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Aprender Antropologia
Fran¸ois Laplantine c 2003

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. . . . . . . . . 58 4. . . c˜ 6. co 6. . .Conte´ do u I Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento Ano tropol´gio o 23 1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia: e o 25 1. . . . . . . . . . . . . 80 87 91 95 . . . . . . . . . . a 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o 8 A Antropologia Social: 9 A Antropologia Cultural: 3 75 .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . .1 BOAS (1858-1942) . . . . . .2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . . . . . . . . . 75 . . . . . . . . . . .2 MALINOWSKI (1884-1942) .1 Campos De Investiga¸ao . . 32 2 O S´culo XVIII: e 3 O Tempo Dos Pioneiros: 39 47 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57 4. . . . .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . . . . 27 1. . . . . . . . 60 5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia: o 67 II As Principais Tendˆncias Do Pensamento Ane tropol´gico Contemporˆneo o a 73 6 Introdu¸˜o: ca 6. .3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico o o o temporˆneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 Con. . . . . . . . . . . . . .

19. . . . 157 163 . . . . . . 152 .3 O Concreto E O Abstrato . . . . 20 Sobre o autor: 139 143 149 . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 18 Antropologia E Literatura: 19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica: o a o 19. . . . .1 O Dentro E O Fora . . . . . . . . . . . . . . . . 149 .4 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e 11 A Antropologia Dinˆmica: a ´ CONTEUDO 103 113 III A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica a o 119 121 125 129 133 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a 14 Uma Exigˆncia: e 15 Uma Abordagem: 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137 c˜ ca o 17 O Observador.2 A Unidade E A Pluralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19.

nas respostas e solu¸˜es que inspirou. professor da Univero e c sidade de Lyon II. Pa´s em constru¸˜o. seus habitantes em geral. A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais ca e (e a Antropologia n˜o foge ` regra. autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pesa quisas no Brasil. mostrando como foi variando o seu colorido e c o atrav´s dos tempos. ´ ele que se c e busca compreender profundamente. . Os estudantes lˆem e discutem determica e nados autores. efetua a an´lise de seu desenvolvimento. nos debates que suscitou. nele se vive intensamente. pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se ca ca em opostos: a erudi¸˜o abrindo. o a conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou e e de um ramo do saber na maioria de seus aspectos. apresenta a ı ı as tendˆncias contemporˆneas e. na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ca a ı do futuro.´ CONTEUDO 5 Pref´cio a A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem a Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhea cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria. re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento u antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais. a No Brasil o presente tem muita for¸a. ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada. assim co o como da ´rea de conhecimentos a que pertence.se na ˆnsia de dominar a maior quantidade ca a poss´ de saber. que permite uma a compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas. A hist´ria da disciplina. a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um coıvel ca c nhecimento minucioso. a ca Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de encoca a menda para estudantes brasileiros. O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine. como se fosse algo de somenos co importˆncia. E. um panorama dos problemas coe a locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o. finalmente. o e o Em primeiro lugar. . tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo. como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema e co de base ampliando-o. permanecem co a muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso. o exame cr´tico de todas a ı as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo. seus estudiosos em ı ca particular. de que sua a¸˜o e ı a ca ´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. muito a a ca mais do que a da forma¸˜o geral.) segue a via da especializa¸˜o. Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente ene ca contrada entre os especialistas. para chegar e a e . em seguida.

perdem-se de vista coma ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado. a Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da claı ca ı reza de express˜o. com esta maneira de ser t˜o mercante. e por outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para conse c tru´-lo. que buscam coı nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”. no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias ı e Sociais. A necessidade real. Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pese quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP. a ca No entanto. a especializa¸˜o numa dire¸˜o. ´ ca ca como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o. esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge. a ca na verdade. oferece a eles um primeiro panorama geral da Antropologia e seu lugar no ˆmbito do saber. 1 . em e muito boa ora traduzido.6 ´ CONTEUDO a ela escolhe-se uma unica via preferencial. Este livro. ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e e c o da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos e a a u aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal. um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e u especialistas de Ciˆncias Sociais. por um lado.

botˆnica. teol´gico. Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem a o sobre o homem. Isso trar´. modelos elaborados ”em casa”. muito e e a recente. mas nunca cient´ o o ıfico no que dizia respeito ao homem em si. filos´fico. como verea mos mais adiante. e a elabora¸ao de um a c˜ saber s˜o. de fazer passar este ultimo do estatuto de ´ sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca o c e muito tardia na Hist´ria .´ CONTEUDO 7 Introdu¸˜o ca O Campo e a Abordagem Antropol´gicos o O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX. Houve at´ alguns que eram e te´ricos e forjaram. ou seja. A ciˆncia. evidentemente. Enquanto que o a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´ c˜ a a c˜ ıvel) entre o sujeito observante e o objeto observado ´ obtida na f´ e ısica (como na biologia. pela primeira vez. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico. e n˜o mais a natureza.surge * em uma regi˜o o a muito pequena do mundo: a Europa. pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade o a . ou mais precisamente. na Oceania ou na Europa. e e e sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto.n˜o podia existir o conceito de homem enquanto o a regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas . Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. Mas o projeto e de fundar uma ciˆncia do homem . ao contr´rio. na hist´ria. na Am´rica. e se deram tanto na a a ´ ´ Asia como na Africa. ao menos tal como ´ concebida na ´poca. apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir e e c um saber cient´ ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como objeto de conhecimento.´..uma antropologia . Trata-se. ue Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es. desta vez. portanto. o e A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade. Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo a todas as conseq¨ˆncias. a antropoloe gia. a ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes. exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias a ` ´ c˜ e ou norte-americanas. t˜o antigos quanto a humanidade. como diz L´vi-Strauss. ue e a o art´ ıstico. apenas nessa ´poca ´ que o a e e esp´ ırito cient´ ıfico pensa. para que o novo co saber comece a adquirir um in´ ıcio de legitimidade entre outras disciplinas cient´ ıficas. durante o a e qual a antropologia se atribui objetos emp´ ıricos autˆnomos: as sociedades o ent˜o ditas ”primitivas”. Finalmente. conseq¨ˆncias importantes. De fato. em aplicar ao pr´prio homem os o m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ e e a ´ ısica ou da biologia.

e 1) O antrop´logo aceita. a e c˜ e portanto. portanto. c˜ a e ue elas ir˜o permitir a compreens˜o. em conseq¨ˆncia. empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma o 2 . objeto ideal de seu estudo. especialmente a sociologia. c˜ o *** A antropologia acaba. e notadamente o que ´ chamado de ”sociologia comparada”. Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica e a a de sua disciplina reencontrando. por assim dizer. que tiveram pouo cos contatos com os grupos vizinhos.e por muito tempo a e em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. da a a c o organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades. este ´ c˜ e selvagem de dentro.8 ´ CONTEUDO estudada. como diz Paul Mercier (1966). Detenhamo-nos em trˆs deles. pois o pr´prio Universo dos a o ”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. ser´ que a a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado a como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam a e podem ainda ser dados. como veremos neste livro. a qual. permanece desde seu a nascimento: o fim do ”selvagem”ou. uma quest˜o se coloca. sua morte.no in´ do s´culo o o e ıcio e XX . e volta para o ambito das o ˆ outras ciˆncias humanas. e 2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs. Muito rapidamente. As sociedades estudadas pelos a a primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´ o a ınquas as quais s˜o atribu´ ` a ıdas as seguintes caracter´ ısticas: sociedades de dimens˜es restritas. cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida e em rela¸˜o a nossa. Ela se vˆ. a e 2 A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi. particularmente bem adequado. de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio: e o o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. Ser˜o nec˜ a a ca a cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao a e c˜ que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. como numa situa¸ao de laborat´rio. j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem. qualificada pelo nome de folklore.a antropologia percebe que o objeto emp´ ırico que tinha escolhido (as sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”. Mas co c˜ logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa . e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades ca ` a c˜ e fun¸oes sociais. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos ¨ e pr´prios desse campo de estudo. a a de in´ ıcio. confrontada a uma crise de identidade. ela consistir´ na antropologia. nessa ´poca .

conduzem c e c˜ necessariamente a uma especializa¸ao do saber. bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao. Ora. mas tamb´m. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas e c c a que se seguem. que inclusive n˜o exclui a o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo). que nenhum ´ pesquisador pode. O que deve. o que esse patrimˆnio (que se transforma) o e o deve a cultura? Assim. a cultura a ca este patrimˆnio. b) o estudo do homem em todas as sociedades. Certa-mente. o camponˆs). o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os ` o a c˜ fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´ c˜ ıduo. existem cinco areas principais da antropologia. mas as quais ele deve ` estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas. e O estudo do homem inteiro S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que o o objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em soca u o ciedade. ela analisa as particularie a o dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente. em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente sea ca u parados. especialmente. um certo enfoque a e a que consiste em: a) o estudo do homem inteiro. e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho.´ CONTEUDO 9 3) Finalmente. n˜o mais atrav´s de um objeto emp´ a a e ırico constitu´ ıdo (o selvagem. a distˆncia social e cultural que co a separa o objeto do sujeito. dominar hoje em dia. na perspectiva na qual come¸amos o a a c a nos situar a partir de agora. uma das voca¸˜es c˜ e co maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas. o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes u c˜ diretas. dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si. cultural ou hist´rico c a o particular. bem como a o o evolu¸˜o destas particularidades. a um espa¸o geogr´fico. Por´m. mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica e e o constituinte. O objeto a te´rico da antropologia n˜o est´ ligado. social). sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as ´pocas. forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas. evidentemente. ele afirma a especificidade de sua pr´tica. o . ecol´gico. Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio c a e c˜ o gen´tico e o meio (geogr´fico. ao a contr´rio. a e co A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia o f´ ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem co o no espa¸o e no tempo. substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia a a ”ex´tica”. e aqui temos um terceiro caminho. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar.

tamanho. com toda evidˆncia. tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais. Edmund Leach (1980) fala d. Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um c c movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ca ıvel. finalmente. Apenas o estudo da l´ c˜ ıngua permite compreender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem. Ela tem. eles interpretam seus pr´prios e ca o saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias). um pesquisador que trabalha e o e a partir do acesso direto aos textos. Notamos que esse ramo da antropologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´rica e ` o e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. mas tamb´m quaisquer marcas da atividade e humana). objetos no solo. isto ´. que se liga a arqueologia. que ´ uma disciplina que se situa no encontro e Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan c e (1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´ ca a ısica. Assim.pela gen´tica c e das popula¸˜es. anatomia comparada c˜ as ra¸as c dos sexos. mas a tamb´m de tradi¸˜o oral). quanto e c˜ em suas produ¸˜es culturais e art´ co ısticas. biol´gica e s´cio-cultural o o nunca foi rompida na Fran¸a. como o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos. longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios. isto ´. Ele realiza um trabalho de campo. Seu projeto. suas o preocupa¸oes. seus pensamentos. colocando-se do ponto de vista da antropologia social. e suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica). cor da pele. a mensura¸oes do esqueleto. E o e ıduos que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores. visa reconstituir as socie` dades desaparecidas. o como. que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao adco quirido. sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente. um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam a rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias co e e humanas. por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da a crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte c e c e da antropologia. A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´ e o e e ıgios materiais enterrados no solo (ossadas.desde os anos 50 . O historiador ´ antes de tudo um histori´grafo. peso. interessa-se em especial .a ”desagrad´vel obriga¸˜o de a ca fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia e a e o f´ ısica”. comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de a ca o ca ratos em laborat´rio o 3 . pessoalmente. parte do e e ´ atrav´s dela que os indiv´ patrimˆnio cultural de uma sociedade. o como eles ıi´ expressam o universo e o social (estudo da literatura.10 ´ CONTEUDO Ele se perguntar´. a a meu ver. A linguagem ´. a e A antropologia ling¨´ uıstica. n˜o apenas escrita.3 4 antropologia ling¨´ uıstica. O especialista em pr´-hist´ria recoe o lhe.

que consiste no estudo dos o o processos e do funcionamento do psiquismo humano. suas cren¸as religiosas. suas cria¸˜es co art´ ısticas. somente atrav´s dos comportamentos . e de longe. mas procuraremos nunca es` quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia. al´m de introduzir o estudo da lino e guagem entre os materiais antropol´gicos. sua psicologia. suas t´cnicas. e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitua ´ tivos (com antropologia social e a cultural. cidade de uma sociedade. das quais falaremos a seguir) do campo global da antropologia. Ou seja. esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levanc a tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular a com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifia e ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m a e a a o e psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos o e a aqui dar conta. E e o fato de que o antrop´logo procura compreender. fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar a um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica. Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas noe ´ vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual). e este livro traa e tar´ essencialmente dela. ao estudo dos dialetos a a (dialetologia). De fato.conscientes e inconscientes e dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual ´ n˜o ´ antropologia.´ CONTEUDO 11 de v´rias outras. 4 n˜o diz respeito apenas. e sim a indiv´ a a ıduos. come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo o c e antropol´gico da l´ o ıngua (a l´ ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura) conduzia a um estudo ling¨´ uıstico da cultura (a l´ ıngua como modelo de conhecimento da cultura). Ela ´ parte integrante dele. toda vez que utilizarmos a partir a de agora o termo antropologia mais genericamente. o antrop´logo ´ o e em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais. seus sistemas de conhecimento. nossas trocas simb´licas. e c˜ A antropologia psicol´gica. 4 . como diz L´vi-Strauss. Um dos aspectos e cuja abrangˆncia ´ consider´vel. Assim sendo. sua orca o e ganiza¸ao pol´ c˜ ıtica e jur´ ıdica. estaremos nos referindo a antropologia social e cultural (ou etnologia). Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram o e o mencionados. sua l´ c ıngua. os menores detalhes dos noso Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem. Isso posto. j´ que diz respeito a tudo que constitui e e a a uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica. Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia. seus sistemas de parentesco. e A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais a tempo. o e aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no a papel”(nossos gestos.

A experiˆncia e Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais o c avan¸adas apenas muito recentemente. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida c˜ ` a por um objeto emp´ ırico qualquer (e. que faz dessa abordagem um tratamento fundamentalmente diferente dos utilizados setorial. a e o Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ). ou seja. de fato. cultural. e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha ca ´ sobre si mesmo. As primeiras pesquisas trataram primeiro. soci´logos. ıpio Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas ca do contato com o Ocidente. em seguida. do setor urbano. . que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em e ca o rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser conc˜ e a fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades extra-europ´ias). como c vimos. ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhee e cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao c˜ direta. em especial. apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma e a c˜ distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que a o ´ long´ e ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por a natural em n´s mesmos ´. mas m´ ` ıopes quando se trata da nossa. presos a uma Unica cultura. De fato. psic´logos. . na forma¸ao antropol´gica. ela se encontraria hoje. Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas dia feren¸as significativas.cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais a o distantes. c˜ Al´m disso. a sem objeto. o o O estudo do homem em sua totalidade A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade. e finalmente. h´ alguns anos apenas e a na Fran¸a. dos grupos marginais. por impregna¸ao lenta e cont´ c˜ ınua de grupos humanos min´sculos com u os quais mantemos uma rela¸ao pessoal.mente pelos ge´grafos. somos n˜o apenas a cegos a dos outros. a c˜ o daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement). Ocorre. inicialmente privilegiou claramente as ´reas de c a civiliza¸ao exteriores a nossa. Disso decorre a necessidade. c 5 . e das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas o e geogr´ficas.12 ´ CONTEUDO sos comportamentos). economistas. ela. dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cama ponesas europ´ias). a a perplexidade provo. como j´ comentamos. o juristas. por´m. pelo tipo de sociedade ao qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente). aquilo que era evidente ´ Infinitao e e mente problem´tico.

com a maior proximidade poss´ ıvel. a meu ver. uma verdadeira revolu¸ao episo c˜ temol´gica. participando ao a mesmo tempo de uma comum humanidade. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura o o passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. o juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. a nos espiar. cotidiano. comemorar os eventos de nossa existˆncia. E. a ´ Aquilo que. a nos surpreender com aquilo que diz respeito a c a n´s mesmos. do idˆntico. e l´ ınguas. familiar. nos encontrar. rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natuco a ral”. ıvel mas n˜o a unica.) s˜o. Isso sup˜e ao a o mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo. a a a elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se a e esperar) mas. e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. na realidade. que consideramos espontaneamente como indiferenciadas. jogos profundamente diversos. ent˜o. portanto. assim. do igual. As sociedades mais die a ıvel ferentes da nossa.´ CONTEUDO 13 da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que c˜ e nem ter´ ıamos conseguido imaginar. uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do e mundo”. Aos poucos. como j´ o dissemos e voltaremos a dizer. Come¸amos. que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. dormir. caracteriza a unidade do homem. mais ainda. para elaborar costumes. notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos. e. dada a nossa dificuldade em fixar nossa aten¸ao no que nos ´ habitual. e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras. e que consideramos ”evic˜ e dente”. Ou seja. faz tanta quest˜o. A abordagem antropol´gica provoca. nos emocionar. correlativamente. modos de conhecimento. Ela implica um deso c ca centramento radical. o produto e a de escolhas culturais. no reconhecimento. c˜ pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana. pelo contr´rio. m´ ımicas. extremamente diversificadas. . apenas a nossa disciplina c˜ permite notar. de que a antropologia. posturas. ´ sua a a e aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orgaa niza¸ao social extremamente diversos. que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente a por inatas (nossas maneiras de andar. E. de fato. conhecimento. uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de ca c˜ 6 Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement) o a e . . ´ a e e e e sua aptid˜o a varia¸ao cultural a ` c˜ O projeto antropol´gico consiste. institui¸oes. aquilo que os seres humanos tˆm em comum e ´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros. s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa.

criticista com Kant. bem como as grandes religi˜es. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool). ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence. que visa superar a irredutibilidade das culturas. De fato. mas n˜o posso me resignar a querer apenas a um deles”. das culturas. mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa a ca a disciplina. que ´ ´ teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia. um americanismo. um oceanismo. as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas. . geogr´ficas. a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s. que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um e Montaigne). nunca se deram como o objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos. Confrontados a multiplicidade. o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas insa ´ a titui¸˜es do n˜o-europeu. A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de e c˜ identificar nossa pequena prov´ ıncia de humanidade com a humanidade. e correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s meso mos. ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o e e c ca v´lida. Poder´ a ıamos multiplicar os exemplos. freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com u a do saber. sociais e culturais da co ca o a antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder o de vista. E os ´ ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que e a ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim co de encontr´-los. Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ alo c a gumas d´cadas. hist´rica com Hegel). mas tamb´m uma a e nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. Isso n˜o impede que a constitui¸˜o a ca de um saber de voca¸˜o cient´ ca ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido a partir da cultura europ´ia. como atestam notadamente e e os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia. e n˜o fossem adquiridos no contato com a o a cultura na qual nascemos). um e africanismo.14 ´ CONTEUDO si mesmo. enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´ ısmo”. e sim de seus m´todos de pensamento. mesmo o sendo filosofia social. Como escreve L´vi-Strauss: e ”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo a o do observador. a o a a reflexiva com Descartes. e da cultura e c˜ com a nossa cultura. ıdo o Isso posto. seguido por Leroi-Gourhan). e na Fran¸a a e a c partir de 1943 (Griaule na Sorbonne. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide: e ”Eu sou mil poss´ ıveis em mim. de pens´-la cientificamente). A rec´ co a ıproca tamb´m ´ verdadeira. A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o: ca a ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade? a e Evidentemente. por viajantes vindos e ´ da Asia. somos ` a aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscric˜ tos em n´s desde o nascimento. n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ a a ıveis”. da Africa ou da Oceania. Esta elaborou um orientalismo. c a e sim o de reduzi-la. a priori enigm´tica.

por sua vez. Dificuldades Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´ o a ısticas maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade. aos estudantes.deve ser sempre retomada. e evidentemente. desses materiais e o u dessa experiˆncia. Estamos.se sobre a pluraridade irredut´ das o ıvel etnias. considera que. do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´ e o a definitivamente encerrada. mais ”adultos”. no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde pero manecer por tanto tempo cega para consigo mesma. isto ´. com os quais estivemos vi-vendo. assim como uma o civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos. das culturas. intelectuais . particularmente reveladora da juventude de e e nossa disciplina. mais ”conscientes”. Procuraremos. ela deve c˜ igualmente aceitar a diversidade das culturas. tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao. O que significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado. Mas ela ´.de que estamos finalmente mais u ”l´cidos”.6 que n˜o sendo. aos seus colegas. mais ”livres”. como acabau mos de escrever. quando se trata de ılia o e dar conta (aos interessados. isto ´. No segundo (que ´ mais usado nos pa´ angloe e ıses . por sua vez. ao adotar ipso facto a l´gica das outras socieo dades e a censurar a sua.´ CONTEUDO as melhores inten¸oes do mundo. ao n´ ıvel das palavras. a a e a a ılia fam´ dos antrop´logos ´. a e convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos o a o que observamos em seres humanos. seja levado por o alguma crise de identidade. de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessio a vas. tamb´m adultas. c˜ 15 O pensamento antropol´gico. muito dividida. a si mesmo. e 1) A primeira dificuldade se manifesta. uma ciˆncia constitu´ cone ıda. e de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadeie ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla.o expansionismo ocidental sob todas as suas formas econˆmicas. se eles s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana. Desconfiemos por´m do pensamento . pelo contr´rio. mostrar nesse livro a que a d´vida e a cr´ u ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas o a se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´ c˜ ıtica dos de outrem. como sempre. tamb´m aqui. insiste. amputando parte de si pr´pria e fazendo. a o c˜ Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o ` ca terminol´gica dos franceses). pol´ o ıticas. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias doa e minantes de nossa sociedade .que seria a e o c´mulo em se tratando de antropologia . um objeto de exclus˜o. como a f´ a ısica.

vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. procurando ao mesmo tempo se reencontrar perioe dicamente. Esses fenˆmenos podem ser recoco o lhidos tomando-se notas. a etnologia e a antropologia constituem os trˆs moe e mentos de uma mesma abordagem. As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos. por uma impregna¸˜o duradoura e cont´ o ca ınua e um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. A antropologia. como verea e mos. as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma e a a da outra no s´culo XX. Estabele¸amos. a ´ e antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard). mas tamb´m por grava¸˜o sonora. com a Radcliffe-Brown (1968). 1973) e 7 . sobre a unidade do gˆnero humano. longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown). mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias socio e ais. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica` a co mente o homem. a u 8 Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses. ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento e a e final”(L´vi-Strauss.16 ´ CONTEUDO saxˆnicos). que ´ preciso tratar as sociedae des n˜o como sistemas orgˆnicos. deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social a cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es .que consiste mais no estudo dos comportamentos. um invent´rio a das possibilidades inconscientes. um modelo ling¨´ uıstico. um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito? e e E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam. que a etnografia.8 e e e os que pensam. E optando-se por antroo e pologia. com Evans-Pritchard (1969). o Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de neo a e Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa a localizar-se. e o mais minuciosa e poss´ ıvel. 3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´ e c˜ ıgua que a antropologia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. dos fenˆmenos que observamos. que n˜o existem em n´mero ilimitado”. Para estes a a o ultimos. ıvel ca fazer aparecer a l´gica espec´ o ıfica da sociedade que se estuda. e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza (o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser invena e tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada). que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem a ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza. seu nome o e a e proclama suficientemente. finalmente.7 2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´m e atribuir a antropologia. fotogr´fica ou cinematogr´fica. al´m da e e c e imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir. a antropologia deve aspirar a a tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas. L´vi-Strauss substituiu. consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam comıvel parar as sociedades entre si. A etnografia ´ a coleta direta. e ca a a A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos. Estreitamente vinculadas nos e e o s´culos XVIII e XIX. ”seu objetivo ´ alcan¸ar. isto ´.ou (com os autores e co americanos) de antropologia cultural . mas como sistemas simb´licos. Como escreve L´vi-Strauss. c como L´vi-Strauss.

Hoje v´rios colegas nossos consia a deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo c c˜ especialmente )ean Copans. Quer´ ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo´ gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. por exemplo. o 4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem e a parar. onde come¸o a escrever este livro. realizou suas pesquisas a peo . do que o a o ”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia a o u cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”. 9 10 Sobre a antropologia aplicada. a e c˜ 10 a antropologia teve inicio. estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas Samoa (1969). participando em especial dos programas de desenvolvimento e das decis˜es pol´ o ıticas relacionadas ` elaborac˜o a a desses programas. especialmente. Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos c˜ o ca o a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria ` c o em considera¸˜o”. no Nordeste do Brasil. com a coloniza¸ao. Durkheim considerava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o a c˜ a pudesse ser util. um milia tante. que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”. isto ´. cf. 1971 A maioria dos antrop´logos ingleses. ent˜o. O pesquisador torna-se. mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do conhecimento hist´rico. e a hist´ria recente da antropoa a o logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas. ”pr´ximas do grau zero e e o de temperatura hist´rica”. mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia c˜ menos frustrante ` sociedade americana. c um autor como Gilberto Freyre. e ca Aqui. pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o de ca uma sociedade melhor. Margaret ´ o a Mead. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a c˜ qualidade de especialistas de conselheiros. um ”antrop´logo revolucion´rio”. e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. empenhando-se em compreender a forma¸˜o ca da sociedade brasileira. R. Bastide. E por ela que. de ser unˆnime. e Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e c que continua dividindo profundamente os pesquisadores. 1975). como veremos. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa ca e e c˜ de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”. e isso desde seu nascimento. desde 1933. Mais categ´rico ainda. a o Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica ca c˜ o o est´ longe. entre a pesquisa que se pode qualificar de fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”. e.´ CONTEUDO 17 nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das institui¸oes”. contribuindo na constru¸ao de uma o a c˜ ”antropologia da liberta¸ao”.

que podem ser e o ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun. enquanto antrop´logo. c˜ Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no e Brasil entre os Tupinamb´s.18 ´ CONTEUDO Foi com ela. a As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antropologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas e primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com co o ca o ”selvagem”. Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. a ”revolu¸˜o”. Desde o s´culo XVI. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad. a c˜ escreve: ”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da e c a¸ao pr´tica. de fato. inclusive. durante a coloniza¸ao. se interroga. etc a 11 Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico ca ´ pesquisador. elas n˜o tˆm. sobretudo. que ´ o seguinte: 0 antrop´logo ˆ e o deve contribuir. a franc. Longe de procurar convencer seus h´spedes da a o superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada. 1963) se deixa a literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. c˜ e Perfeitamente a vontade entre os astecas. encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que. que se deu o in´ ıcio da Antropologia. a ajuda ao ”Terceiro Mundo”. ele os interroga e a e. Nadei foi a conselheiro do governo do Sud˜o. 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento e . franc. ele estava l´ enquanto mission´rio ` a a a fim de converter a popula¸ao que estuda. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos c˜ de falar.11 c˜ O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o a religiosa. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico. para B transforma¸ao das sociedades o c˜ que ele estuda 11 dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo co britˆnico.. nada ou quase nada a oferecer. Mas v´rios anos depois (trad. come¸a a se implantar aquilo o e c que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico. ca e ap´s ter lembrado que o saber cient´ o ıfico sobre o homem ainda se encontrava num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza.. as estrat´gias daquilo ca e que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o ale c a tera nada quanto ao amago do problema. mas sobretudo e e n˜o lhes pedir nada”. no momento. O c˜ a a e verdadeiro meio de permitir sua existˆncia. ´ dar muito a elas.

os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas.´ CONTEUDO 19 Eu responderia. seria c˜ a conveniente. de se vestir. as e cren¸as. n˜o deve. m´dico. por outro lado. no que me diz respeito. Somos. mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente ue a a e a dita. organizar pol´ o c e ıtica. agrˆnomo. pr´prias culturas rurais e ure o banas. Eu pude. para ajudar os atores sociais a ca e o responder a essa quest˜o. de fato. de se encontrar. Ou seja. de se distrair. a partica c e cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo c˜ o e e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´. traa a o balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. onde ca come¸ou a redigir este livro c 12 . Caso contr´rio. uma e e conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o. perturbando completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar. perceber realmente o fasc´ ınio que exerce este modelo. mas nas quais poc a a der´ ıamos ter nascido). ao meu ver. est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de a homogeneiza¸˜o. a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica a c˜ a da antropologia. sem risco de despersonaliza¸ao? a c˜ Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo. a meu ver. Em compensa¸˜o. da seguinte forma: nossa abordagem. sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento ca o de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento que ´ a do racionalismo social. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela ca mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa. pelo menos enquanto antrop´logo. que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ mais e familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos) e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos. no decorrer de minhas estadias e sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do e e Marfim. o e pol´ ıtico. As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista co ca podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa. econˆmica e o socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. que se convertesse em economista. de pensar 12 e levando a novos comportamentos que n˜o decorrem de uma escolha) a A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte: a a o e h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindoa lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem a o conflito dram´tico. diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a e ` qual temos o dever de responder. parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil.

isto ´. n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados. t´cnicas. e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber. o encontro e de l´ ınguas. finalmente. c˜ e ca co N˜o h´. dominar o campo e ´ global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social. ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` c˜ e a violˆncia negadora das particularidades econˆmicas. cultural. 5) Uma quinta dificuldade diz respeito. que n˜o s˜o a a a a mais ”sociedades tradicionais”. ` o o tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos ca a co de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque ca a da acultura¸ao. por muta¸˜es de suas o e co rela¸oes sociais. baseada na capta¸˜o de informa¸˜es. isto ´. pr´-hist´rica. em um n´mero de p´ginas reduzido. Em suma. e por um processo de c˜ ca urbaniza¸ao acelerado. enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos) ´ a co a e. e o e provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o ´ o ´ a extensa). e sim sociedades que est˜o passando por um a desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito. mentalidades. o caso hoje em dia. a pesquisa antropol´gica. evidentemente. de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais trac˜ o balhamos. Atrav´s da especificidade de sua abordagem. a antropologia do .20 ´ CONTEUDO a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e e c˜ o c a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o a tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada ca a tempo. elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais o a a m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma a e crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural. N˜o ´. sem itiner´rio no decora a e a rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas. ` natureza desta obra que a deve apresentar. a ´ b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento e a c˜ extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas. sem a e nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais. Isso sup˜e uma ruptura com o o a concep¸ao assim´trica da pesquisa. ling¨´ uıstica. a antropologia econˆmica. e sim fora mular quest˜es com eles. pol´ e o ıtica. sociais. antropologia sem troca. que e o n˜o ´ de forma alguma. cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. sobretudo. um campo de pesquisa u a imenso. de fato. culturais de um e o povo. de seu pr´prio saber e saber-fazer. nossa c˜ e disciplina deve. No fie nal do s´culo XIX. um unico pesquisador podia. no limite. por movimentos de migra¸˜o Interna. isto ´. O antrop´logo considera a e o agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13 a e a 13 A antropologia das t´cnicas. uma atividade de luxo. como podemos notar.

procurando dar conta da pluraridade. o parentesco. mas tamb´m mutuamente e exclusivas. a antropologia dos sistemas de comunica¸˜es.´ CONTEUDO de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada. Muito mais modestamente. o co ´ os principais eixos anteriormente examinados ser˜o. a antropologia permanecesse monol´ ıtica. Pois a antropologia. mas de diversos pontos de vista.a meu ver cinco . a especificidade da antropologia. em vez de fingir ter adoe tado o ponto de vista de Sirius. entre as quais ´ preciso escolher. foram se colocando e o progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo p´blico poss´ u ıvel. definir alguns conceitos a partir dos quais o u e leitor poder´.. do alcance e da riqueza dos campos abertos pela antropologia. que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia. n˜o a a dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. mesmo de uma forma parcial. em uma ultima parte. dar conta. a meu ver. entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica e a e e o de adotar uma linguagem menos especializada. Esta ´ a raz˜o pela qual. se. reavaliados com o objetivo de definir aquilo que constitui. Finalmente. art´ co ıstica. atrav´s dessa hist´ria da antropologia. espero. Ela ´ ao contr´rio claramente plural. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – dua ` e a vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que. Teria sido. Eu lembrarei em a primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa disc˜ ciplina e como. surpreena o dente. de fato. Veremos no decorrer deste e a livro que existem perspectivas complementares.em volta dos quais c o o oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. interessar-se em ir mais adiante. Ela diz respeito a todos n´s. optei voluntariamente pela segunda. que nas ciˆncias humanas ´ um engodo. em algum momento de sua vida (profissional. tentei colocar um certo n´mero de referˆncias. o ´ a 21 Era-me portanto imposs´ ıvel. a antropologia religiosa. e e e pertence a todo o mundo. em um movimento por a assim dizer retroativo. a Ver-se-´ que este livro caminha em espiral. possam ser levados e a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´ a ıstico da antropologia. As preocupa¸oes que est˜o no a c˜ a centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencioo nadas ser˜o retomadas. E. esbo¸arei os p´los te´ricos . Em o e seguida. dentro de um texto de dimens˜es t˜o restrio a tas. co . mas tamb´m pessoal). das organiza¸˜es sociais. em vez de pretender uma neutralidade.. esfor¸ando-me ao mesmo tempo para e e c apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros.

22 ´ CONTEUDO .

Parte I Marcos Para Uma Hist´ria Do o Pensamento Antropol´gio o 23 .

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na China. ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem descoe bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´m a e e atribuir-lhes um estatuto humano ´. e que nasce desse primeiro confronto a e a visual com a alteridade. nessa ´poca. A Hist´ria de Uma c a o Viagem Feita na Terra do Brasil. Cf. Paris reed. e 1 25 . Em 1556. P. em seguida ` Am´rica. G. Consultar tamb´m como exemplo. Notamos que se. por exemplo. A c grande quest˜o que ´ ent˜o colocada. religioso: O selvagem tem e e uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital e a para os mission´rios. a 2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII) o a co ıtas e ˆ nc Canad´. O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a c e a c 1 a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. Andr´ Thevet e a a e a ´ a ´ e escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica. ` Asia e ` Africa. em 1558 Jean de Lery. formando o que e co habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. as Lettres Edifiantes et Curieuses de la a a Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776. no s´culo XIV. 1979. j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ a a a e poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. bom como a coletˆnea de textos de J. no Jap˜o. Dizem respeito em primeiro lugar ` a P´rsia e ` Turquia. 1985). de Rubrouck (reed. a quest˜o ıvel ca e a As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que co dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes. Garnier-Flammarion.Cap´ ıtulo 1 A Pr´-Hist´ria Da e o Antropologia: a descoberta das diferen¸as pelos vic ajantes do s´culo e a dupla resposta e ideol´gica dada daquela ´poca at´ noso e e sos dias A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo e a o e a ` Mundo.. para um per´ e ıodo anterior (s´culo XIII). para um per´ e ıodo posterior (s´culo e XVII) Y. Duviols (1978). 1985). d’Evreux (reed.

e que op˜e o a a o dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera. e algumas de nossas regi˜es da Espanha. que se torna uma controv´rsia p´blica.) Esses povos igualavam ou e at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que. senhores e uma ordem pol´tica que. Las Casas: ` ”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros.. Sepulvera: ”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o. os superavam. os pregui¸osos. n˜o ´ de forma alguma solucionada. vilas. ´ e co ı e melhor que a nossa. e ı em alguns reinos.. (. a Fran¸a. (. em Valladolid). foram muito mais pervertidas.. e e c c mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do ese tranho apreendido a partir de uma falta. ao c ı a contr´rio. reis. Assim. e at´. na Espanha. os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a meo ca a tade do s´culo XIV: no debate. aqueles s˜o. as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o. igualavam-se aos gregos e os romanos.. e deram mostra de muito menos prudˆncia e sagae cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais. ´ melhor que a nossa. responderemos que essas ı a a pessoas tˆm aldeias.) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas e na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis. no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a de nossa Espanha. mesmo que tenham as a e c ı for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias. s˜o por natureza serc ı a a Sendo. Ela ser´ definitivamente e a e a resolvida apenas dois s´culos mais tarde. e Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes.26 ´ ´ CAP´ ITULO 1. (. em alguns de seus costumes. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ colocada. sen˜o todas. e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia a e e 2 que se tem sobre si e sua sociedade.. co a irracionais e depravadas. e n˜o eram infeco a a riores a nenhuma delas. em alguns reinos. os senhores.) Pois a c o maioria dessas na¸˜es do mundo.. mesmo que n˜o see a a jam superiores em for¸a f´sica. a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio ca a ´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade. N´s o mesmos fomos piores. Eles superavam tamb´m a e e Inglaterra. e a e Ora. paternalista e ca do outro: 2) sua exclus˜o a 2 . os esp´ritos lentos. por natureza. pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de a ca nossos costumes”. cidades. que e e u durar´ v´rios meses (em 1550. por´m.

virtuosos e humanos dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”. os s´culos ` ca e XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´. e opondo assim a animalidade a humanidade. E ´ justo e util que sejam servos. quatro s´culos e ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera. gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia c a a e de suas leis. e 1. inteligentes. que consiste em expulsar da cultura. eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais a humana e ao culto da virtude. e vemos isso sancionado pela pr´pria e ´ o lei divina. Cf. a mais comum e e Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes.1. e 3 .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato. seres da floresta). pode-se e impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa. de modo que. e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao. isto ´. E se eles recusarem esse imp´rio. mesmo que n˜o se a a a expressem mais em termos religiosos. ca c˜ A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o paru a a ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros e ` c˜ a oposto a significa¸˜o da linguagem humana). enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo a e e de subdesenvolvidos. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural ı a que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es e ı co mais cultas e humanas. o Renascimento. como lembra L´vi-Strauss. mas em e a e um mesmo autor. a e Ora. O termo primitivos ´ que triun` e far´ no s´culo XIX. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27 vos.1. Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas. mas ligados entre si por um movimento ca o de pˆndulo ininterrupto. estranhas ` vida civil a co a a e aos costumes pac´ficos. as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso. pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca..3 Como s˜o estere´tipos o e a o que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta a dificuldade para nos livrarmos. conv´m nos determos sobre eles. para a natureza toe dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos a a e com a qual nos identificamos. permanecem vivas hoje. L´ry (1972) ou Buffon (1984). ´. Essa atitude. bem como o declara o a o direito natural que os homens honrados. por exemplo.

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´ ıstica dos ”selvagens”.4 Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar e e se conv´m conferir aos ´ e ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso e e do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma a c˜ resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos: a a • a aparˆncia f´ e ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”; a • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o e imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5 a a • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles e falam ”uma l´ ıngua inintelig´ ıvel”. Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso ` a a a a linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso soe a bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o ` a o grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita, e a sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pase a sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII: a e e ”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ e ıritosem ardor para com sua fˆmea”. e ´ ”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Goo o mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico o ı ı ´ Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa´ e ´ crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus ı pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interloe co cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta a e e o da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os e o o e ind´ ıgenas possu´ ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisioa neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o ca a a sujeitos ` putrefa¸˜o” a ca 5 Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´ e e par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M. e JVl´taili´, 1979. e e 6 Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavele a e mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´ a e ıvel fazˆ-los e evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa ca a e ca
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1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO

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mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do a ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons e a a e a h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e a at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que e e tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”. a ”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco ı a a trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole o a ca constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, aboa min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem a u atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555) ı e Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias. o ı Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa o a a u ´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Lie e ` vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e o convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia. e Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos paa c˜ recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes a para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado ` o e em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel. ca ` o 1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´ o o ındios da Am´rica do Norte. e Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´ c˜ e ıllimos a influˆncia da natureza ´ total, e e ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´ c a o a pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema o a ıda umidade: ”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que emca brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria ı de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu temperaı ca mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio a ı dos nervos desses homens embrutecidos”. Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e e a ´ a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo sea xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste a

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s a a o degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´ e ıcio ca ısica”, Pauw chega a de` ´ grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada: c˜ c˜ e ”O gˆnio embrutecido dos Americanos”. e ”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o e ı ca alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o ema c a a a preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem a ca e e pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a a ı a falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para u si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma. Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como irca remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado a ca num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um u e e c longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa, ´ ´ a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se e encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proximidade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da a a constitui¸ao f´ c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas o sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento e aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o ca ca c˜ a cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo c˜ a de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um e a c hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto e e a poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de a outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados: ”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses a c ı frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar e ca entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de satisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´ e a e a a e poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?” ı ca co e Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´ ıgenas americanos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns a quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas daa quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7 o
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Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).

o a ´ Tudo. ` e Na leitura dessa Introdu¸ao. publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam. seu semelhante ´ para eles apenas uma carne e como qualquer outra. nem mesmo eles pr´prios. em sua Introdu¸˜o ca a Filosofia da Hist´ria. j´ que comem carne a o a humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. a Africa profunda do interior. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. a a ca 8 .1. em ruptura a com a ideologia dominante do s´culo XVIII. nada. em uma selvageria em estado bruto. fechado sobre si mesmo. nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es` o o tado de natureza. ”Ele cai”. al´m ıs ı a e do dia e da hist´ria consciente. religi˜o ou Estado. ”para o n´ de uma coisa. o pa´s da infˆncia. em especial. suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”.”Ou ainda: ”S˜o os a seres mais atrozes que tenha no mundo. poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal c˜ a o da humanidade. Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente c˜ a a nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a ` indianidade em Pauw – . mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Amerio canos. na Africa. o autor da Fenomenologia do Esp´ ırito vai. e. Vivendo em uma e o ferocidade bestial inconsciente de si mesma. que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e e a a o a ”consciˆncia de si”.8 Pea e co a trificados em uma desordem inexor´vel. est´ envolto na cor negra da noite”. nem mesmo as for¸as da coloa c niza¸ao. que representa para o fil´sofo a forma mais e a o nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade: ´ ”E o pa´ do ouro. de um objeto sem valor”. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. Id´ias que ser˜o retomadas e e e a expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel. ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”nee gros”n˜o respeitam nada. ıvel ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´ ıpio africano.1. Mas ´ a a e ´ ´ a Africa. o qual. de Rousseau. notamos. eles n˜o tˆm moral. onde a civiliza¸ao c˜ nessa ´poca ainda n˜o penetrou. e escreve Hegel. vale a pena notar. e e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade. nem institui¸˜es sociais. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31 2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o. a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda c˜ e u ´ do que a do Norte. apenas radicalizam id´ias come partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. da qual falaremos mais adiante. que.

em s´guida. como tamb´m n˜o h´ terra melhor”. a a a c Eles vivem cinq¨enta anos. e.. da mesma forma que e o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natuıdo ral). a a . e E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam. a sem sacerdotes. sem tecnologia. e a a Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseiaa e e se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros. Nenhum possui qualquer coisa que seja. no Romantismo. Os termos da atribui¸˜o ` ca permanecem. u a e Crist´v˜o Colombo. rigorosamente idˆnticos. A figura do bom selvagem s´ encontrar´ sua o a formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento: ca a e o no rousseau´ ısmo do s´culo XVIII. na percep¸˜o e a ca que tˆm os primeiros viajantes. pela c˜ primeira vez. pelo menos em estado embrion´rio.. sem economia. . como veremos. eles n˜o sabem se a e a matar uns aos outros (. e. descobre. E n˜o tˆm governo”. s˜o bonitas. O car´ter privativo dessas sociedades sem a escrita.32 ´ ´ CAP´ ITULO 1. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica: e e u e ”As pessoas est˜o nuas. ele tamb´m o para´ o a e ıso. instaura-se uma cr´ ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenuic˜ .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emia e nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza ıvel dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. sua irm˜.) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melhoa res. sem religi˜o organizada. de pele escura. sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo a e ´ XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. O selvagem a n˜o ´ quem pensamos. . a e Evidentemente. de corpo elegante. N˜o deixa e e a por´m de estar presente. ”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal. sem leis. sem pol´ ıcia. pois tudo ´ colocado em comum. . aportando no Caribe. sejam elas sua m˜e. Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um a vazio que se torna um cheio (ou plenitude). ou sua amiga. essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas c˜ em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura c˜ c˜ idˆntica) permanece ainda bastante r´ e ıgida na ´poca na qual o Ocidente descoe bre povos ainda desconhecidos. sem clero. entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a. daquilo que era apreendido como um menos que se torna um mais. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: 1.

P. Duviols. moderados. talvez esteja conservado em alguma parte. Para o autor o a dos Ensaios. e gozam de uma felicidade desconhecida c u dos franceses”. a respeito de e e ”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos a a e quais estou falando”. entre os Tupinamb´s. ıs a 1978). . em 1744. La Hontan: e ”Ah! Viva os Hurons que sem lei. Esse fasc´ ınio exercido pelo ind´ ıgena americano.. triunfa nos s´culos XVII e XVIII. estes ultimos n˜o hesitando em oferecer o ´ a suas mulheres como presente.2. Se o discurso euroca o peu sobre os Astecas e os Zulus faz. na maior parte das vezes. Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefac˜ a e 10 tos. sem pris˜es e sem torturas passam a o vida na do¸ura. interroga-se e a sobre o que se passa ”aqu´m”. Ele escreve. na tranq¨ilidade. mas n˜o quanto a a ` a a a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. ı Do lado dos livres-pensadores. Todos os nossos padres que a a freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente u entre eles do que entre n´s”. e em especial por le Hu9 ron. Nas primeiras Rela¸oes e c˜ dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler: ıtas ”Eles s˜o af´veis. E Montaigne. um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia e e a e e a tranq¨ilidade est´ entre eles. esse estado paradis´ ıaco que teria sido o nosso outrora. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 33 dade original”do estado de natureza. . o e a discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade. protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo cac˜ loroso da natureza. ´ o mesmo grito de entusiasmo. de e e Vol-taire. 10 No s´culo XVIII. o contentar-se de pouco sem avareza. desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa u a a vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo. referˆncia ` crueldade. Vlng´nu.1. 9 . O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage e au Pays des Hurons. sobre esses ultimos: ”Podemos portanto ´ de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o. ser ass´duo no trabalho”. Moeurs des Sauvages Am´ricains. Le Supplement aux Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et u un Sauvage. de Gabriel Sagard. L´ry. O huguenote que eu interroguei at´ o e encontrou. liberais. Seu ideal: ”viver em comum sem processo. isto ´. de Lafitau. em 1767. na Europa. a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante e u em grande parte na literatura sobre os ´ ındios. A seguir temos: em 1703.

como n´s. ou na casa onde entra. 0 e a personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco: ”Vocˆs s˜o loucos.). . e especialmente. Aqui est´. a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma a sociedade de prazer e de saudade. . . . a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens. vocˆs s˜o pobres. a a ıdo partir do fim do s´culo XVIII. Conrad. uma humanidade convivial cujas virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand. Depois. as ilhas Marquises. Melville. a ilha de P´scoa. pelo charme e prazer id´ e ılico que provoca o encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul. Ora. u O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´ o ıdos. pois procuram com muito empenho uma infinidade de e a coisas in´teis. que a etnologia deve grande parte de seu sucesso com o p´blico. . ` e Segalen. . ´ precisamente a a e esse imagin´rio da viagem. Aqui um doce ´cio a o ´ compartilhado pelas mulheres. n˜o nos seriam a a a diretamente acess´ ıveis. e Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civic˜ c˜ liza¸ao. Cada um colhe as frutas na a primeira ´rvore que encontra. As mulheres ca pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. em vez u e a de simplesmente gozar da cria¸˜o. e soe a bretudo o Taiti.34 ´ ´ CAP´ ITULO 1. e. . por exemplo. precisar´ ıamos ir entre os povos mais ignorantes. mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisiene e o a ses. as casas est˜o abertas. n˜o nos tocariam mais nada. que n˜o queremos nada a fim ca o a de desfrutar mais livremente de tudo”. ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. . Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. c Todos os discursos que acabamos de citar. em suma. e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa e e ocupa¸˜o. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: das Lumi`resu 11 – . . ´ e E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau acabou de escrever. Tudo lembra a cada a instante as do¸uras do amor. os que exaltam a do¸ura das sociedades ”selvagens”. pois limitam seus bens ao dinheiro. para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ soc e bretudo desse come¸o que precisar´ c ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser a os disc´ ıpulos da natureza” 11 . o fasc´ c˜ ınio pelos ´ ındios ser´ substitu´ progressivamente. correlativamente fustigam tudo c que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. o que escreve Bougainville em sua a Viagem ao Redor do Mundo (reed. 1980): ”Seja dia ou noite. . tudo incita ao abandono”. Em 1721. Se n˜o o fossem. dos arquip´lagos e polin´sios. em especial Samoa.

especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato co co corruptor com o mundo moderno. foi certamente o de a o ”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas). Malia c˜ o o nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso: a a ”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das foru a a e mas primitivas da vida humana. um ”animal com figura humana”(L´ry). termo e a c˜ proposto por Sapir em 1925. e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss. Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora u a ıvel do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da ` abstra¸ao. e O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades. abrigadas na suntuosidade de uma a natureza generosa. n˜o ´ novic˜ a e dade. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a ´ sua. vivendo na harmonia e na transparˆncia. fazem com que parte de nossos sonhos s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares o ıso o do Sul. O etn´logo. que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica. e ıdo e *** A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si mesmo) n˜o parou. de oscilar entre os p´los de um verdadeiro a o movimento pendular. as mesmas insatisfa¸oes. do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas. Pensou-se alternadamente que o selvagem: • era um monstro.-ang´stias.1. desejos. a meu ver. para mim. Se essa busca do Ultimo dos c˜ u Moicanos. a meio camie nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros e . a Ora. A antropologia. A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ca ıcios”do progresso (nos quais muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o anoo a nimato do nosso ambiente de vida. ´ recrue o e tado no civil.2. ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. essa ”nostalgia do neol´ ıtico”. pelo menos. ıdo o Mas conv´m. era uma fuga romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”. essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na e realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa disciplina. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 35 ao Ocidente mort´ ıfero li¸oes de grandeza. ir mais longe. tais como existem ainda nas sociedades long´ ınquas do globo. que s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas. op˜em-se c˜ a co o sociedades de solidariedade comunit´ria. portanto. de que fala Alfred M´traux e que ese teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo. como o militar. ´ encontrada em muitos o c˜ o e autores. como acabamos de ver.

um ”objeto sem valor”(Hegel). uma ”coisa”. O outro – o ´ ca ındio. ou participava. pelo contr´rio.36 ´ ´ CAP´ ITULO 1. quanto ao militarismo pol´ ` ca o ıtico. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com a vistas a explora¸˜o econˆmica. Mas. ou era profundaa a mente religioso. o outro n˜o ´ consi` c˜ e a e derado para si mesmo. mas recentemente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um a e imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica. ao inverso. Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se transa co c a forma rapidamente em fasc´ ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem a a muita rela¸˜o com a realidade. ou feio. • vivia num eterno pavor do sobrenatural. u • era trabalhador e corajoso. pelo contr´rio. vivia num e a a estado de beatitude. ou. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ramos n´s. de uma humanidade da a qual tinha tudo como aprender. Mal se olha para ele. c • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus. na paz e na harmonia • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes. ou. ou essencialmente pre gui¸oso. • era admiravelmente bonito. c˜ • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o a permanente. o Pa´ Basco a e e e ıs ou a Bretanha. • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era e leg´ ıtimo temer. ` convers˜o a a religiosa ou a emo¸ao est´tica. obedecendo estritamente a aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo. e o c˜ • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel. est´pido e de uma simplicidade brutal. em todos os casos. Olha-se a si mesmo nele. obrigado a assumir as duras tarefas da ind´stria. um ”vegetal”(de Pauw). um ser preso. enquanto que o Ocidente era. o taitiano. ou um comunista decidido a tudo compartilhar. pelo contr´rio. ` co • era atrasado. ou. ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando c de prote¸ao. sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar. por sua vez. ou profundamente u virtuoso e eminentemente complexo. adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos c da natureza. • era um animal. . Taiti. at´ e inclusive suas pr´prias e o mulheres.

come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento c u ıcio europeu. meıvel nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar c˜ c˜ que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior. Montaigne (hoje as vezes criticado). e por alguns apenas de e e seus esp´ ıritos os menos ortodoxos. t˜o problem´tico. descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento o etnol´gico. essa ´poca. muito timidamente. tala vez anacrˆnico. reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a e e e c˜ oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar. seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os e conflitos do antigo. Por´m. e a a permite a constitui¸ao progressiva. ainda no final do o a a s´culo XX. o autor da Viagem n˜o tem resposta. Mas as quest˜es a o (e para o que nos interessa aqui. como acabamos de observar. Seria em v˜o. o ponto de vista normativo e o ponto a de vista narrativo). mas sim de um saber pr´-antropol´gico. os objetivos teol´gicos e os c˜ a o que poder´ ıamos chamar de etnogr´ficos.1. mesmo ` se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´ e ındios do que a inumanidade dos europeus.2. e sim diferente. N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se e a e etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”. entre os ind´ e ıgenas brasileiros. como se diz o a hoje). Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento. mas especificamente a ultima) est˜o no en´ a tanto implicitamente colocadas. a a o isto ´. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 37 Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. perguntase: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualidae a a des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade. Jean de L´ry. ´ verdade. n˜o de um saber antropol´gico. a partir da observa¸ao direta de um obc˜ jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne). muito mec˜ a o nos de uma ciˆncia antropol´gica. numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que e e n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado a a a qualquer antrop´logo. a e Assim. Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´ o a se tornar a etnologia. e o e o .

A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: .38 ´ ´ CAP´ ITULO 1.

e a Como tamb´m o poder du vida. a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do c˜ e u homem. o selvagem. isto ´.. apenas no s´culo XVIII ´ que c˜ e e entramos verdadeiramente. essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte. ”qu˜o pr´ximo a o 39 . ca e E”. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sao ber fabricou com suas pr´prias m˜os. ”o homem n˜o existia.) Uma o a a coisa em todo caso ´ certa. e n˜o antes.Cap´ ıtulo 2 O S´culo XVIII: e a inven¸˜o do conceito de homem ca Se durante o Renascimento esbo¸ou-se. a crian¸a. na modernidade. ca e no qual a evidˆncia do cogito. o homem n˜o ´ o mais antigo problema. fundador da ordem do pensamento cl´ssico. Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de funa e dar uma ciˆncia do homem. enquanto figuras da anormaa c lidade.. nem o e a e mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. h´ menos de duzentos anos (. escreve Fou-cauilt. a fecundidade do trabalho ou a densidade e ´ hist´rica da linguagem. de um saber n˜o mais exclusivamente e e a especulaivo. e sim positivo sobre o homem. O homem ´ uma e inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente. ”Antes do final do s´culo XVIII”. Enquanto encontramos no s´culo e XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia. como mostrou Michel Foucault (1966). culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que c˜ o o vai se tornar a antropologia. com a explora¸ao geogr´fica de contic c˜ a nentes desconhecidos. acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas. ene o quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´ e a a ıveis hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao. Apenas nessa ´poca. e a exclui da raz˜o o louco. ´ que se pode apreender as e a e condi¸oes hist´ricas.

´ CAP´ ITULO 2. bem como a dos poss´ e a c˜ ıveis processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos. era objeto de filosofia ou exegese. envolvida nas determina¸˜es de seu e co organismo. pois somos antes exteriores a ela. Da mesma forma. Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posic˜ c ca tividade de um saber emp´ ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem a enquanto ser vivo (biologia). antes dessa ´poca. assim como sobre as rela¸oes de sentido o c˜ e poder (que anunciam o fim da metaf´ ısica) eram inimagin´veis antes. j´ que consiste em introduzir dualidade e a caracter´ ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado) e no cora¸ao do pr´prio homem. tais reflex˜es sobre os limites do saber. Lafitau se d´ por objetivo o de a . ao mostrar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais. e a constitui¸ao da id´ia c˜ e de que a linguagem nos precede. de suas rela¸oes de produ¸ao. . e sim de ca a a observa¸˜o. de suas instic˜ c˜ tui¸oes. A a sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da e consciˆncia europ´ia. come¸ando pelo pr´prio c˜ u c o conceito de homem. coloca-se pela primeira vez no e s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado. mas enquanto objeto do a saber. 3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. de voca¸˜o cient´ ca ıfica). Parte de suas elites busca suas referˆncias em um cone e e fronto com o distante. em O Esp´ ırito das Leis (1748). de um novo modo de acesso ao homem. abriu o c˜ e e o caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar e em uma ”ciˆncia da sociedade”. n˜o apenas enquanto sujeito. . Assim. Montesquieu. ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Comparados aos Costumes dos Primeiros Tempos. Rompendo com a convic¸ao a c c˜ de uma transparˆncia imediata do cogito. quando tomada em considera¸ao. c˜ Tornou-se paulatinamente (com de Brosses. que passa a ser ca e considerado em sua existˆncia concreta. Ora. abordagem totalmente in´dita. Rousseau) o objeto espec´ ıfico de um saber cient´ ıfico (ou. pensa (psicologia) e fala (ling¨´ uıstica). c˜ o 2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o. Em 1724. c˜ ca c˜ inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo. dos nossos sistema de organiza¸ao social. de seus comportamentos. a line e guagem. O SECULO XVIII: O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enteno a c˜ demos hoje) sup˜e: o 1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos. de sua linguagem.40 talvez seja o seu fim”. que trabalha (economia). pelo menos. isto ´. das nosca o sas rela¸oes de produ¸˜o.

41 fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”. Um evento que a o se deu no Ocidente no s´culo XVIII. caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo). que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza Humana. VEnfant Sauvage (1970). no pensamento inglˆs. que hoje chamar´ ıamos de leis. a *** Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´. o filme de Fran¸ois Truffaut. mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente a Cf. evidentemente. Em 1801. e o livro de Lucien Malson c que the serviu de base. o programa que se tornar´ o da a etnologia cl´ssica. que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao ao c˜ c˜ 3 pensamento teol´gico. n˜o ocorreu da noite e a para o dia. poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hua c˜ a manidade. do empirismo em rela¸˜o ao e e ca pensamento francˆs. Os grupos sociais e ca a e (que come¸am a ser comparados a organismos vivos. Esse naturalismo. no s´culo XVIII. a 1 . podem a meu e ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia a c e britˆnica e o atraso da antropologia francesa.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou. 3 A precocidade e preeminˆncia. a e um ”direito natural”. a fim de extrair princ´ ca ıpios gerais. de um estudo e de sua existˆncia emp´ e ırica considerada por sua vez como objeto do saber – constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade. Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem c˜ do Aveyron. c˜ 4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo. podem ser considerados c como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente. Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas o as pesquisas que procurar˜o fundar. a partir du observa¸˜o de fatos. em seu Discurso sobre a c c Origem e os Fundamentos da Desigualdade. Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem a o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza. ca a crian¸a-lobo. 2 Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo o o inteiro menos a Europa ocidental. uma moral natural”. que. com Adam Smith o o e. antes dele. ou ainda uma ”religi˜o natural”. imp˜e-se em especial na Inglaterra. David Hume. que. no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem: a a a indu¸ao de que falaremos agora. cujo t´ ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tentae tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´ ca e ınio para o estudo de assuntos de moral”. al´m da contingˆncia dos e a e e fatos particulares.

que se torna cada vez mais organizada. ´ preciso proca a e cessar a observa¸ao. em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes. a quest˜o a e a ´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a e Hist´ria Geral das Viagens. ao mesmo tempo. a fauna e a flora. *** Finalmente. 1979 4 . E ´ desse desdobramento. o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a atividade epistemol´gica. nessa ´poca era mais c˜ c˜ e o c´u. passa-se da coleta dos o e materiais para a cole¸˜o das coletas. desse discurso. Chavane. Afora algumas incurs˜es t´ a o ımidas para area das ´ 4 ”inclina¸oes”e dos ”costumes”. Leclerc. O SECULO XVIII: constitutivo da modernidade na qual. Ele a chamar´: a a a etnologia. o objeto de observa¸ao. quando se tratava e deste. o c 2) Simultaneamente. e realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”. ´ preciso c˜ a e e 5 interpretar interpreta¸oes. isto ´. precursoras das e e o Cf. Maupertuis. dar´ a essa atividade um nome. c˜ ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. . o primeiro. e.42 ´ CAP´ ITULO 2. La P´rouse. o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma e c c a antropologia social e cultural. e 1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. c˜ e e que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o. a terra. tomando como modelo a antropologia f´ ısica. La Condamine. a partir dessa ´poca. ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo: e e o o viajante: Bougainville. A fim e de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento – c˜ que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –. Os relatos dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do e a que uma pesquisa etnogr´fica. No s´culo XVIII. Cook. do que o homem em si. Esp´ e ıritos curiosos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”. de Acosta (1591). era essencialmente o homem f´ ısico que era tomado em considera¸˜o. Em c˜ ca 1789. N˜o basta mais observar. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado. e instaurando uma ruptura do monop´lio desta (especialmente na Fran¸a). Os o viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. 5 Cf sobre isso G. do padre Pr´vost (1746). examinemos de mais perto o que e a mudou radicalmente desde o s´culo XVI. ca Ora. constituindo-se inclusive. ou o question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre a co o estado das mentalidades populares no reino. entramos.

. o Egito. um d’Alembert.´ uma ”ciˆncia de e e e e observa¸˜o”. moral e pol´ ıtica do que teriam visto. a o a o m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea e a de saber (o homem nos seus aspectos f´ ısicos. fizessem a seguir a hist´ria e c a o natural. e o As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜ e c˜ Povos Selvagens. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador. sociais. um Buffon. Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro. n˜o a tendo observado nada por si pr´prias. isto ´. filosofam c sem fim sobre o mundo e seus habitantes. Pria meira metodologia da viagem. viajando para instruir seus compatriotas. que s˜o moralistas. fil´sofos. pensa Rousseau. E ´ assim que se constitui. na sombra de seu gabinete. a Barbaria. s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es o o co tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”. exemplares. ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja e e e ca esclarecida.7 Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu. pois a nova ciˆncia o e – qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-. e submetem imperiosamente a natureza a suas imagina¸˜es. observando como sabem fazˆ-lo a Turquia. Suponhamos que e esses novos H´rcules. ou homens de igual capacidade. que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771 a o em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam o a viajantes!6 Para o primeiro. bem como para todos os fil´sofos naturalistas do o s´culo das luzes. deve possuir um certo n´mero de u qualidades. 7 Estamos longe de Montaigne. e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso. ver´ ıamos nascer de seus escritos um mundo novo. Diderot (cf. um Condillac. naturalistas. em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville) ` ”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante. Modos bastante singulares e inconceb´ co ıveis da parte de pessoas que. a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805). . ps´ ıquicos. destinada aos pesquisadores de uma miss˜o a nas ”Terras Austrais”. de De Gerando (1800) s˜o. sujeito que. o c˜ Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´ a ılico. O cientista naturalista deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa. formada e pelos ent˜o chamados ”ide´logos”. de volta de suas andan¸as memor´veis. na passagem do s´culo XVIII para o e e s´culo XIX. Rousa o seau. a respeito dos ´ ındios entre os quais esteve. Que pena. se ´ essencial observar. um mentiroso e um imbecil aos olhos e dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que. devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gruca o e pos sociais observados. um Diderot.43 nossas miss˜es cient´ o ıficas contemporˆneas. um huguenote que esteve no Brasil. culturais) e quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas. que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem simples e rude”. 6 . esse texto ´ uma cr´ e ıtica da observa¸ao selvagem do c˜ selvagem. e para apreender corretamente seu objeto. quanto a isso. que procura orientar o olhar do observador. o fil´sofo Buffon. Voltaire.

o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se dese a tinava diretamente. mesmo sendo o abordada.44 ´ CAP´ ITULO 2. muito rapidamente (a partir do s´culo XIX). 1) A distin¸ao entre o saber cient´ c˜ ıfico e o saber filos´fico. uma certa e ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”. n˜o pˆde ser realizado. ıdo 9 A antropologia contemporˆnea me parece. coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem.na e o Fran¸a em 1883. mas sobretudo. ”observador dos povos selvagens”em 1800. que ´ pela primeira vez claramente afire mado. da linguagem (ling¨´ o uıstica). no Trocadero). a positividade. zo´logos. ao meu ver. est´ ligado. a o a ıvel e Mais especificamente. dividida entre uma homenaa gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss. o homem interroga-se: sobre a natureza. Mas neste segundo caso. o conceito da a e unidade e universalidade do homem. a a dois motivos essenciais. ca a o e sim m´dicos. e n˜o ser´. sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ria c˜ ca quezas. n˜o apenas do homem f´ ca a a ısico. n˜o ´ de forma alguma realizada. nessa ´poca. no sentido no qual a entendemos hoje.9 Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos. levado em conta. a o e e considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de e e e etnologia geral”) e um assass´ ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com ca um projeto que permanece filos´fico. miner´logos. N˜o podia ir mais longe. e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram e o a a a sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris. mas tamb´m do homem e social e cultural. mas n˜o h´ biologia e a a ainda (ser´ preciso esperar Cuvier). torna-se o ”visitante dos pobres”em 1824. ´ porque a ´poca ainda n˜o o pera o e e a mitia. e sim dispersados em cole¸˜es o co particulares. sobre seu discurso a mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp). o obst´culo maior ao advento de uma antropologia a cient´ ıfica. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos c a c antes (em Paris. formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno dos territ´rios da vida (biologia). O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre a ıvel o estudo dos ind´ ıgenas e a ajuda aos indigentes.8 a a Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma oba serva¸˜o sistem´tica. Evidentemente. mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo). sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem. por muito tempo ainda. O SECULO XVIII: Por´m. e n˜o poe a a der´ ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois. publicado em 1800. No final do a ` c˜ s´culo XVIII. pessoalmente. n˜o mais do saber. se rompem se parcee lam. a e sim dc saberes que. enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um o e ca saber positivo e especializado. muito menos uma a ling¨´ uıstica. por exemplo. O pr´prio Gerando. O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos e c˜ fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. o m´moire de Gerando s´ foi reeditado. e ca Notemos finalmente que. ´ e 8 . c˜ c˜ Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo. do trabalho (economia).

E evidentemente problem´tica para o antrop´logo. que n˜o pode resignar-se a trabalhar em a o a uma ´rea setorizada. e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da a e antropologia filos´fica. e sim um outro indiv´ o ıduo que pertence ele pr´prio a o uma ´poca e a uma cultura. historicista: o evolucionismo. isto ´. para esta. e 2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico o e e a o desse per´ ıodo. e sim indiv´ ca a e ıduos que pertencem a uma ´poca e e a uma cultura. esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan) a e a partir de uma abordagem igualmente e at´. isto ´. a .45 O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece e e ainda muito abstrato. De fato. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia a a se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. Paradoxalmente. talvez. de sua concep¸ao de uma hist´ria natural. mais marcadamente e ´ o que veremos a seguir. o objeto de o o observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”. Estamos na impossie o bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es o co episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. rigorosamente filos´fico. liberada da e c˜ o teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal.

46 ´ CAP´ ITULO 2. O SECULO XVIII: .

e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavelc ca e mente obra do s´culo XIX. Mas a a o o primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao. esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilue e e e minado”` luz dos fil´sofos.) enquanto que. religiosa.Cap´ ıtulo 3 O Tempo Dos Pioneiros: os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX e O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um e c e a discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. econˆmica. Seus modos de vida. psicol´gica. trazendo uma duc˜ pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora: e – resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente ca 47 . percebese que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. Esse s´culo XIX. Ap´s um c o parˆntese no s´culo XVII. notamo-lo. ling¨´ uıstica. o essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares a cada vez mais especializadas. ´ a a e ´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto e disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas o e dimens˜es (biol´gica. Um mundo est´ terminando. suas rela¸oes e c˜ sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. de instaura¸˜o de redes c˜ e ca entre esses espa¸os. realiza e e a o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas a e c transforma¸oes.um outro est´ nascendo. Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ c˜ c˜ ıtica francesa. c˜ a e. e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. pol´ o o e o ıtica. t´cnica. . ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades c˜ e que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao.. Dessa vez. A Europa se vˆ a e confrontada a uma conjuntura in´dita. isto ´. hoje t˜o desacreditado. em se tratando da nossa sociedade. .

assim. e sim de administradores. Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family (1879). destinado a reencontr´-lo. isto ´. conhecimento do primitivo.1865. n˜o se trata u a a mais de alguns mission´rios apenas. em 1885. em 1861.1 o a e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes a obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a sea gunda metade do s´culo. A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido. Frazer. a Africa. enquanto que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau). a ca Ora. les Superstitions des Peuples 1 . das formas simples de organiza¸˜o e ca social e de mentalidade que evolu´ ıram para as formas mais complexas das Morgan escreveu. que se expres* sa na nostalgia d´ o antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”. Hegel). Uma rede de a informa¸oes se instala. os passos do colono. Todas essas obras. a Nova Zelˆndia passam a ser a a povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus. Maine publica Ancient Law. o ` ´ E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna. em 1864. no s´culo XIX. O Casamento Primitivo. Em 1861. em 1871. Morgan. e em . os primeiros volumes do Ramo de Ouro. Tylor. isto ´. em 1890. que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias e e e p˜e um fim as soberanias africanas. o ancestral do e e civilizado. Asa c˜ a sim a antropologia. como veremos. La Cit´ Antique. que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o e c˜ a a ´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da e a humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em c rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´ c˜ a e ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´ e a e mais o selvagem do s´culo XVIII. e Bachofen. em 1877. do a ´ Tratado de Berlim. o contexto geopol´ e ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´ e e ıodo da conquista colonial. em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res.48 CAP´ ITULO 3. Fustel de Coulanges. [es Coutumes. A Cultura Primitiva-. o antrop´logo acompanhando de perto. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das c˜ a a metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo. a ´ e ındia. fica indissociavelmente ligada ao conhecimento da nossa origem. tornou-se o primitivo. O TEMPO DOS PIONEIROS: estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas o e a fora da hist´ria e da cultura (de Pauw. MacLennan. a Austr´lia. la e Relizions. Das Mutterrecht. que desembocar´ em especial na assinatura. o ´ Nessa ´poca. A Sociedade Antiga. o – mas sobretudo resposta preocupada.

ou seja. passando pelas mesmas etapas. barb´rie.0 ue a co O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais elaa c˜ a 2 borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society. Uma correspondˆncia e e e intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros. 2) ao estudo do ”parentesco”. ou. ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es e a c˜ co que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´ ıgines australianos. notemos que o primeiro ´ bem anterior ao ca e segundo. o o e 0 . de Darwin. Comte. de acordo com as popula¸oes. que se tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos ana e trop´logos do final do s´culo XIX. Haeckel afirma c a c rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese. para alcan¸ar o n´ final que ´ o c˜ c ıvel e´ da ”civiliza¸˜o”. Disso decorre o e a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de ca c˜ marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos a 3 vest´ ıgios da infˆncia da humanidade a O que ´ tamb´m muito caracter´ e e ıstico dessa antropologia do s´culo XIX. fundador da forma mais radical de evolucionismo e sociol´gico. e Spencer. em fun¸˜o notadamente do crit´rio tecca e nol´gico o 3 Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´ o ca ıvel das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies. Parentesco e a religi˜o s˜o. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet. publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies. Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa o antropologia que se qualifica de evolucionista. as duas grandes areas da antropologia. 3) e ao da religi˜o. conv´m procurar determinar cientificamente ca e a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es. 1859) e o e que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro. co e 2 Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria. A partir disso. Existe uma esp´cie humana e idˆntica. que e pretende ser cient´ ıfica. ´ e a ca a civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´ ca e ıodos. o ina e e div´ ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. Enquanto o e para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que. as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das soNon-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). bem como na lei de Haeckel. e Frazer) no s´culo XVIII. c˜ a a co al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria. n˜o tˆm hist´ria em e e o a e o sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados. nessa ´poca. mais a a e ´ especificamente. Morgan. e a a c e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as). mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como e o nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais.49 nossas sociedades.

mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores o anteriores. co e vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”. a o 5 Frazer era. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse o per´ ıodo. O TEMPO DOS PIONEIROS: ciedades n˜o ocidentais. fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo a e o ca respeito a ”esp´ ıritos superiores” 4 . e a extrema complexidade de seus sistemas de parenca tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal. Mora o e gan. franc. os pesquisadores dessa ´poca proe curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de o filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. inclusive. menos para a compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica. e 3) A ´rea dos mitos. e a v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da disa co ca tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos. os mais ”primitivos”e mais ca ”atrasados”do mundo. o a 1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria consa a o titui¸ao da nossa disciplina (cf. a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos. 1979). 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do o e ˆ complexo de Edipo entre os primitivos.4 o c˜ 2) No estudo dos sistemas de parentesco.50 CAP´ ITULO 3. ˆe Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. em especial Evelyn Reed. l967). sem cria¸˜o de animais. j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente. absolutamente confiantes na racionalidade cient´ ıfica triunfante. de Frazer (trad. vivendo na idade da pedra sem metalurgia. Quando Roheim a (trad. a meu ver. Por deslize do pensac˜ mento. 1981-1984). pois ´ l´ que se pode apreender c˜ e a o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes. os dois n´cleos a u resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos. da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o. id´ia que exerceu tal Influˆncia e e que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf.. pois a a a ca perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´ ırito do evolucionismo.5 que realiza a melhor s´ ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”e e c ”supersti¸oes”. Feminismo e Antropologia. (trad. um dos textos de referˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos). escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa. Elkin. a Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto com os ´ ındios) um papel t˜o decisivo. por exemplo.. franc. Um papel decisivo inclusive. sem cerˆmica. sem a tecelagem. s˜o a n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. imagina-se um matriarcado primitivo. elas permanecem ainda. c˜ Desde a ´poca de Morgan. fr. e Tylor deve parte de sua voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas a o s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ a ıveis”. notamo-lo. Mas ´ c˜ ca e certamente o Ramo de Ouro.

que se o constitui num obst´culo a raz˜o. Frazer considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza. ”re` a a a e presenta uma fase anterior. escreve Frazer. Como Hegel. Mas. pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram. mais grosseira. o e o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores ` c˜ c˜ da ´poca: produ¸ao econˆmica. Essas cren¸as dos povos primitivos a e c permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Tye lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. e como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos. e depois.51 Nessa obra gigantesca. enquanto para Hegel. Margaret Mead o L´vio e Strauss – conheceram. E e e e quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies. e as obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de c˜ e cr´ ıticas: 1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas. religi˜o monote´ e c˜ o a ısta. ou a melhor.6 Frazer e e o retra¸a o processo universal que conduz. por etapas sucessivas. da religi˜o ` ciˆncia. publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que ´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica. Ou seja. ou est˜o passando. ”A magia”. que muito poucos etn´logos – fora Malinowski. da magia c a religi˜o. propriedade privada. *** O pensamento evolucionista aparece. em rela¸ao aos unicos c a c˜ ´ crit´rios do Ocidente do s´culo XIX. ´ Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo. o progresso t´cnico e econˆmico da nossa e e e o sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica ca o da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os est´gios. para c a dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”. Quanto a seu autor. 6 . a primeira ´ a ` a e um impasse total. compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente. a qual dar´ a a lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o a e a a e c que tinha sido imaginado no tempo da magia. Exerceu uma influˆncia a a e e consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pena samento antropol´gico de Freud que. Frazer a considera como religi˜o em potencial. c o a a mas internacional. o ”arca´ a ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da a Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente. da forma como podemos vˆ-lo hoje. em Totem e Tabu. da hist´ria do esp´ o ırito humano. de Darwin. alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica. retira grande parte de seus mateo riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de a e ca conhecer.

ao da etnografia contemporˆnea. isto ´. enquanto branco. a aparˆncia de um corpus e e cient´ ıfico. cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas. O TEMPO DOS PIONEIROS: fam´ monogˆmica. . civilizado. julga-se que ser´ poss´ a ıvel extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade. a e. como veremos mais adiante. a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a e ca a documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do c˜ a s´culo XIX. ılia A antropologia evolucionista. Livingstone. pode exclamar: ”Viee a mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um c governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”.52 CAP´ ITULO 3. Assim. . E quando faltam documentos. pelo volume dos fatos relatados. Assim. A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que. atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos a e ca u em uma unica sociedade.) como costumes que serc˜ vem para exemplificar cada est´gio. mission´rio que. . os exemplos o etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o proa u cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas. a e n˜o dissocia os benef´ a ıcios da t´cnica e os da religi˜o. a exogamia. os evolucionistas consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo. que procura. procedimento c˜ c˜ absolutamente oposto. juntando e interprec˜ e tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´tese a o central). o a c˜ ` evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o coc˜ o a lonialismo. na realidade. mas assemelham-se muito. efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pesc˜ quisa atrav´s do campo emp´ e ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas. atrav´s dos a c c e quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´ a c˜ ıvel. moral vitoriana ılia a 2) o pesquisador. como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho e a e o . e Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a c˜ veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese. alguns a (Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes. a filia¸ao matrilinear. ´ c˜ ca c˜ Isso colocado. esmagados sob o peso dos materiais. analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais. o o culto aos antepassados. a filosofia do s´culo ante` e rior. co n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes. de outro. encontramo-nos frente a reconstitui¸oes conc˜ junturais que tˆm. identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence. a magia.

Alguns anos mais tarde. evidenciando assim tamb´m. Bastian realiza uma pesquisa o no Congo. do que de estadias tendo c˜ co por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. N˜o poder´ a ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra e a (especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi´ a crodisciplina de um eixo tem´tico). e Tylor no M´xico. sem essa teoria. um singular esp´ e ırito ahist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles.53 que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista. ca a ca e e pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais e e c de esgotamento. o a a a Em 1851. Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada cultura irredut´ ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. Tylor desconfia dos modelos de a interpreta¸˜o simples e un´ ca ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de ca ca fun¸˜o ` causa. guiados a distˆncia por cientistas a preocupados em criticar fontes. ´ a e a tentativa de compreens˜o. em especial das ”mais long´ ınquas”e das ”mais desconhecidas”. a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o. Eles se recusavam a atuar dessa forma. a antropologia no sentido no qual a praticamos o hoje nunca teria nascido. Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada co por ele pr´prio entre os Iroqueses. eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica a c˜ o Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do e a e qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos e a do que nos outros pa´ ıses).8 ´ antes no e decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es. a julgando que observadores conscienciosos. 8 s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os a a ıa e antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca. a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante. sendo que ´ provavelmente o ca e que. Claro. No entanto. como diz Tylor. eram capazes de recolher todos os materiais necess´rios. quando realiza um trabalho de coleta direta. O que importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia e a e a enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura. a ıvel c de todas as culturas. e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia a tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal ou tal sociedade. nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materie o o ais que estuda e. De fato. Ratzel o abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. e 7 . empenhada em mostrar as etapas do movimento da humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa o do pensamento sociol´gico).7 N˜o e a custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o ca aos ”povos atrasados”.

bem como sua imensa curiosidade. e At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a rie a gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ e ıda. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o c e e ıdo fizerem com dogmatismo. Frazer. Durante o s´culo XIX. Com ele. Atrav´s dessa atividade extrema. da ”fam´ humana”.baseada na no¸ao de uma humanidade integrada. Assim. em contato epistolar permanente com centenas de oba servadores morando nos quatro cantos do mundo. dos comportamentos e das cren¸as. j´ que eles foram a a precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles? a Em suma. ge´grafo). trabalhou doze horas por dia durante sessenta anos. as diversas popula¸˜es do globo. em quase o dois metros de estantes. como e escreve Morgan. esses homens do s´culo passado colocavam e e o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das t´cnicas. o objeto da antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das a c˜ a . Rata e e zel. dos museus como a o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual a a ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos coMuseu do Homem. compae c˜ c rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras a c˜ tanto no espa¸o como no tempo. como diz Leach (1980). mas como poder´ o ıamos critic´-los por isso. dentro c˜ da qual concorrem em graus diferentes. O TEMPO DOS PIONEIROS: (Maine. e. o que me parece eminentemente caracter´ ıstico desse per´ ıodo ´ e a intensidade do trabalho que realizou. Mas s˜o eles que mostraram pela prico a meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram a de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas. assistimos a cria¸ao das sociedades cient´ e ` c˜ ıficas de etnologia. quanto do que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. E e ıcil e nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. o a mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana. Bastian ´ m´dico.54 CAP´ ITULO 3. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o ılia a grandiosa do mando. sobretudo. Bachofen. Morgan s˜o juristas. Ele dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia. das primeiras cadeiras universit´rias. mas para chegar a um mesmo n´ ıvel final. do parentesco c a ou da religi˜o. das institui¸oes. mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais c˜ do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia. dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. da ling¨´ e o uıstica. uma das caracter´ co e o ısticas principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? – a ´ o seu anti-racismo. mas apenas o ue co e resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. ou. A obra que ele pr´prio produziu estende-se. MacLen-nan. Tylor possu´ ıa um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria.

cosa a a tumes considerados bizarros.55 liga¸oes entre as rela¸˜es sociais. de modelo ore ganizador do saber. a partir de Morgan. Qualifia o o cando essas sociedades de ”arcaicas”. Por essas duas raz˜es. a qual. ´ que a antropologia s´ se tornar´ o ca e o a cient´ ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o ca ´ a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o maro a e a xismo. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. conhecimento cient´ a a ıfico poss´ ıvel sem que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”. pol´ ıticas. o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases totalo c mente diferentes das do idealismo filos´fico. como mostrou Kuhn (1983). sobre Engels (1954) 9 . a liga¸ao entre c˜ esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´ ıstica de um determinado per´ ıodo da hist´ria humana. e particularmente. s´ podia ser escrita. o 2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais. ca um papel decisivo. A novidade radical da sociedade o arcaica ´ dupla. para Hegel. . pois o conhecimento cient´ ıfico se d´ sempre mais por descontinuia dades te´ricas do que por acumula¸˜o). . ca termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco.9 o c˜ N˜o h´. e 1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o o e a a diziam respeito ` Hist´ria. isto ´. e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”. jur´ c˜ co ıdicas. no caso. O paradoxo (aparente. E o que examinaremos agora. e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento material. Morgan as reintegra pela primeira vez na humanidade inteira. e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente.

56 CAP´ ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS: .

c˜ e A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do ca a c s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas. como aluno atento. at´ ent˜o e e a o ` c˜ e a habitualmente divididas entre o observador (viajante. e que esse trabalho o de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa. n˜o a a apenas a viver entre eles. que relatam em 1899 suas e observa¸˜es sobre os abor´ co ıgines australianos. de Spencer e Gillen. recebe. que publica em 1891 uma e obra sobre os melan´sios. O pesquisador comprec˜ ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais a como informadores a serem questionados. a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo.Cap´ ıtulo 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: Boas e Malinowski Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ade a ministradores) que possu´ ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no c˜ meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington. que escreve A Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´ o come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador c deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa. analisa e o interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes. adminisa trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes. a falar sua l´ ıngua e a pensar nessa l´ ıngua. e sim como h´spedes que o receo bem e mestres que o ensinam. Trata-se. tendo permanecido na metr´pole. mission´rio. mas a viver como eles. de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que co 57 . que. o co como podemos ver. ou de Junod. Ele aprende ent˜o. e o pesc˜ quisador erudito.

dentro dos limites deste Inibalho. em uma ”natureza imensa. o etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um a c˜ ritmo ininterrupto. totalmente pioneiras. Orientou a partir desse e o momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que. longe de ser visto como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese. Em 1906 e 1908. realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do e c˜ mundo inteiro. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador e e a do s´culo XIX. como o chamamos ainda hoje. residindo geralmente fora da sociedade ind´ e ıgena e obtendo informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo c˜ e ´ merece ser repetido.onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. Suas pesquisas. Nadei. dois entre eles. Evanso Pritchard estuda os Azand´s (trad. ap´s a . o outro. notamo-lo. 1972) e os Nuer (trad. levada. franc. Margaret Mead. Rivers. a a Alguns anos mais tarde. e 1968). a c˜ a polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski. virgem e aberta”. Em suma. A partir da´ as miss˜es de pesquisas u e e ı. Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o. eram conduzidas de u a um ponto de vista que hoje qualificar´ ıamos de microssociol´gico. os e insulares da Nova Guin´. a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular ´ e entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica). Boas a o era antes de tudo um homem de campo.1 BOAS (1858-1942) Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. franc. um dos fundadores da antropologia inglesa.Primeira Guerra Mundial. Radcliffe-Brown estuda os habitantes das ilhas Andaman. No campo. desde os primeic˜ o ros anos do s´culo XX. dea ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas. a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre. ”ao vivo”. e e 4. iniciadas. etc e Como n˜o ´ poss´ a e ıvel examinar. Em 1909 e 1910. impregnado a do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de ca um min´sculo arquip´lago melan´sio.58 CAP´ ITULO 4. os Tallensi. Fortes. o ensina Boas. estuda os Todas da ´ ındia. as Nupes da Nig´ria. Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha. a ´ . a meu ver os mais importantes. Esse trabalho de campo. Em 1901. tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das . como diz Malinowski. a contribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da c˜ c˜ etnologia contemporˆnea.

a a mas tamb´m a necessidade. 1971) a cr´ ıtica mais radical e mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios. Boas anuncia ca assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”. que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia. estima-se que para compreender o lugar particular ocupado por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e. da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo. 1 . Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais c˜ meticulosa. as diferentes vers˜es de ca o um mito. muito menos a nos que. do acesso a l´ e o ` ıngua da cultura na qual trabalha. e isso muito antes de Griaule. As ca primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deria a o vado. ca e Finalmente. isto ´.1. em particular Lowie. e isso detalhadae o mente. Montesquieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das e rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. Em especial. Morgan e. c˜ a Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´ a ue a e mais poss´ ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”.1 ele c˜ c˜ a mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto o c˜ particular no qual se inscreve. dar conta cientificamente de uma microssociedade. Assistimos o a ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta a mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios. deve ser levada em considera¸˜o. BOAS (1858-1942) 59 casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s. na voz dos mais humildes entre eles. e apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. a maneira pela qual as sociedades tradicionais.ia c˜ c e partir de Boas. ca Por outro lado. muito antes dele. O primeiro a formular com o seus colaboradores (cf. Claro. Mas a diferen¸a ´ que. Boas considera. classificam suas atividades mentais e sociais. a a e As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que exa a pressa o patrimˆnio metaf´ o ısico do grupo. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas. para o etn´logo. e no detalhe do detalhe. confiam neles. Pela o primeira vez. sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”. do qual falaremos mais adiante. enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido realmente consideradas em si e para si mesmas.4. Por outro lado. sociedades ”inferiores”evoluindo para o ”superior”. cada uma dentre elas adquire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. da ”metr´pole”. ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia. mas procura detectar a a o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes mae teriais. o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. Apenas o antrop´logo pode elaborar o o uma monografia. ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento).

levando em conta o que foi dito. em primeiro lugar. que Boas. ou que lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer. Finalmente. exceto entre os profissionais da antropologia. da l´ ca ıngua e do etn´logo. at´ sua morte. seja praticamente desconhecido. acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio recoc˜ o o lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante ca a ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos do esp´ ırito cient´ ıfico. isto ´ o e uma antropologia principalmente – sucedem. M. Ele permanece sendo o mestre incontestado da antropologia americana na primeira metade do s´culo XX. enquanto professor. De qualquer modo. em 1942. Sapir. por exemplo. particular-mente. em seguida. Lowie. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos o c˜ a c˜ observados. a emo¸ao a e c˜ que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski. a influˆncia de Boas foi consider´vel. ano o de publica¸˜o de sua primeira obra. foi. a viver com as popula¸oes que estudava a e c˜ Sobre a rela¸˜o da cultura. As c˜ afrescos gigantescos do s´culo XIX. . cf. t˜o estranho era-lhe o esp´ a ırito de sistema. Mead). e 4.60 CAP´ ITULO 4.2 MALINOWSKI (1884-1942) Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica. 2) nunca formulou uma verdadeira teoria. que retratam os prim´rdios da humanie o dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia. Nada que anuncie. Benedict. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´ o e ıngua de seus interlocutores. a mod´stia e a sobrie edade da maturidade. o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos c˜ o americanos (Kroeber. e os textos que nos deixou s˜o de uma u a concis˜o e de um rigor asc´tico. . Linton.2 Pode parecer surpreendente. o o Sapir (1967) e Leenhardt (1946). Isso se deve principalmente a duas raz˜es: o 1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos. e. Foi um dos prie a meiros etn´grafos. 2 . de 1922. com ele. e 1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia eta e nogr´fica. ele nunca escreveu nenhum c˜ livro destinado ao p´blico erudito. ap´s Boas. isto ´. R. Os Argonautas do Pac´ ca ıfico Ocidental. Herskovitz.

embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao o c˜ de O Ramo de Ouro. observando-a no a presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem. na mentalidade dos outros. notamo-lo. e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´ c˜ o ısticas de cada cultura. . conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro a a livro. e para isso. adota a o uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e cont´ ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. ou mesmo de um unico ob´ ´ jeto (por exemplo. respondia: ”Deus me livre!”. tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente muito simples. a qual se transmite e a por empr´stimos).4. Medimos o caminho percorrido desde Frazer. a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que e vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens c˜ da civiliza¸ao. do pr´prio Frazer. que foi no entanto o mestre de Malinowski. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes e . mostrar que a partir de um unico costume. a ocupar o lugar do evolucionismo. MALINOWSKI (1884-1942) 61 e a recolher seus materiais de seus idiomas. Enquanto Frazer o procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar a o que ´?”. Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto. Malinowski considera que uma sociedade deve ser estue dada enquanto uma totalidade. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que a ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ o a ıdo sua obra. e ca (Com Malinowski. como ele fez e c no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand.) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de c˜ u ıvel vari´veis. Murdock. . e em compreender de dentro. Boas procurava estabelecer repert´rios a e o exaustivos. Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si e mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem. segundo ele. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. que tende. no in´ do s´culo. e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria dia e fusionista. e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber. Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. radicalizou essa compreens˜o por a dentro. com um pref´cio. e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O e e e Ramo de Ouro. o que sentem os homens e as mulheres que pertenc˜ cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. por uma verdadeira busca de despersonaliza-¸ao. Conv´m pelo a ca e contr´rio.2. 2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o eso ca peculativa dos est´gios). aparece o perfil do conjunto de uma sociedade. ıcio e e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura. procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo a europeu.

fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao c˜ c˜ psicol´gica do pesquisador. do psicol´gico e e c˜ o do biol´gico. Malinowski elabora uma teoria e (o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ e ıduo sente um certo n´mero de necessidades. e n˜o primitivos”. como veremos. e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados. sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares. para Malinowski. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas. E Malinowski. t˜o profundamente diferentes dos nossos. localizar a rela¸ao o e c˜ estreita do social e do biol´gico. que faz com que seja um dos primeiros etn´logos o a interessar-se pelas obras de Freud. ou melhor. 4) Uma outra caracter´ ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´. Conv´m em primeiro lugar. notadamente. cada uma a seu modo. as rela¸oes biol´gicas c˜ o devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que pera o mite pensar as rela¸oes sociais. e co u Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio. e. pol´ c˜ o ıticas. quanto a esse aspecto (que o separa radicalmente. o que decorre do ponto anterior. ´ c˜ E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. fornecendo respostas coletivas organizadas. que deve ”compreender e compartilhar os sentio mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”. devendo o ca homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social. e sim como o seu pr´prio fundamento. vai muito al´m da an´lise da e a afetividade de seus interlocutores. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma grande incompreens˜o da psican´lise a a 3´ . todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes o a da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa. que constituem. c o de n˜o dissociar o grupo do indiv´ a ıduo. tˆm uma signia e fica¸ao e uma coerˆncia. uma sociedade funcionando como um organismo.). educativas. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: dos Trobriandeses. a 3) A fim de pensar essa coerˆncia interna. para o a ele. e ao nosso ver.solu¸˜es originais que permitem atender co a essas necessidades. jur´ ıdicas. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns c˜ e a a vest´ ıgios da humanidade. autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo) o a o que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas. Al´m c˜ o e disso.62 CAP´ ITULO 4. e cada cultura tem precisamente u como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamenc˜ ` tais. inclui o ese tudo das motiva¸oes psicol´gicas. o estudo dos sonhos e c˜ o 3 dos desejos do indiv´ ıduo. . dos comportamentos. o Hoje. . que os homens e a mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de a n´s. de Durkheim). Ele procura reviver nele pr´prio os seno timentos dos outros. uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica. j´ que.

c˜ 1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a o e sua sociedade. ca 2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´ ıfica moderna (o que. pelo menos. relativamente afastado dos contatos inıcio e terculturais –. pois o que fez a partir dos anos 20 ´ a e e essencial). ligadas ao car´ter sistem´tico de sua o a a rea¸ao ao evolucionismo. Nesta perspectiva. esse funcionalismo ”cient´ e ıfico”n˜o tem a rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20.4. Al´m disso. pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a e a c˜ a ı todas as necessidades. uma busca c˜ o c˜ de identifica¸˜o) com a alteridade. Malinowski. no in´ do s´culo. ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida – ´ uma teoria de uma extrema rigidez. e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm ` ca a sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. em grande parte. visando a a naturalmente a um equil´ ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as e c˜ ` necessidades dos homens. que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem). ao meu ver. Malinowski inverte essa rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou. e e as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos. o estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis cic˜ a a ent´ ıficas da sociedade”. 50-51 deste livro os coment´rios de a Malinowski. defronta-se com duas grandes dificuldades: como explicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia c cultural? A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago o e u e que permanece. com a ”civiliza¸˜o industrial”. pp. os costumes ca dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. Em rela¸˜o a esta. que postula que toda sociedade ´ t˜o boa quanto pode ser. para o descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. Assim sendo. MALINOWSKI (1884-1942) *** 63 O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavelo mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive o quando era vivo) se deve a duas raz˜es. Essa compreens˜o naturalista e marcadamente otia mista de uma totalidade cultural integrada. e com seus benef´ c˜ ıcios. toc˜ c˜ c˜ talmente ocultada. baseando-se no modelo do finalismo biol´gico. n˜o mais considerada como forma social ca a anterior a civiliza¸˜o. que contribuiu. isto ´. a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim c˜ a a do lado da sociedade ocidental (cf. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo a o .2. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´ ca ıodo da conquista colonial. n˜o ´ totalmente falso. considerada como ”a e ca civiliza¸ao”tout court. situa¸ao essa.

pulseiras de conchas brancas. 2) Em Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. curiosidade ex´tica. e a muito menos na Fran¸a. as regulamenta¸oes a ` c˜ que definem sua posse. o segundo grande livro de Malinowski. pois ıvel ` a o nos permite encontrar os significados pol´ ıticos. Algumas transportando de ilha em ilha colares de conchas vermelhas. cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes c˜ o c˜ respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. Pois. passando necessariamente de novo a a por seu local de origem. e toca em muitos outros aspectos que n˜o a agricultura. etc.64 CAP´ ITULO 4. a . al´m das cr´ e ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em proo vocar. ao ritual m´gico que as consagra. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra. descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o o o ca ca exaustiva erudita. est´ticos a e do grupo inteiro. Malinowski nos ensinou a olhar. as canoas trobriandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que a ca as fabrica e utiliza. outras. m´gicos. Malinowski mostra que estamos frente a um processo de troca generalizado. o social deixa de ser aned´tico. c o ´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos e a c˜ u e insignificantes. trabalha com a mesma abordagem. religiosos. dando-nos o exemplo do o a c˜ que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. c˜ *** Apesar disso. pela primeira vez. longe de ser uma pesquisa especializada sobre um fenˆmeno agronˆmico dado. irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas. para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. Esse ”estudo dos m´todos agr´ e ıcolas e dos ritos agr´rios a nas ilhas Trobriand”. O fato e de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade c˜ de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´ o c o ıngua pode parecer banal hoje. ele inventa literalmente e ´ o prie c˜ e e meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante. tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel. a 1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos ´ outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia. Assim. que n˜o tem mais nada a ver a com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”. efetuando em sentidos contr´rios percursos invari´veis. Deu-nos o exemplo c daquilo que devia ser uma pesquisa de campo. mostra que a agricultura dos Trobriandeses o o inscreve-se na totalidade social desse povo. Os Jardins de Coral. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo.

4. abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia a 4 audiovisual. O homem c˜ nunca desaparece em proveito do sistema. e. expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad. podendo. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar. de L´vi Strauss. da ese c˜ pecificidade da nossa disciplina. essa exigˆncia de conduzir e um projeto cient´ ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ a ıstica chama-se etnologia. mas a o a escrever. a o e A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o a e u c ca e sofistica¸ao dos protocolos. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental.2. Ora. 1972. o mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o e o que fazem”. Quanto ` ´ a isso. sentido. um jurista pode ser cego. restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. conjuntamente. consultar o trabalho de Michel Panoff. viveu e na Inglaterra. . Os Argonautas me parece exemplar. publicado com fotografias tiradas a partir de 1914 por seu autor. um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego. ”pode ser surdo. uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade e de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam ca e ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais. como mostrou Devereux (1980). ouvido. ir c˜ at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar. ”Um historiador”. 4 Sobre a obra de Malinowski. MALINOWSKI (1884-1942) 65 3) Finalmente. a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e c ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto. escreve Firth. ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o poo e a deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. Seja em Os Argonautas ou’ Os o Jardins de Coral. e que anuncia as e mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos. Ora. como ele. e c˜ e Mesmo quando estuda institui¸oes. n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es c˜ a a co reguladoras da vida de atores anˆnimos. E um livro escrito num estilo magn´ ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que.

OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: .66 CAP´ ITULO 4.

recolhendo com a precis˜o de um naa turalista os fatos no campo. a parte a o te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente. Durkheim. para alcan¸ar sua elabora¸ao c c˜ cient´ ıfica. ela exige. n˜o era um te´rico. de conceitos e modelos que ca o sejam pr´prios da investiga¸˜o do social. Quanto ao segundo. isto ´. como acabamos de ver. e ` Se existe uma autonomia do social. o que h´ o e a de mais contest´vel em sua obra. e mais ainda c˜ 67 . nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial.Cap´ ıtulo 5 Os Primeiros Te´ricos Da o Antropologia: Durkheim e Mauss Boas e Malinowski. E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores franceses dessa ´poca. que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”. independentes tanto da exo ca e plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo). e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss. Mas o primeiro. nascido em 1858. o mesmo ano que Boas. mostrou em suas primeiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia. quanto da c˜ o a explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psic˜ o o cologia cl´ssica e a psican´lise principiante). conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o e a a ue desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma a a a alguma etn´logos de campo. fundaram a etnografia. A antropologia precisava ainda elaborar a instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto ´ cient´ ıfico. a a Ora. o o o de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico a o e os instrumentos que lhe faltavam ainda. a constitui¸˜o de um quadro te´rico.

´ 68 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pree o o cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo a o a a a ”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em c c˜ a movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida e Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas e a importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da soe a ca ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas. o Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e ca e que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos e u e o sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na a e sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir e e c seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser buso cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”. a e Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem a e a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social e o a c˜ o (sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o da a a rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente c˜ a estudando os estados afetivos dos indiv´ ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma e psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmeno e o coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam, a c˜ sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior, c e a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte. o a Essa irredutibilidade do social aos indiv´ ıduos (que ´ a pedra-de-toque de quale quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os o ue fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a a o outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua autonomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado e o ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas. o co o a o o . . da ´poca. e Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto e a o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas a o e novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das e o ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente, e e das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia e e consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e a o evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa disc ıs ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia. a

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Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respectio e c˜ o vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito c˜ a pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o o a de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o ese o tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica e ` e o que hoje qualificar´ ıamos de pluridisciplinar. Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades o ”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou ˆ antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar incansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa. e a Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o a a inverso,. Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social o total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico, c˜ o o jur´ ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada realio e dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente e o c dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´gos e o se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos soo ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fia e siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de o o nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda, e a a afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma o e e o forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as o e e o condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particularo mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica. o o o o Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, coe mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos e distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´ o e ıduos”. Devemos, escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos a em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmeno ´ o social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser ` e apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de e unico: ´

´ 70 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal e a e ca e ou tal ilha”. N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o a c ca ca se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia a e e e individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social. e e ca Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆo e e lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro e e ´ como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal e como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como o e os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento ´ ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um oba o jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando e o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que a c˜ caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o o e e observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele c mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto e oe ıvel e quanto ele, sujeito. Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim, ` a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferena c˜ tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia o o durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo o a a ´ ponto merece alguns coment´rios. a Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em a 1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da oua o tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´o o grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo a ıda antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes o a ca circuitos mar´ ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e e e pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de e esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vic˜ e a sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a o e c a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da e comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura troca a o a briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski, o evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom a o j´ expressa preocupa¸oes estruturais. a c˜

ou mesmo voca¸oes diversas. procuraram promover a especificidade e a unidade das ciˆncias do homem. Muitos a mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em e Marciel Griaule. e .71 O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras. ´ pr´prio de toda obra c˜ u c˜ e o importante. em Claude I. influenciados por ele. fundador da etnografia francesa.´vi-Strauss. fundador da etnopsiquiatria) o consideram como seu pr´prio mestre. e pai do estruturalismo. de suscitar interpreta¸oes m´ltiplas. em Georges Devereux. especialmente para toa dos os que. e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar o c bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos.

OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: .´ 72 CAP´ ITULO 5.

Parte II As Principais Tendˆncias Do e Pensamento Antropol´gico o Contemporˆneo a 73 .

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. hist´ria. antropologia industrial. e tamb´m porque o e nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propriaa c a mente contemporˆneos. mais modestamente. antropologia econˆmica. N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama coma a pleto desse per´ ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986). Rivers. especializando-se e instaurando c o a at´ subespecialidades. podemos considerar que a antropologia entrou em sua maturidade. Contentar-nos-emos. c ca mas avan¸a.. – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social o e – Durkheim e Mauss –. . (poca c˜ ` o dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto). . antropologia art´ ıstica. antropologia o dos sistemas de parentesco. consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜o ıcio a ca e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. . que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser o c expostas no in´ desse livro. antropologia da comunica¸˜o. o e e 6. A antropologia n˜o apenas tende a progredir a por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia. O desenvolvimento do pensamento cient´ ıfico implica uma diferen cia¸ao cresc˜ cente dos campos do saber. sociologia. dentro de sua pr´pria pr´tica. .1 e Especialidades: antropologia das tecnologias. em abrir a algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que pero mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dos e a antrop´logos de nossa ´poca. Malinowski. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contema porˆneos. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras. antropologia urbana. t˜o grande ´ a e a e diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado.Cap´ ıtulo 6 Introdu¸˜o: ca Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas. ca 1 75 . antropologia pol´ ıtica. antropologia religiosa. psicologia.1 Campos De Investiga¸˜o ca A primeira via.

de que s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada. as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam co as sociedades entre si. Disso decorre a ca Subespecialidades: etnoling¨´ uıstica. 6. pela constitui¸ao de objetos a c˜ formais. e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao a o a a ”Ocidente”. pode ser caracterizada da o seguinte maneira: 1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas. o ` a o As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o c˜ o ca o a eminentemente diversificadas. Limitura o a nos-emos a trˆs: a antropologia americana. e sim a especificidade da abordagem o utilizada que transforma esse campo. o parentesco. essa area. muito menos uma area a ´ geogr´fica ou um per´ a ıodo da hist´ria. de definir uma disciplina (qualquer que seja). o a a a . mas. . conduzido mais a partir da observa¸ao c˜ dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes. a unica coisa pass´ ´ ıvel. Esse estudo.76 CAP´ ITULO 6. a nosso ver.2 Determina¸oes Culturais c˜ Uma segunda via. como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. c˜ visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais. a britˆnica h francesa. etnopsiquiatria. . Ou seja. bem como das produ¸oes culturais caracter´ c˜ ısticas de uma etnia ou na¸˜o. pelo contr´rio. esse per´ ´ ıodo em objeto cient´ ıfico. INTRODUCAO: ¸˜ Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ ıvel de exposi¸˜o do campo ca antropol´gico contemporˆneo. consistiria em mostrar o c que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence. a arte. a religi˜o.). n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dado a e c˜ (a tecnologia. e a A antropologia americana: Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolua cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan. que apenas esbo¸aremos aqui. etnomedicina. ´ porque consideramos que uma disciplina o a e cient´ ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos e a emp´ ıricos j´ constitu´ a ıdos. Mostraree a mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profundamente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e a a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. etnomusicologia.

estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em si. o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos c˜ mais adiante. a abordagem evolucionista sob a forma do a que ´ hoje chamado neo-evolucionismo e A antropologia britˆnica: a Seu crescimento. o enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos que constituem uma determinada sociedade: a monografia. tal como se apresenta no momento no qual a observamos. que se constituiu desde Malinowski e em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hica a o co pot´ticas dos est´gios. em seus deo senvolvimentos contemporˆneos. nos Estados Unidos. 2) ´ uma antropologia antidifusionista. a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos a elementos de uma cultura para outra. nem pelo que empresta a seus vizinhos. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ 77 importˆncia. bem e a a como a abordagem da historiografia). deve ser e a relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial. ´ o ındia e portorriquenha). em contrapartida. Para a maioria dos pesquisadores ingleses. em sec˜ e guida. das rela¸oes da etnologia com a psicologia a c˜ ou a psican´lise: a 2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de ina tera¸ao entre os indiv´ c˜ ıduos e sua cultura. 3) nunca foi confrontada. ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Inglaa c terra. . reatualizou e renovou ao mesmo tempo. indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”. Dedica-se preferencialmente a inves` tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski). em especial. e. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico.2. uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu a passado. 4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es o ` a co hist´ricas especulativas. aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao. mas tamb´m entre as pr´prias1 e o culturas: forjou. como nos Estados Unidos. Pode ser caracterizada da ` a e seguinte maneira: 1) ´ uma antropologia antievolucionista. independentemente de seu passado. mas.6. c˜ c˜ aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra. tamb´m muito r´pido. o que a op˜e a antropologia amee o ` ricana.

privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detric˜ mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´ ıduos. nesses dois pa´ a ıses. um antrop´logo que pode ser considee o rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha. INTRODUCAO: ¸˜ 3) ´ uma antropologia de campo. nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines.78 CAP´ ITULO 6. A antropologia francesa: A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e culc a tural da segunda metade do s´culo XIX. a partir ca de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos a antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo o o ca a dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo o ıs. a e partir do in´ do s´culo. antes. Quatrefages ou Topinard. a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano). c˜ ´ Quando se falava de antropologia. com Radcliffe-Brown. e e nessa ´poca. que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a ra¸a. administradores utilizavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades. tratava-se da antropologia f´ ısica. Enquanto que um a a a ıcio e campo emp´ ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos o a ıa como na Gr´-Bretanha. que pua blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia. e que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ada o a Notemos que Gobineau. do pensamento francˆs. ao contr´rio da antropologia e a americana. um dos pais fundadores de quem a maioe ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora. e e e As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area. 1853) era francˆs. ´ uma antropologia social que. Nenhum pesquisador francˆs teve. c o a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem. e 4) finalmente. com Malinowski e.2 Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. Hoje ainda. e at´ de ”materialista”. n˜o hesita em a a qualificar-se de ”empirista”. que se desenvolve muito rapidamente. mais ainda que Malinowski. c e e e Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´ e a ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a e o c (em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas ca a e a e ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard) e ıs 2 . Leach. que era ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca. o ıcio e qual ´. enquanto. e vˆ a abordagem de um e e L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista. Esse o a a car´ter emp´ a ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade.

principalmente em algumas frases. empreendeu trabalhos (1946. e c˜ o que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra.3 o 79 Mais uma vez. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. c˜ o o o sem d´vida. estendendo o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto. freq¨entemente mais emp´ o u ırica. diretor da Revue a d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924). nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. Nem a a a a Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia inglesa). com o impulso especialmente dos o homens que acabamos de citar. A partir da mesma ´poca. cuja riqueza a n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra. e que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio o a protestante. O pr´prio Mauss. caracterizar os desenvolvimentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa. Seria dif´ ıcil. conv´m lembrar os noves de Tauxier. nunca realizou uma investiga¸ao no campo. A partir desse momento.2. Monteil. a c˜ Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia proa fissional comece a se constituir na Fran¸a. manual de investiga¸ao e c˜ etnogr´fica (1967). A primeira miss˜o de car´ter c a a cient´ ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e a seus colaboradores em 1931. enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os a da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca. Lembrea mos apenas aqui alguns aspectos relevantes: • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem parco o o ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica ` a da antropologia anglo-saxˆnica. 1985) que podem ser qualificados de pioneiros. • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es” ca e co Clozel e Delafosse estudaram no in´ ıcio do s´culo o sistema jur´ e ıdico das popula¸˜es co do Sud˜o. mission´rio da Su´ca romanche a ı¸ 3 . as pesquisas foram prosseguindo. Publicou notadaı mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). mas c˜ ıs. pode-se considerar que. e s´ a partir dela. a antropologia francesa entrou em sua maturidade. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ ministradores de colˆnias francesas. Labouret. as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspecco a tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que. mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica. e sobretudo ]unod. Maurice Leenhardt. exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´ u a e ca ıfica da etnologia.6. Entre os pioneiros desse africanismo e francˆs principiante. que s˜o e e a administradores coloniais eruditos.

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜ (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral), a c˜ termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interese a sava pelo que chamava de ”mentalidades”; • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente: ca o

1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante e e mais ilustre), 2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da o c˜ etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa, o em suas diversidades e muta¸oes. c˜

6.3

Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento o o Antropol´gico Contemporˆneo o a

´ Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente a c˜ optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse lie a vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao ca c˜ 4 cient´ ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem a o o freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de u a vista diferentes sobre a mesma realidade. Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da ana tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (tera o rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a o a o antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das co tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos e a e de investiga¸ao. c˜ A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver, a nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o o a de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos a u o o
As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de invesco o c tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um ca a ca quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim e
4

´ ´ ´ ˆ 6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE a uma imaturidade cient´ ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa discia plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a u antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio a e a para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver a ´ pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se a cr´ ıticas rec´ ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K. ca Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva o sobre o social e n˜o o pr´prio social. a o Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´ e o o ıram, a partir do s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia e e do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a e c˜ co ca filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, lie o teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault: c˜ • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fie co c˜ siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das o c˜ normas reguladoras dessas fun¸oes; c˜ • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes e c˜ sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses conflitos; • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos, e bem como do sistema que constitui sua coerˆncia. e A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus proa o longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromotoo ` res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A e a c˜ ”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de a o o co poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´ ´ a c uıstico, as ` disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como e ca a objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais. a c˜ O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras e e as Coisas, ´: e 1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o a ca as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes; ` co a c˜ 2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra, ca

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apao receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir e dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do c˜ sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss). e Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu c˜ nome pessoal, ´ que: e 1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um e a a unico modo de acesso sem correr o risco do esp´ ´ ırito de ortodoxia. E efetivamente, no per´ ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos, e veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios moa dos de acesso. 2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de inconsa o a ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´ a ıtico, mas do qual este n˜o tem a evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas, o a regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do e saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesquisas etnol´gicas de car´ter emp´ o a ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜o ca de seu objeto cient´ ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por e assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores soca ciais quanto das observadoras do social. Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco ıvel p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente. o 1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que chao e a mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam e u c˜ em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria e o c˜ a do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como veremos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito. c˜ e Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que enconc˜ tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos? e o

Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ ca o ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50 Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974. e

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expressar-se. mas tamb´m Durkheim). em si. escolhem um modelo ling¨´ uıstico. sentir. a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss. de outro. Nada distingue o realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo. acima M. a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura. os mais numerosos. ou ling¨´ uıstico (Sapir. ´ uma antropologia freq¨entee u mente emp´ ırica. com autores de quem est˜o. Estudaremos aqui n˜o s´ uma. h´ uma permanˆncia das fun¸˜es. de quem falaremos adie ante. Foucault). privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade. e para a e co Devereux uma ”universalidade da cultura”). c ıvel c) A antropologia estrutural e sistˆmica. no que diz a respeito ao essencial. a linguagem. as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a o a a um tronco comum.´ ´ ´ ˆ 6. Seu objeto situa-se claramente no campo epistemol´gico oriundo da economia (cf. do sentido. que se situa do lado da fun¸ao ou. como vimos. a emo¸˜o. Seja o modelo utilizado. Um dos conceitos opeo o o rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou. isto ´ a coerˆncia e e interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura. matem´tico. privilegiam a des-continuidade. a partir da qual podem ser estudados o pensamento. e c˜ os que chamamos ”aculturalistas”. muito afastados. ´ o de fun¸ao o ıcio e c˜ (Malinowski. as regras o explicativas da troca). e entre as pr´prias o culturas. outros um modelo proveniente do que Foucault designa como o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora. sobretudo a respeito disso. E um eixo c˜ c˜ co de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar. no caso c de L´vi-Strauss. c˜ em detrimento da norma e do sistema. como Evans-Pritchard ou Devereux. a conhecer. outros finalmente. o conhecimento. ca b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade u o da cultura (para Morgan. Mas o que permite essencialmente caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou e e e descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado. Uns utilizam um modelo a o psicanal´ ıtico. 1970). biol´gico. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE 2) A antropologia social. para Malinowski. Mas a e e . mais ainda. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve ca ca tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso. cibern´tico (L´vi-Strauss. mais exatamente. os culturalistas mais uma vez. e qual ´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global? e ıvel c˜ 3) A antropologia cultural.3. esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou. psicol´gico o o (Kardiner. Bateson). freq¨entemente ligado ao estudo dos e u ´ processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). 1967). e mais para a organiza¸ao interna dos c˜ grupos. e a o mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico.

a o e com ele. E e ´. existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva e de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. Invers˜o de perspectiva o a a neste caso. ele realiza uma passagem do consciente para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim). Para Griaule. para sempre diferente. ` c˜ op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. . finalmente (1966). fora. Assim. e os a mitos ”insignificantes”. Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa a antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6 o a chama de campo sociol´gico. mas que se inscreve no mesmo horizonte c˜ epistemol´gico.84 CAP´ ITULO 6. n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas. e Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao. o alteridade sempre a c˜ corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritorialic dade: ao lado. como na antropologia estrutural. a o a Na antropo logia psicanal´ ıtica. tanto nas formas elementares e complexas do parentesco. n˜o ´ mais poss´ pensar que a a e ıvel os doentes mentais s˜o ”loucos”. estima-se que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das e co o produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´ c˜ ıvel ırico existe o que Bastian j´ chaa mava de ”unidade ps´ ıquica da humanidade”. do conflito c˜ para a regra (Mauss). do l´gico e do il´gico. e o o ´ as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional. do sentido e o o o o do n˜o-sentido. Saussure. ´ porque. ent˜o. 53 deste livro). ”absurda”. p. em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do conse ciente). quando a atividade epistemol´gica come¸a a o a o c situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao). . O que desmorona. do sistema (e n˜o mais do sentido). ´ a pertinˆncia dos pares a e e antinˆ-micos do normal e do patol´gico. Ao contr´rio. INTRODUCAO: ¸˜ qualquer que seja o modelo adotado. o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente o pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. Para a ete a e nologia de L´vy-Bruhl (1933). isto ´. Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a seo a a e guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´ a ırito que atuam. mas ao n´ do sistema a ıvel co ıvel (inconsciente). em rela¸ao ao anterior. o c˜ . Mas esta deve doravante ser pensada. de fato. para a psicologia e pr´-freudiana. 5) A antropologia dinˆmica. que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. a Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa. da regra (e n˜o mais do a c˜ a conflito). na obra de arte?. de L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o e sentido). e depois Jakobson (a l´ ıngua explicativa da palavra). do sentido para o sistema (L´vi-Strauss). a ”mentalidade primitiva”. o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. e que procura estudar as rela¸oes de poder. quanto no mito.

A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo opee rante (ou modelo epistemol´gico principal.´ ´ ´ ˆ 6. A incompreens˜o entre os pesquie a sadores pode se tornar total. por exemplo. Por isso. pelo contr´rio. ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma ca e ıcil antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de ca ca orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ ca a ıtica (Devereux).3. operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos. ou mesmo de um unico ´ 7 pesquisador. Uma o das caracter´ ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX.. Para esses auc˜ tores. se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de a e que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas. no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o ca superou finalmente a particularidade das culturas. por exemplo. a meu e ver. conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que a e a ´ seria a hist´ria. 1970) sobre os e culturalistas americanos. constitutivo da abordagem adoo tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo a instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os debac˜ tes. 1973). Assim. a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas. da segunda metade do s´culo XX.dos objetos preferencialmente estudados (os mitos). 7 . ao mesmo tempo a hist´ricos (sociedao des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse) o ca a e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). mas e o a tamb´m dentro de uma mesma disciplina. e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica a (Godelier. por exemplo. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963). em reorientar a antropologia social. exerceu uma influˆncia evidente (cf. consiste. Mas. Kardiner. o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da c o antropologia cultural. do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. se a examinarmos do ponto de vista. Mas seu projeto o diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no a e o e Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao e e e quarto eixo de pesquisa definido acima. o e o as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema soo a e a cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es? a co Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contemo porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo. co e e mais especificamente. Existem portanto afinidades entre. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem a a e a e coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento. Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. Em compensa¸˜o. ou at´ as discuss˜es. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das co a a da sociologia. Considerando agora a obra de L´vie Strauss. que constituem divero sas perspectivas poss´ ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ ırico. e ´ afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia a e ca e (1967-1970). a antropologia cultural e a antropologia funcional (Malinowski). esta situa-se.

o Comte.86 CAP´ ITULO 6. Malinowski). repress˜o e sublima¸ao para pensar o social). Estes podem ser. ”aproxio a mado”. . s´ pode ser. biol´gicos (Spencer. mas n˜o podem subsiitu´ a ı-lo. de instrumentos da e pesquisa que visam explicar o real. por exemplo. hist´ricos (Morgan). ling¨´ o uısticos ou. ”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es e ` co de mensagens. INTRODUCAO: ¸˜ Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo` a e delos em antro pologia. segundo a express˜o de Bachelard. psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos o o ca de inibi¸ao. e u a nunca esquecer que se trata somente de modelos. como se diz hoje. pois este. Conv´m. se quic˜ a c˜ e sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos. em termos cient´ ıficos. isto ´. c´digos e programas).

. particularmente representativa dessas preoc cupa¸oes: ´ a que. 1962). da m´sica. 1963). 1 87 . teol´gicos. . Griaule e G. 1966). n˜o apenas o africanismo francˆs. tal como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais. a compreens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma a c˜ sociedade (assunto da antropologia social. etc. estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo ca das produ¸˜es simb´licas (artesanato). co o c˜ contos. m´scaras e outros objetos culturais. lendas. de que trataremos no pr´ximo o cap´ ıtulo). por assim dizer. em suma. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradouraa a mente. G.) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas e e produ¸oes se constituem (particularmente as l´ c˜ ınguas). Paulme. D Zahan (1960. leva Mareei Griaule e seus colaboc˜ e radores a efetuar estudos sistem´ticos. art´ o ısticos. cient´ ıficos) existentes num grupo (o que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que hoje qualificamos de ”etnociˆncias”). por exemplo. M. religiosos. de tudo que Griaule e seus e sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon. o estudo da l´gica dos o saberes (filos´ficos. e para Griaule em especial. Calame-Griaule (1965). D. Dielerlcn (1951. Griaule (1938. . e a depois. Toda uma corrente a de pesquisas aparece na Fran¸a. M. esse pensamento o Cf. Dieterlen (1965).. que o o o s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”.Cap´ ıtulo 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica preo cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos. G. Deixando de lado. a partir dos anos 30. 1972). bambara. c a Para o conjunto dos etn´logos. a literatura de tradi¸ao oral (mitos. dan¸as. dos e o u cantos. . cosmol´gicos. da religi˜o dos Bambaras. primeiro da mitologia dos Dogons. mas tamb´m a pr´tica etnol´gica a e e a o dos pesquisadores franceses. prov´rbios.

de fora. S˜o elabora¸oes grandiosas. c Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui e o dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julgaco mentos. por exemplo e Durkheim (1979). A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o o a patrimˆnio do grupo. n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia o a e – os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os e mortos. impregnando-nos de sua sabedoria. Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ o a ıveis”. Luneau (1975). M. . M´traux e (1958). V. Durand (1975). 2 . Cf. ritos. por exemplo. Rouch (1960).Bruhl. por exemplo. . . e a . Leiris (1958). os abor´ ıgines australianos e os trobriandeses. [. e ap´s os ´ o ındios. c˜ As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologicaa o a a e mente. L´vi-Strauss (1964). ´ e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”. a interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no ena tanto dedicado sua vida. e n˜o projetando. co O interesse para a ´rea dos mitos. pois s˜o. a c esperan¸as frustradas”. A. M. Percebe-se ent˜o que o conjunto a do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf. o homem e o animal. Mas como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de muie co a tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. J. op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao o a c˜ pela economia. R. que. a c˜ a E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos. A. Bastide (1958). da religi˜o e da magia aparece a ca a como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. pelo contr´rio. a natureza e a cultura. De Frazer. ıvel a categorias caracteristicamente ocidentais. dos ritos de inicia¸˜o. G. M. 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que e c˜ se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade. das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons). fundadoras da ordem c´smica e social. v˜os esfor¸os. se aceitarmos finalmente compreendˆ-las de dentro. que anota em seus Carnets: os c e mitos s˜o ”est´rias estranhas. S˜o a a o a elas que devem ser tomadas como fundamentais. ıcio Tempels. e que far˜o em esa pecial. C. L. um dos mais importantes lugares da antropologia. que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social. m´scaras. recolhendo o e mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados. escreve: ”loucuras. Aug´ e (1982). Thomas e R. Favrct-Saada (1977). e L. Van Gennep (1981).) que acabam impondo-se ao observador ocidental. para n˜o dizer absurdas e incompreens´ a o a ıveis”. Da mesma forma. Ou de L´vy-. Mauss (1960).´ 88 CAP´ ITULO 7.. de Heusch (1971). tempo perdido. de uma complexidade e riqueza inestim´veis.

Finalmente. na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam. Em Do Kamo. N˜o se pensa um s´ instante. se n˜o existe nenhuma teoria griauliana e a propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque ele nos parece o mais representativo dessa abordagem). Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao: o c˜ de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos a c˜ ` a ocidentalocˆntricos sobre o primitivo. econˆmicas da sociedade em um o determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias. o discurso etnol´gico ` o tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar conta de si pr´pria. por a a a o exemplo. e ca c de sociedade. ca Cr´ ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a aprea e ender as representa¸oes (religiosas. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”. negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com a a descoberta de ”arte negra”. a Pessoa e o Mito no Mundo o Melan´sio (1985). atrav´s do pensamento dos insulares. Leenhardt considera que o mito ´ e fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”. a e . . n˜o deixa de haver a um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ u ıram em dar a etnologia francesa seu prest´ ` ıgio.) como uma ´rea a ”` parte”. apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas canae ques. ”ser movidas a ideologia”. ´ profundamente subversivo na primeira mee tade do s´culo XX. quando o a a n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas. com Grio aule) na Nova Caledˆnia. . o unico a beneficiar de ´ uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX. narrativas. Mostra que. chamar´ a de ”metaf´ ısica negra”). de tempo. fora o saber cient´ a ıfico. deixando de a c˜ oa se interessar pelo que acontece ”na adega”. Assim sendo. por exemplo.89 Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mauo rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo. um trabalho consider´vel sem o qual a a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje. existem outras formas de c˜ e conhecimento tamb´m autˆnticas. Esse protesto para o direito ` existˆncia e e a e de identidades culturais e espirituais (o que Senghor. Mas ser´ que essa abordagem que se e a limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inicic˜ a ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica? c˜ o O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se e e e a num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o c˜ a a s˜o as nossas. de sua no¸˜o de espa¸o. como diz o Althusser. de palavra. de personagem”. As rela¸˜es que estes o co mantˆm com as rela¸oes sociais. pol´ e c˜ ıticas. ela efetua a reconstitui¸ao dos c˜ sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. art´ c˜ ısticas.

´ 90 CAP´ ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS .

pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade. e sobretudo da religi˜o (Durkheim. religi˜o. a e t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em uma a e c˜ o mesma cultura. o como acabamos de ver. Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas. ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao a e c˜ que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. a ılia. ou. pelos deo posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo.Cap´ ıtulo 8 A Antropologia Social: Os princ´ ıpios da antropologia social. O a a que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. c a c˜ o car´ter integrativo da fam´ da moral. a 1979). um dos primeiros. mais precisamente. A antropologia e a simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo o a que era dito pelos pr´prios fatores sociais. Essa alteridade da qual a procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ ıtulo anterior). por sua vez. magia. que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos co sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ o a ırito dos ind´ ıgenas”. come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes. c˜ Malinowski. esses discursos suntuosos e que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em seu ideal? Assim. . se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mico tologia. mas tamb´m dissimulam. O antrop´logo o ´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade. e tamb´m e o valor inestim´vel. tal como se elabora especialmente na Inglaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968). na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. pede que se substitua o estudo da sociedade como sistema de rela¸˜es reais. e As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre co o a co 91 . n˜o deixam de lembrar os princ´ a ıpios da antropologia simb´lica. Esta insistia. Perguntamo-nos a agora: o que mostram.) permanece. . Assim. A e o antropologia social.

e. e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968). a Henri Desroche (1973). Georges Balandier (1974). Douglas (1971). Louis-Vincent Thomas (1975)). Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o a a (da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”. os pensamentos e sentimentos do r´u. Brad-bury e col. a ou ainda na Fran¸a. particularmente na constitui¸ao de uma ana c˜ tropologia social da religi˜o. pelo menos imediatamente. ainda nessa perspectiva (durkheimiana). entre grupos sexuais. a Para ilustrar seu ponto de vista. Rogei Bastide (1970). tamb´m. considera Radcliffe-Brown. Cf. assim como podem variar a a idade. consagrado por Durkheim. Aug´ (1979) quanto ` e a no¸˜o de ”representa¸˜o”. Cf. ca ca 1 . E. todos esc˜ tes n´ ıveis de realidade. merece ser sublinhada: um certo n´mero de u autores. (1972) ou de M.1 e e a Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa. A antropologia social n˜o ´ profundamente a e ´ diferente da sociologia. para co a a Estamos apenas dando conta. A ANTROPOLOGIA SOCIAL: decorrem de pr´ticas sociais. mas essas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse. mais recentemente. capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao. do j´ri e u e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento. as rela¸oes entre faixas de idade. mas enquanto a a representa¸˜es do social. muito representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. advogados e r´u: e ”No decorrer desse processo. por sua vez. Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem a e do pol´ ıtico”. a partir do exemplo da religi˜o.92 CAP´ ITULO 8. E uma ”sociologia comparativa”. diametralmente oposto ao de Mauss. em uma persa a e pectiva sensivelmente diferente. G. sublinha-se e c˜ que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincua e o a lada a uma outra coisa. Este ultimo termo. vai co ´ exercer um papel consider´vel. mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando a c˜ ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e a ca totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o. de uma op¸˜o poss´ a ca ıvel inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. jurados.. (1969) escreve: ”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos ´ sociol´gicos. para o per´ c ıodo contemporˆneo. Evans-Pritchard (1969). Evans-Pritchard. a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas. N˜o devem ser estudadas em si-. as cr´ ıticas formuladas por M. testemunhas. de a c˜ c˜ parentesco. os trabalhos de R. recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antroe a ca pologia social e a sociologia. esse autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes. estreitamente vinculada ao que acabamos de dizer. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especificao mente `s sociedades primitivas”.

1971). ı As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica. e a o Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. mas se inscreve a no prolongamento da sociologia francesa. seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”. em especial Lowie.93 o antrop´logo. e notadamente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural. e. Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto ino a div´duos”. para muitos autores americanos (cf. A tal ponto que. se efetuarem independentemente suas respectivas pesquisas. . podem ser formuladas nos seguintes termos: ”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra. que examinaremos a a agora. o extremamente proveitosas. a antropologia social n˜o faz parte da antropologia. nesse caso. c˜ o o prossegue Evans-Pritchard.

A ANTROPOLOGIA SOCIAL: .94 CAP´ ITULO 8.

coloca o que ´ uma constante e da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e ` a o ca ` a psican´lise. uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble o (1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa discia o plina. a ` Quanto a isso. . de explora¸˜o. bem como suas produ¸˜es originais (artesanais. J´ de in´ e a ıcio. O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao. na¸˜o. . parece-me importante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura. a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma. religiosas. que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem. . a Para compreender a especificidade dessa abordagem. .Cap´ ıtulo 9 A Antropologia Cultural: A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a c e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente americana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ a e a e ıstica dessa atitude americana. De outro. A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social.) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo ca e conjunto (etnia. a e o mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que aprea sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo.) e para com outros conjuntos. . . freq¨entemente quau lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”. art´ co ısticas. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresentados. e co co c˜ ca de domina¸˜o. totalmente indepeno dente da sociologia. quanto de suas id´ias.). dedica-se uma aten¸ao muito grande menos c˜ ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prios co o indiv´ ıduos. tamb´m a ca e hierarquizados. regi˜o. De um c lado. A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo e 95 .

e por elabora¸˜o ca das atividades rituais aferentes a estes. da divis˜o hierarquizada do trabaa lho. a morte). mas. e . Al´m disso. Pois. o que distingue a sociedade humana da sociedade animal. Indo at´ mais adiante. bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao a c˜ c˜ das faixas de idade. de encontrar. Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos. . a antropologia ´ por sua vez especificamente e e humana. levantou mais de 50. um dos mestres da antropologia americana. que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso e a prop´sito. existem sociedades animais c at´ formas de socie abilidade animal. a especializa¸ao hier´rquica a c˜ a c˜ a das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais.1 Mas.96 CAP´ ITULO 9. o que se compara no prica e a meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais. e examinemos mais adiante o a 1 Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social. o nascimento. de pensar. sendo que. Assim. s˜o animadas por um objetivo e uma a ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa. se pode haver uma sociologia animal a a (e at´. Fechemos aqui esse parˆntese. pelo contr´rio. n˜o ´ de forma alguma a transe a e miss˜o das informa¸oes. se os animais s˜o capazes de muitas coisas. sendo essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem. Da mesma a e forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e a e uma linguagem nos animais. e transe mitidas ao conjunto de seus membros. nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo a ´ de anivers´rio. define-o melhor. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: campo de investiga¸˜o. e at´ da sociedade celular. apenas a no¸˜o ca e cultura. ´ estritamente humana. que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicas c˜ o ou comunit´rias. a divis˜o do trabalho. trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos come portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas maneiras espec´ ıficas. trabalhar. mas dentro de uma a unica c´lula!). a nosso ver. existe o que hoje n˜o se hesita mais em e a chamar de sociologia celular. ao contr´rio da de sociedade. Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que. no e c˜ segundo. e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se ´ e c˜ d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´ a e a ımbolos. ıcil ca o Kroeber. a doen¸a.). enquanto homens e mulheres de uma determinada cultura. E a raz˜o pela qual. saberes e sabere fazer caracter´ ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada. repetimo-lo. c ´ E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura. utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos) ca e e a de acesso a este objeto. pelo que se sabe. dos grupos sexuais. Finalmente. celular). . se distrair. reagir frente aos acontecimentos (por exemplo.

1927: Margaret Mead Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia e ca a cultural est´ longe de ser negligenci´vel. para o per´ a a ıodo contemporˆneo. bem como suas t´cnicas u e de investiga¸ao (por exemplo. estreitamente ligae a dos entre si. que est˜o. de uma cultura. encontra v´rias a preocupa¸oes comuns aos psic´logos. 2 . salienta a originalidade de tudo que devemos ` sociea dade ` qual pertencemos. esse campo de pesquisa. isto ´. sem que estes o percebam). 1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos seres humanos pertencendo a uma mesma cultura. Citemos notadamente. Atenta as descontinuidades (temporais. a 2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comportac˜ mentos dos indiv´ ıduos. Erny (1972). psicanalistas e psiquiatras. Assim. Utiliza porc˜ o tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes. tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o c˜ meio no qual nascem e crescem estes indiv´ ıduos. Rabain (1979) e lembremos a a influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950. os trabalhos de Ortigues (1966). pelo indiv´ ca a ıduo. a partir dos anos 30. J. 1972) e a que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa. de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por c˜ e c˜ c˜ outra. mas ıvel ` ` sobretudo espaciais). designado pela express˜o ”cultura e personalidade”. mas modela a o comportamento dos indiv´ ıduos. utilizados pela primeira c˜ vez em etnologia por Cora du Bois). *** Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em u sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. como veremos. Procurando compreender a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o. e ca particularmente sob o angulo dos processos de contato. extremamente desenvolvido a nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha. c a imp˜e-se. intera¸ao e ˆ a c˜ acultura¸ao.97 os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural. 1965. sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa. a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o. ca a 3) Finalmente. como uma das areas da antropologia na qual o ´ a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica. considerada como uma totalidade irredut´ a outra. c o Deter-nos-emos em trˆs deles. os testes projetivos. difus˜o.

2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural. 1939: Kardiner. c e Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria. enquanto a a os homens v˜o para a ro¸a. como alguns na Asia. este ultimo coment´rio deve a porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem. na ilha de Alor. As Bases da Antropologia Cultural. de Ruth Benedict. em 1935. o Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. 1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de ca nossas atividades. O Povo de Alor. Inversamente. sentimos dificuldade em dormir – a como me aconteceu no Brasil – em uma rede. Os Fundamentos Culturais da Personalidade: 1949: Herskovitz. um livro que foi um marco. Como essa corrente de pesquisa. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: publica Corning of Age in Samoa. certamente a obra mais caracter´ c˜ ıstica do culturalismo americano. e os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u. O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-. que ser´ retomado em H´bitos e Sexualia a dade na Oceania. Na Europa. que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ ıvel. n˜o considerar como universal o que ´ relativo. a O que mostram essas diferentes obras.3 Essa compreens˜o a e a da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia ıvel e cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos ıvel c comportamentos. na qual os homens se dedicam aos filhos. co e e a ` a ou seja. multiplicaremos os exemplos. e n˜o nos passaria pela cabe¸a a c ´ descansar. ao penetrar numa igreja. a maneira com que descansamos. Assim. Psican´lise e Antropologia. 1934: Amostras de Civiliza¸ao. 1943: Roheim. dificilmente suportam a maciez de um colch˜o. s˜o as mulheres que a c a cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as.98 CAP´ ITULO 9. Inversamente. . a Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ ıcios religiosos. Origem e Fun¸ao da Cultura. que desenvolve a id´ia de que a cultura c˜ e ´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer. Asc˜ c sim como na sociedade Chaumbuli. 1950: Roheim. Nas a sociedades do Oeste africano. solo. quando. Nas sociedades nas quais os homens dormem diretamente no. as mulheres se dedicam ` cerˆmica. em uma mesquita. 1945: Linton. enquanto as mulheres v˜o pescar. ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura. ıvel qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. sempre baseadas em numerosas observa¸˜es. . 3 . observamos que os fi´is tiram e o chap´u e permanecem com os sapatos. 1944: e c˜ ca Cora du Bois. apoiando-nos em uma s´ perna.

Assim. com o convite que me era sistematicamente feito o de uma refei¸ao preparada em minha homenagem. sul-americanas e sula europ´ias. reservavam-me um presente muito inesperado para um ocidental. mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. a Diferen¸as significativas. tender˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latinoa a ´ americanas. o a o a como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades media terrˆneas e sul-americanas. Imp˜e-se pelo contr´rio. Elwin. Finalmente. e e a ca enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias. assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na c a e Europa. Aqui c˜ c˜ est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado. Por outro lado. isto ´. a . por exemplo. uma a c casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. acec˜ nar a cabe¸a e sorrir. consistir na invers˜o pura e simples a daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. mas que devia ser consuc˜ mida isoladamente. durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa ıs u do Marfim). os quais. As trocas e a de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas a a nos pa´ ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. iniciados nas t´cnicas amorosas por a e monitores experimentados. sentados no terra¸o a c de um bar ou passeando na rua. em um cˆmodo e separadamente de meus hospee o deiros. nas sociedades ´rabes. Esses mesmos interlocutores. mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. como no exemplo acima. que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa. a educa¸ao sexual ´ eminentemente c˜ c˜ e vari´vel de uma sociedade para outra. poc ` dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comportae mentos mais cotidianos.99 As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversie dade podendo. ir˜o manter um certo espa¸o entre si na a c ´ Europa do Norte ou na Asia. n˜o apenas de a a uma civiliza¸ao para outra. Na Melan´sia. Assim. decorrentes da cultura a qual pertencemos. c A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas. fiquei pessoala mente impressionado. De um lado. por outro lado. sob pena de sentir um certo mal-estar. meninos a e e meninas s˜o. olhar fixamente a e algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜o e e o a de amea¸a e agressividade. na idade da puberdade. como h´spede. enquanto os Muria da ´ ındia (cf. 1959) institucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer. desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o. os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes. as formas de comportamento sexual detiveram particularmente a aten¸ao dos observadores.

Assim. o receio dos franceses frente ` natureza a que deve ser domesticada pela raz˜o. portanto. soldados americanos estavam mobiliza´ dos na Gr˜-Bretanha. s´ deseja paz e o e serenidade. e estes n˜o ena a a tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante a quanto um beijo na boca. a dos violentos Mundugumor. chocadas ´ que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente. n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias. sob pena de c˜ um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de vergonha e culpa extremo. c˜ a mas tamb´m nas estruturas perceptivas. e inversamente. Margaret Mead (1969). enquanto a outra. Cada um dos grupos reagia normalmente. russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins. mas tamb´m os escritores (Chateaubriand.) e chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa a seguinte. A antropologia cultural foi assim levada a retoo mar. As inglesas ficavam. entre os segundos. que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de nae co moro. Georges Sand. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨entaa u vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. receio que se expressa tanto no car´ter a a ”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagantes que os contos escandinavos. c˜ 2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de a comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para a outra (como a alimenta¸ao. . . nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica. a qualificados precisamente de ”jardins a francesa”. Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nosu o sas rela¸oes interculturais. enquanto que. . ` Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos e povos das sociedades ”tradicionais”. isto ´ conforme ao a e ideal do grupo. Na mesma ´tica. ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da co Nova Guin´. os jogos. como perfeitamente normal. as inglesas achavam que os americanos comportavam-se como marginais. o h´bitat. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: Durante a ultima guerra mundial. o que os ca a o folcloristas. o beijo. quando tinham aceito o beijo.100 CAP´ ITULO 9. a maneira de se vestir. cognitivas e afetivas constitutivas e da pr´pria personalidade. Os a c˜ co GIs consideravam as inglesas mulheres levianas. aparecer´. era a ue a ultima etapa antes do ato sexual. O que ´ ent˜o considerado e a como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ ıduo violento). considera que uma.O. Ruth Benedict (1950) op˜e o o . que a antropologia americana deve a sua fama. tentou evidenciar a pree ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade. ou ainda. mas a norma era diferente de uma cultura para outra: para os americanos. para as inglesas. a dos doces e ternos Arapesh. ´ comandada e por uma agressividade propriamente canibal.

pp. em uma sociedade.4 u a que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos. n˜o faltaram aos cul-turalismo americano. em detrimento da investiga¸˜o das normas. 1974. este povo de feiticeiros (R. enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como conformistas) na sociedade pueblo. o Cr´ ıticas. a meu ver. As institui¸˜es (e. Fortune. Privat. ritos de inicia¸ao) pretendem – c˜ inconscientemente – fazer com que os indiv´ ıduos se conformem aos valores pr´prios de cada cultura. colocando-se no cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia. Trae a ca balhando com uma abordagem muito emp´ ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes. Se houver. Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie. 1973. em especial. Toda cultura persegue um objetivo. desenvolve uma concep¸˜o do e ca Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico.101 a sociedade ”apoloniana”dos ´ ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e e ` c˜ rivalidade ”dionis´ ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da e ilha de Dobu. 33-36. de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais nos referimos acima). foi Georges Devereux (1970). 46-50) e a sublinhar que. n˜o deixar˜o de aparecer como margia a nais. e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e a c ` c˜ ` pr´pria personalidade do pesquisador. 4 . Al´m disso. 1972). Cada cultura realiza uma escolha. A partir de exemplos desse tipo. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias. tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos huc˜ manos a tipos. sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. Universitaires. e pp. ´ manifesto. indiv´ ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o. O que u c˜ co o caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”. escolas. nenhum a ca gosto pelo roubo. mas cultue ca a o ral). dos ca c˜ conflitos e das significa¸˜es. Valoriza um determinado segmento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. mas a culo e tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. desconhecido dos indiv´ ıduos. e detestem brigar. do que a constru¸ao rigorosa de um o ` c˜ objeto cient´ ıfico. ` ca co as institui¸˜es educativas: fam´ co ılias. sobretudo na a o Fran¸a onde o m´ c ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. quem ca e propˆs a cr´ o ıtica mais radical desta. Ed. Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco cultural”. entre estes. e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que e ue s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que. em detria ca e mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente). freq¨entemente severas. uma e ca l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e o c˜ na dos comportamentos. das co ca regras e dos sistemas. Encoraja um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem u e censurados. Ed. todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo n´mero de preocupa¸oes.

pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ ´ c˜ e e freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos u ıs. levando-se em ’conta essas cr´ a ıticas.102 CAP´ ITULO 9. tamb´m. represente a uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina. a antropologia cultural. levando-se em conta. pela importˆncia dos problemas colocados. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o a passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade co a da cultura. variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no a pr´ximo cap´ o ıtulo. materiais recolhidos. c˜ a . o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos ame e u bicioso do que geralmente se diz (cf. particularmente a obra de Ruth Benedict). Isso n˜o impede que.

Na perspece tiva na qual nos situaremos agora. em um n´ ıvel que n˜o ´ mais dado. e sim constru´ a e ıdo: o do sistema. um traje de Arlequim. mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas c˜ de troca. estuda as diferentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens. reuniremos nesse cap´ ıtulo um certo mimero de tendˆncias do e pensamento e da pr´tica antropologica. procuraremos explicar e co a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser compreendido como produ¸˜es do esp´ co ırito humano. n˜o a partir dos ca a interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros. cada cultura particular. que se elaboram sem que estes tenham consciˆncia disso. aparentemente bastante distantes a entre si: • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao. as culturas s˜o apreendidas. E nessas condi¸oes. a tratadas. no encontro. e o o al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais. integrando notadamente tudo o que. a cultura ´ a c˜ e concebida como uma esp´cie de mosaico.’e muito co menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultuo e o ral. Ou seja. S˜o entidades parcea ` c c a ladas. ou melhor. frutos de uma pr´tica parceladora. a relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social). mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. com o c˜ impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto. e Isso colocado. caracterizada por um conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador. se d´ ao a 103 .Cap´ ıtulo 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e Para a antropologia cultural. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si. que. ´ e e um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a.

mais precisao ˆ e mente. assim como a quest˜o da validade da a transferˆncia dos modelos. o primeiro. *** Existem. o o • o estruturalismo francˆs. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes. Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de um modo de conhecimento para outro. e essa perturba¸ao. a ling¨´ a e a uıstica). a neurofisiologia. cujo fundador ´ Georges Devereux. o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´ o c˜ e observado. L´vi-Strauss. quase tanto quanto Bateson. • a enopsiquiatria. Bateson. ´ claro. da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia. e da posturas. mas que eu considero a a pessoalmente como mais atual do que nunca. das m´ ıvel a c˜ ımicas. percebe que c˜ a os princ´ ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo ca da comunica¸˜o humana. a ca e pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica). finalmente. das ferramentas. dos gestos. procurando compreender ao mesmo a tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psia e u a col´gica e psicopatol´gica da cultura. Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo a u n´mero de op¸oes. ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar. recorre a esse modelo nascido e . particularmente. e. Ora. do qual muitos gostam hoje de e dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado. diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da ane c tropologia contemporˆnea. particularmente. e a co e Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da e elabora¸ao da pilotagem autom´tica. a psican´lise. e que ´ uma e e pr´tica claramente pluridisciplinar. u c˜ 1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos epistea mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou. Devereux.ˆ 104CAP´ ITULO 10. longe de ser uma fonte de erros a ser neutrac˜ lizada. ca c˜ mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´ e ısica quˆntica ´ mais verdadeiro a e ainda no das ciˆncias humanas e. de volta de Bali. e Partindo do ”princ´ ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar e ıvel ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron. at´ ent˜o n˜o ca e a a utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas. da etnologia: a presen¸a e c de um observador (no caso. as maa tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas.

posturas. Para este ultimo. a tarefa do pesquisador ´ precisamente a u a e de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto verbal quanto n˜o verbal. mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes a c˜ c˜ cont´ ınua e n˜o aleat´ria. Desde a sua Introdu¸ao ` c˜ u o c˜ a Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo e francˆs. cuja l´gica ´ irredut´ a e o e ıvel a soma de seus elementos. Disso decorre a met´fora da orquestra participando a o a da execu¸ao de uma partitura ”invis´ c˜ ıvel”. na realidade. E quando o autor da a a Antropologia Estrutural realiza. ´ claro. e 2) A partir dos anos 50. L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann. e que conv´m analisar.105 da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. Ora. o Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”. na parte mais recente de sua obra. diferen¸as muito importane c tes entre o estruturalismo europeu. c˜ regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. o estudo dos mitos. refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita e ` a e sem autor. a cultura. das palavras. tratando-se simplesmente o a de recolhˆ-los. a e relutando at´. procurando come preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o ca o c˜ . e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Ete e nopsiquiatria Geral). toda cultura ´ uma moe c˜ ´ e dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres. isto ´. come¸a a desenvolver-se. pontuado por gestos. esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira tec˜ ´ a ` legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um a ´ destinat´rio. e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao e o c˜ c˜ particular com atores particulares. expressando o pr´prio inconsciente da sociedade. tanto na Europa quanto c nos Estados Unidos. um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orquestral da comunica¸ao”. na execu¸ao da qual cada um dos c˜ m´sicos est´ envolvido. dos bens). ` Lembremos mais uma vez que existem. todo comportamento humano (do vozerio mais a intenso ao mutismo absoluto. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa u a o corrente insistem sobre o fato de que ( imposs´ ıvel n˜o comunicar. ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias humaa e nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´ o ınico quanto pelo etn´logo s˜o o a fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto. e o interacionismo e americano. m´ ımicas. em particular francˆs. frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´ e c˜ uıstica. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama ` ca e uma ”ciˆncia da comunica¸ao”. express˜es do rosto por m´ o ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens freq¨entemente involunt´rias.

freq¨entemente. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: ”observador”e o ”observado”. o sentido do que fazem os homens deve ser procurado menos no que dizem do que no que encobrem. as primeiras. caracterizada notadamente pela monografia. tanto para o estruturalismo quanto e para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da anae tropologia sistˆmica americana.ˆ 106CAP´ ITULO 10. como se diz nos Estados e Unidos. 3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hue o e e c˜ mana. por seu car´ter inovador no campo da antropoloa gia anglo-saxˆnica da ´poca. Isto ´. que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia co e e ´ antes uma psicologia e 1 . de pluridisciplinaridade entre a abordagem etnol´gica e psicol´gica). mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux. e sobretudo. colocam-se aqu´m de todo e indiv´ ıduo e de toda sociedade”. mas al´m dessa cultura.1 mas que n˜o ´ concebida. produzindo constantemente aspectos in´ditos. situada no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural. da demografia –. mas estrutura que se expressa sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ o ıduos e dos grupos”. O exemplo da primeira obra de Bateson. as rea¸oes dos indiv´ c˜ ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´ ` co ıduos. mais especificamente. A o e partir da cultura dos latmul da Nova Guin´. o que e e interessa Bateson. 4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreveo se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou. cuja tendˆncia ´. como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da ˆ e e economia. A Cerimˆnia do Naven (1936) o parece-me particularmente revelador. Ora. ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de e e Essa problem´tica. que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das a e e e preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss. de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudie a ano. do direito. da sociologia. especialmente. ”estrutura inata do esp´ e e ırito humano”. emp´ e e e u ırica como nos Estados Unidos). inconsciente estrutural e e para L´vi-Strauss. devido a sila exigˆncia ` e de pluridisciplinaridade (e. O autor estuda os diferentes ` tipos poss´ ıveis de rela¸oes dos indiv´ c˜ ıduos para com a sociedade e. e cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras sociedaa a des. de forma o o a e alguma. menos no que as palavras expressam do que no que escondem. Em seguida. das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais. Em primeiro lugar. visando ”apreender uma realidade imanente ao homem. a maneira da antropologia cultural. isto ´. e a e Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio ´ e o amago de sua sociedade”. Ou seja.

e emia nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva c˜ quanto intercultural. e um ”pensamento dos conjuntos”. a sou atravessado por estruturas que me preexistem. Por todas essas raz˜es. Ou seja. Rompendo com a tagarelice do sujeito. A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. refrat´rias a qualquer atitude reducia a onista. O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia. as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´ c˜ uıstica. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse a pensamento. como no ”id”da psican´lise. e n˜o sint´tica. inventivo de modelos que conv´m qualificar ca e de ”complexos”. a qual se vˆ descena a ` e e trada pelo projeto estrutural. Essa e a ca abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais. enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementaria e dade. Para este ultimo.107 que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas a sem referˆncia a ”cultura”(Devereux). A metoc˜ dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia. como pelo projeto freudiano. considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social. Para L´vi-Strauss como para Bateson. fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente c˜ tomados como separados. sou falado. a antropologia assim cono siderada ´. e atrav´s de um instrumento unico. a 2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo. E se a abordagem da etnopsiquiatria em co rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´ c˜ a e e ıtica. ”esse capital comum”(L´vi-Strauss) e ` e que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como coe letivas. a c˜ o e sim ”correla¸˜es funcionais”. ´ claro. por isso. que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”. preocupado em n˜o deixar escapar nada na a investiga¸˜o do social. as e ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. isto ´. e 1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia. e ´ e n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos. como escreve L´vic e Strauss. sou agido. a antropologia como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade: a o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da ıdo e c˜ problem´tica do inconsciente. eu sou pensado. que ´ nee ´ e . ”essa crian¸a mimada da filosofia”. de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976). e. Assim. isto ´. 5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abordagens s˜o abordagens da totalidade. ca o e mas tamb´m qualquer forma de historicismo.

que considera os elementos independentemente da totalidade. levirato. abrindo uma compree a o ens˜o nova da sociedade. . poligamia. as rela¸oes dos hoa c˜ mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero u de op¸˜es poss´ co ıveis: o monote´ ısmo. O modelo do estruturalismo sendo ling¨´ uıstico. a primeira vista. A a e mos de explica¸˜o causai. voltaremos a isso. monogamia. Mais precisamente. e sim do sistema que ignoram. o objeto cient´ ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o. o pensamento estrutural nos mostra que a extraa ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´ a co ıricas s´ se torna intelig´ a partir do o ıvel momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de esu trutura¸oes poss´ c˜ ıveis dos materiais culturais que encontramos. praticamente infinitas. conv´m colocar-se ao n´ c˜ a e ıvel n˜o mais da a palavra e sim da l´ ıngua. op˜e-se a inteligibilidade estrutural. o filho. diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos. Ou e o seja. agnosticismo. o sentido de um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras o c˜ ` da l´ ıngua ou do que for an´logo a esta. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pac˜ c recem. Ora. Da mesma forma. o c˜ 3) Ruptura com o atomismo. sororato.ˆ 108CAP´ ITULO 10. uni˜o livre. isto ´. da hist´ria consciente a o ´ do que fazem os homens. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: cessariamente gen´tico. estas c˜ s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura. o parentesco ´ uma linguagem. E toda a diferen¸a c entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de L´vi-Strauss. . da e a percep¸ao espontˆnea. atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza. ate´ ısmo. a *** Assim. inteligibilidade ca o combinat´ria de uma institui¸ao. tentar e e e ` an´lise dos processos em tercompreender o presente atrav´s do passado. de um relato. casamento por rapto. finalmente. um n´mero u limitado de invariantes. de um comportamento.). Para este. a 4) Ruptura. muito menos ao n´ dos sentimentos ıvel . ”Para alcan¸ar o real. a qual n˜o tem a c a como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la. . N˜o se pode compree e a endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai. ` a uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto e c˜ que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes. explicar ´ procurar uma anterioridade. Para isso. . ´ prec e ciso primeiro repudiar o vivido”. Para L´vi-Strauss. o tio materno e a ıvel em uma sociedade matrilinear. e e e Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. Mas oscilam sempre entre alguns grupos: comunismo sexual. com o empirismo. n˜o mais. mante´ ısmo. polite´ ısmo.

escreve L´vi-Strauss. a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que e exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´ c˜ a ıveis: • ao n´ ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco). S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio: a o ”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o. cada reparti¸˜o das cartas resulta de ca ca uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores. que. que ´ a pr´pria cultura emergindo da c˜ c˜ e o natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto ´ a nada. palavras e bens sendo termos que se trocam. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas. e se d´ independentemente ca a da vontade de cada um. regidas por regras de troca an´logas ıvel co a as leis sint´ticas da l´ ` a ıngua. reorganiza incessantemente estes mesmos materiais. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele e o a – nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es a co ”As pr´prias mulheres”. de palavras e (ling¨´ uıstica). fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”.2 c˜ • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza dos parceiros 2 . Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra. como cada jogador. embora n˜o possam. a a e E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca. ”s˜o tratadas como signos dos quais se o e a abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos. Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a a c˜ c e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o a ca da ling¨´ uıstica).109 ´ que podem animar os diferentes membros da fam´ ılia. mulheres. permitem e a compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutua ral. estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma ´ fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca). ca ”Em um caleidosc´pio. de bens (economia). informa¸oes que se comunicam. interpreta nos termos dc v´rios sistemas. Fm segundo lugar. a linguagem ou a economia. e a a cartas que n˜o inventou. Quando se estuda o parentesco. mas que co a cada sociedade. al´m da contingˆncia dos materiais e e programados. ou regras de uma t´tica. jogadores diferentes a ca n˜o fornecer˜o a mesma partida. compelidos tamb´m a a a e pelas regras. E preciso colocar-se no n´ das rela¸˜es entre estes termos. com a mesma distribui¸˜o. a que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo. diferentes dc uma sociedade para outra. j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria a a e o e da civiliza¸˜o. ao sentar ` mesa. E sabe-se bem que. ao n´ de e ıvel um inconsciente estrutural. a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ noo ca e a vos resultados. isto ´. Mais precisamente. que ´ de serem comunicados”.

de outro.ˆ 110CAP´ ITULO 10. como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas e a que acabaram de ser jogadas. compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais. Ora. Ao comentar o pensamento a de L´vi-Strauss. isto ´. Ou seja. e L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ precie a a a samente dar conta dela – nem a hist´ria. considera que para compreender o movimento das sociedades ´ e preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria. ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos. um olhar que conv´m o e qualificar de est´tico. estendendo e e e no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo. com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo. o pr´prio dea ` c˜ o senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para o a de girar. Mas. 3) finalmente.” a Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois a textos: 1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos. a hist´ria ´ um jogo no qual o o e a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas. a e mais ainda as regras das partidas jog´veis. no xadrez. pois e a a u s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem a e as atividades inconscientes do esp´ ırito”. sobre o que percebe. podem ser qualificados o de invariantes. a ıvel e o Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma vere o a dade. . c Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como e ”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ouco tra”. ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado. E. da explora¸ao e a u c˜ restrita das possibilidades te´ricas”. de um lado desconfia de um o ”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”. pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado. e u e que. no e o caso do autor de Tristes Tr´picos. as maneie ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura para outra. 2) as diferentes estrutura¸oes poss´ c˜ ıveis destes materiais (isto ´. Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e e a a do jogo de xadrez. qualquer posi¸ao do jogo pode ser c˜ compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo c s˜o praticamente nulas.

enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades e que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas. a .111 L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades ocie a dentais ´ hoje desastroso.

A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: .ˆ 112CAP´ ITULO 10.

mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero u de conte´dos materiais (os mitos. de fato. simb´lica.Cap´ ıtulo 11 A Antropologia Dinˆmica: a A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das culc turas umas em rela¸ao `s outras. ligados tanto ao c dinamismo interno que ´ caracter´ e ıstico de toda sociedade. uma perspectiva muito pr´xima da anc˜ o terior. Diferente. faz aparecer. a e c˜ a ca do seu ponto de vista conservadora. como acabamos de ver. quanto as rela¸˜es ` co que mantˆm necessariamente as sociedades entre si. ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e integradas. c˜ e e de sociedades (”primitivas”. em proveito do estudo dos processos de mudan¸a. est˜o animadas por uma abordagem claramente antia a 113 . Pratio camente. os ritos) e de estruturas formais (a espeu cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s o e das l´ ınguas). mas tamb´m de L´vi-Strauss. porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ o c˜ ıveis do social dentro de uma determinada cultura. uma identidade formal (um inconsciente universal) informando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. notadamente atrav´s de o e sua reivindica¸ao antietnocentrista. A antropologia estrutural. e O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia e que qualificamos aqui de dinˆmica. cultural) e que conhecem. acabamos de distinguir. e sobre a unidade de cada uma delas. uma renova¸˜o durante os anos 50. o a Pr´ximo. O ultimo p´lo u ´ o do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece a o como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica. porque opera uma ruptura total com a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim. que pode ser encontrada dentro dos quatro p´los de pesquisa que. por sua vez. todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir o dos anos 30 (a antropologia social. para o muitas. com o impulso particularmente ca da an´lise estrutural. A c˜ a antropologia que qualificamos de simb´lica abre. para maior clareza. ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o.

114 ˆ CAP´ ITULO 11. ”pr´ximas do grau zero de temperao e o tura hist´rica”. menos em realizar ele pr´prio uma c˜ o o obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de arte (de Malinowski a L´vi-Strauss. e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao. existissem dentro de um c˜ quadro econˆmico e geogr´fico mundial. unico objeto da ”ciˆncia”(a u ´ e integridade. devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: evolucionista. o ca Pois as sociedades emp´ ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado a o e e n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis. c˜ o No entanto. s´ ´ poss´ porque se e o oe ıvel consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro o te´rico que funciona. o a c˜ dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades o ocidentais. e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias ca e da rea¸˜o com o colonialismo). e ignorassem tudo das contradi¸oes. chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. Essa separa¸ao artificial de um objeto que ca c˜ poderia ser apreendido em estado puro. toda . o c˜ por isso mesmo. como diz L´vi-Strauss. fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos. Mas ent˜o. ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que e e o um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. pois estaria cm si ainda puro de qualquer esc´ria da modernidade. c c˜ Ora. somos ca c levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar a –um pouco como nesses filmes magn´ ıficos sobre os ´ ındios da Amazˆnia ou o os abor´ ıgines da Austr´lia. e fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais. e de um contexto (os grandes acontecimentos o mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio. essa preoa c˜ e cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade. em muitos aspectos. em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e a tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens. ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo e o e XX. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo a e passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina. passando por Griaule e Margaret Mead). um n´cleo considerado essencial. E dissocia-se. ficticiamente ara a a rancadas da hist´ria. estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam preservar uma arte de viver). tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferenu cial. as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram o o h´ muito tempo o edif´ a ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar o em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais. A partir de u o a uma cr´ ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo. como uma oculta¸˜o da realidade. Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas como im´veis ou. o c˜ pegando apenas um exemplo. nas quais.

’. esta c n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identia e c˜ dade que se caracteriza por um estado de equil´ ıbrio e harmonia. a ecologia. as institui¸˜es pol´ co ıticas. e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo. Desroclic. que a e o n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que pera ` co e e mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade.. e do qual encontramos uma das mais importantes realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980). pois esta e a c ´ co-extensiva ao pr´prio social. particularmente forte nos Estados Unidos.115 sua abordagem consiste. essencial para L´vi-Strauss. Seria conveniente. devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos e c a ca etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´ o ıs ca ıtico-cosmol´gicos. em primeiro lugar. que evoluem dentro de per´ o ıodos sucessivos.) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a preferirem a terminologia de ”sociologia”. tal tendˆncia a a e ´ provavelmente mais forte na fran¸a. a religi˜o) estreitamente imbricadas. ao esquecimento..1 Esse neo-evolucionismo. ca N˜o ´ evidentemente poss´ a e ıvel. falar a dos trabalhos de Max Gluckman (1966). conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social. mas a o a de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ ıveis do social (a tecnologia. formando o que o a pr´prio Morgan chama de ”estruturas”. durante os ultimos 25 anos. por exemplo. de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966). que notadamente renovaram. pela maioria ca e a dos pesquisadores. de Jacques Bergue (1964). o uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan. em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a. da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o ca u o ca marxista. desaparecimento que pode levar a recusa de ` uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente: ca e a da antropologia e da sociologia. Ou seja. a fam´ ılia. dentro do quadro limita do desse trabalho. se tornar um dos pontos e o centrais da an´lise do social. ca c u Balandier. at´ recentemente. durante os anos 50. Para eles.2 1 . dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antropologia que qualificamos de dinˆmica. e deve. e. insiste notadamente c˜ sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica. ou ainda. Thomas. Disso decorre o a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. portanto. ´ claro. sobre e a e ca a a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo. dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica.tre as ”sociedades c˜ e frias”e as ”sociedades quentes”. Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o e ca fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata. Este realiza. a ´rea ´ a Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia. A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desaa ue e parecimento da oposi¸ao. mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas. e e e a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis. Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente a e a que nasceu nos Estados Unidos. j´ instaurada por Morgan a a h´ um s´culo. com o impulso de Leslie White (1959). relegada at´ ent˜o.

pelo contr´rio. a e simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele a e absolutamente fict´ ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo. os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o). Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio obc o jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. P Rey (1971).116 ˆ CAP´ ITULO 11. em uma perspectiva dinˆmica (1970). P. que toda sociedade ´ ”problem´tica”.3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente o a nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide. na mesma ´poca e em muitos aspectos. e sobretudo em ”acultura¸ao”. a 3 Cf. renunciando a ` atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobria e and. a c˜ Considera. na realidade. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: da antropologia econˆmica. que o levar´ a c a empreender. Mas a compara¸˜o entre Grica aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento a ı. Por outro lado. totalmente c˜ a ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. Mas os conceitos que s˜o ent˜o utio a a lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a. a E o mesmo se d´. Terray (1969). para a reflex˜o a e a de Margaret Mead. antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. mostrado que o complexo n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam. ”choques culturais”. da a e a mesma forma que Griaule havia. E. mas tamb´m e os mission´rios. concebida por ele como quase imut´vel. c˜ Uma das preocupa¸oes de Balandier. por sua vez. pois toa ca dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador. s˜o c a sempre conceitos neutros. Conv´m lembrar o e e que. c˜ c˜ que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”. caracter´ ıstico apenas das nossas sociedades. Fala-se em ”contatos culturais”. Cl. de uma tradi¸˜o ancestral. envolve-se. quase sempre sistematicamente ocultada c˜ ca na antropologia cl´ssica. terc˜ minologia que far´ sucesso. no final de sua vida. que implica a realidade de ´ ca uma rela¸ao social de domina¸˜o. Malinowski. enquanto ca a o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social. ´ mostrar que conv´m interessar-se para toe e dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´ a ıgenas”. Ou seja. desde a publica¸˜o de suas primeiras c˜ ca ´ obras sobre a Africa negra (1955). M. dissimulando uma realidade colonial. Meillassoux (1964). Godelier (1973) . Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples a o c˜ deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”. no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia ca da modernidade. assim como para os trabalhos da antropologia cultural que se desenvolve durante o p´s-guerra. como dissemos. ca Balandier nos prop˜e uma cr´ o ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social.

sobre a interpenetra¸ao das o c˜ civiliza¸oes. se essa antropologia reorienta. o c˜ quanto a isso. tamb´m insiste. enfatizando a realidade conflitual das sio tua¸oes de dependˆncia (econˆmica. e depois. essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o a de Balandier). tecnol´gica. nas metr´poles congolesas. al´m dos trabalhos de Balandier citados acima. 1955). F I. inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia. c˜ c˜ Todas essas pesquisas. no horizonte da antropologia cultural. W E. que ´ dar conta das varia¸oes. Uma de suas e c˜ e c maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do deslocaco e a mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos. sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica e c a a pr´pria de uma determinada cultura. mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma u das outras. mas inicia uma a ca verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa. .). que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas. da descoloniza¸ao ca c˜ se torna parte integrante do campo que se deve estudar. mas as respostas as mudan¸as tais como se ela` c boram.awrence (I974V e u . Paul Mercier (1954). lugar privilegiado de observa¸˜o c˜ ca dos conflitos. tanto quanto Balandier.4 ou tais como estou observando neste moa mento em Fortaleza. seria no entanto irris´rio pensar que a abole. como vimos acima. e de ter aberto novos luco o gares de investiga¸ao: a cidade em especial. que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da e etnologia francesa. n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos a colonizados”. Esse processo. de um lado. leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua pr´pria sociedade. enquanto o processo da coloniza¸˜o. Lantemari (1962). sob a forma de cultos sincr´ticos. Correlativamente. das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf. no Nordeste do Brasil. ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as e a c estruturais em andamento. notadamente das mudan¸as. . militar. Jean-Marie Gibbal (1974) ). isto ´. tamb´m V. ela n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo. a o 4 Cf. Finalmente. por exemplo. Muito diferente cm primeiro lugar. ling¨´ c˜ e o o uıstica. Ademais. sob a forma de movimentos o messiˆnicos (Balandier. ou outros semelhantes. de outro. Mas Bastide.117 A partir disso. ”complexifica”e ”problematiza”a antropologia cl´ssica. e A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito dio ferente da anterior. ca a Dito isso. Oscar Lewis e (1963). M¨hlmann (1968). porque a abordagem desse autor inscreve-se claramente. procura incluir os diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo.

118 ˆ CAP´ ITULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: .

Parte III A Especificidade Da Pr´tica a Antropol´gica o 119 .

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1977) – n˜o consiste o a apenas em coletar. escreve Roger Baso tide (1978). Pois a a o e etnografia. e que alguns ainda e hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J. isto ´. por exemplo. a c˜ o prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento e c˜ abstrato e especulativo. Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). ”foi-me o e preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”. Para poder compreender o candombl´. mas em impregnar-se dos temas obsessionais de c˜ uma sociedade. a cip´s vivos”. estudar os homens ` maneira do botˆnico examia a a nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo. de fato. Se. Favret. O etn´grafo ´ aquele que u o e deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que ese tuda. de suas ang´stias. an´loga a organiza¸˜es vegetais. quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas. atrav´s de um m´todo estritamente indutivo. que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta e a c˜ dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana. s´ se pode fazˆ-lo a o a o e comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de o e maneira dur´vel (Griaule. de seus ideais. c˜ N˜o se pode. a que todo pesquisador considera hoje o como incontorn´vel. a co o 121 . que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que e alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda s´ ıntese ´ sempre prematura.Cap´ ıtulo 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o a prioridade dada ` experiˆncia pessoal a e do ”campo” A abordagem antropol´gica de base. a o mais ainda. a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas. acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e. uma grande e e quantidade de informa¸oes. ele pr´prio co o deve rezar com seus h´spedes.

por´m. como o o etn´logo. ser o caso do etn´logo. e termine seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses ´ ındios do Brasil. pelo contr´rio. o observador deve ficar com a ultima palavra. tem algo de errante. bem como a utiliza¸ao de protococ˜ c˜ los r´ ıgidos. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das sociedades que estuda. abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa). de quem se considera um ”aluno”. constituem informa¸˜es co . n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em cono a e seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue. Com a diferen¸a. pelo menos em suas a a principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´ e a a ısticas a distinguem da pr´tica a etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o. o autor da Antropologia Estrutural comece sua e exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”. Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores a e sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta. o c e c por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas). pelo contr´rio. parece ser capaz de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. e 2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. ´ significativo que. em sua Li¸˜o Inaugue ca ral no Coll`ge de France.122 ´ CAP´ ITULO 12. A busca etnogr´fica. os erros cometidos no campo. mas e ca que. em co-colar-se o mais o o perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso. e 3) O etn´logo evita. e ”deca sencarnado”. consistindo e e a em uma verdadeira acultura¸ao invertida. ´ a e que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da a o a do historiador ou do soci´logo. a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total. uma ue programa¸ao estrita de sua pesquisa. de que este se esfor¸a. ´ ca c˜ a e claro. As tena a tativas abordadas. se procura. e algo frio. Nunca encontra testemunhas vivas. dar conta o mais cientificamente poss´ o ıvel da alteridade a qual ´ ` e confrontado. Objetar-se-´ que pode. arriscando-se a ıvel e perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso a dessa experiˆncia. UMA RUPTURA METODOLOGICA: Assim. e cono ´ tra o observador. O historiador. na qual. Quanto a isso. o a e ca 1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto. longe de compreender c˜ uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim). Recolhe e analisa os testemunhos. ”contra o te´rico. o ind´ ıgena”. de fato. proclame c˜ que. como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. que n˜o ca a a ´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa. devo c˜ interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ a co o ıduos atribuem a seus comportamentos. Quanto ` pr´tica da sociologia. de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´ a ıcios cient´ ıficos.

o evento que ocorre quando n˜o u a esper´vamos. a N˜o nos enganemos. Pois a o e c˜ a pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica. quanto `s virtudes do campo. por´m. e . um grande n´mero de temporadas passadas em u contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´ a a ipso jacto em um etn´logo. Da mesma forma a e a que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´ c ıtica n˜o garante que vocˆ possa a e um dia se tornar psicanalista. isto ´. Como tamb´m o encontro que e surge freq¨entemente com o imprevisto. a o o a e com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal.123 que o pesquisador deve levar em conta. Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias.

UMA RUPTURA METODOLOGICA: .124 ´ CAP´ ITULO 12.

por exemplo. a n˜o ser em se tratando (para o o a historiador) da vida dos ”grandes homens”. quando estudam as associa¸oes volunt´rias.Cap´ ıtulo 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano A hist´ria. no caso. bem como as formas de atividades institu´ ` ıdas. como as associa¸oes religiosas. na realidade. suscet´ ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ ıtica: os partidos. e a Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciˆncias sociais. para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidie Trata-se evidentemente menos. Assim. e os batiza de ”hist´ricos”. e sobretudo as formas menos ore c˜ ganizadas de socialidade. a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socieo a a a ` dade global. da ciˆncia. do que de uma de suas vestimentas e ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas o e e a qualquer preocupa¸˜o cient´ ca ıfica. Os fenˆmenos sociais n˜o escrio a tos. n˜o formalizados. que privilegia dessa a o vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais. a vida cotidiana dos homens c˜ torna-se uma esp´cie de res´ e ıduo irris´rio. consciˆncia e e raz˜o. a 1 125 . . n˜o institucionalizados (isto ´. em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia co a num´rica. .acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar. a partir da representa¸˜o o ca mestra do . os sindicatos. Nessas condi¸oes. A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda o c˜ especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade cia ´ ent´ ıfica.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica. privilegiam nitidamente as c˜ a grandes. a maior a a e parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente e a a do ”folclore”.

E. conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as e a o de direito. As doutrinas. para a fam´ tradicional (e n˜o a ılia a para a fam´ desmembrada). as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelnica co o ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios. dentro dessas sociedades. a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais ca habituais e. adeptos de seitas religiosas.) s˜o. se n˜o encona tra objetos emp´ ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia cl´ssica. teol´gico. acrescentaremos. Em suma. a o nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta: c˜ o ele vai em primeiro lugar procurar. Se. . as constru¸oes intelectuais. 2 o Dito isso. mais f´teis: os gestos. que permitem definir as socieu e dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o. 2 . . como escreve L´vi-Strauss (1958). cient´ o o ıfico. para as popula¸oes co c˜ desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). o etn´logo tende a estudar as formas de comportao mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da c˜ a sociedade global ` qual pertence. em aparˆncia. a percep¸ao dos ru´ a c˜ ıdos da cidade e dos ru´ ıdos dos campos. e. E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensao c mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´ a a a ıdas de m´ltiplos u subgrupos extremamente diversificados. os e u o h´bitos alimentares. Assim. . Embora o objeto emp´ ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto a pela coloniza¸˜o. feiticeiros do Berry. ´ um fato. de fato. UMA INVERSAO TEMATICA: ano.as produ¸˜es do pensamento c˜ co erudito (filos´fico. para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o ılia a para as grandes organiza¸˜es sindicais). ”interessa-se sobretudo por o e aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m. seus objetos a de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da socic˜ a edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses bret˜es. que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos a o a ca negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos. nos a quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no c˜ a extremo.as express˜es corporais. e nos quais v´rias ideologias est˜o a a em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. ”Se e o etn´logo”. voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade a e a camponesa (e n˜o para a cidade industrial). . e higiene. n˜o h´. . por aquilo que n˜o a e e a Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do proca e a gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ ıgenas – parece claramente na ´rea a n˜o ex´tica da antropologia americana. em seguida. propriamente nenhum a a a territ´rio da etnologia. de direito.126 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte: e e como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas. nessa perspectiva. cona sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas.

isto ´. ´ e e pass´ de ser aplicado a toda realidade social. ıdo. Sob a influˆncia da escola dos e Annales. pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e a o que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicioa nal”das sociedades estudadas). uma hist´ria das mentalidades e sensibilidao o e o des. que as influenciou (direta ou indiretamente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de c˜ que n˜o deve haver. absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas. e a reabilitar todo esse ”recalcado”da a cultura material que ´. o h´bitat popular. portanto. ´ que grande parte da e renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente c˜ e a a sua abertura para nossa disciplina. um olhar. Mas ´ sobretudo na hist´ria. deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e e c˜ da etnologia sobre as bases emp´ ıricas das ”sociedades industriais”e das ”sociedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes dentro das primeiras). dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos. u do Estado para o parentesco.127 ´ formalizado e institucionalizado). a hist´ria contemporˆnea. est´ passando do estudo dos pal´cios. Assim. finalmente. a ´ por exemplo. sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus a m´ ınimos detalhes. e sim das multid˜es anˆnimas”. ”n˜o ´ tanto porque os povos que ese a e tuda s˜o incapazes de escrever. na pr´tica cient´ a a ıfica. uma hist´ria da cotidianidade material. Conv´m. A aro o quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma c apenas uma parte ´ ınfima do h´bitat. ao meu ver. mas porque aquilo que o interesse ´ diferente a e de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”. um enfoque particular. no caso. ao meu ver. tornou-se uma o a c hist´ria antropol´gica. e sim uma abordagem. Trata-se de ir do p´blico para o privado. Um deslocamento absoe a lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia. como escreve Ean Delumeau. o e dos grandes eventos para a vida cotidiana. ıvel O que me parece importante sublinhar. o . templos e t´mulos impea a u riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde. pelo menos na Fran¸a. objeto tabu. as ciˆncias das e religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos o a ıvel doutores. que assistimos a um deslocamento e o radical do campo da curiosidade.

128 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. UMA INVERSAO TEMATICA: .

mesmo que n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. um outro: os sistec˜ e o mas de produ¸ao e troca de bens. Como escreve Mauss (1960). as ciˆncias jur´ c˜ e ıdicas. As ciˆncias pol´ e o a e ıticas se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes a c˜ c˜ que regem as rela¸oes do poder. social. ´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade e c˜ social em movimento. um perito de tal ou tal ´rea e a particular (econˆmica. o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dio mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico. vivido. O antrop´logo n˜o e o a pode. pol´ o o ıtico.). demogr´fica. e ´ E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentala mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia. de fato.) sem correr o risco de abolir o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica. s´ adquire significa¸ao antroo o c˜ pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e o ` dentro da qual constitui um sistema complexo. De um a lado. a o pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses e o objetos. No campo. . isto ´. . . ”o homem ´ indivis´ e ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”. jur´ o a ıdica. psicol´gico. o direito. De outro. as ciˆncias econˆmicas. anotado. cultural. se tornar um especialista.Cap´ ıtulo 14 Uma Exigˆncia: e o estudo da totalidade Uma das caracter´ ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em o e c levar tudo em conta. as ciˆncias e 129 . tudo deve ser observado. A especializa¸˜o cient´ ca ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que e a o para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas. isto ´. de estar atenta para que nada lhe tenha ese capado. .

as ciˆncias religiosas. dentro do espa¸o da cultura c cient´ ıfica (e n˜o da cultura humanista. e em especial do cap´ o ıtulo intitulado ”Da pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado” ca e 1 .1 o e a Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta. um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que a toda pr´tica hiperespecializada. a e o O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude e a e extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de cair no vazio. . mas pouco reflexiva. Assim. ser o especialista de uma unica ´rea. os processos cognitivos e afetivos. . . a a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos o a o particulares: a delinq¨ˆncia. das condutas suicidas. o div´rcio. est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria a ` a o pr´tica etnogr´fica. acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia o o estudar. O parcelamento disciplinar comporta. . a partir de um c˜ fenˆmeno concreto singular. 2) tentar. a leitura a da obra de um soci´logo. por exemplo. a respeito desse aspecto. comparada a outros modos de coleta de informa¸oes: a a c˜ N˜o posso deixar de recomendar particularmente. Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos c a o o parciais. em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade). e ue o o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia dos lazeres. ´ claro. no horizonte cient´ ıfico contemporˆneo. A pr´pria antropologia.130 ˆ CAP´ ITULO 14. costurar de novo os retalhos recortados. a antropologia me parece ser o ant´ ıdoto n˜o filos´fico de uma a o concep¸ao tayloriana da pesquisa. . a criminalidade. de fato. abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta e c˜ ca a sua abordagem. dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao. Edgar Morin (1974). um risco essencial: o de um desmantelamento do a homem em produtor. ´ freq¨entemente levada a participar desse o e e u processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano. . voltaremos a isso. o alcoolismo. atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembraa e ca mento que imp˜e ao real. e c˜ uma cientificidade extremamente positiva. por estar baseada no parcelamento de territ´rios e. que consiste em: 1) cumprir sempre a c˜ mesma tarefa. de uma ma´ a neira pragm´tica. cidad˜o. . parente. do multidimensionamento de seus aspectos e da o totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconscic˜ ente. isto ´. consumidor. . de que se ca procura. ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda. sobre uma forma o de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo. os siso e temas de cren¸a. Mas permanece. Pessoalmente. como pode ser a cultura filos´fica ou a o liter´ria). do esporte. a meu ver. UMA EXIGENCIA: psicol´gicas. modificar.

podendo tornar-se. no mundo contemporˆneo. o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. o marxismo e a antropologia. o a meu ver. de fazer surgir um questionamento m´tuo. jun¸ao hist´rica absolutamente singular c˜ o unica at´ na hist´ria da humanidade. para n´s. antagonista da reflex˜o. por mais apero e a fei¸oados que sejam. mas a observa¸˜o direta de ca ´ suas produ¸oes concretas). mais surpreendidos. enquanto antrop´logos. a ciˆncia e a religi˜o. e e a e Se olharmos de mais perto. E a raz˜o pela qual somos provaca ` ` c a velmente. ıcio . c˜ ` ´ em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o). c˜ a e podendo at´. que nossa pr´pria cultura realizou entre ´ e o o a ciˆncia e a moral. e. mais tocados do que outros. sup˜e tamb´m. Tal preoc u cupa¸ao diz respeito tamb´m. Como escreve L´vi-Strauss. e que se d˜o uma ideologia a a mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social. mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espea cula¸ao sobre as categorias do esp´ c˜ ırito humano. como mostrou Husserl. chegar a impedir o pr´prio e o exerc´ do pensamento. de fato. esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen´ a e samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos asu pectos do homem. E a raz˜o c˜ a a pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecio aliza¸ao. o A pr´tica da antropologia finalmente. mais uma vez. paradoxalmente. al´m de todos os question´rios. pela dis-. e nos quais as atividades s˜o pouco especializadas. hoje. O projeto antropol´gico retoma. capazes de responder a essa defini¸˜o: a a ca o islamismo. a ciˆncia e a filosofia. apenas trˆs formas de pensae e mento s˜o. um o e grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender. a natureza das sociedades nas c˜ e ` quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos.131 trata-se. como sugere hoje em dia Laborit. baseada sobre uma extrema proxia midade da realidade social estudada. em primeiro o lugar.

132 ˆ CAP´ ITULO 14. UMA EXIGENCIA: .

a ´ praticada. Pois. Cada um o j´ notou que. se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´ e o ılia. Essa experiˆncia de arrancamento de a a e si pr´prio age. mas que n˜o suspeit´vamos. quando uma crian¸a nasce. dissimulada ou delibee rada. da inaugura¸ao de o c˜ um edif´ ıcio. notadamente. na realidade. os parentes e amigos da fam´ a c ılia endere¸am seus cumprimentos ao novo pai. a a a e c implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte c˜ ca ` o observador. Esse costume aparentemente c insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade. isto ´. Participando efetivamente a a o do nascimento da crian¸a. de etnocentrismo. nas sociedades tradicionais. nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado o e da paternidade social). pelo menos uma vez na vida. por exemplo. Todos n´s participamos. uma ruptura com qualquer forma. na Africa. at´ o in´ do s´culo. O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de doua 133 . esse cerimonial. e c notadamente na Borgonha. con` o ca c sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´ ıcio ca ´ ıritos. como um verdadeiro revelador de si. tamb´m bastante e insignificante. Tudo se passa como se a e ıcio e parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos ıvel a as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que. Ora.Cap´ ıtulo 15 Uma Abordagem: a an´lise comparativa a Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a. apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo a na nossa. e adquire com isso um estatuto de perfeito genitor. amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova casa ou em um novo apartamento. e que se encontrava tamb´m na Fran¸a. o marido recupera seus direitos de paternidade c (nas sociedades.

ou at´ de o e um segmento. ca a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´ a ırica. temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de o a e antrop´logos. de um aspecto desta cultura. conv´m lembrar algue mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina. praticamente. o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o c e a que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo sovi´tico. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular. atrav´s de monografias. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que e o c˜ co operam os pesquisadores eruditos desse per´ ıodo v˜o aparecendo aos poucos a como t˜o abusivas que. Mas antes de examinar os e a problemas que coloca e as dificuldades que encontra. que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em c˜ outras sociedades. dizia ele. toda a etnologia posterior (a ruptura a epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´ o a adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. o o 1ˆ . UMA ABORDAGEM: torado. Confrontando o essencialmente costumes (cf. os Trobriandeses. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si. mas quase nunca do estudo dos processos de variabilidade da cultura. deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es. c˜ o A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos colhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. mas e o a de mostrar. Com o funcionalismo. como se realiza a integra¸˜o das difee ca 2 ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade. no caso. n˜o ´ de ana c co a e trop´logos. procura reconstituir uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades) ca e na ausˆncia de documentos hist´ricos.1 Poder´ ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de crise dos adolescentes americanos. 2 O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos o o britˆnicos. A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia o – ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´. o que aconteceu a Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo ca ´ de sociedade”. Ora. mas tamb´m te´rica. escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre o a Oceania”. especialmente Frazer). ap´s ter trabalhado durante mais de 20 o ´ ´ anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa. na melhor das hip´teses de alo gumas variedades de culturas.134 CAP´ ITULO 15. c c˜ E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos e a o estudo de duas sociedades a fim de evitar. e sim de soci´logos.

Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´. os ritos religiosos dos bantos e os dos o ´ ındios da Amazˆnia? o Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira a a e abordagem do antrop´logo. para serem estudadas antropologicamente. a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de c˜ c˜ u vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas a e ` c˜ diferentes. Vale a o co dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel. Como ` a conceber ao mesmo tempo. de uma area geogr´fica para ´ a outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo. elaborado por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´. O pr´prio empreendie c˜ e o mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma o ca humanidade ”plural”. o postulado a c da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreeno dimento da compara¸ao. t˜o caracter´ o c˜ a ıstica de nossa disciplina. por uma extens˜o no espa¸o –. na realidade. mais problemas do que solu¸˜es. ao meu c˜ e ver. O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files. preferencialmente. Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perteno a cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. Este deve passar pelo caminho lento e trabao lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da c˜ a ` a l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). as institui¸˜es pol´ co ıticas dos habitantes da Patagˆnia e as dos groen-landeses. Antes de see a rem confrontados uns aos outros. devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exauso c˜ tividade. como na ´poca de Mora c˜ e gan. s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia a c˜ a ao antrop´logo: mas. quando n˜o imposs´ a ıvel. a esse respeito. Claro. co Esses exemplos mostram que. essencial. o de confrontar os come portamentos humanos os mais diversificados. sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma abordagem que se quer cient´ ıfica. e n˜o mais o a apenas etnograficamente. repree sentativo. os materiais recolhidos devem ser meti- . entre a tenta¸˜o de um comparatismo sisca tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram a prematuro. poo o der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). Mas esse programa. Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos ıvel e institui¸oes humanos. essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo c˜ n´mero de invariantes. o caminho ´ dos mais estreitos.135 Se o projeto da antropologia cultural ´. Em seguida apenas. mas. coloca. qualquer empreendimento de compara¸ao c˜ (´ a posi¸ao de Boas). pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸ao u e c˜ que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao. de fato.

se come¸armos comparando os costumes de c tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia. procura-se descobrir ca progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”. deixaremos escapar o essencial. da religi˜o. Ele o a e n˜o procura atingir a natureza da arte. um outro comportamento. n˜o mais isolaa c˜ a dos de seus contextos. um outro costume. quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar tautologias”. e aquilo que ´ finalmente o e comparado ´ o sistema das diferen¸as. que e pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra institui¸ao. 5 e c e ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´ a e a ıveis. Assim o evolucionismo o o comparava o que via (ou. supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. chegaremos apenas a ca e evidenciar algumas analogias. confrontadas umas com as outras. n˜o a e a a deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. o que outros se encarregavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”. as ”universalia dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias ca l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. n˜o s˜o sempre as mesmas. e depois. nem a a mesmo. c˜ o o o a partir destes fatos. e pensaremos estar formulando as leis da natureza a u social. a ca A partir de uma descri¸ao (etnografia). comportamentos. o a a nem est˜o sempre em mesmo n´mero. escreve L´vi-Strauss (1973). e sim fazendo parte destes. isto ´. tal costume. de uma an´lise (etnoloc˜ a gia) de tal institui¸˜o. e 3 .136 CAP´ ITULO 15. Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas. em particular. enquanto hip´teses operat´rias. escreve L´vi-Strauss (1973). N˜o ` o a utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. Mas ent˜o. e 4 O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. Disso decorrem as o analogias que n˜o faltaram entre os abor´ a ıgines australianos e os habitantes 3 da Europa na Idade da Pedra. com o que sabia c˜ (ou melhor. dos conjuntos estruturados. O que se e a compara hoje s˜o costumes. institui¸oes. s˜o recolhidas c a a pelo etn´logo. como diz Kroeber. Ou seja. gra¸as `s quais descobrimos propriedades co c a similares em sistemas aparentemente diferentes”. Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para a definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes. tal comportamento. Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado. Pois. nem em geral e. na maior parte das vezes. do parentesco. os termos da c˜ compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ c˜ a ıricos em si. s˜o sistemas de rela¸˜o. UMA ABORDAGEM: culosamente criticados. e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema a a e ıvel a ca isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es. 5 ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido o e co e por uma coes˜o interna.4 mas sistemas de rela¸oes que o pesquisador constr´i.

praticamente irreconhec´ e ıvel. quanto a si. Seria ingˆnuo. Sustentada a a e pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si). que nunca ´ um produto a o e acabado. a antroe a pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973). o o Como escreve L´vi-Strauss. um c s´culo depois. n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si. consiste a na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. Retomemos rapidamente aqui. alguns exemplos estudados anteriormente.Cap´ ıtulo 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o c˜ ca Social Do Discurso Antropol´gico o A antropologia nunca existe em estado puro. c˜ ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento. interrogar-se e agora. O que interessa a antropologia filos´fica do o s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”. classe social. o a o sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compora e tamentos dos que ela estuda em uma cultura. A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente a ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. Seu atestado de nascimento a inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. c˜ empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia a a e 137 . Seria paradoxal. isol´-la de seu pr´prio contexto. transforma-se. Conv´m. mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao. sobretudo da e parte de um antrop´logo. pois o estudo dos textos c˜ c˜ etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre o a do observado. dentro dessa nova perspectiva. portanto. Em seguida. e permitir fundar um novo ”conc˜ trato social”. e se torna. ”se a sociedade est´ na antropologia. e em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem. ´ que estas podem dar ao Ocie e dente li¸oes sobre a natureza das sociedades. na¸ao. O funcionalismo. Estado.

ao contr´rio do evolucionismo. Mas est´. cultural. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas a a coloniais. na realidade. ca e A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente a ca a a ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o. em conseq¨ˆncia das distor¸oes ue c˜ perceptivas atribu´ ıdas ` nossa rela¸ao com o social. Foucault – que. o a e estudar objetos novos. comparando-a a com a antropologia britˆnica ou francesa. Permitem coloa car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca. Al´m disso. foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos. co e a essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas. pol´ o ıtica. o e Seria conveniente. Al´m disso. longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´ a ıfico. n˜o s˜o ciˆncias”. variar as perspectivas. e socialmente neutras. . que as justificava. seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu o ` c˜ surgimento e desenvolvimento. expressam diferentes formas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira te´rica. como parte integrante de seu objeto de estudo. podem pelo contr´rio. Mas estas nunca s˜o ca a hist´rica. o Isso posto. e de outras fora mas de antropologia que as combatem. Nosso pertencer e nossa implica¸ao a e a a e c˜ social. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP ¸˜ ¸˜ da cientificidade. ser considerados como um instrumento. o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– o u e co sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso. seria errˆneo cono cluir – como faz. se se tem raz˜o em insistir sobre e a o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do o o qual fala. A pr´pria c˜ o o observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa.138CAP´ ITULO 16. em detrimento do funcionac˜ mento de nossas institui¸˜es. Um ultimo exemplo nos ser´ dado ´ a pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. por exemplo. afinal. explica-se notadamente pelo fato de a que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas). O ”relativismo e cultural”. ligado ` crise hist´rica do e a a o pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. e Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que estuda. que ´ necesa a e sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade. ”as ciˆncias humanas a c˜ e s˜o falsas Ciˆncias. perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”coc˜ lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos. o o e car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia. ´ qualificado por este de ”resultado e das ciˆncias humanas”. termo forjado por Herskovitz. Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o ese tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. a meu ver.

e sim sujeitos observando outros sujeitos. de uma a e a forma estrat´gica e reivindicada) do princ´ e ıpio de totalidade tal como foi exposto acima. em sua rela¸˜o c˜ ca com seus interlocutores (o que reprime ou sublima. a e sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica. nunca observamos os comportamentos de um grupo tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fosa e c˜ sem outros. ´ parte integrante de sua pesquisa. ´ sempre. Al´m disso. Ou seja. ´ que ele corre o maior risco de c˜ e afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina. se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o. elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua imca plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo. e at´ e o ca e cria uma situa¸ao nova. Essa auto-suficiˆncia do pesquisador. ´ por sua vez eminentemente c˜ c e perturbado por essa situa¸ao. pensa ter recoo lhido fatos ”objetivos”. e at´ necess´rio. pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a o o integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o. ca o ca Se ´ poss´ e ıvel.Cap´ ıtulo 17 O Observador. a meu ver. Esquece (na realidade. Pois a antropologia ´ tamb´m c˜ e e 139 . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta. o que detesta ou gosta). Aquilo que o pesquisador vive. em compensa¸ao. devido a sua presen¸a. impens´vel dissoci´-los. parece-me. Assim uma verdadeira antropologia cie ent´ ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´ co ıficas do observador e da natureza da intera¸ao em jogo. convencido de ser ”objetivo”ao libertare se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito. distinguir aquele que observa daquele que e a ´ observado. Nunca e c˜ a a somos testemunhas objetivas observando objetos.

c˜ Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subjee o tividade do pesquisador. cac nicentrismo e cinomorfismo. freq¨entemente inconscienu tes. c˜ a a a a fim de controlar. mais precisamente. e o car´ter cient´ a a ıfico dos resultados de suas pesquisas depende disso) controle as armadilhas. a pedido do CNRS. importa muito que o etn´logo (isso faz parte da o aprendizagem de sua profiss˜o. perturbadoras ue tanto para mim quanto para meus interlocutores que. tive. a pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a o e ıvel originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de ca o c˜ . Da mesma forma. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos. Por que a esses relat´rios anˆnimos. Se ambos fazem. isso ´ realmente o m´ e ınimo que se possa exigir do antrop´logo. pelo contr´rio. com certeza. no Brau sil. o Alguns anos atr´s. crist˜os. na medida do poss´ ıvel. a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior. se ele tiver talento. a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em a a e transe. de lev´-la em conta. o que me marcou muito na ocasi˜o de o a minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos. serem ”possu´ ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais – ´ prov´vel que o gato veja no cachorro ´ ındios. de in´ repugnava-me. longe de eliminar a ıcio a natureza afetiva (mas. a a ca a a¸ucar. como todos os interlocutores. e por um regime alimentar que deve engord´-la. as conseq¨ˆncias. de tentar elucid´-la. por sua vez. africanos – do grupo. ´ porque essas condutas questionavam e a minha pr´pria cultura. da proje¸ao e do etnocentrismo.140CAP´ ITULO 17. e visando a e o que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente c˜ ca poss´ ıvel. uma pesquisa no sul a da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: clausısia o ´ tra¸ao. e particularmente do universo masculino. Ora. enquanto o cachorro. Passa por um tratamento est´tico cujo e objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´ e ıvel. e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as co adolescentes. ligada a cultura a qual perten¸o) de ` ` c minha rea¸ao. O OBSERVADOR. aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues c´ ´ a a maridos que n˜o conhecem. trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao c˜ ca casamento. como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais passa o etn´logo. veja em e seu dono uma outra ra¸a de cachorro. estava realizando. a o ıs u o espa¸o ocupado pelos esp´ c ıritos. respectivamente. e que ignoram a rela¸ao o o c˜ dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que. Se isso me surpreendeu. E a a uma esp´cie particular de gato. torradas com oleo). ou. No decorrer de um per´ ıodo variando de algumas semanas a alguns meses. pois era de fato esta que me questionava em alguns o aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje. redigidos por ”credores”. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios.

N˜o pode ser conveniente para compreender a comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es. nem mesmo na filosofia. Essa elimina¸˜o encontra sema ca pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´ ca e ıduo n˜o assimil´vel a a a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte a . c e ou. dissimulados. que o observador tenha 25 ou 70 anos. isol´-los. E foi Devereux quem. socialista ou conservador). como diz L´vi-Strauss. A perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa c˜ o o e c a e que perturba a ele pr´prio. pelo menos. que seja africano ou europeu. c˜ e sem d´vida. por que. mostrou o proveito que a etnologia podia tirar desse princ´ ıpio. e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade c˜ – possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento a ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos. essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do e homem em sua tendˆncia ortodoxa? e A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente e c˜ do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”. ´ uma fonte infinitamente fecunda de coe nhecimento. em primeiro lugar (em 1938). pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa. Ora. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos. que o levou a reintroduzir o f´ ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´ o e ca ısica. a c e ıvel a e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente. n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o e c˜ a a a a entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´ a ıfico? Paradoxalmente.141 insetos. mas que os pr´prios f´ e e o ısicos abandona´ ram h´ muito tempo. Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´ ıpio de incerteza”. funcionando em muitos ca aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja. ou pelo menos substitu´ ıvel. de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das e e ciˆncias do homem”. Heisenberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao a e c˜ que o modifica. longe de ser considerada como um obst´culo o a que seria conveniente neutralizar. Nessas condi¸oes. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´. uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar e e a e duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados. a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o c˜ a se deu atrav´s das ciˆncias humanas. que o e foi o da f´ ısica at´ o final do s´culo XIX. e sim por ine e term´dio da f´ e ısica moderna. e os observadores a est˜o ausentes ou. comum a toda abordagem cient´ ıfica. sentimentos e co valores. segundo a express˜o a de Edgar Morin. u neste caso. que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do a a sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´ c˜ o ıfica.

desde que se saiba aproveit´-lo. O OBSERVADOR. bem como do modo de conhecimento caracter´ ıstico da profiss˜o de etn´logo. a a . n˜o apenas das a o a a rea¸oes dos outros ` presen¸a deste. A an´lise. ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina vane o ` tagens cient´ ıficas consider´veis.142CAP´ ITULO 17. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO do objeto cient´ ıfico que procuramos construir. mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es c˜ a c e c˜ a co dos outros.

de Melville. ou. Equinoxiais. Viagem no Oriente. atuando como e uma metamorfose de si. de Gilles Lapouge. Os Tarahumaras. O antrop´logo. . Les Nour-ritures Terrestres. po´ticas e. de Ner-val. Typhon. como a etnologia.) conhecida sob o a nome de ”exotismo”. A`ipi. de Baudelaire. Os a Natehez. . A e ´ Viagem para Tombuctu. uma rela¸ao e c˜ – por sinal. de Conrad. de Chateaubriand. A Procura do Ouro. ”tropical”. Oviri. . . o escritor se d´ conta a (e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo: a e ´ o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo a liter´rio cl´ssico. le Cl´zio. oceˆnica. ıvel e *** Uma parte importante da literatura mant´m. algumas se enquadram nessa famosa literatura de viagem (”oriental”. mais recentemente. Boure o linguer. de Antonin Artaud. e Entre as obras que acabamos de citar. de Loti. Atala. de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao co a c˜ 143 . Aziyad´. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta a a e a e mobiliza n˜o apenas seu olhar. de Cendrars. de Cailli´. popula¸˜es projetadas. extremamente complexa – com a viagem. Descobrindo novos horizontes. Impress˜es da Africa. Os Pequenos Poemas em Prosa.Cap´ ıtulo 18 Antropologia E Literatura: O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´ e ıvel. o que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro. de Michel Butor. A Modifica¸ao. cinematogr´ficas) capazes e a de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia. ´ freq¨entemente levado a procurar formas narrae u tivas (romanescas. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem. entre a nossos contemporˆneos. mas o conjunto de seus sentidos: uma naa tureza grandiosa. Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ ıfico. Inumer´veis s˜o os esa a critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de o c˜ deslocamento. M. de J. de Gide. de Robert a c˜ Merle. de Michel Tournier. de Gauguin. A Ilha. de Roussel.

da editora Plon) nas quais se procura compreender o funcionamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´ c˜ co ıduos singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Grie aule (1966). de forma ca a a alguma. Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida.144 CAP´ ITULO 18. Os Filhos de S´nchez. ed Albert Memmi a . enquanto se interroga a sobre sua pr´pria identidade. do que para o conhecimento ane o tropol´gico. Soleil Hopi. N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal. Alice no Pa´ das Maravilhas. Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo. . de Carlos Castaneda (1982). A Viagem de Nils Olgerson. faz a experiˆncia de uma felicidade e c˜ e sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava. mas tamb´m para os etn´logos. a cole¸˜o ıcio c ca ”Terre Humaine”. de Oscar Lewis (1963). . pois o escritor freq¨ente mente sai do seu u papel – tentando ser etn´logo –. o Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente a a co e liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada. para a ca e ciˆncia antropol´gica estritamente falando. n˜o apenas para os a e o c a autores que acabamos de citar. t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus o a e pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante. A Volta ao a e Mundo em Oitenta Dias. de o Georges Balandier (1957). Miguel Strogoff. menos. geralmente a margem de suas produ¸oes cient´ c˜ ıficas. de Jean Duvignaud (1968). Chebika. . at´. Ma´ de Darcy Ribeiro (1980). Folie. Nous Avons Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977). Estou pensando nesses numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina. Femme. mas que constituem a meu ver uma contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado. e. lic c bertado das obriga¸oes da sociedade. para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusivae e e a mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. . Alguns. livros de etnologia. Fum´e. nos ensinam apenas muito subsidia e riamente a olhar para os outros. que ´ a autobiografia de um ´ e ındio pueblo. mais recentemente na Fran¸a (cf. o Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de aprene dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´. de Georges Cone e dominas. ou pelo menos e o para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta de si: isto ´. Forˆt. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie. desenvolvidas e e o de in´ nos Estados Unidos. O Pequeno Pr´ ıs ıncipe. ´ verdade. Moby Dick. L’Herbe du Diable et la Petite ıra. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ocidental. La Statue de Sei. elas s˜o muito a a diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o. de Jacques Doure e nes (1978).

e mais especificamente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries. de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )eane ´ Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou). a meu ver. por outro lado. do romance propriamente dito. dos irm˜os Taviani (1984). de Michel Leiris. La Forˆt d’Eineraude. se diz ”dividido entre um grande fervor e o desejo de fazer uma pesquisa objetiva”. de Francesco Rosi (1979). Padre Pudrone. as rela¸oes que as unem: a c˜ ”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´tica a a da etnografia. dos irm˜os Taviani (1977). no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a.. Estou pensando e` e principalmente em Victor Segalen. Estou pensando particularmente em Moi et o un Noir. n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o. Concebida dessa forma. em Les Imm´moriaux (reed. que. por si s´. Le Pays oii Rˆvent les Fourmis a e ´ Vertes. e de dentro para fora”. levar e ca a a o ao contato. de Claude L´vio o e Strauss (que. Em Roger Bastide. que distingue o perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escria o e tor e poeta. de Carlos Lizzani (1980). Fontamara. ´ as vezes extremamente tˆnue. a o Em Jean Monod. 1 O limite que separa essa etnologia romanceada. mas um meio de a ca conhecimento verdadeiramente antropol´gico. e a c derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu horizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. a literatura da ciˆncia o e (cf. o contr´rio. para ele. para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e po´tica”(1972). e em filmes mais recentes como A Arvore dos Tamancos. nos lembra freq¨entemente em sua obra que u se considera como o disc´ ıpulo de Jean-Jacques Rousseau.. talvez implique. e 1 . Kaos. Yol. 1974). e procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com a a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios. Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos. eea de Yilmaz Guney (1981). que. de Werner Herzog (1984). qualificada precisamente de romance etnol´gico. Gilberto Freyre. de Ermanno Olmi (1977). eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham a sido meus at´ ent˜o e. Le Christ a s’est Arrˆt´ ` Eboli. e a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de o e a ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia. e n˜o do Rousseau do o e a Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme. mas indica-nos quais s˜o. e considera que ”o soci´logo que quer o compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”. por defini¸˜o. a atitude de esp´rito ca a ı pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer o efus˜o”(1934).145 (1966). 1982). em Imagens do Nordeste M´ e ıstico em Branco e Preto (1978). a Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas e ca u a contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico a a e a a – que constituem. de —ohn Boorman (19851.

at´ e e e e a etnografia”(1973). segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental c˜ a que. pelo menos tal como a concebo. uma bandeira org´aca. no in´ de Tristes Tr´picos. nos assolava. de Michel Leiris ou —ean Rouch com os africanos. como Michaux em Um ıcio o e ´ B´rbaro na Asia ou em Equador. A etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa) . de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina. a *** O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance) c˜ merece ser levado mais adiante ainda. o jazz ı a foi um sinal de uni˜o. o erotismo latente ou mania c festo. por estar cada vez mais especializado. Por outro lado. e a bebida. Agia de a ı uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma posa e sess˜o. Citarei trˆs delas. uma comunh˜o pela dan¸a. de Leenhardt com c˜ os Canaques. para al´m da Africa. Primeira manifesta¸˜o dos negros. esfor¸a-se por apreender da forma c mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmitio ıvel la na nossa l´ ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski). o jazz trazia restos significativos o de civiliza¸˜o acabada. n˜o se contenta com a sia tua¸ao. Mergulhados ı e a em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio e o pelas viagens. na qual o pesquisadore escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso. o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa ı os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. ´ para. ´ e dentro de uma aventura. mas tamb´m seu objeto. exigir uma viagem mais radical. o e 1) A etnologia. a e de outro. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido. de —acques Berque com os ´rabes. mitos dos ca ´ ´ ´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e. a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um ca )ean Paulhan com os malgaxes. a A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consic˜ ` a e derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons.146 CAP´ ITULO 18. Suas afinidades deve-se. nas cores do momento. a um sentido religioso. reluta frente a reflex˜o sobre o ` a homem. de Margaret Mead com as mulheres da Oceania. a meu ver. a raz˜es mais fundai mentais. ca a a para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo mea ı ı nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o o ca ı c mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades. embora ainda sem forma. O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa.

essa o pluralidade ´ irredut´ e ıvel ` identidade. 3) A gˆnese do romance.. um ”escae vador de detalhes”. essa preu ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o. segundo o termo de Proust. bem como mostrou Henry James. o abandono da id´ia de uma c˜ e verdade absoluta situando o bem de um lado. se for bem es´ colhido. para os ”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. explora-se o cotidiano. a literatura romanesca) desenvolve um interesse todo especial para o detalhe. no Processo n˜o a a ´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente.. Ora. a arte ´ ` c˜ e a a e discrimina¸ao e sele¸ao. O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se e a e a reduz a faculdade de observa¸ao. dos vae ıda a lores. e para o detalhe do detalhe. e o mal de outro. e.vai ao encontro da abordagem que ´ a da o o e etnologia. notadamente.147 visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais a e hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia. como diz ainda Proust. chegar a uma lei geral e que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos. comum a todas as ideologias.). O que o escritor c˜ c˜ procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. pelas ”grandes c˜ o a dimens˜es dos fenˆmenos sociais-. Ele ´. explicativas e a dos comportamentos humanos.2 A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens. e pera a mitir´. fazer surgir o ”geral”do ”particular”. como a da etnologia. o 2 . em ambos os casos. Assim. na Montanha e O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva. Joseph K. da c aventura ilimitada (Jacques le fataliste. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam ca e ` c˜ sem representar”. O que ´ ent˜o e a proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em a e e rela¸ao a teologia. a partir de um unico pequeno fato. mas tamb´m a filosofia cl´ssica. o volta-se para o pr´ximo e. e em ambos os casos. o a e 2) A literatura (e. articulada com outras leis. e sim. das concep¸oes do homem e do social. Assim. A vida ´ inclus˜o e confus˜o. Dom Quixote. como em Madame Bovary. no qual ´ o c e questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. ´ contemporˆnea desse moe e a mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar. na qual a inteligibilidade c˜ ` e ` a ´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista. sejam colocadas as bases de uma ”teoria a do conhecimento”. Isto ´. o ` long´ ınquo deixa lugar ao pr´ximo. aberta pelas viagens. como a l´gica o o o da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado. Depois.

para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos c˜ Verdurin. coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar. e o o c˜ na obra de Balzac. de Thomas Mann. con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social). Em ambos os casos. a c˜ e de Svevo.148 CAP´ ITULO 18. mas aos olhares cruzados (convergentes. Ou seja. fames. mas. para o etn´logo. Flaubert. mais modestamente. a E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem a unica. a perspectiva de Balzac. alternadamente considerados como os unicos p´los ´ o da observa¸˜o. me parece. os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade a a a e dos habitantes da ”plan´ ıcie”. corresponde ` ca a tendˆncia sociologizante da antropologia. a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920. c 4 As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a co c antropologia exigiriam uma afina¸˜o. ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance. esses exemplos bastam. Em Os Filhos de S´nchez. em Ulisses. etc. mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal. para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”. ´ portanto claramente ane 4 titotalit´ria. n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do a o observador do observado. deliberadamente perspectivista. essa personagem. 3 . sem nunca ser absoluto. o ponto de vista esfor¸a-se em ser total. e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini. De que romance se trata? E de que antropologia? ca Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´ a ca ıvel de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade e ca ca social”. sempre a partir de um certo ponto de vista. renuncia-se a id´ia de que a rea` e lidade possa ser apreendida em si. a e O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta. revolu¸˜o esta que. c Essa abordagem. e a e Da mesma forma. como para o o romancista. para fazer-nos compreender que no romance tanto quanto na etnologia. essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica) e a a e a da etnologia.3 Ora. ´ claro. divergentes) de uma ca mesma fam´ mexicana. que privilegia o car´ter eminentemente social e a at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que. ılia Em suma. n˜o ´ ca e ca e a veio de repente. reintroduz no ca o espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: M´gica. na Consciˆncia de Zeno. c˜ ` de Joyce. paro a ticularmente. profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´ ` o ıvel nos trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se e ca quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´ o ıtica.

Cap´ ıtulo 19 As Tens˜es Constitutivas Da o Pr´tica Antropol´gica: a o Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o u o importantes. o a 19. A abordagem de um fean Rouch. ıcio corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. parece-me que c a a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse. por assim dizer. Correla-tivamente. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir o a ´ o c do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses diversos termos. em um desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue. de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu a a preferiria ser possu´ a estudar os possu´ ıdo ıdos”). pois. por exemplo: 149 . parece-me particularmente representativa dessa atitude. o u e esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. vive dentro de si essas tens˜es. naturalizar por ela. a compreens˜o ”por c a dentro”e a compreens˜o ”por fora”. deixando-se. O que n˜o tem realmente nada de um a ´ exerc´ intelectual.1 O Dentro E O Fora Uma pulsa¸ao bastante espec´ c˜ ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo. ou de um Roger Bastide. Trata-se de interpretar a sociedade c˜ estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade. freq¨entemente polˆmicas. toda vez que um c˜ dos p´los em quest˜o domina o outro. como diz Georges Balandier a respeito da Africa. O prio meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´ e e ıvio ass´ ıduo e de uma verdadeira impregna¸ao por seu objeto. Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas o a da pr´pria pr´tica da antropologia. Roger Bastide escreve. . o ponto de vista do mesmo e o ponto a de vista dos outros. . opondo a universalidade e as diferen¸as.

e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos metoe a a dol´gica). o que vivem os membros o de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se a apenas dentro dessa sociedade. sobre esse ponto. mas sobretudo. Cada grupo humano. ı e ca Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´. fornece a si pr´prio e aos ouo Cf. A nosso ver. como tamb´m cada indiv´ e ıduo. pois ´ pr´prio da linguagem. Wylie (1968). da experiˆncia. de um determinado ponto de vista. e e Parece-nos de fato. exterior. De fato. e onde. a e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia. ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas e c˜ ıvel a o que escapam aos atores sociais. diferente. ou ainda. deus do trov˜o dos Iorubas. e particularmente da linguagem a e o cient´ ıfica. at´ a sua morte. a inteligibilidade ca procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma a como seus atores sociais a vivem. o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia o familiar. a mas naquilo que n˜o diz. que. Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente transa e parente a si mesma. nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”. O olhar distanciado. os franceses para compreender os franceses. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia ıcio estranho. em entender e o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar. come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos enc contrado e atravessado. do estranho. Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos e e e de cartesianismo. ou de Zeldin e C983). que ´ americano. mas tamb´m. atuar no sentido de uma separa¸˜o. os trabalhos de L. E sobretudo.. que ´ inglˆs e e 1 . e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa o disciplina.1 pois as significa¸oes proc˜ duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma. o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o o a a e do encontro. onde lhe revelam que ´ e a e e filho de Xangˆ. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era a minha.˜ ´ ´ 150CAP´ ITULO 19. ocupar´ o a e a um lugar na hierarquia sacerdotal. chega inelutavelmente para o etn´logo ca o o da distˆncia. os camponeses de Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes. Mas passado o tempo da impregna¸˜o.

´ de estarmos carregando conosco um e modelo de leitura. de volta a sua pr´pria sociedade. mas sobretudo. que consistem em modelos conscientes c˜ que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar. n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”. Existe. parece-me que n˜o ca a a a deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental. em termos erua ca ditos e na forma de uma redundˆncia. a . e sim o a analisar. o e por uma ruptura cultural. Qualifica e u a a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”. degenera habitualmente em um discurso a ` revelia do outro. podendo contribuir na morte do outro (e na morte das civiliza¸oes). seja a retranscri¸˜o. o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜o a ”compreens˜o por dentro”) ´. de sociedade em sociedade. O risco.1. da fus˜o e da confus˜o. parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores. nossas produ¸˜es eruditas terminam quase semc co pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza ` a nossa.19. nem contornar e exorcisar. Alguns etn´logos tˆm e a o e tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro. Se a etnologia conseguir superar a ide´ ologia da idealiza¸˜o amorosa. e diz do olhar antropol´gico e o ´ a proximidade desse olhar sobre socique ´ um ”olhar de astrˆnomo”. mas o essa contradi¸ao. a abandonar um moe e delo de pensamento por outro. Quando o discurso sobre o outro tende a a dominar o discurso do outro. n˜o desprez´ a ıvel. a a o O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do proa cesso (a ”compreens˜o de fora”). do que foi expresso. O DENTRO E O FORA 151 tros racionaliza¸oes de suas condutas. deixando-nos ensinar e a e aculturar como crian¸as. todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida. e o L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. uma contradi¸ao aparente nesse olhar e c˜ pr´ximo do long´ o ınquo que age como um olhar long´ ınquo do pr´ximo. seja uma participa¸ao cega e uma ”empaa e c˜ tia”que n˜o se consegue mais controlar. ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e exo plic´-lo de dentro. ´ claro. isto ´. possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico o a a e a o de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica o de sua abordagem. com a convic¸ao de sempre c˜ permanecer com a ultima palavra. que e ´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras. Mas em tais condi¸˜es. como diz MarcAug´ co e (1979). Assim. c˜ o Em suma. Enquanto nossa profiss˜o de c˜ a etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia. a pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. ou at´ por uma ”convers˜o”. O paradoxo merece ser sublinhado. E e o edades long´ ınquas que permite notadamente que o pesquisador.. por exemplo.

Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora. o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente a e diferente de n´s.˜ ´ ´ 152CAP´ ITULO 19. pois considera que. apresentam-se como radicalmente opostas.2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que c˜ ´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”. e a h´ mais de um s´culo. tal comportamento. dentro desse quadro. Como escrevia. finalmente. f´cil encontrar uma contradi¸˜o. e a convic¸˜o do te´rico ıvel ca o que. por exemplo. que Malinowski no in´ ıcio de sua carreira. Coma ca preendemos. por exemplo. termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. o e u na pr´tica. quando elabora sua Teoria Cient´ ıfica da Cultura (1968).2 A Unidade E A Pluralidade Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com e a mesma for¸a: c • existe. estranhos a minha c˜ sociedade. que Lembramos. uma ”unidade do gˆnero humano” e • tal costume. apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro. o questionamento de nossa disciplina. 2 . pois. os homens s˜o em toda parte os mesa mos. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abore e a o e ´ dagens que. s˜o realmente diferentes a 1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente. ao estudar os Trobriandeses (1963). que se esfor¸a em dar conta da e c especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses. no final de sua vida. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo. o e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao e c˜ ´ idˆntico. de uma mentalia c˜ dade em outra. de a ca um lado a experiˆncia pessoal do observador. E. privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”. 1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. reflete sobre o funcionamento da humanidade em geral. na obra de Malinowski. Tylor. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: em um mesmo pesquisador. como vimos. e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. uma extens˜o e anexa¸˜o do outro. em seguida. que evidencia as diferen¸as que a o c observa. entre. 19. reduzido a mera figura do a ca ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na mesmo. tal institui¸ao. Evans-Pritchard. como escreve Mauss. no entanto. um dos primeiros antrop´logos: a e o ”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sime e e patizar com o mito. d´ prioridade a um mo’do de a conhecimento claramente distanciado. E unidade. essa vontade de ”poder e o ca c˜ pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E. Temos a e e a sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la ` c a a vontade”.

E. Baldwin. Adotevi. em outras culturas. no Ocidente. que encontra uma de o suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto o os trajes. os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos. e ca Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica. para compreendˆa e las. e a natureza. 1972) pedindo o fim da antropologia. por outro lado. 1973). ”estabelecer-se e e dentro mesmo de suas sociedades”. embora n˜o se trate a de ciˆncias. este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo. as gram´ticas indianas. como diz L´vi-Strauss.19. t˜o complexas que precisamos. do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava. 3 . a e o como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. . 1972. e consiste dessa vez em considerar as difeo a ren¸as como irredut´ c ıveis. a 2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo ´ a o dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s. organiza-se toda uma corrente. que seria a racionaliza¸˜o desse processo. Delfendhal (1973). encontrada em autores como Castaneda (1982). coloca um ca problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas ´ e e uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo ca menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o a ´ a das ciˆncias sociais. antifuncionalista. a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria ca ca impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras. e e as quais ”aceitam sem reticˆncias”. igualit´ria e convivial. da ciˆncia.2. tais como a economia. . no sentido ocidental do termo. considerada repressiva. existem. fore mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa: o a por exemplo. A pare tir desse segundo p´lo. ou a a ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´ co ıgines australianos. apelar para os recursos das matem´ticas modernas. mas claramente culturalista. 1952. atravessa o pensamento a e antropol´gico contemporˆneo. (aulin (1970. h´ uma verdade al´m dos Pireneus. que proa c˜ a a Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido ca ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade do observado. no qual o u a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um ´ objeto passivo. a sociologia ou a demografia.). A UNIDADE E A PLURALIDADE 153 se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf. antimarxista. antiestruturalista. O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao e e a e c˜ entre o observador e o observado. por exemplo Fanon. e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o a pensava. Clastres (1974).

Ora. n˜o nas regi˜es mais exteriores o a o em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste. Sabemos de fato que. . Aquilo que Bastide come¸ava a notar. contra o cosmopolitismo. foi a influˆncia. o ` e u consegue se impor a esta. Finalmente. aos c˜ o quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia. no decorrer das cerimˆnias de umbanda. que parea e cia exclusivamente niveladora. Assim. ao estudar os c a cultos afro-brasileiros. Da mesma forma. De volta de uma miss˜o cient´ a ıfica no Nordeste do Brasil. Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais o a a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista. quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se. P. soube criar o e a formas de sociabilidade plenamente originais. mas no c˜ o ıs. que ´ hoje uma das primeiras metr´poles a e o industriais do mundo. Disso a o decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ´ porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu. nem mesmo pelo pensamento te´rico. e confrontada hoje a uma conjuntura econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel. Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo. visando. mais tende simultaneamente a diversificar-se. pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo. que ia levar ` unifica¸ao da ´ a c˜ India. a reabilitar a identidade das regi˜es (cf. como falamos de ”medicina mansa”. da qual a antropologia seria ` e e c´mplice.. E uma forma de conhecimento mais humana. foi acompanhada correlativamente de uma divis˜o da sociedade em castas. freq¨entemente. da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que c˜ e permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes ca sociais). que poder´ ıamos qualificar de ”etnologia mansa”. c˜ 1) Em primeiro lugar. o Brasil contemporˆneo me parece particularmente a revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. trinta anos atr´s. J. Londres ou Chicago. Encontrei pessoalmente membros das classes superiores da sociedade brasileira que. acentuou-se e confirmou-se. a esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido. encontr´veis no menor coma portamento da vida cotidiana. H´lias. por exemplo. posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua c˜ ıda maioria de descendentes de europeus. a inquietude que demonstram esses autores com respeito a uma homogeneiza¸˜o. a hegemonia ariana. ca me parece pouco fundamentada. considera-se que o que ´ separado pela barreira das u e culturas n˜o deve ser reunido. A cultura popular n˜o a s´ resiste notavelmente a cultura dominante. o e 1975). Mais uma vez. e que n˜o se deixam de forma alguma alterar a pelos modelos culturais vigentes em Paris. Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude. s˜o sucessivamente ”possu´ o a ıdos”pelos esp´ ıritos das divindades dos ´ ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. de uma maneira dificilmente imagin´vel no Ocia dente. como tamb´m. por exemplo.˜ ´ ´ 154CAP´ ITULO 19.

19. o 4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade ese tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas. E ”um outro mundo a o cultural”. tudo se passa como se esse protesto indignado – o fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavelmente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade. como diz Panoff (1977). O e e fato de a alteridade ser aqui valorizada. atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba e inclusive perdendo-se. ”n˜o impede que ´ a o a os trobriandeses sejam matrilineares. A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de fato da m´ imagem que se tem de si (cf. n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que a e c o separa de n´s. como a objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral. possa sentir o o ´dio em rela¸˜o a estes. o ´ ındio. pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro –. n˜o afeta e o a em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o. h´ uma recusa de assumir a sua pr´pria identidade. o a 3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´ ca ıvio dos outros n˜o resiste ` oba a serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica ca c˜ a que se faz passar por realidade. Ou seja. e atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso. de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de ca a e ”bons selvagens”. nem her´is”. 1972.. O africano. mesmo se fosse poss´ ıvel. Mas que estes ca e a o ultimos n˜o sejam ”nem santos. e escrevˆ-lo. s˜o mobia a lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto. enquanto e que. diz Hegel. co o 4 . e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (masoe o o quismo). A descri¸˜o. . Para estes. aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o a ca ca a ´ mais o outro (sadismo). causou escˆndalo entre os etn´logos. que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”. a coincidir com a vere dadeira natureza do outro. por exemplo. por um agrad´vel movimento de a pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico. as sociedades selva´ gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. E correlativamente dessa vez. de que. por Turnbull (1972). como qualquer ser humano. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155 2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro. se poderia talvez chegar. Jean Monod. . o bret˜o. participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de o a lembrar de Pauw ou Hegel. e de que n˜o se poderia preencher e a (e. o e e Novo Mundo ´ de fato um outro mundo. enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa. por exemplo. como lembramos. Em suma. e . como pode sˆ-lo e com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´ a ca e a ıtica. o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao da o a c˜ 4 ocidentalidade. a que se acusa de ser um ”rico canibal”).2. e o fato de que o etn´logo. indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente.

isto ´. o sujeito transcendental a e do humanismo. tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o aboa lidas. . a c˜ e antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve e a identificar integralmente consigo mesmo. Apenas o ´ ındio (e. a permanecer entre si. um erro. a meu ver. Como vocˆ. . a c e partir de uma rela¸ao. a ıvel c e meu ver. no final dessa experiˆncia. Mas ent˜o. a o Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao e ue ıpio a c˜ e n˜o-media¸ao. O outro ´ uma figura poss´ de e ıvel mim. que o afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la reale a e mente – a ficar em casa. N˜o ´ f´cil. segurar as duas extremidades da a e a cadeia. encontrados por L´ry. Por todas essas raz˜es. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito. n˜o se trata mais de estud´-la. a Bretanha aos bret˜es. passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a. ao insistir tanto sobre o car´ter irreo a dut´ das diferen¸as. suas mulheres. c˜ . que n˜o ´ m´dico. essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma. devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que prea c˜ tend´ ıamos estudar. a e a e e se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos. ` maneira desses aventureiros normandos. e sim de a a a adot´-la. a rigor. a a e que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado selvagens no contato dessas popula¸˜es. seus costumes. aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´ e ındio.˜ ´ ´ 156CAP´ ITULO 19. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de come a a c˜ preender a mulher. o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de e ` a ` a si pelo outro. J´ passamos por isso. como eu dele. Apenas o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. do que na ciˆncia. adotando sua l´ co ıngua. de uma abordagem de pequisa cient´ ıfica. a religi˜o aos e a cleros. Se a identifica¸ao integral com este ´. o proletariado aos prolet´rios. isto ´. Apenas o prolet´rio pode a e a a saber o que ´ a classe oper´ria. Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma c˜ essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de mae e jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas c˜ e justapostas). E al´m o e e disso. evidentemente. Esse descentramento m´tuo do observador e do obseru vado n˜o pode mais ser.

a pintura. a an´lise da a a variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de a uma cultura para outra. de fato. por´m. pelo formalismo l´gico de um L´vi-Strauss.19. a preocupa¸˜o do concreto. a literatura. por exemplo. o 1) O primeiro risco. Ou a seja. mas que s´ pode ser empreendida a partir a o da observa¸ao de uma realidade concreta. O CONCRETO E O ABSTRATO 157 19. portanto. ciˆncia. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar. para dar conta deste. a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten` cemos. supostamente irredut´ ıvel. das culturas. mas me permite perceber que perten¸o a uma figura c particular da cultura. Vaiv´m a e meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado. a Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´ ca ` ca a ıtima. nos deixar esquecer a o e a e especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´ e ındia dos Nhambiquaras de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos. nos dois casos. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive inec˜ ´ vitavelmente a adotar a teoria do senso comum. se prefeıda c˜ rirmos.Mas c˜ n˜o s˜o a antropologia. nem atividade cr´ a a a a e ıtica nem mesmo coleta de fatos sem teoria. Pelo contr´rio. no mesmo n´ de a ıvel investiga¸˜o do social. do campo e do m´todo. De um lado. a poesia.3 O Concreto E O Abstrato A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´ a e c˜ e vivido. e. decorre do fato de que n˜o nos situamos. vem da submiss˜o d´cil ao campo. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes. N˜o h´. da constru¸ao cient´ e c˜ ıfica. anotar. trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um obo c˜ jeto que n˜o existe na realidade.3. que d´ a o a ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas. mas o meu c olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´ e ` c˜ ırica. a exigˆncia. e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao. de estar junto delas. A m´sica. a ”opini˜o”. realizada por n´s mesmos. gravar. de ca outro. o a mas em decidir quais s˜o os fatos significativos. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me ca c˜ leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras. o qual n˜o deve. e A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura a e os que privilegiam a diversidade. ou. que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´ ca ırica. em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. mais prazeres. al´m dessa descri¸˜o (mas a e ca a partir dela). do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”. c˜ o 2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nominaca . a religi˜o s˜o abordagens muito u a a mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os seres. a ideologia do a momento.

o que permite afirmar. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: lista). o ´ podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cioc˜ o a o econˆmicas. que o inconsciente de uma cultura pode ser encontrada no consciente de uma outra. e da nossa pr´pria rela¸ao com ca o o c˜ o psicol´gico e o social. de ”proje¸ao”. acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das e ciˆncias sociais. o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado a (de minha e da outra sociedade). u mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais a c˜ ”fundamental”. nossas impress˜es. ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social. a terra. e sim uma constru¸ao do real. traduzindo-a em uma outra linguagem. biol´gicas) em termos religiosos. o ar. quando o pensamento tradicional classifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um o e c˜ e confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado. em mat´ria de doen ¸a. a partir de nossas observa¸oes. Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas. e sim uma pr´tica que surge em seu a limite. Por exemplo. psicol´gicas. c˜ o a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a c˜ a co suas pr´ticas. do ponto de vista do obsere e a e vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia). tamb´m n˜o ´ a ciˆncia e e e a e e social do ponto de vista do observado. o *** O paradoxo. quando um n´mero consider´vel de indiv´ u a ıduos que comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (socio ais. uma teoria cient´ a ıfica nunca ´ o reflexo do e real. ou melhor. c˜ o dito e o n˜o-dito. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientificac˜ a a mente constru´ ıdos. s˜o capazes de agir como reveladores de aspeca a tos culturais inteiros. a u observ´veis em outro lugar. Por outro lado. o objeto que constru´ a ımos a partir de uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica. mas tamb´m contra nossas c˜ e observa¸˜es. com Georges Devereux.˜ ´ ´ 158CAP´ ITULO 19. Existe portanto uma inadequa¸ao eno c˜ a c˜ tre. cuidadosamente dissimulados em nossa cultura. Nossos sistemas de representa¸ao. Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros). podemos dizer que se trata o o de ”ilus˜o”. a realidade social estudada. No t´rmino do empreendimento a e de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´ c˜ o ıricos em objetos cient´ ıficos. de um lado. s˜o hoje em grande c˜ e c a . as interpreta¸˜es dos interessados e nossas co o co pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. o fogo). que n˜o ´ nem esgotada nem a e esgot´vel pela etnologia. Ora. e de outro. Da mesma forma. em sua intersec¸˜o. Podemos reduzir a inadequa¸ao entre ca c˜ os dois pensamentos de que acabamos de falar.

como uma calamidade a ser eliminada. E no entanto. bem conhecidas entre n´s. que n˜o produz o a realmente algo novo. mas como ciˆncia. nem por isso est˜o au` e a a sentes. e os sintomas. mas que subverte a e o racionalidade ocidental.19. Est˜o simplesmente recalcadas. algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como a instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto a e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham. como escreve L´vi-Strauss (1973). mas reatualiza antes algo recalcado). para minha sociedade. pela sua origem hist´rica e cultural. n˜o o a apenas como experiˆncia e como aventura. e tornam-se manifestas se passarmos a de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai). nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista o a a (pois essa racionalidade ´ provinciana. ´ espec´ e a e ıfica e exclusivamente vienense. chamadas ”adorc´ c˜ ısticas”e que correspondem as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo. tais como os estou a estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste. ´ claro. o a e ocidental. a c e c˜ De tudo isso. seja poss´ e e ıvel. O CONCRETO E O ABSTRATO 159 parte exorc´ ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esmac e gado. resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteria e dade nos moldes do que ´. nem o de estender a racionalidade as ` dimens˜es do universo. ıvel Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos. a para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina. ´ indefectivela e mente ocidentalo-cˆntrica. e Mas as representa¸oes inversas. o que tra¸a as c figuras. que nasceu no Ocidente. podem ser utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e partia cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros ıvel realizam ao n´ do corpo. e e c A etnologia. ou de a uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para a a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”. e mostrar que o processo. do doente-v´ o ıtima e do m´di-co-exorcista. pelo contr´rio. torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refee rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal. como dizer que a psican´lise. da exclus˜o em um grupo que se quer hoo a mogˆneo. Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”.3.5 Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia. conhecido dos psicossoci´logos. Da mesma forma. ”nada seria mais e falso”. etc. ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o e a ´ ca do esp´ ırito colonial”. os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros. conhecido e correto (o que e equivaleria a suprimir essa alteridade). abre essa estreiteza monocultural. 5 . que nasceu em Viena. e sim um m´todo. limitada no espa¸o e no tempo). isto ´.

e a c˜ o com os modelos conscientes. nem segundo a maneira com a qual os observadores os percebem.). ”feitos em casa”(L´vi-Strauss). para analis´-lo. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: Dito isso. As pr´ticas simb´licas o co a o e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar. O conhecimento antropol´gico surge do encontro. Isso n˜o significa que o a antrop´logo seja o homem de nenhum lugar. etc. e que a antropologia seja uma o metalinguagem. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. . a realidade alucinada e desviante. pois cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antroo o a a pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem. que ´ espelham uma imagem deformada. com os gˆneros e e que s˜o classifica¸˜es ind´ a co ıgenas expl´ ıcitas. A antropologia. para o antrop´logo. mas na sua jun¸˜o e na sua ca intersec¸˜o. Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha. do professor prim´rio. a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra. ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mesa o c mas. a realidade. nos gestos e discursos dos interessados. c˜ e Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. mas de dois inconscientes em espelho. c˜ o modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e racionae a u co liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades c˜ de acesso a estas ultimas). . constitui-se do cono fronto de dois discursos interpretativos que se juntam. e a e c que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra. esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo a tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a. seja a um a segmento marginal de uma sociedade minha. o segundo. o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero. n˜o apeo a nas de dois discursos expl´ ıcitos. e constituem. a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evio c˜ o denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo´ e ıvel logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente. e e a portanto. o primeiro. o o ` c Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua u a evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valoco . E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre c minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os c a c limites e as fronteiras. s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´ o c ıfico partir do momento em que integra. Seu significado antropol´gico o s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem o um sentido. mas o inconsciente em sua rela¸ao c a c˜ com o consciente. ca Nesse caso espec´ ıfico.˜ ´ ´ 160CAP´ ITULO 19. do padre. a mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social. como a feiti¸aria.

19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO

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res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e a um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim e a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´ ıvel- de mim. N˜o posso a situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto, para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que o n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical. a e ca Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade o pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´ a ıfico. *** A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´ ca o o ıfica, do homem e da natureza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem e e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´ c˜ ıvel e do intelig´ ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite a a resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser c˜ a em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas c˜ o n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez mea e nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´ e ıvel, e que tem, como diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´ a ıvel”. S˜o as diferentes dosagens a realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por c˜ a dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a a diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sinc e cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias o e o a entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arriscoo me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um ca e ca discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisaıvel a mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das o c˜ culturas. A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento inintere rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo a e apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente e e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ a ıvel. Roger Bastide entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos s´ ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi e totalmente antrop´logo. o

˜ ´ ´ 162CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es c˜ o c˜ o que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de c˜ c˜ compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e e a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a ime o possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser a e aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia. a a Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985

Cap´ ıtulo 20 Sobre o autor:
´ Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E c e ´ autor de A Etnopsiquiatria (Editions Universitaires, 1973), As Trˆs Vozes do e ´ Imagin´rio: o mecanismo, a possess˜o e a utopia (Editions Universitaires, a a 1974), A Cultura do Psiou O Desmoronamento dos Mitos (Privat, 1975), A Filosofia e a Violˆncia (Presses Universitaires de France, 1976), Doen¸as e c ´ ´ Mentais e Terapˆuticas Tradicionais na Africa Negra (Editions Universitaires, e ´ 1976), A Medicina Popular na Fran¸a Rural Hoje (Editions Universitaires, c 1978), Um Vidente na Cidade: estudo antropol´gico do gabinete de consulo ´ tas de um vidente contemporˆneo (Editions Payot, 1985) e Antropologia da a ´ Doen¸a (Editions Payot, 1986). c

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164 CAP´ ITULO 20. SOBRE O AUTOR: .

Paris. Introduction a 1’Anthropologie Sociale. ee Baldwin. Gregory. PUF. Calmann-L´vy. la Transe. Le Candombl´ e de Bahia. 1971. Jean-Marie. Pandora. L’Anthropologie Contemporaine. Sociologie des Brazzavilles Noires. Paris. Paris. Flammarion. lacques. Georges. 1959. 1976. PUF. Auzias. – C´nie e du Paganisme. 1972. 1972. Paris. Cujas. Anthropologie Politique. Paris. PUF. Flammarion. Anthropologie Appliqu´e. ` ˆ Benedict. Histoire. Paris. Payot. (ames. Anthropologiques. 1965. 1967. e Bastide. Roger.Bibliografia Adotevi. Plon. 1972. Paris. Colin. N´gritude et N´grologues. A. Paris. Paris. Paris. Paris. Paris. Ed. Paris. D´possession du Monde. 1978. Sociologie des Maladies Mentales. Hachette. 1972. Berque. e Bougainville. Voyage Autour du Monde. 1980. Paris. Ruth Echantillons de Civilisations. Paris. Sociologie et Psychanalyse. Gallimard. Paris. 1957. 1974. 1955. La C´r´monie du Naven. 1950. Bateson. 1970. PUF. Flammarion. Le Seuil. e e Auge. Paris. la Folie. e e Paris. Paris. 165 . 1982. Paris. Beattie. 1964. de Minuit. Louis Antoine de. —ohn. PUF. Stanislas. Symbole. 1971. Gallimard. Marc. Le Racisme en Ouestion. 1950. Fonction. 10/18. Images du Nordeste Mystique en Noir et Blanc. Ajrique Ambigue. Le Prochain et le Lointain. Sociologie Actuelle de l’Afrique Noire. 1979. Gallimard. 1955. Paris. Mouton. Balandier. Paris. Le Rˆve.

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BIBLIOGRAFIA Escaneado e diagramado por MathCuei R . com o auxilio de A L TEX 169 .

170 BIBLIOGRAFIA .