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COLEÇÃO COMUNICAÇÓES
Direção: Norval Baitello junior

VILÉM FLUSSER

A Coleção Comunicações pretende mostrar o amplo e sedutor leque de horizontes e perspectivas críticas que se abre para uma jovem ciência que não é apenas ciência social, mas que também se nutre e transita nas ciências da cultura bem como nas ciências da vida. Afinal, apenas sobrevivemos, como indivíduo e como espécie, se compartilhamos tarefas, funções e fruições, vale dizer, se desenvolvemos uma eficiente comunicação que nos vincule a outras pessoas, a outros espaços, a outros tempos, e até a outras dimensões de nossa própria subjetividade.

Títulos Publicados:

Língua e realidade, de Vilém Flusser A ficção cética, de Gustavo Berna.rdo Mimese na cultura, de Günter Geba.uer e Christoph Wülf A história do diabo, de Vilém Flusser Arqueologia da mídia, de Siegfried Zielinski

A dúvida

Bodenlos, de Vilém Flusser

O universo das imagens técnicas, Vilém Flusser
A escrita, de Vilém Flusser A época brasileira de Vilém Flusser, de Eva Batlickova Pensar entre línguas, de Rainer Guldin Homem

& Mulher,

uma comunicação

impossível?, de Ciro Marcondes Filho

Mediosfera,

de Malena Segura Contrera

Filosofia da caixa preta, de Vilém Flusser

A sair:

Par e ímpar: assimetria do cérebro e dos sistemas de signos, de V. V. Ivanov NaturaLmente, Pós-história,

de Vilém Flusser de Vilém Flusser
infernalis, de Vilém Flusser e Louis Bec

Vampyroteuthis

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Informação e Tesauro

FIusser, ViJém (1920 - 1991).
A dúvida.! Vilém Flusser. Apresentação de Gustava Bernardo. - São Paulo:

Sumário

Annablume, 2011. (Coleção Comuoicações.) 122p.; 14x21 C111. Edição autorizada por Edith }1uS,fer. ISBN 978-85·391-0211-2

1. Filosofia. 2. Teoria do Conhecimento. IIl, Bernardo, Gustava.

3. Dúvida. I. Título. lI. Série.

CDU 165 CDD121 Catalogação elaborada por Wanda Lucia Schmidt - CRB·8·1922

A dúvida

Coordenação deprodução: Diagramação:
Revisão:

Capa: Finalização:

Ivan Antunes Vinícius Viana Ivan Antunes Cados Clémen Vinícius Viana

Apresentação de Gustavo Bernardo Introdução 1. Do intelecto
2. Da frase 3.

7 21
3S 49 71 91
109

Conselho Editorial Eduardo Pefiuela Canizal Norval Baitello juniar Maria Odila Leite da Silva Dias Celia Maria Marinho de Azevedo
Gustava Bernardo Krause

Do nome

Maria de Lourdes Sekeff (in memoriam) Pedro Roberto Jacobi
Lucrécia D'Alessio Ferrara

4. Da proximidade S. Do sacrifício

1" edição: fevereiro de 20lI © Edith FIusser ANNABLUME editora. comunicação Rua M.M.D.C., 217. Bm.mã 05510-021. São Paulo. SP. Brasil Tel. e Fax.
(O

lI) 3812-6764 - Televendas 3031-1754 www.annablume.com.br

da dúvida. ~ando contemplamos a imagem de "?". da procura. não podem ser pronunciados. Flusser prefere o signo da interrogação: . O signo "?". Mas. dentre todos. ponto final.Dois menos um pedacinho " Este22 de título do de 1966." e com o clima imperativo do signo "!". sentimos um clima que contrasta com o clima conclusivo do signo". Ao pesquisar o significado do signo "?". Os três signos-pontos não apenas definem o sentido como o clima das frases. Vilém descobre que ele não é objeto. não podem ser falados em si. n'O Estado Vilém Flusser "em era o outubro artigo publicado por de São Paulo: • apenas o sinal de interrogação. ponto de exclamação. isolados torna-se difícil até lê-Ios porque sequer a leitura silenciosa é possíveL Só podemos traduzi-Ios como "pontos": ponto de interrogação. mas sim um clima: o clima da interrogação. conceito ou relação. assim como os outros dois. são signos existenciais. logo.

emerge no professor o conflito: com que direito transmitir modelos aceitos pelo próprio professor já com graves reservas? Não seria melhor transmitir as dúvidas no lugar dos modelos? Para a resposta a esta dúvida. Mas elevado assim a símbolo deixa de ser. Maior inclusive que a cruz.8 A dúvida VTLÉM FLUSSER 9 Devo confessar que entre todos os signos existenciais é o "?" aquele que mais significativamente articula. A dúvida precisa supor que um mundo inventado seja melhor do que o mundo recebido. mesmo hiperbólica. não tenho qualquer dúvida: é melhor transmitir as dúvidas no lugar dos modelos. rasgará a poesia novas aberturas para um discurso que ameaça acabar em ponto finaL Já no artigo "Ensino". a situação na qual estamos. publicado na Folha de São em breve por máquinas de ensino programado. Não será este o papel mais nobre da nossa poesia? Formular sentenças com sentido novo que tenham um significado que lhe é conferido pelo "?" pelo qual acabam? Formulando este tipo de sentenças.em última instância. mas desde que zero seja número e que todo sucessor de número seja número". obviamente. Descartes erra porque confunde a dúvida com a negação erra porque não volta a duvidar de si mesmo. mas sim instigo cada um a pensar por sua própria cabeça . propondo. Em tal caso. a meu ver. Contentemo-nos pois com o "?" como signo que ocorre em sentenças. mas não edipicamente" ou "dois mais dois são quatro no sistema decimal. para dessa maneira afirmar o "ergo sum" e defender o seu aterrorizante objetivo final: acabar com todas as dúvidas! A dúvida não é um estado porque já é um não poder estar. Flusser diz que os professores podem ser meros canais transmissores inertes. mas sem se engajarem em tais modelos. mas saibamos manter fidelidade ao seu significado. a foice e o martelo. é preciso duvidar da dúvida cartesiana porque. Mas os professores podem também engajar-se nos modelos que transmitem. a filosofar. Creio que pode ser elevado a símbolo da nossa época com justificação maior que qualquer outro. suposição que obviamente se calca na consciência de que todo o pensamento é um fingimento. Sofre o destino de todos os símbolos extrassentenciais: é equívoco e nebuloso. ela se impõe um limite inaceitável. comunicando modelos de comportamento tipo "ame teu pai e tua mãe" ou modelos de conhecimento do tipo "dois mais dois são quatro". É preciso duvidar. o "?" um signo que ocorre em sentenças com sentido. Nesse caso. Para começar. A dúvida. quando têm de enfrentar as dúvidas do presente. Descartes diz que não pode duvidar de que duvida no instante mesmo em que duvida. "ame teu pai e tua mãe. Apenas dessa maneira não digo o que pensar. e a rocha da estátua da liberdade. Esse fingimento nos leva ao livro-síntese de toda a obra de Vilém Flusser. provavelmente escrito Paulo de 19 de fevereiro de 1972. os professores seriam substituídos . por exemplo.

se levada ao extremo. portanto. para se tornar melhor do que a fé primitiva. de que não podemos lembrar. que também não há. O último passo do método cartesiano. é certo. o espírito crê: ele tem boa fé. A dúvida desfaz a ingenuidade e. Pode significar o fim de uma fé. no limite.mais refinadas e sofisticadas do que as originais.mas em estado destilado mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento. ou pode significar o começo de uma outra. mas nem originais nem autênticas. como uma espécie de fé invertida. A experiência da vida assim como a sua filosofia. de todo conhecimento sistemático . é o berço da pesquisa. como a poesia épica".também em alemão duvidar se diz "zweifeln". quando já somos para lembrar. O estado primordial do espírito é e tem de ser a crença. o signo "?" parece ter sido desenhado primeiro como um "2" do qual se tirou apenas um pedacinho . No princípio. quer da morte. Antecedendo às duas perspectivas. é preciso haver pelo menos duas perspectivas . aliada à curiosidade.. o passo que nem Descartes nem Husserl se atreveram a dar. assim como . A dúvida. A filosofia não pode começar do início. a dúvida metódica é uma espécie de truque homeopático que. se daí em diante exibem "a marca da dúvida que lhes serviu de parteira". As certezas originais abaladas pela dúvida são substituídas por quase certezas . Vilém Flusser arrisca aquele passo para trás percebendo a dúvida cartesiana como "uma procura de certeza que começa por destruir a certeza autêntica para produzir a certeza inautêntica". como axiomática. só se podem dar in media res. assim como não podemos jamais ter a experiência quer do nascimento. mas como experiência moral ela é uma tortura. o estado intelectual do espírito é e tem de ser a dúvida. a formulação de Schlegel: "a filosofia sempre começa no meio. que não há. o ponto de partida da dúvida é sempre uma fé. Em dose moderada estimula o pensamento. deseja acabar com a dúvida para chegar à certeza final. isto é. Nele. é no entanto um passo para trás: implica proteger a dúvida. Para haver a dúvida. instituir-se como "ceticismo". Flusser define seu mais espinhoso tema: A dúvida é um estado de espírito polivalente. Pode ainda. devidamente dubitativas. A dúvida cria uma nova fé. que por sua vez gera pelo menos uma bifurcação. Para Descartes e para o pensamento moderno. embora possa produzir uma fé nova e melhor. é preciso que antes tenha havido uma fé. que significa "dois". nem chegar ao fim. de "zwei". Logo. condição do movimento de procura da verdade que leva a encruzilhadas e bifurcações.10 A dúvida VILÉM FLUSSER 11 no final dos anos 50 e início dos 60. que deve ser reconhecida como fé e não certeza. mas em dose excessivaparalisa toda atividade mental. Curiosamente. A dúvida como exercício intelectual proporciona um dos poucos prazeres puros. sua"Lebensphilosophie". não pode mais vivenciá-Ia como boa. A proteção da dúvida aceita..

no limite. uma saída . Se as nossas certezas já não são autênticas. do espanto. a antipoesia: "não se precipita sobre. embora em um clima mais humilde. e com ele o pensamento moderno. A filosofia flusseriana.e o campo de concentração . duvida-se. Emudece. A dúvida que se quer certeza ao final duvida. aceita a dúvida como indubitável. mas não se quer perguntas: apenas as respostas "certas". Alienamo-nos da coisa. mais tarde. e por isso mergulha a conversação ocidental na repetição tediosa. Este mutismo é o abismo que se abriu à nossa frente". e para não . as dúvidas o serão.. Duvida-se. mas apenas para que nunca mais se duvide. Seria o reconhecimento de que o intelecto não é um instrumento para dominar o caos. na filosofia como na ciência e na pedagogia.12 A dúvida VILÉM FLUSSER 13 na política. Esta aceitação seria a superação tanto do intelectualismo como do antiintelecrualismo. vale dizer. mas a transformação da dúvida em fé no nome próprio como fonte de dúvida. no entanto.a espécie tornando-se tão absurda que nega a si mesma enevezes.a espécie tornando-se tão poderosa que pode exterminar a si mesma vinte vezes . ao meu ver. mas é um canto de louvor ao nunca dominável. Pergunta-se. Há. Sem a dúvida não há pensamento. entretanto. ou escondem um teatro intelectual? Descartes. A dúvida que se quer certeza ao final é. quando duvidamos para não mais duvidar. enxergando inautenticidade na certeza a que ele nos conduz. aquela que transforma nomes próprios e renomeia poeticamente as coisas. não a reconquista da fé na dúvida. tentando frear o tempo pelo conhecimento. A paradoxal fé na dúvida caracteriza então a Idade que ousou se chamar Moderna para melhor denegar o tempo e o futuro. suspeita do recurso. mas revestir a rocha. como o comprovam a bomba atômica . Possibilitaria a continuação do tecer da teia maravilhosa que é a conversação ocidental. compreensivelmente. mas no fim do caminho encontramo-nos tão-somente divididos. da própria dúvida. Em outras palavras: é a aceitação da limitação do intelecto como a maneira par excellence de chocarmo-nos contra o inarticulável.dubito ergo sum -. Seria o reconhecimento da função dessa teia: não captar a rocha. Dividimo-nos à procura da unidade. pela transformação de tudo e de todos em objeto. em resumo. mas dentro do inarticulado. sim. ciência ou filosofia . Desta forma. e portanto de todo o resto. tomando-a paradoxalmente por certeza que o conduz às certezas que no fim deseja. A dúvida que se quer certeza ao final bloqueia a emergência da dúvida ingênua. produzindo com o tempo um conhecimento de fato espetacular que. todavia.poética: A saída dessa situação é. e possibilitaria a continuação da conversaçãoocidental. é também loucura. se pensou a sério na guerra (e na bomba) que terminaria com todas as guerras. da dúvida primária. embora com a dúvida viva-se o perigo da esquizofrenia. embora sem esperança de captar dentro dessateia a rocha do inarticulável.

e. dizer "eu penso ergo sou" implica supor-se causasui do pensamento . no campo da razão prática grassam o oportunismo e o imediatismo. Logo. uma vez que o primeiro já duvidava de si próprio. então o que penso? Penso uma corrente de pensamentos: um pensamento se segue sempre a outro. um pensamento segue a outro pelo trilho da dúvida. o sujeito precisa sair do centro da razão utilitarista para recuperar. Confirma o absurdo o suicídio do intelecto: no campo da ciência manipula-se a realidade produzindo instrumentos destinados a destruirem a humanidade e seus instrumentos. ~ando somos honestos. porque correm em busca de sua própria completação. portanto uma arte sem significado.14 A dúvida VILÉM FLUSSER 15 mais duvidar principalmente de nós mesmos: "dizer que nós somos nós é dizer que essa alienação está se dando". se só sou quando duvido. no campo da arte produz-se uma arte que se significa a si mesma. Não há limite. espécie de carpe diem. na arte pululam os neo-neo-neo-(ufa)-realismos. Mas por que um pensamento sempre se segue a outro? Ora. Se sou porque penso.Menos arrogante seria afirmar: "pensamentos me ocorrem". em um redemoinho se me pergunto: por que duvido? Ora. Confirmam o absurdo. ele exige sempre o dois. segundo. se duvidar desta dúvida. ainda. e não o contrário. terminarei por duvidar de que eu seja. mas nunca de si mesmo. tornando-me uma corrente de pensamentos que duvidam: só o sou enquanto essa corrente escoa e não estanca. Pensamentos são processos em dois sentidos: primeiro. esteticamente. como a lemniscata. buscando uma fórmula: 1 > 2 < ? Um pensamento segue a outro porque o segundo pensamento duvida do primeiro. na ciência . Ou. exigindo outro pensamento para certificarse de si mesmo. A corrente de pensamentos transforma-se. entretanto. Parece jogo fútil de palavras ou exercício de lógica abissal. como lembra Flusser. A dúvida da dúvida é a intelectualização do intelecto que reRui sobre si mesmo a ponto de duvidar de todos os outros. que por sua vez constitui de volta a dúvida. Um não basta. Duvida-se como numa competição.. da dúvida. o conhecido símbolo do infinito: 00. autorreproduzindo-se e. por isso. nessa medida perigoso. as próprias reações desesperadas contra o absurdo: na filosofia pululam os neos . sou. mas a dúvida sempre vai e volta. atrás de uma aura vivencial de satisfação vulgarmente chamada de "significado". sabemos que nossos pensamentos nos controlam. nunca efetivamente se completando. para ver quem vai conseguir acabar primeiro com a dúvida. mas o pensamento contemporâneo reconhece vivencialmente o dilema sem conseguir estabelecer com o mínimo de clareza insofismável o limite da dúvida. Sentindo consumir-se pelos próprios pensamentos. o primeiro pensamento não se basta. por paradoxal que pareça. portanto. neotomismo.neokantismo. porque sou. porque ininterruptamente geram novos pensamentos. neo-hegelianismo. a fé. A problematização e o esvaziamento do conceito "realidade" acompanham o progresso. que não deixa de se constituir em um horizonte de dúvida.

substituindo-a pela asserção: "pensamentos ocorrem". O campo gravitacional do nosso planeta não é um algo. ele encara o abismo e ultrapassa a afirmativa cartesiana. ou seja: o pensamento é um processo estético. conceitos esvaziados há muito.. "há um Eu que pensa e portanto há um Eu que é". Um pensamento individual e singular. não é possível esterilizar um pensamento. a pergunta que se impõe . obriga-o a abandonar-se. o pensamento se rodeia de uma aura de satisfação. Esse autoabandono do pensamento. o intelecto não é mais do que a maneira como se comportam os pen·· samentos. viciosa do princípio. "não obstante. carregado de um dinamismo interno que o impede de repousar sobre si mesmo". a não ser forçando-o a clicherizar-se. primeiro. Em outras palavras.todavia. O método cartesiano provou a existência de pensamentos. no terreno da razão prática ressuscitam religiões e multiplicam-se seitas. por sua vez. é. Não é possível parar de pensar. portanto sou". por excelência. Nem tudo pode ser compreendido. porque agora precisamos entender o intelecto como o campo.pos. a seguir. ok. porém. . Esse dinamismo interno obriga o pensamento a superar a si mesmo. ~ando Vilém Flusser descreve o intelecto como campo no qual ocorrem pensamentos. por definição. Um campo não é um "quê". mas a maneira como se comportam os corpos quando relacionados com o nosso planeta . Duvida da afirmativa "penso". na política ressurgem. que o pensamento é um processo em busca de se completar em uma forma. que o pensamento é um processo autorreprodutivo. por pelo menos um passo. A proliferação de prefixos que tentam reciclar termos envelhecidos atesta simultaneamente a arrogância e a indigência da teoria. da dúvida. quer dizer. inautênticos. nem tudo pode ser dito: o enigma precisa ser protegido. a poesia . a repetir-se a si mesmo como o louco no campo hospitalar. gerando um novo pensamento. ~ando alcança a sua forma.• N em tudo pode ser assimilado à engrenagem da língua. abissal. A investigação flusseriana descobre. Analogamente. como aliás dispensa toda a série de "o-que-éo-que-é". do em pós-modernismo. a gravidade simplesmente não deve ser vista antropomorficamente como uma força. ou seja. A afirmativa "penso" abreviava a afirmativa. mas sim maneiras pelas quais algo acontece. nas mesmas bases.nesse sentido. mas não de um Eu que pensasse ou do Eu que pensa. mas sim como um efeito do campo. A dúvida nesse limite mostra-se. Se nem tudo pode ser compreendido. é o que entendemos por filosofia. por exemplo. dispensa a pergunta "o que é o intelecto?". como a ideia medieval de soberania. Em consequência. "penso.16 A dúvi<k VILÉM FLUSSER 17 retormulam-se premissas em bases mais modestas .d outoraa. '" " e: o que e um pensamento r A investigação flusseriana descobre. sem vergonh" para o pos-pos . embora completo esteticamente quando significativo. Nem há pensamentos fora do intelecto nem o intelecto tem dignidade ontológica independente dos pensamentos. nas ciências sociais I I" I ape1a-se. Apresentar o intelecto como campo no qual ocorrem pensamentos.

Deus como espelho faz signo do desespero. O verso é a maneira como o intelecto se precipita sobre o caos. O verso é a própria situação limítrofe da língua. sérvios matam albaneses. Os ídolos são vorazes. polícia é bandido e bandido é testemunha de ]eová. não há a filosofia. Gustava Bernardo Rio de Janeiro. mas sacrifiquemos a loucura orgulhosa de querer dominar o de tudo diferente com o nosso pensamento". O Moloch devora os fiéis que o adoram -. Mas esse Deus é um espelho. realizando in limine o projeto iluminista que nos pôs como sujeitos contra os objetos. o que amplifica a sua adoração. o Moloch funciona. Yilém Flusser resiste ao apocalipse intelectualizante e às reificações totalitárias quando partieipa da festa do pensamento e promove o sacrifício do mesmo pensamento na mesma festa: "continuemos a grande aventura que é o pensamento. aparelhos de miero-ondas naufragam pela rede virtual. 18/01/11. contra a coisa. porque a condição de expansão do intelecto e do pensamento é a poesia. sentada à margem direita do tédio. Sem o espanto. expande. a realidade. A poesia e a dúvida são as condições de superação desse desespero. espelhando a cobra urobórica mordendo o calcanhar de Sísifo que deixa cair a pedra antes de chegar ao topo da montanha onde Zarathustra se perdera do Übamensch. Sem a dúvida. O verso tanto chama quanto proclama. ~ando algo inesperável ocorre. a bomba H funciona. A poesia aumenta o território do pensável mas não diminui o território do impensáveL É o que nos torna vivos. aquela dimensão que cria a língua e. A bomba H prova que o homem é Deus.contra a realidade. e Deus contra o mundo. mas o caos nunca diminui. A banalidade impera. nada presta. não há a poesia. Ora. não há o espanto. É o que nos torna infinitos. o intelecto precisa antes "versar". Sem a poesia. em consequência. vale dizer.logo. Para se permitir conversar.18 A dúvida VILÉM FLUSSER 19 precisa ser protegida. nada nos surpreende. contra res . posto que incertos. Um pensamento puxa outro e a língua se . fazemos de conta que era esperado. A bomba H destrói a humanidade _ logo. Sem a filosofia. É o que nos torna imortais. Torneiras jorram anúncios. albaneses matam sérvios. justificando que a adoremos.

Ele tem "boa fé". Com efeito. como uma espécie de fé invertida. isto é. ser vista como "ceticismo". mas como experiência moral ela é uma tortura. no entanto. Em dose excessiva paralisa toda a atividade mental. Uma fé (uma" certeza") é o estado de espírito anterior à dúvida.Introdução A dúvida é um estado de espírito polivalente. portanto de todo conhecimento sistemático. A . Pode ainda. A dúvida. se levada ao extremo. O espírito "ingênuo" e "inocente" crê. Em estado destilado. como exercício intelectual. mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento. Em dose moderada estimula o pensamento. aliada à curiosidade. a fé é o estado primordial do espírito. é o berço da pesquisa. A dúvida. O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé. Pode significar o fim de uma fé. proporciona um dos poucos prazeres puros. ou pode significar o começo de outra.

a pergunta: "por que duvido?" Esta pergunta é mais fundamental que a outra: "de que duvido?" Trata-se. Daí o problema básico camusiano: "por que não me mato?" O espírito tomado pela dúvida da dúvida é frustrado por si mesmo. A dúvida da dúvida é um estado de espírito fugaz. a saber: trata-se de duvidar da dúvida. o papel desempenhado pela fé em Deus durante a Idade Média. Essa fé caracteriza toda a Idade Moderna. Aceita a dúvida como indubitável. A dúvida pode ser. no sentido de ser ingênua e inocente. portanto. Kant afirmava que o ceticismo é um lugar de descanso para a razão. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira. mais refinadas e sofisticadas. não passam de nostalgias frustradas. A certeza cartesiana é. portanto. A dúvida metodicamente aplicada produzirá.As tentativas dos espíritos corroídos pela dúvida de reconquistar a autenticidade. esta não mais será "boa". novas certezas. Embora possa ser experimentado. A ingenuidade e inocência do espírito se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida. indeciso. O suicídio não resol- . Trata-se. em sua indecisão fundamental. essa Idade cujos últimos instantes presenciamos. embora não seja uma moradia. O Sísifo de Camus é frustrado. mas estas novas certezas nunca serão autênticas. como oscila. embora possa produzir uma fé nova e melhor. do último passo do método cartesiano. concebida como uma procura de certeza que começa por destruir a certeza autêntica para produzir certeza inautêntica. Oscilando. parece não dar este último passo. incorruptível pela dúvida. À fé na dúvida cabe. é. Ele é sua própria negação. portanto. entre o ceticismo radical (do qual duvida) e um positivismo ingênuo radicalíssimo (do qual igualmente duvida). O mesmo pode ser afirmado quanto ao positivismo ingênuo. e com ele todo o pensamento moderno. Vibra. possivelmente. não pode ser mantido. São tentativas de reconquistar o paraíso. entre o extremo "tudo pode ser duvidado. pelo seu ceticismo inacabado. É uma fé autêntica na dúvida. a saber: "penso. ao qual falta dar o último passo. O clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. autêntica. portanto sou". As "certezas" originais postas em dúvida nunca mais serão certezas autênticas. por aquilo dentro do qual corre. Surge. A pergunta "por que duvido?" implica a outra: "duvido mesmo?" Descartes.22 A dúvida VILÉM FLUSSER 23 dúvida acaba com a ingenuidade e inocência do espírito e. inclusive a dúvida" e o extremo "nada pode ser autenticamente duvidado". numa situação de vai e vem que a análise de Sísifo feita por Camus ilustra apenas vagamente. Pode ser reformulada: "duvido. O processo é irreversível. em sua correria absurda. a fé original. A dúvida é absurda. com efeito. A última certeza cartesiana. em outras palavras. Essa fé é responsável pelo caráter científico e desesperadamente otimista da Idade Moderna. não concede ao espírito um ponto de apoio para fixar-se. durante a Idade Moderna. O espírito tomado pela quintessência da dúvida está. leva esse absurdo ao quadrado. Com o fim de superar o absurdo da dúvida. A dúvida na dúvida impede esse descanso. portanto sou". de duvidar da autenticidade da dúvida em si.

via de regra. Trata-se de uma intelectualização progressiva. Duvido. foram considerados loucos. por isso mesmo. que até bem pouco tempo tem sido desprezado. portanto sou". da sanidade e da liberdade. com ela. "Penso. A dúvida da dúvida se derrama. e era possível duvidar teoricamente da afirmativa "duvido que sou". que autenticamente duvidaram das afirmativas "sou" e "duvido que sou". Tão teórico. como um jogo fútil de palavras. isto é. invade as demais regiões mentais para articulá-Ias. Tratavase de um argumento pensável. O intelecto desautentica todas as demais regiões mentais. A situação atual é diferente. O esvaziamento do conceito "realidade" acompanha o progresso da dúvida e é. já que não duvida suficientemente do caráter duvidoso da vida eterna. Duvido que duvido. A dúvida da dúvida ameaça destruir os últimos vestígios da fé. Entretanto. porque ameaça tornar o conceito "realidade" um conceito vazio. pode significar "sanidade mental". o presente contexto prova que os três significados são hmdamentalmente idênticos. duvido que duvido. É o mesmo beco visto de outro ângulo. aquilo que pensa. Um pensamento segue o outro. Este é o lado teórico da dúvida radical. em direção a todas as demais camadas da mente e ameaça solapar os últimos pontos de apoio do senso de realidade. Pode significar simplesmente "fé". a partir do intelecto. portanto. Duvido que duvido. Os poucos indivíduos que experimentaram vivencialmente a dúvida da dúvida. Duvido que duvido. se visto coletivamente. um processo histórico. o último passo da dúvida cartesiana. Era possível duvidar teoricamente da afirmativa "sou". portanto. Duvido. É verdade que "senso de realidade" é uma expressão ambígua. Sou uma corrente de pensamentos que duvidam. no beco que os antigos reservaram a Sísifo. embora essa fé periclite nele. e pode significar "capacidade de escolha". se exigeoutro pensamento. Estamos. Um pensamento segue o outro. o intelecto . portanto. inclusive aquelas regiões dos sentidos que chamo. aquilo que duvida. A mesma situação pode ser caracterizada por outra corrente de pensamentos: por que duvido? Porque sou. portanto confirmo que sou. duvidosas. portanto sou. isto é. com efeito. O intelecto. Penso: sou uma corrente de pensamentos. de "realidade material". com efeito. Um pensamento segue o outro pelo caminho da dúvida. portanto sou. independentemente de qualquer duvidar. Duvido. aproximadamente. Um pensamento segue outro porque o segundo duvida do primeiro. A dúvida da dúvida é a intelectualização do próprio intelecto. e porque o primeiro duvida de si mesmo. com razão.24 A dúvida VILÉM FLUSSER 25 ve a sua situação. e um processo psicológico. Portanto. por quê? Porque o primeiro pensamento não basta a si mesmo. e as torna. não vivível. Camus nutre ainda a fé na dúvida. mas essas dúvidas não passavam de exercícios intelectuais intraduzíveis para o nível de vivência. se visto individualmente. Estamos num beco sem saída. Assim se afigura. que sou. mas não existencialmente visível (erlebbar). portanto sou. Exige outro para certificar-se de si mesmo. portanto duvido que sou.

entre as quais a dúvida da dúvida oscila. portanto. produziu uma civilização e uma mentalidade que deu refugio. a saber. A dúvida completa. portanto. No campo da filosofia produz o existencialismo e o logicismo formal. a intelectualização completa. O idealismo radical. inclusive a dúvida" e "nada pode ser autenticamente objeto de dúvida". instrumentos destruidores e autodestrutivos). Somos a primeira ou a segunda geração daqueles para os quaisa dúvida da dúvida não é mais um passatempo teórico. produz a arte que se significa a si mesma. A perda total da fé. se resolvem. a loucura do nada todoenvolvente. tal como foi praticada durante a Idade Moderna. No campo da arte. reacionárias. Há. Nesse sentido somos a superação da Idade Moderna: conosco a Idade Moderna se reduz ao absurdo. a absurdidade de uma escolha dentro desse nada. Torna-se duvidoso para si mesmo. o fim da filosofia. desembocam no niilismo. Conosco a Idade Moderna alcançou a sua meta. No campo da ciência pura produz a manipulação com conceitos conscientemente divorciados de toda a realidade. neo-hegelianismo. O suicídio do intelecto. duas abdicações do intelecto em favor de uma vivência bruta e inarticulada. São desesperadas. mas uma situação existencial. a dúvida limitada ao não intelecto acompanhada de fé no intelecto. a dúvida incompleta. no sentido de tentarem fazer retroceder a roda do desenvolvimento. Nesse sentido somos os produtos perfeitos e consequentes da Idade Moderna. entretanto.26 A dúvida VILÉM FLUSSER 27 reflui sobre si mesmo. porque tentam reencontrar a realidade nos níveis já esvaziados pelo intelecto em seu avanço. A dúvida da dúvida é o suicídio do intelecto. tendendo a transformar a ciência pura em instância de proliferação de instrumentos conscientemente destinados a destruírem a humanidade e os seus próprios instrumentos (são. No campo da filosofiacaracterizam-se pelo prefixo melhorativo neo (neokantianismo. Somos a primeira ou a segunda geração daqueles que experimentam o niilismo vivencialmente. fruto de sua própria intelectualização. Enfrentamos. obviamente. Mas a dúvida da dúvida. se manifesta em todos os terrenos. a dúvida da dúvida. uma arte sem significado. "a clara noite do nada". neotomismo). nas palavras de Heidegger. na frase: "tudo é nada". A dúvida cartesiana. desautentica a si mesmo. No centro da ciência pura caracterizamse pelo esforço de reformular as premissas da disciplina . "tudo pode ser objeto de dúvida. são situações insustentáveis. a dúvida cartesiana radical. Essas reações são. No campo da "razão prática" produz um clima de oportunismo imediatista. portanto. portanto. um earpe diem tão individual quanto coletivo. As frases aparentemente contraditórias. o niilismo. nesse estágio do desenvolvimento intelectual. à realidade. acompanhado do esvaziamento de todos os valores. dentro do intelecto. a intelectualização do intelecto. Trata-se de uma civilização e uma mentalidade idealistas. destrói esse refugio e esvazia o conceito "realidade". reações contra esseprogresso rumo ao nada. Os sintomas dessa afirmativa abundam. é uma situação existencial insustentável.

Foi introduzido o conceito "vontade" e o conceito aliado "vivência". menos no campo da filosofia. mais no campo da sociedade. Visto coletivamente. por desenvolvimento paralelo em todos os demais campos da situação humana. afirmar que tem sido acompanhada. da tentativa de encontrar um novo senso de realidade. em outras palavras. no conceito do "sangue" (nazismo) ou da "liberdade de empreendimento" (neoliberalismo). uma nova maneira de filosofar. de um êxito retumbante. surdamente. Reside na ignorância do problema fundamental: em todos esses terrenos. o progresso da dúvida. N o campo da política e da economia ressurgem inautenticamente conceitos esvaziados e superados há muito. Resíduos de fé podem ser encontrados em todos essesterrenos. No campo da "razão prática" assistimos a tentativas de uma ressurreição das religiões tradicionais: pululam as seitas de religiões inventadas ad hoc ou buscadas em regiões geográfica ou historicamente distantes. Não é a partir deles que sairemos da situação absurda do niilismo. esta sim. mas resíduos condenados. Por sua própria natureza manifesta-se com precedência no campo da filosofia. A busca de um novo senso de realidade no campo da filosofia não é. já agora altamente intelectualizados. de produzir o paraíso terrestre. entretanto. ~erem ressuscitar fés mortas ou inautênticas ab initio. adivinhado e previsto por filósofos antes de qualquer outra camada. o conceito medieval de "soberania". ambos de cunho anti-intelectual. da arte. Trata-se. do indivíduo dentro da sociedade e da sociedade em face do indivíduo. No campo da ciência aplicada caracterizam-se por uma esperança já agora inautêntica em uma nova revolução industrial. com seu consequente esvaziamento do conceito "realidade". portanto. um processo histórico. num sentido muito próximo do presente. O advento do niilismo foi. portanto. embora esteja acompanhado. Não podemos. já agora completamente inautêntica. se é que sairemos. e novas categorias de pensamento. O presente trabalho é uma contribuição modesta para essa busca no campo da filosofia. a dúvida desalojou a fé e perdeu o senso da realidade. A palavra "niilismo" foi amplamente utilizada. da ciência pura e aplicada. portanto. No campo da arte resultam naquele realismo patético chamado "socialista" que não chama a si mesmo de "neorrealista" por pura questão de pudor. até agora. embora talvez não ainda como um fato totalmente consumado. precisa ser tomado como ponto de partida para toda tentativa de superação. como. A especulação filosóficadeslocouse para o campo da "ontologia" (sinônimo pudico da me- . por Nietzsche. conceitos esses emprestados de hipotéticas épocas passadas. capaz.ãodeve ser aceita como um fato. A inautenticidade das reações acima esboçadas reside na sua ignorância (autêntica ou fingida) da situação atual da filosofia. Todas essas reações são condenadas ao malogro. mas a partir do próprio niilismo. Surgiu. uma novidade. Embora seja o niilismo uma situação existencial insustentável.28 A dúvida VrLÉM FLUSSEH 29 científica em bases mais modestas. é o progresso da intelectualização. Busca-se a realidade. por exemplo. Essa situa~. isto sim.

o sentimento de culpa se torna consciente e articulado e. quando duvida de si mesmo. para uma superação da situação niilista na qual se encontram. e é. domina a cena. Esse sentimento de culpa é compensado nas "fés melhores" que o intelecto cria para si no curso do seu avanço. portamo. contribuíram para o alastramento do niilismo que pretendiam combater. contribuíram para o surgir da nova. são ambos basicamente atitudes de desespero. por fim. A progressiva perda de senso de realidade que acompanha o progresso intelectual é experimentada. o abandono da fé original. fato que. intelectualmente. Nasceu. o intelecto se vira contra si mesmo. Por outro lado aprofundaram-se estudos lógicos a ponto de invadir a lógica o campo da própria "ontologia". aquilo que pensa e portanto duvida. Talvez por terem sido destruidores da velha realidade. ou seu lado avesso. o clima do engagement sem compromisso e escrúpulo. Embora a hesitação e o sentimento de culpa sejam mais honestos. embora anti-intelectuais. aliás. a vantagem de nascer mais tarde. não chegaram a "convencer". Esta é a cena da filosofia atual. no entanto. pelo menos negativamente. prova a procura de uma nova realidade. da perda da fé no intelecto e não resultará em nenhuma fé autêntica nova. no sentido de provocar um novo senso de realidade. Em consequência perdeu os restos de ingenuidade e inocência que ainda caracterizam os pensamentos dos seus antecessores. tem sido superdimensionado inclusive por aqueles que nele perderam a sua fé. portanto. em prol de uma fé melhor. Nunca. portanto. tem sido apreciada e sorvida vivencial- . a a telecto. sem contribuir. isto é. Visto individualmente. já que eram intelectualizações. é o progresso da intelectualização. os sintomas dos filósofos acima mencionados. Entretanto. presente trabalho não nutre a ilusão de contribuir grandemente para modificar essa cena. ingenuidade ine inocência estas relativas ao alcance do intelecto. por um sentimento inarticulado e. a saber de uma fé menos ingênua e inocente. esta compreensão nunca se tornou parte da vivência autêntica desses pensadores. acompanha-se. Embora muitos tenham ultimamente compreendido o caráter puramente formal do intelecto (como. uma experiência exuberante. A sua influência decisiva sobre a arte e a ciência (mais especificamente sobre a psicologia) conduzia a uma derradeira intelectualização de camadas até agora não invadidas pelo intelecto. do que o engagemente o fanatismo. por si só.30 A dúvida VILÉM FLUSSER 31 tafísica ostensivamente desprezada). da "boa fé". Esse clima de hesitação e de culpa. uma nova fé. ~ando. Muito pelo contrário. acompanhado da hesitação característica da dúvida suprema. inicialmente. inconsciente de culpa. portanto. Tem. como libertação. positivamente. o progresso da dúvida. conforme creio. Atestam a perda da fé no intelecto. como superação de preconceitos. desde o início. fato que prova a preocupação da filosofia com uma nova interpretação do intelecto e sua função de produtor e destruidor de realidade. o compreenderam já os empiristas dos séculos XVII e XVIII). são. Entretanto. ele próprio. por revolucionários e criadores que sejam estes pensamentos.

os fundamentos dos quais o intelecto brotou e continua brotando. na possibilidade de uma superação e. pelo próprio intelecto. o intuito dessa corrente de pensamento não possa ser a superação da situação existencial absurda na qual nos encontramos. embora precária. Entretanto. porque confunde a fé no intelecto (abandonada acertadamente) com o enquadrar do intelecto numa fé em uma realidade nova a ser encontrada. em si só. O anti-intelectu. A tentativa de filosofar a respeito desses fundamentos é mais um erro de muita filosofia da atualidade. Fundamentos extraintelectuais que por definição não são alcançáveisintelectualmente. muito pelo contrário. pelos místicos primitivos e por aqueles que depositam toda a sua fé nos sentidos. portanto. vivência essa que este trabalho se propõe a elaborar. um abandono do intelecto. Embora. O desprezo fácil e barato do intelecto. embora não compreensíveis. bem entendido. A essa esperança o presente esforço está dedicado. nada tem a ver com a vivência aqui descrita. nutrido pelos sentimentais. essa vivência intelectual produzirá nele uma atitude positiva para com o intelecto. portanto. mas pode ser. pretende iluminar alguns aspectos para tornar uma superação posterior mais viável. que é a vivência intelectual da futilidade do intelecto. mas a posse do dinheiro dissipou a fé. Nunca. Pelo contrário. Esta eliminação é uma das tarefas deste trabalho. Está numa situação comparável àquela que surge após o desencanto com uma grande soma de dinheiro: o acumular da soma era acompanhado de uma fé no poder salvador do dinheiro. E é um perigo. Não podem ser. Este intuito.Jismo é prova da persistência de restos de fé no intelecto. autenticamente incluídos na disciplina de filosofia. muito inadequadamente. . e é superado com o desaparecimento desses restos. na sobrevivência daquilo que chamamos. O anti-intelectualismo de grande parte da filosofia atual é um erro e um perigo. de civilização ocidental. justamente na sua eliminação do campo da filosofia reside a possibilidade de sua inclusão num campo mais apropriado. isto é. Aquele que experimentou autenticamente em seu intelecto a futilidade do intelecto nunca mais será anti-intelectual. É um erro. Não é.32 A dúvida VILÉM FLUSSER 33 mente a esterilidade do intelecto. portanto. a superação do intelecto por si próprio. torna o anti-intelectualismo uma atitude superada.portanto. agora intelectualmente superado. A vivência da esterilidade do intelecto torna experimentáveis. porque propaga e aprofunda o niilismo que pretende combater. Entretanto. que é uma disciplina intelectual. já prova a existência de algo parecido remotamente com uma fé: a saber de uma esperança. embora não possa esperar ultrapassar o niilismo dentro do qual nos precipitamos. A vivência intelectual da esterilidade do intelecto. por pensadores. se e quando encontrada. o dinheiro está disponível para servir a essa nova fé. Não surgiu ainda uma fé para substituir a fé perdida.

movido por curiosidade ou por descrença nos métodos ocidentais do conhecimento. sofre um choque curioso. a eliminação de todos os pensamentos salvo um único arbitrariamente escolhido. compra uma Introdução aos segredos do Yoga e ensaia esse primeiro exercício mental. A nossa mente se destorce toda nesse esforço. ridícula e degradante ginástica mental que esta execução exige. em síntese. Trata-se. repulsivas aos olhos ocidentais. quase literalmente. Do intelecto Os exercícios mentais que fazem parte da disciplina do Yoga começam pela concentração. O livro recomenda. de uma recomendação de fácil execução. portanto. Aquele que. com efeito. Já não sabemos. como se destorcem os membros do corpo do Yogui. de uma ginástica equivalente em tudo às convulsões. Parece tratar-se. .I. que resultam dos exercícios corporais dos Yogui. O choque de surpresa reside na incrível.

a demência individual e o fim da sociedade civilizada. influenciado. e coletivamente. a luta das forças da sanidade contra a loucura. Via de regra abandonamos este primeiro estágio dos exercícios mentais. nas suas especulações. A vitória da vontade. há muito. talvez sem sabê-Io.36 A dúvida VILÉM FLUSSER 37 aonde temos a cabeça. entretanto. não especulativos. a nossos olhos. pela civilização indiana (embora seja duvidoso que jamais tenha tido sequer o choque existencial da concentração do Yoga). A concentração é a invasão da vontade no território do intelecto: é a vontade que elimina todos os pensamentos salvo um único. A subordinação da vontade ao intelecto é. concede. mas uma civilização. Toda a corrente da especulação filosófica dos séculos XIX e XX. a luta entre vontade e intelecto dentro da nossa mente. e pretende fortalecer a vontade contra o intelecto. a luta das forças civilizadoras contra a irrupção vertical da barbárie. o estado "natural" das coisas. por todas as nossas tradições. a qual se afigura como uma r~volta. Schopenhauer. deserta da frente ocidental para juntar-se às forças da vontade. O exercício da concentração não é um ato bárbaro e indisciplinado. imediata e vivencialmente. de algo artificial e inautêntico. Pelo contrário. exercício da concentração nos põe em contato imediato e vivencial com uma civilização diferente da nossa. com uma hierarquia de valores diferente. mas falta vontade a todos esses esforços de juntar-se à vontade. para nós. um acontecimento apocalíptico. A luta da vontade contra o intelecto. representa. de técnica apurada e de êxito pragmaticamente verificável. O exercício da concentra- o simples . parecendo fazer parte de uma civilização equivalente à nossa. um único esforço de concentrar-se pelas regras do Yoga vale mil tratados de Nietzsche ou de Bergson. em todos estes fenômenos. quiçá a corrente mais característica. Ilumina. portanto. individualmente. do ridículo e do degradante que acompanha esse exercício aparentemente simples? É que o exercício da concentração desvenda. porém. estamos profundamente empenhados a favor do intelecto em sua luta contra a vontade. empenhada a favor de forças que são bárbaras aos nossos olhos. é um procedimento bem organizado. um papel ontologicamente primordial à vontade. ~al é a razão da nossa revolta? ~al é a razão do nosso sentimento do inapropriado. acostumados a encarar a luta entre intelecto e vontade com equanimidade. Estamos. belo e certo. É o primeiro passo para a conquista e destruição do intelecto pela vontade. por inimaginável que seja para nós. a vitória das forças das trevas. aquilo que Nietzsche e Bergson. ligados à supremacia do intelecto. inter alia. Do ponto de vista existencial. pretendem. porque ofende os nossos cânones estéticos e o nosso senso de dignidade de pessoas inteligentes. meta da disciplina do Yoga. aos nossos olhos. Já o romantismo exalta a vontade em detrimento do intelecto. seria. num raio de experiência imediata. por certo. o estado bom. mas trata-se. Seria a inversão total da hierarquia dos nossos valores. Trata-se de esforços intelectuais de abandonar o intelecto. Especulativamente estamos. O nosso choque e a nossa revolta são existenciais.

à sua frente. como em um discurso estritamente intelectual. semelhante esforço de intelectualizar uma situação inarticulada. Essa vontade começa a girar em redor do pensamento morto. a descrição se mostra cheia de dificuldades e. profundamente insatisfatória. parado e morto. Estes fios auxiliares vêm da escuridão além do cone luminoso da atenção. uma situação a rigor inarticulável. é forçoso admitir. personagens. Creio que preciso recorrer à alegoria para descrever uma situação que ultrapassa o intelecto. o Eu quer pensar um único pensamento. e por assim dizer no outro lado. A descrição é intelectualmente insatisfatória porque. se esta for bem sucedida. um processo parecido ao pensar. pela penumbra da periferia do cone. a descrição é satisfatória. As palavras dessa descrição não são simbólicas. ~ando a concentração começa. Em outras palavras. mas alegóricas. aparentemente irradiada pelo Eu. fugazes. às vezes cruzando. fortemente iluminado pela atenção. isto é. cai no antropomorfismo. rígido. o Eu pensa uma multiplicidade de pensamentos. mas evocam a situação descrita. Não seria exato dizer que o Eu pensa. Graças a essa evocação tornam a situação inteligível. nunca teve essa experiência. Este Eu se manifesta de duas formas: pensa e quer. A situação é a seguinte: no centro está o Eu. No centro corre o fio-mestre. o Eu quer fazer parar o fio-mestre e destruir todos os fios auxiliares. o Intelecto e a Vontade. Do ponto de vista deste alguém. novos fios-mestres. isto é. Aproximamo-nos perigosamente da mitologia. intelectualiza. deve tomar as palavras da descrição como símbolos unívocos de significado exato. entretanto. e todos eles correm como fios num tear. por assim dizer três deuses: o Eu. um único pensamento. Para quem teve a experiência vivencial da concentração e da meditação incipiente. No final da concentração. destarte. Transmite em palavras. O pensamento que o Eu tem agora está morto. Surge. Entretanto. É verdade que a própria ciência.38 A dúvida VILÉM FLUSSER 39 ção. da nossa mente. e tem. Vemos três como toda alegoria. mas governado pela vontade e não pelo intelecto. aparentemente tão afastada da mitologia. Em redor deste pensamento morto está a vontade do Eu. Ao redor do fio-mestre correm fios auxiliares. às vezes acompanhando. Essa consideração revela até que ponto o intelecto está encarcerado em si mesmo. tão-somente ancorada dentro do pensamento morto. tradicional. Não tendo passado pela experiência inarticulada e bruta. Não significam. girando o próprio pensamento nesse processo. para perderem-se na escuridão novamente. porque o cone da atenção pode desviar-se do fio-mestre para iluminá-Ios e torná-Ios. O Eu continua no centro. dessa maneira. justamente por ser tão contrário ao funcionamento "normal". agora completamente livre. a situação mudou radicalmente. Para quem. estão sempre presentes. portanto. às vezes sustentando o fio-mestre. deve ser considerado como um fracasso. O Eu medita. revela de maneira quase palpável alguns aspectos do intelecto e da vontade. por inintelectualizável. não pode dispensar as personifica- . A sensação é a de uma força de vontade quase ilimitada que não tem objetivo. Simultaneamente. passam.

é um conceito dispensável na consideração do intelecto. O intelecto é um conceito mais amplo. portanto sou" pelo menos por um passo. tão-somente. Deve ser eliminado da discussão do intelecto. Não autoriza a afirmativa "penso". Consideramos a dúvida cartesiana um passo adiante dela. sendo um conceito a um tempo mais amplo e mais restrito que o intelecto. mas não é menos verdade que a desmitologização continua sendo um ideal da disciplina intelectual. é um conceito empregado. confessar que. "a Heredidade". O intelecto. Com efeito. pela ciência exata. mas ainda pelo princípio da economia de conceitos. Essa descrição é a seguinte: o intelecto é o campo no qual ocorrem pensamentos. Por exemplo: o Eu também quer. É preciso. manteremos a nossa descrição do intelecto como hipótese operante. naturalmente. Se descrevemos o intelecto como o campo no qual ocorrem pensamentos. Embora não possamos dizer nada intelectualmente satisfatório quanto às personagens alegóricas do Eu e da Vontade. É um conceito mais restrito. em outro nível de significado. na própria alegoria não tem sido tanto personificado quanto "coisificado". porque o Eu não abrange todo o campo no qual ocorrem pensamentos. ele também. já agora bastante esvaziada por nossa dúvida) não se esgota pensando. O purista pode objetar que o conceito "campo" é. Isso não impede que certos aspectos dessa situação sejam articuláveis. não somente por sua dubiedade e pelas razões expostas durante a discussão da concentração. porque o Eu (qualquer que seja a sua realidade. O Eu.A afirmativa "penso. por exemplo.40 A dúvida VILÉM FLUSSER 4] ções alegóricas. Ora. devendo. ultrapassamos a afirmativa cartesiana "penso. então. portanto. portanto sou" é a abreviaçãoda afirmativa "há um Eu que pensa. expulsá-Ias do território da discussão. é uma afirmativa pleonástica. Como não necessitamos ser mais realistas que o rei. portanto há um Eu que é". comparado com um tear cujos fios fossem pensamentos. Entretanto. como fazem alguns psicólogos atuais. A nossa descrição do intelecto autoriza-nos a duvidar da afirmativa "penso" e substituí-Ia pela afirmativa "pensamentos ocorrem". além de. Devemos. pelo princípio . nunca de um Eu que pensa. alegórico. como o provam conceitos do tipo de "a Lei". apenas. a rigor. é um conceito a urn tempo mais restrito e mais amplo que o conceito duvidoso do Eu. pensamentos produzidos mecanicamente por instrumentos eletrônicos. descrito como campo no qual ocorrem pensamentos. a existência de pensamentos. isto não se aplica ao intelecto. mesmo esse SuperEu superduvidoso não abrange todo o campo no qual ocorrem pensamentos. O método cartesiano prova. a nossa situação é intelectualmente impenetrável e inarticulável. Mesmo se estendermos o âmbito do conceito Eu para incluir nele todos os Eus individuais. isto é. duvidosa. e a alegoria desaparece. Ocorrem. "o Consumidor". A descrição do intelecto torna-se simbólica. com significado exato. é preciso tão-somente desmaterializar a imagem. A afirmativa "penso" é a abreviação da afirmativa "há um Eu que pensa". Este sim pode ser perfeitamente desmitologizado. abrir a mão da imagem do tear e dos fios.

Para ocorrerem. isto é.42 A dúvida VILÉM FJ"USSER 43 da navalha de Gccam. a estrutura dentro da qual e de acordo com a qual os pensamentos ocorrem. Da mesma forma. mas a maneira como se comportam corpos relacionados com a Terra. Desse ponto de vista os pensamentos são vistos como uma teia densa e opaca que bloqueia a nossa visão da realidade. portanto. Inversamente. A pergunta que se impõe. O intelecto. Entretanto. a saber. como há pouco tempo. inclusive o presente trabalho. e não sujeito. A teia dos pensamentos se afigura como uma camada que se interpõe entre o Eu e a realidade. então. voltemos à consideração do exercício da concentração do Yoga. estamos demasiadamente presos ao conceito do Eu. não há pensamentos soltos no intelecto. tradicionalmente ocidental. As palavras "tapar". "presentear" e "representar" são homônimas em alemão. Para tanto. A teia dos pensamentos é. O intelecto não tem dignidade ontológica fora dos pensamentos. como algo dado Íntima e imediatamente. Se contemplamos aquilo que chamamos "pensamento" a partir do nosso ponto de vista "natural". este se apresenta como fenômeno externo. dispensa a pergunta: "o que é o intelecto?" Um campo não é um quê. apresentando indiretamente essa realidade e o Eu. um objetivo reservado aos místicos: ela é alcançável pela especulação intelectual. proporciona a possibilidade de uma apreciação "objetiva". e que lá é chamado de maia. e representando essa realidade para o Eu. esta sim. vorstellen. aquele véu tecido de ilusões que deve ser rasgado de acordo com o ensinamento hindu. Tal ponto de vista sobre o pensamento. pois nele o pensamento é visto como sendo objeto. mas a maneira como algo ocorre. como o demonstra o presente argumento. do tipo de perguntas como "o que é Beleza?"ou "o que é Bondade?". mas através da qual se infiltra. este se nos afigura como fenômeno psicológico. A teia dos pensamentos é aquilo que Schopenhauer chama de Vorstellung. Entretanto. Em breve: a pergunta "o que é o intelecto?" carecerá de sentido. e esta maneira é o intelecto. "normal". prisioneiros deste tipo de metafÍsica ingênua.Todos nós. o intelecto é a maneira como se comportam pensamentos. descrito como campo no qual ocorrem pensamentos. por assim dizer um ponto de vista de dentro para fora. . os pensamentos devem ocorrer de alguma maneira. Essa eliminação é. a ele que devemos dedicar a nossa atenção no que se segue. Os intelectualistas e os anti-intelectualistas são. É uma pergunta ingênua e metafísica. se contemplamos o pensamento dentro do exercício da concentração. a libertação do Eu não é mais. no sentido pejorativo da palavra. O campo gravitacional da Terra não é um algo. ideal dificilmente realizável no presente estágio do desenvolvimento da discussão filosófica. como uma coisa entre as coisas que perfazem o ambiente chamado "mundo". para podermos autenticamente abandoná-Io. tapando a visão da realidade. não é um Ser em si. ambos. refratada e peneirada. é. a luz dessa realidade. entretanto. é a seguinte: "o que é um pensamento?" Da resposta a esta pergunta dependerá a nossa compreensão ou não do con- ceito "intelecto".

investir contra o pensamento para investigá-Io. que o pensamento é um processo. isto é. em segundo lugar. a partir daí. porque essa teia obedece a regras que lhe são inerentes. é. que introduz o Eu à realidade de maneira distorcida por suas próprias regras. Essa aura se chama "significado". Assim torna-se fenômeno no sentido da fenomenologia husserliana. por ser significativo. O pensamento completo é significativo. No segundo sentido é o pensamento um processo autorreprodutivo. ainda. embora pareça admitir limitações do intelecto. Um pensamento individual. chamada "lógica". Chamamos esses elementos de "conceitos" e as regras de "lógica": o pensamento é uma organização lógica de conceitos. o conjunto das regras de acordo com as quais o pensamento se multiplica. adequação essa que nega em suas premissas. Nessa concepção corresponde a teia de pensamentos à "razão pura" de Kant. com o conceito do conhecimento como sendo adequatio íntellectu ad rem. e as regras às kantianas "categorias da razão pura". Podemos conceber pensamentos interrompidos e incompletos. ela também. que a realidade em si transparece pela teia dos pensamentos. a "realidade em si" não pode ser captada pela teia dos pensamentos. ou que apresenta a realidade ao Eu distorcida pelas regras do pensamento. Podemos distinguir cadeias de pensamentos. Este abandono do pensamento por si mesmo pode assumir diversas formas. Esse dinamismo inerente ao pensamento se manifesta numa tendência do pensamento a superar-se a si mesmo. abandonando-se nessa superação. embora completo esteticamente. e o pensamento como um processo em busca de uma forma. portanto. de uma Gestalt. A teia dos pensamentos pode ser concebida como conjunto dinâmico de organizações de conceitos que esconde e revela a realidade. é um processo estético. movida por fé ingênua no intelecto. um conceito ambivalente.44 A dúvida VILÉM FLUSSER 45 da contemplação. Descobriremos.Descobriremos que o pensamento. No primeiro sentido o pensamento é um processo que corre em busca de sua própria completação. dentro das quais os pensamentos individuais formam elos. e isro em dois sentidos. É o conjunto das regras de acordo com as quais o pensamento se completa. essas cadeias estão unidas entre si como que por ganchos para formar o tecido do pensamento. não obstante. A lógica é. longe de ser um fenômeno simples. mas aquela que conduz à formação de novos pensamentos. A realidade se apresenta tão-somente através do pensamento. Podemos. carregado de um dinamismo interno que o impede de repousar sobre si mesmo. não obstante. é. muito . Admite. ou seja. portanto.embora pareça ser uma concepção crítica do pensamento. opera. ainda que distorcida. é um complexo de elementos organizados entre si de acordo com regras fixas. e é. Alcançada essa forma. se gera automaticamente um novo pensamento. a única que interessa no presente contexto. torna-se algo a ser entendido. um clima de obra de arte completa e perfeita. É a concepção à qual estamos acostumados pela discussão filosófica clássica. o pensamento adquire uma aura vivencial de satisfação.

inalcançável esse último significado em direção ao qual os pensamentos tendem. frustrada pelo próprio caráter do pensamento. são. portanto. a primeira visão da força que impele a teia dos pensamentos. Sendo. incompleto e interrompido por nossa contemplação. São significativos dentro do contexto da teia dos pensamentos. o abandono do uso pragmático dos significados dos pensamentos individuais. a impossibilidade de qualquer afirmativa em relação à realidade em si. necessariamente. Formulemos. Essa teia pode ser concebida como sendo um único pensamento enorme em busca de sua completação. nesse sentido. como o campo dentro do qual a teia dos pensamentos se expande. reside o erro e o primitivismo dos anti-intelectualistas. Essa é uma concepção que precisa ser abandonada. Se descrevemos o intelecto como sendo o campo dentro da qual ocorrem pensamentos. simultaneamente. à luz das considerações precedentes. Tal como se nos apresenta agora.46 A dúvida VILÊM FLUSSER 47 embora admita. como não o tem nenhum pensamento incompleto e interrompido. A soma dos significados dos pensamentos individuais é a força de expansão da teia. O fato de serem assim significativos contribui para a expansão da teia. É um esforço absurdo. É um conjunto dinâmico de organizações de conceitos que absconde a realidade no esforço de revelá-Ia:é uma busca da realida·· de que começa pelo abandono da realidade. O abandono da fé no último significado do pensamento não acarreta. Abandonando tal concepção clássicateremos. idêntica à dúvida. quando o significado dos pensamentos individuais adquire papel secundário e parasitário. possivelmente. Os pensamentos individuais são significativos à medida que contribuem para o significado geral em cuja busca a teia dos pensamentos se expande. A força que impele a teia dos pensamentos é a busca do significado. . a nossa concepção da teia dos pensamentos. é essa busca que se apresenta como sendo absurda. podemos agora condensar a nossa descrição dizendo: o intelecto é o campo da dúvida. Continuam sendo. significativos dentro de seu contexto. Neste abandono do uso prático. A teia dos pensamentos é. isto é. também insignificativos os significados dos pensamentos individuais. não tem significado. nessa reação do "rudo ou nada". tal qual a discutimos na introdução do presente trabalho. entretanto. entretanto.

2. não dispomos de uma definição clara e unívoca do conceito "conceito". e revela o funcionamento do pensamento. A nossa investigação nos conduz à próxima pergunta: "o que é conceito?" Embora se trate do elemento do pensamento. a anatomia e a fisiologia do pensamento. Consideremos o pensamento como organização de conceitos. Revela o pensamento como organização de conceitos. por assim dizer. um conceito deve acompanhar a palavra"). Essa fé manda que o conceito seja algo que acompanhe (ou deva acompanhar) a palavra. Goethe compartilha da ingenuidade do estudante e dise desacompanhadas de tingue palavras acompanhadas . O estudante ingênuo em Fausto diz: "Doch ein Begriff muss bei dem Worte sein" ("no entanto. Da frase o ponto de vista que assumimos no capítulo ante- rior revela. Essa circunstância é reveladora da fé inconfessa dos nossos pensadores do intelecto.

Podemos. Não há. cabendo ao "conceito" o papel de conciliador entre a fé e o intelecto. o conceito não é algo. em consequência "conceito" e "palavra" são sinônimos no sentido lógico. não sabem distinguir entre a língua primá- .algo completamente supérfluo. "Lógica" e "gramática" passam a ser sinônimos no mesmo sentido que o são "conceito" e "palavra". constatar que não há palavras sem conceitos. para o momento. Na segunda concepção é o conceito o símbolo da coisa. O que se quer dizer é que há palavras sem uma coisa correspondente (qualquer que seja o significado de afirmativa metaflsica como esta). que não são legítimas palavras. Há. isto sim. e o intelecto passa a ser o campo onde ocorrem organizações linguísticas. para falarmos em termos simples. a rigor. introduzido somente no esforço de superar o abismo entre palavra e coisa.50 A dúvida VILÉM FLUSSER 51 conceitos. diante de uma situação curiosa. então o pensamento passa a ser uma organização linguística. Basta. nem conceitos sem palavras. e que. Por outro lado. Emocionalmente diferem. O estudo do intelecto. Não há conceito sem palavra. Todos os esforços de definir" conceito" são tentativas de parafrasear o seguinte artigo de fé: "conceito é o fundamento inarticulado do qual surge uma palavra legítima". A articulação primária.mas este é um problema que surgirá mais tarde. estudo da língua que é. Estamos. por questão de economia. para um terreno completamente diferente . mas de algo. Essa articulação não necessita de órgãos ou instrumentos para processar-se. O conceito é. As regras de acordo com as quais os pensamentos se formulam e se propagam são as regras da língua. já agora. órgãos e instrumentos podem ser empregados a posteriori para produzir essa articulação secundária que é a língua falada ou escrita. torna-se disciplina rigorosa. como os conhecemos no presente. podemos. portanto. com efeito. conceito é o traço que uma coisa deixa no intelecto. Se o elemento do pensamento é a palavra. abandonar o uso da palavra "conceito" em prol da palavra "palavra". adquire agora o seu lugar preciso no conjunto das disciplinas de pesquisa: a preocupação com o pensamento e a consideração do intelecto fazem parte da disciplina da língua. uma organização de palavras. o "falar baixo". portanto. algo entre palavra e coisa . portanto. Nesse ponto do argumento. Se definirmos "língua" como "campo no qual se dão organizações de palavras".para o terreno adequado. Os estudos linguísticos. Com essa reformulação deslocamos toda consideração do pensamento. mas logicamente coincidem. assim como dizer que há palavra sem conceito não passa de uma maneira superficial de falar. Se descrevemos o pensamento como processo. Acha-se em excelente companhia. palavras incompreensíveis. O pensamento é. é preciso fazer uma ressalva. precisar que tipo de processo se trata: é a articulação de palavras. O que antes pode ter sido interpretado como exercício psicológico ou especulação metafísica. é idêntica à teia dos pensamentos. "língua" passa a ser sinônimo de "intelecto". no sentido de não fazerem parte de uma frase significativa . a língua não expressa. com efeito. e com ela a consideração do intelecto. portanto. palavra sem conceito. N a primeira concepção é a palavra o símbolo do conceito. portanto.

e pouco ou nada terá a ver com os problemas do pensamento. nas quais falta aparentemente o sujeito. A análise da frase e das relações entre as frases equivale à análise do intelecto. objeto e predicado. e (2). a palavra ora como símbolo (aspecto puro). essa distinção é sempre possível. mesmo assim. Esbocemos a análise da frase: a grosso modo. por exemplo. e o estudo da língua precisa ser dividido de acordo com ela. quanto o são as ciências naturais."('p ensamento " e "r e . ou tão pouco exata. As ciências linguísticas chamam organizações de pa Iavras d e "frases. com a nossa investigação do pensamento sem o apoio decisivo dessa disciplina a ser instalada. Embora não seja sempre fácil distinguir entre língua pura e aplicada. O predicado é aquele grupo de palavras que une o sujeito e o objeto. sua análise revelará o aspecto fundamental do processo chamado "pensamento". e as experiências verbais dos existencialistas. Consideram a história da palavra ora como o conjunto de suas modificações quanto ao significado (aspecto puro). Definimos o pensamento como uma organização de palavras.-. portanto. respectivamente. O objeto é aquele grupo de palavras em direção ao qual a frase se dirige. pela íntima relação que existe entre ambas. Devemos continuar. a frase-padrão consiste de sujeito. Tratam de descobrir leis de acordo com as quais as regras gramaticais se desenvolvem (aspecto puro). uma excessiva simplificação de situação. formais e estruturais da língua com aspectos próprios da língua aplicada. de (3). o objeto. Consideram. Os estudos dos logicistas formais. por ora. não passam de primeiras aproximações de uma instituição dessa ciência. em consequência. com a diferença que será uma ciência despsicologizada. A outra parte formará aquilo que Dilthey chamava de "ciência do espírito" (Geisteswissenscha:fi). simplificando a frase-padrão.52 A dúvida VILÉM FLUSSER 53 ria e a secundária. O intelecto é o campo no qual ocorrem frases. ora como grupos de fonemas (aspecto aplicado). basicamente. E há frases defectivas. somente in statu nascendi. Ela precisa ser feita. sem dúvida. Essa ciência da língua pura está. A parte que se ocupa com a língua aplicada precisa ser relegada ao terreno das ciências naturais. Misturam-se. aspectos puros. como Carnap e Wittgenstein. Podemos dizer que. (3) o predicado. (4) o atributo e (5) o advérbio. O sujeito é aquele grupo de palavras dentro da frase a respeito do qual a frase vai falar. Em consequência. e até o predicado. como Heidegger e Sartre. com riqueza de complementos e aditivos de análise difícil. Entretanto. to.portannas sao. Há frases enormemente complexas que consistem de uma série de frases e subfrases interligadas. podemos distinguir na frase-padrão cinco órgãos: (1) o sujeito. ora como conjunto de suas modificações quanto a sua forma sensível (aspecto aplicado). entre a língua pura e a língua expressa aplicada. (4) e (5) são complementos de (1). (2) o objeto. . Será uma ciência tão exata. sinônimos como o são "conceito" e "palavra".. e tratam de descobrir leis de acordo com as quais se desenvolvem novas formas de palavras (aspecto aplicado). Essa descrição da frase é. reina uma confusão fundamental nos estudos linguísticos atuais.

nesse contexto. o aspecto da absurdidade. a consideração que. É o que restou de um pensamento já perfeito e realizado. é a verdadeira mensagem da frase. de acordo com essa escola de pensamentos estamos aqui. e este algo é o predicado. A primeira situação. a missiva. a da decadência. o pensamento é. não somente enquadramos o pensamento dentro da visão existencialista. Vemos aqui. que é o sujeito. No presente contexto continua sendo vivência (todos a temos ao termos pensamento). o detrito de uma frase anterior. O pensamento é um projeto. ponto de partida do projeto que é a frase. O predicado. Não cabe aqui a discussão do mérito dessa visão da existência. com efeito. Prossigamos com ela. o missile que se projeta ao longo do trajeto que une um sujeito e objeto para formar o projeto. Mas a palavra "projeto" adquire. não obstante. o nosso projeto-mestre. São as partes estáticas do projeto. Isto facilitará a compreensão da função dos órgãos dentro do organismo da frase. transformando coisas que nos envolvem em instrumentos que testemunham nossa pas- sagem . é considerado. por si só. a do projeto. Torna-se analisável. será necessário considerarmos cada um dos seus órgãos um pouco mais atenciosamente. sob outro prisma. da antifé. por ser a maneira pela qual a existência se projeta contra as suas origens. rumo ao outro horizonte. porque para cá fomos jogados (gewoifen). Sujeito e objeto. isto sim. Consideremos primeiro as implicações de termos definido a frase como sendo um projeto. chamam de autêntica. Com efeito. e é. A palavra "projeto" é um conceito com o qual a filosofia existencial opera (EntwurfJ. o pensamento) como projeto. da dúvida que é o pensamento. Duas situações podem resultar desse nosso estarmos jogados para cá: podemos continuar caindo passivamente para dentro do mundo das coisas que nos envolve e oprime. como ainda libertamos o existencialismo do opróbrio de anti-intelectualismo que sobre ele paira. Ela é um processo que se projeta de um horizonte rumo ao outro. ou podemos virar-nos contra as nossas origens das quais fomos jogados.podemos projetar-nos. uma qualidade que não tem nas discussões existencialistas. horizontes que são do projeto. Mais exatamente: algo se projeta na frase de um horizonte. O pensamento (a frase) não é simplesmente um entre os projetos pelos quais nos projetamos contra o nosso estarmos jogados para cá.54 A dúvida VILÉM FLVSSER 55 A frase tem dois horizontes: o sujeito e o objeto. Para os existencialistas é o projeto uma vivência acompanhada de um clima (Stimmung). a segunda situação. Cabe. É o elo que une a frase a ser projetada com a frase que o . os existencialistas chamam de inautêntica. acessível à análise. enquadre organicamente o conceito "pensamento" dentro dessa visão. existimos. caindo em direção à morte. Dada a importância da análise da frase para a compreensão do intelecto. Nele devemos procurar o significado da frase. que é o objeto. O sujeito. o padrão de acordo com o qual todos os demais projetos secundários se realizam. não participam propriamente de sua dinâmica. A frase é um projeto dentro do qual o projétil (o predicado) se projeta do sujeito em demanda do objeto. tendo definido a frase (isto é.

meta do projeto que é a frase. não está esgotado. mas não potencialidades. da Cestalt da frase. "metafísico". que esse mundo se reduz a acontecimentos que se dão nos fios da teia. portanto. A aranha é um animal sumamente grato à psicologia comparativa. "o carro" é objeto. imediata ou mediatamente. como foi esboçada. numa união mística. e o objeto ("o carro") é o alvo. Para podermos compreender melhor a função de cada um dos órgãos da frase. Podemos. Acontecimentos que se dão nos intervalos entre os fios da teia não participam do mundo efetivo (real = wirklich) da aranha. Essa união entre sujeito e objeto alcançada pelo predicado é chamada "significado da frase". e esta síntese é justamente a frase. portanto. É uma tarefa absurda.56 A dúvida VILÊM FLUSSER 57 antecedeu. O predicado. ainda. o que investiga. Somente se for conseguido esse esgotamento completo do sujeito. visualizemos a situação: Tomemos como exemplo a frase: "o homem lava o carro".os demais animais. comparando-a a uma projeção cinematográfica: o sujeito ("o homem") é o projetor. nega ou duvida dos acontecimentos metateicos. o que o projeto procura. Se alcançado em cheio.A teia do homem consiste de frases. O sujeito "o homem" irradia o predicado "lava" em direção ao objeto "o carro". A frase é. a forma (Cestalt) da teia humana é a frase. é aquilo contra o qual o projeto investe. a tese do sujeito com a antítese do objeto. um projeto que pretende predicar sucessivamente tudo a respeito do seu sujeito. Creio ser de suma importância para a compreensão do intelecto a visualização da forma. o predicado ("lava") é a imagem projetada. fundir-se no todo e libertar-se das limitações da teia. a forma (Cestalt) de um tiro ao alvo: o sujeito ("o homem") é o fuzil. será como que engolido pelo sujeito. numa síntese dialética. são o vir-a-ser da aranha. Visualizando a frase estaremos visualizando a teia do mundo efetivo. A frase tem. o predicado ("lava") é a bala. Os psicólogos comparativos afirmam. poderá ser considerada uma cadeia de pensamentos como sendo completa. de uma aranha filosofante. podendo figurar como atributo do sujeito numa frase subsequente. A aranha-filósofo afirma. inclusive o homem. Nessa frase "o homem" é sujeito. real. caótico. devem contentar-se com teias invisíveis. a aranha-poeta os intui. estaremos visualizando a estrutura da "realidade". visualizar a situação. . ou embora tenha sido alcançado como objeto em uma frase anterior. São o fundo inarticulado. a aranha-criadora se esforça por precipitar tudo sobre os fios da teia. une dentro de si. ao tentar explicar o mundo efetivo das aranhas. Embora tenha sido predicado como sujeito em uma frase anterior. O objeto. e a aranhamística se precipita para dentro dos intervalos da teia para. o objeto ("o carro") é a tela de projeção. ou falta algo mais a ser nele alcançado: este algo deve ser predicado no novo projeto que está sendo projetado. Falta algo mais a ser predicado a seu respeito. wirklich para o homem. e "lava" é predicado. somente se for predicado tudo a seu respeito. centro do projeto que é a frase. tanto prática como teoricamente. para tudo compreender e devorar. até esgotá-Io. porque dispõe de uma teia visível.

por aranhanização. isto é. e o cadáver da mosca já chupada como testemunha (Zeug) da passagem da aranha pelo mundo mosca!. outras aranhas.58 A dúvida VILÉM FLUSSER 59 Detenhamo-nos. sujeito. Essa discussão torna viável uma visão mais apropriada não somente da mosca. mas a discussão da teia é aranhamente possível. então. acontecimento inalcançável teicamente. e. portanto fenomenal. A aranha materialista ensinará que a mosca é a tese e a própria aranha a antítese do processo dialético que se desenvolve nos fios da teia. já que a teia cresce e se fortifica e acabará suportando moscas de todo tamanho). as seguintes formas do Ser: mosca. já que aceitam a teia como fundamento da realidade sem discutir a própria teia. no centro da teia. tenderá a menosprezar a diferença entre mosca e outra aranha. Estes três tipos de especulação ocidental. o devorar da mosca equivale à realização da mosca. A mosca devorada como mosca rea- . ela tenderá a explicar as catástrofes destruidoras da teia como sendo supermoscas que não podem ser suportadas pela teia (provisoriamente. ou predicado de uma frase. acontece a própria aranha secretadora da teia e dona da teia. na aranha. e aquilo que Heidegger chama de Bewandtnis. tenderá a considerar o mundo metateico como um reservatório. considerando a outra aranha como uma espécie de mosca. O lizada: eis a última síntese. a total realização. com toda a sua problemática teica. A aranha civilizada. O resto é o mundo caótico. o acordo existente entre as coisas. não passa da relação entre sujeito. a própria aranha. e outros semelhantes. Acontecem nela palavras (moscas) de tipos diversos. mas realizável tão-somente em palavras organizadas de acordo com as regras da nossa teia. tendo sido alcançada a última síntese quando a própria aranha tiver devorado todas as moscas. Aquilo que Wittgenstein chama de Sachverhalt. catástrofe destruidora. mais um instante. o comportamento das coisas entre si. ou objeto. que nos escapa pelas malhas da nossa teia. inarticulado do vir-a-ser. O aranhismo é inevitável para as aranhas. consequentemente. combater outras aranhas e consertar estragos introduzidos na teia por catástrofes. outra aranha. wirklich. Não obstante. as seguintes modalidades ontológicas. intuível talvez poética ou misticamente. real. E. basicamente. as catástrofes que rasgam os fios. Voltemos à teia humana. livre de deslocar-se ao longo dos fios para devorar moscas. no sentido ocidental do termo. enfim. são caracterizados por um aranhismo extremo. mas da própria aranha. um vir-a-ser de moscas. copular com outras aranhas. objeto e predicado. das moscas. Indiscutivelmente a situação é mais complicada do que na teia da aranha. exemplificada na frase "o homem lava o carro".. distinguir. O nosso mundo efetivo. isto é. A aranha heideggeriana considerará a mosca a ser devorada como a condição (Bedingung) da situação aranhal. Para ser real. O nosso mundo das coisas que acontece nos fios da teia? Acontecem moscas. A aranha hegeliana afirmará que a aranha pressupõe a mosca e que o processo dialético é uma progressiva aranhanização do mundo-mosca. e que. se esgota em palavras de um daqueles tipos diversos. a saber. tudo precisa aceitar a forma de sujeito. predicado e objeto. o paralelo pode ser mantido. Podemos.

O resto é metafísica. se quiser evitar um aranhismo ingênuo. a teia das nossas frases. Sujeito. Como a aranha deve considerar a sua teia antes de qualquer consideração de moscas. Portanto. tentando visualizar o cosmos da nossa realidade. portanto. precisa da frase para enquadrar-se na realidade. por exemplo da frase "isto é um homem". é um cosmos. a todos os cosmos das línguas flexionais. que a nossa realidade consiste de sujeitos. a palavra "o homem" torna-se sujeito de uma frase: procura um Sachverhal que tenha uma Bewandtnis. se considerado isoladamente. ou muito diferente. no nosso exemplo "o homem". isto é. dado o parentesco estrutural entre as línguas flexionais. o cosmos que corresponde à língua portuguesa que. é um Sachverhalt e tem uma Bewandtnis. Por incômoda que possa ser. Não basta a si mesmo. O sujeito. carregado de força explosiva. um cosmos diferente. sensu stricto. Assim como se comportam aspalavras dentro da frase "o homem lava o carro". entretanto. tem uma construção de frases ligeiramente diferente. (Q:erer fugir da estrutura da realidade em sujeito. num suicídio metafísico. Se visualizarmos a frase como um tiro ao alvo ou como uma projeção cinematográfica. silêncio. é organizado. Tentando visualizar a forma da frase. com efeito. Consideremos o sujeito. Logo. porque são assim construídas as nossas frases. a cada língua particular corresponde um 5Jachverhalt e uma Bewandtnis diferente. objetos e predicados assim organizados. carece de significado. É evidente que cada língua particular. com certas reservas. comportam-se as coisas na realidade. estamos. toda investigação ontológica deve partir da análise da frase. devido a esta carga está se tornando sujeito. objeto e predicado organizados entre si em forma de um projeto comparável ao tiro ou à projeção. assim devemos con- siderar. estamos investigando o Sachverhalt real e procurando saber que Bewandtnis tem.60 A dúvida VILÉM FLUSSER 61 reais. objeto e predicado é querer precipitar-se. A análise lógica da frase é uma análise ontológica. objeto e predicado são as formas do Ser que perfazem a nossa realidade. estamos dizendo. em nossos dias. É um detrito. se quisermos evitar a atitude ingênua chamada. pode ser aplicado. estamos. Essa carga explosiva é a sua procura de significado. É um detrito de uma frase anterior. com efeito. Ele é o detonador da frase. devemos aceitar a tríplice ontologia como um dado imposto pela língua. a estrutura da frase. Uma realidade consistente somente de sujeitos (loucura parmediniana) ou somente de objetos (loucura platônica) ou somente de predicados (loucura heraclitiana) são exemplos dessa fuga suicida. fora de . antes de mais nada. visualizando assim o nosso cosmos. para dentro das malhas da nossa teia. de "humanismo". Em outras palavras: procura ser predicado em direção a um objeto. com efeito. Ao dizer que a frase consiste de sujeito. considerado isoladamente. isto é. "O homem". Essa estrutura nos é dada pela língua dentro da qual pensamos tão irrevogavelmente quanto é dada a teia no caso da aranha. Procurando significar. procurando um lugar dentro da estrutura da realidade. O que estamos discutindo no curso destas considerações é. se for do tipo flexional.

é o objeto algo ainda não encontrado. ela se apresentará como uma única e enorme procura e interrogação. por isso mesmo. isto é. como uma busca do significado. é uma procura. que é a frase. no Sachverhalt entre sujeito e objeto. um lugar dentro do esquema da realidade. O projeto da frase. da "excentricidade objetivista". digamos. Se considerarmos a nossa realidade do ponto de vista do objeto. e nessa oposição dá sentido à procura. Realiza o sujeito. como uma querela nascida de uma falsa gramática. uma organização linguística que supera. que é a gramática. aquilo que Aristóteles e os escolásticos chamavam de substantia. ambas as palavras fazem parte. Essa excentricidade objetivista caracteriza. uma interrogação. o fundamento da frase. interrogativo se visto subjetivamente. a rigor. e deveria ser escrito. no nosso exemplo. Essa excentricidade subjetivis- ta caracteriza. o objeto . Se considerarmos a nossa realidade do ponto de vista do sujeito. o pensamento romântico. isto é. Por exemplo: a distinção entre "objeto real" e "objeto ideal". "Sujeito" é aquilo que está no fundo do projeto (subjectum). por exemplo. As palavras "sujeito" e "objeto". a rigor.62 A dúvida VILÉM FLUSSER 63 uma frase. ou seja. e deveria ser escrito. daquele ponto de vista que podemos chamar de "excentricidade subjetivista". o interrogativo e o imperativo. Carece de algo contra o que se possa projetar num predicado. como uma indicação. como um todo. é o obstáculo que dá a sua procura por terminada. dando-lhe. fora da frase. se consideradas etimologicamente no sentido de "língua pura". pelo mesmo processo. Considerado isoladamente. dentro de um Sachverhalt.no nosso exemplo a palavra "o carro": é aquilo que barra o projeto do sujeito. mas. A realidade se apresenta. O objeto alcançado pelo sujeito na frase desvenda a eterna querela entre deterministas e indeterministas como sendo uma querela entre excêntricos. O sujeito. "Objeto" é aquilo que obsta o projeto (objectum). deste ponto de vista. O objeto dentro da frase é um imperativo. como uma articulação. mas que deve ser encontrado. há milhares de anos. é um ser em busca de um objeto para realizar-se. A aparente dicotomia entre as duas excentricidades se dissolve na visão da frase inteira. isto é. imperativo se visto objetivamente. Entretanto. se as palavras forem recolocadas no seu contexto. na qual tanto sujeito como objeto tem Bewandtnis. um dever do sujeito. ela se apresentará como um único e enorme obstáculo. o imperativo do objeto se funde com o interrogativo do sujeito no indicativo do Sachverhalt que é a frase. uma barreira categórica que nos determina e sobre nós impera. "o homem?". confessa ou inconfessadamente. ~ando alcançado pelo sujeito. da conversação filosófica e têm sido utilizadas fora do seu contexto autêntico. Limita o sujeito. Opõe-se à procura do sujeito. não deveriam dar margem a muita confusão. é uma indicação se visto como Sachverhalt. Define o sujeito dentro de uma situação. Dessa forma deram origem a múltiplas especulações metafísicas que devem ser conduzidas ao absurdo. torna-se realizado. o pensamento marxista. ou a identificação de "sujeito" com "Eu" . Consideremos esse algo. "o carro!". por exemplo.

por poderem participar de diferentes Sachverhalt. Estamos autorizados a falar em "mesmo" sujeito e "mesmo" objeto. predicando um outro predicado. mas o predicado é o centro. "o homem" e "o carro" transcendem a realidade que é o predicado "lava". isto é.A realidade do "homem" e do "carro" está no "lava". Espero que a presente discussão possa contribuir para a eliminação destes erros e para a recolocação de ambas as palavras em seu contexto estruturalmente certo.podemos verificar essatranscendência estabelecendo um outro Sachverhalt entre o mesmo sujeito e o mesmo objeto. no contexto da estrutura das línguas flexionais. a essência da frase. É uma palavra intimamente ligada com todos os problemas ontológicos que se agrupam ao redor das palavras "dizer". e mais: já que o sujeito e o objeto podem participar de inúmeras Sachverhalt. porque em ambas as frases servem as mesmas palavras de sujeito e objeto. no nosso exemplo "lava". portanto. O predicado ocupa a posição central dentro do projeto que é a frase. A realidade é o conjunto dos Sachverhalt. A oposição entre sujeito e objeto dentro da frase é superada pelo predicado. Entretanto. Entretanto. real somente enquanto "lava". isto é. à ontologia tríplice de sujeito. dentro do presente contexto. portanto. dentro da frase. portanto da língua. A própria palavra "predicado" exige uma investigação ontológica paciente que ultrapassa de longe o escopo deste trabalho. somente enquanto "o homem lava". Logo. pela estrutura da língua. O predicado. e "língua". a resposta é simples e nada tem de misterioso. profetizar) e "prédica". transcendem todos eles. que é o predicado "guia". Agora o mesmo "homem" e o mesmo "carro" se realizam numa realidade diferente. Trata-se. O que nos autoriza a dizer que se trata nessas duas realidades do "mesmo" sujeito ou objeto? Eis uma pergunta tipicamente eterna da filosofia clássicae que tem dado origem a inúmeras metafísicas e epistemologias. o sujeito com o objeto num Sachverhalt. "O carro" é real porque "o homem o lava". que por sua vez é o predicado "lava". nos exemplos citados e em outros. isto é. "falar". . entretanto. transcendem inúmeros Sachverhalt. esforça-se por unir. Exemplifiquemos esse absurdo: "o homem" é real porque "lava" é. Embora estejamos condenados. Trata-se. isto é. portanto da língua. esforça-se por integrar o sujeito e o objeto na estrutura da realidade. por exemplo. O predicado estabelece o Sachverhalt entre sujeito e objeto. A consideração do predicado nos conduz ao próprio âmago da língua. cabe ao predicado uma importância maior. É uma pergunta puramente formal e diz respeito à sintaxe da língua em que estamos pensando. objeto e predicado. Surgiu da palavra "dizer" e tem parentesco próximo com as palavras "predizer" (isto é. podemos dizer que o sujeito e o objeto transcendem a realidade.64 A dúvida VILÉM FLUSSER 65 ou com "Deus". "o homem guia o carro". podemos dizer que o sujeito e o objeto. Resumindo. Sujeito e objeto são os horizontes da frase."O homem" é o lado subjetivo enquanto "o carro" é o lado objetivo da realidade. de um esforço por definição absurdo. de simples erros de sintaxe. o conjunto das frases. O sujeito e o objeto não são integráveis na estrutura da realidade.

predicando símbolos. a continuidade da realidade. Um dos mais poderosos pensadores brasileiros. Fora da frase "o homem" e "o carro" são sÍmbolos sem significado. a eterna querela entre Parmênides e Heráclito fica superada. podemos dizer que a realidade é a soma dos predicados de todas as frases articuláveis. a rigor. Doravante. O predicado é o sujeito e o objeto transformados em sinal. 'b ava. ava. Mais tarde. São os limites e as metas dos predicados. devemos apenas reconhecê-Ias. Reconhece a limitação do intelecto de poder "captar" (eifàssen) somente os predicados de um sujeito. horizontes que são da frase. Por exemplo: "O homem lava o carro. resume-se a realidade de cada Sachverhalt no predicado de cada frase. se o compreendo bem. A realidade dos Sachverhalt está nos seus predicados. mas como sujeito e objeto da frase adquirem o significado "1 "T ornam-se sIgnos graças ao "1 "C omo sIm 0. A filosofia clássica conhece o conceito do "pensar predicativo". O sujeito e o objeto são o vir-aser da realidade. os "onta" imutáveis da especulação pré-socrática. perde-se a filosofia clássica em especulações estéreis. dentro do predicado o sujeito e o objeto adquirem significado. o homem guia o carro". não são propriamente "onta". Estes dois Sachverhalt participam do mesmo continuum de realidade. O que Ferreira da Silva advoga é. A realidade é o processo que transforma símbolos em signos. dessa maneira. não são "reais" no sentido pré-socrático. entretanto. o problema dentro do contexto gramatical. participam dele. e desta maneira as violenta. Justamente por serem imutáveis.66 A dúvida VILÉM FLUSSER 67 embora participando de inúmeros Sachverhalt. a reconquista da visão simbólica das coisas. transcendem o rio heraclitiano no sentido de participar dele somente para garantir-lhe o fluxo. isto é. como signos. por impensável. porque as duas frases contêm os mesmos sujeito e objeto. Advoga a queda para fora das telas das frases e para dentro do caos do vir-a-ser das frases que são justamente os símbolos a serem significados em frases. Sujeito e objeto. Essa estrutura sendo tal qual é. Estritamente falando. em signo. advoga. A limitação do intelecto é dada pela estrutura da língua. Encarado o problema do fluxo da realidade deste ponto de vista gramático. pelo intelecto regido pela estrutura das lín- . Advoga algo irrealizável. Sujeito e objeto. como tendo significado. Como não coloca. A visão simbólica recoloca as coisas na totalidade autêntica que é a realidade. parte do rio. com efeito. O predicado "significa" o sujeito e o objeto. não totalmente predicáveis. porque são o vir-a-ser da frase dentro da qual adquirirão significado. em vez de conhecer e manipular as coisas. e jamais o próprio sujeito. O Sachverhalt (a frase) é significativo no sentido de transformar símbolos em signos. Diz ele que o pensamento racional coloca as coisas num contexto (Sachverhalt) manipulável por este próprio pensamento racional. neste caso específico da estrutura da frase nas línguas flexionais. Vicente Ferreira da Silva. formam os elos entre frases e garantem. los transcendem o Sachverhalt. justamente à procura do significado. o abandono do intelecto e da realidade tal qual ela se dá pelas frases das línguas flexionais. Não fazem.

Com efeito. Pensamentos são frases de uma dada língua flexional. A soma dos predicados parciais é a soma das nossas realizações. A fi-ase é a única maneira. O pensamento é um único enorme predicado emitido por um sujeito jamais predicável em direção a um objeto jamais atingível. o impossível. como o campo aonde ocorrem predicados . de predicado em predicado. a saber "o homem lava o carro". portanto. porque o sujeito e o objeto são inexauríveis. A soma dos predicados já articulados é a conversação que somos e os predicados a serem articuIados são o nosso significado. as únicas ontologicamente decisivas. pela qual símbolos se realizam. Bem entendido. São analisáveis em palavras de função diferente. Logo. portanto. o "pensar sem pensar". porque assim é construído o nosso intelecto. A nossa realidade é uma frase inaca- bada e interminável em busca de um significado inalcançável do sujeito e do objeto transcendentes da frase. como "o homem" e o "carro". de captar o sujeito e o objeto fora da frase. são as de sujeito. Ferreira da Silva é um exemplo de tentativas faústicas e nobres de obviar o processo linguístico. terminará desembocando em um mutismo metafísico. de encontrar um shortcut para a realidade. A sua análise revela somente aspectos grosseiros e pouco diferenciados do pensamento. conforme ficou dito. Entretanto. O exemplo escolhido. de significar plenamente o sujeito e o objeto. à luz dessa análise. A análise da frase equivale. As três funções mais importantes. Condensando o que o presente capítulo se esforçou para demonstrar. no seu avanço. Avança de significado parcial em significado parcial em busca do significado total jamais alcançável. Completamente consciente da frustração do esforço intelectual. jamais significativa. é ele inconsciente da impossibilidade de obviar esse esforço. é exemplo de uma frase excepcionalmente simples.68 A dúvida VILÉM FLUSSER 69 guas flexionais. o pensamento é a única maneira de o sujeito adquirir significado e alcançar o objeto. objeto e predicado. é ele o único esforço produtivo que nos é dado. Advoga o "pensar simbólico" e o "pensar sem frases". é ele também um esforço produtivo. E é frustrada. podemos afirmar o seguinte: o intelecto é o campo aonde ocorrem pensamentos. porque é a única maneira pela qual adquirem significado. de predical' sujeitos e objetos. É a única maneira. no esforço de exaurir o sujeito e o objeto. O intelecto avança de frase em frase. portanto. portanto. não são totalmente predicáveis. Toda a nossa realidade reside nesse avanço do pensamento que é o avanço da língua. não obstante. revela o que é básico para a compreensão do pensamento. Passando pelo estágio do balbuciar de símbolos. embora frustrada. O intelecto pode ser redefinido. neste contexto" nós" é sinônimo de "língua". mas participam dela como signos significados pelo predicado. à análise do pensamento. sem jamais poder alcançar a sua meta. Os significados parciais das frases subalternas que compõem a nossa realidade são o cosmos que já conquistamos ao caos do vir-a-ser. Sujeito e objeto são horizontes da frase no sentido de transcendê-Ia como símbolos. o pensamento é uma única frase inacabada. ao caos dos símbolos sem significado. embora seja o intelecto um esforço frustrado.

São o sujeito e o objeto. O intelecto é. também se tornaram mais claras. O intelecto é a nossa única avenida de acesso à realidade. como próximo passo. à consideração de nomes. Do nome O propósito deste trabalho é a discussão do intelecto e suas limitações. O caráter da dúvida tornou-se mais explícito. Daí o nosso niilismo. As limitações da língua são nomes. e essaúnica avenida está interditada pela intelectualização do intelecto. na introdução. fruto de valorização excessivado intelecto acompanhada do desespero quanto à capacidade do intelecto de pôr-nos em contato com a "realidade". Sujeito e objeto são palavras de um certo tipo. quanto ao intelecto resolvemos tentar . portanto. A nossa investigação conduz. Esta definição do intelecto é uma explicação da definição da qual o presente capítulo partiu. inclusive da camada do intelecto. o campo aonde ocorre a busca predicativa de significado a partir do sujeito em demanda do objeto. as limitações do intelecto. como niilismo principiante. Para superar essa supervalorização do intelecto e esse desespero. com o fim de contribuir para a superação da situação atual da nossa civilização. estamos alcançando a intelectualização de todas as camadas de atividade mental. de "dúvida da dúvida". As limitações da dúvida. As limitações do intelecto são nomes. No estágio atual do nosso desenvolvimento cultural. As limitações da dúvida são nomes. Essa intelectualização do intelecto foi chamada.70 A dúvida significando sujeitos e objetos. 3. isto é. São nomes. É a atividade linguística de predicar. na introdução. Essa situação foi caracterizada. a saber: o intelecto é o campo da dúvida.

A partir deles e contra eles investe. Entretanto. gritar. que correspondem a "substâncias". pode- mos distinguir dois tipos. São palavras do tipo "isto aqui". como tantos fazem atualmente. As palavras classificadas são a Weltanschauung. estrito do termo. e verbos. que correspondem a "qualidades". A gramática tradicional. Distingue. rumo a "Deus". São a realidade intelectual. Chamemos todas as demais palavras de "palavras secundárias". As palavras são os dados do intelecto. são nomes de um certo tipo. isto é. de sua função ontologicamente geralmente inconsciente fundamental. adjetivos. por grosseira que possa ter sido. preposições e conjunções. todo esse processo chamado pensamento. precisa . de místico ou de sagrado. ou "nomes próprios". ou "aquilo lá". em vão. A gramática tradicional é ingênua. Há. Chamar e conversar são. Se olharmos atentamente no senso para as palavras. classifica as palavras de uma dada língua de acordo com uma suposta correspondência entre palavras e "realidade" . portanto. as palavras secundárias são "conversadas". gação deste tipo de palavras equivale. que correspondem a "processos entre substâncias". Ao pensá-Ias estamos sentindo uma barreira. não são arcanjos de espadas flamejantes a serem vencidos em luta.adaequati intellectus ad rem. e ao articulá-Ias somos tentados a grunhir. Essas fronteiras são algo muito prosaico. As últimas fronteiras do intelecto. substantivos. ou fazer um gesto. façamos distinção entre "chamar" e "conversar". a saber: os nomes. Essa análise. palavras que parecem não querer enquadrar-se tão organicamente. nem são fiírias infernais a serem encantadas orficamente. fruto dessa ingenuidade. ao invés de abandoná-Io. no entanto. A investià investi- ser abandonada. o ponto no qual o intelecto para e deixa de funcionar. transformados em palavras gação da limitação do intelecto. por exemplo. as duas atividades intelectuais. que correspondem a "relações entre substâncias". As fronteiras que barram o avanço do intelecto rumo à "realidade". Para distinguir a atividade intelectual que envolve o pensar e articular dos nomes próprios da atividade que envolve o pensar e articular das palavras secundárias. Os nomes próprios são "chamados". revelou as fronteiras do intelecto. portanto. A sua classificação de palavras. Essas fronteiras nada têm de misterioso. é evidente que as palavras precisam ser classificadas de alguma maneira. como pretendem os que almejam a superação do intelecto num salto. Exigem um esforço quase extralinguístico para serem pensadas e articuladas. Chamemos palavras deste tipo de "palavras primárias". O melhor é esquecer todos esses esforços devotos ao nos aproximarmos do problema da classificação das palavras. Ela é anterior à dúvida e está iluminada pela graça da fé no intelecto e na língua. e equivale à investigação da condição humana. Os nomes próprios são chamados para serem conversados. A grande maioria das palavras está como que implantada dentro do húmus da língua e é pensada e articulada organicamente na engrenagem da língua. chamado "nomes próprios". A classificação das palavras é a visão cósmica da realidade.72 A dúvida VILÉM FLUSSER 73 analisá-Io.

Este algo faz parte agora da ameba. A anatomia da ameba. Nesta imagem corresponde a emissão do pseudópode à atividade do chamar. ao tipo de palavra que a gramática tradicional chama de "substantivo". em ameba. Tudo que é possível pode ser chamado. A ameba emite um pseudópode em direção de algo extra-amébico e o ocupa. Podemos dizer que tudo pode ser apreendido pelo intelecto. é o vir-a-ser da ameba. O processo pode ser comparado com a alimentação da ameba. gradativamente.74 A dúvida VILÉM FLVSSER 75 secundárias. O campo que é o intelecto se expande. por protoplasmatização. vagamente. A ameba se expande para dentro de suas potencialidades. ou seja. Todas as contrações do vacúolo resultam em vão. estas palavras secun-. dentro do qual a ameba emite os seus pseudópodes. que são os nomes próprios in statu nascendi. . A ameba é a realização. em todas as direções possíveis. no processo. São estas palavras em via de transformação. Consideremos primeiro o chamar de um nome próprio. Nem tudo serve para ser utilizado como sujeito e objeto de uma frase significativa. para ocupar um território dantes extraintelectual. que são. À medida que os nomes próprios são conversados. A ameba como um todo cOlTesponde à língua como um todo. um cristal de quartzo pode ser ocupado e encapsulado dentro de um vacúolo. não pode digerir todas as possibilidades.torna-se realidade amébica. transformamse em palavras secundárias sempre mais distantes de sua origem primária. justamente por ser o corpo estranho. O primeiro estágio dessa transformação corresponde. vacúolos em statu nascendi. já dentro da realidade amébica. Insistindo um pouco mais com a imagem da ameba. acontece uma coisa curiosa. o cristal continuará sempre como um corpo estranho dentro do protoplasma da ameba. Entretanto. Vale a pena observar este processo mais de perto. nem tudo pode ser transformado em palavra secundária. a não ser que o cristal sirva. de estimulante ou catalisador dos processos metabólicos da ameba. Em seguida. o vacúolo corresponde ao nome próprio. sem estar incorporado ao seu metabolismo. Entretanto. e a digestão corresponde à conversação. O melhor seria expeli-Io. dárias próximas dos nomes próprios. Traduzamos essa imagem para o campo do intelecto. isto é. Esses apelos resultarão sempre em nomes próprios. que servem de sujeito e objetos das frases. Embora a ameba possa ocupar toda a possibilidade com seus pseudópodes. mas não pode ser digerido. Por exemplo. o algo dentro do vacúolo corresponde ao significado extralinguístico do nome próprio. podemos dizer que o território extra-amébico. e possa formar um vacúolo ao redor de toda a possibilidade ocupada. O vacúolo se fecha e o algo se transforma. A língua pode emitir os seus chamados para dentro do seu vir-a-ser. forma-se uma vacúolo ao redor desse algo conquistado. corresponde à nossa classificação de palavras em nomes próprios e palavras secundárias. Essa transformação é gradativa. do ponto de vista da ameba. em protoplasma. desse território. O resultado dessa expansão é o surgir de uma nova palavra que é o nome próprio ora chamado. que consiste de vacúolos e protoplasma.

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N em tudo pode ser assimilado à engrenagem da língua. Nem tudo pode ser compreendido. Os nomes próprios inassimiláveis continuarão sempre como corpos estranhos dentro da estrutura da língua, continuarão sendo apelidos. Um exemplo típico desses apelidos, desses nomes próprios inassimiláveis que são apreendidos sem jamais serem compreendidos, é a palavra "Deus". Como a estrutura química do protoplasma da ameba se recusa a assimilar um cristal de quartzo, assim a estrutura das nossas línguas se recusa a assimilar a palavra "Deus". Não obstante, justamente por ser inassimilável, pode, talvez, servir de catalisador dos processos linguísticos autênticos. Pode estimular a conversação, sem jamais poder participar autenticamente dela. Eis uma nova limitação do intelecto que surge à tona. Embora tudo possa ser chamado de nome próprio, embora tudo possa ser apreendido, pelo menos em teoria, nem tudo pode ser compreendido pelo intelecto. Nem a essa conclusão tudo pode ser conversado. Chegamos

atividade. A querela escolástica entre nominalistas e realistas, embora sendo ingênua ao extremo, se anterior à dúvida cartesiana, prova que a distinção entre nome próprio e palavra secundária e o poder produtivo da atividade do chamar sempre foram reconhecidos pelos pensadores, embora confusamente, como sendo fundamentais. Antes de prosseguir com a nossa investigação, limpemos o nosso caminho dos detritos dessa querela escolástica. Os nominalistas (os que venceram) afirmam que os nomes próprios são "reais", enquanto que as palavras secundárias são "hálitos da voz". Os realistas (os provisoriamente vencidos) afirmam que certos tipos de palavras secundárias, os universalia, são igualmente "reais". Desconsideremos o background platônico e aristotélico que se esconde atrás dessas afirmativas ingênuas, e consideremos tão-somente o seu aspecto formal. Os nominalistas e seus sucessores, os empiristas, sentem a qualidade vivencial do nome próprio, embora sem poder captá-Ia intelectualmente, e sentem a falta dessa qualidade no caso das palavras secundárias. Por isto negam "realidade" às palavras secundárias. Os nominalistas e empiristas são existencialistas em estado embrionário. Os realistas sentem que os nomes próprios não são ontologicamente diferentes das demais palavras e não podem ser delas rigidamente diferenciados, já que o processo intelectual reside justamente na transformação dos nomes próprios em palavras secundárias. Não se resolvem, entretanto, a conceder a dignidade de "realidade" a todas as palavras, já que estão comprometidos, por sua fé ingênua, com uma realidade extralinguística. Em acor-

não por alguma especulação mística, mas pela observação intrainteIectual de corpos estranhos que são os nomes próprios inaplicáveis a frases significativas. Não podendo servir de sujeitos e objetos de frases significativas, não se transformam estes nomes em palavras secundárias e continuam apelidos, isto é, símbolos sem significados, sÍmbolos vazios. Não obstante, podem ter importância, às vezes decisiva, para o processo intelectual. A atividade do chamar é a única atividade produtiva do intelecto. Os nomes próprios são os produtos dessa

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do tácito com a gramática tradicional, consideram "reais" aquelas palavras que essa gramática chama de "substantivos". Não obstante a ingenuidade dos escolásticos, serve esta excursão de recreio na Idade Média para ilustrar de que maneira curiosa o nosso pensame:nto volta, no seu esforço de superar Descartes, para as suas origens précartesianas. A qualidade vivencial que acompanha a atividade produtiva do chamar é conhecida por "intuição". O intelecto, ao chamar algo, intui esse algo. Para a compreensão intelectual da intuição é preciso libertar este conceito das impurezas extraintelectuais que a ele se agarram. Intuição é sinônimo de expansão do intelecto para dentro das suas potencialidades. Ao intuir algo, transformo este algo em nome próprio, realizo este algo dentro do intelecto. Sendo, entretanto, a intuição uma atividade fronteiriça do intelecto ( Grenzsituation), adere a ela a vivência da barreira do intelecto: daí a origem das impurezas extraintelectuais que nela se agarram. Nesse sentido podemos dizer que o intelecto se expande intuitivamente. Podemos, entretanto, definir melhor a intuição que resulta na produção de nomes próprios, já que se trata de uma intuição produtiva. Podemos chamá-Ia de "intuição poética". Os nomes próprios são tirados, nesta atividade intuitiva, do caos do vir-a-ser para serem postos para cá (hergestellt), isto é, para serem postos para dentro do intelecto. Tirar para pôr para cá se chama, em grego, poiein. Aquele que tira para propor, aquele que "produz", portanto, é o poietés. A atividade do chamar, a atividade que resulta em nomes

próprios, é, portanto, a atividade da intuição poética. A expansão do intelecto é a poesia. A poesia é a situação de fronteira do intelecto. Os nomes próprios são produtos da poesia. O esforço quase extralinguístico que o pensar e o articular dos nomes próprios exige é o esforço poético. Podemos ampliar a nossa concepção do intelecto da seguinte maneira: é ele o campo no qual ocorrem palavras de dois tipos, nomes próprios e palavras secundárias. Esse campo se expande por intuição poética criando nomes próprios a serem convertidos em palavras secundárias pela conversação. Podemos distinguir duas tendências dentro do campo do intelecto, uma centrípeta e a outra centrífuga. A força centrífuga é a "intuição poética", enquanto que a força centrípeta é a "conversação crítica". O resultado da "intuição poética" são os nomes próprios, o resultado da "conversação crítica" é a transformação desses nomes em palavras secundárias, ou a sua eliminação do campo do intelecto. Se o intelecto é o campo da dúvida, devemos dizer que a dúvida tem duas tendências: a "intuitiva" que expande o campo da dúvida, e a "crítica", que o consolida. A dúvida intuitiva cria a matéria-prima do pensamento (nomes próprios), ao passo que a dúvida crítica converte essa matéria-prima em organizações articuladas, em frases significativas. A dúvida intuitiva é a poesia, a dúvida crítica é a conversação. Poesia e conversação, estas duas formas de dúvida, são, por isso mesmo, as duas formas da língua. No campo do intelecto ocorrem pensamentos (organizações linguísticas) de dois tipos: pensamentos poéticos e pensamentos conversacionais.

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No campo do intelecto ocorrem dois tipos de pensamentos: "versos" e "conversos". Detenhamo-nos mais um pouco no pensamento do tipo poético, no pensamento criador dos nomes próprios, no pensamento intuitivo. Detenhamo-nos mais um pouco nos "versos". O verso é a maneira como o intelecto se precipita sobre o caos inarticulado que o circunda, é o esforço do intelecto de quebrar o cerco do caos que o limita. O verso é, portanto, a situação limítrofe da língua. Pelo verso a língua tenta superar-se a si mesma. No verso a língua se esforça por articular o inarticulável, por tornar pensável o impensável, por realizar o nada. Se esse esforço é bem sucedido, resulta o verso em nome próprio. O verso bem sucedido proclama o nome próprio, arrancando um nome próprio ao caos e o vertendo na direção do intelecto. O verso é um verter de um nome próprio. Não é, portanto, exato dizer que a poesia representa uma força exclusivamente centrífuga. O verso chama um nome próprio e, nesta fase, é centrífugo. Mas, ao ser bem sucedido, proclama o nome próprio e torna-se centrípeto. O verso chama e proclama; há dentro dele uma conversão de 180°. O poeta, ao chamar, está de costas para o intelecto, mas ao proclamar volta-se para ele. A intuição poética, ao se chocar contra o inarticulável, arranca dele o nome próprio e volta com esta conquista para o campo do articulado. Esta situação invertida e controvertida do verso forma um tema sempre recorrente dos mitos da humanidade.

meteu que volta do Olimpo para o vale da conversação, tendo arrancado o fogo do inarticulado. São os Richis que voltam do alto, tendo arrancado os vedas do inarticulado. São três mitos típicos da atividade poética. Nestes mitos podemos vislumbrar a vivência do verso: é ele um choque criador do intelecto com o inarticulado, um choque que é avanço e retrocesso. O resultado desse choque é o enriquecimento do intelecto por um nome próprio. A língua ganhou, graças a este choque, uma nova palavra. O verso conserva, em sua Gestalt, a estampa desse choque. O verso vibra. O nome próprio, incrustado dentro do verso como um diamante dentro do minério, cintila. Consideremos o verso com o qual voltou Moisés: "eu sou Jeová teu Deus". Há uma aura de vibração e de luz em redor do nome próprio "Jeová". O nome próprio é "santo". Embora o exemplo escolhido seja um exemplo extremo, já que grande parte da conversação chamada "civilização ocidental" gira em torno deste verso, devemos dizer que todo verso bem sucedido participa dessa vibração e dessa luz: todo nome próprio é santo. A santidade é a estampa do choque que o intelecto sofre ao encarar o inarticulável, e todo nome próprio conserva essa estampa. A santidade é a vivência da limitação do intelecto e da sua capacidade absurda de ultrapassar essa limitação chamando e proclamando nomes próprios. Os nomes próprios são testemunhos da limitação e da expansibilidade do intelecto, e são, por isto mesmo, santos. O nome próprio, sendo limitação e expansão do intelecto, é absurdo. O que significa, afinal, "um verso bem

É

Moisés que volta do Monte Sinai para o vale da conversação, tendo arrancado as tábuas ao inarticulado. É Pro-

A história do mundo. mas não diminui o território do impensável. A intuição poética verte o verso na direção da língua para ser conversado. Estes círculos pequenos são a conversação. a história da humanidade. dá origem ao tempo intelectualmente acessível. intelectualiza o verso. A conversação é o desenvolvimento das possibilidades envolvidas no verso. é a jaula absurda dentro da qual giramos em círculos pequenos. A conversação é um processo histórico. A conversação. O nome próprio é a prova palpável da absurdidade do intelecto. sensu stricto. Pela conversação. no seu significado acessível intelectualmente. se esta for bem sucedida. assim. A conversação é a consolidação do pensamento. Graças à conversação o pensamento torna-se sólido. Graças à conversação o pensamento torna-se rico. A poesia. desdobra e especializa o pensamento. O verso se dá in illo tempore. A conversação multiplica.82 A dúvida VILÉM FLUSSER 83 sucedido"? Significa um enriquecimento de forma nenhuma um empobrecimento da língua mas do inarticulá- verso. a história de uma instituição e de uma ideia. As possibilidades intelectuais escondidas no verso são reveladas pela conversação. O nome próprio. O processo centrípeto da conversação submete o verso a uma análise crítica. ramifica. destrói-lhe a marca do choque com o inarticulado. A língua cresce. desvenda o abismo insuperável que separa o intelecto do inarticulável. sendo a situação limítrofe da língua. A língua se expandiu. da intelectualização e da profanação do verso. A poesia aumenta o território do pensável. O verso é o tema e o tópico da conversação. mas o caos não diminuiu. sendo a tendência centrípeta do pensamento. dessacraliza e profana o verso. A conversação tem por meta a explicitação total do verso e progride até exauri-Io totalmente. A conversação destrói progressivamente o mistério do . ao ser penetrado pela poesia. Sendo a conversação uma análise crítica do verso. demonstra o que é: inarticulável. explicitando o significado contido e implícito no verso. são. O progresso da conversação. a história de um povo. desdobra ela o verso em múltiplas camadas de significado. O intelecto é absurdo. ao ser vertido. A maneira prosaica do pensamento é o estilo da conversação. sendo o alfa e o ômega do intelecto. A conversação é o processo da explicitação crítica. como a pantera de Rilke. a história de uma pessoa ou de um evento. como um pen- vel. evidencia brutalmente a absurdidade do esforço do pensamento. para nós. é o afastar-se do pensamento do inarticulável e o concentrar-se do pensamento sobre si mesmo. Sensu stricto é a conversação idêntica ao conceito "história". O nome próprio é a dúvida palpável. justamente por ser uma conquista cio intelecto. o inarticulável continua intocado. desaparecendo o mistério poético e prevalecendo o clima prosaico. Considerêmo-Ia. O inarticulável. O nome próprio. A conversação realiza essas possibilidades. histórias de fases de conversação ou da conversação como um todo. integra o verso ao tecido da língua pela explicitação crítica e. mas. o verso é convertido em prosa. Converte o verso em prosa. é. sendo o "nosso" progresso intelectual. A conversação é o aspecto intelectual do tempo. A conversação progressiva do processo lançado pelo verso para dentro da língua.

Desse 1 • " angu I" progresso " e "decadA . o presente é o "conversando-se" e o futuro é o "a conversar". Ao serem transformados em palavras secundárias. O nome próprio proposto pelo verso passa por diferentes níveis de abstração e diferentes camadas de linguagem no CutSO de sua transformação. ou uma arte. justamente. a grosso modo. A lógica semu stricto se aplica no último estágio da conversação e da abstração: o estágio da língua matemática. No caso das línguas flexionais. se todos os versos que lhe são propostos fossem convertidos em equações matemáticas. Formalmente considerada é a conversação uma conversão de nomes próprios em palavras secundárias sempre mais afastadas do nome próprio. essas regras podem ser identificadas. As frases formuladas nesses diferentes níveis são outros tantos "conhecimentos". portanto.84 A dúvida VILÉM FLVSSER 85 samento idêntico ao progresso do tempo. como a intuição poética nunca cessa de propor verso à conversação. a transformação em sinais matemáticos por meta. que é do tipo isolante . Um nome próprio está sendo conversado simultaneamente em diferentes níveis de abstração. a dessacralização. o fracionamento do conhecimento em diferentes níveis de abstração representa um problema epistemológico de primeira grandeza. com uma metodologia pouco mais pouco menos diferente. A transformação de nomes próprios em palavras mais abstratas. o progresso do conhecimento. corresponde a cada nível de significado uma ciência. um caráter diferente da nossa. esse esgotamento é simplesmente inimaginável. A conversação produz conhecimentos. portanto. também a grosso modo. O passado é o "conversado". Entretanto. O progresso da conversação é. Essa abstração se processa de acordo com regras impostas pela língua dentro da qual a conversação se desenvolve. sempre mais abstratas." "desenVO~Vlmentoe o enCla. a conversação é um processo de abstração. A conversão do nome próprio se processa em diferentes níveis de abstração e de intelectualização. tornam-se sinônimos. Outros tipos de língua obe- decem a outro tipo de regras. a chinesa. A Do ponto de vista intelectual a conversação é um progresso e um desenvolvimento e do ponto de vista limÍtrofe da poesia ela é uma decadência e uma exaustão. lógicas. todavia.A história dessasoutras conversações . é um processo que resulta em frases de diferentes níveis de abstração. No caso da conversação chamada "civilização ocidental". A cada nível de significado corresponde uma disciplina diferente. A transformação de um verso em equação matemática seria o conhecimento perfeito desse verso. como. as regras do progresso são. Ora. a intelectualização do verso.tem. são os nomes próprios conhecidos progressivamente. O progresso da conversação chamada "civilização ocidental" pode ser encarado como o progresso rumo à matemática: implica a transformação de nomes próprios em sinais matemáticos. No nosso caso ocidental. com "lógica". no caso ocidental. ou . O sentido do progresso é a explicitação. em diferentes níveis de significado.por exemplo. A soma dos nossos conhecimentos é a soma das frases conversadas nos diferentes níveis de abstração. "exaustão". A conversação ocidental se esgotaria.

exemplificada pela lógica simbólica. mas girarão intactos no círculo vicioso. então. e quais nomes próprios (como. a palavra "campo") são resultados da intuição poética. A dúvida crítica volta-se contra si mesma. Se este vértice. A dúvida da dúvida não permitirá a dúvida ingênua. quais palavras secundárias são resultados da conversação. já que os nomes próprios não mais serão convertidos em palavras secundárias. é sinal de que a epistemologia está despertando para a sua função de tradução na fase atual da conversação ocidental. Essa crítica da crítica (ou "dúvida da dúvida". com sua linguagem ad hoc inventada. Existe a intuição poética na camada das diferentes ciências. O problema do conhecimento é. já que duvida da dúvida. De nada adiantará a intuição poética nesse estágio tão avançado. representa um vértice dentro da conversação ocidental que ameaça mergulhá-Ia na conversa fiada. no fundo. um abandono da intuição poética. A dúvida da dúvida. Pelo contrário. A intuição poética nunca cessa de propor nomes próprios à conversação. como a chamei na introdução). Não há sinais de um enfraquecimento da intuição na nossa conversação ocidental. e na própria camada da matemática. que é uma autointelectualização do intelecto. um problema de tradução. A visão global dos diferentes níveis de significado. que caracteriza o estágio atual da nossa conversação. Os conhecimentos articulados voltam a formar tópicos da conversação. o que. A história do Ocidente terá se encerrado. conseguir atrair para si todas as camadas de significado da nossa conversação. O fato em si pode ser interpretado como sintoma importante do esvaziamento do sentido de "realidade". O refluxo da conversação sobre si mesma. A nossa conversação atingiu o estágio em que o conversado volta a ser considerado como "a conversar". É difícil distinguir. indubitavelmente. voltam a ser a matéria-prima a ser conhecida. na camada da física. por si. O logicismo. o nível da linguagem filosófica. aquela dúvida que transforma nomes próprios. nessas camadas. a conversação ocidental cairá na repetição tediosa. Nomes próprios. seria o resultado da tradução de todos os níveis de abstração para um nível neutro. A conversação ocidental não se esgotará por falta de intuição. Logo. a conversação começa a refluir sobre si mesma. da dúvida da dúvida. é inquietador e de difícil avaliação. O conhecimento especializado é resultado da tradução de um nome próprio para um dado nível de abstração. reflexão de segundo grau e especulação secundária.86 A dúvida VILÉM FLUSSER 87 uma ética diferente. no "eterno retorno do mesmo" nietzschiano. meta da epistemologia. por exemplo. e da qual falei na introdução. no fundo. a nossa conversação girará em ponto morto. Embora possa resultar . se disfarçam de abstrações. da intelectualização do intelecto. é obstruída pelas dificuldades de tradução de nível para nível. como já conseguiu com grande parte da camada das ciências ditas "exatas". a dúvida primária. O conhecimento global. é. por exemplo. é incapaz de duvidar do duvidável. O perigo de uma estagnação vem de outra direção. Deste ângulo não há como receiar um esgotamento da civilização ocidental. essa intuição irrompe para dentro da conversação em todos os níveis de significado.

Emudece. O nome próprio. A saída dessa situação é. um renascer do senso da função do intelecto. O nome próprio. Não se precipita sobre. Este mutismo é o abismo que se abriu à nossa frente. e. esse momento de limite do intelecto. mas revestir a rocha. ao meu ver. mas um canto de louvor ao nunca dominável. Não acreditando na possibilidade da crítica do nome próprio. O nome próprio é a síntese do intelecto com o de tudo diferente. embora sem esperança de captar dentro dessa teia a rocha do inarticulável. e possibilitaria a continuação da conversação ocidental. mas dentro do inarticulado. embora num clima mais humilde. não se trata de um anti-intelectualismo em busca das origens do intelecto por meio da intuição poética. não a reconquista da fé na dúvida. da função da nossa existência. esquece a função do intelecto que é o nome próprio. mas de um choque entre o intelecto e o indominável.um renascer do senso de proximidade do de tudo diferente dentro do intelecto.88 A dúvida VILÉM FLUSSER 89 em um anti-intelectualismo tão característico de muitas tendências atuais. mas de um anti-intelectualismo em busca de um salto para fora do círculo vicioso que. abandona paradoxalmente o nome próprio. inclusive a fasecentrífuga. mas a transformação da dúvida em fé no nome próprio como fonte de dúvida. Esta aceitação seria a superação tanto do intelectualismo como do anti-intelectualismo. O nome próprio não é o resultado de um esforço intelectual. neste sentido. Seria o reconhecimento da função dessa teia: não captar a rocha. A dúvida da dúvida é a antipoesia. Possibilitaria a continuação do tecer da teia maravilhosa que é a conversação ocidental. Em outras palavras: é a aceitação da limitação do intelecto com a simultânea aceitação do intelecto como a maneira par excellence de chocarmo-nos contra o inarticulável. A dúvida da dúvida é o resultado da perda da fé na dúvida. da perda da fé na possibilidade de crítica do nome próprio. O reconhecimento dessa fonte misteriosa de toda palavra pode ser o início de um novo senso de "realidade" . é o intelecto. e por procuração toda palavra. a fase poética do intelecto. É nesse abandono da intuição poética que reside o perigo fundamental da dúvida da dúvida. para mergulhar de maneira suicida na "vivência". Seria o reconhecimento que o intelecto não é um instrumento para dominar o caos. essa fonte misteriosa da língua. no inarticulado. é ao mesmo tempo o momento da função do intelecto. A dúvida da dúvida. é o Nome santo. para estes pensadores. . Ela rejeita o intelecto in toto. deslumbrada pela limitação do intelecto que é o nome próprio.

porque ela é a tentativa de uma descida até as nossas raÍzes. É difícil captar esse tremendo mistério que é o nascimento do intelecto. Mais exatamente. que é pavor e euforia. como nós neste empreendimento. Não obstante o nosso tremor. oprimido e esmagado por ele. Ao fazer esta tentativa trememos. Da proximidade Deslumbrado ante o de tudo diferente. de "descida para junto das mães". é necessária essa descida para quem. que aquilo que é de tudo diferente de nós como seres pensantes se vira contra si mesmo para enca- . é a prostração ante o de tudo diferente que ocorre o nascimento do intelecto. Aconteceu in dto tempore. e está acontecendo sempre de novo. mas também propelido ao seu encontro por amor e desejo de união. É o que Goethe chama.4. deseja conquistar um novo senso da função do intelecto. em Fausto. o intelecto nascituro se prostra.

a estampa do choque com o de tudo diferente. não pode ser investigado com elas. Dizer que nós somos nós é dizer que essa alienação está se dando. mas terá a vantagem de não ter sido "conversada" pela conversação ocidental. O de tudo diferente ao encarar-se está em situação de expulsão de si mesmo. não pode ser discutida. somos justamente esse virar-se do de tudo diferente contra si mesmo. porque dispomos de um método de resposta. não estando sujeito às categorias intelectuais. inclinamo-nos para a pergunta: por que se deu essavirada?. que é a origem das coisas e a nossa origem em oposição a elas. por que continua se dando? É a pergunta original. Cogito ergo sum é a fórmula cartesiana. alienados que somos do de tudo diferente. A investigação que precedeu o presente capítulo abre a possibilidade para uma articulação um pouco diferente dos dois versos mencionados. Nós somos a alienação do de tudo diferente de si mesmo. Tanto o verso cartesiano quanto o aristotélico são articulações da alienação do de tudo diferente de si mesmo. muito mais modesta. somos a dúvida que o de tudo diferente fez surgir. porque nós. Embora não possamos. não pode ser discutida. Esta pergunta. Já que somos dúvida. virando-se contra si mesmo. portanto. Não pode projetar-se para fora do intelecto que somos como seres pensantes.O intelecto não é um instrumento para a pesquisa do de tudo diferente. podemos formular. A nossa articulação será. A causalidade é uma categoria da" razão pura". O de tudo diferente é de tudo diferente de nós devido a esse virar-se. Os nossos mitos mais an- . Propter admirationem enim et nunc et primo homines principiabant philosophari é a fórmula aristotélica. Nós. graças a nós. Entretanto. vemo-nos incapazes não somente de responder. mas ainda de formular propriamente a pergunta. A origem das coisas e a nossa origem como serespensantes em oposição às coisasé indiscutível. A nossa pergunta não é legítima. como seres pensantes. perguntar pelo porquê da alienação do de tudo diferente que somos. Somos. Conversará. estampa essa que a conversação ocidental apagou em grande parte da face dos dois versos majestosos que mencionamos e que já estão transformados em prosa.92 A dúvida VILÉM FLUSSER 93 rar-se. e algumas delas são consagradas pela conversação ocidental. como seres pensantes. A origem da língua. portanto. Não pode projetar-se para fora do campo da dúvida. Há diversas maneiras de formular essa pergunta e responder a ela. que demanda a origem das coisas e a nossa origem. O de tudo diferente. através de nós. fundamentalmente seres expulsos. A palavra "porquê" é típica da dúvida que somos. Somos desterrados. porque esta alienação está se dando pela nossa existência como seres pensantes. não pode ser formulada. como serespensantes. o intelecto se inclina na direção do absurdo. Essa consciência da expulsão encontra-se na raiz da nossa consciência de nós mesmos. está se dando por nós. Como se deu in illo tempore e como está se dando hoje essa alienação do de tudo diferente que somos? Devemos responder a essa pergunta. Inclinando-se para esta pergunta. po- demos perguntar pelo "como". sim. por certo. Sabemos muito intimamente desse acontecimento fundamental.

portanto. acima mencionados. portanto. o pousar e a tentativa de regresso do de tudo diferente. como o da expulsão do paraíso. Se conseguirmos ver a coisa. embora queira ser espelho. O nome próprio é a dúvida que o de tudo diferente nutre por si mesmo. O intelecto encara o de tudo diferente pelo nome próprio. um pousar e uma tentativa de regresso à pátria). Pelo nome próprio aquilo que é de tudo diferente de nós se encara. falam em "desterro do espírito". é o nosso fim como seres pensantes. somos nós . O nosso intelecto é onde se dá o afastar-se. e o misticismo judeu conhece até a expressão galuth da ehequiná (o exílio do Espírito Santo). como imaginam aqueles que estabelecem uma adequação entre intelecto e coisa. A nossa pergunta pode ser formulada. O pensamento existencial dá expressão a essa consciência ao dizer que "somos jogados" (geworjrm). portanto sou". devemos di- zer que o intelecto é um espelho cego. e ele é a tentativa da superação dessa dúvida. isto seria também o fim do intelecto. a tentativa para uma volta a si mesmo. entretanto. Propter admirationem enim et nune et primo homines principiabantphilosophari podemos traduzir por "pela admiração da coisa os homens começam a filosofar tanto atualmente como in illo tempore". espelham o saber pré-intelectual desse desterro. A visão da coisa é o fundir-se do intelecto com a coisa que provocaria simplesmente o desaparecimento do intelecto. um espelho do de tudo diferente. se conseguisse ver a coisa. portanto estar exilado da coisa. Não é. O nome próprio é Abkehr. pois pensar implica Cogito ergo sum podemos traduzir por "não vejo a coisa. traduzir os dois versos clássicos sou". encontrar-se exilado da coisa. então. a exclamação de admiração e adoração e a saudade do de tudo diferente por si mesmo. ao tentarem articular essa consciência. é o intelecto uma tentativa frustrada de espelho. tanto atualmente como in illo tempore". Os místicos. essa cegueira e essa tentativa . Einkehr e tentativa de Heimkehr (um afastar-se. Paradoxalmente: se o intelecto tivesse êxito em sua tentativa. Em sua prostração.94 A dúvida VILÉM FLUSSER 95 tigos. ver o de tudo difúente. Reformulando Descartes: "tenho nomes próprios. Reformulando Aristóteles: "pelos nomes próprios os homens começam a ser o que são. o lugar aonde os nomes próprios se dão. O intelecto é uma tentativa frustrada e desesperada de ver. em sua admiração e em seu pavor ante o de tudo diferente. o lugar aonde o de tudo diferente se encara. deixaremos de ser nós mesmos. enquanto que o filosofar implica não poder ver. sem poder. Podemos. É preciso sorver ao máximo esse pensar e essa admiração que é o nome próprio. A admiração implica a tentativa de ver. O nome próprio articula a expulsão (expressão) do de tudo diferente para fora de si mesmo. da seguinte maneira: como se deu e como está se dando a expulsão do de tudo diferente por si mesmo? A nossa resposta será: essa expulsão é a formulação do nome próprio.é o nosso intelecto. Se quisermos manter a imagem do espelho. O nome próprio é o grito apavorado. almejada conscientemente pelos místicos e inconscientemente pelos epistemólogos. estar cego em face da coisa. A visão da coisa. O lugar aonde isso acontece.

nada significa a não ser a si mesmo. inclinado como está na direção do de tudo diferente. nesse esforço. somos forçados a recorrer à alegoria para descrever o nome próprio como se apresenta visto de dentro. como fronteira da língua. com sua estrutura ordenada e organizada. e o intelecto. é o intelecto que nasce. tudo eram trevas. O nosso exílio da coisa e a nossa saudade da coisa é justamente o deslumbramento pela luz que somos. O raio é de talluminosidade que nada torna visível da coisa que sentimos vivencialmente estar escondida nas trevas. sem comentário posterior do intelecto. Nesse sentido. Essa luminosidade (Lichtung) que é a perda da coisa somos nós. essa luz impenetrável que nos cega. descrevendo-o como barreira contra a qual o intelecto se choca em sua tentativa de precipitar-se sobre o de tudo diferente. Já que devemos dispensar. Com efeito. está o nome próprio em oposição às trevas. está inclinado na direção das trevas. embora querendo significar as trevas. e o intelecto quer espelhar o de tudo diferente. O intelecto é autodestruidor. Ele é essencialmente oposição às trevas. Embora queira iluminar as trevas das quais surgiu. é essencialmente uma adoração do de tudo diferente. O intelecto é uma reza. Mas. a língua. não as ilumina. essa parede luminosa tecida de raios que tapa (vorstellt) as trevas. ele é carregado pela língua. a partir das palavras secundárias. Necessitamos de fazer um esforço introspectivo. esse raio que rasga as trevas. porque é de tudo diferente das trevas. para "pôr entre parênteses" toda a conversação que se seguiu aos nomes próprios. . O nome próprio quer significar a coisa. se quisermos captar. embora nebulosamente. O nome próprio adora a coisa. sobre o inarticulável. adorando-as.96 A dúvida VILÉM FLUSSER 97 de ver o que é o nome próprio. A introspeção revela o nome próprio como raio que rasga as trevas extraintelectuais e extralinguÍsticas que encaramos e às quais nos opomos. nada ilumina a não ser a si mesmo. Necessitamos do cancelamento mental das palavras secundárias. Entende as trevas. o surgir do intelecto. Fizemos a tentativa de apreciar o nome próprio como limitação do intelecto. de um esforço para apreciar o nome próprio como raiz da árvore. Aniquilou também a coisa que queria iluminar. as trevas desapareceram na luminosidade e a luminosidade aniquilou o nada. A luz do raio que é o nome próprio ofusca as coisas. tudo era nada. O nome próprio é carregado pela energia que dá origem ao intelecto. toda conversação "prosaica". e quer dissolver-se nas trevas iluminando-as. isto é. Apreciamos o nome próprio de dentro do intelecto. ele é a essência da adoração. O intelecto. embora inclinado na direção das trevas. como a copa da árvore de nosso intelecto. ele é a própria adoração. é o nome próprio uma admiração. embora queira significar a coisa. colocando-nos dentro do nome próprio tal qual o somos. O nome próprio. o "como" da erupção da língua. O intelecto é absurdo. Intelectualmente falan- do. como fonte da qual o intelecto jorra. enquanto as trevas são alheias à ordem. O nome próprio. Agora necessitamos de uma reviravolta mental. e o intelecto adora o de tudo diferente (adorar = falar na direção de). Depois de o raio surgir. O nome próprio é a semente da ordem. Antes de o raio surgir.

Na língua o acordo primordial soa sempre atual. Pitágoras e os mistagogos procuravam por este acordo na geometria. . formando com o de tudo diferente um acordo de tremor. Vibrando de tremor ante o de tudo diferente. é neste sentido misterioso que a língua concorda com o de tudo diferente: vibra em sua face. ela o articula. é a Stimmung que faz tremer a língua e dá origem à sua estrutura. é pavoroso. que o nome próprio adora. há um abismo entre a língua e o inarticulado sobre o qual nenhum acordo pode lançar ponte. "afinar uma corda" = stimmen. e ora. Do ponto de vista intelectual. Com efeito. A língua surgiu in illo tempore e está surgindo sempre. é a sua corda. ora aquela faceta do nome próprio. torna-se pensável em português o que seria impensável em alemão. Embora não haja um acordo entre a língua e o de tudo diferente. o pensamento. Ora. A língua está em acordo. Eis o clima de surgir do intelecto.98 A dúvida VILÉM FLUSSER 99 são totalmente diferentes da ordem. A língua. a língua é essencialmente festiva. Em contrapartida. daquele tremor primordial pelo qual o de tudo diferente se aliena de si mesmo. Todos os mitos e todos os ritos da humanidade são no fundo fases individuais. a língua é a essência da festa: dizer que somos seres pensantes é dizer que participamos da festa. ainda. ele está sempre presente. eis o clima (Stimmung) do nome próprio. ora a fase de tomar pousada. a eterna reencenação do acordo primordial da alienação. A língua é a eterna repetição de sua origem. mysterium tremendum. "concordar" = stimmen. É a língua a voz do de tudo diferente: embora não descreva nem explique o de tudo diferente. Em alemão este caráter misterioso da língua se torna melhor pensável: "clima" = Stimmung. O pensamento é a festa eterna da alienação do de tudo diferente de si mesmo. festas inferiores e parciais. o nome próprio tem pavor do caos e do de tudo diferente. a fase da tentativa de retorno. isto é. prostração. Tremor primordial. A língua é a festa-mestre. mas não de acordo com o de tudo diferente. Este é o clima da língua. A língua é o grito e o apelo do de tudo diferente contra si mesmo. tremor primordial (Urschauder) é a Stimmung que dá origem à língua. Pan na flauta. dessa única enorme festa de alienação que é o pensamento. O de tudo diferente. Embora querendo fundir-se com ele para iluminá-Io. tem pavor de ser engolido por ele e recair para dentro do balbuciar caótico de inarticulado. as trevas são o caos. é o conjunto de todas asfestas. a língua se ordena. Orfeu tocava-o na lira. Adoração e pavor. "voz" = Stimme. A língua é a articulação progressiva e sempre renovada pelo surgir de novos nomes próprios do tremor primordial. A língua é uma festa sempre encenada da alienação primordial. Mais exatamente: a língua é o manancial do qual todos os mitos e todos os ritos brotam. Salientam ora esta. Adoração e pavor. de todos os mitos e de todos os ritos. há este acordo misterioso que é a vibração ordenada da língua. Essas festas inferiores e parciais salientam ora a fase de afastar-se. O acordo de alienação que dá origem à língua se deu in illo tempore e está se dando sempre que aparece um novo nome próprio.

a desintegração do intelecto.. A vibração do nome próprio é o rito pelo qual a conversação transforma o verso em prosa. a loucura não é propriamente festiva.'l. o nome próprio é a proximidade do inarticulável. portanto. esse acordo é o rito pelo qual o nome próprio será transformado em palavra secundária. Na loucura. pelas regras da gramática. Aquilo que foi chamado de tendência centrífuga da língua pode ser redefinido como tendência rumo ao mito da festa que é a língua. uma festa bem ordenada. e cujo rito é a conversação. A conversação é a crítica ritual do nome próprio. e é no pensamento que festejamos essa proximidade. i r i j" . organiza e torna suportável a exuberância e o terror do pensamento. é o ponto no qual o intelecto se aproxima do inarticulável. porque é o campo da desmitologização de mitos.~ . os críticos são os ritualizadores dos mitos. Pensar é duvidar. A loucura. é a loucura. A loucura não está na proximidade do inarticulável. porque gira ao redor do nome próprio. O ritual do pensamento (a gramática) ordena. É a explicação ritual do mito que é o nome próprio. a vibração ordenada do nome próprio vira convulsão orgiástica e o pensamento não mais se encontra em acordo. Todo nome próprio é portador do choque primordial da alienação do de tudo diferente de si mesmo. mas sim festa inautêntica. porque pensar é o ritual da desmitologização.:Ii. a desritualização da festa da proximidade. Essa vibração.algo não está afinado. na loucura a festa da proximidade vira orgia.' :~ " '::'1. A desorganização do pensamento. A loucura é a orgia. O pensamento é uma experiência exuberante e eufórica ao mesmo tempo que é uma experiência tenebrosa e apavorante. exatamente porque festeja a proximidade do inarticulável. No nome próprio somos próximos do inarticulável e o inarticulável nos é próximo. Aquilo que foi chamado de tendência centrípeta da língua pode ser agora redefinido como a tendência ritual da festa que é a língua."~·" . O intelecto é o campo da dúvida. para ser suportável. o mundo do intelecto é um cosmos organizado. com o de tudo diferente.100 A dúvida VILÉM FLUSSER 101 Todo nome próprio é um mito.'. O nome próprio é um mito porque procura articular o inarticulável.~ "}t O nome próprio. Na loucura stimmt etwas nicht . A língua é uma festa cujo mito são os nomes próprios. isto é. Está na proximidade do inarticulável.~li \\:. e a conversação os desmitologiza pelo ritual da gramática. mas em vias de mergulhar para dentro dele. A conversação é a ritualização e a desmitologização dos nomes próprios. concorda. é a intuição poética inautêntica. O intelecto pode ser definido como campo de festa. Os poetas são os profetas. •• 1~ . Por ser orgiástica. Os poetas são os mitólogos (os contadores de mitos).' 'ir li '. A conversação é uma dança ritual em tor- ~'. e os críticos são os sacerdotes da festa que é a língua. mas sim em dissonância com o de tudo diferente. A língua é a festa da desmitologização ritual dos nomes próprios.~ :. O intelecto pode ser definido como o campo aonde se dão mitos (nomes próprios) e aonde esses mitos estão sendo desmitologizados pelo ritual da conversação. A intuição poética produz mitos (nomes próprios). o mito da festa do pensamento. Todo nome próprio vibra.

O rito torna-se mito. A experiência festiva tende a evaporarse da conversação científica. mas sobre si mesmo. a arte se profaniza e torna-se nojenta. não adoram mais o inarticulável. O intelecto adora. O ritual é a finalidade da festa inautêntica que é a conversa fiada. como por exemplo meson e antiproton. logo. O que digo a respeito da ciência posso afirmar. mas sobre si mesma. especialmente a respeito da arte chamada abstrata. Trata-se de loucura às avessas. mas sobre si mesma.102 A dúvida VILÉM FLUSSER 103 no do inarticulável. que tem por consequência o abandono do intelecto esvaziado de seu teor festivo e tornado nojento. e o inarticulável que vibra no nome próprio é o centro. A conversação autêntica é um canto de louvor ao inarticulável que vibra no nome próprio. a ciência está se profanizando. mas como ritos a serem incluídos no ritual sempre crescente. Nesse estágio da conversa fiada o intelecto tornase autossuficiente. tende a ser nojenta. A conversação não ora sobre o inarticulável. mas de si mesma: o ritual da ciência é o seu mito. Os nomes próprios que a intuição poética verte sobre a conversação científica. Os nomes próprios. está o intelecto na proximidade do inarticulável. A conversação científica atual é um belo exemplo dessa conversa fiada.não há significado. sobre o inarticulável. A ciência duvida não mais da realidade. na sua fase intuitiva. com igual pertinência. girando em círculos sem centro . porque perdeu o seu centro. a língua é adoração e oração ritual. A oração adora a si mesma e ora sobre si mesma. A ciência tende a ser autossuficiente. nojento. justo o que chamei de dúvida da dúvida na introdução a este trabalho. e a conversação autêntica é a oração em torno dessa adoração. à medida em que aparecem. portanto. a saber. Com pertinência me- . O mundo da conversa fiada é um cosmos totalmente ritualizado e desmitologizado. mas o ritual da conversação científica. procedendo à automitologização. calcado absurdamente no rito como mito. A ciência se está afastando da proximidade do inarticulável. não são mais aceitos como mitos a serem ritualizados. na sua fase crítica. A experiência exuberante e terrificante evaporou-se: a conversação tornou-se tediosa e nojenta. e ora. A conversação ocidental atingiu o estágio de ritualização no qual a oração ora não mais sobre o inarticulável. que tende a mergulhar na loucura às avessas da conversa fiada. na conversa fiada tudo é profano. A conversa fiada é a profanação da festa do pensamento. do de tudo diferente. No presente estágio da conversação ocidental. a respeito da arte. A conversação é justamente o desfraldar dessa vibração. a conversação ocidental encontra-se ameaçada de estagnação e de mutismo wittgensteiniano. Nesse nível. o significado da dança da conversação. o ritual da festa do pensamento tornou-se seu mito. A conversação autêntica é a oração ritual que explana a adoração que é o nome próprio. A ciência não ora mais sobre a realidade. Está afastado da proximidade. o inarticulável. É a intelectualização total. Adorando o inarticulável e orando sobre o inarticulável. A ciência está virando dança sem centro e se afastando do significado. O nome próprio é a adoração do inarticulável.

O espanto primordial. entretanto. mas não as únicas alternativas face ao presente estado de coisas: uma reavaliação do intelecto como campo de festa abre uma terceira alternativa. nesse estágio. ao mesmo tempo. nem por isso. O superintelectualismo e o anti-intelectualismo da atualidade são as consequências desse mergulho. isto é. fruto da conversação ocidental. o caráter festivo do pensamento é velado. com esse verdadeiro intelectualismo. com essa superação de magia. Pelo progresso da conversação sabemos irrevogavelmente que não podemos subjugar o de tudo diferente pelo nosso intelecto. O pensamento ocidental está se afastando do inarticulável. destinados às conquistas do de tudo diferente. esse reconhecimento da própria limitação. para girar sobre si mesmo. O dançarino australiano não sabe que participa de um ritual no qual o mito do canguru está sendo ritualizado. embora talvez não imediatamente de forma. O progressivo des- vendar do caráter festivo do pensamento resulta naquela alienação total do pénsamento que caracteriza o estágio atual da conversação ocidental. Ao invés. Não sabe distinguir entre a festa e o de tudo diferente. é possível participar de uma festa conscientemente. estão toto coeIo distantes do pensamento ocidental. imediatamente abandonados. Assistimos a um esvaziamento do caráter festivo do pensamento ocidental. A nossa civilização. No entanto. Essa humildade. Em um estágio mais avançado da conversação. a um afastar-se do significado. de serem considerados instrumentos e instituições mágicas. surgindo progressivamente os problemas epistemológicos da língua. o que o nosso dançarino australiano ainda não sabe. O abismo que separa o pensamento do inarticulável torna-se visível. é possível. a uma profanização desse pensamento. da proximidade alcançada da festa. o mesmo pode ser afirmado a respeito dos demais níveis da conversação ocidental da atualidade. os participantes da festa do pensamento não sabem. Ele é canguru ao dançar. ~" . não "significa" canguru. a prostração em face do de tudo diferente.104 A dúvida VILÉM FLUSSER 105 nor. É possível adorar o de tudo diferente e orar sobre o de tudo diferente. sofreria uma profunda alteração de conteúdo. o intelecto se transforma em instrumento de adoração: esta me parece a verdadeira superação da magia. a alienação do de tudo diferente de si mesmo que deu origem ao intelecto. o caráter festivo do pensamento passa a ser revelado. o que o nosso dançarino australiano tampouco sabe. Sabemos também que o intelecto é a nossa maneira de seres pensantes de adorar e orar sobre o de tudo diferente. O desvendar do caráter festivo do pensamento destrói esse caráter. e saber. Os nossos instrumentos e as nossas instituições não seriam. mas com validade igualmente assustadora. É possível saber do abismo que separa festa e o de tudo diferente. é possível participar de uma festa sabendo-se que é uma festa. sabendo-se do abismo que nos separa dele. O pensamento ocidental está mergulhando na conversa fiada. que participam de uma festa. Num estágio primitivo da conversação. De instrumento de poder. este me parece o verdadeiro intelectualismo. O pensamento ocidental está se afastando da proximidade do de tudo diferente.

O pensamento ocidental voltaria para a proximidade do de tudo diferente. a nossa civilização não mudaria tão-somente de conteúdo. como todo pensamento. tão característica da nossa civilização. Sabendo-se em acordo com o de tudo diferente pelo choque primordial de espanto. tão característica e tão nefasta. na tentativa de composição de uma oração perfeita. dedicados à adoração do de tudo diferente. por comprometida com o de tudo diferente. como tenta ser atualmente. mas mais ainda de forma. Com o decorrer da conversação. A máquina não seria mais um instrumento de conquista. Desmitologizando o mito da nossa civilização. Dessa maneira seria superada a mitologização da máquina e do Estado (que é. e a participação nela uma atividade festiva. no sentido grego da palavra. O centro do interesse se deslocaria da ciência. A ciência tenderia a ser compreendida como uma forma típica de arte . A festa que é o pensamento voltaria a ser dramática. do pensamento ocidental. então. a mitologização de um rito) e superada também a pragmatização do instrumento e da instituição. Em outras palavras: o fundamento religioso. A atividade científica. e se abririam novos centros de interesse. passará a ser uma oração consciente. e que já produziu resultados tão belos e majestosos no passado. no fundo.106 A dúvida VILÉM FLUSSER 107 seriam considerados instrumentos e instituições rituais. se redescobriria e se reformularia. a atividade intelectual voltará a ser aventura. Com o decorrer da conversação a divisão classificadora e especializadora tenderia a ser superada. mas um exemplo da vibração que o nome próprio que lhe deu origem sofreu no choque da alienação do de tudo diferente. nem seria uma disciplina autossuficiente em busca da consciência interna perfeita. mas um exemplo da maneira misteriosa pela qual a vibração primordial se explica ritualmente no curso da conversação. sem abandoná-Ia. sobre o qual o pensamento ocidental. pragmatização esta que torna a civilização tão antifestiva e tão nojenta.de arte aplicada. A fase tecnológica da nossa civilização seria superada. se baseia. por ora inimagináveis. O Estado não seria mais uma instituição de conquista. e despragmatizada a sua praxis. reconhecendo-se como atividade religiosa. arte engagée. Os ocidentais continuariam a adorar e a orar sobre o de tudo diferente de sua maneira típica. voltará a ser a nossa civilização uma festa autêntica. não mais procutaria ser "verdadeira". como uma fase de transição na festa ininterrupta e sempre renovada do pensamento ocidental. bem entendido. da oração em louvor do articulado. Não mais se esforçaria por explicar e antever a "realidade". Totalmente imprevisível. como o tentou fazer no passado. A fase atual da nossa conversação apareceria. . mas se tornaria um esforço intelectual fimdamentalmente estético. isto é. mas sim acertada (stimmen).

em outras palavras. teremos muita dificuldade em descobrir sintomas dessa eventual modificação. Essa modificação é. A mitologização do rito da conversação avança em todos os níveis da língua. assistindo ao desenvolvimento de um dogmatismo oportunista. Pelo contrário. O pensa- . paradoxalmente. enquanto pragmatismo face aos produtos do pensamento significa oportunismo: ambos são sintomas de estagnação do processo do pensamento. no entanto. e está acompanhada. por mais otimistas que sejamos.5+ Do sacrifício A conversação ocidental se poderia desenvolver da maneira esboçada no capítulo anterior se a atitude em face do intelecto fosse modificada. por um pragmatismo cínico. Com efeito. Mitologização do rito significa dogmatização do pensamento. sumamente problemática. Estamos. abundam sintomas que denotam intensificação do mergulho para dentro da conversa fiada.

En- . Consideremos mais de perto a posição do intelecto na concepção medieval. graças a essa combinação. esse entusiasmo que permite uma atividade crítica desinteressada. com certa surpresa e desagrado. A resposta ortodoxa a semelhante problema era o sacrifício do intelecto em prol da fé. mas de aplicá-Ia. Essa aparente cegueira diante da função do intelecto é de fácil explicação: o reconhecimento do intelecto como instrumento de adoração e oração importa em sacrifício enorme. por certo. Ora.e estamos conversando não para conversar. A dança da conversação ocidental ao redor do significado perdido realiza-se. mas sim para polemizar. Em compensação. nos casos de desacordo. a conversação ocidental não se está desenvolvendo. A Idade Média verificou. O intelecto era considerado uma espécie de lanterna que Deus nos proporcionou para iluminarmos um pouco mais detalhadamente as verdades reveladas pelos raios solares da fé. essa elasticidade que permite o livre jogo de comentários sobre o verso proposto pela intuição poética dentro das regras do ritual da gramática. Para avaliarmos a enormidade desse sacrifício. mas o sacrifício parecia razoável. portanto. adquire exatidão e especialização em nível de significado sempre mais restrito: trata-se do rigor da morte que se aproxima. e que aí existia um problema. Uma lanterna muito boa. este. dessa forma. o homem como ser pensante para dentro do mar das incertezas que é a Idade Moderna. Tratava-se de um sacrifício considerável. mas propagandistas. o pensamento perde o entusiasmo e a agressividade que o caracterizam em seu estágio de conversação autêntica. em círculos sempre menores e mais rigorosamente delineados: estamos conversando sempre mais rigorosamente sobre sempre menos . servo da fé. mas se propagando na direção do mutismo. sim. era um sacrifício enorme e absurdo. é preciso remontarmos até a Idade Média: naquela época a filosofia era considerada serva da teologia e o intelecto. que o intelecto nem sempre concordava com a fé. torna-se o pensamento progressivamente rigoroso. ao substituir a fé pela dúvida que é o intelecto e lançar. desenhando o lado dogmático da conversa fiada. Simultaneamente. Com efeito. mas incomparavelmente menos significativa. porque age a um tempo como soporífero e entorpecente. já que conservava a parte mais valiosa. Essa combinação nefasta entre dogmatismo e pragmatismo acelera a decadência da conversação ocidental.110 A dúvida VILÉM FLUSSER 111 mento perde a elasticidade que o caracteriza em seu estágio de conversação autêntica. Nela a cena era dominada pela fé. já que dádiva divina. quando a crítica é substituída pela exegese: trata-se não tanto de explicar o verso proposto pela intuição. A volta consciente para a proximidade do de tudo diferente não parece entrar no jogo das tendências atualmente operantes. A alternativa delineada no capítulo anterior parece não existir. adquire sabor apologético. nos mesmos casos de desacordo. já que o intelecto era de origem divina. Não somos críticos. Em compensação. desenhando o lado pragmático e oportunista da conversa fiada. A resposta heterodoxa àquele problema era o sacrifício da fé em prol do intelecto. espécie de visão imediata e extraintelectual que Deus nos concede pela sua graça.

constituindo a superação da dúvida da dúvida pela aceitação de um horizonte de dúvida. não existe no presente estágio da conversação. a suma sanidade. como a Idade Moderna conservou sub-repticiamente algo da fé. ou da vontade para o poder. se a análise do intelecto empreendida neste trabalho tem alguma validade. sim. Não podemos sacrificar o intelecto à fé nenhuma. O sacrifício do intelecto em prol do intelecto me parece ser. a nova atitude proposta nestas considerações impõe o sacrifício do intelecto em troca de nada. entretanto. é essa atitude absurda que se impõe. não era tal sacrifício tão enorme como pode parecer à primeira vista: naquele sacrifício. nem em sua forma escondida no intelecto moderno. a suma honestidade intelectual. ou em troca do instinto. isto porque é do caráter do sacrifício ser absurdo. A bem dizer. não existe em sua forma manifesta medieval. Além desse horizonte pensável.a dúvida cartesiana é. enquanto que o sacrifício razoável do intelecto em prol da fé resultou estéril. A saudade dessa fé no estágio atual da conversação é mais um sintoma do nosso anti-intelectualismo dogmático oportunista. a essência do sacrifício. conforme este trabalho se esforça para sugerir. não é surpreendente que essa atitude não seja facilmente observável no jogo das tendências da atualidade. a fé se refugiou para dentro do intelecto para ser conservada intestinamente . estas.112 A dúvida VILÉM FLUSSER 113 tretanto. Logo. muito mais absurdo e muito mais enorme. Parece ser. portanto. Mas a atitude do sacrifício do intelecto em troca de um intelecto radicalmente diminuído. já que não a temos. muito compreensivelmente. O sacrifício é a redução do absurdo da absurdidade do pensamento. essa fé está definitivamente perdida. essa fé não é para nós. embora tenha sido "acertada" (gestimmt). em outras palavras. A fé. De certa forma é o sacrifício o ponto culminante da festa. portanto. a atitude da humilhação do intelecto sem compensação.pelo princípio da dupla negação. no sentido medieval da palavra. Uma falta de fé não pode ser reconquistada. a dúvida da . o sacrifício do intelecto em prol do intelecto seria a essência da absurdidade. o cancelamento (Aujhebung) do absurdo. Pelo contrário: abundam as atitudes de sacrifício do intelecto em troca da vivência. podem ser facilmente observadas. com efeito. e não podemos sub-repticiamente conservar algo do intelecto no sacrifício. O sacrifício absurdo do absurdo seria. No entanto. tudo é indubitável. Aquém desse horizonte. que é o horizonte do intelecto. uma multidão de adeptos. O sacrifício é parte integrante da festa. do caráter festivo e abissalmente distante do pensamento face ao de tudo diferente. No sacrifício alcança a absurdidade que é o pensamento a sua expressão mais patente. Do nosso ponto de vista é essa fé nada mais nada menos que a inconsciência do caráter festivo da língua. a conservação da fé dentro do intelecto. essa atitude não encontra. A história da conversação ocidental prova que o sacrifício absurdo da fé em prol do intelecto resultou produtivo. O sacrifício que o reconhecimento do intelecto como instrumento de adoração e oração nos impõe é.

o que pensamos a seu respeito é pensado pelo ritual ocidental e não tem validade extraconversacional. como toda conversação. Pelo menos dois dos mitos fundamentais da conversação ocidental prefiguram esse sacrifício. Toda conversação jorra de uma proximidade distinta e vibra diferentemente. o não aceitar do horizonte. podemos. como ocidentais. são para nós. o pensamento ocidental tem por meta tornar pensável o impensável e assim eliminá10. mitos. captar a meta das conversações que nos são alheias. Significa um rito da festa ocidental. Com a ressalva podemos reafirmar que a meta da conversação ocidental é diferente da meta das demais conversações. em última análise. Chega a hora do Cáucaso e a hora da confusão das alização total. É o mito de Prometeu e o mito da Torre de BabeI. Significa um mito (um nome próprio) quando se refere à passagem de uma conversação para outra. ocidentais. o intelecto ocidental tem por meta a intelectu- alheios. A conversação ocidental é orgulhosa. porque os sacrifícios já feitos não passavam de ritos preparatórios. Essa meta idealista totalitária distingue a conversação ocidental de todas as demais. A tradução é um conceito ambíguo. nos termos do presente trabalho. por exemplo a chinesa ou a esquimó.114 A dúvida VILÉM FLUSSER 115 dúvida se dissolve. chegou à hora do sacrifício previsto no projeto do ritual da festa. A "volta para a pátria" que a conversação ocidental almeja não é a volta do filho pródigo. participar autenticamente de outra festa cujos mitos e cujos ritos nos são . ou de uma camada de significado para outra dentro da mesma língua. As conversações alheias. O sacrifício que se impõe é o sacrifício desse orgulho.pelo sacrifício do pensamento sobre o pensamento em prol do pensamento sobre o de tudo diferente. ocidentais. como nada daquilo que pensamos o tem. pelo sacrifício da dúvida em prol da dúvida . no sentido de ser idealista e totalitária. embora seja sumamente difícil para nós. quando se refere à passagem de uma língua ocidental para outra. Toda conversação é uma festa distinta. porque a dúvida da dúvida é. resultado de uma alienação do inarticulável. no lançamento desses dois mitos. da seguinte maneira: a conversação ocidental é. O que estamos sacrificando nesse sacrifício festivo? Em última análise estamos sacrificando a meta que a conversação ocidental se propôs e que persegue consciente e inconscientemente há pelo menos três mil anos. A aceitação do nome próprio como horizonte dissolve a dúvida da dúvida aquém e além de si mesmo. são o seu projeto. A conversação ocidental tem meta heroica. e como tais só se mostram incorporados em nossa conversação e sujeitos ao nosso ritual. mas a volta do rebelde exilado transformado em conquistador. logo. entretanto. inclusivenas chamadas "materialistas". É neste sentido que devemos dizer que o Ocidente é idealista em todas as suas manifestações. Essa meta pode ser descrita. Não podemos. Chega a hora do grande sacrifício. sua meta é a superação da alienação pela articulação do inarticulável. e a substitui pelo sacrifício do intelecto em prol do intelecto. traduzir. Parece que a festa que é a conversação ocidental chegou à fase da realização do seu projeto.

ainda inconversável. no curso da festa. mas o sacrifício. estamos transformando futuro em presente. O ritual da festa converteu o fogo prometeico e a torre babilônica em ciência exata. O sacrifício a ser perpetuado. Pensar sobre o desenrolar da festa é participar da festa. pensando sobre o desenrolar futuro da festa. em psicologia profunda. embora não tantos. ele obedece ao seu próprio momentum e se desenvolve. demasiado horrível. prefigurado como está no projeto da festa. entretanto. todavia já prefigurado no projeto da festa: consumou-se in illo tempore quando surgiram os nomes próprios "Prometeu" e "Babel". Prometeu já foi sacrificado. no silêncio festivo e ritual que precede o ato do sacrifício. o ainda a conversar. Não podemos dizer se o sacrifício será perpetrado. a essa altura. a essa altura da festa. Pensar sobre o desenrolar futuro da festa é absurdo. A ameaça é real. em economia planejada. que ao pensarmos sobre o sacrifício estamos contribuindo para a sua realização. A maioria dos intelectos aparentemente empenhados na conversação não participa efetivamente da festa: são intelectos inautênticos. O terror se espalha entre os participantes. Chegou a hora do sacrifício como sempre ela chega. É. ~erer prever o desenrolar da festa é querer explicar totalmente os nomes próprios que foram propostos de tema. Nietzsche descreve o aproximar-se dessa hora de sacrifício dizendo que "todo dia está ficando mais frio": é o frio apocalíptico. tomados de pavor. o desenrolar da nossa festa é imprevisível. em tecnologia. sendo a explicação do nome próprio. em arte abstrata. é sua própria explicação. agigantando-se em todas as camadas de significado. Podemos afirmar. ao significado da festa. e. O futuro da festa é o ainda não explicado. decaídos em conversa fiada. explicação dos nomes próprios. Os participantes. a essa altura. A festa parece paralisar-se. A festa. viram ritualmente as costas ao altar sacrificial. O desenrolar da festa é idêntico à. é relegado ao esquecimento pelos participantes da festa . O ritual da festa não é rígido. O sacrifício que se impõe é um holocausto. continuam como que automaticamente a executar os passos da dança em círculos sempre mais restritos. como parece sempre chegar. estamos realizando este futuro. A conversação ocidental é uma festa de muitos participantes. N o decorrer da festa. a essa altura da festa. A gramática da conversação ocidental está sempre em fluxo. Es- . é possível. como o é sempre. como pareceria à. A festa parece chegar ao fim.116 A dúvida VILÉM FLUSSER 117 línguas. a Torre já foi destruída.eis uma possibilidade de interpretação dos sintomas ora prevalecentes. é nesta forma agigantada e ritualizada que o orgulho no qual o intelecto ocidental se converteu deve ser sacrificado. por definição. primeira vista. ~erer prever o desenrolar da festa é querer o absurdo. à medida em que se desenrola. como também o é sempre. é querer predicar totalmente os sujeitos e os objetos nos quais os nomes próprios foram convertidos. a essa altura. querer pre- ver esse desenrolar é querer superá-Io metafisicamente. como se espalha sempre. o orgulho a ser sacrificado atingiu dimensões gigantescas. escondendo o rosto nas mãos.

consciente da origem primordial do pavor e do tremer. e diante dessa mutação assim resolvida. na altura atual da conversação ocidental. e nesse sentido enquadra-se no ritual da festa. Seria substituído por algo por ora inimaginável. Do ponto de vista desse trabalho está a grande maioria precipitando-se na fiada. os chavões. A grande maioria poderá pensar os pensamentos deste trabalho somente com um esforço considerável de tradução. Desse trabalho é uma obs- trução do progresso. figurinos. no melhor dos casos. O presente trabalho é. O sacrifício que a sua posição implica seria válido somente se a grande maioria dele participasse. Todos eles contribuem para o alargamento e para o alastramento do tecido da conversação. nesta altura da conversação ocidental. por obstruir um mito. O sacrifício implica em modificação radical do caráter da conversação ocidental. O intelecto. O intelecto tal como o conhecemos teria sido sacrificado. Esses intelectos inautênticos não passam de depositários do refugo da conversação ocidental. pois pretende converter a grande maioria -. De todos estes depende o desenrolar da festa. fantoches da festa.mas este próprio esforço faz parte do ritual do pensamento: justamente discordando da grande maioria é que o presente trabalho faz parte do ritual da festa. Com efeito. Mesmo assim. Do ponto de vista da maioria. mas campos pelos quais meros detritos da dúvida. para a continuação da dança. A conversação ocidental está se desfazendo em níveis e em camadas. O sacrifício implicaria uma mutação da conversação ocidental. portanto. mas de adoração. São. para a modificação constante de sua estrutura. já que lhe modifica a meta. não seria mais o mesmo intelecto. como também este trabalho se sujeitou a um esforço considerável para traduzir os pensamentos da grande maioria para a sua camada . um rito transformado em mito. na direção do nojo repetitivo. Também o presente trabalho dá a sua contribuição: em seu escopo modesto e muito limitado contribui para a realização do sacrifício. o que torna sempre mais penoso o esforço do desenvolvimento da própria conversação. Está resolvida. porém. a posição do presente trabalho . não sendo mais instrumento de conquista. O sacrifício seria um acontecimento apocalíptico no sentido da frase bíblica sereis mudados. pelo contrário. Está tomado do mesmo pavor que está dominando a fase atual da festa. muitos intelectos participam da festa. mas. da maioria. passam qual meteoros. um esforço para uma conversação autêntica. está pronto para o sacrifí·· cio (entschlossen zum Tode). muitos criticam. muitos convertem versos em prosa.podemos apreciar a precariedade da sua posição e a mínima esperança que nutre. Com este tremor e com esta prontidão resoluta contribui para a realização do rito. na altura que se aproxima da confusão das línguas. e treme do mesmo frio. Muitos pensam. da festa não está A grande maioria dos participantes é sacrílega.118 A dúvida VILÉM FLUSSER 119 ses intelectos não são campos autênticos da dúvida. a grande maioria conversa num nível de significado que se distancia sempre mais do nível de significado do presente trabalho. esse precipitar-se ponto de vista a posição do presente direção da conversa Do ponto de vista é o progresso. O progresso é.

.porque nada teria em comum com a fé ingênua que precedeu a dúvida numa fase remota da nossa festa. portanto: theyalso serve. Encaremo-Io adorando-o. Continuemos a grande aventura que é o pensamento. esses nomes próprios tão festejados em ritos explicativos. conclamam-nos para o sacrifício que eles mesmos. Em outras palavras. mas sacrifiquemos a loucura orgulhosa de querer dominar o de tudo diferente com o nosso pensamento. A atitude de espera se impõe. prefiguram. nem as queiramos conquistar e aniquilar. os iniciadores da nossa festa. Não nos submetamos cegamente a elas. duvidemos delas. who merely stand and wait. escutemos os nomes próprios como sussurram em nosso Íntimo. As grandes fontes da nossa conversação. como Heidegger afirmava. de uma Ichtar e uma Afrodite. isto é. voltemos a ser seres pensantes voltemos a ser homens. e não somente com os gregos. e conversemos com eles. não as releguemos ao esquecimento. Estamos em conversação com eles. Escutemos as fontes da nossa conversação. as figuras mÍticas de um Orfeu e um Abraão. em sua vibração primordial. A dúvida da dúvida seria mudada em algo que somente muito remotamente pode ser chamado pela palavra" fé". mas.120 A dúvida a atitude do presente trabalho é uma espera. na dúvida e na submissão. também. Kierkegaard conversa com Abraão em sua hora suprema do sacrifício: é a partir deste tipo de conversação que o sacrifício se poderia realizar.

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