Dois Perdidos Numa Noite Suja

(Plínio Marcos)

Personagens Tonho Paco

Primeiro Quadro (Paco está deitado em uma das camas tocando muito mal uma gaita. De vez em quanto, para de tocar, olha para seus pés, que estão calçados com um lindo par de sapatos, completamente em desacordo com sua roupa. Com a manga do paletó, limpa os sapatos. Paco está tocando, entra Tonho, que não dá bola para Paco, vai direto para sua cama, senta-se nela e, com as mãos a examina) TONHO – Ei! Para de tocar essa droga. (Paco finge que não ouve) TONHO – (gritando) Não escutou o que eu disse? Pára com essa zoeira. (Paco continua tocando) TONHO – É surdo, desgraçado? (Tonho vai até Paco e o sacode pelos ombros) TONHO – Você não escuta a gente falar? PACO – (calmo) Oi, você está aí? TONHO – Estou aqui para dormir. PACO – E daí? Quer que eu toque uma canção de ninar? TONHO – Quero que você não faça barulho. PACO – Poxa! Por que? TONHO – Porque eu quero dormir. PACO – Ainda é cedo.

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TONHO – Mas eu já quero dormir. PACO – E eu tocar. TONHO – Eu paguei para dormir. PACO – Mas não vai consegui. TONHO – Quem disse que não? PACO – As pulgas. Essa estrebaria está assim de pulgas. TONHO – Disso eu sei. Agora eu quero que você não me perturbe. PACO – Poxa! Mas o que você quer? TONHO – Só quero dormir. PACO – Então para de berrar e dorme. TONHO – Está bem. Mas não se meta a fazer barulho. (Tonho volta para sua cama, Paco recomeça a tocar) TONHO – Pára com essa música estúpida! Não entendeu que eu quero silêncio? PACO – E daí? Você não manda. TONHO – Quer encrenca? Vai ter! se soprar mais uma vez essa droga, vou quebrar essa porcaria. PACO – Estou morrendo de medo. TONHO – Se duvida, toca esse troço. (Paco sopra a gaita. Tonho pula sobre Paco. Os dois lutam com violência. Tonho leva vantagem e tira a gaita de Paco) PACO – Filho da puta! TONHO – Avisei, não escutou, se deu mal. PACO – Dá essa gaita pra cá. TONHO – Vem pegar. PACO – Porra! Deixa de onda e me dá essa merda. TONHO – Se tem coragem, vem pegar.

PACO – Pra que fazer força? Você vai ter que dormir mesmo. TONHO – Antes de dormir, jogo essa merda na privada e puxo a bomba. PACO – Se você fizer isso, eu te apago. TONHO – Experimenta. PACO – Se duvida, joga. TONHO – Jogo. E daí? PACO – Então joga. TONHO – Você só tem boca-dura PACO – É melhor você me dar essa merda. TONHO – Não enche o saco. PACO – Anda logo. Me dá isso. TONHO – Não vou dar. (Paco pula sobre Tonho. Esse mais uma vez leva vantagem. Joga Paco longe com um empurrão) TONHO – Ta vendo, palhaço? Comigo você só entra bem? PACO – Eu quero minha gaita. TONHO – Se você ficar bonzinho, amanhã de manhã eu devolvo. PACO – Quero a minha gaita já. TONHO – Não tem acordo. (Pausa. Tonho deita-se, e Paco fica onde está, Olhando Tonho) TONHO – Vai fica aí me invocando? PACO – Já estou invocado há muito tempo. TONHO – Poxa! Vê se me esquece, Paco. PACO – Então me dá a gaita. TONHO – Você não toca? PACO – Não vou tocar.

TONHO – Palavra? PACO – Juro. TONHO – Então toma. (Tonho joga a gaita na cama de Paco.) Se tocar já sabe. Pego outra vez e quebro. (Paco limpa a gaita e a guarda. Olha o sapato, limpa com a manga do paletó) PACO – Você arranhou meu sapato. (molha o dedo na boca e passa no sapato.) Meu pisante é legal pra chuchu. (examina o sapato.) Você não acha bacana? TONHO – Onde roubou? PACO – Roubou o que? TONHO – O sapato. PACO – Não roubei. TONHO – Não mente. PACO – Não sou ladrão. TONHO – Você não me engana. PACO – Nunca roubei nada. TONHO – Pensa que sou bobo? PACO – Você está enganado comigo. TONHO – Deixa de onda e me dá o serviço. PACO – Que serviço? TONHO – Está se fazendo de otário? Quero saber onde você roubou estes sapatos. PACO – Esses? TONHO – É. PACO – Mas eu não roubei. TONHO – Passou a mão. PACO – Não sou disso. TONHO – Conta logo. Onde roubou?

nunca fui ladrão! Nunca roubei nada! Juro! Juro! Juro que não roubei! Juro! TONHO – (gritando) Para com isso! PACO – Eu não roubei! TONHO – Está bem! Está bem! Mas fecha esse berreiro. TONHO – Mentiroso! Ladrão! Ladrão de sapato! PACO – Cala essa boca! TONHO – Ladrão mentiroso! PACO – Não roubei! Não roubei! TONHO – Confessa logo. TONHO – Onde conseguiu então? PACO – Trabalhando. TONHO – Pensa que sou trouxa? PACO – Parece (ri) . TONHO – Sei lá. PACO – Não enche o saco. TONHO – Canalha! Jurando falso. canalha! PACO – (bem nervoso) Eu não roubei! Eu não roubei! Eu não roubei! (começa a chorar) Não roubei! Porra. mas não é roubado. Porra! TONHO – Então abre logo. PACO – O pisante é bacana. PACO – Que você quer? Não roubei e fim.PACO – Juro que não roubei. (Paco para de chorar e começa a ri) PACO – Você sabe que eu não afanei nada. TONHO – Onde achou? PACO – Não achei.

TONHO – Que bronca. Como então você conseguiu comprar esses sapatos? PACO – Eu não comprei. TONHO – Você é louco. TONHO – Nem você. seu? PACO – Você bota olho-gordo no meu pisante.TONHO – Idiota! (Paco ri) TONHO – Nós dois trabalhamos no mesmo serviço. PACO – Ganhei. todo jogado-fora. PACO – Não manjo. . TONHO – O que? PACO – Toda a sua bronca. PACO – Você tem um sapato velho. TONHO – Por que alguém ia dar um sapato bonito desses para uma besta como você? PACO – Ah. E nunca consegui mais do que o suficiente para comer mal e dormir nesta espelunca. agora eu sei porque você sempre invoca comigo. E daí? PACO – Já morei. TONHO – De quem? PACO – De um cara. Vivemos de biscate no mercado. e inveja o meu. TONHO – Que cara? PACO – Você não manja. PACO – Louco nada. TONHO – Você é uma besta. Eu sou muito mais esperto e trabalho muito mais do que você. mas ele me deu o sapato. você também acha meu sapato legal? TONHO – Acho. TONHO – Então roubou.

PACO – Você não perde por esperar. TONHO – Quando dou é pra valer.TONHO – Eu. PACO – Você me machucou. O sapato do cavalão é furado. vendo que Paco não se move. Este ainda ri. Ofegante. demonstra preocupação. o trouxão não vê e pisa em cima.) Lá vem o trouxão. Coitadinho! Deve ficar uma vara quando pisa num cigarro acesso. Deita-se depois de algum tempo levanta a cabeça e. perde as forças e para. (Paco pega seu pé e finge que assopra) Ai! Ai! Ai! (Paco começa a rir e cai na cama gargalhando. com fúria. quando saio rápido com meu sapato novo e você demora aí forrando sua droga com jornal velho. PACO – Invejoso! TONHO – Cala essa boca! PACO – De manhã. deve ficar cheio de bronca.). TONHO – (bravo) Chega! (Paco continua a rir. PACO – Você me paga. canalha? TONHO – Eu não estava brincando. Tonho pula sobre ele e. . TONHO – Você não é de nada. por fim para. todo cheio de panca (anda com pose) Daí um cara joga a bia de cigarro. (Paco representa uma pantomima. volta para sua cama. não. TONHO – Palhaço! PACO – (gargalhando) Por isso que você é azedo. TONHO – Quer mais? PACO – Não sabe brincar. Aproxima-se de Paco e o sacode) TONHO – Desgraçado! Será que morreu? (Tonho enche um copo com água de uma moringa e o despeja na cara de Paco) PACO – Ai! Ai! TONHO – Ainda bem que não morreu. ele queima o pé e cai da panca. cansado. dá violentos socos na cara de Paco. Depois. Tonho continua batendo. PACO – Vai ter forra.

dorme. Não esqueça a surra que te dei. TONHO – Poxa. PACO – Você sabe muita coisa. Dorme.. PACO – Não esqueço fácil.. TONHO – Vai querer me apagar dormindo? PACO – Não falei nada. Fiquei cansado de bater em você. TONHO – Mais do que você. PACO – Duvido muito. TONHO – Não. (ri) PACO – Está muito alegre. TONHO – Agora cale a boca. E fique sabendo que posso te dar outra a hora que eu quiser. TONHO – Nem pense em me atacar. Por que. você não gosta de tirar um sarro? PACO – Quem ri por último. Quero dormir. paspalho. (Tonho ri) PACO – Mas isso não vai ficar assim. TONHO – Fecha essa latrina de uma vez. não. em vez de carregar caixa no mercado. não vai ser presidente da república? . TONHO – Que quer dizer com isso? PACO – Nada. PACO – Falo quando quiser. ri melhor. eu sei. PACO – Muito sabido. TONHO – Acho bom. TONHO – Você só sabe resmungar. Vai inchar pra chuchu.TONHO – Deixa isso pra lá. PACO – Se tem coragem de dormir. Não foi nada. PACO – Não foi nada porque não foi na sua cara.

PACO – Se eu tivesse estudado. encabulei e errei tudo. eu me afobei e entrei bem. Mas logo acerto tudo. Eu sabia responder àqueles problemas. Você é muito touxa. sua besta. Não conhecia ninguém nessa terra. TONHO – Estava me abrindo com você. toque.. me apresentei para fazer um teste num banco que precisava de um funcionário. foi difícil me virar. TONHO – É. (Pausa longa. bastava eu ter um sapato. claro que eu seria aprovado. nunca ia ficar assim jogado fora. Eu só dependo do sapato. poxa. Estou aqui por pouco tempo. ou outra droga qualquer.. Nós entramos na sala pra fazer o exame. Eu estudei. você enche o saco. me mediu de cima a baixo. Outro dia. Tinha um monte de gente querendo o lugar. Paco? PACO – Digo que quando você começa a falar. E era tudo coisa fácil que caiu no exame. eu já tinha me livrado dessa vida. como um amigo. Como eu posso chegar em algum lugar com um pisante desses? Todo mundo a primeira coisa que faz é ficar olhando para o pé da gente. O sujeito que parecia ser o chefe bateu os olhos. PACO – Acho difícil.. Só que por causa do meu sapato. você ia ver. TONHO – Com você a gente não pode falar sério. daquele jeito. deu uma risadinha. Mas vou. Estudar. PACO – Vai ser lixeiro? TONHO – Não. Eu fiquei nervoso paca. Mas. Se não fosse isso. Paco tira a gaita do bolso e fica brincando com ela) TONHO – Quer tocar. PACO – Quem tem amigo é puta de zona.. (pausa.TONHO – Quem pensa que eu sou? Um estúpido da sua laia? Eu estudei. Logo arranjo um serviço legal. Assim como o seu. pra carregar caixa. Nem precisava tanto. TONHO – Só preciso é ganhar uma grana pra me ajeitar um pouco. TONHO – Fiquei assim. PACO – Posso tocar? . Quando viu o meu sapato. E é verdade. Não posso me apresentar todo roto e com esse sapato. PACO – Você só sabe chorar. Sabe. porque vim do interior. PACO – Bela merda. Se eu tivesse boa roupa. se o seu sapato fosse meu.) Que diz. Eu fiz até o ginásio. me invocou. TONHO – Você é que pensa. às vezes eu penso que. Vou ser funcionário público. Sei Computação e tudo.

ter medo de homem? No dia que eu tiver medo de homem. Pra sua avó. PACO – Não pense que todo dia é dia santo.) Segundo Quadro (Paco está deitado. Ontem foi ontem. PACO – Se quiser.. TONHO – Você é muito valente. TONHO – Então por que parou quando eu cheguei? PACO – Eu quero te dar um aviso. TONHO – Pensei que tinha parado por minha causa. Tonho acende um cigarro e dá uma longa tragada. a hora que eu encher.TONHO – Faça o que lhe der na telha. PACO – Tocarei em sua honra. ninguém manda em mim. TONHO – Esqueceu de ontem? PACO – Eu não esqueço de nada. Paco para de tocar) TONHO – Pode continuar tocando. Mas por que parou quando eu cheguei? Ficou com medo? PACO – Eu. . eu toco. nem saio mais na rua.. TONHO – E hoje é a mesma coisa. eu faço você parar na marra. (Paco começa a tocar. PACO – Eu toco quando quiser. Pode tocar. TONHO – Dar um aviso para mim? PACO – Não. Fim do primeiro quadro. entra Tonho. Luz apaga. não uso mais calça com braguilha. Nana neném que a cuca vem pegar. PACO – Não vou perturbar o seu sono? TONHO – Não. PACO – Paro só quando eu quero. Você não faz nada. TONHO – Então deveria saber que. Nota: Ficaria muito bom se quando apagasse a luz Paco pegasse o isqueiro e fosse riscando e cantando.

TONHO – Mas o que eu fiz pra ele? PACO – Sei lá! Só sei que ele disse que você é muito fresco e que ele vai acabar com essa frescura. TONHO – Por que não? . PACO – O que eu sei é que ele está uma vara com você. TONHO – Quando ele falou isso? PACO – Hoje.TONHO – O que é que você quer me avisar? PACO – O que o negrão mandou te avisar. PACO – Esse você manja. PACO – Se você não sabe. TONHO – Que negrão? PACO – Que negrão! Aquele lá do mercado. mas que você era o fim da picada. logo eu! Eu não sou disso. (Pausa) TONHO – Acho que você fez alguma fofoca. TONHO – Por que o negrão iria se invocar comigo? Não fiz nada pra ele. PACO – Azar seu. Falou que eu era um cara legal. PACO – Poxa. eu vou saber? TONHO – Alguém aprontou pra mim. TONHO – O que ele quer comigo? PACO – Ele mandou avisar que vai te dar tanta porrada. Porra. Que você é um cara que não agüenta nem um peido e que ele vai te ensinar a não se atravessar na vida dos outros. TONHO – Como vou saber quem é? Lá tem muitos negrões. que é até capaz de te apagar. no bar. TONHO – Só queira saber por que ele ficou com bronca de mim. (Pausa) Agora você não vai poder mais baixar no mercado. me chamou e disse tudo. O negrão é fogo numa briga. É uma que usa gorrinho de meia de mulher pra alisar o cabelo.

PACO – E pegaria também a bronca do negrão (Pausa) . PACO – E daí? Só porque ele não estava. O negrão é esperto. em que caminhão você trabalhou hoje? TONHO – No caminhão do peixe. TONHO – Bastava você saber o que eu fiz pra ele. você foi pondo o bedelho. TONHO – Eles não iam ficar esperando a vida toda pra descarregar PACO – Isso não é problema seu TONHO – Se eu não pegasse. quase matou o desgraçado de tanta porrada que deu (Pausa) Você tem medo do negrão? TONHO – (Sem convicção) Eu. Você não conhece. eu ferro o miserável. Tonho! Assim é que é. não. TONHO – Você só pensa em briga. Uma vez ele pegou um chofer que dava uns dez de você. Nem eu pra ele. PACO – Boa. Homem macho não tem medo de homem. PACO – Deixa querer. PACO – Eu. eu não me meto. folgou. quando é assim. PACO – Poxa. TONHO – O chofer é que quis. TONHO – Mas o negrão nem estava no mercado.PACO – Vai me enganar que você vai encarar o negrão? Ele come a tua alma. não. ou vai dar pra trás? TONHO – Você podia quebrar o meu galho com o negrão. outro pegaria. (pausa) Você vai encarar ele? TONHO – Sei lá! Ele não me fez nada. Vai lá e briga. Comigo é assim. e os cambaus. Em briga dos outro. Ele é que quer. PACO – Eu. PACO – Poxa. Mas se um cara começa a dizer pra todo mundo que eu sou fresco. Pode ser quem for. não. ele disse que você é fresco. ele briga paca. Ele sempre trabalha aí. O negrão é grande. mas não é dois. dou pau (pausa) Como é? Você vai fazer como eu. PACO – Era o caminhão do negrão.

(mole) TONHO – Que vou fazer. PACO – Mata ele primeiro. Ele não é de dar arreglo. então? PACO – Sei lá! O negrão sacaneado é esperto. mas às vezes ele é até capas de afinar. PACO – Não vai dar pé. O negrão pode ficar pensando que você é de alguma coisa. TONHO – Então não tem remédio. daí vai querer gritar. TONHO – Disso eu sei. mas já é tarde.PACO – O que você vai fazer? TONHO – Vou falar com ele. dá uma porrada. PACO – Você não está a fim de briga. PACO – Homem de merda que você é. (Pausa) TONHO – O único jeito é falar com o negrão. ninguém mais vai respeitar. você é um cagão. PACO – Então calça a moleira dele. O negrão não é bicho. PACO – Quando você ver ele. antes de conversar. TONHO – Só porque não quero me pegar com o negrão? PACO – Poxa. PACO – Limpa a tua barra. vai deixando. TONHO – Depois ele me mata. Um dia a turma começa a passar mão no teu rabo. PACO – Olha que ele te capa. Deixa barato. PACO – Porra. ele anda dizendo que você é fresco. (pausa) Quer que eu avise que você vai topar ele? TONHO – Pra que isso? Não precisa avisar nada. TONHO – E não estou mesmo. . já vi tudo. TONHO – A única saída é bater um papo com ele. Eu duvido. Você não é macho? TONHO – Mas não estou a fim de matar ninguém.

(Pausa) TONHO – Eu não posso brigar com o negrão! Será que você não se manca? O negrão é um cara sem eira nem beira. TONHO – Eu bem que queria ficar. minha mãe é que sofre. mas só quando me aprumar na vida. É que posso evitar encrenca. não tem onde cair morto. Mãe é que a gente sabe quem é. e eu não admito que você fale mal dela. TONHO – Você não tem pai. por acaso? PACO – Claro que eu tive um pai. TONHO – Vou voltar. PACO – Então volta pro rabo da sua da tua mãe. fica lá na sua casa. como tanto fez. Para ele tanto faz. Não conta com o azar. miserável. TONHO – Eu sei quem é meu pai. Papai não pode me ajudar. PACO – Vai me enganar que você tem casa? TONHO – Claro. TONHO – Não vou enfrentar negrão nenhum. Foi o que eu fiz. Quando acabei o exército. PACO – Guarda seus gritos pro negrão. Poxa. PACO – Então nunca mais vai ver sua coroa. Mas minha cidade não tem emprego. PACO – Quem tem papai é bicha.. com todo mundo. se eu faço uma besteira qualquer. PACO – Sei lá se é. Só que não sei quem é. Quem quer ser alguma coisa na vida tem que sair de lá. Minha mãe é uma santa. . Sua velha pode ter trepado com qualquer um. Falo com o negrão e acerto os ponteiros.. Pai pode ser qualquer um. Não sou filho de chocadeira. TONHO – Olha lá. TONHO – Não é medo. entendeu? PACO – Você está com o rabo na mão. PACO – Então o que veio fazer aqui? Só encher o saco dos outros? Poxa. PACO – Quem é teu pai? TONHO – Quem você queria que fosse? Meu pai é meu pai. vim pra cá. Ela já chorou paca no dia que saí de casa.

depois se eu puder fazer alguma coisa por você eu faço. PACO – Quem gosta de você é o negrão. Isso é que eu quero ver. Tenho que desafogar Aquino mercado. Quando escrevo pra casa. (Pausa) Se o negrão te pega. Uma boa apresentação abre as portas. há essas horas estava longe daqui. Mas dei azar. mas no mercado. PACO – Você é muito escamoso. TONHO – Você podia ame ajudar. Ele vai ficar muito triste se você não baixar. Se eu tivesse sorte de me ajeitar logo que cheguei. Não vai adiantar chamar pela mamãe. TONHO – Eu só preciso de um sapato. Eu arranjo emprego. PACO – Ninguém me ajuda. Vou me agüentando. digo que está tudo bem. . PACO – Quero ver você se pegar com o negrão. TONHO – Você até parece que quer ver minha caveira. Desse jeito só pode tubular. Tem medo de pedir emprego por causa do sapatão. Eu não tenho coragem de ir procurar emprego com essa droga nos pés. Você nunca vai ser ninguém. Ele vai te arrebentar. Paco.TONHO – E por que não? PACO – Não força a paciência. Volta pra tua casa. Tem medo de encarar o negrão. pra sossegar o pessoal. PACO – Então vai logo. TONHO – É só um dia. Sei que eles não podem me ajudar. TONHO – Não. Aqui você só vai entrar bem. já vai tarde. Se vira de outro jeito. Amanhã mesmo ia procurar emprego. PACO – Vou te dar um alô. Um dia me firmo. Meu negócio é aqui. TONHO – Vontade de voltar não me falta. Por que vou te ajudar? TONHO – É só você me emprestar eu sapato. PACO – Eu. te emprestar o meu sapato não tenho filho do teu tamanho. não escutou eu te dizer que aqui não vai dar pé? TONHO – Não sei por que não vou me dar bem. TONHO – Poxa. PACO – Saí pra lá. PACO – Porra. Não precisava mais voltar nessa merda de mercado. Me quebra esse calho. O sapato estragou.

Fim do segundo quadro) Terceiro Quadro (Tonho está deitado. não preciso me meter em encrenca. PACO – Muito bonito para a sua cara. PACO – Você é que acha. ele tirou um bom sarro às tuas custas. Deu a grana do peixe pro negrão. TONHO – Não vai acontecer nada. você ainda paga bebida para ele. E agora todo mundo sabe.TONHO – Amanhã a gente vê como vai ser. TONHO – O negrão contou que eu dei dinheiro pra ele? PACO – Claro! Você é trouxa. Depois que você se arrancou. Eu estudei. PACO – Vou cagar de rir. ficou tudo certo. fica olhando fixo para Tonho. PACO – Se pensa que vai engrupir o negrão. TONHO – O negrão está comigo. Bati um papo com o negrão. O negrão é vivo paca. TONHO – Você não tem nada que ver com a minha vida. PACO – Vai fugir? TONHO – Eu não. Paco vai entrando. Ele vai te enrabar. TONHO – Não sou mais valente que ninguém. está enganado. PACO – Afinou como uma bicha. Você é um otário. não. TONHO – Só dei metade. que papelão! TONHO – Papelão. Só depois de muito tempo é que fala) PACO – Você é um trouxa. Todo mundo mijou de ir. PACO – Porra. Poxa. (Os dois ficam quietos. Luz apaga. O sujeito te cafetina. o cara é machão. Até tomamos unas pinginhas juntos. Foi para evitar briga. PACO – E acha que livrou sua cara? . Quem trabalha para homem é relógio de ponto ou bicha. Senta-se na cama.

Daí te achaca. PACO – Só que todo dia ele vai te dar uma prensa. PACO – Porque você é um trouxa. Se antes de você trabalhar pra homem não dava. O apelido dele ficou “Negrão Cafifa”. PACO – Não sei por quê. É só ver você num caminhão. (Pausa) O negrão é um sujeito de sorte. Homem não corre de pau. Ele é vivo. Boneca do Negrão! Não folga comigo. Amanhã ou depois. PACO – Você já trabalhou um dia. TONHO – Eu só quis evitar encrenca. PACO – Veja lá. TONHO – Não sei por quê. Já tenho bronca sua porque inveja meu sapato. Otário só entra bem. Bota as negas dele pra se virar. compro um sapato. TONHO – Boneca do negrão é a mãe! PACO – (avançando) A mãe de quem? TONHO – Sei lá! A mãe de quem falou. Paco. não adianta contar pro teu macho. Não escutou. Seu apelido lá no mercado agora é “Boneca do Negrão”. PACO – Não vai ser mole. caiu do cavalo. . Depois. TONHO – O negrão não pode fazer isso comigo. conhece o gado dele. Se me enche o saco te dou umas porradas. é tudo meio a meio. Eu estudei. (pausa) Você está frito e mal pago. PACO – E se deu mal. arrumo um emprego de gente e nunca mais quero saber do mercado. está muito enganado. Arranjou uma mina. Por isso eu falei que você tinha que encarar.TONHO – Então agora ta tudo certo. ele chega como quem não quer nada e diz que era carreto dele. que eu não tenho medo de negrão nenhum. Não é direito. é metido a malandro. não. Ele disse que não pegava mais no pesado. TONHO – Eu não quero nada disso. agora então é que não dá mesmo. (Pausa) TONHO – O negrão está enganado comigo. TONHO – Se ele pensa que vou trabalhar pra ele. PACO – Quem mandou você afinar? Agora é dureza fazer a moçada pensar que você é de alguma coisa. enquanto ele fica no bem-bom enchendo a cara de cachaça. Se você achar ruim. te sapeca o braço e leva a grana. Se você ficar bonzinho.

Tonho Deita-se de Costas para Paco) PACO – Volta pra casa do papai. PACO – Agora a Boneca só fala com o negrão. Boneca. TONHO – Poxa. Mina certinha é assim. PACO – Vai procurar emprego com esse sapatão jogado fora? TONHO – Não Tenho um troço pra vender. TONHO – Amanhã não vou no mercado. (Pausa. PACO – Mas que troço é? TONHO – Não é de sua conta. TONHO – Eu não seco nada. TONHO – Não é nada disso. Se passar pra frente. pego um bom dinheiro. Porra! TONHO – Pra que falar? Pra você dar azar? PACO – Não sou que nem você que seca o sapato dos outros. Isso não é secar. não é! Você se invoca comigo todo dia por quê? Inveja! TONHO – Me invoco porque você só sabe encher o saco.TONHO – Cala esta boca! PACO – Está confiando na sorte. Vou andar por aí. Só queria emprestado seu sapato por um ou dois dias. Paco. Se eu fosse você não ia mais lá (pausa) Amanhã vai ser fogo pra você. PACO – O que é? TONHO – Um troço que o chofer deu pra vender pra ele. . Boneca do Negrão! TONHO – Não quero mais conversa com você. PACO – Vive invejando o meu pisante. O negrão está bem servido. vê se me esquece. PACO – Mas você pode falar. PACO – Não. Todo mundo vai te tomar o pêlo. Lá o negrão não pega você (pausa) Lá no mercado você está de barra suja.

ele me pega depois. PACO – Ta bom. Eu estudei. TONHO – Você que estica tudo. PACO – Então o que você vai fazer? TONHO – Finjo que não é comigo. Você é que custa pra se mancar das coisas. . TONHO – Mas você não acha nada? PACO – Acho que você deveria brigar com o negrão.PACO – Tentar te abrir o olho é encher o saco? Ta bom. Aparece amanhã no mercado pra você ver. pra avisar. Um trocinho assim. Se escapo amanhã. você deixa desse tamanho. Os empregos já estão ocupados. PACO – Você vai gostar? TONHO – Claro que não. não. Não estou a fim de apodrecer na cadeia por causa de um desgraçado qualquer. PACO – Onda. TONHO – Você. Lá naquela cidade não tenho o que fazer. PACO – Mata ele. Se eu acerto ele hoje. PACO – Então volta pra casa do papai. TONHO – Também não posso. ele me pega de faca amanhã. eu que estico. TONHO – Já te disse que não posso. faz uma onda do cacete. TONHO – Eu estudei. Todo mundo vai te chamar de Boneca do Negrão TONHO – Deixa chamar. ou pagam menos que aí no mercado. Uma briga com o negrão não acaba nunca. TONHO – Então o que você pensa que eu devo fazer? PACO – Eu não penso nada. daqui pra frente não aviso mais nada. maior o tombo. TONHO – Não é isto. meu chapa. Preciso acertar minha vida aqui. Só acaba com a morte. PACO – Só porque ele é grande? Quanto mais algo. PACO – Bela coisa! Não vai adiantar nada. poxa.

Minha situação não é mole.. às vezes eu até penso que você é um bom chapa. PACO – Não me venha com essa. acho que você tem razão. Até começou a dizer que eu tinha roubado. Você está perdido e mora longe.. TONHO – Não é inveja de você. TONHO – Meu problema é outro.. TONHO – Pra você ver. PACO – É inveja. PACO – Boto um pouco de jornal e ele fica uma luva. É a bronca do meu pisa. Implico com você por causa do sapato. pega do seu paletó. Eu sei. que está debaixo do travesseiro. que papo-furado esse seu. Poxa. que você acha legal paca. que sou mais alto que você. TONHO – Pra mim. PACO – É. Eu tenho vergonha deles. TONHO – Não é nada disso.. Não sei como fui ficar nessa fossa. TONHO – Um pouco grande pra você. Paco começa a tocar sua gaita. Tonho fuma. no meu pessoal. Depois. Eu fico pensando na minha casa. Seu negócio comigo você já falou outro dia. Paco. um revólver) TONHO – Sabe. mamãe. É por causa dos meus sapatos que são velhos. (Pausa longa.. que é um coitado. PACO – O meu pisante é novo e bonito. (pausa) Eu acho que é isso mesmo. Depois não quer que a moçada te ache fresco. Por isso que às vezes eu perco a esportiva com você. TONHO – Eu sei. PACO – Mas é meu. . Só sabe falar papai. Já fizeram um puta sacrifício para eu estudar. PACO – Confessou que tem inveja de mim. Paco. TONHO – É. Por isso que você se invoca quando toco gaita. PACO – Corta essa onda! Essas suas histórias me dão um puta sono. Eu já sabia desde outro dia. TONHO – Deixa de bobagem. PACO – Bobagem? Inveja é um troço que atrapalha a vida dos outros. ele deve servir direitinho..Preciso acertar logo pra ajudar minha família.

Que. (ri) (Paco vê o revólver na mão de Tonho.. você é um bom cara. Poxa. PACO – (pega um alicate) Agora fique sabendo de uma coisa: se vier com parte de besta. TONHO – É.. PACO – Pra que é isso. Quer roubar meu pisante? TONHO – Não precisa ficar com medo. então? TONHO – Foi o que o cara lá no mercado deu pra eu passa nos cobres. PACO – É bom não esquecer disso. TONHO – A troco de nada? . PACO – Pede pro negrão.. TONHO – Pode ficar sossegado. Pensei que você ia afanar o meu sapato.PACO – Está afinando. TONHO – Você é muito valente. PACO – Porra.. via levar ferro. Não vou te roubar. PACO – Não tem negrão nenhum pra tirar dinheiro de mim. paspalho? (Tonho aponta o revólver para Paco) TONHO – Estou pensando seriamente em conseguir um sapato igual ao seu. não vem com idéia de jerico pra cima de mim. pensei. está sem bala. Um cara me deu. lembra? Você mesmo que falou. eu não vou tentar.. PACO – Já falei. mas até que é boa idéia. PACO – O revolver está sem bala.. TONHO – Corta o papo. Poxa. Pausa TONHO – Só queira saber onde você conseguiu esse sapato.. ninguém bota a mão no meu sapato. PACO – Então não se mete comigo.. Fiquei encagaçado. Que é. sem arma. TONHO – Não tinha pensado nisso. para de rir) PACO – Que é. O berro está sem bala.

Onde estava o alicate? PACO – Eu estava chapado paca. Tonho pega o maço de cigarros. paspalhão. cadê a flauta? Algum desgraçado tinha passado a mão nela. se dane. Sem ela. Daí me estrepei do primeiro ao quinto. ascende um) TONHO – Quer fumar? PACO – Vai me dar um? TONHO – Pega. tocando aí pelos bares. TONHO – Poxa não mente. TONHO – Por que não compra outra? PACO – Como? Ganhava grana com a flauta. TONHO – Você toca flauta? PACO – Eu tiro tudo quanto é chorinho. Eu estou tentando aprender. (Pausa longa. tabulei. TONHO – Poxa. você toca mal paca. . PACO – Gaita eu toco mal. TONHO – Você vai querer que eu engula essa conversa? PACO – Se não quiser acreditar. estou perdido e mal pago. Me virando aí pelo mercado. PACO – Não estou mentindo. (Joga um cigarro) PACO – Puta milagre! (Os dois fumam em silêncio) TONHO – Onde você aprendeu a tocar flauta? PACO – No asilo. Mas na flauta eu sou cobra.PACO – Ele me viu tocar. Lá eles ensinam pra gente! TONHO – Onde foi parar sua flauta? PACO – Passaram a mão nela. Quando acordei. Me apaguei na calçada mesmo. TONHO – E o otário deixou. gostou e me deu.

Paco.. eu estive pensando que você podia me emprestar o seu sapato. (Pausa) TONHO – (como desculpa) Eu ando bronqueado. tudo seria fácil. arrumava cada jogada! Sentava na mesa dos bacanas. (Paco começa tocar) TONHO – Eu só queria um para de sapatos. Paco para de tocar e fica olhando fixo para Tonho. Era de lascar. TONHO – Se quiser treinar nessa gaita. adeus mercado. Isso me deixa na fossa. você não fala besteira. Me largo na vida de novo..TONHO – É. Dou pinote. PACO – O negócio é esse. TONHO – Toca essa merda. mas tenho um puta sapato bacana. PACO – Mas. Depois cai na gargalhada) TONHO – Qual é a graça? PACO – Poxa você é cheio de piada. bebia. Só eu que uso essa porcaria toda furada. Eu. Não quero outra coisa só ali no come-e-dorme. bebia. eu levava. PACO – (rindo) Você manda chefe. Pelos bares. (pausa) Sabe. Enquanto toca. às vezes fico morto de vergonha quando na rua olho para os pés das pessoas que passam. enchendo a caveira de cachaça. vida legal. TONHO – Você é uma besta. quando aprender gaita. Todos calçam um pisante legal. PACO – Posso ser uma besta. É por causa desses sapatos.. Você precisa ver.. Eu arranjava um bom emprego. (Paco tira um som monstruoso da gaita. PACO – Ficou goiaba? TONHO – Só até eu arrumar emprego. Chego até a pensar em me matar. . tocava um pouquinho só e metia o olho na coxa da mulherada. Poxa. (Paco volta a tocar) TONHO – Se eu tivesse esses sapatos. bebia. (Paco ri e começa a tocar balançado o pé provocadoramente) TONHO – Pare com essa pata. às custas dos trouxas. teína.

Vê se eu tenho cara de trouxa. PACO – Cala a tua primeiro. PACO – Sei lá! TONHO – É melhor mixar esse assunto. Tenho medo de dar sopa e você afanar. Ando até apavorado e tirar o pé do sapato. Depois que eu tiver trabalhando.. PACO – Pó. te ajudo a comprar a flauta. PACO – Que dormia com a tua mãe. PACO – Olha pra você. Te empresto meu pisante. TONHO – Chega. TONHO – Está bem. TONHO – É só pra me ajudar. TONHO – Não sou ladrão.PACO – Olha pra minha cara.. só sabe agorar meu sapato. TONHO – Chega. você se manda e eu fico no ora-veja. porra! PACO – É isso mesmo. TONHO – Então acaba. vagabundo. TONHO – Não é nada disso. TONHO – Que devia se teu pai. Toda noite é o mesmo papo-furado. PACO – Pensando morreu um burro. pombas! PACO – Chega uma ova! TONHO – É melhor calar a boca. você não entende nada. Só pensei. PACO – Acabo (Os dois ficam quietos) . (faz gesto) TONHO – Poxa. PACO – Você que começou. PACO – Te manjo.

está nervoso) TONHO – Estou pensando. Eu estudei. Não pode mais dar as caras no mercado. Gritar como uma múmia resolve paca. não. (Paco começa a tocar) TONHO – Poxa. PACO – Você está bem estrepado. Não sei o que fazer. TONHO – Não quero voltar.. Paco? PACO – Não. TONHO – Você pensa que eu te adoro? Se tivesse sapato. Tenho que aturar até desaforo. me mandava agora mesmo. Não posso aparecer desse jeito lá em casa. PACO – Sem sapatos. Não ia te aturar nem mais um pouco. PACO – Você pensa muito. Sou inteligente. já tinha me mandado. Eu preciso de um sapato novo. poxa. PACO – Você falando é bonito. Poderia ser até alguém na vida. PACO – Boa.TONHO – Só preciso de um sapato. Nem vai fugir no negrão. Você é chato paca. você precisa mesmo da flauta. vai acabar queimando a mufa. TONHO – Só preciso de um sapato. (Tonho acende um cigarro. PACO – Eu sei de uma saía pra você. PACO – E daí? Eu só precisava da flauta. TONHO – Ta pensando em que? PACO – Se eu tivesse a minha flauta. você não vai longe. (Pausa) TONHO – Já dormiu. podia ter uma chance. TONHO – Qual é? . TONHO – É. TONHO – (gritando) Eu preciso de um sapato. Não quer voltar pra casa do papai.. durão. Não precisava viver nessa bosta como um vagabundo qualquer. Só vai entrar bem. Na gaita você é um desgraça. Não tem sapato.

Fala claro. poxa! TONHO – Não entendo. TONHO – Fala. Tem família e prefere ser a Boneca do Negrão. Só queria me livrar dessa joça de vida. PACO – Dá um tiro na orelha. PACO – A razão pode estar do seu lado. TONHO – Que é? (Pausa) PACO – Sabe o que você podia fazer para se acertar? TONHO – Fala. Não manja nada. (Pausa longa) PACO – Oi. já vi muito cara louco.. TONHO – Você só diz besteira.. PACO – Pelo menos o negrão não te torrava mais a paciência nunca mais. PACO – Eu sei. TONHO – Tem de haver um jeito direito de eu me aprumar na vida.PACO – Você não vai topar. TONHO – Eu não quero matar ninguém. Eu estudei. (Pausa) TONHO – O crime não resolve. TONHO – Você é louco.. as saídas que eu encontro você não quer. mas você é o rei. eu sei. Vai morrer sendo a boneca do Negrão. Tem a faca e o queijo na mão e não sabe cortar. PACO – Poxa. PACO – Então mete um caroço na testa do bruto. Não sou assassino. Quero que se dane! . PACO – Você é um trouxa. Poxa. TONHO – Prefiro nada. PACO – Compra uma bala e apaga o negrão..

(ri) O negrão ficou uma vara. Acende um cigarro e fuma. . Eu não sai daqui o dia todo. Todo mundo procurou paca a Boneca do Negrão. cadê a Boneca? Secou? A mina te passou pra trás? O negrão não dizia nada. Todo mundo tirou sarro. Tonho fica pensativo. Falavam: Poxa. era capaz de acabar indo preso. sair oferecendo revólver por aí. (Pausa) PACO – Como é? Vendeu o revólver? TONHO – Não. entra Paco) PACO – Poxa. mas se via que ele estava uma vara. PACO – Quem tem que ver é você. Não pegou no batente contando com o achaque que ia dar em você. se estrepou. TONHO – Que se dane! PACO – Poxa. PACO – Tem disso. Luz apaga devagar. você fez bem em não baixar no mercado. Eles sempre pensam o piro de um cara mal vestido. PACO – Nem pra comer? TONHO – Não tenho fome.(Paco se vira para dormir. Fim do terceiro ato) Quarto Quadro (Tonho está deitado. A moçada gozou a cara dele às pampas. que está perdido e mal pago. PACO – Assim você vai tubular. mas você não ia sair pra vender a arma? TONHO – Desisti. PACO – Preso? TONHO – Eram capazes de pensar que eu era um ladrão que arrumou essa arma em algum assalto. negrão. além de ninguém querer comprar. Não arrumou grana nem pra tomar uma pinga. TONHO – Pra você ver. com esse sapato de merda. PACO – Por que? TONHO – Com essa pinta aqui.

(pausa) Paco uma. você é bidu paca. Boneca. Podia ajudar um cara que está estrepado mesmo. que foi dar grana pro negrão. Você acha que alguém dá alguma coisa de graça pra alguém? Só você mesmo. É assim mesmo. PACO – E daí? TONHO – Eu sei como você pode conseguir uma flauta. Mesmo que possa. TONHO – Acontece que sei onde tem dinheiro. vez na vida você podia fazer uma coisa decente. né. PACO – Então conta pro negrão. estava descalço até hoje. PACO – Por que você não pensa pra você? TONHO – Pensei. (Pausa) TONHO – Hoje eu pensei em muita coisa. PACO – Não dou arreglo. Ele deu o pisa porque queria que eu andasse soprando flauta. PACO – Como? TONHO – Com Dinheiro.TONHO – Vida desgraçada! Tem que ser sempre assim Cada um por si e que se dane o resto. paspalho. (Pausa) PACO – Se abre de uma vez. TONHO – Dinheiro fácil de pegar. Onde está a grana? TONHO – No parque. TONHO – Estou falando sério. Nunca ninguém me deu nada. Se não fosse isso. No Banco do Brasil. TONHO – Esse cara que te deu o sapato não te ajudou? PACO – Ajudou nada. não dou bandeja pra sacana nenhum. PACO – Poxa. E como eu posso conseguir o sapato. Boneca? . você pode conseguir uma flauta. PACO – Eu também sei. PACO – Ele nasce nas árvores.

mas é preciso bolar um plano. imbecil! No bolso dos trouxas. Juro por Deus. poxa! Esse negócio que você bolou é bárbaro! TONHO – Entendeu a jogada? PACO – Estou inteirinho por dentro. pra que perder tempo com frescura? Do jeito que vier. (Tonho mostra o revólver os dois ficam em silêncio) PACO – Um Assalto? TONHO – É. TONHO – É só pedir e apontar isso. PACO – Até aí legal. TONHO – Frescura. mas você é cheio de frescura. PACO – Vá então. TONHO – Ei! Nada disso! PACO – Não morei nessa. Só que não vou entrar a olho. a gente ataca. TONHO – Nós vamos assaltar um casal de namorados. não. Paco. PACO – E daí? Se podemos tirar um sarro. . poxa. TONHO – Espera aí. PACO – É só pedir que eles dão pra gente. PACO – Poxa. Um assalto. TONHO – É o que tem de mais fácil. Não se afobe. PACO – Mas. TONHO – Nada de fazer maldade com a moça. como você é biduzão. agente estraçalha e fim. os namorados vão ali para bolinar. desembucha logo sua bolação de uma vez. Juro que nunca ia pensar que um troço legal desse ia sair de sua cachola. PACO – Essa que é a tua? TONHO – Natural! Só estou a fim de arrumar dinheiro. PACO – Poxa. espanta ele e passa a mulher na cara. não vamos dispensar. A gente fica em lugar escuro. A gente limpa o sujeito.TONHO – Não.

onde você se meteu? TONHO – Não tenho que te dar satisfação. Se chamar. Não me chame mais por esse apelido. TONHO – Ou se estrepar de uma vez. não vê lá como fala. TONHO – Boneca. entra Tonho) PACO – Poxa. TONHO – O que você quer? PACO – A gente precisa bater papo sobre o assalto. PACO – Boneca é uma desgraça. Eu precisava falar com você. a gente pode acertar o pé. PACO – Então cuida.TONHO – Assim micha o assalto. eu encho o seu. TONHO – Se você me encher o saco. não te achei. TONHO – Vou lhe avisar uma coisa. (Luz apaga devagar. tarado. PACO – Deixa de onda Boneca. Fim do quarto quadro) Quinto Quadro (Paco está deitado tocando gaita. Já me encheu o saco com essa história. PACO – Você não quer um pisa? TONHO – Pode deixar que eu cuido de mim. TONHO – Nada feito. vai ter. Mas no mercado você não pode aparecer (ri). não vai poder ficar. Eu vim aqui. . PACO – Mas embananado do que você já está. PACO – Então não faz onda comigo. PACO – Poxa. PACO – Você não apareceu no mercado. (Pausa) TONHO – Vai assaltar sozinho.

Você pode conseguir o pisante que quiser. (Pausa) TONHO – Está bom. ainda quebra um galho.TONHO – Quando se está de azar. PACO – Boa. TONHO – Não conte comigo.. mas você está cheio de minhoca na cabeça. se eu te sacanear. PACO – Mas você é que está a perigo. (Pausa) PACO – Deixa de frescura e vamos logo. TONHO – Pode dar azar. tudo dá errado. porra! TONHO – Olha. PACO – Neca! Pode ditar o isso da cachola. Sua saída é o assalto. PACO – Se abre. PACO – Poxa.. É a sua chance. Tonho! Vamos nós. Só preciso mesmo é de um sapato. Vai ser moleza. nem nada. Sua saída é o assalto. PACO – Mas que nada! Tudo sai direito. TONHO – Ainda não sei se vou. (Pausa longa) TONHO – Jura que só faz o que eu mandar? PACO – Pela alma de minha mãe. se eu mandar no tintureiro. PACO – Não. Pode até fazer o cara ficar nu e pegar a roupa dele para você. TONHO – Só por duas horas. Quero que ela se dane de verde e amarelo no inferno. ninguém vai te chamar de Boneca do Negrão. TONHO – Mas tem um porem. TONHO – Então vai sozinho. Você limpa sua cara. Você podia emprestar o seu. . Vamos meter a cara e seja o que Deus quiser. PACO – Então resolve logo. Paco. meu terno.

eles se apavoram. Veja lá o que vai aprontar. limpamos o cara e damos no pé. PACO – Positivo! Vamos pras cabeças. TONHO – Quem vai saber? Só se a gente contar. (Os dois saem. Tonho fica sentado) PACO – Poxa. você vai ficar aí parado? (Tonho vacila) TONHO – Acho que não tem remédio. chefe. Este bastante nervoso. Paco trás um porrete na mão e está alegre) PACO – Belo serviço. TONHO – E se você se fizer de besta. PACO – Deixa de frescura e vamos logo. (Paco vai sair. Mas vamos logo.TONHO – Eu que mando mesmo. te apronto um chaveco. . Você mesmo disse. O primeiro trás um par de sapatos na mão e. PACO – Está bem. (Paco vai sair. chefe. Final do quinto quadro) Sexto Quadro (Vão entrando Tonho e Paco. PACO – Mas o revólver está sem bala. Eu aponto o revólver. TONHO – Não precisava bater no cara. Tonho segura) TONHO – Eu que mando. as bugigangas roubadas. Você que manda. seu! TONHO – Assaltamos os namorados e é só. Vamos nós. entendeu? Você só faz o que eu mandar! Entendeu bem? Eu que mando. poxa. PACO – Claro. nos bolsos. TONHO – Você é um miserável! PACO – Não começa a encher o saco. PACO – Já falei que topo.

PACO – Bati e pronto. TONHO – Podia ser muito fácil. meu! Naquele nem Deus dá jeito. PACO – Não me aporrinha. TONHO – Ela te entrega pros tiras. Uns três meses. TONHO – O meu negócio é leve. PACO – Que nada! Aquele se acabou de vez. PACO – Bancar o valente. TONHO – O sujeito que levou a porrada sabe. TONHO – Tomara que a policia te pegue logo. Não acha ninguém. TONHO – Vai sarar e te entregar. PACO – Eu quero que ela se dane. Mandei o desgraçado direto pras picas. PACO – Já te falei que se me pegarem o azar é seu. o cacete! Dei para valer. TONHO – Agora a polícia vai pegar no teu pé. é? Quero ver quando eles te pegarem. Você viu lá no parque. TONHO – E a mulher? Esqueceu da mulher? PACO – Que tem ela? TONHO – Ela também viu seu focinho. PACO – Ele está estrepado. Não precisava bancar o valente. tira não é bidu. Agora você fica apodrecendo lá. PACO – Os tiras não sabem quem foi. PACO – Poxa. Ela não sabe onde eu moro. PACO – E daí? Eu também vi o dela. . PACO – Porra. TONHO – Deus queira que não. TONHO – Ela descreve o seu tipo e a polícia te acha. TONHO – Não. Sou mau paca.

PACO – Não sei por que eu vou ficar mais tempo que você. que quer tirar o ló da seringa. Aquele morreu e fim. Vai escutar muito falatório de mim. Você usou violência. (Pausa) TONHO – Deus queira que você não tenha machucado muito aquele cara. PACO – Nojento é você. não. . TONHO – Eu vou dar o fora. TONHO – Canalha! PACO – É a mãe. Agora que eu tenho o meu sapato. PACO – Você é o chefe. TONHO – Não era chefe de coisa nenhuma. poxa! Você ficou aí berrando um cacetão de tempo: (imita Tonho) Eu é que mando! Na minha terá quem manta é o chefe. Eu nunca mais vou querer escutar falar de você. PACO – Não fica secando. TONHO – Eu sei. Posso. TONHO – Você é um maluco. Fica guardado. TONHO – Você é um animal. PACO – E eu? TONHO – Quero que você se dane! PACO – Você se arranja eu fico jogado fora? TONHO – Deixa de onda. TONHO – Quem tem chefe é índio. PACO – Vá à merda. posso me arrumar. Arrumo um emprego de agente e ajeito a vida. PACO – No assalto do parque você era o chefe. PACO – Mas vai ter que engolir. Vou. PACO – Claro que era. Não te aturo mais. TONHO – Nojento. É perigoso.

o Perigoso. PACO – Vira o bolso. Limpo o cara. tremendo de medo. Daí. Daqui pra frente. nunca mais entro noutra fria destas. belezinha. Bicha é assim mesmo. fala macio para mulher: Agora nós. beijo ela paca. Assim que eu quero que os jornais escrevam de mim. Não estou disposto a te atuar. então. PACO – Que é? Vai engrossar por que? É bicha mesmo. TONHO – Já te avisei. viado! (Tonho para) PACO – (zomba) Come é Afinou? TONHO – (se contendo) Vamos dividir a moamba. PACO – Vai cair fora? TONHO – Já vou tarde. TONHO – (avança para Paco) Canalha! PACO – (pega o porrete) Vem! Vem. Tem mais. deixo ela bem tarada e derrubo ele ali mesmo no parque. Vamos repartir de uma vez. TONHO – Acabou? PACO – Não. E para seu governo. um revólver e meu alicate. Paco Maluco de merda. escolhe o beliscão. daí mando ele ficar nu na frente da mulher. Daí eu pego o alicate e aperto o saco do bruto até ele se arrear. Cansei de aturar você (pões as bugigangas na cama de Paco) Está tudo aí. não vamos assaltar só por dinheiro. . PACO – Quem tem frescura é você que é bicha. Eu quero a mulher também. TONHO – É melhor deixar de frescura comigo. PACO – Vai mijar pra trás? Já sabia. E antes que eu me esqueça. Começo a bolinar a piranha. Vai ser um negócio legal. Se você se fizer de besta comigo.PACO – Boa! Paco Maluco. Paco Maluco. Eu vou ter uma faca. Você é nojento. digo pra ele: Que prefere. E não pensa que eu sou o cara do parque. Quero ir embora. Legal! TONHO – Agora acabou? PACO – Quer mais? TONHO – Escuta bem. o Perigoso. miserável? Um tiro uma facada ou um beliscão? O cara. Eu te acerto.

TONHO – Vende o brinco. PACO – Vou vender.TONHO – Está tudo aí. e não estica o papo.) O broche pra mim. PACO – A caneta é minha.) Os brincos pra você. vale mais que a caneta. (Tonho vai pegar.) A carteira pra rim. TONHO – Não é. TONHO – Metade da grana pra cada um. o relógio pra você. a caneta pra mi. PACO – Assim é que é. PACO – Não é onda e não tem arreglo. TONHO – (vira os bolsos para fora) Está contente? PACO – Não venha com truque. PACO – Pra quem? TONHO – Sei lá! PACO – Só se for pra alguma bicha. TONHO – E daí? Então vende. PACO – É igual. (cada um pega o seu. . TONHO – E daí? O relógio ficou pra você. O brinco é seu. e eu. TONHO – Mas o que você vai fazer com a caneta. (cada um pega o seu. (conta o dinheiro e dá a parte para Paco. Não adianta querer me engrupir. TONHO – Vai se tudo meio a meio. (cada um pega o seu. Vamos repartir e pronto. PACO – Como a única bicha que eu conheço é você. com a caneta. o isqueiro pra você. PACO – Vira o bolso. O relógio vale mais. a pulseira pra você. não. Paco segura a mão dele.) Que é? PACO – A caneta vale mais. miserável. Paco? Você não sabe escrever. TONHO – Não faz onda.) O anel pra mim. fica com o brinco. Tenho noventa anos de janela.

PACO – E no teu rabo não vai nada? TONHO – Que é agora? PACO – Pensa que vai me levar no bico? TONHO – Não penso nada. TONHO – Então anda logo. PACO – E a minha flauta? TONHO – Sei lá! PACO – Você pensa que eu sou trouxa? Você arruma o seu pisante e eu fico sem minha flauta? Banana pra você. PACO – Melhor pra você. PACO – Fica querendo.TONHO – Vou topar pra evitar encrenca. anel broche e cinta pra você. como vai ser? TONHO – O sapato é meu. outro para mim. Topa? TONHO – O brinco pra você. TONHO – Mas só fiz o assalto por causa do sapato. para mim. caneta e carteira. (ri) TONHO – Muito engraçado. outro pra mim. com o sapato. PACO – E agora. . Pulseira. PACO – De longe eu pensei que a mulher estivesse pegando a flauta do cara (ri) Quando cheguei perto vi que não era flauta. Só quero o sapato. o sapato pra mim. Um pé de sapato pra você. PACO – Não! Um brinco pra você. TONHO – e você não ia querer que o cara estivesse namorando com a flauta na mão. Relógio. PACO – Vou dar arreglo só pra encurtar o assunto. PACO – E eu pela flauta. Vai se tudo mano a mano mesmo. PACO – Metade da grana pra cada um. isqueiro. e eu. Mas não vai ser como você está pensando. TONHO – Você fica com o cinto.

PACO – Você não pode ir. Você me levou no bico. TONHO – Bela merda! . O sapato vale mais. TONHO – Quem falou PACO – Eu. PACO – Então o resto é meu. Paco. Vou. PACO – Um pé pra cada um. não. (Paco examina as coisas. nem quero saber. TONHO – Está bem.TONHO – O sapato é meu. TONHO – Não seja burro. Pausa. (Joga os brincos em cima da cama) PACO – Está juntando suas drogas? (Tonho não responde) PACO – Pensa que vai embora? TONHO – Penso. Fique com tudo. Mas não precisa chorar. estica e começa a embrulhar as suas coisas) PACO – Olha pega os brincos para você. Eu já falei mais de mil vezes. PACO – Aqui pra você! (faz gesto) Ninguém me leva no tapa. TONHO – O resto meio a meio. mas não faz mal. uma ova! PACO – (rindo) Está bem! Te levei no bico. O que eu vou fazer com um pé se sapato? PACO – Não sei. PACO – Tapeei nada. TONHO – Vale. TONHO – O sapato é meu. Pega um jornal debaixo da cama. e Tonho começa a se preparar para ir embora. Qualquer um é passado pra trás por Paco Maluco. não. Eu só entrei nesse assalto por causa dele e vou ficar com ele. o Perigoso.

TONHO – Sua cabeça é seu guia. para poder ser o perigoso dos namorados.PACO – Nós temos que ficar juntos. Isso é que é. Vê se não me enche o saco! PACO – Poxa. PACO – Que é? Não quer entrar? TONHO – É pequeno? PACO – (rindo) Poxa molha o pé. TONHO – Não enche. nada consegue Paco. diante do novo fracasso. Meu negócio é o revólver. Mas é melhor você comprar sua flauta. TONHO – Você é que sabe. Vai de dedão de fora. (Começa a tocar a gaita. pergunta o número que o desgraçado calça. TONHO – Pra que? PACO – Talvez seu pé encolha (ri) TONHO – Já chega essa droga. é pequeno pra mim. Tonho acaba de fazer seu embrulho e começa a calçar seu sapato. (Tonho tenta mais uma vez. bichona? Por causa do pesão? (Tonho fica em silêncio. olhando com tristeza para seu sapato) PACO – Não vai se mandar? TONHO – Com essa droga não dá. eu vou comprar um revólver e uma faca. quem manda ter a patola do tamanho de um bonde? (ri) TONHO – Que azar! PACO – No próximo assalto. que não entra no seu pé. PACO – Sei de mim. delira de alegria) PACO – Corta o bico do pisa. PACO – Só se for pra atochar em você. poxa! PACO – Está brava. que bota a razão do meu lado. porque é muito pequeno) TONHO – Poxa. . mas vai (ri).

tenho o pé um pouco maior que o seu. o cacete! Sua patola só entra numa lancha. PACO – Já sei disso. nós dois ficamos com sapato e eu posso ir cuidar da minha vida. TONHO – Você vê que azar eu dei? PACO – Agora você tem que fazer outro assalto. Esse sapato deve te servir. PACO – Fala patola. grande. eu acho que ficou goiaba. TONHO – Mas. PACO – Quer vender? Mas eu já tenho pisa. Uso o sapato que eu quero. TONHO – Que interessa é que você é mais baixo. grande A pata da bichona é grande Ou o sapato é pequeno? TONHO – (contem-se) Escuta. Paco. PACO – Pouco maior. Você me ajuda. PACO – Você é louco? Poxa. Paco. PACO – Então vai fazer o que? TONHO – Olha. o Perigoso. Pra mim. PACO – E daí? TONHO – Agente podia trocar de sapato. esse sapato aqui é pequeno pra mim.(Paco estoura de rir. TONHO – Mas que tem? É uma troca legal. Mas o seu sapato é um pouco grande pra você. TONHO – Assalto não é saída. TONHO – Eu sei. TONHO – Eu sou mais alto que você. esse sapato serve direitinho em você! PACO – E daí? Eu seu Paco Maluco. ele deve servir direitinho. . PACO – Eu quero que sua vida se dane. Começa a dançar e cantar) PACO – A bichona tem pata grande A patola da bica é grande Grande.

o Perigoso. (ri) não vai arrumar? Você vai ficar uma boneca de salto alto e brinco na orelha. É fazer novo assalto (Paco enche bem o saco de Tonho.TONHO – Mas é só pra me dar uma colher de chá PACO – Mas que colher de chá? Não sou igreja! TONHO – Poxa. você não agradece? (Tonho está contido. PACO – E mesmo que quisesse. Eu. bichona! Maria Tonha. então. está aí uma saída pra você. Falei que você pode arrumar um coronel velhusco e ele te dá um sapatinho de salto alto. de brinco na orelha. Quando você está indo. né? (Tonho fica sentado na cama olhando para o chão) PACO – Só tem uma saía. eu estou voltando. vai acabar andando descalça por aí. vou cagar de rir de ver a bichona. Pára tudo. se tiver medo dos tiras. você se manda. não custa nada trocar de sapato. ai. Você é malandro lá pros teus machos. Quando os tiras te pegam. Sou vivo paca. bichona.) Agora. bichona? Queria me levar no bico. vai ser gozado paca ver a bichona descalça. mas comigo não! TONHO – Em que você acha que eu quero te enganar? PACO – Está na cara. como a bicha é nervosa! . mas bem nervoso) TONHO – Pelo amor de Deus Paco. não tem nada com o assalto. Quando ela passar no mercado então é que vai se legal. mas da escola que você andou eu fui expulso. (ri) Poxa. E eu vou andando pela rua com essa droga. me deixa em paz! Me deixa em paz! PACO – Ai. A gente troca o pisante. você sai bem. bichona. bichona louca! (ri) Tonha Bichona. a mulher com cara de fuinha vê o pisa. Todo mundo vai gritar: (fala com voz fina) Tonha! Tonha. se a bichona não quiser. mas não deu. Maria Tonha Bichona Louca. (Pausa) PACO – Que diz. Poxa. ele pode te dar um sapatinho de salto alto. bichona. Poxa. rebolando o bundão. A moçada vai se divertir. Tonha bichona. TONHO – Ninguém quer te enganar. bota a boca no trombone e é fim do Paco Maluco. não ia conseguir. (Paco Sacode Tonho) PACO – Estou falando com você. PACO – Você pensa que é muito malandro. arruma um coronel velhusco.

PACO – Você vai se matar? (Pausa) . como a Tonha Bichona está nervosinha. (Pausa) TONHO – Você tem razão i (pega o revólver e fica olhando fixamente para a arma) Você nunca mais vai escutar eu chorar. De comer mal. Será que você não compreende? Eu estude. Nem você nem ninguém. não troca. Paco. anda! (Tonho se contém. Estou farto! Me deixa em paz! É só o que te peço. mas ninguém tem nada com a sua aporrinhação. ou aponta para cara de algum filho da puta. Não quer trocar o sapato. TONHO – Eu sei. se dane! Dá um tiro nos cornos e não enche mais o saco dos outros.TONHO – (Nervoso) Estou te pedindo. de trabalhar no mercado. Não gosto de choradeira de bicha. de dormir nessa jorça. TONHO – Por favor. Pausa) PACO – Que vai fazer? TONHO – Estou pensando. ai. Estou cansado de tudo isso. Chega! Chega! PACO – Chega uma ova! Não tenho que aturar sua choradeira! Pára de chorar. (chorando) Minha vida é uma merda. Bicha tem que obedecer. Paco. Para que serve esse revólver que você tem aí? Usa essa porcaria! Ou se mata. Pelo amor de Deus me deixa em paz! (esconde a cabeça entre as mãos e chora nervosamente) PACO – Ai. Não gosta de sua droga de vida. de te aturar. eu já não agüento mais. (Paco está sentando na cama. posso ser alguma coisa na puta da vida. Olha fixamente para Paco) PACO – Assim. e toma o que você quiser! Mas eu não quero mais escutar choradeira. Mas cala essa boca. Está lívido. Quer continuar respirando. Pra mim. agora não falta nada. continua. Precisa de alguma droga? Desaperta de arma na mão. Paco. Me esquece. me deixa em paz. O que tem que ser é (continua olhando para a arma) (Pausa) PACO – Esse revólver não tem bala. meio assustado. não tem escolha. Pelo amor de Deus. (Tira do bolso da calça uma bala e a olha fixamente antes de coloca-la no tambor) PACO – Como você vê. desses que andam por aí. Mas é fácil botar uma bala no tambor. pra.

você não pode me sacanear.. PACO – Estava brincando.. canalha.. TONHO – Você disse que eu era bicha.PACO – Você vai se matar? (Pausa) PACO – Vai acabar com você mesmo? TONHO – (bem pausado) Vou acabar com você. Paco.. TONHO – Vou acabar com sua raça. Tonho.. se você não gosta.. PACO – (forçando o riso) Você quer me gozar.. A gente troca o sapato. comigo? Mas eu não te fiz nada. você é um monte de merda. Eu. PACO – Eu juro. Mas seu brinquedo me enchia o saco. O que eu tenho não serve para mim. Você sempre foi um cara legal. Você é nojento. Tonho.. nós sempre fomos parceiros. É só eu querer. PACO – Poxa. Não te fiz nada. TONHO – Vou te apagar. Juro por Deus que corto a onda. Paco. vagabundo. Paco.. PACO – Comigo? Poxa. TONHO – Vai se acabar aqui. você fede. PACO – Mas. Juro! TONHO – Também preciso de um par de sapatos. poxa. PACO – Tonho.. PACO – Escuta. TONHO – Você é muito chato. TONHO – Pois é.. Não vai fazer papelão comigo agora TONHO – Paco.. Poxa. mixa a brincadeira e pronto. PACO – O meu lhe seve.... Poxa. Basta eu apontar o cano pra alguma cara e ele vira o rabo.. PACO – Poxa. TONHO – Eu não preciso disso. (Tonho vem avançando lentamente para junto de Paco) . Não pode... Eu. Paco.

. (Paco põe o brinco) TONHO – Agora anda pra lá e pra cá. Tonho. TONHO – Assim. vamos. a pulseira? Anda.. a caneta. Tonho. filho da puta! (Paco anda rebolando. poxa.. Meia a meio. o isqueiro.. Está quase chorando) . desgraçado? (Pago anda) TONHO – Rebola! Rebola. TONHO – Passa pra cá. TONHO – Tudo pra mim.. PACO – Claro. a cinta.. PACO – Escuta. TONHO – Quem tem amigo é puta de zona. O brinco para você.. o relógio.. Tonho. estou querendo tudo.. miserável. PACO – Meu.. Nós sempre fomos amigos. (Paco tira o sapato) TONHO – Agora vamos dividir todo. Não escutou? (Paco Poe tudo sobre a cama) TONHO – Tira o sapato.... Isso não! TONHO – Rebola! Rebola. Bota essa droga na orelha! PACO – Poxa. Tonho. (Tonho joga o brinco em cima de Paco) TONHO – Acabou sua malandragem... Isso é sacanagem. (Tonho encosta o revólver na testa de Paco) TONHO – Não conversa e faz o que eu mando. o anel o broche. rebola! PACO – Escuta. Vamos ver como está a sua malandragem. Poxa. Cadê o dinheiro. Agora acabou a sua bocadura.PACO – Mas. Assim que tem que ser. Sapato. Anda! É surdo..

TONHO – Fecha o bico. Nunca mais. (Pausa) TONHO – Cadê o alicate? (Paco treme) TONHO – Dá o alicate! (Paco entrega o alicate) TONHO – (frio) Vou acabar com você. Eu juro.... Juro.. Pelo amor de Deus. E enquanto eu aperto. deixa eu me arrancar.. você vai ter que tocar gaita. Tonho! Pelo amor de Deus! Não faz isso comigo! TONHO – Cala boca! PACO – Tonho.. (Paco ri a sua risada mais parece um choro) TONHO – (sem rir) Estou cagando de rir de você. Foi pras picas.. Pelo amor de Deus.. não faz isso comigo. (Tonho cospe na cara de Paco. (Pausa) TONHO – Anda. Eu não te encho mais o saco.. Paco cai de joelhos. Eu. TONHO – Cala a boca! Você me dá nojo. e depois começa a rir e vai pegando as coisas de Paco) . Mas te dou uma chance..... Poxa. PACO – Pelo amor de Deus. Eu juro. bicha louca! (Paco começa chorar) PACO – Poxa. Tonho. Se apagou.. Prefere um tiro nos cornos ou um beliscarão? Só que o beliscão vai ser no saco com o alicate. não faz isso comigo. Tonho encosta o revólver na cara de Paco e fuzila) TONHO – Se acabou malandro. escolhe logo.... Tonho fica algum tempo em silêncio. (Paco vai caindo devagar.TONHO – Bicha! Bicha sem-vergonha! Ria bicha! Ria..

desvendandoteatro.com .TONHO – Por que você não ri agora. Pano fecha) www. paspalho? Por que não ri? Eu estou estourando de rir! (toca a gaita e dança) Até danço de alegria! Eu sou mau! Eu sou o Tolho Maluco. O Perigoso! Mau pacas! (Pega as bugigangas e sai dançando.

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