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CAPÍTULO 1 Início
Iniciando a prática zen
Minha cadela não se preocupa com o significado da vida. Ela pode se preocupar em receber ou não a refeição pela manhã, mas não se senta preocupada em conseguir ou não a realização, a libertação, a iluminação. Desde que receba um pouco de comida e afeto, a vida lhe corre bem. Porém nós, seres humanos, não somos como os cães. Temos mentes centradas em si mesmas que nos remetem a muitos problemas. Se não entendermos o equívoco em nossa forma de pensar, nossa auto percepção, que é nossa maior bênção, torna-se também nossa perdição. Todos nós acreditamos que, em certa medida, a vida é difícil, intrigante e opressiva. Mesmo quando tudo corre bem, como acontece por certo tempo, preocupamo-nos que ela não se mantenha assim. Dependendo de nossa história pessoal, chegamos à idade adulta tendo muitos sentimentos desencontrados a respeito da vida. Se eu lhes dissesse que sua vida já é perfeita, completa e inteira exatamente do jeito que está, vocês pensariam que estou maluca. Ninguém acredita que sua vida é perfeita. No entanto, existe no íntimo de cada um uma dimensão que sabe que somos ilimitados, infinitos. Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebracabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma. A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos. No começo, pode acontecer num nível bastante comum. Existem muitas pessoas no mundo que acreditam que se tivessem um carro maior, uma casa mais bonita, férias melhores, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, suas vidas seriam muito melhores. Não há quem não pense assim. Lentamente, vamos descartando os "se ao menos", essas coisas que nos fariam viver melhor. "Se ao menos eu tivesse isto, isso ou aquilo, então minha vida seria outra." Na prática, todos estão com alguns desses "se ao menos", na cabeça em algum momento, contudo aos poucos essas idéias vão se desgastando. Primeiro, as mais grosseiras. Depois nossa busca dirige-se a níveis mais sutis. Por fim, na procura pelo elemento externo a nós mesmos que, em nossa expectativa, irá nos completar, voltamo-nos para uma disciplina espiritual. Infelizmente, nossa tendência é considerar com a perspectiva anterior essa nova possibilidade. Muitas das pessoas que buscam o Zen Center não crêem que a resposta esteja num Cadillac mais novo, mas em alcançar a iluminação. Conseguiram um novo recurso, um novo "se ao menos". "Se ao menos eu tivesse condição de entender do que se trata a compreensão, seria feliz." "Se ao menos eu tivesse uma pequena experiência de iluminação, seria feliz." Ao iniciarmos uma prática como o zen, trazemos nossas noções habituais de estar chegando em algum lugar, de alcançar alguma coisa -no caso, a iluminação - podendo a partir de então comer todos os docinhos que antes nos tinham sido proibidos. Toda a nossa vida consiste neste pequeno indivíduo, olhando à sua volta em busca de objetos. No entanto, se você olha algo que é limitado -como o são o corpo e a mente -e procura alguma coisa fora de si, esta coisa torna-se um objeto e também deve ser limitado. Assim, existe alguma coisa limitada procurando algo limitado e, no final, só fica maior aquela velha loucura que o vem tornando uma- pessoa tão infeliz. Todos passam anos a fio consolidando uma visão condicionada da vida. Existe o "eu" e existe essa "coisa" aí adiante que ou me fere ou me agrada. Nossa tendência é levar a vida de modo a tentar evitar tudo o que nos magoe ou nos desagrade, reparando nos objetos, nas pessoas ou situações que, a nosso ver, parecem nos

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proporcionar dor ou prazer; evitaremos uns e perseguiremos outros. Sem exceção, todos nós fazemos isso. Mantemo-nos distantes de nossa vida, olhando-a, analisandoa, julgando-a, buscando respostas para perguntas como "O que ganho com isso? Vou ter prazer ou conforto, ou será preciso que eu fuja?". Fazemos esse questionamento de manhã à noite. Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais; assistimos à televisão demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica. Algumas pessoas vivem dessa forma até o final de seus dias. Essa situação piora conforme o tempo vai passando. 0 que talvez não seja tão ruim quando você tem 25 anos parecerá terrível quando chegar aos cinqüenta. Todos conhecemos aquelas pessoas que já morreram e se esqueceram de deitar-se; elas têm uma mentalidade tão contraída em seus pontos de vista limitados, que a convivência é muito penosa tanto para quem está à sua volta como para elas mesmas. A flexibilidade, a alegria e o fluir da vida já se foram. Essa possibilidade tão sombria ameaça a todos nós a menos que acordemos para o fato de ser necessário trabalhar nossa própria vida, praticar. É preciso que enxerguemos a miragem de que existe um "eu" destacado de um "aquilo". Nossa prática consiste em anular essa distância. Apenas no momento em que nós e os objetos nos tornarmos um, é que poderemos enxergar o que é nossa vida. A iluminação não é algo que se atinge. É a ausência de alguma coisa. A vida inteira, a pessoa vai atrás de algo, perseguindo suas metas. A iluminação está em deixar tudo isso de lado. Entretanto, falar sobre ela não adianta muito. A prática precisa ser executada por cada um. Não há o que a substitua. Podemos ler a seu respeito durante mil anos e não adiantará de nada para nós. É preciso que todos nós pratiquemos, e temos de fazer com todo nosso empenho pelo resto da vida. O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo, é bastante difícil. Porém, assim que começarmos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho. Quando o despertar se inicia, quando começamos a perceber que a vida pode ser mais aberta e alegre do que até então pensáramos ser possível, queremos praticar. Entramos numa disciplina como a prática zen para podermos aprender a viver de modo lúcido. O zen tem quase mil anos e seus defeitos já foram corrigidos; embora não seja fácil, não é insano. É sensato e muito prático. Diz respeito à vida cotidiana. Refere-se a trabalhar melhor no escritório, a criar melhor as crianças, e estabelecer relacionamentos melhores. Levar uma vida mais lúcida e satisfatória deve decorrer de uma prática equilibrada e lúcida. O que desejamos fazer é encontrar uma maneira de trabalhar com a insanidade elementar que existe em função de nossa cegueira. É preciso coragem para se sentar bem. O zen não é uma disciplina para todos. Precisamos estar dispostos afazer algo que não é fácil. Se o fizermos com paciência e perseverança, com a orientação de um bom instrutor, então, aos poucos, nossa vida irá se aquietar, ficar mais equilibrada. Nossas emoções não serão mais tão dominadoras. Enquanto sentamos, descobrimos que a primeira coisa, a mais elementar, para trabalhar, é nossa mente caótica, ocupada. Estamos todos enredados num pensar frenético e o problema da prática está em começar a trazer esse pensamento para a claridade e o equilíbrio. Quando a mente fica limpa, clara, equilibrada, e não mais prisioneira dos objetos, então poderá haver uma abertura e, por um instante, nos , daremos conta de quem somos, na verdade. Contudo, sentar não é algo que praticamos durante um ou dois anos com a idéia de dominar a questão. Sentar é algo que praticamos a vida inteira. Não há limites para a abertura possível ao ser humano. Eventualmente percebemos que somos a base ilimitada e incontida do universo. Para o resto da vida, nossa incumbência será abrirmo-nos cada vez mais a essa imensidão e expressá-la. Quanto maior for nosso contato com essa realidade, mais aumentará nossa compaixão pelos outros, maiores

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serão as alterações em nossa vida cotidiana. Viveremos, trabalharemos e nos relacionaremos de modo diferente com as pessoas. O zen é um estudo para a vida toda. Não é só sentar-se numa almofada durante trinta ou quarenta minutos diários. Toda nossa vida torna-se uma prática, vinte e quatro horas por dia. Gostaria agora de responder a algumas perguntas sobre a prática do zen e sua relação com a vida pessoal. ALUNO: Você poderia falar mais a respeito de nos desapegarmos dos pensamentos que nos ocorrem durante a meditação? JOKO: Não acho que nos desapeguemos das coisas; creio que o que mais fazemos é desgastá-las. Se começamos a forçar nossas mentes para fazerem as coisas, estaremos exatamente de volta ao dualismo do qual tentamos nos livrar. O melhor meio de nos desapegar é notar os pensamentos quando aparecerem e reconhecê-los. "Ah, é, estou de novo pensando", sem julgá-los, e então retornar à nítida experiência do momento presente. Sejam apenas pacientes. Teríamos de fazer isso dez mil vezes, mas o valor de nossa prática é o retorno constante da mente para o presente, inúmeras vezes seguidas. Não procurem aqueles lugares maravilhosos, onde os pensamentos não ocorrerão. Uma vez que os pensamentos basicamente não são reais, em algum momento começarão a ficar obscuros e menos imperativos, e acabaremos percebendo que existem momentos em que desaparecem, porque vemos que não são reais. Já irão sumir com o tempo, sem que saibamos de maneira exata como aconteceu. Aqueles pensamentos são nossas tentativas de nos proteger. Ninguém quer, de fato, deixá-los de lado; são aquilo a que estamos apegados. Com o tempo, o meio de acabarmos enxergando sua irrealidade está em apenas deixar correr o filme. Depois de o assistirmos umas quinhentas vezes, sem dúvida, ele acaba se tornando monótono! Há duas espécies de pensamento. Não há nada de errado em pensar no sentido que denomino "pensamento técnico". Precisamos pensar afim de andar daqui até o canto, para assar um bolo ou resolver um problema de Física. Esse uso da mente é correto. Não é nem real, tampouco irreal; é só o que é. Porém, opiniões, julgamentos, lembranças, devaneios a respeito do futuro, 90% dos pensamentos que giram em nossa mente não têm qualquer realidade essencial. Do nascimento até a morte, a menos que despertemos, desperdiçamos quase toda a nossa vida em função deles. A parte horrível do sentar (e, acreditem, é horrível) está em começarmos a ver o que de fato se passa em nossa mente. É chocante para todo mundo. Vemos que somos violentos, preconceituosos e egoístas. Somos tudo isso porque uma vida condicionada, com base em falsos pensamentos, levou-nos a esse estado. Os seres humanos são essencialmente bons, gentis e compadecidos, mas é preciso um grande esforço de escavação para extrair essa jóia das entranhas de nosso ser. ALUNO: Você disse que conforme o tempo passa, os reveses, os transtornos começam a se reduzir, até que por fim se esgotam? JOKO: Não estou querendo dizer que não haverá transtornos. O que desejo falar é que, quando ficamos aborrecidos, não permanecemos apegados a esse estado. Se sentimos raiva, só ficamos com raiva por um instante. Pode ser que os outros nem se dêem conta disso. É tudo. Não há o apego à raiva, à sedução mental de manter-se nesse estado. Não estou também afirmando que os anos de prática terminarão fazendo de nós zumbis. Pelo contrário, teremos emoções realmente mais genuínas, sentiremos mais as pessoas. Só não ficaremos mais tão enredados nas malhas de nossos estados interiores. ALUNO: Você poderia comentar a respeito de nosso trabalho cotidiano como parte da prática?

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estaríamos todos fazendo isso. Estamos no futuro? Não. Se a mente divaga para algum lugar. e ainda não praticou o sentar tempo suficiente para sentir os verdadeiros benefícios. É o que nós somos. Não faz diferença como se chama nossa prática: acompanhar a respiração. se fosse. Existe a tarefa concreta que estamos executando e ainda há todas as considerações que tecemos a esse respeito. embora possa parecer muito confuso e ridículo. Trabalho é só cuidar daquilo que precisa ser feito já.4 JOKO: O trabalho é a melhor parte da prática e do treino zen. estudo de koans. shikantaza*. indelimitável. Bom. eu estava coberta de moscas. sempre que puderem. Seja qual for sua vida. gostaria primeiro de falar sobre a tarefa elementar do sentar e. não existe nada para o que apontar e falar: "Este é o presente". Deus. o presente é inapreensível e o futuro é inapreensível". não? Entretanto. No fundo. Não importa que você o esteja praticando há pouco tempo. "o passado é inapreensível. começará afluir Fazemos aquilo que precisa ser feito. quem gosta de limpar fogão? Depois de tudo que estudei. Falar é só como um dedo apontando para a lua. delimitá-lo. não há linhas demarcatórias que definam o presente. estamos todos trabalhando as mesmas questões: "Quem somos? O que é nossa vida? De onde viemos? Para onde vamos?". porém. É essencial termos um certo poder de insight para conduzir nossa vida de modo plenamente humano. Segundo o Sutra do Diamante**. há muitos anos. Se estamos limpando o fogão. na verdade. No sentar estamos descobrindo a Realidade. é só indicar. a natureza Buda. estamos onde? Estamos no passado? Não. as dúvidas e os problemas. doze meses. Por isso. não podemos sequer dizer que estamos no presente. Independente de qual seja o trabalho. e aquele era um sesshin barulhento. defini-lo. a dificuldade é natural e até boa. o que estamos fazendo aqui? Posso dizer: "O momento presente". Foi horrível! A temperatura manteve-se em torno dos 32-33°C todos os dias da semana. Amoníaco fede! Aliás. traga-a de volta ao trabalho. você está aprendendo uma quantidade monumental de dados a respeito de si mesmo. O problema é sempre o mesmo. deverá ser feito com esforço e total atenção àquilo que tivermos bem à nossa frente. não deveria estar fazendo isso!" Todos esses são pensamentos extras que nada têm que ver com a limpeza do fogão. o período mais difícil são os primeiros seis. não conseguia resolver quem era mais louco: eu ou as pessoas à minha volta. Quando temos paciência com nossa prática. Como não há meios de medi-lo. não é. Portanto. "Odeio limpar fogões. são muito poucos os que trabalham desse jeito. Parece fácil. falando disso. Por favor. e ao mesmo tempo ter consciência de pensamentos que o interrompem. Entretanto. Conforme a mente vai passando devagar por todos esses estágios. muito estridente. conforme você fica ali sentado. 4 . sugiro que faça dela sua prática. ou há dez anos. a Verdadeira Natureza. Você enfrenta a confusão. dar a perceber que falar não é sentar. Praticando o momento presente Gostaria de falar a respeito do problema básico do sentar. Infelizmente. de vez em quando ia ter com Yasutani Roshi e ali havia algo que me fazia continuar praticando o sentar. mas se é tão simples assim. Estamos no presente? Não. ele é incomensurável. tampouco ver o que é. 0 máximo que podemos comentar é: "Somos o momento presente". Alguns denominam tal prática de "Grande Mente". continuem sentando em grupo. todos nós nesta sala. deveríamos estar totalmente envolvidos nesse mister. Porém. Fiquei completamente transtornada e estupefata diante daquilo tudo. com o tempo essa prática será a melhor coisa de sua vida. infinito. só isso. Se o fizerem. um dia. o trabalho. Isto só pode ser valioso para você. Quando participei de meu primeiro sesshin. e compareçam diante de um bom instrutor tanto quanto puderem. Enxergar de fato não é tão fácil. Uma expressão que é particularmente pertinente para descrever o modo como pretendo abordar a seguinte questão: "O momento presente".

só ouvimos o que desejamos. dos grandes jogadores de rúgbi. Mais uma vez ele falou: "Não". Quando fui para minha aula. era relativamente fácil prestar esse tipo de atenção. o momento presente. Ele tocou de novo e eu toquei em seguida.5 Por que não é fácil? Por que não podemos enxergá-lo? O que é necessário para podermos enxergá-lo? Quero contar-lhes uma breve história. mas muito boa. mas ouvir tudo. se você consegue ouvir. Era isso que fazia dele um professor tão notável: ele ensinava seus alunos a prestarem atenção. não excepcional. Ali aprendi a prestar atenção. Bem. Até mesmo quando vamos consultar nosso mestre zen. o que precisamos fazer em nossa prática zen é muito mais difícil. E como ele dizia. com todas as lindas coisas que um dia teremos. Como seres humanos. saíam de seu estúdio. Mas. Contudo. das pessoas que fazem cestas inacreditáveis no basquete. sem dúvida. o procedimento daquele professor durou três meses e. isso durou uma hora. Apesar disso. Toda vez ele repetia "não". Ele nem dizia olá. pode tocar . maravilhosos. tocava cinco notas e depois falava: “Agora você". surgiu minha oportunidade de estudar com aquele professor. usando todas essas referências: "Não gosto disso. de modo a permitir que nos sintamos bem. É esse tipo de atenção que é necessário à nossa prática zen. 5 . descobri que ele ensinava com dois pianos. pode tocar. esse é um tipo e tem muito valor. Sonhamos sempre com o futuro. Essa é a integração de qualquer forma superior de arte. Há muitos anos. chorei praticamente sem cessar. nada tinha acontecido nesse nível. temos uma mente que pode pensar. O que está entrando é algo muito diferente. era o melhor de todos os professores. com o que nos irá acontecer. Estava voltada para um objeto de que eu gostava. Ele pegava alunos comuns e transformava-os em pianistas fabulosos. o que dava talvez meio minuto de uma música. Por isso era tão bom. de qualquer um que tenha aprendido a prestar atenção. que nos torne seguros e confiantes. É uma espécie de samadhi. Apenas sentava-se ao piano. O que eu estava tocando não era de execução técnica difícil. E posso até esquecer isso tudo e. Depois de trabalhar com ele. Tinha até solado com pequenas orquestras sinfônicas. e já fazia anos que tocava piano. que.. Quando estamos nessa vertigem. e vocês obterão relatos muito variados. O que aconteceu durante aquele tempo? Eu tinha o mesmo par de ouvidos do começo. A razão pela qual não queremos prestar atenção é que isso nem sempre é agradável. de fato ouviam. porém. Era muito boa. Eu acreditava que já era muito boa. Toquei e ele disse: "Não". Deste modo. Bem. Não podemos enxergá-lo porque estamos filtrando. O que ocorrera é que eu tinha aprendido a ouvir pela primeira vez. à totalidade do que está acontecendo exatamente agora. Não nos convém. os alunos realmente ouviam. Ele tinha todas as características de um verdadeiro professor e uma determinação absoluta de levar cada aluno a enxergar. Temos de prestar atenção a este momento presente. uma integração completa com o objeto. Façam a seguinte experiência: perguntem alguma coisa a quaisquer dez pessoas que leram este livro. Chamamo-la de samadhi. Se você consegue ouvir. Ao final do terceiro mês.. Nos três meses seguintes toquei mais ou menos três compassos. C que tinha acontecido? Enfim eu tinha aprendido a ouvir. Estarmos abertos para o mestre significa ouvir não apenas aquilo que queremos ouvir. jamais enxergamos exatamente o aqui e agora. Eu devia tocar exatamente do jeito que ele acabara de fazer. irão lembrar-se de outras e chegarão até a deixar de fora da consciência aquilo de que não gostaram. em nossa incessante tentativa de criar uma vida agradável. eu era uma aluna adiantada do Conservatório Oberlin. Lembramo-nos do que nos foi doloroso. começar a sonhar com o que acontecerá". filtramos tudo que acontece no presente. um dia ele comentou: "Bom". Isso é constante: gira em nossa cabeça sem parar. Por fim. dos grandes atletas. O mestre não está ali só para ser simpático conosco. Não tenho de ouvir essas coisas. Pianistas completos. no meu episódio. Eu queria demais estudar com uma determinada pessoa. Elas esquecerão as partes que não as atraíram muito. nesse tempo.

outras pessoas irão senti-Ia de imediato e. Nada. sim. tédio e dor nas pernas. Quando sentimos dor não entramos na vertigem mental. também é algo como uma ciência. vocês têm uma tarefa a cumprir. não iremos ficar muito transtornados com elas. por exemplo. como uma escolha. O que na verdade existe. e não vamos machucar ninguém com isso. independente do que seja: bom. Estamos sentindo essa emoção de verdade. é: "Bem. Consideremos o processo do sentar em si. Se pudermos aceitar as coisas apenas como são. como estudante do zen. Não é necessário que acreditem em mim. sejam quais forem. O que aprendemos com o ficar obrigatoriamente sentados em silêncio. Eu de fato apenas ouço. Nossa prática é. e está certo. as que estão com o preciso aqui e agora. Tomo muito cuidado para não perder um só ruído. uma tarefa muito importante: tirar a própria vida do reino dos sonhos onde se encontra e transferi-Ia para a imensa e verdadeira realidade que existe. Não é só fé. podemos senti-lo. Nosso treino zen tem como propósito permitir-nos levar uma vida confortável. então.6 Nessa medida. Portanto. no máximo. somos o universo inteiro. não com uma versão fantasiada dela. ouvir minha voz. Posso fazê-la. Mas não o fazemos apenas para nós mesmos. à medida que nossa vida for ganhando em centração e em contato com as próprias bases. ser inteiramente a raiva. Uma característica de um estudante maduro do zen é o senso de centração e contato com suas bases. ficar doente. Ser o que somos a cada instante significa. não vou nessa vertigem". dor de cabeça. Não se pode capturá-lo. afastando-me do imediato. tem de trabalhar com o que seu instrutor lhe disser para trabalhar. Buda nada mais é do que aquilo que você é. Posso me esforçar". o ponto central do zazen é este: o que temos de fazer com constância é apenas criar uma discreta transição do mundo vertiginoso que temos dentro de nossas mentes para o momento presente. em geral. Essa espécie de raiva jamais magoa os outros porque é total. Outras pessoas antes de você já efetuaram a experiência e obtiveram alguns resultados com ela. espécie de mágoa que machuca as pessoas é aquela que ferve embaixo dos sorrisos meigos que esboçamos com esforço. a cada momento. Porém. É sempre uma escolha. aquilo que somos começa a influir em tudo que existe à nossa volta. Requer coragem. podem experimentá-lo por si mesmos. completa. quando estamos com raiva. ele já se transformou. agradável. Isso é Buda. é. ficar feliz. O que você pode dizer. Na realidade. exatamente agora: ouvir os carros. Precisamos ser capazes de desenvolver a habilidade de dizer: "Não. é tão valioso que. de momento a momento. Quando ficarmos transtornados de verdade. O que temos de desenvolver é nossa intensidade e nossa capacidade de estar exatamente aqui e agora. entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes e aquilo que de fato existe. Sem dúvida. As únicas pessoas que vivem com conforto são as que aprendem a não sonhar suas. vidas como algo diferente. de fazer tal escolha. no minuto em que você tentar pegá-lo. essa onda se desfará mais depressa. as tormentas da vida atingem-no de modo mais suave. se não existisse. Temos de ficar com a dor. começo na realidade a ouvir o barulho do tráfego. o nó no estômago. mau. No entanto. Só pessoas de muita fibra conseguem efetuar essa prática por tempo ilimitado. em que se torna real e essencial. sentir a dor nas pernas. Quando estamos diante de alguém assim. suportando todo esse desconforto. Não é uma tarefa fácil. 6 . A. Não faz a menor diferença. Essa é nossa prática. enquanto você não enxergar isso com clareza. O que temos de fazer é estar com o que acontece precisamente agora. Talvez no começo. pelo menos posso tentar essa experiência. De modo que a dor é na realidade muito valiosa. num sesshin zen. muito cansaço. Até aí qualquer um de nós pode ir. Isso é tão bom quanto um koan porque está acontecendo neste exato momento. Quando me distraio e divago. Não há para onde ir. desagradável. com fé absoluta no processo total. uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. Ele está com a vida tal como ela está de fato acontecendo. deveria ser criado. o preciso aqui e agora.

É preciso uma verdadeira devoção a nós mesmos e às outras pessoas. um dia. Entretanto. Bem. então o veremos. distorcido ou forçado. e só sentamo-nos com o que é. vierem a muitas sesshins. precisamos perder as esperanças". Eu também não gosto. então isso se transforma. eu falei algo que deixou muita gente incomodada. Vemos o que somos: nosso esforço para parecermos bons. A vida iluminada é aquela que enxerga o tempo todo. É preciso coragem. a questão não é essa. de algo que imaginamos. neste lugar. Não foram muitos os que ficaram felizes diante dessa perspectiva. Porém. quando praticar o sentar. Em cada ponto de nossa prática ela é perfeita. Vemos nossa raiva. satisfatória e melhor para nós e os outros. Não é através de algo que pensamos. É difícil conseguir que ele venha para fora e se mostre". Não se pode ter apenas trechos de Buda. não me refiro a abandonar o esforço. se estiverem dispostos a fazer essa mesma escolha. dois ou dez anos. não é isso. é claro que. aquilo“. Se na realidade pudermos estar com Buda. São necessários anos e anos de muito trabalho para nos transformarmos a ponto de poder fazer isso. Esse é. terão esse primeiro vislumbre. Entretanto. quando falo "difícil". mesmo que por apenas alguns instantes. eu preciso ser bom. A verdadeira espiritualidade é apenas estar com tudo isso. Por quê? Porque Buda é nós mesmos e nós jamais o veremos enquanto não nos desfizermos de todas as coisas extras e supérfluas. num zendo***. permite-nos uma lenta transformação mediante a prática. Mas só isso não basta. Nossa prática nada tem que ver com " Ah. com quem somos. aqui. Se vocês praticarem com afinco. para sermos os primeiros. Talvez vocês estejam sentindo que não têm tanto tempo assim pela frente. Não é fácil. mais ela se torna gratificante. de modo consistente.7 Não espere ser nobre. durante um certo período. não significa artificial. todas essas coisas crescem. trabalharem bastante com um instrutor. Só quando começarmos a deixar de lado todas essas artimanhas. Somos transformados pelo que fazemos. Foi o seguinte: "Para fazer essa prática. Os Budas vêm como um todo. E o que fazemos? Fazemos sempre a mesma escolha. então. este é o começo. Esse estado de ser é o Buda. As pessoas acham bobagem conseguir a iluminação em duas semanas. a vida passará a ser mais satisfatória. Pode ser que leve um. Simplesmente não há dúvida a esse respeito. um continuum muito longo. que permita enxergar quem ele é. Onde mais poderíamos estar? Porém a questão é darmo-nos conta com clareza do que isso significa. até mesmo a coragem. Quando digo para perder as esperanças. essa harmonia e a incapacidade de expressá-la em nossas vidas consomem um trabalho e um treinamento incessantes. eu devo ser amável. Vemos tudo. 7 . Nós já somos Buda. Não pretendo parecer desencorajadora. Shibayama Roshi certa vez disse num sesshin: "Esse Buda que todos querem ver é muito tímido. O primeiro vislumbre do que é o momento presente. Ao desistirmos dessa mente vertiginosa. eu devo. Difícil é a escolha que temos de fazer repetidas vezes. Mas o que eu quis dizer? Que temos de desistir dessa idéia e. nossa ansiedade. se sentarmos com paciência e tolerarmos tudo. alguma coisa estará se consolidando dentro de nós. Eu sou quem eu sou agora. O que mais poderíamos ser? Estamos em equilíbrio neste exato momento. O trabalho com um bom instrutor. no entanto.. presença que somos é como um espelho. Certa vez. à medida que praticamos. Precisamos ficar sentados na dor e odiamos isso. ou para sermos os últimos. Quando pudermos agir com absoluta honestidade diante do que estiver acontecendo neste preciso "agora". essa total integração. essa . Quanto mais praticamos a vida com afinco. precisamos fazer um trabalho incrivelmente difícil. É preciso que estejamos dispostos a entrar com honestidade dentro de nós mesmos.. A vida é como é. imaginar que há alguma maneira de se ter essa vida perfeita que seria a melhor para cada um de nós. Esse mínimo vislumbre dura um décimo de segundo. se pudermos. nossa arrogância e nossa pseudoespiritualidade. Bem. Desistimos de nossos sonhos centrados no ego em troca da realidade de quem somos de fato. Como estudantes do zen. isso.

Pode ser confuso. Somos todos bebês. Queremos esse amor para nossas vidas e o queremos para as vidas das outras pessoas. Ele falou: "Olhe. mas o amor com sua força real. Não há problema. Nessa integração em que por fim aprendemos a viver. Não! Quem sabe. E quem é ele? A própria vida. mas vê-la é outra bem diferente. está em todo lugar. Não poderíamos ser outra coisa. Um dia. é a coisa mais importante que podemos fazer . fé suficiente em apenas realizar a prática. As últimas palavras do Buda foram: "Sê tua própria lâmpada". Dizer isso é uma coisa. Não é preciso ir a locais especiais para encontrar esse incomparável mestre. quanto maior a confusão. São necessários muitos anos para que ele se torne claro. O escritório costuma ser um excelente lugar. Façam apenas o melhor que puderem. Quando comecei a ouvir os pronunciamentos dos instrutores. uma manifestação da vida. acontece que a vida é um professor da mesma maneira rígido e infinitamente gentil. sê atua própria lâmpada". esse é o processo. e praticamos para compreender internamente este "você". O lar comum é 8 . sua incumbência é assumir essa qualidade que já tem e trabalhar com ela. mais longe. e não em alguma versão de novela de televisão. Penso que quem vem para esta prática é fantástico. A escolha de entrar nele é toda nossa. claro. não! Não se trata de desinteresse meu pela pessoa. Esse professor. Talvez vocês comentem: "Bem. se tivermos a paciência necessária e trabalharmos arduamente. pensei: "Mas do que estão falando?". Portanto. Ele não disse: "Corram para este ou para aquele mestre. Sentem-se todos os dias. No entanto. o que falta é um guia que lhe deixe claro que a autoridade de sua vida. você precise de um guia. É a única autoridade em quem é preciso confiar. Venham aos sesshins. não é necessária uma situação em especial ideal ou tranqüila. Não quero ser dura com vocês. Em geral somos uma autoridade para os outros (dizendo-lhes o que fazer) ou buscamos alguém que seja uma autoridade para nós (ordenando-nos o que fazer). só que ninguém pode me dizer nada a respeito de minha vida. exceto -quem? Não há outra autoridade fora de minha experiência pessoal. Autoridade Depois de anos falando a um grande número de pessoas. que lhe explique como vivenciar sua vida. Talvez ele não tenha ficado claro para alguns de vocês. veremos que nela está o amor. Cada um de nós é. ou para aquele centro". melhor. é você mesmo. surpreendente ou incompreensível. logo que chega à cidade um novo professor. venham sentar. mas eu preciso de um instrutor que possa me libertar de meu sofrimento. para que vocês saibam de fato o que estão fazendo. Sempre me espanto de ver que. pais e amigos. Preciso de alguém que me diga o que fazer. Vou-lhes contar o quanto sou capaz de andar para ver um novo professor: talvez até o outro lado da sala. Agüentem a confusão. e façam o melhor que puderem. cabe-nos executar o trabalho. Contudo. porém.8 Talvez a princípio não entendamos bem isto. procuraríamos uma autoridade se tivéssemos confiança em nós mesmos e em nossa compreensão. não é mesmo?". Contudo. Queremo-lo para nossos filhos. essa autoridade. Principalmente quando existe algo em nossa vida que é desagradável. seu verdadeiro instrutor. ainda me surpreendo com o problema que fazemos de nossas vidas e de nossas práticas. acreditamos que temos necessidade de um professor ou de uma autoridade que nos diga como agir. Respeitem-se por fazer essa prática. aliás. O que desejo discutir aqui é o problema da "autoridade". A medida de nosso crescimento possível é limitada. todos correm para vê-lo. Qualquer um que fique sentado do começo ao fim de um sesshin zen precisa ser parabenizado. Tenham. teremos alguma possibilidade de fazer uma verdadeira contribuição ao mundo. Permaneçam em seu sentar. Tenham muita paciência. É realmente importante essa total transformação da qualidade da vida humana. Portanto. Estou sofrendo e não entendo isso. Só existe um professor. Não é fácil.

o imperativo do bebê é a sobrevivência. o contentamento do samadhi**** de viver. Não leva muito tempo para o bebê aprender que. serei eu. Se de fato somos cada momento de nossa vida. Não podemos evitar a autoridade mesmo que o desejássemos. o professor. somos como passarinhos no ninho. Basta ouvir um nenê recém-nascido berrando: é fácil perceber como o som atravessa a casa toda. como minha vida pode parecer a mim incômoda. Os próprios fatores genéticos são limitações: somos do sexo masculino ou feminino. a palavra de Deus. quando posso começar a viver este momento presente. É a seguinte: "Bem. Compreendem? O ponto de estrangulamento do medo As limitações da vida estão presentes na concepção. temos propensão a determinadas doenças ou fraquezas corporais. Ninguém ficará dizendo a mim o que fazer". As pessoas costumam esquivar-se desse tipo de ensinamento. O que é falso nessa posição? "Eu serei minha própria autoridade! Desenvolverei minhas próprias concepções a respeito da vida. Dizemos: "Por favor. começaremos com o bebê ao nascer. exatamente aqui. correremos o perigo de nos afundar na areia movediça. O que estamos falando é: "Quando mamãe e papai vão voltar? Quando um grande mestre. Ficarei de boca aberta e você a completa". Quando ouço aquele som quero fazer alguma coisa. E o que desejam saber? O que vocês querem saber? Até ficarmos prontos (o que em geral significa. quem iria querer isso? Na prática. Sabemos por experiência própria! Aí é onde está a autoridade. A mamãe e o papai por quem ficamos esperando já estão aqui. uma suprema autoridade. Mas. e não querem saber dele. onde está a autoridade? A atenção. está lá. quando estamos em família. o vivenciar é a autoridade e é ainda o esclarecimento da ação a ser executada. virá para me preencher com aquilo que dará fim às minhas dores e a meu sofrimento?". O que fazem as aves no ninho. Não consigo me lembrar de nada que tenha a mesma qualidade revolucionária que o choro de um recém-nascido. quando estamos com nossos amigos.reúnemse para produzir determinados temperamentos. antes mesmo de nascerem. Onde ela poderia estar? Quando sou apenas meu próprio sofrimento.9 perfeito. o verdadeiro professor quando eu puder com honestidade ser cada momento de minha vida. o recém-nascido parece aberto e não-condicionado. apesar de seus esforços incessantes." Se entendemos cada momento da vida como o professor. então. encha-me com esses maravilhosos ensinamentos. Existe uma última ilusãozinha: todos nós corremos o risco de querer brincar com ela no tocante à questão da autoridade. ninguém. então quem é? Já mencionamos antes. Quando vamos trabalhar. as tremendas diferenças que existem entre os bebês. minhas próprias idéias do que é a prática zen" -estamos todos repletos dessas bobagens. Se eu tentar ser minha própria autoridade (neste sentido restrito). orem sempre. Todas as linhagens genéticas. Esses ambientes estão muito bagunçados quase o tempo todo. quando filhotes? Ficam de boca aberta para cima e esperam ser alimentadas. qualquer coisa. Porém. No entanto. monótona. solitária e depressiva. até termos sofrido e estarmos dispostos a aprender com o sofrimento). Esse é um ensinamento muito radical que não cabe a todo mundo. para interrompê-lo. não podemos nos impedir de fazê-lo. está lá. se eu fosse encará-la (ver a vida como ela é). se eu não sou autoridade nem você não é autoridade. Durante suas primeiras semanas de vida. serei tão escrava quanto se deixar que outra pessoa o seja. não precisamos nem usar o termo "zen". o que estou pensando e sentindo -então essa experiência se torna "só isso". a vida nem sempre é agradável. minha própria autoridade. mas se não ficar muito bem entendido. "Pratiquem sempre o zazen. para a discussão que propomos. Para os adultos. não há espaço para uma influência ou uma autoridade externa. está lá. E evidente a qualquer mãe com o feto em seu ventre. Nossa vida está sempre aqui! Porém. Essa é a prática zen. A grande novidade é que mamãe e papai já estão aqui! Onde estão? Exatamente aqui. Lembro-me de 9 . muito obrigado.

em outras palavras. Felizmente. Mesmo quando repetido com freqüência. Essa pessoa. não faz muita diferença. Revejo minhas noções de pessoa e de mundo. "não há espelho onde se mirar. apoderou-se de meu brinquedo favorito. O que é sem dúvida verdade é que nós todos somos constantemente condicionados e. todos começamos atentar nos proteger das ameaçadoras ocorrências que nos atingem com regularidade. sob a influência desses incidentes. Estamos todos familiarizados com o processo de condicionamento: imaginemos que. O que difere é minha decisão cega de agora ter de corresponder a essa imagem contraída de mim mesma para poder sobreviver . Poderíamos dizer então que o condicionamento é o problema? Não. Depois de termos sido ameaçados em nossa abertura e disponibilidade. para nós o paradoxo é que temos de praticar com o verso que não foi aceito. o espelho poderia brilhar (estaríamos purificados). embora. o condicionamento se esvai com o tempo. forte. Meu verdadeiro self. Pensei que eu era uma mãe nova muito esperta. quando tinha seis semanas. então. Fiquei apavorada e condicionada. o ponto de estrangulamento do medo fica iluminado. mas pela decisão a meu respeito. removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios.. começamos a nos contrair. e que contrações corporais exteriores. e defino uma nova imagem de mim mesma. de 5 anos e cabelos ruivos. Desde muito cedo. e outro. e. hoje. Diante do medo que nos causam. Nessa altura vêm-me à mente dois famosos versos sobre um espelho (um de autoria de um monge que era especialista no Quinto Patriarca..10 deixar meu filho mais velho cair de cabeça. sou tão condicionado pelo medo. toda vez que uma pessoa ruiva passa pela minha vida fico inquieta por nenhum motivo aparente. minhas falsas identificações com um self limitado (a decisão) aos poucos desaparecem . quando eu era bem pequena. de rebeldia ou de recolhimento. e não há onde o pó se apegar. O ponto de estrangulamento do medo não é causado pelo condicionamento. armazenando-a em cada célula de nosso corpo. Esses versos foram compostos de tal modo que o Quinto Patriarca deveria julgar se seu autor teria ou não alcançado a verdadeira realização. alguém que fala: "Se você soubesse o que minha vida tem sido. pois observo que esse ponto é uma ilusão. a rapidez dessa contração aumenta. Um não-self. o processo realmente torna-se mais veloz. O verso do monge (aquele que não foi aceito pelo Quinto Patriarca como a verdade) afirmava que a prática consistia em polir o espelho. mas ele estava ensaboado e. tomada com base naquele condicionamento. independente de essa imagem ser de conivência. Por essa razão. de um anônimo que acabaria se tornando o Sexto Patriarca). hoje. precisamos de fato tomar consciência de nossos pensamentos 10 .não está captando o cerne do problema. desertado e esquecido há tanto tempo. não é de espantar que eu esteja nessa bagunça. Conforme nossa inteligência aumenta. tenho exatamente. Assim que aprendemos a falar. um menino grande. decidimos que nosso ser mais autêntico é a contração do medo. O que de fato necessito é saber que espécies de pensamentos insisto em alimentar neste presente momento. como essa decisão é composta por pensamentos e reflete-se em contração corporal. revemos devagar nossas concepções a respeito de quem somos. o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro. como (através da memória) relacionamos cada nova ameaça a todas as anteriores e o processo forma-se de modo acumulativo.. Hoje. O outro verso (que revelou ao Quinto Patriarca o profundo entendimento do homem que seria escolhido como seu sucessor) afirmava que. embora ele possa ser útil. Ao atentar para os pensamentos e ao experimentar as contrações corporais (fazendo o zazen). Então. não há espelho a ser polido. não tem jeito". não exatamente. Ao fazer isso. precisamos mesmo polir o espelho. uma resposta aberta e disponível à vida. A natureza aberta e espaçosa do início da vida vai se estreitando num funil dentro do gargalo do medo.". Não necessito forçosamente de um conhecimento intelectual do que foi meu condicionamento. ela pode ser minha mestra quando me experimento neste exato momento. pode funcionar agora. não só tentamos manipular a ameaça.. desde o princípio.Posso ser cada vez quem sou de verdade.

Assim.. onde é praticado o zazen. tal prática não tem sentido". o ponto de estrangulamento do medo é uma ilusão. O que vocês pensam? * Nota do Editor: Shikan-taza é uma modalidade do zazen. até que possamos sentir em nossas vísceras a verdade de nossa vida. nada era necessário. os diálogos e sermões pronunciados por Shakyamuni Buda. ****Nota do Editor: Samadhi é um termo que tem vários significados. Nossa vida sempre está aberta.. porém. já desde o início. Entretanto. Implica um estado elevado de conscientização. a questão é: temos bastantes escolhas? Ou morremos -porque se permanecermos muito tempo entalados no ponto de estrangulamento do medo seremos estrangulados até a morte -ou lentamente conquistamos uma certa compreensão vivenciando o ponto e atravessando-o. Mas não podemos e não queremos saber disso até termos polido infatigavelmente o espelho que não existe.11 e atos. Seu verdadeiro princípio é a fé inabalável de sentar como Buda sentou. Apenas agindo assim é que chegaremos a perceber que. uma visão otimista da prática. É. quando isso acontece. que um dia culminará na percepção momentânea e direta da verdadeira natureza dessa MENTE. Não creio que tenhamos tantas escolhas assim. embora haja ocasiões em que ela se tornará desestimulante e difícil. desde o princípio. mas também um estado passivo de intensa concentração. não há nada que precise ser feito. crenças e pontos de vista. com a mente vazia de todos os conceitos. É preciso ressaltar que os sutras são as escrituras do Budismo. construído à parte. não nos iludamos sobre quanta prática sincera devemos realizar antes de vermos tudo com a mesma clareza com que enxergamos nosso próprio nariz. na iluminação. disponível e útil. no qual a pessoa não está nem tensa nem apressada. Se você enxergar com suficiente clareza. podemos enxergar que. ** Nota do Editor: Sutra do Diamante foi elaborado no século IV por Mahayana e é considerado uma das obras mais profundas e magistrais da literatura budista. É preciso de fato praticar. temos de nos conscientizar de nossas falsas reações à vida. porém nós não vemos com suficiente nitidez e. sem dúvida. O que lhes estou apresentando é. uma prática na qual a mente está muito envolvida em apenas sentar. criamos um caos deslumbrado para nós e para os outros. Contudo. Nenhuma prática (polir) é necessária. Às vezes. precisamos na realidade polir o espelho. em outras palavras. as pessoas dizem: "Bem. **** Nota do Editor: Zendo é uma sala ou um enorme salão nos grandes templos ou Centros zen. tranqüilidade e centração. no zen implica não apenas equilíbrio. Outra vez. isto é. 11 . É óbvio que não temos de nos esforçar para nos libertar dela. de completa absorção da mente em si mesma e de grande e elevado conhecimento.

a busca da saúde perfeita não é o caminho. embora. A luta para ser bom não é a prática. A prática não envolve salientar todas as espécies de "boas" qualidades e livrar-se das supostas "más". pelo menos não como esta palavra costuma ser entendida e empregada. ou aquilo a que ela se refere. haverá um efeito benéfico na saúde da maioria das pessoas. A prática não é para ter sentimentos agradáveis. talvez elas aconteçam mesmo. Essas aptidões são pequenas excentricidades e. qualquer um na prática pode estar mobilizado por uma ou outra dessas ilusões. embora durante a prática possam escoar meses ou mesmo anos de desastres com a saúde. Portanto. é algo maravilhoso. nossa tendência é nos tornarmos assim após muitos anos de prática. amenos que tenhamos clara nossa não-intenção de ser "espirituais". Se praticarmos com inteligência. novamente. A prática não é para conhecer intelectualmente a natureza física da realidade. não estou questionando isto que. A prática não é atingir algum estado de graça. Em primeiro lugar. A prática não é ter ou cultivar poderes especiais. Poderíamos. A prática não quer dizer ser "espiritual". Não é ver luzes brancas (ou róseas ou azuladas). aliás. E. Algumas pessoas os têm numa proporção extraordinária. chegar a algum lugar! Essa é em si uma falácia básica. a mudança psicológica será causada. Pode até haver uma certa clareza relativa a respeito de algumas questões. esse não é o caminho. o jôriki é uma decorrência natural do zazen. Ela não é para ser coisa alguma. insisto. às vezes. Sentar costuma produzir resultados benéficos na saúde de muitas pessoas. O produto ou a finalidade da prática. Não é uma tentativa de ser ou de sentir qualquer coisa especial. nossa tendência é ter algum conhecimento desses assuntos. se sentarmos durante tempo suficiente. Não é ter visões. Todos esperamos mudar. saber do que consiste o universo. repetindo. Outra vez. Porém isto não é a prática. a força que é desenvolvida após anos de prática do sentar. eu não ia. Na realidade. Não há qualquer garantia nesse sentido! A prática não significa alcançar um estado de onisciência no qual a pessoa conhece tudo de tudo. Há muitos deles. Mais uma vez.12 CAPÍTULO 2 Prática O que a prática não é Muitas pessoas praticam e têm sólidas concepções do que a prática é. não é ser/estar sempre calmo ou controlado. Esse tipo de treino é uma forma sutil de atletismo. Se era alguma coisa que eu não apreciava. Mais uma vez. Todas essas coisas podem ocorrer e. O que desejo expor (de meu ponto de vista) é o que a prática não é. Ninguém é "bom" ou "mau". de modo quase incessante. continuar relacionando aspectos do que a prática não é. em vez de mal. essa meta pode tornar-se sedutora e prejudicial. felizes. não constituem a verdadeira prática. ou como funciona. Mas isso não é a prática. sem sombra de dúvida. eu tinha a útil capacidade de ver aquilo que estava sendo servido como jantar a duas portas de distância. no entanto essa não é a questão. estado em que a pessoa é uma autoridade a respeito de todo e qualquer problema secular. com o tempo. E. Porém. a onisciência não é a questão. e todos nós já os possuímos. mas as pessoas esclarecidas também são conhecidas por dizer e fazer tolices. ela não diz respeito a causar mudanças psicológicas. No ZCLA. numa prática séria. naturalmente. de proteção total contra qualquer tipo de doença grave. A prática não implica poder pessoal ou jôriki. Estou dizendo que a prática não é efetuada com o objetivo de originar tal alteração. Outra vez repito. o mero contemplar desse desejo começa a esclarecê-lo e 12 . A prática não se relaciona a algum estado corporal de saúde absoluta. Não é para se sentir bem.

antes de nos darmos conta. Nossa primeira reação é tentar segurar a respiração. Ficamos o tempo todo olhando para fora. Se um avião passar. em geral. porque aquilo que nos propomos a ver não somos nós e. entretanto. é muito difícil sentir o que somos em nossa vida. não fechamos os olhos. tudo o mais. Agora podem abrir os olhos. exceto que. de "chegar a algum lugar". de ser perfeito. apenas senti-la. No alto do peito. queremos pensar. o peito. pode parecer tensa. Apenas sinta como está. sim. exatamente. na barriga. da televisão. com seu praticante. uma pressão no lado. Estará tenso em algum lugar? Em torno da boca. Não diz respeito a alguma atividade.. muitas pessoas falam. do cachorro que precisa passear. decorrido um minuto. Não tentem controlá-la. a fonte de nosso sofrimento. no meio. Se conseguirem ficar fazendo isso durante três minutos. de tornar-se espiritual. temos uma chance -que é. Deixe que aconteça naturalmente. Sintam tudo isso. conhecer? E o que é a prática? O que a prática é A prática é muito simples. ouçam-no. positivamente é tudo o que vocês têm de fazer: experimentar isso e apenas ficar com essa experiência. Sentar é essencialmente um espaço simplificado. ilusões e ambições (de chegar a algum lugar. sim. na meditação. "Estamos em busca da iluminação. para aqueles que a nosso ver foram os responsáveis. Se acreditarem que já estão além disso. não pretendo que nos comprometamos numa auto-análise. os ombros. Não.. a oportunidade de dar uma boa olhada em nós mesmos fica muito reduzida. ficamos apenas sentados ali. Que seja! É o que vocês têm de fazer. o filho. o patrão. Se nosso barco cheio de esperanças. para o que olhamos? Olhamos para o que saiu errado e. Começamos a compreender que nosso desejo frenético de ser melhor. quando deixamos os elementos externos de lado e nos retiramos do alcance do toque do telefone. as coxas. o medo permanente. Continuem sentindo tudo que encontrarem. praticamos zazen. Agora. começamos a pensar. não?" Nosso interesse pela realidade é extremamente pequeno. Se um carro passa lá fora.. Quando simplificamos a situação. de alcançar a iluminação) vira de ponta-cabeça. das pessoas que nos visitam. podemos perceber. Queremos entender qual é o sentido da vida. não significa que não irá transformar por completo nossa vida. ou a consertar ou a conseguir algo. a coisa mais valiosa que existe -de ficar de frente para nós mesmos. O que significa "apenas sentados ali"? Essa é a mais exigente de todas as atividades. o que é este barco vazio? Quem somos nós? O que. "Você quer dizer que zazen é só isso?" Não gostamos dele. observem-no. teremos esquecido por completo deste momento e teremos divagado em pensamentos sobre as coisas: o namorado. muitos acontecimentos ocorrem. ou praticamos o zazen. Em meio a tudo isso. Se não simplificamos a situação. Quando menciono que a meditação diz respeito a quem a pratica. gostaria que fechassem os olhos e ficassem apenas sentados. é um milagre. Uma fisgada mínima no ombro esquerdo.13 a prática essencial de nossa vida se altera conforme a executamos. Não é isso também. Neste momento. e não para nós. as costas.. fácil). somente sintam-no. A meditação não está relacionada com algum estado e. Sintam-no. O normal é que. Então fazemos o quê? Depois de termos assumido nossa melhor postura (que deveria ser equilibrada. Se algo dá errado. Queremos nos afligir com todas as nossas preocupações. Nossa vida diária está em constante movimento: acontecem muitas coisas. Agora sintam a respiração entrando e saindo. Quero rever o que fazemos quando sentamos. Observem o pescoço. Percebam o rosto por um momento. Assim. Talvez ouçam o barulho cíclico do motor da geladeira. na testa? Vamos descer um pouco mais. Por via de regra. Nosso interesse em apenas acompanhar a realidade (que é o que acabamos de fazer) é muito reduzido. O que está acontecendo? Toda espécie de coisas. e por aí afora! Nada há de vergonhoso nesse fantasiar. podem pensar que estão além. 13 . a região abdominal. Refere-se a nós. bem. Isso. em termos de nossas vidas. é a ilusão em si. porém. os braços. a namorada.

Isto não é uma crítica. "O que acontecerá? 0 que faço?" A mente começa a ficar cada vez mais rápida com a preocupação. ficamos sabendo a nosso respeito algo que antes desconhecíamos. Quando estamos perdidos em nossos pensamentos. quando nos identificamos com eles. o que estamos fazendo com ela. Essa é uma descrição teórica do sentar. Quando praticamos dessa maneira. cedo ou tarde. mas um rótulo específico. Com uma prática regular. É terrível!". muitas vezes seguidas. Temos de planejar. porém. nossa alergia seguinte. Estamos tentando nos livrar de nossas dificuldades atuais. o que deveríamos fazer quando os pensamentos aparecem? Deveríamos rotulá-los. Sejam específicos. o que perdemos? A realidade. 14 . Enquanto não os rotularmos durante quatro ou cinco anos. Se percebemos que determinados pensamentos reaparecem centenas de vezes. Talvez nosso pensamento incessante refira-se ao passado ou ao futuro. Assim. É como se dissesse: "Se você não tomar conta da situação. Algumas pessoas estão sempre pensando sobre acontecimentos. Em algumas. nossa vida se transforma. Por quê? Claro que vocês sabem a resposta. inclusive eu. eles virão. Viramos a situação do avesso de todos os jeitos. Tudo aquilo de que não formos conscientes frutificará em nossa vida. Fazemos porque estamos tentando nos proteger. fazemos dez mil vezes. Suponhamos que você trabalha numa companhia de aviação. acabaremos em muitos casos ficando doentes ou mentalmente deprimidos. Mas se insistirem em localizar pensamentos isolados. Há quem pense sempre a respeito de si mesmo. não é porque apenas planejamos. Nossa vida nos escapou. enquanto outras pensam em pessoas. ou pelo menos entendê-las. Não há nada de complicado nela. A mente que não está consciente de si produzirá enfermidades. os pensamentos são quase só julgamentos a respeito dos outros. Se os pensamentos estiverem vindo em avalanche. Coloquem rótulos específicos: não só "pensamento. Quando eles se acalmam. Você pensa com seus botões: "Vou perder meu emprego. a saber como nossa vida funciona. Porém. Consideramos agora uma situação da vida cotidiana. não conheço quem nunca adoeça. Se permitirmos que isso aconteça durante um certo tempo. mas porque ficamos obcecados. de um jeito ou de outro. "Estou pensando que ele é muito injusto comigo". o que acontece com eles? Eles começam a aquietar-se. creio que eu terei de fazê-lo". Não há como deixar de enfatizar que não fazemos isso apenas duas ou três vezes. Quando damos rótulos precisos e meticulosos a nossos pensamentos. nossa visão da realidade fica bloqueada. pensamento" ou "preocupação. Por exemplo: "Estou pensando que ela é muito mandona". podemos retornar à experiência do corpo e da respiração.14 quando estamos imersos nele. então simplesmente rotulem essa confusão nebulosa de "confusão". É muito simples. Isso é o que os seres humanos fazem. Quando o desejo de nos preocupar é forte. Não é preciso que nos obriguemos a livrar-nos deles. Toda agitação emocional é causada pela mente. o que ocorre em seguida? Os pensamentos produzem uma emoção e ficamos mais agitados ainda. quando estamos sonhando. Se não soubermos o que significa fazer uma prática com nossos pensamentos de preocupação. Assim. O que acontece então? Sua mente começa a remoer o problema sem parar. nossa próxima úlcera. perdemos alguma outra coisa. numa velocidade tão grande que vocês não sintam mais nada senão confusão. passamos a nos conhecer. e lhe contam que o contrato com o governo está terminando e é provável que não seja renovado. Com isso. apenas o fazemos menos. Ele nos ajudará a sair dessa. o corpo o fará. Se a mente não se incumbir da situação com discernimento. Não há nada de errado em nossos pensamentos autocentrados. não nos conheceremos bem. Não fazemos isso só uma parte do tempo: fazemos a maior parte do tempo. preocupação". exceto que. "Estou pensando que nunca faço as coisas certas". produzimos nosso próximo resfriado. seja qual for nosso estilo. Vou ficar sem rendimentos e tenho uma família para sustentar. criamos dificuldades. Claro que não há nada de errado em planejar com antecedência. quando ficamos aborrecidos.

e. as coisas que dão errado em nossa vida são de dois tipos. somente ficar ali. Se tivéssemos medo de ficar na água e não soubéssemos nadar. mas não podemos nunca confiar cegamente neles porque uma outra pessoa (assim como nós) é sempre não-confiável até certo ponto. A prática. Podemos amar nosso marido. criamos o "eu" (como diria Krishnamurti). Nosso entendimento aumenta com o tempo. a vida como é poderia ser exatamente o inverso do que eu desejo. Eis por que rotulamos os pensamentos. se casarmos. Falar a esse respeito parece. ou fazer um curso de especialização. embora. É provável que sim. Posso me apoiar na vida como ela é. Não é uma questão de sermos bons ou maus. perguntei a alguém que me respondeu: "Em mim". é simplesmente ser quem somos a cada momento. a primeira vitória seria apenas mergulhar. o desafio poderia ser conseguir bater a mão na água numa determinada inclinação. no ano que vem. Um são os fatos que acontecem fora de nós e o outro são os que acontecem dentro. Mas. minha vida mudará. a qualquer momento. Não sabemos se iremos ou não casar com aquele alguém. porém é inevitavelmente limitada. Se fôssemos ótimos nadadores. Vamos falar em termos mais concretos. Pode ser que consigamos ser especialistas ou não. Rotulamos todos os pensamentos que acontecem à volta deles e os vivenciamos em nosso corpo. porque eu o tive. em qualquer estágio. será sempre do que jeito que é. Não podemos contar com coisa alguma. Existe uma coisa na vida em que sempre podemos confiar: na vida tal como é. Isso também está perfeito. desfazendo o investimento. somos perfeitos em ser do jeito que somos. ela começa a transformar-se. que só significa experimentar a vida como ela é. O processo é o próprio pensar . depois das palestras. O próximo passo poderia ser molhar o rosto. então. cada qual em sua etapa do caminho. Então. É ótimo ficar sentado com essa compostura. Imagine que existe uma coisa que eu quero muito: talvez casar com uma certa pessoa. tomando consciência de tudo que entra em nossa vida (interna e externa). sem dúvida. Quando fazemos um investimento pessoal em nossos . quando praticamos desta forma. Ambas são a nossa prática e trabalhamos com elas do mesmo modo. Em que. Porém. Se você é novato na prática. Conheço algumas pessoas que conseguem uma boa parte do tempo. às vezes. conseguimos inclusive viver num estado de iluminação. em quê? Em que podemos confiar na vida? . Depois de termos ficado sentados por tempo suficiente. posso confiar que. Entretanto. Isso significa que um é melhor do que o outro? Não. contudo. Qual é? Podemos dizer: "Confio em meu companheiro". Ambos são perfeitos. Você pode confiar em si mesmo? A autoconfiança é uma boa coisa. melhores ou piores. de fato. Não conheço ninguém que possa fazê-lo o tempo todo.15 Do ponto de vista humano. como as doenças físicas. mas não podemos contar com isso. estará diferente. ou ter um filho saudável e feliz. Será que dá para confiar na vida tal qual ela se apresenta? Você consegue ser assim? Confiar que as coisas são como são é o segredo da vida. não queremos saber de nada disso. fácil. podemos confiar? Se não é em uma pessoa. Quem sabe. Se eu tiver um ataque cardíaco amanhã. podemos notar nossos pensamentos apenas como 15 . Começamos a aprender que só existe uma coisa na vida em que podemos confiar. no entanto. Posso confiar absolutamente que. aquela pessoa ideal morra amanhã. Não é nenhum mistério. No entanto. por que não conseguimos confiar nesse fato? O que é tão difícil a esse respeito? Por que estamos sempre incomodados? Suponha que sua casa tenha acabado de ser destruída por um terremoto e você está quase perdendo um braço e todas as suas economias. fazê-lo é terrivelmente difícil. é importante saber que ficar apenas sentado na almofada durante quinze minutos já é uma vitória. A vida será sempre do jeito que é. eu o tenho. a cada braçada. então nossa vida começa a não funcionar. Às vezes. possamos amá-la e desfrutar sua companhia. as pessoas comentam: "Não entendi isso". Aumentamos nossa força e nosso discernimento.pensamentos. nossa esposa. Não há uma pessoa na face da Terra em quem possamos confiar por completo.

a partir destas. tememos ver os pensamentos tais como são. nunca houve um "eu". onde os invernos são pesados. Não é de fato pensar. é uma aberração do pensar. carvão duro. O zen refere-se a uma vida ativa. Por essa razão. os obstáculos que nos impedem de ver a vida como ela é. Mas não necessitamos dessa atividade emocionalmente autocentrada a que chamamos pensar. envolvida. e a partir deles criamos as emoções autocentradas e. seremos capazes de ver o que precisa ser feito. Podemos nos ver atravessando os estágios preliminares a este: primeiro sentimos que nossos pensamentos são reais. porque envolvem um "eu". enfim. têm alicerces precários. Mais uma vez. é só uma criação de pensamentos autocentrados. Quando 16 . quando eu devia estar com mais ou menos oito ou dez anos e vivia em Nova Jersey. Imaginemos que há o programa chamado "Não tenho autoconfiança". Este "eu" é uma invenção muito frágil -aliás. notando que são vazios. sem realidade. Praticar o zen nunca é tão fácil quanto falar sobre ele. O fogo da atenção Por volta da década de 20. A prática não se refere a entender com a mente. hulha gorda. em geral. quando sentamos bem. tínhamos um fogareiro em casa que funcionava a carvão. quero dizer que não tem uma realidade básica. No entanto. nossos ossos. Na realidade. Depois de enxergarmos com clareza os sistemas de pensamento. deixando pouca cinza. Pode ser que tenhamos aquilo que pensamos ser uma melhor programação. porque. é a próxima coisa que temos logo à frente. Até mesmo os estudantes que têm um certo entendimento do que estão fazendo. retrocedemos e nos desapegamos da identificação. com o fragmento impessoal de energia. mas o propósito do sentar é não ser conduzido por nenhum programa. Claro que temos de ter pensamentos orientados para a vida. ao qual não precisamos ficar apegados. Há uma enorme diferença entre dizer: "Ela é impossível" e "Estou pensando que ela é impossível". é importante sentar com um grande e meticuloso cuidado. Quando rotulamos o pensamento. nós mesmos. se estamos praticando o sentar há cinco ou vinte anos. às vezes. Quando falo que é vazio. o revestimento emocional começa a dissolver-se e ficamos. Se agirmos a partir deles.16 input sensorial. quando o caminhão de entrega parava e tudo aquilo se despejava pela porta basculante para dentro do reservatório apropriado. O segundo deixa muita cinza. acreditamos que nossos pensamentos são reais. as ações têm de estar baseadas na realidade. consertar um equipamento. não com um fazer nada passivo. a prática é o trabalho com este processo até que o tenhamos impregnado em nossos ossos. planejar as férias. Quando se baseiam em falsos sistemas de pensamento (fundamentados em nosso condicionamento). O zen tem que ver com uma vida de ações. porém. Quando conhecemos bem nossas mentes e as emoções que nosso pensamento cria. Era um grande acontecimento no quarteirão. irreal -e é com facilidade enganado. Aprendi que havia dois tipos de carvão que apareciam no reservatório: o antracito. uma ilusão. Entretanto. ou estamos apenas no começo. Meu pai me ensinou a diferença na combustão dos dois tipos. nossa vida ficará uma confusão. Ela tem de ser nossa carne. Um pensamento em si é só input sensorial. nossa conduta se fundamentará neles. não conseguimos enxergar as pessoas e as situações com clareza. um fragmento de energia. Suponhamos que decidimos reprogramá-lo para "Tenho autoconfiança". Apesar disso. Se persistirmos na prática de rotular qualquer pensamento. temos a possibilidade de ver melhor o que é a nossa vida e o que precisa ser feito. O que estamos fazendo não é nossa reprogramação. costumam se afastar da prática básica. tudo o mais se incumbe de si mesmo. como seguir uma receita. A reprogramação é só saltar de um caldeirão para outro. é nossa libertação de todos os programas. se estamos contidos pelas emoções autocentradas. O que importa é enxergar que é vazio. que é diferente de dissolvê-lo. Nenhum dos dois conseguirá se sair muito bem frente às pressões da vida. O primeiro queima de forma limpa. no porão. Se. e a lignita.

O fogareiro funciona melhor com o antracito. Quando for hora de nos vestir. infelizmente. Temos muitas opiniões e julgamentos emocionais a respeito das coisas. eliminar aquilo que impede uma pessoa –ou um fogareiro -de funcionar no melhor de sua capacidade. logo que iniciamos nosso dia de trabalho. terá conseguido tudo. Abafar o fogo quer dizer cobri-lo com uma fina camada de carvão e depois fechar a passagem de oxigênio para o fogareiro. Porém. Então. Todos já ouviram falar dele. pelo contrário. "Purificar a mente" não implica que você se torne santo ou uma outra pessoa que você não é. descobrimos que não estamos absolutamente calmos. aí. Chama-se atenção. é uma sala de queima e combustão de nossas desilusões egoístas. ou lidamos com nosso supervisor é. mas.17 queimávamos lignita. O que não quer dizer sermos pessoas frias. coloquemos as roupas. Mas. Por isso. Porém. "Libertamo-nos do pensamento conceitual" quando. de manhã. no qual ficamos prestando atenção naquilo que se passa em nosso corpo e em nossa mente. o porão ficava coberto de fuligem e parte dessa poeira subia a escada e entrava pela sala de visitas. Eido Roshi certa vez revelou: "Este zendo não é um céu de beatitude e. podemos permanecer indiferentes e fundamentalmente frios em relação a eles. significa que não somos tragados nem presos pelas malhas das circunstâncias. estamos repletos de hulha gorda. o fogo precisa ser atiçado e a passagem de oxigênio abeta. chamado de purificação da mente. Esta é uma analogia comum. Precisamos de um período diário adequado para o zazen. nossa prática. O zendo não é um lugar para estados de graça e relaxamento. jamais se realizarão” (4). Ninguém está muito disposto a empregá-la. Ao praticar o sentar. O mestre Rinzai disse: "Não podemos resolver o carma passado exceto em nossa relação com as circunstâncias. quanto mais o absorvemos. No entanto. reconhecemos a irrealidade de nossos pensamentos autocentrados. Um dos grandes mestres chineses. encontrada também em outras religiões. mais aumentará nossa capacidade de prestar atenção à realidade. Durante a noite. comentou: "Se você conseguir libertar-se apenas do pensamento conceitual. Se de fato conseguíssemos queimar nossos apegos até o fim. nossa prática é fazer isso. Sentar-se do começo ao fim de um sesshin é estar no meio de um fogo de refinaria. O que tudo isso tem em comum com nossa prática? Esta refere-se à ruptura de nossa identificação exclusiva com nós mesmos. Desta maneira. Este processo é. não haveria necessidade de praticar o sentar. se vocês. mesmo que se esforcem anos a fio. A maioria não é bem assim. Se não praticamos o sentar com regularidade. Toda prática tem por meta aumentar nossa capacidade de prestar atenção. Que instrumentos precisamos utilizar? Só um. mediante uma observação persistente. Não tenha um único 17 . Quando for para darmos uma volta a pé. Na Bíblia. sim. Não somos de modo algum "indiferentes e fundamentalmente frios" diante do que acontece. Minha mãe costumava falar alguma coisa sobre isso. mediante o emprego do fogo da atenção. eu me lembro. Significa. e nossos sentimentos são magoados com facilidade. percebemos que nosso processo de pensamentos conceituais é uma fantasia. mas empregam-no muito pouco. Huang Po. uma fornalha para a combustão de nossas desilusões egoístas". não se libertarem do pensamento conceitual num instante. e nossa prática refere-se a usá-la tanto quanto pudermos. então não conseguimos compreender como a maneira pela qual lavamos nosso carro. quando o fazemos -mesmo que seja por poucos minutos -acontecem um certo cortar e um certo queimar. não só no zazen como em todos os instantes de nossa vida. absolutamente. de modo que o fogo permanece em estado de lenta combustão. À noite meu pai abafava o fogo e eu também aprendi a fazê-lo. não creio que exista alguém capaz disso. a casa fica fria e. o fogareiro consegue aquecer a casa. Não creio que exista alguém aqui a quem isso seja inteiramente verdadeiro. aprendizes do Caminho. há um ditado: "Ele é como o fogo de uma refinaria". sim. e. de tal sorte que nossa vida possa ficar indiferente e fundamentalmente fria perante as circunstâncias externas. caminhemos. é muito importante lembrar que o principal propósito da prática do sesshin é essa combustão para eliminar os pensamentos. às vezes. A atenção é a espada afiada e escaldante.

e nossas ações transpiram essa qualidade. o entendimento do processo de combustão fica tão obscurecido e indistinto que o fogo se mantém abafado. Quando esquentar o suficiente. o que tentamos fazer? Sentamo-nos. O presente vivo -o estado de Buda . com o amante ou parceiro. tentamos entender o que aconteceu. No entanto.. este estado é o modo como você resolve a situação com seu chefe ou seu filho. remoemos a coisa toda. tal como a encontramos. Os sesshins também são essenciais para os praticantes sérios. não compreenderemos isso. dar uma volta a pé. quando a mente se aquieta. Nesse momento. desejos. não haverá eu. Mesmo dez minutos de zazen é melhor do que não fazer nada.. senão. Queremos entender tudo. Somos incapazes de queimar até o fim cada circunstância. Ou nosso filho está com dificuldade na escola. imaginemos que estamos procurando um emprego. qual é a diferença entre a hulha gorda e o antracito? Se não há um pouco de compreensão dessa diferença. Queremos especular. A verdade não é uma outra coisa qualquer .raramente é encontrado. toda a transformação ensejada pelo sentar é de ordem física. A razão para isso é sempre nosso apego emocional à circunstância. Essa fuligem não nos suja apenas. Porém. Bulha gorda significa apenas que a combustão em nossa vida não está limpa.Contudo. Queremos fantasiar. então. o fogo estará consumindo tudo. dessa espécie de chama. não haverá nada para ser consumido. e a ação fluirá daí. E quando fazemos tudo isso. Em vez de tentarmos resolver na mente que espécie de ação executar. A respiração. então. suja tudo o que estiver em volta. A centelha criativa de todo trabalho de arte origina-se. talvez seu patrão lhe peça para fazer algo que não é razoável. A combustão está tão obstruída que nada além de fuligem grossa pode resultar. destas chamas provirão o verdadeiro pensamento e a capacidade de tomar decisões adequadas. imaginamos por que adoecemos física e mentalmente. Certa vez alguém me perguntou: "Joko. o que faz? Aumenta a entrada de ar. teremos perdido as horas que passamos no sesshin. e não há separação entre eu e o outro. ou seja lá quem for. na realidade. Não gostamos de pensar a nosso respeito como seres apenas físicos. porque. porém o único trabalho que conseguimos encontrar é algo de que não gostamos. e você quer obter chamas brilhantes e vivas. então. o fogo está abafado. Depois. quando de fato o fogo pegar. A maior parte desta platéia está em busca do estado de Buda. Não há tempo ou lugar especiais para a grande iluminação. você acha que algum dia encontrará o grande e último estágio da iluminação?". Nossa combustão produzirá uma chama mais clara e limpa. Quando o fogo do fogareiro é trabalhado. Respondi: "Espero que um pensamento como esse nunca me ocorra". Queremos pensar. Observamos nossos pensamentos emocionais: "É. que não são o verdadeiro pensar. do mesmo modo. não está recebendo nenhum oxigênio. Temos de praticar todo dia. e. e tentamos encontrar o modo correto de agir a partir desse nevoeiro. opiniões. A 18 . não consigo suportar aquela mulher! Ela é terrível!". O que de fato resolve é prestar atenção a nossas aberrações mentais. porque a observamos em vez de ficarmos perdidos dentro dela. se aprofunda e. Nossa vida é sempre absoluta: isto é tudo que existe.18 pensamento em sua cabeça a respeito de buscar o estado do Buda” (5). vestir-se. Mas. A mente aquieta-se. precisamos apenas purificar nossos alicerces. Somos também como o fogo. Como o mestre Huang Po costumava dizer: "De forma alguma faça distinção entre o Absoluto e o mundo do sensível"(6). Quando alguma coisa dá errada em nossa vida. Não é nada além de estacionar o carro. Não é algo milagroso que ocorre em nossa cabeça. conforme mente e corpo se aquietam e o fogo queima com mais resplandecência e clareza. Então. se o que estamos queimando é hulha gorda. Quando queimamos hulha gorda estamos usando de maneira equivocada nossas mentes. Por isso. Para lidar com tudo isso. temos mentes que ficam tentando queimar o passado ou o futuro. ficam bloqueadas por fantasias. Por exemplo. é importante sentar todo dia. Queremos conhecer os segredos do universo. podemos respirar mais fundo: a entrada de oxigênio aumenta. qual é a diferença entre a combustão de um antracito e a de uma hulha gorda? Ou. Não adianta nada. A única coisa que fazemos é prestar atenção. especulações e análises. fazemos hipóteses a respeito.

e. e.19 prática diária do sentar pode manter em combustão constante um fogo de baixa intensidade. no entanto. por um. prossigamos só com o sesshin. O último estado que citei é tão restrito. tudo corre bem. Ou talvez tenham existido uns poucos na história de toda a humanidade. para os poucos que já conseguem suportar essa pressão. O esforço para viver experiências de iluminação Uma de minhas citações favoritas do Shoyo Roku diz o seguinte: "Da árvore fenecida brota uma flor". vejamos o que poderia ser o processo de tornar-se Buda. o universo parece um pinguinho de luz. Você e eu não podemos dizer de verdade que isso se aplica a tudo. não chega a fazê-lo incandescer ao máximo. E 19 . Depois de cessadas toda necessidade e toda compreensão humanas. Façamos nossa prática corretamente. desta forma. Quando ficamos remoendo nossas desgraças prediletas. A maioria das pessoas encontra-se em um dos estágios que levam a esse estado. em geral. O máximo que podemos fazer é ampliar nossa capacidade para fazê-lo. que temos um corpo. Esse é seu enredo. Observe-se quando estiver preso a um sentimento de autopiedade. isso é o que se poderia chamar de integração mente/corpo. mas. Um Buda seria. berreiros. que qualquer avanço além do perímetro conhecido é causa de temor. Entretanto. tédio. Gostamos de nos queixar. e que são boas moças e bons rapazes. não existiriam limites. Pessoalmente. Portanto. Não há nada que você não confrontará antes de aceitá-lo do começo ao fim: ira. sim. "Mas não é mesmo horrível! Estou tão só! Ninguém me ama!" Temos muito carinho por nossa hulha gorda. a pessoa pode enlouquecer e. duvido que já tenha existido uma pessoa que tenha realizado por completo esse estado. Não diremos que somos um corpo. o que significa que não pode possuir integralmente nem o próprio corpo. confundimos as pessoas que têm grande poder e discernimento com a realidade de um Buda inteiramente iluminado. antes dessa total iluminação. Antes dele. Aí podemos encontrar muitos dos efeitos estranhos e perniciosos inerentes à prática. momento. conseguimos nos manter como o centro artificial do universo. pois dividimos e afastamos parte dela também. Entretanto. a indiscriminação de uma combustão incompleta pode ser trágica para mim e para vocês. de nos torturar e de nos lamentar. seu efeito será devastador. existe algum ponto em que a integração deixa de ser plena. Esse é o estado de Buda. Bem. pensando que somos apenas uma mente. superando todos aqueles estágios iniciais do desenvolvimento e chegando ao ponto em que. vêem. "Unido com o Grande Ser Iluminado". estado raro e maravilhoso. Eles têm uma "abertura". Qualquer tensão corporal significa que não podemos possuí-lo por completo. e. Se um elemento for introduzido cedo demais. só podemos enxergar até aí e só podemos abarcar essa extensão de conhecimentos. Aquém deste. existe um estado de completa integração pessoal. As pessoas dizem que desejam se livrar de seus problemas. aquele ser capaz de dizer daquele modo. tão limitado. empurrões: você tem de conseguir! Você tem de morrer! As mulheres e os homens chorando a noite inteira. Claro que para essa pessoa há ainda confinamentos e limitações. ou àquele estado "terrível" em que sua existência se encontra. isso de fato acontece. A verdade é que apreciamos muitíssimo nosso próprio enredo. ciúme. Para essa pessoa confinada. Se introduzirmos uma luz tão brilhante como o sol nesse espaço. Para essa criatura completamente iluminada (talvez um ser hipotético). às vezes. ou aos problemas de sua vida. Não haveria no universo nada que ela não pudesse pronunciar sem aquele qualificativo Namu Dai Bosa. irão se concentrar e atravessar essa fase. há um outro estado em que não conseguimos ser donos de nossa mente. Apesar desse hiato. acompanhando-o em retrospectiva. Adoramos nossas dores. Dependendo de qual seja nosso condicionamento neste preciso momento. há a compaixão e a sabedoria. Aqueles que não estão prontos. existe um estado em que estamos completamente desprovidos de corpo. Portanto. estado de graça. Participei de sesshins em que havia gritarias. que poderia unir-se sem limites nem obstáculos a tudo que existe no universo.

se praticamos bem. Não deveríamos ver muito antes da hora. aliás. então o poder será usado para o bem de todos. Só faça assim". Ela respondeu: "Ora. bem devagar. A menos que a estrutura esteja firme o bastante para sustentá-la. Mas não subestimemos o trabalho constante que temos de fazer em relação a todas as ilusões que o tempo todo interrompem nossa jornada. e não a harmonia e a paz. melhor para ela. Mas para quem não está preparado. instruindo-o a trabalhar num koan como Mu (7). a pessoa que não estiver preparada em nível emocional para essa tarefa pode. é uma experiência libertadora. Entretanto. Segue-se uma genuína tranqüilizarão e um autêntico aclaramento da mente e do corpo. pode criar equívocos. há o perigo de desequilibrar a pessoa. Para ela. é evidente para o mestre e para o aluno o que fazer em seguida? Precisamos trabalhar pacientemente nossas vidas. limpando-os e aperfeiçoando-os. por exemplo: as pessoas querem 20 . Talvez existam em nossos eus complicados vários pequenos turbilhões que peçam a interferência de especialistas em outros campos. essa visão em si.20 bom? Não necessariamente. é a aniquilação. Deve-se interferir com uma grande cautela. para quem não estiver preparado. não adiantou nada. Esse equilíbrio não é fácil de pôr em prática. nossos desejos por sensações. verdadeiros malefícios. Durante esta vida. existe a certeza de nos adiantarmos no caminho. é fácil. e precisamos ir mais devagar. nossa vida pode crescer de modo constante em termos de poder e também em integração. praticar de outro jeito. quando não está muito bem integrada. Toda vez que voltamos nossa mente para o presente. mas. deixando de produzir bons resultados e. Dar-se conta disto. Porém. Alguns mestres tiveram experiências enormes com os estados avançados. peço-lhes que reexaminem alguns de seus pensamentos a respeito do querer conseguir a iluminação e encarem as incumbências que devem ser feitas com perseverança e inteligência. mesmo para quem está pronto para viver esse instante. era simples e fácil. Mediante uma prática paciente. segurança e poder -e ninguém aqui está livre disso. Quando o nível de intensidade da prática se eleva cedo demais. O que estou pedindo a vocês é que sejam pacientes. Encontro pessoas que vêm praticando o sentar há muito tempo. houve alguém que mencionou essa experiência. Alguns mestres não entendem isso: trabalham de modo intuitivo e sem compreensão suficiente das diferenças entre as pessoas. Uma experiência prematura de iluminação não é necessariamente boa. pode ser prejudicial. o poder se desenvolve aos poucos. Para os que estão prontos. quando o momento está pronto. no entanto. Ter essa vivência é perceber que somos nada (não-eu) e não há nada no universo exceto mudança. mas não com os iniciais. Muito bem. o poder se desenvolve. Com certeza. É óbvio: podemos reconhecer essas pessoas apenas olhando-as. talvez. O zen não toma conta de tudo. Talvez acreditemos que uma experiência de iluminação seja como ganhar uma fatia de bolo de aniversário. Consideremos a série de imagens com o boi (8). Deparamos com esse imenso poder fundamental que somos nós. causando o oposto. Toda vez que efetivamente tomamos consciência de nosso devaneio mental. começamos a saber quanto somos complicados. comparando-a a uma jóia maravilhosa. para mim. para ajudar-nos. Sentem-na antes de a terem e estão preparados para sua vinda. Há muitos anos perguntei a uma grande pianista: "Como posso melhorar minha execução desse trecho? Estou tendo dificuldade em tocá-lo?". tudo pode se despedaçar. porém bastante confusas porque sua evolução não vem sendo equilibrada. E. talvez até contando com experiências de iluminação para mostrar por onde ir. O mestre pode estreitar de propósito e concentrar a visão do aprendiz. "Formidável! Quero isso!" Contudo. a dificuldade continuava existindo. dotadas de um certo poder e discernimento. nem mesmo eu. Por que então falar sobre iluminação? Quando a pessoa está pronta. Dessa maneira. eles vêem. quando essa ânsia de conhecer é forte. com os níveis já superados de maturação. essa experiência é a coisa mais maravilhosa do mundo. Não é sensato simplesmente pegar qualquer um que se veja na rua e forçá-lo. talvez seja preciso dispender muitos anos praticando. Quando praticamos o sentar.

neste ponto do tempo. e ainda não encontrei ninguém desse jeito. Quanto mais praticamos. claro. pode fazê-lo por mim. Podemos procurar por um amante. Enquanto tratamos nossa vida dessa forma. Poderíamos estar no décimo desenho há algumas horas e depois. um centro -algum lugar. continuaremos resistindo à prática. Sentar dessa maneira é o caminho.21 logo saltar da primeira para a última. Eu não morri em nenhum desses sentidos. Desidentificarmo-nos de nossa família não significa não amá-la. Os progressos não são sempre permanentes e sólidos. faremos com que todos os nossos esforços se dirijam ao encontro de algo ou de alguém que cuide de nossa vida por nós. Ou desconsiderar seu marido.. um ser realmente iluminado não é humano. Contudo. nossas mentes ficam claras e silenciosas. tentamos nos livrar desse incômodo por meio de vários mecanismos de escape sutis. ainda não morremos. Quais são algumas das maneiras pelas quais podemos nos esquivar ao pagamento desse preço? A principal delas é nossa constante má vontade em tolerar nosso próprio sofrimento. um dia compreendi que apenas eu posso pagar o preço da realização e do percebimento. então não morremos. Para nós. Se necessitamos ser vistos de uma determinada maneira. o namorado. Portanto. Mesmo depois de a termos visto. O resto é sonho do ego. podemos estar na nona e escorregar de volta para a segunda. levei um dos maiores choques de toda minha vida. podemos nos identificar com nossa família. a decepção passa a ser confrontada e. "Numa árvore fenecida. não morremos. Todos partilhamos essa desilusão em graus variáveis. uma religião. ou dissolvê-lo em 21 .. pratiquemos com tudo que temos. basta que alguém se aproxime e nos critique!. Nesse sentido. ninguém mais mesmo. É tudo que posso fazer. nossa prática é morrer devagar. Se necessitamos de aprovação. porém. Enquanto virmos nossa vida desse modo dualista. se não nos for tranqüilo executar os serviços mais triviais. Nos retiros. Ninguém mais. E ninguém. Se necessitamos de poder. e não conheço ninguém assim. Conforme nossa prática prossegue. Quando me dei conta dessa verdade." Ou. Por exemplo. desidentificando-nos de forma gradual de tudo o que nos estiver contendo. O preço da prática Quando achamos nossa vida desagradável ou insatisfatória. Simplesmente estou consciente dos meus apegos e não mais atuo a partir deles o tempo todo. Se queremos as coisas ao nosso modo. embora não tão intensa. ainda não morremos. Porém. posso vivenciar isso e trabalhar com isso. Já estive na companhia de pessoas notáveis. passo a passo. nunca poderá pagá-lo. sermos como somos. podemos incluir mais. vamos entendendo (horror dos horrores!) que temos um preço apagar pela liberdade. podemos servir mais. durante muito tempo. na proporção em que nossa prática amadurece. ainda não morremos. brota uma flor. Até que compreendamos essa dura verdade. O amor torna-se maior e a necessidade. Não podemos amar algo de que precisamos. Enfim. Este é o voto do bodhisattva (9). estaremos nos enganando e acreditaremos que não é preciso pagar preço algum por uma vida realizada. a amiga. é perfeito. Com tais tentativas. não nascerás de novo". Por conseguinte. Pensamos que podemos nos esquivar dele ou ignorá-lo. O máximo que posso ser é a pessoa que sou neste exato momento. alguém ou alguma coisa que resolva nossa dificuldade por nós. a não ser nós mesmos. no dia seguinte. essa necessidade. À medida que nos identificamos cada vez menos com elementos externos. contentemo-nos com o ponto em que estamos e com um trabalho dedicado. podemos fazer mais. Se estivermos apegados a algum lugar. menor se torna essa necessidade. Portanto. menor. e isso só nos leva a uma vida de torturas. ter morrido significa que esses apegos não estão mais aí. É difícil sustentar o conhecimento em sua plena potência. aos poucos. na Bíblia: "Amenos que morras. nossa resistência prosseguirá. se precisamos ter uma certa posição. podemos incluir cada vez mais coisas em nossa vida. um mestre. estamos tratando nossa vida como se houvesse um mim e uma vida fora de mim. é isso que constitui realmente a prática zen. E. voltamos ao segundo outra vez.

Desistimos de um relacionamento que já não satisfaz mais nossos sonhos. enquanto não nos dermos conta do quão pouco interessados estamos em pagar o preço que for. ou dinheiro. Tentamos dominá-las. Nesse processo. não há almoço grátis. Refiro-me a alcançar a integridade e a plenitude de nossa vida através de cada ato que executamos. Quanto mais cresce nossa prática. e nunca teremos uma prática real. quando visto pela óptica da clareza. tudo isso é pagar o preço da jóia. não consigo controlar minha língua. se for melhor assim. Quanto mais nos dedicarmos a esse esforço no transcorrer do tempo. Tal resistência mina nossa prática: "Não sentarei esta manhã. pois. Uma jóia de grande valor nunca é um donativo. Contudo. do que você é. o filho -cuide da dor por nós. Não estou falando sobre estruturar um novo conjunto de ideais a respeito de "como eu deveria ser". Devemos conquistá-la a cada momento. quando é doloroso mantê-la. Pagar o preço quer dizer que devemos dar o que a vida exige que seja dado (o que não pode ser confundido com a indulgência. e do que preciso e quero de você -essa distância em si significa que ainda não estamos pagando o preço da jóia. enquanto estivermos na manobra da esquiva. e até enganá-las para que se incumbam de nosso sofrimento. Por trás de todas essas evasões está a crença de que os outros têm de nos servir. embora ele seja crucial. Nosso treino -pagar o preço -deve ocorrer vinte e quatro horas por dia. Ninguém pode sentir por nós a dor que a vida nos traz de modo inevitável. e isso não é fácil. não existe preço algum: é. Não é "minha prática é minha prática e a sua é a sua". quando estivermos verdadeiramente abertos para nossas próprias vidas. Talvez tempo. de fato. Tentamos apegar-nos a pessoas que pensamos ter poder para mitigar nossa dor por nós. ou bens materiais.22 nossas idéias. com consentir com as próprias fraquezas). não gosto do que ocorre lá". estaremos nos impedindo a percepção do deslumbramento do que a vida é e do que nós somos. é preciso reconhecer. apenas não sinto vontade". a jóia permanecerá sempre oculta. De que modo cumprimos nossos compromissos para com terceiros. Essa árdua prática é o pagamento exigido. 22 . O esforço da prática é sempre ver o que a vida exige que lhe demos. os outros têm de organizar a bagunça que fazemos. abriremo-nos para toda a vida. um privilégio. se desejamos encontrar a jóia. A desilusão da separatividade diminui. Enquanto nos ativermos à nossa separação -minhas idéias a respeito do que sou. Cedemos em nossa integridade. "Quando fico com raiva. Do ponto de vista comum. Na realidade. o preço que deve ser pago é enorme. mas por todos os outros no mundo. descobrimos que a dor dos outros e a nossa não são mundos separados. Infelizmente. cada vez mais conseguiremos valorizar a jóia que é nossa vida. ninguém -mas ninguém mesmo –pode vivenciar nossa vida por nós. mais compreendemos esse privilégio. O preço que devemos pagar para crescer está sempre bem diante de nossa vista. Não podemos reduzir nossa prática apenas ao tempo que empregamos no zazen. não estamos só pagando o preço por nós. "Não estou indo participar de um sesshin. às vezes é não dar essas coisas. mantê-las conosco. ou se investirmos nosso tempo tentando escapar a problemas (que são imaginários). se fazemos ou não o esforço de atenção que é preciso a cada variado momento da vida. Mas se continuarmos a remoer nossa vida como se ela fosse um problema. Acreditamos ter o direito de não sentir a dor que está em nossa vida. em contraste com o que desejamos pessoalmente dar. ou persuadir outra pessoa a removê-lo em nosso lugar. conforme pagamos o preço da prática atenta. de cada palavra que pronunciamos. Esperamos e planejamos com ardor que alguém -nosso marido ou esposa. com a prática. Superar essa decepção é perceber que. Por que não consigo?". de que modo os servimos. o amante. e não apenas no "lado espiritual" de nossa vida. através de uma prática perseverante e consistente. tampouco donativos. Devemos conquistá-la.

talvez. Então. como já mencionei. por não se opor a nada. está desapegada e. ser o não-eu é alegria. Sendo autocentrados. É assim que a maioria das pessoas vivencia a própria vida. a prática precisa acontecer dentro de uma estratégia organizada.a base toda de nossa vida precisa mudar. Enquanto nos debatemos com a questão de nossa verdadeira natureza -eu ou não-eu. a de que somos um eu. mas em todas as coisas. Por isso. todo propósito. Por que não pode haver uma resolução final para uma vida que se baseia num eu? Porque tal vida está fundamentada numa premissa falsa. a jóia está sempre presente. todos nós acreditamos nisso. toda orientação da vida devem ser transformados. não nos aborrecemos a todo instante. o primeiro estágio da prática deveria ser o nosso deslocamento da infelicidade para a felicidade. não podemos (ou não devemos) tentar saltar este primeiro movimento de uma relativa infelicidade para uma relativa felicidade. Por que digo "relativa" felicidade? Independente do quanto podemos sentir que nossa vida é "feliz". tampouco centrado no outro.23 Conquanto oculta. Mas essas coisas não são as mesmas: sair da infelicidade para a felicidade não é o mesmo que sair da luta para a alegria. Ser autocentrado -e. A vida do não-eu não está centrada em coisa alguma em particular. não podemos ter uma resolução final. Começamos a notar nossos padrões. Ou. portanto. porém. podemos estar em condições de tentar o estágio seguinte: filtrar com inteligência e persistência as várias características da mente e do corpo através do zazen. Não somos ansiosos. principalmente. não nos irritamos com facilidade. O não-eu. todo sentimento. A prática zen. Mas devemos ter um certo nível de felicidade relativa e de estabilidade para nos envolvermos com uma prática séria. uma terapia inteligente pode ser proveitosa nessa etapa. em última análise. porém. Descobrir essa jóia -é no que consiste a vida. Não é nem estar autocentrado. mas nunca a veremos a menos que nos disponhamos a pagar seu preço. Quais poderiam ser os passos dessa prática? O primeiro. e os primeiros anos de zazen são principalmente dedicados a esse movimento. insatisfatória. Ficamos aborrecidos facilmente. quando o meio externo se nos opõe. Por quê? Porque não há de modo algum meio pelo qual a pessoa infeliz -perturbada consigo ou com os outros. numa dissolução implacável do eu. poderíamos dizer. é benéfico a tudo. Na melhor das hipóteses. Não-eu não significa desaparecer do planeta ou deixar de existir. é a saída da relativa infelicidade para a relativa felicidade. Para a absoluta maioria. tentemos pensar que espécie de vida poderia ser a do não-eu. Compreender a própria natureza como não-eu –um Buda -é fruto do zazen e do caminho da prática. Assim. as pessoas são muito diferentes entre si e não podemos generalizar. que é a alegria. em oposição a coisas externas -é ser ansioso e ficar preocupado consigo mesmo. No entanto. Entretanto. por isso. ou com as situações -possa ser a vida do não-eu. desejamos nos mudar de uma vida de lutas para uma de alegria. Ter um "eu" significa que somos autocentrados. é estar centrado. é reagir de imediato com aspereza. Não apenas isso. se ela estiver baseada num eu. Algumas terapias buscam levar-nos de um eu infeliz para um eu feliz. Para travar de modo adequado essa batalha. (e. A coisa importante (já que essa é a única realmente satisfatória) é seguir esse caminho. algumas outras disciplinas e terapias) pode ajudar-nos a sair do eu infeliz para o não-eu. ou seja. Quantos estão dispostos a pagar o preço? A recompensa da prática Estamos sempre tentando levar nossa vida da infelicidade para a felicidade. O primeiro passo que devemos dar é nos mudar da infelicidade para a felicidade. e. é um feito instável. ou preocupados. Toda prática que interrompa a adaptação provisória do eu é. ficamos muitas vezes confusos. nossa vida não tem o sabor característico da confusão. que facilmente se perde. apenas. Sem exceção. Para algumas pessoas. começamos 23 . Embora não estejamos familiarizados com o lado oposto ao eu (não-eu). as características de um eu não podem aparecer.

compreendemos que não há caminho. o crescimento do não-eu. quando a luz da conscientização incide no que quer que seja. 33. Porque o não-eu é tudo. a solução real deve vir de uma dimensão que seja radicalmente diferente da dimensão psicológica. no experimentar e simplesmente ser as circunstâncias de nossa vida. 6. Não precisamos tentar abandoná-los. mesmo quando isso acontece. contudo. Essa vida que se transforma devagar não é. Durante um certo período nossa vida pode ficar pior do que antes. 5. mas ainda não está supremamente iluminado. Compare The recorded sayings of Ch'an Master Lin-chi Hui-chao of chen prefecture. mas. o não-eu -que está sempre presente -pode começar a manifestar-se e com ele aumentam a paz e a alegria ao mesmo tempo. esperanças. à medida que pomos a nu o que antes mantivera-se encoberto. pois. Temos pensamentos. Porque não há caminho. traduzido por Ruth Fuller Sasaki. Eles estarão presentes. é o caminho mais fácil. podemos ser feridos ou ficar aborrecidos. devemos ter paciência. 130. tais como são. Por fim. Mu: koan que costuma ser atribuído aos principiantes como estratégia de concentração de seu foco mental. para quem tiver paciência e determinação em sua prática. 4. p. esses desejos. isenta de problemas. sutilmente se altera. 1975. não necessita de recompensa. 9 ff. Para manter a prática através de dificuldades graves. sabedoria e compaixão. não há quem não seja um ser psicológico. e está sob ataques. não em evitar a dor. Kyoto. Nota do Editor: Bodhisattva é um ser iluminado que acatando seu próprio e total estado de Buda. Pode parecer encantadora enquanto falamos sobre ela. É tarefa grande demais? Difícil demais? Pelo contrário. a paz aumenta. Japão. Mas. Por quê? Por causa de nosso costumeiro modo de viver em busca de felicidade. Podemos sentir um medo imenso. Huang Po. uma sensação de satisfação básica. The Institute for Zen Studies. desencorajador. Uma vez que só podemos viver nossa vida através de nossa mente e corpo. 8. a prática determinada é sempre solapada. aumenta a capacidade de viver de modo benéfico e compadecido. p. não em satisfazer desejos pessoais. se dedica a auxiliar as outras pessoas a atingirem a libertação. nossos impulsos egóicos. Nova York. 24 . desanimador. enquanto essa transição está acontecendo. nossa prática é seguir infindavelmente esse não-caminho. não há solução. No entanto. Seu significado literal -"não". Grove Press. Huang Po. The zen teaching. desde o não-início é em si mesmo a realização completa. esforçando-nos para satisfazer desejos. 1959. da ilusão até a iluminação. E a vida. é a chave do entendimento. através da imagem de um homem que domestica o touro selvagem. Aprendemos na boca do estômago e não só com nosso cérebro que uma vida de alegria não está na busca da felicidade e. Traduzido por John Blofeld. que talvez sofra com os caprichos das circunstâncias externas. é às vezes assustador. in Blofeld. 9. Porém. 7. eles apenas se dissolvem lentamente com o tempo. a alegria aumenta. tudo aquilo que pensávamos era nós mesmos durante tantos anos. e nada incandesce mais essa luz do que um zazen inteligente. nossa natureza é o caminho. e lutando para evitar dores mentais e físicas. desde o começo. não há meio. persistência e coragem. sem se importar com nenhuma recompensa. Com o desaparecimento de alguns desses padrões. representa um elevado estágio do estado de Buda. um Buda totalmente perfeito. embora fácil de ser mencionado. começamos a entender o vazio e a impermanência desses padrões e acreditamos que podemos abandoná-los. Conforme nossa prática continua. não capta por inteiro sua significação para a prática zen. Em seu autocontrole. temos uma sensação de crescente saúde interior e compreensão. o meio. ao pô-la em prática pode ser horrível. de The zen teaching of Huang Po. sim. mas em satisfazer as necessidades da vida. diminui o falso e aumenta o verdadeiro. A prática do desapego. Esse processo. nossas necessidades. A série de figuras do boi é uma seqüência tradicional de desenhos mostrando a evolução da prática.24 a observar nossos desejos. esses vícios são o que chamamos de eu. porque. ou "nada". bem aqui e agora. realizado todos os dias e nos sesshins. e começamos a perceber que esses padrões. mas em sê-la quando necessário.

Se você está costurando um vestido. mas 25 . o portão de nosso orgulho. primeiro corta o pano e une as peças. de fato. é impossível à maioria efetuar a prática no desenrolar do drama. Bem. devo praticar as coisas mais elementares). uma discussão. Para ultrapassarmos esse portão. devemos fazê-lo. Agir assim é o mesmo que penetrar em uma outra dimensão. devemos dar um passo atrás e dar uma olhada. as economias da família comprando um carro novo -e acho que nosso carro atual está bom. tendo em mente que. Por que é tão difícil? Quando estamos com raiva. Ela mexe aqui. Em termos de vida diária. afaste-se. que não é um portão. Bom. tira. Todos nós. Semanas de prática assídua podem passar. temos de confrontar nosso orgulho.") E por isso que o primeiro ato é dar um passo atrás. Não obstante. o ressentimento e o ciúme. numa dimensão espiritual. incluindo a irritação. o que desejamos. eu sei -que tenho razão. O que quero dizer com "observe"? Observe a novela que está passando na televisão da cabeça: o que ele (o marido) disse. o que ele fez. e em um determinado momento. apenas sente e observe. digamos. faça e diga o mínimo possível. há um enorme obstáculo no caminho da prática: o fato de não querermos praticar. temos de ir além do portão de nosso próprio orgulho. ter "razão" na discussão. quando estiver sozinho. a prática zen é fazer isso. Quando recuo um pouco que seja. digo todos os tipos de frustrações. creio que é uma boa idéia simplesmente dar um passo atrás: fazer e dizer o mínimo possível. posso me lembrar de que o que na realidade desejo é ser aquilo que poderia ser chamado de Um Continente Maior (em outras palavras. põe. dá um passo atrás para ver as flores. falava do "portão sem portão" e enfatizava que. num determinado momento. no argumento. Genpo Roshi. a Verdade: apenas cesse de alimentar suas opiniões. Ele fez alguma coisa de que não gostei -gastou. Da mesma forma. para pôr nossa vida em perspectiva. A qualidade ostensiva de qualquer discussão é o orgulho. do ponto de vista da prática. o que eu deveria fazer sobre o caso. de alguma maneira -todos nós que estamos aqui. o que posso então fazer com a minha raiva? O que é proveitoso que eu faça? Antes de mais nada. Falo tanto da raiva como do modo de trabalhar com ela porque entender como praticar com a raiva é entender como aproximar-se do "portão sem portão". como foi que ficou o arranjo pronto.. a filha do orgulho é a raiva. e. Depois. Está penso nos ombros? Como está a bainha? Está caindo bem? Tornou-se um vestido adequado? Você dá um passo atrás. Tomemos um exemplo prático. Quero gritar. Por exemplo. no auge da raiva. Acredito aliás. Não são a realidade do que está acontecendo. ("Não busque.25 CAPÍTULO 3 Sentimentos Um continente maior Com 95 anos de idade. tente de fato dar um passo atrás. o que tenho a dizer a respeito disso tudo. Bem.. entendemos o que significa distanciar-se de um problema. Quando me refiro a raiva. falar pouco. não é ter razão. Suponhamos que sou casada e discuto com meu marido. não existe portão algum por onde tenhamos de passar a fim de darmo-nos conta do que nossa vida é. observei que Laura fez um lindo arranjo de flores. até que sejamos capazes de ver que. Ela desenvolve a habilidade de dar um passo atrás e olhar. o que fez com elas. Preferimos alimentar nosso orgulho. desde o momento em que nos levantamos pela manhã. se quisermos dar-lhe um nome. ali. fico furiosa. costura e arremata. você vai para a frente do espelho para ver como ficou. segundo ele. Entretanto. Consideremos uma seqüência de passos da prática. Fico com raiva. todas essas considerações são fantasia. devemos atravessar um portão. Se pudermos rotular esses pensamentos (difícil de fazer quando estamos com raiva). um dos grandes mestres zen da atualidade.

No início. como disse. Necessitamos reconhecer os momentos em que não estamos com disposição para efetuá-la. Tudo isso pode se dar num nível superficial. dependendo de seu condicionamento e história pessoais. enquanto vivermos. Quando vivencio de forma direta o resíduo (como tensão. porque essencialmente não é nada em absoluto. entro lentamente naquela dimensão que sabe o que fazer. vem em ondas. que sou maior do que minha raiva. seremos com o tempo capazes de enxergar nossos pensamentos como pensamentos (irreais). Dê um passo atrás e observe. e a compreensão é gradativa.26 ser Um Continente Maior. saboreio a "unidade" de modo direto. por assim dizer. 26 . quem é este "eu" que observa? Ele me demonstra que sou diferente de minha raiva. ao mesmo tempo. em enormes ondas emocionais. Temos medo da inundação e de sermos tragados pela voragem. O estado de iluminação é aquele espaço enorme e compadecido. sim. Quando fazemos isso. Como sabemos onde se localiza esse ponto-limite? Estamos nele quando sentimos em qualquer nível raiva ou aborrecimento. No entanto. é bastante difícil de fazer quando estamos com raiva -. esse espaço é bastante restrito. vinte. como para o outro também. visto que na experiência direta não há dualidade. precisamos ser caridosos com nós mesmos. que é a capacidade de ver a vida tal como ela é (e não do jeito que eu gostaria que fosse). Quando efetuamos a prática. Se posso observar minha mente e meu corpo num estado de raiva. O que observamos sempre é secundário. Se realmente recuarmos e observarmos -o que. vou encontrar um jeito de me vingar. Essa prática de fazer Um Continente Maior é em essência espiritual. Ninguém tem vontade o tempo todo. Rotule os pensamentos do drama: sim. Para outros. Não podemos ter compaixão por ninguém nem por nada se nosso encontro com eles está tingido de raiva e orgulho. é criado Um Continente Maior. a testemunha não é uma coisa. aumentam. Para algumas. o que me resta? Resta-me a experiência direta da reação física de meu corpo. contração). e o modo como esse processo se desenrola varia de uma pessoa para outra. Ao tornar-me Um Continente Maior. Não é importante estarmos aborrecidos. que é a ação natural decorrente de ver a vida como ela é. e esse conhecimento permite-me construir Um Continente Maior. Não há ninguém testemunhando. o que cresce. qual a ação a ser empreendida (samadhi). e a compaixão. Ao fazermos essa prática. Apesar disso. é o tanto de vida que posso conter sem que ele me aborreça ou me domine. descobriremos que existe um limite para o tamanho de nosso continente e. Houve ocasiões em que repeti o processo dez. o importante é termos a habilidade de observar o aborrecimento. porém. não deixa de ser uma novela. estamos penetrando profundamente em nossa vida tal como a conhecemos. A solução é uma prática na qual vivenciemos essa emoção de separação como um estado corporal definido. não como a verdade. A força de nossa prática está no tamanho que nosso continente alcança. é essa capacidade de observar que deve ser expandida. ele não deveria ter feito isso. aquilo que pode testemunhar minha mente e meu corpo deve ser algo que não seja minha mente e meu corpo. Ali se sabe qual é a melhor atitude não só para mim. Nunca precisa parar de crescer. a consciência não é uma coisa. depois fica maior. o resíduo. crescer. É como um dique que se rompe. trinta vezes. nesse ponto. Não há mistério nenhum. sim. o processo pode transcorrer de maneira suave. nem uma pessoa. Estamos fazendo sempre aquilo para o que estamos prontos. Quando isso acontece. antes de os pensamentos por fim cessarem. cada vez maior. Um Continente Maior não é uma coisa. dois outros fatores: a sabedoria. é que devemos praticar. é impossível. Portanto. Como efetivamente nos destacamos dos outros? Como? O orgulho do qual a raiva nasce é o que nos destaca. primeiro para observar e depois experimentar. O que é criado. A compaixão cresce conforme criamos Um Continente Maior . Conforme essa habilidade se expande. não consigo suportar o que ele está fazendo. Podemos falar sobre "unidade" até o final dos tempos. E não faz mal que não a façamos sempre.

a prática é sempre assim: abre a caixa de Pandora. Tornamo-nos muito mais sensíveis. Queiramos ou não. Uma pessoa iluminada não terá paredes a sua volta. Passamos a conhecer coisas a respeito de nós mesmos e dos outros. Por isso. Antes era uma prancha cobrindo a água borbulhante. mais importante é que o dique ceda com lentidão. Aquele dique está começando a se romper. tornamo-nos mais sensíveis. nunca conheci alguém que eu sentisse estar completamente livre delas. mas é provável que. creio que deveria ser desacelerado. sempre há um dique para estourar em algum ponto. esse é nosso orgulho. Se for acelerado. afinal de contas. Lembremo-nos ainda de que um pouco de humor a respeito de tudo isso não é uma má idéia. criando o caos. sentiremos a presença de uma parede. aprendemos cada vez mais. Mas na realidade nunca enxergamos que somos loucos. Essa parede vem nos mantendo distantes do contato. não importa quanto nossa vida possa ter transcorrido com suavidade. é que ela tornará as coisas mais confortáveis. é claro. Bem. Não precisamos nos livrar de todas as nossas tendências neuróticas. por muito tempo. o que fazemos é começar a ver como são engraçadas. Enquanto nos sentirmos separados da vida. que seja. Pensamos que somos todos do mesmo jeito. uma das ilusões que talvez alimentemos quanto à nossa prática. contudo. Claro que eu não sou louca. É melhor desacelerar. poderíamos dizer que a prática nos transforma em princesas. mais claras. tremer e ficar transtornado não são coisas indesejáveis. Em tempos remotos. enquanto tomava café. assim como nós. Porém. Não obstante. a parede começa a ter buracos. Hoje de manhã. mais fáceis. permanecem vivos por tanto tempo. ao praticarmos (e muitos aqui sabem disso muito bem). mas ela está lá. São todas loucas. e. agora. Bem. deixam-na retomar o que simples e verdadeiramente é. A outra história foi sobre a caixa de Pandora.27 É como ter contido parte do oceano atrás de frágeis diques que. sentiremos que existe uma parede a nossa volta. está tudo certo. dois contos de fadas surgiram de repente em minha memória e imagino que nada que aconteça assim seja desprovido de algum motivo. podemos estar tendo pensamentos perturbadores. o teste para se saber se a princesa era verdadeira consistia em fazê-la dormir em cima de uma pilha de trinta colchões e ver se ela podia sentir a ervilha embaixo do último. que finalmente a abriu e tudo que havia de mau saiu de dentro. Pode não ser uma parede muito visível. que antes desconhecíamos. haverá uma diferença com o passar do tempo. Nada poderia estar mais distante da verdade. Quando esses trinta minutos acontecem dia após dia. O primeiro conto que me surgiu foi o da princesa e a ervilha. jamais nos livramos de coisa alguma. Contudo. pode até ser invisível. se romper depressa. Chorar. mais pacíficas etc. com o prosseguimento da prática. a parede fica cada vez mais fina e transparente. quero enfatizar apenas que não tem de ser obrigatoriamente assim. Vocês se lembram: alguém ficou tão curioso a respeito do conteúdo daquela misteriosa caixa. Se de fato estivermos praticando. como apenas fazem parte do lado engraçado da vida. sou a instrutora! Abrindo a caixa de Pandora A qualidade de nossa prática está sempre refletida na qualidade de nossa vida. acredito ser importante que o processo não aconteça rápido demais. pois a prática nos torna mais cônscios e sensíveis. mas não é preciso que se quebre rápido demais. mas às vezes também ficamos mais mordazes. mas nossa parede nos mantém inconscientes disso tudo. Entretanto. Os contos de fadas implicam algumas verdades básicas e fundamentais sobre as pessoas. Para nós. e há alívio nisso porque agora ela pode fluir com as correntezas e a vastidão do oceano. da graça de viver com outras pessoas. quanto mais repressora e difícil tenha sido a infância. Essencialmente. Não podemos nos sentar imóveis durante trinta minutos sem aprender alguma coisa. a prancha começou a ter furos. quando explodem sob o impacto da água. Todos nós nos sentimos separados da vida. 27 . Talvez estejamos ansiosos. aprendemos.

devemos estar determinados a conseguir que nossa vida desenvolva um contexto universal e a vida dos outros também o desenvolva. É apenas o que tem de acontecer. sentimo-nos pior. a libertação aconteceu muito suave e discretamente. Porém. Como instrutora. o elemento crucial é como praticamos essa efervescência. vejo que a vida da maioria dos alunos se transforma. mas aqueles para quem essa erupção se resolve com mais facilidade são os que não desistem jamais de sentar. A primeira. Talvez devêssemos esperar um pouco mais. Por exemplo. só para algumas pessoas) em que a caixa parece explodir e. em nível ideal essa caixa jamais deveria ser lançada ao ar para se abrir de uma vez. Não pratique a menos que sinta que deve mesmo. incluindo algumas coisas desagradáveis que não deseja nem mesmo ouvir falar. precisamos desejar um determinado tipo de vida. esse período é muito doloroso -isto é. Se essas atividades o satisfazem. que precisa estar ali para que a prática possa firmar-se. Isso não. A maioria não gosta de sentar quando isso está acontecendo. é necessária. Porém. A caixa de Pandora consiste em todas as nossas atividades autocentradas e todas as emoções correspondentes que elas criam. querendo ou não fazê-lo. é uma vida na qual nossos votos sobrepujam nossas considerações pessoais comuns. posso facilitar a prática e. por favor. Mesmo que estejamos praticando bem. aliás. Portanto. na ginástica ou na música. estimular os esforços da pessoa. Em vez disso. Para alguns. Para ter uma prática zen. Quando as bolhas sobem (o que acontece com a prática). uma vez que a compreensão não é toda previsível. Entretanto. estamos nos iludindo. Esse conselho pressupõe a 28 . evidentemente. é uma fase na qual se deve fazer sesshins. o que nós desejamos. Não pratique amenos que acredite que não há mais nada que você possa fazer. Se vocês já estão praticando o sentar há vinte ou trinta anos. então a prática será muito difícil. é uma fase em que precisamos entender nossa prática e saber o que é a paciência. A terceira. Na prática. execute-as. aliás. se temos idéias ingênuas quanto a essa transformação ocorrer sem que paguemos um preço. Ela irá transformar nossa vida. Parte alguma deste processo é indesejável. Em minha própria vida. Claro que aquilo que encobrimos é a parte que não desejamos conhecer a respeito de nós mesmos. haverá momentos (não para todos. Mas. É preciso uma coragem muito grande para ter uma verdadeira prática. um furacão de emoções começa a rodopiar. em vez de nos sentirmos melhor. isso é perfeitamente normal e necessário. Que a caixa se abra. Em especial. numa certa época é de vital importância e vocês devem fazê-los tanto quanto sua situação de vida permitir. significa que a caixa de Pandora não esteja se abrindo. é normal para as pessoas que estão neste caminho. A segunda não dura para sempre.28 Pedaços da prancha podem até despencar e assim a água começa a borbulhar pelos furos e pelas falhas. Em termos tradicionais. de repente. uma raiva inesperada pode emergir (mas. Se estivermos num certo estágio de nossa vida (que não é nem bom nem mau. quando a caixa começa a se abrir. Conforme a prática no Centro vai amadurecendo. talvez porque eu estivesse praticando bastante o sentar e participando de inúmeros sesshins. Às vezes. mas só um estágio) no qual a única coisa que nos interessa é como nós nos sentimos. as duas coisas acontecem juntas: a transformação e o desconforto. a ilusão que temos de que a prática será sempre pacífica e amorosa não se sustenta. A prática não é fácil. Você terá de encarar tudo a seu respeito que estiver oculto dentro da caixa. é desejável. não a atire em mais ninguém). A caixa está se abrindo agora para muitos de vocês . se de fato.como é que vocês irão lidar com ela? Preciso que saibam algumas coisas a respeito dessa perturbadora fase da prática. mas não posso dar a ninguém essa determinação inicial. desejamos que nossa vida se aquiete e fique mais livre de reações contínuas. a tampa sai e tudo que nunca quisemos ver em nós mesmos vem borbulhando à tona e. mergulhe de cabeça no surf. se fazem ou não os sesshins não é tão essencial. mais do que em qualquer outro momento da vida. quando trabalha de forma adequada. podem haver algumas surpresas e até mesmo perdas. é como se a caixa de Pandora começasse a se abrir. Não é nem bom nem mau.

Um aprendiz. e estejamos remando. craque! Bem. a caixa de Pandora. quando alguém está fazendo algo terrível. as pessoas precisam de outros dez anos ou mais. o que eles são. antes que se sintam prontas para o compromisso de uma prática tão intensa. o termo "melhor" cria confusão. ficamos de fato com muita raiva: o que aquele cretino acabou de fazer? Foi só pintar meu bote de novo e. nem do caminho de oito etapas. e tentando elucidar o que poderia ser a vida para uma outra pessoa. tenham de fazer exatamente isso. de modo algum. por uma razão muito clara: as pessoas entendem de modo equivocado os preceitos como proibições -"não deves". Não é "mau" não querer uma prática tão dedicada. depois comentarei diversas outras coisas também.29 força de manter essa intensidade da prática. porque é impossível dizer com exatidão a verdade. não precisamos esconder ou encobrir nossas lutas. "Não me convém! Não oferece o que eu desejo! Quero que a vida me trate bem!" É nossa fúria quando as pessoas e os acontecimentos em nossa vida simplesmente não nos dão aquilo que exigimos. É nosso ego. Não vou mais mencioná-lo! Porém. minha palestra de hoje versa sobre "Não fique com raiva". em si mesmos. Usar as palavras de uma certa maneira acrescenta muita confusão. nos divertindo. aquilo que nos aborrece e perturba tanto. De repente. Perfeição? Melhor? Em outras palavras. "Não fique com raiva" Quando dou uma palestra. nossa vida inteira está confusa porque misturamos nossos conceitos (que. No sangha podemos ser honestos. Na realidade. tal como é. Hoje quero contribuir com a confusão. como eu. de repente percebemos que o outro bote a remo está vazio. As dharma palestras não são necessariamente algo que se possa entender: se elas abalam o ouvinte e o confundem. Por exemplo: podemos dizer que todas as pessoas do universo.. "quebrando a cara". E. pode ser muito mais útil aos outros do que uma pessoa que. durante um minuto ou dois. Ela ferverá cedo ou tarde. Apesar de tudo. da neblina. Talvez vocês estejam agora no exato momento de abrir a caixa. isso faz parte de nosso treinamento. Essa é uma das coisas importantes de um sangha: é um grupo de pessoas com uma referência mútua de prática. Sendo assim. Vou contar-lhes uma rápida história. Nunca apresento uma dharma palestra sem detestar o que fiz. Às vezes. É muito difícil de se falar a respeito disso. Quero deixar isso bem claro. E não é isso. bate em cheio! Nesse momento. a lembrança real do quanto foi difícil está quase apagada. Em alguma outra oportunidade. ou então uso as palavras erradas e alguém fica confuso. através de meios que me parecem adequados. neste momento particular.. O que 29 .. é perfeição". E. Entendo o conflito bastante bem. é o afloramento (às vezes. no entanto.. gostaria que compartilhassem aquilo que sentiram ser útil nesta etapa de sua prática. Desta forma. porém.. sem que possamos saber de onde. O mais doloroso é pensar que existe algo de errado comigo e ninguém mais está tendo os mesmos problemas. em certo sentido. Suponhamos que estejamos num lago e há um pouco de neblina. vem um outro bote a remo justamente em nossa direção. são absolutamente necessários) à realidade. e vejamos o que nos é possível entender disso tudo. às vezes. hoje falarei sobre o preceito "Não fique com raiva". Claro que isso não é verdade. e é assim mesmo. estão fazendo o melhor que podem. as dharma palestras tendem a desafiar nossos conceitos habituais. nossa raiva da vida não ser do modo como desejamos que ela aconteça. não muita. Acabo sempre exagerando um pouco para um lado ou para outro. está fazendo o melhor? O mero uso de palavras cria uma tremenda confusão em nossas vidas e em nossas práticas. E a mesma dificuldade que temos com a sentença "Tudo que existe.. só um pouco. numa inundação) daquilo que antes não percebíamos de modo consciente: nossa raiva diante da vida. uma vez mais. deixando que a vida lhes ensine todas as lições. mal consegue se recordar desse estágio. Neste centro não se fala muito dos preceitos. pode ser que. neste sentido. contrastando-a com nossas ilusões a respeito dela. estou tentando elucidar do que trata a vida para mim.

A maior parte da vida. faço o quê? Na realidade. conforme a vemos nas histórias que contei. então a maravilha da vida é ser precisamente só esse sofrimento da perda. Mas e quanto aos problemas sérios. blá. você sabe que suas escolhas de filmes são impossíveis!". se naquele bote a remo que bateu no nosso tivesse alguém dentro. com as outras pessoas. A prática zen é um trabalho muito árduo. "comunicarmo-nos" a esse respeito.. Qual é a moral dessas histórias? Basicamente. o quê? É perfeito do jeito que é. Por isso.30 acontece com nossa raiva? Bem. Mas.. E eu retruco: "Bem. A maravilha de se viver com qualquer coisa que seja é. mas você se lembra daquele que fomos ver porque você queria assistir! O que me diz a respeito?". é como se houvessem pessoas no outro bote. que realmente estivessem nos causando danos sérios.. não podem existir duas pessoas mais diferentes como nós. É restritivo e difícil. e fico em casa a maior parte do dia. Como estou aposentada. Vou Ihes contar o que acontece quando vou ao cinema com minha filha: "Mãe. como sofrimento e angústia? O que estou falando é que eles não são diferentes. nossos encontros com a vida. vocês podem dizer que com as coisas nesse nível de fato não faz diferença. Que proveito tiramos disso? As pessoas costumam pensar: "Vou melhorar. Na hora do almoço a casa é toda minha.. ser o que você é. costumo esquecer tudo e coloco o secador do jeito de sempre. Então. Bem. ela limpa o secador e o vira de cabeça para baixo para que possa secar. mesmo que a expressão "ter disposição" não seja muito adequada. Nem minha filha. nada me é mais indiferente do que o secador de pratos. sei que ela está voltando. Isso significa que. nem eu. Então penso: "Bem. às 17 h. Vocês entendem? Não temos de analisá-las. É justo o que ela tem de engraçado. não a consideramos 30 . Há também uma outra coisa a respeito de Elizabeth. mas essas pequenas briguinhas são o estofo da vida. porque se houver uma xícara suja posso escondê-la dentro do secador. Para nós. Porém. blá. e isso é o máximo que se pode comentar a respeito. sou um homem ou um rato? O que vou fazer com esse secador? Vou pô-lo do jeito que Elizabeth quer?". Depois que limpo a pia. e quando ela quer encontrar algo também não consegue nada. se costumo me alterar com facilidade. quero relatar-lhes alguns pequenos incidentes para esclarecer um pouco mais o ponto. Entretanto. pois são sem dúvida triviais. e ela é maravilhosa. Vou ficar melhor.. Entretanto. Entretanto.. quando quero encontrar alguma coisa. é engraçada. talvez com essa prática do sentar eu me torne mais delicado". seja qualquer um. porque já joguei fora. Mais um exemplo e depois chego ao ponto que desejo elucidar. Ou: "Para ser sincero. não é mesmo? Quando Elizabeth lava a louça. As pessoas costumam questionar: "O que obtenho com a prática? Qual é a mudança? Qual é a transformação?". Vou ter de pintar meu bote outra vez e pronto. Contudo. Do que estou falando quando digo que a vida não passa de um encontro. talvez depois de sentar não me alterarei tanto". com os acontecimentos são semelhantes a sermos abalroados por um bote vazio. de uma abalroada com um bote a remo vazio? O que isso significa? Deixemos a pergunta de lado por um momento. Isso não é bem verdade. qual teria sido nossa reação? Vocês sabem muito bem o que teria acontecido! Bem. e terminamos indo a um filme que talvez. entretanto. A prática é justamente ter disposição para estar com o que há tal como se é. Se alguém querido morre. A alegria de minha vida é encontrar algo em meu armário da qual possa me desfazer. gosto de pôr o secador de pratos lá dentro como se fosse um prato. desaparece. Blá. não sou tão atencioso. não perdemos todos os nossos trejeitos neuróticos prediletos apenas com a prática. Estar com esse sofrimento do jeito que você está com ele. delimitá-las. é fantástico! Elizabeth tem três exemplares de tudo e não quer jogar nada fora. Desejo falar a respeito da pia da cozinha da casa onde moro com Elizabeth. não consigo achá-la. Uma vez que é assim que o desejo. não é assim que vivenciamos a vida. porque tem coisas demais. Moro com ela.. que é o seu jeito e não o meu. Somos instruídos a sentar todos os dias. na realidade damos a mínima para o filme.. é óbvio que esse é o jeito certo.

dentro de seis meses. Ele estará vindo logo. o limite está aqui perto. Todo mundo. coisas que não conseguimos aceitar como são. com todas as coisinhas acontecendo. É isso que estamos fazendo aqui. Apesar disso. o ponto-limite apenas se desloca e nunca deixa de acontecer. tudo isso é prática. ficar. que você não tenha toda sorte de opiniões. e a vida à sua volta também não. saberemos que um sinal foi dado: hora de praticar. Por que deveria estar em algum outro lugar? Ao longo de toda uma vida. Você tem sim! A questão não é essa. teremos algum ponto. começamos a sentir nossas grandes deficiências. só porque ela é como é. Em dez anos. Não foi fácil. Todavia se o fizerem. não nos recordaremos de nada isso! Porque nesse ponto as coisas ficam difíceis. Pensamos que a outra pessoa deva ser diferente. mas existe sempre aquele ponto cego onde não conseguimos enxergar a perfeição. Conforme nos tornamos mais sensíveis à nossa vida e ao que ela de fato é. muito mais. Se estivermos praticando o sentar por algum tempo. 31 . Isso não significa que você não teça todas as suas pequenas considerações. E será a minha prática. que odiamos. E assim por diante. e a maioria tentará tanto como nós. Não estamos tentando nos tornar alguma espécie de santo. Não significa que ela possivelmente seria diferente. E engraçado! Gosto das minhas discussõezinhas com minha filha: "Mãe. A questão da prática é fazer avançar o que chamo de pontolimite. Todos têm esse ponto. e ainda lembrar que a maior parte do tempo não estamos dispostos a trabalhar com ele. você consiga arcar com um pouco mais. quero que vocês considerem sua prática de sentar. não consigo. tudo bem. nossa imensa crueldade. e é nesse ponto que devemos aplicar nossa prática. o sofrimento terá aparecido. sempre há um ponto-limite além do qual não conseguimos ultrapassar. No começo só conseguimos agüentar certas coisas desse modo. Sentados como estamos. Eu gosto de todas as coisinhas que acontecem o tempo todo. fica cada vez mais difícil fugir. talvez um pouco mais. Porém. mas não poderemos ficar correndo indefinidamente. isso aconteceu na semana passada. para os outros. Mas e quanto ao ponto-limite? É aquele no qual está a prática. "Ela deveria ser do jeito que eu idealizo. depois de tanto tempo você não consegue usar o cinto de segurança!". não podemos fugir. Vocês podem dar-lhes as costas e recusar-se a vê-los. ela é perfeita como é. Eu também. não crescerão. trabalhar com ele." É isso que é divertido. Quando atingimos o que chamo de "ponto crítico" em nossa vida. de modo que possamos suportar cada vez mais. Entender isso. morrer. Vocês. Contudo. o tempo todo. Ainda é perfeito enquanto tal. A simples maravilha de Elizabeth ser Elizabeth. atravessei o pontolimite e agora o que espera é o próximo. permanecer e morrer. quando chegarmos ao ponto-limite. No entanto. apreciem sua vida e apreciem uns aos outros. Desta maneira. Para mim. Podemos tentar durante um certo tempo. o que não conseguimos enxergar é a área que cresce com a prática: área na qual podemos ter compaixão pela vida. Vemos as coisas da vida para as quais não temos disposição de cuidar. Nada fantástico e exuberante. mas quem sabe. permitindo que. Porém. Essa área cresce. Em um ano. Existem em todos nós. Deixar ser. simplesmente deixando que aconteça em nós aquilo que está acontecendo. essas coisas são encaradas de outro jeito. Sempre existirá. É provável que você não consiga evitar fugir mais do que por limitados períodos de tempo. A prática não é fácil. As pequenas coisas da vida não me incomodam em especial. Quando não pudermos fazer isso. Se vocês estão praticando o sentar há pouco tempo. não é engraçado -não estou dizendo que seja -mas mesmo assim é o que é.31 engraçada. apenas pessoas reais. "É. tal como ela é. estar com as outras pessoas. É o que significa tudo isso. que apenas não conseguimos suportar. Tomem consciência de seus pontos-limites. elas também aconteçam. Se estivermos praticando por tempo suficiente. Quero agora levantar mais um aspecto: penso que uma prática madura favoreça a capacidade de estar com a vida e na vida. Conforme nossa prática se torna mais sofisticada. Enquanto vivermos.

certo? Contudo.. Espectadores de jeito nenhum. ALUNO: Desejo ampliar mais um pouco a analogia do bote a remo: se víssemos que o outro bote está vindo em nossa direção com alguém dentro. Quero lhe fazer uma pergunta relacionada com a afirmativa. ALUNO: E parece que tem que ver com o ponto-limite. se pudermos refletir por dez segundos que seja. Queremos que nossos filhos sejam perfeitos. detenha-a! Pegue os fósforos! Ainda assim. Você disse que. Creio que é o que você está dizendo. porque muitas vezes a gente grita de qualquer jeito. como deixar estar essa coisa? JOKO: Vivenciando a raiva de modo não-verbal. ou outra coisa qualquer! 32 . ALUNO: Quando você apenas a detém. a verdade é que. talvez apenas pegássemos o remo e levássemos nosso bote para outro lado. quando leio sobre o zen. devemos praticar quando não pudermos deixar "o mundo todo ser meus filhos".. tomaríamos a ação adequada. físico.32 ALUNO: Algumas vezes. Zen é ação. Penso que Buda disse: "O mundo todo são meus filhos". nossos filhos são apenas nossos filhos. Por exemplo. evitando a colisão. consegue ver que tudo o que elas fazem – mesmo que se aproximem e dêem um chute em nossa canela –é um bote a remo vazio. Tente encontrar um meio de ajudá-la a aprender algo com o incidente. não. JOKO: Voltemos à imagem do bote a remo. quando está lidando com crianças pequenas. ALUNO: Você mencionou: "Não fique com raiva". A questão está em continuar deslocando o pontolimite para adiante. a gente xinga o universo. muitas vezes acreditamos mesmo que a coisa é um ataque pessoal. costuma ficar claro que só precisamos enfrentar aquele comportamento por meio de providências adequadas à criança. a menos que nos sintamos ameaçados em nosso ego por causa do modo como a criança é. Não somos perfeitos e eles também não. No entanto. provavelmente começaríamos a berrar e a gritar: "Pára isso aí e fica afastado!". ALUNO: Não sei se é assim mesmo. JOKO: Certo. Ao passo que se fosse só um bote vazio. tenho a impressão de que somos apenas espectadores. Ficar ali e deixar estar. quando a raiva emerge. ALUNO: Quero levar essa analogia um pouco mais adiante. mas vai pôr fogo na casa. é preciso deixála acontecer. certo? Você apenas fica ali de frente para o acontecido. Todos os pais têm essa mesma reação de vez em quando. com nossos filhos. Quando se está no pontolimite. Porém. JOKO: Não. JOKO: Então. a ação que você executa não parece tão adequada quanto o necessário. ela estará fazendo aquilo por seus motivos. Vamos dizer que a criança não vai chutar sua canela. Isso NÃO é um bote a remo vazio. está agindo diferentemente do que quando achou que a coisa seria um ataque pessoal? JOKO: Bem. Você não pode forçá-la a ir embora. Eles precisam ser modelados porque de outra forma as pessoas irão nos criticar. mas não tem de necessariamente investi-la contra outras pessoas. Podemos agir dessa maneira. mesmo que o bote esteja vazio. se você tem uma resposta habitual de raiva contra alguma coisa durante muito tempo. a maioria de nós.

Lembremo-nos dos dois versos do Quinto Patriarca: um se refere a lustrar interminavelmente o espelho. ALUNO: Mas. Não conseguimos ver isso enquanto não efetua. que não há nenhum espelho a ser lustrado. Assim. ALUNO: Se você sente de verdade a raiva emergindo. Mas. O que acontece comigo quando ocorre algum tipo de tragédia é o seguinte: "Não mereço isso". mesmo que não haja ninguém no outro bote. e isso. damos um jeito de pensar que o universo está fazendo aquilo contra nós. uma experiência de iluminação -enxergar de repente a realidade tal como é -significa apenas que. mas porque a reação simplesmente não acontece.mos uma prática de fato rigorosa e severa. JOKO: Você aprende com ela. é menos provável que a raiva venha à tona. começa a funcionar como um obstáculo. Porque só fazendo isso é que. existe dentro de nós.33 JOKO: Sim. é meio parecido com o secador de louça. ALUNO: Bem. enxergamos que a perfeição de tudo está em ser o que somos. Qualquer valor que a experiência possa ter. a questão é entender o que significa prática com raiva. muito difícil Ainda assim. Repetindo. Bem. as considerações pessoais a respeito da vida desapareceram. Dou tanta importância à injustiça do fato que começo a me revoltar contra essa "sacanagem". apoderam-se do que lhes parece um tesouro. é uma oportunidade para praticar . a primeira é inútil. É limpar e lustrar o espelho. JOKO: É mesmo. para início de conversa! Entretanto. A maioria das pessoas assume que. desde o começo. e apenas trabalhamos onde estamos. Sentimos de um jeito diferente e pode ser que não consigamos entender porquê. que. Mesmo sendo um bote a remo vazio. aliás. O ponto-limite é onde limpamos o espelho. é muito raro que esteja vazio. é ir em frente com a vida. ALUNO: Então é bom vivenciar a raiva. o bote a remo está repleto de outras pessoas o tempo todo. Não estou afirmando que não 33 . será este um sinal seguro de que você está num ponto-limite? JOKO: Sim. JOKO: Certo. Não porque diremos "Não vou sentir raiva". Isso é muito diferente. a pessoa enxerga o universal: o problema com a maioria das experiências de iluminação é que as pessoas se agarram a elas. então. não estou me referindo a uma simples proibição. A questão não é a experiência. por um segundo. "Mas como foi acontecer uma coisa dessas?". como pode existir um estado de iluminação? JOKO: Eu não disse que havia. "Meu amigo não merece aquilo". Isso é muito difícil. Mais uma vez. Você pode gritar. seria de todo inútil. Podemos até fazê-lo de vez em quando. Absolutamente necessário. e por isso eu disse que o título desta palestra é Não fique com raiva. sendo a segunda resposta a correta compreensão. nosso ponto-limite está aqui. ALUNO: Fico confuso quando ouço um relato de uma iluminação repentina. nós colocamos uma pessoa lá dentro. mas existe uma diferença entre uma resposta momentânea e pensar no caso pelas próximas horas. depois de algum tempo. a questão é: quanto mais praticamos. nossa prática é paradoxalmente a primeira resposta. Se é um processo. pelo contrário. Muito. Eu não falei que é para lançá-la aos outros. sempre é um bote vazio. e outro a ver.. é claro que preciso praticar mais ainda. durante um instante. E.. não precisamos mais nos preocupar com isso. Para a maioria de nós.

eu: é um jogo mental ilusório. de nada adianta. tenho de ser bom para comigo mesmo. eu. é a sua realidade do momento. Costumávamos dizer. medo que não realiza coisa alguma. criamos várias sentenças com "eu" como sujeito. não é produtivo fazê-lo. e depois afirmar: "Fique com raiva". desenvolvemos várias estratégias para a preservação dele. Depois de nos avaliarmos. lutar. reagimos. JOKO: Precisamos tomar cuidado com isso. Se ficamos fingindo que ela não está ali e a encobrimos com uma ordem do tipo "Não fique com raiva". insistindo para agirmos de modo correto. Depois de termos "avaliado" uma situação ou uma pessoa. "Posso acabar sem nada". Mas quem está amando quem? De que maneira é possível um "eu" amar "a mim mesmo"? Sentimos que "tenho de amar a mim mesmo. mas num outro. O outro lado da raiva. venham à manter ou a estabelecer uma vida segura e tranqüila para esse "eu". esperamos. Afinal de contas. e estamos perdidos dentro dele. ele cesse. Por nos vermos como um "eu" separado. Um é o medo comum: quando somos ameaçados fisicamente. se vivenciarmos seu vazio e passarmos por ela. "tenho de amar a mim mesmo". temos de entrar pela porta de trás. tenho de ser bom para com você". Toda essa atividade mental praticamente incessante implica uma avaliação contínua e inquieta de nós mesmos e dos outros. "Talvez eu não impressione". ALUNO: Creio que uma parte do problema está em você dizer: "Não fique com raiva". não podemos agir com inteligência alguma. "Sou importante demais para lavar a louça". senão viver segundo um particular e peculiar tipo de mente. fazemos alguma coisa. a atravessamos por inteiro. tomamos uma atitude. Em virtude do mau uso que fazemos de nossa mente. ou mesmo de um golfinho. temos tendência a criar um falso problema. ora é imediata a perda da oportunidade de conhecermos de verdade nossa raiva tal e qual ela é. Entretanto. até podemos começar a agir. Temos um "eu" fictício que tentamos amar e proteger. "O que acontecerá? Como será? O que vou tirar disso tudo?" Eu. no tempo da psicologia pop do sul da Califórnia. É como dizer a um alcoólatra que não fique bêbado.. num pensamento falso sobre a existência de um "eu" separado da ação. O falso medo existe porque usamos nossa mente de modo incorreto. logo que percebemos que estamos vendo o jogo. bem. podemos fugir. basta. é um medo que tenta manipular e manobrar. mas essa ação costuma estar fundada num erro. Elas dizem respeito ao que aconteceu com esse "eu" ou com o que poderia acontecer-lhe. Qual é a resposta? Precisamos enfrentar esse problema de um outro ângulo. segundo o qual nossa preferência é valorizar apenas as pessoas e os acontecimentos que. a maior parte de nossa vida ansiosa não se baseia nesse tipo. Primeiro. Podemos ter os seguintes pensamentos: "Talvez eu não consiga tirar aquela nota". que é falso. mas não é o que se dá. Nosso modo de pensar não é o mesmo de um gato. Falso medo Uma vez que somos todos humanos. realmente. ou com uma maneira de analisar e controlar esses eventos. enquanto entidade. "Não vou ser assim" não é a resposta. esse é o medo comum e natural. chamar a polícia. Forma-se um sistema peculiar de valores a partir de pensamentos em primeira pessoa como esses.. Passamos a maior parte de nossa vida jogando esse jogo inútil. de um cavalo. confundimo-nos com dois tipos de medo. Darmos ordens a nós mesmos o tempo todo. Estou dizendo que se a raiva é o que você é.34 o faremos. Porém. O vivenciar da raiva é uma experiência muito silenciosa. Em decorrência do medo que vem desta falsa imagem. Há um medo imenso por trás desses julgamentos. é sempre a compaixão. Nossa suposição é que. precisamos tomar consciência de 34 . Apesar disso. Ele existe porque não temos escolha. então a vivencie. Se realmente. Estamos perpetuamente embriagados. Não faz absolutamente barulho algum.

Não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí. Do ponto de vista do Dôgen Zenji. Isso é o que significa sentar. mas ao sonharmos nossos sonhos em primeira pessoa perdemos tudo isso. Por isso é uma leitura muito instrutiva e pertinente. Não que para mim a morte seja uma tragédia. A pessoa que já praticou o sentar. não está apenas se referindo a ele. A maravilha está acontecendo o tempo todo: o pássaro canta. o pensar. O que é que descobrimos. o tenzo deve ser um dos mais maduros e meticulosos alunos do monastério. Sintam-na apenas. por isso. Corremos para todo lado como loucos. portanto. É uma rara oportunidade e. Está se pronunciando sobre a vida de todo e qualquer estudioso do zen.35 nossa ilusão. na verdade. tentar consertar a própria vida. Espera. e. Já naquela ocasião o suicídio era tudo que ele conseguia mencionar e. Uma vida vivida sem esperança é pacífica. de algum modo. Se sua prática não é aquela que um tenzo deve ter. Talvez nada seja uma tragédia. no entanto. não é? Mas. uma pena. o ouvir.mos ter sucesso. Nada há a nossa volta que não seja si-mesmo. Esperamos alcançar a iluminação. de nossa embriaguez. Parte desse erro está presente em todos nós. deve ter. sabe que não existe passado ou futuro. as sensações corporais prosseguem. É uma oportunidade preciosa a que temos. apreciem-na. Nessa condição temos possibilidade de ver com mais freqüência através dos falsos sonhos que obscurecem nossa vida. Não está oculto. enquanto ele descreve a vida de um tenzo iluminado? Alguma visão mística? Algum estado de vertiginosa entrega? 35 . pelo menos. alegre e compadecida. a seu ver. então. Enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo -e todos fazem isso . esse maravilhoso e oculto si-mesmo. acontece algum erro. na medida em que não damos o justo valor ao mero fato de estarmos vivos. Tem sido dito que a chance de ter um vida humana é algo como ser escolhido como um grão de areia dentre todos os grãos de uma praia. a vida é um milagre a cada segundo. segundo o Dôgen Zenji. então. Todos morremos. ao descrever essas qualidades desejáveis no tenzo além das instruções de como ele deve proceder em seu trabalho. toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. evidentemente. Isso não é o mesmo que auto-aperfeiçoamento. Hoje. tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. os carros passam. Portanto. É shikan: apenas ficar sentada. a vida de todo o monastério sofre. o coração pulsa. alguém que eu não via há muitos anos. E depois. dê-lhe luz. em nossa opinião. de qualquer bodhisattva. preste atenção. não me espantei com a notícia. não é nenhum pouco terrível. É o falso "eu" que interrompe a maravilha com o desejo incessante de pensar sobre "eu". permaneçamos só sentados com o que talvez pareça uma confusão. São suas idéias do que um tenzo -o cozinheiro-chefe deve ser: quais as qualidades e a vida que um tenzo. o que há? Sem esperança Há poucos dias fui informada que um amigo se suicidara.esperaremos que aconteçam coisas que. Onde ele estará oculto? Esperamos por alguma coisa que venha tomar conta desse pequenino si-mesmo porque não nos damos conta de que já somos si-mesmo. tentando encontrar algo chamado si-mesmo. vivenciar. mas penso que podemos afirmar que viver sem apreciar a vida é. Há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça. Parece terrível. É claro que o autor. Esperamos ter saúde. conhecer as ilusões (as sentenças em primeira pessoa) como são. presente. sejam essa confusão. seja qual for o período que durou sua prática. estarmos vivos como seres humanos. O que estamos procurando? Há poucos dias um aluno me emprestou um livro que continha um texto de Dôgen Zenji chamado Tenzo Kyokun. exceto em nossa mente. Permitam-se ser o ver. essa não é a tragédia. Não é que "eu" ouço os pássaros. quero falar a respeito de não ter esperança. como no caso do meu amigo. É só ouvir os pássaros. 0 texto antigo diz: ilumine a mente.

Dôgen Zenji fala do si-mesmo que se instala naturalmente no si-mesmo. entenderemos na realidade o que é a prática zen. Ninguém pode vivê-la em seu lugar. desejando praticar e estudar. e suportar. (Ele) trabalhava sem parar e estava coberto de suor. então o fazemos. Estava usando uma vara de bambu e não tinha chapéu na cabeça. Quando. costumamos viver em vão. a alegria de nossa vida está em fazer totalmente.36 Absolutamente não. da manhã à noite. Os raios do sol estavam tão fortes que os ladrilhos do caminho queimavam os pés. coloque-o na panela. descuidadamente. de vocês sentirem a dor no dedo do meu pé. Não tenho esperanças. "O senhor tem razão". O tenzo vetusto salientou: "Os outros não são eu". ou de eu sentir a dor no pé de vocês. O que podemos todos nós aprender? Com seu texto. meu sofrimento. por exemplo. quando é que poderei fazê-lo?" Só eu mesmo posso tomar de mim todo o dia. Vocês não podem engolir por mim. Ele escreve sobre onde colocar as conchas. Se a entendermos. ele se dirigiu à China para visitar monastérios. Ele respondeu que tinha 68 anos. Só eu posso receber vida. Não há meios. Ele respondeu: "Se eu não o fizer agora. Ninguém mais pode senti-la. da alegria. Dôgen Zenji está repetindo uma famosa história. Meu trabalho. num deles. quando mais poderei fazê-lo?". Ninguém vive completamente assim. para aquilo e para aquilo outro. O que Dôgen Zenji está nos dizendo? Ele não escreveu isso apenas para o tenzo. Não há como. Ninguém pode ofertá-la a ele. sob um sol tão abrasador?". O que ele está dizendo é que sua vida é absoluta. Não podem dormir por mim. Aproximei-me e perguntei sua idade. por acaso. Ele estava espalhando cogumelos para que secassem sobre uma esteira de palha. Consideremos este depoimento. naquele instante você morreu um pouquinho. É esse contato. Tome muito cuidado para que um camundongo não caia por acidente lá dentro. que constitui o tema sobre o qual Dôgen Zenji se pronuncia quando descreve o dia do tenzo. A seguir perguntei-lhe por que não usava um assistente. a própria alegria. Suas costas estavam curvadas num arco teso e suas longas sobrancelhas eram inteiramente brancas. Não tenho necessidade de mais nada. como pendurá-las etc. você não deve. muito detalhadas. 36 . Porém. Não pude evitar de sentir que aquele era um trabalho demasiado árduo para ele. Se uma impressão que chega até sua vida não é recebida. Aí está o paradoxo: quando me aproprio inteiramente da dor. mais agradável. Gastamos quase todo o nosso tempo tentando dispor a vida de tal sorte que a vontade venha a se tornar realidade. Ele respondeu: "Os outros não são eu". Não é nem o que tem de ser feito: está ali para ser feito. o que deve ser suportado. minha alegria são absolutos. Depois de terminar a lavagem do arroz. mas ainda não é preciso que percamos 90% das experiências de nossa vida. ele viu o mais idoso dos tenzo trabalhando do lado de fora da cozinha. ou o arroz da areia. estiver passando pela cozinha ponha o dedo na panela ou olhe lá dentro" (10). Enquanto continuava atravessando aquela passagem. comecei a sentir profundamente o significado do papel do tenzo (11). Atentem para isso. jogar fora a água que restou depois da lavagem do arroz. "Se eu não o fizer agora. segundo a segundo. "posso ver que seu trabalho é a atividade do Budadharma. Certo dia. Quero mostrar-lhes um parágrafo: "A seguir. Em nenhuma circunstância permita que alguém que. na esperança de que alguma coisa ou alguém faça nossa vida ficar mais fácil. Não há nada na administração da cozinha que Dôgen Zenji tenha deixado de fora. empregava-se um saco de pano para filtrá-la antes de jogá-la fora. da responsabilidade pela minha vida -quando enxergo com clareza este ponto -então estou livre. numa tarde de junho que estava especialmente quente. O que ele deseja dizer com isso? Que apenas a pessoa pode vivenciar a própria dor. ponderei. Há muitos parágrafos sobre como separar a areia do arroz. pelo contrário. Explicações muito. Não havia mais nada que eu pudesse dizer. Quando jovem. Antigamente. em fazer só o que tem de ser feito. mas por que está trabalhando tanto. apenas.

tomar conta de nossos filhos. Trata-se de um homem que estava sentado no telhado porque uma enchente invadia sua aldeia. grão por grão. Cada palavra que vocês pronunciam. Permaneçam com a única coisa que é real: a vivência da respiração. é só isso. cada vez mais e ele subia cada vez mais para o topo do telhado. ficam sonhando o tempo todo. Passamos muito tempo procurando uma coisa chamada verdade. sem encantos especiais . mas fazê-lo com cuidado. Então. Cada encontro.essas maravilhas da vida. Ele respondeu: "Não. enquanto estamos na prática. do corpo e do meio imediato. ficamos ansiosos e até mesmo desesperados. Nós não só esperamos.37 Não é só lavar o arroz. mas um outro bote ainda conseguiu aproximar-se dele. passá-la preparando comida para os outros. que é nossa vida. A equipe esforçou-se muito para conseguir chegar até ele e quando finalmente conseguiram. com a mente em outra parte. Chamaram-no: "Venha logo. Lembro-me de uma época em que eu costumava devanear literalmente durante quatro a cinco horas todos os dias. O que obteremos em 37 . O que Dôgen Zenji está nos alertando é que a prática real não tem nada que ver com isso. ninguém irá abandoná-la de uma vez e pronto. qual a recompensa que teremos? Se de fato praticarmos desse jeito. em cada atividade de nossa vida. tudo que temos será levado embora. permanecemos mais em contato com a única coisa que nunca teremos. queixou-se a Deus: "Deus. Deus irá salvar-me!". fazer exercícios de matemática ou física. existe só o que está aí. não. comuns. que pairou exatamente sobre ele. por que Você não me salvou?". escapam-nos porque estamos na esperança de alguma coisa muito especial. Por fim sua cabeça submergiu e ele se afogou. Estou rezando. exceto em cada segundo. Enfim quando a água já estava praticamente cobrindo-o todo. o que significa não ter esperança? Claro que significa fazer realmente o zazen. nossa vã esperança por um lugar de descanso em algum lugar faz com que ignoremos e desconsideremos aquilo que temos bem à nossa frente. durante algumas horas ou minutos. é a iluminação. No entanto. de algum ideal. Um de meus alunos contou-me uma boa história faz pouco tempo. Por vezes é um sonho como o parceiro ou a parceira ideal. Quando chegou ao céu. Ele ainda comentou: "Não. não. Deus irá salvar-me. Para ser honesta. então o que a vida pode nos oferecer –aquele homem ou aquela mulher logo ali à nossa frente. A água estava muito turbulenta. Não cantarolar distraído. não. Não fazer pela metade a limpeza da louça. Essa é sua última oportunidade! Suba!". Cada bocado de alimento. Portanto. É isso. Entretanto. Por quê? Porque um segundo após o outro. Por isso. não. considerem como são irreais e afastem-se. estamos todos nessa expectativa. A água já estava no nível do telhado quando vieram salvá-lo num bote a remo. no zazen. E mais uma vez ele respondeu: "Não. Não há nada de errado com os sonhos e as fantasias. Não é apenas jogar a água fora. só sua cabeça estava de fora. Apenas não se apeguem a eles. somente o fluir. O vetusto tenzo espalhando algas: eis uma vida apaixonada. levamos nossa vida com essa atitude de consideração por nosso trabalho? Ou estamos sempre esperando que "em algum lugar tenha de haver mais do que isto"? Sim. cada segundo. que o sentar. Cada palavra que pronuncio. Na realidade. nem qualquer outra coisa. Esse "alimento" pode ser datilografar. Mas quando nossa vida está nos sonhos e nas esperanças. se praticarmos dessa forma. nos sesshins. Mas podemos ter períodos nos quais. como na realidade entregamos nossa vida a essa esperança. Contudo. Deus irá salvar-me!". Quando eles não "produzem" para nós os resultados. E ela não existe. Deus virá salvar-me". Estamos novamente dizendo que o zazen. não. apenas sentar. Agora vejo com tristeza muitas pessoas desperdiçando a própria vida em devaneios. ninguém quer abandonar a esperança. Veio um helicóptero. gritaram para que descesse e entrasse no bote. Deus disse: "Mas Eu tentei: mandei dois botes a remo e um helicóptero". De novo suplicaram-lhe que entrasse no bote para se salvar. A água continuava elevando-se. a esses pensamentos e a essas fantasias em vão. todos nós estamos o tempo todo preparando alimento para os outros.

em vez de esclarecer como a emoção-pensamento se derrete. É claro que os pensamentos são ilusórios. Muitas pessoas pensam de modo equivocado que a prática é eliminar os pensamentos ilusórios. O amor (compaixão) sobre o qual falam. esperanças e condicionamentos. Esta vida é o nirvana(12). Enquanto ela alimentar nossa imagem de como as coisas supostamente são. mais do que alguns dos velhos mestres. como se você tivesse cortado o talo de uma folha de grama ou o tronco de uma árvore. pensamos que é uma grande relação. mas isso já temos. as montanhas. Não obteremos coisa alguma. No entanto. essa espécie de sonho não tem muitas chances de sobreviver. Se praticarmos do modo como ele espalhava as algas. Menzan Zenji escreve o seguinte: "Emoção-pensamento é a raiz do delírio. contudo. Onde pensávamos que ela estaria? Lembremo-nos do velho tenzo. não sejamos como aquele meu amigo que não consegue apreciar a vida e sua prática. então seremos recompensados com esse absolutamente nada. Grande parte da prática deste Centro gira em torno de esclarecer como a emoçãopensamento se dissolve. meus filhos concordassem comigo. mas em graus muito variáveis. Menzan Zenji (1683-1769) foi um dos grandes eruditos do Zen Soto e. As palavras de Menzan Zenji são nítidas: "Quando. (Se. em termos da palestra de hoje. porque não esclareceram como a emoção-pensamento se dissolve. centrados no eu. Certamente não é o que definimos de amor "romântico". o bloqueio paralisado da emoção-pensamento naturalmente desvanecerá". Mas ele afirma: "Se você pensa que eliminou o pensamento ilusório. sempre existe um amor genuíno e um amor falso. porém. Ele afirma que a ausência de tais pensamentos é o estado de iluminação. é a vinculação obstinada a um ponto unilateral de vista. sábia. os relacionamentos aplicam-se a todas as coisas: a xícara. Amor Amor é uma palavra que não se encontra muito nos textos budistas. não é uma emoção. porque parece que sempre são os causadores das maiores dificuldades. Nela. Obteremos nossa vida. Muitas pessoas passam por experiências de iluminação. estamos nos referindo a relacionamentos que envolvem pessoas. como ele diz. Há uma imensa diferença entre alguém que está 95% do tempo preso nessa teia e alguém que está 5% preso. a emoção-pensamento surgirá de novo. Sem exceção. Portanto. Gostaria de acreditar que sou uma boa mãe: paciente. Contudo. estaremos envolvidos numa relação com alguém. estamos todos presos a emoções-pensamentos. Às vezes. Primeiro temos de ver o que são: os pensamentos emocionais. Contudo. você aprenderá pouco. Estritamente falando. Claro que gostaríamos de manter a imagem idealizada que temos de nós mesmos. lemos os antigos textos e formamos uma imagem da prática que não tem relação alguma com a compra do pão na padaria. O quão genuíno é nosso amor algo que depende de como praticamos com o amor falso. que tão pouco tem que ver com amor. deixando a raiz viva". os amargos frutos da emoçãopensamento serão seu alimento na vida diária. pela prática. com os quais nos debatemos o tempo todo. pelo menos. você conhecer toda a realidade do zazen. compreensiva. o sonho se desfaz sob o impacto da pressão e descobrimos que não podemos manter nossas belas imagens dos parceiros e de nós. pois os dois frutos de nossa prática são a sabedoria e a compaixão. 38 . Quando não vemos o vazio da emoção-pensamento. o tapete. que se alimenta das emoções-pensamentos com expectativas.38 troca? A resposta é clara: nada. pelo menos não do tipo que estamos acostumados. É bom investigar o que é o amor e como está vinculado à nossa prática. o satori em si. as pessoas. é claro. esperamos que nossa relação nos faça bem. formado por nossas próprias percepções condicionadas"(13). não tenhamos expectativas e esperanças. quando vivemos em íntima ligação com alguém. Se não estivemos nos escondendo dentro de uma caverna pelos últimos vinte anos. torna clara a prática. se você os corta em vez de "esclarecer como a emoção-pensamento se derrete". Conforme o tempo vai passando.

digo: "Acabou a lua-de-mel. de nossas imagens estilhaçadas. Japão. Toko Insatsu KK. Refining your life: From the zen kitchen to enlightenment. mais desenvolveremos uma mente aberta e amorosa. 1985. de nossas esperanças perdidas. Não há meios de vivermos alguma vez com alguém que nos agrade de todas as formas que desejamos. Quando o desenvolvimento estiver completo (o que significa que não existe nada sobre a face da Terra que julguemos) esse é o estado da iluminação e da compaixão. Quando sentimos de modo direto o sofrimento. 10 . Nova York. Shikantaza: An introduction to zazen. O tenzo também pode ser empregado no sentido de um retorno à pureza original da natureza de Buda depois da dissolução do corpo físico. Espero do parceiro que corresponda à minha imagem idealizada de mim mesma. 106. de nossa decepção. na realidade a emoção-pensamento sai de controle. É a perfeita liberdade de um estado incondicionado. 13. Ele não promove meu conforto e meu prazer. Por conseguinte. traduzido por Thomas Wright. Quanto mais praticamos ao longo dos anos. Meu parceiro não me convém mais. editado e traduzido por Shohaku Okumura. que formam a barreira ao amor e à compaixão. p. publicado por Kyoto Soto-Zen Center. esse absurdo das emoções-pensamentos dominam nossas vidas. Essas vivências são em essência não-verbais. como enfrentarmos tais decepções? Devemos sempre praticar a aproximação cada vez maior de nossa dor. se estamos numa ligação estreita.Mestre zen Dôgen e Kosho Uchiyarna.39 seria tão bom!) Porém. de tempos em tempos. 39 . 12. 1983. o desejo e o despertar da Paz e da Liberdade interiores. O que há de errado com ele? Está fazendo todas as coisas que eu não suporto". Cumprir nossos votos é a única coisa que podemos fazer por outra pessoa. ele não reflete a imagem onírica que alimento a meu respeito. E fico me perguntando porque sou tão infeliz. O preço que temos de pagar é essa prática de toda uma vida em cima de nosso apego às emoções-pensamentos. alguma dor. Mestre zen Dôgen e Kosho Uchiyama. Menzan Zenji. p. p. Tóquio. 9 ff. Weatherhill. Quando ele deixa de agir assim (o que não tardará muito). Tóquio. pode começar a dissolução da falsa emoção e emergir a verdadeira compaixão. Quando o quadro se desmantela em pedaços -e isso sempre acontece num relacionamento íntimo -esse "amor" se transforma em hostilidade e discussão. porque nenhuma relação jamais nos preencherá por completo. Nenhuma exigência emocional tem alguma coisa que ver com amor. Refining your life: From the zen kitchen to enlightenment. Nota do Editor: Nirvana é a extinção da ignorância. incessantemente. Principalmente no amor romântico. 11. 5. Devemos observar o conteúdo do pensamento até que se torne neutro o suficiente aponto de podermos entrar na experiência direta e não-verbal da decepção e do sofrimento. viveremos. Portanto.

Querem dizer que estão buscando uma vida espiritual. Não existe nada. paz. Parece que falta alguma coisa bem aí. porém. Precisamos saber o que significa olhar . jamais o encontrará. Você precisará ir até a Austrália e lá o verá. O que buscamos? Dependendo de nossa vida particular . Então. nosso compromisso cada vez maior com essa relação. "minha verdade~ra vida". buscando. é assim mesmo. com o som de minha voz. Se queremos uma vida saudável. isso parece muito simples: o que interfere? O que impede nosso compromisso com um relacionamento humano específico. mas pensamos que devemos ir em busca de alguma coisa. a cada segundo. ele tem determinadas qualidades. com o estudar. Enquanto orientação inicial para a prática. não!". o lugar ideal para viver. Precisamos transformar nossas idéias a respeito desta busca. meu relacionamento é com o tapete. em termos modernos. Se deixarmos de procurar. Dependendo do quanto estivermos inquietos. Conforme vamos praticando. buscamos e buscamos. qualquer coisa dessas. mas. Se você olhar para o céu de San Diego à noite na esperança de ver o Cruzeiro do Sul. clareza. estamos em busca de Deus. precisamos entender a que se refere esse buscar . mas.40 CAPÍTULO 4 Relacionamentos A busca Todos os momentos de nossa vida são relacionamentos. Numa prática como a nossa. no fundo. não existe coisa alguma além de estar em relação com aquilo que está acontecendo num dado momento. Ou melhoramos o emprego que temos ou então pensamos: "Não vou comentar com ninguém. Talvez esteja em busca do parceiro ideal: "Bem. estaremos todos buscando uma vida ideal.Pode ser que sintamos nunca estarmos no trabalho certo. Pode ser que respondam: "Sou uma pessoa que está buscando". Isto parece favorável. o divertir-se? O que existe que bloqueia os relacionamentos? Uma vez que nem sempre entendemos o que significa estar numa relação com o momento presente. Estou buscando. como os aros de uma roda. o fato de pensarmos que a busca em si é válida. exceto eu estar em relação. Não é a ação impaciente que é inválida. Distancio-me do centro. as buscas que empreendemos na vida serão diferentes umas das outras. o que cresce em nossa vida é: em primeiro lugar. buscamos. está muito bem que seja assim: iremos em busca de algo. o trabalhar. em outras não corresponde". Não existe coisa alguma que não seja relacionamento. as pessoas estão certas do que pensam que têm de encontrar. A iluminação não é algo que possamos buscar. de buscar. e a prática é uma espécie de transformação. Podemos defini-la como o parceiro ideal. buscamos e mudamos. com meu próprio corpo. aquilo. Em certo sentido. Mesmo que os ideais dos outros nos pareçam muito estranhos. sem dúvida. com a sala. há 40 . desde o início. E estão buscando isso. o que você tem em mente?". estamos fazendo o quê? Embora eu esteja no centro de minha vida. o que nos resta? Resta-nos aquilo que estava no centro da situação. buscamos. procurar. Por trás da busca há inquietação. Em termos tradicionais. diríamos que estamos procurando "meu verdadeiro ser". Quando atendo telefonemas no Centro pergunto: "Bem. Neste momento. As pessoas novas no Centro me falam: "Estou aqui porque estou buscando". rejeito aquilo. de nossa história passada e de nosso condicionamento. Primeiro numa direção. Não estou dizendo que se deva permanecer no mesmo serviço para sempre. buscando. É uma forma sutil de buscar. Tento isto. estar nesse centro não me interessa. depois em outra. nossa tendência é a busca do que se chama estado "iluminado". Mas é preciso saber onde procurar. por isso me interesso em buscar aparte faltante. Por isso. Bem. em segundo. mas não fico aqui muito tempo mais. o trabalho ideal. se sentirmos que falta alguma coisa importante para nossa vida. não.

cada um de nós pode olhar para a própria vida. é isso mesmo. conseguiremos perceber para onde devemos olhar? Veremos o que nos é possível fazer? A disponibilidade para a prática surgirá da convicção de que não existe mais nada a ser feito. Seja lá o que eu disser. Então existem duas questões: entendo a necessidade da prática? Sei o que é a prática? ALUNO: Penso que prática seja estar aberto. ser prática? A segunda questão é: será que eu sei o que é a prática? Realmente sei? Conheço pessoas que há vinte anos fazem o que chamam de prática. que é a agitação. a busca começa a ser inteiramente abandonada e. Assim. empregos perfeitos. então. a busca cessa exatamente naquele determinado lugar que se chama. É assim que precisamos começar a entender a necessidade de uma prática. A prática é estar muito ocupado. No entanto. trabalhando com eles em nossos relacionamentos. como um todo. Se tivermos um pouco de cérebro que seja. lugares perfeitos para se viver. Daí em diante. JOKO: Em nível experimental é verdade. Vejam. Isso demonstra que não há entendimento do que seja a prática. Como diz o voto: "Os desejos são inextinguíveis". No entanto. ALUNO: Eu penso que a prática é estar consciente do sofrimento e da agitação que existem dentro de nós. o sofrimento e a agitação que a motivam. estaremos todos procurando algup1a coisa que nos salve. a todo input sensorial que vem até mim e também a meus pensamentos. Estamos com uma dor e usamos a busca para aliviá-la. passamos a notar que a prática não é uma busca. Essa decisão pode levar vinte e cinco anos para ser tomada. sim. Há agitação. por fim enxergaremos que "já fiz isso antes". Apenas saber disso é um alívio. por exemplo.. Com isso não estou me referindo apenas a sentar zazen. JOKO: O que significa "trabalhando com eles"? 41 . Essa é a transformação. sim. o que está por trás de toda essa busca é o quê? Medo.41 sofrimento. neste preciso momento. depois que todos sairmos daqui. dá até paz. pois ele está propriamente onde estamos olhando. decepção. Porém. A prática é estar com o que motiva a busca. voltarei a praticar". Começamos a ver que a dor surge porque estamos nos beliscando. em cinco minutos no máximo. Quando eu tiver mais tempo. estou muito ocupado. em termos de como praticamos. Sentir-se infeliz. Desta maneira voltamo-nos com cada vez mais freqüência para o desapontamento. Esse é o momento mágico -aquele em que percebemos que buscar fora de nós não é a solução. Sofrimento. No minuto em que nos dermos conta disso. Isso nunca acontece de uma vez por todas. Joko. O que buscamos? Se começarmos a enxergar através dessa busca. enxergaremos que o "x" da questão não é a busca mas. essa constatação nos vem de muito longe. vocês não extinguem os desejos com a busca. porque não existem seres perfeitos. vivencie justamente essa situação. atinge-nos de leve. A própria paz que estamos buscando com tanto ardor está em reconhecer esse simples fato: somos nós que estamos nos beliscando. e ninguém mais. A prática não é algo que fazemos como aulas de natação. vivenciando aquilo que está por trás deles. Agitação. Com o tempo vai ficando mais nítida. acossado. embora seja preciso um pouco mais de esclarecimentos. e. Nosso impulso para ir atrás das coisas é tão poderoso que nos engole. duas perguntas: a primeira diz respeito a entender de fato a necessidade da prática. o sofrimento. Será que entendo a necessidade de minha vida. qualquer coisa que busquemos nos desapontará. a todo momento. em vez dela.. Teria sido melhor que tivessem ficado praticando suas tacadas de golfe. Primeiro. Bom lugar esse. Portanto. As pessoas me dizem: "Neste semestre não tenho tempo para minha prática. na medida em que continuamos sofrendo. Percebemos então que não se trata de buscar o problema. Existem. que está sempre no centro.

portanto. não há nada a fazer. quando ficam com raiva. Parece uma coisa fantástica "aprender a estar com o momento". Porém. JOKO: Concordo. Se você mencionasse essas duas coisas. mas é porque não existem dualismos. acontece algo dinâmico. nessa experiência direta. num esforço de ter mais familiaridade com os pontos cegos que obscurecem o momento. Se acreditamos em nossos pensamentos irados. ver os pensamentos que ela origina. A prática não significa que. segundo um modo agradável. Porém não é tão freqüente vivenciarmos realmente alguma coisa. não faz isso. por isso. se realmente sou minha raiva. É aprender a ser. ALUNO: A prática tem algo que ver com atenção. Ninguém quer experimentar a humilhação. é verdade. Não é tão fácil compreender as palavras. agente pára e diz: "Vou vivenciar essa situação". E com ela você não machucará ninguém. ALUNO: Parece que. JOKO: Sim. poderia ficar muito zangado e. mais naturalmente podemos fazer isso. então há poder e também o conhecimento do que fazer. movidas por seus pensamentos e. embora às vezes as pessoas me falem que estão fazendo isso. Todos conhecemos o palavrório. Quanto mais madura nossa prática. só que. se alguém me disser: "O que você falou em sua palestra estava simplesmente horrível. poderemos talvez magoar alguém. agem de maneira compulsiva. Mas a experiência pura não tem componente verbal. no meio de uma briga com outra pessoa. é só a experiência. digamos uma situação com meu filho. ALUNO: Geralmente é! 42 . naquele momento específico. estou sendo minha raiva e nada acontece". Joko". JOKO: O problema é que a maioria interpreta "momento". muitas vezes precisam voltar mais tarde à própria experiência e ficar consternadas porque não tiveram habilidade suficiente para fazer isso no momento em que se sentiram ameaçadas. quando é evidente que não estão. Se a pessoa vivencia de verdade sua raiva. Como você mencionou. acontece algo dinâmico. JOKO: Está certo. ALUNO: Parte de minha busca neste momento implica a disponibilidade para permanecer em situações incômodas ou com sensações e sentimentos desagradáveis em meu interior. não quero ficar naquele momento. acabar matando alguém. Mas as pessoas. as pessoas olhariam para você e diriam: "Rã? Mas do que você está falando?": Ou então: "Bem. quando estamos de fato com raiva: ser a raiva. ALUNO: É porque não estamos realmente lá e não nos deixamos sentir e vivenciar de verdade aquele sofrimento em particular. Quando volto inteiramente minha atenção para alguma coisa. mas não originário de minha personalidade ou de boas idéias. porque é doloroso. vivenciá-la fisicamente. com aquilo que chamamos "agora". e. raras vezes. Numa experiência completa não existe o eu tendo uma certa experiência. aqui e agora. JOKO: Não. supondo que agora você está apresentando um workshop introdutório. A raiva pura é muito silenciosa. E quando não há separação. quando a raiva aumenta. desde que isso não seja apenas mais uma idéia. damos a volta e o evitamos. a estar. ALUNO: Prática é aprender a estar totalmente com o momento. JOKO: Sim.42 ALUNO: Por exemplo.

JOKO: Vulnerabilidade significa que não fecho a porta mesmo que eu esteja sendo machucada. eu parar. aliás. tornamos o relacionamento um sorvete. àquele indivíduo. E quando a palestra estiver encerrada. Porém. No mínimo. (Sutra Diamante) O que é tempo? Existe tempo? O que podemos dizer a respeito de nossa vida cotidiana em relação ao tempo. A questão toda está em que posso sentir dor. elas não empurram a cadeira de volta para o lugar. É onde estamos neste preciso momento. de que modo isso se aplica aos relacionamentos. onde estará a palestra? Não há palestra. por isso corremos pela porta aberta. posso sair. que existe para me conferir prazer e conforto. por exemplo. ou. Depois de algum tempo pode ser que falemos pelos cotovelos. ou qualquer acontecimento da vida tem um começo. Quando deixamos a porta aberta. e supostamente deve proporcionar-me bem-estar. e essa é a razão pela qual os alunos supostamente avançados são sempre os difíceis. Estamos em busca da verdade. JOKO: Correto. ALUNO: As palavras que me ocorrem com respeito à prática são "vulnerabilidade" e "viver com". podemos afirmar a respeito de tudo que faz um dia. no pátio. onde está nosso passado? Ele não existe. E essa memória. Bem. mas não vou desistir apenas por esse motivo. onde estarão as palavras que acabei de pronunciar? Elas simplesmente não existem. São muito poucos os que consideram as 43 . Qual seria uma outra forma de falar a respeito de vulnerabilidade? ALUNO: Você não ter fechado a porta para seus sentimentos e suas sensações. estar ciente deles. Preciso ir para o zendo e ouvir coisas sobre a verdade". mas não sabem. Estão só falando. para a maior parte das pessoas. ao escritório. se eu sentir dor. É aquele esforço de funcionar sem a atuação dos mecanismos de autoproteção.43 JOKO: Sim. Costumo reparar que. a autoproteção é automática. a nossas relações com todas as coisas e pessoas. não deve me incomodar". em vez de sermos a agitação e o sofrimento da posição que ocupamos a cada momento. um concerto. do lado de lá. Contudo. só nos recordamos de partes da experiência concreta. quando as pessoas se levantam da mesa. em geral. Em outras palavras. Sentem mais ou menos que "essa cadeira não é importante. um meio e um fim. Eles pensam que sabem. A mente do futuro é inapreensível. é fragmentada e incompleta. seja lá o que for. ao nosso desjejum. Neste exato momento. pelo menos. É de onde procede a raiva. Podemos afirmar o mesmo de um concerto. com a maioria acontece isso mesmo. não-ser? Costumamos pensar que uma dharma palestra. ao não-ser? O que podemos aprender a respeito dos relacionamentos sobre esse não-tempo. A razão pela qual quero deixar a porta aberta é que. Só restam traços de memória em nossos cérebros. a qualquer instante desta palestra. ela é aquela parte em nós que não quer estar em relação com coisa alguma. A mente do presente é inapreensível. onde estarão as palavras que terão sido ditas até aquele minuto? Não existem. Não estão comprometidas com ela. Praticando nas relações A mente do passado é inapreensível. aos nossos filhos? O modo como costumamos ter as relações é o seguinte: "Esse relacionamento está ali. a nossa relação com a almofada em que nos sentamos. a verdade é a cadeira. ao não-tempo. de tudo que é nossa vida. Se eu parar em algum momento posterior. Mas se.

a questão é que construímos um elaborado sistema de emoções e dramas. apenas uma coisa. englobo desde um tédio aborrecido até estados mais intensos que esse. uma moça (não praticante de zen) veio conversar comigo e queria me contar o que seu marido lhe havia feito três semanas antes. Então. uma única coisa cria esse mundo hostil: nossos pensamentos. Todos fazem ou fizeram isso. Elas criam um mundo de tempo. Um certo aluno me disse que vem subindo as paredes desde que me ouviu falar sobre a questão do tempo. pois são inapreensíveis. Minha história descrevendo os acontecimentos da manhã não é o que aconteceu. Porém. mas contamos para todas as pessoas a esse respeito. porque está em busca de seu passado. Não sei se isso é real." Ela estava ficando cada vez mais aflita. o incômodo na barriga. conseguiu enxergar que aquela aflição não tinha a menor realidade. mas é tudo que podemos dizer a respeito. que não o "Te peguei. O que existe? O que é real? Existe só meu aborrecimento neste instante. sem exceção. Fora da experiência física não há mais nada que seja real. Bem. para obter consolo... tento 44 . O que remos fazer com relação a toda essa encrenca? Na verdade o que existe aqui? O que realmente é agora? Enquanto estamos almoçando. Na hora do almoço ainda estamos aborrecidos. a ação com base na confusão e na ignorância leva diretamente a mais confusões. mas estou lhe contando. "Ah. Porém. onde está a discussão. onde está a discussão do café? Onde? "A mente do passado é inapreensível. Bem. estas podem até ser mais presentes." Quando digo "desagradável". em nossa ignorância. muito aborrecida. não conseguem tomar conta--de suas obrigações e precisam ficar doentes. simpatia. se tentarmos encontrar o passado e o futuro que nossos pensamentos alimentam. Portanto. Fazemos o que fazemos de modo definitivo e. Foi isso o que aconteceu. espaço e sofrimento. não é nada fácil. não posso lhe mostrar. Entretanto. no que parece ser um mundo hostil." "E onde está o aborrecimento. e todos nós procedemos assim. "Quando nos encontrarmos hoje à noite vou realmente ter de discutir isso com ele." Não existe. o aborrecimento da hora do almoço. Bem. aflições e ignorância. vai continuar do mesmo jeito por muito tempo" -vivemos num mundo de queixas como vítimas ou agressores. Não é nem bom. Muitas vezes. onde está? "A mente do futuro é inapreensível. isso quer dizer que não faremos nada se ficarmos aflitos? Não. As pessoas colocam-se num tal estado -eu também passei por essa situação –que mal conseguem agir. que é a hora do almoço. em nossa crença de que a vida é linear -"Isso aconteceu ontem" e "Olha só.44 relações sob um outro prisma. É minha história. aquilo que nos interessa é o lado desagradável. Portanto. "Não deveria estar aqui. No entanto." Então. creiam. com o não-ser? . E agora você sabe muito bem o que é para fazer". presente e futuro. descobriremos que é impossível." Eu disse: "Mas onde está? Mostre-me". "Bem. como é que tudo está relacionado com o não-tempo." Onde está? O jantar. Minha lamúria é uma manifestação dessa energia física. Depois comentou: "Se isso é tudo o que existe. fazemos o que fazemos. e estamos o tempo todo em nossa cabeça. física e mentalmente. é claro). onde estão?" "Bem. houve a discussão do café da manhã. que é o momento em que por fim resolveremos a questão (para nossa satisfação." "Mas quando foi isso?" "Há três semanas. eu lhe perguntei: "Onde está seu marido agora?". de que maneira consertarei meu marido?". Finalmente. e o futuro também. Ela estava muito. eu estou lhe contando. estamos fazendo o melhor que nos é possível. Há poucas semanas. quando costumamos nos preocupar com as relações. ele está trabalhando. não estamos falando das partes boas. Estava tão mal que quase não conseguia falar. de fato precisamos ver isso de novo. Comentou: "Se não existe passado e futuro e não consigo nem apreender o presente -quer dizer. Real é a dor de cabeça. Não estamos só aborrecidos. nossas imagens e fantasias. nem mau. endosso." "E onde está?" "Oh. Suponhamos uma discussão no café da manhã. E. a cada momento. por crermos no tempo que tem passado.

parece que todos os canais estão no ar ao mesmo tempo. Vocês notam que a sentença tem um começo. Por um certo tempo. E nem sequer contida nela. e um ou os dois parceiros fogem ou recuam. os dois fazem um esforço. o Canal X mudou para o Canal Y. evidentemente. E sempre descobriremos que. não há nada errado com nossas sentenças. o que estou fazendo durante esse tempo todo? Vejam. Às vezes. tenho outros canais como o B. eu e a raiva. Temos de tentar dar um jeito nisso. "Quem sou eu?" Tomemos um pensamento típico. por exemplo. parece que tem café da manhã. durante um certo tempo. depressivo e retraído. Se não fizermos essa indagação e o sofrimento piorar de maneira considerável. existe esse incômodo. 45 . dizê-lo de outro jeito. posso ficar bastante à vontade com essa pessoa tipo Canal X". Por exemplo. Porém. onde vejo desenhos animados para crianças. então existe você. Sei o que esperar dele. Boa pergunta. porque no Canal X reina uma paz artificial (e muito tédio). é levar-nos ambos de volta ao Canal X. exceto este momento agora. de algum jeito. um pouco deste tipo de coisa e daquele. estamos diante de um problema. toda leve. porém. quando as estações ficam cruzadas. o que temos a fazer. vem esse mundo hostil. euvoceraiva.45 apreendê-lo e ele já se foi então quem sou?". um meio e um fim e. Temos uma grande confusão. O que é "errado" é não o enxergarmos tal como é. Todos podem se fazer essa questão. antes tudo era feliz. É interessante que a pergunta que ninguém faz. dela. com desastres iminentes. muito barulho. me magoa realmente". principalmente sobre o príncipe e a princesa dos meus sonhos. a partir disso. a outra pessoa. "Ele fez isso". fugas. ameaçador e separado de mim. ela está fantasiando. Está tudo exposto. Ao invés disso: não existe coisa alguma. encontramos uma bela moça e dizemos: "Hum. Vejam. parece que passo muito tempo no Canal A. a maioria dos casamentos parece assim depois de algum tempo. Bill. "Isso me deixa nervosa. Parece que é uma ótima relação." Só a experiência. "Ela fez aquilo". Ser apenas isso: a solução aquiagora torna-se óbvia. Outras vezes. Na realidade. Não há nada de errado com o mundo conceitual relativo. Não combina muito bem. às vezes. Mas. depressão. essa emoção. Neste preciso momento criei Bill. perfeitamente inapreensível. "Bill me dá nos nervos". com muita irritação e raiva. não é? De algum modo. Todos precisamos viver num mundo relativo. alguns noticiários. Bem. "EuBillraiva. justo quando estou soturno. aborrecida. no minuto em que dizemos: "Ela me dá nos nervos". seja: "Quem ligou os canais? Quem é a fonte de toda essa algazarra?"." Tudo junto. Há muita facilidade e acordo. o que sucede depois de algum tempo? De certa maneira. nosso cenário costumeiro. não há nada de errado com os canais. por isso. O que fazer? Estamos agora em meio a nossa habitual confusão. Em certo sentido. Mas. daquele que todos têm: "Bill me dá nos nervos". a experiência em si e a solução não são duas coisas separadas: Porém. pegamos nossos amigos e parceiros de maneira muito parecida com o modo como sintonizamos um canal de TV. enquanto ficarmos girando em nossos pensamentos. se somos apenas a experiência. como é. você deve fazer isso. e essa sensação nos nervos. E dizemos para ela: "Você tem de ser deste jeito. mas não. tudo corre bem. "Eu/Bill/raiva. almoço e jantar. pode ser que simplesmente abandonemos a relação e passemos a buscar uma outra. para o Z. Alguém comentou que é possível distinguir quem é casado até num restaurante: é o casal que não conversa. Já existe Bill e eu. criei eu e. eu estava fingindo que era apenas uma pessoa Canal X. oh espanto. Então. ficamos juntos e. essa é a pessoa por quem me apaixonei". Quem aciona nossas ações? Qual é a fonte? Essa é a pergunta-chave a ser feita. justamente agora. com sonhos e fantasias. e aquilo que você está remoendo. Quando isso acontece. vamos. a solução está contida nela. ela se parece com o Canal X e sempre fico calmo e tranqüilo quando assisto a esse canal. mas nunca perguntamos quem os ligou. "Ele me enche".

Na tradição budista o ensinamento de Buda diz: "Elimina completamente toda dor. estamos livres dela. seu fluir. poderemos começar uma prática inteligente no esforço de entender o ensinamento. servi-la. e atingimos o estágio de testemunhas de nossas vidas. para nossa grande tristeza. e para mais sutis ainda. começaremos anotar algumas áreas abertas. Notamos que. Há quem viva uma existência inteira sem jamais ter encontrado o parceiro. nossos pensamentos. ao mercado e ao burburinho. estamos de volta à rua. Tudo está acontecendo. A primeira parte de nossa prática é como se estivéssemos no meio de uma rua apinhada e confusa. e assim por diante. e nossa vida é vista como aquilo que sempre foi: livre e liberta. Uma vez. sequer a encontramos. mal conseguimos localizar um espaço vazio e já todo o trânsito está se dirigindo para aquele local. É desse ponto de vista que muitos enxergam as próprias relações como confusas. em qualquer lugar. que depois de termos vivido com alguém por muito tempo nunca a conhecemos de fato. Após muitos anos de prática. que vemos a confusão como ela é. depois. porém. talvez comecemos a considerar a totalidade de nossa vida. tudo é desfrutável e não estamos presos a nada. primeiro nos níveis mais grosseiros. O terceiro passo. as percepções sensoriais. necessariamente. de certo modo. onde estamos presos bem no meio do trânsito e da confusão. tudo que acreditávamos ser nossa pessoa. Inicia-se enxergando através do que denominamos personalidade. Essa é a verdade. Pode ser que tenhamos sorte e encontremos um bom professor. pois estamos esperando que elas sejam aquele lugar de podemos descansar do tráfego. nossa tendência será ir em busca de um outro igual. uma pessoa realmente rara e afortunada começa a examinar toda essa questão do que está fazendo com a própria vida e a formular as questões essenciais: "Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?". Pode ser até que consigamos chegar na calçada para ter uma visão mais objetiva. então. É isto que fazemos. é o ponto de partida para a maioria que se dispõe a uma prática. não tem nada que ver conosco. E. Isso aconteceu comigo por quinze anos. amargas. Tudo isso serve não só para relações íntimas. Começamos a olhar de fato nossas mentes. apenas está acontecendo. Um zazen inteligente significa trocas sutis constantes . Podemos amá-la. Uma vez ou outra. começaremos a ver que existem espaços aqui e ali no trânsito. mas.46 tipo Canal X: porque se esse é o canal de que gostamos. No estágio final de nossa prática. Talvez não tenhamos a menor noção do que significa. para olhar o tráfego lá embaixo. para onde está se encaminhando. boas ou más. Pode ocorrer que descubramos. independente do quão fechado for esse engarrafamento. É só o que é. Começamos a ver que as áreas de dificuldade fazem parte do todo e que não são. são só parte da vida. De vez em quando seus canais encontram-se. se observarmos durante um certo tempo. É assim que a vida se parece para a maioria. mas também para as que temos no escritório. a respeito da qual estivemos falando. e começamos a observá-lo como um magnífico panorama. durante as férias. Estamos tão ocupados em sair dos apertos que estão vindo em nossa direção. de nós mesmos e de tudo que existe tal e qual é. em vez de assustador. Podemos desfrutar tudo sem sermos capturados por esse movimento. não é mentira". Após vários episódios infelizes como esses. nossos corpos. Podemos enxergar suas direções. Aquele primeiro lugar. Se continuarmos subindo cada vez mais alto. pode ser entrar em um edifício e subir até o 3˚ andar. Mas. desconcertantes. 46 . desfrutá-la. termina remos vendo que o trânsito é apenas padrões. Avançamos mais ainda. Confunde e assusta. atingiremos uma posição de onde poderemos apenas desfrutar aquilo que vemos. e isso é lindo. se estivermos entre os afortunados. que não conseguimos compreender como estamos presos naquele trânsito. mas essas pessoas nunca. depois para os mais sutis. graduais. assistimos e desfrutamos sua impermanência. Agora ele realmente parece outro.

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Contudo, ao tentarmos a prática com nossas relações, começaremos a observar que são nosso melhor caminho de crescimento. É nelas que podemos enxergar o que na realidade são nossa mente, nosso corpo, nossos sentidos, nossos pensamentos. Por que os relacionamentos constituem uma prática tão excelente? Por que nos ajudam a entrar naquilo que chamamos a lenta morte do ego? Porque, além de nossa prática formal de sentar, não há nada que supere os relacionamentos em termos de capacidade de demonstrar-nos onde estamos parados e ao que estamos nos apegando. Enquanto nossos botões estiverem sendo pressionados, temos grandes oportunidades de aprender e de crescer. Por isso, o relacionamento é uma grande dádiva, não porque nos torne felizes -com freqüência isso não acontece -mas porque qualquer relacionamento íntimo, se o virmos como prática, é o espelho mais nítido que podemos encontrar. Podemos afirmar que eles são a porta aberta para nosso verdadeiro eu, o não-eu. Presas do medo, estamos sempre batendo a uma porta pintada, composta de nossos sonhos, nossas esperanças e ambições; e evitamos a dor do portão sem portão, a porta aberta de sermos e estarmos com o que é, seja o que for, aqui e agora. Para mim é interessante constatar que as pessoas não enxergam qualquer conexão entre sua infelicidade e suas queixas, sua sensação de vítimas, a sensação de que todo mundo está fazendo alguma coisa contra elas. É incrível. Quantas vezes essa ligação foi indicada nas dharma palestras? Quantas vezes? E, não obstante, nosso medo nos impede de enxergar. Só as pessoas inteligentes, vigorosas e pacientes acabarão descobrindo aquele posto fixo em torno do qual o universo gira. Infelizmente, a vida para quem não consegue ver de frente o momento presente é sempre violenta e punitiva; não é agradável, e não se liga a mínima para ela. A verdade, porém, é que não é a vida e, sim, nós mesmos que criamos essa infelicidade. Se de fato recusarmo-nos a considerar aquilo que estamos fazendo -e lamento como é reduzido o número de pessoas que farão isso -então seremos punidos por nossas vidas. Ficaremos nos perguntando por que ela é tão dura conosco. Para quem, no entanto, praticar com paciência, sentar, sentar, sentar, e instalar a prática com firmeza em sua vida diária, para ele haverá, cada vez mais, um sabor de alegria numa relação em que o não-eu se encontra com o não-eu. Em outras palavras, a abertura encontra a abertura. É muito raro, mas acontece. E quando ocorre, não sei sequer se podemos aplicar o termo "relacionamento". Quem está ali para se relacionar com quem? Não se pode dizer que o não-eu se relaciona com o não-eu. Para esse estado, portanto, não há palavras. Nesse amor e compaixão atemporais, como disse o Terceiro Patriarca: "Não existe ontem, não existe amanhã, não existe hoje".

Vivenciar e comportamento
Por vivenciar quero dizer aquele primeiro instante em que recebemos a vida, antes que a mente desperte. Por exemplo: antes que eu pense: "Olha uma camisa vermelha", existe apenas o ver. Podemos falar também de só ouvir, só tocar, só saborear, só pensar. Isso é o absoluto; podemos chamá-lo Deus, natureza Buda, o que vocês quiserem. Essa experiência, filtrada por meu mecanismo humano particular, cria meu mundo. Não podemos apontar coisa alguma no mundo, tanto dentro como fora de nós, que não seja o vivenciar. Mas não teríamos aquilo a que chamamos vida humana, a menos que esse vivenciar fosse transformado em comportamento. Por comportamento entendo o modo como algo se faz. Por exemplo, como ser humano você faz si mesmo; você senta, anda, come, fala. Neste sentido, até tapetes têm comportamento: o comportamento do tapete é ficar apenas estendido. (Se o observássemos com um microscópio bastante potente, veríamos que ele não é absolutamente inerte. É um mar de energia que se move com uma velocidade assombrosa.) Portanto, podemos distinguir o emergente -que é Deus, a natureza Buda, o absoluto, aquilo que simplesmente é -do mundo, que se forma de modo instantâneo, o

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outro lado do emergente. Na verdade, os dois lados são um só: o emergente e o que chamamos de mundo não são diferentes. Se na realidade conseguirmos entender isso, nunca mais teremos problemas na vida, porque fica evidente que não existe nem passado nem futuro, e observamos que tudo aquilo com o que nos preocupamos é pura bobagem. Em geral, só temos uma vaga noção consciente de nosso experimentar. Mas sabemos com uma certa imprecisão que, de um jeito ou de outro, nosso comportamento e nossas vivências se interligam. Se estou com dor de cabeça e me comporto de modo irritado, talvez percebo que existe uma ligação entre a cabeça latejante e meu comportamento irritadiço. Por isso, embora não estejamos plenamente conscientes de nossa própria vivência, pelo menos não nos vemos tão distanciados de nossa experiência. Porém, se as outras pessoas estão irritadas, é possível que separemos o comportamento que estão apresentando de suas experiências. Não podemos senti-las; e, por isso, julgamos sua conduta. Se pensamos: "Ela não deveria ser tão arrogante", só enxergamos seu comportamento e o julgamos porque não estamos cientes de sua verdade (suas experiências, suas sensações corporais de medo). Entramos no nível das opiniões pessoais em relação à arrogância. Comportamento é o que observamos. Não podemos observar experiências. No momento em que temos uma observação a respeito de um evento, ele é passado; a experiência nunca está no passado. Por isso é que os sutras dizem que não podemos tocá-la, vê-la, ouvi-la, pensar a respeito dela, porque no minuto em que tentarmos fazer isso, o tempo e a separação terão se instaurado (nosso mundo fenomênico). Quando observo meu braço levantando-se, ele não é eu. Quando observo meus pensamentos, eles não são eu. Ao pensar "Este sou eu", tento proteger esse "eu". Aliás, tudo o que eu observar a meu respeito (mesmo que seja um fenômeno interessante com o qual eu esteja intimamente associado) não é eu. Esse é o meu comportamento, o mundo fenomênico; quem eu sou está apenas vivenciando a si, para sempre desconhecido. No momento em que o denomino, ele se vai. Contudo, comportamento e vivência não são fundamentalmente distantes. Quando vivencio você (vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo), você é meu vivenciar, só isso. Mas a tendência humana é não parar aí; em vez de você ser apenas minha experiência daquele momento, a ela acrescento minhas opiniões sobre o que parece que você está fazendo; nesse instante, separei-me de você. Quando o mundo parece algo separado, penso que tenha de ser examinado, analisado e julgado. Ao vivermos dessa maneira, em vez de a partir do experimentar em si, estamos numa grande confusão. Temos de ter memória, temos de ter conceitos; mas se não entendermos sua natureza, se não os usarmos de maneira adequada, criamos o caos. Tal como nós, outros indivíduos estão simplesmente experimentando o que parece ser comportamento. No entanto, consideramos suas experiências como comportamento. Só enxergamos o comportamento deles, e não temos consciência de suas experiências. Na verdade, o vivenciar é universal porque é isso que somos. Quando pudermos enxergar a tolice de nossa vinculação aos pensamentos e às opiniões, e aumentarmos o tempo que vivemos experimentando, seremos mais capazes de sentir a verdadeira vida -o verdadeiro vivenciar -de uma outra pessoa. Quando temos uma vida que não é dominada por opiniões pessoais, mas, ao contrário, é um puro vivenciar, então começamos a nos importar com todos, conosco e com os outros. Não poderemos mais então considerar os outros como objetos, como macacos comportamentais que não passam de seus comportamentos. A prática consiste em retomarmos ao puro vivenciar. Disso emergirão um pensamento e uma ação muito adequados. O mais comum, no entanto, é sermos incapazes de fazê-lo e, em lugar de tal atitude, devemos agir de conformidade com os pensamentos e as opiniões que rodopiam em nossa cabeça, isto é, levando-nos para trás. Quase sempre vemos as outras pessoas como mero comportamento. Não estamos interessados no fato de seu comportamento não poder separar-se de seu vivenciar. Conosco, conseguimos essa percepção em certa medida, porém não totalmente. No

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zazen, vemos que apenas uma fração de nós mesmos nos é conhecida e, conforme essa capacidade de vivenciar for aumentando, nossas ações irão transformar-se; começarão a vir não só tanto de nossos condicionamentos e recordações como da própria vida tal e qual ela é, neste instante. Essa é a verdadeira compaixão. Quanto mais vivermos como nosso vivenciar mais veremos que, apesar de termos um corpo e uma mente que se comportam de determinadas maneiras, existe algo (uma não-coisa) em que corpo e mente estão contidos. Intuimos que todos se encontram numa situação semelhante. Embora o comportamento de outra pessoa possa ser irresponsável e talvez nos oponhamos de maneira firme à sua conduta, somos -nós e o outro -intrinsecamente o mesmo. Só na proporção em que tivermos uma vida composta por experiências é que teremos possibilidade de compreender a vida do outro. A compaixão não é nem uma idéia, nem um ideal; é um espaço informe e todo-poderoso que, com o zazen, cresce cada vez mais. Esse espaço está sempre presente. Não é algo que tenhamos de buscar, ou tentar obter. É sempre o que somos, porque é nosso experimentar. Não podemos ser outra coisa além disso, mas podemos encobrir essa verdade com nossa ignorância. Não temos de "encontrar" nada; por esse motivo foi que Buda disse que, depois de quarenta anos, ele não tinha alcançado nada. O que há para ser alcançado? O que está sempre aqui.

Relacionamentos não funcionam
Voltei há pouco tempo da Austrália. Fui até lá na esperança de gozar um clima ameno; no entanto, choveu muito nos primeiros dois dias, o que foi engraçado. Depois, nos últimos cinco dias de sesshin em Brisbane, houve uma tempestade de neve. Foi tão forte que, enquanto corríamos por entre os prédios, eu mal conseguia ficar em pé. Tínhamos de lutar para manter o equilíbrio. O vento era como um caminhão, trovejando no telhado o tempo todo. Mesmo assim foi um bom sesshin e aprendi (como sempre) que, independente de onde você for, as pessoas são as pessoas: são todas maravilhosas e são todas problemáticas, como, aliás, em toda parte; e as mesmas dúvidas que atormentam os australianos nos atormentam também. Eles têm tanta dificuldade com relacionamentos como nós. Portanto, quero comentar sobre as ilusões que temos a respeito de relacionamentos darem certo. Vejam, não dão. Simplesmente não funcionam. Nunca houve um que desse certo. Vocês podem dizer: "Bem, por que estamos fazendo tantas práticas se é assim?". É o fato de querermos que algo dê certo que torna nossos relacionamentos tão insatisfatórios. De certo modo, a vida pode funcionar, mas não na perspectiva de que iremos fazer alguma coisa que consiga fazê-la funcionar. Em tudo que fazemos a respeito de outras pessoas existe uma sutil -ou não tão sutil -expectativa. Pensamos: "De algum jeito vou acabar me entendendo nessa relação e fazê-la funcionar, então vou conseguir o que desejo". Todos queremos alguma coisa das pessoas com as quais nos relacionamos. Ninguém pode dizer que não quer nada das pessoas com quem se relaciona. Mesmo se evitarmos os relacionamentos essa é apenas uma outra forma de desejar alguma coisa. Em outras palavras, relacionamentos não dão certo. Porém, então o que dá certo? A única coisa que dá certo (se realmente praticarmos) é o desejo não de ter algo para nós mesmos, mas de acolher a vida toda, incluindo os relacionamentos. Bem, vocês podem afirmar: "É, parece bom, vou fazer isso!". Mas ninguém quer mesmo fazer isso. Não queremos sustentar mais ninguém, mais nada. Sustentar ou acolher na realidade alguém significa que você lhe dá tudo e não espera nada em troca. Você pode lhe dar seu tempo, seu trabalho, seu dinheiro, qualquer coisa. "Se você precisar, eu lhe dou." O amor não espera coisa alguma. Em vez disso temos os seguintes jogos: "Vou me comunicar de modo que nossa relação melhore"; na verdade isso quer dizer: "Vou me comunicar com você para que entenda o que eu desejo". A expectativa implícita que investimos nesses jogos asseguram que

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a pessoa pode usar muito mediocremente o tipo de poder que desenvolve assim. Aliás. então essa não é uma prática. então essa não é uma prática. Já que nenhum de nós pode afirmar que isso está resolvido. podemos usar essa atitude para fugir à vida. Primeiro. no sentido de uma orientação completamente aberta. Cada uma delas tem suas forças e fraquezas. então alguns começarão a entender o próximo passo. então. Gosto de me sentir bem. sabemos que nossa prática deve continuar. Ao praticarmos esta modalidade do sentar. temos que desenvolver dois. Essa. O tipo Vipassana de prática (que eu prefiro). também têm suas desvantagens. arrumar-lhe um trabalho. em nosso trabalho. não em favor de uma orientação centrada no outro (porque ela termina nos incluindo). Não há nada de errado. Não gosto de ficar cansada. não contou à esposa o que lhe acontecera. todavia. Se a orientação fundamental não vier da prática. mas o sesshin foi bom tendo causado um forte impacto em várias pessoas) foi que eu estava dizendo: "Bem. De que modo praticarmos 50 . que só serve para tornar mais confortável minha vida. às vezes. para mim. significa que a prática continua para todos nós. pode ser a desvantagem desta espécie de prática. Faz muito tempo que comecei a praticar. não é simples. ao Japão. observam e observam. No entanto. Isso é amor. Há também outras formas de prática. tem valor. Mas. que é ver um outro modo de ser. a saber. posso sustentar e acolher sua vida e esperar nada. Vocês. por fim. O desenvolvimento de um ser humano. quem sabe.50 esses relacionamentos não darão certo. dirão: "Mas o que há de errado em querer um pouco de conforto?". constitui o melhor e mais básico treinamento. mas sim um meio para se entrar em contato com a própria vida. para que indagássemos o que está acontecendo conosco. quero conforto. Quando voltou para casa. Se alguma coisa não emergir da prática além daquilo que eu desejo. compassiva e equilibrada. Sempre que quisermos alguma coisa. pode favorecer que as pessoas se tornem quase totalmente impessoais (como acho que eu mesma fiquei durante certo tempo). toda vez que sentimos incômodo –o ponto em que ela deixa de nos convir -um grande ponto de interrogação deveria saltar bem diante de nossos olhos. A prática de meditação não é um tipo qualquer de "desligamento". Às vezes temos um vislumbre do que possa ser: "Sim. trouxe-a junto com as crianças para os Estados Unidos. até que se torne o que eu chamaria uma pessoa sábia. Entretanto. antes que o marido morresse. e ajudá-la com as crianças. no qual vocês observam. Ao praticarmos. Nada havia que eu sentisse na dimensão emocional porque eu tinha me tornado uma máquina de observar. Houve a história verídica de uma esposa. porém. é muito valioso e. em nossas relações. ela exercerá seu efeito em todas as fases da vida. Não há necessidade de enfatizarmos isso aqui. para a minha idade. Sentar-se apenas. Moraram juntas na mesma casa e a esposa fez o que pôde para ensinar inglês à moça. três ou quatro aspectos da prática. finalmente. com uma forte concentração. em tudo. não devemos simplificar demais o problema. me custou muito. quando soube que estava morrendo. Se nossa prática não estiver indo nessa direção. posso lhe fazer isso. minha orientação fundamental na vida. Foi. ela disse: "Vou cuidar deles". Se realmente enxergarmos isso. A concentração é um dos aspectos da prática. Existem inúmeros treinamentos psicológicos e terapêuticos valiosos que. não tenho certeza se farei a mesma coisa no ano que vem. Ele amava muito a japonesa. entretanto. Nada". mas essa capacidade deve ser alcançada em algum momento. encontrou a outra mulher. Talvez eu precise descansar mais". Se conhecermos nossa orientação fundamental. a menos que tomemos cuidado. mas depois. Lá viveu com outra mulher e teve dois filhos. ela ficou muito transtornada. fica cada vez mais clara a idéia desta outra forma de ser e começamos anos afastar de uma orientação centrada no eu. algo em seu íntimo começou a se agitar e ela trabalhou sem cessar seus sentimentos de angústia. apesar disso. Numa relação. confessou-lhe a verdade da relação que tivera e dos filhos. Como todo mundo. então não é a verdadeira prática. cujo marido estivera no Japão durante a guerra. Mas. amenos que isso contrarie o que para mim é mais importante do que o conforto. A mente humana é assim. o que notei nessa viagem (longa.

não quer dizer ser rígido. então. ela o descarta. o canal tem de ser poderoso. para ela. Quero apenas dizer que em geral interpretamos com muitos equívocos o que se refere a um casamento. porque o mérito de uma relação não tem nada que ver com ela. não lhes estará falando sobre a verdadeira meditação. vamos continuar esclarecendo o que nossa prática é. Ela busca canais para sua força. O relacionamento não é um com o outro 51 . em si. a fim de que possa usá-las para aquilo que busca realizar . Cabe a nós criarmos essa base. Muitas pessoas. não existirá mais nada. ou precisará ser dissolvido para que uma coisa nova e original tenha chances de emergir dos destroços.. Ela está procurando canais e. Esse funcionamento é aquilo que vocês são. com desejos em separado. casam-se quando sua relação não serve para nada. esse processo é terrível. por ter uma base completamente diferente. Desta maneira. quando uma relação é quase toda baseada no "eu quero". o meio da casa afunda e a água. bate nas relações para testá-las. Às vezes. a prática zen diz respeito a perder o eu. vocês não têm importância alguma para a vida. vamos fazer apenas isso. Se praticarmos realmente. a força se desenvolverá. Claro que não estou defendendo a noção de que as pessoas devam desfazer seus casamentos. com o tempo começaremos a saber atrás do que estamos. não pode agüentar a pressão que a vida exerce e. Ela não se importa se você está "feliz" em seu relacionamento. Quando a relação não está dando certo. Ela não é um jeito que vocês dão na própria vida. Quem sabe se alguns dentre nós não chegarão a encontrar uma relação que dê certo. Seu mérito é a força extra que a vida recebe quando trabalha com ela como um canal. A vida gosta que as pessoas sejam flexíveis. ou o relacionamento precisa amadurecer sua força para poder enfrentar a vida.51 com o incômodo? Não estou mencionando que todo relacionamento deva ser mantido para sempre. Se alguém lhes contar algo diferente. por exemplo. quero que vocês apreciem a prática que estão executando e a realizem de verdade. É isso que a vida está procurando. Toda essa novela a respeito de você comigo ou com mais alguém não interessa à vida. podemos começar a familiarizar-nos com nós mesmos e com o modo como nossas problemáticas emoções destroçam nossa vida. Ouvi falar que existe uma forma de projetar casas de praia onde grandes tempestades podem inundá-las: quando isso acontece. em vez de tragar a casa toda. É só nisso que a vida tem interesse. Se as relações não suportarem o teste. como o vento forte. a cada momento. Quando o querer é pouco. Ser forte. significa que os parceiros estão preocupados com o "eu": "O que desejo é. escorre toda pelo meio e deixa a construção em pé. ao longo dos anos. Mas." ou "Isso não está certo para mim". isso não é menos importante do que as coisas que são aprendidas. Se se dissolve. não servirá bem a ela. que não é em absoluto leve e abençoada. então a relação é forte e funcionará. a tomar consciência de que somos o não-eu. Se duas pessoas são fortes quando juntas. para que possa funcionar ao máximo. então. muito devagar. O que ela está buscando é um canal e. Se compreendermos o zazen e nossa prática.. Enquanto egos separados. sendo assim. A vida não liga a mínima para a relação de vocês. a estrutura será rígida e. significa ser muito forte. Uma boa relação dá mais poder à vida. logo. logo. então a vida tem um canal mais poderoso do que com ambas em separado. porém. mas talvez vocês não concordem com tudo que estou dizendo. Se não houver a fundamentação. Portanto. começaremos a ver quem somos. se a fizermos com autenticidade. Ainda assim. O que não significa ser uma não-entidade. É quase como se um terceiro e mais amplo canal tivesse sido formado. Sendo assim. Se não o for. Porém. dessa forma. As questões que estou levantando são importantes. É o fundamento. Todas as relações fracas refletem o fato de alguém querer alguma coisa para si próprio. Uma boa relação é algo desse tipo. Tem uma estrutura flexível e uma forma de absorver choques e estresses de tal sorte que consiga manter sua integridade e continue funcionando.

enquanto disser "com ele". não pode haver dois. disse: "Sê fiel a teu verdadeiro ser e segue-o. mas o verdadeiro eu –vamos chamá-lo de o infinito potencial de energia –desconhece separações. A única coisa a que devemos servir não é um professor. Essa é a verdadeira maneira de crescermos. essencialmente. o que fazemos a respeito dos difíceis problemas que ocorrem em nossa vida? Todos sabem que o trabalho pode apresentar desafios imensos. Mas. Estamos em sesshin para descobrir. O modo comum de pensar em casamento é: "Estou casada com ele". Se não o entendermos. O verdadeiro eu desconhece separações. No entanto. Quando digo que estou casada com você. é a única coisa que deve dominar nossa vida. flutuando por aí. Assim. precisamos enxergar que na verdade isso não é bem assim. o que diriam? Vamos pensar por um instante. Suponhamos que os filhos desse casamento estejam sofrendo. Nem todos os problemas são tão difíceis quanto esses. não estou fazendo menção a algum tipo de fantasma que fica voando pelos cantos. assim como filhos. para ser nosso eu verdadeiro. E então? O que faço? Ou posso ter pais idosos que precisam de minha assistência e minhas obrigações profissionais. um de nossos maiores equívocos é a idéia de "estar relacionado com essa pessoa ou situação". Por exemplo. Claro que a outra pessoa encarna o verdadeiro eu. Queremos conhecer nosso eu verdadeiro. mas em termos práticos. um potencial só de energia. Ao fazermos zazen. então ficaremos eternamente confusos com os problemas e não saberemos como agir. Porém meu trabalho me obriga a permanecer aqui. Pode parecer que eu esteja casada com ele. todavia esses elementos não explicam a vida que somos. nem o emprego. até os menos exigentes podem nos pôr contra a parede. existirão nós dois e. Vocês podem dizer que isso é muito bonitinho. Imaginemos que tenho um parceiro que está profundamente empenhado numa certa área de pesquisas e o único lugar em que seus estudos podem prosseguir é na África. Temos mente e corpo. o que faço? É de problemas desse tipo que a vida é feita. Com essa expressão "eu verdadeiro". De um ponto de vista diferente. vamos supor que sou casada. ou que tenho quatro filhos. O que estou sugerindo? Algo do tipo "funcionamento do homem e da mulher em que não existe uma motivação centrada em si própria". no entanto. como se fosse uma entidade propriamente dita. O verdadeiro eu configura-se em vários padrões de forma. nossa devoção não deve dirigir-se à outra pessoa em si. não poderás ser falso a homem algum". devemos nos tornar esse sofrimento. quando ela fica tão difícil que todos os que nela estão envolvidos estão perdendo feio? O que fazer? Há inúmeras variações quanto aos problemas de relacionamento. de Hamlet. por três ou quatro anos. ninguém em absoluto. permanece um eu só. ou que tenho um jipe Toyota. O eu verdadeiro é absolutamente nada e. O verdadeiro eu desconhece separações. Em qualquer situação. O personagem de Shakespeare. pais. Porém. Se estamos num grupo. é com o verdadeiro eu do grupo.52 Sentamo-nos em sesshin para sabermos quem somos. com nosso trabalho ou outra atividade em particular. Não é difícil ver que essa pessoa não seria humana do jeito que entendemos que alguém é humano. ou ao sentarmo-nos em sesshin. na forma cotidiana de me expressar é assim mesmo. mas ao verdadeiro eu. o que afinal é? Se tivessem de definir "eu verdadeiro". de fato. como a noite ao dia. Essa pessoa seria. só que há uma distinção. nossa relação não é com o grupo. nem o filho. todavia. Contudo será que isso se aplica a uma situação. não estou casada com alguém ou com alguma coisa: eu sou aquela pessoa ou aquela coisa. Talvez tenhamos uma imagem de algo chamado "o eu verdadeiro". Muitas vezes falei que. Na verdade. nem o companheiro. minhas responsabilidades me forçam a ir para outro lugar. Polônio. 52 . outras relações quaisquer. quando estamos sofrendo. ela seria completamente humana. Imaginemos que estou casada com alguém muito difícil. nem um centro. contudo. Ao labutarmos pela vida e percebermos os defeitos de nossas relações com esta ou aquela pessoa. É o único Mestre. no verdadeiro eu. mas não do modo como costumamos pensar a nosso respeito e dos outros. temos o propósito de entendê-lo melhor.

temos de iluminar nossa atividade não uma. do que desejamos. Com paciência podemos fazer isso. podemos experimentar a tensão gerada pelos pensamentos. Guru sicrano. saborear ou cheirar. pode me dizer o que fazer. Todas as relações podem ensinar-nos alguma coisa e. interessados em nosso pequeno eu: interessanos o que desejamos. quase em toda nossa vida. mas com o verdadeiro eu. servimos ao Mestre e. É nesse sentido que direcionamos nossa energia. Devemos tomar consciência de como nos sentimos. tocar. mas dez mil vezes. o que nos assegura a saúde ou o bem-estar. nem mais ninguém. ninguém sabe. Quando somos casados. ou nós próprios -a nuvem em cima de tudo. Bem. Casamentos. é nosso Mestre. só podemos ver como o perdemos de vista. às vezes. Somos como uma pequena lula que produz uma inundação de tinta atrás de si para que nossos equívocos não possam ser detectados. não faça nada disso. Em termos de uma situação concreta. no sentido habitual. não importa nem o que eu digo. a não ser meu eu verdadeiro. não podemos vê-lo. não quero dizer nada. o verdadeiro eu é uma não-coisa e. cresce nosso conhecimento do que deve ser feito. Por exemplo: a interação com alguém que nos irrita. O Mestre não sou eu. assunto nosso. estamos expressando o verdadeiro eu de um modo apropriado à classe. do quão terrível achamos alguém. do aborrecimento. Não é nem bom e nem mau que sejamos assim. Quem sabe.53 mas. o encontro que azeda quando achamos que ele tinha de fazer "outra coisa". tomamos consciência da dor e da agonia que ela produz e. é apenas o que é. exceto meu verdadeiro eu. Ela serve para aprender o que significa servir aquilo que não podemos ver. como é que saberemos fazer isso? Não é fácil e custa tempo e perseverança para aprender. não temos muito interesse por nosso verdadeiro eu. são apenas isso. Ninguém pode me dizer o que é melhor. não as estamos ensinando. trabalhoso e. Se nossa prática estiver madura aponto de não mais nos enganarmos tanto. Existe um único Mestre. Não existem receitas. Não importa o que minha mãe diz a esse respeito ou o que minha tia fala. não somos casados um com o outro. algumas delas. Qualquer Centro não é nada mais que uma ferramenta para o Mestre. Mas nossa prática é. Em outras palavras. A prática torna óbvio que. Então. Quando formos ninguém. a irritação que sinto quando milha filha fala que vai telefonar e não o faz. Quando alcançamos uma iluminação parcial de nossas atividades habitualmente centradas em torno de nós mesmos. Podemos ter consciência da irritabilidade. da impaciência. qual é o caminho para se servir ao verdadeiro eu? O caminho pode parecer muito áspero. nem Sabba fulano. nosso verdadeiro eu. Temos de colocar uma lanterna incidindo sobre nossos pensamentos indelicados referentes a pessoas e situações. será o oposto disso. Ninguém. às vezes. dessa forma. o não-eu. E esses sentimentos nós podemos rotular. o que nos faz sentir bem. Desse modo logo que acordamos de manhã 53 . a cada cinco minutos temos uma oportunidade de trabalhar com isso. podemos experimentar aquilo que colocamos entre nós mesmos e nosso verdadeiro eu. sim. o que pensamos. Talvez eu desista de meu serviço em Nova York e fique em casa para cuidar de meus pais. porém é a única coisa. Podem existir momentos em que a melhor maneira de servir ao verdadeiro eu consista em ir em frente. precisam chegar a um fim. relacionamentos variados. para percebermos esse fato. o que esperamos. estamos. Uma prática inteligente vai aos poucos iluminando esse fato. O Mestre não é uma coisa. no entanto. Como disse certo professor: "Sua vida não lhe diz respeito". Ao mencionar que é uma não-coisa. Todavia. em certo sentido. Contudo. (e isso jamais seremos completamente) a ação correta torna-se óbvia. pessoa alguma pode ser Mestre. porém. O que é o verdadeiro eu em todos esses mínimos incidentes? Normalmente. conseguimos nos desviar dela. Quando uma prática assim cuidadosa assume a prioridade de nossa vida. Quando lecionamos para crianças. Em essência. é porque estaremos em contato com nossas experiências autênticas -então cada vez mais saberemos qual é a ação compassiva a ser tomada. Pode até ser que tenhamos uma pálida noção de uma outra modalidade de ser: o verdadeiro eu. sem sombra de dúvida. do que esperamos. tudo isso pode parecer remoto e idealista. infelizmente.

Estar no sesshin aumenta muito nossa possibilidade de passar mais tempo de vida nesse espaço simples. Alguma coisa dentro de nós fica fascinada com nosso drama. Manter a equanimidade e sentar. criamos confusão. mas o fato é que gostamos. que ensombrecem a água à nossa volta. no qual elas apenas acontecem. É a ausência de qualquer outra coisa. e se apega a ele. A ausência do quê? 54 . confundindo-nos. O verdadeiro eu é absolutamente nada. Quando nossa vida gira exclusivamente em torno de nós mesmos. A verdadeira prática nos conduz cada vez mais até aquele espaço simples e isento de drama. Esse acontecer não pode vir de uma dimensão em que o eixo seja o próprio umbigo. persistência e postura. Qual é nossa tinta? Nossas preocupações com nós mesmos. Podemos até insistir que não gostamos de contos de fadas horríveis. Mas é preciso que tenhamos paciência.54 começamos a esguichar a tinta. no qual as coisas são apenas o que são.

como queremos que os outros também fiquem livres. quando de fato obtemos esse algo. Por exemplo. Uma é aquela em que nos sentimos pressionados de cima para baixo. "pesar" e "depressão" são termos que trazem à mente imagens de peso. Podemos entender nossa vida diária e ver que ela de fato não é problema. podem ter encontrado 55 . "estar suportando alguma coisa por baixo". e começou o sofrimento. Todos os seus pensamentos a respeito do que estava acontecendo com ela começaram a aparecer . Sofremos porque a vida está mudando constantemente. Desse modo. limpa. quando ficou um pouco mais forte. se o conseguimos. mas agora gostaria de usar o termo "sofrimento" e nele distinguir o que chamo falso sofrimento e sofrimento verdadeiro. podemos perdê-lo. esse é um de seus lados. Sabemos que não podemos ficar para sempre com as coisas agradáveis e. o outro é que desejamos nos libertar do sofrimento. O outro tipo é estar sob. porém. Em geral as pessoas revelam: "Sem dúvida consigo ver que a vida é sofrimento quando tudo dá errado. "suportar embaixo". O termo "pesar". são em si ensinamentos. vocês podem ter tomado o melhor café da manhã de suas vidas. O elemento -frer/frimento. sofremos. mas não consigo mesmo entender que o seja quando as coisas estão indo bem e estou me sentindo bem". Contudo. Ela considerou interessante o fato de. ela riu e disse: "Paciência e Dor". ele disse: a vida é sofrimento. Perguntei-lhe qual seria um bom tema para uma dharma palestra. diferentes categorias de sofrimento. Por exemplo. E a parte inicial do termo. como se o sofrimento viesse até nós de uma fonte externa. uma certa pessoa emprestou-me um artigo muito interessante sobre o sofrimento. Essa distinção no entendimento do sofrimento é uma das chaves ao entendimento de nossa prática. vem de sub. apenas sendo-o. "estar completamente sob". nem o dia mais agradável está isento de sofrimento. sua dor ter sido clara. como se estivéssemos recebendo alguma coisa que nos está fazendo sofrer. veremos como praticar. existem duas formas de sofrimento. Se realmente o entendermos. se acontece ou não conosco. Porém. Há algumas semanas. nos dias imediatamente subseqüentes à operação. A compreensão dessa diferença é muito importante. Algumas vezes fiz uma distinção entre "sofrimento" e "dor". O autor do referido artigo assinalou que o vocábulo "sofrimento" é usado para expressar muitas coisas. apenas suportando-o. também sofremos porque sabemos que. um elemento central de nossa prática é compreender o que é o sofrimento. Ele não disse que. sentamos para a prática sem propósito algum. Então há o sentimento nessa palavra de "estar embaixo". Mas. Não importa obter ou não. mesmo que as coisas desagradáveis desapareçam. quando não obtemos algo que desejamos.55 CAPÍTULO 5 Sofrimento Sofrimento verdadeiro e sofrimento falso Ontem estava conversando com uma amiga que há pouco tempo passou por uma grande cirurgia e está se recuperando. mas no restante de nossa vida. aguda. suportar. "aflição". não apenas enquanto estamos sentados. Assim. do latim gravare significa "pressionar". elas podem voltar . Quero distinguir esses dois tipos de sofrimento. é sofrimento. a mente começou a funcionar. Há. De certo modo. O vocábulo "sofrer" não implica de forma alguma uma experiência marcante e dramática. de algo que pesa de cima para baixo. Não só isso. "embaixo". sem problemas. -so. Os fundamentos de nossa prática e a primeira das Quatro Nobres Verdades é a declaração do Buda de que "A vida é sofrimento". deriva do latim ferre. Interessam-me esses significados. às vezes. Em contraste com esta palavra. a primeira parte versava sobre o significado do vocábulo "sofrimento". tudo é desagradável.

Não há nada de errado com as conceituações em si. A todos nós acontecem coisas injustas. aprendizes do Caminho. tocando o casco. que constitui o problema. opondo-nos a eles. cruéis. Revidamos. como sabemos disso. se vocês. montado em seu cavalo. sabemos que no dia seguinte pode ocorrer tudo ao contrário. Aconteceu que nesse momento o professor. ficamos inquietos e ansiosos. Se você conseguir libertar-se do pensamento conceitual. sentia que já sabia tudo o que havia por aprender. respeitado e reverenciado por todos. Portanto. Isso me faz pensar numa citação do Mestre Huang Po: "Esta mente não é a mente do pensamento conceitual e está completamente separada da forma. não faz a menor diferença o que está acontecendo. mas. como se estivéssemos envergando um colete aprova de balas. Você teve seu treinamento". minha amiga observou que. nisso. inação. opomo-nos ao que acontece. implica. Ouvindo isso. Eu não posso lhe ensinar o que você precisa saber.56 exatamente aquele amigo que tanto queriam. enquanto só havia a dor física. mas foi assim mesmo e viajou a pé. O rapaz não gostou nem um pouco. quando consideramos que as opiniões sobre algum evento são uma espécie qualquer de verdade absoluta. Isso foi tudo. como enfrentarmos o sofrimento da vida? Há uma história sufi a esse respeito. Bem. chegando às patas do cavalo. da conceituação a respeito de tudo que nos acontece. a ação provinda de um estado de completa 56 . ir para o trabalho e tudo correr às mil maravilhas. mesmo que se esforcem por todos os séculos. Todavia. começou a sofrer e a ficar infeliz. De modo algum. não havia problema. se essa abordagem não funciona. mas absorvendo-o e sendoo. e céu e terra estão distanciados. sem nos opormos a ele. Nisso. até chegar à aldeia onde morava o camponês. até que nos curvemos e suportemos o sofrimento da vida. viu o rapaz encaminhando-se até ele. Tentamos fazer como mencionou Shakespeare: “Apresentar armas contra um conjunto de problemas e. nossas justíssimas considerações. um analfabeto. não conseguiremos enxergar o que a vida é. o camponês comentou: “Agora você pode voltar. Havia há muito tempo um rapaz. Mas seu pai lhe disse: "Não. "Um décimo de uma polegada de diferença. Portanto (lembrando-nos da definição da palavra "sofrer"). A vida não nos oferece garantias e. mas. O rapaz curvou-se diante dos joelhos do cavalo e o professor disse outra vez: "Não basta". É a atividade de nossa mente. Então. terá conseguido tudo." Quero acrescentar aqui uma consideração. aumentar a raiva e fazer a nós e a todas as outras pessoas infelizes. Todos os dias somos confrontados com acontecimentos que nos parecem completamente injustos e sentimos que a única maneira de enfrentar um ataque é revidando-o. O máximo que conseguimos é intensificar as distâncias. E o rapaz. Não existem muitos dias tão bons assim. Esse é o sofrimento falso. A pessoa que quero que você ouça é um professor camponês. isso implica passividade. esquecendo-nos de que são opiniões. cujo pai era um dos maiores professores daquela época. Nessa medida. Budas e seres sensíveis não diferem em absoluto entre si. mesquinhas. um lavrador". como uma aflição. Se na realidade examinamos nossa situação do ponto de vista habitual. Pensamos que desse modo estamos do melhor jeito possível para viver. Nosso revide está em nossas mentes. então sofremos. estava saindo de sua fazenda e indo para outra. o rapaz curvou-se mais uma vez. Nosso hábito é pensar: "Mas que coisa terrível!". No instante em que começou a alimentar pensamentos sobre a dor. o professor olhou-o de cima a baixo e falou: "Não basta". não se libertarem de repente do pensamento conceitual. Seria ótimo se realmente "as flechas e as atiradeiras da sina mais ultrajante" pudessem cessar. tendo crescido ouvindo as palavras de grande sabedoria do pai. a vida é sofrimento. o rapaz ajoelhou-se e o camponês repetiu: "Não basta". Quando o rapaz chegou perto o suficiente e curvou-se diante dele. ao contrário. meio indisposto. jamais chegarão lá" (14). até então. Pode ser muito injusto ou muito cruel. Armamo-nos com nossa raiva e nossas opiniões. eliminá-los".

essa mente se aquieta de novo. É quando ficamos de frente para esse momento. nesse esforço para chegarmos a um acordo com as novas percepções relativas a nossa vida. é fazer o que estou dizendo. Uma completa abertura. acerca do que deve ser feito para encerrar o sofrimento. no último fim de semana!". 57 . nossas referências e opiniões sofrerão abruptas modificações. Podemos entender melhor o que ele é e como usá-lo em sua melhor característica. porque uma coisa é falar do sofrimento e outra. uma completa vulnerabilidade à vida é (para nossa grande surpresa) o único meio satisfatório de se viver. podemos fazer com que os outros não tenham medo. Por conseguinte. Enfim. Podia ouvir minha mente se queixando: "O quê?! Outro sesshin! Você acabou de fazer um. Portanto. Até mesmo o termo "aceitação" não é muito preciso. praticando com essa espécie de coragem. Não há quem não esteja sob seu jugo. Conseguimos isso através de uma prática persistente. sentiremos inquietação. Contudo. e essa visão não nega as coisas que ficaram embaixo -ela as inclui -. é isso: a qualquer momento específico. Diante disso. até que se reinicie o ciclo. ter um entendimento teórico do que é o sofrimento e como praticar com ele torna-se um instrumento de extrema utilidade. Podemos mantê-lo durante um certo tempo. ela mesma abalará as certezas inabaláveis de nossas opiniões e não seremos mais capazes de mantê-la. Quanto mais enxergamos. Como falo com inúmeras pessoas. é quando encaramos o sofrimento. tenham bastante clareza a respeito de vocês mesmos. talvez. porém. a coisa principal que observo é que elas não compreendem o sofrimento. Claro que se vocês forem um pouquinho parecidos comigo. luta. Por muito tempo. nossas novas perspectivas irão sustentar-se por um certo tempo. Ao fazermos isso. a ir contra o que nos acontece. dos acontecimentos. efetuando de fato uma prática. mais saberemos o que fazer. simplesmente ser o sofrimento. Assim. das pessoas e. a cada estágio do esforço. estamos de volta à única realidade segura: o momento presente. o que é tudo o mais. quando realmente nos sentimos dispostos a penetrar em sua dinâmica. Claro que nem sempre eu também o entendo e tento evitá-lo como qualquer um. ao longo de nossa vida. Entretanto. nesse instante. Então. irão evitá-lo tanto quanto possível. constantemente. Nossas mentes funcionam dessa maneira. de um modo direto. quero dizer. sentiremos que estamos dispostos a vivenciar nosso sofrimento em vez de lutar contra ele. Mas às vezes as pessoas comentam: "É difícil demais". Cada vez que fazemos isso. mas se torna maior a cada etapa da subida. A mente que cria o falso sofrimento está constantemente funcionando nos sesshins. Quando o fizermos. aborrecimento. Mais uma vez surge a inquietação e começamos a lutar. e ninguém precisa nos dizer coisa alguma. extremamente difícil. cada momento que praticamos desse jeito nos dá aquilo que não podemos obter de nenhuma outra maneira: o conhecimento direto de nós mesmos. se nossa prática for sincera. e vejam também que. em especial no sesshin. É como escalar uma montanha. Depois. não praticar absolutamente nada é muito. Estamos mesmo nos enganando. que inclui algumas coisas e exclui outras. um dia. Mas. Quando começarmos a questionar nossos pontos de vista. mais abrangente nossa visão. mas muito mais difícil. recusamos com paciência a dominação desses pensamentos e dessas opiniões a respeito de nós. nosso foco e o samadhi se aprofundam. quando não praticamos. penetrando na realidade do presente. nossa visão de vida se amplia. quando fazemos zazen. e desaparece a barreira entre nós e os outros. Faz parte da prática. Nossa prática. no zazen. a renúncia do bodhisattva é essa prática. temos um ponto de vista rígido ou uma posição inflexível a respeito da vida. sabemos bem no fundo quem somos e quem todos são. lutemos contra as novas informações e as neguemos. cada vez que entramos no sofrimento e nos entregamos à situação.57 aceitação. quando o fazemos. sabemos quem somos. Na noite passada constatei-a em mim mesma. lembro-me de perguntar: "O que de fato quero para mim e para os outros?". quando enxergo esse absurdo. Nos sesshins. No entanto. Cada passo em direção ao alto permite-nos enxergar mais. é esse afastarmo-nos da fantasia e dos sonhos pessoais. não sofram. mais uma vez. sê-lo apenas. qual ação encetar .

para que então nossa ansiedade se amenize um pouco. As folhas caem. mas é o que passamos fazendo o tempo todo. as coisas que consideramos adoráveis. Quando falham nossas tentativas para vencer a luta. Recusamo-nos a ver a verdade que está toda à nossa volta. voltem ao estarem sentados. Devemos viver e morrer. Se a vida fosse permanente não poderia ser a maravilha que é. Renúncia Suzuki Roshi disse: "A renúncia não consiste em desistir das coisas deste mundo. Sentemo-nos dessa maneira. que não tem o menor interesse por ela. Eles vêem exatamente o que estamos fazendo. Queremos que o parceiro garanta nossa segurança. e o corpo. Jamais alcançamos esse resultado com nossas queixas. Se quisermos ver a vida. como espelhos. a prática só pode ser árdua. Quem não notou seus primeiros fios de cabelo branco sem comentar com os próprios botões "Hum. a última coisa que apreciamos é nossa própria impermanência. poderia não existir . Há sempre uma luta em andamento dentro da existência humana. não há aquele que. de aceitação das partidas. Não estão interessados em nossos esforços para sermos o centro do universo. não tenha encontrado as recompensas oferecidas pelo verdadeiro sentar. apenas um outro nome para perfeição. Nosso impulso pessoal é encontrar uma maneira de sustentar para sempre nossa glória imutável. No entanto. pura e simplesmente. Apesar disso. Não se pode esperar dele que saúde essa aniquilação com grandes 58 . Mesmo na prática zen tentamos encontrar um meio de esquivar-nos à prática genuína para que possamos alcançar uma vitória pessoal. Ficamos desesperados para que alguém nos diga: "Está ótimo. Se aparecerem. que nos faça sentir que somos maravilhosos. por que você pratica de um modo tão árduo? Por que não enfeita um pouco a coisa?". ao final de um sesshin. "braço direito" da impermanência. para a respiração. tudo se vaI. Do ponto de vista do pequeno eu. A prática aniquila o pequeno eu. porém. a constante mudança. e não estou sugerindo que suprimamos esses sentimentos. Por que o vêem com tanta clareza? Porque também estão fazendo a mesma coisa. Renúncia é um estado de desapego.". Tudo será maravilhoso para você". Quando fazemos isso. dedicamo-nos a essa batalha sem cessar. neutralizem a faca afiada de nosso medo de que não estaremos mais por perto.. amargura e raiva. podem tentar a paz na falsa forma de uma religião.58 inteligente e paciente. Quem sempre vence é a morte.. não é preciso suprimi-los. Ocupamo-nos de um modo frenético o tempo todo. Nosso impulso não é apreciar a perfeição do universo. cedo ou tarde. Esse processo é a própria perfeição. O mais engraçado é que nossos amigos não se deixam enganar por nós. Estamos sempre envolvidos numa batalha interminável com nossos receios a respeito de nós mesmos e de nossa existência. O modo como interferimos nos incêndios florestais pode não ser uma boa atitude. não é o que temos em mente. Retornem. deveremos prestar-Ihe atenção. Realmente não vemos de jeito nenhum a vida. Toda essa mudança. As pessoas que oferecem essa saída tornam-se ricas. É claro que essa é uma luta ansiosa e inútil que não pode ser vencida jamais. A destruição é necessária. no mínimo. Mas não estamos interessados nisso. que nos dê o que desejamos. A maravilha do viver. Tudo é Impermanente. Essa resistência a mudanças não está em sintonia com a perfeição da vida. Impermanência é. só temos interesse pela batalha de preservação de nossas pessoas. a partir de um certo dia. Nossa atenção está dirigida em outro sentido. reflitam nossa glória. Pode parecer ridículo. Procuramos amigos que. As pessoas costumam me falar: "Joko. Sem destruição não pode haver vida nova. É necessário um grande incêndio nas matas. observem-nos. que é a impermanência. mas em aceitar que elas se vão" (15). então de imediato. dos fragmentos de rocha nascem as flores. o lixo e os detritos se acumulam. para todo o sempre. Não queremos ver isso. as folhagens. O que desejamos que a vida nos dê é que os outros. aliás.

. exigente. Um dos grandes obstáculos para enxergar é a nossa falta de consciência de que toda prática tem um poderoso elemento de resistência. ou para o sagrado. começamos a ficar interessados naquilo que a prática é de fato. se preferirem. 59 . para essa energia que altera o universo um milhão de vezes por segundo.. Com este crescimento sempre vem o arrependimento. é uma prática sutil: mesmo quando lutamos. minha barriga ronca. No entanto. colidem com o que é. Numa boa prática. um outro lado da prática. às vezes. em contraste com nossas idéias do que pensamos que ela deveria ser. Quando nos damos conta de que quase o tempo todo magoamos a nós mesmos e aos outros. está havendo a colisão entre o modo que desejo as coisas e como elas são. queremos ser sábios. Há. ficamos aborrecidos. não há o que enfeitar para agradar o pequeno eu. Por isso.59 demonstrações de alegria. atuemos e sirvamos os outros de modo espontâneo. A questão da prática é exatamente esse espaço de colisão em que meus desejos de imortalidade pessoal. Quando estamos efetuando uma boa prática estamos ampliando um canal para essa energia universal e a morte perde a dor da ferroada. A qualquer momento só existe aquilo que está acontecendo. O quanto a teremos. estamos sempre transformando nossa centração pessoal (estamos presos no cerne de reações pessoais) num canal cada vez mais universal para a energia universal. a menos que queiramos ser desonestos. não estamos interessados nisso. Quando nossa prática tornar-se o momento presente. em si. "Odeio aquela respiração barulhenta. minha própria glorificação. é pura alegria. Portanto. Dentro de nossa vida fenomênica. Quando nosso pequeno eu morre -nosso irado. Aos poucos. "Esqueça a realidade! Estou aqui para ficar iluminado!" O zazen. não poderemos olhá-la e dar-lhe as costas. vejamos que nossos esforços em sesshin são destinados a aperfeiçoarnos. o outro lado é alguma outra coisa e não lhe damos nome. meu controle pessoal do universo. Pelo contrário. resistimos contra ela e a distorcemos. Pode ser que. contudo. depende da velocidade em que for morrendo o pequeno eu. o que enxergamos é a impermanência. Só um Buda não tem qualquer resistência e duvido que dentro da população humana existam Budas. excitação. Conforme ele se vai começam a ocorrer cá e lá momentos em que vemos a vida como ela é. Cada reação defensiva (e temos uma a cada cinco minutos em média) é prática. A perfeição infinita é passar por essas inconveniências: " As coisas não estão acontecendo do jeito que eu quero". queremos ficar iluminados. Não temos qualquer interesse pela perfeição infinita do universo. Começamos a saborear o que é realmente se importar com outra pessoa sem esperar nada em troca. Nossa atenção dirige-se para outro lado. Precisamos não apenas conhecer nossa raiva. respirando de modo barulhento ou suando. queremos ter clareza. essa contrição. como saber quais são nossos recursos pessoais para enfrentá-la. quando os meninos do vizinho estão tocando rock?" Todos os momentos oferecem-nos um verdadeiro tesouro de oportunidades. pode ser a pessoa sentada a meu lado. queixoso. quando sentimos irritabilidade. Essa é a verdadeira compaixão. arrependemo-nos. Se uma reação não for consciente. Até que morramos. estamos abertos para a totalidade.". no entanto. Se praticarmos com os pensamentos e as sensações físicas que compõem a reação. Esse momento ocorre muitas vezes em nossa vida. de modo que nada exista em 'nossa experiência física e mental que nos seja desconhecido. nossos conceitos a respeito dela tendem a se destruir por si. Mesmo ao longo do dia mais tranqüilo e sem incidentes temos muitas oportunidades de ver a colisão entre o que desejamos e o que realmente é. apesar de nós. queremos ficar em paz. diremos: "Mas não é mesmo uma chatice! Os carros passam. Toda prática boa tem como meta tornarmo-nos conscientes de nossos falsos sonhos. sempre existe alguma resistência pessoal que tem de ser reconhecida. ciúme. Como ficar consciente do que é quando ela respira daquele jeito?" "Mas como praticar. meus joelhos doem. manipulador pequeno eu -aparece um enfeite genuíno: alegria e autoconfiança autênticas. Essa situação permanecerá até que nosso eu pessoal esteja completamente morto. que na realidade.

está certo para mim? Ou se alguém lhe diz isso. especular. comum para aqueles que dedicam muito tempo à prática nos Centros. Sou a própria impermanência dentro de um invólucro humano em rápida transformação. Sem problemas de espécie alguma. nossa conversa torna-se uma outra forma de resistência. Um quarto obstáculo é termos pouco entendimento da magnitude da tarefa que nos propusemos. Vocês conhecem o antigo ditado: "Aquele que sabe não fala. a boa prática diz respeito ao medo. além de não muito difícil. A tarefa não é impossível. sossegados e acolhedores. Ela está ocupada fazendo. Não estou dizendo que não devamos tentar evitá-los ou mudá-los. E não falo sobre dharma. Não penso que ela fale muito. Essa prática obsessiva é. Quando falamos sobre prática o tempo todo. é a substituição da prática persistente por conversas. Está certo A iluminação está no próprio cerne de todas as religiões. Quando a barreira pessoal se desmancha. mas a última coisa que desejo saber é isso. podemos enxergar com mais nitidez o que estamos fazendo em nossa prática. Falam. menos segura. É como os acadêmicos que salvam o mundo diariamente na hora do jantar. Porém. o medo de que eu não seja. Nem sempre temos de participar aos outros do que observamos em nós. um obstáculo. muito calmos e tranqüilos. muitas vezes compomos uma estranha imagem do que isso seja. Por que falar a esse respeito? Minha tarefa é observar como eu o violo. mas é interminável. Portanto. criamos um revestimento tipo nuvem. você vai viver só mais um dia". discussões e leituras. por que é que precisamos chamá-la de alguma coisa? Simplesmente vivemos nossa vida. a última coisa sobre o que falo é a prática zen. O medo assume a forma de um constante pensar. É muito difícil admitir: "Estou sendo vingativa" ou "Estou sendo punitiva" ou "Estou sendo hipócrita". em si. Temos de ver que estamos perseguindo ideais de perfeição em vez de reconhecermos e aceitarmos nossa imperfeição. Não quero ser isso. Farei agora algumas perguntas a respeito de certos estados desagradáveis. falam e falam –mas que diferença isso faz? Na outra ponta dessa linha estaria alguém como Madre Teresa de Calcutá. podemos começar a ter algumas pistas e. Um terceiro obstáculo é ficarmos impressionados com nossas pequenas aberturas. A verdadeira prática não é segura. Quanto menos dissermos a respeito da prática. está tudo bem? 60 . Esse tipo de honestidade é difícil. analisar e fantasiar. quando vão ocorrendo. ficamos obcecados com nossos esforços febris para concretizar aversão de nossos sonhos pessoais. e aquele que fala não sabe". que dá a impressão de sólido.Se alguém me diz: "Joko. Além de uma situação professor-aluno direta. só uma outra nuvem entre nós e a realidade. A única coisa que importa é vermos com o concurso de uma lanterna impessoal: vermos as coisas como elas são. estaremos simplesmente mortos. A prática inteligente sempre lida com uma única coisa: o medo que está na base mesma da existência humana. O quinto obstáculo. com esses exemplos. Mas não gostamos disso e assim. mas não deveria estar acontecendo coisa alguma de que não tivéssemos consciência. tampouco que não devamos ter preferência ou aversões bem marcadas a seu respeito. pode ser qualquer coisa. Claro que eu não sou. melhor. Equacionamos o estado iluminado ao estado em que tivermos ficado perfeitos. quando temos pistas. e assim desviarmo-nos do caminho principal. E não é isso. um disfarce. que nos mantém protegidos dentro de uma prática de faz-de-conta. Elas são apenas frutos e não têm importância a menos que as usemos em nossas vidas. Temo ver o que sou: um campo energético em constante mudança.60 Um segundo grande obstáculo é a falta de honestidade a respeito de quem somos. Quando morrermos. Com toda essa azáfama. Eis as perguntas: . Apesar disso. a cada instante.

A maioria das terapias tem. apresentei um conjunto bastante desagradável de opções. e sim aprender a não precisar morrer com bravura. Estar tudo certo não implica que eu fique feliz com a situação. Não quer dizer que eu não vá gritar. De certo modo. Por exemplo. podemos ter essa aceitação em pequenos Setores de nossa vida. a pessoa que não oferece nenhuma resistência às circunstâncias. eu poderia ter perguntado: "Se você tivesse de ganhar um bilhão de dólares. em que fica tudo certo. com o que lhes acontecer. estaria tudo bem? .Se eu me comportar como uma idiota na pior circunstância possível. No entanto. se vocês forem honestos. está tudo bem? Se isso lhe acontecesse. estaria tudo bem? .Se. Claro. Não me refiro a uma aceitação cega. Mas as coisas. estaria tudo bem comigo? E com você? . Conheci poucas pessoas que se aproximaram dessa condição.Se devo perder alguém ou alguma coisa que me é muito importante. Ou talvez possamos dizer que é verdadeiramente humana. Há muito pouco que se possa fazer: nesses casos. às vezes. em grande grau. não poderão também. com as circunstâncias que a compõem. Podemos afirmar as duas coisas. estaria tudo bem? Bem. são inevitáveis.Se. odiar o que aconteceu. exposta ao frio. como propósito. boa ou má. quantas vezes já nos indagamos quando iremos morrer. e. tenho de ficar acamada e com dores pelo resto da minha vida. Não estou falando de um santo. por alguma razão. Estou falando daquele estado (em geral precedido por uma luta imensa). Entretanto. comendo pouco. chorar. Em vez disso. não posso responder que para mim estaria tudo bem em qualquer uma dessas situações. estaria tudo bem?". Uma atitude deveras interessante: não aprender a tolerar qualquer circunstância. por algum motivo. está tudo bem? Vocês podem alegar que a pessoa para quem qualquer situação é aceita sem reservas não é humana. Contudo suponhamos que não 61 . Mas responder que sim seria o estado de iluminação. vocês têm razão: ela não é humana. não é um ser humano como nos acostumamos a conhecê-lo. pode incorporar toda e qualquer condição. estaria tudo bem? . Tampouco a não fazer nada em caso de uma doença. protestar. De qualquer modo. se entendemos o que significa estar tudo bem em termos das coisas. então esse é o estado de iluminação. Então o que significa estar tudo certo? O que é o estado iluminado? Quando não houver mais qualquer separação entre eu e as circunstâncias de minha vida. Esse é o estado iluminado: o estado de uma pessoa que. Cantar e dançar são as vozes do dharma. mas no geral gostaríamos de ser uma coisa bem diferente daquilo que somos. estaria tudo bem? . para propiciar uma paz entre nós. por exemplo. A chave não é aprender a morrer com bravura. sejam elas quais forem. a questão é se está tudo bem com vocês levarem a vida que têm.61 . mas aprender a não precisar de uma atitude em particular para cada circunstância. ter um bilhão de dólares representa praticamente tantas dificuldades quanto as existentes na vida de um mendigo.Se o relacionamento íntimo que você espera que aconteça nunca se concretizar. eu tiver de levar minha vida como mendiga.Se nunca mais eu fosse receber um comentário amistoso ou encorajador de outra pessoa. sem teto.Se estou num acidente grave e minhas pernas e meus braços têm de ser amputados. ajustar minhas necessidades e meus desejos aos seus. Talvez vocês respondessem: "Claro!". sejam elas quais forem. assim como lamentar-se e reclamar. estaria tudo bem? .

gostaria de sair correndo. Uma forma de avaliar nossa prática é ver se a vida está cada vez mais "tudo bem" para nós. mas ainda assim será essa a nossa prática. Ou. é isso mesmo que eu desejo!". saberia o que fazer. você pode estar desfrutando a vida com seu parceiro e pensar: "Uau. esse é o treinamento do sesshin. ela está certa. Aumenta nossa capacidade de dizer: "É. está tudo certo". Com essa prática vai se acumulando um resíduo que é o entendimento. aceitamos nossos protestos. cada vez mais seremos capazes de apreciar os esforços. Por exemplo. seja o que for que nos aconteça. Não tenho tanto interesse pelas experiências de iluminação como pela prática que consolida o entendimento. qual seria a prática? Coisas assim tão drásticas não acontecem com a maioria. mas há uma base sobre a qual se assenta a vida. de alguma maneira. Vocês sentiriam que essa pessoa seria encorajadora nos momentos apropriados ou não. O que estamos fazendo com nossa prática (saibam-no ou não. que pouco se preocupa consigo. De repente. Pode não mudar como gostaríamos. Isso vai crescendo. estou passando por tudo isso e não gosto. aceitamos tudo aquilo. ou a qualquer uma das suas -está tudo perfeito só do jeito que está -então o que precisa ser ajustado? Pode-se dizer que alguém que conseguisse responder "sim" a qualquer uma das perguntas seria uma pessoa muito estranha. esse fato que pode terminar nos ajudando a responder "está certo". É quando temos uma 62 . de termos ou não de lutar contra essa situação. Isso está certo para mim? Claro que não. conforme vai aumentando. Não acho. a prática é difícil. no entanto. porque ela seria você. Cada vez mais sentimos que. de algum modo". gostaria que vocês considerassem o seguinte: qual é a base que lhes permite responder com um "está tudo certo. independente de detestarmos ou não o acontecido. aquelas pessoas podem até lutar e espernear. De certo modo. porque. O mais estranho. o sofrimento agudo e a experiência dele é o que está certo. Provavelmente. queiram-no ou não) é aprender como usar essa base. de tal sorte que vocês possam responder "está tudo certo" seja lá o que aconteça. não tenho nenhuma reclamação" diante de qualquer condição da vida? Não quer dizer que nunca fiquem aborrecidos. Tal pessoa saberia fazer a distinção. a dor. Não nos esqueçamos daqueles momentos maravilhosos do sesshin em que nossa alegria e capacidade de apreciação realmente nos surpreendem. Entretanto. e a deixar que tudo o mais seja como é. a confusão. Quando acontecem coisas que muitos considerariam desastrosas. desse paradoxo que dá base à nossa vida. Alguém que se dê pouca importância. Quando praticamos o zazen. quando isso também fosse adequado. Mas também está tudo certo.62 faço objeções a qualquer uma de minhas necessidades ou meus desejos. mas qual seria então a prática? Se eu fosse raptada em algum país não civilizado. Quando algo está certo para nós. o desgaste. o fato de que não estamos chegando a parte alguma de acordo com nossa maneira de enxergar a vida. Aumenta nossa capacidade de compreender e de apreciar a perfeição de cada momento: nossos joelhos e costas doloridos. trancafiada numa cela. é que as pessoas que praticam dessa forma são as que gozam a vida. mas ainda assim desfrutam-na: está tudo certo. o suor. Se a encontrassem não notariam nada de diferente. que está disposto a ser como é. numa escala menor. a dor. os desastres acontecem a todos e nossas imagens de como a vida deveria ser são desfeitas como bolhas de sabão. como no Pai-Nosso: "Seja feita a vossa vontade". o comichão em nosso nariz. Enquanto ficamos sentados do começo ao fim dessa prática. Para mim seria muito difícil se eu nunca mais pudesse receber um comentário amistoso ou gentil. Portanto. tudo que detestamos nela. Claro que não há problemas quando não podemos afirmar isso. ficamos em cima desse koan. Esperar nada da vida abre a possibilidade de desfrutá-la imensamente. O milagre de ficarmos no zazen é o milagre de apreciar. nossa confusão. A menos que não compreendamos de jeito nenhum o que é a prática em sesshin. nossa vida muda de modo radical. como Zorba. o grego(16). sentiriam uma paz imensa na companhia dela. ele vai embora. nossas lutas. é verdadeiramente amorosa. vai lentamente aumentando um certo entendimento: "É mesmo. Desejamos que todas essas coisas continuem: a luta. Parece que estou criando uma prática difícil? Contudo.

teremos aprendido algo a respeito do erro deste tipo de busca. em que intervêm personagens ilustres ou heróicas. Mas sendo os tubarões o que são. desperdiçamos nossa vida numa batalha sem sentido para evitar esse fim. terminarão encontrando nossas áreas de recreação e nos descobrirão. o que precisamos? Precisamos da habilidade (que aprendemos de forma lenta e contrariada) de sermos a experiência de nossa vida. No entanto. dramático e funesto. mas depois é. preocupando-nos com eles. Três dias depois já estaremos procurando a próxima solução. apesar disso. Para culminar. linda criatura. que ninguém pode evitar. De um ponto de vista pessoal. se estamos pendurados no abismo. a partir do momento de nossa concepção. não aprendendo nada. Fomos feitos para ele e. É sensato precavermo-nos contra os danos físicos. existe um. homem e tigre sejam um só. vacinamos as crianças. Por favor. ou correr mais uma vez. Pode ser que nademos todos os dias de nossas vidas. Além de quaisquer acidentes que possamos encontrar na vida. no final. Jamais teremos certeza. Naquele instante. segurando-se por uma das mãos. o simples caminhar por uma rua é uma coisa fantástica. Quanto mais tivermos vivenciado a vida em todas as suas manifestaçÕes como alguma coisa que sempre está certa. Cada um de nós é um protagonista desempenhando seus papéis principais em palquinhos particulares. de caráter grandioso. sem nunca encontrar um só tubarão. que é capaz de infundir terror e piedade” (17). está dada a partida para atingi-lo. coma-me". Porém. a vida é uma tragédia. Somos um só. tragédia é "uma obra teatral em verso. enquanto aquele tigre vinha se aproximando por cima. as ondas gigantescas o farão. mais cedo ou mais tarde. tal como ela é. apesar de não querermos admiti-lo. viu alguns morangos silvestres e. compramos seguros. segurando-nos apenas num arbusto. Se um tubarão não nos pegar. menos seremos motivados a dar-lhe as costas numa busca ilusória de perfeição. nem crescendo com as dificuldades. Pode ser que essa vivência não dure muito. O homem fez o melhor que pôde para se proteger. Do ponto de vista habitual. Cada um de nós sente que intervém e. Mas existe um erro que grassa em surdina nos nossos pensamentos. Quase todos ficam mais felizes depois de um sesshin. só esperando que ele caísse. podemos ou desperdiçar 63 . muito embora. Vamos imaginar que moremos à beira-mar num clima ameno. Não obstante. Por essa razão. levamo-la como uma inútil tentativa de nos escondermos da tragédia. apesar de surpreendente. onde poderíamos nadar o ano inteiro. Para termos uma vida pacífica e produtiva. Era deliciosa! O que aconteceu com O homem afinal? Todos sabemos. A maior parte do tempo eu não a quero e suspeito que vocês também não. Se formos nadadores hábeis. Tragédia Segundo o dicionário. colhe a fruta e a come. ele olhou para baixo e viu um outro tigre lá embaixo. como qualquer um de nós faria. desceu pela beira de um rochedo e agarrou-se a um arbusto. a preocupação com essa possibilidade pode estragar tudo. Todos já têm uma idéia de onde os tubarões possam estar em nossas vidas e gastamos a maior parte de nossa energia. é para aprender isso que estamos aqui. ela tem um caráter dramático e funesto. A história não é sobre ser estúpido. mas não só por isso. mas as águas estão infestadas de tubarões. Qual é ele? Qual é a diferença entre tomar providências razoáveis e a preocupação incessante com pensamentos que rodopiam vertiginosamente? Há uma famosa parábola budista: um homem estava sendo caçado por um tigre. dois ratos estavam roendo o tronco do arbusto. baixamos nosso nível de colesterol. num certo nível. Talvez porque tenha terminado. Foi uma tragédia o que lhe aconteceu? (18) Observe que o homem caçado pelo tigre não se deita e diz: "Oh. Essa batalha abortada é a verdadeira tragédia.63 escolha: encararmos o desastre de frente e torná-lo nossa prática. Depois de um sesshin. iremos pesquisar as áreas onde se concentram para os evitarmos. Em seu desespero. no entanto. mas. claro. isso é uma tragédia. estamos aprendendo. E. Não o era antes do sesshin.

enxergamos o equívoco de nossa identificação exclusiva com a mente e o corpo. Certa vez alguém insistiu comigo nesse ponto: "Isso ainda não resolve o problema da morte. E talvez o pescador que o pescar. então. ficam claras como cristal a desonestidade e as tentativas de fuga da mente. sejam apenas isso. Quando fazemos zazen. firme. Quando isso acontece. O homem que foge do tigre. do que seja. Para elas. é dharma. Se forem abençoados. Não seria por acaso cada momento o último? Não há outros momentos além deste. não. por sua vez. Pode ser um grande choque darmo-nos conta de que não existe nada fora de nós.) Não se trata de uma compreensão intelectual. E o morango pode ser saboreado. não há um protagonista diante de um adversário. Do ponto de vista da vida. sob o impacto da invasão que é um sesshin. A prática é o ver cada vez através da ficção dessas identificações exclusivas. Portanto. podemos evitar às vezes essa percepção. que é a enfermidade que dita nossas ações. na qualidade de seres humanos dotados de mente. Entretanto. nem o veremos. nossa atitude pode incluir o outro lado da moeda.64 nossos últimos momentos ou desfrutá-los. tremendo de medo. atacando-nos. mesmo quando é preciso que nos oponhamos a elas. Com uma prática paciente como essa. É sensato cuidarmos de nossa mente e de nosso corpo. São nossos pensamentos. Se o tubarão nos comer. nasce a percepção não do intelecto. é visto tal como é. mas. Conforme formos praticando com paciência (vivenciando nossa respiração. Poucas pessoas na história da humanidade identificaram-se com outras formas de vida tanto quanto com as suas próprias. não existe tragédia porque não existe adversário em seu caso. Cada vez mais. podemos começar a perceber o equívoco de uma identificação exclusiva com a mente e o corpo. o ponto de vista da outra pessoa.não existem protagonista. Porém. de fato. quanto sabemos disso. cada momento será só o que cada momento é. O falso pensamento evapora-se como nuvens ao calor do sol e encontramo-nos. mais difícil será esquivar-se a ela. que somos apenas manifestações diferentes de uma só energia e isso não é difícil de compreender-se intelectualmente. Nós continuamos morrendo". para enxergar a natureza do falso pensamento que cria a ilusão de um eu separado. quanto mais dias sentarmos. dão margem a uma vida autocontida. é o dharma. quando nos identificamos exclusivamente com eles. então não há problema. Assim. e lutarem e se sentirem infelizes ou confusos. e começamos a compreender . ficamos mais receptivos às percepções dos outros. do que faça. A imensa sagacidade da mente humana pode funcionar muito bem quando desafiada. corpo e emoções. tomando consciência do processo de pensamento). quando estiverem no sentar. às vezes. Começa também a ser sentida a tensão criada pela sagacidade mental. com cada célula de nosso corpo? Quando o cerco das identificações com a mente e o corpo afrouxa um pouco e. 64 . mas das próprias células de nosso corpo. A física moderna deixa claro que somos "um". mesmo quando não concordamos com elas. pudermos dizer: "Mas que morango delicioso!". Do ponto de vista do tubarão é uma tragédia. Se somos unos com a vida -independente de quem seja. necessidades e apegos que nos assaltam. sentar-se imóvel durante horas. em meio ao sofrimento como uma abertura. no momento que antecede imediatamente a morte. adversário e tragédia. mas ao sentarmos durante horas por dia é difícil evitá-la e. (Claro que enxergaremos isso em graus variáveis e. Se. não se apeguem. Não estou sugerindo um novo ideal para ser perseguí-lo. separada e infeliz. sejam apenas. temos uma preciosa oportunidade para ficar de frente para nós mesmos. De fato. frutos de nossa identificação com pensamentos falsos que. como uma espacialidade e como uma alegria que nunca havíamos saboreado antes. O problema começa. então ele terá tido uma excelente refeição. Quando nossa prática é constante. até certo ponto. intensa. Aquilo que vocês são. Quando praticamos diariamente o sentar.

mas estão vinculados a sensações e sentimentos corporais de contração. Esses pensamentos não são reais. E também lineares. Não há sofrimento e não há fim para o sofrimento". "Vós. no entanto. quando praticamos o zazen: o eu observador. independente do quanto nos esforcemos nesse sentido. Certo. o eu observador está em ação. É importante para algumas terapias ocidentais. Mesmo quando nos encontramos inteiramente absortos na vida diária. um outro aspecto de nós mesmos que aos poucos começamos a conhecer. são limitadas. Mas o zazen. A luta é travada com nossas próprias interpretações. todos somos levados pelo roldão de alguma espécie de raiva. não há nada. Não há nada a nosso respeito que não deva passar por um escrutínio. Há. misterioso. podemos dizer que nossas emoções aumentam. têm um ponto máximo e depois diminuem. mas elas nem sempre percebem a diferença radical entre o eu observador e os outros aspectos da pessoa. quando mantido ao longo dos anos. O eu observador "Quem está aí?". Quando praticamos. como se pudesse acontecer por si mesmo e. então. O homem que é caçado pelo tigre é enfim devorado. Precisamos observar os músculos contraídos e onde há 65 .. Uma vez que não há nada a saber a seu respeito. quando ficamos excitados de satisfação ou deprimidos.. nosso eu emocional e nosso eu funcional. confuso. vêm e vão dentro do tempo. o funcional que realiza e faz coisas. quando bem empregado. Porém. que terminarão em ruína apenas se assim as virmos. Aliás. precisamos conhecer todos os pensamentos relacionados a ele. Nada há nessas áreas que não possamos descrever. "Quem está aí?".. Mais tarde. o que tem emoções. Estes aspectos do eu passíveis de descrição são os fatores primários de nossa vida: nosso eu pensador. Na prática. sentamo-nos. responde Deus." "Vá embora". (Com "raiva" refiro-me também a irritabilidade.. envolvidos em lutas intermináveis com forças externas a nós. cultiva o eu observador com mais profundidade do que a maior parte das terapias.. é por que as terapias funcionam. como comemos numa festa. Não que detenhamos as outras atividades." "Entra". Será semi-independente de nós. Há o eu que pensa. por exemplo. "Sou eu. A maioria das terapias faz isso em certo grau. quase podemos dizer que é uma outra dimensão. normalmente podemos descrever como nos sentimos. observamos -ou tomamos consciência . Qualquer aspecto de nossa pessoa que não seja observado permanecerá indistinto. o eu observador não pode ser enquadrado na mesma categoria. Todas as partes que descrevemos e chamamos nós.) Anos e anos praticando o sentar permitem que coloquemos a descoberto a anatomia da raiva e de outras emoções-pensamentos. assim como nem sempre entendem sua natureza. podemos descrever nosso funcionamento físico: andamos.65 A tragédia sempre inclui um protagonista envolvido numa luta.(19) Aquilo que costumamos pensar que é o eu tem muitos aspectos. como nos portamos numa nova situação quando só há desconhecidos.. diz Deus. pergunta Deus. Se procurarmos por essa dimensão. Todavia não temos de ser protagonistas. O que observa não pode ser encontrado nem descrito. ciúme. voltamos para casa. ficaremos presos em suas malhas e arrastados pela confusão. como fazemos amor.de tudo quanto podemos. devemos observar como trabalhamos. Num momento ou noutro. e não há o fim para a velhice e para a morte. Quanto às emoções. pergunta Deus. aborrecimento e até mesmo depressão. Como diz o Sutra Coração: "Não há velhice e morte. Sem problemas. que diz respeito a nosso eu observável. Num episódio de raiva. Podemos descrever nosso pensar.

Não que busquemos dificuldades e problemas. conforme a anatomia vai se tornando mais clara. Quando isso nos acontece.66 músculos descontraídos. em que meditamos de frente para outra pessoa. podemos nos ver temporariamente lançados em meio à maravilha da vida livre do ego. "Vós".menos misteriosa serão essas emoções e menos seremos suas presas. num workshop. Devagar. mas todos os pensamentos e emoções são impermanentes. supomos que está correto empurrá-los para fora do caminho. 66 . em que com um koan esforçamos ao máximo para romper os limites. torna-se proveitoso. Quanto mais soubermos -quanto mais forte for o observador . o que estamos fazendo de fato é empurrar os falsos pensamentos e emoções para esconderijos cada vez mais sutis. Este espaço de deslumbramento -entrar no reino do céu -abre-se quando não estamos mais aprisionados dentro de nós mesmos. podem ser prejudiciais. Na prática do confronto visual. Substituir um condicionamento por outro é perder a prática de vista. podemos abandoná-los. Essa é a vida da compaixão e ninguém vive dessa forma o tempo todo. é abrirmo-nos devagar para a maravilha do que é o viver pela meticulosa atenção dedicada à anatomia do momento presente. cujos relacionamentos não estão indo em frente. que constitui nossa prática aqui. mas não tinha tido paz devido a perda. Sou todas as coisas. Há alguns anos. Uma terceira maneira de praticar (que considero pobre) é substituir um pensamento negativo por outro positivo. tudo que é nossa vida. Contou tudo que tinha feito até então. Durante sessenta minutos ficamos olhando nos olhos uma da outra. às vezes. Vemos a maravilha. Não têm a menor realidade. que todos os pensamentos e as emoções centrados no indivíduo (assim como as ações deles decorrentes) são vazios. de modo que (por exemplo) podemos saber que quando não gostamos de alguém o canto esquerdo de nossa boca pende para baixo. em especial para as pessoas. tinha se reconciliado. Outra maneira. Uma é pela concentração pura e simples (muito comum nos Centros Zen). quando não há barreiras. O treino de zazen dava-lhe força suficiente para manter com facilidade meu olhar estável e firme. Seu pai não era apenas um corpo desaparecido. pratiquei o exercício do encontro visual com uma moça que revelou que sua vida tinha sido muito abalada pela morte do pai. Nossa única liberdade está em saber. eu conseguia trazê-la de volta. Quando ela vacilava. sim. e olhamos de verdade para os olhos do outro. Pode até ser que esse condicionamento alterado possa nos fazer sentir melhor. nossa irritabilidade. quando não mais respondemos: "Sou eu" e. É verdade que se formos muito persistentes e insistirmos num koan pelo tempo suficiente. estou em paz afinal". No espaço do deslumbramento. a liberdade e a compaixão aumentam proporcionalmente. nossas decepções. Ela vira quem era e quem era seu pai. tornamo-nos cada vez mais sofisticados e conhecedores. Está tudo bem. Segundo essa abordagem. Ao final ela começou a chorar. contudo não enfrenta bem as pressões da vida. A questão não é que uma emoção positiva é melhor do que uma negativa. nossa excitação. vemos o espaço do não-eu. Algumas pessoas ficam com raiva no rosto. e então ela disse: "Meu pai não foi embora para parte alguma! Eu não o perdi. Por um segundo vemos o que a outra pessoa é: é o não-eu. Fiquei sem saber o que poderia estar errado. Com essa abordagem. e vemos que aquela pessoa é nós. muito devagar. assim como nós somos não-eu e somos ambos o deslumbramento. Isso tem um maravilhoso poder de cura. entramos de modo muito natural no espaço do deslumbramento. Quando nos damos conta disso. substituímo-la por um pensamento amoroso. Por exemplo: se estamos com raiva. nossa depressão. e se não forem vistos dessa forma. após vários anos de observação e vivências. quando conseguimos deixar de lado nossas emoções e nossos pensamentos pessoais. mutáveis ou (em termos budistas) vazios. São vazios. Por não serem reais. outras nas costas e há aquelas no corpo todo. Existem várias maneiras de praticar. mas o aluno maduro recebe-os com satisfação porque é com as experiências que vamos aos poucos aprendendo que. bons e maus acontecimentos.

No entanto. Portanto. se conseguirmos ser o observador. Após um sesshin. há apenas o enxergar. não precisamos nos preocupar a seu respeito. à medida que ocorrem. mas também aquilo que é observado está vazio. aprenderemos que não só o observador está vazio. o cheirar. ele apenas vive. o "Vós. Esse é o estágio final da prática. perdemos esse poder. ficamos cada vez menos presos nas malhas de nossa raiva. temos uma oportunidade aberta para nós. há apenas o ouvir. o ver. o calor. mas elas não são quem somos. Embora possa parecer frio -e uma prática é uma coisa fria -não produz pessoas frias. Portanto. o que temos? Só o deslumbramento da vida. nada de fantasmagórico. Esse é o estado de amor ou compaixão. É muito estonteante ficar com raiva. que nenhum outro animal tem. Uma prática útil é trabalhar com as raivas menores que ocorrem no cotidiano. sim. olho para ela.67 Podemos praticar ficando com raiva: os pensamentos que surgem. Até onde eu saiba. Tornamo-nos seres muito artificiais. Esse é o espaço da compaixão. alguma coisa está observando outra coisa". na realidade. pois às vezes não está nem aí". não é dualista." Por isso. Por que o observador finalmente se desfaz? Quando nada vê nada. e alguém que só o consegue raras vezes. podemos assistir a qualquer drama sem interesse ou afeto. 67 . devemos dizer que existe apenas o observar. Existe apenas a vida. Nunca conheci alguém que tivesse se tornado completamente um observador. quando ficamos com raiva. Não há alguém que enxergue. sem também ficarmos aborrecidos. aqueles que comumente nos tragariam em sua voragem. Toda vez que ficamos aborrecidos. não apreendemos isso muito bem. Todos têm momentos dessa qualidade. o caminho de praticar que me pareceu mais eficiente. achamos difícil praticar com ela. Já os seres humanos têm a capacidade de se dar conta disso. Quando conseguimos praticar com elas. "Nada". não é o "Sou eu". é evidente que não é você. em todo seu deslumbramento. precisamos ter paciência -não apenas nos sesshins. a tensão. consiste em intensificar o poder do observador. porque o observador jamais fica aborrecido. mas ele não sabe disso. Em vez de um observador em separado. quando o ego está ausente. Um gato é uma maravilha. começamos a saber o que é a vida. mas a cada dia de nossa vida -para enfrentar essa desafiadora tarefa: observarmos meticulosamente todos os aspectos de nossa vida para poder enxergar sua natureza. Tendo sido agraciados com ela –feitos à imagem e semelhança de Deus -devemos sentir uma interminável gratidão por essa oportunidade de perceber o que é a vida e quem somos nós. só quer dizer que. Nesse ponto. A meta da prática é aumentar o espaço impessoal. Muito pelo contrário. quando os grandes tumultos aparecem. e. não pode ficar aborrecido. estamos identificados com nosso desejo de termos "razão". Quando atingirmos o estágio no qual a testemunha está se desfazendo. Não podemos ficar aborrecidos se estamos observando. o tocar. Já me perguntaram: "O observar não é uma prática dualista? Porque quando estamos observando. vivendo: o ouvir. O mestre respondeu: "Mostreme sua raiva". e. Quem somos tem muitas faces. Mas com todas as nossas dificuldades. somos as únicas criaturas deste planeta dotados dessa capacidade. O mestre argumentou: "Então. neste exato momento não estou com raiva e não posso mostrá-la". Não acrescento dez mil pensamentos sobre o que estou vendo. O monge comentou: "Bem. Não é. Normalmente não vemos o que está acontecendo porque. exceto a vida tal como ela é. Para falar a verdade. não estamos sequer interessados na prática. Quando ela é muito forte. as mudanças no corpo. entretanto. desfaz-se o observador (a testemunha). até que o observador não veja mais nada quando o olhar. com o tempo. Se praticarmos o suficiente. É nosso estado natural. contudo. aprendemos. Não há ninguém que ouve. o pensar. Há um antigo koan a respeito de um monge que foi até seu mestre e lhe disse: "Sou uma pessoa muito irada e desejo que me ajude". Não há alguém separado de outra coisa. quando olho para outra pessoa. Porém. Mas há uma enorme diferença entre alguém que pode sê-lo quase o tempo todo. 0 observador está vazio. não entramos tão completamente nessa vertigem. Não temos de tentar encontrá-lo.

Roshi. D. Arthur J. os acontecimentos. 14. p. A collection. 19. Tenho um enorme interesse pelo que vocês estarão fazendo daqui a duas semanas. É para fazer isso que estamos na face desta Terra. traduzido e editado por Leo Weiner. observar que são só músculos contraídos. 91-118. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. p. Não temos de fazer isso. Colonial Press. "My confession". 1982. 1904. 33. eu e meu Pai somos um. M. Publishers. Garden City. Wind bell 7. p. n 28.68 podemos olhar para uma flor e. a própria vida em si: as pessoas. O que é meu Pai? Nada que não eu. não há barreiras. passim. as velas. in The complete works of count Tolstoy. entenderão como praticar? Observando os pensamentos. Deikman. p. 1968.. "A parable" in Zen flesh. Beacon Press. The zen teaching. Anchor Books. in Blofeld. 22 ff.. 18. 88. ed. Nota do Editor: Novo dicionário da língua portuguesa. o concreto. Nova York. of zen and pre-zen writings. v. 21 ff. sem data. e então sentir a base de apoio próprio em meio à crise. Nota do Editor: Personagem do romance homônimo de 1942. Então. compilado por Paul Reps. 68 . Nossa prática é abrir nossa vida dessa forma. Boston. 1986. a grama. 2. 13. sentem-se bem. Por favor. Huang Po. de Nikos Kazantzakis (1885-1957). pela sensação de contração na boca do estômago. Dana Estes & Co. em vez de se permitirem levar pelos pensamentos assustados. por um segundo. quando se perceberem no meio de uma crise. as coisas. Shunryu Suzuki. a mesma coisa: eu e meu Pai somos um. O sesshin é um campo de treinamentos. vivenciando o corpo. 16. cada vez mais. O que torna a vida tão ameaçadora é que nos deixamos arrastar em meio ao lixo de nossas mentes vertiginosas. 17. 15. Todas as disciplinas religiosas dizem. no fundo. The observing self: Mysticism and psychotherapy. Boston. Nova Fronteira. zen bones. Conforme praticamos vamos de modo progressivo entendendo isso melhor. Compare também Leo Tolstoy. Veja também p.

correr tais distâncias. porém isso não significa que saibamos o que é. inserimos alguma idéia de que deveríamos ser diferentes ou melhores do que somos. quando a vivenciamos de modo direto. Assusta correr no lugar. entraremos no segundo estágio. mas ainda não saberemos nada sobre o que é correr uma maratona. Sofremos na mesma medida em que ficamos confusas ou nos deixamos levar por atalhos. de que não estamos vivenciando a vida. num dado instante. Não era difícil apreciar sua técnica 69 . as evasivas. perdemos a base e nossa prática fica estéril. Não mesmo! O primeiro estágio da prática é darmo-nos conta de que raramente estamos presentes. em vez de sonhar com o que poderia acontecer se fizéssemos isso ou aquilo. estar presente do jeito que eu sou. Vamos supor que nos interessa saber como se sente um corredor de maratona: ao corremos dois quarteirões. quando formos aquele que corre. Essa objetivação é dolorosa e reveladora. embora estivesse nos últimos quilômetros. mas se prosseguirmos. a todas essas facetas podem ser agora observadas e objetivadas com mais facilidade.69 CAPÍTULO 6 Ideais Correndo no lugar Falo com muitas pessoas e fico sempre triste ao constatar que não vemos o que são nossa vida e nossa prática. Trata-se de sair de uma vida em que causo mágoas a mim e aos outros. Fiquei admirada com a qualidade fluída dos movimentos do líder . Quando colocamos idéias a respeito do deveria acontecer (noções como "Não deveria ficar com raiva. Só podemos saber. exceto quando. ele simplesmente deslizava. confuso. a fim de que alguns participantes pudessem andar uns poucos quarteirões até um trecho em que se pudesse gozar a grande oportunidade de ver os atletas da maratona de San Diego passando. as manipulações. doloroso ou infeliz. seduzidas por toda espécie de noções incorretas a respeito. Parece muito simples. as emoções. as nuvens que obscurecem o panorama ficarão mais tênues. eles apareceram. Se praticarmos com paciência e persistência. para levar uma vida em que não magôo ninguém. podemos coletar inúmeras informações sobre essa espécie de corrida. ou que nossas vidas deveriam ser diferentes do que são. que estamos sempre pensando em como nossa vida deveria ser (ou como era antes). O que há em nossa vida neste preciso momento que desejamos evitar? Tudo que for repetitivo. conceituando-a. três ou sete quilômetros. elaborando opiniões a seu respeito. enquanto corremos no lugar. Um componente primordial da prática é perceber até onde esse medo e essa pouca vontade nos dominam. Ficamos confusas a respeito dos elementos básicos da prática e desviamo-nos por vias secundárias. E qual é o terceiro e crucial estágio curativo? É a experiência direta de todo e qualquer panorama que nos apresente a vida. Podemos ditar regras a respeito. A prática pode ser enunciada em termos muitos simples. Começamos aos poucos a tomar consciência das barreiras de ego existentes em nossa vida: os pensamentos. Lembro-me de uma manhã de sábado em que adiamos em vinte minutos o horário marcado para a prática. Fácil? Não. não queremos correr no lugar com isso. Às 9:05 h. em lugar da prática real. O primeiro estágio da prática é conscientizar-se de que não estamos correndo no lugar. de que estamos pensando sobre ela. exatamente aqui e agora. Tão simples assim? Sim. monótono. Só conhecemos nossa vida. iremos saber um pouco do que seja. É a isso que chamo correr no lugar. indisposto") no lugar do que nossa vida é verdadeiramente. podemos descrever tabelas a respeito da fisiologia dos maratonistas.

mas não é nada útil pensar que deveríamos ser daquele jeito. se mantivermos nosso propósito. a aspiração da pessoa será muito diferente do que era no início e. sob a superfície. Precisamos experimentar nossa raiva. Existem muitas maneiras pelas quais tentamos esconder nossa insatisfação. "Já estou praticando há mais tempo que aquele ali. É uma inspiração assistir acorrida de um atleta da melhor qualidade. buscando realizar-se e expressar-se. De um jeito ou de outro. porque costumamos confundir aspiração e expectativa. nossa forma de abordar a prática está fundamentada nos mesmos tipos de esforço. mas parece que ele está progredindo mais depressa". procuramos satisfação em nossa vida. Temos de correr onde estamos. Chegamos numa prática como a do zen tentando encontrar a paz e a satisfação que até então se esquivaram de nós. temos de aprender aqui e agora. ela crescerá. mas nossa natureza Buda está encoberta. contudo. Podemos dizer que a prática do zen decorre inteiramente de nossa aspiração. partindo do ponto em que estamos. Desde o início na infância. É importante que aprendamos a conduzir bem nossas vidas. é uma coisa inútil. aqui e agora. Quando fugimos do que nos é dado. buscando coisas externas a nós. Podemos dar a impressão de serenidade. sem ela. Por outro lado. estamos fadados ao desapontamento em nossas expectativas. Jamais crescemos se sonhamos com um estado futuro maravilhoso ou lembrando feitos passados. Porém. será diferente do que era aos seis meses. Uma delas. porque. e o que fazemos? Adotamos os mesmos hábitos com que vivemos a vida toda e encaixamos a prática dentro desse molde. e eles podem ser nossos professores. Quando começamos a praticar. No contexto da prática. Isso não é nada difícil de entender. não podemos aprender tampouco crescer. Ao mesmo tempo. A vida toma conta disso muito bem. depois de dez anos. Crescemos sendo o que somos e estando onde estamos. Enquanto vivermos. Procuramos uma maneira de ocultar o medo básico de que algo esteja faltando em nossa vida. no entanto. embora seja difícil de executar. mas é sempre satisfatória. Aspiração e expectativa A aspiração é um elemento básico de nossa prática. Sem ela. de que despendemos para alcançar algo: obter o reconhecimento dos colegas. e quanto a nós: onde é que temos de correr no lugar? Temos de praticar conosco tal como estamos. Somos de modo intrínseco Budas. Os que persistem. ela tem formas de nos decepcionar de maneira eficiente e regular. nossos fracassos. exatamente agora. pode não ser agradável. mantendo o hábito vitalício de correr atrás de alguma coisa: "Fico pensando em quantos koans conseguirei passar com este sesshin". porque vem de nossas pequenas mentes. por exemplo. Por quanto tempo é necessária essa prática? Para sempre. nada pode acontecer. de nosso ego. neste exato momento. alcançar coisas é natural. Em geral olhamos para a vida em termos de duas questões: "Será que vou lucrar alguma coisa?" ou "Isso irá me magoar?". ouvimos que devemos praticar sem qualquer expectativa. Parece contraditório. ela continuará aumentando.70 de corrida. Está sempre mudando sua forma externa sem. nosso pesar. "Meu zazen foi tão fantástico ontem! Quisera poder repeti-lo". Depois de seis meses de prática. Em si. nossa apreensão. contudo. a aspiração é apenas nossa verdadeira natureza. alterar sua essência. serão os que crescerão em seu entendimento e em sua compaixão. nossa aspiração pode ser muito pequena. quando não nos afastamos deles. vivenciando nossa vida tal como ela é. Instituímos uma meta depois da outra. mas. é lutando para alcançar algo. A aspiração é a chave para a prática. Vamos de uma coisa em outra tentando preencher a lacuna que pensamos existir . a expectativa é sempre insatisfatória. nossa natureza Buda é como um lindo carro: até que alguém entre. Uma pista segura para distinguirmos se estamos sendo motivados pela aspiração ou pela expectativa é que a aspiração sempre é satisfatória. essas duas dúvidas fervilham. sente-se no banco do motorista e dê a partida. ser importante 70 . enquanto procurarmos recompensas no futuro fora de nós.

Cada momento. sábios e maravilhosamente iluminados com a prática zen." "Então. encontrar um buraco seguro onde se esconder. porque não queremos que as coisas sejam como são. Dogen Zenji dizia: "Procurar o dharma Buda fora de sua própria pessoa é como colocar um demônio em cima de você". Se você tem medo. A segunda falou: "Não. nossas vidas irão de forma gradual transformar-se e crescer de uma maneira maravilhosa. repletas de expectativas. para vermos a natureza Buda. não estou esperando pessoa alguma. É importante examinarmo-nos continuamente para ver para onde estamos direcionando nossa busca e o que é que estamos buscando. ótimo. Depois de observarem-no por um certo tempo. como uma folha fenecida. Começam a discutir sobre o que o monge estaria fazendo e. sobem até o topo da colina e aproximam-se dele. costumamos tentar o tempo todo. E a terceira comentou: "É provável que ele seja só um monge. Se eu procurar bastante e praticar bastante o sentar acabarei encontrando-a!". com uma profunda aspiração." É muito difícil concebermos que alguém esteja apenas em pé." "Não. deixamos que aconteça. é completo e pleno em si. estou aqui apenas. Não estou fazendo absolutamente nada. sem fazer absolutamente nada. não obstante. é preciso antes esvaziar por completo tudo isso. Os reveses emocionais que experimentamos são problemas. é inútil procurar fora de nós pela verdadeira paz e satisfação. querem que a vida aconteça de uma certa forma: queremos nos sentir bem. Acho que ele deve estar esperando um amigo". não ficar aborrecidos. sentir-se mal será bom. deve estar esperando por algum amigo?" "Não. O que você está procurando fora de si? O que você acredita que resolverá a questão? Posição? Relacionamentos? Ultrapassar os koans? Repetidas vezes. apenas serão desfeitas. qual é seu momento? Felicidade? Ansiedade? Prazer? Desânimo? Temos altos e baixos. de modo que qualquer que seja a atividade em que estejamos envolvidos -a procura de uma ovelha perdida. os mestres zen dizem-nos para não colocar cabeça alguma acima da nossa. independente do que ocorrer a cada instante. porque nossas mentes. Porém. deixá-lo ser o que é. então sentir-se bem será bom. cada um tem sua própria lista. Todos temos expectativas. Cada instante. todavia cada momento é exatamente o que cada momento é. a meditação -seja apenas o ficar ali em pé. Se praticarmos tendo a aspiração de sermos apenas o momento presente. nossa aspiração. Existe a história de três pessoas que estão contemplando um monge que está parado no alto de uma colina. Mestre Rinzai dizia: "Não coloque cabeça alguma acima da sua". para não acrescentarmos extras à nossa vida. então deve estar meditando. ele não está olhando para os lados. Quando enxergamos isso." "Bem. Em vários momentos teremos insights repentinos. Levamos essa mesma atitude à nossa prática zen: "Sei que a natureza Buda deve estar lá fora.71 dentro dos círculos zen. então. "Está procurando uma ovelha?" "Não. seja só esse medo e. não atingiremos o entendimento. Em outras palavras. Estamos fazendo de novo a mesma coisa que sempre fizemos: estamos na expectativa de que alguma coisa (neste caso. não tenho ovelhas que procurar. em pé. a vida ficará sempre bem. ótimo. É impossível sairmos desse momento. para finalizar. em algum lugar. Cada vez mais ficaremos com o que existe exatamente aqui e agora. exatamente como somos. Quando estivermos dispostos a estar aqui. Creio que está meditando". se estiverem indo mal. enfim. sendo o que é. se as coisas estiverem indo bem. Se tentarmos ficar calmos. é a manifestação repentina da verdade absoluta. conforme a prática se desenvolve. 71 . mas. Neste exato momento. sem fazer nada. elas aos poucos se esfarelam e. mas o mais importante é praticar a cada momento. naquele exato momento. é ser esse momento e devemos. porque estamos sempre tentando de modo frenético chegar em algum lugar para fazer alguma coisa. a prática zen) nos dê satisfação e segurança. a espera por um amigo. Pode parecer assustador. você o perde. para sermos inteiramente cada momento. Nossa prática. uma disse: "Ele deve ser um pastor procurando uma ovelha perdida". tal como é. não ficar confusos.

não estamos nos livrando de uma estrutura. Em outras palavras. não penso que seja esse o caminho. O maior erro que cometemos em nossa vida e em nossa prática é pensar que a casa em que moramos que é nossa vida do jeito que ela é. Essencialmente. Vamos apenas vivendo a vida. como ela funciona. 72 . conseguimos ver com mais exatidão o que está acontecendo em nossa vida diária. e a vida vai em frente. por causa de nossa predileção por coisas agradáveis. Quando as pernas doem durante o zazen. a totalidade irão desenvolver-se de modo natural e inevitável. (essa casa) tal qual vivemos. encobrindo a casa básica dentro da qual moramos. o que temos ou não a fazer com ela. Não é uma questão de nos livrarmos dela porque não tem realidade. erguemos outra casa bem em cima desta que temos. porque a recobrimos com algo pesado. camada extra pode ficar muito grossa e escura. É como se pegássemos um morango e o mergulhássemos no chocolate. não temos intenção alguma de nos acomodar com a vida que temos. Todo o drama que acontece dentro dela. mas é uma questão de enxergar sua natureza. dias de bom tempo. em cima e à volta dela. a partir dessa espécie de prática. sua função em nossa vida se enfraquece por inteiro e. quando você está decepcionado com algum aspecto de si mesmo. escolhemos e selecionamos elementos da vida. É como se déssemos a volta no círculo completo. às vezes. Temos um morango com cobertura de chocolate. Todavia. o que é a sobrestrutura. como o sonho que é. Quanto a mim. esse é o Buda dolorido. esse é o Buda decepcionado. estamos enxergando através dela. Entretanto. e. Temos uma casa muito linda e. envolvendo os que nela moram. basta retomar ao momento sem se preocupar ou sem ficar alterado. Não costumamos pensar assim. e. assustadora.temos esta casa. Podemos estar felizes ou infelizes. Não há nada de errado com ela. e é como se ela estivesse dentro de uma outra casa. Nossa vida. com todos os seus problemas. olhamos para as coisas de um modo completamente diferente do que quando temos expectativas. Samadhi. depois. Temos a coragem de nos sentar atravessando um momento depois do outro. a centração. quando estamos cansados depois do trabalho. cada um deles é só o que existe. outra casa. ao mesmo tempo. A mente divagará o tempo todo. A prática zen é. Em geral pensamos: "É desagradável. antes de mais nada.72 Contudo. É assim para a maioria. porém. simplesmente se desenrola. Na realidade. na medida em que nos recusamos a aceitar a vida como ela está. E isso! Ao termos aspiração. pois. a casa precisa de uma pintura. Essa cobertura pode parecer impenetrável. Por pensarmos assim. Vivemos numa casa ou num apartamento e as coisas acontecem tal como acontecem. preciso me desfazer disso". Podemos estar bem de saúde ou doentes. está muito bem. Temos dias de tempestade. ver o que fizemos e. quando nos damos conta de sua verdadeira natureza. seus reveses –tem algo de intrinsecamente errado. quando ela não nos convém. Nossa vida está sempre certa. depressiva. assim como está. a cobertura fica mais transparente e enxergamos através dela. Se não olharmos com cuidado para o que acrescentamos. na realidade. Se a mente divaga em expectativas. elaborando a estrutura extra. esse é o Buda cansado. Mesmo que tenhamos problemas horríveis. ter aspiração significa retomar com suavidade o caminho de volta para o momento presente. ficamos ocupados a maior parte dos anos de nossa vida. é apenas nossa vida. essa estrutura extra que recobre nossa vida não tem realidade. E a casa em que moramos parecerá escura e confinada. Apareceu ali porque utilizamos nossa mente de modo errôneo. em vez de ser tão grossa e escura. A iluminação (o trazer mais luz para dentro) é o que acontece na prática. quando isso acontece. Mas -aqui é onde a prática se torna importante . Ao observarmos sua natureza. mas não há nada errado com nossa vida. e a própria aspiração também ficará mais profunda e clara. do que é composta. Enxergando além da sobrestrutura Vamos imaginar que falamos de nossa vida como se fosse uma casa. vivemos nela.

fica mais leve e. Isso não é absolutamente incomum. provavelmente existirá sempre pelo menos uma fina camada de cobertura envolvendo a estrutura essencial de nossa vida. mesmo diante dos piores traumas de nossa vida. o segundo passo é praticar. cada qual para si. É difícil chegar a ver que não temos de nos livrar das calamidades. Sabe-se de pessoas que preferiram o suicídio a demolir suas estruturas. antes de mais nada. A libertação está em ver através dessa sobrestrutura irreal que construímos. Depois de termos ficado sentados um certo tempo. é que a vida se torna mil vezes mais satisfatória à medida que praticamos. o que vem é o seguinte: "Não quero fazer isso! Não quero fazer isso de jeito nenhum!". Esse é um exemplo tolo. desilude. Mesmo se o que estiver acontecendo for amedronta dor e opressivo. é ter uma conscientização. Ocasionalmente. Vou comprar uma cor diferente de esmalte. ao praticarmos o zazen (em particular. às vezes. Assim. mas está certo que elas estejam aqui. Por isso. A estrutura fica mais tênue (ou assim parece). Calamidades. seja ela qual for. para a maioria das pessoas. o processo da prática.. no sentido não 73 . Nossas vidas estão perdidas em meio a pensamentos autocentrados. Desse modo. tudo bem. quando eu era adolescente. O outro. se eu não tivesse programa para sábado à noite.".. Vocês não têm de gostar. uma das coisas que desejo que vocês façam é identificar. Preferem efetivamente abrir mão de sua existência física a ter de abandonar seu apego aos sonhos. tudo bem. Sem ela. Quanto é a questão. Preciso. O segredo dessa dificuldade está em que gostamos dela muito mais que da vida real. quando somos novatos.. o que está havendo agora na vida que estão levando e não estão gostando muito que seja desse jeito. sem dúvida. Preciso mudar meu cabelo. (Presumo que estejamos querendo enxergar através dela.. Há quem não queira. Eu fazia uma pilha monumental de problemas em cima do diminuto fato de não ter nada o que fazer: "Tem algo errado. Entretanto. "Não é nada disso! Não pode acontecer assim!" Por exemplo. é inaceitável. não considerava isso justo de modo algum. estamos nos matando. não e? Percebamos que nossos ideais são a sobrestrutura. Pode parecer proibitiva. É uma das coisas mais difíceis para as pessoas conseguirem: perceber que as próprias dificuldades deste momento sejam a perfeição. ao rotularmos os pensamentos) começamos a reconhecer que na prática nunca estamos vivendo pura e simplesmente nossa vida. talvez difusa a princípio. Esse é apenas um de seus lados. tal e qual ela é. considere sua prática e veja se você quer fazê-la. agora. o desemprego. Quando estamos apegados ao modo como pensamos que deveríamos ser ou que todo mundo deveria ser. Diante de nossa pouca disposição para deixar que a vida seja apenas o que ela é. podemos ter uma apreciação apenas reduzida da vida tal como é. É preciso uma prática forte para conseguir uma incisão que esteja na superfície de nossa maneira habitual de ver a vida. Não temos de nos livrar delas. Pode ser as dificuldades com o parceiro. Enquanto vivermos.73 Todos que estão aqui sentados têm um conjunto particular de eventos que apenas não deseja que seja sua vida. Porém. A prática precisa desestruturar os falsos ideais. podemos fazer um furo que a atravesse. O primeiro passo da prática é darmo-nos conta de que erguemos essa sobrestrutura. Mas quer nos suicidemos quer não. preciso. Nem todos deveriam fazer um prática como a do zen. Não há ninguém aqui que não aja assim. A prática zen não diz respeito a um lugar especial ou a uma paz especial. Está bem mesmo assim. estamos afirmando um fato que. É algo exigente. se nosso apego aos sonhos permanece inquestionado e intacto. Neste exato momento. Ninguém. do que construímos. "Mas como.) Portanto. sempre acrescentamos algo. mas apenas a estar com a nossa vida. isso também faz parte da prática! O processo de olhar para essa estrutura irreal que construímos é sutil e exigente. devemos antes enxergar sua natureza. são a perfeição?! Vou praticar e me livrar delas!" Não. as decepções com respeito a metas não alcançadas. imersas na sobrestrutura. fazemos a mesma coisa. a vida apenas transcorre sem obstáculos. É muito difícil chegar nesse estágio. Isso faz sentido? Parece loucura. Os dois lados andam juntos.

estão constantemente tentando encontrar meios para despertar . Esse homem praticamente acotovelou meio mundo para conseguir ficar na frente. continuaremos a fazê-lo. com certeza não questionaremos o que fazer. Vamos em busca de comida para lhe dar. É um desastre. Entretanto.. você faz. A prática está em manter uma pressão sutil. ALUNO: Sim. faça. Claro que ela estava com a razão: ser inconsciente significa que você não vê o que está fazendo. Então. para que incida sobre nossa prática. em certo grau. agradáveis como só elas sabem ser. em suas atividades cotidianas. No dia seguinte. reconheça os pensamentos idealistas que você acrescenta ao que faz. Portanto. Eu falei entre dentes: "Ele deveria ter mais consciência do que está fazendo". Como resolver essa questão? Parte de meu trabalho é esse. JOKO: Certo. É isso o que acrescentamos. em seguida. inconsciente de seu egoísmo.. um dos problemas da prática é que. O meu primeiro tem muitos ideais. a sobrestrutura começará a ficar mais leve e conseguiremos ver com mais clareza nossa vida. convocar toda a luz de que formos capazes. Outra coisa.74 físico. quando nos perdemos em ideais e fantasias. Sem dúvida alguma. O meio mais eficaz de desgastar a sobrestrutura é manter em andamento todas as 74 . é justo isso o que queremos demolir. há anos atrás. Portanto. se ele é inconsciente. Agindo assim. que tinha acabado de apresentar uma linda palestra sobre o dar e a compaixão. o que vemos e o que não vemos? Se estivermos praticando bem. Existe a ação em si. Minha filha e eu conversávamos a respeito de um homem que estava tomando atitudes repreensíveis. não. e ficamos confusos quando você faz as palestras desse jeito. Os alunos disciplinados são aqueles que. Porém.. a natureza de ser inconsciente é o quê? Só ser inconsciente". A razão pela qual não encaramos isso como um desastre é porque o sonho pode ser muito reconfortante. em ação da manhã até a noite. como no zendo. Contudo. Vamos sendo mortos pelos ideais impregnados em nossos pensamentos a respeito de quem deveríamos ser e do modo como todos os outros deveriam ser. observei-o durante a chamada para fazer a fila para ver o mestre. muito sedutor. apenas. A maior parte é de vocês. em nossa prática uma das tarefas é manter nossa capacidade de ver em constante foco de aperfeiçoamento. ALUNO: Você está dizendo que eu não deveria dedicar-me ao trabalho institucional? JOKO: Claro que não! ALUNO: Mas esse é um ideal! JOKO: Não. o que é inevitável. Lembro-me de um aluno adiantado. porque nossa verdadeira vida está se escoando sem que quase nos demos conta disso. O que é muito ardiloso. um dia veremos algo que nunca tínhamos visto antes. como em nossa vida diária. Pode ser formal. Ele não é um ideal.. Mas ela é. tal como é. Minha filha riu e disse: "Mãe. Enquanto não enxergarmos o que estamos fazendo. Se alguém está morrendo de fome na recepção da instituição. Costumamos achar que desastre é o naufrágio de um Titanic. ou informal. existem dois eus aqui. pode ser que pensemos que somos boas pessoas por termos agido assim. Aqui estou falando sobre o curso geral da prática e essas palestras podem enfatizar demais uma coisa e deixar de lado outras. isso é um desastre. Morremos. A questão é sempre a mesma: neste momento. depois a sobrestrutura. já que não temos mesmo o menor interesse em ver as coisas com clareza! Para alguns. podemos trabalhar com isso. disciplina tem uma conotação de forçar a fazer alguma coisa. para que possamos ver um pouquinho mais. Aí está a sobrestrutura. As perguntas podem ajudar a esclarecer os pontos levantados. somos todos inconscientes e não estamos assim tão inclinados a ficar conscientes.

podemos ter certeza disso. ALUNO: Bem. Mas o que sempre acrescentamos a esses fatos básicos de uma situação? ALUNO: Tenho considerado a vida que meus pais levam e meu relacionamento com eles. enfim.. e. podemos saber que estamos presos. por exemplo. Crer não faz absolutamente parte 75 . todas elas levam o indivíduo a sentir que sua vida é terrível. Mas. E chegar. Existem muitas formas de terapia. E não estou pedindo para vocês acreditarem. a não culpar mais ninguém por nada. Todavia. se necessário. De jeito nenhum! Se você está sem serviço esforce-se para arranjar algum. Você poderia comentar a esse respeito? JOKO: Bem. Poderia ser. ALUNO: Como você sabe? JOKO: Como sei o quê? ALUNO: Como é que você sabe tudo isso? JOKO: Eu não diria que sei. Então. não temos qualquer histórico. e trata-se de vivenciar a realidade de nossa vida. A outra é desemprego e depressão. então saberemos por experiência própria. Se culparmos alguém. neste momento. em vez de trabalharmos com a realidade de sermos o que somos. Penso que depois de anos praticando O sentar fica óbvio. Ou. Algumas religiões dizem apenas "acredite". obter um treinamento especializado para aumentar suas qualificações. existe o ponto de vista absoluto e o relativo. não. E depois vejam por si mesmos o que é a sua própria verdade. em parte. Isso é a sobrestrutura. Desejo que trabalhem com sua própria experiência. é o que você acrescenta a essas ações básicas o "que chamo de sobrestrutura. A prática zen é ver através de nosso desejo de apegarmo-nos o nosso histórico e razões (pensamentos) de por que somos como somos. Do ponto de vista relativo. somos como somos em virtude dele. Mas qual é especificamente a sua dúvida sobre o que falei? ALUNO: Talvez eu esteja questionando minha abertura para acreditar em você. por causa daquilo que alguém lhe fez que. Se praticarmos com nossa vida e a sobrestrutura iluminar-se. Estar desempregado significa considerar quais são suas possibilidades ocupacionais dentro do mercado de trabalho atual. no mínimo. mas executando-as com tanta percepção consciente quanto possível. e algumas pessoas que dependem de mim. Porém. trabalhando a própria vida. como ela é. e uma espécie de fome. Não quero que ninguém aqui acredite no que estou dizendo. Se formos observadores. Aconteceu muita coisa a todos nós e. é incompleto. que elas comporão a base da vida da pessoa. isso é uma parte minha.. enxergamos mais. "sou um cara tão desajeitado que jamais ninguém vai querer me empregar!". ou por causa de muita coisa ter acontecido conosco.75 coisas insensatas que fazemos sempre. faça tudo que estiver a seu alcance para ficar melhor. então veremos com nossos próprios olhos se a experiência funciona ou não. se ficar doente. JOKO: Mas não desejo que você acredite em mim! Quero que você pratique! Somos quase como cientistas. Em certos aspectos parecem fracos e pareço ter dificuldades com isso. O que ouço você dizer é que eu deveria simplesmente apreciar minha fome e meu desemprego e talvez nem devesse procurar um emprego? JOKO: Não. em outro sentido. Os psicólogos dizem que as impressões nos primeiros cinco anos de vida são tão fortes. temos um histórico. certo? Mas nossa responsabilidade está sempre exatamente aqui.

Em termos zen. Ele acredita que seus esforços frenéticos 76 .. isso é fé. neste momento. Acho que há coisas más sendo feitas. ALUNO: Essa é nossa ação. É nosso estado natural. então. em essência. JOKO: Eu não mencionei que isso não tem utilidade. Parece que fazer essa prática implica termos muita fé em nós. Mas sua experiência. falamos muito a respeito de sermos nossa experiência. Se não estivermos separados dos outros por pensamentos autocentrados de cobiça. Não há diferença. De certo modo. Quando não existe separação entre nós e os outros. Veja. Estamos apenas fazendo o que estamos fazendo. mas não reconhece a realidade imediatamente presente. Prisioneiros do medo Todos conhecem a imagem do executivo importante que trabalha até às 22h. "Sou de fato uma pessoa saudável") pode produzir sentimentos temporários de bem-estar. Uma coisa é darmos palestras a respeito de vivenciar o que é. outra é fazê-lo.. JOKO: Sim. mas rotula a pessoa que o está cometendo como alguém mau. fazemos naturalmente o bem. ficaremos por aí. nossa tendência é para o bem. somos "nada". é uma prática insensata. Nossa natureza básica é fazer o bem. isso não é fácil. Se não. Porém. com certeza você quer deter esse ato. Apenas afazemos de modo natural. porque uma afirmação (por exemplo. Mas não irá fazer-lhes mal praticar. Não creio que você estivesse aqui se não achasse que a prática lhe seja útil. comendo um sanduíche apressado entre os compromissos. nossa vida passada e presente -se resolve. não se pode chamar ninguém de bom. evitamo-lo. chame de fé se quiser. Nada do que eu lhes disse até agora poderá lhes causar algum dano. faremos o bem. Se alguém está machucando uma criança. o que é muito diferente. ALUNO: Minha questão tem que ver com isso. engloba a totalidade de sua vida. É assim que me parece. JOKO: Bem. incluindo nós mesmos. que bem pode ser eu estar doente. Aos poucos. Entretanto.. julgando e condenando todo mundo. Quando enxergamos a irrealidade da sobrestrutura. ALUNO: Pela mesma razão. realmente vivenciá-la. ALUNO: Que lugar aprece e a afirmação ocupam na prática zen? JOKO: Prece e zazen são a mesma coisa.. Devemos nos opor a atos maus. e o fazemos de forma muito esparsa. parece-me importante saber o que me aconteceu durante minha infância. Como é difícil. Não desejo que vocês acreditem em mim. atendendo o telefone. Seu pobre corpo está sendo muito mal tratado. JOKO: Certo. quando praticamos bem. ALUNO: A meu ver. ALUNO: E quanto às forças malignas à nossa volta que parecem estar ficando mais fortes? JOKO: Não penso que existam forças malignas à nossa volta.76 do que estamos fazendo aqui. não às pessoas. raiva e ignorância. Mas precisamos nos forçar a isso. incluindo o passado e depende de você saber ou não como vivenciar isso. Eu evitaria afirmações.

tampouco ignorantes) melhora a decoração talvez. de maneira equivocada. Certo? Bem. como uma espécie de irmãozinho bebê.77 são essenciais para uma "boa vida". ficar famosa. Há alguns Centros Zen que também estão nesse tipo de armadilha. sentimos culpa. A maior parte das práticas religiosas (e de algumas modalidades zen. mas continua privando-nos de liberdade. Quando enxergamos nossa mesquinharia. lamento dizê-lo) trata do altruísmo. porque se você é quem está fazendo certo. se esse quarto for uma prisão." Todos estamos fazendo isso. A cobiça egoísta que domina nossas vidas não está dando certo. Que mau aluno eu sou. damos início a um segundo estágio: "Bem. mas podem sentir que não deveriam gritar com o marido. Já ouvi pessoas comentando: "Bem. começamos a suspeitar que nossa vida não está indo bem do jeito que os comerciais de TV dizem que irá. Claro que vale para todos nós. Deixar de ser egoísta e ambicioso para tentar não ser desse jeito é como tirar todas as gravuras feias e sem graça do quarto e pendurar outras mais bonitas. Mudar as gravuras da parede. começamos a enxergar que o modo como estamos vivendo não está funcionando." Vocês enxergam o desejo que está aí? Existe um enorme desejo de distanciar-se do que se é. Porém. Algumas pessoas não dão importância à iluminação.. e sabe de uma coisa. Não estou dizendo que é ruim ser arrogante. então. Quando não conseguimos dar realidade a nossos ideais. assim como domina as nossas também. trocando a cobiça. pacientes. nossa falta de delicadeza. Não consegue enxergar que o desejo está dominando sua vida. Claro que você não deve gritar com ele. sua vida ficará fantástica. Então. A culpa está emaranhada nesse desejo. então vou ser altruísta". a raiva e a ignorância por ideais (de não sermos ambiciosos. se você quiser ter o tipo mais novo de spray para os cabelos. ambiciosos. no mesmo quarto." O segundo estágio. Estão presas a seus desejos: ser importante. Muitas práticas religiosas objetivam. Uma vez que somos controlados por nossos desejos. mas é o que somos. Por que é que ainda sou tão mesquinho e avarento? Deveria estar melhor já. quando não correspondemos à imagem de como deveríamos ser. bons. fiquei com muita raiva.". quando não vemos. "Eu não deveria estar tendo tais pensamentos. decidimos ir em busca de um novo desejo: sermos delicados. só aumenta a tensão. o que dizer a respeito de todos os outros que não conhecem a verdade e não estão fazendo a coisa certa? Já houve quem me falasse: "Nossos sesshins começam às 3 h da madrugada. A maioria das pessoas que não conhece algum tipo de prática é bastante egoísta. se ser egoísta não está funcionando. a produção de uma boa pessoa que não faça nem pense coisas feias. egoístas. conseguirei domar o medo. Já estou praticando o sentar há bastante tempo. quando praticamos. contém muita arrogância. Todos fazem isso. Mesmo assim. só temos uma vaga noção da verdade básica de nossa existência. em variados graus. Em nossa prática. Atentem: todo querer -principalmente o querer ser de certo jeito -está centrado no ego e no medo. alimentamos culpa e depressão. ficar rica. a maioria descobre que não é verdade. cobiçadores. nem irados. No entanto. A que horas começam os de vocês? Às 4:15 h? Oh. Ao percebermos. Então. Notamos que somos mesquinhos. tinha acabado de sair de um sesshin e alguém me cortou o caminho na rua. violentos. Os comerciais sugerem que. de ir na direção de um ideal. formamos uma nova ambição: ser altruísta. ou o abridor de porta de garagem. Estamos tentando imaginar uma forma de ser diferente do que somos. 77 .. mas a liberdade desejada ainda não estará ali e você continuará preso do mesmo jeito. Ainda estamos tentando ser o que não somos. possuir isto ou aquilo. "Se eu conseguir ser perfeita. se eu puder me realizar ou iluminar. oscilamos de um a outro desses estágios. ou alinha de maquiagem.. você terá mudado a decoração e o aposento terá um aspecto melhor.. ela conduz a uma espécie de arrogância e hipocrisia. A culpa também contém muita arrogância. fazemos um grande esforço para sermos bons. mas o esforço de ser dessa maneira.

à dor do que somos. no terceiro estágio. Entretanto. quer dizer. Sendo assim. quando nos vivenciamos dessa maneira. foi até a porta. que significa experimentar nossa indelicadeza. vemos que é tão constante o desenrolar de imagens como em sonhos. orei submeteu-os a um teste supremo: colocou-os num aposento do palácio e instalou uma engenhosa fechadura na porta. não nos resolve o problema. começamos a compreender que nenhum desses dois estágios faz algum bem a nós ou a outrem. De repente. De que modo podemos perceber esse fato da liberdade? Dissemos que ser egoísta e ter o desejo de ser egoísta são ambas vivências do medo. como não entrar em becos sem saída. com certeza. Quando estivermos podendo fazer isso. qual? De início. que é. Os candidatos foram informados de que o primeiro a conseguir abrir a porta seria nomeado primeiroministro. teremos saído do âmbito da dualidade que diz que existe um eu e um modo como devo ser. Todos os esforços que fazemos na vida são tentativas de fuga: tentamos esquivar-nos ao sofrimento. Em vez de ir de um egoísmo inconsciente para um altruísmo consciente. Isto significa que apenas vivenciamos a verdade de todo momento de impaciência. girou a maçaneta e a porta se abriu. ou. A verdade. ou de outra pessoa que deveria ou não ser assim ou assado. Ou imagens de como fomos no passado e de como seremos no futuro. Quando a escolha estava por fim entre três. Vemos a verdade de nossa impaciência. é no mínimo enxergar que estamos procedendo dessa maneira. Em vez de afirmar: "Eu não deveria ser impaciente". a porta nunca esteve trancada. Dois começaram a elaborar complicadas fórmulas matemáticas. Qual é a moral da história? A prisão em que vivemos. refere-se a tornar consciente o medo. Aliás. Tinha estado destrancada o tempo todo. em vez de ficarmos correndo em círculos. o mero enunciar. a respeito de devermos ou não ser de uma determinada maneira. Até mesmo o desejo de ser sábio e de ser perfeito baseiam-se no medo. O terceiro ficou apenas sentado em sua cadeira por um certo tempo. cujas paredes rede coramos de maneira frenética o tempo todo. nem tranca. que mais tarde virão à superfície. lutando pela liberdade. O que precisamos é ir para o terceiro estágio.. o que precisamos fazer é ver a tolice do segundo estágio. Quando criamos essa imagem. observamo-nos sendo impacientes. como tentar não ser egoísta. mas muitas vezes não o somos. sendo os pensamentos a única coisa que está mantendo a impaciência. não é uma imagem mental de nós mesmos como pessoas agradáveis e pacientes. por exemplo. que vivenciamos o mero fato de estarmos nos sentindo impacientes. Ao darmos um passo atrás e tornarmo-nos uma testemunha paciente e persistente. Não iríamos à caça do desejo se víssemos que já somos livres. observando de fato nossas mentes. Não gostamos de agir assim. a fim de descobrir a combinação do segredo. devemos desarticular os dois primeiros estágios e conseguimos isso quando nos tornamos testemunha. Só então podemos passar para o terceiro estágio. não é uma prisão. portanto. nossa prática sempre volta ao mesmo ponto: como enxergar com mais clareza. depressão? Quando começamos a trabalhar desta forma. Qual é a verdade de qualquer momento de aborrecimento ou de impaciência. é óbvio. de como iremos dar um jeito nas coisas para que tudo se arrume como queremos. Até o sentimento de culpa é escapismo. A verdade de qualquer momento é sempre ser apenas o que somos. ciúme. dentro de nossa cela de medo. tentando fazê-la ter melhor aparência. sem nem se incomodar com lápis e papel. Não há fechadura. quando estamos sendo indelicados. esta começa a se resolver por si. Damos um passo atrás e observamos. Nossa prática.78 Isso me faz lembrar de uma antiga história a respeito de um rei que desejava o homem mais sábio dentre seus súditos para seu primeiro-ministro. apenas enterramos a irritação e a raiva. Não precisamos ficar sentados em celas. voltamos a ser quem somos e. tentando nos sentir melhor. sem que tenhamos sequer tentado. se nos divertirmos e brincarmos nessa dimensão. 78 . Gostamos de nos idealizar como pessoas delicadas. tentando nos mudar a qualquer preço: estamos livres desde sempre..

como ela estiver. ele come um morango e exclama "Que delícia!". independente daquilo que tivermos. apenas riu. Brota uma flor. recebendo seu apoio e amor? É ter mais paz e sossego. Você precisa meditar por muitas horas. sabemos o que é. mas numa árvore fenecida. então. Depois desse esclarecimento. nem trabalhar quando se está cansado ou doente. ela desaparece. o que é? É ter mais dinheiro ou mais segurança? É ter domínio ou poder. se não é tais estados. da morte desse ego. da iluminação. Não é perder o parceiro. Somos como o peixe esforçado que passou a vida toda nadando de um professor a outro. Temos certeza de que não é se sentir infeliz. finalmente no paraíso. É como ir atrás de uma miragem: quando chegamos perto.. por saber que para ele aquele é seu último ato. o paraíso irá nos aparecer. esperamos. A área que você está explorando é imensa. "Ah. simplesmente não poderia ser confusão ou depressão. essa "iluminação". um pouco de "boa vida". Como o processo que mencionamos se relaciona com a iluminação? Quando voltamos da irrealidade. Um foi o Grandes expectativas. morrem em paz. então é isso? Não. brotam flores. essa é a inteligência da própria vida. Prossegue o jogo humano. 0 professor. voltamos ao que somos. Alguns até alimentam expectativas. sabemos com certeza o que ele não é. tem de se punir. Mas um dia o peixe chegou a um mestre e perguntou-lhe: "O que é o grande oceano? 0 que é o grande oceano?". assim que o obtemos. se não sabemos o que é o paraíso. o amigo ou o filho. quando estão próximas da morte.. É a ausência de dor física. Não é fracassar diante de nada. "Não há muito dele em minha vida" diriam praticamente todos. em termos da segunda lista. No entanto. De uma árvore fenecida brota uma flor -que linda frase de Shoyo Roku. Esforçamo-nos. Ao darmos um passo atrás em relação a ideais e os investigamos como testemunha. Queremos esse "paraíso". mais tempo para pensar a respeito do significado da vida? É alguma dessas coisas? Ou não? Algumas das pessoas aqui presentes "chegaram lá'. Paraíso não é ser criticado nem humilhado. então. contudo ao longo do tempo essa porcentagem aumenta. lutamos. então. Conseguiram algumas coisas. tampouco punido de jeito nenhum. e o outro foi O paraíso perdido. Porém. vêem ou se dão conta por fim daquilo que nunca tinham visto ou percebido até então. E o que viram? O que encontraram? Lembram-se da fábula do homem que era perseguido pelo tigre? Diante da perspectiva iminente da morte. Quando estivermos em condições de passar 90% do tempo com a vida. só a vejamos um segundo por vez. Temos listas completas e bem claras sobre o que o paraíso não é. porque a testemunhamos. Talvez. Alguns professores lhe disseram: “Bem. É a ausência de erros. 0 paraíso. de Charles Dickens. Grandes expectativas Lembrei-me de dois livros um dia desses. Ele queria saber o que era o oceano. vemo-la tal e qual ela é. Há uma ligação íntima entre ambos. a princípio. ou seja qual for o nome que lhe demos. desse fenecimento. 79 . Parece-nos que o paraíso está perdido. mas onde está? 0 que é? Chegamos nos sesshins com grandes expectativas. você precisa se esforçar bastante se quiser ser um bom peixe. veremos o que ela é. até mesmo com alegria. temos algumas esperanças de que. Não é estar solitário. Qual é? Todos estamos em busca do paraíso. Quando somos qualquer coisa. fama ou reconhecimento por parte dos outros? Será paraíso estar cercado de pessoas. Se não são grandes expectativas. também não é isso. Ficamos desesperados atrás desse estado. Estamos aqui para buscá-lo. em algum momento. Mas." Onde está? Parece que nunca conseguimos chegar exatamente lá. e se esforçar de verdade para ser um bom peixe". Somos a vida. de John Milton. É interessante que algumas pessoas. não numa árvore decorada. caímos na realidade.79 Quando nos vivenciamos tais como somos.

" O que significa? Não podemos viver sem ser este momento. aqui e agora. pois ele é a nossa vida. Você não pode. o reino de Buda. estaríamos tentando segurar o nirvana como estado fixo. Você não pode evitá-lo. Onde vocês podem buscála? Não há paraíso perdido. ele está falando que este preciso momento é o reino do Buda. Definitivamente. não a sentimos como o estado iluminado. Por quê? Porque você não pode evitar este momento. Se é infeliz. Ser conduzido por ele é vê-lo. Não é uma outra coisa. e tornar-se-á Buda. Que delícia!" "Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida! Que delícia!" "Estou tão sozinha! Que delícia!" Quando tivermos entendido profundamente tudo isso. Se assim fosse. com o tempo. Ele diz que. então é. pacífico. está em perpétuo movimento de mudança. estamos no reino de Buda. Mas os atos provenientes dessa compreensão estão isentos de raiva e de julgamento. é entediante. É então que conseguem perceber como é "delicioso" o morango. "Abra mão de seu corpo e de sua mente e esqueça-os. nirvana. o que é? Paraíso. experimentá-lo. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar". Nada além da vida que existe neste instante. O sesshin é em geral uma batalha com o fato de que não queremos de modo nenhum que nossa experiência seja o que é. "Lance sua vida no reino de Buda. o paraíso." O que é o reino de Buda? Ele refere-se ao erro humano em suas primeiras palavras: "Abra mão de seu corpo e de sua mente e esqueça-os". qualquer circunstância da vida é em si o paraíso. entediante. Se você vive com uma pessoa difícil. senti-lo. Nenhuma expectativa. Esta é a Verdade. Lance sua vida no reino de Buda. ser mais nada. afastando-nos de toda e qualquer conceituação -"É duro. ficará livre da vida e da morte. sem se valer de seu poder físico ou mental. aliás. nem futuro). tocá-lo. a iluminação. Por quê? Por que você se torna um Buda? Porque você é um Buda. qual é o elemento que muitas vezes desaparece? O que desaparece é a esperança de que a vida enfim se torne aquilo que desejaríamos que fosse. porque é isso o que existe. Não há a implicação de "não reagir". assim como não há nenhum a ser recuperado. apenas uma ação pura e compassiva. vivendo pelo que a ele lhe aprouver oferecer. isso é o nirvana. é maravilhoso. à proteção e ao prazer do corpo e da mente. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar" (20). ou um outro lugar. este momento." O que significa? "Lance sua vida no reino de Buda. isto não deveria estar acontecendo comigo" -permite-nos que. ele nos pede para "lançar nossa vida no reino de Buda". não há nada que vivenciemos que não seja o reino de Buda. fracassados ou bem-sucedidos. independente de suas opiniões a respeito de como as coisas deveriam ser -você fica livre tanto da vida como da morte e torna-se um Buda. Certa vez ele disse: "Abra mão de seu corpo e de sua mente. mas ele nunca é fixo. percebamos a Verdade de 80 . Só pode evitar vê-lo. quando agimos sem confiar em nossa própria força física ou mental -em outras palavras. No entanto. "Estou tão infeliz! Que delícia!" "De fato fracassei. Onde mais poderíamos estar? Cada momento de zazen. vamos para um sesshin com grandes expectativas de chegar até lá! Onde está? Quando vocês saem daqui. Quando sentamos ou vivemos nossas rotinas diárias. Esqueça-os. Quando as pessoas sabem que estão quase morrendo. nem presente. doloroso. onde está? O reino de Buda é a experiência direta de seu corpo e de sua mente. Vejamos agora alguns dos pronunciamentos de Dogen Zenji. Perfeito. depois deixá-lo ditar o que deve ser feito. a prática paciente do sentar. Infelizes ou felizes. que é o que fazemos. Você é este momento da vida. Dogen Zenji disse: "Esta é a Verdade.80 Voltemos agora à nossa primeira lista -o que o paraíso não é -para apreciá-la sob um ângulo diferente. Mas onde está esse reino? Onde devemos lançar nossa vida? Uma vez que Buda não é senão este momento absoluto da vida (que não é nem passado. Não estou dizendo que devamos ser passivos e não reagir. mas ele está sempre aí. Você pode não estar desperto para ele. saboreá-lo. Em vez de referir tudo ao conforto. vivendo pelo que Buda lhe aprouver oferecer. Quando conseguir isso. Sabedoria é perceber que não há o que se buscar. Todavia.

O primeiro dia de um sesshin é todo dedicado à primeira lista. traduzido por Kõsen Nishiyama e John Stevens. parágrafos finais. Basta sê-lo. 1975. Lance sua vida. Bem agora. Porém. Tóquio. outra vez as palavras de Dogen Zenji devem ser ouvidas: "Abra mão de seu corpo e de sua mente". Mas. de analisá-lo. 81 . Nossa própria natureza é a própria iluminação. mais a fadiga do primeiro dia e.81 nossas vidas. ambos estão aqui. Essa frase lembra-nos que devemos apenas manter clara a consciência de todas as condições do corpo e da mente. Todas as idéias pelas quais temos predileção são assaltadas e invadidas no sesshin. um certo desconforto físico. anão ser quando? Bem aqui. nossas frustrações. Estamos sempre buscando uma maneira de circundar esses problemas. Basta de fugir dele. A mente aposta corrida com todas as complicações que hoje compõem nossa vida. Japão. Por quê? Por que não podemos buscá-la em nenhum outro lugar? Não há nenhum outro lugar para buscá-la porque não existe mais nada que aconteça. cesse todo julgamento. A complete english translation of Dogen Zenji's Shobogenzo. Por isso ele afirma: "Lance sua vida no reino de Buda". Podemos acordar e olhar? 20. Ele reafirma: "Esta é a Verdade. Kawata Press. Não busque a Verdade em nenhum outro lugar". para chegar até o paraíso distante. 22. nossos desejos. em geral. neste momento presente. observando nosso desejo de ir em busca de prazer e de evitar a dor. seja este momento apenas. Compare "Shoji". p.

Agora a vida está do lado de lá e eu estou aqui. e assim por diante. desde o mais remoto princípio. tocar) e à qual acrescentamos pensamentos referentes a nós. na maior parte do tempo. por nos sentirmos à parte. Parece que estamos rodeados por pessoas e acontecimentos que precisamos controlar e acertar. No entanto. tentando uma união. Essa ilusão mesma. algum lugar aonde ir. temos a ilusão de que a vida do lado de lá está nos oferecendo um problema do lado de cá. ou nosso parceiro não age como gostaríamos. Baseiam-se no fato de que. A vida flui adiante. Mas. O acontecimento doloroso ocorreu do lado de lá e quero pensar a respeito dele do lado de cá. porque estamos sendo o que ela é. acreditamos que existe algo a ser realizado. nascida do fato de possuirmos uma mente humana. não temos indagações a respeito. Ouvimos. cheirar. sabemos que a vida não é problema. do tipo "mas isso não me convém". arranjamos todas as modalidades de soluções artificiais. interpretamo-lo e tudo mais aparece. Em outros termos.quando o cerne da questão é que. para conseguir criar uma forma de escapar ao sofrimento que estou sentindo. Quando não estamos vivendo nossos equívocos pessoais. na realidade. pensamos. por isso. Temos então uma vida atribulada com questões: "Quem sou eu? O que é a vida? Como arranjar isto para que eu consiga me sentir melhor?". cheiramos. ouvir. Não estou imersa em nada mais. essa simplicidade é muito óbvia e. vendo. quando somos a própria vida. tocando. A vida. o tocar. cheirando. o pensar (e não estou me referindo a pensamentos centrados na própria pessoa). não há nada que necessite ser resolvido. vemos. embora a vida seja apenas vida. tocar. A unidade sem fronteiras é rompida (ou assim parece). é uma questão muito simples. Não estamos separados dela. Nossa vida é perfeita? Ninguém acredita nisso! Assim. Porém. agora. quando acontece algo de que não gostamos. cheirar. repentinamente. Ao estarmos mergulhados na vida há simplesmente o ver. pensar). pensando. Mas nem sempre nos sentimos imersos porque. Somos apenas isso. dividimos a vida em dois setores: o lado de cá e o lado de lá. Estamos mergulhados na vida e não existem problemas. Na Bíblia é chamado "ser expulso do Jardim do Éden". a ser entendido. não podemos enxergar essa unidade perfeita porque nossa distância a oculta de nós. há um input sensorial. Quando vivemos dessa maneira. Acrescentamos algo (nossa reação 82 . a vida não é mais só a vida (ver. Quando começamos a analisar a vida. na qual estamos tão imersos que não existem problemas. Há vida e estamos mergulhados nela. enfim. é o problema. o cheirar. temos tantas perguntas. A qualquer momento determinado do tempo estamos ouvindo. não é assim que nossas vidas são e. ouvir. a pensar nela. Nem poderiam existir. a nos preocupar e nos atormentar com ela. depois de um sesshin. por um certo tempo. seres humanos. Não há o que perceber porque. Aí não podemos mais ter a consciência de nossa unidade com a vida. Por isso. o ouvir. ver. existem milhões de detalhes que podem aborrecer'um ser humano. existe a vida na qual estamos verdadeiramente imersos (uma vez que tudo que somos é pensar. a vida é uma totalidade sem fronteiras.82 CAPÍTULO 7 Limites O fio da lâmina Todos nós. ou quando alguém nos faz alguma coisa de que não gostamos. Todos nós deparamos com ela de vez em quando. Somos apenas o que a vida é. Separamo-nos e rompemos a totalidade sem fronteiras porque nos sentimos ameaçados. pensando sobre ela. ficamos aborrecidos e recuamos. Às vezes. quando parece ameaçar nossas colocações pessoais. O Jardim do Éden é uma vida de simplicidade intacta. Por exemplo. não existem problemas.

mas agora sabemos disso. seja sentir-se só ou desapontado. enciumados). estou tentando evitar a dor. Se estamos com medo. A razão. com certeza. ainda. Claro que essa é uma satisfação medíocre. não tem nada que ver com os pensamentos que giram na cabeça a respeito de estarmos aborrecidos. cheirar. todos cheios de razões. não há quem não faça o mesmo. Quanto mais sofisticada se torna a minha prática. talvez. Muitas pessoas sequer percebem que é isso que está acontecendo. os estados agonizantes da separação são integrados e vivenciamos. após anos de prática. Esse é o primeiro passo. Assim. estamos andando no fio da lâmina: somos o momento presente. Contudo. Quando estou pensando. se houver algo que possamos fazer a respeito. Mais uma vez. Ao andarmos pelo fio da lâmina. porque pode incluir sofrimento. Não temos qualquer intenção de aceitar esse estado de coisas ou de apenas sê-lo. começamos a nos preocupar. quero ficar mergulhado em meus pensamentos a respeito dessa mágoa. a pensar sobre uma possível solução. Se estamos com ciúme. ou uma crítica sem importância. Queremos a estéril satisfação de nos lamuriar. começamos a nos sentir transtornados (ou com raiva. É uma alegria andar pelo fio da lâmina. Aí elas se reúnem. É nesse instante que precisamos entender a prática de caminhar sobre o fio da lâmina. justo neste segundo. Queremos consertar o problema. Precisamos compreendê-lo no ponto em que. o que para nós é inaceitável. mas. Se eu sentir que você me magoou. é que não queremos fazê-lo. pois estamos separados. Se estamos aborrecidos. ou seja. ouvir. Compreender o fio da lâmina (e não só compreendê-lo. Temos sempre a ilusão de estarmos separados. duas semanas. Por fim. ao fazê-lo. temos de vivenciá-lo. Mas o que é o fio da lâmina? A prática refere-se a entender o fio da lâmina e a saber como trabalhar com ele. isso é inaceitável para nós. Na realidade. sinto-me. porém com certeza a alegria. Sabemos que não o queremos. Quando estamos ameaçados ou quando a vida não nos convém. na verdade. Se antes eu ficasse aborrecida por dois anos talvez. Seja uma enfermidade grave. ilusão que nós mesmos criamos. temos de vivenciar nosso aborrecimento. dois minutos. ver. livrarmo-nos dele... Fazemos esses acréscimos na média de um a cada cinco minutos. não a felicidade. o que pretendo dizer com o fio da lâmina? O que fazer para unir essas divisões aparentemente distintas da vida é o que eu chamo de caminhar pelo fio da lâmina. começam a ansiedade e a tensão. o primeiro passo é tomar consciência de que existe a sensação de aborrecimento. fazê-lo. resolvêlo. Sem exceção. estamos muito aborrecidos. agora o aborrecimento diminui para dois meses. afirmando "Eu tenho razão". apesar 83 . Queremos nos manter separados. também) é o que constitui a prática zen. toda vez. irritados. tocar. Quando estamos numa experiência não-verbal. Como integrar esses aspectos separados de nossas vidas? Fazê-lo é andar sobre o fio da lâmina. contudo não é o fio da lâmina. Embora eu não conheça ninguém que sempre o consiga fazer. mais rápido eu vejo essa armadilha e retorno à experiência da dor. temos de experimentar tudo que nossa vida é. Esse quadro não é lá muito animador . magoados. Quero aumentar minha separação. pela qual é difícil. temos de vivenciar o estar com medo. Primeiro precisamos perceber que estamos aborrecidos. Esse vivenciar é físico.83 pessoal) e. Quando fazemos o zazen e começamos a conhecer nossa mente e reações. poderemos fazê-lo por boa parte do tempo. começamos também a ficar cientes de que. Quero repetir mais uma vez: é necessário reconhecer que a maior parte do tempo não queremos ter nada que ver com esse fio. consigo vivenciar o aborrecimento quando ele acontece. Não gostamos de estar com a vida como ela é. ao permitir-me consumir por esses pensamentos de fogo. a vida iluminada é apenas ser capaz de andar sobre o fio da lâmina todo o tempo. ao fio da lâmina. e permanecer o tempo que ele durar em equilíbrio sobre o fio da lâmina. precisamos ser o que basicamente nós somos. Desejamos fugir disso.

mergulhados na vida. Protestamos: "Não! De jeito nenhum! Esqueça! Esse é um belo título para algum livro. JOKO: Bem. são necessários muitos anos de uma prática constante. em nosso isolamento. esperamos ser pessoas separadas que realmente existem e são importantes.. Ao pensarmos dessa forma. devemos andar pelo fio da lâmina. Quanto mais praticarmos. Utilizando essa estratégia. Diante do fato de nossa quase nula disposição para saber do fio da lâmina. No fundo. Mas creio que eu ainda não tenho clareza de porque o aborrecimento é separar-se da vida. desde a manhã até a noite. Eis o paradoxo: apenas caminhando pelo fio da lâmina. Assim. "errada". Para a maioria. não somos importantes. sua vida. crescendo em sabedoria e compaixão. apesar da dificuldade que eventualmente represente. porém. porém é invisível àqueles que não sabem ver. Essa espécie de prática beneficia a todos os seres conscientes e. mais confortáveis ficaremos ali. nossa visão irá se tornando cada vez mais nítida. Ninguém quer ouvir a verdade e não a ouviremos. queremos paz e alegria. através dela. Percebo. se formos pacientes. e está certo. em vez de a experimentarmos tal como ela nos acontece quando parece dolorosa e desagradável. é disso que trata a prática zen. Andar pelo fio da lâmina é isso. Mas. Pode. Por isso muitas pessoas chegam num Centro e dizem: "Quero ficar em paz". mergulhados na vida. Temos de alcançá-la. ALUNO: Por favor comente um pouco mais sobre estarmos separados da vida. mesmo que a vida como não-eu seja pura alegria. enquanto não estivermos prontos para ela.minha vida. Quando andamos no fio da lâmina. como água que pinga numa frigideira com óleo quente: pode ser isso o máximo que consigamos a princípio. porém. no entanto. que não podemos ver isto de imediato. não há "eu" e não há "você". a unidade sem fronteiras foi rompida. Todos os relacionamentos problemáticos em casa e no trabalho nascem do desejo de permanecermos separados. Depois. Estamos do lado de cá e a praga daquela pessoa está do lado de lá. Nosso medo impele-nos a permanecer do lado de cá. Verdade? Acho que não. Descobrimos que ele é o único lugar em que ficamos em paz. Sobre o fio da lâmina. e terminaremos enxergando a jóia dessa vida que começa a brilhar. ficaremos nos contentando com uma vida diminuta. Queremos alguém que nos tire o medo de nossas vidas e nos prometa a felicidade. não temos interesse algum pelo bem-estar daquele indivíduo. É claro que a jóia sempre está brilhando. Às vezes saltamos para o fio da lâmina e depois caímos de lá outra vez. Primeiro precisamos compreender com o intelecto: devemos saber do ponto de vista intelectual o que é a prática. Para ver. no entanto. O que preferimos fazer? Preferimos pensar a 84 . em nossas justificadíssimas razões.. mas não quero saber disso em minha vida". JOKO: Não é separação se for vivenciado de modo não verbal. no momento em que há um desacordo entre nós e alguém -e em que pensamos que nós é quem estamos com a razão -já nos separamos. É isto que tememos. vivenciando diretamente o medo. claro.84 disso. até que possa abandonar essa forma de pensamento. Esse conhecimento cresce a partir de um zazen praticado todos os dias a partir de muitos sesshins. Mas. somos o não-eu. é que poderemos saber o que é não ter medo. e do esforço para permanecer desperto em todos os encontros. Ninguém quer saber dessa realidade. Estamos interessados apenas em nosso bem-estar. quero estimulá-los a entender isso. na maior parte do tempo recusamo-nos afazer isso. a sabedoria não nos será apresentada de bandeja. estar havendo pouca compreensão de como a paz será encontrada. ou fazê-lo de uma só vez. Por essa razão. precisamos desenvolver a aguda percepção consciente de quando estamos nos separando de nossa vida. ALUNO: Vejo que os aborrecimentos estão ligados a eu não querer enxergar o que está acontecendo.

os pensamentos estão acontecendo. definitivamente não estou falando de passividade ou de não reagir . A prática zen é sobre ação. Ela não parava para ponderar: "Devo fazer isso?". Não temos de viver cento e cinqüenta mil momentos de uma só vez. separamo-nos. mas não nos é possível uma ação adequada se acreditarmos em nossos pensamentos sobre uma situação. Ela enxergava o que precisava ser feito e fazia. ou aquilo que nos seria conveniente e confortável. se apenas acontecer um incidente que consideremos ameaçador. Certo e errado são apenas pensamentos. "Um décimo de polegada de diferença e já céu e terra se distanciaram. Não podemos abordar de uma maneira inteligente as questões da vida se estivermos paralisados em nossos pensamentos sobre tais questões. ALUNO: É possível reagirmos sem que haja quaisquer pensamentos? JOKO: Quando reagimos. mas estão lá.85 respeito de nossa infelicidade. se você me insulta. um capacho. ALUNO: Quando vejo pessoas centradas no que está acontecendo constato que agem muito mais depressa e melhor que eu. Precisamos enxergar de modo direto o que ela é. Só fazer. quase sempre seletivos e enviesados. porque nossas recordações do que aconteceu em nossas vidas antes entram em cena a todo instante. eu não reajo. quando começamos a julgar as pessoas certas ou erradas. Não estaríamos pensando se não estivéssemos tentando evitar a experiência do medo. No filme sobre Madre Teresa observei que ela se dirigia diretamente para a área do desastre e começava a trabalhar . É quando acreditamos neles que ocorre a separação. Precisamos ter uma visão que seja mais ampla. mas apenas o que existe? Não. não são a verdade. É por isso que eu digo: "O que mais você tem a fazer? Você pode tanto praticar cada momento como não". JOKO: Apenas fazer. "Por que ele não vê as coisas do meu jeito? Por que é tão estúpido?" Esses pensamentos são o fator de separação. JOKO: As recordações são pensamentos. Estamos vivendo apenas um. Porém. Mas estamos vivendo apenas este momento. 85 . Pode ser que não se tornem óbvios para nós. que é diferente de nossos pensamentos a respeito dela." Não há nada de errado com os pensamentos em si. ALUNO: O que você está descrevendo parece uma coisa muito passiva. Podemos ter uma ação inteligente sem de fato ver. Por exemplo. ALUNO: Parece uma enormidade esperarmos ter condições de apenas ficar sobre o fio da lâmina. a menos que tenha pensamentos sobre o insulto. ALUNO: Pensamentos? Não a evitação? JOKO: Os pensamentos são a evitação. não aquilo que desejamos ver. Você poderia esclarecer isso? JOKO: Não se trata absolutamente de ser passivo. exceto quando deixamos de enxergar sua irrealidade. ALUNO: Você quer dizer que os pensamentos causam a separação? JOKO: Não se estivermos plenamente conscientes dos pensamentos e soubermos que são apenas pensamentos. Podemos esquecer por completo as belas coisas que nossos amigos já nos fizeram. A prática espera muito de nós.

a respiração aos poucos fica mais lenta. A coisa muda inteiramente de figura. Se alguém que está me vendendo um par de sapatos. mas ele está contido em nós na forma de contrações corporais que existem a cada instante. Do ponto de vista atual. Quero acrescentar que. mas se queixa: "É tão chato! Estou só ficando sentada e não acontece mais nada. Talvez eu preferisse dizer "vivenciar o corpo e a respiração". descubro cada vez mais como as coisas mais simples da vida não me são tão chatas quanto antes. Mas ficar só ouvindo o tráfego é a perfeição! A aluna está perguntando: "Então é só isso?". Suzuki Roshi afirmou certa vez: "Não tenha tanta certeza de sua pretensão a ser iluminado. e sim apenas vivenciar a respiração que estiver acontecendo: presa. o fio da lâmina é a experiência do que é o momento. Geralmente prestamos atenção. Estaríamos em cima do fio lâmina. longa e profunda. rápida. É só. Se a ligação com os pensamentos estiver bastante enfraquecida. Mas quando ficamos aborrecidos. é melhor não tentar controlá-la (o controle é uma coisa dualista: eu controlo alguma coisa separada de mim). porque então ela não estará centrada em nós. a pessoa se senta bem. o que parece assustador.. não haveria problemas. Sim. Às vezes existe uma grande profundidade e beleza no que antes eu não tinha percebido. Fazer só o que se está fazendo. diz: "Vou deixá-la".. Ambos são a simplicidade máxima. experimente-a tal como está. e a respiração ficará mais suave. mas quando lavamos a louça. Uma vez que são desagradáveis. preferimos perder a ficar sem um dramazinho do qual somos o protagonista. Ninguém deseja que a vida seja "só isso". por mim está bem. Se pudéssemos apenas fazer o que há para ser feito a cada instante. esteja como estiver. De vez em quando vem um aluno conversar comigo. Mas se meu marido diz: "Vou deixá-la".86 ALUNO: Bem. parece-me que o fio da lâmina é um lugar meio chato de se ficar. Quando vivenciamos a contração. ALUNO: Se desistirmos de nossa crença em nossos pensamentos. Quando a experiência se mantém firme. ALUNO: Acompanhar a respiração é estar no fio da lâmina? JOKO: De fato é. ALUNO: Por que o aborrecimento fica maior quando diz respeito a alguém que me é querido. a lâmina e seu fio nos parecem estranhos porque vivenciar o aborrecimento é vivenciar sensações corporais desagradáveis. ao acompanharmos a respiração. Outra pessoa virá para me vender o sapato. o corpo e a respiração terminarão por se descontrair. Só fico ouvindo os carros que passam. quando uma incrível explosão emocional nos atinge. Conforme vou praticando. É só isso mesmo: não há drama e nós gostamos de dramas. como saberíamos o que fazer então? JOKO: Sempre sabemos o que fazer quando estamos sintonizados com a vida tal como ela está. JOKO: Certo.. Sem dramas. a 86 . JOKO: Porque é mais ameaçador. ALUNO: Para mim. JOKO: É isso mesmo. é só isso. ALUNO: Essa é uma ameaça imediata ou vem de um depósito de material psicológico não-resolvido? JOKO: É certo que existe um reservatório. seria terrivelmente monótono". não podemos ver que o aborrecimento é basicamente a mesma coisa que lavar a louça. não dou importância..". alta. não há muito a dizer.

não veremos nem as pessoas nem os carros. Entretanto. O passado é quem somos neste momento presente. cometendo equívocos que nada têm que ver com o bem-estar da vida. Todavia. nossas habilidades para tanto. claro. A realidade de um glóbulo branco sangUíneo não é a que vemos. os humanos. da outra pessoa. limpando o caminho ao formarem pseudópodos que avançam na direção dos alvos. Dessa altura. com seus carros. o tapete e a outra pessoa: somos todos um só enorme campo de energia. existem milhões desses glóbulos dentro de nós. planícies.87 tensão. os seres humanos nem existem. arrumamos um jeito de usá-lo de maneira imprópria. presentes nas artérias de coelhos. do tapete. usamo-lo de 87 . muda nossa experiência da realidade. a cada momento da vida. exceto neste exato instante. essa é apenas uma entre as centenas de milhares de funções que acontecem no seio dessa imensa inteligência que possuímos. E. enquanto estamos sentados aqui. Por isso. massas de água. são enormes demais para ela. porém. Apesar de dotados do dom de pensar. Para tanto. Porém. Onde está nosso passado? Bem aqui. Há pouco tempo. Não sei para que estou aqui". Não há passado. presumimos que estamos vendo as coisas como elas são. Para uma formiga que anda pela calçada. assim como aos outros dons naturais que recebemos. ao vivenciarmos essa situação cuidamos do passado. isso é somente como vemos a realidade no nível do chão. Em um nível mais profundo. talvez com os dons mais imensos de todas as criaturas. Dentro da artéria podell1. aumentam de forma considerável com o passar do tempo e da prática. neste preciso momento. árvores. Vamos encerrar. somos apenas átomos e partículas atômicas. como temos um cérebro grande ( que nos é dado para que possamos funcionar). nossa realidade não os inclui. Esses glóbulos são de resgate e têm a função de eliminar resíduos e material impróprio do corpo. minha filha mostrou-me algumas fotografias de glóbulos brancos do sangue. E guardem consigo esta indagação: neste preciso momento. Não há separação entre nós. Contudo. num dia de céu claro. Eles trabalham sem cessar para nós. olhando para baixo. mas inclui o topo das montanhas. mantenham sua conscientização o máximo que puderem. tem essa espécie de confusão. deslocando-se a uma velocidade espantosa. Se estivermos dentro de um avião a 35 mil pés de altitude. pessoas e casas. que consiste em limpar. não veremos paisagens humanas. devemos ser distintos das coisas que nos rodeiam. E ninguém consegue ficar ali o tempo todo. É isso mesmo. um microscópio poderoso revelaria que a realidade com que deparamos não está efetivamente separada de nós. Por exemplo: se olharmos à nossa volta e virmos arbustos. estou andando no fio da lâmina? Nova Jersey não existe Assumimos que a realidade é tal e qual a vemos: é fixa e imutável. Mas. E antes que esteja quase tocando o solo. se isso não acontece. carros. Todavia. O que é a realidade para ele? Podemos apenas observar seu funcionamento.se ver as minúsculas criaturas rastejando. E. limpando-nos enquanto vivermos. com certeza não os glóbulos brancos. de que maneira o fio da lâmina se relaciona com a iluminação? Alguém quer comentar? ALUNO: É a iluminação. somos os únicos seres da Terra a dizer: "Não sei qual o significado de minha vida. acessamos o passado inteiro. Nenhum outro. Se o avião desce. estão dentro de nós. E a sua realidade provavelmente se compõe das colinas e vales de uma calçada. Não temos de saber tudo a respeito dele. vemos o trabalho que o glóbulo está tentando fazer: ele conhece sua finalidade. O que é o pé que pisa na formiga? A realidade que vive em nós precisa funcionar de determinadas maneiras. Já nós. limpando nossas artérias do melhor modo que sabem. por favor. Quando olhamos para a seqüência de fotos. JOKO: Sim. não praticamos de verdade.

débil. que não conseguimos notar que nossa função não é viver para sempre. pareceu que não tinha nada que ver comigo. também saberemos o que é para ser feito na vida. Esse estado está sempre presente. em nossa depressão. quando saí do hospital e fui para casa. Porém. empreendimento que jamais ocorreria a um glóbulo branco. Distanciamo-nos do problema: com toda essa atividade de pensar. não conseguimos solucionar nada. mas em termos de como servir nosso eu em separado. que estávamos mais ou menos no centro do país. Era quase patético: aquele esqueletinho. um movimento. O bloqueio imposto por nossos pensamentos e nossas emoções torna o problema insolúvel. viver este momento. Certa vez. Há um certo tempo quebrei meu pulso e fiquei com gesso durante três meses. sem poder nenhum. Ele não pensa. tentando analisá-los. Não havia meios de dizer onde ficava. Fazemos qualquer coisa. Queria participar daquele trabalho. Ao praticarmos o zazen e ao nos darmos conta da natureza ilusória de nossos pseudos pensamentos. desde que não seja viver de modo funcional. Nova Jersey. Olhei para baixo e pensei: "Onde fica o Kansas?". Mas. No entanto. sim. nos irrita. pensamos. Mas o que cura de fato a situação? Simplesmente experimentar a dor do que aconteceu. o que os resolve é apenas experimentar a dificuldade que está se desenrolando. usando pensamentos de preocupação: ficamos arquitetando de que maneira melhorar as coisas para nós. ainda queria ajudar. Suponhamos que meu filho gritou comigo e disse que sou uma droga de mãe. com a prática. nós nos confundimos. soube. mas. reagir. não fazemos o mesmo com os problemas da vida: ao contrário. Quando algo realmente nos atormenta.88 modo errado e nos perdemos. esforçavase para contribuir. Envolvemo-nos com relações estranhas que são infrutíferas. Minha ação brota de minha vivência. trêmula. Pensamos não em termos de trabalho que precisa ser feito em prol da vida. comecei afazer uma tarefa com a mão sã. Acho que devemos culpar Nova York pelos problemas de Nova 88 . De fato. levantamos toda espécie de possibilidades. Nosso corpo tem sua própria sabedoria. Em pouco tempo sua vida terá fim. mesmo incapacitada. como aumentamos nossa segurança. Ficamos preocupados. para executar o que precisava ser feito. Sabia o que deveria fazer. quando. o Illinois. posso começar a sentir de uma maneira diferente aquele filho. uma filosofia. é o uso inconveniente de nosso cérebro que acaba com nossa vida. pensamos.. pensamos realmente que existe o Kansas. Quando o removeram fiquei comovida com o que vi. tentando encontrar alguém a quem culpar pelos acontecimentos. Apesar disso. esse nadinha de pele e ossos começou atentar ajudar. Era comovente ver aquele pedacinho de espantalho tentando fazer o serviço de uma verdadeira mão. o estado de funcionamento natural começa a se fortalecer. Nova York. Penso que sou Nova Jersey e ele é Nova York. O que fazer? Eu poderia me justificar diante dele. nos apoquenta. ficamos obcecados com uma pessoa. considerar a presença de todos os pensamentos que tenho a esse respeito. Fraca demais para fazer o que fosse. rodopiamos com eles. Tentamos de maneira inútil proteger-nos. só executa suas tarefas. mas encontra-se tão encoberto em quase todos nós que apenas não sabemos mais o que é. Contudo. analisar. Quando faço isso de modo sincero e paciente. começamos a pensar. Fazemos a mesma coisa conosco. na realidade. Expulsamo-nos do Jardim do Éden. Isso é retrocesso. Se não confundirmos as coisas. pensamos. a mão parecia ter vida própria. em nossas esperanças. em nossos temores. Quando olhei para aquela mão. num determinado momento. começamos a enxergar através da confusão e podemos discernir o que precisamos fazer: assim como minha mão esquerda. será substituído por outros. como perpetuar indefinidamente nosso eu em separado. quando eu estava viajando de avião de um lado para o outro dos Estados Unidos. explicando-lhe todas as coisas maravilhosas que faço em seu benefício. agindo então a partir daí. pois é isso que acreditamos ser a solução para os problemas da vida. Estamos tão enredados em nossa excitação. e posso enxergar o que fazer. Sabia qual era sua função. Minha mão era só pele e ossos. existe apenas uma extensão muito longa de terra.

Nova Jersey. E quando rompermos o bloqueio das emoções-pensamentos. vamos pensar que existe uma fronteira separando-nos dos outros. Esse é o estado de iluminação. precisamos dar a impressão de estar separados. e essa falsa brincadeira acabará conosco. são os Estados Unidos. enquanto o casal não perceber que não existem fronteiras (e isso implica a dissolução do bloqueio da emoção-pensamento). tudo fica certo. haverá uma corrida armamentista entre ambos. embora ainda tenhamos os mesmos problemas. não precisa se defender. e percebemos a unidade que está sempre lá. na maior parte. Claro que. assim como os glóbulos brancos precisam formar os pseudópodos para realizar um serviço de limpeza. existem partes da vida que parecem embrulhadas e confusas. Quanto mais tempo e dedicação tivermos empenhado em nossa prática. Os outros e as coisas só participam na medida em que estiverem dispostos a entrar no jogo que estipularmos. como poderíamos deixar a vida melhor para nós. contudo. Ele o sabe. Quando trabalhamos de modo inteligente com os pensamentos e as emoções. mas está certo. quando pensa que é Nova Jersey. isso precisa ser feito? Tudo bem. Inclui sofrimentos e alegrias. A clareza e a força começam a se dissipar. compõe imediatamente seu próprio repertório de problemas. Mas não fazemos isso com facilidade porque estamos vinculados a um pensamento centrado em nós. É inacreditável: o fluir fica tão fácil! Então (se não tomamos cuidado).. se apenas olharmos para eles. Por exemplo. Estamos jogando um jogo que usamos para revestir o verdadeiro. Os mapas são úteis. não há problemas. mora em Nova Jersey). O problema é que não estamos jogando o verdadeiro jogo. Se não precisamos existir como entidades em separado. nele. o jogo nunca dá certo. Preciso ficar duas horas com aquela pessoa aborrecida.89 Jersey (afinal todo mundo que mora fora de Nova York. lá do outro lado. mas. repleto de certezas. com certeza. como um casamento pode dar certo se um está em Nova Jersey e o outro em Nova York? Pode até dar a impressão de funcionar uma vez ou outra. "Não sei muito bem o que está havendo aqui". não veremos a unidade que. estamos projetados para ter determinadas funções dentro deste enorme padrão de energia que somos. vamos ver no que é que dá". mais essa sensação dura. O glóbulo branco sanguíneo não indaga: "Qual é o sentido da vida?". a fim de entrarmos nesse maravilhoso jogo do qual fazemos parte. não temos de lutar por algo que chamamos "grande iluminação". Se não enxergarmos através dela. quando praticamos de maneira meticulosa.. saberemos. criamos um mundo falso que recobre o verdadeiro. a confusão começa a invadir o espaço de novo. isso não tem muita serventia para a Pensilvânia. menos. os limites desaparecem aos poucos. e não é insatisfatório. Ainda não aprendemos a viver como seres humanos. esse jogo é bom. Às vezes. Precisamos ter uma certa maneira para poder funcionar. Precisa se identificar com todas as suas coisas maravilhosas e. apenas recebendo o input sensorial que a vida nos apresenta. viveremos até o último de nossos dias na Terra sem jamais termos desfrutado um só deles. A marca registrada de anos de uma boa prática é que os períodos de clareza duram mais e os de confusão. Porém nossas vidas se absorvem com a questão do que nos seria melhor. Não existe o Kansas como uma unidade em separado. Na realidade. Se nossa mente estiver aberta. simplesmente dizemos: "Oh. Se Nova Jersey não tem de existir como entidade em separado. O que nos cabe fazer na vida? Se não nos confundirmos muito com falsos pensamentos. porém. Confundimos o mapa da realidade com ela. nem desprovido de significado. esses limites são arbitrários. por exemplo. independente do tempo de prática. Precisamos ter uma determinada forma para podermos funcionar. Tenho de ir ao dentista na terça-feira. então também começaremos a saber quem somos e qual nossa participação na vida. Posso não gostar. a resposta se torna óbvia. Claro que eles nunca estarão realmente dispostos porque estarão fazendo a mesma coisa. mas se nos deixarmos levar pelos pensamentos e pelas emoções que nos separam. Como os glóbulos brancos. mas é sempre real e rico. existem momentos (por vezes horas até mesmo dias) em que. bem. 89 . Por isso. decepções e problemas. Ao nos desviarmos de nossa obsessão pessoal com nós mesmos. Quando bem jogado.

Em épocas de confusão e de depressão. É remover a barreira entre nós. Muitas vezes ouço de meus alunos: "Tenho me sentido confusa a respeito da prática. acompanhando os pensamentos flutuantes. O absoluto não está em nenhum outro lugar. filhos e amigos. Nossa inteligência inata sabe quem somos e "qual é a nossa" neste mundo. querer estar embrulhado e na confusão é a clareza em si. estamos sempre precisamente aqui. quando nos vivenciamos como somos. porém.90 Paradoxalmente. Voltamos ao corpo e suas sensações. o absoluto. esse é o nirvana. Não precisamos julgar se nossa prática do sentar é boa ou má. mas não vivem sua suposta percepção das coisas em suas atividades diárias. Unimos os outros a eles mesmos. é nos unirmos a Sri Lanka. Para algumas pessoas. outrem e as coisas: é remover ou enxergar através da natureza dos obstáculos. dos pensamentos e do que mais estiver aqui. estou um pouco nervosa. estamos de volta na trilha. Parece que não estou conseguindo clareza nas coisas". Qualquer prática religiosa verdadeira consiste em retomar a visão do que já existe: é enxergar a unidade fundamental de todas as coisas. Conheço muitos físicos que têm o conhecimento intelectual. ligar. Para todos nós. É isso. e unimo-nos aos outros. forçar a clareza. depois. enfim. o pior que pode ocorrer é tentar ser de algum outro modo. Isso parece uma beleza! No entanto. Ao fazermos isso de verdade. a maior parte do tempo. as sensíveis e as insensíveis. O sentido original do termo “religião”. perguntamo-nos: "Qual é a sensação da confusão?". não necessariamente. Quer funcionar. é ver nossa verdadeira face. Ao praticar com meticulosidade. Precisamos manter a conscientização das sensações corporais. Uma parte de nós é como o glóbulo branco: está sempre ali e sabe o que fazer. nossa tarefa é nos unirmos a nossos companheiros. a nossos parceiros. Não há para onde ir. O que fazer então? Na realidade. rápido demais. O que estamos unindo? Antes de mais nada. É mais do que sabido que nosso ser físico precisa efetivamente ser protegido ou não 90 . por que quase nunca é vista? Não é pela falta de informações científicas adequadas. Sou cética quanto a práticas que forçam o ritmo das coisas. a todas as coisas. embora ele se abra quando deve e. porque mesmo em nosso íntimo estamos separados. unir. A causa principal desse obstáculo e a principal razão que nos leva anão ver o que já existe. ao universo. é interessante: vem do latim religare que significa "reatar. exceto onde estamos? Estamos sempre como somos. O portão sem portão está sempre exatamente aqui. Claro que a alternativa não é sentar sem fazer nada. ligare é atar. na realidade. uma abertura precoce seria desastrosa. Re quer dizer de novo. O que fazer? Em vez de tentarmos compreender a confusão e o nervosismo. essa porcentagem tende a aumentar. todos os fatos da vida são assim. cada dia apresenta períodos como esse. ao México. o portão se abre. Onde mais poderíamos estar. Religião As pessoas que vêm a um Centro Zen estão em geral aborrecidas ou desiludidas em virtude de suas experiências religiosas passadas. desde que não embaralhemos tudo. As pessoas. Onde mais poderia estar se não precisamente aqui? Meu nervosismo é o quê? Uma vez que existe aqui e agora. se estou nervosa. unir o homem e os deuses". não é sempre que vemos a vida assim. Existe só o seguinte: "Estou aqui e pelo menos estou ciente de parte da minha vida". para podermos chegar a alguma parte. quando desejamos que aconteça. a nosso trabalho. e não do jeito que acreditamos que deveríamos ser. sabe-se lá onde. seja o que for. é nosso medo de ser ferido pelo que parece estar separado de nós. unimo-nos a nós mesmos. em geral. costumam me perguntar: se essa unidade fundamental é o verdadeiro estado das coisas. Muito antes de percebermos. Mas. Tudo que não estiver unido é nossa responsabilidade. A prática não é um empurrão místico na direção de qualquer outro lugar. apenas cria mais problemas. e a todas as coisas do mundo.

E nossos mecanismos de evitação são quase infindáveis. com aquilo que parece nos magoar." "Jamais vou conseguir um emprego. Podem ser úteis. A menos que. Essa barreira da emoção-pensamento costuma assumir a forma de uma hesitação entre dois pólos. com nosso marido ou mulher. o sacrifício de nós mesmos. Porém existe uma enorme confusão entre esse tipo de dano e outras ocorrências menos tangíveis. Se realmente desejarmos enxergar a unidade fundamental não só de vez em quando. Uma vez que quase todos nós reagimos em média. tecemos julgamentos e opiniões sobre tudo e todos que receamos possam nos magoar. Ele quer dizer que. em muitas tradições religiosas. Somos variados nesse sentido e a variação não é. iluminam nossa atenção para aquilo que já é. É necessário evitar e reparar danos físicos. Pode ser que enxerguemos nossa verdadeira face de vez em quando. agradar a vida e os outros. É lamentável. Por exemplo. A vida de verdade. Ficamos presos no interior de nós mesmos. ficamos presos dentro dos confinados limites dessa barreira. mas na maior parte do tempo -o que enfim é a própria vida religiosa –então nossa prática elementar tem de construir o que Menzan Zenji (erudito e mestre do zen Soto) chama de "barreira da emoção-pensamento". mas ainda assim pensaremos que é impossível sermos nós mesmos. Se olharmos para nosso passado. uma experiência de iluminação é quase inútil. mas há quem morra sem jamais ter vivido. Nossas capacidades inatas são postas em funcionamento para evitações. que considero ameaçadora. sem o entendimento dos dentro e fora das barreiras que erguemos -o que em si não é absolutamente fácil -permanecemos escravizados e separados. porque ficou completamente obcecado com as tentativas de evitar ser magoado. para queixas de sermos vítimas. essas experiências são insuficientes. uma vez a cada cinco minutos. elas se tornam barreiras. sem o empenho de um sério esforço de unificação da própria vida. do lado de lá. No mesmo instante em que reagimos. nos ameaçar ou nos desagradar. Costumamos sentir que fomos feridos pelas outras pessoas. dói ficar sozinha." "Os outros são tão ruins!" Consideramos todas essas circunstâncias como fontes de dor. contudo. tenta e 91 . tenhamos alcançado um ponto em que reagimos muito pouco. a unidade fundamental. Essa é a pessoa que tenta ser boa. a cada momento. em si. que tenta se empenhar com sua prática. De uma coisa podemos ter certeza: se fomos magoados. Em outras palavras: a vida religiosa não terá sido realizada e a humanidade e os deuses permanecerão separados. ergue-se uma barreira e nossa visão fica obscurecida. tentar ser uma pessoa ideal. Todavia. O que encontrei. quando alguma coisa parece nos ameaçar. nos escapa. asfixiar o que é verdadeiro para nós a cada momento. que parecem nos ferir. fazemos uma lista de pessoas e situações que nos magoaram. elas não são tão difíceis de acontecer. ser bom. tampouco. se estamos fazendo um piquenique num trilho ferroviário e uma locomotiva vem vindo. e essas dimensões não se reúnem. Essas experiências são muito variadas. O que já é. a unidade fundamental. Contudo. não queremos que isso nos ocorra de novo. Para algumas pessoas. Sem essa prática. a cada momento. é a verdadeira natureza da vida. com qualquer pessoa. há muitas expectativas de se vivenciar o que é chamado de "abertura" ou experiências de iluminação. Um é o da conformidade: o sacrifício aos deuses. que tenta obter a iluminação. Com base nessa longa lista de dores desenvolvemos uma visão de vida condicionada: aprendemos padrões de evitação. Todos têm a sua. (e sei que muitos dentre vocês também) é que. em particular na tradição zen. que tenta. para tentativas de arranjarmos as coisas afim de continuarmos mantendo o controle. "Meu amor me deixou. uma questão de virtude. se forem genuínas. mas se nos apegarmos e ficarmos dependentes delas. reagimos.91 consegue funcionar. Porém. essas experiências não fazem muita diferença. é uma excelente idéia sair dali. Existe eu e existe a vida. O que de fato conta é a prática que temos de efetuar. fica óbvio que a maior parte do tempo a vida nos está oculta por trás dessa barreira. em nossa prática. Nossa prática elementar é com essa barreira. levam até aí nossa atenção.

Como resolver a situação? Resolvemos vivenciando o que não queremos vivenciar. se "abraçarmos o tigre". porém. mofando na mesinha". uma carta difícil que eu não queria escrever. É quando as pessoas insistem: "Ninguém vai me dizer o que fazer! Preciso de meu próprio espaço e quero que todo mundo fique fora dele!". por trás da oscilação entre um pólo e outro. Qual é a resolução? O que resolve essa batalha incessante em nosso íntimo? O que nos faz reunir aos deuses novamente? Até que tenhamos compreendido esse enigma. Isso. Enquanto não nos sentirmos abertos e amorosos. Em todo esse processo infindável de ida-e-volta. virá o segundo pensamento "mas eu não quero". desaparece a barreira imposta pelas emoçõespensamentos e. Todos nós oscilamos entre os dois estágios. Porém. Se estivermos de fato aborrecidos. Mas se praticarmos com inteligência. Eu não tenho de fazer nada. de um segundo a outro. parece que a vida ficou muito pior. Isso é conformismo. Começamos a observar que oscilamos entre esses pensamentos. Quando sentarmos isso se revelará por si. Eu tinha encontrado quinze coisas para fazer entre 9 h e 15 h. ela sempre mudará. tudo que está por trás da prática de sentar. porque desejamos 92 . de desconforto. porque ainda estamos reagindo à vida. esperando por nós. o que acontece? Quando observei os dois tipos de pensamento. Nos primeiros anos de prática. Esses estados (de conformismo e inconformismo) fluem um para outro em questão de instantes. As pessoas e os deuses continuam separados. embora não precisemos usar essa palavra. Primeiro teremos um pensamento "devo fazer isso". Uma vez que na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e amorosos. Minha reação inicial foi: "Preciso responder aquela carta". A reconciliação de tudo que é a experiência -do quê? de Deus? Daquilo que simplesmente é.92 tenta. Quando conseguimos ver. Nosso ato será amoroso e compassivo. em vez de melhorar: "Onde está aquela bela pessoa que eu costumava conhecer?". Esses esforços são extremamente comuns. começaremos aperceber o estilo conformista em que nos afundamos e depois sentiremos o ímpeto de ir até o extremo oposto. trata-se da reconciliação de nossos pontos de vista a respeito de como as coisas deveriam ser. a maioria das pessoas sai de um primeiro estágio para cair em cheio no segundo. Com o tempo. Nessa altura. no instante em que o observador enxergar os dois estados. No entanto. "É necessário que eu o faça. Essa é a vida religiosa: essa é a "religião". Devo fazê-lo". Nesta fase julgamos os outros com muita brutalidade e formulamos opiniões negativas. algo muda dentro de nós. sabemos o que fazer. os dois estados são de escravidão. não há mais sujeito nem objeto e. trata-se da reconciliação de nossos receios. Se continuarmos sentados mais um pouco. adotando outro tipo de escravidão: a rebeldia ou o inconformismo. Às 15 h dei-me conta de que ainda não havia redigido a resposta. a raiva. Mas se nos entregarmos às vivências. que ia responder uma carta. o medo. vemo-nos como superiores e independentes. a raiva (assim como a experiência física) começará a se modificar. resolvi. Em vez de vermo-nos como inferiores e dependentes. estamos presos em suas malhas. A vida religiosa pode ser vivida. nesse estado de indeferenciação. A vida religiosa é um processo incessante de reconciliação. Cada vez que atravessamos essa barreira. a verdadeira oração. que não me haviam permitido respondê-la. Certo dia da semana passada. Com o tempo. não há senão separações. A primeira coisa a ser vista é o que estamos fazendo. em especial nos círculos de alunos do zen. pela primeira vez. como as pessoas deveriam se comportar. nossa prática está bem ali. conseguiremos enxergar com clareza. a verdadeira prática religiosa. como um balanço. a mudança pode levar semanas ou meses. não é fácil. Trata-se da reconciliação das pessoas e de suas noções separatistas. Ou nos conformamos a ela ou nos revoltamos contra ela. Precisamos experimentar não-verbalmente a sensação de incômodo. às 9 h. Posso muito bem deixar essa carta. vamos ficando cada vez menos separados. Esse é o verdadeiro zazen. A segunda reação foi: "Você não vai me forçar. porque quando a estamos vivenciando em si. sentei-me e respondi a carta. devemos praticar de modo meticuloso o tempo todo.

sermos "alguém" diante do mundo. "eu" sinto. a iluminação não é uma imagem e. esperando pelo papai e pela mamãe para porem comida em nossos biquinhos esgoelados. Para nos darmos conta de nosso estado natural de iluminação. Se nossa prática é forte. "Eu" vejo. apegamo-nos a eles. A força de nossa prática. Sendo assim. Isso não é o mesmo que dizer que chegará o momento em que veremos tudo. Seria possível mencionar alguma coisa a esse respeito?". O primeiro estágio da prática é ver que toda a minha vida está centrada em torno de mim mesma: "Sim. "eu" penso. nem sempre justa. de apreciá-la. Todos cometemos ações prejudiciais de que não temos consciência de estar praticando. fantasias e emoções. Não precisamos tentar ensinar os outros. na própria pessoa. Um dos aspectos distintivos de uma prática séria é o estado de alerta e de reconhecimento para os momentos de separação. O caminho da prática consiste em ir de forma deliberada contra um modo de vida absorto. Mas. em geral. nem mau. tenho estas e mais estas emoções centradas em mim. quanto mais praticarmos." Se exigirmos da vida que ela seja de um certo modo. existe apenas a vida em si. É apenas como é. devemos enxergar esse equívoco e estilhaçá-lo. tenho estes e aqueles pensamentos centrados em torno de mim. Isso condiz com filhotes 93 . Isso é muito importante. mais veremos o que antes nos era impossível enxergar. O inevitável é que chega o momento em que passo a acreditar que existe um "eu" central em minha vida. acreditamos que sem eles ficaríamos perdidos e infelizes. a capacidade de a comunicarmos a outros. "eu" tenho estas e aquelas opiniões. é apenas a natureza das coisas. Eu.. ficará evidente o tempo todo. O processo da prática é começar a notar por que não nos damos conta de nossa natureza: é sempre nossa identificação exclusiva com o próprio corpo e mente que temos. no entanto. A seguir. Mas no estado de iluminação não existe "eu". O problema de se falar sobre a "iluminação" é que nossa conversa tende a criar uma imagem do que seja esse estado e. "eu" ouço. Iluminação Alguém me disse há poucos dias: "Sabe de uma coisa? Você nunca fala sobre iluminação. cuja própria natureza inclui -ou é -tudo. "Sem ela. eu. de lhe sermos gratos. uma pulsação da energia atemporal. A vida não é particularmente da maneira como a desejamos. tenho sempre as minhas. Não precisamos dizer nada. o estilhaçar de todas as imagens! E uma vida estilhaçada não é exatamente aquilo pelo que estamos esperando! O que significa estilhaçar nossa maneira habitual de ver a vida? Minha experiência costumeira da vida está centrada em minha pessoa. Simplesmente essa conscientização já é em si um grande passo. Somos como filhotes de passarinho dentro do ninho. No exato instante que tivermos mesmo que seja uma fugaz noção de estar julgando outra pessoa." "A menos que essa situação desapareça. eu é que estou vivenciando as impressões incessantes. acalentamo-los..93 ficar dependentes daquilo que nos é familiar: estarmos separados. é inevitável que soframos. sermos superiores ou inferiores. contudo não basta. sim. Sempre haverá algo que não conseguiremos ver. dharma é simplesmente o que somos. tenho estas e aquelas opiniões centradas em mim. está em sermos nós mesmos. estou perdido. O que não nos impede de desfrutá-la. agradável. um outro estágio (e cada um deles pode custar anos para passar) é observar o que fazemos com todos os pensamentos. eu tenho todas essas vivências da manhã até a noite". exclusivamente. porque ela é sempre apenas do jeito que é e isso significa. a luz vermelha da prática se acende e podemos percebê-la. a prática não é só vir aos sesshins ou praticar zazen todo dia de manhã. não vou conseguir o que pretendo. uma vez que as experiências que vivo parecem centradas em torno do "eu". Poucas vezes questionamos esse "eu". com o "eu". Afinal de contas. eu. Não posso sentir suas experiências de vida. Isso não é nem bom. eu. Não temos de falar sobre dharma.

"Quero que as coisas aconteçam do meu jeito. Sentarmos durante todo um longo sesshin é um golpe formidável em nossas esperanças e nossos sonhos. a pescar. de preferência de dezoito jeitos diferentes. realizaremos sem dúvida a nossa liberdade. Lutamos contra a liberdade e o abandono de nossos sonhos de que um dia a vida acabará sendo exatamente como a desejamos. porque ficamos perdidos entre o que somos e o que esperamos ser. Num certo filme documentário aparece uma mamãe-ursa cuidando de seus filhotes. Porém o processo de alcançar a plena independência (ou de vivenciar que já somos isso) é ser aterrorizante inúmeras vezes seguidas. a subir. Podemos crer que não sentimos inveja da vida dos filhotes de passarinho: fazemos exatamente o mesmo que eles. de pensamentos e emoções genuínos. quero. Ela os ensina a caçar. enfim. de equanimidade. não. fazemos o zazen para entender nosso apego em seus aspectos processuais mais grotescos. certo dia. Depois. em nossas barreiras contra a iluminação. o estado de iluminação: ser apenas a vida. quero dinheiro.. o desapego. Não há fim para ela. Ninguém deseja ser despejado do ninho porque é aterrorizante. o estado de iluminação) é uma vida de quietude. em absoluto. O zazen diário é essencial. Afirmar que não há esperança não é. a liberdade. Quero que aquela amiga seja diferente. A prática é para a vida toda. O que ela faz? A mamãe-ursa apenas vai embora e não olha nem para trás! Como é que os filhotes se sentem diante disso? Provavelmente ficam aterrorizados. quero sucesso. nos abrigará. Por isso é que a prática parece tão difícil.. é. Então. que ela. Quero que minha mãe seja cordata. sempre benéfico à pessoa e aos outros. mas ainda assim está se saindo bem e.. A ausência de esperança (o desapego.. mas o caminho da liberdade é sentir-se aterrorizado. com o passar dos anos. esperando que a vida nos coloque guloseimas dentro da boca. embora mamãe e papai-passarinhos tenham mais liberdade e fiquem voando pelos cantos o dia todo. Em nossos primeiros anos de prática. senão pelo menos de um. e gostaríamos de encontrar um pouco de mamãe-vida em quem nos pendurar. 94 . e digno de toda a incessante devoção e prática que exige. Quando esperamos. O zazen serve para nos libertar para uma vida em que planaremos alto. a fazer tudo que precisam saber para lhes garantir a sobrevivência. Não pode haver esperança porque não há coisa alguma além deste momento. filhotes de urso. todavia diante de nossa teimosia costumamos precisar da pressão de longos períodos de prática do sentar para podermos enxergar nossos apegos. ela os atiça a subir todos numa árvore. estamos ansiosos. uma declaração pessimista. Quero isto de qualquer jeito. praticamos com nossas formas mais sutis (e até mais intoxicantes) de apego e dependência. é provável que esteja se divertindo mais com a vida do que o ursinho que tem de ir atrás da mãe para todo lado. nela. O filhote de urso afastado da mãe durante dois ou três meses pode não ter a força nem a habilidade dela. Somos todos filhotes de passarinho.94 de passarinho. Mas se de fato efetuarmos a prática... quero viver onde gosto." Somos bebês-passarinhos exceto que escondemos nossas ânsias e as avezinhas. enfim. É o fruto da verdadeira prática.

observar o que ele é. como no Sutra do Coração. quando nos aproximamos do Ano Novo. Tenho uma namorada fantástica aqui. não. Por isso. acreditamos que seja um problema. Além disso.95 CAPÍTULO 8 Escolhas Dos problemas às decisões Às vezes. Mas a vida nos parece uma série de problemas. dizem que o que realmente desejam é encontrar uma vida espiritual. ao coração da questão. Isso me leva a duas palavras que se parecem e costumam ser usadas como sinônimos: decisões e problemas. falamos principalmente sobre o que ela não é. O instante em que abrimos os olhos pela manhã tomamos decisões: levanto agora ou fico mais uns cinco minutinhos? Em especial. não creio que a maioria possa definir o que é "vida espiritual". ("Coração" não se refere a alguma característica emocional. recebi uma oferta irrecusável em Kansas City que envolve mais dinheiro". sentimos que esse tipo de comemoração é um momento de virada e não há ser humano que possa considerar esse instante com superficialidade. mas. as pessoas ou estão se divertindo ou enlouquecem. e. mas da perspectiva relativa em que nos encontramos. porque ele de fato não é bom. Essa inquietação de que estamos falando. Essa é uma decisão simples. Às vezes conseguimos combinar os dois estados! É uma época em que costumamos tomar consciência de nossa ansiedade e de nossas rupturas. de decisões. por exemplo: "Mas uma coisa é decidir se vai primeiro ao banco ou ao supermercado. a vida não é senão decisões. esse décimo de polegada de diferença. gosto do clima. mas na maior parte do tempo. na época do Natal. Não há nada de errado nisso. uma vida em que se sintam unidas a tudo e não separadas das coisas. Sentimos 95 . é incrível. Temos um determinado número de viradas de ano no planeta.. é o que estamos fazendo aqui. uma vida de integração e unidade. as pessoas que aparecem no Centro. Apesar disso. Bem. essa separação. Para quem for um pouco sensível. a virada do Ano Novo é crucial. qualquer coisa. à verdade do problema. sim. o que me acontece é realmente um problema de vida". A que isso se refere? Qual é esse décimo de polegada de diferença a partir do qual "céu e terra estão separados".. Às vezes temos vislumbres. Necessitamos enxergar esse décimo de polegada de diferença. Podemos dizer.) "0 homem é o que pensa no coração": conforme vai enxergando a verdade de sua vida é isso que ele é. Por exemplo. algo não parece encaixado. Outro exemplo: "Estou trabalhando em San Diego. pelo menos parte do tempo. Não pensamos que seja só uma decisão. Pode ser que se relacione com seu emprego. em que a totalidade da vida fica perdida (ou assim achamos que esteja)? Do ponto de vista absoluto. quanto mais enxergamos qual é a verdade de nossa vida. Uma passagem bíblica diz o seguinte: "O homem é o que pensa no coração". nada poderia quebrar essa unidade. Há uma famosa passagem da literatura zen: "Um décimo de polegada de diferença e céu e terra estão separados". Da manhã à noite. e como está relacionado com as viradas de nossa vida. vem de como a gente "pensa no coração". devo me levantar e sentar! Primeiro uma xícara de café? 0 que comer no desjejum? 0 que fazer primeiro hoje? É dia livre. mais veremos o que é esse décimo de polegada de diferença. Pode ser que estejamos desempregados. Porém. Todos nos preocupamos com o que fazer para solucionar os problemas. e. Nada de estranho nisso. devo ir ao banco? Ou apenas me divertir? Escrevo ou não aquelas cartas? De manhã até de noite tomamos uma decisão atrás da outra e é normal. ao: cerne mesmo. todo mundo considera a vida um problema. em geral as novas. não. A totalidade essencial da vida nos parece inatingível.

O problema não está do lado de lá. então. ou até certo ponto estou disposto a fazê-lo". ou com outro Só porque gosto dele. pensamentos que se remoem de forma incessante. ela vê que o lugar onde trabalha e o que faz não são um problema. Suponhamos. Volto o tempo todo à experiência direta de meu corpo sobre a verdade desta questão. que eu não sei se caso ou não com um certo homem por causa de seu dinheiro. Não estamos vendo nosso problema como nós mesmos. de repente. o que fazer?" -ficamos sem saber como agir. em vez de Calcutá? Aqui a vida noturna é melhor.96 que não podemos tomar apenas uma decisão. Quando ajo dessa forma. respirando com atenção. é que só não sei quem sou com respeito à situação. É. parece muito cansativo e desagradável. "Mas como é que você faz isso? Eu não faria!" Para mim. Mantenho-me apenas sentado com a tensão e a contração. sentimentos de desorientação? Não estou me referindo a questões sem importância. tomamos alguma decisão e saímos do impasse. por isso farei aquilo. análise. a decisão a respeito de onde trabalhar. então existe algo que desconheço a meu respeito. por isso. As vezes faremos a escolha em favor de algo que. Por exemplo. Quando sei. Por exemplo. mais nossos problemas mudam para: "Sou assim e. Se eu me sentir completamente emaranhado. porque cremos que somos diferentes e que uma pessoa é outra. começa a se modificar o que fazemos com ela. Madre. É nesses momentos que a vida humana fica completamente enrolada e quando surge o décimo de polegada de diferença. o que vemos que nossa vida é. Todavia como ela toma sua decisão? Como chega à decisão de ficar naquela parte infernal de Calcutá onde trabalha? De onde brotou essa decisão? "O homem é aquilo que pensa no coração. imaginemos que se diga a Madre Teresa: "Bem. A partir desse conhecimento tomamos nossas decisões. Portanto. que preciso de qualquer jeito ter isso ou aquilo. 0 que realmente decide uma questão é o modo como pensamos no coração. analiso e remôo. agora e antes de iniciarmos a prática. Então. Contudo. Não me ocorre mais descobrir. do lado de lá." Provavelmente de suas preces. Talvez nem percebamos. sobre trabalhar em outro estado. quando nos acontece algo significativo na vida . que a frase citada tem sentido: "O homem é aquilo que pensa no coração". por que não considerar a possibilidade de viver em San Francisco.“Entro nessa relação?" "Termino-a?" "Se quiser acabar com essa relação. Procedo à sua rotulação e deixo que flutuem até acabar. Quanto mais sabemos quem somos. são uma decisão tão somente. por exemplo. Uma prática séria modifica o modo como encaramos a vida e. Se eu sentar com essa questão. é como sinto que sou e é desta maneira que minha vida quer se manifestar. Há lugares mais bonitos para sair e jantar. em vez de ruminação. Uma forma de fazer com que o problema se transforme numa decisão é sentar com ele. As pessoas querem uma maquininha para tomar decisões e resolver problemas. tomaremos nossas decisões a partir daí. mais conseguirei reduzir minhas necessidades às verdadeiras. um grapefruit. O que devemos fazer a respeito de nossos problemas. se conhecermos cada vez mais quem somos. Não é que eu desista de tudo. Se essa questão alguma vez vier a mim. Entretanto. para os outros. entro mais em sintonia com quem sou e a decisão começa a ficar clara. não há problema. Suponhamos que praticamos o zazen há dois anos. é só que de fato não preciso mais tanto disso ou daquilo. no fundo de meu coração. Quanto mais eu souber quem sou. A 96 . quando algo em nossa vida parecer insolúvel. Preocupo-me. os pensamentos virão flutuando para me aclarar as reservas que tenho ou seja lá o que for. não terei problemas para saber quem escolher. O clima é mais ameno". mas é provável que nos comportemos de diversas maneiras diante de como encerrar uma relação. significa que estamos pensando que existe um problema que nos parece. um objeto. e aí temos um problema. Depois de muitos anos consigo mesma. não é que existe um problema para o qual preciso encontrar alguma solução. como Madre Teresa. O problema está aqui: não sei quem sou. Não podem haver maquininhas fixas. fazer o zazen.

JOKO: Sem dúvida que sim! Porque são pensamentos e estão dentro de minha cabeça dizendo o que está certo e errado. têm uma origem emocional. que é o zazen para a maioria de nós. isso eu não lhe faço". Senão. quer o desejemos ou não. T. que interfere na clareza que deve existir quando olho para mim e para os outros. vamos às perguntas. mais o conhecemos. faço cada vez menos pelas pessoas. Todavia. nossa tendência é ficar confusos. Sendo assim. O sesshin é um meio de impelir-nos para além do plano onde se situa aquela parte de nós que deseja enervar-se com os problemas. não é um sentar inteligente. Elas serão um problema. Claro que esse conhecimento de quem somos é sempre fragmentário. não estou afirmando isso. não por causa de alguma virtude. eu costumava achar que tinha de atendê-lo logo. eu ficava incomodada se essas coisas não estivessem combinando. sabemos quanto é apropriado que o façamos. Então. Mas. sem uma prática persistente e paciente. Não que haja algum problema em se ter uma bela aparência. pelo menos no sentido que costumava. O conhecimento do que precisa ser feito vai de forma lenta se esclarecendo com a prática. incompleto e até mesmo elementar. Não estou me referindo a apenas sentar de algum dos antigos modos. 97 . Isso não é necessariamente ser egoísta. Apesar disso. Quanto mais praticamos. sempre tinha belas roupas. Temos de saber. sem que tudo o mais que está em torno também mude. o que nos é central. Por exemplo. correndo sem parar de um canto para outro. com nosso cerne. No Natal temos dificuldades. Estou dizendo que. os desejos e as indecisões simplesmente se desmancham no ar . As decisões tornam-se apenas decisões: não são mais problemas de dilacerar os corações. Mas com o tempo isso irá diminuir. Embora eu nunca tivesse sido rica. elas interferem. Esse eixo imóvel não é uma coisa. construímos um mundo de fantasia que talvez seja mais prejudicial do que não praticar o sentar de jeito nenhum. porém durante anos a fio eu jamais fui trabalhar sem esmalte nas unhas e batom combinando. Por meio de suas próprias estruturas nos confere. quando os desejos autocentrados são a principal preocupação. então a pessoa terá problemas com suas decisões. S. ALUNO: Parece que. pode ser que exijamos de nós muitos sacrifícios pessoais. veremos cada vez mais que a vida não é problemas nem reclamações. um espaço onde enxergamos com mais nitidez. de onde vem essa capacidade de tomar uma decisão sábia? Vem de uma clareza cada vez maior a respeito de quem somos e do que é nossa vida. Sempre que alguém com uma pequena dificuldade batia à minha porta. Quando enfrentamos uma decisão sobre fazer ou não uma coisa para outra pessoa e dizermos enfim: "Não. o mais importante é o sentar diário. É quase pior fazer isso do que não o fazer. As pessoas que hoje me conhecem não conseguem acreditar. em geral. porque não conseguimos sintonizar com o cerne da questão. Elliot escreveu a respeito desse eixo imóvel em torno do qual o universo gira. necessitando menos. Outras ocasiões é exatamente o que tem de ser feito. pode até ser a melhor coisa a ser feita. tentando realizar os desejos de todo mundo. para nós. são meus pontos de vista pessoais e. os desejos naturalmente desaparecem. Então. Não estou afirmando que nunca devamos nos divertir. Se precisamos de bastante tempo livre é simplesmente assim que vemos a nós e a nossa vida. mantendo-nos na prática. Agora coloco-me em primeiro lugar uma porção de vezes. praticando o zazen. uma vez que muda a preocupação central a respeito do que na realidade se quer para a própria vida. Ao longo dos anos. Às vezes pode ocorrer que nosso sacrifício em nome de outra pessoa seja ruim para ela. mas porque. Porém.97 maioria dos que praticam o sentar por muitos anos descobre que suas vidas se tornaram muito mais simplificadas. Temos de saber o que estamos fazendo. se nós temos idéias a respeito do que é certo e errado. Teremos o desejo de nos divertir na proporção em que esse divertimento for pertinente à imagem de quem somos num dado momento.

sim. devemos usar a vontade para mudá-lo? 98 . quero. "Algum dia vai ficar tudo certo. Todo mundo deseja que a vida aconteça de acordo com nossa imagem. que com a primeira forma dois cenários entre os quais devo escolher um.. que nos impede de ver? Todos têm deveres e obrigações.98 ALUNO: Creio que a resposta é ver a realidade simplesmente como ela é. Quero que seja de outro jeito! Não foi assim que eu planejei. Apenas reconhecer que eu quero tudo: que a minha vida seja de tal jeito e não de outro. E do que consiste esse eu? ALUNO: Raiva. ALUNO: Quando vemos um problema. ALUNO: Temos pensamentos sobre dá-las. Se os víssemos apenas como pensamentos. mas confundimo-los também e os transformamos em problemas. o que cria aquele décimo de polegada de diferença. Esses são todos pensamentos. de preferência de uma maneira confortável. JOKO: Muito bem. as responsabilidades que me cabem. essa representação em termos da prática em si pode não ser tão simples: "Um décimo de polegada de diferença.." o que é isso? ALUNO: Se existe uma coisa que eu planejei fazer e de repente acontece uma outra. quero. Agradável.. nesse intervalo começo a ficar inquieto e a ter pensamentos autocentrados. Mas o que atrapalha o caminho da entrega? Eu. JOKO: Certo. O que é que nos cria esse décimo de polegada de diferença? ALUNO: Queremos coisas. é ótimo. JOKO: Queremos coisas. JOKO: Você sempre sabe quais são elas? ALUNO: Não! JOKO: Então. é uma entrega. certo? ALUNO: Com mais de um décimo de polegada! JOKO: Mais do que um décimo de polegada! Certo? ALUNO: Talvez a diferença tenha que ver com a capacidade de reconhecer o que me compete. Se eu consigo me entregar ao que está acontecendo. JOKO: Então você está com um "problema". Mais uma vez. quero." Quem sabe? ALUNO: Para mim. isso tem muito que ver com aquele décimo de polegada de diferença. Que mais? Plena de esperanças futuras? Não existe futuro. JOKO: E só podemos dar de verdade quando não necessitamos de nenhuma espécie de retribuição. poderíamos voltar ao que precisa ser feito. então não convoco tantas coisas nas quais acabo tropeçando. Certo? Quero.. JOKO: Se realmente conseguimos nos entregar.

derrubou a parede da frente da sala de visitas e empurrou o modelo T até a entrada. funcionando. não amedronta mais. Quanto mais você se familiariza com eles e acompanha a tensão física. 0 que você vê acontecer é em geral sua própria raiva. "O homem é aquilo que pensa no coração. para que haja ilusão de descontração e de espaço. Como diz o ditado. Essa é uma história maravilhosa porque se parece com o que fazemos com nossas vidas. O si-mesmo pode até ter boa aparência. chegando mesmo a impressionar. nem a um professor. Sou só eu. conseguiu deslocar o carro pelo jardim até a rua e. Não tinha a menor idéia da utilidade delas. a coragem para o que precisa ser mudado e a sabedoria para distinguir a diferença. depois de ele estar concluído. Entretanto. numa mostra definitiva de progresso. depois de alguma hesitação. Se você realmente enxergar que os problemas são você. Então. assim. o que fazer para mudar fica evidente. Agora acontece a escolha crucial: existem duas possibilidades de irmos em frente depois de sentir o confinamento e a ansiedade em "nós mesmos". pode perguntar: "O que está acontecendo aqui?". tinha criado um novo e reluzente modelo Ford T. outras pequenas. nem mesmo à Verdade. seus próprios pensamentos. Custou-lhe dez anos encaixar aquelas milhares de peças. nem a: uma prática. entende? Porque o problema não está mais lá. Porém. mas gostava muito de ficar colocando as coisas perto umas das outras e o mistério tornava tudo mais excitante ainda. ALUNO: Isso é a cura? JOKO: A cura? Não existe cura. mais no minuto em que você acolhe a vida e afaz ser você mesmo. temos a incômoda sensação de que nosso si-mesmo (como aquele modelo T) está confinado. Quando enfim terminou o trabalho. nossa tendência é ver cada vez mais o que fazer. Ao termos paciência e praticarmos o sentar. como também faz. Uma delas é fingir que nosso espaço de vida foi na realidade projetado para conter um modelo Ford T. Aí terá desaparecido o décimo de polegada. A outra é constatar que esse "si-mesmo" 99 . quando estamos em contato conosco. Ele age. conquistamos a aceitação para as coisas que não podem ser mudadas. Não é tão misterioso. e então decoraremos as paredes ou criaremos artifícios com espelhos. em vez de considerá-los um problema a ser solucionado. Mas (claro que ele não tinha esposa!) ele tinha construído aquela beleza na sala de visitas! Por isso. algumas grandes. Ponto de mutação Todos querem uma vida de liberdade e compaixão. seu próprio medo.99 JOKO: Você está fazendo menção à diferença entre decisões e problemas. o que está se passando. ele começou seu trabalho. não temos toda a habilidade do mundo para construir esse ser e. Por fim. Não estou dizendo que não se deva jamais mudar as coisas. como é com Madre Teresa. as paredes o estão esmagando. aquele Ford T conseguiu chegar a ser um carro de verdade. Então. fica óbvio se é o caso ou não de tentar alguma interferência. Construímos uma criatura bizarra que chamamos de "eu mesmo". não poderemos enxergá-la." E não só ele é. Infelizmente. Vi no noticiário da TV uma história a respeito de um homem que encontrou inúmeras caixas de peças de maquinários. ALUNO: O que nos leva a querer fazer o que é apropriado? JOKO: Estamos sempre querendo fazer o que é apropriado. uma vida humana em pleno funcionamento. mas ainda se sente incomodado pelas restrições. você só vê o que é. que não pode estar apegada a nada. E saberemos quando é ou não o momento de mudar as coisas. Se estivermos apegados à Verdade. o pórtico tinha de altura meio metro em relação ao nível da rua e ele precisou construir uma rampa até o chão.

o que é velho e antigo deve ser descartado. nossa tendência será diminuir nossas posses. Há muitas tradições que efetivamente encorajam a renúncia de todas as posses materiais. ter um pouco mais de espaço e perspectiva." Nossa mente não importa. Nossas emoções são inócuas a menos que nos dominem (quer dizer. Estes governam nossa vida. Entretanto. começamos a saber que não somos outra coisa senão apegos. ou a nosso mundo mental e emocional. Podemos ter enormes fortunas e não estarmos apegados a ela. Conforme nosso zazen cresce em persistência e em paciência. "Minha mente deve aquietar-se. para ver como funciona. o estágio final da vida humana não é examinar e analisar o si-mesmo. É a dor das paredes que nos confinam que primeiro nos motiva a sair dali. devo levar uma vida inteiramente espiritual e renunciar a tudo o mais". O que poderíamos considerar como renúncia? Podemos renunciar ao mundo material tal como o concebemos. sabemos que é preciso fazer alguma coisa quanto às paredes. Depois pode ser que acreditemos que as coisas que se passam dentro dos pensamentos e das emoções não estão certas: "Eu deveria ser capaz de renunciar a tudo. Só quando alcançamos uma clareza de percepção a respeito de sua verdadeira natureza é que. 100 . o que importa é o desapego em relação às atividades mentais.. em que alimentamos noções como "Devo ser puro. quando na realidade não é preciso que "renunciemos" a nada. e não eliminar. claro. para nossa vida ter outro começo. Sou mau porque penso e sinto assim". assim ficamos sem sobremesa por um certo tempo como uma maneira de aprender algo a nosso respeito. e essa é uma boa prática. Não esperamos mais dar um jeito no que está em volta. aquilo a que estamos apegados. O mais comum é que. de algum jeito. através da mente. É brincar com as noções de bem e mal. a mais nociva está no âmbito da assim chamada prática espiritual. tentando alterá-los. é pôr nossa vida na rua onde pode funcionar plenamente. no meio ambiente. vivendo talvez num lugar remoto e ermo": isso tampouco tem qualquer coisa que ver com renúncia. segundo a tradição. Mas de todas as interpretações equivocadas da renúncia. se ficarmos apegados a elas). Deveria ser capaz de me livrar disso tudo. quando então criam desarmonia para todos. Isso é renúncia? Digo que não.. Isso não é o fim. nossa prática está de fato se iniciando. só precisamos perceber que a verdadeira renúncia é o mesmo que desapego. esse é o ponto crucial da mutação. Os monges conservam. Assim. diferente dos outros. estamos lidando com a questão da "renúncia". Porque estamos confusos e desestimulados sobre nossa vida diária. por fim decidimos que é preciso ir "em busca da Realização. Na prática. O primeiro problema da prática é ver que estamos apegados. uma pequena caixa contendo poucos pertences necessários. É como se pensássemos que a refeição noturna não fica completa sem a sobremesa. preocupando-nos com eles ou conosco. Costumamos pensar que. Muitas vezes sentimos que. É um grande progresso o simples fato de deslocar o carro até o pórtico. O processo da prática é ver até o fim. Isso também não é renúncia. Nesta altura (quando começamos a examinar o carro. Então. Alguns realizam um esforço final. A maioria das práticas fica emaranhada nessa área de envolvimento entre nós e nossos ambientes. sagrado. embora seja uma prática útil. o que devemos fazer para propiciar um ponto de mutação? Consideraremos a idéia de "renúncia". mudamos o modelo Ford T de lugar para que possamos examiná-lo: levamos o si-mesmo para fora.100 constrito deve ser deslocado para outro lugar. nunca limpamos um apego dizendo-lhe apenas que se vá. onde ele possa receber um pouco mais de luz. em vez disso. se tivermos visto afundo a natureza do apego. esse si-mesmo que construímos). até chegarmos a um espaço arejado e iluminado. Isso é uma maravilha se compreendermos o que significa. podemos ter quase nada e sermos muito apegados a isso. mas não necessariamente. o que é renúncia? Ela existe mesmo? Talvez possamos esclarecer melhor a questão considerando agora um outro termo: "desapego". se nos preocuparmos com os acontecimentos superficiais de nossas vidas.

sabendo que pode ser difícil e que a dificuldade não é o problema. indo de um lado para outro com sua vassoura. a liberdade. e assim ficaremos sem ver que nossa vida em si é a jóia. Ao prosseguir com nosso zazen de hoje tenhamos em mente a questão central: a prática do desapego. Quando começava a falar sobre dharma. e uma vida realmente espiritual é apenas a ausência disso. Diante dessa falha. Em cada visita. Como um castelo de areia por onde as ondas passam. a jóia. Porém. e. vigoroso. a espontaneidade.101 de maneira silenciosa e imperceptível. nos escapa. Se somos apegados a qualquer coisa. na parte sul da Califórnia. tampouco verdadeiramente amorosos. mesmo que fosse por sete dias a cada ano. foi a minha. Como tantos outros que começaram a prática zen com Yasutani Roshi durante tais visitas. "Estudar o ser é esquecê-lo". ele se desfaz aos poucos e por fim. luminoso e comum. Hakuun Yasutani Roshi começou uma série de visitas anuais para pregar o dharma nos Estados Unidos. Quando se chega ao dharma de verdade. Se olhássemos em seus olhos durante uma entrevista formal. Enquanto mantivermos qualquer imagem de como devemos ser ou de como os outros devem ser.. trata-se da inteligência de ver qual é sua verdadeira natureza. Era espantoso. Um homenzinho miúdo. Não precisamos nos livrar de nada. suave. comendo cenoura. Os apegos mais difíceis e insidiosos são aqueles que pensamos serem as verdades espirituais. Qual será? Uma vida de liberdade e compaixão. todos os anos. e devo acrescentar que. nas palavras de Dogen Zenji. naquele espaço aberto havia a cura total. precisamos tomar cuidado para não buscar a jóia no lugar errado. estamos apegados. e ver o que ele era: humilde. Entretanto. Quando entrava no zendo. Irradiavam-se dele liberdade. Fora do zendo ele era apenas um homenzinho igual a todos. Nossa forma habitual de falar a respeito é considerá-la uma questão de ficar sozinho para poder ir onde quiser e fazer tudo o 101 . e apresentava algumas dificuldades físicas. veríamos que ali não existia nada. mas já perfeita. onde está? O que era? A questão não é como nos livrar de nossos apegos ou renunciarmos a eles. talvez ainda em estado bruto. completa e inteira. ele some. contudo o problema é que não sabemos como vê-lo. a devoção total. Entretanto. comecei a praticar intensamente com ele. Duas qualidades em Yasutani Roshi impressionaram-me profundamente. curvado. no resto do ano. Sua presença em si revelava o dharma: não se podia esquecêlo depois de tê-lo visto uma só vez. de alguma forma. entrando na sala. seu vazio. perto dos oitenta e tantos anos. É uma coisa complicada falar de liberdade. ficava atenta para ver se ele conseguia chegar até o lugar em que se sentava. de calças enroladas. ao mesmo tempo. nem o fato de precisar de intérprete. eu não conseguia acreditar! Era como uma corrente elétrica percorrendo a sala: a vitalidade. fora de nós. ele é muito simples e sempre disponível. por sete dias. ter a oportunidade de estudar com ele. porque ele era muito humilde. Prossigamos com persistência e cuidado. Cada um tem sua escolha. Aqueles sesshins eram bastante difíceis para mim. não podemos ser livres. era como um espaço de milhares de quilômetros vazios. espontaneidade e compaixão. O apego àquilo que chamamos de "espiritual" é a própria atividade que detém uma vida espiritual. continuava meu zazen por conta própria. espontâneo -era o suficiente para manter-me nesse caminho. a jóia que todos nós buscamos com nossas próprias práticas. Eu diria que ele era. conduzia sesshins que duravam uma semana inteira. Ele adorava cenoura. Não importava o que ele dizia. se alguma vez houve uma prática confusa. sua impermanência. Ele já era muito idoso quando o conheci. ou o quê? Fechar a porta Na década de 60. sua fugacidade. Yasutani Roshi foi minha primeira experiência do que é um verdadeiro mestre zen e foi uma experiência de muita humildade..

Dedicamos quase todos os nossos esforços à manutenção e à proteção da estrutura de ego criada a partir da ignorância de que "eu" existo em separado do resto da vida. em lugar de evitar tais sensações. nossa dor. Por medo e arrogância. de não ser como todo mundo. sentindo o calor e a pressão. A dor vem de se experimentar a vida tal como ela é. Não estou afirmando que a pessoa deva se comprometer com qualquer relação que lhe passe pela frente: seria loucura. Insisto que nossa prática é o compromisso com a experiência de cada momento. Isso exige um comprometimento total de nossa vida. mas. sofremos. Ficamos esperando que algo "do lado de lá" nos dê liberdade para que. por isso. Um dos aspectos importantes de nossa prática é olhar com honestidade para este processo constante de esperanças e de temores. O zazen. construímos uma estrutura de ego para proteger-nos e.sem reter nada e sem qualquer idéia de fugir. e atravessá-la de frente até a liberdade. Quando vivenciamos. seja doloroso ou agradável. arrogância. ela continuará agindo à base do medo e da arrogância. Contudo. Orgulho. cobiça. seja ele qual for. alegria. Todos nós fazemos isso. podemos causar sofrimento a nós e a outros. As pessoas costumam imaginar que a prática será agradável e confortável. apegamo-nos a todos os tipos de atitudes e julgamentos autocentrados e. Gostaria de traçar uma distinção entre a dor e o sofrimento. Por causa do medo da dor. Para tanto é preciso fecharmos a porta que tanto gostamos de manter aberta. se estivermos em uma situação desagradável e restritiva. Precisamos acolher a infelicidade. não nos importando com o que vier a cada momento. caem por terra as paredes seguras da estrutura do ego. quando esses elementos são aceitos como parte do compromisso. não haverá sofrimento. a prática zen tem fases que não são nada agradáveis. Quando duas pessoas se comprometem entre si. para encontrar uma outra coisa em algum lugar. sem artifícios. Permanecendo sentados 102 . nos coloca sob situações de calor e pressão. fazer dela nossa melhor amiga. Podemos ser arrogantes a respeito de qualquer coisa: nossas conquistas e nossos resultados. há alegria. criamos todas as espécies de infelicidade para nós e para os outros. O que nos leva a outra palavra difícil de ser comentada. Podemos até chamá-la de vivenciar a alegria de modo direto. até mesmo nossa "humildade". sem exceção. em certo sentido estão fechando a porta à sua oportunidade de fugir ao calor e à pressão que são parte dessa relação. Precisamos tomar consciência dessa estrutura e ver como ela funciona. Precisamos estar dispostos a andar pelo fio da lâmina. quando estão no início. lá fora. A liberdade consiste em arriscarmonos como vulneráveis perante a vida. estando ali simplesmente. se não entendermos a relação entre dor e liberdade. porque -muito embora seja artificial e não constitua nossa verdadeira natureza -a menos que a compreendamos. sem ele. nossos problemas. compromisso. na íntegra. e para todos os esquemas que são um reflexo de nossa ausência de comprometimento com a vida. o que pode ser confuso e doloroso. Quando nos sentamos com este momento.102 que der vontade. é a experiência do que surge em cada momento. o calor e a pressão favorecem o crescimento e o relacionamento floresce. Liberdade e comprometimento são intimamente vinculados. Porém. é a chave da liberdade. dessa forma. A vivência física da confusão e da dor. vamos desbastando as fantasias que temos a respeito de sair correndo pela porta. de escapar à experiência desagradável do momento. dor. Por arrogância entendo o sentimento de ser especial. Mediante nossa prática. Essa jóia da liberdade é nossa vida tal como ela é. dar-lhe as costas e ficar de frente para quem somos. quando tentamos fugir e escapar de nossa experiência de dor. num casamento.. como o compromisso matrimonial. não tente manipular o que nos aparece com o zazen. Isso é comprometimento e. Quando formos capazes de dar-nos por inteiro. possamos deixar uma porta aberta por onde passar correndo em busca de novas esperanças e de liberdade. sofremos. A liberdade está intimamente ligada à nossa relação com a dor e o sofrimento. Podemos dizer até que a primeira coisa que devemos fazer com o zazen é casarmo-nos com ele. Fechamos a porta e sentamo-nos silenciosamente para a prática do que é. Mas. não há liberdade.

nosso projeto.103 com tanta presença e consciência quanto for possível. seu último aniversário. Com a cabeça da mãe na mão. anos depois. deve me pôr sempre em primeiro lugar. não se apresse. agora que estamos comprometidos um com o outro é evidente que você deve ser de um certo jeito: deve amar apenas a mim. Podemos sentir que já estamos comprometidos com um trabalho ou uma pessoa em particular. Podemos dizer também: "Uma vez que estou comprometido. Se ao acordar de manhã. Nosso comprometimento ficará desprovido de força e de resolução a menos que nos fiquem claros seus votos básicos. bens e. mas o verdadeiro comprometimento é algo mais profundo. meu filho. Certo dia o poço foi coberto e esquecido até que alguém. feche a porta ao dualismo e se abra para a vida tal como ela é. mais vemos aquilo que necessita ser feito. É uma coisa engraçada. Na verdade. as nascentes tinham deixado de enchê-lo e o poço estava seco. nossos lucros. o que exige comprometimento. "O que quer 103 . e ficarmos secos. mas estava tão alucinado com a idéia de sua paixão pela moça que mal podia aguardar para cumprir o seu pedido. nossos compromissos são. correu até sua casa e decepou a cabeça de sua mãe. o objeto que possuímos. unir. corria de volta pela rua o mais rápido possível. devemos intuir cada vez mais a natureza da realidade. Comprometimento e verdadeiro amor são irmãos gêmeos. nosso negócio.". Ela. deve passar a maior parte de seu tempo comigo. escreveu: "As colinas ficam mais altas". Essa história fala do amor materno imorredouro e de seu comprometimento inabalável. Quando partilhamos de verdade o que temos: tempo. o destampou. costumamos pensar mais ou menos o seguinte: "Bem. Se estamos comprometidos com o trabalho. Ponha o pé fora da cama e vá. conectar.abrir cada vez mais. os apegos terminarão com o tempo. ou podemos nos conter e segurar. porque não conseguia esperar o momento de estar de novo com sua amada. devo ser de uma certa maneira no que se refere a esse compromisso". Em nossas noções habituais de comprometimento. Compromisso Havia. A palavra "comprometer" vem do latim committere.. Se sentir preguiça durante o trabalho. não só com a cabeça. que significa pôr junto. quando a cabeça lhe falou: "Por favor. nós. mas malvada. aos nossos olhos. Nas relações. uma mescla de nossa natureza Buda -aquela parte de nós que pode dizer. tornamo-nos possessivos: é nosso trabalho. certa vez. Significa entregar uma pessoa ou uma coisa aos cuidados de alguém.. O rapaz amava a mãe. como a mãe daquela fábula. Quando Yasutani Roshi estava com 88 anos. Há a história de um poço que era alimentado por pequenas nascentes que sempre forneciam seu suprimento de água. No zazen. confiar. você não quiser ir até o zendo. Quanto mais claramente virmos que não há nada que precise ser feito. o mais importante. cedendo e sumindo. por isso disse-lhe: "A única forma de eu me comprometer com você é você decepar a cabeça de sua mãe e trazê-la para mim". você pode cair e se machucar". feche a porta para as críticas e a falta de delicadeza. o objeto dele se torna. feche a porta para isso. Acontece a mesma coisa conosco: podemos nos dar e nos. Muito devagar. Porque ninguém nunca mais tinha ido ali para buscar água. um rapaz que estava perdidamente apaixonado por uma moça linda. Então. Em nossas noções costumeiras do que seja um comprometimento. em geral. nossa vida flui com facilidade. que dizem respeito a um comprometer-se com todos os seres sensíveis e não apenas com alguns em especial. um investimento que deve retornar nas formas de segurança e felicidade. Agarrou-a pelos cabelos e correu noite adentro. feche a porta para ela e faça o máximo. A prática zen é fechar a porta para uma maneira dualista de ver a vida. mas também com a barriga: o que somos e o que são todas as coisas. a vida se nos revela como alegria. Para entender o comprometimento. queria que ele não tivesse outros pensamentos senão para ela. ao aprendermos a vivenciar nosso sofrimento em vez de fugir dele.

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que você faça, eu te amo, e desejo o melhor para você", e a outra que fala: "Comprometo-me com você desde que...". Que tipo de desde que venenoso é esse! O verdadeiro comprometimento e o verdadeiro amor não têm desde que. Não se abalam com as circunstâncias transitórias. Como escreveu Shakespeare: "O amor não é amor se se altera quando encontra alteração". O comprometimento não pode ser forçado por resmungos, raiva, greves, quaisquer manobras destinadas a agradar, embora coloquemos todas essas táticas em prática. Não pode ser forçado de modo algum. Para aprofundarmos nosso comprometimento, devemos ser testemunhas de nossas manobras e nossos truques, testemunhas de nossas tentativas sutis e ostensivas de obter o que desejamos, que é sempre segurança e certezas. A mãe daquele episódio certamente não estava segura, nem tinha certezas: tinha apenas sua cabeça. Todavia, mesmo na morte, desejava o melhor para o filho. Claro que não somos assim. Somos humanos. Eu jamais diria a uma pessoa: "Apenas comprometa-se com alguém e comece a lutar daí em diante". Mesmo se passarmos meses e anos para decidir que aquela "é a pessoa", talvez só comecemos a nos comprometer. Estamos enganando aos outros e a nós mesmos se pensarmos que, porque fizemos algumas promessas, estamos comprometidos. No comprometimento fechamos a porta. Uma vez que não somos Budas realizados, não podemos ou não queremos nos comprometer com qualquer um. No entanto, após muitas hesitações e preocupações, finalmente nos comprometemos com algo ou alguém. Depois de termos feito isso, precisamos fechar a porta do forno e cozinhar. Comprometimento significa que não deixamos preparada uma saída de emergência. Qualquer casamento, qualquer relação de compromisso, inclusive o comprometimento com nossos filhos, com nossos pais e amigos, é relativo a este tipo de escolha. Quando "fecharmos a porta" seremos felizes? Uma parte do tempo, mas essa não é a questão. A questão do comprometer-se não é se o compromisso nos agrada ou não. Parte do tempo, sim, claro, porém não contemos com isso. O comprometimento nem sempre é com outra pessoa. Podemos nos comprometer a ficar sós. Para a maioria das pessoas, esse comprometimento é uma boa prática, pelo menos de vez em quando. Talvez nos comprometamos a ficar sós durante seis meses, um ano, cinco anos. Poucos são os que vêem o ficar só como apenas o ficar só; vêmo-lo como solidão ou infelicidade. No entanto, não me refiro a alguma espécie de retiro em uma caverna. Refiro-me ao ficar só que podemos praticar enquanto nos devotamos a tudo e a todos. Se realizarmos essa prática, devemos ser honestos no que tange às limitações que acompanham tal comprometimento. Ninguém quer se devotar a tudo e a todos. É uma prática visceral, exigente, que nem todos estão com pressa de realizar. Jesus disse: "O que tiveres feito ao menor de meus irmãos te-lo-ás feito a mim". Não podemos nos comprometer com mais nada e mais ninguém, a menos que estejamos comprometidos com tudo. Isso não significa que tenhamos de gostar, ou que possamos fazê-lo por completo. Mas essa é a prática. É importante que cada um reconheça o que, em sua própria vida, é "o menor". Pensamos de imediato naquelas pessoas que são muito pobres. No entanto, "o menor" refere-se ao "menor" em mim, em você. O que é menor para você? A que em sua vida você tem o menor interesse em servir? Para a maioria, "menor" são certas pessoas de quem não gostam ou com quem têm dificuldades: as pessoas consideradas descartáveis. "Menores" podem ser também as pessoas a quem tememos, as que nos intimidam. Num nível mais sutil, podem ser aquelas que sentimos que devemos instruir, iluminar ou ajudar. Vocês podem retrucar: "Sejamos realistas. Como é possível que eu me devote a alguém a quem não posso suportar? Para dizer a verdade, quando fico a menos de um metro dele é demais". Como fazer isso? Bem, aprendemos a praticar com essa situação. O que implica uma absoluta honestidade para conosco: reconheceremos que não gostamos daquela pessoa e não queremos ficar próximos dela, e, claro, observaremos todos os pensamentos emocionais em torno dessa relação. Adotamos

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também a mesma abordagem quanto aos nossos empregos. Há os que trabalham em tarefas que julgam inferiores a si (não importa o que isso quer dizer). "Tenho grau universitário. Por que é que fico pondo caixas em prateleiras? Como dedicar-me a uma tarefa tão insignificante?" As pessoas desejam que a prática seja gostosa, fácil. Não é difícil dizer: "Oh, estou comprometido com o mundo, com o dharma". Mas isso é muito difícil de fazer. O mundo, o dharma, nos é revelado em cada criatura e em cada coisa que encontramos. Estaremos comprometidos com aquele transeunte vomitando na sarjeta? Estaremos comprometidos com o caixa que acabou de nos devolver troco a menos, ou com aquela pessoa com pose de superior? Uma vez que somos de natureza búdica, verdadeira, sabemos que a alegria é nosso direito de nascença. Onde está ela? Está nos esperando na própria prática que estamos mencionando. Somente através dessa prática é que podemos entrar na alegria e no verdadeiro comprometimento com nosso trabalho e nossas relações, a totalidade de nossa vida. Uma vez que nossas principais dificuldades são com as pessoas, não falamos tanto quanto poderíamos a respeito de nossos comprometimentos (sua falta) com os objetos. Por exemplo, se mantemos nosso quarto numa bagunça total, não estamos comprometidos. Estamos indicando que existe algo mais importante do que os objetos que são nossa vida. (Fui criada por uma mãe perfeccionista e, durante muitos anos, revoltei-me contra essa pressão fazendo-me de tão desmazelada quanto pude). Não estamos falando também da organização neurótica. Não obstante, nossa prática deve acolher todas as pessoas e coisas, cada gato, cada lâmpada, cada pedaço de lixa, cada hortaliça, cada fralda. Se não tomarmos muito cuidado, então não saberemos o que é o comprometer-se. O comprometimento não é algo que aconteça por acaso; é uma capacidade que cresce como um músculo: sendo exercitada. Não pretendo estar estipulando uma outra série inédita de mandamentos. Não falo muito sobre os Preceitos porque as pessoas os interpretam de modo equivocado: "Devo ser organizada. Joko diz que eu devo". Mas precisamos levar em conta nossa tendência para atirar as coisas para todos os lados, para deixar que se queimem sem necessidade, para pôr no prato mais do que precisamos comer. Por quê? Se nosso comprometimento não for total, então o que chamamos de nosso compromisso de casamento, nosso compromisso com os filhos, com o trabalho, com a prática, com o dharma, estarão sendo minados nas bases. "O que tiveres feito ao menor de meus irmãos, te-lo-ás feito a mim." Se quisermos conhecer a alegria, não podemos dizer "Ah, eu sou simplesmente despreocupada". Nossa prática sempre é "o menor". O comprometimento é um funcionamento. Porque evitamos o funcionamento, a testemunha tem de ser tão afiada quanto uma tacha. Não me interessa a quantas experiências de iluminação vocês se apaguem. Não há nada além da vida diária. Esta mesa é o dharma. Ontem estava empoeirada. Hoje está limpa. Estamos chegando ao fim deste sesshin, mas não se enganem: o sesshin mais difícil inicia-se, quando vocês retomarem seus horários normais.

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CAPÍTULO 9 Serviço
Seja feita a vossa vontade
Muitos aqui assistiram esta semana a um documentário de televisão sobre a vida e a obra de Madre Teresa. Há quem a chame de santa. Duvido que esse título signifique alguma coisa para ela; mas o que considerei mais extraordinário foi que ela apenas ficava fazendo a próxima coisa, a próxima coisa, a próxima coisa, totalmente absorta em cada tarefa. É o que precisamos aprender. Sua vida é seu trabalho, é fazer cada tarefa com uma entrega irrestrita, um momento após o outro. Nós, americanos sofisticados, temos dificuldade para compreender tal modo de vida; é muito difícil e, no entanto, é nossa prática. Não a minha, mas a Vossa vontade seja feita. Isto não significa que Vossa seja outra coisa que não eu mesmo, contudo é o outro no seguinte sentido: minha vida é uma forma particular, no tempo e no espaço, porém, a Vossa Vontade não é tempo nem espaço e, sim, seu funcionamento; o crescimento de uma unha, a purificação que o fígado realiza, a explosão de uma estrela -a agonia e o êxtase do universo. O Mestre. Um dos problemas inerentes a algumas práticas religiosas é a tentativa prematura de seus adeptos de levarem uma vida na qual "seja feita a Vossa vontade", antes de terem chegado a uma compreensão das suas implicações. Antes, que eu possa entender a Vossa Vontade, devo começar enxergando a ilusão da minha vontade. Preciso saber com a máxima clareza possível que minha vida consiste em "eu quero", e outro "eu quero" e mais "eu quero" ainda. O que eu quero? Quase tudo: às vezes, coisas triviais, em outras, coisas "espirituais" e (mais comumente) desejo que você seja do jeito que eu imagino que você deveria ser. Surgem dificuldades na vida porque eu quero algo que, mais cedo ou mais tarde, colidirá com o que você quer. É inevitável que se sigam dores e sofrimentos. Quando observamos Madre Teresa, é óbvio que, onde não existe eu quero, existe alegria; a alegria de fazer o que tem de ser feito, sem qualquer pensamento eu quero. Um aspecto que ela assinala é a diferença entre o trabalho que a pessoa faz e sua vocação. Todos nós temos um trabalho, como médicos, advogados, alunos, construtores, encanadores, mas essas ocupações não são nossa vocação. Por quê? O dicionário revela que "vocação" deriva do latim vocatio, convocar, chamar. Todos nós (independente de termos consciência ou não) somos chamados ou convocados por nosso Verdadeiro Eu (Vossa Vontade); não estaríamos num centro Zen se não existisse alguma coisa se mexendo em nosso íntimo. A vida de Madre Teresa não é servir aos pobres, mas corresponder ao chamado, à convocação. Seu trabalho não é servir aos pobres; essa é sua vocação. Ensinar não é meu trabalho, é minha vocação. O mesmo vale para vocês. Na realidade, nosso trabalho e nossa vocação são a mesma coisa. O casamento, por exemplo, implica muitos tipos de trabalho (ter dinheiro, cuidar de filhos e de uma casa, servir ao parceiro e à comunidade), porém a vocação do casamento permanece como o Mestre. É nosso verdadeiro eu, nosso chamado, somos nós nos convocando. Quando tivermos clareza quanto a quem é o Mestre, o trabalho fluirá com facilidade. Se não tivermos clareza, nosso trabalho sairá imperfeito, nossas relações ficarão defeituosas, toda situação da qual participamos ficará complicada. Vamos todos adiante, esfuziantes, fazendo nosso trabalho, mas pode ser que estejamos cegos para qual seja nossa vocação. Então, como nos tornarmos menos cegos, como reconhecermos nossa vocação, nosso Mestre? Como entender "Seja feita a Vossa vontade"?

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Se você tem três ou quatro filhos com menos de seis anos. com as nações. paralisados pela ansiedade e pela inquietação. É errado deixar as cozinhas sujas. Por exemplo. Por outro lado. nossas crenças conceituais (as minhas) aos poucos enfraquecem. O outro lado não é sempre a minha. dores e decepções. a menos que você seja o tipo de mãe que pensa que uma cozinha reluzente é mais importante do que a família. Observo. começamos a ver quem é o Mestre. por isso. "As cozinhas devem ser limpas. não tenho o menor interesse em executá-la. mas seja feita a Vossa vontade. que aliás. Claro que não estamos sequestrando aviões. O que é necessário. procuro meios para limpá-la. a vida que na verdade desejamos. vamos supor que tenho um conceito: a cozinha deve ser limpa." Para corresponder aos conceitos acabamos com a família. Desejo fazer só o que eu quero praticamente o tempo todo. 107 . resistência. No entanto. Todavia. deixa para lá. e não brotou da percepção de uma necessidade. e sim sentarmos com nossa raiva. a ação pode ser ditada por nossa "mente falsa": a mente de opiniões. Todas as guerras baseiam-se neles. tratamo-la de modo preconceituoso. o nível de limpeza da cozinha será provavelmente ditado pelo fato de ter ou não crianças pequenas na casa. Bem. Ela faz aquilo que lhe dá as maiores alegrias. temos uma ação que foi produzida por um conceito. Alguns aqui cresceram em famílias iguais a essa. com tanta clareza. não quero nada que me seja desagradável. é que poderemos enxergar o outro lado. afastada. quero sucesso. A mente falsa é ditatorial. num sentido mais sutil. presença e consciência possível. Por causa dele. Essa ação foi ditada pelo input sensorial e não é manipuladora. O que ela absolutamente não é. somos todos manipuladores e realmente não queremos ser assim. O primeiro consiste em reconhecer com honestidade que eu não quero fazer a vossa vontade. mas como a Verdade. algo está indo para trás. vivemos numa família na qual ter uma casa limpa domina a vida doméstica. Devagar. por exemplo. ao longo dos anos. está certo tê-lo. uma lenta modificação no nível celular vai nos ensinando que é outra coisa.107 São necessários dois estágios de prática (e hesitamos entre ambos). prazer. quando o conceito não é visto como tal. em alguma ideologia que uma certa nação afirma ser a verdade. Sem trocas Qual é a diferença entre uma vida de manipulações e uma sem manipulações? Como alunos do zen é provável que não pensemos em nós como pessoas manipuladoras. No entanto. Por um lado. Algumas pessoas gostam de considerar a prática zen como uma realidade esotérica. conforme o tempo passa. ao mesmo tempo. Esse senso do eu quero está presente em cada célula de nosso corpo e nos é impossível conceber uma vida sem isso. saúde e mais nada. Por exemplo. quando. Mas. curvo-me. nossa ação pode advir do input sensorial que nossa vida recebe. Todas as vidas contêm problemas: ou será que nos são oferecidas oportunidades? Somente quando tivermos aprendido como praticar e pudermos escolher não nos furtar às nossas oportunidades. O conceito não é visto apenas como um conceito. fantasias. Cada vez mais a Vossa vontade e a minha vontade se tornam una. estará se consolidando um segundo estágio: vai crescendo em nossas células o conhecimento de quem na realidade somos e. com tudo. em vez de abrir-se para a necessidade percebida. Não tenho pena de Madre Teresa. Tenho pena de todos nós que estamos encurralados e cegos numa vida na qual minhas vontades sejam feitas. a pequena mente que encontramos quando sentamos. Imaginemos que ao ir de um lado para o outro na cozinha deixo cair um cacho de uvas no chão. está ótimo que a cozinha fique limpa. Nesses casos. em separado. Consideremos duas maneiras pelas quais podem se desenrolar as ações em nossa vida. o chão não será imaculado. ao praticarmos o sentar com paciência. desejo conseguir só o que eu quero. Sem que precisemos nos ater a ponderações filosóficas. Uma vida inteira de prática. por alguma razão não apreciamos determinada pessoa e. Por isso. sempre querendo forçar o mundo a cumprir o conceito. colho. desejos.

parte alguma de nosso comportamento está livre da expectativa de uma troca. se somos compreensivos perdoamos ("Afinal de contas. (O que talvez não tenha nada que ver com ser altruísta. estado de saúde razoável. Trungpa Rinpoche escreveu que: " As decepções são a melhor carruagem para usarmos no caminho do 108 . Raramente temos aquilo que esperamos. sossego. será que ele não poderia ao menos notar? Esperamos algo em troca. o que esperamos em tudo? Alguém deverá notar como tenho sido paciente! Estamos sempre procurando uma retribuição. Esperamos que aquela pessoa corresponda a nossos conceitos pessoais. se você vende bananas e dou-lhe dinheiro. que está obcecada com a execução de toda e qualquer medida capaz de proteger o eu com conceitos que promovam seu prazer e conforto. Se pensarmos que na realidade ele existe. a nosso ver. cujo propósito seja corresponder a meus conceitos. esperamos uma retribuição. eu quero. Pode ser que desejemos aprovação. mesmo que represente importunar e obrigar os outros a conseguirmos atingir nosso alvo. vemos com mais clareza que quase tudo que fazemos tem uma expectativa de troca por trás -a percepção mais dolorosa. Transformamos a vida "do lado de lá" em algo que participa de uma barganha. Queremos fazer com que a vida se encaixe em nossos conceitos. uma forma sutil de seqüestro.108 quando a ação é regressiva. e acreditarmos que seus conceitos são a Verdade. certo? Estamos dando alguma coisa. Se tivermos paciência diante de uma situação difícil e segurarmos a língua ("Sabe. amor. então nos esforçamos para cumprir esse mandamento. É uma barganha. "Fiz tudo por você. "Eu quero. O que isso quer dizer? Nosso sofrimento está fundamentado numa falsa noção do eu. O mundo não consiste em objetos "do lado de lá". o que deveríamos receber em troca? Muitos dos jogos entre pais e filhos se dão nessa área. excitações. eu quero. sucesso. Nas trocas comuns. Em troca do que fazemos. eles não são o problema em si. O "eu" é apenas uma pessoa que acredita que seus conceitos são a Verdade. Quando damos um presente. tratamento especial. esperamos em troca reconhecimento. importância. Quando as expectativas não se cumprem -quando não conseguimos aquilo que desejamos -temos o ponto no qual a prática pode começar. esperamos uma troca por isso. chegaremos a ver que toda expectativa de retribuição é um erro. Quando vivemos dessa forma. nenhuma ação. sentimos que é nosso dever satisfazer seus desejos." Sempre queremos porque estamos tentando tomar conta desse conceito que é. Com o tempo. Se dou alguma coisa. Precisamos de conceitos para poder funcionar. Mas o jogo em que entramos quando esperamos algo em troca de nossos atos não é bem este. espero em troca uma outra. torna-se manipuladora. eu quero. num eu composto por conceitos. Quando executamos uma ação. onde está a troca? Se entramos numa organização. e você é tão ingrato!" Essa é a "troca": a mentalidade manipuladora. então começamos a sentir a necessidade de protegê-lo. Pensar que uma cozinha precisa ser limpa não é a verdade: é um conceito. Se fizermos algo por ela. se eu dou um presente de tempo. mas eu sou mesmo muito paciente"). iluminação. Se trabalhamos para uma organização. esperamos um retorno.) Nenhum ato. onde está a outra metade do jogo. O problema aparece quando acreditamos que eles são a Verdade. o "eu". duas palavras governam o universo: eu quero. Por exemplo. gratidão. A mente falsa lida com trocas. dinheiro ou esforço o que espero em troca? O que vocês esperam? Talvez eu sinta que tenho direito a um pouco de. Por exemplo. organizaremos tudo para que essa seja a impressão que iremos causar. se desejarmos dar a impressão de sermos altruístas. o que é que esperamos? Se nos sacrificamos. até poderíamos pôr um sinal de que é dinheiro. Se praticarmos por tempo suficiente. Se olharmos de fato. Ou. qualquer um iria explodir. todo mundo sabe como ela é difícil"). veremos que o eu quero está governando nossa vida. terei bananas e é uma troca legítima. não com a experiência. estamos sendo nobres. Se pensamos que uma cozinha precisa ficar limpa.

ele tem a finalidade de nos frustrar! É inevitável que nos cause alguma dor. Jurou que embora não tivesse emprego nem esposa iria conseguir aquilo que realmente importava: a iluminação. amargo. proveitoso é justamente o momento em que podemos ser a decepção e. não era alguém que desistia com facilidade. Quanto mais cientes de nossas expectativas. Joe. mas. e nada mais. Mas Joe. é fácil nos confundirmos. Sua vida era igual à de todo mundo. Depois de um sesshin curto como o que tivemos no último final de semana. A ação que vem da mente falsa das expectativas. à cobiça. porém as pessoas que melhor aproveitam o sesshin são em geral as que não participaram de muitos. Desempregado. encontrou uma carta da esposa na qual dizia: "Para mim chega. não é manipuladora. Ele estava muito dedicado ao estudo do dharma e. Ao recusarmo-nos a trabalhar nossa decepção. Sentar todo dia é nosso pão com manteiga. sabido. o conteúdo básico do dharma. nossa guia infalível. Mas se já atingiram no estágio da raiva. Ia para o trabalho e tinha uma boa esposa. era tanto desse jeito que um dia. sabem muitos truques sutis para evitar a coisa toda. seus desejos. por isso. é gratificante para mim ver como as pessoas ficam mais suaves e abertas. antes de produzirem raiva. Foi desta maneira que ele ficou com o apartamento. mas é claro que ninguém gosta de amigos assim. não ficam com raiva tantas vezes porque vêem suas expectativas. Mushin. O "eu quero" foi frustrado. Uma vez que a vida diária se movimenta com rapidez. do "eu quero". mental ou física. O momento de uma decepção é um presente de vida incomparável que recebemos muitas vezes por dia. Esse presente sempre acontece na vida das pessoas. caso não estejamos dispostos a tanto. tinha um nome budista: Mushin. numa cidade chamada Esperança. mais veremos nossa ânsia de manipular a vida em vez de vivê-la tal como ela é. Fui embora". Assim Joe saiu. Nosso alerta para entrarmos em prática. porque não tem trocas. Foi até a livraria mais próxima. é o momento em que ficamos aborrecidos. O sesshin é apenas a recusa de corresponder a nossas expectativas! Do começo ao fim. A vida da compaixão não é manipuladora. porque o único meio de transformar o "eu quero" em "eu sou" é vivenciando as próprias decepções e frustrações. é uma experiência prolongada de "não foi bem assim que planejei!". recorremos à raiva. seu patrão lhe disse: "Basta. à crítica. a frustração e o desejo de que tudo fosse de outro jeito. Procurou nas edições mais atualizadas 109 . os sesshins os atingem em cheio e. A decepção é nossa melhor amiga. decepcionados. Os alunos. Os veteranos podem evitar os sesshins mesmo estando neles! Sabem como evitar a dor nas pernas para que ela não fique muito forte. à intriga. acontecem mudanças evidentes. é a mente de um seqüestrador. Você está despedido!". é aquele momento em que sentimos que: "Não foi bem assim que planejei". sempre nos resta um resíduo de troca. A parábola de Mushin Há muito tempo.109 Dharma". cuja prática está amadurecendo. quebramos os Preceitos: em vez de vivenciá-la. Quando chegou em casa. Sem ele. Como os novatos são menos habilidosos. Quando acreditamos em nossos pensamentos e conceitos a respeito de outrem ou de acontecimentos tornamo-nos manipuladores e nossa vida tem pouca compaixão. Contudo. A ação advinda da experiência -colher o cacho de uva do chão -é a ação que decorre de uma necessidade percebida. Este ponto justamente é o "portão sem portão". Em certos casos é muito evidente. vivia um rapaz chamado Joe. pelo menos deveríamos notar que não o estamos. depois de ter criado toda espécie de confusão no trabalho. nem sempre temos a clareza de perceber o que está se passando. "Não foi bem assim que planejei!" Alguma expectativa não se realizou e sentimos a irritabilidade. Aliás. é tirânica. consigo mesmo. era machão. apesar de seu interesse pelo dharma. Mas quando sentamos na calma podemos observar e vivenciar nossa decepção. Quando nos sentamos com isso. muitas vezes. essa é a prática. Joe. nosso "sinal vermelho". se estivermos atentos.

outras pessoas também foram à livraria e compraram o livro. faço aquilo -o trem chegaria e ela conseguiria pegá-lo. mas seus filhos sentiam. colocou todos os seus pertences seculares numa mochila e dirigiu-se à estação ferroviária nos limites da cidade. foi para casa e abriu mão do apartamento. cara. Ele pensou: "Fantástico!".. cuidou dos arranhões.. A excitação era imensa! Ali estava a Resposta. serviria de inspiração para as demais. Ficou tão excitado porque o Trem estava vindo. certa atenção para o Trem. Aquelas criançinhas estavam realmente sendo negligenciadas. começou a ponderar: "É.. ouviu aquele enorme rumor à distância. que era um local deserto. Joe foi até a estação ferroviária. Em poucos meses havia adolescentes também e com a chegada deles acumulou-se muita energia e vigor. Antes que percebesse. Então. o que fazer? É evidente que havia um Trem. Então se aprontou. O livro dizia que se a pessoa seguisse todas as instruções -faça isso. que mal conseguia acreditar. quatro dias. um deles finalmente o apanharia. vindo sem sombra de dúvida. Com o tempo. mas alguém tem de tomar conta dessas crianças". Joe começou a ter companhia. Sabia que devia ser o Trem. Por isso. Encontrou um livro que lhe chamou a atenção em particular. Ele tinha urna fé imensa no livro. passando sem parar. Havia um número cada vez maior delas. leu o livro mais urna vez.110 como chegar à iluminação. entregando tudo que tinha àquela decisão. estudou e tentou cada vez mais.. Bem. apesar de ninguém jamais conseguir subir nele. Mushin então organizou os adolescentes e criou um time de beisebol atrás da estação. Mushin observou que algumas daquelas pessoas traziam seus filhos pequenos. porém. uuush. Chamava-se How to catch the train of enlightenment (Como pegar o trem da iluminação). as crianças passaram a ser sua principal preocupação. eu bem que gostaria de esperar o Trem. estava seguro de apanhar o Trem. independente disso.. Por dois. 110 . vão brincar!". embora ele ainda desse uma . Olhou em sua mochila e tirou de lá nozes. Esperou muito tempo. e chegou a incentivar algumas das crianças mais ordeiras a ajudá-lo. lá estava ele. O que tinha acontecido? Ele não tinha conseguido pegá-lo! Joe ficou admirado. não era o caso de não existir. Então. Se ao menos uma só pessoa conseguisse pegá-lo. Ele sabia disso. O que era importante estava acontecendo com os adultos que esperavam pelo Trem. no quarto dia. e acomodou-se para esperar.. havia uma grande fé de que algum dia. estes lhes diziam: "Não incomodem. que afinal de contas não era um sujeito tão ruim assim. Depois de tê-lo estudado até o fim. Primeiro eram umas quatro ou cinco pessoas.. decorando as instruções. contudo ele tinha de tomar contar de tudo aquilo com os garotos e assim sua raiva e amargura estavam fervilhando. Assim.. passas e barras de chocolate e distribuiu tudo entre a garotada. esperando pelo Trem. Tinha cada vez menos tempo para o Trem e estava com raiva disso. de algum jeito. Os pais que estavam esperando pelo Trem não pareciam sentir fome. desta vez. porém não conseguiu apanhá-lo. E ficavam tão absortas procurando pelo Trem que. e depois leu para eles histórias dos livrinhos que tinham. Então. e estavam com os joelhos esfolados. Comprou-o e começou a lê-lo com muito cuidado. começou a dedicar um certo tempo a elas. Mushin. Todos podiam ouvir o barulho que o Trem fazia ao passar e. Com o tempo. trabalhou bastante enquanto sentava-se na plataforma. e. e logo depois reuniram-se trinta ou quarenta. trabalhou sem parar e toda vez acontecia a mesma coisa. Algumas estavam mesmo esfomeadas. Começou a acontecer que. Mushin encontrou uns curativos na mochila. Quando. mas não desanimou. Pegou de novo o livro e estudou mais alguns outros exercícios. Começou a cultivar um jardim para mantêlos ocupados. Porém. De repente. Cerca de três ou quatro dias depois ouviu de novo o imenso barulho ao longe e.. ele tinha um grande empreendimento em andamento. esperou a chegada do Trem da Iluminação porque o livro dizia que viria com certeza. três. o Trem passou direto! Foi tão rápido que não passou de urna mancha. sabia que tinha de cuidar das crianças e tomava conta delas. uusshh. aquele resfolegar imenso. quando as crianças queriam a atenção de seus pais. foi aumentando a pequena multidão e a excitação era maravilhosa..

este sentar.. Mas. "A vida é real?". lembrou-se de que embora tivesse dado a maioria dos livros que tinha em seu apartamento.. tudo que uma comunidade precisa para funcionar e sobreviver. não se preocupava mais com as coisas da mesma maneira que antes. estava tão atolado com as necessidades das pessoas que teve de aumentar as instalações da estação. Mushin por fim começou a amar as pessoas que também estavam esperando pelo Trem. logo mais abaixo na linha. Mushin. faziam serviços de carpintaria. Mushin estava agora com cinqüenta e poucos anos. e essas não pareciam tão ruins. "Sabe. Providenciou mais alojamentos para dormir. Agora Joe tinha um novo conjunto de instruçÕes para estudar. havia uma colônia inteiramente nova de aguardadores do Trem. As questões que tinha foram acabando até não restar mais nenhuma. eram forçados a admitir. administravam o correio. De manhã à noite alimentavam as crianças. Ele as servia e as ajudava a esperar. As grandes questões desapareceram. criaram um espaço em separado e durante quatro ou cinco dias praticavam intensamente o zazen. Mushin não sentia mais que era o que tinha de ser feito. Estava ali. Isso prosseguiu por muitos anos. Nesse tempo todo eles não estavam conseguindo esperar pelo Trem. por essa época. por algum motivo. e centenas e milhares de observadores do Trem chegavam com seus filhos e parentes. Com o passar do tempo. Então. e estava sempre ocupado. mas sua raiva e seu ressentimento também estavam bem ali. antes que os outros se levantassem. Não sei por que desejo fazer isso. A amargura desapareceu. exceto o que tinha de ser feito. apenas o fazia. apesar disso. teve de construir um correio e escolas. Aquelas outras pessoas todas estão esperando o Trem e o que eu estou de fato fazendo?" Entretanto. ao mesmo tempo. Estavam todos trabalhando muito mesmo. uma comunidade imensa de pessoas nas estações ferroviárias. Apresentaram essa difícil prática também nas demais estações. o sentar não 111 . Demonstrava o efeito do tempo de tensão e de trabalho. Acomodou-se para aprender como fazer zazen. não era mais o mesmo. mas ignoravam-no e continuavam sentados. aquele programa frenético e exigente de trabalho em que inadvertidamente se envolvera não lhe parecia mais tão opressor. Pegou-o de dentro da mochila. Os mesmos problemas de sempre já estavam aparecendo ali. Esquecera-se das grandes questões filosóficas que costumavam apreendê-lo: "Existo de fato?". num canto da estação ferroviária. O ponto de mutação para Mushin ocorreu quando tentou fazer uma coisa que seu livrinho descrevia como sesshin. De vez em quando ouviam o trovejar do Trem à distância. "A vida é um sonho?". mas também não estava. por isso seu grupo ia até lá de vez em quando para ajudar a solucionar as dificuldades. Havia. Chegou mesmo a ser construída uma terceira estação. ele se sentava em uma almofada para praticar um pouco. Na próxima estação. Bem cedo de manhã. Contudo. fazendo a cada segundo o que precisava ser feito. exceto o que precisava ser feito a cada dia. por uma razão ou outra. Uns poucos na estação também começavam a ficar desencorajados com o Trem que não conseguiam apanhar. Estava tão ocupado sentado e trabalhando que tudo o mais se esvanecia. nesse momento. um trabalho infindável. Começou a pensar que talvez existisse alguma ligação entre este zazen. Para ele. trabalhando. Vou apenas fazê-lo". e a paz que estava começando a sentir. continuava tomando conta de tudo. a empresa da espera-do-Trem continuava em expansão. As coisas apenas se mantinham em andamento. além dos que estavam esperando pelo Trem. Estava ficando arcado e cansado. Reuniu-se com seu grupo. só estou interessado na iluminação. e começaram a se sentar com Joe. O livro era How to do zazen (Como fazer zazen). Mushin foi ficando cada vez mais velho e cansado. enquanto outras iam chegando. vindo com seus filhos. instalavam uma nova clínica pequena. Mushin pensou: "Vou ficar sentado a noite toda. Havia apenas Mushin e sua vida. certo dia. Eles conseguiam ouvir o barulhão e ainda restava um pouco de ciúme e de amargura. Algumas destas voltavam aos poucos para a comunidade. Finalmente.111 O tempo passava. No entanto. não havia mais nada para ele. Certa noite. O grupo fazia zazen todas as manhãs e.. tinha guardado um pequeno volume.

112 . O que Mushin descobriu? Deixarei que vocês mesmos respondam. ouviu o ruído do Trem. Saiu para preparar O café que compartilharia com quem estava chegando para trabalhar. Todas as antigas questões que não eram questões se respondiam por si. Apreciar as mudanças que se processavam em seu corpo. construindo um balanço para o parquinho. Mushin espreguiçou-se e levantou-se da almofada. este acabou parando exatamente em sua frente.112 era mais uma questão de ir em busca de alguma coisa. com o raiar do dia. de tentar melhorar. A última vez em que o viram foi na carpintaria com alguns dos meninos mais velhos. Então. Aliás. Lugar algum aonde ir. Nada a compreender. Apenas a totalidade da própria vida. o Trem evaporou e havia apenas um velho sentado noite afora. muito devagar. de tentar ser santo. Finalmente. Para ele. ele era o próprio Trem. Não havia necessidade de pegálo. Sentir o ar frio noturno. Todas aquelas idéias já se desfizeram há muitos anos. Foi quando percebeu que desde o início tinha estado no Trem. Essa é a história de Mushin. exceto sentar: ouvir uns poucos carros passando ao longe. não havia mais nada. Mushin sentou .a noite inteira e.

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