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Craffit! de Jana Joana e Vitché. São Paulo (SP), 2°°5·

deste desenho é um muro da cidade. Apresenta, de forma estilizada e muito decorativa, a figura de uma mulher nua, com o corpo pintado, segurando um arco entre as mãos e ajoelhada sobre um '" cavalo preto cujas patas se encontram fora do solo. Embora o cavalo esteja em movimento, a figura feminina apresenta-se perfeitamente equilibrada sobre o dorso do animal. A presença da Lua e o uso de cores frias (branco, preto e azul) sugerem que a cena é noturna. A feminilidade e certa sensualidade são afirmadas pelas muitas curvas do corpo da mulher, pelo modo de se ajoelhar e apoiar os pés, pelos cabelos longos e pela ornamentação do corpo e dos cabelos. O aspecto decorativo está presente também nos arabescos espalhados pelo fundo branco, na estílízação da crina e da cauda do cavalo, bem como na posição de sua cabeça, voltada para trás, formando uma grande curva. O grafismo presente no tecido que recobre o cavalo e no cabelo da mulher evoca as culturas indígenas. A presença do arco, a postura da mulher, o fato de o cavalo estar em movimento veloz remetem às guerreiras, às mítícas amazonas. Mulher guerreira das ruas, guerreira da noite com sua suavidade, feminilidade e força, mulher parte de uma minoria, como os povos indígenas, são interpretações possíveis para este trabalho conjunto de Jana loana e Vitché. Observe com atenção a imagem. Ela tem conotações políticas? Explique.

o suporte

408

D Cultura hip-hop
gaif'fJJi. é expressão da cultura urbana das ruas, da cultura das minorias sem voz. É um ato de contravenção da lei, o que configura crime. Por essa razão, para essas minorias, grafitar torna-se um símbolo de coragem, uma vez que seus praticantes correm o risco de ser punidos. O graffiti é um dos elementos da cultura hip-hop. Os outros são: o rap ou MC, a dança break e disc-jockey, ou seja, o ato de isolar partes dançantes da músicafunk - normalmente baseadas na percussão - e repeti-Ias continuamente. Os grafiteiros, muitas vezes, participam dos outros aspectos dessa cultura e praticam sua atividade em áreas nas quais tanto a música quanto a dança de rua se desenvolvem, tornando, assim, a ligação entre graffiti e hip-hop mais intensa. Alguns grafiteiros tornaram-se artistas contemporâneos, como é o caso de [ean Michel Basquiat; outros, em maior número, têm.sua obra reconhecida como arte de rua, arte pública, exposta em muitas galerias de arte, como é o caso de John Fekner e Banksy e, no Brasil, dos Gêmeos e Nunca, entre outros. Quais são as diferenças entre cultura e arte? O que está contido em cada um desses universos? São esferas que interagem ou são estanques?

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PARA SABER MAIS
Pichação é o ato de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edifícios, chão, monumentos ou obras de arte, usando tinta spray aerossol, de difícil remoção,estêncil ou rolo detinta. Conceitualmente, não se distingue do graffiti. Entretanto, no Brasil, convencionou-se da r o nome de pichação às inscrições repetitivas,simplificadas e de execução rápida. Os elementos que com põem a pichação são basicamente sím bolos ou caracteres quase hieroglíficos (pela dificuldade de decifração) e de uma só cor. Cada grupo de pichação tem uma assinatura ou um símbolo de identificação, pois há grande concorrência entre eles. A pichação é feita em locais proibidos, geralmente durante a noite, por ser considerada prática ofensiva ao patrimônio público e privado. Envolve a entrada ilegal em propriedade e,quanto mais alto for o local a ser pichado, maior o "mérito" do pichador. Trata-se de atividade transgressiva e predatória, visualmente agressiva, que colabora para a degradação da paisagem urbana. Do ponto de vista legal, é considerada vandalismo, e seus autores estão sujeitos a multa e prisão.

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fJ Os sentidos

de cultura

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ETIMOLOGIA Graffiti. Do grego qraphein, que significa escrever, é o plural da palavra italiana graffito, que significa "incisão em pedra ou parede", revelando as cores ou o material subjacente. Na cultura greco-romana, o uso da palavra evoluiu para incluir qualquer inscrição em superfícies do espaço público, constituindo vandalismo.

O termo cultura tem uma série de significados diferentes, embora próximos, o que causa muita confusão conceitual e dificuldades, inclusive na esfera governamental. Se existem um Ministério e inúmeras secretarias de Cultura, tanto estaduais quanto municipais, é necessário saber de que objeto esses órgãos se ocupam.

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ETIMOLOGIA
Cultura. Do verbo latino colere, que significa "cultivo", "cuidado com as plantas, os animais e tudo o que se relaciona com a terra, como a agricultura". Designava também o cuidado com os deuses, de onde vem a palavra "culto"; também era aplicada ao cuidado com as crianças (puericultura), com sua educação, referindo-se ao cultivo do espírito. É neste último sentido que o termo é usado até hoje.

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PARA SABER MAIS
Apesar de ter aparecido na Pré-história - os desen hos nas paredes das cavernas -, o graffiti, como conhecemos hoje, integra a cultura de rua, principalmente o hip-hop. Teve início no final dos anos 1960, na Filadélfia (EUA), como forma de expressão de ativistas políticos, principa Imente de minorias sem voz na mídia convencional. No início da década de 1970, o centro de inovação do graffiti passou a ser Nova York, de onde se espalhou pelo mundo. No Brasil, o grande desenvolvimento do qraffiti ocorreu em São Paulo, embora apareça em todos os centros urbanos, grandes e pequenos. É, portanto, manifestação de cultura urbana e pública.

•. O sentido antropológico
Do ponto de vista da antropologia, o termo "cultura" refere-se a tudo o que o ser humano faz, pensa, imagina, inventa, porque ele é um ser cultural. Não sendo capaz de viver somente guiado por seus instintos, ele é levado a construir "ferramentas" que possam ajudá-lo a instalar-se no mundo, a sobreviver, a desenvolver sua humanidade. A essas "ferramentas" dá-se o nome de cultura.

Cultura e arte

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aspecto que não seja cultural. Mas qual seria, então, o significado de cultura para um órgão público que se intitula Ministério ou Secretaria da Cultura? Com qual recorte da cultura ele trabalha? E os chamados Estudos Culturais, se ocupam do quê?

•• Restringindo o sentido:' o patrimônio
No que tange ao Ministério da Cultura e às secretarias, tanto estaduais quanto municipais, cuidar do patrimônio histórico e artístico é parte de suas atribuições.

Festa do Bumba meu boi. São Luís (MA), 2008. Festa típica do Nordeste, narra a história de um escravo que mata o boi mais bonito de seu senhor para satisfazer o desejo da amada, que está grávida. No Maranhão, é encenada durante as festividades juninas chamadas de São João da Maranhensidade.

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ETIMOLOGIA
Patrimônio. Da palavra latina patet, "pai", designa o conjunto de bens transmitidos de pai para filho.

A Constituição brasileira de 1988 define patrimônio como os

A cultura, no sentido etimológico, é o cultivo do ser em seu processo de humanízação: é atribuição de significados ao mundo e a nós mesmos, significados esses que são passados adiante e modificados de acordo com as necessidades de cada grupo. A cultura sempre responde a desejos e necessidades dos grupos, das comunidades e da sociedade em geral. Por isso a cultura é plural, dinâmica e diversificada. A cultura, além de mediar nossa relação com o mundo, também age como um cimento, elemento de união entre um certo grupo de pessoas que adotam os mesmos usos, costumes e valores e torna a vida segura e contínua para a sociedade humana. A cultura dá o sentido de pertencimento, isto é, de fazer parte de um determinado grupo que, além da língua, divide também o vocabulário, o sotaque, os modos de vida, os valores etc. Além de oportunidade de autorreconhecimento, a cultura também proporciona a possibilidade de autoprodução e de prazer. Explicando: se o indivíduo não nasce humano, mas se torna humano ao longo da vida, ele se produz durante esse processo de humanização. Aprende a falar, a se comunicar, a se comportar em sociedade, segundo determinados padrões de sua cultura; aprende, também, a agir, desejar e criar. Constrói a si mesmo dentro do grupo social e com o grupo social, isto é, com a ajuda do coletivo. A partir dessa visão ampla de cultura, tudo no mundo humano é cultura, não existindo um único
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[...] bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; 111- as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.'

Vemos que esse conceito de patrimônio está muito próximo da definição antropológica, uma vez que inclui a produção científica e tecnológica, as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver. Continuamos com o problema de determinar o que deve ser considerado como cultura. Além disso, nesse conceito há uma forte relação entre ele e identidade, história (memória) e ação de grupos do passado. Não podemos esquecer que a noção de patrimônio é uma construção cultural. Dentre todas as memórias, as ações e identidades que formam um

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988, artigo 216. Disponível em: http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/const/CON1988/ con1988_05.10.1988/art_216_.htm. Acesso em: 12 abro2010.

Unidade 7

Estética

grupo, uma comunidade ou um país, algumas são escolhidas para representar a totalidade da população e estabelecidas como patrimônio oficial. Outras não têm esse reconhecimento e podem cair no esquecimento. Para ser considerado patrimônio nacional, os bens devem ser tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O tombamento é um processo que inclui minucioso estudo da importância histórica e artística de um bem e sua posterior inclusão nos livros do tombo como bem histórico, artístico, arqueológico ou etnológico. Esses bens, conhecidos como patrimônio histórico e artístico brasileiro, representam a nação e o povo brasileiro e são protegidos por leis federais, estaduais e municipais. Os bens tombados não podem ser mutilados, destruídos, reformados sem a autorização expressa do Iphan. Os bens móveis não podem sair do território brasileiro a não ser para intercâmbios de curta duração e com o consentimento do Instituto. Podem, entretanto, ser vendidos dentro ao próprio país. Entre 1937, quando foi criado o Instituto, e 1967, os bens tombados representavam o passado português brasileiro (o Brasil Colônia), o Brasil católico (a metade dos bens tombados era constituída de edifícios religiosos), branco e abastado. Não eram representadas nem as inúmeras culturas indígenas, nem a africana trazida pelos escravos, nem as culturas dos imigrantes. Somente a partir de 1975, os intelectuais perceberam que o chamado Patrimônio Nacional não representava a pluralidade de culturas existentes no país. Foi, então, criado o Centro Nacional de Referência Cultural (CNRe) para incluir na noção de patrimônio a cultura viva, enraizada no fazer popular. Mapeou-se o artesanato dos vários cantos do país, com o objetivo de conhecer, documentar e compreender essas manifestações, a fim de preservar sua memória e fornecer elementos para seu desenvolvimento. Fez-se, também, um levantamento da história da ciência e da tecnologia no Brasil, preservando, além do produto industrial, a história do processo de fabricação. Grande parte desse patrimônio é imaterial, ou seja, são "práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural","
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Igreja São Gonçalo. Renée Lefévre, 1981, desenho aquarelado. A Igreja de São Gonçalo, em Penedo (AL),é um exemplo de patrimônio arquitetônico colonial brasileiro.

Tanto o terreiro de candomblé, quanto os griôs (contadores de histórias de origem africana) e a capoeira foram tombados nos últimos anos, dentro desse espírito. Muitas outras manifestações, entretanto, não foram tombadas e não são reconhecidas como parte do patrimônio cultural do país, o que não impede que tenham continuidade e sejam reconhecidas pelo grupo como parte de seu patrimônio cultural não oficial. Como exemplo, temos todas as festas de junho, chamadas genericamente como festas de São João, no Nordeste do país.

• O sentido estrito: a arte
Voltando ao problema do que é chamado cultura, apelemos para o senso comum: é só abrir o jornal e ler o caderno de cultura para entendermos o uso que se faz dessa palavra. O termo cultura, em sentido restrito, diz respeito à produção ligada às diferentes práticas artísticas, ou seja, às manifestações que façam uso das linguagens artísticas, sejam populares ou eruditas. Essa produção tem uma característica muito interessante: existe independentemente de relações utilitárias ou práticas. Um templo grego ou uma igreja gótica têm valor que vai além da função prática de abrigar as práticas religiosas. Eles aparecem, figuram entre as coisas do mundo e se apoderam de

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Definição da Unesco disponível em http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=1 0852&retorno=paginaIphan. Acesso em: 12 abro2010.

Cultura e' arte

Capítulo 34

nossa atenção, de nosso sentimento, comovendo-nos, revelando significados internos que são atualizados a cada geração. Por isso, muitos autores reservam o termo cultura para designar as artes cujas características serão examinadas mais profundamente no decorrer desta Unidade.

o As diferenças
e cultura

entre arte

José Teixeira Coelho Netto, intelectual brasileiro contemporâneo, estabelece várias diferenças entre cultura e arte, em texto no qual discute parâmetros para a criação de uma política cultural e uma política para as artes.

11QUEM

É?

JoséTeixeira Coelho Netlo nasceu em Ribeirão Preto, em 1944, formou-se em Direito e frequentou os primeiros anos da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, logo que ela foi criada. Tem mestrado em Artes e doutorado em Literatura pela USP, nde é professor titular da área de Políticas o Culturais. Espírito inquieto, transita em todos os campos das artes. Grande polemista, aborda a cultura e as artes de pontos de vista às vezes insólitos, mas sempre instigantes, com argumentação sólida. Foi coordenador do Observatório de Políticas Culturais da ECA-USP,diretor do Museu de Arte Contemporânea da USPe atualmente é curador-coordenador do Museu de Arte de São Paulo (Masp). É ainda autor de inúmeros livros de ficção e ensaios.

A cultura é útil para instrumentalizar os indivíduos a viver em sociedade, a enfrentar novos desafios. A arte, por sua vez, é gratuita, ou seja, transcende todo e qualquer fim que se proponha para ela. Ela amplia a esfera da presença do ser, enriquece o indivíduo, ajuda no seu desenvolvimento propriamente humano. A cultura é comunicação, pois, para ser útil, deve ser comunicada. Seu significado circula pela sociedade. A arte expressa um universo. Sua abordagem é interpretativa: não qualquer interpretação, mas a interpretação competente que leve em consideração tudo o que está em jogo na obra. A finalidade social da cultura é reconfortar, tranquilizar, permitir que o indivíduo encontre seu lugar. A cultura traz estabilidade para a comunidade e o indivíduo. Integra o social a si mesmo e cada um ao coletivo. Segundo Teixeira Coelho Netto, "a cultura cuida do outro', dá identidade. Já a arte é uma obra de risco, envolve o jogo que desestabiliza, desintegra tanto quem a faz quanto quem a recebe. Ela não cuida do outro. A arte incomoda. A cultura quer descobrir uma verdade oculta. Uma vez descoberta, ela se perpetua: está presa à tradição, à repetição. Por exemplo, a identidade nacional, a identidade desta ou daquela região ou grupo não pode ser alterada sob pena de se perder. A arte, por sua vez, é uma invenção de algo que não existia antes, não está presa à tradição e não pode se repetir. Por isso, a cultura é sempre narrativa, conta histórias, resolve problemas, seja o estabelecimento de hábitos, costumes ou dos mitos de origem. A arte não narra, apresenta um fragmento que coloca problemas em vez de resolvê-los.

Em primeiro lugar, a cultura é criação coletiva e é dirigida para a comunidade, reforçando seu modo de ser. A arte, ao contrário, é criação individual e dirigida para o indivíduo. Mesmo as artes coletivas, como o cinema, o teatro, a dança, são autorais, isto é, revelam a visão de um criador ou diretor. A cultura é uma necessidade, pois para viver em sociedade é necessário aprender a cultura local: a língua, os modos de vida, os valores etc. Já a arte não é necessária na vida humana. Pode-se viver sem arte. Ninguém é obrigado a produzir ou desfrutar a arte: ela é um privilégio para quem faz e para quem a aprecia, uma vez que é fruto de um desejo forte e intenso. Por isso existem os direitos culturais assegurados pela Constituição, mas não existem direitos artísticos. Explicando: tudo aquilo que é uma necessidade para o ser humano deve ser um direito; o que não é necessário não pode se tornar nem direito nem dever.

O dia em que o Corinthians foi campeão, obra feita com borracha, plástico, gesso e madeira. Nelson Leirner, 2001.

Unidade 7

Estetica

Graffiti Cabeça,
de Nunca, Bairro Cambuci, SP Nunca justapõe a cultura urbana à cu Itu ra nativa ao usar padrões geométricos e cores dos indígenas sul-americanos e a linha usada na pichação. Neste caso específico, as linhas são escavadas na superfície do muro.

o discurso da obra de cultura é construído pela agregação do que é conhecido, do que já existe e é preservado, sendo importante, por isso, o aprendizado sobre como é feito, e sempre-foi feito. Por exemplo, o artesanato, de tempos em tempos, agrega um novo material (em geral mais barato ou mais fácil de ser manipulado) ou uma nova tecnologia, mas a aparência do objeto continua sendo semelhante. Odiscurso da arte, diferentemente, rompe com o que existe ou desconstrói o que existia antes, envolvendo, portanto, a desconstrução criativa e o desaprendizado. Oartista precisa desaprender como se fez arte até então, para descobrir o seu modo de fazê-Ia,por meio da experimentação. Mesmo o uso de imagens do passado na arte contemporânea não é uma simples imitação, mas transcriação feita com os olhos do presente. Sendo assim, percebemos que o foco do discurso da cultura é centralizado, convergente: tudo o que uma obra de cultura diz aponta em uma única direção, seja ela a nacionalidade, a identidade, a história de um grupo etc. A arte, ao contrário, é multifocal, divergente. Seu discurso se abre em leque e aponta para muitas possibilidades. Enquanto a cultura estabelece normas, hábitos e regras, a arte desregula e cria valores autônomos, pois cada obra é una, irrepetível. Lembremo-nos de que cultura é necessidade; arte é liberdade. Do ponto de vista da temporalidade, a cultura é duradoura e implica continuidade. Já a arte é efêmera e opera a interrupção do fluxo contínuo da vida. . E, por último, a cultura pode ser explicada, esclarecida para aqueles que vêm de outra cultura que, com treino (que cria o hábito), poderão ver a obra de cultura do modo "certo', já que seu discurso é convergente. A obra de arte, entretanto, não pode ser explicada. O modo de nos aproximarmos dela é hermenêutico

porque ela propõe uma multiplicidade de sentidos (é divergente). Cada um se aproxima da arte a partir de sua experiência, dos valores de seu mundo, de seu código, recriando, para si, os sentidos da obra.

9 Arte e cultura
A arte é, sem dúvida, uma pequena parte da cultura, entendida aqui em seu sentido antropológico, mas uma parte privilegiada, fruto do desejo e acolhida pelo sentimento, livre das obrigações, dos deveres a serem cumpridos. Ninguém é obrigado a fazer arte ou a gostar de arte. A cultura aponta para o mundo como ele é, com hábitos, costumes, valores que nos aproximam dos outros indivíduos do grupo. A arte aponta para possibilidades do mundo, tira-nos dos hábitos, rompe os costumes, propõe outros valores. A arte nos faz estender e ampliar aquilo que somos porque passamos a ver o mundo e a nós mesmos sob luzes diferentes. A arte afina nossa sensibilidade: ensina-nos a ter aguda percepção dos estímulos que vêm dos nossos sentidos e a relacioná-Ias com conteúdos própriosnossas lembranças, vivências pessoais e informações que já temos - e com o mundo em que vivemos. A arte, enfim, é uma ocasião de prazer porque nos oferece a compreensão profunda do mundo e de nós mesmos.
Hermenêutica. Segundo a teoria geral da interpretação proposta pelo filósofo francês Paul Ricoeur, a hermenêutica acolhe a doação de sentido em qualquer lugar em que ela ocorra, resultando em uma rnultiplicidade de interpretações. Em seguida, reflete-se sobre a complementaridade das interpretações conflitantes.

Cultura e arte

Capítulo 34

Leitura complementar
Quem não sabe dançar improvisa
o hip- hop oferece aos jovens da periferia a chance
de existência social.
"Um rapper, tão anônimo quanto sábio, afirmou que o hip-hop era 'CNN da periferia' (apesar da insistência da mídia, em especial a brasileira, em associar o movimento à violência e ao cri me), ou seja, u ma forma de a periferia expressar suas necessidades de classes excluídas. O hip-hop teria nascido em 1968, baseado em dois movimentos: a maneira como se transmitia a cultura dos guetos americanos e, daí o nome, no jeito da dança popular da época, que reunia saltar (hop) e movimentar os quadris (hip). Ao chegar ao Brasil, nos anos 1980, a ligação entre cultura, dança e lazer se estreitou a ponto de deixar no ar a pergunta: é um movimento cultural ou político? 'Hip-hop é teres direito de discordares do que quiseres / de certa forma é estar na política / não aceitar tudo calado nem desenvolver consciência crítica / o som que analisa, critica, contesta / não te esqueças que hip-hop também é festa / ritmo e poesia é o que nos caracteriza / e quem não sabe dançar improvisa!', define com precisão a letra de hip-hop, do Boss AC. 'Épor meio do canto, da dança-e do grafJiti que os participantes do hip-hop demonstram suas posições políticas e ideológicas. Para eles, o fazer político não está reservado somente para os que se especializam nessa área. Com suas rimas no rap, seus passos no break e imagens transmitidas em seus desenhos reproduzidos nos graffiti, estão assumindo uma posição política e fazendo aliança com outras formas de expressão que são, a um só tempo, políticas, sociais e culturais', explica João Batista de Jesus Felix, autor da tese de doutorado nip-hop: cultura e política no contexto paulistano, orientada por Lilia 'Schwarcz e defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Para o pesquisador, o hip-hop é um degrau a mais alcançado pela população negra e pobre brasileira que fez do seu lazer uma forma de protesto contra a violência e as condições a que são submetidos pela sociedade. 'Ao saírem dos bailes e irem para as ruas, os espaços públicos, eles estavam rompendo o tênue 'pacto social brasileiro'. A presença deles na praça era uma afronta ao nosso 'racismo cordial' e à ideia de que se toleram (ou não) as demonstrações deste tipo no espaço privado', observa o pesquisador, cuja preocupação central era justamente descobrir o que esse movimento social entende por política e o que estava por trás de declarações polêmicas como do rapper Mano Brown, do Racionais MC's, que resumiu seu trabalho de forma inusitada: 'Eu não faço arte. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista.'"
HAAG, Carlos. Pesquisa Fapesp, n. 142, dez. 2007. p. 81-83.

> Questões

11
6 li

Por que o hip-hop pode ser encarado como a "CNN da periferia"? Ouais as origens do hip-hop? Por que se pode dizer que é um movimento cultural? político?

11 IJ

Por que se pode afirmar que é um movimento

Explique a frase de Mano Brown: "Eu não faço arte. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista." Você concorda com ela? Por quê?

Leitura complementar

Unidade 7

? Revendo
11
I)

o capitulo
de cultura dada

? Dissertação

Explique a definição antropológica no texto.

m m

Como você explica a possíbilidade de existirem vártas culturas que coexistem em um mesmo tempo e espaço? De que modo o patrimônio nacional de nosso país mostra quem somos para os estrangeiros? Na sua família existe um patrimônio que é passado de geração a geração? (Lembre-se de histórias, causos sobre antepassados, piadas a respeito de algum membro da família. saberes, incluindo receitas de cozinha, bordado, tricô, valores, objetos e fotografias, entre outras coisas.) Cite algumas características guem da cultura. da arte que a distin-

Escolha uma manifestação folclórica que você conheça bem e analise-a a partir das características da cultura discutidas no capítulo.

? Caiu no vestibular
(Enem-MEC) "O movimento hip-hop é tão urbano quanto as grandes construções de concreto e as estações de metrô, e cada dia se torna mais presente nas grandes metrópoles mundiais. Nasceu na periferia dos bairros pobres de Nova York. É formado por três elementos: a música (o rap) , as artes plásticas (o graffiti) e a dança (o bteaià. No hip-hop os jovens usam as expressões artísticas como uma forma de resistência política. Enraizado nas camadas populares urbanas, o hip-hop afirmou-se no Brasil e no mundo com um discurso político a favor dos excluídos, sobretudo dos negros. Apesar de ser um movimento originário das periferias norte-americanas, não encontrou barreiras no Brasil, onde se instalou com certa naturalidade - o que, no entanto, não significa que o hip-hop brasileiro não tenha sofrido influências locais. O movimento no Brasil é híbrido: rap com um pouco de samba, break parecido com capoeira e graffiti de cores muito vivas." (Adaptado de Ciência e Cultura, 2004.) De acordo com o texto, o hip-hop é uma manifestação artística tipicamente urbana, que tem como principais características:
a) a ênfase nas artes visuais e a defesa do caráter

11

11

IJ

? Aplicando
D

os conceitos

Leia o trecho de Orhan Pamuk transcrito abaixo e explique o que ele quer dizer com a primeira frase, à luz das características da arte. '''Se eu acordasse um dia e visse que tinha me transformado em uma imensa barata, o que aconteceria comigo?' Por trás de todo grande romance está um autor cujo maior prazer consiste em entrar em outra forma e dar-lhe vida - um autor cujo impulso mais forte e criativo é pôr à prova os limites de sua identidade." (A maleta de meu pai. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 46-47.)

IJ IJ

O artesanato Os programas quê?

é cultura ou é arte? Por quê? televisivos são cultura ou arte? Por

nacionalista. b) a alienação política e a preocupação conflito de gerações.
c) a afirmação

com o e a

IJ

Comente a seguinte afirmação: a cultura, ao mesmo tempo que nos permite fazer parte do mundo humano, pertencer a um grupo e reconhecer quem somos, também impõe limites ao que podemos ser. "Arte como crime, crime como arte". Comente essa máxima de Hakim Bey. Em que sentido se pode dizer que a arte é crime? Em quais circunstâncias o crime seria arte?

combinação
d) a integração

dos socialmente de linguagens.

excluídos

de diferentes classes sociais e a exaltação do progresso. da natureza e o compromisso com os ideais norte-americanos.

1m

e) a valorização

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