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Aprender Antropologia
Fran¸ois Laplantine c 2003

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. . . . . 76 Con. .1 Campos De Investiga¸ao . . . . . . . . . 58 4. . . . . . . . . . c˜ 6. co 6. . . . . . . .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . .3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico o o o temporˆneo . . . . .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . . . . .1 BOAS (1858-1942) . 80 87 91 95 . . . . . . a 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o 8 A Antropologia Social: 9 A Antropologia Cultural: 3 75 . . . . .2 MALINOWSKI (1884-1942) . . . . . . . . . 32 2 O S´culo XVIII: e 3 O Tempo Dos Pioneiros: 39 47 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57 4. . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 1. .2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia: o 67 II As Principais Tendˆncias Do Pensamento Ane tropol´gico Contemporˆneo o a 73 6 Introdu¸˜o: ca 6. . . . . . .Conte´ do u I Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento Ano tropol´gio o 23 1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia: e o 25 1. . . 75 . . . . .

. . . . . . . . . . . . . .4 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e 11 A Antropologia Dinˆmica: a ´ CONTEUDO 103 113 III A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica a o 119 121 125 129 133 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a 14 Uma Exigˆncia: e 15 Uma Abordagem: 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137 c˜ ca o 17 O Observador. . . . . . . . 152 . .2 A Unidade E A Pluralidade . . . 19. . . . 20 Sobre o autor: 139 143 149 . 149 . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 O Dentro E O Fora . . . 157 163 . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 18 Antropologia E Literatura: 19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica: o a o 19. . . 19. . .3 O Concreto E O Abstrato . . . . . . . .

re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento u antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais. . Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente ene ca contrada entre os especialistas. como se fosse algo de somenos co importˆncia. um panorama dos problemas coe a locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o. E. autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pesa quisas no Brasil. Os estudantes lˆem e discutem determica e nados autores. ´ ele que se c e busca compreender profundamente. o e o Em primeiro lugar. Pa´s em constru¸˜o. efetua a an´lise de seu desenvolvimento. apresenta a ı ı as tendˆncias contemporˆneas e.´ CONTEUDO 5 Pref´cio a A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem a Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhea cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria. de que sua a¸˜o e ı a ca ´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. assim co o como da ´rea de conhecimentos a que pertence. . a No Brasil o presente tem muita for¸a. permanecem co a muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso. para chegar e a e . o a conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou e e de um ramo do saber na maioria de seus aspectos. em seguida. nos debates que suscitou. como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema e co de base ampliando-o.) segue a via da especializa¸˜o. tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo. nas respostas e solu¸˜es que inspirou. ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada. professor da Univero e c sidade de Lyon II. nele se vive intensamente. a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um coıvel ca c nhecimento minucioso. O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine. na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ca a ı do futuro.se na ˆnsia de dominar a maior quantidade ca a poss´ de saber. pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se ca ca em opostos: a erudi¸˜o abrindo. o exame cr´tico de todas a ı as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo. seus habitantes em geral. A hist´ria da disciplina. que permite uma a compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas. mostrando como foi variando o seu colorido e c o atrav´s dos tempos. seus estudiosos em ı ca particular. finalmente. muito a a ca mais do que a da forma¸˜o geral. A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais ca e (e a Antropologia n˜o foge ` regra. a ca Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de encoca a menda para estudantes brasileiros.

em e muito boa ora traduzido. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos e a a u aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal.6 ´ CONTEUDO a ela escolhe-se uma unica via preferencial. um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e u especialistas de Ciˆncias Sociais. a especializa¸˜o numa dire¸˜o. ´ ca ca como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o. e por outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para conse c tru´-lo. ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e e c o da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge. por um lado. 1 . perdem-se de vista coma ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado. oferece a eles um primeiro panorama geral da Antropologia e seu lugar no ˆmbito do saber. a ca na verdade. no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias ı e Sociais. A necessidade real. a Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da claı ca ı reza de express˜o. Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pese quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP. a ca No entanto. Este livro. com esta maneira de ser t˜o mercante. que buscam coı nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”.

o e A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade. durante o a e qual a antropologia se atribui objetos emp´ ıricos autˆnomos: as sociedades o ent˜o ditas ”primitivas”.´. teol´gico. portanto. Finalmente. Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade o a . Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo a todas as conseq¨ˆncias.. modelos elaborados ”em casa”. Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem a o sobre o homem. na Oceania ou na Europa. ao menos tal como ´ concebida na ´poca. ao contr´rio. e a elabora¸ao de um a c˜ saber s˜o. botˆnica. ou seja. mas nunca cient´ o o ıfico no que dizia respeito ao homem em si. a antropoloe gia. Isso trar´.uma antropologia . como verea mos mais adiante. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico.´ CONTEUDO 7 Introdu¸˜o ca O Campo e a Abordagem Antropol´gicos o O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. para que o novo co saber comece a adquirir um in´ ıcio de legitimidade entre outras disciplinas cient´ ıficas. e n˜o mais a natureza. conseq¨ˆncias importantes. t˜o antigos quanto a humanidade. exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias a ` ´ c˜ e ou norte-americanas. muito e e a recente. Houve at´ alguns que eram e te´ricos e forjaram. o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca o c e muito tardia na Hist´ria . ou mais precisamente. e e e sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto.surge * em uma regi˜o o a muito pequena do mundo: a Europa. A ciˆncia. filos´fico. De fato. na hist´ria. e se deram tanto na a a ´ ´ Asia como na Africa. na Am´rica. de fazer passar este ultimo do estatuto de ´ sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. como diz L´vi-Strauss. ue e a o art´ ıstico. apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir e e c um saber cient´ ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como objeto de conhecimento.n˜o podia existir o conceito de homem enquanto o a regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas . Enquanto que o a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´ c˜ a a c˜ ıvel) entre o sujeito observante e o objeto observado ´ obtida na f´ e ısica (como na biologia. ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX. apenas nessa ´poca ´ que o a e e esp´ ırito cient´ ıfico pensa. pela primeira vez. desta vez. em aplicar ao pr´prio homem os o m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ e e a ´ ısica ou da biologia. evidentemente. a ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes. ue Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es. Trata-se. Mas o projeto e de fundar uma ciˆncia do homem .

a e 2 A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi. cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida e em rela¸˜o a nossa. portanto. que tiveram pouo cos contatos com os grupos vizinhos. empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma o 2 . a e c˜ e portanto. em conseq¨ˆncia. As sociedades estudadas pelos a a primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´ o a ınquas as quais s˜o atribu´ ` a ıdas as seguintes caracter´ ısticas: sociedades de dimens˜es restritas. da a a c o organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades. e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades ca ` a c˜ e fun¸oes sociais. como diz Paul Mercier (1966).8 ´ CONTEUDO estudada. uma quest˜o se coloca. permanece desde seu a nascimento: o fim do ”selvagem”ou. Ela se vˆ.a antropologia percebe que o objeto emp´ ırico que tinha escolhido (as sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”. como numa situa¸ao de laborat´rio. e 1) O antrop´logo aceita. e notadamente o que ´ chamado de ”sociologia comparada”. c˜ a e ue elas ir˜o permitir a compreens˜o. e 2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs. confrontada a uma crise de identidade. sua morte. objeto ideal de seu estudo.no in´ do s´culo o o e ıcio e XX . Ser˜o nec˜ a a ca a cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao a e c˜ que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. especialmente a sociologia. Detenhamo-nos em trˆs deles. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos ¨ e pr´prios desse campo de estudo. de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio: e o o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. a qual. como veremos neste livro. ela consistir´ na antropologia. este ´ c˜ e selvagem de dentro. Muito rapidamente. qualificada pelo nome de folklore. pois o pr´prio Universo dos a o ”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. nessa ´poca . ser´ que a a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado a como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam a e podem ainda ser dados. por assim dizer. particularmente bem adequado.e por muito tempo a e em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. e volta para o ambito das o ˆ outras ciˆncias humanas. a a de in´ ıcio. Mas co c˜ logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa . c˜ o *** A antropologia acaba. Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica e a a de sua disciplina reencontrando. j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem.

e aqui temos um terceiro caminho. que inclusive n˜o exclui a o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo). a um espa¸o geogr´fico. conduzem c e c˜ necessariamente a uma especializa¸ao do saber. dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si. ela analisa as particularie a o dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente. mas tamb´m. que nenhum ´ pesquisador pode. existem cinco areas principais da antropologia. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas e c c a que se seguem.´ CONTEUDO 9 3) Finalmente. a e co A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia o f´ ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem co o no espa¸o e no tempo. o . a cultura a ca este patrimˆnio. na perspectiva na qual come¸amos o a a c a nos situar a partir de agora. ele afirma a especificidade de sua pr´tica. O objeto a te´rico da antropologia n˜o est´ ligado. evidentemente. e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho. uma das voca¸˜es c˜ e co maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas. forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas. n˜o mais atrav´s de um objeto emp´ a a e ırico constitu´ ıdo (o selvagem. bem como a o o evolu¸˜o destas particularidades. mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica e e o constituinte. o que esse patrimˆnio (que se transforma) o e o deve a cultura? Assim. O que deve. Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio c a e c˜ o gen´tico e o meio (geogr´fico. em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente sea ca u parados. Ora. especialmente. o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes u c˜ diretas. b) o estudo do homem em todas as sociedades. o camponˆs). ecol´gico. Certa-mente. social). e O estudo do homem inteiro S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que o o objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em soca u o ciedade. Por´m. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar. dominar hoje em dia. bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao. ao a contr´rio. cultural ou hist´rico c a o particular. a distˆncia social e cultural que co a separa o objeto do sujeito. sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as ´pocas. um certo enfoque a e a que consiste em: a) o estudo do homem inteiro. substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia a a ”ex´tica”. mas as quais ele deve ` estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas. o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os ` o a c˜ fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´ c˜ ıduo.

eles interpretam seus pr´prios e ca o saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias). anatomia comparada c˜ as ra¸as c dos sexos. como o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos. colocando-se do ponto de vista da antropologia social. comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de a ca o ca ratos em laborat´rio o 3 . parte do e e ´ atrav´s dela que os indiv´ patrimˆnio cultural de uma sociedade. a mensura¸oes do esqueleto. o como eles ıi´ expressam o universo e o social (estudo da literatura. o como. Seu projeto. A linguagem ´. com toda evidˆncia.desde os anos 50 . A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´ e o e e ıgios materiais enterrados no solo (ossadas. Edmund Leach (1980) fala d. Assim. a a meu ver. interessa-se em especial . cor da pele. isto ´. isto ´.3 4 antropologia ling¨´ uıstica.10 ´ CONTEUDO Ele se perguntar´. mas a tamb´m de tradi¸˜o oral). que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao adco quirido.pela gen´tica c e das popula¸˜es. Ela tem. n˜o apenas escrita. quanto e c˜ em suas produ¸˜es culturais e art´ co ısticas. visa reconstituir as socie` dades desaparecidas. seus pensamentos. O historiador ´ antes de tudo um histori´grafo. que se liga a arqueologia. tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais. a e A antropologia ling¨´ uıstica. longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios. por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da a crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte c e c e da antropologia. Notamos que esse ramo da antropologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´rica e ` o e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. E o e ıduos que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores. Ele realiza um trabalho de campo. Apenas o estudo da l´ c˜ ıngua permite compreender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem. tamanho. sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente. biol´gica e s´cio-cultural o o nunca foi rompida na Fran¸a. objetos no solo. um pesquisador que trabalha e o e a partir do acesso direto aos textos. mas tamb´m quaisquer marcas da atividade e humana). finalmente.a ”desagrad´vel obriga¸˜o de a ca fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia e a e o f´ ısica”. Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um c c movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ca ıvel. que ´ uma disciplina que se situa no encontro e Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan c e (1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´ ca a ısica. O especialista em pr´-hist´ria recoe o lhe. suas o preocupa¸oes. peso. um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam a rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias co e e humanas. pessoalmente. e suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica).

e de longe. Assim sendo. o e aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no a papel”(nossos gestos. fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar a um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica. Um dos aspectos e cuja abrangˆncia ´ consider´vel. j´ que diz respeito a tudo que constitui e e a a uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica. nossas trocas simb´licas. e este livro traa e tar´ essencialmente dela. E e o fato de que o antrop´logo procura compreender. suas t´cnicas. somente atrav´s dos comportamentos .conscientes e inconscientes e dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual ´ n˜o ´ antropologia. como diz L´vi-Strauss. e A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais a tempo. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m a e a a o e psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos o e a aqui dar conta. e c˜ A antropologia psicol´gica. mas procuraremos nunca es` quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia. o antrop´logo ´ o e em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais. esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levanc a tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular a com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifia e ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade. Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram o e o mencionados. toda vez que utilizarmos a partir a de agora o termo antropologia mais genericamente. Ou seja. 4 . Isso posto. sua orca o e ganiza¸ao pol´ c˜ ıtica e jur´ ıdica. De fato. come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo o c e antropol´gico da l´ o ıngua (a l´ ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura) conduzia a um estudo ling¨´ uıstico da cultura (a l´ ıngua como modelo de conhecimento da cultura). seus sistemas de parentesco. ao estudo dos dialetos a a (dialetologia). sua l´ c ıngua. e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitua ´ tivos (com antropologia social e a cultural. Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia. al´m de introduzir o estudo da lino e guagem entre os materiais antropol´gicos. Ela ´ parte integrante dele. suas cria¸˜es co art´ ısticas. suas cren¸as religiosas. estaremos nos referindo a antropologia social e cultural (ou etnologia). sua psicologia. Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas noe ´ vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual). das quais falaremos a seguir) do campo global da antropologia. e sim a indiv´ a a ıduos. cidade de uma sociedade. 4 n˜o diz respeito apenas. seus sistemas de conhecimento.´ CONTEUDO 11 de v´rias outras. os menores detalhes dos noso Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem. que consiste no estudo dos o o processos e do funcionamento do psiquismo humano.

e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha ca ´ sobre si mesmo. inicialmente privilegiou claramente as ´reas de c a civiliza¸ao exteriores a nossa. e das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas o e geogr´ficas. e finalmente. h´ alguns anos apenas e a na Fran¸a. ıpio Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas ca do contato com o Ocidente. por impregna¸ao lenta e cont´ c˜ ınua de grupos humanos min´sculos com u os quais mantemos uma rela¸ao pessoal. soci´logos. pelo tipo de sociedade ao qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente). De fato. aquilo que era evidente ´ Infinitao e e mente problem´tico. Ocorre. do setor urbano. a c˜ o daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement). que faz dessa abordagem um tratamento fundamentalmente diferente dos utilizados setorial.cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais a o distantes. c˜ Al´m disso. como j´ comentamos. em seguida. somos n˜o apenas a cegos a dos outros. Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas dia feren¸as significativas. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida c˜ ` a por um objeto emp´ ırico qualquer (e. cultural. ela se encontraria hoje. ela. o o O estudo do homem em sua totalidade A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade. apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma e a c˜ distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que a o ´ long´ e ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por a natural em n´s mesmos ´. psic´logos. de fato. o juristas. A experiˆncia e Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais o c avan¸adas apenas muito recentemente. em especial. por´m. . na forma¸ao antropol´gica. ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhee e cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao c˜ direta. economistas. dos grupos marginais. presos a uma Unica cultura. a a perplexidade provo. mas m´ ` ıopes quando se trata da nossa. As primeiras pesquisas trataram primeiro. como c vimos. a e o Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ). ou seja. Disso decorre a necessidade. dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cama ponesas europ´ias). c 5 . que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em e ca o rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser conc˜ e a fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades extra-europ´ias). .mente pelos ge´grafos.12 ´ CONTEUDO sos comportamentos). a sem objeto.

E. mais ainda. uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de ca c˜ 6 Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement) o a e . nos encontrar. de fato. ıvel mas n˜o a unica. o produto e a de escolhas culturais.) s˜o. m´ ımicas. posturas. a ´ Aquilo que. e. e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras. com a maior proximidade poss´ ıvel. dormir. que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. de que a antropologia. conhecimento. a nos espiar. correlativamente. rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natuco a ral”. cotidiano. jogos profundamente diversos. faz tanta quest˜o. na realidade. pelo contr´rio. que consideramos espontaneamente como indiferenciadas.´ CONTEUDO 13 da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que c˜ e nem ter´ ıamos conseguido imaginar. ent˜o. a meu ver. participando ao a mesmo tempo de uma comum humanidade. extremamente diversificadas. comemorar os eventos de nossa existˆncia. Ou seja. a a a elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se a e esperar) mas. no reconhecimento. institui¸oes. A abordagem antropol´gica provoca. aquilo que os seres humanos tˆm em comum e ´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros. que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente a por inatas (nossas maneiras de andar. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura o o passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. assim. como j´ o dissemos e voltaremos a dizer. a nos surpreender com aquilo que diz respeito a c a n´s mesmos. dada a nossa dificuldade em fixar nossa aten¸ao no que nos ´ habitual. modos de conhecimento. nos emocionar. do igual. s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa. do idˆntico. . Isso sup˜e ao a o mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo. o juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. Aos poucos. e que consideramos ”evic˜ e dente”. notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos. Ela implica um deso c ca centramento radical. ´ sua a a e aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orgaa niza¸ao social extremamente diversos. para elaborar costumes. uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do e mundo”. c˜ pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana. uma verdadeira revolu¸ao episo c˜ temol´gica. . E. Come¸amos. As sociedades mais die a ıvel ferentes da nossa. e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. ´ a e e e e sua aptid˜o a varia¸ao cultural a ` c˜ O projeto antropol´gico consiste. caracteriza a unidade do homem. familiar. portanto. apenas a nossa disciplina c˜ permite notar. e l´ ınguas.

freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com u a do saber. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o: ca a ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade? a e Evidentemente. que visa superar a irredutibilidade das culturas. ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence. Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ alo c a gumas d´cadas. Poder´ a ıamos multiplicar os exemplos. Como escreve L´vi-Strauss: e ”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo a o do observador. hist´rica com Hegel). ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o e e c ca v´lida.14 ´ CONTEUDO si mesmo. e da cultura e c˜ com a nossa cultura. o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas insa ´ a titui¸˜es do n˜o-europeu. A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo. enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´ ısmo”. E os ´ ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que e a ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim co de encontr´-los. Confrontados a multiplicidade. criticista com Kant. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool). e n˜o fossem adquiridos no contato com a o a cultura na qual nascemos). um oceanismo. da Africa ou da Oceania. e sim de seus m´todos de pensamento. um e africanismo. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide: e ”Eu sou mil poss´ ıveis em mim. e na Fran¸a a e a c partir de 1943 (Griaule na Sorbonne. mas tamb´m uma a e nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. c a e sim o de reduzi-la. bem como as grandes religi˜es. por viajantes vindos e ´ da Asia. a priori enigm´tica. que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um e Montaigne). que ´ ´ teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia. n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ a a ıveis”. a o a a reflexiva com Descartes. . somos ` a aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscric˜ tos em n´s desde o nascimento. mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa a ca a disciplina. como atestam notadamente e e os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia. nunca se deram como o objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos. as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas. sociais e culturais da co ca o a antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder o de vista. a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s. mas n˜o posso me resignar a querer apenas a um deles”. De fato. e correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s meso mos. das culturas. A rec´ co a ıproca tamb´m ´ verdadeira. seguido por Leroi-Gourhan). de pens´-la cientificamente). Isso n˜o impede que a constitui¸˜o a ca de um saber de voca¸˜o cient´ ca ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido a partir da cultura europ´ia. Esta elaborou um orientalismo. geogr´ficas. ıdo o Isso posto. um americanismo. A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de e c˜ identificar nossa pequena prov´ ıncia de humanidade com a humanidade. mesmo o sendo filosofia social.

Desconfiemos por´m do pensamento . Estamos. a e convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos o a o que observamos em seres humanos. amputando parte de si pr´pria e fazendo. mostrar nesse livro a que a d´vida e a cr´ u ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas o a se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´ c˜ ıtica dos de outrem. mais ”livres”. No segundo (que ´ mais usado nos pa´ angloe e ıses . mais ”conscientes”. O que significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado. desses materiais e o u dessa experiˆncia.que seria a e o c´mulo em se tratando de antropologia . intelectuais . ao adotar ipso facto a l´gica das outras socieo dades e a censurar a sua.de que estamos finalmente mais u ”l´cidos”. seja levado por o alguma crise de identidade. pol´ o ıticas. tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao. por sua vez.´ CONTEUDO as melhores inten¸oes do mundo.deve ser sempre retomada. Mas ela ´. pelo contr´rio. tamb´m aqui. e de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadeie ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla. no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde pero manecer por tanto tempo cega para consigo mesma. c˜ 15 O pensamento antropol´gico. isto ´. mais ”adultos”. de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessio a vas. e 1) A primeira dificuldade se manifesta.6 que n˜o sendo. uma ciˆncia constitu´ cone ıda. considera que. quando se trata de ılia o e dar conta (aos interessados. do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´ e o a definitivamente encerrada. ela deve c˜ igualmente aceitar a diversidade das culturas. a a e a a ılia fam´ dos antrop´logos ´. aos estudantes. particularmente reveladora da juventude de e e nossa disciplina. Procuraremos. como sempre. como acabau mos de escrever. ao n´ ıvel das palavras. isto ´. um objeto de exclus˜o. por sua vez. aos seus colegas. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias doa e minantes de nossa sociedade . assim como uma o civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos. das culturas.se sobre a pluraridade irredut´ das o ıvel etnias. se eles s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana. a si mesmo. muito dividida. a o c˜ Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o ` ca terminol´gica dos franceses). Dificuldades Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´ o a ısticas maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade. como a f´ a ısica. insiste.o expansionismo ocidental sob todas as suas formas econˆmicas. com os quais estivemos vi-vendo. e evidentemente. tamb´m adultas.

a ´ e antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard). ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento e a e final”(L´vi-Strauss.ou (com os autores e co americanos) de antropologia cultural . Para estes a a o ultimos.7 2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´m e atribuir a antropologia. e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza (o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser invena e tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada). como verea e mos. 3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´ e c˜ ıgua que a antropologia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. mas tamb´m por grava¸˜o sonora. al´m da e e c e imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir. com Evans-Pritchard (1969). a u 8 Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses. ”seu objetivo ´ alcan¸ar. ıvel ca fazer aparecer a l´gica espec´ o ıfica da sociedade que se estuda. a etnologia e a antropologia constituem os trˆs moe e mentos de uma mesma abordagem. A antropologia. por uma impregna¸˜o duradoura e cont´ o ca ınua e um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. que ´ preciso tratar as sociedae des n˜o como sistemas orgˆnicos. e o mais minuciosa e poss´ ıvel. isto ´. dos fenˆmenos que observamos. Estreitamente vinculadas nos e e o s´culos XVIII e XIX.16 ´ CONTEUDO saxˆnicos). mas como sistemas simb´licos. longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown).8 e e e os que pensam. consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam comıvel parar as sociedades entre si. Esses fenˆmenos podem ser recoco o lhidos tomando-se notas. o Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de neo a e Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa a localizar-se. sobre a unidade do gˆnero humano. Estabele¸amos. um modelo ling¨´ uıstico. um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito? e e E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam. finalmente. que n˜o existem em n´mero ilimitado”. e ca a a A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos. que a etnografia.que consiste mais no estudo dos comportamentos. deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social a cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es . 1973) e 7 . vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. fotogr´fica ou cinematogr´fica. L´vi-Strauss substituiu. c como L´vi-Strauss. as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma e a a da outra no s´culo XX. Como escreve L´vi-Strauss. As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos. procurando ao mesmo tempo se reencontrar perioe dicamente. A etnografia ´ a coleta direta. com a Radcliffe-Brown (1968). seu nome o e a e proclama suficientemente. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica` a co mente o homem. a antropologia deve aspirar a a tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas. um invent´rio a das possibilidades inconscientes. que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem a ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza. mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias socio e ais. E optando-se por antroo e pologia.

por exemplo.´ CONTEUDO 17 nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das institui¸oes”. Margaret ´ o a Mead. e ca Aqui. pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o de ca uma sociedade melhor. o 4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem e a parar. entre a pesquisa que se pode qualificar de fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”. como veremos. Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos c˜ o ca o a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria ` c o em considera¸˜o”. 1971 A maioria dos antrop´logos ingleses. Bastide. ent˜o. de ser unˆnime. e. ”pr´ximas do grau zero e e o de temperatura hist´rica”. Durkheim considerava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o a c˜ a pudesse ser util. e a hist´ria recente da antropoa a o logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas. 9 10 Sobre a antropologia aplicada. mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia c˜ menos frustrante ` sociedade americana. empenhando-se em compreender a forma¸˜o ca da sociedade brasileira. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa ca e e c˜ de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”. a o Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica ca c˜ o o est´ longe. Quer´ ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo´ gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. Mais categ´rico ainda. que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”. desde 1933. E por ela que. 1975). R. e isso desde seu nascimento. onde come¸o a escrever este livro. realizou suas pesquisas a peo . Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a c˜ qualidade de especialistas de conselheiros. e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. a e c˜ 10 a antropologia teve inicio. isto ´. mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do conhecimento hist´rico. cf. estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas Samoa (1969). e Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e c que continua dividindo profundamente os pesquisadores. no Nordeste do Brasil. com a coloniza¸ao. contribuindo na constru¸ao de uma o a c˜ ”antropologia da liberta¸ao”. O pesquisador torna-se. c um autor como Gilberto Freyre. participando em especial dos programas de desenvolvimento e das decis˜es pol´ o ıticas relacionadas ` elaborac˜o a a desses programas. um milia tante. Hoje v´rios colegas nossos consia a deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo c c˜ especialmente )ean Copans. do que o a o ”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia a o u cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”. especialmente. um ”antrop´logo revolucion´rio”.

Mas v´rios anos depois (trad. Longe de procurar convencer seus h´spedes da a o superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada. c˜ e Perfeitamente a vontade entre os astecas. no momento. de fato. as estrat´gias daquilo ca e que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o ale c a tera nada quanto ao amago do problema. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos c˜ de falar. mas sobretudo e e n˜o lhes pedir nada”. Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. c˜ Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no e Brasil entre os Tupinamb´s. franc. nada ou quase nada a oferecer. Desde o s´culo XVI. a c˜ escreve: ”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da e c a¸ao pr´tica.11 c˜ O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o a religiosa. 1963) se deixa a literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. se interroga. come¸a a se implantar aquilo o e c que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad. para B transforma¸ao das sociedades o c˜ que ele estuda 11 dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo co britˆnico. que podem ser e o ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun. O c˜ a a e verdadeiro meio de permitir sua existˆncia. a ajuda ao ”Terceiro Mundo”.18 ´ CONTEUDO Foi com ela. etc a 11 Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico ca ´ pesquisador. durante a coloniza¸ao. ele os interroga e a e. a franc. ca e ap´s ter lembrado que o saber cient´ o ıfico sobre o homem ainda se encontrava num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza. ´ dar muito a elas. sobretudo. enquanto antrop´logo. que ´ o seguinte: 0 antrop´logo ˆ e o deve contribuir. 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento e . encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que. inclusive. que se deu o in´ ıcio da Antropologia.. elas n˜o tˆm.. ele estava l´ enquanto mission´rio ` a a a fim de converter a popula¸ao que estuda. Nadei foi a conselheiro do governo do Sud˜o. a ”revolu¸˜o”. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico. a As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antropologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas e primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com co o ca o ”selvagem”.

n˜o deve. pelo menos enquanto antrop´logo. pr´prias culturas rurais e ure o banas. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela ca mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa. as e cren¸as. diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a e ` qual temos o dever de responder. de se vestir. o e pol´ ıtico. sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento ca o de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento que ´ a do racionalismo social. ao meu ver. Ou seja. de fato. traa a o balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. de pensar 12 e levando a novos comportamentos que n˜o decorrem de uma escolha) a A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte: a a o e h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindoa lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem a o conflito dram´tico. As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista co ca podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa. mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente ue a a e a dita. perturbando completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar. est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de a homogeneiza¸˜o. agrˆnomo. Caso contr´rio. seria c˜ a conveniente. da seguinte forma: nossa abordagem. Somos. parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil. para ajudar os atores sociais a ca e o responder a essa quest˜o. mas nas quais poc a a der´ ıamos ter nascido). Eu pude. no decorrer de minhas estadias e sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do e e Marfim. a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica a c˜ a da antropologia. onde ca come¸ou a redigir este livro c 12 . no que me diz respeito. a partica c e cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo c˜ o e e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´. de se encontrar. que se convertesse em economista. sem risco de despersonaliza¸ao? a c˜ Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo. de se distrair.´ CONTEUDO 19 Eu responderia. perceber realmente o fasc´ ınio que exerce este modelo. econˆmica e o socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. a meu ver. que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ mais e familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos) e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos. Em compensa¸˜o. os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas. m´dico. organizar pol´ o c e ıtica. por outro lado. uma e e conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o.

isto ´. c˜ e ca co N˜o h´. sociais. a antropologia do . por movimentos de migra¸˜o Interna.20 ´ CONTEUDO a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e e c˜ o c a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o a tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada ca a tempo. enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos) ´ a co a e. mentalidades. uma atividade de luxo. Em suma. ling¨´ uıstica. a antropologia econˆmica. elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais o a a m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma a e crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural. que n˜o s˜o a a a a mais ”sociedades tradicionais”. de fato. isto ´. evidentemente. cultural. Isso sup˜e uma ruptura com o o a concep¸ao assim´trica da pesquisa. baseada na capta¸˜o de informa¸˜es. ` o o tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos ca a co de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque ca a da acultura¸ao. 5) Uma quinta dificuldade diz respeito. Atrav´s da especificidade de sua abordagem. e por um processo de c˜ ca urbaniza¸ao acelerado. e sim fora mular quest˜es com eles. ` natureza desta obra que a deve apresentar. o caso hoje em dia. isto ´. antropologia sem troca. um campo de pesquisa u a imenso. nossa c˜ e disciplina deve. e sim sociedades que est˜o passando por um a desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito. que e o n˜o ´ de forma alguma. pr´-hist´rica. n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados. sem a e nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais. No fie nal do s´culo XIX. de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais trac˜ o balhamos. N˜o ´. um unico pesquisador podia. no limite. o encontro e de l´ ınguas. e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber. em um n´mero de p´ginas reduzido. a ´ b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento e a c˜ extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas. t´cnicas. culturais de um e o povo. por muta¸˜es de suas o e co rela¸oes sociais. a pesquisa antropol´gica. O antrop´logo considera a e o agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13 a e a 13 A antropologia das t´cnicas. e o e provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o ´ o ´ a extensa). como podemos notar. sobretudo. ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` c˜ e a violˆncia negadora das particularidades econˆmicas. dominar o campo e ´ global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social. sem itiner´rio no decora a e a rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas. de seu pr´prio saber e saber-fazer. cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. finalmente. pol´ e o ıtica.

Esta ´ a raz˜o pela qual. co . entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica e a e e o de adotar uma linguagem menos especializada. a antropologia permanecesse monol´ ıtica.´ CONTEUDO de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada. em um movimento por a assim dizer retroativo. Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo p´blico poss´ u ıvel. de fato. esbo¸arei os p´los te´ricos . a meu ver. mas tamb´m pessoal). mas de diversos pontos de vista. Muito mais modestamente. foram se colocando e o progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. Ela ´ ao contr´rio claramente plural. a especificidade da antropologia. se. em uma ultima parte. As preocupa¸oes que est˜o no a c˜ a centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencioo nadas ser˜o retomadas. Finalmente. n˜o a a dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. Em o e seguida. que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia. atrav´s dessa hist´ria da antropologia. que nas ciˆncias humanas ´ um engodo.em volta dos quais c o o oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. esfor¸ando-me ao mesmo tempo para e e c apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros. optei voluntariamente pela segunda. em vez de fingir ter adoe tado o ponto de vista de Sirius.. mas tamb´m mutuamente e exclusivas. Ela diz respeito a todos n´s. entre as quais ´ preciso escolher. o co ´ os principais eixos anteriormente examinados ser˜o. procurando dar conta da pluraridade. possam ser levados e a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´ a ıstico da antropologia. em algum momento de sua vida (profissional. a antropologia dos sistemas de comunica¸˜es. a Ver-se-´ que este livro caminha em espiral. surpreena o dente. Eu lembrarei em a primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa disc˜ ciplina e como. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – dua ` e a vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que. a antropologia religiosa. o ´ a 21 Era-me portanto imposs´ ıvel. tentei colocar um certo n´mero de referˆncias. do alcance e da riqueza dos campos abertos pela antropologia. interessar-se em ir mais adiante. reavaliados com o objetivo de definir aquilo que constitui. E. mesmo de uma forma parcial.. em vez de pretender uma neutralidade. o parentesco. dentro de um texto de dimens˜es t˜o restrio a tas. Teria sido. espero. dar conta. e e e pertence a todo o mundo. Veremos no decorrer deste e a livro que existem perspectivas complementares. das organiza¸˜es sociais. definir alguns conceitos a partir dos quais o u e leitor poder´.a meu ver cinco . art´ co ıstica. Pois a antropologia.

22 ´ CONTEUDO .

Parte I Marcos Para Uma Hist´ria Do o Pensamento Antropol´gio o 23 .

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para um per´ e ıodo posterior (s´culo e XVII) Y. Consultar tamb´m como exemplo. j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ a a a e poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a c e a c 1 a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. nessa ´poca. Duviols (1978). d’Evreux (reed. por exemplo. religioso: O selvagem tem e e uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital e a para os mission´rios. A Hist´ria de Uma c a o Viagem Feita na Terra do Brasil. Andr´ Thevet e a a e a ´ a ´ e escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica. a quest˜o ıvel ca e a As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que co dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes. Garnier-Flammarion.Cap´ ıtulo 1 A Pr´-Hist´ria Da e o Antropologia: a descoberta das diferen¸as pelos vic ajantes do s´culo e a dupla resposta e ideol´gica dada daquela ´poca at´ noso e e sos dias A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo e a o e a ` Mundo. ` Asia e ` Africa. formando o que e co habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. P. em seguida ` Am´rica.. Dizem respeito em primeiro lugar ` a P´rsia e ` Turquia. a 2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII) o a co ıtas e ˆ nc Canad´. 1985). G. Em 1556. e que nasce desse primeiro confronto a e a visual com a alteridade. Paris reed. de Rubrouck (reed. Notamos que se. ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem descoe bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´m a e e atribuir-lhes um estatuto humano ´. para um per´ e ıodo anterior (s´culo XIII). 1979. no Jap˜o. na China. bom como a coletˆnea de textos de J. e 1 25 . no s´culo XIV. em 1558 Jean de Lery. A c grande quest˜o que ´ ent˜o colocada. as Lettres Edifiantes et Curieuses de la a a Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776. Cf. 1985).

em Valladolid). por natureza. os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a meo ca a tade do s´culo XIV: no debate. (. Las Casas: ` ”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros.) Pois a c o maioria dessas na¸˜es do mundo. os pregui¸osos. igualavam-se aos gregos e os romanos.26 ´ ´ CAP´ ITULO 1. Eles superavam tamb´m a e e Inglaterra. ´ melhor que a nossa. cidades.. e que op˜e o a a o dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera. paternalista e ca do outro: 2) sua exclus˜o a 2 . Assim. mesmo que n˜o see a a jam superiores em for¸a f´sica. mesmo que tenham as a e c ı for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias. Ela ser´ definitivamente e a e a resolvida apenas dois s´culos mais tarde. ´ e co ı e melhor que a nossa. vilas. N´s o mesmos fomos piores. e algumas de nossas regi˜es da Espanha. Sepulvera: ”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o. e Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes. (. sen˜o todas. e ı em alguns reinos. na Espanha. os senhores.) Esses povos igualavam ou e at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que. co a irracionais e depravadas. ao c ı a contr´rio. foram muito mais pervertidas. que e e u durar´ v´rios meses (em 1550. as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o. aqueles s˜o. n˜o ´ de forma alguma solucionada. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ colocada. a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio ca a ´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade. e n˜o eram infeco a a riores a nenhuma delas. a Fran¸a. no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a de nossa Espanha. e deram mostra de muito menos prudˆncia e sagae cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais..) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas e na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis. senhores e uma ordem pol´tica que. e a e Ora. (. pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de a ca nossos costumes”. os esp´ritos lentos. e e c c mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do ese tranho apreendido a partir de uma falta. em alguns reinos. e at´.. responderemos que essas ı a a pessoas tˆm aldeias. os superavam.. que se torna uma controv´rsia p´blica. em alguns de seus costumes. reis.. e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia a e e 2 que se tem sobre si e sua sociedade. s˜o por natureza serc ı a a Sendo. por´m..

3 Como s˜o estere´tipos o e a o que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta a dificuldade para nos livrarmos. e vemos isso sancionado pela pr´pria e ´ o lei divina. eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais a humana e ao culto da virtude. inteligentes. permanecem vivas hoje. os s´culos ` ca e XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´. seres da floresta). Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural ı a que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es e ı co mais cultas e humanas.1. L´ry (1972) ou Buffon (1984). as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso. e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao. Essa atitude. E se eles recusarem esse imp´rio. como lembra L´vi-Strauss. E ´ justo e util que sejam servos.1. mas ligados entre si por um movimento ca o de pˆndulo ininterrupto. que consiste em expulsar da cultura.. a mais comum e e Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes. de modo que. gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia c a a e de suas leis. o Renascimento. e 3 . isto ´. bem como o declara o a o direito natural que os homens honrados. estranhas ` vida civil a co a a e aos costumes pac´ficos. enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo a e e de subdesenvolvidos. O termo primitivos ´ que triun` e far´ no s´culo XIX. e opondo assim a animalidade a humanidade. ´. a e Ora. e 1. por exemplo. mas em e a e um mesmo autor. para a natureza toe dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos a a e com a qual nos identificamos. conv´m nos determos sobre eles. ca c˜ A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o paru a a ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros e ` c˜ a oposto a significa¸˜o da linguagem humana). quatro s´culos e ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera. pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca. mesmo que n˜o se a a a expressem mais em termos religiosos. Cf. pode-se e impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27 vos.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato. virtuosos e humanos dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”.

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´ ıstica dos ”selvagens”.4 Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar e e se conv´m conferir aos ´ e ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso e e do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma a c˜ resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos: a a • a aparˆncia f´ e ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”; a • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o e imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5 a a • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles e falam ”uma l´ ıngua inintelig´ ıvel”. Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso ` a a a a linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso soe a bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o ` a o grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita, e a sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pase a sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII: a e e ”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ e ıritosem ardor para com sua fˆmea”. e ´ ”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Goo o mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico o ı ı ´ Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa´ e ´ crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus ı pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interloe co cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta a e e o da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os e o o e ind´ ıgenas possu´ ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisioa neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o ca a a sujeitos ` putrefa¸˜o” a ca 5 Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´ e e par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M. e JVl´taili´, 1979. e e 6 Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavele a e mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´ a e ıvel fazˆ-los e evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa ca a e ca
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1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO

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mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do a ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons e a a e a h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e a at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que e e tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”. a ”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco ı a a trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole o a ca constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, aboa min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem a u atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555) ı e Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias. o ı Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa o a a u ´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Lie e ` vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e o convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia. e Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos paa c˜ recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes a para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado ` o e em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel. ca ` o 1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´ o o ındios da Am´rica do Norte. e Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´ c˜ e ıllimos a influˆncia da natureza ´ total, e e ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´ c a o a pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema o a ıda umidade: ”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que emca brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria ı de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu temperaı ca mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio a ı dos nervos desses homens embrutecidos”. Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e e a ´ a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo sea xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste a

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s a a o degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´ e ıcio ca ısica”, Pauw chega a de` ´ grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada: c˜ c˜ e ”O gˆnio embrutecido dos Americanos”. e ”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o e ı ca alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o ema c a a a preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem a ca e e pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a a ı a falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para u si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma. Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como irca remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado a ca num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um u e e c longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa, ´ ´ a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se e encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proximidade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da a a constitui¸ao f´ c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas o sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento e aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o ca ca c˜ a cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo c˜ a de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um e a c hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto e e a poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de a outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados: ”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses a c ı frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar e ca entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de satisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´ e a e a a e poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?” ı ca co e Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´ ıgenas americanos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns a quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas daa quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7 o
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Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).

a Africa profunda do interior. ”para o n´ de uma coisa. nem mesmo eles pr´prios. notamos. o qual. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. eles n˜o tˆm moral. apenas radicalizam id´ias come partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. Mas ´ a a e ´ ´ a Africa. nada. em ruptura a com a ideologia dominante do s´culo XVIII. seu semelhante ´ para eles apenas uma carne e como qualquer outra. que. j´ que comem carne a o a humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. religi˜o ou Estado. o a ´ Tudo.8 Pea e co a trificados em uma desordem inexor´vel. suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”. ”Ele cai”. poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal c˜ a o da humanidade. vale a pena notar. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Amerio canos. de Rousseau. Id´ias que ser˜o retomadas e e e a expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel. e. ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”nee gros”n˜o respeitam nada. nem institui¸˜es sociais. de um objeto sem valor”. Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente c˜ a a nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a ` indianidade em Pauw – . na Africa. nem mesmo as for¸as da coloa c niza¸ao. e e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade. ` e Na leitura dessa Introdu¸ao. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31 2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o. que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e e a a o a ”consciˆncia de si”. Vivendo em uma e o ferocidade bestial inconsciente de si mesma. onde a civiliza¸ao c˜ nessa ´poca ainda n˜o penetrou. e escreve Hegel. em especial. da qual falaremos mais adiante. em uma selvageria em estado bruto. al´m ıs ı a e do dia e da hist´ria consciente. a a ca 8 . fechado sobre si mesmo. a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda c˜ e u ´ do que a do Norte. ıvel ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´ ıpio africano. o autor da Fenomenologia do Esp´ ırito vai.”Ou ainda: ”S˜o os a seres mais atrozes que tenha no mundo. est´ envolto na cor negra da noite”. publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam.1. nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es` o o tado de natureza. que representa para o fil´sofo a forma mais e a o nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade: ´ ”E o pa´ do ouro. o pa´s da infˆncia.1. em sua Introdu¸˜o ca a Filosofia da Hist´ria.

pela c˜ primeira vez. em s´guida. O car´ter privativo dessas sociedades sem a escrita.32 ´ ´ CAP´ ITULO 1. eles n˜o sabem se a e a matar uns aos outros (. sem religi˜o organizada. ou sua amiga. sem economia. Nenhum possui qualquer coisa que seja. a sem sacerdotes. u a e Crist´v˜o Colombo. rigorosamente idˆnticos. . e. da mesma forma que e o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natuıdo ral). s˜o bonitas. aportando no Caribe. e E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam. daquilo que era apreendido como um menos que se torna um mais. de pele escura. pelo menos em estado embrion´rio. ”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal. e. essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas c˜ em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura c˜ c˜ idˆntica) permanece ainda bastante r´ e ıgida na ´poca na qual o Ocidente descoe bre povos ainda desconhecidos.) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melhoa res.. sem clero. de corpo elegante. Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um a vazio que se torna um cheio (ou plenitude). sem leis. O selvagem a n˜o ´ quem pensamos. . sejam elas sua m˜e. A figura do bom selvagem s´ encontrar´ sua o a formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento: ca a e o no rousseau´ ısmo do s´culo XVIII. sem pol´ ıcia. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: 1. a e Evidentemente. Os termos da atribui¸˜o ` ca permanecem. sua irm˜. . entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a. na percep¸˜o e a ca que tˆm os primeiros viajantes. sem tecnologia. instaura-se uma cr´ ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenuic˜ . como veremos. e a a Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseiaa e e se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros. a a . sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo a e ´ XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. a a a c Eles vivem cinq¨enta anos.. no Romantismo. pois tudo ´ colocado em comum. ele tamb´m o para´ o a e ıso. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica: e e u e ”As pessoas est˜o nuas.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emia e nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza ıvel dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. N˜o deixa e e a por´m de estar presente. E n˜o tˆm governo”. como tamb´m n˜o h´ terra melhor”. descobre.

2. mas n˜o quanto a a ` a a a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. Nas primeiras Rela¸oes e c˜ dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler: ıtas ”Eles s˜o af´veis. ı Do lado dos livres-pensadores. E Montaigne. talvez esteja conservado em alguma parte. Moeurs des Sauvages Am´ricains. Ele escreve. Vlng´nu. O huguenote que eu interroguei at´ o e encontrou. A seguir temos: em 1703. a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante e u em grande parte na literatura sobre os ´ ındios. Le Supplement aux Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et u un Sauvage. Seu ideal: ”viver em comum sem processo. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 33 dade original”do estado de natureza. e gozam de uma felicidade desconhecida c u dos franceses”. na maior parte das vezes.. o e a discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade. triunfa nos s´culos XVII e XVIII. . esse estado paradis´ ıaco que teria sido o nosso outrora. liberais. referˆncia ` crueldade. P. em 1767. L´ry. ´ o mesmo grito de entusiasmo. 10 No s´culo XVIII. Todos os nossos padres que a a freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente u entre eles do que entre n´s”. o contentar-se de pouco sem avareza. estes ultimos n˜o hesitando em oferecer o ´ a suas mulheres como presente. interroga-se e a sobre o que se passa ”aqu´m”. O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage e au Pays des Hurons. Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo. Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefac˜ a e 10 tos. de Gabriel Sagard. Para o autor o a dos Ensaios. ıs a 1978). Duviols. 9 . e em especial por le Hu9 ron. Esse fasc´ ınio exercido pelo ind´ ıgena americano.1. desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa u a a vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). . de Lafitau. protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo cac˜ loroso da natureza. sobre esses ultimos: ”Podemos portanto ´ de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o. em 1744. moderados. Se o discurso euroca o peu sobre os Astecas e os Zulus faz. a respeito de e e ”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos a a e quais estou falando”. sem pris˜es e sem torturas passam a o vida na do¸ura. isto ´. entre os Tupinamb´s. na tranq¨ilidade. na Europa. La Hontan: e ”Ah! Viva os Hurons que sem lei. um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia e e a e e a tranq¨ilidade est´ entre eles. ser ass´duo no trabalho”. de e e Vol-taire.

o fasc´ c˜ ınio pelos ´ ındios ser´ substitu´ progressivamente. mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisiene e o a ses. em especial Samoa. em suma. precisar´ ıamos ir entre os povos mais ignorantes. Em 1721. . Ora. . por exemplo. vocˆs s˜o pobres. ´ precisamente a a e esse imagin´rio da viagem. em vez u e a de simplesmente gozar da cria¸˜o. Aqui est´. Cada um colhe as frutas na a primeira ´rvore que encontra. ` e Segalen. 1980): ”Seja dia ou noite. uma humanidade convivial cujas virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand. . que n˜o queremos nada a fim ca o a de desfrutar mais livremente de tudo”. ou na casa onde entra. a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens. dos arquip´lagos e polin´sios. 0 e a personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco: ”Vocˆs s˜o loucos. pois procuram com muito empenho uma infinidade de e a coisas in´teis. Tudo lembra a cada a instante as do¸uras do amor. . . e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa e e ocupa¸˜o. Aqui um doce ´cio a o ´ compartilhado pelas mulheres. n˜o nos tocariam mais nada. ´ e E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau acabou de escrever. u O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´ o ıdos. o que escreve Bougainville em sua a Viagem ao Redor do Mundo (reed. n˜o nos seriam a a a diretamente acess´ ıveis. as casas est˜o abertas. . As mulheres ca pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. pois limitam seus bens ao dinheiro. Depois. c Todos os discursos que acabamos de citar. e especialmente. que a etnologia deve grande parte de seu sucesso com o p´blico. como n´s. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: das Lumi`resu 11 – . e. para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ soc e bretudo desse come¸o que precisar´ c ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser a os disc´ ıpulos da natureza” 11 . ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. Melville. Conrad. correlativamente fustigam tudo c que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. . tudo incita ao abandono”.34 ´ ´ CAP´ ITULO 1. a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma a sociedade de prazer e de saudade. . Se n˜o o fossem. e soe a bretudo o Taiti. os que exaltam a do¸ura das sociedades ”selvagens”. a a ıdo partir do fim do s´culo XVIII. as ilhas Marquises. a ilha de P´scoa. Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. . . e Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civic˜ c˜ liza¸ao.). pelo charme e prazer id´ e ılico que provoca o encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul.

A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ca ıcios”do progresso (nos quais muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o anoo a nimato do nosso ambiente de vida. desejos. a meu ver. e ıdo e *** A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si mesmo) n˜o parou. op˜em-se c˜ a co o sociedades de solidariedade comunit´ria. fazem com que parte de nossos sonhos s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares o ıso o do Sul. que s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas. Pensou-se alternadamente que o selvagem: • era um monstro. ´ encontrada em muitos o c˜ o e autores. ´ recrue o e tado no civil. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 35 ao Ocidente mort´ ıfero li¸oes de grandeza. e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss. A antropologia. de oscilar entre os p´los de um verdadeiro a o movimento pendular. as mesmas insatisfa¸oes. ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. tais como existem ainda nas sociedades long´ ınquas do globo. portanto. Malia c˜ o o nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso: a a ”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das foru a a e mas primitivas da vida humana. como o militar. ıdo o Mas conv´m.1. foi certamente o de a o ”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas). de que fala Alfred M´traux e que ese teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo. e O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades. a Ora. O etn´logo. especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato co co corruptor com o mundo moderno. um ”animal com figura humana”(L´ry). como acabamos de ver. pelo menos. termo e a c˜ proposto por Sapir em 1925. vivendo na harmonia e na transparˆncia.-ang´stias. ir mais longe. Se essa busca do Ultimo dos c˜ u Moicanos.2. Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora u a ıvel do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da ` abstra¸ao. essa ”nostalgia do neol´ ıtico”. para mim. abrigadas na suntuosidade de uma a natureza generosa. era uma fuga romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”. que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica. do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas. essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na e realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa disciplina. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a ´ sua. a meio camie nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros e . n˜o ´ novic˜ a e dade.

pelo contr´rio. sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar. obedecendo estritamente a aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo.36 ´ ´ CAP´ ITULO 1. obrigado a assumir as duras tarefas da ind´stria. mas recentemente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um a e imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica. • vivia num eterno pavor do sobrenatural. um ”objeto sem valor”(Hegel). o Pa´ Basco a e e e ıs ou a Bretanha. adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos c da natureza. na paz e na harmonia • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes. ou essencialmente pre gui¸oso. est´pido e de uma simplicidade brutal. ou feio. ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando c de prote¸ao. enquanto que o Ocidente era. um ser preso. ` convers˜o a a religiosa ou a emo¸ao est´tica. quanto ao militarismo pol´ ` ca o ıtico. Olha-se a si mesmo nele. de uma humanidade da a qual tinha tudo como aprender. uma ”coisa”. c˜ • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o a permanente. ou. ou. e o c˜ • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel. O outro – o ´ ca ındio. o taitiano. o outro n˜o ´ consi` c˜ e a e derado para si mesmo. um ”vegetal”(de Pauw). u • era trabalhador e corajoso. . ou profundamente u virtuoso e eminentemente complexo. ` co • era atrasado. • era um animal. Taiti. pelo contr´rio. • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era e leg´ ıtimo temer. vivia num e a a estado de beatitude. c • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus. ao inverso. Mal se olha para ele. por sua vez. • era admiravelmente bonito. ou um comunista decidido a tudo compartilhar. ou. Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se transa co c a forma rapidamente em fasc´ ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem a a muita rela¸˜o com a realidade. ou participava. Mas. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ramos n´s. at´ e inclusive suas pr´prias e o mulheres. em todos os casos. pelo contr´rio. ou era profundaa a mente religioso. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com a vistas a explora¸˜o econˆmica.

o autor da Viagem n˜o tem resposta. Montaigne (hoje as vezes criticado). reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a e e e c˜ oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar. Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento. como acabamos de observar. os objetivos teol´gicos e os c˜ a o que poder´ ıamos chamar de etnogr´ficos. a a o isto ´. o ponto de vista normativo e o ponto a de vista narrativo). Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´ o a se tornar a etnologia. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 37 Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. tala vez anacrˆnico. descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento o etnol´gico. come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento c u ıcio europeu. mas sim de um saber pr´-antropol´gico. ainda no final do o a a s´culo XX. numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que e e n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado a a a qualquer antrop´logo. mas especificamente a ultima) est˜o no en´ a tanto implicitamente colocadas. e sim diferente. n˜o de um saber antropol´gico. Seria em v˜o. muito mec˜ a o nos de uma ciˆncia antropol´gica.2. a partir da observa¸ao direta de um obc˜ jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne). entre os ind´ e ıgenas brasileiros. como se diz o a hoje). mesmo ` se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´ e ındios do que a inumanidade dos europeus. Jean de L´ry. t˜o problem´tico. a e Assim. meıvel nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar c˜ c˜ que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior. ´ verdade. seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os e conflitos do antigo. muito timidamente. e o e o . Mas as quest˜es a o (e para o que nos interessa aqui.1. Por´m. perguntase: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualidae a a des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade. N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se e a e etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”. e a a permite a constitui¸ao progressiva. essa ´poca. e por alguns apenas de e e seus esp´ ıritos os menos ortodoxos.

A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: .38 ´ ´ CAP´ ITULO 1.

isto ´. e n˜o antes. essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte.. Apenas nessa ´poca. a fecundidade do trabalho ou a densidade e ´ hist´rica da linguagem. ”qu˜o pr´ximo a o 39 . com a explora¸ao geogr´fica de contic c˜ a nentes desconhecidos. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sao ber fabricou com suas pr´prias m˜os. ene o quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´ e a a ıveis hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao. e sim positivo sobre o homem.Cap´ ıtulo 2 O S´culo XVIII: e a inven¸˜o do conceito de homem ca Se durante o Renascimento esbo¸ou-se. o homem n˜o ´ o mais antigo problema. ca e E”. O homem ´ uma e inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente. h´ menos de duzentos anos (. nem o e a e mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. de um saber n˜o mais exclusivamente e e a especulaivo. escreve Fou-cauilt. fundador da ordem do pensamento cl´ssico. e a Como tamb´m o poder du vida. e a exclui da raz˜o o louco. ca e no qual a evidˆncia do cogito. ”Antes do final do s´culo XVIII”. como mostrou Michel Foucault (1966). culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que c˜ o o vai se tornar a antropologia. enquanto figuras da anormaa c lidade. Enquanto encontramos no s´culo e XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia. ´ que se pode apreender as e a e condi¸oes hist´ricas. Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de funa e dar uma ciˆncia do homem.) Uma o a a coisa em todo caso ´ certa. apenas no s´culo XVIII ´ que c˜ e e entramos verdadeiramente.. ”o homem n˜o existia. a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do c˜ e u homem. acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas. o selvagem. a crian¸a. na modernidade.

coloca-se pela primeira vez no e s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado. quando tomada em considera¸ao. de suas instic˜ c˜ tui¸oes. pensa (psicologia) e fala (ling¨´ uıstica).40 talvez seja o seu fim”. Parte de suas elites busca suas referˆncias em um cone e e fronto com o distante. das nosca o sas rela¸oes de produ¸˜o. Lafitau se d´ por objetivo o de a . c˜ ca c˜ inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo. de seus comportamentos. de suas rela¸oes de produ¸ao. c˜ Tornou-se paulatinamente (com de Brosses. de sua linguagem. e a constitui¸ao da id´ia c˜ e de que a linguagem nos precede. que trabalha (economia). era objeto de filosofia ou exegese. bem como a dos poss´ e a c˜ ıveis processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos. Da mesma forma. . 3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. a line e guagem. envolvida nas determina¸˜es de seu e co organismo. j´ que consiste em introduzir dualidade e a caracter´ ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado) e no cora¸ao do pr´prio homem. pois somos antes exteriores a ela. Montesquieu. Ora. Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posic˜ c ca tividade de um saber emp´ ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem a enquanto ser vivo (biologia). O SECULO XVIII: O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enteno a c˜ demos hoje) sup˜e: o 1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos. de voca¸˜o cient´ ca ıfica). pelo menos. e sim de ca a a observa¸˜o. . abordagem totalmente in´dita. Rompendo com a convic¸ao a c c˜ de uma transparˆncia imediata do cogito. c˜ o 2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o. dos nossos sistema de organiza¸ao social. A a sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da e consciˆncia europ´ia. que passa a ser ca e considerado em sua existˆncia concreta. Em 1724. antes dessa ´poca. Assim. come¸ando pelo pr´prio c˜ u c o conceito de homem. ao mostrar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais. tais reflex˜es sobre os limites do saber. isto ´. n˜o apenas enquanto sujeito. assim como sobre as rela¸oes de sentido o c˜ e poder (que anunciam o fim da metaf´ ısica) eram inimagin´veis antes. em O Esp´ ırito das Leis (1748). abriu o c˜ e e o caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar e em uma ”ciˆncia da sociedade”. ´ CAP´ ITULO 2. Rousseau) o objeto espec´ ıfico de um saber cient´ ıfico (ou. ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Comparados aos Costumes dos Primeiros Tempos. de um novo modo de acesso ao homem. mas enquanto objeto do a saber.

caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo). Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem a o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza. a *** Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´. Os grupos sociais e ca a e (que come¸am a ser comparados a organismos vivos. David Hume. 3 A precocidade e preeminˆncia. uma moral natural”. VEnfant Sauvage (1970). al´m da contingˆncia dos e a e e fatos particulares. de um estudo e de sua existˆncia emp´ e ırica considerada por sua vez como objeto do saber – constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade. que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao ao c˜ c˜ 3 pensamento teol´gico. no s´culo XVIII. ca a crian¸a-lobo. que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza Humana. o programa que se tornar´ o da a etnologia cl´ssica. antes dele. que. com Adam Smith o o e.41 fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”. no pensamento inglˆs. o filme de Fran¸ois Truffaut. Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas o as pesquisas que procurar˜o fundar. Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem c˜ do Aveyron. no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem: a a a indu¸ao de que falaremos agora. mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente a Cf. e o livro de Lucien Malson c que the serviu de base.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou. poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hua c˜ a manidade. do empirismo em rela¸˜o ao e e ca pensamento francˆs. c˜ 4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo. evidentemente. Um evento que a o se deu no Ocidente no s´culo XVIII. podem a meu e ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia a c e britˆnica e o atraso da antropologia francesa. Em 1801. em seu Discurso sobre a c c Origem e os Fundamentos da Desigualdade. que. a e um ”direito natural”. Esse naturalismo. a partir du observa¸˜o de fatos. a fim de extrair princ´ ca ıpios gerais. imp˜e-se em especial na Inglaterra. ou ainda uma ”religi˜o natural”. que hoje chamar´ ıamos de leis. cujo t´ ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tentae tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´ ca e ınio para o estudo de assuntos de moral”. n˜o ocorreu da noite e a para o dia. podem ser considerados c como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente. a 1 . 2 Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo o o inteiro menos a Europa ocidental.

o primeiro. ´ preciso proca a e cessar a observa¸ao. ´ preciso c˜ a e e 5 interpretar interpreta¸oes. Os relatos dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do e a que uma pesquisa etnogr´fica. e 1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. Os o viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. 5 Cf sobre isso G. e realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”. constituindo-se inclusive. c˜ e e que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o. a fauna e a flora. a terra. o c 2) Simultaneamente. de Acosta (1591). O SECULO XVIII: constitutivo da modernidade na qual. ao mesmo tempo. A fim e de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento – c˜ que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –. passa-se da coleta dos o e materiais para a cole¸˜o das coletas. o objeto de observa¸ao. a partir dessa ´poca. Em c˜ ca 1789. Maupertuis. Afora algumas incurs˜es t´ a o ımidas para area das ´ 4 ”inclina¸oes”e dos ”costumes”. e. desse discurso. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado. N˜o basta mais observar. quando se tratava e deste.42 ´ CAP´ ITULO 2. e instaurando uma ruptura do monop´lio desta (especialmente na Fran¸a). Chavane. tomando como modelo a antropologia f´ ısica. entramos. Leclerc. era essencialmente o homem f´ ısico que era tomado em considera¸˜o. Cook. 1979 4 . c˜ ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. Ele a chamar´: a a a etnologia. La Condamine. o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a atividade epistemol´gica. isto ´. nessa ´poca era mais c˜ c˜ e o c´u. do padre Pr´vost (1746). ou o question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre a co o estado das mentalidades populares no reino. *** Finalmente. ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo: e e o o viajante: Bougainville. que se torna cada vez mais organizada. dar´ a essa atividade um nome. em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes. examinemos de mais perto o que e a mudou radicalmente desde o s´culo XVI. ca Ora. a quest˜o a e a ´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a e Hist´ria Geral das Viagens. o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma e c c a antropologia social e cultural. precursoras das e e o Cf. No s´culo XVIII. E ´ desse desdobramento. . Esp´ e ıritos curiosos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”. do que o homem em si. La P´rouse.

s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es o o co tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”. moral e pol´ ıtica do que teriam visto. Pria meira metodologia da viagem. um huguenote que esteve no Brasil. de De Gerando (1800) s˜o. um mentiroso e um imbecil aos olhos e dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que. . a respeito dos ´ ındios entre os quais esteve. culturais) e quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas. e submetem imperiosamente a natureza a suas imagina¸˜es. deve possuir um certo n´mero de u qualidades. ps´ ıquicos. isto ´. um d’Alembert. . o Egito. o c˜ Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´ a ılico. naturalistas. e o As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜ e c˜ Povos Selvagens. 7 Estamos longe de Montaigne. a o a o m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea e a de saber (o homem nos seus aspectos f´ ısicos. pois a nova ciˆncia o e – qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-. e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso. um Diderot. ou homens de igual capacidade. destinada aos pesquisadores de uma miss˜o a nas ”Terras Austrais”. em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville) ` ”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante.43 nossas miss˜es cient´ o ıficas contemporˆneas. que procura orientar o olhar do observador. ver´ ıamos nascer de seus escritos um mundo novo.´ uma ”ciˆncia de e e e e observa¸˜o”. Diderot (cf. sujeito que. o fil´sofo Buffon. fizessem a seguir a hist´ria e c a o natural. quanto a isso. a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805). fil´sofos. a Barbaria. esse texto ´ uma cr´ e ıtica da observa¸ao selvagem do c˜ selvagem. ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja e e e ca esclarecida. E ´ assim que se constitui. se ´ essencial observar. 6 .7 Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu. Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro. n˜o a tendo observado nada por si pr´prias. exemplares. na sombra de seu gabinete. devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gruca o e pos sociais observados. que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem simples e rude”. Rousa o seau. que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771 a o em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam o a viajantes!6 Para o primeiro. na passagem do s´culo XVIII para o e e s´culo XIX. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador. viajando para instruir seus compatriotas. Voltaire. bem como para todos os fil´sofos naturalistas do o s´culo das luzes. um Condillac. formada e pelos ent˜o chamados ”ide´logos”. sociais. Modos bastante singulares e inconceb´ co ıveis da parte de pessoas que. O cientista naturalista deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa. observando como sabem fazˆ-lo a Turquia. de volta de suas andan¸as memor´veis. Que pena. que s˜o moralistas. um Buffon. Suponhamos que e esses novos H´rcules. filosofam c sem fim sobre o mundo e seus habitantes. pensa Rousseau. e para apreender corretamente seu objeto.

pessoalmente.8 a a Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma oba serva¸˜o sistem´tica. publicado em 1800. n˜o ´ de forma alguma realizada. formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno dos territ´rios da vida (biologia). a a dois motivos essenciais. nessa ´poca. mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo). zo´logos. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos c a c antes (em Paris. levado em conta. mesmo sendo o abordada. Mas neste segundo caso. n˜o apenas do homem f´ ca a a ısico. se rompem se parcee lam. mas sobretudo. n˜o mais do saber. e sim dispersados em cole¸˜es o co particulares. e n˜o ser´. uma certa e ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”. ´ porque a ´poca ainda n˜o o pera o e e a mitia. dividida entre uma homenaa gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss. est´ ligado. ”observador dos povos selvagens”em 1800. coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem.44 ´ CAP´ ITULO 2. enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um o e ca saber positivo e especializado. O SECULO XVIII: Por´m. o homem interroga-se: sobre a natureza. por exemplo. a e sim dc saberes que. ca a o e sim m´dicos. o m´moire de Gerando s´ foi reeditado. do trabalho (economia).9 Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos. o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se dese a tinava diretamente. que ´ pela primeira vez claramente afire mado. muito menos uma a ling¨´ uıstica. muito rapidamente (a partir do s´culo XIX). O pr´prio Gerando. ao meu ver. e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram e o a a a sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris. sobre seu discurso a mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp). por muito tempo ainda. c˜ c˜ Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo. O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos e c˜ fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. N˜o podia ir mais longe. torna-se o ”visitante dos pobres”em 1824. ıdo 9 A antropologia contemporˆnea me parece. o obst´culo maior ao advento de uma antropologia a cient´ ıfica. no sentido no qual a entendemos hoje. ´ e 8 . n˜o pˆde ser realizado. 1) A distin¸ao entre o saber cient´ c˜ ıfico e o saber filos´fico. sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ria c˜ ca quezas. sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem. a o e e considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de e e e etnologia geral”) e um assass´ ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com ca um projeto que permanece filos´fico. no Trocadero). o conceito da a e unidade e universalidade do homem.na e o Fran¸a em 1883. da linguagem (ling¨´ o uıstica). mas n˜o h´ biologia e a a ainda (ser´ preciso esperar Cuvier). Evidentemente. mas tamb´m do homem e social e cultural. O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre a ıvel o estudo dos ind´ ıgenas e a ajuda aos indigentes. e ca Notemos finalmente que. miner´logos. e n˜o poe a a der´ ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois. a o a ıvel e Mais especificamente. a positividade. No final do a ` c˜ s´culo XVIII.

a . o objeto de o o observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”.45 O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece e e ainda muito abstrato. e 2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico o e e a o desse per´ ıodo. historicista: o evolucionismo. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia a a se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. De fato. liberada da e c˜ o teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal. e sim um outro indiv´ o ıduo que pertence ele pr´prio a o uma ´poca e a uma cultura. e sim indiv´ ca a e ıduos que pertencem a uma ´poca e e a uma cultura. Paradoxalmente. que n˜o pode resignar-se a trabalhar em a o a uma ´rea setorizada. rigorosamente filos´fico. isto ´. e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da a e antropologia filos´fica. E evidentemente problem´tica para o antrop´logo. mais marcadamente e ´ o que veremos a seguir. isto ´. para esta. de sua concep¸ao de uma hist´ria natural. Estamos na impossie o bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es o co episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan) a e a partir de uma abordagem igualmente e at´. talvez.

O SECULO XVIII: .46 ´ CAP´ ITULO 2.

trazendo uma duc˜ pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora: e – resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente ca 47 . hoje t˜o desacreditado. em se tratando da nossa sociedade.. o essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares a cada vez mais especializadas. Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ c˜ c˜ ıtica francesa. notamo-lo.) enquanto que. e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. . ´ a a e ´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto e disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas o e dimens˜es (biol´gica. A Europa se vˆ a e confrontada a uma conjuntura in´dita. isto ´. econˆmica. . percebese que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. realiza e e a o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. de instaura¸˜o de redes c˜ e ca entre esses espa¸os. religiosa. ling¨´ uıstica. Ap´s um c o parˆntese no s´culo XVII. t´cnica. Dessa vez. Seus modos de vida. c˜ a e. esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilue e e e minado”` luz dos fil´sofos. Esse s´culo XIX. Mas a a o o primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao. psicol´gica. suas rela¸oes e c˜ sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. pol´ o o e o ıtica.Cap´ ıtulo 3 O Tempo Dos Pioneiros: os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX e O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um e c e a discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. Um mundo est´ terminando. e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavelc ca e mente obra do s´culo XIX.um outro est´ nascendo. Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas a e c transforma¸oes. ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades c˜ e que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao.

1865. conhecimento do primitivo. e em .48 CAP´ ITULO 3. o ancestral do e e civilizado. a ca Ora. os primeiros volumes do Ramo de Ouro. que desembocar´ em especial na assinatura. destinado a reencontr´-lo. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das c˜ a a metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo. em 1861. do a ´ Tratado de Berlim. a Austr´lia. la e Relizions. MacLennan. o antrop´logo acompanhando de perto. Hegel). isto ´. A Sociedade Antiga. Maine publica Ancient Law. a Africa. Em 1861. o ´ Nessa ´poca. das formas simples de organiza¸˜o e ca social e de mentalidade que evolu´ ıram para as formas mais complexas das Morgan escreveu. que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias e e e p˜e um fim as soberanias africanas. Uma rede de a informa¸oes se instala. fica indissociavelmente ligada ao conhecimento da nossa origem. e Bachofen. Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family (1879). os passos do colono. e sim de administradores. isto ´. que se expres* sa na nostalgia d´ o antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”. o contexto geopol´ e ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´ e e ıodo da conquista colonial. em 1885. o – mas sobretudo resposta preocupada. a Nova Zelˆndia passam a ser a a povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus. como veremos. tornou-se o primitivo. no s´culo XIX. O Casamento Primitivo. La Cit´ Antique. em 1864. que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o e c˜ a a ´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da e a humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em c rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´ c˜ a e ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´ e a e mais o selvagem do s´culo XVIII. les Superstitions des Peuples 1 . assim. Asa c˜ a sim a antropologia. em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res. a ´ e ındia. Das Mutterrecht. em 1877. Frazer. n˜o se trata u a a mais de alguns mission´rios apenas. em 1890. Fustel de Coulanges. O TEMPO DOS PIONEIROS: estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas o e a fora da hist´ria e da cultura (de Pauw. Morgan.1 o a e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes a obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a sea gunda metade do s´culo. Tylor. A Cultura Primitiva-. em 1871. Todas essas obras. o ` ´ E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna. [es Coutumes. enquanto que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau). A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido.

ou. 2) ao estudo do ”parentesco”. 3) e ao da religi˜o. Enquanto o e para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que. nessa ´poca. barb´rie. conv´m procurar determinar cientificamente ca e a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es. que se tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos ana e trop´logos do final do s´culo XIX. bem como na lei de Haeckel. e a a c e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as). mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como e o nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais.0 ue a co O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais elaa c˜ a 2 borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society. em fun¸˜o notadamente do crit´rio tecca e nol´gico o 3 Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´ o ca ıvel das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies. publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies. notemos que o primeiro ´ bem anterior ao ca e segundo. de Darwin. ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es e a c˜ co que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´ ıgines australianos. n˜o tˆm hist´ria em e e o a e o sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados. passando pelas mesmas etapas. as duas grandes areas da antropologia. e Spencer. Morgan.49 nossas sociedades. 1859) e o e que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro. A partir disso. que e pretende ser cient´ ıfica. fundador da forma mais radical de evolucionismo e sociol´gico. Uma correspondˆncia e e e intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros. o ina e e div´ ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa o antropologia que se qualifica de evolucionista. ou seja. co e 2 Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet. Comte. mais a a e ´ especificamente. Parentesco e a religi˜o s˜o. as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das soNon-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). Disso decorre o e a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de ca c˜ marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos a 3 vest´ ıgios da infˆncia da humanidade a O que ´ tamb´m muito caracter´ e e ıstico dessa antropologia do s´culo XIX. o o e 0 . para alcan¸ar o n´ final que ´ o c˜ c ıvel e´ da ”civiliza¸˜o”. c˜ a a co al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria. e Frazer) no s´culo XVIII. ´ e a ca a civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´ ca e ıodos. de acordo com as popula¸oes. Haeckel afirma c a c rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese. Existe uma esp´cie humana e idˆntica.

l967). a Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto com os ´ ındios) um papel t˜o decisivo. ˆe Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do o e ˆ complexo de Edipo entre os primitivos.5 que realiza a melhor s´ ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”e e c ”supersti¸oes”. e 3) A ´rea dos mitos. pois ´ l´ que se pode apreender c˜ e a o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes. os dois n´cleos a u resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos.50 CAP´ ITULO 3. da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o. sem a tecelagem. e a extrema complexidade de seus sistemas de parenca tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal. Mas ´ c˜ ca e certamente o Ramo de Ouro. absolutamente confiantes na racionalidade cient´ ıfica triunfante. id´ia que exerceu tal Influˆncia e e que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. 1979). menos para a compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica. c˜ Desde a ´poca de Morgan. e a v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da disa co ca tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos. 1981-1984). imagina-se um matriarcado primitivo. a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos. inclusive. por exemplo. elas permanecem ainda. sem cria¸˜o de animais. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse o per´ ıodo. e Tylor deve parte de sua voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. O TEMPO DOS PIONEIROS: ciedades n˜o ocidentais. mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores o anteriores. franc. (trad. j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente. Um papel decisivo inclusive. em especial Evelyn Reed. pois a a a ca perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´ ırito do evolucionismo. n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas a o s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ a ıveis”. um dos textos de referˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos).4 o c˜ 2) No estudo dos sistemas de parentesco. Mora o e gan. escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa. sem cerˆmica. a o 5 Frazer era. a meu ver. franc. Elkin. fr. os mais ”primitivos”e mais ca ”atrasados”do mundo. co e vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”. s˜o a n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. vivendo na idade da pedra sem metalurgia. notamo-lo. os pesquisadores dessa ´poca proe curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de o filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. Por deslize do pensac˜ mento. de Frazer (trad. o a 1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria consa a o titui¸ao da nossa disciplina (cf.. Quando Roheim a (trad. fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo a e o ca respeito a ”esp´ ıritos superiores” 4 . Feminismo e Antropologia..

pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram. e depois. que se o constitui num obst´culo a raz˜o. ´ Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo. Frazer considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza. religi˜o monote´ e c˜ o a ısta. E e e e quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies. da religi˜o ` ciˆncia. o progresso t´cnico e econˆmico da nossa e e e o sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica ca o da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os est´gios. publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que ´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica. Ou seja. enquanto para Hegel. propriedade privada. a qual dar´ a a lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o a e a a e c que tinha sido imaginado no tempo da magia. o e o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores ` c˜ c˜ da ´poca: produ¸ao econˆmica. e como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos. da forma como podemos vˆ-lo hoje. Mas. Quanto a seu autor. *** O pensamento evolucionista aparece. da magia c a religi˜o.51 Nessa obra gigantesca. Essas cren¸as dos povos primitivos a e c permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Tye lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. Frazer a considera como religi˜o em potencial. da hist´ria do esp´ o ırito humano. ou a melhor. em rela¸ao aos unicos c a c˜ ´ crit´rios do Ocidente do s´culo XIX. a primeira ´ a ` a e um impasse total. retira grande parte de seus mateo riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de a e ca conhecer. e as obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de c˜ e cr´ ıticas: 1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas. ou est˜o passando. Exerceu uma influˆncia a a e e consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pena samento antropol´gico de Freud que. Margaret Mead o L´vio e Strauss – conheceram. alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica. 6 . que muito poucos etn´logos – fora Malinowski. mais grosseira. compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente. escreve Frazer. ”re` a a a e presenta uma fase anterior. Como Hegel.6 Frazer e e o retra¸a o processo universal que conduz. c o a a mas internacional. o ”arca´ a ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da a Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente. ”A magia”. por etapas sucessivas. em Totem e Tabu. de Darwin. para c a dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”.

Assim. encontramo-nos frente a reconstitui¸oes conc˜ junturais que tˆm. a e n˜o dissocia os benef´ a ıcios da t´cnica e os da religi˜o. alguns a (Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes.52 CAP´ ITULO 3. civilizado. julga-se que ser´ poss´ a ıvel extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade. procedimento c˜ c˜ absolutamente oposto. atrav´s dos a c c e quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´ a c˜ ıvel. moral vitoriana ılia a 2) o pesquisador. que procura. e Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a c˜ veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese. a filia¸ao matrilinear. efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pesc˜ quisa atrav´s do campo emp´ e ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas. identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence. co n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes. Livingstone. a magia. ılia A antropologia evolucionista. ´ c˜ ca c˜ Isso colocado. o o culto aos antepassados. cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas. na realidade. enquanto branco. ao da etnografia contemporˆnea. Assim.) como costumes que serc˜ vem para exemplificar cada est´gio. a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a e ca a documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do c˜ a s´culo XIX. juntando e interprec˜ e tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´tese a o central). pode exclamar: ”Viee a mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um c governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”. O TEMPO DOS PIONEIROS: fam´ monogˆmica. analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais. a e. mas assemelham-se muito. os evolucionistas consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo. a aparˆncia de um corpus e e cient´ ıfico. . como veremos mais adiante. A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que. a filosofia do s´culo ante` e rior. o a c˜ ` evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o coc˜ o a lonialismo. . pelo volume dos fatos relatados. os exemplos o etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o proa u cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas. como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho e a e o . mission´rio que. isto ´. de outro. atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos a e ca u em uma unica sociedade. E quando faltam documentos. . a exogamia. esmagados sob o peso dos materiais.

Tylor desconfia dos modelos de a interpreta¸˜o simples e un´ ca ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de ca ca fun¸˜o ` causa. eram capazes de recolher todos os materiais necess´rios. a julgando que observadores conscienciosos. a antropologia no sentido no qual a praticamos o hoje nunca teria nascido. empenhada em mostrar as etapas do movimento da humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa o do pensamento sociol´gico). e 7 . Eles se recusavam a atuar dessa forma. eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica a c˜ o Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do e a e qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos e a do que nos outros pa´ ıses). Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada co por ele pr´prio entre os Iroqueses. nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materie o o ais que estuda e. N˜o poder´ a ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra e a (especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi´ a crodisciplina de um eixo tem´tico). a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o. evidenciando assim tamb´m. O que importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia e a e a enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura. Alguns anos mais tarde. Bastian realiza uma pesquisa o no Congo. 8 s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os a a ıa e antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca. guiados a distˆncia por cientistas a preocupados em criticar fontes. ´ a e a tentativa de compreens˜o.8 ´ antes no e decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es. a ıvel c de todas as culturas. De fato. quando realiza um trabalho de coleta direta.7 N˜o e a custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o ca aos ”povos atrasados”. sendo que ´ provavelmente o ca e que. em especial das ”mais long´ ınquas”e das ”mais desconhecidas”. do que de estadias tendo c˜ co por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. Claro. ca a ca e e pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais e e c de esgotamento.53 que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista. e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia a tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal ou tal sociedade. e Tylor no M´xico. o a a a Em 1851. Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada cultura irredut´ ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. um singular esp´ e ırito ahist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles. Ratzel o abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante. como diz Tylor. No entanto. sem essa teoria.

O TEMPO DOS PIONEIROS: (Maine. e. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o c e e ıdo fizerem com dogmatismo. E e ıcil e nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o ılia a grandiosa do mando. Bastian ´ m´dico. sobretudo. trabalhou doze horas por dia durante sessenta anos. A obra que ele pr´prio produziu estende-se. compae c˜ c rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras a c˜ tanto no espa¸o como no tempo. dos museus como a o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual a a ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos coMuseu do Homem. uma das caracter´ co e o ısticas principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? – a ´ o seu anti-racismo. da ”fam´ humana”. MacLen-nan. das institui¸oes. Rata e e zel. dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. em contato epistolar permanente com centenas de oba servadores morando nos quatro cantos do mundo. mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais c˜ do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia.baseada na no¸ao de uma humanidade integrada. ge´grafo). em quase o dois metros de estantes. Mas s˜o eles que mostraram pela prico a meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram a de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas. Ele dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia. Frazer. j´ que eles foram a a precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles? a Em suma. mas para chegar a um mesmo n´ ıvel final. do parentesco c a ou da religi˜o. dos comportamentos e das cren¸as. assistimos a cria¸ao das sociedades cient´ e ` c˜ ıficas de etnologia. as diversas popula¸˜es do globo. mas como poder´ o ıamos critic´-los por isso.54 CAP´ ITULO 3. Com ele. Tylor possu´ ıa um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria. Assim. esses homens do s´culo passado colocavam e e o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das t´cnicas. mas apenas o ue co e resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. como e escreve Morgan. da ling¨´ e o uıstica. das primeiras cadeiras universit´rias. o a mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana. o que me parece eminentemente caracter´ ıstico desse per´ ıodo ´ e a intensidade do trabalho que realizou. o objeto da antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das a c˜ a . como diz Leach (1980). quanto do que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. Morgan s˜o juristas. dentro c˜ da qual concorrem em graus diferentes. Durante o s´culo XIX. Atrav´s dessa atividade extrema. bem como sua imensa curiosidade. Bachofen. e At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a rie a gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ e ıda. ou.

e particularmente. . o 2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais. Por essas duas raz˜es. conhecimento cient´ a a ıfico poss´ ıvel sem que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”. ca termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco. para Hegel. no caso. A novidade radical da sociedade o arcaica ´ dupla. sobre Engels (1954) 9 . Qualifia o o cando essas sociedades de ”arcaicas”. a qual.55 liga¸oes entre as rela¸˜es sociais. . E o que examinaremos agora. Morgan as reintegra pela primeira vez na humanidade inteira. cosa a a tumes considerados bizarros. e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento material. O paradoxo (aparente. de modelo ore ganizador do saber. jur´ c˜ co ıdicas. e 1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o o e a a diziam respeito ` Hist´ria. ca um papel decisivo. a partir de Morgan. pol´ ıticas. s´ podia ser escrita. como mostrou Kuhn (1983). ´ que a antropologia s´ se tornar´ o ca e o a cient´ ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o ca ´ a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. isto ´. o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases totalo c mente diferentes das do idealismo filos´fico. pois o conhecimento cient´ ıfico se d´ sempre mais por descontinuia dades te´ricas do que por acumula¸˜o). Foi ela que deu seu impulso a antropologia. e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”. e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente.9 o c˜ N˜o h´. compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o maro a e a xismo. a liga¸ao entre c˜ esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´ ıstica de um determinado per´ ıodo da hist´ria humana.

O TEMPO DOS PIONEIROS: .56 CAP´ ITULO 3.

e que esse trabalho o de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa. o co como podemos ver. de Spencer e Gillen. e sim como h´spedes que o receo bem e mestres que o ensinam. recebe. n˜o a a apenas a viver entre eles. a falar sua l´ ıngua e a pensar nessa l´ ıngua. ou de Junod. de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que co 57 . e o pesc˜ quisador erudito. a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo. adminisa trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes. Trata-se. c˜ e A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do ca a c s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas. mission´rio. como aluno atento. que escreve A Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´ o come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador c deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa. at´ ent˜o e e a o ` c˜ e a habitualmente divididas entre o observador (viajante. tendo permanecido na metr´pole. que relatam em 1899 suas e observa¸˜es sobre os abor´ co ıgines australianos. que publica em 1891 uma e obra sobre os melan´sios. analisa e o interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes. que.Cap´ ıtulo 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: Boas e Malinowski Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ade a ministradores) que possu´ ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no c˜ meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington. Ele aprende ent˜o. mas a viver como eles. O pesquisador comprec˜ ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais a como informadores a serem questionados.

Evanso Pritchard estuda os Azand´s (trad. realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do e c˜ mundo inteiro. Em 1909 e 1910. levada. o etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um a c˜ ritmo ininterrupto. impregnado a do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de ca um min´sculo arquip´lago melan´sio. eram conduzidas de u a um ponto de vista que hoje qualificar´ ıamos de microssociol´gico. como o chamamos ainda hoje. Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha. Esse trabalho de campo. a a Alguns anos mais tarde. Em 1901. Em suma. virgem e aberta”. e 1968).1 BOAS (1858-1942) Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. residindo geralmente fora da sociedade ind´ e ıgena e obtendo informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo c˜ e ´ merece ser repetido. um dos fundadores da antropologia inglesa. desde os primeic˜ o ros anos do s´culo XX. A partir da´ as miss˜es de pesquisas u e e ı. os e insulares da Nova Guin´. franc. Suas pesquisas. Rivers. e e 4. a meu ver os mais importantes. dentro dos limites deste Inibalho. em uma ”natureza imensa. Em 1906 e 1908. ”ao vivo”. franc. a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre.58 CAP´ ITULO 4. Margaret Mead. longe de ser visto como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese.onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. Radcliffe-Brown estuda os habitantes das ilhas Andaman. a contribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da c˜ c˜ etnologia contemporˆnea. como diz Malinowski. dois entre eles. totalmente pioneiras. No campo. as Nupes da Nig´ria. iniciadas. Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o. 1972) e os Nuer (trad. Boas a o era antes de tudo um homem de campo. notamo-lo. a ´ . Orientou a partir desse e o momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que.Primeira Guerra Mundial. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador e e a do s´culo XIX. os Tallensi. estuda os Todas da ´ ındia. tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das . ap´s a . Nadei. a c˜ a polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski. etc e Como n˜o ´ poss´ a e ıvel examinar. a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular ´ e entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica). o outro. o ensina Boas. dea ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas. Fortes.

dar conta cientificamente de uma microssociedade. enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido realmente consideradas em si e para si mesmas.ia c˜ c e partir de Boas. em particular Lowie. Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais c˜ meticulosa. ca e Finalmente. Apenas o antrop´logo pode elaborar o o uma monografia. 1 .1. e isso detalhadae o mente. c˜ a Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´ a ue a e mais poss´ ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”. 1971) a cr´ ıtica mais radical e mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios. ca Por outro lado. Boas anuncia ca assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”. muito menos a nos que. sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas. na voz dos mais humildes entre eles. ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia. da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo. Em especial. mas procura detectar a a o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes mae teriais. sociedades ”inferiores”evoluindo para o ”superior”. ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento). o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. As ca primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deria a o vado.1 ele c˜ c˜ a mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto o c˜ particular no qual se inscreve. deve ser levada em considera¸˜o. Montesquieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das e rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. a a e As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que exa a pressa o patrimˆnio metaf´ o ısico do grupo. as diferentes vers˜es de ca o um mito. Claro. para o etn´logo. Morgan e. classificam suas atividades mentais e sociais. que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia. do qual falaremos mais adiante. estima-se que para compreender o lugar particular ocupado por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e. do acesso a l´ e o ` ıngua da cultura na qual trabalha. isto ´. Assistimos o a ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta a mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios. confiam neles.4. BOAS (1858-1942) 59 casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s. muito antes dele. e isso muito antes de Griaule. Boas considera. Mas a diferen¸a ´ que. e apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. a a mas tamb´m a necessidade. Por outro lado. da ”metr´pole”. e no detalhe do detalhe. cada uma dentre elas adquire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. O primeiro a formular com o seus colaboradores (cf. Pela o primeira vez. a maneira pela qual as sociedades tradicionais.

ano o de publica¸˜o de sua primeira obra. Foi um dos prie a meiros etn´grafos. 2) nunca formulou uma verdadeira teoria. isto ´ o e uma antropologia principalmente – sucedem. em seguida. seja praticamente desconhecido. at´ sua morte. R. Herskovitz. a viver com as popula¸oes que estudava a e c˜ Sobre a rela¸˜o da cultura. M. . foi. acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio recoc˜ o o lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). e 4. que retratam os prim´rdios da humanie o dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia. a mod´stia e a sobrie edade da maturidade. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos o c˜ a c˜ observados. enquanto professor. Finalmente. e 1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia eta e nogr´fica. Benedict. ou que lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer. exceto entre os profissionais da antropologia. de 1922.60 CAP´ ITULO 4. e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante ca a ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos do esp´ ırito cient´ ıfico. t˜o estranho era-lhe o esp´ a ırito de sistema. Nada que anuncie. levando em conta o que foi dito. cf. Linton. As c˜ afrescos gigantescos do s´culo XIX. particular-mente. o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos c˜ o americanos (Kroeber. em 1942. o o Sapir (1967) e Leenhardt (1946). a emo¸ao a e c˜ que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski. em primeiro lugar. que Boas. Mead). De qualquer modo. Sapir. isto ´. Isso se deve principalmente a duas raz˜es: o 1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos. 2 . OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´ o e ıngua de seus interlocutores.2 Pode parecer surpreendente. da l´ ca ıngua e do etn´logo. a influˆncia de Boas foi consider´vel. Os Argonautas do Pac´ ca ıfico Ocidental.2 MALINOWSKI (1884-1942) Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica. Lowie. . ap´s Boas. ele nunca escreveu nenhum c˜ livro destinado ao p´blico erudito. por exemplo. Ele permanece sendo o mestre incontestado da antropologia americana na primeira metade do s´culo XX. com ele. e. e os textos que nos deixou s˜o de uma u a concis˜o e de um rigor asc´tico.

segundo ele. .4. a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente muito simples. Malinowski considera que uma sociedade deve ser estue dada enquanto uma totalidade. o que sentem os homens e as mulheres que pertenc˜ cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´ c˜ o ısticas de cada cultura. a ocupar o lugar do evolucionismo. e para isso. Conv´m pelo a ca e contr´rio. notamo-lo. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que a ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ o a ıdo sua obra. MALINOWSKI (1884-1942) 61 e a recolher seus materiais de seus idiomas. por uma verdadeira busca de despersonaliza-¸ao. conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro a a livro. Boas procurava estabelecer repert´rios a e o exaustivos. e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria dia e fusionista. a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que e vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens c˜ da civiliza¸ao. na mentalidade dos outros. . aparece o perfil do conjunto de uma sociedade. ou mesmo de um unico ob´ ´ jeto (por exemplo. Murdock. Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si e mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem. procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo a europeu. e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber.2. Enquanto Frazer o procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar a o que ´?”. ıcio e e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura. Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes e . a qual se transmite e a por empr´stimos). respondia: ”Deus me livre!”. radicalizou essa compreens˜o por a dentro. do pr´prio Frazer. e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O e e e Ramo de Ouro. Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. no in´ do s´culo. que tende. adota a o uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e cont´ ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. que foi no entanto o mestre de Malinowski. 2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o eso ca peculativa dos est´gios). observando-a no a presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem. mostrar que a partir de um unico costume. tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. como ele fez e c no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand. Medimos o caminho percorrido desde Frazer. e ca (Com Malinowski. com um pref´cio. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. e em compreender de dentro.) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de c˜ u ıvel vari´veis. embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao o c˜ de O Ramo de Ouro.

dos comportamentos. a 3) A fim de pensar essa coerˆncia interna. jur´ ıdicas. o estudo dos sonhos e c˜ o 3 dos desejos do indiv´ ıduo. para Malinowski. fornecendo respostas coletivas organizadas. sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares. uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica. fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao c˜ c˜ psicol´gica do pesquisador. e. uma sociedade funcionando como um organismo. as rela¸oes biol´gicas c˜ o devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que pera o mite pensar as rela¸oes sociais. do psicol´gico e e c˜ o do biol´gico. e n˜o primitivos”. o que decorre do ponto anterior. tˆm uma signia e fica¸ao e uma coerˆncia. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas. todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes o a da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa. Conv´m em primeiro lugar. que constituem. que os homens e a mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de a n´s. E Malinowski. t˜o profundamente diferentes dos nossos. Malinowski elabora uma teoria e (o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ e ıduo sente um certo n´mero de necessidades. pol´ c˜ o ıticas.62 CAP´ ITULO 4. e co u Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio. localizar a rela¸ao o e c˜ estreita do social e do biol´gico. de Durkheim). e cada cultura tem precisamente u como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamenc˜ ` tais. ou melhor.). e sim como o seu pr´prio fundamento. notadamente. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma grande incompreens˜o da psican´lise a a 3´ . o Hoje. c o de n˜o dissociar o grupo do indiv´ a ıduo. que deve ”compreender e compartilhar os sentio mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”. e ao nosso ver. para o a ele. ´ c˜ E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. Ele procura reviver nele pr´prio os seno timentos dos outros.solu¸˜es originais que permitem atender co a essas necessidades. quanto a esse aspecto (que o separa radicalmente. . OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: dos Trobriandeses. devendo o ca homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social. que faz com que seja um dos primeiros etn´logos o a interessar-se pelas obras de Freud. Al´m c˜ o e disso. educativas. j´ que. vai muito al´m da an´lise da e a afetividade de seus interlocutores. e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados. . autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo) o a o que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas. cada uma a seu modo. inclui o ese tudo das motiva¸oes psicol´gicas. como veremos. 4) Uma outra caracter´ ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns c˜ e a a vest´ ıgios da humanidade.

que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem). Em rela¸˜o a esta. com a ”civiliza¸˜o industrial”. situa¸ao essa. pois o que fez a partir dos anos 20 ´ a e e essencial). ligadas ao car´ter sistem´tico de sua o a a rea¸ao ao evolucionismo. a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim c˜ a a do lado da sociedade ocidental (cf. esse funcionalismo ”cient´ e ıfico”n˜o tem a rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20. visando a a naturalmente a um equil´ ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as e c˜ ` necessidades dos homens.4. isto ´. relativamente afastado dos contatos inıcio e terculturais –. pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a e a c˜ a ı todas as necessidades. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´ ca ıodo da conquista colonial. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo a o . Malinowski. ao meu ver. em grande parte. que postula que toda sociedade ´ t˜o boa quanto pode ser. c˜ 1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a o e sua sociedade. os costumes ca dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. e e as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos. pp. que contribuiu. Malinowski inverte essa rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou. e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm ` ca a sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. Al´m disso. n˜o ´ totalmente falso. ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida – ´ uma teoria de uma extrema rigidez. ca 2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´ ıfica moderna (o que. Nesta perspectiva. e com seus benef´ c˜ ıcios. considerada como ”a e ca civiliza¸ao”tout court. 50-51 deste livro os coment´rios de a Malinowski. o estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis cic˜ a a ent´ ıficas da sociedade”. toc˜ c˜ c˜ talmente ocultada. Assim sendo. MALINOWSKI (1884-1942) *** 63 O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavelo mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive o quando era vivo) se deve a duas raz˜es. para o descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. baseando-se no modelo do finalismo biol´gico.2. defronta-se com duas grandes dificuldades: como explicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia c cultural? A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago o e u e que permanece. n˜o mais considerada como forma social ca a anterior a civiliza¸˜o. pelo menos. no in´ do s´culo. Essa compreens˜o naturalista e marcadamente otia mista de uma totalidade cultural integrada. uma busca c˜ o c˜ de identifica¸˜o) com a alteridade.

e a muito menos na Fran¸a. para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. que n˜o tem mais nada a ver a com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”. pois ıvel ` a o nos permite encontrar os significados pol´ ıticos. o segundo grande livro de Malinowski. o social deixa de ser aned´tico. m´gicos. Esse ”estudo dos m´todos agr´ e ıcolas e dos ritos agr´rios a nas ilhas Trobriand”. c o ´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos e a c˜ u e insignificantes. passando necessariamente de novo a a por seu local de origem. c˜ *** Apesar disso. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo. Assim. pulseiras de conchas brancas. dando-nos o exemplo do o a c˜ que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. ele inventa literalmente e ´ o prie c˜ e e meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante. Deu-nos o exemplo c daquilo que devia ser uma pesquisa de campo. est´ticos a e do grupo inteiro. ao ritual m´gico que as consagra. religiosos. pela primeira vez. trabalha com a mesma abordagem. as regulamenta¸oes a ` c˜ que definem sua posse. 2) Em Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. efetuando em sentidos contr´rios percursos invari´veis. Malinowski mostra que estamos frente a um processo de troca generalizado. irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas. e toca em muitos outros aspectos que n˜o a agricultura.64 CAP´ ITULO 4. a . mostra que a agricultura dos Trobriandeses o o inscreve-se na totalidade social desse povo. a 1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos ´ outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia. descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o o o ca ca exaustiva erudita. O fato e de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade c˜ de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´ o c o ıngua pode parecer banal hoje. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra. Algumas transportando de ilha em ilha colares de conchas vermelhas. Malinowski nos ensinou a olhar. tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel. outras. longe de ser uma pesquisa especializada sobre um fenˆmeno agronˆmico dado. as canoas trobriandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que a ca as fabrica e utiliza. al´m das cr´ e ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em proo vocar. etc. cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes c˜ o c˜ respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. Os Jardins de Coral. Pois. curiosidade ex´tica.

uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade e de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam ca e ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar. escreve Firth. um jurista pode ser cego. ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o poo e a deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. O homem c˜ nunca desaparece em proveito do sistema.4. Os Argonautas me parece exemplar. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. podendo. conjuntamente. da ese c˜ pecificidade da nossa disciplina. sentido. publicado com fotografias tiradas a partir de 1914 por seu autor. mas a o a escrever. essa exigˆncia de conduzir e um projeto cient´ ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ a ıstica chama-se etnologia. e. . 1972. de L´vi Strauss. como mostrou Devereux (1980). como ele. a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e c ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto. ”Um historiador”. expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad. Ora. MALINOWSKI (1884-1942) 65 3) Finalmente. abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia a 4 audiovisual. Quanto ` ´ a isso. consultar o trabalho de Michel Panoff. ir c˜ at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar. n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es c˜ a a co reguladoras da vida de atores anˆnimos. ouvido. Seja em Os Argonautas ou’ Os o Jardins de Coral. e que anuncia as e mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos. e c˜ e Mesmo quando estuda institui¸oes. 4 Sobre a obra de Malinowski. a o e A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o a e u c ca e sofistica¸ao dos protocolos. ”pode ser surdo. viveu e na Inglaterra. o mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o e o que fazem”. restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego.2. Ora. E um livro escrito num estilo magn´ ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que.

OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: .66 CAP´ ITULO 4.

E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores franceses dessa ´poca. Quanto ao segundo. e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss. ela exige. mostrou em suas primeiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia. isto ´. o que h´ o e a de mais contest´vel em sua obra. recolhendo com a precis˜o de um naa turalista os fatos no campo. para alcan¸ar sua elabora¸ao c c˜ cient´ ıfica. conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o e a a ue desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma a a a alguma etn´logos de campo. nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. independentes tanto da exo ca e plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo). como acabamos de ver. nascido em 1858. que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”. de conceitos e modelos que ca o sejam pr´prios da investiga¸˜o do social. Durkheim. n˜o era um te´rico. A antropologia precisava ainda elaborar a instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto ´ cient´ ıfico.Cap´ ıtulo 5 Os Primeiros Te´ricos Da o Antropologia: Durkheim e Mauss Boas e Malinowski. fundaram a etnografia. o mesmo ano que Boas. e ` Se existe uma autonomia do social. a parte a o te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente. Mas o primeiro. quanto da c˜ o a explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psic˜ o o cologia cl´ssica e a psican´lise principiante). a a Ora. e mais ainda c˜ 67 . a constitui¸˜o de um quadro te´rico. o o o de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico a o e os instrumentos que lhe faltavam ainda.

´ 68 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pree o o cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo a o a a a ”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em c c˜ a movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida e Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas e a importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da soe a ca ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas. o Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e ca e que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos e u e o sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na a e sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir e e c seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser buso cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”. a e Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem a e a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social e o a c˜ o (sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o da a a rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente c˜ a estudando os estados afetivos dos indiv´ ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma e psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmeno e o coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam, a c˜ sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior, c e a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte. o a Essa irredutibilidade do social aos indiv´ ıduos (que ´ a pedra-de-toque de quale quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os o ue fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a a o outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua autonomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado e o ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas. o co o a o o . . da ´poca. e Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto e a o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas a o e novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das e o ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente, e e das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia e e consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e a o evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa disc ıs ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia. a

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Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respectio e c˜ o vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito c˜ a pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o o a de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o ese o tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica e ` e o que hoje qualificar´ ıamos de pluridisciplinar. Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades o ”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou ˆ antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar incansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa. e a Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o a a inverso,. Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social o total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico, c˜ o o jur´ ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada realio e dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente e o c dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´gos e o se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos soo ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fia e siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de o o nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda, e a a afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma o e e o forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as o e e o condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particularo mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica. o o o o Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, coe mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos e distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´ o e ıduos”. Devemos, escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos a em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmeno ´ o social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser ` e apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de e unico: ´

´ 70 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal e a e ca e ou tal ilha”. N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o a c ca ca se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia a e e e individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social. e e ca Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆo e e lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro e e ´ como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal e como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como o e os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento ´ ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um oba o jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando e o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que a c˜ caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o o e e observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele c mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto e oe ıvel e quanto ele, sujeito. Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim, ` a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferena c˜ tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia o o durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo o a a ´ ponto merece alguns coment´rios. a Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em a 1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da oua o tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´o o grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo a ıda antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes o a ca circuitos mar´ ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e e e pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de e esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vic˜ e a sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a o e c a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da e comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura troca a o a briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski, o evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom a o j´ expressa preocupa¸oes estruturais. a c˜

´ pr´prio de toda obra c˜ u c˜ e o importante. de suscitar interpreta¸oes m´ltiplas. e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas. fundador da etnopsiquiatria) o consideram como seu pr´prio mestre. e pai do estruturalismo. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar o c bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos. especialmente para toa dos os que. procuraram promover a especificidade e a unidade das ciˆncias do homem. fundador da etnografia francesa. Muitos a mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em e Marciel Griaule. influenciados por ele.´vi-Strauss. e . em Georges Devereux. em Claude I. ou mesmo voca¸oes diversas.71 O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras.

OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: .´ 72 CAP´ ITULO 5.

Parte II As Principais Tendˆncias Do e Pensamento Antropol´gico o Contemporˆneo a 73 .

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N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama coma a pleto desse per´ ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986). . .. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras. Rivers.Cap´ ıtulo 6 Introdu¸˜o: ca Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas. O desenvolvimento do pensamento cient´ ıfico implica uma diferen cia¸ao cresc˜ cente dos campos do saber. antropologia industrial. antropologia urbana. consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜o ıcio a ca e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. antropologia religiosa. o e e 6. psicologia. antropologia da comunica¸˜o. hist´ria. que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser o c expostas no in´ desse livro. especializando-se e instaurando c o a at´ subespecialidades. antropologia o dos sistemas de parentesco. (poca c˜ ` o dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto). . – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social o e – Durkheim e Mauss –. mais modestamente. c ca mas avan¸a. dentro de sua pr´pria pr´tica. sociologia. e tamb´m porque o e nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propriaa c a mente contemporˆneos. Malinowski. . antropologia art´ ıstica. podemos considerar que a antropologia entrou em sua maturidade. antropologia pol´ ıtica. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contema porˆneos. A antropologia n˜o apenas tende a progredir a por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia. t˜o grande ´ a e a e diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado. .1 e Especialidades: antropologia das tecnologias. em abrir a algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que pero mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dos e a antrop´logos de nossa ´poca. antropologia econˆmica. ca 1 75 .1 Campos De Investiga¸˜o ca A primeira via. Contentar-nos-emos.

mas. ´ porque consideramos que uma disciplina o a e cient´ ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos e a emp´ ıricos j´ constitu´ a ıdos. as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam co as sociedades entre si. que apenas esbo¸aremos aqui. esse per´ ´ ıodo em objeto cient´ ıfico. e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao a o a a ”Ocidente”. a arte. de que s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada. a britˆnica h francesa. o ` a o As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o c˜ o ca o a eminentemente diversificadas. o a a a . Disso decorre a ca Subespecialidades: etnoling¨´ uıstica.). n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dado a e c˜ (a tecnologia. essa area. Esse estudo. muito menos uma area a ´ geogr´fica ou um per´ a ıodo da hist´ria. Ou seja. o parentesco. bem como das produ¸oes culturais caracter´ c˜ ısticas de uma etnia ou na¸˜o. etnomedicina. c˜ visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais. 6. Mostraree a mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profundamente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e a a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. . Limitura o a nos-emos a trˆs: a antropologia americana.76 CAP´ ITULO 6. consistiria em mostrar o c que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence. etnomusicologia. pela constitui¸ao de objetos a c˜ formais. etnopsiquiatria. a religi˜o. como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. a unica coisa pass´ ´ ıvel. conduzido mais a partir da observa¸ao c˜ dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes.2 Determina¸oes Culturais c˜ Uma segunda via. INTRODUCAO: ¸˜ Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ ıvel de exposi¸˜o do campo ca antropol´gico contemporˆneo. e a A antropologia americana: Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolua cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan. pode ser caracterizada da o seguinte maneira: 1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas. a nosso ver. e sim a especificidade da abordagem o utilizada que transforma esse campo. . de definir uma disciplina (qualquer que seja). pelo contr´rio.

a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos a elementos de uma cultura para outra. uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu a passado. Pode ser caracterizada da ` a e seguinte maneira: 1) ´ uma antropologia antievolucionista. bem e a a como a abordagem da historiografia). ´ o ındia e portorriquenha). o enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos que constituem uma determinada sociedade: a monografia. . o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos c˜ mais adiante. Dedica-se preferencialmente a inves` tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski). 3) nunca foi confrontada. mas tamb´m entre as pr´prias1 e o culturas: forjou. em seus deo senvolvimentos contemporˆneos. nem pelo que empresta a seus vizinhos.2. c˜ c˜ aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra. nos Estados Unidos. indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”. ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Inglaa c terra. Para a maioria dos pesquisadores ingleses. estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em si. independentemente de seu passado. aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao. o que a op˜e a antropologia amee o ` ricana. mas. tamb´m muito r´pido. em sec˜ e guida. que se constituiu desde Malinowski e em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hica a o co pot´ticas dos est´gios. tal como se apresenta no momento no qual a observamos. 2) ´ uma antropologia antidifusionista. como nos Estados Unidos. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ 77 importˆncia. reatualizou e renovou ao mesmo tempo. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico. a abordagem evolucionista sob a forma do a que ´ hoje chamado neo-evolucionismo e A antropologia britˆnica: a Seu crescimento. deve ser e a relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial.6. em especial. e. 4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es o ` a co hist´ricas especulativas. das rela¸oes da etnologia com a psicologia a c˜ ou a psican´lise: a 2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de ina tera¸ao entre os indiv´ c˜ ıduos e sua cultura. em contrapartida.

n˜o hesita em a a qualificar-se de ”empirista”. ´ uma antropologia social que. o ıcio e qual ´. Enquanto que um a a a ıcio e campo emp´ ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos o a ıa como na Gr´-Bretanha. um dos pais fundadores de quem a maioe ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora.2 Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. c o a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem. e e e As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area. c e e e Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´ e a ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a e o c (em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas ca a e a e ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard) e ıs 2 . que se desenvolve muito rapidamente. a e partir do in´ do s´culo. Leach. a partir ca de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos a antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo o o ca a dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo o ıs. Hoje ainda. c˜ ´ Quando se falava de antropologia. privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detric˜ mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´ ıduos. e que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ada o a Notemos que Gobineau. que pua blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia. tratava-se da antropologia f´ ısica. e e nessa ´poca. com Malinowski e. Quatrefages ou Topinard. ao contr´rio da antropologia e a americana. nesses dois pa´ a ıses.78 CAP´ ITULO 6. 1853) era francˆs. Esse o a a car´ter emp´ a ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade. e at´ de ”materialista”. um antrop´logo que pode ser considee o rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha. administradores utilizavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades. que era ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca. antes. INTRODUCAO: ¸˜ 3) ´ uma antropologia de campo. A antropologia francesa: A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e culc a tural da segunda metade do s´culo XIX. que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a ra¸a. mais ainda que Malinowski. a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano). e 4) finalmente. Nenhum pesquisador francˆs teve. do pensamento francˆs. enquanto. e vˆ a abordagem de um e e L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista. com Radcliffe-Brown. nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines.

mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica. caracterizar os desenvolvimentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa.2. Entre os pioneiros desse africanismo e francˆs principiante. estendendo o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto. Maurice Leenhardt. A partir desse momento. nunca realizou uma investiga¸ao no campo. a c˜ Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia proa fissional comece a se constituir na Fran¸a. Lembrea mos apenas aqui alguns aspectos relevantes: • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem parco o o ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica ` a da antropologia anglo-saxˆnica. nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. Nem a a a a Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia inglesa). mission´rio da Su´ca romanche a ı¸ 3 . c˜ o o o sem d´vida. diretor da Revue a d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924). conv´m lembrar os noves de Tauxier. que s˜o e e a administradores coloniais eruditos. e s´ a partir dela. mas c˜ ıs. pode-se considerar que. cuja riqueza a n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra. exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´ u a e ca ıfica da etnologia. Labouret. Publicou notadaı mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). A partir da mesma ´poca. principalmente em algumas frases.3 o 79 Mais uma vez. enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os a da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca. • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es” ca e co Clozel e Delafosse estudaram no in´ ıcio do s´culo o sistema jur´ e ıdico das popula¸˜es co do Sud˜o.6. com o impulso especialmente dos o homens que acabamos de citar. freq¨entemente mais emp´ o u ırica. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. Monteil. A primeira miss˜o de car´ter c a a cient´ ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e a seus colaboradores em 1931. a antropologia francesa entrou em sua maturidade. 1985) que podem ser qualificados de pioneiros. as pesquisas foram prosseguindo. e que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio o a protestante. e c˜ o que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra. e sobretudo ]unod. manual de investiga¸ao e c˜ etnogr´fica (1967). DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ ministradores de colˆnias francesas. as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspecco a tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que. empreendeu trabalhos (1946. Seria dif´ ıcil. O pr´prio Mauss.

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜ (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral), a c˜ termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interese a sava pelo que chamava de ”mentalidades”; • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente: ca o

1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante e e mais ilustre), 2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da o c˜ etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa, o em suas diversidades e muta¸oes. c˜

6.3

Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento o o Antropol´gico Contemporˆneo o a

´ Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente a c˜ optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse lie a vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao ca c˜ 4 cient´ ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem a o o freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de u a vista diferentes sobre a mesma realidade. Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da ana tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (tera o rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a o a o antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das co tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos e a e de investiga¸ao. c˜ A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver, a nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o o a de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos a u o o
As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de invesco o c tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um ca a ca quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim e
4

´ ´ ´ ˆ 6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE a uma imaturidade cient´ ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa discia plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a u antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio a e a para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver a ´ pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se a cr´ ıticas rec´ ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K. ca Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva o sobre o social e n˜o o pr´prio social. a o Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´ e o o ıram, a partir do s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia e e do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a e c˜ co ca filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, lie o teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault: c˜ • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fie co c˜ siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das o c˜ normas reguladoras dessas fun¸oes; c˜ • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes e c˜ sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses conflitos; • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos, e bem como do sistema que constitui sua coerˆncia. e A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus proa o longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromotoo ` res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A e a c˜ ”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de a o o co poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´ ´ a c uıstico, as ` disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como e ca a objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais. a c˜ O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras e e as Coisas, ´: e 1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o a ca as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes; ` co a c˜ 2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra, ca

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apao receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir e dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do c˜ sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss). e Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu c˜ nome pessoal, ´ que: e 1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um e a a unico modo de acesso sem correr o risco do esp´ ´ ırito de ortodoxia. E efetivamente, no per´ ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos, e veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios moa dos de acesso. 2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de inconsa o a ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´ a ıtico, mas do qual este n˜o tem a evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas, o a regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do e saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesquisas etnol´gicas de car´ter emp´ o a ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜o ca de seu objeto cient´ ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por e assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores soca ciais quanto das observadoras do social. Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco ıvel p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente. o 1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que chao e a mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam e u c˜ em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria e o c˜ a do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como veremos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito. c˜ e Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que enconc˜ tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos? e o

Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ ca o ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50 Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974. e

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e a o mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico. e entre as pr´prias o culturas. os culturalistas mais uma vez. mas tamb´m Durkheim). Bateson). Foucault). outros finalmente. ou ling¨´ uıstico (Sapir. privilegiam a des-continuidade. de quem falaremos adie ante. E um eixo c˜ c˜ co de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar. como vimos. de outro.´ ´ ´ ˆ 6. a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss. ca b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade u o da cultura (para Morgan. a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura. c˜ em detrimento da norma e do sistema. sobretudo a respeito disso. sentir. em si. a linguagem. isto ´ a coerˆncia e e interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura. Mas a e e . como Evans-Pritchard ou Devereux. Uns utilizam um modelo a o psicanal´ ıtico. e mais para a organiza¸ao interna dos c˜ grupos. mais exatamente. Seu objeto situa-se claramente no campo epistemol´gico oriundo da economia (cf. matem´tico. Mas o que permite essencialmente caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou e e e descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado. Um dos conceitos opeo o o rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou. escolhem um modelo ling¨´ uıstico. e c˜ os que chamamos ”aculturalistas”. o conhecimento. as regras o explicativas da troca). Nada distingue o realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo.3. freq¨entemente ligado ao estudo dos e u ´ processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a o a a um tronco comum. a partir da qual podem ser estudados o pensamento. esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou. os mais numerosos. h´ uma permanˆncia das fun¸˜es. cibern´tico (L´vi-Strauss. no que diz a respeito ao essencial. 1967). e qual ´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global? e ıvel c˜ 3) A antropologia cultural. acima M. ´ uma antropologia freq¨entee u mente emp´ ırica. a conhecer. Seja o modelo utilizado. psicol´gico o o (Kardiner. a emo¸˜o. no caso c de L´vi-Strauss. com autores de quem est˜o. expressar-se. ´ o de fun¸ao o ıcio e c˜ (Malinowski. muito afastados. Estudaremos aqui n˜o s´ uma. biol´gico. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE 2) A antropologia social. mais ainda. c ıvel c) A antropologia estrutural e sistˆmica. para Malinowski. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve ca ca tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso. do sentido. que se situa do lado da fun¸ao ou. outros um modelo proveniente do que Foucault designa como o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora. privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade. 1970). e para a e co Devereux uma ”universalidade da cultura”).

n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas. Mas esta deve doravante ser pensada. e Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao. do sentido para o sistema (L´vi-Strauss). O que desmorona. Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a seo a a e guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´ a ırito que atuam. Saussure. mas que se inscreve no mesmo horizonte c˜ epistemol´gico. . a ”mentalidade primitiva”.84 CAP´ ITULO 6. ` c˜ op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. do sistema (e n˜o mais do sentido). na obra de arte?. para sempre diferente. como na antropologia estrutural. Ao contr´rio. n˜o ´ mais poss´ pensar que a a e ıvel os doentes mentais s˜o ”loucos”. Assim. INTRODUCAO: ¸˜ qualquer que seja o modelo adotado. estima-se que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das e co o produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´ c˜ ıvel ırico existe o que Bastian j´ chaa mava de ”unidade ps´ ıquica da humanidade”. do l´gico e do il´gico. isto ´. quanto no mito. em rela¸ao ao anterior. finalmente (1966). 53 deste livro). o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente o pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. ´ a pertinˆncia dos pares a e e antinˆ-micos do normal e do patol´gico. o alteridade sempre a c˜ corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritorialic dade: ao lado. Invers˜o de perspectiva o a a neste caso. e depois Jakobson (a l´ ıngua explicativa da palavra). 5) A antropologia dinˆmica. p. o c˜ . o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. E e ´. e os a mitos ”insignificantes”. a Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa. ´ porque. Para Griaule. ent˜o. de L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o e sentido). tanto nas formas elementares e complexas do parentesco. Para a ete a e nologia de L´vy-Bruhl (1933). . para a psicologia e pr´-freudiana. ”absurda”. fora. existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva e de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. da regra (e n˜o mais do a c˜ a conflito). Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa a antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6 o a chama de campo sociol´gico. de fato. a o e com ele. do sentido e o o o o do n˜o-sentido. e o o ´ as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional. ele realiza uma passagem do consciente para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim). a o a Na antropo logia psicanal´ ıtica. que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. do conflito c˜ para a regra (Mauss). em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do conse ciente). mas ao n´ do sistema a ıvel co ıvel (inconsciente). quando a atividade epistemol´gica come¸a a o a o c situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao). e que procura estudar as rela¸oes de poder.

1973). ou at´ as discuss˜es. consiste. Considerando agora a obra de L´vie Strauss.dos objetos preferencialmente estudados (os mitos). Existem portanto afinidades entre. e ´ afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia a e ca e (1967-1970). por exemplo. a meu e ver. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem a a e a e coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento. por exemplo. Mas. ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma ca e ıcil antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de ca ca orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ ca a ıtica (Devereux). 1970) sobre os e culturalistas americanos. Mas seu projeto o diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no a e o e Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao e e e quarto eixo de pesquisa definido acima. pelo contr´rio. mas e o a tamb´m dentro de uma mesma disciplina. a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas. e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. em reorientar a antropologia social. Para esses auc˜ tores. no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o ca superou finalmente a particularidade das culturas. se a examinarmos do ponto de vista. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das co a a da sociologia. Assim. ou mesmo de um unico ´ 7 pesquisador. entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica a (Godelier. co e e mais especificamente. se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de a e que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas. do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. A incompreens˜o entre os pesquie a sadores pode se tornar total. Uma o das caracter´ ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX. Kardiner. 7 . Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. da segunda metade do s´culo XX.´ ´ ´ ˆ 6. esta situa-se. Em compensa¸˜o. A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo opee rante (ou modelo epistemol´gico principal. o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da c o antropologia cultural. exerceu uma influˆncia evidente (cf. ao mesmo tempo a hist´ricos (sociedao des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse) o ca a e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos. conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que a e a ´ seria a hist´ria. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963). o e o as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema soo a e a cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es? a co Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contemo porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo.. Por isso. constitutivo da abordagem adoo tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo a instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os debac˜ tes. a antropologia cultural e a antropologia funcional (Malinowski). que constituem divero sas perspectivas poss´ ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ ırico.3. por exemplo.

psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos o o ca de inibi¸ao.86 CAP´ ITULO 6. mas n˜o podem subsiitu´ a ı-lo. Conv´m. ”aproxio a mado”. Malinowski). pois este. ”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es e ` co de mensagens. INTRODUCAO: ¸˜ Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo` a e delos em antro pologia. por exemplo. o Comte. c´digos e programas). em termos cient´ ıficos. segundo a express˜o de Bachelard. s´ pode ser. se quic˜ a c˜ e sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos. . ling¨´ o uısticos ou. repress˜o e sublima¸ao para pensar o social). como se diz hoje. biol´gicos (Spencer. isto ´. Estes podem ser. hist´ricos (Morgan). e u a nunca esquecer que se trata somente de modelos. de instrumentos da e pesquisa que visam explicar o real.

e para Griaule em especial. G. leva Mareei Griaule e seus colaboc˜ e radores a efetuar estudos sistem´ticos. 1963). . Deixando de lado. Dielerlcn (1951. particularmente representativa dessas preoc cupa¸oes: ´ a que. de que trataremos no pr´ximo o cap´ ıtulo). lendas. cient´ ıficos) existentes num grupo (o que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que hoje qualificamos de ”etnociˆncias”). bambara. . tal como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais. . Paulme. e a depois. dan¸as. da m´sica. a literatura de tradi¸ao oral (mitos. primeiro da mitologia dos Dogons.) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas e e produ¸oes se constituem (particularmente as l´ c˜ ınguas). n˜o apenas o africanismo francˆs.. da religi˜o dos Bambaras. o estudo da l´gica dos o saberes (filos´ficos. em suma. cosmol´gicos. Griaule e G. Griaule (1938. M. art´ o ısticos. teol´gicos. prov´rbios. co o c˜ contos. 1972). por assim dizer. dos e o u cantos. Toda uma corrente a de pesquisas aparece na Fran¸a. por exemplo. Calame-Griaule (1965). D Zahan (1960.Cap´ ıtulo 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica preo cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos. . Dieterlen (1965). 1966). mas tamb´m a pr´tica etnol´gica a e e a o dos pesquisadores franceses. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradouraa a mente. 1 87 . 1962). que o o o s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo ca das produ¸˜es simb´licas (artesanato). m´scaras e outros objetos culturais. religiosos. c a Para o conjunto dos etn´logos. a partir dos anos 30. G. etc. esse pensamento o Cf. D. M. de tudo que Griaule e seus e sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon. a compreens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma a c˜ sociedade (assunto da antropologia social.

Mas como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de muie co a tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. de uma complexidade e riqueza inestim´veis. op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao o a c˜ pela economia. Cf. Rouch (1960). Da mesma forma. um dos mais importantes lugares da antropologia.Bruhl. que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social. os abor´ ıgines australianos e os trobriandeses. Durand (1975). Leiris (1958). de Heusch (1971). e ap´s os ´ o ındios. pelo contr´rio.. Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ o a ıveis”. L. L´vi-Strauss (1964). Favrct-Saada (1977). co O interesse para a ´rea dos mitos. e L. . o homem e o animal. M. S˜o a a o a elas que devem ser tomadas como fundamentais. que. que anota em seus Carnets: os c e mitos s˜o ”est´rias estranhas. M. por exemplo e Durkheim (1979). V. c Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui e o dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julgaco mentos. 2 . Bastide (1958). Percebe-se ent˜o que o conjunto a do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf. a c esperan¸as frustradas”. Van Gennep (1981). dos ritos de inicia¸˜o. a c˜ a E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos. A. escreve: ”loucuras. por exemplo. De Frazer. Mauss (1960). para n˜o dizer absurdas e incompreens´ a o a ıveis”. Thomas e R. das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons). M´traux e (1958). da religi˜o e da magia aparece a ca a como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. fundadoras da ordem c´smica e social. G. n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia o a e – os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os e mortos. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o o a patrimˆnio do grupo. ıcio Tempels. ´ e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”.´ 88 CAP´ ITULO 7. tempo perdido. A. pois s˜o. R. 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que e c˜ se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade. ıvel a categorias caracteristicamente ocidentais. a natureza e a cultura. .) que acabam impondo-se ao observador ocidental. recolhendo o e mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados. e a . e que far˜o em esa pecial. Ou de L´vy-. ritos. de fora. C. impregnando-nos de sua sabedoria. Aug´ e (1982). e n˜o projetando. J. . a interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no ena tanto dedicado sua vida. M. [. se aceitarmos finalmente compreendˆ-las de dentro. Luneau (1975). S˜o elabora¸oes grandiosas. por exemplo. m´scaras. v˜os esfor¸os. c˜ As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologicaa o a a e mente.

´ profundamente subversivo na primeira mee tade do s´culo XX. fora o saber cient´ a ıfico. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”. de tempo. Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao: o c˜ de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos a c˜ ` a ocidentalocˆntricos sobre o primitivo. narrativas. ela efetua a reconstitui¸ao dos c˜ sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. o unico a beneficiar de ´ uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX. Mas ser´ que essa abordagem que se e a limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inicic˜ a ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica? c˜ o O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se e e e a num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o c˜ a a s˜o as nossas. n˜o deixa de haver a um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ u ıram em dar a etnologia francesa seu prest´ ` ıgio. deixando de a c˜ oa se interessar pelo que acontece ”na adega”. apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas canae ques. existem outras formas de c˜ e conhecimento tamb´m autˆnticas. Esse protesto para o direito ` existˆncia e e a e de identidades culturais e espirituais (o que Senghor. atrav´s do pensamento dos insulares. de sua no¸˜o de espa¸o. ca Cr´ ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a aprea e ender as representa¸oes (religiosas. de personagem”. art´ c˜ ısticas. por a a a o exemplo. negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com a a descoberta de ”arte negra”. N˜o se pensa um s´ instante. com Grio aule) na Nova Caledˆnia. de palavra. As rela¸˜es que estes o co mantˆm com as rela¸oes sociais. ”ser movidas a ideologia”. . se n˜o existe nenhuma teoria griauliana e a propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque ele nos parece o mais representativo dessa abordagem). Finalmente. Em Do Kamo. um trabalho consider´vel sem o qual a a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje. a Pessoa e o Mito no Mundo o Melan´sio (1985). chamar´ a de ”metaf´ ısica negra”). a e . econˆmicas da sociedade em um o determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias. Leenhardt considera que o mito ´ e fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”.89 Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mauo rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo. por exemplo. pol´ e c˜ ıticas. na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam. e ca c de sociedade. quando o a a n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas.) como uma ´rea a ”` parte”. Assim sendo. o discurso etnol´gico ` o tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar conta de si pr´pria. . como diz o Althusser. Mostra que.

´ 90 CAP´ ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS .

mas tamb´m dissimulam. religi˜o. o como acabamos de ver. pelos deo posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos co sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ o a ırito dos ind´ ıgenas”. Assim. O antrop´logo o ´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade. esses discursos suntuosos e que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em seu ideal? Assim. . Essa alteridade da qual a procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ ıtulo anterior). a 1979). pede que se substitua o estudo da sociedade como sistema de rela¸˜es reais. por sua vez. magia. se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mico tologia. c˜ Malinowski. n˜o deixam de lembrar os princ´ a ıpios da antropologia simb´lica. a e t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em uma a e c˜ o mesma cultura. A e o antropologia social. e As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre co o a co 91 . tal como se elabora especialmente na Inglaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968). c a c˜ o car´ter integrativo da fam´ da moral. Perguntamo-nos a agora: o que mostram. e sobretudo da religi˜o (Durkheim. Esta insistia.) permanece. Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. A antropologia e a simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo o a que era dito pelos pr´prios fatores sociais. um dos primeiros. . e tamb´m e o valor inestim´vel. a ılia. mais precisamente. na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes. ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas. ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao a e c˜ que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. ou. O a a que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado.Cap´ ıtulo 8 A Antropologia Social: Os princ´ ıpios da antropologia social. pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade.

mas essas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse. Douglas (1971). Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem a e do pol´ ıtico”. pelo menos imediatamente. Rogei Bastide (1970). Este ultimo termo. Evans-Pritchard (1969). e. mais recentemente. G. os trabalhos de R. Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o a a (da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”.1 e e a Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa. de uma op¸˜o poss´ a ca ıvel inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. particularmente na constitui¸ao de uma ana c˜ tropologia social da religi˜o. Evans-Pritchard. e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968). Cf. Louis-Vincent Thomas (1975)). diametralmente oposto ao de Mauss. (1972) ou de M. por sua vez. sublinha-se e c˜ que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincua e o a lada a uma outra coisa. capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao. recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antroe a ca pologia social e a sociologia. Georges Balandier (1974). vai co ´ exercer um papel consider´vel. em uma persa a e pectiva sensivelmente diferente. ainda nessa perspectiva (durkheimiana). muito representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. a Para ilustrar seu ponto de vista. a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas. de a c˜ c˜ parentesco. mas enquanto a a representa¸˜es do social. (1969) escreve: ”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos ´ sociol´gicos. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especificao mente `s sociedades primitivas”. os pensamentos e sentimentos do r´u. assim como podem variar a a idade. A antropologia social n˜o ´ profundamente a e ´ diferente da sociologia. merece ser sublinhada: um certo n´mero de u autores. E. para co a a Estamos apenas dando conta.. todos esc˜ tes n´ ıveis de realidade. estreitamente vinculada ao que acabamos de dizer. Cf. considera Radcliffe-Brown. a partir do exemplo da religi˜o. advogados e r´u: e ”No decorrer desse processo. mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando a c˜ ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e a ca totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o. para o per´ c ıodo contemporˆneo. Brad-bury e col.92 CAP´ ITULO 8. tamb´m. as rela¸oes entre faixas de idade. testemunhas. do j´ri e u e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento. as cr´ ıticas formuladas por M. esse autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes. entre grupos sexuais. ca ca 1 . consagrado por Durkheim. a Henri Desroche (1973). a ou ainda na Fran¸a. jurados. E uma ”sociologia comparativa”. N˜o devem ser estudadas em si-. A ANTROPOLOGIA SOCIAL: decorrem de pr´ticas sociais. Aug´ (1979) quanto ` e a no¸˜o de ”representa¸˜o”.

Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto ino a div´duos”. e a o Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. e notadamente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural. o extremamente proveitosas. e. que examinaremos a a agora. mas se inscreve a no prolongamento da sociologia francesa. c˜ o o prossegue Evans-Pritchard. em especial Lowie. a antropologia social n˜o faz parte da antropologia. A tal ponto que. seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”. . 1971). ı As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica.93 o antrop´logo. podem ser formuladas nos seguintes termos: ”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra. se efetuarem independentemente suas respectivas pesquisas. nesse caso. para muitos autores americanos (cf.

A ANTROPOLOGIA SOCIAL: .94 CAP´ ITULO 8.

totalmente indepeno dente da sociologia. dedica-se uma aten¸ao muito grande menos c˜ ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prios co o indiv´ ıduos.) e para com outros conjuntos. uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble o (1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa discia o plina. tamb´m a ca e hierarquizados. a e o mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que aprea sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo. .Cap´ ıtulo 9 A Antropologia Cultural: A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a c e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente americana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. e co co c˜ ca de domina¸˜o. De um c lado. . a ` Quanto a isso. . a Para compreender a especificidade dessa abordagem. bem como suas produ¸˜es originais (artesanais. religiosas. . freq¨entemente quau lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”. coloca o que ´ uma constante e da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e ` a o ca ` a psican´lise. . mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ a e a e ıstica dessa atitude americana. de explora¸˜o. J´ de in´ e a ıcio. art´ co ısticas. que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem. na¸˜o. quanto de suas id´ias. A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo e 95 . De outro.).) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo ca e conjunto (etnia. O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao. regi˜o. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresentados. a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma. . A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social. parece-me importante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura.

mas dentro de uma a unica c´lula!). Da mesma a e forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e a e uma linguagem nos animais. Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que. Indo at´ mais adiante. bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao a c˜ c˜ das faixas de idade. repetimo-lo. apenas a no¸˜o ca e cultura. dos grupos sexuais. define-o melhor. mas. enquanto homens e mulheres de uma determinada cultura. Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos. . pelo contr´rio. trabalhar. E a raz˜o pela qual. a especializa¸ao hier´rquica a c˜ a c˜ a das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais. e transe mitidas ao conjunto de seus membros. existe o que hoje n˜o se hesita mais em e a chamar de sociologia celular. no e c˜ segundo. ´ estritamente humana. e at´ da sociedade celular. que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso e a prop´sito. reagir frente aos acontecimentos (por exemplo. Pois. o que distingue a sociedade humana da sociedade animal. e por elabora¸˜o ca das atividades rituais aferentes a estes. a nosso ver. Finalmente. da divis˜o hierarquizada do trabaa lho.1 Mas. e examinemos mais adiante o a 1 Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social.96 CAP´ ITULO 9. n˜o ´ de forma alguma a transe a e miss˜o das informa¸oes. de encontrar. existem sociedades animais c at´ formas de socie abilidade animal. Fechemos aqui esse parˆntese. ıcil ca o Kroeber. nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo a ´ de anivers´rio. e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se ´ e c˜ d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´ a e a ımbolos. o que se compara no prica e a meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais. o nascimento. a divis˜o do trabalho. ao contr´rio da de sociedade. levantou mais de 50. celular). a doen¸a. a antropologia ´ por sua vez especificamente e e humana. e . de pensar. trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos come portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas maneiras espec´ ıficas. a morte). sendo que. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: campo de investiga¸˜o. se pode haver uma sociologia animal a a (e at´. pelo que se sabe. . Assim. s˜o animadas por um objetivo e uma a ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa.). se distrair. utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos) ca e e a de acesso a este objeto. Al´m disso. que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicas c˜ o ou comunit´rias. c ´ E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura. se os animais s˜o capazes de muitas coisas. sendo essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem. saberes e sabere fazer caracter´ ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada. um dos mestres da antropologia americana.

mas modela a o comportamento dos indiv´ ıduos. Rabain (1979) e lembremos a a influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950. tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o c˜ meio no qual nascem e crescem estes indiv´ ıduos. Erny (1972). de uma cultura. estreitamente ligae a dos entre si. isto ´. encontra v´rias a preocupa¸oes comuns aos psic´logos. como uma das areas da antropologia na qual o ´ a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica. a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o. 1927: Margaret Mead Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia e ca a cultural est´ longe de ser negligenci´vel. c o Deter-nos-emos em trˆs deles. designado pela express˜o ”cultura e personalidade”.97 os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural. salienta a originalidade de tudo que devemos ` sociea dade ` qual pertencemos. Utiliza porc˜ o tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes. Assim. mas ıvel ` ` sobretudo espaciais). Atenta as descontinuidades (temporais. a 2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comportac˜ mentos dos indiv´ ıduos. bem como suas t´cnicas u e de investiga¸ao (por exemplo. de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por c˜ e c˜ c˜ outra. os testes projetivos. J. Citemos notadamente. esse campo de pesquisa. 1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos seres humanos pertencendo a uma mesma cultura. considerada como uma totalidade irredut´ a outra. sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa. pelo indiv´ ca a ıduo. 1965. os trabalhos de Ortigues (1966). como veremos. difus˜o. sem que estes o percebam). *** Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em u sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. Procurando compreender a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o. 2 . que est˜o. a partir dos anos 30. intera¸ao e ˆ a c˜ acultura¸ao. c a imp˜e-se. utilizados pela primeira c˜ vez em etnologia por Cora du Bois). extremamente desenvolvido a nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha. 1972) e a que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa. e ca particularmente sob o angulo dos processos de contato. para o per´ a a ıodo contemporˆneo. psicanalistas e psiquiatras. ca a 3) Finalmente.

que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ ıvel. a O que mostram essas diferentes obras. apoiando-nos em uma s´ perna. e os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u. 1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de ca nossas atividades. a maneira com que descansamos. que ser´ retomado em H´bitos e Sexualia a dade na Oceania. em 1935. 1939: Kardiner. 1950: Roheim. . sentimos dificuldade em dormir – a como me aconteceu no Brasil – em uma rede. Assim. um livro que foi um marco. como alguns na Asia. enquanto as mulheres v˜o pescar. Na Europa. a Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ ıcios religiosos. As Bases da Antropologia Cultural. 1944: e c˜ ca Cora du Bois. na ilha de Alor. ao penetrar numa igreja. O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-. ıvel qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. Psican´lise e Antropologia. enquanto a a os homens v˜o para a ro¸a. Inversamente. Os Fundamentos Culturais da Personalidade: 1949: Herskovitz. que desenvolve a id´ia de que a cultura c˜ e ´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer. solo. Origem e Fun¸ao da Cultura. O Povo de Alor. s˜o as mulheres que a c a cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as. multiplicaremos os exemplos. em uma mesquita. de Ruth Benedict. Nas a sociedades do Oeste africano. c e Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria. . e n˜o nos passaria pela cabe¸a a c ´ descansar. este ultimo coment´rio deve a porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem. Nas sociedades nas quais os homens dormem diretamente no. Asc˜ c sim como na sociedade Chaumbuli. n˜o considerar como universal o que ´ relativo. 3 . observamos que os fi´is tiram e o chap´u e permanecem com os sapatos. co e e a ` a ou seja. Como essa corrente de pesquisa. na qual os homens se dedicam aos filhos.3 Essa compreens˜o a e a da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia ıvel e cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos ıvel c comportamentos. o Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. 1945: Linton.98 CAP´ ITULO 9. 1943: Roheim. sempre baseadas em numerosas observa¸˜es. certamente a obra mais caracter´ c˜ ıstica do culturalismo americano. dificilmente suportam a maciez de um colch˜o. 2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: publica Corning of Age in Samoa. ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura. quando. as mulheres se dedicam ` cerˆmica. 1934: Amostras de Civiliza¸ao. Inversamente.

desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o. isto ´. decorrentes da cultura a qual pertencemos. na idade da puberdade. meninos a e e meninas s˜o. poc ` dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comportae mentos mais cotidianos. Assim. a Diferen¸as significativas. Esses mesmos interlocutores. Por outro lado. Assim. uma a c casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. acec˜ nar a cabe¸a e sorrir. Imp˜e-se pelo contr´rio. tender˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latinoa a ´ americanas. Finalmente. Elwin. mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. fiquei pessoala mente impressionado. em um cˆmodo e separadamente de meus hospee o deiros. olhar fixamente a e algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜o e e o a de amea¸a e agressividade. enquanto os Muria da ´ ındia (cf. n˜o apenas de a a uma civiliza¸ao para outra. o a o a como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades media terrˆneas e sul-americanas. as formas de comportamento sexual detiveram particularmente a aten¸ao dos observadores. por exemplo. assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na c a e Europa. os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes.99 As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversie dade podendo. como no exemplo acima. durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa ıs u do Marfim). a educa¸ao sexual ´ eminentemente c˜ c˜ e vari´vel de uma sociedade para outra. por outro lado. como h´spede. ir˜o manter um certo espa¸o entre si na a c ´ Europa do Norte ou na Asia. com o convite que me era sistematicamente feito o de uma refei¸ao preparada em minha homenagem. que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa. consistir na invers˜o pura e simples a daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. As trocas e a de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas a a nos pa´ ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. Aqui c˜ c˜ est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado. c A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas. sentados no terra¸o a c de um bar ou passeando na rua. 1959) institucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer. reservavam-me um presente muito inesperado para um ocidental. a . Na Melan´sia. mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. e e a ca enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias. iniciados nas t´cnicas amorosas por a e monitores experimentados. sob pena de sentir um certo mal-estar. mas que devia ser consuc˜ mida isoladamente. De um lado. nas sociedades ´rabes. sul-americanas e sula europ´ias. os quais.

enquanto que. portanto. a dos doces e ternos Arapesh. Margaret Mead (1969). Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nosu o sas rela¸oes interculturais. enquanto a outra. mas tamb´m os escritores (Chateaubriand.) e chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. chocadas ´ que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente. Ruth Benedict (1950) op˜e o o . cognitivas e afetivas constitutivas e da pr´pria personalidade. mas a norma era diferente de uma cultura para outra: para os americanos. Assim. As inglesas ficavam. aparecer´. ` Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos e povos das sociedades ”tradicionais”. que a antropologia americana deve a sua fama. c˜ 2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de a comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para a outra (como a alimenta¸ao. ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa a seguinte.100 CAP´ ITULO 9. a dos violentos Mundugumor. tentou evidenciar a pree ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade. soldados americanos estavam mobiliza´ dos na Gr˜-Bretanha. nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica. considera que uma. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨entaa u vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. sob pena de c˜ um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de vergonha e culpa extremo. . os jogos. c˜ a mas tamb´m nas estruturas perceptivas. receio que se expressa tanto no car´ter a a ”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagantes que os contos escandinavos. e inversamente. era a ue a ultima etapa antes do ato sexual. e estes n˜o ena a a tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante a quanto um beijo na boca. Georges Sand. o que os ca a o folcloristas.O. o h´bitat. a qualificados precisamente de ”jardins a francesa”. o beijo. Cada um dos grupos reagia normalmente. russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins. o receio dos franceses frente ` natureza a que deve ser domesticada pela raz˜o. quando tinham aceito o beijo. ou ainda. s´ deseja paz e o e serenidade. O que ´ ent˜o considerado e a como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ ıduo violento). n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias. A antropologia cultural foi assim levada a retoo mar. ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da co Nova Guin´. . A ANTROPOLOGIA CULTURAL: Durante a ultima guerra mundial. como perfeitamente normal. ´ comandada e por uma agressividade propriamente canibal. que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de nae co moro. Os a c˜ co GIs consideravam as inglesas mulheres levianas. a maneira de se vestir. . entre os segundos. para as inglesas. Na mesma ´tica. as inglesas achavam que os americanos comportavam-se como marginais. isto ´ conforme ao a e ideal do grupo.

quem ca e propˆs a cr´ o ıtica mais radical desta. As institui¸˜es (e. ´ manifesto. em especial. Encoraja um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem u e censurados. a meu ver. Valoriza um determinado segmento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. freq¨entemente severas. de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais nos referimos acima). n˜o faltaram aos cul-turalismo americano. e pp. Cada cultura realiza uma escolha. indiv´ ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o. todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo n´mero de preocupa¸oes. mas a culo e tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. Privat. desconhecido dos indiv´ ıduos. 1974. entre estes. tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos huc˜ manos a tipos. nenhum a ca gosto pelo roubo. Al´m disso. 33-36. em uma sociedade.4 u a que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico. 1972). este povo de feiticeiros (R. dos ca c˜ conflitos e das significa¸˜es. A partir de exemplos desse tipo. em detrimento da investiga¸˜o das normas. foi Georges Devereux (1970). sobretudo na a o Fran¸a onde o m´ c ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. colocando-se no cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia. pp. Ed. Trae a ca balhando com uma abordagem muito emp´ ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes. n˜o deixar˜o de aparecer como margia a nais. O que u c˜ co o caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”. escolas. Universitaires. desenvolve uma concep¸˜o do e ca Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias. das co ca regras e dos sistemas. e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que e ue s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que. Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie. Se houver. 4 . sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. ritos de inicia¸ao) pretendem – c˜ inconscientemente – fazer com que os indiv´ ıduos se conformem aos valores pr´prios de cada cultura. do que a constru¸ao rigorosa de um o ` c˜ objeto cient´ ıfico. uma e ca l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e o c˜ na dos comportamentos. o Cr´ ıticas.101 a sociedade ”apoloniana”dos ´ ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e e ` c˜ rivalidade ”dionis´ ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da e ilha de Dobu. 46-50) e a sublinhar que. mas cultue ca a o ral). em detria ca e mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente). e detestem brigar. Ed. Toda cultura persegue um objetivo. e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e a c ` c˜ ` pr´pria personalidade do pesquisador. 1973. ` ca co as institui¸˜es educativas: fam´ co ılias. Fortune. enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como conformistas) na sociedade pueblo. Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco cultural”.

A ANTROPOLOGIA CULTURAL: relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o a passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade co a da cultura. pela importˆncia dos problemas colocados. represente a uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina. tamb´m. levando-se em conta. o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos ame e u bicioso do que geralmente se diz (cf. variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no a pr´ximo cap´ o ıtulo. Isso n˜o impede que. a antropologia cultural. particularmente a obra de Ruth Benedict). c˜ a . levando-se em ’conta essas cr´ a ıticas. materiais recolhidos. pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ ´ c˜ e e freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos u ıs.102 CAP´ ITULO 9.

mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. Na perspece tiva na qual nos situaremos agora. e o o al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais. procuraremos explicar e co a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser compreendido como produ¸˜es do esp´ co ırito humano. no encontro. E nessas condi¸oes.’e muito co menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultuo e o ral. um traje de Arlequim. estuda as diferentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens. aparentemente bastante distantes a entre si: • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao. mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas c˜ de troca. a relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social).Cap´ ıtulo 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e Para a antropologia cultural. n˜o a partir dos ca a interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros. se d´ ao a 103 . e Isso colocado. que. Ou seja. caracterizada por um conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador. cada cultura particular. e sim constru´ a e ıdo: o do sistema. em um n´ ıvel que n˜o ´ mais dado. que se elaboram sem que estes tenham consciˆncia disso. frutos de uma pr´tica parceladora. ´ e e um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a. integrando notadamente tudo o que. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si. ou melhor. a cultura ´ a c˜ e concebida como uma esp´cie de mosaico. com o c˜ impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto. S˜o entidades parcea ` c c a ladas. as culturas s˜o apreendidas. a tratadas. reuniremos nesse cap´ ıtulo um certo mimero de tendˆncias do e pensamento e da pr´tica antropologica.

Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo a u n´mero de op¸oes. ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar. a neurofisiologia. e. do qual muitos gostam hoje de e dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado. Bateson. mas que eu considero a a pessoalmente como mais atual do que nunca. a ca e pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica). recorre a esse modelo nascido e . at´ ent˜o n˜o ca e a a utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas. a psican´lise. • a enopsiquiatria. percebe que c˜ a os princ´ ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo ca da comunica¸˜o humana. *** Existem. e que ´ uma e e pr´tica claramente pluridisciplinar. dos gestos. particularmente. mais precisao ˆ e mente. L´vi-Strauss. da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia. assim como a quest˜o da validade da a transferˆncia dos modelos. Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de um modo de conhecimento para outro. ´ claro. das m´ ıvel a c˜ ımicas. a ling¨´ a e a uıstica). Ora. ca c˜ mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´ e ısica quˆntica ´ mais verdadeiro a e ainda no das ciˆncias humanas e. Devereux.ˆ 104CAP´ ITULO 10. de volta de Bali. cujo fundador ´ Georges Devereux. u c˜ 1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos epistea mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou. o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´ o c˜ e observado. particularmente. longe de ser uma fonte de erros a ser neutrac˜ lizada. o o • o estruturalismo francˆs. e essa perturba¸ao. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes. quase tanto quanto Bateson. procurando compreender ao mesmo a tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psia e u a col´gica e psicopatol´gica da cultura. e Partindo do ”princ´ ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar e ıvel ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron. finalmente. e da posturas. e a co e Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da e elabora¸ao da pilotagem autom´tica. da etnologia: a presen¸a e c de um observador (no caso. as maa tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas. diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da ane c tropologia contemporˆnea. das ferramentas. o primeiro.

Desde a sua Introdu¸ao ` c˜ u o c˜ a Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo e francˆs. toda cultura ´ uma moe c˜ ´ e dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres. ` Lembremos mais uma vez que existem. Para este ultimo. a tarefa do pesquisador ´ precisamente a u a e de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto verbal quanto n˜o verbal. tanto na Europa quanto c nos Estados Unidos. na realidade. L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann. e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Ete e nopsiquiatria Geral). mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes a c˜ c˜ cont´ ınua e n˜o aleat´ria. m´ ımicas. e o interacionismo e americano. express˜es do rosto por m´ o ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens freq¨entemente involunt´rias. a e relutando at´. refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita e ` a e sem autor. expressando o pr´prio inconsciente da sociedade. todo comportamento humano (do vozerio mais a intenso ao mutismo absoluto. e 2) A partir dos anos 50. um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orquestral da comunica¸ao”. Ora. cuja l´gica ´ irredut´ a e o e ıvel a soma de seus elementos. c˜ regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. posturas. na parte mais recente de sua obra. dos bens). das palavras. e que conv´m analisar. pontuado por gestos. na execu¸ao da qual cada um dos c˜ m´sicos est´ envolvido. o estudo dos mitos. procurando come preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o ca o c˜ . frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´ e c˜ uıstica. o Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa u a o corrente insistem sobre o fato de que ( imposs´ ıvel n˜o comunicar. isto ´. E quando o autor da a a Antropologia Estrutural realiza. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama ` ca e uma ”ciˆncia da comunica¸ao”. tratando-se simplesmente o a de recolhˆ-los. em particular francˆs. ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias humaa e nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´ o ınico quanto pelo etn´logo s˜o o a fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto. come¸a a desenvolver-se.105 da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. a cultura. Disso decorre a met´fora da orquestra participando a o a da execu¸ao de uma partitura ”invis´ c˜ ıvel”. ´ claro. e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao e o c˜ c˜ particular com atores particulares. diferen¸as muito importane c tes entre o estruturalismo europeu. esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira tec˜ ´ a ` legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um a ´ destinat´rio.

ˆ 106CAP´ ITULO 10. da demografia –. de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudie a ano. da sociologia. de forma o o a e alguma.1 mas que n˜o ´ concebida. ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de e e Essa problem´tica. que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das a e e e preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss. O autor estuda os diferentes ` tipos poss´ ıveis de rela¸oes dos indiv´ c˜ ıduos para com a sociedade e. as rea¸oes dos indiv´ c˜ ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´ ` co ıduos. mais especificamente. Isto ´. de pluridisciplinaridade entre a abordagem etnol´gica e psicol´gica). que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia co e e ´ antes uma psicologia e 1 . especialmente. produzindo constantemente aspectos in´ditos. Ora. 4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreveo se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou. do direito. como se diz nos Estados e Unidos. as primeiras. e cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras sociedaa a des. por seu car´ter inovador no campo da antropoloa gia anglo-saxˆnica da ´poca. mas al´m dessa cultura. o que e e interessa Bateson. isto ´. ”estrutura inata do esp´ e e ırito humano”. emp´ e e e u ırica como nos Estados Unidos). colocam-se aqu´m de todo e indiv´ ıduo e de toda sociedade”. como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da ˆ e e economia. e a e Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio ´ e o amago de sua sociedade”. mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux. visando ”apreender uma realidade imanente ao homem. 3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hue o e e c˜ mana. O exemplo da primeira obra de Bateson. inconsciente estrutural e e para L´vi-Strauss. menos no que as palavras expressam do que no que escondem. freq¨entemente. Em seguida. das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais. e sobretudo. Ou seja. a maneira da antropologia cultural. mas estrutura que se expressa sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ o ıduos e dos grupos”. devido a sila exigˆncia ` e de pluridisciplinaridade (e. o sentido do que fazem os homens deve ser procurado menos no que dizem do que no que encobrem. tanto para o estruturalismo quanto e para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da anae tropologia sistˆmica americana. A o e partir da cultura dos latmul da Nova Guin´. Em primeiro lugar. ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural. situada no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. cuja tendˆncia ´. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: ”observador”e o ”observado”. A Cerimˆnia do Naven (1936) o parece-me particularmente revelador. caracterizada notadamente pela monografia.

”esse capital comum”(L´vi-Strauss) e ` e que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como coe letivas. A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. Para este ultimo.107 que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas a sem referˆncia a ”cultura”(Devereux). e n˜o sint´tica. como no ”id”da psican´lise. ´ claro. isto ´. a antropologia como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade: a o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da ıdo e c˜ problem´tica do inconsciente. a 2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo. Assim. a antropologia assim cono siderada ´. enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementaria e dade. refrat´rias a qualquer atitude reducia a onista. inventivo de modelos que conv´m qualificar ca e de ”complexos”. de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976). e. por isso. considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social. Ou seja. A metoc˜ dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia. que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”. Essa e a ca abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais. como pelo projeto freudiano. 5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abordagens s˜o abordagens da totalidade. as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´ c˜ uıstica. E se a abordagem da etnopsiquiatria em co rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´ c˜ a e e ıtica. que ´ nee ´ e . sou agido. eu sou pensado. como escreve L´vic e Strauss. Para L´vi-Strauss como para Bateson. fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente c˜ tomados como separados. ca o e mas tamb´m qualquer forma de historicismo. Por todas essas raz˜es. isto ´. e atrav´s de um instrumento unico. e 1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia. Rompendo com a tagarelice do sujeito. as e ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. e ´ e n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos. ”essa crian¸a mimada da filosofia”. e emia nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva c˜ quanto intercultural. O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse a pensamento. e um ”pensamento dos conjuntos”. a c˜ o e sim ”correla¸˜es funcionais”. sou falado. a qual se vˆ descena a ` e e trada pelo projeto estrutural. a sou atravessado por estruturas que me preexistem. preocupado em n˜o deixar escapar nada na a investiga¸˜o do social.

diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos. o pensamento estrutural nos mostra que a extraa ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´ a co ıricas s´ se torna intelig´ a partir do o ıvel momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de esu trutura¸oes poss´ c˜ ıveis dos materiais culturais que encontramos. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pac˜ c recem. Para este. estas c˜ s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura. finalmente. sororato. abrindo uma compree a o ens˜o nova da sociedade.). a 4) Ruptura. ate´ ısmo. N˜o se pode compree e a endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai. . Mas oscilam sempre entre alguns grupos: comunismo sexual. levirato. muito menos ao n´ dos sentimentos ıvel . explicar ´ procurar uma anterioridade. a qual n˜o tem a c a como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la. A a e mos de explica¸˜o causai. da hist´ria consciente a o ´ do que fazem os homens. um n´mero u limitado de invariantes. isto ´. e e e Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. ´ prec e ciso primeiro repudiar o vivido”. de um comportamento. a primeira vista. as rela¸oes dos hoa c˜ mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero u de op¸˜es poss´ co ıveis: o monote´ ısmo. Da mesma forma. E toda a diferen¸a c entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. conv´m colocar-se ao n´ c˜ a e ıvel n˜o mais da a palavra e sim da l´ ıngua. com o empirismo. poligamia. o parentesco ´ uma linguagem. Ora. que considera os elementos independentemente da totalidade. polite´ ısmo. agnosticismo. Ou e o seja. o c˜ 3) Ruptura com o atomismo. monogamia. tentar e e e ` an´lise dos processos em tercompreender o presente atrav´s do passado. o tio materno e a ıvel em uma sociedade matrilinear. o filho. o sentido de um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras o c˜ ` da l´ ıngua ou do que for an´logo a esta. de um relato. e sim do sistema que ignoram. mante´ ısmo. voltaremos a isso. inteligibilidade ca o combinat´ria de uma institui¸ao. casamento por rapto. Para L´vi-Strauss. o objeto cient´ ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o. n˜o mais.ˆ 108CAP´ ITULO 10. praticamente infinitas. atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza. Mais precisamente. da e a percep¸ao espontˆnea. O modelo do estruturalismo sendo ling¨´ uıstico. . . A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: cessariamente gen´tico. ”Para alcan¸ar o real. ` a uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto e c˜ que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes. a *** Assim. Para isso. Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de L´vi-Strauss. uni˜o livre. op˜e-se a inteligibilidade estrutural. .

E sabe-se bem que. cada reparti¸˜o das cartas resulta de ca ca uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores. e se d´ independentemente ca a da vontade de cada um. mas que co a cada sociedade. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas. interpreta nos termos dc v´rios sistemas. ao n´ de e ıvel um inconsciente estrutural. que ´ a pr´pria cultura emergindo da c˜ c˜ e o natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto ´ a nada. isto ´. al´m da contingˆncia dos materiais e e programados. ao sentar ` mesa. a linguagem ou a economia. que. com a mesma distribui¸˜o. embora n˜o possam. ou regras de uma t´tica. jogadores diferentes a ca n˜o fornecer˜o a mesma partida. estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma ´ fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca). compelidos tamb´m a a a e pelas regras. regidas por regras de troca an´logas ıvel co a as leis sint´ticas da l´ ` a ıngua. palavras e bens sendo termos que se trocam. a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ noo ca e a vos resultados. Quando se estuda o parentesco. diferentes dc uma sociedade para outra. como cada jogador. e a a cartas que n˜o inventou. j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria a a e o e da civiliza¸˜o.2 c˜ • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. de bens (economia).109 ´ que podem animar os diferentes membros da fam´ ılia. a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que e exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´ c˜ a ıveis: • ao n´ ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco). de palavras e (ling¨´ uıstica). a que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo. mulheres. Mais precisamente. permitem e a compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutua ral. que ´ de serem comunicados”. S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio: a o ”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o. a a e E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca. mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza dos parceiros 2 . ”s˜o tratadas como signos dos quais se o e a abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos. ca ”Em um caleidosc´pio. escreve L´vi-Strauss. E preciso colocar-se no n´ das rela¸˜es entre estes termos. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele e o a – nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es a co ”As pr´prias mulheres”. Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra. informa¸oes que se comunicam. reorganiza incessantemente estes mesmos materiais. Fm segundo lugar. Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a a c˜ c e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o a ca da ling¨´ uıstica). fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”.

Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e e a a do jogo de xadrez. ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado. estendendo e e e no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo. c Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como e ”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ouco tra”. e u e que. qualquer posi¸ao do jogo pode ser c˜ compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. as maneie ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura para outra. o pr´prio dea ` c˜ o senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para o a de girar. e L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ precie a a a samente dar conta dela – nem a hist´ria. como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio. de um lado desconfia de um o ”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas e a que acabaram de ser jogadas. podem ser qualificados o de invariantes. a e mais ainda as regras das partidas jog´veis.ˆ 110CAP´ ITULO 10. compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais. isto ´. pois e a a u s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem a e as atividades inconscientes do esp´ ırito”. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo c s˜o praticamente nulas. 3) finalmente. um olhar que conv´m o e qualificar de est´tico. E. de outro. a ıvel e o Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma vere o a dade. da explora¸ao e a u c˜ restrita das possibilidades te´ricas”. a hist´ria ´ um jogo no qual o o e a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas. considera que para compreender o movimento das sociedades ´ e preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria. sobre o que percebe. ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos.” a Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois a textos: 1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos. no xadrez. Mas. Ou seja. Ora. com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo. pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado. 2) as diferentes estrutura¸oes poss´ c˜ ıveis destes materiais (isto ´. . no e o caso do autor de Tristes Tr´picos. Ao comentar o pensamento a de L´vi-Strauss.

enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades e que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas. a .111 L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades ocie a dentais ´ hoje desastroso.

ˆ 112CAP´ ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: .

e sobre a unidade de cada uma delas. como acabamos de ver. para o muitas. O ultimo p´lo u ´ o do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece a o como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica.Cap´ ıtulo 11 A Antropologia Dinˆmica: a A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das culc turas umas em rela¸ao `s outras. a e c˜ a ca do seu ponto de vista conservadora. A c˜ a antropologia que qualificamos de simb´lica abre. ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o. o a Pr´ximo. os ritos) e de estruturas formais (a espeu cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s o e das l´ ınguas). est˜o animadas por uma abordagem claramente antia a 113 . A antropologia estrutural. uma identidade formal (um inconsciente universal) informando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. Pratio camente. por sua vez. para maior clareza. cultural) e que conhecem. notadamente atrav´s de o e sua reivindica¸ao antietnocentrista. ligados tanto ao c dinamismo interno que ´ caracter´ e ıstico de toda sociedade. ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e integradas. porque opera uma ruptura total com a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim. c˜ e e de sociedades (”primitivas”. e O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia e que qualificamos aqui de dinˆmica. quanto as rela¸˜es ` co que mantˆm necessariamente as sociedades entre si. simb´lica. porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ o c˜ ıveis do social dentro de uma determinada cultura. uma renova¸˜o durante os anos 50. que pode ser encontrada dentro dos quatro p´los de pesquisa que. em proveito do estudo dos processos de mudan¸a. acabamos de distinguir. mas tamb´m de L´vi-Strauss. com o impulso particularmente ca da an´lise estrutural. mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero u de conte´dos materiais (os mitos. todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir o dos anos 30 (a antropologia social. faz aparecer. de fato. Diferente. uma perspectiva muito pr´xima da anc˜ o terior.

pois estaria cm si ainda puro de qualquer esc´ria da modernidade. existissem dentro de um c˜ quadro econˆmico e geogr´fico mundial. o c˜ por isso mesmo. essa preoa c˜ e cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade. e de um contexto (os grandes acontecimentos o mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio. s´ ´ poss´ porque se e o oe ıvel consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro o te´rico que funciona. como uma oculta¸˜o da realidade. estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam preservar uma arte de viver). toda . ficticiamente ara a a rancadas da hist´ria. menos em realizar ele pr´prio uma c˜ o o obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de arte (de Malinowski a L´vi-Strauss. Essa separa¸ao artificial de um objeto que ca c˜ poderia ser apreendido em estado puro. como diz L´vi-Strauss. em muitos aspectos. passando por Griaule e Margaret Mead). ”pr´ximas do grau zero de temperao e o tura hist´rica”. e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao. nas quais. chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. Mas ent˜o. o a c˜ dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades o ocidentais. um n´cleo considerado essencial. ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo e o e XX. Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas como im´veis ou.114 ˆ CAP´ ITULO 11. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo a e passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina. devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica. e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias ca e da rea¸˜o com o colonialismo). A partir de u o a uma cr´ ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo. c c˜ Ora. o ca Pois as sociedades emp´ ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado a o e e n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis. somos ca c levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar a –um pouco como nesses filmes magn´ ıficos sobre os ´ ındios da Amazˆnia ou o os abor´ ıgines da Austr´lia. as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram o o h´ muito tempo o edif´ a ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar o em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais. e ignorassem tudo das contradi¸oes. ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que e e o um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. unico objeto da ”ciˆncia”(a u ´ e integridade. tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferenu cial. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: evolucionista. e fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais. em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e a tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens. o c˜ pegando apenas um exemplo. E dissocia-se. fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos. c˜ o No entanto.

Thomas. as institui¸˜es pol´ co ıticas. por exemplo. esta c n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identia e c˜ dade que se caracteriza por um estado de equil´ ıbrio e harmonia. em primeiro lugar. relegada at´ ent˜o. tal tendˆncia a a e ´ provavelmente mais forte na fran¸a. pela maioria ca e a dos pesquisadores. e.1 Esse neo-evolucionismo. Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o e ca fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata. ca N˜o ´ evidentemente poss´ a e ıvel. j´ instaurada por Morgan a a h´ um s´culo. ao esquecimento. ca c u Balandier. sobre e a e ca a a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo. de Jacques Bergue (1964). dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica.) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a preferirem a terminologia de ”sociologia”. Ou seja.tre as ”sociedades c˜ e frias”e as ”sociedades quentes”. a ´rea ´ a Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia.. Seria conveniente. o uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan. a religi˜o) estreitamente imbricadas. formando o que o a pr´prio Morgan chama de ”estruturas”. particularmente forte nos Estados Unidos. e deve. mas a o a de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ ıveis do social (a tecnologia. falar a dos trabalhos de Max Gluckman (1966). durante os anos 50. mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas. ou ainda. devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos e c a ca etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´ o ıs ca ıtico-cosmol´gicos.2 1 . at´ recentemente. e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo. desaparecimento que pode levar a recusa de ` uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente: ca e a da antropologia e da sociologia. dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antropologia que qualificamos de dinˆmica. pois esta e a c ´ co-extensiva ao pr´prio social.’. e e e a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis. a ecologia. Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente a e a que nasceu nos Estados Unidos. que notadamente renovaram. Este realiza. conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social. durante os ultimos 25 anos. da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o ca u o ca marxista. que evoluem dentro de per´ o ıodos sucessivos.. portanto. se tornar um dos pontos e o centrais da an´lise do social. com o impulso de Leslie White (1959). a fam´ ılia. insiste notadamente c˜ sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica. Para eles. e do qual encontramos uma das mais importantes realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980).115 sua abordagem consiste. ´ claro. Desroclic. A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desaa ue e parecimento da oposi¸ao. em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a. que a e o n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que pera ` co e e mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade. de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966). Disso decorre o a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. essencial para L´vi-Strauss. dentro do quadro limita do desse trabalho.

Meillassoux (1964). ”choques culturais”. dissimulando uma realidade colonial.116 ˆ CAP´ ITULO 11. por sua vez. Malinowski. a E o mesmo se d´. pelo contr´rio. caracter´ ıstico apenas das nossas sociedades. como dissemos. P. mas tamb´m e os mission´rios. no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia ca da modernidade. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: da antropologia econˆmica. assim como para os trabalhos da antropologia cultural que se desenvolve durante o p´s-guerra. concebida por ele como quase imut´vel. mostrado que o complexo n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam. Por outro lado. Ou seja. que implica a realidade de ´ ca uma rela¸ao social de domina¸˜o. Fala-se em ”contatos culturais”. a c˜ Considera. Mas a compara¸˜o entre Grica aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento a ı. Terray (1969). Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples a o c˜ deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”. que o levar´ a c a empreender. para a reflex˜o a e a de Margaret Mead. totalmente c˜ a ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. desde a publica¸˜o de suas primeiras c˜ ca ´ obras sobre a Africa negra (1955). pois toa ca dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador. ca Balandier nos prop˜e uma cr´ o ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social. da a e a mesma forma que Griaule havia. na realidade. E. c˜ Uma das preocupa¸oes de Balandier. que toda sociedade ´ ”problem´tica”.3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente o a nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide. envolve-se. P Rey (1971). a e simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele a e absolutamente fict´ ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo. enquanto ca a o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social. Cl. quase sempre sistematicamente ocultada c˜ ca na antropologia cl´ssica. os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o). s˜o c a sempre conceitos neutros. na mesma ´poca e em muitos aspectos. M. de uma tradi¸˜o ancestral. Mas os conceitos que s˜o ent˜o utio a a lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a. Conv´m lembrar o e e que. em uma perspectiva dinˆmica (1970). a 3 Cf. e sobretudo em ”acultura¸ao”. no final de sua vida. Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio obc o jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. terc˜ minologia que far´ sucesso. Godelier (1973) . renunciando a ` atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobria e and. c˜ c˜ que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”. antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. ´ mostrar que conv´m interessar-se para toe e dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´ a ıgenas”.

W E. sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica e c a a pr´pria de uma determinada cultura. notadamente das mudan¸as. . F I. no horizonte da antropologia cultural. porque a abordagem desse autor inscreve-se claramente. Jean-Marie Gibbal (1974) ). por exemplo. Oscar Lewis e (1963). lugar privilegiado de observa¸˜o c˜ ca dos conflitos. ling¨´ c˜ e o o uıstica. tamb´m insiste. leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua pr´pria sociedade. que ´ dar conta das varia¸oes. que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas. essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o a de Balandier). 1955). Correlativamente. mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma u das outras. ca a Dito isso. mas inicia uma a ca verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa. Lantemari (1962). Uma de suas e c˜ e c maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do deslocaco e a mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos. e A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito dio ferente da anterior. militar. mas as respostas as mudan¸as tais como se ela` c boram. que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da e etnologia francesa. ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as e a c estruturais em andamento. Mas Bastide. enquanto o processo da coloniza¸˜o. ou outros semelhantes. tecnol´gica. ela n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo.). como vimos acima. Ademais. seria no entanto irris´rio pensar que a abole. da descoloniza¸ao ca c˜ se torna parte integrante do campo que se deve estudar. sobre a interpenetra¸ao das o c˜ civiliza¸oes. das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf. de outro.awrence (I974V e u . M¨hlmann (1968). Muito diferente cm primeiro lugar. enfatizando a realidade conflitual das sio tua¸oes de dependˆncia (econˆmica.4 ou tais como estou observando neste moa mento em Fortaleza. e depois. se essa antropologia reorienta. procura incluir os diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. a o 4 Cf. inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia. tamb´m V. tanto quanto Balandier. isto ´. e de ter aberto novos luco o gares de investiga¸ao: a cidade em especial. nas metr´poles congolesas. . o c˜ quanto a isso. n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos a colonizados”. sob a forma de cultos sincr´ticos.117 A partir disso. c˜ c˜ Todas essas pesquisas. Esse processo. de um lado. sob a forma de movimentos o messiˆnicos (Balandier. Paul Mercier (1954). Finalmente. no Nordeste do Brasil. ”complexifica”e ”problematiza”a antropologia cl´ssica. al´m dos trabalhos de Balandier citados acima.

118 ˆ CAP´ ITULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: .

Parte III A Especificidade Da Pr´tica a Antropol´gica o 119 .

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e que alguns ainda e hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J.Cap´ ıtulo 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o a prioridade dada ` experiˆncia pessoal a e do ”campo” A abordagem antropol´gica de base. an´loga a organiza¸˜es vegetais. escreve Roger Baso tide (1978). a c˜ o prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento e c˜ abstrato e especulativo. s´ se pode fazˆ-lo a o a o e comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de o e maneira dur´vel (Griaule. Para poder compreender o candombl´. uma grande e e quantidade de informa¸oes. ”foi-me o e preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”. mas em impregnar-se dos temas obsessionais de c˜ uma sociedade. atrav´s de um m´todo estritamente indutivo. que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta e a c˜ dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana. de fato. Pois a a o e etnografia. Se. que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que e alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda s´ ıntese ´ sempre prematura. quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas. a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas. Favret. isto ´. c˜ N˜o se pode. de seus ideais. acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e. a co o 121 . a o mais ainda. ele pr´prio co o deve rezar com seus h´spedes. a que todo pesquisador considera hoje o como incontorn´vel. estudar os homens ` maneira do botˆnico examia a a nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo. O etn´grafo ´ aquele que u o e deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que ese tuda. por exemplo. de suas ang´stias. a cip´s vivos”. Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). 1977) – n˜o consiste o a apenas em coletar.

ser o caso do etn´logo. o ind´ ıgena”.122 ´ CAP´ ITULO 12. dar conta o mais cientificamente poss´ o ıvel da alteridade a qual ´ ` e confrontado. ´ significativo que. de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´ a ıcios cient´ ıficos. pelo contr´rio. de quem se considera um ”aluno”. uma ue programa¸ao estrita de sua pesquisa. e termine seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses ´ ındios do Brasil. em co-colar-se o mais o o perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso. por´m. ´ ca c˜ a e claro. e cono ´ tra o observador. Objetar-se-´ que pode. ”contra o te´rico. proclame c˜ que. o c e c por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas). Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores a e sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta. a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total. ´ a e que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da a o a do historiador ou do soci´logo. Quanto a isso. abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa). pelo contr´rio. Quanto ` pr´tica da sociologia. tem algo de errante. em sua Li¸˜o Inaugue ca ral no Coll`ge de France. e 2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. como o o etn´logo. arriscando-se a ıvel e perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso a dessa experiˆncia. As tena a tativas abordadas. o observador deve ficar com a ultima palavra. de fato. o autor da Antropologia Estrutural comece sua e exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”. como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. os erros cometidos no campo. de que este se esfor¸a. parece ser capaz de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. devo c˜ interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ a co o ıduos atribuem a seus comportamentos. o a e ca 1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto. O historiador. Nunca encontra testemunhas vivas. n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em cono a e seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue. constituem informa¸˜es co . nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das sociedades que estuda. UMA RUPTURA METODOLOGICA: Assim. e ”deca sencarnado”. que n˜o ca a a ´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa. pelo menos em suas a a principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´ e a a ısticas a distinguem da pr´tica a etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o. e algo frio. A busca etnogr´fica. na qual. e 3) O etn´logo evita. Recolhe e analisa os testemunhos. bem como a utiliza¸ao de protococ˜ c˜ los r´ ıgidos. se procura. longe de compreender c˜ uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim). Com a diferen¸a. consistindo e e a em uma verdadeira acultura¸ao invertida. mas e ca que.

Da mesma forma a e a que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´ c ıtica n˜o garante que vocˆ possa a e um dia se tornar psicanalista. Pois a o e c˜ a pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica. a o o a e com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal. o evento que ocorre quando n˜o u a esper´vamos. e . Como tamb´m o encontro que e surge freq¨entemente com o imprevisto. a N˜o nos enganemos. isto ´.123 que o pesquisador deve levar em conta. por´m. quanto `s virtudes do campo. um grande n´mero de temporadas passadas em u contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´ a a ipso jacto em um etn´logo. Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias.

124 ´ CAP´ ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA: .

e a Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciˆncias sociais. . da ciˆncia.Cap´ ıtulo 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano A hist´ria. Assim. do que de uma de suas vestimentas e ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas o e e a qualquer preocupa¸˜o cient´ ca ıfica. e os batiza de ”hist´ricos”. n˜o institucionalizados (isto ´.acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar. consciˆncia e e raz˜o. em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia co a num´rica. n˜o formalizados. a maior a a e parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente e a a do ”folclore”. A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda o c˜ especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade cia ´ ent´ ıfica. a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socieo a a a ` dade global. a partir da representa¸˜o o ca mestra do . a n˜o ser em se tratando (para o o a historiador) da vida dos ”grandes homens”. privilegiam nitidamente as c˜ a grandes. para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidie Trata-se evidentemente menos. e sobretudo as formas menos ore c˜ ganizadas de socialidade. como as associa¸oes religiosas. a vida cotidiana dos homens c˜ torna-se uma esp´cie de res´ e ıduo irris´rio.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica. no caso. que privilegia dessa a o vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais. a 1 125 . na realidade. quando estudam as associa¸oes volunt´rias. por exemplo. Os fenˆmenos sociais n˜o escrio a tos. bem como as formas de atividades institu´ ` ıdas. suscet´ ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ ıtica: os partidos. . os sindicatos. Nessas condi¸oes.

como escreve L´vi-Strauss (1958). as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelnica co o ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios. . UMA INVERSAO TEMATICA: ano.) s˜o. propriamente nenhum a a a territ´rio da etnologia. e higiene. para as popula¸oes co c˜ desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). ´ um fato. em aparˆncia. de fato. cona sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas. teol´gico. Se. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte: e e como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas. em seguida. conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as e a o de direito. ”interessa-se sobretudo por o e aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m. 2 . E.as produ¸˜es do pensamento c˜ co erudito (filos´fico. ”Se e o etn´logo”. Embora o objeto emp´ ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto a pela coloniza¸˜o. E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensao c mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´ a a a ıdas de m´ltiplos u subgrupos extremamente diversificados. 2 o Dito isso. seus objetos a de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da socic˜ a edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses bret˜es. feiticeiros do Berry. . . As doutrinas. o etn´logo tende a estudar as formas de comportao mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da c˜ a sociedade global ` qual pertence. Assim. as constru¸oes intelectuais. que permitem definir as socieu e dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o. e. nos a quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no c˜ a extremo. nessa perspectiva. cient´ o o ıfico. que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos a o a ca negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos. voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade a e a camponesa (e n˜o para a cidade industrial). de direito. adeptos de seitas religiosas. os e u o h´bitos alimentares. n˜o h´. . Em suma. para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o ılia a para as grandes organiza¸˜es sindicais). a o nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta: c˜ o ele vai em primeiro lugar procurar. e nos quais v´rias ideologias est˜o a a em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. dentro dessas sociedades. mais f´teis: os gestos.as express˜es corporais. por aquilo que n˜o a e e a Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do proca e a gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ ıgenas – parece claramente na ´rea a n˜o ex´tica da antropologia americana. acrescentaremos.126 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. para a fam´ tradicional (e n˜o a ılia a para a fam´ desmembrada). a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais ca habituais e. . a percep¸ao dos ru´ a c˜ ıdos da cidade e dos ru´ ıdos dos campos. se n˜o encona tra objetos emp´ ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia cl´ssica.

sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus a m´ ınimos detalhes. templos e t´mulos impea a u riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde. e sim uma abordagem. um olhar. que as influenciou (direta ou indiretamente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de c˜ que n˜o deve haver. isto ´. Um deslocamento absoe a lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia. portanto. tornou-se uma o a c hist´ria antropol´gica. um enfoque particular. est´ passando do estudo dos pal´cios. ´ que grande parte da e renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente c˜ e a a sua abertura para nossa disciplina. as ciˆncias das e religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos o a ıvel doutores.127 ´ formalizado e institucionalizado). ao meu ver. u do Estado para o parentesco. ´ e e pass´ de ser aplicado a toda realidade social. como escreve Ean Delumeau. uma hist´ria da cotidianidade material. pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e a o que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicioa nal”das sociedades estudadas). na pr´tica cient´ a a ıfica. Mas ´ sobretudo na hist´ria. ıdo. ao meu ver. A aro o quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma c apenas uma parte ´ ınfima do h´bitat. o e dos grandes eventos para a vida cotidiana. Trata-se de ir do p´blico para o privado. o h´bitat popular. ıvel O que me parece importante sublinhar. Conv´m. mas porque aquilo que o interesse ´ diferente a e de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”. finalmente. ”n˜o ´ tanto porque os povos que ese a e tuda s˜o incapazes de escrever. deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e e c˜ da etnologia sobre as bases emp´ ıricas das ”sociedades industriais”e das ”sociedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes dentro das primeiras). absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas. no caso. que assistimos a um deslocamento e o radical do campo da curiosidade. Assim. Sob a influˆncia da escola dos e Annales. e a reabilitar todo esse ”recalcado”da a cultura material que ´. pelo menos na Fran¸a. o . e sim das multid˜es anˆnimas”. a ´ por exemplo. objeto tabu. dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos. a hist´ria contemporˆnea. uma hist´ria das mentalidades e sensibilidao o e o des.

128 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. UMA INVERSAO TEMATICA: .

de estar atenta para que nada lhe tenha ese capado. Como escreve Mauss (1960). de fato. as ciˆncias econˆmicas. . As ciˆncias pol´ e o a e ıticas se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes a c˜ c˜ que regem as rela¸oes do poder. o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dio mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico. O antrop´logo n˜o e o a pode. um outro: os sistec˜ e o mas de produ¸ao e troca de bens. psicol´gico. a o pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses e o objetos. tudo deve ser observado. o direito. jur´ o a ıdica. as ciˆncias jur´ c˜ e ıdicas. isto ´. De um a lado. s´ adquire significa¸ao antroo o c˜ pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e o ` dentro da qual constitui um sistema complexo. um perito de tal ou tal ´rea e a particular (econˆmica.). cultural. demogr´fica. isto ´. No campo. anotado. social. e ´ E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentala mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia. A especializa¸˜o cient´ ca ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que e a o para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas.) sem correr o risco de abolir o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica. vivido.Cap´ ıtulo 14 Uma Exigˆncia: e o estudo da totalidade Uma das caracter´ ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em o e c levar tudo em conta. De outro. mesmo que n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. . ”o homem ´ indivis´ e ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”. . se tornar um especialista. pol´ o o ıtico. ´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade e c˜ social em movimento. . as ciˆncias e 129 .

ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda. . que consiste em: 1) cumprir sempre a c˜ mesma tarefa. do multidimensionamento de seus aspectos e da o totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconscic˜ ente. consumidor. costurar de novo os retalhos recortados. mas pouco reflexiva. em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade).1 o e a Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta. . Pessoalmente. a a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos o a o particulares: a delinq¨ˆncia. sobre uma forma o de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo. no horizonte cient´ ıfico contemporˆneo. a partir de um c˜ fenˆmeno concreto singular. das condutas suicidas. abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta e c˜ ca a sua abordagem. um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que a toda pr´tica hiperespecializada. isto ´. por exemplo. dentro do espa¸o da cultura c cient´ ıfica (e n˜o da cultura humanista. como pode ser a cultura filos´fica ou a o liter´ria). ´ freq¨entemente levada a participar desse o e e u processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano. . A pr´pria antropologia. do esporte. modificar. Mas permanece. parente. os siso e temas de cren¸a. a criminalidade. de uma ma´ a neira pragm´tica. e c˜ uma cientificidade extremamente positiva. acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia o o estudar. a meu ver. dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao. cidad˜o. voltaremos a isso. o alcoolismo. . a antropologia me parece ser o ant´ ıdoto n˜o filos´fico de uma a o concep¸ao tayloriana da pesquisa. a leitura a da obra de um soci´logo. de que se ca procura. por estar baseada no parcelamento de territ´rios e.130 ˆ CAP´ ITULO 14. . de fato. e em especial do cap´ o ıtulo intitulado ”Da pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado” ca e 1 . os processos cognitivos e afetivos. O parcelamento disciplinar comporta. . Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos c a o o parciais. a respeito desse aspecto. Edgar Morin (1974). um risco essencial: o de um desmantelamento do a homem em produtor. comparada a outros modos de coleta de informa¸oes: a a c˜ N˜o posso deixar de recomendar particularmente. UMA EXIGENCIA: psicol´gicas. ´ claro. Assim. o div´rcio. ser o especialista de uma unica ´rea. 2) tentar. a e o O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude e a e extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de cair no vazio. . . est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria a ` a o pr´tica etnogr´fica. e ue o o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia dos lazeres. as ciˆncias religiosas. atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembraa e ca mento que imp˜e ao real.

ıcio . a natureza das sociedades nas c˜ e ` quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos. e nos quais as atividades s˜o pouco especializadas. como mostrou Husserl. a ciˆncia e a religi˜o. Tal preoc u cupa¸ao diz respeito tamb´m. pela dis-. hoje. para n´s. antagonista da reflex˜o. chegar a impedir o pr´prio e o exerc´ do pensamento. esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen´ a e samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos asu pectos do homem. a ciˆncia e a filosofia. por mais apero e a fei¸oados que sejam. um o e grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender. no mundo contemporˆneo. e que se d˜o uma ideologia a a mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social. o marxismo e a antropologia. apenas trˆs formas de pensae e mento s˜o. O projeto antropol´gico retoma. o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. capazes de responder a essa defini¸˜o: a a ca o islamismo. mais uma vez. em primeiro o lugar. o A pr´tica da antropologia finalmente. de fato. Como escreve L´vi-Strauss. podendo tornar-se. que nossa pr´pria cultura realizou entre ´ e o o a ciˆncia e a moral. E a raz˜o pela qual somos provaca ` ` c a velmente. e e a e Se olharmos de mais perto. e. al´m de todos os question´rios. o a meu ver. mais surpreendidos. paradoxalmente. como sugere hoje em dia Laborit. mas a observa¸˜o direta de ca ´ suas produ¸oes concretas). de fazer surgir um questionamento m´tuo. sup˜e tamb´m. jun¸ao hist´rica absolutamente singular c˜ o unica at´ na hist´ria da humanidade. mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espea cula¸ao sobre as categorias do esp´ c˜ ırito humano. c˜ ` ´ em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o).131 trata-se. c˜ a e podendo at´. E a raz˜o c˜ a a pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecio aliza¸ao. enquanto antrop´logos. mais tocados do que outros. baseada sobre uma extrema proxia midade da realidade social estudada.

UMA EXIGENCIA: .132 ˆ CAP´ ITULO 14.

con` o ca c sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´ ıcio ca ´ ıritos. nas sociedades tradicionais. amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova casa ou em um novo apartamento. at´ o in´ do s´culo. nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado o e da paternidade social). a ´ praticada. mas que n˜o suspeit´vamos. a a a e c implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte c˜ ca ` o observador. tamb´m bastante e insignificante. Esse costume aparentemente c insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade. Pois. e adquire com isso um estatuto de perfeito genitor. apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo a na nossa. e que se encontrava tamb´m na Fran¸a. Ora. permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos ıvel a as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que. na realidade. quando uma crian¸a nasce. de etnocentrismo.Cap´ ıtulo 15 Uma Abordagem: a an´lise comparativa a Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a. Cada um o j´ notou que. Participando efetivamente a a o do nascimento da crian¸a. pelo menos uma vez na vida. e c notadamente na Borgonha. se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´ e o ılia. Essa experiˆncia de arrancamento de a a e si pr´prio age. o marido recupera seus direitos de paternidade c (nas sociedades. da inaugura¸ao de o c˜ um edif´ ıcio. Tudo se passa como se a e ıcio e parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. por exemplo. Todos n´s participamos. como um verdadeiro revelador de si. esse cerimonial. isto ´. uma ruptura com qualquer forma. O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de doua 133 . notadamente. dissimulada ou delibee rada. na Africa. os parentes e amigos da fam´ a c ılia endere¸am seus cumprimentos ao novo pai.

especialmente Frazer).1 Poder´ ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de crise dos adolescentes americanos. A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia o – ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´. mas tamb´m te´rica. ap´s ter trabalhado durante mais de 20 o ´ ´ anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular. ca a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´ a ırica. c˜ o A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos colhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. atrav´s de monografias. Com o funcionalismo. 2 O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos o o britˆnicos. o o 1ˆ .134 CAP´ ITULO 15. n˜o ´ de ana c co a e trop´logos. deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es. toda a etnologia posterior (a ruptura a epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´ o a adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. ou at´ de o e um segmento. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si. escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre o a Oceania”. UMA ABORDAGEM: torado. Mas antes de examinar os e a problemas que coloca e as dificuldades que encontra. Confrontando o essencialmente costumes (cf. mas e o a de mostrar. que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em c˜ outras sociedades. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que e o c˜ co operam os pesquisadores eruditos desse per´ ıodo v˜o aparecendo aos poucos a como t˜o abusivas que. c c˜ E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt. dizia ele. o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o c e a que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo sovi´tico. na melhor das hip´teses de alo gumas variedades de culturas. no caso. o que aconteceu a Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo ca ´ de sociedade”. de um aspecto desta cultura. procura reconstituir uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades) ca e na ausˆncia de documentos hist´ricos. e sim de soci´logos. conv´m lembrar algue mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina. como se realiza a integra¸˜o das difee ca 2 ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos e a o estudo de duas sociedades a fim de evitar. mas quase nunca do estudo dos processos de variabilidade da cultura. Ora. praticamente. os Trobriandeses. temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de o a e antrop´logos.

como na ´poca de Mora c˜ e gan. de fato. repree sentativo. Claro. pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸ao u e c˜ que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao. Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perteno a cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. entre a tenta¸˜o de um comparatismo sisca tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram a prematuro. preferencialmente. O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files. essencial. na realidade. a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de c˜ c˜ u vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas a e ` c˜ diferentes. as institui¸˜es pol´ co ıticas dos habitantes da Patagˆnia e as dos groen-landeses. de uma area geogr´fica para ´ a outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo. devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exauso c˜ tividade. a esse respeito. coloca. mais problemas do que solu¸˜es. poo o der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). quando n˜o imposs´ a ıvel. o caminho ´ dos mais estreitos. Este deve passar pelo caminho lento e trabao lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da c˜ a ` a l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). Como ` a conceber ao mesmo tempo. co Esses exemplos mostram que. s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia a c˜ a ao antrop´logo: mas. o de confrontar os come portamentos humanos os mais diversificados. mas. elaborado por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´. e n˜o mais o a apenas etnograficamente. os ritos religiosos dos bantos e os dos o ´ ındios da Amazˆnia? o Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira a a e abordagem do antrop´logo. t˜o caracter´ o c˜ a ıstica de nossa disciplina. os materiais recolhidos devem ser meti- . Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos ıvel e institui¸oes humanos. Antes de see a rem confrontados uns aos outros. Mas esse programa. qualquer empreendimento de compara¸ao c˜ (´ a posi¸ao de Boas). O pr´prio empreendie c˜ e o mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma o ca humanidade ”plural”. por uma extens˜o no espa¸o –.135 Se o projeto da antropologia cultural ´. sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma abordagem que se quer cient´ ıfica. Vale a o co dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel. Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´. Em seguida apenas. essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo c˜ n´mero de invariantes. ao meu c˜ e ver. para serem estudadas antropologicamente. o postulado a c da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreeno dimento da compara¸ao.

Ou seja. e 3 . e aquilo que ´ finalmente o e comparado ´ o sistema das diferen¸as. Disso decorrem as o analogias que n˜o faltaram entre os abor´ a ıgines australianos e os habitantes 3 da Europa na Idade da Pedra. n˜o s˜o sempre as mesmas. n˜o mais isolaa c˜ a dos de seus contextos. as ”universalia dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias ca l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. s˜o sistemas de rela¸˜o. O que se e a compara hoje s˜o costumes. e sim fazendo parte destes. confrontadas umas com as outras. de uma an´lise (etnoloc˜ a gia) de tal institui¸˜o. n˜o a e a a deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. do parentesco. institui¸oes. escreve L´vi-Strauss (1973). nem a a mesmo. tal comportamento. em particular.4 mas sistemas de rela¸oes que o pesquisador constr´i. como diz Kroeber. com o que sabia c˜ (ou melhor. se come¸armos comparando os costumes de c tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia. na maior parte das vezes. um outro comportamento. enquanto hip´teses operat´rias. comportamentos. procura-se descobrir ca progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”. e pensaremos estar formulando as leis da natureza a u social. UMA ABORDAGEM: culosamente criticados. e depois. nem em geral e. c˜ o o o a partir destes fatos. e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema a a e ıvel a ca isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es. isto ´. o que outros se encarregavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”. e 4 O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. chegaremos apenas a ca e evidenciar algumas analogias. Ele o a e n˜o procura atingir a natureza da arte. os termos da c˜ compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ c˜ a ıricos em si. N˜o ` o a utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas. quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar tautologias”. escreve L´vi-Strauss (1973). o a a nem est˜o sempre em mesmo n´mero. da religi˜o.136 CAP´ ITULO 15. supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. gra¸as `s quais descobrimos propriedades co c a similares em sistemas aparentemente diferentes”. Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado. 5 ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido o e co e por uma coes˜o interna. dos conjuntos estruturados. Mas ent˜o. tal costume. deixaremos escapar o essencial. que e pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra institui¸ao. s˜o recolhidas c a a pelo etn´logo. 5 e c e ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´ a e a ıveis. a ca A partir de uma descri¸ao (etnografia). Pois. um outro costume. Assim o evolucionismo o o comparava o que via (ou. Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para a definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes.

a antroe a pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973). na¸ao. o a o sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compora e tamentos dos que ela estuda em uma cultura. Estado. Seria ingˆnuo. c˜ empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia a a e 137 . transforma-se. pois o estudo dos textos c˜ c˜ etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre o a do observado. A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente a ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao. Conv´m.Cap´ ıtulo 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o c˜ ca Social Do Discurso Antropol´gico o A antropologia nunca existe em estado puro. Seria paradoxal. que nunca ´ um produto a o e acabado. alguns exemplos estudados anteriormente. O que interessa a antropologia filos´fica do o s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”. n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si. quanto a si. consiste a na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. Seu atestado de nascimento a inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. praticamente irreconhec´ e ıvel. sobretudo da e parte de um antrop´logo. dentro dessa nova perspectiva. Em seguida. classe social. e permitir fundar um novo ”conc˜ trato social”. isol´-la de seu pr´prio contexto. O funcionalismo. o o Como escreve L´vi-Strauss. c˜ ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento. e em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem. portanto. ´ que estas podem dar ao Ocie e dente li¸oes sobre a natureza das sociedades. Retomemos rapidamente aqui. Sustentada a a e pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si). e se torna. um c s´culo depois. ”se a sociedade est´ na antropologia. interrogar-se e agora.

Nosso pertencer e nossa implica¸ao a e a a e c˜ social. na realidade. Al´m disso. ca e A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente a ca a a ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o. n˜o s˜o ciˆncias”. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP ¸˜ ¸˜ da cientificidade. o a e estudar objetos novos. comparando-a a com a antropologia britˆnica ou francesa. . variar as perspectivas. seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu o ` c˜ surgimento e desenvolvimento. como parte integrante de seu objeto de estudo. explica-se notadamente pelo fato de a que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas). seria errˆneo cono cluir – como faz. co e a essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas. Foucault – que. ligado ` crise hist´rica do e a a o pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. se se tem raz˜o em insistir sobre e a o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do o o qual fala. foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos. O ”relativismo e cultural”. afinal. por exemplo. e socialmente neutras. que as justificava. o Isso posto. o e Seria conveniente. ser considerados como um instrumento. ´ qualificado por este de ”resultado e das ciˆncias humanas”. longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´ a ıfico. Mas est´. ”as ciˆncias humanas a c˜ e s˜o falsas Ciˆncias. Um ultimo exemplo nos ser´ dado ´ a pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. ao contr´rio do evolucionismo. cultural. termo forjado por Herskovitz. pol´ o ıtica. a meu ver. o o e car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia. A pr´pria c˜ o o observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa. e Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que estuda. expressam diferentes formas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira te´rica. em conseq¨ˆncia das distor¸oes ue c˜ perceptivas atribu´ ıdas ` nossa rela¸ao com o social. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas a a coloniais. o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– o u e co sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso. perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”coc˜ lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos. Al´m disso. e de outras fora mas de antropologia que as combatem. Permitem coloa car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca. Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o ese tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. Mas estas nunca s˜o ca a hist´rica. em detrimento do funcionac˜ mento de nossas institui¸˜es. podem pelo contr´rio. que ´ necesa a e sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade.138CAP´ ITULO 16.

o que detesta ou gosta). pensa ter recoo lhido fatos ”objetivos”. a e sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica. Esquece (na realidade. em sua rela¸˜o c˜ ca com seus interlocutores (o que reprime ou sublima. Al´m disso. Pois a antropologia ´ tamb´m c˜ e e 139 . a meu ver. nunca observamos os comportamentos de um grupo tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fosa e c˜ sem outros. e at´ necess´rio. distinguir aquele que observa daquele que e a ´ observado. elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua imca plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo. pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a o o integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o. parece-me. se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o. ´ sempre. impens´vel dissoci´-los. Parte Integrante Do Objeto De Estudo: Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta. ´ que ele corre o maior risco de c˜ e afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina. Ou seja. e sim sujeitos observando outros sujeitos. e at´ e o ca e cria uma situa¸ao nova. de uma a e a forma estrat´gica e reivindicada) do princ´ e ıpio de totalidade tal como foi exposto acima. ´ por sua vez eminentemente c˜ c e perturbado por essa situa¸ao. em compensa¸ao. convencido de ser ”objetivo”ao libertare se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito. Nunca e c˜ a a somos testemunhas objetivas observando objetos. Aquilo que o pesquisador vive. devido a sua presen¸a.Cap´ ıtulo 17 O Observador. ca o ca Se ´ poss´ e ıvel. Assim uma verdadeira antropologia cie ent´ ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´ co ıficas do observador e da natureza da intera¸ao em jogo. Essa auto-suficiˆncia do pesquisador. ´ parte integrante de sua pesquisa.

e particularmente do universo masculino. nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais passa o etn´logo. na medida do poss´ ıvel. e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as co adolescentes. o que me marcou muito na ocasi˜o de o a minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos. as conseq¨ˆncias. como todos os interlocutores. africanos – do grupo. como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. pelo contr´rio. Ora. e visando a e o que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente c˜ ca poss´ ıvel. redigidos por ”credores”. longe de eliminar a ıcio a natureza afetiva (mas. e que ignoram a rela¸ao o o c˜ dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que. o Alguns anos atr´s. Da mesma forma. Passa por um tratamento est´tico cujo e objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´ e ıvel. com certeza. a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em a a e transe. de lev´-la em conta.140CAP´ ITULO 17. crist˜os. por sua vez. no Brau sil. mais precisamente. a pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a o e ıvel originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de ca o c˜ . ou. estava realizando. uma pesquisa no sul a da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: clausısia o ´ tra¸ao. c˜ a a a a fim de controlar. ligada a cultura a qual perten¸o) de ` ` c minha rea¸ao. importa muito que o etn´logo (isso faz parte da o aprendizagem de sua profiss˜o. trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao c˜ ca casamento. Se ambos fazem. freq¨entemente inconscienu tes. a a ca a a¸ucar. serem ”possu´ ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais – ´ prov´vel que o gato veja no cachorro ´ ındios. e o car´ter cient´ a a ıfico dos resultados de suas pesquisas depende disso) controle as armadilhas. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos. da proje¸ao e do etnocentrismo. a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior. enquanto o cachorro. a pedido do CNRS. isso ´ realmente o m´ e ınimo que se possa exigir do antrop´logo. respectivamente. O OBSERVADOR. e por um regime alimentar que deve engord´-la. Por que a esses relat´rios anˆnimos. No decorrer de um per´ ıodo variando de algumas semanas a alguns meses. pois era de fato esta que me questionava em alguns o aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje. de in´ repugnava-me. de tentar elucid´-la. E a a uma esp´cie particular de gato. veja em e seu dono uma outra ra¸a de cachorro. se ele tiver talento. ´ porque essas condutas questionavam e a minha pr´pria cultura. a o ıs u o espa¸o ocupado pelos esp´ c ıritos. Se isso me surpreendeu. perturbadoras ue tanto para mim quanto para meus interlocutores que. c˜ Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subjee o tividade do pesquisador. aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues c´ ´ a a maridos que n˜o conhecem. torradas com oleo). tive. cac nicentrismo e cinomorfismo.

mostrou o proveito que a etnologia podia tirar desse princ´ ıpio. como diz L´vi-Strauss. Ora.141 insetos. pelo menos. Heisenberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao a e c˜ que o modifica. Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´ ıpio de incerteza”. E foi Devereux quem. e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade c˜ – possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento a ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos. n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o e c˜ a a a a entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´ a ıfico? Paradoxalmente. comum a toda abordagem cient´ ıfica. u neste caso. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´. que seja africano ou europeu. que o levou a reintroduzir o f´ ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´ o e ca ısica. isol´-los. e sim por ine e term´dio da f´ e ısica moderna. que o e foi o da f´ ısica at´ o final do s´culo XIX. N˜o pode ser conveniente para compreender a comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es. a c e ıvel a e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente. e os observadores a est˜o ausentes ou. a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o c˜ a se deu atrav´s das ciˆncias humanas. c e ou. que o observador tenha 25 ou 70 anos. Nessas condi¸oes. nem mesmo na filosofia. que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do a a sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´ c˜ o ıfica. mas que os pr´prios f´ e e o ısicos abandona´ ram h´ muito tempo. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte a . ´ uma fonte infinitamente fecunda de coe nhecimento. pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa. ou pelo menos substitu´ ıvel. por que. longe de ser considerada como um obst´culo o a que seria conveniente neutralizar. socialista ou conservador). em primeiro lugar (em 1938). essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do e homem em sua tendˆncia ortodoxa? e A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente e c˜ do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”. A perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa c˜ o o e c a e que perturba a ele pr´prio. Essa elimina¸˜o encontra sema ca pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´ ca e ıduo n˜o assimil´vel a a a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”. uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar e e a e duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados. c˜ e sem d´vida. de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das e e ciˆncias do homem”. sentimentos e co valores. funcionando em muitos ca aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja. dissimulados. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos. segundo a express˜o a de Edgar Morin.

desde que se saiba aproveit´-lo. n˜o apenas das a o a a rea¸oes dos outros ` presen¸a deste. bem como do modo de conhecimento caracter´ ıstico da profiss˜o de etn´logo. O OBSERVADOR.142CAP´ ITULO 17. mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es c˜ a c e c˜ a co dos outros. ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina vane o ` tagens cient´ ıficas consider´veis. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO do objeto cient´ ıfico que procuramos construir. a a . A an´lise.

de Gauguin. Impress˜es da Africa. de Gide. de Michel Tournier. Os a Natehez. . de Baudelaire. Equinoxiais. . de Loti. A Procura do Ouro. mas o conjunto de seus sentidos: uma naa tureza grandiosa. Aziyad´. uma rela¸ao e c˜ – por sinal. de Gilles Lapouge. o que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro. e Entre as obras que acabamos de citar. de Ner-val. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta a a e a e mobiliza n˜o apenas seu olhar. Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ ıfico. ou. ”tropical”. atuando como e uma metamorfose de si. Inumer´veis s˜o os esa a critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de o c˜ deslocamento. o escritor se d´ conta a (e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo: a e ´ o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo a liter´rio cl´ssico. oceˆnica. po´ticas e. . Boure o linguer. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem.Cap´ ıtulo 18 Antropologia E Literatura: O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´ e ıvel.) conhecida sob o a nome de ”exotismo”. le Cl´zio. Os Tarahumaras. de Antonin Artaud. entre a nossos contemporˆneos. extremamente complexa – com a viagem. algumas se enquadram nessa famosa literatura de viagem (”oriental”. de Roussel. de Cailli´. de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao co a c˜ 143 . cinematogr´ficas) capazes e a de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia. O antrop´logo. . ıvel e *** Uma parte importante da literatura mant´m. de Melville. Os Pequenos Poemas em Prosa. A Ilha. de Chateaubriand. Typhon. Oviri. de Conrad. Descobrindo novos horizontes. de Robert a c˜ Merle. popula¸˜es projetadas. ´ freq¨entemente levado a procurar formas narrae u tivas (romanescas. A Modifica¸ao. A`ipi. como a etnologia. Viagem no Oriente. de Cendrars. mais recentemente. de J. Atala. de Michel Butor. A e ´ Viagem para Tombuctu. Les Nour-ritures Terrestres. M.

que ´ a autobiografia de um ´ e ındio pueblo. Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo. nos ensinam apenas muito subsidia e riamente a olhar para os outros. o Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente a a co e liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada. Nous Avons Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977). . Ma´ de Darcy Ribeiro (1980). Fum´e. Miguel Strogoff. Soleil Hopi. da editora Plon) nas quais se procura compreender o funcionamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´ c˜ co ıduos singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Grie aule (1966). A Volta ao a e Mundo em Oitenta Dias. desenvolvidas e e o de in´ nos Estados Unidos. a cole¸˜o ıcio c ca ”Terre Humaine”. A Viagem de Nils Olgerson. de Jacques Doure e nes (1978). de Carlos Castaneda (1982). livros de etnologia. ed Albert Memmi a . Os Filhos de S´nchez. N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal. Folie. e. . para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusivae e e a mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. pois o escritor freq¨ente mente sai do seu u papel – tentando ser etn´logo –. Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida. t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus o a e pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante. enquanto se interroga a sobre sua pr´pria identidade. para a ca e ciˆncia antropol´gica estritamente falando. de Jean Duvignaud (1968). Femme. elas s˜o muito a a diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o. de Oscar Lewis (1963). n˜o apenas para os a e o c a autores que acabamos de citar. O Pequeno Pr´ ıs ıncipe. faz a experiˆncia de uma felicidade e c˜ e sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie. de o Georges Balandier (1957). La Statue de Sei. Estou pensando nesses numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina. lic c bertado das obriga¸oes da sociedade.144 CAP´ ITULO 18. ´ verdade. Moby Dick. . at´. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ocidental. Alguns. o Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de aprene dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´. do que para o conhecimento ane o tropol´gico. . de Georges Cone e dominas. ou pelo menos e o para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta de si: isto ´. Chebika. geralmente a margem de suas produ¸oes cient´ c˜ ıficas. mas tamb´m para os etn´logos. L’Herbe du Diable et la Petite ıra. mais recentemente na Fran¸a (cf. mas que constituem a meu ver uma contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado. menos. Forˆt. de forma ca a a alguma. Alice no Pa´ das Maravilhas.

Kaos. de —ohn Boorman (19851. 1982). a Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas e ca u a contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico a a e a a – que constituem. talvez implique. para ele. do romance propriamente dito.. se diz ”dividido entre um grande fervor e o desejo de fazer uma pesquisa objetiva”. que. Yol. dos irm˜os Taviani (1977). La Forˆt d’Eineraude. de Werner Herzog (1984). Estou pensando e` e principalmente em Victor Segalen..145 (1966). o contr´rio. a literatura da ciˆncia o e (cf. de Carlos Lizzani (1980). e a c derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu horizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. e 1 . e a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de o e a ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia. mas indica-nos quais s˜o. de Francesco Rosi (1979). ´ as vezes extremamente tˆnue. Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos. eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham a sido meus at´ ent˜o e. Estou pensando particularmente em Moi et o un Noir. Le Christ a s’est Arrˆt´ ` Eboli. de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )eane ´ Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou). e em filmes mais recentes como A Arvore dos Tamancos. 1974). Gilberto Freyre. n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o. por defini¸˜o. levar e ca a a o ao contato. e de dentro para fora”. de Ermanno Olmi (1977). a o Em Jean Monod. para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e po´tica”(1972). Padre Pudrone. por si s´. que. qualificada precisamente de romance etnol´gico. e mais especificamente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries. Le Pays oii Rˆvent les Fourmis a e ´ Vertes. mas um meio de a ca conhecimento verdadeiramente antropol´gico. e considera que ”o soci´logo que quer o compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”. em Imagens do Nordeste M´ e ıstico em Branco e Preto (1978). eea de Yilmaz Guney (1981). 1 O limite que separa essa etnologia romanceada. a meu ver. que distingue o perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escria o e tor e poeta. a atitude de esp´rito ca a ı pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer o efus˜o”(1934). e procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com a a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios. e n˜o do Rousseau do o e a Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme. em Les Imm´moriaux (reed. por outro lado. Em Roger Bastide. Concebida dessa forma. de Claude L´vio o e Strauss (que. no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a. nos lembra freq¨entemente em sua obra que u se considera como o disc´ ıpulo de Jean-Jacques Rousseau. de Michel Leiris. dos irm˜os Taviani (1984). Fontamara. as rela¸oes que as unem: a c˜ ”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´tica a a da etnografia.

mitos dos ca ´ ´ ´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e. Primeira manifesta¸˜o dos negros. o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa ı os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. ´ e dentro de uma aventura. de Michel Leiris ou —ean Rouch com os africanos. n˜o se contenta com a sia tua¸ao. a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um ca )ean Paulhan com os malgaxes. mas tamb´m seu objeto. nos assolava. de Margaret Mead com as mulheres da Oceania. embora ainda sem forma. at´ e e e e a etnografia”(1973). Agia de a ı uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma posa e sess˜o. esfor¸a-se por apreender da forma c mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmitio ıvel la na nossa l´ ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski). A etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa) . a um sentido religioso. como Michaux em Um ıcio o e ´ B´rbaro na Asia ou em Equador. segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental c˜ a que. de —acques Berque com os ´rabes. a raz˜es mais fundai mentais. o e 1) A etnologia. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio e o pelas viagens. Suas afinidades deve-se. na qual o pesquisadore escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso. uma bandeira org´aca. exigir uma viagem mais radical. ´ para. no in´ de Tristes Tr´picos. Por outro lado. Mergulhados ı e a em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos. pelo menos tal como a concebo. e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. a meu ver. a *** O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance) c˜ merece ser levado mais adiante ainda. a A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consic˜ ` a e derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons.146 CAP´ ITULO 18. o jazz ı a foi um sinal de uni˜o. O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa. uma comunh˜o pela dan¸a. por estar cada vez mais especializado. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades. o erotismo latente ou mania c festo. Citarei trˆs delas. e a bebida. reluta frente a reflex˜o sobre o ` a homem. nas cores do momento. o jazz trazia restos significativos o de civiliza¸˜o acabada. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido. de Leenhardt com c˜ os Canaques. para al´m da Africa. de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina. ca a a para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo mea ı ı nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o o ca ı c mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo. a e de outro.

sejam colocadas as bases de uma ”teoria a do conhecimento”.2 A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens. e em ambos os casos. no qual ´ o c e questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. na qual a inteligibilidade c˜ ` e ` a ´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista. dos vae ıda a lores. no Processo n˜o a a ´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente. essa o pluralidade ´ irredut´ e ıvel ` identidade. comum a todas as ideologias. das concep¸oes do homem e do social. articulada com outras leis. notadamente.vai ao encontro da abordagem que ´ a da o o e etnologia. e o mal de outro. O que o escritor c˜ c˜ procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. o abandono da id´ia de uma c˜ e verdade absoluta situando o bem de um lado. Assim.147 visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais a e hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia. a arte ´ ` c˜ e a a e discrimina¸ao e sele¸ao. explora-se o cotidiano. e pera a mitir´. Depois. aberta pelas viagens. essa preu ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o. a literatura romanesca) desenvolve um interesse todo especial para o detalhe. o volta-se para o pr´ximo e. em ambos os casos. Joseph K. fazer surgir o ”geral”do ”particular”. ´ contemporˆnea desse moe e a mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar.). e para o detalhe do detalhe. O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se e a e a reduz a faculdade de observa¸ao. na Montanha e O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva. da c aventura ilimitada (Jacques le fataliste. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado. chegar a uma lei geral e que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos. Isto ´. e. mas tamb´m a filosofia cl´ssica.. o a e 2) A literatura (e. como a da etnologia. bem como mostrou Henry James. o 2 . como diz ainda Proust. para os ”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. o ` long´ ınquo deixa lugar ao pr´ximo. como em Madame Bovary. um ”escae vador de detalhes”.. e sim. segundo o termo de Proust. Assim. 3) A gˆnese do romance. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam ca e ` c˜ sem representar”. Dom Quixote. Ora. se for bem es´ colhido. a partir de um unico pequeno fato. explicativas e a dos comportamentos humanos. O que ´ ent˜o e a proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em a e e rela¸ao a teologia. como a l´gica o o o da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades. A vida ´ inclus˜o e confus˜o. pelas ”grandes c˜ o a dimens˜es dos fenˆmenos sociais-. Ele ´.

fames. de Thomas Mann. mas aos olhares cruzados (convergentes. Em Os Filhos de S´nchez. mais modestamente. c Essa abordagem. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´ ` o ıvel nos trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. para fazer-nos compreender que no romance tanto quanto na etnologia. coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar. Flaubert. como para o o romancista. a c˜ e de Svevo. Em ambos os casos. o ponto de vista esfor¸a-se em ser total. a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920. a E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem a unica. 3 .3 Ora. sempre a partir de um certo ponto de vista. na Consciˆncia de Zeno. a e O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta. ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance. me parece. mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal. essa personagem. que privilegia o car´ter eminentemente social e a at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que. sem nunca ser absoluto. e o o c˜ na obra de Balzac. c˜ ` de Joyce. ılia Em suma. revolu¸˜o esta que. renuncia-se a id´ia de que a rea` e lidade possa ser apreendida em si. os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade a a a e dos habitantes da ”plan´ ıcie”. ´ portanto claramente ane 4 titotalit´ria. para o etn´logo. esses exemplos bastam. divergentes) de uma ca mesma fam´ mexicana. alternadamente considerados como os unicos p´los ´ o da observa¸˜o. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: M´gica. a perspectiva de Balzac. essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica) e a a e a da etnologia. profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria. e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini. deliberadamente perspectivista. c 4 As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a co c antropologia exigiriam uma afina¸˜o. De que romance se trata? E de que antropologia? ca Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´ a ca ıvel de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade e ca ca social”. reintroduz no ca o espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista. para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos c˜ Verdurin. e a e Da mesma forma.148 CAP´ ITULO 18. paro a ticularmente. corresponde ` ca a tendˆncia sociologizante da antropologia. mas. n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do a o observador do observado. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se e ca quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´ o ıtica. Ou seja. para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”. em Ulisses. con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social). etc. n˜o ´ ca e ca e a veio de repente. ´ claro.

a compreens˜o ”por c a dentro”e a compreens˜o ”por fora”. em um desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue. . parece-me que c a a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse. toda vez que um c˜ dos p´los em quest˜o domina o outro. . vive dentro de si essas tens˜es. ıcio corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. o a 19. O prio meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´ e e ıvio ass´ ıduo e de uma verdadeira impregna¸ao por seu objeto. O que n˜o tem realmente nada de um a ´ exerc´ intelectual. A abordagem de um fean Rouch. Roger Bastide escreve. parece-me particularmente representativa dessa atitude. ou de um Roger Bastide. freq¨entemente polˆmicas. pois. Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas o a da pr´pria pr´tica da antropologia.1 O Dentro E O Fora Uma pulsa¸ao bastante espec´ c˜ ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo.Cap´ ıtulo 19 As Tens˜es Constitutivas Da o Pr´tica Antropol´gica: a o Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o u o importantes. de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu a a preferiria ser possu´ a estudar os possu´ ıdo ıdos”). por assim dizer. por exemplo: 149 . o u e esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. Correla-tivamente. opondo a universalidade e as diferen¸as. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir o a ´ o c do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses diversos termos. deixando-se. como diz Georges Balandier a respeito da Africa. o ponto de vista do mesmo e o ponto a de vista dos outros. naturalizar por ela. Trata-se de interpretar a sociedade c˜ estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade.

os camponeses de Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes. a mas naquilo que n˜o diz. ı e ca Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´. ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas e c˜ ıvel a o que escapam aos atores sociais. A nosso ver. em entender e o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar.. e e Parece-nos de fato. como tamb´m cada indiv´ e ıduo. Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais. os trabalhos de L. de um determinado ponto de vista. o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia o familiar. E sobretudo. chega inelutavelmente para o etn´logo ca o o da distˆncia. deus do trov˜o dos Iorubas. a inteligibilidade ca procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma a como seus atores sociais a vivem. onde lhe revelam que ´ e a e e filho de Xangˆ. os franceses para compreender os franceses. come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos enc contrado e atravessado. o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o o a a e do encontro. o que vivem os membros o de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se a apenas dentro dessa sociedade. ou de Zeldin e C983).˜ ´ ´ 150CAP´ ITULO 19. e particularmente da linguagem a e o cient´ ıfica. mas tamb´m. diferente. exterior. O olhar distanciado. ocupar´ o a e a um lugar na hierarquia sacerdotal. mas sobretudo. at´ a sua morte. Wylie (1968). da experiˆncia. sobre esse ponto. De fato. pois ´ pr´prio da linguagem. que ´ inglˆs e e 1 . que. e onde.1 pois as significa¸oes proc˜ duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma. fornece a si pr´prio e aos ouo Cf. ou ainda. e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa o disciplina. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos e e e de cartesianismo. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”. e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos metoe a a dol´gica). Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era a minha. a e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia. Cada grupo humano. atuar no sentido de uma separa¸˜o. nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente transa e parente a si mesma. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia ıcio estranho. Mas passado o tempo da impregna¸˜o. do estranho. que ´ americano.

a abandonar um moe e delo de pensamento por outro. mas sobretudo. nossas produ¸˜es eruditas terminam quase semc co pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza ` a nossa. E e o edades long´ ınquas que permite notadamente que o pesquisador.19. n˜o desprez´ a ıvel. em termos erua ca ditos e na forma de uma redundˆncia. Alguns etn´logos tˆm e a o e tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro. que e ´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras. nem contornar e exorcisar. ´ de estarmos carregando conosco um e modelo de leitura. a a o O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do proa cesso (a ”compreens˜o de fora”).. Quando o discurso sobre o outro tende a a dominar o discurso do outro. podendo contribuir na morte do outro (e na morte das civiliza¸oes). ou at´ por uma ”convers˜o”. degenera habitualmente em um discurso a ` revelia do outro. Existe. por exemplo. e o L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”. do que foi expresso. ´ claro.1. mas o essa contradi¸ao. O DENTRO E O FORA 151 tros racionaliza¸oes de suas condutas. de sociedade em sociedade. O paradoxo merece ser sublinhado. todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida. a . Se a etnologia conseguir superar a ide´ ologia da idealiza¸˜o amorosa. Qualifica e u a a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”. com a convic¸ao de sempre c˜ permanecer com a ultima palavra. uma contradi¸ao aparente nesse olhar e c˜ pr´ximo do long´ o ınquo que age como um olhar long´ ınquo do pr´ximo. ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e exo plic´-lo de dentro. que consistem em modelos conscientes c˜ que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar. seja a retranscri¸˜o. o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜o a ”compreens˜o por dentro”) ´. da fus˜o e da confus˜o. seja uma participa¸ao cega e uma ”empaa e c˜ tia”que n˜o se consegue mais controlar. c˜ o Em suma. O risco. Mas em tais condi¸˜es. Enquanto nossa profiss˜o de c˜ a etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia. isto ´. a pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. e sim o a analisar. o e por uma ruptura cultural. parece-me que n˜o ca a a a deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental. de volta a sua pr´pria sociedade. e diz do olhar antropol´gico e o ´ a proximidade desse olhar sobre socique ´ um ”olhar de astrˆnomo”. Assim. parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores. possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico o a a e a o de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica o de sua abordagem. deixando-nos ensinar e a e aculturar como crian¸as. como diz MarcAug´ co e (1979).

1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. que Lembramos. Como escrevia. e a h´ mais de um s´culo. uma ”unidade do gˆnero humano” e • tal costume. f´cil encontrar uma contradi¸˜o. em seguida. ao estudar os Trobriandeses (1963). E unidade. apresentam-se como radicalmente opostas. s˜o realmente diferentes a 1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente. o questionamento de nossa disciplina. termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. Temos a e e a sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la ` c a a vontade”. essa vontade de ”poder e o ca c˜ pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E. um dos primeiros antrop´logos: a e o ”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sime e e patizar com o mito. finalmente. no final de sua vida. entre. pois considera que. 19. o e u na pr´tica. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abore e a o e ´ dagens que. apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro. que se esfor¸a em dar conta da e c especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses. e a convic¸˜o do te´rico ıvel ca o que. por exemplo. no entanto. o e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao e c˜ ´ idˆntico. E. privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”.2 A Unidade E A Pluralidade Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com e a mesma for¸a: c • existe. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora. pois. os homens s˜o em toda parte os mesa mos. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo. Tylor. dentro desse quadro. que Malinowski no in´ ıcio de sua carreira. Evans-Pritchard. estranhos a minha c˜ sociedade. e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. por exemplo. reflete sobre o funcionamento da humanidade em geral. quando elabora sua Teoria Cient´ ıfica da Cultura (1968). como vimos. na obra de Malinowski. como escreve Mauss. de a ca um lado a experiˆncia pessoal do observador. 2 . AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: em um mesmo pesquisador. tal comportamento. tal institui¸ao.2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que c˜ ´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”. de uma mentalia c˜ dade em outra. uma extens˜o e anexa¸˜o do outro. que evidencia as diferen¸as que a o c observa. Coma ca preendemos. reduzido a mera figura do a ca ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na mesmo. d´ prioridade a um mo’do de a conhecimento claramente distanciado.˜ ´ ´ 152CAP´ ITULO 19. o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente a e diferente de n´s.

. coloca um ca problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas ´ e e uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo ca menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o a ´ a das ciˆncias sociais. este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo. tais como a economia. h´ uma verdade al´m dos Pireneus. os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos. e ca Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica. antimarxista. antifuncionalista. que proa c˜ a a Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. E. igualit´ria e convivial. organiza-se toda uma corrente. ou a a ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´ co ıgines australianos. O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao e e a e c˜ entre o observador e o observado. 1972. a sociologia ou a demografia. no Ocidente. no qual o u a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um ´ objeto passivo. atravessa o pensamento a e antropol´gico contemporˆneo. existem. 3 . a e o como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava.2. (aulin (1970. antiestruturalista. e a natureza. e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o a pensava. encontrada em autores como Castaneda (1982). e consiste dessa vez em considerar as difeo a ren¸as como irredut´ c ıveis.19. A UNIDADE E A PLURALIDADE 153 se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf. Clastres (1974). que seria a racionaliza¸˜o desse processo. apelar para os recursos das matem´ticas modernas. 1972) pedindo o fim da antropologia. . por outro lado. em outras culturas. A pare tir desse segundo p´lo. considerada repressiva. por exemplo Fanon.). ”estabelecer-se e e dentro mesmo de suas sociedades”. fore mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa: o a por exemplo. para compreendˆa e las. 1973). Baldwin. t˜o complexas que precisamos. da ciˆncia. Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido ca ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade do observado. a 2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo ´ a o dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s. embora n˜o se trate a de ciˆncias. e e as quais ”aceitam sem reticˆncias”. as gram´ticas indianas. a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria ca ca impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras. 1952. mas claramente culturalista. no sentido ocidental do termo. como diz L´vi-Strauss. Adotevi. que encontra uma de o suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto o os trajes. Delfendhal (1973).

como tamb´m.˜ ´ ´ 154CAP´ ITULO 19. Mais uma vez. pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo. que parea e cia exclusivamente niveladora. o e 1975). mas no c˜ o ıs. o ` e u consegue se impor a esta. Ora. Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude. Encontrei pessoalmente membros das classes superiores da sociedade brasileira que. que ´ hoje uma das primeiras metr´poles a e o industriais do mundo. A cultura popular n˜o a s´ resiste notavelmente a cultura dominante. Aquilo que Bastide come¸ava a notar. mais tende simultaneamente a diversificar-se. que ia levar ` unifica¸ao da ´ a c˜ India. por exemplo. c˜ 1) Em primeiro lugar. n˜o nas regi˜es mais exteriores o a o em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste. Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo. posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua c˜ ıda maioria de descendentes de europeus. nem mesmo pelo pensamento te´rico. trinta anos atr´s. foi a influˆncia. ca me parece pouco fundamentada. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ´ porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu.. de uma maneira dificilmente imagin´vel no Ocia dente. s˜o sucessivamente ”possu´ o a ıdos”pelos esp´ ıritos das divindades dos ´ ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. P. freq¨entemente. De volta de uma miss˜o cient´ a ıfica no Nordeste do Brasil. a reabilitar a identidade das regi˜es (cf. soube criar o e a formas de sociabilidade plenamente originais. Da mesma forma. no decorrer das cerimˆnias de umbanda. considera-se que o que ´ separado pela barreira das u e culturas n˜o deve ser reunido. acentuou-se e confirmou-se. o Brasil contemporˆneo me parece particularmente a revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. contra o cosmopolitismo. a hegemonia ariana. J. foi acompanhada correlativamente de uma divis˜o da sociedade em castas. Sabemos de fato que. da qual a antropologia seria ` e e c´mplice. Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais o a a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista. E uma forma de conhecimento mais humana. . da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que c˜ e permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes ca sociais). H´lias. aos c˜ o quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia. visando. Disso a o decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia. e que n˜o se deixam de forma alguma alterar a pelos modelos culturais vigentes em Paris. Assim. Londres ou Chicago. como falamos de ”medicina mansa”. e confrontada hoje a uma conjuntura econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel. ao estudar os c a cultos afro-brasileiros. quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se. que poder´ ıamos qualificar de ”etnologia mansa”. por exemplo. a inquietude que demonstram esses autores com respeito a uma homogeneiza¸˜o. encontr´veis no menor coma portamento da vida cotidiana. a esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido. Finalmente.

nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”.. co o 4 . tudo se passa como se esse protesto indignado – o fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavelmente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade. possa sentir o o ´dio em rela¸˜o a estes. 1972. e atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso. as sociedades selva´ gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. como qualquer ser humano. . por exemplo. por exemplo. n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que a e c o separa de n´s. e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (masoe o o quismo). e o fato de que o etn´logo. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155 2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro. participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de o a lembrar de Pauw ou Hegel. n˜o afeta e o a em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o. Para estes. enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa. Mas que estes ca e a o ultimos n˜o sejam ”nem santos. enquanto e que. ”n˜o impede que ´ a o a os trobriandeses sejam matrilineares. como lembramos. indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente. que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. como diz Panoff (1977). A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de fato da m´ imagem que se tem de si (cf. como pode sˆ-lo e com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´ a ca e a ıtica. o 4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade ese tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas. Jean Monod. Em suma. por um agrad´vel movimento de a pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico. como a objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral. o ´ ındio. s˜o mobia a lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto. mesmo se fosse poss´ ıvel. diz Hegel.2. por Turnbull (1972). atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba e inclusive perdendo-se. de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de ca a e ”bons selvagens”. o e e Novo Mundo ´ de fato um outro mundo. E ”um outro mundo a o cultural”. aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o a ca ca a ´ mais o outro (sadismo). de que. h´ uma recusa de assumir a sua pr´pria identidade. A descri¸˜o. nem her´is”. pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro –. causou escˆndalo entre os etn´logos. o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao da o a c˜ 4 ocidentalidade.19. e escrevˆ-lo. O africano. a que se acusa de ser um ”rico canibal”). Ou seja. a coincidir com a vere dadeira natureza do outro. se poderia talvez chegar. O e e fato de a alteridade ser aqui valorizada. e . o a 3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´ ca ıvio dos outros n˜o resiste ` oba a serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica ca c˜ a que se faz passar por realidade. e de que n˜o se poderia preencher e a (e. . E correlativamente dessa vez. o bret˜o.

a c˜ e antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve e a identificar integralmente consigo mesmo. encontrados por L´ry. de uma abordagem de pequisa cient´ ıfica. a a e que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado selvagens no contato dessas popula¸˜es. do que na ciˆncia. devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que prea c˜ tend´ ıamos estudar. a religi˜o aos e a cleros. E al´m o e e disso. tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores. Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma c˜ essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de mae e jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas c˜ e justapostas). segurar as duas extremidades da a e a cadeia. ao insistir tanto sobre o car´ter irreo a dut´ das diferen¸as. J´ passamos por isso. que n˜o ´ m´dico. que o afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la reale a e mente – a ficar em casa. suas mulheres. Apenas o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o aboa lidas. a e a e e se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos. Esse descentramento m´tuo do observador e do obseru vado n˜o pode mais ser. a o Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao e ue ıpio a c˜ e n˜o-media¸ao. seus costumes. n˜o se trata mais de estud´-la. . passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito. a permanecer entre si. essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma. N˜o ´ f´cil. no final dessa experiˆncia. evidentemente. Se a identifica¸ao integral com este ´. como eu dele. aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´ e ındio. adotando sua l´ co ıngua. a c e partir de uma rela¸ao. o proletariado aos prolet´rios. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de come a a c˜ preender a mulher. o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de e ` a ` a si pelo outro. isto ´. Apenas o ´ ındio (e. o sujeito transcendental a e do humanismo. ` maneira desses aventureiros normandos. e sim de a a a adot´-la. O outro ´ uma figura poss´ de e ıvel mim.˜ ´ ´ 156CAP´ ITULO 19. Apenas o prolet´rio pode a e a a saber o que ´ a classe oper´ria. Por todas essas raz˜es. . a ıvel c e meu ver. a Bretanha aos bret˜es. Mas ent˜o. a meu ver. c˜ . um erro. Como vocˆ. isto ´. a rigor.

mas o meu c olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´ e ` c˜ ırica. mas que s´ pode ser empreendida a partir a o da observa¸ao de uma realidade concreta. Vaiv´m a e meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado. das culturas. a ideologia do a momento. no mesmo n´ de a ıvel investiga¸˜o do social. de fato. por exemplo. da constru¸ao cient´ e c˜ ıfica. o 1) O primeiro risco. que d´ a o a ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas. N˜o h´. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me ca c˜ leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras. mas me permite perceber que perten¸o a uma figura c particular da cultura. o qual n˜o deve. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive inec˜ ´ vitavelmente a adotar a teoria do senso comum. do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”. de ca outro. De um lado. do campo e do m´todo. a Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´ ca ` ca a ıtima. a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten` cemos. ou. para dar conta deste. supostamente irredut´ ıvel.Mas c˜ n˜o s˜o a antropologia. a preocupa¸˜o do concreto.3. portanto. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar. que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´ ca ırica. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes. de estar junto delas. ciˆncia.19. realizada por n´s mesmos. Ou a seja. nos deixar esquecer a o e a e especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´ e ındia dos Nhambiquaras de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos.3 O Concreto E O Abstrato A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´ a e c˜ e vivido. anotar. nem atividade cr´ a a a a e ıtica nem mesmo coleta de fatos sem teoria. gravar. a exigˆncia. a poesia. e A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura a e os que privilegiam a diversidade. O CONCRETO E O ABSTRATO 157 19. al´m dessa descri¸˜o (mas a e ca a partir dela). Pelo contr´rio. e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao. o a mas em decidir quais s˜o os fatos significativos. A m´sica. a religi˜o s˜o abordagens muito u a a mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os seres. trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um obo c˜ jeto que n˜o existe na realidade. por´m. e. em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. a pintura. decorre do fato de que n˜o nos situamos. nos dois casos. vem da submiss˜o d´cil ao campo. c˜ o 2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nominaca . a an´lise da a a variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de a uma cultura para outra. mais prazeres. a literatura. se prefeıda c˜ rirmos. a ”opini˜o”. pelo formalismo l´gico de um L´vi-Strauss.

s˜o capazes de agir como reveladores de aspeca a tos culturais inteiros. e da nossa pr´pria rela¸ao com ca o o c˜ o psicol´gico e o social. No t´rmino do empreendimento a e de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´ c˜ o ıricos em objetos cient´ ıficos. em sua intersec¸˜o. mas tamb´m contra nossas c˜ e observa¸˜es. Da mesma forma. a terra. quando o pensamento tradicional classifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua. que o inconsciente de uma cultura pode ser encontrada no consciente de uma outra. quando um n´mero consider´vel de indiv´ u a ıduos que comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (socio ais. u mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. o *** O paradoxo. acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. as interpreta¸˜es dos interessados e nossas co o co pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. traduzindo-a em uma outra linguagem. e sim uma constru¸ao do real. Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas. o ar. Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros). biol´gicas) em termos religiosos. do ponto de vista do obsere e a e vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia). de ”proje¸ao”. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientificac˜ a a mente constru´ ıdos. e de outro. Existe portanto uma inadequa¸ao eno c˜ a c˜ tre. o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado a (de minha e da outra sociedade). a realidade social estudada. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: lista). a u observ´veis em outro lugar. de um lado. nossas impress˜es. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um o e c˜ e confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado. que n˜o ´ nem esgotada nem a e esgot´vel pela etnologia. Por outro lado. Por exemplo. o objeto que constru´ a ımos a partir de uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica. a partir de nossas observa¸oes. em mat´ria de doen ¸a. Nossos sistemas de representa¸ao. com Georges Devereux. c˜ o dito e o n˜o-dito. uma teoria cient´ a ıfica nunca ´ o reflexo do e real. psicol´gicas. mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das e ciˆncias sociais. e sim uma pr´tica que surge em seu a limite. o ´ podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cioc˜ o a o econˆmicas. o que permite afirmar.˜ ´ ´ 158CAP´ ITULO 19. de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais a c˜ ”fundamental”. tamb´m n˜o ´ a ciˆncia e e e a e e social do ponto de vista do observado. Podemos reduzir a inadequa¸ao entre ca c˜ os dois pensamentos de que acabamos de falar. podemos dizer que se trata o o de ”ilus˜o”. o fogo). Ora. s˜o hoje em grande c˜ e c a . c˜ o a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a c˜ a co suas pr´ticas. cuidadosamente dissimulados em nossa cultura. ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social. ou melhor.

os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros. pela sua origem hist´rica e cultural. limitada no espa¸o e no tempo). que nasceu no Ocidente. e sim um m´todo. e tornam-se manifestas se passarmos a de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai). chamadas ”adorc´ c˜ ısticas”e que correspondem as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo. ıvel Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos. n˜o o a apenas como experiˆncia e como aventura. e e c A etnologia. ”nada seria mais e falso”. Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”. ´ indefectivela e mente ocidentalo-cˆntrica. ´ espec´ e a e ıfica e exclusivamente vienense. mas que subverte a e o racionalidade ocidental. etc. podem ser utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e partia cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros ıvel realizam ao n´ do corpo. torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refee rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal. que nasceu em Viena. ´ claro. O CONCRETO E O ABSTRATO 159 parte exorc´ ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esmac e gado. 5 . abre essa estreiteza monocultural. do doente-v´ o ıtima e do m´di-co-exorcista. mas como ciˆncia. resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteria e dade nos moldes do que ´. nem por isso est˜o au` e a a sentes. pelo contr´rio. Est˜o simplesmente recalcadas. bem conhecidas entre n´s. seja poss´ e e ıvel. o a e ocidental. conhecido dos psicossoci´logos. E no entanto. nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista o a a (pois essa racionalidade ´ provinciana. isto ´. conhecido e correto (o que e equivaleria a suprimir essa alteridade). nem o de estender a racionalidade as ` dimens˜es do universo. e os sintomas. a para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina. ou de a uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para a a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”. para minha sociedade. como escreve L´vi-Strauss (1973). que n˜o produz o a realmente algo novo.19.5 Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia. tais como os estou a estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste. mas reatualiza antes algo recalcado). como dizer que a psican´lise. ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o e a ´ ca do esp´ ırito colonial”. e mostrar que o processo. Da mesma forma. e Mas as representa¸oes inversas. da exclus˜o em um grupo que se quer hoo a mogˆneo. algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como a instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto a e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham. a c e c˜ De tudo isso. como uma calamidade a ser eliminada.3. o que tra¸a as c figuras.

seja a um a segmento marginal de uma sociedade minha. para analis´-lo. O conhecimento antropol´gico surge do encontro. mas o inconsciente em sua rela¸ao c a c˜ com o consciente. e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo´ e ıvel logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente. n˜o apeo a nas de dois discursos expl´ ıcitos. o o ` c Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua u a evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valoco .˜ ´ ´ 160CAP´ ITULO 19. nos gestos e discursos dos interessados. o segundo. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. A antropologia. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: Dito isso. nem segundo a maneira com a qual os observadores os percebem. com os gˆneros e e que s˜o classifica¸˜es ind´ a co ıgenas expl´ ıcitas. ca Nesse caso espec´ ıfico. a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra. ”feitos em casa”(L´vi-Strauss). e a e c que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra. como a feiti¸aria. s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´ o c ıfico partir do momento em que integra. E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre c minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os c a c limites e as fronteiras.). constitui-se do cono fronto de dois discursos interpretativos que se juntam. c˜ o modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e racionae a u co liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades c˜ de acesso a estas ultimas). e e a portanto. o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero. As pr´ticas simb´licas o co a o e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar. mas na sua jun¸˜o e na sua ca intersec¸˜o. que ´ espelham uma imagem deformada. a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evio c˜ o denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. a realidade alucinada e desviante. Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha. pois cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antroo o a a pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem. mas de dois inconscientes em espelho. . do professor prim´rio. esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo a tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a. a realidade. a mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social. ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mesa o c mas. o primeiro. Seu significado antropol´gico o s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem o um sentido. para o antrop´logo. e que a antropologia seja uma o metalinguagem. c˜ e Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. Isso n˜o significa que o a antrop´logo seja o homem de nenhum lugar. e a c˜ o com os modelos conscientes. etc. e constituem. do padre. .

19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO

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res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e a um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim e a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´ ıvel- de mim. N˜o posso a situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto, para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que o n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical. a e ca Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade o pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´ a ıfico. *** A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´ ca o o ıfica, do homem e da natureza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem e e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´ c˜ ıvel e do intelig´ ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite a a resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser c˜ a em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas c˜ o n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez mea e nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´ e ıvel, e que tem, como diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´ a ıvel”. S˜o as diferentes dosagens a realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por c˜ a dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a a diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sinc e cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias o e o a entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arriscoo me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um ca e ca discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisaıvel a mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das o c˜ culturas. A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento inintere rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo a e apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente e e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ a ıvel. Roger Bastide entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos s´ ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi e totalmente antrop´logo. o

˜ ´ ´ 162CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es c˜ o c˜ o que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de c˜ c˜ compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e e a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a ime o possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser a e aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia. a a Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985

Cap´ ıtulo 20 Sobre o autor:
´ Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E c e ´ autor de A Etnopsiquiatria (Editions Universitaires, 1973), As Trˆs Vozes do e ´ Imagin´rio: o mecanismo, a possess˜o e a utopia (Editions Universitaires, a a 1974), A Cultura do Psiou O Desmoronamento dos Mitos (Privat, 1975), A Filosofia e a Violˆncia (Presses Universitaires de France, 1976), Doen¸as e c ´ ´ Mentais e Terapˆuticas Tradicionais na Africa Negra (Editions Universitaires, e ´ 1976), A Medicina Popular na Fran¸a Rural Hoje (Editions Universitaires, c 1978), Um Vidente na Cidade: estudo antropol´gico do gabinete de consulo ´ tas de um vidente contemporˆneo (Editions Payot, 1985) e Antropologia da a ´ Doen¸a (Editions Payot, 1986). c

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164 CAP´ ITULO 20. SOBRE O AUTOR: .

Anthropologie Appliqu´e. Hachette. Paris. Paris. Jean-Marie. Calmann-L´vy. Le Prochain et le Lointain. Paris. 1970. Le Seuil.Bibliografia Adotevi. 1957. 1974. Images du Nordeste Mystique en Noir et Blanc. Paris. Flammarion. PUF. Gallimard. Flammarion. PUF. Sociologie des Brazzavilles Noires. Paris. Anthropologie Politique. 1967. Symbole. A. Sociologie des Maladies Mentales. Le Rˆve. Gregory. Paris. Le Candombl´ e de Bahia. 1950. 165 . e e Auge. PUF. Auzias. e e Paris. lacques. L’Anthropologie Contemporaine. Louis Antoine de. Pandora. de Minuit. ee Baldwin. Paris. Voyage Autour du Monde. 1972. Sociologie Actuelle de l’Afrique Noire. – C´nie e du Paganisme. PUF. Paris. 1971. 1972. 1964. Introduction a 1’Anthropologie Sociale. 1971. Le Racisme en Ouestion. la Transe. 1980. Fonction. 1959. Stanislas. Paris. Colin. Paris. Paris. Paris. Roger. Balandier. Flammarion. 1965. 1976. (ames. Beattie. Anthropologiques. D´possession du Monde. Cujas. Gallimard. Paris. 1972. 1979. Mouton. 1972. 1955. —ohn. PUF. ` ˆ Benedict. Paris. 1955. Georges. 10/18. Paris. Payot. e Bougainville. Paris. Ruth Echantillons de Civilisations. 1950. e Bastide. La C´r´monie du Naven. Paris. Paris. Paris. Gallimard. Paris. 1982. 1978. Bateson. Paris. Berque. la Folie. Plon. Ajrique Ambigue. Marc. N´gritude et N´grologues. Histoire. Ed. Sociologie et Psychanalyse.

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BIBLIOGRAFIA Escaneado e diagramado por MathCuei R . com o auxilio de A L TEX 169 .

170 BIBLIOGRAFIA .

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