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Aprender Antropologia
Fran¸ois Laplantine c 2003

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. a 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o 8 A Antropologia Social: 9 A Antropologia Cultural: 3 75 . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 Campos De Investiga¸ao . . . . .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . . . . . . . . . c˜ 6. . co 6. . 58 4. . . . . . . . . . . .2 MALINOWSKI (1884-1942) . . . . . . . . . . . . . 27 1. . . 76 Con. .1 BOAS (1858-1942) . . . . . . . . . . 32 2 O S´culo XVIII: e 3 O Tempo Dos Pioneiros: 39 47 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57 4.3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico o o o temporˆneo .Conte´ do u I Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento Ano tropol´gio o 23 1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia: e o 25 1. 80 87 91 95 . . . . . .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . . . . . . . 60 5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia: o 67 II As Principais Tendˆncias Do Pensamento Ane tropol´gico Contemporˆneo o a 73 6 Introdu¸˜o: ca 6. . . . . . 75 . . . . . . . . . .

. . . . . 149 . . . . . . 19. . 157 163 . . .4 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e 11 A Antropologia Dinˆmica: a ´ CONTEUDO 103 113 III A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica a o 119 121 125 129 133 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a 14 Uma Exigˆncia: e 15 Uma Abordagem: 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137 c˜ ca o 17 O Observador.3 O Concreto E O Abstrato . . . 152 . . . . . . 19. . .1 O Dentro E O Fora . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 18 Antropologia E Literatura: 19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica: o a o 19. . 20 Sobre o autor: 139 143 149 . . . . . . . . . .2 A Unidade E A Pluralidade . . .

) segue a via da especializa¸˜o. re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento u antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais. Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente ene ca contrada entre os especialistas. na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ca a ı do futuro. . Pa´s em constru¸˜o. O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine. de que sua a¸˜o e ı a ca ´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. o exame cr´tico de todas a ı as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo. o a conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou e e de um ramo do saber na maioria de seus aspectos. efetua a an´lise de seu desenvolvimento. como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema e co de base ampliando-o. E. tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo. nele se vive intensamente. nas respostas e solu¸˜es que inspirou. um panorama dos problemas coe a locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o. para chegar e a e .se na ˆnsia de dominar a maior quantidade ca a poss´ de saber. . seus habitantes em geral. em seguida. que permite uma a compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas. A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais ca e (e a Antropologia n˜o foge ` regra. a No Brasil o presente tem muita for¸a. permanecem co a muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso. muito a a ca mais do que a da forma¸˜o geral. A hist´ria da disciplina. nos debates que suscitou. apresenta a ı ı as tendˆncias contemporˆneas e. a ca Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de encoca a menda para estudantes brasileiros. ´ ele que se c e busca compreender profundamente. mostrando como foi variando o seu colorido e c o atrav´s dos tempos. professor da Univero e c sidade de Lyon II. a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um coıvel ca c nhecimento minucioso. o e o Em primeiro lugar. seus estudiosos em ı ca particular. Os estudantes lˆem e discutem determica e nados autores. como se fosse algo de somenos co importˆncia. finalmente. pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se ca ca em opostos: a erudi¸˜o abrindo. assim co o como da ´rea de conhecimentos a que pertence.´ CONTEUDO 5 Pref´cio a A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem a Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhea cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria. ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada. autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pesa quisas no Brasil.

a ca No entanto. perdem-se de vista coma ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado. ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e e c o da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. a Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da claı ca ı reza de express˜o. Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pese quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP.6 ´ CONTEUDO a ela escolhe-se uma unica via preferencial. em e muito boa ora traduzido. no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias ı e Sociais. que buscam coı nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos e a a u aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal. 1 . A necessidade real. a especializa¸˜o numa dire¸˜o. a ca na verdade. ´ ca ca como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o. oferece a eles um primeiro panorama geral da Antropologia e seu lugar no ˆmbito do saber. um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e u especialistas de Ciˆncias Sociais. e por outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para conse c tru´-lo. esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge. Este livro. com esta maneira de ser t˜o mercante. por um lado.

Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens.´ CONTEUDO 7 Introdu¸˜o ca O Campo e a Abordagem Antropol´gicos o O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. ue Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es. Finalmente. ou seja. A ciˆncia.´. o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca o c e muito tardia na Hist´ria . botˆnica. Houve at´ alguns que eram e te´ricos e forjaram. e e e sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto. Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo a todas as conseq¨ˆncias. teol´gico.uma antropologia . t˜o antigos quanto a humanidade. ou mais precisamente. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico. na Oceania ou na Europa.. filos´fico. a ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes. Mas o projeto e de fundar uma ciˆncia do homem . ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX. ue e a o art´ ıstico. modelos elaborados ”em casa”. Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem a o sobre o homem. como diz L´vi-Strauss. pela primeira vez. apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir e e c um saber cient´ ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como objeto de conhecimento. conseq¨ˆncias importantes. como verea mos mais adiante. ao menos tal como ´ concebida na ´poca. e n˜o mais a natureza. na hist´ria. exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias a ` ´ c˜ e ou norte-americanas. o e A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade. portanto. na Am´rica. e se deram tanto na a a ´ ´ Asia como na Africa. apenas nessa ´poca ´ que o a e e esp´ ırito cient´ ıfico pensa. De fato.surge * em uma regi˜o o a muito pequena do mundo: a Europa. e a elabora¸ao de um a c˜ saber s˜o. desta vez. muito e e a recente. em aplicar ao pr´prio homem os o m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ e e a ´ ısica ou da biologia. mas nunca cient´ o o ıfico no que dizia respeito ao homem em si. durante o a e qual a antropologia se atribui objetos emp´ ıricos autˆnomos: as sociedades o ent˜o ditas ”primitivas”. a antropoloe gia. Isso trar´. para que o novo co saber comece a adquirir um in´ ıcio de legitimidade entre outras disciplinas cient´ ıficas. pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade o a . de fazer passar este ultimo do estatuto de ´ sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. Trata-se. ao contr´rio.n˜o podia existir o conceito de homem enquanto o a regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas . Enquanto que o a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´ c˜ a a c˜ ıvel) entre o sujeito observante e o objeto observado ´ obtida na f´ e ısica (como na biologia. evidentemente.

Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica e a a de sua disciplina reencontrando. pois o pr´prio Universo dos a o ”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. c˜ o *** A antropologia acaba. cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida e em rela¸˜o a nossa. Ela se vˆ. a a de in´ ıcio. empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma o 2 . As sociedades estudadas pelos a a primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´ o a ınquas as quais s˜o atribu´ ` a ıdas as seguintes caracter´ ısticas: sociedades de dimens˜es restritas. qualificada pelo nome de folklore. como numa situa¸ao de laborat´rio. e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades ca ` a c˜ e fun¸oes sociais. ser´ que a a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado a como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam a e podem ainda ser dados. e volta para o ambito das o ˆ outras ciˆncias humanas. e 2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs. portanto.no in´ do s´culo o o e ıcio e XX . da a a c o organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades. Muito rapidamente. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos ¨ e pr´prios desse campo de estudo. Detenhamo-nos em trˆs deles. permanece desde seu a nascimento: o fim do ”selvagem”ou. e notadamente o que ´ chamado de ”sociologia comparada”.a antropologia percebe que o objeto emp´ ırico que tinha escolhido (as sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”. sua morte. nessa ´poca . em conseq¨ˆncia. uma quest˜o se coloca. particularmente bem adequado. de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio: e o o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. como veremos neste livro.e por muito tempo a e em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. confrontada a uma crise de identidade. este ´ c˜ e selvagem de dentro. a e c˜ e portanto. j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem. e 1) O antrop´logo aceita. c˜ a e ue elas ir˜o permitir a compreens˜o. objeto ideal de seu estudo. ela consistir´ na antropologia. como diz Paul Mercier (1966). Mas co c˜ logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa . especialmente a sociologia. a qual. que tiveram pouo cos contatos com os grupos vizinhos. a e 2 A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi. Ser˜o nec˜ a a ca a cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao a e c˜ que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. por assim dizer.8 ´ CONTEUDO estudada.

e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho. n˜o mais atrav´s de um objeto emp´ a a e ırico constitu´ ıdo (o selvagem. evidentemente. mas tamb´m. Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio c a e c˜ o gen´tico e o meio (geogr´fico. um certo enfoque a e a que consiste em: a) o estudo do homem inteiro. ela analisa as particularie a o dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente. o . uma das voca¸˜es c˜ e co maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas. conduzem c e c˜ necessariamente a uma especializa¸ao do saber. b) o estudo do homem em todas as sociedades. o camponˆs). e O estudo do homem inteiro S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que o o objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em soca u o ciedade. forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas. bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao. sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as ´pocas. a cultura a ca este patrimˆnio. cultural ou hist´rico c a o particular. o que esse patrimˆnio (que se transforma) o e o deve a cultura? Assim. a e co A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia o f´ ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem co o no espa¸o e no tempo. e aqui temos um terceiro caminho. a distˆncia social e cultural que co a separa o objeto do sujeito. em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente sea ca u parados. dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si. dominar hoje em dia. que inclusive n˜o exclui a o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo). ecol´gico. Certa-mente. bem como a o o evolu¸˜o destas particularidades. ao a contr´rio. ele afirma a especificidade de sua pr´tica. o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os ` o a c˜ fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´ c˜ ıduo. que nenhum ´ pesquisador pode. a um espa¸o geogr´fico.´ CONTEUDO 9 3) Finalmente. Ora. O que deve. O objeto a te´rico da antropologia n˜o est´ ligado. substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia a a ”ex´tica”. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar. o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes u c˜ diretas. mas as quais ele deve ` estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas. na perspectiva na qual come¸amos o a a c a nos situar a partir de agora. existem cinco areas principais da antropologia. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas e c c a que se seguem. social). Por´m. mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica e e o constituinte. especialmente.

sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente.3 4 antropologia ling¨´ uıstica. eles interpretam seus pr´prios e ca o saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias). suas o preocupa¸oes. Ela tem. mas a tamb´m de tradi¸˜o oral). a mensura¸oes do esqueleto. colocando-se do ponto de vista da antropologia social. O especialista em pr´-hist´ria recoe o lhe. o como. um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam a rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias co e e humanas. quanto e c˜ em suas produ¸˜es culturais e art´ co ısticas. o como eles ıi´ expressam o universo e o social (estudo da literatura. seus pensamentos. isto ´.a ”desagrad´vel obriga¸˜o de a ca fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia e a e o f´ ısica”. Apenas o estudo da l´ c˜ ıngua permite compreender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem. finalmente. a e A antropologia ling¨´ uıstica. Ele realiza um trabalho de campo. Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um c c movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ca ıvel. por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da a crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte c e c e da antropologia. cor da pele. peso. interessa-se em especial . visa reconstituir as socie` dades desaparecidas. biol´gica e s´cio-cultural o o nunca foi rompida na Fran¸a.pela gen´tica c e das popula¸˜es. longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios. a a meu ver. E o e ıduos que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores. Assim. O historiador ´ antes de tudo um histori´grafo. Seu projeto. que ´ uma disciplina que se situa no encontro e Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan c e (1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´ ca a ısica.desde os anos 50 . como o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos. e suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica). tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais. isto ´. um pesquisador que trabalha e o e a partir do acesso direto aos textos. tamanho. que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao adco quirido. A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´ e o e e ıgios materiais enterrados no solo (ossadas. A linguagem ´. mas tamb´m quaisquer marcas da atividade e humana). pessoalmente. com toda evidˆncia. Notamos que esse ramo da antropologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´rica e ` o e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. parte do e e ´ atrav´s dela que os indiv´ patrimˆnio cultural de uma sociedade. n˜o apenas escrita. objetos no solo. comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de a ca o ca ratos em laborat´rio o 3 . que se liga a arqueologia.10 ´ CONTEUDO Ele se perguntar´. Edmund Leach (1980) fala d. anatomia comparada c˜ as ra¸as c dos sexos.

o e aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no a papel”(nossos gestos. fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar a um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica.conscientes e inconscientes e dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual ´ n˜o ´ antropologia. sua l´ c ıngua. seus sistemas de conhecimento. 4 n˜o diz respeito apenas. como diz L´vi-Strauss. que consiste no estudo dos o o processos e do funcionamento do psiquismo humano. Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas noe ´ vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual). 4 . seus sistemas de parentesco. De fato. nossas trocas simb´licas. e este livro traa e tar´ essencialmente dela. Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram o e o mencionados.´ CONTEUDO 11 de v´rias outras. E e o fato de que o antrop´logo procura compreender. esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levanc a tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular a com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifia e ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade. al´m de introduzir o estudo da lino e guagem entre os materiais antropol´gicos. e A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais a tempo. Assim sendo. sua psicologia. estaremos nos referindo a antropologia social e cultural (ou etnologia). Ela ´ parte integrante dele. j´ que diz respeito a tudo que constitui e e a a uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica. somente atrav´s dos comportamentos . Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia. toda vez que utilizarmos a partir a de agora o termo antropologia mais genericamente. cidade de uma sociedade. suas t´cnicas. ao estudo dos dialetos a a (dialetologia). e c˜ A antropologia psicol´gica. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m a e a a o e psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos o e a aqui dar conta. Um dos aspectos e cuja abrangˆncia ´ consider´vel. mas procuraremos nunca es` quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia. o antrop´logo ´ o e em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais. e sim a indiv´ a a ıduos. e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitua ´ tivos (com antropologia social e a cultural. suas cren¸as religiosas. Isso posto. suas cria¸˜es co art´ ısticas. Ou seja. sua orca o e ganiza¸ao pol´ c˜ ıtica e jur´ ıdica. come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo o c e antropol´gico da l´ o ıngua (a l´ ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura) conduzia a um estudo ling¨´ uıstico da cultura (a l´ ıngua como modelo de conhecimento da cultura). das quais falaremos a seguir) do campo global da antropologia. e de longe. os menores detalhes dos noso Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem.

economistas. de fato. A experiˆncia e Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais o c avan¸adas apenas muito recentemente. psic´logos. a e o Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ). e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha ca ´ sobre si mesmo.cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais a o distantes. cultural. ela se encontraria hoje. aquilo que era evidente ´ Infinitao e e mente problem´tico. que faz dessa abordagem um tratamento fundamentalmente diferente dos utilizados setorial. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida c˜ ` a por um objeto emp´ ırico qualquer (e. o o O estudo do homem em sua totalidade A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade. somos n˜o apenas a cegos a dos outros. apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma e a c˜ distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que a o ´ long´ e ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por a natural em n´s mesmos ´. a c˜ o daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement). a sem objeto. dos grupos marginais. na forma¸ao antropol´gica. ela. dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cama ponesas europ´ias). Disso decorre a necessidade. como c vimos. ou seja. inicialmente privilegiou claramente as ´reas de c a civiliza¸ao exteriores a nossa. ıpio Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas ca do contato com o Ocidente. ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhee e cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao c˜ direta. c˜ Al´m disso. o juristas. presos a uma Unica cultura. por´m. e finalmente. como j´ comentamos. c 5 . . h´ alguns anos apenas e a na Fran¸a. Ocorre. soci´logos. do setor urbano. a a perplexidade provo. De fato. As primeiras pesquisas trataram primeiro. mas m´ ` ıopes quando se trata da nossa. por impregna¸ao lenta e cont´ c˜ ınua de grupos humanos min´sculos com u os quais mantemos uma rela¸ao pessoal. . em especial. que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em e ca o rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser conc˜ e a fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades extra-europ´ias).12 ´ CONTEUDO sos comportamentos). Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas dia feren¸as significativas. em seguida. pelo tipo de sociedade ao qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente).mente pelos ge´grafos. e das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas o e geogr´ficas.

no reconhecimento. aquilo que os seres humanos tˆm em comum e ´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros. a ´ Aquilo que. dada a nossa dificuldade em fixar nossa aten¸ao no que nos ´ habitual. s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa. . uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de ca c˜ 6 Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement) o a e . ent˜o. jogos profundamente diversos. e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras. e l´ ınguas. nos emocionar. caracteriza a unidade do homem. participando ao a mesmo tempo de uma comum humanidade. a nos espiar. que consideramos espontaneamente como indiferenciadas. mais ainda. ıvel mas n˜o a unica. E. cotidiano. comemorar os eventos de nossa existˆncia. ´ sua a a e aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orgaa niza¸ao social extremamente diversos. uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do e mundo”. modos de conhecimento. do idˆntico. o juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. e. faz tanta quest˜o. para elaborar costumes. uma verdadeira revolu¸ao episo c˜ temol´gica. Come¸amos. portanto. que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente a por inatas (nossas maneiras de andar. como j´ o dissemos e voltaremos a dizer. notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos. institui¸oes. dormir. rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natuco a ral”. conhecimento. de que a antropologia. com a maior proximidade poss´ ıvel. familiar. a a a elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se a e esperar) mas. apenas a nossa disciplina c˜ permite notar.´ CONTEUDO 13 da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que c˜ e nem ter´ ıamos conseguido imaginar. pelo contr´rio. a nos surpreender com aquilo que diz respeito a c a n´s mesmos. extremamente diversificadas. Ou seja. ´ a e e e e sua aptid˜o a varia¸ao cultural a ` c˜ O projeto antropol´gico consiste. As sociedades mais die a ıvel ferentes da nossa. assim. A abordagem antropol´gica provoca. Isso sup˜e ao a o mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo. e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. Ela implica um deso c ca centramento radical. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura o o passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. . na realidade. Aos poucos. do igual.) s˜o. e que consideramos ”evic˜ e dente”. E. posturas. de fato. m´ ımicas. nos encontrar. o produto e a de escolhas culturais. c˜ pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana. correlativamente. a meu ver.

o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas insa ´ a titui¸˜es do n˜o-europeu. . e correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s meso mos. Poder´ a ıamos multiplicar os exemplos. da Africa ou da Oceania. mesmo o sendo filosofia social. E os ´ ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que e a ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim co de encontr´-los. mas tamb´m uma a e nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. que visa superar a irredutibilidade das culturas. seguido por Leroi-Gourhan). De fato. A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de e c˜ identificar nossa pequena prov´ ıncia de humanidade com a humanidade. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide: e ”Eu sou mil poss´ ıveis em mim. que ´ ´ teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia. e na Fran¸a a e a c partir de 1943 (Griaule na Sorbonne. ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o e e c ca v´lida. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o: ca a ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade? a e Evidentemente. que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um e Montaigne). somos ` a aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscric˜ tos em n´s desde o nascimento. as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas. Confrontados a multiplicidade.14 ´ CONTEUDO si mesmo. Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ alo c a gumas d´cadas. Como escreve L´vi-Strauss: e ”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo a o do observador. mas n˜o posso me resignar a querer apenas a um deles”. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool). e sim de seus m´todos de pensamento. mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa a ca a disciplina. e da cultura e c˜ com a nossa cultura. de pens´-la cientificamente). por viajantes vindos e ´ da Asia. freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com u a do saber. c a e sim o de reduzi-la. das culturas. nunca se deram como o objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos. Esta elaborou um orientalismo. um americanismo. sociais e culturais da co ca o a antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder o de vista. como atestam notadamente e e os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia. criticista com Kant. A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo. a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s. e n˜o fossem adquiridos no contato com a o a cultura na qual nascemos). Isso n˜o impede que a constitui¸˜o a ca de um saber de voca¸˜o cient´ ca ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido a partir da cultura europ´ia. geogr´ficas. A rec´ co a ıproca tamb´m ´ verdadeira. hist´rica com Hegel). a priori enigm´tica. um e africanismo. ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence. um oceanismo. ıdo o Isso posto. enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´ ısmo”. n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ a a ıveis”. a o a a reflexiva com Descartes. bem como as grandes religi˜es.

´ CONTEUDO as melhores inten¸oes do mundo. amputando parte de si pr´pria e fazendo. tamb´m aqui. a a e a a ılia fam´ dos antrop´logos ´. tamb´m adultas. a o c˜ Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o ` ca terminol´gica dos franceses). Procuraremos. assim como uma o civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos. pelo contr´rio. mais ”adultos”. pol´ o ıticas. considera que. insiste. uma ciˆncia constitu´ cone ıda. quando se trata de ılia o e dar conta (aos interessados. isto ´. mostrar nesse livro a que a d´vida e a cr´ u ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas o a se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´ c˜ ıtica dos de outrem. isto ´.de que estamos finalmente mais u ”l´cidos”. O que significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado. das culturas. ao adotar ipso facto a l´gica das outras socieo dades e a censurar a sua. aos seus colegas. por sua vez. como acabau mos de escrever.se sobre a pluraridade irredut´ das o ıvel etnias. ao n´ ıvel das palavras. mais ”livres”. no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde pero manecer por tanto tempo cega para consigo mesma. se eles s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana. como a f´ a ısica. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias doa e minantes de nossa sociedade . e 1) A primeira dificuldade se manifesta. a si mesmo.deve ser sempre retomada. e de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadeie ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla. seja levado por o alguma crise de identidade. Estamos. com os quais estivemos vi-vendo. e evidentemente. por sua vez. do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´ e o a definitivamente encerrada.que seria a e o c´mulo em se tratando de antropologia . como sempre. a e convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos o a o que observamos em seres humanos. No segundo (que ´ mais usado nos pa´ angloe e ıses . muito dividida.6 que n˜o sendo. aos estudantes. intelectuais . Desconfiemos por´m do pensamento . um objeto de exclus˜o. particularmente reveladora da juventude de e e nossa disciplina. c˜ 15 O pensamento antropol´gico.o expansionismo ocidental sob todas as suas formas econˆmicas. Dificuldades Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´ o a ısticas maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade. de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessio a vas. desses materiais e o u dessa experiˆncia. ela deve c˜ igualmente aceitar a diversidade das culturas. mais ”conscientes”. Mas ela ´. tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao.

um invent´rio a das possibilidades inconscientes. como verea e mos. L´vi-Strauss substituiu. A antropologia.ou (com os autores e co americanos) de antropologia cultural . e o mais minuciosa e poss´ ıvel. ıvel ca fazer aparecer a l´gica espec´ o ıfica da sociedade que se estuda. Esses fenˆmenos podem ser recoco o lhidos tomando-se notas. Para estes a a o ultimos. deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social a cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es . A etnografia ´ a coleta direta. 1973) e 7 . um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito? e e E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam. finalmente. sobre a unidade do gˆnero humano. um modelo ling¨´ uıstico. as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma e a a da outra no s´culo XX. isto ´. a u 8 Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses. mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias socio e ais. Estreitamente vinculadas nos e e o s´culos XVIII e XIX. que a etnografia. As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos. ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento e a e final”(L´vi-Strauss.que consiste mais no estudo dos comportamentos. a ´ e antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard). a antropologia deve aspirar a a tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas. mas tamb´m por grava¸˜o sonora. E optando-se por antroo e pologia. que n˜o existem em n´mero ilimitado”. a etnologia e a antropologia constituem os trˆs moe e mentos de uma mesma abordagem. e ca a a A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos. com a Radcliffe-Brown (1968). Como escreve L´vi-Strauss. com Evans-Pritchard (1969). ”seu objetivo ´ alcan¸ar. 3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´ e c˜ ıgua que a antropologia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam comıvel parar as sociedades entre si. c como L´vi-Strauss. procurando ao mesmo tempo se reencontrar perioe dicamente. Estabele¸amos.8 e e e os que pensam. mas como sistemas simb´licos. longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown). vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza (o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser invena e tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada). que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem a ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza. por uma impregna¸˜o duradoura e cont´ o ca ınua e um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. dos fenˆmenos que observamos. al´m da e e c e imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir. fotogr´fica ou cinematogr´fica.7 2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´m e atribuir a antropologia. o Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de neo a e Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa a localizar-se.16 ´ CONTEUDO saxˆnicos). seu nome o e a e proclama suficientemente. que ´ preciso tratar as sociedae des n˜o como sistemas orgˆnicos. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica` a co mente o homem.

R. e ca Aqui. empenhando-se em compreender a forma¸˜o ca da sociedade brasileira. O pesquisador torna-se. a o Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica ca c˜ o o est´ longe. Durkheim considerava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o a c˜ a pudesse ser util. um milia tante. um ”antrop´logo revolucion´rio”. e. mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia c˜ menos frustrante ` sociedade americana. e Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e c que continua dividindo profundamente os pesquisadores. por exemplo.´ CONTEUDO 17 nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das institui¸oes”. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a c˜ qualidade de especialistas de conselheiros. Quer´ ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo´ gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. Margaret ´ o a Mead. do que o a o ”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia a o u cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”. com a coloniza¸ao. Hoje v´rios colegas nossos consia a deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo c c˜ especialmente )ean Copans. ”pr´ximas do grau zero e e o de temperatura hist´rica”. entre a pesquisa que se pode qualificar de fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”. pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o de ca uma sociedade melhor. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa ca e e c˜ de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”. isto ´. 1975). que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”. de ser unˆnime. 9 10 Sobre a antropologia aplicada. cf. 1971 A maioria dos antrop´logos ingleses. participando em especial dos programas de desenvolvimento e das decis˜es pol´ o ıticas relacionadas ` elaborac˜o a a desses programas. especialmente. e a hist´ria recente da antropoa a o logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas. desde 1933. c um autor como Gilberto Freyre. o 4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem e a parar. realizou suas pesquisas a peo . Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos c˜ o ca o a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria ` c o em considera¸˜o”. estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas Samoa (1969). onde come¸o a escrever este livro. Bastide. a e c˜ 10 a antropologia teve inicio. mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do conhecimento hist´rico. como veremos. no Nordeste do Brasil. ent˜o. Mais categ´rico ainda. e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. E por ela que. e isso desde seu nascimento. contribuindo na constru¸ao de uma o a c˜ ”antropologia da liberta¸ao”.

encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que. franc. as estrat´gias daquilo ca e que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o ale c a tera nada quanto ao amago do problema. c˜ e Perfeitamente a vontade entre os astecas. elas n˜o tˆm. ca e ap´s ter lembrado que o saber cient´ o ıfico sobre o homem ainda se encontrava num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza. ele estava l´ enquanto mission´rio ` a a a fim de converter a popula¸ao que estuda. que ´ o seguinte: 0 antrop´logo ˆ e o deve contribuir. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad.18 ´ CONTEUDO Foi com ela. a franc. etc a 11 Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico ca ´ pesquisador. se interroga.. 1963) se deixa a literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. no momento. Mas v´rios anos depois (trad. nada ou quase nada a oferecer. que se deu o in´ ıcio da Antropologia. enquanto antrop´logo. Desde o s´culo XVI. come¸a a se implantar aquilo o e c que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico. de fato. mas sobretudo e e n˜o lhes pedir nada”. Longe de procurar convencer seus h´spedes da a o superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada. Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. a c˜ escreve: ”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da e c a¸ao pr´tica. ´ dar muito a elas. a ajuda ao ”Terceiro Mundo”. O c˜ a a e verdadeiro meio de permitir sua existˆncia. inclusive. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico. que podem ser e o ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun. 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento e .. a As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antropologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas e primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com co o ca o ”selvagem”. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos c˜ de falar. para B transforma¸ao das sociedades o c˜ que ele estuda 11 dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo co britˆnico.11 c˜ O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o a religiosa. c˜ Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no e Brasil entre os Tupinamb´s. Nadei foi a conselheiro do governo do Sud˜o. sobretudo. a ”revolu¸˜o”. durante a coloniza¸ao. ele os interroga e a e.

ao meu ver. perturbando completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar. para ajudar os atores sociais a ca e o responder a essa quest˜o. onde ca come¸ou a redigir este livro c 12 . de se distrair. econˆmica e o socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. por outro lado. da seguinte forma: nossa abordagem. a meu ver. seria c˜ a conveniente. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela ca mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa. m´dico. mas nas quais poc a a der´ ıamos ter nascido). traa a o balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. de fato. Ou seja. uma e e conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o. no que me diz respeito. pr´prias culturas rurais e ure o banas. de se vestir. As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista co ca podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa. que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ mais e familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos) e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos. mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente ue a a e a dita. de pensar 12 e levando a novos comportamentos que n˜o decorrem de uma escolha) a A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte: a a o e h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindoa lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem a o conflito dram´tico. Caso contr´rio. Em compensa¸˜o. sem risco de despersonaliza¸ao? a c˜ Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo. n˜o deve. diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a e ` qual temos o dever de responder. perceber realmente o fasc´ ınio que exerce este modelo. as e cren¸as. Somos. parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil. sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento ca o de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento que ´ a do racionalismo social. de se encontrar. agrˆnomo. a partica c e cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo c˜ o e e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´.´ CONTEUDO 19 Eu responderia. os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas. pelo menos enquanto antrop´logo. no decorrer de minhas estadias e sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do e e Marfim. o e pol´ ıtico. est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de a homogeneiza¸˜o. organizar pol´ o c e ıtica. a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica a c˜ a da antropologia. que se convertesse em economista. Eu pude.

evidentemente. ` natureza desta obra que a deve apresentar. dominar o campo e ´ global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social. o encontro e de l´ ınguas. N˜o ´. t´cnicas. ` o o tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos ca a co de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque ca a da acultura¸ao. a ´ b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento e a c˜ extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas. sem itiner´rio no decora a e a rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas. isto ´. n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados. No fie nal do s´culo XIX. pr´-hist´rica. Isso sup˜e uma ruptura com o o a concep¸ao assim´trica da pesquisa. um unico pesquisador podia. de seu pr´prio saber e saber-fazer. pol´ e o ıtica. que e o n˜o ´ de forma alguma. a antropologia do . em um n´mero de p´ginas reduzido. como podemos notar. isto ´. isto ´. antropologia sem troca. c˜ e ca co N˜o h´. Em suma. e sim sociedades que est˜o passando por um a desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito. por muta¸˜es de suas o e co rela¸oes sociais. culturais de um e o povo. finalmente. um campo de pesquisa u a imenso. a antropologia econˆmica. no limite. o caso hoje em dia. ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` c˜ e a violˆncia negadora das particularidades econˆmicas. elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais o a a m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma a e crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural. e o e provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o ´ o ´ a extensa). por movimentos de migra¸˜o Interna. O antrop´logo considera a e o agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13 a e a 13 A antropologia das t´cnicas. uma atividade de luxo. sociais. nossa c˜ e disciplina deve. 5) Uma quinta dificuldade diz respeito. e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber. a pesquisa antropol´gica.20 ´ CONTEUDO a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e e c˜ o c a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o a tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada ca a tempo. cultural. e por um processo de c˜ ca urbaniza¸ao acelerado. que n˜o s˜o a a a a mais ”sociedades tradicionais”. de fato. mentalidades. cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais trac˜ o balhamos. enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos) ´ a co a e. sem a e nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais. e sim fora mular quest˜es com eles. baseada na capta¸˜o de informa¸˜es. sobretudo. Atrav´s da especificidade de sua abordagem. ling¨´ uıstica.

procurando dar conta da pluraridade. Ela ´ ao contr´rio claramente plural. que nas ciˆncias humanas ´ um engodo. o ´ a 21 Era-me portanto imposs´ ıvel. Eu lembrarei em a primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa disc˜ ciplina e como. se.. Muito mais modestamente. esfor¸ando-me ao mesmo tempo para e e c apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros.a meu ver cinco . atrav´s dessa hist´ria da antropologia. co . em vez de fingir ter adoe tado o ponto de vista de Sirius. optei voluntariamente pela segunda. a antropologia religiosa. foram se colocando e o progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. o co ´ os principais eixos anteriormente examinados ser˜o. surpreena o dente. dentro de um texto de dimens˜es t˜o restrio a tas. em um movimento por a assim dizer retroativo. mas tamb´m pessoal). mas de diversos pontos de vista.. n˜o a a dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. Em o e seguida. do alcance e da riqueza dos campos abertos pela antropologia. Finalmente. reavaliados com o objetivo de definir aquilo que constitui. em uma ultima parte. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – dua ` e a vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que. que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia. a antropologia dos sistemas de comunica¸˜es. possam ser levados e a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´ a ıstico da antropologia. em algum momento de sua vida (profissional. Ela diz respeito a todos n´s. espero. Teria sido. mesmo de uma forma parcial. a Ver-se-´ que este livro caminha em espiral.´ CONTEUDO de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada.em volta dos quais c o o oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. em vez de pretender uma neutralidade. interessar-se em ir mais adiante. E. As preocupa¸oes que est˜o no a c˜ a centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencioo nadas ser˜o retomadas. e e e pertence a todo o mundo. entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica e a e e o de adotar uma linguagem menos especializada. a meu ver. tentei colocar um certo n´mero de referˆncias. dar conta. o parentesco. esbo¸arei os p´los te´ricos . de fato. a antropologia permanecesse monol´ ıtica. Pois a antropologia. Veremos no decorrer deste e a livro que existem perspectivas complementares. entre as quais ´ preciso escolher. Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo p´blico poss´ u ıvel. mas tamb´m mutuamente e exclusivas. a especificidade da antropologia. das organiza¸˜es sociais. art´ co ıstica. definir alguns conceitos a partir dos quais o u e leitor poder´. Esta ´ a raz˜o pela qual.

22 ´ CONTEUDO .

Parte I Marcos Para Uma Hist´ria Do o Pensamento Antropol´gio o 23 .

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no Jap˜o. em 1558 Jean de Lery. ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem descoe bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´m a e e atribuir-lhes um estatuto humano ´. Dizem respeito em primeiro lugar ` a P´rsia e ` Turquia.Cap´ ıtulo 1 A Pr´-Hist´ria Da e o Antropologia: a descoberta das diferen¸as pelos vic ajantes do s´culo e a dupla resposta e ideol´gica dada daquela ´poca at´ noso e e sos dias A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo e a o e a ` Mundo. a 2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII) o a co ıtas e ˆ nc Canad´. de Rubrouck (reed. Andr´ Thevet e a a e a ´ a ´ e escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica. e que nasce desse primeiro confronto a e a visual com a alteridade. 1985). formando o que e co habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. para um per´ e ıodo posterior (s´culo e XVII) Y. ` Asia e ` Africa. Paris reed. Notamos que se. na China. A c grande quest˜o que ´ ent˜o colocada.. nessa ´poca. P. Garnier-Flammarion. Duviols (1978). Em 1556. e 1 25 . religioso: O selvagem tem e e uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital e a para os mission´rios. Consultar tamb´m como exemplo. bom como a coletˆnea de textos de J. G. por exemplo. A Hist´ria de Uma c a o Viagem Feita na Terra do Brasil. 1979. para um per´ e ıodo anterior (s´culo XIII). j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ a a a e poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. d’Evreux (reed. no s´culo XIV. em seguida ` Am´rica. O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a c e a c 1 a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. Cf. 1985). as Lettres Edifiantes et Curieuses de la a a Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776. a quest˜o ıvel ca e a As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que co dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes.

ao c ı a contr´rio.. aqueles s˜o. senhores e uma ordem pol´tica que. Las Casas: ` ”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros. igualavam-se aos gregos e os romanos. e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia a e e 2 que se tem sobre si e sua sociedade. reis. os esp´ritos lentos. N´s o mesmos fomos piores. Ela ser´ definitivamente e a e a resolvida apenas dois s´culos mais tarde. Assim. e n˜o eram infeco a a riores a nenhuma delas. s˜o por natureza serc ı a a Sendo. Sepulvera: ”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o. e deram mostra de muito menos prudˆncia e sagae cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais. paternalista e ca do outro: 2) sua exclus˜o a 2 .) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas e na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis. por´m. e Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes. n˜o ´ de forma alguma solucionada. (. mesmo que n˜o see a a jam superiores em for¸a f´sica. e at´. e algumas de nossas regi˜es da Espanha. em alguns reinos. a Fran¸a. a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio ca a ´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade. os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a meo ca a tade do s´culo XIV: no debate. (. as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o. os pregui¸osos. ´ melhor que a nossa. cidades. e a e Ora. que se torna uma controv´rsia p´blica. foram muito mais pervertidas. responderemos que essas ı a a pessoas tˆm aldeias. sen˜o todas. em Valladolid). os senhores. vilas. os superavam. que e e u durar´ v´rios meses (em 1550.26 ´ ´ CAP´ ITULO 1. e e c c mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do ese tranho apreendido a partir de uma falta.) Pois a c o maioria dessas na¸˜es do mundo. co a irracionais e depravadas. e que op˜e o a a o dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera.) Esses povos igualavam ou e at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que. pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de a ca nossos costumes”. e ı em alguns reinos. Eles superavam tamb´m a e e Inglaterra. ´ e co ı e melhor que a nossa.. por natureza. na Espanha... (. em alguns de seus costumes.. mesmo que tenham as a e c ı for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias. no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a de nossa Espanha. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ colocada..

E ´ justo e util que sejam servos. seres da floresta). e 1. O termo primitivos ´ que triun` e far´ no s´culo XIX.1. os s´culos ` ca e XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´. inteligentes. pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca. a mais comum e e Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural ı a que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es e ı co mais cultas e humanas. pode-se e impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa. bem como o declara o a o direito natural que os homens honrados. estranhas ` vida civil a co a a e aos costumes pac´ficos. o Renascimento. e vemos isso sancionado pela pr´pria e ´ o lei divina.1. mas ligados entre si por um movimento ca o de pˆndulo ininterrupto. e opondo assim a animalidade a humanidade. mesmo que n˜o se a a a expressem mais em termos religiosos. permanecem vivas hoje. E se eles recusarem esse imp´rio. isto ´. para a natureza toe dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos a a e com a qual nos identificamos. as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso. mas em e a e um mesmo autor. quatro s´culos e ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27 vos. virtuosos e humanos dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”. de modo que.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato. enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo a e e de subdesenvolvidos. que consiste em expulsar da cultura. Cf. ´. e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao.. Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas. conv´m nos determos sobre eles. L´ry (1972) ou Buffon (1984). por exemplo. gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia c a a e de suas leis. eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais a humana e ao culto da virtude. ca c˜ A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o paru a a ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros e ` c˜ a oposto a significa¸˜o da linguagem humana). a e Ora.3 Como s˜o estere´tipos o e a o que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta a dificuldade para nos livrarmos. Essa atitude. como lembra L´vi-Strauss. e 3 .

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´ ıstica dos ”selvagens”.4 Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar e e se conv´m conferir aos ´ e ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso e e do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma a c˜ resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos: a a • a aparˆncia f´ e ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”; a • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o e imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5 a a • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles e falam ”uma l´ ıngua inintelig´ ıvel”. Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso ` a a a a linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso soe a bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o ` a o grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita, e a sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pase a sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII: a e e ”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ e ıritosem ardor para com sua fˆmea”. e ´ ”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Goo o mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico o ı ı ´ Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa´ e ´ crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus ı pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interloe co cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta a e e o da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os e o o e ind´ ıgenas possu´ ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisioa neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o ca a a sujeitos ` putrefa¸˜o” a ca 5 Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´ e e par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M. e JVl´taili´, 1979. e e 6 Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavele a e mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´ a e ıvel fazˆ-los e evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa ca a e ca
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1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO

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mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do a ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons e a a e a h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e a at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que e e tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”. a ”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco ı a a trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole o a ca constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, aboa min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem a u atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555) ı e Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias. o ı Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa o a a u ´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Lie e ` vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e o convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia. e Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos paa c˜ recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes a para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado ` o e em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel. ca ` o 1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´ o o ındios da Am´rica do Norte. e Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´ c˜ e ıllimos a influˆncia da natureza ´ total, e e ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´ c a o a pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema o a ıda umidade: ”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que emca brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria ı de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu temperaı ca mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio a ı dos nervos desses homens embrutecidos”. Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e e a ´ a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo sea xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste a

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s a a o degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´ e ıcio ca ısica”, Pauw chega a de` ´ grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada: c˜ c˜ e ”O gˆnio embrutecido dos Americanos”. e ”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o e ı ca alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o ema c a a a preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem a ca e e pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a a ı a falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para u si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma. Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como irca remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado a ca num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um u e e c longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa, ´ ´ a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se e encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proximidade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da a a constitui¸ao f´ c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas o sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento e aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o ca ca c˜ a cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo c˜ a de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um e a c hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto e e a poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de a outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados: ”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses a c ı frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar e ca entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de satisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´ e a e a a e poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?” ı ca co e Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´ ıgenas americanos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns a quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas daa quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7 o
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Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).

A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31 2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o. onde a civiliza¸ao c˜ nessa ´poca ainda n˜o penetrou.8 Pea e co a trificados em uma desordem inexor´vel. que. j´ que comem carne a o a humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. o qual. nem mesmo as for¸as da coloa c niza¸ao. de Rousseau. publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam. em sua Introdu¸˜o ca a Filosofia da Hist´ria. em ruptura a com a ideologia dominante do s´culo XVIII. ”Ele cai”. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. o autor da Fenomenologia do Esp´ ırito vai. ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”nee gros”n˜o respeitam nada. mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Amerio canos. o a ´ Tudo. que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e e a a o a ”consciˆncia de si”. Id´ias que ser˜o retomadas e e e a expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel. ”para o n´ de uma coisa. apenas radicalizam id´ias come partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. Vivendo em uma e o ferocidade bestial inconsciente de si mesma. o pa´s da infˆncia. de um objeto sem valor”. da qual falaremos mais adiante. a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda c˜ e u ´ do que a do Norte. vale a pena notar. que representa para o fil´sofo a forma mais e a o nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade: ´ ”E o pa´ do ouro.”Ou ainda: ”S˜o os a seres mais atrozes que tenha no mundo. religi˜o ou Estado. Mas ´ a a e ´ ´ a Africa. est´ envolto na cor negra da noite”. nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es` o o tado de natureza. nem institui¸˜es sociais. Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente c˜ a a nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a ` indianidade em Pauw – . ` e Na leitura dessa Introdu¸ao.1. suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”. e escreve Hegel. eles n˜o tˆm moral.1. poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal c˜ a o da humanidade. seu semelhante ´ para eles apenas uma carne e como qualquer outra. al´m ıs ı a e do dia e da hist´ria consciente. fechado sobre si mesmo. em especial. em uma selvageria em estado bruto. na Africa. a Africa profunda do interior. e. e e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade. nada. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. a a ca 8 . notamos. ıvel ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´ ıpio africano. nem mesmo eles pr´prios.

. descobre. sem pol´ ıcia. instaura-se uma cr´ ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenuic˜ . no Romantismo.) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melhoa res. entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a.. de pele escura. E n˜o tˆm governo”. Os termos da atribui¸˜o ` ca permanecem. sem leis. sem economia. a a a c Eles vivem cinq¨enta anos. O selvagem a n˜o ´ quem pensamos. sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo a e ´ XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. e. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica: e e u e ”As pessoas est˜o nuas.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emia e nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza ıvel dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. a e Evidentemente. aportando no Caribe. . pois tudo ´ colocado em comum.32 ´ ´ CAP´ ITULO 1. sem tecnologia. ou sua amiga. a sem sacerdotes. Nenhum possui qualquer coisa que seja. daquilo que era apreendido como um menos que se torna um mais. A figura do bom selvagem s´ encontrar´ sua o a formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento: ca a e o no rousseau´ ısmo do s´culo XVIII. como veremos. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: 1. da mesma forma que e o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natuıdo ral). sem clero. essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas c˜ em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura c˜ c˜ idˆntica) permanece ainda bastante r´ e ıgida na ´poca na qual o Ocidente descoe bre povos ainda desconhecidos. pela c˜ primeira vez.. sua irm˜. e. u a e Crist´v˜o Colombo. a a . s˜o bonitas. . rigorosamente idˆnticos. Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um a vazio que se torna um cheio (ou plenitude). N˜o deixa e e a por´m de estar presente. sejam elas sua m˜e. e E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam. ”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal. eles n˜o sabem se a e a matar uns aos outros (. pelo menos em estado embrion´rio. O car´ter privativo dessas sociedades sem a escrita. e a a Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseiaa e e se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros. na percep¸˜o e a ca que tˆm os primeiros viajantes. sem religi˜o organizada. ele tamb´m o para´ o a e ıso. de corpo elegante. em s´guida. como tamb´m n˜o h´ terra melhor”.

Le Supplement aux Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et u un Sauvage. na Europa. Todos os nossos padres que a a freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente u entre eles do que entre n´s”. ıs a 1978). a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante e u em grande parte na literatura sobre os ´ ındios. sem pris˜es e sem torturas passam a o vida na do¸ura. o e a discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade. Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefac˜ a e 10 tos. um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia e e a e e a tranq¨ilidade est´ entre eles. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 33 dade original”do estado de natureza. desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa u a a vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). moderados.. 9 . Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo. O huguenote que eu interroguei at´ o e encontrou. . A seguir temos: em 1703. P. Ele escreve. talvez esteja conservado em alguma parte. O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage e au Pays des Hurons. de e e Vol-taire. estes ultimos n˜o hesitando em oferecer o ´ a suas mulheres como presente. na maior parte das vezes. e em especial por le Hu9 ron. a respeito de e e ”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos a a e quais estou falando”. o contentar-se de pouco sem avareza. sobre esses ultimos: ”Podemos portanto ´ de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o.2. Para o autor o a dos Ensaios. ´ o mesmo grito de entusiasmo. E Montaigne. Esse fasc´ ınio exercido pelo ind´ ıgena americano. esse estado paradis´ ıaco que teria sido o nosso outrora. de Lafitau. entre os Tupinamb´s. L´ry. . Seu ideal: ”viver em comum sem processo. Vlng´nu. referˆncia ` crueldade. mas n˜o quanto a a ` a a a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. em 1767. ı Do lado dos livres-pensadores. na tranq¨ilidade. isto ´. protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo cac˜ loroso da natureza. Nas primeiras Rela¸oes e c˜ dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler: ıtas ”Eles s˜o af´veis. 10 No s´culo XVIII.1. Moeurs des Sauvages Am´ricains. em 1744. Se o discurso euroca o peu sobre os Astecas e os Zulus faz. Duviols. triunfa nos s´culos XVII e XVIII. liberais. ser ass´duo no trabalho”. interroga-se e a sobre o que se passa ”aqu´m”. La Hontan: e ”Ah! Viva os Hurons que sem lei. de Gabriel Sagard. e gozam de uma felicidade desconhecida c u dos franceses”.

e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa e e ocupa¸˜o. . Em 1721. vocˆs s˜o pobres. a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens. . . pois limitam seus bens ao dinheiro. . Aqui um doce ´cio a o ´ compartilhado pelas mulheres. a ilha de P´scoa. em especial Samoa. As mulheres ca pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. u O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´ o ıdos. em suma.). . e soe a bretudo o Taiti. ´ e E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau acabou de escrever. Tudo lembra a cada a instante as do¸uras do amor. Se n˜o o fossem. Conrad. em vez u e a de simplesmente gozar da cria¸˜o. para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ soc e bretudo desse come¸o que precisar´ c ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser a os disc´ ıpulos da natureza” 11 . tudo incita ao abandono”. correlativamente fustigam tudo c que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. os que exaltam a do¸ura das sociedades ”selvagens”. Depois. . dos arquip´lagos e polin´sios. c Todos os discursos que acabamos de citar.34 ´ ´ CAP´ ITULO 1. e. que n˜o queremos nada a fim ca o a de desfrutar mais livremente de tudo”. precisar´ ıamos ir entre os povos mais ignorantes. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: das Lumi`resu 11 – . 1980): ”Seja dia ou noite. que a etnologia deve grande parte de seu sucesso com o p´blico. . as ilhas Marquises. ´ precisamente a a e esse imagin´rio da viagem. por exemplo. . a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma a sociedade de prazer e de saudade. Ora. uma humanidade convivial cujas virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand. n˜o nos seriam a a a diretamente acess´ ıveis. Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. Melville. ` e Segalen. ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisiene e o a ses. Cada um colhe as frutas na a primeira ´rvore que encontra. como n´s. Aqui est´. . as casas est˜o abertas. e especialmente. 0 e a personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco: ”Vocˆs s˜o loucos. e Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civic˜ c˜ liza¸ao. a a ıdo partir do fim do s´culo XVIII. o que escreve Bougainville em sua a Viagem ao Redor do Mundo (reed. pelo charme e prazer id´ e ılico que provoca o encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul. n˜o nos tocariam mais nada. . o fasc´ c˜ ınio pelos ´ ındios ser´ substitu´ progressivamente. pois procuram com muito empenho uma infinidade de e a coisas in´teis. ou na casa onde entra.

essa ”nostalgia do neol´ ıtico”. tais como existem ainda nas sociedades long´ ınquas do globo. portanto. como acabamos de ver. Se essa busca do Ultimo dos c˜ u Moicanos. op˜em-se c˜ a co o sociedades de solidariedade comunit´ria. fazem com que parte de nossos sonhos s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares o ıso o do Sul. um ”animal com figura humana”(L´ry). era uma fuga romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”. e ıdo e *** A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si mesmo) n˜o parou. especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato co co corruptor com o mundo moderno. a Ora. Malia c˜ o o nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso: a a ”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das foru a a e mas primitivas da vida humana.1.-ang´stias. e O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades. as mesmas insatisfa¸oes. que s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas. ´ encontrada em muitos o c˜ o e autores. n˜o ´ novic˜ a e dade. a meio camie nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros e . ıdo o Mas conv´m. de oscilar entre os p´los de um verdadeiro a o movimento pendular. vivendo na harmonia e na transparˆncia. de que fala Alfred M´traux e que ese teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo. O etn´logo. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a ´ sua. para mim. e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss. como o militar. desejos. ´ recrue o e tado no civil. do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas. a meu ver. termo e a c˜ proposto por Sapir em 1925. Pensou-se alternadamente que o selvagem: • era um monstro. abrigadas na suntuosidade de uma a natureza generosa. Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora u a ıvel do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da ` abstra¸ao. foi certamente o de a o ”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas). que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica.2. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 35 ao Ocidente mort´ ıfero li¸oes de grandeza. A antropologia. pelo menos. ir mais longe. A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ca ıcios”do progresso (nos quais muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o anoo a nimato do nosso ambiente de vida. ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na e realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa disciplina.

at´ e inclusive suas pr´prias e o mulheres. ou profundamente u virtuoso e eminentemente complexo. O outro – o ´ ca ındio. o taitiano. pelo contr´rio. por sua vez. ou um comunista decidido a tudo compartilhar. o outro n˜o ´ consi` c˜ e a e derado para si mesmo. c˜ • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o a permanente. . est´pido e de uma simplicidade brutal. obedecendo estritamente a aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo. o Pa´ Basco a e e e ıs ou a Bretanha. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com a vistas a explora¸˜o econˆmica. na paz e na harmonia • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes. uma ”coisa”. adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos c da natureza. ou. um ser preso. Taiti. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ramos n´s. ou participava. ou era profundaa a mente religioso. e o c˜ • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel. sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar. vivia num e a a estado de beatitude. pelo contr´rio. u • era trabalhador e corajoso. • era um animal. em todos os casos. ` co • era atrasado. Olha-se a si mesmo nele.36 ´ ´ CAP´ ITULO 1. ` convers˜o a a religiosa ou a emo¸ao est´tica. • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era e leg´ ıtimo temer. mas recentemente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um a e imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica. quanto ao militarismo pol´ ` ca o ıtico. pelo contr´rio. ou. ou. obrigado a assumir as duras tarefas da ind´stria. Mal se olha para ele. Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se transa co c a forma rapidamente em fasc´ ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem a a muita rela¸˜o com a realidade. enquanto que o Ocidente era. um ”objeto sem valor”(Hegel). ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando c de prote¸ao. de uma humanidade da a qual tinha tudo como aprender. • era admiravelmente bonito. ou feio. um ”vegetal”(de Pauw). c • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus. ao inverso. Mas. • vivia num eterno pavor do sobrenatural. ou essencialmente pre gui¸oso.

Mas as quest˜es a o (e para o que nos interessa aqui.2. tala vez anacrˆnico. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 37 Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. ainda no final do o a a s´culo XX. ´ verdade. meıvel nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar c˜ c˜ que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior. perguntase: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualidae a a des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade. come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento c u ıcio europeu. descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento o etnol´gico. o autor da Viagem n˜o tem resposta. e a a permite a constitui¸ao progressiva. Montaigne (hoje as vezes criticado). mesmo ` se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´ e ındios do que a inumanidade dos europeus. reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a e e e c˜ oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar. e sim diferente. muito mec˜ a o nos de uma ciˆncia antropol´gica. essa ´poca. e por alguns apenas de e e seus esp´ ıritos os menos ortodoxos. a partir da observa¸ao direta de um obc˜ jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne). N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se e a e etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”. entre os ind´ e ıgenas brasileiros. seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os e conflitos do antigo. n˜o de um saber antropol´gico. e o e o . Seria em v˜o.1. numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que e e n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado a a a qualquer antrop´logo. t˜o problem´tico. os objetivos teol´gicos e os c˜ a o que poder´ ıamos chamar de etnogr´ficos. Por´m. Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´ o a se tornar a etnologia. muito timidamente. como acabamos de observar. Jean de L´ry. a a o isto ´. mas sim de um saber pr´-antropol´gico. o ponto de vista normativo e o ponto a de vista narrativo). Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento. a e Assim. mas especificamente a ultima) est˜o no en´ a tanto implicitamente colocadas. como se diz o a hoje).

38 ´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: .

a fecundidade do trabalho ou a densidade e ´ hist´rica da linguagem. na modernidade. o selvagem. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sao ber fabricou com suas pr´prias m˜os. e a exclui da raz˜o o louco. o homem n˜o ´ o mais antigo problema.Cap´ ıtulo 2 O S´culo XVIII: e a inven¸˜o do conceito de homem ca Se durante o Renascimento esbo¸ou-se. Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de funa e dar uma ciˆncia do homem. de um saber n˜o mais exclusivamente e e a especulaivo. ”o homem n˜o existia. e a Como tamb´m o poder du vida.. a crian¸a. O homem ´ uma e inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente. e sim positivo sobre o homem. Apenas nessa ´poca. nem o e a e mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. ”Antes do final do s´culo XVIII”. Enquanto encontramos no s´culo e XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia. ca e E”. e n˜o antes. culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que c˜ o o vai se tornar a antropologia. enquanto figuras da anormaa c lidade. ´ que se pode apreender as e a e condi¸oes hist´ricas. isto ´. essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte.) Uma o a a coisa em todo caso ´ certa. ”qu˜o pr´ximo a o 39 . escreve Fou-cauilt. h´ menos de duzentos anos (. a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do c˜ e u homem. como mostrou Michel Foucault (1966). apenas no s´culo XVIII ´ que c˜ e e entramos verdadeiramente. com a explora¸ao geogr´fica de contic c˜ a nentes desconhecidos.. ca e no qual a evidˆncia do cogito. ene o quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´ e a a ıveis hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao. fundador da ordem do pensamento cl´ssico. acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas.

Lafitau se d´ por objetivo o de a . ´ CAP´ ITULO 2. abriu o c˜ e e o caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar e em uma ”ciˆncia da sociedade”. assim como sobre as rela¸oes de sentido o c˜ e poder (que anunciam o fim da metaf´ ısica) eram inimagin´veis antes. quando tomada em considera¸ao. abordagem totalmente in´dita. que passa a ser ca e considerado em sua existˆncia concreta. O SECULO XVIII: O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enteno a c˜ demos hoje) sup˜e: o 1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos. A a sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da e consciˆncia europ´ia. a line e guagem. n˜o apenas enquanto sujeito. c˜ ca c˜ inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo. das nosca o sas rela¸oes de produ¸˜o. e sim de ca a a observa¸˜o. coloca-se pela primeira vez no e s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado. de sua linguagem. pelo menos. Ora. ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Comparados aos Costumes dos Primeiros Tempos. c˜ o 2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o. j´ que consiste em introduzir dualidade e a caracter´ ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado) e no cora¸ao do pr´prio homem. . Montesquieu. . e a constitui¸ao da id´ia c˜ e de que a linguagem nos precede. de voca¸˜o cient´ ca ıfica). ao mostrar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais. de suas instic˜ c˜ tui¸oes. que trabalha (economia). 3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. bem como a dos poss´ e a c˜ ıveis processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos. em O Esp´ ırito das Leis (1748). Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posic˜ c ca tividade de um saber emp´ ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem a enquanto ser vivo (biologia). pois somos antes exteriores a ela. antes dessa ´poca. mas enquanto objeto do a saber. Parte de suas elites busca suas referˆncias em um cone e e fronto com o distante. Em 1724. tais reflex˜es sobre os limites do saber. de seus comportamentos. Rousseau) o objeto espec´ ıfico de um saber cient´ ıfico (ou. Assim. era objeto de filosofia ou exegese. Rompendo com a convic¸ao a c c˜ de uma transparˆncia imediata do cogito. envolvida nas determina¸˜es de seu e co organismo.40 talvez seja o seu fim”. come¸ando pelo pr´prio c˜ u c o conceito de homem. pensa (psicologia) e fala (ling¨´ uıstica). de um novo modo de acesso ao homem. de suas rela¸oes de produ¸ao. Da mesma forma. isto ´. c˜ Tornou-se paulatinamente (com de Brosses. dos nossos sistema de organiza¸ao social.

a e um ”direito natural”. o programa que se tornar´ o da a etnologia cl´ssica. uma moral natural”. a *** Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´. Um evento que a o se deu no Ocidente no s´culo XVIII. VEnfant Sauvage (1970). que. caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo). Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas o as pesquisas que procurar˜o fundar. c˜ 4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo. Esse naturalismo. Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem a o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza. Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem c˜ do Aveyron. al´m da contingˆncia dos e a e e fatos particulares. Os grupos sociais e ca a e (que come¸am a ser comparados a organismos vivos. a fim de extrair princ´ ca ıpios gerais. podem a meu e ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia a c e britˆnica e o atraso da antropologia francesa. no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem: a a a indu¸ao de que falaremos agora. e o livro de Lucien Malson c que the serviu de base. que hoje chamar´ ıamos de leis. o filme de Fran¸ois Truffaut. cujo t´ ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tentae tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´ ca e ınio para o estudo de assuntos de moral”. David Hume.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou. que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza Humana. mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente a Cf.41 fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”. ca a crian¸a-lobo. de um estudo e de sua existˆncia emp´ e ırica considerada por sua vez como objeto do saber – constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade. a 1 . antes dele. podem ser considerados c como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente. evidentemente. em seu Discurso sobre a c c Origem e os Fundamentos da Desigualdade. do empirismo em rela¸˜o ao e e ca pensamento francˆs. 3 A precocidade e preeminˆncia. poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hua c˜ a manidade. que. que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao ao c˜ c˜ 3 pensamento teol´gico. Em 1801. 2 Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo o o inteiro menos a Europa ocidental. a partir du observa¸˜o de fatos. imp˜e-se em especial na Inglaterra. n˜o ocorreu da noite e a para o dia. com Adam Smith o o e. ou ainda uma ”religi˜o natural”. no pensamento inglˆs. no s´culo XVIII.

a fauna e a flora. examinemos de mais perto o que e a mudou radicalmente desde o s´culo XVI. N˜o basta mais observar. e 1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. entramos. de Acosta (1591). A fim e de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento – c˜ que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –. a partir dessa ´poca. que se torna cada vez mais organizada. ou o question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre a co o estado das mentalidades populares no reino. ´ preciso c˜ a e e 5 interpretar interpreta¸oes. o primeiro. ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo: e e o o viajante: Bougainville. Maupertuis. Ele a chamar´: a a a etnologia. O SECULO XVIII: constitutivo da modernidade na qual. o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma e c c a antropologia social e cultural. ca Ora. tomando como modelo a antropologia f´ ısica. c˜ ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. . em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes. do que o homem em si. La P´rouse. e instaurando uma ruptura do monop´lio desta (especialmente na Fran¸a). Cook. o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a atividade epistemol´gica. era essencialmente o homem f´ ısico que era tomado em considera¸˜o. ´ preciso proca a e cessar a observa¸ao. passa-se da coleta dos o e materiais para a cole¸˜o das coletas. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado. Esp´ e ıritos curiosos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”. ao mesmo tempo. nessa ´poca era mais c˜ c˜ e o c´u. 5 Cf sobre isso G. La Condamine. Os o viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. Chavane. c˜ e e que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o. a quest˜o a e a ´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a e Hist´ria Geral das Viagens. e realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”. precursoras das e e o Cf. o objeto de observa¸ao. Leclerc. a terra. Afora algumas incurs˜es t´ a o ımidas para area das ´ 4 ”inclina¸oes”e dos ”costumes”. isto ´. Em c˜ ca 1789.42 ´ CAP´ ITULO 2. Os relatos dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do e a que uma pesquisa etnogr´fica. No s´culo XVIII. 1979 4 . e. dar´ a essa atividade um nome. do padre Pr´vost (1746). quando se tratava e deste. o c 2) Simultaneamente. *** Finalmente. E ´ desse desdobramento. constituindo-se inclusive. desse discurso.

Que pena. . exemplares. observando como sabem fazˆ-lo a Turquia. ver´ ıamos nascer de seus escritos um mundo novo. destinada aos pesquisadores de uma miss˜o a nas ”Terras Austrais”. a Barbaria.43 nossas miss˜es cient´ o ıficas contemporˆneas. fil´sofos. Diderot (cf. que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771 a o em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam o a viajantes!6 Para o primeiro. se ´ essencial observar. em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville) ` ”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante. a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805). um Buffon. um huguenote que esteve no Brasil. o Egito. Pria meira metodologia da viagem. quanto a isso. Rousa o seau. . que procura orientar o olhar do observador. pois a nova ciˆncia o e – qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-. o fil´sofo Buffon. fizessem a seguir a hist´ria e c a o natural. moral e pol´ ıtica do que teriam visto. um Diderot.7 Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu.´ uma ”ciˆncia de e e e e observa¸˜o”. a respeito dos ´ ındios entre os quais esteve. um mentiroso e um imbecil aos olhos e dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que. viajando para instruir seus compatriotas. e submetem imperiosamente a natureza a suas imagina¸˜es. e o As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜ e c˜ Povos Selvagens. um d’Alembert. isto ´. formada e pelos ent˜o chamados ”ide´logos”. um Condillac. e para apreender corretamente seu objeto. na sombra de seu gabinete. bem como para todos os fil´sofos naturalistas do o s´culo das luzes. Modos bastante singulares e inconceb´ co ıveis da parte de pessoas que. devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gruca o e pos sociais observados. Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro. que s˜o moralistas. pensa Rousseau. esse texto ´ uma cr´ e ıtica da observa¸ao selvagem do c˜ selvagem. ps´ ıquicos. naturalistas. ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja e e e ca esclarecida. e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso. ou homens de igual capacidade. na passagem do s´culo XVIII para o e e s´culo XIX. 7 Estamos longe de Montaigne. Suponhamos que e esses novos H´rcules. filosofam c sem fim sobre o mundo e seus habitantes. sujeito que. o c˜ Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´ a ılico. O cientista naturalista deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa. a o a o m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea e a de saber (o homem nos seus aspectos f´ ısicos. que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem simples e rude”. sociais. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador. de volta de suas andan¸as memor´veis. E ´ assim que se constitui. culturais) e quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas. 6 . s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es o o co tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”. Voltaire. n˜o a tendo observado nada por si pr´prias. de De Gerando (1800) s˜o. deve possuir um certo n´mero de u qualidades.

o obst´culo maior ao advento de uma antropologia a cient´ ıfica. torna-se o ”visitante dos pobres”em 1824. que ´ pela primeira vez claramente afire mado. levado em conta. n˜o ´ de forma alguma realizada. est´ ligado. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos c a c antes (em Paris. Evidentemente. o homem interroga-se: sobre a natureza. O pr´prio Gerando. n˜o mais do saber. n˜o pˆde ser realizado. por exemplo. e n˜o poe a a der´ ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois. se rompem se parcee lam. mesmo sendo o abordada. a positividade. O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre a ıvel o estudo dos ind´ ıgenas e a ajuda aos indigentes. e n˜o ser´. ”observador dos povos selvagens”em 1800. mas sobretudo. da linguagem (ling¨´ o uıstica). mas n˜o h´ biologia e a a ainda (ser´ preciso esperar Cuvier). No final do a ` c˜ s´culo XVIII. zo´logos. 1) A distin¸ao entre o saber cient´ c˜ ıfico e o saber filos´fico. e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram e o a a a sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris. N˜o podia ir mais longe. ao meu ver. O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos e c˜ fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno dos territ´rios da vida (biologia). muito rapidamente (a partir do s´culo XIX). pessoalmente.44 ´ CAP´ ITULO 2. sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem. ´ e 8 . por muito tempo ainda. no sentido no qual a entendemos hoje. a o e e considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de e e e etnologia geral”) e um assass´ ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com ca um projeto que permanece filos´fico. publicado em 1800.na e o Fran¸a em 1883. Mas neste segundo caso. miner´logos. o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se dese a tinava diretamente.8 a a Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma oba serva¸˜o sistem´tica. O SECULO XVIII: Por´m. ıdo 9 A antropologia contemporˆnea me parece. a o a ıvel e Mais especificamente. do trabalho (economia). nessa ´poca. o conceito da a e unidade e universalidade do homem. coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem. sobre seu discurso a mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp). c˜ c˜ Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo.9 Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos. n˜o apenas do homem f´ ca a a ısico. e sim dispersados em cole¸˜es o co particulares. mas tamb´m do homem e social e cultural. uma certa e ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”. no Trocadero). ´ porque a ´poca ainda n˜o o pera o e e a mitia. mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo). dividida entre uma homenaa gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss. e ca Notemos finalmente que. a a dois motivos essenciais. ca a o e sim m´dicos. enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um o e ca saber positivo e especializado. sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ria c˜ ca quezas. o m´moire de Gerando s´ foi reeditado. muito menos uma a ling¨´ uıstica. a e sim dc saberes que.

e sim indiv´ ca a e ıduos que pertencem a uma ´poca e e a uma cultura. isto ´. e 2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico o e e a o desse per´ ıodo. E evidentemente problem´tica para o antrop´logo. Estamos na impossie o bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es o co episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan) a e a partir de uma abordagem igualmente e at´. e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da a e antropologia filos´fica. mais marcadamente e ´ o que veremos a seguir. talvez. Paradoxalmente. a .45 O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece e e ainda muito abstrato. isto ´. que n˜o pode resignar-se a trabalhar em a o a uma ´rea setorizada. para esta. rigorosamente filos´fico. e sim um outro indiv´ o ıduo que pertence ele pr´prio a o uma ´poca e a uma cultura. o objeto de o o observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”. liberada da e c˜ o teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal. de sua concep¸ao de uma hist´ria natural. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia a a se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. historicista: o evolucionismo. De fato.

O SECULO XVIII: .46 ´ CAP´ ITULO 2.

Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ c˜ c˜ ıtica francesa. c˜ a e. e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavelc ca e mente obra do s´culo XIX. hoje t˜o desacreditado. religiosa. Dessa vez. ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades c˜ e que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao.. econˆmica. ling¨´ uıstica. . ´ a a e ´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto e disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas o e dimens˜es (biol´gica. t´cnica. pol´ o o e o ıtica. suas rela¸oes e c˜ sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. de instaura¸˜o de redes c˜ e ca entre esses espa¸os. A Europa se vˆ a e confrontada a uma conjuntura in´dita. realiza e e a o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. em se tratando da nossa sociedade. Mas a a o o primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao. notamo-lo. o essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares a cada vez mais especializadas. e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. percebese que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilue e e e minado”` luz dos fil´sofos. Ap´s um c o parˆntese no s´culo XVII.) enquanto que. psicol´gica. trazendo uma duc˜ pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora: e – resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente ca 47 .Cap´ ıtulo 3 O Tempo Dos Pioneiros: os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX e O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um e c e a discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. Um mundo est´ terminando. . Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas a e c transforma¸oes. Seus modos de vida. isto ´.um outro est´ nascendo. Esse s´culo XIX.

A Sociedade Antiga. em 1864. Das Mutterrecht. a Africa.1865. assim. MacLennan. n˜o se trata u a a mais de alguns mission´rios apenas. das formas simples de organiza¸˜o e ca social e de mentalidade que evolu´ ıram para as formas mais complexas das Morgan escreveu. destinado a reencontr´-lo. em 1877. em 1861. e Bachofen. Morgan. A Cultura Primitiva-. tornou-se o primitivo. Em 1861. e em .48 CAP´ ITULO 3. enquanto que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau). fica indissociavelmente ligada ao conhecimento da nossa origem. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das c˜ a a metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo. Asa c˜ a sim a antropologia. a Austr´lia. a ca Ora. a ´ e ındia. Hegel). a Nova Zelˆndia passam a ser a a povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus. les Superstitions des Peuples 1 . isto ´. e sim de administradores. o ` ´ E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna. o ´ Nessa ´poca. que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias e e e p˜e um fim as soberanias africanas. O TEMPO DOS PIONEIROS: estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas o e a fora da hist´ria e da cultura (de Pauw. [es Coutumes. o – mas sobretudo resposta preocupada. os passos do colono. Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family (1879). la e Relizions. que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o e c˜ a a ´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da e a humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em c rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´ c˜ a e ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´ e a e mais o selvagem do s´culo XVIII. La Cit´ Antique. conhecimento do primitivo. o ancestral do e e civilizado. Frazer. Tylor. Todas essas obras.1 o a e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes a obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a sea gunda metade do s´culo. em 1890. no s´culo XIX. em 1871. em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res. Maine publica Ancient Law. do a ´ Tratado de Berlim. O Casamento Primitivo. o contexto geopol´ e ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´ e e ıodo da conquista colonial. que se expres* sa na nostalgia d´ o antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”. A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido. o antrop´logo acompanhando de perto. em 1885. os primeiros volumes do Ramo de Ouro. como veremos. Fustel de Coulanges. Uma rede de a informa¸oes se instala. isto ´. que desembocar´ em especial na assinatura.

Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa o antropologia que se qualifica de evolucionista. que se tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos ana e trop´logos do final do s´culo XIX. bem como na lei de Haeckel. publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies. ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es e a c˜ co que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´ ıgines australianos. o ina e e div´ ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. que e pretende ser cient´ ıfica. Haeckel afirma c a c rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet. mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como e o nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais. Parentesco e a religi˜o s˜o.0 ue a co O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais elaa c˜ a 2 borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society. e Spencer. para alcan¸ar o n´ final que ´ o c˜ c ıvel e´ da ”civiliza¸˜o”. 1859) e o e que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro. e a a c e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as). barb´rie. notemos que o primeiro ´ bem anterior ao ca e segundo. de Darwin. Uma correspondˆncia e e e intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros. o o e 0 . as duas grandes areas da antropologia. em fun¸˜o notadamente do crit´rio tecca e nol´gico o 3 Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´ o ca ıvel das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies. ´ e a ca a civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´ ca e ıodos. c˜ a a co al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria. 2) ao estudo do ”parentesco”. Comte. n˜o tˆm hist´ria em e e o a e o sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados. e Frazer) no s´culo XVIII. nessa ´poca. Existe uma esp´cie humana e idˆntica. ou. co e 2 Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria. passando pelas mesmas etapas. ou seja.49 nossas sociedades. mais a a e ´ especificamente. conv´m procurar determinar cientificamente ca e a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es. as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das soNon-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). de acordo com as popula¸oes. Enquanto o e para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que. 3) e ao da religi˜o. fundador da forma mais radical de evolucionismo e sociol´gico. Disso decorre o e a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de ca c˜ marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos a 3 vest´ ıgios da infˆncia da humanidade a O que ´ tamb´m muito caracter´ e e ıstico dessa antropologia do s´culo XIX. A partir disso. Morgan.

mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores o anteriores. menos para a compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica. a o 5 Frazer era. Mora o e gan. e Tylor deve parte de sua voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. id´ia que exerceu tal Influˆncia e e que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. s˜o a n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos. por exemplo. pois a a a ca perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´ ırito do evolucionismo. sem cerˆmica. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse o per´ ıodo. Por deslize do pensac˜ mento. l967). sem a tecelagem. e a extrema complexidade de seus sistemas de parenca tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal. fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo a e o ca respeito a ”esp´ ıritos superiores” 4 . franc. Mas ´ c˜ ca e certamente o Ramo de Ouro. Um papel decisivo inclusive. os dois n´cleos a u resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos. a meu ver. da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o. inclusive. escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa. (trad. um dos textos de referˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos). Feminismo e Antropologia. os mais ”primitivos”e mais ca ”atrasados”do mundo. os pesquisadores dessa ´poca proe curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de o filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente. Elkin. elas permanecem ainda. a Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto com os ´ ındios) um papel t˜o decisivo. 1979).. c˜ Desde a ´poca de Morgan. fr. 1981-1984).5 que realiza a melhor s´ ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”e e c ”supersti¸oes”.. co e vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”.50 CAP´ ITULO 3. absolutamente confiantes na racionalidade cient´ ıfica triunfante. pois ´ l´ que se pode apreender c˜ e a o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes. imagina-se um matriarcado primitivo. O TEMPO DOS PIONEIROS: ciedades n˜o ocidentais. 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do o e ˆ complexo de Edipo entre os primitivos. ˆe Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. e 3) A ´rea dos mitos. o a 1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria consa a o titui¸ao da nossa disciplina (cf. de Frazer (trad. em especial Evelyn Reed. notamo-lo.4 o c˜ 2) No estudo dos sistemas de parentesco. Quando Roheim a (trad. franc. sem cria¸˜o de animais. n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas a o s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ a ıveis”. vivendo na idade da pedra sem metalurgia. e a v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da disa co ca tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos.

”A magia”.6 Frazer e e o retra¸a o processo universal que conduz. Ou seja. ou est˜o passando. o ”arca´ a ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da a Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente. propriedade privada. Como Hegel. ´ Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo. o e o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores ` c˜ c˜ da ´poca: produ¸ao econˆmica. a qual dar´ a a lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o a e a a e c que tinha sido imaginado no tempo da magia. da religi˜o ` ciˆncia. 6 . e depois. que muito poucos etn´logos – fora Malinowski. Mas. Quanto a seu autor. ”re` a a a e presenta uma fase anterior. em Totem e Tabu. em rela¸ao aos unicos c a c˜ ´ crit´rios do Ocidente do s´culo XIX.51 Nessa obra gigantesca. *** O pensamento evolucionista aparece. Frazer considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza. Exerceu uma influˆncia a a e e consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pena samento antropol´gico de Freud que. enquanto para Hegel. de Darwin. retira grande parte de seus mateo riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de a e ca conhecer. e as obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de c˜ e cr´ ıticas: 1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas. compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente. Essas cren¸as dos povos primitivos a e c permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Tye lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. c o a a mas internacional. Frazer a considera como religi˜o em potencial. escreve Frazer. a primeira ´ a ` a e um impasse total. que se o constitui num obst´culo a raz˜o. alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica. e como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos. Margaret Mead o L´vio e Strauss – conheceram. ou a melhor. para c a dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”. por etapas sucessivas. da magia c a religi˜o. da hist´ria do esp´ o ırito humano. E e e e quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies. publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que ´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica. o progresso t´cnico e econˆmico da nossa e e e o sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica ca o da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os est´gios. da forma como podemos vˆ-lo hoje. religi˜o monote´ e c˜ o a ısta. pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram. mais grosseira.

Livingstone. atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos a e ca u em uma unica sociedade. mas assemelham-se muito. e Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a c˜ veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese. a filia¸ao matrilinear. ılia A antropologia evolucionista. efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pesc˜ quisa atrav´s do campo emp´ e ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas. a e n˜o dissocia os benef´ a ıcios da t´cnica e os da religi˜o. . pode exclamar: ”Viee a mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um c governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”. analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais. O TEMPO DOS PIONEIROS: fam´ monogˆmica. identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence. o o culto aos antepassados. . os exemplos o etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o proa u cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas. pelo volume dos fatos relatados. Assim. E quando faltam documentos. mission´rio que. que procura. a exogamia. a filosofia do s´culo ante` e rior. o a c˜ ` evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o coc˜ o a lonialismo. enquanto branco. . juntando e interprec˜ e tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´tese a o central). cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas. esmagados sob o peso dos materiais. moral vitoriana ılia a 2) o pesquisador. atrav´s dos a c c e quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´ a c˜ ıvel. civilizado. procedimento c˜ c˜ absolutamente oposto. ao da etnografia contemporˆnea. isto ´. como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho e a e o . Assim. alguns a (Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes. a magia.52 CAP´ ITULO 3. a aparˆncia de um corpus e e cient´ ıfico. a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a e ca a documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do c˜ a s´culo XIX. ´ c˜ ca c˜ Isso colocado. julga-se que ser´ poss´ a ıvel extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade. a e. os evolucionistas consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo. na realidade. como veremos mais adiante.) como costumes que serc˜ vem para exemplificar cada est´gio. de outro. A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que. co n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes. encontramo-nos frente a reconstitui¸oes conc˜ junturais que tˆm.

do que de estadias tendo c˜ co por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante. evidenciando assim tamb´m. a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o. a ıvel c de todas as culturas. O que importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia e a e a enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura. N˜o poder´ a ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra e a (especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi´ a crodisciplina de um eixo tem´tico).53 que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista. Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada co por ele pr´prio entre os Iroqueses. Ratzel o abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. em especial das ”mais long´ ınquas”e das ”mais desconhecidas”. a julgando que observadores conscienciosos. o a a a Em 1851. quando realiza um trabalho de coleta direta. guiados a distˆncia por cientistas a preocupados em criticar fontes. eram capazes de recolher todos os materiais necess´rios. 8 s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os a a ıa e antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca. No entanto. sendo que ´ provavelmente o ca e que. e Tylor no M´xico. empenhada em mostrar as etapas do movimento da humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa o do pensamento sociol´gico).7 N˜o e a custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o ca aos ”povos atrasados”. Tylor desconfia dos modelos de a interpreta¸˜o simples e un´ ca ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de ca ca fun¸˜o ` causa. Bastian realiza uma pesquisa o no Congo. um singular esp´ e ırito ahist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles. e 7 . nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materie o o ais que estuda e. sem essa teoria. Claro. a antropologia no sentido no qual a praticamos o hoje nunca teria nascido. Eles se recusavam a atuar dessa forma. ca a ca e e pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais e e c de esgotamento.8 ´ antes no e decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es. De fato. eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica a c˜ o Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do e a e qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos e a do que nos outros pa´ ıses). ´ a e a tentativa de compreens˜o. como diz Tylor. Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada cultura irredut´ ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. Alguns anos mais tarde. e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia a tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal ou tal sociedade.

das institui¸oes. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o c e e ıdo fizerem com dogmatismo. esses homens do s´culo passado colocavam e e o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das t´cnicas. Frazer. assistimos a cria¸ao das sociedades cient´ e ` c˜ ıficas de etnologia. dentro c˜ da qual concorrem em graus diferentes. em contato epistolar permanente com centenas de oba servadores morando nos quatro cantos do mundo. das primeiras cadeiras universit´rias. Com ele. Bastian ´ m´dico. trabalhou doze horas por dia durante sessenta anos. Atrav´s dessa atividade extrema. da ”fam´ humana”. E e ıcil e nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. O TEMPO DOS PIONEIROS: (Maine. em quase o dois metros de estantes. Rata e e zel. Tylor possu´ ıa um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria. sobretudo. as diversas popula¸˜es do globo. o que me parece eminentemente caracter´ ıstico desse per´ ıodo ´ e a intensidade do trabalho que realizou. o objeto da antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das a c˜ a . Morgan s˜o juristas. bem como sua imensa curiosidade. mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais c˜ do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia. quanto do que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. dos comportamentos e das cren¸as. e At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a rie a gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ e ıda. Mas s˜o eles que mostraram pela prico a meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram a de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas. Durante o s´culo XIX. do parentesco c a ou da religi˜o. uma das caracter´ co e o ısticas principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? – a ´ o seu anti-racismo. como e escreve Morgan. mas apenas o ue co e resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. ou. compae c˜ c rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras a c˜ tanto no espa¸o como no tempo. e. ge´grafo). Ele dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia. MacLen-nan. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o ılia a grandiosa do mando. como diz Leach (1980). Bachofen. mas como poder´ o ıamos critic´-los por isso. da ling¨´ e o uıstica. dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. o a mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana.54 CAP´ ITULO 3. mas para chegar a um mesmo n´ ıvel final. j´ que eles foram a a precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles? a Em suma. dos museus como a o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual a a ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos coMuseu do Homem.baseada na no¸ao de uma humanidade integrada. Assim. A obra que ele pr´prio produziu estende-se.

Qualifia o o cando essas sociedades de ”arcaicas”. pol´ ıticas. conhecimento cient´ a a ıfico poss´ ıvel sem que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”. ´ que a antropologia s´ se tornar´ o ca e o a cient´ ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o ca ´ a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. Por essas duas raz˜es. e particularmente. e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento material. E o que examinaremos agora. e 1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o o e a a diziam respeito ` Hist´ria. pois o conhecimento cient´ ıfico se d´ sempre mais por descontinuia dades te´ricas do que por acumula¸˜o). isto ´. A novidade radical da sociedade o arcaica ´ dupla. a partir de Morgan. . compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o maro a e a xismo. Morgan as reintegra pela primeira vez na humanidade inteira. a liga¸ao entre c˜ esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´ ıstica de um determinado per´ ıodo da hist´ria humana. como mostrou Kuhn (1983). cosa a a tumes considerados bizarros. jur´ c˜ co ıdicas. de modelo ore ganizador do saber. a qual. sobre Engels (1954) 9 .55 liga¸oes entre as rela¸˜es sociais. ca termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco.9 o c˜ N˜o h´. ca um papel decisivo. O paradoxo (aparente. o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases totalo c mente diferentes das do idealismo filos´fico. s´ podia ser escrita. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”. no caso. e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente. para Hegel. . o 2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais.

O TEMPO DOS PIONEIROS: .56 CAP´ ITULO 3.

c˜ e A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do ca a c s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas. e sim como h´spedes que o receo bem e mestres que o ensinam. de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que co 57 . que escreve A Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´ o come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador c deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa. que publica em 1891 uma e obra sobre os melan´sios. adminisa trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes. mission´rio. e o pesc˜ quisador erudito. ou de Junod. at´ ent˜o e e a o ` c˜ e a habitualmente divididas entre o observador (viajante. mas a viver como eles. a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo. O pesquisador comprec˜ ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais a como informadores a serem questionados. recebe. o co como podemos ver. tendo permanecido na metr´pole. que relatam em 1899 suas e observa¸˜es sobre os abor´ co ıgines australianos.Cap´ ıtulo 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: Boas e Malinowski Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ade a ministradores) que possu´ ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no c˜ meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington. Trata-se. Ele aprende ent˜o. n˜o a a apenas a viver entre eles. que. e que esse trabalho o de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa. a falar sua l´ ıngua e a pensar nessa l´ ıngua. de Spencer e Gillen. como aluno atento. analisa e o interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes.

franc. e 1968). etc e Como n˜o ´ poss´ a e ıvel examinar. a c˜ a polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski. Em 1909 e 1910. residindo geralmente fora da sociedade ind´ e ıgena e obtendo informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo c˜ e ´ merece ser repetido. Em suma. totalmente pioneiras. o etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um a c˜ ritmo ininterrupto. Margaret Mead. longe de ser visto como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese. Fortes. franc. o ensina Boas.1 BOAS (1858-1942) Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. desde os primeic˜ o ros anos do s´culo XX.Primeira Guerra Mundial. o outro.onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. notamo-lo. Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha. Em 1901. um dos fundadores da antropologia inglesa. realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do e c˜ mundo inteiro. Orientou a partir desse e o momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que. Suas pesquisas. 1972) e os Nuer (trad. os Tallensi. como diz Malinowski. a meu ver os mais importantes. dois entre eles. Evanso Pritchard estuda os Azand´s (trad. iniciadas. a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular ´ e entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica). a a Alguns anos mais tarde. virgem e aberta”. tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das . eram conduzidas de u a um ponto de vista que hoje qualificar´ ıamos de microssociol´gico. a contribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da c˜ c˜ etnologia contemporˆnea. ap´s a .58 CAP´ ITULO 4. Radcliffe-Brown estuda os habitantes das ilhas Andaman. e e 4. Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o. em uma ”natureza imensa. como o chamamos ainda hoje. dentro dos limites deste Inibalho. os e insulares da Nova Guin´. No campo. impregnado a do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de ca um min´sculo arquip´lago melan´sio. Boas a o era antes de tudo um homem de campo. Nadei. Rivers. a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre. levada. estuda os Todas da ´ ındia. dea ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas. ”ao vivo”. A partir da´ as miss˜es de pesquisas u e e ı. as Nupes da Nig´ria. Em 1906 e 1908. a ´ . Esse trabalho de campo. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador e e a do s´culo XIX.

e no detalhe do detalhe. o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. Em especial. que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia. e isso detalhadae o mente.1 ele c˜ c˜ a mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto o c˜ particular no qual se inscreve. as diferentes vers˜es de ca o um mito. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas. Apenas o antrop´logo pode elaborar o o uma monografia. muito antes dele. do qual falaremos mais adiante. Mas a diferen¸a ´ que. da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo. Morgan e.1. BOAS (1858-1942) 59 casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s. As ca primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deria a o vado. dar conta cientificamente de uma microssociedade. 1 . estima-se que para compreender o lugar particular ocupado por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e. deve ser levada em considera¸˜o. ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia. Boas anuncia ca assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”. e isso muito antes de Griaule. e apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. isto ´. c˜ a Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´ a ue a e mais poss´ ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”.4. a a mas tamb´m a necessidade. Por outro lado. Boas considera. na voz dos mais humildes entre eles. Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais c˜ meticulosa. do acesso a l´ e o ` ıngua da cultura na qual trabalha. 1971) a cr´ ıtica mais radical e mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios. enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido realmente consideradas em si e para si mesmas. da ”metr´pole”. para o etn´logo. em particular Lowie. Pela o primeira vez. Assistimos o a ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta a mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios. a a e As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que exa a pressa o patrimˆnio metaf´ o ısico do grupo. Montesquieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das e rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. ca Por outro lado. sociedades ”inferiores”evoluindo para o ”superior”. ca e Finalmente. classificam suas atividades mentais e sociais.ia c˜ c e partir de Boas. Claro. cada uma dentre elas adquire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. muito menos a nos que. a maneira pela qual as sociedades tradicionais. ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento). confiam neles. mas procura detectar a a o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes mae teriais. O primeiro a formular com o seus colaboradores (cf. sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”.

Foi um dos prie a meiros etn´grafos. Nada que anuncie. a viver com as popula¸oes que estudava a e c˜ Sobre a rela¸˜o da cultura.2 Pode parecer surpreendente. ap´s Boas. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos o c˜ a c˜ observados. de 1922. o o Sapir (1967) e Leenhardt (1946). Sapir. . Lowie. acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio recoc˜ o o lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). M. Herskovitz. particular-mente. Mead). ano o de publica¸˜o de sua primeira obra. foi. com ele. e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante ca a ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos do esp´ ırito cient´ ıfico. As c˜ afrescos gigantescos do s´culo XIX. Os Argonautas do Pac´ ca ıfico Ocidental. . cf. em primeiro lugar. e. e 4. e 1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia eta e nogr´fica. e os textos que nos deixou s˜o de uma u a concis˜o e de um rigor asc´tico. seja praticamente desconhecido.2 MALINOWSKI (1884-1942) Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica. t˜o estranho era-lhe o esp´ a ırito de sistema. da l´ ca ıngua e do etn´logo. enquanto professor. a emo¸ao a e c˜ que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski.60 CAP´ ITULO 4. isto ´ o e uma antropologia principalmente – sucedem. De qualquer modo. que Boas. o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos c˜ o americanos (Kroeber. at´ sua morte. R. que retratam os prim´rdios da humanie o dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia. por exemplo. a influˆncia de Boas foi consider´vel. Ele permanece sendo o mestre incontestado da antropologia americana na primeira metade do s´culo XX. levando em conta o que foi dito. em 1942. Linton. 2 . Benedict. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´ o e ıngua de seus interlocutores. Finalmente. exceto entre os profissionais da antropologia. ele nunca escreveu nenhum c˜ livro destinado ao p´blico erudito. 2) nunca formulou uma verdadeira teoria. a mod´stia e a sobrie edade da maturidade. Isso se deve principalmente a duas raz˜es: o 1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos. ou que lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer. em seguida. isto ´.

Boas procurava estabelecer repert´rios a e o exaustivos. . Murdock. Medimos o caminho percorrido desde Frazer. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que a ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ o a ıdo sua obra. e ca (Com Malinowski. o que sentem os homens e as mulheres que pertenc˜ cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. segundo ele. a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente muito simples. observando-a no a presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem. como ele fez e c no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand. conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro a a livro. a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que e vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens c˜ da civiliza¸ao. com um pref´cio. por uma verdadeira busca de despersonaliza-¸ao. procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo a europeu.) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de c˜ u ıvel vari´veis. mostrar que a partir de um unico costume. radicalizou essa compreens˜o por a dentro. e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O e e e Ramo de Ouro. do pr´prio Frazer. notamo-lo. e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´ c˜ o ısticas de cada cultura. Enquanto Frazer o procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar a o que ´?”. Conv´m pelo a ca e contr´rio. no in´ do s´culo. embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao o c˜ de O Ramo de Ouro. que foi no entanto o mestre de Malinowski. Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes e . e em compreender de dentro.4. ıcio e e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura. e para isso. Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si e mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem. aparece o perfil do conjunto de uma sociedade. Malinowski considera que uma sociedade deve ser estue dada enquanto uma totalidade. a ocupar o lugar do evolucionismo. na mentalidade dos outros. a qual se transmite e a por empr´stimos). e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber. Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto. MALINOWSKI (1884-1942) 61 e a recolher seus materiais de seus idiomas. ou mesmo de um unico ob´ ´ jeto (por exemplo. adota a o uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e cont´ ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. que tende. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria dia e fusionista.2. 2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o eso ca peculativa dos est´gios). respondia: ”Deus me livre!”. .

o estudo dos sonhos e c˜ o 3 dos desejos do indiv´ ıduo. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: dos Trobriandeses. e cada cultura tem precisamente u como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamenc˜ ` tais. fornecendo respostas coletivas organizadas. que os homens e a mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de a n´s. uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica. o Hoje. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas. inclui o ese tudo das motiva¸oes psicol´gicas. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns c˜ e a a vest´ ıgios da humanidade. autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo) o a o que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas. Malinowski elabora uma teoria e (o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ e ıduo sente um certo n´mero de necessidades. ´ c˜ E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. que deve ”compreender e compartilhar os sentio mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”. de Durkheim). fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao c˜ c˜ psicol´gica do pesquisador. e co u Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio. c o de n˜o dissociar o grupo do indiv´ a ıduo. Conv´m em primeiro lugar. e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados. que constituem. e n˜o primitivos”. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma grande incompreens˜o da psican´lise a a 3´ . e sim como o seu pr´prio fundamento. para o a ele. como veremos. jur´ ıdicas. a 3) A fim de pensar essa coerˆncia interna. e. . 4) Uma outra caracter´ ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´. sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares. o que decorre do ponto anterior. quanto a esse aspecto (que o separa radicalmente. localizar a rela¸ao o e c˜ estreita do social e do biol´gico.62 CAP´ ITULO 4. as rela¸oes biol´gicas c˜ o devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que pera o mite pensar as rela¸oes sociais. Al´m c˜ o e disso. ou melhor. para Malinowski. do psicol´gico e e c˜ o do biol´gico. tˆm uma signia e fica¸ao e uma coerˆncia. dos comportamentos. t˜o profundamente diferentes dos nossos. Ele procura reviver nele pr´prio os seno timentos dos outros. devendo o ca homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social. todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes o a da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa. . cada uma a seu modo. pol´ c˜ o ıticas. notadamente. educativas.). vai muito al´m da an´lise da e a afetividade de seus interlocutores. que faz com que seja um dos primeiros etn´logos o a interessar-se pelas obras de Freud. E Malinowski.solu¸˜es originais que permitem atender co a essas necessidades. j´ que. uma sociedade funcionando como um organismo. e ao nosso ver.

2. pelo menos. baseando-se no modelo do finalismo biol´gico. o estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis cic˜ a a ent´ ıficas da sociedade”. MALINOWSKI (1884-1942) *** 63 O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavelo mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive o quando era vivo) se deve a duas raz˜es. pp. esse funcionalismo ”cient´ e ıfico”n˜o tem a rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo a o . defronta-se com duas grandes dificuldades: como explicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia c cultural? A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago o e u e que permanece. com a ”civiliza¸˜o industrial”. em grande parte. Nesta perspectiva. que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem). relativamente afastado dos contatos inıcio e terculturais –. uma busca c˜ o c˜ de identifica¸˜o) com a alteridade. situa¸ao essa. que contribuiu. e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm ` ca a sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. Em rela¸˜o a esta. no in´ do s´culo. ao meu ver. 50-51 deste livro os coment´rios de a Malinowski.4. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´ ca ıodo da conquista colonial. visando a a naturalmente a um equil´ ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as e c˜ ` necessidades dos homens. para o descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. n˜o mais considerada como forma social ca a anterior a civiliza¸˜o. Al´m disso. Malinowski. e com seus benef´ c˜ ıcios. ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida – ´ uma teoria de uma extrema rigidez. considerada como ”a e ca civiliza¸ao”tout court. isto ´. que postula que toda sociedade ´ t˜o boa quanto pode ser. n˜o ´ totalmente falso. pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a e a c˜ a ı todas as necessidades. ca 2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´ ıfica moderna (o que. a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim c˜ a a do lado da sociedade ocidental (cf. Assim sendo. e e as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos. pois o que fez a partir dos anos 20 ´ a e e essencial). ligadas ao car´ter sistem´tico de sua o a a rea¸ao ao evolucionismo. Malinowski inverte essa rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou. toc˜ c˜ c˜ talmente ocultada. c˜ 1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a o e sua sociedade. os costumes ca dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. Essa compreens˜o naturalista e marcadamente otia mista de uma totalidade cultural integrada.

as canoas trobriandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que a ca as fabrica e utiliza. c˜ *** Apesar disso. longe de ser uma pesquisa especializada sobre um fenˆmeno agronˆmico dado. ele inventa literalmente e ´ o prie c˜ e e meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante. al´m das cr´ e ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em proo vocar. mostra que a agricultura dos Trobriandeses o o inscreve-se na totalidade social desse povo. Esse ”estudo dos m´todos agr´ e ıcolas e dos ritos agr´rios a nas ilhas Trobriand”. Malinowski nos ensinou a olhar. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo. as regulamenta¸oes a ` c˜ que definem sua posse. pois ıvel ` a o nos permite encontrar os significados pol´ ıticos. 2) Em Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. Deu-nos o exemplo c daquilo que devia ser uma pesquisa de campo. a 1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos ´ outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia. efetuando em sentidos contr´rios percursos invari´veis. outras. m´gicos. dando-nos o exemplo do o a c˜ que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. Pois. descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o o o ca ca exaustiva erudita. cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes c˜ o c˜ respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. pela primeira vez. pulseiras de conchas brancas. curiosidade ex´tica. trabalha com a mesma abordagem. para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. O fato e de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade c˜ de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´ o c o ıngua pode parecer banal hoje. religiosos. etc. o social deixa de ser aned´tico.64 CAP´ ITULO 4. Assim. Os Jardins de Coral. Malinowski mostra que estamos frente a um processo de troca generalizado. c o ´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos e a c˜ u e insignificantes. que n˜o tem mais nada a ver a com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra. e a muito menos na Fran¸a. est´ticos a e do grupo inteiro. tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel. e toca em muitos outros aspectos que n˜o a agricultura. o segundo grande livro de Malinowski. ao ritual m´gico que as consagra. a . passando necessariamente de novo a a por seu local de origem. irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas. Algumas transportando de ilha em ilha colares de conchas vermelhas.

viveu e na Inglaterra. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar.2. ”pode ser surdo. O homem c˜ nunca desaparece em proveito do sistema. 1972. consultar o trabalho de Michel Panoff. . expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad. ouvido. n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es c˜ a a co reguladoras da vida de atores anˆnimos. um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego. sentido. essa exigˆncia de conduzir e um projeto cient´ ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ a ıstica chama-se etnologia. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. Quanto ` ´ a isso. mas a o a escrever. como ele. restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. Ora. como mostrou Devereux (1980). Seja em Os Argonautas ou’ Os o Jardins de Coral. e que anuncia as e mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos. e. publicado com fotografias tiradas a partir de 1914 por seu autor.4. e c˜ e Mesmo quando estuda institui¸oes. a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e c ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto. 4 Sobre a obra de Malinowski. Ora. ir c˜ at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar. Os Argonautas me parece exemplar. uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade e de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam ca e ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais. a o e A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o a e u c ca e sofistica¸ao dos protocolos. escreve Firth. E um livro escrito num estilo magn´ ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que. um jurista pode ser cego. podendo. ”Um historiador”. conjuntamente. ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o poo e a deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. de L´vi Strauss. MALINOWSKI (1884-1942) 65 3) Finalmente. abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia a 4 audiovisual. o mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o e o que fazem”. da ese c˜ pecificidade da nossa disciplina.

66 CAP´ ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: .

o que h´ o e a de mais contest´vel em sua obra. recolhendo com a precis˜o de um naa turalista os fatos no campo. e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss. a constitui¸˜o de um quadro te´rico. ela exige.Cap´ ıtulo 5 Os Primeiros Te´ricos Da o Antropologia: Durkheim e Mauss Boas e Malinowski. independentes tanto da exo ca e plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo). Mas o primeiro. quanto da c˜ o a explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psic˜ o o cologia cl´ssica e a psican´lise principiante). Quanto ao segundo. de conceitos e modelos que ca o sejam pr´prios da investiga¸˜o do social. e ` Se existe uma autonomia do social. a a Ora. conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o e a a ue desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma a a a alguma etn´logos de campo. nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. n˜o era um te´rico. nascido em 1858. fundaram a etnografia. isto ´. o mesmo ano que Boas. o o o de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico a o e os instrumentos que lhe faltavam ainda. a parte a o te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente. para alcan¸ar sua elabora¸ao c c˜ cient´ ıfica. e mais ainda c˜ 67 . A antropologia precisava ainda elaborar a instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto ´ cient´ ıfico. como acabamos de ver. E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores franceses dessa ´poca. mostrou em suas primeiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia. que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”. Durkheim.

´ 68 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pree o o cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo a o a a a ”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em c c˜ a movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida e Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas e a importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da soe a ca ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas. o Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e ca e que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos e u e o sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na a e sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir e e c seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser buso cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”. a e Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem a e a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social e o a c˜ o (sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o da a a rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente c˜ a estudando os estados afetivos dos indiv´ ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma e psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmeno e o coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam, a c˜ sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior, c e a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte. o a Essa irredutibilidade do social aos indiv´ ıduos (que ´ a pedra-de-toque de quale quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os o ue fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a a o outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua autonomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado e o ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas. o co o a o o . . da ´poca. e Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto e a o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas a o e novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das e o ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente, e e das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia e e consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e a o evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa disc ıs ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia. a

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Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respectio e c˜ o vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito c˜ a pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o o a de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o ese o tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica e ` e o que hoje qualificar´ ıamos de pluridisciplinar. Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades o ”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou ˆ antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar incansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa. e a Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o a a inverso,. Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social o total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico, c˜ o o jur´ ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada realio e dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente e o c dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´gos e o se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos soo ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fia e siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de o o nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda, e a a afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma o e e o forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as o e e o condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particularo mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica. o o o o Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, coe mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos e distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´ o e ıduos”. Devemos, escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos a em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmeno ´ o social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser ` e apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de e unico: ´

´ 70 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal e a e ca e ou tal ilha”. N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o a c ca ca se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia a e e e individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social. e e ca Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆo e e lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro e e ´ como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal e como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como o e os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento ´ ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um oba o jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando e o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que a c˜ caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o o e e observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele c mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto e oe ıvel e quanto ele, sujeito. Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim, ` a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferena c˜ tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia o o durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo o a a ´ ponto merece alguns coment´rios. a Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em a 1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da oua o tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´o o grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo a ıda antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes o a ca circuitos mar´ ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e e e pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de e esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vic˜ e a sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a o e c a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da e comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura troca a o a briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski, o evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom a o j´ expressa preocupa¸oes estruturais. a c˜

de suscitar interpreta¸oes m´ltiplas.71 O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras. especialmente para toa dos os que. Muitos a mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em e Marciel Griaule. influenciados por ele. em Georges Devereux.´vi-Strauss. ou mesmo voca¸oes diversas. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar o c bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos. ´ pr´prio de toda obra c˜ u c˜ e o importante. fundador da etnopsiquiatria) o consideram como seu pr´prio mestre. procuraram promover a especificidade e a unidade das ciˆncias do homem. e pai do estruturalismo. fundador da etnografia francesa. e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas. e . em Claude I.

OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: .´ 72 CAP´ ITULO 5.

Parte II As Principais Tendˆncias Do e Pensamento Antropol´gico o Contemporˆneo a 73 .

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antropologia pol´ ıtica. especializando-se e instaurando c o a at´ subespecialidades. antropologia urbana. . Contentar-nos-emos. em abrir a algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que pero mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dos e a antrop´logos de nossa ´poca. – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social o e – Durkheim e Mauss –. . . dentro de sua pr´pria pr´tica. antropologia da comunica¸˜o. .1 e Especialidades: antropologia das tecnologias. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras. antropologia econˆmica. O desenvolvimento do pensamento cient´ ıfico implica uma diferen cia¸ao cresc˜ cente dos campos do saber.Cap´ ıtulo 6 Introdu¸˜o: ca Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas. A antropologia n˜o apenas tende a progredir a por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia. sociologia. mais modestamente. N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama coma a pleto desse per´ ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986). psicologia. c ca mas avan¸a. antropologia industrial. e tamb´m porque o e nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propriaa c a mente contemporˆneos. Rivers. Malinowski. ca 1 75 . antropologia religiosa. o e e 6. podemos considerar que a antropologia entrou em sua maturidade.. . consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜o ıcio a ca e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. antropologia art´ ıstica. (poca c˜ ` o dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto). que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser o c expostas no in´ desse livro. hist´ria. t˜o grande ´ a e a e diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contema porˆneos. antropologia o dos sistemas de parentesco.1 Campos De Investiga¸˜o ca A primeira via.

pode ser caracterizada da o seguinte maneira: 1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas. de definir uma disciplina (qualquer que seja). etnomusicologia. 6. Disso decorre a ca Subespecialidades: etnoling¨´ uıstica. mas. c˜ visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais. de que s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada. Esse estudo. muito menos uma area a ´ geogr´fica ou um per´ a ıodo da hist´ria. como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. . conduzido mais a partir da observa¸ao c˜ dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes. a religi˜o. essa area. Mostraree a mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profundamente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e a a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. . INTRODUCAO: ¸˜ Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ ıvel de exposi¸˜o do campo ca antropol´gico contemporˆneo. o parentesco. n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dado a e c˜ (a tecnologia.76 CAP´ ITULO 6.). Limitura o a nos-emos a trˆs: a antropologia americana. o ` a o As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o c˜ o ca o a eminentemente diversificadas. bem como das produ¸oes culturais caracter´ c˜ ısticas de uma etnia ou na¸˜o. ´ porque consideramos que uma disciplina o a e cient´ ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos e a emp´ ıricos j´ constitu´ a ıdos. Ou seja. etnomedicina. consistiria em mostrar o c que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence. a unica coisa pass´ ´ ıvel. a britˆnica h francesa. pela constitui¸ao de objetos a c˜ formais. pelo contr´rio. e sim a especificidade da abordagem o utilizada que transforma esse campo. a nosso ver. a arte. esse per´ ´ ıodo em objeto cient´ ıfico. as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam co as sociedades entre si. que apenas esbo¸aremos aqui.2 Determina¸oes Culturais c˜ Uma segunda via. etnopsiquiatria. o a a a . e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao a o a a ”Ocidente”. e a A antropologia americana: Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolua cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan.

como nos Estados Unidos. mas. deve ser e a relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial. aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao. em seus deo senvolvimentos contemporˆneos.2. . das rela¸oes da etnologia com a psicologia a c˜ ou a psican´lise: a 2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de ina tera¸ao entre os indiv´ c˜ ıduos e sua cultura. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico. que se constituiu desde Malinowski e em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hica a o co pot´ticas dos est´gios. estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em si. a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos a elementos de uma cultura para outra. uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu a passado. nem pelo que empresta a seus vizinhos. o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos c˜ mais adiante. Para a maioria dos pesquisadores ingleses. reatualizou e renovou ao mesmo tempo. Pode ser caracterizada da ` a e seguinte maneira: 1) ´ uma antropologia antievolucionista. nos Estados Unidos. a abordagem evolucionista sob a forma do a que ´ hoje chamado neo-evolucionismo e A antropologia britˆnica: a Seu crescimento. o enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos que constituem uma determinada sociedade: a monografia. independentemente de seu passado. em sec˜ e guida.6. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ 77 importˆncia. em especial. Dedica-se preferencialmente a inves` tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski). 4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es o ` a co hist´ricas especulativas. em contrapartida. o que a op˜e a antropologia amee o ` ricana. mas tamb´m entre as pr´prias1 e o culturas: forjou. tamb´m muito r´pido. c˜ c˜ aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra. ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Inglaa c terra. ´ o ındia e portorriquenha). 2) ´ uma antropologia antidifusionista. 3) nunca foi confrontada. bem e a a como a abordagem da historiografia). indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”. e. tal como se apresenta no momento no qual a observamos.

´ uma antropologia social que. tratava-se da antropologia f´ ısica.78 CAP´ ITULO 6. que pua blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia. INTRODUCAO: ¸˜ 3) ´ uma antropologia de campo. e e nessa ´poca. 1853) era francˆs. com Radcliffe-Brown. do pensamento francˆs. c o a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem. a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano). com Malinowski e. Hoje ainda. e vˆ a abordagem de um e e L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista. privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detric˜ mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´ ıduos. um antrop´logo que pode ser considee o rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha. Enquanto que um a a a ıcio e campo emp´ ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos o a ıa como na Gr´-Bretanha. antes. que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a ra¸a. administradores utilizavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades. e at´ de ”materialista”. que se desenvolve muito rapidamente. n˜o hesita em a a qualificar-se de ”empirista”. o ıcio e qual ´. c e e e Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´ e a ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a e o c (em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas ca a e a e ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard) e ıs 2 . nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines. e que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ada o a Notemos que Gobineau. Nenhum pesquisador francˆs teve.2 Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. a e partir do in´ do s´culo. Leach. mais ainda que Malinowski. um dos pais fundadores de quem a maioe ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora. c˜ ´ Quando se falava de antropologia. Quatrefages ou Topinard. enquanto. ao contr´rio da antropologia e a americana. que era ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca. a partir ca de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos a antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo o o ca a dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo o ıs. e e e As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area. Esse o a a car´ter emp´ a ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade. e 4) finalmente. nesses dois pa´ a ıses. A antropologia francesa: A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e culc a tural da segunda metade do s´culo XIX.

Nem a a a a Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia inglesa). a antropologia francesa entrou em sua maturidade. exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´ u a e ca ıfica da etnologia. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ ministradores de colˆnias francesas. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. A partir da mesma ´poca. mas c˜ ıs. Labouret. nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. a c˜ Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia proa fissional comece a se constituir na Fran¸a. com o impulso especialmente dos o homens que acabamos de citar. estendendo o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto.2. as pesquisas foram prosseguindo.6. e sobretudo ]unod. Monteil. c˜ o o o sem d´vida. A partir desse momento. manual de investiga¸ao e c˜ etnogr´fica (1967). 1985) que podem ser qualificados de pioneiros. • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es” ca e co Clozel e Delafosse estudaram no in´ ıcio do s´culo o sistema jur´ e ıdico das popula¸˜es co do Sud˜o. empreendeu trabalhos (1946. e s´ a partir dela. enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os a da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca. nunca realizou uma investiga¸ao no campo. Maurice Leenhardt. e que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio o a protestante. mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica. e c˜ o que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra. caracterizar os desenvolvimentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa. as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspecco a tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que. conv´m lembrar os noves de Tauxier. mission´rio da Su´ca romanche a ı¸ 3 . principalmente em algumas frases. pode-se considerar que. Entre os pioneiros desse africanismo e francˆs principiante. freq¨entemente mais emp´ o u ırica. Publicou notadaı mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). que s˜o e e a administradores coloniais eruditos. A primeira miss˜o de car´ter c a a cient´ ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e a seus colaboradores em 1931. O pr´prio Mauss. Lembrea mos apenas aqui alguns aspectos relevantes: • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem parco o o ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica ` a da antropologia anglo-saxˆnica. Seria dif´ ıcil. diretor da Revue a d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924).3 o 79 Mais uma vez. cuja riqueza a n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra.

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜ (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral), a c˜ termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interese a sava pelo que chamava de ”mentalidades”; • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente: ca o

1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante e e mais ilustre), 2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da o c˜ etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa, o em suas diversidades e muta¸oes. c˜

6.3

Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento o o Antropol´gico Contemporˆneo o a

´ Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente a c˜ optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse lie a vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao ca c˜ 4 cient´ ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem a o o freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de u a vista diferentes sobre a mesma realidade. Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da ana tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (tera o rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a o a o antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das co tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos e a e de investiga¸ao. c˜ A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver, a nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o o a de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos a u o o
As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de invesco o c tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um ca a ca quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim e
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´ ´ ´ ˆ 6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE a uma imaturidade cient´ ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa discia plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a u antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio a e a para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver a ´ pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se a cr´ ıticas rec´ ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K. ca Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva o sobre o social e n˜o o pr´prio social. a o Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´ e o o ıram, a partir do s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia e e do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a e c˜ co ca filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, lie o teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault: c˜ • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fie co c˜ siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das o c˜ normas reguladoras dessas fun¸oes; c˜ • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes e c˜ sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses conflitos; • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos, e bem como do sistema que constitui sua coerˆncia. e A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus proa o longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromotoo ` res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A e a c˜ ”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de a o o co poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´ ´ a c uıstico, as ` disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como e ca a objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais. a c˜ O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras e e as Coisas, ´: e 1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o a ca as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes; ` co a c˜ 2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra, ca

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apao receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir e dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do c˜ sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss). e Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu c˜ nome pessoal, ´ que: e 1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um e a a unico modo de acesso sem correr o risco do esp´ ´ ırito de ortodoxia. E efetivamente, no per´ ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos, e veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios moa dos de acesso. 2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de inconsa o a ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´ a ıtico, mas do qual este n˜o tem a evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas, o a regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do e saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesquisas etnol´gicas de car´ter emp´ o a ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜o ca de seu objeto cient´ ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por e assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores soca ciais quanto das observadoras do social. Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco ıvel p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente. o 1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que chao e a mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam e u c˜ em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria e o c˜ a do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como veremos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito. c˜ e Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que enconc˜ tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos? e o

Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ ca o ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50 Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974. e

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mais exatamente. no que diz a respeito ao essencial. psicol´gico o o (Kardiner. ´ o de fun¸ao o ıcio e c˜ (Malinowski. 1967). matem´tico. escolhem um modelo ling¨´ uıstico. privilegiam a des-continuidade. outros finalmente.´ ´ ´ ˆ 6. muito afastados. ca b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade u o da cultura (para Morgan. biol´gico. isto ´ a coerˆncia e e interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura. a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura. e a o mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico. a linguagem. mais ainda. freq¨entemente ligado ao estudo dos e u ´ processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). e entre as pr´prias o culturas. de quem falaremos adie ante. cibern´tico (L´vi-Strauss. ou ling¨´ uıstico (Sapir. do sentido. sentir. Mas a e e . Bateson). e mais para a organiza¸ao interna dos c˜ grupos. e para a e co Devereux uma ”universalidade da cultura”). as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a o a a um tronco comum. mas tamb´m Durkheim). c ıvel c) A antropologia estrutural e sistˆmica. as regras o explicativas da troca). e c˜ os que chamamos ”aculturalistas”. expressar-se. Foucault).3. esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou. Mas o que permite essencialmente caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou e e e descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado. a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss. Uns utilizam um modelo a o psicanal´ ıtico. Nada distingue o realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo. Seja o modelo utilizado. c˜ em detrimento da norma e do sistema. e qual ´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global? e ıvel c˜ 3) A antropologia cultural. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve ca ca tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso. a partir da qual podem ser estudados o pensamento. acima M. de outro. em si. o conhecimento. ´ uma antropologia freq¨entee u mente emp´ ırica. Estudaremos aqui n˜o s´ uma. com autores de quem est˜o. Um dos conceitos opeo o o rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE 2) A antropologia social. E um eixo c˜ c˜ co de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar. os mais numerosos. como Evans-Pritchard ou Devereux. Seu objeto situa-se claramente no campo epistemol´gico oriundo da economia (cf. 1970). no caso c de L´vi-Strauss. como vimos. a conhecer. os culturalistas mais uma vez. para Malinowski. a emo¸˜o. que se situa do lado da fun¸ao ou. sobretudo a respeito disso. privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade. outros um modelo proveniente do que Foucault designa como o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora. h´ uma permanˆncia das fun¸˜es.

estima-se que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das e co o produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´ c˜ ıvel ırico existe o que Bastian j´ chaa mava de ”unidade ps´ ıquica da humanidade”. ´ porque. e depois Jakobson (a l´ ıngua explicativa da palavra). Para a ete a e nologia de L´vy-Bruhl (1933). o c˜ . Saussure. a ”mentalidade primitiva”. a Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa. ` c˜ op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. quanto no mito. isto ´. que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do conse ciente). INTRODUCAO: ¸˜ qualquer que seja o modelo adotado. do sentido para o sistema (L´vi-Strauss). a o e com ele. finalmente (1966). existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva e de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. ele realiza uma passagem do consciente para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim). Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa a antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6 o a chama de campo sociol´gico. em rela¸ao ao anterior. do l´gico e do il´gico. Ao contr´rio. e Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao. do sistema (e n˜o mais do sentido). do sentido e o o o o do n˜o-sentido. p. o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. na obra de arte?. n˜o ´ mais poss´ pensar que a a e ıvel os doentes mentais s˜o ”loucos”. Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a seo a a e guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´ a ırito que atuam. mas ao n´ do sistema a ıvel co ıvel (inconsciente). o alteridade sempre a c˜ corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritorialic dade: ao lado. ent˜o. do conflito c˜ para a regra (Mauss). da regra (e n˜o mais do a c˜ a conflito). 53 deste livro). Assim. tanto nas formas elementares e complexas do parentesco. . quando a atividade epistemol´gica come¸a a o a o c situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao). O que desmorona. e o o ´ as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional. . para sempre diferente. ”absurda”. e os a mitos ”insignificantes”.84 CAP´ ITULO 6. de L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o e sentido). a o a Na antropo logia psicanal´ ıtica. n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas. o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente o pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. como na antropologia estrutural. ´ a pertinˆncia dos pares a e e antinˆ-micos do normal e do patol´gico. e que procura estudar as rela¸oes de poder. de fato. Invers˜o de perspectiva o a a neste caso. mas que se inscreve no mesmo horizonte c˜ epistemol´gico. 5) A antropologia dinˆmica. E e ´. fora. para a psicologia e pr´-freudiana. Para Griaule. Mas esta deve doravante ser pensada.

da segunda metade do s´culo XX. por exemplo. o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da c o antropologia cultural. Uma o das caracter´ ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX.´ ´ ´ ˆ 6. Mas. Para esses auc˜ tores.. a antropologia cultural e a antropologia funcional (Malinowski). e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. por exemplo. esta situa-se. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem a a e a e coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento. em reorientar a antropologia social. constitutivo da abordagem adoo tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo a instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os debac˜ tes. que constituem divero sas perspectivas poss´ ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ ırico. do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos. e ´ afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia a e ca e (1967-1970). Em compensa¸˜o. entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica a (Godelier. co e e mais especificamente. Kardiner. consiste. ou mesmo de um unico ´ 7 pesquisador. ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma ca e ıcil antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de ca ca orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ ca a ıtica (Devereux). mas e o a tamb´m dentro de uma mesma disciplina. Considerando agora a obra de L´vie Strauss. por exemplo. Assim. ou at´ as discuss˜es. pelo contr´rio. A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo opee rante (ou modelo epistemol´gico principal. a meu e ver. Por isso. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das co a a da sociologia. conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que a e a ´ seria a hist´ria. no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o ca superou finalmente a particularidade das culturas. Mas seu projeto o diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no a e o e Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao e e e quarto eixo de pesquisa definido acima. se a examinarmos do ponto de vista. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963). o e o as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema soo a e a cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es? a co Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contemo porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo.3. 1970) sobre os e culturalistas americanos. a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas. Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. exerceu uma influˆncia evidente (cf. 7 . Existem portanto afinidades entre.dos objetos preferencialmente estudados (os mitos). ao mesmo tempo a hist´ricos (sociedao des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse) o ca a e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). A incompreens˜o entre os pesquie a sadores pode se tornar total. se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de a e que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas. 1973).

Malinowski). psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos o o ca de inibi¸ao. mas n˜o podem subsiitu´ a ı-lo. ”aproxio a mado”. pois este. s´ pode ser. se quic˜ a c˜ e sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos. de instrumentos da e pesquisa que visam explicar o real. hist´ricos (Morgan). ”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es e ` co de mensagens. segundo a express˜o de Bachelard. e u a nunca esquecer que se trata somente de modelos. Conv´m. Estes podem ser. por exemplo. repress˜o e sublima¸ao para pensar o social). c´digos e programas). isto ´. . o Comte. em termos cient´ ıficos. como se diz hoje. biol´gicos (Spencer. INTRODUCAO: ¸˜ Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo` a e delos em antro pologia.86 CAP´ ITULO 6. ling¨´ o uısticos ou.

M. G. leva Mareei Griaule e seus colaboc˜ e radores a efetuar estudos sistem´ticos. primeiro da mitologia dos Dogons. n˜o apenas o africanismo francˆs. de tudo que Griaule e seus e sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon. a literatura de tradi¸ao oral (mitos. etc. Dieterlen (1965). Griaule (1938.) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas e e produ¸oes se constituem (particularmente as l´ c˜ ınguas). de que trataremos no pr´ximo o cap´ ıtulo). prov´rbios. lendas. Calame-Griaule (1965). dos e o u cantos. G. que o o o s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. particularmente representativa dessas preoc cupa¸oes: ´ a que. esse pensamento o Cf. m´scaras e outros objetos culturais. Toda uma corrente a de pesquisas aparece na Fran¸a. Paulme. Deixando de lado. a compreens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma a c˜ sociedade (assunto da antropologia social. . . tal como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais. a partir dos anos 30. Dielerlcn (1951. teol´gicos. c a Para o conjunto dos etn´logos. por exemplo. e para Griaule em especial. estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo ca das produ¸˜es simb´licas (artesanato). religiosos. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradouraa a mente. 1962). 1 87 .. M. em suma. o estudo da l´gica dos o saberes (filos´ficos. . por assim dizer.Cap´ ıtulo 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica preo cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos. 1966). D Zahan (1960. cosmol´gicos. art´ o ısticos. co o c˜ contos. da religi˜o dos Bambaras. bambara. . da m´sica. dan¸as. e a depois. Griaule e G. 1963). D. 1972). mas tamb´m a pr´tica etnol´gica a e e a o dos pesquisadores franceses. cient´ ıficos) existentes num grupo (o que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que hoje qualificamos de ”etnociˆncias”).

M. Luneau (1975). a natureza e a cultura. fundadoras da ordem c´smica e social. um dos mais importantes lugares da antropologia. por exemplo. tempo perdido. A. de uma complexidade e riqueza inestim´veis. por exemplo e Durkheim (1979). e que far˜o em esa pecial. ıcio Tempels. [. J. ´ e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”. a interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no ena tanto dedicado sua vida. pelo contr´rio. 2 . Rouch (1960). os abor´ ıgines australianos e os trobriandeses. G. op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao o a c˜ pela economia. Ou de L´vy-. R. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o o a patrimˆnio do grupo. escreve: ”loucuras.) que acabam impondo-se ao observador ocidental. co O interesse para a ´rea dos mitos. V. S˜o elabora¸oes grandiosas.´ 88 CAP´ ITULO 7. recolhendo o e mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados. Aug´ e (1982). L. Van Gennep (1981). m´scaras. M. para n˜o dizer absurdas e incompreens´ a o a ıveis”.. Durand (1975). que. De Frazer. c Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui e o dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julgaco mentos. dos ritos de inicia¸˜o. que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social. da religi˜o e da magia aparece a ca a como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. de fora. c˜ As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologicaa o a a e mente. . Bastide (1958). S˜o a a o a elas que devem ser tomadas como fundamentais. A. . se aceitarmos finalmente compreendˆ-las de dentro. ıvel a categorias caracteristicamente ocidentais. Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ o a ıveis”. e a . Da mesma forma. das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons). o homem e o animal. que anota em seus Carnets: os c e mitos s˜o ”est´rias estranhas. e ap´s os ´ o ındios. . M. a c˜ a E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos. L´vi-Strauss (1964). Cf. ritos. n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia o a e – os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os e mortos. por exemplo. e L. M´traux e (1958). Favrct-Saada (1977). impregnando-nos de sua sabedoria. C. e n˜o projetando. v˜os esfor¸os. a c esperan¸as frustradas”. 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que e c˜ se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade. Thomas e R. Mas como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de muie co a tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. Percebe-se ent˜o que o conjunto a do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf. de Heusch (1971). Leiris (1958).Bruhl. Mauss (1960). pois s˜o.

. As rela¸˜es que estes o co mantˆm com as rela¸oes sociais. existem outras formas de c˜ e conhecimento tamb´m autˆnticas. ”ser movidas a ideologia”. narrativas. quando o a a n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas. o discurso etnol´gico ` o tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar conta de si pr´pria. fora o saber cient´ a ıfico. de personagem”. Assim sendo. Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao: o c˜ de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos a c˜ ` a ocidentalocˆntricos sobre o primitivo. de tempo. de palavra. a Pessoa e o Mito no Mundo o Melan´sio (1985). na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam. ´ profundamente subversivo na primeira mee tade do s´culo XX. pol´ e c˜ ıticas. N˜o se pensa um s´ instante. a e . Leenhardt considera que o mito ´ e fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”. o unico a beneficiar de ´ uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX.) como uma ´rea a ”` parte”. por a a a o exemplo. n˜o deixa de haver a um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ u ıram em dar a etnologia francesa seu prest´ ` ıgio. de sua no¸˜o de espa¸o. Finalmente. econˆmicas da sociedade em um o determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias. ela efetua a reconstitui¸ao dos c˜ sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas canae ques.89 Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mauo rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo. atrav´s do pensamento dos insulares. art´ c˜ ısticas. e ca c de sociedade. por exemplo. Esse protesto para o direito ` existˆncia e e a e de identidades culturais e espirituais (o que Senghor. com Grio aule) na Nova Caledˆnia. chamar´ a de ”metaf´ ısica negra”). . deixando de a c˜ oa se interessar pelo que acontece ”na adega”. Em Do Kamo. Mas ser´ que essa abordagem que se e a limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inicic˜ a ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica? c˜ o O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se e e e a num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o c˜ a a s˜o as nossas. Mostra que. um trabalho consider´vel sem o qual a a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”. se n˜o existe nenhuma teoria griauliana e a propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque ele nos parece o mais representativo dessa abordagem). ca Cr´ ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a aprea e ender as representa¸oes (religiosas. negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com a a descoberta de ”arte negra”. como diz o Althusser.

´ 90 CAP´ ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS .

Cap´ ıtulo 8 A Antropologia Social: Os princ´ ıpios da antropologia social. se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mico tologia. magia. c a c˜ o car´ter integrativo da fam´ da moral. religi˜o. na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. pede que se substitua o estudo da sociedade como sistema de rela¸˜es reais. ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas. A antropologia e a simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo o a que era dito pelos pr´prios fatores sociais. por sua vez. o como acabamos de ver. pelos deo posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos co sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ o a ırito dos ind´ ıgenas”.) permanece. come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes. Perguntamo-nos a agora: o que mostram. O antrop´logo o ´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade. a 1979). Assim. a e t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em uma a e c˜ o mesma cultura. um dos primeiros. mais precisamente. O a a que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. esses discursos suntuosos e que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em seu ideal? Assim. Esta insistia. tal como se elabora especialmente na Inglaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968). n˜o deixam de lembrar os princ´ a ıpios da antropologia simb´lica. e tamb´m e o valor inestim´vel. pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade. Essa alteridade da qual a procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ ıtulo anterior). . Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao a e c˜ que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. . A e o antropologia social. a ılia. c˜ Malinowski. mas tamb´m dissimulam. ou. e As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre co o a co 91 . e sobretudo da religi˜o (Durkheim.

muito representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. Aug´ (1979) quanto ` e a no¸˜o de ”representa¸˜o”. Rogei Bastide (1970). A ANTROPOLOGIA SOCIAL: decorrem de pr´ticas sociais. Douglas (1971). testemunhas. e. para co a a Estamos apenas dando conta. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especificao mente `s sociedades primitivas”. Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o a a (da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”. particularmente na constitui¸ao de uma ana c˜ tropologia social da religi˜o. consagrado por Durkheim. mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando a c˜ ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e a ca totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o. E. em uma persa a e pectiva sensivelmente diferente. pelo menos imediatamente.. sublinha-se e c˜ que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincua e o a lada a uma outra coisa. vai co ´ exercer um papel consider´vel. estreitamente vinculada ao que acabamos de dizer.92 CAP´ ITULO 8. assim como podem variar a a idade. A antropologia social n˜o ´ profundamente a e ´ diferente da sociologia. mas essas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse. N˜o devem ser estudadas em si-. capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao.1 e e a Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa. por sua vez. as cr´ ıticas formuladas por M. a partir do exemplo da religi˜o. Cf. ainda nessa perspectiva (durkheimiana). a ou ainda na Fran¸a. a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas. mais recentemente. mas enquanto a a representa¸˜es do social. Georges Balandier (1974). os pensamentos e sentimentos do r´u. merece ser sublinhada: um certo n´mero de u autores. do j´ri e u e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento. Cf. entre grupos sexuais. jurados. recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antroe a ca pologia social e a sociologia. Louis-Vincent Thomas (1975)). para o per´ c ıodo contemporˆneo. os trabalhos de R. esse autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes. Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem a e do pol´ ıtico”. Este ultimo termo. de uma op¸˜o poss´ a ca ıvel inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. a Henri Desroche (1973). Brad-bury e col. as rela¸oes entre faixas de idade. de a c˜ c˜ parentesco. ca ca 1 . advogados e r´u: e ”No decorrer desse processo. todos esc˜ tes n´ ıveis de realidade. (1969) escreve: ”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos ´ sociol´gicos. tamb´m. a Para ilustrar seu ponto de vista. diametralmente oposto ao de Mauss. e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968). Evans-Pritchard. considera Radcliffe-Brown. E uma ”sociologia comparativa”. G. Evans-Pritchard (1969). (1972) ou de M.

e. seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”. e a o Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. nesse caso. em especial Lowie. ı As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica. para muitos autores americanos (cf. que examinaremos a a agora. 1971). c˜ o o prossegue Evans-Pritchard. se efetuarem independentemente suas respectivas pesquisas. mas se inscreve a no prolongamento da sociologia francesa. . a antropologia social n˜o faz parte da antropologia. Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto ino a div´duos”. A tal ponto que.93 o antrop´logo. podem ser formuladas nos seguintes termos: ”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra. e notadamente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural. o extremamente proveitosas.

A ANTROPOLOGIA SOCIAL: .94 CAP´ ITULO 8.

. dedica-se uma aten¸ao muito grande menos c˜ ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prios co o indiv´ ıduos. . parece-me importante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresentados. regi˜o. mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ a e a e ıstica dessa atitude americana. religiosas.) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo ca e conjunto (etnia.). coloca o que ´ uma constante e da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e ` a o ca ` a psican´lise. e co co c˜ ca de domina¸˜o. . a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma. freq¨entemente quau lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”.) e para com outros conjuntos. De um c lado. . na¸˜o. que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem. de explora¸˜o. O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao. A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social. totalmente indepeno dente da sociologia. tamb´m a ca e hierarquizados.Cap´ ıtulo 9 A Antropologia Cultural: A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a c e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente americana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. J´ de in´ e a ıcio. a Para compreender a especificidade dessa abordagem. . uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble o (1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa discia o plina. a ` Quanto a isso. A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo e 95 . . quanto de suas id´ias. bem como suas produ¸˜es originais (artesanais. De outro. art´ co ısticas. a e o mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que aprea sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo.

E a raz˜o pela qual. . define-o melhor.). . Indo at´ mais adiante. Da mesma a e forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e a e uma linguagem nos animais. um dos mestres da antropologia americana. e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se ´ e c˜ d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´ a e a ımbolos. ıcil ca o Kroeber. o que distingue a sociedade humana da sociedade animal. reagir frente aos acontecimentos (por exemplo.1 Mas. levantou mais de 50. c ´ E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura. mas. de pensar. se pode haver uma sociologia animal a a (e at´. repetimo-lo. e examinemos mais adiante o a 1 Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social. sendo que. Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que. a nosso ver. se os animais s˜o capazes de muitas coisas. trabalhar.96 CAP´ ITULO 9. Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos. enquanto homens e mulheres de uma determinada cultura. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: campo de investiga¸˜o. e transe mitidas ao conjunto de seus membros. utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos) ca e e a de acesso a este objeto. a divis˜o do trabalho. nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo a ´ de anivers´rio. a doen¸a. e at´ da sociedade celular. dos grupos sexuais. que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicas c˜ o ou comunit´rias. celular). se distrair. o que se compara no prica e a meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais. Pois. a morte). Fechemos aqui esse parˆntese. Al´m disso. ´ estritamente humana. a antropologia ´ por sua vez especificamente e e humana. s˜o animadas por um objetivo e uma a ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa. bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao a c˜ c˜ das faixas de idade. saberes e sabere fazer caracter´ ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada. existem sociedades animais c at´ formas de socie abilidade animal. a especializa¸ao hier´rquica a c˜ a c˜ a das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais. n˜o ´ de forma alguma a transe a e miss˜o das informa¸oes. da divis˜o hierarquizada do trabaa lho. pelo que se sabe. sendo essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem. ao contr´rio da de sociedade. Assim. apenas a no¸˜o ca e cultura. que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso e a prop´sito. Finalmente. e por elabora¸˜o ca das atividades rituais aferentes a estes. e . mas dentro de uma a unica c´lula!). existe o que hoje n˜o se hesita mais em e a chamar de sociologia celular. no e c˜ segundo. pelo contr´rio. trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos come portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas maneiras espec´ ıficas. de encontrar. o nascimento.

encontra v´rias a preocupa¸oes comuns aos psic´logos. esse campo de pesquisa. isto ´. psicanalistas e psiquiatras. *** Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em u sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. Utiliza porc˜ o tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes. que est˜o. Erny (1972). e ca particularmente sob o angulo dos processos de contato. difus˜o. sem que estes o percebam). estreitamente ligae a dos entre si. ca a 3) Finalmente. intera¸ao e ˆ a c˜ acultura¸ao.97 os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural. bem como suas t´cnicas u e de investiga¸ao (por exemplo. c o Deter-nos-emos em trˆs deles. c a imp˜e-se. utilizados pela primeira c˜ vez em etnologia por Cora du Bois). de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por c˜ e c˜ c˜ outra. salienta a originalidade de tudo que devemos ` sociea dade ` qual pertencemos. Citemos notadamente. J. como veremos. os testes projetivos. considerada como uma totalidade irredut´ a outra. Assim. Atenta as descontinuidades (temporais. a partir dos anos 30. Procurando compreender a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o. 1972) e a que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa. 1965. para o per´ a a ıodo contemporˆneo. 1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos seres humanos pertencendo a uma mesma cultura. mas modela a o comportamento dos indiv´ ıduos. mas ıvel ` ` sobretudo espaciais). a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o. tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o c˜ meio no qual nascem e crescem estes indiv´ ıduos. 2 . de uma cultura. os trabalhos de Ortigues (1966). sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa. como uma das areas da antropologia na qual o ´ a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica. designado pela express˜o ”cultura e personalidade”. pelo indiv´ ca a ıduo. extremamente desenvolvido a nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha. a 2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comportac˜ mentos dos indiv´ ıduos. 1927: Margaret Mead Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia e ca a cultural est´ longe de ser negligenci´vel. Rabain (1979) e lembremos a a influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950.

certamente a obra mais caracter´ c˜ ıstica do culturalismo americano. 3 .98 CAP´ ITULO 9. Asc˜ c sim como na sociedade Chaumbuli. Origem e Fun¸ao da Cultura. em 1935. 1944: e c˜ ca Cora du Bois. enquanto as mulheres v˜o pescar. n˜o considerar como universal o que ´ relativo. as mulheres se dedicam ` cerˆmica. ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura. 1939: Kardiner. s˜o as mulheres que a c a cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as. . observamos que os fi´is tiram e o chap´u e permanecem com os sapatos. a O que mostram essas diferentes obras. que ser´ retomado em H´bitos e Sexualia a dade na Oceania. Psican´lise e Antropologia. na qual os homens se dedicam aos filhos. sentimos dificuldade em dormir – a como me aconteceu no Brasil – em uma rede. dificilmente suportam a maciez de um colch˜o. 2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural. o Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. 1950: Roheim. Assim. sempre baseadas em numerosas observa¸˜es. Como essa corrente de pesquisa. c e Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria. Nas sociedades nas quais os homens dormem diretamente no. este ultimo coment´rio deve a porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem. a maneira com que descansamos. co e e a ` a ou seja.3 Essa compreens˜o a e a da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia ıvel e cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos ıvel c comportamentos. um livro que foi um marco. Inversamente. 1934: Amostras de Civiliza¸ao. como alguns na Asia. Nas a sociedades do Oeste africano. Na Europa. de Ruth Benedict. O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-. ao penetrar numa igreja. As Bases da Antropologia Cultural. enquanto a a os homens v˜o para a ro¸a. quando. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: publica Corning of Age in Samoa. em uma mesquita. na ilha de Alor. apoiando-nos em uma s´ perna. 1945: Linton. Os Fundamentos Culturais da Personalidade: 1949: Herskovitz. O Povo de Alor. solo. ıvel qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. 1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de ca nossas atividades. 1943: Roheim. e n˜o nos passaria pela cabe¸a a c ´ descansar. e os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u. a Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ ıcios religiosos. Inversamente. que desenvolve a id´ia de que a cultura c˜ e ´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer. que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ ıvel. . multiplicaremos os exemplos.

Assim. n˜o apenas de a a uma civiliza¸ao para outra. nas sociedades ´rabes. desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o. a educa¸ao sexual ´ eminentemente c˜ c˜ e vari´vel de uma sociedade para outra. como no exemplo acima. por exemplo. reservavam-me um presente muito inesperado para um ocidental. isto ´. acec˜ nar a cabe¸a e sorrir.99 As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversie dade podendo. como h´spede. De um lado. em um cˆmodo e separadamente de meus hospee o deiros. Por outro lado. Assim. sob pena de sentir um certo mal-estar. consistir na invers˜o pura e simples a daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. Finalmente. ir˜o manter um certo espa¸o entre si na a c ´ Europa do Norte ou na Asia. iniciados nas t´cnicas amorosas por a e monitores experimentados. c A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas. Na Melan´sia. os quais. Esses mesmos interlocutores. sentados no terra¸o a c de um bar ou passeando na rua. olhar fixamente a e algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜o e e o a de amea¸a e agressividade. mas que devia ser consuc˜ mida isoladamente. o a o a como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades media terrˆneas e sul-americanas. 1959) institucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer. mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. Imp˜e-se pelo contr´rio. enquanto os Muria da ´ ındia (cf. que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa. Aqui c˜ c˜ est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado. meninos a e e meninas s˜o. e e a ca enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias. poc ` dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comportae mentos mais cotidianos. Elwin. uma a c casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. a . As trocas e a de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas a a nos pa´ ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. as formas de comportamento sexual detiveram particularmente a aten¸ao dos observadores. na idade da puberdade. sul-americanas e sula europ´ias. a Diferen¸as significativas. por outro lado. os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes. decorrentes da cultura a qual pertencemos. fiquei pessoala mente impressionado. assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na c a e Europa. com o convite que me era sistematicamente feito o de uma refei¸ao preparada em minha homenagem. tender˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latinoa a ´ americanas. mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa ıs u do Marfim).

Georges Sand. a maneira de se vestir. a dos doces e ternos Arapesh. os jogos. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨entaa u vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. e inversamente. sob pena de c˜ um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de vergonha e culpa extremo.O. c˜ 2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de a comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para a outra (como a alimenta¸ao. aparecer´. tentou evidenciar a pree ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade. enquanto a outra. Na mesma ´tica. chocadas ´ que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente. Cada um dos grupos reagia normalmente. As inglesas ficavam. russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins. receio que se expressa tanto no car´ter a a ”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagantes que os contos escandinavos. n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias. c˜ a mas tamb´m nas estruturas perceptivas. s´ deseja paz e o e serenidade. . ´ comandada e por uma agressividade propriamente canibal. Ruth Benedict (1950) op˜e o o . o que os ca a o folcloristas. o h´bitat. a qualificados precisamente de ”jardins a francesa”.100 CAP´ ITULO 9. a dos violentos Mundugumor. quando tinham aceito o beijo. Assim. que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de nae co moro. e estes n˜o ena a a tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante a quanto um beijo na boca. o receio dos franceses frente ` natureza a que deve ser domesticada pela raz˜o. ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da co Nova Guin´. soldados americanos estavam mobiliza´ dos na Gr˜-Bretanha. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: Durante a ultima guerra mundial.) e chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. portanto. enquanto que. Os a c˜ co GIs consideravam as inglesas mulheres levianas. mas a norma era diferente de uma cultura para outra: para os americanos. as inglesas achavam que os americanos comportavam-se como marginais. . ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa a seguinte. era a ue a ultima etapa antes do ato sexual. ` Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos e povos das sociedades ”tradicionais”. ou ainda. O que ´ ent˜o considerado e a como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ ıduo violento). considera que uma. entre os segundos. nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica. Margaret Mead (1969). para as inglesas. que a antropologia americana deve a sua fama. . Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nosu o sas rela¸oes interculturais. cognitivas e afetivas constitutivas e da pr´pria personalidade. como perfeitamente normal. o beijo. A antropologia cultural foi assim levada a retoo mar. isto ´ conforme ao a e ideal do grupo. mas tamb´m os escritores (Chateaubriand.

Privat. uma e ca l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e o c˜ na dos comportamentos. 1973. n˜o deixar˜o de aparecer como margia a nais. Ed. Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie. ritos de inicia¸ao) pretendem – c˜ inconscientemente – fazer com que os indiv´ ıduos se conformem aos valores pr´prios de cada cultura. O que u c˜ co o caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”. indiv´ ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o. todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo n´mero de preocupa¸oes. Valoriza um determinado segmento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. sobretudo na a o Fran¸a onde o m´ c ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. freq¨entemente severas. mas cultue ca a o ral). Universitaires. o Cr´ ıticas. Se houver. desenvolve uma concep¸˜o do e ca Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie. tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos huc˜ manos a tipos. Fortune.4 u a que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos.101 a sociedade ”apoloniana”dos ´ ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e e ` c˜ rivalidade ”dionis´ ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da e ilha de Dobu. em uma sociedade. nenhum a ca gosto pelo roubo. de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais nos referimos acima). ` ca co as institui¸˜es educativas: fam´ co ılias. n˜o faltaram aos cul-turalismo americano. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias. ´ manifesto. Encoraja um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem u e censurados. em detrimento da investiga¸˜o das normas. sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. e detestem brigar. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico. quem ca e propˆs a cr´ o ıtica mais radical desta. As institui¸˜es (e. colocando-se no cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia. Ed. Toda cultura persegue um objetivo. 1974. este povo de feiticeiros (R. mas a culo e tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. Trae a ca balhando com uma abordagem muito emp´ ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes. Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco cultural”. 4 . do que a constru¸ao rigorosa de um o ` c˜ objeto cient´ ıfico. entre estes. enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como conformistas) na sociedade pueblo. 33-36. pp. desconhecido dos indiv´ ıduos. 1972). Cada cultura realiza uma escolha. Al´m disso. escolas. e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e a c ` c˜ ` pr´pria personalidade do pesquisador. dos ca c˜ conflitos e das significa¸˜es. A partir de exemplos desse tipo. 46-50) e a sublinhar que. em especial. e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que e ue s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que. das co ca regras e dos sistemas. em detria ca e mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente). e pp. foi Georges Devereux (1970). a meu ver.

c˜ a . variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no a pr´ximo cap´ o ıtulo. levando-se em ’conta essas cr´ a ıticas. Isso n˜o impede que. tamb´m. pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ ´ c˜ e e freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos u ıs. represente a uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina.102 CAP´ ITULO 9. particularmente a obra de Ruth Benedict). materiais recolhidos. o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos ame e u bicioso do que geralmente se diz (cf. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o a passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade co a da cultura. levando-se em conta. pela importˆncia dos problemas colocados. a antropologia cultural.

com o c˜ impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto. em um n´ ıvel que n˜o ´ mais dado. a cultura ´ a c˜ e concebida como uma esp´cie de mosaico. que se elaboram sem que estes tenham consciˆncia disso. mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. e Isso colocado. a relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social).’e muito co menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultuo e o ral. frutos de uma pr´tica parceladora. que. as culturas s˜o apreendidas. estuda as diferentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens. procuraremos explicar e co a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser compreendido como produ¸˜es do esp´ co ırito humano. ´ e e um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a. mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas c˜ de troca. Na perspece tiva na qual nos situaremos agora. aparentemente bastante distantes a entre si: • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao. caracterizada por um conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador. reuniremos nesse cap´ ıtulo um certo mimero de tendˆncias do e pensamento e da pr´tica antropologica. Ou seja. um traje de Arlequim. n˜o a partir dos ca a interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si. se d´ ao a 103 . a tratadas.Cap´ ıtulo 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e Para a antropologia cultural. no encontro. cada cultura particular. E nessas condi¸oes. S˜o entidades parcea ` c c a ladas. ou melhor. e sim constru´ a e ıdo: o do sistema. integrando notadamente tudo o que. e o o al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais.

A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes. Ora. a neurofisiologia. o primeiro. e da posturas. dos gestos. • a enopsiquiatria. longe de ser uma fonte de erros a ser neutrac˜ lizada. ´ claro. at´ ent˜o n˜o ca e a a utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas. Devereux. finalmente. mas que eu considero a a pessoalmente como mais atual do que nunca. ca c˜ mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´ e ısica quˆntica ´ mais verdadeiro a e ainda no das ciˆncias humanas e. u c˜ 1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos epistea mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou. cujo fundador ´ Georges Devereux. L´vi-Strauss. da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia.ˆ 104CAP´ ITULO 10. e essa perturba¸ao. Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de um modo de conhecimento para outro. *** Existem. diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da ane c tropologia contemporˆnea. assim como a quest˜o da validade da a transferˆncia dos modelos. particularmente. Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo a u n´mero de op¸oes. do qual muitos gostam hoje de e dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado. a ca e pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica). recorre a esse modelo nascido e . e que ´ uma e e pr´tica claramente pluridisciplinar. o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´ o c˜ e observado. a ling¨´ a e a uıstica). da etnologia: a presen¸a e c de um observador (no caso. das m´ ıvel a c˜ ımicas. mais precisao ˆ e mente. de volta de Bali. a psican´lise. quase tanto quanto Bateson. as maa tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas. particularmente. das ferramentas. percebe que c˜ a os princ´ ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo ca da comunica¸˜o humana. e a co e Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da e elabora¸ao da pilotagem autom´tica. ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar. Bateson. e Partindo do ”princ´ ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar e ıvel ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron. procurando compreender ao mesmo a tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psia e u a col´gica e psicopatol´gica da cultura. o o • o estruturalismo francˆs. e.

dos bens). e que conv´m analisar. na realidade. Para este ultimo. diferen¸as muito importane c tes entre o estruturalismo europeu. L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa u a o corrente insistem sobre o fato de que ( imposs´ ıvel n˜o comunicar. e o interacionismo e americano. cuja l´gica ´ irredut´ a e o e ıvel a soma de seus elementos. ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias humaa e nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´ o ınico quanto pelo etn´logo s˜o o a fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto. tratando-se simplesmente o a de recolhˆ-los. em particular francˆs. Disso decorre a met´fora da orquestra participando a o a da execu¸ao de uma partitura ”invis´ c˜ ıvel”. express˜es do rosto por m´ o ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens freq¨entemente involunt´rias. na parte mais recente de sua obra. frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´ e c˜ uıstica. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama ` ca e uma ”ciˆncia da comunica¸ao”. E quando o autor da a a Antropologia Estrutural realiza. expressando o pr´prio inconsciente da sociedade. isto ´.105 da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. Desde a sua Introdu¸ao ` c˜ u o c˜ a Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo e francˆs. mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes a c˜ c˜ cont´ ınua e n˜o aleat´ria. refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita e ` a e sem autor. procurando come preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o ca o c˜ . c˜ regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. come¸a a desenvolver-se. das palavras. toda cultura ´ uma moe c˜ ´ e dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres. ` Lembremos mais uma vez que existem. posturas. na execu¸ao da qual cada um dos c˜ m´sicos est´ envolvido. pontuado por gestos. e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Ete e nopsiquiatria Geral). e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao e o c˜ c˜ particular com atores particulares. um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orquestral da comunica¸ao”. Ora. esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira tec˜ ´ a ` legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um a ´ destinat´rio. o estudo dos mitos. a cultura. o Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”. todo comportamento humano (do vozerio mais a intenso ao mutismo absoluto. m´ ımicas. e 2) A partir dos anos 50. a e relutando at´. tanto na Europa quanto c nos Estados Unidos. a tarefa do pesquisador ´ precisamente a u a e de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto verbal quanto n˜o verbal. ´ claro.

produzindo constantemente aspectos in´ditos. e cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras sociedaa a des. e a e Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio ´ e o amago de sua sociedade”. do direito. o que e e interessa Bateson. Ora. de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudie a ano. cuja tendˆncia ´. que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia co e e ´ antes uma psicologia e 1 . tanto para o estruturalismo quanto e para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da anae tropologia sistˆmica americana. que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das a e e e preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss. O exemplo da primeira obra de Bateson. ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural. o sentido do que fazem os homens deve ser procurado menos no que dizem do que no que encobrem. e sobretudo. isto ´. especialmente. 4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreveo se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou. visando ”apreender uma realidade imanente ao homem. mas al´m dessa cultura. devido a sila exigˆncia ` e de pluridisciplinaridade (e. das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais. por seu car´ter inovador no campo da antropoloa gia anglo-saxˆnica da ´poca. 3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hue o e e c˜ mana. as rea¸oes dos indiv´ c˜ ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´ ` co ıduos. mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux. as primeiras. Ou seja. mais especificamente. da demografia –. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: ”observador”e o ”observado”. colocam-se aqu´m de todo e indiv´ ıduo e de toda sociedade”. emp´ e e e u ırica como nos Estados Unidos). freq¨entemente. ”estrutura inata do esp´ e e ırito humano”. Em seguida. A Cerimˆnia do Naven (1936) o parece-me particularmente revelador. A o e partir da cultura dos latmul da Nova Guin´.ˆ 106CAP´ ITULO 10. Em primeiro lugar. de forma o o a e alguma. a maneira da antropologia cultural. ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de e e Essa problem´tica. situada no ponto de encontro entre a natureza e a cultura.1 mas que n˜o ´ concebida. Isto ´. menos no que as palavras expressam do que no que escondem. mas estrutura que se expressa sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ o ıduos e dos grupos”. como se diz nos Estados e Unidos. caracterizada notadamente pela monografia. O autor estuda os diferentes ` tipos poss´ ıveis de rela¸oes dos indiv´ c˜ ıduos para com a sociedade e. da sociologia. inconsciente estrutural e e para L´vi-Strauss. como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da ˆ e e economia. de pluridisciplinaridade entre a abordagem etnol´gica e psicol´gica).

Para este ultimo. fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente c˜ tomados como separados. refrat´rias a qualquer atitude reducia a onista. ”esse capital comum”(L´vi-Strauss) e ` e que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como coe letivas. sou falado. preocupado em n˜o deixar escapar nada na a investiga¸˜o do social. inventivo de modelos que conv´m qualificar ca e de ”complexos”. ´ claro. a qual se vˆ descena a ` e e trada pelo projeto estrutural. ca o e mas tamb´m qualquer forma de historicismo. que ´ nee ´ e . a c˜ o e sim ”correla¸˜es funcionais”. de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976). a antropologia como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade: a o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da ıdo e c˜ problem´tica do inconsciente. Assim. O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia. como escreve L´vic e Strauss. e emia nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva c˜ quanto intercultural. como pelo projeto freudiano. isto ´. a sou atravessado por estruturas que me preexistem. como no ”id”da psican´lise. Rompendo com a tagarelice do sujeito.107 que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas a sem referˆncia a ”cultura”(Devereux). e 1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia. isto ´. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse a pensamento. que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”. as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´ c˜ uıstica. Para L´vi-Strauss como para Bateson. e n˜o sint´tica. a 2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo. eu sou pensado. ”essa crian¸a mimada da filosofia”. a antropologia assim cono siderada ´. e. e atrav´s de um instrumento unico. E se a abordagem da etnopsiquiatria em co rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´ c˜ a e e ıtica. A metoc˜ dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia. Essa e a ca abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais. e ´ e n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos. 5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abordagens s˜o abordagens da totalidade. enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementaria e dade. e um ”pensamento dos conjuntos”. Por todas essas raz˜es. A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. Ou seja. as e ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. sou agido. considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social. por isso.

Para L´vi-Strauss. . mante´ ısmo. op˜e-se a inteligibilidade estrutural. polite´ ısmo. n˜o mais. sororato. a qual n˜o tem a c a como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la. Ou e o seja. . a 4) Ruptura. monogamia. . E toda a diferen¸a c entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. tentar e e e ` an´lise dos processos em tercompreender o presente atrav´s do passado. muito menos ao n´ dos sentimentos ıvel . O modelo do estruturalismo sendo ling¨´ uıstico. o pensamento estrutural nos mostra que a extraa ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´ a co ıricas s´ se torna intelig´ a partir do o ıvel momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de esu trutura¸oes poss´ c˜ ıveis dos materiais culturais que encontramos. com o empirismo. o c˜ 3) Ruptura com o atomismo. ` a uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto e c˜ que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes. da hist´ria consciente a o ´ do que fazem os homens. o tio materno e a ıvel em uma sociedade matrilinear. Mais precisamente. ”Para alcan¸ar o real.). A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: cessariamente gen´tico. isto ´. e sim do sistema que ignoram. N˜o se pode compree e a endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai. o objeto cient´ ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o. diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos. o filho. Ora. o sentido de um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras o c˜ ` da l´ ıngua ou do que for an´logo a esta. Para este. levirato. voltaremos a isso. e e e Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. Para isso. ´ prec e ciso primeiro repudiar o vivido”. de um comportamento. atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza. ate´ ısmo.ˆ 108CAP´ ITULO 10. o parentesco ´ uma linguagem. praticamente infinitas. . uni˜o livre. conv´m colocar-se ao n´ c˜ a e ıvel n˜o mais da a palavra e sim da l´ ıngua. poligamia. estas c˜ s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura. explicar ´ procurar uma anterioridade. Da mesma forma. que considera os elementos independentemente da totalidade. inteligibilidade ca o combinat´ria de uma institui¸ao. a primeira vista. casamento por rapto. A a e mos de explica¸˜o causai. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pac˜ c recem. da e a percep¸ao espontˆnea. de um relato. abrindo uma compree a o ens˜o nova da sociedade. Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de L´vi-Strauss. agnosticismo. as rela¸oes dos hoa c˜ mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero u de op¸˜es poss´ co ıveis: o monote´ ısmo. a *** Assim. finalmente. Mas oscilam sempre entre alguns grupos: comunismo sexual. um n´mero u limitado de invariantes.

mas que co a cada sociedade. ou regras de uma t´tica. e se d´ independentemente ca a da vontade de cada um. ao sentar ` mesa. de palavras e (ling¨´ uıstica). Quando se estuda o parentesco. a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que e exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´ c˜ a ıveis: • ao n´ ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco).2 c˜ • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas. ”s˜o tratadas como signos dos quais se o e a abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos. cada reparti¸˜o das cartas resulta de ca ca uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores. jogadores diferentes a ca n˜o fornecer˜o a mesma partida. a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ noo ca e a vos resultados. compelidos tamb´m a a a e pelas regras. reorganiza incessantemente estes mesmos materiais. a que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo. E preciso colocar-se no n´ das rela¸˜es entre estes termos. a linguagem ou a economia. Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra. al´m da contingˆncia dos materiais e e programados. mulheres. ca ”Em um caleidosc´pio. que ´ de serem comunicados”. escreve L´vi-Strauss. que. E sabe-se bem que. interpreta nos termos dc v´rios sistemas. estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma ´ fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca). diferentes dc uma sociedade para outra. como cada jogador. que ´ a pr´pria cultura emergindo da c˜ c˜ e o natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto ´ a nada. Mais precisamente. informa¸oes que se comunicam. ao n´ de e ıvel um inconsciente estrutural. Fm segundo lugar. permitem e a compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutua ral. de bens (economia). embora n˜o possam. palavras e bens sendo termos que se trocam. isto ´. mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza dos parceiros 2 . Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a a c˜ c e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o a ca da ling¨´ uıstica). fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”.109 ´ que podem animar os diferentes membros da fam´ ılia. com a mesma distribui¸˜o. j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria a a e o e da civiliza¸˜o. S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio: a o ”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o. e a a cartas que n˜o inventou. regidas por regras de troca an´logas ıvel co a as leis sint´ticas da l´ ` a ıngua. a a e E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele e o a – nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es a co ”As pr´prias mulheres”.

” a Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois a textos: 1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos. Mas. c Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como e ”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ouco tra”. isto ´. considera que para compreender o movimento das sociedades ´ e preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria. pois e a a u s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem a e as atividades inconscientes do esp´ ırito”. a e mais ainda as regras das partidas jog´veis. 2) as diferentes estrutura¸oes poss´ c˜ ıveis destes materiais (isto ´. com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo. no xadrez. no e o caso do autor de Tristes Tr´picos. e L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ precie a a a samente dar conta dela – nem a hist´ria. E. como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio. a ıvel e o Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma vere o a dade. o pr´prio dea ` c˜ o senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para o a de girar. ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos. pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado. sobre o que percebe. . de outro. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo c s˜o praticamente nulas. Ou seja. podem ser qualificados o de invariantes. estendendo e e e no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo. Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e e a a do jogo de xadrez. ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado.ˆ 110CAP´ ITULO 10. Ao comentar o pensamento a de L´vi-Strauss. Ora. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas e a que acabaram de ser jogadas. e u e que. compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais. de um lado desconfia de um o ”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”. a hist´ria ´ um jogo no qual o o e a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas. qualquer posi¸ao do jogo pode ser c˜ compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. da explora¸ao e a u c˜ restrita das possibilidades te´ricas”. 3) finalmente. as maneie ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura para outra. um olhar que conv´m o e qualificar de est´tico.

a . enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades e que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas.111 L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades ocie a dentais ´ hoje desastroso.

A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: .ˆ 112CAP´ ITULO 10.

em proveito do estudo dos processos de mudan¸a. todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir o dos anos 30 (a antropologia social. porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ o c˜ ıveis do social dentro de uma determinada cultura. mas tamb´m de L´vi-Strauss. de fato. O ultimo p´lo u ´ o do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece a o como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica. e O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia e que qualificamos aqui de dinˆmica. uma renova¸˜o durante os anos 50. que pode ser encontrada dentro dos quatro p´los de pesquisa que. A antropologia estrutural. mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero u de conte´dos materiais (os mitos. ligados tanto ao c dinamismo interno que ´ caracter´ e ıstico de toda sociedade. cultural) e que conhecem. est˜o animadas por uma abordagem claramente antia a 113 . os ritos) e de estruturas formais (a espeu cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s o e das l´ ınguas). faz aparecer. o a Pr´ximo. com o impulso particularmente ca da an´lise estrutural. quanto as rela¸˜es ` co que mantˆm necessariamente as sociedades entre si. ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e integradas. por sua vez. notadamente atrav´s de o e sua reivindica¸ao antietnocentrista. A c˜ a antropologia que qualificamos de simb´lica abre. para o muitas. a e c˜ a ca do seu ponto de vista conservadora. Pratio camente. uma identidade formal (um inconsciente universal) informando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. como acabamos de ver. para maior clareza. e sobre a unidade de cada uma delas. ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o. Diferente. simb´lica. uma perspectiva muito pr´xima da anc˜ o terior. acabamos de distinguir. porque opera uma ruptura total com a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim. c˜ e e de sociedades (”primitivas”.Cap´ ıtulo 11 A Antropologia Dinˆmica: a A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das culc turas umas em rela¸ao `s outras.

e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao. como diz L´vi-Strauss. c c˜ Ora. s´ ´ poss´ porque se e o oe ıvel consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro o te´rico que funciona. passando por Griaule e Margaret Mead). como uma oculta¸˜o da realidade. unico objeto da ”ciˆncia”(a u ´ e integridade. Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas como im´veis ou. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo a e passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina. menos em realizar ele pr´prio uma c˜ o o obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de arte (de Malinowski a L´vi-Strauss. o a c˜ dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades o ocidentais. pois estaria cm si ainda puro de qualquer esc´ria da modernidade. em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e a tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens. ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que e e o um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. essa preoa c˜ e cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade. estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam preservar uma arte de viver). nas quais. um n´cleo considerado essencial. somos ca c levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar a –um pouco como nesses filmes magn´ ıficos sobre os ´ ındios da Amazˆnia ou o os abor´ ıgines da Austr´lia. e fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais. toda . tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferenu cial. o c˜ por isso mesmo. e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias ca e da rea¸˜o com o colonialismo). A ANTROPOLOGIA DINAMICA: evolucionista. E dissocia-se. em muitos aspectos. e de um contexto (os grandes acontecimentos o mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio. c˜ o No entanto. Mas ent˜o. A partir de u o a uma cr´ ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo. fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos. devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica. chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. ”pr´ximas do grau zero de temperao e o tura hist´rica”.114 ˆ CAP´ ITULO 11. o ca Pois as sociedades emp´ ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado a o e e n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis. Essa separa¸ao artificial de um objeto que ca c˜ poderia ser apreendido em estado puro. ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo e o e XX. ficticiamente ara a a rancadas da hist´ria. o c˜ pegando apenas um exemplo. as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram o o h´ muito tempo o edif´ a ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar o em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais. e ignorassem tudo das contradi¸oes. existissem dentro de um c˜ quadro econˆmico e geogr´fico mundial.

A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desaa ue e parecimento da oposi¸ao. durante os ultimos 25 anos. dentro do quadro limita do desse trabalho. Disso decorre o a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. ´ claro. ca c u Balandier. o uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan. at´ recentemente. particularmente forte nos Estados Unidos. esta c n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identia e c˜ dade que se caracteriza por um estado de equil´ ıbrio e harmonia.tre as ”sociedades c˜ e frias”e as ”sociedades quentes”. dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antropologia que qualificamos de dinˆmica.) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a preferirem a terminologia de ”sociologia”. a religi˜o) estreitamente imbricadas. Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o e ca fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata. a fam´ ılia.’. a ´rea ´ a Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia. mas a o a de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ ıveis do social (a tecnologia. que notadamente renovaram. Desroclic.115 sua abordagem consiste. e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo. da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o ca u o ca marxista. as institui¸˜es pol´ co ıticas. a ecologia. e. e do qual encontramos uma das mais importantes realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980). Ou seja. Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente a e a que nasceu nos Estados Unidos. dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica. Seria conveniente. Thomas. devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos e c a ca etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´ o ıs ca ıtico-cosmol´gicos. j´ instaurada por Morgan a a h´ um s´culo. ou ainda. Para eles.. se tornar um dos pontos e o centrais da an´lise do social. pois esta e a c ´ co-extensiva ao pr´prio social. de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966). com o impulso de Leslie White (1959).1 Esse neo-evolucionismo. Este realiza. e deve. e e e a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis.. durante os anos 50. formando o que o a pr´prio Morgan chama de ”estruturas”. insiste notadamente c˜ sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica. relegada at´ ent˜o. que evoluem dentro de per´ o ıodos sucessivos. ao esquecimento. essencial para L´vi-Strauss. falar a dos trabalhos de Max Gluckman (1966). que a e o n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que pera ` co e e mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade. de Jacques Bergue (1964). mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas. em primeiro lugar. desaparecimento que pode levar a recusa de ` uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente: ca e a da antropologia e da sociologia. conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social. sobre e a e ca a a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo. tal tendˆncia a a e ´ provavelmente mais forte na fran¸a. portanto. por exemplo. pela maioria ca e a dos pesquisadores. ca N˜o ´ evidentemente poss´ a e ıvel. em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a.2 1 .

que implica a realidade de ´ ca uma rela¸ao social de domina¸˜o. P. Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples a o c˜ deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”. que toda sociedade ´ ”problem´tica”. em uma perspectiva dinˆmica (1970). Meillassoux (1964). s˜o c a sempre conceitos neutros. caracter´ ıstico apenas das nossas sociedades. como dissemos.116 ˆ CAP´ ITULO 11. os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o). Fala-se em ”contatos culturais”. mas tamb´m e os mission´rios. terc˜ minologia que far´ sucesso. por sua vez. no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia ca da modernidade. para a reflex˜o a e a de Margaret Mead. a c˜ Considera. na realidade. da a e a mesma forma que Griaule havia. E. totalmente c˜ a ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. pelo contr´rio. mostrado que o complexo n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam. Ou seja. M. c˜ Uma das preocupa¸oes de Balandier. a e simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele a e absolutamente fict´ ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: da antropologia econˆmica. Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio obc o jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. ´ mostrar que conv´m interessar-se para toe e dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´ a ıgenas”. que o levar´ a c a empreender. Mas os conceitos que s˜o ent˜o utio a a lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a. Terray (1969). a E o mesmo se d´. dissimulando uma realidade colonial. envolve-se. Cl. Mas a compara¸˜o entre Grica aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento a ı. no final de sua vida. assim como para os trabalhos da antropologia cultural que se desenvolve durante o p´s-guerra. Malinowski. pois toa ca dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador.3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente o a nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide. P Rey (1971). Conv´m lembrar o e e que. desde a publica¸˜o de suas primeiras c˜ ca ´ obras sobre a Africa negra (1955). enquanto ca a o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social. c˜ c˜ que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”. antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. ca Balandier nos prop˜e uma cr´ o ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social. renunciando a ` atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobria e and. quase sempre sistematicamente ocultada c˜ ca na antropologia cl´ssica. a 3 Cf. na mesma ´poca e em muitos aspectos. Godelier (1973) . de uma tradi¸˜o ancestral. concebida por ele como quase imut´vel. Por outro lado. e sobretudo em ”acultura¸ao”. ”choques culturais”.

tanto quanto Balandier. procura incluir os diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. isto ´. sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica e c a a pr´pria de uma determinada cultura.). e depois. seria no entanto irris´rio pensar que a abole. W E. n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos a colonizados”.117 A partir disso. se essa antropologia reorienta. al´m dos trabalhos de Balandier citados acima. F I. ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as e a c estruturais em andamento. tamb´m insiste. no horizonte da antropologia cultural.4 ou tais como estou observando neste moa mento em Fortaleza. mas inicia uma a ca verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa. da descoloniza¸ao ca c˜ se torna parte integrante do campo que se deve estudar. ”complexifica”e ”problematiza”a antropologia cl´ssica. notadamente das mudan¸as. Paul Mercier (1954). que ´ dar conta das varia¸oes. Oscar Lewis e (1963). Jean-Marie Gibbal (1974) ). Correlativamente. Mas Bastide. Muito diferente cm primeiro lugar. por exemplo. ou outros semelhantes. de um lado. ling¨´ c˜ e o o uıstica.awrence (I974V e u . leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua pr´pria sociedade. sob a forma de movimentos o messiˆnicos (Balandier. a o 4 Cf. nas metr´poles congolesas. e A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito dio ferente da anterior. lugar privilegiado de observa¸˜o c˜ ca dos conflitos. no Nordeste do Brasil. Lantemari (1962). . militar. sob a forma de cultos sincr´ticos. . Finalmente. Uma de suas e c˜ e c maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do deslocaco e a mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos. ca a Dito isso. Esse processo. inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia. ela n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo. de outro. enquanto o processo da coloniza¸˜o. enfatizando a realidade conflitual das sio tua¸oes de dependˆncia (econˆmica. como vimos acima. Ademais. tamb´m V. o c˜ quanto a isso. mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma u das outras. essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o a de Balandier). tecnol´gica. que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da e etnologia francesa. M¨hlmann (1968). e de ter aberto novos luco o gares de investiga¸ao: a cidade em especial. 1955). das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf. porque a abordagem desse autor inscreve-se claramente. sobre a interpenetra¸ao das o c˜ civiliza¸oes. c˜ c˜ Todas essas pesquisas. mas as respostas as mudan¸as tais como se ela` c boram. que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas.

A ANTROPOLOGIA DINAMICA: .118 ˆ CAP´ ITULO 11.

Parte III A Especificidade Da Pr´tica a Antropol´gica o 119 .

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Favret. de suas ang´stias. ”foi-me o e preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”. a co o 121 . atrav´s de um m´todo estritamente indutivo. Se. que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta e a c˜ dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana. por exemplo. uma grande e e quantidade de informa¸oes. Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que e alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda s´ ıntese ´ sempre prematura. isto ´. a que todo pesquisador considera hoje o como incontorn´vel. 1977) – n˜o consiste o a apenas em coletar. ele pr´prio co o deve rezar com seus h´spedes. an´loga a organiza¸˜es vegetais. quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas. Pois a a o e etnografia.Cap´ ıtulo 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o a prioridade dada ` experiˆncia pessoal a e do ”campo” A abordagem antropol´gica de base. a c˜ o prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento e c˜ abstrato e especulativo. e que alguns ainda e hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J. a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas. s´ se pode fazˆ-lo a o a o e comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de o e maneira dur´vel (Griaule. mas em impregnar-se dos temas obsessionais de c˜ uma sociedade. estudar os homens ` maneira do botˆnico examia a a nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo. c˜ N˜o se pode. a cip´s vivos”. Para poder compreender o candombl´. acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e. escreve Roger Baso tide (1978). a o mais ainda. de fato. O etn´grafo ´ aquele que u o e deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que ese tuda. de seus ideais.

Quanto a isso. devo c˜ interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ a co o ıduos atribuem a seus comportamentos. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das sociedades que estuda. os erros cometidos no campo. O historiador. de fato. Recolhe e analisa os testemunhos. o a e ca 1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto. A busca etnogr´fica. e cono ´ tra o observador. parece ser capaz de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. Objetar-se-´ que pode. Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores a e sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta. como o o etn´logo. de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´ a ıcios cient´ ıficos.122 ´ CAP´ ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA: Assim. o autor da Antropologia Estrutural comece sua e exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”. arriscando-se a ıvel e perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso a dessa experiˆncia. n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em cono a e seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue. pelo contr´rio. e ”deca sencarnado”. tem algo de errante. Com a diferen¸a. longe de compreender c˜ uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim). bem como a utiliza¸ao de protococ˜ c˜ los r´ ıgidos. As tena a tativas abordadas. e 3) O etn´logo evita. a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total. consistindo e e a em uma verdadeira acultura¸ao invertida. pelo contr´rio. constituem informa¸˜es co . em co-colar-se o mais o o perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso. por´m. e algo frio. o ind´ ıgena”. ´ ca c˜ a e claro. mas e ca que. e 2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. de quem se considera um ”aluno”. que n˜o ca a a ´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa. na qual. pelo menos em suas a a principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´ e a a ısticas a distinguem da pr´tica a etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o. ´ significativo que. ser o caso do etn´logo. o c e c por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas). como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. dar conta o mais cientificamente poss´ o ıvel da alteridade a qual ´ ` e confrontado. em sua Li¸˜o Inaugue ca ral no Coll`ge de France. o observador deve ficar com a ultima palavra. e termine seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses ´ ındios do Brasil. de que este se esfor¸a. ”contra o te´rico. abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa). se procura. ´ a e que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da a o a do historiador ou do soci´logo. Nunca encontra testemunhas vivas. proclame c˜ que. uma ue programa¸ao estrita de sua pesquisa. Quanto ` pr´tica da sociologia.

Como tamb´m o encontro que e surge freq¨entemente com o imprevisto. o evento que ocorre quando n˜o u a esper´vamos. e . por´m. isto ´. quanto `s virtudes do campo. a o o a e com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal. a N˜o nos enganemos. um grande n´mero de temporadas passadas em u contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´ a a ipso jacto em um etn´logo. Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias. Pois a o e c˜ a pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica. Da mesma forma a e a que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´ c ıtica n˜o garante que vocˆ possa a e um dia se tornar psicanalista.123 que o pesquisador deve levar em conta.

124 ´ CAP´ ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA: .

do que de uma de suas vestimentas e ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas o e e a qualquer preocupa¸˜o cient´ ca ıfica. consciˆncia e e raz˜o. quando estudam as associa¸oes volunt´rias. a n˜o ser em se tratando (para o o a historiador) da vida dos ”grandes homens”. da ciˆncia. bem como as formas de atividades institu´ ` ıdas. e a Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciˆncias sociais. como as associa¸oes religiosas. Nessas condi¸oes. n˜o formalizados. para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidie Trata-se evidentemente menos. e sobretudo as formas menos ore c˜ ganizadas de socialidade. por exemplo. privilegiam nitidamente as c˜ a grandes. a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socieo a a a ` dade global. a partir da representa¸˜o o ca mestra do . no caso. os sindicatos. . na realidade. e os batiza de ”hist´ricos”.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica.Cap´ ıtulo 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano A hist´ria. a vida cotidiana dos homens c˜ torna-se uma esp´cie de res´ e ıduo irris´rio. a 1 125 . em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia co a num´rica. Assim. n˜o institucionalizados (isto ´. . suscet´ ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ ıtica: os partidos. Os fenˆmenos sociais n˜o escrio a tos.acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar. que privilegia dessa a o vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais. a maior a a e parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente e a a do ”folclore”. A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda o c˜ especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade cia ´ ent´ ıfica.

E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensao c mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´ a a a ıdas de m´ltiplos u subgrupos extremamente diversificados. adeptos de seitas religiosas. ´ um fato. para a fam´ tradicional (e n˜o a ılia a para a fam´ desmembrada). nos a quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no c˜ a extremo. propriamente nenhum a a a territ´rio da etnologia. 2 . para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o ılia a para as grandes organiza¸˜es sindicais). conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as e a o de direito. ”interessa-se sobretudo por o e aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m. os e u o h´bitos alimentares. e higiene. as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelnica co o ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios.) s˜o. a percep¸ao dos ru´ a c˜ ıdos da cidade e dos ru´ ıdos dos campos. e nos quais v´rias ideologias est˜o a a em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. cient´ o o ıfico. UMA INVERSAO TEMATICA: ano. que permitem definir as socieu e dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o. Em suma. em seguida. ”Se e o etn´logo”. voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade a e a camponesa (e n˜o para a cidade industrial). n˜o h´. se n˜o encona tra objetos emp´ ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia cl´ssica. As doutrinas. teol´gico. em aparˆncia. seus objetos a de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da socic˜ a edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses bret˜es. . como escreve L´vi-Strauss (1958). . 2 o Dito isso. . para as popula¸oes co c˜ desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). . acrescentaremos. a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais ca habituais e. as constru¸oes intelectuais. Embora o objeto emp´ ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto a pela coloniza¸˜o. E. de direito. e. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte: e e como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas. que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos a o a ca negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos. Assim. dentro dessas sociedades.126 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. feiticeiros do Berry. o etn´logo tende a estudar as formas de comportao mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da c˜ a sociedade global ` qual pertence. de fato. . mais f´teis: os gestos. a o nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta: c˜ o ele vai em primeiro lugar procurar. nessa perspectiva.as express˜es corporais.as produ¸˜es do pensamento c˜ co erudito (filos´fico. Se. por aquilo que n˜o a e e a Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do proca e a gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ ıgenas – parece claramente na ´rea a n˜o ex´tica da antropologia americana. cona sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas.

isto ´. pelo menos na Fran¸a. o . ao meu ver. u do Estado para o parentesco. Mas ´ sobretudo na hist´ria. tornou-se uma o a c hist´ria antropol´gica. Trata-se de ir do p´blico para o privado. o e dos grandes eventos para a vida cotidiana. no caso. as ciˆncias das e religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos o a ıvel doutores. e sim uma abordagem. na pr´tica cient´ a a ıfica. dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos. Sob a influˆncia da escola dos e Annales. uma hist´ria das mentalidades e sensibilidao o e o des. Conv´m. est´ passando do estudo dos pal´cios. mas porque aquilo que o interesse ´ diferente a e de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”. como escreve Ean Delumeau.127 ´ formalizado e institucionalizado). ıdo. e sim das multid˜es anˆnimas”. ao meu ver. ´ e e pass´ de ser aplicado a toda realidade social. e a reabilitar todo esse ”recalcado”da a cultura material que ´. Assim. ıvel O que me parece importante sublinhar. que as influenciou (direta ou indiretamente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de c˜ que n˜o deve haver. templos e t´mulos impea a u riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde. finalmente. um enfoque particular. portanto. a hist´ria contemporˆnea. um olhar. ´ que grande parte da e renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente c˜ e a a sua abertura para nossa disciplina. Um deslocamento absoe a lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia. uma hist´ria da cotidianidade material. objeto tabu. ”n˜o ´ tanto porque os povos que ese a e tuda s˜o incapazes de escrever. deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e e c˜ da etnologia sobre as bases emp´ ıricas das ”sociedades industriais”e das ”sociedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes dentro das primeiras). sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus a m´ ınimos detalhes. que assistimos a um deslocamento e o radical do campo da curiosidade. pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e a o que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicioa nal”das sociedades estudadas). absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas. a ´ por exemplo. o h´bitat popular. A aro o quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma c apenas uma parte ´ ınfima do h´bitat.

UMA INVERSAO TEMATICA: .128 ˜ ´ CAP´ ITULO 13.

a o pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses e o objetos. . o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dio mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico. as ciˆncias jur´ c˜ e ıdicas. as ciˆncias econˆmicas. vivido. ´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade e c˜ social em movimento. isto ´. jur´ o a ıdica. Como escreve Mauss (1960). demogr´fica. O antrop´logo n˜o e o a pode. cultural. ”o homem ´ indivis´ e ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”. . . No campo. mesmo que n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. anotado. o direito. as ciˆncias e 129 . um perito de tal ou tal ´rea e a particular (econˆmica. . se tornar um especialista. psicol´gico. De outro.Cap´ ıtulo 14 Uma Exigˆncia: e o estudo da totalidade Uma das caracter´ ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em o e c levar tudo em conta. um outro: os sistec˜ e o mas de produ¸ao e troca de bens. As ciˆncias pol´ e o a e ıticas se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes a c˜ c˜ que regem as rela¸oes do poder. social.) sem correr o risco de abolir o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica.). s´ adquire significa¸ao antroo o c˜ pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e o ` dentro da qual constitui um sistema complexo. A especializa¸˜o cient´ ca ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que e a o para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas. pol´ o o ıtico. de estar atenta para que nada lhe tenha ese capado. de fato. e ´ E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentala mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia. isto ´. De um a lado. tudo deve ser observado.

e ue o o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia dos lazeres. . sobre uma forma o de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo. . ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda. abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta e c˜ ca a sua abordagem. por estar baseada no parcelamento de territ´rios e. e c˜ uma cientificidade extremamente positiva. ´ freq¨entemente levada a participar desse o e e u processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano. e em especial do cap´ o ıtulo intitulado ”Da pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado” ca e 1 . . . . como pode ser a cultura filos´fica ou a o liter´ria). a respeito desse aspecto. Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos c a o o parciais.1 o e a Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta. Pessoalmente. de uma ma´ a neira pragm´tica. a a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos o a o particulares: a delinq¨ˆncia. do esporte. ser o especialista de uma unica ´rea. comparada a outros modos de coleta de informa¸oes: a a c˜ N˜o posso deixar de recomendar particularmente. que consiste em: 1) cumprir sempre a c˜ mesma tarefa. Mas permanece. UMA EXIGENCIA: psicol´gicas. a meu ver. atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembraa e ca mento que imp˜e ao real. consumidor. um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que a toda pr´tica hiperespecializada. modificar. mas pouco reflexiva. um risco essencial: o de um desmantelamento do a homem em produtor. . os siso e temas de cren¸a. a criminalidade. a leitura a da obra de um soci´logo. dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao. de fato. A pr´pria antropologia. os processos cognitivos e afetivos. o alcoolismo. no horizonte cient´ ıfico contemporˆneo. o div´rcio. parente. Assim. voltaremos a isso. do multidimensionamento de seus aspectos e da o totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconscic˜ ente. Edgar Morin (1974). em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade). . costurar de novo os retalhos recortados.130 ˆ CAP´ ITULO 14. est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria a ` a o pr´tica etnogr´fica. a e o O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude e a e extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de cair no vazio. as ciˆncias religiosas. a antropologia me parece ser o ant´ ıdoto n˜o filos´fico de uma a o concep¸ao tayloriana da pesquisa. O parcelamento disciplinar comporta. de que se ca procura. 2) tentar. a partir de um c˜ fenˆmeno concreto singular. isto ´. . dentro do espa¸o da cultura c cient´ ıfica (e n˜o da cultura humanista. por exemplo. cidad˜o. ´ claro. das condutas suicidas. acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia o o estudar.

que nossa pr´pria cultura realizou entre ´ e o o a ciˆncia e a moral. a natureza das sociedades nas c˜ e ` quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos. de fazer surgir um questionamento m´tuo. e e a e Se olharmos de mais perto. ıcio . como mostrou Husserl. como sugere hoje em dia Laborit.131 trata-se. em primeiro o lugar. e que se d˜o uma ideologia a a mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social. para n´s. c˜ ` ´ em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o). por mais apero e a fei¸oados que sejam. mais surpreendidos. um o e grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender. jun¸ao hist´rica absolutamente singular c˜ o unica at´ na hist´ria da humanidade. enquanto antrop´logos. esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen´ a e samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos asu pectos do homem. c˜ a e podendo at´. e. Tal preoc u cupa¸ao diz respeito tamb´m. antagonista da reflex˜o. mais tocados do que outros. al´m de todos os question´rios. paradoxalmente. apenas trˆs formas de pensae e mento s˜o. mas a observa¸˜o direta de ca ´ suas produ¸oes concretas). chegar a impedir o pr´prio e o exerc´ do pensamento. Como escreve L´vi-Strauss. de fato. E a raz˜o c˜ a a pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecio aliza¸ao. O projeto antropol´gico retoma. a ciˆncia e a filosofia. no mundo contemporˆneo. o marxismo e a antropologia. pela dis-. a ciˆncia e a religi˜o. o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. hoje. podendo tornar-se. sup˜e tamb´m. mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espea cula¸ao sobre as categorias do esp´ c˜ ırito humano. capazes de responder a essa defini¸˜o: a a ca o islamismo. E a raz˜o pela qual somos provaca ` ` c a velmente. o A pr´tica da antropologia finalmente. e nos quais as atividades s˜o pouco especializadas. mais uma vez. o a meu ver. baseada sobre uma extrema proxia midade da realidade social estudada.

132 ˆ CAP´ ITULO 14. UMA EXIGENCIA: .

na Africa. os parentes e amigos da fam´ a c ılia endere¸am seus cumprimentos ao novo pai. notadamente. Cada um o j´ notou que. isto ´. con` o ca c sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´ ıcio ca ´ ıritos. Tudo se passa como se a e ıcio e parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo a na nossa. quando uma crian¸a nasce. Pois. se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´ e o ılia. O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de doua 133 . esse cerimonial. e c notadamente na Borgonha. at´ o in´ do s´culo. tamb´m bastante e insignificante. de etnocentrismo. dissimulada ou delibee rada. permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos ıvel a as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que.Cap´ ıtulo 15 Uma Abordagem: a an´lise comparativa a Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a. Esse costume aparentemente c insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade. como um verdadeiro revelador de si. mas que n˜o suspeit´vamos. Todos n´s participamos. da inaugura¸ao de o c˜ um edif´ ıcio. amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova casa ou em um novo apartamento. pelo menos uma vez na vida. a ´ praticada. a a a e c implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte c˜ ca ` o observador. e adquire com isso um estatuto de perfeito genitor. Participando efetivamente a a o do nascimento da crian¸a. uma ruptura com qualquer forma. Essa experiˆncia de arrancamento de a a e si pr´prio age. o marido recupera seus direitos de paternidade c (nas sociedades. nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado o e da paternidade social). e que se encontrava tamb´m na Fran¸a. na realidade. por exemplo. nas sociedades tradicionais. Ora.

toda a etnologia posterior (a ruptura a epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´ o a adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. n˜o ´ de ana c co a e trop´logos. deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es. Com o funcionalismo. como se realiza a integra¸˜o das difee ca 2 ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade. o o 1ˆ . na melhor das hip´teses de alo gumas variedades de culturas. no caso. especialmente Frazer). ap´s ter trabalhado durante mais de 20 o ´ ´ anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si. UMA ABORDAGEM: torado. dizia ele. que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em c˜ outras sociedades. mas quase nunca do estudo dos processos de variabilidade da cultura. c c˜ E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt.134 CAP´ ITULO 15. Confrontando o essencialmente costumes (cf. atrav´s de monografias. Mas antes de examinar os e a problemas que coloca e as dificuldades que encontra. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular. c˜ o A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos colhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o c e a que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo sovi´tico. de um aspecto desta cultura. ca a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´ a ırica. os Trobriandeses. conv´m lembrar algue mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina. procura reconstituir uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades) ca e na ausˆncia de documentos hist´ricos. praticamente. mas tamb´m te´rica. e sim de soci´logos. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos e a o estudo de duas sociedades a fim de evitar. ou at´ de o e um segmento. A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia o – ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´.1 Poder´ ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de crise dos adolescentes americanos. Ora. escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre o a Oceania”. mas e o a de mostrar. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que e o c˜ co operam os pesquisadores eruditos desse per´ ıodo v˜o aparecendo aos poucos a como t˜o abusivas que. temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de o a e antrop´logos. o que aconteceu a Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo ca ´ de sociedade”. 2 O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos o o britˆnicos.

Antes de see a rem confrontados uns aos outros. por uma extens˜o no espa¸o –. essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo c˜ n´mero de invariantes. Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´. na realidade. e n˜o mais o a apenas etnograficamente. os materiais recolhidos devem ser meti- . pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸ao u e c˜ que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao. s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia a c˜ a ao antrop´logo: mas. o de confrontar os come portamentos humanos os mais diversificados. os ritos religiosos dos bantos e os dos o ´ ındios da Amazˆnia? o Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira a a e abordagem do antrop´logo. preferencialmente. o postulado a c da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreeno dimento da compara¸ao. Claro. mas. co Esses exemplos mostram que. devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exauso c˜ tividade. sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma abordagem que se quer cient´ ıfica. coloca. ao meu c˜ e ver. de uma area geogr´fica para ´ a outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo. Mas esse programa. a esse respeito. as institui¸˜es pol´ co ıticas dos habitantes da Patagˆnia e as dos groen-landeses. mais problemas do que solu¸˜es. elaborado por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´. qualquer empreendimento de compara¸ao c˜ (´ a posi¸ao de Boas). t˜o caracter´ o c˜ a ıstica de nossa disciplina. Em seguida apenas.135 Se o projeto da antropologia cultural ´. Este deve passar pelo caminho lento e trabao lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da c˜ a ` a l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perteno a cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. para serem estudadas antropologicamente. de fato. essencial. O pr´prio empreendie c˜ e o mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma o ca humanidade ”plural”. Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos ıvel e institui¸oes humanos. entre a tenta¸˜o de um comparatismo sisca tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram a prematuro. Como ` a conceber ao mesmo tempo. quando n˜o imposs´ a ıvel. Vale a o co dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel. o caminho ´ dos mais estreitos. repree sentativo. como na ´poca de Mora c˜ e gan. O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files. poo o der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de c˜ c˜ u vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas a e ` c˜ diferentes.

5 ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido o e co e por uma coes˜o interna. s˜o sistemas de rela¸˜o. Pois. quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar tautologias”. Disso decorrem as o analogias que n˜o faltaram entre os abor´ a ıgines australianos e os habitantes 3 da Europa na Idade da Pedra. da religi˜o. o que outros se encarregavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”. O que se e a compara hoje s˜o costumes. tal comportamento. chegaremos apenas a ca e evidenciar algumas analogias. nem a a mesmo. e 3 . escreve L´vi-Strauss (1973). um outro costume. s˜o recolhidas c a a pelo etn´logo. o a a nem est˜o sempre em mesmo n´mero. Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado. em particular. a ca A partir de uma descri¸ao (etnografia). e aquilo que ´ finalmente o e comparado ´ o sistema das diferen¸as. comportamentos. n˜o s˜o sempre as mesmas. n˜o a e a a deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. um outro comportamento. as ”universalia dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias ca l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. confrontadas umas com as outras.136 CAP´ ITULO 15. institui¸oes. enquanto hip´teses operat´rias. de uma an´lise (etnoloc˜ a gia) de tal institui¸˜o. 5 e c e ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´ a e a ıveis. deixaremos escapar o essencial. gra¸as `s quais descobrimos propriedades co c a similares em sistemas aparentemente diferentes”. e sim fazendo parte destes. Ou seja. UMA ABORDAGEM: culosamente criticados. c˜ o o o a partir destes fatos. do parentesco. como diz Kroeber. escreve L´vi-Strauss (1973). os termos da c˜ compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ c˜ a ıricos em si. e 4 O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para a definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes. e depois. se come¸armos comparando os costumes de c tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia. N˜o ` o a utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. com o que sabia c˜ (ou melhor. e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema a a e ıvel a ca isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es. Ele o a e n˜o procura atingir a natureza da arte. tal costume.4 mas sistemas de rela¸oes que o pesquisador constr´i. na maior parte das vezes. nem em geral e. dos conjuntos estruturados. e pensaremos estar formulando as leis da natureza a u social. procura-se descobrir ca progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”. n˜o mais isolaa c˜ a dos de seus contextos. Assim o evolucionismo o o comparava o que via (ou. isto ´. Mas ent˜o. que e pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra institui¸ao. Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas.

e permitir fundar um novo ”conc˜ trato social”. n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si. interrogar-se e agora. Conv´m. mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao. alguns exemplos estudados anteriormente. Retomemos rapidamente aqui. Sustentada a a e pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si). Seria ingˆnuo. isol´-la de seu pr´prio contexto. Seria paradoxal. dentro dessa nova perspectiva. sobretudo da e parte de um antrop´logo. a antroe a pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973).Cap´ ıtulo 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o c˜ ca Social Do Discurso Antropol´gico o A antropologia nunca existe em estado puro. classe social. ´ que estas podem dar ao Ocie e dente li¸oes sobre a natureza das sociedades. o a o sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compora e tamentos dos que ela estuda em uma cultura. praticamente irreconhec´ e ıvel. que nunca ´ um produto a o e acabado. quanto a si. c˜ ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento. Em seguida. ”se a sociedade est´ na antropologia. O funcionalismo. e se torna. Estado. na¸ao. e em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem. um c s´culo depois. o o Como escreve L´vi-Strauss. transforma-se. O que interessa a antropologia filos´fica do o s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”. A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente a ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. Seu atestado de nascimento a inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. consiste a na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. pois o estudo dos textos c˜ c˜ etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre o a do observado. c˜ empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia a a e 137 . portanto.

na realidade. que as justificava. Foucault – que. seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu o ` c˜ surgimento e desenvolvimento. Nosso pertencer e nossa implica¸ao a e a a e c˜ social. o a e estudar objetos novos. comparando-a a com a antropologia britˆnica ou francesa. e de outras fora mas de antropologia que as combatem. se se tem raz˜o em insistir sobre e a o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do o o qual fala. longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´ a ıfico. Mas estas nunca s˜o ca a hist´rica. e socialmente neutras. o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– o u e co sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso. o o e car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia. n˜o s˜o ciˆncias”. A pr´pria c˜ o o observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa. em detrimento do funcionac˜ mento de nossas institui¸˜es. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas a a coloniais. Um ultimo exemplo nos ser´ dado ´ a pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. o Isso posto. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP ¸˜ ¸˜ da cientificidade. Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o ese tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. explica-se notadamente pelo fato de a que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas). ”as ciˆncias humanas a c˜ e s˜o falsas Ciˆncias. por exemplo. ligado ` crise hist´rica do e a a o pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos. e Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que estuda. ca e A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente a ca a a ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o. cultural. em conseq¨ˆncia das distor¸oes ue c˜ perceptivas atribu´ ıdas ` nossa rela¸ao com o social. co e a essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas. ´ qualificado por este de ”resultado e das ciˆncias humanas”. pol´ o ıtica. Al´m disso. afinal. seria errˆneo cono cluir – como faz. podem pelo contr´rio. termo forjado por Herskovitz. Permitem coloa car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca. . Mas est´. o e Seria conveniente. que ´ necesa a e sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade. ser considerados como um instrumento. expressam diferentes formas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira te´rica. Al´m disso. ao contr´rio do evolucionismo. como parte integrante de seu objeto de estudo. a meu ver. variar as perspectivas. perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”coc˜ lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos.138CAP´ ITULO 16. O ”relativismo e cultural”.

Al´m disso. a meu ver. em sua rela¸˜o c˜ ca com seus interlocutores (o que reprime ou sublima. parece-me. e sim sujeitos observando outros sujeitos. convencido de ser ”objetivo”ao libertare se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito. distinguir aquele que observa daquele que e a ´ observado. Esquece (na realidade. ´ que ele corre o maior risco de c˜ e afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina. o que detesta ou gosta). Pois a antropologia ´ tamb´m c˜ e e 139 . e at´ e o ca e cria uma situa¸ao nova. Assim uma verdadeira antropologia cie ent´ ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´ co ıficas do observador e da natureza da intera¸ao em jogo. de uma a e a forma estrat´gica e reivindicada) do princ´ e ıpio de totalidade tal como foi exposto acima. ´ parte integrante de sua pesquisa. devido a sua presen¸a. elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua imca plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo. Aquilo que o pesquisador vive. impens´vel dissoci´-los. ca o ca Se ´ poss´ e ıvel. ´ por sua vez eminentemente c˜ c e perturbado por essa situa¸ao. e at´ necess´rio. pensa ter recoo lhido fatos ”objetivos”. Parte Integrante Do Objeto De Estudo: Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta. ´ sempre. se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o. pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a o o integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o. Essa auto-suficiˆncia do pesquisador. Ou seja.Cap´ ıtulo 17 O Observador. em compensa¸ao. Nunca e c˜ a a somos testemunhas objetivas observando objetos. nunca observamos os comportamentos de um grupo tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fosa e c˜ sem outros. a e sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica.

de lev´-la em conta. Da mesma forma. a a ca a a¸ucar. pelo contr´rio. na medida do poss´ ıvel. uma pesquisa no sul a da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: clausısia o ´ tra¸ao. a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior. longe de eliminar a ıcio a natureza afetiva (mas. crist˜os. redigidos por ”credores”. c˜ Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subjee o tividade do pesquisador. e por um regime alimentar que deve engord´-la. trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao c˜ ca casamento. c˜ a a a a fim de controlar. a pedido do CNRS. de in´ repugnava-me.140CAP´ ITULO 17. e visando a e o que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente c˜ ca poss´ ıvel. ligada a cultura a qual perten¸o) de ` ` c minha rea¸ao. enquanto o cachorro. aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues c´ ´ a a maridos que n˜o conhecem. veja em e seu dono uma outra ra¸a de cachorro. africanos – do grupo. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos. Por que a esses relat´rios anˆnimos. da proje¸ao e do etnocentrismo. pois era de fato esta que me questionava em alguns o aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios. com certeza. a pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a o e ıvel originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de ca o c˜ . se ele tiver talento. tive. Se isso me surpreendeu. como todos os interlocutores. respectivamente. perturbadoras ue tanto para mim quanto para meus interlocutores que. e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as co adolescentes. ´ porque essas condutas questionavam e a minha pr´pria cultura. o Alguns anos atr´s. O OBSERVADOR. as conseq¨ˆncias. no Brau sil. No decorrer de um per´ ıodo variando de algumas semanas a alguns meses. E a a uma esp´cie particular de gato. nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais passa o etn´logo. serem ”possu´ ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais – ´ prov´vel que o gato veja no cachorro ´ ındios. Se ambos fazem. Ora. por sua vez. freq¨entemente inconscienu tes. isso ´ realmente o m´ e ınimo que se possa exigir do antrop´logo. e que ignoram a rela¸ao o o c˜ dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que. e o car´ter cient´ a a ıfico dos resultados de suas pesquisas depende disso) controle as armadilhas. mais precisamente. como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. a o ıs u o espa¸o ocupado pelos esp´ c ıritos. importa muito que o etn´logo (isso faz parte da o aprendizagem de sua profiss˜o. o que me marcou muito na ocasi˜o de o a minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos. e particularmente do universo masculino. a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em a a e transe. de tentar elucid´-la. cac nicentrismo e cinomorfismo. ou. torradas com oleo). estava realizando. Passa por um tratamento est´tico cujo e objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´ e ıvel.

´ uma fonte infinitamente fecunda de coe nhecimento. n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o e c˜ a a a a entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´ a ıfico? Paradoxalmente. que seja africano ou europeu. Heisenberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao a e c˜ que o modifica. Ora. socialista ou conservador). Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´ ıpio de incerteza”. funcionando em muitos ca aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja. por que. uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar e e a e duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados. que o e foi o da f´ ısica at´ o final do s´culo XIX. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte a . de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das e e ciˆncias do homem”. em primeiro lugar (em 1938). c˜ e sem d´vida. e os observadores a est˜o ausentes ou. nem mesmo na filosofia. como diz L´vi-Strauss. a c e ıvel a e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente. pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa. pelo menos. Nessas condi¸oes.141 insetos. isol´-los. que o levou a reintroduzir o f´ ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´ o e ca ısica. a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o c˜ a se deu atrav´s das ciˆncias humanas. comum a toda abordagem cient´ ıfica. que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do a a sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´ c˜ o ıfica. c e ou. A perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa c˜ o o e c a e que perturba a ele pr´prio. u neste caso. mas que os pr´prios f´ e e o ısicos abandona´ ram h´ muito tempo. e sim por ine e term´dio da f´ e ısica moderna. longe de ser considerada como um obst´culo o a que seria conveniente neutralizar. dissimulados. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos. N˜o pode ser conveniente para compreender a comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´. e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade c˜ – possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento a ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos. sentimentos e co valores. essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do e homem em sua tendˆncia ortodoxa? e A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente e c˜ do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”. ou pelo menos substitu´ ıvel. mostrou o proveito que a etnologia podia tirar desse princ´ ıpio. segundo a express˜o a de Edgar Morin. E foi Devereux quem. que o observador tenha 25 ou 70 anos. Essa elimina¸˜o encontra sema ca pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´ ca e ıduo n˜o assimil´vel a a a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”.

A an´lise. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO do objeto cient´ ıfico que procuramos construir. n˜o apenas das a o a a rea¸oes dos outros ` presen¸a deste. bem como do modo de conhecimento caracter´ ıstico da profiss˜o de etn´logo. O OBSERVADOR.142CAP´ ITULO 17. mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es c˜ a c e c˜ a co dos outros. ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina vane o ` tagens cient´ ıficas consider´veis. desde que se saiba aproveit´-lo. a a .

extremamente complexa – com a viagem.) conhecida sob o a nome de ”exotismo”. de Antonin Artaud. atuando como e uma metamorfose de si. de Michel Butor. de Ner-val. algumas se enquadram nessa famosa literatura de viagem (”oriental”. Os Pequenos Poemas em Prosa. de Cailli´. A Modifica¸ao. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem. Inumer´veis s˜o os esa a critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de o c˜ deslocamento. . A Procura do Ouro. popula¸˜es projetadas. mais recentemente. M. Typhon. Atala. e Entre as obras que acabamos de citar. . Viagem no Oriente. ´ freq¨entemente levado a procurar formas narrae u tivas (romanescas. de Gilles Lapouge. Equinoxiais. Oviri. ou. de J. . de Michel Tournier. A`ipi. de Baudelaire. ”tropical”. A Ilha. Les Nour-ritures Terrestres. uma rela¸ao e c˜ – por sinal. O antrop´logo. Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ ıfico. de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao co a c˜ 143 . po´ticas e. Descobrindo novos horizontes. de Conrad. entre a nossos contemporˆneos. o escritor se d´ conta a (e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo: a e ´ o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo a liter´rio cl´ssico. oceˆnica. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta a a e a e mobiliza n˜o apenas seu olhar. de Gauguin. . de Roussel. mas o conjunto de seus sentidos: uma naa tureza grandiosa. de Cendrars. Os Tarahumaras. de Robert a c˜ Merle. como a etnologia. cinematogr´ficas) capazes e a de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia. de Loti. Aziyad´. de Melville. de Gide. le Cl´zio. ıvel e *** Uma parte importante da literatura mant´m. o que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro. Impress˜es da Africa. Os a Natehez. A e ´ Viagem para Tombuctu.Cap´ ıtulo 18 Antropologia E Literatura: O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´ e ıvel. de Chateaubriand. Boure o linguer.

o Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente a a co e liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada. lic c bertado das obriga¸oes da sociedade. N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal. A Volta ao a e Mundo em Oitenta Dias. enquanto se interroga a sobre sua pr´pria identidade. geralmente a margem de suas produ¸oes cient´ c˜ ıficas. de o Georges Balandier (1957). ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ocidental. Os Filhos de S´nchez. menos. Folie. Estou pensando nesses numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina. faz a experiˆncia de uma felicidade e c˜ e sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava. Alguns. ´ verdade. Miguel Strogoff. Femme. de Oscar Lewis (1963). e. Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo. at´. nos ensinam apenas muito subsidia e riamente a olhar para os outros. elas s˜o muito a a diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o. . . desenvolvidas e e o de in´ nos Estados Unidos. ou pelo menos e o para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta de si: isto ´. Chebika. de Jacques Doure e nes (1978). para a ca e ciˆncia antropol´gica estritamente falando. Alice no Pa´ das Maravilhas. a cole¸˜o ıcio c ca ”Terre Humaine”. Soleil Hopi. mas tamb´m para os etn´logos. de Georges Cone e dominas. Ma´ de Darcy Ribeiro (1980).144 CAP´ ITULO 18. n˜o apenas para os a e o c a autores que acabamos de citar. do que para o conhecimento ane o tropol´gico. L’Herbe du Diable et la Petite ıra. Moby Dick. . O Pequeno Pr´ ıs ıncipe. t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus o a e pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante. . ed Albert Memmi a . Fum´e. de Jean Duvignaud (1968). que ´ a autobiografia de um ´ e ındio pueblo. o Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de aprene dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´. de forma ca a a alguma. livros de etnologia. mais recentemente na Fran¸a (cf. Nous Avons Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977). pois o escritor freq¨ente mente sai do seu u papel – tentando ser etn´logo –. para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusivae e e a mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. mas que constituem a meu ver uma contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado. La Statue de Sei. de Carlos Castaneda (1982). Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida. Forˆt. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie. da editora Plon) nas quais se procura compreender o funcionamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´ c˜ co ıduos singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Grie aule (1966). A Viagem de Nils Olgerson.

Padre Pudrone. Yol.. de Carlos Lizzani (1980). em Imagens do Nordeste M´ e ıstico em Branco e Preto (1978). mas indica-nos quais s˜o. talvez implique. Concebida dessa forma. e 1 . e de dentro para fora”. dos irm˜os Taviani (1984). a meu ver. que. por outro lado. Le Christ a s’est Arrˆt´ ` Eboli.145 (1966). e n˜o do Rousseau do o e a Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme. no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a. para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e po´tica”(1972). n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o. por defini¸˜o. dos irm˜os Taviani (1977). por si s´. a o Em Jean Monod. 1982). em Les Imm´moriaux (reed. as rela¸oes que as unem: a c˜ ”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´tica a a da etnografia. do romance propriamente dito. Em Roger Bastide. e considera que ”o soci´logo que quer o compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”. e em filmes mais recentes como A Arvore dos Tamancos. e mais especificamente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries. de Werner Herzog (1984). de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )eane ´ Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou). La Forˆt d’Eineraude. a atitude de esp´rito ca a ı pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer o efus˜o”(1934). que. e procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com a a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios. Gilberto Freyre. Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos. Fontamara. Estou pensando particularmente em Moi et o un Noir. ´ as vezes extremamente tˆnue. Kaos. a Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas e ca u a contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico a a e a a – que constituem. e a c derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu horizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. Estou pensando e` e principalmente em Victor Segalen. e a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de o e a ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia. eea de Yilmaz Guney (1981).. a literatura da ciˆncia o e (cf. 1974). de Claude L´vio o e Strauss (que. o contr´rio. 1 O limite que separa essa etnologia romanceada. Le Pays oii Rˆvent les Fourmis a e ´ Vertes. eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham a sido meus at´ ent˜o e. levar e ca a a o ao contato. de Michel Leiris. que distingue o perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escria o e tor e poeta. qualificada precisamente de romance etnol´gico. de Francesco Rosi (1979). se diz ”dividido entre um grande fervor e o desejo de fazer uma pesquisa objetiva”. nos lembra freq¨entemente em sua obra que u se considera como o disc´ ıpulo de Jean-Jacques Rousseau. para ele. de —ohn Boorman (19851. mas um meio de a ca conhecimento verdadeiramente antropol´gico. de Ermanno Olmi (1977).

a um sentido religioso. de Margaret Mead com as mulheres da Oceania. Agia de a ı uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma posa e sess˜o.146 CAP´ ITULO 18. a *** O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance) c˜ merece ser levado mais adiante ainda. esfor¸a-se por apreender da forma c mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmitio ıvel la na nossa l´ ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski). e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. a raz˜es mais fundai mentais. at´ e e e e a etnografia”(1973). segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental c˜ a que. o erotismo latente ou mania c festo. no in´ de Tristes Tr´picos. o e 1) A etnologia. nos assolava. nas cores do momento. de Michel Leiris ou —ean Rouch com os africanos. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio e o pelas viagens. o jazz ı a foi um sinal de uni˜o. a e de outro. n˜o se contenta com a sia tua¸ao. o jazz trazia restos significativos o de civiliza¸˜o acabada. a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um ca )ean Paulhan com os malgaxes. Mergulhados ı e a em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos. O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa. a A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consic˜ ` a e derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons. Citarei trˆs delas. Suas afinidades deve-se. exigir uma viagem mais radical. A etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa) . uma bandeira org´aca. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades. mitos dos ca ´ ´ ´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e. reluta frente a reflex˜o sobre o ` a homem. Primeira manifesta¸˜o dos negros. como Michaux em Um ıcio o e ´ B´rbaro na Asia ou em Equador. Por outro lado. o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa ı os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. ca a a para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo mea ı ı nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o o ca ı c mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo. a meu ver. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido. ´ e dentro de uma aventura. mas tamb´m seu objeto. uma comunh˜o pela dan¸a. de —acques Berque com os ´rabes. por estar cada vez mais especializado. e a bebida. para al´m da Africa. de Leenhardt com c˜ os Canaques. de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina. embora ainda sem forma. ´ para. pelo menos tal como a concebo. na qual o pesquisadore escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso.

da c aventura ilimitada (Jacques le fataliste. O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se e a e a reduz a faculdade de observa¸ao. A vida ´ inclus˜o e confus˜o. e pera a mitir´.. Isto ´. aberta pelas viagens. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam ca e ` c˜ sem representar”. como em Madame Bovary. Assim. o 2 . fazer surgir o ”geral”do ”particular”. o ` long´ ınquo deixa lugar ao pr´ximo. articulada com outras leis. sejam colocadas as bases de uma ”teoria a do conhecimento”. Assim. explora-se o cotidiano. mas tamb´m a filosofia cl´ssica. o volta-se para o pr´ximo e. o abandono da id´ia de uma c˜ e verdade absoluta situando o bem de um lado. o a e 2) A literatura (e. ´ contemporˆnea desse moe e a mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar.147 visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais a e hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia. na Montanha e O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva. e em ambos os casos.2 A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens. comum a todas as ideologias. essa o pluralidade ´ irredut´ e ıvel ` identidade. no Processo n˜o a a ´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente.vai ao encontro da abordagem que ´ a da o o e etnologia. chegar a uma lei geral e que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos. bem como mostrou Henry James. para os ”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. e para o detalhe do detalhe. das concep¸oes do homem e do social. 3) A gˆnese do romance. Dom Quixote. dos vae ıda a lores. explicativas e a dos comportamentos humanos. segundo o termo de Proust. Depois. se for bem es´ colhido. O que ´ ent˜o e a proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em a e e rela¸ao a teologia. um ”escae vador de detalhes”. Joseph K. como a l´gica o o o da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades. no qual ´ o c e questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. e. a partir de um unico pequeno fato. a arte ´ ` c˜ e a a e discrimina¸ao e sele¸ao. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado. e o mal de outro. a literatura romanesca) desenvolve um interesse todo especial para o detalhe. notadamente. e sim. Ele ´. O que o escritor c˜ c˜ procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. essa preu ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o. em ambos os casos. como diz ainda Proust. como a da etnologia.). Ora. pelas ”grandes c˜ o a dimens˜es dos fenˆmenos sociais-.. na qual a inteligibilidade c˜ ` e ` a ´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista.

n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do a o observador do observado. divergentes) de uma ca mesma fam´ mexicana. me parece. Flaubert. a e O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta. n˜o ´ ca e ca e a veio de repente. reintroduz no ca o espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista. para o etn´logo. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se e ca quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´ o ıtica. profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria. ´ claro. etc. o ponto de vista esfor¸a-se em ser total. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´ ` o ıvel nos trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social). ANTROPOLOGIA E LITERATURA: M´gica. revolu¸˜o esta que. mas aos olhares cruzados (convergentes. esses exemplos bastam. renuncia-se a id´ia de que a rea` e lidade possa ser apreendida em si. de Thomas Mann. mas. e o o c˜ na obra de Balzac. que privilegia o car´ter eminentemente social e a at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que. sempre a partir de um certo ponto de vista. paro a ticularmente. essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica) e a a e a da etnologia. mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal. mais modestamente. na Consciˆncia de Zeno. Em ambos os casos. Em Os Filhos de S´nchez. para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”.3 Ora. a E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem a unica. em Ulisses. c 4 As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a co c antropologia exigiriam uma afina¸˜o. a perspectiva de Balzac. e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini. sem nunca ser absoluto. e a e Da mesma forma. para fazer-nos compreender que no romance tanto quanto na etnologia. alternadamente considerados como os unicos p´los ´ o da observa¸˜o. c Essa abordagem. a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920. essa personagem. para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos c˜ Verdurin. como para o o romancista. ılia Em suma. fames. corresponde ` ca a tendˆncia sociologizante da antropologia. ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance. os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade a a a e dos habitantes da ”plan´ ıcie”. deliberadamente perspectivista. c˜ ` de Joyce. Ou seja. a c˜ e de Svevo. 3 . De que romance se trata? E de que antropologia? ca Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´ a ca ıvel de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade e ca ca social”.148 CAP´ ITULO 18. coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar. ´ portanto claramente ane 4 titotalit´ria.

ıcio corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. Correla-tivamente. por assim dizer. Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas o a da pr´pria pr´tica da antropologia. A abordagem de um fean Rouch. vive dentro de si essas tens˜es. O que n˜o tem realmente nada de um a ´ exerc´ intelectual. Trata-se de interpretar a sociedade c˜ estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir o a ´ o c do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses diversos termos. o a 19. por exemplo: 149 . naturalizar por ela. . parece-me particularmente representativa dessa atitude.1 O Dentro E O Fora Uma pulsa¸ao bastante espec´ c˜ ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo. deixando-se.Cap´ ıtulo 19 As Tens˜es Constitutivas Da o Pr´tica Antropol´gica: a o Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o u o importantes. como diz Georges Balandier a respeito da Africa. ou de um Roger Bastide. em um desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue. freq¨entemente polˆmicas. opondo a universalidade e as diferen¸as. a compreens˜o ”por c a dentro”e a compreens˜o ”por fora”. pois. . o ponto de vista do mesmo e o ponto a de vista dos outros. de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu a a preferiria ser possu´ a estudar os possu´ ıdo ıdos”). Roger Bastide escreve. O prio meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´ e e ıvio ass´ ıduo e de uma verdadeira impregna¸ao por seu objeto. toda vez que um c˜ dos p´los em quest˜o domina o outro. o u e esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. parece-me que c a a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse.

1 pois as significa¸oes proc˜ duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma. e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos metoe a a dol´gica). De fato. e onde. e particularmente da linguagem a e o cient´ ıfica. Mas passado o tempo da impregna¸˜o. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”. mas sobretudo. que.. A nosso ver. o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o o a a e do encontro. os franceses para compreender os franceses. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia ıcio estranho. ı e ca Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´. como tamb´m cada indiv´ e ıduo. a mas naquilo que n˜o diz. at´ a sua morte. E sobretudo. e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa o disciplina. que ´ inglˆs e e 1 . ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas e c˜ ıvel a o que escapam aos atores sociais. atuar no sentido de uma separa¸˜o. em entender e o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos e e e de cartesianismo. pois ´ pr´prio da linguagem. mas tamb´m. onde lhe revelam que ´ e a e e filho de Xangˆ. que ´ americano. de um determinado ponto de vista. fornece a si pr´prio e aos ouo Cf. os trabalhos de L. os camponeses de Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes. diferente. ocupar´ o a e a um lugar na hierarquia sacerdotal. chega inelutavelmente para o etn´logo ca o o da distˆncia. Cada grupo humano. exterior. da experiˆncia. O olhar distanciado. a inteligibilidade ca procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma a como seus atores sociais a vivem. come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos enc contrado e atravessado. do estranho. a e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia. Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais. o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia o familiar. sobre esse ponto. nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. ou ainda. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era a minha. o que vivem os membros o de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se a apenas dentro dessa sociedade. deus do trov˜o dos Iorubas. ou de Zeldin e C983).˜ ´ ´ 150CAP´ ITULO 19. Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente transa e parente a si mesma. Wylie (1968). e e Parece-nos de fato.

seja a retranscri¸˜o. podendo contribuir na morte do outro (e na morte das civiliza¸oes). deixando-nos ensinar e a e aculturar como crian¸as. que e ´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras. o e por uma ruptura cultural. c˜ o Em suma. de sociedade em sociedade. Se a etnologia conseguir superar a ide´ ologia da idealiza¸˜o amorosa. a pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. Quando o discurso sobre o outro tende a a dominar o discurso do outro. em termos erua ca ditos e na forma de uma redundˆncia. nossas produ¸˜es eruditas terminam quase semc co pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza ` a nossa. uma contradi¸ao aparente nesse olhar e c˜ pr´ximo do long´ o ınquo que age como um olhar long´ ınquo do pr´ximo. como diz MarcAug´ co e (1979). a abandonar um moe e delo de pensamento por outro. Qualifica e u a a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”. ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e exo plic´-lo de dentro.19. n˜o desprez´ a ıvel. a . O risco. e o L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. parece-me que n˜o ca a a a deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental. nem contornar e exorcisar. mas sobretudo. Existe. ou at´ por uma ”convers˜o”. O paradoxo merece ser sublinhado. Alguns etn´logos tˆm e a o e tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro. a a o O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do proa cesso (a ”compreens˜o de fora”). que consistem em modelos conscientes c˜ que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar. por exemplo.1. seja uma participa¸ao cega e uma ”empaa e c˜ tia”que n˜o se consegue mais controlar. Mas em tais condi¸˜es. da fus˜o e da confus˜o. E e o edades long´ ınquas que permite notadamente que o pesquisador. possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico o a a e a o de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica o de sua abordagem. ´ claro.. Assim. n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”. e sim o a analisar. o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜o a ”compreens˜o por dentro”) ´. degenera habitualmente em um discurso a ` revelia do outro. todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida. de volta a sua pr´pria sociedade. Enquanto nossa profiss˜o de c˜ a etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia. do que foi expresso. parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores. mas o essa contradi¸ao. O DENTRO E O FORA 151 tros racionaliza¸oes de suas condutas. ´ de estarmos carregando conosco um e modelo de leitura. isto ´. com a convic¸ao de sempre c˜ permanecer com a ultima palavra. e diz do olhar antropol´gico e o ´ a proximidade desse olhar sobre socique ´ um ”olhar de astrˆnomo”.

na obra de Malinowski. que evidencia as diferen¸as que a o c observa. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: em um mesmo pesquisador. 19. e a convic¸˜o do te´rico ıvel ca o que. estranhos a minha c˜ sociedade. como escreve Mauss. o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente a e diferente de n´s. e a h´ mais de um s´culo. o e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao e c˜ ´ idˆntico. por exemplo. Temos a e e a sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la ` c a a vontade”. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo. pois considera que. dentro desse quadro. d´ prioridade a um mo’do de a conhecimento claramente distanciado. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora. quando elabora sua Teoria Cient´ ıfica da Cultura (1968).2 A Unidade E A Pluralidade Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com e a mesma for¸a: c • existe. essa vontade de ”poder e o ca c˜ pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E. s˜o realmente diferentes a 1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente.˜ ´ ´ 152CAP´ ITULO 19. 2 . uma ”unidade do gˆnero humano” e • tal costume. em seguida. uma extens˜o e anexa¸˜o do outro. um dos primeiros antrop´logos: a e o ”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sime e e patizar com o mito.2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que c˜ ´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”. reduzido a mera figura do a ca ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na mesmo. como vimos. finalmente. termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. que se esfor¸a em dar conta da e c especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses. Tylor. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abore e a o e ´ dagens que. e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. os homens s˜o em toda parte os mesa mos. de uma mentalia c˜ dade em outra. entre. tal comportamento. pois. reflete sobre o funcionamento da humanidade em geral. apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro. privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”. que Malinowski no in´ ıcio de sua carreira. f´cil encontrar uma contradi¸˜o. no final de sua vida. por exemplo. 1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. o e u na pr´tica. Coma ca preendemos. que Lembramos. de a ca um lado a experiˆncia pessoal do observador. tal institui¸ao. o questionamento de nossa disciplina. E unidade. Evans-Pritchard. apresentam-se como radicalmente opostas. Como escrevia. ao estudar os Trobriandeses (1963). no entanto. E.

tais como a economia. coloca um ca problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas ´ e e uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo ca menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o a ´ a das ciˆncias sociais. e ca Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica. 1973). a e o como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. Clastres (1974). 3 . e consiste dessa vez em considerar as difeo a ren¸as como irredut´ c ıveis. encontrada em autores como Castaneda (1982). para compreendˆa e las. no Ocidente. a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria ca ca impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras. este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo. que proa c˜ a a Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. no sentido ocidental do termo. t˜o complexas que precisamos. mas claramente culturalista. ou a a ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´ co ıgines australianos. . . apelar para os recursos das matem´ticas modernas. por outro lado. no qual o u a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um ´ objeto passivo. antiestruturalista. antimarxista. da ciˆncia. existem. 1972. as gram´ticas indianas. e a natureza. igualit´ria e convivial. E. em outras culturas. como diz L´vi-Strauss. h´ uma verdade al´m dos Pireneus. e e as quais ”aceitam sem reticˆncias”. fore mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa: o a por exemplo. A UNIDADE E A PLURALIDADE 153 se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf. 1952. que encontra uma de o suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto o os trajes. a sociologia ou a demografia. ”estabelecer-se e e dentro mesmo de suas sociedades”. antifuncionalista. Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido ca ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade do observado. Baldwin. por exemplo Fanon. atravessa o pensamento a e antropol´gico contemporˆneo. O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao e e a e c˜ entre o observador e o observado. Delfendhal (1973). (aulin (1970. embora n˜o se trate a de ciˆncias. que seria a racionaliza¸˜o desse processo.). do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava. considerada repressiva. 1972) pedindo o fim da antropologia.19. os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos.2. a 2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo ´ a o dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s. A pare tir desse segundo p´lo. e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o a pensava. organiza-se toda uma corrente. Adotevi.

Finalmente. Encontrei pessoalmente membros das classes superiores da sociedade brasileira que. por exemplo. J. que parea e cia exclusivamente niveladora. da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que c˜ e permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes ca sociais). s˜o sucessivamente ”possu´ o a ıdos”pelos esp´ ıritos das divindades dos ´ ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. por exemplo. Ora. soube criar o e a formas de sociabilidade plenamente originais. c˜ 1) Em primeiro lugar. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ´ porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu.. Sabemos de fato que. De volta de uma miss˜o cient´ a ıfica no Nordeste do Brasil. P. Disso a o decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia. H´lias. acentuou-se e confirmou-se. nem mesmo pelo pensamento te´rico. o e 1975). que ´ hoje uma das primeiras metr´poles a e o industriais do mundo. Aquilo que Bastide come¸ava a notar.˜ ´ ´ 154CAP´ ITULO 19. Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais o a a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista. foi acompanhada correlativamente de uma divis˜o da sociedade em castas. Da mesma forma. o ` e u consegue se impor a esta. de uma maneira dificilmente imagin´vel no Ocia dente. Londres ou Chicago. posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua c˜ ıda maioria de descendentes de europeus. freq¨entemente. no decorrer das cerimˆnias de umbanda. Mais uma vez. que ia levar ` unifica¸ao da ´ a c˜ India. aos c˜ o quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia. a reabilitar a identidade das regi˜es (cf. contra o cosmopolitismo. o Brasil contemporˆneo me parece particularmente a revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se. como falamos de ”medicina mansa”. A cultura popular n˜o a s´ resiste notavelmente a cultura dominante. foi a influˆncia. da qual a antropologia seria ` e e c´mplice. ca me parece pouco fundamentada. a inquietude que demonstram esses autores com respeito a uma homogeneiza¸˜o. n˜o nas regi˜es mais exteriores o a o em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste. E uma forma de conhecimento mais humana. encontr´veis no menor coma portamento da vida cotidiana. e que n˜o se deixam de forma alguma alterar a pelos modelos culturais vigentes em Paris. . ao estudar os c a cultos afro-brasileiros. e confrontada hoje a uma conjuntura econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel. considera-se que o que ´ separado pela barreira das u e culturas n˜o deve ser reunido. a esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido. que poder´ ıamos qualificar de ”etnologia mansa”. mais tende simultaneamente a diversificar-se. pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo. como tamb´m. Assim. mas no c˜ o ıs. a hegemonia ariana. Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo. visando. Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude. trinta anos atr´s.

por exemplo. causou escˆndalo entre os etn´logos. enquanto e que. de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de ca a e ”bons selvagens”. pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro –. s˜o mobia a lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto.19. atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba e inclusive perdendo-se. 1972. enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa. diz Hegel. Para estes. . A descri¸˜o. mesmo se fosse poss´ ıvel. a que se acusa de ser um ”rico canibal”). e . O africano. como pode sˆ-lo e com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´ a ca e a ıtica. o 4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade ese tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas. co o 4 .2. tudo se passa como se esse protesto indignado – o fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavelmente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade. aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o a ca ca a ´ mais o outro (sadismo). O e e fato de a alteridade ser aqui valorizada. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155 2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro. que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de fato da m´ imagem que se tem de si (cf. como qualquer ser humano. e o fato de que o etn´logo. ”n˜o impede que ´ a o a os trobriandeses sejam matrilineares. e escrevˆ-lo. por Turnbull (1972). e de que n˜o se poderia preencher e a (e.. se poderia talvez chegar. e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (masoe o o quismo). E correlativamente dessa vez. Jean Monod. como lembramos. e atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso. n˜o afeta e o a em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o. nem her´is”. . como a objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral. possa sentir o o ´dio em rela¸˜o a estes. E ”um outro mundo a o cultural”. indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente. o e e Novo Mundo ´ de fato um outro mundo. as sociedades selva´ gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. Ou seja. h´ uma recusa de assumir a sua pr´pria identidade. n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que a e c o separa de n´s. como diz Panoff (1977). por um agrad´vel movimento de a pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico. nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”. o bret˜o. o a 3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´ ca ıvio dos outros n˜o resiste ` oba a serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica ca c˜ a que se faz passar por realidade. participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de o a lembrar de Pauw ou Hegel. de que. por exemplo. Mas que estes ca e a o ultimos n˜o sejam ”nem santos. Em suma. a coincidir com a vere dadeira natureza do outro. o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao da o a c˜ 4 ocidentalidade. o ´ ındio.

e sim de a a a adot´-la. O outro ´ uma figura poss´ de e ıvel mim. seus costumes.˜ ´ ´ 156CAP´ ITULO 19. Como vocˆ. a ıvel c e meu ver. Por todas essas raz˜es. Apenas o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma c˜ essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de mae e jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas c˜ e justapostas). Apenas o ´ ındio (e. a rigor. o sujeito transcendental a e do humanismo. J´ passamos por isso. a religi˜o aos e a cleros. c˜ . passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a. E al´m o e e disso. como eu dele. Apenas o prolet´rio pode a e a a saber o que ´ a classe oper´ria. suas mulheres. adotando sua l´ co ıngua. um erro. devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que prea c˜ tend´ ıamos estudar. . ao insistir tanto sobre o car´ter irreo a dut´ das diferen¸as. tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores. evidentemente. a c˜ e antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve e a identificar integralmente consigo mesmo. isto ´. a o Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao e ue ıpio a c˜ e n˜o-media¸ao. a a e que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado selvagens no contato dessas popula¸˜es. Se a identifica¸ao integral com este ´. Esse descentramento m´tuo do observador e do obseru vado n˜o pode mais ser. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o aboa lidas. a Bretanha aos bret˜es. a permanecer entre si. a meu ver. no final dessa experiˆncia. n˜o se trata mais de estud´-la. a c e partir de uma rela¸ao. aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´ e ındio. que o afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la reale a e mente – a ficar em casa. do que na ciˆncia. Mas ent˜o. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de come a a c˜ preender a mulher. a e a e e se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos. N˜o ´ f´cil. isto ´. que n˜o ´ m´dico. . encontrados por L´ry. segurar as duas extremidades da a e a cadeia. ` maneira desses aventureiros normandos. de uma abordagem de pequisa cient´ ıfica. o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de e ` a ` a si pelo outro. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito. o proletariado aos prolet´rios. essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma.

o a mas em decidir quais s˜o os fatos significativos. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me ca c˜ leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras. de fato. gravar. A m´sica. Pelo contr´rio. a ideologia do a momento. o qual n˜o deve. a preocupa¸˜o do concreto. anotar. vem da submiss˜o d´cil ao campo. e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar. ou. decorre do fato de que n˜o nos situamos. nos deixar esquecer a o e a e especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´ e ındia dos Nhambiquaras de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos. al´m dessa descri¸˜o (mas a e ca a partir dela). trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um obo c˜ jeto que n˜o existe na realidade. a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten` cemos. de estar junto delas.19. a exigˆncia. Vaiv´m a e meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado. no mesmo n´ de a ıvel investiga¸˜o do social. pelo formalismo l´gico de um L´vi-Strauss. se prefeıda c˜ rirmos. mas que s´ pode ser empreendida a partir a o da observa¸ao de uma realidade concreta. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes. o 1) O primeiro risco. nem atividade cr´ a a a a e ıtica nem mesmo coleta de fatos sem teoria. e. que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´ ca ırica. nos dois casos. para dar conta deste. das culturas. mais prazeres. supostamente irredut´ ıvel. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive inec˜ ´ vitavelmente a adotar a teoria do senso comum. do campo e do m´todo.Mas c˜ n˜o s˜o a antropologia. a pintura. De um lado. da constru¸ao cient´ e c˜ ıfica. e A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura a e os que privilegiam a diversidade. a an´lise da a a variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de a uma cultura para outra. em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. a literatura. portanto.3. a religi˜o s˜o abordagens muito u a a mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os seres. a poesia.3 O Concreto E O Abstrato A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´ a e c˜ e vivido. que d´ a o a ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas. mas me permite perceber que perten¸o a uma figura c particular da cultura. mas o meu c olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´ e ` c˜ ırica. c˜ o 2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nominaca . a Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´ ca ` ca a ıtima. por´m. a ”opini˜o”. Ou a seja. do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”. ciˆncia. N˜o h´. por exemplo. realizada por n´s mesmos. de ca outro. O CONCRETO E O ABSTRATO 157 19.

o *** O paradoxo. que n˜o ´ nem esgotada nem a e esgot´vel pela etnologia. que o inconsciente de uma cultura pode ser encontrada no consciente de uma outra. psicol´gicas. Existe portanto uma inadequa¸ao eno c˜ a c˜ tre. Ora. o ´ podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cioc˜ o a o econˆmicas. o que permite afirmar. mas tamb´m contra nossas c˜ e observa¸˜es. c˜ o dito e o n˜o-dito. e sim uma constru¸ao do real. s˜o capazes de agir como reveladores de aspeca a tos culturais inteiros. u mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. em sua intersec¸˜o. nossas impress˜es. de um lado. biol´gicas) em termos religiosos. cuidadosamente dissimulados em nossa cultura. do ponto de vista do obsere e a e vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia). a realidade social estudada. traduzindo-a em uma outra linguagem. podemos dizer que se trata o o de ”ilus˜o”. Da mesma forma. com Georges Devereux. tamb´m n˜o ´ a ciˆncia e e e a e e social do ponto de vista do observado. o fogo). Por exemplo. c˜ o a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a c˜ a co suas pr´ticas. Por outro lado. Nossos sistemas de representa¸ao. Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros). o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado a (de minha e da outra sociedade). No t´rmino do empreendimento a e de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´ c˜ o ıricos em objetos cient´ ıficos. mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das e ciˆncias sociais. o objeto que constru´ a ımos a partir de uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica. Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas. ou melhor. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um o e c˜ e confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: lista). Podemos reduzir a inadequa¸ao entre ca c˜ os dois pensamentos de que acabamos de falar. e da nossa pr´pria rela¸ao com ca o o c˜ o psicol´gico e o social. a partir de nossas observa¸oes. a terra. as interpreta¸˜es dos interessados e nossas co o co pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. quando o pensamento tradicional classifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua. acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social. quando um n´mero consider´vel de indiv´ u a ıduos que comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (socio ais.˜ ´ ´ 158CAP´ ITULO 19. em mat´ria de doen ¸a. e sim uma pr´tica que surge em seu a limite. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientificac˜ a a mente constru´ ıdos. e de outro. de ”proje¸ao”. o ar. s˜o hoje em grande c˜ e c a . de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais a c˜ ”fundamental”. uma teoria cient´ a ıfica nunca ´ o reflexo do e real. a u observ´veis em outro lugar.

que n˜o produz o a realmente algo novo. ıvel Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos. isto ´.5 Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia. que nasceu no Ocidente. e tornam-se manifestas se passarmos a de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai). como escreve L´vi-Strauss (1973). O CONCRETO E O ABSTRATO 159 parte exorc´ ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esmac e gado. tais como os estou a estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste. n˜o o a apenas como experiˆncia e como aventura. chamadas ”adorc´ c˜ ısticas”e que correspondem as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo. podem ser utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e partia cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros ıvel realizam ao n´ do corpo. a c e c˜ De tudo isso. nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista o a a (pois essa racionalidade ´ provinciana. Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”. ou de a uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para a a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”. 5 . mas reatualiza antes algo recalcado). Est˜o simplesmente recalcadas. como dizer que a psican´lise. Da mesma forma. E no entanto. do doente-v´ o ıtima e do m´di-co-exorcista. e sim um m´todo. mas que subverte a e o racionalidade ocidental. bem conhecidas entre n´s. e mostrar que o processo. que nasceu em Viena. pelo contr´rio. ”nada seria mais e falso”. ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o e a ´ ca do esp´ ırito colonial”. da exclus˜o em um grupo que se quer hoo a mogˆneo. seja poss´ e e ıvel. a para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina. nem o de estender a racionalidade as ` dimens˜es do universo. conhecido e correto (o que e equivaleria a suprimir essa alteridade).3. limitada no espa¸o e no tempo). o que tra¸a as c figuras. ´ claro. ´ indefectivela e mente ocidentalo-cˆntrica. algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como a instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto a e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham. conhecido dos psicossoci´logos. abre essa estreiteza monocultural. e e c A etnologia. nem por isso est˜o au` e a a sentes. o a e ocidental. como uma calamidade a ser eliminada. e os sintomas. mas como ciˆncia.19. para minha sociedade. torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refee rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal. etc. pela sua origem hist´rica e cultural. resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteria e dade nos moldes do que ´. ´ espec´ e a e ıfica e exclusivamente vienense. os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros. e Mas as representa¸oes inversas.

pois cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antroo o a a pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem.). e a e c que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra. c˜ e Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. a mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social. A antropologia. do professor prim´rio. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: Dito isso. o segundo. s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´ o c ıfico partir do momento em que integra. ca Nesse caso espec´ ıfico. O conhecimento antropol´gico surge do encontro. do padre. com os gˆneros e e que s˜o classifica¸˜es ind´ a co ıgenas expl´ ıcitas. para o antrop´logo. Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha. mas de dois inconscientes em espelho. nem segundo a maneira com a qual os observadores os percebem. a realidade alucinada e desviante. seja a um a segmento marginal de uma sociedade minha. Isso n˜o significa que o a antrop´logo seja o homem de nenhum lugar. o primeiro. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. e a c˜ o com os modelos conscientes. a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra. . e constituem. e que a antropologia seja uma o metalinguagem. Seu significado antropol´gico o s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem o um sentido. constitui-se do cono fronto de dois discursos interpretativos que se juntam. As pr´ticas simb´licas o co a o e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar. a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evio c˜ o denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. nos gestos e discursos dos interessados. esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo a tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a. o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero. ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mesa o c mas. que ´ espelham uma imagem deformada. mas o inconsciente em sua rela¸ao c a c˜ com o consciente. etc. . c˜ o modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e racionae a u co liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades c˜ de acesso a estas ultimas). a realidade. E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre c minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os c a c limites e as fronteiras. mas na sua jun¸˜o e na sua ca intersec¸˜o. como a feiti¸aria. e e a portanto. para analis´-lo.˜ ´ ´ 160CAP´ ITULO 19. n˜o apeo a nas de dois discursos expl´ ıcitos. o o ` c Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua u a evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valoco . e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo´ e ıvel logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente. ”feitos em casa”(L´vi-Strauss).

19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO

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res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e a um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim e a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´ ıvel- de mim. N˜o posso a situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto, para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que o n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical. a e ca Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade o pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´ a ıfico. *** A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´ ca o o ıfica, do homem e da natureza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem e e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´ c˜ ıvel e do intelig´ ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite a a resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser c˜ a em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas c˜ o n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez mea e nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´ e ıvel, e que tem, como diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´ a ıvel”. S˜o as diferentes dosagens a realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por c˜ a dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a a diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sinc e cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias o e o a entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arriscoo me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um ca e ca discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisaıvel a mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das o c˜ culturas. A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento inintere rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo a e apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente e e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ a ıvel. Roger Bastide entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos s´ ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi e totalmente antrop´logo. o

˜ ´ ´ 162CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es c˜ o c˜ o que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de c˜ c˜ compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e e a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a ime o possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser a e aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia. a a Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985

Cap´ ıtulo 20 Sobre o autor:
´ Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E c e ´ autor de A Etnopsiquiatria (Editions Universitaires, 1973), As Trˆs Vozes do e ´ Imagin´rio: o mecanismo, a possess˜o e a utopia (Editions Universitaires, a a 1974), A Cultura do Psiou O Desmoronamento dos Mitos (Privat, 1975), A Filosofia e a Violˆncia (Presses Universitaires de France, 1976), Doen¸as e c ´ ´ Mentais e Terapˆuticas Tradicionais na Africa Negra (Editions Universitaires, e ´ 1976), A Medicina Popular na Fran¸a Rural Hoje (Editions Universitaires, c 1978), Um Vidente na Cidade: estudo antropol´gico do gabinete de consulo ´ tas de um vidente contemporˆneo (Editions Payot, 1985) e Antropologia da a ´ Doen¸a (Editions Payot, 1986). c

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SOBRE O AUTOR: .164 CAP´ ITULO 20.

Paris. 1955. Gallimard. PUF. N´gritude et N´grologues. Anthropologiques. e Bastide. ee Baldwin. Paris. 1950. 1978. Symbole. Gallimard. Le Prochain et le Lointain. 1971.Bibliografia Adotevi. Gallimard. Le Rˆve. Paris. Louis Antoine de. Le Seuil. Paris. Paris. Paris. Paris. Sociologie Actuelle de l’Afrique Noire. Beattie. la Transe. 1959. Flammarion. 1971. —ohn. Paris. 1970. Paris. A. 1957. Images du Nordeste Mystique en Noir et Blanc. La C´r´monie du Naven. Pandora. 1982. – C´nie e du Paganisme. Sociologie des Maladies Mentales. Jean-Marie. ` ˆ Benedict. L’Anthropologie Contemporaine. Paris. Flammarion. Calmann-L´vy. Marc. e e Auge. Payot. Voyage Autour du Monde. 1972. 165 . Paris. Georges. Gregory. 1974. PUF. 10/18. Auzias. Paris. 1972. Paris. Ruth Echantillons de Civilisations. Berque. la Folie. Paris. PUF. 1972. 1965. Paris. Paris. Le Racisme en Ouestion. Anthropologie Politique. 1955. Cujas. Roger. Paris. Ajrique Ambigue. de Minuit. 1964. 1972. e e Paris. Paris. Colin. Bateson. (ames. Le Candombl´ e de Bahia. Plon. PUF. 1967. Sociologie et Psychanalyse. Ed. 1976. Balandier. 1980. Paris. Introduction a 1’Anthropologie Sociale. e Bougainville. Hachette. Mouton. D´possession du Monde. Paris. Anthropologie Appliqu´e. lacques. 1979. Flammarion. Paris. Fonction. Sociologie des Brazzavilles Noires. 1950. Stanislas. Histoire. PUF.

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com o auxilio de A L TEX 169 .BIBLIOGRAFIA Escaneado e diagramado por MathCuei R .

170 BIBLIOGRAFIA .

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