações tão completas. do Auxílio. divide-se em seis Ministérios. cada qual. da Elevação e da União Divina. um Ministério do Auxílio? . Temos os Ministérios da Regeneração. Valendo-me da pausa natural. exclamei. O homem vulgar ignora que toda manifestação de ordem. Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres.Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia. A natureza agreste transforma-se em jardim. então.Sim . o nosso chefe amigo. A colônia. Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração. Ne- . . os mais sublimes no da União Divina. quando inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais altas. o véu da ilusão é muito denso nos círculos carnais. em "Nosso Lar". por doze Ministros.

Apontando o palácio. . natureza específica. como as grandes cidades planetárias? . Prosseguiram na obra. Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior. edifícios de fino lavor.Sem dúvida. o amor espiritual.52 NOSSO LAR nhuma organização útil se materializa na crosta terrena. ostentando extensos jardins. apenas com a diferença de que. A princípio. "Nosso Lar" é antiga fundação de portugueses distintos. Os trabalhos primordiais foram desanimadores. grandes tratos de natureza rude e incivilizada. no planeta. porém. desencarnados no Brasil. que se perdiam no céu. encabeçado de torres soberanas. Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres.disse o visitador. continuou: . Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem. copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material. onde se localiza a Governadoria .Os fundadores da colônia começaram o esforço. erguia-se um palácio de magnificente beleza. por lá.Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma história. mesmo para os espíritos fortes. a guerra. aqui. A essa altura. No centro da praça. misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do pais e as construções infantis de suas mentes rudimentares. sem que seus raios iniciais partam de cima. enorme e exaustiva foi a luta. tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira. Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra. como há. e. se empregava a violência. Os fundadores não desanimaram. no século XVI. segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento. . a escravidão. igualmente. o serviço perseverante. partindo daqui. a solidariedade fraterna. atingíramos uma praça de maravilhosos contornos.

mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso. é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos. Basta lembrar que estou aqui há quarenta anos e.53 NOSSO LAR . Todos começam da Governadoria. as torres maravilhosas que pareciam cindir o firmamento. o enfermeiro amigo acentuou: .. o ponto de convergência dos seis ministérios a que me referi. . Os Ministros costumam excursionar noutras esferas. comemorou-se o 114º aniversário da sua magnânima direção. nesta praça. estendendo-se em forma triangular. obriga-nos a férias periódicas. Faz questão que descansemos. Depois de longa pausa. renovando energias e valorizando conhecimentos. E. nós outros gozamos entretenimentos habituais. Nos trabalhos administrativos. Pareceme que a glória dele é o serviço perene. ao passo que. entretanto. abrange todos os círculos de serviço. quase nunca repousa.Ali vive o nosso abnegado orientador. com exceção das assembléias referentes às preces coletivas. utiliza ele a colaboração de três mil funcionários. evidenciando comovida reverência. mesmo no que concerne às horas de sono. respeitoso. enquanto eu a seu lado contemplava. Seu pensamento. comentou: . sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge. respeitoso e embevecido.Não faz muito. porém.Temos. Calara-se Lísias.. raramente o tenho visto em festividades públicas. ele mesmo.

Quem observa esta colmeia imensa de serviço .é induzido a examinar numerosos problemas.Antigamente . sob o controle direto da Governadoria. Rezam os anais que a colônia.. formando figuras encantadoras.54 9 PROBLEMA DE ALIMENTAÇÃO Enlevado na visão dos jardins prodigiosos. o atual Governador atenuar todas as expressões de vida que nos recordassem os fenômenos puramente materiais. pedi ao dedicado enfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo. Deliberou.ponderei . assim. porém.os serviços dessa natureza assumiam feição mais destacada. As atividades de abastecimento ficaram. a providência constitui medida das mais benéficas. lutava com extremas dificuldades para adaptar os habitantes às leis da simplicidade. Muitos recém-chegados ao "Nosso . Caprichosos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar. . há um século. reduzidas a simples serviço de distribuição. .. E o abastecimento? Não tenho notícia de um Ministério da Economia. Agradável sensação de paz me felicitava o espírito.explicou o paciente interlocutor . Aliás. Lísias anuiu de bom grado.

porém. daqui. Por mais de dez vezes. pelas características que lhe são próprias. a fim de espalharem novos conhecimentos. os projetos e finalidades do regime. O Governador. não desanimou. vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada. Alguns colaboradores técnicos de "Nosso Lar" manifestavam-se contrários. a pedido da Governadoria. sem grave perigo para suas organizações espirituais. puseram-me ao corrente de curiosos acontecimentos. todavia. Tão logo assumiu obrigações administrativas. o Ministério do Auxílio esteve superlotado de enfermos. Queriam mesas lautas. relativos à ciência da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera. Convocava os adversários da medida a palácio e expunha-lhes.55 NOSSO LAR Lar" duplicavam exigências. os opositores da redução multiplicavam acusações. Algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público. dilatando velhos vícios terrenos. Realizaram-se assembléias numerosas. assim. em planos mais elevados que o nosso. no entanto. O Governador. onde se confessavam vítimas do novo sistema de alimentação deficiente. Disseram-me que. providências e atividades. Antigos missionários. jamais castigou alguém. O Governador atual. Apenas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos. . durante trinta anos consecutivos. alegando que a cidade é de transição e que não seria justo. desambientar imediatamente os homens desencarnados. mediante exigências desse teor. contudo. adotou providências justas. os demais viviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem. bebidas excitantes. maior número de adeptos. ganhando. não poupou esforços. destacava a superioridade dos métodos de espiritualização. nem possível. Prosseguiram as reuniões. facilitava aos mais rebeldes inimigos do novo processo variadas excursões de estudo. paternalmente. reclamando. Nesses períodos.

não cediam terreno nas concepções correspondentes daqui. meu caro Lísias. Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento.Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações. onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino. atingindo. por favor. por vezes. dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral. que ali trabalham. nunca agiu por si só. a imprudência. Como terminou a luta edificante? . porém. enviavam ao Governador longas observações e advertências. aproveitando brechas nos serviços de Regeneração. em vista dos numerosos espíritos dedicados às ciências matemáticas. em virtude dos vícios de alimentação. que tentaram invadir a cidade. O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento. formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento de Regeneração. Semanalmente. Ele. por parte da Governadoria. aderiu o Ministério da Elevação. Terríveis ameaças pairavam sobre todos. Mecanizados nos processos de proteínas e carboidratos.Continue. Requisitou assistência de nobres mentores. imprescindíveis aos veículos físicos. passando a abastecer-se apenas do indispensável. que nos orientam através do Ministério da União Divina. Dado o alarme. O velho governante. contudo. hoje transformado em Ministério. reclamei. Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de "Nosso Lar". interessado: . Enquanto argumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava. solicitou audiência ao Ministério . e jamais deixou o menor boletim de esclarecimento sem exame minucioso. que demorou muito a assumir compromisso. o Governador não se perturbou. repletas de análises e numerações.56 NOSSO LAR Ante pausa mais longa. Eram eles os mais teimosos adversários. os espíritos menos elevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis manifestações.

e água misturada a elementos solares. Reduziu-se a . através da respiração. mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação. Houve. Desde então. O antigo Departamento da Regeneração foi convertido em Ministério. depois de ouvir o nosso mais alto Conselho. nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e cooperou nos trabalhos de reajustamento. isto é. os serviços de alimentação. declarando que a compreensão geral constituía o verdadeiro prêmio ao seu coração. Por mais de seis meses. nesse comenos. Nos demais há somente o indispensável. proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores. para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum. foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera. pela primeira vez na sua administração. cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos. para isolamento dos recalcitrantes. todos reconhecem que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para nossa libertação espiritual. todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade. A cidade voltou ao movimento normal. sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo. mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade. só existe maior suprimento de substâncias alimentícias que lembram a Terra. e. advertiu o Ministério do Esclarecimento. mas resistência resoluta. então. determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração. Presentemente. em meio da alegria geral.57 NOSSO LAR da União Divina e. Não houve combate. elétricos e magnéticos. em "Nosso Lar". nem ofensiva da colônia. o Governador chorou sensibilizado. a Governadoria estava vitoriosa. onde há sempre grande número de necessitados. regozijo público e dizem que. A colônia ficou. Findo o período mais agudo.

58 NOSSO LAR expressão física e surgiu maravilhoso coeficiente de espiritualidade. . Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentos sobre a grande lição.

examinei-o com atenção. que seria na Terra um grande funicular. Verá que a água é quase tudo em nossa estância de transição. o generoso amigo acrescentou: . Lá observará coisas interessantes. à maneira de um elevador terrestre. parecendo ligada a fios invisíveis. acompanhei o enfermeiro sem vacilar. .Esperemos o aeróbus. Chegados a extenso ângulo da praça.59 10 NO BOSQUE DAS ÁGUAS Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimentação. (1) Mal me refazia da surpresa. em virtude do grande número de antenas na tolda. tinha enorme comprimento. Mais tarde. suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros.Vamos ao grande reservatório da colônia. quando surgiu grande carro. Não era máquina conhecida na Terra. Ao descer até nós. con__________ (1) Carro aéreo. Lísias convidou: . Constituída de material muito flexível. Curiosíssimo.

A corrente rolava tranqüila. Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes. Notando o meu deslumbramento. entre desconhecidos. deslizava um rio de grandes proporções. que aqui vêm tecer as mais lindas promessas de amor e fidelidade. Bancos de caprichosos formatos convidavam ao descanso. Indicando um edifício de enormes proporções. me convidou Lísias a descer. para as experiências da Terra. incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros. A observação ensejava considerações muito interessantes. em floração maravilhosa. O bosque. mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular. seguimos Silenciosos. em vista dos reflexos do firmamento. toda esmaltada de azulíneas flores. Temos aqui uma das mais belas regiões de "Nosso Lar". Experimentava a timidez natural do homem desambientado. Plantadas a espaços regulares. Estradas largas cortavam a verdura da paisagem.Estamos no Bosque das Águas. Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas. Entre margens bordadas de grama viçosa. sorridente e calmo. Aboletados convenientemente no recinto confortável. Lísias não me deu tempo a indagações. na claridade do Sol confortador. árvores frondosas ofereciam sombra amiga. visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte. Lísias explicou: . à maneira de pousos deliciosos. esclareceu: . Trata-se de um dos locais prediletos para as excursões dos amantes. porque só depois de quarenta minutos.60 NOSSO LAR firmei minhas suposições. embalsamava o vento fresco de inebriante perfume. mas tão cristalina que parecia tonalizada em matiz celeste. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distância não era pequena.

abaixo dos serviços da Regeneração.Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer a importância da água. sabemos que a água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer natureza. é lógico que todo serviço criado precisa de energias e braços para ser convenientemente mantido.elucidou Lísias . rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra.A que Ministério está afeto o serviço de distribuição? .perguntei. Ora.que este é um dos raros serviços materiais do Ministério da União Divina! .Ali é o grande reservatório da colônia. Em seguida. aprendemos a agradecer ao Pai e aos seus divinos colaboradores semelhante dádiva. interroguei: .Imagine . e voltam a constituir o rio. Há repartições no Ministério do Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de água pura.Que diz? . ignorando como conciliar uma e outra coisa. Percebendo-me a indagação íntima. Todo o volume do Rio Azul. que prossegue o curso normal. Nos círculos religiosos do planeta. pura. ensinam que o Senhor criou as águas. Muito mais tênue. As águas que servem a todas as atividades da colônia partem daqui. Aqui. quase fluídica. Conhecendo-a mais intimamente. Nesta cidade espiritual. reúnem-se novamente. Notando as magníficas construções que me fronteavam. O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro: . com certos princípios suscetíveis de serem captados na . a água aqui tem outra densidade. Em "Nosso Lar". outros são os conhecimentos.61 NOSSO LAR . que temos à vista. ela é empregada sobretudo como alimento e remédio. é absorvido em caixas imensas de distribuição. acrescentou: . contudo.Com efeito.

no ponto longínquo. absorve. jamais recebi elucidações desta natureza.O homem é desatento. Acontece. absorvendo amarguras. as características mentais de seus moradores. com a pureza imprescindível. meu amigo. a chuva dá-lhe o pão. mas também as expressões de nossa vida mental. contudo. ódios e ansiedades dos . o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico. a fim de que sirvam a todos os habitantes de "Nosso Lar". antes de qualquer consideração. há muitos séculos . não somente carreia os resíduos dos corpos. Na maioria das regiões da extensa colônia. a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço. como fluido criador. que a água. que só os Ministros da União Divina são detentores do maior padrão de Espiritualidade Superior. o mar equilibra-lhe a moradia planetária. quando em movimento. Eu estava embevecido com as explicações. A água. Será nociva nas mãos perversas. encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor. cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul. Compreenderá.No planeta . então.objetei -. Virá tempo. entretanto.tornou Lísias -. Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os institutos realizam trabalhos específicos. o rio organiza-lhe a cidade. ausenta-se o rio de nossa zona.62 NOSSO LAR luz do Sol e no magnetismo espiritual. conduzindo em seu seio nossas qualidades espirituais. no suprimento de substâncias alimentares e curativas. o sistema de alimentação tem aí suas bases. ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo. Quando os diversos fios da corrente se reúnem de novo. no mundo. mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina. útil nas mãos generosas e. sua corrente não só espalhará bênção de vida. entre nós. em que copiará nossos serviços. . . oposto a este bosque. esquecendo que é filho do Altíssimo. porém. em cada lar.

Calou-se o interlocutor em atitude reverente. . enquanto meus olhos fixavam a corrente tranqüila a despertar-me sublimes pensamentos.63 NOSSO LAR homens. lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.

Clarêncio tem poderes para obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência. sentia-me quase à vontade.Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nossos serviços . Interessado em resolvê-las. mas obrigações imperiosas chamavam-no ao posto. quando possível. que não se fez esperar. Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão detalhada de um só deles. Esfervilhava-me o cérebro de úteis indagações.exclamou bondosamente -' pois. aproveitei o minuto para valer-me do companheiro. porém. Agora.64 11 NOTÍCIAS DO PLANO Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observações diferentes. nos diversos bairros da colônia. A experiência anterior fizera-me benefícios enormes. Não lhe faltará oportunidade. . os Ministérios do "Nosso Lar" são enormes células de trabalho ativo. A presença de muitos passageiros não me constrangia. . Ainda que me não seja possível acompanhá-lo. Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus. conforme vê.

poderá informar-me se todas as colônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos. mas substituíram a palavra departamento por Ministério. Aqui. conseguiram elevação. outros agrupamentos buscam o nosso concurso para outras colônias em formação.De modo algum. tal como na Terra. com exceção dos serviços regeneradores. somente com o Governador atual. apresenta particularidades essenciais. os missionários da criação de "Nosso Lar" visitaram os serviços de "Alvorada Nova". Todas as experiências de grupo diversificam-se entre si e "Nosso Lar" constitui uma experiência coletiva dessa natureza. Se nas esferas materiais. como cada entidade.Muito bem! . . .Lísias. as mesmas características? . mas importa considerar que cada colônia. que.acrescentei. Cada organização. as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pela grandeza dos fins que devem atingir. Segundo nossos arquivos.perguntei -. cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares. imagine a multiplicidade de condições em nossos planos.Partiu daqui a interessante formação de Ministérios? . interroguei: . uma das colônias espirituais mais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram a divisão por departamentos. permanece em degraus diferentes na grande ascensão. amigo . todavia. muitas vezes os que nos antecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegados trabalhadores de outras esferas. Adotaram o processo. como definição de espiritualidade.Sim. considerando que a organização em Ministérios é mais expressiva.65 NOSSO LAR . Assim procederam. em compensação. Observando que o intervalo se fazia mais longo.

As tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas. Já não estamos na esfera do globo. A Governado- . as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal. a fim de se prepararem.Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbral se revelam aptos a receber cooperação fraterna.E não é tudo . com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio. Nenhuma condição de destaque é concedida aqui a título de favor. atencioso -. Vivemos em circulo de demonstrações ativas. decorrido longo estágio de serviço e aprendizado. porém. onde o desencarnado é promovido compulsoriamente a fantasma. Comunicação e Esclarecimento. se mostram refratários. com eficiência. E não suponha que os testemunhos sejam vagas expressões de atividade idealista. os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos. são encaminhados ao Ministério da Regeneração. para futuras tarefas planetárias. Se revelam proveito.prosseguiu o enfermeiro. no curso de dez anos. todos nós. justamente curioso. Somente alguns conseguem atividade prolongada no Ministério da Elevação. voltamos a reencarnar. quando. os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos. para atividades de aperfeiçoamento. Lísias continuava: . no que concerne à ordem e à hierarquia. Somente quatro entidades conseguiram ingressar.66 NOSSO LAR . demoram no Ministério do Auxílio. com responsabilidade definida. no Ministério da União Divina. Em geral. os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual. e raríssimos. a instituição é eminentemente rigorosa. em cada dez anos. Enquanto eu ouvia essas informações. o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação. os que alcançam intimidade nos trabalhos da União Divina.

Lísias explicou fraternalmente: . Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital. o de alimentação. belas melodias atravessando o ar. por sua vez. em verdade. para cooperar com os Ministros da Regeneração. Após consecutivas observações. que representa a zona de "Nosso Lar" onde há maior número de perturbações. mas a lei do trabalho é também rigorosamente cumprida.interroguei. as tardes de domingo. No que concerne ao repouso. A não ser em obediência a esse imperativo. pois. nesse terreno.67 NOSSO LAR ria. Nesse mister. Aqui. ouviam-se. . transporte e outros. como. trânsito. distribuição de energias elétricas. onde me aguardava o aposento confortador. amparando a desorientados e sofredores. para que determinados servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros.Somente nas ocasiões que o bem público o exige. Numerosas multidões de espíritos desviados ali se encontram recolhidas. é sede movimentada de todos os assuntos administrativos. reconheceu a Governadoria que a música . que nunca aproveita o que lhe toca. o Governador vai semanalmente ao Ministério da Regeneração. a lei do descanso é rigorosamente observada. por exemplo. Aproveita ele. depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria. numerosos serviços de controle direto. atendendo-lhes os difíceis problemas de trabalho. nunca se ausenta ele do palácio? . Em plena via pública.Mas. priva-se. . tal qual observara à saída.Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de "Nosso Lar". às vezes. de alegrias sagradas. dada a sintonia de muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral. Notando-me a expressão indagadora. a única exceção é o próprio Governador.

repleto de indagações íntimas. ninguém trabalha em "Nosso Lar". em todos os setores de esforço construtivo. Nesse ínterim. O companheiro afastou-se. porém. Atencioso enfermeiro adiantou-se e notificou: .Irmão Lísias. . enquanto eu me recolhia ao aposento particular. sem esse estimulo de alegria. Desde então.68 NOSSO LAR intensifica o rendimento do serviço. chamam-no ao pavilhão da direita para serviço urgente. calmo. chegáramos à Portaria.

solícito .Ora. A ausência de preparação religiosa. experimentando arrepios de horror.O Umbral .69 12 O UMBRAL Após receber tão valiosas elucidações. Desse Umbral. e replicou: . atencioso. obedecendo a preceitos protocolares.começa na crosta terrestre. minhas perguntas não se fizeram esperar. Ao primeiro encontro com o generoso visitador. a idéia do inferno e do purgatório. Lísias ouviu-me. É a zona obscura de quantos no mun- . aguçava-se-me o desejo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diversos problemas que a palavra de Lísias sugeria. As referências a espíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade. dá motivo a dolorosas perturbações. Que seria o Umbral? Conhecia. pois você andou detido por lá tanto tempo e não conhece a região? Recordei os sofrimentos passados. no mundo. nunca tivera notícias. ora. porém. através dos sermões ouvidos nas cerimônias católico-romanas a que assistira. .continuou ele. apenas.

demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos. Pois bem: todas as multidões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas. se ao voltarmos ao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade. tenha essa bênção indefinidamente adiada. que o homem esquivo à obrigação justa. nas experiências anteriores. com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais.Imagine que cada um de nós. ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem. Mas. para só procurar o que lhe satisfaça ao egoísmo. que se seguem aos fluidos carnais. para lavar no tanque da vida humana. portanto. Quando o espírito reencarna. Essa roupa imunda é o corpo causal. contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão. como região destinada a esgotamen- . porém. a fim de cumpri-los. promete cumprir o programa de serviços do Pai. renascendo no planeta. Tudo o que excede. sem aproveitamento. portanto. manchamo-nos ainda mais. pelo desacordo de nossa situação com o meio elevado. É natural. é muito difícil fazê-lo. como regressar a esse mesmo ambiente luminoso. entretanto. nem o ódio é justiça. Ora. Assim é que mantidos são o mesmo ódio aos adversários e a mesma paixão pelos amigos. em piores condições? O Umbral funciona. esquecemos.70 NOSSO LAR do não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados. o objetivo essencial. somos portadores de um fato sujo. Compartilhando. nem a paixão é amor. Lísias procurou tornar a lição mais clara: . rumo ao continente sagrado da união com o Senhor. de novo. prejudica a economia da vida. e. tecido por nossas mãos. as bênçãos da oportunidade terrestre. O dever cumprido é uma porta que atravessamos no Infinito. ao recapitular experiências no planeta. Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento.

onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado. que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa. portanto. Formam. E note você que a Providência Divina agiu sabiamente. essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhas edificações. e. agrupam-se. permitindo se criasse tal departamento em torno do planeta. Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes. tudo o que não tem finalidade para a vida superior. Lísias continuou: . "Nosso Lar" tem uma sociedade espiritual. que semelhantes lugares se caracterizem por grandes perturbações. Muita gente da Terra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem. núcleos invisíveis de notável poder.71 NOSSO LAR to de resíduos mentais. sentindo que a coroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalham com o Pai. uma espécie de zona purgatorial. mais convincente. pela concentração das tendências e desejos gerais. igualmente.O Umbral é região de profundo interesse para quem esteja na Terra. quando o comboio não aparece? Pois o Umbral está repleto de desesperados. após a morte do corpo físico. os revoltados de toda espécie. Representam fileiras de habitantes do Umbral. Concentra-se. Por não encontrarem o Senhor à disposição dos seus caprichos. A imagem não podia ser mais clara. mas esses núcleos possuem infeli- . Não é de estranhar. separados deles apenas por leis vibratórias. menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena. Lá vivem. Não havia como disfarçar minha justa admiração. aí. companheiros imediatos dos homens encarnados. nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação. Compreendendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos.

é um núcleo irradiante de forças que criam. malfeitores e vagabundos de várias categorias. que essa esfera se mistura quase com a esfera dos homens. Quem pensa. porém.Sim . esclarecendo: . que se segue à humanidade visível. meu amigo. de exploradores e explorados. É zona de verdugos e vítimas. exclamei. . As missões mais laboriosas do Ministério do Au- .Como explicar? Então não há por lá defesa. Cada espírito lá permanece o tempo que se faça necessário. . porque. Toda alma é um ímã poderoso. em verdade. Que quer você? A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão.Organização é atributo dos espíritos organizados. então . organização? Sorriu o interlocutor. esteja onde estiver. impressionado: .72 NOSSO LAR zes. exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender.observei -. Valendo-me da pausa. e é nessa zona que se estendem os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamento dos encarnados. que se fizera espontânea. E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um. consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual. Há uma extensa humanidade invisível.Creio. permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias como esta. está fazendo alguma coisa alhures. nunca faltou lá a proteção divina.confirmou o dedicado amigo -. todo espírito.não obstante as sombras e angústias do Umbral. o agricultor que não semeou não pode colher. Para isso. Uma certeza. O viajante distraído perde o comboio. transformam ou destroem. posso darlhe: .

73 NOSSO LAR xílio são constituídas por abnegados servidores. exclamei: .Ah! como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes. Sumamente impressionado. É necessário muita coragem e muita renúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que se lhe oferece. e. Interrompera-se Lísias. no Umbral. na prática do mal. sem cessar. os missionários do Umbral encontram fluidos pesadíssimos emitidos. por largos instantes. acentuou. por milhares de mentes desequilibradas. ou terrivelmente flageladas nos sofrimentos retificadores. pelas labaredas e ondas de fumo que os defrontam. porque se a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades terrenas é difícil.Será que você se sente com o preparo indispensável a semelhante serviço? . depois de meditar em silêncio. levandolhes o pão espiritual do esclarecimento! O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente. ao despedir-se: .

como vigoroso agricultor em pleno campo. Cercado de enfermos. não me era lícita nem mesmo a função de enfermeiro e colaborador nos casos de socorro urgente. Ouvindo gemidos incessantes nos apartamentos contíguos. Agora. No planeta. o médico e o pesquisador. sentindo um certo "vazio" no coração. sabia que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos títulos conquistados. como noutros tempos. a me- . que muitas falhas me assinalavam o caminho. naquele ambiente novo. porém. recordava os quinze anos de clínica. mas. contudo. era assaz humilde para me atrever. Claro que não me faltava desejo. Minha posição ali. surgia a necessidade de movimentação e trabalho. Decorrido tanto tempo. no mundo.74 13 NO GABINETE DO MINISTRO Com as melhoras crescentes. de mãos atadas e impossibilitado de atacar o trabalho. reunindo em mim o amigo. Os médicos espirituais eram detentores de técnica diferente. Incontestável que havia perdido excelentes oportunidades na Terra. Identificavame a mim mesmo. volvia-me o interesse pelos afazeres que enchem o dia útil de todo homem normal. esgotados anos difíceis de luta. não podia aproximar-me.

tinha conhecimentos e possibilidades muito superiores à minha ciência. Qualquer enfermeiro. em "Nosso Lar". Impressionou-me tal processo de audiência. a meu ver. procurei o local indicado. minha surpresa vendo que três pessoas lá estavam aguardando Clarêncio.Por que não pedir o socorro de Clarêncio? Atendê-lo-á por certo. Peça-lhe conselhos. esclareceu: . Ele pergunta sempre por sua pessoa e tudo fará a seu favor. fui informado de que o generoso benfeitor somente poderia atender na manhã seguinte. dos mais simples. exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal. as providências. portanto. mais tarde. dois a dois. qualquer tentativa de trabalho espontâneo. invasão de seara alheia.75 NOSSO LAR dicina começava no coração. que ele aproveitava esse método para que os pareceres fornecidos a qualquer interessado servissem igualmente a outros. contudo. Qual não foi. Terminado o serviço urgente. muito cedo. Iniciando. Animou-me grande esperança. no gabinete particular. por constituir. Soube. porém. No dia imediato. porém. Esperei ansioso o momento oportuno. Consultaria o Ministro do Auxílio. . Lísias era o amigo indicado às minhas confidências de irmão. em identidade de circunstâncias! O delicado Ministro do Auxílio chegara muito antes de nós e atendia a assuntos mais importantes que a recepção de visitas e solicitações. Interpelado. ganhando tempo e proveito. Inexeqüível. começou a chamar-nos. No apuro de tais dificuldades. assim atendendo a necessidades de ordem geral.

76 NOSSO LAR Decorridos muitos minutos, chegou-me a vez. Penetrei no gabinete em companhia de uma senhora idosa, que seria ouvida em primeiro lugar, por ordem de precedência. O Ministro recebeunos, cordial, deixando-nos à vontade para discorrer. - Nobre Clarêncio - começou a companheira desconhecida -, venho pedir seus bons ofícios a favor de meus dois filhos. Ah! já não tolero tantas saudades e estou informada de que ambos vivem exaustos e sobrecarregados de infortúnios, no ambiente terrestre. Reconheço que os desígnios do Pai são justos e amorosos; no entanto, sou mãe! Não consigo subtrair-me ao peso da angústia!... E a pobre criatura se desfez, ali mesmo, em copioso pranto. O Ministro, dirigindo-lhe um olhar de fraternidade, embora conservando intacta a energia pessoal, respondeu, bondoso: - Mas, se a irmã reconhece que os desígnios do Pai são justos e santos, que me cabe fazer? - Desejava - replicou, aflita - que me concedesse recursos para protegê-los eu mesma, nas esferas do globo!... - Ah! minha amiga - disse o benfeitor amorável -' só no espírito de humildade e de trabalho é possível a nós outros proteger alguém. Que me diz de um pai terrestre que desejasse ajudar os filhinhos, mantendo-se em absoluta quietação no conforto do lar? O Pai criou o serviço e a cooperação como leis que ninguém pode trair sem prejuízo próprio. Nada lhe diz a consciência, neste sentido? Quantos bônus-hora (1) poderá apresentar em benefício de sua pretensão?
__________ (1) Ponto relativo a cada hora de serviço.

(Nota do Autor espiritual.)

77 NOSSO LAR A interpelada respondeu, hesitante: - Trezentos e quatro. - É de lamentar - elucidou Clarêncio, sorrindo -, pois aqui se hospeda, há mais de seis anos, e apenas deu à colônia, até hoje, trezentos e quatro horas de trabalho. Entretanto, logo que se restabeleceu das lutas sofridas em região inferior, ofereci-lhe atividade louvável na Turma de vigilância, do Ministério da Comunicação... - Mas aquilo por lá era serviço intolerável - atalhou a interlocutora -, uma luta incessante contra entidades malfazejas. Era natural que não me adaptasse. Clarêncio continuou, imperturbável: - Coloquei-a, depois, entre os Irmãos da Suportação, nas tarefas regeneradoras. - Pior! - exclamou a senhora - aqueles apartamentos andam repletos de pessoas imundas. Palavrões, indecências, miséria. - Reconhecendo suas dificuldades - esclareceu o Ministro -, enviei-a a cooperar na Enfermagem dos Perturbados. - Mas quem os tolerará, senão os santos? - inquiriu a pedinte rebelde fiz o possível; entretanto, aquela multidão de almas desviadas assombra a qualquer! - Não ficaram aí meus esforços - replicou o benfeitor sem se perturbar -, localizei-a nos Gabinetes de Investigações e Pesquisas do Ministério do Esclarecimento e, contudo, talvez enfadada com as minhas providências, a irmã se recolheu, deliberadamente, aos Campos de Repouso. - Era, também, impossível continuar ali - disse a impertinente -, só encontrei experiências exaustivas, fluidos estranhos, chefes ásperos.

78 NOSSO LAR - Pois note, minha amiga - esclareceu o devotado e seguro orientador , o trabalho e a humildade são as duas margens do caminho do auxílio. Para ajudarmos alguém, precisamos de irmãos que se façam cooperadores, amigos, protetores e servos nossos. Antes de amparar os que amamos, é indispensável estabelecer correntes de simpatia. Sem a cooperação é impossível atender com eficiência. O camponês que cultiva a terra alcança a gratidão dos que saboreiam os frutos. O operário que entende os chefes exigentes, executando-lhes as determinações, representa o sustentáculo do lar, em que o Senhor o colocou. O servidor que obedece, construindo, conquista os superiores, companheiros e interessados no serviço. E nenhum administrador intermediário poderá ser útil aos que ama, se não souber servir e obedecer nobremente. Fira-se o coração, experimente-se a dificuldade, mas, que saiba cada qual que o serviço útil pertence, acima de tudo, ao Doador Universal. Depois de pequena pausa, continuou: - Que fará, pois, na Terra se não aprendeu ainda a suportar coisa alguma? Não duvido da sua dedicação aos filhos queridos, mas importa notar que haveria de comparecer por lá, como mãe paralítica, incapaz de prestar socorro justo. Para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados, faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado, por nossa vez. Os que não cooperam não recebem cooperação. Isso é da lei eterna. E se minha irmã nada acumulou de seu para dar, é justo que procure a contribuição amorosa dos outros. Mas, como receber a colaboração imprescindível, se ainda não semeou, nem mesmo a simples simpatia? Volte aos Campos de Repouso, onde se abrigou ultimamente, e reflita. Examinaremos depois o assunto com a devida atenção.

79 NOSSO LAR Sentou-se a mãe inquieta, enxugando lágrimas copiosas. Em seguida, o Ministro fitou-me compassivamente e falou: - Aproxime-se, meu amigo! Levantei-me, hesitante, para conversar.

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14

ELUCIDAÇÕES DE CLARÊNCIO
Pulsava-me precipite o coração, fazendo-me lembrar o aprendiz bisonho, diante de examinadores rigorosos. Vendo aquela mulher em lágrimas e ponderando a energia serena do Ministro do Auxílio, tremia dentro de mim mesmo, arrependido de haver provocado aquela audiência. Não seria melhor calar, aprendendo a esperar deliberações superiores? Não seria presunção descabida pedir atribuições de médico naquela casa, onde permanecia como enfermo? A sinceridade de Clarêncio, para com a irmã que me antecedera, despertara-me raciocínios novos. Quis desistir, renunciar ao desejo da véspera e voltar ao aposento, mas, era impossível. O Ministro do Auxílio, como se adivinhasse meus propósitos mais íntimos, exclamou em tom firme: - Pronto a ouvi-lo. Ia solicitar instintivamente qualquer serviço médico em "Nosso Lar", embora a indecisão que me dominava; entretanto, a consciência me advertia: Por que referir-se a serviço especializado? Não seria repetir os erros humanos, dentro dos quais a vaidade não tolera outro gênero de atividade senão o correspondente aos preconcei-

Até aí. as palavras dele eram jatos de conforto e esperança. mas.Tomei a liberdade de vir até aqui.81 NOSSO LAR tos dos títulos nobiliárquicos. Enquanto moço e sadio. não teve sequer as dificuldades do médico pobre. generosos. compelido a mobilizar relações afetivas para fazer clínica. Você foi médico na Terra. Nunca soube o preço de um livro. Bastante confundido. porque seus pais. sente falta dos seus clientes. da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra. Ando saudoso dos meus misteres. que eu recebia no coração. Qualquer trabalho útil me interessa.Já sei. cometeu numerosos abusos. .Convém notar. Prosperou tão rapidamente que transformou facilidades conquistadas em carreira para a morte prematura do corpo. no capítulo dos estudos. agora que a generosidade do "Nosso Lar" me reconduziu à bênção da harmonia orgânica. ou acadêmicos? Esta idéia equilibrava-me a tempo. com gestos confirmativos. que às vezes o Pai nos honra com a Sua confiança e nós desvirtuamos os verdadeiros títulos de serviço. Logo depois de graduado. do seu gabinete. desde que me afaste da inação. Depois de uma pausa mais longa. cercado de todas as facilidades. como a identificar-me as intenções mais íntimas. dentro do quadro de trabalho a que Jesus o conduziu. todavia. Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa. o Ministro prosseguiu: . rogar seus bons ofícios para que me reintegre no trabalho. falei: . lhe custeavam todas as despesas. . Clarêncio fitou-me longamente. no fundo. começou a receber proventos compensadores. porém.

no campo das profissões.disse Clarêncio sem austeridade -. . prefere apenas a conclusão matemática diante dos serviços de anatomia. Tal princípio é aplicável a todas as atividades terrestres. são . no quadro de Seus divinos serviços no planeta. no mundo. Como reconhece agora. é preciso convir que toda tarefa na Terra. Muitos profissionais da Medicina. estranha perturbação apossara-se de mim. o medico não pode estacionar em diagnósticos e terminologias. no planeta. Respeitosamente. é simplesmente uma ficha. Como transformá-lo. não se verificou em normas que me autorizem a endossar seus atuais desejos. mas. quando fez questão de circunscrever observações exclusivamente à esfera do corpo físico? Não nego sua capacidade de excelente fisiologista. Com essa ficha.82 NOSSO LAR Ante aquele olhar firme e bondoso ao mesmo tempo. em médico de espíritos enfermos. mas sua ação. Concordemos que a Matemática é respeitável. é convite do Pai para que o homem penetre os templos divinos do trabalho.Reconheço a procedência das observações. mas não é a única ciência do Universo. sondar-lhe as profundezas. mas o campo da vida é muito extenso. ponderei: . Há que penetrar a alma. se possível. na Terra. contudo. consagrando-me sinceramente aos enfermos deste parque hospitalar. estimaria obter meios de resgatar meus débitos. Meu irmão recebeu uma ficha de médico. de um momento para outro. para nós. Que me diz de um botânico que alinhasse definições apenas com o exame das cascas secas de algumas árvores? Grande número de médicos. mas. Penetrou o templo da Medicina. excluída a convenção dos setores nos quais se desdobrem.Impulso muito nobre . O título. costuma representar uma porta aberta a todos os disparates. o homem fica habilitado a aprender nobremente e a servir ao Senhor. lá dentro.

Raros conseguem atravessar o pântano dos interesses inferiores. que examinei atentamente.perguntei.Sim . no coração dos quais você plantou a semente da simpatia. a seu favor. entretanto. .esclareceu o Ministro -. . não possuo apenas verdades amargas. respondeu: . reduzido à ficha de ingresso em zonas de trabalho para cooperação ativa com o Senhor Supremo. Sua posição atual não é das melhores. pedi. Muita imprevidência.atrevi-me a dizer -.Generoso benfeitor . inebriado de alegria. E. Incapaz de intervir.Submeto-me a qualquer trabalho.continuou ele -. porque a vaidade lhes roubou a chave do cárcere. oportunamente. pedi ao Ministério do Esclarecimento providenciasse a obtenção de suas notas. Com um profundo olhar de simpatia. para essas exceções. mas poderá assumir o cargo de aprendiz. compreendo a lição e curvome à evidência. pelas intercessões chegadas ao Ministério do Auxílio.83 NOSSO LAR prisioneiros das salas acadêmicas. aguardei que o Ministro do Auxílio retomasse o fio das elucidações. nesta colônia de realização e paz.Conforme deduz . é confortadora. . Não conhecia tais noções de responsabilidade profissional. sobrepor-se a preconceitos comuns e.Meu amigo. . Não pode ainda ser médico em "Nosso Lar". Logo após sua vinda. sua mãe e outros amigos. Assombrava-me a interpretação do título acadêmico. Tenho igualmente a palavra de estímulo. Fiquei atônito. reservam-se as zombarias do mundo e o escárnio dos companheiros. fazendo esforço por conter as lágrimas.Minha mãe? . não se preparou convenientemente para os nossos serviços aqui. humilde: . .

a sorrir. preparando-se para o futuro infinito. praticou esses atos meritórios. Desses beneficiados. semelhante júbilo? Por vezes. é preciso se cale o coração no grandiloqüente silêncio divino.Aprenderá lições novas em "Nosso Lar" e. o verdadeiro bem espalha bênçãos em nossos caminhos. até aqui. Concluindo. na Terra. Sentia-me radiante. cooperará eficientemente conosco. Oh! Quem poderá entender. mesmo por troça. no entanto. mas. Devo esclarecer. mas. quinze não o esqueceram e têm enviado. nos quinze anos de sua clínica. Na maioria das vezes. que mesmo o bem que proporcionou aos indiferentes surge aqui a seu favor. depois de experiências úteis. Pela primeira vez. as elucidações surpreendentes. também proporcionou receituário gratuito a mais de seis mil necessitados. pode verificar que. absolutamente por troça.84 NOSSO LAR numerosos abusos e muita irreflexão. chorei de alegria na colônia. veementes apelos a seu favor. Clarêncio acentuou: . presentemente. .

porém. Considerando as oportunidades perdidas. é que tal propósito não . Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida. em hipótese alguma. A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos. grande ansiedade de rever o lar terreno. lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado. Adivinhavam-me os pensamentos. mas. poderia ser levada à conta de brincadeira. Abstinha-me. Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo.85 15 A VISITA MATERNA Atento às recomendações de Clarêncio. Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza. Em verdade. procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado. talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas. Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências. de pedir novas concessões. Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo. Noutro tempo. evidenciando grandezas até então ignoradas. reconhecia não merecer a hospitalidade de "Nosso Lar". apenas agora reconhecia que a experiência humana. No íntimo. naquelas circunstâncias.

exclamando: . Não desperdices energias. querido meu! Não posso dizer o que se passou então. Senti-me criança. . misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas. pela consciência profunda.respondi. não me enganavam. resignado e algo triste. confiante.Vamos. apertei-a nos braços. conduzindo-me ao divã. o bondoso visitador penetrou. nos derradeiros tempos de sua romagem por lá. Um dia. chorando de júbilo. então. na areia do jardim. no meu apartamento. porém. Calava-me. não te emociones tanto assim! A alegria também.Filho! meu filho! Vem a mim.Minha mãe! . e não sei quanto tempo estivemos juntos.Adivinhe quem chegou à sua procura! Aquela fisionomia alegre. contudo. quando excessiva. nessa fase de recolhimento inexprimível. experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual. como fazia na Terra. radiante. . aqueles olhos brilhantes de Lísias. Abraceime a ela carinhoso. recomendando: . em que o homem é chamado para dentro de si mesmo. abraçados. Afinal.Estás ainda fraco. foi ela quem me despertou do enlevo.86 NOSSO LAR seria oportuno. Beijei-a repetidas vezes. filho. . Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores. filhinho. como no tempo em que brincava à chuva. Olhos arregalados de alegria. . foi ela quem me enxugou o pranto copioso. Eu estava. E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços. vi minha mãe entrar de braços estendidos. pés descalços. costuma castigar o coração.

ajeitou-me a fronte cansada. sem conseguir articular uma frase. A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração. observações fraternais de Lísias. Copiando antigas exi- . Identificando-lhe a ternura de todos os tempos.Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas. O Pai jamais nos esquece. porém. as meias de lã. a Providência separa os corações. afagando-me de leve. Às vezes. Que longo tempo de separação! Não julgues. todavia. aureolada a fios de neve.87 NOSSO LAR Sentei-me a seu lado e ela. o olhar doce e calmo de todos os dias. confortando-me à luz de santas recordações. cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros. as rugas do rosto. em seus joelhos. Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro. mais forte que eu. Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia. senti que se me reavivavam as chagas terrenas. o mais venturoso dos homens. a mantilha azul. cuidadosamente. fixava-lhe as vestes. como que se reabriam velhas feridas. mas. ao carinho maternal. falou com serenidade: . contemplei a cabeça pequenina. Senti-me. Minha mãe. temporariamente. Notando-lhe o vestido escuro. Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos. que me houvesse esquecido. e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina. Aqueles minutos davam-me a idéia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível. para que aprendamos o amor divino. acariciava-lhe as mãos queridas. meu filho. relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres. Mãos trêmulas de contentamento. Qual menino que procura detalhes. para renunciar às lamentações. Oh! como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra! Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos! Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio. então.

ao Senhor.88 NOSSO LAR gências. filho meu. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos. porém. Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos. carinhosa: . Também eu trabalho. pois. a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. é indispensável atender. qual se foras a melhor criatura do Universo. Minha mãe ouviu-me calada. Sintamo-nos agora numa escola diferente. Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação. Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne. descambei para o terreno das confidências dolorosas. Quero dar razão aos teus lamentos. reajustando o coração. mas essa atitude. portanto. Olhos úmidos. ou pelas feridas que sangram em nós. Nossa dor. Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minhalma. nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados. presentemente. não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou. Na posição de mãe terrestre. aqui. não se coaduna com as novas lições da vida. Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder. nem sempre consegui orientar-te como convinha. deixando transparecer inexprimível melancolia. antes de tudo. Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros. no conceito dos filhos. as mães não passam de escravas. erigir-te um trono. Na Terra. não nos edifica pelos prantos que vertemos. concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim. aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração. Na mesma falsa concepção de outros tempos.Oh! filho. Não te queixes. . falou. quase sempre. onde aprendemos a ser filhos do Senhor. mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito.

mas não posso retroceder nas minhas experiências. respeitoso. em que a consciência profunda me advertia solene. minha mãe prosseguiu: . Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno vitalizando-me o coração. e beijei-a na fronte. com o grande e sagrado amor divino. e trabalhemos incessantemente. agora.89 NOSSO LAR Depois de longa pausa. Amemonos. sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca. Aquelas palavras benditas me despertaram.Se é possível aproveitar estes minutos rápidos. Ergui-me. em expansões de amor. por que desviá-los para a sombra das lamentações? Regozijemo-nos. Modifica a atitude mental. . experimento sublime felicidade em tua ternura filial. filho. Confortame tua confiança em meu carinho. Minha mãe me contemplava desvanecida. mostrando belo sorriso.

A esfera elevada. Sentia-me outro. Devo fazer-te sentir. mais alegre. mais trabalho. Desde que voltei da Terra. Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo.Oh! minha mãe! . a pretexto de muito amarem . sempre.exclamei comovido . que ventura!. meu filho. maior abnegação. Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou: . requer. a distância dos deveres justos. desencarnando. É antes revelação de responsabilidade necessária. levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes. permanecem agarradas ao lar terrestre. . Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas. na situação em que me encontro. Muitas entidades.deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação! Que sublimes contemplações espirituais. que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza. tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual. reorganizando-me as energias interiores.90 16 CONFIDÊNCIAS Consolou-me a palavra maternal. Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito. animado e feliz. no entanto.

E meu pai? . portanto. restringira o padrão vibratório. todavia... Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas. fora do nosso lar. Há doze anos que está numa zona de trevas compactas. . no fundo. não percebeu minha presença espiritual. nem a assistência desvelada de outros amigos nossos. era fraco e mantinha ligações clandestinas. Ensinaram-me aqui. Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito.onde está? Por que não veio com a senhora? Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu: . procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos. arraigado ao cavalheirismo do alto comércio. mas. De algum modo. pela mente e pelo coração. Desde minha vinda. em matéria religiosa. novamente enredado na sombra. que o verdadeiro amor. repelindo as tentações. prendendo-o de novo nas teias da ilusão. A princípio.91 NOSSO LAR os que demoram no mundo carnal. esforçando-se por encontrar-me. viciara a visão espiritual. ele quis reagir. porque as desventuradas criaturas. Tendo gasto muitos anos a fingir. Laerte. a passagem no Umbral lhe foi muito amarga. Na Terra.perguntei . e. sempre nos parecera fiel às tradições da família. tão logo desencarnou o meu pobre Laerte. e o resultado foi achar-se tão-só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente. para transbordar em benefícios. por falta de perseverança no bom e reto pensamento. mas caiu afinal. a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência. . então. precisa trabalhar sempre. no Umbral. aguardavam-no ansiosas. mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente.Ah! teu pai! teu pai!. a quem fizera muitas promessas. e ao fervor do culto externo. lutou.

Venho trabalhando intensamente.elucidou a palavra materna -. de ti e das irmãs. eu o visito freqüentemente. entre a indiferença e a revolta. inclusive aqui em "Nosso Lar". em benefício de teu pai. mas debalde. não me percebe. depois de lutar corajosa. mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento. meios de subtrai-lo a tais abjeções? . foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena. .. Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa. pela inspiração. para que possamos desdobrar atividades no bem. Certa vez. Seu potencial vibratório é ainda muito baixo. contudo. de atividade espiritual mais elevada. tão grande é a perturbação dos nossos familiares. num gesto heróico de sublime renúncia. Luísa esperou-me aqui muitos anos.. Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos. continuando: . Tento atraí-lo ao bom caminho. anos a fio. aquela que partiu quando eras pequenino. Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio. porém.92 NOSSO LAR Muitíssimo impressionado. ainda na Terra. Precisamos da adesão mental de Laerte. retiram-no às minhas sugestões. As infelizes. No entanto. pois. suspirou.Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral. Depois de longa pausa. Ele. agarradas á crosta da Terra. sem obter resoluções sérias.Ah! meu filho . de quando em quando. porém. Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração. das quais se tornou prisioneiro. perguntei: . Espero. que te restabeleças breve. para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual. que voltou a semana passada. a fim de reencarnar entre eles. a meu lado.Não há. Sou compelida a atender às necessidades de todos. Ultimamente. o pobrezinho permanece inativo em si mesmo.

mas o olhar materno encorajava-me. para . acentuou: . Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado. Aproveitando o minuto que corria célere. igualmente. Oh! minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles! Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação!. porém. entretanto. Espantou-me a grande manifestação de renúncia. depois de meditar alguns instantes. Que espécie de lutas seriam as dele? Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos. Pensei subitamente em minha família direta. em primeiro lugar. ansioso. interroguei: .A senhora. não comungava todos os domingos? Enlevado com a dedicação maternal.. e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração. Perante Clarêncio e Lísias.Não as classifiques assim .ponderou minha mãe -' dize. a fim de auxiliá-los.Tenho visitado meus netos periodicamente. Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos. mas por elas também. nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças? Aguardo. São filhas de nosso Pai. Não tenho feito intercessões apenas por Laerte. auxilia o papai. nossas irmãs doentes. inquietar-te com o problema de auxílio à família. o instante de voltar a casa.. que tem acompanhado o papai devotadamente. deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações. ignorantes ou infelizes.93 NOSSO LAR Assombravam-me as informações referentes a meu pai. Vão bem. E. Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou: .A senhora. não obstante a ligação dele com essas mulheres infames? .Não deves. meu filho. perguntei: . antes. Prepara-te.

. Mais tarde. e disse: . mas minha mãe não reincidiu nele. delicada. antes de trabalhar na solução que elas requerem. Afagou-me então. E. Além disso. carinhosa. onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso. Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação. A palestra estendeu-se ainda longa. meu filho. beijou-me e partiu. esquivando-se. Quis insistir no assunto para colher pormenores. envolvendo-me em sublime conforto. deixando-me nalma duradoura impressão de felicidade. nos gabinetes transformatórios. Curioso por saber como vivia até ali.94 NOSSO LAR que sejamos bem sucedidos. há questões que precisamos entregar ao Senhor. preciso ainda avistarme com o Ministro Célio. ela despediu-se. em pensamento.Não venhas. pedi permissão para acompanhá-la. para agradecer a oportunidade desta visita.

e é justo. Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento. .Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar. De alguma sorte. a chamado do Ministro Clarêncio. após a inesperada visita de minha mãe. Segui-o. como irmão que devia participar da minha felicidade indizível. surpreso. aproveite o tempo observando e aprendendo. O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo. afável -. Clarêncio. Era o início de vida nova. examinarei atentamente a possibili- . Não cabia em mim de contente. que parecia perceber minha intraduzível ventura. quando Lísias me veio buscar. com exceção dos Ministérios de natureza superior. doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços.Meu amigo . acentuou: . agora. Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor. esperava-lhe as ordens com enorme prazer.95 17 EM CASA DE LÍSIAS Não se passaram muitos dias.disse. Olhei para Lísias. poderia trabalhar. naquele instante. ingressando em escolas diferentes. na semana última.

murmurando: . Ao tinido brando da campainha no interior. da Comunicação e do Esclarecimento. Decorrido esse tempo..disse-me o atencioso Ministro do Auxílio. do Auxílio.Guarde este documento .O nosso lar. enlevado de prazer. dentro de "Nosso Lar". sempre que recebemos um amigo no coração. . surgiu à porta simpática matrona. Abracei o prestativo enfermeiro. poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração. exclamando: .. entregando-me pequena caderneta -. minha mãe o trataria como filho. Passados minutos. Lísias deu-me o braço e saí.Muito bem.É aqui . Lísias! Jesus alegra-se conosco.Se possível.96 NOSSO LAR dade de sua localização em ambiente novo.exclamou o delicado companheiro. com ele.. . porém. meu caro. E. . . Fitei o visitador num transporte de alegria. .. com expressão carinhosa. sem poder traduzir meu agradecimento. cortou-lhe a palavra. Consultarei alguma de nossas instituições. também lhe endereçou um olhar de aprovação. O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado. Clarêncio. cercada de colorido jardim. enquanto perdurar o curso de observações. estimaria recebê-lo em nossa casa. A alegria às vezes nos emudece. por sua vez. acrescentou: .Mãe! Mãe!. Lísias. Não perca tempo. durante um ano. apresentando-me alegremente este é o irmão que prometi trazer-te. lá.gritou o enfermeiro. eis-nos à porta de graciosa construção. veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos. Instrua-se.

para demonstrar minha comoção e reconhecimento.Seja bem-vindo. amigo! . descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas. objetos em geral. Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade.Esta casa é sua.Como vê.Está proibido de falar em agradecimentos. E abraçando-me: . prazenteiro: . muitas frases convencionais da Terra. mamãe. Móveis quase idênticos aos terrestres. quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia? . demonstrando pequeninas variantes. mas quero apenas dizer que os harpistas existem. Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação. de repente.Que o Senhor traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz. Entramos.exclamou a senhora nobremente. carinhosa -. Quadros de sublime significação espiritual. . no ano passado. Rimo-nos todos e murmurei.Soube que sua mamãe não vive aqui. terá em mim uma irmã.. adiantou-se. e precisamos criar audição espiritual.97 NOSSO LAR . comovido: . Lísias falou. revelando singular bom humor.. com funções maternais. Identificando-me a curiosidade. adivinhando-me os pensamentos: . . mas a nobre matrona. .atalhou a palavra materna.Oh! Lísias . Ia ensaiar algumas frases. não faças ironia. um piano de notáveis proporções. Obrigar-me-ia a lembrar.Sim. Ambiente simples e acolhedor. depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas. Não o faça. Nesse caso. mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos.

esforçando-nos. cujas instalações interessantes me maravilharam. Respirava-se. cheia de ternura. em casa.98 NOSSO LAR para ouvi-los. no que concerne à literatura. Por aqui não se equilibram. com que relacionei minha procedência. Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria. demorando-me na Sala de Banho. Não pude deixar de sorrir. enquanto perseveram em semelhante estado dalma. Notando-me o interesse. que sua mãe chamava-se Laura e que. ali. Em face do tiroteio de perguntas. A hospitalidade. Iolanda exibiu-me livros maravilhosos. continuando a observar os primores da arte fotográfica. nem mesmo no Ministério da Regeneração. enlevava-me. arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção. Aquele primeiro contacto com a organização doméstica na colônia. chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa. Iolanda e Judite. os que estimam o veneno psicológico. . por nossa vez. Em seguida. a dona da casa advertiu: . nas páginas sob meus olhos. é que os escritores de má-fé. Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação.Temos em "Nosso Lar". mas confortável. no aprendizado das coisas divinas. vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro. Não voltara a mim da admiração que me empolgava. quando a senhora Laura convidou à oração. doce e reconfortante intimidade. Tudo simples. uma enorme vantagem. tinha consigo duas irmãs. são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral.

Ligado um grande aparelho. o mesmo quadro prodigioso da Governadoria. fez-se ouvir música suave. no parque hospitalar. porém. Surgiu. E vendo o coração azul desenhado ao longe. . sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria. Naquele momento.99 NOSSO LAR Sentamo-nos. Era o louvor do momento crepuscular. silenciosos. que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes. senti que minhalma se ajoelhava no templo interior. ao fundo. em torno de grande mesa. em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

não quer dizer que somente nós. não podemos prescindir dos concentrados fluídicos.ponderou uma das jovens -. mas.100 18 AMOR. que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos. não os dispensam. vivamos a depender de alimentos. Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos. os funcionários do Auxílio e da Regeneração. É necessário renovar provisões de força. ALIMENTO DAS ALMAS Terminada a oração. Há residências. porém . tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. nas zonas do Ministério do Auxílio.Afinal. nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Na Elevação o consumo de sucos e concen- . . Todos os Ministérios. ouvi a senhora Laura observar com graça: . inclusive o da União Divina. Despendemos grande quantidade de energias. que as dispensam quase por completo.Isso. Eminentemente surpreendido. diferindo apenas a feição substancial. servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas. em "Nosso Lar". chamou-nos à mesa a dona da casa.

explicando: . mais sutil o processo de alimentação.101 NOSSO LAR trados não é reduzido. mais extensamente conheceremos essa verdade. . no subsolo do planeta. como no caso dos veículos terrestres. O verme. tem no amor a base profunda. mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos. transforma-o segundo a exigência do paladar que lhe é próprio. criaturas desencarnadas. e. necessitados de colaboração da graxa e do óleo. quanto mais evolvido o ser criado. é simples problema de materialidade transitória. mesmo aqui. Lísias interveio. necessitamos de substâncias suculentas. Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura. os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável. que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual. e. Sorriam todos da minha natural perplexidade. De quando em quando. e o processo será cada vez mais delicado. Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo? Tais elucidações confortavam-me sobremaneira. O homem colhe o fruto do vegetal.Tudo se equilibra no amor infinito de Deus. a exemplo da criança sugando o seio materno.Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. Nós outros. na União Divina. em si. à medida que se intensifique a ascensão individual. Todo sistema de alimentação. e serve-se dele à mesa do lar. ansioso de explicações imediatas. apenas se nutre de amor. acentuando: . O alimento físico. nutre-se essencialmente de terra. recebemos em "Nosso Lar" grandes comissões de instrutores. Percebendo-me a satisfação íntima. O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção. A alma. propriamente considerado. Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação. tendentes à condição fluídica. nas variadas esferas da vida.

A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à . no campo da fraternidade e da simpatia. cidades e nações em obediência a imperativos tais. largamente divulgadas no mundo. nos quais todos aprenderemos. porque. O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino. Recordei instintivamente as teorias do sexo. mas. no fundo. comovido. igualmente. o gesto afetuoso. Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência.acrescentou a senhora Laura -. Aconselhava-nos. entre eles. .E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual. . a luz da compreensão.patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo . o homem e nós.É extraordinário! . a confiança mútua. reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual. que a conversação amiga. Reencarnados na Terra. mais dia menos dia. a senhora Laura sentenciou: . Formam-se lares. o verme.constituem sólidos alimentos para a vida em si. a bondade recíproca. O homem encarnado saberá. a questão dos veículos .Não se lembra do ensino evangélico do "amai-vos uns aos outros"? prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa .aduzi. o interesse fraternal . experimentamos grandes limitações. mais tarde. que a prática do bem constitui simples dever. reduzida. a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física. vilas. todavia. Entre os casais mais espiritualizados. o animal. mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito.Não esqueçamos. o carinho e a confiança. dependemos absolutamente do amor.Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão-somente os casos de caridade.102 NOSSO LAR . a nos alimentarmos uns aos outros. a realização transitória. voltando para cá. entretanto. adivinhando-me talvez os pensamentos.

.Aprendemos em "Nosso Lar" que a vida terrestre se equilibra no amor. almas irmãs. Quando. . companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento. hoje. "Nem só de pão vive o homem.Todos vocês trabalharam muito. alegria. Nosso irmão ficará em minha companhia. sem que a maior parte dos homens se aperceba. Notando a preocupação de Lísias.Como vê. apenas a compreensão. . Judite acrescentou: .objetou Lísias contente -. porém. constituem pares e grupos numerosos. às vezes. amparando-se mutuamente.103 NOSSO LAR manifestação da harmonia.disse Lísias. abraços. ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo. faltam companheiros. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música. basta a presença e.nossos irmãos Polidoro e Estácio. Almas gêmeas. Utilizaram o dia com proveito. Saudações." Antes. Não faças Lascínia esperar tanto.Vai. Unindo-se umas às outras. Valendo-se da pausa. até que te possa acompanhai nesses entretenimentos. Decorridos momentos. porém. Dois rapazes de fino trato entraram na sala. advertiu a palavra materna: . meu amigo . tiniu a campainha fortemente. Para que se alimente a ventura. a senhora Laura falou sorridente: . conseguem equilíbrio no plano de redenção.Aqui tem . dirigindo-se a mim gentilmente . meu filho. por nossa causa. a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada. de se alinharem novas considerações. Não estraguem o programa afetivo. almas afins. Levantou-se o enfermeiro para atender.

Vão em busca do alimento a que nos referíamos. são mais belos e mais fortes. aqui. esboçou amável sorriso e respondeu . O amor. o pábulo sublime dos corações.Não poderei compartilhar das alegrias do Campo. Os laços afetivos. A senhora Laura. A dona da casa. porém. . Saíram todos. fechando a porta. em meio do júbilo geral. meu amigo. instintivamente.Não se incomode por mim . é o pão divino das almas.exclamei. que voltou da Terra há poucos dias.104 NOSSO LAR . Temos em casa minha neta convalescente. ainda hoje. voltou-se para mim e explicou sorridente: .

ensaiando palestra mais íntima. Demandamos um quarto confortável e muito amplo. assistida por nós. Seria muito interessante ouvi-la.Sua neta não vem à mesa para as refeições? . alimenta-se a sós . Minha neta demorou-se no Umbral quinze dias.esclareceu dona Laura -. veio submeter-se aos meus cuidados diretos. mas. Aqui. abatida.Por enquanto. Manifestei desejo de visitar a recém-chegada do planeta. Deveria ingressar nos pavilhões hospitalares. . Surpreendeu-se vivamente ao verme. . em forte sonolência.perguntei à dona da casa. que se misturam automaticamente às substâncias alimentares. A neurastenia e a inquietação emitem fluidos pesados e venenosos. Há quanto tempo estava sem notícias diretas da existência comum? A senhora Laura não se fez rogada quando lhe dei a conhecer meu desejo. afinal.105 19 A JOVEM DESENCARNADA . Uma jovem muito pálida repousava em cômoda poltrona. não trazemos à mesa qualquer pessoa que se manifeste perturbada ou desgostosa. a tolinha continua nervosa.

Eloísa tem estado inquieta. indicando-me -. do otimismo e da coragem.Deve estar cansada . Ele ainda está longe do espírito sublime do amor iluminado. Naturalmente. adiantou-se a senhora Laura. está preparado a te oferecer uma sincera dedicação espiritual na Terra. como a reter o pranto. não se pode prescindir. de modo algum. Nem seria justo exigir-lhe a vinda brusca. a tempo algum. Antes.Admitamos que viesse. forçando a lei. procurando subtrai-la a esforços sobreposse fatigantes: . por minha vez. Cumprimentou-me. esboçando vago sorriso. que. que ela respondesse. Sorrindo maternalmente. porém. Eloísa . não conseguia conter os soluços angustiosos.Tolinha! . é um irmão nosso que voltou da esfera física. . dando-me eu a conhecer. a senhora Laura acrescentou: .explicou a genitora de Lísias. Vi a jovem arregalar os olhos muito negros. Em parte. desposará outra e deves habituar-te a esta convicção. Não seria mais duro o sofrimento? Não pagarias caro a cooperação . O tórax começou a arfar-lhe violentamente e. nada mais. .observei. mas em vão.disse a meiga senhora abraçando-a . Estas impressões são os resultados da educação religiosa deficiente. colando o lenço ao rosto.Este amigo.é necessário reagir contra isso. A tuberculose foi longa e deixou-lhe traços profundos. há pouco tempo. Sabes que tua mãe não se demorará e que não podes contar com a fidelidade do noivo. justifica-se. entretanto.106 NOSSO LAR . A moça fitou-me curiosa. embora os olhos perdidos nas fundas olheiras traduzissem grande esforço para concentrar atenção. aflita.

ora.objetei. comparadas às nossas experiências.Ora. .interroguei. vovó. o que padeceu por minha causa o pobre noivo. ficou sem consolo.Não imagina.Donde vem você. o rapaz. tua mãe não tarda a chegar. Pura cegueira: há milhões de criaturas afrontando situações verdadeiramente cruéis.107 NOSSO LAR que houvesses desenvolvido nesse particular? Não te faltarão amizades carinhosas. Além disso.. de fato. agora calada.. A mãe de Lísias. . Além disso.Mas não deve chorar assim . a moça respondeu: . . Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa. Desencarnou há poucos dias. E se amas. Tudo isso dá que pensar .. está com os seus parentes e não conheceu tempestades na grande viagem. é inenarrável. Procurei estabelecer novo rumo à conversação. .. a mágoa de haver transmitido a moléstia a minha carinhosa mãe.observou a senhora Laura a sorrir.. nem colaboração fraternal.Arnaldo.. falando mais calma: .acentuou contrafeita. Oito meses de luta com a tuberculose. .. parecia igualmente desejosa de vê-la desembaraçar-se. Após longos instantes em que enxugava os olhos lacrimosos. porém. Penalizou-me o pranto copioso da jovem. Eloísa? . não diga isso . Você é muito feliz. não obstante os tratamentos.Do Rio de Janeiro. porém. quanto tenho sofrido. para que te equilibres aqui.. tentando subtrai-la à crise de lágrimas. Ela pareceu reanimar-se. desesperado. deves procurar harmonia para beneficiá-lo mais tarde.

por quê? É preciso te habituares a considerar as necessidades alheias. vendo-te o corpo reduzido a frangalhos. Admirado por minha vez. mas no que concerne à união conjugal. Ah! que horror. Amor iluminado não é para qualquer criatura humana. Teu noivo é homem comum. em nossa companhia. portanto. Agora que aqui estás. Não sabia a convalescente como portar-se ante a serenidade e o bom senso da avó. Observei teu ex-noivo.Horror. Conserva. começou a envolvê-la em vibrações mentais diferentes. Reconfortar-se-á muito depressa. não demorarão muito as resoluções novas. quando puderes excursionar às esferas do planeta. Arnaldo. mas não está preparado para compreender um sentimento puro. muitas vezes. vovó! . a impossibilidade de restabelecer-te o corpo físico.E acreditas sinceramente nessa impressão? . sem dúvida. muito meiga: . no curso da tua enfermidade.Não sejas teimosa. embora muito magoado. diversas vezes. a colega que te levava flores todos os domingos? Pois nota: quando o médico anunciou.Será possível? A genitora de Lísias esboçou um gesto extremamente carinhoso e falou: . Não podes operai milagres nele. Era natural que ele se comovesse tanto. o teu otimismo.perguntou a matrona com inflexão de carinho. Poderás auxiliá-lo.108 NOSSO LAR .Não te recordas da Maria da Luz. a senhora Laura insistiu. . notei a surpresa dolorosa de Eloísa. por . em caráter confidencial. não está alertado para as belezas sublimes do amor espiritual. nem tentes desmentir-me. Vendo que a enferma parecia tomar a atitude íntima de quem deseja provas. já o encontrarás casado com outra.

Enquanto Eloísa chorava.Não me conformo! .109 NOSSO LAR muito que o ames. a vovó não te fala para ferir. todavia. demasiadamente. a amiga que sempre julguei fidelíssima. Arnaldo conhecerá mais tarde a beleza do teu idealismo. Ao sentarmo-nos. no propósito talvez de orientar tanto a neta quanto a mim. considerando que a doente necessitava de repouso.clamou a jovem. mais agradável confiá-lo aos cuidados de uma criatura irmã? Maria da Luz será sempre tua amiga espiritual. porque minha querida Teresa. a mãe de Lísias convidou-me novamente à sala de estar. é muito do meu agrado. A bondosa senhora percebeu-me a intranqüilidade e. o acesso ao coração dele. A descoberta de si mesmo é apanágio de cada um. Eu estava eminentemente surpreendido. sua mãe. esclareceu sensatamente: . ao passo que outra mulher talvez te dificultasse. mais tarde. da nossa renitente vaidade humana.Minha neta chegou profundamente fatigada. . A rigor. Eloísa prorrompera em soluços. cautelosa: . mas. Questão de tempo e serenidade. nas teias do amor-próprio. Isso. mas para acordar. porém. entretanto. por agora. é preciso entregá-lo às experiências de que necessita.Sei a causa do teu pranto.Não será. sorriu e falou. o lugar dela seria em qualquer dos nossos hospitais. Entretanto. . Prendeu o coração.justamente Maria da Luz. falou em tom confidencial: . A senhora Laura. filhinha: nasce da terra inculta do nosso milenário egoísmo. Um pouco de paciência e atingiremos a solução justa. chorando . o Assistente Couceiro julgou melhor situá-la junto ao nosso carinho. está a chegar. aliás.

110 20 NOÇÕES DE LAR Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura. Quando regressei do planeta. e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. perguntei.Desempenhando tantos deveres. vivemos numa cidade de transição. preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas. estão ainda a mondar o terreno dos sentimentos. curioso: . com raras exceções. no entanto. as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado. aqui. . a senhora ainda tem atribuições fora de casa? . se esforça por copiar nosso instituto doméstico. pela última . mas os cônjuges por lá.O lar terrestre é que. As almas femininas. em "Nosso Lar". de há muito. invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal. é idêntica à da Terra? A interlocutora esboçou uma facies muito significativa e acrescentou: .Sim. assumem numerosas obrigações.Mas a organização doméstica.

muito versado em matemática . que. quando a esposa se cala. o verdadeiro instituto doméstico. na minha crise de orgulho ferido. Desde esse dia. entretanto.prosseguiu ela -. humilde. o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente. grande número de estudiosos das questões sociais. Dissimulam em sociedade e. Coincidiu. que. no Ministério do Esclarecimento.111 NOSSO LAR vez. porém. . rumo aos planos superiores da Criação. envolvido nas inspirações criadoras da vida. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. fui levada a ouvir um grande instrutor. É templo. Importa considerar. como é natural. Há na Terra. trazia. nas esferas do globo. Quando o marido permanece calmo. nova corrente de idéias me penetrou o espírito. a mulher parece desesperada. onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. um faz viagens mentais . a rigor. na linha horizontal de seus trabalhos temporais. profundas ilusões. feznos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta horizontal é o sentimento masculino.O orientador. o companheiro tiraniza. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. em marcha de realizações no campo do progresso comum. com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria. . Nem a consorte se decide a animar o esposo.Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? . baseado na harmonia justa. nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento. na vida íntima.indaguei com interesse. os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz. Onde. que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. A reta vertical é o sentimento feminino. agora.

quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar. . o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta. Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado. observei: . procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito. e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando. em vão. Esses conceitos calavam-me fundo e.Questão de experiência. Não se entendem.replicou a nobre matrona -. É claro que. em tais circunstâncias. o ângulo divino não está devidamente traçado. nem mesmo fraternidade. Não há tolerância e. Ah! se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!. Daí em diante. Duas linhas divergentes tentam. a mente da esposa volta ao gabinete da modista. na integração de suas forças sublimes. Por enquanto.. O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis.. os mais rudes mal se suportam. quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar. se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho. raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver. com todo o coração e com toda a alma. sumamente impressionado. o marido excursiona através dos negócios. E apaga-se a beleza luminosa do amor. essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos. que lhe diz respeito. a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna. Mas logo que recebem a bênção nupcial. Não há concessões recíprocas. formar o vértice sublime.Senhora Laura. Se a mulher fala nos fílhinhos. O homem e a mulher comparecem aí. Perguntas e .112 NOSSO LAR de longa distância. a maioria atravessa os véus do desejo. e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações. os mais educados respeitam-se. por vezes. meu amigo . dentro de suas portas.

sob algemas. a inspiração. operando em rumos opostos. onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. vivem as mentes separadas. fora dela. porém.aduzi comovido. irmã. É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino. e esmagadora porcentagem de ligações de resgate. e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem.na fase atual evolutiva do planeta. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências. os serviços de paciência. reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins. para as mulheres.Que fazer. Nossa colônia. Como sustentar-se o rio sem a fonte. a indústria do fio. meu amigo? . existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas. esposa. a atividade. o ensino. representam atividades assaz expressivas. Uma não viverá sem a outra. É preciso aprender a ser mãe. a informação. não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados. porém. ensina que existem nobres serviços de extensão do lar. Por mais que se unam os corpos. A enfermagem.replicou a bondosa senhora . A tarefa da mulher. .Tudo isso é a pura verdade! .113 NOSSO LAR respostas são formuladas em vocábulos breves. Dentro de casa. através de escritórios e gabinetes. no lar. A mulher não pode ir ao duelo com os homens. e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio? . missionária.As almas femininas não podem permanecer inativas aqui. continuou a genitora de Lísias: . . Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial.

quando isso não acontece. diariamente. o que lhe pode dar idéia da importância do serviço maternal no plano terreno. é programa fácil a todos. A mãe de Lísias.. minhas horas de serviço são contadas em dobro. tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem.Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar. continuou: . ouvindo a interrogação. Entretanto.114 NOSSO LAR Não pude deixar de sorrir.. Oito horas de atividade no interesse coletivo. Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também. depois de longo intervalo. A não ser minha neta convalescente. com a semana de quarenta e oito horas de tarefa. não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso. . Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos. enquanto me perdia em vastas considerações. Todos trabalham em nossa casa.

Não diga isso .115 21 CONTINUANDO A PALESTRA . sob controle da Governadoria. o abuso.retrucou. O bônus-hora. é o nosso dinheiro. relevar-me-á a curiosidade. . pertence-lhe? Ela sorriu e esclareceu: . no fundo. apresentando trinta mil bônus-hora. Rimo-nos da observação e indaguei em seguida: .Como se encara o problema da propriedade na colônia? Esta casa.exclamei com interesse -.. Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons.A palestra.. porém. pode conquistar um lar (nunca mais que um). pergunte sempre. sugere numerosas interrogações.Tal como se dá na Terra. é sempre fácil informar. por exemplo. senhora Laura . As construções em geral representam patrimônio comum. cada família espiritual. Nossa morada . bondosa -. a propriedade aqui é relativa. Não estou em condições de ensinar. Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho. a custa de esforço e dedicação. todavia. obtidos por nós mesmos. o que se pode conseguir com algum tempo de serviço.

Após ligeiro intervalo. e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins. A custa de testemunhos difíceis. com os filhos tenros. trabalhando por nossa evolução. aumentando nossa felicidade. representava o céu para mim. Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos. para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna. Recolhido ao "Nosso Lar". Compreendi. preparando-nos um ninho para o futuro. nos campos de atividade honesta. habituando-os. em que parecia meditar. mas sempre unidos pelos elos espirituais. Durante anos consecutivos. Reencontrar Ricardo. Lísias. constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma.Mas a esfera do globo nos esperava. aos trabalhos árduos. Dada a nossa boa- . muito cedo. Iolanda e Judite reuniram-se a nós. por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações. tecer novo ninho de afetos. fruto de trabalhos. não descansou. meu esposo ministrou-me conhecimentos novos. Com o correr do tempo. Muito moça ainda.116 NOSSO LAR foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo. Quando cheguei. Se o presente estava cheio de alegria. minha interlocutora prosseguiu em tom grave: . porém. compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo. vivemos a vida de perene ventura. Ricardo. depois de certo período de extremas perturbações. que veio para a esfera espiritual muito antes de mim. O suor do corpo ou a preocupação justa. estreamos a habitação que ele organizara com esmero. que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral. o passado chamava a contas. porém. proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos. de que eu podia dispor. Desde então. depois. tive de enfrentar serviços rudes. acentuando-se nossa ventura. unindo-nos cada vez mais. Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas. Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado.

exclamei. ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual. A lei do ritmo exigia. o assunto referente a encarnações pregressas. Não estou isento dos laços físicos? Não atravessei o rio da morte? A senhora recordou o passado. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências. nos ciclos da vida eterna. Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo. Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo. sorridente -. As escamas da inferioridade são muito fortes. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar. e. quando se me aclarou a visão interior. todos temos erros clamorosos. . é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. Perdoe a curiosidade. Em geral. Portanto. muito segura de si. permita. e quem recorda o crime de que foi vítima. até agora.Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? . edificando. Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado dalma.respondeu bondosamente -. . relativamente ao pretérito doloroso. considera-se em conta de infeliz. as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto.replicou. ou esperou o concurso do tempo? . . recebe tais atributos como realização espontânea.117 NOSSO LAR -vontade. do mesmo modo.perguntei. então. Esse amigo.Explico-me . não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura. Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos. interrompendo-a -. por obséquio. antes de tudo. somente a alma. na colônia.Esperei-o . . no entanto. nossa volta. Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão.Senhora Laura . aclarava-se-nos a visão. logo após sua vinda. se tentam burlar esse dispositivo da lei. um aparte.

seguirei dentro de breves dias. exclamei sob forte impressão. Compreendemos. quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!. declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas.E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!. . Temos trabalho. . despertando certas energias adormecidas. na Terra..atalhei. Aguardo apenas a chegada de Teresa. e como surpresas indescritíveis. então. Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias.. A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou: . .Não.. senhores de trezentos anos de memória integral. Quanto a mim. Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio. muito trabalho. durante dois anos. abrangendo o período de três séculos.E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? . sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio. para deixá-la junto aos nossos. Desse modo..118 NOSSO LAR depois de minucioso exame das nossas impressões. A leitura apenas informa. Ricardo e eu ficamos..Em vista de nossas observações referentes ao passado. tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo. curioso. Recebidos com carinho. O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores. Ricardo partiu há três anos. Os espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro. onde todos nós temos anotações particulares. fomos submetidos a determinadas operações psíquicas. combinamos novo encontro nas esferas da crosta. então. a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações. nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento. ..

A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas.119 NOSSO LAR E de olhar vago. O Senhor não nos esquecerá. desde a infância. Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração. ao lado da filha ainda retida na Terra. a senhora Laura acentuou: . portanto.A mãe de Eloísa não tardará. em vista dos seus profundos sacrifícios. como se a mente estivesse muito longe. transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada. Poderei. .

acentuou: . a que se recolhera. O celeiro fundamental é propriedade coletiva.Aquisitivo? .120 22 O BÔNUS-HORA Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido. atenciosa: .respondeu a bondosa senhora -. mas ficha de serviço individual. Ante meu gesto silencioso de espanto. modifiquei o rumo da palestra. funcionando como valor aquisitivo.Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem.perguntei abruptamente.Não é propriamente moeda. Cada habitante de "Nosso Lar" .Explico-me . . Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios. porém. em "Nosso Lar" a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum. . e replicou. interrogando: .Que me diz do bônus-hora? Trata-se de algum metal amoedado? Minha interlocutora perdeu o aspecto cismativo. adquirem direitos justos. Os que trabalham.

Lembrando as organizações terrestres. nas diversas escolas dos Ministérios em geral. como conciliar semelhante padrão com a natureza do serviço? O administrador ganhará oito bônus-hora na atividade normal do dia. e o operário do . favorecidos pela intercessão de amigos. no que se refere ao estritamente necessário. é esse o único título de remuneração? . como também na obediência. no entanto. Desse modo. os que cooperem podem ter casa própria. espantado: . ou nos parques de tratamento.121 NOSSO LAR recebe provisões de pão e roupa.Sim. oito horas de serviço útil. Precisamos conhecer o preço de cada nota de melhoria e elevação. por semana. ou o contacto de orientadores sábios. Os programas de trabalho. mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça. compreendeu? Os inativos podem permanecer nos campos de repouso. aos que desejem colaborar no trabalho comum. de boa-vontade. não só na administração. poderá ser abrigado aqui. as almas operosas conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos queridos. . sem falar dos serviços sacrificiais. no mínimo. porém. os que trabalhamos. entretanto. nas vinte e quatro de que o dia se constitui. cuja remuneração é duplicada e. sem dúvida. .perguntei.Todavia. O espírito que ainda não trabalha. O ocioso vestirá. indaguei. há muita gente que consegue setenta e dois bônus-hora.Mas. é o padrão de pagamento a todos os colaboradores da colônia. mas os que se esforçam na obtenção do bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social. às vezes. deve dar. Cada um de nós. nos lugares consagrados ao entretenimento. triplicada. são numerosos e a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário.

recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam. exigindo abonos. é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem. outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família. o trabalho é de sacrifício pessoal. Onde. Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar. A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana. a confessar ausência do impulso vocacional. transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação. Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo. porém. que todos pagarão muito caro a displicência. na orientação ou na subalternidade. que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas. Creia.122 NOSSO LAR transporte receberá a mesma coisa? Não é o trabalho do primeiro mais elevado que o do segundo? A senhora sorriu à pergunta e explicou: . precisamos. porém. antes de mais nada. à maneira de moscas venenosas no pão sagrado. Parece ainda dis- . é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção. mais detidamente a sua pergunta. Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório. esquecer determinados prejuízos da Terra. facilidades e aposentadorias. Por isso mesmo. aí. Se. a expressão remunerativa é justamente multiplicada. quase todos. contudo. na própria esfera da crosta é que o assunto apresenta solução mais difícil. Por outro lado. Vivem. a natureza de serviço? Há técnicos de indústria econômica.Tudo é relativo. e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação. Examinando. A natureza do serviço é problema dos mais importantes.

Nesse prisma. entretanto. aqui. porque. enriquecimento de bênçãos divinas. examinando o provento espiritual. no Ministério do Esclarecimento. temos o Bônus-Hora-Regeneração. gastar nossos bônus-hora a favor dos amigos? indaguei curioso. em serviços regeneradores. segundo a natureza dos nossos serviços. o Bônus-HoraEsclarecimento. é razoável que a documentação de trabalho revele a essência do serviço. tenha efetuado esforço sublime. no Ministério do Esclarecimento. Semelhantes instruções interessavam-me profundamente.O verdadeiro ganho da criatura é de natureza espiritual e o bônushora. é mais valioso ainda o registro individual da contagem de tempo de serviço útil. quase tudo. educação. estará mais sábio. sem a consideração dos valores morais despendidos. . e assim por diante. a maioria prepara-se com vistas à necessidade de regresso aos círculos carnais. os fatores assiduidade e dedicação representam. o que despendeu seis mil horas de atividade. a interlocutora continuou: . Poderemos gastar os bônus-hora conquistados. Percebendome a sede de instrução.Poderemos. Essas palavras despertavam-me para concepções novas. Em geral. para o plano espiritual superior. Ora. não se especificará teor de trabalho. é natural que o homem que empregou cinco mil horas. No Ministério da Regeneração. porém. em nossa organização. As aquisições fundamentais constituem-se de experiência. extensão de possibilidades. que nos confere direito a preciosos títulos. a benefício de si mesmo. em nossa cidade de transição. Examinando esse princípio. modifica-se em valor substancial.123 NOSSO LAR tante o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens. .

aqui. que nada existe sem preço e que para receber é indispensável dar alguma coisa. coope- . Nesse cômputo. aproveitar. Somente poderão rogar providências e dispensar obséquio os portadores de títulos adequados. Contam-se por milhares as pessoas favorecidas em "Nosso Lar".Não temos aqui demasiadas complicações .E o problema da herança? .Perfeitamente . o meu caso. Ia prorromper em exclamações admirativas. Isto é direito inalienável do trabalhador fiel. por exemplo. Aproxima-se o tempo do meu regresso aos planos da crosta. . Vejamos. minha ficha de serviço autoriza-me a interceder por ela e preparar-lhe aqui trabalho e concurso amigo. no entanto. A essa altura. Tenho comigo três mil Bônus-HoraAuxílio. a genitora de Lis ias sorriu e observou: . portanto.disse ela -. nos anos de cooperação no Ministério do Auxílio. sorrindo. assegurando-me. Não posso legá-los a minha filha que está a chegar.124 NOSSO LAR .respondeu a senhora Laura. permanecendo minha família apenas com o direito de herança ao lar. poderemos repartir as bênçãos de nosso esforço com quem nos aprouver. entendeu? . referentes ao processo simples de ganhar. investida de valores mais altos e demonstrando qualidades mais nobres de preparação ao êxito desejado. porque esses valores serão revertidos ao patrimônio comum. maiores intercessões podemos fazer. o valioso auxílio das organizações de nossa colônia espiritual. durante minha permanência nos círculos carnais.inquiri de repente. Pedir. igualmente. deixo de referirme ao lucro maravilhoso que adquiri no capítulo da experiência. no meu quadro de economia pessoal. Compreendemos. Volto à Terra. é ocorrência muito significativa na existência de cada um.Quanto maior a contagem do nosso tempo de trabalho. pela movimentação da amizade e do estimulo fraternal.

confrontando aquelas soluções com os princípios imperantes no planeta. a senhora Laura murmurou. mas um brando burburinho aproximou-se da casa.125 NOSSO LAR rar e servir. satisfeita: .Nossos queridos estão de volta. E levantou-se para atender. . Antes que pudesse emitir qualquer observação.

A dona da casa entrava em conversação com as filhas. convidava-me. ainda não conhecia o quadro maravilhoso que a noite clara apresentava. E. entre grandes árvores. Lírios de neve. Lísias entrou em casa visivelmente satisfeito.Olá! ainda não se recolheu? .Venha ao jardim. Os esclarecimentos da senhora Laura fortaleciam-me o coração. O espetáculo apresentava-se soberbo! Habituado à reclusão hospitalar. ali. sorridente. solícito: . matizados de ligeiro azul ao fun- . pois ainda não viu o luar destes sítios.perguntou. enquanto acompanhando Lísias fui aos canteiros em flor. . lamentei a interrupção da palestra. enquanto os jovens se despediam.126 23 SABER OUVIR Intimamente. nos vastos quarteirões do Ministério do Auxílio Glicínias de prodigiosa beleza enfeitavam a paisagem.

as notas da Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem.para recolher as emissões terrestres? . não conseguia emitir impressões. O companheiro sorriu e acentuou: .. o esforço da maioria se transforma numa prece quase perene. pareciam taças. para nós outros. agora. . voltamos ao interior onde Lísias se aproximou de pequeno aparelho postado na sala. muito acima de qualquer cogitação terrestre. sentindo que ondas de energia nova me penetravam o ser. Aguçou-se-me a curiosidade. Nossas transmissões baseiam-se em forças vibratórias mais sutis que as da esfera da crosta. Respirei a longos haustos.127 NOSSO LAR do do cálice.Mas não há recurso .indaguei . o amigo esclareceu: . Dai nascerem as vibrações de paz que observamos.Não ouviremos vozes do planeta. de caricioso aroma.. em todos os Ministérios.Sem dúvida que temos elementos para fazê-lo. Deslumbrado. no ambiente doméstico o problema de nossa atualidade é essencial.Nunca presenciei tamanha paz! Que noite!. Esforçando-me para exteriorizar a admiração que me invadia a alma. falei comovidamente: . Dessarte. . Que iríamos ouvir? Mensagens da Terra? Vindo ao encontro de minhas interrogações íntimas. à maneira de nossos receptores radiofônicos. Após enlevar-me na contemplação do quadro prodigioso. Ao longe. como se estivesse bebendo a luz e a calma da noite. entretanto.Há compromisso entre todos os habitantes equilibrados da colônia. A programação do serviço necessário. no sentido de não se emitirem pensamentos contrários ao bem. as torres da Governadoria mostravam belos efeitos de luz.

E. Vivemos distraídos dos verdadeiros princípios de fraternidade. chegado o momento do testemunho. Boatos assustadores perturbavam as atividades em geral. em geral. A bondade desviada provoca indisciplinas e quedas.Já esperava essa pergunta: Nos círculos terrestres somos levados. É preciso curar nossas velhas enfermidades e sanar injustiças. porém. a viciar as situações. meu amigo. habituado ao apego doméstico. vivia-se em constante guerra nervosa. Aqui. o Governador proibiu o intercâmbio generalizado. ligavam-se com os núcleos de evolução terrestre. de quando em quando. Em família. as notícias dos afeiçoados terrestres punham muitas famílias em polvorosa. velhos prisioneiros da condição exclusivista. que incrementou a medida. todas as moradias. somos solidários apenas com os nossos. No início da colônia. a cidade era mais um departamento do Umbral. Amparado pela União Divina. Segundo nosso arquivo.Será tanto assim? E os parentes que ficaram a distância? Nossos pais. eram aqui verdadeiras calamidades públicas. quando interessassem algumas entidades em "Nosso Lar". ao que sabemos. isolamo-nos freqüentemente no cadinho do sangue e esquecemos o resto das obrigações. mas. Somos. Ensinamo-los a todo mundo. valeu-se do . Ninguém suportava a ausência de notícias da parentela comum.128 NOSSO LAR A observação era justa. Houve luta. Mas o Ministro generoso. um dos generosos Ministros da União Divina compelia a Governadoria a melhorar a situação. O exGovernador era talvez demasiadamente tolerante. Do Ministério da Regeneração ao da Elevação. por lá. a medalha da vida apresenta a outra face. nossos filhos? . mas. precisamente há dois séculos. inquiri. muitas vezes. A hipertrofia do sentimento é mal comum de quase todos nós. Mas. Os desastres coletivos no mundo. que propriamente zona de refazimento e instrução. de pronto: .

Não daria isso mais tranqüilidade à alma? Lísias. você que tem um amigo encarnado. que permanecia junto ao receptor. esperando com fé e agindo com os preceitos divinos. não gostaria de comunicar-se com ele? . agora. sem ligá-lo. Contudo.senão para levar auxílios justos. desapontado.objetei -. antes de novos contactos com os parentes terrenos. evidenciando minha teimosia caprichosa. de que um dos seus irmãos consangüíneos foi hoje encarcerado como criminoso. solicito . Se eles oferecessem campo adequado ao amor espiritual. . Está preparado.Observe a si mesmo. Convenhamos. a fim de ver se valeria a pena. Precisamos. como interessado em me fornecer explicações mais amplas.prosseguiu.129 NOSSO LAR ensinamento de Jesus que manda os mortos enterrarem seus mortos e a inovação se tornou vitoriosa em pouco tempo. por exemplo.Entretanto . embora as dificuldades sentimentais. ó intercâmbio seria desejável. para manter a precisa serenidade. . Lísias. indaguei: . é indispensável a preparação conveniente. evitar a queda nos círculos vibratórios inferiores. qual seu pai. nos altos e baixos das flutuações de ordem material. acrescentou: . que a criatura alguma auxiliará com justiça. Por isso.Não devemos procurar notícias dos planos inferiores . teria bastante força para conservar-se tranqüilo? Sorri. experimentando desequilíbrios do sentimento e do raciocínio. em sabendo que um filho de seu coração está caluniado ou caluniando? Se alguém o informasse. ainda. mas esmagadora porcentagem de encarnados não alcançou. seria interessante colher notícias dos nossos amados em trânsito na Terra.Mas. porém. nem mesmo o domínio próprio e vive às tontas.

Existem. em campo de confusão. o enfermeiro amigo abriu o controle de recepção sob meus olhos curiosos. certas leis que mandam compreender devidamente os que se encontram nas zonas mais baixas. visitamo-lo em sua nova forma. da esfera superior. "Nosso Lar" vivia em perturbações porque. . quando merecemos essa alegria. é possível descer à inferior com mais facilidade. E.130 NOSSO LAR .Sem dúvida . não podia auxiliar com êxito e a colônia transformava-se.respondeu bondosamente -. Calei-me vencido pelo argumento ponderoso. verificando-se o mesmo. pois. entretanto. Acresce notar que. contudo. enquanto me conservava em silêncio. Necessitamos. quando se trata de qualquer expressão de intercâmbio entre ele e nós. que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos. É tão importante saber falar como saber ouvir. Não devemos esquecer. recorrer aos órgãos competentes. que somos criaturas falíveis. freqüentemente. não sabendo ouvir. temos o Ministério da Comunicação. Para esse fim.

. Concitamos os colaboradores de bom ânimo a congregar energias no serviço de preservação do equilíbrio moral nas esferas do globo. Há serviço para todos. começou ele a falar: . denuncia esses movimentos dos poderes concentrados do mal. Nosso núcleo. cercam as nações européias. Daí a instantes. pedindo concurso fraterno e auxílio possível. Ajudai-nos. nos círculos mais próximos da crosta.. desde os cam- . vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor. Continuamos a irradiar o apelo da colônia. embalando-nos em harmoniosa sonoridade. impulsionando-as a novos crimes.Emissora do Posto Dois. quantos puderem ceder algumas horas de cooperação nas zonas de trabalho que ligam as forças obscuras do Umbral à mente humana. no gabinete de trabalho. em benefício da paz na Terra. suave melodia derramou-se no ambiente. Negras falanges da ignorância. de "Moradia". junto aos demais que se consagram ao trabalho de higiene espiritual. depois de espalharem os fachos incendiários da guerra na Ásia. Lembrai-vos de que a paz necessita de trabalhadores de defesa! Colaborai conosco na medida de vossas forças!.131 24 O IMPRESSIONANTE APELO Ligado o receptor.

Lísias esclareceu: .Estamos ainda muito longe das regiões ideais da mente pura. fixando em mim os olhos brilhantes e profundos. mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas. estamos em agosto de 1939. A inflexão do estranho convite abalara-me as fibras mais íntimas. sem . explicando: . como a lastimar em silêncio a gravidade da hora humana.. Assombrava-me. sobretudo. 5. ainda ali. Seu mutismo constrangera-me. Julgava que todas as colônias espirituais se intercomunicassem pelas vibrações do pensamento. Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação do mundo.Estamos ouvindo "Moradia". velha colônia de serviços muito ligada às zonas inferiores.. tão grande dificuldade no capítulo do intercâmbio? Identificando-me as perplexidades. Que o Senhor nos abençoe. Havia. no espelho da televisão. novamente. claro e correto. Como sabe. a imensidade dos serviços espirituais nos planos de vida nova a que me recolhera. ouvindo-se divina música. . Tal como na Terra. os que se afinam perfeitamente entre si podem permutar pensamentos. O. Pela primeira vez o enfermeiro amigo não me respondeu.indaguei.132 NOSSO LAR pos da crosta às nossas portas!. E a linguagem? Ouvira-lhe nitidamente o idioma português. Vira-lhe a fisionomia abatida. suplicando socorro e cooperação? Apresentara-se a voz do locutor com entonação de verdadeiro 5. aterrado .Que diz? . Pois havia cidades de espíritos generosos. Veio Lísias em meu socorro. Interrompeu-se a voz.pois não bastou o sangue da última grande guerra? Lísias sorriu. Demonstrava ansiedade profunda nos olhos inquietos.

possível atingir as zonas aperfeiçoadas. oferecendo escassas possibilidades à colaboração de natureza espiritual. não podemos prescindir da forma. A humanidade terrestre. Não seria. Nosso campo de lutas é imensurável.... Há muitos benfeitores devotados. Que o Senhor nos abençoe. de "Moradia". Nos mais diversos setores de nossa atividade espiritual existe elevado número de espíritos libertos de todas as limitações. no lato sentido da expressão. mas insta considerar que a regra é sofrer-se dessas restrições. Nada enganará o princípio de seqüência. voltando o locutor: . dos núcleos superiores. caminham esses países para uma guerra de grandes proporções Oh! irmãos muito amados. Alguns governos. Calou-se o locutor e voltaram as cariciosas melodias. Forças tenebrosas do Umbral penetram em todas as direções. portanto. Defendamos os séculos de experiência de numerosas pátriasmães da Civilização Ocidental!.. logo após a morte do corpo físico. que integra muitos bilhões de criaturas. . interrompia-se a música.133 NOSSO LAR as barreiras idiomáticas. respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem. condicionados a fronteiras psíquicas. Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus da Europa. lutando com sacrifícios em favor da concórdia internacional. Os patrimônios nacionais e lingüísticos remanescem ainda aqui. se encontram excessivamente centralizados. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. no entanto. nos gabinetes políticos.Emissora do Posto Dois. de modo geral. Sem órgãos de ponderação e conselho desapaixonado. auxiliemos a preservação da tranqüilidade humana!. Nesse ínterim. constituída de milhões de seres. imperante nas leis evolutivas. mas. une-se à humanidade invisível do planeta.

a mesma voz se fez novamente ouvir: . invoquemos o amparo das poderosas Fraternidades da Luz. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. movimentemos a resistência do bem. porém acentuou. que presidem aos destinos da América! Cooperai conosco na salvação de milenários patrimônios da evolução terrestre! Marchemos em socorro das coletividades indefesas.Não há. sensibilizado. Contra o assédio das trevas. desligou Lísias o aparelho e vi-o enxugar discretamente uma lágrima. Unamo-nos numa só vibração. e muitos de nós volveremos aos fluidos carnais para resgatar prístinos erros.. falou. Proclamemos a necessidade do trabalho construtivo. Companheiros e irmãos. todavia.134 NOSSO LAR O enfermeiro permaneceu em silêncio. Num gesto expressivo. de "Moradia". A humanidade encarnada é igualmente nossa família. amparemos os corações maternais sufocados de angústia! Nossas energias estão empenhadas em vigoroso duelo com as legiões da ignorância. dilatemos nossa fé. .. recurso para conjurar a tremenda catástrofe? perguntei.Emissora do Posto Dois. Após cinco minutos de harmonia repousante. em dias próximos. terríveis tributos de sofrimento. acendamos a luz.Grandes abnegados. os irmãos de "Moradia"! Tudo inútil. Que o Senhor nos abençoe. triste. que não ousei interromper. A essa altura. que seus olhos não conseguiam conter. Rios de sangue e lágrimas ameaçam os campos das comunidades européias. contra a guerra do mal. comovido: . vinde em nosso auxílio! Somos a parte invisível da humanidade terrestre. Quanto estiver ao vosso alcance. a humanidade terrestre pagará. depois de ligeira pausa -. .

agora. . Para atender às solicitações de "Moradia" e de outros núcleos que funcionam nas vizinhanças do Umbral. vaidade e egoísmo feroz. Experimentam.acrescentou Lísias em tom grave e doloroso .Infelizmente . A crise orgânica é inevitável. a necessidade de expelir os venenos letais. como personalidade coletiva. mas o Ministério da União Divina esclareceu que a humanidade carnal. Demonstrando. Nutriram-se várias nações de orgulho criminoso.a situação geral é muito crítica. reunimos aqui numerosas assembléias. Lísias convidou-me a recolher. o propósito de não prosseguir no amarguroso assunto. está nas condições do homem insaciável que devorou excesso de substâncias no banquete comum.135 NOSSO LAR . entretanto.

dizendo.Já lhe arranjei companhia para hoje.136 25 GENEROSO ALVITRE No dia imediato. comovido. por sua vez. Nosso amigo Rafael. passará por aqui. a meu pedido. Agradeci. Poderá aceitar-lhe a companhia em direção ao novo Ministério. rumo ao trabalho do Auxílio. ao Ministro Genésio. funcionário da Regeneração. Estava radiante. . muito cedo. Antes que os filhos se despedissem. bem-humorada: . logo que entregue nosso amigo aos cuidados de Rafael. Abraçou-me efusivamente antes de sair. demonstrou grande alegria. sem encontrar palavras que definissem meu júbilo.Você. a senhora Laura recomendou: . avise ao Ministro Clarêncio que comparecerei ao expediente. sensibilizando-me o coração. Lísias. Não poderia explicar o contentamento que me dominou a alma. Ao beijar o filho. Lísias. em meu nome. Rafael é antiga relação de nossa família e apresentá-lo-á. a senhora Laura encorajou-me o espírito hesitante. fiz leve refeição em companhia de Lísias e familiares.

. Ficando a sós. essa autorização. A curiosidade. a necessária autorização para visitar os Ministérios que nos ligam mais fortemente à Terra.respondi.É justamente neste sentido que lhe ofereço minhas sugestões humildes. sensibilizado -. igualmente. Creio que a colaboração maternal sempre vale alguma coisa e. Não esqueça que poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise das coisas. .Gratíssimo .Estou informada de que pediu trabalho há algum tempo. por vezes.137 NOSSO LAR Comovidíssimo. o es- .. acrescentando: . os propósitos de mera curiosidade. de lâmpada em lâmpada. Médico estudioso.. ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova. abandone. eu não conseguia agradecer tamanha dedicação. Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é muito forte. nunca saberei traduzir meu reconhecimento à sua atenção. mas perigosa. recebendo. Falo com o direito de experiência maior. apaixonado de novidades e enigmas. quanto lhe seja possível. já que sua mãezinha não reside em "Nosso Lar". relembrando as elucidações de Clarêncio. sim. a desvelada genitora do meu amigo dirigiu-me a palavra carinhosa: .Meu irmão. mesmo sadia. . . a boa senhora acrescentou: .Sei. agora. permita-me algumas indicações para os seus novos caminhos. . Detendo. mais tarde. que não o obteve de pronto. pode ser zona mental muito interessante. reivindico a satisfação de orientá-lo neste momento.Sim..esclareci. Dentro dela. Sorriu a bondosa senhora. Esboçando significativa expressão fisionômica. Não deseje personificar a mariposa.

mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores amargas. Somente o trabalho digno confere ao espírito o merecimento indispensável a quaisquer direitos novos. sem testemunhos no bem. a conhecer. mas ninguém se recusará a aceitar o concurso do . Aprenda a construir o seu círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação deve manifestar-se após o espírito de serviço. o Maior Trabalhador é o próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma carpintaria. Lembro-lhe que em todas as nossas esferas. sem proveito para ninguém. medite no trabalho e atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça. Clarêncio ofereceu-lhe ingresso nos Ministérios. Pois bem: não se limite a observar. humilhado por atender às tarefas humildes. gentilmente. pode ser criminoso atrevimento. raros se dispõem a realizar. com justiça. como servidor de bom senso. nas edificações do mundo. aos que muito hão lutado e sofrido no capítulo da especialização. localizando-se ali a região mais baixa de nossa colônia espiritual. desde o planeta até os núcleos mais elevados das zonas superiores. não se preocupe em alcançar o espetáculo dos serviços nos demais Ministérios.138 NOSSO LAR pírito desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades nobilitantes. visitar e analisar. É possível receber alguém negativa justa dos que administram. porém. converter observações em tarefa útil. Muitos fracassos. O Ministério da Regeneração está repleto de lutas pesadas. começando pela Regeneração. Ao invés de albergar a curiosidade. Pesquisar atividades alheias. Saem de lá todas as turmas destinadas aos serviços mais árduos. mas pode. em nos referindo à Terra. Todos querem observar. Não se considere. originam-se de semelhante anomalia. quando peça determinado gênero de atividade reservada. O Ministro Clarêncio autorizou-o. Surgindo ensejo nas tarefas da Regeneração.

murmurou: . Faça desta casa a sua habitação. agora de olhos fixos no horizonte. caíam-me no coração como bálsamo precioso. Doutor do Sinédrio. Brevemente voltarei ao círculo da carne. a senhora Laura acrescentou com inflexão carinhosa: . e cobri-as do pranto jubiloso que me inundava o coração. confiando em Deus. meu irmão. um dia. esperança de uma raça. Aquelas palavras. como tecelão rústico e pobre. continuaremos sempre unidos pelo coração. Temos escassos exemplos humanos. Não pude mais. Tomei-lhe as mãos como filho agradecido. antes de minha partida. Lembremos. entretanto. Trabalhe e animese. Creio que você não veio a esta casa atendendo ao mecanismo da casualidade. como se desejasse temperar com amor os criteriosos conceitos. São muito raros os que a compreendem nas esferas da crosta. ao deserto para recomeçar a experiência humana.Muito grata. que ama o trabalho pelo prazer de servir. pronunciadas com meiguice maternal. A genitora de Lísias. Poucas vezes sentira na vida tanto interesse fraternal pela minha sorte. o de Paulo de Tarso. contudo. que voltou. Semelhante conselho calava-me no fundo dalma e. alvo de geral atenção em Jerusalém. Estamos todos entrelaçados em teia de amizade secular. Levantei os olhos rasos dágua. nesse sentido. Meus olhos estavam úmidos. pela cultura e pela mocidade. experimentei a felicidade que nasce dos afetos puros e tive impressão de conhecer minha interlocuto- .A ciência de recomeçar é das mais nobres que nosso espírito pode aprender. Espero vê-lo animado e feliz. fixei-lhe a expressão carinhosa.139 NOSSO LAR espírito de boa-vontade.

identificar-lhe o carinho nas reminiscências mais distantes.É Rafael que vem buscá-lo. Vá. Trabalhe para o bem dos outros. alguém bateu à porta. meu amigo. mas. . mostrando indefinível ternura maternal e falou: . com o enternecimento filial do coração. para que possa encontrar seu próprio bem. de velhos tempos. Quis beijá-la muitas vezes. Fitou-me a senhora Laura.140 NOSSO LAR ra. pensando em Jesus. embora tentasse. debalde. nesse instante.

lançava-me curioso olhar. seguia Rafael. estranho agora ao prazer das muitas indagações. Em compensação. rumo ao local onde me aguardava o Ministro Genésio. Deixou-nos o aeróbus à frente de espaçoso edifício. Antigamente. os magníficos aspectos da nova região. de quando em vez. calados. surpreso. Dava-me todo à oração. pedindo a Jesus me auxiliasse nos caminhos novos. contudo. acompanhei Rafael. . agora a utilizava como valioso ponto de referência sentimental aos propósitos de serviço. avesso às manifestações da prece.141 26 NOVAS PERSPECTIVAS Ponderando as sugestões carinhosas e sábias da mãe de Lísias. O próprio Rafael. experimentava novo gênero de atividade mental. convicto de que iria. como se não devesse esperar tal atitude de minha parte. mas ao aprendizado e serviço útil. não às visitas de observações. a fim de que me não faltasse trabalho e forças para realizá-lo. Descemos. em silêncio. Anotava.

valendo-me das inspirações que me inclinavam à humildade. redundam em estágios de serviço. sem nada produzir de útil. em estação de aprendizado.142 NOSSO LAR Em poucos minutos. porém. Rafael era esperado com urgência no setor de tarefas a seu cargo. um velhinho simpático. com interesse. Fique à vontade. achava-me diante do respeitável Genésio. .Senhor Ministro.respondi.Tenho notificação de Laura. na sua maior parte. Quase sempre recebemos pessoal do Ministério do Auxílio. o companheiro aproximou-se respeitosamente e despediu-se. Certo. de olhos úmidos: . neste Ministério. abraçando-me em seguida. compreendo agora que minha passagem pelo Ministério do Auxílio se verificou por efeito da graça misericordiosa do Altíssimo. Compreendi a sutil alusão e obtemperei: . . talvez devido a constante intercessão de minha devotada e santa mãe.Este o meu maior desejo. que somente venho recebendo benefícios. Rafael apresentou-me fraternalmente . Genésio parecia comovido com as minhas palavras. entretanto. cujo semblante revelava. referente à sua vinda.Ah! sim disse o generoso Ministro -. é o nosso irmão André? . Noto. em visita de observações que. singular energia.Para servi-lo . Genésio começou a dizer: . e.Clarêncio falou-me a seu respeito. Nesse ínterim. meu lugar é aqui. roguei. Tenho mesmo suplicado às Forças Divinas que me ajudem o espírito frágil. Fixando em mim os olhos muito lúcidos. permitindo seja convertida a minha permanência.

Quando o discípulo está preparado.. Não entendia o valor do tempo. acentuou: . Não me preocupava o gênero de tarefa. Era sincero. no fundo de meu coração. Quando o servidor está pronto.. notava ele.Louvo seus propósitos e peço igualmente ao Senhor o conserve nessa posição digna. a sinceridade viva. Compreendo hoje. cego nas pretensões descabidas do egotismo em que vivia. Quando eu recorrera ao Ministro Clarêncio. mas talvez não desejasse servir. procurava o conteúdo sublime do espírito de serviço. faça.É mesmo você o ex-médico? . nem enxergava as bênçãos santificantes da oportunidade. a necessidade de regenerar meus próprios valores. Satisfeito. era o desejo de continuar a ser o que tinha sido até então . surpreendido. mais que nunca. O velhinho fitou-me. como que preocupado em levantar-me o ânimo e acender-me no espírito novas esperanças. e perguntou: . dizendo. fiz enormes gastos de energia na ridícula adoração de mim mesmo!. relativamente ao trabalho. como buscando resolução para o caso. agora. Perdi muito tempo na vaidade inútil. Genésio calou por momentos. seja transformada a concessão de visitar em possibilidade de servir.. E. por obséquio. então: . No fundo. O meu amigo tem recebido enormes recursos da Providência. punha nos lábios quanto possuía de melhor.o médico orgulhoso e respeitado. o Pai envia o instrutor. encarcerado nas opiniões próprias. enfim. Queria serviço.. O mesmo se dá.murmurei. não estava ainda bastante consciente do que pedia. . o serviço aparece. compreendendo a responsabilidade de cada filho de Deus na obra infinita da Criação.Sim. diante do que vira e ouvira. Se possível. acanhado. No entanto. .143 NOSSO LAR nas atividades regeneradoras.

aqui tem um amigo que vem do Ministério do Auxílio..Perfeitamente . o esforço próprio.Solicito a presença de Tobias.144 NOSSO LAR Está bem disposto à colaboração. aqui a situação é diferente. Creio de muito proveito para ele o contacto com as atividades das câmaras retificadoras. observe. falou em voz alta: . compreende a responsabilidade.Às suas ordens.Tobias . Faculte-lhe toda oportunidade de que possamos dispor.Conduza-o . afirmando.prosseguiu o ministro. examine. Estendi-lhe a mão. Estima-se a compreensão. entretanto. se deseja acompanhar-me.respondi. ligando-se ao gabinete próximo. . a humildade sincera. concluiu: . em tarefa de observação. . aceita o dever. Tal atitude é sumamente favorável à concretização dos seus desejos. costumamos felicitar um homem quando ele atinge prosperidade financeira ou excelente figuração externa. porém. Prontificou-se Tobias. . enquanto o desconhecido correspondia. gentil: . satisfeito. atencioso -. Não se passaram muitos minutos e assomou à porta um senhor de maneiras desembaraçadas. evidenciando grande bondade. revelando a maior boa-vontade. Nos círculos carnais. Identificando-me a ansiedade. . bem-humorado -.Estou de caminho .É possível obter ocupações justas. é preferível que visite. Por enquanto. . André precisa integrar-se no conhecimento mais íntimo de nossas tarefas.. E logo.acrescentou ele. antes que se dirija às Câmaras de Retificação.explicou Genésio.

deparou-se-nos vastíssima escadaria. nem a atmosfera de cima. dá trabalho a mais de cem mil criaturas. Segui Tobias resolutamente.As Câmaras de Retificação estão localizadas nas vizinhanças do Umbral. comovido. onde numerosos edifícios me pareceram colmeias de serviço intenso. o novo amigo esclareceu: . Servidores numerosos iam e vinham. comunicando com os pavimentos inferiores. Depois de extensos corredores.disse Tobias em tom grave. E notando minha estranheza. Percebendo-me a silenciosa indagação.Desçamos . nos primeiros tempos de moradia em "Nosso Lar". Os necessitados que aí se reúnem não toleram as luzes. penetramos num edifício de aspecto nobre. solícito: . A preparação de sucos. Atravessamos largos quarteirões. que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo. com palavras de animação. de tecidos e artefatos em geral. explicou.145 NOSSO LAR O Ministro Genésio abraçou-me. .Temos aqui as grandes fábricas de "Nosso Lar". . Daí a momentos.

Singular vozerio pairava no ar. Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar. ENFIM Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos. que aconteceu? . Não era bem o hospital de sangue.Vejo poucos auxiliares . mãos esqueléticas. soluços. Rostos escaveirados. facies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.esclareceu a velhinha em tom respeitoso determinou que a maioria acompa- . ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos. que acudiu atenciosamente: .. chamou velha servidora. frases dolorosas pronunciadas a esmo. Era uma série de câmaras vastas.O Ministro Flácus . Gemidos. Tobias. imperturbável. nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica.disse admirado -.146 27 O TRABALHO..

. em benefício dele mesmo. nas regiões do Umbral. . Socorro! socorro! quero sair.. agarrado ao leito. por caridade! .Por que teria o Ribeiro piorado tanto? . Gritava que lhe exigiam a presença no lar. emitidos pelos parentes encarnados.tornou ele sereno -.e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios.(Nota do Autor espiritual. . aplicar alguns passes de prostração. a correr desabaladamente. sair!. gesticulando. Deliberei. Irmão Tobias!.Irmão Tobias!.) . não temos tempo a perder. . era a causa fundamental desse agravo de perturbação. mas foi impossível.. Subtrai-lhe as forças e a motilidade. que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos. . muito ar! Tobias aproximou-se.. Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito.explicou a serva .Há que multiplicar energias .estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra. __________ (1) Organização de Espíritos benfeitores em "Nosso Lar". então. Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo.Hoje.gritou um ancião. examinou-o com atenção e perguntou: . quero ar. que era crueldade retê-lo aqui. à maneira de louco .. como seria de desejar. a serviçal prosseguia esclarecendo: .Experimentou uma crise de grandes proporções .. distante do lar. Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo. ele se ausentou sem consentimento nosso. muito cedo. .147 NOSSO LAR nhasse os Samaritanos (1) para os serviços de hoje. o pobre não tem resistido.

o novo orientador explicou: .explicou o companheiro bondosamente .148 NOSSO LAR .apenas a entidades de natureza masculina. Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor.acentuou Tobias. e calei. Notando-me a admiração.O pobrezinho permanece na fase de pesadelo. É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações. Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança. mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito. sob o império de baixos pensamentos. das emanações mentais dos que ali se congregavam. para que nos deixe o Ribeiro em paz. Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões. meu caro. muita vez. pensativo -. Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos. com as dolorosas impressões da morte física e.Reservam-se estas câmaras . oriunda. recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias. encontra na vida real o que amontoou para si mesmo. sentindo a desagradável exalação ambiente. muito trêmulo. como vim a saber mais tarde. Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas. rosto ceráceo. conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação. O homem. entretanto. Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima. . em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias. que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama. verificando a legítima expressão de um dementado. . vou pedir providências contra a atitude da família.Fez muito bem . Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras. esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas. Ribeiro. relativas à curiosidade.

Socorro. recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos.Não devemos observar aqui somente dor e desolação.149 NOSSO LAR .. interessado. como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados! Por que este quadro angustioso? Tobias respondeu sem se perturbar: .bradava um estagiário. Foram negociantes imprevidentes. a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também. não contive a interrogação penosa: .atalhei.Meu amigo.. . . o poder do dinheiro. descuidosos de si mesmos. que já se retiraram do Umbral. pelo menos. acentuou: ...São contrabandistas na vida eterna. em que parecia surdo a tantos clamores. onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes. . oferecendo-lhes ensejos a disparates novos. . E depois de uma pausa.gritava outro. O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme: . Supunham que o prazer criminoso.Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito.Por amor de Deus!. Nestes pavilhões. Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas. . já se preparam para o serviço regenerador. Lembre.Como assim? .. Não apren- . Não suporto mais!..Tobias! Tobias. Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais. Estou morrendo à fome e sede! .exclamava ainda outro. irmão!. Quanto às lágrimas que vertem. meu irmão. A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração... que estes doentes estão atendidos.

. não há outro recurso senão dormirem longos anos. Agora. a imobilidade e a vitória do crime.. em pesadelos sinistros. começaram ambos a expelir . Ao invés de aceitarem o Senhor. Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento. solícita. Chamamos-lhes crentes negativos. conduziu-me a vasta câmara anexa.150 NOSSO LAR deram as mais simples operações de câmbio no mundo. no movimento. Finda a operação nos dois primeiros. Quando iam a Londres. evidenciando apenas leves movimentos de respiração. Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e. Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos. após distribuir conforto e esclarecimento a granel. acompanhava-nos. sob meus olhos atônitos. admitiam somente o nada. trocavam contos de réis por libras esterlinas. a serviço da coletividade. Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa. a servidora. nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade.Vejamos alguns dos infelizes semimortos. entretanto. no trabalho. eram vassalos intransigentes do egoísmo. Fazendo gesto significativo com o indicador. Tobias esclareceu: . que fazer? Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma. Narcisa. Não conseguia externar meu espanto. ao invés de crerem na vida. Muito cuidadoso. Meu novo instrutor. em forma de grande enfermaria.Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes. notificando: . Realíssimo! Tobias não podia ser mais lógico. como não tinham qualquer idéia do bem.

São fluidos venenosos que segregam .151 NOSSO LAR negra substância pela boca. com terríveis emanações cadavéricas. e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo. O serviço continuou por todo o dia. A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão. muito calmo. ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos. me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor. custando-me abençoado suor. na enfermagem rudimentar. espécie de vômito escuro e viscoso. que. mas debalde. Foi então. instintivamente. Grande numero deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida. . . Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza.explicou Tobias.

.. Chegare- .. começou a transmitir o recado.. Estabelecido o contacto elétrico. Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos.. Nossas turmas estão organizando o transporte. em horas convencionais. depois de alguns minutos de espera: . Foi possível deslocar grande multidão de infelizes. Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor.Samaritanos ao Ministério da Regeneração!. mas o coração entoava hinos de alegria interior. vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa.152 28 EM SERVIÇO Encerrada a prece coletiva. ao crepúsculo. sob meus olhos. Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica. Recebera a ventura do trabalho. o pequenino aparelho. a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral. seqüestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos. Tobias ligou o receptor. afinal. Muito trabalho nos abismos da sombra. Justamente curioso..

. sempre. Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas es- .Como assim? Por que esse transporte em massa? Não são todos espíritos? Tobias sorriu e explicou: . Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados. ponderando: . não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios: .. .O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo. Pedimos providenciar. ou nos círculos do Umbral. Conheço o episódio de sua vinda. dirigiu-se a Narcisa. porém. o mesmo.respondeu Tobias resoluto -. que a Natureza não dá saltos e que. enquanto a segunda corta. É preciso recordar. estamos revestidos de fluidos pesadíssimos. não se dará no concernente à assistência.Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade..Serão necessários muitos leitos! . tanto o avestruz como a andorinha. as vastas regiões do céu. tão logo silenciou a estranha voz.. como a ponderar algo muito sério. Em seguida. e exclamou: . célere. na Terra. o primeiro apenas subirá às alturas se transportado. levou a destra à fronte..murmurou a serva algo pesarosa.Não se aflija . entretanto.É muito grande a leva desta noite. E deixando perceber que o momento não comportava divagações. alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33.153 NOSSO LAR mos alguns minutos depois da meia-noite. Precisamos tomar providências imediatas. São aves e têm asas.

Não posso permanecer aqui.Ofereço-me. porquanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados. .Outros não fazem o mesmo? . Precisamos de pessoal de serviço noturno. para o que possa aproveitar .154 NOSSO LAR feras da Crosta. preparando roupa adequada e petrechos de enfermagem. durante a noite? perguntou. preciso recuperar o tempo perdido. Abraçou-me o generoso amigo. caso necessário. dois irmãos de minha confiança. Além do mais. E descortinou-se campo enorme de providências. Apesar da fadiga dos braços.sinto-me disposto e forte.indaguei por minha vez . Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia.Pois bem. . eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33. de plantão noturno. facilitando quanto possível a execução. aceito confiante a colaboração. com prazer. mandarei Venâncio e Salústio.Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras. Não poderia explicar o que se passava comigo.exclamei espontaneamente. admirado. em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados. mesclada de gratidão. . você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade. no entanto. em vista de compromissos anteriores. fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima. Traçarei o plano dos trabalhos. . experimentava júbilo inexcedível no coração. Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa. acrescentando: . Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda.

contudo. onde a maioria procura o trabalho. francamente. Atraído pela sua generosidade. a irmã aqui trabalha há muito? . você poderá descansar. .Sim. servir constitui alegria suprema. nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço.perguntei. entretanto. O máximo de trabalho. a certa altura da palestra amistosa. falou Narcisa amavelmente: . Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples. na compensação dos bônus-hora. Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento. há seis anos e alguns meses. Dentre as figuras de auxiliares presentes. minha satisfação era profunda. reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado. . Tobias voltou a abraçar-me e falou: . passei a interessar-me pelos doentes. Não pensava. Ante a silenciosa indagação do meu olhar. entendendo-lhe o sublime valor.Preciso um endosso muito sério. perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio. A sós com o grande número de enfermeiros. Amanhã. Ao despedir-se. boa noite e serviço útil. A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria. mas estamos em circunstâncias especiais. às oito horas. . impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa.155 NOSSO LAR Na oficina. é de doze horas. permaneço nas Câmaras de Retificação. cada dia. ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos. maternalmente. em serviço ativo.Mas. que atendia a todos. com mais carinho. busquei aproximar-me com interesse.Desejo a vocês muita paz de Jesus.

considerando demasiada a exigência.perguntei interessado. para que eu possa corrigir certos desequilíbrios do sentimento. o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício. Afinal. Vivia perturbada. viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra. e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio. quis recusar. Sinto-me mais equilibrada e mais humana e. aquela irmã dedicada. para serviços de elevação em conjunto. a possibilidade necessária aos meus fins. mas um dos enfermos próximos gritou: . em razão de meus desvios passados. transformada em mãe espiritual dos sofredores. . recorrer a Ministra Veneranda. aceitando-lhe o parecer. na Terra. creio. . mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui. reconheci que ela estava com a razão. porém. Por muito tempo. depois. roguei.Que quer dizer com isso? . em vão.156 NOSSO LAR .Preciso encontrar alguns espíritos amados. por mera curiosidade pessoal.Narcisa! Narcisa! Não me cabia reter. Ia manifestar profunda admiração. Aconselharam-me. No primeiro instante. aflita. E ganhei muito.

meu filho! apaixone-se pelo seu trabalho. Somente assim. embriague-se de serviço útil. esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno. notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios. porém. disse. fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas. a genitora de Lísias parecia exultar. De fato. compartilhando meu justo contentamento.Muito bem. que esta casa também lhe pertence. Era a senhora Laura que pedia notícias. Lembre. Regressando ao contacto direto com os enfermos. atenderemos à nossa edificação eterna.157 29 A VISÃO DE FRANCISCO Enquanto Narcisa consolava o doente aflito. Procurei ajudá-la. bondosa: . Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos. Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação. Ao termo de nossa ligeira conversa. Através do fio. .

cordata -.. Já voltou a atormentarme! Veja.. . lá vem "ele"!. . . o monstro! Sinto os vermes novamente! "Ele"! "Ele"!. vamos ao passe. Ajudá-lo-ei a fazê-lo.Este fantasma diabólico!.158 NOSSO LAR O pobrezinho.. O fantasma fugirá de nós.. acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos.. . .Calma. irmã. olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor. medo!. acentuava: .. "ele" não me deixa. repare bem... E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores. mas volvia à mesma palidez de antes. E.respondia ela. provocando compaixão.Irmã Narcisa. Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre. veja!. ganhar muita serenidade e alegria. Livre-me "dele" irmã! Não quero.pedia a companheira dos infortunados -. gritava. Francisco . espantadiço: ..dizia a irmã dos infelizes. É necessário expelir a substância azeda. Francisco . mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo. você vai libertar-se. . O doente mostrava boa-vontade. . . .Estou vendo-o. por amor de Deus! Tenho medo. piedosamente -.acrescentava a chorar como criança.Mas.. que Francisco agradeceu. prorrompendo em novas exclamações. de olhos perdidos no espaço.Confie em Jesus e esqueça o monstro . não quero!.Acuda-me. mas depende do seu esforço. manifestando imensa alegria no olhar. mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo.

159 NOSSO LAR - Agora - disse ele, finda a operação magnética -, estou mais tranqüilo. Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada. Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me. O bem, como o mal, em toda parte estabelece misterioso contágio. Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço. - A quem se refere o doente? - indaguei, impressionado. Está, porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar? A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: - Trata-se do seu próprio cadáver. - Que me diz? - tornei, espantado. - O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência. Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem se conformar com situação diversa. Queria firmemente levantar o corpo hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou muito tempo. Amedrontava-se com a idéia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas. Não valeram socorros das esferas mais altas, porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna. Por fim, os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo, tomado de horror. Começou, então, a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação

160 NOSSO LAR na colônia. Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força. Seu estado, contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das Câmaras de Retificação. O amigo, que lhe foi genitor na carne, está presentemente em arriscada missão, distante de "Nosso Lar". - E vem visitar o doente? - perguntei. - Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe o sofrimento, discreto. Tamanha é a perturbação do rapaz, que não reconheceu o pai generoso e dedicado. Gritava, aflito, mostrando a demência dolorosa. O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz. Demoraram-se bastante, comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais. Mas, quando o Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo. Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente. Não pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós Não sei o que se passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, desde esse dia, melhorou bastante. A demência total reduziu-se a crises que são, agora, cada vez mais espaçadas. - Como tudo isso comove! - exclamei sob forte impressão. Entretanto, como pode a imagem do cadáver persegui-lo? - A visão de Francisco - esclareceu a velhinha, atenciosa -, é o pesadelo de muitos espíritos depois da morte carnal. Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele e para ele,

161 NOSSO LAR votando-lhe verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam. Repelem quaisquer idéias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar. Surgem, no entanto, os vermes vorazes, e os expulsam. A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista. A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma. Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma. Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou: - Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de serviço. Ah! como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne! Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos. A crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará o vôo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um gigante. A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu. Todo embrião de vida parece dormir. Não devemos esquecer estas lições. E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio.

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HERANÇA E EUTANÁSIA
Ainda não voltara a mim da profunda surpresa, quando Salústio se aproximou, informando a Narcisa: - Nossa irmã Paulina deseja ver o pai enfermo, no Pavilhão 5. Antes de atender, julguei razoável consultá-la, porque o doente continua em crise muito aguda. Mostrando gestos de bondade que lhe eram característicos, Narcisa acentuou: - Mande-a entrar sem demora. Ela tem permissão da Ministra, visto estar consagrando o tempo disponível em tarefa de reconciliação dos familiares. Enquanto o mensageiro se despedia, apressado, a enfermeira bondosa acrescentava, dirigindo-se a mim: - Você verá que filha dedicada! Não decorrera um minuto e Paulina estava diante de nós, esbelta e linda. Trajava uma túnica muito leve, tecida em seda luminosa. Angelical beleza caracterizava-lhe os traços fisionômicos, mas os olhos denunciavam extrema preocupação. Narcisa apresentou-a delicadamente e, sentindo talvez que poderia confiar na minha presença, perguntou, algo inquieta:

163 NOSSO LAR - E papai, minha amiga? - Um pouco melhor - esclareceu a enfermeira -, no entanto, ainda acusa desequilíbrios fortes. - É lamentável - retrucou a jovem -, nem ele, nem os outros cedem no estado mental a que se recolheram. Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência. Narcisa nos convidou a acompanhá-la, e, minutos após, tinha diante de mim um velho de fisionomia desagradável. Olhar duro, cabeleira desgrenhada, rugas profundas, lábios retraídos, inspirava mais piedade que simpatia. Procurei, contudo, vencer as vibrações inferiores que me dominaram, a fim de observar, acima do sofredor, o irmão espiritual. Desapareceu a impressão de repugnância, aclarando-se-me os raciocínios. Apliquei a lição a mim mesmo. Como teria chegado, por minha vez, ao Ministério do Auxílio? Deveria ser horrível meu semblante de desesperado. Quando examinamos a desventura de alguém, lembrando as próprias deficiências, há sempre asilo para o amor fraterno, no coração. O velho enfermo não teve uma palavra de ternura para a filha que o saudou carinhosa. Através do olhar, que evidenciava aspereza e revolta, semelhava-se a uma fera humana enjaulada. - Papai, o senhor sente-se melhor? - perguntou com extremo carinho filial. - Ai!... Ai!... - gritou o doente em voz estentórica - não posso esquecer o infame, não posso descansar o pensamento... Ainda o vejo a meu lado, ministrando-me o veneno mortal!... - Não diga isso, papai - pediu a moça delicadamente -, lembre-se de que Edelberto entrou em nossa casa como filho, enviado por Deus. - Meu filho?! - gritou o infeliz - nunca! nunca!... É criminoso sem perdão, filho do inferno!...

na Terra. Muito lutamos e padecemos. Atravessamos experiências consangüíneas. Estive em nossa casa.Ouçamos. Daqui. Ouvindo-lhe a voz muito meiga. em vibrações sutis. não o filho leviano. mas o irmão necessitado de esclarecimento. e eles lhe fazem o mesmo por idêntico modo. na Terra. faz alguns dias. lá observando extremas perturbações. Nossos lares terrestres são cadinhos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime. ainda hoje. a caminho da solidariedade universal.164 NOSSO LAR Paulina falava. se sua mente vigorosa não estivesse mergulhada em propósitos de vingança. A permuta de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento nas almas. Um quadro terrível. a lição de Jesus. Aliás. ao hospício. sob a bênção providencial de um Pai único. mamãe louca e os filhos perturbados. alcança o alvo. o doente se pôs a chorar convulsivamente. . para adquirir o verdadeiro amor espiritual. Amália e Cacilda entraram em luta judicial com Edelberto e Agenor. a fim de aprendermos a fraternidade sem mácula. por mais distante que esteja. agora. que é Deus. na Criação. vemo-lo em estado grave. em virtude dos grandes patrimônios materiais que o senhor ajuntou nas esferas da carne. O pensamento. com os olhos rasos dágua. papai. é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno. Somos todos uma só família. Mamãe recolheu-se. deste leito.Perdoe Edelberto. mas o Senhor da Vida nos permite a paternidade ou a maternidade no mundo. até adquirir o verdadeiro título de irmão. o senhor envolve todos os nossos em fluidos de amargura e incompreensão. que recomenda nos amemos uns aos outros. uma fortuna de um milhão e quinhentos mil cruzeiros. Aqui. odiando-se entre si. . papai! Procure sentir nele. Em meio de tantas mentes desequilibradas. E que . ralada de angústia. cujas sombras poderiam diminuir.

e é justo que não prescinda da contribuição de mordomos fiéis. mas. São raros os que se preocupam em ajuntar conhecimentos nobres. costumamos amealhar o dinheiro por espírito de vaidade e ambição.. busquei levar socorro espiritual ao ambiente doméstico. É natural que a vida humana peça o concurso da previdência. qualidades de tolerância..165 NOSSO LAR vale isso. às vezes. Impomos a outrem os nossos caprichos. papai. mas ninguém será mordomo do Pai com avareza e propósitos de dominação. noutro tempo. afastamo-nos dos serviços do Pai. Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam por aumentar haveres. retomando a palavra: . entregando-se a más companhias. se não há um átomo de felicidade para ninguém? . bênçãos de compreensão. não nos lembramos disso.atalhou o infeliz. Querendo viver acima dos outros. Se o senhor assegurasse o futuro dos nossos. luzes de humildade. Tal gênero de vida arruinou nossa casa. Paulina não o deixou terminar. garantindo-lhes a tranqüilidade moral e o trabalho honesto. que saibam administrar com sabedoria. Amália e Cacilda esqueceram o serviço útil e. seu esforço seria de valiosa previdência. desejando o bem-estar de todos. Edelberto conquistou o título de médico. encontraram ociosos que as desposaram. senão nas expressões externas da vida. Ninguém nasce no planeta simplesmente para acumular moedas nos cofres ou valores nos bancos. rancorosamente -. como preguiçosas da banalidade social. alheando-se por completo da Medicina e exercendo-a tão-somente de longe em lon- . no capítulo da riqueza transitória.Nem sempre sabemos interpretar o que seja benefício. Agenor repudiou o estudo sério. Debalde. visando a vantagens financeiras. esquecemos a lapidação do nosso espírito.Mas eu leguei enorme patrimônio à família .

o Edelberto. em regra.166 NOSSO LAR ge à maneira do trabalhador que visita o serviço por curiosidade. Daí a instante. despedindo-se Paulina a evidenciar muita generosidade nas frases gentis. continuou a praguejar em voz alta.Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato! Matou-me sem piedade. Fui a casa de nossa amiga. mas Narcisa endereçou-lhe significativo olhar. são extremamente complicados. A jovem preparavase para discutir. retirava-me em companhia de ambas. quando o irmão.. Narcisa disse.. Todos arruinaram belas possibilidades espirituais. no genitor quase moribundo. Malvado!.. bondosa: . mas muita tristeza no olhar afogado em justa preocupação. Esforçamo-nos por . sob forte impressão. papai! Tenha compaixão de seu filho.Cale-se. as lágrimas. empregou. em toda a família de Paulina. chamando Salústio para socorrer o doente em crise. . Pais avarentos possuem filhos esbanjadores. médico de aparência distinta.. distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à idéia de herança. acarretam enorme peso a legadores e legatários. mas também a eutanásia.Os casos de herança. O enfermo tomou uma expressão de pavor e acrescentou: . esquisitices e desavenças. porém. perdoe e esqueça!. Calou-se Paulina. acariciando a fronte paterna e contendo. porém. quando ainda necessitava regularizar minhas disposições testamentárias! Malvado!. A ambição do dinheiro criou. Com raras exceções. Voltando à intimidade. a chamada "morte suave". O velho. Neste caso. As duas amigas trocaram confidências. vemos não só isso.. a custo.. ainda por alguns minutos.

mas nós costumamos transformar-nos em espíritos diabólicos.o ódio e a moléstia. mas foi tudo em vão. de fato. . e aí temos agora a imprevidência e o resultado . criando nossos infernos individuais. E com expressivo gesto. Narcisa rematou: . O pobre rapaz desejava.Deus criou seres e céus. por questões de ordem financeira.167 NOSSO LAR o evitar. apressar o desenlace.

Logo após às vinte e uma horas. mas Narcisa deteve-me. Era um homenzinho de semblante singular. atenciosa: . escutei gritaria próxima. Fiz instintivo movimento de aproximação. Guarde essa emoção para mais tarde. para não me desviar da obrigação justa.168 31 VAMPIRO Eram vinte e uma horas.disse -. Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual. chegou alguém dos fundos do enorme parque. Entretanto. outro necessitava passes de reconforto. Era indispensável recordar o conselho da genitora de Lísias. no Pavilhão 11. senão em momentos de palestra rápida. Quando fomos atender a dois enfermos. um doente pedia alívio. fervilhavam-me no cérebro mil interrogações. ali. Não insisti. localizam-se ali os desequilibrados do sexo. O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos. necessária à solução de problemas espirituais.Não prossiga . Aqui. a cada momento. evidenciando a condição de trabalha- . Ainda não havíamos descansado.

dai-me abrigo à alma cansada! Onde está .Filhos de Deus . Justino? Qual é a sua mensagem? O operário.169 NOSSO LAR dor humilde. . aflito: . que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação. senhora. respondeu. via-se o arvoredo tranqüilo do parque muito extenso. imperceptíveis ao meu olhar.interrogou a enfermeira. Deparou-se-nos.revidou Narcisa. senão o vulto da infeliz. então. porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros. não pude fazê-lo.Segundo as ordens que nos regem. o caso é muito grave.Que me diz? . ordinariamente calma. através do campo enluarado. rosto horrendo e pernas em chaga viva.Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro. mas Narcisa parecia divisar outros detalhes.E por que não a atendeu? . coberta de andrajos. perguntando: . quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador. no grande portão que dá para os campos de cultura. segui a enfermeira. a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado. Havíamos percorrido mais de um quilômetro. . Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas. Lado a lado.Então. . O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou: .Que há.bradou a mendiga ao avistar-nos -.Sim. assustada. . Nada vi. agitado pelo vento caricioso. . Narcisa recebeu-o com gentileza. Curioso. A distância não era pequena. dado o assombro que estampou na fisionomia.

Narcisa. É preciso entregá-la à própria sorte .Fez muito bem.Faça o obséquio de esperar alguns minutos. nada posso resolver por mim mesma.170 NOSSO LAR o paraíso dos eleitos. aproximou-se da infeliz e informou. mostrava-se comovida. em tom fraterno: . quando se trata de criaturas nestas condições.respondi. comunicando-me o fato.Não está vendo os pontos negros? .Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada. Vamos até lá. Dirigimo-nos os três para o local indicado. mas. e disse: .Se estivesse em minhas mãos. Assim dizendo. Pela primeira vez. entrei em contacto com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação. Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou: . continuou: . depois de ligeira pausa. abriria imediatamente a nossa porta. orientador dos vigilantes. . Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração. o Irmão Paulo. Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência.Não .Está mulher. Chegados à cancela. Voltamos apressadamente ao interior. em serviço. Tratase de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. E. por sua vez. não pode receber nosso socorro. para que eu possa fruir a paz desejada. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe. examinou atentamente a recém-chegada do Umbral. mas falou em tom confidencial: . por enquanto.

Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia. Narcisa. era minha instrutora de serviço que respondia negativamente. que.esclareceu ele -. Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada. por vezes. outras por asfixia. alguma coisa além dos pontos negros? Agora. . Baixando o tom de voz. umas por golpes esmagadores.Conte as manchas pretas. recomendou: . exclamou para a enfermeira: . Irmão Paulo. Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu. com a paciência dos que sabem esclarecer com amor.Permitir essa providência .respondeu o Vigilante-Chefe. entregava-se a crimes nefandos. . E indicando a mendiga que esperava a decisão. a gritar impaciente. após alguns instantes: . apresentam atenuantes de vulto.Cinqüenta e oito.Pois vejo mais . adiantou-se suplicante: . explorando a infelicidade de jovens inexperientes. não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras? . seria trair minha função de vigilante. A pretexto de aliviar consciências alheias. que me pareceu compartilhar da mesma impressão. explicou: . A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas. O Irmão Paulo.Esses pontos escuros representam cinqüenta e oito crianças assassinadas ao nascerem.171 NOSSO LAR Senti-me escandalizado.Mas.Já notou. Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa.

. Para que nos serve aqui um serviço de vigilância? E. nas ocasiões perigosas. impressionando pela sinceridade -. também eu já errei muito no passado.. sorrindo expressivamente. o Irmão Paulo acrescentou: . com o direito sublime da vida. de perto. Se me permite. é preciso sabermos aceitar o sofrimento retifica- . a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno. assombrado.172 NOSSO LAR Recordei. refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre.Irmão Paulo. entretanto. eu lhe dispensarei cuidados especiais. temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa-vontade de resgatar nossos débitos. em que muitas vezes enxergara. nada deseja senão perturbar quem trabalha. Demonstrando a sensibilidade das almas nobres. O Vigilante-Chefe aproximou-se. que todos somos espíritos endividados.respondeu lacrimosa. então.Socorro! socorro! socorro!. Narcisa rogou: .Não falo aqui de providências legítimas. . lendo-me o pensamento. por agora.Que deseja a irmã.ponderou acertadamente -.Reconheço. exclamou: . minha amiga . que constituem aspectos das provações redentoras.. do nosso concurso fraterno? .Mas.respondeu o diretor da vigilância. . mas esta criatura.Busquemos a prova. minha amiga . Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. Atendamos a esta desventurada. os processos da medicina. da pedinte e perguntou: . mas.

endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera. volte até aqui.. Estou procurando o paraíso que fiz por merecer. nem serviço. durante longos minutos. Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra. Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar.173 NOSSO LAR dor. reconhecendo as necessidades próprias..Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranqüila. como quem permanece absolutamente senhor de si Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar. Fui caridosa e crente. respondeu a interlocutora: . onde os doentes reconhecem o seu mal e tentam curar-se.. Irada. retirando-se a passo firme. Creio que a irmã ainda não recebeu. praticando boas obras. Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus. E.Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!. inquieta. A mendiga objetou atrevidamente: . boa e pura. falou o Vigilante-Chefe com autoridade: . que iam à luta com a permissão de Deus? Ouvindo-o. canalha!.Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos e atos. ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou: . perdeu o aspecto de enferma ambulante. acrescentou: ... Não temos aqui o céu que deseja.Faça. junto de servidores de boa-vontade. então. o favor de retirar-se. Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis. e.. .. Não voltarei jamais!. voltando-se para nós. nem mesmo o benefício do remorso. então. Assumindo atitude ainda mais firme.Não lhe pedi remédio.. Estamos numa casa de trabalho.

mas. não lhe poderia abrir nossas portas.174 NOSSO LAR .Observaram o Vampiro? Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente. o Vigilante-Chefe rematou: . Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição. por princípio de caridade legítima. a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina. criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu. é profundamente má e afirma-se boa e pura. sofre desesperadamente e alega tranqüilidade.É imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências. na posição em que me encontro. Naturalmente. .

.não há somente caminhos para o Umbral ou apenas cultura de vegetação destinada aos sucos alimentícios. que penetrara o parque banhado de luz. Periodicamente. enunciando perguntas veladas. Aquelas árvores acolhedoras. Entre as grandes fileiras das árvores.175 32 NOTÍCIAS DE VENERANDA Agora. experimentava singular fascinação. De maneira indireta. há recintos de maravilhosos contornos para as conferências dos Ministros da Regeneração. quando ele se digna de vir até nós.No grande parque .dizia ela . . E observando-me a curiosidade sadia. provocava explicações de Narcisa. reservando-se. porém. um de assinalada beleza. aquelas virentes sementeiras reclamavam-me a todo momento. outros para Ministros visitantes e estudiosos em geral. continuou esclarecendo: .Trata-se dos "salões verdes" para serviço de educação. para as conversações do Governador. A Ministra Veneranda criou planos excelentes para os nossos processos educativos.

No centro. Os mais interessantes. o teto acolhedor.prosseguiu a enfermeira. . dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes. a campanha do "salão natural".acrescentei. entusiasticamente -. Temos. com as bênçãos do Sol ou das estrelas distantes. então. havia precisamente quarenta anos. Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade. Soube que tal se dera. que solicitou o concurso de Veneranda na organização de recintos dessa ordem. no firmamento.Sem dúvida . Nos parques de educação do Esclarecimento.Devem ser prodigiosos esses palácios da natureza .176 NOSSO LAR as árvores eretas se cobrem de flores. em forma de estrela. são os que se instituíram nas escolas. inclusive o da União Divina. interpelei: . assim. todavia.Há diferença. A Ministra ideou os quadros evangélicos do tempo que assinalou a passagem do Cristo . no Bosque das Águas.E o mobiliário dos salões? Tal como dos grandes recintos terrenos? Narcisa sorriu e acentuou: . instalou a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação. Variam nas formas e dimensões. aplausos francos em toda a colônia. Todos os Ministérios pediram cooperação. unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual. à maneira do cinematógrafo terrestre. a meu ver. Iniciouse. . funciona enorme aparelho destinado a demonstrações pela imagem. cheias de encantos naturais. com o qual é possível levar a efeito cinco projeções variadas. simultaneamente. Valendo-me da pausa natural. dando idéia de pequenas torres coloridas. segundo me informaram. Surgiram deliciosos recantos em toda parte. o projeto da Ministra despertou.

lagos minúsculos. ardentes afirmações de esperança e serviço às esferas superiores. Isso imprime formosura e disposições características. conferenciando com os Ministros da Regeneração. e sugeriu recursos da própria natureza. prosseguiu: . interrompeu-se a bondosa enfermeira. em homenagem ao Mestre dos mestres. Esse salão é nota de júbilo para os nossos Ministérios. e dessa recordação surgiu o empreendimento do "mobiliário natural". e decorou o salão a traços especiais. de trinta a trinta dias. A conservação exige cuidados permanentes. A Ministra reserva o mais lindo aspecto para o mês de dezembro. em comemoração ao Natal de Jesus. por sua vez. conversando com os trabalhadores. identificando-me o interesse silencioso. A Ministra Veneranda descobriu que ele sempre estimou as paisagens de gosto helênico.O mais belo recinto do nosso Ministério é o destinado às palestras do Governador. Cada "salão natural" tem bancos e poltronas esculturados na substância do solo. forrados de relva olente e macia. quando de suas divinas excursões junto ao Tiberíades. quase que semanalmente. aos domingos. mas a beleza dos quadros representa vasta compensação. mas.177 NOSSO LAR pelo mundo. mais antigo. Ali permanece longas horas. A essa altura.. formados em pequenos canais de água fresca. quando a cidade recebe os mais formosos pensamentos e as mais vigorosas promessas dos nossos companheiros encarnados na Terra e envia. oferecendo sugestões valiosas. pontes graciosas. Talvez já saiba que o Governador aqui vem. recebendo nossos votos e visitas. Disse a organizadora que seria justo lembrar as preleções do Mestre. palanquins de arvoredo e frondejante vegetação. Cada mês do ano mostra cores diferentes. em razão das flores que se vão modificando em espécie. em plena praia. e confortan- . examinando nossas vizinhanças com o Umbral.

atalhou Narcisa. relativamente a ela.. À noitinha. com reverência -. em "Nosso Lar". A maioria dos forasteiros. Impressionado com as informações. Os onze Ministros. quando pode demorar-se. que já viu Jesus nas Esferas Resplandecentes. adiantei: . em "Nosso Lar". a Ministra Veneranda é a única entidade. executados por jovens e crianças dos nossos educandários. costuma vir até aqui só no propósito de conhecer esse "palácio natural".O salão da Ministra Veneranda . foram por ela criados para atender aos mais infelizes. Com exceção do Governador. há outra nota interessante. Permanece em tarefa ativa. que com ela atuam na Regeneração. . que se hospedam em "Nosso Lar". é considerada pela Governadoria como das mais dignas. Além disso. há quatro anos.é também esplêndido recinto. neste Ministério. ouve música e assiste a números de arte. "Nosso Lar" ama- . .Como deve ser respeitável essa benfeitora!. ouvem-na antes de tomar qualquer providência de vulto. Em numerosos processos. que acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas. em geral. é criatura das mais elevadas de nossa colônia espiritual. eu experimentava um misto de alegria e curiosidade. mas nunca comentou esse fato de sua vida espiritual e esquiva-se à menor informação a tal respeito. cuja conservação nos merece especial carinho. nesta cidade. Ouvindo os interessantes informes. há mais de duzentos anos. Sua tradição de trabalho. animadamente . Todo o nosso préstimo será pouco para retribuir as dedicações dessa abnegada serva de Nosso Senhor.Você diz muito bem . Grande número de benefícios. É a entidade com maior número de horas de serviço na colônia e a figura mais antiga do Governo e do Ministério. a Governadoria se socorre dos seus pareceres..178 NOSSO LAR do enfermos convalescentes. Um dia.continuou Narcisa.

satisfeita: . homenagearam Veneranda conferindo-lhe a medalha do Mérito de Serviço. e espera com paciência. . que parecia alegrar-se com o meu interesse. sem reclamar e sem esmorecer. Soube que essa benfeitora sublime vem trabalhando. explicou. o troféu aos arquivos da cidade. impressionado.perguntei. a fim de esclarecer alguns aprendizes sobre o pensamento. até hoje.Intimamente. apesar dos protestos do Governador. Entregou. na praça maior.Como poderei conhecê-la? . . a Ministra virá ao salão. os Ministérios e a multidão. Narcisa. mais tarde.Extraordinária mulher! . em seguida. apresentando um milhão de horas de trabalho útil. Desistiu de todas as homenagens festivas com que se pretendia comemorar. jamais comentando a honrosa conquista. que regem os destinos cristãos da América.por que não se encaminharia a esferas mais altas? Narcisa baixou o tom de voz e declarou: .179 NOSSO LAR nheceu em festa. As Fraternidades da Luz.Amanhã. há mais de mil anos. semelhante triunfo. mas em meio do júbilo geral.disse eu . afirmando que não o merecia e transmitindo-o à personalidade coletiva da colônia. sem interromper. a primeira entidade da colônia que conseguiu. a Ministra Veneranda apenas chorou em silêncio. reunidos a Governadoria. ela vive em zonas muito superiores à nossa e permanece em "Nosso Lar" por espírito de amor e sacrifício. pelo grupo de corações bem-amados que demoram na Terra. . Generosa comissão veio trazer a honrosa mercê. à tardinha. o acontecimento. após as preces.

180 33 CURIOSAS OBSERVAÇÕES Poucos minutos antes de meia-noite. Nas Câmaras. Ventos frescos agitavamnas de manso. Narcisa permitiu minha ida ao grande portão das Câmaras. Onde estaria a paragem de sonho? Na Terra. ou naquela colônia espiritual? Que teria sucedido a Zélia e aos filhinhos? Por que razão me prestavam ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da vida. Sentindo-me só. silencioso. para tomar providências. qualquer notícia pertinente ao meu antigo lar? Minha própria mãe me acon- . troncos que recordavam o carvalho vetusto da Terra. sob as frondes carinhosas. Era imprescindível observar-lhes a volta. Os Samaritanos deviam estar nas vizinhanças. folhas caprichosas lembrando a acácia e o pinheiro. desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio. não experimentara tamanha impressão de bem-estar. além. Aquele ar embalsamado figurava-se-me uma bênção. Com que emoção tornei ao caminho cercado de árvores frondosas e acolhedoras! Aqui. envolvendo-me em sensações de repouso. omitindo. Assim caminhava. ponderei os acontecimentos que me sobrevieram. contudo. apesar das janelas amplas.

Não era eu o náufrago abandonado. não devia o desastre senão a mim mesmo. Por que decisões do destino estávamos agora separados. apro- . no entanto. Ao deixar os círculos carnais. E que teria sucedido à esposa e aos filhinhos. admirava-me de haver perdido tanto tempo no mundo em frioleiras de toda sorte. mas. prendendo-me então aos imperativos do dever justo. muito amara a companheira de lutas e. como que desejoso de me espertar a mente para estados mais altos.181 NOSSO LAR selhara o silêncio. Tarde verificava esse descuido.. Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais. reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares. examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai. encontrava a saudade viva dos meus. Se minha experiência podia classificar-se como naufrágio. O vento calmo parecia sussurrar concepções grandiosas. dispensara aos filhinhos ternuras incessantes. no sentido de renovar-me intrinsecamente. idéias generosas confortavam-me o íntimo. como se eu fosse um náufrago em praia desconhecida? Simultaneamente. Desejava ardentemente rever a esposa muito amada. sem dúvida.. Torturavam-me as inquirições internas. deslocados da estabilidade doméstica para as sombras da viuvez e da orfandade? Inútil interrogação. Tais pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante. penetrando os recessos do ser. Agora que observava em "Nosso Lar" vibrações novas de trabalho intenso e construtivo. encontrara as penúrias da incompreensão. abstendo-se de qualquer informação direta. e. Em verdade. não pode voltar com a intenção de abastecer-se. Quem atravessa um campo sem organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que sacia a sede. mas. receber de novo o beijo dos filhinhos.

E. Satisfeito. são criaturas extraordinariamente espiritualizadas. expus a Narcisa a ocorrência. Não suportei. demorei alguns minutos entre a admiração e a prece. Os Samaritanos não podem tardar. . Cabelos eriçados. voltei apressadamente ao interior. Pareciam dois homens de substância indefinível. portanto. Os encarnados. apesar de obscuras ou humildes na Terra. encorajando-me bondosamente. por minha vez. semiluminosa. Tudo luar e serenidade. mas Narcisa continuou: . voltei com ela ao grande portão. e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções.disse.182 NOSSO LAR ximei-me da grande cancela. Inquieto e amedrontado. investigando além. Trata-se de poderosos espíritos que vivem na carne em missão redentora e podem. transitando livremente em nossos planos. que conseguem atingir estas paragens. acentuou: . Instantes depois. abandonar o veículo corpóreo.Vamos até lá. divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente. Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos. nada consegui responder. meu amigo . Aqueles são os nossos próprios irmãos da Terra. Os filamentos e fios que observou são singularidades que os diferenciam de nós outros. . Tive a impressão de identificar dois autênticos fantasmas. céu sublime e beleza silenciosa! Extasiandome na contemplação do quadro. por fim. notando que ela mal continha o riso. através dos campos de cultura.Ora essa. não reconheceu aquelas personagens? Fundamente desapontado. Temos quarenta minutos depois de meia-noite. como nobres iniciados da Eterna Sabedoria. em outros tempos. Não se arreceie. experimentei a mesma surpresa. mostrando bom humor -.Também eu.

a Narcisa.Os cães . mesmo de longe. de corpo volumoso. a grande distância. Seis grandes carros.disse Narcisa . Em dado momento. assombrado. mas também verdadeiros monstros. a enorme distância. . que não cabe agora descrever.Que é isso? . perguntando: . que voavam a curta distância. em voz ativa.Estão envolvidos em claridade azul. chamou os servos distantes. Ali estivemos. Dirigi-me. porém. minutos longos. Devem ser dois mensageiros muito elevados na esfera carnal. A enfermeira contemplou-os.Lá vêm eles! Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção. precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos. sob a claridade branda do céu. De repente. a bondosa amiga indicou um ponto escuro no horizonte enluarado. produzindo ruídos singulares. me pareceram iguais aos muares terrestres. enviando um deles ao interior. e observou: . Mas a nota mais interessante era os grandes bandos de aves. formato diligência. fez um gesto expressivo de reverência e exclamou: .são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral. acima dos carros. ouvi o ladrar de cães. em tarefa que não podemos conhecer. A enfermeira. . incontinenti.183 NOSSO LAR Lobrigava-se. parados na contemplação dos campos silenciosos. tranqüilamente. os dois vultos que se afastavam de "Nosso Lar". eram tirados por animais que. transmitindo avisos.interroguei. ainda. Fixei atentamente o grupo estranho que se aproximava devagarinho. onde não estacionam somente os homens desencarnados.

a enfermeira explicou: . aqui e acolá. . onde se localizam os parques de estudo e experimentação. no momento. rematando: .Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral? Dizendo-me que não. Narcisa fixou-me com bondosa atenção. surpreso. mais próxima a caravana.184 NOSSO LAR . não se pode prescindir da colaboração dos animais. por espírito de compaixão pelos que sofrem.Mas. mas.perguntei. são excelentes auxiliares dos Samaritanos. o dever não comporta minudências informativas.Questão de densidade da matéria. Sempre atenciosa. Além disso. . por devorarem as formas mentais odiosas e perversas. entrando em luta franca com as trevas umbralinas. os muares suportam cargas pacientemente e fornecem calor nas zonas onde se faça necessário.Os cães facilitam o trabalho. os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição. preparava-se para receber novos doentes do espírito.acrescentou. Poderá colher valiosas lições sobre os animais. agora. indicando-as no espaço -. indaguei das razões. que denominamos íbis viajores. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. e aquelas aves . . Vinha. não aqui. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino.Como assim? . E distribuindo ordens de serviço. mas no Ministério do Esclarecimento. em muitos casos.

Cruzes! Credo! . todavia.185 34 COM OS RECÉM-CHEGADOS DO UMBRAL Estacaram as matilhas de cães ao nosso lado. conduzidas por trabalhadores de pulso firme. mas também os Samaritanos mobilizavam todas as energias no afã de socorrer. Servidores movimentavam-se apressados. sob amparo forte. estávamos todos enfrentando os enormes corredores de ingresso às Câmaras de Retificação.. Salústio e outros companheiros se lançavam à lide. Daí a minutos.continuou benzendo-se . Alguns doentes eram levados ao interior. Observando-me perto. Não somente Narcisa. notei que uma velhota procurava descer do último carro.graças à Providência Divina. Atacando igualmente o serviço. reclamavam em altas vozes.. com muita dificuldade. exclamou.Tenha piedade.. . meu filho! Ajude-me por amor de Deus!. espantada: . cheios de amor fraternal. Aproximei-me com interesse. Alguns enfermos portavam-se com humildade e resignação. outros.. . afastei-me do purgatório.

percebendo o meu interesse. meu filho. e embora a fortuna me proporcio- . Os espíritos diabólicos. Talvez obedecendo mais à malícia que me era peculiar. na Terra. Atendendo ao impulso vicioso de perseguir assuntos que nada tinham que ver comigo. insisti: . Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar. quem pode com as artes de Satanás? Ao sair do mundo.Como são interessantes as suas observações! Mas não procurou saber as razões de sua demora naquelas paragens? . Como lhe disse. interroguei: .De grande distância. enquanto estive na Terra. partidas de uma boca que me parecia calma e ajuizada. olvidando por completo. vi-me cercada de seres monstruosos. fiz o possível por ser uma boa religiosa. Ajudei-a a descer. ouvia referências ao inferno e ao purgatório. de tão longe? Falando desse modo. rezei incessantemente como sincera devota. Mas.Absolutamente não .Vem. porque deixei uns dinheiros para celebração de missas mensais por meu descanso. A pobre criatura. assim. Fui. que me arrebataram em verdadeiro torvelinho. como costumava fazer na Terra. fiz muita caridade. de um momento para outro. Mas eu não perdia a esperança de ser libertada. A princípio implorei a proteção dos Arcanjos Celestes. tomado de extrema curiosidade. persignando-se.respondeu. conservaram-me enclausurada.186 NOSSO LAR Ah! que malditos demônios lá me torturavam! Que inferno! Mas os Anjos do Senhor sempre chegaram. entretanto. Meus escravos provocavam rixas e contendas. naquele instante. afetei ares de profundo interesse fraternal. começou a explicar-se: . Pela primeira vez. as sábias recomendações da mãe de Lísias. mulher de muito bons costumes.

Ouvindo-me. senão para cumprir minhas ordens..187 NOSSO LAR nasse vida calma. os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores. filhos de Satã! Chego a admirar-me da paciência com que tolerei . ela bateu o pé autoritariamente e falou. separando-as dos filhos. quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra. os escravos são seres perversos. recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula.. disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo. porque. comecei a doutrinar: . que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha dúvida. essa razão de paz espiritual era falsa. Nessas ocasiões. irritada: . nosso virtuoso sacerdote. depois da comunhão. a religião nos ensinaria o contrário. Os leitores eram excessivamente escrupulosos e eu não podia hesitar nas ordens de cada dia. estava livre dessas faltas veniais. outras vezes. estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus. sentia morder-me a consciência. Os escravos eram igualmente nossos irmãos. escandalizado com a exposição. nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro. mas confessava-me todos os meses. Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral. então.Isso é que não! Escravo é escravo. Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas.Minha irmã. Perante o Pai Eterno. senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!. Se assim não fora. Pois se havia cativos em casa de bispos. quando o padre Amâncio visitava a fazenda e. era obrigada a vender as mães cativas. A essa altura. por questões de harmonia doméstica. Pensa. Padre Amâncio. de quando em quando era necessário aplicar disciplinas.

. eles desejariam escravizar-nos por sua vez. . gastando interesse espiritual. Ia responder. você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam de maneira incessante. entretanto.Em maio de 1888.. vendo esses criminosos em liberdade? Certo. piorei de súbito. convocando-lhe os raciocínios à zona superior. havia muitos dias. bondosa: . e quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade. . Como poderíamos ficar no mundo. Aquelas palavras foram ditas com tanta bondade que corei de vergonha.perguntei.André. Decorreram muitos anos. Experimentei estranha sensação de espanto. e a servir a gente dessa laia.Não se impressione . não seria melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade. pode não estar menos louco. meu amigo.É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas. atendamos aos irmãos perturbados.exclamou a enfermeira delicadamente -. . A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou: . deixei a disposição em testamento. e quem os ouve.188 NOSSO LAR essa gente na Terra. mas Narcisa aproximou-se e disse-me. fornecendo-lhe idéias novas de fraternidade e fé. sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje. mas lembro-me perfeitamente. Achavame adoentada. por me haver chocado a determinação da Princesa. libertando esses bandidos. mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita. . E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo.E quando veio? . sem coragem de a elas responder. recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote.

Não comente o mal. que deve estar muito cansada.Mas. em meu nome. porém. a senhora é de opinião que estou nesse número? .Não. para que conduza mais uma irmã aos leitos de tratamento.. não imagina o que tenho sofrido.189 NOSSO LAR ..esclareceu a recém-chegada do Umbral -. mas Narcisa. vá ao departamento feminino e chame Nemésia. Narcisa.. creio. minha amiga. torturada pelos demônios. . seu esforço purgatorial foi muito longo. tomou expressão de fraternidade carinhosa e exclamou: . Já sei tudo que lhe ocorreu de amargo e doloroso. Zenóbio. no mesmo instante. ensinando-me como proceder em tais circunstâncias. demonstrando suas excelentes qualidades de psicóloga. dirigiu-se a um dos auxiliares. não digo isso.. Descanse. sem afetação: . porém.Justamente.Você. . melindrada. E. pensando que vou atendê-la. atalhou: .perguntou a velhota. A pobre criatura ia continuar repetindo a mesma história. justamente .

Justo acanhamento dominou-me. Voltei-me surpreendido e reconheci. de todos os bens. onde a sinceridade transparecia de todos os semblantes. a meu lado: . quando a voz de alguém se fez ouvir carinhosamente. um dia. ignorava que você tivesse deixado o corpo e estava longe de pensar que o encontraria em "Nosso Lar". Quis cumprimentá-lo. pessoa de meu conhecimento.190 35 ENCONTRO SINGULAR Guardavam-se petrechos da excursão e recolhiam-se animais de serviço. despojara. veio em meu socorro.. corresponder ao gesto afetuoso. então. no Samaritano que assim falava. Não podia fingir naquele ambiente novo.Francamente..André! você aqui? Muito bem! Que agradável surpresa!. o velho Silveira. a quem meu pai. Foi o próprio Silveira que. acrescentando: . compreendendo a situação. como negociante inflexível. . mas a lembrança do passado paralisava-me de súbito.

repreen- . Parecia-me ouvir ainda a senhora Silveira. no tocante aos débitos reconhecidos. Recordei que minha mãe intercedeu. comentando a situação de outros clientes que. dirigindo olhares doridos à minha mãe. murmurando palavras de reconhecimento. o quadro vivo. levando o lenço aos olhos. atenciosa. frisando. e. agravando-se-lhes a penúria com a enfermidade de dois filhinhos. como a rogar entendimento e socorro no coração de outra mulher. quando foi a nossa casa. A pobrezinha chorava. afirmava. não podia compreender a condição do retalhista. Meu pai guardara profunda indiferença a todas as súplicas. habituado a transações de vulto e favorecido pela sorte. Manteve-se irredutível. havia muito. se encontravam em piores condições que o Silveira. quebrar as normas e precedentes do seu estabelecimento comercial. suplicante. mas não o consegui. Naquele instante. quando a pobre mulher se despediu. Meu genitor. esclarecer a situação. As necessidades não eram reduzidas e os tratamentos exigiam soma considerável. de outro modo. abstendo-se de qualquer ação judicial. E consolava a esposa aflita. Quis ensaiar algumas explicações relativamente ao passado. porém. que. Lembrei os olhares de simpatia que minha mãe lançou à desventurada postulante afogada em lágrimas. porém. implorava concessões justas. Humilhava-se. eu revia mentalmente o clichê do pretérito. a seu ver. Não podia. levando-o ao extremo de uma falência desastrosa. e pediu a meu pai esquecesse os documentos assinados. que ajudaria o cliente e amigo. As promissórias teriam efeito legal. Declarou que lamentava as ocorrências. A memória exibia. não via outra alternativa que a de cumprir religiosamente os dispositivos legais.191 NOSSO LAR Identificando-lhe a amabilidade espontânea. abracei-o comovido. No fundo. eu desejava pedir desculpas pelo procedimento de meu pai. O marido estava acamado. de novo. Pedia mora.

tinha sido inexorável. porque. certo. não conseguira ainda tal satisfação. Derrotados na luta. na ocasião. procurou afastar-se. Muito jovem ainda. Via. E. a vaidade apossara-se de mim. chamava-me à realidade: . do meu estado íntimo. aumentava o meu pejo. considerava minha mãe excessivamente sentimentalista e induzira-o a prosseguir na ação. sorrindo. Esclareci que. proibindo-lhe qualquer intromissão na esfera dos negócios comerciais. que. . Inútil qualquer argumentação materna. nada mais. até ao fim. apenas. Silveira identificou-me o constrangimento e apiedando-se. nesse ponto. Essas reminiscências alinhavam-se-me no cérebro com a rapidez de segundos. E enquanto mal dissimulava o desapontamento. talvez. Queria desculpar-me e todavia não encontrava frases justas. os Silveiras haviam procurado recanto humilde no Interior. os direitos de minha casa. também encorajara meu pai a consumar o iníquo atentado. amargando o desastre financeiro em extrema penúria. perfeitamente. Abraçou-me cavalheirescamente e voltou ao trabalho ativo.Tem visitado o "velho"? Aquela pergunta. Nunca mais tivera noticias daquela família. Num momento. apesar do imenso desejo. a evidenciar espontâneo carinho. Relembrava. reconstituíra todo o passado de sombras. o instante em que o próprio piano da senhorita Silveira foi retirado da residência para satisfazer às últimas exigências do credor implacável. A pobre família houve de arcar com a ruína financeira completa. o Silveira. não conseguia enxergar as necessidades alheias.192 NOSSO LAR deu minha mãe austeramente. Não queria saber se outros sofriam. nos devia odiar.

Empreender ações dignas.Desculpou-se com o Silveira? Olhe que é grande felicidade reconhecer os próprios erros. Aproveite o momento.Aproveitou. identificando-se como antigo ofensor. que nos renova a oportunidade de restabelecer a simpatia interrompida. Não mais vacilei. Notando-me a indecisão. Ela ouviu-me com paciência e observou carinhosamente: . tornando-se mais categórica no ensinamento. Narcisa acrescentou: . Sei. Expuslhe a ocorrência. da corrente espiritual. Já que você pode examinar-se a si mesmo com bastante luz de entendimento. não perca a oportunidade de se fazer amigo. quaisquer que sejam. meu caro. e a mim. detalhando os sucessos terrenos. Vá. você.Não tema insucessos. o belo ensejo? . as ofensas e os erros cometidos. Toda vez que oferecemos raciocínio e sentimento ao bem. Já tive a felicidade de encontrar por aqui o maior número das pessoas que ofendi no mundo.Que quer dizer? .indaguei. nas mesmas condições. E. Corri ao encontro de Silveira e falei-lhe abertamente. há tempos. representa honra legítima para a alma. Jesus nos concede quanto se faça necessário ao êxito. perguntou: . Recorde o Evangelho e vã buscar o tesouro da reconciliação. procurei Narcisa. . rogando perdoasse a meu pai. . hoje.Não estranhe o fato. recompondo os elos quebrados. que isso é uma bênção do Senhor. Tome a iniciativa. Vi-me. e abrace-o de outra maneira. porque o Silveira é ocupadíssimo e talvez não se ofereça tão cedo outra oportunidade. ansioso de conselhos.193 NOSSO LAR Muito desconcertado.

que seria de nós no tocante ao progresso do espírito? Renovamos.194 NOSSO LAR . Pareceu-me que. . dificilmente pode o homem afastar-se do mau caminho. Breve.Você compreende acentuei -. se me acendera divina luz para sempre. Trabalhemos com o Senhor. experimentando alegria nova em minhalma. os meus olhos úmidos. emocionado. em silêncio. afagou-me paternalmente e rematou: . comovidíssimo. todos os velhos conceitos da vida humana. Quando o dinheiro se alia à vaidade. não me deixou terminar: . André. junto de você. então. Em tal estado. Silveira. Abracei-o. nós estávamos cegos. benfeitores.Não perca tempo com isso. Devemos-lhe.Ora. abençoadas lições de esforço pessoal. reconhecendo o infinito da vida. sim. Sem aquela atitude enérgica que nos subtraiu as possibilidades materiais. E fixando. senão o interesse próprio. num dos escaninhos escuros do coração. quero ter a satisfação de visitar seu pai. Nossos adversários não são propriamente inimigos e. meus filhos e eu. poderia você acreditar que vivi isento de erros? Além disso. Silveira. seu pai foi meu verdadeiro instrutor. quem haverá isento de faltas? Acaso. nada conseguíamos vislumbrar. aqui. Não se entregue a lembranças tristes.

195 36 O SONHO Prosseguiram os serviços. aplicando-os aos necessitados de toda sorte. estimulou-me com palavras animadoras. Enfermos exigindo cuidado. quando a senhora Laura e Lísias chegaram e me abraçaram. Pela manhã. incessantemente. . regressou Tobias às Câmaras e.exclamou ele. já me sentia integrado no mecanismo dos passes. perturbados reclamando dedicação. contente . . Ao cair da noite. . durante a noite. sorrindo -. que me recomendou cumprimentasse a você em nome dele. e sua estréia no trabalho é motivo de justa alegria em nosso círculo doméstico. mais por generosidade que por outro motivo.vou recomendá-lo ao Ministro Genésio e. pelos serviços iniciais. Disputei a satisfação de levar a notícia ao Ministro Clarêncio.Sentimo-nos profundamente satisfeitos . André! . receberá bônus em dobro. acompanhei-o em espírito.disse a generosa senhora. Ensaiava palavras de reconhecimento.Muito bem.

Fui conduzido. Decorridos minutos. E qual criança que não pode enumerar nem definir as belezas do caminho.. sensações de leveza invadiram-me a alma toda e tive a impressão de ser arrebatado em pequenino barco.a . Num momento. orei ao Senhor da Vida agradecendo-lhe a bênção de ter sido útil. Minhas alegrias sublimes. Nada obstante o convite amável da genitora de Lísias para que voltasse a casa por descansar. a prodigioso bosque. Para onde me dirigia? Impossível responder. Reconheceria aquela voz entre milhares. A "proveitosa fadiga" dos que cumprem o dever não me deu ensejo a qualquer vigília desagradável. Parecia-me que a embarcação seguia célere. Narcisa preparou-me o leito com desvelos de irmã. ao lado das Câmaras de Retificação.. Tobias pós à minha disposição um apartamento de repouso.André!. Desembarquei com precipitação verdadeiramente infantil. André!. deixava-me conduzir sem exclamações de qualquer natureza. reservavam-se para depois. e aconselhoume algum descanso. onde as flores eram dotadas de singular propriedade . rumando a regiões desconhecidas. por ela. não obstante os movimentos de ascensão.196 NOSSO LAR Trocaram observações afetuosas com Tobias e Narcisa. então. A meu lado. extasiado embora com as magnificências da paisagem. Pediram-me relatório verbal de impressões e eu não cabia em mim de contente. um homem silencioso sustinha o leme.. onde alguém me chamou com especial carinho: . porém.. abraçava minha mãe em transbordamentos de júbilo. vi-me à frente de um porto maravilhoso. Daí a instantes. Recolhido ao quarto confortável e espaçoso. De fato. sentia grande necessidade do sono.

como sucedia na Terra. outros. meu filho. André. Reduzem-se. aqui. formosas capacidades a simples expressões parasitárias. que o Senhor observa e registra a nosso favor. após deixarem a Terra.Muito roguei a Jesus me permitisse a sublime satisfação de ter-te a meu lado. Eu sabia. É indispensável. declaram-se em desacordo com o meio a que foram chamados para servir ao Senhor. aguardando milagres que jamais se verificarão. perfeitamente.. o bálsamo ao leproso. o olhar de compreensão ao culpado. meu filho.. e tinha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso. Minhas impressões de felicidade e paz eram inexcedíveis. sob as grandes árvores sussurrantes ao vento. Tapetes dourados e luminosos estendiam-se. desse modo. Após dirigir-me sagrados incentivos espirituais. Como vês. converter toda a oportunidade da vida em motivo de atenção a Deus. Nos círculos inferiores. em "Nosso Lar". no teu primeiro dia de serviço útil. constituem bênçãos de trabalho espiritual. minha mãe esclareceu bondosamente: . o prato de sopa ao faminto. O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. o gesto de amor ao desiludido. Alguns se dizem desencorajados pela solidão. a esperança ao aflito. dessa maneira. a promessa evangélica aos que vivem no desespero. por sua vez. igualmente. A fisionomia de minha genitora estava mais bela que nunca. que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação. demoram em atitudes contraproducentes. revelando a festa permanente do perfume e da cor. afirmava-se cada vez mais intensa. Numerosos companheiros nossos. Minhas noções de espaço e tempo eram exatas.197 NOSSO LAR de reter a luz. A riqueza de emoções. Seus olhos de madona pareciam irradiar lu- . o trabalho é tônico divino para o coração. são serviços divinos que nunca ficarão deslembrados na Casa de Nosso Pai.

Minha mãe fez uma pausa. mas não pude. jamais esqueças dar de ti mesmo. Sobretudo. Deus nos vê e acompanha a todos. teus serviços. para que cheguemos à prática do bem interior. Ela endereçou-me carinhoso olhar. O bô- . meu filho. indigente como sou. nos gestos de ternura. muito abaixo dos vermes da Terra. espiritualmente. filho meu.Conhecemos. na maioria das colônias espirituais.198 NOSSO LAR minosidade sublime. como nas esferas do globo. Sempre que possas. da caridade material. em tolerância construtiva. desde o mais lúcido embaixador de sua bondade. que todos os milionários da Terra congregados no serviço. Não te envergonhes de amparar os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de Retificação. que desejei aproveitar para dizer alguma coisa. porém. sublime embora. teus esforços em "Nosso Lar" e seguir as mágoas de teu pai nas zonas umbralinas. Lágrimas de emoção embargavam-me a voz. no esforço diário a que formos conduzidos pela nossa própria felicidade. à noite passada. vivem almas inquietas. fazendo o bem. a par de caridosas emoções. Nossa base de compensação une dois fatores essenciais. fluidos criadores de energias novas. em espírito. Em todas as nossas colônias espirituais. posso ver. Trabalha. compreendendo a situação e continuou: . meu André . A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo. lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber. a remuneração de serviço do bônus-hora. Assim como eu. aqui. suas mãos transmitiam-me. Dá sempre. olvida o entretenimento e busca o serviço útil. Aprendamos a concretizar semelhante princípio.continuou amorosamente -. ansiosas de novidades e distração.O Evangelho de Jesus. . Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens. aos últimos seres da Criação. em amor fraternal e divina compreensão. onde identifiquei.

acariciando-me desveladamente. são modalidades de experimentação dos administradores. na Terra e noutros mundos. para despertar mais tarde nas Câmaras de Retificação. Minha mãe calou-se enquanto eu enxugava os olhos.199 NOSSO LAR nus representa a possibilidade de receber alguma coisa de nossos irmãos em luta. meu filho. É por essa razão que o Altíssimo concede sabedoria ao que gasta tempo em aprender e dá mais vida e mais alegria aos que sabem renunciar!. perdi a consciência de mim mesmo. Deus também. Na bonificação exterior pode haver muitos erros de nossa personalidade falível. pagamentos. sofrem contínuas modificações todos os dias. experimentando vigorosas sensações de alegria. considerando nossa posição de criaturas em labores de evolução. é Administrador vigilante e Pai devotadíssimo. há correspondência direta entre o Servidor e as Forças Divinas da Criação. mas. em marcha para a glória de Deus. ou de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações. Tabelas. Toda compensação exterior afeta a personalidade em experiência. É por isso. aquela que permanecerá sempre em nossos círculos de vida. assim como concede à criatura o privilégio de ser pai ou mãe. no progresso comum. mas. por algum tempo. como acontece na Terra. no concernente ao conteúdo espiritual da hora. a que o Senhor concedeu a oportunidade de cooperar nas Obras Divinas da Vida. que nossas atividades experimentais... A ninguém esquece e reserva-se o direito de entenderse com o trabalhador. André. todo pai consciente está cheio de amor desvelado. mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus. quanto ao verdadeiro proveito no tempo de serviço. Qual o menino que adormece após a lição. a partir da esfera carnal. todo valor de tempo interessa à personalidade eterna. Todo administrador sincero é cioso dos serviços que lhe competem. Foi então que ela me tomou nos braços. . quadros.

desse modo. Como poderia estar a compensação da hora afeta a Deus? Não era atribuição do administrador espiritual. ou humano. não podem perder tempo.são ouvidas somente pelos espíritos sinceramente interessados. logo após o despertar.200 37 A PRELEÇÃO DA MINISTRA No curso de trabalhos do dia imediato. autorizado a comparecer com os ouvintes que se contam por centenas. . aqui.Desejo-lhe excelente proveito. Num gesto afetuoso de estímulo. entendi-me com Tobias a respeito. aqueles esclarecimentos sobre o bônus-hora me haviam suscitado certas interrogações de vulto. O contacto de minha mãe. a contagem do .Essas aulas . Transcorreu o novo dia em serviço ativo. entre servidores e abrigados dos Ministérios da Regeneração e do Auxílio. Ciente de que necessitaria permissão. Fica você. grande era o meu interesse pela conferência da Ministra Veneranda. Os instrutores. rematou: . enchiam-me o espírito de sublime conforto. suas belas observações relativas à prática do bem.disse ele . A princípio.

Tanto é precioso o conceito de sua mamãe disse Tobias . sendo justo. só mesmo as Forças Divinas podem determinar com exatidão. dela se retiram com a mesma incipiência da primeira hora. Há servidores que. esclarecera-me a inteligência faminta de luz. em companhia de Narcisa e Salústio. mas. Nos primeiros. Essa contribuição de esclarecimento auxiliou-me a ponderar o valor do tempo. onde grandes bancos de relva nos acolheram confortadoramente. exalavam delicado perfume. em todos os sentidos. em geral. Calculei a assistência em mais de mil pessoas. depois de quarenta anos de atividade especial. transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno. Na disposição comum da grande assembléia. . brilhando à luz de belos candelabros. Flores variadas. conforme o emprego da oportunidade. igualmente. notei que vinte entidades se assentavam em local destacado entre nós outros e a eminência florida onde se via a poltrona da instrutora. dirigi-me. provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual. Verdadeira maravilha o recinto verde. dela saem com a mesma ignorância da idade infantil. instituírem elementos de respeito e consideração ao mérito do trabalhador.201 NOSSO LAR tempo? Tobias. Aos administradores. em látegos de tormento e remorso. nos segundos. Chegada a hora destinada à preleção da Ministra. Cada filho acerta contas com o Pai. impende a obrigação de contar o tempo de serviços. assim como existem homens que.que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus. como se fossem entes malditos. quanto ao valor essencial do aproveitamento justo. atingindo cem anos de existência. ou segundo suas obras. que se realizou após a oração vespertina. para o grande salão em plena natureza. porém.

conforme a cultura já adquirida.Estamos na assembléia de ouvintes. posso sentar-me ali somente nas noites que a instrutora verse o tratamento dos espíritos perturbados. com a simples presença. mas. o que contrastava com o nome.O Governador . verdadeiramente úteis.202 NOSSO LAR A uma pergunta minha. Há. como a informar-se das necessidades domi- .Não pode você figurar entre eles? . o semblante de nobre senhora na idade madura. companheiros que podem interpelar a Ministra. .Muito curioso o processo . Narcisa explicou: .prosseguiu a enfermeira explicando . Depois de palestrar ligeiramente com os vinte companheiros. Mal acabara de falar e eis que a Ministra Veneranda penetrou no recinto em companhia de duas senhoras de porte distinto. porém. poderão ser esclarecidos ou aproveitados. a fim de que os trabalhos não se convertessem em desregramento da opinião pessoal. por nossa vez. que Narcisa informou serem Ministras da Comunicação. Veneranda espalhou.determinou essa medida. condição que poderemos alcançar também. Não mostrava a fisionomia de uma velha. que se conservam em lugar de realce. Quaisquer dúvidas. cheia de simplicidade. . Por enquanto. quaisquer pontos de vista. são os mais adiantados na matéria de hoje. sim. .indaguei.Não. sem base justa. sem afetação. Adquiriram esse direito pela aplicação ao assunto. Aqueles irmãos.aduzi. nas aulas e palestras de todos os Ministros. . com grave perda de tempo para o conjunto. enorme alegria em todos os semblantes. tendo em vista o momento adequado. irmãos que ali permanecem no trato de várias teses.

mas aqui estou para conversar com vocês. recebemos notícias dessas leis sem nos submetermos a elas. porém. ficasse o homem liberto de toda a condição inferior? Impossível! "Uma existência secular. na carne terrestre. "Será crível que. mas milhões de entidades a viverem nos caprichosos "mundos inferiores" do nosso "eu". mas não olvidemos que somos milhões de almas dentro do Universo."Como sempre. representa período demasiadamente curto para aspirarmos à . nas atividades terrenas. contudo. "Encontram-se. até agora (referindo-nos à existência humana). por enquanto. com relação ao tema da noite. relacionando algumas observações sobre o pensamento. algumas centenas de ouvintes que se surpreendem com a nossa esfera cheia de formas análogas às do planeta. Em geral. algo insubmissas ainda às leis universais. em velhos círculos de antagonismo vibratório. começou por dizer: . comparáveis aos irmãos mais velhos e mais sábios. Todavia. expõem verdades eternas e profundas. próximos do Divino. Não haviam aprendido que o pensamento é a linguagem universal? Não foram informados de que a criação mental é quase tudo em nossa vida? São numerosos os irmãos que formulam semelhantes perguntas. nos círculos do globo. não posso aproveitar a nossa reunião para discursos de longa tiragem verbal. Não podemos esquecer que temos vivido. entre nós. Não somos. Esta realidade. e tomamos conhecimento dessas verdades sem lhes consagrarmos nossas vidas.203 NOSSO LAR nantes na assembléia em geral. no momento. somente por admitir o poder do pensamento. não deve causar surpresa a ninguém. O pensamento é a base das relações espirituais dos seres entre si. Os grandes instrutores da humanidade carnal ensinam princípios divinos. encontraram aqui a habitação. o utensílio e a linguagem terrestres.

tem sido empregada por nós. nas criações mentais destrutivas ou prejudiciais a nós mesmos. no orvalho protetor ou na chuva benéfica. Ninguém. nas mentes evolvidas. mas com freqüência agimos exclusivamente no terreno das afirmativas verbais.204 NOSSO LAR posição de cooperadores essencialmente divinos. a água volta purificada. . atenderá ao dever apenas com palavras. em milênios sucessivos. no Lar Universal. "Apreendem vocês a importância disso? Certo. conservemo-la com os detritos da terra e fála-emos habitação de micróbios destruidores. nas mesmas condições. mas não admitimos nossa milenária viciação no desvio dessa força. "Ora. Após elevar-se às alturas. mas esquecemos que toda a nossa energia. todavia. é coisa sabida que um homem é obrigado a alimentar os próprios filhos. a Causa e os Efeitos. Informamo-nos a respeito da força mental no aprendizado mundano. entre os desencarnados e encarnados. um princípio elevado obedecerá à mesma lei. é atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos. nesse particular. Ensina a Bíblia que o próprio Senhor da Vida não estacionou no Verbo e continuou o trabalho criativo na Ação. Nele. transformam-se homens em anjos. Recorramos a símbolo mais simples. veiculando vigorosos fluidos vitais. "Somos admitidos aos cursos de espiritualização nas diversas escolas religiosas do mundo. a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos. cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares. "Todos sabemos que o pensamento é força essencial. a caminho do inferno. Uma idéia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza. basta o intercâmbio mental sem necessidade das formas. em toda parte. "O pensamento é força viva.

e somos compelidos a prosseguir nas construções transitórias da Terra. indaguei de Narcisa.205 NOSSO LAR e é justo destacar que o pensamento em si é a base de todas as mensagens silenciosas da idéia. delicadeza e sabedoria. nesse caso." Depois de longa pausa. porém. Dentro desse princípio. "Nosso Lar". nos maravilhosos planos da intuição. surpreendido: . mas isso também exige a afinidade pura. como cidade espiritual de transição. portanto. ao som da música habitual. em núcleos insulados. onde todas as criaturas têm afinidades entre si. entre os seres de toda espécie. desde hoje. findou a palestra com uma pergunta graciosa. Compreendamos a grandiosidade das leis do pensamento e submetamo-nos a elas. Quando vi os companheiros levantarem-se para as despedidas. para que alguns poucos se preparem à ascensão. Sem qualquer solenidade nos gestos para evidenciar o término da conversação. nas esferas de absoluta pureza mental. revelando amor e compreensão. é uma bênção a nós concedida por "acréscimo de misericórdia". pensamento a pensamento.Quem deseja aproveitar? Logo após. o espírito que haja vivido exclusivamente em França poderá comunicar-se no Brasil. a fim de regressar aos círculos planetários com maior bagagem evolutiva. e para que a maioria volte à Terra em serviços redentores. que. será sempre a do receptor. Afinamo-nos uns com os outros. Veneranda conversou ainda por muito tempo. Não estamos. suave música encheu o recinto de cariciosas melodias. a Ministra sorriu para o auditório e perguntou: . prescindindo de forma verbalista especial.

Que é isso? Acabou a reunião? A enfermeira bondosa esclareceu. Finaliza a conversação em meio do nosso maior interesse.206 NOSSO LAR . sorridente: . Ela costuma afirmar que as preleções evangélicas começaram com Jesus.A Ministra Veneranda é sempre assim. mas ninguém pode saber quando e como terminarão. .

para que pudesse observar. as hortênsias inumeráveis desabrochavam nos verdes lençóis de violetas. A senhora Hilda convidou-me a visitar o jardim. Cada casa. examinamos volumes maravilhosos na encadernação e no conteúdo espiritual. parecia especializar-se na cultura de determinadas flores. ao entardecer. Findo o serviço. as glicínias e os lírios contavam-se por centenas. de vez que outros se incumbiram da assistência noturna. Logo de entrada. Reunidos na formosa biblioteca de Tobias. fui fraternalmente levado à residência dele. na residência de Tobias. uma já idosa e outra bordejando a madureza. Esclareceu que esta era sua esposa e aquela. irmã.207 38 O CASO TOBIAS No terceiro dia de trabalho. recordando o bambu ainda novo. primaram em gentilezas. Em casa de Lísias. Belos caramanchões de árvores delicadas. alguns caramanchões de caprichosos formatos. Luciana e Hilda. onde me aguardavam belos momentos de alegria e aprendizado. apresentavam no alto . afáveis e delicadas. alegrou-me Tobias com agradável surpresa. de perto. em "Nosso Lar". apresentou-me duas senhoras.

Tobias acrescentou. . . à guisa de enormes laços floridos. para leve refeição. Não sabia traduzir minha admiração.. observando-me a silenciosa interpelação. A certa altura da palestra amável. a senhora Hilda tomou a palavra. quando nos encontramos com alguma visita de recémchegados da Terra.Ah! sim . cuja especialidade é unir frondes diversas.208 NOSSO LAR uma trepadeira interessante. a bem dizer. Comentávamos a beleza da paisagem geral. não sabia como agradecer ao generoso anfitrião. irmão André. prosseguiu num gesto de bom humor: . Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras. sorridente: . o dono da casa continuou: . quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das suas experiências na Terra. indicando as companheiras de sala..O meu amigo. Embalsamava-se a atmosfera de inebriante perfume. vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração. Imagine que fui casado duas vezes.. formando gracioso teto. é ainda novato em nosso Ministério e talvez desconheça o meu caso familiar.respondeu tranqüilo.Isso mesmo .murmurei extremamente confundido -. quando Luciana nos chamou ao interior. Nesse ínterim..Aliás. na verde cabeleira das árvores.Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas. temos numerosos núcleos nas mesmas condições. . Encantado com o ambiente simples. Ele está sempre disposto a falar do passado. cheio de notas de fraternidade sincera. dirigindo-se a mim: . E. e.Desculpe o nosso Tobias.

Pois não será motivo de júbilo . Os laços da alma prosseguem. se ainda não somos nem mesmo fraternos uns com os outros? Claro que existem caminheiros de ânimo forte.Muito simplesmente. mas a maioria não prescinde de pontes ou do socorro de guardiães caridosos. Como proceder? Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Encontraríamos. Assim. vencer o monstro do ciúme inferior. com interesse. com toda a nossa veneração ao Senhor . que se revelam superiores a todos os obstáculos da senda. Em . pelo menos.209 NOSSO LAR . em estado de segundas núpcias. Como resolver tão alta questão afetiva. . quando se referiu ao casamento na Eternidade. todavia. Há milhões de pessoas. conquistando. alguma expressão de fraternidade real? .Forçoso é reconhecer. . por supremo esforço da vontade.De fato . Muitas vezes já lembrei. também. sim. como podemos aspirar à companhia de seres angélicos. que ainda não nos achamos na esfera dos anjos e. porém. através do Infinito. como solucionar aqui semelhante situação? . a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a vida dos anjos. o problema interessa profundamente a todos nós.atalhou o anfitrião. milhões de criaturas nessas condições.objetei -. bondoso -. reconhecemos que entre o irracional e o homem há enorme série gradativa de posições. Ora.aduziu Tobias bem-humorado -. entre nós outros.Mas. dos homens desencarnados.perguntei. nos círculos do planeta. considerando a espiritualidade eterna? Sabemos que a morte do corpo apenas transforma sem destruir. Tobias sorriu e considerou: . o caminho até o anjo representa imensa distância a percorrer.

que os pequeninos reclamavam assistência maternal. Queria lutar. interveio. surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam. todavia. Nesse instante. demonstrando humildade digna. Minha cunhada solteira não tolerava as . Luciana.210 NOSSO LAR vista dessa verdade. reconhecendo-se que o verdadeiro casamento é de almas e essa união ninguém poderá quebrantar.Convém explicar. devemos ao espírito de amor e renúncia de nossa Hilda. E continuou. indescritível. Reconhecia que o esposo necessitava reorganizar o ambiente doméstico.Tobias e eu nos casamos na Terra. subtraiu-me do mundo. acentuou: . os casos dessa natureza são resolvidos nos alicerces da fraternidade legítima. como a galinha ao lado dos pintainhos. por intuição. acrescentando: . A morte. que se mantinha silenciosa. em obediência a sagradas afinidades espirituais. A senhora Tobias. no entanto. que tudo isso. Pesados dias de Umbral abateram-se sobre mim. felicidade e compreensão. por ocasião do nascimento do segundo filhinho. Tornava-se a situação francamente insuportável. Creio desnecessário descrever a felicidade de duas almas que se unem e se amam verdadeiramente no matrimônio. Não tive remédio senão continuar agarrada ao marido e ao casal de filhinhos.Calem-se. Nosso tormento foi. ao passo que eu me via sem forças para sufocar a própria angústia. porém. quando ainda muito jovens. que parecia enciumada de nossa ventura. Nada de qualidades que não possuo. Buscarei sumariar nossa história. depois de fixar um gesto de narradora amável: . então. Tobias chorava sem remédio. a fim de que nosso hóspede conheça meu doloroso aprendizado.

que passou a me pertencer. Consagrei-me ao estudo sério. acompanhado de Luciana. é jardineira do seu jardim. Mais tarde. minha neta? Que papel é o seu na vida? Você é leoa ou alma consciente de Deus? Pois nossa irmã Luciana serve de mãe a seus filhos. suporta a bílis do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira de lutas. ao melhoramento moral de mim mesma. Constituiu Tobias uma família nova." Abracei-me. como noutro tempo. intensamente. pelos sagrados laços espirituais. desencarnada havia muitos anos. então. busquei ajudar a todos. Minha ignorância deu até para lutar com a pobrezinha. sentou-se a meu lado."Que é isso. . pôs-me em seguida ao colo. igualmente. ao lado dele? É assim que o seu coração agradece os benefícios divinos e remunera aqueles que o servem? Quer você uma escrava e despreza uma irmã? Hilda! Hilda! onde está a religião do Crucificado que você aprendeu? Oh! minha pobre neta. enchendo-me de surpresa. Chegou ela como quem nada desejava.. voltou ele.. Trabalhei. sem distinção. tive em Luciana mais uma filha. Duas amas jovens pautavam toda a conduta pessoal pela insensatez. com a velhinha santa e abandonei o antigo ambiente doméstico. desposou Luciana.211 NOSSO LAR crianças e a cozinheira apenas fingia dedicação. Desde essa época. então. Não pôde Tobias adiar a solução justa e. em nosso antigo lar terrestre. e perguntoume lacrimosa: . tentando aniquilá-la. que veio também ter conosco para nossa completa alegria. meu amigo. funciona como criada de sua casa. reunindo-se a mim. em lágrimas. Foi aí que Jesus me concedeu a visita providencial de minha avó materna. minha pobre!.. decorrido um ano da nova situação. vindo em companhia dela para os serviços de "Nosso Lar". contrariando meus caprichos. E aí tem. Ah! se soubesse como me revoltei! Semelhava-me a uma loba ferida.. a nossa história.

acrescentou o dono da casa. Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera. . de dever.Quando desposei Tobias. já devia estar certa de que. esqueci a lição de bom-tom e interroguei: caso? . filha? . Incapaz de sopitar a curiosidade. pela afinidade máxima ou completa. senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. Luciana sorriu e ajuntou: . é lógico que. e.perguntou a senhora Tobias. de provação.E assim construímos nosso novo lar. com todas as probabilidades. contudo.Mas como se processa o casamento aqui? . acariciando-lhe a destra. embora todos sejam sagrados. foi a própria interessada que explicou: . para ser mais explícito -. atencioso -. representando os demais simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores.Não disse ela. indaguei: .esclareceu Tobias. se os consortes padecem inquietação. perdoando-me. ou então. acima de tudo. meu casamento seria uma união fraternal. na base da fraternidade legítima .Pela combinação vibratória .Mas. alma com alma. triste- . viúvo. Foi o que me custou a compreender. qual a posição de nossa irmã Luciana neste Antes. aprendi que há casamento de amor. graças a Jesus e a ela. no dia em que Hilda me beijou. porém.Mas. ensinando-me com exemplos. O matrimônio espiritual realiza-se. que os cônjuges espirituais respondessem. . tomou a palavra e observou: . de fraternidade. Aliás. porém.212 NOSSO LAR Luciana. desentendimento.Que dizes. quanto se tem sacrificado.

ela seguirá igualmente ao seu encontro. encerrar a palestra. desse modo. Nesse instante. mas não integrados no matrimônio espiritual. compreendeu-me o pensamento e explicou: . . entretanto. não encontrava palavras que revelassem ausência de impertinente indiscrição. para atender a um caso grave nas Câmaras de Retificação. Tobias foi chamado à pressa. Seu nobre companheiro de muitas etapas terrenas precedeu-a há alguns anos. Queria perguntar mais alguma coisa. estão unidos fisicamente. Luciana está em pleno noivado espiritual.Fique tranqüilo. Sorrimos todos alegremente. regressando ao círculo carnal. No ano próximo. Creio que o momento feliz será em São Paulo. A senhora Hilda.213 NOSSO LAR za. Era preciso. contudo.

Afinal de contas.214 39 OUVINDO A SENHORA LAURA O caso Tobias impressionara-me profundamente. a quem votava confiança filial. no dia imediato. deliberei visitar Lísias. ansioso de explicações da senhora Laura. não seria capaz de aborrecer tanto a minha querida Zélia e jamais aceitaria tal imposição por parte de minha esposa. Não conseguia encontrar esclarecimentos justos que pudessem satisfazer-me. preocupava-me como assunto obsidente. A meu ver. Aquelas observações da casa de Tobias torturavam-me o cérebro. alicerçada em princípios novos de união fraterna. Teria coragem de proceder como Tobias. também ainda me sentia senhor do lar terrestre e avaliava quão difícil para mim próprio seria semelhante situação. Recebido com enormes demonstrações de alegria. Tão preocupado me senti que. imitando-lhe a conduta? Admitia que não. esperei o momento propicio. Aquela casa. num momento de folga. em que pudesse ouvir a mãezinha de Lísias com calma e serenidade. .

.Quando nos atemos aos pontos de vista propriamente humanos. a penetração. Nesse sentido. a felicidade. Se atravessamos longa escala de animalidade.O caso Tobias é apenas um dos inumeráveis que conhecemos aqui e noutros núcleos espirituais. prosseguiu. choca-nos o sentimento.indaguei. a caminho de entretenimentos habituais. E depois de ligeira pausa. presentemente. . e começou a dizer: . é necessário. expus à generosa amiga o problema que me apoquentava. agora. que se caracterizam pelo pensamento elevado. Todo problema que torture a alma pede cooperação amiga para ser resolvido. essas coisas dão até para escandalizar. sobrepor-mos a tudo os princípios de natureza espiritual. que se tenham casado . com a grande experiência da vida. é muito grande. Empregamos muitos séculos para emergir das camadas inferiores.Mas temos nisso uma regra geral? .Mas. não sem natural acanhamento. pela atmosfera de compreensão que se criou entre as personagens do drama terrestre. é justo que essa animalidade não desapareça de um dia para outro.atalhei com interesse. Não será fácil para você. que demoramos a compreender. ali.215 NOSSO LAR Depois de se ausentarem os jovens. Ela sorriu. não é verdade? . entretanto. meu amigo.Você fez bem em trazer a questão ao nosso estudo recíproco. Nem todos conseguem substituir cadeias de sombra por laços de luz em tão pouco tempo. atenciosa: . . da organização doméstica que visitou ontem. precisamos compreender o espírito de seqüência que rege os quadros evolutivos da vida. O sexo participa do patrimônio de faculdades divinas. no sentido elevado. André. Todo homem e toda mulher. entretanto.

Enquanto odiarem. e vão receber. vão fazer na experiência carnal o que não conseguiram realizar em ambiente estranho ao corpo terrestre. fazendo-se acompanhar de todas as afeições que hajam conhecido? Esboçando um gesto de grande paciência.redargüiu a mãe de Lísias -. sofrerão o império da mentira e. Muita gente pode ter afeição e não ter compreensão. Daí se infere . É indispensável seguir devagar. por parte das três almas interessadas na aquisição de justo entendimento. sem qualquer alívio espiritual. Concede-lhes a Bondade Divina o esquecimento do passado. onde se localizarão as pobres almas em experiências dessa ordem? . valendo-me da pausa da interlocutora . aqueles de quem se afastaram deliberadamente pelo veneno do ódio ou da incompreensão. a interlocutora explicou: . conseqüentemente. simplesmente porque se esquivam à fraternidade legítima. São incontáveis as criaturas que padecem longos anos. logicamente não atravessará essas fronteiras.Depois de padecimentos verdadeiramente infernais.Não seja tão radicalista.E que acontece. Não esqueça que nossas construções vibratórias são muito mais importantes que as da Terra. pelas criações inferiores que inventam para si mesmas . enquanto não entenderem a verdade. restabelecem aqui o núcleo doméstico. então? .216 NOSSO LAR mais de uma vez. na organização física do planeta. As regiões obscuras do Umbral estão cheias de entidades que não resistiram a semelhantes provas.se não são admitidas aos núcleos espirituais de aprendizado nobre. O caso Tobias é o caso de vitória da fraternidade real. . assemelham-se a agulhas magnéticas sob os mais antagônicos influxos. Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão. não poderão penetrar as zonas de atividade superior.interroguei. nos laços da consangüinidade.

para nós. Quem sabe valer-se do tempo. nossa conversação não interessa. mas. no entanto.Aos espíritos ainda em simples experiência animal. ao ouvir a mãe de Lísias. que compreendemos a necessidade da iluminação com o Cristo. finda a experiência terrena. A essa altura. ainda que precise voltar aos círculos da carne. pode efetuar sublimes construções espirituais. Aproveitando o ensejo. com Jesus. cada vez mais viva. que eu sobrepunha a todas as afeições. Ouvindo a observação. Perdoar verbalmente é questão de palavras. aduziu: . Há muitos espíritos que gastam séculos tentando desfazer animosidades e antipatias na existência terrestre e refazendo-as após a desencarnação. A interlocutora não se surpreendeu com a afirmativa e obtemperou: . é problema sério. lembrando o meu passado de homem comum. suportando menor bagagem de preocupações. interessa a nós mesmos. é imprescindível destacar. mas toda experiência de sexo. Não se resolve em conversas. Minha mulher fora para mim um objeto sagrado. O problema do perdão. precisa mover e remover pesados fardos de outras eras. não deixei de corar. ocorriam-me a mente as palavras antigas do Velho Tes- . como quem precisava meditar na amplitude dos conceitos expendidos. O alvitre. dentro de si mesmo. meu caro André. antes de tudo. a senhora Laura silenciou. Devemos observá-lo em proveito próprio. por afetar profundamente a vida da alma. não só a experiência do casamento. quando nos aconselha imediata reconciliação com os adversários. mas aquele que perdoa realmente.A experiência do casamento é muito sagrada aos meus olhos. da recomendação de Jesus.217 NOSSO LAR a oportunidade. com relação à paz da consciência. regressando à matéria grosseira.

É por isso que o entendimento fraterno precede a qualquer trabalho verdadeiramente salvacionista. Impressionava-me. dando a entender que não desejava explanar outras minudências sobre o assunto. sim. e acontecimento de enorme importância para si mesma. Num instante. Agora não mais me preocupava a situação de Tobias. que nos oferece tantos caminhos a retificações justas. que toda caridade. iria materializar-se nos planos carnais. porém. se pudesse. a fim de dizer aos religiosos. A interlocutora. precisa apoiar-se na fraternidade.Onde o esforço de consertar é tarefa de quase todos. voltei às Câmaras de Retificação. em geral. nem o seu servo. Nessa altura. para ser divina.218 NOSSO LAR tamento: . nem a sua serva. ainda recolhida ao interior doméstico. deve haver lugar para muita compreensão e muito respeito à misericórdia divina. nem o seu boi. mergulhado em profundas cogitações. estranhando o caso Tobias. e depois de verificar as melhoras crescentes da jovem recém-chegada do planeta. nem as atitudes de Hilda e Luciana. percebeu minha perturbação intima e continuou: . senti-me incapaz de prosseguir. . não cobiçarás a mulher do teu próximo. Ainda há pouco tempo ouvi um grande instrutor no Ministério da Elevação assegurar que. nem coisa alguma que lhe pertença". a imponente questão da fraternidade humana. a dona da casa convidou-me a visitar Eloísa. Toda experiência sexual da criatura que já recebeu alguma luz do espírito."não cobiçarás a casa do teu próximo. nem o seu jumento.

à procura de Nemésia. -. gemidos lancinantes.. angustiosas exclamações.219 40 QUEM SEMEIA COLHERÁ Eu não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento feminino das Câmaras de Retificação. do meu desejo. prontificando-se ela a satisfazer-me. a enfermeira acompanhou-me. que se caracterizava pela mesma generosidade de Narcisa. é que lá nos aguarda alguma tarefa. que mais se assemelhavam a frangalhos humanos. acolá. bondosa. não será difícil identificar as sugestões divinas. prestigiosa cooperadora naquele setor de serviço. No mesmo dia.disse.Quando o Pai nos convoca a determinado lugar . falou com bondade: . Não foi difícil encontrá-la. Filas de leitos muitos alvos e bem cuidados exibiam mulheres. Falei a Narcisa. Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem. tem finalidade definida. . Nemésia.. Aqui e ali. na vida. Não deixe de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais. Cada situação.

mostravam-se defeituosos. humilde. Estava modificada pelo sofrimento. o dia em que ela. Quem seria aquela mulher amargurada. Estudava eu a fisionomia das enfermas. depois. quando atingimos o Pavilhão 7. que aceitou as recomendações trazidas. em leitos separados. misto de ironia e resignação. fazendo um gesto significativo à companheira. a intimidade excessiva. não .O amigo deve estar agora habituado a estes cenários. um a um.220 NOSSO LAR . comentava sem escrúpulo certas aventuras da sua mocidade. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de rapaz. perfeitamente. A princípio. penetrara em nossa casa levada por velha amiga de minha mãe. Lembrei. No departamento masculino a situação é quase a mesma. Elisa pareceu-me bastante leviana. quando a sós comigo. nada de extraordinário. sempre atida aos prazeres físicos. em cujos lábios pairava um ricto. coração oprimido. quando fixei alguém que me despertou mais viva atenção. e. Era Elisa. Aquela intimidade. mas não podia ter quaisquer dúvidas. admitindo-a para os serviços domésticos. de aparência original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante. Os olhos. Minha amiga e eu comentávamos a vaidade humana. embaciados e tristes. Recordei o dia em que minha genitora me chamou a conselhos justos. enumerando observações e ensinamentos. agravando com isso a irreflexão de nossos pensamentos. em poucos instantes localizei-a no passado. acentuou: . faça o obséquio de acompanhar nosso irmão e mostrar os serviços que julgar convenientes ao aprendizado dele.Narcisa. E. o ritmo comum. Localizavam-se ali algumas dezenas de mulheres. dizia. de quem abusa da faculdade de mandar e da condição de servir alguém. a regular distância. Memória inquieta. Fiquem à vontade.

se o Senhor permitiu que reencontrasse agora esta irmã. Sob enorme angústia moral. tão cedo atirada a doloroso capitulo de sofrimentos? Donde vinha? Ah!.Não precisa continuar. envergonhado da exumação daquelas reminiscências. estava também vivo. estouvadamente. a certa altura da confissão penosa. outra seria minha conduta naquele instante. abandonou Elisa. a nossa casa. Considerando que a mulher generosa e cristã é sempre mãe. perto de quem pudera repartir o débito com meu pai. mas. se tivesse Tobias a meu lado. Narcisa. A dívida. é que já o considera em condições de resgatar a dívida. em meu pensamento.221 NOSSO LAR ficava bem. contendo o pranto. minha amiga obtemperou: . reduzindo o fato. sem coragem de me lançar em rosto qualquer acusação. mais tarde. como alguma coisa da vida. Entretanto. Entretanto. agora. E o tempo passou. Adivinho o epílogo da história. naquele caso. levara eu muito longe a nossa camaradagem. vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera criatura. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as elucidações que pedira à mãe de Lísias e. Comecei a falar. de experiência própria.. A minha frente tinha Elisa. pelo olhar que me endereçou. o episódio.. não me defrontava o Silveira. parecia tudo compreender. Conheço o seu martírio moral. Eu mesmo me admirava da confiança que aquelas santas mulheres me inspiravam. Cheguei a tremer. voltei-me para a enfermeira. dirigi-me a Narcisa. pedindo orientação. qual criança ansiosa de perdão pelas faltas cometidas. a episódio fortuito da existência humana. No entanto. possivelmente. confiando mais que nunca. agora. mas convinha pautar nossas relações com sadio critério. mas. Não se entregue a pensamentos destrutivos. era inteiramente minha. Era razoável que dispensássemos à serva generosidade afetuosa. .

diante de Narcisa.222 NOSSO LAR Vendo a minha indecisão. pelo fato de continuar ela em cegueira quase completa.. Tomei a iniciativa da palavra confortadora. dando o próprio nome e prestando.Não tema. e falou: . Sentindo a inflexão afetuosa da pergunta. noto-lhe a triste característica das mães fracassadas e das mulheres de ninguém. de boa-vontade.Minha experiência foi a de todas as mulheres doidivanas que trocam o pão bendito do trabalho pelo . Interessado em castigar a mim mesmo. para que a lição me penetrasse nalma com caracteres indeléveis. é realidade universal. sorriu. Havia três meses que fora recolhida às Câmaras de Retificação. Faça-o.E sua história. outras informações. A infeliz.objetei. Bem-aventurados os devedores em condições de pagar. Isso não será difícil. Aproximamo-nos. Pelas forças que a envolvem. meditou alguns momentos. como quem concatenava idéias. por enquanto. temporariamente.Vamos. depois de beneficiá-la com êxito.As experiências dolorosas ensinam sempre . Aproxime-se dela e reconforte-a. meu irmão.. mas não se dê a conhecer. muito resignada. Elisa identificou-se. E. encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos. e desabafou: . Esta afirmativa não é frase doutrinária.Para que lembrar coisas tão tristes? . acentuou: . percebendo-me a resolução firme de empreender o necessário ajuste de contas. Todos nós. que apresentava profunda modificação moral. Elisa? Deve ter sofrido muito. Tenho colhido muito proveito de situações iguais a esta. prosseguiu: . perguntei: .

o conforto material e.indaguei. recriminar ninguém. rolou uma lágrima de arrependimento e remorso. de perto. em terrível desespero. mas. Nos tempos da mocidade distante. Não devo. Tomei-lhe a destra sobre a qual. trazendo-me a esta casa de abençoada consolação. . a culpa deve ser repartida. nutrindo por ele um ódio mortal. Aquela humildade sensibilizou-me. um dia. acabrunhado. em seguida. o horror de mim mesma.223 NOSSO LAR fel venenoso da ilusão. a sífilis. perguntei: . mas a irmã Nemésia modificoume. sem que o pudesse evitar. vali-me do emprego em casa de abastado comerciante. como filha de um lar paupérrimo. e entreguei-me a experiências dolorosas.E ele? Como se chama o homem que a fez tão infeliz? Ouvia-a. Esse negociante tinha um filho. então. que mensageiros do bem me recolheram por amor ao seu nome. o hospital. onde a vida me impôs imensa transformação. Comovidíssimo até às lágrimas. o luxo. Ela sorriu tristemente e respondeu: . tanto roguei o amparo da Virgem de Nazaré. tão jovem quanto eu. o abandono de todos.E você o odeia? . por mais faltosos que tenham sido. e depois da intimidade estabelecida entre nós. No meu caso. quando toda a reação de minha parte seria inútil. amaldiçoava-lhe a lembrança. Para odiá-lo. esqueci criminosamente que Deus reserva o trabalho a todos os que amem a vida sã. muito tempo. pronunciar meu nome e de meus pais. Conheci. que não preciso comentar. Errei. . as tremendas desilusões que culminaram na cegueira e na morte do corpo.No período do meu sofrimento anterior. tenho de odiar a mim mesma. o prazer. pois.

disse Elisa.continuei.parece a dele. quando minhas lágrimas se fizeram mais abundantes. Narcisa tomou-me as mãos. ingenuamente . Conte comigo. também eu me chamo André e preciso ajudá-la.E sua voz . comovido -.Como lhe sou grata! . Conte com o meu devotamento de amigo. doravante. Nesse instante. e repetiu: . não tenho propriamente uma família em "Nosso Lar". Que Jesus o abençoe.Que Jesus o abençoe.Pois bem .. minha amiga ..disse ela enxugando as lágrimas . Mas você será aqui minha irmã do coração. até agora. . . No semblante da sofredora.falei com emoção forte -.há quantos anos ninguém me fala assim.Ouça. dando-me o consolo da amizade sincera!.224 NOSSO LAR . maternalmente. . . nesse tom familiar. um grande sorriso parecia uma grande luz.

sem disfarçarem o imenso terror de que se possuíam. preparava-se "Nosso Lar" para o mesmo gênero de serviço.225 41 CONVOCADOS À LUTA Nos primeiros dias de setembro de 1939. o choque por que passaram diversas colônias espirituais. Entidades numerosas comentavam os empreendimentos bélicos em perspectiva. experimentando dificuldades de vulto. igualmente. quão perturbadora no plano do espírito. "Nosso Lar" sofreu. no campo da fraternidade e da simpatia. que as Grandes Fraternidades do Oriente suportavam as vibrações antagônicas da nação japonesa. agora. Assim como os nobres círculos espirituais da velha Ásia lutavam em silêncio. tão destruidora nos círculos da carne. Além de valiosas recomendações. Reconheci que os Espíritos superiores. Era a guerra européia. de ordem sentimental. porém. Anotavam-se. determinou o Governador tivéssemos cuidado na esfera do pensamento. fatos curiosos de alto padrão educativo. passam a considerar as nações agressoras . Sabia-se. desde muito. nessas circunstâncias. preservando-nos de qualquer inclinação menos digna. ligadas à civilização americana.

então. Se devemos lastimar a criatura em oposição à lei do bem. mas como desordeiras e cuja atividade criminosa é imprescindível reprimir. Esclareceram-me os colegas de trabalho que. os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos.disseme Salústio -. os países agressores convertem-se. contra os empreendimentos da ignorância e da sombra. congregados para a anarquia e. esses povos. . embriagam-se ao contacto dos elementos de perversão. enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores. Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum. que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa. encabeça a desordem da Casa do Pai. . conseqüentemente. Profunda emoção nos invadira a todos. nos acontecimentos dessa natureza. Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime. acentuando-lhes as derrotas fatais. Quando um país toma a iniciativa da guerra. Observei. Logo após os primeiros dias que assinalaram as primeiras bombas na terra polonesa. para a destruição. ainda que consigam vitórias temporárias. encontrava-me. em núcleos poderosos de centralização das forças do mal. e pagará um preço terrível.Infelizes dos povos que se embriaguem com o vinho do mal . elas servirão somente para lhes agravar a ruína. naturalmente. que invocam das camadas sombrias. com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço.226 NOSSO LAR não como inimigas. com mais propriedade devemos lamentar o povo que olvidou a justiça. Mas. junto de Tobias e Narcisa. nas Câmaras de Retificação. ao entardecer. transformando-as em campos de perversidade e horror. quando inesquecível clarim se fez ouvir por mais de um quarto de hora. Sem se precatarem dos perigos imensos.

Atento à minha atitude de angustiosa expectativa. para observar o movimento popular.é utilizado por espíritos vigilantes. de elevada expressão hierárquica. fomos ao grande parque. tive a atenção atraída para enormes rumores provenientes das zonas mais altas da colônia. Chegados aos pavimentos superiores. . Tobias informou: . Identificando-me o espanto natural. Profundamente comovido. inquieto -. parecendo pequenos focos resplandecentes e longínquos. Regressando ao interior das Câmaras. a librarem-se no firmamento. a fim de observar o céu.227 NOSSO LAR É a convocação superior aos serviços de socorro a Terra . para que o apelo se grave em nossos corações. Tobias confiou a Narcisa certas atividades de importância junto aos enfermos e convidou-me a sair.Quando soa o clarim de alerta. Quando o misterioso instrumento desferiu a última nota. com terríveis tormentos para o espírito humano . notamos intenso movimento em todos os setores.exclamou Tobias. em nome do Senhor. . embora a distância. onde se localizavam as vias públicas. Notei que profundo silêncio caiu sobre todo o Ministério da Regeneração. de onde nos poderíamos encaminhar à Praça da Governadoria.Temos o sinal de que a guerra prosseguirá. Teremos grande trabalho em preservar o Novo Mundo.explicoume Narcisa. toda a vida psíquica americana teve na Europa a sua origem. bondosamente. precisamos fazer calar os ruídos de baixo.disse Tobias igualmente emocionado .Esse clarim . vi inúmeros pontos luminosos. A clarinada fazia-se ouvir com modulações estranhas e imponentes. o companheiro explicou: .

A China está sob a metralha. mas é possível que a Comunicação nos forneça algum detalhe essencial.De qualquer modo. a meu ver. . e exclamou: . há muito tempo. com a Regeneração? . Aproximando-nos de dois homens. A única novidade é o acréscimo de serviço que. Todos sabemos que se trata da guerra. no fundo. qualquer demonstração de assombro. ainda.Será crivei que a calamidade nos atinja a todos? O interpelado. .228 NOSSO LAR . e não mostrou você...objetava o cavalheiro mais idoso . à procura de noticias. ouvi um deles perguntando: . O clarim que acaba de soar. o movimento de súplicas tem sido extraordinário. Observe os transeuntes. constituirá uma bênção.Estes grupos enormes dirigem-se ao Ministério da Comunicação. replicou. que parecia portador de grande equilíbrio espiritual. vinham dois senhores e quatro senhoras. . tudo é natural.Adiantemo-nos um pouco.o que será de nós no Auxílio. Estou avaliando o que virá sobre nós.os serviços prosseguem consideravelmente aumentados. não vejo motivo para precipitações. a vigilância contra as vibrações umbralinas reclama esforços incessantes. A doença é mestra da saúde. o desastre dá ponderação. Quanto ao mais.Imagine . sereno: . em conversação animada.dizia uma . só vem até nós em circunstâncias muito graves. Ao nosso lado. Experimentamos justa dificuldade para atender a todos os deveres. No meu setor. Há muitos meses consecutivos.E nós. de leve. Ouçamos o que dizem outros grupos. Tobias segurou-me o braço.

informou: .parece que serei compelido a modificar meu programa de trabalho.Entretanto . de modo algum.indagou a outra componente do trio -.Ela teme a libertação de um marido imprudente e perverso. observei três senhoras que iam na mesma direção à nossa esquerda. .Helvécio. Decorridos longos minutos. naquele crepúsculo de inquietação. sorrindo. me submeteria a novas crueldades. não alcançará a Península.Tola que és! .comentou a companheira . ao que parece. que me reclamava atenção.A questão impressiona-me sobremaneira . É muito ignorante e.dizia a mais moça -.Mas a guerra . Portugal está muito longe do teatro dos acontecimentos. ou coisa pior? Tobias.que ele me procure na qualidade de esposa.objetou o companheiro. verificando que o pitoresco não faltava.olvidaste que Everardo será barrado pelo Umbral. O outro sorriu e ponderou: . . em que observávamos a multidão espiritual.Mas agora . .Receio . porque Everardo não deve regressar do mundo agora.esclareceu a mais jovem . Não o poderia suportar. desapontado . igualmente ali. Atendendo a novo gesto de Tobias. . esqueçamos o "meu programa" para pensar em "nossos programas". atingimos o Ministério da Comuni- .229 NOSSO LAR . por que semelhante preocupação? Se Everardo viesse.disse uma das companheiras -. Helvécio. que aconteceria? .

daí a momentos ouviu-se a voz do próprio Governador. . A aflição não constrói. de quem falava com autoridade e amor. Era um velho de aspecto imponente."Irmãos de "Nosso Lar". Serenado o barulho. Extremamente surpreendido com o vozerio enorme. atendendo-me a curiosidade. dentro de dez minutos. operou singular efeito na multidão. reclamando a atenção popular. atendendo-Lhe a Vontade Divina no trabalho silencioso. Impossível. a ansiedade não edifica." Aquela voz clara e veemente. Milhares de entidades acotovelavam-se.230 NOSSO LAR cação. .É o Ministro Esperidião informou Tobias. far-se-ia ouvir um apelo do Governador. Todos queriam informações e esclarecimentos. No curto espaço de uma hora. um acordo geral. Saibamos ser dignos do clarim do Senhor. detendo-nos ante os enormes edifícios consagrados ao trabalho informativo. vi que alguém subira a uma sacada de grande altura. anunciando que. em nossos postos. aflitamente. porém. através de numerosos alto-falantes: . não vos entregueis a distúrbios do pensamento ou da palavra. toda a colônia regressava à serenidade habitual.

.Precisamos organizar .dizia ela . . esclareceu Narcisa. atacando as forças mais profundas. .Talvez estranhe. a elevada porcentagem de existências humanas estranguladas simplesmente pelas vibrações destrutivas do terror. atenciosa. que é tão contagioso como qualquer moléstia de perigosa propagação. embora o conflito se tenha manifestado tão longe.acrescentei. por alojar-se na cidadela da alma.231 42 A PALAVRA DO GOVERNADOR Para o domingo imediato à visita do clarim.objetou a enfermeira. Observando-me a estranheza. bem como exercícios adequados contra o medo. Classificamos o medo como dos piores inimigos da criatura. . como acontece a muita gente.determinados elementos para o serviço hospitalar urgente. seria a preparação de novas escolas de assistência no Auxílio e núcleos de adestramento na Regeneração. admirado. prometeu o Governador a realização do culto evangélico no Ministério da Regeneração. O objetivo essencial da medida.Como não? . continuou: .Contra o medo? .

232 NOSSO LAR

- Não tenha dúvida. A Governadoria, nas atuais emergências, coloca o treinamento contra o medo muito acima das próprias lições de enfermagem. A calma é garantia do êxito. Mais tarde, compreenderá tais imperativos de serviço. Não encontrei argumento de contestação para retrucar. Na véspera do grande acontecimento, tive a honra de integrar o quadro de cooperadores numerosos, no trabalho de limpeza e ornamentação natural do grande salão consagrado ao chefe maior da colônia. Experimentava, então, ansiedade justa. Ia ver, pela primeira vez, a meu lado, o nobre condutor que merecia a veneração geral. Não me sentia sozinho em semelhante expectativa, porque havia inúmeros companheiros nas minhas condições. Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural, desde o raiar de domingo, quando verdadeiras caravanas de todos os departamentos regeneradores chegavam ao local. O Grande Coro do Templo da Governadoria, aliando-se aos meninos cantores das escolas do Esclarecimento, iniciou a festividade com o maravilhoso hino intitulado "Sempre Contigo, Senhor Jesus", cantado por duas mil vozes ao mesmo tempo. Outras melodias de beleza singular encheram a amplidão. O murmúrio doce do vento, canalizado em vagas de perfume, parecia responder às harmonias suaves. Havia permissão geral de ingresso ao enorme recinto verde, para todos os servidores da Regeneração, porque, conforme o programa estabelecido, o culto evangélico era dedicado especialmente a eles, comparecendo os demais Ministérios, por numerosas delegações.

233 NOSSO LAR Pela primeira vez, tive à frente dos olhos alguns cooperadores dos Ministérios da Elevação e União Divina, que me pareceram vestidos em brilhantes claridades. A festividade excedia a tudo que eu pudesse sonhar em beleza e deslumbramento. Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante. Às dez horas, chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração. Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo. Alto, magro, envergando uma túnica muito alva, olhos penetrantes e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil. Satisfazendo-me a curiosidade, Salústio informou: - O Governador sempre estimou as atitudes patriarcais, considerando que se deve administrar com amor paterno. Sentando-se ele na tribuna suprema, levantaram-se as vozes infantis, seguidas de harpas caridosas, entoando o hino "A Ti, Senhor, Nossas Vidas". O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembléia compacta, constituída de milhares de assistentes. Em seguida, abriu um livro luminoso que o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Folheou-o atento e, depois, leu em voz pausada: - "E ouvíreis falar de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.,' Palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6.

234 NOSSO LAR Volume de voz consideravelmente aumentado pelas vibrações elétricas, o chefe da cidade orou comovidamente, invocando as bênçãos do Cristo, saudando, em seguida, os representantes da União Divina, da Elevação, do Esclarecimento, da Comunicação e do Auxílio, dirigindo-se, com especial atenção, a todos os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério. Impossível descrever a entonação doce e enérgica, amorosa e convincente, daquela voz inesquecível, bem como traduzir no papel humano as considerações divinas do comentário evangélico, vazado em profundo sentimento de veneração pelas coisas sagradas. Finalizando, em meio de respeitoso silêncio, dirigiu-se o Governador, de maneira particular, aos servidores da Regeneração, exclamando, mais ou menos nestes termos: - É para vós, irmãos meus, cujos labores se aproximam das atividades terrestres, com mais propriedade, que dirijo meu apelo pessoal, muito esperando da vossa nobre dedicação. Elevemos ao máximo nosso padrão de coragem e de espírito de serviço. Quando as forças da sombra agravam as dificuldades das esferas inferiores, é imprescindível acender novas luzes que dissipem, na Terra, as trevas densas. Consagrei o culto de hoje a todos os servidores deste Ministério, votando-lhes de modo particular a confiança do meu coração. Não me dirijo, pois, neste momento, aos nossos irmãos cujas mentes já funcionam em zonas mais altas da vida, mas a vós outros, que trazeis nas sandálias da recordação os sinais da poeira do mundo, para exalçar a tarefa gigantesca. "Nosso Lar" precisa de trinta mil servidores adestrados no serviço defensivo, trinta mil trabalhadores que não meçam necessidade de repouso, nem conveniências pessoais, enquanto perdurar nossa batalha com as forças desencadeadas do crime e da ignorância. Haverá serviço para

235 NOSSO LAR todos, nas regiões de limite vibratório, entre nós e os planos inferiores, porque não podemos esperar o adversário em nossa morada espiritual. Nas organizações coletivas, é forçoso considerar a medicina preventiva como medida primordial na preservação da paz interna. Somos, em "Nosso Lar", mais de um milhão de criaturas devotadas aos desígnios superiores e ao melhoramento moral de nós mesmos. Seria caridade permitir a invasão de vários milhões de espíritos desordeiros? Não podemos, portanto, hesitar no que se refere à defesa do bem. Sei que muitos de vós recordais, neste instante, o Grande Crucificado. Sim, Jesus entregou-se à turba de amotinados e criminosos, por amor à redenção de todos nós, mas não entregou o mundo à desordem e ao aniquilamento. Todos devemos estar prontos para o sacrifício individual, mas não podemos entregar nossa morada aos malfeitores. Lógico que a nossa tarefa essencial é de confraternização e paz, de amor e alívio aos que sofrem; claro que interpretaremos todo mal como desperdício de energia, e todo crime como enfermidade dalma; entretanto, "Nosso Lar', e um patrimônio divino, que precisamos defender com todas as energias do coração. Quem não sabe preservar, não é digno de usufruir. Preparemos, pois, legiões de trabalhadores que operem esclarecendo e consolando, na Terra, no Umbral e nas Trevas, em missões de amor fraternal; mas precisamos organizar, neste Ministério, antes de tudo, uma legião especial de defesa, que nos garanta as realizações espirituais, em nossas fronteiras vibratórias. Assim continuou a discorrer, por longo tempo, encarecendo providências de caráter fundamental, tecendo considerações que jamais conseguiria aqui descrever. Ultimando os comentários, repetiu a leitura do versículo de Mateus, invocando, de novo, as bênçãos de Jesus e as

236 NOSSO LAR energias dos ouvintes, para que nenhum de nós recebesse dádivas em vão. Comovido e deslumbrado, ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda intitulara "A Grande Jerusalém". O Governador desceu da tribuna sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre as árvores, trazendo, talvez de muito longe, pétalas de rosas diferentes, em maravilhoso azul, que se desfaziam, de leve, ao tocar nossas frontes, enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

na retaguarda. Centenas de companheiros se ofereciam para os trabalhos árduos da defensiva.237 43 EM CONVERSAÇÃO O Ministério da Regeneração continuou cheio de expressões festivas. solicitando acréscimo de responsabilidade. Procurei Tobias.André. você está começando agora uma tarefa nova. serão muito grandes os claros a preencher. assim correspondendo ao apelo do grande chefe espiritual. mas o generoso irmão sorriu da minha ingenuidade e falou: . Comentavam-se os acontecimentos. não obstante se haver retirado o Governador ao seu círculo mais íntimo. o Governador. . Não se aflija. para consultá-lo sobre a possibilidade do meu aproveitamento. dia e noite. ainda agora. Recorde que trinta mil servidores vão ser convocados para a vigilância permanente. Destarte. Não se precipite. Não se esqueça de que as nossas Câmaras de Retificação constituem núcleos de esforço ativo. Haverá serviço para todos. disse-nos.

Não tenho esse prazer.Contente-se com a matrícula na escola contra o medo. consagrado aos trabalhos desse Ministro da Regeneração.238 NOSSO LAR Identificando-me o desapontamento. que integrara. . Não se podem. envolvendo-me nas vibrações do seu imenso carinho fraterno -. . acentuou depois de ligeira pausa: . nenhum de nós imaginava o que fosse o trabalho de socorro espiritual nos campos da Polônia. o bondoso companheiro. a deputação do Ministério do Auxílio. há muito que tenho a honra de incluí-lo no círculo das minhas relações pessoais.o Ministro Benevenuto. o mesmo que chegou anteontem da Polônia. O Ministro acolheu-me.Conhece você . ali.replicou Lísias. . onde Benevenuto trocava impressões com diversos amigos. estávamos no grande recinto verde. apresentando-me com generosas palavras. que eu apenas conhecia de vista.Muito doloroso o quadro que vimos . Daí a momentos.indagou ele .comentava Benevenuto em tom grave -. Creia que isso lhe fará enorme bem.Vamos ao seu encontro . bemhumorado. tudo difícil. Numerosos grupos de visitantes permutavam idéias sob a copa das grandes árvores. cortês. Nesse ínterim. retirei-me em companhia de Lísias para gozar de palestra mais íntima. . admitindo-me na sua roda com extrema bondade. Lísias conduziu-me ao núcleo maior. aqui na Regeneração. Com a licença de Tobias. habituados ao serviço da paz na América. na festa. Tudo obscuro. recebi grande abraço de Lísias. . A conversação continuou nos rumos naturais e notei que se discutia a situação da esfera terrestre.

para o a que chamam "impactos diretos'. Nunca. porém. as condições não poderiam ser melhores. fugiam dos Espíritos missionários.ajuntou o Ministro. nunca vi tamanhos sofrimentos coletivos. O campo de batalha. Bombas de alto poder explosivo destroem edifícios pacientemente edificados. invisível aos nossos irmãos terrestres.perguntou um dos companheiros com interesse. evidencia o espírito humano a condição de alma decaída.239 NOSSO LAR esperar claridades de fé nos agressores. Todas as tarefas de assistência imediata funcionam perfeitamente. O chefe da expedição. tampouco na maioria das vítimas. a despeito do ar asfixiante. . apresentando características essencialmente diabólicas. Desde o começo do meu Ministério. é verdadeiro inferno de indescritíveis proporções. Acredito que nossa posição está muito distante da extraordinária capacidade de resistência dos abnegados servidores espirituais que ali se encontram de serviço. .Todo o tempo disponível . Aos fluidos venenosos da metralha.E a comissão demorou-se muito por lá? . O que mais nos contristou. por forças tenebrosas. na maioria. Vi homens inteligentes e instruídos localizarem. foi a triste condição dos militares agressores. casam-se as emanações pestilentas do ódio e tornam quase impossível qualquer auxílio. saturado de vibrações destruidoras. chamando-lhes a todos "fantasmas da cruz". compelido pelas circunstâncias. determinados setores de atividade pacífica. nosso colega do Auxílio. Os encarnados não nos ajudam. apenas consomem nossas forças. julgou conveniente permanecermos exclusivamente atidos à tarefa. que se entregam totalmente a pavorosas impressões.. com minuciosa atenção. Com efeito. como na guerra. . quando algum deles abandonava as vestes carnais. para enriquecermos observações e melhor aproveitar a experiência. Dominados.

Será sempre possível atender aos loucos pacíficos.E não eram recolhidos para esclarecimento justo? . . no lar. Valendo-se de ligeiro intervalo. mas que remédio se reservará aos loucos furiosos. Os espetáculos entrevistos foram. Benevenuto esboçou um gesto significativo e respondeu: . élhe necessário iluminar raciocínios para a vida eterna.perguntou abruptamente um dos circunstantes. Não surgiram as primeiras florações doutrinárias na América e na Europa. meus amigos -definiu o Ministro com expressiva inflexão de voz -. se tenha abalançado a semelhante calamidade. com tantos patrimônios culturais. onde serão naturalmente compelidas a reajustar-se. há mais de cinqüenta anos? Não continua esse movimento novo a serviço das verdades eternas? . que as missões de auxílio recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado.É quase incrível que a Europa.Mas. as personalidades religiosas poderão inspirar respeito e admiração. outro companheiro opinou: . mas o sacerdócio político jamais atenderá a sede espiritual da civilização. Sem o sopro divino. dando ensejo a pensamentos dignos. o Espiritismo? . porém. As igrejas são sempre santas em seus fundamentos e o sacerdócio será sempre divino. não. não basta ao homem a inteligência apurada.240 NOSSO LAR . a fé e a confiança. senão deixá-las nos precipícios das trevas. . demasiadamente dolorosos.Falta de preparação religiosa. portanto. interrompendo o narrador. portanto. por muitas razões. É razoável. quando cuide essencialmente da Verdade de Deus. senão o hospício? Não havia outro recurso para tais criaturas.inquiriu alguém.

Enfim. podemos permanecer em paz. se bem fizermos a nossa parte. e nunca utilizam os próprios pés. que todo homem é semente da divindade. ao passo que nós outros vivemos à procura de homens espiritualizados para o trabalho sério. crêem mais na doença que na saúde. O trocadilho arrancou expressões de bom humor geral. Esmagadora porcentagem dos aprendizes novos aproxima-se dessa fonte divina a copiar antigos vícios religiosos. mas não caminham ao encontro dela. e estejamos sempre convictos de que. Ataquemos a execução de nossos deveres com esperança e otimismo. Querem receber proveitos. Trata-se de uma dádiva sublime. porque o Senhor fará o resto. Enquanto muitos estudiosos reduzem os médiuns a cobaias humanas. por lá. numerosos crentes procedem à maneira de certos enfermos que. procuram-se. esboçou um gesto extremamente significativo e acrescentou: . . mas não se dispõem a dar coisa alguma de si mesmos. gravemente: . porém. por todos os títulos. mas a nossa marcha é ainda muito lenta. é o Consolador da humanidade encarnada.Nossos serviços são astronômicos. Não esqueçamos. para a qual a maioria dos homens ainda não possuí "olhos de ver". os espíritos materializados para o fenomenismo passageiro. Invocam a verdade. acrescentando o Ministro. embora curados.241 NOSSO LAR Benevenuto sorriu.O Espiritismo é a nossa grande esperança e.

formando núcleos de força viva. procurei transmitir-lhe minhas sublimes impressões. o problema do ambiente é sempre fator ponderável no caminho de cada homem. Dia verdadeiramente maravilhoso! Sucediam-se júbilos espirituais. ocorre algo de confortador e construtivo em nosso íntimo. Lísias deu-me a conhecer novos valores da sua cultura e sensibilidade. Quem se oferece diariamente . André. como se estivéssemos em pleno paraíso. Dedilhando com maestria as cordas da cítara.Não tenha dúvida disse. quando nos reunimos àqueles a quem amamos. Cada criatura viverá daquilo que cultiva.242 44 AS TREVAS Enriquecendo as alegrias da reunião. sorrindo . É o alimento do amor. fez-nos lembrar velhas canções e melodias da Terra. através dos quais cada um recebe seu quinhão de alegria ou sofrimento. Quando me vi a sós com o bondoso enfermeiro do Auxílio. no planeta. seus pensamentos se entrelaçam. É por essa razão que. da vibração geral. Quando numerosas almas se congregam no círculo de tal ou qual atividade. .

então. Observando-me a estranheza. Foi. É lei da vida. em que predominam o egoísmo. confiei-lhe minhas dúvidas íntimas. durante anos consecutivos? Não via. expondo-lhe a perplexidade em que me encontrava. de toda assembléia de tendências inferiores. em sombras densas. até então. não tinha eu. como nos movimentos do mal. nela se movimentará. a vaidade ou o crime. e falou: . Não seria região trevosa o próprio Umbral. Quando há compreensão recíproca.Não há nisto mistério.exclamei. mas. vivemos na antecâmara da ventura celeste. no início da minha experiência em "Nosso Lar". concluiu: . comovido -.Tem razão . . a esperança. e. Das reuniões de fraternidade. temos o inferno vivo. de esperança. quem enaltece a enfermidade. o amor e a alegria de todos. Lísias teve uma expressão de bom humor. os princípios que regem a vida nos lares humanos. Referira-se o Governador. me torturava a mente. igualmente. que me lembrei de interpelá-lo sobre uma coisa que. do Umbral e das Trevas. onde vivera.243 NOSSO LAR à tristeza. por minha vez. mas. confirmando a sorrir. qualquer notícia deste último plano. sairemos envenenados com as vibrações destrutivas desses sentimentos. quando nos dirigiu a palavra. nas Câmaras. vejo nisso. de amor e de alegria. sairemos com a fraternidade. de algumas horas. sofrer-lhe-á o dano. se permanecemos em desentendimento e maldade. Ele esboçou uma fisionomia bastante significativa. francamente. numerosos desequilibrados e doentes de toda espécie. procedentes das zonas umbralinas? Recordando que Lísias me dera esclarecimentos tão valiosos da minha própria situação. tanto nos esforços do bem. aos círculos da Terra.

Assim é que muitos costumam perder-se em plena floresta da vida. os milhões de seres que perambulam no Umbral.244 NOSSO LAR . Compreendeu? As elucidações não poderiam ser mais claras. o au- . Outros. São os espíritos nobilíssimos. porém. no entanto. estaciona. imprimindo-se.Chamamos Trevas às regiões mais inferiores que conhecemos. conseqüentemente. visando ao objetivo essencial da jornada. Temos então a multidão de almas que demoram séculos e séculos. estacionando no fundo do abismo por tempo indeterminado. o conhecimento da verdade.Sua observação é oportuna. a queda sempre me pareceu impossível nas regiões estranhas ao corpo terreno. o espírito pode precipitar-se nas furnas do mal. que nas esferas superiores as defesas são mais fortes. O ambiente divino. Os primeiros seguem por linhas retas. aí.Entretanto .objetei -. mais intensidade de culpa na falta cometida. ponderei: . perturbados no labirinto que tracejam para os próprios pés. costumam cair em precipícios. ficam à mercê de inúmeras vicissitudes. Alguns poucos seguem resolutos. salientando-se. porém. pela preocupação egoística que os absorve. Sensibilizado. Classificam-se. Em qualquer lugar. . que me diz dessas quedas? Verificam-se apenas na Terra? Somente os encarnados são suscetíveis de precipitação no despenhadeiro? Lísias pensou um minuto e respondeu: . repetindo marchas e refazendo velhos esforços. A maioria. Nessa movimentação. com a extensão e complexidade do assunto.Entretanto. sem vacilações. Considere as criaturas como itinerantes da vida. recapitulando experiências. Os segundos caminham descrevendo grandes curvas. preferindo caminhar às escuras. marchando para o alvo sublime. que descobriram a essência divina em si mesmos.

onde ficará semelhante lugar de sofrimento e pavor? . Depois de pequeno intervalo. que desprezam a inspiração divina. Em tudo há energias viventes e cada espécie de seres funciona em determinada zona da vida.245 NOSSO LAR xílio superior figuravam-se-me antídotos infalíveis ao veneno da vaidade e da tentação. As palavras do enfermeiro calavam-me fundo no espírito. O companheiro sorriu e esclareceu: . em geral. de preferência. De fato. quando a Lua e as estrelas enchem o planeta de poesia divina.Contudo. ouvindo elevadas revelações da verdade superior. conhecimento da verdade e auxílio superior.O problema da tentação é mais complexo. Renovando minha concepção referente à queda espiritual. perfume e luz. ali.disse ele. As paisagens do planeta terrestre estão cheias de ambiente divino. Lísias. solícito -. poderá você dar-me uma idéia da localização dessa zona de Trevas? Se o Umbral está ligado à mente humana. na Terra.Há esferas de vida em toda parte . acrescentei: . quando a Natureza estende no solo e no firmamento maravilhas de cor. os latrocínios e homicídios são praticados. continuou: . A maioria dos verdugos da Humanidade constitui-se de homens eminentemente cultos. muitos cometem homicídios ao luar. os guerreiros estimam a destruição na primavera e no estio. o vácuo sempre há de ser mera imagem literária. insensíveis à profunda sugestão das estrelas. outros exploram os mais fracos. paisagens e expressões essencialmente divinas. em que me pareceu meditar profundamente. Não faltam. Não são poucos os que compartem. à noite. de batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos primaveris.

a desenhar-se ante meus olhos espirituais. como aconteceu a nós outros. palpita na profundeza dos mares e no âmago da terra. porém. pensou.. que há elementos no cérebro do homem que lhe presidem o senso diretivo. Hoje. há princípios de gravitação para o espírito. não precisaria fazer-me esta pergunta. as que se embaraçam no cipoal sentem-se tolhidas no vôo. além da morte do corpo. porém. porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao local para onde esteja dirigindo os próprios passos. o quadro imenso de lutas purificadoras. É organização viva. É claro que a alma esmagada de culpas não poderá subir à tona do lago maravilhoso da vida. você situou como região de existência. Avaliei. a nosso bel-prazer. reconhece que esses elementos não são propriamente físicos e sim espirituais. o companheiro pensou. Resumindo. . e as que se prendem a peso considerável são meras escravas do desconhecido. A Terra não é somente o campo que podemos ferir ou menosprezar. Percebe? Lísias. para exprimir-se. A vida..246 NOSSO LAR . portanto. como médico humano. nas zonas mais baixas da existência. na essência. que se precipite nas Trevas. de pronto. apenas os círculos a se iniciarem da superfície do globo para cima. segundo nossas obras. com que corrige o culpado e dá passagem ao triunfador para a vida eterna.Naturalmente. esquecido do nível para baixo. contudo. possuidora de certas leis que nos escravizarão ou libertarão.Qual acontece a nós outros. Você sabe. que trazemos em nosso íntimo o superior e o inferior. Quem estime viver exclusivamente nas sombras. também o planeta traz em si expressões altas e baixas. e concluiu: . embotará o sentido divino da direção. devo lembrar que as aves livres ascendem às alturas. Como alguém que precisa ponderar bastante. Não será demais. Além disso. como se dá com os corpos materiais.

porém. a quem o enfermeiro do Auxilio dirigiu a palavra com respeitosa intimidade. suavizando a situação dos enfermos. a companhia de Narcisa.247 45 NO CAMPO DA MÚSICA À tardinha.Falarei a Tobias.É preciso distrair-se um pouco. Considerando a nova posição em que me encontrava. Vendo-me relutante. Narcisa. . As visitas diárias do Ministro Genésio. Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. acerquei-me de Tobias. aqui e ali. gentil. já dedicava grande amor àquelas Câmaras. como se fossem nossos filhos.disse ele. André! . Não obstante a escassez dos meus dias de serviço. observava em mim mesmo singular fenômeno. Recebendo a solicitação. Salústio e eu aproveitávamos todos os instantes de folga para melhorar o interior. a camaradagem dos companheiros. meu iniciador no trabalho anuiu. Vamos! Eu. a inspiração de Tobias. tudo isso me falava particularmente ao espírito. que estimávamos de todo o coração. acentuou: . satisfeito: .

o amor é uma espécie de ouro abafado nas pedras .encontrarmos noivados. Atingindo-lhe a residência. porém. Todos os nossos serviços estão convenientemente atendidos. Lísias.248 NOSSO LAR . ou na alma eterna? Lá.. As jovens faziam-se acompanhar de Polidoro e Estácio. a meu lado. . bem-humorada: . no círculo terrestre. A casa estava repleta de contentamento. Em meio da geral alegria. Despedindo-nos. a dona da casa me abraçou e falou. a cidade terá mais um freqüentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!. vai você conhecer minha noiva.Como não? Vive o amor sublime no corpo mortal.observei. abraçando-me: . intrigado . tive a satisfação de rever a senhora Laura e informarme quanto ao regresso da abnegada mãe de Eloísa. meu caro. Acompanhei Lísias. Havia mais beleza no interior doméstico. também por aqui. a quem tenho falado muitas vezes a seu respeito. com quem palestravam animadamente.Não hesite. Aproveite! Volte à noite... ganhamos a via pública.É curioso . ainda ficarei hoje em casa. muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!.Ótimo programa! André precisa conhecer o Campo da Música. Vingar-me-ei de vocês.. logo que deixamos o aeróbus numa das praças do Ministério da Elevação. quando quiser. disse carinhoso: .Finalmente. novas disposições no jardim... na próxima semana.Então. que deveria regressar do planeta. no Ministério do Auxílio. E. Quanto a mim. reconhecidamente. doravante. .

A liberdade que as leis sociais do planeta conferem ao sexo masculino. aqui.Contudo . Amiúde. convertemo-la em resvaladouro para a animalidade. é a expressão da verdade. Não existem véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar. além disso. As mulheres.249 NOSSO LAR brutas. Na existência passageira. ao contrário.Nem podia ser de outro modo . a seu favor. minhas dívidas para com o planeta são ainda enormes. tem você em mira novos planos para os círculos carnais? . dentro em breve. ainda não foi devidamente compreendida por nós outros. Raramente algum de nós a utiliza no mundo em serviço de espiritualização.O noivado é muito mais belo na espiritualidade. necessito enriquecer o patrimônio das experiências e. Luzes de indescritível beleza banhavam extenso . crendo que voltaremos à Terra precisamente daqui a uns trinta anos. Parece paradoxo e. verificamos o reajustamento dos valores. Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer. que raramente se diferenciará a ganga do precioso metal. Devo confessar que quase todos os desastres do pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta de autodomínio. Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências materiais. as disciplinas mais rigorosas. Lascínia e eu fundaremos aqui. prosseguiu: . todavia.explicou ele. Reconhecendo o efeito benéfico da explicação. porém. nossa casinha de felicidade. . A observação era lógica. Tanto o misturam os homens com as necessidades. têm tido. os desejos e estados inferiores. Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas imposições. pressuroso -. até agora. Somos o que somos.indaguei -.

Notei. temos a música universal e divina. o companheiro explicou: . André? Ri-me. grande grupo de passeantes. . considerando minha antiga posição conjugal . atingimos a faixa de entrada. em várias direções. O enfermeiro amigo. onde Lísias pagou gentilmente o ingresso. . . Lis ias recomendou bem-humorado: . riu a valer. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente. a arte santificada. espero faça você as honras de cavalheiro. no entanto.250 NOSSO LAR parque.você deve compreender que estou ligado a Zélia. temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime.Era o que faltava! Ninguém quer ferir seus sentimentos de fidelidade.Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs. Nesse momento. Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração. no centro. acrescentando: . Lísias. por excelência.respondi. . em torno de gracioso coreto. reticencioso. às quais. Observando minha admiração pelas canções que se ouviam. onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas. nesse instante. Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim. desconcertado. que a união esponsalícia deva trazer o esquecimento da vida social. onde um corpo orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira.Nas extremidades do Campo.Mas. mas. ali mesmo. Não creio. Não sabe mais ser o irmão de alguém. e nada pude replicar. dando acesso ao interior do parque.

a arte pura e a vida sem artifícios. Não somente os pares afetuosos demoravam nas estradas floridas.251 NOSSO LAR Com efeito. verificava-se o contrário. revelando extremo apuro de gosto individual. comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador. Não era luxo. contudo. o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. a filosofia edificante. onde cada flor parecia possuir seu reinado particular. contudo. O centro do campo estava repleto. Ouvia frases soltas. Discutia-se o amor. a pesquisa científica. relativamente aos círculos carnais. iluminados e acolhedores. sem qualquer atrito de opi- . A nata de "Nosso Lar" apresentava-se em magnífica forma. e. valiosa e construtiva. Ali. depois de atravessarmos alamedas risonhas. experimentava a mensagem silenciosa. há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional. mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então. a simplicidade confundida com a beleza. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente. O elemento feminino aparecia na paisagem. em nenhuma palestra notei o mais ligeiro laivo de malícia ou de acusação aos homens. no olhar de quantos me defrontavam. de simpatia. diferentes das que se conhecem na Terra. Grandes árvores. Na Terra. Era a expressão natural de tudo. na colônia. Não obstante sentir-me sinceramente humilhado pela minha insignificância ante aquela aglomeração seletíssima. Grupos de senhoras e cavalheiros entretinham-se em animada conversação. sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. a cultura intelectual. guarnecem belos recintos. nem excesso de qualquer natureza. mas todos os comentários tendiam à esfera elevada do auxílio mútuo.

ouvi Lísias dizer: . Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza inútil. transmitindo-as. recolhia referências a Jesus e ao Evangelho. por sua vez. Lascínia e as irmãs haviam chegado e era preciso atender aos imperativos da confraternização.252 NOSSO LAR nião. todavia. o mais sábio restringia as vibrações de seu poder intelectual. O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus. cheio de compreensão e bondade. no entanto. ali. Aquela sociedade otimista encantava-me. Em palestras numerosas. está cheio de beleza e sublimidade. a capacidade de compreensão para absorver as dádivas do conhecimento superior. quanto possível. e os grandes compositores terrestres são. Observei que. trazidos às esferas como a nossa. . Fôramos defrontados por gracioso grupo. aos ouvidos humanos. ao passo que os menos instruídos elevavam. visíveis e invisíveis. onde recebem algumas expressões melódicas. ou do injustificável desalento. por vezes. não pôde continuar. O Universo. tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres. e. Jesus era lembrado por todos como supremo orientador das organizações terrenas. mas também consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da ordem e da justiça. adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. Grandemente maravilhado com a música sublime. André. em harmonia. o que mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as conversações. absorvem raios de inspiração nos planos mais altos. Diante dos olhos. O enfermeiro do Auxilio.Nossos orientadores. na Terra.

intentava pedir concessões. mas alguma coisa me tolhia. encontrara o prazer do serviço. não voltara ao lar terrestre. Não recebera auxilio adequado. ali. no entanto. de há muito teria sido encaminhado ao velho ambiente doméstico. não contava. Aliás. experimentando crescente júbilo e confiança.253 46 SACRIFÍCIO DE MULHER Um ano se passou em trabalhos construtivos. portanto. mantinha-se ele sempre silencioso sobre o assunto. se houvesse proveito. aguardar a palavra de ordem. com imensa alegria para mim. com o carinho e apreço de todos os companheiros? Reconhecia. nesse particular. que. Apenas pelo . Até ali. As vezes. o Ministro Clarêncio continuava a responsabilizar-se pela minha permanência na colônia. no desempenho das obrigações concernentes à sua autoridade. Aprendera a ser útil. Cumpria. não obstante desdobrar atividades na Regeneração. Clarêncio nunca modificava a atitude reservada. Por diversas vezes tinha defrontado o generoso Ministro do Auxilio e. pois. apesar do imenso desejo que me espicaçava o coração. Além disso. A senhora Laura e o próprio Tobias não se cansavam de me lembrar esse fato.

depois das saudações carinhosas. que se consolidava meu equilíbrio emocional. Não perdia de vista a pobre Elisa. Com efeito. nos primeiros dias de setembro de 1940. esperando. Em compensação. intensificava-se-me a ansiedade de rever os meus. de maneira indireta. . a melhores tentames. porém. Agradeci. Comentara as alegrias da noite e asseverara não andar longe o dia em que me acompanharia ao ninho familiar. encaminhando-a. embora permanecesse em círculos mais altos. adivinhando-me as saudades da esposa e dos filhinhos. cheio de bom ânimo. Entretanto. que nunca me abandonou à própria sorte. A saudade doía fundo. Habituara-me a cuidar dos enfermos.254 NOSSO LAR Natal. comovidamente. Que novas resoluções teria tomado? Intrigado. atingíramos setembro de 1940. esperei-lhe a visita. a interpretar-lhes os pensamentos. comunicou-me o propósito de voltar à Terra. comovera-me profundamente. À medida. sem solução de continuidade. a certeza de haver preenchido todo o meu tempo nas Câmaras de Retificação. quando me encontrara nos festejos da Elevação. Não descansara. porém. ela me disse que tencionava cientificar-me de projetos novos. ansioso de conhecer-lhe os planos. Nossas tarefas prosseguiam sempre. A última vez que nos avistáramos. sem que visse a realização de meus desejos. Aquela atitude maternal de suave conformação nos sofrimentos morais que lhe feriam a alma sensível. Confortava-me. com serviço útil. de longe em longe era visitado por minha mãe. minha mãe veio às Câmaras e. tocara levemente no assunto.

no caminho escuro. explicou o projeto. Estudei detidamente o assunto. não se limitam a estender as mãos de longe. mas a senhora poderá ajudá-lo mesmo daqui.Não concordo.255 NOSSO LAR Em tom afetuoso. Voltar a senhora à carne? Por quê? Internar-se. Que me resta. surpreendido e discordando de semelhante decisão. trabalharia por auxiliá-lo. Não posso trazer o inferior para o superior. e redargüi: . Não haverá meios de evitar essa contingência? . se não pudéssemos estendê-la aos entes amados? Poderíamos. meu filho? Há muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos. impressionado -.Não. doravante reunir-me-ei a Luísa a fim de auxiliar teu pai a reencontrar o caminho certo. Meus superiores hierárquicos foram acordes no conselho. Não seria possível.respondi. de novo. Laerte é hoje um céptico de coração envenenado. Não poderia persistir em semelhante posição. verdadeiramente. Pensei. André? Terias coragem de revê-lo em tal situação. sob pena de mergulhar em abismos mais fundos.Insistiria. . No entanto.Não duvido. protestei: . mas posso fazer o contrário. pensei. minha mãe ponderou: .Não . Mas. Já que poderei contar contigo aqui. sem necessidade imediata? Mostrando nobre expressão de serenidade. os espíritos que amam. senão isso? Não .Não consideras a angustiosa condição de teu pai. De que nos valeria toda a riqueza material. esquivando-te ao socorro justo? . acaso. no entanto. residir num palácio relegando os filhinhos à intempérie? Não posso ficar a distância. com a senhora. Que fazer.

Deus criou o livre-arbítrio. para jungi-lo à nova situação carnal. É preciso quebrar.Há reencarnações que funcionam como drásticos. a alma pode invocar esse direito somente quando compreenda o dever e o pratique. continuou ela. em trabalho ativo de purgação. portanto. não fosse a Proteção Divina por . em breves dias. Estarei novamente no mundo. Ainda que o doente não se sinta corajoso. Com a colaboração de alguns amigos. retomando as anteriores observações: . Enquanto me perdia em graves pensamentos. Não te percas. embora muito amargo. . existem amigos que o ajudam a sorver o remédio santo. a semana passada. preparando-lhe a reencarnação imediata sem que ele nos identificasse o auxílio direto. e auxilia tua mãe. não o abandonam. zela por tuas irmãs. entretanto. meu filho. algo triste. é indispensável reconhecer que o devedor é escravo do compromisso assumido.Mas isso é possível? E a liberdade individual? Minha mãe sorriu. Entrementes.As infelizes irmãs que o perseguem. nós criamos a fatalidade. e. que talvez ainda se encontrem nas sombras do Umbral.disse minha mãe com significativa expressão fisionômica. as algemas que fundimos para nós mesmos. localizei-o na Terra.indaguei . e aproveitamos essa disposição. onde me encontrarei com Laerte para os serviços que o Pai nos confiar. Quis fugir das mulheres que ainda o subjugam. Relativamente à liberdade irrestrita. talvez com razão. quando puderes transitar entre as esferas que nos separam da crosta. e obtemperou: . Quanto ao mais. Tenho em ti o amparo do futuro.256 NOSSO LAR devo hesitar um minuto. pois.Não .Mas . .como se encontra ele com a senhora? Em espírito? .

Essas interrogações.Deus meu! . . meu filho .E essas mulheres? ..Serão minhas filhas daqui a alguns anos. como não se pode apagar na Terra um incêndio com petróleo.257 NOSSO LAR intermédio de nossos guardas espirituais. Não tomes empréstimos à maldade. Em futuro não distante. os que erram se desviam da estrada real. . antes de contrairmos qualquer débito. ajoelhei-me e beijei-lhe as mãos. amor e união. É preciso não esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai. e antes de transformarmos irmãos em adversários para o caminho. mergulhando no pântano.exclamei. intensificando as forças contrárias. rematou: ... . Identificando-lhe o espírito de renúncia. . cercada de outros afetos sacrossantos.esclareceu minha genitora.Será então possível? Estamos à mercê do mal até esse ponto? Simples joguetes em mão dos inimigos? . para uma grande festividade de alegria. quem sabe? talvez regresse a "Nosso Lar". como se estivesse a contemplar horizontes do porvir.. É indispensável amar. peregrinando pelo deserto. muito calma -. Teu pai é hoje um céptico e essas pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da ilusão. André! Os que descrêem perdem o rumo verdadeiro. talvez lhe subtraíssem a oportunidade da nova reencarnação. realizando minha nova experiência. E. Que será feito dessas infelizes? Minha mãe sorriu e respondeu: .. devem pairar em nossos corações e em nossos lábios. olhos brilhantes e úmidos..E mais tarde.indaguei. Ninguém ajuda eficientemente. colocarei todos eles em meu regaço materno.

258 NOSSO LAR Desde aquela hora, minha mãe não era apenas minha mãe. Era muito mais que isso. Era a mensageira do Amparo, que sabia converter verdugos em filhos do seu coração, para que eles retomassem o caminho dos filhos de Deus.

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A VOLTA DE LAURA
Não só minha mãe se preparava para regressar aos círculos terrenos. Também a senhora Laura encontrava-se em vésperas do grande cometimento. Avisado por alguns companheiros, aderi à demonstração de simpatia e apreço que diversos funcionários, particularmente do Auxílio e da Regeneração, iam prestar à nobre matrona, por motivo de sua volta às experiências humanas. Realizou-se a homenagem afetuosa na noite em que o Departamento de Contas lhe entregou a notificação do tempo global de serviço na colônia. Não é possível traduzir, em letras comuns, a significação espiritual da festa íntima. Povoava-se a encantadora residência de melodias e luzes. As flores pareciam mais belas. Numerosas famílias foram saudar a companheira, prestes a regressar. Os visitantes, na maioria, cumprimentavam-na, carinhosos, ausentando-se, sem maiores delongas; no entanto, os amigos mais íntimos lá permaneceram até alta noite Tive, assim, ocasião de ouvir observações curiosas e sábias.

260 NOSSO LAR A senhora Laura me pareceu mais circunspecta, mais grave. Notavase-lhe o esforço para acompanhar a corrente de otimismo geral. Repleta a sala de estar, a genitora de Lísias explicava ao representante do Departamento: - Creio não me demorar mais que dois dias. Terminaram as aplicações do Serviço de Preparação, do Esclarecimento. E, com um olhar algo triste, concluía: - Como vê, estou pronta. O interlocutor tomou expressão de sincera fraternidade e acrescentou, estimulando-a: - Espero, entretanto, que se encontre animada para a luta. É uma glória seguir para o mundo, nas suas condições. Milhares e milhares de horas de serviço a seu favor, perante a comunidade de mais de um milhão de companheiros. Além disso, os filhinhos constituirão seu belo estímulo à retaguarda. - Tudo isso me reconforta - exclamou a dona da casa, sem disfarçar a preocupação íntima -, mas devemos compreender que a reencarnação é sempre uma tentativa de magna importância. Reconheço que meu esposo me precedeu no enorme esforço, e que os filhos amados serão meus amigos de todo instante; contudo... - Ora essa! não se deixe levar por conjeturas - atalhou o Ministro Genésio -, precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos. O manancial da Providência é inesgotável. É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amarguroso. Não pense em possibilidades de fracasso; mentalize, sim, as probabilidades de êxito. Além do mais, é justo confiar alguma coisa em nós outros, seus amigos, que não estaremos tão longe, no tocante à "distância vi-

261 NOSSO LAR bratória". Pense na alegria de auxiliar antigas afeições, pondere na glória imensa de ser útil. Sorriu a senhora Laura, parecendo mais encorajada, e asseverou: - Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros, a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas. Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina. Basta recordar que o nosso Sol é o mesmo que alimenta os homens; no entanto, meu caro Ministro, tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos. Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas... Em verdade, as úlceras não mais me apoquentam, mas conservo as cicatrizes. Bastaria um leve arranhão, para voltar a enfermidade. O Ministro esboçou o gesto de quem compreendia o sentido da alegação e revidou: - Não ignoro o que representam as sombras do campo inferior, mas é indispensável coragem, e caminhar para diante. Ajudá-la-emos a trabalhar muito mais no bem dos outros, que na satisfação de si mesma. O grande perigo, ainda e sempre, é a demora nas tentações complexas do egoísmo. - Aqui - tornou a interlocutora sensatamente -, contamos com as vibrações espirituais da maioria dos habitantes educados, quase todos, nas luzes do Evangelho Redentor; e ainda que velhas fraquezas subam á tona de nossos pensamentos, encontramos defesa natural no próprio ambiente. Na Terra, porém, nossa boa intenção é como se fora bruxuleante luz num mar imenso de forças agressivas. - Não diga isso - atalhou o generoso Ministro -, não dê tamanha importância às influências das zonas inferiores. Seria armar o inimigo para que nos torturasse. O campo das idéias é igualmente campo de luta.

262 NOSSO LAR Toda luz que acendermos, de fato, na Terra, lá ficará para sempre, porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus. A senhora pareceu agora ver tudo mais claro, em face dos conceitos ouvidos; mudou radicalmente a atitude mental e falou, cobrando novo alento: - Estou convencida, agora, de que sua visita é providencial. Precisava levantar energias. Faltava-me essa exortação. É verdade: nossa zona mental é campo de batalha incessante. É preciso aniquilar o mal e a treva dentro de nós mesmos, surpreendê-los no reduto a que se recolhem, sem lhes dar a importância que exigem. Sim, agora compreendo. Genésio sorriu satisfeito e acrescentou: - Dentro do nosso mundo individual, cada idéia é como se fora uma entidade à parte... É necessário pensar nisso. Nutrindo os elementos do bem, progredirão eles para nossa felicidade, constituirão nossos exércitos de defesa; todavia, alimentar quaisquer elementos do mal é construir base segura para os nossos inimigos verdugos. A essa altura, o funcionário das Contas observou: - E não podemos esquecer que Laura volta à Terra com extraordinários créditos espirituais. Ainda hoje, o Gabinete da Governadoria forneceu uma nota ao Ministério do Auxílio, recomendando aos cooperadores técnicos da Reencarnação o máximo cuidado no trato com os ascendentes biológicos que vão entrar em função para constituir o novo organismo de nossa irmã. - Ah! é verdade - disse ela -, pedi essa providência para que não me encontre demasiadamente sujeita à lei da hereditariedade. Tenho tido grande preocupação, relativamente ao sangue.

aduziu a dona da casa -. Faremos pequena reunião íntima.disse a senhora Laura. não ficaremos aqui a dormir. . Além disso.que o seu mérito em "Nosso Lar" é bem grande.Repare . .. os comentários voltaram ao plano da confiança e do otimismo. Ninguém comentou a volta à Terra. . solicito . minha amiga . às quais se unia agora a simpática e generosa Teresa. portanto.comentou o abnegado enfermeiro do Auxílio -.. porquanto o próprio Governador determinou medidas diretas. André. Não falte. espero igualmente por você. afinal de contas. . esforçando-me por ocultar as lágrimas das saudades prematuras que me despontavam no coração. Embora se encontre nos laços físicos. senão como bendita oportunidade de recapitular e aprender. a senhora Laura disse-me em tom maternal: .Minha mãe precisava esquecer as preocupações . O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo.Têm razão . confortada . terá ao seu lado inúmeros irmãos e companheiros a colaborarem no seu bem-estar. sorridente -. Lísias e as irmãs. confiarei no Senhor e em todos vocês.Amanhã à noite.Graças a Deus! .disse o interlocutor.Não se preocupe. com o auxílio fraternal de companheiros nossos. Ricardo será trazido até aqui. .263 NOSSO LAR . amanhã estarei a despedir-me.faltava-me ouvilo. alta noite. para o bem. manifestaram alegria sincera. faltava-me ouvi-lo. Agradeci. Ao despedir-me. Em seguida. cultivarei a esperança.exclamou o Ministro Genésio. comovidamente.

264 48 CULTO FAMILIAR Talvez que a praticantes do Espiritismo não fosse tão surpreendente a reunião a que compareci. doze a doze diante do estrado. em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho. da altura de dois metros presumíveis. em casa de Lísias. cada qual tomara lugar adequado. A distância de quatro metros. porém. aproximadamente. o quadro era inédito e interessante Na espaçosa sala de estar. Na sala extensa. Numerosas indagações me bailavam no cérebro. cercando-se da senhora Laura e dos filhos. Aos meus olhos. onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor. envolvido. idêntico aos nossos alto-falantes. reunia-se pequena assembléia de pouco mais de trinta pessoas. A disposição dos móveis era a mais simples. havia um grande globo cristalino. antigo servidor do Ministério do Auxílio e íntimo da família de Lísias. mas observava conversações fraternas em todos os grupos. Achando-me ao lado de Nicolas. Enfileiravam-se poltronas confortáveis. ousei . na parte inferior.

É preciso lembrar . e ele. curioso. Verifiquei. Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos. Era chegado o momento.que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação. por vezes.Como não? . O companheiro não se fez rogado e esclareceu: .265 NOSSO LAR perguntar alguma coisa. . os pais dormem.Ali está a câmara que no-lo apresentará. que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite.perguntei. Nesse instante. lá na Terra. Como os pombos-correio que vivem. Nossas energias mentais não poderão atravessá-la.indaguei. espíritos há que vivem por lá entre dois mundos. informou: . no relógio de parede. contudo. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante. disse Nicolas em voz baixa: . longo tempo de serviço. aguardamos a ordem da Comunicação. em a nova fase. . mais fortes.Por que o globo cristalino? .revidou o interlocutor.disse Nicolas.Não poderia manifestar-se sem ele? . a casa descansa. entre duas regiões. . não permanece inteiramente junto ao berço. Notando-me o olhar interrogativo.Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo. . .Estamos prontos.Mas virá ele até aqui? . atenciosamente . . Naturalmente. E. Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião.. por alguns instantes..Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra. indicando o aparelho à nossa frente.

Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção. agora. Observei. pai carinhoso. respectivamente. ao lado de Teresa e Eloísa. cheias de espiritualidade e beleza.266 NOSSO LAR Não lhe foi possível continuar. Judite. levantando-se.. . e Clarêncio disse comovedora e singela prece. enviemos. abandonavam o estrado. mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte: Pai querido. quando vozes argentinas embalaram o interior. Em seguida. Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas. Logo após. composta por eles mesmos. Lísias se fez ouvir na citara harmoniosa. a Ricardo a nossa mensagem de amor. enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento. O Ministro Clarêncio.. com surpresa.. da harpa e da citara. enquanto a noite Traz a benção do repouso. Recebe.Irmão . cariciosa e divina. semelhante a gorjeio celeste. Nosso afeto e devoção!. Iolanda e Lísias se encarregaram. Fez-se grande quietude. Clarêncio tomou novamente a palavra: . tomando posição junto dos instrumentos musicais. acompanhadas de Lísias.disse . Vem unir à nossa prece A voz do teu coração. que integravam o gracioso coro familiar. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento. pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos. do piano. Enquanto as estrelas cantam Na luz que as empalidece. As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se. então. que as filhas e a neta da senhora Laura.

de substância leitoso-acinzentada. um dia. Torna às luzes do caminho. Enquanto dormes no mundo. um minuto. Jamais te firas no mal. a bondade. pai generoso. Espera por nós que. Esquece. a carne estranha. Conserva a flor da esperança Para a ventura imortal. A sublime claridade De tuas lições no bem. apresentando. Não temas a dor terrestre. Às derradeiras notas da bela composição.267 NOSSO LAR Não te perturbes na estrada De sombras do esquecimento. Recorda a nossa aliança. Volveremos à alegria Do jardim do teu amor. . Vence. a Terra E vem sorver da água pura De consolo e de ternura Das fontes de "Nosso Lar". Nossa casa não te olvida O sacrifício. logo em seguida. Sobe ao cume da montanha. Vem conosco orar também. Inda que seja a sonhar. Era Ricardo. Nossas almas acordadas Relembram as alvoradas Desta vida superior. pai. Volta à paz do nosso ninho. interiormente. Não te doa o sofrimento. Aguarda o porvir risonho. notei que o globo se cobria. Atravessa a sombra espessa. a figura simpática de um homem na idade madura. Vem a nós.

Como sou feliz! A senhora Laura chorava discretamente.Pai querido. como é grande a bondade de Jesus. ouvi Ricardo exclamando. Quando se calaram as últimas notas. dirigindo-lhe amorosas saudações. senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre? Todos chorávamos. virão vocês. ouvindoa exclamar carinhosamente: . que nos reencontramos para o estímulo santo. muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é. quase a despedida: . porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino. juntos. ainda aqui. então. esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração! Observei. para ser feliz. todos ali mantinham análoga impressão. que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite! Nesta sala temos procurado. de novo. o caminho das esferas superiores. os mesmos tons acinzentados. fixou o olhar amigo em nós outros.Sua mãe virá ter comigo. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto. Possivelmente. filhinha! Mais tarde. igualmente! Que mais eu poderia desejar. que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou: . Quando o globo começou a apresentar. O recém-chegado. falou comovidamente: . que ouviu banhado em lágrimas. diga o que precisa de nós. em breve. após falar particularmente à companheira e aos filhos. enternecidos.268 NOSSO LAR Impossível descrever a sagrada emoção da família.Oh! meus filhos. pedindo fosse repetida a suave canção filial. Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós.

mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras. depois do primeiro ano de cooperação ativa. amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal. quando alguém me atalhou os passos quase junto à dona da casa.269 NOSSO LAR . Era Clarêncio. Adivinhando-me. o pensamento. voltou ao aspecto normal. que se ocupava a atender às numerosas felicitações dos amigos presentes. Não será difícil a Genésio conceder-lhe uma semana de ausência. porém. que. Dirigi-me ao estrado para abraçar a senhora Laura. Não podia ser maior a surpresa. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara.Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário a seu favor. enfim. Profunda sensação de alegria me empolgou.. agradeci. exprimindo-lhe de viva voz minha profunda impressão e reconhecimento. .. chorando e rindo ao mesmo tempo.André. O Ministro Clarêncio orou com sentimento e a sessão foi encerrada. poderá vir conosco para visitar sua família. o generoso Ministro voltou a dizer: . Possuído de júbilo intenso. rever a esposa e os filhos amados. Se lhe apraz. Ia. em seguida. alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minhalma! roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra. deixando-nos imersos em alegria indescritível. que me falou em tom amável: . a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!. Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo.Ah! filhos meus.

Sim. André! Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só. Se quiser ir a "Nosso Lar".Você tem uma semana ao seu dispor. Atravessei celeremente algumas ruas. Embriagado de alegria. a longos haustos. Passarei aqui diariamente para revê-lo. que seguiria adiante. o mesmo céu. atento aos cuidados que devo consagrar aos problemas da reencarnação de nossa irmã. o mesmo perfume errante. Clarêncio abraçou-me e falou: . não mais notei a expressão fisionômica da senhora Laura. O cora- . com a sensação indescritível do viajante que torna ao berço natal depois de longa ausência. cheguei à minha cidade. Passe bem. e despedi-me da pequena caravana. Não me demorei a examinar pormenores. a caminho de casa. que denunciava extrema preocupação. respirando o ar de outros tempos. aproveitará minha companhia. o mar.270 49 REGRESSANDO A CASA Imitando a criança que se conduz pelos passos dos benfeitores. a paisagem não se modificara de maneira sensível. As velhas árvores do bairro.

Ébrio de felicidade. E. baixando a voz. Ernesto reclama absoluto repouso. ansiosa: . Muito atenta. Quem seria aquele Dr. Onde estariam os velhos móveis de jacarandá? E o grande retrato onde. desapontado. respeitoso: . Gritei minha alegria com toda a força dos pulmões.Mas. sussurrava carícias no arvoredo do pequeno parque. denotava diferenças enormes. vi Zélia que saía do quarto. a palmeira que. como outrora. onde vi a filhinha mais nova. Em frente ao pórtico. Desabrochavam azáleas e rosas. respondeu. o Dr. O interlocutor. ostentava-se. perguntou ao cavalheiro alguma coisa que não pude compreender de pronto. com a esposa e os filhinhos. quando ouvi minha esposa suplicar. mas as palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os ouvidos dos circunstantes. salve-o. Tudo. saudando a luz primaveril. acompanhando um cavalheiro que me pareceu médico. transformada em jovem casadoura. O vento. Todo o cuidado é pouco. Ernesto? Perdia-me num mar de indagações. porém. Dirigi-me à sala de jantar. com o carinho da minha saudade imensa. quase no mesmo instante. porque a pneumonia se apresenta muito complicada. doutor.Só amanhã poderei diagnosticar seguramente. formávamos gracioso grupo? Alguma coisa me oprimia ansiosamente. à medida que me aproximava do grande portão de entrada. mas Zélia parecia totalmente insensível ao meu gesto de amor. Compreendi a situação e calei-me. com Zélia. garbosa. à primeira vista. . Abracei-me à companheira. Que teria acontecido? Comecei a cambalear de emoção.271 NOSSO LAR ção me batia descompassado. eu havia plantado no primeiro aniversário de casamento. por caridade! Peço-lhe! Oh! não suportaria uma segunda viuvez. avancei para o interior. em virtude da hipertensão.

Desde cedo. A esposa me esquecera. voltei. como também porque. Um corisco não me fulminaria com tamanha violência. demonstrando imensa angústia.. onde encontrei as filhas conversando.272 NOSSO LAR Zélia chorava e torcia as mãos. da fraternidade e do perdão. De pronto. Valia a pena de ter esperado tanto para colher semelhantes desilusões? Corri ao meu quarto. três figuras negras iam e vinham. devotadas ao mal. verificando que outro mobiliário existia na alcova espaçosa. vendo Zélia entrar no aposento e dele sair. à sala de jantar. Ernesto. Assentei-me. cambaleante. estava um homem de idade madura. não consegui auxiliá-lo imediatamente. com as filhas. depois de algumas horas de amarga observação e meditação. A casa não mais me pertencia. singulares saudades do papai me atormentam o coração. não só para colher notícias do Dr. mais calmamente. Verifiquei que o doente estava cercado de entidades inferiores. acariciando o enfermo com a ternura que me coubera noutros tempos. mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos. . No leito. tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças. Outro homem se apossara do meu lar. É uma coisa que não sei bem definir.Vim vê-los. O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor. mamãe . e. mostrando-se interessadas em lhe agravar os padecimentos. hoje. decepcionado e acabrunhado. entretanto. Sucediam-se as surpresas. Ao lado dele. A mais velha casara-se e tinha ao colo o filhinho. não sei por que penso tanto nele. varias vezes. ..exclamou a primogênita -. E meu filho? Onde estaria ele? Zélia instruiu convenientemente uma velha enfermeira e veio palestrar. evidenciando melindroso estado de saúde.

qualquer alusão. sob a feição de pensamentos confortadores. Então é crime sentir saudades de papai? Vocês também não amam. Não se esqueça de que André está morto.. nervosa e enfadada -. o motivo pelo qual meus verdadeiros .Ora. agora. a praticar por aí tantas loucuras. terminantemente.273 NOSSO LAR Não terminou. nesta casa. minha filha? Já proibi a vocês. seu único filho varão não andaria. ora . Lágrimas abundantes borbotavam-lhe dos olhos. Onde já se viu tal disparate? Essa história dos mortos voltarem é o cúmulo dos absurdos. embora continuasse chorando. mamãe. vive com essas tolices na cachola. modifiquei o aspecto das próprias paredes. que ela não registrou auditiva.Não estou traduzindo convicções religiosas.Desde que a pobre mana começou a se interessar pelo maldito Espiritismo. Afinal. não têm sentimento? Se papai estivesse conosco. Zélia.Ora essa! Era o que nos faltava!. via-me em face de singular conjuntura! Compreendia. tolerar as suas perturbações. Aflitíssima como estou. acrescentando: . e você não me pode ajudar nisso? A filha mais jovem interveio. falou com dificuldade: . a seu pai. Não sabe que isso desgosta o Ernesto? Já vendi tudo quanto nos recordava aqui o passado morto.tornou Zélia. Não me venha com lamúrias e lágrimas pelo passado irremediável.. A outra. mas subjetivamente. com imensa surpresa para mim. Que passadismo é esse. Aproximei-me da filha chorosa e estanquei-lhe o pranto. cada qual tem a sorte que Deus lhe dá. murmurando palavras de encorajamento e consolação. dirigiu-se à filha autoritariamente: . .

meu caro. tanto. oferecendo-me o cordial da sua palavra amiga e reta. Nem haveres. por que condenar o procedimento de Zélia? E se fosse eu o viúvo na Terra? Teria. em nossos caminhos. nem títulos. comecei a ponderar o alcance da recomendação evangélica e refleti com mais serenidade. nem afetos! Somente uma filha ali estava de sentinela ao meu velho e sincero amor. sensibilizado. verdadeiros milagres de felicidade e compreensão. quando seguida. encontrando-me na mesma situação de perplexidade. Agradeci. absolutamente só no testemunho. então. portanto. suportado a prolongada solidão? Não teria recorrido a mil pretex- . Minha casa pareceume. acaso.274 NOSSO LAR amigos haviam procrastinado. Percebendo meu abatimento. um patrimônio que os ladrões e os vermes haviam transformado. Chegou a noite e voltou o dia. Afinal de contas. em face da realidade. a ouvir conceitos e a surpreender atitudes que nunca poderia ter suspeitado. Apenas. Então. me haviam proporcionado lágrimas tão amargas. Angústias e decepções sucediam-se de tropel. não posso esquecer que aquela recomendação de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Nem os longos anos de sofrimento. disse. À tardinha. nos primeiros dias de alémtúmulo. Clarêncio passou.Compreendo suas mágoas e rejubilo-me pela ótima oportunidade deste testemunho. o meu retorno ao lar terreno. solícito: . seria intempestivo. Clarêncio sorriu e despediu-se. e pedi que me não desamparasse com o necessário auxílio. opera sempre. Qualquer conselho de minha parte. Não tenho diretrizes novas.

Minha família não era. lutar contra o egoísmo feroz. uma esposa e três filhos na Terra. Jesus conduzira-me a outras fontes. apenas. senti que a linfa do verdadeiro amor começava a brotar das feridas benéficas que a realidade me abrira no coração. sim. Dominado de novos pensamentos. Não podia proceder como homem da Terra.275 NOSSO LAR tos para justificar novo consórcio? E o pobre enfermo? Como e por que odiá-lo? Não era também meu irmão na Casa de Nosso Pai? Não estaria o lar. . se Zélia não lhe houvesse aceitado a aliança afetiva? Preciso era. constituída de centenas de enfermos nas Câmaras de Retificação e estendiase. agora. pois. à comunidade universal. talvez. em piores condições. Era.

deve proceder como a abelha. no treinamento de elevação a que muitos de nós se consagravam. sentia-me cansadíssimo. me afirmara que toda criatura. Bastava-me a presença dos amigos queridos. Não era dono de meus filhos e. as manifestações de afeto. certa feita. mas seu irmão e amigo. para adquirir o mel da sabedoria . Começava a compreender o valor do alimento espiritual.276 50 CIDADÃO DE "NOSSO LAR" Na segunda noite. a absorção de elementos puros através do ar e da água mas ali não encontrava senão escuro campo de batalha. companheiros de luta e realização. que são as almas nobres. sim. Não era proprietário de Zélia. Recordei que a senhora Laura. acercando-se das flores da vida. as necessidades humanas. Em "Nosso Lar". extraindo de cada uma a substância dos bons exemplos. através do amor e do entendimento recíprocos. finalmente. atravessava dias vários de serviço ativo. no testemunho. As meditações preciosas que a palavra de Clarêncio me sugerira. Compreendia. no campo das lembranças. davam-me certa calma ao coração. onde os entes amados se convertiam em verdugos. sem alimentação comum.

célere. tem pena de mim. em tarefa de auxílio. banhada em lágrimas: . Não se sacrificara ela por meu pai. E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia? Clarêncio me acolhera com devotamento de pai. e. no meu espírito.277 NOSSO LAR Apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe. as justas necessidades dos meus semelhantes. de regresso ao mundo. Roguei ao Senhor energias necessárias para manter a compreensão imprescindível e passei a interpretar os cônjuges como se fossem meus irmãos.Ernesto. cujo estado se agravava de momento a momento. procurei o apartamento do enfermo. A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração. Tobias como irmão. apesar da forte dispnéia. Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente. Reconheci que Zélia e Ernesto se amavam intensamente. a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração? "Nosso Lar" estava repleto de exemplos edificantes. No meu cansaço. a mãe de Lísias me recebera como filho. acima de todos os meus sentimentos pessoais. querido! Não me deixes só! Que será de mim se me faltares? O doente acariciava-lhe as mãos e respondia com imenso afeto. E. Zélia amparava-lhe a fronte e dizia. que se erguia. Procurei abstrair-me das considerações aparentemente ingratas que ouvia no ambiente doméstico e deliberei colocar acima de tudo o amor divino. Ernesto. A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior. se de fato me sentia companheiro fraternal . Narcisa sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual.

Minhas dificuldades. dirigime a Narcisa encarecendo socorro. num plano de perfeita sintonia de pensamentos. Não cabia em mim de contentamento. .Não temos tempo a perder. Aconteceu. quando me dissera: "aqui. e nem todos precisam de aparelhos de comunicação para conversar a distância. lembrei certa lição de Tobias. em 'Nosso Lar'. devia auxiliá-los com os recursos ao meu alcance. mais ou menos. então. comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me não desamparasse. nem todos necessitam do aeróbus para se locomoverem. apesar da distância". Iniciei o trabalho procurando esclarecer os espíritos infelizes que se mantinham em estreita ligação com o enfermo. A mensageira do bem fixou o quadro. compreendeu a gravidade do momento e acrescentou: . à vontade. do processo de conversação mental. em pensamento. podem dispor. sorrindo: . meu amigo. alguém me tocou de leve no ombro. minha experiência dolorosa.Ouvi seu apelo. entre si. Lembrei quanto me seria útil a colaboração de Narcisa e experimentei. quando ainda não havia retirado a mente da rogativa. porém. eram enormes. porque os habitantes mais elevados da colônia dispõem do poder de volitação. nas vibrações da prece. Sentia-me abatidíssimo.278 NOSSO LAR de ambos. Era Narcisa que atendia. Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e. e vim ao seu encontro. Contava-lhe. Passados vinte minutos. por se manterem. Nessa emergência. o que não poderia esperar. Os que se encontrem afinados desse modo.

Narcisa manipulou. As forças naturais fazem o mesmo. em poucos instantes. notando-me a estranheza. que se afastaram como por encanto. Narcisa chamou alguém. aplicou passes de reconforto ao doente. nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes. através da respiração comum e da absorção pelos poros.Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. Imensamente surpreendido. convidoume com decisão: . oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo. a enfermeira explicou: . segui-a. Daí a momentos. que me eram totalmente estranhos. e ela. rematou: . Elas nos auxiliarão eficazmente. há quem ensine. Em toda parte. é o espírito imprevidente. na obra divina. O único desventurado. se há quem necessite aprender.Vamos à Natureza. extremamente surpreendido: . isolando-o das formas escuras. acentuou: . Pela manhã. Devidamente informada pelos amigos. vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. silencioso. Admirado da lição nova. com expressões que eu não podia compreender. aplicamos o remédio ao enfermo. E. o médico observou. cedo. os irmãos que nos atenderam. Em seguida. que se condenou às trevas da maldade. Para o caso do nosso enfermo.São servidores comuns do reino vegetal. precisamos das árvores.Como vê.279 NOSSO LAR Antes de tudo. à vista da minha surpresa. durante toda a noite. nos reinos diversos em que se subdividem. certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira e. O enfermo experimentou melhoras sensíveis. Acompanhei-a sem hesitação. e onde aparece a dificuldade. surge a Providência.

para sempre. Reconhecia. todos se abstêm de exercê-la em nossas vias públicas.280 NOSSO LAR . Por minha vez. francas e rápidas. tomei o caminho de "Nosso Lar". regressar aos deveres justos. cujas melhoras se firmaram. experimentei a capacidade de volitação. eu mesmo. pois. Nova compreensão e novos júbilos me enriqueciam o espírito. Na- . quando é preciso ganhar distância e tempo. Encheu-se a casa de alegria nova. Instruído por Narcisa. experimentava grande júbilo nalma. nas áreas de nosso domínio vibratório. Profundo alento e belas esperanças revigoravam-me o ser. mas. Nesse dia. que vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim.Em "Nosso Lar". Era preciso. A alegria tornara aos cônjuges. Clarêncio visitava-me. grande parte dos companheiros poderia dispensar o aeróbus e transportar-se. A bandeira da alegria desfraldara-se em meu íntimo. visto a maioria não ter adquirido essa faculdade. Num momento. voltei a "Nosso Lar" em companhia de Narcisa e.Verificou-se esta noite extraordinária reação! Verdadeiro milagre da Natureza! Zélia estava radiante. que passei a estimar como irmãos. todavia. intensificando o tratamento de Ernesto. A luz dormente e cariciosa do crepúsculo. ia da casa terrestre à cidade espiritual e vice-versa. ganhávamos grandes distâncias. pela primeira vez. Essa abstenção. sem dificuldade de vulto. à vontade. Comunicando à enfermeira generosa minha impressão de leveza. chegara ao termo de minha primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação. não impede que utilizemos o processo longe da cidade. mostrando-se satisfeito com o meu trabalho. totalmente modificado. ouvi-a esclarecer: . diariamente. Ao fim da semana.

A tarde sublime enchia-me de magnos pensamentos. porém. a chorar de gratidão e de alegria. estendeu-me a destra e falou: . Foi. Tobias. aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e da fraternidade legítimas. colhido.dizia. Todos me saudavam. então.Até hoje. generosos e acolhedores. Mais de duzentos companheiros vinham ao meu encontro. Por que tamanha magnanimidade se meu triunfo era tão pequenino? Não conseguia reter as lágrimas de emoção que me embargavam a voz.281 NOSSO LAR queles rápidos sete dias. Salústio e numerosos cooperadores das Câmaras ali estavam. André. E. . em nome da Governadoria. Não sabia que atitude assumir. você era meu pupilo na cidade. Como é grande a Providência Divina! . atirei-me aos braços paternais de Clarêncio. declaro-o cidadão de "Nosso Lar". me arrancou da meditação a que me recolhera. a monologar intimamente. Lísias. assim. de surpresa. Lascínia. considerando a grandeza da Bondade Divina. Silveira. surgindo à frente de todos. adiantou-se. mas. que o Ministro Clarêncio. Narcisa. Com que sabedoria dispõe o Senhor todos os trabalhos e situações da vida! Com que amor atende a toda a Criação! Algo. doravante.

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