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PRESIDENTE DA REPÚBLICA Luiz Inácio Lula da Silva MINISTRO DA EDUCAÇÃO Fernando Haddad GOVERNADOR DO ESTADO Wellington Dias REITOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ Luiz de Sousa Santos Júnior SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO PIAUÍ Antonio José Medeiros SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA DO MEC Carlos Eduardo Bielschowsky DIRETOR DE POLITICAS PUBLICAS PARA EaD Hélio Chaves COORDENADORIA GERAL DA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL Celso Costa COORDENADOR GERAL DO CENTRO DE EDUCAÇÃO ABERTA A DISTÂNCIA DA UFPI Gildásio Guedes Fernandes SUPERITENDÊNTE DE EDUCAÇÃO SUPERIOR NO ESTADO Eliane Mendonça DIRETOR DO CENTRO DE CIENCIAS DA NATUREZA Helder Nunes da Cunha COORDENADOR DO CURSO NA MODALIDADE EAD Miguel Arcanjo Costa COODENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO DO CEAD/UFPI Cleidinalva Maria Barbosa Oliveira

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Este texto é destinado aos estudantes aprendizes que participam do Programa de Educação a Distância da Universidade Aberta do Piauí (UAPI), vinculada ao consórcio formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Centro Federal de Ensino Tecnológico do Piauí (CEFET-PI), com apoio do Governo do Estado do Piauí, através da Secretaria de Educação. O texto é composto de quatro unidades, contendo itens e subitens, que discorrem sobre a Sociologia Geral e a Sociologia da Educação propriamente dita; Na unidade 1 abordarei o contexto histórico do surgimento da Sociologia como ciência. Apresentarei também as disciplinas que têm afinidades com a Sociologia. Na unidade 2 enfatizarei as primeiras formas de pensamento social, como também os procedimentos teórico-metodológicos dos pensadores clássicos, como o francês Émile Durkheim, com o método positivista-funcionalista; o alemão Karl Marx, com o seu método histórico e dialético; e o também alemão Max Weber, com o método compreensivista. Na unidade 3 apresento a análise da educação na perspectiva marxista, durkheimiana e weberiana. Na unidade 4 contextualizarei a Sociologia da Educação propriamente dita, abordando a sua importância; analisando a função da escola na sociedade capitalista; a sua trajetória desde o funcionalismo até o pós-modernismo; o seu papel no processo socializador; e as explicações sociológicas para o contexto brasileiro com reflexos na educação. Além do mais, ela será compreendida como Espaço Sócio-Cultural na versão de Juarez Dayrel.

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2 Marx e o Materialismo Histórico e Dialético 2.3 Educação em Weber Atividade 3 MARXISTA.4 Sugestão de Filme 2 AS FORMAS DE PENSAMENTO SOCIAL 08 08 11 17 17 18 23 2.3 Para Saber Mais Atividade 1 1. 24 25 30 35 38 38 42 42 44 45 47 4 A COMPREENSÃO DA EDUCAÇÃO NUMA PERSPECTIVA 50 SOCIOLÓGICA 4.1 Durkheim e o Positivismo-funcionalismo 2.2 Disciplinas que têm Afinidades com a Sociologia 1.1 Educação em Marx 3.2.2 Educação em Durkheim 3.3 Weber e o Compreensivismo Atividade 2 2.2. 2.1 O Contexto Histórico do Surgimento da Sociologia 1.1 O Positivismo como Primeira Forma de Compreensão 23 da Vida Social.2.3 Sugestão de Filme 3 A EDUCAÇÃO NA PERSPECTIVA DURKHEIMIANA E WEBERIANA 3.2 As Correntes Sociológicas 2.2 A Sociologia da Educação: Entre o Funcionalismo e o 55 Pós-modernismo 4.4 Educação como Processo 4 63 Função 67 Socializador: .1 Para que Estudar Sociologia da Educação 50 4.3 A Função da Escola na Sociedade Capitalista 4.1 A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA 1.

6 A Escola como Espaço Sócio-Cultural 4.5 Explicações Sociológicas para o Contexto Brasileiro e 72 seus Reflexos na Educação Atividade 4 4.7 Referência Bibliográfica 87 94 128 5 .Diferenciadora e Função Homogeneizadora 4.

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3 Para Saber Mais Atividade 1 1.2 Disciplinas que têm Afinidades com a Sociologia 1.1 O Contexto Histórico do Surgimento da Sociologia 1.4 Sugestão de Filme 08 08 11 17 17 18 7 .1 A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA 1.

A Sociologia é uma ciência que estuda o comportamento humano. os meios de comunicação em função do meio e os processos que interligam o indivíduo em associações. O fim da monarquia absolutista fez surgir outras formas 8 . alterou a sociedade européia e. Ela representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas transformações que estavam em curso. num primeiro momento. depois. e determinadas intenções práticas que se iniciam com a desagregação da sociedade feudal e a consolidação da civilização capitalista. O século XVIII foi um século de profundas transformações políticas e econômicas na sociedade européia que posteriormente se expandiram para o resto do mundo. A Sociologia como ciência surgiu como um conjunto de idéias a respeito do processo de constituição. Ela estuda os fenômenos que ocorrem quando vários indivíduos se encontram em grupos de tamanhos diversos. A Sociologia como “ciência da sociedade” não surgiu de repente ou da reflexão de algum autor iluminado. Mas a sua formação constitui um acontecimento complexo para o qual concorrerá uma constelação de circunstâncias históricas e intelectuais. socius = companheiro) e da palavra grega logos (estudo. Está entre as maiores revoluções da história da humanidade. Revolução Francesa é o nome dado ao conjunto de acontecimentos que. a Sociologia é o estudo científico das formas fundamentais da convivência humana. e interagem no seu interior. consolidação e desenvolvimento da sociedade moderna.1 CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA 1. Assim. ciência). o mundo todo. a ciência da sociedade. Ela é fruto da revolução industrial e é denominada de “ciência da crise” porque procurou dar resposta às questões sociais impostas por essa revolução que. alteraram o quadro político e social da França. Ela é fruto de todo o conhecimento sobre a natureza e a sociedade. de 1789. Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. levaram a uma transformação no modelo político e administrativo das nações européias.1 Contexto Histórico do Surgimento da Sociologia Sociologia: A palavra Sociologia é um vocábulo composto da palavra latina societas (sociedade. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana (1776). A Sociologia é. então. que se desenvolveu a partir do século XV. da associação ou do companheirismo. As transformações políticas em decorrência da Revolução Francesa. entre 5 de Maio de 1789 e 9 de Novembro de 1799. grupos e instituições.

a partir de então. toda a produção dá-se numa linha de trabalho produtivo. por outro lado. Os meios de trabalho incluem os "instrumentos de produção" (máquinas. ocorre uma grande migração do campo para a cidade à procura de trabalho. ferramentas). que restringia os interesses econômicos e políticos da burguesia nascente. 9 . E na linha do trabalho produtivo o trabalhador não se reconhece como produtor de bens de consumo.) e os meios de transporte. eólica etc. Com os cercamentos dos campos para a criação de ovelhas para abastecer a indústria têxtil e com o desenvolvimento da Revolução Industrial. que passaram a ser submetidos ao dono do capital. hidráulica. Os pensadores iluministas eram os ideólogos da burguesia que atacavam os fundamentos da sociedade feudal e os privilégios de sua classe dominante (nobreza.). além de destruir o artesanato. O novo modo produção interferiu também na forma de organização familiar. submete o trabalhador a uma nova disciplina onde. silos etc. Isso faz com que o capitalista passe a explorar o trabalho de crianças e mulheres. Iniciada na Inglaterra. a predominar a família nuclear. a partir daquele momento. com jornadas de 12 a 14 horas diárias de trabalho. A nova forma de produção da vida material. as fontes de energia utilizadas na produção (elétrica. A Revolução Industrial representa o triunfo da sociedade capitalista. as grandes massas das classes trabalhadoras desprovidas dos meios de produção. A partir daquele momento. detentores apenas de força de trabalho. Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. onde ele não participa de todas as etapas da produção e como consequência ele perde a capacidade do saber produtivo que a partir de agora é apropriado pelo capitalista. como o conjunto formado pelos "meios de trabalho" e pelos "objetos de trabalho". cidades sem as Podemos definir meios de produção ou também modos de produção.de organização política coniventes com as transformações econômicas causadas pela Revolução Industrial da segunda metade do século XVIII. as instalações (edifícios. expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX. onde os empresários passaram a controlar os meios de produção e. desmantelou a família patriarcal. passando. ou seja. a partir daquele momento. em meados do século XVIII. ele passa a trabalhar como um robô. Foi este contexto que antecedeu a Revolução Francesa. nuclear. armazéns. além da maneira como a sociedade se organiza economicamente. salários de subsistência. clero). tendo como consequência um excedente de mão-de-obra. no trabalho automatizado e repetitivo. A utilização da máquina na Revolução Industrial. faz surgir uma nova forma organização da vida social. Surge aí o Estado burguês.

em parte. onde desapareceriam as classes sociais. pelas novas condições de existência por ela criada. o pensamento vai renunciando a visão sobrenatural de explicar os fatos e passa a buscar explicações racionais para as modificações que ocorriam na sociedade daquela época. eles compartilhavam do mesmo pensamento – de que a sociedade capitalista era passível de ser analisada cientificamente. Mas uma outra circunstância 10 . infanticídio. e as desigualdades sociais tenderiam a ser drasticamente reduzidas uma vez que a produção. O que até então era fenômeno passou a ser explicado pelo método científico com a aplicação da observação e da experiência.menores condições de saneamento devido à rápida urbanização como consequência da industrialização. criação de associações. roubos. Diante de todos esses acontecimentos que tornam visíveis as dinâmicas da vida social. o suicídio. aquilo que tinha uma autoridade teológica deveria ceder lugar a uma dúvida metódica para que a objetividade dos fatos passasse a ser conhecida.. a Sindicalismo é o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus interesses. a criminalidade. socialistas etc. aos desenvolvimentos oriundos da Revolução Industrial. conservadores. O Socialismo é um sistema sócio-político caracterizado pela apropriação dos meios de produção pela coletividade. As manifestações que se sucederam como forma de negar suas condições de vida se materializaram em destruir máquinas. violência. crimes. ou seja. a sociedade coloca-se em um plano de análise. em objeto que deveria ser investigado de forma científica. fugindo das explicações metafísicas ou espirituais. a prostituição. todos se tornariam trabalhadores. o alcoolismo. poderia ser equitativamente distribuída. Passaram a produzir jornais criticando o modelo capitalista e inclinando-se para a nova forma de organização social. A partir daquele momento. tomando parte na produção. formação de sindicatos etc. e como resultado. Abolida a sua propriedade privada destes meios. Ao mesmo tempo. praticar sabotagem. como liberais. Uma coisa havia em comum entre os pensadores que testemunhavam as transformações da época: apesar de pertencerem a correntes de pensamentos diferenciados. Em decorrência da Revolução Industrial e da situação de exploração em que passa a viver a classe proletária. Em suma. esta inicia o seu papel histórico como classe revolucionária na sociedade capitalista. o surgimento da Sociologia prende-se. sendo social. as epidemias etc. é também uma doutrina política segundo a qual os trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade.

que não querem precisar da contribuição dos outros. O término do período é. aproveitando a já consolidada denominação Século das Luzes. As transformações econômicas que se achavam em curso no ocidente europeu desde o século XVI não poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura.brasilescola. a vaidade de muitas pessoas. Boa parte dos acadêmicos simplesmente utilizam o início do século XVIII como marco de referência. Isso dificultava uma visão integrada do processo educativo. habitualmente assinalado em coincidência com o início das Guerras Napoleônicas (1804-15). não há consenso abrangente quanto à datação do início da era do Iluminismo. Ainda que importantes autores contemporâneos venham ressaltando as origens do Ilumunismo no século XVII tardio.com. Trata-se das modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. Os Parâmetros Curriculares Nacionais são diretrizes elaboradas pelo Governo Federal que orientam a educação no Brasil e são separados por disciplina. os professores estão sofrendo as consequências da ausência dessa interdisciplinaridade em sua formação. Isso ocorria porque cada professor preparava o seu programa sem conhecer o dos companheiros. por sua vez.br/sociologia www. Hoje os Programas Curriculares Nacionais (PCN’s) propõem uma visão interdisciplinar. por isso. multidisciplinar. originadas pelo Iluminismo. Iluminismo é um conceito que sintetiza diversas tradições filosóficas.com/sociologia 1. o excesso de encargos dos professores – muitos deles iam à escola somente para dar aula. correntes intelectuais e atitudes religiosas. a falta de embasamento filosófico. 11 . transdisciplinar. Saiba mais: Veja mais sobre o surgimento da Sociologia www.alunosonline. no sentido de fundir os conteúdos curriculares. E os motivos que levavam à falta de entrosamento entre os professores eram: a falta de tradição de trabalho em equipe.concorreria também para a sua formação.2 Disciplinas que têm Afinidades com a Sociologia A falta de entrosamento entre as disciplinas tem sido um equívoco grave cometido pelas escolas no Brasil e. hoje.

A Filosofia deve estabelecer os fins a que se propõe a educação e os valores desta. Os fatos têm de ser estudados junto com os valores. 12 . são modernos. ou seja. Eles têm de ser imparciais. a educação não é simplesmente o repasse de informações. que as duas disciplinas caminhem juntas na produção de saberes. e volta à Sociologia para ver como a educação interage na sociedade. valores de uma sociedade de consumo são históricos. mas seus valores estão imbuídos na investigação dos fatos. uma vez que a mesma elabora as perguntas que angustiam o homem. ela tem valores. Os sociólogos modernos têm de saber distinguir em que medida seus juízos de valor afetam a atitude científica. por isso. Como por exemplo: os valores de manutenção da vida são permanentes. valores que se dão à educação sistematizada são modernos e históricos. embora a Sociologia busque a objetividade dos fatos. como também se encarrega de dar as respostas. E deve também distinguir quais são os valores permanentes e quais são os determinados por momentos históricos.Sociologia e Filosofia da Educação Nas escolas que trabalham com educação é importante o entrosamento da Sociologia com a Filosofia da Educação. não podem tomar posição. Ela oferece o ponto de partida e de chegada para todo o conhecimento humano. A Sociologia da Educação busca na Filosofia os valores a partir dos quais se elabora a teoria da educação. é também a formação humanística do homem.

mostrando os condicionamentos sociais e culturais que explicam a maior parte das afecções psíquicas do homem. psykhologuía. O homem é individual e interage com os outros. Embora polêmica. como a observação participante e o survey. procurando analisar o comportamento humano naquilo em que tal comportamento é afetado pela vida em sociedade. "palavra". já que estas também se ocupam do homem sob o aspecto das relações sociais? Para começar.Sociologia e Psicologia Na Psicologia. Os métodos das ciências sociais. Tendemos a ver os problemas como reflexos de uma situação isolada e individual. As ciências sociais são um ramo do conhecimento científico que estuda os aspectos sociais do mundo humano. transl. que são as instituições sociais. nas ciências biomédicas etc. é comum a distinção entre qualitativos e quantitativos. psykhé. nas ciências da terra. O que a distingue das outras ciências sociais. o produto destas inter-relações. mas também nas ciências sociais aplicadas. formando o social. 13 . e λόγος. não apenas na grande área das humanidades e artes. Para entendermos a sociedade. na área da Psicologia comparada). a falta de conhecimento sociológico pode levar a uma visão deformada dos problemas psíquicos. nas ciências agrárias. pensamentos. estudando. termo derivado das palavras ψυχή. A Psicologia (do grego Ψυχολογία. e a Sociologia é a única ciência social que se ocupa das relações entre os homens em seu aspecto mais geral. toda ciência tem sua particularidade. lógos. razão) e o comportamento humano e animal (para fins de pesquisa e correlação. temos de entender a psique humana. ao mesmo tempo. Diferenciam-se das artes e das humanidades pela preocupação metodológica. À Sociologia cabe integrar um caso isolado do contexto global em que estão inseridos o indivíduo e sua família. "razão" ou "estudo") é a ciência que estuda os processos mentais (sentimentos. "alma". Sociologia e Ciência Sociais A Sociologia ocupa-se dos aspectos da vida do homem e seu relacionamento com os outros homens. podem ser utilizados nas mais diversas áreas do conhecimento.

” necessidades materiais ligadas à subsistência. “é o estudo daquelas relações do homem em sociedade que conduzem à satisfação de suas necessidades. como alimentação. que se dissimula através do Estado. moradia. e consumo de bens e serviços. Esse fato impõe-se aos grupos que adquiriram um mínimo de complexidade em suas relações. sob o ângulo da organização e da destruição do poder – o poder dos homens sobre outros homens. O termo economia vem do grego para oikos (casa) e nomos (costume ou lei). Ela estuda as relações que homens estabelecem entre si por imposição de suas Economia é a ciência social que estuda a produção. Ciência Política A Ciência Política estuda. 14 . o conhecimento das Ciências Políticas nos ajuda a compreender o contexto social dentro do qual se inserem as instituições educacionais. No campo da educação. mas tem sua particularidade.Economia Política Ela é uma ciência social porque estuda o homem e suas relações sociais. distribuição. A busca da satisfação das necessidades materiais do homem afeta a ordenação da superestrutura da sociedade. como as outras ciências. ao seu bem-estar e que dependem da posse dos objetos materiais”. Marx analisou que para compreender a sociedade. ajuda-nos a entender de quem o Estado está a serviço. a relação entre os homens. vestuário etc. O conceito de Economia Política. segundo o estudioso Charles Gide. daí "regras da casa (lar). é necessário entender as relações de produção. baseadas nas forças produtivas existentes nos modos produção que se organizam em torno das forças produtivas.

no Brasil). Antropologia Antropologia. Ciência Política é o estudo da política — dos sistemas políticos. no Brasil). Esses estudos derrubam o mito de uma natureza humana que impediu durante muito tempo o avanço das teorias e dos métodos educacionais. apesar de ser também uma ciência social. como corporações (ou empresas. a Arqueologia. (homem / pessoa) e λόγος (logos razão / pensamento). religião. tem vínculos com a Biologia e com a Arqueologia: a Biologia estuda a vida. uniões (ou sindicatos. Como? Estudando as culturas particulares. Envolve o estudo da estrutura (e das mudanças de estrutura) e dos processos de governo — ou qualquer sistema equivalente de organização humana que tente assegurar segurança. não são de uma natureza humana. a educação tem uma política que precisa ser entendida para que se possam tomar decisões ligadas à educação. Ela procura explicar como as alterações no mundo físico influenciam como sócios. costumes etc. não são imutáveis. igrejas ou outras organizações cujas estruturas e processos de ação se aproximem de um governo.Em todo o grupo. A Antropologia estuda o desenvolvimento do corpo humano e o desenvolvimento cultural através de tempo. 15 . Levantamentos da Etnografia têm nos mostrado que os papéis tidos por nós como tipicamente masculinos são desempenhados por mulheres. Os cientistas políticos podem estudar instituições. Antropologia e a Etnologia têm contribuído para desvendar os papéis sociais do homem e da mulher: As comparações entre diferentes comunidades nos mostram que os papéis masculinos e femininos são socialmente construídos. língua. em Antropologia (cuja origem etimológica deriva do grego άνθρωπος anthropos.) como a Etnologia (estuda a cultura dos povos naturais) têm contribuído para com a Teoria da Educação. justiça e direitos civis. É a ciência preocupada com o fator humano e suas relações. os fósseis. das organizações políticas e dos processos políticos. e vice-versa. Tanto a Etnografia (estudo do corpo humano descrevendo raça.

A História ajuda a Sociologia da Educação no sentido de distinguir entre o que precisa ser preservado e o que é inútil. Por metonímia. será Tucídides o primeiro a aplicar métodos críticos. a Psicologia Social contribui no sentido de permitir entender que os indivíduos que interagem no processo educativo são seres sociais e. o conjunto destes processos e eventos. de novo. como o cruzamento de dados e fontes diferentes. Nós vimos que para entender os aspectos em que surgiu a Sociologia tivemos de fazer um resgate histórico. Psicologia Social A Psicologia Social estuda a interação recíproca entre pessoas e os efeitos que essa interação exerce sobre os pensamentos. Todavia. cujo termo em grego antigo é Ἱστορίαι (História). que é constante. A grande lição que a história pode nos dar consiste em impedir que se cometam. ao mesmo tempo. pessoas.História A História mantém estreita relação com a Sociologia. concomitante à análise de processos e eventos ocorridos no passado. A História ocupa-se do fato histórico e a Sociologia ocupa-se dar inter-relação dos indivíduos. A função da Psicologia Social é neutralizar os equívocos ditos somente sociológicos ou psicológicos. emoções e hábitos dos indivíduos. na sua individualidade. Para a Sociologia Educacional. estudo sejam distintos. 16 . sentimentos. A palavra história tem sua origem nas «investigações» de Heródoto. os erros do passado. embora seus objetos de História é o estudo do homem no tempo.

Brasiliense. Esse é um livro muito interessante. Karl Marx.) Eldorado. pois os osrganizadores procuram. O comportamento humano é uma totalidade permanente. 1. Não existe. atuação compartimentada ou isolada.3 Para Saber Mais • Leia o livro Introdução ao Pensamento Sociológico. Martins. e compartilhe com seus colegas. Talcott Parsons) e de alguns de seus comentadores. • O que é Sociologia. no homem e nem na sociedade. dar uma visão panorâmica das principais questões do conhecimento sociológico.Conclusões O objetivo deste texto é mostrar o objeto de estudo de alguns ramos do conhecimento que dizem respeito aos homo sócios. de Ana Maria de Castro e Edmundo Fernandes Dias (orgs. e que as divisões destas áreas são divisões arbitrárias com fins metodológicos. Max Weber. de Carlos B. 17 . ATIVIDADE 1 Pesquise sobre o Iluminismo e produza um pequeno texto sintetizando as idéias e os principais representantes desse movimento. por meio de textos de autores clássicos (Èmile Durkheim.

trabalhando em condições totalmente impróprias. esgotado. na França. entre os quais. que deu origem ao filme de Claude Berri. das relações humanas e dos movimentos de trabalhadores. roubado. A forma contundente como as ações ocorrem no filme tornam a crueza dos acontecimentos extremamente chocante para os espectadores. se não estivermos a par da temática da obra de Émile Zola.1. comece a fazê-lo. se você ainda não começou a utilizá-lo. essa produção do cinema francês merece ser vista e apreciada tanto pelos amantes da sétima arte. em suas pesquisas. Por isso. Nesse período alguns países passaram a integrar o seleto conjunto de nações industrializadas ao lado da pioneira Inglaterra. Vilipendiado. em relação à exploração de seus patrões. esse discurso um tanto quanto agressivo por parte do diretor Berri tem o firme propósito de conclamar os espíritos da audiência e chamar a atenção para as dificuldades e a rudeza do mundo operário do século XIX. “individualismo” e “secularização”. No entanto. dicionários da língua portuguesa e de áreas como Filosofia. Utilizem. Não nos enganemos: O dicionário será uma ferramenta de trabalho importante para você durante o curso. pesquisando o significado dos termos “igualitarismo”. sujeito a acidentes que 18 . “racionalismo”. quanto pelos estudiosos da Literatura. "Germinal" refere-se ao processo de gestação e maturação de movimentos grevistas e de uma atitude mais ofensiva por parte dos trabalhadores das minas de carvão do século XIX. podemos passar por esse filme na locadora sem percebê-lo e sem dar a ele o devido valor.4 Sugestão de Filme FILME: Germinal Trabalhadores Despertos O título do livro e do filme nos confunde um pouco e. a França. inseguro. palco das ações descritas no romance e representadas no filme. da História. Sociologia e História. Pedagogia.

e "1492 . como "Danton . que também trabalhou em outros importantes filmes com temática histórica.A Conquista do Paraíso"). do fenômeno da confrontação entre patrões e empregados. então. vê-se. mesmo tendo em vista as desgraças que isso poderia causar naquele contexto específico). acompanhado por uma passagem em Filosofia. sendo monitorado pelos professores da área de Literatura. Por isso. obrigado a tomar providências. que já possui vivência em termos de 19 . assim nos é mostrado o proletariado francês nas telas. recebendo salários baixíssimos e tendo de ver sua família toda encaminhar-se para o mesmo tipo de trabalho e péssimas condições. A história do filme gira em torno de uma família que se encontra nas mencionadas condições de miséria e penúria listadas nos parágrafos anteriores. há menções a Marx e Engels. consequentemente. Um trabalho paralelo envolvendo a leitura de trechos selecionados do livro.O Processo da Revolução". cumprindo jornadas de 14. e para isso é estimulado pela chegada de um novo operário. 15 ou 16 horas. pelas obras dos intelectuais que abordaram os temas das lutas de classes. e uma elucidativa aula sobre as condições em que se desenvolveu o movimento trabalhista ao longo do século XIX. na Europa. e também ao anarquismo (uma das personagens centrais da trama assume o discurso dos pensadores que propuseram o anarquismo até as últimas consequências. sujo. senão a luta contra aqueles que os oprimem. fariam com que a compreensão do filme e. fosse mais bem assimilada pelos estudantes. por parte do professor de História. Inserido na escuridão das minas de carvão.podem ceifar-lhe a vida ou decepar-lhe um braço ou uma perna. vivido pelo grandalhão Gerárd Depárdieu (considerado um dos melhores atores franceses de todos os tempos. O chefe dessa família. A obra literária é do período que marca o surgimento da Internacional Comunista. pouco resta aos trabalhadores.

criam uma caixa de resistência com a qual todos os operários deveriam contribuir. acompanhada por atuações convincentes. deve-se destacar. podemos acompanhar a burguesia e seu cotidiano de brioches. Por isso. tendo-se em vista que uma greve poderia se prolongar por um longo período de tempo. O contraste também é proposital. Assistam! Ficha Técnica: País/Ano de produção: França. luxuosas residências e total descaso em relação ao mundo que existe além dos seus portões. Paralelamente à história dos trabalhadores. drama Disponível em vídeo 20 .criação e fomentação de movimentos reivindicatórios. Como obra que procurou ser fiel aos acontecimentos do período em que foi escrita. a escolha acertada das locações onde o filme foi produzido e a excelente trama que se desenvolve paralelamente às disputas entre burgueses e trabalhadores tornam o filme uma ótima pedida para facilitar o estudo dessa difícil e complicada questão. quando se trabalhar esse filme. grandes refeições. a questão ideológica. criar condições de sobrevivência para os trabalhadores. 1993 Duração/Gênero: 158 min. a perspectiva para os operários não é das melhores. O primeiro passo dessa dupla passa a ser. então. Tem por objetivo acirrar os ânimos de quem assiste e fazer com que as pessoas tomem partido (obviamente dos trabalhadores). Por isso. Uma boa reprodução de época. A diminuição dos salários e o pouco caso dos patrões em relação à segurança e à saúde dos trabalhadores aumenta ainda mais as tensões.

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2.3 Sugestão de Filme 24 25 30 35 38 38 22 .2.2 AS FORMAS DE PENSAMENTO SOCIAL 23 2.1 Durkheim e o Positivismo-funcionalismo 2.3 Weber e o Compreensivismo Atividade 2 2.2 Marx e o Materialismo Histórico e Dialético 2.1 O Positivismo como Primeira Forma de Compreensão 23 da Vida Social.2.2 As Correntes Sociológicas 2. 2.

França. a Europa vê-se na obrigação de civilizar os incivilizados e. Surgiu com o desenvolvimento sociológico do Iluminismo e das crises social e moral do fim da Idade Média. Sobre as ciências. a economia agrária. outro metafísico e. Por isso ele foi chamado de para-organicismo. pelo menos . A visão positivista de sociedade dá-se com o avanço do imperialismo europeu do século XIX.2 AS FORMAS DE PENSAMENTO SOCIAL Auguste Comte (1798-1857) Nasceu em Montpellier. Discurso sobre o Conjunto do Positivismo. da qual era o pregador. Para os europeus esse novo mundo teria de ser transformado para receber o produto industrializado e a mão-de-obra assalariada. distinguia as abstratas das concretas. Morreu em Paris. . Propõe à existência humana valores completamente humanos. na história. para isso. e do nascimento da sociedade industrial. Sistema de Política Positiva. argumentando que as 23 Positivismo é uma corrente sociológica cujo precursor foi o francês Auguste Comte (17981857). Além desta.associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana. Na visão de Comte. desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte. Nesse período. em seis volumes. finalmente. três Estados: um teológico. Catecismo Positivista e a Síntese Subjeíiva. existiam. Viveu a infância na França napoleônica. os europeus deparam-se com uma civilização de características rudimentares. ciência que batizou na sua obra Curso de Filosofia Positiva. Estudou no colégio de sua cidade e depois em Paris. utilizaram-se da Teoria Evolucionista. 2. afastando radicalmente a Teologia ou Metafísica. Este último representava o coroamento do progresso da humanidade. o artesanato. onde predominava a poligamia. e criaram o darwinismo social. publicada entre 1830 e 1842. que veio para substituir as explicações teológicas pela crença na razão. de uma família católica e monarquista.na versão contemporânea. publicou Discurso sobre o Espírito Positivo. sendo que a ciência mais complexa e profunda seria a Sociologia. o positivo. considerada por ele como uma religião. a sociedade era concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas. Segundo sua Filosofia Política. na Escola Politécnica. Então. de Charles Darwin. Tornou-se discípulo de Saint-Simon. e a produção doméstica. de quem sofreu enorme influência. Devotou seus estudos à Filosofia Positivista. o Positivismo .1 O Positivismo como Primeira Forma de Compreender a Vida Social A primeira corrente do pensamento sociológico foi desenvolvida por Augusto Comte e foi denominado de Positivismo. Assim.

o desenvolvimento industrial fazia surgir a todo o momento novos conflitos sociais e. não necessariamente em ordem de importância. exigindo mudanças políticas e econômicas nas novas relações sociais. Os cientistas sociais positivistas entendiam que as sociedades atrasadas eram verdadeiros “fósseis vivos primitivos” em plena era capitalista. iniciada por 24 . fundadas pelos seus autores clássicos. a classe trabalhadora passava a manifestar-se. no sentido de transformar a sociedade das mais simples para as mais complexas. Apesar do otimismo positivista. os padrões burgueses e industriais da organização social. O progresso. Para evitar conflito. que é o capitalismo.sociedades saem de um estágio primitivo para estágios avançados. tendo como fundador Auguste Comte e principal expoente clássico em Émile Durkheim – de fundamentação analítica. As principais. consequentemente. 2. através de um método científico adequado. Procurava resolver os conflitos por meio da exaltação à coesão. são: a Positivista-Funcionalista. O Positivismo buscava justificar. as quais podemos citar. já são o suficiente para perceber que a sociedade é passível de ser analisada e explicada de outra forma que não a religiosa. a Sociologia Compreensiva. Ela tem diferentes formas de analisar a sociedade.2 As Correntes Sociológicas A Sociologia não é uma ciência de apenas uma orientação teórico-metodológica dominante. os filósofos positivistas da época. mas não terem aspirações divinas. apesar de serem organicistas. e a ordem ajustaria os indivíduos para melhor funcionamento da sociedade. As formulações positivistas. desenvolveram as idéias de “ordem e progresso”.

entre eles. e a linha de explicação Sociológica Dialética. A Sociologia. Éinile Durkheim (1858-1917) Nasceu em Epinal. levando à sua consolidação como disciplina acadêmica já no início do século XX. na visão de Durkheim. Formas Elementares da Vida Religiosa. Sendo assim. Transferiu-se em 1902 para a Sorbonne. deu início a uma linha árdua de explicação sociológica. primeira cátedra dessa ciência criada na França. originadas pelos seus três principais autores clássicos. Para ele. iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris. quando Èmile Durkheim sistematizou seus conteúdos e a implantou nas Universidades da França.Max Weber – de matriz teórico-metodológica-hermenêutico- compreensiva. que mesmo não sendo um sociólogo e sequer se pretendendo a tal. indo depois para a Alemanha.1 Durkheim e o Positivismo-funcionalismo Èmile Durkheim (1858-1917) foi fortemente influenciado pelo pensamento científico do século XIX. na Al-sácia. somente o sociólogo seria capaz de perceber a constituição da vida social através de uma aventura intelectual. Sociologia e Filosofia. As Regras do Método Sociológico.2. seu sobrinho Mareei Mauss. para onde levou inúmeros cientistas. Durkheim achava que as leis que regulam os fenômenos da natureza seriam iguais às leis que regulam a dinâmica da vida social. iniciada por Karl Marx. O Suicídio. Suas principais obras foram: Da Divisão do Trabalho Social. Lecionou Sociologia em Bordéus. Sua preocupação era delimitar o objeto e o método da Sociologia. reunindo-os num grupo que ficou conhecido como “Escola Sociológica Francesa”. e Lições de Sociologia (obra póstuma). Descendente de uma família de rabinos. Morreu em Paris. é o estudo dos fatos sociais que podem ser entendidos como os modos de agir que exercem sobre o individuo uma coerção exterior e apresentam uma existência própria. cabe à Sociologia descobrir as leis da vida coletiva. 2. independente das manifestações individuais que 25 . Educação e Sociologia. Estas três formas de análise da sociedade. influenciaram quase todos os posteriores desenvolvimentos da Sociologia.

e o resultado final escapa ao nosso controle. que é tida como uma coisa exterior a eles. necessita do auxílio da ciência. das correntes de opinião. São situações que exercem uma coerção. que é considerada. 26 . Já o caráter coercitivo dos fatos sociais dá-se pelo fato de existirem fora de nós. além da ilusão de conhecê-los. As legais são as sanções prescritas pela sociedade. que pode ser legal ou espontânea. para livrar-se das pré-noções e dos preconceitos nãocientíficos. então. pois eles devem ser estudados como se estivessem fora da consciência do investigador. e termos de nos conformar com a sua existência. é preciso que vários indivíduos tenham misturado suas ações e saia um resultado novo. Os fatos sociais são exteriores à consciência individual e são coercitivos. Causa-nos uma espécie de sanção. Os fatos sociais exercem uma força sobre o comportamento dos indivíduos. para não haver parcialidade entre sujeito e objeto. Portanto. e as espontâneas seriam as que afloriam em decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade ao qual o indivíduo pertence. Para que exista um fato social. devemos tratar os fatos sociais como coisas. Fato social é qualquer forma de coerção sobre os indivíduos. como caracterizada pelo conjunto de fatos sociais estabelecidos. Ele age como uma força exterior que atua sobre nós. Durkheim afirmava que os fatos sociais devem ser considerados como coisas. Essa atitude é tida somente na mente do intelectual. uma espécie de obrigatoriedade sobre o indivíduo. nos moldando e nos regulando. Na exterioridade. Ele as chama de coisas pelo fato de termos uma visão vaga e confusa. que também são ligadas pelas gerações anteriores (já encontramos prontas). tendo uma existência independente e estabelecida em toda a sociedade.possam ter. Ao estudar os fatos sociais o investigador deve ser neutro. Coisa para ele é todo objeto de conhecimento que a inteligência humana não penetra de modo imediato. do casamento. os próprios homens elaboram as “maneiras de fazer”. É o caso da moda. Fazemos em conjunto com uma multidão de pessoas que sequer conhecemos.

27 . Solidariedade Mecânica: O Princípio das Semelhanças Nas sociedades arcaicas – primitiva e feudal – a consciência coletiva exercia um papel preponderante para a integração social. Os seja. permanecendo. nas crenças. Só separamos as duas consciências para fins de pesquisa científica. para Durkheim. As duas convivem juntas em cada indivíduo. em geral. A consciência coletiva aqui exerce todo seu poder de coerção sobre os indivíduos. o que unia as pessoas não era a dependência uns dos outros. independentes e autônomos em relação à divisão do trabalho social. e que poderiam ser classificadas numa escala evolutiva das mais simples para as mais complexas. Nelas. nos sentimentos. a alma do indivíduo) e consciência coletiva (conjunto de crenças e sentimentos comuns aos membros de determinada sociedade. Formas de Solidariedade Solidariedade Mecânica. jeito de pensar. entender a vida. que é independente dos indivíduos – embora só se realize através deste). onde os indivíduos se identificavam através da família. que correspondiam ao nível inferior e ao nível superior da escala evolutiva. observam os mesmos costumes.Durkheim faz a distinção entre consciência individual (psique. Todos exercem aproximadamente as mesmas atividades. agir. Ele caracteriza dois tipos extremos de sociedade. Este tipo de solidariedade tende a declinar nas sociedades modernas. Durkheim acreditava que as “espécies” sociais tinham as mesmas semelhanças das “espécies” vivas. tratando os fatos sociais como coisas exteriores ao indivíduo. as pessoas uniam-se a partir de semelhanças na religião. Nelas e estariam a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. da religião. mas o fato de terem sentimentos comuns. era aquela que predominava nas sociedades précapitalistas. na tradição. da tradição e dos costumes. cultuam os mesmos deuses.

Assim. é preciso acrescentar a densidade material e moral. Para Durkheim a divisão é um fenômeno social decorrente de uma combinação do volume. a consciência coletiva afrouxa-se. das tradições ou das relações sociais estreitas. A diferenciação social resulta da combinação dos fenômenos do volume e das densidades material e moral. Essa interdependência garante a união social. Porque não há provas de que nas sociedades modernas os homens sejam mais felizes do que nas sociedades arcaicas.Solidariedade Orgânica: Princípio da Diferenciação Neste tipo de solidariedade a integração é realizada Solidariedade Orgânica é aquela típica das sociedades capitalistas. em lugar dos costumes. densidade material e moral da sociedade. 28 . cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal. Volume é o número de indivíduos. Densidade do material é o número de indivíduos em determinado território. Mas o que levou à divisão social do trabalho? A busca da felicidade. densidade moral é a intensidade das comunicações e trocas entre esses indivíduos. Então. os indivíduos tornavam-se interdependentes. não foi. Mas só volume não explica a diferenciação social. ao mesmo tempo que os indivíduos são mutuamente dependentes. por que as sociedades passaram de um modelo de solidariedade que predominava a integração para um modelo de sociedade que tem como princípio a diferença? Qual a causa da solidariedade orgânica? A resposta está na divisão social do trabalho. a partir da diferenciação entre os indivíduos e os grupos no interior da sociedade. As pessoas se unem a partir da dependência que umas têm das outras para realizar determinada atividade social. Nas sociedades capitalistas. através da acelerada divisão do trabalho social. A divergência não põe em risco o grupo. Todos têm sua individualidade e cada uma age de acordo com sua vontade. onde.

mais intensa é a luta pela vida). Ao invés de alguns serem eliminados para que outros sobrevivam (como fazem os animais). Durkheim invoca o conceito de “luta pela vida” (quanto mais numerosos somos. O autor acreditava que os problemas sociais tivessem suas origens na crise moral. e que. a diferenciação social é a solução pacífica da luta pela vida. da Sociologia. através da criação de uma nova moral social que supere a velha moral e seja eficiente.Para explicar esse mecanismo. cada um contribui com seu papel para a vida de todos. 29 . isto é. procurando evitar a anomia (crise total). através da ciência. A Sociologia Diante do Caso Patológico e da Anomia Durkheim admitia que o capitalismo é bom. Então. Frente ao caso patológico (regras sociais falhas). os problemas sociais podem ter sua origem também na ausência ou insuficiência de normatização das relações sociais. dizia ele. diferenciando-se. por observar. descobrir as falhas e corrigi-las por outras mais eficientes. basta apenas conhecer os seus problemas e buscar uma solução científica para eles. Por outro lado. no estado social em que várias regras de conduta não estão funcionando. Contrapondo-se ao pensamento socialista. a diferenciação social faz com que um número maior de indivíduos sobreviva. cabe à Sociologia captar suas causas. e a sociedade é perfeita. Como somos diferentes. compreender e classificar as leis sociais. ou melhor. A esse estado de crise social Durkheim denomina de caso patológico. por sua vez. Porque os problemas sociais entre empresários e trabalhadores não se resolveria dentro de uma luta política e sim. caracteriza-se como anomia. Seria tarefa do sociólogo compreender o funcionamento da sociedade de modo objetivo.

doutorando-se em Filosofia. Para entender essas transformações que ocorreram na sociedade capitalista. a história da humanidade é a história da luta de classes. A luta de classe é o motor da história. Para ele. Marx julgou necessário entender como a história humana funciona. 30 . O capital. Expulso da França em 1845. Miséria da Filosofia. enquanto que a burguesia se elevava à condição de classe dominante. seu companheiro de ideias e publicações por toda a vida.Sabendo que a sociedade capitalista está cheia de problemas. escreveu com Engels o Manifesto do Partido Comunista. A Luta de Classes em França. Com o malogro das revoluções sociais de 1848. Durkheim admitia que o Estado fosse uma instituição que teria o poder de elaborar leis que corrigissem os casos patológicos da sociedade. Em 1848. onde se dedicou a um grandioso estudo crítico da economia política. Foi redator de uma gazeta liberal em Colónia. Para a Crítica da Economia Política. Marx foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Operários ou Primeira Internacional. em lena. onde conheceu Friedrich Engels. Marx mudou-se para Londres. Mudou-se em 1842 para Paris. matriculouse na Universidade de Berlim. Morreu em 1883. Transformações essas que causaram miséria e sofrimento na classe trabalhadora.2. desde os primórdios da civilização. Karl Marx(1818-1883) Nasceu na cidade de Tre-ves. na Alemanha. após intensa vida política e intelectual. Suas principais obras foram: A Ideologia Alemã. 2. enquanto movimento político e social a favor do proletariado. obra fundadora do "marxismo". foi para Bruxelas participar da recém-fundada Liga dos Comunistas. Em 1836.2 Marx e o Materialismo Histórico e Dialético Marx observava as transformações que ocorriam na sociedade de sua época.

campo. a indústria e o comércio. Ao produzirem bens necessários à vida. agem sobre o desenvolvimento dessas mesmas forças. Comunista e socialista. A esse conjunto de relações Marx denominou de relação de produção. sendo primeiro a divisão social do trabalho. A essa forma Marx chamou de forças produtivas. Existem 7 modos de produção: Primitivo. a cidade. Escravista. distribuindo tarefas. As forças produtivas foram desenvolvendo-se à medida que o homem passou a organizar a produção junto a seus semelhantes. por sua vez. o homem desenvolveu formas de relacionar-se com a natureza que se intensificaram ao longo da história. Capitalista. independentes de sua vontade e consciência. pois a intervenção do homem na produção não é isolada. tem de trabalhar.Max e seu companheiro Engels escreveram que a história humana é a história da relação dos homens com a natureza e dos homens entre si. As relações de produção transformam-se com a alteração e o desenvolvimento das forças produtivas a que estão organicamente ligadas e. 31 . antes. No processo de produção da vida material. ele relaciona-se com seus pares. os homens criam determinadas relações espontâneas. Foi este o ponto de partida do processo de divisão do trabalho. ele relaciona-se com a natureza e com os outros membros da sociedade. em economia marxista. Forças Produtivas – São as forças de que se vale a sociedade sobre a natureza para produzir sua existência. e para ter de comer. e ao trabalhar. Asiático. Feudal. A primeira condição para o homem viver é ter de comer. Durante o processo produtivo o homem nunca está sozinho. benefício entre os membros da sociedade. depois a agricultura e a domesticação de animais. que correspondem às etapas de desenvolvimento das forças produtivas. é a forma de organização sócioeconômica associada a uma determinada etapa de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Modo de produção. reveste-se de um caráter social.

a base das desigualdades sociais. Dessas diferentes relações de propriedade surgem as classes sociais. e as transformações dão-se por causa da luta de classes em cada época. um conjunto de relações sociais e produção. As grandes transformações pelas quais passou a história da humanidade foram as transformações de um modo produção para outro. com suas diferentes formas de organização da propriedade como a de escravidão. que são o modo pelo qual os homens assumem o controle sobre as forças produtivas. abre-se aí um período de convulsão social. sua ação 32 . onde as relações vigentes são contestadas. o feudal e o capitalista. e de homens que não trabalham porque têm meios e podem fazer com que os outros trabalhem para si. As relações sociais de produção funcionam como forma de desenvolvimento das forças produtivas.As relações de propriedade são. na medida em que a divisão do trabalho possibilita a existência de homens que trabalham para os outros. Cada época histórica possui um conjunto de forças produtivas desenvolvidas e. de servidão e de assalariamento. ao mesmo tempo. portanto. São eles: o modo de produção escravista. mas chega um momento em que as forças não mais conseguem se desenvolver. ocasionando a revolução que leva à passagem de um modo de produção a outro Dialética Engels afirmava que a Dialética considera as coisas e os conceitos no seu encadeamento: suas relações mútuas. por que o fazem com os meios dos outros.

sua decadência. E por fim. seu nascimento. ou seja. em que os objetos e os fenômenos estão intimamente ligados entre si. nem a sociedade estão em repouso. buscar alguns motivos pelos quais as pessoas se alienam. transferência de domínio de algo. coeso. dependentes uns dos outros. elas estão sempre em mudanças. arrombamento de espírito. A alienação trata-se do mistério de ser ou não ser. A Dialética tem três características: A primeira é que tudo se relaciona – lei da ação recíproca: a natureza é um todo unido. o que morre e o que nasce. um passado e um futuro. e condicionando-se reciprocamente. e assim. o que parece o que evolui. é movimento. Mas a consciência que os homens têm dessa relação é falsa. Realidade e natureza é processo. pois uma pessoa alienada carece de si mesmo. Um exemplo típico é que com o estudante de Sociologia há uma luta entre a sua falta de conhecimento sociológico e a vontade de saber. são 33 . Ainda assim. A palavra alienação tem várias definições: cessão de bens. defraudada. perturbação mental. A segunda característica é que tudo se transforma desenvolvimento incessante: nem a natureza. e sempre em relação.recíproca e as decorrentes modificações mútuas. a terceira característica é a luta dos contrários – contradição: tudo tem um lado positivo e um negativo. traçam-se algumas diretrizes para melhor analisar o que é a alienação. existe o velho e o novo. As idéias. A partir desses significados. Essa teoria é para mostrar que a sociedade humana é produto de uma luta entre nossos ancestrais e a natureza cujo conteúdo dessa luta foi e continua sendo o trabalho. tornando-se sua própria negação. ao intercâmbio econômico entre os homens. As Formas de Consciências Marx se propõe explicar que a consciência está ligada às condições materiais da vida. loucura. na qual se registra uma anulação da personalidade individual. abstraídas de processos sócio-econômicos concretos. o que aparece e desaparece. as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas. o desenvolvimento. os processos alienantes da vida humana foram tratados de maneira atemporal.

como se estivessem se comportando segunda a sua própria vontade. No modo de produção capitalista. alienando a consciência humana e mascarando a realidade. orientado para suas ações sociais e. Essas representações implicam. A realidade cotidiana só lhe ensinou que tem de trabalhar e receber seu salário para viver. essa opressão dá-se de forma dissimulada. 34 . Ideologia é um termo usado no senso comum contendo o sentido de "conjunto de idéias. num primeiro momento. no sistema capitalista. ele é compreendido como algo que não pertence a este ser humano. que seria a base da exploração no sistema capitalista. em uma falsa consciência. pode ser considerada um instrumento de dominação que age através do convencimento (e não da força). Como consequência. adquirindo uma falsa consciência do mundo em que vive. e nessa relação ocorre a mais-valia. A ideologia. cresce e morre. a outra parte é apropriada pelo capitalista. o proprietário dos meios de produção compra força de trabalho da classe trabalhadora. as idéias dominantes são as idéias da classe dominante. o patrão não remunera todo o trabalho realizado pelo operário. e aí o indivíduo torna-se alienado. segundo Karl Marx. A percepção da aparência e o entendimento de suas conseqüências para cada um ficam bloqueados pelo modo como os indivíduos adquirem consciência do mundo social em que nasce. de forma prescritiva. no capitalismo Mais-valia é o nome dado por Karl Marx à diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago ao trabalhador. Se a exploração econômica e a opressão política do homem pelo homem sempre houve em todas as sociedades. ou seja. doutrinas e visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo. de normas e de regras que obrigam os homens a comportarem-se segundo a vontade do sistema. pensamentos. políticas". principalmente. a ponto tal que a classe trabalhadora pensa com a cabeça da classe dominante. uma consciência invertida. ou seja. porque o processo histórico real é ocultado pela ideologia. por um sistema ordenado de idéias e concepções. mas apenas parte dele. o trabalho alienado e a dominação de uma classe sobre outra é visto como algo natural.apenas aparências. Se o trabalho sempre foi o meio através do qual o homem se relacionou com a natureza para retirar o seu sustento. ou seja.

Desenvolveu estudos de Direito. a 35 . Weber tem como preocupação central compreender o indivíduo e suas ações. diversos dos da França e Inglaterra na mesma época. e sem Estado. constantemente interrompidos por uma doença que o acompanhou por toda a vida. e aí se abre uma época de revolução social e política. pôde trazer uma nova visão que não descendia nem de ideais políticos. Sombart. Herdeiro de uma tradição filosófica diferente e vivendo os problemas da Alemanha. Max Weber (1964 – 1920) O Comunismo é uma ideologia e um sistema econômico que tem por objetivo a criação de uma sociedade sem classes. baseada na propriedade comum dos meios de produção. sob tal sistema. sem a alienação. e A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Foi na cidade de Erfurt que nasceu Max Weber. Artigos Reunidos de Teoria da Ciência.Marx e Engels achavam que chegaria o momento em que as forças produtivas entrariam em contradição. foi catedrático em Heidelberg. Na política. estabelecendo relações entre formações políticas e crenças religiosas.2. Segundo ele. nem de racionalismo positivista de origem anglo-francesa. como Simmel. História e Sociologia. e participou da comissão redatora da Constituição da República de Weimar. em 1895. Diferentemente de Durkheim. Filosofia. Tõnnies e Georg Lukács. Iniciou a carreira de professor em Berlim e. sem exploradores e inexplorados. o Estado não teria necessidade de existir e seria extinto. Suas principais obras foram: Artigos Reunidos de Sociologia da Religião. Economia e Sociedade (obra póstuma).3 Weber e o Compreensivismo Weber teve uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da Sociologia. numa família de burgueses liberais. com a consequente abolição da propriedade privada. defendeu ardorosamente seus pontos de vista liberais e parlamentaristas. fazendo com que surgisse outro tipo de sociedade. Morreu em Munique 2. Seria o comunismo. sem ideologia. Sua maior influência nos ramos especializados da Sociologia foi no estudo das religiões. sem classes sociais. Manteve contato permanente com intelectuais de sua época.

a família) são o desenvolvimento e entrelaçamento de ações específicas de pessoas individuais. ou seja. e a única maneira de estudar AÇÃO SOCIAL – È toda ação que o indivíduo desenvolve quando leva em consideração os outros indivíduos. tais como o dever. a beleza. esse objeto é tendo a compreensão de como se desenvolvem essas ações. São os valores que estão impregnados na sociedade. Já Weber diz que a sociedade é formada por indivíduos. relacionando-se reciprocamente. a igreja. o indivíduo pensa antes de agir em uma situação dada. a saber: . não é algo externo acima das pessoas. e para se compreender como se encadeia esse entrelaçamento de ações. . O ponto de partida é a ação social. ao analisar o modo como os indivíduos agem e. 36 . a piedade ou a transcendência de uma causa. que na sua individualidade se relacionam com seus pares. Durkheim afirmava que o indivíduo é produto da sociedade. a sociedade já existe e vai nos moldar através de um processo educacional chamado de socialização. levando em conta a maneira como eles orientam suas ações. Quando nós nascemos. As representações (Estado. as ações humanas.Ação social racional com relação a fins: nesse tipo de ação. a sabedoria. a dignidade.Ação social racional com relação a valores: fundamenta-se em convicções. Weber.sociedade existe concretamente. agrupou as ações individuais em quatro grandes tipos. é sim. O objeto das Ciências Sociais é decifrar o sentido da ação social. ele calcula os custos e benefícios que terá realizando ou não a ação. o conjunto das ações individuais. Weber desenvolveu o conceito de ação social para estruturar a Sociologia como uma ciência compreensiva. formando a sociedade.

servem apenas como referência pelos sociólogos para analisar a realidade social. Na ciência. Mas o método de Weber consiste em isolar esses tipos “puros” de comportamentos. ou seja.Ação tradicional: tem por base os costumes arraigados. Na F. à medida que você compara. O primeiro passo é construir um tipo ideal “puro” (o tipo é uma construção mental. O que importa nesta ação é dar vazão às paixões momentâneas. que não existem. discordando. reagindo a estímulos habituais. a partir de vários exemplos históricos. da noção de idéias inatas. o empirismo é normalmente utilizado quando falamos no método científico tradicional (que é originário do empirismo filosófico). revelando-se em seu caráter mais complexo. a tradição familiar ou um hábito. No quarto passo. No segundo passo. compare o mundo social empírico com o tipo ideal que você construiu na sua mente. Para isso. Ele é um exagero de perfeição que jamais será encontrado na vida prática). . Empirismo é um movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras das idéias.Ação social afetiva: esta ação tem por fundamento os sentimentos de qualquer ordem. o qual defende que as teorias científicas devem ser baseadas na observação do mundo. feita na cabeça de investigadora. a realidade apresenta-se para você. selecione o aspecto a ser investigado no mundo social que o cerca. No terceiro passo.. Vamos compreender como funciona a metodologia de Weber. em vez da intuição ou fé. É um tipo de ação que se adota quase automaticamente. As razões se misturam. aproximando-se ou distanciando-se do tipo puro que você imaginou. temos de seguir alguns passos. esses tipos de ações sociais não aparecem separadamente. Reparem que no dia a dia. 37 . através da metodologia compreensivista. portanto.

Mittelfranken) foi uma criança abandonada. logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras. chegamos a um entendimento melhor do que seja a Sociologia chamada de Compreensiva. em Ansbach. ATIVIDADE 2 Neste capítulo. em Nuremberg.3 Sugestão de Filme Este filme é indicado para a compreensão sobre socialização na discussão apresentada por Durkheim Kaspar Hauser (provável 30 de Abril de 1812 – 17 de dezembro de 1833.É assim que a ação social com relação a fins serve – para que se possa avaliar o alcance daquilo que é irracional. envolta em mistério. 2. examinamos conceitos utilizados por diferentes autores na análise da relação dos indivíduos na sociedade: classe social (Marx). não tendo contato verbal com nenhuma outra pessoa. Então. consciência coletiva e anomia (Durkheim). que é aquela que se refere à análise de comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros. ação social (Weber). encontrada na praça Unschlittplatz. fato esse que o impediu de adquirir uma língua. com alegadas ligações com a família real de Baden. e com o seu posterior contato 38 . Qual desses conceitos poderia nos ajudar na interpretação do comportamento de nossa sociedade? Produza um texto e compartilhe com seus colegas. Alemanha do século XIX. Porém. VIDA Hauser passou os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela.

A exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala. o que teoricamente lhe proporcionou avanços consideráveis no campo da música. e a sua fama correu a Europa. ele pôde. 39 . "Cada um por si e Deus contra todos"). o que fazia. de 1974. "Jeder für sich und Gott gegen alle" (em língua portuguesa. ele havia sido destituído somente de uma língua. da Baviera. 180. já que aparentemente havia sido alimentado basicamente por pão e água. mas de uma série de conceitos e raciocínios. Hauser. ou autoria do crime jamais foram esclarecidas.000. por exemplo. Hauser foi assassinado com uma facada no peito. paulatinamente. tendo ficado conhecido à época como o "filho da Europa". com que Hauser não conseguisse diferenciar sonhos de realidade durante o período em que passou aprisionado. em 26 de maio de 1828. entre outros itens que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. oferecida pelo rei Luís I. nos jardins do palácio de Ansbach.00 Euros). Aprendeu a falar. lançado no Brasil com o título "O Enigma de Kaspar Hauser". que é um produto social da faculdade de linguagem.com a sociedade. da mesma maneira que uma criança o faz. em dezembro de 1833. foi deixado em uma praça pública de Nuremberg.000 Gulden (c. Hauser odiava comer carne e beber álcool. Afinal. supostamente com quinze anos de idade. a ler e a comportar-se. Obteve um desenvolvimento do lado direito do cérebro notadamente maior que o do esquerdo. A sua história foi representada no filme de Werner Herzog. não da própria faculdade em si. um pequeno livro de orações. As circunstâncias e motivações. com apenas uma carta endereçada a um capitão da cidade explicando parte de sua história. aprender a falar. apesar da recompensa de 10. Entre as idiossincracias originadas pelos seus anos de solidão.

40 .

1 Educação em Marx 3.3 Educação em Weber Atividade 3 MARXISTA.3 A EDUCAÇÃO NA PERSPECTIVA DURKHEIMIANA E WEBERIANA 3.2 Educação em Durkheim 3. 42 42 44 45 47 41 .

42 . foi necessário passar pelo seu modo de compreender a sociedade. Entretanto. segundo Marx.3 A EDUCAÇÃO NA PERSPECTIVA MARXISTA. antes de fazer algumas considerações sobre educação. É por isso que. O tripé básico da educação para todos é o ensino intelectual (cultura geral). a questão educacional encontra-se inevitavelmente enredada em sua obra. visto que a desigualdade social é concreta e inequívoca. Existem alguns textos que Max. um elemento de manutenção da hierarquia social. Observamos que sua principal preocupação fora o estudo das relações sócio-econômicas e políticas e o seu desenvolvimento no processo histórico.1 A educação em Marx O tema da educação não ocupou o lugar central na obra de Marx. muito menos princípios metodológicos e diretrizes para o processo ensino-aprendizagem. A esta integração eles designam ensino politécnico ou formação ominilateral. Ele não formulou explicitamente uma teoria da educação. A igualdade política é algo meramente formal e não passa de uma ilusão. isto é. juntamente com Engels. DURKHEIMIANA E WEBERIANA 3. na sociedade capitalista é. A integração entre ensino e trabalho constitui-se na maneira de sair da alienação crescente. segundo Marx e Engels. No entanto. deve dar-se desde a infância. reunificando o homem com a sociedade. A educação. Por meio dessa educação omnilateral o ser humano desenvolver-se-á numa perspectiva abrangente. em todos os sentidos. redigiu sobre a formação e o ensino em que a concepção de educação está articulada com o horizonte das relações sócio-econômicas daquela época. uma das possibilidades de viabilizar a superação das dicotomias existentes e da emancipação do ser humano reside na integração entre ensino e trabalho. Essa unidade.

Este é o potencial e o caráter revolucionário da educação. que são fundamentalmente conservadoras. Por isso. Logo. visto que a sua proposta recupera o sentido do trabalho enquanto atividade vital em que o homem humaniza-se sempre mais. A obra desses autores constitui uma crítica fundamental à concepção da burguesia sobre o ser humano e a educação. não conquista sua consciência de classe. Seria necessário que. que a atividade intelectual à margem do trabalho físico conduz facilmente aos erros de um idealismo artificial e de uma abstração falsa. mas como processo de transformação dessa situação. 43 . dos educadores e intelectuais. O proletariado. estes pensadores opõem a concepção materialista. Às concepções metafísicas e idealistas. restrito de suas potencialidades. ao socializar os meios de produção. especializada e alienada.” Assim. sua consciência política. o ensino aparece como instrumento para o conhecimento e também para a transformação da sociedade e do mundo. a nova forma de organização industrial encontrasse homens preparados para desempenhar um trabalho que não fosse alienado. são decisivos para construção da consciência de classe do trabalhador. parcial. “O novo homem comunista deveria ser educado de tal modo que ele pudesse de fato superar a divisão do trabalho que o dominara sob o capitalismo. por si só. há a necessidade de um processo educativo pautado em um projeto político e pedagógico definido e voltado aos interesses da grande maioria excluída. ao invés de alienar-se. e a educação é concebida não como instrumento de dominação e manutenção do status quo. a união entre os dois dá um caráter integral à educação e tomará o lugar da formação unilateral. Acreditamos que é extremamente pertinente a concepção educativa de Marx e Engels. Não seria suficiente a revolução política e o controle do poder do Estado pelos operários para socializar os meios de produção. os quais. justamente pelo fato de ter sido privado desde o início dos meios que lhe permitem consegui-lo. Aí é que surge o papel estratégico da escola. também. Marx e Engels não só indicaram frequentemente que o trabalho físico sem elementos espirituais destrói a natureza humana como. em nosso entender.desenvolvimento físico (ginástica e esportes) e aprendizado profissional polivalente (técnico e científico).

histórica e dialética, isto é, no interesse pelo ser humano real em carne e osso, por seus problemas enquanto vivem em sociedade, visando a uma transformação positiva e o humanizante. Esta concepção dialético-histórica do ser humano toma como premissa fundamental o fato de ele não ser um dado, mas é essencialmente um “construir-se”. Deste modo, a educação deve vir para corroborar essa construção que não é meramente teórica ou abstrata, mas real, prática.

Na

sociedade

capitalista

contemporânea,

a

educação

reproduz o sistema dominante tanto ideologicamente quanto nos níveis técnico e produtivo. Na concepção socialista, a educação assume um caráter dinâmico, transformador, tendo sempre o ser humano e sua dignidade como ponto de referência. Uma educação omnilateral é o que continua fazendo falta à nossa sociedade. O atual sistema educativo, sobretudo no Brasil, vem confirmando o que se diz sobre reprodução, exclusão e dominação.
Para Durkheim, a “educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não são encontradas ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, relacionados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio moral a que a criança, particularmente, se destine”.

3.2 Educação em Durkheim

Para Durkheim, a educação é essencialmente um processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Educação e socialização.

“É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos”, sentencia Durkheim, no seu livro Educação e Sociologia. Existem certos costumes, certas regras, que devem ser obrigatoriamente transmitidas no processo educacional, gostemos deles ou não. Se não fizermos isso, a sociedade vingar-se-á de nossos filhos, pois não estarão em condição de viver em meio aos outros, quando adultos. A cada momento histórico, acredita Durkheim, existe um tipo adequado de educação a ser transmitida. Idéias educacionais muito ultrapassadas ou muito à frente das do tempo, diz nosso sociólogo, não são boas porque não permitem que
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o indivíduo educado tenha uma vida normal, harmônica com seus contemporâneos.

Mas se, como dissemos antes, as sociedades modernas são muito diferenciadas, devido à divisão do trabalho social, como seria possível um único tipo adequado de educação para todos? Ora, não seria possível. Para Durkheim, a educação adequada é educação própria ao meio moral que cada um compartilha. Nas sociedades complexas existem muitos meios morais, conforme a divisão em classes, em castas, em grupos, em profissões etc. Assim, não existe uma educação única para que todos aprendam a ser membros da sociedade. Você aprende a ser um membro da sua classe, no seu grupo, de sua casta, de sua profissão, enfim, no seu meio moral. Este é o modo específico, particular, pelo qual você se torna membro da sociedade. Isto não é algo que esteja disponível em sua abrangência total para todas as pessoas. Socializar-se é aprender a ser membro da sociedade, e aprender a ser membro da sociedade é aprender seu devido lugar nela. Só assim é possível preservar a sociedade. Preservá-la inclusive de sua própria diferenciação.

É isso que nos permite viver em sociedade; é isso que permite que a sociedade viva em nós; e é isso que permite à sociedade continuar viva: sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Só a educação pela qual passamos é capaz de fazer assim. E é por isso que educação é um processo social.

3.3 A Educação em Weber

Segundo Weber, a história humana é um processo crescente de racionalização da vida, ou seja, é o abandono de concepções mágicas e tradicionais que justificavam o comportamento dos homens.

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Para ele, o que constitui a sociedade é a ação e a interação dos indivíduos. Quanto mais complexas forem as sociedades, mais conflitivas tendem a ser as interações entre indivíduos e grupos, uma vez que maiores serão as constelações de interesses. Então, o
Enquanto que Marx via na educação a possibilidade de romper com a escravidão do ser humano, Weber vê na educação a possibilidade de desenvolver o talento do ser humano, em nome da preparação para obtenção de poder e dinheiro.

Estado veio para regular o conflito através da dominação de uns sobre os outros.

O exercício da autoridade do Estado depende de um quadro administrativo, hierarquizado e profissional que se caracteriza pela existência de uma burocracia. Nesse sentido é que a educação é o modo pelo qual determinados tipos de homens são preparados para exercer as funções de racionalização.

Segundo Weber, a educação sistemática passou a ser um pacote de conteúdos e de disposições voltados para o treinamento de indivíduos que tivesse de fato condições de operar essas novas funções, de “pilotar” o Estado, as empresas e a própria política, de um modo racional.

A racionalização e a burocratização alteraram radicalmente o modo de educar. Então, a burocracia estatal e a empresa capitalista precisam de profissionais para isto.

A educação, para Weber, não é mais, então, a preparação para que o membro do todo orgânico aprenda a sua parte do comportamento harmônico do organismo social, como propôs do Durkheim. Nem é, tampouco, vista com possibilidades de emancipação com base na ruptura com a alienação, como propôs Marx. Ela passa a ser, na medida em que a sociedade se racionaliza historicamente, o fator de estratificação social, um meio de distinção, de obtenção de honras, de prebendas, de poder e de dinheiro. Weber vê a educação dirigida três tipos de finalidades: a de despertar o carisma, preparar uma conduta de vida e transmitir conhecimentos especializados. As duas primeiras fogem à nossa
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racionalização. Com a racionalização da vida social e a crescente burocratização do aparato público de dominação política e das grandes corporações capitalistas privada. a educação passa a ter a finalidade de um preparo especial com o objetivo de tornar o indivíduo um perito. 47 . por ser a racional. comente no fórum a sua visão de educação. torna-se a pedagogia do treinamento. ATIVIDADE 3 Com base na visão dos autores sobre o papel da educação. a terceira. portanto. destacando a sua preferência em uma das análises anteriores.

48 .

6 A Escola como Espaço Sócio-Cultural 4.4 A COMPREENSÃO DA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA EDUCAÇÃO NUMA 50 50 4.5 Explicações Sociológicas para Brasileiro e seus Reflexos na Educação Atividade 4 4.7 Referência Bibliográfica o Contexto 72 87 94 128 49 .2 A Sociologia da Educação: Entre o Funcionalismo e 55 o Pós-modernismo 4.1 Para que Estudar Sociologia da Educação 4.4 Educação como Processo Socializador: Função 67 Diferenciadora e Função Homogeneizadora 4.3 A Função da Escola na Sociedade Capitalista 63 4.

Durkheim via na disciplina Sociologia da Educação a ciência destinada aos futuros professores. Durkheim era um erudito e militante da educação. desarmados de dogmas religiosos. isso porque a moral existente na época era impregnada de dogmas religiosos. uma forma de proceder a uma análise objetiva do sistema de ensino. francês Èmille Durkheim foi o primeiro a formular este questionamento há mais de um século. Isso para se obter dois resultados: primeiro. assim como a neutralidade do Estado em matéria religiosa. e esses dogmas não mostravam a realidade de forma objetiva e racional. seus conteúdos.1 Para que Estudar Sociologia da Educação? No artigo “Sociologia da Educação: para quê?” O autor Cristian Baudelot faz um questionamento: é útil ou inútil ensinar Sociologia da Educação aos futuros professores? O sociólogo O laicismo é uma doutrina filosófica que defende e promove a separação do Estado das igrejas e comunidades religiosas. ele via na educação o principal mecanismo de socialização dos jovens. sua história. embasando os professores de conhecimentos sobre os sistemas de ensino para que eles mesmos possam transformá-los. Ele tinha um interesse enorme pela educação por dois motivos: como intelectual que era. sabendo o que estão fazendo. racionalista e sociológica. Mas Durkheim sabia que isso não seria tarefa fácil 50 . E uma moral laica. suas funções. ele também tinha interesse em desenvolver uma moral laica. A partir dessa nova visão da realidade social. ao entender a sociedade cientificamente.4 A COMPREENSÃO DA EDUCAÇÃO NUMA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA 4. Não deve ser confundida com o ateísmo de Estado. na objetividade dos fatos. como preconizava Durkheim. para que se tenha uma nova opinião que não seja uma inculcada de cima para baixo. seus ideais. a sociedade passaria a ter uma nova fé. manter a educação moral na educação primária. a fé na racionalidade. sem questionamentos. E a essa pergunta ele deu respostas teóricas e práticas.

faz necessário levantar o seguinte questionamento: os conhecimentos sociológicos da educação levaram a alguma transformação no funcionamento escolar? Todos esses conhecimentos sociológicos dos últimos anos mudaram algo 51 . professores bem preparados teriam esse papel de conscientização. Afinal de contas. os diferentes resultados escolares. A Sociologia da Educação seria a disciplina que deveria introduzir no desenvolvimento da sociedade uma alta consciência de si através da educação.para a Sociologia da Educação. Estes alunos que ocuparão postos diferenciados serão justificados por alguns autores como consequência da natureza humana como dom e o mérito. diferente da Sociologia durkheimiana. devido à lei da reprodução da sociedade. as diferenças sociais. outros acham que é normal essa desigualdade social. Então. a Sociologia da Educação adormeceu um bom período. Daí a utilidade do ensino da Sociologia da Educação aos futuros professores. Essa nova Sociologia analisa o público escolar que vem de origens diferentes e que ocuparão postos diferentes na divisão social do trabalho. vê os estudantes como o centro das análises: suas origens de classes. E fazer o inverso não seria tarefa fácil. a realidade já existe. Mas segundo Cristian Baudelot. votando a renascer nos anos 60. porque ele conhecia a resistência que oferecia a realidade social. Mas todos percebem a diferenciação sócio-profissional. A Sociologia moderna. com a pesquisa de alguns sociólogos na área da educação. e essa realidade vai atuar sobre o individuo. quando as pessoas nascem. Legitimidade de um Balanço Diante dessa realidade.

um filho de operário tinha 10 vezes mais possibilidades de repetir seu primeiro ano primário do que um filho ou filha de um médio. ele nos convida a fazer uma abordagem. e apenas 18% eram filhas de operárias. Afinal de contas. nem aceso de ensino de qualidade para todos. Então. o acesso dado é ao ensino superior. oito eram mulheres. as informações mostradas anteriormente mostram 52 . A Sociologia da Educação não serve para nada. Os diplomas são compatíveis com os empregos: ensino curto – operário ensino superior – funções de melhor status. fazendo referência às diferenças de classes. e aos filhos da classe média e alta. Porque esse acesso é aos diferentes diplomas para crianças de diferentes classes sociais: filhos de operários e camponeses têm acesso a certificados primários e de habilidades profissionais. Então. o restante eram filhas de classe média e alta. de cada dez professores. pois não conseguiu vencer as desigualdades sociais que combate? Seria melhor substituí-la por outras disciplinas. em 1979-80. Mas isso não é a democratização do acesso ao ensino. a generalização da escolarização e a tendência de elevar o número de diplomas não significam democratização do ensino. Para isso.na escola. a difusão de uma Sociologia da Educação de esquerda contra a perpetuação das desigualdades sociais pela escola não modificou o sistema educacional. que estuda cientificamente a sociedade é combater as desigualdades sociais? Então o autor argumenta que é em função desse balanço que saberemos se é o útil ou não ensinar Sociologia da Educação aos futuros professores. A abordagem remete à percepção de que a escolarização obrigatória ampliou-se: há mais pessoas com diplomas certificados de estudo em todos os níveis. A mudança quanto aos professores foi a feminização: de 1950 a 1975. uma vez que a ética de todo sociólogo.

o exército industrial de reserva. 80%. eis aqui as verdadeiras causas que permitem explicar a estrutura e o funcionamento da escola capitalista. E quem é capaz de contribuir para elucidar essas funções sociais é a Sociologia da Educação. Temos uma realidade na sociedade capitalista: 20% dos trabalhadores são trabalhadores intelectuais. Dentro da sociedade capitalista. a separação crescente do trabalho intelectual e trabalho manual. e a grande maioria. são de indivíduos pouco qualificados. Esse balanço negativo não deve nos levar ao desanimo. a desqualificação do trabalho. terá melhor poder econômico. porque só em reconhecer esse fracasso já é uma lição de Sociologia para a ação. Pois a realidade escolar não se muda pela boa vontade dos professores. e quem têm acesso às grandes escolas. nem por decretos de governos. o problema são as funções sociais do sistema escolar da sociedade burguesa. a exploração dos trabalhadores. A divisão capitalista do trabalho.que quem tem poder econômico tem acesso às melhores escolas. A realidade é mais complexa. É a organização capitalista que separa as crianças em duas vias de escolarização: uma destinada aos filhos membros da classe 53 . o temor do desemprego. a extorsão da mais-valia. e temos de perceber como se encadeia essa complexidade. A escola capitalista divide as crianças porque a divisão capitalista do trabalho exige que trabalhadores intelectuais sejam separados dos trabalhadores manuais.

3/4 são empregados ditos das classes subalternas. em produzir para o mercado de trabalho séries de mão-deobra mais ou menos qualificada. INSEE (Francês: Institut National de la Statistique et des Études Économiques) é o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos. a realidade. Esta é. com todo seu peso. o restante são empregos e quadro. Ele coleta e publica informações da economia e sociedade francesas. como fim. O professor deveria ser o elucidador dessa trama social que é costurada. É melhor reconhecer essa divisão do que negá-la.trabalhadora. porque também concorre dentro do sistema de produção capitalista. Temos uma polarização das qualificações: por um lado. que formará 20% dos quadros. Consiste. sendo semelhante ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (do Brasil) e ao Instituto Nacional de Estatística (de Portugal). realizando periodicamente o censo da nação. por outro. e a segunda via é a primário-profissional. e a outra destinada aos filhos membros da classe dominante. Temos aí duas vias de escolarização: a primeira é a via secundário-superior. É a estrutura do mercado de trabalho o que pesa sobre a escola. E contra essa divisão o professor não pode fazer nada. A função real da escola não tem. que absorverá os 80% restantes. Os números de uma pesquisa do INSEE mostram que dos jovens que entram no mercado de trabalho. postos destinados a indivíduos que receberam uma longa formação escolar. isto é um sonho abstrato de psicólogo. Somente a Sociologia da Educação permite aos professores distinguir entre o que depende deles e o que não depende. até o ponto de imprimir-lhe sua forma. pelo contrário. Está localizado em Paris. Ela só desaparecerá com a destruição das relações capitalistas de produção. em absoluto. entretanto. e tem de ser encarada. 54 . Mas ele também é vítima. desenvolver harmoniosamente o indivíduo ou desenvolver suas qualidades pessoais. no sentido de reproduzir uma sociedade de classes. postos que não exigem qualificação.

filósofos. historiadores etc. O sociólogo da educação é quem tem essa visão ampla da realidade social e escolar. os professores de Sociologia da Educação têm de estar preparados em suas áreas. A melhor forma de melhorar a formação dos mais abandonados seria a democratização do ensino. E na nossa realidade muitos dos professores de Sociologia são pedagogos. da construção de uma educação popular de massa. os objetos de estudo são objetivos. O autor afirma que em um colégio da França. o professor de Sociologia do Esporte é um esportista. são profissionais que não têm o embasamento teórico necessário para ministrar tal disciplina.A educação popular de massa propaga o discurso de que somos todos iguais e que a educação tem de ser igual para todos. à medida que é pregada a igualdade. já na Sociologia. a sociedade reproduz a desigualdade. No campo das ciências naturais. Todos têm de ter a mesma educação na via primário-profissional. a objetividade ganha ares de 55 . no curso Educação Física. pois é comum encontrar professores de Sociologia da Educação sem a preparação adequada para tal fim. ou seja. Democratizar ensino é pôr a escola à serviço do povo. 4. Não há necessidade ou vontade. Mas. pois só assim a desigualdade é reproduzida. Sociólogos da Educação. com todo produto que é reservado também aos intelectuais. é importante ensinar aos futuros a serem. E para ter essa sensibilidade intelectual com relação à escola e seu papel na sociedade capitalista. Então. por parte do sistema.2 A Sociologia da Educação: entre Funcionalismo e o Pósmodernismo O campo da Sociologia é bastante fluido. teólogos. eles próprios.. daí a dificuldade de se fazer Sociologia.

Temos como autores 56 . Mas existem setores no campo da Sociologia da Educação mais preocupados com processos sociais produzidos em nível das pequenas unidades. Isso mostra como é difícil falar de uma Sociologia da Educação. que é a perspectiva crítica. principalmente no Brasil. Um exemplo disso é a produção da desigualdade via escolarização. A Sociologia da Educação de hoje é tão crítica. não podemos dizer que existe somente uma Sociologia ou se existem várias Sociologias. O grande tema da Sociologia da Educação é o dos mecanismos pelos quais a escola contribuiu para a produção e a reprodução de uma sociedade de classes. as orientações políticas são tão grandes que é mais correto falarmos de Sociologias da Educação. Vamos falar da Sociologia da Educação que se tornou dominante. Mesmo assim. ou seja.subjetividade. que é difícil pensar que nem sempre foi assim. uma Sociologia da Educação extremamente crítica com relação à ordem existente. baseada em alguns modelos marxistas e uma outra inspirada no modelo funcionalista de pesquisas empíricas. ainda hoje. pensa-se imediatamente nos estudos das grandes relações entre processos sociais amplos e resultados amplos dos processos educacionais. a mais discutida pelos autores desta disciplina. Movendo-se no Campo: As Referências Principais. É o caso do estudo da sala de aula. E em se tratando de educação. as referências teóricas. convive. Quando se fala de Sociologia da Educação. A diferença entre os temas. lado a lado.

Althusser. encarregada de fornecer as condições ideológicas ideais para o processo de acumulação capitalista. Nos estudos de inspiração marxista (Althusser. A Divisão Capitalista do Trabalho: O Ponto de Partida e o Ponto de Chegada. Vamos tentar. em conjunção com a divisão entre trabalho intelectual e manual. o papel da escola é preparar tecnicamente e subjetivamente as diferentes classes sociais para ocuparem os seus devidos lugares. Baudelot e Estabelt. Nessa forma de análise. E o que os diferencia são os ensaios como os de Althusser. 57 . o problema a ser explicado é a divisão da sociedade entre proprietários e não-proprietários. Althusser teoriza a respeito do papel do Estado na reprodução das classes sociais através dos aparelhos ideológicos do Estado. Bowles e Gintis. E aí entra a escola. Bowles e Gintis. para os quais a divisão social decisiva é aquela entre as classes econômicas e para os quais o dever da escola é preparar as pessoas para os diferentes papéis do trabalho. Baudelot e Estabelt). O que esses autores têm em comum é que em seus estudos percebemos a contribuição da educação para a produção e reprodução das classes. a divisão social é medida por um processo de reprodução cultural. Bourdieu e Passeron. descrever os argumentos centrais de cada um desses estudos para mapear os principais temas da Sociologia da Educação. com ênfase para o papel da escola nesse processo. Já para Boudieu e Passeron. Baudelot e Stabelet. Bowles e Gintis. Michel Young. a partir de agora. e sua reprodução.

relata que os estudos desses autores têm deficiência. transmitido aos filhos por parte das famílias das classes média e alta. reproduzindo as classes sociais. porque eles partem da visão de que o sistema tem necessidade de produzir mão-de-obra com características técnicas. a escola não inculca valores e modos de pensamentos dominantes. Ela limita-se a usar o código de transmissão cultural de que apenas as crianças e jovens da classe dominante já foram iniciados no ambiente da família. Bourdieu e Passeron: Os Processos Culturais em Evidência. Tomás Tadeu da Silva. o sistema escolar é dividido em canais separados e incomunicáveis. A ênfase é ao de transmissão do capital cultural. Para Bourdieu e Passeron. que agem através dos currículos diferenciados. é a vivência de um contexto escolar que se constitui na imagem do contexto do local de trabalho. sistema assim o exige. a escola só funciona assim porque o Bourdieu e Passerom atribuem ao capital cultural. Então. e que dada vivência produz o tipo de personalidade adequada às divisões existentes. Para Bowles e Gintis. autor do ensaio “O que Produz e o que Reproduz em Educação”. e de uma população dócil. o sucesso escolar e profissional.Para Baudelot e Estabelt. Daí a necessidade da escola para produzir esses resultados. 58 . A escola permite a continuação no jogo da cultura e confirma a exclusão dos filhos dos pais das classes subordinadas.

a estratificação do conhecimento escolar. organizada por Michel Young. uma das promessas da nova Sociologia da Educação. tendo pouca repercussão no Brasil. a da análise pela qual as disciplinas escolares vieram a se constituir objeto de análises sociológicas. O tema central gira em torno do papel da educação na produção e reprodução de uma sociedade de classes. Ironicamente. 59 . a problemática central continua a mesma e os temas preferidos são os mesmos. na Inglaterra. Uma importante tarefa parece ser realizada por uma história das disciplinas. mas sim. A Nova Sociologia da Educação. Como é que o conhecimento foi estratificado? Qual a hierarquia entre as diferentes disciplinas? Como essa hierarquia veio a ser estabelecida? Através de qual luta e negociação? A nova Sociologia da Educação não tem como tema central a estratificação social. O Legado dos Fundadores e os Temas Centrais Hoje Apesar do desenvolvimento da Sociologia da Educação nesses 20 anos. Ela põe em questão o processo pelo qual um determinado tipo de conhecimento veio a ser considerado como digno de ser transmitido via escola. Ela coloca no centro das análises sociológicas da educação a problemática dos currículos escolares. não chegou a ser cumprida.A Problematização do Conhecimento Escolar. em 1971. depois se estendeu aos EUA e França.

No que diz respeito ao segundo tema. • Na contribuição da escola para a reprodução da divisão social do trabalho. • Na estreita relação entre os processos de reprodução cultural e de reprodução social. onde levaram em conta a educação como sendo aparelho do Estado. • Na natureza do Estado capitalista e de sua participação na estrutura central. • A das complexas relações entre ideologias e cultura. • Na contribuição decisiva da organização da distribuição do conhecimento escolar no processo de construção das desigualdades educacionais. Bowles. • A da questão das relações de gênero e raça. • A da conexão entre os níveis micro e macro sociológico. Muitas das temáticas introduzidas pelos fundadores permanecem pouco desenvolvidas. Com relação ao primeiro tema. na institucionalização e continuação de um sistema educacional que mantém uma relação estreita com as exigências da produção capitalista. • A das relações entre a divisão social do trabalho e a educação. 60 . Gintis e Altusser fizeram um esboço da Teoria do Estado.Esse grande tema se desdobra: • Nos temas do papel da ideologia nesse processo. durante muito tempo foi negligenciado um estudo minucioso do cotidiano das escolas e das salas de aulas. Por exemplo: • A da relação entre uma teoria do Estado e a educação.

e nas classes populares. Sobre ideologia e cultura. um grupo de adolescentes masculinos. tem-se observado nestes últimos anos uma tentativa de encontrar ideologia em tudo dentro da educação: a ideologia do livro didático. a conexão entre ideologia e cultura tem sido aproveitada. a ideologia nos currículos escolares. das relações sociais existentes. consequência.Hoje. a ideologia das políticas educacionais. muitos sociólogos da educação vêm tentando selecionar certos eventos de uma sala de aula e tentar fazer uma ligação com processos. mas de forma decisiva. é cultura. 61 . O resultado final é a reprodução da classe operária como classe operária e como A crítica a William reside no erro em tentar reduzir um processo amplo e complexo aos detalhes isolados de um evento qualquer da vida cotidiana. originários da classe operária e concluindo um ciclo de educação secundário. Ele tentou fazer uma conexão entre o micro e o macro. seu próprio encaminhamento para o trabalho manual. Uma dessas temáticas foi realizada: é a de Willian (1991). determinava. através da rejeição dos valores escolares e do trabalho mental. mas muito pouco no campo da educação. A educação aparece como local apropriado para a preparação técnica da força de trabalho para a produção capitalista. O que se tem discutido é que a ideologia é da classe dominante. como o da permanência da estratificação social. procurando mostrar como involuntariamente. Nas Ciências Sociais. Outra temática discutida foi a da relação entre educação e trabalho. a ideologia nas mensagens e nos atos dos professores etc.

Anuncia-se o fim da modernidade e agora tem-se a pósmodernidade. Isso porque não querem se centrar na natureza do trabalho capitalista. E no Brasil. e em parte alguma. porque agora não há nada perverso no capitalismo. O Fim da História. predomina uma nova direita (neoliberal). No Pós-modernismo o eixo da dinâmica social está em toda parte. Um dado evidente é que a educação no Brasil é feita.A natureza precisa de conexão entre a divisão social do trabalho para que haja uma “quase” perfeita organização da produção da vida material. por mulheres. Há uma crise nas Ciências Sociais e nos métodos de análise tradicionais. o Pós-modernismo e a Sociologia da Educação. triunfou o capitalismo. a organização da educação tem sido deixada de lado. E nesse processo de conexão da divisão social do trabalho. esse tema tem tido pouca importância. Outro tema central da Sociologia da Educação são as relações de raça e gênero. O modelo crítico da Sociologia da Educação sobre os aspectos da educação capitalista e a perversa organização da economia capitalista foram errados. 62 . e a Sociologia da Educação não poderia ter ficado fora desta suposta crise. Com a derrocada dos regimes do leste europeu. No Brasil. na sua maioria.

Dois pesquisadores franceses – Establet & Baudelot chegaram à conclusão de que existem duas redes de escolarização na França: uma destinada aos filhos dos membros da classe empresarial e outra destinada aos filhos dos membros da classe trabalhadora. Conseguem terminar o curso secundário e ingressar 63 . mais tempo e recurso para estudarem frequentam outras atividades que complementam a formação e educação escolar. música. a escola tem aparecido como a instituição mais eficiente quando se trata de segregar as pessoas. participam de cursos de língua estrangeiras. jogos. dança. É hora de desamarrar os nós mistificadores da onda neoliberal e da onda pósmodernista. 4.O Neoliberalismo Triunfante Como fica a Sociologia da Educação nessa encruzilhada? É talvez a hora de reafirmar-se a sua vocação crítica. ela está apenas começando. Esse novo véu ideológico apenas demonstra que a tarefa da Sociologia da Educação está longe de ser esgotada. denunciando a mistificação representada pela voga liberal. que trata todos os alunos da mesma forma e onde se elaboram o conhecimento e os valores. É hora da Sociologia da Educação reafirmar sua vocação crítica. Os filhos da classe empresarial têm acesso às melhores escolas. vão ao teatro.3 A Função da Escola na Sociedade Capitalista Nas teorias estudadas até agora pela Sociologia da Educação. Ela aparece como instituição única.

no discurso do professor ou nos seus gestos. apresentando-se ideologia. embora a ideologia tente mostrar que é o mesmo: a classe empresarial recebe uma escolarização que lhe permite obter conhecimentos necessários para o exercício de classe dirigente. a frequentar cursos noturnos. a linguagem é. nos programas de ensino. sem recursos. muito semelhante da que aparece na vida da classe 64 . Ela vê-se. o processo de escolarização é diferenciado para cada uma das classes sociais. São excluídos dos cursos superiores. Nesse processo. a classe trabalhadora passa por uma rede de escolarização que lhe possibilita apenas exercer um trabalho disciplinado dentro de sua condição de classe dirigida. que trazem retorno financeiro que lhes mantém na condição de classe dominante. Já os filhos da classe trabalhadora. Elas coexistem de forma dissimulada. a instituição linguagem aparece como principal fator de segregação social. nas regras de convivência ou em normas disciplinares. São alunos que mal conseguem terminar o primário e lutam para conseguir alguma vaga em um curso profissionalizante. sem nenhum curso de complementação ou aperfeiçoamento. como por exemplo. são obrigados a contentar-se com as piores escolas. têm uma longa jornada de trabalho. Essa diferença na escolarização das duas classes sociais não aparece de forma clara. pois ela não é única.em boas faculdades e cursam os melhores cursos. na visão dos pesquisadores. universal. oferecendo oportunidades a todos – e essa aparência ganha sustentação na Em resumo. nos conteúdos dos livros adotados. no muito. Dentro da escola. pode darse de vários modos na escola. não atingem as notas necessárias para entrar nas melhores faculdades e cursar os cursos que melhor trazem recursos financeiros. como sendo única.

A criança pobre encontra-se diante de uma maneira de falar ou agir do professor. Afirma-se constantemente que a criança pobre. é rompimento. Esse fato reflete-se no aprendizado dessas crianças. Para a criança da classe trabalhadora a escola não é o prolongamento da sua vida. na maioria dos casos. a criança encontra uma linguagem da burguesia.empresarial. mal 65 . pois a vive no cotidiano. pois a linguagem que a classe empresarial encontra na sala de aula é a mesma utilizada em família. Enquanto a criança da classe burguesa conhece essa linguagem. Neste sentido. de pobreza e sofrimento. a escola reproduz a desigualdade. diante de livros e conteúdos que não correspondem à sua vida cotidiana de trabalho. é outra realidade. Já com os filhos membros da classe trabalhadora ocorre o inverso. fica desmistificada a idéia. a segunda terá muita dificuldade. que não é sua. Muitas vezes a criança da classe trabalhadora não assimila os conhecimentos que a escola lhe transmite porque não entende a linguagem com que os conhecimentos lhes são transmitidos: a linguagem não tem ligação com o seu dia a dia. outro mundo difícil de ser interpretado. Sendo assim. que atribui à própria criança e à sua família as causas do fracasso escolar. Ao ingressar na escola. semelhantes ao que um pai de família de classe dominante fala ao filho. a criança pobre encontra-se diante de uma linguagem nova que terá de dominar com muito esforço e sacrifício. pois enquanto a primeira aprende com facilidade. Isso explica por que tantas crianças abandonam a escola depois de repetir a mesma série por mais de três anos consecutivos. muito comum atualmente. para a burguesia. Em resumo. semelhante aos livros encontrados em sua casa e até mesmo às regras de convivência nesta família. Aquilo que o professor diz ou faz. aquilo que aparece nos livros e as regras da escola são. por tratar com a mesma linguagem crianças de classes sociais diferentes. a escola é prolongamento da vida cotidiana.

através de sua linguagem. que a família desintegrada leva a criança a se desinteressar pela escola. Ela é conservadora na medida que o seu 66 . por isso. Geralmente o modelo de bom aluno que o professor tem em mente corresponde à criança que nunca pergunta. não é inteligente. o professor apresenta-se também como elemento de reprodução das desigualdades sociais. Isso se manifesta no fato de os professores aparecerem como os primeiros a aceitarem as normas escolares e as imporem aos alunos. A criança pobre não se esforça e não gosta do ensino e. não será capaz de vencer na vida. sutilmente. Na sala de aula a educação formal concretiza-se e nela o professor tem papel importante. numa palavra: o aluno autômato. não fica em pé na sala de aula. inocentase a escola e culpa-se o próprio aluno ou a sua família pelo fracasso escolar. na sociedade capitalista. uma vez que na sociedade capitalista ela está a serviço da classe dominante. através de suas próprias deficiências. Em segundo lugar. Em outras palavras. os professores disciplinam os seus alunos para que produzam na escola como se produzissem numa fábrica. submisso. reproduzindo a sociedade de classes. marginaliza a criança pobre. sempre aceita o que o professor diz. Mas é a escola que. Dentro dessa concepção. em função da recompensa-punição.alimentada. se a educação formal apresenta-se na sala de aula e se a instituição está a serviço da classe dominante. não conversa. não reclama. tem a função de reprodução da sociedade. a escola. Com isso. Enfim. pode-se concluir que o professor estará objetivamente a serviço dos detentores dos meios de produção.

a posição geográfica”. 1985). cada um tem sua forma de felicidade. 1985). ainda. (FORACCHI. Isso é possível? Não! Porque os homens têm ações diferenciadas. 1985). Segundo Kant. a função da educação é “fazer do indivíduo um instrumento de felicidades para si e para seus semelhantes” (FORACCHI. Essa resposta também é vaga. sobre a nossa inteligência ou sobre a nossa vontade. por coisas e instituições cujo fim próprio é inteiramente outro: pelas leis. por fatos físicos independentes da vontade do homem. Mas o que é perfeição? Perfeição é atingir o ideal supremo. a educação tem sido empregada como “um conjunto de influências que. tais como o clima. “o fim da educação é desenvolver em cada indivíduo toda a perfeição de que ele seria capaz” (FORACCHI. E da forma como está apenas uma pequena parcela da população vive em condições dignas de cidadão. e tudo aquilo que os outros planejam fazer com o fim de nos aproximar da perfeição de nossa natureza. uns existem para refletir e outros para a ação. Segundo James Mill.4 A Educação como Processo Socializador: Função Diferenciadora e Função Homogeneizadora Análise de Algumas Funções de Educação Segundo Durkheim. Em sua mais larga acepção.papel é manter a sociedade como está. na nossa sociedade. pelas artes industriais ou. compreende os mesmos efeitos indiretos produzidos sobre o caráter e sobre as faculdades do homem. Stuart Mill defende educação como “tudo aquilo que fazemos para nós mesmos. exercem os outros homens” (FORACCHI. 4. 1985). ou seja. porque a felicidade é uma coisa subjetiva. Se fosse dessa forma. 67 . formas de governo. o solo. somente uns atingiriam essa perfeição pelo fato de uma grande maioria não estar incluída entre os pensadores.

mais literário. hoje. Para entendermos os costumes. sustentação. eles considerassem a história. talvez. apaixonados pela glória militar. fazendo com que eles não vivam em harmonia com seus pares devido à diferenciação no processo de socialização. Por exemplo: na cidade grega a educação era para subordinar o indivíduo à coletividade. possui um sistema de educação que se impõe ao indivíduo de modo irresistível. apropriada a todos os homens. se antes de tentar definir essa educação. na Renascença a educação tinham um caráter mais leigo. e dele não podemos fugir. Porém. prudentes. já o encontramos pronto. em um determinado momento. era para formar homens de ação. perfeita. suas hipóteses. em Atenas a educação era para formar espíritos delicados. quando chegamos. E esse sistema de educação nos obriga a educar nossos filhos de acordo com os padrões culturais préestabelecidos. Se desrespeitarmos esses costumes. sutis. em Roma. É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. pois não fomos nós que o criamos. Porque na visão de Durkheim. temos de remontar ao passado e observá-lo para formular um conceito. Cada sociedade. teriam. era uma educação cristã. eles vingar-se-ão em nossos filhos. na Idade Média.O ponto fraco dessas definições é que elas partem do postulado de que há uma educação ideal. a educação esforçase em fazer do indivíduo uma personalidade autônoma. 68 . hoje a educação é para a ciência. a educação varia com o tempo e com o meio.

tendo como efeito a reprodução da sociedade. hoje. ou que tenham existido. crianças e adolescentes.Elementos que Durkheim Considera para Definir Educação Para definir educação temos de comparar os sistemas educativos que existem. jovens. O aspecto uno caracteriza-se pelo fato de ela ter uma base comum que é essa ação exercida pelos adultos sobre os imaturos. a educação dos patrícios era diferente da dos plebeus. A educação homogênea e igualitária só existiu nas sociedades pré-históricas. Esses caracteres constituíram a definição de educação. E que uma ação seja exercida pelos adultos sobre os não-adultos. a dos brâmanes não era a dos sudras. ou seja. É importante salientar que para que haja educação é necessário que haja uma geração de adultos e uma geração de nãoadultos. a educação varia com as classes sociais. a educação do pajem era diferente da do vilão. 69 . Na Idade Média. como também regionais. a educação varia de uma casta para outra. O aspecto múltiplo da educação dá-se pelo fato de haver diversas espécies de educação em determinada sociedade. Por exemplo: na sociedade de castas. e apreender deles os caracteres comuns. ou seja. A natureza dessa influência é que a educação apresenta duplo aspecto: de ser o uno e múltiplo.

qualidades físicas e tudo o que contribua para a saúde e o vigor do organismo.Partindo desses pressupostos. que tirou de seu próprio seio essas grandes forças morais diante das quais o homem sente a sua fraqueza e a sua inferioridade. tem por objeto suscitar e desenvolver. necessariamente. reclamados pela sociedade política no seu conjunto. Foi a própria sociedade. na medida de sua formação e consolidação. práticas. servidores de divindades ou de emblemas simbólicos da sociedade. então. Durkheim define educação como “ação exercida pelas gerações de adultos sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social. nos socializar. e pelo meio especial a que a criança. que nos leve a render-lhes culto. à Quem queria às ser submetido da espontaneamente autoridade política. certo número de estados físicos. (FORACCHI. conforme a definição precedente. particularmente. A educação agrega ao ser a-social que acaba de nascer uma natureza de vida moral e social. e o ser social que é constituído por crenças. se destine”. elas são transmitidas pela educação. nem o homem se submete espontaneamente. intelectuais e morais. a educação. adversidades sociedade? Não há em nossa natureza congênita uma predisposição a tornarmo-nos. O ser social não nasce com o homem. a nos privarmos em seu proveito ou em sua honra. tem por fim constituir o ser social em cada um de nós. como: adquirir inteligência. As múltiplas aptidões que a vida social supõe não podem organizar-se em nosso tecido. Mas há outras qualidades que o homem procura possuir espontaneamente. Então. 1985) Em cada um de nós existem dois seres: o ser social que é constituído de todos os estados mentais. e as opiniões coletivas. tradições. 70 . ou seja. não são hereditárias. na criança.

Rousseau já dizia: “para satisfazer à necessidade da vida. E com relação às qualidades físicas. os homens aperfeiçoassem-se cada vez mais. A educação fez com que. se o meio social for inclinado para a perfeição espiritual.A inteligência tão cultivada hoje nem sempre foi concebida por todos os povos. a experiência e o instinto podem bastar. e esse saber apreendido é repassado às outras gerações pela linguagem. O homem é humano porque coopera com seus semelhantes. pela questão higiênica. a educação física era usada para enrijecer os músculos. a sensação. Em Esparta. Nada de inteligência”. Antes era tida como perigosa. nos tempos da cavalaria. Era assim na Idade Média. Os geração. a educação física será relegada ao segundo plano. para ter os corpos belos. É através da linguagem que aprendemos todos os sistemas de idéias organizados e classificados de todos os trabalhos ao longo dos séculos. através das ações sociais. nos tempos de hoje. para produzir guerreiros ágeis e flexíveis. seja ela oral. a educação física será de uma ou de outra espécie. Tal seja a corrente de opinião. A sede de saber deu-se quando a vida social se tornou complexa. figuras. Basta lembrar-se do ditado: “bem aventurados os pobres de espírito”. pela meditação. é assim com os monges. livros. graças à linguagem que se transmite de 71 . para resistir à fadiga. instrumentos. em Atenas. frutos da experiência humana são quase que integralmente conservados. tornando-se mais humano.

mas o conhecimento não desaparece. e é essa acumulação indefinida que eleva o homem acima do animal e de si mesmo. Coexistem de maneira bastante evidente duas classes sociais bem distintas e antagônicas: de um lado temos uma classe social que vive muito bem – bem até demais. A classe de maior renda. vai acumulando-se e revisando dia a dia. pelo contrário. país capitalista O Brasil é um país de contrastes. que é uma minoria. Para isso. pretendemos compreender o capitalismo e o liberalismo. e de outro. situar o nascimento da Sociologia Moderna no interior do estabelecimento do capitalismo. variam também os anos de estudos. de maior 72 . Isso é próprio do capitalismo. social e política vivida pela escola. perceber o papel das instituições sociais através das teorias de Marx e Durkheim. Os ricos vivem graças à miséria dos trabalhadores. E para que isso aconteça é preciso que haja a sociedade. uma classe que vive abaixo da linha da pobreza.5 Explicações Sociólogas para o Contexto Capitalista Brasileiro e seus Reflexos na Educação Pretendemos nesta análise do contexto capitalista brasileiro entender as causas da evasão e da reprovação escolar.As gerações vêm e vão. 4. dispõe de maior escolaridade. Brasil. E para analisar a evasão e repetência devemos ter um conhecimento da realidade econômica. Da mesma maneira que diferem as condições de vida das duas classes.

Para Locke. talentos. o contrapartida. Os países que têm poder econômico o ampliam através de pesquisas. 73 . O Liberalismo e a Escola O sistema capitalista apóia-se em um conjunto de idéias. A classe de menor renda. e os países pobres importam por um preço alto. todos têm direitos pobre. GRÁFICO DAS PIRÂMIDES INVERTIDAS Distribuição da população por faixa de renda: Distribuição da escolaridade e do acesso aos bens culturais: Renda alta Renda media Renda baixa Grande número de anos de estudo e de bens culturais Pouco ou nenhum ano de estudo e de acesso aos bens culturais O conhecimento perpetua a dupla relação: poder e saber e saber e poder. que é a maioria. de privilégio decorrente do formas de agir e pensar que servem para justificar esse sistema. trabalhador e naturais. dispõe de um pouco ou nenhum acesso a tais bens culturais. para garantir a cada um os direitos naturais. a origem do governo estava em um acordo realizado entre os homens. independente da sociedade. Em Esse conjunto de idéias forma uma doutrina econômica. pode enriquecer e adquirir cabendo ao governo garantir a cada um o desenvolvimento de seus propriedades. família rica) deve ser negado. com qualidades.acesso aos bens culturais. Isso se mantém igualmente na relação entre países. o liberalismo. Portanto. Todos têm atributos diferentes. afirma que qualquer indivíduo O individualismo – para o individualismo. que se sustenta nos seguintes princípios: nascimento (nascer em Para o liberalismo. o trabalho e o talento são os meios corretos para se enriquecer.

hoje chamado de neoliberal. os pensadores da conservadores que pretendem a permanência da sociedade como Sociologia diferem está. 74 . pela classificação de avaliação. Essas idéias liberais ganharam sua força máxima durante a Revolução Francesa. o que nós sempre tivemos. IGUALDADE E FRATERNIDADE. possibilitando análises A escola tem grande peso na aceitação conservadora das distintas da escola. a pobreza ou a riqueza dependem da vontade e da capacidade cada um. serve aos sociedade. único de explicação da realidade. Ela sustenta-se com princípios individualizantes. Na realidade. A Sociologia não se resume a um bloco fracasso são colocadas como razões individuais. E as razões do idéias federais. em 1889. Não a igualdade social. maior será a liberdade do indivíduo. deixando de ver o aluno como ser social e histórico. uma vez que homens não são igualmente esforçados ou talentosos. Dependendo da posição que assumem na análise da O modelo liberal. quanto ao papel que atribuem à educação. é uma grande massa de fracassados e miseráveis. A democracia – direito de todos participarem do governo através de representante de sua própria escolha. No Brasil. A igualdade – a igualdade perante a lei. e ainda temos. essas idéias liberais trazidas na época de Tiradentes sempre foram contraditórias com a realidade da nossa sociedade. E só se consegue a propriedade através do trabalho. quanto maior for o poder do Estado. cujo lema era: LIBERDADE. Para os liberais. a existência de ricos e pobres é natural.Segundo o individualismo. à cultura e à própria sociedade. A liberdade – para o liberalismo. A propriedade – o direito de cada um tem e que o Estado deve proteger.

A escola trata desiguais social e economicamente como iguais. Durkheim considera que as instituições sociais. essas mesmas instituições são montadas de forma a ocultar as relações antagônicas entre capitalistas e proletariado. Para Marx. Para ele. mantendo o domínio capitalista. então. A harmonia proposta por Durkheim na análise da divisão do trabalho contrasta com o caráter de oposição. Compreendendo a Realidade com Auxílio da Sociologia Marx e Durkheim analisaram e explicaram a sociedade capitalista a partir de pontos de vistas antagônicos. há um determinismo social sobre os indivíduos. reproduzindo a desigualdade. Já Marx considera que a realidade é histórica – são análises críticas da sociedade capitalista. 75 . As idéias de Durkheim são liberais. destacado por Marx na mesma divisão do trabalho. Durkheim e a Educação Durkheim faz uma análise funcionalista da sociedade. Elas não vêem que é a escola a instituição mais eficiente no processo de segregação social. a educação. E as famílias acabam por responder pelo fracasso de seus filhos. de luta de classes. a sociedade assemelha-se a um organismo vivo. pois defendem a manutenção da ordem social tal como é posta pelo capitalismo. servem para conservar a sociedade. entre elas.

Ele analisava aspectos e elementos contraditórios da realidade até chegar à sua unidade. trabalha. na sociedade capitalista existem os donos dos meios de produção e os desprovidos de qualquer bem produtivo. e para sobreviver vendem sua força de trabalho ao capitalista. que são as horas trabalhadas não-remuneradas pelo empregador. As Idéias de Marx Marx desvendou o sistema capitalista analisando seus aspectos políticos. E nessa relação de compra e venda de força de trabalho.Ele considera a divisão do trabalho como um processo natural: “nem todos fomos feito para refletir. Marx observou que o homem. p. o trabalhador é explorado através de um processo que Marx chama de mais-valia. com a utilização do método dialético. sociais e econômicos. A estratificação acena com a possibilidade de ascensão social. a educação e o sucesso escolar dependem apenas do esforço e da capacidade pessoal de cada um. Depende somente do esforço pessoal. A desigualdade é tomada com o fenômeno individual e não social. ela mantém relações com a natureza e relações sociais. E ao trabalhar. Para Marx. Esse pensamento é conservador e o pensamento liberal conservador justifica a desigualdade como fenômeno natural. Nessa visão. 76 . para sobreviver. é preciso que haja homens de sensibilidade e homens de ação” (KRUPPA. 55). Esses são apenas donos de força de trabalho. E uma das vias de ascensão social proposta é a educação.

A Escola no Brasil Feitas essa considerações sobre a realidade brasileira e as explicações sociológicas dessa realidade social. a alienação do objeto do trabalho simplesmente resume a alienação da própria atividade do trabalho” (1994. planejamento educacional. Realidade essa que se constitui na falta de vagas. No capitalismo o homem deixa de ser homem pelo trabalho. ou seja. avaliação. A verdadeira natureza do trabalho alienado: “o trabalhador se sente contrafeito. mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades. analfabetismo. repetência. o trabalhador separa-se de seu produto. É como uma espécie de esquizofrenia mental que Marx chamou de alienação. é trabalho forçado. 77 . como comer. beber. gestão do sistema educacional. currículo. material pedagógico etc. Ele será livre quando desempenhar suas funções animais. p. Os mecanismos internos que reforçam essa situação se constituem na qualidade do ensino. vamos analisar a realidade da educação escolar brasileira. Os problemas da educação são de ordem externa e interna. o trabalho não é uma satisfação de uma necessidade. o trabalho não se pertence. mas sim a outra pessoa. ele não se reconhece como produtor de bens de consumo. excesso de turnos etc. 60). espaço físico. durante a produção. jornada e nível salarial dos educadores e funcionários. procriar etc. mas é imposto. Os de ordem externa são os econômicos e sociais que têm contribuído para que a escola falhe no processo de transmissão de conhecimento e informações à população. Para Marx. na medida em que o trabalho não é voluntário. evasão. códigos disciplinares.Na sociedade capitalista.

Ela – a escola – está funcionando como confirmadora da distribuição de renda e de classe social: aos de maior renda. No Brasil. as organizações de pais e mestres. não consegue terminá-la. depois vamos ver à padronização e ao funcionamento da escola. maior número de anos de estudos e de cursos concluídos. que tivessem algum trabalho. A escola tem respondido a essa luta? Os dados estatísticos nos dão respostas desanimadoras. A escola no Contexto Capitalista Brasileiro Escola e Renda A população brasileira ainda acredita que a escola é um meio de ascensão social. Basta ver as lutas pela escola: as filas no início de ano letivo. cada 100 brasileiros. de mais de 10 anos. a educação será analisada aqui sob duplo aspecto: como direto da população e como dever do Estado. Primeiro vamos ver os resultados escolares de uma forma global. A maioria. Em 1989. delineando um quadro já antigo: uns para pensar. a evasão e a repetência somam-se ao trabalho precoce. outros para trabalhar. tendo por base os anos de estudos. estavam distribuídos da seguinte forma: 78 . e os dados de 1981. nos mostram que os problemas educacionais são de ordem estrutural.Partindo desses mais variados problemas. aos de baixa renda. apenas uma minoria conclui a trajetória escolar. de 1985 e de 1989. as lutas dos movimentos sociais etc. de baixa renda. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esses mesmos 100 brasileiros que tinham algum trabalho em 1989.934 100 100 22.372 ano De 1 a 4 anos De 5 a 8 anos De 9 a 11 anos 12 anos ou mais TOTAL 60.475 17 37 23 15 8 17 54 77 92 100 % % Acumulada Fonte: Anuário Estatístico do Brasil. Anos de estudos Pessoas de 10 anos ou mais Sem instrução e até 1 10. estavam distribuídos da seguinte forma: 79 . tendo por base sua renda.854 5. ocupadas.384.700 8. 1991. IBGE.977 14.Tabela 1 Pessoas de 10 anos ou mais. segundo anos de estudo – Brasil – 1989.081.126.002.621.959.

934 5. As séries vão se afunilando devido às desistências que acontecem durante o 80 . não dá para o estudo”. ou seja.444 69% 100% 8% 27.679 15% 3.511. a população expressa essa avaliação de forma conformista.298 23% 4.304.534 4.723 25% 5.Tabela 2 Pessoas de 10 anos ou mais.990.140. Os números mostram que aos de baixa renda. a escola apenas tem confirmado a distribuição de renda. Anos de estudos Sem rendimento Pessoas de 10 anos ou mais.969 39% 100% 22% De 5 a 8 anos 9 anos ou mais TOTAL 60.445. aos de maior renda. com indicação de anos de estudo e classe de rendimento mensal do trabalho (todos os trabalhos) -1989. pouco ou nenhum estudo.119. situação agravada quando se pretende um ensino de qualidade.602 O que se tem nos grandes centros urbanos é uma deficiência significativa de vagas frente ao número de alunos que seria necessário atender. M. Classe de rendimento mensal do trabalho De 3 a 10 S. Sem instrução e até 4 anos Ao contrário da aspiração da população.621. carregada de culpa individual: “o menino é fraco de cabeça. 1991.798 100% 70% 13.916 13% 42. ocupadas. Mais de 10S.673.027.375.108. Vamos entender a escola: inúmeras turmas de primeiras séries contrastam com o reduzido número de oitava séries. Então.M. Fonte: Anuário Estatístico do Brasil . com menos turnos por escola e menor número de alunos por sala de aula.842 36% 3. 795. ocupadas.IBGE.479 16% 749. a escola não tem servido como meio de ascensão social. anos de estudos e cursos concluídos.584 64% 10.

No campo. às distorções série/idade. é praticamente uma extensão de sua casa. Escolas são feitas de forma desordenada: escola com quatro turnos ou mais. Já para o filho membro da classe burguesa a escola não é nenhuma novidade. salas com um professor para varias séries diferenciadas etc.processo educacional. existem as diferenças regionais. pois é o momento em que o aluno entra em contato com o novo. Assim. e nelas existe a pobreza. Além do mais. construídos onde não há demanda. No sudeste o índice evasão e repetência é bem menor do que no nordeste. E esse novo para o aluno filho membro da classe trabalhadora está bem distante de sua vida cotidiana. muitos prédios são No início de cada ano letivo os governos estaduais e municipais fazem chamadas através dos meios de comunicação. Isso se deve ao alto índice de repetência. salas superlotadas. 81 . incentivando os pais a matricularem seus filhos. mas o que se vê são filas quilométricas nas portas dos colégios. enquanto outros funcionam em quatro turnos ininterruptos. ao retorno à escola daqueles que foram expulsos do sistema. nos grandes centros urbanos. Escola e Trabalho As crianças filhos da classe trabalhadora começam a trabalhar muito cedo para ajudar no orçamento doméstico. Outro problema da educação é quanto à construção e as localizações dos prédios escolares. o trabalho das crianças acontece com mais intensidade devido à migração dos adultos para os centros urbanos em busca de empregos. A repetência dá-se principalmente nas primeiras e nas quintas séries. há prédios ociosos. que muitas vezes são para atender critérios puramente eleitoreiros. existem disparidades entre zona urbana e zona rural. Esses são pontos críticos de estrangulamentos. portanto.

Se a análise parar na afirmação da escola para todos. e a rede formada pelas escolas superiores. e dentre eles. No Brasil. existem escolas. medicina. Esses alunos 82 . em geral. a de primeiro e segundo graus. um ensino que se resume à lousa e um professor. A Escola não é uma só Não existe escola. só não estuda quem não quer. apenas uma minoria conclui os cursos escolares. estudar é para quem pode. administração. varia de uma para outra. mas os meios de comunicação divulgam o tempo todo a existência de escola para todos. Também a escola particular. E está destinado àqueles que foram excluídos do ensino. fora do tempo e do espaço da sala de aula. que é mantida através das mensalidades. Mesmo a escola pública localizada no centro da zona urbana é. quem tem poder econômico. que embora sejam um dever do Estado. direito. estaremos o tempo todo reiterando a verdade sempre afirmada de que a escola está aí. No ensino privado podemos distinguir quatro grandes redes: as escolinhas. muitos mecanismos sociais atuam para que isso aconteça. As escolas privadas de ensino supletivo e de nível superior oferecem condições deficientes de trabalho: classes superlotadas. estão longe ser realidade. a formada pela rede de curso pré-vestibular e supletivo. E isso é uma mentira. licenciatura etc. melhor do que a da periferia. está a travessia na escola. contratado por hora/aula. que são responsáveis por cursos de engenharia. sem a menor condição de atendimento individual ao aluno.Isso ocorre devido à concentração de renda. O supletivo é uma continuidade do ensino fora do compasso. Geralmente essas faculdades funcionam à noite. com variação de qualidade de ensino e custos. porque durante o dia a sua clientela trabalha. Os dados mostram que não há vagas disponíveis para todos. para atender os filhos da classe média e alta. jornalismo. economia. Além do mais. Elas atendem pessoas oriundas do segundo grau público regular ou supletivo.

para designar organização. O mercado de trabalho para docentes oriundos das faculdades particulares vão para a rede pública como professores temporários. fecha-se o círculo: aos melhores alunos. para designar o governo de altos funcionários. • Os elementos que estruturam a vida cotidiana como fé.das faculdades particulares depois de formados são discriminados. posteriormente. A Organização da Escola Eis alguns mecanismos que nos fornecem elementos para entendermos a evasão e a repetência escolar: • A escola é uma instituição social que transforma a suas ações repetidas em regras. Tem sido usado para designar o seu contrário. escola acompanhou o desenvolvimento do capitalismo. são cristalizados. • O currículo é formulado de maneira distante da realidade do aluno. os melhores professores e. • A sistema. pragmatismo. burocracia é tudo isso. probabilidade. Já os formados em universidades públicas serão professores efetivos concursados ou trabalharão nas escolas particulares da elite. e ensinam para as classes de menor renda. economicismo. O termo burocracia tem sido utilizado em vários sentidos. aos alunos de menor renda. aí a escola se apresenta como instituição imutável. os melhores empregos. Na realidade. na medida em que burocracia é poder. os professores com formação de menor qualidade e com a exaustiva jornada de trabalho. controle e alienação. Os formados nas universidades públicas ficam com os melhores cargos. lecionando em precárias condições de jornada e remuneração. então ela é marcada por fatores que constituem o 83 . Assim.

portadores de conhecimentos. Os Procedimentos Burocratizantes da escola são: A) O administrativo tem procedência sobre pedagógico. a psicopedagogia. cria disciplinas para entender e controlar a consciência e a alma do aluno.O objetivo aqui é mostrar que as regras de funcionamento da escola muitas vezes se distanciam do seu objetivo. O caderno do aluno funciona como registro e permite a inspeção e o controle da conformidade às ordens da instituição. Aí os números falam mais alto que o pedagógico. como a psicologia da educação. disciplinador. a escola é local de vigilância: a escola lhe controla com o diário. Segundo o sociólogo Maurício Tratenberg. para uma submissão útil ao sistema institucional burocratizado. que é formar sujeitos críticos. A escola para viver financeiramente precisa de demonstração de competência. ela tem seu histórico. No Interior da Escola a Burocracia Conta com um Poderoso Aliado: O Poder Disciplinador A organização burocrática se sustenta com o poder e o saber que são produzidos pelas normas burocráticas. 84 . através do exercício O aluno não tem controle sobre o que ele faz ou sobre o que é feito com o produto do seu trabalho. E a escola é quem prepara o indivíduo. Elas passam a exercer apenas o papel disciplinador. E esse poder disciplinador dá-se em decorrência da burocracia implantada pelo Estado dentro da escola.

o medo de perder sua autoridade. do professor ao diretor. 85 . C) A situação de medo. que na realidade é uma seleção. constroem muros altos. por isso. na repetência de exercícios etc. vão para cargos comissionados. O medo de perder a vaga. existe todo um conjunto simbólico de representações que reproduz a relação de poder. Professores burlam o sistema alegando achatamento salarial. medo de ser reprovado. existe burla na redução da jornada curricular para atender os quatro turnos. que é a do diretor a seus superiores. o professor na parte mais alta da sala vendo os alunos de cima para baixo. a polícia vigilante etc. pois avaliar pressupõe tempo. nos grandes centros a escola tem medo da comunidade. Nesse compromisso com os números valorizase a submissão. portões trancados. a caderneta como instrumento controlador. o sistema de avaliação. na busca de carteiras. existe o desperdício de tempo na demora de entrada na sala de aula. o medo de perder o emprego. na distribuição da merenda. No emprego público. professores faltam.B) A submissão. A própria posição das carteiras enfileiradas. tiram licença. Na relação professor/aluno. dos alunos ao professor. a segurança do emprego leva à acomodação e à submissão. D) A burla. muitos professores vão para projetos de melhoria de ensino e não retornam mais – o que deveria ser um meio se torna um fim.

E) As situações de preconceitos. São tidos como sexualmente promíscuos. Os dias são todos iguais. para começar tudo de novo no dia seguinte. no semestre seguinte. 86 . coloca sílabas na lousa. no mês seguinte. sempre o mesmo. • Reproduzem o discurso da carência cultural e alimentar: “A criança não aprende porque não se alimenta. Os preconceitos que circulam na escola. p. • A escola às vezes diz que o problema da criança é médico: “Tem que fazer tratamento. Os professores têm essas atitudes por que: • São alienados porque o trabalho os alienou. marginais etc. nas falas. • Que a escola é o caminho para o sucesso e só não chega lá quem não quer. “Segundo Patto. Tá cheio de verme”.” (1994. 108). constata sempre os mesmos erros que aponta com maior ou menor irritação. o negro. o pobre. destituído de vida e de significado que a mortifica: obediente mas descrente. Porque é pobre”. a professora cumpre com sua obrigação realizando diariamente um ritual. Falta uma discussão por parte da escola no sentido de mostrar o verdadeiro papel da educação na sociedade burguesa. tanto dos professores como dos alunos: contra o favelado.. vadios.. burros. passa mecanicamente pelas carteira.

Filme: Ao mestre. que também canta a canção-título). no bairro operário de East End. acostumado a hostilidades. estão determinados a destruir Thackeray como fizeram com seu predecessor. Thackeray deve decidir se pretende continuar. Mas Thackeray. liderada por Denham (Christian Roberts). enfrenta o desafio. Quando recebe um convite para voltar a engenharia. A classe. tratando os alunos como jovens adultos que em breve estarão se sustentando por conta própria. ao quebrar-lhe o espírito. Pamela (Judy Geeson) e Barbara (Lulu. O Clube do Imperador em busca da Formação Plena Não autênticos único que há não entre tenha os o educadores um interesse genuíno de fazer com que sua aula extrapole os limites dos conteúdos que 87 . Sidney Poitier tem uma de suas melhores atuações como Mark Thackeray. um engenheiro desempregado que resolve dar aulas em Londres.ATIVIDADE 4 Produza um ensaio sobre o papel da educação na sociedade capitalista e coloque na base de dados. com carinho Um jovem professor enfrenta alunos indisciplinados e desordeiros neste filme clássico que refletiu alguns dos problemas e medos dos adolescentes do anos 60.

os professores. perpetuando palavras. Somos sujeitos a falhas e imperfeições como todas as outras pessoas. ciências ou português. Queremos transformar nossas crianças e jovens em pessoas que saibam o quanto é importante valorizar a vida. pensamentos e ações que estão além de meros conteúdos. quanto fora de aula. de nossa proximidade com os estudantes. gostar de conviver com outras pessoas (e com as diferenças). fatos históricos ou fórmulas matemáticas. aqueles que entram em aula apenas para “dar aulas”. de nossa capacidade de dialogar e tantas outras habilidades e competências que devemos ter. São eles que estão sempre se dispondo a escutar seus alunos tanto em aula e em relação aos tópicos e temas trabalhados em suas disciplinas. Há. que sejamos capazes de falar ao coração. regras gramaticais e descrições de paisagens. O que se espera é que consigamos. amar o conhecimento. Isso não significa que somos exemplares e virtuosos. 88 . perceber o mundo em que vivem. integral. estimular o progresso.estão sendo trabalhados e permita a seus estudantes uma formação plena. atingir a alma. do ponto de vista acadêmico. a realização da plenitude de nossos alunos através de seu contato conosco. de forma implícita. E quando falamos nisso. São competentes (ou não tão competentes) “dadores” de aulas de história. através de nossa prática pedagógica. enfim. entretanto. mas também ético e filosófico. Muitos educadores sabem disso. destacamos que essa idéia envolve a busca não apenas do conhecimento. não conseguem perceber que o papel dos educadores extrapola conceitos e teorias. A educação carrega em si. crescer em busca da harmonia. do amor e da paz. sem dúvida. como nos diz o mestre Rubem Alves. matemática.

Boa diversão! O Filme William Hundert (Kevin Kline) é um conceituado professor de história da Antiguidade Clássica (Grécia e Roma). Hundert é um dos baluartes da tradicional escola onde dá suas aulas. são chamados de inconformados por sua atitude de perene procura de respostas aos problemas do cotidiano da escola.para ajudar a dissipar as dúvidas que surgem na estrada da vida. à fama e à celebridade. Tenho certeza de que só isso já é suficiente para que você se interesse em saber mais e assista ao filme. Além disso.. Se você está se percebendo nessas linhas e notando que suas atitudes são condizentes com aquilo que está escrito. verdadeiramente apaixonado por seu trabalho. são esses profissionais que nunca parecem satisfeitos e que. Respeitado pelo 89 . às vezes. o que realmente vale é saber que passamos a fazer parte da história de vida de nossos estudantes e que os auxiliamos a obter sucesso e alcançar a felicidade profissional e pessoal.. afinal de contas o nosso espírito de educadores não é tão afeito aos holofotes. são esses professores que estudam sempre e constantemente buscam novas fórmulas e metodologias que tornem suas aulas ainda mais motivadoras. parabéns! Você deveria receber prêmios (o maior de todos é o carinho e a consideração de nossos alunos) e reconhecimento por sua postura e conduta profissional. Sei que não é isso que você está querendo através de suas realizações. O filme “O Clube do Imperador” nos coloca diante de um professor que persegue esse nosso sonho de forma abnegada.

Em sua nova turma de estudantes o professor Hundert começa desde o princípio a estimular o gosto pelo estudo dos grandes acontecimentos relacionados aos generais e imperadores romanos. Hundert resolve contar com o apoio do pai do garoto para conseguir fazer com que ele se aplique mais aos estudos e valorize a educação a que está tendo acesso. Sedgewick Bell (Emile Hirsch). o filho de um dos vencedores de uma das edições passadas do “O Clube do Imperador”. ao ter em suas mãos a chance de classificá-lo para as finais do “O Clube do Imperador”. Confrontado algumas vezes pelo garoto. o “O Clube do Imperador”. Seus novos estudantes são muito promissores. o que o anima ainda mais a realizar um trabalho de qualidade.diretor e pelos alunos. Depois de alguns dias de aula transcorridos. inclusive. através de suas atitudes. e aos filósofos e artistas gregos. sua aula é interrompida para a chegada de um novo estudante. Será possível aos professores. arrogante e prepotente filho de um senador. modificar o futuro de seus alunos? Até que ponto o convívio diário com os professores pode influenciar o caráter e as atitudes dos estudantes? O individualismo e a busca da vitória a qualquer preço são ensinamentos que devem continuar fazendo parte das lições trabalhadas na escola? Até que ponto os professores devem 90 . De seu empenho surge a primeira grande oportunidade de valorizar Sedgewick e dar-lhe o necessário estímulo para um maior interesse na escola. É capaz de gastar uma aula inteira se dedicando a explicitar pensamentos e campanhas militares para os jovens estudantes. Entre eles há. todos os anos esse professor organiza uma competição cultural que se tornou clássica no colégio.

Apliquem seu tempo. da comunidade à qual servem e. de seus alunos. invistam em seus sonhos. pelos pais e por todas as pessoas interessadas em melhorar a educação. presentes no filme “O Clube do Imperador”. principalmente. 91 . por que não realizar concursos culturais em sua escola? Podem ser criadas competições em qualquer disciplina ou mesmo em todas. isso já o qualifica a ser visto por educadores e seus pupilos.Jamais deixem de sonhar! Mais do que isso. pesquisem quando necessário e permitam que todo o seu esforço e experiência se transformem em projetos que revertam em favor da educação. agregando notas ao desempenho dos alunos em cada disciplina ou para premiar com medalhas e troféus os vencedores. 2.Tendo como exemplo o filme “O Clube do Imperador”. por séries ou níveis de dificuldade.continuar acreditando e investindo na recuperação de seus alunos (seja na formação ética ou na acadêmica)? Será que o idealismo muitas vezes não chega a cegar os professores em seus julgamentos e procedimentos em relação a seus estudantes? Todas essas questões estão de certa forma. façam com que eles se tornem realidade. Assistam! Aos Professores 1. da escola onde trabalham. O mais importante é fazer com que os alunos se interessem e queiram cada vez mais estudar. utilizem seus conhecimentos.

por exemplo. 92 . Drama Direção de Michael Hoffman Roteiro de Ethan Canin e Neil Tolkin Elenco: Kevin Kline. Uma das observações mais constantes de nossos estudantes em relação a seus professores relaciona-se à coerência entre discurso e prática. seria muito interessante se a cada 5 ou 10 anos as escolas conseguissem reunir os alunos que se formaram e seus professores para reuniões e confraternizações em que se falasse sobre o que aconteceu com cada um depois do término de seus compromissos escolares. Seria estimulante para professores e alunos saber que seu convívio foi fundamental para o futuro de ambos. Paul Dano.. Rishi Mehta. Edward Herrmann. Rob Morrow. com os Yearbooks (livros do ano). Embeth Davidtz. Não adianta. o professor defender de forma veemente a democracia se suas atitudes são de intolerância e incompreensão. como ocorre regularmente nos Estados Unidos. Ficha Técnica O Clube do Imperador (The Emperor’s Club) País/Ano de produção: EUA. Harris Yulin. Além disso.3. Costumo lhes dizer que os alunos se pautam muito em nossas atitudes e postura diante do mundo. Emily Hirsch.As escolas deveriam preocupar-se em documentar a passagem de seus estudantes pela escola através de fotografias. 2002 Duração/Gênero: 109 min.Muitos professores me questionam nas palestras e workshops que realizo a respeito da formação mais ampla e integral do aluno. Gabriel Millman. 4. Jesse Eisenberg.

junto com alguns dos 28 alunos. Tudo começa quando o professor da escola tira uma licença para cuidar de sua mãe. Nenhum a Menos. Com atores amadores. Ela terá de morar na própria escola durante um mês. e as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. de Zhang Yimou.FILME: Nenhum a Menos Vencedor do festival de Veneza de 99. Wei (Wei Minzhi). e grande parte deles ainda crianças. 93 . o que se vê é uma verdadeira aula de direção ao retratar a evasão escolar justificada pela pobreza. retorne. ninguém possui livros. Tamanha é a pobreza do local que a garota só dispõe de um giz para cada dia de aula. Em seu lugar. é um retrato quase documental da atual situação da classe de estudantes rurais na China. a prefeitura coloca uma garota de apenas 13 anos. Sua missão é garantir que nenhum deles abandone Wei faz a chamada religiosamente a cada novo dia e depois passa para os alunos os deveres de cópias das lições escritas no quadro negro. Sem se preocupar muito se eles realmente estão aprendendo. e muitas vezes escondida. ela só quer que eles não abandonem o curso e saiam da escola. Yimou registrou o ensino em uma escola rural no interior do país. até que o A iniciante Wei Minzhi é uma professora de apenas 13 anos mestre a escola. Com uma câmera discreta.

Boaventura de Sousa Santos (Coimbra. com mérito internacionalmente reconhecido. um dos principais intelectuais da área de Ciências Sociais. grande parte das vezes. chegando ao ponto da garota partir para uma grande e próspera metrópole. 15 de Novembro de 1940) é Doutor em Sociologia do Direito. depois de ter participado nas três edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. NENHUM A MENOS Título Original: Yige dou buneng shao País de Origem: China Ano: 1998 Duração: 106min Diretor: Zhang Yimou Elenco: Wei Minzhi. a maioria das atuações partiram como improvisações das personagens que interpretavam. principalmente. O diretor diz ter usado atores amadores para enfatizar o realismo. É atualmente. Gao Enman. pela Universidade de Yale e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Tian Zhenda. formam uma espécie de espelho-miniatura da comunidade chinesa com seus problemas atuais. em busca de um dos alunos.cultural Juarez Dayrell PRIMEIROS OLHARES SOBRE A ESCOLA 94 . suas próprias vidas. Zhang Huike (Zhang Huike) que fugiu com a família em busca de trabalho. Zhang Huike.A garota professora e seus alunos. Sun Zhimei 4. tendo ganho especial popularidade no Brasil. A determinação de Wei em manter os alunos na escola é tanta que as situações passam a ser cada vez mais absurdas. principalmente quando se refere à camada rural da população. Sem deixar que as crianças lessem o roteiro. É diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril [1] dessa mesma Universidade. fixados no meio de um vilarejo.6 A Escola como Espaço Sócio.

educação e cultura.JUAREZ DAYRELL Possui Graduação em Ciências Sociais. expõem a força das macro-estruturas na determinação da instituição escolar. a instituição escolar era pensada nos marcos das análises macro-estruturais. nas "teorias funcionalistas" (Durkheim. alunos e professores. enfim. desenvolvendo pesquisas em torno da temática Juventude. outras evidenciando as necessárias mediações. levado a efeito por homens e mulheres. e Doutorado em Educação. Analisar a escola como espaço sócio-cultural significa compreendêla na ótica da cultura. seres humanos concretos. de outro. do fazer-se cotidiano. englobadas. trabalhadores e trabalhadoras. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais e Coordenador do Observatório da Juventude da UFMG (www. entre outros) e. Robert Dreehen. Baudelot e Establet.fae. pela Universidade Federal de Minas Gerais (1989). sob um olhar mais denso. Talcott Parsons. Em 2006 realizou o Pósdoutorado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. que leva em conta a dimensão do dinamismo. Essas abordagens. nas "teorias da reprodução" (Bourdieu e Passeron. umas mais deterministas. Em outras palavras.br/objuventude). Está integrado à Pós Graduação da Faculdade de Educação na linha de pesquisa: Movimentos Sociais. atores na história. negros e brancos. adultos e adolescentes.ufmg. de um lado. assim. Bowles Gintis. presentes na história. Até então. entre outros). enquanto instituição. Falar da escola como espaço sócio-cultural implica. sujeitos sociais e históricos. pela Universidade de São Paulo (2001). Este ponto de vista expressa um eixo de análise que surge na década de 80. analisam os efeitos produzidos na escola pelas principais estruturas de relações sociais que caracterizam a 95 . resgatar o papel dos sujeitos na trama social que a constitui. Educação e Cultura. Mestrado em Educação. pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983).

portanto. que buscam unificar e delimitar a ação dos seus sujeitos. atribui funções. Apreender a escola como construção social implica. o controle e a apropriação da instituição. pela apropriação. assim. de outro. A escola. que incluem alianças e conflitos. Nessa perspectiva. Para as autoras. fazendo da escola um processo permanente de construção social. que criam uma trama própria de inter-relações. as relações sociais". uma organização oficial do sistema escolar. Fruto da ação recíproca entre o sujeito e a instituição. onde os sujeitos não são apenas agentes passivos diante da estrutura. separa e hierarquiza o espaço. EZPELETA & ROCKWELL (1986. 58) desenvolvem uma análise em que privilegiam a ação dos sujeitos na relação com as estruturas sociais. (idem). é entendida. em "cada escola interagem diversos processos sociais: a reprodução das relações sociais. 96 . 1986). por um conjunto de normas e regras. trata-se de uma relação em contínua construção. a conservação ou destruição da memória coletiva. como espaço sócio-cultural. por uma complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvidos. funcionários. definindo a estrutura escolar e exercendo influencias sobre o comportamento dos sujeitos sociais que ali atuam. é heterogêneo. definindo idealmente. como tal. das práticas e dos saberes que dão forma à vida escolar. Ao contrário. como um espaço social próprio. imposição de normas e estratégias individuais ou coletivas de transgressão e de acordos. reelaboração ou repulsa expressas pelos sujeitos sociais (EZPELETA & ROCKWELL. organiza.sociedade capitalista. Um processo de apropriação constante dos espaços. que "define conteúdos da tarefa central. a resistência e a luta contra o poder estabelecido". a f im de diferenciar trabalhos. Nessa perspectiva. ordenado em dupla dimensão: institucionalmente. esse processo. os sujeitos-alunos. compreendê-la no seu fazer cotidiano. de conluios e negociações em função de circunstâncias determinadas. Assim. a criação e a transformação de conhecimentos. assim. elaboração. a instituição escolar seria resultado de um confronto de interesses: de um lado. professores. no cotidiano. p. a realidade escolar aparece mediada. das normas. cotidianamente.

espalhados pelo largo formado pela confluência de três ruas. locadora do video. sentimentos.Desta forma. Cumprimentos. nos últimos quatro anos. falas. É fruto também de uma pesquisa exploratória. com os quais venho trabalhando e aprendendo através de assessorias e cursos de aperfeiçoamento. cotidianos. das cenas e das situações reais aqui apresentadas. padaria. realizada em 1994. em momentos de encontro. outros sozinhos. bares etc. OS ALUNOS CHEGAM À ESCOLA Um som estridente de campainha corta o ar. encontram-se em grupos. Nota-se uma pequena agitação. A entrada dos alunos na escola parece ser um ritual cotidiano. Alguns rapazes chegam à porta das lojas. e nenhum dos lados pode antecipar uma vitória completa e definitiva. Esta é a fonte dos exemplos. na medida em que busca apreender os processos reais. Os alunos que chegaram. em duas escolas públicas noturnas. ônibus. que ocorrem no interior da escola. É um pequeno centro comercial de um bairro de periferia. de um passatempo. juntando-se ao burburinho de vozes. esperando pelo movimento. alguns em grupos. na região metropolitana de Belo Horizonte: lojas. professores e direção destas escolas deixo os meus agradecimentos. risos. paquera. situadas na periferia da região metropolitana de Belo Horizonte. açougue. ou simplesmente. repetindo-se todos os dias os gestos. conversas ao pé de 97 . São I8h 30min e a escola dá o seu primeiro sinal. Aos alunos. Esta abordagem permite ampliar a análise educacional. até esse momento. o processo educativo escolar recoloca a cada instante a reprodução do velho e a possibilidade da construção do novo. na vida social e escolar. ao mesmo tempo que resgata o papel ativo dos sujeitos. O texto que se segue expressa esse olhar e reflete questões e angústias de professores de escolas noturnas da rede pública de ensino. Rapazes e moças continuam chegando aos poucos. carros.

o que lhe dá uma aparência pesada. predominando jeans e tênis. onde vão desenpenhar papéis específicos. Um casal de namorados beija-se. como a de Pittsburg. aparentando idades que variam de 15 a 20 anos. como que a evidenciar a passagem para um novo cenário. Existe um clima de desejo no ar. Rodney Hilton. Dona Torr. dentre outros. Além do portão. Mas é no momento do sinal que aumenta o volume de pessoas Edward Palmer Thompson (3 de fevereiro de 1924. negros. mulatos. onde deixam a caderneta com uma servente. Rutgers. Worcester) foi um historiador britânico da concepção teórica marxista e é considerado por muitos como o melhor historiador inglês do século XX. existe uma outra entrada. Foi professor da Universidade de Warwich de 1965 a 1971. chegando. Eric Hobsbawm. onde adere ao Partido Comunista Britânico. entrando em seguida no pátio coberto da escola. grupo de moças. bem diferentes daqueles que desempenham no cotidiano do "mundo da rua". Dartmoth College. Vestem-se das formas mais variadas. cercada por muros altos. Lecionou na Universidade de Leeds em cursos não acadêmicos dirigidos aos trabalhadores. Brancos. alguns poucos mais velhos. Olhares sugestivos acompanhados de comentários e risos.28 de agosto de 1993. Brown. Durante a Segunda Guerra Mundial luta na Itália contra o governo fascista liderado por Benito Mussolini. A escola ocupa todo um quarteirão. Em 1946 formou um grupo de estudos históricos marxistas junto com Christopher Hill. Nos anos 1970 lecionou esporadicamente em universidades estadunidenses.ouvido. na sua maioria jovens. grupos misturados. próprios do "mundo da escola". encostado no muro sob uma árvore indiferente ao burburinho. Após o portão. Oxford . um rapaz sai do seu grupo e vai até as moças e diz algo que provoca sorrisos. Estuda no colégio Corpus Christi (Cambridge). Grupo de rapazes. O espaço é claramente delimitado. principalmente mulheres. os alunos descem por uma rampa ao lado de um pequeno anfiteatro e entram por um outro portão. pintados de azul. A DIVERSIDADE CULTURAL Quem são estes jovens? O que vão buscar na escola? O que significa para eles a instituição escolar? Qual o significado das experiências vivenciadas neste espaço? 98 . através de uma garagem por onde passam os professores. Começam a entrar por um portão de ferro inteiriço.

Para grande parte dos professores, perguntas como estas não fazem muito sentido, pois a resposta é óbvia: são alunos. E é essa categoria que vai informar seu olhar e as relações que mantém com os jovens, a compreensão das suas atitudes e expectativas. Assim, independente do sexo, da idade, da origem social, das experiências vivenciadas, todos são considerados igualmente alunos, procuram a escola com as mesmas expectativas e necessidades. Para esses professores, a instituição escolar deveria buscar atender a todos da mesma forma, com a mesma organização do trabalho escolar, mesma grade e currículo. A homogeneização dos sujeitos como alunos corresponde à homogeneização da instituição escolar, compreendida como universal.

A escola é vista como uma instituição única, com os mesmos sentidos e objetivos, tendo como função garantir a todos o acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente acumulados pela sociedade. Tais conhecimentos, porém, são reduzidos a produtos, resultados, conclusões, sem levar em conta o valor determinante dos processos. Materializado nos programas e livros didáticos, o conhecimento escolar torna-se "objeto", "coisa" a ser transmitida. Ensinar torna-se transmitir esse conhecimento acumulado; e aprender torna-se assimilá-lo. Como a ênfase é centrada nos resultados da aprendizagem, o que é valorizado são as provas, as notas e a finalidade da escola se reduz ao "passar de ano". Nessa lógica, não faz sentido estabelcer as relações entre o vivenciado pelos alunos e o conhecimento escolar, entre o escolar e o extra-escolar, justificando-se a desarticulação existente entre o conhecimento escolar e a vida dos alunos.
A discussão a respeito do concito de cultura no campo da Antropologia não é consensual, havendo mias de 300 conceitos cunhados, não cabendo aprofundar a questão, no âmbito deste trabalho. Para um maior aprofundamento, buscar entre outros DURHAM (1984), GEERTZ (1978), VELHO (1978) LARAIA (1986).

Dessa forma, o processo de ensino/aprendizagem ocorre numa homogeneidade de ritmos, estratégias e propostas educativas para todos, independente da origem social, da idade, das experiências vivenciadas. É comum e aparentemente óbvio os professores ministrarem uma aula com os mesmos conteúdos, mesmos recursos e ritmos para turmas de quinta série, por exemplo, de uma escola particular do centro, de uma escola pública diurna, na periferia, ou de uma escola noturna. A diversidade real dos alunos é reduzida a diferenças apreendidas na ótica da cognição (bom ou mau aluno, esforçado ou preguiçoso etc.) ou na do comportamento (bom ou mau aluno, obediente ou rebelde, disciplinado
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ou indisciplinado etc.). A prática escolar, nessa lógica, desconsidera a totalidade das dimensões humanas dos sujeitos — alunos, professores e funcionários — que dela participam.

Sob o discurso da democratização da escola, ou mesmo da escola única, essa perspectiva homogeneizante expressa uma determinada forma de conceber a educação, o ser humano e seus processos formativos, ou seja, traduz um projeto político-pedagógico que vai informar o conjunto das ações educativas que ocorrem no interior da escola. Expressa uma lógica instaimental, que reduz a compreensão da educação e de seus processos a uma forma de instrução centrada na transmissão de informações. Reduz os sujeitos a alunos, apreendidos, sobretudo, pela dimensão cognitiva. O conhecimento é visto como produto, sendo enfatizados os resultados da aprendizagem e não o processo. Essa perspectiva implementa a homogeneidade de conteúdos, rítmos e estratégias, e não a diversidade. Explica-se, assim, a forma como a escola organiza seus tempos, espaços e ritmos, bem como o seu fracasso. Afinal de contas, não podemos esquecer — o que essa lógica
GILBERTO VELHO é professor titular e decano do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ. Dirige a Coleção Antropologia Social desta editora, onde tem publicados os seguintes livros: A utopia urbana (1973); Desvio e divergência (1974);Individualismo e cultura (1981); Subjetividade e sociedade (1986); Projeto e metamorfose (1994); e Antropologia urbana (2002). É autor ainda de Nobres & anjos (1998), entre outras obras.

esquece — de que os alunos chegam à escola marcados pela diversidade, reflexo dos desenvolvimentos cognitivo, afetivo e social, evidentemente desiguais, em virtude da quantidade e qualidade de suas experiências e relações sociais, prévias e paralelas à escola. O tratamento uniforme dado pela escola só vem consagrar a desigualdade e as injustiças das origens sociais dos alunos.

Uma outra forma de compreender esses jovens que chegam à escola é apreendê-los como sujeitos sócio-culturais. Essa outra perspectiva implica em superar a visão homogeneizante e estereotipada da noção de aluno, dando-lhe um outro significado. Trata-se de compreendêlo na sua diferença, enquanto indivíduo que possui uma historicidade, com visões de mundo, escalas de valores, sentimentos, emoções, desejos, projetos, com lógicas de comportamentos e hábitos que lhe são próprios.

O que cada um deles é, ao chegar à escola, é fruto de um conjunto de experiências sociais vivenciaclas nos mais diferentes espaços

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sociais. Assim, para compreendê-lo, temos de levar em conta a dimensão da “experiência vivida". Como lembra THOMPSON (1984), é a experiência vivida que permite apreender a história como fruto da ação dos sujeitos. Estes experimentam suas situações e relações produtivas como necessidades, interesses e antagonismos e elaboram essa experiência em sua consciência e cultura, agindo conforme a situação determinada. Assim, o cotidiano torna-se espaço e tempo significativos.

Nesse sentido, a experiência vivida é matéria-prima a partir da qual os jovens articulam sua própria cultura,
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aqui entendida enquanto

conjunto de crenças, valores, visão de mundo, rede de significados e expressões simbólicas da inserção dos indivíduos em determado nível da totalidade social, que terminam por definir a própria natureza humana (VELHO, 1994). Em outras palavras, os alunos já chegam à escola com um acúmulo de experiências vivenciadas em múltiplos espaços, através das quais podem elaborar uma cultura própria, um "óculos" pelo qual vêem, sentem e atribuem sentido e significado ao mundo, à realidade onde se inserem. Não há, portanto, um mundo real, uma realidade única, preexistente à atividacie mental humana, como afirma SACRISTÁN (1994, p.70) O mundo real não é um contexto fixo, não é só nem principalmente o universo físico. O mundo que rodeia o desenvolvimento do aluno é, hoje, mais que nunca, uma clara construção social onde as pessoas, objetos, espaços e criações culturais, políticas ou sociais adquirem um sentido peculiar, em virtude das coordenadas sociais e historicas que determinam sua configuração. Há múltiplas realidades, como há múltiplas formas de viver e dar sentido à vida (Tradução minha).

Nessa perspectiva, nenhum indivíduo nasce homem, mas constitui-se e se produz como tal, dentro do projeto de humanidade do seu grupo social, num processo contínuo de passagem da natureza para a cultura, ou seja, cada indivíduo, ao nascer, vai sendo construído e vai se construindo enquanto ser humano. Mas como se dá esta produção numa sociedade concreta?

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1992) com suas características próprias. O lazer é bem diferenciado. a raça. 102 . entre si e com a sociedade. os alunos vivenciam experiências de novas relações na família. cuja estrutura não dependeu desse sujeito. Para uma discussão detalhada sobre este processo de formação. É onde os jovens percebem as relações em que estão imersos. quase sempre restrito. expressões de um gênero. o das interações dos indivíduos na vida social cotidiana. São essas experiências. Assim. Alguns ficam com o salário. não foi produzida por ele. apropriam-se dos significados que se lhes oferecem e os reelaboram. de padrões de normalidade. que constituem os alunos como indivíduos concretos. num constante reiniciar as relações com grupos de amigos e formas de lazer. São as macroestruturas que vão apontar. É o nível do grupo social. Passam a trabalhar muito cedo em ocupações as mais variadas. entre outros aspectos. assim. ininterrupto. o fato de serem filhos de trabalhadores desqualificados.Quando qualquer um daqueles jovens nasceu. um leque mais ou menos definido de opções em relação a um destino social. o gênero. 1990). portanto. Aderem a religiões diferentes. com suas próprias estruturas. Nesse sentido. em que os indivíduos vão lançando mão de um conjunto de símbolos. são dimensões que vão interferir na produção de cada um deles como sujeito social. É um processo dinâmico. lugar e papéis sociais. a principio. (DAYRELL. porém. sob a limitação das condições dadas. histórica. esses jovens que chegam à escola são o resultado de um processo educativo amplo. pentecostais. de escalas de valores. uma abordagem alternativa”. devido à falta de recursos. seus padrões de comportamento. grande parte deles com pouca escolaridade. raça. ver o texto “A educação do aluno trabalhador. outros – a maioria. 2. sua consciência individual e coletiva (ENGUITA. reelaborando-os a partir das suas interações e opções cotidianas. inseriu-se numa sociedade que já tinha uma existência prévia. entre outras. criativo. umbandistas etc. o que produz uma cultura própria. católicos. independentemente da ação de cada um. onde os indivíduos se identificam pelas formas próprias de vivenciar e interpretar as relações e contradições. já o dividem com a família. Ao mesmo tempo. Vai definir as experiências que cada um dos alunos teve e a que têm acesso. experimentam morar em diferentes bairros. seu nível de acesso aos bens culturais etc. existe um outro nível. Dessa forma. formando.

2). isto é. igreja etc. em determinado momento histórico. cujos limites estão lixados pela estrutura material e simbólica da sociedade. expressam a diversidade cultural: uma mesma l i n guagem pode expressar múltiplas falas. Assim. portanto. marcadas pela própria divisão social do trabalho e das riquezas. a educação e seus processos é compreendida para além dos muros escolares e vai ancorar-se nas relações sociais: São as relações sociais que verdadeiramente educam. com os elementos culturais a que têm acesso. assim como também o cotidiano difuso do trabalho. a princípio. 1992. ocorre nos mais diferentes espaços e situações sociais. a educação tem um sentido mais amplo. produzem os indivíduos em suas realidades singulares e mais profundas. Portanto. Nenhum indivíduo nasce homem. num diálogo constante com os elementos e com as estruturas sociais onde se inserem e as suas contradições. apesar da aparência de homogeneidade. é o processo de produção de homens num determinado momento histórico (DAYRELL. urbana e industrial. 2Os alunos podem personificar diferentes grupos sociais. numa relação de oposição 103 . num complexo de experiências. ou seja. O campo educativo onde os jovens se inserem como habitantes de uma sociedade complexa. dois conjuntos culturais básicos. A educação. Constitui. quando os sujeitos fazemse uns aos outros. relações e aiividades. Nesse campo educativo amplo. p. do Iazer etc.que ocorre no cotidiano das relações sociais. o que vai delinear as classes sociais. escola. estão incluídas as instituições (família. pertencem a grupos de indivíduos que compartilham de uma mesma definição de realidade. Nessa medida.). apresenta uma ampla diversidade de experiências. do bairro. e interpretam de forma peculiar os diferentes equipamentos simbólicos da sociedade.

104 . de uma pluralidade de tradições cujas bases podem ser ocupacionais.l6). p. 1987. e expressam uma das dimensões da heterogeneidade cultural na sociedade moderna: a oposição cultura erudita x cultura popular. fruto de escolhas racionais. estamos lidando com diferenças que expressam manifestações de uma mesma capacidade humana criadora. p. conscientes. étnicas. onde a escola se inclui. harmoniosa ou não. que faz com que os indivíduos possam articular suas experiências em tradições e valores. por exemplo.complementar. Porém. não são demarcadas apenas pela origem de classe. A diversidade cultural. às instituições que asseguram a distribuição dos recursos materiais. quando procuramos compreender a cultura xavante. É preciso levar em conta uma heterogeneidade mais ampla. na perspectiva tanto de expressar as especidades das condições de existência. Outra coisa é lidar com alguma expressão da cultura popular. fruto de um procsso histórico independente. Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo. a heterogeneidade cultural também tem uma conotação político-ídeológica. Essa mesma diversidade está presente na elaboração e na expressão dos projetos individuais dos alunos. pela Universidade de São Paulo (1954). Tem experiência na área de Antropologia. Bronislaw Malinowski. nos adverte Eunice DURHAM (1984): tratar a heterogeneidade cultural no âmbito de uma mesma sociedade é qualitativamente diferente de tratá-la entre diversas sociedades. o que promove a utilização distinta do universo simbólico. atuando principalmente nos seguintes temas: obra etnográfica. A noção de projeto é entendida como uma construção. em que a diversidade não é apenas a expressão de particularidades do modo de vida. no entanto. religiosas etc.35). A diversidade cultural na sociedade brasileira tembém é fruto do acesso diferenciado às informações. nem sempre pode ser explicada apenas pela dimensão das classes sociais. Dessa forma. Mestrado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1964) e Doutorado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1967). ancoradas em avaliações e definições de realidade. construíndo identidades cujas fronteiras simbólicas EUNICE RIBEIRO HURHAM Possui Graduação em Ciências Sociais. mas aparece como "manifestações de oposições ou aceitações que implicam num constante reposicionamento dos grupos sociais na dinâmica das relações de classe" (Idem. com ênfase em Antropologia Urbana. quanto de formular interesses divergentes. Em outras palavras. por exemplo. "fruto da coexistência." (VELHO. a linguagem. culturais e políticos.

mais amplo ou mais restrito. um rumo de vida (VELHO. Essa variável remete ao amadurecimento psicológico. 1987). Um fator que interfere nesta dinamicidade é a faixa etária e o que ela possibilita enquanto vivência. podendo ser reelaborado a cada momento. fruto das experiências vivenciadas dentro do campo de possibilidades de cada um. no contexto de um plano de futuro. sempre no contexto do campo educativo ou de um "campo de possibilidades". os alunos que chegam à escola são sujeitos sócioculturais. com um saber. onde se insere o indivíduo. Portanto. como evidenciamos acima. com um sentido único. mais ainda. aos papéis socialmente construídos. Um projeto é elaborado e constando em função do processo educativo. principalmente quando este é definido previamente pelo sistema ou 105 . e também com um projeto. está às voltas com sua identidade sexual. A escola é parte do projeto dos alunos. as questões e interrogações postas por um adolescente serão muito diferentes das de um jovem de 18 anos e. ou seja. de uma forma ou de outra. pelos colegas no trabalho. e elaboram isto de uma forma mais ampla ou mais restrita. Concretamente. mais ou menos consciente. mas sempre existente.representando uma orientação. não podemos considerá-la como um dado universal. afirmamos que todos os alunos têm. Certamente. Com isso. ao imaginário sobre as fases da vida. de um adulto de 30 anos. Um outro aspecto do projeto é a sua dinamicidade. ou seja. O que implicam estas considerações a respeito da diversidade cultural dos alunos? Um primeiro aspecto a constatar é que a escola é polissêmica. Sendo assim. Um adolescente. seu projeto individual vai espelhar este momento que vive. no contexto sócio-histórico-cultural concreto. pela família. e que circunscreve suas possibilidades de experiências. tem uma multiplicidade de sentidos. por exemplo. com seu papel no grupo: o que é ser homem? O que é ser mulher? Pode estar perplexo diante dos diferentes modelos sociais de homem e mulher que lhe são passados pelos meios de comunicação de massa. uma razão para estar na escola. uma cultura.

1987. suas relações podem estar sendo significadas de forma diferenciada. na forma como estrutura o seu projeto políticopedagógico.pelos prolessores. fabricada dentro de uma experiência cultural específica. mais marcada será a sua autopercepção de individualidade singular. sobre sua própria experiência) e ampliação dos projetos dos alunos? Essa questão torna-se mais presente quando levamos em conta as observações de Gilberto Velho: [. quanto mais tiver de dar conta de ethos e visões de mundo contrastantes. o lugar onde se tira diploma e que possibilita passar em concursos. quanto menos fechada for sua rede de relações ao nível do seu cotidiano. p. 106 . o lugar onde se aprende a ser "educado". não teríamos de fazer da escola um lugar de reflexão (refletir. 32). Sobre o significado da escola. Diferentes significados para um mesmo território certamente irão influir no comportamento dos alunos. Por sua vez. Um segundo aspecto é a articulação entre a experiência que a escola oferece. as respostas são variadas: o lugar de encontrar e conviver com os amigos. e os projetos dos alunos. ou seja.. no cotidiano escolar. o lugar onde se aumentam os conhecimentos.] Quanto mais exposto estiver o ator a experiências diversificadas. a essa consciência da individualidade. e não apenas transmissão de conteúdos. Se partíssemos da ideia de que a experiência escolar é um espaço de formação humana ampla.. corresponderá uma maior elaboração de um projeto (VELHO. dependendo da cultura e projeto dos diversos grupos sociais nela existentes. quanto pelos professores. voltar sobre si mesmo. Dizer que a escola é polissêmica implica levar em conta que seu espaço. seus tempos. bem como nas relações que vão privilegiar. tanto pelos alunos.

A escola não poderia ser um espaço de ampliação de experiências? Considerando-se principalmente a realidade dos alunos dos cursos noturnos, a escola não poderia estar ampliando o acesso, que lhes é negado, a experiências culturais significativas ?

Pensando no exemplo do adolescente em crise, referido anteriormente, podemos nos perguntar também sobre quais lugares ele possui para refletir sobre .suas questões e angústias pessoais. Quais espaços e momentos podem contribuir para que ele se situe em relação ao mundo em que vive? A família, nestes tempos pós-modernos, tem dado conta de responder a demandas desse nível? São questões que remetem a uma reflexão sobre a função social da escola e seu papel no processo de formação de cidadãos. Essa discussão torna-se cada vez mais urgente, principalmente se levarmos em conta, como Vicente BARRETO (1992), que o domínio moral situa-se na ordem da razão, da qual a educação é o instrumento, na sociedade democrática. Quando essa ordem de valores éticos é rompida ou não é transmitida às novas gerações, instala-se a violência, tornando inviável a vida social, política e cultural.

Tais implicações desafiam os educadores a desenvolverem posturas e instrumentos metodológicos que possibilitem o aprimoramento do seu olhar sobre o aluno, como "outro", de tal forma que, conhecendo as dimensões culturais em que ele é diferente, possam resgatar a diferença como tal, e não como deficiência. Implica buscar uma compreensão totalizadora desse outro, conhecendo "não apenas o mundo cultural do aluno mas a vida do adolescente e do adulto em seu mundo de cultura, examinando as suas experiências cotidianas de participação na vida, na cultura e no trabalho". (BRANDÃO, 1986, p.139).Tal postura nos desafia a deslocar o eixo central da escola para o aluno, como adolescentes e adultos reais. Como nos lembra Malinowski, para compreender o outro, é necessário conhecê-lo.

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AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES EDUCATIVAS DO ESPAÇO ESCOLAR

O som estridente da campainha volta a soar, avisando, pela segunda vez, que é hora de iniciar o turno. São 18h 35min e os alunos continuam entrando pelo portão gradeado, deixando as cadernetas com a servente. Entram sozinhos, em grupos, e dirigem-se para um grande pátio coberto em frente à cantina. É grande a algazarra, som de vozes, risos, gritos. Uns param no pátio, conversando em grupos, brincando com outros; alguns seguem direto, pelos corredores, para a sala de aula.

Vista de dentro, a escola ocupa um grande espaço. É formada por dois grandes blocos. Um menor, com salas da administração, de professores, uma biblioteca e uma sala um pouco maior, transformada em auditório. Lá um pequeno pátio descoberto entre os dois blocos: um pouco mais escuro é o lugar preferido dos poucos casais do namorados. Um casal que está se beijando num canto é repreendido pela servente: o namoro é proibido na escola.

O outro bloco tem um grande pátio coberto, que termina na cantina e em dois longos corredores laterais, que dão acesso às salas de aulas. Nesse pátio, existem 4 mesas grandes, baixas, de madeira, para os alunos "tomarem a merenda". Grupos sentam-se sobre as mesas, fazendo delas uma arquibancada. Conversam entre si, mexem com os outros, brincam com as meninas que passam. Umas param e ficam também a conversar. Nesses momentos, misturam-se alunos de diferentes turmas. É perceptível um "clima" diferente daquele de quando estão fora da escola.

O corredor do lado direito é limitado pelo muro alto que cerca a escola; já o do lado esquerdo dá para um desnível, com uma quadra de futebol embaixo, nesse momento, vazia. Há um movimento pelos corredores e, na frente das salas, alguns alunos esperam a chegada dos professores. No meio do bloco há um pequeno corredor que liga os dois
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lados, onde estão os banheiros. Parece ser um lugar próprio para qualquer transgressão, matar aula, por exemplo, pois, além de mais escondido, pemite uma boa visão de quem se aproxima.

No seu conjunto, o espaço físico é rígido, retangular, frio, pouco estimulante. As paredes são lisas, sem nenhum apelo. Apenas há, perto da cantina, cartazes anunciando festas e alguns avisos da escola. Logo os professores começam a passar pelo pátio e alguns alunos vão procurar um ou outro professor. Com o sinal efelivo do começo das aulas, os alunos encaminham-se para as salas e o pátio fica vazio.

A ARQUITETURA DA ESCOLA

A arquitetura e a ocupação do espaço físico não são neutras. Desde a forma da construção até a localização dos espaços, tudo é delimitado formalmente, segundo princípios racionais que expressam uma expectativa de comportamento dos seus usuários. Nesse sentido, a arquitetura escolar interfere na forma da circulação das pessoas, na definição das funções para cada local. Salas, corredores, cantina, pátio, sala dos professores, cada um destes locais têm uma função definida a priori. O espaço arquitetônico da escola expressa uma determinada concepção educativa.

Um primeiro aspecto que chama atenção é o seu isolamento do exterior. Os muros demarcam claramente a passagem entre duas realidades: o mundo da rua e o mundo da escola, como que a tentar separar algo que insiste em se aproximar. A escola tenta fechar-se em seu próprio mundo, com suas regras, ritmos e tempos.

O território é construído de forma a levar as pessoas a um destino, através dos corredores. Chega-se às salas de aula, o locus central do educativo. Assim, boa parte da escola é pensada para uma locomoção rápida, contribuindo para a disciplinação. A

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porém. É a própria força transformadora do uso efetivo sobre a imposição restritiva dos regulamentos. a pobreza estética. com ênfase na valorização da dimensão do encontro. a geografia escolar e. além da sala de aula. com isso. para os alunos. pontos privilegiados de observação do movimento. no entanto. Fica evidente que essa re-significação do espaço. de relacionamentos. confinada à sala de aula e à instrução. onde ficam escondidos aqueles que "matam" aulas.biblioteca fica num canto do prédio. a própria escola. ocasionalmente. a falta de cor. de vida. em dias de muito calor. Mesmo que os alunos. não lhes pertencem. levada a efeito pelos alunos. que a rigor. Mas não só os alunos re-significam o espaço. O corredor do fundo torna-se o local da transgressão. é pensado para atividades pedagógicas. pensado para locomoção. O pátio torna-se lugar de encontro. fazendo dali uma sala de aula. tal como afirmamos anteriormente. espremida num espaço reduzido. também os professores o fazem. ampliando ou limitando suas possibilidades. Os alunos. apropriam-se dos espaços. Uma das professoras dessa escola descrita. de estímulos visuais. Assim. Nenhum local. onde muitas vezes os alunos colocam cadeiras em torno da porta. que pode não coincidir com o dos professores e mesmo com os objetivos expressos pela instituição. Não se leva em conta que a arquitetura é o cenário onde se desenvolve o conjunto das relações pedagógicas. Essa questão. as mesas do pátio tornam-se arquibancadas. tem um sentido próprio. para o prazer de todos. O pátio do meio é resignificado como local do namoro. expressa sua compreensão da escola e das relações. leva seus alunos para as mesas do pátio. recriando neles novos sentidos e suas próprias formas de sociabilidade. Da mesma forma. deixam entrever a concepção educativa estreita. Dessa forma. o re- 110 . e também professores. é também utilizado para encontros. é pouco discutida entre os educadores. O corredor.

tanto quanto no trabalho. pois passam a assumir um papel específico. a cultura da escola são suas características de vida própria. materializam a convivência rotineira de pessoas. Como expressão da cultura. É isso que faz de cada escola. a sala de aula.3 A forma das relações entre os sujeitos vai variar também. se efetivado de fato quando os sujeitos se apropriam desse imaginário e o reelaboram no seu cotidiano. como essas. os corredores. de cada turno. formando grupos de interesse. Neste sentido. em pequenos grupos. No momento em que os jovens cruzam o portão gradeado. existe um limite que muitas vezes restringe a dimensão educativa da escola. também é dinâmica. professores desenvolverem pouco trabalho de grupo com seus alunos. as demandas individuais e as expectativas com a tradição ou a cultura da escola. ocorre um "rito de passagem". Uma discussão sobre a dimensão arquitetônica é importante em um projeto de escola que se proponha a levar em conta as dimensões sócio-cullurais do processo educativo. Alguns grupos de moças ficam andando por ali. tais como: tamanho da sala. quase sempre rapazes. num footing pelo pátio. entre amigos. e muito. diferente daquele desempenhado em casa. O pátio. os comportamentos dos sujeitos. sua cultura. seus ritmos e ritos. Para FORQUIN (1993). dependendo do momento em que ocorrem. suas linguagens. além de ser o da alimentação. A DIMENSÃO DO ENCONTRO As cenas descritas evidenciam que a escola é essencialmente um espaço coletivo de relações grupais. Enquanto uns merendam. É muito comum. seu imaginário. por exemplo. sentam-se sobre as mesas no pátio. . ou mesmo no bairro. Os alunos de diferentes turmas misturam-se. são informados por concepções geradas pelo diálogo entre suas experiências. outros ficam em sala ou pelos corredores. seu regime peculiar de produção e gestão de símbolos. em nome de dificuldades. poderiam contribuir.signifiquem. O recreio é o momento de encontro por excelência. para desvelar e aprofundar a polissemia da escola. carteiras pesadas etc. É também comum haver grupos 111 3. fora ou dentro da sala. no cotidiano escolar. Atividades. e nesta. uma experiência peculiar. é preciso estarmos atentos à forma como os alunos ocupam o espaço da escola e fazermos desta observação motivo de discussões entre professores e alunos. Ao mesmo tempo. seja fora ou dentro da escola. numa clara relação entre tempo e espaço. outros.

nunca tive oportunidade de presenciar alguma conversa que aprofundasse mais algum tema. cada grupo tem regras e valores próprios. P. as relações tendem a ser superficiais. MACLAREN (1991. mas com características próprias. de alguma forma. Na sala de aula observada.D. ou porque. culturas. É a convivência rotineira de pessoas com trajetórias. e o da hora da saída. “estudante”. quando os alunos ficam mais soltos. ou porque não se identificam. combinações. coincide com os comportamentos dos grupos: a turma da bagunça tradicionalmente ocupa o fundo da sala. paqueram. muitas vezes. conversam. predomina um tipo de relação. pelo menos por um ano. por afinidades. programas de televisão. “santidade” e” de casa”. Há um clima diferente entre o encontro no início das aulas. Em cada um deles identifica conjuntos. os CDF ocupam as cadeiras da frente. transgressão. dos quais os emerge um sistema de práticas vividas. 112 . interesses comuns etc. ao contrário. o tempo é sempre curto para um fluir das relações. Em cada um destes momentos. os mauricinhos. há vários alunos "soltos". dificulta a sua concretização. comentários sobre alguma moça ou rapaz. quase sempre identificadas por algum dos estereótipos correntes: a turma da bagunça. discutem. Interfere aqui a mobilidade dos alunos entre escolas. regras e sanções. Na medida em que a escola não incentiva o encontro ou. é a "turma do gargarejo". formam-se sub-grupos. quando as relações tornam-se mais fugazes. recados.4 Em qualquer um dos lugares mencionados. A sala de aula também é um espaço de encontro. com comportamentos e atitudes próprios. com mais avisos. de 26 alunos. É o momento da fruição da afetividade. tornando-se a "turma de trás". interesses diferentes. Com as conversas e brincadeiras ocorrendo preferencialmente no interior de cada um deles. Refletindo sobre as diferentes formas de interação entre os alunos destes com o ambiente no cotidiano escolar.menores nas salas jogando truco. A ocupação dos territórios. são excluídos. ele dáse sempre nos curtos espaços de tempo permitidos ou em situações de 4. que parecem não se ligar a nenhum dos grupos. Durante a observação. Ao mesmo tempo.131) classifica como “estados de interação” os diferentes estilos de relação. organizados de comportamentos. os C. Assim. Sendo assim. com as conversas girando em torno de temas como paqueras. 10 haviam chegado nesse último ano. que passam a dividir um mesmo território. É a formação de "panelinhas".F. Identifica quatro estilos básicos de “esquina de rua”.

Se em cada ano as turmas são misturadas. com vários eventos ocorrendo ao mesmo tempo e os alunos podendo envolver-se com todos eles. que interagia. p. levados a efeito pela escola. Ao mesmo tempo. há um reiniciar constante das relações. como o dar aula. De qualquer forma. onde as pessoas estão lidando constantemente com as normas. de imposição de normas e estratégias individual ou coletivas de transgressão.121). ao mesmo tempo internas e externas aos limites da norma pedagógica. o cotidiano na sala de aula reflete uma experiência de convivência com a diferença. é (mas poderia ser muito mais) um momento de aprendizagem de convivência grupal. é um espaço potencial de debate de idéias.. a sala de aula [. ligado ao lazer. Independente dos conteúdos ministrados. de acordos. a vivência do tempo é específica. Em cada um desses espaços e momentos. Já o tempo na sala de a u l a tende a ser longo.Outro fator que interfere nos agrupamentos são os critérios de enturmacão. passa rápido. A própria atividade escolar. dificultando o seu desenvolvimento. num claro processo de disciplinação. determinava relações e era determinado por relações sociais. confronto de valores e visões de mundo que interferem no processo de formação e educação dos alunos. Como lembra BRANDÃO (1986. um contínuo "transformar a impaciência em hábito". 113 . separando os "bagunceiros". poderoso e impositivo. numa lógica que privilegia o bom comportamento em detrimento da possibilidade de um aprofundamento dos contatos. da postura metodológica dos professores.] funciona não como o corpo simples de alunos e professores regidos por princípios igualmente simples que regram a chatice necessária das atividades pedagógicas. Assim. o tempo do recreio é sempre curto. A tendência é separar as turmas anualmente. os limites e a transgressão. era apenas um breve corte. A sala de aula organiza sua vida a partir de uma complexa trama de relações de aliança o conluios. no entanto. Mais uma vez a escola expressa a lógica instrumental. fazer prova.. desfazendo as "panelinhas".

que se expressa nos gestos e posturas acompanhados de sentimentos. Atua na área de educação. Atualmente é professor colaborador do Programa em PósGraduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. com o confito. E. ncessários para se disputar um espaço no mercado de trabalho. ainda. permite a aprendizagem de viver em grupo. Tomaz Tadeu da Silva Tomaz Tadeu da Silva é P. Deleuze. identidade e pósmodernismo. Foucault.h. 1994). neoliberalismo. a relação com os professores. Alguns servem para fortalecer emocionalmente alunos e/ou professores: é o caso da Semana do Estudante. Estudos Culturais. na maioria das vezes. Publicou mais de 30 artigos em periódicos especializados. a escola torna-se um espaço de encontro entre iguais. Todos eles são momentos que garantem a reprodução de valores considerados universais na nossa cultura. permite o acesso aos códigos culturais dominantes. São momentos mais intensos. há um outro tipo de rituais. É o que muitos autores entendem como "currículo oculto" (SILVA. Além desses. independente da intencionalidade ou dos objetivos explícitos da escola. lidar com a diferença. 30 capítulos de livros e 25 livros. De uma forma mais restrita ou mais ampla. de Spinoza (Autêntica). pela Stanford University (1984).d. a semana de provas são exemplos desses rituais escolares. principalmente. ligados às datas comemorativas. Vista por esse ângulo. que demandam um investimento maior dos professores e um maior envolvimento dos alunos. ativando lembranças que manifestam a tradição de um grupo: como é o caso das festas juninas. implícita. 114 . do Dia dos Professores ou Dia das Mães. Em cada situação. contribuindo. do trabalho. de uma forma qualitativamente distinta da família e. Em seu Currículo Lattes. diferença. Os diferentes comportamentos dos alunos. possibilitando a convivência com a diferença. Potencialmente. há uma dimensão simbólica. trocarem idéias. Cada um dos seus rituais possui uma dimensão pedagógica. os termos mais frequentes na contextualização da produção científica são: currículo. havendo oportunidade para os alunos falarem de si. sentimntos.Podemos dizer que a escola se constitui de um conjunto de tempos e espaços ritualizados. Outros funcionam para tentar injetar uma renovação do compromisso com as motivações e valores dominantes: é o caso da Semana da Pátria. Seu último (2007) trabalho publicado é a tradução da Ética. na construção dos elementos de uma "identidade nacional". outros enfatizam a memória coletiva. com ênfase em Teoria do Currículo. de alguma forma. Possibilita lidar com a subjetividade.

na dinâmica cotidiana da sala de aula e mesmo da vida da escola. ocorre como inexistente.119) afirma: “Aos olhos do observador formal esta face tribal. com autônoma as e transgressivelmente pedagógicas. São onze alunos de uma turma de vinte e seis. mas pouca coisa muda. os alunos movimentam115 . p. ou são simplesmente profanas e profanadoras o bastante para não serem considerados. desbragada e não visivelmente estruturada. chega. A sala está vazia: dentro. este conjunto absolutamente ordenado. Os tempos que a escola reserva para atividades de socialização são mínimos. de Geografia. Ela diz que vai continuar com a matéria. A DIMENSÃO DO CONHECIMENTO NA ESCOLA Às 18h 35min chego à porta da sala. A questão que se coloca é que esta dimensão ocorre predominantemente pela prática usual dos alunos. cumprimenta os alunos. e os mecanismos pedagógicos de controle docente. A professora S. três meninas cochichando num canto.Olhar a instituição escolar pelo prisma elo cotidiano permite vislumbrar a dimensão educativa presente no conjunto das relações sociais que ocorrem no seu interior. Comentando sobre esse aspecto. eles respondem. que a própria vida real da escola se cumpria como uma realidade social culturalmente existente. a geografia da América do Norte. No entanto. e não apenas pedagógica e formalmente pensada. principalmente na ótica dos alunos BRANDÃO (1986. Em boa medida. sempre foi da interaçao justamente entre este lado livre e permissivo da iniciativa discente. regrado e criativo de práticas escolares.. os alunos continuam do mesmo jeito. quando não reprimidos. que não a potencializa. Num primeiro momento. Começa a escrever um "resumo" no quadro. No dia anterior houve jogo do Atlético. a respeito da colonização dos EUA. interagia "atividades planejadas". à revelia da escola. quatro rapazes no fundo discutindo futebol. Os quatro restantes estão calados.

voltam a copiar. a atividade parece ser uma obrigação. conversam com os colegas dos lados. Vander liga o wallkman e fica escutando rádio. coloca seu caderno na mesa e começa a andar pela sala. A "turma de trás". fica evidente como o primeiro horário é sempre esvaziado. einh!" grita Celso. Mas não demoram cinco minutos começa a desconcentração na sala. abrem. gerando uma situação comum a quase todas as aulas: apenas os alunos que estão na primeira fila copiam silenciosos. abraços. e começam a escrever. José começa a conversar com Angela. devido a um acidente na fábrica e que Maria 116 . sobre beijos. mas sem nenhuma relação com o que se passa na sala. sério. correspondendo às imagens criadas. Do outro lado. que eles cumprem para se verem livres. Ele. altera-se o clima: sempre alguém tem algum comentário. Maria levanta a voz e "ordena" que todos tragam as cartolinas para a festa do Haloween. A professora S. logo depois empresta um dos fones para Sheila escutar uma música. Param. A maioria expressa um tédio que é compensado pelo clima de "ti ti ti" que eles próprios criam em sala. é sempre mais barulhenta e desafiadora. O restante inicia um movimento de escrever no caderno. continua escrevendo no quadro. lá de trás. vai até outra carteira. diz que está com um problema na mão. pára na carteira de José e pergunta por que ele não está copiando. sentada na sua frente. numa brincadeira de sedução. No fundo. Ao meu lado. algum recado para aquele que chega. Outro pede uma caneta emprestada. Um aluno levanta. Tudo é motivo de brincadeira: entra uma abelha na sala e começa uma pequena confusão para tirá-la: "olha a picadura deste bicho. mesmo assim. A cada aluno que vai chegando. entabulam alguma discussão. sem alterar-se com o zum zum zum. Às vezes. Para os alunos. Brincadeira. Em quinze minutos chegaram sete alunos. porque há uma regra implícita de não se namorar alguém da própria sala. por pouco tempo. Proessora S.se: pegam os cadernos. Parece ter uma liderança na turma. acaba de copiar. até às 18h 50min.

S. Geografia. S.está copiando para ele. Esses papéis não são dados. por trás desta aparente obviedade. S. faz a chamada pelos números da lista. os alunos terão Geografia. mas poucos prestam atenção no que ela fala: continuam a copiar. a "chatice" de uma rotina asfixiante. em constante bagunça. alunos e professores. S. O que é uma sala de aula? Uma turma de alunos. nas relações no interior da escola. onde os próprios atores. Ele me vê observando a conversa e pisca para mim. desenham. Essa aula servirá de modelo ao fazermos algumas considerações. onde a sala de aula aparece como o espaço 117 . Os processos terminam sendo muito parecidos: ensinar a matéria. num processo contínuo de acordos. parecem não ter a consciência da sua dimensão. Mas se apurarmos o olhar. dizendo que continua a explicação na terceira aula daquele mesmo dia. de qualquer sala de aula. ficam quietos. Essa rede aparece como relações naturalizadas. uns mais envolvidos que outros. Educação Artística. existe uma dinâmica e complexa rede de relações entre os alunos e destes com os professores. ouvem música. Chamou-me a atenção o fato de S. conflitos. que ocorreria naquela noite. não tocar no assunto do eclipse. óbvias. uns interessados e bem comportados. onde pouca coisa muda. despede-se. dando a entender que conseguiu enrolar a professora. Todos estão calados. Os professores. mas sim construídos. Não desperta a atenção da turma. Soa o sinal avisando o fim da aula. outros nem um pouco interessados. observar a sala de aula é constatar o óbvio. Matemática. O horário é significativo: 4 aulas de quarenta minutos cada. aceita a desculpa. mais criativos ou tediosos. Num primeiro momento. começa a explicar a matéria: a explicação baseia-se no resumo que está no quadro. Um aspecto que chama a atenção são os papéis de aluno e de professor. construção de imagens e estereótipos. num conjunto de negociações. Nesse dia.

Os alunos. o "tímido". desvalorizando. com os quais os alunos passam a se identificar. hierarquizando. cada turma 118 . existe um discurso e um comportamento de cada professor que termina produzindo normas e escalas de valores. quase a dizer que se sentiam rejeitados. vai dando-se. até aquele momento. podem ter uma reação própria a cada professor. por exemplo. e ela pode assumir de fato o "tipo" ou abrir o conflito com o professor. É esse mesmo entrecruzamento de modelos que constrói os diferentes "tipos" de professores e demais sujeitos da escola. Na escola observada. dialogando. em particular. mas certamente isto interfere na auto-imagem. Assim. a partir das quais classifica os alunos e a própria turma. assim. naquele espaço. e os alunos. quando havia algum problema. os professores comparavam duas turmas de 8ª série. que terminam por cristalizar modelos de comportamento. Dessa forma. uma delas considerada pior que a outra. É um diálogo com estereótipos socialmente criados. entra em jogo a identidade que cada um veio construindo. Na relação entre professor e aluno. na concretude das relações vivenciadas. e com suas experiências pessoais em escolas anteriores. A construção do papel desses jovens. o "bagunceiro". Concorre para essa escolha a tradição que a própria escola e seus professores mantêm. Na construção do papel de aluno. Falavam disso constantemente. a turma. interferindo diretamente na produção de "tipos" de alunos e da própria turma. valorizando. a turma vai lançando mão desses elementos do imaginário escolar e os reelabora a partir da situação específica de cada um. em relação com a escola. o discurso e a postura destes têm uma influência muito grande. relacionada com uma concepção de aluno. mesmo sendo fruto das relações entre alunos e professores. com maior ou menor proximidade: o "bom aluno".privilegiado. como um todo. o "doidão". Nessa construção de imagens e estereótipos. o "mau aluno". Em cada situação. em diálogo com a tradição familiar. com ênfase na relação com os professores. o "esforçado". comparando. como alunos. quase sempre ligado à disciplina. quando se referiam a essa imagem negativa. negando ou assumindo a sua imagem. Uma turma pode ser "bagunceira" ou "fraca" para uns professores e não o ser para outros. expressavam um certo ressentimento.

que se torna um elemento a mais na produção de sua subjetividade. com ênfase no homossexualismo e na prostituição. sua imagem. em outros espaços além da escola. e muito. inteligente e preguiçoso. Um segundo eixo de questões refere-se ao cotidiano das aulas e à relação com o conhecimento. e mesmo a questões sexuais. responsável e irresponsável etc.pode ter uma especificidade em relação às demais. contribuem. como vimos anteriormente. no caso desses jovens trabalhadores.) e aos comportamentos em sala. É significativo também que. como as repetências constantes (numa turma de 26 alunos. Existe uma dimensão educativa nas relações sociais vivenciadas no interior da instituição. mas de forma mecânica. expressão da lógica instrumental. taxado de "mau aluno". nesse jogo de papéis. ou a desqualificação no trabalho. De uma forma ou de outra. dependendo da forma como se constroem as relações. Nessa criação de imagens e papéis. nesse processo de produção de imagens e estereótipos. para produzir. onde geralmente se expressam com mais clareza os preconceitos e racismos existentes nas relações. que. com sua dinâmica. E mais. tende a se ver assim e deixar-se influenciar por esse rótulo. de forma positiva ou negativa. as imagens criadas quase sempre se refiram a um dos aspectos cognitivos (bom e mau aluno. Os 119 . Aliada a outros fatores. No dia a dia das relações entre professor e alunos. que interfere na produção da subjelividade de cada um dos alunos. uma subjetividade inferiorizada. e o dos alunos. são comuns imagens ligadas à cor ou à raça. no seu conjunto. Um jovem. seu discurso. no desempenho escolar da turma e do aluno. assumindo ou não o estereótipo. 18 já tinham tomado pelo menos uma bomba). parecem existir dois mundos distintos: o do professor. a construção dessas auto-imagens interfere. com cada professor pode ter uma reação diferenciada. com sua matéria. representa o aluno reduzido a sujeito cognoscente. refletindo também no seu desempenho social.

com os mesmos interesses e necessidades. já em curso. muito menos. O conhecimento escolar reduz-se a um conjunto de informações já construídas. O seu olhar percebe os alunos apenas enquanto seres de cognição e. aos alunos. O professor parece não perceber ou não levar em conta a trama de relações e sentidos existentes na sala de aula. ou seja. transmitir esses conteúdos. das relações sociais e seus conflitos. sua maior ou menor disciplina. ao professor. a pergunta imediata poderia ser: quais são os objetivos desta unidade? Qual a relação que existe com a realidade dos alunos? O que e em que este tema acrescenta algo ou é importante para cada um deles? Em nenhum momento. No caso desses conteúdos. São descontextualizadas. sobretudo do aluno. cabendo ao professor transmiti-las e. os alunos são vistos de forma homogênea. por exemplo.dois mundos às vezes se tocam. do seu papel como educador e. uma articulação com a realidade dos alunos. mesmo assim. memorizá-las. regida por princípios igualmente simples. é verdade. O professor não diz e os alunos também não perguntam. materializando o seu papel. Deixa. ensinar. a professora ou qualquer outra professora explicitou os objetivos específicos da matéria que está ensinando. dos processos educativos. na sala de aula. assim. Diante da aula. Para boa parte dos professores. de forma equivocada: sua maior ou menor capacidade de aprender conteúdos e comportamentos. sem uma intencionalidade explícita e. os jovens são “bombardeados” 120 . o professsor não percebe a dimensão do conjunto das relações que se estabelecem ali na sua frente. Parece que a resposta está implícita: o conhecimento é aquele consagrado nos programas e materializado nos livros didáticos. o de aprender conteúdos para fazer provas e passar de ano. quais sejam. de uma das dimensões humanas. Imerso nessa visão estreita da educação. a sala se reduz a uma relação simples e linear entre eles e seus alunos. se cruzam mas. de potencializar a aprendizagem. Cabe. não todos. do grupo. permanecem separados. na maioria das vezes. assim. Como descrevemos no início deste trabalho.

Na concepção desenvolvida por SALVADOR (1994). o aluno aprende quando. atividades de lazer etc. Da forma como está posto. César Coll Salvador é Diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Barcelona. mais do que enfatizar a transmissão de informações. inclusive do Brasil. perplexidades geradas pela vida cotidiana. presos que estão a esta forma de lidar com os conteúdos. dúvidas. Espanha. cada vez mais dominadas pelos meios de comunicação de massa. de alguma forma. apesar das muitas aberrações existentes. Deixam de contribuir no processo de formação mais amplo. Como consultor do Ministério da Educação (MEC) entre 1995 e 1996. publicados em 1997. Cabe perguntar: está havendo. Lá foi o Coordenador da reforma do ensino de1990. o 121 . deixam de se colocar como expressão de uma geração adulta. Também podemos nos perguntar se a escola. um processo de aprendizagem? Se levarmos em conta a noção de aprendizagem significativa. mas a forma como é entendido e trabalhado pelo professor. Não seria o caso de estabelecer relações entre as duas realidades? De analisar essas relações. colaborou na elaboração dos nossos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). nesse caso. não deveria se orientar para contribuir na organização racional das informações recebidas e na reconstrução das concepções acríticas e modelos sociais recebidos. a Renovação Pedagógica. gírias. diante das suas crises. assim. Os professores.constantemente pela indústria cultural. projetos e utopias a ser proposto aos alunos. a resposta é não. com elementos da cultura americana: roupas. portadora de um mundo de valores. na elaboração de seus projetos. O modelo desenvolvido por ele e sua equipe inspirou mudanças na educação de diversos países. regras. compreender o mundo físico e social onde se inserem. o conhecimento escolar deixa de ser um dos meios através dos quais os alunos podem se compreender melhor. a partir do que os próprios alunos já sabem sobre aquele país? O que se questiona não é tanto o conteúdo escolar em si. na sua maioria. contribuindo. como interlocutores desses alunos.

em outras palavras. prévios que já possui. BASIL BERNSTEIN Autor da teoria sobre os impedimentos sociais no aprendizado e sobre o papel que a comunicação linguística desempenha em uma sociedade estruturada em classes.28). p. mediado por sua percepção sobre a escola. sendo em 1967 nomeado catedrático e diretor do Departamento de Pesquisa Sociológica. foi estudar Ciências Sociais na London School of Economics. quanto a Psicologia e a Linguística. Sem qualquer ajuda econômica. curso trocado depois pelo de Sociologia. assumindo o cargo de professor-adjunto de Sociologia da Educação. por suas expectativas." Quando afirmamos a existência de 122 . Alguns meses mais tarde era promovido a professor. Tanto a Antropologia. instituição na qual posteriormente faria seu Doutorado em Lingüística. relacionandoa às diferenças de classes sociais: "A receptividade de uma forma particular de estrutura da língua determina a maneira como são construídas as relações com os ojbjetos e a orientação para uma manipulação própria das palavras. Basil Bernstein nasceu em Londres. Este autor mostra também que a cognição se expressa nos diferentes usos da linguagem. foi obrigado a trabalhar para continuar os estudos. Dois anos depois. como evidencia Basil BERNSTEIN (1971. sua obra teve grande influência na reforma educacional de países como Chile e México. aprendizagem pelos implica. Suas pesquisas culminaram com a publicação de A Estrutura do Discurso Pedagógico. E aqui retomamos a discussão sobre a diversidade cultural. em 1997. É um processo de construção de significados. os sentimentos e emoções. filho de uma família de imigrantes judeus. Foi nessa época que escreveu duas de suas obras mais importantes: Estudos Teóricos para uma Sociologia da Linguagem (1971) e Estudos Aplicados (1973). o professor e sua atuação. e as suas expressões ou. já constataram a relação íntima existente entre a cultura de origem. conhecimentos assim. quando estabelece relações substantivas e não arbitrárias entre o que se aprende e o que já conhece. ingressou no Instituto de Educação. ou seja. Em 1960. Em 1947. conseguiu uma bolsa de pesquisa em Fonética no University College de Londres. entre A o estabeIecer um diálogo conhecimento a ser ensinado e a cultura de origem do aluno. a relação íntima entre a construção de um universo simbólico e a dimensão cognitiva. entre outras áreas das Ciências Sociais.conhecimento se torna significativo para ele.

O que dá sentido e motivação são as notas. Nesses casos. implica afirmar que. Nosso período de observação foi o 4° bimestre. com ele. principalmente daquela dirigida às camadas populares. E a escola também tende a se tornar um meio para outro fim: o diploma e. a aula. aquelas em que precisavam mais ou. podemos ter uma diversidade de formas de articulação cognitiva. para a aprendizagem efetivar-se. ou uma certa estabilidade ocupacïonal. assim. pode ser uma das causas centrais do fracasso da escola. são mediadores no processo de ensino e aprendizagem. é que o que é oferecido aos alunos é uma versão empobrecida. dos conteúdos ministrados na escola. diluída e degradada do conhecimento. os possíveis pontos que vão ganhar com cada uma das atividades passadas pelo professor. retomando a questão do aluno como um sujeito sócio-cultural. parece ser uma provação necessária para atingir a meta. O que observamos. A falta de acesso dos alunos a um corpo de conhecimentos significativos. e as conversas dominantes entre os alunos eram a respeito dos pontos necessários para passar em cada uma das matérias. Vista num outro ângulo. é necessário levar em conta o aluno em sua totalidade. seus sentimentos. menos e – felicidade – aquelas nas quais não precisavam de nenhum ponto. veio sendo construída nas experiências escolares. 123 . nem era mais necessário frequentar as aulas. com coerência interna. Se os alunos têm essa percepção das aulas e dos conteúdos é porque ela. seu corpo. para os alunos. que possibilite um diálogo com sua realidade. das mais diferentes matérias. quando sua cultura. O conteúdo é encarado como um meio para o verdadeiro fim: passar de ano. que é ter notas para passar de ano. a esperança de um emprego melhor. numa mesma sala.uma diversidade cultural entre os alunos. em grande parte das aulas assistidas. Dessa forma. cabe também nos perguntarmos pela qualidade dos conhecimentos. aliada a uma postura pedagógica estreita. Além da postura pedagógica dos professores.

ficando quietos praticamente todo o período. como muitos professores gostam de afirmar. A intensidade e o grau de envolvimento nas aulas vão depender do papel que se assume como aluno. o ritmo alternado de concentração e desconcenlração. na concentração. e também professores. neste nível. o é individualmente. Os professores não conseguem (e muitas vezes não pretendem) disciplinar minimamente os alunos. as alunos vão produzindo estratégias próprias. que pouco acrescentam à dimensão 124 . Na sala. para suportar a "chatice necessária" das aulas. por exemplo. Parece que o que é aprendido. é fruto da própria cultura escolar. São momentos quando fica mais explícita a noção de uns e outros a respeito da escola. Os estudantes tendem a criar um mundo próprio. Nesse sentido. dependendo de cada professor e da relação que ele cria com a turma. que são as habilidades básicas necessárias ao processo de construção de conhecimentos. por parte dos professores ou da escola. O próprio nome já indica que são atividades realizadas fora dos marcos do que são considerados efetivamente pedagógicos. Nas aulas. Em suma. Para muitos alunos. Talvez por isso mesmo. sua função. as atividades extra-classe são perda de tempo. O cotidiano evidencia a pouca ênfase na criação de hábitos necessários ao trabalho intelectual. o prazer e o lúdico são permitidos. até os que não param ou que ficam escutando rádio pelo walkman. de articulação entre fatos etc. Mas no cotidiano da sala de aula. não estimulam o exercício das capacidades de abstração. "penduricalhos" pedagógicos. suas dimensões educativas. de questionamento. participam. tem desde aqueles que não dão uma palavra. mesmo tendo estes objetivos. O que parece mesmo ajudar a passar o tempo são as conversas e brincadeiras.Mais do que "alienação" dos alunos. nelas. não há uma intencionalidade naquilo que seria uma das funções centrais da escola. Junto a esta dimensão do conhecimento. mais ou menos permeável. e muito menos o conjunto dos professores. sem uma intencionalidade. na atenção. ficam reduzidas as passibilidades educativas. um outro elemento fundamental na escola são as alividades extra-classe. nem todos os alunos. Nessas atividades. Poucos conseguem tocar efetivamente a turma.

ensaiar. aos conteúdos. Durante a semana. contribuindo. dividir responsabilidades. Não deixa de significar um resgate da capacidade de criar. Ao mesmo tempo. os alunos organizam-se. para o fortalecimento do sentimento de grupo entre os alunos e os professores. Apesar daqueles professores que promoveram a festa trabalharem de alguma forma com o tema em suas aulas. de potencializar as capacidades que quase nunca são estimuladas no cotidiano destes jovens. nas aulas. produzir as fantasias. mudando o clima da escola. Mas. coordenada pelas professoras de Inglês. o "ensino forte". Cada turma teve de preparar alguma alividade para apresentar. do sentimento de ser criativo. além de contribuir na confecção da ornamentação: vampiros. A preparação deu-se em uma semana. através do prazer. O fato de uma turma produzir uma coreografia. uma atividade como esta aponta para a riqueza pedagógica dessas situações. que é a transmissão de conteúdos. evidenciando uma predisposição a participar de atividades culturais.educativa central. na sua maioria. mesmo com esses limites. de um cotidiano monótono. ampliando o acesso dos alunos aos bens e expressões culturais. O que foi apresentado foi criação apenas dos alunos. para uma excitação significativa. Presenciamos um destes eventos. As apresentações. relacionando tais ações ao cotidiano da sala de aula. No dia. sem nenhuma orientação ou acréscimo por parte dos professores. Era visível o envolvimento e interesse de boa parte dos alunos. é uma experiência educativa intensa. brigar com aqueles que não queriam se envolver. ficar tensa na véspera da apresentação. à noite. havia uma desconexão entre o conteúdo da sala e o extra-classe. o recreio era o momento em que cada turma ensaiava sua apresentação e. expressar. foram coreografias coletivas de dança. chama a atenção o fato da escola não aproveitar esses momentos e situações para ampliar seu trabalho educativo. aranhas e morcegos de cartolina. a comunidade lotou o anfiteatro. Português e Educação Física. para o reforço da autoestima. Aponta também 125 . a festa do Halloween. no dizer de muitos alunos. apresentar e ser aplaudida.

Portanto. um determinado olhar sobre a instituição escolar. o tempo e seus rituais cotidianos. Finalizando. Isso evidencia a falta de sensibilidade de colocar a organização da escola em função daqueles que são sua razão do existir. ressaltamos aspectos e dimensões presentes no cotidiano escolar. enquanto limite e possibilidade. iniciar as aulas às 18h 30min irá resultar em não menos de 50% do infrequência diária no primeiro horário. Buscamos desvelar como os atores lidam na escola com o espaço. Um último aspecto a ser analisado diz respeito à estrutura da escola. ao longo deste texto. ou seja. que muitas vezes nos passam despercebidos. polissêmica. vimos definindo a escola como uma instituição dinâmica. cuja dimensão educativa encontra-se também nas experiências humanas e sociais ali existentes. Se grande parte dos alunos dessa escola são trabalhadores. A forma como a escola se organiza. num diálogo ou conflito constante com a sua organização. vimos construindo. Na escola. que nada acrescentam aos "objetivos educacionais". sujeitos de experiências sociais que são feitas reproduzindo e elaborando uma cultura própria. os alunos. pouco leva em conta a realidade e os anseios dos alunos.para o potencial da escola como um espaço de cultura e lazer para o próprio bairro. Exemplo claro deste deslocamento é o horário de início das aulas. desempenham um papel ativo no cotidiano. como divide os tempos e espaços. definindo de fato o que a escola é. como se a instituição em si tivesse algum sentido. apreendida enquanto espaço sóciocultural. buscamos apreender alunos e professores como sujeitos sócio-culturais. Neste sentido. aparecem como "naturalizados" ou óbvios. Concluímos que os atores vivenciam o espaço escolar como uma unidade sóciocultural complexa. Os alunos parecem vivenciar e valorizar uma dimensão educativa inportante em espaços o tempos que geralmente a Pedagogia desconsidera: os momentos do 126 . fruto de um processo de construção social Nesta ótica. ou seja. Há aí um deslocamento: a escola parece organizar-se para si mesma.

seu fazer e seus sujeitos. Acreditamos que a escola pode e deve ser um espaço de formação ampla do aluno. Tornam-se necessários a ampliação e o aprofundamento das análises que. para a problematização da sua função social. podem contribuir. como suporte no desenvolvimento singular do aluno como sujeito sócio-cultural. da afelividade. 127 . Independente dos objetivos explícitos da escola. contribuindo. vem ocorrendo no seu interior uma multiplicidade de situações e conteúdos educativos. apurando o nosso olhar sobre a instituição. assim. como essa. do diálogo. buscam apreender a escola na sua dimensão cotidiana. que aprofunde o seu processo de humanização. assim. aprimorando as dimensões e habilidades que fazem de cada um de nós seres humanos. às relações sociais. e no aprimoramento de sua vida social. às experiências culturais diversas. É fundamental que os profissionais da escola reflitam mais detidamente a respeito dos conteúdos e significados da forma como a escola se organiza e funciona no cotidiano.encontro. que podem e devem ser potencializados. O acesso ao conhecimento.

Educação e Sociedade (Leituras de Sociologia da Educação). 1991. São Paulo: Nacional. ed.br/biografias/klick/0. 1987. C. Porto Alegre: Artes Médicas. COSTA. Série formação geral).com. Tadeu Tomaz da. Sociologia da Educação. Sociologia. 5. Brasiliense. Sociologia da Educação. 1992. Porto Alegre.REFERÊNCIA BIBILOGRÁFICA BAUDELOT. n. ed. FORACCHI. 3. – (coleção magistério – 2º grau. 1992. Sônia M. SILVA. MEKESENAS.uol. Alberto Tosi.5387.wikipedia. Cristian.org/wiki/Boaventura_de_Sousa_Santos http://www.zahar.com. RODRIGUES. 1987.org/wiki/Edward_Palmer_Thompson http://educacao. 13. http://pt. p. Marialice m. São Paulo: Cortez. IN:______________. MARTINS.. B. 13-28. Rio de Janeiro: DP e A.1540-biografia9.asp?aut=Gilberto+V elho&ORDEM=A http://pt. & PEREIRA. 2004. Paulo. 1994. São Paulo: Moderna. A Sociologia a Educação: Para quê? IN: Teoria & Educação. Kruppa. 2. São Paulo: Cortez. 1994.wikipedia. O que produz e o que reproduz em educação. O que é Sociologia. São Paulo. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. e aum. Maria Cristina Castilho. A Sociologia da Educação: entre o funcionalismo e o pós-modernismo.00. ed. Ver. Luiz. Portella.br/catalogo_autores_detalhe.jhtm Ferdinan Francisco do Nascimento 128 .

pela Universidade Federal do Piauí. É Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais.Nasceu em Teresina – Piauí. Foi Professor substituto da disciplina Sociologia da Educação. do Centro de Ciências da Educação da UFPI e da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É professor do Curso de Especialização em Gestão da Escola de Gestores do MEC (ministério da Educação). 129 . É especialista em Educação. Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável pela mesma Universidade. É professor de Sociologia da rede pública e do sistema privado de ensino.

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