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Aprender Antropologia
Fran¸ois Laplantine c 2003

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.1 BOAS (1858-1942) . . . . . . . . 80 87 91 95 . . . . . . . . . . . . . . . . 27 1. . a 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o 8 A Antropologia Social: 9 A Antropologia Cultural: 3 75 . . . . 75 . . . . . . .3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico o o o temporˆneo . . . . . . .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . 60 5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia: o 67 II As Principais Tendˆncias Do Pensamento Ane tropol´gico Contemporˆneo o a 73 6 Introdu¸˜o: ca 6. . . . . . . . . . . . . . . . 58 4. . 76 Con. . .Conte´ do u I Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento Ano tropol´gio o 23 1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia: e o 25 1. . . .1 Campos De Investiga¸ao . . . . . .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 MALINOWSKI (1884-1942) . . 32 2 O S´culo XVIII: e 3 O Tempo Dos Pioneiros: 39 47 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57 4. . . .2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . . . . c˜ 6. . . . . . . . . . . . . . . . . co 6. . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 18 Antropologia E Literatura: 19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica: o a o 19. . 157 163 . . .1 O Dentro E O Fora . . . .4 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e 11 A Antropologia Dinˆmica: a ´ CONTEUDO 103 113 III A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica a o 119 121 125 129 133 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a 14 Uma Exigˆncia: e 15 Uma Abordagem: 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137 c˜ ca o 17 O Observador. . 152 . . . . . .2 A Unidade E A Pluralidade . . . . . 20 Sobre o autor: 139 143 149 . . . . . . . .3 O Concreto E O Abstrato . . . 149 . . . . . . . . 19. . . 19. . . . . . . . .

um panorama dos problemas coe a locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o. como se fosse algo de somenos co importˆncia. apresenta a ı ı as tendˆncias contemporˆneas e. seus habitantes em geral.se na ˆnsia de dominar a maior quantidade ca a poss´ de saber. Os estudantes lˆem e discutem determica e nados autores. re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento u antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais. E. para chegar e a e . o a conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou e e de um ramo do saber na maioria de seus aspectos. permanecem co a muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso. ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada. de que sua a¸˜o e ı a ca ´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. o e o Em primeiro lugar. . assim co o como da ´rea de conhecimentos a que pertence. nas respostas e solu¸˜es que inspirou. a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um coıvel ca c nhecimento minucioso. o exame cr´tico de todas a ı as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo. Pa´s em constru¸˜o. a ca Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de encoca a menda para estudantes brasileiros. tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo. A hist´ria da disciplina. a No Brasil o presente tem muita for¸a. efetua a an´lise de seu desenvolvimento. Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente ene ca contrada entre os especialistas. O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine. mostrando como foi variando o seu colorido e c o atrav´s dos tempos. como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema e co de base ampliando-o. em seguida. A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais ca e (e a Antropologia n˜o foge ` regra. que permite uma a compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas. pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se ca ca em opostos: a erudi¸˜o abrindo. seus estudiosos em ı ca particular. nos debates que suscitou. muito a a ca mais do que a da forma¸˜o geral. na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ca a ı do futuro. professor da Univero e c sidade de Lyon II. finalmente.) segue a via da especializa¸˜o. nele se vive intensamente. .´ CONTEUDO 5 Pref´cio a A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem a Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhea cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria. autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pesa quisas no Brasil. ´ ele que se c e busca compreender profundamente.

oferece a eles um primeiro panorama geral da Antropologia e seu lugar no ˆmbito do saber. A necessidade real. a Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da claı ca ı reza de express˜o. com esta maneira de ser t˜o mercante. Este livro. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos e a a u aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal. a especializa¸˜o numa dire¸˜o. esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge. que buscam coı nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”. no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias ı e Sociais. um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e u especialistas de Ciˆncias Sociais. por um lado. 1 .6 ´ CONTEUDO a ela escolhe-se uma unica via preferencial. em e muito boa ora traduzido. perdem-se de vista coma ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado. Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pese quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP. ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e e c o da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. e por outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para conse c tru´-lo. a ca No entanto. a ca na verdade. ´ ca ca como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o.

surge * em uma regi˜o o a muito pequena do mundo: a Europa. t˜o antigos quanto a humanidade. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico.n˜o podia existir o conceito de homem enquanto o a regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas . o e A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade. desta vez.´ CONTEUDO 7 Introdu¸˜o ca O Campo e a Abordagem Antropol´gicos o O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Trata-se. ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX. Finalmente. na hist´ria. botˆnica. ou mais precisamente. e a elabora¸ao de um a c˜ saber s˜o. e n˜o mais a natureza. como verea mos mais adiante. Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem a o sobre o homem. na Oceania ou na Europa. ao contr´rio. na Am´rica. teol´gico.´. a antropoloe gia. apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir e e c um saber cient´ ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como objeto de conhecimento. exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias a ` ´ c˜ e ou norte-americanas. e se deram tanto na a a ´ ´ Asia como na Africa. ue e a o art´ ıstico. filos´fico. apenas nessa ´poca ´ que o a e e esp´ ırito cient´ ıfico pensa. portanto. de fazer passar este ultimo do estatuto de ´ sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. Houve at´ alguns que eram e te´ricos e forjaram. pela primeira vez. para que o novo co saber comece a adquirir um in´ ıcio de legitimidade entre outras disciplinas cient´ ıficas. Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo a todas as conseq¨ˆncias. modelos elaborados ”em casa”. Enquanto que o a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´ c˜ a a c˜ ıvel) entre o sujeito observante e o objeto observado ´ obtida na f´ e ısica (como na biologia. muito e e a recente. como diz L´vi-Strauss. em aplicar ao pr´prio homem os o m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ e e a ´ ısica ou da biologia. pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade o a . Mas o projeto e de fundar uma ciˆncia do homem . o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca o c e muito tardia na Hist´ria . mas nunca cient´ o o ıfico no que dizia respeito ao homem em si. evidentemente. ou seja. ao menos tal como ´ concebida na ´poca. a ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes.. Isso trar´. ue Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es. e e e sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto. Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. conseq¨ˆncias importantes. De fato. A ciˆncia. durante o a e qual a antropologia se atribui objetos emp´ ıricos autˆnomos: as sociedades o ent˜o ditas ”primitivas”.uma antropologia .

a antropologia percebe que o objeto emp´ ırico que tinha escolhido (as sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo.8 ´ CONTEUDO estudada. As sociedades estudadas pelos a a primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´ o a ınquas as quais s˜o atribu´ ` a ıdas as seguintes caracter´ ısticas: sociedades de dimens˜es restritas. uma quest˜o se coloca.e por muito tempo a e em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. e notadamente o que ´ chamado de ”sociologia comparada”. Mas co c˜ logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa . confrontada a uma crise de identidade. especialmente a sociologia. de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio: e o o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. Muito rapidamente. da a a c o organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades. por assim dizer. a e c˜ e portanto. empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma o 2 . pois o pr´prio Universo dos a o ”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. como veremos neste livro. Detenhamo-nos em trˆs deles. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”. e volta para o ambito das o ˆ outras ciˆncias humanas. a e 2 A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi. a qual. c˜ o *** A antropologia acaba. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos ¨ e pr´prios desse campo de estudo. em conseq¨ˆncia. como diz Paul Mercier (1966). cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida e em rela¸˜o a nossa. este ´ c˜ e selvagem de dentro. portanto. c˜ a e ue elas ir˜o permitir a compreens˜o. a a de in´ ıcio. Ela se vˆ. ela consistir´ na antropologia. j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem. qualificada pelo nome de folklore. objeto ideal de seu estudo. sua morte. nessa ´poca .no in´ do s´culo o o e ıcio e XX . Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica e a a de sua disciplina reencontrando. e 2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs. como numa situa¸ao de laborat´rio. que tiveram pouo cos contatos com os grupos vizinhos. permanece desde seu a nascimento: o fim do ”selvagem”ou. particularmente bem adequado. Ser˜o nec˜ a a ca a cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao a e c˜ que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. ser´ que a a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado a como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam a e podem ainda ser dados. e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades ca ` a c˜ e fun¸oes sociais. e 1) O antrop´logo aceita.

a cultura a ca este patrimˆnio. o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes u c˜ diretas. conduzem c e c˜ necessariamente a uma especializa¸ao do saber. o . mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica e e o constituinte. o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os ` o a c˜ fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´ c˜ ıduo. Ora. bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao. ele afirma a especificidade de sua pr´tica. ao a contr´rio. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas e c c a que se seguem. ecol´gico. n˜o mais atrav´s de um objeto emp´ a a e ırico constitu´ ıdo (o selvagem. social). na perspectiva na qual come¸amos o a a c a nos situar a partir de agora. sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as ´pocas. o que esse patrimˆnio (que se transforma) o e o deve a cultura? Assim. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar. a distˆncia social e cultural que co a separa o objeto do sujeito. bem como a o o evolu¸˜o destas particularidades. que inclusive n˜o exclui a o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo). substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia a a ”ex´tica”. a um espa¸o geogr´fico. e aqui temos um terceiro caminho. existem cinco areas principais da antropologia. mas tamb´m. Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio c a e c˜ o gen´tico e o meio (geogr´fico. e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho. b) o estudo do homem em todas as sociedades. que nenhum ´ pesquisador pode. Certa-mente. dominar hoje em dia. O objeto a te´rico da antropologia n˜o est´ ligado. mas as quais ele deve ` estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas. dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si. e O estudo do homem inteiro S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que o o objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em soca u o ciedade. em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente sea ca u parados. cultural ou hist´rico c a o particular. forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas. uma das voca¸˜es c˜ e co maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas.´ CONTEUDO 9 3) Finalmente. um certo enfoque a e a que consiste em: a) o estudo do homem inteiro. o camponˆs). especialmente. a e co A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia o f´ ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem co o no espa¸o e no tempo. evidentemente. ela analisa as particularie a o dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente. Por´m. O que deve.

um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam a rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias co e e humanas. O historiador ´ antes de tudo um histori´grafo. a a meu ver. Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um c c movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ca ıvel. que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao adco quirido. e suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica). suas o preocupa¸oes. por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da a crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte c e c e da antropologia.a ”desagrad´vel obriga¸˜o de a ca fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia e a e o f´ ısica”. visa reconstituir as socie` dades desaparecidas. parte do e e ´ atrav´s dela que os indiv´ patrimˆnio cultural de uma sociedade. como o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos.10 ´ CONTEUDO Ele se perguntar´. com toda evidˆncia. interessa-se em especial .3 4 antropologia ling¨´ uıstica. a mensura¸oes do esqueleto. biol´gica e s´cio-cultural o o nunca foi rompida na Fran¸a. peso. longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios. E o e ıduos que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores. tamanho. cor da pele.pela gen´tica c e das popula¸˜es. o como. pessoalmente. sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente. Ela tem. o como eles ıi´ expressam o universo e o social (estudo da literatura. objetos no solo. a e A antropologia ling¨´ uıstica. tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais. colocando-se do ponto de vista da antropologia social. que se liga a arqueologia. isto ´. Ele realiza um trabalho de campo. mas tamb´m quaisquer marcas da atividade e humana). Seu projeto. n˜o apenas escrita. Edmund Leach (1980) fala d. finalmente. quanto e c˜ em suas produ¸˜es culturais e art´ co ısticas. anatomia comparada c˜ as ra¸as c dos sexos. isto ´. A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´ e o e e ıgios materiais enterrados no solo (ossadas. que ´ uma disciplina que se situa no encontro e Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan c e (1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´ ca a ısica. eles interpretam seus pr´prios e ca o saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias). Assim. Notamos que esse ramo da antropologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´rica e ` o e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. Apenas o estudo da l´ c˜ ıngua permite compreender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem. comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de a ca o ca ratos em laborat´rio o 3 . seus pensamentos.desde os anos 50 . mas a tamb´m de tradi¸˜o oral). A linguagem ´. um pesquisador que trabalha e o e a partir do acesso direto aos textos. O especialista em pr´-hist´ria recoe o lhe.

que consiste no estudo dos o o processos e do funcionamento do psiquismo humano. esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levanc a tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular a com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifia e ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade. e A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais a tempo. e sim a indiv´ a a ıduos. e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitua ´ tivos (com antropologia social e a cultural. sua orca o e ganiza¸ao pol´ c˜ ıtica e jur´ ıdica. como diz L´vi-Strauss. j´ que diz respeito a tudo que constitui e e a a uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica. come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo o c e antropol´gico da l´ o ıngua (a l´ ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura) conduzia a um estudo ling¨´ uıstico da cultura (a l´ ıngua como modelo de conhecimento da cultura). somente atrav´s dos comportamentos . nossas trocas simb´licas. ao estudo dos dialetos a a (dialetologia). sua psicologia. mas procuraremos nunca es` quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia.conscientes e inconscientes e dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual ´ n˜o ´ antropologia. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m a e a a o e psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos o e a aqui dar conta. toda vez que utilizarmos a partir a de agora o termo antropologia mais genericamente. os menores detalhes dos noso Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem. De fato. seus sistemas de parentesco. suas cria¸˜es co art´ ısticas. seus sistemas de conhecimento. 4 n˜o diz respeito apenas. Um dos aspectos e cuja abrangˆncia ´ consider´vel. das quais falaremos a seguir) do campo global da antropologia. suas t´cnicas. cidade de uma sociedade. sua l´ c ıngua. 4 . suas cren¸as religiosas. Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas noe ´ vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual). e de longe. e c˜ A antropologia psicol´gica. Assim sendo. al´m de introduzir o estudo da lino e guagem entre os materiais antropol´gicos. Isso posto. e este livro traa e tar´ essencialmente dela. E e o fato de que o antrop´logo procura compreender. Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia. Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram o e o mencionados.´ CONTEUDO 11 de v´rias outras. o e aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no a papel”(nossos gestos. Ou seja. fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar a um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica. o antrop´logo ´ o e em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais. Ela ´ parte integrante dele. estaremos nos referindo a antropologia social e cultural (ou etnologia).

em seguida. Disso decorre a necessidade. na forma¸ao antropol´gica. c 5 . economistas. dos grupos marginais. e das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas o e geogr´ficas. mas m´ ` ıopes quando se trata da nossa. presos a uma Unica cultura. De fato. inicialmente privilegiou claramente as ´reas de c a civiliza¸ao exteriores a nossa. o o O estudo do homem em sua totalidade A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade. do setor urbano. ıpio Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas ca do contato com o Ocidente.cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais a o distantes. por impregna¸ao lenta e cont´ c˜ ınua de grupos humanos min´sculos com u os quais mantemos uma rela¸ao pessoal. Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas dia feren¸as significativas.mente pelos ge´grafos. que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em e ca o rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser conc˜ e a fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades extra-europ´ias). somos n˜o apenas a cegos a dos outros. apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma e a c˜ distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que a o ´ long´ e ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por a natural em n´s mesmos ´. .12 ´ CONTEUDO sos comportamentos). cultural. soci´logos. aquilo que era evidente ´ Infinitao e e mente problem´tico. o juristas. que faz dessa abordagem um tratamento fundamentalmente diferente dos utilizados setorial. Ocorre. como j´ comentamos. como c vimos. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida c˜ ` a por um objeto emp´ ırico qualquer (e. A experiˆncia e Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais o c avan¸adas apenas muito recentemente. c˜ Al´m disso. e finalmente. a e o Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ). . pelo tipo de sociedade ao qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente). ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhee e cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao c˜ direta. ou seja. ela. a a perplexidade provo. ela se encontraria hoje. psic´logos. de fato. h´ alguns anos apenas e a na Fran¸a. a c˜ o daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement). por´m. As primeiras pesquisas trataram primeiro. dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cama ponesas europ´ias). a sem objeto. em especial. e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha ca ´ sobre si mesmo.

apenas a nossa disciplina c˜ permite notar. extremamente diversificadas. ıvel mas n˜o a unica. ´ sua a a e aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orgaa niza¸ao social extremamente diversos. participando ao a mesmo tempo de uma comum humanidade. familiar. com a maior proximidade poss´ ıvel. a nos espiar. As sociedades mais die a ıvel ferentes da nossa. conhecimento. que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. e l´ ınguas. . notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos.´ CONTEUDO 13 da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que c˜ e nem ter´ ıamos conseguido imaginar. jogos profundamente diversos. c˜ pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana. do idˆntico. e que consideramos ”evic˜ e dente”. posturas. assim. o juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. A abordagem antropol´gica provoca. a ´ Aquilo que. o produto e a de escolhas culturais. ´ a e e e e sua aptid˜o a varia¸ao cultural a ` c˜ O projeto antropol´gico consiste. no reconhecimento. para elaborar costumes. pelo contr´rio. m´ ımicas. que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente a por inatas (nossas maneiras de andar. Isso sup˜e ao a o mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo. Aos poucos. E. cotidiano. uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de ca c˜ 6 Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement) o a e . e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras. uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do e mundo”. rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natuco a ral”. nos encontrar. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura o o passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. correlativamente.) s˜o. na realidade. a nos surpreender com aquilo que diz respeito a c a n´s mesmos. Ou seja. Ela implica um deso c ca centramento radical. e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. comemorar os eventos de nossa existˆncia. a a a elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se a e esperar) mas. que consideramos espontaneamente como indiferenciadas. mais ainda. de que a antropologia. a meu ver. uma verdadeira revolu¸ao episo c˜ temol´gica. dada a nossa dificuldade em fixar nossa aten¸ao no que nos ´ habitual. E. portanto. de fato. institui¸oes. do igual. aquilo que os seres humanos tˆm em comum e ´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros. modos de conhecimento. Come¸amos. nos emocionar. caracteriza a unidade do homem. dormir. e. s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa. como j´ o dissemos e voltaremos a dizer. faz tanta quest˜o. . ent˜o.

De fato. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o: ca a ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade? a e Evidentemente. ıdo o Isso posto. ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o e e c ca v´lida. e da cultura e c˜ com a nossa cultura. por viajantes vindos e ´ da Asia. que ´ ´ teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia. o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas insa ´ a titui¸˜es do n˜o-europeu. um e africanismo. mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa a ca a disciplina. n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ a a ıveis”. das culturas. Poder´ a ıamos multiplicar os exemplos. mas tamb´m uma a e nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. geogr´ficas. um americanismo. da Africa ou da Oceania. ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence. E os ´ ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que e a ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim co de encontr´-los. e sim de seus m´todos de pensamento. sociais e culturais da co ca o a antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder o de vista. somos ` a aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscric˜ tos em n´s desde o nascimento. as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas. criticista com Kant. Isso n˜o impede que a constitui¸˜o a ca de um saber de voca¸˜o cient´ ca ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido a partir da cultura europ´ia. freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com u a do saber. A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo. a o a a reflexiva com Descartes. c a e sim o de reduzi-la. A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de e c˜ identificar nossa pequena prov´ ıncia de humanidade com a humanidade. Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ alo c a gumas d´cadas.14 ´ CONTEUDO si mesmo. e n˜o fossem adquiridos no contato com a o a cultura na qual nascemos). a priori enigm´tica. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide: e ”Eu sou mil poss´ ıveis em mim. que visa superar a irredutibilidade das culturas. que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um e Montaigne). Como escreve L´vi-Strauss: e ”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo a o do observador. e correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s meso mos. nunca se deram como o objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos. a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s. e na Fran¸a a e a c partir de 1943 (Griaule na Sorbonne. como atestam notadamente e e os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia. Esta elaborou um orientalismo. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool). A rec´ co a ıproca tamb´m ´ verdadeira. um oceanismo. . enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´ ısmo”. hist´rica com Hegel). mesmo o sendo filosofia social. seguido por Leroi-Gourhan). de pens´-la cientificamente). Confrontados a multiplicidade. mas n˜o posso me resignar a querer apenas a um deles”. bem como as grandes religi˜es.

como sempre. Dificuldades Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´ o a ısticas maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade. aos estudantes. a a e a a ılia fam´ dos antrop´logos ´. como acabau mos de escrever. das culturas. e evidentemente. um objeto de exclus˜o. a o c˜ Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o ` ca terminol´gica dos franceses). desses materiais e o u dessa experiˆncia. muito dividida. como a f´ a ısica. a si mesmo. quando se trata de ılia o e dar conta (aos interessados. no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde pero manecer por tanto tempo cega para consigo mesma. e 1) A primeira dificuldade se manifesta. Estamos. do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´ e o a definitivamente encerrada. aos seus colegas. pol´ o ıticas. com os quais estivemos vi-vendo. intelectuais .se sobre a pluraridade irredut´ das o ıvel etnias.6 que n˜o sendo.de que estamos finalmente mais u ”l´cidos”. particularmente reveladora da juventude de e e nossa disciplina. isto ´.o expansionismo ocidental sob todas as suas formas econˆmicas. Mas ela ´. mais ”adultos”. e de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadeie ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla. assim como uma o civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias doa e minantes de nossa sociedade .que seria a e o c´mulo em se tratando de antropologia . uma ciˆncia constitu´ cone ıda. amputando parte de si pr´pria e fazendo.deve ser sempre retomada. seja levado por o alguma crise de identidade. por sua vez. pelo contr´rio. considera que. Desconfiemos por´m do pensamento . isto ´. tamb´m aqui. tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao. a e convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos o a o que observamos em seres humanos. Procuraremos. de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessio a vas. ela deve c˜ igualmente aceitar a diversidade das culturas. insiste.´ CONTEUDO as melhores inten¸oes do mundo. por sua vez. mais ”conscientes”. No segundo (que ´ mais usado nos pa´ angloe e ıses . mais ”livres”. ao adotar ipso facto a l´gica das outras socieo dades e a censurar a sua. se eles s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana. mostrar nesse livro a que a d´vida e a cr´ u ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas o a se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´ c˜ ıtica dos de outrem. ao n´ ıvel das palavras. tamb´m adultas. c˜ 15 O pensamento antropol´gico. O que significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado.

a antropologia deve aspirar a a tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas.7 2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´m e atribuir a antropologia. mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias socio e ais. finalmente. por uma impregna¸˜o duradoura e cont´ o ca ınua e um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. 1973) e 7 . c como L´vi-Strauss. a ´ e antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard). Como escreve L´vi-Strauss. 3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´ e c˜ ıgua que a antropologia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. procurando ao mesmo tempo se reencontrar perioe dicamente. A etnografia ´ a coleta direta.que consiste mais no estudo dos comportamentos. ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento e a e final”(L´vi-Strauss. mas tamb´m por grava¸˜o sonora. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica` a co mente o homem. sobre a unidade do gˆnero humano. A antropologia. L´vi-Strauss substituiu. al´m da e e c e imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir. o Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de neo a e Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa a localizar-se. Estabele¸amos. com a Radcliffe-Brown (1968).ou (com os autores e co americanos) de antropologia cultural . ıvel ca fazer aparecer a l´gica espec´ o ıfica da sociedade que se estuda. fotogr´fica ou cinematogr´fica. a u 8 Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses. com Evans-Pritchard (1969). um modelo ling¨´ uıstico.8 e e e os que pensam. E optando-se por antroo e pologia. seu nome o e a e proclama suficientemente. e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza (o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser invena e tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada). As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos. um invent´rio a das possibilidades inconscientes. deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social a cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es . mas como sistemas simb´licos. que ´ preciso tratar as sociedae des n˜o como sistemas orgˆnicos. a etnologia e a antropologia constituem os trˆs moe e mentos de uma mesma abordagem. e o mais minuciosa e poss´ ıvel. as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma e a a da outra no s´culo XX. longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown). Estreitamente vinculadas nos e e o s´culos XVIII e XIX. ”seu objetivo ´ alcan¸ar. consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam comıvel parar as sociedades entre si. que a etnografia.16 ´ CONTEUDO saxˆnicos). e ca a a A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos. que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem a ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza. dos fenˆmenos que observamos. Para estes a a o ultimos. que n˜o existem em n´mero ilimitado”. Esses fenˆmenos podem ser recoco o lhidos tomando-se notas. vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. isto ´. como verea e mos. um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito? e e E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam.

Hoje v´rios colegas nossos consia a deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo c c˜ especialmente )ean Copans. pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o de ca uma sociedade melhor. ”pr´ximas do grau zero e e o de temperatura hist´rica”. um ”antrop´logo revolucion´rio”. que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”. Quer´ ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo´ gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. Durkheim considerava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o a c˜ a pudesse ser util. E por ela que. e. especialmente. mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia c˜ menos frustrante ` sociedade americana. de ser unˆnime. c um autor como Gilberto Freyre.´ CONTEUDO 17 nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das institui¸oes”. e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. desde 1933. 1971 A maioria dos antrop´logos ingleses. do que o a o ”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia a o u cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”. realizou suas pesquisas a peo . e isso desde seu nascimento. um milia tante. Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos c˜ o ca o a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria ` c o em considera¸˜o”. isto ´. R. o 4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem e a parar. cf. O pesquisador torna-se. no Nordeste do Brasil. com a coloniza¸ao. e ca Aqui. Mais categ´rico ainda. mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do conhecimento hist´rico. 9 10 Sobre a antropologia aplicada. participando em especial dos programas de desenvolvimento e das decis˜es pol´ o ıticas relacionadas ` elaborac˜o a a desses programas. Margaret ´ o a Mead. entre a pesquisa que se pode qualificar de fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”. estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas Samoa (1969). e Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e c que continua dividindo profundamente os pesquisadores. Bastide. como veremos. contribuindo na constru¸ao de uma o a c˜ ”antropologia da liberta¸ao”. e a hist´ria recente da antropoa a o logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a c˜ qualidade de especialistas de conselheiros. por exemplo. empenhando-se em compreender a forma¸˜o ca da sociedade brasileira. ent˜o. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa ca e e c˜ de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”. a e c˜ 10 a antropologia teve inicio. a o Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica ca c˜ o o est´ longe. onde come¸o a escrever este livro. 1975).

que podem ser e o ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun. franc. ´ dar muito a elas. ele estava l´ enquanto mission´rio ` a a a fim de converter a popula¸ao que estuda. c˜ Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no e Brasil entre os Tupinamb´s. etc a 11 Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico ca ´ pesquisador. Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. a franc. se interroga. come¸a a se implantar aquilo o e c que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico. Desde o s´culo XVI.. que se deu o in´ ıcio da Antropologia.11 c˜ O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o a religiosa. a c˜ escreve: ”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da e c a¸ao pr´tica. O c˜ a a e verdadeiro meio de permitir sua existˆncia. enquanto antrop´logo. Mas v´rios anos depois (trad.. Longe de procurar convencer seus h´spedes da a o superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada. no momento. de fato. ele os interroga e a e. encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos c˜ de falar. 1963) se deixa a literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. sobretudo. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad.18 ´ CONTEUDO Foi com ela. a ”revolu¸˜o”. as estrat´gias daquilo ca e que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o ale c a tera nada quanto ao amago do problema. a ajuda ao ”Terceiro Mundo”. nada ou quase nada a oferecer. ca e ap´s ter lembrado que o saber cient´ o ıfico sobre o homem ainda se encontrava num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza. elas n˜o tˆm. para B transforma¸ao das sociedades o c˜ que ele estuda 11 dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo co britˆnico. a As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antropologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas e primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com co o ca o ”selvagem”. durante a coloniza¸ao. mas sobretudo e e n˜o lhes pedir nada”. que ´ o seguinte: 0 antrop´logo ˆ e o deve contribuir. 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento e . Nadei foi a conselheiro do governo do Sud˜o. c˜ e Perfeitamente a vontade entre os astecas. inclusive.

sem risco de despersonaliza¸ao? a c˜ Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo. perceber realmente o fasc´ ınio que exerce este modelo. a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica a c˜ a da antropologia.´ CONTEUDO 19 Eu responderia. no que me diz respeito. organizar pol´ o c e ıtica. de se vestir. mas nas quais poc a a der´ ıamos ter nascido). por outro lado. seria c˜ a conveniente. onde ca come¸ou a redigir este livro c 12 . de fato. agrˆnomo. perturbando completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar. no decorrer de minhas estadias e sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do e e Marfim. est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de a homogeneiza¸˜o. Ou seja. econˆmica e o socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. da seguinte forma: nossa abordagem. m´dico. as e cren¸as. Em compensa¸˜o. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela ca mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa. uma e e conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o. de se distrair. parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil. mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente ue a a e a dita. traa a o balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. de pensar 12 e levando a novos comportamentos que n˜o decorrem de uma escolha) a A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte: a a o e h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindoa lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem a o conflito dram´tico. n˜o deve. que se convertesse em economista. diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a e ` qual temos o dever de responder. para ajudar os atores sociais a ca e o responder a essa quest˜o. que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ mais e familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos) e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos. sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento ca o de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento que ´ a do racionalismo social. a partica c e cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo c˜ o e e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´. Somos. pr´prias culturas rurais e ure o banas. ao meu ver. Eu pude. o e pol´ ıtico. Caso contr´rio. a meu ver. de se encontrar. As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista co ca podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa. os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas. pelo menos enquanto antrop´logo.

nossa c˜ e disciplina deve. mentalidades. ` o o tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos ca a co de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque ca a da acultura¸ao. de fato. baseada na capta¸˜o de informa¸˜es. culturais de um e o povo. c˜ e ca co N˜o h´. isto ´. sem itiner´rio no decora a e a rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas. cultural. o caso hoje em dia. Em suma. Atrav´s da especificidade de sua abordagem. ` natureza desta obra que a deve apresentar. t´cnicas. por movimentos de migra¸˜o Interna. isto ´. sociais. finalmente. a antropologia do . por muta¸˜es de suas o e co rela¸oes sociais. antropologia sem troca. ling¨´ uıstica. Isso sup˜e uma ruptura com o o a concep¸ao assim´trica da pesquisa. como podemos notar. uma atividade de luxo. ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` c˜ e a violˆncia negadora das particularidades econˆmicas. sobretudo. dominar o campo e ´ global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social. evidentemente. e sim fora mular quest˜es com eles. de seu pr´prio saber e saber-fazer. No fie nal do s´culo XIX. e sim sociedades que est˜o passando por um a desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito. no limite. a ´ b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento e a c˜ extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas. que n˜o s˜o a a a a mais ”sociedades tradicionais”. sem a e nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais. n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados. pol´ e o ıtica. elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais o a a m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma a e crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural. e o e provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o ´ o ´ a extensa). pr´-hist´rica. um campo de pesquisa u a imenso. o encontro e de l´ ınguas. isto ´. cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. em um n´mero de p´ginas reduzido. a antropologia econˆmica. enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos) ´ a co a e. e por um processo de c˜ ca urbaniza¸ao acelerado. de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais trac˜ o balhamos. um unico pesquisador podia. 5) Uma quinta dificuldade diz respeito.20 ´ CONTEUDO a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e e c˜ o c a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o a tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada ca a tempo. O antrop´logo considera a e o agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13 a e a 13 A antropologia das t´cnicas. que e o n˜o ´ de forma alguma. a pesquisa antropol´gica. e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber. N˜o ´.

mas tamb´m mutuamente e exclusivas. a especificidade da antropologia. Esta ´ a raz˜o pela qual. Ela ´ ao contr´rio claramente plural. que nas ciˆncias humanas ´ um engodo. a meu ver. em vez de pretender uma neutralidade. co . art´ co ıstica. em uma ultima parte. interessar-se em ir mais adiante. se. Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo p´blico poss´ u ıvel. mas tamb´m pessoal). n˜o a a dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. definir alguns conceitos a partir dos quais o u e leitor poder´. dar conta. de fato. a antropologia dos sistemas de comunica¸˜es. procurando dar conta da pluraridade. entre as quais ´ preciso escolher. Em o e seguida. Eu lembrarei em a primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa disc˜ ciplina e como. Pois a antropologia. em algum momento de sua vida (profissional. a Ver-se-´ que este livro caminha em espiral. entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica e a e e o de adotar uma linguagem menos especializada. que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia. e e e pertence a todo o mundo. Muito mais modestamente. possam ser levados e a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´ a ıstico da antropologia. tentei colocar um certo n´mero de referˆncias. o co ´ os principais eixos anteriormente examinados ser˜o. o parentesco. Ela diz respeito a todos n´s. em um movimento por a assim dizer retroativo. espero. Veremos no decorrer deste e a livro que existem perspectivas complementares.. optei voluntariamente pela segunda. do alcance e da riqueza dos campos abertos pela antropologia. esbo¸arei os p´los te´ricos . mas de diversos pontos de vista.´ CONTEUDO de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada. das organiza¸˜es sociais. As preocupa¸oes que est˜o no a c˜ a centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencioo nadas ser˜o retomadas. em vez de fingir ter adoe tado o ponto de vista de Sirius. Finalmente.a meu ver cinco . esfor¸ando-me ao mesmo tempo para e e c apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros. mesmo de uma forma parcial. E. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – dua ` e a vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que. a antropologia permanecesse monol´ ıtica.. dentro de um texto de dimens˜es t˜o restrio a tas. surpreena o dente. Teria sido.em volta dos quais c o o oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. reavaliados com o objetivo de definir aquilo que constitui. foram se colocando e o progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. atrav´s dessa hist´ria da antropologia. a antropologia religiosa. o ´ a 21 Era-me portanto imposs´ ıvel.

22 ´ CONTEUDO .

Parte I Marcos Para Uma Hist´ria Do o Pensamento Antropol´gio o 23 .

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para um per´ e ıodo anterior (s´culo XIII). A Hist´ria de Uma c a o Viagem Feita na Terra do Brasil. Andr´ Thevet e a a e a ´ a ´ e escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica. 1985). de Rubrouck (reed. as Lettres Edifiantes et Curieuses de la a a Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776. Cf. e 1 25 . P. no s´culo XIV.. Garnier-Flammarion. bom como a coletˆnea de textos de J. em seguida ` Am´rica. a quest˜o ıvel ca e a As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que co dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes. formando o que e co habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. em 1558 Jean de Lery. Notamos que se. O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a c e a c 1 a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. ` Asia e ` Africa. 1979. Consultar tamb´m como exemplo. G. Paris reed. j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ a a a e poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem descoe bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´m a e e atribuir-lhes um estatuto humano ´. e que nasce desse primeiro confronto a e a visual com a alteridade. religioso: O selvagem tem e e uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital e a para os mission´rios. no Jap˜o. na China. para um per´ e ıodo posterior (s´culo e XVII) Y. por exemplo. A c grande quest˜o que ´ ent˜o colocada. a 2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII) o a co ıtas e ˆ nc Canad´. d’Evreux (reed. Dizem respeito em primeiro lugar ` a P´rsia e ` Turquia. Duviols (1978). Em 1556.Cap´ ıtulo 1 A Pr´-Hist´ria Da e o Antropologia: a descoberta das diferen¸as pelos vic ajantes do s´culo e a dupla resposta e ideol´gica dada daquela ´poca at´ noso e e sos dias A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo e a o e a ` Mundo. nessa ´poca. 1985).

e at´. a Fran¸a. n˜o ´ de forma alguma solucionada.. e que op˜e o a a o dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera. por´m. na Espanha.. e e c c mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do ese tranho apreendido a partir de uma falta. os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a meo ca a tade do s´culo XIV: no debate. (. vilas. reis. ´ melhor que a nossa. sen˜o todas. Las Casas: ` ”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros. (. e n˜o eram infeco a a riores a nenhuma delas.26 ´ ´ CAP´ ITULO 1. em alguns reinos. foram muito mais pervertidas. ´ e co ı e melhor que a nossa.. as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o. pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de a ca nossos costumes”. paternalista e ca do outro: 2) sua exclus˜o a 2 . os esp´ritos lentos. que se torna uma controv´rsia p´blica.. em alguns de seus costumes. em Valladolid). ao c ı a contr´rio. os pregui¸osos. Assim.) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas e na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis. aqueles s˜o. senhores e uma ordem pol´tica que. e deram mostra de muito menos prudˆncia e sagae cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais. cidades. mesmo que n˜o see a a jam superiores em for¸a f´sica. por natureza. N´s o mesmos fomos piores. a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio ca a ´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade. no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a de nossa Espanha. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ colocada. Ela ser´ definitivamente e a e a resolvida apenas dois s´culos mais tarde. co a irracionais e depravadas. e algumas de nossas regi˜es da Espanha. Eles superavam tamb´m a e e Inglaterra. os senhores. e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia a e e 2 que se tem sobre si e sua sociedade. Sepulvera: ”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o. e ı em alguns reinos. os superavam.. mesmo que tenham as a e c ı for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias. e Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes. que e e u durar´ v´rios meses (em 1550. igualavam-se aos gregos e os romanos. responderemos que essas ı a a pessoas tˆm aldeias. (.) Pois a c o maioria dessas na¸˜es do mundo.. s˜o por natureza serc ı a a Sendo. e a e Ora.) Esses povos igualavam ou e at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que.

por exemplo. mas ligados entre si por um movimento ca o de pˆndulo ininterrupto. o Renascimento. a mais comum e e Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes.1. mesmo que n˜o se a a a expressem mais em termos religiosos. O termo primitivos ´ que triun` e far´ no s´culo XIX. E se eles recusarem esse imp´rio. pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca. mas em e a e um mesmo autor. quatro s´culos e ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera. e opondo assim a animalidade a humanidade. Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas. conv´m nos determos sobre eles. para a natureza toe dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos a a e com a qual nos identificamos. enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo a e e de subdesenvolvidos. os s´culos ` ca e XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´. seres da floresta).. estranhas ` vida civil a co a a e aos costumes pac´ficos.1. as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso. bem como o declara o a o direito natural que os homens honrados.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato. gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia c a a e de suas leis. isto ´. eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais a humana e ao culto da virtude. e 1. pode-se e impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa. ca c˜ A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o paru a a ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros e ` c˜ a oposto a significa¸˜o da linguagem humana). inteligentes. e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao. ´. e vemos isso sancionado pela pr´pria e ´ o lei divina. E ´ justo e util que sejam servos. Essa atitude. de modo que. como lembra L´vi-Strauss. virtuosos e humanos dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”. e 3 . L´ry (1972) ou Buffon (1984). a e Ora. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural ı a que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es e ı co mais cultas e humanas. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27 vos. que consiste em expulsar da cultura.3 Como s˜o estere´tipos o e a o que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta a dificuldade para nos livrarmos. permanecem vivas hoje. Cf.

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´ ıstica dos ”selvagens”.4 Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar e e se conv´m conferir aos ´ e ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso e e do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma a c˜ resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos: a a • a aparˆncia f´ e ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”; a • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o e imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5 a a • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles e falam ”uma l´ ıngua inintelig´ ıvel”. Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso ` a a a a linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso soe a bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o ` a o grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita, e a sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pase a sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII: a e e ”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ e ıritosem ardor para com sua fˆmea”. e ´ ”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Goo o mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico o ı ı ´ Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa´ e ´ crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus ı pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interloe co cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta a e e o da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os e o o e ind´ ıgenas possu´ ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisioa neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o ca a a sujeitos ` putrefa¸˜o” a ca 5 Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´ e e par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M. e JVl´taili´, 1979. e e 6 Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavele a e mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´ a e ıvel fazˆ-los e evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa ca a e ca
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1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO

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mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do a ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons e a a e a h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e a at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que e e tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”. a ”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco ı a a trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole o a ca constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, aboa min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem a u atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555) ı e Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias. o ı Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa o a a u ´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Lie e ` vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e o convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia. e Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos paa c˜ recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes a para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado ` o e em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel. ca ` o 1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´ o o ındios da Am´rica do Norte. e Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´ c˜ e ıllimos a influˆncia da natureza ´ total, e e ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´ c a o a pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema o a ıda umidade: ”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que emca brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria ı de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu temperaı ca mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio a ı dos nervos desses homens embrutecidos”. Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e e a ´ a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo sea xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste a

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s a a o degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´ e ıcio ca ısica”, Pauw chega a de` ´ grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada: c˜ c˜ e ”O gˆnio embrutecido dos Americanos”. e ”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o e ı ca alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o ema c a a a preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem a ca e e pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a a ı a falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para u si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma. Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como irca remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado a ca num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um u e e c longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa, ´ ´ a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se e encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proximidade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da a a constitui¸ao f´ c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas o sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento e aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o ca ca c˜ a cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo c˜ a de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um e a c hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto e e a poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de a outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados: ”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses a c ı frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar e ca entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de satisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´ e a e a a e poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?” ı ca co e Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´ ıgenas americanos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns a quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas daa quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7 o
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Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).

seu semelhante ´ para eles apenas uma carne e como qualquer outra.1. al´m ıs ı a e do dia e da hist´ria consciente.1. a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda c˜ e u ´ do que a do Norte. de Rousseau. mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Amerio canos. notamos. o pa´s da infˆncia. em especial. Id´ias que ser˜o retomadas e e e a expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel. em sua Introdu¸˜o ca a Filosofia da Hist´ria. o qual. de um objeto sem valor”. fechado sobre si mesmo. ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”nee gros”n˜o respeitam nada. Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente c˜ a a nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a ` indianidade em Pauw – . o autor da Fenomenologia do Esp´ ırito vai.”Ou ainda: ”S˜o os a seres mais atrozes que tenha no mundo. que. Mas ´ a a e ´ ´ a Africa. a a ca 8 . nem mesmo as for¸as da coloa c niza¸ao. ` e Na leitura dessa Introdu¸ao. poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal c˜ a o da humanidade. em ruptura a com a ideologia dominante do s´culo XVIII. ıvel ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´ ıpio africano. a Africa profunda do interior. e escreve Hegel. suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”. est´ envolto na cor negra da noite”. nem institui¸˜es sociais. que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e e a a o a ”consciˆncia de si”. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31 2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o.8 Pea e co a trificados em uma desordem inexor´vel. ”para o n´ de uma coisa. apenas radicalizam id´ias come partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. que representa para o fil´sofo a forma mais e a o nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade: ´ ”E o pa´ do ouro. religi˜o ou Estado. e. em uma selvageria em estado bruto. j´ que comem carne a o a humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. o a ´ Tudo. eles n˜o tˆm moral. onde a civiliza¸ao c˜ nessa ´poca ainda n˜o penetrou. nada. publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam. vale a pena notar. da qual falaremos mais adiante. Vivendo em uma e o ferocidade bestial inconsciente de si mesma. nem mesmo eles pr´prios. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. ”Ele cai”. na Africa. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es` o o tado de natureza. e e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade.

A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: 1. sem leis. descobre. e. . sem pol´ ıcia. como tamb´m n˜o h´ terra melhor”. ele tamb´m o para´ o a e ıso. sejam elas sua m˜e.32 ´ ´ CAP´ ITULO 1. Os termos da atribui¸˜o ` ca permanecem. e. Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um a vazio que se torna um cheio (ou plenitude). s˜o bonitas. daquilo que era apreendido como um menos que se torna um mais. rigorosamente idˆnticos. essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas c˜ em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura c˜ c˜ idˆntica) permanece ainda bastante r´ e ıgida na ´poca na qual o Ocidente descoe bre povos ainda desconhecidos. de corpo elegante. O selvagem a n˜o ´ quem pensamos. instaura-se uma cr´ ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenuic˜ . A figura do bom selvagem s´ encontrar´ sua o a formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento: ca a e o no rousseau´ ısmo do s´culo XVIII. na percep¸˜o e a ca que tˆm os primeiros viajantes. Nenhum possui qualquer coisa que seja.. como veremos. N˜o deixa e e a por´m de estar presente. sem clero. no Romantismo. a sem sacerdotes. ”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal. E n˜o tˆm governo”. a a . O car´ter privativo dessas sociedades sem a escrita. pela c˜ primeira vez. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica: e e u e ”As pessoas est˜o nuas. a a a c Eles vivem cinq¨enta anos. pois tudo ´ colocado em comum. sem religi˜o organizada. eles n˜o sabem se a e a matar uns aos outros (. sem tecnologia. u a e Crist´v˜o Colombo. e E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam. entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a. e a a Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseiaa e e se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros.. aportando no Caribe. pelo menos em estado embrion´rio. ou sua amiga. a e Evidentemente. em s´guida.) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melhoa res.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emia e nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza ıvel dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. sua irm˜. de pele escura. sem economia. da mesma forma que e o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natuıdo ral). sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo a e ´ XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. . .

na tranq¨ilidade. Para o autor o a dos Ensaios. A seguir temos: em 1703. 9 . A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 33 dade original”do estado de natureza. e em especial por le Hu9 ron. um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia e e a e e a tranq¨ilidade est´ entre eles. ı Do lado dos livres-pensadores. estes ultimos n˜o hesitando em oferecer o ´ a suas mulheres como presente. entre os Tupinamb´s. o e a discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade. Esse fasc´ ınio exercido pelo ind´ ıgena americano. Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefac˜ a e 10 tos. talvez esteja conservado em alguma parte. de e e Vol-taire. ´ o mesmo grito de entusiasmo. em 1767. e gozam de uma felicidade desconhecida c u dos franceses”. sobre esses ultimos: ”Podemos portanto ´ de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o. O huguenote que eu interroguei at´ o e encontrou. O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage e au Pays des Hurons. liberais. . Ele escreve. L´ry. triunfa nos s´culos XVII e XVIII. Moeurs des Sauvages Am´ricains. a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante e u em grande parte na literatura sobre os ´ ındios. de Gabriel Sagard. P.. Seu ideal: ”viver em comum sem processo. isto ´. Vlng´nu. esse estado paradis´ ıaco que teria sido o nosso outrora. Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo.1. protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo cac˜ loroso da natureza. Nas primeiras Rela¸oes e c˜ dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler: ıtas ”Eles s˜o af´veis. sem pris˜es e sem torturas passam a o vida na do¸ura. Todos os nossos padres que a a freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente u entre eles do que entre n´s”. ıs a 1978). . Se o discurso euroca o peu sobre os Astecas e os Zulus faz. de Lafitau. ser ass´duo no trabalho”. na Europa. moderados. interroga-se e a sobre o que se passa ”aqu´m”. mas n˜o quanto a a ` a a a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. Duviols. 10 No s´culo XVIII. em 1744. E Montaigne. referˆncia ` crueldade.2. Le Supplement aux Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et u un Sauvage. na maior parte das vezes. La Hontan: e ”Ah! Viva os Hurons que sem lei. desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa u a a vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). o contentar-se de pouco sem avareza. a respeito de e e ”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos a a e quais estou falando”.

ou na casa onde entra. como n´s. Em 1721. e Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civic˜ c˜ liza¸ao. Cada um colhe as frutas na a primeira ´rvore que encontra. que n˜o queremos nada a fim ca o a de desfrutar mais livremente de tudo”. c Todos os discursos que acabamos de citar. Ora.34 ´ ´ CAP´ ITULO 1. . por exemplo. ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. os que exaltam a do¸ura das sociedades ”selvagens”. 0 e a personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco: ”Vocˆs s˜o loucos. Depois. u O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´ o ıdos. pois procuram com muito empenho uma infinidade de e a coisas in´teis. pois limitam seus bens ao dinheiro. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: das Lumi`resu 11 – . a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma a sociedade de prazer e de saudade. que a etnologia deve grande parte de seu sucesso com o p´blico. . Aqui um doce ´cio a o ´ compartilhado pelas mulheres. em vez u e a de simplesmente gozar da cria¸˜o. . uma humanidade convivial cujas virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand. As mulheres ca pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. e especialmente. pelo charme e prazer id´ e ılico que provoca o encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul. ´ e E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau acabou de escrever. para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ soc e bretudo desse come¸o que precisar´ c ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser a os disc´ ıpulos da natureza” 11 . Aqui est´.). a a ıdo partir do fim do s´culo XVIII. em suma. o que escreve Bougainville em sua a Viagem ao Redor do Mundo (reed. vocˆs s˜o pobres. mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisiene e o a ses. . Melville. 1980): ”Seja dia ou noite. a ilha de P´scoa. n˜o nos tocariam mais nada. correlativamente fustigam tudo c que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. ´ precisamente a a e esse imagin´rio da viagem. em especial Samoa. n˜o nos seriam a a a diretamente acess´ ıveis. as casas est˜o abertas. dos arquip´lagos e polin´sios. Se n˜o o fossem. e soe a bretudo o Taiti. tudo incita ao abandono”. . . . ` e Segalen. . precisar´ ıamos ir entre os povos mais ignorantes. as ilhas Marquises. o fasc´ c˜ ınio pelos ´ ındios ser´ substitu´ progressivamente. Conrad. . e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa e e ocupa¸˜o. e. a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens. Tudo lembra a cada a instante as do¸uras do amor. Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. .

portanto.2. fazem com que parte de nossos sonhos s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares o ıso o do Sul. ´ encontrada em muitos o c˜ o e autores. ´ recrue o e tado no civil. Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora u a ıvel do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da ` abstra¸ao. como o militar. A antropologia. ir mais longe. a Ora. de oscilar entre os p´los de um verdadeiro a o movimento pendular.-ang´stias. abrigadas na suntuosidade de uma a natureza generosa. essa ”nostalgia do neol´ ıtico”. tais como existem ainda nas sociedades long´ ınquas do globo. essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na e realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa disciplina. op˜em-se c˜ a co o sociedades de solidariedade comunit´ria. n˜o ´ novic˜ a e dade. como acabamos de ver. ıdo o Mas conv´m. de que fala Alfred M´traux e que ese teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo. para mim. era uma fuga romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”. Malia c˜ o o nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso: a a ”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das foru a a e mas primitivas da vida humana. Pensou-se alternadamente que o selvagem: • era um monstro. que s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas. especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato co co corruptor com o mundo moderno. desejos.1. A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ca ıcios”do progresso (nos quais muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o anoo a nimato do nosso ambiente de vida. as mesmas insatisfa¸oes. Se essa busca do Ultimo dos c˜ u Moicanos. e O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades. ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a ´ sua. O etn´logo. termo e a c˜ proposto por Sapir em 1925. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 35 ao Ocidente mort´ ıfero li¸oes de grandeza. e ıdo e *** A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si mesmo) n˜o parou. a meio camie nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros e . a meu ver. foi certamente o de a o ”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas). do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas. pelo menos. que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica. vivendo na harmonia e na transparˆncia. um ”animal com figura humana”(L´ry). e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss.

ou. . u • era trabalhador e corajoso. Mal se olha para ele. Taiti. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com a vistas a explora¸˜o econˆmica. O outro – o ´ ca ındio. em todos os casos. ou um comunista decidido a tudo compartilhar. ` convers˜o a a religiosa ou a emo¸ao est´tica. est´pido e de uma simplicidade brutal. um ser preso. de uma humanidade da a qual tinha tudo como aprender. ou feio. Olha-se a si mesmo nele. obedecendo estritamente a aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo. • era um animal. um ”objeto sem valor”(Hegel). c • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus. • era admiravelmente bonito. ou participava. ou essencialmente pre gui¸oso. e o c˜ • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel. mas recentemente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um a e imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica. ou profundamente u virtuoso e eminentemente complexo. Mas. at´ e inclusive suas pr´prias e o mulheres. o outro n˜o ´ consi` c˜ e a e derado para si mesmo. ` co • era atrasado. o Pa´ Basco a e e e ıs ou a Bretanha. obrigado a assumir as duras tarefas da ind´stria. enquanto que o Ocidente era. adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos c da natureza. ou. na paz e na harmonia • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes. ou. c˜ • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o a permanente. pelo contr´rio.36 ´ ´ CAP´ ITULO 1. sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar. vivia num e a a estado de beatitude. • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era e leg´ ıtimo temer. ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando c de prote¸ao. o taitiano. pelo contr´rio. ou era profundaa a mente religioso. Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se transa co c a forma rapidamente em fasc´ ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem a a muita rela¸˜o com a realidade. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ramos n´s. • vivia num eterno pavor do sobrenatural. ao inverso. uma ”coisa”. um ”vegetal”(de Pauw). pelo contr´rio. por sua vez. quanto ao militarismo pol´ ` ca o ıtico.

e sim diferente. tala vez anacrˆnico. come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento c u ıcio europeu. t˜o problem´tico. e por alguns apenas de e e seus esp´ ıritos os menos ortodoxos. Montaigne (hoje as vezes criticado). e o e o . Mas as quest˜es a o (e para o que nos interessa aqui. o autor da Viagem n˜o tem resposta. mas sim de um saber pr´-antropol´gico. a a o isto ´. perguntase: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualidae a a des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade. Jean de L´ry. descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento o etnol´gico. meıvel nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar c˜ c˜ que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior. e a a permite a constitui¸ao progressiva. seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os e conflitos do antigo. N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se e a e etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”. Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento. numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que e e n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado a a a qualquer antrop´logo.1. essa ´poca. entre os ind´ e ıgenas brasileiros. n˜o de um saber antropol´gico. ´ verdade. Por´m. muito timidamente. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 37 Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. o ponto de vista normativo e o ponto a de vista narrativo). como acabamos de observar. mas especificamente a ultima) est˜o no en´ a tanto implicitamente colocadas. ainda no final do o a a s´culo XX. mesmo ` se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´ e ındios do que a inumanidade dos europeus. reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a e e e c˜ oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar. Seria em v˜o.2. como se diz o a hoje). Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´ o a se tornar a etnologia. muito mec˜ a o nos de uma ciˆncia antropol´gica. os objetivos teol´gicos e os c˜ a o que poder´ ıamos chamar de etnogr´ficos. a e Assim. a partir da observa¸ao direta de um obc˜ jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne).

38 ´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: .

´ que se pode apreender as e a e condi¸oes hist´ricas. e n˜o antes. isto ´. a fecundidade do trabalho ou a densidade e ´ hist´rica da linguagem. acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas.) Uma o a a coisa em todo caso ´ certa. enquanto figuras da anormaa c lidade. Apenas nessa ´poca. a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do c˜ e u homem. ”qu˜o pr´ximo a o 39 . Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de funa e dar uma ciˆncia do homem. e a Como tamb´m o poder du vida. o selvagem. essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte. ca e E”. nem o e a e mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. e a exclui da raz˜o o louco. como mostrou Michel Foucault (1966). ca e no qual a evidˆncia do cogito. culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que c˜ o o vai se tornar a antropologia. ene o quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´ e a a ıveis hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao. com a explora¸ao geogr´fica de contic c˜ a nentes desconhecidos. na modernidade. apenas no s´culo XVIII ´ que c˜ e e entramos verdadeiramente.. fundador da ordem do pensamento cl´ssico. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sao ber fabricou com suas pr´prias m˜os. e sim positivo sobre o homem. Enquanto encontramos no s´culo e XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia. ”o homem n˜o existia. o homem n˜o ´ o mais antigo problema. de um saber n˜o mais exclusivamente e e a especulaivo. h´ menos de duzentos anos (. a crian¸a. O homem ´ uma e inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente. ”Antes do final do s´culo XVIII”. escreve Fou-cauilt..Cap´ ıtulo 2 O S´culo XVIII: e a inven¸˜o do conceito de homem ca Se durante o Renascimento esbo¸ou-se.

de suas instic˜ c˜ tui¸oes. Da mesma forma. pensa (psicologia) e fala (ling¨´ uıstica). antes dessa ´poca. c˜ ca c˜ inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo. c˜ o 2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o. dos nossos sistema de organiza¸ao social. come¸ando pelo pr´prio c˜ u c o conceito de homem. c˜ Tornou-se paulatinamente (com de Brosses. envolvida nas determina¸˜es de seu e co organismo. que passa a ser ca e considerado em sua existˆncia concreta. quando tomada em considera¸ao. coloca-se pela primeira vez no e s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado. Lafitau se d´ por objetivo o de a . Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posic˜ c ca tividade de um saber emp´ ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem a enquanto ser vivo (biologia). e sim de ca a a observa¸˜o. em O Esp´ ırito das Leis (1748). assim como sobre as rela¸oes de sentido o c˜ e poder (que anunciam o fim da metaf´ ısica) eram inimagin´veis antes. abriu o c˜ e e o caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar e em uma ”ciˆncia da sociedade”. que trabalha (economia). das nosca o sas rela¸oes de produ¸˜o. ´ CAP´ ITULO 2. e a constitui¸ao da id´ia c˜ e de que a linguagem nos precede. pelo menos. Ora. j´ que consiste em introduzir dualidade e a caracter´ ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado) e no cora¸ao do pr´prio homem. 3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. de suas rela¸oes de produ¸ao. ao mostrar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais. a line e guagem. ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Comparados aos Costumes dos Primeiros Tempos. de sua linguagem. tais reflex˜es sobre os limites do saber. era objeto de filosofia ou exegese. bem como a dos poss´ e a c˜ ıveis processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos.40 talvez seja o seu fim”. Assim. Rousseau) o objeto espec´ ıfico de um saber cient´ ıfico (ou. abordagem totalmente in´dita. de um novo modo de acesso ao homem. n˜o apenas enquanto sujeito. . A a sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da e consciˆncia europ´ia. Rompendo com a convic¸ao a c c˜ de uma transparˆncia imediata do cogito. . Montesquieu. pois somos antes exteriores a ela. Parte de suas elites busca suas referˆncias em um cone e e fronto com o distante. isto ´. mas enquanto objeto do a saber. de voca¸˜o cient´ ca ıfica). Em 1724. de seus comportamentos. O SECULO XVIII: O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enteno a c˜ demos hoje) sup˜e: o 1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos.

evidentemente. que. al´m da contingˆncia dos e a e e fatos particulares. ca a crian¸a-lobo. ou ainda uma ”religi˜o natural”. David Hume. VEnfant Sauvage (1970). uma moral natural”. imp˜e-se em especial na Inglaterra. Um evento que a o se deu no Ocidente no s´culo XVIII. com Adam Smith o o e.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou. a fim de extrair princ´ ca ıpios gerais. 3 A precocidade e preeminˆncia. Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem a o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza. que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao ao c˜ c˜ 3 pensamento teol´gico. que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza Humana. c˜ 4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo. podem a meu e ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia a c e britˆnica e o atraso da antropologia francesa. caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo). o filme de Fran¸ois Truffaut. a partir du observa¸˜o de fatos. que hoje chamar´ ıamos de leis. Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem c˜ do Aveyron. do empirismo em rela¸˜o ao e e ca pensamento francˆs. Em 1801. antes dele. que. n˜o ocorreu da noite e a para o dia.41 fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”. a *** Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´. poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hua c˜ a manidade. no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem: a a a indu¸ao de que falaremos agora. no s´culo XVIII. de um estudo e de sua existˆncia emp´ e ırica considerada por sua vez como objeto do saber – constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade. Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas o as pesquisas que procurar˜o fundar. mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente a Cf. no pensamento inglˆs. cujo t´ ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tentae tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´ ca e ınio para o estudo de assuntos de moral”. a 1 . 2 Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo o o inteiro menos a Europa ocidental. e o livro de Lucien Malson c que the serviu de base. a e um ”direito natural”. o programa que se tornar´ o da a etnologia cl´ssica. Esse naturalismo. em seu Discurso sobre a c c Origem e os Fundamentos da Desigualdade. podem ser considerados c como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente. Os grupos sociais e ca a e (que come¸am a ser comparados a organismos vivos.

5 Cf sobre isso G. e. N˜o basta mais observar. Chavane. c˜ e e que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o.42 ´ CAP´ ITULO 2. isto ´. entramos. Afora algumas incurs˜es t´ a o ımidas para area das ´ 4 ”inclina¸oes”e dos ”costumes”. Leclerc. e realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”. o c 2) Simultaneamente. o primeiro. E ´ desse desdobramento. ao mesmo tempo. quando se tratava e deste. . em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes. Os relatos dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do e a que uma pesquisa etnogr´fica. *** Finalmente. Cook. ´ preciso proca a e cessar a observa¸ao. o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma e c c a antropologia social e cultural. a quest˜o a e a ´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a e Hist´ria Geral das Viagens. constituindo-se inclusive. ca Ora. que se torna cada vez mais organizada. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado. o objeto de observa¸ao. 1979 4 . O SECULO XVIII: constitutivo da modernidade na qual. a terra. passa-se da coleta dos o e materiais para a cole¸˜o das coletas. a fauna e a flora. Ele a chamar´: a a a etnologia. No s´culo XVIII. La Condamine. o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a atividade epistemol´gica. precursoras das e e o Cf. dar´ a essa atividade um nome. Esp´ e ıritos curiosos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”. Os o viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. do padre Pr´vost (1746). A fim e de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento – c˜ que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –. La P´rouse. de Acosta (1591). examinemos de mais perto o que e a mudou radicalmente desde o s´culo XVI. ´ preciso c˜ a e e 5 interpretar interpreta¸oes. ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo: e e o o viajante: Bougainville. do que o homem em si. ou o question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre a co o estado das mentalidades populares no reino. desse discurso. e instaurando uma ruptura do monop´lio desta (especialmente na Fran¸a). c˜ ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. Maupertuis. tomando como modelo a antropologia f´ ısica. era essencialmente o homem f´ ısico que era tomado em considera¸˜o. a partir dessa ´poca. nessa ´poca era mais c˜ c˜ e o c´u. e 1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. Em c˜ ca 1789.

um d’Alembert. a o a o m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea e a de saber (o homem nos seus aspectos f´ ısicos. 6 . formada e pelos ent˜o chamados ”ide´logos”. que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771 a o em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam o a viajantes!6 Para o primeiro. Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro. e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso. E ´ assim que se constitui. ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja e e e ca esclarecida. moral e pol´ ıtica do que teriam visto. a Barbaria. observando como sabem fazˆ-lo a Turquia. viajando para instruir seus compatriotas. . em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville) ` ”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante. e o As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜ e c˜ Povos Selvagens. pensa Rousseau. ver´ ıamos nascer de seus escritos um mundo novo. um mentiroso e um imbecil aos olhos e dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que. O cientista naturalista deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa. um Buffon. ou homens de igual capacidade. um Diderot. fil´sofos. a respeito dos ´ ındios entre os quais esteve. naturalistas. na sombra de seu gabinete. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador. se ´ essencial observar. o fil´sofo Buffon. s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es o o co tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”. sociais. destinada aos pesquisadores de uma miss˜o a nas ”Terras Austrais”. . deve possuir um certo n´mero de u qualidades. que s˜o moralistas. Suponhamos que e esses novos H´rcules. exemplares. o Egito.´ uma ”ciˆncia de e e e e observa¸˜o”. Diderot (cf. um huguenote que esteve no Brasil. esse texto ´ uma cr´ e ıtica da observa¸ao selvagem do c˜ selvagem. n˜o a tendo observado nada por si pr´prias. de De Gerando (1800) s˜o. filosofam c sem fim sobre o mundo e seus habitantes. um Condillac. que procura orientar o olhar do observador. Que pena. pois a nova ciˆncia o e – qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-. e submetem imperiosamente a natureza a suas imagina¸˜es. que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem simples e rude”. e para apreender corretamente seu objeto. na passagem do s´culo XVIII para o e e s´culo XIX. Rousa o seau. ps´ ıquicos. devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gruca o e pos sociais observados.43 nossas miss˜es cient´ o ıficas contemporˆneas. quanto a isso. Voltaire. o c˜ Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´ a ılico. a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805). 7 Estamos longe de Montaigne. bem como para todos os fil´sofos naturalistas do o s´culo das luzes. isto ´. fizessem a seguir a hist´ria e c a o natural. Pria meira metodologia da viagem. culturais) e quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas. Modos bastante singulares e inconceb´ co ıveis da parte de pessoas que. sujeito que. de volta de suas andan¸as memor´veis.7 Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu.

No final do a ` c˜ s´culo XVIII. coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem. por muito tempo ainda. a a dois motivos essenciais.44 ´ CAP´ ITULO 2. o obst´culo maior ao advento de uma antropologia a cient´ ıfica. formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno dos territ´rios da vida (biologia).9 Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos. miner´logos. o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se dese a tinava diretamente. pessoalmente. sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem. o homem interroga-se: sobre a natureza. Mas neste segundo caso. a e sim dc saberes que. e sim dispersados em cole¸˜es o co particulares. e n˜o poe a a der´ ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois. e ca Notemos finalmente que. a o a ıvel e Mais especificamente. ´ e 8 . e n˜o ser´. mas n˜o h´ biologia e a a ainda (ser´ preciso esperar Cuvier). n˜o pˆde ser realizado. N˜o podia ir mais longe. ıdo 9 A antropologia contemporˆnea me parece. e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram e o a a a sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris. mesmo sendo o abordada. da linguagem (ling¨´ o uıstica). mas sobretudo. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos c a c antes (em Paris. sobre seu discurso a mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp). c˜ c˜ Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo. mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo). enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um o e ca saber positivo e especializado. no Trocadero). se rompem se parcee lam. o conceito da a e unidade e universalidade do homem. ca a o e sim m´dicos. n˜o mais do saber. uma certa e ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”. O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre a ıvel o estudo dos ind´ ıgenas e a ajuda aos indigentes. muito rapidamente (a partir do s´culo XIX). O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos e c˜ fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. que ´ pela primeira vez claramente afire mado. no sentido no qual a entendemos hoje. O pr´prio Gerando. a o e e considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de e e e etnologia geral”) e um assass´ ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com ca um projeto que permanece filos´fico. nessa ´poca. o m´moire de Gerando s´ foi reeditado. est´ ligado. 1) A distin¸ao entre o saber cient´ c˜ ıfico e o saber filos´fico. do trabalho (economia).na e o Fran¸a em 1883. publicado em 1800. muito menos uma a ling¨´ uıstica. zo´logos. a positividade.8 a a Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma oba serva¸˜o sistem´tica. dividida entre uma homenaa gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss. ”observador dos povos selvagens”em 1800. torna-se o ”visitante dos pobres”em 1824. O SECULO XVIII: Por´m. por exemplo. n˜o apenas do homem f´ ca a a ısico. mas tamb´m do homem e social e cultural. Evidentemente. sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ria c˜ ca quezas. ´ porque a ´poca ainda n˜o o pera o e e a mitia. n˜o ´ de forma alguma realizada. ao meu ver. levado em conta.

para esta. liberada da e c˜ o teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal. Paradoxalmente. a . e sim indiv´ ca a e ıduos que pertencem a uma ´poca e e a uma cultura. isto ´. que n˜o pode resignar-se a trabalhar em a o a uma ´rea setorizada. historicista: o evolucionismo. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia a a se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. Estamos na impossie o bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es o co episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. mais marcadamente e ´ o que veremos a seguir. esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan) a e a partir de uma abordagem igualmente e at´. rigorosamente filos´fico. o objeto de o o observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”. E evidentemente problem´tica para o antrop´logo. de sua concep¸ao de uma hist´ria natural. e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da a e antropologia filos´fica. isto ´. De fato. e sim um outro indiv´ o ıduo que pertence ele pr´prio a o uma ´poca e a uma cultura. e 2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico o e e a o desse per´ ıodo. talvez.45 O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece e e ainda muito abstrato.

46 ´ CAP´ ITULO 2. O SECULO XVIII: .

A Europa se vˆ a e confrontada a uma conjuntura in´dita. o essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares a cada vez mais especializadas. realiza e e a o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. t´cnica. Esse s´culo XIX.Cap´ ıtulo 3 O Tempo Dos Pioneiros: os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX e O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um e c e a discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. percebese que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. Seus modos de vida. ling¨´ uıstica. psicol´gica. . suas rela¸oes e c˜ sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. hoje t˜o desacreditado. Mas a a o o primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao. notamo-lo. e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavelc ca e mente obra do s´culo XIX. isto ´. . de instaura¸˜o de redes c˜ e ca entre esses espa¸os. trazendo uma duc˜ pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora: e – resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente ca 47 . Um mundo est´ terminando.. esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilue e e e minado”` luz dos fil´sofos. Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas a e c transforma¸oes. religiosa. em se tratando da nossa sociedade. Ap´s um c o parˆntese no s´culo XVII.) enquanto que. e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. pol´ o o e o ıtica. Dessa vez. ´ a a e ´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto e disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas o e dimens˜es (biol´gica. c˜ a e.um outro est´ nascendo. ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades c˜ e que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao. econˆmica. Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ c˜ c˜ ıtica francesa.

os passos do colono. e Bachofen. Todas essas obras. das formas simples de organiza¸˜o e ca social e de mentalidade que evolu´ ıram para as formas mais complexas das Morgan escreveu. e em . A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido. os primeiros volumes do Ramo de Ouro. o ` ´ E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna.1 o a e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes a obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a sea gunda metade do s´culo. n˜o se trata u a a mais de alguns mission´rios apenas. isto ´. o contexto geopol´ e ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´ e e ıodo da conquista colonial. Fustel de Coulanges. [es Coutumes. em 1885. o ancestral do e e civilizado. e sim de administradores. Tylor. a Africa. Hegel). O TEMPO DOS PIONEIROS: estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas o e a fora da hist´ria e da cultura (de Pauw. assim. tornou-se o primitivo. do a ´ Tratado de Berlim. como veremos. Em 1861.1865. a Nova Zelˆndia passam a ser a a povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das c˜ a a metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo. no s´culo XIX. Uma rede de a informa¸oes se instala. A Cultura Primitiva-. conhecimento do primitivo. la e Relizions. o antrop´logo acompanhando de perto. destinado a reencontr´-lo. que desembocar´ em especial na assinatura. o – mas sobretudo resposta preocupada. Das Mutterrecht. Frazer.48 CAP´ ITULO 3. O Casamento Primitivo. que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o e c˜ a a ´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da e a humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em c rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´ c˜ a e ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´ e a e mais o selvagem do s´culo XVIII. em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res. fica indissociavelmente ligada ao conhecimento da nossa origem. Asa c˜ a sim a antropologia. Morgan. les Superstitions des Peuples 1 . a Austr´lia. em 1864. em 1861. que se expres* sa na nostalgia d´ o antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”. em 1877. Maine publica Ancient Law. a ca Ora. em 1871. isto ´. a ´ e ındia. La Cit´ Antique. MacLennan. A Sociedade Antiga. enquanto que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau). que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias e e e p˜e um fim as soberanias africanas. o ´ Nessa ´poca. em 1890. Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family (1879).

de acordo com as popula¸oes. e a a c e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as). Comte. 1859) e o e que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro. Uma correspondˆncia e e e intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros.0 ue a co O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais elaa c˜ a 2 borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society. o ina e e div´ ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa o antropologia que se qualifica de evolucionista. conv´m procurar determinar cientificamente ca e a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es. publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies. fundador da forma mais radical de evolucionismo e sociol´gico. que se tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos ana e trop´logos do final do s´culo XIX. ´ e a ca a civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´ ca e ıodos. mais a a e ´ especificamente. 3) e ao da religi˜o. Morgan. de Darwin. Haeckel afirma c a c rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese. Parentesco e a religi˜o s˜o. 2) ao estudo do ”parentesco”. Enquanto o e para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que. passando pelas mesmas etapas. as duas grandes areas da antropologia. o o e 0 . c˜ a a co al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria. que e pretende ser cient´ ıfica. nessa ´poca. e Spencer. Disso decorre o e a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de ca c˜ marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos a 3 vest´ ıgios da infˆncia da humanidade a O que ´ tamb´m muito caracter´ e e ıstico dessa antropologia do s´culo XIX. A partir disso. ou seja. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet. ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es e a c˜ co que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´ ıgines australianos.49 nossas sociedades. para alcan¸ar o n´ final que ´ o c˜ c ıvel e´ da ”civiliza¸˜o”. notemos que o primeiro ´ bem anterior ao ca e segundo. barb´rie. as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das soNon-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). ou. em fun¸˜o notadamente do crit´rio tecca e nol´gico o 3 Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´ o ca ıvel das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies. Existe uma esp´cie humana e idˆntica. e Frazer) no s´culo XVIII. bem como na lei de Haeckel. n˜o tˆm hist´ria em e e o a e o sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados. co e 2 Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria. mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como e o nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais.

ˆe Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. sem cria¸˜o de animais. inclusive. escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa. a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos. absolutamente confiantes na racionalidade cient´ ıfica triunfante. a o 5 Frazer era. menos para a compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica. os pesquisadores dessa ´poca proe curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de o filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. Por deslize do pensac˜ mento. 1981-1984). um dos textos de referˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos). 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do o e ˆ complexo de Edipo entre os primitivos. da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o. Mora o e gan. Elkin. n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas a o s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ a ıveis”. sem cerˆmica. e a v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da disa co ca tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos. fr. franc. os mais ”primitivos”e mais ca ”atrasados”do mundo.5 que realiza a melhor s´ ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”e e c ”supersti¸oes”. notamo-lo.. co e vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”. a meu ver. sem a tecelagem. pois ´ l´ que se pode apreender c˜ e a o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes. fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo a e o ca respeito a ”esp´ ıritos superiores” 4 . Feminismo e Antropologia. (trad. s˜o a n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. O TEMPO DOS PIONEIROS: ciedades n˜o ocidentais. c˜ Desde a ´poca de Morgan. elas permanecem ainda. Mas ´ c˜ ca e certamente o Ramo de Ouro. e Tylor deve parte de sua voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. l967). mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores o anteriores. e a extrema complexidade de seus sistemas de parenca tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal. de Frazer (trad.. 1979). Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse o per´ ıodo. Quando Roheim a (trad. em especial Evelyn Reed. por exemplo. j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente. e 3) A ´rea dos mitos. Um papel decisivo inclusive. imagina-se um matriarcado primitivo.50 CAP´ ITULO 3. vivendo na idade da pedra sem metalurgia. os dois n´cleos a u resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos. o a 1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria consa a o titui¸ao da nossa disciplina (cf.4 o c˜ 2) No estudo dos sistemas de parentesco. pois a a a ca perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´ ırito do evolucionismo. franc. id´ia que exerceu tal Influˆncia e e que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. a Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto com os ´ ındios) um papel t˜o decisivo.

compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente. que se o constitui num obst´culo a raz˜o. religi˜o monote´ e c˜ o a ısta.6 Frazer e e o retra¸a o processo universal que conduz. Quanto a seu autor. Ou seja. por etapas sucessivas. e as obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de c˜ e cr´ ıticas: 1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas. em Totem e Tabu. escreve Frazer. Exerceu uma influˆncia a a e e consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pena samento antropol´gico de Freud que. publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que ´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica. Frazer considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza. para c a dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”. ”re` a a a e presenta uma fase anterior. o e o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores ` c˜ c˜ da ´poca: produ¸ao econˆmica. que muito poucos etn´logos – fora Malinowski. da forma como podemos vˆ-lo hoje. ”A magia”. da religi˜o ` ciˆncia. 6 . a primeira ´ a ` a e um impasse total. pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram. propriedade privada. c o a a mas internacional. e depois. retira grande parte de seus mateo riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de a e ca conhecer. da magia c a religi˜o. *** O pensamento evolucionista aparece. e como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos. E e e e quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies. alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica. ou est˜o passando. de Darwin. enquanto para Hegel. Frazer a considera como religi˜o em potencial. o progresso t´cnico e econˆmico da nossa e e e o sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica ca o da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os est´gios. Mas. Como Hegel. da hist´ria do esp´ o ırito humano. Margaret Mead o L´vio e Strauss – conheceram. Essas cren¸as dos povos primitivos a e c permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Tye lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. o ”arca´ a ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da a Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente. ou a melhor. mais grosseira. ´ Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo.51 Nessa obra gigantesca. em rela¸ao aos unicos c a c˜ ´ crit´rios do Ocidente do s´culo XIX. a qual dar´ a a lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o a e a a e c que tinha sido imaginado no tempo da magia.

mas assemelham-se muito. a magia. os evolucionistas consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo. Assim. . analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais. juntando e interprec˜ e tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´tese a o central). enquanto branco. de outro. co n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes. efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pesc˜ quisa atrav´s do campo emp´ e ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas. esmagados sob o peso dos materiais. Assim. ao da etnografia contemporˆnea. moral vitoriana ılia a 2) o pesquisador.) como costumes que serc˜ vem para exemplificar cada est´gio. identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence. . julga-se que ser´ poss´ a ıvel extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade. ılia A antropologia evolucionista. a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a e ca a documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do c˜ a s´culo XIX. o o culto aos antepassados. A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que. a filosofia do s´culo ante` e rior. como veremos mais adiante. O TEMPO DOS PIONEIROS: fam´ monogˆmica. mission´rio que. como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho e a e o .52 CAP´ ITULO 3. procedimento c˜ c˜ absolutamente oposto. a e n˜o dissocia os benef´ a ıcios da t´cnica e os da religi˜o. a exogamia. alguns a (Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes. e Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a c˜ veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese. Livingstone. cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas. na realidade. encontramo-nos frente a reconstitui¸oes conc˜ junturais que tˆm. pelo volume dos fatos relatados. os exemplos o etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o proa u cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas. que procura. a aparˆncia de um corpus e e cient´ ıfico. pode exclamar: ”Viee a mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um c governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”. civilizado. ´ c˜ ca c˜ Isso colocado. a filia¸ao matrilinear. o a c˜ ` evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o coc˜ o a lonialismo. a e. atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos a e ca u em uma unica sociedade. isto ´. . E quando faltam documentos. atrav´s dos a c c e quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´ a c˜ ıvel.

quando realiza um trabalho de coleta direta. e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia a tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal ou tal sociedade. N˜o poder´ a ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra e a (especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi´ a crodisciplina de um eixo tem´tico). Ratzel o abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. empenhada em mostrar as etapas do movimento da humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa o do pensamento sociol´gico). a ıvel c de todas as culturas. eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica a c˜ o Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do e a e qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos e a do que nos outros pa´ ıses). em especial das ”mais long´ ınquas”e das ”mais desconhecidas”. Claro. e Tylor no M´xico. como diz Tylor. sendo que ´ provavelmente o ca e que. do que de estadias tendo c˜ co por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. a julgando que observadores conscienciosos. o a a a Em 1851. a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante. Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada co por ele pr´prio entre os Iroqueses.7 N˜o e a custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o ca aos ”povos atrasados”. sem essa teoria. um singular esp´ e ırito ahist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles. Eles se recusavam a atuar dessa forma. evidenciando assim tamb´m. O que importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia e a e a enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura. ´ a e a tentativa de compreens˜o. No entanto. nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materie o o ais que estuda e. guiados a distˆncia por cientistas a preocupados em criticar fontes. Alguns anos mais tarde. Bastian realiza uma pesquisa o no Congo. Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada cultura irredut´ ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. Tylor desconfia dos modelos de a interpreta¸˜o simples e un´ ca ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de ca ca fun¸˜o ` causa. a antropologia no sentido no qual a praticamos o hoje nunca teria nascido. ca a ca e e pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais e e c de esgotamento. e 7 . 8 s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os a a ıa e antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca. a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o.53 que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista. eram capazes de recolher todos os materiais necess´rios.8 ´ antes no e decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es. De fato.

Frazer. mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais c˜ do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia. Morgan s˜o juristas. Tylor possu´ ıa um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria. em quase o dois metros de estantes. j´ que eles foram a a precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles? a Em suma. Rata e e zel. e. Com ele. Bachofen. o objeto da antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das a c˜ a . o a mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana. dos comportamentos e das cren¸as. mas para chegar a um mesmo n´ ıvel final. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o c e e ıdo fizerem com dogmatismo. como diz Leach (1980). mas como poder´ o ıamos critic´-los por isso. das primeiras cadeiras universit´rias. ou. Durante o s´culo XIX. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o ılia a grandiosa do mando. uma das caracter´ co e o ısticas principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? – a ´ o seu anti-racismo. compae c˜ c rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras a c˜ tanto no espa¸o como no tempo. dos museus como a o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual a a ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos coMuseu do Homem. Bastian ´ m´dico. mas apenas o ue co e resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. as diversas popula¸˜es do globo. sobretudo. Atrav´s dessa atividade extrema. E e ıcil e nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. da ”fam´ humana”. das institui¸oes. o que me parece eminentemente caracter´ ıstico desse per´ ıodo ´ e a intensidade do trabalho que realizou. ge´grafo). quanto do que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. Ele dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia. MacLen-nan. dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. Mas s˜o eles que mostraram pela prico a meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram a de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas. A obra que ele pr´prio produziu estende-se. do parentesco c a ou da religi˜o. assistimos a cria¸ao das sociedades cient´ e ` c˜ ıficas de etnologia. e At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a rie a gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ e ıda. O TEMPO DOS PIONEIROS: (Maine.54 CAP´ ITULO 3.baseada na no¸ao de uma humanidade integrada. esses homens do s´culo passado colocavam e e o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das t´cnicas. trabalhou doze horas por dia durante sessenta anos. como e escreve Morgan. Assim. dentro c˜ da qual concorrem em graus diferentes. da ling¨´ e o uıstica. em contato epistolar permanente com centenas de oba servadores morando nos quatro cantos do mundo. bem como sua imensa curiosidade.

como mostrou Kuhn (1983). ca termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco. conhecimento cient´ a a ıfico poss´ ıvel sem que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”. sobre Engels (1954) 9 . e 1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o o e a a diziam respeito ` Hist´ria. ´ que a antropologia s´ se tornar´ o ca e o a cient´ ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o ca ´ a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. pol´ ıticas. O paradoxo (aparente. ca um papel decisivo. de modelo ore ganizador do saber. o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases totalo c mente diferentes das do idealismo filos´fico. e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento material. e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente. compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o maro a e a xismo. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. isto ´. pois o conhecimento cient´ ıfico se d´ sempre mais por descontinuia dades te´ricas do que por acumula¸˜o).55 liga¸oes entre as rela¸˜es sociais. o 2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais. . a qual. s´ podia ser escrita. cosa a a tumes considerados bizarros. Morgan as reintegra pela primeira vez na humanidade inteira. A novidade radical da sociedade o arcaica ´ dupla. Por essas duas raz˜es. jur´ c˜ co ıdicas. a partir de Morgan. e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”.9 o c˜ N˜o h´. Qualifia o o cando essas sociedades de ”arcaicas”. a liga¸ao entre c˜ esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´ ıstica de um determinado per´ ıodo da hist´ria humana. E o que examinaremos agora. no caso. . e particularmente. para Hegel.

O TEMPO DOS PIONEIROS: .56 CAP´ ITULO 3.

Trata-se. adminisa trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes. O pesquisador comprec˜ ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais a como informadores a serem questionados. como aluno atento. e que esse trabalho o de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa. ou de Junod. recebe. Ele aprende ent˜o. que relatam em 1899 suas e observa¸˜es sobre os abor´ co ıgines australianos. a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo. tendo permanecido na metr´pole. a falar sua l´ ıngua e a pensar nessa l´ ıngua. c˜ e A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do ca a c s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas. que escreve A Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´ o come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador c deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa. de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que co 57 . mission´rio. analisa e o interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes.Cap´ ıtulo 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: Boas e Malinowski Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ade a ministradores) que possu´ ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no c˜ meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington. e o pesc˜ quisador erudito. que. de Spencer e Gillen. e sim como h´spedes que o receo bem e mestres que o ensinam. o co como podemos ver. mas a viver como eles. at´ ent˜o e e a o ` c˜ e a habitualmente divididas entre o observador (viajante. que publica em 1891 uma e obra sobre os melan´sios. n˜o a a apenas a viver entre eles.

Margaret Mead. os Tallensi. Evanso Pritchard estuda os Azand´s (trad.Primeira Guerra Mundial. impregnado a do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de ca um min´sculo arquip´lago melan´sio. o ensina Boas. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador e e a do s´culo XIX. Rivers. totalmente pioneiras. e e 4. a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre. Orientou a partir desse e o momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que. tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das . os e insulares da Nova Guin´. ap´s a . virgem e aberta”. realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do e c˜ mundo inteiro. notamo-lo. as Nupes da Nig´ria. Em 1906 e 1908. Boas a o era antes de tudo um homem de campo. Em 1901. dea ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas. Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha. Suas pesquisas. o outro. a c˜ a polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski. Fortes. A partir da´ as miss˜es de pesquisas u e e ı. dentro dos limites deste Inibalho. a a Alguns anos mais tarde. em uma ”natureza imensa. etc e Como n˜o ´ poss´ a e ıvel examinar. levada. o etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um a c˜ ritmo ininterrupto. Em suma. eram conduzidas de u a um ponto de vista que hoje qualificar´ ıamos de microssociol´gico. No campo. longe de ser visto como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese. franc.58 CAP´ ITULO 4. residindo geralmente fora da sociedade ind´ e ıgena e obtendo informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo c˜ e ´ merece ser repetido. franc. a ´ . Em 1909 e 1910. ”ao vivo”.onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. Esse trabalho de campo. Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o. um dos fundadores da antropologia inglesa. Radcliffe-Brown estuda os habitantes das ilhas Andaman. Nadei. a meu ver os mais importantes. desde os primeic˜ o ros anos do s´culo XX. como o chamamos ainda hoje. como diz Malinowski. a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular ´ e entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica). dois entre eles. 1972) e os Nuer (trad.1 BOAS (1858-1942) Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. a contribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da c˜ c˜ etnologia contemporˆnea. e 1968). iniciadas. estuda os Todas da ´ ındia.

1. e apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. do acesso a l´ e o ` ıngua da cultura na qual trabalha. Apenas o antrop´logo pode elaborar o o uma monografia. Assistimos o a ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta a mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios. Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais c˜ meticulosa. O primeiro a formular com o seus colaboradores (cf. e isso detalhadae o mente. Pela o primeira vez. Morgan e. a a mas tamb´m a necessidade. mas procura detectar a a o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes mae teriais. c˜ a Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´ a ue a e mais poss´ ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”. Boas anuncia ca assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”. Montesquieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das e rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia. Mas a diferen¸a ´ que. na voz dos mais humildes entre eles. Em especial. da ”metr´pole”. As ca primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deria a o vado. e isso muito antes de Griaule. enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido realmente consideradas em si e para si mesmas. 1971) a cr´ ıtica mais radical e mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios. classificam suas atividades mentais e sociais. deve ser levada em considera¸˜o. muito antes dele.1 ele c˜ c˜ a mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto o c˜ particular no qual se inscreve. as diferentes vers˜es de ca o um mito. cada uma dentre elas adquire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. e no detalhe do detalhe. em particular Lowie. isto ´. do qual falaremos mais adiante.4. muito menos a nos que. Claro. da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo. dar conta cientificamente de uma microssociedade. confiam neles. ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia. a maneira pela qual as sociedades tradicionais. Por outro lado. ca e Finalmente. ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento). BOAS (1858-1942) 59 casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s. o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. para o etn´logo. Boas considera. sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”. 1 . estima-se que para compreender o lugar particular ocupado por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas.ia c˜ c e partir de Boas. sociedades ”inferiores”evoluindo para o ”superior”. a a e As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que exa a pressa o patrimˆnio metaf´ o ısico do grupo. ca Por outro lado.

o o Sapir (1967) e Leenhardt (1946). 2 . ou que lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer. ele nunca escreveu nenhum c˜ livro destinado ao p´blico erudito. que retratam os prim´rdios da humanie o dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia. Benedict. e 1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia eta e nogr´fica. Sapir. Foi um dos prie a meiros etn´grafos. a viver com as popula¸oes que estudava a e c˜ Sobre a rela¸˜o da cultura. Finalmente. 2) nunca formulou uma verdadeira teoria. de 1922. Linton. Mead). R. Lowie. e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante ca a ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos do esp´ ırito cient´ ıfico. at´ sua morte. Herskovitz. o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos c˜ o americanos (Kroeber. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´ o e ıngua de seus interlocutores. enquanto professor. a emo¸ao a e c˜ que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos o c˜ a c˜ observados. De qualquer modo. em primeiro lugar. Ele permanece sendo o mestre incontestado da antropologia americana na primeira metade do s´culo XX.2 Pode parecer surpreendente. da l´ ca ıngua e do etn´logo. com ele. em seguida. e. M. a influˆncia de Boas foi consider´vel. isto ´.2 MALINOWSKI (1884-1942) Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica. que Boas. ap´s Boas. Os Argonautas do Pac´ ca ıfico Ocidental. exceto entre os profissionais da antropologia. particular-mente. foi. As c˜ afrescos gigantescos do s´culo XIX. Isso se deve principalmente a duas raz˜es: o 1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos. Nada que anuncie. e os textos que nos deixou s˜o de uma u a concis˜o e de um rigor asc´tico. por exemplo. . a mod´stia e a sobrie edade da maturidade.60 CAP´ ITULO 4. isto ´ o e uma antropologia principalmente – sucedem. levando em conta o que foi dito. em 1942. e 4. seja praticamente desconhecido. t˜o estranho era-lhe o esp´ a ırito de sistema. ano o de publica¸˜o de sua primeira obra. acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio recoc˜ o o lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). cf. .

e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria dia e fusionista. observando-a no a presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem. a qual se transmite e a por empr´stimos). notamo-lo. por uma verdadeira busca de despersonaliza-¸ao. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes e . e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber. do pr´prio Frazer. radicalizou essa compreens˜o por a dentro. Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si e mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem. procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo a europeu. Malinowski considera que uma sociedade deve ser estue dada enquanto uma totalidade. 2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o eso ca peculativa dos est´gios).4. conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro a a livro. o que sentem os homens e as mulheres que pertenc˜ cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. MALINOWSKI (1884-1942) 61 e a recolher seus materiais de seus idiomas. a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente muito simples. no in´ do s´culo. que foi no entanto o mestre de Malinowski. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que a ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ o a ıdo sua obra. Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto. a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que e vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens c˜ da civiliza¸ao. e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O e e e Ramo de Ouro. mostrar que a partir de um unico costume. com um pref´cio. a ocupar o lugar do evolucionismo. segundo ele. aparece o perfil do conjunto de uma sociedade. ıcio e e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura. adota a o uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e cont´ ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. Boas procurava estabelecer repert´rios a e o exaustivos. respondia: ”Deus me livre!”.2. que tende. Enquanto Frazer o procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar a o que ´?”. Medimos o caminho percorrido desde Frazer. e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´ c˜ o ısticas de cada cultura. e em compreender de dentro. Conv´m pelo a ca e contr´rio. na mentalidade dos outros. e ca (Com Malinowski. . Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. e para isso. ou mesmo de um unico ob´ ´ jeto (por exemplo. Murdock. como ele fez e c no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand. embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao o c˜ de O Ramo de Ouro. .) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de c˜ u ıvel vari´veis.

Conv´m em primeiro lugar. fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao c˜ c˜ psicol´gica do pesquisador. e cada cultura tem precisamente u como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamenc˜ ` tais. pol´ c˜ o ıticas. cada uma a seu modo. a 3) A fim de pensar essa coerˆncia interna. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns c˜ e a a vest´ ıgios da humanidade. Ele procura reviver nele pr´prio os seno timentos dos outros. e n˜o primitivos”. notadamente. uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica. que faz com que seja um dos primeiros etn´logos o a interessar-se pelas obras de Freud. quanto a esse aspecto (que o separa radicalmente. autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo) o a o que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas. devendo o ca homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social. que constituem. e co u Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio. para Malinowski. que deve ”compreender e compartilhar os sentio mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: dos Trobriandeses. sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares. tˆm uma signia e fica¸ao e uma coerˆncia. jur´ ıdicas.62 CAP´ ITULO 4. t˜o profundamente diferentes dos nossos. . ou melhor. todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes o a da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa. c o de n˜o dissociar o grupo do indiv´ a ıduo. vai muito al´m da an´lise da e a afetividade de seus interlocutores. 4) Uma outra caracter´ ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´. e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados. educativas. j´ que. para o a ele. de Durkheim). as rela¸oes biol´gicas c˜ o devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que pera o mite pensar as rela¸oes sociais. ´ c˜ E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. E Malinowski. dos comportamentos. localizar a rela¸ao o e c˜ estreita do social e do biol´gico.solu¸˜es originais que permitem atender co a essas necessidades. fornecendo respostas coletivas organizadas. e sim como o seu pr´prio fundamento. . que os homens e a mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de a n´s. o que decorre do ponto anterior. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma grande incompreens˜o da psican´lise a a 3´ . Malinowski elabora uma teoria e (o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ e ıduo sente um certo n´mero de necessidades. uma sociedade funcionando como um organismo. do psicol´gico e e c˜ o do biol´gico. Al´m c˜ o e disso. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas. o Hoje. como veremos. inclui o ese tudo das motiva¸oes psicol´gicas. o estudo dos sonhos e c˜ o 3 dos desejos do indiv´ ıduo.). e. e ao nosso ver.

Em rela¸˜o a esta. Malinowski inverte essa rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou.2. ligadas ao car´ter sistem´tico de sua o a a rea¸ao ao evolucionismo. 50-51 deste livro os coment´rios de a Malinowski. e com seus benef´ c˜ ıcios. ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida – ´ uma teoria de uma extrema rigidez. Malinowski. isto ´. pois o que fez a partir dos anos 20 ´ a e e essencial). em grande parte. visando a a naturalmente a um equil´ ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as e c˜ ` necessidades dos homens. o estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis cic˜ a a ent´ ıficas da sociedade”. considerada como ”a e ca civiliza¸ao”tout court. pp. situa¸ao essa. Al´m disso. no in´ do s´culo. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´ ca ıodo da conquista colonial. Essa compreens˜o naturalista e marcadamente otia mista de uma totalidade cultural integrada. baseando-se no modelo do finalismo biol´gico. pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a e a c˜ a ı todas as necessidades. relativamente afastado dos contatos inıcio e terculturais –. e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm ` ca a sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. Assim sendo. para o descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. toc˜ c˜ c˜ talmente ocultada. Nesta perspectiva. com a ”civiliza¸˜o industrial”. defronta-se com duas grandes dificuldades: como explicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia c cultural? A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago o e u e que permanece. c˜ 1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a o e sua sociedade. que postula que toda sociedade ´ t˜o boa quanto pode ser. uma busca c˜ o c˜ de identifica¸˜o) com a alteridade. esse funcionalismo ”cient´ e ıfico”n˜o tem a rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20. e e as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos. ao meu ver. a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim c˜ a a do lado da sociedade ocidental (cf. que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem). n˜o mais considerada como forma social ca a anterior a civiliza¸˜o. pelo menos. que contribuiu.4. ca 2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´ ıfica moderna (o que. n˜o ´ totalmente falso. os costumes ca dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. MALINOWSKI (1884-1942) *** 63 O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavelo mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive o quando era vivo) se deve a duas raz˜es. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo a o .

ele inventa literalmente e ´ o prie c˜ e e meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra. que n˜o tem mais nada a ver a com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”. pois ıvel ` a o nos permite encontrar os significados pol´ ıticos. irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas. as regulamenta¸oes a ` c˜ que definem sua posse. 2) Em Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. as canoas trobriandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que a ca as fabrica e utiliza. outras. O fato e de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade c˜ de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´ o c o ıngua pode parecer banal hoje. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo. c˜ *** Apesar disso. al´m das cr´ e ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em proo vocar. a . trabalha com a mesma abordagem. Assim. Malinowski mostra que estamos frente a um processo de troca generalizado. efetuando em sentidos contr´rios percursos invari´veis. ao ritual m´gico que as consagra. e toca em muitos outros aspectos que n˜o a agricultura. Algumas transportando de ilha em ilha colares de conchas vermelhas. cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes c˜ o c˜ respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. longe de ser uma pesquisa especializada sobre um fenˆmeno agronˆmico dado. dando-nos o exemplo do o a c˜ que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. a 1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos ´ outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia.64 CAP´ ITULO 4. m´gicos. curiosidade ex´tica. o segundo grande livro de Malinowski. mostra que a agricultura dos Trobriandeses o o inscreve-se na totalidade social desse povo. Deu-nos o exemplo c daquilo que devia ser uma pesquisa de campo. religiosos. Os Jardins de Coral. etc. passando necessariamente de novo a a por seu local de origem. tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel. o social deixa de ser aned´tico. e a muito menos na Fran¸a. Malinowski nos ensinou a olhar. descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o o o ca ca exaustiva erudita. Esse ”estudo dos m´todos agr´ e ıcolas e dos ritos agr´rios a nas ilhas Trobriand”. pulseiras de conchas brancas. c o ´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos e a c˜ u e insignificantes. Pois. pela primeira vez. est´ticos a e do grupo inteiro. para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es.

como mostrou Devereux (1980). n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es c˜ a a co reguladoras da vida de atores anˆnimos. de L´vi Strauss.4. escreve Firth. e que anuncia as e mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos. . podendo. consultar o trabalho de Michel Panoff. E um livro escrito num estilo magn´ ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que. essa exigˆncia de conduzir e um projeto cient´ ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ a ıstica chama-se etnologia. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar. a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e c ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto. mas a o a escrever. a o e A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o a e u c ca e sofistica¸ao dos protocolos. e. viveu e na Inglaterra. O homem c˜ nunca desaparece em proveito do sistema. MALINOWSKI (1884-1942) 65 3) Finalmente. o mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o e o que fazem”. e c˜ e Mesmo quando estuda institui¸oes. restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. como ele. Quanto ` ´ a isso. ir c˜ at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar. sentido. conjuntamente. ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o poo e a deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade e de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam ca e ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais. ”pode ser surdo. 4 Sobre a obra de Malinowski. ouvido. um jurista pode ser cego. Ora. Seja em Os Argonautas ou’ Os o Jardins de Coral. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad. ”Um historiador”. Os Argonautas me parece exemplar. 1972.2. publicado com fotografias tiradas a partir de 1914 por seu autor. um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego. Ora. da ese c˜ pecificidade da nossa disciplina. abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia a 4 audiovisual.

OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: .66 CAP´ ITULO 4.

o mesmo ano que Boas. nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. nascido em 1858. fundaram a etnografia. Mas o primeiro. a parte a o te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente. Durkheim. ela exige. A antropologia precisava ainda elaborar a instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto ´ cient´ ıfico. que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”. e ` Se existe uma autonomia do social. E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores franceses dessa ´poca. conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o e a a ue desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma a a a alguma etn´logos de campo. isto ´. recolhendo com a precis˜o de um naa turalista os fatos no campo. independentes tanto da exo ca e plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo). Quanto ao segundo. e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss. a a Ora. de conceitos e modelos que ca o sejam pr´prios da investiga¸˜o do social. o o o de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico a o e os instrumentos que lhe faltavam ainda. a constitui¸˜o de um quadro te´rico. e mais ainda c˜ 67 . n˜o era um te´rico. como acabamos de ver. mostrou em suas primeiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia. quanto da c˜ o a explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psic˜ o o cologia cl´ssica e a psican´lise principiante).Cap´ ıtulo 5 Os Primeiros Te´ricos Da o Antropologia: Durkheim e Mauss Boas e Malinowski. para alcan¸ar sua elabora¸ao c c˜ cient´ ıfica. o que h´ o e a de mais contest´vel em sua obra.

´ 68 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pree o o cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo a o a a a ”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em c c˜ a movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida e Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas e a importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da soe a ca ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas. o Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e ca e que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos e u e o sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na a e sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir e e c seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser buso cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”. a e Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem a e a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social e o a c˜ o (sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o da a a rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente c˜ a estudando os estados afetivos dos indiv´ ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma e psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmeno e o coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam, a c˜ sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior, c e a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte. o a Essa irredutibilidade do social aos indiv´ ıduos (que ´ a pedra-de-toque de quale quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os o ue fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a a o outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua autonomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado e o ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas. o co o a o o . . da ´poca. e Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto e a o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas a o e novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das e o ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente, e e das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia e e consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e a o evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa disc ıs ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia. a

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Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respectio e c˜ o vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito c˜ a pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o o a de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o ese o tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica e ` e o que hoje qualificar´ ıamos de pluridisciplinar. Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades o ”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou ˆ antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar incansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa. e a Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o a a inverso,. Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social o total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico, c˜ o o jur´ ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada realio e dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente e o c dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´gos e o se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos soo ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fia e siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de o o nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda, e a a afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma o e e o forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as o e e o condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particularo mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica. o o o o Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, coe mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos e distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´ o e ıduos”. Devemos, escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos a em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmeno ´ o social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser ` e apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de e unico: ´

´ 70 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal e a e ca e ou tal ilha”. N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o a c ca ca se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia a e e e individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social. e e ca Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆo e e lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro e e ´ como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal e como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como o e os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento ´ ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um oba o jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando e o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que a c˜ caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o o e e observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele c mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto e oe ıvel e quanto ele, sujeito. Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim, ` a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferena c˜ tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia o o durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo o a a ´ ponto merece alguns coment´rios. a Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em a 1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da oua o tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´o o grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo a ıda antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes o a ca circuitos mar´ ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e e e pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de e esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vic˜ e a sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a o e c a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da e comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura troca a o a briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski, o evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom a o j´ expressa preocupa¸oes estruturais. a c˜

influenciados por ele.´vi-Strauss. em Georges Devereux. fundador da etnografia francesa. e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas. ou mesmo voca¸oes diversas. ´ pr´prio de toda obra c˜ u c˜ e o importante. procuraram promover a especificidade e a unidade das ciˆncias do homem. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar o c bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos. Muitos a mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em e Marciel Griaule. em Claude I. e . fundador da etnopsiquiatria) o consideram como seu pr´prio mestre.71 O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras. especialmente para toa dos os que. e pai do estruturalismo. de suscitar interpreta¸oes m´ltiplas.

´ 72 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: .

Parte II As Principais Tendˆncias Do e Pensamento Antropol´gico o Contemporˆneo a 73 .

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. antropologia o dos sistemas de parentesco. e tamb´m porque o e nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propriaa c a mente contemporˆneos. hist´ria. A antropologia n˜o apenas tende a progredir a por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia. antropologia pol´ ıtica. especializando-se e instaurando c o a at´ subespecialidades. antropologia econˆmica. consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜o ıcio a ca e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. (poca c˜ ` o dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto).1 Campos De Investiga¸˜o ca A primeira via.Cap´ ıtulo 6 Introdu¸˜o: ca Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas. . mais modestamente. N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama coma a pleto desse per´ ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986). – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social o e – Durkheim e Mauss –. sociologia. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras. ca 1 75 . que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser o c expostas no in´ desse livro.. . antropologia industrial. o e e 6. Malinowski. t˜o grande ´ a e a e diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado. antropologia art´ ıstica. . Rivers. podemos considerar que a antropologia entrou em sua maturidade. c ca mas avan¸a. dentro de sua pr´pria pr´tica. O desenvolvimento do pensamento cient´ ıfico implica uma diferen cia¸ao cresc˜ cente dos campos do saber. em abrir a algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que pero mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dos e a antrop´logos de nossa ´poca. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contema porˆneos.1 e Especialidades: antropologia das tecnologias. antropologia religiosa. antropologia da comunica¸˜o. antropologia urbana. Contentar-nos-emos. psicologia. .

muito menos uma area a ´ geogr´fica ou um per´ a ıodo da hist´ria. Ou seja. a arte. etnomedicina. conduzido mais a partir da observa¸ao c˜ dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes. pelo contr´rio. c˜ visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais.76 CAP´ ITULO 6. Limitura o a nos-emos a trˆs: a antropologia americana. a britˆnica h francesa. o parentesco. 6.). Disso decorre a ca Subespecialidades: etnoling¨´ uıstica. ´ porque consideramos que uma disciplina o a e cient´ ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos e a emp´ ıricos j´ constitu´ a ıdos. de definir uma disciplina (qualquer que seja). esse per´ ´ ıodo em objeto cient´ ıfico. essa area. consistiria em mostrar o c que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence. bem como das produ¸oes culturais caracter´ c˜ ısticas de uma etnia ou na¸˜o. e a A antropologia americana: Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolua cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan. de que s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada. etnomusicologia. n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dado a e c˜ (a tecnologia. mas. . a religi˜o. como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. pode ser caracterizada da o seguinte maneira: 1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas. o a a a . pela constitui¸ao de objetos a c˜ formais. . Mostraree a mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profundamente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e a a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. a unica coisa pass´ ´ ıvel. as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam co as sociedades entre si.2 Determina¸oes Culturais c˜ Uma segunda via. que apenas esbo¸aremos aqui. e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao a o a a ”Ocidente”. o ` a o As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o c˜ o ca o a eminentemente diversificadas. Esse estudo. INTRODUCAO: ¸˜ Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ ıvel de exposi¸˜o do campo ca antropol´gico contemporˆneo. etnopsiquiatria. a nosso ver. e sim a especificidade da abordagem o utilizada que transforma esse campo.

em sec˜ e guida. independentemente de seu passado. o que a op˜e a antropologia amee o ` ricana. Dedica-se preferencialmente a inves` tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski). mas tamb´m entre as pr´prias1 e o culturas: forjou. a abordagem evolucionista sob a forma do a que ´ hoje chamado neo-evolucionismo e A antropologia britˆnica: a Seu crescimento. em especial. ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Inglaa c terra. estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em si. reatualizou e renovou ao mesmo tempo. deve ser e a relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial. em contrapartida. e. c˜ c˜ aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra. uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu a passado. 4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es o ` a co hist´ricas especulativas. em seus deo senvolvimentos contemporˆneos. o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos c˜ mais adiante. que se constituiu desde Malinowski e em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hica a o co pot´ticas dos est´gios. Para a maioria dos pesquisadores ingleses. nem pelo que empresta a seus vizinhos. indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”. Pode ser caracterizada da ` a e seguinte maneira: 1) ´ uma antropologia antievolucionista. mas.2. . tal como se apresenta no momento no qual a observamos. 2) ´ uma antropologia antidifusionista. das rela¸oes da etnologia com a psicologia a c˜ ou a psican´lise: a 2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de ina tera¸ao entre os indiv´ c˜ ıduos e sua cultura. como nos Estados Unidos. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico. 3) nunca foi confrontada. ´ o ındia e portorriquenha). aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao. a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos a elementos de uma cultura para outra. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ 77 importˆncia. o enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos que constituem uma determinada sociedade: a monografia. nos Estados Unidos. tamb´m muito r´pido.6. bem e a a como a abordagem da historiografia).

mais ainda que Malinowski. e 4) finalmente. e vˆ a abordagem de um e e L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista. tratava-se da antropologia f´ ısica. Leach. INTRODUCAO: ¸˜ 3) ´ uma antropologia de campo. a partir ca de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos a antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo o o ca a dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo o ıs. Esse o a a car´ter emp´ a ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade. privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detric˜ mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´ ıduos. nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines. um dos pais fundadores de quem a maioe ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora. Hoje ainda. que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a ra¸a. com Malinowski e. ´ uma antropologia social que. antes. nesses dois pa´ a ıses. administradores utilizavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades. com Radcliffe-Brown. um antrop´logo que pode ser considee o rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha. que era ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca. Nenhum pesquisador francˆs teve. 1853) era francˆs.2 Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. c o a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem. Enquanto que um a a a ıcio e campo emp´ ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos o a ıa como na Gr´-Bretanha.78 CAP´ ITULO 6. n˜o hesita em a a qualificar-se de ”empirista”. e at´ de ”materialista”. a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano). c e e e Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´ e a ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a e o c (em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas ca a e a e ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard) e ıs 2 . c˜ ´ Quando se falava de antropologia. e e nessa ´poca. que se desenvolve muito rapidamente. o ıcio e qual ´. do pensamento francˆs. ao contr´rio da antropologia e a americana. e que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ada o a Notemos que Gobineau. que pua blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia. A antropologia francesa: A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e culc a tural da segunda metade do s´culo XIX. a e partir do in´ do s´culo. Quatrefages ou Topinard. enquanto. e e e As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area.

Lembrea mos apenas aqui alguns aspectos relevantes: • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem parco o o ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica ` a da antropologia anglo-saxˆnica. enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os a da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca. A partir da mesma ´poca. a antropologia francesa entrou em sua maturidade. c˜ o o o sem d´vida.6.3 o 79 Mais uma vez. mission´rio da Su´ca romanche a ı¸ 3 . Nem a a a a Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia inglesa). nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. Entre os pioneiros desse africanismo e francˆs principiante. nunca realizou uma investiga¸ao no campo. que s˜o e e a administradores coloniais eruditos. as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspecco a tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que. as pesquisas foram prosseguindo. exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´ u a e ca ıfica da etnologia. Labouret. A partir desse momento. • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es” ca e co Clozel e Delafosse estudaram no in´ ıcio do s´culo o sistema jur´ e ıdico das popula¸˜es co do Sud˜o. com o impulso especialmente dos o homens que acabamos de citar. O pr´prio Mauss. estendendo o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto. principalmente em algumas frases. Publicou notadaı mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). Monteil. e que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio o a protestante. freq¨entemente mais emp´ o u ırica. manual de investiga¸ao e c˜ etnogr´fica (1967). Seria dif´ ıcil. e sobretudo ]unod. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. e c˜ o que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra. Maurice Leenhardt. caracterizar os desenvolvimentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa. empreendeu trabalhos (1946. conv´m lembrar os noves de Tauxier. e s´ a partir dela. a c˜ Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia proa fissional comece a se constituir na Fran¸a. mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica.2. mas c˜ ıs. 1985) que podem ser qualificados de pioneiros. diretor da Revue a d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924). pode-se considerar que. cuja riqueza a n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ ministradores de colˆnias francesas. A primeira miss˜o de car´ter c a a cient´ ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e a seus colaboradores em 1931.

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜ (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral), a c˜ termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interese a sava pelo que chamava de ”mentalidades”; • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente: ca o

1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante e e mais ilustre), 2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da o c˜ etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa, o em suas diversidades e muta¸oes. c˜

6.3

Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento o o Antropol´gico Contemporˆneo o a

´ Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente a c˜ optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse lie a vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao ca c˜ 4 cient´ ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem a o o freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de u a vista diferentes sobre a mesma realidade. Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da ana tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (tera o rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a o a o antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das co tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos e a e de investiga¸ao. c˜ A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver, a nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o o a de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos a u o o
As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de invesco o c tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um ca a ca quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim e
4

´ ´ ´ ˆ 6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE a uma imaturidade cient´ ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa discia plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a u antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio a e a para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver a ´ pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se a cr´ ıticas rec´ ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K. ca Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva o sobre o social e n˜o o pr´prio social. a o Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´ e o o ıram, a partir do s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia e e do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a e c˜ co ca filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, lie o teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault: c˜ • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fie co c˜ siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das o c˜ normas reguladoras dessas fun¸oes; c˜ • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes e c˜ sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses conflitos; • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos, e bem como do sistema que constitui sua coerˆncia. e A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus proa o longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromotoo ` res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A e a c˜ ”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de a o o co poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´ ´ a c uıstico, as ` disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como e ca a objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais. a c˜ O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras e e as Coisas, ´: e 1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o a ca as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes; ` co a c˜ 2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra, ca

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apao receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir e dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do c˜ sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss). e Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu c˜ nome pessoal, ´ que: e 1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um e a a unico modo de acesso sem correr o risco do esp´ ´ ırito de ortodoxia. E efetivamente, no per´ ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos, e veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios moa dos de acesso. 2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de inconsa o a ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´ a ıtico, mas do qual este n˜o tem a evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas, o a regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do e saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesquisas etnol´gicas de car´ter emp´ o a ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜o ca de seu objeto cient´ ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por e assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores soca ciais quanto das observadoras do social. Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco ıvel p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente. o 1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que chao e a mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam e u c˜ em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria e o c˜ a do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como veremos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito. c˜ e Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que enconc˜ tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos? e o

Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ ca o ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50 Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974. e

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de quem falaremos adie ante. mais exatamente. c ıvel c) A antropologia estrutural e sistˆmica. a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura. que se situa do lado da fun¸ao ou. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve ca ca tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso. os mais numerosos. com autores de quem est˜o. e entre as pr´prias o culturas. Mas a e e . ´ uma antropologia freq¨entee u mente emp´ ırica. a emo¸˜o. Foucault). o conhecimento. e c˜ os que chamamos ”aculturalistas”. no que diz a respeito ao essencial.3. no caso c de L´vi-Strauss. privilegiam a des-continuidade. escolhem um modelo ling¨´ uıstico. as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a o a a um tronco comum. E um eixo c˜ c˜ co de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar. e para a e co Devereux uma ”universalidade da cultura”). c˜ em detrimento da norma e do sistema. a partir da qual podem ser estudados o pensamento. a linguagem. Uns utilizam um modelo a o psicanal´ ıtico. expressar-se. a conhecer. mais ainda. e a o mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE 2) A antropologia social. esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou. isto ´ a coerˆncia e e interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura. Bateson). Seu objeto situa-se claramente no campo epistemol´gico oriundo da economia (cf. ´ o de fun¸ao o ıcio e c˜ (Malinowski. como vimos. de outro. Estudaremos aqui n˜o s´ uma. h´ uma permanˆncia das fun¸˜es. outros um modelo proveniente do que Foucault designa como o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora. e mais para a organiza¸ao interna dos c˜ grupos. Mas o que permite essencialmente caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou e e e descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado. matem´tico. Um dos conceitos opeo o o rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou. privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade. ou ling¨´ uıstico (Sapir.´ ´ ´ ˆ 6. os culturalistas mais uma vez. outros finalmente. para Malinowski. e qual ´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global? e ıvel c˜ 3) A antropologia cultural. 1967). biol´gico. ca b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade u o da cultura (para Morgan. freq¨entemente ligado ao estudo dos e u ´ processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). como Evans-Pritchard ou Devereux. sobretudo a respeito disso. do sentido. psicol´gico o o (Kardiner. muito afastados. a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss. mas tamb´m Durkheim). 1970). Seja o modelo utilizado. as regras o explicativas da troca). acima M. sentir. Nada distingue o realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo. cibern´tico (L´vi-Strauss. em si.

Mas esta deve doravante ser pensada. que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. a Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa. em rela¸ao ao anterior. e os a mitos ”insignificantes”. o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. do conflito c˜ para a regra (Mauss). 53 deste livro). tanto nas formas elementares e complexas do parentesco. E e ´. Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa a antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6 o a chama de campo sociol´gico. Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a seo a a e guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´ a ırito que atuam. existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva e de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. do sentido para o sistema (L´vi-Strauss).84 CAP´ ITULO 6. ` c˜ op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. isto ´. e que procura estudar as rela¸oes de poder. . n˜o ´ mais poss´ pensar que a a e ıvel os doentes mentais s˜o ”loucos”. o alteridade sempre a c˜ corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritorialic dade: ao lado. Invers˜o de perspectiva o a a neste caso. da regra (e n˜o mais do a c˜ a conflito). ”absurda”. e o o ´ as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional. de L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o e sentido). na obra de arte?. quando a atividade epistemol´gica come¸a a o a o c situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao). Saussure. mas ao n´ do sistema a ıvel co ıvel (inconsciente). n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas. ´ porque. a ”mentalidade primitiva”. Para a ete a e nologia de L´vy-Bruhl (1933). INTRODUCAO: ¸˜ qualquer que seja o modelo adotado. para a psicologia e pr´-freudiana. ent˜o. Para Griaule. fora. como na antropologia estrutural. a o e com ele. e Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao. do sentido e o o o o do n˜o-sentido. quanto no mito. p. finalmente (1966). a o a Na antropo logia psicanal´ ıtica. estima-se que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das e co o produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´ c˜ ıvel ırico existe o que Bastian j´ chaa mava de ”unidade ps´ ıquica da humanidade”. O que desmorona. ele realiza uma passagem do consciente para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim). 5) A antropologia dinˆmica. o c˜ . Assim. de fato. ´ a pertinˆncia dos pares a e e antinˆ-micos do normal e do patol´gico. mas que se inscreve no mesmo horizonte c˜ epistemol´gico. do sistema (e n˜o mais do sentido). e depois Jakobson (a l´ ıngua explicativa da palavra). . o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente o pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do conse ciente). para sempre diferente. Ao contr´rio. do l´gico e do il´gico.

ou at´ as discuss˜es. Mas. Uma o das caracter´ ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX. a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas. da segunda metade do s´culo XX. esta situa-se. 1973). consiste. A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo opee rante (ou modelo epistemol´gico principal. do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. por exemplo. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem a a e a e coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento. pelo contr´rio. constitutivo da abordagem adoo tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo a instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os debac˜ tes. Considerando agora a obra de L´vie Strauss. Por isso. exerceu uma influˆncia evidente (cf. 7 . ou mesmo de um unico ´ 7 pesquisador. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963). no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o ca superou finalmente a particularidade das culturas. a antropologia cultural e a antropologia funcional (Malinowski). OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das co a a da sociologia. Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. 1970) sobre os e culturalistas americanos. se a examinarmos do ponto de vista. ao mesmo tempo a hist´ricos (sociedao des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse) o ca a e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). mas e o a tamb´m dentro de uma mesma disciplina. e ´ afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia a e ca e (1967-1970).dos objetos preferencialmente estudados (os mitos). operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos. A incompreens˜o entre os pesquie a sadores pode se tornar total.3. por exemplo. em reorientar a antropologia social.´ ´ ´ ˆ 6. Mas seu projeto o diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no a e o e Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao e e e quarto eixo de pesquisa definido acima. Em compensa¸˜o. se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de a e que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas. que constituem divero sas perspectivas poss´ ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ ırico. entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica a (Godelier. conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que a e a ´ seria a hist´ria. o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da c o antropologia cultural. Assim. o e o as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema soo a e a cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es? a co Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contemo porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo.. Existem portanto afinidades entre. Para esses auc˜ tores. Kardiner. a meu e ver. ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma ca e ıcil antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de ca ca orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ ca a ıtica (Devereux). co e e mais especificamente. por exemplo.

”aproxio a mado”. isto ´. Malinowski). e u a nunca esquecer que se trata somente de modelos. c´digos e programas). psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos o o ca de inibi¸ao. por exemplo. Conv´m. hist´ricos (Morgan). ling¨´ o uısticos ou. segundo a express˜o de Bachelard. INTRODUCAO: ¸˜ Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo` a e delos em antro pologia. biol´gicos (Spencer. o Comte. ”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es e ` co de mensagens. em termos cient´ ıficos. se quic˜ a c˜ e sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos. mas n˜o podem subsiitu´ a ı-lo. s´ pode ser. como se diz hoje. . pois este. Estes podem ser. de instrumentos da e pesquisa que visam explicar o real.86 CAP´ ITULO 6. repress˜o e sublima¸ao para pensar o social).

primeiro da mitologia dos Dogons. a partir dos anos 30. art´ o ısticos. . da religi˜o dos Bambaras. . Griaule (1938. leva Mareei Griaule e seus colaboc˜ e radores a efetuar estudos sistem´ticos. c a Para o conjunto dos etn´logos. em suma. e para Griaule em especial. mas tamb´m a pr´tica etnol´gica a e e a o dos pesquisadores franceses. cient´ ıficos) existentes num grupo (o que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que hoje qualificamos de ”etnociˆncias”). Toda uma corrente a de pesquisas aparece na Fran¸a. prov´rbios. m´scaras e outros objetos culturais. lendas. co o c˜ contos. religiosos. n˜o apenas o africanismo francˆs. Deixando de lado. da m´sica. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradouraa a mente. 1963). de que trataremos no pr´ximo o cap´ ıtulo).Cap´ ıtulo 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica preo cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos. . Griaule e G. estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo ca das produ¸˜es simb´licas (artesanato). Paulme. a literatura de tradi¸ao oral (mitos. 1 87 . particularmente representativa dessas preoc cupa¸oes: ´ a que. G. por assim dizer. cosmol´gicos. M. D. a compreens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma a c˜ sociedade (assunto da antropologia social. dos e o u cantos. Dielerlcn (1951. que o o o s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. D Zahan (1960. dan¸as. o estudo da l´gica dos o saberes (filos´ficos.) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas e e produ¸oes se constituem (particularmente as l´ c˜ ınguas). bambara. 1962). Dieterlen (1965). e a depois.. de tudo que Griaule e seus e sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon. Calame-Griaule (1965). teol´gicos. . tal como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais. G. 1966). 1972). por exemplo. etc. M. esse pensamento o Cf.

da religi˜o e da magia aparece a ca a como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. M. escreve: ”loucuras. n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia o a e – os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os e mortos. e que far˜o em esa pecial. S˜o elabora¸oes grandiosas. por exemplo e Durkheim (1979). ´ e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”. Thomas e R. das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons). Mauss (1960). Van Gennep (1981). se aceitarmos finalmente compreendˆ-las de dentro. a natureza e a cultura. pelo contr´rio. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o o a patrimˆnio do grupo. Cf. M. A. os abor´ ıgines australianos e os trobriandeses. e a . 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que e c˜ se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade. dos ritos de inicia¸˜o. G. de Heusch (1971). e L. fundadoras da ordem c´smica e social. [. v˜os esfor¸os. op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao o a c˜ pela economia. recolhendo o e mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados. Ou de L´vy-. de fora. . Aug´ e (1982). que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social. por exemplo. M.. V. um dos mais importantes lugares da antropologia. e ap´s os ´ o ındios.Bruhl. 2 . c Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui e o dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julgaco mentos. que anota em seus Carnets: os c e mitos s˜o ”est´rias estranhas. o homem e o animal. Favrct-Saada (1977). de uma complexidade e riqueza inestim´veis. para n˜o dizer absurdas e incompreens´ a o a ıveis”. L´vi-Strauss (1964). por exemplo. a c˜ a E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos. M´traux e (1958). S˜o a a o a elas que devem ser tomadas como fundamentais. que. Luneau (1975). Rouch (1960). m´scaras. ıvel a categorias caracteristicamente ocidentais.) que acabam impondo-se ao observador ocidental. De Frazer.´ 88 CAP´ ITULO 7. c˜ As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologicaa o a a e mente. impregnando-nos de sua sabedoria. Mas como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de muie co a tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. co O interesse para a ´rea dos mitos. J. Leiris (1958). pois s˜o. Durand (1975). ıcio Tempels. a interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no ena tanto dedicado sua vida. tempo perdido. Bastide (1958). L. Percebe-se ent˜o que o conjunto a do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf. A. ritos. Da mesma forma. C. . . a c esperan¸as frustradas”. Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ o a ıveis”. R. e n˜o projetando.

. Em Do Kamo. Esse protesto para o direito ` existˆncia e e a e de identidades culturais e espirituais (o que Senghor. econˆmicas da sociedade em um o determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias. existem outras formas de c˜ e conhecimento tamb´m autˆnticas. ela efetua a reconstitui¸ao dos c˜ sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”. como diz o Althusser. ca Cr´ ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a aprea e ender as representa¸oes (religiosas. pol´ e c˜ ıticas. por exemplo. As rela¸˜es que estes o co mantˆm com as rela¸oes sociais. de sua no¸˜o de espa¸o. de palavra. ”ser movidas a ideologia”. art´ c˜ ısticas. Assim sendo. a Pessoa e o Mito no Mundo o Melan´sio (1985). apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas canae ques. n˜o deixa de haver a um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ u ıram em dar a etnologia francesa seu prest´ ` ıgio. narrativas. Leenhardt considera que o mito ´ e fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”. atrav´s do pensamento dos insulares. de personagem”. e ca c de sociedade. . se n˜o existe nenhuma teoria griauliana e a propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque ele nos parece o mais representativo dessa abordagem). chamar´ a de ”metaf´ ısica negra”). Finalmente. negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com a a descoberta de ”arte negra”. o discurso etnol´gico ` o tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar conta de si pr´pria. N˜o se pensa um s´ instante. Mas ser´ que essa abordagem que se e a limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inicic˜ a ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica? c˜ o O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se e e e a num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o c˜ a a s˜o as nossas. por a a a o exemplo. de tempo. ´ profundamente subversivo na primeira mee tade do s´culo XX. quando o a a n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas. Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao: o c˜ de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos a c˜ ` a ocidentalocˆntricos sobre o primitivo. na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam. deixando de a c˜ oa se interessar pelo que acontece ”na adega”.89 Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mauo rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo. Mostra que.) como uma ´rea a ”` parte”. a e . um trabalho consider´vel sem o qual a a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje. o unico a beneficiar de ´ uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX. com Grio aule) na Nova Caledˆnia. fora o saber cient´ a ıfico.

A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS .´ 90 CAP´ ITULO 7.

pelos deo posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes. . ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas. se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mico tologia. c˜ Malinowski. . por sua vez. n˜o deixam de lembrar os princ´ a ıpios da antropologia simb´lica. O a a que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. um dos primeiros. o como acabamos de ver. O antrop´logo o ´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade. mas tamb´m dissimulam.) permanece. ou. Essa alteridade da qual a procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ ıtulo anterior). e As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre co o a co 91 . Assim. Esta insistia. magia. A e o antropologia social. que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos co sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ o a ırito dos ind´ ıgenas”. na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. e tamb´m e o valor inestim´vel.Cap´ ıtulo 8 A Antropologia Social: Os princ´ ıpios da antropologia social. tal como se elabora especialmente na Inglaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968). a 1979). Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. Perguntamo-nos a agora: o que mostram. mais precisamente. A antropologia e a simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo o a que era dito pelos pr´prios fatores sociais. esses discursos suntuosos e que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em seu ideal? Assim. a e t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em uma a e c˜ o mesma cultura. a ılia. pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade. e sobretudo da religi˜o (Durkheim. pede que se substitua o estudo da sociedade como sistema de rela¸˜es reais. ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao a e c˜ que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. religi˜o. c a c˜ o car´ter integrativo da fam´ da moral.

estreitamente vinculada ao que acabamos de dizer. esse autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes. entre grupos sexuais. merece ser sublinhada: um certo n´mero de u autores. Cf. E. pelo menos imediatamente. as rela¸oes entre faixas de idade. particularmente na constitui¸ao de uma ana c˜ tropologia social da religi˜o. Rogei Bastide (1970). os trabalhos de R. mas essas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse. diametralmente oposto ao de Mauss. e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968). por sua vez. Este ultimo termo. A antropologia social n˜o ´ profundamente a e ´ diferente da sociologia. Evans-Pritchard (1969). G.92 CAP´ ITULO 8. vai co ´ exercer um papel consider´vel. mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando a c˜ ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e a ca totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o. todos esc˜ tes n´ ıveis de realidade. ca ca 1 . N˜o devem ser estudadas em si-. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especificao mente `s sociedades primitivas”. mas enquanto a a representa¸˜es do social. os pensamentos e sentimentos do r´u. as cr´ ıticas formuladas por M. muito representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. a Para ilustrar seu ponto de vista. testemunhas. (1972) ou de M. Evans-Pritchard. Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem a e do pol´ ıtico”. para o per´ c ıodo contemporˆneo. Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o a a (da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”. tamb´m.. A ANTROPOLOGIA SOCIAL: decorrem de pr´ticas sociais. E uma ”sociologia comparativa”. Louis-Vincent Thomas (1975)). mais recentemente. assim como podem variar a a idade. sublinha-se e c˜ que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincua e o a lada a uma outra coisa. (1969) escreve: ”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos ´ sociol´gicos. Douglas (1971). de uma op¸˜o poss´ a ca ıvel inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. Cf. em uma persa a e pectiva sensivelmente diferente.1 e e a Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa. a ou ainda na Fran¸a. a Henri Desroche (1973). de a c˜ c˜ parentesco. e. Aug´ (1979) quanto ` e a no¸˜o de ”representa¸˜o”. do j´ri e u e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento. consagrado por Durkheim. recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antroe a ca pologia social e a sociologia. ainda nessa perspectiva (durkheimiana). jurados. advogados e r´u: e ”No decorrer desse processo. a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas. para co a a Estamos apenas dando conta. Brad-bury e col. Georges Balandier (1974). capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao. a partir do exemplo da religi˜o. considera Radcliffe-Brown.

e notadamente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural. para muitos autores americanos (cf. ı As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica. que examinaremos a a agora. o extremamente proveitosas. em especial Lowie. podem ser formuladas nos seguintes termos: ”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra. e. se efetuarem independentemente suas respectivas pesquisas. e a o Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”.93 o antrop´logo. c˜ o o prossegue Evans-Pritchard. Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto ino a div´duos”. a antropologia social n˜o faz parte da antropologia. 1971). nesse caso. mas se inscreve a no prolongamento da sociologia francesa. A tal ponto que. .

A ANTROPOLOGIA SOCIAL: .94 CAP´ ITULO 8.

De um c lado. uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble o (1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa discia o plina. totalmente indepeno dente da sociologia. regi˜o. A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social. bem como suas produ¸˜es originais (artesanais. religiosas. coloca o que ´ uma constante e da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e ` a o ca ` a psican´lise. mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ a e a e ıstica dessa atitude americana. parece-me importante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura.) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo ca e conjunto (etnia. . J´ de in´ e a ıcio. a Para compreender a especificidade dessa abordagem.Cap´ ıtulo 9 A Antropologia Cultural: A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a c e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente americana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. e co co c˜ ca de domina¸˜o.). freq¨entemente quau lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”. . art´ co ısticas. a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma. quanto de suas id´ias. a ` Quanto a isso. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresentados. de explora¸˜o. na¸˜o. dedica-se uma aten¸ao muito grande menos c˜ ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prios co o indiv´ ıduos. O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao. De outro.) e para com outros conjuntos. . . a e o mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que aprea sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo. que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem. . A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo e 95 . tamb´m a ca e hierarquizados. .

Indo at´ mais adiante. pelo que se sabe. a nosso ver. e at´ da sociedade celular. trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos come portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas maneiras espec´ ıficas. saberes e sabere fazer caracter´ ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada. da divis˜o hierarquizada do trabaa lho. repetimo-lo. o que se compara no prica e a meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais. no e c˜ segundo. n˜o ´ de forma alguma a transe a e miss˜o das informa¸oes. sendo que. Al´m disso. de pensar. se distrair. dos grupos sexuais. s˜o animadas por um objetivo e uma a ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa.96 CAP´ ITULO 9. enquanto homens e mulheres de uma determinada cultura. . se os animais s˜o capazes de muitas coisas. ´ estritamente humana. mas. . sendo essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem. E a raz˜o pela qual. define-o melhor. um dos mestres da antropologia americana. apenas a no¸˜o ca e cultura.). levantou mais de 50. Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos. a especializa¸ao hier´rquica a c˜ a c˜ a das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais. e . Assim. celular).1 Mas. c ´ E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura. a morte). A ANTROPOLOGIA CULTURAL: campo de investiga¸˜o. a doen¸a. e examinemos mais adiante o a 1 Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social. mas dentro de uma a unica c´lula!). que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso e a prop´sito. nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo a ´ de anivers´rio. existem sociedades animais c at´ formas de socie abilidade animal. se pode haver uma sociologia animal a a (e at´. o que distingue a sociedade humana da sociedade animal. e por elabora¸˜o ca das atividades rituais aferentes a estes. Da mesma a e forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e a e uma linguagem nos animais. que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicas c˜ o ou comunit´rias. e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se ´ e c˜ d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´ a e a ımbolos. a antropologia ´ por sua vez especificamente e e humana. Fechemos aqui esse parˆntese. Pois. trabalhar. existe o que hoje n˜o se hesita mais em e a chamar de sociologia celular. bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao a c˜ c˜ das faixas de idade. o nascimento. pelo contr´rio. utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos) ca e e a de acesso a este objeto. ao contr´rio da de sociedade. de encontrar. e transe mitidas ao conjunto de seus membros. ıcil ca o Kroeber. reagir frente aos acontecimentos (por exemplo. Finalmente. a divis˜o do trabalho. Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que.

como uma das areas da antropologia na qual o ´ a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica. a partir dos anos 30. ca a 3) Finalmente. esse campo de pesquisa. considerada como uma totalidade irredut´ a outra. que est˜o. como veremos. 1927: Margaret Mead Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia e ca a cultural est´ longe de ser negligenci´vel. isto ´. encontra v´rias a preocupa¸oes comuns aos psic´logos. intera¸ao e ˆ a c˜ acultura¸ao. utilizados pela primeira c˜ vez em etnologia por Cora du Bois). e ca particularmente sob o angulo dos processos de contato. para o per´ a a ıodo contemporˆneo. Atenta as descontinuidades (temporais. os testes projetivos. salienta a originalidade de tudo que devemos ` sociea dade ` qual pertencemos. 1972) e a que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa. bem como suas t´cnicas u e de investiga¸ao (por exemplo. mas modela a o comportamento dos indiv´ ıduos. pelo indiv´ ca a ıduo. 1965. Assim. difus˜o. Erny (1972). designado pela express˜o ”cultura e personalidade”. extremamente desenvolvido a nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha. sem que estes o percebam). mas ıvel ` ` sobretudo espaciais). c o Deter-nos-emos em trˆs deles. de uma cultura.97 os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural. a 2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comportac˜ mentos dos indiv´ ıduos. c a imp˜e-se. Citemos notadamente. Rabain (1979) e lembremos a a influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950. sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa. os trabalhos de Ortigues (1966). Procurando compreender a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o. J. *** Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em u sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. 2 . estreitamente ligae a dos entre si. 1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos seres humanos pertencendo a uma mesma cultura. tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o c˜ meio no qual nascem e crescem estes indiv´ ıduos. psicanalistas e psiquiatras. de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por c˜ e c˜ c˜ outra. Utiliza porc˜ o tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes. a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o.

enquanto a a os homens v˜o para a ro¸a. e n˜o nos passaria pela cabe¸a a c ´ descansar. s˜o as mulheres que a c a cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as. . 2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural. 1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de ca nossas atividades. Nas a sociedades do Oeste africano. como alguns na Asia. solo. Como essa corrente de pesquisa. dificilmente suportam a maciez de um colch˜o. Nas sociedades nas quais os homens dormem diretamente no. as mulheres se dedicam ` cerˆmica. Inversamente. multiplicaremos os exemplos. este ultimo coment´rio deve a porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem. certamente a obra mais caracter´ c˜ ıstica do culturalismo americano. na qual os homens se dedicam aos filhos. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: publica Corning of Age in Samoa. O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-. 1944: e c˜ ca Cora du Bois. n˜o considerar como universal o que ´ relativo. ao penetrar numa igreja. . e os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u.3 Essa compreens˜o a e a da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia ıvel e cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos ıvel c comportamentos. c e Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria. ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura. a O que mostram essas diferentes obras. o Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. 1934: Amostras de Civiliza¸ao. Inversamente. Assim. enquanto as mulheres v˜o pescar. um livro que foi um marco. 1939: Kardiner. 1950: Roheim. 1945: Linton. em uma mesquita. observamos que os fi´is tiram e o chap´u e permanecem com os sapatos. Asc˜ c sim como na sociedade Chaumbuli. de Ruth Benedict.98 CAP´ ITULO 9. apoiando-nos em uma s´ perna. quando. ıvel qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. O Povo de Alor. que desenvolve a id´ia de que a cultura c˜ e ´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer. na ilha de Alor. As Bases da Antropologia Cultural. que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ ıvel. Psican´lise e Antropologia. Origem e Fun¸ao da Cultura. sempre baseadas em numerosas observa¸˜es. Os Fundamentos Culturais da Personalidade: 1949: Herskovitz. Na Europa. a maneira com que descansamos. 3 . em 1935. sentimos dificuldade em dormir – a como me aconteceu no Brasil – em uma rede. a Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ ıcios religiosos. co e e a ` a ou seja. 1943: Roheim. que ser´ retomado em H´bitos e Sexualia a dade na Oceania.

De um lado. mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. na idade da puberdade. os quais. tender˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latinoa a ´ americanas. Na Melan´sia. c A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas. Finalmente. fiquei pessoala mente impressionado. Aqui c˜ c˜ est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado. durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa ıs u do Marfim). com o convite que me era sistematicamente feito o de uma refei¸ao preparada em minha homenagem. assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na c a e Europa. meninos a e e meninas s˜o. iniciados nas t´cnicas amorosas por a e monitores experimentados. por exemplo. As trocas e a de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas a a nos pa´ ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. Imp˜e-se pelo contr´rio. reservavam-me um presente muito inesperado para um ocidental. Assim. os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes. em um cˆmodo e separadamente de meus hospee o deiros. as formas de comportamento sexual detiveram particularmente a aten¸ao dos observadores. acec˜ nar a cabe¸a e sorrir. uma a c casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. poc ` dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comportae mentos mais cotidianos. como h´spede. sentados no terra¸o a c de um bar ou passeando na rua. isto ´. Elwin. sul-americanas e sula europ´ias. a Diferen¸as significativas. o a o a como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades media terrˆneas e sul-americanas. sob pena de sentir um certo mal-estar. enquanto os Muria da ´ ındia (cf. a .99 As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversie dade podendo. mas que devia ser consuc˜ mida isoladamente. por outro lado. mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. consistir na invers˜o pura e simples a daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. decorrentes da cultura a qual pertencemos. como no exemplo acima. Por outro lado. Assim. 1959) institucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer. Esses mesmos interlocutores. olhar fixamente a e algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜o e e o a de amea¸a e agressividade. e e a ca enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias. nas sociedades ´rabes. n˜o apenas de a a uma civiliza¸ao para outra. a educa¸ao sexual ´ eminentemente c˜ c˜ e vari´vel de uma sociedade para outra. desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o. que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa. ir˜o manter um certo espa¸o entre si na a c ´ Europa do Norte ou na Asia.

e inversamente. s´ deseja paz e o e serenidade. o que os ca a o folcloristas. O que ´ ent˜o considerado e a como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ ıduo violento). ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da co Nova Guin´. a dos violentos Mundugumor. a maneira de se vestir. Na mesma ´tica. . quando tinham aceito o beijo. Ruth Benedict (1950) op˜e o o .O. As inglesas ficavam. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: Durante a ultima guerra mundial. ` Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos e povos das sociedades ”tradicionais”. russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins. . enquanto que. chocadas ´ que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente. portanto. Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nosu o sas rela¸oes interculturais. considera que uma. era a ue a ultima etapa antes do ato sexual. enquanto a outra. Assim. para as inglesas. Georges Sand. aparecer´. tentou evidenciar a pree ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade. as inglesas achavam que os americanos comportavam-se como marginais. Os a c˜ co GIs consideravam as inglesas mulheres levianas. c˜ 2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de a comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para a outra (como a alimenta¸ao. . mas tamb´m os escritores (Chateaubriand. Margaret Mead (1969). cognitivas e afetivas constitutivas e da pr´pria personalidade. ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa a seguinte. soldados americanos estavam mobiliza´ dos na Gr˜-Bretanha. que a antropologia americana deve a sua fama. como perfeitamente normal. Cada um dos grupos reagia normalmente. c˜ a mas tamb´m nas estruturas perceptivas. e estes n˜o ena a a tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante a quanto um beijo na boca.) e chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica. a dos doces e ternos Arapesh. os jogos. a qualificados precisamente de ”jardins a francesa”. o h´bitat.100 CAP´ ITULO 9. que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de nae co moro. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨entaa u vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. o receio dos franceses frente ` natureza a que deve ser domesticada pela raz˜o. ou ainda. A antropologia cultural foi assim levada a retoo mar. mas a norma era diferente de uma cultura para outra: para os americanos. isto ´ conforme ao a e ideal do grupo. n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias. entre os segundos. ´ comandada e por uma agressividade propriamente canibal. receio que se expressa tanto no car´ter a a ”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagantes que os contos escandinavos. sob pena de c˜ um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de vergonha e culpa extremo. o beijo.

este povo de feiticeiros (R. ` ca co as institui¸˜es educativas: fam´ co ılias. quem ca e propˆs a cr´ o ıtica mais radical desta. foi Georges Devereux (1970). sobretudo na a o Fran¸a onde o m´ c ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e a c ` c˜ ` pr´pria personalidade do pesquisador. Al´m disso. em especial. ritos de inicia¸ao) pretendem – c˜ inconscientemente – fazer com que os indiv´ ıduos se conformem aos valores pr´prios de cada cultura. entre estes. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias. indiv´ ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o. O que u c˜ co o caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico. 4 . Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco cultural”. n˜o deixar˜o de aparecer como margia a nais. Cada cultura realiza uma escolha. Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie. em detrimento da investiga¸˜o das normas. mas cultue ca a o ral). freq¨entemente severas. sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. colocando-se no cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia. Toda cultura persegue um objetivo. das co ca regras e dos sistemas. Privat. Ed. pp. o Cr´ ıticas. uma e ca l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e o c˜ na dos comportamentos. ´ manifesto. todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo n´mero de preocupa¸oes. As institui¸˜es (e. Trae a ca balhando com uma abordagem muito emp´ ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes. e detestem brigar. A partir de exemplos desse tipo. Fortune. nenhum a ca gosto pelo roubo. 1974. 1973. Ed. escolas. do que a constru¸ao rigorosa de um o ` c˜ objeto cient´ ıfico. Encoraja um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem u e censurados. desenvolve uma concep¸˜o do e ca Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie. em detria ca e mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente). 46-50) e a sublinhar que. 1972). desconhecido dos indiv´ ıduos. Se houver.4 u a que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos. de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais nos referimos acima). 33-36. e pp. tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos huc˜ manos a tipos. mas a culo e tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como conformistas) na sociedade pueblo. Universitaires. em uma sociedade.101 a sociedade ”apoloniana”dos ´ ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e e ` c˜ rivalidade ”dionis´ ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da e ilha de Dobu. n˜o faltaram aos cul-turalismo americano. e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que e ue s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que. a meu ver. Valoriza um determinado segmento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. dos ca c˜ conflitos e das significa¸˜es.

102 CAP´ ITULO 9. levando-se em ’conta essas cr´ a ıticas. levando-se em conta. variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no a pr´ximo cap´ o ıtulo. c˜ a . Isso n˜o impede que. particularmente a obra de Ruth Benedict). A ANTROPOLOGIA CULTURAL: relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o a passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade co a da cultura. represente a uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina. pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ ´ c˜ e e freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos u ıs. materiais recolhidos. a antropologia cultural. o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos ame e u bicioso do que geralmente se diz (cf. tamb´m. pela importˆncia dos problemas colocados.

a relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social). e sim constru´ a e ıdo: o do sistema. com o c˜ impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto. mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas c˜ de troca. a cultura ´ a c˜ e concebida como uma esp´cie de mosaico. aparentemente bastante distantes a entre si: • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao. E nessas condi¸oes. em um n´ ıvel que n˜o ´ mais dado. Na perspece tiva na qual nos situaremos agora. S˜o entidades parcea ` c c a ladas. frutos de uma pr´tica parceladora. reuniremos nesse cap´ ıtulo um certo mimero de tendˆncias do e pensamento e da pr´tica antropologica. integrando notadamente tudo o que. ´ e e um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a. mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. e Isso colocado.Cap´ ıtulo 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e Para a antropologia cultural. um traje de Arlequim. estuda as diferentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens. a tratadas. caracterizada por um conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador. procuraremos explicar e co a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser compreendido como produ¸˜es do esp´ co ırito humano. no encontro. ou melhor. n˜o a partir dos ca a interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si. e o o al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais. que se elaboram sem que estes tenham consciˆncia disso. que. as culturas s˜o apreendidas.’e muito co menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultuo e o ral. se d´ ao a 103 . Ou seja. cada cultura particular.

as maa tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas. cujo fundador ´ Georges Devereux. L´vi-Strauss. a neurofisiologia. Devereux. ´ claro. o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´ o c˜ e observado. particularmente. Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo a u n´mero de op¸oes. diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da ane c tropologia contemporˆnea. das ferramentas.ˆ 104CAP´ ITULO 10. particularmente. a ling¨´ a e a uıstica). Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de um modo de conhecimento para outro. procurando compreender ao mesmo a tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psia e u a col´gica e psicopatol´gica da cultura. recorre a esse modelo nascido e . Ora. e. u c˜ 1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos epistea mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou. da etnologia: a presen¸a e c de um observador (no caso. longe de ser uma fonte de erros a ser neutrac˜ lizada. o primeiro. ca c˜ mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´ e ısica quˆntica ´ mais verdadeiro a e ainda no das ciˆncias humanas e. Bateson. • a enopsiquiatria. at´ ent˜o n˜o ca e a a utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas. de volta de Bali. das m´ ıvel a c˜ ımicas. e que ´ uma e e pr´tica claramente pluridisciplinar. da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia. percebe que c˜ a os princ´ ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo ca da comunica¸˜o humana. assim como a quest˜o da validade da a transferˆncia dos modelos. mas que eu considero a a pessoalmente como mais atual do que nunca. e a co e Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da e elabora¸ao da pilotagem autom´tica. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes. e da posturas. e essa perturba¸ao. ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar. do qual muitos gostam hoje de e dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado. a ca e pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica). o o • o estruturalismo francˆs. e Partindo do ”princ´ ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar e ıvel ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron. *** Existem. dos gestos. a psican´lise. quase tanto quanto Bateson. finalmente. mais precisao ˆ e mente.

o estudo dos mitos. refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita e ` a e sem autor. na execu¸ao da qual cada um dos c˜ m´sicos est´ envolvido. e o interacionismo e americano. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama ` ca e uma ”ciˆncia da comunica¸ao”. ´ claro. Disso decorre a met´fora da orquestra participando a o a da execu¸ao de uma partitura ”invis´ c˜ ıvel”. em particular francˆs. isto ´. esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira tec˜ ´ a ` legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um a ´ destinat´rio. L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann. das palavras. cuja l´gica ´ irredut´ a e o e ıvel a soma de seus elementos. e que conv´m analisar. Desde a sua Introdu¸ao ` c˜ u o c˜ a Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo e francˆs. diferen¸as muito importane c tes entre o estruturalismo europeu. e 2) A partir dos anos 50. procurando come preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o ca o c˜ . um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orquestral da comunica¸ao”. express˜es do rosto por m´ o ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens freq¨entemente involunt´rias. Ora. na realidade. pontuado por gestos. tratando-se simplesmente o a de recolhˆ-los. ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias humaa e nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´ o ınico quanto pelo etn´logo s˜o o a fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto. toda cultura ´ uma moe c˜ ´ e dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres. mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes a c˜ c˜ cont´ ınua e n˜o aleat´ria. Para este ultimo. dos bens). na parte mais recente de sua obra. o Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”. e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Ete e nopsiquiatria Geral). expressando o pr´prio inconsciente da sociedade. a e relutando at´. todo comportamento humano (do vozerio mais a intenso ao mutismo absoluto. tanto na Europa quanto c nos Estados Unidos. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa u a o corrente insistem sobre o fato de que ( imposs´ ıvel n˜o comunicar. ` Lembremos mais uma vez que existem.105 da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. a tarefa do pesquisador ´ precisamente a u a e de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto verbal quanto n˜o verbal. frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´ e c˜ uıstica. m´ ımicas. a cultura. c˜ regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. come¸a a desenvolver-se. posturas. e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao e o c˜ c˜ particular com atores particulares. E quando o autor da a a Antropologia Estrutural realiza.

que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia co e e ´ antes uma psicologia e 1 . isto ´. ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de e e Essa problem´tica. colocam-se aqu´m de todo e indiv´ ıduo e de toda sociedade”. e a e Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio ´ e o amago de sua sociedade”. de pluridisciplinaridade entre a abordagem etnol´gica e psicol´gica). as primeiras. como se diz nos Estados e Unidos. Em seguida. O autor estuda os diferentes ` tipos poss´ ıveis de rela¸oes dos indiv´ c˜ ıduos para com a sociedade e. o que e e interessa Bateson. mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux. situada no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. mas estrutura que se expressa sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ o ıduos e dos grupos”. A o e partir da cultura dos latmul da Nova Guin´. da demografia –. de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudie a ano. A Cerimˆnia do Naven (1936) o parece-me particularmente revelador. e sobretudo. mais especificamente. Ou seja. visando ”apreender uma realidade imanente ao homem. O exemplo da primeira obra de Bateson.ˆ 106CAP´ ITULO 10. que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das a e e e preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss. menos no que as palavras expressam do que no que escondem. mas al´m dessa cultura. por seu car´ter inovador no campo da antropoloa gia anglo-saxˆnica da ´poca. produzindo constantemente aspectos in´ditos. o sentido do que fazem os homens deve ser procurado menos no que dizem do que no que encobrem. 4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreveo se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou. cuja tendˆncia ´. de forma o o a e alguma. como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da ˆ e e economia. a maneira da antropologia cultural. ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural. especialmente. freq¨entemente. e cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras sociedaa a des. Ora. Em primeiro lugar. caracterizada notadamente pela monografia. devido a sila exigˆncia ` e de pluridisciplinaridade (e. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: ”observador”e o ”observado”. 3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hue o e e c˜ mana. ”estrutura inata do esp´ e e ırito humano”. tanto para o estruturalismo quanto e para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da anae tropologia sistˆmica americana.1 mas que n˜o ´ concebida. da sociologia. das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais. Isto ´. do direito. inconsciente estrutural e e para L´vi-Strauss. emp´ e e e u ırica como nos Estados Unidos). as rea¸oes dos indiv´ c˜ ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´ ` co ıduos.

”esse capital comum”(L´vi-Strauss) e ` e que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como coe letivas. e atrav´s de um instrumento unico. e ´ e n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos. E se a abordagem da etnopsiquiatria em co rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´ c˜ a e e ıtica. e 1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia. que ´ nee ´ e . como no ”id”da psican´lise. de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976). a antropologia como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade: a o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da ıdo e c˜ problem´tica do inconsciente. como pelo projeto freudiano. a sou atravessado por estruturas que me preexistem. por isso. como escreve L´vic e Strauss. preocupado em n˜o deixar escapar nada na a investiga¸˜o do social. 5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abordagens s˜o abordagens da totalidade. Assim. Rompendo com a tagarelice do sujeito. a qual se vˆ descena a ` e e trada pelo projeto estrutural. sou falado. ca o e mas tamb´m qualquer forma de historicismo. ”essa crian¸a mimada da filosofia”. O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia. que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”. enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementaria e dade. a 2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo. as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´ c˜ uıstica. Para este ultimo. Para L´vi-Strauss como para Bateson.107 que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas a sem referˆncia a ”cultura”(Devereux). refrat´rias a qualquer atitude reducia a onista. e n˜o sint´tica. e. fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente c˜ tomados como separados. sou agido. ´ claro. e emia nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva c˜ quanto intercultural. Ou seja. A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. A metoc˜ dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia. eu sou pensado. as e ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. Por todas essas raz˜es. inventivo de modelos que conv´m qualificar ca e de ”complexos”. e um ”pensamento dos conjuntos”. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse a pensamento. Essa e a ca abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais. isto ´. considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social. a antropologia assim cono siderada ´. a c˜ o e sim ”correla¸˜es funcionais”. isto ´.

conv´m colocar-se ao n´ c˜ a e ıvel n˜o mais da a palavra e sim da l´ ıngua. que considera os elementos independentemente da totalidade. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: cessariamente gen´tico. a qual n˜o tem a c a como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la. monogamia. o objeto cient´ ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o. sororato. o parentesco ´ uma linguagem. voltaremos a isso. explicar ´ procurar uma anterioridade. uni˜o livre. ate´ ısmo. o c˜ 3) Ruptura com o atomismo. e sim do sistema que ignoram. atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza. a *** Assim. ´ prec e ciso primeiro repudiar o vivido”. da hist´ria consciente a o ´ do que fazem os homens. muito menos ao n´ dos sentimentos ıvel . um n´mero u limitado de invariantes. da e a percep¸ao espontˆnea. de um comportamento. a primeira vista. levirato. as rela¸oes dos hoa c˜ mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero u de op¸˜es poss´ co ıveis: o monote´ ısmo. Da mesma forma. o filho. n˜o mais. . o pensamento estrutural nos mostra que a extraa ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´ a co ıricas s´ se torna intelig´ a partir do o ıvel momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de esu trutura¸oes poss´ c˜ ıveis dos materiais culturais que encontramos. O modelo do estruturalismo sendo ling¨´ uıstico. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pac˜ c recem. ` a uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto e c˜ que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes. casamento por rapto. de um relato. Mais precisamente. Para este. . . Ora. a 4) Ruptura. estas c˜ s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura. Para isso. . tentar e e e ` an´lise dos processos em tercompreender o presente atrav´s do passado. op˜e-se a inteligibilidade estrutural. E toda a diferen¸a c entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. polite´ ısmo. Para L´vi-Strauss. mante´ ısmo. agnosticismo. inteligibilidade ca o combinat´ria de uma institui¸ao. poligamia. diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos. o sentido de um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras o c˜ ` da l´ ıngua ou do que for an´logo a esta. isto ´. Ou e o seja. o tio materno e a ıvel em uma sociedade matrilinear. e e e Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de L´vi-Strauss. praticamente infinitas. N˜o se pode compree e a endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai. Mas oscilam sempre entre alguns grupos: comunismo sexual. A a e mos de explica¸˜o causai. finalmente. abrindo uma compree a o ens˜o nova da sociedade. ”Para alcan¸ar o real.).ˆ 108CAP´ ITULO 10. com o empirismo.

a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ noo ca e a vos resultados. a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que e exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´ c˜ a ıveis: • ao n´ ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco). compelidos tamb´m a a a e pelas regras.2 c˜ • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. ca ”Em um caleidosc´pio. permitem e a compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutua ral. regidas por regras de troca an´logas ıvel co a as leis sint´ticas da l´ ` a ıngua. al´m da contingˆncia dos materiais e e programados. e se d´ independentemente ca a da vontade de cada um. Mais precisamente. j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria a a e o e da civiliza¸˜o. a linguagem ou a economia. ao n´ de e ıvel um inconsciente estrutural. Fm segundo lugar. de bens (economia). informa¸oes que se comunicam. palavras e bens sendo termos que se trocam. fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”. a que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo. mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza dos parceiros 2 . de palavras e (ling¨´ uıstica). Quando se estuda o parentesco. S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio: a o ”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o. ”s˜o tratadas como signos dos quais se o e a abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos. mas que co a cada sociedade. E sabe-se bem que. estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma ´ fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca). cada reparti¸˜o das cartas resulta de ca ca uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores. como cada jogador. jogadores diferentes a ca n˜o fornecer˜o a mesma partida. ao sentar ` mesa. isto ´. que ´ a pr´pria cultura emergindo da c˜ c˜ e o natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto ´ a nada.109 ´ que podem animar os diferentes membros da fam´ ılia. com a mesma distribui¸˜o. mulheres. E preciso colocar-se no n´ das rela¸˜es entre estes termos. escreve L´vi-Strauss. que. Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra. ou regras de uma t´tica. a a e E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele e o a – nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es a co ”As pr´prias mulheres”. diferentes dc uma sociedade para outra. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas. Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a a c˜ c e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o a ca da ling¨´ uıstica). e a a cartas que n˜o inventou. embora n˜o possam. que ´ de serem comunicados”. reorganiza incessantemente estes mesmos materiais. interpreta nos termos dc v´rios sistemas.

e L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ precie a a a samente dar conta dela – nem a hist´ria. as maneie ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura para outra. podem ser qualificados o de invariantes. Ao comentar o pensamento a de L´vi-Strauss. c Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como e ”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ouco tra”. qualquer posi¸ao do jogo pode ser c˜ compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e e a a do jogo de xadrez. 2) as diferentes estrutura¸oes poss´ c˜ ıveis destes materiais (isto ´. isto ´. ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado. ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos. no xadrez. o pr´prio dea ` c˜ o senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para o a de girar. de um lado desconfia de um o ”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”. sobre o que percebe. Ora. pois e a a u s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem a e as atividades inconscientes do esp´ ırito”. como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio. um olhar que conv´m o e qualificar de est´tico. e u e que. a e mais ainda as regras das partidas jog´veis. com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo. E. estendendo e e e no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo. .ˆ 110CAP´ ITULO 10. de outro. a ıvel e o Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma vere o a dade. considera que para compreender o movimento das sociedades ´ e preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria. Mas. Ou seja. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo c s˜o praticamente nulas. compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais. no e o caso do autor de Tristes Tr´picos. a hist´ria ´ um jogo no qual o o e a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas e a que acabaram de ser jogadas. da explora¸ao e a u c˜ restrita das possibilidades te´ricas”.” a Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois a textos: 1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos. 3) finalmente. pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado.

enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades e que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas.111 L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades ocie a dentais ´ hoje desastroso. a .

ˆ 112CAP´ ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: .

em proveito do estudo dos processos de mudan¸a. mas tamb´m de L´vi-Strauss. de fato. por sua vez. e sobre a unidade de cada uma delas. ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e integradas. com o impulso particularmente ca da an´lise estrutural. os ritos) e de estruturas formais (a espeu cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s o e das l´ ınguas). notadamente atrav´s de o e sua reivindica¸ao antietnocentrista. que pode ser encontrada dentro dos quatro p´los de pesquisa que. Diferente. para maior clareza.Cap´ ıtulo 11 A Antropologia Dinˆmica: a A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das culc turas umas em rela¸ao `s outras. acabamos de distinguir. cultural) e que conhecem. A antropologia estrutural. todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir o dos anos 30 (a antropologia social. quanto as rela¸˜es ` co que mantˆm necessariamente as sociedades entre si. est˜o animadas por uma abordagem claramente antia a 113 . ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o. o a Pr´ximo. a e c˜ a ca do seu ponto de vista conservadora. uma renova¸˜o durante os anos 50. O ultimo p´lo u ´ o do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece a o como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica. ligados tanto ao c dinamismo interno que ´ caracter´ e ıstico de toda sociedade. para o muitas. Pratio camente. e O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia e que qualificamos aqui de dinˆmica. simb´lica. c˜ e e de sociedades (”primitivas”. uma perspectiva muito pr´xima da anc˜ o terior. porque opera uma ruptura total com a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim. A c˜ a antropologia que qualificamos de simb´lica abre. porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ o c˜ ıveis do social dentro de uma determinada cultura. mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero u de conte´dos materiais (os mitos. uma identidade formal (um inconsciente universal) informando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. como acabamos de ver. faz aparecer.

toda . E dissocia-se. nas quais. essa preoa c˜ e cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade. Mas ent˜o. pois estaria cm si ainda puro de qualquer esc´ria da modernidade. Essa separa¸ao artificial de um objeto que ca c˜ poderia ser apreendido em estado puro. o c˜ por isso mesmo. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo a e passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina. e fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais. como uma oculta¸˜o da realidade. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: evolucionista. e de um contexto (os grandes acontecimentos o mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio. A partir de u o a uma cr´ ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo. o c˜ pegando apenas um exemplo. o a c˜ dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades o ocidentais. somos ca c levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar a –um pouco como nesses filmes magn´ ıficos sobre os ´ ındios da Amazˆnia ou o os abor´ ıgines da Austr´lia. estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam preservar uma arte de viver). s´ ´ poss´ porque se e o oe ıvel consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro o te´rico que funciona. c c˜ Ora. e ignorassem tudo das contradi¸oes. um n´cleo considerado essencial. em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e a tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens. passando por Griaule e Margaret Mead). existissem dentro de um c˜ quadro econˆmico e geogr´fico mundial. chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. unico objeto da ”ciˆncia”(a u ´ e integridade.114 ˆ CAP´ ITULO 11. e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao. tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferenu cial. c˜ o No entanto. ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo e o e XX. em muitos aspectos. devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica. ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que e e o um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. menos em realizar ele pr´prio uma c˜ o o obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de arte (de Malinowski a L´vi-Strauss. fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos. o ca Pois as sociedades emp´ ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado a o e e n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis. ”pr´ximas do grau zero de temperao e o tura hist´rica”. como diz L´vi-Strauss. ficticiamente ara a a rancadas da hist´ria. as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram o o h´ muito tempo o edif´ a ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar o em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais. Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas como im´veis ou. e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias ca e da rea¸˜o com o colonialismo).

a fam´ ılia. se tornar um dos pontos e o centrais da an´lise do social.) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a preferirem a terminologia de ”sociologia”.1 Esse neo-evolucionismo.115 sua abordagem consiste. por exemplo. a religi˜o) estreitamente imbricadas.. particularmente forte nos Estados Unidos. a ´rea ´ a Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia. durante os ultimos 25 anos. sobre e a e ca a a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo. conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social. de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966). Seria conveniente. o uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan. tal tendˆncia a a e ´ provavelmente mais forte na fran¸a.’. Para eles. a ecologia. ca c u Balandier. de Jacques Bergue (1964). desaparecimento que pode levar a recusa de ` uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente: ca e a da antropologia e da sociologia. portanto. que a e o n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que pera ` co e e mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade. durante os anos 50. Disso decorre o a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. que notadamente renovaram. da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o ca u o ca marxista.. em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a. e deve.tre as ”sociedades c˜ e frias”e as ”sociedades quentes”. as institui¸˜es pol´ co ıticas. Ou seja. essencial para L´vi-Strauss. Desroclic. ´ claro. com o impulso de Leslie White (1959). ca N˜o ´ evidentemente poss´ a e ıvel.2 1 . Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o e ca fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata. relegada at´ ent˜o. j´ instaurada por Morgan a a h´ um s´culo. Este realiza. dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica. at´ recentemente. e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo. pela maioria ca e a dos pesquisadores. que evoluem dentro de per´ o ıodos sucessivos. dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antropologia que qualificamos de dinˆmica. A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desaa ue e parecimento da oposi¸ao. formando o que o a pr´prio Morgan chama de ”estruturas”. e do qual encontramos uma das mais importantes realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980). Thomas. devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos e c a ca etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´ o ıs ca ıtico-cosmol´gicos. e. falar a dos trabalhos de Max Gluckman (1966). ou ainda. ao esquecimento. dentro do quadro limita do desse trabalho. esta c n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identia e c˜ dade que se caracteriza por um estado de equil´ ıbrio e harmonia. pois esta e a c ´ co-extensiva ao pr´prio social. Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente a e a que nasceu nos Estados Unidos. mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas. insiste notadamente c˜ sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica. em primeiro lugar. mas a o a de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ ıveis do social (a tecnologia. e e e a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis.

que toda sociedade ´ ”problem´tica”. a 3 Cf. c˜ Uma das preocupa¸oes de Balandier. s˜o c a sempre conceitos neutros. E. pelo contr´rio. antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. Conv´m lembrar o e e que. mostrado que o complexo n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam. pois toa ca dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador. e sobretudo em ”acultura¸ao”. Godelier (1973) . ”choques culturais”. dissimulando uma realidade colonial. Mas a compara¸˜o entre Grica aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento a ı. no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia ca da modernidade. como dissemos. ´ mostrar que conv´m interessar-se para toe e dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´ a ıgenas”. que o levar´ a c a empreender. a e simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele a e absolutamente fict´ ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo. mas tamb´m e os mission´rios. Terray (1969). em uma perspectiva dinˆmica (1970). Cl.3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente o a nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide. concebida por ele como quase imut´vel. ca Balandier nos prop˜e uma cr´ o ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social. envolve-se. totalmente c˜ a ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. Fala-se em ”contatos culturais”. Mas os conceitos que s˜o ent˜o utio a a lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a. caracter´ ıstico apenas das nossas sociedades. P Rey (1971). Malinowski. M. desde a publica¸˜o de suas primeiras c˜ ca ´ obras sobre a Africa negra (1955). Ou seja. a c˜ Considera. para a reflex˜o a e a de Margaret Mead. terc˜ minologia que far´ sucesso. de uma tradi¸˜o ancestral. P. a E o mesmo se d´. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: da antropologia econˆmica. no final de sua vida. da a e a mesma forma que Griaule havia. que implica a realidade de ´ ca uma rela¸ao social de domina¸˜o. os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o). por sua vez. na mesma ´poca e em muitos aspectos.116 ˆ CAP´ ITULO 11. assim como para os trabalhos da antropologia cultural que se desenvolve durante o p´s-guerra. enquanto ca a o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social. quase sempre sistematicamente ocultada c˜ ca na antropologia cl´ssica. renunciando a ` atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobria e and. c˜ c˜ que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”. Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio obc o jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. Meillassoux (1964). na realidade. Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples a o c˜ deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”. Por outro lado.

sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica e c a a pr´pria de uma determinada cultura. essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o a de Balandier). ling¨´ c˜ e o o uıstica. mas as respostas as mudan¸as tais como se ela` c boram. procura incluir os diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. da descoloniza¸ao ca c˜ se torna parte integrante do campo que se deve estudar. no Nordeste do Brasil. ou outros semelhantes. leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua pr´pria sociedade. n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos a colonizados”. Muito diferente cm primeiro lugar. tecnol´gica. enquanto o processo da coloniza¸˜o. Esse processo. tamb´m V. tamb´m insiste. de um lado. Ademais. e A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito dio ferente da anterior. mas inicia uma a ca verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa. a o 4 Cf. ”complexifica”e ”problematiza”a antropologia cl´ssica. Mas Bastide. Lantemari (1962). que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas. Uma de suas e c˜ e c maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do deslocaco e a mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos. sobre a interpenetra¸ao das o c˜ civiliza¸oes. al´m dos trabalhos de Balandier citados acima. sob a forma de cultos sincr´ticos. 1955). Correlativamente. lugar privilegiado de observa¸˜o c˜ ca dos conflitos. como vimos acima. . F I. Oscar Lewis e (1963). nas metr´poles congolesas. M¨hlmann (1968). inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia.awrence (I974V e u .117 A partir disso. W E. isto ´. seria no entanto irris´rio pensar que a abole. Jean-Marie Gibbal (1974) ). Finalmente. que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da e etnologia francesa. ca a Dito isso. notadamente das mudan¸as. sob a forma de movimentos o messiˆnicos (Balandier. militar.4 ou tais como estou observando neste moa mento em Fortaleza. porque a abordagem desse autor inscreve-se claramente. . das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf. o c˜ quanto a isso. Paul Mercier (1954). ela n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo. e depois. de outro. c˜ c˜ Todas essas pesquisas. se essa antropologia reorienta. por exemplo. mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma u das outras. no horizonte da antropologia cultural.). que ´ dar conta das varia¸oes. e de ter aberto novos luco o gares de investiga¸ao: a cidade em especial. tanto quanto Balandier. enfatizando a realidade conflitual das sio tua¸oes de dependˆncia (econˆmica. ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as e a c estruturais em andamento.

A ANTROPOLOGIA DINAMICA: .118 ˆ CAP´ ITULO 11.

Parte III A Especificidade Da Pr´tica a Antropol´gica o 119 .

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e que alguns ainda e hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J. atrav´s de um m´todo estritamente indutivo. ”foi-me o e preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”. uma grande e e quantidade de informa¸oes. ele pr´prio co o deve rezar com seus h´spedes. mas em impregnar-se dos temas obsessionais de c˜ uma sociedade. a cip´s vivos”. a que todo pesquisador considera hoje o como incontorn´vel. c˜ N˜o se pode. a co o 121 . escreve Roger Baso tide (1978). O etn´grafo ´ aquele que u o e deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que ese tuda. Se. de suas ang´stias. quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas.Cap´ ıtulo 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o a prioridade dada ` experiˆncia pessoal a e do ”campo” A abordagem antropol´gica de base. que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que e alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda s´ ıntese ´ sempre prematura. a o mais ainda. a c˜ o prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento e c˜ abstrato e especulativo. Pois a a o e etnografia. 1977) – n˜o consiste o a apenas em coletar. a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas. acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e. an´loga a organiza¸˜es vegetais. que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta e a c˜ dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana. isto ´. por exemplo. Para poder compreender o candombl´. de fato. Favret. de seus ideais. Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). estudar os homens ` maneira do botˆnico examia a a nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo. s´ se pode fazˆ-lo a o a o e comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de o e maneira dur´vel (Griaule.

proclame c˜ que. em sua Li¸˜o Inaugue ca ral no Coll`ge de France. e ”deca sencarnado”. se procura. e cono ´ tra o observador. Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores a e sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta. Objetar-se-´ que pode. de quem se considera um ”aluno”. e 2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. que n˜o ca a a ´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa. parece ser capaz de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. por´m. Recolhe e analisa os testemunhos. Com a diferen¸a. pelo menos em suas a a principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´ e a a ısticas a distinguem da pr´tica a etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o. A busca etnogr´fica. ”contra o te´rico. mas e ca que. UMA RUPTURA METODOLOGICA: Assim. constituem informa¸˜es co . pelo contr´rio. n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em cono a e seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue. de fato. ´ a e que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da a o a do historiador ou do soci´logo. de que este se esfor¸a. pelo contr´rio. abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa). ser o caso do etn´logo. tem algo de errante. a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total. como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. os erros cometidos no campo. ´ significativo que. como o o etn´logo. Nunca encontra testemunhas vivas. o c e c por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas). As tena a tativas abordadas. na qual. e termine seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses ´ ındios do Brasil. o a e ca 1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto. em co-colar-se o mais o o perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso. longe de compreender c˜ uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim). dar conta o mais cientificamente poss´ o ıvel da alteridade a qual ´ ` e confrontado. O historiador. consistindo e e a em uma verdadeira acultura¸ao invertida. e algo frio. o observador deve ficar com a ultima palavra. e 3) O etn´logo evita. Quanto a isso. devo c˜ interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ a co o ıduos atribuem a seus comportamentos. de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´ a ıcios cient´ ıficos. o autor da Antropologia Estrutural comece sua e exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”. o ind´ ıgena”. Quanto ` pr´tica da sociologia. bem como a utiliza¸ao de protococ˜ c˜ los r´ ıgidos. uma ue programa¸ao estrita de sua pesquisa. arriscando-se a ıvel e perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso a dessa experiˆncia.122 ´ CAP´ ITULO 12. ´ ca c˜ a e claro. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das sociedades que estuda.

123 que o pesquisador deve levar em conta. a N˜o nos enganemos. Da mesma forma a e a que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´ c ıtica n˜o garante que vocˆ possa a e um dia se tornar psicanalista. e . Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias. por´m. a o o a e com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal. o evento que ocorre quando n˜o u a esper´vamos. um grande n´mero de temporadas passadas em u contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´ a a ipso jacto em um etn´logo. isto ´. quanto `s virtudes do campo. Pois a o e c˜ a pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica. Como tamb´m o encontro que e surge freq¨entemente com o imprevisto.

124 ´ CAP´ ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA: .

. Nessas condi¸oes. e os batiza de ”hist´ricos”.acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar. a vida cotidiana dos homens c˜ torna-se uma esp´cie de res´ e ıduo irris´rio. suscet´ ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ ıtica: os partidos. a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socieo a a a ` dade global. Os fenˆmenos sociais n˜o escrio a tos. . n˜o formalizados. a n˜o ser em se tratando (para o o a historiador) da vida dos ”grandes homens”. e sobretudo as formas menos ore c˜ ganizadas de socialidade. os sindicatos. e a Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciˆncias sociais. A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda o c˜ especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade cia ´ ent´ ıfica. Assim. na realidade. como as associa¸oes religiosas. por exemplo. da ciˆncia. que privilegia dessa a o vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais. quando estudam as associa¸oes volunt´rias. para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidie Trata-se evidentemente menos. a maior a a e parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente e a a do ”folclore”. a 1 125 . bem como as formas de atividades institu´ ` ıdas. no caso. a partir da representa¸˜o o ca mestra do . consciˆncia e e raz˜o. n˜o institucionalizados (isto ´.Cap´ ıtulo 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano A hist´ria.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica. em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia co a num´rica. do que de uma de suas vestimentas e ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas o e e a qualquer preocupa¸˜o cient´ ca ıfica. privilegiam nitidamente as c˜ a grandes.

nessa perspectiva. as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelnica co o ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios. As doutrinas. E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensao c mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´ a a a ıdas de m´ltiplos u subgrupos extremamente diversificados. e nos quais v´rias ideologias est˜o a a em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. as constru¸oes intelectuais. UMA INVERSAO TEMATICA: ano. a percep¸ao dos ru´ a c˜ ıdos da cidade e dos ru´ ıdos dos campos. feiticeiros do Berry. adeptos de seitas religiosas. voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade a e a camponesa (e n˜o para a cidade industrial). o etn´logo tende a estudar as formas de comportao mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da c˜ a sociedade global ` qual pertence. . . mais f´teis: os gestos. em aparˆncia. como escreve L´vi-Strauss (1958). E. dentro dessas sociedades. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte: e e como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas.) s˜o. cient´ o o ıfico. ”Se e o etn´logo”. 2 o Dito isso.as produ¸˜es do pensamento c˜ co erudito (filos´fico. Embora o objeto emp´ ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto a pela coloniza¸˜o. e higiene. para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o ılia a para as grandes organiza¸˜es sindicais). para a fam´ tradicional (e n˜o a ılia a para a fam´ desmembrada). Em suma. a o nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta: c˜ o ele vai em primeiro lugar procurar. cona sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas. conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as e a o de direito. teol´gico. acrescentaremos.as express˜es corporais. . n˜o h´. em seguida. de direito. nos a quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no c˜ a extremo. . Se. que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos a o a ca negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos. ”interessa-se sobretudo por o e aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m. seus objetos a de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da socic˜ a edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses bret˜es. ´ um fato. os e u o h´bitos alimentares. Assim. se n˜o encona tra objetos emp´ ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia cl´ssica. . e. por aquilo que n˜o a e e a Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do proca e a gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ ıgenas – parece claramente na ´rea a n˜o ex´tica da antropologia americana.126 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. 2 . que permitem definir as socieu e dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o. propriamente nenhum a a a territ´rio da etnologia. de fato. para as popula¸oes co c˜ desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais ca habituais e.

Mas ´ sobretudo na hist´ria. ao meu ver. o h´bitat popular. uma hist´ria da cotidianidade material. pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e a o que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicioa nal”das sociedades estudadas). e sim uma abordagem. ıvel O que me parece importante sublinhar. ıdo. portanto. a hist´ria contemporˆnea. u do Estado para o parentesco. a ´ por exemplo. templos e t´mulos impea a u riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde. o e dos grandes eventos para a vida cotidiana. ´ que grande parte da e renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente c˜ e a a sua abertura para nossa disciplina. tornou-se uma o a c hist´ria antropol´gica. absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas. Conv´m. pelo menos na Fran¸a. no caso. mas porque aquilo que o interesse ´ diferente a e de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”. as ciˆncias das e religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos o a ıvel doutores. isto ´. Assim. e sim das multid˜es anˆnimas”. Um deslocamento absoe a lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia. dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos. sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus a m´ ınimos detalhes. uma hist´ria das mentalidades e sensibilidao o e o des. Sob a influˆncia da escola dos e Annales. finalmente. ”n˜o ´ tanto porque os povos que ese a e tuda s˜o incapazes de escrever. Trata-se de ir do p´blico para o privado. na pr´tica cient´ a a ıfica. como escreve Ean Delumeau. ´ e e pass´ de ser aplicado a toda realidade social. e a reabilitar todo esse ”recalcado”da a cultura material que ´. que as influenciou (direta ou indiretamente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de c˜ que n˜o deve haver. um olhar.127 ´ formalizado e institucionalizado). ao meu ver. A aro o quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma c apenas uma parte ´ ınfima do h´bitat. o . um enfoque particular. objeto tabu. que assistimos a um deslocamento e o radical do campo da curiosidade. deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e e c˜ da etnologia sobre as bases emp´ ıricas das ”sociedades industriais”e das ”sociedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes dentro das primeiras). est´ passando do estudo dos pal´cios.

UMA INVERSAO TEMATICA: .128 ˜ ´ CAP´ ITULO 13.

isto ´. As ciˆncias pol´ e o a e ıticas se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes a c˜ c˜ que regem as rela¸oes do poder. as ciˆncias e 129 . . a o pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses e o objetos.) sem correr o risco de abolir o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica. s´ adquire significa¸ao antroo o c˜ pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e o ` dentro da qual constitui um sistema complexo. ´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade e c˜ social em movimento. de fato. .). e ´ E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentala mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia. tudo deve ser observado. o direito. . O antrop´logo n˜o e o a pode. ”o homem ´ indivis´ e ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”. De outro. social. se tornar um especialista. as ciˆncias jur´ c˜ e ıdicas. anotado. um outro: os sistec˜ e o mas de produ¸ao e troca de bens. jur´ o a ıdica. . as ciˆncias econˆmicas. pol´ o o ıtico.Cap´ ıtulo 14 Uma Exigˆncia: e o estudo da totalidade Uma das caracter´ ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em o e c levar tudo em conta. vivido. o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dio mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico. cultural. De um a lado. isto ´. mesmo que n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. Como escreve Mauss (1960). demogr´fica. A especializa¸˜o cient´ ca ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que e a o para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas. psicol´gico. um perito de tal ou tal ´rea e a particular (econˆmica. de estar atenta para que nada lhe tenha ese capado. No campo.

parente. cidad˜o. como pode ser a cultura filos´fica ou a o liter´ria). ´ freq¨entemente levada a participar desse o e e u processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano. atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembraa e ca mento que imp˜e ao real. os siso e temas de cren¸a. abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta e c˜ ca a sua abordagem. do multidimensionamento de seus aspectos e da o totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconscic˜ ente. a leitura a da obra de um soci´logo. acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia o o estudar. ´ claro. Assim. costurar de novo os retalhos recortados. e ue o o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia dos lazeres. Mas permanece. ser o especialista de uma unica ´rea. as ciˆncias religiosas. consumidor. . um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que a toda pr´tica hiperespecializada. dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao. . a meu ver. a criminalidade. a e o O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude e a e extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de cair no vazio. mas pouco reflexiva. UMA EXIGENCIA: psicol´gicas. no horizonte cient´ ıfico contemporˆneo. O parcelamento disciplinar comporta. um risco essencial: o de um desmantelamento do a homem em produtor. . de uma ma´ a neira pragm´tica. por exemplo. de fato. os processos cognitivos e afetivos. modificar. . do esporte. . est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria a ` a o pr´tica etnogr´fica. dentro do espa¸o da cultura c cient´ ıfica (e n˜o da cultura humanista. . . em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade). o div´rcio.130 ˆ CAP´ ITULO 14. comparada a outros modos de coleta de informa¸oes: a a c˜ N˜o posso deixar de recomendar particularmente. que consiste em: 1) cumprir sempre a c˜ mesma tarefa. e em especial do cap´ o ıtulo intitulado ”Da pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado” ca e 1 . a partir de um c˜ fenˆmeno concreto singular.1 o e a Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta. por estar baseada no parcelamento de territ´rios e. voltaremos a isso. a a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos o a o particulares: a delinq¨ˆncia. ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda. das condutas suicidas. Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos c a o o parciais. Edgar Morin (1974). de que se ca procura. sobre uma forma o de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo. o alcoolismo. 2) tentar. a antropologia me parece ser o ant´ ıdoto n˜o filos´fico de uma a o concep¸ao tayloriana da pesquisa. e c˜ uma cientificidade extremamente positiva. A pr´pria antropologia. isto ´. a respeito desse aspecto. . Pessoalmente.

no mundo contemporˆneo. Como escreve L´vi-Strauss.131 trata-se. e e a e Se olharmos de mais perto. que nossa pr´pria cultura realizou entre ´ e o o a ciˆncia e a moral. enquanto antrop´logos. e nos quais as atividades s˜o pouco especializadas. um o e grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender. E a raz˜o pela qual somos provaca ` ` c a velmente. de fato. apenas trˆs formas de pensae e mento s˜o. a ciˆncia e a religi˜o. mas a observa¸˜o direta de ca ´ suas produ¸oes concretas). o marxismo e a antropologia. a natureza das sociedades nas c˜ e ` quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos. chegar a impedir o pr´prio e o exerc´ do pensamento. al´m de todos os question´rios. antagonista da reflex˜o. Tal preoc u cupa¸ao diz respeito tamb´m. jun¸ao hist´rica absolutamente singular c˜ o unica at´ na hist´ria da humanidade. podendo tornar-se. mais tocados do que outros. para n´s. c˜ a e podendo at´. por mais apero e a fei¸oados que sejam. paradoxalmente. mais uma vez. como sugere hoje em dia Laborit. o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. e. baseada sobre uma extrema proxia midade da realidade social estudada. a ciˆncia e a filosofia. esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen´ a e samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos asu pectos do homem. de fazer surgir um questionamento m´tuo. mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espea cula¸ao sobre as categorias do esp´ c˜ ırito humano. sup˜e tamb´m. em primeiro o lugar. E a raz˜o c˜ a a pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecio aliza¸ao. mais surpreendidos. e que se d˜o uma ideologia a a mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social. O projeto antropol´gico retoma. pela dis-. o A pr´tica da antropologia finalmente. capazes de responder a essa defini¸˜o: a a ca o islamismo. o a meu ver. hoje. ıcio . como mostrou Husserl. c˜ ` ´ em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o).

UMA EXIGENCIA: .132 ˆ CAP´ ITULO 14.

Ora. na Africa. e adquire com isso um estatuto de perfeito genitor. na realidade. e que se encontrava tamb´m na Fran¸a. Esse costume aparentemente c insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade. o marido recupera seus direitos de paternidade c (nas sociedades. por exemplo. dissimulada ou delibee rada. se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´ e o ılia. Cada um o j´ notou que. permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos ıvel a as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que. isto ´. de etnocentrismo. quando uma crian¸a nasce. nas sociedades tradicionais. esse cerimonial. mas que n˜o suspeit´vamos. a a a e c implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte c˜ ca ` o observador. Participando efetivamente a a o do nascimento da crian¸a. uma ruptura com qualquer forma. O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de doua 133 . Essa experiˆncia de arrancamento de a a e si pr´prio age. Pois. pelo menos uma vez na vida. Todos n´s participamos. da inaugura¸ao de o c˜ um edif´ ıcio. notadamente. os parentes e amigos da fam´ a c ılia endere¸am seus cumprimentos ao novo pai. a ´ praticada. apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo a na nossa.Cap´ ıtulo 15 Uma Abordagem: a an´lise comparativa a Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a. e c notadamente na Borgonha. tamb´m bastante e insignificante. nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado o e da paternidade social). at´ o in´ do s´culo. Tudo se passa como se a e ıcio e parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova casa ou em um novo apartamento. como um verdadeiro revelador de si. con` o ca c sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´ ıcio ca ´ ıritos.

no caso. A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia o – ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´. o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o c e a que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo sovi´tico. temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de o a e antrop´logos. mas quase nunca do estudo dos processos de variabilidade da cultura. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos e a o estudo de duas sociedades a fim de evitar. mas tamb´m te´rica. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si. Confrontando o essencialmente costumes (cf. Com o funcionalismo. Ora. toda a etnologia posterior (a ruptura a epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´ o a adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. atrav´s de monografias. ca a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´ a ırica. de um aspecto desta cultura. 2 O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos o o britˆnicos. n˜o ´ de ana c co a e trop´logos. dizia ele. ou at´ de o e um segmento. ap´s ter trabalhado durante mais de 20 o ´ ´ anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa. conv´m lembrar algue mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina. c˜ o A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos colhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que e o c˜ co operam os pesquisadores eruditos desse per´ ıodo v˜o aparecendo aos poucos a como t˜o abusivas que. procura reconstituir uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades) ca e na ausˆncia de documentos hist´ricos. escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre o a Oceania”. o que aconteceu a Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo ca ´ de sociedade”. mas e o a de mostrar. como se realiza a integra¸˜o das difee ca 2 ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade. especialmente Frazer). os Trobriandeses. UMA ABORDAGEM: torado. Mas antes de examinar os e a problemas que coloca e as dificuldades que encontra. e sim de soci´logos. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular. c c˜ E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt. o o 1ˆ .1 Poder´ ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de crise dos adolescentes americanos. na melhor das hip´teses de alo gumas variedades de culturas. praticamente.134 CAP´ ITULO 15. que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em c˜ outras sociedades. deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es.

Mas esse programa. os ritos religiosos dos bantos e os dos o ´ ındios da Amazˆnia? o Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira a a e abordagem do antrop´logo. os materiais recolhidos devem ser meti- . o de confrontar os come portamentos humanos os mais diversificados. t˜o caracter´ o c˜ a ıstica de nossa disciplina. mais problemas do que solu¸˜es. as institui¸˜es pol´ co ıticas dos habitantes da Patagˆnia e as dos groen-landeses. e n˜o mais o a apenas etnograficamente. coloca. sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma abordagem que se quer cient´ ıfica. essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo c˜ n´mero de invariantes. o caminho ´ dos mais estreitos. repree sentativo. poo o der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). Este deve passar pelo caminho lento e trabao lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da c˜ a ` a l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). a esse respeito. Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´. o postulado a c da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreeno dimento da compara¸ao. para serem estudadas antropologicamente. a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de c˜ c˜ u vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas a e ` c˜ diferentes. de uma area geogr´fica para ´ a outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo. O pr´prio empreendie c˜ e o mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma o ca humanidade ”plural”. ao meu c˜ e ver. essencial.135 Se o projeto da antropologia cultural ´. preferencialmente. Antes de see a rem confrontados uns aos outros. quando n˜o imposs´ a ıvel. entre a tenta¸˜o de um comparatismo sisca tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram a prematuro. Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos ıvel e institui¸oes humanos. Em seguida apenas. por uma extens˜o no espa¸o –. devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exauso c˜ tividade. qualquer empreendimento de compara¸ao c˜ (´ a posi¸ao de Boas). como na ´poca de Mora c˜ e gan. Claro. Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perteno a cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. de fato. mas. elaborado por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´. co Esses exemplos mostram que. na realidade. pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸ao u e c˜ que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao. s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia a c˜ a ao antrop´logo: mas. O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files. Como ` a conceber ao mesmo tempo. Vale a o co dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel.

e depois. escreve L´vi-Strauss (1973).136 CAP´ ITULO 15. quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar tautologias”. Pois. N˜o ` o a utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. n˜o s˜o sempre as mesmas. procura-se descobrir ca progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”. um outro costume. 5 ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido o e co e por uma coes˜o interna. escreve L´vi-Strauss (1973). enquanto hip´teses operat´rias. Assim o evolucionismo o o comparava o que via (ou. de uma an´lise (etnoloc˜ a gia) de tal institui¸˜o. Disso decorrem as o analogias que n˜o faltaram entre os abor´ a ıgines australianos e os habitantes 3 da Europa na Idade da Pedra. s˜o sistemas de rela¸˜o. comportamentos. e 3 . o a a nem est˜o sempre em mesmo n´mero. gra¸as `s quais descobrimos propriedades co c a similares em sistemas aparentemente diferentes”. Mas ent˜o. Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas. em particular. tal comportamento. isto ´. na maior parte das vezes. Ele o a e n˜o procura atingir a natureza da arte. se come¸armos comparando os costumes de c tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia. confrontadas umas com as outras. nem em geral e. da religi˜o. e sim fazendo parte destes. e pensaremos estar formulando as leis da natureza a u social. s˜o recolhidas c a a pelo etn´logo. UMA ABORDAGEM: culosamente criticados. um outro comportamento. Ou seja. chegaremos apenas a ca e evidenciar algumas analogias. do parentesco. Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para a definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes. 5 e c e ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´ a e a ıveis. c˜ o o o a partir destes fatos. com o que sabia c˜ (ou melhor. as ”universalia dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias ca l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. como diz Kroeber. dos conjuntos estruturados. Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado. deixaremos escapar o essencial. o que outros se encarregavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”. n˜o a e a a deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. n˜o mais isolaa c˜ a dos de seus contextos. e aquilo que ´ finalmente o e comparado ´ o sistema das diferen¸as. O que se e a compara hoje s˜o costumes. institui¸oes.4 mas sistemas de rela¸oes que o pesquisador constr´i. e 4 O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. a ca A partir de uma descri¸ao (etnografia). supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. os termos da c˜ compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ c˜ a ıricos em si. e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema a a e ıvel a ca isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es. que e pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra institui¸ao. nem a a mesmo. tal costume.

n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si. Em seguida. Seria ingˆnuo. transforma-se. um c s´culo depois. alguns exemplos estudados anteriormente. consiste a na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. praticamente irreconhec´ e ıvel.Cap´ ıtulo 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o c˜ ca Social Do Discurso Antropol´gico o A antropologia nunca existe em estado puro. Retomemos rapidamente aqui. Sustentada a a e pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si). pois o estudo dos textos c˜ c˜ etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre o a do observado. isol´-la de seu pr´prio contexto. portanto. Conv´m. interrogar-se e agora. e permitir fundar um novo ”conc˜ trato social”. classe social. c˜ empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia a a e 137 . quanto a si. o a o sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compora e tamentos dos que ela estuda em uma cultura. dentro dessa nova perspectiva. Estado. A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente a ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. ”se a sociedade est´ na antropologia. na¸ao. sobretudo da e parte de um antrop´logo. ´ que estas podem dar ao Ocie e dente li¸oes sobre a natureza das sociedades. c˜ ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento. que nunca ´ um produto a o e acabado. O que interessa a antropologia filos´fica do o s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”. mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao. Seu atestado de nascimento a inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. e se torna. Seria paradoxal. o o Como escreve L´vi-Strauss. e em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem. a antroe a pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973). O funcionalismo.

se se tem raz˜o em insistir sobre e a o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do o o qual fala. o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– o u e co sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso. o Isso posto. ca e A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente a ca a a ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o. foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos.138CAP´ ITULO 16. ser considerados como um instrumento. O ”relativismo e cultural”. ”as ciˆncias humanas a c˜ e s˜o falsas Ciˆncias. Um ultimo exemplo nos ser´ dado ´ a pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP ¸˜ ¸˜ da cientificidade. expressam diferentes formas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira te´rica. o e Seria conveniente. Nosso pertencer e nossa implica¸ao a e a a e c˜ social. pol´ o ıtica. a meu ver. longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´ a ıfico. n˜o s˜o ciˆncias”. podem pelo contr´rio. Mas est´. Mas estas nunca s˜o ca a hist´rica. que as justificava. Foucault – que. na realidade. ´ qualificado por este de ”resultado e das ciˆncias humanas”. e Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que estuda. o a e estudar objetos novos. e socialmente neutras. explica-se notadamente pelo fato de a que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas). comparando-a a com a antropologia britˆnica ou francesa. por exemplo. e de outras fora mas de antropologia que as combatem. o o e car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia. variar as perspectivas. Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o ese tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. que ´ necesa a e sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade. ao contr´rio do evolucionismo. Permitem coloa car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca. termo forjado por Herskovitz. seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu o ` c˜ surgimento e desenvolvimento. . em conseq¨ˆncia das distor¸oes ue c˜ perceptivas atribu´ ıdas ` nossa rela¸ao com o social. Al´m disso. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas a a coloniais. cultural. A pr´pria c˜ o o observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa. perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”coc˜ lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos. seria errˆneo cono cluir – como faz. como parte integrante de seu objeto de estudo. co e a essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas. afinal. ligado ` crise hist´rica do e a a o pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. em detrimento do funcionac˜ mento de nossas institui¸˜es. Al´m disso.

nunca observamos os comportamentos de um grupo tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fosa e c˜ sem outros. Essa auto-suficiˆncia do pesquisador. Ou seja. pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a o o integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o. pensa ter recoo lhido fatos ”objetivos”. parece-me. e sim sujeitos observando outros sujeitos. a meu ver. Al´m disso. elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua imca plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo. Aquilo que o pesquisador vive. em sua rela¸˜o c˜ ca com seus interlocutores (o que reprime ou sublima. se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o.Cap´ ıtulo 17 O Observador. ´ sempre. devido a sua presen¸a. o que detesta ou gosta). convencido de ser ”objetivo”ao libertare se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito. impens´vel dissoci´-los. Nunca e c˜ a a somos testemunhas objetivas observando objetos. Esquece (na realidade. ´ que ele corre o maior risco de c˜ e afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina. de uma a e a forma estrat´gica e reivindicada) do princ´ e ıpio de totalidade tal como foi exposto acima. distinguir aquele que observa daquele que e a ´ observado. e at´ necess´rio. ´ parte integrante de sua pesquisa. ca o ca Se ´ poss´ e ıvel. Assim uma verdadeira antropologia cie ent´ ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´ co ıficas do observador e da natureza da intera¸ao em jogo. a e sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica. em compensa¸ao. Parte Integrante Do Objeto De Estudo: Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta. e at´ e o ca e cria uma situa¸ao nova. Pois a antropologia ´ tamb´m c˜ e e 139 . ´ por sua vez eminentemente c˜ c e perturbado por essa situa¸ao.

crist˜os. nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais passa o etn´logo. a o ıs u o espa¸o ocupado pelos esp´ c ıritos. tive. da proje¸ao e do etnocentrismo. perturbadoras ue tanto para mim quanto para meus interlocutores que. c˜ a a a a fim de controlar. o que me marcou muito na ocasi˜o de o a minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios. e visando a e o que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente c˜ ca poss´ ıvel. Se ambos fazem. pois era de fato esta que me questionava em alguns o aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje. longe de eliminar a ıcio a natureza afetiva (mas. enquanto o cachorro. mais precisamente. e particularmente do universo masculino. aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues c´ ´ a a maridos que n˜o conhecem. na medida do poss´ ıvel. a a ca a a¸ucar. isso ´ realmente o m´ e ınimo que se possa exigir do antrop´logo. africanos – do grupo. serem ”possu´ ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais – ´ prov´vel que o gato veja no cachorro ´ ındios. respectivamente. de in´ repugnava-me. No decorrer de um per´ ıodo variando de algumas semanas a alguns meses.140CAP´ ITULO 17. ´ porque essas condutas questionavam e a minha pr´pria cultura. com certeza. a pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a o e ıvel originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de ca o c˜ . ligada a cultura a qual perten¸o) de ` ` c minha rea¸ao. ou. Passa por um tratamento est´tico cujo e objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´ e ıvel. estava realizando. Da mesma forma. Ora. cac nicentrismo e cinomorfismo. no Brau sil. o Alguns anos atr´s. Por que a esses relat´rios anˆnimos. a pedido do CNRS. pelo contr´rio. como todos os interlocutores. como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. uma pesquisa no sul a da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: clausısia o ´ tra¸ao. a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior. torradas com oleo). por sua vez. as conseq¨ˆncias. e que ignoram a rela¸ao o o c˜ dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que. a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em a a e transe. freq¨entemente inconscienu tes. veja em e seu dono uma outra ra¸a de cachorro. e por um regime alimentar que deve engord´-la. redigidos por ”credores”. importa muito que o etn´logo (isso faz parte da o aprendizagem de sua profiss˜o. e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as co adolescentes. trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao c˜ ca casamento. Se isso me surpreendeu. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos. de lev´-la em conta. e o car´ter cient´ a a ıfico dos resultados de suas pesquisas depende disso) controle as armadilhas. se ele tiver talento. c˜ Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subjee o tividade do pesquisador. O OBSERVADOR. E a a uma esp´cie particular de gato. de tentar elucid´-la.

Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´ ıpio de incerteza”. que o e foi o da f´ ısica at´ o final do s´culo XIX. pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos. em primeiro lugar (em 1938). A perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa c˜ o o e c a e que perturba a ele pr´prio. e sim por ine e term´dio da f´ e ısica moderna. Essa elimina¸˜o encontra sema ca pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´ ca e ıduo n˜o assimil´vel a a a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”. e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade c˜ – possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento a ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos. c e ou. pelo menos. Heisenberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao a e c˜ que o modifica. dissimulados. como diz L´vi-Strauss. Ora. Nessas condi¸oes. isol´-los. mostrou o proveito que a etnologia podia tirar desse princ´ ıpio. a c e ıvel a e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente. u neste caso. E foi Devereux quem. ou pelo menos substitu´ ıvel. segundo a express˜o a de Edgar Morin. sentimentos e co valores. n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o e c˜ a a a a entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´ a ıfico? Paradoxalmente. nem mesmo na filosofia. que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do a a sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´ c˜ o ıfica. mas que os pr´prios f´ e e o ısicos abandona´ ram h´ muito tempo. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte a . que seja africano ou europeu. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´. de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das e e ciˆncias do homem”. N˜o pode ser conveniente para compreender a comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es. comum a toda abordagem cient´ ıfica. que o levou a reintroduzir o f´ ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´ o e ca ısica. essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do e homem em sua tendˆncia ortodoxa? e A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente e c˜ do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”. por que. longe de ser considerada como um obst´culo o a que seria conveniente neutralizar. c˜ e sem d´vida. a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o c˜ a se deu atrav´s das ciˆncias humanas. socialista ou conservador).141 insetos. que o observador tenha 25 ou 70 anos. funcionando em muitos ca aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja. e os observadores a est˜o ausentes ou. ´ uma fonte infinitamente fecunda de coe nhecimento. uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar e e a e duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados.

bem como do modo de conhecimento caracter´ ıstico da profiss˜o de etn´logo. O OBSERVADOR. n˜o apenas das a o a a rea¸oes dos outros ` presen¸a deste. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO do objeto cient´ ıfico que procuramos construir. mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es c˜ a c e c˜ a co dos outros.142CAP´ ITULO 17. A an´lise. a a . desde que se saiba aproveit´-lo. ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina vane o ` tagens cient´ ıficas consider´veis.

de Ner-val. de Loti. . A Ilha. o escritor se d´ conta a (e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo: a e ´ o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo a liter´rio cl´ssico. Viagem no Oriente. oceˆnica. Os Pequenos Poemas em Prosa. ıvel e *** Uma parte importante da literatura mant´m. A Procura do Ouro. . O antrop´logo. de Robert a c˜ Merle.) conhecida sob o a nome de ”exotismo”. A Modifica¸ao. mas o conjunto de seus sentidos: uma naa tureza grandiosa. entre a nossos contemporˆneos. po´ticas e. de Michel Tournier. de Chateaubriand. extremamente complexa – com a viagem. uma rela¸ao e c˜ – por sinal. de Cendrars. Impress˜es da Africa. . como a etnologia. atuando como e uma metamorfose de si. Les Nour-ritures Terrestres. le Cl´zio. de Gilles Lapouge. ´ freq¨entemente levado a procurar formas narrae u tivas (romanescas. de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao co a c˜ 143 . algumas se enquadram nessa famosa literatura de viagem (”oriental”. Oviri. de Conrad. Aziyad´. de Cailli´. ou. A e ´ Viagem para Tombuctu. de Michel Butor. Equinoxiais. de J. A`ipi. M. de Antonin Artaud. Atala. cinematogr´ficas) capazes e a de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia. Descobrindo novos horizontes. popula¸˜es projetadas. de Gauguin. de Roussel. Os a Natehez. de Melville. ”tropical”.Cap´ ıtulo 18 Antropologia E Literatura: O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´ e ıvel. Boure o linguer. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta a a e a e mobiliza n˜o apenas seu olhar. o que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro. Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ ıfico. de Gide. Inumer´veis s˜o os esa a critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de o c˜ deslocamento. e Entre as obras que acabamos de citar. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem. de Baudelaire. Os Tarahumaras. . Typhon. mais recentemente.

O Pequeno Pr´ ıs ıncipe. L’Herbe du Diable et la Petite ıra. a cole¸˜o ıcio c ca ”Terre Humaine”. Fum´e. livros de etnologia. N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie. Forˆt. elas s˜o muito a a diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o. Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo. de forma ca a a alguma. Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida. de Jacques Doure e nes (1978). lic c bertado das obriga¸oes da sociedade. nos ensinam apenas muito subsidia e riamente a olhar para os outros. e. Miguel Strogoff. de o Georges Balandier (1957).144 CAP´ ITULO 18. o Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente a a co e liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada. menos. mas tamb´m para os etn´logos. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ocidental. de Oscar Lewis (1963). geralmente a margem de suas produ¸oes cient´ c˜ ıficas. at´. . n˜o apenas para os a e o c a autores que acabamos de citar. Os Filhos de S´nchez. mas que constituem a meu ver uma contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado. mais recentemente na Fran¸a (cf. o Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de aprene dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´. Moby Dick. . t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus o a e pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante. A Viagem de Nils Olgerson. ´ verdade. para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusivae e e a mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. A Volta ao a e Mundo em Oitenta Dias. Femme. Chebika. para a ca e ciˆncia antropol´gica estritamente falando. Estou pensando nesses numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina. Soleil Hopi. de Carlos Castaneda (1982). pois o escritor freq¨ente mente sai do seu u papel – tentando ser etn´logo –. Folie. enquanto se interroga a sobre sua pr´pria identidade. de Georges Cone e dominas. desenvolvidas e e o de in´ nos Estados Unidos. La Statue de Sei. da editora Plon) nas quais se procura compreender o funcionamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´ c˜ co ıduos singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Grie aule (1966). Ma´ de Darcy Ribeiro (1980). . ed Albert Memmi a . Nous Avons Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977). de Jean Duvignaud (1968). Alguns. que ´ a autobiografia de um ´ e ındio pueblo. Alice no Pa´ das Maravilhas. faz a experiˆncia de uma felicidade e c˜ e sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava. do que para o conhecimento ane o tropol´gico. ou pelo menos e o para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta de si: isto ´. .

a Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas e ca u a contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico a a e a a – que constituem. Fontamara.145 (1966). que. Em Roger Bastide. Le Christ a s’est Arrˆt´ ` Eboli. La Forˆt d’Eineraude. qualificada precisamente de romance etnol´gico. a o Em Jean Monod. eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham a sido meus at´ ent˜o e. Kaos. de Werner Herzog (1984). n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o. de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )eane ´ Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou). e mais especificamente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries. Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos.. Gilberto Freyre. e considera que ”o soci´logo que quer o compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”. Estou pensando particularmente em Moi et o un Noir. se diz ”dividido entre um grande fervor e o desejo de fazer uma pesquisa objetiva”. a literatura da ciˆncia o e (cf. que distingue o perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escria o e tor e poeta. que. e procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com a a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios. de —ohn Boorman (19851. de Carlos Lizzani (1980). para ele. 1 O limite que separa essa etnologia romanceada. de Francesco Rosi (1979). de Michel Leiris. por outro lado. para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e po´tica”(1972). 1982). do romance propriamente dito. nos lembra freq¨entemente em sua obra que u se considera como o disc´ ıpulo de Jean-Jacques Rousseau. de Ermanno Olmi (1977). dos irm˜os Taviani (1977). e a c derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu horizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. por defini¸˜o. Estou pensando e` e principalmente em Victor Segalen. 1974). a meu ver. dos irm˜os Taviani (1984). e de dentro para fora”. no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a. Yol.. Le Pays oii Rˆvent les Fourmis a e ´ Vertes. mas indica-nos quais s˜o. e em filmes mais recentes como A Arvore dos Tamancos. de Claude L´vio o e Strauss (que. ´ as vezes extremamente tˆnue. as rela¸oes que as unem: a c˜ ”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´tica a a da etnografia. mas um meio de a ca conhecimento verdadeiramente antropol´gico. a atitude de esp´rito ca a ı pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer o efus˜o”(1934). em Les Imm´moriaux (reed. em Imagens do Nordeste M´ e ıstico em Branco e Preto (1978). Concebida dessa forma. levar e ca a a o ao contato. por si s´. o contr´rio. Padre Pudrone. e n˜o do Rousseau do o e a Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme. e 1 . eea de Yilmaz Guney (1981). e a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de o e a ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia. talvez implique.

de Leenhardt com c˜ os Canaques. at´ e e e e a etnografia”(1973). Primeira manifesta¸˜o dos negros. mas tamb´m seu objeto. como Michaux em Um ıcio o e ´ B´rbaro na Asia ou em Equador. embora ainda sem forma. Citarei trˆs delas. o jazz trazia restos significativos o de civiliza¸˜o acabada. e a bebida. a meu ver. nos assolava. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades. por estar cada vez mais especializado.146 CAP´ ITULO 18. esfor¸a-se por apreender da forma c mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmitio ıvel la na nossa l´ ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski). na qual o pesquisadore escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso. exigir uma viagem mais radical. de —acques Berque com os ´rabes. ca a a para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo mea ı ı nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o o ca ı c mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo. uma comunh˜o pela dan¸a. A etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa) . Agia de a ı uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma posa e sess˜o. n˜o se contenta com a sia tua¸ao. Suas afinidades deve-se. mitos dos ca ´ ´ ´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido. Por outro lado. uma bandeira org´aca. nas cores do momento. de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio e o pelas viagens. no in´ de Tristes Tr´picos. para al´m da Africa. de Margaret Mead com as mulheres da Oceania. a e de outro. de Michel Leiris ou —ean Rouch com os africanos. O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa. segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental c˜ a que. reluta frente a reflex˜o sobre o ` a homem. ´ para. a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um ca )ean Paulhan com os malgaxes. a *** O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance) c˜ merece ser levado mais adiante ainda. a raz˜es mais fundai mentais. o e 1) A etnologia. Mergulhados ı e a em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos. o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa ı os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. o erotismo latente ou mania c festo. e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. o jazz ı a foi um sinal de uni˜o. a A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consic˜ ` a e derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons. ´ e dentro de uma aventura. pelo menos tal como a concebo. a um sentido religioso.

147 visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais a e hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia. no Processo n˜o a a ´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente. mas tamb´m a filosofia cl´ssica. das concep¸oes do homem e do social. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam ca e ` c˜ sem representar”. 3) A gˆnese do romance. um ”escae vador de detalhes”. e. e sim. no qual ´ o c e questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. ´ contemporˆnea desse moe e a mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar. o ` long´ ınquo deixa lugar ao pr´ximo. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado. O que ´ ent˜o e a proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em a e e rela¸ao a teologia. se for bem es´ colhido. Isto ´. na qual a inteligibilidade c˜ ` e ` a ´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista. bem como mostrou Henry James.). fazer surgir o ”geral”do ”particular”. segundo o termo de Proust. O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se e a e a reduz a faculdade de observa¸ao. explora-se o cotidiano. essa preu ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o. sejam colocadas as bases de uma ”teoria a do conhecimento”. dos vae ıda a lores. para os ”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. explicativas e a dos comportamentos humanos.2 A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens.vai ao encontro da abordagem que ´ a da o o e etnologia. na Montanha e O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva. e em ambos os casos. chegar a uma lei geral e que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos. Depois. essa o pluralidade ´ irredut´ e ıvel ` identidade. Ora. o 2 . o volta-se para o pr´ximo e. articulada com outras leis. a partir de um unico pequeno fato. Ele ´. O que o escritor c˜ c˜ procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. a literatura romanesca) desenvolve um interesse todo especial para o detalhe. Joseph K. como a da etnologia. aberta pelas viagens. o a e 2) A literatura (e... notadamente. em ambos os casos. e pera a mitir´. Dom Quixote. A vida ´ inclus˜o e confus˜o. como a l´gica o o o da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades. a arte ´ ` c˜ e a a e discrimina¸ao e sele¸ao. pelas ”grandes c˜ o a dimens˜es dos fenˆmenos sociais-. e para o detalhe do detalhe. e o mal de outro. como diz ainda Proust. Assim. comum a todas as ideologias. o abandono da id´ia de uma c˜ e verdade absoluta situando o bem de um lado. como em Madame Bovary. Assim. da c aventura ilimitada (Jacques le fataliste.

etc. 3 . mais modestamente. ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance. para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”. como para o o romancista. e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini.3 Ora. de Thomas Mann. fames. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: M´gica. que privilegia o car´ter eminentemente social e a at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que. c Essa abordagem. De que romance se trata? E de que antropologia? ca Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´ a ca ıvel de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade e ca ca social”. para fazer-nos compreender que no romance tanto quanto na etnologia. mas. n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do a o observador do observado. os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade a a a e dos habitantes da ”plan´ ıcie”. c 4 As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a co c antropologia exigiriam uma afina¸˜o. me parece. sempre a partir de um certo ponto de vista. para o etn´logo. renuncia-se a id´ia de que a rea` e lidade possa ser apreendida em si. a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920. a c˜ e de Svevo. ´ portanto claramente ane 4 titotalit´ria. ılia Em suma. sem nunca ser absoluto. e o o c˜ na obra de Balzac. c˜ ` de Joyce. Flaubert. deliberadamente perspectivista. na Consciˆncia de Zeno. essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica) e a a e a da etnologia. mas aos olhares cruzados (convergentes. a E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem a unica. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se e ca quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´ o ıtica. corresponde ` ca a tendˆncia sociologizante da antropologia. n˜o ´ ca e ca e a veio de repente. con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social). para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos c˜ Verdurin. a e O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta. coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar. essa personagem. mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal.148 CAP´ ITULO 18. Em Os Filhos de S´nchez. esses exemplos bastam. Ou seja. o ponto de vista esfor¸a-se em ser total. alternadamente considerados como os unicos p´los ´ o da observa¸˜o. Em ambos os casos. e a e Da mesma forma. a perspectiva de Balzac. divergentes) de uma ca mesma fam´ mexicana. paro a ticularmente. em Ulisses. ´ claro. revolu¸˜o esta que. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´ ` o ıvel nos trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria. reintroduz no ca o espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista.

1 O Dentro E O Fora Uma pulsa¸ao bastante espec´ c˜ ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo. parece-me que c a a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse. em um desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue. a compreens˜o ”por c a dentro”e a compreens˜o ”por fora”. Roger Bastide escreve. de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu a a preferiria ser possu´ a estudar os possu´ ıdo ıdos”). por exemplo: 149 . O prio meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´ e e ıvio ass´ ıduo e de uma verdadeira impregna¸ao por seu objeto. por assim dizer. o u e esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. o ponto de vista do mesmo e o ponto a de vista dos outros. . Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas o a da pr´pria pr´tica da antropologia. O que n˜o tem realmente nada de um a ´ exerc´ intelectual. como diz Georges Balandier a respeito da Africa. Trata-se de interpretar a sociedade c˜ estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade. opondo a universalidade e as diferen¸as.Cap´ ıtulo 19 As Tens˜es Constitutivas Da o Pr´tica Antropol´gica: a o Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o u o importantes. freq¨entemente polˆmicas. vive dentro de si essas tens˜es. deixando-se. . A abordagem de um fean Rouch. o a 19. parece-me particularmente representativa dessa atitude. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir o a ´ o c do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses diversos termos. Correla-tivamente. pois. ou de um Roger Bastide. toda vez que um c˜ dos p´los em quest˜o domina o outro. naturalizar por ela. ıcio corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”.

que ´ inglˆs e e 1 . O olhar distanciado. onde lhe revelam que ´ e a e e filho de Xangˆ. o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia o familiar. os trabalhos de L. os franceses para compreender os franceses. o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o o a a e do encontro. ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas e c˜ ıvel a o que escapam aos atores sociais. e onde. at´ a sua morte. mas sobretudo. em entender e o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar. a mas naquilo que n˜o diz. come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos enc contrado e atravessado. chega inelutavelmente para o etn´logo ca o o da distˆncia. deus do trov˜o dos Iorubas. A nosso ver. ou ainda. ou de Zeldin e C983).1 pois as significa¸oes proc˜ duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era a minha. e particularmente da linguagem a e o cient´ ıfica. E sobretudo. e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos metoe a a dol´gica). do estranho. nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. da experiˆncia.˜ ´ ´ 150CAP´ ITULO 19. os camponeses de Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes. o que vivem os membros o de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se a apenas dentro dessa sociedade. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia ıcio estranho. ocupar´ o a e a um lugar na hierarquia sacerdotal. Cada grupo humano. ı e ca Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´. diferente. exterior. Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais. pois ´ pr´prio da linguagem. fornece a si pr´prio e aos ouo Cf. e e Parece-nos de fato. como tamb´m cada indiv´ e ıduo. que ´ americano. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”.. de um determinado ponto de vista. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos e e e de cartesianismo. mas tamb´m. Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente transa e parente a si mesma. sobre esse ponto. a inteligibilidade ca procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma a como seus atores sociais a vivem. Mas passado o tempo da impregna¸˜o. que. atuar no sentido de uma separa¸˜o. Wylie (1968). a e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia. e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa o disciplina. De fato.

podendo contribuir na morte do outro (e na morte das civiliza¸oes). ou at´ por uma ”convers˜o”.19. isto ´. seja uma participa¸ao cega e uma ”empaa e c˜ tia”que n˜o se consegue mais controlar. n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”. Assim. ´ de estarmos carregando conosco um e modelo de leitura. possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico o a a e a o de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica o de sua abordagem. n˜o desprez´ a ıvel. a . seja a retranscri¸˜o. de sociedade em sociedade. O DENTRO E O FORA 151 tros racionaliza¸oes de suas condutas. e o L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. Mas em tais condi¸˜es. Qualifica e u a a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”. mas sobretudo. O risco. ´ claro. E e o edades long´ ınquas que permite notadamente que o pesquisador. como diz MarcAug´ co e (1979). o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜o a ”compreens˜o por dentro”) ´. e sim o a analisar. uma contradi¸ao aparente nesse olhar e c˜ pr´ximo do long´ o ınquo que age como um olhar long´ ınquo do pr´ximo. a a o O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do proa cesso (a ”compreens˜o de fora”). por exemplo. Se a etnologia conseguir superar a ide´ ologia da idealiza¸˜o amorosa. nossas produ¸˜es eruditas terminam quase semc co pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza ` a nossa. a abandonar um moe e delo de pensamento por outro. da fus˜o e da confus˜o. mas o essa contradi¸ao. com a convic¸ao de sempre c˜ permanecer com a ultima palavra. nem contornar e exorcisar. em termos erua ca ditos e na forma de uma redundˆncia.. degenera habitualmente em um discurso a ` revelia do outro. a pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. c˜ o Em suma. ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e exo plic´-lo de dentro. O paradoxo merece ser sublinhado. que consistem em modelos conscientes c˜ que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar. que e ´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras. do que foi expresso. de volta a sua pr´pria sociedade. o e por uma ruptura cultural. Existe. deixando-nos ensinar e a e aculturar como crian¸as. parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores. parece-me que n˜o ca a a a deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental. Enquanto nossa profiss˜o de c˜ a etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia. Quando o discurso sobre o outro tende a a dominar o discurso do outro. e diz do olhar antropol´gico e o ´ a proximidade desse olhar sobre socique ´ um ”olhar de astrˆnomo”.1. Alguns etn´logos tˆm e a o e tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro. todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida.

quando elabora sua Teoria Cient´ ıfica da Cultura (1968). Tylor. apresentam-se como radicalmente opostas. finalmente. o e u na pr´tica. ao estudar os Trobriandeses (1963). Temos a e e a sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la ` c a a vontade”.2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que c˜ ´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”. no final de sua vida. reduzido a mera figura do a ca ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na mesmo. um dos primeiros antrop´logos: a e o ”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sime e e patizar com o mito. s˜o realmente diferentes a 1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente. E. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abore e a o e ´ dagens que. uma ”unidade do gˆnero humano” e • tal costume. e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. dentro desse quadro. o questionamento de nossa disciplina. termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. e a h´ mais de um s´culo. essa vontade de ”poder e o ca c˜ pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E. 19. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: em um mesmo pesquisador. na obra de Malinowski. 2 . por exemplo. que se esfor¸a em dar conta da e c especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses. que evidencia as diferen¸as que a o c observa. tal institui¸ao. pois. E unidade. pois considera que. Evans-Pritchard. por exemplo. em seguida. d´ prioridade a um mo’do de a conhecimento claramente distanciado. que Malinowski no in´ ıcio de sua carreira. como escreve Mauss. no entanto. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora. Coma ca preendemos. 1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”. entre. como vimos.2 A Unidade E A Pluralidade Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com e a mesma for¸a: c • existe.˜ ´ ´ 152CAP´ ITULO 19. uma extens˜o e anexa¸˜o do outro. Como escrevia. e a convic¸˜o do te´rico ıvel ca o que. de uma mentalia c˜ dade em outra. reflete sobre o funcionamento da humanidade em geral. o e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao e c˜ ´ idˆntico. que Lembramos. estranhos a minha c˜ sociedade. de a ca um lado a experiˆncia pessoal do observador. os homens s˜o em toda parte os mesa mos. apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro. tal comportamento. f´cil encontrar uma contradi¸˜o. o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente a e diferente de n´s.

os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos. fore mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa: o a por exemplo. e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o a pensava. em outras culturas.19. 3 . e e as quais ”aceitam sem reticˆncias”. Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido ca ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade do observado. a 2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo ´ a o dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s. para compreendˆa e las. atravessa o pensamento a e antropol´gico contemporˆneo. que proa c˜ a a Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. ”estabelecer-se e e dentro mesmo de suas sociedades”. A UNIDADE E A PLURALIDADE 153 se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf. . igualit´ria e convivial. O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao e e a e c˜ entre o observador e o observado. do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava. 1972) pedindo o fim da antropologia. encontrada em autores como Castaneda (1982). que seria a racionaliza¸˜o desse processo. . antimarxista. Adotevi. Baldwin. apelar para os recursos das matem´ticas modernas. este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo. como diz L´vi-Strauss. no Ocidente. ou a a ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´ co ıgines australianos. que encontra uma de o suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto o os trajes. antifuncionalista. considerada repressiva. 1973). no sentido ocidental do termo. a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria ca ca impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras. no qual o u a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um ´ objeto passivo. embora n˜o se trate a de ciˆncias. existem. E. t˜o complexas que precisamos. coloca um ca problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas ´ e e uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo ca menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o a ´ a das ciˆncias sociais. tais como a economia. por exemplo Fanon. e consiste dessa vez em considerar as difeo a ren¸as como irredut´ c ıveis. antiestruturalista. e a natureza. a sociologia ou a demografia. e ca Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica. mas claramente culturalista. 1972. h´ uma verdade al´m dos Pireneus. da ciˆncia. (aulin (1970.). as gram´ticas indianas. 1952. Clastres (1974). A pare tir desse segundo p´lo. organiza-se toda uma corrente. por outro lado.2. a e o como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. Delfendhal (1973).

quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se. por exemplo. Da mesma forma. acentuou-se e confirmou-se. como falamos de ”medicina mansa”. De volta de uma miss˜o cient´ a ıfica no Nordeste do Brasil. a esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido. e que n˜o se deixam de forma alguma alterar a pelos modelos culturais vigentes em Paris. n˜o nas regi˜es mais exteriores o a o em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste. contra o cosmopolitismo. como tamb´m. o Brasil contemporˆneo me parece particularmente a revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. . que poder´ ıamos qualificar de ”etnologia mansa”. a reabilitar a identidade das regi˜es (cf. Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais o a a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista. e confrontada hoje a uma conjuntura econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel. foi acompanhada correlativamente de uma divis˜o da sociedade em castas. freq¨entemente. Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo. ao estudar os c a cultos afro-brasileiros. soube criar o e a formas de sociabilidade plenamente originais. por exemplo. Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude. o ` e u consegue se impor a esta. que parea e cia exclusivamente niveladora. pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo. no decorrer das cerimˆnias de umbanda.. nem mesmo pelo pensamento te´rico. considera-se que o que ´ separado pela barreira das u e culturas n˜o deve ser reunido. Encontrei pessoalmente membros das classes superiores da sociedade brasileira que. mas no c˜ o ıs. P. da qual a antropologia seria ` e e c´mplice. o e 1975). Mais uma vez. foi a influˆncia. da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que c˜ e permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes ca sociais). Ora.˜ ´ ´ 154CAP´ ITULO 19. Assim. Aquilo que Bastide come¸ava a notar. Finalmente. que ia levar ` unifica¸ao da ´ a c˜ India. de uma maneira dificilmente imagin´vel no Ocia dente. E uma forma de conhecimento mais humana. Londres ou Chicago. a hegemonia ariana. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ´ porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu. ca me parece pouco fundamentada. c˜ 1) Em primeiro lugar. a inquietude que demonstram esses autores com respeito a uma homogeneiza¸˜o. posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua c˜ ıda maioria de descendentes de europeus. s˜o sucessivamente ”possu´ o a ıdos”pelos esp´ ıritos das divindades dos ´ ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. visando. Sabemos de fato que. aos c˜ o quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia. mais tende simultaneamente a diversificar-se. Disso a o decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia. J. trinta anos atr´s. A cultura popular n˜o a s´ resiste notavelmente a cultura dominante. H´lias. encontr´veis no menor coma portamento da vida cotidiana. que ´ hoje uma das primeiras metr´poles a e o industriais do mundo.

por um agrad´vel movimento de a pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico. Ou seja. participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de o a lembrar de Pauw ou Hegel. e de que n˜o se poderia preencher e a (e. como a objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral. como qualquer ser humano. o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao da o a c˜ 4 ocidentalidade. como lembramos. Em suma. atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba e inclusive perdendo-se. o bret˜o. A descri¸˜o. aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o a ca ca a ´ mais o outro (sadismo). E ”um outro mundo a o cultural”. ”n˜o impede que ´ a o a os trobriandeses sejam matrilineares. possa sentir o o ´dio em rela¸˜o a estes. tudo se passa como se esse protesto indignado – o fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavelmente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade. de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de ca a e ”bons selvagens”. A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de fato da m´ imagem que se tem de si (cf. O africano. e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (masoe o o quismo). indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente. o ´ ındio. nem her´is”. n˜o afeta e o a em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o. mesmo se fosse poss´ ıvel. como pode sˆ-lo e com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´ a ca e a ıtica. causou escˆndalo entre os etn´logos. Jean Monod. por exemplo. o 4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade ese tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas. E correlativamente dessa vez. e atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso. se poderia talvez chegar. diz Hegel. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155 2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro.. . Mas que estes ca e a o ultimos n˜o sejam ”nem santos. n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que a e c o separa de n´s. e o fato de que o etn´logo. enquanto e que. 1972. Para estes.19. a coincidir com a vere dadeira natureza do outro. por exemplo. h´ uma recusa de assumir a sua pr´pria identidade. nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”. de que. as sociedades selva´ gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. a que se acusa de ser um ”rico canibal”). e escrevˆ-lo. co o 4 .2. como diz Panoff (1977). o a 3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´ ca ıvio dos outros n˜o resiste ` oba a serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica ca c˜ a que se faz passar por realidade. o e e Novo Mundo ´ de fato um outro mundo. . s˜o mobia a lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto. enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa. por Turnbull (1972). pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro –. que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. e . O e e fato de a alteridade ser aqui valorizada.

que o afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la reale a e mente – a ficar em casa. J´ passamos por isso. . isto ´. do que na ciˆncia. Se a identifica¸ao integral com este ´. n˜o se trata mais de estud´-la. o proletariado aos prolet´rios. N˜o ´ f´cil. o sujeito transcendental a e do humanismo. a meu ver. Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma c˜ essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de mae e jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas c˜ e justapostas). a rigor. a c e partir de uma rela¸ao. passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a. devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que prea c˜ tend´ ıamos estudar. Mas ent˜o. de uma abordagem de pequisa cient´ ıfica. suas mulheres. a o Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao e ue ıpio a c˜ e n˜o-media¸ao. aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´ e ındio. Apenas o ´ ındio (e. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito. Apenas o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. que n˜o ´ m´dico. O outro ´ uma figura poss´ de e ıvel mim. essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma. a permanecer entre si. Esse descentramento m´tuo do observador e do obseru vado n˜o pode mais ser. c˜ . tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores. um erro. Por todas essas raz˜es. segurar as duas extremidades da a e a cadeia. no final dessa experiˆncia. a c˜ e antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve e a identificar integralmente consigo mesmo. e sim de a a a adot´-la. ao insistir tanto sobre o car´ter irreo a dut´ das diferen¸as. isto ´. a ıvel c e meu ver. adotando sua l´ co ıngua. evidentemente. a e a e e se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos. Apenas o prolet´rio pode a e a a saber o que ´ a classe oper´ria. ` maneira desses aventureiros normandos.˜ ´ ´ 156CAP´ ITULO 19. Como vocˆ. a a e que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado selvagens no contato dessas popula¸˜es. encontrados por L´ry. a Bretanha aos bret˜es. como eu dele. . o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de e ` a ` a si pelo outro. E al´m o e e disso. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o aboa lidas. a religi˜o aos e a cleros. seus costumes. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de come a a c˜ preender a mulher.

nem atividade cr´ a a a a e ıtica nem mesmo coleta de fatos sem teoria. decorre do fato de que n˜o nos situamos. do campo e do m´todo. ciˆncia. a literatura. de estar junto delas. a pintura. A m´sica. a preocupa¸˜o do concreto. a ideologia do a momento. das culturas. o a mas em decidir quais s˜o os fatos significativos. vem da submiss˜o d´cil ao campo.3 O Concreto E O Abstrato A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´ a e c˜ e vivido. De um lado. da constru¸ao cient´ e c˜ ıfica. o qual n˜o deve. a ”opini˜o”. nos dois casos.19. N˜o h´. a poesia. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive inec˜ ´ vitavelmente a adotar a teoria do senso comum. O CONCRETO E O ABSTRATO 157 19. do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”. mais prazeres. por exemplo. e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao. gravar. portanto. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes. Vaiv´m a e meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado. em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. a an´lise da a a variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de a uma cultura para outra. que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´ ca ırica. se prefeıda c˜ rirmos. a exigˆncia. a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten` cemos. que d´ a o a ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas. e A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura a e os que privilegiam a diversidade. realizada por n´s mesmos. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar. anotar. por´m. supostamente irredut´ ıvel. de fato. pelo formalismo l´gico de um L´vi-Strauss. ou. mas o meu c olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´ e ` c˜ ırica. a Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´ ca ` ca a ıtima. al´m dessa descri¸˜o (mas a e ca a partir dela). mas me permite perceber que perten¸o a uma figura c particular da cultura.3. para dar conta deste. e. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me ca c˜ leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras. mas que s´ pode ser empreendida a partir a o da observa¸ao de uma realidade concreta. a religi˜o s˜o abordagens muito u a a mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os seres. Ou a seja. de ca outro.Mas c˜ n˜o s˜o a antropologia. trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um obo c˜ jeto que n˜o existe na realidade. c˜ o 2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nominaca . o 1) O primeiro risco. no mesmo n´ de a ıvel investiga¸˜o do social. Pelo contr´rio. nos deixar esquecer a o e a e especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´ e ındia dos Nhambiquaras de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos.

de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais a c˜ ”fundamental”. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: lista). Existe portanto uma inadequa¸ao eno c˜ a c˜ tre. u mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. biol´gicas) em termos religiosos. uma teoria cient´ a ıfica nunca ´ o reflexo do e real. No t´rmino do empreendimento a e de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´ c˜ o ıricos em objetos cient´ ıficos. mas tamb´m contra nossas c˜ e observa¸˜es. que o inconsciente de uma cultura pode ser encontrada no consciente de uma outra. acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. o objeto que constru´ a ımos a partir de uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica. Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros). mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das e ciˆncias sociais. de um lado. c˜ o dito e o n˜o-dito. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um o e c˜ e confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado. psicol´gicas. nossas impress˜es. Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas. a u observ´veis em outro lugar. tamb´m n˜o ´ a ciˆncia e e e a e e social do ponto de vista do observado. podemos dizer que se trata o o de ”ilus˜o”. em sua intersec¸˜o. com Georges Devereux. o que permite afirmar. quando um n´mero consider´vel de indiv´ u a ıduos que comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (socio ais. s˜o capazes de agir como reveladores de aspeca a tos culturais inteiros. do ponto de vista do obsere e a e vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia). Por exemplo. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientificac˜ a a mente constru´ ıdos. cuidadosamente dissimulados em nossa cultura. a partir de nossas observa¸oes. ou melhor. a realidade social estudada. o ´ podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cioc˜ o a o econˆmicas. e da nossa pr´pria rela¸ao com ca o o c˜ o psicol´gico e o social. o *** O paradoxo. Por outro lado. de ”proje¸ao”. o fogo). e sim uma pr´tica que surge em seu a limite. Nossos sistemas de representa¸ao. traduzindo-a em uma outra linguagem. e sim uma constru¸ao do real. s˜o hoje em grande c˜ e c a . o ar.˜ ´ ´ 158CAP´ ITULO 19. a terra. e de outro. quando o pensamento tradicional classifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua. o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado a (de minha e da outra sociedade). c˜ o a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a c˜ a co suas pr´ticas. as interpreta¸˜es dos interessados e nossas co o co pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. que n˜o ´ nem esgotada nem a e esgot´vel pela etnologia. Ora. Da mesma forma. ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social. Podemos reduzir a inadequa¸ao entre ca c˜ os dois pensamentos de que acabamos de falar. em mat´ria de doen ¸a.

5 Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia. torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refee rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal. mas como ciˆncia. o que tra¸a as c figuras. isto ´. para minha sociedade. chamadas ”adorc´ c˜ ısticas”e que correspondem as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo. ”nada seria mais e falso”. e os sintomas. ou de a uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para a a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”. ıvel Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos. ´ espec´ e a e ıfica e exclusivamente vienense. que n˜o produz o a realmente algo novo. e sim um m´todo. da exclus˜o em um grupo que se quer hoo a mogˆneo. O CONCRETO E O ABSTRATO 159 parte exorc´ ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esmac e gado. 5 . como dizer que a psican´lise. conhecido dos psicossoci´logos. abre essa estreiteza monocultural. a para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina. nem o de estender a racionalidade as ` dimens˜es do universo. tais como os estou a estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste. Da mesma forma. e tornam-se manifestas se passarmos a de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai). e e c A etnologia. pelo contr´rio. ´ claro. mas reatualiza antes algo recalcado). nem por isso est˜o au` e a a sentes. do doente-v´ o ıtima e do m´di-co-exorcista.19. e mostrar que o processo. resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteria e dade nos moldes do que ´. a c e c˜ De tudo isso. ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o e a ´ ca do esp´ ırito colonial”. nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista o a a (pois essa racionalidade ´ provinciana. como escreve L´vi-Strauss (1973). Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”. podem ser utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e partia cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros ıvel realizam ao n´ do corpo. n˜o o a apenas como experiˆncia e como aventura. Est˜o simplesmente recalcadas. E no entanto. bem conhecidas entre n´s. os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros. etc. pela sua origem hist´rica e cultural. que nasceu em Viena. conhecido e correto (o que e equivaleria a suprimir essa alteridade). o a e ocidental. que nasceu no Ocidente. algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como a instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto a e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham. como uma calamidade a ser eliminada.3. limitada no espa¸o e no tempo). e Mas as representa¸oes inversas. ´ indefectivela e mente ocidentalo-cˆntrica. mas que subverte a e o racionalidade ocidental. seja poss´ e e ıvel.

As pr´ticas simb´licas o co a o e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar. nem segundo a maneira com a qual os observadores os percebem. o o ` c Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua u a evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valoco . o primeiro. Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha. com os gˆneros e e que s˜o classifica¸˜es ind´ a co ıgenas expl´ ıcitas. e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo´ e ıvel logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente. e que a antropologia seja uma o metalinguagem. etc. o segundo. seja a um a segmento marginal de uma sociedade minha. . ca Nesse caso espec´ ıfico. para analis´-lo. como a feiti¸aria. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. c˜ e Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. para o antrop´logo. o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero. nos gestos e discursos dos interessados. mas na sua jun¸˜o e na sua ca intersec¸˜o. que ´ espelham uma imagem deformada. mas de dois inconscientes em espelho. pois cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antroo o a a pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem. s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´ o c ıfico partir do momento em que integra. constitui-se do cono fronto de dois discursos interpretativos que se juntam. ”feitos em casa”(L´vi-Strauss). a realidade alucinada e desviante. Isso n˜o significa que o a antrop´logo seja o homem de nenhum lugar.˜ ´ ´ 160CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: Dito isso. mas o inconsciente em sua rela¸ao c a c˜ com o consciente. e constituem. a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra. A antropologia. esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo a tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a. . O conhecimento antropol´gico surge do encontro. Seu significado antropol´gico o s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem o um sentido. e e a portanto. ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mesa o c mas. a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evio c˜ o denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. a mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social.). n˜o apeo a nas de dois discursos expl´ ıcitos. c˜ o modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e racionae a u co liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades c˜ de acesso a estas ultimas). do professor prim´rio. a realidade. do padre. E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre c minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os c a c limites e as fronteiras. e a e c que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra. e a c˜ o com os modelos conscientes.

19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO

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res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e a um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim e a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´ ıvel- de mim. N˜o posso a situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto, para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que o n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical. a e ca Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade o pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´ a ıfico. *** A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´ ca o o ıfica, do homem e da natureza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem e e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´ c˜ ıvel e do intelig´ ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite a a resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser c˜ a em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas c˜ o n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez mea e nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´ e ıvel, e que tem, como diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´ a ıvel”. S˜o as diferentes dosagens a realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por c˜ a dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a a diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sinc e cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias o e o a entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arriscoo me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um ca e ca discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisaıvel a mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das o c˜ culturas. A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento inintere rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo a e apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente e e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ a ıvel. Roger Bastide entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos s´ ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi e totalmente antrop´logo. o

˜ ´ ´ 162CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es c˜ o c˜ o que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de c˜ c˜ compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e e a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a ime o possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser a e aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia. a a Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985

Cap´ ıtulo 20 Sobre o autor:
´ Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E c e ´ autor de A Etnopsiquiatria (Editions Universitaires, 1973), As Trˆs Vozes do e ´ Imagin´rio: o mecanismo, a possess˜o e a utopia (Editions Universitaires, a a 1974), A Cultura do Psiou O Desmoronamento dos Mitos (Privat, 1975), A Filosofia e a Violˆncia (Presses Universitaires de France, 1976), Doen¸as e c ´ ´ Mentais e Terapˆuticas Tradicionais na Africa Negra (Editions Universitaires, e ´ 1976), A Medicina Popular na Fran¸a Rural Hoje (Editions Universitaires, c 1978), Um Vidente na Cidade: estudo antropol´gico do gabinete de consulo ´ tas de um vidente contemporˆneo (Editions Payot, 1985) e Antropologia da a ´ Doen¸a (Editions Payot, 1986). c

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SOBRE O AUTOR: .164 CAP´ ITULO 20.

1974. Georges. Louis Antoine de. Ajrique Ambigue. 1978. la Transe. 165 . D´possession du Monde. Gallimard. Le Prochain et le Lointain. ` ˆ Benedict. Symbole. Berque. PUF. 1971. Le Rˆve. Introduction a 1’Anthropologie Sociale. lacques. Paris. de Minuit. L’Anthropologie Contemporaine. 1972. Flammarion. Paris. Anthropologie Appliqu´e. La C´r´monie du Naven. Beattie. Histoire. Voyage Autour du Monde. Paris. 10/18. Marc. 1964. Le Candombl´ e de Bahia. Paris. PUF. Le Seuil. Flammarion. 1980. 1972. Bateson. Cujas. e Bougainville. Paris. 1970. (ames. Plon. Calmann-L´vy. 1972. Gallimard. Balandier. PUF. Paris. 1971. Fonction.Bibliografia Adotevi. —ohn. Paris. e e Auge. e e Paris. Sociologie des Maladies Mentales. Hachette. Paris. Anthropologiques. ee Baldwin. Paris. 1979. e Bastide. Pandora. – C´nie e du Paganisme. 1955. Le Racisme en Ouestion. Auzias. Paris. Mouton. Flammarion. 1959. PUF. 1982. Paris. Paris. Paris. Images du Nordeste Mystique en Noir et Blanc. Paris. 1972. 1950. Ed. Payot. Paris. Sociologie et Psychanalyse. Gallimard. Paris. Sociologie Actuelle de l’Afrique Noire. 1950. la Folie. 1957. Paris. Jean-Marie. 1965. A. Paris. Gregory. Paris. Paris. Paris. Colin. Sociologie des Brazzavilles Noires. N´gritude et N´grologues. 1955. Stanislas. 1967. 1976. Ruth Echantillons de Civilisations. Roger. PUF. Anthropologie Politique.

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BIBLIOGRAFIA Escaneado e diagramado por MathCuei R . com o auxilio de A L TEX 169 .

170 BIBLIOGRAFIA .

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