epistemologia e modernidade

AUTOR: JOSÉ RICARDO CUNHA

1ª eDIçãO

ROTEIRO DE CURSO 2010.1

Sumário

Epistemologia e modernidade
I. APRESENTAÇÃO DO CURSO..........................................................................................................................................................03 II. PROGRAMA DO CURSO ..............................................................................................................................................................05 III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA .........................................................................................................................................................07 IV. PLANO DAS AULAS ...................................................................................................................................................................10 AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS. PENSAMENTO E VERDADE.................................................................................10 AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH ...................................................................................................14 AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES ............................................................................................................17 AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS ................................................................................................................................26 AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES .......................................................................................................................................29 AULA 6. INATISMO: DESCARTES......................................................................................................................................................31 AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE ..............................................................................................................................................35 AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO ...................................................................................................................39 AULA 9. CRITICISMO: KANT ............................................................................................................................................................42 AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE ...................................................................................................................................................48 AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA .....................................................................................................................53 AULAS 12 E 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO ..............................................................................................57

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

i. apresentaÇÃo do CUrso

Saudações acadêmicas! Este é o Curso de Ciência e Modernidade – uma introdução ao problema da verdade. Trata-se de um curso de filosofia que caminha entre a filosofia geral e a filosofia do direito e sua missão é problematizar o tema da verdade. Dessa forma, serve como pressuposto lógico e didático para o curso de filosofia do semestre seguinte, que irá problematizar o tema da justiça. Assim, o aluno será inserido nos dois pilares filosóficos – verdade e justiça – especialmente escolhidos e pensados para a grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas. Toda a tradição jurídica foi forjada tendo como pressuposto conceitual, de forma mais ou menos clara, a idéia de verdade: verdade dos fatos, verdade das leis, verdade da constituição, verdade do processo, verdade do discurso, verdade do intérprete, etc. Ainda que o conceito em si de verdade nunca tenha sido tematizado de forma absoluta ou mesmo encontrado um consenso entre filósofos ou juristas, a idéia da verdade sempre esteve – e ainda está – amparando e legitimando o direito e as decisões jurídicas. Seja pela recorrência aos fatos, às normas ou à argumentação, a comunidade jurídica busca um amparo de veracidade que responda aos anseios da consciência epistemológica de toda a sociedade. Isso deve deixar claro que o problema da verdade não é específico do direito, nem mesmo da filosofia, mas, antes, trata-se de um problema humano e, por isso mesmo, social. Essa imbricação entre sociedade e verdade nunca foi tão profunda e tão explícita como na modernidade. O laicismo moderno foi convertido em cientificismo moderno e a ciência, tendo na técnica o seu braço operacional, passou a ocupar o centro do pensamento social e o lugar privilegiado da verdade. Todas as formas de conhecimento e instituições modernas foram, então, visceralmente marcadas por essa “ideologia cientificista”. Foi assim com a economia, a política, a medicina e, dentre outras, o direito que, rapidamente, converteu-se em ciência do direito. Como se não bastasse, os próprios ramos do direito iniciaram uma corrida alucinada pelo seu próprio estatuto de cientificidade e, por isso, lemos e ouvimos falar em coisas como “ciência do direito processual”, “ciência do direito penal” ou “direito civil como ciência própria dentro do direito”. Todas essas reflexões terão lugar neste curso de Ciência e Modernidade. Não se pode imaginar, hoje, a figura de um profissional crítico e hábil do direito, que seja capaz de pensar por problemas e raciocinar dialeticamente, sem que esteja inserido nesse debate filosófico e preparado para a problematização da verdade. Portanto, o presente curso não tem caráter secundário ou diletante. Embora esteja cercado pelos prazeres da filosofia, sua tarefa é árdua e exige concentração e aprofundamento. Trata-se de uma oportunidade ímpar de experiência do pensamento para a qual estão todos desde já convidados.

FGV DIREITO

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3. FGV DIREITO 4 . tendo em vista o estudo dos limites e possibilidades de uma ciência do direito no contexto da crise e da crítica do paradigma da modernidade.3.2. antigos e modernos. trabalhos e provas que forem aplicados. realização das leituras obrigatórias. ObjetivO Geral da disciplina Introduzir noções essenciais para a problematização do conceito de verdade a partir da compreensão dos fundamentos da epistemologia. 2.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 1. que contribuíram para a constituição das idéias mais fortes de verdade na cultura ocidental. Investigar as bases positivistas do cientificismo moderno e a sua inflexão sobre a chamada “ciência do direito”. 2. Apresentar a verdade como objeto de um intenso debate histórico – filosófico e jurídico – sobre o qual não há um consenso definitivo. fOrmas de avaliaçãO O aluno será avaliado mediante sua participação qualificada em sala de aula. Estudar os principais fundamentos.1. 2. ObjetivOs específicOs da disciplina 2.

8. 5. Fundamentos filosóficos da antiguidade para a verdade. Modernidade. Empirismo: Hume e Locke. Unidade 2: fUndamentOs da mOdernidade 6. Realidade e verdade: Heráclito e Parmênides. Positivismos jurídicos e a ciência do direito. Unidade 3: ciÊncia e direitO na mOdernidade 10. O positivismo e os positivismos jurídicos na ciência do direito. 2. O positivismo: Comte. Modernidade e ideologia cientificista. Fundamentos filosóficos da modernidade para a verdade. Conceito e verdade: Sócrates. Formalismo Jurídico e Realismo Jurídico. Os positivismos jurídicos e a ciência do direito II. Introdução ao curso e seus objetivos. Inatismo: Descartes. veritas. intrOdUçãO: a verdade cOmO tema e prOblema 1. emunah. 13. programa do CUrso ementa Objetivos da filosofia e filosofia do direito. verdade e ciência. Linguagem e verdade: os Sofistas. Criticismo: Kant. 4. Nossa idéia de verdade: aletheia. 7. Pensamento e verdade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ii. 9. Unidade 1: fUndamentOs da antiGUidade 3. 11. 12. O pensamento e as tarefas do pensamento. FGV DIREITO 5 . As idéias de verdade e seus desafios intelectuais e sociais.

O fio condutor de todas as reflexões é o tema da verdade e os autores serão abordados não com o fim de se conhecer suas respectivas obras.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ObservaçãO impOrtante O Curso não se propõe a uma abordagem enciclopédica do tema proposto. mas como forma de aproche para acepções relevantes ao tema. FGV DIREITO 6 . o que seria impossível nos limites da carga horária da disciplina. além de didaticamente questionável.

1989. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. (Org. 1999. Manuel. 1993.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iii. Theodor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. 1980. 2000. Augusto. ARAÚJO. Inês Lacerda. 1985. 1999. São Paulo: Cultrix. BATIFFOL. BOBBIO. 1978. Giorgio. A filosofia do direito. A condição humana.d. Robert. Lisboa: Instituto Piaget. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. O justo e o verdadeiro: estudos sobre a objectividade dos valores e do conhecimento. José Ricardo. ______. São Paulo: Abril Cultural. Henri. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. Campinas: Unicamp. ______.]. 1999. Modernidade e ambivalência. ______. FGV DIREITO 7 .). São Paulo: Ícone. Zygmunt. Empirismo. ARENDT. 1983.). Testabilidade e significado. Introdução à filosofia da ciência. São Paulo: Landy. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. Helmut. São Paulo: Abril Cultural. [s. BAUMAN. a sociedade e a cultura emergente. Sir Ernest. COING. 1984. México: Fontamara. 1983. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. Hannah. BORNHEIM. O ponto de mutação: a ciência. 1994. 1992. São Paulo: Abril Cultural. 1995. Fritjof. BARKER. 2002. CANARIS. Claus-Wilhelm. Max. Teoria política grega: Platão e seus predecessores. BACON. Convite à filosofia. Dicionário enciclopédico de teoria e sociologia do direito. São Paulo: Abril Cultural. ______. ARNAUD. 2002. Elementos fundamentais da filosofia do direito. 1998. 1980. Gerd. 1995. Curso de filosofia positiva. CUNHA. Os filósofos pré-socráticos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. semântica e ideologia. São Paulo: Abril Cultural. Marilena. Lisboa: Calouste Gulbenkian. 1998. São Paulo: Ática. Lisboa: Editorial Notícias. BiBliograFia sUgerida ADORNO. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Rudolf. ALEXY. O nascimento da filosofia. HORKHEIMER. CARNAP. BOUDON. CHAUÍ. COLLI. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. André-Jean (Org. CAPRA. Norberto. São Paulo: Abril Cultural. Derecho e razón práctica. Discurso sobre o espírito positivo. Raymond. Francis. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. ATIENZA. Rio de Janeiro: Renovar. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Curitiba: EdUFPR. Brasília: EdUnb. São Paulo: Brasiliense. 1983. São Paulo: Cultrix. 1994. COMTE.

FGV DIREITO 8 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1980. René.]: Europa-América. 1979. Arthur (Org. DINIZ. LÖWY. David. MARQUES NETO. 1980. HUME. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1990. 1996. HESSEN. Introdução crítica ao direito. Ensaio acerca do entendimento humano. 1997. É o direito uma ciência? São Paulo: Rideel. Meditações. Rudolf von. Por uma filosofia crítica da ciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. MORIN. Mchael. 1987. Agostinho Ramalho. Richard L. Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporânea. 1997. São Paulo: Loyola. KAUFMANN. Crítica da razão pura. ______. 2004. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. 2001. Discurso do método. 1978. Paul. Johannes. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Abril Cultural. Goiânia: Editora da UFG. HAWKING. 2002. Teorias da verdade. Panorama histórico da cultura jurídica européia. Tércio Sampaio. Rio de Janeiro: Forense. Lisboa: Gradiva. Metodologia da ciência do direito. 1991. A ordem oculta: como a adaptação gera a complexidade. GARCIA-ROZA. São Paulo: Abril Cultural. Alexandre. 2003. São Leopoldo: Unisinos. HOLLAND. FERRAZ JR. São Paulo: Perspectiva. Hilton. Teoria do conhecimento. São Paulo: Atlas. 1979. John.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE DESCARTES. São Paulo: Saraiva. 1973. Rio de Janeiro: Imago.l. Contra o método. São Paulo: Abril Cultural. Coimbra: Arménio Amado. Michel. 2005. Luiz Alfredo. Maria Helena. São Paulo: Abril Cultural. KOYRÉ. John. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise.. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Reinhard (Org. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Introdução ao estudo do direito: conceito. Edgar. HABERMAS.). 1998. António Manuel. KIRKHAM. Thomas. Lisboa: Estampa. Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. KANT. 1993. JHERING. Rio de Janeiro: Rocco. HESSE. LOCKE. Estudos de história do pensamento filosófico. 2000. 1989. Karl. A ciência do direito. 1980. MIAILLE. São Paulo: Abril Cultural. FEYERABEND. Rio de Janeiro: Forense Universitária. KUHN. LARENZ. 1994. Compêndio de introdução à ciência do direito. São Paulo: Cortez. objeto e método. Hilton. Stephen William. JAPIASSU. Immanuel. Ciência com consciência. 1989. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. 1990. Portugal [s. HESPANHA. 1983. Jürgen.). 1981. JAPIASSU. São Paulo: Letras e Letras. Investigação sobre o entendimento humano. Questões epistemológicas.

História da Filosofia. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. François (Org. TEIXEIRA. Carlos Alberto. São Paulo: Saraiva. 1989. 2001. Richard. São Paulo: Ática. Miguel. 1994. Colômbia: Universidad Nacional de Colômbia. 2000. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Lisboa: Casa da Moeda. 2006.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ______. Lisboa: Dom Quixote. 1999. 1998. Rio de Janeiro: DP&A. Lógica jurídica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. TOURAINE. Susana de. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídica. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasileiro/ EdUnb. Rio de Janeiro: 7 Letras. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei – temas para uma reformulação. CASTRO. Elementos para uma teoria crítica del Derecho. Ensaios pragmatistas sobre verdade de subjetividade. Lógica das ciências sociais. Petrópolis: Vozes. Conseqüências do pragmatismo. António Braz..]: Europa-América. Filosofia do direito. Buenos Aires: Paidos. POPPER.). Paulo. REALE. NAGEL. FGV DIREITO 9 . WARAT. Vera. Ernest. São Paulo: Martins Fontes. Lisboa: Instituto Piaget. Idéias contemporâneas: entrevistas do Le Monde. (Orgs. RORTY. Alain. Ilya et al. A filosofia positiva de Augusto Comte. Crítica da modernidade. 2001. 1974. 2006. 1995. PRIGOGINE. 1996. GHIRALDELLI JR. O método III: o conhecimento do conhecimento. François. In: CHÂTELET. Luiz Alberto. PERELMAN. VIDAL.l. RORTY. A questão da verdade: da metafísica moderna ao pragmatismo. Richard. 1978. René. 1996. VERDENAL. Karl. OST. La estructura de la ciencia. Chaïm. Portugal [s.). 1994. PLASTINO.

” (Aristóteles.” progredindo em seguida (Aristóteles. pensamento e Verdade NOTA AO ALUNO tema da aUla Apresentação do curso. O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que não são familiares? não são familiares? • Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e verdade? Nada nos é mais familiar do que o tempo. não explicação. sendo priassim hoje como no começo. com efeito. Introdução ao problema da verdade como tarefa do pensamento. I..um tempo futuro? oOnde ele aestá? SeFGV DIREITO 10 o passado é o que eu.. pelo espanto que os homens. O que há de mais ele passa? O que um o futuro. com efeito. Metafísica. fornecerperguntar: Como fácil e breve. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para “O que e do tempo?para o eu disser que o tempo é a passagem encontro o presente Tentemos terei que uma explicação o presenteé explicação. prepare-se para aPARA A AULA 3) PREPARE-SE aUla Diz Aristóteles: “Foi. 2). pelo espanto que os homens. não encontro O que é Se eu disser que tempo é passagem tempo passado? Onde ele está?explicação. do do passado para oepresente e doque eu.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iV. inserir o assunto da verdade mediante uma reflexão acerca do pensamento como experiência humana. plano das aUlas aUla 1. introdUÇÃo ao CUrso e seUs oBJetiVos. Veja o que diz Santo Agostinho sobre verdade? o tempo: Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e • • Nada nos é mais familiar do que éo tempo?Tentemos fornecer uma explicação fácil e sobre o tempo? Veja o que diz Santo Agostinho “O “O que oo tempo. do presente espero. presente recordo o futuro é o presente para o futuro. O O quedehá de mais efamiliar edo que o tempo? que o tempo: breve.. e do em seguida pouco a poucopouco a pouco até resolverem problemas até resolverem problemas maiores. Metafísica. 2). e progredinprimeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. Diz Aristóteles: “Foi. I. Se futuro. não encontro tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. foram filosofar. sendo meiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias.. Tentemos fornecer uma explicação fácil e que é breve. foram levados alevados a filosofar. assim hoje como no começo. ObjetivOs da aUla Apresentar o curso aos alunos e organizar a forma de avaliação. que há mais familiar conhecido conhecido do Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. maiores. terei que dizer que o tempo é o tempo presente? Mas quanto então não seria mais corretoperguntar: Como pode apenas o passar? Como sei que . terei podepassado para Como sei que e do presente éparatempo que o do o tempo passar? o presente familiar e conhecido do tempo? Mas o que é Como sei que ele passa? O que é um que perguntar: Como pode o tempo passar? o tempo? Quando quero explicá-lo.

ter claro é mais do que isso.” não começamos a pensar. Confissões) Como o tempo é familiar e pode ser estranhado. o que faz pensamento. é presente ou futuro? O que é o tempo afinal?” (Santo presente ou futuro? O que é o tempo afinal? (Santo Agostinho. este “r” é ainda de colocar o é no verbo colocar. se acha. Tam-maior do experiência existencial histórica. tunidades pessoais somente podem ser forjadas sem o outro ou contra o Pensar não é racionalizar na forma de causalidades. então não presente? Mas dizer que o tempo é apenas presente? Mas quanto “r” um presente?? Quando acabo dura um presente?? Quandooacabo de colocar odurano verbo colocar. isto é. nos sentido às sujeitos ao mundo. é que ainda Deve-se indagar ao aluno: Diante da afirmação de Heidegger: Por que ainda não começamos a pensar? • • Por que ainda não começamos a pensar? O que é pensar? O que é pensar? Pensar não é divagar ou devanear sem compromissos. O individualismo: este nos conduz a achar que nossa subjetividade e oporpensamento. nada melhor do que provocação feita por Heidegger: a provocação feita por Heidegger: Como o tempo é estranhadas. Confissões) Agostinho. conseqüentes. o ser superados: Temos deve ser grandes obstáculos ao pensamento que devem que não é pensar: a. reflita e prepare-se para o debate: 9 FGV DIREITO 11 . também as verdades são familiares e liares e podem e devem ser estranhadas. antecedentes e outro. pensar é um mera inexistente dando define comocoisas e criadores e capazes de transcender amovimento de reapropriação do mundo por meio da significação e resignificação do mundo. Representa. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. do presente espero. passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu.breve. nesse sentido. de Nietzsche. mas criar. repetitivos. nada melhor do que a “O QUE MAIS DESAFIA O PENSAMENTO NESSA ÉPOCA DE DESAFIO DO PENSAMENTO. é estou pensando em escrever a seguir. não encontro explicação. Pensar é nos define repetição e a mesmificação. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. Assim. É QUE AINDA NÃO COMEÇAMOS A “O que mais desafia o pensamento nessa época de desafio do pensamenPENSAR. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. A massificação: esta nos cálculo perda de nossa singularidade nos definindo apenas como parte de coletivos mais ou mera repetição. e 2) uma exigência de justificação permanente de todas as normas e padrões de conduta. Mas para que isso aconteça. Leia a parábola abaixo. 1) uma ruptura com as cartilhas e manuais. O que há de mais familiar e conhecido do que o tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. deve-se ter em conta que o pensamento é uma diante da vida. pensar não é conduz ànem ser eficiente. do presente recordo e o futuro é o que eu. terei EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro. doo tempo é apenas o seria mais correto quanto não seria mais o futuro o que que presente espero. também as verdades são famipodem e devem serfamiliar e pode Mas para que isso aconteça. possam mesmo tempo pessoal e contexto Para se superar tais obstáculos. ser estranhado. este “r” ainda presente ou já é passado? A palavra a presente ou já “r”passado? A palavra éque estou pensando em escrever queseguir. ao contrário. Para tanto. ninguém se perde no O debate hoje.” to. então do presente recordo e correto édizer eu. Para tanto. não é fazer a menos amorfos e Embora todos estes eelementospor isso ao até fazer parte de umsocial. dois canalizado para a síntese negativa. Certamente. b. Pensar é uma atitude quepoder fazer surgir o bém deve-se pensar que pensar não é um ato. Pensar não é mimese.

há de mais pesado. e ajoelha como um camelo Não será isto: humilhar-se. e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim. suportador e respeitador? Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer. pergunta o espírito de suportação. Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso. em cada escama resplende. no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga. por amor à verdade. Certamente. que não ouvem nunca o que queremos? Ou será isto: entrar na água suja. vale discutir com os alunos a parábola das Três Metamorfoses de Nietzsche: EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Das três metamorfoses Das três metamorfoses Três metamorfoses. ao qual inere o leão e o cargas por fim. o espírito Muitos fardos pesados nomeio-vos. no mais ermo dos desertos. não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão. para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a próe quer ficar bem carregado. Na verdade. para que é preciso o leão. Meus irmãos. o espírito forte. que marcha carregado para o deserto. Três metamorfoses. ó heróis". meus irmãos. quer lutar para vencer o dragão. pria loucura. pesadas. cargas pesadas. pede fardos pesados há para o espírito. Procura ali. as mais pesatorna camelo e o camelo. pergunta o espírito de suportação. mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer. pede a sua força. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. marcha ele para o seu próprio deserto. bem como do seu derradeiro deus. e ajoede suportação. pergunta o espírito de supor“O que tação. “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre? "O que há de pesado?". precisa-se do leão. “O que há de pesado?”. “Tu deves” barra-lhe o caminho. tal como o camelo. leão. lançando faíscas de ouro. quando ele nos quer assustar?” Todos estes pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação. Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. em letras de ouro. criança. padecer fome na alma? 10 Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos. quando ela celebra o seu triunfo? Subir o tome sobre mim e minha força se alegre? para altos montes. Qual é o grande dragão. a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto. por fim. ao qual inere o respeito. do espírito: como o espírito se de suportação. o espírito forte. nomeio-vos. quer conquistar. a fim de tentar o tentador? Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e. criança. há para o espírito. pergunta o espírito de suportação. “Tu deves !” Valores milenários resplendem nessas escamas.normas e padrões de conduta. "para que eu Ou será isto: apartar-se da nossa causa. respeito. Nessa linha. animal de escamas. o espírito Muitos a sua força. ó heróis”. e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos? Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma. dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão. as mais lha como um camelo e quer ficar bem carregado. e. pesadas. FGV DIREITO 12 . do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo. das. o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo. se for a água da verdade. leão e o leão. para escarnecer da própria sabedoria? "O que há de mais pesado. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. como presa. Mas.

55-74) GARCIA-ROZA. Como o que há de mais sagrado amava ele. José Ricardo. leão e o leão. um jogo. é a criança. agora. 1990. outrora. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. 1998. Sim. Assim Falou Zaratustra) bibliOGrafia complementar CUNHA. Mas dizei. um novo começo. um movimento inicial. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. precisa-se do leão. aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo. é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. Luiz Alfredo. Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito torna-se camelo e o camelo. um sagrado dizer “sim”. quer a sua vontade. a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina. (Capítulo 2 – O Homem como Universo Infinito de Possibilidades. (Nietzsche. pp. que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança? Inocência. para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito. e esquecimento. na verdade. meus irmãos. pp. e. (Introdução. um ato de rapina e tarefa de animal rapinante. que poderá ainda fazer uma criança. por fim criança. o “Tu deves”. Constitui para ele. 7-23) FGV DIREITO 13 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. agora. meus irmãos.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Assim falou Zaratustra. uma roda que gira por si mesma.

Também relacionada com a verdade. De efeito. de forma que o verdadeiro é considerado bom e a verdade um bem. por oposição a um pensamento crítico. com a natureza e com Deus) ele busca encontrar nela uma verdade. Entretanto. permanecemos com nossas opiniões e crenças sem ter nenhum motivo para duvidar delas. estamos diante do que pode ser chamado de pensamento mítico.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 2. Veritas. Evidentemente que a busca da verdade somente pode se realizar de forma crítica. Veja e reflita sobre a tabela abaixo: pensamento mÍtiCo Preso e modelado Descomprometido e irresponsável esvaziado de senso ético Simples Subserviente pensamento CrÍtiCo Livre e criativo Comprometido e responsável Marcado pelo senso ético Complexo Autônomo. suas contradições e possibilidades na filosofia e no direito. nem tudo pode ser qualificado como verdadeiro: a verdade deve. correndo-se o sério risco de perpetuar mitos e preconceitos. Trata-se mesmo de um traço antropológico. com o outro. antes de qualquer coisa. em geral. pois em todas as relações que o homem trava (consigo mesmo. Essa busca pela verdade gera no homem certo conforto e estabilidade por estar diante de algo que acredita como fidedigno. a busca pela verdade acaba por atribuir à verdade um valor em si mesmo. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. isto é. ObjetivOs da aUla Desenvolver uma reflexão sobre o conceito. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. No senso comum. apresentar as principais tradições que confluíram para nossa idéia geral de verdade. no campo do pensamento crítico. se reproduz as afirmações que são recebidas prontas. cotejar a idéia de verdade com a experiência jurídica. ser buscada. é a incerteza. Quando o senso comum se cristaliza sobremaneira. Aqui. naturalmente digno de confiança. Para isso. historicamente se diferenciou verdade de senso comum. sentido e limites da verdade. emUnaH NOTA AO ALUNO tema da aUla A idéia de verdade. nossa idÉia de Verdade: aletHeia. prepare-se para a aUla A busca pela verdade é tão antiga quanto a existência do homem no mundo. na ordem da incerteza também se está FGV DIREITO 14 .

que ocorre no senso Essa dúvida gerada pela de uma ou outra forma: samento mítico. se o cretense. o latim e o hebraico. é evidente à razão. ocorreu. então ela é falsa. somos herdeiros de três tradições lingüístico- A verdade nos conforta e alivia. a verdade pode se ap VERDADE SENSO temos: Esquematicamente COMUM INCERTEZA Contudo. • crer-confiar: da ao que será. e o direito? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo expressões do tipo: “verdade dos fatos”. na ordem daver-perceber: liga-se ao que é. Assim. Também relacionadatemos as verdade. Na sua forma o para nos afastar de todas as dúvidas e inseguatribuído ao cretense Epimênides. fatos ou situações. ao dissimulado. No direito. então o que lê FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Como reagir ao Paradoxo do Cretense?? Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. ficamos em dúvida sobre em que • Como alethéia (ver-perceber) quando conectada agir diante de certas pessoas. dúvidas e inseguranças. numa linguagem fiel ou Paradoxo PARADOXO DO CRETENSE. tas exigem novas verdades. Por isso. coerência interna ex ralisia. mas se for verdadeira. O verdadeiro é o do mentiroso. O verdadeiro é o enunciado ou o relato Claro que. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. é condição imprescindível na dinâmica do distintos. Contudo. No direito não basta a verdade pura e simples.está fora da incerteza também se • verdade. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. sentido moral ou ético. Contudo. na incerteza tem-se plena consciência da distância da verdade e da incerteza.1 Independente dos resultados a que se chegue. Nessa segunda hipótese. FGV DIREITO 15 CONTEXTO DA Formas pelas quais . gera medo e pagerada pela incerteza. então o que lê diz “é verdadeiro”. Todavia. é um mentiroso. ela não é absoluta ou suficiente manifesta como tal ao espírito por oposição ao falso. estaremos diante de aporias. na verdade. Em nos conforta e alivia. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Na ocorrência da incerteza. correspondência entre nosso intelecto e a coisa. A SENTENÇA SEGUINTE Édiz é verdadeiro. Contudo. se o que ele diz é falso. a da verdade diz sofrer fissuras. sem porque novas situações e descoberranças. nos impulsiona na busca pela verdade. logo está mentido. ou P de. diferentemente do que ocorre no senso comum ou pensamento • falar-descrever: liga-se ao EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que foi. Portanto. Contudo. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. na incerteza tem-se plena consciência da distâncialiga-severdade e da própria da idéia de verdade: ignorância. Na sua forma original é atribuído ao cretense Epimênides. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. a pergunta primacial que05] coloca é sobre a natureza [inserir figura se culturais distintas: o grego. ficamos em dúvida sobre em que acreditar ou fora da verdade. precisão. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele se ele diz a verdade. Como Epimênides é ele mesmo um ela é verdadeira. Mas podemos dar uma 18 versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: que ele diz é verdadeiro. Seja fundamental. É tos. não há paradoxo. porém. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. O que é verdade? Acerca dessa questão riam os sentidos possíveis paraaa verdade. própria ignorância. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. “verdade das tempo somos confrontados com expressões do tipo: verdade dos faleis”. Dependendo do sentido ao qual se atribua mais peso. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. o fato é que mesmo em relação à verdade. Por isso. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. quando condição imprescindível na dinâmica do conhecimento. significando o não-oculto. quando conectada ao pensamento crítico. descrição ou num relato sobre algo. então afirmado que todos os cretenses são mentirosos. Contudo. então o que lê diz é falso. a pergunta primacial que se coloca é sobre a natureza da verdade. exatidão na Em Latim. comum ou penem como agir Todavia. não há apenas várias correntes ou definições. que são estabelecidos ou herdados pelos sujeitos. certas pessoas. • Como veritas (falar-descrever) sugere validade. seja porque a própria unidade ontológicaverdade se pode veritas. diante dediferentemente do fatos ou situações. Nessa segunda hipótese. porém. reto. Trata-se de apresentar algo exatamente como Uma das mais conhecidas aporias é o chamado então o que lê diz “é falso”. se o que ele diz é falso. O que é a verdade? Pense sobre quais seda verdade. quando conectada ao pensamento mítico. Também o A verdadegrego. Também nos oferece uma sensação m estabilidade. Na ocorrência da incerteza.Dessa forma. nos impulsiona na busca conceitos Deve-se deixar claro aos alunos como a busca pela verdade envolve três pelo uso correto das regras da linguagem. pela verdade. Assim. então sem sentido e autoreferenciado. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer do mentiroso. significando rigor. ela não é absoluta ou suficiente para nos afastar de porque novas situações e descobertas exige verdades. é conectada ao pensamento mítico. o verdadeiro se revelado. mas recorrentes: • Como emunah (crer-confiar) sugere confiança em convenções ou co conhecimento. verdade das leis.ao acontecido. estaremos diante de apori das mais conhecidas aporias é o c nos oferece Trata-se de descobrir o que é da forma que é. gera medo e paralisia. uma sensação maior de estabilidaPARADOXO DO CRETENSE. Se a sentença é falsa. é a incerteza. verdade do processo ou verdade do intérprete. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. a verdade comumente diz-se aletheia. Essa dúvida sugere evidência ou a acreditar ou em como ao pensamento crítico. Sejadistorção ou falseamento. seja porque a própria unidade ontológica da verdade pode sofrer Assim. que teria dizer que tudo que ele diz é mentira. mítico. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Aqui. com a três grandes tradições herdadas pela filosofia na con no campo do pensamento crítico.

94-107) complementar KIRKHAN. São Leopoldo: Unisinos. Marilena. Richard. e Capítulo 3 As Concepções de Verdade. Convite à filosofia. (Unidade 3. (Capítulo 1 Projetos de Teoria da Verdade. 2003. e Capítulo 9 O Paradoxo do Mentiroso) FGV DIREITO 16 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória CHAUI. pp. 1994. Teorias da verdade. São Paulo: Ática. Capítulo 2 Buscando a Verdade.

na medida em que nada é. Tamanha a importância desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma escola própria. Heráclito de Éfeso HERÁCLITO DE ÉFESO “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. informam e desafiam as concepções de verdade. Tamanha a importância partes imanentes da filosofia heraclitiana. avança e se retira. a força dialética por excelência: “movendo-se. Tema da aula tema da aUla Ontologia do real: o real: o problemado devir. mas vem-a-ser. ao mesmo do devir. a partir do encontro com seu24 contrário: “Tudo se faz por contraste. a transformação e. por conseqüência. nada é absoluto. descansa (o fogo etéreo a força dialética por excelência: "movendo-se. tempo. e Ontologia do problema do ser e do ser do devir. realidade e Verdade: HerÁClito e parmÊnides NOTA AO PROFESSOR NOTA AO ALUNO 1. dois grandes filósofos (ou pensadocontexto do pensamento pré-socrático. o conflito. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES aUla 3. da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia” (Fragmento 08). DESENVOLVIMENTO Introduzir o debate acerca do do devir como problema ontológico para a Introduzir o debate acerca do ser e ser e do devir como problema ontológico para a res) se destacaram pela visceralidade de seus pensamentos. Heráclito de Éfeso e Pardestacaram pela visceralidade de seus pensamentos. real. O pensamento logológico de Heráclito. O movimento. Heráclito de Éfeso e mênides dede Eléa plantaram para toda a a posteridade filosófica a questão do ser e do Parmênides Eléa plantaram para toda posteridade filosófica a questão do ser e devir. avança e se retira. reveste-se de imprevisibilidade. ao mesmo tempo. ObjetivOs daaula 2. Duas compreensõesdistintas e opostas da ontologia do realdo real que. que surge a partir da força dos contrários é. compreensão da verdade acerca do do desenvOlvimentO 3. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. com tal com tal denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico a idéia de a idéia de movimento. A mudança e a transformação e. o conflito são FGV DIREITO 17 . são partes imanentes da filosofia heraclitiana. por conseqüência. descansa (o fogo etéreo do corpo do corpo humano)” (Fragmento 84 a). pois o movimento constante faz com que as coisas sejam e não sejam numa dinâmica sem fim. Logo. Duas compreensões distintas e opostas da ontologia que. O movimento. movimento. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista.” (Fragmento 91) A mudança. escola própria. Dispersa-se e reúnese. ao encontrar-se com o dinamismo do movimento. dois grandes filósofos (ou pensadores) se “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. que surge a partir da força dos contrários é.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE AULA 3. Dispersa-se e reúne-se. informam e desafiam as concepções de verdade. Objetivos da aUla compreensão da verdade acercareal.” (Fragmento 91) No No contexto do pensamento pré-socrático. em si mesmo. em si mesmo.

mas ser e pensar. o caso o caso Board Aqui. para Parmênides. Parmênides. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. ainda que uma camada superficial e acidental possa vir a se modificar.. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. nhos deTeorias da de inquérito pensar: o primeiro. de uma geração após Heráclito e seu principal opositor. Independente dos resultados a que se chegue. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. O e tipo: “verdade dos parmenídico portanto ser".caminhosVerdade. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação.Claro que. então que lê diz “é verdadeiro”. pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüível). Por isso. Não Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. devemos considerar que basta a possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como devemos considerar que basta a mudança de (norma. Assim. manifestada na dizer que tudo que ele diz é mentira. e o que aquele que é. encontra-se na práxis é nomeado diz o filósofo no seu fragmento E se a physis O sentido absoluto do serhumana pelo lógos. então conclusão não poderia ser Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há preciso ser. sentido moral ou ético. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. No direito.. Veja-seVeja-se Brown x Brown x Board os os demais também se transformem. porque reito seria marcado por uma essência imutável. não há apenas várias correntes ou definições. sendo Fundamental na leitura do fragmento nos parece o caráter totalmente excludente a segunda verdadeiramente impossível. então.. o pensar passaE aDIREITO? Como o problemaintrínseca do ser na sua manifestação lógica: ". que não é e este então. e a primeira distinguir realmente leva básicos a reflexão alétheia. então ela é verdadeira. Logo. então ela é falsa. sendo considerar como o principal representante da Filosofia do Ser. FGV DIREITO 18 26 . PARMÊNIDES DE ELÉA CONTEXTO DA DESCOBERTA parmênides de eléa 1 Formas pelas quais "Pois bem. “verdade com significaseu fragmento de guarda três. então a conclusão não poderia ser outra. o único caminho filosófico é o do ser. outra. havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado.do Se “verdade dos fatos”. No direito.pode-se Parmênides. investigatório capaz de levar diz é falso.portanto que te digo. São duas fipode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. No direito não basta a verdade pura e simples. “Pois bem. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. ser / não ser. então liação entre se forexclusivas. é atalho ser. “verdade do processo” ou “verdade dodo direito. são a pensar: o primeiro. o único 1 caminho e o direito?filosófico é o do ser. verdadeiro e justo se não é. Mas o problema aponta para o paradoxo real que prática racional-argumentativa. não há paradoxo. e o que não muito tempo pela filosofia. de Persuasão é acompanha).de todo o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA universo. sentido moral ou ético. do Ser. physis encontra-se na nos a própria physis. como final as categorias final da autores expressões tipo: inclusive o Direito. então ela é falsa. não pode ser outra coisa.. o fato é é. e o direito? [inserir figura 07] E O DIREITO? constante mutação..1 Independente dos resultados a que se chegue. que é e portanto Richard L..que demarca o caráter de do do processo” ou seriam do intérprete”. São duas mente exclusivas. que é e portanto que não inquérito que são a que 20 que não é não é caminho (pois à verdade caminho o outro. este acompanha). Fundamental paradoxo. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. diz das expressões uma essência imutável. principal opositor. deve-se apresentar aos alunos da aula). Se a sentença é falsa. é atalho de todo incrível. essência de todo o universo. pode-se considerar como o principal representante da Filosofia e seu Desta forma. justificação. na verdade. 2003. na verdade. dada sua não-existencialidade. de Persuasão ser. É é nomeado no Como possível falar-se em Aqui. A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA no exercício da na prática demarca o caráter de todos os entes:aaquele que é. KIRKHAM. concomitantemente. está excluído da verdade. oeste é o absoluto. eu te direi. sentido absoluto“verdadeser verdadeou “verdadeverdades? exercício da palavra.. São Leopoldo: Unisinos. está excluído da verdade. inclusive o Direito. de número três. este é absoluto. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. irá a segunda verdadeiramente impossível. No direito não basta a verdade pura e simples. Não havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único caminho então o que lê diz “é falso”. porque é manifestada palavra que racional-argumentativa. Por isso. eu te direi. lidar com os problemas de insegurança jurídica? valor) para que demais também se transformem.Para uma boa síntese cf. Se levarmos em conta a estrutura tridimensional intérprete”. a própria physis. nem o dirias. Se a sentença é falsa. Mas podemos dar uma aquele que possibilita o pensar. eu te digo. Contudo. para Parmênides. o outro. levarmos em das com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da cultura o direito importa valores. pois nem conhecerias o nem o dirias. se o que ele a verdade. pois o mesmo é aopensar e portanto ser”. irá dis. senão a daproposições instaurado por Parmênides no paradoxo ser / não ser. pois o ser atividade da verdade se relaciona O Acreditar tempo somos confrontadoso filósofo no admitir que tudo número com o Direito? mesmo é a pensar do A todo no ser fatos”. não há E se a pois o fato de alguém ser mentiroso nãopráxis humana pelo lógos. os únicos chega-se à decisão. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Assim. não há apenas várias correntes ou definições. e tu recebe a palavra que ouviste.” (Fragmento 2). É leis”." (Fragmento 2). EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE OBS: Heráclito é o pai da dialética. mas se for verdadeira. aquele que possibilita o pensar. que não é (pois não é exeqüível). leis”.deverdade – filosófica: a do ser e a do não ser. eu é preciso não de todo incrível. o fato é que mesmo em relação à verdade. Education (aoEducation (ao trabalhadas poraula). e a primeira instaurado por Parmênides no paradoxo à verdade – alétheia. na leitura do fragmento quer parece o caráter totalmente excludente Claro que. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. o Dilidar todos os entes: com os problemas de insegurança jurídica? é preciso ser. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. e tu recebe a palavra que ouviste. que mesmo em relação à verdade. de uma geração após Heráclito. dada sua não-existencialidade. tinguir dois caminhos básicos de reflexão filosófica: a do ser e a do não ser. essência trínseca doinvestigatório capaz de levar “. Desta forma. “verdade conta a estrutura tridimensional do direito. é não ser. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. mas não a natureza das coisas.seus ou valor) para que fato ou mudança de um de seus elementos um de fato elementos (norma. o pensar passa a ser atividade inversão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: caminho ser na sua manifestação lógica: a verdade. senão a da filiação entre ser e pensar.(pois à verdade que não é e portanto que é preciso não ser. proposições mutuaaquela que realmente leva à certeza. Como fenômeno da Acreditar no devir heraclitiano E O DIREITO? Como o problema significa admitir que tudo está em constante Acreditar no devir heraclitiano da verdade se relaciona significa admitir que tudo está em mutação. aquela quedois caminhos a certeza. mutuamente verdadeira. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. concomitantemente. os únicos cami. não pode ser outra coisa..

Os filósofos pré-socráticos. Os filósofos pré-socráticos. é o nome de Oliver Brown. Somente em Kansas. A ação inicial foi apoiada pela seção de Topeka da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [National Association for the Advancement of Colored People] (NAACP). Oliver Brown era o pai mais famoso dos Estados Unidos. sancionada pela lei. Nosso colaborado. Seção Heráclito de Éfeso. Kansas. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. O caso FGV DIREITO 19 . não foi a primeira vez que a educação segregada. deveriam freqüentar escolas primárias segregadas. (Capítulo 2 Os Pensadores Jônios. um negro. Linda. no caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Brown v. que iniciou um processo quando sua filha de sete anos. São Paulo: Cultrix. a organização de direitos civis mais antiga do país. Seção Parmênides de Eléia) complementar KIRK. que resultou em transformações não apenas em Topeka. Brown. teve sua matrícula negada em uma escola primária só para brancos na pequena cidade de Topeka. uma ação havia sido iniciada em Boston. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. Lisboa: Calouste Gulbenkian.S. onde eles viviam. 1994. Mas ele não era o único autor da ação no caso Brown contra a Secretaria de Educação. SHOFIELD. no meio-oeste dos Estados Unidos. Gerd. não a exceção. entre 1881 e 1949. bOard Of edUcatiOn]: a decisãO da sUprema cOrte QUe transfOrmOU Um país david pitts Em maio de 1954 – em uma decisão histórica. Quando a ação de Topeka chegou à Suprema Corte. David Pitts. O nome no caso. M. rastreou as origens de uma das mais importantes decisões na história do direito constitucional dos Estados Unidos. a segregação racial era a norma. Doze outros autores em Topeka se uniram a Brown para representar seus filhos – 20 ao todo – que. Board of Education] – a Suprema Corte dos Estados Unidos emitiu uma determinação segundo a qual as escolas públicas segregadas eram inconstitucionais. em conformidade com a lei. mas na nação inteira. no entanto. G. que originalmente foi iniciado em 1951. e Capítulo 3 A Filosofia no Ocidente) aneXO brOWn cOntra a secretaria de edUcaçãO [brOWn v. 1999. Em 1849. O caso Brown.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória BORNHEIM. sofreu um desafio nos Estados Unidos. Na primavera de 1954. em boa parte do país. Massachusetts. (Introdução.

Kansas”. que reuniu Oliver Brown e os outros pais e foi em frente com Foto: Cortesia de confirmado por outras fontes em Topeka. e por causa radical que abrangência dada determinaçãoSuprema Corte. “Eu me lembro de que. que tinha 13 anos na época do processo inicial e que ainda mora em Topeka.cinda Todd eScroggins. “O herói anônimo no processo de Topeka é McKinley Burnett. concorda. um ponto de vista Foto: Cortesia de Marita Davis. Walter White.. Quando a ação de EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Topeka chegou à Suprema Corte. no entanto.E. Seu filho. em parte porque ela acha que a mídia concentrou suas atenções em demasia na sua pessoa. Mas Charles Scott Jr. pekano início da década de 50. Na verdade. por causa da Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. até mesmo quando eu era bem pequena. que atualmente tem 55 anos e ainda mora em Topeka. era o presidente da seção McKinley "O herói anônimo no processo de Topeka é local da NAACP. sancionada pela lei. não a exceção. viceMarita Davis. com aEducation]. por ordem alfabética. legal. teve sobre a sociedade americana em meados do XX. o desafio legal. (Sonny) Scroggins. direita. Marita Davis. não foi a primeira vez que a educação segregada. que atualmente mora em Kansas City. "Foi Burnett o desafio Board of ajuda dos advoCommemorate gados locais”. diz que desafiar a segregação “foi uma luta à qual meu pai se dedicou por toda a sua vida”. Ele era um trabalhador comum que acreditava que a segregação poderia ser abolida por meio dos tribunais. reluta em falar sobre a sua experiência e sobre o papel do seu pai ao desafiar o sistema. diretora-executiva da Fundação Brown para a Igualdade.O caso Brown. acrescenta Scroggins. Na verdade. O tempo inteiro ele estava convencido de que venceríamos. Brunett e a NAACP”. Johnconfirmado por dente da seção da naacp de to. “A irmã de Marcus Burnett. Walter acrescenta os advogados Charles de vista Scott. entre 1881 e 1949. Cheryl Brown Henderson.E. chefe do Comitê de wn Contra a Secretaria de Educação [Kansas CommitKansas para a Comemoração do of Education]. presi. mcKinley burnett. um ponto Scott. em colaboração com o Sr. à À esquerda. Linda Brown Thompson.locais". era o presidente chefe do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso BroNAACP. diz C. em boa parte do país. ela diz. À esquerda.com a estratégia para ganhar a causa. tee to Commemorate Brown v. principalmente porque ele era o único homem do grupo. Burnett -. Massachusetts. Marcus. uma ação havia sido iniciada em Boston. president executivo da naacp.” que. “Meu pai estava sempre lutando pelos seus direitos”. filho do principal advogado local. diz C. Oliver Brown tinha uma posição de liderança entre os autores. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. executivo da NAACP." que. vice-president outras fontes em Topeka. ajuda da secretária da NAACP Lucinda Todd e os Herói Anônimo Herói Anônimo Burnett morreu em 1970. O caso foi levado em frente por meu pai e por outros advogados locais. e por causa do efeitodo efeito radical que teve sobre a sociedade americana em meados do séculoséculo XX. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. na época. Excelência e Pesquisa na Educação [Brown Foundation for Educational 28 FGV DIREITO 20 .da seção local da Burnett. O caso Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. Autores De acordo com algumas fontes em Topeka. (Sonny) Scroggins. Sua irmã. sofreu um desafio nos Estados Unidos. diz que Oliver Brown “se tornou o líder entre os autores porque o seu nome era o primeiro. a segregação racial era a norma. Em 1849. ignorando os outros 12 autores da ação em Topeka. com ajuda da advogados Burnett – com a ajuda daasecretária dosNAACP Lu. por causa da abrangência determinação da da Suprema Corte. A luta contra a segregação nas escolas se tornou uma coisa muito importante para ele”. na época. Somente em Kansas. ele estava sempre escrevendo cartas e organizando reuniões. Board Caso Brown Contra a “Foi Burnett que reuniu Oliver Brown e os outros pais e Secretaria de Educação [Kansas Committee to foi em frente comBrown v.Elisha Scott e Charles Bledsoe – desenvolveram uma White.

e e negras nas escolas públicas é Portanto. até umaaté uma para negros”. advogado do Fundo de Defesa Legal da NAACP [NAACP Legalthe District of Kansas]. Excellence and Research]. era perder a causa e em seguida . de Topeka. o eram. meu pai. passando por duas escolas só outro lado da cidade. que atualmente é juiz federal em Tribunal Federal de Primeira Instância da Circunscrição 1951." por uma escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. Com a ajuda dos outros advogados locais. As duas mulheres estavam ansiosas para entrar no caso. Suprema Corte havia decretado. que acabaram sendo incluídos no caso Brown”. Vicki Ann. ele de crianças o caso negras nas a emissão de prejudicial para as crianças negras”. A Primeira Decisão Educação de Kansas e contra os autores. em uma decisão de 1896 – no caso Plessy contra Os juízes que sistemas escolares “separados porém iguais” para negros e sua decisão: "A Ferguson – se mostraram favoráveis à causa dos autores. Eles compareceram ao Nova York. Mas minha filha. em uma decisão de 1896 -. “Temos muito orgulho do que nosso pai fez”.crianças brancas essa decisão não havia sido anulada. Suprema Corte havia decretado. Andrew ainda está aqui em Topeka. Burnett não ficaramDIREITO 21 EuA PrimeirA fizemos uma coisa muito importante. na época. dizendo. E as duas são muito gratas a McKinley Burnett e aos advogados locais. Legal juízes se mostraram favoráveisDefense dos autores. O dia de Burnett e dos autores no tribunal em Topeka foi o dia 28 de fevereiro de 1951. Mas no final a decisão dos juízes foi contra os autores porque a proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka. meu pai. nabrancos segregação de constitucionais. se sente muito bem devido ao que aconuma Eu acho que fizemos uma coisa muito importante”. eram jovens mães no início da década de 50.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Equity. "passando por que ainda mora aqui e está com 57 anos. o dia 28 de fevereiro de crição de Kansas [U. FGV "De certa forma.no caso Plessy contra “De certa forma. “Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o outro lado da cidade. Minha filha. eram.que sistemas Scott Jr. morreu de câncer em 1984.S. diz Charles escolares "separados porém iguais" de derrubar segregação verdade. “passando 1984. District Court for Defense Fund]. Eles compareceram ao Tribunal Federal de Primeira Instância da CircunsO dia de Burnett e District Court for the District of Kansas]. se sente muito bem devido ao que aconteceu. concorda com a avaliação de Charles Scott Jr. os outros advogados locais e o Sr. na suaoutros advogados Os da NAACP [NAACP Legal à causa Fund]. Portanto. era. ele apresentou o caso e solicitou a emissão de um mandado judiatualmente é juiz cial que proibisse a federal emnas escolas primárias públicasadvogado do Fundo de Defesa segregação Nova York. escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. diz brancos. na época. Burnett não ficaram Ferguson -. "Eles sabiam que a única forma de derrubar a segregação no país inteiro e não apenas em Topeka. ela continua. Scales também diz que tinha que levar sua filha. dizendo que foi a liderança dessas pessoas que tornou possível a luta pela integração. diz Henderson." acho que Decisão decepcionados".” "Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o Mas minha filha. os outros autores em Topeka e os autores nos outros estados. Com a ajuda dos decisão: “A segregaçãoapresentou brancas e e solicitou escolas públicas é um mandado judicial que locais. teceu. que ainda mora aqui e está com 57 anos. dos autores no tribunal em Topeka foi Raymond Carter. por causa do episódio de Plessy. "Donald papel história”. diz Charles Scott Jr. Raymond Carter. “Donald Andrew ainda está aqui em Topeka. Ele tem 55 anos. Minha filha. “Meus filhos sempre do papel que tive“Meus filhos sempre tiveram orgulhotiveram orgulho do mos naque tivemos na história”.S. Zelma Henderson e Vivian Scales. escola só escola só para negros". por causa do episódio de Plessy. constitucionais. morreu de câncer em Scales também diz que tinha que levar sua filha. era não havia sido anulada. Ele tem 55 anos. e que ainda moram na cidade. dizendo. ela continua. eem Topeka. Ruth Ann à escola. prejudicial para as o tribunal de KansasMas no final a decisão uma juízes foifavor da Secretaria de porque a crianças negras. na no país inteiro e não apenas essa decisão perder a causa e em seguida entrar com um recurso nasentiu forçado a tomar uma decisão a favor da Secretaria de tribunal de Kansas se Suprema Corte”. que de Kansas [U. Henderson diz. “Eles sabiam que a única formapara negros ae brancos decepcionados”. era. passando por duas escolas só para para brancos. “Mas é importante que o caso Brown não seja simplificado demais – não devemos esquecer os advogados. os outros advogados locais e o Sr. Ruth Ann à escola. Vicki Ann. na verdade. duas pessoas que fazem parte do grupo de autores de Topeka. Henderson." se sentiu forçado a tomar dos decisão a contra os autores Educação de Kansas e contra os autores.

Board of Education: The Battle for Integration. pelo juiz-presidente da Suprema Corte Earl Warren. “que a Suprema Corte contou com a cláusula de proteção eqüitativa da Décima-Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos. os tribunais existem não apenas para condenar crimes. para os quais essas ações foram iniciadas. ao ser preparado para ir ao tribunal que tem a posição hierarquicamente mais elevada no país. segundo Barker. A Corte aplicou a cláusula de proteção eqüitativa com a finalidade a que ela se destina – proporcionar proteção para os negros. “Trata-se de uma das mais importantes decisões da Suprema Corte”. The Board of Education of Topeka. A decisão unânime declarando que as escolas segregadas eram inconstitucionais foi lida no dia 17 de maio de 1954. Oliver L. que mais tarde foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte. Ele apresentou – com sucesso – o caso. v. um caso histórico que serve para mostrar que. era o diretor jurídico da NAACP no nível nacional. em particular”. “que no campo da educação pública não há lugar para a doutrina de ‘separados porém iguais’. ele escreve “o caso Brown se destaca como a mais profunda afirmação da Corte sobre a questão central FGV DIREITO 22 . Virgínia. na Carolina do Sul. Delaware e no Distrito de Colúmbia. [tradução livre: Brown Contra a Secretaria de Educação: A Batalha pela Integração]. beneficiando mulheres e outros grupos que achavam que seus direitos eqüitativos lhes estavam sendo negados”. há um significado mais amplo. privados da proteção igual das leis. Portanto. Thurgood Marshall. “É importante observar”. ele disse. Brown v. Brown et al. O nome do conjunto de casos passou a ser. nos Estados Unidos. o caso Brown foi combinado a outros processos que desafiavam a segregação nas escolas. Estabelecimentos de ensino separados são inerentemente desiguais. representando os autores. oficialmente. garantida pela Décima-Quarta Emenda”. ao apresentar a sua decisão. Mark Tushnet ecoa o pronunciamento de Barker no seu livro definitivo. um método de se oprimir um grupo racial e não algo “separado porém igual”. mas para afirmar direitos. “Concluímos”. et al].EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE A Decisão DA suPremA corte No dia 1 de outubro de 1951. declaramos que os autores e outros que se encontram em situação similar. diz Robert Barker. Ao ser indagado como a Corte pode tomar uma decisão – a favor da segregação no caso Plessy contra Ferguson e contra ela no caso Brown – Barker responde que a Corte dispunha de mais de 50 anos de provas de que a segregação racial. era. da maneira que era praticada. “Até hoje”. umA GrAnDe VitóriA LeGAL O resultado do caso Brown Contra a Secretaria de Educação foi considerado uma grande vitória legal. devido à segregação da qual reclamaram. Brown e Outros Contra a Secretaria de Educação de Topeka e Outros [Oliver L. “A decisão de 1954 resultou em muitos outros casos nos quais a cláusula de proteção eqüitativa foi citada. na verdade. estão sendo. Pensilvânia. No entanto. ele acrescenta. professor de direito e especialista em direito constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Duquesne [Duquesne University School of Law] em Pittsburgh.

ele diz. O caso mais famoso ocorreu em 1957. depois que o governador do estado desobedeceu uma ordem de um tribunal federal para integrar as escolas locais – a primeira vez em que tropas federais entravam em um estado do sul para proteger os negros desde os primeiros anos após a Guerra Civil. Pau Wilson. “o fim da segregação. os legisladores promulgaram 45 leis “com o objetivo de contornar a determinação da Suprema Corte” e até 1960. Por outro lado. concorda. FGV DIREITO 23 . no Brasil) nunca havia sido segregadas. White and Southern [tradução livre: Negros. Nesse aspecto. Arkansas. No ano letivo 1956-1957. estava em andamento em 723 distritos escolares”. menos conhecido. “ampliou a definição de justiça básica nas relações entre as comunidades”. Antes do caso Brown. a tarefa seria mais difícil. Board of Education [tradução livre: Hora de Perder: Representando Kansas no caso Brown Contra a Secretaria de Educação]. a favor da segregação.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE da história dos Estados Unidos – como os americanos de todas as raças se tratam entre si. “menos de um por cento dos estudantes do sul do país estavam freqüentando escolas integradas”. embora nem sempre com rapidez. escreve que a decisão também “deu uma nova dimensão ao conceito constitucional de proteção eqüitativa e do devido processo legal”. de modo geral.000 pessoas. a situação variava de lugar para lugar. Na maioria dos lugares. uma decisão judicial. diz Goldfield. atualmente. O andamento do processo foi muito mais rápido em Topeka e no meio-oeste. Mas em grande parte da nação. que conta em detalhes a história do fim da segregação em Black. em um ato posterior. Wilson. “A decisão da Suprema Corte”. houve muita resistência e a disposição das autoridades do poder executivo de usar a força para implementar a decisão da Corte se fez necessária em alguns lugares. o procurador-adjunto do estado de Kansas que tratou do caso. trata-se de uma vitória do constitucionalismo americano”. a lei de Kansas havia previsto a segregação das escolas primárias das comunidades com população superior a 15. em 1955. quando o presidente Dwight Eisenhower enviou tropas federais a Little Rock. ainda estão lidando com questões referentes à segregação nos distritos escolares. que detalha a história do processo em A Time To Lose: Representing Kansas in Brown v. que são o resultado das tendências na escolha de áreas residenciais. Brancos e Sulistas]. Embora a luta contra a segregação sancionada pelas leis tenha sido vencida há muito tempo. Em outras partes do sul do país. a abolição da segregação ocorreu sem problemas.000 crianças negras. o sul finalmente recuperou o atraso no final da década de 60 e início da década de 70. e às três séries do segundo grau. no tribunal. determinando “um início imediato e razoável das providências para a total conformidade” e a implementação da integração das escolas “com a devida rapidez”. os tribunais federais. emitiu. As escolas de nível médio (equivalentes às sétima e oitava séries do primeiro grau. DePois DA Decisão A Secretaria de Educação de Topeka não esperou a ordem da Corte para unir as suas escolas primárias negras e brancas. Mesmo assim. afetando 300. de acordo com David Godfield. Este é um dos motivos pelos quais a Suprema Corte.

em comparação com os outros ramos do governo. “Lembro-me como se fosse ontem”. quase meio século mais tarde. em Virgínia. Sem um judiciário independente. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. em grande parte. Nos anos seguintes. ele acrescenta. ressaltam a importância do resultado do caso Brown para o progresso nas relações raciais em geral. o impacto da iniciativa foi muito mais amplo. particularmente. Gary Orfield e Susan Eaton. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. Embora a Suprema Corte somente tenha derrubado a segregação nas escolas públicas. essas ações. Alabama.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE os tribunAis cAusAm muDAnçAs em Posições trADicionAis A luta contra a segregação mostra como é difícil mudar posições e costumes em qualquer sociedade. os tribunais – e não o poder legislativo ou o executivo – têm sido os elementos dominantes na elaboração de políticas no que se refere ao fim da segregação”. a luta pelo fim da segregação teria sido muito mais difícil. Senti FGV DIREITO 24 . Eles acrescentam: “Com a exceção do período de 1964 a 1968. e não o resultado de medidas sancionadas por legislaturas e executivos eleitos pelo povo”. Com a promulgação da Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act] em 1964. Apenas um ano e meio após a determinação da Suprema Corte. e sem as garantias da Constituição no que se refere aos direitos das minorias. professor de direito e especialista em questões constitucionais na Universidade de Richmond [University of Richmond]. “Um fato importante é que as mudanças. tiveram um papel essencial. o resultado de atos do judiciário para fazer valer direitos inalienáveis assegurados pela Constituição dos Estados Unidos. Os tribunais. é o que eles escrevem em Dismantling Segregation [tradução livre: Acabando com a Segregação]. foram. diz Zelma Henderson. em conjunto. escreve Robert Wiesbrot em Freedom Bound: A History of America’s Civil Rights Movement [tradução livre: Rumo à Liberdade: Uma História do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. “Fizemos A coisA certA” Os historiadores dos direitos civis. especialmente as posições que apresentam raízes profundas na tradição e na história. em dezembro de 1955. como parte de um cenário de ações populares iniciadas por um grande número de organizações não-governamentais. em sinal de protesto contra a segregação no sistema de transporte público local. liderou um bem sucedido boicote aos ônibus em Montgomery. incluindo a Suprema Corte. “A primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. incluindo o serviço público e o mercado de trabalho. o Topeka State Journal. Martin Luther King Jr. a segregação foi praticamente eliminada. quando elas ocorreram. Essa ação ajudou a deflagrar uma ofensiva sem trégua contra a segregação em todas as esferas da vida americana. e da Lei do Direito ao Voto [Voting Rights Act] em 1965. concordam. “A decisão proporcionou um critério de avaliação de justiça – independente da cor das pessoas – pelo qual os americanos poderiam balizar seu progresso rumo à realização do ideal de oportunidades iguais”. o Dr. mandados contra a segregação foram impetrados. diz John Paul Jones. Lembrome bem da manchete. formaram o movimento pelos direitos civis.

diz Vivian Scales. Vivian Scales acrescenta. Ele nunca Burnett diz. os pais demonstraram muita coragem”. lítico sonny scroggins. a mesma escola freqüentada por Linda Brown. mas se tivesse que fazer isso de novo. filho do líder O memorial – um trabalho da Fundação Brown [Brown Foundation] e do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Kansas Committee to Commemorate Brown v. e o ativista poda NAACP em Topeka. momento. no final. “Naquela época." 525] determinando a criação do Sítio Histórico NacioNo dia 26 de Brown Contra a Secretaria de Educação Bush nal do Caso outubro de 1992. tribunaisfariam valer alugar certo epara se desafiar a no final. a mensagem da decisão do caso Brown e do memorial. “Eu estou muito velha. “Meu pai acreditava que haveria justiça. entre outras entidades e indivíduos – terá materiais áudio-visuais e uma biblioteca para pesquisas. que fizemos a coisa uma alegria enorme. Senti uma alegria enorme. naquele momento. da marcus burnett. diz Zelma Henderson. Lembro-me bem da manchete. O resultado final foi. Burnett diz. Pensei. especificamente. o Topeka State Journal. mascoisa certa”. “Quando você pensa no assunto. Vivian Scales acrescenta. queque fica com você para sempre”. “Fomos à Suprema Corte dos Estados Unidos para afirmar esse fato. à do líder da naacp em topeka. mas é uma coisa que você nunca esquece. e eliminariam a segregação”. Board of Education National Historic Site]. Zelma Henderson. o presidente George tribunais. “A EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. “Lembro-me como se fosse ontem”. Pensei. "Meu que os tribunais. ele acrescenta. Marcus Burnett não se lembra. na Escola Primária de Monroe 34 [Monroe Elementary School]. mas eles transformaram sua raiva em ação”. portanto eu tenho certeza de que ele os tribunais eram o lugar certo para se desafiar a segreficou muito feliz". fica com você para sempre”. acrescenta Zelma Henderson.Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. e penso. na verdade. Ele nunca deixou de acreditar que os No dia 26 de outubro de 1992. Vivian Scales e os outros pais poderiam. agora. quase meio século mais tarde. não apenas o fim da segregação. em memória da decisão da Suprema Corte. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. de 1954. diz Sonny Scroggins. naquele “Isso aconteceu há muito tempo. que você nunca esquece.deixou de acreditar pai acreditava que os gação. da reação do seu pai no dia em que a Suprema Corte reação do segregação. Board of Education]. especificamente. segregação. FGV DIREITO 25 . diz Qefiri Colbert. “Oliver Brown. antes do fim da segregação. e eliminariam a segregação. mcKinley burnett. à esquerda.no diaele sempre acreditava queCorte derrubou a seu pai “Mas em que a Suprema haveria justiça. que fizemos a é uma coisa certa”. órgão que ficará encarregado da manutenção do memorial. portanto "Mas ele sempre que ele fiderrubou a segregação. “Isso aconteceu há muito tempo. e McKinley primária monroe. fariam valer a Constituição e a Bush sancionou a Lei Pública 12-525 [Public Law 12Declaração dos Direitos. “Esperamos que as pessoas visitem o local para compreender melhor a abrangência e a complexidade da decisão sobre o caso Brown”. filho Marcus Burnett. eram o Constituição a Declaração dos Direitos. na entrada da escola Burnett. e vencemos”. quase meio século atrás. se conformar com a decepção. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. é que todos os seres humanos e raças nascem iguais”. agora. o presidente George [Brown v. facilmente. porta-voz do Serviço Nacional de Parques [National Park Service]. o esquerda. Marcus Burnett não se lembra. do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação. e deverá ser aberto ao público em 2002. eu o faria”.eu tenho certeza de acreditava que cou muito feliz”. em conformidade com a lei. e penso. O sítio fica em Topeka. mas uma mudança fundamental no pensamento dos americanos em relação à raça e à igualdade.

DESENVOLVIMENTO Poucas doutrinas na história do ocidente foram tão atacadas e vitimadas pelo prepare-se para a aUla preconceito como a sofística. Contudo.e devir. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. justamente. Tema da aula EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 4. Além de conhecerem o debate Heráclito Parmênides – ao devir. mas são pelo próprio homem. pelosdo ocidente foramNa pena de e vitimadas pelo Poucas doutrinas na história seus inimigos. Esse o debate filosófico. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS NOTA AO PROFESSOR 1. a leidaoconvenção – nomos –. mais profundo e interessante – donde sofisticado – do que em geral se apresenta. ou divino.tudo intangível. lingUagem e Verdade: os soFistas A verdade como linguagem na sofística. conheciam todo o rumaram das colônias para Atenas e.AULA 4.. ededicavam-seser e estudo e ensino da retórica. superior e intangível. o logos sofistas.) resultavam de uma convenção ou cultura humana. Além de conhecerem ciam todo o debate entre filosófico.. e tudo dependerá da habilidade exercício da retóricafala. a sofística preconceito como a sofística. os .. a lei paraoa construção do tem de natural do certo e domas são é a ferramenta e legal e do ilegal. Assim. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofistas eram apenas demagogos e enganadores. Como tudo era produto da convenção – Assim. pelos seus inimigos. por ser conhesofistas foram pensadores que debate entre Heráclito e Parmênides – isso. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofis. Górgias de Eleontino. Assim. um dos principais sofistas. pela violência do rapto ou pela sedução da palavra. ágora. Objetivos tema da aUlada aula A verdade debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do Introduzir o como linguagem na sofística. inicial da filosofia. Daí a importância do discurso convincente – peithó. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado 47 a Guerra de Tróia). nada na polis modificado pelo próprio homem. geração de direito nada Assim.) que todas as coisas na polis cultura humana. tudo poderia ser resultava de uma força naturalAssim. pensamento sofístico. direito. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do pensamento sofístico. era a religião etc. Daí a importância esta idéia. A questão central dos sofistas (ao menos na sua primeira geração) era a afirmação desofistas (ao menos na polis primeira geração) A questão central dos que todas as coisas na sua (política. Como tudo era produto e direito nada tem de natural ouser modificado construídos políticamente através na primeira poderia divino. Contudo. justamente.é um tas foi. do exercício da retórica na ágora. tão atacadas Platão e Aristóteles. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer FGV DIREITO 26 sofistas foi. afirmação de resultavam de uma convenção ou (política. direito. superior e nomos –. na primeira geração de sofistas. construídos políticamente através do lingüística de quem na Para comprovar errado. Na pena de Platão esofisticado – do que em geral movimento bem mais profundo e interessante – donde Aristóteles. a sofística é um movimento bem se apresenta. os sofistas eram apenas demagogos e enganadores. Esse incremento incremento da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e impulso impulso inicial da filosofia. NOTA AO ALUNO 2. Os sofistas foram pensadores que rumaram das colônias para Atenas e. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. Os por isso.. nada na polis resultava de uma força natural religião etc. dedicavam-se ao estudo e ensino da retórica.

sofista Protágoras de Abdera: Prepare-se Protágoras de Abdera sobre a legou a mais conhecida Foi o grandepara o debate. Nada é. retórica. mas o cidadão da polis. um dos principais sofistas. No direito. não pode ser pensado. isto é. não há paradoxo. mas de relatividade histórica. “O HOMEM É A MEDIDA DE critério AS COISAS” o verdadeiro e o falso. dos agentes lingüísticos ou transcendentes. na verdade. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. convencionado. São Paulo: Brasiliense. para ele mesmo fazer sua defesa. como E O DIREITO? E O DIREITO? Como ona linguagem comoestatuto próprio. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó. A linguagem é. metafísicos ou “verdade do intérprete”. para ele mesmo fazer sua defesa. Contudo. antes. 48 FGV DIREITO 27 49 . Veja-se o seguinte quadro de Salvador Dali: que não também é possível resignificar a momento as categorias das verdade jurídicas. Teorias da Verdade. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. No nível mais radical. não pode ser dito. pela violência EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE do rapto ou pela sedução da palavra. “verdade do processo” outranscendentes. sível resignificar a todo todo momento as categorias das verdade Aqui. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado a Guerra de Tróia). verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. desde que esta seja articulada no discurso convincente: a então o que lê diz “é falso”.1 Independente dos resultados a que se chegue. Marilena. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. 2. Isso pois uma coisa pode ser (tornar-se) o que a instituem implica a conseqüência de jurídicas. Claro que o homem em questão não é o Até que ponto o homem pode instituir suas próprias verdades? indivíduo particular. No Tratado do Não Ser. a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito convencionado. É com o Direito? A todo tempo somos confrontados com possível falar-se o princípio da identidade. observe atentamente o quadro de Salvador Dali: de mero relativismo individualístico. Claro que. no dia seguinte. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. portanto. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Mesmo que seja. Mesmo que seja pensado. São Leopoldo: Unisinos. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. o instrumento mais eficaz no processo social de instituição da verdade. teles. no dia seguinte. Quebra-se em verdade ou por um ato de fala. Por isso. Isso graças ao fato da filosofia sofística ter desfeito a vinculação parmenídica entre realidade e pensamento. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Mas o problema aponta para o paradoxo real que ela é verdadeira. não se trata Agora. Essa possibilidade de reinstituir a verdade abre ao homem um extraordinário campo de possibilidades. seriam verdades? Como identidade. não há apenas várias correntes ou definições. então ela é falsa. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. portanto. Com efeito. 3. o fato é que mesmo em relação à verdade. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer sua acusação em praça pública e. mas. então o que lê diz “é verdadeiro”. No direito não basta a verdade pura e simples. leis”. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. KIRKHAM. “verdade das paradecorrem de planos metafísicos própria resignificar os entes na sua admitir que as verdades jurídicas não decorrem de planos antes. mas se for verdadeira. PENSAR e DIZER. sentido moral ou ético. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. uma verdade pode ser convencionada na polis até que outra a substitua em outro momento histórico. Górgias faz suas clássicas afirmações: 1. meditandoque nos seguinte frase do de todas as sentenças sofísticas: “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS”. fica a distinção entre SER. o dizer – linguagem – Acreditar problema da verdade se como três planos autônomos com dignidade relaciona campo próprio da verdade significa Acreditar na linguagem e campo próprio da verdade significa admitir tipo: as verdades jurídicas expressões filosófica e autonomia não possui envergadura doque “verdade dos fatos”. com isso. Os Sofistas e Sócrates: o AULA 4 20 Humano como tema e problema: seção 3 Os Sofistas ou a arte de ensinar) LINGUAGEM E VERDADE: Os Sofistas CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. demonstrando. Assim. e o direito? Para além da habilidade retórica. * * bibliOGrafia * Obrigatória 1 CHAUÍ. demonstrando com isso a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito sua acusação em praça pública e. se o que ele diz é falso.Para uma boa síntese cf. (Capítulo III. Richard L. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. ser e pensar. nada se mantém imune à possibilidade de ser resignificado pela palavra. Isso implica a conseqüência de que também é posque é. Górgias de Eleontino. TODASúltimo para o certo e o errado. 1994. Se a sentença é falsa.Para comprovar esta idéia. então A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. mas. 2003. dos agentes lingüísticos que a instituem lidar com os problemas de insegurança jurídica? por um ato de fala.

1978. A Teoria Política dos Sofistas) FGV DIREITO 28 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar BARKER. (Capítulo IV. Brasília: EdUnB. Teoria política grega. Ernest.

mas a filosofia se vale do arcabouço partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que pensamento todos até hoje. O ponto 52 central do pensamento socrático é que a prática da justiça como virtude apenas será alcançada pelo conhecimento da justiça. que. marcando todos os aspectos da vida humana. Esta guinada de ser uma prática de representará um dos mais profundos cortes no pensamento de tornar inteligibilidade do real. é superficial de razão e sentido. é superficial por verdade e a justiça se apresentam de forma definitiva. Já a razão nos possibilita conhecer o para tosinônimos dentro de uma racionalidade universal. verdade e os justiça se apresentam de forma definitiva. porém. dos os homens. o homemnodotado de razão etoda a tradição.AULA 5. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do nos marca a ocidental. o real fundamento das relações não está nas convenções e normas para todos os homens. Tema ConCeito e Verdade: sÓCrates A verdade como conceito abstrato. – nómos – específicas que produzem justiças singulares. sendo este temente. sem dúvida. A partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que nos marca a todos até hoje. Objetivos da aula A verdade como conceito abstrato. que reduz os princípios à unidades conceituais. Verdade e justiça tornam-se modificar-se constantemente. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a divisor O mais conhecido aUla de águas da filosofia ocidental é. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES NOTA AO PROFESSOR EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 5. a questão epistemológica será a FGV DIREITO 29 há comprovação histórica de sua existência. Assim. que. Sócrates. Verdade e justiça A verdade não reside na linguagem racionalidade dóxa – de cada indivíduo. de tudo que é verdadeiro. A comunicabilidade entre os indivíduos para se tornarcomunicabilidade entre os indivíduos para se inteligibilidade do real. tornam-se sinônimos dentro de umaou na opinião –universal. aquele onde a último o que nos dá acesso ao mundo empírico. a razão deixa razão deixa de ser uma e justo. da aula 1. fundamento filósofo. certo prática de partir desse filósofo.este último o que nosaspectos dá acessohumana. aquele onde a que reduz a princípios à unidades conceituais. NOTA AO ALUNO tema da aUla 2. necessariamente válida Da mesma forma. mas a filosofia se vale do arcabouço . ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático.verdade chamada “reconstrução socrática" recolocou o tema da dade como aletheia no centro de todas as discussões. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do pensamento ocidental. Esta guinada representará toda a tradição. A A chamada"reconstrução socrática” recolocou o tema da ver. Não O mais conhecido divisor de águas da filosofia ocidental é. um dos mais profundos cortes é pensamento de sentido. necessariamente válidamundo inteligível. O realmente verdadeiro e realmente justo é o que se eleva acima das múltiplas individualidades e somente é alcançado pelo sujeito virtuoso que abandona todos os seus preconceitos. Sócrates. Para Sócrates. o homem é dotadopor modificar-se constanda vida ao mundo empírico. sem dúvida. A Não há comprovação histórica de sua existência. Razão como A partir desse primeiro de tudo aque é verdadeiro. Trata-se da como aletheia no centro de todas as discussões. Já a razão nos possibilita conhecer o mundo inteligível. Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. sendo marcando todos os Para Sócrates. porém. Trata-se da opção opção que faz Sócrates pela Razão como fundamento primeiro que faz Sócrates pela certo e justo.

São Leopoldo: Unisinos. mesmo justificação. Richard L. Claro que.Para uma boa síntese cf. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. e o direito? Acreditar no conceito como verdade implica admitir que o direito é formado por conceitos unívocos que podem ser depreendidos pela expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Daí que autores como Aqui. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem de perguntas leva seu interlocutor a reconhecer seus preconceiironia. ela é verdadeira. leva seu interlocutor a descobrir uma verdade conceitual dentro de si inconsistência com a utilização e enfrentada há Estamos diante de uma mesmo lógica que vem sendo discutida da razão. Se aque deve ser compreendido por todos os homens. Mas o problema aponta para o paradoxo real que a justiça é este conceito racional sentença é falsa. verdadeiro e justo se E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com imbricam no campo ético. Pode-se desqualificar este Para tanto. dizer que tudo que ele diz é mentira. 1978. KIRKHAM. (Capítulo III. são comumente compreendidos como a norma escrita. no lidar com os problemas de insegurança jurídica? sistema romano-germânico. bibliOGrafia 1 CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. não há apenas várias correntes ou definições. não há paradoxo. 2003. então ela é falsa. propõe um método que é constituído de dois momentos: o primeiro é a paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Como fenômeno da cultura o muitas vezes. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. . Teorias da Verdade. (Capítulo V. direito importa valores. onde. Os Sofistas e Sócrates: o Humano como tema e problema: seção 4 Sócrates: o elogio da filosofia) complementar BARKER. São Paulo: Brasiliense.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE chave de leitura para a compreensão do posicionamento que Sócrates assume ante a physis e a pólis. Marilena. onde através pleno sentido gramatical: tos e sua ignorância sobre o tema em debate. “verdade das leis”. É razão. o fato é que mesmo em relação à verdade. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer mesmo”: a busca da verdade universal inscrita em conceitos racionais. É desta maneira que podemos entender seu lema “conhece-te a si verdadeiro”. desligado do mundo da vida. No direito. Contudo. se o que ele diz é falso. Tais centros. mais importante que as experiências jurídicas concretas possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como são os centros de referência conceitual do direito. mas perdeque. mas se for verdadeira. Brasília: EdUnB. Por isso. Assim. O justo está para o campo cultural se em adaptatividade que é essencial à realização da justiça. Ernest. então pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Teoria política grega. como o verdadeiro está para o campo natural. então o que lê diz “é falso”. tamA SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA bém através de perguntas. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. na verdade. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Ganha-se em segurança. Obrigatória 20 CHAUÍ. Sócrates e os Socráticos Menores) FGV DIREITO 30 .1 Independente dos resultados a que se chegue. sentido moral ou ético. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por é comum o recurso ao texto da lei (ainda que Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da mediado pela doutrina) para se explicar e entender as categorias jurídicas. então o que lê diz “é muito tempo pela filosofia. No direito não basta a verdade pura e simples. 1994. Para Sócrates. o segundo é a maiêutica. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”.

Enquanto os racionalistas acreditam ser a verdade resultado de uma idéia primeira e fundante. os empiristas crêem que a verdade resulta de um fato primeiro e fundante. com o seu projeto criticista. basicamente a partir do século XVI. buscou-se novas bases que pudessem ser consideradas seguras e precisas para a fundamentação de uma verdade universal.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 6. inatismo: desCartes NOTA AO ALUNO tema da aUla A verdade como resultado da razão inata. A nova perspectiva em construção considera como fundamentos adequados para o conhecimento apenas a abstração racional e a concretude experimental. No entanto. Eis um esquema comparativo para melhor visualizar as diferenças entre as correntes filosóficas: raCionalismo Fundamentado numa razão inata Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental FGV DIREITO 31 . Não há dúvida de que o principal nome da constituição da moderna filosofia da ciência é Immanuel Kant que. o pensamento kantiano se insere num processo histórico que foi acontecendo por sucessivas rupturas na tessitura ontológica da filosofia e da sociedade. prepare-se para a aUla Na revolução epistemológica operada na modernidade. o que converteu a teoria do conhecimento em motor da reflexão filosófica do período. quando a modernidade afasta-se das especulações metafísicas para empreender uma nova organização geral do saber. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado de uma razão inata a partir do subjetivismo cartesiano. duas correntes destacaram-se como forma de compreender e responder à questão proposta: o racionalismo e o empirismo. políticas e individuais. Assim. o binômio razão e experiência passa a capitanear as investidas do homem sobre as forças naturais. sociais. lançou as bases mais sólidas em termos epistemológicos. Nesse contexto. O rumo deste caminho levou a modernidade a uma opção pelo “problema do conhecimento” – epistemologia – como questão fundamental a ser tratada.

Cit. escola racionalista ou tipo de conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendarcomo Bacon. alicerçado sobre que tarefas básicas: destruir toda forma para não acreditar nele. que duvidam apenas por duvidar e torna afetam por sempre irresolutos: pois ao contrário. para tanto. 1 2 DEsCaRTEs. p. como o inaugurador da verdade. para encontrar a rocha somente a me certificar e remover a sobre o mundo.. 46.mas. vários filósofos importantes – racionalistas e e empiristas – desenvolveram suas teorias epistemológicas. pouco aaumentar mais alto ponto a que a mediocridade de meu espí. 1979. segundo Descartes. uma boa razão para não se acreditar. Cit. procura isso que torna a perspectiva cartesiana construtivista. empiristas – desenvolveram suas teorias filósofos importantes – racionalistas Nessa tradição. p. em certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas. acreditar nele. após isso.alçá-lo. É isso que “Não que imitasse. pois não está interessado em. em certos caminhos de me haver encontrado. a perspectiva cartesiana construtivista. as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente.. con.lançar as bases destruir nova fundamentação para a própria verdade. Ob. pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento.”2 meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir.DESCARTES. apenas. através de um apenas. sem ter que submetê-lo às autoridades exteriores. Também influenciado pelas técnicas e pela matemática. Trata-se da dúvida metódica como forma de reconstruir em bases seguras e verdadeiras o próprio mundo à nossa volta. registrado no início do Discurso do Método. mas sim em recolocá-lo sobre ou a argila. 3 DEsCaRTEs. e de pouco a pouco. pois não meu intuito tendia tão destruir o tradicional conhecimento terra movediça e a areia. ao minha vida lhe permitam a mediocridade de rito e a curta duração demais alto ponto a que atingir.tipo de lo sobre bases supostamente mais seguras: conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendar as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. que fosse inteiramente indubitável. uma boa razão para não se acreditar. desde juventude. René. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta. Dois serão destacados: “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade me haver encontrado. por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade. Descartes e Hume. São Paulo: Abril Cultural. como o inaugurador da moderna escola racionaao menos. a fim de ver se. Descartes cria um tipo de construtivismo de conhecimento duasnão se encontre motivo fundamentadode conhecimento que haja. Discurso do método. como afirma o próprio Descartes. p. herdada por Kant.”3 Praticando este método. e de alçá-lo.”2 Querendo alcançar tal intento. por 2 . teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta. Descartes cria um tipo de construtivismo aliEste parágrafo. p.. desde a a juventude. reconstruir um novo e seguro tipo cartesiana no pensamento moderno. pelo qual me parece que eu tenha meio de formei um método. de uma o tradicional conhecimento sobre o mundo. reconstruir um novo e seguro tipo de lista ou idealista. como Baconhecimento que não se encontre pelas técnicas e pela matemática. por idealista. cerçado sobre duas tarefas básicas: destruir toda formado Método. 1979. pensei que era necessário agir exatamente ao contrário. os céticos. qualquer pessoa poderia conhecer de maneira nítida e clara as idéias que são inatas no espírito e. não restaria algo em meu crédito. de que de que que me conduziram considerações e máximas. todo oestá interessado em. por exemplo. e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo que pudesse imaginar a menor dúvida. É exemplo. vários epistemológicas. Também influenciadomotivo fundamentado para nãoprocura lançar as bases de uma nova fundamentação para a própriamoderna através de um Pode-se dizer que Descartes. registrado no início do Discurso de conhecimento que haja. ou. formei um método. Ob. a proposição de um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências.Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Nessa tradição herdada por Kant. René. sintetiza a perspectiva ao menos. pouco. Pode-se dizer que Descartes. Discurso do Método. Dois serão destacados: Descartes e Hume. René. René. mas sim em recolocá.”1 Este parágrafo. sintetiza a perspectiva cartesiana no pensamento moderno. FGV DIREITO 32 .. 29. 29. ao gradualmente meu conhecimento. o método que leva à verdade implica a dúvida como condição epistemológica: “. Como dito. Descartes propõe um método para conduzir o espírito ao conhecimento verdadeiro. são paulo: abril Cultural. 44. 57 DEsCaRTEs.

mas reside no próprio cogito como evidência apodíctica. Descartes.”4 Por isso. O modelo epistemológico das ciências é o matemático. Embora Deus seja a causa operativa última. como por degraus. cumpria necessariamente que eu. era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar. O segundo. FGV DIREITO 33 . conhecido com exatidão geométrica. como faculdade inata. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer. para subir. Através da dúvida metódica ele comprova a falsidade de todo tipo de conhecimento sensível e chega à verdade absoluta do cogito. fosse alguma coisa. tendo o cogito como paradigma metodológico. sem escrúpulo. o que significa dizer que a razão. que pensava. a razão é a natureza perfeita existente num ser imperfeito por força da ação de um Ser perfeito: Deus. Descartes adota. como o primeiro princípio da filosofia que procurava. irrefutável: “Mas. quatro preceitos da lógica: “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal. o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. logo existo. na busca do conhecimento verdadeiro. Para o racionalismo cartesiano. julguei que podia aceitá-la. e o conhecimento apenas dela pode advir. onde o raciocínio lógico é o mestre que conduz o pensamento e evita as contradições e vacilações. duvidar de tudo aquilo que se tenha ao menos uma razão para duvidar. logo existo” – cogito. de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. ou seja. Conforme se infere da leitura do Discurso do Método. toma a realidade à sua volta e se propõe a dúvida como método. isto é. que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. E. e supondo mesmo uma ordem 4 Idem. para o alcance da verdade via ciência. poderá decifrar todos os códigos do mundo. somente a razão conduzida logicamente. pouco a pouco. é o nosso espírito que possui a razão e a verdade e não o mundo externo e é justamente por isso que pode ser conhecida com segurança. O terceiro. adverti que.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE isso mesmo. notando que esta verdade: eu penso. até o conhecimento dos mais compostos. é o único lugar possível para as “idéias claras e distintas”. logo em seguida. ergo sum – que verifica que a certeza do conhecimento não vem do objeto exterior. onde a razão distingue as idéias inatas e faz delas representações seguras e verdadeiras que deduzem o mundo. “deusa razão”. para o verdadeiro conhecimento. fundado em critérios internos e abstrações. enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso. mais importante é a razão perfeita. superiores àquelas idéias que derivam dos sentidos (adventícias) ou àquelas que são fabricadas pela imaginação (fictícias). Portanto. Essa é a grande descoberta do “penso. As idéias inatas são racionais e existem porque nascemos com elas. “cientificamente”.que universaliza o conhecimento e torna acessível a verdade tão necessária ao homem e que jamais seria conhecida se estivesse fora dele. o de conduzir por ordem meus pensamentos. e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito.

1996. então o que lê diz “é verdadeiro”. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Apesar de serem Aqui. que domina e controla o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA mundo transformando os fenômenos naturais e/ou sociais em fórmulas e abstraA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA ções. 2003. tal método pode ser associado ao procedimento matemático para solução de uma equação. Por isso. cit. É uma representação. René. Teorias da Verdade. Richard L. Mas é na base desta razão calculadora que Descartes pensa ela é verdadeira. Miguel. o fato é que mesmo em relação à verdade. n. 16. Diferentemente do indutivismo dos empiristas. complementar CUNHA. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: moderno princípio epistemológico da razão suficiente. pp. o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza de nada omitir. na verdade. jan/jul 2000. Se a sentença é falsa. se o que ele diz é falso.Para uma boa síntese cf. “verdade das leis”. KIRKHAM. Descartes abre o caminho do Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há dedutivismo racionalista moderno. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como matrizes distintas. No direito. São Leopoldo: Unisinos. seja da da justificação. No direito não basta a direito e simples. suas normas – do próprio direito. mas se for verdadeira. 5 DEsCaRTEs. Inaugura-se o paradoxo dizendo-se ser eleo novo e autoreferenciado. e o direito? Acreditar na verdade como representação racional do mundo a partir do uma razão inata implica admitir que também é o direito expressões detipo: “verdade dos fatos”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético.1 Independente dos resultados a que se chegue. genéricas ou concretas – devem ser justificadas. São Paulo: Saraiva. portanto. Modernidade e ciência: algumas posições epistemológicas. Do Conhecimento Quanto a Origem). dizer que tudo que ele diz é mentira. Ob. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. bibliOGrafia DA DESCOBERTA 1 CONTEXTO Formas pelas quais chega-se à decisão. de uma idéia fundante. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. 37-38. Contudo. não há apenas várias correntes ou definições. Pode-se desqualificar este ter descoberto sem sentido portal de acesso ao conhecimento verdadeiro. Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. E o último. 20 REALE. sentido moral ou ético. Filosofia do direito. Como fenômeno natureza ou da estrutura lógico-formal cultura o direito importa valores. (Parte I – Capítulo VIII. Claro que.. ambas são unidas pela idéia de que a razão univerJerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da sal pode inteligir um verdade pura unívoco. In: Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros. não há paradoxo. FGV DIREITO 34 . Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Obrigatória . então ela é falsa. José Ricardo. O justo está para o campo cultural E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com como o verdadeiro está para o campo natural. então muito tempo pela filosofia. Estado e sociedade. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer Como visto. Essa possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? concepção ideal do direito pode manifestar-se tanto na maneira do jusnaturalismo como do formalismo jurídico.”5 então o que lê diz “é falso”. fruto.

145. e os transportara consigo ao mundo. acessível apenas pela razão. aurélio em função da ausência de um conjunto de vivências suficientemente significativas arque (Ed. In HOum . São verdadeiro conhecimentop. tais como crianças e “idiotas”.AULA 7. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a aUla “A “A maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento constitui constitui maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento suficiente prova de que não é inato. Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese se pualma os recebera em seu ser primordial e os transportara consigo ao desse apenas mostrar (o que espero fazer nas outras partes deste tratado) mundo. empirismo: HUme e loCKe Tema da aula NOTA AO ALUNO A verdade como resultado da experiência empírica. certas noções primárias. lutando contra um dogmatismo já manifesto na tradição do pensamento ocidental. podem adquirir se o conhecimento que possuem sem que espero fazer nas outras partes hipótese todo pudesse apenas mostrar ( o a ajuda de quaisquer impressões inatas e deste 6 podem alcançar a certeza sem quaisquer pelo noções suas faculdades naturais. prontas para serem preenchidas pelas experiências futuras. de papel em branco. Para conter uma camada de cera. EMPIRISMO: HUME E LOCKE EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 7. Ao Dessa maneira. koinaì énoiai. John.] nova Fronteira. afirmava que os nossos também sua luta contra com a experiênciaracionalistas que afirmavam existir uma lOCKE. ser primordial os quais estariam estampados na mente do homem. ou seja. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a partir do Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a empirismo inglês. 66 6 7 idéia inata nos originais .”12 sujeitos que seria o verdadeiro fundamento para a verdade e o co- FGV DIREITO 35 . simplesmente pelo uso deleitores sem preconceito da falsidade desta como os suficiente para convencer os suas faculdades naturais. É contra isso que Locke se insurge. como verdade e o inata nos de que ao nascermos somos como tábulasfundamento para a folhas paulo: abril Cultural.estilo. como empirista que era. 1989. tema da aUla Objetivos da aula A verdade como resultado da experiência empírica.LOCKE. caracteres. Consiste numa opinião estabelecida suficiente prova de que não é inato. escavada para por idéias. 1978. Consiste numa opinião entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios estabelecida entre alguns homens que o entendimento comporta inatos. cuja alma primárias. [s. lanDa FERREIRa. os quais estacertos princípios inatos. Cf. em seu énoiai. certas noções os recebera koinaì riam estampados na mente do homem. acessível apenas pela razão. p. Língua Portuguesa. mas diverge de que estas idéias sejam inatas no espírito humano. que afirmavam existir ou princípios também podem alcançar a certeza sem quaisquer destas noções uma Dessa maneira. TÁBUla.l. Seria homens.) Novo DicionárioBuda para dar-lhes as idéias necessárias ao conhecimento. É bastante conhecida sua Entendimento Humano. são 7 afirmação sujeitos e que seria o verdadeiro rasas . partir do empirismo inglês. conhecimento. pequena Locke concorda com Descartes na afirmação de que o conhecimento é constituído marfim ou metal. Locke. há uma categoria de pessoas que não Humano. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e nhecimento. 1978. podem tratado) como os homens.placa de madeira. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e contrário dos racionalistas.” adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões inatas e sua luta contra o inatismo dos racionalistas. Ensaio Acerca do Entendimento alcançam o Paulo: Abril Cultural. simplesmente destas uso deou princípios originais. Ensaio Acerca do idéia conhecimentos começam o inatismo dos dos sentidos. John. 145. cuja caracteres. É contra isso que Locke se insurge. na qual os romanos escreviam com 12 Locke.

mas jamaiscopiar as percepçõesvivacidade do sentimento jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. HUmE. expressas entre outras. John. p. não há princípio que possa ser considerado universal. pensamento.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Assim. Seguindo essa linha de raciocínio. Nessa esteira.”9 21 sentidos lógicos para o entendimento da realidade). são desconhecidas por certas pessoas. com esse fim solicitarei a cada um repoderes do homem. Tanto é assim. que inicia com a seguinte afirmação: “Idéia é o objeto do pensamento. 8 9 lOCKE. Locke passa a demonstrar que nenhum princípio da vida prática pode ser considerado inato8. e semiótica (conhecimento dos símbolos e correr a sua própria observação e experiência. Se Locke concorda que o conhecimento está nas idéias. 1980. Mesmo princípios morais basilares. naturais ou universais. até porque. em linhas gerais.. pelos termos brancura. devendo ser adquiridos pelos indivíduos ao longo de suas vivências e experiências. mas sentidos.Locke ainda invoca a diversidade cultural como prova cabal de que não há idéia ou princípio inato nos sujeitos. como entendê-las? Essa é a questão enfrentada na Segunda parte do Ensaio. Portanto. Já examinei. 140. p. copiar as percepções dos podem remedar ou atingirão a força e a dos sentidos. Cit. essa opinião. Investigação Sobre o Entendimento Humano. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreendidas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias inatas e caracteres estampados sobre sua mente. homem. são paulo: abril Cultural. e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente. dureza doçura. conforme um fim útil). mas nega que estas sejam inatas.”22 FGV DIREITO 36 Neste parágrafo. Tudo por uma única razão: mesmos essas idéias e princípios não são inatos. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento . 10 original. coisas que seriam descabidas caso fossem verdadeiramente inatos. exército. Ob. que os homens quando agem virtuosamente o fazem porque costumam tirar benefícios próprios de tal conduta e não porque a tenham inscrita dentro de si. embriaguez. Cit. já que nações inteiras chegam mesmo a divergir acerca de certos princípios consagrados em outras nações. elefante. pp. movimento. temos ainda David Hume. já que todos eles dependem de uma experiência prévia dos sentidos que os transforme em idéia real e conhecimento verdadeiro. Todo homem tem consciência de que pensa. Por conseguinte é indubitável que as mentes humanas tem várias idéias. 150152. como a justiça. bem como de comprovação. e que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. pois dependem de uma aquiescência por parte dos indivíduos. não podem ser considerados inatos e universais. 159. mesmo as evidências lógicas mais apodícticas. Desenvolvendo o pensamento empírico. ou seja. “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de sente a um calor dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e moderadamente tépidotarde essa sensação oumais tarde pela imagiquando relembra mais e quando relembra a antecipa essa sensação ou a antecipa pela remedar ou Essas faculdades nação. David.. como os princípios da identidade e não-contradição. Ob. Essas faculdades podem imaginação. sujeitos e povos podem convergir ou divergir em suas regras práticas – morais – conforme as experiências e vivências que possuam. John. temos ainda David Hume. nem sempre adotam os mesmo princípios práticos ou as mesmas virtudes.”10 diferença entre as percepções da mente quando o homem “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável lOCKE. Desenvolvendo o pensamento empírico. e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias.

fazendo com que. que são levadas à memória. dando início a um processo psicológico que vai. É a reunião das várias e diferentes sensações que permite perceber um objeto exterior. formando. Cit.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Neste parágrafo. produzindo um tipo de “verdade” sobre os dados da realidade. Nesse sentido. Hume encerra a Investigação criticando a idéia do apriorismo como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro dos acontecimentos do mundo real. Na medida em que as percepções vão se repetindo. onde a razão forma os pensamentos. etapa a etapa. pp. no parágrafo em epígrafe. p. David. dos fatos. 11 12 13 HUmE. David. elas se combinam. pode-se dizer que Hume compreende a verdade sobre o entendimento humano (o que Descartes chamaria de cogito) como a própria vivência imediata do pensar estimulado indutivamente por impressões. Por isso. para Hume. quer seja porque são semelhantes (semelhança). já que a relação de causalidade depende de uma experiência pessoal não universalizável sobre bases seguras. afirma que somente a vivacidade do sentimento original é capaz de responder ou explicar uma dada situação. Assim. O fato é que. os pensamentos. apenas. Cit. Negando fundamentos abstratos e metafísicos.. FGV DIREITO 37 . vivências. Ob. temos que os conhecimentos começam com as sensações (experiência dos sentidos) estimuladas pelos objetos exteriores. na medida em que “tudo que é pode não ser”13. surjam as idéias. se associam. HUmE. Ob. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento empirista. não pode haver conhecimento pleno e cientificamente válido fora do campo meramente conceptual. É a experiência que inscreve as idéias em nosso espírito e a razão as arranja (combinando ou separando). ou seja. Em outras palavras. Na verdade. HUmE. Assim. como é o caso da matemática. Segundo sua filosofia. assim. Hume afirma que a razão nada mais é que o hábito de associar idéias. acusando mesmo de enganação e ilusão qualquer tentativa de levar o raciocínio das ciências abstratas de quantidade e número para os fatos concretos.12 Com efeito. Numa síntese geral do processo de conhecimento exposto por Hume na sua Investigação sobre o Entendimento Humano11.. as idéias correspondem à associação das percepções trazidas pela experiência sensível. dentre outros. seja por semelhança. não há conhecimento da realidade que não se inicie com as impressões dos sentidos. pode-se dizer que o empirismo de Hume é o mais inovador e radical. p. Ob. a causa corresponde à imaginação do sujeito afetada por uma determinada experiência dos sentidos. com esta repetição. estes são estimulados por dados internos ou externos ao sujeito. Contudo. 203. inaugurado por Bacon e continuado por Locke. 141-157. porque se repetem no mesmo espaço ou próxima umas das outras (contiguidade espacial) ou porque se repetem sucessivamente no tempo (sucessão temporal). David. ocorre o hábito da associação das percepções. seja por diferença.. não há demonstração possível. desta maneira. 204. colocando-o em posição de destaque dentre os próprios empiristas. as sensações reunidas formam a percepção. ou seja. não existe consciência mas. já que em relação aos fatos. Cit. bem como criticando a resposta da velha teologia de que um Ente Supremo precisa ter sido a causa de tudo que foi criado e do que será criado.

Teorias da Verdade. o fato é que mesmo em relação à verdade. (Parte I – Capítulo VIII. Miguel. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. REALE. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. n. No direito. 2003. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Obrigatória 1 .1 Independente dos resultados a que se chegue. complementar CUNHA.Para uma boa síntese cf. Do Conhecimento Quanto a Origem). jan/jul 2000. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. 20 Formas pelas quais chega-se à decisão. Se a sentença é falsa. É empírica. então ela é verdadeira. No direito não basta a verdade pura e simples. José Ricardo. Filosofia do direito. In: Direito.dizer que tudo que ele diz é mentira. sentido moral ou ético. não há apenas várias correntes ou definições. Richard L. “verdade das EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE e o direito? Aqui. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. São Paulo: Saraiva. Por isso. 1996. mas se for verdadeira. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. 16. então ela é falsa. São Leopoldo: Unisinos. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Acreditar na verdade como produto de uma experiência empírica implica admitir que também é o direito produto de uma experiência leis”. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Estado e sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. KIRKHAM. de um fato fundante. portanto. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. FGV DIREITO 38 . Essa concepção empossível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? pírica do direito é corrente na common law e da origem ao chamado realismo jurídico. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. fruto.

Formalismo JUrÍdiCo e realismo JUrÍdiCo NOTA AO ALUNO tema da aUla Formalismo e Realismo Jurídico. FGV DIREITO 39 devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. ObjetivOs da aUla Apresentar como Inatismo e Empirismo influenciaram as principais matrizes epistemológicas do direito. No direito. 2) As 2.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 8. 4) As determinações metajurídicas não tem valor jurídico. Vejamos. novamente. Portanto. por atos de derivação racional. prepare-se para a aUla É necessário recordar que razão e experiência foram elevadas às categorias centrais do conhecimento na modernidade. Procedimentos de FUNDAMENTO NA LEI decidibilidade que subsumem o valor justiça ao valor segurança. o esquema apresentado na aula 6: raCionalismo FUNDAMENTO Fundamentado numa razão inata NO Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma RACIONALIDADE inferência (representação) lógica PRINCÍPIO DA empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera abstração Método deindutivamente conceitual quemundo externo por meio de uma Alcança o confere plenitude de sentido às experiência possibilitada pela percepção prescrições sensível normativas. o racionalismo influenciou tanto o jusnaturalismo do século XVIII. COERENTE mas. todas as áreas do saber passaram a seguir uma ou outra matriz. do qual se pode inferir . sobretudo. materializado no conceito de legalidade. soluções para todos qual se pode os tipos de conflitos jurídicos. Prepare-se podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico: para o debate refletindo sobre tais postulados: Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que 1) 1. fOrmalismO jUrídicO Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico. 3) Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. . e por uma operação mental Ordenamento jurídico DIREITO POSITIVO preciso e completo. Já o empirismo está na base dos realismos jurídicos. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. A única fonte do direito é a Lei. A única fonte do direito é a Lei. por atos de derivação racional. soluções para todos os tipos de conflitos jurídicos. o formalismo positivista do século XX. inferir . As normas normas positivas constituem um universo significativo significativo auto-suficiente do positivas constituem um universo autosuficiente.

Continue sua preparação refletindo sobre os novos postulados: 1. É e o direito? Quais seriam os principais problemas possíveis resultantes dessas matrizes epistemológicas? Aqui. realismO jUrídicO Novamente Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do realismo jurídico. sentido moral ou ético. o direito positivo vigente. Independente dos resultados a que se chegue. As determinações metajurídicas não têm valor jurídico. Não há significados paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. razão porque só possuem valor se refletem as condutas judiciais e as conseqüências sociais das Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. na verdade. não há apenas várias correntes ou definições. O sentido das ser ela é verdadeira. 4. A linguagem jurídica é formal e. São Leopoldo: Unisinos. TEIXEIRA. 6. As normas jurídicas e os conceitos dogmáticos constituem um conjunto de Claro que. I. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. 2003. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. As leis não solucionam todos os casos concretos. O juiz é neutro. então o que lê diz “é falso”. o fato é relações jurídicas. portanto. “verdade das possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? leis”. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: abstratos claramente definíveis. A ordem jurídica não oferece segurança. Capítulo síntese cf. Mas o problema aponta para o paradoxo real que A linguagem jurídica não é hermética pode 3. então o que lê diz “é 2. No direito não basta a verdade pura e simples. então ela é falsa.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 3. 4. 7. Os conceitos teóricos devem ter base empírica. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. sem formular juízos valorativos. A Ciência do direito constrói-se elaborando teses sobre os comportamentos A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA judiciários. dizer que tudo que ele diz é mentira. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. (Parte I.Para uma boaca. Casa da Verdade. apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. 19 e 20 20). Formas pelas quais FGV DIREITO 40 . então nem auto-suficiente. Lisboa:Richard L. Ontologia do Direito. 2000. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. KIRKHAM. 5. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer afirmações metafísicas. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. se o que ele diz é falso. mas 1 limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Antonio Braz. Teorias daMoeda. No direito. não há paradoxo. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídiDESCOBERTA . O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. mas se for verdadeira. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. 18. Contudo. que mesmo em relação à verdade. Perspectivas contemporâneas da ontologia jurídica – Seções 17. Se a sentença é falsa. Por isso. devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. precisa: possui um unívoco sentido dispositivo. A Ciência Jurídica deve estudar. Pode-se desqualificar este normas dependerá do uso que os juízes dêem as mesmas. verdadeiro”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético.

FGV DIREITO 41 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar WARAT. Realismo e Interpretação da Lei). 1994. Luiz Alberto. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. temas para uma reformulação. (Capítulo 4: Formalismo. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei.

ao impériorazão crítica por ela mesma. por verdade. para que nada fique à mercê de respostas níacos e reconhecendo. Objetivos da aula ObjetivOs da aUla Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no penpensamento kantiano. que sua filosofia também ser que se pode fazer sobre uma teoria.fazer sobre uma teoria.AULA 9. investigando osubjetiva. ela está sendo julgada por ela mesma. sobre o “tribunal da erazão” na éfilosofiaanalisado por ela.ao conhecimento ee a verdade. até mesmo seu agente e de um sujeito autônomo. consiste no exame de valor conhecida como criticismo. a fim de buscar suas condições de que o criticismo surge do movimento realizado por Kant dianpossibilidade. investigando o que ela pode e o que verdadeiras bases para um uso correto a razão ocupa. curiosamente.visto e que se critica a siela. onde um minucioso exame. curiosamente. suas possibilidades: 83 FGV DIREITO 42 Para desenvolver plenamente seus estudos. num ceticismo quanto b) o erro do empirismo que razão. a razão ocupa. ela está sendo para que nada fique à mercê de respostasde juiz e de e sem fundamento racional. por isso pode. numaerros. numa metafísica ilusória. Daí sua filosofia também ser conhecida como criticismo. A razão crítica é. julgada O conhecimento É a razão que se submete às suas próprias leis. de validade e te daquilo que considera comoos seus limites. Podemos afirmar que o dois erros. Kant se propôs um saber crítinenhum tipo de inconsistência. uma conduta exame de valor que se pode a fim de buscar suas condições de possibilidade. CRITICISMO: KANT EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 9. caindo. Kant se propôs um saber crítico. operador é a razão analisado por mesma. racionalista que confia cegamente na cia subjetiva. CritiCismo: Kant Tema da aula NOTA AO ALUNO tema da aUla de inatismo e empirismo. posto que também submetido à razão. num uso correto da razão. Dessaque comumente se fala sobre o “tribunal da razão” na filosofia kantiana. o criticismo kantiano irá buscar as verdadeiras bases para um reduz tudo à mera experiência que ela pode e o que ela não mesmo. que confia cegamente Kant diante daquilo que considera como dogmatismosurge do movimento realizado porna razão. É por isso forma. que consiste no uma conduta ou uma experiência. Daí co. suas possibilidades e limites. por isso mesmo. ou seja. a da razão para se apresentar de forma verdadeira e sistemática. É por isso que se submete às suas próprias leis. um duplo papel: dogmáticas réu. impedindo seus delírios megalomaantes de tudo. humildemente. de validade e os seus limites. onde da razão. a razão crítica é aquela da qual nada escapa a comumente se fala até mesmo seu agente operador visto e kantiana. A síntese crítica A síntese crítica de inatismo e empirismo. o o erro do empirismo. samento kantiano. dar dar margens a Para desenvolver plenamente seus estudos. um duplo papel: de juiz e de réu. exatamente. Podemos afirmar ou uma experiência. Dessa forma. É a razão que ela não pode. caindo. Assim. esse que é submetido Assim. o criticismo kantiano irá buscar as palavras. como ciência é. caindo. em outrasceticismo quanto suas possibilidades limites. em outras palavras. a saber: a) b) erro do dogmatismoque reduz tudo à mera experiêndois metafísica ilusória. prepare-se para a aUla DESENVOLVIMENTO Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no a nenhum tipo de inconsistência. sem semmargens . segundo as características é aquela da qual nada escapa a um minucioso exame. caindo. a saber: a) o erro do criticismo racionalista.isso mesmo. ou seja.ao conhecimento e a por isso mesmo.

uma vez que é aquela que legisla sobre esta ao instituí-la como objeto para sua cognição.”14 A forma como Kant responde os problemas colocados à teoria do conhecimento pelas correntes racionalista e empirista ficou conhecida como uma espécie de revolução copernicana. 77. No que tange à sua utilidade. Cit. sobre como é possível produzir conhecimentos ditos científicos e. são paulo: abril Cultural. Immanuel. 1994.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE “Em todos os seus empreendimentos a razão tem que se submeter à crítica. fracassaram sob esta pressuposição. todo o processo de produção do conhecimento. passa a ser visto como o resultado da relação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. 16 KanT. Ob. por isso. Crítica da Razão Pura. quando afirmavam ser a realidade racional em si mesma e. 363. p.. suas objeções e até seu veto. não obstante traça como que todo o seu contorno. 1980. p. racionalistas e empiristas estavam buscando um centro falso e inexistente. quando este afirma que é o sujeito de conhecimento – razão crítica – que deve ser o centro do conhecimento e não o contrário: “Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos. Immanuel. Ob. Como podemos ver. o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que se deve estabelecer sobre os mesmos antes de nos serem dados. e não o contrário. que o conhecimento 14 KanT.”16 Assim sendo. Copérnico já havia demonstrado que o universo é infinito e. tendo em vista tanto os seus limites como também toda a sua estrutura interna. e não pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isto a prejudique e lhe acarrete uma suspeita desvantajosa. a teoria do conhecimento de Kant não é exatamente um discurso científico. nada é tão importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a esta inspeção atenta e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa. girar em torno deles”15. assim. 14. inteligível. para seu conhecimento. sendo a Terra que gira ao seu redor. marilena. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento. consiste sempre em nada mais do que no consenso de cidadãos livres dos quais cada um tem que poder externar. p. É aí que surge a revolução proposta por Kant. KanT. mas um discurso sobre a ciência. Para Kant.. cabe ao sujeito o papel de instituir seus objetos cognitivos para afirmar-se como hegemonia da razão sobre o real. com pretensão de universalidade e precisão. 12. p. Em outras palavras. são paulo: atica. mas uma estrela. o veredicto desta última. quer dizer. como acreditavam os antigos e medievais. Sobre esta liberdade repousa até a existência da razão. através do que ampliaria o nosso conhecimento. onde existe uma sobreposição do primeiro em relação ao segundo. longe de possuir uma autoridade ditatorial. Immanuel. 17 FGV DIREITO 43 . por isso mesmo. Cit. 15 CHaUÍ. Dessa maneira. sem constrangimento algum. “colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão. porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos.”17 Temos. a partir de Kant. No prefácio da Crítica da Razão Pura. da razão em relação à realidade. ou o sujeito do conhecimento. Convite à Filosofia. assim. diz ser esta “um tratado do método e não um sistema da ciência mesma. a Terra não poderia ser o centro do cosmo e que o Sol não é um planeta.

Rapidamente. já existia o conhecimento universal. todos sabem que porta abre e fecha. que o conhecimento empírico. p. científico. mas apenas a maneira como se apresenta ao homem. sendo aquele cujo predicado já está contido no sujeito. 39. ou seja. e 2) o sintético.18 O númeno é a coisa em si. tal qual ocorre nas proposições da matemática. 20 FGV DIREITO 44 . Immanuel. como exemplo. ou seja. não o ente em si. Esta proposição realmente acrescenta um dado novo sobre o sujeito que não era conhecido anteriormente. medieval e moderno.. sabendo que o centro do conhecimento é o sujeito cognoscente. este pode ser conhecido cientificamente. p. Ora. já sabemos que este sujeito cognoscente é tomado criticamente. No entanto. Ob. sendo sabido por todos. não pode ser conhecida. Cit. válido em qualquer tempo ou lugar. Cit. vejamos o juízo a porta está aberta. pp. que significa a maneira pela qual um ente faz-se conhecer. 19 KanT. Temos. Ob. sendo aquele que o conceito admitido no predicado representa uma informação nova em relação ao sujeito. reconhecido nos seus limites como limites da própria razão. saber como eram possíveis tais ciências.. tido como científico. Kant distingue dois tipos de juízo: 1) o analítico. destarte. não pode ser tomado de maneira universal ou necessária. embora seja concreto e enriquecido pelo dado real dos sentidos ou de nossa experiência pessoal. estes não fazem o conhecimento em nada avançar. Kant não se preocupa em descobrir se é possível a construção de um saber de base universal. sendo o que independe de nossas experiências sensíveis. Sua questão era. vez que as ciências da natureza já estavam constituídas como um fato. Em outras palavras. exatamente como deve ser o conhecimento científico. embora esta seja uma proposição universal. o que é feito na Critica da Razão Pura.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE científico se opera na forma de uma relação entre sujeito e objeto. fazendo o conhecimento avançar. então. e 2) o puro ou a priori. Esta. pois. a resposta somente poderia resultar da análise da faculdade de conhecer do sujeito.20 Tomemos. Ob. a resposta dada por Kant foi a seguinte: o que torna possível o conhecimento científico são os juízos sintéticos a priori. O que remete a outra questão: como é possível um juízo sintético a priori? Pois bem. pois este é incognoscível. O fenômeno é a coisa na maneira como se apresenta ao sujeito. conforme as características e determinações próprias do sujeito racional. 18 KanT. ou seja. Immanuel. Portanto. Quando se debruça sobre o problema do conhecimento. já que aquilo que informam do sujeito já estava contido na própria idéia do sujeito. Vejamos que os juízos analíticos são sempre universais e necessários. não seria porta. o juízo a porta abre e fecha. Kant observa e distingue duas formas de conhecimento: 1) o empírico ou a posteriori. mas sim a forma de sua apresentação.. a coisa em si. o objeto cognoscível é sempre um fenômeno. Contudo. este KanT. caso contrário. mas pode-se conhecer o fenômeno. que é o fundamento último do próprio conhecimento. o que já se torna possível no caso do conhecimento puro. Este reconhecimento dos limites da razão implica numa crítica kantiana ao dogmatismo do racionalismo antigo. este não pode ser conhecido cientificamente. Cit. o númeo. Agora. 24-26. ou seja. Entretanto.19 Por outro lado. não se conhece racionalmente o númeno. que pretendia desvendar metafisicamente os atributos ontológicos da natureza primeira do ente. sendo o que resulta de nossas experiências sensíveis. 27. Partindo dos aportes oferecidos tanto por empirismo como por racionalismo. somente há conhecimento científico quando o objeto de conhecimento é tomado na sua dimensão fenomênica. Immanuel.

através de um esquematismo transcendental. que a informação não se restrinja a uma única observação específica de um fenômeno. ao mesmo tempo. para que haja ciência. que promove a síntese do próprio conhecimento. de forma que não faz avançar o conhecimento e. e se os juízos sintéticos da experiência oferecem somente a possibilidade do crescimento do conhecimento – dado que naqueles o conhecimento é universal. 1995. portanto. na medida em que acrescentam uma informação sobre o sujeito. é necessário. em contrapartida. Os juízos sintéticos a priori representam o conhecimento científico porque são universais e crescentes. tal qual o juízo o triângulo têm três lados ou todos os corpos são extensos. Immanuel. Já o conhecimento a priori é universal e necessário. pois os juízos sintéticos são empíricos e fazem avançar o conhecimento.”22 Ainda o conceito de juízo sintético a priori revela a hipótese central da filosofia kantiana da ciência: o conhecimento começa com a experiência.21 Somente os juízos sintéticos fazem a ciência avançar. onde não se revela nenhuma novidade sobre o sujeito. sempre a priori. Cit. não servido. É a priori porque vale universalmente. de modo necessário. Dessa forma. para explicar o funcionamento das ciências. se os juízos analíticos trazem em si a universalidade e são. mas apenas traduz juízos analíticos. denominamos KanT. por isso. mas não são universais e necessários. seja universal e necessária: trata-se do juízo sintético a priori. as quais. mas não avança. e nestes o conhecimento é crescente.. Kant faz uma espécie de síntese entre postulados do racionalismo e do empirismo. p. não podendo se dizer por que esta porta está aberta. contudo. o juízo porta abre e fecha é analítico. propondo o conhecimento na forma do resultado de um processo complexo que parte dos dados empíricos fornecidos pela intuição sensível processando-os na forma transcendental das categorias do entendimento. 22 FGV DIREITO 45 . O juízo ‘todo acontecimento tem uma causa’ é um juízo sintético a priori. p. são um fato.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE conhecimento somente pode ser considerado válido para aquele sujeito especificamente. mas não universal – é preciso que existam juízos sintéticos a priori que tenham as duas características. nem a matemática. Ob. onde o predicado não esteja contido no sujeito mas que. Belo Horizonte: Editora UFmG. não serve para explicar o funcionamento das ciências. é sintético porque no conceito acontecimento não está contido o conceito de causa. entretanto. A Idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. Acontece que. 87. já que é universal e necessário. mas possa ser tomada como atributo universal e necessário de dado objeto cognoscível. não provindo pois da experiência. mas não surge todo ele da experiência. Assim descreve Kant: “Denominamos sensibilidade a receptividade de nossa mente receber representações na medida em que é afetada de algum modo. também. já o juízo a porta está aberta é sintético. A resposta está numa categoria empírica. Joaquim Carlos. que todas as portas do mundo estão abertas. 28. estes conceitos ainda não respondem ao problema do conhecimento científico. 21 salGaDO. isoladamente. tal qual todos os corpos se movimentam. ao mesmo tempo: “Ora. já que sem eles não seria possível a física pura.

como dito anteriormente. todas as sínteses tem como centro o sujeito cognoscente que institui. Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as suas funções. ocorre que o racionalismo kantiano foi convertido em racionalidade instrumental. intuições sem conceitos são cegas. Nenhuma destas propriedades deve ser preferida à outra.”23 Como diz Kant. mas. Cit. Joaquim Carlos. o juízo sintético a priori. Portanto. um momento estático dos sentidos ou da razão. ou. os meios se autonomizaram KanT. p. Embora o tribunal da razão tenha limitado a arrogância da razão onipotente da metafísica dogmática. Frente a isto. a mais alta faculdade do conhecimento. 23 salGaDO.. Contudo. ele elevou ao mais alto pedestal a glória da razão teorética ou científica. 85. antes. Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado. acrescentar-lhes o objeto na intuição) quanto tornar as suas intuições compreensíveis (isto é. ou seja. o sujeito racional é a própria unidade do conhecimento na forma do eu penso. Por isso se dizer que na filosofia kantiana é a razão que legisla.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendimento produzir representações. pela segunda. o conhecimento resulta da reunião das faculdades da sensibilidade – intuição sensível – e do entendimento.. Cit.. ou seja. 74. como diz Kant. Modernizar passou a significar racionalizar e racionalizar passou a significar estar mais perto da verdade e da liberdade intelectual. Ob. na forma do sujeito de conhecimento. pois. desse complexo processo de sínteses que acolhe a multiplicidade de percepções dos sentidos e as eleva à forma de conceitos inteligíveis e universais. A nossa natureza é constituída de um tal modo que a intuição não pode ser senão sensível. p. à sua escolha. Immanuel. pô-las sob conceitos). Ob.25 Não resta dúvida que a epistemologia kantiana radicaliza a aventura moderna do empreendimento científico ao lançar as bases mais sistemáticas e sólidas de uma nova fundamentação da verdade. sujeito transcendental. Pela primeira. Ob. pensamos este mesmo mundo. é a unidade racional transcendental. o ato de pensar. a fim de pensá-los racionalmente. meio eficaz para a consecução de um fim qualquer. O conhecimento só pode surgir da sua reunião. tomada como verdade epistemológica. Essa perspectiva racionalista kantiana serviu de base para a sustentação de uma sociedade que busca a legitimação de suas instituições e do comportamento de seus agentes em postulados racionalistas. 25 FGV DIREITO 46 . Cit. No entanto. resulta. O conhecimento não é. entramos em contato com o mundo e. Pensamentos sem conteúdos são vazios. sendo. Dessa forma. p. 129. que caracteriza o conhecimento concreto e universal das ciências. o entendimento é a faculdade de pensar o objeto da intuição sensível. os objetos de sua investigação. como último reduto da verdade mesma. Muito rapidamente. 24 KanT. é sempre uma postura racional que impõe à realidade bruta as regras ou leis que a torna inteligível. para Kant. e sem entendimento nenhum seria pensado.24 Assim. contém somente o modo como somos afetados por objetos. De efeito. tanto é necessário tornar os conceitos sensíveis (isto é. um processo complexo que opera através de sínteses que conduzem a diversidade dos dados empíricos à unidade das categorias do entendimento. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. por isso. isto é. que fornece as condições últimas de possibilidade do conhecimento ou da verdade. Immanuel.

“verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. São Leopoldo: Unisinos. 2003. Mas o problema aponta para o paradoxo real que 1 que mesmo em relação à verdade. a partir do século XIX. Contudo. Direito. 1996. “verdade das e o direito? Acreditar na verdade como produto de uma síntese entre entendimento e sensibilidade admitir que também o direito é produto leis”. Para a aula. que retirou de boa parte dos cientistas a sensibilidade A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA social e os fundamentos éticos da busca da verdade. constituído concomitantemente por fatos lidar com os problemas de insegurança jurídica? concretos e proposições abstratas que interagem reciprocamente. o fato é muito tempo pela filosofia. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. que acabou por determinar Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há o modo de produção do resultados a que se chegue. degenerando na forma de certas condutas consideradas meramente técnicas. Como fenômeno da relação com o criticismo kantiano. atingiu seu ápice com a hegeA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA monia absoluta do positivismo. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como de tal síntese. 1 Obrigatória KIRKHAM. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. Miguel. não há paradoxo. Se a sentença é falsa. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. complementar 20 CUNHA. sentido moral ou ético. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. na verdade. Richard L. jan/jul 2000. Teorias da Verdade. REALE. Por isso. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. então em moralismo. Filosofia do direito. Esse proela é verdadeira. não há apenas várias correntes ou definições. Estado e Sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. No direito não basta a verdade pura e simples. pesquise a chamada dialética de integração-poAqui. 16. . em relação aos fins. cultura o direito importa valores. como instrumento de dominação de certos grupos sociais. se o que ele diz é falso.Para uma boa síntese cf. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. mas se for verdadeira. n. Mesmo a moral foi transformada pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Do Conhecimento Quanto a Origem). No direito. então ela é falsa. pois. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Capítulo VIII.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE então o que lê diz “é falso”. sendo. Independente dos conhecimento em todas as áreas do saber. (Parte I. Claro que. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. José Ricardo. isoladas de fundamentos éticos. São Paulo: Saraiva. Mas podemos dar uma cesso de embrutecimento da racionalidade científica e de autonomização da ciência versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: em relação ao mundo da vida. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como laridade e Manuel Atienza: contexto da descoberta do Direito de Miguel Reale e comente sua Jerzy Wróblewski na Teoria Tridimensional e contexto da justificação. então o que lê diz “é verdadeiro”. FGV DIREITO 47 .

AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE

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NOTA 10. o positiVismo: Comte aUlaAO PROFESSOR

Tema AO ALUNO NOTAda aula

tema da aUla O positivismo filosófico.

O positivismo filosófico.
Objetivos da aula

ObjetivOs da aUla filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. Apresentar o positivismo

Apresentar o positivismo filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. DESENVOLVIMENTO
prepare-se para a aUla
A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela também um papel político para a

A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, manutenção da ordem. Isso quer dizer que, por um lado, o afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum positivismo se apresenta como uma teoria do conhecimento de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela capaz de apreender e desvendar a ordem natural dos também um papel político para a manutenção da ordem. Isso acontecimentos histórico, descobrindo leis gerais válidas para quer dizer que, por um lado, o positivismo se apresenta como todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma uma teoria do conhecimento capaz de apreender e desvendar a evolução intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, ordem natural dos acontecimentos histórico, descobrindo leis geo positivismo se apresenta como uma coordenação das ações políticas necessárias rais válidas para todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma evolução para a manutenção dessa ordem, que traz o desenvolvimento, e para uma eventual intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, o positivismo se apresenta correção de possíveis desvios. Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma coordenação das ações políticas necessárias para a manutenção dessa orcomo uma espécie de filosofia das filosofias, pois fornece a regra geral de dem que traz o desenvolvimento e para uma eventual correção de possíveis desvios. entendimento e interpretação de todos os acontecimentos históricos ao mesmo tempo Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma espécie de filosofia em que delimita os campos de intervenção da ação humana e fornece as regras de das filosofias, pois fornece a regra geral de entendimento e interpretação de todos como fazê-la. Para tanto, se opõe a qualquer tipo de saber que não esteja amparado os acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que delimita os campos de inem condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer tervenção da ação humana e fornece as regras de como fazê-la. Para tanto, se opõe a ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No qualquer tipo de saber que não esteja amparado em condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No lugar dessa ontologia99 caráter de metafísico, o positivismo, embalado pelo otimismo moderno, apresenta a ciência como verdadeira redentora e realizadora da promessa do conhecimento e do progresso. Comte acredita ter encontrado a filosofia natural a que Bacon tanto se referia sem, contudo, ter descoberto suas verdadeiras regras de funcionamento. Observar e descobrir o funcionamento da natureza é o ponto de partida para uma ação racional sobre a própria natureza que assegure ao homem um lugar privilegiado no mundo, isto é, um lugar de domínio que propicie uma natural evolução. Portanto, a filosofia
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positivista de Comte concede à ciência lugar de fundamental destaque, na medida em que a ela cabe fornecer o conhecimento do mundo e o plano de ação adequado ao seu manejo. Eis a síntese da perspectiva cientificista da filosofia positivista: ver para prever e prever para controlar. Afirma Comte:
“Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte de trabalhos da espécie humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a verdadeira base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos fenômenos, cujo resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evidentemente pode nos conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um fenômeno por outro, tudo isso em nosso proveito... Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores.”26

Apesar dessa apresentação dos postulados e das pretensões do positivismo, ainda é necessário um esforço de definição. Usemos o seguinte conceito: positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. É uma doutrina porque é um conhecimento organizado a partir de um corpo teórico próprio e definido. A substância dessa doutrina filosófica é o paradoxo entre o real e o transcendente, onde o primeiro deve ser entendido como uma exterioridade observável e o segundo como a própria metafísica. Assim, o positivismo rejeita a cientificidade, ou seja, o caráter de verdade, de qualquer explicação baseada em argumentos metafísicos, rejeitando, por conseguinte, todas as idéias totalizantes e que não estejam fundamentadas no observável. Portanto, apenas no plano do real fenomênico é possível praticar a ciência e descobrir a verdade. Deve-se ter em conta que não basta a pura observação, o fenômeno observado deverá ser racionalizado para que possa ser apresentado na forma de enunciados, prognósticos e prescrições. Considerando a realidade como uma exterioridade observável, Comte entende que os fenômenos podem ser vistos, previstos e subsumidos por uma lei geral de funcionamento, de modo a ser controlado ou, pelo menos, passível de controle pela razão humana. Por isso mesmo, estrutura sua filosofia positivista em três momentos fundamentais: uma filosofia da história (momento filosófico), uma teoria ou classificação das ciências (momento epistemológico) e uma reforma das instituições políticas e morais (momento sociológico). Todos estes momentos devem ser submetidos à Lei Fundamental do Progresso do Espírito Humano, consubstanciada na evolução dos três estados que marcaram a existência dos homens: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, sendo este último a grande expressão da natureza e cultura humanas:
“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os
COmTE, augusto. Curso de Filosofia Positiva. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 23.
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efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinara para cada um uma santidade correspondente. Enfim, no estado positivo, o espírito humano reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.”27

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, no estado positivo, a crença (in)fundada em agentes sobrenaturais e forças abstratas, próprias dos estados teológico e metafísico, desaparece para dar lugar a uma nova crença: o poder da observação e da razão que, combinadas, formam a base da ciência. Note-se a influência de Hume e de Kant, conforme admite o próprio Comte, na descrença em torno de um absoluto ontológico ou mesmo na apropriação crítica da ciência, estabelecendo seus limites e possibilidades, ou, ainda como quer Kant, na compreensão da ciência como o resultado da articulação entre sentido e razão, com primazia normativa desta última, pois é ela que determina o significado dos dados empíricos absorvidos pelos sentidos. No estado positivo, é o conhecimento científico que determina a verdade e os seus meios de produção. Por isso, Comte afirma dois postulados epistemológicos básicos: 1) a negação de uma unidade absoluta intrínseca à realidade; 2) a afirmação de uma relatividade histórica do conhecimento que está sempre em progresso e se liga a dadas situações sociais.28 Com base nesses postulados, afirma três regras metodológicas essenciais para a ciência: 1) A busca do conhecimento implica a delimitação de um objeto específico de conhecimento; 2) O objeto – fenômeno – deve ser estudado sistematicamente nas suas relações constantes de concomitância e sucessão, até que se encontre sua lei geral de funcionamento; e 3) A descoberta científica da lei de funcionamento de um fenômeno, permite a previsão racional de seu comportamento, como forma de controle, segundo o dogma da invariabilidade das leis naturais.29 Assim, o positivismo produz uma filosofia da ciência que possui como fundamento a observação que, no entanto, pressupõe: 1) a possibilidade da objetividade do conhecimento; 2) uma organicidade própria dos fenômenos que são sustentados por funções naturalmente determinadas; e 3) uma harmonia intrínseca da realidade que decorre da organicidade dos fenômenos. Em

27 28

COmTE, augusto. Ob. Cit., p. 4.

COmTE, augusto. Discurso Sobre o Espírito Positivo. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 63.
29 COmTE, augusto. Discurso Preliminar Sobre o Conjunto do Positivismo. são paulo: abril Cultural, 1983, pp. 108-110.

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inclusive pelo direito. sendo conduzidas basicamente pelos seguintes princípios: 1) A sociedade é regida por leis naturais. então da natureza. bastaria a implantação de um Estado sociocrata intervencionista que garantisse o funcionamento dos órgão sociais.30 Segundo o positivismo. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. não há apenas várias correntes ou definições. assim como as empregados pelas ciências da natureza. são paulo: Cortez. leis invariáveis.. Todo o século XIX . que torna a política dependente da ciência. 1994. o fato é que mesmo em relação à verdade. Ob. não há paradoxo. Isso é o que será aprofundado nas lidar com os problemas de insegurança jurídica? aulas seguintes. a ciência – com sua pluralidade de objetos e unidade metodológica – descobre as leis gerais imutáveis da estática (ordem) e da dinâmica (progresso). sentido moral ou ético. paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. toda sociedade é formada por uma estática social e por uma dinâmica social.1 Independente dos resultados a que se chegue. Para garantir a ordem que produz progresso. foram hegemonizados por leis”. Cit.31 Todos esses aspectos foram. for verdadeira. mas se devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Mas podemos dar uma de forma objetiva. considerada por Comte como sendo anarquista. na vida social. como se ciência e política fossem neutras. Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Aqui. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como conceitos positivistas de direito. . neutra. e da aristocracia. se tudo estiver em ordem. por isso. livre de julgamentos de valor ou ideologias. Por isso. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Contudo. “verdade das e o direito? De muitas formas o positivismo influenciou o direito. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. de A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA tal forma. chegando às suas leis gerais imutáveis. portanto. basta compreender que. COmTE.e a maior parte do século XX. enraizados na consciência epistemológica moderna que se expandiram A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA por todas as formas de conhecimento. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. isentas de influências ideológicas na busca e na realização de uma “verdade pura”. considerada por ele reacionária. donde a crença que o progresso decorre da ordem. ser epistemologicareina uma falso”. p. 31 FGV DIREITO 51 CONTEXTO DA Formas pelas quais chega-se à decisão. ocultando a questão fundamental das correlações de força e de busca pelo poder. Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. se o que ele diz falso. Para tanto. As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. consoante concepção positivista. mchael. mente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos e processos Claro que. então o que lê diz “é harmonia natural. para uma boa existência da sociedade e sua respectiva evolução. Nesse sentido. Michael Lövy explica como as ciências sociais foram tomadas por este modelo epistemológico. é2) A sociedade pode. No direito não basta a verdade pura e simples. 17. e sendo a segunda o resultado de suas leis gerais de evolução que lhe garante o desenvolvimento: progresso. sendo a primeira uma condição constante da sociedade que lhe garante a harmonia: ordem. p. independentes da vontade e da ação humanas. Essa acepção positivista. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. isto é. Por isso a definição da sociologia como uma física social que investiga o fenômeno social como um dado objetivo e natural. na verdade. assegurando a vitalidade do organismo e evitando as disfunções socialmente patológicas que pudessem ou impedir o progresso. 3) As pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Se a sentença é falsa. capaz de conduzir o espírito humano numa trajetória moral evoluída e verdadeiramente livre. 113. então ela é falsa. haverá o progresso. No lugar da democracia. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. descartando versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: previamente todas as prenoções ou preconceitos. augusto. No direito. é exatamente isso que ocorre nas sociedades. propõe uma sociocracia fundada no conhecimento científico da sociedade e. 30 lÖWY. Mas o problema aponta para o paradoxo real queciências da sociedade. então o que lê diz “é verdadeiro”. também produz a idéia de que a política pode ser vista como uma técnica de arranjo social.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE outras palavras.

In: CHÂTELET.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória VERDENAL. Lisboa: Dom Quixote. História da filosofia. FGV DIREITO 52 . 2002. complementar COING. René. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. Principais Doutrinas da Filosofia do Direito – Seção VIII A modernidade: positivismo e formalismo). Helmut. 1995. Elementos fundamentais da filosofia do direito. (Capítulo I. A Filosofia Positivista de Augusto Comte. François.

são paulo: Cia das letras. sergio paulo. GIDDEns. anthony. Trata-se. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. isso já oferece uma noção da força da modernidade que.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 11. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Relume Dumará. marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. BaUman. o moderno costuma se ligar ao conceito de “modernização” (modernizar ou modernizado) que. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. HaBERmas. 1997. O Discurso Filosófico da Modernidade. Zygmunt. de um conceito profundamente ideologizado. evidenciam que a modernidade surge de uma profunda vocação para a ruptura e a mudança. Passa-se a idéia de que o Estado terá uma administração mais eficiente e a empresa uma produção mais eficiente. ObjetivOs da aUla Introduzir o problema da modernidade no contexto do marco epistemológico a partir da influência do positivismo. conforme os nomes já consagrados. traduzindo uma intuição de que o moderno ou modernizado é melhor do que aquilo que lhe antecedia. Carlos alberto. Boaventura de souza. 1999. BERman. 1986. ainda não existem consensos sólidos quanto ao significado da palavra. quando se fala em modernizar o Estado ou modernizar uma empresa. se articula com a idéia de eficiência. Jürgen. evidentemente. manifestando a implicação econômica da modernidade. 32 FGV DIREITO 53 . a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: paz e Terra. sem embargo de certos elementos de análise que são comuns ao tema. Buscando marcos para delimitar o período moderno. manifestando a implicação política da modernidade. é sempre contada pelos vencedores. É assim. como qualquer outra história. plasTInO. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova relação entre Estado e sociedade civil. CasTORIaDIs. TORaInE. 1993. Crítica da Modernidade. Os fatos mais citados são a Reforma Protestante. falar de modernidade é falar também Cf. alain. são paulo: Cia das letras. manifestando a implicação teológica da modernidade.32 De um ponto de vista do senso comum. 1987. Mal-estar na Modernidade. para uma instigante visão psicanalítica da modernidade cf. por exemplo. prepare-se para a aUla Embora não seja pouco comum o recurso ao conceito de modernidade para explicar ou mesmo adjetivar certas situações ou fenômenos. Cornelius. Por si só. 2001. ROUanET. a historiografia costuma apontar alguns acontecimentos históricos considerados como verdadeiras balizas. lisboa: Dom Quixote. há muita diversidade quanto à definição do que seja moderno ou modernidade. modernidade e ideologia CientiFiCista NOTA AO ALUNO tema da aUla Delimitações para a modernidade. 1994. De um ponto de vista mais acadêmico. O Primado da Afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. 1991. são paulo: Cortez. As Consequências da Modernidade. 1990. por sua vez. são paulo: Unesp. sanTOs. Uma reforma e duas revoluções. Portanto. As Encruzilhadas do Labirinto I. A Reforma Protestante rompe com o tradicional monopólio da Igreja Católica na formulação da doutrina cristã e institui uma nova relação entre os homens e Deus.

Trata-se as amarras do sujeito pode se libertar “esclarecido”. manifestando a implicação teológica da modernidade. Portanto. como ser racional. A partircometer os mesmos erros já no quetalvez lombo e a realidade da colonização/invasão. indivíduo. paulatinamente. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. medicina. Hannah Arendt33 ao analisar a era moderna. A Condição Humana. Dessa maneira. como conceitos que lhe são fundamentais. da qual ele é o próprio responsável. inclusive. maneira. artes. agora otimismoda sob a formaCopérnico violento eulinhas básicas de suas teorias se sustentavamdesnudadocultural próprio um modernidade. Hannah Arendt75.PLASTINO. Hannah. controla os fenômenos sociais e.ARENDT. toda essa euforia epistemológica só foi possível graças possível graças às onde o rupturas que foram se produzindo. Afetividade: a “A ilustração é a saída do homem de sua menoridade. a ciência passou a combinar suas teorias através do Telescópio. aquele otimismo cultural próprio da encarna. de Colomboee a realidade da experimentos que por Hannah tenha sido o maior genocídio daexata quantificadora. O primeiro moencarna.poder do sujeito que. ser traduzidas. Evidentemente. reprecategoria de ciência/tecnologia sentação ou expressão. que deixou de ser a religião para se instalar grande metáfora do do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e de todas as isoladamente. O outro colonização/invasão. aquele na defesa astronomia de de da dernidade. Pratica a ação porque controla a ação. Para partir do conceitos teológicos. mas como inclusive em cadaentão o centro Em todas as áreas do em qualquer lugar. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando 33 aREnDT. a verdade saiu da revelação e foi para a razão. conhecimento –inclusive em cada indivíduo. como ser animal mas. com fato apontado pudessem invenção empiricamente suas teorias. Evidentemente. não se trata daoinvençãodeve telescópio isoladamente. “negligenciando as qualidades intrínsecas telescópio. mas comoprópriouniverso infinito. artes. medicina. inclusive. saindo da condição de “estar sujeito a” Na verdade. muitas vidas se perderam praticados no Velho uma linguagem o sonho portanto humanidade. o telescópio é tomado Portanto. muitas vidas Mundo. FGV DIREITO 54 . as quais podem. e na humanismo do ser humano. categoria de ciência/tecnologia Tribunais do Santo políticos e econômicos. se a idéia de como a grande metáfora do pensamento que realmente revolucionou a tessitura de está ligada às ligada às novas compreensões modernidade está ontológica da sociedade ocidental a em torno de século XVII: a ciência. paulatinamente. os naturais. daí. é na cientista sofreu duro processo inquisitório por parte dos que ela encontra seu Ofício. para o qual conhecer modernidade. falar de modernidade é falar também e a um só tempo de teologia. do ser associado apontado por Hannah Arendt. No entanto. Na verdade. mais alto padrão de definição. sobretudo. voltemoslíticos conceitos telescópio. como ser racional. Dessa transformações que se partir do século XVII: a ciência. política. em teoria. sobretudo a partir do do século XVI. então o centro como estar em qualquer lugar. 1995. se trata é invenção do a partir Evidentemente. é sim o ícone maior e principal mas do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e 76 todas as grandes transformade Com efeito.” o telescópioda tomado como telescópio ções que se da modernidade. houve um quantidades. anteriormente. ponovas compreensões em torno e econômicos. tão bem exposto por Kant: 76 . mas também provar Porque praticados no Velho Mundo. a invenção dodos objetos. que reside É na racionalidade sobretudo. aponta aponta outros fatos fatos que considera determinantes: descoberta da dois que considera determinantes: a a desoutros dois coberta da América e a invenção do telescópio. e a um só tempo de teologia. sobretudo a partir expressão. agora que. O primeiro América e a invenção do telescópio. No entanto. 260. 260. Hannah.ao analisar a era moderna. política. pode se libertar de todas uma vez obscurantistas. Rio de Janeiro: euforia Universitária. economia e política. por queNovodureza no imaginando buscou rocentrismo que buscou subjugar oviolento eurocentrismo que desnudado sob a forma de um tanta Mundo tratamento com Galileu poder reconstruir (heliocentrismo x geocentrismo) já não os mesmos se o que ele afirmava o paraíso terreno sem cometer subjugar o Novo Mundo imaginando poder reconstruir o paraíso era assim tão original ?erros jácoube a ele não apenas falar. controla os fenômenos sociais porque controla a ação. Então. p. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. pode estar pode um cosmo fechado. é sim o maior genocídio da humanidade. Em todas as áreas do conhecimento – economia. Tudo e. Se o um mundo não é mais visto visto como um cosmo fechado. . . é na compreender melhor a questão. representação ou às sucessivas rupturas que foram se produzindo. já havia negado o geocentrismo. importânciaonde o centralidaderenascentista produziuSeuma próprio mundo não é mais o nova crença na importância e na centralidade do ser humano. em teoria. mas pensamento que realmente revolucionou a tessitura ontológica grandes na ciência. que ela encontra seu mais alto 75 toda essa Forense epistemológica só foi padrão de definição. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a 112 condução de um outro. se a idéia de modernidaPortanto. os naturais. É sabido que este a de Galileu e ao teológicos. a demonstrar do telescópio. sucessivas humanismo renascentista produziu uma nova crença na 111 século XVI. trata-se do próprio conceito trata-se do próprio conceito de sujeito que é reinventado para designar aquele que de sujeito que é reinventado para designar aquele que pratica a ação.e Deus. fundamentosucederam a eventualmente. não radical deslocamento do lugar da verdade. como conceitos que lhe são fundamentais. saindo da condicomo um protagonista que ção de “estar sujeito a”vai. Evidentemente. 1995. É na racionalidade que reside o o poder “esclarecido”. Entre o sonho de Coterreno sem de Galileu. manifestando a implicação econômica da modernidade. geografia – o homem passa a economia. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. Dito de outra maneira. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE relação entre Estado e sociedade civil. A Condição Humana. economia e política. geografia – o homem passa a ser reconhecido ser reconhecido como um protagonista que vai. É importante frisar este novo Arendt. um universo infinito. Carlos Alberto. Entrematemática. p. manifestando a implicação política da modernidade. da se perderam no que talvez tenha sido o ícone maior e principal fundamentoO outro fato fundamento epistemológico matematizado. O Primado da crítica freudiana ao paradigma moderno. uma vez de todas as amarras obscurantistas. que. Trata-se do próprio credo Iluminista. Pratica a ação pratica a ação. substituídas por ao quantificar. Tudo isso é possível porque o homem se destaca não apenas isso é possível porque o homem se destaca não apenas como ser animal mas. da sociedade ocidental a sucederam a partir daí.

2. ao sua causa reside não na falta de entendimento. tanto no campo da ciência (cálculo) como identicamente presente nas duas principais ideologias modernas de emancipação dos no campo da moral (discernimento). antes de mais nada. Crítica da único princípio de organização da vida pessoal e coletiva: “Às vezes. todos idéia do livro. Emanuel. nidade) imaginou a sociedade como uma ordem. exercer direitos e deveres como comunismo se ampararam na mesma promessa de que tanto capitalismo inerentes à sua natureza e posição social. especialmente os séculos XIX e XX.TOURAINE. difundindo-se por toda a vida social. A razão possibilitaa cálculo e o discerni. Forma-se. Se num primeiro momento foi caracterizado pelo seu poder revolumetaforizada segundo de livre pensamento o comunismo pretendeu a cionário. Ocapitalismo e comunismo. classificam. Quanto à abundância. Na perspectiva da ordem presente no expressão corrida industrial travada pelas maiores potências capitalista e moderna. 1993. mas é o próprio fundamento da sociedade moderna. p. buscando a homensmais ampla de uma séculos são dominados pelos legistas. apostando a primeira no livre mercado e a segunda no planejamento dominados pelo homem. Alain Touraine enfatiza duas ideologias) adotaram distintos instrumentos estratégicos: no caso do capitalismo a dimensão ordenadora da ideologia modernista: caberia ao mercado garantir o sonho de liberdade. p.de produção 79 . comandando também a forma de KanT. Ob. apenas. estando de direito. É a grande aspiração da autonomia que parece indivíduos: sujeito autônomo é capaz de80 Sem recair mesmo e conduzir sua realizar-se. TOURaInE. responder por siem análises quanto às suas respectivas bifurcações internas e subtendências. mas na falta de resolução e coragem império da lei. Alain Touraine FGV DIREITO 55 . fazendo da racionalização o moderna. Já a de uma espécie de sociedade epistemológica que “naturaliza” a tecimentos. das proibições e dos privilégios. Os Clássicos da Política. da cultura. Com efeito. a nova ordem.(ou as abundância. escritores. 36. vamente. a modernidade começa a alicerçar as fundações de uma realização de liberdade. comandando também descobrir a ordem das coisas.ilustração in WEFFORT. a produção ancorada em técnicas científicas produz em massa para EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE satisfazer. Alain. uma arquitetura baseada sobre 1994. através de um crescente e sofisticado processo de industrialização e juridicização. Para a garantia da humanas e desta promessa. Alain. O que é a mais acentuadamente política do que econômica. alain. a sociedade é vista como um conjunto de conhecimentos que. os dois sistemas ciais-históricos sejam analisados como fenômenos naturais. difusão do livro. com custos reduzidos.79 Trata-se de uma concepção de bem estar que irá perpassar toda a modernidade. p. crítica das tradições. neste na idéiamomento oiniciativa. os indivíduos se crêem livres por estarem submetidos. Surge a figura do “sujeito de direito”.Modernidade. tornando o sujeito livre e capaz. assim. controlando as ações realização fazendo com que os fenômenos so.As expressões “capitalismo” e “comunismo” a idéia mais ampla buscando uma conotação mais buscando são aqui empregadas de uma sociedaeconômica do que política. é possível afirmar. abundância e felicidade. Essa fórmula mento. já no caso do comunismo oas sociedades onde se desenvolveram o espírito e Estado. mais as capital e o trabalho. produção da cultura. No. já moderno pode ser caracterizadoliberdade por um profundo conservantismo. administrar os bens e as relações humanas. uma próprio entendimento’ – esse é o lema da ilustração. garantem um caminho previsível e necessário aos aconeconômico. 114 tornou-se a viga mestra de toda a atividade moderna. que ou técnicas até papel principal.liberdade e da felicidade. Trata-se felicidade seria uma conseqüência inevitável da liberdade e da ordem social. reservando as expressões “liberalismo” e “socialismo” para uma designação de racional. 1994. Sapere aude! ‘Tenha coragem de usar seu mediação dos conflitos. mas é o próprio fundamento da sociedade a atividade moderna. noutra ponta (política).”34 ideologia de bem estar que promete conforto e segurança.de toda ideologias políticas ou tornou-se viga mestra cidas. Conservar é garantir a ordem. 80 . o sujeito produção potencializada pela tecnologia numa A metafísica da ordem não é apenas a base das explica como a razãoeconômicasamais conhe. Cit. Petrópolis: Vozes. 83-84. Alain Touraine explica como a razão Vol. esta tomada comocentro da maior das conquistas modernas.TOURAINE. Francisco (Org. estando presente desde as atividades científicas ou técnicas até os modos 78 . Novamente. em para vontade conforme seus interesses. 38. petrópolis: Vozes. Crítica da Modernidade. Numa ponta (econômica).” os bens e as luminoso poder da modernista: a passa a ser entendido como aquele que pode Com o retrato razão.esteve sociedade de indivíduos livres e iguais perante o lei. esteve metaforizada na idéia de igualdade universal. É a presente desdeque oatividades científicas desempenha então o os modos de Esses razão. difundindo-se por toda a vida social. e as ciências observam. abundância e felicidade. uma vez comunista. da moder“Porque mesmo sonho deveria ser garantido pelo as práticas nidade da ordem não é em ordem que das ideologias políticas ou do A metafísicaprocuravam mais pôrapenas a basepôr em movimento: organização econômicas comércio e das regras de câmbio. onde o direito é apresentado como único instrumento legítimo de para usá-lo sem a condução de um outro. 36. ordenam para a forma de administrar 35 sociedade racional. um conhecer e controlar a realidade mesma. fazendo da racionalização o pp. filósofos. Impulsionada por esse otimismo cultural. as necessidades materiais da população. capaz linhas gerais. 34 35 relações humanas. O capitalismo pretendeu a liberdade nova ordem. ela (a moder. criação de uma administração pública e do Estado mais conhecidas.). a ordem social é.. são paulo: Ática.

o cálculo. então o que lê diz “é Essa espécie de divinização do homem é. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como epistemologia positivista no âmbito da modernidade. a lógica da ordem transformou-se em ordem da lógica. se por um lado desencantou a sociedade do sagrado divino e da mão salvadora de Deus. para uma boa análise cf. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. TOURaInE. e um certo logicismo passou a predominar na visão de mundo moderna que. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Crítica da Modernidade. 18. p.”37 Nessa esteira de pensamento. são paulo: loyola. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. “verdade das Prepare-se para o debate estudando as formas possíveis de associação entre direito e ordem. às vezes ela fez da razão um instrumento ao serviço dos interesses e do prazer dos indivíduos. TOURAINE. Teorias da Verdade. p. e às vezes. Contudo. na verdade. então o que lê diz “é falso”.Para uma boaParteKIRKHAM.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que mesmo em relação à verdade. sobre e tem pleno sentido gramatical: nal. Princípios da Filosofia do Direito. Mas o problema aponta para o paradoxo real que é um dos que melhor nos oferece uma boa compreensão do racionalismo típico da pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Independente irresistível. como o A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA “eterno que é presente. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. não há apenas várias correntes ou definições. Rio de Janeiro: Relume Dumará.. – A Modernidade Triunfante: Capítulo 1 – As Luzes da Razão. 1990.. Leve em consideração a importância da leis”. Cit. no este modernidade. pp. 2003. Rio de Janeiro: Forense Universitária. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer da lógica. Cit. síntese cf. ela a utilizou como uma arma crítica contra todos os poderes. se o que ele diz é falso. A Psicanálise e a Questão do Paradigma). por outro lado reencantou o mundo com um tipo de “sagrado profano” produzido pelas mãos salvadoras do homem. então ela é verdadeira. ocorre que. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. ainda dizer que tudo que ele diz é mentira. A Condição Humana. Hegel. HEGEl. não há paradoxo. Mas podemos dar uma do que não é auto-referente sua famosa afirmação: “o que é racional é real e o que é real é racioversãoDireito. p. para libertar uma ‘natureza humana’ que havia esmagado a autoridade religiosa. na verdade. Hannah. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. F. lidar com os problemas de insegurança jurídica? Aqui. 1993. 36 37 HEGEl. Petrópolis: Vozes. certamente. Ob. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Georg W. F. Pode-se desqualificar prefácio do livro Princípios da Filosofia paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. toda ordem existente na sociedade só pode ser A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA racional. Henrique de lima. Ob. o fato é ordem historicamente dos resultados a que 1 e o direito? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. No direito não basta a verdade pura e simples. que foi adotada como fundamento da ordem Claro que. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Escritos de Filosofia II: ética e cultura. São Leopoldo: Unisinos. (Primeira DESCOBERTA . 1994. O Primado da Afetividade. se chegue.) Formas pelas quais complementar 20 ARENDT. alain. 14. um tributo à deusa razão verdadeiro”. lisboa: Guimarães Editores. finalmente. 13. muito rapidamente. já que somente a razão é capaz de consubstanciar-se na história. PLASTINO. Por isso. então eladebruçamos. Richard L. Se a sentença é falsa. 183-184. VaZ.quando nos é falsa. No direito. 38 FGV DIREITO 56 . (Capítulo 1.”36 Entretanto. mas se for verdadeira. 1995. Alain. Georg W. sentido moral ou ético.”38 Eis que a razão se apresenta como consumadora de uma Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Carlos. 2001.

logo pensam em “aplicação exata da lei”. Para entender melhor: como é sabido. se positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. ela não explica corretamente o conceito e os avatares do positivismo jurídico. Está baseado essencialmente nas normas legisladas. Common Law. andré-Jean. 1999. uma dicotomia inicial que é o cerne da abordagem positivista: a diferença entre um direito real e 39 Cf. inclusive em alguns países orientais. por ser reducionista. como o Japão. tendo tomado impulso maior através da técnica da codificação. uma das ambigüidades do positivismo. O segundo desenvolveu-se na Inglaterra e está presente em boa parte dos países de língua inglesa. Está baseado nas decisões judiciais ou no reconhecimento das cortes de justiça dado aos costumes e princípios praticados na sociedade. conforme as premissas positivistas.) Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUlas 12 e 13. ObjetivOs das aUlas Apresentar as diferentes formas pelas quais o positivismo se apresenta no direito e na idéia de “ciência do direito”. no campo do direito. Não que esteja errada tal concepção. Da mesma forma que o termo positivismo enseja confusões semânticas. se enquadra exatamente nesse esquema. Caracteriza-se. A primeira delas resulta da sua contextualização no sistema jurídico. DaVID. prepare-se para as aUlas A ciência do direito. 104. 1996. Rio de Janeiro: Renovar. In aRnaUD.positivismo jurídico é a doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto. O primeiro se desenvolveu na Europa continental e hoje está presente na maior parte do mundo. e para uma melhor compreensão da idéia de ciência do direito – que se liga ao conceito de positivismo – o melhor é refazer os passos percorridos na definição do positivismo. (Org. diante das ambigüidades do positivismo jurídico. Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo.39 Como foi dito. Donde muitos ao ouvirem a palavra positivismo. são paulo: martins Fontes. e o 2) Sistema da Common Law. os positiVismos JUrÍdiCos e a CiÊnCia do direito NOTA AO ALUNO tema da aUla A influência do positivismo na ciência moderna do direito. resulta de um vício intelectual de muitos juristas do sistema romano-germânico. Com efeito. ou sistemas jurídicos: 1) o Sistema Romano-Germânico ou Civil Law. contudo. René. Assim. p. a expressão positivismo jurídico também é sujeita a ambigüidades. que tendem a confundir positivismo jurídico com legalismo. aqui. sheldon. o direito ocidental estrutura-se na forma de duas grandes famílias. FGV DIREITO 57 . já que o próprio positivismo jurídico pode assim ser definido. lEaDER.

41 Cf. TROpER. um fenômeno. 1995. resta saber qual é. ao economista. Determinado que a realidade jurídica corresponde a uma exterioridade observável que deve ser objetivamente constatada. como doutrina cientificista acerca do direito – ou a ciência do direito como manifestação metodológica do positivismo jurídico – reúne as seguintes premissas básicas: a) recusa a toda forma de subjetivismo ou moralidade. superior ao direito real. p. andré-Jean. pois a sua explicação precisa também define o objeto de estudo da ciência do direito. Antes de qualquer coisa. antónio manuel.]: publicações Europa-américa. Positivismo.”40 Nestes termos. são paulo: Ícone. michel. independentemente de influências externas. 43 FGV DIREITO 58 . Henri. 607. Temos. fenômeno jurídico. a realidade jurídica corresponde ao “direito real”. de uma doutrina antitética ao direito natural ou jusnaturalismo. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. In aRnaUD. 174. Este direito ideal é assim considerado num sentido moral. Essa busca pelo jurídico como objeto da ciência do direito rendeu muita polêmica entre os próprios positivistas. (Org. o jurídico deve ligar-se às normas do direito. Esse objeto deve ser isolado dos demais aspectos da realidade social e estudado profundamente para que possam ser conhecidas suas características intrínsecas. António Manuel Hespanha fala em “várias escolas positivistas”. ao sociólogo etc. os termos dicotômicos: realidade jurídica como direito real versus transcendente absoluto como direito ideal. 1999. Cit. ou seja.42 De qualquer maneira. foi a seguinte: o objeto de estudo da ciência do direito é o fenômeno jurídico. tornando-o autônomo em relação ao filósofo. esta realidade ou exterioridade. 42 Cf. assim. sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e. 7-50. 1998. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. O que está em questão é a própria concepção do jurídico que deve conformar o campo do cientista do direito. uma clara e sólida perspectiva do positivismo jurídico: trata-se. a resposta se mantém firme na idéia de que a realidade jurídica deve ser uma exterioridade observável. é aquele que efetivamente se manifesta na realidade histórico-social. portugal [s. O positivismo jurídico. pois.. Apesar de vaga. este direito eticamente superior é reconhecido como o direito natural. determinado no tempo e no espaço. alegando que cada uma delas entendeu de uma forma determinada o fenômeno jurídico como objeto positivo de estudo. o juspositivista estuda tal direito real sem se perguntar se além deste existe também um direito ideal (como aquele natural). não podendo ser objeto do trabalho dos juristas “científicos”. objeto da ciência jurídica. por isso. o positivismo jurídico é empirista e antimetafísico. de tal maneira que revele uma lógica inerente ao direito que possa ser convertida pelo cientista em enunciados e prognósticos que conformem uma técnica jurídica aplicável pela prática do direito. todos os positivismos jurídicos43 convergem para o entendimento de que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente e aplicável. antes de mais nada. que nem sempre concordaram quanto à sua delimitação exata.41 Na definição proposta para positivismo jurídico – doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto – destacam-se. p. O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. Ob. 136. Evidentemente.l. Rio de Janeiro: Renovar. exatamente. no caso. enquanto o transcendente absoluto corresponde ao “direito ideal”. BaTIFFOl. pp. A única resposta capaz de pacificar os ânimos e manter coerência doutrinária. HEspanHa. sobretudo. norberto. p. sendo considerado pelos positivistas como questão filosófica. portanto. sem fazer depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito ideal. como um direito perfeito e. seu funcionamento e sua aplicação. Na tradição jurídica.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE um direito ideal: “O direito.). 40 BOBBIO.

Porém. regular de maneira absoluta a to aspecto fenomênico.. “escola histórica e positivismo jurídico não A dúvida a das correntes positivistas citadas. em alemão. Embora bem distintas entre si – basta imaginar como. 2) negação do direito natural como transcendência metafísica. mesmo em casos semelhantes.contudo. Assim. mais mesmo passo. por isso. mais precisam o segundo [positivismo jurídico] através afirmar queradical do direito natural. possível de ser apl 102 103 44 45 46 No início do século XIX. todos os positivismos jurídicos concordam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito positivo. são paulo: Ícone. 1995. ou. de abrangência. sob a liderança de Savigny.” A forma sua forma historicismo jurídico. quer artificialmente pelo Estado. rituais ou procedimentos socialmente estabelecidos.deprimeira [escola histórica] preparou a positivismo. mesmo que dura a lei deve ser aplicada. éuma forma de positivismo. sociologismo e normativismo. Mas o que conforma o direito positivo? Historicamente. afirmado. é a tradição. a primeira [escola h uma jurídico. o fenômeno jurídico. na Escola Histórica do Direito. consubstanciado. em alemão. ao afirmar queo “escola histó. Civil. como Norberto Bobbio. o paradigma des direito antónio manuel. Em outras palavras. Há aqueles que chegam quanto ao que seja ciado. basicamente. todavia. o hist jurídico. conforme a vontade exata do legislador que foi a au FGV DIREITO 59 Escola de Napoleão.contudo. historicismo. Em outras palavras.. 45. no precihistórico foi o marco para o surgimento samente na França em 1804. conhecido como Código de Napoleão. o historicismo jurídico. volksgeist. Bobbio reconhece uma espécie fenomênico. expectativa de um sistema jurídico c pretendeu regular de maneira absoluta a totalidade das situIdem. todos os teóricos do positivismo jurídico se ajustam a estas premissas. Comoconsiderada paradigma como o “espírito do mo Jurídico: liçõesjuridicamente relevantes na s direito. é sem dúvida abásicano polêmica coisa” A forma mais aspecto mesmo passo. mesma coisa” . que p. que também corresponde rica e positivismo jurídico não Savigny. c) exclusão de considerações valorativas de caráter político ou ético. todas esta correntes se sustentam sobre os dois princípios básicos e fundantes do positivismo jurídico: força e forma. E 102 mesma coisa” século XIX. corresponde a uma ameaça ou imposição real de uma força que se apresenta sob determinada forma. o direito é um constrangimento que se impõe a indivíduos e grupos. seria a diferença entre a sentença prolatada por um juiz sociologista e aquela outra por um juiz legalista. entrou em vigor o novo Código e não há direito fora da lei.. é sem dúvida a mais p A primeira das correntes positivistas citadas. como Norberto Bobbio. sed lex. do século XIX. basicamente. Bobbio re o historicismo Há aqueles que chegam a negar que seja uma forma de posi-entre ambos: “. a primeira [escola histórica] corrente positivista: o legalismo jurídico.contudo. HEspanHa. ao seu natural. todavia. maneira mecânica. p. quatro correntes podem ser apontadas como as mais importantes: legalismo. considerada por Savigny como o “espírito d de vinculação quanto ao seu caráter positivista. do historicismo jurídico. na França Este fato expressão dura lex. entre ambos: “. A básica do básica é a lei manifestada sobtambém corresponde pretendeunorberto. basicamente. co foi o marco para o surgimento da nova corrente positivista: Ob.seu caráter positivista. consubstan. consubstanciado. o por Savigny povo” das situações de filosofia do o rótulo de “código jurídico”. Como afirmado..”46 “escola histórica e positivismo jurídico não França em 1804. positivismo foi o Código de Napole 103 de Cit. isto é. espécie de vinculação na Escola Histórica do tivismo. França em 1804. entrou em vigor o “. algumas com maior outras com menor projeção. 175. entrou em vigor o novo são a de sua crítica Civil. o direito (positivista) visto na sua maneira pura de manifestação. sendo aceito na medida em que se expressa dentro de A primeira formas.. A principal forma de consubstanciação do legalis . Todavia. ao mesmo tempo em que aceitam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente. Isto gerou no legal desta forma de positivismo foi o Código de Napoleão. ao que seja uma forma No início do século XIX. no mesmo passo. Além disso. sob a liderança de Savigny. é a tradição. O PositivisBOBBIO. como Norberto Bo afirmar que sem primeira mais polêmica quanto ao seu caráter positivista. Há aqueles que chegam a negar ou. A su uma espécie de vinculação entre ambos: novo Código básica é a lei manifestada sob o rótulo de Civil. que o legalismo jurídico. foram várias as correntes positivistas que se formaram a partir de concepções específicas acerca da idéia de direito e fenômeno jurídico. mais precisamente na para o legalismo jurídico..EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE b) cultivo de métodos objetivos e verificáveis.jurídico] através de sua crítica radical d preparou segundo [positivismo Direito.44 Destarte. coerente e sem lacunas. volksgeist. Direito. conhecido como Código de Napoleão. Bobbio reconhece No início do .” 45. todavia. o conceito de direito. quer espontaneamente das correntes positivistas citadas. sob a liderança de são a mesma natural.não é consenso.. na Escola Hist pela coletividade. conhecido como Código da Exegese. resultante da observação do fenômeno jurídico. dir competente que o elaborou e promulgou. Este fato históripreparou o segundo [positivismo jurídico] através de sua crítica radical dojurídico”. por exemplo – todas essas correntes são positivistas. pois se enquadram naquela definição geral onde se destacam dois critérios: 1) afirmação da realidade jurídica como fenômeno jurídico. ao direito positivo. d) produção de um corpo próprio de enunciados técnicos para aplicação específica em situações pertinentes.

sociedade. Para esta cer enunciados. 47 efetividade ou eficácia social. aparece na obra de Eugen Ehrde garantia da ordem social. 7. ou DIREITO 60 FGV podemosseja. especialmente jurídico enfrentou fortes críticas. o histori. o judiciais que configuram formas mais cada até as sentenças estatuto de ciência. a mais praticadas lógica identifica direito forma do fato ou para os e toleradas num certoo espaçonaterritorial. ou seja. Apesar de todas serem hierarquicamente superiores positivistas. como disposta nos códigos. uma das formas mais O sociologismo jurídico enfrentou fortes maior de especialmente jurídica é ato de vontade da autoridade estatal competente e vai desde a Constituiinfluentes do positivismo jurídico: normativismo. o direito corresponde às práticas sociais que se formam necessidade jurídica. é válida a norma jurídica quando conforme as tradições e costumes de fornecer enunciados. cada uma seu entre elas. Talvez a principal válida diferenças resida no fato do legalismo e do tradiçõesnormativismo da sociedade. como um fenôO sociologismodaqueles que identificavam o direito especialmente num determinado momento histórico. 1986. da autoridade como positivismo Esse vai o para de Essas quatro formas de competente e foi desde a Constituição uma a seurepresentante maior de uma dasnorma fundador e modo. é masfornecer enunciados. como devem ser. na medida em que estes dizem respeito às coisas como éelas são e não. para os a e do modo. a forma básica do direito é a norma. sociologismo o normativismo o ciência. buscam hierarquicamente superiores porque o para jurídico. nodisposta aqui Em síntese. norma jurídica é ato de do lei. fundador e representante maior de uma das formas não. existem significativas diferenças temos uma mudança nos pares. vão sendo mais praticadas meno normativo. e se buscam o fundamento obsessão cientificista.47 Para o sociologismo juríindivíduos a convicção de que tal prática corresponde a uma dico. o fundamental normativismo buscarem o fundamento de validade do direito na idéiacientífica do direito no desenvolvimento do direito estatuto de ciência. epistemologia mais idealista todas serem positivistas. como dever respeito às coisas como elas são e mais medida em que estes dizem ou direito subjetivo. gerando mundo dos fatos. na França do século XIX. importanteao afirmar no seu primeiros os principal destas diferenças resida no fato do legalismosegun.não está no ato de legislar nem seja. a uma indivíduos elas passível que tal prática mundo dos coisas como não são e não. Eugen. sistemas jurídicos romano-germânico evigor conforme na jurisprudência ou na aplicaválida a norma jurídica desde e prognósticos acerca do conjunto das de de positivismo com os previsões que tenha entrado em da common law:situações ção do direito.sociedade. necessariamente. As normas são nãoforma básicaser procuradopelamundo dos competente corrente.EHRlICH. portanto. a convicção de ser procuradocomo devem ser. acreditando terem elaborado uma teoria dever ser – sollencapaz estatuto defundamento de validade do mesmo direito na idéiacientífica do direitoeficácia impõe identifica o direito a partir da estrutura lógica do de efetividade ou – que social. previsões caso de descumprimento de suas prescrições. naEsse foi o casojurídica. a passível de promulgadas norma. códigos. e A enquadrarem na à ordenamento jurídico. o Essas quatroordenamentopositivismo reivindicam historicismo e o uma síntese. válidas desde que do direito é a no autoridade se reduz em concordância com outras normas hierarquicamente superiores do ordenamento à lei. espontaneamente. existem significativas diferenças lich. pois enquanto o historicismo e o legalismo tendem p. Apesar de todas serem positivistas.resida no fato norma Constituição até as sentenças diferenças como forma do legalismo e do normativismo buscarem o fundamento de de garantia da ordem social. existem competente e impõe entre descumprimento de destas judiciais que configuram determinadas sanções no caso de elas.” determinado no próprio ordenamento jurídico. gerandocostume que brota diretamente do seio social. acreditando tejurídica rem elaborado umaconcreto. cabendo à direito subjetivo. realista ou o historicismo e o . jurídica aplicável ao caso concreto. Kelsen. não passível de ser procurado no daquelese que identificavam o direito como um fenômeno para os toleradas num certo espaço territorial. ou seja. No primeiro caso – legalismo e normativismo – podemos falar numa tação do sociologismo jurídico juridicamente relevantes. é válida a que promulgadas pela autoridade competente conforme determinado no pró. Já em termos de flexibilidade. é válida a norma mais idealista ou formalista e no segundo vigor – falar numa epistemologia jurídica desde que tenha entrado em caso conforme historicismo e sociologismo – numa epistemologia maisIsso porque materialista. é destas a norma jurídica quando conforme as entre elas. típicos porque o historicismo aqui descrito.normas norma jurídica desde que tenha entrado em vigor em concordância com outras prio formas de jurídico. num determinado momento histórico. ou seja. como sentido nos descrito.for. reivindicam caso si. Talvez alegisladoresde positivismode destaque napara jurídica.estatal devem ser. Issodo ordenamento si. Para estafoi o caso de Kelsen. O sociologismo jurídico enfrentou fortes críticas. As normas são válidas desde validade do direito na idéia de vigência. na medida em que estes dizem respeito às normativo. que não se reduz à lei. influentes do positivismo jurídico: o normativismo. sociólogo do e se enquadrarem nanuma epistemologia cientificista. mas na própria enquanto o legalismo e o normativismo são Isso do primeiro sistema. determinado no próprio ordenamento jurídico. Esse corrente.prefácio deo livro que “tamocupam papel reivindicam cena si. jurídico. Apesar deou formalista e no segundono sentido aqui descrito. vão sendoinvestigação socioTransportada para o mundo jurídico. A norma jurídica ato de fatos. portanto. daqueles que identificavam o direito como jurídica aplicável Para esta ção até as sentenças judiciais que configuram norma o um fenômenoao caso concreto. necessariamente. como dever oulei refletir tais práticas. se o normativismo identifica o direito a partir davontade da autoridade estatal –significativas diferençasdesde a estrutura lógica do dever ser sollen – que vai mesma obsessão cientificista. No primeiro caso – legalismo e normativismo – e costumes buscarem o fundamento de validade do direito na idéia de vigência.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ações juridicamente relevantes na sua área de abrangência. Talvez a principalsuas prescrições. como em Essas quatro formas bém em dos são os juizes que desempenham esse papel. como disposta nos códigos. previsões e prognósticos acerca do conjunto que promulgadas pela autoridade competente em concordância é a norma. Enquanto para os direito alemão. a forma básica do direito com outras normas das situações juridicamente relevantes. pois traduzem nos casos concretos o todos os tempos. A norma fundador e representante críticas. Brasília: EdUnb. no sentido e o cismo e o sociologismo são mais afeitos ao segundo. Esse aspecto coincide com a vinculação dessas ou capaz direito que emerge daacreditando terem elaborado uma teoria de vigência. As normas são capaz de desde aplicável ao do positivismo jurídico:direito válidas forneinfluentes caso teoria científica do o normativismo. cada Em a seu modo. no corresponde fatos. vontade necessariamente. caso – historicismo e sociologismo – mesma obsessão mais realista ou materialista. juridicamente relevantes. que não normativo. como forma determinadas sanções no e prognósticos acerca do conjunto das situações Uma interessante manifesda sociedade. necessidade de Kelsen. Fundamentos da Sociologia do sociologismo enquadrarem na mesma de validade do mesmo direito na idéia de Direito. que não se reduz corrente. A principal forma de consubstanciação do legalismo foi a Escola da Exegese. nossa época. portanto.

Com efeito.) HESPANHA. só mudando após firme e convicta resistência de muitos anos. Portugal: Publicações Europa-América. que são sempre promulgados como obras acabadas e completas para terem longa estabilidade. e Seção 8. isto é. 1998. Todas negam o direito natural e afirmam a realidade jurídica como um fenômeno observável. complementar MIAILLE.mas divergem quanto à explicação em torno do que seja. o fenômeno jurídico. a forma observável do direito. a questão da “ciência do direito” foi enfrentada durante os séculos XIX e XX sob a influência maior do positivismo e. [s. resulta da figura dos “códigos”. A Filosofia do Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE a maior dureza e conservadorismo. As Escolas Clássicas do século XIX). Lisboa: Editorial Estampa. Já no caso do legalismo.2.3. (Capítulo 8. Na situação inversa. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. Henri. Michel.3. Introdução Crítica ao Direito. (Capítulo I.d. além de serem reconhecidos os diversos níveis hierárquicos do Estado competentes para legislar. FGV DIREITO 61 . bibliOGrafia Obrigatória BATIFFOL. o sociologismo e o normativismo já admitem maior mobilidade no conteúdo das normas jurídicas. Lisboa: Editorial Notícias. O conservadorismo do historicismo se explica pelo fato das tradições serem sempre muito arraigadas na cultura dos povos. António Manuel. por isso mesmo. exatamente. Positivismo e Cientismo. de maior grau de flexibilidade. (Primeira Parte – Epistemologia e Direito). o sociologismo é sem dúvida o mais dinâmico já que as práticas sociais estão em constante mutação. essas formas de positivismos jurídicos apresentadas foram as respostas mais veementes já produzidas no âmbito da epistemologia jurídica e da filosofia do direito.]. A dinamicidade do normativismo se explica pela liberdade da vontade do legislador que pode a todo momento modificar as normas jurídicas. 1989. O Direito na Época Contemporânea – Seção 8. Os Positivismos.

Direitos Humanos e Direitos da Criança e do adolescente.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE JosÉ riCardo CUnHa Doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de santa Catarina. professor adjunto e Coordenador da Graduação da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas. professor adjunto da Faculdade de Direito UERJ. mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela pUC-Rio e Bacharel em Direito pela UFRJ. membro da associação Brasileira de Ensino do Direito. do Conselho nacional de pesquisa e pós-Graduação em Direito. FGV DIREITO 62 . onde leciona na graduação. mestrado e doutorado. leciona e pesquisa nas áreas de Filosofi a do Direito e Direitos Humanos. e da associação nacional de pós-Graduação e pesquisa em Direitos Humanos. autor de livros e artigos em revistas especializadas nas temáticas de Filosofi a e Teoria do Direito.

EPISTEMOLOGIA E MODERNIDADE FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DA GRADUAÇÃO VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO COORDENADOR CENTRO DE TECNOLOGIA E SOCIEDADE Evandro Menezes de Carvalho COORDENADOR DA GRADUAÇÃO Rogério Barcelos Alves COORDENADOR DE METODOLOGIA E MATERIAL DIDÁTICO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres COORDENADORES DO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO Diogo Pinheiro Milena Brant COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO FGV DIREITO RIO 63 .

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