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CAPÍTULO 1 Início
Iniciando a prática zen
Minha cadela não se preocupa com o significado da vida. Ela pode se preocupar em receber ou não a refeição pela manhã, mas não se senta preocupada em conseguir ou não a realização, a libertação, a iluminação. Desde que receba um pouco de comida e afeto, a vida lhe corre bem. Porém nós, seres humanos, não somos como os cães. Temos mentes centradas em si mesmas que nos remetem a muitos problemas. Se não entendermos o equívoco em nossa forma de pensar, nossa auto percepção, que é nossa maior bênção, torna-se também nossa perdição. Todos nós acreditamos que, em certa medida, a vida é difícil, intrigante e opressiva. Mesmo quando tudo corre bem, como acontece por certo tempo, preocupamo-nos que ela não se mantenha assim. Dependendo de nossa história pessoal, chegamos à idade adulta tendo muitos sentimentos desencontrados a respeito da vida. Se eu lhes dissesse que sua vida já é perfeita, completa e inteira exatamente do jeito que está, vocês pensariam que estou maluca. Ninguém acredita que sua vida é perfeita. No entanto, existe no íntimo de cada um uma dimensão que sabe que somos ilimitados, infinitos. Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebracabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma. A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos. No começo, pode acontecer num nível bastante comum. Existem muitas pessoas no mundo que acreditam que se tivessem um carro maior, uma casa mais bonita, férias melhores, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, suas vidas seriam muito melhores. Não há quem não pense assim. Lentamente, vamos descartando os "se ao menos", essas coisas que nos fariam viver melhor. "Se ao menos eu tivesse isto, isso ou aquilo, então minha vida seria outra." Na prática, todos estão com alguns desses "se ao menos", na cabeça em algum momento, contudo aos poucos essas idéias vão se desgastando. Primeiro, as mais grosseiras. Depois nossa busca dirige-se a níveis mais sutis. Por fim, na procura pelo elemento externo a nós mesmos que, em nossa expectativa, irá nos completar, voltamo-nos para uma disciplina espiritual. Infelizmente, nossa tendência é considerar com a perspectiva anterior essa nova possibilidade. Muitas das pessoas que buscam o Zen Center não crêem que a resposta esteja num Cadillac mais novo, mas em alcançar a iluminação. Conseguiram um novo recurso, um novo "se ao menos". "Se ao menos eu tivesse condição de entender do que se trata a compreensão, seria feliz." "Se ao menos eu tivesse uma pequena experiência de iluminação, seria feliz." Ao iniciarmos uma prática como o zen, trazemos nossas noções habituais de estar chegando em algum lugar, de alcançar alguma coisa -no caso, a iluminação - podendo a partir de então comer todos os docinhos que antes nos tinham sido proibidos. Toda a nossa vida consiste neste pequeno indivíduo, olhando à sua volta em busca de objetos. No entanto, se você olha algo que é limitado -como o são o corpo e a mente -e procura alguma coisa fora de si, esta coisa torna-se um objeto e também deve ser limitado. Assim, existe alguma coisa limitada procurando algo limitado e, no final, só fica maior aquela velha loucura que o vem tornando uma- pessoa tão infeliz. Todos passam anos a fio consolidando uma visão condicionada da vida. Existe o "eu" e existe essa "coisa" aí adiante que ou me fere ou me agrada. Nossa tendência é levar a vida de modo a tentar evitar tudo o que nos magoe ou nos desagrade, reparando nos objetos, nas pessoas ou situações que, a nosso ver, parecem nos

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proporcionar dor ou prazer; evitaremos uns e perseguiremos outros. Sem exceção, todos nós fazemos isso. Mantemo-nos distantes de nossa vida, olhando-a, analisandoa, julgando-a, buscando respostas para perguntas como "O que ganho com isso? Vou ter prazer ou conforto, ou será preciso que eu fuja?". Fazemos esse questionamento de manhã à noite. Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais; assistimos à televisão demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica. Algumas pessoas vivem dessa forma até o final de seus dias. Essa situação piora conforme o tempo vai passando. 0 que talvez não seja tão ruim quando você tem 25 anos parecerá terrível quando chegar aos cinqüenta. Todos conhecemos aquelas pessoas que já morreram e se esqueceram de deitar-se; elas têm uma mentalidade tão contraída em seus pontos de vista limitados, que a convivência é muito penosa tanto para quem está à sua volta como para elas mesmas. A flexibilidade, a alegria e o fluir da vida já se foram. Essa possibilidade tão sombria ameaça a todos nós a menos que acordemos para o fato de ser necessário trabalhar nossa própria vida, praticar. É preciso que enxerguemos a miragem de que existe um "eu" destacado de um "aquilo". Nossa prática consiste em anular essa distância. Apenas no momento em que nós e os objetos nos tornarmos um, é que poderemos enxergar o que é nossa vida. A iluminação não é algo que se atinge. É a ausência de alguma coisa. A vida inteira, a pessoa vai atrás de algo, perseguindo suas metas. A iluminação está em deixar tudo isso de lado. Entretanto, falar sobre ela não adianta muito. A prática precisa ser executada por cada um. Não há o que a substitua. Podemos ler a seu respeito durante mil anos e não adiantará de nada para nós. É preciso que todos nós pratiquemos, e temos de fazer com todo nosso empenho pelo resto da vida. O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo, é bastante difícil. Porém, assim que começarmos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho. Quando o despertar se inicia, quando começamos a perceber que a vida pode ser mais aberta e alegre do que até então pensáramos ser possível, queremos praticar. Entramos numa disciplina como a prática zen para podermos aprender a viver de modo lúcido. O zen tem quase mil anos e seus defeitos já foram corrigidos; embora não seja fácil, não é insano. É sensato e muito prático. Diz respeito à vida cotidiana. Refere-se a trabalhar melhor no escritório, a criar melhor as crianças, e estabelecer relacionamentos melhores. Levar uma vida mais lúcida e satisfatória deve decorrer de uma prática equilibrada e lúcida. O que desejamos fazer é encontrar uma maneira de trabalhar com a insanidade elementar que existe em função de nossa cegueira. É preciso coragem para se sentar bem. O zen não é uma disciplina para todos. Precisamos estar dispostos afazer algo que não é fácil. Se o fizermos com paciência e perseverança, com a orientação de um bom instrutor, então, aos poucos, nossa vida irá se aquietar, ficar mais equilibrada. Nossas emoções não serão mais tão dominadoras. Enquanto sentamos, descobrimos que a primeira coisa, a mais elementar, para trabalhar, é nossa mente caótica, ocupada. Estamos todos enredados num pensar frenético e o problema da prática está em começar a trazer esse pensamento para a claridade e o equilíbrio. Quando a mente fica limpa, clara, equilibrada, e não mais prisioneira dos objetos, então poderá haver uma abertura e, por um instante, nos , daremos conta de quem somos, na verdade. Contudo, sentar não é algo que praticamos durante um ou dois anos com a idéia de dominar a questão. Sentar é algo que praticamos a vida inteira. Não há limites para a abertura possível ao ser humano. Eventualmente percebemos que somos a base ilimitada e incontida do universo. Para o resto da vida, nossa incumbência será abrirmo-nos cada vez mais a essa imensidão e expressá-la. Quanto maior for nosso contato com essa realidade, mais aumentará nossa compaixão pelos outros, maiores

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serão as alterações em nossa vida cotidiana. Viveremos, trabalharemos e nos relacionaremos de modo diferente com as pessoas. O zen é um estudo para a vida toda. Não é só sentar-se numa almofada durante trinta ou quarenta minutos diários. Toda nossa vida torna-se uma prática, vinte e quatro horas por dia. Gostaria agora de responder a algumas perguntas sobre a prática do zen e sua relação com a vida pessoal. ALUNO: Você poderia falar mais a respeito de nos desapegarmos dos pensamentos que nos ocorrem durante a meditação? JOKO: Não acho que nos desapeguemos das coisas; creio que o que mais fazemos é desgastá-las. Se começamos a forçar nossas mentes para fazerem as coisas, estaremos exatamente de volta ao dualismo do qual tentamos nos livrar. O melhor meio de nos desapegar é notar os pensamentos quando aparecerem e reconhecê-los. "Ah, é, estou de novo pensando", sem julgá-los, e então retornar à nítida experiência do momento presente. Sejam apenas pacientes. Teríamos de fazer isso dez mil vezes, mas o valor de nossa prática é o retorno constante da mente para o presente, inúmeras vezes seguidas. Não procurem aqueles lugares maravilhosos, onde os pensamentos não ocorrerão. Uma vez que os pensamentos basicamente não são reais, em algum momento começarão a ficar obscuros e menos imperativos, e acabaremos percebendo que existem momentos em que desaparecem, porque vemos que não são reais. Já irão sumir com o tempo, sem que saibamos de maneira exata como aconteceu. Aqueles pensamentos são nossas tentativas de nos proteger. Ninguém quer, de fato, deixá-los de lado; são aquilo a que estamos apegados. Com o tempo, o meio de acabarmos enxergando sua irrealidade está em apenas deixar correr o filme. Depois de o assistirmos umas quinhentas vezes, sem dúvida, ele acaba se tornando monótono! Há duas espécies de pensamento. Não há nada de errado em pensar no sentido que denomino "pensamento técnico". Precisamos pensar afim de andar daqui até o canto, para assar um bolo ou resolver um problema de Física. Esse uso da mente é correto. Não é nem real, tampouco irreal; é só o que é. Porém, opiniões, julgamentos, lembranças, devaneios a respeito do futuro, 90% dos pensamentos que giram em nossa mente não têm qualquer realidade essencial. Do nascimento até a morte, a menos que despertemos, desperdiçamos quase toda a nossa vida em função deles. A parte horrível do sentar (e, acreditem, é horrível) está em começarmos a ver o que de fato se passa em nossa mente. É chocante para todo mundo. Vemos que somos violentos, preconceituosos e egoístas. Somos tudo isso porque uma vida condicionada, com base em falsos pensamentos, levou-nos a esse estado. Os seres humanos são essencialmente bons, gentis e compadecidos, mas é preciso um grande esforço de escavação para extrair essa jóia das entranhas de nosso ser. ALUNO: Você disse que conforme o tempo passa, os reveses, os transtornos começam a se reduzir, até que por fim se esgotam? JOKO: Não estou querendo dizer que não haverá transtornos. O que desejo falar é que, quando ficamos aborrecidos, não permanecemos apegados a esse estado. Se sentimos raiva, só ficamos com raiva por um instante. Pode ser que os outros nem se dêem conta disso. É tudo. Não há o apego à raiva, à sedução mental de manter-se nesse estado. Não estou também afirmando que os anos de prática terminarão fazendo de nós zumbis. Pelo contrário, teremos emoções realmente mais genuínas, sentiremos mais as pessoas. Só não ficaremos mais tão enredados nas malhas de nossos estados interiores. ALUNO: Você poderia comentar a respeito de nosso trabalho cotidiano como parte da prática?

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de vez em quando ia ter com Yasutani Roshi e ali havia algo que me fazia continuar praticando o sentar. há muitos anos. Seja qual for sua vida. Se estamos limpando o fogão. deveríamos estar totalmente envolvidos nesse mister. as dúvidas e os problemas. a dificuldade é natural e até boa. um dia. mas se é tão simples assim.4 JOKO: O trabalho é a melhor parte da prática e do treino zen. shikantaza*. Amoníaco fede! Aliás. e aquele era um sesshin barulhento. Se o fizerem. estamos onde? Estamos no passado? Não. com o tempo essa prática será a melhor coisa de sua vida. Estamos no presente? Não. ou há dez anos. 4 . estudo de koans. Fiquei completamente transtornada e estupefata diante daquilo tudo. porém. Parece fácil. não? Entretanto. Existe a tarefa concreta que estamos executando e ainda há todas as considerações que tecemos a esse respeito. estaríamos todos fazendo isso. Isto só pode ser valioso para você. Como não há meios de medi-lo. todos nós nesta sala. Entretanto. Uma expressão que é particularmente pertinente para descrever o modo como pretendo abordar a seguinte questão: "O momento presente". Não importa que você o esteja praticando há pouco tempo. Se a mente divaga para algum lugar. a natureza Buda. Foi horrível! A temperatura manteve-se em torno dos 32-33°C todos os dias da semana. Por favor. tampouco ver o que é. se fosse. "o passado é inapreensível. 0 máximo que podemos comentar é: "Somos o momento presente". não é. na verdade. falando disso. Quando temos paciência com nossa prática. muito estridente. infinito. estamos todos trabalhando as mesmas questões: "Quem somos? O que é nossa vida? De onde viemos? Para onde vamos?". "Odeio limpar fogões. não há linhas demarcatórias que definam o presente. o presente é inapreensível e o futuro é inapreensível". só isso. o que estamos fazendo aqui? Posso dizer: "O momento presente". embora possa parecer muito confuso e ridículo. não podemos sequer dizer que estamos no presente. o período mais difícil são os primeiros seis. é só indicar. É o que nós somos. você está aprendendo uma quantidade monumental de dados a respeito de si mesmo. Não faz diferença como se chama nossa prática: acompanhar a respiração. Segundo o Sutra do Diamante**. Você enfrenta a confusão. Trabalho é só cuidar daquilo que precisa ser feito já. a Verdadeira Natureza. e ao mesmo tempo ter consciência de pensamentos que o interrompem. indelimitável. Praticando o momento presente Gostaria de falar a respeito do problema básico do sentar. quem gosta de limpar fogão? Depois de tudo que estudei. delimitá-lo. começará afluir Fazemos aquilo que precisa ser feito. gostaria primeiro de falar sobre a tarefa elementar do sentar e. Estamos no futuro? Não. É essencial termos um certo poder de insight para conduzir nossa vida de modo plenamente humano. o trabalho. Independente de qual seja o trabalho. ele é incomensurável. e ainda não praticou o sentar tempo suficiente para sentir os verdadeiros benefícios. No sentar estamos descobrindo a Realidade. O problema é sempre o mesmo. Infelizmente. No fundo. conforme você fica ali sentado. defini-lo. Porém. não conseguia resolver quem era mais louco: eu ou as pessoas à minha volta. são muito poucos os que trabalham desse jeito. sugiro que faça dela sua prática. dar a perceber que falar não é sentar. não deveria estar fazendo isso!" Todos esses são pensamentos extras que nada têm que ver com a limpeza do fogão. Alguns denominam tal prática de "Grande Mente". Falar é só como um dedo apontando para a lua. continuem sentando em grupo. Enxergar de fato não é tão fácil. e compareçam diante de um bom instrutor tanto quanto puderem. Por isso. Bom. Quando participei de meu primeiro sesshin. doze meses. Portanto. não existe nada para o que apontar e falar: "Este é o presente". traga-a de volta ao trabalho. sempre que puderem. deverá ser feito com esforço e total atenção àquilo que tivermos bem à nossa frente. Conforme a mente vai passando devagar por todos esses estágios. Deus. eu estava coberta de moscas.

em nossa incessante tentativa de criar uma vida agradável. de fato ouviam.5 Por que não é fácil? Por que não podemos enxergá-lo? O que é necessário para podermos enxergá-lo? Quero contar-lhes uma breve história. de modo a permitir que nos sintamos bem. Temos de prestar atenção a este momento presente. com todas as lindas coisas que um dia teremos. porém. Se você consegue ouvir. mas ouvir tudo. que nos torne seguros e confiantes. chorei praticamente sem cessar. no meu episódio. Pianistas completos. não excepcional. Mas. 5 . Elas esquecerão as partes que não as atraíram muito. Depois de trabalhar com ele. um dia ele comentou: "Bom". começar a sonhar com o que acontecerá". Ele pegava alunos comuns e transformava-os em pianistas fabulosos. com o que nos irá acontecer. O que aconteceu durante aquele tempo? Eu tinha o mesmo par de ouvidos do começo. o que precisamos fazer em nossa prática zen é muito mais difícil. O que está entrando é algo muito diferente. Mais uma vez ele falou: "Não". saíam de seu estúdio. se você consegue ouvir. O mestre não está ali só para ser simpático conosco. C que tinha acontecido? Enfim eu tinha aprendido a ouvir. nada tinha acontecido nesse nível. eu era uma aluna adiantada do Conservatório Oberlin. Chamamo-la de samadhi. Nos três meses seguintes toquei mais ou menos três compassos. Por isso era tão bom. só ouvimos o que desejamos. Era muito boa. uma integração completa com o objeto.. Não podemos enxergá-lo porque estamos filtrando. isso durou uma hora. pode tocar . Tinha até solado com pequenas orquestras sinfônicas. Lembramo-nos do que nos foi doloroso. Toda vez ele repetia "não". Eu queria demais estudar com uma determinada pessoa.. irão lembrar-se de outras e chegarão até a deixar de fora da consciência aquilo de que não gostaram. pode tocar. É esse tipo de atenção que é necessário à nossa prática zen. descobri que ele ensinava com dois pianos. e vocês obterão relatos muito variados. Bem. dos grandes jogadores de rúgbi. tocava cinco notas e depois falava: “Agora você". Quando estamos nessa vertigem. era o melhor de todos os professores. Era isso que fazia dele um professor tão notável: ele ensinava seus alunos a prestarem atenção. A razão pela qual não queremos prestar atenção é que isso nem sempre é agradável. Quando fui para minha aula. É uma espécie de samadhi. Estarmos abertos para o mestre significa ouvir não apenas aquilo que queremos ouvir. maravilhosos. mas muito boa. Toquei e ele disse: "Não". Apenas sentava-se ao piano. Ele nem dizia olá. Eu acreditava que já era muito boa. o momento presente. os alunos realmente ouviam. Eu devia tocar exatamente do jeito que ele acabara de fazer. Estava voltada para um objeto de que eu gostava. dos grandes atletas. de qualquer um que tenha aprendido a prestar atenção. Apesar disso. que. Bem. Contudo. temos uma mente que pode pensar. Ao final do terceiro mês. esse é um tipo e tem muito valor. E posso até esquecer isso tudo e. Ali aprendi a prestar atenção. Sonhamos sempre com o futuro. jamais enxergamos exatamente o aqui e agora. Até mesmo quando vamos consultar nosso mestre zen. nesse tempo. filtramos tudo que acontece no presente. Isso é constante: gira em nossa cabeça sem parar. Como seres humanos. Essa é a integração de qualquer forma superior de arte. das pessoas que fazem cestas inacreditáveis no basquete. Não tenho de ouvir essas coisas. O que eu estava tocando não era de execução técnica difícil. usando todas essas referências: "Não gosto disso. Ele tocou de novo e eu toquei em seguida. à totalidade do que está acontecendo exatamente agora. E como ele dizia. Por fim. Não nos convém. Ele tinha todas as características de um verdadeiro professor e uma determinação absoluta de levar cada aluno a enxergar. era relativamente fácil prestar esse tipo de atenção. Façam a seguinte experiência: perguntem alguma coisa a quaisquer dez pessoas que leram este livro. e já fazia anos que tocava piano. sem dúvida. surgiu minha oportunidade de estudar com aquele professor. o procedimento daquele professor durou três meses e. O que ocorrera é que eu tinha aprendido a ouvir pela primeira vez. Há muitos anos. o que dava talvez meio minuto de uma música. Deste modo.

é: "Bem. Não é necessário que acreditem em mim. as que estão com o preciso aqui e agora. começo na realidade a ouvir o barulho do tráfego. pelo menos posso tentar essa experiência. enquanto você não enxergar isso com clareza. As únicas pessoas que vivem com conforto são as que aprendem a não sonhar suas. também é algo como uma ciência. e está certo. é. é tão valioso que. O que temos de desenvolver é nossa intensidade e nossa capacidade de estar exatamente aqui e agora. A. as tormentas da vida atingem-no de modo mais suave. Estamos sentindo essa emoção de verdade. Nossa prática é. Essa é nossa prática. essa onda se desfará mais depressa. somos o universo inteiro. Nada. por exemplo. deveria ser criado. Porém. No entanto. a cada momento. Essa espécie de raiva jamais magoa os outros porque é total. não com uma versão fantasiada dela. em geral. O que você pode dizer. no minuto em que você tentar pegá-lo. Quando sentimos dor não entramos na vertigem mental. ser inteiramente a raiva. suportando todo esse desconforto. se não existisse. ficar feliz. agradável. espécie de mágoa que machuca as pessoas é aquela que ferve embaixo dos sorrisos meigos que esboçamos com esforço. Consideremos o processo do sentar em si. O que temos de fazer é estar com o que acontece precisamente agora. Não é só fé. o nó no estômago. ficar doente. Isso é tão bom quanto um koan porque está acontecendo neste exato momento. entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes e aquilo que de fato existe. Não é uma tarefa fácil. Até aí qualquer um de nós pode ir. É sempre uma escolha. no máximo. tédio e dor nas pernas. muito cansaço. vocês têm uma tarefa a cumprir. Não faz a menor diferença. Nosso treino zen tem como propósito permitir-nos levar uma vida confortável. Talvez no começo. o ponto central do zazen é este: o que temos de fazer com constância é apenas criar uma discreta transição do mundo vertiginoso que temos dentro de nossas mentes para o momento presente. mau. Quando estamos diante de alguém assim. Isso é Buda. sim. desagradável. o preciso aqui e agora. De modo que a dor é na realidade muito valiosa. Mas não o fazemos apenas para nós mesmos.6 Nessa medida. Buda nada mais é do que aquilo que você é. dor de cabeça. com fé absoluta no processo total. Quando me distraio e divago. outras pessoas irão senti-Ia de imediato e. de momento a momento. completa. podemos senti-lo. O que aprendemos com o ficar obrigatoriamente sentados em silêncio. e não vamos machucar ninguém com isso. de fazer tal escolha. tem de trabalhar com o que seu instrutor lhe disser para trabalhar. Outras pessoas antes de você já efetuaram a experiência e obtiveram alguns resultados com ela. vidas como algo diferente. Só pessoas de muita fibra conseguem efetuar essa prática por tempo ilimitado. aquilo que somos começa a influir em tudo que existe à nossa volta. Ser o que somos a cada instante significa. Não há para onde ir. Precisamos ser capazes de desenvolver a habilidade de dizer: "Não. independente do que seja: bom. num sesshin zen. Portanto. em que se torna real e essencial. 6 . Na realidade. sejam quais forem. então. Requer coragem. Tomo muito cuidado para não perder um só ruído. podem experimentá-lo por si mesmos. Temos de ficar com a dor. ele já se transformou. Eu de fato apenas ouço. não vou nessa vertigem". afastando-me do imediato. como estudante do zen. não iremos ficar muito transtornados com elas. Quando ficarmos transtornados de verdade. Posso fazê-la. O que na verdade existe. uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. sentir a dor nas pernas. Se pudermos aceitar as coisas apenas como são. ouvir minha voz. Uma característica de um estudante maduro do zen é o senso de centração e contato com suas bases. quando estamos com raiva. Posso me esforçar". Ele está com a vida tal como ela está de fato acontecendo. Sem dúvida. como uma escolha. Não se pode capturá-lo. à medida que nossa vida for ganhando em centração e em contato com as próprias bases. uma tarefa muito importante: tirar a própria vida do reino dos sonhos onde se encontra e transferi-Ia para a imensa e verdadeira realidade que existe. exatamente agora: ouvir os carros.

Shibayama Roshi certa vez disse num sesshin: "Esse Buda que todos querem ver é muito tímido. Bem. à medida que praticamos. Vemos tudo. permite-nos uma lenta transformação mediante a prática.7 Não espere ser nobre. Por quê? Porque Buda é nós mesmos e nós jamais o veremos enquanto não nos desfizermos de todas as coisas extras e supérfluas. Como estudantes do zen. Desistimos de nossos sonhos centrados no ego em troca da realidade de quem somos de fato. nossa ansiedade. É preciso coragem. mais ela se torna gratificante. ou para sermos os últimos. Simplesmente não há dúvida a esse respeito. Onde mais poderíamos estar? Porém a questão é darmo-nos conta com clareza do que isso significa. nossa arrogância e nossa pseudoespiritualidade. Não se pode ter apenas trechos de Buda. Ao desistirmos dessa mente vertiginosa. É preciso que estejamos dispostos a entrar com honestidade dentro de nós mesmos. São necessários anos e anos de muito trabalho para nos transformarmos a ponto de poder fazer isso. mesmo que por apenas alguns instantes. precisamos perder as esperanças". Nossa prática nada tem que ver com " Ah. até mesmo a coragem. no entanto. quando praticar o sentar. então o veremos. este é o começo. satisfatória e melhor para nós e os outros. Só quando começarmos a deixar de lado todas essas artimanhas. Não pretendo parecer desencorajadora. Porém. Quando pudermos agir com absoluta honestidade diante do que estiver acontecendo neste preciso "agora". alguma coisa estará se consolidando dentro de nós. Pode ser que leve um.. eu preciso ser bom. Esse é. se estiverem dispostos a fazer essa mesma escolha. que permita enxergar quem ele é. Bem.. Precisamos ficar sentados na dor e odiamos isso. Quanto mais praticamos a vida com afinco. num zendo***. vierem a muitas sesshins. As pessoas acham bobagem conseguir a iluminação em duas semanas. Quando digo para perder as esperanças. Em cada ponto de nossa prática ela é perfeita. imaginar que há alguma maneira de se ter essa vida perfeita que seria a melhor para cada um de nós. O primeiro vislumbre do que é o momento presente. trabalharem bastante com um instrutor. eu devo. presença que somos é como um espelho. Mas só isso não basta. Vemos o que somos: nosso esforço para parecermos bons. quando falo "difícil". Não é fácil. Não foram muitos os que ficaram felizes diante dessa perspectiva. Somos transformados pelo que fazemos. aqui. A vida é como é. Entretanto. Certa vez. A vida iluminada é aquela que enxerga o tempo todo. isso. para sermos os primeiros. e só sentamo-nos com o que é. Nós já somos Buda. Não é através de algo que pensamos. com quem somos. Esse mínimo vislumbre dura um décimo de segundo. essa total integração. então. Se vocês praticarem com afinco. neste lugar. é claro que. 7 . O trabalho com um bom instrutor. aquilo“. Talvez vocês estejam sentindo que não têm tanto tempo assim pela frente. todas essas coisas crescem. eu falei algo que deixou muita gente incomodada. a questão não é essa. terão esse primeiro vislumbre. E o que fazemos? Fazemos sempre a mesma escolha. um dia. É difícil conseguir que ele venha para fora e se mostre". essa . Foi o seguinte: "Para fazer essa prática. a vida passará a ser mais satisfatória. distorcido ou forçado. não é isso. precisamos fazer um trabalho incrivelmente difícil. O que mais poderíamos ser? Estamos em equilíbrio neste exato momento. Entretanto. eu devo ser amável. Eu também não gosto. Eu sou quem eu sou agora. então isso se transforma. essa harmonia e a incapacidade de expressá-la em nossas vidas consomem um trabalho e um treinamento incessantes. A verdadeira espiritualidade é apenas estar com tudo isso. Esse estado de ser é o Buda. dois ou dez anos. um continuum muito longo. não me refiro a abandonar o esforço. Se na realidade pudermos estar com Buda. de algo que imaginamos. durante um certo período. Mas o que eu quis dizer? Que temos de desistir dessa idéia e. de modo consistente. Vemos nossa raiva. se pudermos. Os Budas vêm como um todo. É preciso uma verdadeira devoção a nós mesmos e às outras pessoas. Difícil é a escolha que temos de fazer repetidas vezes. se sentarmos com paciência e tolerarmos tudo. não significa artificial.

acontece que a vida é um professor da mesma maneira rígido e infinitamente gentil. O que desejo discutir aqui é o problema da "autoridade". exceto -quem? Não há outra autoridade fora de minha experiência pessoal. É a única autoridade em quem é preciso confiar. Contudo. porém. Esse professor. e praticamos para compreender internamente este "você". logo que chega à cidade um novo professor. se tivermos a paciência necessária e trabalharmos arduamente. mas o amor com sua força real. mais longe. Quando comecei a ouvir os pronunciamentos dos instrutores. Em geral somos uma autoridade para os outros (dizendo-lhes o que fazer) ou buscamos alguém que seja uma autoridade para nós (ordenando-nos o que fazer). Somos todos bebês. para que vocês saibam de fato o que estão fazendo. cabe-nos executar o trabalho. e não em alguma versão de novela de televisão. não! Não se trata de desinteresse meu pela pessoa. Talvez ele não tenha ficado claro para alguns de vocês. Contudo. acreditamos que temos necessidade de um professor ou de uma autoridade que nos diga como agir. sê atua própria lâmpada". todos correm para vê-lo. Ele falou: "Olhe. não é mesmo?". E quem é ele? A própria vida. veremos que nela está o amor. venham sentar. quanto maior a confusão. ainda me surpreendo com o problema que fazemos de nossas vidas e de nossas práticas. São necessários muitos anos para que ele se torne claro. Um dia. fé suficiente em apenas realizar a prática. só que ninguém pode me dizer nada a respeito de minha vida. teremos alguma possibilidade de fazer uma verdadeira contribuição ao mundo. mas vê-la é outra bem diferente. Sentem-se todos os dias. Agüentem a confusão. Ele não disse: "Corram para este ou para aquele mestre. O lar comum é 8 . claro. Talvez vocês comentem: "Bem. Permaneçam em seu sentar. que lhe explique como vivenciar sua vida. sua incumbência é assumir essa qualidade que já tem e trabalhar com ela. Venham aos sesshins. e façam o melhor que puderem. Não é preciso ir a locais especiais para encontrar esse incomparável mestre. mas eu preciso de um instrutor que possa me libertar de meu sofrimento. Não! Quem sabe. Sempre me espanto de ver que. não é necessária uma situação em especial ideal ou tranqüila. esse é o processo. Cada um de nós é. Façam apenas o melhor que puderem. Queremos esse amor para nossas vidas e o queremos para as vidas das outras pessoas. Respeitem-se por fazer essa prática. é a coisa mais importante que podemos fazer . Queremo-lo para nossos filhos. Penso que quem vem para esta prática é fantástico. seu verdadeiro instrutor. procuraríamos uma autoridade se tivéssemos confiança em nós mesmos e em nossa compreensão. Portanto. No entanto. o que falta é um guia que lhe deixe claro que a autoridade de sua vida. Tenham. Preciso de alguém que me diga o que fazer. É realmente importante essa total transformação da qualidade da vida humana. Principalmente quando existe algo em nossa vida que é desagradável. Não poderíamos ser outra coisa. Não há problema. A medida de nosso crescimento possível é limitada. Pode ser confuso. Não é fácil. pensei: "Mas do que estão falando?". você precise de um guia. A escolha de entrar nele é toda nossa. surpreendente ou incompreensível. Estou sofrendo e não entendo isso. Não quero ser dura com vocês. está em todo lugar. Nessa integração em que por fim aprendemos a viver. ou para aquele centro". essa autoridade. O escritório costuma ser um excelente lugar. Portanto. Só existe um professor. Autoridade Depois de anos falando a um grande número de pessoas. melhor. uma manifestação da vida. Qualquer um que fique sentado do começo ao fim de um sesshin zen precisa ser parabenizado. Vou-lhes contar o quanto sou capaz de andar para ver um novo professor: talvez até o outro lado da sala.8 Talvez a princípio não entendamos bem isto. Dizer isso é uma coisa. As últimas palavras do Buda foram: "Sê tua própria lâmpada". Tenham muita paciência. pais e amigos. aliás. é você mesmo.

Não podemos evitar a autoridade mesmo que o desejássemos. como minha vida pode parecer a mim incômoda. a palavra de Deus. até termos sofrido e estarmos dispostos a aprender com o sofrimento). muito obrigado. Basta ouvir um nenê recém-nascido berrando: é fácil perceber como o som atravessa a casa toda. está lá. monótona. uma suprema autoridade. não há espaço para uma influência ou uma autoridade externa." Se entendemos cada momento da vida como o professor. está lá. correremos o perigo de nos afundar na areia movediça. Se eu tentar ser minha própria autoridade (neste sentido restrito). Lembro-me de 9 . então. solitária e depressiva. para interrompê-lo. Não consigo me lembrar de nada que tenha a mesma qualidade revolucionária que o choro de um recém-nascido. Nossa vida está sempre aqui! Porém. Essa é a prática zen. se eu não sou autoridade nem você não é autoridade. Se de fato somos cada momento de nossa vida. quem iria querer isso? Na prática. apesar de seus esforços incessantes. começaremos com o bebê ao nascer. Compreendem? O ponto de estrangulamento do medo As limitações da vida estão presentes na concepção. quando estamos em família. qualquer coisa. Os próprios fatores genéticos são limitações: somos do sexo masculino ou feminino. antes mesmo de nascerem. A grande novidade é que mamãe e papai já estão aqui! Onde estão? Exatamente aqui. serei eu. não podemos nos impedir de fazê-lo. Durante suas primeiras semanas de vida. o verdadeiro professor quando eu puder com honestidade ser cada momento de minha vida. o vivenciar é a autoridade e é ainda o esclarecimento da ação a ser executada. encha-me com esses maravilhosos ensinamentos. então quem é? Já mencionamos antes. para a discussão que propomos. se eu fosse encará-la (ver a vida como ela é). mas se não ficar muito bem entendido. Não leva muito tempo para o bebê aprender que.9 perfeito. Para os adultos. o professor. onde está a autoridade? A atenção. Porém. E evidente a qualquer mãe com o feto em seu ventre. o contentamento do samadhi**** de viver. É a seguinte: "Bem. minha própria autoridade. orem sempre. Quando vamos trabalhar. Esses ambientes estão muito bagunçados quase o tempo todo. serei tão escrava quanto se deixar que outra pessoa o seja. Onde ela poderia estar? Quando sou apenas meu próprio sofrimento. No entanto. Sabemos por experiência própria! Aí é onde está a autoridade. ninguém. não precisamos nem usar o termo "zen". quando estamos com nossos amigos. Existe uma última ilusãozinha: todos nós corremos o risco de querer brincar com ela no tocante à questão da autoridade.reúnemse para produzir determinados temperamentos. As pessoas costumam esquivar-se desse tipo de ensinamento. E o que desejam saber? O que vocês querem saber? Até ficarmos prontos (o que em geral significa. Esse é um ensinamento muito radical que não cabe a todo mundo. Todas as linhagens genéticas. e não querem saber dele. Dizemos: "Por favor. Mas. quando filhotes? Ficam de boca aberta para cima e esperam ser alimentadas. Ninguém ficará dizendo a mim o que fazer". A mamãe e o papai por quem ficamos esperando já estão aqui. o que estou pensando e sentindo -então essa experiência se torna "só isso". a vida nem sempre é agradável. quando posso começar a viver este momento presente. o recém-nascido parece aberto e não-condicionado. Quando ouço aquele som quero fazer alguma coisa. está lá. somos como passarinhos no ninho. "Pratiquem sempre o zazen. O que estamos falando é: "Quando mamãe e papai vão voltar? Quando um grande mestre. O que é falso nessa posição? "Eu serei minha própria autoridade! Desenvolverei minhas próprias concepções a respeito da vida. O que fazem as aves no ninho. minhas próprias idéias do que é a prática zen" -estamos todos repletos dessas bobagens. temos propensão a determinadas doenças ou fraquezas corporais. o imperativo do bebê é a sobrevivência. Ficarei de boca aberta e você a completa". exatamente aqui. as tremendas diferenças que existem entre os bebês. virá para me preencher com aquilo que dará fim às minhas dores e a meu sofrimento?".

de 5 anos e cabelos ruivos. A natureza aberta e espaçosa do início da vida vai se estreitando num funil dentro do gargalo do medo. Ao atentar para os pensamentos e ao experimentar as contrações corporais (fazendo o zazen). Assim que aprendemos a falar. toda vez que uma pessoa ruiva passa pela minha vida fico inquieta por nenhum motivo aparente. Felizmente. Meu verdadeiro self. Então. apoderou-se de meu brinquedo favorito. Estamos todos familiarizados com o processo de condicionamento: imaginemos que. removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios. O que de fato necessito é saber que espécies de pensamentos insisto em alimentar neste presente momento.. não faz muita diferença.Posso ser cada vez quem sou de verdade. como essa decisão é composta por pensamentos e reflete-se em contração corporal. "não há espelho onde se mirar. O que é sem dúvida verdade é que nós todos somos constantemente condicionados e. e que contrações corporais exteriores. Revejo minhas noções de pessoa e de mundo. o espelho poderia brilhar (estaríamos purificados). tomada com base naquele condicionamento. embora ele possa ser útil. quando eu era bem pequena. pode funcionar agora. revemos devagar nossas concepções a respeito de quem somos. todos começamos atentar nos proteger das ameaçadoras ocorrências que nos atingem com regularidade. O outro verso (que revelou ao Quinto Patriarca o profundo entendimento do homem que seria escolhido como seu sucessor) afirmava que. Conforme nossa inteligência aumenta. desde o princípio. de rebeldia ou de recolhimento.não está captando o cerne do problema. Nessa altura vêm-me à mente dois famosos versos sobre um espelho (um de autoria de um monge que era especialista no Quinto Patriarca.. Esses versos foram compostos de tal modo que o Quinto Patriarca deveria julgar se seu autor teria ou não alcançado a verdadeira realização. mas ele estava ensaboado e. quando tinha seis semanas. então. como (através da memória) relacionamos cada nova ameaça a todas as anteriores e o processo forma-se de modo acumulativo. Um não-self. o condicionamento se esvai com o tempo. armazenando-a em cada célula de nosso corpo.10 deixar meu filho mais velho cair de cabeça. Diante do medo que nos causam. Poderíamos dizer então que o condicionamento é o problema? Não. decidimos que nosso ser mais autêntico é a contração do medo. mas pela decisão a meu respeito. em outras palavras. hoje. independente de essa imagem ser de conivência. desertado e esquecido há tanto tempo. Fiquei apavorada e condicionada. não é de espantar que eu esteja nessa bagunça. sob a influência desses incidentes. Essa pessoa. a rapidez dessa contração aumenta. para nós o paradoxo é que temos de praticar com o verso que não foi aceito. não só tentamos manipular a ameaça. tenho exatamente. O verso do monge (aquele que não foi aceito pelo Quinto Patriarca como a verdade) afirmava que a prática consistia em polir o espelho. começamos a nos contrair. Desde muito cedo. Depois de termos sido ameaçados em nossa abertura e disponibilidade. hoje. o processo realmente torna-se mais veloz. de um anônimo que acabaria se tornando o Sexto Patriarca). Mesmo quando repetido com freqüência. não exatamente. e outro. não tem jeito". Ao fazer isso. precisamos de fato tomar consciência de nossos pensamentos 10 . minhas falsas identificações com um self limitado (a decisão) aos poucos desaparecem . ela pode ser minha mestra quando me experimento neste exato momento. Não necessito forçosamente de um conhecimento intelectual do que foi meu condicionamento. Por essa razão. alguém que fala: "Se você soubesse o que minha vida tem sido.. embora.". sou tão condicionado pelo medo. Hoje. O que difere é minha decisão cega de agora ter de corresponder a essa imagem contraída de mim mesma para poder sobreviver . um menino grande. e não há onde o pó se apegar. O ponto de estrangulamento do medo não é causado pelo condicionamento. forte. o ponto de estrangulamento do medo fica iluminado. precisamos mesmo polir o espelho. pois observo que esse ponto é uma ilusão. uma resposta aberta e disponível à vida. e. Pensei que eu era uma mãe nova muito esperta. o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro.. e defino uma nova imagem de mim mesma. não há espelho a ser polido.

sem dúvida. no qual a pessoa não está nem tensa nem apressada. Contudo. Mas não podemos e não queremos saber disso até termos polido infatigavelmente o espelho que não existe. não nos iludamos sobre quanta prática sincera devemos realizar antes de vermos tudo com a mesma clareza com que enxergamos nosso próprio nariz. Implica um estado elevado de conscientização. tal prática não tem sentido". mas também um estado passivo de intensa concentração.. embora haja ocasiões em que ela se tornará desestimulante e difícil. Entretanto. isto é. criamos um caos deslumbrado para nós e para os outros. os diálogos e sermões pronunciados por Shakyamuni Buda. porém. ** Nota do Editor: Sutra do Diamante foi elaborado no século IV por Mahayana e é considerado uma das obras mais profundas e magistrais da literatura budista. em outras palavras. podemos enxergar que. na iluminação. porém nós não vemos com suficiente nitidez e. onde é praticado o zazen. até que possamos sentir em nossas vísceras a verdade de nossa vida. ****Nota do Editor: Samadhi é um termo que tem vários significados. Outra vez. Nenhuma prática (polir) é necessária. Não creio que tenhamos tantas escolhas assim. Seu verdadeiro princípio é a fé inabalável de sentar como Buda sentou. O que vocês pensam? * Nota do Editor: Shikan-taza é uma modalidade do zazen. tranqüilidade e centração. quando isso acontece. É preciso ressaltar que os sutras são as escrituras do Budismo. desde o princípio. precisamos na realidade polir o espelho. 11 . que um dia culminará na percepção momentânea e direta da verdadeira natureza dessa MENTE. Às vezes. **** Nota do Editor: Zendo é uma sala ou um enorme salão nos grandes templos ou Centros zen. Se você enxergar com suficiente clareza. Nossa vida sempre está aberta. não há nada que precise ser feito. Apenas agindo assim é que chegaremos a perceber que.. É preciso de fato praticar. uma visão otimista da prática. temos de nos conscientizar de nossas falsas reações à vida. É óbvio que não temos de nos esforçar para nos libertar dela. O que lhes estou apresentando é. nada era necessário. já desde o início. no zen implica não apenas equilíbrio. o ponto de estrangulamento do medo é uma ilusão. com a mente vazia de todos os conceitos.11 e atos. construído à parte. crenças e pontos de vista. disponível e útil. as pessoas dizem: "Bem. de completa absorção da mente em si mesma e de grande e elevado conhecimento. a questão é: temos bastantes escolhas? Ou morremos -porque se permanecermos muito tempo entalados no ponto de estrangulamento do medo seremos estrangulados até a morte -ou lentamente conquistamos uma certa compreensão vivenciando o ponto e atravessando-o. Assim. É. uma prática na qual a mente está muito envolvida em apenas sentar.

no entanto essa não é a questão. nossa tendência é ter algum conhecimento desses assuntos. repetindo. E. novamente. nossa tendência é nos tornarmos assim após muitos anos de prática. esse não é o caminho. Todas essas coisas podem ocorrer e. pelo menos não como esta palavra costuma ser entendida e empregada. A prática não é para conhecer intelectualmente a natureza física da realidade. Esse tipo de treino é uma forma sutil de atletismo. A prática não envolve salientar todas as espécies de "boas" qualidades e livrar-se das supostas "más". a onisciência não é a questão. ou aquilo a que ela se refere. de modo quase incessante. felizes. Não é uma tentativa de ser ou de sentir qualquer coisa especial. com o tempo. não é ser/estar sempre calmo ou controlado. essa meta pode tornar-se sedutora e prejudicial. Não há qualquer garantia nesse sentido! A prática não significa alcançar um estado de onisciência no qual a pessoa conhece tudo de tudo. naturalmente. saber do que consiste o universo. insisto. e todos nós já os possuímos. Mais uma vez. amenos que tenhamos clara nossa não-intenção de ser "espirituais". não constituem a verdadeira prática. Ninguém é "bom" ou "mau". A prática não é atingir algum estado de graça. ou como funciona. chegar a algum lugar! Essa é em si uma falácia básica. E. a força que é desenvolvida após anos de prática do sentar. a busca da saúde perfeita não é o caminho. embora durante a prática possam escoar meses ou mesmo anos de desastres com a saúde. Em primeiro lugar. Outra vez. de proteção total contra qualquer tipo de doença grave. o mero contemplar desse desejo começa a esclarecê-lo e 12 . sem sombra de dúvida. Porém isto não é a prática. Não é ver luzes brancas (ou róseas ou azuladas). Portanto. estado em que a pessoa é uma autoridade a respeito de todo e qualquer problema secular. Sentar costuma produzir resultados benéficos na saúde de muitas pessoas. A prática não é para ter sentimentos agradáveis. A prática não implica poder pessoal ou jôriki. No ZCLA. Essas aptidões são pequenas excentricidades e. A luta para ser bom não é a prática. Mas isso não é a prática. Mais uma vez. talvez elas aconteçam mesmo. O que desejo expor (de meu ponto de vista) é o que a prática não é. A prática não se relaciona a algum estado corporal de saúde absoluta. O produto ou a finalidade da prática. se sentarmos durante tempo suficiente. A prática não é ter ou cultivar poderes especiais. eu tinha a útil capacidade de ver aquilo que estava sendo servido como jantar a duas portas de distância. o jôriki é uma decorrência natural do zazen. Na realidade. Poderíamos. não estou questionando isto que. Estou dizendo que a prática não é efetuada com o objetivo de originar tal alteração. Todos esperamos mudar. A prática não quer dizer ser "espiritual". Outra vez repito. ela não diz respeito a causar mudanças psicológicas. embora. Não é para se sentir bem. a mudança psicológica será causada. em vez de mal. Se era alguma coisa que eu não apreciava. é algo maravilhoso. Algumas pessoas os têm numa proporção extraordinária. eu não ia. Não é ter visões.12 CAPÍTULO 2 Prática O que a prática não é Muitas pessoas praticam e têm sólidas concepções do que a prática é. haverá um efeito benéfico na saúde da maioria das pessoas. continuar relacionando aspectos do que a prática não é. Ela não é para ser coisa alguma. numa prática séria. Há muitos deles. Porém. às vezes. aliás. Se praticarmos com inteligência. qualquer um na prática pode estar mobilizado por uma ou outra dessas ilusões. Pode até haver uma certa clareza relativa a respeito de algumas questões. mas as pessoas esclarecidas também são conhecidas por dizer e fazer tolices.

Apenas sinta como está.. Se um carro passa lá fora. na barriga. podemos perceber.. para o que olhamos? Olhamos para o que saiu errado e. das pessoas que nos visitam. Se acreditarem que já estão além disso. exatamente. temos uma chance -que é. Não tentem controlá-la. sim. o filho. Em meio a tudo isso. entretanto. pode parecer tensa. apenas senti-la. o peito. Ficamos o tempo todo olhando para fora. sim. a região abdominal. Por via de regra. Neste momento. positivamente é tudo o que vocês têm de fazer: experimentar isso e apenas ficar com essa experiência. Isso. os braços. conhecer? E o que é a prática? O que a prática é A prática é muito simples. tudo o mais. decorrido um minuto. podem pensar que estão além. a oportunidade de dar uma boa olhada em nós mesmos fica muito reduzida.. quando deixamos os elementos externos de lado e nos retiramos do alcance do toque do telefone. O normal é que. muitos acontecimentos ocorrem. 13 . Refere-se a nós. as coxas. Que seja! É o que vocês têm de fazer. o medo permanente. na meditação. Percebam o rosto por um momento. O que está acontecendo? Toda espécie de coisas. Observem o pescoço. Talvez ouçam o barulho cíclico do motor da geladeira. Não. Uma fisgada mínima no ombro esquerdo. Estará tenso em algum lugar? Em torno da boca. bem. Não diz respeito a alguma atividade. Sentar é essencialmente um espaço simplificado. "Você quer dizer que zazen é só isso?" Não gostamos dele. a fonte de nosso sofrimento. a coisa mais valiosa que existe -de ficar de frente para nós mesmos. queremos pensar. Quero rever o que fazemos quando sentamos. Agora sintam a respiração entrando e saindo. O que significa "apenas sentados ali"? Essa é a mais exigente de todas as atividades. Nossa primeira reação é tentar segurar a respiração. é muito difícil sentir o que somos em nossa vida. ficamos apenas sentados ali. as costas. somente sintam-no. Não é isso também. No alto do peito. Queremos nos afligir com todas as nossas preocupações. de "chegar a algum lugar". em termos de nossas vidas. o que é este barco vazio? Quem somos nós? O que. de tornar-se espiritual. Assim. ouçam-no. não fechamos os olhos. gostaria que fechassem os olhos e ficassem apenas sentados. em geral. antes de nos darmos conta. Nosso interesse em apenas acompanhar a realidade (que é o que acabamos de fazer) é muito reduzido. para aqueles que a nosso ver foram os responsáveis. Se não simplificamos a situação. Agora. Sintam tudo isso. Se nosso barco cheio de esperanças. começamos a pensar.. e não para nós. uma pressão no lado. Se algo dá errado. Se conseguirem ficar fazendo isso durante três minutos. os ombros. ilusões e ambições (de chegar a algum lugar. praticamos zazen. no meio. na testa? Vamos descer um pouco mais. porém. ou praticamos o zazen. Então fazemos o quê? Depois de termos assumido nossa melhor postura (que deveria ser equilibrada. o patrão. Deixe que aconteça naturalmente. fácil). A meditação não está relacionada com algum estado e. Começamos a compreender que nosso desejo frenético de ser melhor. do cachorro que precisa passear. e por aí afora! Nada há de vergonhoso nesse fantasiar. ou a consertar ou a conseguir algo. da televisão. Se um avião passar. Continuem sentindo tudo que encontrarem. não pretendo que nos comprometamos numa auto-análise. "Estamos em busca da iluminação. a namorada. é um milagre. não?" Nosso interesse pela realidade é extremamente pequeno. Quando menciono que a meditação diz respeito a quem a pratica. é a ilusão em si. Sintam-no. de ser perfeito. Quando simplificamos a situação. Agora podem abrir os olhos. muitas pessoas falam. de alcançar a iluminação) vira de ponta-cabeça. exceto que. porque aquilo que nos propomos a ver não somos nós e. Queremos entender qual é o sentido da vida. observem-no. não significa que não irá transformar por completo nossa vida. Nossa vida diária está em constante movimento: acontecem muitas coisas. teremos esquecido por completo deste momento e teremos divagado em pensamentos sobre as coisas: o namorado.13 a prática essencial de nossa vida se altera conforme a executamos. com seu praticante.

Isto não é uma crítica. "Estou pensando que nunca faço as coisas certas". produzimos nosso próximo resfriado. Se os pensamentos estiverem vindo em avalanche. "O que acontecerá? 0 que faço?" A mente começa a ficar cada vez mais rápida com a preocupação. Não há nada de complicado nela. Em algumas. Quando eles se acalmam. Há quem pense sempre a respeito de si mesmo. Por exemplo: "Estou pensando que ela é muito mandona". Não há nada de errado em nossos pensamentos autocentrados. fazemos dez mil vezes. passamos a nos conhecer. Nossa vida nos escapou. Mas se insistirem em localizar pensamentos isolados. pensamento" ou "preocupação. quando ficamos aborrecidos. quando nos identificamos com eles. nossa visão da realidade fica bloqueada. o que perdemos? A realidade. Coloquem rótulos específicos: não só "pensamento. É muito simples. Claro que não há nada de errado em planejar com antecedência. acabaremos em muitos casos ficando doentes ou mentalmente deprimidos. podemos retornar à experiência do corpo e da respiração. nossa alergia seguinte. Quando damos rótulos precisos e meticulosos a nossos pensamentos. Se permitirmos que isso aconteça durante um certo tempo. Vou ficar sem rendimentos e tenho uma família para sustentar. Assim. enquanto outras pensam em pessoas. nossa próxima úlcera. Quando estamos perdidos em nossos pensamentos. Isso é o que os seres humanos fazem. eles virão. então simplesmente rotulem essa confusão nebulosa de "confusão". não conheço quem nunca adoeça. não é porque apenas planejamos. preocupação". o que estamos fazendo com ela. Se percebemos que determinados pensamentos reaparecem centenas de vezes. Por quê? Claro que vocês sabem a resposta. Se não soubermos o que significa fazer uma prática com nossos pensamentos de preocupação. perdemos alguma outra coisa. Não há como deixar de enfatizar que não fazemos isso apenas duas ou três vezes. "Estou pensando que ele é muito injusto comigo". Tudo aquilo de que não formos conscientes frutificará em nossa vida. Quando o desejo de nos preocupar é forte. Talvez nosso pensamento incessante refira-se ao passado ou ao futuro. cedo ou tarde. Essa é uma descrição teórica do sentar. Viramos a situação do avesso de todos os jeitos. creio que eu terei de fazê-lo". O que acontece então? Sua mente começa a remoer o problema sem parar. Ele nos ajudará a sair dessa. ficamos sabendo a nosso respeito algo que antes desconhecíamos. mas um rótulo específico. muitas vezes seguidas. de um jeito ou de outro. Você pensa com seus botões: "Vou perder meu emprego.14 quando estamos imersos nele. seja qual for nosso estilo. Não é preciso que nos obriguemos a livrar-nos deles. nossa vida se transforma. Estamos tentando nos livrar de nossas dificuldades atuais. A mente que não está consciente de si produzirá enfermidades. Algumas pessoas estão sempre pensando sobre acontecimentos. Assim. o corpo o fará. Fazemos porque estamos tentando nos proteger. ou pelo menos entendê-las. 14 . É como se dissesse: "Se você não tomar conta da situação. Suponhamos que você trabalha numa companhia de aviação. Porém. o que acontece com eles? Eles começam a aquietar-se. Enquanto não os rotularmos durante quatro ou cinco anos. Se a mente não se incumbir da situação com discernimento. Com uma prática regular. Consideramos agora uma situação da vida cotidiana. numa velocidade tão grande que vocês não sintam mais nada senão confusão. Não fazemos isso só uma parte do tempo: fazemos a maior parte do tempo. apenas o fazemos menos. Quando praticamos dessa maneira. quando estamos sonhando. o que ocorre em seguida? Os pensamentos produzem uma emoção e ficamos mais agitados ainda. exceto que. criamos dificuldades. Toda agitação emocional é causada pela mente. os pensamentos são quase só julgamentos a respeito dos outros. É terrível!". o que deveríamos fazer quando os pensamentos aparecem? Deveríamos rotulá-los. não nos conheceremos bem. inclusive eu. Com isso. porém. mas porque ficamos obcecados. Temos de planejar. Sejam específicos. a saber como nossa vida funciona. e lhe contam que o contrato com o governo está terminando e é provável que não seja renovado.

sem dúvida. somente ficar ali. O próximo passo poderia ser molhar o rosto. aquela pessoa ideal morra amanhã. Conheço algumas pessoas que conseguem uma boa parte do tempo. podemos notar nossos pensamentos apenas como 15 . Não há uma pessoa na face da Terra em quem possamos confiar por completo. as coisas que dão errado em nossa vida são de dois tipos. Um são os fatos que acontecem fora de nós e o outro são os que acontecem dentro. Então. Você pode confiar em si mesmo? A autoconfiança é uma boa coisa. Quem sabe. a cada braçada. Às vezes. Entretanto. Falar a esse respeito parece. Não conheço ninguém que possa fazê-lo o tempo todo. Quando fazemos um investimento pessoal em nossos . Isso significa que um é melhor do que o outro? Não. minha vida mudará. a vida como é poderia ser exatamente o inverso do que eu desejo. Começamos a aprender que só existe uma coisa na vida em que podemos confiar. A prática. Mas. às vezes. Podemos amar nosso marido. No entanto. contudo. fazê-lo é terrivelmente difícil. que só significa experimentar a vida como ela é. depois das palestras. Não sabemos se iremos ou não casar com aquele alguém. conseguimos inclusive viver num estado de iluminação. O processo é o próprio pensar . Se eu tiver um ataque cardíaco amanhã. Qual é? Podemos dizer: "Confio em meu companheiro".15 Do ponto de vista humano. Não é uma questão de sermos bons ou maus. as pessoas comentam: "Não entendi isso". quando praticamos desta forma. eu o tenho. estará diferente. em quê? Em que podemos confiar na vida? . Vamos falar em termos mais concretos. porque eu o tive. porém é inevitavelmente limitada. embora. Posso me apoiar na vida como ela é. mas não podemos contar com isso. Ambas são a nossa prática e trabalhamos com elas do mesmo modo. a primeira vitória seria apenas mergulhar. não queremos saber de nada disso. Ambos são perfeitos. cada qual em sua etapa do caminho. fácil. no ano que vem. então. posso confiar que. ou ter um filho saudável e feliz. Se fôssemos ótimos nadadores. perguntei a alguém que me respondeu: "Em mim". Existe uma coisa na vida em que sempre podemos confiar: na vida tal como é. é simplesmente ser quem somos a cada momento. tomando consciência de tudo que entra em nossa vida (interna e externa). Não é nenhum mistério. mas não podemos nunca confiar cegamente neles porque uma outra pessoa (assim como nós) é sempre não-confiável até certo ponto. no entanto. somos perfeitos em ser do jeito que somos. por que não conseguimos confiar nesse fato? O que é tão difícil a esse respeito? Por que estamos sempre incomodados? Suponha que sua casa tenha acabado de ser destruída por um terremoto e você está quase perdendo um braço e todas as suas economias. em qualquer estágio. Se tivéssemos medo de ficar na água e não soubéssemos nadar. Pode ser que consigamos ser especialistas ou não. criamos o "eu" (como diria Krishnamurti). e. Rotulamos todos os pensamentos que acontecem à volta deles e os vivenciamos em nosso corpo.pensamentos. Aumentamos nossa força e nosso discernimento. será sempre do que jeito que é. de fato. ou fazer um curso de especialização. possamos amá-la e desfrutar sua companhia. A vida será sempre do jeito que é. nossa esposa. Não podemos contar com coisa alguma. podemos confiar? Se não é em uma pessoa. desfazendo o investimento. o desafio poderia ser conseguir bater a mão na água numa determinada inclinação. a qualquer momento. se casarmos. Se você é novato na prática. Depois de termos ficado sentados por tempo suficiente. Eis por que rotulamos os pensamentos. Isso também está perfeito. Imagine que existe uma coisa que eu quero muito: talvez casar com uma certa pessoa. É provável que sim. ela começa a transformar-se. Porém. melhores ou piores. então nossa vida começa a não funcionar. Será que dá para confiar na vida tal qual ela se apresenta? Você consegue ser assim? Confiar que as coisas são como são é o segredo da vida. como as doenças físicas. É ótimo ficar sentado com essa compostura. Posso confiar absolutamente que. é importante saber que ficar apenas sentado na almofada durante quinze minutos já é uma vitória. Nosso entendimento aumenta com o tempo. Em que.

O que estamos fazendo não é nossa reprogramação. deixando pouca cinza. Quando rotulamos o pensamento. que é diferente de dissolvê-lo. e a lignita. temos a possibilidade de ver melhor o que é a nossa vida e o que precisa ser feito. Mais uma vez. acreditamos que nossos pensamentos são reais. se estamos contidos pelas emoções autocentradas. hulha gorda. consertar um equipamento. uma ilusão. Podemos nos ver atravessando os estágios preliminares a este: primeiro sentimos que nossos pensamentos são reais. as ações têm de estar baseadas na realidade. No entanto. os obstáculos que nos impedem de ver a vida como ela é. Mas não necessitamos dessa atividade emocionalmente autocentrada a que chamamos pensar. Quando conhecemos bem nossas mentes e as emoções que nosso pensamento cria. Se. porque envolvem um "eu". Este "eu" é uma invenção muito frágil -aliás. nossa conduta se fundamentará neles. com o fragmento impessoal de energia. Pode ser que tenhamos aquilo que pensamos ser uma melhor programação. Por essa razão. Não é de fato pensar. não com um fazer nada passivo. O primeiro queima de forma limpa. envolvida. tememos ver os pensamentos tais como são.16 input sensorial. Nenhum dos dois conseguirá se sair muito bem frente às pressões da vida. é importante sentar com um grande e meticuloso cuidado. é a próxima coisa que temos logo à frente. é só uma criação de pensamentos autocentrados. a prática é o trabalho com este processo até que o tenhamos impregnado em nossos ossos. ou estamos apenas no começo. como seguir uma receita. carvão duro. notando que são vazios. nunca houve um "eu". Ela tem de ser nossa carne. se estamos praticando o sentar há cinco ou vinte anos. quero dizer que não tem uma realidade básica. é uma aberração do pensar. Se agirmos a partir deles. nossa vida ficará uma confusão. enfim. quando eu devia estar com mais ou menos oito ou dez anos e vivia em Nova Jersey. o revestimento emocional começa a dissolver-se e ficamos. A reprogramação é só saltar de um caldeirão para outro. a partir destas. ao qual não precisamos ficar apegados. seremos capazes de ver o que precisa ser feito. porque. nós mesmos. costumam se afastar da prática básica. irreal -e é com facilidade enganado. planejar as férias. mas o propósito do sentar é não ser conduzido por nenhum programa. um fragmento de energia. tudo o mais se incumbe de si mesmo. no porão. O fogo da atenção Por volta da década de 20. é nossa libertação de todos os programas. em geral. não conseguimos enxergar as pessoas e as situações com clareza. Quando falo que é vazio. Há uma enorme diferença entre dizer: "Ela é impossível" e "Estou pensando que ela é impossível". Suponhamos que decidimos reprogramá-lo para "Tenho autoconfiança". O zen tem que ver com uma vida de ações. onde os invernos são pesados. nossos ossos. O zen refere-se a uma vida ativa. quando sentamos bem. Aprendi que havia dois tipos de carvão que apareciam no reservatório: o antracito. Se persistirmos na prática de rotular qualquer pensamento. às vezes. sem realidade. Quando se baseiam em falsos sistemas de pensamento (fundamentados em nosso condicionamento). Entretanto. Praticar o zen nunca é tão fácil quanto falar sobre ele. Imaginemos que há o programa chamado "Não tenho autoconfiança". Apesar disso. retrocedemos e nos desapegamos da identificação. Quando 16 . porém. Depois de enxergarmos com clareza os sistemas de pensamento. têm alicerces precários. Era um grande acontecimento no quarteirão. Até mesmo os estudantes que têm um certo entendimento do que estão fazendo. Claro que temos de ter pensamentos orientados para a vida. Na realidade. Um pensamento em si é só input sensorial. O que importa é enxergar que é vazio. Meu pai me ensinou a diferença na combustão dos dois tipos. quando o caminhão de entrega parava e tudo aquilo se despejava pela porta basculante para dentro do reservatório apropriado. tínhamos um fogareiro em casa que funcionava a carvão. A prática não se refere a entender com a mente. O segundo deixa muita cinza. e a partir deles criamos as emoções autocentradas e.

Precisamos de um período diário adequado para o zazen. Todos já ouviram falar dele. Na Bíblia. Não creio que exista alguém aqui a quem isso seja inteiramente verdadeiro. percebemos que nosso processo de pensamentos conceituais é uma fantasia. de modo que o fogo permanece em estado de lenta combustão. e nossa prática refere-se a usá-la tanto quanto pudermos. é uma sala de queima e combustão de nossas desilusões egoístas. Ninguém está muito disposto a empregá-la. ou lidamos com nosso supervisor é. o porão ficava coberto de fuligem e parte dessa poeira subia a escada e entrava pela sala de visitas. não só no zazen como em todos os instantes de nossa vida. Se de fato conseguíssemos queimar nossos apegos até o fim. uma fornalha para a combustão de nossas desilusões egoístas". O que tudo isso tem em comum com nossa prática? Esta refere-se à ruptura de nossa identificação exclusiva com nós mesmos. não se libertarem do pensamento conceitual num instante. sim. e. Durante a noite. não haveria necessidade de praticar o sentar. eliminar aquilo que impede uma pessoa –ou um fogareiro -de funcionar no melhor de sua capacidade. o fogareiro consegue aquecer a casa. Porém. Este processo é. infelizmente. é muito importante lembrar que o principal propósito da prática do sesshin é essa combustão para eliminar os pensamentos. se vocês. não creio que exista alguém capaz disso. Quando for hora de nos vestir. O zendo não é um lugar para estados de graça e relaxamento. Quando for para darmos uma volta a pé. encontrada também em outras religiões. Temos muitas opiniões e julgamentos emocionais a respeito das coisas. Toda prática tem por meta aumentar nossa capacidade de prestar atenção. À noite meu pai abafava o fogo e eu também aprendi a fazê-lo. Por isso. e nossos sentimentos são magoados com facilidade. quanto mais o absorvemos. mesmo que se esforcem anos a fio. Huang Po. A atenção é a espada afiada e escaldante. Se não praticamos o sentar com regularidade. mais aumentará nossa capacidade de prestar atenção à realidade. Significa. Minha mãe costumava falar alguma coisa sobre isso. O fogareiro funciona melhor com o antracito. Sentar-se do começo ao fim de um sesshin é estar no meio de um fogo de refinaria. Um dos grandes mestres chineses. aprendizes do Caminho. o fogo precisa ser atiçado e a passagem de oxigênio abeta. Que instrumentos precisamos utilizar? Só um. pelo contrário. Desta maneira. aí. Chama-se atenção. de tal sorte que nossa vida possa ficar indiferente e fundamentalmente fria perante as circunstâncias externas. A maioria não é bem assim. logo que iniciamos nosso dia de trabalho. mediante uma observação persistente. podemos permanecer indiferentes e fundamentalmente frios em relação a eles. descobrimos que não estamos absolutamente calmos. coloquemos as roupas. nossa prática é fazer isso. comentou: "Se você conseguir libertar-se apenas do pensamento conceitual. estamos repletos de hulha gorda. No entanto. chamado de purificação da mente. Ao praticar o sentar. absolutamente. há um ditado: "Ele é como o fogo de uma refinaria". Eido Roshi certa vez revelou: "Este zendo não é um céu de beatitude e. caminhemos. nossa prática. mas empregam-no muito pouco. eu me lembro. de manhã. quando o fazemos -mesmo que seja por poucos minutos -acontecem um certo cortar e um certo queimar. sim. "Purificar a mente" não implica que você se torne santo ou uma outra pessoa que você não é. então não conseguimos compreender como a maneira pela qual lavamos nosso carro.17 queimávamos lignita. Esta é uma analogia comum. O mestre Rinzai disse: "Não podemos resolver o carma passado exceto em nossa relação com as circunstâncias. mas. mediante o emprego do fogo da atenção. terá conseguido tudo. no qual ficamos prestando atenção naquilo que se passa em nosso corpo e em nossa mente. reconhecemos a irrealidade de nossos pensamentos autocentrados. Não tenha um único 17 . significa que não somos tragados nem presos pelas malhas das circunstâncias. Mas. Porém. Então. a casa fica fria e. Abafar o fogo quer dizer cobri-lo com uma fina camada de carvão e depois fechar a passagem de oxigênio para o fogareiro. Não somos de modo algum "indiferentes e fundamentalmente frios" diante do que acontece. O que não quer dizer sermos pessoas frias. às vezes. jamais se realizarão” (4). "Libertamo-nos do pensamento conceitual" quando.

imaginamos por que adoecemos física e mentalmente. quando a mente se aquieta. com o amante ou parceiro. na realidade. Mas. desejos. O que de fato resolve é prestar atenção a nossas aberrações mentais. e tentamos encontrar o modo correto de agir a partir desse nevoeiro. e não há separação entre eu e o outro. do mesmo modo. Então. suja tudo o que estiver em volta. Não é algo milagroso que ocorre em nossa cabeça. toda a transformação ensejada pelo sentar é de ordem física.Contudo. o fogo está abafado. e nossas ações transpiram essa qualidade. não compreenderemos isso. e a ação fluirá daí. Não é nada além de estacionar o carro. o fogo estará consumindo tudo. Quando alguma coisa dá errada em nossa vida. A única coisa que fazemos é prestar atenção. ficam bloqueadas por fantasias. Porém. fazemos hipóteses a respeito. então. Para lidar com tudo isso. ou seja lá quem for. Certa vez alguém me perguntou: "Joko. A razão para isso é sempre nosso apego emocional à circunstância. imaginemos que estamos procurando um emprego. talvez seu patrão lhe peça para fazer algo que não é razoável. Queremos fantasiar. não haverá eu. Por isso. Nesse momento.18 pensamento em sua cabeça a respeito de buscar o estado do Buda” (5). tal como a encontramos. que não são o verdadeiro pensar. No entanto. não haverá nada para ser consumido. Ou nosso filho está com dificuldade na escola. podemos respirar mais fundo: a entrada de oxigênio aumenta. se aprofunda e. A 18 . Nossa vida é sempre absoluta: isto é tudo que existe. Os sesshins também são essenciais para os praticantes sérios. qual é a diferença entre a combustão de um antracito e a de uma hulha gorda? Ou. Queremos pensar. porque. e você quer obter chamas brilhantes e vivas. Queremos entender tudo. Queremos conhecer os segredos do universo. teremos perdido as horas que passamos no sesshin. dessa espécie de chama. A verdade não é uma outra coisa qualquer . destas chamas provirão o verdadeiro pensamento e a capacidade de tomar decisões adequadas. você acha que algum dia encontrará o grande e último estágio da iluminação?". Quando esquentar o suficiente. Por exemplo. Não há tempo ou lugar especiais para a grande iluminação. Quando o fogo do fogareiro é trabalhado. vestir-se. não está recebendo nenhum oxigênio. A mente aquieta-se. qual é a diferença entre a hulha gorda e o antracito? Se não há um pouco de compreensão dessa diferença. Queremos especular.. o que faz? Aumenta a entrada de ar. senão. dar uma volta a pé. Temos de praticar todo dia. especulações e análises. porque a observamos em vez de ficarmos perdidos dentro dela. Respondi: "Espero que um pensamento como esse nunca me ocorra". então. então. tentamos entender o que aconteceu. Quando queimamos hulha gorda estamos usando de maneira equivocada nossas mentes. Essa fuligem não nos suja apenas. é importante sentar todo dia. temos mentes que ficam tentando queimar o passado ou o futuro. E quando fazemos tudo isso. Somos incapazes de queimar até o fim cada circunstância. Depois. quando de fato o fogo pegar. Bulha gorda significa apenas que a combustão em nossa vida não está limpa. remoemos a coisa toda. Mesmo dez minutos de zazen é melhor do que não fazer nada. A combustão está tão obstruída que nada além de fuligem grossa pode resultar. Em vez de tentarmos resolver na mente que espécie de ação executar. Observamos nossos pensamentos emocionais: "É. não consigo suportar aquela mulher! Ela é terrível!". o que tentamos fazer? Sentamo-nos. Não gostamos de pensar a nosso respeito como seres apenas físicos. Não adianta nada. A respiração. porém o único trabalho que conseguimos encontrar é algo de que não gostamos. Como o mestre Huang Po costumava dizer: "De forma alguma faça distinção entre o Absoluto e o mundo do sensível"(6). Somos também como o fogo. o entendimento do processo de combustão fica tão obscurecido e indistinto que o fogo se mantém abafado. opiniões. conforme mente e corpo se aquietam e o fogo queima com mais resplandecência e clareza. Nossa combustão produzirá uma chama mais clara e limpa. se o que estamos queimando é hulha gorda. A maior parte desta platéia está em busca do estado de Buda.raramente é encontrado. este estado é o modo como você resolve a situação com seu chefe ou seu filho. e. precisamos apenas purificar nossos alicerces.. A centelha criativa de todo trabalho de arte origina-se. O presente vivo -o estado de Buda .

estado raro e maravilhoso. tudo corre bem. pois dividimos e afastamos parte dela também. superando todos aqueles estágios iniciais do desenvolvimento e chegando ao ponto em que. Qualquer tensão corporal significa que não podemos possuí-lo por completo. ciúme. desta forma. berreiros. Antes dele. não existiriam limites. não chega a fazê-lo incandescer ao máximo. duvido que já tenha existido uma pessoa que tenha realizado por completo esse estado. Gostamos de nos queixar. o universo parece um pinguinho de luz. A maioria das pessoas encontra-se em um dos estágios que levam a esse estado. Não diremos que somos um corpo. às vezes. vejamos o que poderia ser o processo de tornar-se Buda. tão limitado. existe um estado de completa integração pessoal. existe algum ponto em que a integração deixa de ser plena. para os poucos que já conseguem suportar essa pressão. Para essa pessoa confinada. Portanto. Apesar desse hiato. Se introduzirmos uma luz tão brilhante como o sol nesse espaço. há um outro estado em que não conseguimos ser donos de nossa mente. tédio. mas. "Unido com o Grande Ser Iluminado". A verdade é que apreciamos muitíssimo nosso próprio enredo. Portanto. e. momento. Aqueles que não estão prontos. confundimos as pessoas que têm grande poder e discernimento com a realidade de um Buda inteiramente iluminado. que poderia unir-se sem limites nem obstáculos a tudo que existe no universo. a pessoa pode enlouquecer e. Dependendo de qual seja nosso condicionamento neste preciso momento. por um. e. estado de graça. Não haveria no universo nada que ela não pudesse pronunciar sem aquele qualificativo Namu Dai Bosa. Ou talvez tenham existido uns poucos na história de toda a humanidade. vêem. acompanhando-o em retrospectiva. isso de fato acontece. Não há nada que você não confrontará antes de aceitá-lo do começo ao fim: ira. Pessoalmente. antes dessa total iluminação. Depois de cessadas toda necessidade e toda compreensão humanas. Bem. Adoramos nossas dores. prossigamos só com o sesshin. a indiscriminação de uma combustão incompleta pode ser trágica para mim e para vocês. aquele ser capaz de dizer daquele modo. Para essa criatura completamente iluminada (talvez um ser hipotético). E 19 . As pessoas dizem que desejam se livrar de seus problemas. Entretanto. ou aos problemas de sua vida. Você e eu não podemos dizer de verdade que isso se aplica a tudo. Eles têm uma "abertura". Um Buda seria. Claro que para essa pessoa há ainda confinamentos e limitações. o que significa que não pode possuir integralmente nem o próprio corpo. Entretanto. Observe-se quando estiver preso a um sentimento de autopiedade. empurrões: você tem de conseguir! Você tem de morrer! As mulheres e os homens chorando a noite inteira. e. Quando ficamos remoendo nossas desgraças prediletas. e que são boas moças e bons rapazes. Esse é seu enredo. pensando que somos apenas uma mente. O esforço para viver experiências de iluminação Uma de minhas citações favoritas do Shoyo Roku diz o seguinte: "Da árvore fenecida brota uma flor". irão se concentrar e atravessar essa fase.19 prática diária do sentar pode manter em combustão constante um fogo de baixa intensidade. de nos torturar e de nos lamentar. "Mas não é mesmo horrível! Estou tão só! Ninguém me ama!" Temos muito carinho por nossa hulha gorda. Aquém deste. Esse é o estado de Buda. O último estado que citei é tão restrito. existe um estado em que estamos completamente desprovidos de corpo. há a compaixão e a sabedoria. Participei de sesshins em que havia gritarias. que temos um corpo. Se um elemento for introduzido cedo demais. que qualquer avanço além do perímetro conhecido é causa de temor. no entanto. Façamos nossa prática corretamente. isso é o que se poderia chamar de integração mente/corpo. ou àquele estado "terrível" em que sua existência se encontra. só podemos enxergar até aí e só podemos abarcar essa extensão de conhecimentos. conseguimos nos manter como o centro artificial do universo. seu efeito será devastador. em geral. Aí podemos encontrar muitos dos efeitos estranhos e perniciosos inerentes à prática. sim. O máximo que podemos fazer é ampliar nossa capacidade para fazê-lo.

o poder se desenvolve aos poucos. Quando praticamos o sentar. começamos a saber quanto somos complicados. quando o momento está pronto. dotadas de um certo poder e discernimento. existe a certeza de nos adiantarmos no caminho. essa experiência é a coisa mais maravilhosa do mundo. Muito bem. pode criar equívocos. Sentem-na antes de a terem e estão preparados para sua vinda. Não é sensato simplesmente pegar qualquer um que se veja na rua e forçá-lo. Alguns mestres não entendem isso: trabalham de modo intuitivo e sem compreensão suficiente das diferenças entre as pessoas. a dificuldade continuava existindo. essa visão em si. Segue-se uma genuína tranqüilizarão e um autêntico aclaramento da mente e do corpo. Talvez acreditemos que uma experiência de iluminação seja como ganhar uma fatia de bolo de aniversário. quando essa ânsia de conhecer é forte. o poder se desenvolve. se praticamos bem. Consideremos a série de imagens com o boi (8). Entretanto. E. para mim. e precisamos ir mais devagar. porém bastante confusas porque sua evolução não vem sendo equilibrada. aliás. Dar-se conta disto. bem devagar. é a aniquilação. comparando-a a uma jóia maravilhosa. para ajudar-nos. Para ela. Deve-se interferir com uma grande cautela. Toda vez que voltamos nossa mente para o presente. Ter essa vivência é perceber que somos nada (não-eu) e não há nada no universo exceto mudança. Mediante uma prática paciente. para quem não estiver preparado. Quando o nível de intensidade da prática se eleva cedo demais. O mestre pode estreitar de propósito e concentrar a visão do aprendiz. quando não está muito bem integrada. Toda vez que efetivamente tomamos consciência de nosso devaneio mental. instruindo-o a trabalhar num koan como Mu (7). Há muitos anos perguntei a uma grande pianista: "Como posso melhorar minha execução desse trecho? Estou tendo dificuldade em tocá-lo?". mesmo para quem está pronto para viver esse instante. Esse equilíbrio não é fácil de pôr em prática. Não deveríamos ver muito antes da hora. Encontro pessoas que vêm praticando o sentar há muito tempo. melhor para ela. praticar de outro jeito. Por que então falar sobre iluminação? Quando a pessoa está pronta. no entanto. tudo pode se despedaçar. Uma experiência prematura de iluminação não é necessariamente boa. mas. Mas para quem não está preparado. por exemplo: as pessoas querem 20 .20 bom? Não necessariamente. há o perigo de desequilibrar a pessoa. com os níveis já superados de maturação. talvez. Deparamos com esse imenso poder fundamental que somos nós. Alguns mestres tiveram experiências enormes com os estados avançados. é fácil. É óbvio: podemos reconhecer essas pessoas apenas olhando-as. é evidente para o mestre e para o aluno o que fazer em seguida? Precisamos trabalhar pacientemente nossas vidas. Dessa maneira. houve alguém que mencionou essa experiência. A menos que a estrutura esteja firme o bastante para sustentá-la. segurança e poder -e ninguém aqui está livre disso. Com certeza. era simples e fácil. Porém. Mas não subestimemos o trabalho constante que temos de fazer em relação a todas as ilusões que o tempo todo interrompem nossa jornada. O zen não toma conta de tudo. verdadeiros malefícios. deixando de produzir bons resultados e. nossa vida pode crescer de modo constante em termos de poder e também em integração. eles vêem. então o poder será usado para o bem de todos. limpando-os e aperfeiçoando-os. talvez seja preciso dispender muitos anos praticando. não adiantou nada. nem mesmo eu. Ela respondeu: "Ora. Para os que estão prontos. O que estou pedindo a vocês é que sejam pacientes. é uma experiência libertadora. pode ser prejudicial. talvez até contando com experiências de iluminação para mostrar por onde ir. e não a harmonia e a paz. nossos desejos por sensações. Durante esta vida. a pessoa que não estiver preparada em nível emocional para essa tarefa pode. causando o oposto. peço-lhes que reexaminem alguns de seus pensamentos a respeito do querer conseguir a iluminação e encarem as incumbências que devem ser feitas com perseverança e inteligência. Só faça assim". "Formidável! Quero isso!" Contudo. mas não com os iniciais. Talvez existam em nossos eus complicados vários pequenos turbilhões que peçam a interferência de especialistas em outros campos.

sermos como somos. E. não morremos. Nesse sentido. Os progressos não são sempre permanentes e sólidos. "Numa árvore fenecida. estaremos nos enganando e acreditaremos que não é preciso pagar preço algum por uma vida realizada. ainda não morremos. ou dissolvê-lo em 21 . a não ser nós mesmos. na Bíblia: "Amenos que morras. a amiga. continuaremos resistindo à prática. podemos fazer mais. podemos estar na nona e escorregar de volta para a segunda. E ninguém.. a decepção passa a ser confrontada e. podemos servir mais. Quanto mais praticamos. Enquanto virmos nossa vida desse modo dualista. um dia compreendi que apenas eu posso pagar o preço da realização e do percebimento. Podemos procurar por um amante. um mestre. É difícil sustentar o conhecimento em sua plena potência. Todos partilhamos essa desilusão em graus variáveis. Poderíamos estar no décimo desenho há algumas horas e depois. O amor torna-se maior e a necessidade. é isso que constitui realmente a prática zen. O resto é sonho do ego. Portanto. porém. Eu não morri em nenhum desses sentidos. é perfeito. Ou desconsiderar seu marido. ter morrido significa que esses apegos não estão mais aí. Quais são algumas das maneiras pelas quais podemos nos esquivar ao pagamento desse preço? A principal delas é nossa constante má vontade em tolerar nosso próprio sofrimento. Enquanto tratamos nossa vida dessa forma. brota uma flor. essa necessidade. Não podemos amar algo de que precisamos. se precisamos ter uma certa posição. durante muito tempo. podemos nos identificar com nossa família. desidentificando-nos de forma gradual de tudo o que nos estiver contendo. Se queremos as coisas ao nosso modo. neste ponto do tempo. Desidentificarmo-nos de nossa família não significa não amá-la. passo a passo. se não nos for tranqüilo executar os serviços mais triviais. aos poucos. um centro -algum lugar. Para nós. uma religião. Por conseguinte. Já estive na companhia de pessoas notáveis. Enfim.. vamos entendendo (horror dos horrores!) que temos um preço apagar pela liberdade. É tudo que posso fazer. podemos incluir cada vez mais coisas em nossa vida. Até que compreendamos essa dura verdade. e ainda não encontrei ninguém desse jeito. pode fazê-lo por mim. Se necessitamos de aprovação. Contudo. no dia seguinte. nunca poderá pagá-lo. embora não tão intensa. Pensamos que podemos nos esquivar dele ou ignorá-lo. Se necessitamos de poder. O máximo que posso ser é a pessoa que sou neste exato momento. Porém. menor. não nascerás de novo". podemos incluir mais. o namorado.21 logo saltar da primeira para a última. Simplesmente estou consciente dos meus apegos e não mais atuo a partir deles o tempo todo. Este é o voto do bodhisattva (9). nossa prática é morrer devagar. Mesmo depois de a termos visto. ainda não morremos. Portanto. Se estivermos apegados a algum lugar. Sentar dessa maneira é o caminho. nossa resistência prosseguirá. e isso só nos leva a uma vida de torturas. À medida que nos identificamos cada vez menos com elementos externos. claro. alguém ou alguma coisa que resolva nossa dificuldade por nós. menor se torna essa necessidade. voltamos ao segundo outra vez. contentemo-nos com o ponto em que estamos e com um trabalho dedicado. Nos retiros. Com tais tentativas. ainda não morremos. Quando me dei conta dessa verdade. pratiquemos com tudo que temos. tentamos nos livrar desse incômodo por meio de vários mecanismos de escape sutis. faremos com que todos os nossos esforços se dirijam ao encontro de algo ou de alguém que cuide de nossa vida por nós. na proporção em que nossa prática amadurece. nossas mentes ficam claras e silenciosas. e não conheço ninguém assim. Conforme nossa prática prossegue. O preço da prática Quando achamos nossa vida desagradável ou insatisfatória. um ser realmente iluminado não é humano. Por exemplo. estamos tratando nossa vida como se houvesse um mim e uma vida fora de mim. basta que alguém se aproxime e nos critique!. ninguém mais mesmo." Ou. Ninguém mais. Se necessitamos ser vistos de uma determinada maneira. posso vivenciar isso e trabalhar com isso. então não morremos. levei um dos maiores choques de toda minha vida.

O esforço da prática é sempre ver o que a vida exige que lhe demos. embora ele seja crucial. Acreditamos ter o direito de não sentir a dor que está em nossa vida. Cedemos em nossa integridade. quando estivermos verdadeiramente abertos para nossas próprias vidas. com a prática. apenas não sinto vontade". enquanto não nos dermos conta do quão pouco interessados estamos em pagar o preço que for.22 nossas idéias. ou se investirmos nosso tempo tentando escapar a problemas (que são imaginários). e nunca teremos uma prática real. Pagar o preço quer dizer que devemos dar o que a vida exige que seja dado (o que não pode ser confundido com a indulgência. Superar essa decepção é perceber que. ninguém -mas ninguém mesmo –pode vivenciar nossa vida por nós. Infelizmente. não existe preço algum: é. mantê-las conosco. com consentir com as próprias fraquezas). o preço que deve ser pago é enorme. se for melhor assim. e não apenas no "lado espiritual" de nossa vida. enquanto estivermos na manobra da esquiva. não gosto do que ocorre lá". do que você é. Tal resistência mina nossa prática: "Não sentarei esta manhã. Tentamos apegar-nos a pessoas que pensamos ter poder para mitigar nossa dor por nós. De que modo cumprimos nossos compromissos para com terceiros. Desistimos de um relacionamento que já não satisfaz mais nossos sonhos. e do que preciso e quero de você -essa distância em si significa que ainda não estamos pagando o preço da jóia. e isso não é fácil. ou bens materiais. Talvez tempo. não há almoço grátis. Do ponto de vista comum. Esperamos e planejamos com ardor que alguém -nosso marido ou esposa. Uma jóia de grande valor nunca é um donativo. Não estou falando sobre estruturar um novo conjunto de ideais a respeito de "como eu deveria ser". o filho -cuide da dor por nós. não consigo controlar minha língua. Tentamos dominá-las. Nosso treino -pagar o preço -deve ocorrer vinte e quatro horas por dia. através de uma prática perseverante e consistente. mais compreendemos esse privilégio. A desilusão da separatividade diminui. Na realidade. o amante. ou dinheiro. 22 . conforme pagamos o preço da prática atenta. não estamos só pagando o preço por nós. "Não estou indo participar de um sesshin. Não podemos reduzir nossa prática apenas ao tempo que empregamos no zazen. de fato. quando é doloroso mantê-la. Quanto mais cresce nossa prática. Devemos conquistá-la. Nesse processo. Não é "minha prática é minha prática e a sua é a sua". Enquanto nos ativermos à nossa separação -minhas idéias a respeito do que sou. Devemos conquistá-la a cada momento. de cada palavra que pronunciamos. a jóia permanecerá sempre oculta. em contraste com o que desejamos pessoalmente dar. quando visto pela óptica da clareza. Essa árdua prática é o pagamento exigido. se fazemos ou não o esforço de atenção que é preciso a cada variado momento da vida. é preciso reconhecer. Ninguém pode sentir por nós a dor que a vida nos traz de modo inevitável. ou persuadir outra pessoa a removê-lo em nosso lugar. às vezes é não dar essas coisas. Quanto mais nos dedicarmos a esse esforço no transcorrer do tempo. Mas se continuarmos a remoer nossa vida como se ela fosse um problema. tampouco donativos. mas por todos os outros no mundo. estaremos nos impedindo a percepção do deslumbramento do que a vida é e do que nós somos. de que modo os servimos. os outros têm de organizar a bagunça que fazemos. "Quando fico com raiva. O preço que devemos pagar para crescer está sempre bem diante de nossa vista. cada vez mais conseguiremos valorizar a jóia que é nossa vida. pois. Por trás de todas essas evasões está a crença de que os outros têm de nos servir. descobrimos que a dor dos outros e a nossa não são mundos separados. Por que não consigo?". abriremo-nos para toda a vida. Contudo. Refiro-me a alcançar a integridade e a plenitude de nossa vida através de cada ato que executamos. tudo isso é pagar o preço da jóia. e até enganá-las para que se incumbam de nosso sofrimento. um privilégio. se desejamos encontrar a jóia.

Mas devemos ter um certo nível de felicidade relativa e de estabilidade para nos envolvermos com uma prática séria. ficamos muitas vezes confusos. Por quê? Porque não há de modo algum meio pelo qual a pessoa infeliz -perturbada consigo ou com os outros. No entanto. Entretanto. como já mencionei. Descobrir essa jóia -é no que consiste a vida. portanto. A coisa importante (já que essa é a única realmente satisfatória) é seguir esse caminho. Compreender a própria natureza como não-eu –um Buda -é fruto do zazen e do caminho da prática. e os primeiros anos de zazen são principalmente dedicados a esse movimento. é benéfico a tudo. Não é nem estar autocentrado. Sendo autocentrados. as pessoas são muito diferentes entre si e não podemos generalizar. É assim que a maioria das pessoas vivencia a própria vida. quando o meio externo se nos opõe. Por que digo "relativa" felicidade? Independente do quanto podemos sentir que nossa vida é "feliz". Ter um "eu" significa que somos autocentrados. uma terapia inteligente pode ser proveitosa nessa etapa. em última análise. talvez. se ela estiver baseada num eu. começamos 23 . Quantos estão dispostos a pagar o preço? A recompensa da prática Estamos sempre tentando levar nossa vida da infelicidade para a felicidade. porém. O não-eu. não nos aborrecemos a todo instante. Embora não estejamos familiarizados com o lado oposto ao eu (não-eu). é um feito instável. Não-eu não significa desaparecer do planeta ou deixar de existir. (e. Não apenas isso. está desapegada e. poderíamos dizer. Algumas terapias buscam levar-nos de um eu infeliz para um eu feliz. Ou. A prática zen. algumas outras disciplinas e terapias) pode ajudar-nos a sair do eu infeliz para o não-eu. é estar centrado. tampouco centrado no outro. a prática precisa acontecer dentro de uma estratégia organizada. Para a absoluta maioria. não podemos ter uma resolução final.a base toda de nossa vida precisa mudar. Por que não pode haver uma resolução final para uma vida que se baseia num eu? Porque tal vida está fundamentada numa premissa falsa. que facilmente se perde. é reagir de imediato com aspereza. é a saída da relativa infelicidade para a relativa felicidade. ser o não-eu é alegria. Por isso. não nos irritamos com facilidade. por isso. mas nunca a veremos a menos que nos disponhamos a pagar seu preço. ou com as situações -possa ser a vida do não-eu. ou preocupados. Começamos a notar nossos padrões. Enquanto nos debatemos com a questão de nossa verdadeira natureza -eu ou não-eu. numa dissolução implacável do eu. todo sentimento. toda orientação da vida devem ser transformados. Não somos ansiosos. O primeiro passo que devemos dar é nos mudar da infelicidade para a felicidade. por não se opor a nada. porém.23 Conquanto oculta. Ficamos aborrecidos facilmente. o primeiro estágio da prática deveria ser o nosso deslocamento da infelicidade para a felicidade. Para travar de modo adequado essa batalha. nossa vida não tem o sabor característico da confusão. principalmente. tentemos pensar que espécie de vida poderia ser a do não-eu. todos nós acreditamos nisso. Toda prática que interrompa a adaptação provisória do eu é. Sem exceção. não podemos (ou não devemos) tentar saltar este primeiro movimento de uma relativa infelicidade para uma relativa felicidade. apenas. Para algumas pessoas. Quais poderiam ser os passos dessa prática? O primeiro. Mas essas coisas não são as mesmas: sair da infelicidade para a felicidade não é o mesmo que sair da luta para a alegria. Assim. Ser autocentrado -e. podemos estar em condições de tentar o estágio seguinte: filtrar com inteligência e persistência as várias características da mente e do corpo através do zazen. A vida do não-eu não está centrada em coisa alguma em particular. mas em todas as coisas. a jóia está sempre presente. ou seja. em oposição a coisas externas -é ser ansioso e ficar preocupado consigo mesmo. todo propósito. a de que somos um eu. e. Então. que é a alegria. Na melhor das hipóteses. desejamos nos mudar de uma vida de lutas para uma de alegria. insatisfatória. as características de um eu não podem aparecer.

e lutando para evitar dores mentais e físicas. mesmo quando isso acontece. é a chave do entendimento. Em seu autocontrole. p. Mu: koan que costuma ser atribuído aos principiantes como estratégia de concentração de seu foco mental. Pode parecer encantadora enquanto falamos sobre ela. 130. Seu significado literal -"não". Uma vez que só podemos viver nossa vida através de nossa mente e corpo. eles apenas se dissolvem lentamente com o tempo. 24 . bem aqui e agora. Eles estarão presentes. Huang Po. não há quem não seja um ser psicológico. mas. à medida que pomos a nu o que antes mantivera-se encoberto. Temos pensamentos. desanimador. esforçando-nos para satisfazer desejos. 7. mas em satisfazer as necessidades da vida. a prática determinada é sempre solapada. e nada incandesce mais essa luz do que um zazen inteligente. o meio. Grove Press. Por quê? Por causa de nosso costumeiro modo de viver em busca de felicidade. contudo. 1959. Compare The recorded sayings of Ch'an Master Lin-chi Hui-chao of chen prefecture. Conforme nossa prática continua. nossas necessidades. ao pô-la em prática pode ser horrível. não em satisfazer desejos pessoais. Durante um certo período nossa vida pode ficar pior do que antes. 9. A série de figuras do boi é uma seqüência tradicional de desenhos mostrando a evolução da prática. Porque o não-eu é tudo. Não precisamos tentar abandoná-los. tais como são. pois. sutilmente se altera. Aprendemos na boca do estômago e não só com nosso cérebro que uma vida de alegria não está na busca da felicidade e. Japão. o não-eu -que está sempre presente -pode começar a manifestar-se e com ele aumentam a paz e a alegria ao mesmo tempo. não há solução. 4. mas em sê-la quando necessário. enquanto essa transição está acontecendo. Mas. esses vícios são o que chamamos de eu. 9 ff. que talvez sofra com os caprichos das circunstâncias externas. traduzido por Ruth Fuller Sasaki. realizado todos os dias e nos sesshins. representa um elevado estágio do estado de Buda. não necessita de recompensa. persistência e coragem. 5. nossa prática é seguir infindavelmente esse não-caminho. da ilusão até a iluminação. porque. sem se importar com nenhuma recompensa. Huang Po. sim. Para manter a prática através de dificuldades graves. Esse processo. 8. e começamos a perceber que esses padrões. devemos ter paciência. Kyoto. temos uma sensação de crescente saúde interior e compreensão. isenta de problemas. a paz aumenta. se dedica a auxiliar as outras pessoas a atingirem a libertação. compreendemos que não há caminho. diminui o falso e aumenta o verdadeiro. esperanças. sabedoria e compaixão. começamos a entender o vazio e a impermanência desses padrões e acreditamos que podemos abandoná-los. é às vezes assustador. Nota do Editor: Bodhisattva é um ser iluminado que acatando seu próprio e total estado de Buda. Essa vida que se transforma devagar não é. a solução real deve vir de uma dimensão que seja radicalmente diferente da dimensão psicológica. esses desejos. nossos impulsos egóicos. embora fácil de ser mencionado. Porém. Porque não há caminho. não capta por inteiro sua significação para a prática zen. quando a luz da conscientização incide no que quer que seja. no experimentar e simplesmente ser as circunstâncias de nossa vida. tudo aquilo que pensávamos era nós mesmos durante tantos anos. nossa natureza é o caminho. Nova York. é o caminho mais fácil. desde o não-início é em si mesmo a realização completa. Com o desaparecimento de alguns desses padrões. The Institute for Zen Studies. e está sob ataques. não em evitar a dor. The zen teaching. uma sensação de satisfação básica.24 a observar nossos desejos. p. através da imagem de um homem que domestica o touro selvagem. in Blofeld. E a vida. um Buda totalmente perfeito. 6. aumenta a capacidade de viver de modo benéfico e compadecido. Podemos sentir um medo imenso. ou "nada". 1975. podemos ser feridos ou ficar aborrecidos. No entanto. A prática do desapego. Por fim. a alegria aumenta. 33. É tarefa grande demais? Difícil demais? Pelo contrário. Traduzido por John Blofeld. mas ainda não está supremamente iluminado. desencorajador. o crescimento do não-eu. de The zen teaching of Huang Po. para quem tiver paciência e determinação em sua prática. não há meio. desde o começo.

devemos atravessar um portão. a prática zen é fazer isso. Depois. não existe portão algum por onde tenhamos de passar a fim de darmo-nos conta do que nossa vida é. creio que é uma boa idéia simplesmente dar um passo atrás: fazer e dizer o mínimo possível. a filha do orgulho é a raiva. Da mesma forma. as economias da família comprando um carro novo -e acho que nosso carro atual está bom. O que quero dizer com "observe"? Observe a novela que está passando na televisão da cabeça: o que ele (o marido) disse. Acredito aliás. Ela mexe aqui. devo praticar as coisas mais elementares). numa dimensão espiritual. põe. Bem. temos de ir além do portão de nosso próprio orgulho. Genpo Roshi. apenas sente e observe. temos de confrontar nosso orgulho. digo todos os tipos de frustrações. num determinado momento. Suponhamos que sou casada e discuto com meu marido. o ressentimento e o ciúme. faça e diga o mínimo possível. e. fico furiosa. o que tenho a dizer a respeito disso tudo. Ele fez alguma coisa de que não gostei -gastou. Preferimos alimentar nosso orgulho. Ela desenvolve a habilidade de dar um passo atrás e olhar. até que sejamos capazes de ver que. Quando me refiro a raiva. Se pudermos rotular esses pensamentos (difícil de fazer quando estamos com raiva). Fico com raiva. costura e arremata. Bem. Quando recuo um pouco que seja. como foi que ficou o arranjo pronto. afaste-se. mas 25 . Agir assim é o mesmo que penetrar em uma outra dimensão. de fato. o que desejamos. Bom. Entretanto. posso me lembrar de que o que na realidade desejo é ser aquilo que poderia ser chamado de Um Continente Maior (em outras palavras. dá um passo atrás para ver as flores. ("Não busque. devemos dar um passo atrás e dar uma olhada.. Não obstante. de alguma maneira -todos nós que estamos aqui. no auge da raiva. a Verdade: apenas cesse de alimentar suas opiniões. primeiro corta o pano e une as peças. o que eu deveria fazer sobre o caso. devemos fazê-lo. o que fez com elas. não é ter razão. e em um determinado momento. do ponto de vista da prática. A qualidade ostensiva de qualquer discussão é o orgulho. digamos. eu sei -que tenho razão.") E por isso que o primeiro ato é dar um passo atrás. falava do "portão sem portão" e enfatizava que. o portão de nosso orgulho. falar pouco. é impossível à maioria efetuar a prática no desenrolar do drama. tira. quando estiver sozinho. para pôr nossa vida em perspectiva. tente de fato dar um passo atrás. observei que Laura fez um lindo arranjo de flores. o que posso então fazer com a minha raiva? O que é proveitoso que eu faça? Antes de mais nada. desde o momento em que nos levantamos pela manhã. Tomemos um exemplo prático. entendemos o que significa distanciar-se de um problema. Consideremos uma seqüência de passos da prática. que não é um portão. ter "razão" na discussão. no argumento. Por que é tão difícil? Quando estamos com raiva. segundo ele. Quero gritar. um dos grandes mestres zen da atualidade. todas essas considerações são fantasia. Semanas de prática assídua podem passar. Não são a realidade do que está acontecendo. Para ultrapassarmos esse portão. Todos nós. Em termos de vida diária. Falo tanto da raiva como do modo de trabalhar com ela porque entender como praticar com a raiva é entender como aproximar-se do "portão sem portão". Se você está costurando um vestido. ali. há um enorme obstáculo no caminho da prática: o fato de não querermos praticar. tendo em mente que. Por exemplo. se quisermos dar-lhe um nome.25 CAPÍTULO 3 Sentimentos Um continente maior Com 95 anos de idade. Está penso nos ombros? Como está a bainha? Está caindo bem? Tornou-se um vestido adequado? Você dá um passo atrás. incluindo a irritação.. uma discussão. você vai para a frente do espelho para ver como ficou. o que ele fez.

Quando fazemos isso. Nunca precisa parar de crescer. saboreio a "unidade" de modo direto. É como um dique que se rompe. Para algumas. visto que na experiência direta não há dualidade. e a compreensão é gradativa. é essa capacidade de observar que deve ser expandida. porque essencialmente não é nada em absoluto. Podemos falar sobre "unidade" até o final dos tempos. é bastante difícil de fazer quando estamos com raiva -. Temos medo da inundação e de sermos tragados pela voragem. crescer. não deixa de ser uma novela. é que devemos praticar. o que me resta? Resta-me a experiência direta da reação física de meu corpo. quem é este "eu" que observa? Ele me demonstra que sou diferente de minha raiva. Ao fazermos essa prática. Quando isso acontece. Se realmente recuarmos e observarmos -o que. dois outros fatores: a sabedoria. Necessitamos reconhecer os momentos em que não estamos com disposição para efetuá-la. aumentam. em enormes ondas emocionais. e esse conhecimento permite-me construir Um Continente Maior. ao mesmo tempo. por assim dizer. A compaixão cresce conforme criamos Um Continente Maior . vou encontrar um jeito de me vingar. Portanto. aquilo que pode testemunhar minha mente e meu corpo deve ser algo que não seja minha mente e meu corpo. 26 . Se posso observar minha mente e meu corpo num estado de raiva. não como a verdade. seremos com o tempo capazes de enxergar nossos pensamentos como pensamentos (irreais). cada vez maior. e o modo como esse processo se desenrola varia de uma pessoa para outra. Dê um passo atrás e observe. porém. sim. Para outros. a consciência não é uma coisa. primeiro para observar e depois experimentar. Não podemos ter compaixão por ninguém nem por nada se nosso encontro com eles está tingido de raiva e orgulho. o importante é termos a habilidade de observar o aborrecimento. antes de os pensamentos por fim cessarem. o processo pode transcorrer de maneira suave. E não faz mal que não a façamos sempre. é criado Um Continente Maior. Estamos fazendo sempre aquilo para o que estamos prontos. Não há mistério nenhum. é impossível. descobriremos que existe um limite para o tamanho de nosso continente e. O estado de iluminação é aquele espaço enorme e compadecido. depois fica maior. esse espaço é bastante restrito. não consigo suportar o que ele está fazendo. como para o outro também. nesse ponto. sim. No entanto. a testemunha não é uma coisa. Não há ninguém testemunhando. vem em ondas. vinte. contração). dependendo de seu condicionamento e história pessoais. Como sabemos onde se localiza esse ponto-limite? Estamos nele quando sentimos em qualquer nível raiva ou aborrecimento. estamos penetrando profundamente em nossa vida tal como a conhecemos. Conforme essa habilidade se expande. que é a ação natural decorrente de ver a vida como ela é. Quando vivencio de forma direta o resíduo (como tensão. No início. A força de nossa prática está no tamanho que nosso continente alcança. ele não deveria ter feito isso. O que é criado. qual a ação a ser empreendida (samadhi). o resíduo. Tudo isso pode se dar num nível superficial. Quando efetuamos a prática. enquanto vivermos. é o tanto de vida que posso conter sem que ele me aborreça ou me domine. Um Continente Maior não é uma coisa. e a compaixão. Não é importante estarmos aborrecidos. Essa prática de fazer Um Continente Maior é em essência espiritual. Ninguém tem vontade o tempo todo.26 ser Um Continente Maior. Ao tornar-me Um Continente Maior. Rotule os pensamentos do drama: sim. nem uma pessoa. precisamos ser caridosos com nós mesmos. Como efetivamente nos destacamos dos outros? Como? O orgulho do qual a raiva nasce é o que nos destaca. A solução é uma prática na qual vivenciemos essa emoção de separação como um estado corporal definido. Houve ocasiões em que repeti o processo dez. Ali se sabe qual é a melhor atitude não só para mim. O que observamos sempre é secundário. Apesar disso. entro lentamente naquela dimensão que sabe o que fazer. trinta vezes. que sou maior do que minha raiva. como disse. que é a capacidade de ver a vida tal como ela é (e não do jeito que eu gostaria que fosse). o que cresce.

Nada poderia estar mais distante da verdade. Não precisamos nos livrar de todas as nossas tendências neuróticas. se romper depressa. Hoje de manhã. Uma pessoa iluminada não terá paredes a sua volta. esse é nosso orgulho. jamais nos livramos de coisa alguma. Vocês se lembram: alguém ficou tão curioso a respeito do conteúdo daquela misteriosa caixa. que finalmente a abriu e tudo que havia de mau saiu de dentro. sou a instrutora! Abrindo a caixa de Pandora A qualidade de nossa prática está sempre refletida na qualidade de nossa vida. nunca conheci alguém que eu sentisse estar completamente livre delas. Essencialmente. ao praticarmos (e muitos aqui sabem disso muito bem). deixam-na retomar o que simples e verdadeiramente é. e. Antes era uma prancha cobrindo a água borbulhante. pode até ser invisível. mas às vezes também ficamos mais mordazes. sentiremos a presença de uma parede. Todos nós nos sentimos separados da vida. o que fazemos é começar a ver como são engraçadas. sempre há um dique para estourar em algum ponto. está tudo certo. mais importante é que o dique ceda com lentidão. Queiramos ou não. é claro. 27 . agora. Mas na realidade nunca enxergamos que somos loucos. tornamo-nos mais sensíveis. mais claras. mais fáceis. por muito tempo. a prática é sempre assim: abre a caixa de Pandora. poderíamos dizer que a prática nos transforma em princesas. Por isso. que antes desconhecíamos. mas nossa parede nos mantém inconscientes disso tudo. A outra história foi sobre a caixa de Pandora. tremer e ficar transtornado não são coisas indesejáveis. Não obstante. enquanto tomava café. acredito ser importante que o processo não aconteça rápido demais. creio que deveria ser desacelerado. Bem. mas ela está lá. Aquele dique está começando a se romper. Se de fato estivermos praticando. Para nós. que seja. permanecem vivos por tanto tempo. contudo. a parede fica cada vez mais fina e transparente. haverá uma diferença com o passar do tempo. é que ela tornará as coisas mais confortáveis. Em tempos remotos. Quando esses trinta minutos acontecem dia após dia. Pode não ser uma parede muito visível. da graça de viver com outras pessoas.27 É como ter contido parte do oceano atrás de frágeis diques que. Entretanto. com o prosseguimento da prática. Enquanto nos sentirmos separados da vida. O primeiro conto que me surgiu foi o da princesa e a ervilha. quero enfatizar apenas que não tem de ser obrigatoriamente assim. o teste para se saber se a princesa era verdadeira consistia em fazê-la dormir em cima de uma pilha de trinta colchões e ver se ela podia sentir a ervilha embaixo do último. assim como nós. Pensamos que somos todos do mesmo jeito. e há alívio nisso porque agora ela pode fluir com as correntezas e a vastidão do oceano. mas é provável que. Bem. mais pacíficas etc. Os contos de fadas implicam algumas verdades básicas e fundamentais sobre as pessoas. Tornamo-nos muito mais sensíveis. Claro que eu não sou louca. dois contos de fadas surgiram de repente em minha memória e imagino que nada que aconteça assim seja desprovido de algum motivo. mas não é preciso que se quebre rápido demais. não importa quanto nossa vida possa ter transcorrido com suavidade. Essa parede vem nos mantendo distantes do contato. sentiremos que existe uma parede a nossa volta. quando explodem sob o impacto da água. a prancha começou a ter furos. Se for acelerado. pois a prática nos torna mais cônscios e sensíveis. como apenas fazem parte do lado engraçado da vida. criando o caos. afinal de contas. São todas loucas. Lembremo-nos ainda de que um pouco de humor a respeito de tudo isso não é uma má idéia. podemos estar tendo pensamentos perturbadores. Chorar. Talvez estejamos ansiosos. Não podemos nos sentar imóveis durante trinta minutos sem aprender alguma coisa. uma das ilusões que talvez alimentemos quanto à nossa prática. Porém. Passamos a conhecer coisas a respeito de nós mesmos e dos outros. a parede começa a ter buracos. quanto mais repressora e difícil tenha sido a infância. aprendemos cada vez mais. É melhor desacelerar. aprendemos. Contudo.

estimular os esforços da pessoa. na ginástica ou na música. A caixa está se abrindo agora para muitos de vocês . Se vocês já estão praticando o sentar há vinte ou trinta anos. quando a caixa começa a se abrir. Entretanto. desejamos que nossa vida se aquiete e fique mais livre de reações contínuas. posso facilitar a prática e. É preciso uma coragem muito grande para ter uma verdadeira prática. querendo ou não fazê-lo. a libertação aconteceu muito suave e discretamente. o que nós desejamos. se temos idéias ingênuas quanto a essa transformação ocorrer sem que paguemos um preço. o elemento crucial é como praticamos essa efervescência. só para algumas pessoas) em que a caixa parece explodir e. evidentemente. A caixa de Pandora consiste em todas as nossas atividades autocentradas e todas as emoções correspondentes que elas criam. Em minha própria vida. é normal para as pessoas que estão neste caminho. que precisa estar ali para que a prática possa firmar-se. é como se a caixa de Pandora começasse a se abrir. em vez de nos sentirmos melhor. A maioria não gosta de sentar quando isso está acontecendo. um furacão de emoções começa a rodopiar. é desejável. uma vez que a compreensão não é toda previsível. a tampa sai e tudo que nunca quisemos ver em nós mesmos vem borbulhando à tona e. é uma vida na qual nossos votos sobrepujam nossas considerações pessoais comuns. Se essas atividades o satisfazem. uma raiva inesperada pode emergir (mas. Esse conselho pressupõe a 28 . mas aqueles para quem essa erupção se resolve com mais facilidade são os que não desistem jamais de sentar. Não é nem bom nem mau. A segunda não dura para sempre. Em vez disso. se fazem ou não os sesshins não é tão essencial. aliás. Conforme a prática no Centro vai amadurecendo. Mas. esse período é muito doloroso -isto é. as duas coisas acontecem juntas: a transformação e o desconforto. Como instrutora. É apenas o que tem de acontecer. estamos nos iludindo. Você terá de encarar tudo a seu respeito que estiver oculto dentro da caixa. haverá momentos (não para todos. é uma fase em que precisamos entender nossa prática e saber o que é a paciência. se de fato. aliás. Não pratique a menos que sinta que deve mesmo. de repente. então a prática será muito difícil. Em especial. Quando as bolhas sobem (o que acontece com a prática). Na prática. Porém. mais do que em qualquer outro momento da vida. a ilusão que temos de que a prática será sempre pacífica e amorosa não se sustenta. Claro que aquilo que encobrimos é a parte que não desejamos conhecer a respeito de nós mesmos. mas só um estágio) no qual a única coisa que nos interessa é como nós nos sentimos. devemos estar determinados a conseguir que nossa vida desenvolva um contexto universal e a vida dos outros também o desenvolva. Parte alguma deste processo é indesejável. Talvez devêssemos esperar um pouco mais. podem haver algumas surpresas e até mesmo perdas. Portanto. Para alguns. execute-as. é necessária. Por exemplo. significa que a caixa de Pandora não esteja se abrindo. em nível ideal essa caixa jamais deveria ser lançada ao ar para se abrir de uma vez. mas não posso dar a ninguém essa determinação inicial. quando trabalha de forma adequada. incluindo algumas coisas desagradáveis que não deseja nem mesmo ouvir falar. Porém. talvez porque eu estivesse praticando bastante o sentar e participando de inúmeros sesshins. Não pratique amenos que acredite que não há mais nada que você possa fazer. Que a caixa se abra. A primeira. não a atire em mais ninguém). Para ter uma prática zen. Às vezes. Ela irá transformar nossa vida. Se estivermos num certo estágio de nossa vida (que não é nem bom nem mau. A terceira. vejo que a vida da maioria dos alunos se transforma.28 Pedaços da prancha podem até despencar e assim a água começa a borbulhar pelos furos e pelas falhas. sentimo-nos pior. por favor. isso é perfeitamente normal e necessário. numa certa época é de vital importância e vocês devem fazê-los tanto quanto sua situação de vida permitir. mergulhe de cabeça no surf.como é que vocês irão lidar com ela? Preciso que saibam algumas coisas a respeito dessa perturbadora fase da prática. A prática não é fácil. Mesmo que estejamos praticando bem. Isso não. precisamos desejar um determinado tipo de vida. é uma fase na qual se deve fazer sesshins. Em termos tradicionais.

no entanto.29 força de manter essa intensidade da prática. porque é impossível dizer com exatidão a verdade. nossa vida inteira está confusa porque misturamos nossos conceitos (que. em si mesmos.. as pessoas precisam de outros dez anos ou mais. deixando que a vida lhes ensine todas as lições. é perfeição". às vezes. Hoje quero contribuir com a confusão. Apesar de tudo. Acabo sempre exagerando um pouco para um lado ou para outro. numa inundação) daquilo que antes não percebíamos de modo consciente: nossa raiva diante da vida. pode ser muito mais útil aos outros do que uma pessoa que. Às vezes. ficamos de fato com muita raiva: o que aquele cretino acabou de fazer? Foi só pintar meu bote de novo e.. bate em cheio! Nesse momento. o que eles são. E. nossa raiva da vida não ser do modo como desejamos que ela aconteça. Um aprendiz. Sendo assim. e tentando elucidar o que poderia ser a vida para uma outra pessoa. No sangha podemos ser honestos. É nosso ego. E não é isso. aquilo que nos aborrece e perturba tanto. Não vou mais mencioná-lo! Porém. da neblina. O mais doloroso é pensar que existe algo de errado comigo e ninguém mais está tendo os mesmos problemas. por uma razão muito clara: as pessoas entendem de modo equivocado os preceitos como proibições -"não deves". De repente. As dharma palestras não são necessariamente algo que se possa entender: se elas abalam o ouvinte e o confundem. Essa é uma das coisas importantes de um sangha: é um grupo de pessoas com uma referência mútua de prática. neste sentido. "Não me convém! Não oferece o que eu desejo! Quero que a vida me trate bem!" É nossa fúria quando as pessoas e os acontecimentos em nossa vida simplesmente não nos dão aquilo que exigimos.. contrastando-a com nossas ilusões a respeito dela. É muito difícil de se falar a respeito disso. de modo algum.. as dharma palestras tendem a desafiar nossos conceitos habituais. e é assim mesmo.. "quebrando a cara". tal como é. gostaria que compartilhassem aquilo que sentiram ser útil nesta etapa de sua prática. não precisamos esconder ou encobrir nossas lutas. nos divertindo. quando alguém está fazendo algo terrível. Usar as palavras de uma certa maneira acrescenta muita confusão. de repente percebemos que o outro bote a remo está vazio. Por exemplo: podemos dizer que todas as pessoas do universo. antes que se sintam prontas para o compromisso de uma prática tão intensa. "Não fique com raiva" Quando dou uma palestra. isso faz parte de nosso treinamento. Em alguma outra oportunidade. porém. O que 29 . em certo sentido. através de meios que me parecem adequados. como eu. a caixa de Pandora. são absolutamente necessários) à realidade. minha palestra de hoje versa sobre "Não fique com raiva". sem que possamos saber de onde. uma vez mais. e vejamos o que nos é possível entender disso tudo. Suponhamos que estejamos num lago e há um pouco de neblina. tenham de fazer exatamente isso. estão fazendo o melhor que podem. Talvez vocês estejam agora no exato momento de abrir a caixa. Nunca apresento uma dharma palestra sem detestar o que fiz. Claro que isso não é verdade. nem do caminho de oito etapas. Ela ferverá cedo ou tarde. E a mesma dificuldade que temos com a sentença "Tudo que existe. pode ser que. Perfeição? Melhor? Em outras palavras. Quero deixar isso bem claro. Entendo o conflito bastante bem. E. Não é "mau" não querer uma prática tão dedicada. só um pouco. ou então uso as palavras erradas e alguém fica confuso. vem um outro bote a remo justamente em nossa direção. Neste centro não se fala muito dos preceitos. neste momento particular. hoje falarei sobre o preceito "Não fique com raiva". é o afloramento (às vezes. o termo "melhor" cria confusão. craque! Bem. não muita. durante um minuto ou dois. Vou contar-lhes uma rápida história. Desta forma. a lembrança real do quanto foi difícil está quase apagada. estou tentando elucidar do que trata a vida para mim.. e estejamos remando. depois comentarei diversas outras coisas também. mal consegue se recordar desse estágio. Na realidade. está fazendo o melhor? O mero uso de palavras cria uma tremenda confusão em nossas vidas e em nossas práticas.

Uma vez que é assim que o desejo. mas você se lembra daquele que fomos ver porque você queria assistir! O que me diz a respeito?".. às 17 h. Vocês entendem? Não temos de analisá-las. não perdemos todos os nossos trejeitos neuróticos prediletos apenas com a prática. Na hora do almoço a casa é toda minha. Então. vocês podem dizer que com as coisas nesse nível de fato não faz diferença. Mais um exemplo e depois chego ao ponto que desejo elucidar. e ela é maravilhosa. Isso não é bem verdade. o quê? É perfeito do jeito que é. As pessoas costumam questionar: "O que obtenho com a prática? Qual é a mudança? Qual é a transformação?". Se alguém querido morre. blá. gosto de pôr o secador de pratos lá dentro como se fosse um prato. e terminamos indo a um filme que talvez. conforme a vemos nas histórias que contei. Qual é a moral dessas histórias? Basicamente. nem eu. Ou: "Para ser sincero. Do que estou falando quando digo que a vida não passa de um encontro. entretanto. "comunicarmo-nos" a esse respeito. pois são sem dúvida triviais. Blá.. Há também uma outra coisa a respeito de Elizabeth. Vou ter de pintar meu bote outra vez e pronto. não a consideramos 30 . Mas e quanto aos problemas sérios. Para nós. se naquele bote a remo que bateu no nosso tivesse alguém dentro. sei que ela está voltando. então a maravilha da vida é ser precisamente só esse sofrimento da perda.. Isso significa que. não sou tão atencioso. Que proveito tiramos disso? As pessoas costumam pensar: "Vou melhorar. quero relatar-lhes alguns pequenos incidentes para esclarecer um pouco mais o ponto. talvez com essa prática do sentar eu me torne mais delicado". e quando ela quer encontrar algo também não consegue nada. que realmente estivessem nos causando danos sérios.. Moro com ela. Estar com esse sofrimento do jeito que você está com ele. com os acontecimentos são semelhantes a sermos abalroados por um bote vazio. porque se houver uma xícara suja posso escondê-la dentro do secador. Nem minha filha. mas essas pequenas briguinhas são o estofo da vida. Como estou aposentada. A maior parte da vida. na realidade damos a mínima para o filme. faço o quê? Na realidade. Depois que limpo a pia. A maravilha de se viver com qualquer coisa que seja é. porque já joguei fora. costumo esquecer tudo e coloco o secador do jeito de sempre. Somos instruídos a sentar todos os dias. não é assim que vivenciamos a vida.30 acontece com nossa raiva? Bem.. Vou Ihes contar o que acontece quando vou ao cinema com minha filha: "Mãe... A prática zen é um trabalho muito árduo. E eu retruco: "Bem. qual teria sido nossa reação? Vocês sabem muito bem o que teria acontecido! Bem. nossos encontros com a vida. Entretanto. Contudo. Entretanto. nada me é mais indiferente do que o secador de pratos. e isso é o máximo que se pode comentar a respeito. é óbvio que esse é o jeito certo. A prática é justamente ter disposição para estar com o que há tal como se é. sou um homem ou um rato? O que vou fazer com esse secador? Vou pô-lo do jeito que Elizabeth quer?". delimitá-las. não consigo achá-la. com as outras pessoas. A alegria de minha vida é encontrar algo em meu armário da qual possa me desfazer. como sofrimento e angústia? O que estou falando é que eles não são diferentes. É restritivo e difícil. Entretanto. Então penso: "Bem. Porém. porque tem coisas demais. É justo o que ela tem de engraçado. mesmo que a expressão "ter disposição" não seja muito adequada. Vou ficar melhor. de uma abalroada com um bote a remo vazio? O que isso significa? Deixemos a pergunta de lado por um momento. Bem. e fico em casa a maior parte do dia. é engraçada. ser o que você é. é fantástico! Elizabeth tem três exemplares de tudo e não quer jogar nada fora. ela limpa o secador e o vira de cabeça para baixo para que possa secar. você sabe que suas escolhas de filmes são impossíveis!". desaparece. não podem existir duas pessoas mais diferentes como nós. Por isso. quando quero encontrar alguma coisa. que é o seu jeito e não o meu. Desejo falar a respeito da pia da cozinha da casa onde moro com Elizabeth. blá. não é mesmo? Quando Elizabeth lava a louça. seja qualquer um. se costumo me alterar com facilidade.. é como se houvessem pessoas no outro bote. Mas. talvez depois de sentar não me alterarei tanto".

Quero agora levantar mais um aspecto: penso que uma prática madura favoreça a capacidade de estar com a vida e na vida. depois de tanto tempo você não consegue usar o cinto de segurança!". você consiga arcar com um pouco mais. que você não tenha toda sorte de opiniões. atravessei o pontolimite e agora o que espera é o próximo. essas coisas são encaradas de outro jeito. que apenas não conseguimos suportar. Em dez anos. Essa área cresce. Entender isso. É o que significa tudo isso. estar com as outras pessoas. A prática não é fácil. Deixar ser. o limite está aqui perto. para os outros. isso aconteceu na semana passada. Sempre existirá. A simples maravilha de Elizabeth ser Elizabeth. e é nesse ponto que devemos aplicar nossa prática. A questão da prática é fazer avançar o que chamo de pontolimite. No começo só conseguimos agüentar certas coisas desse modo. E assim por diante. Em um ano. permitindo que. Existem em todos nós. com todas as coisinhas acontecendo. E engraçado! Gosto das minhas discussõezinhas com minha filha: "Mãe. mas não poderemos ficar correndo indefinidamente. e a vida à sua volta também não. mas quem sabe. É isso que estamos fazendo aqui. Quando não pudermos fazer isso. Não significa que ela possivelmente seria diferente. saberemos que um sinal foi dado: hora de praticar. e a maioria tentará tanto como nós. não crescerão. o sofrimento terá aparecido. tudo isso é prática. Desta maneira. Todo mundo. Vocês podem dar-lhes as costas e recusar-se a vê-los. Vocês. ela é perfeita como é. E será a minha prática. mas existe sempre aquele ponto cego onde não conseguimos enxergar a perfeição. Se estivermos praticando por tempo suficiente. não consigo. começamos a sentir nossas grandes deficiências. Pensamos que a outra pessoa deva ser diferente. Se vocês estão praticando o sentar há pouco tempo. Todos têm esse ponto. 31 . Você tem sim! A questão não é essa. coisas que não conseguimos aceitar como são. Porém. Para mim. apreciem sua vida e apreciem uns aos outros. Isso não significa que você não teça todas as suas pequenas considerações. Sentados como estamos. Se estivermos praticando o sentar por algum tempo. É provável que você não consiga evitar fugir mais do que por limitados períodos de tempo. morrer. quando chegarmos ao ponto-limite. Podemos tentar durante um certo tempo. Não estamos tentando nos tornar alguma espécie de santo. permanecer e morrer. quero que vocês considerem sua prática de sentar. de modo que possamos suportar cada vez mais. talvez um pouco mais. que odiamos. Contudo. Ele estará vindo logo. Tomem consciência de seus pontos-limites. não nos recordaremos de nada isso! Porque nesse ponto as coisas ficam difíceis. Ainda é perfeito enquanto tal. dentro de seis meses. Quando atingimos o que chamo de "ponto crítico" em nossa vida. o tempo todo. "É.31 engraçada. As pequenas coisas da vida não me incomodam em especial. e ainda lembrar que a maior parte do tempo não estamos dispostos a trabalhar com ele. Todavia se o fizerem. o que não conseguimos enxergar é a área que cresce com a prática: área na qual podemos ter compaixão pela vida. fica cada vez mais difícil fugir. apenas pessoas reais. tudo bem. Apesar disso. No entanto. Eu também. elas também aconteçam. Por que deveria estar em algum outro lugar? Ao longo de toda uma vida. só porque ela é como é. muito mais. Enquanto vivermos. sempre há um ponto-limite além do qual não conseguimos ultrapassar. o ponto-limite apenas se desloca e nunca deixa de acontecer. simplesmente deixando que aconteça em nós aquilo que está acontecendo. Mas e quanto ao ponto-limite? É aquele no qual está a prática. Porém. "Ela deveria ser do jeito que eu idealizo." É isso que é divertido. não podemos fugir. Não foi fácil. Conforme nos tornamos mais sensíveis à nossa vida e ao que ela de fato é. Eu gosto de todas as coisinhas que acontecem o tempo todo. Nada fantástico e exuberante. nossa imensa crueldade. teremos algum ponto. Conforme nossa prática se torna mais sofisticada. ficar. tal como ela é. Vemos as coisas da vida para as quais não temos disposição de cuidar. não é engraçado -não estou dizendo que seja -mas mesmo assim é o que é. trabalhar com ele.

Quando se está no pontolimite. não. Não somos perfeitos e eles também não. ALUNO: Quero levar essa analogia um pouco mais adiante. Espectadores de jeito nenhum. Podemos agir dessa maneira. tomaríamos a ação adequada. ALUNO: Quando você apenas a detém. Zen é ação. ALUNO: E parece que tem que ver com o ponto-limite. a gente xinga o universo. Penso que Buda disse: "O mundo todo são meus filhos". Porém. Ficar ali e deixar estar. Tente encontrar um meio de ajudá-la a aprender algo com o incidente. a menos que nos sintamos ameaçados em nosso ego por causa do modo como a criança é. mas vai pôr fogo na casa. porque muitas vezes a gente grita de qualquer jeito. a maioria de nós.. como deixar estar essa coisa? JOKO: Vivenciando a raiva de modo não-verbal. físico. muitas vezes acreditamos mesmo que a coisa é um ataque pessoal. No entanto. mesmo que o bote esteja vazio. quando está lidando com crianças pequenas. mas não tem de necessariamente investi-la contra outras pessoas. quando a raiva emerge. Por exemplo. JOKO: Não. JOKO: Então. quando leio sobre o zen. Queremos que nossos filhos sejam perfeitos. Vamos dizer que a criança não vai chutar sua canela. nossos filhos são apenas nossos filhos. JOKO: Certo. certo? Contudo. com nossos filhos.. costuma ficar claro que só precisamos enfrentar aquele comportamento por meio de providências adequadas à criança. ALUNO: Desejo ampliar mais um pouco a analogia do bote a remo: se víssemos que o outro bote está vindo em nossa direção com alguém dentro. JOKO: Voltemos à imagem do bote a remo. certo? Você apenas fica ali de frente para o acontecido. A questão está em continuar deslocando o pontolimite para adiante. ela estará fazendo aquilo por seus motivos. Você disse que. Todos os pais têm essa mesma reação de vez em quando. está agindo diferentemente do que quando achou que a coisa seria um ataque pessoal? JOKO: Bem. a verdade é que.32 ALUNO: Algumas vezes. se você tem uma resposta habitual de raiva contra alguma coisa durante muito tempo. a ação que você executa não parece tão adequada quanto o necessário. Quero lhe fazer uma pergunta relacionada com a afirmativa. ALUNO: Não sei se é assim mesmo. é preciso deixála acontecer. se pudermos refletir por dez segundos que seja. provavelmente começaríamos a berrar e a gritar: "Pára isso aí e fica afastado!". Eles precisam ser modelados porque de outra forma as pessoas irão nos criticar. detenha-a! Pegue os fósforos! Ainda assim. Você não pode forçá-la a ir embora. tenho a impressão de que somos apenas espectadores. ALUNO: Você mencionou: "Não fique com raiva". Isso NÃO é um bote a remo vazio. consegue ver que tudo o que elas fazem – mesmo que se aproximem e dêem um chute em nossa canela –é um bote a remo vazio. evitando a colisão. ou outra coisa qualquer! 32 . devemos praticar quando não pudermos deixar "o mundo todo ser meus filhos". talvez apenas pegássemos o remo e levássemos nosso bote para outro lado. Ao passo que se fosse só um bote vazio. Creio que é o que você está dizendo.

mas existe uma diferença entre uma resposta momentânea e pensar no caso pelas próximas horas. Mas.mos uma prática de fato rigorosa e severa. Mesmo sendo um bote a remo vazio. depois de algum tempo. ALUNO: Fico confuso quando ouço um relato de uma iluminação repentina. por um segundo. Isso é muito diferente. O ponto-limite é onde limpamos o espelho. Repetindo. a primeira é inútil. Lembremo-nos dos dois versos do Quinto Patriarca: um se refere a lustrar interminavelmente o espelho. e isso. Porque só fazendo isso é que. JOKO: Certo. nós colocamos uma pessoa lá dentro. nosso ponto-limite está aqui... Não estou afirmando que não 33 . O que acontece comigo quando ocorre algum tipo de tragédia é o seguinte: "Não mereço isso". aliás. será este um sinal seguro de que você está num ponto-limite? JOKO: Sim. Eu não falei que é para lançá-la aos outros. sempre é um bote vazio. é menos provável que a raiva venha à tona. Para a maioria de nós. ALUNO: Mas.33 JOKO: Sim. Bem. a pessoa enxerga o universal: o problema com a maioria das experiências de iluminação é que as pessoas se agarram a elas. pelo contrário. A questão não é a experiência. e outro a ver. é uma oportunidade para praticar . desde o começo. Mais uma vez. Absolutamente necessário. a questão é: quanto mais praticamos. nossa prática é paradoxalmente a primeira resposta. para início de conversa! Entretanto. ALUNO: Então é bom vivenciar a raiva. É limpar e lustrar o espelho. as considerações pessoais a respeito da vida desapareceram. Não conseguimos ver isso enquanto não efetua. JOKO: É mesmo. existe dentro de nós. Não porque diremos "Não vou sentir raiva". Você pode gritar. que. começa a funcionar como um obstáculo. sendo a segunda resposta a correta compreensão. durante um instante. não estou me referindo a uma simples proibição. Qualquer valor que a experiência possa ter. é ir em frente com a vida. "Mas como foi acontecer uma coisa dessas?". mas porque a reação simplesmente não acontece. é claro que preciso praticar mais ainda. seria de todo inútil. e por isso eu disse que o título desta palestra é Não fique com raiva. que não há nenhum espelho a ser lustrado. ALUNO: Bem. e apenas trabalhamos onde estamos. Isso é muito difícil. Muito. Dou tanta importância à injustiça do fato que começo a me revoltar contra essa "sacanagem". JOKO: Você aprende com ela. Podemos até fazê-lo de vez em quando. Sentimos de um jeito diferente e pode ser que não consigamos entender porquê. Se é um processo. "Meu amigo não merece aquilo". Assim. A maioria das pessoas assume que. ALUNO: Se você sente de verdade a raiva emergindo. o bote a remo está repleto de outras pessoas o tempo todo. é meio parecido com o secador de louça. damos um jeito de pensar que o universo está fazendo aquilo contra nós. apoderam-se do que lhes parece um tesouro. não precisamos mais nos preocupar com isso. uma experiência de iluminação -enxergar de repente a realidade tal como é -significa apenas que. é muito raro que esteja vazio. a questão é entender o que significa prática com raiva. muito difícil Ainda assim. como pode existir um estado de iluminação? JOKO: Eu não disse que havia. E. então. enxergamos que a perfeição de tudo está em ser o que somos. mesmo que não haja ninguém no outro bote.

senão viver segundo um particular e peculiar tipo de mente. insistindo para agirmos de modo correto. não podemos agir com inteligência alguma. "O que acontecerá? Como será? O que vou tirar disso tudo?" Eu. Podemos ter os seguintes pensamentos: "Talvez eu não consiga tirar aquela nota". de um cavalo. Nosso modo de pensar não é o mesmo de um gato. Apesar disso. Por nos vermos como um "eu" separado.34 o faremos. reagimos. eu. bem. logo que percebemos que estamos vendo o jogo. mas essa ação costuma estar fundada num erro. Toda essa atividade mental praticamente incessante implica uma avaliação contínua e inquieta de nós mesmos e dos outros. esperamos. confundimo-nos com dois tipos de medo. Forma-se um sistema peculiar de valores a partir de pensamentos em primeira pessoa como esses. Primeiro. É como dizer a um alcoólatra que não fique bêbado. não é produtivo fazê-lo. é a sua realidade do momento. Ele existe porque não temos escolha. JOKO: Precisamos tomar cuidado com isso. Porém. Em decorrência do medo que vem desta falsa imagem. a maior parte de nossa vida ansiosa não se baseia nesse tipo. realmente. ora é imediata a perda da oportunidade de conhecermos de verdade nossa raiva tal e qual ela é. até podemos começar a agir. O vivenciar da raiva é uma experiência muito silenciosa. Depois de nos avaliarmos. Depois de termos "avaliado" uma situação ou uma pessoa. Falso medo Uma vez que somos todos humanos. é um medo que tenta manipular e manobrar. fazemos alguma coisa. Entretanto. então a vivencie. basta. medo que não realiza coisa alguma. "Posso acabar sem nada". ou com uma maneira de analisar e controlar esses eventos. Qual é a resposta? Precisamos enfrentar esse problema de um outro ângulo. mas num outro. enquanto entidade. e depois afirmar: "Fique com raiva". Nossa suposição é que. O falso medo existe porque usamos nossa mente de modo incorreto. Costumávamos dizer. mas não é o que se dá. tomamos uma atitude. criamos várias sentenças com "eu" como sujeito. "tenho de amar a mim mesmo". Mas quem está amando quem? De que maneira é possível um "eu" amar "a mim mesmo"? Sentimos que "tenho de amar a mim mesmo. Temos um "eu" fictício que tentamos amar e proteger. O outro lado da raiva. Elas dizem respeito ao que aconteceu com esse "eu" ou com o que poderia acontecer-lhe. precisamos tomar consciência de 34 . Passamos a maior parte de nossa vida jogando esse jogo inútil. "Talvez eu não impressione". esse é o medo comum e natural. Em virtude do mau uso que fazemos de nossa mente. tenho de ser bom para com você". temos tendência a criar um falso problema. eu: é um jogo mental ilusório. no tempo da psicologia pop do sul da Califórnia. ele cesse... Afinal de contas. de nada adianta. ou mesmo de um golfinho. tenho de ser bom para comigo mesmo. a atravessamos por inteiro. é sempre a compaixão. Se ficamos fingindo que ela não está ali e a encobrimos com uma ordem do tipo "Não fique com raiva". num pensamento falso sobre a existência de um "eu" separado da ação. podemos fugir. lutar. Darmos ordens a nós mesmos o tempo todo. chamar a polícia. segundo o qual nossa preferência é valorizar apenas as pessoas e os acontecimentos que. temos de entrar pela porta de trás. Um é o medo comum: quando somos ameaçados fisicamente. se vivenciarmos seu vazio e passarmos por ela. Estamos perpetuamente embriagados. Se realmente. que é falso. ALUNO: Creio que uma parte do problema está em você dizer: "Não fique com raiva". Estou dizendo que se a raiva é o que você é. venham à manter ou a estabelecer uma vida segura e tranqüila para esse "eu". "Sou importante demais para lavar a louça". Não faz absolutamente barulho algum. desenvolvemos várias estratégias para a preservação dele. Há um medo imenso por trás desses julgamentos. e estamos perdidos dentro dele. "Não vou ser assim" não é a resposta.

no entanto. a vida é um milagre a cada segundo. Onde ele estará oculto? Esperamos por alguma coisa que venha tomar conta desse pequenino si-mesmo porque não nos damos conta de que já somos si-mesmo. então. Esperamos ter saúde. o pensar. de qualquer bodhisattva. como no caso do meu amigo. Não é que "eu" ouço os pássaros. É claro que o autor. 0 texto antigo diz: ilumine a mente. as sensações corporais prosseguem. Isso não é o mesmo que auto-aperfeiçoamento. não me espantei com a notícia. então. Parte desse erro está presente em todos nós.35 nossa ilusão. Se sua prática não é aquela que um tenzo deve ter. mas ao sonharmos nossos sonhos em primeira pessoa perdemos tudo isso. É shikan: apenas ficar sentada. o ouvir. Parece terrível. Nada há a nossa volta que não seja si-mesmo. toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. Talvez nada seja uma tragédia. Esperamos alcançar a iluminação. É o falso "eu" que interrompe a maravilha com o desejo incessante de pensar sobre "eu". E depois. dê-lhe luz. Sintam-na apenas. evidentemente. o coração pulsa. não é nenhum pouco terrível. ao descrever essas qualidades desejáveis no tenzo além das instruções de como ele deve proceder em seu trabalho.esperaremos que aconteçam coisas que. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça. Por isso é uma leitura muito instrutiva e pertinente. Portanto. e. É uma oportunidade preciosa a que temos. alegre e compadecida. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo -e todos fazem isso . o tenzo deve ser um dos mais maduros e meticulosos alunos do monastério. Permitam-se ser o ver. permaneçamos só sentados com o que talvez pareça uma confusão. tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. Espera. Está se pronunciando sobre a vida de todo e qualquer estudioso do zen. apreciem-na. por isso. exceto em nossa mente. Já naquela ocasião o suicídio era tudo que ele conseguia mencionar e. enquanto ele descreve a vida de um tenzo iluminado? Alguma visão mística? Algum estado de vertiginosa entrega? 35 . sabe que não existe passado ou futuro. na medida em que não damos o justo valor ao mero fato de estarmos vivos. pelo menos. Não que para mim a morte seja uma tragédia. a seu ver. Isso é o que significa sentar. Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí. Todos morremos. não é? Mas. Tem sido dito que a chance de ter um vida humana é algo como ser escolhido como um grão de areia dentre todos os grãos de uma praia. uma pena. Do ponto de vista do Dôgen Zenji. mas penso que podemos afirmar que viver sem apreciar a vida é. É uma rara oportunidade e. essa não é a tragédia. Não está oculto. deve ter. sejam essa confusão. estarmos vivos como seres humanos. conhecer as ilusões (as sentenças em primeira pessoa) como são. alguém que eu não via há muitos anos. presente. São suas idéias do que um tenzo -o cozinheiro-chefe deve ser: quais as qualidades e a vida que um tenzo. Uma vida vivida sem esperança é pacífica. vivenciar. de nossa embriaguez. É só ouvir os pássaros. portanto. na verdade. esse maravilhoso e oculto si-mesmo.mos ter sucesso. em nossa opinião. Nessa condição temos possibilidade de ver com mais freqüência através dos falsos sonhos que obscurecem nossa vida. tentar consertar a própria vida. quero falar a respeito de não ter esperança. A pessoa que já praticou o sentar. o que há? Sem esperança Há poucos dias fui informada que um amigo se suicidara. A maravilha está acontecendo o tempo todo: o pássaro canta. Corremos para todo lado como loucos. acontece algum erro. segundo o Dôgen Zenji. os carros passam. O que estamos procurando? Há poucos dias um aluno me emprestou um livro que continha um texto de Dôgen Zenji chamado Tenzo Kyokun. Hoje. seja qual for o período que durou sua prática. preste atenção. não está apenas se referindo a ele. a vida de todo o monastério sofre. tentando encontrar algo chamado si-mesmo. de algum modo. O que é que descobrimos.

na esperança de que alguma coisa ou alguém faça nossa vida ficar mais fácil. Aproximei-me e perguntei sua idade. Depois de terminar a lavagem do arroz. Não podem dormir por mim. "posso ver que seu trabalho é a atividade do Budadharma. minha alegria são absolutos. Meu trabalho. da responsabilidade pela minha vida -quando enxergo com clareza este ponto -então estou livre. então o fazemos. Vocês não podem engolir por mim. mas por que está trabalhando tanto. entenderemos na realidade o que é a prática zen. ele se dirigiu à China para visitar monastérios. Não pude evitar de sentir que aquele era um trabalho demasiado árduo para ele. A seguir perguntei-lhe por que não usava um assistente.36 Absolutamente não. ou o arroz da areia. quando mais poderei fazê-lo?". (Ele) trabalhava sem parar e estava coberto de suor. Se a entendermos. O que podemos todos nós aprender? Com seu texto. estiver passando pela cozinha ponha o dedo na panela ou olhe lá dentro" (10). É esse contato. Consideremos este depoimento. desejando praticar e estudar. O que ele deseja dizer com isso? Que apenas a pessoa pode vivenciar a própria dor. sob um sol tão abrasador?". meu sofrimento. num deles. Não havia mais nada que eu pudesse dizer. Dôgen Zenji está repetindo uma famosa história. Antigamente. Não há como. quando é que poderei fazê-lo?" Só eu mesmo posso tomar de mim todo o dia. como pendurá-las etc. Ele respondeu que tinha 68 anos. 36 . muito detalhadas. costumamos viver em vão. Se uma impressão que chega até sua vida não é recebida. por exemplo. coloque-o na panela. a alegria de nossa vida está em fazer totalmente. Os raios do sol estavam tão fortes que os ladrilhos do caminho queimavam os pés. empregava-se um saco de pano para filtrá-la antes de jogá-la fora. Dôgen Zenji fala do si-mesmo que se instala naturalmente no si-mesmo. ou de eu sentir a dor no pé de vocês. Não tenho necessidade de mais nada. numa tarde de junho que estava especialmente quente. O que Dôgen Zenji está nos dizendo? Ele não escreveu isso apenas para o tenzo. Enquanto continuava atravessando aquela passagem. Ele estava espalhando cogumelos para que secassem sobre uma esteira de palha. Não tenho esperanças. Não há nada na administração da cozinha que Dôgen Zenji tenha deixado de fora. Estava usando uma vara de bambu e não tinha chapéu na cabeça. de vocês sentirem a dor no dedo do meu pé. Certo dia. para aquilo e para aquilo outro. da alegria. O tenzo vetusto salientou: "Os outros não são eu". Explicações muito. O que ele está dizendo é que sua vida é absoluta. Aí está o paradoxo: quando me aproprio inteiramente da dor. Quero mostrar-lhes um parágrafo: "A seguir. mais agradável. Não há meios. a própria alegria. Em nenhuma circunstância permita que alguém que. Só eu posso receber vida. pelo contrário. mas ainda não é preciso que percamos 90% das experiências de nossa vida. o que deve ser suportado. descuidadamente. Ninguém pode ofertá-la a ele. Porém. Quando. Quando jovem. por acaso. segundo a segundo. Ninguém vive completamente assim. que constitui o tema sobre o qual Dôgen Zenji se pronuncia quando descreve o dia do tenzo. Há muitos parágrafos sobre como separar a areia do arroz. Ele respondeu: "Se eu não o fizer agora. comecei a sentir profundamente o significado do papel do tenzo (11). Ninguém pode vivê-la em seu lugar. em fazer só o que tem de ser feito. "O senhor tem razão". Suas costas estavam curvadas num arco teso e suas longas sobrancelhas eram inteiramente brancas. Ele escreve sobre onde colocar as conchas. e suportar. Ele respondeu: "Os outros não são eu". naquele instante você morreu um pouquinho. ele viu o mais idoso dos tenzo trabalhando do lado de fora da cozinha. Ninguém mais pode senti-la. Atentem para isso. Não é nem o que tem de ser feito: está ali para ser feito. Gastamos quase todo o nosso tempo tentando dispor a vida de tal sorte que a vontade venha a se tornar realidade. "Se eu não o fizer agora. da manhã à noite. jogar fora a água que restou depois da lavagem do arroz. ponderei. apenas. Tome muito cuidado para que um camundongo não caia por acidente lá dentro. você não deve.

por que Você não me salvou?". Ele respondeu: "Não. Para ser honesta. Não é apenas jogar a água fora. mas fazê-lo com cuidado. Então. durante algumas horas ou minutos. que é nossa vida. é só isso. estamos todos nessa expectativa. todos nós estamos o tempo todo preparando alimento para os outros. De novo suplicaram-lhe que entrasse no bote para se salvar. escapam-nos porque estamos na esperança de alguma coisa muito especial. Apenas não se apeguem a eles. só sua cabeça estava de fora. Cada palavra que pronuncio. E ela não existe. gritaram para que descesse e entrasse no bote. O vetusto tenzo espalhando algas: eis uma vida apaixonada. Por quê? Porque um segundo após o outro. em cada atividade de nossa vida. a esses pensamentos e a essas fantasias em vão. grão por grão. no zazen. ninguém irá abandoná-la de uma vez e pronto. É isso. nossa vã esperança por um lugar de descanso em algum lugar faz com que ignoremos e desconsideremos aquilo que temos bem à nossa frente. Trata-se de um homem que estava sentado no telhado porque uma enchente invadia sua aldeia. somente o fluir. se praticarmos dessa forma. Mas quando nossa vida está nos sonhos e nas esperanças. Ele ainda comentou: "Não. Deus irá salvar-me!". do corpo e do meio imediato. Deus irá salvar-me!". que o sentar. ficam sonhando o tempo todo. apenas sentar. queixou-se a Deus: "Deus. comuns. Estou rezando. A água já estava no nível do telhado quando vieram salvá-lo num bote a remo. que pairou exatamente sobre ele. ficamos ansiosos e até mesmo desesperados. Deus irá salvar-me. Por isso. nos sesshins. sem encantos especiais . Nós não só esperamos. é a iluminação. A equipe esforçou-se muito para conseguir chegar até ele e quando finalmente conseguiram. exceto em cada segundo. não. o que significa não ter esperança? Claro que significa fazer realmente o zazen. Quando chegou ao céu. Cada encontro. Na realidade. ninguém quer abandonar a esperança. E mais uma vez ele respondeu: "Não. Essa é sua última oportunidade! Suba!". então o que a vida pode nos oferecer –aquele homem ou aquela mulher logo ali à nossa frente. O que Dôgen Zenji está nos alertando é que a prática real não tem nada que ver com isso. não. Lembro-me de uma época em que eu costumava devanear literalmente durante quatro a cinco horas todos os dias. Chamaram-no: "Venha logo. levamos nossa vida com essa atitude de consideração por nosso trabalho? Ou estamos sempre esperando que "em algum lugar tenha de haver mais do que isto"? Sim. Passamos muito tempo procurando uma coisa chamada verdade. Deus virá salvar-me". Quando eles não "produzem" para nós os resultados. não. Portanto. considerem como são irreais e afastem-se. tomar conta de nossos filhos. existe só o que está aí. Cada palavra que vocês pronunciam. Contudo. Deus disse: "Mas Eu tentei: mandei dois botes a remo e um helicóptero". fazer exercícios de matemática ou física. qual a recompensa que teremos? Se de fato praticarmos desse jeito. enquanto estamos na prática. A água estava muito turbulenta. No entanto. com a mente em outra parte. Permaneçam com a única coisa que é real: a vivência da respiração. como na realidade entregamos nossa vida a essa esperança. passá-la preparando comida para os outros. permanecemos mais em contato com a única coisa que nunca teremos. nem qualquer outra coisa. Um de meus alunos contou-me uma boa história faz pouco tempo. Estamos novamente dizendo que o zazen. Esse "alimento" pode ser datilografar. cada vez mais e ele subia cada vez mais para o topo do telhado. Mas podemos ter períodos nos quais. Não fazer pela metade a limpeza da louça. Entretanto.37 Não é só lavar o arroz. O que obteremos em 37 . Veio um helicóptero. cada segundo.essas maravilhas da vida. Por fim sua cabeça submergiu e ele se afogou. não. Cada bocado de alimento. Agora vejo com tristeza muitas pessoas desperdiçando a própria vida em devaneios. de algum ideal. A água continuava elevando-se. Por vezes é um sonho como o parceiro ou a parceira ideal. Não há nada de errado com os sonhos e as fantasias. não. mas um outro bote ainda conseguiu aproximar-se dele. Enfim quando a água já estava praticamente cobrindo-o todo. tudo que temos será levado embora. Não cantarolar distraído.

Há uma imensa diferença entre alguém que está 95% do tempo preso nessa teia e alguém que está 5% preso. Portanto. esperanças e condicionamentos. O amor (compaixão) sobre o qual falam. quando vivemos em íntima ligação com alguém. então seremos recompensados com esse absolutamente nada. os amargos frutos da emoçãopensamento serão seu alimento na vida diária. se você os corta em vez de "esclarecer como a emoção-pensamento se derrete". pela prática. Primeiro temos de ver o que são: os pensamentos emocionais. deixando a raiz viva". mais do que alguns dos velhos mestres. Claro que gostaríamos de manter a imagem idealizada que temos de nós mesmos. que se alimenta das emoções-pensamentos com expectativas. É bom investigar o que é o amor e como está vinculado à nossa prática. mas isso já temos. porque não esclareceram como a emoção-pensamento se dissolve. Enquanto ela alimentar nossa imagem de como as coisas supostamente são.38 troca? A resposta é clara: nada. pelo menos. Mas ele afirma: "Se você pensa que eliminou o pensamento ilusório. estamos todos presos a emoções-pensamentos. em termos da palestra de hoje. É claro que os pensamentos são ilusórios. a emoção-pensamento surgirá de novo. Nela. As palavras de Menzan Zenji são nítidas: "Quando. esperamos que nossa relação nos faça bem. pelo menos não do tipo que estamos acostumados. não é uma emoção. estaremos envolvidos numa relação com alguém. Conforme o tempo vai passando. não sejamos como aquele meu amigo que não consegue apreciar a vida e sua prática. Às vezes. O quão genuíno é nosso amor algo que depende de como praticamos com o amor falso. não tenhamos expectativas e esperanças. Gostaria de acreditar que sou uma boa mãe: paciente. você aprenderá pouco. Se não estivemos nos escondendo dentro de uma caverna pelos últimos vinte anos. Esta vida é o nirvana(12). Amor Amor é uma palavra que não se encontra muito nos textos budistas. pois os dois frutos de nossa prática são a sabedoria e a compaixão. sábia. centrados no eu. (Se. Não obteremos coisa alguma. Ele afirma que a ausência de tais pensamentos é o estado de iluminação. com os quais nos debatemos o tempo todo. Obteremos nossa vida. Contudo. formado por nossas próprias percepções condicionadas"(13). Sem exceção. Certamente não é o que definimos de amor "romântico". sempre existe um amor genuíno e um amor falso. lemos os antigos textos e formamos uma imagem da prática que não tem relação alguma com a compra do pão na padaria. você conhecer toda a realidade do zazen. estamos nos referindo a relacionamentos que envolvem pessoas. Contudo. como se você tivesse cortado o talo de uma folha de grama ou o tronco de uma árvore. o satori em si. Muitas pessoas pensam de modo equivocado que a prática é eliminar os pensamentos ilusórios. Menzan Zenji (1683-1769) foi um dos grandes eruditos do Zen Soto e. que tão pouco tem que ver com amor. Menzan Zenji escreve o seguinte: "Emoção-pensamento é a raiz do delírio. No entanto. é a vinculação obstinada a um ponto unilateral de vista. as montanhas. as pessoas. em vez de esclarecer como a emoção-pensamento se derrete. porque parece que sempre são os causadores das maiores dificuldades. o tapete. contudo. pensamos que é uma grande relação. Estritamente falando. 38 . porém. essa espécie de sonho não tem muitas chances de sobreviver. Onde pensávamos que ela estaria? Lembremo-nos do velho tenzo. mas em graus muito variáveis. é claro. torna clara a prática. o sonho se desfaz sob o impacto da pressão e descobrimos que não podemos manter nossas belas imagens dos parceiros e de nós. os relacionamentos aplicam-se a todas as coisas: a xícara. o bloqueio paralisado da emoção-pensamento naturalmente desvanecerá". Quando não vemos o vazio da emoção-pensamento. Se praticarmos do modo como ele espalhava as algas. como ele diz. meus filhos concordassem comigo. Muitas pessoas passam por experiências de iluminação. compreensiva. Grande parte da prática deste Centro gira em torno de esclarecer como a emoçãopensamento se dissolve.

Refining your life: From the zen kitchen to enlightenment. Quando ele deixa de agir assim (o que não tardará muito). 1983. 11. Nenhuma exigência emocional tem alguma coisa que ver com amor. alguma dor. Cumprir nossos votos é a única coisa que podemos fazer por outra pessoa. porque nenhuma relação jamais nos preencherá por completo. digo: "Acabou a lua-de-mel. Por conseguinte. Meu parceiro não me convém mais. Principalmente no amor romântico. 9 ff. Menzan Zenji. 39 . Japão. 1985. Portanto. Quanto mais praticamos ao longo dos anos. Devemos observar o conteúdo do pensamento até que se torne neutro o suficiente aponto de podermos entrar na experiência direta e não-verbal da decepção e do sofrimento. p. 10 . de nossa decepção. esse absurdo das emoções-pensamentos dominam nossas vidas. O preço que temos de pagar é essa prática de toda uma vida em cima de nosso apego às emoções-pensamentos. Espero do parceiro que corresponda à minha imagem idealizada de mim mesma. 5. traduzido por Thomas Wright. editado e traduzido por Shohaku Okumura. Ele não promove meu conforto e meu prazer. como enfrentarmos tais decepções? Devemos sempre praticar a aproximação cada vez maior de nossa dor. Tóquio. Toko Insatsu KK. ele não reflete a imagem onírica que alimento a meu respeito. Quando o desenvolvimento estiver completo (o que significa que não existe nada sobre a face da Terra que julguemos) esse é o estado da iluminação e da compaixão. o desejo e o despertar da Paz e da Liberdade interiores. Nota do Editor: Nirvana é a extinção da ignorância. mais desenvolveremos uma mente aberta e amorosa. de tempos em tempos. na realidade a emoção-pensamento sai de controle. Mestre zen Dôgen e Kosho Uchiyama.Mestre zen Dôgen e Kosho Uchiyarna. de nossas imagens estilhaçadas. O tenzo também pode ser empregado no sentido de um retorno à pureza original da natureza de Buda depois da dissolução do corpo físico. viveremos. Essas vivências são em essência não-verbais. O que há de errado com ele? Está fazendo todas as coisas que eu não suporto". 106. p. p. se estamos numa ligação estreita. Shikantaza: An introduction to zazen. publicado por Kyoto Soto-Zen Center. Quando o quadro se desmantela em pedaços -e isso sempre acontece num relacionamento íntimo -esse "amor" se transforma em hostilidade e discussão. 13. Não há meios de vivermos alguma vez com alguém que nos agrade de todas as formas que desejamos. Tóquio. Quando sentimos de modo direto o sofrimento. É a perfeita liberdade de um estado incondicionado. de nossas esperanças perdidas. incessantemente. Weatherhill.39 seria tão bom!) Porém. E fico me perguntando porque sou tão infeliz. 12. Refining your life: From the zen kitchen to enlightenment. Nova York. que formam a barreira ao amor e à compaixão. pode começar a dissolução da falsa emoção e emergir a verdadeira compaixão.

por isso me interesso em buscar aparte faltante. o que nos resta? Resta-nos aquilo que estava no centro da situação. mas. não. mas pensamos que devemos ir em busca de alguma coisa. meu relacionamento é com o tapete. buscando. isso parece muito simples: o que interfere? O que impede nosso compromisso com um relacionamento humano específico. de nossa história passada e de nosso condicionamento. mas não fico aqui muito tempo mais. depois em outra. Pode ser que respondam: "Sou uma pessoa que está buscando". Precisamos saber o que significa olhar . buscamos. Talvez esteja em busca do parceiro ideal: "Bem. diríamos que estamos procurando "meu verdadeiro ser". e a prática é uma espécie de transformação. jamais o encontrará. O que buscamos? Dependendo de nossa vida particular . Precisamos transformar nossas idéias a respeito desta busca. Bem. Por isso. de buscar. estaremos todos buscando uma vida ideal. com o estudar. Quando atendo telefonemas no Centro pergunto: "Bem. rejeito aquilo. paz. se sentirmos que falta alguma coisa importante para nossa vida. "minha verdade~ra vida". as pessoas estão certas do que pensam que têm de encontrar. ele tem determinadas qualidades. estamos em busca de Deus. o fato de pensarmos que a busca em si é válida. o divertir-se? O que existe que bloqueia os relacionamentos? Uma vez que nem sempre entendemos o que significa estar numa relação com o momento presente. nossa tendência é a busca do que se chama estado "iluminado". Tento isto. a cada segundo. com a sala. aquilo. qualquer coisa dessas. exceto eu estar em relação. há 40 . em outras não corresponde". precisamos entender a que se refere esse buscar . Não existe coisa alguma que não seja relacionamento. Dependendo do quanto estivermos inquietos. É uma forma sutil de buscar. Isto parece favorável. Primeiro numa direção. Conforme vamos praticando. em segundo. como os aros de uma roda. não!". buscamos e buscamos. Não é a ação impaciente que é inválida. as buscas que empreendemos na vida serão diferentes umas das outras. Estou buscando. mas. o que você tem em mente?". A iluminação não é algo que possamos buscar. é assim mesmo. estamos fazendo o quê? Embora eu esteja no centro de minha vida. As pessoas novas no Centro me falam: "Estou aqui porque estou buscando". Em certo sentido. Parece que falta alguma coisa bem aí. sem dúvida. está muito bem que seja assim: iremos em busca de algo. clareza. desde o início. buscamos. Neste momento. Distancio-me do centro. o trabalhar. nosso compromisso cada vez maior com essa relação. Em termos tradicionais. Por trás da busca há inquietação. porém. com o som de minha voz. o que cresce em nossa vida é: em primeiro lugar. buscando. Se queremos uma vida saudável. Não existe nada. no fundo. Mas é preciso saber onde procurar.Pode ser que sintamos nunca estarmos no trabalho certo. Se deixarmos de procurar. Enquanto orientação inicial para a prática. E estão buscando isso. Numa prática como a nossa. Então. em termos modernos. com meu próprio corpo. buscamos e mudamos. Ou melhoramos o emprego que temos ou então pensamos: "Não vou comentar com ninguém. Querem dizer que estão buscando uma vida espiritual.40 CAPÍTULO 4 Relacionamentos A busca Todos os momentos de nossa vida são relacionamentos. o lugar ideal para viver. Se você olhar para o céu de San Diego à noite na esperança de ver o Cruzeiro do Sul. Você precisará ir até a Austrália e lá o verá. Podemos defini-la como o parceiro ideal. estar nesse centro não me interessa. o trabalho ideal. Não estou dizendo que se deva permanecer no mesmo serviço para sempre. Mesmo que os ideais dos outros nos pareçam muito estranhos. procurar. não existe coisa alguma além de estar em relação com aquilo que está acontecendo num dado momento.

neste preciso momento.41 sofrimento. Daí em diante. Isso demonstra que não há entendimento do que seja a prática. Sentir-se infeliz. lugares perfeitos para se viver. A própria paz que estamos buscando com tanto ardor está em reconhecer esse simples fato: somos nós que estamos nos beliscando. Seja lá o que eu disser. Essa decisão pode levar vinte e cinco anos para ser tomada. sim. sim. Isso nunca acontece de uma vez por todas. Nosso impulso para ir atrás das coisas é tão poderoso que nos engole. A prática é estar muito ocupado. Percebemos então que não se trata de buscar o problema. JOKO: O que significa "trabalhando com eles"? 41 . vocês não extinguem os desejos com a busca. Existem. conseguiremos perceber para onde devemos olhar? Veremos o que nos é possível fazer? A disponibilidade para a prática surgirá da convicção de que não existe mais nada a ser feito.. a busca começa a ser inteiramente abandonada e. Com isso não estou me referindo apenas a sentar zazen. Começamos a ver que a dor surge porque estamos nos beliscando. decepção. Sofrimento. ser prática? A segunda questão é: será que eu sei o que é a prática? Realmente sei? Conheço pessoas que há vinte anos fazem o que chamam de prática. Então existem duas questões: entendo a necessidade da prática? Sei o que é a prática? ALUNO: Penso que prática seja estar aberto. Bom lugar esse. e. qualquer coisa que busquemos nos desapontará. No minuto em que nos dermos conta disso. estou muito ocupado. Apenas saber disso é um alívio. em cinco minutos no máximo. como um todo. em termos de como praticamos. na medida em que continuamos sofrendo. JOKO: Em nível experimental é verdade. o sofrimento. A prática não é algo que fazemos como aulas de natação. dá até paz. atinge-nos de leve. Se tivermos um pouco de cérebro que seja. O que buscamos? Se começarmos a enxergar através dessa busca. As pessoas me dizem: "Neste semestre não tenho tempo para minha prática. a todo momento. No entanto. Assim. No entanto. Há agitação. é isso mesmo. Desta maneira voltamo-nos com cada vez mais freqüência para o desapontamento. pois ele está propriamente onde estamos olhando. que está sempre no centro. por fim enxergaremos que "já fiz isso antes". em vez dela. Quando eu tiver mais tempo. Vejam. ALUNO: Eu penso que a prática é estar consciente do sofrimento e da agitação que existem dentro de nós. que é a agitação. Será que entendo a necessidade de minha vida. então. Estamos com uma dor e usamos a busca para aliviá-la. vivencie justamente essa situação. Primeiro. essa constatação nos vem de muito longe. Com o tempo vai ficando mais nítida. acossado. embora seja preciso um pouco mais de esclarecimentos. voltarei a praticar". Esse é o momento mágico -aquele em que percebemos que buscar fora de nós não é a solução. a busca cessa exatamente naquele determinado lugar que se chama. Porém. Portanto. Agitação. duas perguntas: a primeira diz respeito a entender de fato a necessidade da prática. Essa é a transformação. porque não existem seres perfeitos. o sofrimento e a agitação que a motivam. Joko. empregos perfeitos.. A prática é estar com o que motiva a busca. o que está por trás de toda essa busca é o quê? Medo. passamos a notar que a prática não é uma busca. e ninguém mais. Como diz o voto: "Os desejos são inextinguíveis". estaremos todos procurando algup1a coisa que nos salve. a todo input sensorial que vem até mim e também a meus pensamentos. vivenciando aquilo que está por trás deles. É assim que precisamos começar a entender a necessidade de uma prática. depois que todos sairmos daqui. cada um de nós pode olhar para a própria vida. Teria sido melhor que tivessem ficado praticando suas tacadas de golfe. trabalhando com eles em nossos relacionamentos. por exemplo. enxergaremos que o "x" da questão não é a busca mas.

Se acreditamos em nossos pensamentos irados. Ninguém quer experimentar a humilhação. por isso. no meio de uma briga com outra pessoa. Quando volto inteiramente minha atenção para alguma coisa. não faz isso. muitas vezes precisam voltar mais tarde à própria experiência e ficar consternadas porque não tiveram habilidade suficiente para fazer isso no momento em que se sentiram ameaçadas. não quero ficar naquele momento. movidas por seus pensamentos e. se alguém me disser: "O que você falou em sua palestra estava simplesmente horrível. JOKO: Sim. não há nada a fazer. desde que isso não seja apenas mais uma idéia. Porém. E quando não há separação. agente pára e diz: "Vou vivenciar essa situação". ALUNO: Parte de minha busca neste momento implica a disponibilidade para permanecer em situações incômodas ou com sensações e sentimentos desagradáveis em meu interior. Não é tão fácil compreender as palavras. E com ela você não machucará ninguém. acontece algo dinâmico. Parece uma coisa fantástica "aprender a estar com o momento". poderia ficar muito zangado e. ALUNO: Prática é aprender a estar totalmente com o momento. ver os pensamentos que ela origina. Quanto mais madura nossa prática. Mas as pessoas.42 ALUNO: Por exemplo. JOKO: O problema é que a maioria interpreta "momento". quando estamos de fato com raiva: ser a raiva. Numa experiência completa não existe o eu tendo uma certa experiência. ALUNO: A prática tem algo que ver com atenção. então há poder e também o conhecimento do que fazer. quando a raiva aumenta. acontece algo dinâmico. Se a pessoa vivencia de verdade sua raiva. é só a experiência. ALUNO: Geralmente é! 42 . raras vezes. JOKO: Concordo. agem de maneira compulsiva. as pessoas olhariam para você e diriam: "Rã? Mas do que você está falando?": Ou então: "Bem. estou sendo minha raiva e nada acontece". se realmente sou minha raiva. Se você mencionasse essas duas coisas. a estar. É aprender a ser. Joko". embora às vezes as pessoas me falem que estão fazendo isso. com aquilo que chamamos "agora". A prática não significa que. porque é doloroso. Mas a experiência pura não tem componente verbal. aqui e agora. acabar matando alguém. quando é evidente que não estão. portanto. quando ficam com raiva. só que. supondo que agora você está apresentando um workshop introdutório. poderemos talvez magoar alguém. Como você mencionou. naquele momento específico. damos a volta e o evitamos. e. num esforço de ter mais familiaridade com os pontos cegos que obscurecem o momento. Porém não é tão freqüente vivenciarmos realmente alguma coisa. nessa experiência direta. mais naturalmente podemos fazer isso. mas é porque não existem dualismos. segundo um modo agradável. JOKO: Sim. JOKO: Está certo. digamos uma situação com meu filho. mas não originário de minha personalidade ou de boas idéias. é verdade. ALUNO: É porque não estamos realmente lá e não nos deixamos sentir e vivenciar de verdade aquele sofrimento em particular. vivenciá-la fisicamente. JOKO: Não. ALUNO: Parece que. A raiva pura é muito silenciosa. Todos conhecemos o palavrório.

ou qualquer acontecimento da vida tem um começo. Bem. não-ser? Costumamos pensar que uma dharma palestra. um meio e um fim. podemos afirmar a respeito de tudo que faz um dia. JOKO: Correto. em vez de sermos a agitação e o sofrimento da posição que ocupamos a cada momento. não deve me incomodar". É aquele esforço de funcionar sem a atuação dos mecanismos de autoproteção. no pátio. e supostamente deve proporcionar-me bem-estar. pelo menos. quando as pessoas se levantam da mesa. A razão pela qual quero deixar a porta aberta é que. que existe para me conferir prazer e conforto. Contudo. onde estará a palestra? Não há palestra. No mínimo. Costumo reparar que. Qual seria uma outra forma de falar a respeito de vulnerabilidade? ALUNO: Você não ter fechado a porta para seus sentimentos e suas sensações. A questão toda está em que posso sentir dor. de tudo que é nossa vida. E quando a palestra estiver encerrada. Sentem mais ou menos que "essa cadeira não é importante. Preciso ir para o zendo e ouvir coisas sobre a verdade". Quando deixamos a porta aberta. ou. tornamos o relacionamento um sorvete. por isso corremos pela porta aberta. do lado de lá. em geral. estar ciente deles. posso sair. a qualquer instante desta palestra. Depois de algum tempo pode ser que falemos pelos cotovelos. de que modo isso se aplica aos relacionamentos. ALUNO: As palavras que me ocorrem com respeito à prática são "vulnerabilidade" e "viver com". para a maior parte das pessoas. Estão só falando. mas não vou desistir apenas por esse motivo. JOKO: Vulnerabilidade significa que não fecho a porta mesmo que eu esteja sendo machucada. Neste exato momento. ao não-ser? O que podemos aprender a respeito dos relacionamentos sobre esse não-tempo. é fragmentada e incompleta. só nos recordamos de partes da experiência concreta. a autoproteção é automática. àquele indivíduo. Praticando nas relações A mente do passado é inapreensível. elas não empurram a cadeira de volta para o lugar. onde está nosso passado? Ele não existe. se eu sentir dor. a nossas relações com todas as coisas e pessoas. aliás. ao nosso desjejum. onde estarão as palavras que acabei de pronunciar? Elas simplesmente não existem. É de onde procede a raiva. Eles pensam que sabem. aos nossos filhos? O modo como costumamos ter as relações é o seguinte: "Esse relacionamento está ali. onde estarão as palavras que terão sido ditas até aquele minuto? Não existem. E essa memória. ela é aquela parte em nós que não quer estar em relação com coisa alguma. por exemplo. e essa é a razão pela qual os alunos supostamente avançados são sempre os difíceis. com a maioria acontece isso mesmo. São muito poucos os que consideram as 43 . seja lá o que for.43 JOKO: Sim. Podemos afirmar o mesmo de um concerto. ao escritório. A mente do futuro é inapreensível. Porém. a nossa relação com a almofada em que nos sentamos. Mas se. um concerto. Estamos em busca da verdade. A mente do presente é inapreensível. É onde estamos neste preciso momento. Se eu parar em algum momento posterior. ao não-tempo. Não estão comprometidas com ela. mas não sabem. eu parar. Só restam traços de memória em nossos cérebros. (Sutra Diamante) O que é tempo? Existe tempo? O que podemos dizer a respeito de nossa vida cotidiana em relação ao tempo. Em outras palavras. a verdade é a cadeira.

" Onde está? O jantar. eu lhe perguntei: "Onde está seu marido agora?". Minha história descrevendo os acontecimentos da manhã não é o que aconteceu. onde estão?" "Bem. E agora você sabe muito bem o que é para fazer". Portanto. Não estamos só aborrecidos. que não o "Te peguei. Não sei se isso é real. Suponhamos uma discussão no café da manhã. Finalmente.. como é que tudo está relacionado com o não-tempo. Muitas vezes. As pessoas colocam-se num tal estado -eu também passei por essa situação –que mal conseguem agir. e todos nós procedemos assim. e estamos o tempo todo em nossa cabeça. que é a hora do almoço. mas é tudo que podemos dizer a respeito. em nossa crença de que a vida é linear -"Isso aconteceu ontem" e "Olha só. sem exceção. "Bem. Então. endosso. a cada momento. pois são inapreensíveis. O que remos fazer com relação a toda essa encrenca? Na verdade o que existe aqui? O que realmente é agora? Enquanto estamos almoçando. que é o momento em que por fim resolveremos a questão (para nossa satisfação." Ela estava ficando cada vez mais aflita. "Ah. não conseguem tomar conta--de suas obrigações e precisam ficar doentes. presente e futuro." "E onde está?" "Oh. Foi isso o que aconteceu. não estamos falando das partes boas. englobo desde um tédio aborrecido até estados mais intensos que esse. com o não-ser? . nossas imagens e fantasias. muito aborrecida. porque está em busca de seu passado. uma moça (não praticante de zen) veio conversar comigo e queria me contar o que seu marido lhe havia feito três semanas antes. em nossa ignorância. "Não deveria estar aqui. Há poucas semanas. Fazemos o que fazemos de modo definitivo e. não é nada fácil. Bem. tento 44 . Portanto." Então. espaço e sofrimento. estamos fazendo o melhor que nos é possível. Depois comentou: "Se isso é tudo o que existe. mas contamos para todas as pessoas a esse respeito. É minha história. simpatia. Não é nem bom. é claro). de fato precisamos ver isso de novo. aquilo que nos interessa é o lado desagradável. Todos fazem ou fizeram isso. Ela estava muito. a ação com base na confusão e na ignorância leva diretamente a mais confusões. Porém. Real é a dor de cabeça.. física e mentalmente. Fora da experiência física não há mais nada que seja real. e o futuro também. Comentou: "Se não existe passado e futuro e não consigo nem apreender o presente -quer dizer. Bem. descobriremos que é impossível. creiam. No entanto. para obter consolo. a questão é que construímos um elaborado sistema de emoções e dramas. Entretanto. onde está? "A mente do futuro é inapreensível. onde está a discussão do café? Onde? "A mente do passado é inapreensível. "Quando nos encontrarmos hoje à noite vou realmente ter de discutir isso com ele. conseguiu enxergar que aquela aflição não tinha a menor realidade. E. aflições e ignorância. onde está a discussão." "Mas quando foi isso?" "Há três semanas." Quando digo "desagradável"." "E onde está o aborrecimento. Na hora do almoço ainda estamos aborrecidos. Minha lamúria é uma manifestação dessa energia física. se tentarmos encontrar o passado e o futuro que nossos pensamentos alimentam. O que existe? O que é real? Existe só meu aborrecimento neste instante. Bem. vai continuar do mesmo jeito por muito tempo" -vivemos num mundo de queixas como vítimas ou agressores. o incômodo na barriga. uma única coisa cria esse mundo hostil: nossos pensamentos. não posso lhe mostrar." Não existe.44 relações sob um outro prisma. por crermos no tempo que tem passado. no que parece ser um mundo hostil. nem mau. quando costumamos nos preocupar com as relações. mas estou lhe contando. apenas uma coisa. fazemos o que fazemos. Porém. ele está trabalhando. Elas criam um mundo de tempo. Um certo aluno me disse que vem subindo as paredes desde que me ouviu falar sobre a questão do tempo. o aborrecimento da hora do almoço. estas podem até ser mais presentes. isso quer dizer que não faremos nada se ficarmos aflitos? Não. eu estou lhe contando. houve a discussão do café da manhã." Eu disse: "Mas onde está? Mostre-me". Estava tão mal que quase não conseguia falar. de que maneira consertarei meu marido?".

mas não. Se não fizermos essa indagação e o sofrimento piorar de maneira considerável. Sei o que esperar dele. encontramos uma bela moça e dizemos: "Hum. por exemplo. "Ele me enche". essa é a pessoa por quem me apaixonei". estamos diante de um problema. euvoceraiva. se somos apenas a experiência. o que estou fazendo durante esse tempo todo? Vejam. porque no Canal X reina uma paz artificial (e muito tédio). Neste preciso momento criei Bill. tudo corre bem. fugas. Então. Já existe Bill e eu. quando as estações ficam cruzadas. "Eu/Bill/raiva. Quem aciona nossas ações? Qual é a fonte? Essa é a pergunta-chave a ser feita. o que temos a fazer. 45 . ficamos juntos e. parece que tem café da manhã. Porém. um pouco deste tipo de coisa e daquele. Por exemplo. Ser apenas isso: a solução aquiagora torna-se óbvia. o Canal X mudou para o Canal Y. pode ser que simplesmente abandonemos a relação e passemos a buscar uma outra. onde vejo desenhos animados para crianças. Mas. não há nada de errado com os canais. criei eu e. depressivo e retraído. Outras vezes. ela está fantasiando. evidentemente. durante um certo tempo. Todos podem se fazer essa questão. como é. muito barulho. de algum jeito. Vejam. não há nada errado com nossas sentenças. eu e a raiva. Bem. a solução está contida nela. Não há nada de errado com o mundo conceitual relativo. Não combina muito bem. Mas. justo quando estou soturno." Tudo junto. a partir disso. para o Z. seja: "Quem ligou os canais? Quem é a fonte de toda essa algazarra?". antes tudo era feliz. pegamos nossos amigos e parceiros de maneira muito parecida com o modo como sintonizamos um canal de TV. Há muita facilidade e acordo. "EuBillraiva. existe esse incômodo. não é? De algum modo. com sonhos e fantasias. E dizemos para ela: "Você tem de ser deste jeito. mas nunca perguntamos quem os ligou. por isso. oh espanto. no minuto em que dizemos: "Ela me dá nos nervos". e aquilo que você está remoendo. daquele que todos têm: "Bill me dá nos nervos". Todos precisamos viver num mundo relativo. Boa pergunta. Na realidade. aborrecida. exceto este momento agora. Às vezes. "Ela fez aquilo". "Bill me dá nos nervos". os dois fazem um esforço. "Quem sou eu?" Tomemos um pensamento típico. Temos uma grande confusão. com muita irritação e raiva. alguns noticiários. e essa sensação nos nervos. Parece que é uma ótima relação. parece que passo muito tempo no Canal A. É interessante que a pergunta que ninguém faz. o que sucede depois de algum tempo? De certa maneira. "Isso me deixa nervosa. Em certo sentido. Vocês notam que a sentença tem um começo. vamos. Bill. porém. você deve fazer isso. é levar-nos ambos de volta ao Canal X. tenho outros canais como o B. ela se parece com o Canal X e sempre fico calmo e tranqüilo quando assisto a esse canal. enquanto ficarmos girando em nossos pensamentos. E nem sequer contida nela. perfeitamente inapreensível. depressão. me magoa realmente".45 apreendê-lo e ele já se foi então quem sou?". E sempre descobriremos que. a maioria dos casamentos parece assim depois de algum tempo. e um ou os dois parceiros fogem ou recuam. com desastres iminentes. almoço e jantar. eu estava fingindo que era apenas uma pessoa Canal X. a experiência em si e a solução não são duas coisas separadas: Porém. Alguém comentou que é possível distinguir quem é casado até num restaurante: é o casal que não conversa. Quando isso acontece. O que fazer? Estamos agora em meio a nossa habitual confusão. posso ficar bastante à vontade com essa pessoa tipo Canal X". essa emoção. nosso cenário costumeiro. parece que todos os canais estão no ar ao mesmo tempo. Está tudo exposto. então existe você. toda leve. Ao invés disso: não existe coisa alguma. ameaçador e separado de mim. um meio e um fim e. a outra pessoa. "Ele fez isso". O que é "errado" é não o enxergarmos tal como é. vem esse mundo hostil." Só a experiência. dizê-lo de outro jeito. às vezes. principalmente sobre o príncipe e a princesa dos meus sonhos. Por um certo tempo. dela. justamente agora. Temos de tentar dar um jeito nisso.

apenas está acontecendo. e começamos a observá-lo como um magnífico panorama. No estágio final de nossa prática. em qualquer lugar. É desse ponto de vista que muitos enxergam as próprias relações como confusas. amargas. É isto que fazemos. e para mais sutis ainda. seu fluir. começaremos anotar algumas áreas abertas. que depois de termos vivido com alguém por muito tempo nunca a conhecemos de fato. Começamos a ver que as áreas de dificuldade fazem parte do todo e que não são. Um zazen inteligente significa trocas sutis constantes . O terceiro passo. e assim por diante. desfrutá-la. mas também para as que temos no escritório. Na tradição budista o ensinamento de Buda diz: "Elimina completamente toda dor. graduais. Após muitos anos de prática. Inicia-se enxergando através do que denominamos personalidade. Talvez não tenhamos a menor noção do que significa. pode ser entrar em um edifício e subir até o 3˚ andar. tudo é desfrutável e não estamos presos a nada. durante as férias. depois. pois estamos esperando que elas sejam aquele lugar de podemos descansar do tráfego. mal conseguimos localizar um espaço vazio e já todo o trânsito está se dirigindo para aquele local. independente do quão fechado for esse engarrafamento. nossos pensamentos. De vez em quando seus canais encontram-se. se observarmos durante um certo tempo. e nossa vida é vista como aquilo que sempre foi: livre e liberta. para olhar o tráfego lá embaixo. estamos de volta à rua. Confunde e assusta. Essa é a verdade. Uma vez. Uma vez ou outra. É assim que a vida se parece para a maioria. A primeira parte de nossa prática é como se estivéssemos no meio de uma rua apinhada e confusa. que não conseguimos compreender como estamos presos naquele trânsito. nossos corpos. Estamos tão ocupados em sair dos apertos que estão vindo em nossa direção. mas. onde estamos presos bem no meio do trânsito e da confusão. Podemos enxergar suas direções. de nós mesmos e de tudo que existe tal e qual é. Podemos amá-la. atingiremos uma posição de onde poderemos apenas desfrutar aquilo que vemos. não é mentira". servi-la. Tudo isso serve não só para relações íntimas. sequer a encontramos. porém.46 tipo Canal X: porque se esse é o canal de que gostamos. é o ponto de partida para a maioria que se dispõe a uma prática. assistimos e desfrutamos sua impermanência. Começamos a olhar de fato nossas mentes. Avançamos mais ainda. Mas. Pode ser que tenhamos sorte e encontremos um bom professor. Podemos desfrutar tudo sem sermos capturados por esse movimento. Há quem viva uma existência inteira sem jamais ter encontrado o parceiro. em vez de assustador. a respeito da qual estivemos falando. uma pessoa realmente rara e afortunada começa a examinar toda essa questão do que está fazendo com a própria vida e a formular as questões essenciais: "Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?". estamos livres dela. Notamos que. poderemos começar uma prática inteligente no esforço de entender o ensinamento. Se continuarmos subindo cada vez mais alto. se estivermos entre os afortunados. e isso é lindo. Isso aconteceu comigo por quinze anos. Agora ele realmente parece outro. então. boas ou más. tudo que acreditávamos ser nossa pessoa. talvez comecemos a considerar a totalidade de nossa vida. depois para os mais sutis. começaremos a ver que existem espaços aqui e ali no trânsito. primeiro nos níveis mais grosseiros. E. 46 . para onde está se encaminhando. Pode ocorrer que descubramos. são só parte da vida. Aquele primeiro lugar. É só o que é. e atingimos o estágio de testemunhas de nossas vidas. ao mercado e ao burburinho. Após vários episódios infelizes como esses. termina remos vendo que o trânsito é apenas padrões. desconcertantes. Pode ser até que consigamos chegar na calçada para ter uma visão mais objetiva. nossa tendência será ir em busca de um outro igual. mas essas pessoas nunca. para nossa grande tristeza. Tudo está acontecendo. que vemos a confusão como ela é. não tem nada que ver conosco. as percepções sensoriais. de certo modo. necessariamente.

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Contudo, ao tentarmos a prática com nossas relações, começaremos a observar que são nosso melhor caminho de crescimento. É nelas que podemos enxergar o que na realidade são nossa mente, nosso corpo, nossos sentidos, nossos pensamentos. Por que os relacionamentos constituem uma prática tão excelente? Por que nos ajudam a entrar naquilo que chamamos a lenta morte do ego? Porque, além de nossa prática formal de sentar, não há nada que supere os relacionamentos em termos de capacidade de demonstrar-nos onde estamos parados e ao que estamos nos apegando. Enquanto nossos botões estiverem sendo pressionados, temos grandes oportunidades de aprender e de crescer. Por isso, o relacionamento é uma grande dádiva, não porque nos torne felizes -com freqüência isso não acontece -mas porque qualquer relacionamento íntimo, se o virmos como prática, é o espelho mais nítido que podemos encontrar. Podemos afirmar que eles são a porta aberta para nosso verdadeiro eu, o não-eu. Presas do medo, estamos sempre batendo a uma porta pintada, composta de nossos sonhos, nossas esperanças e ambições; e evitamos a dor do portão sem portão, a porta aberta de sermos e estarmos com o que é, seja o que for, aqui e agora. Para mim é interessante constatar que as pessoas não enxergam qualquer conexão entre sua infelicidade e suas queixas, sua sensação de vítimas, a sensação de que todo mundo está fazendo alguma coisa contra elas. É incrível. Quantas vezes essa ligação foi indicada nas dharma palestras? Quantas vezes? E, não obstante, nosso medo nos impede de enxergar. Só as pessoas inteligentes, vigorosas e pacientes acabarão descobrindo aquele posto fixo em torno do qual o universo gira. Infelizmente, a vida para quem não consegue ver de frente o momento presente é sempre violenta e punitiva; não é agradável, e não se liga a mínima para ela. A verdade, porém, é que não é a vida e, sim, nós mesmos que criamos essa infelicidade. Se de fato recusarmo-nos a considerar aquilo que estamos fazendo -e lamento como é reduzido o número de pessoas que farão isso -então seremos punidos por nossas vidas. Ficaremos nos perguntando por que ela é tão dura conosco. Para quem, no entanto, praticar com paciência, sentar, sentar, sentar, e instalar a prática com firmeza em sua vida diária, para ele haverá, cada vez mais, um sabor de alegria numa relação em que o não-eu se encontra com o não-eu. Em outras palavras, a abertura encontra a abertura. É muito raro, mas acontece. E quando ocorre, não sei sequer se podemos aplicar o termo "relacionamento". Quem está ali para se relacionar com quem? Não se pode dizer que o não-eu se relaciona com o não-eu. Para esse estado, portanto, não há palavras. Nesse amor e compaixão atemporais, como disse o Terceiro Patriarca: "Não existe ontem, não existe amanhã, não existe hoje".

Vivenciar e comportamento
Por vivenciar quero dizer aquele primeiro instante em que recebemos a vida, antes que a mente desperte. Por exemplo: antes que eu pense: "Olha uma camisa vermelha", existe apenas o ver. Podemos falar também de só ouvir, só tocar, só saborear, só pensar. Isso é o absoluto; podemos chamá-lo Deus, natureza Buda, o que vocês quiserem. Essa experiência, filtrada por meu mecanismo humano particular, cria meu mundo. Não podemos apontar coisa alguma no mundo, tanto dentro como fora de nós, que não seja o vivenciar. Mas não teríamos aquilo a que chamamos vida humana, a menos que esse vivenciar fosse transformado em comportamento. Por comportamento entendo o modo como algo se faz. Por exemplo, como ser humano você faz si mesmo; você senta, anda, come, fala. Neste sentido, até tapetes têm comportamento: o comportamento do tapete é ficar apenas estendido. (Se o observássemos com um microscópio bastante potente, veríamos que ele não é absolutamente inerte. É um mar de energia que se move com uma velocidade assombrosa.) Portanto, podemos distinguir o emergente -que é Deus, a natureza Buda, o absoluto, aquilo que simplesmente é -do mundo, que se forma de modo instantâneo, o

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outro lado do emergente. Na verdade, os dois lados são um só: o emergente e o que chamamos de mundo não são diferentes. Se na realidade conseguirmos entender isso, nunca mais teremos problemas na vida, porque fica evidente que não existe nem passado nem futuro, e observamos que tudo aquilo com o que nos preocupamos é pura bobagem. Em geral, só temos uma vaga noção consciente de nosso experimentar. Mas sabemos com uma certa imprecisão que, de um jeito ou de outro, nosso comportamento e nossas vivências se interligam. Se estou com dor de cabeça e me comporto de modo irritado, talvez percebo que existe uma ligação entre a cabeça latejante e meu comportamento irritadiço. Por isso, embora não estejamos plenamente conscientes de nossa própria vivência, pelo menos não nos vemos tão distanciados de nossa experiência. Porém, se as outras pessoas estão irritadas, é possível que separemos o comportamento que estão apresentando de suas experiências. Não podemos senti-las; e, por isso, julgamos sua conduta. Se pensamos: "Ela não deveria ser tão arrogante", só enxergamos seu comportamento e o julgamos porque não estamos cientes de sua verdade (suas experiências, suas sensações corporais de medo). Entramos no nível das opiniões pessoais em relação à arrogância. Comportamento é o que observamos. Não podemos observar experiências. No momento em que temos uma observação a respeito de um evento, ele é passado; a experiência nunca está no passado. Por isso é que os sutras dizem que não podemos tocá-la, vê-la, ouvi-la, pensar a respeito dela, porque no minuto em que tentarmos fazer isso, o tempo e a separação terão se instaurado (nosso mundo fenomênico). Quando observo meu braço levantando-se, ele não é eu. Quando observo meus pensamentos, eles não são eu. Ao pensar "Este sou eu", tento proteger esse "eu". Aliás, tudo o que eu observar a meu respeito (mesmo que seja um fenômeno interessante com o qual eu esteja intimamente associado) não é eu. Esse é o meu comportamento, o mundo fenomênico; quem eu sou está apenas vivenciando a si, para sempre desconhecido. No momento em que o denomino, ele se vai. Contudo, comportamento e vivência não são fundamentalmente distantes. Quando vivencio você (vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo), você é meu vivenciar, só isso. Mas a tendência humana é não parar aí; em vez de você ser apenas minha experiência daquele momento, a ela acrescento minhas opiniões sobre o que parece que você está fazendo; nesse instante, separei-me de você. Quando o mundo parece algo separado, penso que tenha de ser examinado, analisado e julgado. Ao vivermos dessa maneira, em vez de a partir do experimentar em si, estamos numa grande confusão. Temos de ter memória, temos de ter conceitos; mas se não entendermos sua natureza, se não os usarmos de maneira adequada, criamos o caos. Tal como nós, outros indivíduos estão simplesmente experimentando o que parece ser comportamento. No entanto, consideramos suas experiências como comportamento. Só enxergamos o comportamento deles, e não temos consciência de suas experiências. Na verdade, o vivenciar é universal porque é isso que somos. Quando pudermos enxergar a tolice de nossa vinculação aos pensamentos e às opiniões, e aumentarmos o tempo que vivemos experimentando, seremos mais capazes de sentir a verdadeira vida -o verdadeiro vivenciar -de uma outra pessoa. Quando temos uma vida que não é dominada por opiniões pessoais, mas, ao contrário, é um puro vivenciar, então começamos a nos importar com todos, conosco e com os outros. Não poderemos mais então considerar os outros como objetos, como macacos comportamentais que não passam de seus comportamentos. A prática consiste em retomarmos ao puro vivenciar. Disso emergirão um pensamento e uma ação muito adequados. O mais comum, no entanto, é sermos incapazes de fazê-lo e, em lugar de tal atitude, devemos agir de conformidade com os pensamentos e as opiniões que rodopiam em nossa cabeça, isto é, levando-nos para trás. Quase sempre vemos as outras pessoas como mero comportamento. Não estamos interessados no fato de seu comportamento não poder separar-se de seu vivenciar. Conosco, conseguimos essa percepção em certa medida, porém não totalmente. No

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zazen, vemos que apenas uma fração de nós mesmos nos é conhecida e, conforme essa capacidade de vivenciar for aumentando, nossas ações irão transformar-se; começarão a vir não só tanto de nossos condicionamentos e recordações como da própria vida tal e qual ela é, neste instante. Essa é a verdadeira compaixão. Quanto mais vivermos como nosso vivenciar mais veremos que, apesar de termos um corpo e uma mente que se comportam de determinadas maneiras, existe algo (uma não-coisa) em que corpo e mente estão contidos. Intuimos que todos se encontram numa situação semelhante. Embora o comportamento de outra pessoa possa ser irresponsável e talvez nos oponhamos de maneira firme à sua conduta, somos -nós e o outro -intrinsecamente o mesmo. Só na proporção em que tivermos uma vida composta por experiências é que teremos possibilidade de compreender a vida do outro. A compaixão não é nem uma idéia, nem um ideal; é um espaço informe e todo-poderoso que, com o zazen, cresce cada vez mais. Esse espaço está sempre presente. Não é algo que tenhamos de buscar, ou tentar obter. É sempre o que somos, porque é nosso experimentar. Não podemos ser outra coisa além disso, mas podemos encobrir essa verdade com nossa ignorância. Não temos de "encontrar" nada; por esse motivo foi que Buda disse que, depois de quarenta anos, ele não tinha alcançado nada. O que há para ser alcançado? O que está sempre aqui.

Relacionamentos não funcionam
Voltei há pouco tempo da Austrália. Fui até lá na esperança de gozar um clima ameno; no entanto, choveu muito nos primeiros dois dias, o que foi engraçado. Depois, nos últimos cinco dias de sesshin em Brisbane, houve uma tempestade de neve. Foi tão forte que, enquanto corríamos por entre os prédios, eu mal conseguia ficar em pé. Tínhamos de lutar para manter o equilíbrio. O vento era como um caminhão, trovejando no telhado o tempo todo. Mesmo assim foi um bom sesshin e aprendi (como sempre) que, independente de onde você for, as pessoas são as pessoas: são todas maravilhosas e são todas problemáticas, como, aliás, em toda parte; e as mesmas dúvidas que atormentam os australianos nos atormentam também. Eles têm tanta dificuldade com relacionamentos como nós. Portanto, quero comentar sobre as ilusões que temos a respeito de relacionamentos darem certo. Vejam, não dão. Simplesmente não funcionam. Nunca houve um que desse certo. Vocês podem dizer: "Bem, por que estamos fazendo tantas práticas se é assim?". É o fato de querermos que algo dê certo que torna nossos relacionamentos tão insatisfatórios. De certo modo, a vida pode funcionar, mas não na perspectiva de que iremos fazer alguma coisa que consiga fazê-la funcionar. Em tudo que fazemos a respeito de outras pessoas existe uma sutil -ou não tão sutil -expectativa. Pensamos: "De algum jeito vou acabar me entendendo nessa relação e fazê-la funcionar, então vou conseguir o que desejo". Todos queremos alguma coisa das pessoas com as quais nos relacionamos. Ninguém pode dizer que não quer nada das pessoas com quem se relaciona. Mesmo se evitarmos os relacionamentos essa é apenas uma outra forma de desejar alguma coisa. Em outras palavras, relacionamentos não dão certo. Porém, então o que dá certo? A única coisa que dá certo (se realmente praticarmos) é o desejo não de ter algo para nós mesmos, mas de acolher a vida toda, incluindo os relacionamentos. Bem, vocês podem afirmar: "É, parece bom, vou fazer isso!". Mas ninguém quer mesmo fazer isso. Não queremos sustentar mais ninguém, mais nada. Sustentar ou acolher na realidade alguém significa que você lhe dá tudo e não espera nada em troca. Você pode lhe dar seu tempo, seu trabalho, seu dinheiro, qualquer coisa. "Se você precisar, eu lhe dou." O amor não espera coisa alguma. Em vez disso temos os seguintes jogos: "Vou me comunicar de modo que nossa relação melhore"; na verdade isso quer dizer: "Vou me comunicar com você para que entenda o que eu desejo". A expectativa implícita que investimos nesses jogos asseguram que

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Mas. e ajudá-la com as crianças. Não há nada de errado. a saber. então. pode favorecer que as pessoas se tornem quase totalmente impessoais (como acho que eu mesma fiquei durante certo tempo). em nossas relações. Sempre que quisermos alguma coisa. encontrou a outra mulher. Nada havia que eu sentisse na dimensão emocional porque eu tinha me tornado uma máquina de observar. Moraram juntas na mesma casa e a esposa fez o que pôde para ensinar inglês à moça. no sentido de uma orientação completamente aberta. toda vez que sentimos incômodo –o ponto em que ela deixa de nos convir -um grande ponto de interrogação deveria saltar bem diante de nossos olhos. De que modo praticarmos 50 . Se alguma coisa não emergir da prática além daquilo que eu desejo. arrumar-lhe um trabalho. para mim. com uma forte concentração. Quando voltou para casa. Existem inúmeros treinamentos psicológicos e terapêuticos valiosos que. dirão: "Mas o que há de errado em querer um pouco de conforto?". para a minha idade. não devemos simplificar demais o problema. mas depois. Isso é amor. não em favor de uma orientação centrada no outro (porque ela termina nos incluindo). amenos que isso contrarie o que para mim é mais importante do que o conforto. algo em seu íntimo começou a se agitar e ela trabalhou sem cessar seus sentimentos de angústia. temos que desenvolver dois. fica cada vez mais clara a idéia desta outra forma de ser e começamos anos afastar de uma orientação centrada no eu. Ao praticarmos esta modalidade do sentar. Cada uma delas tem suas forças e fraquezas. confessou-lhe a verdade da relação que tivera e dos filhos. Como todo mundo. Ao praticarmos. não contou à esposa o que lhe acontecera. minha orientação fundamental na vida. quem sabe. ela ficou muito transtornada. Numa relação. então alguns começarão a entender o próximo passo. Primeiro. no qual vocês observam. Há também outras formas de prática. apesar disso. ela disse: "Vou cuidar deles". Já que nenhum de nós pode afirmar que isso está resolvido. mas o sesshin foi bom tendo causado um forte impacto em várias pessoas) foi que eu estava dizendo: "Bem. é muito valioso e. Não há necessidade de enfatizarmos isso aqui. quero conforto. observam e observam. O tipo Vipassana de prática (que eu prefiro). mas sim um meio para se entrar em contato com a própria vida. entretanto. significa que a prática continua para todos nós. posso sustentar e acolher sua vida e esperar nada. No entanto. para que indagássemos o que está acontecendo conosco. me custou muito. por fim. antes que o marido morresse. o que notei nessa viagem (longa. Nada". A prática de meditação não é um tipo qualquer de "desligamento". ela exercerá seu efeito em todas as fases da vida. Sentar-se apenas. Foi. Se a orientação fundamental não vier da prática. Ele amava muito a japonesa. finalmente. que é ver um outro modo de ser. posso lhe fazer isso. cujo marido estivera no Japão durante a guerra. Mas. tem valor. Talvez eu precise descansar mais". então não é a verdadeira prática.50 esses relacionamentos não darão certo. em tudo. Gosto de me sentir bem. compassiva e equilibrada. às vezes. Faz muito tempo que comecei a praticar. Se conhecermos nossa orientação fundamental. três ou quatro aspectos da prática. A concentração é um dos aspectos da prática. O desenvolvimento de um ser humano. Aliás. Às vezes temos um vislumbre do que possa ser: "Sim. Entretanto. Houve a história verídica de uma esposa. a pessoa pode usar muito mediocremente o tipo de poder que desenvolve assim. a menos que tomemos cuidado. ao Japão. todavia. Se realmente enxergarmos isso. A mente humana é assim. não é simples. Se nossa prática não estiver indo nessa direção. que só serve para tornar mais confortável minha vida. constitui o melhor e mais básico treinamento. também têm suas desvantagens. podemos usar essa atitude para fugir à vida. quando soube que estava morrendo. Essa. porém. pode ser a desvantagem desta espécie de prática. mas essa capacidade deve ser alcançada em algum momento. Vocês. não tenho certeza se farei a mesma coisa no ano que vem. então essa não é uma prática. em nosso trabalho. até que se torne o que eu chamaria uma pessoa sábia. Não gosto de ficar cansada. Lá viveu com outra mulher e teve dois filhos. então essa não é uma prática. trouxe-a junto com as crianças para os Estados Unidos. sabemos que nossa prática deve continuar.

. Tem uma estrutura flexível e uma forma de absorver choques e estresses de tal sorte que consiga manter sua integridade e continue funcionando. A vida gosta que as pessoas sejam flexíveis. logo. Se alguém lhes contar algo diferente. Claro que não estou defendendo a noção de que as pessoas devam desfazer seus casamentos. ao longo dos anos. significa ser muito forte. não quer dizer ser rígido. não existirá mais nada. vamos continuar esclarecendo o que nossa prática é. isso não é menos importante do que as coisas que são aprendidas. o meio da casa afunda e a água. A vida não liga a mínima para a relação de vocês." ou "Isso não está certo para mim". a fim de que possa usá-las para aquilo que busca realizar . porque o mérito de uma relação não tem nada que ver com ela. escorre toda pelo meio e deixa a construção em pé. porém. que não é em absoluto leve e abençoada. Se não o for. Se compreendermos o zazen e nossa prática. Sendo assim. Quando o querer é pouco. muito devagar. Se as relações não suportarem o teste. Portanto. Ela não se importa se você está "feliz" em seu relacionamento. ou o relacionamento precisa amadurecer sua força para poder enfrentar a vida. então a relação é forte e funcionará. começaremos a ver quem somos. em si. quero que vocês apreciem a prática que estão executando e a realizem de verdade. Se não houver a fundamentação. Quem sabe se alguns dentre nós não chegarão a encontrar uma relação que dê certo. Uma boa relação dá mais poder à vida. como o vento forte. Esse funcionamento é aquilo que vocês são. É isso que a vida está procurando. Ela está procurando canais e. casam-se quando sua relação não serve para nada. com o tempo começaremos a saber atrás do que estamos. não lhes estará falando sobre a verdadeira meditação. a prática zen diz respeito a perder o eu. Ouvi falar que existe uma forma de projetar casas de praia onde grandes tempestades podem inundá-las: quando isso acontece. Todas as relações fracas refletem o fato de alguém querer alguma coisa para si próprio. Ela busca canais para sua força. O que não significa ser uma não-entidade. As questões que estou levantando são importantes. Uma boa relação é algo desse tipo. não pode agüentar a pressão que a vida exerce e. Desta maneira. o canal tem de ser poderoso. para que possa funcionar ao máximo. É o fundamento. Quero apenas dizer que em geral interpretamos com muitos equívocos o que se refere a um casamento. Mas. se a fizermos com autenticidade. Ainda assim. mas talvez vocês não concordem com tudo que estou dizendo. Porém. significa que os parceiros estão preocupados com o "eu": "O que desejo é. Se se dissolve. É quase como se um terceiro e mais amplo canal tivesse sido formado. Ser forte. Seu mérito é a força extra que a vida recebe quando trabalha com ela como um canal. a cada momento. para ela. É só nisso que a vida tem interesse. esse processo é terrível. Enquanto egos separados. Ela não é um jeito que vocês dão na própria vida. por ter uma base completamente diferente.51 com o incômodo? Não estou mencionando que todo relacionamento deva ser mantido para sempre. então a vida tem um canal mais poderoso do que com ambas em separado. Às vezes. Cabe a nós criarmos essa base. podemos começar a familiarizar-nos com nós mesmos e com o modo como nossas problemáticas emoções destroçam nossa vida. Se duas pessoas são fortes quando juntas. a estrutura será rígida e. ela o descarta. vamos fazer apenas isso. então. não servirá bem a ela. sendo assim. Muitas pessoas. a tomar consciência de que somos o não-eu. então. bate nas relações para testá-las. O relacionamento não é um com o outro 51 . em vez de tragar a casa toda. quando uma relação é quase toda baseada no "eu quero". Toda essa novela a respeito de você comigo ou com mais alguém não interessa à vida. Se praticarmos realmente. com desejos em separado. vocês não têm importância alguma para a vida. Quando a relação não está dando certo.. dessa forma. a força se desenvolverá. ou precisará ser dissolvido para que uma coisa nova e original tenha chances de emergir dos destroços. O que ela está buscando é um canal e. por exemplo. logo.

vamos supor que sou casada. minhas responsabilidades me forçam a ir para outro lugar. O personagem de Shakespeare. E então? O que faço? Ou posso ter pais idosos que precisam de minha assistência e minhas obrigações profissionais. O eu verdadeiro é absolutamente nada e. com nosso trabalho ou outra atividade em particular. Talvez tenhamos uma imagem de algo chamado "o eu verdadeiro". nem o emprego. O verdadeiro eu desconhece separações. nossa relação não é com o grupo. Mas. assim como filhos. por três ou quatro anos. mas ao verdadeiro eu. Porém. então ficaremos eternamente confusos com os problemas e não saberemos como agir. é com o verdadeiro eu do grupo. Com essa expressão "eu verdadeiro". como se fosse uma entidade propriamente dita. como a noite ao dia. Nem todos os problemas são tão difíceis quanto esses. todavia esses elementos não explicam a vida que somos. Muitas vezes falei que. todavia. de fato. um potencial só de energia. mas o verdadeiro eu –vamos chamá-lo de o infinito potencial de energia –desconhece separações. O modo comum de pensar em casamento é: "Estou casada com ele". ninguém em absoluto. não pode haver dois. O verdadeiro eu desconhece separações. não estou fazendo menção a algum tipo de fantasma que fica voando pelos cantos. precisamos enxergar que na verdade isso não é bem assim. Imaginemos que tenho um parceiro que está profundamente empenhado numa certa área de pesquisas e o único lugar em que seus estudos podem prosseguir é na África. Estamos em sesshin para descobrir. não poderás ser falso a homem algum". É o único Mestre. não estou casada com alguém ou com alguma coisa: eu sou aquela pessoa ou aquela coisa. essencialmente. só que há uma distinção. o que faço? É de problemas desse tipo que a vida é feita. outras relações quaisquer. mas não do modo como costumamos pensar a nosso respeito e dos outros. o que fazemos a respeito dos difíceis problemas que ocorrem em nossa vida? Todos sabem que o trabalho pode apresentar desafios imensos. Por exemplo. Vocês podem dizer que isso é muito bonitinho. até os menos exigentes podem nos pôr contra a parede. contudo. Essa pessoa seria. O verdadeiro eu configura-se em vários padrões de forma. Pode parecer que eu esteja casada com ele. quando estamos sofrendo. Ao fazermos zazen. o que diriam? Vamos pensar por um instante. é a única coisa que deve dominar nossa vida. existirão nós dois e. Temos mente e corpo. enquanto disser "com ele". Contudo será que isso se aplica a uma situação. Assim.52 Sentamo-nos em sesshin para sabermos quem somos. Essa é a verdadeira maneira de crescermos. De um ponto de vista diferente. ela seria completamente humana. Polônio. nem o filho. ou ao sentarmo-nos em sesshin. Suponhamos que os filhos desse casamento estejam sofrendo. ou que tenho quatro filhos. Se não o entendermos. Porém meu trabalho me obriga a permanecer aqui. Ao labutarmos pela vida e percebermos os defeitos de nossas relações com esta ou aquela pessoa. nem um centro. ou que tenho um jipe Toyota. Não é difícil ver que essa pessoa não seria humana do jeito que entendemos que alguém é humano. quando ela fica tão difícil que todos os que nela estão envolvidos estão perdendo feio? O que fazer? Há inúmeras variações quanto aos problemas de relacionamento. devemos nos tornar esse sofrimento. O que estou sugerindo? Algo do tipo "funcionamento do homem e da mulher em que não existe uma motivação centrada em si própria". flutuando por aí. No entanto. temos o propósito de entendê-lo melhor. pais. Queremos conhecer nosso eu verdadeiro. Em qualquer situação. A única coisa a que devemos servir não é um professor. nem o companheiro. para ser nosso eu verdadeiro. no verdadeiro eu. 52 . nossa devoção não deve dirigir-se à outra pessoa em si. Imaginemos que estou casada com alguém muito difícil. Na verdade. um de nossos maiores equívocos é a idéia de "estar relacionado com essa pessoa ou situação". mas em termos práticos. Quando digo que estou casada com você. no entanto. na forma cotidiana de me expressar é assim mesmo. permanece um eu só. o que afinal é? Se tivessem de definir "eu verdadeiro". Se estamos num grupo. Claro que a outra pessoa encarna o verdadeiro eu. de Hamlet. disse: "Sê fiel a teu verdadeiro ser e segue-o.

infelizmente. ninguém sabe. exceto meu verdadeiro eu. não faça nada disso. Quem sabe. Podemos ter consciência da irritabilidade. pessoa alguma pode ser Mestre. Ela serve para aprender o que significa servir aquilo que não podemos ver. Existe um único Mestre. do aborrecimento. não temos muito interesse por nosso verdadeiro eu. relacionamentos variados. sim. pode me dizer o que fazer. conseguimos nos desviar dela. Quando formos ninguém. para percebermos esse fato. O Mestre não é uma coisa. nem Sabba fulano. Contudo. Qualquer Centro não é nada mais que uma ferramenta para o Mestre. o que pensamos. nem mais ninguém. Como disse certo professor: "Sua vida não lhe diz respeito". o que nos assegura a saúde ou o bem-estar. Não é nem bom e nem mau que sejamos assim. Uma prática inteligente vai aos poucos iluminando esse fato. a irritação que sinto quando milha filha fala que vai telefonar e não o faz. da impaciência. Bem. Talvez eu desista de meu serviço em Nova York e fique em casa para cuidar de meus pais. Por exemplo: a interação com alguém que nos irrita. Casamentos. o encontro que azeda quando achamos que ele tinha de fazer "outra coisa". a cada cinco minutos temos uma oportunidade de trabalhar com isso. É nesse sentido que direcionamos nossa energia. porém. Todas as relações podem ensinar-nos alguma coisa e. o que esperamos. do quão terrível achamos alguém. Em outras palavras. tocar. Ninguém. Quando uma prática assim cuidadosa assume a prioridade de nossa vida. Devemos tomar consciência de como nos sentimos. sem sombra de dúvida. Com paciência podemos fazer isso. A prática torna óbvio que. Mas nossa prática é. tomamos consciência da dor e da agonia que ela produz e. Não importa o que minha mãe diz a esse respeito ou o que minha tia fala. tudo isso pode parecer remoto e idealista. é nosso Mestre. a não ser meu eu verdadeiro. não somos casados um com o outro. precisam chegar a um fim. Se nossa prática estiver madura aponto de não mais nos enganarmos tanto. Todavia. Quando somos casados. Quando lecionamos para crianças. estamos. o que nos faz sentir bem. o verdadeiro eu é uma não-coisa e. temos de iluminar nossa atividade não uma. será o oposto disso. Somos como uma pequena lula que produz uma inundação de tinta atrás de si para que nossos equívocos não possam ser detectados. Ao mencionar que é uma não-coisa. Quando alcançamos uma iluminação parcial de nossas atividades habitualmente centradas em torno de nós mesmos. só podemos ver como o perdemos de vista. cresce nosso conhecimento do que deve ser feito. ou nós próprios -a nuvem em cima de tudo. trabalhoso e. não importa nem o que eu digo. é porque estaremos em contato com nossas experiências autênticas -então cada vez mais saberemos qual é a ação compassiva a ser tomada. às vezes. quase em toda nossa vida. Em termos de uma situação concreta. o não-eu. Temos de colocar uma lanterna incidindo sobre nossos pensamentos indelicados referentes a pessoas e situações. podemos experimentar a tensão gerada pelos pensamentos. mas dez mil vezes. às vezes. são apenas isso. Em essência. E esses sentimentos nós podemos rotular. saborear ou cheirar. é apenas o que é. Não existem receitas. servimos ao Mestre e. estamos expressando o verdadeiro eu de um modo apropriado à classe. O que é o verdadeiro eu em todos esses mínimos incidentes? Normalmente. Então. no sentido habitual. (e isso jamais seremos completamente) a ação correta torna-se óbvia. não as estamos ensinando.53 mas. no entanto. do que desejamos. assunto nosso. Podem existir momentos em que a melhor maneira de servir ao verdadeiro eu consista em ir em frente. O Mestre não sou eu. Desse modo logo que acordamos de manhã 53 . como é que saberemos fazer isso? Não é fácil e custa tempo e perseverança para aprender. interessados em nosso pequeno eu: interessanos o que desejamos. dessa forma. mas com o verdadeiro eu. Pode até ser que tenhamos uma pálida noção de uma outra modalidade de ser: o verdadeiro eu. porém é a única coisa. do que esperamos. nosso verdadeiro eu. não quero dizer nada. Ninguém pode me dizer o que é melhor. não podemos vê-lo. podemos experimentar aquilo que colocamos entre nós mesmos e nosso verdadeiro eu. qual é o caminho para se servir ao verdadeiro eu? O caminho pode parecer muito áspero. Guru sicrano. algumas delas. em certo sentido.

confundindo-nos.54 começamos a esguichar a tinta. Quando nossa vida gira exclusivamente em torno de nós mesmos. no qual elas apenas acontecem. A ausência do quê? 54 . criamos confusão. O verdadeiro eu é absolutamente nada. persistência e postura. É a ausência de qualquer outra coisa. Manter a equanimidade e sentar. Esse acontecer não pode vir de uma dimensão em que o eixo seja o próprio umbigo. mas o fato é que gostamos. Podemos até insistir que não gostamos de contos de fadas horríveis. A verdadeira prática nos conduz cada vez mais até aquele espaço simples e isento de drama. Estar no sesshin aumenta muito nossa possibilidade de passar mais tempo de vida nesse espaço simples. Mas é preciso que tenhamos paciência. e se apega a ele. que ensombrecem a água à nossa volta. no qual as coisas são apenas o que são. Qual é nossa tinta? Nossas preocupações com nós mesmos. Alguma coisa dentro de nós fica fascinada com nosso drama.

quando não obtemos algo que desejamos. sem problemas. sentamos para a prática sem propósito algum. nos dias imediatamente subseqüentes à operação. quando de fato obtemos esse algo. "pesar" e "depressão" são termos que trazem à mente imagens de peso. "suportar embaixo". quando ficou um pouco mais forte. são em si ensinamentos. Ele não disse que. "estar completamente sob". Desse modo. mas não consigo mesmo entender que o seja quando as coisas estão indo bem e estou me sentindo bem". Os fundamentos de nossa prática e a primeira das Quatro Nobres Verdades é a declaração do Buda de que "A vida é sofrimento". aguda. -so. às vezes. Por exemplo. como se o sofrimento viesse até nós de uma fonte externa. Contudo. de algo que pesa de cima para baixo. porém. mas no restante de nossa vida. O outro tipo é estar sob. Não só isso. Então há o sentimento nessa palavra de "estar embaixo". Em contraste com esta palavra. Em geral as pessoas revelam: "Sem dúvida consigo ver que a vida é sofrimento quando tudo dá errado. Mas. "embaixo". De certo modo. sua dor ter sido clara. "estar suportando alguma coisa por baixo". veremos como praticar. Há. mesmo que as coisas desagradáveis desapareçam. se o conseguimos. Algumas vezes fiz uma distinção entre "sofrimento" e "dor". sofremos. "aflição". como queremos que os outros também fiquem livres. se acontece ou não conosco. ela riu e disse: "Paciência e Dor". esse é um de seus lados. Há algumas semanas. Podemos entender nossa vida diária e ver que ela de fato não é problema. vem de sub. um elemento central de nossa prática é compreender o que é o sofrimento. Ela considerou interessante o fato de. O termo "pesar". Por exemplo. A compreensão dessa diferença é muito importante. mas agora gostaria de usar o termo "sofrimento" e nele distinguir o que chamo falso sofrimento e sofrimento verdadeiro. nem o dia mais agradável está isento de sofrimento. existem duas formas de sofrimento. deriva do latim ferre. a primeira parte versava sobre o significado do vocábulo "sofrimento". O vocábulo "sofrer" não implica de forma alguma uma experiência marcante e dramática. ele disse: a vida é sofrimento. Se realmente o entendermos. Porém. diferentes categorias de sofrimento. Sabemos que não podemos ficar para sempre com as coisas agradáveis e. Não importa obter ou não. não apenas enquanto estamos sentados. Sofremos porque a vida está mudando constantemente. O elemento -frer/frimento. apenas suportando-o. Perguntei-lhe qual seria um bom tema para uma dharma palestra. podemos perdê-lo. podem ter encontrado 55 . e começou o sofrimento. do latim gravare significa "pressionar". apenas sendo-o. a mente começou a funcionar. é sofrimento. elas podem voltar .55 CAPÍTULO 5 Sofrimento Sofrimento verdadeiro e sofrimento falso Ontem estava conversando com uma amiga que há pouco tempo passou por uma grande cirurgia e está se recuperando. Uma é aquela em que nos sentimos pressionados de cima para baixo. vocês podem ter tomado o melhor café da manhã de suas vidas. como se estivéssemos recebendo alguma coisa que nos está fazendo sofrer. Interessam-me esses significados. uma certa pessoa emprestou-me um artigo muito interessante sobre o sofrimento. Todos os seus pensamentos a respeito do que estava acontecendo com ela começaram a aparecer . Essa distinção no entendimento do sofrimento é uma das chaves ao entendimento de nossa prática. limpa. tudo é desagradável. E a parte inicial do termo. suportar. O autor do referido artigo assinalou que o vocábulo "sofrimento" é usado para expressar muitas coisas. Assim. Quero distinguir esses dois tipos de sofrimento. também sofremos porque sabemos que. o outro é que desejamos nos libertar do sofrimento.

como sabemos disso. montado em seu cavalo. aprendizes do Caminho. Isso foi tudo. implica. Bem. Esse é o sofrimento falso. O máximo que conseguimos é intensificar as distâncias. isso implica passividade. então sofremos. Todos os dias somos confrontados com acontecimentos que nos parecem completamente injustos e sentimos que a única maneira de enfrentar um ataque é revidando-o. De modo algum. quando consideramos que as opiniões sobre algum evento são uma espécie qualquer de verdade absoluta. mas. estava saindo de sua fazenda e indo para outra. a ação provinda de um estado de completa 56 . Todavia. Aconteceu que nesse momento o professor. cruéis. que constitui o problema. até então. Pode ser muito injusto ou muito cruel. e céu e terra estão distanciados. opondo-nos a eles. Eu não posso lhe ensinar o que você precisa saber. até chegar à aldeia onde morava o camponês. começou a sofrer e a ficar infeliz. respeitado e reverenciado por todos. o professor olhou-o de cima a baixo e falou: "Não basta". A todos nós acontecem coisas injustas. o camponês comentou: “Agora você pode voltar. É a atividade de nossa mente. tocando o casco. como se estivéssemos envergando um colete aprova de balas. da conceituação a respeito de tudo que nos acontece. Ouvindo isso. terá conseguido tudo. Quando o rapaz chegou perto o suficiente e curvou-se diante dele. não faz a menor diferença o que está acontecendo. "Um décimo de uma polegada de diferença. um analfabeto. Revidamos. meio indisposto. cujo pai era um dos maiores professores daquela época. o rapaz ajoelhou-se e o camponês repetiu: "Não basta". um lavrador". Havia há muito tempo um rapaz. mas foi assim mesmo e viajou a pé. E o rapaz. Tentamos fazer como mencionou Shakespeare: “Apresentar armas contra um conjunto de problemas e. Armamo-nos com nossa raiva e nossas opiniões. Se na realidade examinamos nossa situação do ponto de vista habitual. mas.56 exatamente aquele amigo que tanto queriam. não se libertarem de repente do pensamento conceitual. O rapaz não gostou nem um pouco. Pensamos que desse modo estamos do melhor jeito possível para viver. mesquinhas. Isso me faz pensar numa citação do Mestre Huang Po: "Esta mente não é a mente do pensamento conceitual e está completamente separada da forma. Portanto. sem nos opormos a ele. Nosso hábito é pensar: "Mas que coisa terrível!". Mas seu pai lhe disse: "Não. chegando às patas do cavalo. minha amiga observou que. Portanto (lembrando-nos da definição da palavra "sofrer"). Não existem muitos dias tão bons assim. sabemos que no dia seguinte pode ocorrer tudo ao contrário. Se você conseguir libertar-se do pensamento conceitual. como enfrentarmos o sofrimento da vida? Há uma história sufi a esse respeito. ficamos inquietos e ansiosos. opomo-nos ao que acontece. O rapaz curvou-se diante dos joelhos do cavalo e o professor disse outra vez: "Não basta". se essa abordagem não funciona. Budas e seres sensíveis não diferem em absoluto entre si. se vocês. não havia problema. A vida não nos oferece garantias e. eliminá-los". Nisso. Então. nisso. tendo crescido ouvindo as palavras de grande sabedoria do pai. Você teve seu treinamento". mas absorvendo-o e sendoo. aumentar a raiva e fazer a nós e a todas as outras pessoas infelizes. mesmo que se esforcem por todos os séculos. jamais chegarão lá" (14). Não há nada de errado com as conceituações em si. inação." Quero acrescentar aqui uma consideração. ao contrário. nossas justíssimas considerações. esquecendo-nos de que são opiniões. o rapaz curvou-se mais uma vez. sentia que já sabia tudo o que havia por aprender. até que nos curvemos e suportemos o sofrimento da vida. A pessoa que quero que você ouça é um professor camponês. a vida é sofrimento. No instante em que começou a alimentar pensamentos sobre a dor. ir para o trabalho e tudo correr às mil maravilhas. como uma aflição. Seria ótimo se realmente "as flechas e as atiradeiras da sina mais ultrajante" pudessem cessar. Nosso revide está em nossas mentes. viu o rapaz encaminhando-se até ele. Nessa medida. não conseguiremos enxergar o que a vida é. enquanto só havia a dor física.

Cada passo em direção ao alto permite-nos enxergar mais. sabemos bem no fundo quem somos e quem todos são. e essa visão não nega as coisas que ficaram embaixo -ela as inclui -. Enfim. No entanto. uma completa vulnerabilidade à vida é (para nossa grande surpresa) o único meio satisfatório de se viver. a coisa principal que observo é que elas não compreendem o sofrimento. é isso: a qualquer momento específico. mais saberemos o que fazer. não sofram. Podemos entender melhor o que ele é e como usá-lo em sua melhor característica. efetuando de fato uma prática. nossa visão de vida se amplia. mas se torna maior a cada etapa da subida. Quando começarmos a questionar nossos pontos de vista. a ir contra o que nos acontece. irão evitá-lo tanto quanto possível. dos acontecimentos. É como escalar uma montanha. Portanto. de um modo direto. nesse instante. simplesmente ser o sofrimento. em especial no sesshin. A mente que cria o falso sofrimento está constantemente funcionando nos sesshins. sabemos quem somos. Nossa prática. quando enxergo esse absurdo. Por muito tempo. tenham bastante clareza a respeito de vocês mesmos. Mais uma vez surge a inquietação e começamos a lutar. Nossas mentes funcionam dessa maneira. Quanto mais enxergamos. lutemos contra as novas informações e as neguemos. Nos sesshins. mas muito mais difícil. Entretanto. porque uma coisa é falar do sofrimento e outra. é quando encaramos o sofrimento. sentiremos inquietação. aborrecimento. Claro que nem sempre eu também o entendo e tento evitá-lo como qualquer um. essa mente se aquieta de novo. porém. Contudo. Ao fazermos isso. quando fazemos zazen. temos um ponto de vista rígido ou uma posição inflexível a respeito da vida. no zazen. cada vez que entramos no sofrimento e nos entregamos à situação. no último fim de semana!". cada momento que praticamos desse jeito nos dá aquilo que não podemos obter de nenhuma outra maneira: o conhecimento direto de nós mesmos. ela mesma abalará as certezas inabaláveis de nossas opiniões e não seremos mais capazes de mantê-la. até que se reinicie o ciclo. podemos fazer com que os outros não tenham medo. quando realmente nos sentimos dispostos a penetrar em sua dinâmica. é esse afastarmo-nos da fantasia e dos sonhos pessoais. nesse esforço para chegarmos a um acordo com as novas percepções relativas a nossa vida. Diante disso. Na noite passada constatei-a em mim mesma. lembro-me de perguntar: "O que de fato quero para mim e para os outros?". é fazer o que estou dizendo. um dia. Não há quem não esteja sob seu jugo. Como falo com inúmeras pessoas. quero dizer. das pessoas e. Então. Conseguimos isso através de uma prática persistente. e vejam também que. estamos de volta à única realidade segura: o momento presente. a cada estágio do esforço. praticando com essa espécie de coragem. mais uma vez. se nossa prática for sincera. Mas às vezes as pessoas comentam: "É difícil demais". Até mesmo o termo "aceitação" não é muito preciso. nosso foco e o samadhi se aprofundam. ao longo de nossa vida. luta. não praticar absolutamente nada é muito. nossas referências e opiniões sofrerão abruptas modificações. ter um entendimento teórico do que é o sofrimento e como praticar com ele torna-se um instrumento de extrema utilidade. que inclui algumas coisas e exclui outras. Cada vez que fazemos isso. constantemente. mais abrangente nossa visão. sê-lo apenas. Assim. extremamente difícil. e desaparece a barreira entre nós e os outros. É quando ficamos de frente para esse momento. a renúncia do bodhisattva é essa prática. Faz parte da prática. Estamos mesmo nos enganando. quando o fazemos. Mas. qual ação encetar . 57 . o que é tudo o mais. Podemos mantê-lo durante um certo tempo. Quando o fizermos. sentiremos que estamos dispostos a vivenciar nosso sofrimento em vez de lutar contra ele. recusamos com paciência a dominação desses pensamentos e dessas opiniões a respeito de nós. penetrando na realidade do presente. Uma completa abertura. e ninguém precisa nos dizer coisa alguma. Claro que se vocês forem um pouquinho parecidos comigo. Por conseguinte.57 aceitação. acerca do que deve ser feito para encerrar o sofrimento. Podia ouvir minha mente se queixando: "O quê?! Outro sesshin! Você acabou de fazer um. nossas novas perspectivas irão sustentar-se por um certo tempo. Depois. quando não praticamos. talvez.

Renúncia Suzuki Roshi disse: "A renúncia não consiste em desistir das coisas deste mundo. Por que o vêem com tanta clareza? Porque também estão fazendo a mesma coisa. Do ponto de vista do pequeno eu. Devemos viver e morrer. Mas não estamos interessados nisso. e o corpo. Não estão interessados em nossos esforços para sermos o centro do universo. As folhas caem. só temos interesse pela batalha de preservação de nossas pessoas. Há sempre uma luta em andamento dentro da existência humana. para todo o sempre. O mais engraçado é que nossos amigos não se deixam enganar por nós. Apesar disso. Procuramos amigos que. Nosso impulso não é apreciar a perfeição do universo. Ocupamo-nos de um modo frenético o tempo todo. Esse processo é a própria perfeição. Mesmo na prática zen tentamos encontrar um meio de esquivar-nos à prática genuína para que possamos alcançar uma vitória pessoal. para a respiração. Sem destruição não pode haver vida nova. então de imediato. Tudo é Impermanente. dedicamo-nos a essa batalha sem cessar. não tenha encontrado as recompensas oferecidas pelo verdadeiro sentar. poderia não existir . mas é o que passamos fazendo o tempo todo. Se a vida fosse permanente não poderia ser a maravilha que é. a partir de um certo dia. Impermanência é. não há aquele que.. Quando falham nossas tentativas para vencer a luta. que é a impermanência. As pessoas costumam me falar: "Joko. deveremos prestar-Ihe atenção. Ficamos desesperados para que alguém nos diga: "Está ótimo. Jamais alcançamos esse resultado com nossas queixas. voltem ao estarem sentados. Se aparecerem. não é preciso suprimi-los. dos fragmentos de rocha nascem as flores. Quando fazemos isso. a última coisa que apreciamos é nossa própria impermanência. Estamos sempre envolvidos numa batalha interminável com nossos receios a respeito de nós mesmos e de nossa existência. Não se pode esperar dele que saúde essa aniquilação com grandes 58 . Não queremos ver isso. Pode parecer ridículo. "braço direito" da impermanência. e não estou sugerindo que suprimamos esses sentimentos. pura e simplesmente. No entanto. A maravilha do viver. porém. tudo se vaI. aliás. a prática só pode ser árdua. Nossa atenção está dirigida em outro sentido. Tudo será maravilhoso para você".. Toda essa mudança. apenas um outro nome para perfeição. Quem não notou seus primeiros fios de cabelo branco sem comentar com os próprios botões "Hum. Sentemo-nos dessa maneira. Recusamo-nos a ver a verdade que está toda à nossa volta. ao final de um sesshin. É claro que essa é uma luta ansiosa e inútil que não pode ser vencida jamais. Renúncia é um estado de desapego. Se quisermos ver a vida. Retornem. mas em aceitar que elas se vão" (15). É necessário um grande incêndio nas matas. neutralizem a faca afiada de nosso medo de que não estaremos mais por perto. a constante mudança. Queremos que o parceiro garanta nossa segurança. como espelhos. O modo como interferimos nos incêndios florestais pode não ser uma boa atitude. por que você pratica de um modo tão árduo? Por que não enfeita um pouco a coisa?". as coisas que consideramos adoráveis. As pessoas que oferecem essa saída tornam-se ricas. podem tentar a paz na falsa forma de uma religião. de aceitação das partidas. cedo ou tarde.". amargura e raiva. A destruição é necessária. que não tem o menor interesse por ela. Quem sempre vence é a morte. que nos faça sentir que somos maravilhosos.58 inteligente e paciente. O que desejamos que a vida nos dê é que os outros. que nos dê o que desejamos. não é o que temos em mente. o lixo e os detritos se acumulam. Realmente não vemos de jeito nenhum a vida. reflitam nossa glória. no mínimo. A prática aniquila o pequeno eu. Essa resistência a mudanças não está em sintonia com a perfeição da vida. Eles vêem exatamente o que estamos fazendo. para que então nossa ansiedade se amenize um pouco. Nosso impulso pessoal é encontrar uma maneira de sustentar para sempre nossa glória imutável. as folhagens. observem-nos.

59 . Quando estamos efetuando uma boa prática estamos ampliando um canal para essa energia universal e a morte perde a dor da ferroada. Mesmo ao longo do dia mais tranqüilo e sem incidentes temos muitas oportunidades de ver a colisão entre o que desejamos e o que realmente é. é pura alegria. queremos ser sábios. Quando nosso pequeno eu morre -nosso irado. Nossa atenção dirige-se para outro lado. quando os meninos do vizinho estão tocando rock?" Todos os momentos oferecem-nos um verdadeiro tesouro de oportunidades. queremos ficar em paz. a menos que queiramos ser desonestos. Conforme ele se vai começam a ocorrer cá e lá momentos em que vemos a vida como ela é. Há. Não temos qualquer interesse pela perfeição infinita do universo. que na realidade. essa contrição.59 demonstrações de alegria. Numa boa prática. "Esqueça a realidade! Estou aqui para ficar iluminado!" O zazen. No entanto. o outro lado é alguma outra coisa e não lhe damos nome. arrependemo-nos. colidem com o que é. Essa é a verdadeira compaixão. A perfeição infinita é passar por essas inconveniências: " As coisas não estão acontecendo do jeito que eu quero". Se uma reação não for consciente. A qualquer momento só existe aquilo que está acontecendo. meus joelhos doem. estamos abertos para a totalidade. começamos a ficar interessados naquilo que a prática é de fato. queixoso. pode ser a pessoa sentada a meu lado.. Quando nos damos conta de que quase o tempo todo magoamos a nós mesmos e aos outros. Se praticarmos com os pensamentos e as sensações físicas que compõem a reação. minha própria glorificação. Toda prática boa tem como meta tornarmo-nos conscientes de nossos falsos sonhos. Portanto. ficamos aborrecidos. meu controle pessoal do universo. nossos conceitos a respeito dela tendem a se destruir por si. às vezes. Precisamos não apenas conhecer nossa raiva. não estamos interessados nisso. como saber quais são nossos recursos pessoais para enfrentá-la. contudo. Pode ser que. Essa situação permanecerá até que nosso eu pessoal esteja completamente morto. "Odeio aquela respiração barulhenta.".. vejamos que nossos esforços em sesshin são destinados a aperfeiçoarnos. se preferirem. Como ficar consciente do que é quando ela respira daquele jeito?" "Mas como praticar. A questão da prática é exatamente esse espaço de colisão em que meus desejos de imortalidade pessoal. Quando nossa prática tornar-se o momento presente. Até que morramos. respirando de modo barulhento ou suando. manipulador pequeno eu -aparece um enfeite genuíno: alegria e autoconfiança autênticas. Só um Buda não tem qualquer resistência e duvido que dentro da população humana existam Budas. em si. apesar de nós. minha barriga ronca. resistimos contra ela e a distorcemos. não há o que enfeitar para agradar o pequeno eu. quando sentimos irritabilidade. para essa energia que altera o universo um milhão de vezes por segundo. depende da velocidade em que for morrendo o pequeno eu. é uma prática sutil: mesmo quando lutamos. sempre existe alguma resistência pessoal que tem de ser reconhecida. Por isso. o que enxergamos é a impermanência. Esse momento ocorre muitas vezes em nossa vida. Com este crescimento sempre vem o arrependimento. diremos: "Mas não é mesmo uma chatice! Os carros passam. Pelo contrário. no entanto. atuemos e sirvamos os outros de modo espontâneo. Um dos grandes obstáculos para enxergar é a nossa falta de consciência de que toda prática tem um poderoso elemento de resistência. estamos sempre transformando nossa centração pessoal (estamos presos no cerne de reações pessoais) num canal cada vez mais universal para a energia universal. ciúme. ou para o sagrado. Começamos a saborear o que é realmente se importar com outra pessoa sem esperar nada em troca. um outro lado da prática. O quanto a teremos. Dentro de nossa vida fenomênica. está havendo a colisão entre o modo que desejo as coisas e como elas são. Aos poucos. excitação. queremos ter clareza. de modo que nada exista em 'nossa experiência física e mental que nos seja desconhecido. queremos ficar iluminados. Cada reação defensiva (e temos uma a cada cinco minutos em média) é prática. exigente. em contraste com nossas idéias do que pensamos que ela deveria ser. não poderemos olhá-la e dar-lhe as costas.

Porém. Um terceiro obstáculo é ficarmos impressionados com nossas pequenas aberturas. A tarefa não é impossível. Essa prática obsessiva é. nossa conversa torna-se uma outra forma de resistência. sossegados e acolhedores. comum para aqueles que dedicam muito tempo à prática nos Centros. Além de uma situação professor-aluno direta. Elas são apenas frutos e não têm importância a menos que as usemos em nossas vidas. só uma outra nuvem entre nós e a realidade. Quando morrermos. a boa prática diz respeito ao medo. Eis as perguntas: . Apesar disso. mas a última coisa que desejo saber é isso. Farei agora algumas perguntas a respeito de certos estados desagradáveis. E não falo sobre dharma. muitas vezes compomos uma estranha imagem do que isso seja. muito calmos e tranqüilos. Está certo A iluminação está no próprio cerne de todas as religiões. está tudo bem? 60 . Sem problemas de espécie alguma. A verdadeira prática não é segura. Quanto menos dissermos a respeito da prática. E não é isso. Portanto. pode ser qualquer coisa. que dá a impressão de sólido.60 Um segundo grande obstáculo é a falta de honestidade a respeito de quem somos. discussões e leituras.Se alguém me diz: "Joko. A única coisa que importa é vermos com o concurso de uma lanterna impessoal: vermos as coisas como elas são. por que é que precisamos chamá-la de alguma coisa? Simplesmente vivemos nossa vida. Não quero ser isso. tampouco que não devamos ter preferência ou aversões bem marcadas a seu respeito. criamos um revestimento tipo nuvem. podemos começar a ter algumas pistas e. O medo assume a forma de um constante pensar. a cada instante. mas é interminável. Quando a barreira pessoal se desmancha. a última coisa sobre o que falo é a prática zen. A prática inteligente sempre lida com uma única coisa: o medo que está na base mesma da existência humana. falam e falam –mas que diferença isso faz? Na outra ponta dessa linha estaria alguém como Madre Teresa de Calcutá. está certo para mim? Ou se alguém lhe diz isso. além de não muito difícil. que nos mantém protegidos dentro de uma prática de faz-de-conta. Não penso que ela fale muito. Vocês conhecem o antigo ditado: "Aquele que sabe não fala. melhor. menos segura. podemos enxergar com mais nitidez o que estamos fazendo em nossa prática. analisar e fantasiar. especular. estaremos simplesmente mortos. Temos de ver que estamos perseguindo ideais de perfeição em vez de reconhecermos e aceitarmos nossa imperfeição. Mas não gostamos disso e assim. é a substituição da prática persistente por conversas. Temo ver o que sou: um campo energético em constante mudança. Claro que eu não sou. um disfarce. Por que falar a esse respeito? Minha tarefa é observar como eu o violo. Falam. Um quarto obstáculo é termos pouco entendimento da magnitude da tarefa que nos propusemos. e assim desviarmo-nos do caminho principal. Com toda essa azáfama. quando temos pistas. É muito difícil admitir: "Estou sendo vingativa" ou "Estou sendo punitiva" ou "Estou sendo hipócrita". um obstáculo. É como os acadêmicos que salvam o mundo diariamente na hora do jantar. com esses exemplos. Equacionamos o estado iluminado ao estado em que tivermos ficado perfeitos. Sou a própria impermanência dentro de um invólucro humano em rápida transformação. e aquele que fala não sabe". Esse tipo de honestidade é difícil. quando vão ocorrendo. mas não deveria estar acontecendo coisa alguma de que não tivéssemos consciência. Quando falamos sobre prática o tempo todo. o medo de que eu não seja. você vai viver só mais um dia". Ela está ocupada fazendo. ficamos obcecados com nossos esforços febris para concretizar aversão de nossos sonhos pessoais. O quinto obstáculo. Não estou dizendo que não devamos tentar evitá-los ou mudá-los. Nem sempre temos de participar aos outros do que observamos em nós. em si.

estaria tudo bem? . podemos ter essa aceitação em pequenos Setores de nossa vida. estaria tudo bem? . por exemplo. protestar. por algum motivo. pode incorporar toda e qualquer condição. se vocês forem honestos.Se estou num acidente grave e minhas pernas e meus braços têm de ser amputados. Em vez disso. Então o que significa estar tudo certo? O que é o estado iluminado? Quando não houver mais qualquer separação entre eu e as circunstâncias de minha vida. a questão é se está tudo bem com vocês levarem a vida que têm. Não quer dizer que eu não vá gritar. No entanto. Contudo suponhamos que não 61 . e. tenho de ficar acamada e com dores pelo resto da minha vida. Mas as coisas. por alguma razão.Se. eu poderia ter perguntado: "Se você tivesse de ganhar um bilhão de dólares. Conheci poucas pessoas que se aproximaram dessa condição. estaria tudo bem? . eu tiver de levar minha vida como mendiga. Talvez vocês respondessem: "Claro!". está tudo bem? Vocês podem alegar que a pessoa para quem qualquer situação é aceita sem reservas não é humana. estaria tudo bem?". exposta ao frio. Há muito pouco que se possa fazer: nesses casos. então esse é o estado de iluminação. Podemos afirmar as duas coisas. Não estou falando de um santo. Uma atitude deveras interessante: não aprender a tolerar qualquer circunstância. apresentei um conjunto bastante desagradável de opções. Entretanto. Cantar e dançar são as vozes do dharma.Se devo perder alguém ou alguma coisa que me é muito importante. mas no geral gostaríamos de ser uma coisa bem diferente daquilo que somos. chorar. mas aprender a não precisar de uma atitude em particular para cada circunstância.Se eu me comportar como uma idiota na pior circunstância possível. não posso responder que para mim estaria tudo bem em qualquer uma dessas situações. às vezes. como propósito. Claro. Esse é o estado iluminado: o estado de uma pessoa que. não poderão também. ter um bilhão de dólares representa praticamente tantas dificuldades quanto as existentes na vida de um mendigo. De certo modo. A chave não é aprender a morrer com bravura. com o que lhes acontecer. e sim aprender a não precisar morrer com bravura. Mas responder que sim seria o estado de iluminação. A maioria das terapias tem. sejam elas quais forem. comendo pouco. com as circunstâncias que a compõem. assim como lamentar-se e reclamar. Ou talvez possamos dizer que é verdadeiramente humana.61 . estaria tudo bem? .Se o relacionamento íntimo que você espera que aconteça nunca se concretizar. estaria tudo bem? . sem teto. vocês têm razão: ela não é humana. se entendemos o que significa estar tudo bem em termos das coisas. Por exemplo. estaria tudo bem? Bem. sejam elas quais forem. ajustar minhas necessidades e meus desejos aos seus. a pessoa que não oferece nenhuma resistência às circunstâncias. Tampouco a não fazer nada em caso de uma doença. boa ou má. Não me refiro a uma aceitação cega. não é um ser humano como nos acostumamos a conhecê-lo. odiar o que aconteceu. em grande grau. são inevitáveis. De qualquer modo. está tudo bem? Se isso lhe acontecesse. quantas vezes já nos indagamos quando iremos morrer.Se. Estar tudo certo não implica que eu fique feliz com a situação.Se nunca mais eu fosse receber um comentário amistoso ou encorajador de outra pessoa. estaria tudo bem comigo? E com você? . para propiciar uma paz entre nós. em que fica tudo certo. Estou falando daquele estado (em geral precedido por uma luta imensa).

Não acho. Ou. o comichão em nosso nariz. Enquanto ficamos sentados do começo ao fim dessa prática. conforme vai aumentando. não tenho nenhuma reclamação" diante de qualquer condição da vida? Não quer dizer que nunca fiquem aborrecidos. Entretanto. Vocês sentiriam que essa pessoa seria encorajadora nos momentos apropriados ou não. estou passando por tudo isso e não gosto. Cada vez mais sentimos que. mas ainda assim será essa a nossa prática. quando isso também fosse adequado. Quando acontecem coisas que muitos considerariam desastrosas. mas qual seria então a prática? Se eu fosse raptada em algum país não civilizado. Uma forma de avaliar nossa prática é ver se a vida está cada vez mais "tudo bem" para nós. trancafiada numa cela. é que as pessoas que praticam dessa forma são as que gozam a vida. O milagre de ficarmos no zazen é o milagre de apreciar. gostaria que vocês considerassem o seguinte: qual é a base que lhes permite responder com um "está tudo certo. que pouco se preocupa consigo. qual seria a prática? Coisas assim tão drásticas não acontecem com a maioria. de algum modo". Mas também está tudo certo. os desastres acontecem a todos e nossas imagens de como a vida deveria ser são desfeitas como bolhas de sabão. a prática é difícil. ou a qualquer uma das suas -está tudo perfeito só do jeito que está -então o que precisa ser ajustado? Pode-se dizer que alguém que conseguisse responder "sim" a qualquer uma das perguntas seria uma pessoa muito estranha. Claro que não há problemas quando não podemos afirmar isso. Por exemplo. Com essa prática vai se acumulando um resíduo que é o entendimento. você pode estar desfrutando a vida com seu parceiro e pensar: "Uau. queiram-no ou não) é aprender como usar essa base. o fato de que não estamos chegando a parte alguma de acordo com nossa maneira de enxergar a vida. tudo que detestamos nela. é isso mesmo que eu desejo!". O que estamos fazendo com nossa prática (saibam-no ou não. o grego(16). aceitamos nossos protestos. o desgaste. Alguém que se dê pouca importância. numa escala menor. Aumenta nossa capacidade de compreender e de apreciar a perfeição de cada momento: nossos joelhos e costas doloridos. É quando temos uma 62 . Parece que estou criando uma prática difícil? Contudo. o sofrimento agudo e a experiência dele é o que está certo. Provavelmente. a dor. nossa confusão. no entanto. como Zorba. de termos ou não de lutar contra essa situação. Para mim seria muito difícil se eu nunca mais pudesse receber um comentário amistoso ou gentil. vai lentamente aumentando um certo entendimento: "É mesmo. desse paradoxo que dá base à nossa vida. Se a encontrassem não notariam nada de diferente. cada vez mais seremos capazes de apreciar os esforços. Quando algo está certo para nós. Isso está certo para mim? Claro que não. nossa vida muda de modo radical. o suor. de tal sorte que vocês possam responder "está tudo certo" seja lá o que aconteça. ela está certa. gostaria de sair correndo. aceitamos tudo aquilo. a confusão. Tal pessoa saberia fazer a distinção. Aumenta nossa capacidade de dizer: "É. ele vai embora. sentiriam uma paz imensa na companhia dela. De certo modo. como no Pai-Nosso: "Seja feita a vossa vontade". ficamos em cima desse koan. porque. Pode não mudar como gostaríamos. aquelas pessoas podem até lutar e espernear. mas há uma base sobre a qual se assenta a vida. esse é o treinamento do sesshin.62 faço objeções a qualquer uma de minhas necessidades ou meus desejos. Quando praticamos o zazen. nossas lutas. saberia o que fazer. Não tenho tanto interesse pelas experiências de iluminação como pela prática que consolida o entendimento. Portanto. a dor. é verdadeiramente amorosa. De repente. Isso vai crescendo. A menos que não compreendamos de jeito nenhum o que é a prática em sesshin. seja o que for que nos aconteça. e a deixar que tudo o mais seja como é. que está disposto a ser como é. Esperar nada da vida abre a possibilidade de desfrutá-la imensamente. mas ainda assim desfrutam-na: está tudo certo. porque ela seria você. esse fato que pode terminar nos ajudando a responder "está certo". independente de detestarmos ou não o acontecido. Não nos esqueçamos daqueles momentos maravilhosos do sesshin em que nossa alegria e capacidade de apreciação realmente nos surpreendem. está tudo certo". Desejamos que todas essas coisas continuem: a luta. de alguma maneira. O mais estranho.

Não o era antes do sesshin. Todos já têm uma idéia de onde os tubarões possam estar em nossas vidas e gastamos a maior parte de nossa energia. Do ponto de vista habitual. que é capaz de infundir terror e piedade” (17). mas não só por isso. no final. coma-me". Depois de um sesshin. Se formos nadadores hábeis. Além de quaisquer acidentes que possamos encontrar na vida. Para culminar. Não obstante. a partir do momento de nossa concepção. Somos um só. dramático e funesto. No entanto. terminarão encontrando nossas áreas de recreação e nos descobrirão. claro. apesar disso. ou correr mais uma vez. Talvez porque tenha terminado. só esperando que ele caísse. De um ponto de vista pessoal. Mas existe um erro que grassa em surdina nos nossos pensamentos. Para termos uma vida pacífica e produtiva.63 escolha: encararmos o desastre de frente e torná-lo nossa prática. Cada um de nós sente que intervém e. desperdiçamos nossa vida numa batalha sem sentido para evitar esse fim. É sensato precavermo-nos contra os danos físicos. E. dois ratos estavam roendo o tronco do arbusto. estamos aprendendo. segurando-nos apenas num arbusto. em que intervêm personagens ilustres ou heróicas. desceu pela beira de um rochedo e agarrou-se a um arbusto. segurando-se por uma das mãos. num certo nível. Por essa razão. de caráter grandioso. teremos aprendido algo a respeito do erro deste tipo de busca. levamo-la como uma inútil tentativa de nos escondermos da tragédia. está dada a partida para atingi-lo. onde poderíamos nadar o ano inteiro. é para aprender isso que estamos aqui. existe um. Essa batalha abortada é a verdadeira tragédia. apesar de surpreendente. o simples caminhar por uma rua é uma coisa fantástica. tal como ela é. Qual é ele? Qual é a diferença entre tomar providências razoáveis e a preocupação incessante com pensamentos que rodopiam vertiginosamente? Há uma famosa parábola budista: um homem estava sendo caçado por um tigre. Era deliciosa! O que aconteceu com O homem afinal? Todos sabemos. Fomos feitos para ele e. mas as águas estão infestadas de tubarões. compramos seguros. a vida é uma tragédia. nem crescendo com as dificuldades. mais cedo ou mais tarde. Foi uma tragédia o que lhe aconteceu? (18) Observe que o homem caçado pelo tigre não se deita e diz: "Oh. Cada um de nós é um protagonista desempenhando seus papéis principais em palquinhos particulares. que ninguém pode evitar. O homem fez o melhor que pôde para se proteger. isso é uma tragédia. mas. no entanto. apesar de não querermos admiti-lo. sem nunca encontrar um só tubarão. menos seremos motivados a dar-lhe as costas numa busca ilusória de perfeição. Vamos imaginar que moremos à beira-mar num clima ameno. o que precisamos? Precisamos da habilidade (que aprendemos de forma lenta e contrariada) de sermos a experiência de nossa vida. as ondas gigantescas o farão. Naquele instante. ele olhou para baixo e viu um outro tigre lá embaixo. Mas sendo os tubarões o que são. não aprendendo nada. Quanto mais tivermos vivenciado a vida em todas as suas manifestaçÕes como alguma coisa que sempre está certa. A maior parte do tempo eu não a quero e suspeito que vocês também não. podemos ou desperdiçar 63 . Três dias depois já estaremos procurando a próxima solução. preocupando-nos com eles. Jamais teremos certeza. mas depois é. colhe a fruta e a come. homem e tigre sejam um só. Se um tubarão não nos pegar. Tragédia Segundo o dicionário. A história não é sobre ser estúpido. Pode ser que nademos todos os dias de nossas vidas. Quase todos ficam mais felizes depois de um sesshin. baixamos nosso nível de colesterol. ela tem um caráter dramático e funesto. a preocupação com essa possibilidade pode estragar tudo. Por favor. Em seu desespero. vacinamos as crianças. Pode ser que essa vivência não dure muito. viu alguns morangos silvestres e. linda criatura. se estamos pendurados no abismo. tragédia é "uma obra teatral em verso. muito embora. Porém. como qualquer um de nós faria. iremos pesquisar as áreas onde se concentram para os evitarmos. enquanto aquele tigre vinha se aproximando por cima.

firme. Conforme formos praticando com paciência (vivenciando nossa respiração. em meio ao sofrimento como uma abertura. Pode ser um grande choque darmo-nos conta de que não existe nada fora de nós. não há um protagonista diante de um adversário. ficamos mais receptivos às percepções dos outros. por sua vez. então. sejam apenas isso. nossa atitude pode incluir o outro lado da moeda. A prática é o ver cada vez através da ficção dessas identificações exclusivas. do que seja. 64 . enxergamos o equívoco de nossa identificação exclusiva com a mente e o corpo. o ponto de vista da outra pessoa. mas ao sentarmos durante horas por dia é difícil evitá-la e. Quando nossa prática é constante.não existem protagonista. cada momento será só o que cada momento é. E talvez o pescador que o pescar. de fato. com cada célula de nosso corpo? Quando o cerco das identificações com a mente e o corpo afrouxa um pouco e. é visto tal como é. mais difícil será esquivar-se a ela. nasce a percepção não do intelecto. De fato. Assim. quanto sabemos disso. tremendo de medo. ficam claras como cristal a desonestidade e as tentativas de fuga da mente. como uma espacialidade e como uma alegria que nunca havíamos saboreado antes. (Claro que enxergaremos isso em graus variáveis e. Portanto. Com uma prática paciente como essa. A imensa sagacidade da mente humana pode funcionar muito bem quando desafiada. Se. quanto mais dias sentarmos. podemos evitar às vezes essa percepção. E o morango pode ser saboreado. O problema começa. corpo e emoções. sob o impacto da invasão que é um sesshin. é dharma. para enxergar a natureza do falso pensamento que cria a ilusão de um eu separado. Cada vez mais. e lutarem e se sentirem infelizes ou confusos. que é a enfermidade que dita nossas ações. adversário e tragédia. São nossos pensamentos. Para elas. Se somos unos com a vida -independente de quem seja. A física moderna deixa claro que somos "um". frutos de nossa identificação com pensamentos falsos que. às vezes. Do ponto de vista do tubarão é uma tragédia. mesmo quando não concordamos com elas. Porém. O homem que foge do tigre. mas das próprias células de nosso corpo. então ele terá tido uma excelente refeição. mesmo quando é preciso que nos oponhamos a elas. quando nos identificamos exclusivamente com eles. Quando isso acontece. não se apeguem. podemos começar a perceber o equívoco de uma identificação exclusiva com a mente e o corpo. do que faça. no momento que antecede imediatamente a morte. Começa também a ser sentida a tensão criada pela sagacidade mental. Quando praticamos diariamente o sentar. sejam apenas. Se forem abençoados. até certo ponto. dão margem a uma vida autocontida. nem o veremos. que somos apenas manifestações diferentes de uma só energia e isso não é difícil de compreender-se intelectualmente. quando estiverem no sentar. separada e infeliz. pudermos dizer: "Mas que morango delicioso!". é o dharma. Entretanto. intensa. sentar-se imóvel durante horas. Do ponto de vista da vida.) Não se trata de uma compreensão intelectual. Não estou sugerindo um novo ideal para ser perseguí-lo. O falso pensamento evapora-se como nuvens ao calor do sol e encontramo-nos. Certa vez alguém insistiu comigo nesse ponto: "Isso ainda não resolve o problema da morte. Se o tubarão nos comer. não. então não há problema. necessidades e apegos que nos assaltam. mas. temos uma preciosa oportunidade para ficar de frente para nós mesmos. É sensato cuidarmos de nossa mente e de nosso corpo. tomando consciência do processo de pensamento). não existe tragédia porque não existe adversário em seu caso. Quando fazemos zazen. Nós continuamos morrendo". atacando-nos. Aquilo que vocês são. Não seria por acaso cada momento o último? Não há outros momentos além deste.64 nossos últimos momentos ou desfrutá-los. e começamos a compreender . Poucas pessoas na história da humanidade identificaram-se com outras formas de vida tanto quanto com as suas próprias. na qualidade de seres humanos dotados de mente.

Porém. quando praticamos o zazen: o eu observador. Podemos descrever nosso pensar. quase podemos dizer que é uma outra dimensão." "Vá embora". Estes aspectos do eu passíveis de descrição são os fatores primários de nossa vida: nosso eu pensador. o funcional que realiza e faz coisas. É importante para algumas terapias ocidentais. são limitadas. sentamo-nos.65 A tragédia sempre inclui um protagonista envolvido numa luta. Mesmo quando nos encontramos inteiramente absortos na vida diária.(19) Aquilo que costumamos pensar que é o eu tem muitos aspectos. e não há o fim para a velhice e para a morte. Esses pensamentos não são reais. Como diz o Sutra Coração: "Não há velhice e morte. "Sou eu. quando ficamos excitados de satisfação ou deprimidos. Quando praticamos. o eu observador está em ação. assim como nem sempre entendem sua natureza.. Uma vez que não há nada a saber a seu respeito. O eu observador "Quem está aí?". o que tem emoções. E também lineares. Se procurarmos por essa dimensão. ciúme. mas elas nem sempre percebem a diferença radical entre o eu observador e os outros aspectos da pessoa. Na prática. é por que as terapias funcionam. devemos observar como trabalhamos. Certo. no entanto. Quanto às emoções. aborrecimento e até mesmo depressão.. um outro aspecto de nós mesmos que aos poucos começamos a conhecer.. Nada há nessas áreas que não possamos descrever. como fazemos amor. Não que detenhamos as outras atividades. "Quem está aí?". têm um ponto máximo e depois diminuem. confuso. não há nada. podemos descrever nosso funcionamento físico: andamos. por exemplo. observamos -ou tomamos consciência . Num episódio de raiva. como se pudesse acontecer por si mesmo e. diz Deus. nosso eu emocional e nosso eu funcional. Qualquer aspecto de nossa pessoa que não seja observado permanecerá indistinto. todos somos levados pelo roldão de alguma espécie de raiva.) Anos e anos praticando o sentar permitem que coloquemos a descoberto a anatomia da raiva e de outras emoções-pensamentos. Mais tarde. responde Deus. independente do quanto nos esforcemos nesse sentido. "Vós. A maioria das terapias faz isso em certo grau. quando bem empregado. envolvidos em lutas intermináveis com forças externas a nós. ficaremos presos em suas malhas e arrastados pela confusão. Não há sofrimento e não há fim para o sofrimento". pergunta Deus. mas estão vinculados a sensações e sentimentos corporais de contração. normalmente podemos descrever como nos sentimos. Será semi-independente de nós. A luta é travada com nossas próprias interpretações. Mas o zazen. Não há nada a nosso respeito que não deva passar por um escrutínio. Sem problemas. misterioso. cultiva o eu observador com mais profundidade do que a maior parte das terapias. Todavia não temos de ser protagonistas." "Entra". Num momento ou noutro. quando mantido ao longo dos anos. como comemos numa festa. (Com "raiva" refiro-me também a irritabilidade. Há. que diz respeito a nosso eu observável. o eu observador não pode ser enquadrado na mesma categoria. Precisamos observar os músculos contraídos e onde há 65 . que terminarão em ruína apenas se assim as virmos. Todas as partes que descrevemos e chamamos nós. então. O homem que é caçado pelo tigre é enfim devorado. pergunta Deus. voltamos para casa. O que observa não pode ser encontrado nem descrito. Há o eu que pensa. vêm e vão dentro do tempo.de tudo quanto podemos. Aliás. como nos portamos numa nova situação quando só há desconhecidos. podemos dizer que nossas emoções aumentam.. precisamos conhecer todos os pensamentos relacionados a ele...

Durante sessenta minutos ficamos olhando nos olhos uma da outra. Existem várias maneiras de praticar. muito devagar. Uma terceira maneira de praticar (que considero pobre) é substituir um pensamento negativo por outro positivo. Quando isso nos acontece. mas o aluno maduro recebe-os com satisfação porque é com as experiências que vamos aos poucos aprendendo que. São vazios. Fiquei sem saber o que poderia estar errado. Pode até ser que esse condicionamento alterado possa nos fazer sentir melhor. outras nas costas e há aquelas no corpo todo. Quando ela vacilava. Nossa única liberdade está em saber. Devagar. sim. Segundo essa abordagem. podemos nos ver temporariamente lançados em meio à maravilha da vida livre do ego. torna-se proveitoso. de modo que (por exemplo) podemos saber que quando não gostamos de alguém o canto esquerdo de nossa boca pende para baixo. Com essa abordagem. pratiquei o exercício do encontro visual com uma moça que revelou que sua vida tinha sido muito abalada pela morte do pai. após vários anos de observação e vivências. conforme a anatomia vai se tornando mais clara. 66 . podem ser prejudiciais. contudo não enfrenta bem as pressões da vida. Substituir um condicionamento por outro é perder a prática de vista. A questão não é que uma emoção positiva é melhor do que uma negativa. Na prática do confronto visual. Vemos a maravilha. Seu pai não era apenas um corpo desaparecido. e olhamos de verdade para os olhos do outro. Quando nos damos conta disso. Algumas pessoas ficam com raiva no rosto. é abrirmo-nos devagar para a maravilha do que é o viver pela meticulosa atenção dedicada à anatomia do momento presente. assim como nós somos não-eu e somos ambos o deslumbramento. vemos o espaço do não-eu. mas não tinha tido paz devido a perda. Essa é a vida da compaixão e ninguém vive dessa forma o tempo todo. Este espaço de deslumbramento -entrar no reino do céu -abre-se quando não estamos mais aprisionados dentro de nós mesmos. entramos de modo muito natural no espaço do deslumbramento. É verdade que se formos muito persistentes e insistirmos num koan pelo tempo suficiente. Não que busquemos dificuldades e problemas. tornamo-nos cada vez mais sofisticados e conhecedores. O treino de zazen dava-lhe força suficiente para manter com facilidade meu olhar estável e firme. nossa depressão. Uma é pela concentração pura e simples (muito comum nos Centros Zen). supomos que está correto empurrá-los para fora do caminho. às vezes. quando não mais respondemos: "Sou eu" e. Ela vira quem era e quem era seu pai. podemos abandoná-los. Não têm a menor realidade. mas todos os pensamentos e emoções são impermanentes. quando conseguimos deixar de lado nossas emoções e nossos pensamentos pessoais. Por não serem reais. Quanto mais soubermos -quanto mais forte for o observador . eu conseguia trazê-la de volta. e se não forem vistos dessa forma. bons e maus acontecimentos. No espaço do deslumbramento. tudo que é nossa vida. Por um segundo vemos o que a outra pessoa é: é o não-eu. Por exemplo: se estamos com raiva. quando não há barreiras. e então ela disse: "Meu pai não foi embora para parte alguma! Eu não o perdi. Outra maneira.66 músculos descontraídos. nossa irritabilidade. em que com um koan esforçamos ao máximo para romper os limites. estou em paz afinal". em que meditamos de frente para outra pessoa. tinha se reconciliado. Isso tem um maravilhoso poder de cura. substituímo-la por um pensamento amoroso. que todos os pensamentos e as emoções centrados no indivíduo (assim como as ações deles decorrentes) são vazios. o que estamos fazendo de fato é empurrar os falsos pensamentos e emoções para esconderijos cada vez mais sutis. Há alguns anos. cujos relacionamentos não estão indo em frente. Está tudo bem. Ao final ela começou a chorar. Sou todas as coisas. em especial para as pessoas. Contou tudo que tinha feito até então. "Vós". e vemos que aquela pessoa é nós.menos misteriosa serão essas emoções e menos seremos suas presas. num workshop. a liberdade e a compaixão aumentam proporcionalmente. nossa excitação. que constitui nossa prática aqui. nossas decepções. mutáveis ou (em termos budistas) vazios.

Um gato é uma maravilha. Para falar a verdade. Portanto. mas também aquilo que é observado está vazio. mas ele não sabe disso. em todo seu deslumbramento. não estamos sequer interessados na prática. o "Vós. Não acrescento dez mil pensamentos sobre o que estou vendo. Por que o observador finalmente se desfaz? Quando nada vê nada. quando o ego está ausente. Portanto. Muito pelo contrário. quando os grandes tumultos aparecem. quando ficamos com raiva. na realidade. olho para ela. Quando atingirmos o estágio no qual a testemunha está se desfazendo. entretanto. Já os seres humanos têm a capacidade de se dar conta disso. nada de fantasmagórico. só quer dizer que. o que temos? Só o deslumbramento da vida. Mas há uma enorme diferença entre alguém que pode sê-lo quase o tempo todo. sim. o calor. consiste em intensificar o poder do observador. O mestre respondeu: "Mostreme sua raiva". estamos identificados com nosso desejo de termos "razão". "Nada". Se praticarmos o suficiente." Por isso. devemos dizer que existe apenas o observar. e. Não é. exceto a vida tal como ela é. Esse é o estágio final da prática. Nunca conheci alguém que tivesse se tornado completamente um observador. Não podemos ficar aborrecidos se estamos observando. vivendo: o ouvir. Não há ninguém que ouve. podemos assistir a qualquer drama sem interesse ou afeto. Nesse ponto. É muito estonteante ficar com raiva. as mudanças no corpo. não apreendemos isso muito bem. o cheirar. sem também ficarmos aborrecidos. não pode ficar aborrecido. quando olho para outra pessoa. Não há alguém que enxergue. não é o "Sou eu". Todos têm momentos dessa qualidade. temos uma oportunidade aberta para nós. Após um sesshin. Esse é o estado de amor ou compaixão. mas elas não são quem somos. No entanto. há apenas o enxergar. neste exato momento não estou com raiva e não posso mostrá-la". Não temos de tentar encontrá-lo. ficamos cada vez menos presos nas malhas de nossa raiva. Tornamo-nos seres muito artificiais. o tocar. a tensão. Há um antigo koan a respeito de um monge que foi até seu mestre e lhe disse: "Sou uma pessoa muito irada e desejo que me ajude". desfaz-se o observador (a testemunha). Embora possa parecer frio -e uma prática é uma coisa fria -não produz pessoas frias. Quem somos tem muitas faces. aprenderemos que não só o observador está vazio. mas a cada dia de nossa vida -para enfrentar essa desafiadora tarefa: observarmos meticulosamente todos os aspectos de nossa vida para poder enxergar sua natureza. aqueles que comumente nos tragariam em sua voragem. o ver. e alguém que só o consegue raras vezes. não é dualista. Já me perguntaram: "O observar não é uma prática dualista? Porque quando estamos observando. o pensar. há apenas o ouvir. à medida que ocorrem. O mestre argumentou: "Então. é evidente que não é você. achamos difícil praticar com ela. Em vez de um observador em separado. que nenhum outro animal tem. o caminho de praticar que me pareceu mais eficiente. É nosso estado natural. Uma prática útil é trabalhar com as raivas menores que ocorrem no cotidiano. Tendo sido agraciados com ela –feitos à imagem e semelhança de Deus -devemos sentir uma interminável gratidão por essa oportunidade de perceber o que é a vida e quem somos nós. Porém. se conseguirmos ser o observador. aprendemos. Quando conseguimos praticar com elas. Esse é o espaço da compaixão. perdemos esse poder. pois às vezes não está nem aí". Quando ela é muito forte. Existe apenas a vida. contudo. 0 observador está vazio. até que o observador não veja mais nada quando o olhar. não precisamos nos preocupar a seu respeito. Mas com todas as nossas dificuldades. A meta da prática é aumentar o espaço impessoal. alguma coisa está observando outra coisa". Até onde eu saiba. Normalmente não vemos o que está acontecendo porque. ele apenas vive. 67 . e. precisamos ter paciência -não apenas nos sesshins. não entramos tão completamente nessa vertigem. Toda vez que ficamos aborrecidos.67 Podemos praticar ficando com raiva: os pensamentos que surgem. somos as únicas criaturas deste planeta dotados dessa capacidade. Não há alguém separado de outra coisa. com o tempo. O monge comentou: "Bem. começamos a saber o que é a vida. porque o observador jamais fica aborrecido.

1968. os acontecimentos. Beacon Press. 15.. Não temos de fazer isso. 1982. o concreto. Arthur J. Por favor. e então sentir a base de apoio próprio em meio à crise. Nota do Editor: Novo dicionário da língua portuguesa. p. Tenho um enorme interesse pelo que vocês estarão fazendo daqui a duas semanas. Deikman. O sesshin é um campo de treinamentos. não há barreiras. p. O que torna a vida tão ameaçadora é que nos deixamos arrastar em meio ao lixo de nossas mentes vertiginosas. Publishers. cada vez mais. 2.68 podemos olhar para uma flor e. 13. sentem-se bem. 18. Shunryu Suzuki. Wind bell 7. A collection. Compare também Leo Tolstoy. zen bones. 33. "My confession". as velas. 1904. 19. Dana Estes & Co. Roshi. no fundo. 68 . of zen and pre-zen writings. Boston. Todas as disciplinas religiosas dizem. Nova Fronteira. Nossa prática é abrir nossa vida dessa forma. "A parable" in Zen flesh. M. 16. pela sensação de contração na boca do estômago. in The complete works of count Tolstoy. traduzido e editado por Leo Weiner. entenderão como praticar? Observando os pensamentos. compilado por Paul Reps. por um segundo.. Colonial Press. D. ed. a grama. a própria vida em si: as pessoas. Garden City. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. em vez de se permitirem levar pelos pensamentos assustados. as coisas. Huang Po. The observing self: Mysticism and psychotherapy. sem data. a mesma coisa: eu e meu Pai somos um. 22 ff. Veja também p. Boston. The zen teaching. É para fazer isso que estamos na face desta Terra. 17. n 28. v. in Blofeld. Conforme praticamos vamos de modo progressivo entendendo isso melhor. 21 ff. Então. passim. observar que são só músculos contraídos. Nota do Editor: Personagem do romance homônimo de 1942. eu e meu Pai somos um. p. 14. 91-118. quando se perceberem no meio de uma crise. p. 1986. de Nikos Kazantzakis (1885-1957). Anchor Books. vivenciando o corpo. Nova York. O que é meu Pai? Nada que não eu. 88.

mas se prosseguirmos. podemos descrever tabelas a respeito da fisiologia dos maratonistas. O que há em nossa vida neste preciso momento que desejamos evitar? Tudo que for repetitivo. perdemos a base e nossa prática fica estéril. Só podemos saber. a fim de que alguns participantes pudessem andar uns poucos quarteirões até um trecho em que se pudesse gozar a grande oportunidade de ver os atletas da maratona de San Diego passando. entraremos no segundo estágio. eles apareceram. conceituando-a. Lembro-me de uma manhã de sábado em que adiamos em vinte minutos o horário marcado para a prática. em vez de sonhar com o que poderia acontecer se fizéssemos isso ou aquilo. Podemos ditar regras a respeito. não queremos correr no lugar com isso. E qual é o terceiro e crucial estágio curativo? É a experiência direta de todo e qualquer panorama que nos apresente a vida. exatamente aqui e agora. seduzidas por toda espécie de noções incorretas a respeito. indisposto") no lugar do que nossa vida é verdadeiramente. enquanto corremos no lugar. quando formos aquele que corre. de que estamos pensando sobre ela. doloroso ou infeliz. que estamos sempre pensando em como nossa vida deveria ser (ou como era antes). Se praticarmos com paciência e persistência. para levar uma vida em que não magôo ninguém. porém isso não significa que saibamos o que é. Ficamos confusas a respeito dos elementos básicos da prática e desviamo-nos por vias secundárias. em lugar da prática real. Essa objetivação é dolorosa e reveladora. Trata-se de sair de uma vida em que causo mágoas a mim e aos outros. exceto quando. Assusta correr no lugar. quando a vivenciamos de modo direto. mas ainda não saberemos nada sobre o que é correr uma maratona. Começamos aos poucos a tomar consciência das barreiras de ego existentes em nossa vida: os pensamentos. embora estivesse nos últimos quilômetros. Só conhecemos nossa vida. a todas essas facetas podem ser agora observadas e objetivadas com mais facilidade. inserimos alguma idéia de que deveríamos ser diferentes ou melhores do que somos. Sofremos na mesma medida em que ficamos confusas ou nos deixamos levar por atalhos. Não mesmo! O primeiro estágio da prática é darmo-nos conta de que raramente estamos presentes. elaborando opiniões a seu respeito. num dado instante. as emoções. podemos coletar inúmeras informações sobre essa espécie de corrida. ou que nossas vidas deveriam ser diferentes do que são. as evasivas. as manipulações. Fácil? Não. O primeiro estágio da prática é conscientizar-se de que não estamos correndo no lugar. Parece muito simples. iremos saber um pouco do que seja. monótono. Às 9:05 h. Tão simples assim? Sim. as nuvens que obscurecem o panorama ficarão mais tênues. correr tais distâncias. Não era difícil apreciar sua técnica 69 . Um componente primordial da prática é perceber até onde esse medo e essa pouca vontade nos dominam. ele simplesmente deslizava. Vamos supor que nos interessa saber como se sente um corredor de maratona: ao corremos dois quarteirões. estar presente do jeito que eu sou. É a isso que chamo correr no lugar. três ou sete quilômetros.69 CAPÍTULO 6 Ideais Correndo no lugar Falo com muitas pessoas e fico sempre triste ao constatar que não vemos o que são nossa vida e nossa prática. confuso. Quando colocamos idéias a respeito do deveria acontecer (noções como "Não deveria ficar com raiva. de que não estamos vivenciando a vida. Fiquei admirada com a qualidade fluída dos movimentos do líder . A prática pode ser enunciada em termos muitos simples.

nossa natureza Buda é como um lindo carro: até que alguém entre. mas é sempre satisfatória. de nosso ego. É importante que aprendamos a conduzir bem nossas vidas. procuramos satisfação em nossa vida. não podemos aprender tampouco crescer. ela crescerá. e eles podem ser nossos professores. no entanto. sem ela. é uma coisa inútil. No contexto da prática. é lutando para alcançar algo. partindo do ponto em que estamos. vivenciando nossa vida tal como ela é. Existem muitas maneiras pelas quais tentamos esconder nossa insatisfação. essas duas dúvidas fervilham.70 de corrida. Instituímos uma meta depois da outra. nada pode acontecer. a aspiração é apenas nossa verdadeira natureza. Isso não é nada difícil de entender. mas. Jamais crescemos se sonhamos com um estado futuro maravilhoso ou lembrando feitos passados. A vida toma conta disso muito bem. Parece contraditório. buscando coisas externas a nós. porque costumamos confundir aspiração e expectativa. mas nossa natureza Buda está encoberta. "Meu zazen foi tão fantástico ontem! Quisera poder repeti-lo". nossa apreensão. Precisamos experimentar nossa raiva. Uma delas. porque. sob a superfície. mas parece que ele está progredindo mais depressa". exatamente agora. temos de aprender aqui e agora. Está sempre mudando sua forma externa sem. estamos fadados ao desapontamento em nossas expectativas. ela continuará aumentando. de que despendemos para alcançar algo: obter o reconhecimento dos colegas. De um jeito ou de outro. se mantivermos nosso propósito. quando não nos afastamos deles. pode não ser agradável. alterar sua essência. Sem ela. Ao mesmo tempo. depois de dez anos. Desde o início na infância. contudo. ouvimos que devemos praticar sem qualquer expectativa. será diferente do que era aos seis meses. Em si. Por quanto tempo é necessária essa prática? Para sempre. ela tem formas de nos decepcionar de maneira eficiente e regular. Uma pista segura para distinguirmos se estamos sendo motivados pela aspiração ou pela expectativa é que a aspiração sempre é satisfatória. Enquanto vivermos. enquanto procurarmos recompensas no futuro fora de nós. ser importante 70 . e quanto a nós: onde é que temos de correr no lugar? Temos de praticar conosco tal como estamos. mas não é nada útil pensar que deveríamos ser daquele jeito. serão os que crescerão em seu entendimento e em sua compaixão. a aspiração da pessoa será muito diferente do que era no início e. Vamos de uma coisa em outra tentando preencher a lacuna que pensamos existir . e o que fazemos? Adotamos os mesmos hábitos com que vivemos a vida toda e encaixamos a prática dentro desse molde. Temos de correr onde estamos. Aspiração e expectativa A aspiração é um elemento básico de nossa prática. porque vem de nossas pequenas mentes. alcançar coisas é natural. nossa aspiração pode ser muito pequena. nossos fracassos. Por outro lado. Podemos dizer que a prática do zen decorre inteiramente de nossa aspiração. embora seja difícil de executar. contudo. aqui e agora. Depois de seis meses de prática. a expectativa é sempre insatisfatória. nossa forma de abordar a prática está fundamentada nos mesmos tipos de esforço. por exemplo. Quando fugimos do que nos é dado. Procuramos uma maneira de ocultar o medo básico de que algo esteja faltando em nossa vida. É uma inspiração assistir acorrida de um atleta da melhor qualidade. neste exato momento. Quando começamos a praticar. sente-se no banco do motorista e dê a partida. "Já estou praticando há mais tempo que aquele ali. Os que persistem. buscando realizar-se e expressar-se. Chegamos numa prática como a do zen tentando encontrar a paz e a satisfação que até então se esquivaram de nós. Podemos dar a impressão de serenidade. Em geral olhamos para a vida em termos de duas questões: "Será que vou lucrar alguma coisa?" ou "Isso irá me magoar?". nosso pesar. A aspiração é a chave para a prática. Porém. mantendo o hábito vitalício de correr atrás de alguma coisa: "Fico pensando em quantos koans conseguirei passar com este sesshin". Somos de modo intrínseco Budas. Crescemos sendo o que somos e estando onde estamos.

"Está procurando uma ovelha?" "Não. a vida ficará sempre bem. Quando estivermos dispostos a estar aqui. sem fazer nada. é preciso antes esvaziar por completo tudo isso. deixamos que aconteça. querem que a vida aconteça de uma certa forma: queremos nos sentir bem. conforme a prática se desenvolve. Nossa prática. porque estamos sempre tentando de modo frenético chegar em algum lugar para fazer alguma coisa. elas aos poucos se esfarelam e. Estamos fazendo de novo a mesma coisa que sempre fizemos: estamos na expectativa de que alguma coisa (neste caso. os mestres zen dizem-nos para não colocar cabeça alguma acima da nossa. então. Em vários momentos teremos insights repentinos. porque nossas mentes. qual é seu momento? Felicidade? Ansiedade? Prazer? Desânimo? Temos altos e baixos. não tenho ovelhas que procurar. Se tentarmos ficar calmos. se as coisas estiverem indo bem. de modo que qualquer que seja a atividade em que estejamos envolvidos -a procura de uma ovelha perdida. É impossível sairmos desse momento. a meditação -seja apenas o ficar ali em pé. Começam a discutir sobre o que o monge estaria fazendo e. tal como é. encontrar um buraco seguro onde se esconder. com uma profunda aspiração. E a terceira comentou: "É provável que ele seja só um monge. cada um tem sua própria lista. Se praticarmos tendo a aspiração de sermos apenas o momento presente. deixá-lo ser o que é. independente do que ocorrer a cada instante. a prática zen) nos dê satisfação e segurança. Acho que ele deve estar esperando um amigo". para sermos inteiramente cada momento. para vermos a natureza Buda. porque não queremos que as coisas sejam como são. Quando enxergamos isso. sobem até o topo da colina e aproximam-se dele. sentir-se mal será bom. nossas vidas irão de forma gradual transformar-se e crescer de uma maneira maravilhosa. Pode parecer assustador. Cada momento. ótimo. Se eu procurar bastante e praticar bastante o sentar acabarei encontrando-a!". Dogen Zenji dizia: "Procurar o dharma Buda fora de sua própria pessoa é como colocar um demônio em cima de você". ele não está olhando para os lados. enfim. é a manifestação repentina da verdade absoluta." É muito difícil concebermos que alguém esteja apenas em pé. não ficar confusos. repletas de expectativas. Creio que está meditando". Todos temos expectativas. Cada instante. Em outras palavras. Os reveses emocionais que experimentamos são problemas. como uma folha fenecida." "Não. em algum lugar. sendo o que é. uma disse: "Ele deve ser um pastor procurando uma ovelha perdida". seja só esse medo e. então sentir-se bem será bom. A segunda falou: "Não. Mestre Rinzai dizia: "Não coloque cabeça alguma acima da sua". Cada vez mais ficaremos com o que existe exatamente aqui e agora.71 dentro dos círculos zen. ótimo. sem fazer absolutamente nada. Porém. então deve estar meditando. é completo e pleno em si. Existe a história de três pessoas que estão contemplando um monge que está parado no alto de uma colina. Se você tem medo. todavia cada momento é exatamente o que cada momento é." "Então. para não acrescentarmos extras à nossa vida." "Bem. em pé. deve estar esperando por algum amigo?" "Não. mas o mais importante é praticar a cada momento. não ficar aborrecidos. a espera por um amigo. é ser esse momento e devemos. estou aqui apenas. apenas serão desfeitas. Depois de observarem-no por um certo tempo. costumamos tentar o tempo todo. sábios e maravilhosamente iluminados com a prática zen. não atingiremos o entendimento. para finalizar. nossa aspiração. você o perde. 71 . não obstante. Não estou fazendo absolutamente nada. exatamente como somos. se estiverem indo mal. O que você está procurando fora de si? O que você acredita que resolverá a questão? Posição? Relacionamentos? Ultrapassar os koans? Repetidas vezes. Neste exato momento. não estou esperando pessoa alguma. naquele exato momento. Levamos essa mesma atitude à nossa prática zen: "Sei que a natureza Buda deve estar lá fora. é inútil procurar fora de nós pela verdadeira paz e satisfação. mas. É importante examinarmo-nos continuamente para ver para onde estamos direcionando nossa busca e o que é que estamos buscando.

e a vida vai em frente. outra casa. Temos a coragem de nos sentar atravessando um momento depois do outro. do que é composta. Temos uma casa muito linda e. Apareceu ali porque utilizamos nossa mente de modo errôneo. Essa cobertura pode parecer impenetrável. sua função em nossa vida se enfraquece por inteiro e. erguemos outra casa bem em cima desta que temos. É como se déssemos a volta no círculo completo. Em outras palavras. assustadora. o que é a sobrestrutura. E isso! Ao termos aspiração. preciso me desfazer disso". antes de mais nada. O maior erro que cometemos em nossa vida e em nossa prática é pensar que a casa em que moramos que é nossa vida do jeito que ela é. Todavia. Mas -aqui é onde a prática se torna importante . porque a recobrimos com algo pesado. Em geral pensamos: "É desagradável. envolvendo os que nela moram. Se a mente divaga em expectativas. na medida em que nos recusamos a aceitar a vida como ela está. não penso que seja esse o caminho. em cima e à volta dela. Podemos estar felizes ou infelizes. porém. e a própria aspiração também ficará mais profunda e clara. Por pensarmos assim. por causa de nossa predileção por coisas agradáveis. Quanto a mim. ficamos ocupados a maior parte dos anos de nossa vida. na realidade. Nossa vida está sempre certa. não temos intenção alguma de nos acomodar com a vida que temos. Não há nada de errado com ela. é apenas nossa vida. Ao observarmos sua natureza. Entretanto. depressiva. seus reveses –tem algo de intrinsecamente errado. camada extra pode ficar muito grossa e escura. e. depois. Quando as pernas doem durante o zazen. A mente divagará o tempo todo. Temos um morango com cobertura de chocolate. em vez de ser tão grossa e escura. a totalidade irão desenvolver-se de modo natural e inevitável. ver o que fizemos e. esse é o Buda cansado. a casa precisa de uma pintura. mas é uma questão de enxergar sua natureza. simplesmente se desenrola. Podemos estar bem de saúde ou doentes. elaborando a estrutura extra. como o sonho que é. basta retomar ao momento sem se preocupar ou sem ficar alterado. A iluminação (o trazer mais luz para dentro) é o que acontece na prática. com todos os seus problemas. às vezes. não estamos nos livrando de uma estrutura. Samadhi. assim como está. a centração. escolhemos e selecionamos elementos da vida. encobrindo a casa básica dentro da qual moramos. mas não há nada errado com nossa vida. Nossa vida. o que temos ou não a fazer com ela. dias de bom tempo. Não é uma questão de nos livrarmos dela porque não tem realidade. Enxergando além da sobrestrutura Vamos imaginar que falamos de nossa vida como se fosse uma casa.72 Contudo. É assim para a maioria. (essa casa) tal qual vivemos. olhamos para as coisas de um modo completamente diferente do que quando temos expectativas.temos esta casa. a partir dessa espécie de prática. como ela funciona. Essencialmente. conseguimos ver com mais exatidão o que está acontecendo em nossa vida diária. Todo o drama que acontece dentro dela. Se não olharmos com cuidado para o que acrescentamos. É como se pegássemos um morango e o mergulhássemos no chocolate. ao mesmo tempo. pois. vivemos nela. quando você está decepcionado com algum aspecto de si mesmo. A prática zen é. quando nos damos conta de sua verdadeira natureza. Na realidade. quando isso acontece. 72 . Não costumamos pensar assim. esse é o Buda dolorido. quando estamos cansados depois do trabalho. estamos enxergando através dela. cada um deles é só o que existe. essa estrutura extra que recobre nossa vida não tem realidade. quando ela não nos convém. esse é o Buda decepcionado. Mesmo que tenhamos problemas horríveis. ter aspiração significa retomar com suavidade o caminho de volta para o momento presente. a cobertura fica mais transparente e enxergamos através dela. e. E a casa em que moramos parecerá escura e confinada. Vamos apenas vivendo a vida. está muito bem. Temos dias de tempestade. e é como se ela estivesse dentro de uma outra casa. Vivemos numa casa ou num apartamento e as coisas acontecem tal como acontecem.

a vida apenas transcorre sem obstáculos. sem dúvida. Está bem mesmo assim. É preciso uma prática forte para conseguir uma incisão que esteja na superfície de nossa maneira habitual de ver a vida. É algo exigente. Ninguém. Ocasionalmente. isso também faz parte da prática! O processo de olhar para essa estrutura irreal que construímos é sutil e exigente. Esse é um exemplo tolo. fica mais leve e. Eu fazia uma pilha monumental de problemas em cima do diminuto fato de não ter nada o que fazer: "Tem algo errado. Nossas vidas estão perdidas em meio a pensamentos autocentrados.". Preciso mudar meu cabelo. Enquanto vivermos. Pode parecer proibitiva. Neste exato momento. Nem todos deveriam fazer um prática como a do zen. seja ela qual for. Assim. devemos antes enxergar sua natureza. O segredo dessa dificuldade está em que gostamos dela muito mais que da vida real. Preciso. o processo da prática. Vocês não têm de gostar. quando eu era adolescente. mesmo diante dos piores traumas de nossa vida. quando somos novatos. mas está certo que elas estejam aqui. se nosso apego aos sonhos permanece inquestionado e intacto. talvez difusa a princípio.. "Mas como. estamos nos matando. Por isso. tudo bem. ao praticarmos o zazen (em particular. as decepções com respeito a metas não alcançadas. É muito difícil chegar nesse estágio. o segundo passo é praticar. Pode ser as dificuldades com o parceiro. A prática zen não diz respeito a um lugar especial ou a uma paz especial. o que vem é o seguinte: "Não quero fazer isso! Não quero fazer isso de jeito nenhum!". mas apenas a estar com a nossa vida. Desse modo. no sentido não 73 . Quanto é a questão. (Presumo que estejamos querendo enxergar através dela. "Não é nada disso! Não pode acontecer assim!" Por exemplo. Porém. uma das coisas que desejo que vocês façam é identificar. fazemos a mesma coisa.. o desemprego. ao rotularmos os pensamentos) começamos a reconhecer que na prática nunca estamos vivendo pura e simplesmente nossa vida. Calamidades.. podemos fazer um furo que a atravesse. imersas na sobrestrutura. o que está havendo agora na vida que estão levando e não estão gostando muito que seja desse jeito. A estrutura fica mais tênue (ou assim parece). é inaceitável. antes de mais nada. estamos afirmando um fato que. Sem ela. Depois de termos ficado sentados um certo tempo. O outro. Há quem não queira. Isso não é absolutamente incomum. Não há ninguém aqui que não aja assim. não e? Percebamos que nossos ideais são a sobrestrutura. é que a vida se torna mil vezes mais satisfatória à medida que praticamos. não considerava isso justo de modo algum.73 Todos que estão aqui sentados têm um conjunto particular de eventos que apenas não deseja que seja sua vida. cada qual para si. preciso. A prática precisa desestruturar os falsos ideais. se eu não tivesse programa para sábado à noite. Diante de nossa pouca disposição para deixar que a vida seja apenas o que ela é. Não temos de nos livrar delas. Quando estamos apegados ao modo como pensamos que deveríamos ser ou que todo mundo deveria ser. considere sua prática e veja se você quer fazê-la.) Portanto. Os dois lados andam juntos. às vezes. Vou comprar uma cor diferente de esmalte. Mesmo se o que estiver acontecendo for amedronta dor e opressivo. para a maioria das pessoas. provavelmente existirá sempre pelo menos uma fina camada de cobertura envolvendo a estrutura essencial de nossa vida. desilude. podemos ter uma apreciação apenas reduzida da vida tal como é. agora.. Mas quer nos suicidemos quer não. Sabe-se de pessoas que preferiram o suicídio a demolir suas estruturas. O primeiro passo da prática é darmo-nos conta de que erguemos essa sobrestrutura. Esse é apenas um de seus lados. tudo bem. é ter uma conscientização. Entretanto. tal e qual ela é. são a perfeição?! Vou praticar e me livrar delas!" Não. Preferem efetivamente abrir mão de sua existência física a ter de abandonar seu apego aos sonhos. Isso faz sentido? Parece loucura. É uma das coisas mais difíceis para as pessoas conseguirem: perceber que as próprias dificuldades deste momento sejam a perfeição. sempre acrescentamos algo. do que construímos. A libertação está em ver através dessa sobrestrutura irreal que construímos. É difícil chegar a ver que não temos de nos livrar das calamidades.

Eu falei entre dentes: "Ele deveria ter mais consciência do que está fazendo".74 físico. estão constantemente tentando encontrar meios para despertar . A razão pela qual não encaramos isso como um desastre é porque o sonho pode ser muito reconfortante. Contudo. A questão é sempre a mesma: neste momento. Como resolver essa questão? Parte de meu trabalho é esse. para que incida sobre nossa prática. e ficamos confusos quando você faz as palestras desse jeito. existem dois eus aqui. Entretanto. Agindo assim. Os alunos disciplinados são aqueles que. porque nossa verdadeira vida está se escoando sem que quase nos demos conta disso. JOKO: Certo. ALUNO: Sim.. Claro que ela estava com a razão: ser inconsciente significa que você não vê o que está fazendo. um dos problemas da prática é que. Portanto. Então. O que é muito ardiloso. somos todos inconscientes e não estamos assim tão inclinados a ficar conscientes.. ou informal. Pode ser formal. Vamos em busca de comida para lhe dar. não. você faz. O meio mais eficaz de desgastar a sobrestrutura é manter em andamento todas as 74 . É isso o que acrescentamos. continuaremos a fazê-lo. Se alguém está morrendo de fome na recepção da instituição. faça. Morremos. Ele não é um ideal. Outra coisa. quando nos perdemos em ideais e fantasias. Mas ela é. como em nossa vida diária. apenas. agradáveis como só elas sabem ser. a natureza de ser inconsciente é o quê? Só ser inconsciente". A prática está em manter uma pressão sutil. depois a sobrestrutura. em certo grau. para que possamos ver um pouquinho mais. que tinha acabado de apresentar uma linda palestra sobre o dar e a compaixão. A maior parte é de vocês. Enquanto não enxergarmos o que estamos fazendo. O meu primeiro tem muitos ideais. muito sedutor. Vamos sendo mortos pelos ideais impregnados em nossos pensamentos a respeito de quem deveríamos ser e do modo como todos os outros deveriam ser. Costumamos achar que desastre é o naufrágio de um Titanic. É um desastre. há anos atrás. já que não temos mesmo o menor interesse em ver as coisas com clareza! Para alguns. em suas atividades cotidianas. o que é inevitável. um dia veremos algo que nunca tínhamos visto antes. As perguntas podem ajudar a esclarecer os pontos levantados. pode ser que pensemos que somos boas pessoas por termos agido assim. Minha filha riu e disse: "Mãe. inconsciente de seu egoísmo. em nossa prática uma das tarefas é manter nossa capacidade de ver em constante foco de aperfeiçoamento. o que vemos e o que não vemos? Se estivermos praticando bem. em seguida. Aqui estou falando sobre o curso geral da prática e essas palestras podem enfatizar demais uma coisa e deixar de lado outras. se ele é inconsciente. Porém. No dia seguinte. é justo isso o que queremos demolir. Aí está a sobrestrutura. podemos trabalhar com isso. como no zendo. observei-o durante a chamada para fazer a fila para ver o mestre. Minha filha e eu conversávamos a respeito de um homem que estava tomando atitudes repreensíveis.. Sem dúvida alguma. tal como é. Existe a ação em si. Lembro-me de um aluno adiantado. disciplina tem uma conotação de forçar a fazer alguma coisa.. Esse homem praticamente acotovelou meio mundo para conseguir ficar na frente. isso é um desastre. ALUNO: Você está dizendo que eu não deveria dedicar-me ao trabalho institucional? JOKO: Claro que não! ALUNO: Mas esse é um ideal! JOKO: Não. reconheça os pensamentos idealistas que você acrescenta ao que faz. em ação da manhã até a noite. Portanto. convocar toda a luz de que formos capazes. com certeza não questionaremos o que fazer. a sobrestrutura começará a ficar mais leve e conseguiremos ver com mais clareza nossa vida.

Porém. Mas qual é especificamente a sua dúvida sobre o que falei? ALUNO: Talvez eu esteja questionando minha abertura para acreditar em você. obter um treinamento especializado para aumentar suas qualificações. então veremos com nossos próprios olhos se a experiência funciona ou não. A outra é desemprego e depressão. Desejo que trabalhem com sua própria experiência. Aconteceu muita coisa a todos nós e. é incompleto. A prática zen é ver através de nosso desejo de apegarmo-nos o nosso histórico e razões (pensamentos) de por que somos como somos. então saberemos por experiência própria. certo? Mas nossa responsabilidade está sempre exatamente aqui. Do ponto de vista relativo. se ficar doente. faça tudo que estiver a seu alcance para ficar melhor. Se formos observadores. não. e trata-se de vivenciar a realidade de nossa vida. Existem muitas formas de terapia. Você poderia comentar a esse respeito? JOKO: Bem. E depois vejam por si mesmos o que é a sua própria verdade. no mínimo.75 coisas insensatas que fazemos sempre. se necessário. como ela é. trabalhando a própria vida. e. E não estou pedindo para vocês acreditarem. Poderia ser. por exemplo. a não culpar mais ninguém por nada. não temos qualquer histórico. enxergamos mais. em parte. Todavia. Crer não faz absolutamente parte 75 . ALUNO: Como você sabe? JOKO: Como sei o quê? ALUNO: Como é que você sabe tudo isso? JOKO: Eu não diria que sei. e algumas pessoas que dependem de mim. em outro sentido.. Se praticarmos com nossa vida e a sobrestrutura iluminar-se. mas executando-as com tanta percepção consciente quanto possível. Os psicólogos dizem que as impressões nos primeiros cinco anos de vida são tão fortes. ALUNO: Bem. Penso que depois de anos praticando O sentar fica óbvio. JOKO: Mas não desejo que você acredite em mim! Quero que você pratique! Somos quase como cientistas. ou por causa de muita coisa ter acontecido conosco. isso é uma parte minha. O que ouço você dizer é que eu deveria simplesmente apreciar minha fome e meu desemprego e talvez nem devesse procurar um emprego? JOKO: Não. existe o ponto de vista absoluto e o relativo.. que elas comporão a base da vida da pessoa. Mas o que sempre acrescentamos a esses fatos básicos de uma situação? ALUNO: Tenho considerado a vida que meus pais levam e meu relacionamento com eles. Não quero que ninguém aqui acredite no que estou dizendo. Isso é a sobrestrutura. Mas. Estar desempregado significa considerar quais são suas possibilidades ocupacionais dentro do mercado de trabalho atual. Se culparmos alguém. neste momento. temos um histórico. E chegar. Ou. "sou um cara tão desajeitado que jamais ninguém vai querer me empregar!". por causa daquilo que alguém lhe fez que. podemos saber que estamos presos. e uma espécie de fome. Em certos aspectos parecem fracos e pareço ter dificuldades com isso. enfim. em vez de trabalharmos com a realidade de sermos o que somos. De jeito nenhum! Se você está sem serviço esforce-se para arranjar algum. Então. todas elas levam o indivíduo a sentir que sua vida é terrível. podemos ter certeza disso. Algumas religiões dizem apenas "acredite". somos como somos em virtude dele. é o que você acrescenta a essas ações básicas o "que chamo de sobrestrutura.

nossa vida passada e presente -se resolve. Se não. Uma coisa é darmos palestras a respeito de vivenciar o que é. Mas não irá fazer-lhes mal praticar.. Quando enxergamos a irrealidade da sobrestrutura. e o fazemos de forma muito esparsa. Mas precisamos nos forçar a isso. que bem pode ser eu estar doente. Estamos apenas fazendo o que estamos fazendo. fazemos naturalmente o bem. Se alguém está machucando uma criança. JOKO: Certo. parece-me importante saber o que me aconteceu durante minha infância. Não há diferença. julgando e condenando todo mundo. quando praticamos bem. isso não é fácil. evitamo-lo. Mas sua experiência. ALUNO: Minha questão tem que ver com isso. não às pessoas. Veja. raiva e ignorância. JOKO: Bem. neste momento. Acho que há coisas más sendo feitas. mas rotula a pessoa que o está cometendo como alguém mau. Prisioneiros do medo Todos conhecem a imagem do executivo importante que trabalha até às 22h. chame de fé se quiser. porque uma afirmação (por exemplo. ALUNO: Pela mesma razão. em essência.. somos "nada". JOKO: Eu não mencionei que isso não tem utilidade. Seu pobre corpo está sendo muito mal tratado. Não creio que você estivesse aqui se não achasse que a prática lhe seja útil. ALUNO: E quanto às forças malignas à nossa volta que parecem estar ficando mais fortes? JOKO: Não penso que existam forças malignas à nossa volta. "Sou de fato uma pessoa saudável") pode produzir sentimentos temporários de bem-estar. Entretanto. Nada do que eu lhes disse até agora poderá lhes causar algum dano. De certo modo. ALUNO: Essa é nossa ação.. Como é difícil. incluindo o passado e depende de você saber ou não como vivenciar isso. não se pode chamar ninguém de bom. Quando não existe separação entre nós e os outros. ficaremos por aí. falamos muito a respeito de sermos nossa experiência. Eu evitaria afirmações. ALUNO: A meu ver. É assim que me parece. Porém. mas não reconhece a realidade imediatamente presente.. JOKO: Sim. então. o que é muito diferente. Devemos nos opor a atos maus. ALUNO: Que lugar aprece e a afirmação ocupam na prática zen? JOKO: Prece e zazen são a mesma coisa. outra é fazê-lo. realmente vivenciá-la.76 do que estamos fazendo aqui. atendendo o telefone. Em termos zen. incluindo nós mesmos. Apenas afazemos de modo natural. Parece que fazer essa prática implica termos muita fé em nós. Não desejo que vocês acreditem em mim. comendo um sanduíche apressado entre os compromissos. faremos o bem. Nossa natureza básica é fazer o bem. Aos poucos. É nosso estado natural. Se não estivermos separados dos outros por pensamentos autocentrados de cobiça. engloba a totalidade de sua vida. é uma prática insensata. Ele acredita que seus esforços frenéticos 76 . nossa tendência é para o bem. isso é fé. com certeza você quer deter esse ato.

sentimos culpa. sua vida ficará fantástica. no mesmo quarto. egoístas. só aumenta a tensão. Quando não conseguimos dar realidade a nossos ideais." O segundo estágio. e sabe de uma coisa. se ser egoísta não está funcionando. Algumas pessoas não dão importância à iluminação. a raiva e a ignorância por ideais (de não sermos ambiciosos. Deixar de ser egoísta e ambicioso para tentar não ser desse jeito é como tirar todas as gravuras feias e sem graça do quarto e pendurar outras mais bonitas. mas a liberdade desejada ainda não estará ali e você continuará preso do mesmo jeito. quando não correspondemos à imagem de como deveríamos ser. Porém. nossa falta de delicadeza. quando praticamos. você terá mudado a decoração e o aposento terá um aspecto melhor. oscilamos de um a outro desses estágios. A que horas começam os de vocês? Às 4:15 h? Oh. Há alguns Centros Zen que também estão nesse tipo de armadilha.. Não estou dizendo que é ruim ser arrogante. Estão presas a seus desejos: ser importante.". mas continua privando-nos de liberdade." Vocês enxergam o desejo que está aí? Existe um enorme desejo de distanciar-se do que se é. Ainda estamos tentando ser o que não somos. fazemos um grande esforço para sermos bons. decidimos ir em busca de um novo desejo: sermos delicados. Os comerciais sugerem que. Já ouvi pessoas comentando: "Bem. violentos.77 são essenciais para uma "boa vida". Notamos que somos mesquinhos. A maior parte das práticas religiosas (e de algumas modalidades zen. o que dizer a respeito de todos os outros que não conhecem a verdade e não estão fazendo a coisa certa? Já houve quem me falasse: "Nossos sesshins começam às 3 h da madrugada." Todos estamos fazendo isso. porque se você é quem está fazendo certo. ficar famosa. se esse quarto for uma prisão. tinha acabado de sair de um sesshin e alguém me cortou o caminho na rua. damos início a um segundo estágio: "Bem. A culpa também contém muita arrogância. só temos uma vaga noção da verdade básica de nossa existência. Estamos tentando imaginar uma forma de ser diferente do que somos. "Eu não deveria estar tendo tais pensamentos. contém muita arrogância. mas o esforço de ser dessa maneira. a maioria descobre que não é verdade. trocando a cobiça. Muitas práticas religiosas objetivam. em variados graus. quando não vemos. ou o abridor de porta de garagem. bons. então vou ser altruísta". mas é o que somos. a produção de uma boa pessoa que não faça nem pense coisas feias. nem irados. Mudar as gravuras da parede. Mesmo assim. Já estou praticando o sentar há bastante tempo. Por que é que ainda sou tão mesquinho e avarento? Deveria estar melhor já. se você quiser ter o tipo mais novo de spray para os cabelos. Que mau aluno eu sou. como uma espécie de irmãozinho bebê. assim como domina as nossas também. Quando enxergamos nossa mesquinharia. lamento dizê-lo) trata do altruísmo. formamos uma nova ambição: ser altruísta. Em nossa prática.. de maneira equivocada. começamos a suspeitar que nossa vida não está indo bem do jeito que os comerciais de TV dizem que irá. Então. Claro que vale para todos nós. começamos a enxergar que o modo como estamos vivendo não está funcionando. pacientes. Não consegue enxergar que o desejo está dominando sua vida. fiquei com muita raiva. mas podem sentir que não deveriam gritar com o marido. ambiciosos. possuir isto ou aquilo. No entanto. tampouco ignorantes) melhora a decoração talvez. então. Ao percebermos. de ir na direção de um ideal. conseguirei domar o medo. Então. A maioria das pessoas que não conhece algum tipo de prática é bastante egoísta. ela conduz a uma espécie de arrogância e hipocrisia. Claro que você não deve gritar com ele. Todos fazem isso. 77 . A culpa está emaranhada nesse desejo. "Se eu conseguir ser perfeita. cobiçadores. A cobiça egoísta que domina nossas vidas não está dando certo. Certo? Bem. Uma vez que somos controlados por nossos desejos.. se eu puder me realizar ou iluminar. ou alinha de maquiagem. alimentamos culpa e depressão. ficar rica. Atentem: todo querer -principalmente o querer ser de certo jeito -está centrado no ego e no medo..

tentando nos mudar a qualquer preço: estamos livres desde sempre. mas muitas vezes não o somos. quando estamos sendo indelicados. nossa prática sempre volta ao mesmo ponto: como enxergar com mais clareza. é óbvio. Não há fechadura. Qual é a verdade de qualquer momento de aborrecimento ou de impaciência. não é uma prisão. Qual é a moral da história? A prisão em que vivemos. quando nos vivenciamos dessa maneira. sem que tenhamos sequer tentado. observando de fato nossas mentes. apenas enterramos a irritação e a raiva. a porta nunca esteve trancada. como não entrar em becos sem saída. sem nem se incomodar com lápis e papel. Todos os esforços que fazemos na vida são tentativas de fuga: tentamos esquivar-nos ao sofrimento. Quando estivermos podendo fazer isso. Não precisamos ficar sentados em celas. no terceiro estágio. Só então podemos passar para o terceiro estágio. Aliás. é no mínimo enxergar que estamos procedendo dessa maneira. Os candidatos foram informados de que o primeiro a conseguir abrir a porta seria nomeado primeiroministro.. que significa experimentar nossa indelicadeza. qual? De início. dentro de nossa cela de medo. Não gostamos de agir assim. ciúme. Em vez de ir de um egoísmo inconsciente para um altruísmo consciente. O terceiro ficou apenas sentado em sua cadeira por um certo tempo.. orei submeteu-os a um teste supremo: colocou-os num aposento do palácio e instalou uma engenhosa fechadura na porta. Quando criamos essa imagem. refere-se a tornar consciente o medo. não nos resolve o problema. tentando nos sentir melhor. com certeza. Tinha estado destrancada o tempo todo. Ao darmos um passo atrás e tornarmo-nos uma testemunha paciente e persistente. ou. por exemplo. cujas paredes rede coramos de maneira frenética o tempo todo. Até o sentimento de culpa é escapismo. o que precisamos fazer é ver a tolice do segundo estágio. 78 . Dois começaram a elaborar complicadas fórmulas matemáticas. em vez de ficarmos correndo em círculos. Vemos a verdade de nossa impaciência. A verdade de qualquer momento é sempre ser apenas o que somos. tentando fazê-la ter melhor aparência. Damos um passo atrás e observamos. De repente. observamo-nos sendo impacientes. sendo os pensamentos a única coisa que está mantendo a impaciência. Entretanto. depressão? Quando começamos a trabalhar desta forma. não é uma imagem mental de nós mesmos como pessoas agradáveis e pacientes. Gostamos de nos idealizar como pessoas delicadas. O que precisamos é ir para o terceiro estágio. começamos a compreender que nenhum desses dois estágios faz algum bem a nós ou a outrem. voltamos a ser quem somos e. foi até a porta. Sendo assim. como tentar não ser egoísta. quer dizer. ou de outra pessoa que deveria ou não ser assim ou assado. Nossa prática. Até mesmo o desejo de ser sábio e de ser perfeito baseiam-se no medo. que mais tarde virão à superfície. Não iríamos à caça do desejo se víssemos que já somos livres. De que modo podemos perceber esse fato da liberdade? Dissemos que ser egoísta e ter o desejo de ser egoísta são ambas vivências do medo. que vivenciamos o mero fato de estarmos nos sentindo impacientes. que é. teremos saído do âmbito da dualidade que diz que existe um eu e um modo como devo ser. esta começa a se resolver por si.78 Isso me faz lembrar de uma antiga história a respeito de um rei que desejava o homem mais sábio dentre seus súditos para seu primeiro-ministro. à dor do que somos. a respeito de devermos ou não ser de uma determinada maneira. de como iremos dar um jeito nas coisas para que tudo se arrume como queremos. o mero enunciar. Quando a escolha estava por fim entre três. A verdade. vemos que é tão constante o desenrolar de imagens como em sonhos. girou a maçaneta e a porta se abriu. nem tranca. devemos desarticular os dois primeiros estágios e conseguimos isso quando nos tornamos testemunha. a fim de descobrir a combinação do segredo. se nos divertirmos e brincarmos nessa dimensão. Em vez de afirmar: "Eu não deveria ser impaciente". Ou imagens de como fomos no passado e de como seremos no futuro. Isto significa que apenas vivenciamos a verdade de todo momento de impaciência. portanto. lutando pela liberdade.

também não é isso. mas numa árvore fenecida. E o que viram? O que encontraram? Lembram-se da fábula do homem que era perseguido pelo tigre? Diante da perspectiva iminente da morte. não numa árvore decorada. a princípio. até mesmo com alegria. Quando estivermos em condições de passar 90% do tempo com a vida. essa "iluminação". então. Não é estar solitário. Porém. Há uma ligação íntima entre ambos. Temos listas completas e bem claras sobre o que o paraíso não é.. vêem ou se dão conta por fim daquilo que nunca tinham visto ou percebido até então. De uma árvore fenecida brota uma flor -que linda frase de Shoyo Roku. vemo-la tal e qual ela é. Brota uma flor. sabemos o que é. temos algumas esperanças de que. Um foi o Grandes expectativas. só a vejamos um segundo por vez. então. lutamos. tampouco punido de jeito nenhum. Paraíso não é ser criticado nem humilhado. finalmente no paraíso. 0 paraíso. como ela estiver. Prossegue o jogo humano. Ao darmos um passo atrás em relação a ideais e os investigamos como testemunha. Queremos esse "paraíso". ou seja qual for o nome que lhe demos. Conseguiram algumas coisas. Alguns professores lhe disseram: “Bem. "Não há muito dele em minha vida" diriam praticamente todos. É a ausência de erros. A área que você está explorando é imensa. simplesmente não poderia ser confusão ou depressão. Estamos aqui para buscá-lo. Parece-nos que o paraíso está perdido. essa é a inteligência da própria vida. apenas riu. veremos o que ela é. e o outro foi O paraíso perdido." Onde está? Parece que nunca conseguimos chegar exatamente lá. "Ah. de Charles Dickens. ela desaparece. você precisa se esforçar bastante se quiser ser um bom peixe. Grandes expectativas Lembrei-me de dois livros um dia desses. No entanto. por saber que para ele aquele é seu último ato. É como ir atrás de uma miragem: quando chegamos perto. porque a testemunhamos. então é isso? Não. Mas um dia o peixe chegou a um mestre e perguntou-lhe: "O que é o grande oceano? 0 que é o grande oceano?". Quando somos qualquer coisa. Mas. em termos da segunda lista. Qual é? Todos estamos em busca do paraíso. caímos na realidade. então. Alguns até alimentam expectativas. Ele queria saber o que era o oceano. Se não são grandes expectativas. o que é? É ter mais dinheiro ou mais segurança? É ter domínio ou poder. nem trabalhar quando se está cansado ou doente. Você precisa meditar por muitas horas. É a ausência de dor física. morrem em paz. voltamos ao que somos. desse fenecimento. um pouco de "boa vida". de John Milton. mais tempo para pensar a respeito do significado da vida? É alguma dessas coisas? Ou não? Algumas das pessoas aqui presentes "chegaram lá'. sabemos com certeza o que ele não é. ele come um morango e exclama "Que delícia!". mas onde está? 0 que é? Chegamos nos sesshins com grandes expectativas. É interessante que algumas pessoas. Somos a vida. quando estão próximas da morte. independente daquilo que tivermos. se não sabemos o que é o paraíso. fama ou reconhecimento por parte dos outros? Será paraíso estar cercado de pessoas. 0 professor. 79 . Como o processo que mencionamos se relaciona com a iluminação? Quando voltamos da irrealidade.. esperamos. Temos certeza de que não é se sentir infeliz. tem de se punir. Não é fracassar diante de nada. recebendo seu apoio e amor? É ter mais paz e sossego. Somos como o peixe esforçado que passou a vida toda nadando de um professor a outro. e se esforçar de verdade para ser um bom peixe". assim que o obtemos. da iluminação.79 Quando nos vivenciamos tais como somos. em algum momento. o amigo ou o filho. da morte desse ego. Esforçamo-nos. o paraíso irá nos aparecer. se não é tais estados. Ficamos desesperados atrás desse estado. contudo ao longo do tempo essa porcentagem aumenta. brotam flores. Não é perder o parceiro. Depois desse esclarecimento. Talvez.

o que é? Paraíso. Sabedoria é perceber que não há o que se buscar. Que delícia!" "Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida! Que delícia!" "Estou tão sozinha! Que delícia!" Quando tivermos entendido profundamente tudo isso." O que significa? "Lance sua vida no reino de Buda. porque é isso o que existe. O sesshin é em geral uma batalha com o fato de que não queremos de modo nenhum que nossa experiência seja o que é. assim como não há nenhum a ser recuperado. este momento. ficará livre da vida e da morte. Todavia. qual é o elemento que muitas vezes desaparece? O que desaparece é a esperança de que a vida enfim se torne aquilo que desejaríamos que fosse." O que é o reino de Buda? Ele refere-se ao erro humano em suas primeiras palavras: "Abra mão de seu corpo e de sua mente e esqueça-os". ser mais nada. aliás. Mas onde está esse reino? Onde devemos lançar nossa vida? Uma vez que Buda não é senão este momento absoluto da vida (que não é nem passado. nem presente. Ser conduzido por ele é vê-lo. isso é o nirvana. nem futuro). Quando conseguir isso. a prática paciente do sentar. Onde vocês podem buscála? Não há paraíso perdido. Esta é a Verdade. Definitivamente. a iluminação. Por quê? Porque você não pode evitar este momento. Nada além da vida que existe neste instante. não há nada que vivenciemos que não seja o reino de Buda. Lance sua vida no reino de Buda. Você não pode evitá-lo. apenas uma ação pura e compassiva. qualquer circunstância da vida é em si o paraíso. Esqueça-os. Perfeito. experimentá-lo. tocá-lo. Certa vez ele disse: "Abra mão de seu corpo e de sua mente. Por quê? Por que você se torna um Buda? Porque você é um Buda. "Lance sua vida no reino de Buda. ele nos pede para "lançar nossa vida no reino de Buda". Só pode evitar vê-lo. à proteção e ao prazer do corpo e da mente. No entanto. Você não pode. Vejamos agora alguns dos pronunciamentos de Dogen Zenji. Nenhuma expectativa. afastando-nos de toda e qualquer conceituação -"É duro. Quando sentamos ou vivemos nossas rotinas diárias. depois deixá-lo ditar o que deve ser feito. pois ele é a nossa vida. Você é este momento da vida. vivendo pelo que a ele lhe aprouver oferecer. estamos no reino de Buda. então é. é entediante. nirvana. Você pode não estar desperto para ele. Se assim fosse. fracassados ou bem-sucedidos. vamos para um sesshin com grandes expectativas de chegar até lá! Onde está? Quando vocês saem daqui. onde está? O reino de Buda é a experiência direta de seu corpo e de sua mente. e tornar-se-á Buda. entediante. Mas os atos provenientes dessa compreensão estão isentos de raiva e de julgamento. ele está falando que este preciso momento é o reino do Buda. o paraíso. mas ele está sempre aí. saboreá-lo. senti-lo. Em vez de referir tudo ao conforto. quando agimos sem confiar em nossa própria força física ou mental -em outras palavras. Se é infeliz. Não é uma outra coisa. o reino de Buda. vivendo pelo que Buda lhe aprouver oferecer. Não estou dizendo que devamos ser passivos e não reagir. Quando as pessoas sabem que estão quase morrendo. mas ele nunca é fixo. Onde mais poderíamos estar? Cada momento de zazen. não a sentimos como o estado iluminado. Se você vive com uma pessoa difícil. É então que conseguem perceber como é "delicioso" o morango. está em perpétuo movimento de mudança. sem se valer de seu poder físico ou mental. aqui e agora. "Abra mão de seu corpo e de sua mente e esqueça-os. percebamos a Verdade de 80 . que é o que fazemos. estaríamos tentando segurar o nirvana como estado fixo.80 Voltemos agora à nossa primeira lista -o que o paraíso não é -para apreciá-la sob um ângulo diferente. isto não deveria estar acontecendo comigo" -permite-nos que. pacífico. doloroso. ou um outro lugar. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar" (20)." O que significa? Não podemos viver sem ser este momento. "Estou tão infeliz! Que delícia!" "De fato fracassei. é maravilhoso. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar". Dogen Zenji disse: "Esta é a Verdade. Infelizes ou felizes. Ele diz que. independente de suas opiniões a respeito de como as coisas deveriam ser -você fica livre tanto da vida como da morte e torna-se um Buda. Não há a implicação de "não reagir". com o tempo.

Mas. cesse todo julgamento. Nossa própria natureza é a própria iluminação. Bem agora. outra vez as palavras de Dogen Zenji devem ser ouvidas: "Abra mão de seu corpo e de sua mente". anão ser quando? Bem aqui. nossas frustrações. Porém. Estamos sempre buscando uma maneira de circundar esses problemas. Podemos acordar e olhar? 20. traduzido por Kõsen Nishiyama e John Stevens. Por quê? Por que não podemos buscá-la em nenhum outro lugar? Não há nenhum outro lugar para buscá-la porque não existe mais nada que aconteça. de analisá-lo. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar". Tóquio. seja este momento apenas. Ele reafirma: "Esta é a Verdade. 81 . para chegar até o paraíso distante. Todas as idéias pelas quais temos predileção são assaltadas e invadidas no sesshin. parágrafos finais. Por isso ele afirma: "Lance sua vida no reino de Buda". um certo desconforto físico. 22. mais a fadiga do primeiro dia e. A complete english translation of Dogen Zenji's Shobogenzo. Lance sua vida. neste momento presente. Basta sê-lo. Essa frase lembra-nos que devemos apenas manter clara a consciência de todas as condições do corpo e da mente. Basta de fugir dele. nossos desejos. 1975.81 nossas vidas. ambos estão aqui. A mente aposta corrida com todas as complicações que hoje compõem nossa vida. Kawata Press. em geral. observando nosso desejo de ir em busca de prazer e de evitar a dor. O primeiro dia de um sesshin é todo dedicado à primeira lista. Japão. Compare "Shoji". p.

não existem problemas. para conseguir criar uma forma de escapar ao sofrimento que estou sentindo. cheirando. ver. arranjamos todas as modalidades de soluções artificiais. o tocar. Não estamos separados dela. Por exemplo. agora. Acrescentamos algo (nossa reação 82 . Na Bíblia é chamado "ser expulso do Jardim do Éden". A vida. a ser entendido.quando o cerne da questão é que. No entanto. vemos. tocar. A vida flui adiante. a vida é uma totalidade sem fronteiras. depois de um sesshin. ouvir. Agora a vida está do lado de lá e eu estou aqui. é o problema. na qual estamos tão imersos que não existem problemas. há um input sensorial. tocar) e à qual acrescentamos pensamentos referentes a nós. por isso. Nem poderiam existir. o ouvir. repentinamente. existem milhões de detalhes que podem aborrecer'um ser humano. ou quando alguém nos faz alguma coisa de que não gostamos. pensando sobre ela. dividimos a vida em dois setores: o lado de cá e o lado de lá. embora a vida seja apenas vida. Somos apenas o que a vida é. pensando. porque estamos sendo o que ela é. a nos preocupar e nos atormentar com ela. na realidade. temos a ilusão de que a vida do lado de lá está nos oferecendo um problema do lado de cá. a pensar nela. Ouvimos. ficamos aborrecidos e recuamos. é uma questão muito simples. Mas. e assim por diante. não há nada que necessite ser resolvido. Às vezes. por um certo tempo. na maior parte do tempo. Não há o que perceber porque. Por isso. ouvir. não podemos enxergar essa unidade perfeita porque nossa distância a oculta de nós. o pensar (e não estou me referindo a pensamentos centrados na própria pessoa). cheiramos. A unidade sem fronteiras é rompida (ou assim parece). quando acontece algo de que não gostamos. quando parece ameaçar nossas colocações pessoais. não é assim que nossas vidas são e. pensar). Separamo-nos e rompemos a totalidade sem fronteiras porque nos sentimos ameaçados. A qualquer momento determinado do tempo estamos ouvindo. sabemos que a vida não é problema. Baseiam-se no fato de que. ou nosso parceiro não age como gostaríamos. vendo. cheirar. não temos indagações a respeito. Parece que estamos rodeados por pessoas e acontecimentos que precisamos controlar e acertar. Quando não estamos vivendo nossos equívocos pessoais. Não estou imersa em nada mais. tentando uma união. Porém. Ao estarmos mergulhados na vida há simplesmente o ver. temos tantas perguntas. Temos então uma vida atribulada com questões: "Quem sou eu? O que é a vida? Como arranjar isto para que eu consiga me sentir melhor?". por nos sentirmos à parte. Essa ilusão mesma. desde o mais remoto princípio. nascida do fato de possuirmos uma mente humana. seres humanos. Há vida e estamos mergulhados nela. Quando começamos a analisar a vida. quando somos a própria vida. Todos nós deparamos com ela de vez em quando. existe a vida na qual estamos verdadeiramente imersos (uma vez que tudo que somos é pensar. O acontecimento doloroso ocorreu do lado de lá e quero pensar a respeito dele do lado de cá. tocando. essa simplicidade é muito óbvia e. algum lugar aonde ir. cheirar. Em outros termos. Somos apenas isso. acreditamos que existe algo a ser realizado. Aí não podemos mais ter a consciência de nossa unidade com a vida. enfim. O Jardim do Éden é uma vida de simplicidade intacta. a vida não é mais só a vida (ver.82 CAPÍTULO 7 Limites O fio da lâmina Todos nós. do tipo "mas isso não me convém". interpretamo-lo e tudo mais aparece. Mas nem sempre nos sentimos imersos porque. Quando vivemos dessa maneira. o cheirar. Estamos mergulhados na vida e não existem problemas. pensamos. Nossa vida é perfeita? Ninguém acredita nisso! Assim.

temos de vivenciar o estar com medo. enciumados). Queremos a estéril satisfação de nos lamuriar. justo neste segundo. Sem exceção. Claro que essa é uma satisfação medíocre. Fazemos esses acréscimos na média de um a cada cinco minutos. é que não queremos fazê-lo. ver. começamos também a ficar cientes de que. mas agora sabemos disso. ou seja. porque pode incluir sofrimento. a vida iluminada é apenas ser capaz de andar sobre o fio da lâmina todo o tempo. duas semanas. o que para nós é inaceitável. resolvêlo. temos de vivenciar nosso aborrecimento. ao fio da lâmina. ao fazê-lo. Não gostamos de estar com a vida como ela é. Quero repetir mais uma vez: é necessário reconhecer que a maior parte do tempo não queremos ter nada que ver com esse fio. precisamos ser o que basicamente nós somos. Queremos consertar o problema. se houver algo que possamos fazer a respeito.83 pessoal) e. Esse é o primeiro passo. ouvir. não tem nada que ver com os pensamentos que giram na cabeça a respeito de estarmos aborrecidos. Mas o que é o fio da lâmina? A prática refere-se a entender o fio da lâmina e a saber como trabalhar com ele. Se eu sentir que você me magoou. sinto-me. Quando fazemos o zazen e começamos a conhecer nossa mente e reações. Como integrar esses aspectos separados de nossas vidas? Fazê-lo é andar sobre o fio da lâmina. estou tentando evitar a dor. ainda.. mas. Queremos nos manter separados. mais rápido eu vejo essa armadilha e retorno à experiência da dor. Se estamos aborrecidos. a pensar sobre uma possível solução. contudo não é o fio da lâmina. Assim. Seja uma enfermidade grave. isso é inaceitável para nós. É uma alegria andar pelo fio da lâmina. irritados. todos cheios de razões. É nesse instante que precisamos entender a prática de caminhar sobre o fio da lâmina. quero ficar mergulhado em meus pensamentos a respeito dessa mágoa. afirmando "Eu tenho razão". estamos andando no fio da lâmina: somos o momento presente. os estados agonizantes da separação são integrados e vivenciamos. o primeiro passo é tomar consciência de que existe a sensação de aborrecimento. magoados. com certeza. dois minutos. agora o aborrecimento diminui para dois meses. Quando estamos numa experiência não-verbal. começamos a nos sentir transtornados (ou com raiva. Se estamos com ciúme. Na realidade. e permanecer o tempo que ele durar em equilíbrio sobre o fio da lâmina. não a felicidade. Se antes eu ficasse aborrecida por dois anos talvez. consigo vivenciar o aborrecimento quando ele acontece. talvez. tocar. estamos muito aborrecidos. começam a ansiedade e a tensão. Sabemos que não o queremos. na verdade. Compreender o fio da lâmina (e não só compreendê-lo. temos de vivenciá-lo. não há quem não faça o mesmo. Esse vivenciar é físico. apesar 83 . Por fim. temos de experimentar tudo que nossa vida é. livrarmo-nos dele. cheirar. Quando estamos ameaçados ou quando a vida não nos convém. após anos de prática. toda vez. Quero aumentar minha separação. ao permitir-me consumir por esses pensamentos de fogo. Desejamos fugir disso. Precisamos compreendê-lo no ponto em que. Muitas pessoas sequer percebem que é isso que está acontecendo. o que pretendo dizer com o fio da lâmina? O que fazer para unir essas divisões aparentemente distintas da vida é o que eu chamo de caminhar pelo fio da lâmina. ou uma crítica sem importância. ilusão que nós mesmos criamos. A razão.. Embora eu não conheça ninguém que sempre o consiga fazer. Esse quadro não é lá muito animador . Primeiro precisamos perceber que estamos aborrecidos. pois estamos separados. Ao andarmos pelo fio da lâmina. Quanto mais sofisticada se torna a minha prática. Aí elas se reúnem. fazê-lo. Se estamos com medo. Quando estou pensando. Temos sempre a ilusão de estarmos separados. Contudo. seja sentir-se só ou desapontado. começamos a nos preocupar. pela qual é difícil. também) é o que constitui a prática zen. poderemos fazê-lo por boa parte do tempo. Não temos qualquer intenção de aceitar esse estado de coisas ou de apenas sê-lo. porém com certeza a alegria. Mais uma vez.

JOKO: Não é separação se for vivenciado de modo não verbal. No fundo. e do esforço para permanecer desperto em todos os encontros. Primeiro precisamos compreender com o intelecto: devemos saber do ponto de vista intelectual o que é a prática. crescendo em sabedoria e compaixão. Eis o paradoxo: apenas caminhando pelo fio da lâmina. mergulhados na vida. Esse conhecimento cresce a partir de um zazen praticado todos os dias a partir de muitos sesshins. Ninguém quer saber dessa realidade. Mas creio que eu ainda não tenho clareza de porque o aborrecimento é separar-se da vida.. Descobrimos que ele é o único lugar em que ficamos em paz. porém é invisível àqueles que não sabem ver. Nosso medo impele-nos a permanecer do lado de cá. no momento em que há um desacordo entre nós e alguém -e em que pensamos que nós é quem estamos com a razão -já nos separamos. são necessários muitos anos de uma prática constante. somos o não-eu. a sabedoria não nos será apresentada de bandeja. sua vida. mais confortáveis ficaremos ali. esperamos ser pessoas separadas que realmente existem e são importantes. no entanto. Quando andamos no fio da lâmina. Verdade? Acho que não. mesmo que a vida como não-eu seja pura alegria. Assim. e está certo. Mas. no entanto. que não podemos ver isto de imediato. Às vezes saltamos para o fio da lâmina e depois caímos de lá outra vez. até que possa abandonar essa forma de pensamento.minha vida. Todos os relacionamentos problemáticos em casa e no trabalho nascem do desejo de permanecermos separados. vivenciando diretamente o medo. porém. Para ver. quero estimulá-los a entender isso. precisamos desenvolver a aguda percepção consciente de quando estamos nos separando de nossa vida. em nossas justificadíssimas razões. Para a maioria. porém. Estamos interessados apenas em nosso bem-estar. ALUNO: Vejo que os aborrecimentos estão ligados a eu não querer enxergar o que está acontecendo. Utilizando essa estratégia. Pode. Ao pensarmos dessa forma. claro. se formos pacientes. enquanto não estivermos prontos para ela. Queremos alguém que nos tire o medo de nossas vidas e nos prometa a felicidade. mas não quero saber disso em minha vida". ficaremos nos contentando com uma vida diminuta. É claro que a jóia sempre está brilhando. não há "eu" e não há "você". desde a manhã até a noite. em vez de a experimentarmos tal como ela nos acontece quando parece dolorosa e desagradável. Mas.84 disso. devemos andar pelo fio da lâmina. Diante do fato de nossa quase nula disposição para saber do fio da lâmina.. a unidade sem fronteiras foi rompida. na maior parte do tempo recusamo-nos afazer isso. não somos importantes. Ninguém quer ouvir a verdade e não a ouviremos. e terminaremos enxergando a jóia dessa vida que começa a brilhar. através dela. apesar da dificuldade que eventualmente represente. nossa visão irá se tornando cada vez mais nítida. ou fazê-lo de uma só vez. JOKO: Bem. mergulhados na vida. Quanto mais praticarmos. É isto que tememos. Sobre o fio da lâmina. em nosso isolamento. Andar pelo fio da lâmina é isso. Por essa razão. Protestamos: "Não! De jeito nenhum! Esqueça! Esse é um belo título para algum livro. Percebo. é disso que trata a prática zen. Por isso muitas pessoas chegam num Centro e dizem: "Quero ficar em paz". como água que pinga numa frigideira com óleo quente: pode ser isso o máximo que consigamos a princípio. O que preferimos fazer? Preferimos pensar a 84 . não temos interesse algum pelo bem-estar daquele indivíduo. queremos paz e alegria. é que poderemos saber o que é não ter medo. "errada". ALUNO: Por favor comente um pouco mais sobre estarmos separados da vida. Temos de alcançá-la. Estamos do lado de cá e a praga daquela pessoa está do lado de lá. Depois. estar havendo pouca compreensão de como a paz será encontrada. Essa espécie de prática beneficia a todos os seres conscientes e.

ALUNO: O que você está descrevendo parece uma coisa muito passiva. ALUNO: Quando vejo pessoas centradas no que está acontecendo constato que agem muito mais depressa e melhor que eu. "Por que ele não vê as coisas do meu jeito? Por que é tão estúpido?" Esses pensamentos são o fator de separação. Você poderia esclarecer isso? JOKO: Não se trata absolutamente de ser passivo." Não há nada de errado com os pensamentos em si.85 respeito de nossa infelicidade. não são a verdade. Estamos vivendo apenas um. Podemos esquecer por completo as belas coisas que nossos amigos já nos fizeram. No filme sobre Madre Teresa observei que ela se dirigia diretamente para a área do desastre e começava a trabalhar . Precisamos enxergar de modo direto o que ela é. mas não nos é possível uma ação adequada se acreditarmos em nossos pensamentos sobre uma situação. Pode ser que não se tornem óbvios para nós. JOKO: Apenas fazer. ALUNO: Pensamentos? Não a evitação? JOKO: Os pensamentos são a evitação. ALUNO: Parece uma enormidade esperarmos ter condições de apenas ficar sobre o fio da lâmina. quando começamos a julgar as pessoas certas ou erradas. Não estaríamos pensando se não estivéssemos tentando evitar a experiência do medo. ALUNO: É possível reagirmos sem que haja quaisquer pensamentos? JOKO: Quando reagimos. a menos que tenha pensamentos sobre o insulto. que é diferente de nossos pensamentos a respeito dela. não aquilo que desejamos ver. Precisamos ter uma visão que seja mais ampla. Ela não parava para ponderar: "Devo fazer isso?". se você me insulta. A prática espera muito de nós. separamo-nos. Só fazer. porque nossas recordações do que aconteceu em nossas vidas antes entram em cena a todo instante. um capacho. mas apenas o que existe? Não. ALUNO: Você quer dizer que os pensamentos causam a separação? JOKO: Não se estivermos plenamente conscientes dos pensamentos e soubermos que são apenas pensamentos. É quando acreditamos neles que ocorre a separação. exceto quando deixamos de enxergar sua irrealidade. É por isso que eu digo: "O que mais você tem a fazer? Você pode tanto praticar cada momento como não". Mas estamos vivendo apenas este momento. Porém. os pensamentos estão acontecendo. A prática zen é sobre ação. eu não reajo. 85 . ou aquilo que nos seria conveniente e confortável. Não temos de viver cento e cinqüenta mil momentos de uma só vez. Certo e errado são apenas pensamentos. quase sempre seletivos e enviesados. "Um décimo de polegada de diferença e já céu e terra se distanciaram. se apenas acontecer um incidente que consideremos ameaçador. Podemos ter uma ação inteligente sem de fato ver. mas estão lá. definitivamente não estou falando de passividade ou de não reagir . Não podemos abordar de uma maneira inteligente as questões da vida se estivermos paralisados em nossos pensamentos sobre tais questões. JOKO: As recordações são pensamentos. Por exemplo. Ela enxergava o que precisava ser feito e fazia.

a respiração aos poucos fica mais lenta. parece-me que o fio da lâmina é um lugar meio chato de se ficar. Do ponto de vista atual. Sem dramas. o que parece assustador. Geralmente prestamos atenção. mas se queixa: "É tão chato! Estou só ficando sentada e não acontece mais nada. não podemos ver que o aborrecimento é basicamente a mesma coisa que lavar a louça. a 86 . ALUNO: Acompanhar a respiração é estar no fio da lâmina? JOKO: De fato é. a lâmina e seu fio nos parecem estranhos porque vivenciar o aborrecimento é vivenciar sensações corporais desagradáveis. JOKO: Porque é mais ameaçador.. Quando a experiência se mantém firme. e a respiração ficará mais suave. Uma vez que são desagradáveis. preferimos perder a ficar sem um dramazinho do qual somos o protagonista.. seria terrivelmente monótono".86 ALUNO: Bem. não dou importância. JOKO: É isso mesmo. por mim está bem. Mas ficar só ouvindo o tráfego é a perfeição! A aluna está perguntando: "Então é só isso?". a pessoa se senta bem. porque então ela não estará centrada em nós. ALUNO: Essa é uma ameaça imediata ou vem de um depósito de material psicológico não-resolvido? JOKO: É certo que existe um reservatório.. esteja como estiver. É só isso mesmo: não há drama e nós gostamos de dramas. longa e profunda. é só isso. Estaríamos em cima do fio lâmina. Se a ligação com os pensamentos estiver bastante enfraquecida. Se pudéssemos apenas fazer o que há para ser feito a cada instante. Sim. Fazer só o que se está fazendo. Mas se meu marido diz: "Vou deixá-la". ALUNO: Para mim. Ambos são a simplicidade máxima. como saberíamos o que fazer então? JOKO: Sempre sabemos o que fazer quando estamos sintonizados com a vida tal como ela está. rápida. ao acompanharmos a respiração. o corpo e a respiração terminarão por se descontrair. é melhor não tentar controlá-la (o controle é uma coisa dualista: eu controlo alguma coisa separada de mim). Mas quando ficamos aborrecidos. ALUNO: Por que o aborrecimento fica maior quando diz respeito a alguém que me é querido. Suzuki Roshi afirmou certa vez: "Não tenha tanta certeza de sua pretensão a ser iluminado.. não haveria problemas. É só.". mas ele está contido em nós na forma de contrações corporais que existem a cada instante. quando uma incrível explosão emocional nos atinge. Outra pessoa virá para me vender o sapato. e sim apenas vivenciar a respiração que estiver acontecendo: presa. o fio da lâmina é a experiência do que é o momento. experimente-a tal como está. Às vezes existe uma grande profundidade e beleza no que antes eu não tinha percebido. Quero acrescentar que. Só fico ouvindo os carros que passam. alta. Se alguém que está me vendendo um par de sapatos. Quando vivenciamos a contração. diz: "Vou deixá-la". mas quando lavamos a louça. descubro cada vez mais como as coisas mais simples da vida não me são tão chatas quanto antes. De vez em quando vem um aluno conversar comigo. Conforme vou praticando. Talvez eu preferisse dizer "vivenciar o corpo e a respiração". não há muito a dizer. A coisa muda inteiramente de figura. JOKO: Certo. Ninguém deseja que a vida seja "só isso". ALUNO: Se desistirmos de nossa crença em nossos pensamentos.

Dessa altura. exceto neste exato instante. Todavia. talvez com os dons mais imensos de todas as criaturas. nossas habilidades para tanto. por favor. Quando olhamos para a seqüência de fotos. E. com seus carros. se isso não acontece. não veremos paisagens humanas. árvores. Nenhum outro. olhando para baixo. do tapete. E ninguém consegue ficar ali o tempo todo. Por exemplo: se olharmos à nossa volta e virmos arbustos. Já nós. E guardem consigo esta indagação: neste preciso momento. tem essa espécie de confusão. enquanto estamos sentados aqui. Não há passado. Não há separação entre nós. Vamos encerrar. Todavia. E antes que esteja quase tocando o solo. estou andando no fio da lâmina? Nova Jersey não existe Assumimos que a realidade é tal e qual a vemos: é fixa e imutável. não praticamos de verdade. um microscópio poderoso revelaria que a realidade com que deparamos não está efetivamente separada de nós. com certeza não os glóbulos brancos. isso é somente como vemos a realidade no nível do chão. como temos um cérebro grande ( que nos é dado para que possamos funcionar). não veremos nem as pessoas nem os carros.se ver as minúsculas criaturas rastejando. Não sei para que estou aqui". Esses glóbulos são de resgate e têm a função de eliminar resíduos e material impróprio do corpo. deslocando-se a uma velocidade espantosa. E. usamo-lo de 87 . os humanos. assim como aos outros dons naturais que recebemos. aumentam de forma considerável com o passar do tempo e da prática. limpando o caminho ao formarem pseudópodos que avançam na direção dos alvos. Não temos de saber tudo a respeito dele. estão dentro de nós. de que maneira o fio da lâmina se relaciona com a iluminação? Alguém quer comentar? ALUNO: É a iluminação. A realidade de um glóbulo branco sangUíneo não é a que vemos. essa é apenas uma entre as centenas de milhares de funções que acontecem no seio dessa imensa inteligência que possuímos. mantenham sua conscientização o máximo que puderem. pessoas e casas. que consiste em limpar. porém. mas inclui o topo das montanhas. E a sua realidade provavelmente se compõe das colinas e vales de uma calçada. neste preciso momento. Eles trabalham sem cessar para nós. É isso mesmo. são enormes demais para ela. Se estivermos dentro de um avião a 35 mil pés de altitude. arrumamos um jeito de usá-lo de maneira imprópria. somos apenas átomos e partículas atômicas. devemos ser distintos das coisas que nos rodeiam. a cada momento da vida. ao vivenciarmos essa situação cuidamos do passado. O que é a realidade para ele? Podemos apenas observar seu funcionamento. acessamos o passado inteiro. Há pouco tempo. somos os únicos seres da Terra a dizer: "Não sei qual o significado de minha vida. Para uma formiga que anda pela calçada. limpando-nos enquanto vivermos. existem milhões desses glóbulos dentro de nós. nossa realidade não os inclui. JOKO: Sim. Contudo. planícies. Entretanto. o tapete e a outra pessoa: somos todos um só enorme campo de energia. Apesar de dotados do dom de pensar. Para tanto. presentes nas artérias de coelhos. minha filha mostrou-me algumas fotografias de glóbulos brancos do sangue. limpando nossas artérias do melhor modo que sabem. O que é o pé que pisa na formiga? A realidade que vive em nós precisa funcionar de determinadas maneiras. da outra pessoa. Se o avião desce. massas de água. Por isso. presumimos que estamos vendo as coisas como elas são. Onde está nosso passado? Bem aqui. Dentro da artéria podell1. cometendo equívocos que nada têm que ver com o bem-estar da vida. Porém. carros. os seres humanos nem existem. muda nossa experiência da realidade. Em um nível mais profundo. vemos o trabalho que o glóbulo está tentando fazer: ele conhece sua finalidade. num dia de céu claro. Mas.87 tensão. claro. O passado é quem somos neste momento presente.

88 modo errado e nos perdemos. O que fazer? Eu poderia me justificar diante dele. existe apenas uma extensão muito longa de terra. quando. em nossas esperanças. Apesar disso. para executar o que precisava ser feito. em nossos temores. Contudo. usando pensamentos de preocupação: ficamos arquitetando de que maneira melhorar as coisas para nós. Minha ação brota de minha vivência. esforçavase para contribuir.. Mas. o estado de funcionamento natural começa a se fortalecer. só executa suas tarefas. pareceu que não tinha nada que ver comigo. sim. Certa vez. uma filosofia. desde que não seja viver de modo funcional. Queria participar daquele trabalho. agindo então a partir daí. o Illinois. Ao praticarmos o zazen e ao nos darmos conta da natureza ilusória de nossos pseudos pensamentos. mas em termos de como servir nosso eu em separado. rodopiamos com eles. pensamos. Quando olhei para aquela mão. a mão parecia ter vida própria. tentando encontrar alguém a quem culpar pelos acontecimentos. Isso é retrocesso. Envolvemo-nos com relações estranhas que são infrutíferas. começamos a pensar. considerar a presença de todos os pensamentos que tenho a esse respeito. posso começar a sentir de uma maneira diferente aquele filho. Estamos tão enredados em nossa excitação. Era quase patético: aquele esqueletinho. nos apoquenta. Há um certo tempo quebrei meu pulso e fiquei com gesso durante três meses. Ficamos preocupados. Fazemos qualquer coisa. Quando o removeram fiquei comovida com o que vi. não conseguimos solucionar nada. pensamos. No entanto. reagir. Sabia qual era sua função. Sabia o que deveria fazer. Nosso corpo tem sua própria sabedoria. Em pouco tempo sua vida terá fim. Ele não pensa. ficamos obcecados com uma pessoa. Fazemos a mesma coisa conosco. não fazemos o mesmo com os problemas da vida: ao contrário. ainda queria ajudar. mesmo incapacitada. Acho que devemos culpar Nova York pelos problemas de Nova 88 . como aumentamos nossa segurança. pensamos realmente que existe o Kansas. explicando-lhe todas as coisas maravilhosas que faço em seu benefício. será substituído por outros. esse nadinha de pele e ossos começou atentar ajudar. Fraca demais para fazer o que fosse. Se não confundirmos as coisas. soube. mas encontra-se tão encoberto em quase todos nós que apenas não sabemos mais o que é. Penso que sou Nova Jersey e ele é Nova York. um movimento. Quando faço isso de modo sincero e paciente. De fato. como perpetuar indefinidamente nosso eu em separado. O bloqueio imposto por nossos pensamentos e nossas emoções torna o problema insolúvel. com a prática. que não conseguimos notar que nossa função não é viver para sempre. nós nos confundimos. Suponhamos que meu filho gritou comigo e disse que sou uma droga de mãe. sem poder nenhum. Tentamos de maneira inútil proteger-nos. é o uso inconveniente de nosso cérebro que acaba com nossa vida. comecei afazer uma tarefa com a mão sã. Expulsamo-nos do Jardim do Éden. mas. débil. quando eu estava viajando de avião de um lado para o outro dos Estados Unidos. Esse estado está sempre presente. pois é isso que acreditamos ser a solução para os problemas da vida. também saberemos o que é para ser feito na vida. quando saí do hospital e fui para casa. Porém. Minha mão era só pele e ossos. analisar. começamos a enxergar através da confusão e podemos discernir o que precisamos fazer: assim como minha mão esquerda. nos irrita. empreendimento que jamais ocorreria a um glóbulo branco. tentando analisá-los. trêmula. em nossa depressão. viver este momento. Distanciamo-nos do problema: com toda essa atividade de pensar. que estávamos mais ou menos no centro do país. pensamos. na realidade. o que os resolve é apenas experimentar a dificuldade que está se desenrolando. Olhei para baixo e pensei: "Onde fica o Kansas?". Nova York. Era comovente ver aquele pedacinho de espantalho tentando fazer o serviço de uma verdadeira mão. num determinado momento. e posso enxergar o que fazer. Mas o que cura de fato a situação? Simplesmente experimentar a dor do que aconteceu. Pensamos não em termos de trabalho que precisa ser feito em prol da vida. Não havia meios de dizer onde ficava. levantamos toda espécie de possibilidades. Quando algo realmente nos atormenta. Nova Jersey.

e essa falsa brincadeira acabará conosco. E quando rompermos o bloqueio das emoções-pensamentos. independente do tempo de prática. esse jogo é bom. existem partes da vida que parecem embrulhadas e confusas. Ainda não aprendemos a viver como seres humanos. O que nos cabe fazer na vida? Se não nos confundirmos muito com falsos pensamentos. viveremos até o último de nossos dias na Terra sem jamais termos desfrutado um só deles. nem desprovido de significado. isso precisa ser feito? Tudo bem. Mas não fazemos isso com facilidade porque estamos vinculados a um pensamento centrado em nós. a resposta se torna óbvia. mas é sempre real e rico. Porém nossas vidas se absorvem com a questão do que nos seria melhor. saberemos. mas se nos deixarmos levar pelos pensamentos e pelas emoções que nos separam. Esse é o estado de iluminação. Inclui sofrimentos e alegrias. A marca registrada de anos de uma boa prática é que os períodos de clareza duram mais e os de confusão. não temos de lutar por algo que chamamos "grande iluminação". se apenas olharmos para eles. "Não sei muito bem o que está havendo aqui". Precisamos ter uma certa maneira para poder funcionar. decepções e problemas. Quanto mais tempo e dedicação tivermos empenhado em nossa prática. lá do outro lado. contudo. apenas recebendo o input sensorial que a vida nos apresenta. É inacreditável: o fluir fica tão fácil! Então (se não tomamos cuidado). embora ainda tenhamos os mesmos problemas. O problema é que não estamos jogando o verdadeiro jogo.. assim como os glóbulos brancos precisam formar os pseudópodos para realizar um serviço de limpeza. como poderíamos deixar a vida melhor para nós. a confusão começa a invadir o espaço de novo. Os outros e as coisas só participam na medida em que estiverem dispostos a entrar no jogo que estipularmos. estamos projetados para ter determinadas funções dentro deste enorme padrão de energia que somos. Na realidade. são os Estados Unidos. compõe imediatamente seu próprio repertório de problemas. menos. Confundimos o mapa da realidade com ela. simplesmente dizemos: "Oh. como um casamento pode dar certo se um está em Nova Jersey e o outro em Nova York? Pode até dar a impressão de funcionar uma vez ou outra. existem momentos (por vezes horas até mesmo dias) em que. repleto de certezas. vamos ver no que é que dá". Quando trabalhamos de modo inteligente com os pensamentos e as emoções. Se nossa mente estiver aberta. Ao nos desviarmos de nossa obsessão pessoal com nós mesmos. Quando bem jogado. tudo fica certo. A clareza e a força começam a se dissipar. Nova Jersey. Os mapas são úteis. haverá uma corrida armamentista entre ambos. mora em Nova Jersey).89 Jersey (afinal todo mundo que mora fora de Nova York. Estamos jogando um jogo que usamos para revestir o verdadeiro. Ele o sabe. Claro que. então também começaremos a saber quem somos e qual nossa participação na vida. e não é insatisfatório. O glóbulo branco sanguíneo não indaga: "Qual é o sentido da vida?". bem. e percebemos a unidade que está sempre lá. quando praticamos de maneira meticulosa. Como os glóbulos brancos. Tenho de ir ao dentista na terça-feira. Por isso. 89 . criamos um mundo falso que recobre o verdadeiro. o jogo nunca dá certo. mas. Precisamos ter uma determinada forma para podermos funcionar. Posso não gostar. porém. quando pensa que é Nova Jersey. esses limites são arbitrários. Se não precisamos existir como entidades em separado. Se Nova Jersey não tem de existir como entidade em separado. Precisa se identificar com todas as suas coisas maravilhosas e. nele. Preciso ficar duas horas com aquela pessoa aborrecida. na maior parte. Às vezes. os limites desaparecem aos poucos. mas está certo. Não existe o Kansas como uma unidade em separado. com certeza. mais essa sensação dura. precisamos dar a impressão de estar separados. Por exemplo. isso não tem muita serventia para a Pensilvânia. não precisa se defender. Claro que eles nunca estarão realmente dispostos porque estarão fazendo a mesma coisa. por exemplo. vamos pensar que existe uma fronteira separando-nos dos outros. não há problemas. Se não enxergarmos através dela. a fim de entrarmos nesse maravilhoso jogo do qual fazemos parte.. enquanto o casal não perceber que não existem fronteiras (e isso implica a dissolução do bloqueio da emoção-pensamento). não veremos a unidade que.

Uma parte de nós é como o glóbulo branco: está sempre ali e sabe o que fazer. O que estamos unindo? Antes de mais nada. estou um pouco nervosa. perguntamo-nos: "Qual é a sensação da confusão?". O absoluto não está em nenhum outro lugar. quando nos vivenciamos como somos. a maior parte do tempo. filhos e amigos. Sou cética quanto a práticas que forçam o ritmo das coisas. Em épocas de confusão e de depressão. não necessariamente. Onde mais poderíamos estar. unir o homem e os deuses". quando desejamos que aconteça. dos pensamentos e do que mais estiver aqui. Mas. o portão se abre. Voltamos ao corpo e suas sensações. enfim. A prática não é um empurrão místico na direção de qualquer outro lugar. Unimos os outros a eles mesmos. a nossos parceiros. esse é o nirvana. Precisamos manter a conscientização das sensações corporais. Religião As pessoas que vêm a um Centro Zen estão em geral aborrecidas ou desiludidas em virtude de suas experiências religiosas passadas. Conheço muitos físicos que têm o conhecimento intelectual. As pessoas. a nosso trabalho. Não há para onde ir. Ao fazermos isso de verdade. rápido demais. Não precisamos julgar se nossa prática do sentar é boa ou má. Muito antes de percebermos. costumam me perguntar: se essa unidade fundamental é o verdadeiro estado das coisas. estamos de volta na trilha. exceto onde estamos? Estamos sempre como somos. desde que não embaralhemos tudo. É mais do que sabido que nosso ser físico precisa efetivamente ser protegido ou não 90 . O que fazer então? Na realidade. seja o que for. Para todos nós. Muitas vezes ouço de meus alunos: "Tenho me sentido confusa a respeito da prática. Para algumas pessoas. as sensíveis e as insensíveis. O que fazer? Em vez de tentarmos compreender a confusão e o nervosismo. é interessante: vem do latim religare que significa "reatar. ligar. Re quer dizer de novo. embora ele se abra quando deve e. cada dia apresenta períodos como esse. Ao praticar com meticulosidade. O sentido original do termo “religião”. nossa tarefa é nos unirmos a nossos companheiros. e a todas as coisas do mundo. ao México. Claro que a alternativa não é sentar sem fazer nada. Onde mais poderia estar se não precisamente aqui? Meu nervosismo é o quê? Uma vez que existe aqui e agora. querer estar embrulhado e na confusão é a clareza em si. uma abertura precoce seria desastrosa. É isso. todos os fatos da vida são assim.90 Paradoxalmente. Isso parece uma beleza! No entanto. por que quase nunca é vista? Não é pela falta de informações científicas adequadas. estamos sempre precisamente aqui. não é sempre que vemos a vida assim. na realidade. acompanhando os pensamentos flutuantes. se estou nervosa. Tudo que não estiver unido é nossa responsabilidade. o pior que pode ocorrer é tentar ser de algum outro modo. porém. para podermos chegar a alguma parte. A causa principal desse obstáculo e a principal razão que nos leva anão ver o que já existe. e não do jeito que acreditamos que deveríamos ser. em geral. O portão sem portão está sempre exatamente aqui. Existe só o seguinte: "Estou aqui e pelo menos estou ciente de parte da minha vida". Parece que não estou conseguindo clareza nas coisas". unimo-nos a nós mesmos. o absoluto. é nos unirmos a Sri Lanka. É remover a barreira entre nós. ao universo. Quer funcionar. Qualquer prática religiosa verdadeira consiste em retomar a visão do que já existe: é enxergar a unidade fundamental de todas as coisas. apenas cria mais problemas. é ver nossa verdadeira face. outrem e as coisas: é remover ou enxergar através da natureza dos obstáculos. a todas as coisas. essa porcentagem tende a aumentar. ligare é atar. porque mesmo em nosso íntimo estamos separados. forçar a clareza. depois. Nossa inteligência inata sabe quem somos e "qual é a nossa" neste mundo. e unimo-nos aos outros. mas não vivem sua suposta percepção das coisas em suas atividades diárias. é nosso medo de ser ferido pelo que parece estar separado de nós. sabe-se lá onde. unir.

nos escapa. em muitas tradições religiosas. porque ficou completamente obcecado com as tentativas de evitar ser magoado. asfixiar o que é verdadeiro para nós a cada momento. se forem genuínas. Essa barreira da emoção-pensamento costuma assumir a forma de uma hesitação entre dois pólos. De uma coisa podemos ter certeza: se fomos magoados. Pode ser que enxerguemos nossa verdadeira face de vez em quando.91 consegue funcionar. ser bom. Em outras palavras: a vida religiosa não terá sido realizada e a humanidade e os deuses permanecerão separados. Se olharmos para nosso passado. Existe eu e existe a vida. É lamentável." "Os outros são tão ruins!" Consideramos todas essas circunstâncias como fontes de dor. dói ficar sozinha. é a verdadeira natureza da vida. Se realmente desejarmos enxergar a unidade fundamental não só de vez em quando. elas se tornam barreiras. não queremos que isso nos ocorra de novo. tecemos julgamentos e opiniões sobre tudo e todos que receamos possam nos magoar. ergue-se uma barreira e nossa visão fica obscurecida. há muitas expectativas de se vivenciar o que é chamado de "abertura" ou experiências de iluminação. Todavia. Com base nessa longa lista de dores desenvolvemos uma visão de vida condicionada: aprendemos padrões de evitação. (e sei que muitos dentre vocês também) é que. iluminam nossa atenção para aquilo que já é. Porém. com qualquer pessoa. com aquilo que parece nos magoar. mas na maior parte do tempo -o que enfim é a própria vida religiosa –então nossa prática elementar tem de construir o que Menzan Zenji (erudito e mestre do zen Soto) chama de "barreira da emoção-pensamento". a unidade fundamental. essas experiências não fazem muita diferença. Para algumas pessoas. O que já é. se estamos fazendo um piquenique num trilho ferroviário e uma locomotiva vem vindo. sem o entendimento dos dentro e fora das barreiras que erguemos -o que em si não é absolutamente fácil -permanecemos escravizados e separados. Essas experiências são muito variadas. que tenta. o sacrifício de nós mesmos. Contudo. Podem ser úteis. A vida de verdade. tampouco. tenhamos alcançado um ponto em que reagimos muito pouco. e essas dimensões não se reúnem. O que de fato conta é a prática que temos de efetuar. reagimos. que considero ameaçadora. Porém existe uma enorme confusão entre esse tipo de dano e outras ocorrências menos tangíveis. que tenta se empenhar com sua prática. "Meu amor me deixou. essas experiências são insuficientes. Somos variados nesse sentido e a variação não é. É necessário evitar e reparar danos físicos. elas não são tão difíceis de acontecer. agradar a vida e os outros. Ficamos presos no interior de nós mesmos. mas se nos apegarmos e ficarmos dependentes delas. em nossa prática. Sem essa prática. Costumamos sentir que fomos feridos pelas outras pessoas. Essa é a pessoa que tenta ser boa. ficamos presos dentro dos confinados limites dessa barreira. em particular na tradição zen. uma questão de virtude. fazemos uma lista de pessoas e situações que nos magoaram. a cada momento. Por exemplo. Todos têm a sua. Nossa prática elementar é com essa barreira. quando alguma coisa parece nos ameaçar. Uma vez que quase todos nós reagimos em média. mas há quem morra sem jamais ter vivido. fica óbvio que a maior parte do tempo a vida nos está oculta por trás dessa barreira. que tenta obter a iluminação. com nosso marido ou mulher. Um é o da conformidade: o sacrifício aos deuses. levam até aí nossa atenção. em si. nos ameaçar ou nos desagradar. tenta e 91 . E nossos mecanismos de evitação são quase infindáveis. que parecem nos ferir. O que encontrei. uma vez a cada cinco minutos. No mesmo instante em que reagimos." "Jamais vou conseguir um emprego. uma experiência de iluminação é quase inútil. mas ainda assim pensaremos que é impossível sermos nós mesmos. a cada momento. sem o empenho de um sério esforço de unificação da própria vida. para tentativas de arranjarmos as coisas afim de continuarmos mantendo o controle. do lado de lá. Nossas capacidades inatas são postas em funcionamento para evitações. Ele quer dizer que. tentar ser uma pessoa ideal. contudo. é uma excelente idéia sair dali. A menos que. a unidade fundamental. para queixas de sermos vítimas.

a raiva. sentei-me e respondi a carta. A reconciliação de tudo que é a experiência -do quê? de Deus? Daquilo que simplesmente é. mofando na mesinha". Ou nos conformamos a ela ou nos revoltamos contra ela. esperando por nós. Qual é a resolução? O que resolve essa batalha incessante em nosso íntimo? O que nos faz reunir aos deuses novamente? Até que tenhamos compreendido esse enigma. resolvi. que ia responder uma carta. os dois estados são de escravidão. parece que a vida ficou muito pior. Certo dia da semana passada. por trás da oscilação entre um pólo e outro. no instante em que o observador enxergar os dois estados. Trata-se da reconciliação das pessoas e de suas noções separatistas. como um balanço. Mas se praticarmos com inteligência.92 tenta. Às 15 h dei-me conta de que ainda não havia redigido a resposta. É quando as pessoas insistem: "Ninguém vai me dizer o que fazer! Preciso de meu próprio espaço e quero que todo mundo fique fora dele!". o medo. Em vez de vermo-nos como inferiores e dependentes. Devo fazê-lo". Como resolver a situação? Resolvemos vivenciando o que não queremos vivenciar. a maioria das pessoas sai de um primeiro estágio para cair em cheio no segundo. No entanto. As pessoas e os deuses continuam separados. algo muda dentro de nós. Posso muito bem deixar essa carta. Minha reação inicial foi: "Preciso responder aquela carta". Isso. Com o tempo. a mudança pode levar semanas ou meses. Se continuarmos sentados mais um pouco. a verdadeira prática religiosa. Eu não tenho de fazer nada. conseguiremos enxergar com clareza. porque ainda estamos reagindo à vida. Quando conseguimos ver. o que acontece? Quando observei os dois tipos de pensamento. vamos ficando cada vez menos separados. "É necessário que eu o faça. não há senão separações. em especial nos círculos de alunos do zen. porque desejamos 92 . vemo-nos como superiores e independentes. Mas se nos entregarmos às vivências. se "abraçarmos o tigre". começaremos aperceber o estilo conformista em que nos afundamos e depois sentiremos o ímpeto de ir até o extremo oposto. desaparece a barreira imposta pelas emoçõespensamentos e. Eu tinha encontrado quinze coisas para fazer entre 9 h e 15 h. A primeira coisa a ser vista é o que estamos fazendo. de um segundo a outro. trata-se da reconciliação de nossos pontos de vista a respeito de como as coisas deveriam ser. em vez de melhorar: "Onde está aquela bela pessoa que eu costumava conhecer?". Precisamos experimentar não-verbalmente a sensação de incômodo. como as pessoas deveriam se comportar. devemos praticar de modo meticuloso o tempo todo. Nosso ato será amoroso e compassivo. Primeiro teremos um pensamento "devo fazer isso". Esses estados (de conformismo e inconformismo) fluem um para outro em questão de instantes. Em todo esse processo infindável de ida-e-volta. adotando outro tipo de escravidão: a rebeldia ou o inconformismo. ela sempre mudará. A vida religiosa pode ser vivida. de desconforto. que não me haviam permitido respondê-la. Isso é conformismo. Com o tempo. nossa prática está bem ali. Esse é o verdadeiro zazen. Esses esforços são extremamente comuns. nesse estado de indeferenciação. a verdadeira oração. a raiva (assim como a experiência física) começará a se modificar. às 9 h. trata-se da reconciliação de nossos receios. porque quando a estamos vivenciando em si. não há mais sujeito nem objeto e. não é fácil. porém. uma carta difícil que eu não queria escrever. Essa é a vida religiosa: essa é a "religião". Se estivermos de fato aborrecidos. pela primeira vez. Enquanto não nos sentirmos abertos e amorosos. virá o segundo pensamento "mas eu não quero". tudo que está por trás da prática de sentar. Porém. Quando sentarmos isso se revelará por si. Nesta fase julgamos os outros com muita brutalidade e formulamos opiniões negativas. A vida religiosa é um processo incessante de reconciliação. A segunda reação foi: "Você não vai me forçar. estamos presos em suas malhas. Nessa altura. Uma vez que na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e amorosos. Começamos a observar que oscilamos entre esses pensamentos. embora não precisemos usar essa palavra. sabemos o que fazer. Cada vez que atravessamos essa barreira. Todos nós oscilamos entre os dois estágios. Nos primeiros anos de prática.

Um dos aspectos distintivos de uma prática séria é o estado de alerta e de reconhecimento para os momentos de separação. O caminho da prática consiste em ir de forma deliberada contra um modo de vida absorto. sermos superiores ou inferiores. acreditamos que sem eles ficaríamos perdidos e infelizes. Eu. Isso não é o mesmo que dizer que chegará o momento em que veremos tudo. Simplesmente essa conscientização já é em si um grande passo. estou perdido. de apreciá-la. "Eu" vejo. Para nos darmos conta de nosso estado natural de iluminação. "Sem ela. "eu" tenho estas e aquelas opiniões. nem mau. tenho estas e mais estas emoções centradas em mim. mais veremos o que antes nos era impossível enxergar. a luz vermelha da prática se acende e podemos percebê-la. Se nossa prática é forte. tenho estes e aqueles pensamentos centrados em torno de mim. Sempre haverá algo que não conseguiremos ver. O primeiro estágio da prática é ver que toda a minha vida está centrada em torno de mim mesma: "Sim. Poucas vezes questionamos esse "eu". um outro estágio (e cada um deles pode custar anos para passar) é observar o que fazemos com todos os pensamentos. a iluminação não é uma imagem e. apegamo-nos a eles. O inevitável é que chega o momento em que passo a acreditar que existe um "eu" central em minha vida. quanto mais praticarmos. Isso condiz com filhotes 93 . O que não nos impede de desfrutá-la. o estilhaçar de todas as imagens! E uma vida estilhaçada não é exatamente aquilo pelo que estamos esperando! O que significa estilhaçar nossa maneira habitual de ver a vida? Minha experiência costumeira da vida está centrada em minha pessoa. é apenas a natureza das coisas." Se exigirmos da vida que ela seja de um certo modo. Isso não é nem bom. de lhe sermos gratos. Mas no estado de iluminação não existe "eu". em geral. cuja própria natureza inclui -ou é -tudo. nem sempre justa. Sendo assim. tenho sempre as minhas. não vou conseguir o que pretendo. ficará evidente o tempo todo. devemos enxergar esse equívoco e estilhaçá-lo. sermos "alguém" diante do mundo. Isso é muito importante. Seria possível mencionar alguma coisa a esse respeito?". No exato instante que tivermos mesmo que seja uma fugaz noção de estar julgando outra pessoa. "eu" ouço. fantasias e emoções. Afinal de contas. tenho estas e aquelas opiniões centradas em mim. dharma é simplesmente o que somos. é inevitável que soframos. Todos cometemos ações prejudiciais de que não temos consciência de estar praticando. acalentamo-los. contudo não basta. eu é que estou vivenciando as impressões incessantes. eu. A força de nossa prática. eu. eu tenho todas essas vivências da manhã até a noite". Somos como filhotes de passarinho dentro do ninho. O processo da prática é começar a notar por que não nos damos conta de nossa natureza: é sempre nossa identificação exclusiva com o próprio corpo e mente que temos. A vida não é particularmente da maneira como a desejamos.. esperando pelo papai e pela mamãe para porem comida em nossos biquinhos esgoelados. A seguir. Mas. eu. uma pulsação da energia atemporal. existe apenas a vida em si. Não precisamos dizer nada. exclusivamente. Não posso sentir suas experiências de vida. "eu" penso. na própria pessoa. com o "eu". a capacidade de a comunicarmos a outros. sim.. a prática não é só vir aos sesshins ou praticar zazen todo dia de manhã. Iluminação Alguém me disse há poucos dias: "Sabe de uma coisa? Você nunca fala sobre iluminação. agradável. É apenas como é. Não precisamos tentar ensinar os outros. está em sermos nós mesmos. uma vez que as experiências que vivo parecem centradas em torno do "eu". porque ela é sempre apenas do jeito que é e isso significa. O problema de se falar sobre a "iluminação" é que nossa conversa tende a criar uma imagem do que seja esse estado e." "A menos que essa situação desapareça. Não temos de falar sobre dharma.93 ficar dependentes daquilo que nos é familiar: estarmos separados. no entanto. "eu" sinto.

é. quero dinheiro.. O zazen diário é essencial. Quero isto de qualquer jeito. de pensamentos e emoções genuínos.. o desapego. o estado de iluminação: ser apenas a vida. a pescar.." Somos bebês-passarinhos exceto que escondemos nossas ânsias e as avezinhas. Porém o processo de alcançar a plena independência (ou de vivenciar que já somos isso) é ser aterrorizante inúmeras vezes seguidas. o estado de iluminação) é uma vida de quietude. a fazer tudo que precisam saber para lhes garantir a sobrevivência. com o passar dos anos. Depois. quero. de preferência de dezoito jeitos diferentes. mas ainda assim está se saindo bem e. nos abrigará. Quero que minha mãe seja cordata. e digno de toda a incessante devoção e prática que exige. "Quero que as coisas aconteçam do meu jeito. ela os atiça a subir todos numa árvore. quero sucesso. Não pode haver esperança porque não há coisa alguma além deste momento. O filhote de urso afastado da mãe durante dois ou três meses pode não ter a força nem a habilidade dela. Então. Não há fim para ela. Lutamos contra a liberdade e o abandono de nossos sonhos de que um dia a vida acabará sendo exatamente como a desejamos. Num certo filme documentário aparece uma mamãe-ursa cuidando de seus filhotes. praticamos com nossas formas mais sutis (e até mais intoxicantes) de apego e dependência. A ausência de esperança (o desapego. não. enfim. em absoluto. Somos todos filhotes de passarinho. é provável que esteja se divertindo mais com a vida do que o ursinho que tem de ir atrás da mãe para todo lado. embora mamãe e papai-passarinhos tenham mais liberdade e fiquem voando pelos cantos o dia todo. sempre benéfico à pessoa e aos outros. quero viver onde gosto. Mas se de fato efetuarmos a prática.94 de passarinho. certo dia. mas o caminho da liberdade é sentir-se aterrorizado. a subir. Ela os ensina a caçar. todavia diante de nossa teimosia costumamos precisar da pressão de longos períodos de prática do sentar para podermos enxergar nossos apegos. Afirmar que não há esperança não é.. O zazen serve para nos libertar para uma vida em que planaremos alto. A prática é para a vida toda. Por isso é que a prática parece tão difícil. em nossas barreiras contra a iluminação. e gostaríamos de encontrar um pouco de mamãe-vida em quem nos pendurar. de equanimidade. filhotes de urso. fazemos o zazen para entender nosso apego em seus aspectos processuais mais grotescos. senão pelo menos de um. Sentarmos durante todo um longo sesshin é um golpe formidável em nossas esperanças e nossos sonhos. nela. que ela. Ninguém deseja ser despejado do ninho porque é aterrorizante. O que ela faz? A mamãe-ursa apenas vai embora e não olha nem para trás! Como é que os filhotes se sentem diante disso? Provavelmente ficam aterrorizados.. Em nossos primeiros anos de prática.. Quero que aquela amiga seja diferente. 94 . uma declaração pessimista. Quando esperamos. porque ficamos perdidos entre o que somos e o que esperamos ser. estamos ansiosos. Podemos crer que não sentimos inveja da vida dos filhotes de passarinho: fazemos exatamente o mesmo que eles. enfim. É o fruto da verdadeira prática. a liberdade. esperando que a vida nos coloque guloseimas dentro da boca. realizaremos sem dúvida a nossa liberdade.

Mas a vida nos parece uma série de problemas. Além disso. Porém. e como está relacionado com as viradas de nossa vida.. como no Sutra do Coração. Sentimos 95 . não. em geral as novas. na época do Natal. Pode ser que se relacione com seu emprego. Todos nos preocupamos com o que fazer para solucionar os problemas. mais veremos o que é esse décimo de polegada de diferença.95 CAPÍTULO 8 Escolhas Dos problemas às decisões Às vezes. a virada do Ano Novo é crucial. ao coração da questão. por exemplo: "Mas uma coisa é decidir se vai primeiro ao banco ou ao supermercado. Bem. mas. Não pensamos que seja só uma decisão. dizem que o que realmente desejam é encontrar uma vida espiritual. gosto do clima.. todo mundo considera a vida um problema. Uma passagem bíblica diz o seguinte: "O homem é o que pensa no coração". Essa inquietação de que estamos falando. o que me acontece é realmente um problema de vida". Pode ser que estejamos desempregados. uma vida em que se sintam unidas a tudo e não separadas das coisas. quando nos aproximamos do Ano Novo. as pessoas que aparecem no Centro. O instante em que abrimos os olhos pela manhã tomamos decisões: levanto agora ou fico mais uns cinco minutinhos? Em especial. Para quem for um pouco sensível. devo ir ao banco? Ou apenas me divertir? Escrevo ou não aquelas cartas? De manhã até de noite tomamos uma decisão atrás da outra e é normal. Tenho uma namorada fantástica aqui. a vida não é senão decisões. devo me levantar e sentar! Primeiro uma xícara de café? 0 que comer no desjejum? 0 que fazer primeiro hoje? É dia livre. é incrível.) "0 homem é o que pensa no coração": conforme vai enxergando a verdade de sua vida é isso que ele é. observar o que ele é. ("Coração" não se refere a alguma característica emocional. Não há nada de errado nisso. Apesar disso. esse décimo de polegada de diferença. acreditamos que seja um problema. recebi uma oferta irrecusável em Kansas City que envolve mais dinheiro". uma vida de integração e unidade. A totalidade essencial da vida nos parece inatingível. à verdade do problema. ao: cerne mesmo. mas na maior parte do tempo. Necessitamos enxergar esse décimo de polegada de diferença. Da manhã à noite. Outro exemplo: "Estou trabalhando em San Diego. qualquer coisa. sim. não creio que a maioria possa definir o que é "vida espiritual". Às vezes conseguimos combinar os dois estados! É uma época em que costumamos tomar consciência de nossa ansiedade e de nossas rupturas. é o que estamos fazendo aqui. falamos principalmente sobre o que ela não é. Essa é uma decisão simples. Temos um determinado número de viradas de ano no planeta. Nada de estranho nisso. Isso me leva a duas palavras que se parecem e costumam ser usadas como sinônimos: decisões e problemas. de decisões. Há uma famosa passagem da literatura zen: "Um décimo de polegada de diferença e céu e terra estão separados". vem de como a gente "pensa no coração". quanto mais enxergamos qual é a verdade de nossa vida. pelo menos parte do tempo. Por isso. Podemos dizer. algo não parece encaixado. nada poderia quebrar essa unidade. e. em que a totalidade da vida fica perdida (ou assim achamos que esteja)? Do ponto de vista absoluto. mas da perspectiva relativa em que nos encontramos. Por exemplo. as pessoas ou estão se divertindo ou enlouquecem. Às vezes temos vislumbres. porque ele de fato não é bom. A que isso se refere? Qual é esse décimo de polegada de diferença a partir do qual "céu e terra estão separados". essa separação. não. sentimos que esse tipo de comemoração é um momento de virada e não há ser humano que possa considerar esse instante com superficialidade. e.

Contudo. significa que estamos pensando que existe um problema que nos parece. As pessoas querem uma maquininha para tomar decisões e resolver problemas. Se eu me sentir completamente emaranhado. sentimentos de desorientação? Não estou me referindo a questões sem importância. porque cremos que somos diferentes e que uma pessoa é outra. sobre trabalhar em outro estado. Procedo à sua rotulação e deixo que flutuem até acabar. Talvez nem percebamos. é como sinto que sou e é desta maneira que minha vida quer se manifestar. não é que existe um problema para o qual preciso encontrar alguma solução. Todavia como ela toma sua decisão? Como chega à decisão de ficar naquela parte infernal de Calcutá onde trabalha? De onde brotou essa decisão? "O homem é aquilo que pensa no coração. então. analiso e remôo. por que não considerar a possibilidade de viver em San Francisco. Depois de muitos anos consigo mesma. Quando ajo dessa forma. parece muito cansativo e desagradável. Por exemplo. É. entro mais em sintonia com quem sou e a decisão começa a ficar clara. é só que de fato não preciso mais tanto disso ou daquilo. pensamentos que se remoem de forma incessante. É nesses momentos que a vida humana fica completamente enrolada e quando surge o décimo de polegada de diferença. Há lugares mais bonitos para sair e jantar. que a frase citada tem sentido: "O homem é aquilo que pensa no coração". mais nossos problemas mudam para: "Sou assim e. em vez de ruminação. O problema não está do lado de lá. começa a se modificar o que fazemos com ela. Não é que eu desista de tudo. Portanto. Uma prática séria modifica o modo como encaramos a vida e. o que fazer?" -ficamos sem saber como agir. não há problema. ou até certo ponto estou disposto a fazê-lo". Por exemplo. As vezes faremos a escolha em favor de algo que. por isso farei aquilo. que eu não sei se caso ou não com um certo homem por causa de seu dinheiro. Quanto mais sabemos quem somos. Não me ocorre mais descobrir. A 96 . Mantenho-me apenas sentado com a tensão e a contração. um grapefruit. quando algo em nossa vida parecer insolúvel. para os outros. Não podem haver maquininhas fixas. que preciso de qualquer jeito ter isso ou aquilo. quando nos acontece algo significativo na vida . Não estamos vendo nosso problema como nós mesmos. O que devemos fazer a respeito de nossos problemas. por isso. e aí temos um problema. Madre. mais conseguirei reduzir minhas necessidades às verdadeiras. são uma decisão tão somente. Quanto mais eu souber quem sou. não terei problemas para saber quem escolher. imaginemos que se diga a Madre Teresa: "Bem. ou com outro Só porque gosto dele. do lado de lá. respirando com atenção. agora e antes de iniciarmos a prática." Provavelmente de suas preces. tomamos alguma decisão e saímos do impasse. o que vemos que nossa vida é. um objeto.“Entro nessa relação?" "Termino-a?" "Se quiser acabar com essa relação. Quando sei. "Mas como é que você faz isso? Eu não faria!" Para mim. Se eu sentar com essa questão. em vez de Calcutá? Aqui a vida noturna é melhor. A partir desse conhecimento tomamos nossas decisões. por exemplo. O clima é mais ameno".96 que não podemos tomar apenas uma decisão. os pensamentos virão flutuando para me aclarar as reservas que tenho ou seja lá o que for. tomaremos nossas decisões a partir daí. Suponhamos. é que só não sei quem sou com respeito à situação. Volto o tempo todo à experiência direta de meu corpo sobre a verdade desta questão. O problema está aqui: não sei quem sou. análise. de repente. Suponhamos que praticamos o zazen há dois anos. Se essa questão alguma vez vier a mim. a decisão a respeito de onde trabalhar. Uma forma de fazer com que o problema se transforme numa decisão é sentar com ele. Preocupo-me. 0 que realmente decide uma questão é o modo como pensamos no coração. mas é provável que nos comportemos de diversas maneiras diante de como encerrar uma relação. no fundo de meu coração. Entretanto. fazer o zazen. então existe algo que desconheço a meu respeito. ela vê que o lugar onde trabalha e o que faz não são um problema. se conhecermos cada vez mais quem somos. Então. como Madre Teresa.

pode ser que exijamos de nós muitos sacrifícios pessoais. construímos um mundo de fantasia que talvez seja mais prejudicial do que não praticar o sentar de jeito nenhum. T. Embora eu nunca tivesse sido rica. quando os desejos autocentrados são a principal preocupação. o mais importante é o sentar diário. Quando enfrentamos uma decisão sobre fazer ou não uma coisa para outra pessoa e dizermos enfim: "Não. mais o conhecemos. sem que tudo o mais que está em torno também mude. Ao longo dos anos. em geral. têm uma origem emocional. Sendo assim. quer o desejemos ou não. S. com nosso cerne. Elas serão um problema. pode até ser a melhor coisa a ser feita. não estou afirmando isso. Não estou me referindo a apenas sentar de algum dos antigos modos. Outras ocasiões é exatamente o que tem de ser feito. As decisões tornam-se apenas decisões: não são mais problemas de dilacerar os corações. faço cada vez menos pelas pessoas. não por causa de alguma virtude. os desejos naturalmente desaparecem. 97 . Mas com o tempo isso irá diminuir. correndo sem parar de um canto para outro. No Natal temos dificuldades. Então. Estou dizendo que. Por meio de suas próprias estruturas nos confere. ALUNO: Parece que. Temos de saber o que estamos fazendo. um espaço onde enxergamos com mais nitidez. veremos cada vez mais que a vida não é problemas nem reclamações. que interfere na clareza que deve existir quando olho para mim e para os outros. Elliot escreveu a respeito desse eixo imóvel em torno do qual o universo gira. Quanto mais praticamos. Às vezes pode ocorrer que nosso sacrifício em nome de outra pessoa seja ruim para ela. Esse eixo imóvel não é uma coisa. mas porque. sem uma prática persistente e paciente. Agora coloco-me em primeiro lugar uma porção de vezes. sabemos quanto é apropriado que o façamos. Então. pelo menos no sentido que costumava.97 maioria dos que praticam o sentar por muitos anos descobre que suas vidas se tornaram muito mais simplificadas. sempre tinha belas roupas. o que nos é central. mantendo-nos na prática. nossa tendência é ficar confusos. incompleto e até mesmo elementar. Se precisamos de bastante tempo livre é simplesmente assim que vemos a nós e a nossa vida. Teremos o desejo de nos divertir na proporção em que esse divertimento for pertinente à imagem de quem somos num dado momento. os desejos e as indecisões simplesmente se desmancham no ar . são meus pontos de vista pessoais e. O conhecimento do que precisa ser feito vai de forma lenta se esclarecendo com a prática. É quase pior fazer isso do que não o fazer. Claro que esse conhecimento de quem somos é sempre fragmentário. tentando realizar os desejos de todo mundo. Não que haja algum problema em se ter uma bela aparência. JOKO: Sem dúvida que sim! Porque são pensamentos e estão dentro de minha cabeça dizendo o que está certo e errado. Mas. então a pessoa terá problemas com suas decisões. Não estou afirmando que nunca devamos nos divertir. não é um sentar inteligente. Isso não é necessariamente ser egoísta. Apesar disso. que é o zazen para a maioria de nós. eu ficava incomodada se essas coisas não estivessem combinando. eu costumava achar que tinha de atendê-lo logo. praticando o zazen. Todavia. se nós temos idéias a respeito do que é certo e errado. vamos às perguntas. Sempre que alguém com uma pequena dificuldade batia à minha porta. isso eu não lhe faço". uma vez que muda a preocupação central a respeito do que na realidade se quer para a própria vida. Senão. Por exemplo. necessitando menos. de onde vem essa capacidade de tomar uma decisão sábia? Vem de uma clareza cada vez maior a respeito de quem somos e do que é nossa vida. elas interferem. porque não conseguimos sintonizar com o cerne da questão. As pessoas que hoje me conhecem não conseguem acreditar. porém durante anos a fio eu jamais fui trabalhar sem esmalte nas unhas e batom combinando. para nós. O sesshin é um meio de impelir-nos para além do plano onde se situa aquela parte de nós que deseja enervar-se com os problemas. Temos de saber. Porém.

devemos usar a vontade para mudá-lo? 98 . E do que consiste esse eu? ALUNO: Raiva. JOKO: Certo. quero. quero. JOKO: E só podemos dar de verdade quando não necessitamos de nenhuma espécie de retribuição. Todo mundo deseja que a vida aconteça de acordo com nossa imagem. Esses são todos pensamentos. ALUNO: Quando vemos um problema. de preferência de uma maneira confortável. Agradável. é ótimo.. "Algum dia vai ficar tudo certo. JOKO: Queremos coisas. sim.. as responsabilidades que me cabem. JOKO: Você sempre sabe quais são elas? ALUNO: Não! JOKO: Então. JOKO: Muito bem. o que cria aquele décimo de polegada de diferença. isso tem muito que ver com aquele décimo de polegada de diferença.. quero. Mas o que atrapalha o caminho da entrega? Eu. Mais uma vez. essa representação em termos da prática em si pode não ser tão simples: "Um décimo de polegada de diferença. Certo? Quero. JOKO: Então você está com um "problema". Apenas reconhecer que eu quero tudo: que a minha vida seja de tal jeito e não de outro. mas confundimo-los também e os transformamos em problemas. que nos impede de ver? Todos têm deveres e obrigações. Que mais? Plena de esperanças futuras? Não existe futuro. poderíamos voltar ao que precisa ser feito. Se eu consigo me entregar ao que está acontecendo.98 ALUNO: Creio que a resposta é ver a realidade simplesmente como ela é." Quem sabe? ALUNO: Para mim. O que é que nos cria esse décimo de polegada de diferença? ALUNO: Queremos coisas. Se os víssemos apenas como pensamentos. ALUNO: Temos pensamentos sobre dá-las. Quero que seja de outro jeito! Não foi assim que eu planejei. é uma entrega. certo? ALUNO: Com mais de um décimo de polegada! JOKO: Mais do que um décimo de polegada! Certo? ALUNO: Talvez a diferença tenha que ver com a capacidade de reconhecer o que me compete. então não convoco tantas coisas nas quais acabo tropeçando. nesse intervalo começo a ficar inquieto e a ter pensamentos autocentrados. que com a primeira forma dois cenários entre os quais devo escolher um.. JOKO: Se realmente conseguimos nos entregar." o que é isso? ALUNO: Se existe uma coisa que eu planejei fazer e de repente acontece uma outra.

Sou só eu. Aí terá desaparecido o décimo de polegada.99 JOKO: Você está fazendo menção à diferença entre decisões e problemas. as paredes o estão esmagando. assim. fica óbvio se é o caso ou não de tentar alguma interferência. Uma delas é fingir que nosso espaço de vida foi na realidade projetado para conter um modelo Ford T. Então. ALUNO: O que nos leva a querer fazer o que é apropriado? JOKO: Estamos sempre querendo fazer o que é apropriado. o que está se passando. 0 que você vê acontecer é em geral sua própria raiva. Não é tão misterioso. nem mesmo à Verdade. depois de ele estar concluído. como também faz. Se estivermos apegados à Verdade. conseguiu deslocar o carro pelo jardim até a rua e. Ponto de mutação Todos querem uma vida de liberdade e compaixão. Essa é uma história maravilhosa porque se parece com o que fazemos com nossas vidas. Por fim. em vez de considerá-los um problema a ser solucionado. mais no minuto em que você acolhe a vida e afaz ser você mesmo. temos a incômoda sensação de que nosso si-mesmo (como aquele modelo T) está confinado. A outra é constatar que esse "si-mesmo" 99 . "O homem é aquilo que pensa no coração. não temos toda a habilidade do mundo para construir esse ser e. ele começou seu trabalho. Se você realmente enxergar que os problemas são você. chegando mesmo a impressionar. Então. O si-mesmo pode até ter boa aparência. entende? Porque o problema não está mais lá. Agora acontece a escolha crucial: existem duas possibilidades de irmos em frente depois de sentir o confinamento e a ansiedade em "nós mesmos". funcionando. seus próprios pensamentos. Mas (claro que ele não tinha esposa!) ele tinha construído aquela beleza na sala de visitas! Por isso. depois de alguma hesitação." E não só ele é. quando estamos em contato conosco. Construímos uma criatura bizarra que chamamos de "eu mesmo". aquele Ford T conseguiu chegar a ser um carro de verdade. Ele age. e então decoraremos as paredes ou criaremos artifícios com espelhos. nossa tendência é ver cada vez mais o que fazer. ALUNO: Isso é a cura? JOKO: A cura? Não existe cura. Como diz o ditado. tinha criado um novo e reluzente modelo Ford T. Custou-lhe dez anos encaixar aquelas milhares de peças. Entretanto. pode perguntar: "O que está acontecendo aqui?". Não tinha a menor idéia da utilidade delas. Vi no noticiário da TV uma história a respeito de um homem que encontrou inúmeras caixas de peças de maquinários. mas gostava muito de ficar colocando as coisas perto umas das outras e o mistério tornava tudo mais excitante ainda. como é com Madre Teresa. conquistamos a aceitação para as coisas que não podem ser mudadas. nem a: uma prática. outras pequenas. Quanto mais você se familiariza com eles e acompanha a tensão física. Ao termos paciência e praticarmos o sentar. numa mostra definitiva de progresso. mas ainda se sente incomodado pelas restrições. não amedronta mais. derrubou a parede da frente da sala de visitas e empurrou o modelo T até a entrada. seu próprio medo. não poderemos enxergá-la. que não pode estar apegada a nada. a coragem para o que precisa ser mudado e a sabedoria para distinguir a diferença. você só vê o que é. uma vida humana em pleno funcionamento. Porém. E saberemos quando é ou não o momento de mudar as coisas. Não estou dizendo que não se deva jamais mudar as coisas. para que haja ilusão de descontração e de espaço. nem a um professor. algumas grandes. Quando enfim terminou o trabalho. o que fazer para mudar fica evidente. o pórtico tinha de altura meio metro em relação ao nível da rua e ele precisou construir uma rampa até o chão. Infelizmente.

Não esperamos mais dar um jeito no que está em volta. aquilo a que estamos apegados. Mas de todas as interpretações equivocadas da renúncia. Isso também não é renúncia. por fim decidimos que é preciso ir "em busca da Realização. A maioria das práticas fica emaranhada nessa área de envolvimento entre nós e nossos ambientes. em vez disso. e não eliminar. uma pequena caixa contendo poucos pertences necessários. Isso é renúncia? Digo que não. o que é renúncia? Ela existe mesmo? Talvez possamos esclarecer melhor a questão considerando agora um outro termo: "desapego".. o estágio final da vida humana não é examinar e analisar o si-mesmo. claro. Então. só precisamos perceber que a verdadeira renúncia é o mesmo que desapego. nunca limpamos um apego dizendo-lhe apenas que se vá. ter um pouco mais de espaço e perspectiva. Muitas vezes sentimos que. a mais nociva está no âmbito da assim chamada prática espiritual. nossa prática está de fato se iniciando. começamos a saber que não somos outra coisa senão apegos. se ficarmos apegados a elas). assim ficamos sem sobremesa por um certo tempo como uma maneira de aprender algo a nosso respeito. mudamos o modelo Ford T de lugar para que possamos examiná-lo: levamos o si-mesmo para fora. Só quando alcançamos uma clareza de percepção a respeito de sua verdadeira natureza é que. estamos lidando com a questão da "renúncia". se tivermos visto afundo a natureza do apego. para ver como funciona. o que devemos fazer para propiciar um ponto de mutação? Consideraremos a idéia de "renúncia". Sou mau porque penso e sinto assim".100 constrito deve ser deslocado para outro lugar. e essa é uma boa prática. Nossas emoções são inócuas a menos que nos dominem (quer dizer. O que poderíamos considerar como renúncia? Podemos renunciar ao mundo material tal como o concebemos. segundo a tradição. O processo da prática é ver até o fim. quando na realidade não é preciso que "renunciemos" a nada. para nossa vida ter outro começo. devo levar uma vida inteiramente espiritual e renunciar a tudo o mais". É a dor das paredes que nos confinam que primeiro nos motiva a sair dali. até chegarmos a um espaço arejado e iluminado. Isso não é o fim. se nos preocuparmos com os acontecimentos superficiais de nossas vidas. O primeiro problema da prática é ver que estamos apegados. o que é velho e antigo deve ser descartado. É um grande progresso o simples fato de deslocar o carro até o pórtico. Há muitas tradições que efetivamente encorajam a renúncia de todas as posses materiais. quando então criam desarmonia para todos. Conforme nosso zazen cresce em persistência e em paciência. podemos ter quase nada e sermos muito apegados a isso. de algum jeito. diferente dos outros. onde ele possa receber um pouco mais de luz. Nesta altura (quando começamos a examinar o carro. Podemos ter enormes fortunas e não estarmos apegados a ela. em que alimentamos noções como "Devo ser puro. Os monges conservam. 100 . Isso é uma maravilha se compreendermos o que significa. esse é o ponto crucial da mutação. O mais comum é que. esse si-mesmo que construímos). mas não necessariamente. É brincar com as noções de bem e mal. no meio ambiente. embora seja uma prática útil. é pôr nossa vida na rua onde pode funcionar plenamente. "Minha mente deve aquietar-se. É como se pensássemos que a refeição noturna não fica completa sem a sobremesa. o que importa é o desapego em relação às atividades mentais. vivendo talvez num lugar remoto e ermo": isso tampouco tem qualquer coisa que ver com renúncia. Estes governam nossa vida." Nossa mente não importa. sabemos que é preciso fazer alguma coisa quanto às paredes. Depois pode ser que acreditemos que as coisas que se passam dentro dos pensamentos e das emoções não estão certas: "Eu deveria ser capaz de renunciar a tudo. tentando alterá-los. Alguns realizam um esforço final. Porque estamos confusos e desestimulados sobre nossa vida diária. sagrado. preocupando-nos com eles ou conosco.. nossa tendência será diminuir nossas posses. Assim. Deveria ser capaz de me livrar disso tudo. Na prática. ou a nosso mundo mental e emocional. através da mente. Costumamos pensar que. Entretanto.

porque ele era muito humilde. seu vazio. Prossigamos com persistência e cuidado. Se somos apegados a qualquer coisa.. Quando se chega ao dharma de verdade. luminoso e comum. Hakuun Yasutani Roshi começou uma série de visitas anuais para pregar o dharma nos Estados Unidos. Não importava o que ele dizia.. sabendo que pode ser difícil e que a dificuldade não é o problema. contudo o problema é que não sabemos como vê-lo. e devo acrescentar que. nos escapa. Fora do zendo ele era apenas um homenzinho igual a todos. Ao prosseguir com nosso zazen de hoje tenhamos em mente a questão central: a prática do desapego. Eu diria que ele era. mesmo que fosse por sete dias a cada ano. sua impermanência. onde está? O que era? A questão não é como nos livrar de nossos apegos ou renunciarmos a eles. talvez ainda em estado bruto. ao mesmo tempo. tampouco verdadeiramente amorosos. Era espantoso. O apego àquilo que chamamos de "espiritual" é a própria atividade que detém uma vida espiritual.101 de maneira silenciosa e imperceptível. continuava meu zazen por conta própria. vigoroso. a jóia. e. Qual será? Uma vida de liberdade e compaixão. perto dos oitenta e tantos anos. no resto do ano. a devoção total. indo de um lado para outro com sua vassoura. na parte sul da Califórnia. Entretanto. curvado. suave. Duas qualidades em Yasutani Roshi impressionaram-me profundamente. era como um espaço de milhares de quilômetros vazios. e uma vida realmente espiritual é apenas a ausência disso. entrando na sala. se alguma vez houve uma prática confusa. comecei a praticar intensamente com ele. Ele já era muito idoso quando o conheci. Ele adorava cenoura. nas palavras de Dogen Zenji. a jóia que todos nós buscamos com nossas próprias práticas. e assim ficaremos sem ver que nossa vida em si é a jóia. "Estudar o ser é esquecê-lo". É uma coisa complicada falar de liberdade. espontaneidade e compaixão. espontâneo -era o suficiente para manter-me nesse caminho. fora de nós. Cada um tem sua escolha. Em cada visita. veríamos que ali não existia nada. ele se desfaz aos poucos e por fim. comendo cenoura. completa e inteira. Como tantos outros que começaram a prática zen com Yasutani Roshi durante tais visitas. ele é muito simples e sempre disponível. Aqueles sesshins eram bastante difíceis para mim. ficava atenta para ver se ele conseguia chegar até o lugar em que se sentava. Sua presença em si revelava o dharma: não se podia esquecêlo depois de tê-lo visto uma só vez. todos os anos. Não precisamos nos livrar de nada. foi a minha. Se olhássemos em seus olhos durante uma entrevista formal. mas já perfeita. estamos apegados. nem o fato de precisar de intérprete. Porém. Nossa forma habitual de falar a respeito é considerá-la uma questão de ficar sozinho para poder ir onde quiser e fazer tudo o 101 . a liberdade. ou o quê? Fechar a porta Na década de 60. trata-se da inteligência de ver qual é sua verdadeira natureza. Diante dessa falha. Os apegos mais difíceis e insidiosos são aqueles que pensamos serem as verdades espirituais. precisamos tomar cuidado para não buscar a jóia no lugar errado. Yasutani Roshi foi minha primeira experiência do que é um verdadeiro mestre zen e foi uma experiência de muita humildade. Entretanto. Como um castelo de areia por onde as ondas passam. Quando começava a falar sobre dharma. de alguma forma. Um homenzinho miúdo. não podemos ser livres. ter a oportunidade de estudar com ele. Enquanto mantivermos qualquer imagem de como devemos ser ou de como os outros devem ser. ele some. de calças enroladas. a espontaneidade. e apresentava algumas dificuldades físicas. naquele espaço aberto havia a cura total. sua fugacidade. Quando entrava no zendo. e ver o que ele era: humilde. por sete dias. conduzia sesshins que duravam uma semana inteira. Irradiavam-se dele liberdade. eu não conseguia acreditar! Era como uma corrente elétrica percorrendo a sala: a vitalidade.

se estivermos em uma situação desagradável e restritiva. Gostaria de traçar uma distinção entre a dor e o sofrimento. Ficamos esperando que algo "do lado de lá" nos dê liberdade para que. seja doloroso ou agradável. A vivência física da confusão e da dor. nos coloca sob situações de calor e pressão. Liberdade e comprometimento são intimamente vinculados. Podemos até chamá-la de vivenciar a alegria de modo direto. Quando nos sentamos com este momento. se não entendermos a relação entre dor e liberdade. quando esses elementos são aceitos como parte do compromisso. Mediante nossa prática. Por medo e arrogância. caem por terra as paredes seguras da estrutura do ego. lá fora. não tente manipular o que nos aparece com o zazen. Orgulho. sem exceção. Fechamos a porta e sentamo-nos silenciosamente para a prática do que é. compromisso. fazer dela nossa melhor amiga. o que pode ser confuso e doloroso. construímos uma estrutura de ego para proteger-nos e. sentindo o calor e a pressão. não haverá sofrimento. alegria. podemos causar sofrimento a nós e a outros. As pessoas costumam imaginar que a prática será agradável e confortável.sem reter nada e sem qualquer idéia de fugir. de escapar à experiência desagradável do momento. Precisamos estar dispostos a andar pelo fio da lâmina. criamos todas as espécies de infelicidade para nós e para os outros. apegamo-nos a todos os tipos de atitudes e julgamentos autocentrados e. A liberdade consiste em arriscarmonos como vulneráveis perante a vida. não há liberdade. dessa forma. nossos problemas. A liberdade está intimamente ligada à nossa relação com a dor e o sofrimento. estando ali simplesmente. A dor vem de se experimentar a vida tal como ela é. é a chave da liberdade. na íntegra. possamos deixar uma porta aberta por onde passar correndo em busca de novas esperanças e de liberdade. ela continuará agindo à base do medo e da arrogância. Porém. Essa jóia da liberdade é nossa vida tal como ela é. dor. a prática zen tem fases que não são nada agradáveis. Quando formos capazes de dar-nos por inteiro. Podemos dizer até que a primeira coisa que devemos fazer com o zazen é casarmo-nos com ele. Para tanto é preciso fecharmos a porta que tanto gostamos de manter aberta. sofremos. Precisamos tomar consciência dessa estrutura e ver como ela funciona. seja ele qual for. de não ser como todo mundo. para encontrar uma outra coisa em algum lugar. Dedicamos quase todos os nossos esforços à manutenção e à proteção da estrutura de ego criada a partir da ignorância de que "eu" existo em separado do resto da vida. e para todos os esquemas que são um reflexo de nossa ausência de comprometimento com a vida. quando estão no início. Insisto que nossa prática é o compromisso com a experiência de cada momento.. Isso exige um comprometimento total de nossa vida. mas. sem artifícios. como o compromisso matrimonial. é a experiência do que surge em cada momento. nossa dor. Permanecendo sentados 102 . arrogância. sofremos. Mas. Podemos ser arrogantes a respeito de qualquer coisa: nossas conquistas e nossos resultados. e atravessá-la de frente até a liberdade. porque -muito embora seja artificial e não constitua nossa verdadeira natureza -a menos que a compreendamos. dar-lhe as costas e ficar de frente para quem somos.102 que der vontade. há alegria. Quando vivenciamos. Todos nós fazemos isso. num casamento. não nos importando com o que vier a cada momento. Um dos aspectos importantes de nossa prática é olhar com honestidade para este processo constante de esperanças e de temores. vamos desbastando as fantasias que temos a respeito de sair correndo pela porta. Precisamos acolher a infelicidade. sem ele. Por arrogância entendo o sentimento de ser especial. o calor e a pressão favorecem o crescimento e o relacionamento floresce. por isso. cobiça. em lugar de evitar tais sensações. em certo sentido estão fechando a porta à sua oportunidade de fugir ao calor e à pressão que são parte dessa relação. O que nos leva a outra palavra difícil de ser comentada. Quando duas pessoas se comprometem entre si. quando tentamos fugir e escapar de nossa experiência de dor. Não estou afirmando que a pessoa deva se comprometer com qualquer relação que lhe passe pela frente: seria loucura. até mesmo nossa "humildade". Isso é comprometimento e. Por causa do medo da dor. O zazen. Contudo.

você não quiser ir até o zendo. Há a história de um poço que era alimentado por pequenas nascentes que sempre forneciam seu suprimento de água. confiar. certa vez. o objeto dele se torna. que dizem respeito a um comprometer-se com todos os seres sensíveis e não apenas com alguns em especial. Quando partilhamos de verdade o que temos: tempo. nossos compromissos são. Ponha o pé fora da cama e vá. nosso projeto. o objeto que possuímos. Comprometimento e verdadeiro amor são irmãos gêmeos. Compromisso Havia. unir. Nosso comprometimento ficará desprovido de força e de resolução a menos que nos fiquem claros seus votos básicos. nossa vida flui com facilidade. Se sentir preguiça durante o trabalho. A palavra "comprometer" vem do latim committere. a vida se nos revela como alegria. Ela. "O que quer 103 . deve me pôr sempre em primeiro lugar. um rapaz que estava perdidamente apaixonado por uma moça linda. queria que ele não tivesse outros pensamentos senão para ela. nossos lucros. devo ser de uma certa maneira no que se refere a esse compromisso". Na verdade. mas malvada. os apegos terminarão com o tempo. mais vemos aquilo que necessita ser feito. as nascentes tinham deixado de enchê-lo e o poço estava seco. devemos intuir cada vez mais a natureza da realidade. feche a porta para ela e faça o máximo. costumamos pensar mais ou menos o seguinte: "Bem. você pode cair e se machucar". bens e. Para entender o comprometimento. Quanto mais claramente virmos que não há nada que precise ser feito. o destampou. Com a cabeça da mãe na mão. agora que estamos comprometidos um com o outro é evidente que você deve ser de um certo jeito: deve amar apenas a mim. ou podemos nos conter e segurar. nós.. Agarrou-a pelos cabelos e correu noite adentro. feche a porta para as críticas e a falta de delicadeza. Em nossas noções costumeiras do que seja um comprometimento. Se ao acordar de manhã. anos depois. Significa entregar uma pessoa ou uma coisa aos cuidados de alguém. Muito devagar. não se apresse. não só com a cabeça. Em nossas noções habituais de comprometimento. feche a porta ao dualismo e se abra para a vida tal como ela é. Nas relações. É uma coisa engraçada. mas o verdadeiro comprometimento é algo mais profundo. meu filho. seu último aniversário. um investimento que deve retornar nas formas de segurança e felicidade. e ficarmos secos. como a mãe daquela fábula. o que exige comprometimento. cedendo e sumindo. Certo dia o poço foi coberto e esquecido até que alguém. Acontece a mesma coisa conosco: podemos nos dar e nos. Então. corria de volta pela rua o mais rápido possível. Podemos dizer também: "Uma vez que estou comprometido.103 com tanta presença e consciência quanto for possível. porque não conseguia esperar o momento de estar de novo com sua amada. correu até sua casa e decepou a cabeça de sua mãe. Se estamos comprometidos com o trabalho.abrir cada vez mais. O rapaz amava a mãe. que significa pôr junto. deve passar a maior parte de seu tempo comigo. por isso disse-lhe: "A única forma de eu me comprometer com você é você decepar a cabeça de sua mãe e trazê-la para mim". Essa história fala do amor materno imorredouro e de seu comprometimento inabalável. conectar. No zazen. tornamo-nos possessivos: é nosso trabalho. Porque ninguém nunca mais tinha ido ali para buscar água. Podemos sentir que já estamos comprometidos com um trabalho ou uma pessoa em particular. ao aprendermos a vivenciar nosso sofrimento em vez de fugir dele. mas estava tão alucinado com a idéia de sua paixão pela moça que mal podia aguardar para cumprir o seu pedido. A prática zen é fechar a porta para uma maneira dualista de ver a vida. em geral. escreveu: "As colinas ficam mais altas". mas também com a barriga: o que somos e o que são todas as coisas. uma mescla de nossa natureza Buda -aquela parte de nós que pode dizer. nosso negócio. quando a cabeça lhe falou: "Por favor. Quando Yasutani Roshi estava com 88 anos. o mais importante.. aos nossos olhos. feche a porta para isso.".

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que você faça, eu te amo, e desejo o melhor para você", e a outra que fala: "Comprometo-me com você desde que...". Que tipo de desde que venenoso é esse! O verdadeiro comprometimento e o verdadeiro amor não têm desde que. Não se abalam com as circunstâncias transitórias. Como escreveu Shakespeare: "O amor não é amor se se altera quando encontra alteração". O comprometimento não pode ser forçado por resmungos, raiva, greves, quaisquer manobras destinadas a agradar, embora coloquemos todas essas táticas em prática. Não pode ser forçado de modo algum. Para aprofundarmos nosso comprometimento, devemos ser testemunhas de nossas manobras e nossos truques, testemunhas de nossas tentativas sutis e ostensivas de obter o que desejamos, que é sempre segurança e certezas. A mãe daquele episódio certamente não estava segura, nem tinha certezas: tinha apenas sua cabeça. Todavia, mesmo na morte, desejava o melhor para o filho. Claro que não somos assim. Somos humanos. Eu jamais diria a uma pessoa: "Apenas comprometa-se com alguém e comece a lutar daí em diante". Mesmo se passarmos meses e anos para decidir que aquela "é a pessoa", talvez só comecemos a nos comprometer. Estamos enganando aos outros e a nós mesmos se pensarmos que, porque fizemos algumas promessas, estamos comprometidos. No comprometimento fechamos a porta. Uma vez que não somos Budas realizados, não podemos ou não queremos nos comprometer com qualquer um. No entanto, após muitas hesitações e preocupações, finalmente nos comprometemos com algo ou alguém. Depois de termos feito isso, precisamos fechar a porta do forno e cozinhar. Comprometimento significa que não deixamos preparada uma saída de emergência. Qualquer casamento, qualquer relação de compromisso, inclusive o comprometimento com nossos filhos, com nossos pais e amigos, é relativo a este tipo de escolha. Quando "fecharmos a porta" seremos felizes? Uma parte do tempo, mas essa não é a questão. A questão do comprometer-se não é se o compromisso nos agrada ou não. Parte do tempo, sim, claro, porém não contemos com isso. O comprometimento nem sempre é com outra pessoa. Podemos nos comprometer a ficar sós. Para a maioria das pessoas, esse comprometimento é uma boa prática, pelo menos de vez em quando. Talvez nos comprometamos a ficar sós durante seis meses, um ano, cinco anos. Poucos são os que vêem o ficar só como apenas o ficar só; vêmo-lo como solidão ou infelicidade. No entanto, não me refiro a alguma espécie de retiro em uma caverna. Refiro-me ao ficar só que podemos praticar enquanto nos devotamos a tudo e a todos. Se realizarmos essa prática, devemos ser honestos no que tange às limitações que acompanham tal comprometimento. Ninguém quer se devotar a tudo e a todos. É uma prática visceral, exigente, que nem todos estão com pressa de realizar. Jesus disse: "O que tiveres feito ao menor de meus irmãos te-lo-ás feito a mim". Não podemos nos comprometer com mais nada e mais ninguém, a menos que estejamos comprometidos com tudo. Isso não significa que tenhamos de gostar, ou que possamos fazê-lo por completo. Mas essa é a prática. É importante que cada um reconheça o que, em sua própria vida, é "o menor". Pensamos de imediato naquelas pessoas que são muito pobres. No entanto, "o menor" refere-se ao "menor" em mim, em você. O que é menor para você? A que em sua vida você tem o menor interesse em servir? Para a maioria, "menor" são certas pessoas de quem não gostam ou com quem têm dificuldades: as pessoas consideradas descartáveis. "Menores" podem ser também as pessoas a quem tememos, as que nos intimidam. Num nível mais sutil, podem ser aquelas que sentimos que devemos instruir, iluminar ou ajudar. Vocês podem retrucar: "Sejamos realistas. Como é possível que eu me devote a alguém a quem não posso suportar? Para dizer a verdade, quando fico a menos de um metro dele é demais". Como fazer isso? Bem, aprendemos a praticar com essa situação. O que implica uma absoluta honestidade para conosco: reconheceremos que não gostamos daquela pessoa e não queremos ficar próximos dela, e, claro, observaremos todos os pensamentos emocionais em torno dessa relação. Adotamos

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também a mesma abordagem quanto aos nossos empregos. Há os que trabalham em tarefas que julgam inferiores a si (não importa o que isso quer dizer). "Tenho grau universitário. Por que é que fico pondo caixas em prateleiras? Como dedicar-me a uma tarefa tão insignificante?" As pessoas desejam que a prática seja gostosa, fácil. Não é difícil dizer: "Oh, estou comprometido com o mundo, com o dharma". Mas isso é muito difícil de fazer. O mundo, o dharma, nos é revelado em cada criatura e em cada coisa que encontramos. Estaremos comprometidos com aquele transeunte vomitando na sarjeta? Estaremos comprometidos com o caixa que acabou de nos devolver troco a menos, ou com aquela pessoa com pose de superior? Uma vez que somos de natureza búdica, verdadeira, sabemos que a alegria é nosso direito de nascença. Onde está ela? Está nos esperando na própria prática que estamos mencionando. Somente através dessa prática é que podemos entrar na alegria e no verdadeiro comprometimento com nosso trabalho e nossas relações, a totalidade de nossa vida. Uma vez que nossas principais dificuldades são com as pessoas, não falamos tanto quanto poderíamos a respeito de nossos comprometimentos (sua falta) com os objetos. Por exemplo, se mantemos nosso quarto numa bagunça total, não estamos comprometidos. Estamos indicando que existe algo mais importante do que os objetos que são nossa vida. (Fui criada por uma mãe perfeccionista e, durante muitos anos, revoltei-me contra essa pressão fazendo-me de tão desmazelada quanto pude). Não estamos falando também da organização neurótica. Não obstante, nossa prática deve acolher todas as pessoas e coisas, cada gato, cada lâmpada, cada pedaço de lixa, cada hortaliça, cada fralda. Se não tomarmos muito cuidado, então não saberemos o que é o comprometer-se. O comprometimento não é algo que aconteça por acaso; é uma capacidade que cresce como um músculo: sendo exercitada. Não pretendo estar estipulando uma outra série inédita de mandamentos. Não falo muito sobre os Preceitos porque as pessoas os interpretam de modo equivocado: "Devo ser organizada. Joko diz que eu devo". Mas precisamos levar em conta nossa tendência para atirar as coisas para todos os lados, para deixar que se queimem sem necessidade, para pôr no prato mais do que precisamos comer. Por quê? Se nosso comprometimento não for total, então o que chamamos de nosso compromisso de casamento, nosso compromisso com os filhos, com o trabalho, com a prática, com o dharma, estarão sendo minados nas bases. "O que tiveres feito ao menor de meus irmãos, te-lo-ás feito a mim." Se quisermos conhecer a alegria, não podemos dizer "Ah, eu sou simplesmente despreocupada". Nossa prática sempre é "o menor". O comprometimento é um funcionamento. Porque evitamos o funcionamento, a testemunha tem de ser tão afiada quanto uma tacha. Não me interessa a quantas experiências de iluminação vocês se apaguem. Não há nada além da vida diária. Esta mesa é o dharma. Ontem estava empoeirada. Hoje está limpa. Estamos chegando ao fim deste sesshin, mas não se enganem: o sesshin mais difícil inicia-se, quando vocês retomarem seus horários normais.

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CAPÍTULO 9 Serviço
Seja feita a vossa vontade
Muitos aqui assistiram esta semana a um documentário de televisão sobre a vida e a obra de Madre Teresa. Há quem a chame de santa. Duvido que esse título signifique alguma coisa para ela; mas o que considerei mais extraordinário foi que ela apenas ficava fazendo a próxima coisa, a próxima coisa, a próxima coisa, totalmente absorta em cada tarefa. É o que precisamos aprender. Sua vida é seu trabalho, é fazer cada tarefa com uma entrega irrestrita, um momento após o outro. Nós, americanos sofisticados, temos dificuldade para compreender tal modo de vida; é muito difícil e, no entanto, é nossa prática. Não a minha, mas a Vossa vontade seja feita. Isto não significa que Vossa seja outra coisa que não eu mesmo, contudo é o outro no seguinte sentido: minha vida é uma forma particular, no tempo e no espaço, porém, a Vossa Vontade não é tempo nem espaço e, sim, seu funcionamento; o crescimento de uma unha, a purificação que o fígado realiza, a explosão de uma estrela -a agonia e o êxtase do universo. O Mestre. Um dos problemas inerentes a algumas práticas religiosas é a tentativa prematura de seus adeptos de levarem uma vida na qual "seja feita a Vossa vontade", antes de terem chegado a uma compreensão das suas implicações. Antes, que eu possa entender a Vossa Vontade, devo começar enxergando a ilusão da minha vontade. Preciso saber com a máxima clareza possível que minha vida consiste em "eu quero", e outro "eu quero" e mais "eu quero" ainda. O que eu quero? Quase tudo: às vezes, coisas triviais, em outras, coisas "espirituais" e (mais comumente) desejo que você seja do jeito que eu imagino que você deveria ser. Surgem dificuldades na vida porque eu quero algo que, mais cedo ou mais tarde, colidirá com o que você quer. É inevitável que se sigam dores e sofrimentos. Quando observamos Madre Teresa, é óbvio que, onde não existe eu quero, existe alegria; a alegria de fazer o que tem de ser feito, sem qualquer pensamento eu quero. Um aspecto que ela assinala é a diferença entre o trabalho que a pessoa faz e sua vocação. Todos nós temos um trabalho, como médicos, advogados, alunos, construtores, encanadores, mas essas ocupações não são nossa vocação. Por quê? O dicionário revela que "vocação" deriva do latim vocatio, convocar, chamar. Todos nós (independente de termos consciência ou não) somos chamados ou convocados por nosso Verdadeiro Eu (Vossa Vontade); não estaríamos num centro Zen se não existisse alguma coisa se mexendo em nosso íntimo. A vida de Madre Teresa não é servir aos pobres, mas corresponder ao chamado, à convocação. Seu trabalho não é servir aos pobres; essa é sua vocação. Ensinar não é meu trabalho, é minha vocação. O mesmo vale para vocês. Na realidade, nosso trabalho e nossa vocação são a mesma coisa. O casamento, por exemplo, implica muitos tipos de trabalho (ter dinheiro, cuidar de filhos e de uma casa, servir ao parceiro e à comunidade), porém a vocação do casamento permanece como o Mestre. É nosso verdadeiro eu, nosso chamado, somos nós nos convocando. Quando tivermos clareza quanto a quem é o Mestre, o trabalho fluirá com facilidade. Se não tivermos clareza, nosso trabalho sairá imperfeito, nossas relações ficarão defeituosas, toda situação da qual participamos ficará complicada. Vamos todos adiante, esfuziantes, fazendo nosso trabalho, mas pode ser que estejamos cegos para qual seja nossa vocação. Então, como nos tornarmos menos cegos, como reconhecermos nossa vocação, nosso Mestre? Como entender "Seja feita a Vossa vontade"?

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o chão não será imaculado. sempre querendo forçar o mundo a cumprir o conceito. quando. Por exemplo. Não tenho pena de Madre Teresa. a menos que você seja o tipo de mãe que pensa que uma cozinha reluzente é mais importante do que a família. é que poderemos enxergar o outro lado. deixa para lá. Todas as guerras baseiam-se neles. por alguma razão não apreciamos determinada pessoa e. e sim sentarmos com nossa raiva. Se você tem três ou quatro filhos com menos de seis anos. A mente falsa é ditatorial. estará se consolidando um segundo estágio: vai crescendo em nossas células o conhecimento de quem na realidade somos e. Algumas pessoas gostam de considerar a prática zen como uma realidade esotérica. No entanto. Ela faz aquilo que lhe dá as maiores alegrias. Mas. O outro lado não é sempre a minha. Bem. vamos supor que tenho um conceito: a cozinha deve ser limpa. Alguns aqui cresceram em famílias iguais a essa. afastada. não quero nada que me seja desagradável. conforme o tempo passa. mas como a Verdade. O primeiro consiste em reconhecer com honestidade que eu não quero fazer a vossa vontade. somos todos manipuladores e realmente não queremos ser assim. começamos a ver quem é o Mestre. Sem que precisemos nos ater a ponderações filosóficas." Para corresponder aos conceitos acabamos com a família. dores e decepções. Claro que não estamos sequestrando aviões. não tenho o menor interesse em executá-la. Por isso. No entanto. em alguma ideologia que uma certa nação afirma ser a verdade. tratamo-la de modo preconceituoso. Imaginemos que ao ir de um lado para o outro na cozinha deixo cair um cacho de uvas no chão. em vez de abrir-se para a necessidade percebida. a vida que na verdade desejamos. está ótimo que a cozinha fique limpa. Sem trocas Qual é a diferença entre uma vida de manipulações e uma sem manipulações? Como alunos do zen é provável que não pensemos em nós como pessoas manipuladoras. colho. Desejo fazer só o que eu quero praticamente o tempo todo. Por exemplo. Cada vez mais a Vossa vontade e a minha vontade se tornam una. uma lenta modificação no nível celular vai nos ensinando que é outra coisa. quando o conceito não é visto como tal. desejo conseguir só o que eu quero. por exemplo. Todas as vidas contêm problemas: ou será que nos são oferecidas oportunidades? Somente quando tivermos aprendido como praticar e pudermos escolher não nos furtar às nossas oportunidades. É errado deixar as cozinhas sujas. Nesses casos. ao longo dos anos. ao praticarmos o sentar com paciência. Devagar. Por causa dele. Esse senso do eu quero está presente em cada célula de nosso corpo e nos é impossível conceber uma vida sem isso. Tenho pena de todos nós que estamos encurralados e cegos numa vida na qual minhas vontades sejam feitas. com as nações.107 São necessários dois estágios de prática (e hesitamos entre ambos). temos uma ação que foi produzida por um conceito. 107 . com tanta clareza. que aliás. Observo. Todavia. Por um lado. presença e consciência possível. O conceito não é visto apenas como um conceito. nossa ação pode advir do input sensorial que nossa vida recebe. "As cozinhas devem ser limpas. está certo tê-lo. e não brotou da percepção de uma necessidade. por isso. a pequena mente que encontramos quando sentamos. O que ela absolutamente não é. fantasias. procuro meios para limpá-la. nossas crenças conceituais (as minhas) aos poucos enfraquecem. Por outro lado. Consideremos duas maneiras pelas quais podem se desenrolar as ações em nossa vida. Uma vida inteira de prática. curvo-me. mas seja feita a Vossa vontade. saúde e mais nada. resistência. num sentido mais sutil. o nível de limpeza da cozinha será provavelmente ditado pelo fato de ter ou não crianças pequenas na casa. ao mesmo tempo. desejos. a ação pode ser ditada por nossa "mente falsa": a mente de opiniões. com tudo. paralisados pela ansiedade e pela inquietação. vivemos numa família na qual ter uma casa limpa domina a vida doméstica. O que é necessário. algo está indo para trás. prazer. em separado. Essa ação foi ditada pelo input sensorial e não é manipuladora. quero sucesso.

Em troca do que fazemos. Com o tempo. esperamos um retorno. chegaremos a ver que toda expectativa de retribuição é um erro. O problema aparece quando acreditamos que eles são a Verdade. mas eu sou mesmo muito paciente"). então nos esforçamos para cumprir esse mandamento. Raramente temos aquilo que esperamos. esperamos em troca reconhecimento. O que isso quer dizer? Nosso sofrimento está fundamentado numa falsa noção do eu. então começamos a sentir a necessidade de protegê-lo. eu quero. sucesso. eu quero. gratidão. tratamento especial. Quando vivemos dessa forma. se desejarmos dar a impressão de sermos altruístas. dinheiro ou esforço o que espero em troca? O que vocês esperam? Talvez eu sinta que tenho direito a um pouco de. Se olharmos de fato. duas palavras governam o universo: eu quero. e acreditarmos que seus conceitos são a Verdade. torna-se manipuladora. esperamos uma retribuição. parte alguma de nosso comportamento está livre da expectativa de uma troca. espero em troca uma outra. Pode ser que desejemos aprovação. nenhuma ação. o "eu". Mas o jogo em que entramos quando esperamos algo em troca de nossos atos não é bem este. cujo propósito seja corresponder a meus conceitos. eu quero. o que é que esperamos? Se nos sacrificamos. eles não são o problema em si. Quando damos um presente. É uma barganha.108 quando a ação é regressiva. (O que talvez não tenha nada que ver com ser altruísta. iluminação. Quando as expectativas não se cumprem -quando não conseguimos aquilo que desejamos -temos o ponto no qual a prática pode começar. sossego. se eu dou um presente de tempo. se você vende bananas e dou-lhe dinheiro. Pensar que uma cozinha precisa ser limpa não é a verdade: é um conceito. se somos compreensivos perdoamos ("Afinal de contas. uma forma sutil de seqüestro. Se tivermos paciência diante de uma situação difícil e segurarmos a língua ("Sabe. Por exemplo. a nosso ver." Sempre queremos porque estamos tentando tomar conta desse conceito que é. sentimos que é nosso dever satisfazer seus desejos. num eu composto por conceitos. esperamos uma troca por isso. onde está a troca? Se entramos numa organização. Quando executamos uma ação. Transformamos a vida "do lado de lá" em algo que participa de uma barganha. não com a experiência.) Nenhum ato. Trungpa Rinpoche escreveu que: " As decepções são a melhor carruagem para usarmos no caminho do 108 . vemos com mais clareza que quase tudo que fazemos tem uma expectativa de troca por trás -a percepção mais dolorosa. certo? Estamos dando alguma coisa. amor. Esperamos que aquela pessoa corresponda a nossos conceitos pessoais. importância. A mente falsa lida com trocas. Se fizermos algo por ela. Ou. Se trabalhamos para uma organização. que está obcecada com a execução de toda e qualquer medida capaz de proteger o eu com conceitos que promovam seu prazer e conforto. todo mundo sabe como ela é difícil"). organizaremos tudo para que essa seja a impressão que iremos causar. estado de saúde razoável. o que esperamos em tudo? Alguém deverá notar como tenho sido paciente! Estamos sempre procurando uma retribuição. o que deveríamos receber em troca? Muitos dos jogos entre pais e filhos se dão nessa área. Queremos fazer com que a vida se encaixe em nossos conceitos. terei bananas e é uma troca legítima. Se pensarmos que na realidade ele existe. Se pensamos que uma cozinha precisa ficar limpa. Por exemplo. veremos que o eu quero está governando nossa vida. excitações. será que ele não poderia ao menos notar? Esperamos algo em troca. Se praticarmos por tempo suficiente. O "eu" é apenas uma pessoa que acredita que seus conceitos são a Verdade. até poderíamos pôr um sinal de que é dinheiro. "Eu quero. Nas trocas comuns. onde está a outra metade do jogo. Se dou alguma coisa. e você é tão ingrato!" Essa é a "troca": a mentalidade manipuladora. "Fiz tudo por você. qualquer um iria explodir. O mundo não consiste em objetos "do lado de lá". estamos sendo nobres. mesmo que represente importunar e obrigar os outros a conseguirmos atingir nosso alvo. Precisamos de conceitos para poder funcionar.

sempre nos resta um resíduo de troca. não ficam com raiva tantas vezes porque vêem suas expectativas. tinha um nome budista: Mushin. A vida da compaixão não é manipuladora. Quando nos sentamos com isso. pelo menos deveríamos notar que não o estamos. decepcionados. nosso "sinal vermelho". encontrou uma carta da esposa na qual dizia: "Para mim chega. Quando acreditamos em nossos pensamentos e conceitos a respeito de outrem ou de acontecimentos tornamo-nos manipuladores e nossa vida tem pouca compaixão. seus desejos. caso não estejamos dispostos a tanto. por isso. seu patrão lhe disse: "Basta. Esse presente sempre acontece na vida das pessoas. se estivermos atentos. "Não foi bem assim que planejei!" Alguma expectativa não se realizou e sentimos a irritabilidade. era machão. Depois de um sesshin curto como o que tivemos no último final de semana. vivia um rapaz chamado Joe. numa cidade chamada Esperança. recorremos à raiva. amargo. Sua vida era igual à de todo mundo. proveitoso é justamente o momento em que podemos ser a decepção e. Os alunos. é a mente de um seqüestrador. Ia para o trabalho e tinha uma boa esposa. Desempregado. A ação advinda da experiência -colher o cacho de uva do chão -é a ação que decorre de uma necessidade percebida. apesar de seu interesse pelo dharma. Quanto mais cientes de nossas expectativas. porque o único meio de transformar o "eu quero" em "eu sou" é vivenciando as próprias decepções e frustrações. o conteúdo básico do dharma. A ação que vem da mente falsa das expectativas. nossa guia infalível. Foi até a livraria mais próxima. acontecem mudanças evidentes. à intriga. Ao recusarmo-nos a trabalhar nossa decepção. Jurou que embora não tivesse emprego nem esposa iria conseguir aquilo que realmente importava: a iluminação. muitas vezes. depois de ter criado toda espécie de confusão no trabalho. não era alguém que desistia com facilidade. é tirânica. mental ou física. e nada mais. A decepção é nossa melhor amiga. era tanto desse jeito que um dia. antes de produzirem raiva. O "eu quero" foi frustrado. nem sempre temos a clareza de perceber o que está se passando. mas é claro que ninguém gosta de amigos assim. Nosso alerta para entrarmos em prática. A parábola de Mushin Há muito tempo. consigo mesmo. é uma experiência prolongada de "não foi bem assim que planejei!". Mas quando sentamos na calma podemos observar e vivenciar nossa decepção. Joe. porque não tem trocas. Quando chegou em casa. Uma vez que a vida diária se movimenta com rapidez. à cobiça. porém as pessoas que melhor aproveitam o sesshin são em geral as que não participaram de muitos. Em certos casos é muito evidente. à crítica. Os veteranos podem evitar os sesshins mesmo estando neles! Sabem como evitar a dor nas pernas para que ela não fique muito forte. Este ponto justamente é o "portão sem portão". Procurou nas edições mais atualizadas 109 . essa é a prática. Mas Joe. mais veremos nossa ânsia de manipular a vida em vez de vivê-la tal como ela é. é o momento em que ficamos aborrecidos. O momento de uma decepção é um presente de vida incomparável que recebemos muitas vezes por dia. Como os novatos são menos habilidosos. Ele estava muito dedicado ao estudo do dharma e. não é manipuladora. Sentar todo dia é nosso pão com manteiga.109 Dharma". ele tem a finalidade de nos frustrar! É inevitável que nos cause alguma dor. O sesshin é apenas a recusa de corresponder a nossas expectativas! Do começo ao fim. Aliás. é fácil nos confundirmos. é gratificante para mim ver como as pessoas ficam mais suaves e abertas. sabem muitos truques sutis para evitar a coisa toda. do "eu quero". mas. Contudo. Você está despedido!". Fui embora". cuja prática está amadurecendo. Mas se já atingiram no estágio da raiva. Joe. Foi desta maneira que ele ficou com o apartamento. sabido. Mushin. Assim Joe saiu. quebramos os Preceitos: em vez de vivenciá-la. Sem ele. os sesshins os atingem em cheio e. a frustração e o desejo de que tudo fosse de outro jeito. é aquele momento em que sentimos que: "Não foi bem assim que planejei".

110 . O que tinha acontecido? Ele não tinha conseguido pegá-lo! Joe ficou admirado. A excitação era imensa! Ali estava a Resposta. um deles finalmente o apanharia.. Os pais que estavam esperando pelo Trem não pareciam sentir fome. colocou todos os seus pertences seculares numa mochila e dirigiu-se à estação ferroviária nos limites da cidade. Algumas estavam mesmo esfomeadas. O livro dizia que se a pessoa seguisse todas as instruções -faça isso. de algum jeito. foi aumentando a pequena multidão e a excitação era maravilhosa. Com o tempo. que mal conseguia acreditar. lá estava ele. Mushin então organizou os adolescentes e criou um time de beisebol atrás da estação. Joe foi até a estação ferroviária. Sabia que devia ser o Trem. Antes que percebesse. passas e barras de chocolate e distribuiu tudo entre a garotada. Com o tempo. passando sem parar. cara. e chegou a incentivar algumas das crianças mais ordeiras a ajudá-lo. Começou a acontecer que. Quando. entregando tudo que tinha àquela decisão. as crianças passaram a ser sua principal preocupação. mas não desanimou. e. Todos podiam ouvir o barulho que o Trem fazia ao passar e. Começou a cultivar um jardim para mantêlos ocupados. Tinha cada vez menos tempo para o Trem e estava com raiva disso. Primeiro eram umas quatro ou cinco pessoas.. Ele sabia disso. O que era importante estava acontecendo com os adultos que esperavam pelo Trem.. estava seguro de apanhar o Trem.. e acomodou-se para esperar. havia uma grande fé de que algum dia. Ficou tão excitado porque o Trem estava vindo.. independente disso. faço aquilo -o trem chegaria e ela conseguiria pegá-lo. ele tinha um grande empreendimento em andamento. e estavam com os joelhos esfolados. Então. leu o livro mais urna vez. Chamava-se How to catch the train of enlightenment (Como pegar o trem da iluminação). Bem. no quarto dia.. estes lhes diziam: "Não incomodem. Por isso. estudou e tentou cada vez mais. Se ao menos uma só pessoa conseguisse pegá-lo. Então se aprontou. foi para casa e abriu mão do apartamento. E ficavam tão absortas procurando pelo Trem que. Porém. Então. desta vez. Esperou muito tempo. apesar de ninguém jamais conseguir subir nele.110 como chegar à iluminação. que afinal de contas não era um sujeito tão ruim assim. e depois leu para eles histórias dos livrinhos que tinham. vão brincar!". cuidou dos arranhões. eu bem que gostaria de esperar o Trem. certa atenção para o Trem. que era um local deserto. Depois de tê-lo estudado até o fim. Ele pensou: "Fantástico!". Mushin. esperando pelo Trem. Mushin observou que algumas daquelas pessoas traziam seus filhos pequenos. aquele resfolegar imenso. Pegou de novo o livro e estudou mais alguns outros exercícios. mas alguém tem de tomar conta dessas crianças". porém.. decorando as instruções. Cerca de três ou quatro dias depois ouviu de novo o imenso barulho ao longe e. não era o caso de não existir. Aquelas criançinhas estavam realmente sendo negligenciadas. trabalhou sem parar e toda vez acontecia a mesma coisa. outras pessoas também foram à livraria e compraram o livro. uusshh. o Trem passou direto! Foi tão rápido que não passou de urna mancha. Olhou em sua mochila e tirou de lá nozes. Mushin encontrou uns curativos na mochila. quatro dias. sabia que tinha de cuidar das crianças e tomava conta delas. De repente. e logo depois reuniram-se trinta ou quarenta. Comprou-o e começou a lê-lo com muito cuidado. Então. começou a dedicar um certo tempo a elas. o que fazer? É evidente que havia um Trem. Em poucos meses havia adolescentes também e com a chegada deles acumulou-se muita energia e vigor. porém não conseguiu apanhá-lo. embora ele ainda desse uma .. Assim. Por dois. mas seus filhos sentiam. serviria de inspiração para as demais. uuush. três. Ele tinha urna fé imensa no livro. trabalhou bastante enquanto sentava-se na plataforma. vindo sem sombra de dúvida. Encontrou um livro que lhe chamou a atenção em particular. esperou a chegada do Trem da Iluminação porque o livro dizia que viria com certeza. contudo ele tinha de tomar contar de tudo aquilo com os garotos e assim sua raiva e amargura estavam fervilhando. Havia um número cada vez maior delas. Joe começou a ter companhia. começou a ponderar: "É... quando as crianças queriam a atenção de seus pais. ouviu aquele enorme rumor à distância.

Esquecera-se das grandes questões filosóficas que costumavam apreendê-lo: "Existo de fato?". não havia mais nada para ele. Então. Mushin. aquele programa frenético e exigente de trabalho em que inadvertidamente se envolvera não lhe parecia mais tão opressor. por algum motivo. lembrou-se de que embora tivesse dado a maioria dos livros que tinha em seu apartamento. exceto o que tinha de ser feito. enquanto outras iam chegando. e começaram a se sentar com Joe. Havia. "A vida é real?". não se preocupava mais com as coisas da mesma maneira que antes. e a paz que estava começando a sentir. administravam o correio. Uns poucos na estação também começavam a ficar desencorajados com o Trem que não conseguiam apanhar. logo mais abaixo na linha. mas sua raiva e seu ressentimento também estavam bem ali. por uma razão ou outra. vindo com seus filhos. Mas. As grandes questões desapareceram. exceto o que precisava ser feito a cada dia. fazendo a cada segundo o que precisava ser feito.. trabalhando. eram forçados a admitir. Havia apenas Mushin e sua vida. Não sei por que desejo fazer isso. A amargura desapareceu. Com o passar do tempo. mas também não estava. Aquelas outras pessoas todas estão esperando o Trem e o que eu estou de fato fazendo?" Entretanto. De manhã à noite alimentavam as crianças. Começou a pensar que talvez existisse alguma ligação entre este zazen. Demonstrava o efeito do tempo de tensão e de trabalho. e essas não pareciam tão ruins. Providenciou mais alojamentos para dormir. Certa noite. Para ele. Pegou-o de dentro da mochila. e estava sempre ocupado.. Mushin estava agora com cinqüenta e poucos anos. nesse momento. Vou apenas fazê-lo". Apresentaram essa difícil prática também nas demais estações.111 O tempo passava. ele se sentava em uma almofada para praticar um pouco. Nesse tempo todo eles não estavam conseguindo esperar pelo Trem. por isso seu grupo ia até lá de vez em quando para ajudar a solucionar as dificuldades. Bem cedo de manhã. só estou interessado na iluminação. Acomodou-se para aprender como fazer zazen. Isso prosseguiu por muitos anos. teve de construir um correio e escolas. Os mesmos problemas de sempre já estavam aparecendo ali. As coisas apenas se mantinham em andamento. Finalmente. Mushin por fim começou a amar as pessoas que também estavam esperando pelo Trem. "Sabe. De vez em quando ouviam o trovejar do Trem à distância. faziam serviços de carpintaria. Mushin pensou: "Vou ficar sentado a noite toda. Contudo. "A vida é um sonho?". Mushin não sentia mais que era o que tinha de ser feito. apesar disso. continuava tomando conta de tudo. O ponto de mutação para Mushin ocorreu quando tentou fazer uma coisa que seu livrinho descrevia como sesshin. Estava tão ocupado sentado e trabalhando que tudo o mais se esvanecia. Mushin foi ficando cada vez mais velho e cansado. tudo que uma comunidade precisa para funcionar e sobreviver. Estavam todos trabalhando muito mesmo. Estava ficando arcado e cansado. num canto da estação ferroviária. criaram um espaço em separado e durante quatro ou cinco dias praticavam intensamente o zazen. um trabalho infindável. além dos que estavam esperando pelo Trem. por essa época. tinha guardado um pequeno volume. havia uma colônia inteiramente nova de aguardadores do Trem. Algumas destas voltavam aos poucos para a comunidade. antes que os outros se levantassem.. Reuniu-se com seu grupo. Ele as servia e as ajudava a esperar. este sentar. Na próxima estação. O livro era How to do zazen (Como fazer zazen). certo dia. O grupo fazia zazen todas as manhãs e. e centenas e milhares de observadores do Trem chegavam com seus filhos e parentes. o sentar não 111 . não era mais o mesmo. instalavam uma nova clínica pequena. Agora Joe tinha um novo conjunto de instruçÕes para estudar. estava tão atolado com as necessidades das pessoas que teve de aumentar as instalações da estação. As questões que tinha foram acabando até não restar mais nenhuma. Chegou mesmo a ser construída uma terceira estação. mas ignoravam-no e continuavam sentados. ao mesmo tempo. a empresa da espera-do-Trem continuava em expansão. Estava ali. uma comunidade imensa de pessoas nas estações ferroviárias. apenas o fazia. No entanto. Eles conseguiam ouvir o barulhão e ainda restava um pouco de ciúme e de amargura.

Aliás. Lugar algum aonde ir. o Trem evaporou e havia apenas um velho sentado noite afora. Não havia necessidade de pegálo. este acabou parando exatamente em sua frente. Então.a noite inteira e. ouviu o ruído do Trem. exceto sentar: ouvir uns poucos carros passando ao longe. Sentir o ar frio noturno. Foi quando percebeu que desde o início tinha estado no Trem. A última vez em que o viram foi na carpintaria com alguns dos meninos mais velhos. Finalmente. Mushin espreguiçou-se e levantou-se da almofada. com o raiar do dia. Nada a compreender. O que Mushin descobriu? Deixarei que vocês mesmos respondam. de tentar ser santo.112 era mais uma questão de ir em busca de alguma coisa. Mushin sentou . 112 . Para ele. Apenas a totalidade da própria vida. não havia mais nada. muito devagar. ele era o próprio Trem. de tentar melhorar. Todas as antigas questões que não eram questões se respondiam por si. Todas aquelas idéias já se desfizeram há muitos anos. Saiu para preparar O café que compartilharia com quem estava chegando para trabalhar. Essa é a história de Mushin. Apreciar as mudanças que se processavam em seu corpo. construindo um balanço para o parquinho.

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