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Governo prepara novo recuo

23 de Novembro de 2008

Governo prepara novo recuo


Nenhuma escola volta atrás na suspensão

O Governo pode não ficar por aqui nas respostas aos professores. Maria de Lurdes Rodrigues continua
a ouvir sugestões e poderá deixar-se persuadir a modificar o estatuto da carreira docente — um
diploma em que não tocou agora, mas que constitui uma das principais reivindicações dos professores.
Em Março, a ministra garantia: “Era o que faltava que as notas não contassem para a avaliação”.
Cedeu, nove meses depois, abrindo assim caminho a que outro princípio basilar na reforma da
Educação, como é o da distinção entre professores titulares e não titulares, possa ser o próximo a cair.

Oficialmente, o Governo garante que já alterou o que tinha de alterar e que não fará outras
modificações ao modelo de avaliação antes de Junho/Julho de 2009 — o prazo fixado no memorando
de entendimento assinado em Abril com os sindicatos. Há já cerca de uma semana que na 5 de
Outubro se estava a preparar o programa de simplificação do modelo de avaliação aprovado quinta-
feira em Conselho de Ministros extraordinário. Na entrevista que deu ao Expresso na semana passada,
aliás, a ministra da Educação já admitia “um „simplex‟ na avaliação”, embora garantindo — como, de
resto, continua a fazer — que o processo é para levar adiante. Na quarta-feira começou a constar a
ideia de que o Executivo se preparava para aprovar medidas.

A notícia foi confirmada ainda nesse dia mas só na quinta-feira de manhã se concluiu que o pacote
estava em condições de ser aprovado nessa tarde. Os membros do Executivo estiveram reunidos cerca
de três horas e, no final, entre instruções a Maria de Lurdes para que se apresentasse aos jornalistas o
mais distendida possível, ainda discutiram as vantagens e desvantagens de a ministra aparecer
sozinha na conferência de imprensa (apenas com Pedro Silva Pereira) ou com José Sócrates. Acabou
por prevalecer a primeira opção, por contraste com a crise de Março, quando o primeiro-ministro
apareceu ao lado da ministra — no que foi sublinhado então como querendo significar o apoio
incondicional do chefe do Executivo à ministra debaixo de fogo.

As medidas anunciadas quinta-feira em nada alteraram o impasse existente há semanas. Professores e


sindicatos dizem que a “simplexificação” anunciada mais não é do que “um remendo”, que não
aceitam.

O Expresso contactou ontem dezenas de escolas. Destas, responderam 61 (algumas sede de


agrupamentos que representam cerca de três centenas de estabelecimentos), de todos os distritos de
Norte a Sul. E nem uma das que já aprovaram moções a pedir ou a decretar a suspensão do processo
mudou de ideias após o recuo do Governo.

Certo é que no espaço de uma semana o número de escolas ou agrupamentos a aprovar moções mais
do que duplicou: de 124 (a 14 de Novembro) para 260 ontem, segundo dados da Fenprof, Ou seja,
cerca de 20% dos 1200 agrupamentos (que se subdividem em cerca de 12.500 escolas) pedem a
suspensão.

O Expresso também contactou representantes do Conselho de Escolas e a ideia que se retira é a de


que “os avanços e recuos da ministra da Educação não permitem uma base de confiança sólida” e que
“o conflito vai continuar”.
A existência de quotas para a atribuição de „muito bons‟ e „excelentes‟, não havendo garantias de
isenção do modelo; a fractura na carreira docente com a divisão entre professores e professores
titulares, com base num concurso considerado “arbitrário e injusto”; e o facto de este modelo de
avaliação ter finalidades, objectivos e consequências centradas na gestão de carreira e não na
melhoria do ensino são os três óbices levantados pelos sindicatos e pela associação Nacional de
Professores.

Por isso, Dias da Silva, líder sindical da FNE, diz que as medidas de simplificação
apresentadas pela ministra “são a folhagem e que o tronco da árvore se mantém”. Mário
Nogueira manda o recado ao Governo: “Quanto mais fragilizado se está mais peito se faz”. Se a
ministra disse em Março que perdia os professores mas ganhava o país, os sindicatos, ainda que não
querendo perder o país, não podem perder os professores.

Na conferência de imprensa, após a reunião do Conselho de Ministros, a ministra da Educação, Maria


de Lurdes Rodrigues, sublinhou que “os princípios do modelo de avaliação dos professores se mantêm”
e que “não se trata de alterações profundas”. De facto, o recuo do Governo assenta em aspectos
técnicos. O anunciado „simplex‟ da avaliação pretende “desburocratizar e melhorar as condições para
que as escolas avancem com a avaliação”, com vista a, como referiu, “dar uma resposta eficaz à
desburocratização e ao peso excessivo do trabalho das escolas”.

No fundo, é uma estratégia do Governo para conquistar a opinião pública indicando que está a ceder e
a negociar. Mas a conflitualidade e o braço-de-ferro mantêm-se. A 3 e a 19 de Dezembro estão
previstas duas greves nacionais e pelo meio sucedem-se paralisações e vigílias regionais.

Expresso | 22Nov2008

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