Nunca fomos humanos
Nos rastros do sujeito

Créditos
“Modo de endereçamento: uma coisa de cinema; uma coisa de educação também” é traduzido dos capítulos 1 e 2 (p. 21-53) do livro de Elizabeth Ellsworth, Teaching positions. Difference, pedagogy, and the power of address, publicado pela editora Teachers College Press, Nova York, 1997. © Teachers College Press. Todos os direitos reservados. Publicado sob permissão da editora. “Inventando nossos eus” é traduzido do capítulo 8, “Assembling ourselves”, p. 169-197, do livro de Nikolas Rose, Inventing ourselves. Psychology, Power, and Personhood, publicado pella Cambridge University Press, 1996. © Cambridge University Press. Todos os direitos reservados. Publicado sob permissão da editora. “Corpos sem órgãos: esquizoanálise e desconstrução” é traduzido do capítulo 11, p. 226-240, do livro Mapping the subject. Geographies of cultural transformation, organizado por Steve Pile e Nigel Thrift, publicado pela editora Routledge, 1995. © Taylor & Francis. Publicado sob permissão da empresa detentora dos direitos de reprodução.

Elizabeth Ellsworth Francisco J. Tirado Lucía G. Sánchez Marcus Doel Miquel Domènech Nikolas Rose

Tradução e organização: Tomaz Tadeu da Silva

Nunca fomos humanos
Nos rastros do sujeito

Belo Horizonte 2001

2001.com. 208 p. Título. 2. Antropologia I. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida. (Coleção Estudos Culturais. CDU 008 2001 Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Cultura. Tomaz Tadeu da Nunca fomos humanos – nos rastros do sujeito / organização e tradução de Tomaz Tadeu da Silva --. eletrônicos.Belo Horizonte: Autêntica.com. seja via cópia xerográfica sem a autorização prévia da editora. Autêntica Editora Rua Januária.br . Filosofia. seja por meios mecânicos.autenticaeditora. 7) ISBN 85-7526-025-1 1. 3.br www. 437 – Floresta – 31110-060 Belo Horizonte/MG – Telefax: (55 31) 3423-3022 autentica@autenticaeditora.Copyright © 2001 by Tomaz Tadeu da Silva CAPA Jairo Alvarenga Fonseca EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Waldênia Alvarenga Santos Ataíde REVISÃO Erick Ramalho S586n Silva. II Série.

Lucía Gómez 137 Inventando nossos eus Nikolas Rose 205 Sobre as autoras e os autores . uma coisa de educação também Elizabeth Ellsworth 77 Corpos sem órgãos: esquizoanálise e desconstrução Marcus Doel 111 A dobra: psicologia e subjetivação Miguel Domènech. Francisco Tirado.Sumário 07 Modos de endereçamento: uma coisa de cinema.

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uma coisa de educação também Elizabeth Ellsworth .Modo de endereçamento: uma coisa de cinema.

8 .

Lincoln ou Meet me in St. Louis [Agora seremos felizes]. eu via. formado por estudantes de graduação. Durante o período em que estive no curso de pós-graduação. quase todos os dias. principalmente. eu tentava ensinar a um grupo de discussão. o gênero e a ideologia do filme que eles tinham 9 . como se podia analisar a forma.MODO DE ENDEREÇAMENTO: UMA COISA DE CINEMA No meu curso de pós-graduação não estudei teoria educacional. Eu também lia e tentava compreender Althusser ou Lacan ou Eisenstein ou Kuhn ou Mulvey ou Barthes – gente que escrevia sobre imagens e histórias e significado e desejo e mudança social. filmes tais como Young Mr. Ao mesmo tempo. Estudei teoria do cinema. Cinema de Hollywood. o estilo. Mas durante o curso também trabalhava como professora estagiária e por isso tive que tentar aprender como ensinar.

dança de sapateado ou páthos. Era mais parecido com as aulas de sociologia que eu tive – aquelas ensinadas por meio de livros-texto de instrução programada. que agora já dura por mais de dez anos.acabado de ver. Eu não falava a linguagem da pesquisa educacional. a cultura. a teoria literária. O mais estranho e alienante de tudo era ter que aprender as teorias e as práticas desse novo mundo acadêmico chamado “currículo e ensino”. na ausência absoluta de qualquer suspense. das metáforas. prazer visual. enredo. Tudo que eu havia aprendido sobre as teorias contemporâneas da lingüística. havia sido aprendido na presença da (sob a luz da. o feminismo. romance. das estrelas.1 Foi uma experiência intercultural. Assim que saí do curso de pós-graduação em comunicação fui contratada por uma escola de educação para lecionar uma disciplina sobre produção de filmes de vídeo e crítica de mídia para educadores. Mas a educação era um campo em nada parecido com o do cinema e da televisão. Eu ficava fascinada e estimulada pela força social. Eu não conhecia as narrativas e os personagens daquele campo. humor. emoção. foi que eu não quero ensinar ou aprender na ausência de prazer. Não era em nada parecido com o campo da literatura e da teoria literária. sob o prazer da. das imagens. política e estética dos filmes. música. sedução. o campo da educação era uma ciência social. a semiótica. na esteira da) história. do modo de endereçamento de algum filme. Como eu acabava de descobrir. enredo. 10 . O que eu mais aprendi do meu encontro com o campo acadêmico da educação.

em modos de endereçamento. um termo que tem um enorme peso teórico e político. neste capítulo. O MODO DE ENDEREÇAMENTO NOS ESTUDOS DE CINEMA O modo de endereçamento é um termo dos estudos de cinema. outra vez. nestes dias. incluindo aquela utilizada nos estudos de cinema. Faz vinte anos que comecei a trabalhar como professora auxiliar em uma disciplina de introdução ao cinema. por sua vez. É aqui que entra o modo de endereçamento. uma leitura algo seletiva da teoria e da política que está por detrás dessa questão e do conceito de modo de endereçamento. Fico me perguntando como os educadores podem. Faz quatorze anos que estou tentando imaginar o que as pessoas pensam que estão fazendo nesse campo acadêmico da educação e por que elas fizeram com que esse campo seja o que ele parece ser. Não estou interessada em tentar definir exatamente o que é “modo de endereçamento”. Estou interessada em saber por quê. 11 . Aprendi sobre ele nas aulas sobre cinema e sobre mudança social.metáfora. E estou pensando. quando penso como uma educadora sobre pedagogia continuo pensando em termos de modo de endereçamento. É a isso que ele se resume: quem este filme pensa que você é? Apresento. artefatos culturais e de envolvimento e interação com o público. ser educados pela noção de modo de endereçamento.

o que elas “vêem”. qual é a relação entre o lado de “fora” da sociedade e o lado de “dentro” da psique humana? Como pode ser igualmente verdadeiro afirmar que “as pessoas agem de forma independente e intencional” e. a estrutura de um romance e a interpretação feita pelo leitor.Os teóricos do cinema desenvolveram a noção de modo de endereçamento para lidar. Os teóricos do cinema têm utilizado. a crítica de arte e de literatura. até mesmo controlar. com algumas das grandes questões que atravessam os estudos de cinema. 2)? Trata-se de grandes questões. sob uma forma ou outra. a antropologia. de uma forma que fosse específica ao cinema. por exemplo. a noção de modo de endereçamento 12 . Se você compreender qual é a relação entre o texto de um filme e a experiência do espectador. produzindo um filme de uma forma particular. aspectos de seu ser social” (DONALD. o que elas desejam – “são. a história e a educação. a resposta do espectador. ao mesmo tempo. Ou você poderá ser capaz de ensinar os espectadores como resistir ou subverter quem um filme pensa que eles são ou quem um filme quer que eles sejam. Essas questões têm a ver com a relação entre o “social” e o “individual”. p. Questões como: “qual é a relação entre o texto de um filme e a experiência do espectador. um determinado currículo e sua aprendizagem?”. Em outras palavras. você poderá ser capaz de mudar ou influenciar. a sociologia. dizer que os padrões que orientam suas ações – como elas pensam. 1991. Elas são também centrais para as pessoas interessadas em mudança social. uma prática social e a identidade cultural. uma pintura e a emoção da pessoa que a contempla. já.

são feitos para alguém. que deixa de localizar o modo de endereçamento no interior do texto de um filme e passa a compreendêlo como um evento. um momento. na lógica da teoria do cinema. geográficas. ideológicas. o evento do endereçamento ocorre. depois. Essa mudança. os diretores de cinema. entre o texto do filme e os usos que o espectador faz dele. ou ambos. ou sobre ambos. os comerciais de televisão. sociais.para compreender essas questões. Entre a redação do roteiro e a exibição. distanciados dos espectadores “reais” ou “concretos”. em que os teóricos do cinema começam a ver o modo de endereçamento menos como algo que está em um filme e mais como um evento que ocorre em algum lugar entre o social e o individual. 13 . num espaço que é social. psíquico. Vou esboçar. sobre seus espectadores imaginados ou reais. fará com que minha leitura seletiva da noção de modo de endereçamento deixe a teoria do cinema e vá para a educação. para os estudos culturais e para a psicanálise. de raça. os produtores e os proprietários de salas de cinema estão. age. Eles visam e imaginam determinados públicos. Esta leitura seletiva começa com o “modo de endereçamento” como um conceito que se refere a algo que está no texto do filme e que. assim como as cartas. aqui. Quem este filme pensa que você é? Os filmes. então. Entretanto. com freqüência. os roteiristas. temporais. os livros. de gênero. alguns dos significados que essa noção tem apresentado para os teóricos do cinema. Existe. de alguma forma. As distâncias podem ser econômicas. Aqui.

os filmes passam por muitas transformações. Entretanto, a maioria das decisões sobre a narrativa estrutural de um filme, seu acabamento e sua aparência final são feitos à luz de pressupostos conscientes e inconscientes sobre “quem” são seus públicos, o que eles querem, como eles vêem filmes, que filmes eles pagam para ver no próximo ano, o que os faz chorar ou rir, o que eles temem e quem eles pensam que são, em relação a si próprios, aos outros e às paixões e tensões sociais e culturais do momento. Os filmes visam e imaginam determinados públicos. Eles também desejam determinados públicos. Alguns filmes, como Jurassic Park [O parque dos dinossauros], por exemplo, são produzidos com o desejo de atrair o maior público de “massa” possível. Outros, como Go fish [O par perfeito], por exemplo, são produzidos para apelar a pessoas que vão a festivais alternativos e são feitos com a esperança de serem exibidos em cinemas voltados para um público intelectualizado e sofisticado, freqüentado por pessoas que seguem orientações alternativas em termos ideológicos, sexuais, raciais e políticos. O conceito de modo de endereçamento está baseado no seguinte argumento: para que um filme funcione para um determinado público, para que ele chegue a fazer sentido para uma espectadora, ou para que ele a faça rir, para que a faça torcer por um personagem, para que um filme a faça suspender sua descrença [na “realidade” do filme], chorar, gritar, sentir-se feliz ao final – a espectadora deve entrar em uma relação particular com a história e o sistema de imagem do filme.
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Eis aqui uma maneira de conceptualizar esse processo: existe uma poltrona no cinema para a qual aponta a tela do filme, uma poltrona para a qual os efeitos cinematográficos e as composições dos quadros estão planejados, uma poltrona para a qual as linhas de perspectiva convergem, dando a mais plena ilusão de profundidade, de movimento, de “realidade”. É a partir dessa posição física que o filme parece atingir seu ponto máximo. Da mesma forma, existe uma “posição” no interior das relações e dos interesses de poder, no interior das construções de gênero e de raça, no interior do saber, para a qual a história e o prazer visual do filme estão dirigidos. É a partir dessa “posição-de-sujeito” que os pressupostos que o filme constrói sobre quem é o seu público funcionam com o mínimo de esforço, de contradição ou de deslizamento. Por exemplo, filmes orientados para garotos brancos de 12 anos que vivem em bairros ricos estão sintonizados às posições que esses garotos supostamente ocupam (ou que os produtores de filmes e de mercadorias paralelas desejam que eles ocupem) no interior das relações sociais contemporâneas, dos gostos de mercado, da fantasia sexual e do desejo, da construção de gênero e de raça. Para que esses garotos “peguem” o filme e “sigam sua onda”, eles têm que estar no lugar para o qual o filme está sintonizado. Para que eles se tornem parte da estrutura de relações que compõem o sistema de olhares, de desejos, de expectativas, de tramas narrativas e de gratificações que compõem a experiência de ir ao cinema, eles têm que estar “lá”. Para que eles “completem” o filme tal como seus
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produtores imaginaram que eles o fariam, eles têm que assumir as posições que lhes são oferecidas naqueles sistemas – ao menos durante o tempo de duração do filme, ao menos na imaginação.

“Ei, você aí!”
E, assim, os produtores de filmes fazem muitas suposições e têm muitos desejos conscientes e inconscientes sobre o tipo de pessoa para a qual seu filme é endereçado e sobre as posições e identidades sociais que seu público deve ocupar. E essas suposições e esses desejos deixam traços intencionais e nãointencionais no próprio filme. Para algumas escolas de estudo do cinema, um filme é composto, pois, não apenas de um sistema de imagens e do desenvolvimento de uma história, mas também de uma estrutura de endereçamento que está voltada para um público determinado e imaginado. Os “traços” dessa estrutura não são visíveis. Eles não se apresentam diretamente na tela, para serem estudados, tal como se apresentam os aspectos do estilo de um filme como, por exemplo, a composição dos objetos e das pessoas em um quadro, o uso da cor, o movimento, o trabalho de edição, a iluminação. O modo de endereçamento parece-se mais com a estrutura narrativa do filme do que com seu sistema de imagem. Tal como a história ou a trama, o modo de endereçamento não é visível. Tampouco é o caso de que alguém no filme diga literalmente: “ei, você aí! Garoto branco e rico, de 12 anos! Veja isto! Será divertido. E você vai querer
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comprar o brinquedo [relacionado ao filme]. E você se sentirá mais velho e mais poderoso – e mais alto – do que você é e o mundo inteiro vai parecer girar ao redor de você. E quando o filme terminar, você sentirá que ser um garoto branco e rico, de 12 anos, é a melhor coisa que pode acontecer no mundo”. O modo de endereçamento não é um momento visual ou falado, mas uma estruturação – que se desenvolve ao longo do tempo – das relações entre o filme e seus espectadores. Os estudiosos do cinema que têm se concentrado na idéia de “modo de endereçamento” têm desenvolvido formas de falar desse invisível processo que parece “convocar” o espectador a uma posição a partir da qual ele deve ler o filme. Os críticos que estudam a narrativa cinematográfica têm tomado certos conceitos de empréstimo da crítica da literatura e do teatro e inventado outros, de forma a poder nomear e analisar a intangível experiência da história no filme. Essa experiência inclui trama, personagem, subtexto, gênero, vínculos causais, ponto de vista, e assim por diante. De forma similar, os críticos interessados no modo de endereçamento têm inventado conceitos que nomeiam e analisam aspectos sobre a experiência da “convocação” ou da “interpelação”. “Posicionamento de público” é um deles. Masterman (1985) descreve-o desta forma:
Nos meios visuais, nós, como membros do público, somos compelidos a ocupar uma posição física particular, em virtude do posicionamento da câmera. Identificar e estar consciente dessa posição física significa revelar que somos também
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altamente questionável. As diferentes posições nos asseguram que alguns aspectos da experiência devem ser aceitos (fatos). um espaço social se abre para nós. vemos e julgamos. por exemplo. políticos e econômicos que são as condições para o conhecimento que eles constroem. Finalmente.convidados a ocupar um espaço social. mas “espiamos”. entre fato e opinião está embutida nas maneiras pelas quais somos posicionados em relação a diferentes aspectos da experiência. convida-a não apenas à 18 . O endereço de um filme educacional dirigido à estudante. (p. Cada espectador é colocado no papel de endereçado direto. depois. A distinção jornalística. Nossa posição muda. 229) Masterman dá. de sua configuração e de seu formato. 229-30) O que Masterman está sugerindo é que. Por meio do modo de endereçamento do texto. o espectador deve ser capaz de adotar – nem que seja apenas imaginária e temporariamente – os interesses sociais. um exemplo de posicionamento de público nos programas de notícias da televisão: Quando o noticiário inicia. o espaço físico e o espaço social que somos convidados a ocupar estão ligados a posições ideológicas – maneiras “naturais” de examinar e dar sentido à experiência. (p. para compreender os filmes ou os programas de TV em seus próprios termos. O locutor introduz uma entrevista filmada. somos endereçados por um locutor que olha diretamente para a câmera e apresenta os “fatos”. enquanto outros (opiniões) exigem nosso julgamento. Não somos mais endereçados diretamente.

o conhecimento e o poder. rico. nunca. Talvez ele seja um garoto homossexual de 12 anos. que o filme pensa que ele é. mas relacionais – uma projeção de tipos particulares de relações entre o eu e o eu. O que isso causa à suposição de que ele tem 12 anos. uma posição única ou unificada. Sua experiência do filme inclui a experiência consciente e inconsciente de ser endereçado – por meio. Essas posições sociais não constituem. do posicionamento da câmera e do espaço social que ela constrói “para” ele – como se ele fosse aquele alguém que o filme quer que ele seja. branco. entretanto. mas também à construção do conhecimento a partir de um ponto de vista social e político particular. bem como entre o eu e os outros. é branco. nunca.atividade da construção do conhecimento. Assim. é rico. uma única coisa. “Quem. é garoto [e não garota])? 19 . por exemplo. Isso faz com que a experiência de ver os filmes e os sentidos que damos a eles sejam não simplesmente voluntários e idiossincráticos. Essas coisas não significam. exatamente quem o filme pensa que ele é – um garoto de 12 anos. ou ambas as coisas. mas também uma resposta às formas pelas quais sua estrutura de endereçamento solicita ou até mesmo exige dele uma certa leitura. parte da experiência e da relação de um garoto de 12 anos com um filme como Jurassic Park não é apenas uma resposta ao seu estilo e à sua história. estadunidense. eu?” Ele não é.

na primeira fila. isto é. ter 12 anos. em geral. aquela poltrona situada duas cadeiras à esquerda do assento ideal. exige uma tradução perceptual constante da imagem. por “branco”. apenas ou totalmente. ao imaginar-se no centro do endereçamento. quem o filme pensa que ele ou ela é. O modo de endereçamento do filme pode “errar” o “alvo” por apenas duas cadeiras. mas goste de viver num bairro popular da cidade e vá até lá sempre que possa. por exemplo. Talvez ele tenha 12 anos e seja filho de um pai ou de uma mãe que o maltratam e nunca tenha sentido. Ou. (O espectador ou a espectadora nunca é tampouco exatamente quem ele ou ela pensa que é. mas vamos deixar isso para mais adiante). pela qual a espectadora. de um lado. na primeira fila. Imaginemos que o lugar “ideal” esteja situado na poltrona central da última fileira da sala de cinema. Talvez ele viva em um bairro rico. Ver um filme do assento situado junto à parede. desfaz aquele processo de descentramento. quem o filme pensa que somos e. quem nós pensamos que somos. mas que “passa”. de fato. A maneira como vivemos a experiência do modo de endereçamento de um filme depende da distância entre. solicitando que a espectadora se projete como estando situada naquele 20 . atingindo.Talvez ele seja filho de pais de diferentes raças. no outro extremo. alguma revisão. de outro. Ambas as posições “fora do alvo” exigem algum rearranjo de parte da espectadora para fazer o filme voltar ao foco – alguma reescrita. “acertando” a poltrona situada junto à parede. pode passar bem distante do “alvo”. O espectador ou a espectadora nunca é. depende do quanto o filme “erra” seu alvo.

nunca. assim também o filme não é. exatamente o que ele pensa que é. Seja qual for a distância pela qual o modo de endereçamento de um filme “erra” o alvo (mínima ou enorme) é necessário aquilo que alguns estudiosos chamam de “negociação” por parte do espectador. nunca. com vistas a “pegar” o filme e desfrutá-lo. uma coisa simples ou única. (Minha desconfiança é de que a cientista forte. no processo de negociação dos modos de endereçamento de Jurassic Park. de 12 anos. Assim. um único e unificado modo de endereçamento em um filme. ricos. não foi preciso que eu simplesmente me imaginasse como um garoto de 12 anos. Há algo nesse filme que é dirigido para quem os seus produtores imaginam que sou. 21 . Não existe. da mesma forma que o espectador ou a espectadora nunca é exatamente quem o filme pensa que ele ou ela é. seria muito menos provável que o resto do planeta fosse vê-lo. Como posso extrair prazer da história de Jurassic Park caso eu tenha 12 anos e for uma garota [e não um garoto]? Mas essa negociação tampouco é.assento perfeito no centro da sala de cinema e imaginando como seria muito melhor e mais agradável ver o filme daquela poltrona onde ela “deveria” estar sentada. Pois. E mesmo que ela seja uma versão diluída da cientista do livro homônimo). inteligente está dirigida para uma parte de mim – mesmo que se tenha a impressão de que ela entrou no filme meio a contra-gosto de seus produtores e como que de última hora. Se Jurassic Park tivesse sido endereçado estrita e unicamente aos garotos estadunidenses brancos. corajosa. jamais.

que alterna tomadas do ponto de vista da câmera com tomadas do ponto de vista da personagem – para apelar aos desejos e aos prazeres visuais que espectadores como esses supostamente extraem do ato de ver mulheres dançando para eles. em termos de controle sobre seus corpos e em termos de sentir prazer e poder em seus corpos e em suas vidas. que são endereçados primariamente às mulheres no público e àquilo que os produtores do filme. Isso complica toda a idéia de modo de endereçamento. consciente e inconscientemente. há aspectos das histórias. Angela McRobbie (1984) ressalta isso em seu estudo do modo como as adolescentes que ela entrevistou reagiram aos filmes Flashdance e Fame [Fama]. estabelecese uma tensão no interior dos modos de endereçamento desses filmes – uma tensão entre quem os números de dança pensam que você é e quem a história pensa que você é. Assim. parecem ter sido endereçadas primariamente a dois grupos de espectadores masculinos e heterossexuais: aqueles que figuram nas histórias dos filmes e aqueles que viram os filmes nos cinemas. De acordo com McRobbie. em ambos os filmes. As histórias de ambos os filmes complicam a questão sobre “para” quem as mulheres estão dançando nos espetáculos dos números musicais do filme.“Entrar” em um filme por meio de uma multiplicidade de lugares é uma necessidade comercial. em ambos os filmes. as cenas de dança. Entretanto. imaginam ser o desejo das mulheres. Os números musicais parecem organizados – por meio da localização e dos ângulos da câmera e do trabalho de edição. 22 .

assim que públicos reais. ou como uma mulher afroamericana que raramente vê outras mulheres afroamericanas na tela do cinema? 23 . os prazeres das garotas adolescentes podem advir de uma leitura que vê as dançarinas como “realmente” dançando tanto para si próprias quanto para os homens que as observam. múltiplos modos de endereçamento. O modo de endereçamento do espetáculo das performances de dança atrita-se com o modo de endereçamento do desenvolvimento da história. muda drasticamente. Diferentes sistemas formais e estilísticos. Ela está vendo um vídeo de Flashdance com um grupo de amigas que ficaram para passar a noite em sua casa.Os prazeres das garotas adolescentes ao ver esses filmes podem advir de uma leitura que vê as dançarinas como “realmente” dançando para si mesmas e não para os homens que. podem ter diferentes modos de endereçamento. o modo de endereçamento de um filme torna-se apenas um dentre os muitos que compõem o cotidiano de um determinado espectador ou espectadora. A posição que um espectador ou uma espectadora “assume” em relação a um filme. Ou. em um cinema com um namorado. não obstante. Podem estar ocorrendo. chegam ao cinema. de forma simultânea. as estão observando. com sua amante lésbica. e a partir da qual ele ou ela dá sentido ao filme e dele extrai prazer. de forma mais complexa. como uma estudante em uma aula de cinema. esses dois modos de endereçamento não funcionam necessariamente de forma conjunta e compatível. dependendo dos (conflitantes) modos de endereçamento que possam estar disponíveis. presentes em um único filme. vivos. Além disso.

à medida que os estudiosos do cinema têm tentado emparelhar os mecanismos de endereçamento presentes no texto de um filme particular com as leituras que um público real faz do filme. vende a si próprio e vende os produtos relacionados ao filme. como e a partir de onde o espectador ou a espectadora lê o filme. Os públicos não são simplesmente “posicionados” por um determinado modo de endereçamento. texto ou ação “para” alguém. adquire sentido. dá prazer. E. tem a ver com o desejo de controlar. tanto quanto possível. considerando-se os interesses comerciais dos produtores de filme. com a necessidade de endereçar qualquer comunicação. Você. uma posição de coerência. a partir da qual o filme funciona.O modo de endereçamento de um filme tem a ver. “Sim. Ainda que de forma mínima ou oblíqua. pois.” É aqui que entram as relações de poder e a mudança social. agrada dramática e esteticamente. eles têm ficado cada vez mais atentos às complicações e aos paradoxos da experiência de ir ao cinema. Mas. eles têm que se envolver com seu modo de endereçamento. Tem a ver com atrair o espectador ou a espectadora a uma posição particular de conhecimento para com o texto. para dar qualquer sentido a um filme ou para desfruta-lo até mesmo minimamente. o modo de endereçamento de um filme está envolvido nos prazeres e nas interpretações dos públicos – inclusive em sua decisão de simplesmente recusar-se a ver o filme. O modo de endereçamento não é um 24 . Entretanto.

Entretanto. atitude. que o filme imagina e deseja. Aqueles. dirigidos às garotas de 12 anos – de qualquer origem racial ou étnica? 25 . domínio e controle. de 12 anos. Ninguém. raça. Embora os públicos não possam ser simplesmente posicionados por um determinado modo de endereçamento. que trabalham a partir de perspectivas marxistas ou feministas ou humanistas têm utilizado o conceito de “modo de endereçamento” para “provar” que a maior parte dos filmes populares oferecem. Essa gama estreita exclui todo tipo de outras perspectivas e experiências sociais e culturais. Tratase de um conceito que tem origem numa abordagem de estudos do cinema que está interessada em analisar como o processo de fazer um filme e o processo de ver um filme se tornam envolvidos na dinâmica social mais ampla e em relações de poder. nacionalidade. sedutores estímulos e recompensas para que se assumam aquelas posições de gênero. aquela posição-de-sujeito. Os estudiosos do cinema têm gostado de algumas posições-de-sujeito oferecidas nos filmes populares e não têm gostado de outras. gosto. é exatamente aquele garoto estadunidense. (Onde estão os filmes de aventura ou de histórias sobre o desabrochar da adolescência.conceito neutro na análise cinematográfica. sim. por exemplo. estilo às quais um determinado filme se endereça. no público global do Jurassic Park. uma gama estreita e sistematicamente enviesada de posições-de-sujeito. independentemente de quanto ela seja mítica. os modos de endereçamento oferecem. no filme. a potentes fantasias de poder. status social. de forma repetida. rico. branco. está ligada.

“Eu não!” Alguns cineastas. ou gay. pessoas ricas e poderosas voltadas à exploração dos outros. racistas de qualquer cor. que ser uma garota (ou ser negro/a. Fazer a pergunta “quem este filme pensa que você é ou quer que você seja?” significa. ou gordo/a. quem filmes particulares pensam que você é ou quem eles querem que você seja – podem contribuir para relações desiguais de poder e para a formação inconsciente de subjetividades específicas. por meio da exclusão ou do ridículo ou da punição inscrita na narrativa. que acham que os modos de endereçamento dos filmes – isto é. têm feito algumas 26 . Ou ser um tipo particular de garota ou garoto ou latino/a ou gordo/a pode ser certo. Há subjetividades específicas – homens e mulheres sexistas e machistas. convencidos de que as relações sociais e de poder podem ser afetadas pelo fato de fazer e de ver filmes. Eles também pecam por repetidamente darem a entender. mas ser outro tipo não. Trata-se de uma questão formulada pelos estudiosos do cinema. ou ser uma garota e uma ou outra dessas identidades) não é a coisa certa. pois. Mas os filmes tradicionais de Hollywood não pecam apenas por omissão. por exemplo – e dinâmicas de poder que alguns estudiosos do cinema não querem ver “formados” ou recompensados pelas narrativas e pelos sistemas de imagem dos filmes.Por que parece ser certo colocar esta questão entre parênteses?). ou falante de espanhol. fazer uma pergunta carregada.

Chantal Akerman. têm tentado voltar as convenções de Hollywood contra si próprias. em um filme de 3 horas e meia. uma seqüência de cinco minutos mostra Jeanne. A recusa em efetuar tomadas feitas do ponto de vista da personagem implica uma rejeição do efeito de “fixação” da sutura do filme clássico: a espectadora é forçada a manter distância tanto em relação à narrativa quanto em relação à imagem. preparando um bolo de carne para o jantar. para os prazeres de se ver filmes que dependem da objetificação dos corpos das mulheres e da repressão de sua agência. sua execução das tarefas diárias. uma viúva pequeno-burguesa. dona-de-casa e mãe. por conta própria. no terceiro dia. intitulado Jeanne Dielman.. construindo a história e produzindo expectativas. por exemplo. em relação à narrativa.. A rígida rotina de Jeanne inclui uma visita diária de um homem – um homem diferente a cada dia – cujo pagamento por seus serviços sexuais ajudam-na a mantê-la e a seu filho [. O trabalho doméstico nunca foi. (p. Elas tentam chamar a atenção. por exemplo. descreve três dias na vida de uma mulher belga. rejeitando-os. feito em 1975.experimentações com vários tipos de “contra-cinema”. provavelmente.]. por exemplo. descrito com tanto detalhe em um filme de ficção. Annette Kuhn (1982) descreve o filme desta forma: Seus movimentos ao redor de seu apartamento. Algumas cineastas feministas. são descritos com grande precisão: muitas de suas tarefas são filmadas em tempo real. 173-4) A idéia é que um filme como Jeanne Dielman é mais “aberto” e menos manipulativo no seu 27 .

que é familiar ao público e que está destinada. As experiências de contra-cinema têm produzido toda uma série de estratégias para endereçar o público que nunca ou raramente são vistas nos filmes de Hollywood (tais como a tomada estática. com duração de 5 minutos. Ackerman nega-se a fazer tomadas a partir do ponto de vista ótico de Dielman. a suscitar sua empatia e cumplicidade imaginária para com as intenções. essas inovações têm mudado a política de representação que reina em Hollywood (pode-se também dizer que essas inovações foram cooptadas. por conta própria. Um filme como esse se nega a utilizar os modos de endereçamento típicos de Hollywood. Sendo supostamente mais aberto e menos manipulativo. dependendo da perspectiva). em alguns casos.posicionamento de seu público do que um filme de Doris Day na qual ela faz o papel de uma dona-decasa. à espectadora para que ela possa construir a história e produzir expectativas. E. teoricamente. os quais “fixam” a espectadora a uma única forma de interpretar o filme. em relação à narrativa. A esperança revolucionária era de que diferentes modos de endereçamento nos filmes pudessem 28 . Essas experiências têm ampliado o léxico narrativo e visual – e as expectativas do público – à disposição das cineastas. com freqüência. Por exemplo. de Dielman fazendo bolo de carne). Ela se nega a utilizar essa convenção de operação da câmera. experiências e objetivos de um determinado personagem. o modo de endereçamento de Jeanne Dielman “dá força”.

Pior ainda. obviamente. como diz um crítico de cinema: A linha de divisão entre o estranhamento como uma espécie de distanciamento apaixonado e reflexivo e o estranhamento como alienação no pior sentido da palavra é. escapistas). racistas. O prazer e a fantasia podem ser políticos. 1985. 220) Em outras palavras. então. alguns filmes produzidos em nome do contra-cinema e do reforçamento de poder [empowerment)] de seus espectadores são difíceis de ler ou alienadores por causa da forma como eles negam e denegam os prazeres do ato de ver filmes na sua forma mais convencional. filmes que rejeitam as fantasias e os prazeres usuais e esperados (sexistas. p. tornam-se parte de uma estratégia política intencional. Em outras palavras. 29 . inclusive. muito tênue. produzir novos sujeitos sociais – novos tipos de “mulheres”. mas isso não é tudo o que eles são. (COOK. por exemplo. Mas tampouco isso é uma coisa simples ou direta. E quando filmes difíceis de serem lidos.mudar os tipos de posições-de-sujeito que estão disponíveis e que são valorizados na sociedade. Filmes como Jeanne Dielman são difíceis de serem lidos quando se está acostumado a ler os filmes de Hollywood. mulheres que tenham o poder de construir suas próprias histórias e expectativas. alguns dos públicos a quem eles pretendem se dirigir não querem necessariamente renunciar a seus culposos prazeres. tais filmes poderiam produzir uma mudança social para melhor. Filmes como Jeanne Dielman poderiam.

muitas das experiências de contra-cinema são endereçadas. mas isso não diminuiu meu prazer naquilo que algumas pessoas podem considerar como produtos inferiores como. Como uma pessoa que está acostumada a ir ao cinema. Mayne é não apenas capaz de agir contra aquilo que suas amigas feministas e ela própria provavelmente chamariam de seus “melhores interesses” 30 . 3). as quais recebem uma perfeita expressão em Schwarzenegger. os filmes de Arnold Schwarzenegger. constitua. Pois. dos tipos de impulsos contraditórios que compõem o prazer.. embora o feminismo. Em vez disso. em termos bem ordinários e cotidianos.“Sim. O ato de ver um filme é um dos poucos lugares em minha vida no qual as atrações para com a adolescência masculina e a poética do feminismo de vanguarda coexistem. me envolve de forma diferente mas tão satisfatória quanto os filmes de Arnold Schwarzenegger (1993. eu tenho fantasias regressivas um tanto peculiares (isto é. por exemplo. pode-se dizer. de forma plena. eu (1) e eu (2) e eu (3) e. Pois a abordagem particular do ato de ver filmes desenvolvida por Chantal Ackerman. Ela é o tipo de espectadora feminina a quem. Ela escreve: Posso ser uma espectadora bem-informada.. por exemplo. não para mim) sobre a adolescência masculina. uma parte de minha vida cotidiana. peculiares para meus amigos e para minha família. p.” Judith Mayne é uma estudiosa feminista do cinema. o estudo do ato de ver filmes me tornou consciente. por exemplo.

3) e realmente reforçar práticas. Alguns estudiosos do cinema têm adotado a ênfase que a chamada “teoria de resposta do leitor” coloca no ato de leitura. de outro. de um lado.como uma mulher em uma cultura dominada por homens. prazeres e desejos cinemáticos e culturais dominantes e injustos. Obviamente. do gênero. a partir da qual o filme “deve” ser lido: os espectadores reais sempre leram os filmes em direção contrária a seus modos de endereçamento. uma ato de ver filmes que. um ato de ver filmes que é “crítico”. “respondendo” aos filmes a partir de lugares que são diferentes daqueles a partir dos quais o filme fala ao espectador. “me faz representar e esquecer” (p. deslocando o poder do ato de atribuir sentido para o espectador. do modo de endereçamento do texto para a resposta que lhe é dada pelo espectador. o modo de endereçamento de um filme não é algo onipotente. da raça. Ora. isso coloca um grande problema para pessoas que pensam que o modo de endereçamento pode fazer a diferença entre. Não importa quanto o modo de endereçamento do filme tente construir uma posição fixa e coerente no interior do conhecimento. Eles têm realizado estudos de recepção para tentar entender e reconhecer a agência que os espectadores sempre têm exercido nos filmes. Essa mudança de foco. mas ela é também capaz de desejar e desfrutar dessa representação no ato mesmo de pô-la em execução. tem levantado a questão das diferentes 31 . da sexualidade. como diz Mayne (1993). reflexivo e apaixonadamente distanciado e.

lêem filmes que nunca lhes são endereçados? Mayne (1993). Mayne e outras teóricas do cinema têm utilizado o ato de ver filmes das pessoas negras e das pessoas gays como exemplos de lugares de ver o filme que supostamente diferem drasticamente daqueles endereçados pelo cinema convencional. examina essa questão evocando a descrição de como uma platéia negra de resistência vê o filme The defiant ones (1958). nos quais o personagem de Poitier age não como um homem negro mas como a imagem branca sobre o que é ser um homem negro. um deles branco (Tony Curtis) e o outro negro (Sidney Poitier). da “mentira” do mito das 32 . por exemplo. Durante a maior parte do filme eles estão presos um ao outro por meio de algemas. uma parábola sobre as relações raciais nos Estados Unidos. ele contém numerosos “pontos cegos” (para utilizar a linguagem da teoria do cinema dos anos 70). nesse filme. 155) Pelo fato de o filme ser um mito branco sobre as relações entre negros e brancos. Aquele filme conta a história de dois prisioneiros fugitivos. por exemplo. Conta-se. (p. 155) A “verdade” da “negritude” de Poitier estava à mercê. (p.leituras que são feitas não apenas por parte do mesmo espectador (tal como nas duas leituras de Maynes: a feminista e aquela baseada na fantasia sobre garotos de sua adolescência). ou ambos. mas também das diferentes leituras que são feitas por diferentes “tipos” de público. por meio de sua relação. Como públicos “negros”. “gays”.

1976. de classe média etc. e muitas vezes opostos. “sacrificando sua própria chance de escapar para ficar com seu amigo branco” (p. 1993. 159). Por um lado. masculino. heterossexual. então “os espectadores dominantes [tais como os constituídos pelo público branco e liberal do filme The defiant ones] fundem-se. Para mostrar que é isso o que ocorre. quando Poitier salta do trem no final do filme..relações entre brancos e negros da narrativa. Mayne cita a descrição que James Baldwin (1976) faz da reação dos “espectadores brancos liberais”. p. como sendo de alegria. “indignou-se” com isso. na tela” (MAYNE. Supõe-se 33 . O “público negro do Harlem” que Baldwin descreve. a verdade de sua negritude também frustra o poder da narrativa para realizarse completamente de acordo com o planejado. do mesmo filme. um pressuposto tácito de grande parte da teoria do cinema é que quando a posição social visada pela produção cinematográfica de Hollywood “possui os atributos da ‘dominação’ – branco. Entretanto. p. “Nós. gritando: “Volta para o trem.” e Hollywood endereça-se àquela posição. quem?” Assim.. 76). Mas esse reconhecimento tem produzido seus próprios problemas. entretanto. 156). pelo desempenho de Poitier e pela forma como o público negro a sentia. de sua inabilidade em “descrevê-la da forma certa”. seu idiota!” (BALDWIN. de forma simbiótica. as teóricas do cinema reconhecem que os públicos não são todos iguais e que os diferentes públicos fazem leituras diferentes e extraem prazeres diferentes.

Todos os “outros” (tais como os que formam o público negro do Harlem) são considerados marginais e resistentes. constitui um “público”. 159). ainda não está claro para aquelas pessoas que trabalham no campo dos estudos de cinema “o quê”. Além disso. mas necessária à maior parte dos projetos políticos da teoria do cinema. é que ela estabelece um dualismo entre “espectadores dominantes” e “espectadores marginais” (e portanto “resistentes”) e “perpetua a falsa dicotomia do ‘nós e eles’” no momento mesmo em que tenta enfraquecê-la. precisamente. Falar de “um 34 . E pelo fato de que a resistência é não apenas interessante. Existe resistência e diferença relativamente ao endereçamento sedutor e homogeneizador de Hollywood? Onde? Quem resiste? Quem é diferente? Como eles resistem e mantêm a diferença? Como podemos fazer com que a diferença e a resistência se difundam? O problema com esse tipo de abordagem. “Definir o outro como a vanguarda do ato de ver filmes apenas inverte a dicotomia” (p. A utilização das noções de “identidade” e “política de identidade” para estudar o que variados grupos sociais supostamente fazem com os filmes não contribuiu para tornar as coisas mais claras.que os espectadores “dominantes” ajustam-se de forma “natural” e pouco problemática à posição ideológica e de prazer que lhes é oferecida. os estudos de recepção tendem a se concentrar nos assim chamados espectadores marginais e subculturais. Entre as questões típicas de pesquisa estão as que se seguem. argumenta Mayne (1993).

presa a um raciocínio do tipo “ou isto ou aquilo”. Mas é tão impossível identificar uma experiência do ato de ver filmes das pessoas gays ou lésbicas que seja comum a todas as pessoas de um desses grupos (para não falar de uma experiência que seja comum a ambos os grupos) quanto o é identificar um único modo de ver filmes para negros. os críticos literários e os estudiosos do cinema estão agora argumentando que existem fortes correntes homossexuais em todos os atos de ler e ver filmes e que uma presença afroamericana orienta todos os textos culturais estadunidenses. 1993. na qual toda leitura é um ato de contestação porque o modo de endereçamento do filme nunca se encaixa perfeitamente ou. mulheres ou garotos de 12 anos. estamos falando de uma “macropolítica na qual nada significa. Ou estamos falando de uma micropolítica do espectador e do grupo social marginal. a análise acadêmica sobre a “política” do ato de ver filmes criticamente continua. não se pode dar muito crédito às distinções que. argumenta Mayne (1993).público gay”. Ainda assim. moldando as experiências que os leitores brancos têm de si próprios e de outros (Sedgwick. por exemplo. Na verdade. em geral. contestação a 35 . Morrison. 1990. 166). 1992). subculturais de leitura resistente supostamente não se somam para levar à mudança social. realmente. sugere que “todos os homens gays e todas as mulheres lésbicas partilham alguns padrões específicos de identificação ou algum tipo de capacidade inerente para ler o ‘texto’ do filme a contrapelo” (Mayne. pelo fato de que esses atos localizados. Quer dizer. p. em geral. se fazem entre centro e margem.

em sua grande maioria. os interesses políticos afetam as teorias sobre as formas como as pessoas vêem os filmes e sobre as formas como eles devem ser vistos. aqueles que escrevem estudos de cinema também ensinam” (p. Mayne não quer dizer simplesmente um ato de ver educado ou beminformado. de forma que se possa ensinar. a exploração econômica e os estereótipos racistas. 172). O que subjaz a esses estudos.menos que seja parte de uma pauta política globalmente definida” (p. Por “crítico”. Mas. a se tornar cúmplice dos filmes convencionais na produção de significados que simplesmente reinscrevem a objetificação dos corpos e das vidas das mulheres. como diria Foucault (1979). de forma ativa. Como em todos os empreendimentos acadêmicos. Muitas das pessoas que estudam e ensinam cinema desejam entender melhor a forma como o público lê filmes. aqueles de nós que estamos interessados em estimular a mudança social estamos sujeitos a lapsos na nossa forma crítica de ver filmes – como os exemplificados na entrega às 36 . Ela quer dizer um ato de ver que resiste. é o desejo de estilizar as leituras pouco críticas dos espectadores (“estudantes”) para que se transformem em leituras críticas. “o propósito mesmo dos estudos acadêmicos do ato de ver filmes é o de encorajar o desenvolvimento de um ato de ver crítico. por exemplo. 165). o público a ler filmes de forma resistente. a “normalidade” heterossexista. sobretudo na medida em que. Como diz Mayne (1993). em sua maior parte. de forma melhor.

bem-vindos) apontam para alguns dos dilemas que são enfrentados pela maior parte das teorias de mudança social.fantasias de adolescência via filmes de Schwarznegger que Mayne se permitia. algumas teóricas do cinema desistiram de tentar atribuir um “tipo” de ato de ver resistente a cada tipo de público (marginalizado) à medida que ele responde aos vários tipos de modos de endereçamento. incluindo os rumores e as ‘fofocas’. para o modo de endereçamento como um aspecto mais fluido dos contextos nos quais os espectadores usam os filmes. práticas culturais 37 . do modo de endereçamento como um aspecto relativamente estático do texto de um filme. O MODO DE ENDEREÇAMENTO COMO EVENTO Na ausência de “ajustes” previsíveis e controláveis entre os modos de endereçamento e a experiência do espectador. E esses lapsos (prazerosos e. Mayne (1993) descreve essa mudança de ênfase como uma mudança que vai de questões do tipo: “como públicos constituídos de pessoas gays e lésbicas resistem aos modos de endereçamento dos filmes convencionais?” para questões tais como “que papel exerce o ato de ver filmes na forma como as pessoas e grupos imaginam e constituem variadas culturas e identidades culturais e sociais?”. Elas deslocaram sua atenção. na construção de identidades. “como os próprios modos de endereçamento são assumidos e usados. complicando as estratégias políticas e educacionais lançadas em seu nome. juntamente com uma ampla rede de textos e contextos. em parte.

e grupos organizados e politizados?”. as estudiosas do cinema se saíram com algumas idéias e alguns argumentos bastante interessantes sobre o funcionamento das estruturas narrativas e os sistemas visuais em filmes reais. vozes. pontos de vista. esperanças e dos eventos atualmente em circulação – e de que esse “algum lugar” possa ser localizado por meio de um exame das formas pelas quais certos personagens. “como o ato de ver filmes é usado na constituição das lésbicas e dos gays como uma força política – como quando os gays se organizam como um grupo de consumo para questionar a representação homofóbica que caracteriza os filmes convencionais?” (p. “como o estilo camp2 – que pode ser compreendido como um exagero das formas pelas quais os modos de endereçamento deixam de “atingir” quase todo mundo – funciona como um prazer social partilhado no interior das comunidades gays e lésbicas”?. ansiedades. por exemplo. desejos. discursos e ações são visual e narrativamente privilegiados e recompensados em detrimento de outros nos filmes. fantasias. 166). MODO DE ENDEREÇAMENTO QUESTÕES NÃO-RESOLVIDAS Ao perguntar “quem este filme pensa que você é?”. É também difícil discordar do argumento de que esse privilegiamento e essa recompensa por meio do modo de endereçamento constituem uma tentativa por parte dos produtores de filmes para antecipar 38 . discordar do argumento de que os filmes falam de algum lugar no interior das idéias. É difícil.

com finais felizes. os medos. a resistência crítica a essas posições ou sua completa rejeição. quaisquer dicotomias rígidas entre. à medida que interpretam o filme. de outro. 39 . uma posição-de-sujeito imaginada no interior do poder. a maior parte das teóricas do cinema concordaria que as questões sobre a relação entre. os filmes parecem “convidar” os espectadores reais a essas posições e encorajá-los. um filme tenta encontrar o público que ele imagina e deseja no lugar onde se encontram seus medos e suas esperanças. Mesmo que o público nunca esteja no lugar para o qual o filme fala. os gostos. de um lado. com experiências coerentes de leitura) por “assumir” e agir a partir daquela posição imaginária. a pessoa real que vê o filme.(e falar para) as ansiedades. do conhecimento e do desejo que os interesses conscientes e inconscientes por detrás da produção do filme precisam que o público preencha. simples e puros atos de reprodução altamente receptiva e cúmplice das posições que nos são oferecidas e. E os espectadores parecem ser “recompensados” (com o prazer da narrativa. Abstratamente ou não. ao menos imaginariamente. as esperanças e as formas de dar sentido do público por eles desejado. Entretanto. de um lado. o lugar que o filme endereça parece existir como um “lá” abstrato e partilhável. não foram resolvidas. Parece claro que ao falar para esses elementos. Os prazeres que temos com os filmes rejeitam. de outro. teimosamente. a posição abstrata supostamente atribuída aos espectadores de um filme por seu modo de endereçamento e. a assumir e a ler o filme a partir de lá.

em última instância. não seja desejável. pensa que ele ou ela é?”. as questões sobre modos de endereçamento feitas por pesquisadores do cinema têm sido questões “assombradas” – têm sido questões assombradas por desejos de realizar “a possibilidade do ato de ver filmes como uma potencial atividade de vanguarda”. “podem diferentes modos de endereçamento provocar ou encorajar outras ou diferentes formas de ser e agir no mundo?”. consciente ou inconscientemente. Esses desejos são orientados por uma política totalizante: “suas interpretações de um determinando filme ou são de resistência e portanto revolucionárias ou são de cumplicidade e portanto reacionárias. 40 . Como diz Mayne (1993). lineares e causais não é uma busca inocente. E a busca por relações nítidas e puras. é que as relações entre a forma como os textos cinematográficos endereçam seu público e a forma como os espectadores reais lêem os filmes não são nítidas ou puras – elas tampouco são lineares ou causais. 172). Os estudos do cinema estão agora às voltas com os significados da posição pós-moderna de que uma política totalizante – mesmo que sua intenção seja progressista – não é realizável e. talvez. com vistas a pautas políticas progressistas (p.O que parece claro para mim. “que diferença faz quem um espectador ou uma espectadora pensa que ele ou ela é à forma como ele ou ela age no mundo?”. Os estudos do cinema ainda não deram respostas convincentes às questões: “que diferença faz o modo de endereçamento de um filme?”. depois de vinte e cinco anos de estudos de cinema. “faz alguma diferença a quem o espectador ou a espectadora.

pode a mudança social começar ou ser estimulada pelas formas pelas quais os públicos são endereçados pelos filmes? E. as estudiosas do cinema estavam mudando os tipos de questões que elas estavam fazendo sobre o modo de endereçamento. uma vez que a educação tem a ver com mudança. conhecimento e desejo? Nos anos 41 . como um educador ou uma educadora pode reescrever algumas dessas questões? Pode a mudança social ou mudanças individuais nas formas como alguém compreende o mundo começar – e ser estimulada – pelas formas como os estudantes e as estudantes são endereçados pelo currículo e pela pedagogia? Podem os professores e as professoras fazer uma diferença em termos de poder. conhecimento e desejo não apenas por aquilo que eles e elas ensinam. Inicialmente.Em outras palavras. nos anos 70. MODO DE ENDEREÇAMENTO: UMA COISA DE EDUCAÇÃO TAMBÉM Quando deixamos a primeira parte deste ensaio. mas pela forma como eles e elas endereçam seus alunos e suas alunas? Trata-se de questões ainda não resolvidas nos estudos sobre cinema. ao perguntar: “como o modo de endereçamento de um filme posiciona seus espectadores no interior de relações de poder. E de questões que sequer são feitas na educação. elas tinham formulado a questão do endereçamento em termos do posicionamento do espectador.

em vez disso. cujo poder advém precisamente da diferença entre endereçamento e resposta. em seu envolvimento na atividade de dar sentido aos textos cinematográficos. juntamente com uma ampla rede de outros textos e contextos. mas paradoxal.90. Não existe nenhum ajuste exato entre endereço e resposta. que o fato de não existir um ajuste exato entre endereçamento e resposta torna possível ver o endereçamento de um texto como um evento poderoso. O que causou essa mudança foi. Lembram como Mayne (1993. no processo de produção cultural e na prática da invenção de novas identidades sociais. p. de que todos os modos de endereçamento “erram” seus públicos de uma forma ou de outra. pelos modos de endereçamento “feministas”? Quero argumentar. por exemplo. a conclusão. o que nos faz concluir que não há como garantir a resposta a um determinado modo de endereçamento. elas começaram. O que eu gostaria de argumentar agora é. 3) apresentou seu “culpado” desejo de ver os filmes de Schwarzenegger como um exemplo de que os públicos excedem e extravasam as posições “aceitáveis” que lhes são oferecidas. por parte das teóricas do cinema. 42 . a perguntar: “como os públicos adotam e utilizam os termos do modo de endereçamento de um determinado filme. como materiais com os quais podem imaginar e viver identidades culturais e sociais?”. aqui. que a diferença entre quem um endereçamento pensa que seu público é e o “quem” que os membros do público concretizam por meio de suas respostas é um recurso que está à disposição tanto dos produtores de filmes quanto dos públicos. em parte. portanto.

43 . O que pode um professor fazer com o espaço momentoso e volátil da diferença ou “desajuste” entre. formado e informado por conjunturas históricas de poder e de diferença social e cultural. os professores não podem controlar o modo de endereçamento – nem mesmo por meio de práticas pedagógicas como. os significados que o paradoxal poder de endereçamento pode ter para os educadores. e de forma paradoxal. tornando-o. Em terceiro lugar. a forma como os estudantes realmente usam o endereçamento de um currículo para constituírem a si próprios e para agir sobre a história e na história? Como os professores podem tirar vantagem do fato de que todos os modos de endereçamento “erram” seus públicos de uma forma ou outra. neste capítulo. de outro. assim. Em segundo lugar. quem um currículo pensa que seus estudantes são ou deveriam ser e.Vou explorar. o espaço da diferença entre o endereçamento e a resposta é um espaço social. Entretanto. utilizando isso de forma interessante e criativa? Vou fazer três afirmações sobre a falta de ajuste ou sobre o espaço de diferença entre o endereçamento e a resposta. Em primeiro lugar. o espaço da diferença entre endereçamento e resposta é um espaço que carrega os traços e as imprevisíveis atividades do inconsciente. de um lado. capaz de escapar à vigilância e ao controle tanto por parte dos professores quanto por parte dos estudantes. o espaço da diferença entre endereçamento e resposta está à disposição dos professores como um recurso poderoso e surpreendente.

neste capítulo. entretanto. predizer e dirigir as respostas dos estudantes por meio do endereçamento não está à disposição dos professores. ou entre um currículo e seus alunos vistos como “espectadores” ou 44 . Não é o poder de posicionar os estudantes em algum desejado e preciso ponto do mapa de relações sociais. no ensino. respostas previsíveis e desejadas dos estudantes ou dos públicos. pois. quero ampliar ainda mais meu paradoxal argumento de que o modo de endereçamento é uma coisa poderosa que os educadores não devem ignorar. à vontade. o poder de endereçamento que os professores devem explorar? Tentarei no que se segue explicar o que quero dizer quando digo que. Em que sentido o termo “poder” está sendo utilizado aqui? Se o poder de controlar. o poder de endereçamento reside em seu caráter indeterminado.por exemplo. E contudo. que todos os modos de endereçamento “erram” seus públicos. cuja intenção seja regulá-lo. Assim. então. sendo preciso considerar. as práticas chamadas de “dialogais”. o poder de obter. predizer ou transformar em uma tecnologia. O poder de endereçamento não é. meu propósito é o de mostrar que ignorar o poder do endereçamento empobrece os professores. qual é. de uma forma ou de outra. controlar. O MODO DE ENDEREÇAMENTO E O VOLÁTIL ENTRE-ESPAÇO O espaço entre um filme e seu público. O poder de endereçamento não é algo que os professores possam dominar.

a volatilidade desse espaço é reconhecida e explorada em favor do lucro comercial e do valor de entretenimento. Em geral. Isso pode ser também uma razão para a natureza paradoxal de seu poder. pode libertar a noção de modo de 45 . penso eu. Falando de amor e Clube das desquitadas são todos filmes sobre os quais os espectadores e os críticos disseram coisas como “as histórias e os personagens são exagerados. E. absolutamente. fazendo dele um sucesso. Trata-se de uma razão que. Thelma e Louise. determinar o sucesso de um filme é uma questão de adivinhação. com mulheres reais em qualquer sentido literal”. Nos filmes. se mostram mais surpresas quando um filme atinge seu público em cheio. É aqui que eu gostaria de sugerir uma razão para o caráter escorregadio da prática do endereçamento. E é esse entre-espaço que os modos de endereçamento tentam manipular. Mas Hollywood nunca teve muito êxito em garantir a reação de um público por meio da utilização de um modo particular de endereçamento. Por exemplo. os termos por meio dos quais esses filmes endereçaram seus públicos – o “quem” que eles pensavam que suas espectadoras eram – tocaram em pontos sensíveis de um grande número das mulheres que foram vêlos. Na verdade. E ninguém previu a avassaladora reação dessas espectadoras a filmes que nunca pretenderam ser grandes sucessos de bilheteria. em geral. as pessoas envolvidas na produção de um filme são as que.“leitores”. entretanto. beirando o fantástico” ou “as mulheres não se parecem. é um espaço volátil.

São. ressaltando o jogo e o poder da diferença que estão aí implicados. Assim como o é a atitude com a qual Louise recebe a frase. conhecíveis. ou se atirarem com o carro no precipício em frente delas. Consideremos. em si e por si. de estilo e estrutura narrativa feitos por um determinado filme. no precipício. é um elemento do modo de endereçamento do filme.endereçamento de suas formulações dos anos setenta. com o carro. 46 . Louise”. Depois de pesarem suas opções. Assim como o é a atitude com a qual Thelma pronuncia a frase. E as duas mulheres se atiram. Louise” não constitui. o modo de endereçamento do filme. múltiplos. por um momento. cambiantes e estratégicos. localizáveis e. que incluíam: serem presas por assassinato e encarceradas no Texas. elementos do modo de endereçamento do filme que se desenvolvem nesse momento. “acelera. penso ser possível dar uma formulação atual ao conceito de modo de endereçamento. não-localizável – é uma relação e não uma coisa. todos eles. Thelma diz: “acelera. endereçáveis. O modo de endereçamento do filme. Mas a frase “acelera. Assim como o é o final que se inicia com a fala e a escuta dessa frase. juntas. Louise”. o final de Thelma e Louise. de teorizações sobre a possibilidade de posicionamentos sociais fluidos. serem imediatamente baleadas pela polícia. nos Estudos Culturais. É um produto da contínua interação entre uma série de aspectos dos usos particulares de forma. com sua dependência do estruturalismo e sua concepção de posições fixas. Considerando a emergência. Aquele segmento de diálogo. portanto. é invisível. lembremos.

Assim. na resposta que ela provoca e no final iniciado por essa frase. de um lado. no momento em que o filme é feito. noticiários. romances. todas as outras frases que poderiam ter sido ditas e foram ditas em outros filmes. É aqui e dessa forma que o modo de endereçamento excede as fronteiras do próprio texto do filme e extravasa para as conjunturas históricas da produção e da recepção do filme. social e historicamente. Em outras palavras. O poder de endereçamento – o que um público faz dele – navega na diferença entre a decisão do cineasta em escolher a frase “acelera. Louise”). O modo de endereçamento consiste na diferença entre o que poderia ser dito – tudo o que é histórica e culturalmente possível e inteligível de se dizer – e o que é dito. o que estou dizendo é que o paradoxal poder de endereçamento consiste na diferença entre. comédias da tevê e. de outro. que relação constitui o modo de endereçamento de um filme em qualquer momento determinado? Como podemos dizer qual relação entre os elementos do filme constitui seu modo de endereçamento e qual relação constitui. O modo de endereçamento envolve história e público e expectativa e desejo. digamos. à plena luz da diferença e dos conflitos entre cada um desses elementos e todas as outras opções disponíveis aos produtores do filme. telenovelas. Louise” 47 . o estilo visual de um diretor particular? O que eu gostaria de sugerir é que o modo de endereçamento do filme nesse ponto de Thelma e Louise consiste na escolha dessa frase (“acelera. na atitude corporificada nessa frase. a frase que foi dita aqui.

a iluminação. E o poder de endereçamento navega nessa escolha (“acelera. mas ainda não disponíveis discursivamente.e todas as outras escolhas que eram histórica e discursivamente possíveis e inteligíveis. algumas pedagogias e alguns currículos talvez funcionem com seus alunos não por aquilo que ensinam ou pela maneira como ensinam. de representar e responder à situação das mulheres. E é esse caráter de acontecimento histórico e cultural do endereçamento que faz com que se torne impossível que os produtores de filmes possam controlá-lo inteiramente da forma que eles controlam. mas porque o modo de endereçamento está “mal sintonizado” – como se o “tom de voz” do filme ou sua “atitude” estivesse em atrito com diferenças ainda não articuladas. Talvez uma determinada pedagogia funcione devido aos significados que os estudantes dão à 48 . em quem eles pensam que são ou em quem eles querem ser? De forma similar. contra o pano de fundo de formas emergentes. (Talvez seja por isso que não seja concedida nenhuma estatueta do Oscar ao Melhor Modo de Endereçamento). mas pelo quem que colocam à disposição dos estudantes – um “quem” que estimula sua imaginação a serem e a agirem de uma determinada maneira. fazendo uma diferença na forma como os públicos obtêm prazer. por exemplo. Louise”). É intrigante considerar isso: é o endereçamento de um filme a seu público a coisa que faz ou impede a popularidade ou a importância cultural de um filme? Não se poderia dizer que alguns filmes “fracassam” não porque suas histórias ou seus atores sejam particularmente ruins.

naquele momento. Talvez uma determinada pedagogia funcione porque essa diferença no endereçamento – essa mudança de endereçamento – transfere seu público de um lugar no qual eles não querem mais estar (mas talvez ainda não tenham sequer se dado conta disso) para um lugar que eles queiram experimentar por um tempo (mesmo sem saber com segurança o que eles farão e encontrarão lá). os educadores não podem cerrar o espaço da diferença entre endereçamento e resposta. Não obstante. quem a atitude ou o tom do endereçamento dessa pedagogia pensa que eles são ou quer que eles sejam e.diferença entre. o currículo e a pedagogia – os veículos pelos quais as instituições e as práticas educacionais endereçam seus estudantes e seus professores – não são “tesouros naturais aos quais faltam quaisquer 49 . o desejo. na medida em que as relações de sala de aula são moldadas pelos antagonismos sociais e econômicos mais amplos bem como definidos pelas relações de gênero e raça. por meio do poder e do conhecimento. muito freqüentemente. Não. a tarefa do professor consiste em neutralizar. a fantasia. por seu prazer. Eles jamais podem impedir o medo. de outro. por seu desejo e por sua ação. competindo por sua atenção. de um lado. entretanto. todos os outros “quem” que estão circulando. eliminar ou distrair os estudantes das diferenças entre o que um currículo “diz” e o que um estudante “pega” – ou compreende – e os voláteis acontecimentos que se passam naquele espaço. o prazer e o horror que fervilham no espaço social e histórico entre endereçamento e resposta. Infelizmente. currículo e estudante.

O INCONSCIENTE E O VOLÁTIL ENTRE-ESPAÇO Além das formas pelas quais os significados e as operações da história e da diferença social interferem com ajustes perfeitos. E o modo de endereçamento. tem a ver. em parte. da Grã-Bretanha. E não estou surpresa que para escrevêlo foi preciso alguém que estivesse profundamente envolvido com os estudos de cinema no exato momento em que a noção de modo de endereçamento estava sendo desenvolvida como um conceito crítico. Donald (1991) localiza sua discussão da instituição da educação no espaço que se abre entre as 50 . p. Ele tem utilizado a mídia para perguntar: “que tipo de instituição é a educação?”. A relação de James Donald com os estudos de cinema desenvolveu-se em relação com seu trabalho como educador na Society for Education and Film and Television. Tentarei explicar. 85). entre os desejos conscientes e os desejos inconscientes.traços de horror humano” (OSTROW. Por isso era inevitável que um educador fosse escrever um livro sobre o monstruoso e a educação (DONALD. 1993. apud WILLARD. com “traços de horror humano”. Ele não vai desaparecer porque está habitado pela diferença entre os conhecimentos conscientes e os conhecimentos inconscientes. visto como uma coisa da educação. há uma outra razão pela qual o rebelde e eruptivo espaço entre o modo de endereçamento de um currículo e a resposta da estudante não vai simplesmente desaparecer. 1992).

Donald argumenta que o espaço da diferença entre o currículo e a compreensão da estudante “é caracterizado 51 . dois momentos de instabilidade. 5). Isso faz com que a relação entre um currículo e a compreensão que uma professora ou estudante tem dele “não seja uma determinação de mão única e nem mesmo uma dialética”. a diferença entre. a compreensão da estudante) “não são. 5). Além de chamar a atenção das educadoras para essa outra cena que se coloca entre a percepção e a consciência. o real “efeito psíquico em termos de sentimento” de uma estudante que entra em contato com eles (p.respostas conscientes e as respostas inconscientes que as estudantes e as professoras dão aos textos e aos apelos educacionais. uma outra cena. Existe uma falta de ajuste entre o lado de fora (o currículo) e o lado de dentro (a compreensão). o trabalho de Donald explora o argumento de que as fronteiras entre o “lado de fora” ou a sociedade (por exemplo. Donald introduz. assim. nunca. de outro. impossíveis de serem impostas. a falta de ajuste. por exemplo. um texto curricular) e o “lado de dentro” ou a psique (por exemplo. entre o lado de fora (a sociedade) e o lado de dentro (o efeito psíquico do sentimento ou a psique individual). E existem fronteiras instáveis. o entre-espaço que se coloca entre a percepção e a consciência” (p. é muito mais interessante que isso. Essa outra cena é a fissura. Ele usa a psicanálise para introduzir a “idéia de uma outra localidade. Não. 2). um outro espaço. de um lado. estáveis ou facilmente impostas” (1992. p. os modos de endereçamento dos materiais educacionais multiculturais e.

no espaço (inarticulado e inarticulável) da diferença entre dois participantes no diálogo.por oscilação. Atravessamos para o outro lado do diálogo. p. deslizamento e transformações imprevisíveis” (1992. 5) do que aquela que está implicada na noção de diálogo. Mesmo aquelas subjetividades envolvidas na socialidade da 52 . em última instância. a fofoca. que o diálogo supostamente transpõe. pensamentos proibidos. “fervilham o rumor. 2). Trata-se da imagem da interação mútua que está freqüentemente associada com a noção de diálogo. são cenas perturbadas por incerteza cognitiva. em seus momentos mais progressistas. De acordo com O’Shea. entre o lado de dentro e o lado de fora. p. “deslizamento” e “transformações imprevisíveis” não são imagens em geral invocadas quando as educadoras falam sobre a compreensão das estudantes. a proibição e a falta” (p. político) podem fugir da dinâmica da vida “interior”. A educação. alivia e. é governada. As fissuras entre o eu e o outro. percepções pouco confiáveis e bastante instáveis. o trabalho de Donald mostra-nos que nem mesmo aquelas subjetividades associadas com a vida pública (por exemplo. abranda. da instabilidade e da confusão “representa uma versão menos asséptica de como existimos no mundo” (1991. Obviamente. Para Donald. a análise que Donald faz do deslizamento. 5). O’Shea (1993) adota os argumentos de Donald por causa das implicações que ele viu para suas próprias práticas docentes. em grande medida. por uma outra imagem de como o lado de fora se ajusta ao lado de dentro. cidadão. permite cruzar. professor. “Oscilação”.

de acordo com essa visão. O que a psicanálise oferece aos professores. Os assim-chamados desejos transgressivos privados e terrores monstruosos têm força em nossas assim-chamadas vidas públicas porque não podemos.“interação mútua” “não estão. “o acadêmico sofisticado e bem-informado”. mas como uma descrição da impossibilidade de seu sucesso e da instabilidade da identidade” (p. nunca. “o indivíduo livre e racional”. 1993. p. desconectadas das fantasias. 504). realizar ou “completar” as identidades que a sociedade exige de nós – “o bom cidadão”. nunca. pode ser mais bem compreendido “não como uma descrição da ‘socialização’. 504) Mas nossos fracassos em efetivar identidades plenas. a educação e com nossas afiliações públicas. É aqui que as formas da cultura popular entram na discussão que Donald faz sobre educação. 504). “o bom pai ou a boa mãe”. não obstante. os filmes de horror. (p. E. o 53 . Isso ocorre porque as fantasias que emergem na “privacidade” de nossos sonhos estão. “o homem ou a mulher ideal”. intimamente conectadas com a cidadania. assim. de acordo com O’Shea (1993). inconsúteis não são patológicos. completas. De acordo com Donald (1992). dos desejos transgressivos e dos monstruosos terrores do tipo que emerge nos sonhos” (O’SHEA. Eles são “normais”. as sociologias da educação que concebem a interação mútua primariamente – quando não exclusivamente – em termos de vida pública são extremamente empobrecidas.

o sublime. não está nos impulsos transgressivos ou nos terrores monstruosos em si. 1993. o grotesco. Não. o estranho. o problema é que os discursos que temos utilizado para pensar sobre a educação e praticá-la mal começam a se dar conta de tudo isso. p. inevitáveis e podem até ser produtivos. os currículos planejados e implementados. Desde o Iluminismo. argumenta O’Shea (1993). da fantasia e da transgressão”. 504). são. todos. afinal. têm sido excessivamente racionalistas” (p. seja do lado da libertação. 504). formas que nos ajudam a lidar com a insegurança e as instabilidades de “nossas” identidades. “seja do lado da socialização. Com “excessivamente racionalistas” O’Shea quer dizer que eles ignoram o fato de que não importa quão cuidadosamente os objetivos sejam estabelecidos. não existe qualquer garantia de que as subjetividades e os conhecimentos sociais oferecidos às alunas serão apropriados de acordo com a intenção com que foram imaginadas.monstruoso. O “problema”. que não pode ser satisfatoriamente identificado” (O’Shea. (p. para Donald e O’Shea. mas de que elas também têm que passar pela “emaranhada e confusa dinâmica do desejo. Eles são. Pois não se trata apenas do fato de que as subjetividades são sempre problematicamente ocupadas. os discursos educacionais dominantes. 504). dada a impossibilidade da socialização e a precariedade da identidade. Esse “eu” é aquilo que é gerado “na fissura entre aquilo que se supõe 54 . 504) Isso resulta naquilo que O’Shea chama de “eu rebelde e não-resolvido” (p. Eles nos ajudam a lidar com “aquilo que não se encaixa.

pois. Longe de ser um impedimento a ser ultrapassado ou resolvido. a auto-identidade plena e completa é não apenas impossível. contra o inevitável fracasso da linguagem. p. essa fissura deve ser adotada pelas educadoras. É precisamente essa fissura que “fornece o espaço da individuação e da agência – o recurso que sustenta não apenas a resistência bruta. Nossos fracassos em nos tornarmos plenamente idênticas com aquilo que as normas sociais querem que nós sejamos ou com aquilo que nós próprias queremos nos tornar – esses fracassos são “incessantemente repetidos e revividos. Donald e O’Shea argumentam. Existe uma resistência à 55 . 504). 5) – identidade consigo mesmo (por meio da consciência) ou identidade com outros (por meio da compreensão). na linguagem. 1993. “no próprio centro da vida psíquica”. ao longo de todas nossas histórias individuais” (p. O fato do inconsciente. 4). de uma vez por todas. “faz explodir a própria idéia de uma identidade completa ou realizada” (DONALD. mas que nós. resistimos a ela. de fato. Donald (1991) argumenta que. momento por momento. contra a fissura entre o que é falado e o que é referido. Isso ocorre porque é impossível dizer tudo. Qualquer tentativa de dizer “eu sou” – de fazer com que a linguagem se torne plenamente idêntica consigo mesma e comigo mesma – me coloca contra os limites da linguagem. 1991. p. contra a impossibilidade de que a linguagem coincida com aquilo de que ela fala. na verdade. mas também a recusa consciente e intencional” (O’SHEA.que sejamos e aquilo que na realidade nós não nos tornamos” (p. 504).

entre o eu e a linguagem.. Ele continua desconfiado de que deve existir algo mais do que as normas e as banais transgressões que estão disponíveis.identidade – ao perfeito ajuste entre. nossas subjetividades e nossas sociedades seriam fechadas. nossos governos.] educação e pela cultura popular. se fosse possível obter ajustes perfeitos entre as relações sociais e a realidade psíquica. Nada a fazer. Completas. Os estudantes e os públicos têm muito em 56 . o eu nunca reconhece plenamente a si próprio. as normas sociais e. Isso é muito curioso para mim. nossas famílias. 4). Nenhuma aprendizagem. (p. a forma como nós sentimos e o que queremos (p. nossas escolas. Mortas. É essa resistência às banalidades da normalização que torna a agência possível: Ao negociar as auto-imagens fornecidas pela [. 95) De fato. Acabadas. A EDUCAÇÃO E O VOLÁTIL E PSÍQUICO ENTRE-ESPAÇO Os educadores simplesmente não têm lidado com questões de endereçamento da forma ou na extensão que os estudiosos do filme o têm feito. nossas normas sociais e nossas expectativas estão nos oferecendo ou exigindo que sejamos. Não haveria nenhuma educação. Parece que paralelos e intersecções entre “estudante” e “público” são inescapáveis.. de um lado. Nenhuma diferença. Essa resistência está ligada a um sentimento freqüentemente inconsciente de que nós somos – de que devemos ser – mais do que os eus que nossas culturas. de outro.

Muito freqüentemente. as fronteiras entre o estudante e o público estão se tornando ainda mais borradas e permeáveis. de atividades baseadas na cultura popular (por exemplo. status social. propósitos e desejos. os livros-texto endereçam-se aos baixos graus de atenção e à familiaridade dos estudantes com esses meios pela utilização de pequenos quadros destacados do texto principal. sexualidade. essas pressuposições estão baseadas em pressuposições adicionais sobre a localização de membros do público no interior da dinâmica de raça. tanto os filmes populares quanto os textos educacionais (tais como livros-texto. currículo. graus de atenção. muita cor e uma 57 . E com o advento dos novos meios interativos e os chamados edutainments [educação + entretenimento]. Parecendo-se cada vez mais com revistas populares e até mesmo com sites da Internet. leituras e experiências visuais prévias. Por exemplo. ideologia. de referências cruzadas. os livros-texto utilizados na educação estão constantemente redesenhando sua “aparência” para atrair públicos estudantis cujas estratégias de leitura e cujos interesses são moldados. de uma forma extraordinária. rendimento educacional. pela televisão e pela música popular. geografia. Dessa forma. estratégias de interpretação. vieses e preferências. gênero. idade. “componha um poema rap”).comum tanto como construtos teóricos quanto como participantes reais no processo de atribuição de sentido. vídeos e softwares educacionais) fazem pressuposições sobre quem seus públicos são – em termos de suas sensibilidades estéticas.

O que significa para os educadores começar a reconhecer o paradoxal poder do endereçamento nos textos educacionais? Quero.abundância de escolhas. cercada por estranhos sons e odores. o diálogo. buscados. e a que custo. desejados. Os vídeos educacionais. ciência estão começando a se endereçar aos estudantes de forma similar àquela dos filmes de ação e aventura de Hollywood. quando agimos como se não existisse nenhum modo de endereçamento no ensino? Muito freqüentemente. freqüentemente tentam se parecer com a MTV Os museus de . os professores endereçam-se aos estudantes de forma planejada para 58 . vídeos educacionais. Tudo isso levanta a possibilidade de discutir os textos educacionais (tais como livros-texto. currículos multiculturais) e as práticas pedagógicas (tais como a interatividade. O que é apagado e negado. os meios utilizados na sala de aula) em termos de modo de endereçamento. instalações de museus. Por exemplo. ao menos nos minutos de abertura e em um esforço para atrair a atenção dos estudantes. utilizar a forma como Donald questiona a educação para explorar o que está oculto quando ajustes exatos ou “corretos” entre o texto educacional e a compreensão do estudante são pressupostos. aqui. a exposição interativa sobre a floresta tropical do Museu de Milwaukee aparece misteriosamente à medida que ando por uma densa floresta visual. sites da Internet. subindo cada vez mais alto até a copa das árvores onde encontro estranhas criaturas que vivem suas vidas inteiras centenas de metros acima do chão da floresta.

mesmo que o estudante não queira “pegá-lo”. é isso que faz uma enorme diferença entre filmes e currículos – “ninguém submete os espectadores a um teste após a sessão de cinema” (comunicação pessoal. especialmente quando se trata de exames e avaliação. 25 de outubro de 1996). compreenda-o. alguns momentos de sala de aula – e idealmente todos eles – têm que resultar em um ajuste entre o que está sendo ensinado e a compreensão do estudante. Como diz Karen Evans. 46). p. históricas e inconscientes que poderiam confundir a compreensão de um texto educacional. 1993. Um ensaio conclui que “o que o tornou tão gratificante foi que as crianças estavam conscientes do que estavam fazendo. BENETT. não se divertiu em “pegá-lo” ou não tem a intenção de utilizá-lo – a educação é um sucesso quando a diferença entre um currículo e a compreensão que dele tem um estudante é eliminada. O importante.eliminar. É esse interesse estreito no ato de compreensão que faz com que seja possível agir como se o modo 59 . é que o estudante “pegue” o texto. em termos dos propósitos da avaliação. Podemos ver essa formulação em ação em um livro progressista recente sobre educação multicultural. minimizar ou conter as emaranhadas coisas sociais. E todo mundo – estudantes e professores – tem que estar na mesma página ao menos em parte do tempo. Para que um currículo ou uma pedagogia “funcionem”. BOWMAN & MORIN. esteja “consciente” dele. quisessem elas prosseguir ou não” (MIZELL. Eu realmente acredito que no fim do ano quase todas as crianças compreendiam que tinham uma estrutura para escrever.

da mesma forma que ocorre entre um filme e seu espectador. suam para tentar prevenir. do prazer e dos jogos de poder? Tais estados são estranhos se a relação que estamos realmente tentando fazer 60 . do prazer. prazer. Convidar os públicos a jogar/brincar nessa e (com essa) desordem é o feijão com arroz dos produtores de filmes. pela coisa incontrolável do desejo. da fantasia e do impensável. em sua maioria. bem como para professores com doze estudantes de pós-graduação que estão escrevendo suas dissertações.. Além disso. acredito. ficam acordados até tarde da noite. Que tal se.. tal como a leitura que um estudante faz de um filme. a relação de um estudante com o currículo fosse um evento confuso e imprevisível que constantemente excedesse tanto a compreensão quanto a incompreensão? Essa perspectiva não tem uma circulação fácil no campo da educação. negar. impedir. medo. ignorar. em sua maioria. Uma coisa dessas é aterrorizante para professores com trinta ou quarenta crianças em uma sala de aula. É aqui que um encontro interdisciplinar com os estudos de cinema pode dar uma sacudida nas coisas – e de forma produtiva. Mas é exatamente planejando eliminar isso da aula do dia seguinte que os educadores. da ansiedade. Entretanto. São exatamente os atos e os momentos de desejo. do medo. do poder. constante e inevitavelmente. poder e desentendimento na sala de aula o que os educadores. da fantasia.de endereçamento não fosse uma questão ou um fator na educação. por que um professor ia querer viver nos domínios da ansiedade. sua leitura de um currículo passa. terminar.

em última instância. Ao se apresentar como desejando apenas a compreensão. quando o “pegam”. as habilidades intelectuais ou as virtudes morais adequadas. a maior parte dos textos educacionais endereça-se aos estudantes como se suas pedagogias estivessem vindo de lugar algum no interior das relações circulantes de poder. benigna. a relação entre currículo e estudante em termos de compreensão e incompreensão significa que. pois. Ele é comumente concebido como uma questão de alguma relação onerosa entre os estudantes e seus contextos e constrições culturais e sociais mais amplos. os textos educacionais endereçam-se aos estudantes como se os textos não fossem de ninguém. Mas o problema de “pegá-lo” é raramente percebido como algum problema com a idéia de compreensão em si. na prática. É certo que os educadores podem ser forçados a entrar nesses perturbadores domínios quando encontramos estudantes e professores que não “pegam” o texto ou que. os estudantes o “pegarão” apenas se eles tiverem as competências culturais.assim. Em outras palavras. geral e genérica. Definir. o sucesso para os professores. E a compreensão não é 61 . alcançável. não o querem.acontecer entre o currículo e o estudante é pura e simplesmente uma relação de “pegar” ou não “pegar”. Isso faz com que a compreensão e sua “expressão” nos testes continue sendo vista como a relação apropriada. Isso permite que a própria idéia de compreensão deixe de ser analisada. desejada e. como se não tivessem nenhum desejo de colocar seus leitores em qualquer posição exceto a de uma compreensão neutra. definindo.

Entretanto. desejo e poder. 7). por sua vez. os termos de seu endereçamento tentam “colocar” os estudantes no interior de relações de conhecimento. Um ajuste perfeito entre eu e sociedade. desejo e poder. o espaço da diferença entre o texto daquele que fala e a resposta daquele que escuta? A própria crítica da educação feita por Donald conduz a essa questão. p. Isso é verdade mesmo na prática pedagógica supostamente “democrática” do diálogo. é uma impossibilidade (1991. 62 . sem qualquer referência às (ou ao aproveitamento das) fissuras entre textos e leitores. O que é apagado e negado – e a que custo – quando agimos como se fosse possível eliminar. extraída da psicanálise. o estudante ideal ou imaginado e o estudante real. por meio da compreensão. respondem aos modos de endereçamento em termos que colocam os professores e os currículos no interior de relações circulantes e conflitivas de conhecimento. entre relações sociais e realidade psíquica. modos de endereçamento e interpretações do espectador. E isso significa que também são impossíveis ajustes perfeitos entre texto e leitura. supostamente. a compreensão é tanto neutra quanto universal. E os estudantes. mesmo quando os professores estão se endereçando aos estudantes com uma atitude ou com um tom de voz “neutro”.realmente vista como posicionando os estudantes por meio de um modo particular de endereçamento porque. Ele baseia sua crítica na idéia. no diálogo. a educação multicultural e os sentimentos reais dos estudantes sobre raça. currículo e aprendizagem. de que ajustes perfeitos são impossíveis.

Mas os sociólogos da educação raramente pensam na resistência em termos do que acontece no espaço da diferença entre o lado de fora (o social) e o lado de dentro (a psique individual). resultante de problemas com suas capacidades cognitivas. pois. os estudantes “pegam” o que está sendo ensinado. grau de atenção ou motivação. segundo essa perspectiva. uma alternativa a essa perspectiva que vê o ensino 63 . os estudantes recusam-se a se conformar.Parte do projeto de Donald como educador consiste. quando os estudantes resistem mesmo antes que compreendam o que eles supostamente devem aprender. tentam apreender a forma pela qual os estudantes “retrucam” ao que estão aprendendo. Existe. então a resistência é freqüentemente patologizada como alguma disfunção ou ruído em sua capacidade de compreender. nos discursos educacionais. em acrescentar os trabalhos do inconsciente às razões já em circulação para explicar por que os educadores não devem ver a relação entre o currículo do professor e a compreensão do estudante como uma relação de determinação unilateral. ainda segundo essa perspectiva. Em vez disso. Ou. a resistência é freqüentemente vista como aquilo que os estudantes fazem depois que eles já alcançaram a compreensão. entretanto. As teorias sobre a “resistência” do estudante ao conhecimento escolar oficial. por exemplo. Em outras palavras. As atuais formas de pensar e ensinar não oferecem muitas alternativas a essa formulação. mas por causa dos contextos sociais e culturais de desigualdade que incidem sobre a relação estudante-professor. mas existem umas poucas.

As educadoras freqüentemente associam diálogo com democracia. Estou me referindo à relação de duas mãos entre o texto e o estudante chamada “diálogo”.como uma relação de determinação unilateral entre o currículo e a compreensão do estudante. Ele é apresentado como uma forma de satisfazer desejos comuns e partilhados por compreensão mesmo que permaneçam diferenças de opinião e poder. é 64 . visto como uma estratégia de ensino. o estudante). o currículo) e o lado de dentro (a psique individual. Elas convocam o diálogo como um meio de assegurar que. elas estão sendo abertas (em oposição a serem dogmáticas) e que elas estão dispostos a serem mudadas (em oposição a serem ditatoriais) pelas compreensões racionais (em oposição às paixões e aos auto-interesses irracionais) a que elas acabam chegando. quando as estudantes e as professoras interagem. Na verdade. O DIÁLOGO COMUNICATIVO AFIRMA: “NENHUM MODO DE ENDEREÇAMENTO AQUI!” As educadoras constantemente invocam o diálogo como um meio para se chegar à compreensão sem imposição e de uma forma mais democrática do que a da determinação de mão única. ela supõe alcançar a compreensão pela eliminação do espaço da entre-diferença. É essa a alternativa que mais me interessa porque ela realmente se endereça ao espaço da diferença entre o lado de fora (o social. como um condutor supostamente neutro de significado e intenção. Mas o que acontece quando o diálogo.

uma relação socialmente construída e politicamente interessada. Ele não é. o diálogo não é um estado natural do qual nós. As regras e os movimentos e as virtudes do diálogo. em um mundo cronicamente carente de comunicação.questionado sobre seus próprios interesses e intenções? A despeito do que está implícito em grande parte da literatura atual na educação. Ele tampouco é a estrada real para a comunicação e a conexão. com intenções que fazem parte intrínseca de sua própria lógica. algumas vezes. de forma simplista. não são neutros – eles oferecem “lugares” muito particulares às professoras 65 . ele próprio. a realização suprema da civilização ocidental. Trata-se de um instrumento socialmente construído. tampouco. O que escapa às discussões sobre o diálogo em educação é isso: o diálogo – como uma prática de ensino advogada em quase toda a literatura educacional – é. precisando da ajuda das professoras para recuperá-lo. nos afastamos. uma forma ideal de interação social que os outros da civilização ocidental deveriam se esforçar por alcançar. considerado como uma forma de pedagogia. como uma conversação entre grupos interessados na busca de uma compreensão mútua ou como um meio mais teoricamente inspirado de constituir uma relação social transformativa entre os falantes. O diálogo como uma forma de pedagogia é uma prática histórica e culturalmente plantada. O argumento que quero desenvolver aqui é que quando as professoras praticam o diálogo como um aspecto de sua pedagogia. Não importa se as educadoras apresentam-no. elas estão empregando um modo de endereçamento.

construir virtudes morais e diminuir o racismo ou o sexismo até satisfazer desejos por comunicação e conexão. escapa e muda de forma imprevisível? O que acontece quando aquela ponte de duas mãos é habitada por medos. história e diferença? O diálogo no ensino não é um veículo neutro que carrega as idéias e as compreensões de quem fala para lá e para cá. horrores humanos. implantar processos cooperativos. na verdade. é uma ponte instável que oscila.e estudantes no interior de redes de poder. Mas não é assim tão fácil. assegurar a democracia. estudante e professora. assegurar a compreensão. Supõe-se que o diálogo seja capaz de tudo: desde construir conhecimento. através de um espaço livre e aberto entre os dois pontos. E é precisamente isso que parece acontecer em muitos discursos e práticas educacionais. estudante e estudante. Negar que o diálogo seja um modo de endereçamento estruturado na história e. Ele é um veículo desenhado com uma tarefa particular em mente e o acidentado terreno entre falantes que ele atravessa faz com que 66 . inspirado por interesses particulares. resolver problemas. O que acontece com o diálogo-como-uma-estratégia-de-ensino tendo em vista a insistência de Donald no estado confuso e emaranhado do espaço entre o lado de fora da sociedade (do currículo) e o lado de dentro da psique individual (da compreensão do estudante)? O que acontece quando a ponte de – supostamente – duas mãos do diálogo entre estudante e texto. desejo e conhecimento. significa conceder-lhe um status transcendental.

E essa é a crise social. Se eu não respondo do lugar situado no interior da relação social construída e interessada chamada diálogo. por interesses e pela ignorância. a outros. não importa quão “imparciais” ou “abertas” sejam suas intenções. atravessado pela história. quando ele falou sobre ser endereçado – chamado – como um “crioulo”. então isso significa que você também não é aquilo que você pensava que era. ela me convida para uma prática particular que também existe em relação àquelas histórias. não podem deixar de se colocar em relação a mim. “Se eu não sou o que dizem que sou. quem o endereçamento do diálogo pensa que eu sou. 67 . etnia. à história.haja uma passagem constantemente interrompida e nunca completada. o espaço entre um endereçamento e a resposta de um estudante é um espaço confuso e emaranhado. E aquelas pessoas que iniciam o diálogo. política e pedagógica provocada se eu ouso recusar-me a fazer dos interesses que subjazem à relação dialógica os meus próprios interesses. disposta a ser. 8). sexualidade. à qual você falou quando se endereçou a mim. nunca é exatamente quem eu fui ou que estou querendo ser. Quando alguém me convida para o diálogo. Por exemplo. exatamente da mesma forma que o filme Jurassic Park pensa que eu sou. interesses e ignorâncias e neles está envolvida. raça. Especialmente nos currículos e nas conversações sobre gênero. James Baldwin (1963) enfrentou isso em “Uma fala para os professores”. capaz de ser. E é isso que constitui a crise” (p. então também você não está no lugar que você pensava.

dobras e reviravoltas. 167). 167). na qual o currículo determina a compreensão? Ou nem mesmo como a rua de duas mãos composta daquelas versões do diálogo governada por regras nas quais os trajetos acabam se encontrando e. inspecionar ou regular diretamente os espaços abertos pelos ajustes imperfeitos entre o que os currículos dizem que nós supostamente devemos ser e aquilo que na realidade não nos tornamos. p. então. prescrevemos várias versões do diálogo para ensinar sobre e através da diferença social e cultural – e. O que impede os professores de obter objetivos pedagogicamente prescritos. voltas e retornos inesperados? Gostaria de enfatizar a diferença produtiva entre. Trata-se de um obstáculo que também (e afortunadamente) “impede a possibilidade de vigilância total” (p. alegremente se separam em uma terceira – e mutuamente consentida – direção? Que tal se a relação entre currículo e estudantes fosse desenhada como constituída de oscilações. educar um indivíduo virtuoso em uma boa sociedade. 68 . 1993. por exemplo. como. de outro. de um lado. É isso que quero dizer com “indecidível”: não podemos observar. a idéia de que o ensino é indecidível. de mão única. o pensamento de que nós sabemos o que estamos fazendo como professores – quando.ENSINANDO: AS COISAS NÃO SÃO O QUE PARECEM E se a relação entre o currículo e a compreensão do estudante não puder ser desenhada como uma estrada linear. é o espaço entre a percepção e a consciência – e esse espaço constitui “um obstáculo à transparência” (BAHOVEC. por exemplo.

(a partir do lado de fora). mas é também impossível de ser conhecido pelo indivíduo em questão (a partir do lado de dentro). do não-registrado. O espaço nos quais eles operam não é transparente. argumenta Donald (1992). professores. 505) É aqui que.Ninguém. por meio do inarticulado. descobriu “exatamente como as normas sociais afetam a textura de nossa experiência ou como elas são transformadas nesse processo” (p. nós sabemos porque nós podemos tanto observar esses processos em outros quanto surpreender a nós próprios em processos culturais similarmente “inconscientes”. 1993. entre a percepção e a consciência escapa à observação e ao controle direto por parte dos professores. por meio do hábito e da “segunda natureza”. 92). rotineiramente. não podemos observar diretamente a desordenada dinâmica do desejo. na análise de Donald. Não se trata apenas de que aquilo que ocorre nos espaços entre o social e o individual. da fantasia e da transgressão que inevitavelmente descarrilham os conhecimentos e as identidades sociais que nossos currículos oferecem aos nossos alunos – ou a nós próprios. Nós também sabemos que agimos contra nossas melhores intenções ou fracassamos em fazer o que “queremos” fazer. (O’SHEA. 69 . a educação se torna mais parecida com um filme de horror do que com um programa de notícias. Mas nós sabemos que o “entre” que fica entre a percepção e a consciência está lá – mesmo que não possamos vê-lo ou controlá-lo: Nós “sabemos” que os processos culturais operam. p. Nós.

se prestarmos atenção às formas culturais populares. por meio de alusões literárias. especialmente aquelas. e por meio dos momentos em que a análise ou o raciocínio briga com a escrita. Em vez disso. de acordo com Donald. e na obsessão com alienígenas. 70 . para ajustar o social ao pessoal. Ao se perguntar quê tipo de instituição é a educação. depois de nossas desordenadas tentativas para ajustar nossos eus àquilo que supostamente devemos ser. Mas essas dinâmicas podem ser acessadas indiretamente. tal como nos filmes The X Files [Arquivo X]e Independence Day. Pode-se interagir com elas e responder a elas de forma indireta. como na psicanálise e na crítica literária. por meio da diferença entre endereço e resposta. ele não estuda os filmes instrucionais produzidos pela Encyclopedia Britannica. por meio da atenção àquilo que não se ajusta. metafórica. Essas sangrentas sobras sobem à superfície (não muito) metaforicamente nas partes corporais desmembradas e na violência sexualizada e histérica de filmes tais como Pulp Fiction [Pulp fiction: tempo de violência]. Podemos ir em direção a esse conhecer indireto. que são feitas das sobras lascadas que deixamos para trás. Elas podem ser acessadas indiretamente por meio da atenção às ausências que estruturam o que está presente.É por isso que Donald (1992) estuda os filmes de vampiro. fazendo a mesma coisa que se faz em outros campos. como os filmes de horror. metafórico. Donald baseia seu trabalho nessa idéia: a rebelde e não-resolvida dinâmica do eu e da sociedade que reina naquele espaço entre a percepção e a cognição não pode ser diretamente observada ou regulada.

quando se introduz a idéia de uma outra localidade. Nos filmes de horror e de fantasia.Em Roseanne. do bom filho e da boa filha. Não estamos mais falando sobre a oculta ideologia do currículo. de uma outra cena – o entre-a-percepção-e-a-consciência – nas discussões sobre conhecimento. aprendizagem e compreensão. os educadores podem aprender algo sobre educação ao estudar a cultura popular – especialmente os gêneros do horror e da fantasia. os des-feitos e os re-feitos hilariantes e cruéis d’A Família como uma Instituição Americana estão baseados nos desejos. à “rachadura interna” da educação. o que parecem. em vez disso. Chegamos. nós estamos excedendo o currículo oculto. as coisas não são. Assim. argumenta Donald. nunca. Não estamos mais fazendo perguntas que já anteciparam suas próprias e corretas respostas. a qual “não pode ser resolvida” (BAHOVEC. do bom pai. nos medos e nos anseios que são violentamente truncados pelos mitos americanos da boa mãe. p. entre aquilo que uma professora “sabe” e aquilo que ela ensina. entre aquilo ao qual o diálogo convida e aquilo que chega sem ser convidado. que pode ser trazida à luz e determinada por meio da análise. Quando um educador como Donald começa a explorar os significados da psicanálise para a educação. 171). tais como “o conhecimento de quem é ensinado e a quem beneficia?”. de um outro espaço. Chegamos à impossibilidade de ajustes perfeitos entre aquilo que um professor ou um currículo quer e aquilo que um estudante compreende. entre aquilo que uma instituição educacional quer e aquilo que o corpo estudantil responde. 71 . 1994.

da sexualidade. para Freud. pela qual o natural tornase não-natural e sobrenatural. 171) A rachadura não possível de ser resolvida dentro da própria educação. à perversão que vem de fora e à que advém de dentro. também na educação “ninguém pode estar seguro de antemão de obter resultados insatisfatórios [ou satisfatórios]” (FELMAN. p. mesmo 72 . o virtuoso torna-se totalmente pervertido. 1987. o bem-intencionado e prescrito pelos fins da educação revela uma rachadura interna que não pode ser resolvida. 70). 171)? O que ocorreria se a negatividade não viesse de fora e não pudesse ser dispensada? A educação esbarra na impossibilidade básica de se colocar um limite relativamente ao mal. seus perenes fracassos para produzir resultados sociais desejados ou para proteger suas jovens mentes de suas próprias sombras e daquelas da sociedade por meio da razão. O eu não pode ser perfeitamente adaptado às normas sociais. (p.. habitado pelas figuras da loucura.Que ocorreria se não houvesse nenhuma divisão nítida..4 A frágil fronteira é apenas aquela da “volta do parafuso”. Como diz Donald: Promessas exageradas sobre a realização da criança e o desenvolvimento da sociedade são incessantemente quebradas na prática. imposta-por-meio-das-regras-do-diálogo-ouda-pedagogia-crítica entre “a autoridade da razão e seu outro lado. observa Freud. uma das profissões impossíveis. da morte e do diabólico” (p. Tal como na psicanálise e no governo. da compreensão e do diálogo torna a educação.

quem se importa com a razão? (WILLARD. as pessoas que se localizam e trabalham na rachadura interior do terreno da educação – professores 73 . esperando. Mas o que ele aprendeu. O que ocorreria se os professores se tornassem tão curiosos sobre a produtividade de nossas continuamente remodeladas ignorâncias.que por meio de técnicas cada vez mais difundidas de educação. A forte luz da razão coloca até mesmo nossas sombras para correr. 3) Donald diz que ele se voltou para a psicanálise. em vez disso. Mas à noite. foi “que essa ‘impossibilidade’ é menos uma disfunção do que um signo do necessário fracasso da identidade na psique e no fechamento do social” (1991. Sociedades e indivíduos inacabados bem como ajustes fracassados entre o social e o individual são necessários para que sejam possíveis a agência. p. faltas de ajuste e limitações do saber quanto têm sido sobre a forma como obter uma compreensão plena e completa? Somos conduzidos para fora da caverna de Platão por meio de uma série de desilusões. 1993. p. a criatividade. (p. 80) Nenhuma compreensão? Nenhuma razão? Nenhum diálogo? Nenhuma educação? E. entretanto. inicialmente. encontrar algumas pistas para superar os frustrantes fracassos da educação e da política para produzir resultados sociais desejados. quando nossas vidas nos fazem retornar aos sonhos. governo e terapia. a paixão pela aprendizagem e as transgressões – e não a conformidade – relativamente às relações de poder. 8).

E a forte luz de nossos currículos pode colocar até mesmo nossas sombras para correr. para tornar-se curioso outra vez. o currículo) e o lado de dentro (a consciência. lêem. para serem involucradas em nossas vidas conscientes dos momentos de vigília. predizer ou imaginar. Mas enquanto fogem. O que se torna inescapável e intrigante para mim é isso: nossas vidas nos fazem retornar ao sonho inclusive – talvez especialmente – sob as luzes florescentes de nossas aulas sobre a diferença social e cultural ou das nossas aulas que atravessam a diferença social e cultural. escrevem. 74 . E eu decidi.. Lacan – ainda assim ensinam.dedicados e “críticos” como Donald. perseguir meu desejo em outro lugar.. . nunca. Estou agora ficando curiosa sobre os significados para mim. da forma como eu tenho sido ensinada a pensar e a praticar. torna-se impossível. Enquanto entretenho essas idéias. aprendem. elas escorregam e dão meia-volta e se deixam apanhar e se perdem e acabam retornando. das borradas e permeáveis fronteiras entre aquilo que os discursos educacionais têm tradicionalmente considerado como sendo o lado de fora (o social. apenas para retornar às sombras a partir de um lugar que não podemos. como uma educadora. o sentimento). como professora.. a cognição. Felman. para se sujeitar de forma renovada à forte luz da razão – apenas para ser posto a correr outra vez em uma nova e inesperada direção. a educação.. transformadas pela jornada em algo irreconhecível ainda que familiar e de uma forma estranha – material novo ainda que antigo.

King Kong. New Formations. D.Notas 1 Na tradução deste artigo. no seu clássico “Notas sobre camp”.)” (p. de Schoedsack. “professores/as”. no texto. ensaio uma nova forma de lidar com a questão do sexismo na linguagem. estranho que pessoas sofisticadas em questões de poder.). Na definição do American Heritage Dictionary (edição eletrônica). 75 . política e linguagem continuem isentando a gramática de qualquer cumplicidade na perpetuação de relações de desigualdade. afirmar que “o masculino em português é neutro” e por isso não há nenhuma razão para considerar sexista sua utilização generalizada para se referir aos dois gêneros. vestidos com franjas e missangas. 318). especialista em questões de linguagem e educação. Recentemente ouvi uma respeitável intelectual. etc. “a essência do camp é sua predileção pelo inatural: pelo artifício e pelo exagero” (p. De acordo com Susan Sontag (1987). Apesar das dificuldades de lidar com essa questão em uma língua extremamente flexionada como o Português. vestuário feminino da década de 20 (boás de plumas. 1993. continuo achando que vale a pena tentar encontrar soluções (N. 321) (N. óperas de Bellini. E. do T. camp é “banalidade. Parece que a gramática é o transcendental.). vulgaridade ou artificialidade. por exemplo. popular culture and the regulation of liberty). “Turning the screw of Sentimental education (resenha do livro Sentimental education: schooling. para mim. das professoras e dos professores de português (ou de gramática?). Em vez de utilizar. procuro alternar. É. do T. O lago dos cisnes. quando deliberadamente afetada ou quando apreciada por sua ironia”. p. Exemplos de camp: “lâmpadas Tiffany. entre o masculino e o feminino. 2 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHOVEC. irredutível e intocável. 165-172.

“Dance and social fantasy”. Os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. A. 1985. and stories. 318-337. Susan. J. SONTAG. p. Londres: Mcmillan Education: 1991. Gender and generation. FELMAN.. Simonson e S. Jacques Lacan and the adventure of insight: Psychoanalysis in contemporary culture. Londres: Routledge & Kegan Paul. 1987. p.). Media.). 1992.). Nava (org. Perry e J.). Walker (org. Nova York: Pantheon Books. 3-12. Cambridge: Harvard University Press. WILLARD. L. 1976. S. 1993. O’SHEA. Belo Horizonte: Autêntica. COOK. (Os capítulos 1. In: Contra a interpretação. Cinema and spectatorship. BOWMAN. 76 . 1963. 1993. “Notas sobre camp”. N. 1993. J. Nova York: Routledge. 1982. Londres: Comedia.BALDWIN. ancestors. The devil finds work. MASTERMAN. Psychoanalysis and cultural theory. 4 e 5 deste livro encotram-se traduzidos para o português em Tomaz Tadeu da Silva [org. “A talk to teachers”. “Differente ways of seeing: teaching in an anti-racist school”. L. tanding the movies. Mult-cultural literacy. S. 2000). 1987. Porto Alegre: LPM. popular culture and the regulation of liberty. Teaching the media. A. MIZELL. 15. J. KUHN. J. Freedom’s plow: . 503-510. p. MAYNE. Nova York: Routledge. Londres: Verso. L. p. Culture and Society. W Fraser (org. BALDWIN.]. 27-46. DONALD. Pedagogia dos monstros. In: R. Nova York: Dell. Resenha do livro Sentimental education: schooling. 1985. McROBBIE. Nova York: Harcourt Brace: 1993. B. Telling time: angels. 1984. e MORIN. J. Londres: McMillan. P (ed. Saint Paul: Graywolf. In: T. The cinema book: a complete guide to unders. A. BENETT. Sentimental education: schooling. DONALD. McRobbie e M. Women’s picture: feminism and cinema. teaching in the multicultural classroom. popular culture and the regulation of liberty. In: A.

Corpos sem órgãos: esquizoanálise e desconstrução Marcus Doel 77 .

78 .

nós não deixaremos que o façam. (DELEUZE & GUATTARI. Como qualquer espécie em risco de extinção. nós salvaremos ou reabilitaremos o sujeito. eles pensaram que podiam fazê-lo. o retorno do sujeito. o sujeito deveria ser registrado em termos de sua inscrição genealógica no interior de diferentes aparatos sociais. de acordo com sua evolução e 79 .Não há viagem que não seja esquizofrênica. (DERRIDA. 113) Precisamos contar a estória do sujeito e mapear sua trajetória. portanto. 1988a. uma promessa: nós faremos justiça. ele acusa: eles tentaram “liquidar”. p. 232) AURORA DO MORTO O diagnóstico de “liquidação” demonstra em geral uma ilusão e uma ofensa. Um slogan. O diagnóstico implica. 1966. p. portanto: um retorno ao sujeito.

E. algo inumano ou não-humano? Ou talvez devêssemos tentar reviver. podemos 80 . um começo que esteve sempre e já em declínio. a dispersão e a liquidação do sujeito: o sujeito. há a convicção de que a catástrofe já ocorreu e de que estamos vivendo em uma zona morta – ou em um período de espera – assombrada pela morte do sujeito. Daí a urgência teórica. uma comunidade. entretanto. Haverá umOutro sujeito. uma infestação maquínica. muitos autores aceitaram e internalizaram jubilosa e prontamente a morte. pode-se já discernir o esboço de um motivo dominante – o sujeito como local de catástrofe. caso se trate. nada. de fato. ressuscitar ou rejuvenescer o sujeito a fim de dar-lhe uma sobrevida? Além disso: na medida em que a filosofia do sujeito foi sempre apenas um pseudocomeço. 1988). Como um ponto de partida. política e ética da questão especulativa: quem vem depois do sujeito? (Topoi. poderíamos fazer uma incursão nas inúmeras disciplinas e perspectivas em que existe um sentimento crescente de desconforto e pressentimento a respeito da sorte do sujeito. do declínio terminal do sujeito. acompanhado por um consenso que se torna rapidamente ossificante: o dinamismo do sujeito finalmente se esgotou e está agora destinado a entrar em um processo de decadência terminal. marginalizar e reprimir todos aqueles “outros” dos quais derivou seu lugar e seu poder. uma nova forma de esquizofrenia. um começo que só serviu para dissimular. um ciborgue. um niilista suicida. continuam incrédulos frente a essa hipérbole. De fato. contudo. que horror! Muitos. Para muitos.mutação no interior de uma sucessão de contextos permeáveis e cambiantes.

com o advento do pós-estruturalismo e do pósmodernismo e. algo mais desejável possa finalmente ter a chance de ocorrer: lance de dados. mãos. Finalmente. em geral. SOPER. Ao considerar a sorte do sujeito. com freqüência entregando-se a uma busca heróica pela restituição do sujeito por meio da sua re-alocação. 1988. rosto. HARLAND. com a obra de Louis Althusser. 1987. Em suma. 1990). Alguns poucos tentam deleitar-se com o que eles percebem como sendo as conseqüências apocalípticas de uma forma virulenta de anti-humanismo (KROKER E COOK. 1987. seja por meio da introdução de uma série de substitutos que tomariam o lugar do sujeito ou então por meio de um enquadramento desse etéreo termo em uma variedade de partes corporais: pele. 1986). LAND. da sua reabilitação e da sua reconstrução (ROSEN. 1985. No rastro deixado pelo sujeito. olhos. o discurso dominante tem sido um discurso de catástrofe e exaustão. 1987. o corpo não é mais o obstáculo que separa o pensamento de si próprio. órgãos genitais. tem havido uma série de tentativas de literalmente corporificar o sujeito. 1992). Muitos mais se envolvem em uma nostalgia e em uma lamentação por aquilo que foi perdido.apenas esperar que no rastro deixado pelo sujeito. Gilles Deleuze. tornou-se outra vez possível situar corpos humanos que vivem e que respiram (NICHOLSON. 1985). Jean Baudrillard. em particular. MEGILL. Jacques Derrida. Michel Foucault. Jacques Lacan e JeanFrançois Lyotard (DEWS. pés. aquilo que tem que ser 81 . LAWSON. um discurso que se tornou associado.

p. essas versões são dominadas pelo sentimento de uma forma de subjetividade danificada. Em contraste com o anseio por um sujeito imortal. pois: alegria. Em outras versões. pelos discursos que circulam através dele. O sujeito é. o momento negativo é mais modesto. de que ele é fixado por uma infinidade de aparatos sociais. universal e abstrato. e pelo tecido material que o amarra. ressurreição. Daí a inclinação ao pranto. disfuncional ou limitada. em vez de um declínio absoluto. (DELEUZe. incorpóreo. manifestando-se em temas como morte. É. E na medida em que esse evento negativo constitui um declínio terminal e irreversível. aniquilamento e desaparecimento. pelos poderes que o saturam. aquilo no qual o pensamento mergulha. é inútil e inoportuno tentar recuperar um tal sujeito.superado para se chegar ao pensamento. Especificamente. O que une cada uma dessas respostas é o fato de que elas estão todas baseadas em algum evento negativo que teria ocorrido ao sujeito abstrato e universal. há uma insistência no fato de que o sujeito é limitado. à vida. liquidação. 1989. substituição e corporificação. a fim de chegar ao impensado. pelas linguagens que o ocupam. um declínio relativo. defeituosa. expressando. Em algumas versões esse evento negativo é verdadeiramente apocalíptico. pelos desejos que o movem. dissolução. Em particular. lamentação. a-histórico. nessas versões. isto é. restituição. ao contrário. o sujeito é – por meio de uma série de constrições – encolhido: pelos arranjos maquínicos que o constroem e o animam. 189) No rastro deixado pelo sujeito tem havido. nostalgia. ao riso ou à indiferença. com 82 .

é que essa despossessão ocorre por meio de um duplo movimento: uma vez por meio da re-imersão do “eu” universal nos contextos singulares nos quais ele se expressa. um produto. a singularidade situada torna-se a própria vida. com as suas ligações e conexões. produzindo. é importante enfatizar que esse não é um movimento negativo na medida em que uma negação do sujeito necessitaria ou uma negação da negação (fazendo surgir uma nova positividade por meio da suprassunção [Aufhebung ]: a chegada de um-Outro sujeito) ou uma forma 83 . Em outras palavras.(DELEUZE & GUATTARI. entretanto. Além disso. O que há por toda parte são máquinas e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas. essa produção maquínica do sujeito contextual é apenas um constrangimento. da perspectiva de um desejo de escapar ao caráter localizado e finito do humano. uma máquina. No momento em que se debilita a força desse desejo. Uma máquina-órgão está ligada a uma máquina-origem: uma emite o fluxo que a outra corta . outra vez. o sujeito é o contexto no qual ele é produzido: uma-obra-em-processo. Entretanto. por meio da re-inscrição do “eu” individuado no interior dos aparatos sociais que o animam e o sustentam. sempre que se fala do declínio absoluto ou relativo do sujeito. p.certeza. mas uma máquina que é montada e articulada em um lugar apropriado. uma-obra-como-processo. O que é difícil de apreender. 7) Conseqüentemente. 1966. está-se indicando que o sujeito é despossuído de seu eu. O sujeito é articulado duas vezes: a produção maquínica de uma máquina produtiva. e.

extrema de niilismo que buscaria bloquear e frustrar um tal efeito de ressurreição. Conseqüentemente. que horror! É precisamente nesse sentido que o declínio do sujeito na teoria social contemporânea continua assombrado por uma ressureição e pelo retorno do reprimido. Em particular. as duas se entrelaçam. Entretanto. o lugar do sujeito é sempre tornado disponível a um-Outro ocupante. p. embora essas duas linhas pareçam se bifurcar e divergir. para que não fiquemos presos no movimento em espiral das duas linhas de uma tira de Möbius que parecem passar pelo lugar do sujeito. e a segunda buscando um simples dispêndio sem retorno (morte pura e simples). O sujeito vampírico. Seja lá qual das linhas for seguida. então. é importante insistir que a ex-propriação do sujeito abstrato e universal é afirmativa e não negativa. realmente. com a primeira progredindo por meio de investimento e acumulação (uma perfeição dialética). reunidas em uma série de corpos fragmentados e subjetividades 84 . da des-construção e re-construção do sujeito (algum sujeito deverá existir). pode-se observar como a des-construção do sujeito invariavelmente produz um jorro de partes do corpo que são. 1988. para espreitar os limites de um duplo vínculo. 103). Enquanto a primeira linha traça a recorrência eterna da construção maquínica. Daí o fato de que toda resposta à negação do sujeito é sempre acompanhada pela questão especulativa: quem vem depois do sujeito? Mesmo na morte. a segunda traça o movimento de uma construção anterior que resulta em uma destruição irreversível (não existirá nenhum sujeito). o sujeito subsistirá por hipertelia: “Estou – morto” (COURTINE.

na realidade. Especificamente. É uma faculdade positiva.. 85 . (MASSUMI. A assim chamada fragmentação exibida pelo corpo “pre-edípico” é. gostaria de. quero problematizar a fragmentação. brevemente. demarcar o terreno da filosofia vampírica do sujeito que “continua a viver” até mesmo na esteira de seu próprio declínio – relativo e absoluto.. distinguir esse parcelamento das partes-do-corpo por meio de uma sucessão de combinações e permutações arbitrárias a partir dos Corpos sem Órgãos (CsO) que emergem na esteira de uma experiência esquizo-analítica e desconstrutiva.. antes de passar ao mapeamento do sujeito esquizo-analítico na desconstrução. a fractalidade de objetos-parte.. 85) Entretanto. o CsO não é um corpo fragmentado. um retorno da fractalidade. neste ensaio. na verdade... Fora da ordem simbólica edipicamente organizada diz-se que existe apenas um corpo infantil indiferenciado (o OsC: órgãos sem um corpo). não é o resultado fraturado e disfuncional de uma totalidade partida.partidas: nacos de carne embrulhados em envelopes de pele e carimbados com as marcas da rostidade. Não uma regressão: uma invenção. p. a liquidação e a ressurreição do sujeito universal e abstrato e ressaltar a necessidade de uma afirmação. Não é uma negatividade em contraste com a qual uma plenitude pode ser desejada. Um retorno ao corpo sem órgãos é. Tentarei. não a debilitante falta de uma velha unidade mas uma capacidade real para uma nova conexão. 1992. trabalhando em um estado pre-lingüístico de confusão imaginária entre (a fusão com) o eu e a mãe-outra1. Em particular. uma re-emergência do virtual.

ela se torna uma proliferação de fissuras que convergem em um vazio. Ele é o centro da identidade. da presença e da diferença. p.. 19-21) Convencionalmente. Todo passo cai em um vazio. Assim que acabamos de ter uma unidade. Por um lado. Em suma. de forma indicial. o sujeito é uma figura de universalização na medida em que é o grau-zero da humanidade. dos movimentos fissíparos que atravessam o lugar do sujeito.. cumpre duas funções distintas na topografia da teoria social: universalização e individuação. O ser é fractal. Assim que temos uma multiplicidade. O sujeito é o sujeito e. toda apresentação e diferenciação. Em si mesmo. antes que eu seja alguma coisa. estável e inabalável. indivisível e eterno. O sujeito é Um: universal. supõe-se que o sujeito é idêntico a si mesmo. portanto. ele é o ponto – o lugar no mapa – que perdura.. o sujeito precede toda identificação. esse movimento do individual ao universal 86 . o lugar ao qual. Além disso. Assim que temos uma dualidade. o evento tem apenas extinção. CORPOS FRAGMENTADOS Fraturado. ela se torna uma dualidade. ela se torna uma multiplicidade.em vez de uma negação. Embora seja a condição de possibilidade da identidade. Seu sucesso é sua evaporação na infinita interação de seus agitados componentes.. Eu sou. o re-conhecimento se transfere – por meio dos corpos e faces individuais – para o lugar do sujeito universal. (MASSUMI. tudo. 1992. todas as características humanas se referem e deferem (eu sou – sujeito).

Daí o fato de que a carne e os corpos são sempre sedimentados. o sujeito não pode cumprir sua função de universalização. se fixem no rosto e submirjam no fluido. mas existe sempre o risco de que o olhar e o re-conhecimento se apeguem ao corpo. O corpo nunca é. Em suma. um agenciamento de aparatos sociais agarra violentamente 87 . O sujeito só existe em seus efeitos. O sujeito é o sujeito. eu sou desembrulhado em você. De fato. Os corpos são os inimigos do sujeito. o sujeito é também uma figura de individuação na medida em que só pode se expressar por meio de corpos e rostos. E sem uma necessidade de pele. É por isso que a proliferação. o tecido material do corpo pode frustrar a passagem em direção ao lugar do sujeito universal e abstrato. Sozinho ele está. face ou fluido. estratificados e atravessados pelo duplo movimento de universalização e individuação que os envelopa com a pele e os carimba com o rosto – eu sou embrulhado em mim. sem um corpo ou um rosto através dos quais passar. carne.não depende da variação real entre corpos e faces individuais: há universalização antes que existam individuações. se alojem na carne. a des-diferenciação ou a fragmentação dos rostos e dos corpos nunca servirão para problematizar o sujeito universal: sujeito há. ele é literalmente in-umano (eu sou – morto). O sujeito é o que resta quando o corpo é retirado. No interior da dupla atadura ou do movimento de pinça da universalização e da individuação. Daí a complementaridade e o paradoxo: o sujeito exige a individuação a fim de expressar a universalização. o universal é indiferente a toda quantificação. na subtração de seus efeitos. Por outro lado.

ela é sempre uma obra-emandamento e um local de experimentação contínua. corporificado. como se fossem outras tantas próteses dendríticas. da sexualidade. como uma enfiada de plenitudes ou de plenipotenciários que poderiam ser seletivamente atualizados em eventos particulares ou que poderiam acabar se embrulhando em uma série de complicações. ele perdura sem jamais existir como tal. embala-os na pele. Ser é devir.. regular o movimento e impor a estabilidade. que poderia ser ou situado. des-construído. o sujeito perdura por meio de um contínuo romper-se. unitário e centrado. ou destruído é precisamente o que está em questão. o pressuposto de que existe um sujeito universal. E como todos os agregados molares. Daí o fato de que o sujeito humano é sempre um corpo pleno a advir. inscreve-os com rosto e codifica-os com os estriamentos da raça. da classe. Como veremos adiante com mais detalhes. De fato. é a filosofia do sujeito que trabalha por meio da identidade. a produção de sujeitos humanos não é. da semelhança e da negação. à congestionada massa de fluidas multiplicidades. da etnia. Em outras palavras. descentrado. fragmentado. do gênero. Entretanto.. Nesse meio tempo. Pelo contrário. completa. a fim de deter os devires. elas são anexadas. nunca. a desconstrução e a esquizo-análise afirmam o movimento molecular nas coisas. contaminações ou confusões labirínticas. com sua rígida segmentação e despótica territorialização de sujeitos molares (eu = eu = não você). o 88 . Conseqüentemente. mas esse não é um evento negativo.nacos talhados de carne. as identidades molares não estão aí desde o início.

o sustentam.. Entretanto. que o CsO deva tão freqüentemente experienciar os aparatos maquínicos para impor identidades molares sobre os movimentos moleculares como se fossem outros tantos instrumentos de tortura. p. uma imposição avassaladora de efeitos regularizados. as identidades molares perduram e entram em colapso por meio do tartamudear e do gaguejar de uma palavra-de-ordem: “Parado lá!”. pois.. A confusão é séria na medida em que desvia a atenção da afirmação para colocá-la no falso problema do controle quantitativo: sem alguns pontos de parada. é inevitável que será experienciada pelo corpo excessivamente codificado como uma constrição física. p. o atravessam e o descarregam. A molaridade é modo de desejo. é montado. É uma questão de força: é uma sobreposição categórica. 1992. O devir começa como um desejo para fugir da limitação corporal.sujeito é arranjado. assim como é qualquer movimento que se afaste dela. da mesmidade antes que da singularidade. Pelo fato de constringir ações a uma gama limitada. É por isso que Bordo (1990. é vital compreender que o desejo de fugir da molaridade é um desejo de fugir da limitação antes que do caráter localizado. como uma interrupção e uma derivada dos fluxos que o animam. 94) É pouco surpreendente. a fragmentação e a dispersão sem 89 . (MASSUMI. Em suma. 142-44) equivoca-se em misturar esquizo-análise e desconstrução com “uma fantasia de fuga do caráter localizado” da subjetividade humana por meio “de uma nova imaginação de desmembramento: um sonho de estar em toda parte”.

um limite à fragmentação é precisamente o que. da perspectiva da filosofia vampírica do sujeito. estamos de volta ao duplo nó da universalização e da individuação e da hipertelia do sujeito vampírico. a multiplicação e a corporificação não serão suficientes para permitir uma fuga da tirania da filosofia vampírica do sujeito. apoiar um essencialismo estratégico. Fica parado lá – quem vem lá? De uma vez por todas. 145): “a apreciação da diferença exige o reconhecimento de algum limite para a dança. p.fim autodestruiriam e levariam a um apagamento do corpo em um abismo fractal. A hipertelia do sujeito é exemplificada e assegurada por meio do tartamudeio e da 90 . 1993). enquanto a fragmentação ou acelera-se em uma liquefação ou então se transforma em uma fractalização (DOEL. p. Daí a insistência de Rose (1993. Como começamos a ver. deve tornar os fechamentos arbitrários. p. a natureza de quem?. está faltando: o ser ou se desvia para o Nada ou então cai em um devir-imperceptível. fazer gestos provisórios”. E. 79) de que “a crítica deve estabilizar. mas de forma contingente. Não obstante. além do qual a dançarina não pode ir”. a fragmentação. 1990. mesmo que essa linha de questionamento necessariamente inaugure um retorno do reprimido na medida em que o mesmo imperativo é sempre interpolado no fluxo de eventos: sujeito há. 137). Como observou Bordo (1990. a tradição de quem?” (BORDO. contudo. a história de quem?. sociais): a verdade de quem?. podemos apenas fingir a habilidade de localizar e identificar quem vem na esteira do sujeito universal e abstrato. a fim de lidar com as “as questões (históricas. a versão da razão de quem?.

somos atravessados por linhas. Algo terá finalmente a oportunidade de acontecer. surge uma rachadura ao longo da qual um fractal. um cristal ou um câncer podem proliferar. fusos.. ao abrir essas estabilizações forçadas para algo inteiramente Outro.gagueira da palavra-de-ordem par excellence: quem vem depois do sujeito? Em vez de reivindicar um eterno retorno do sujeito. VIAJANDO DE FORMA IMÓVEL: SEM SAIR DO LUGAR Indivíduos ou grupos. a experimentação da faixa de Möbius que equaciona negação com ressureição e a complicação da faixa de Möbius que equaciona fragmentação com totalização. mas como um enxame de multiplicidades virtuais. Em suma. que não seguem o mesmo ritmo e não têm a mesma natureza. trópicos. de um bando de singularidades e de complicações e invenções experimentais. isto é tudo: lance de dados. devir. esforçamo-nos por libertar a singularidade da faixa de Möbius da fórmula que equaciona universalização com individuação. se superpõem a uma linha costumeira.. não em uma massa amorfa e indiferenciada.. como 91 .] E constantemente as linhas se cruzam. [. [. o que é necessário é uma experiência de desconstrução e esquizo-análise a fim de nos sensibilizar para a imóvel viagem sem sair do lugar do CsO: tudo é fluxo.] Perceber. fluir. geodésicas. O CsO pleno cresce nessa rachadura.. se seguem por um certo tempo. levando embora todos os fluxos excessivamente codificados que têm ficado preso no circuito fechado das máquinas molares. Além disso. meridianos.

76-7) O sujeito está em declínio. assim como compõe nosso mapa. das constantes 92 . apenas e sempre. Em outras palavras. É uma questão de cartografia. Rizoma. codificação e sobrecodificação. desestratificação e decodificação de forma que eles se separem do circuito do agenciamento maquínico e se tornem. Elas se transformam e podem mesmo penetrar uma na outra. Em toda a parte. Mas trata-se também de um local para uma infindável experimentação. vazando em todas as direções. MP. atualizado como a singularidade do contexto no qual ele é produzido como a superfície de registro. curto-circuitam as estriações e misturam os códigos. do Ser ao Devir. um local que é. uma linha de fuga em direção a algo inteiramente Outro. Em relação a esses aparatos sociais. que essas linhas não querem dizer nada. complicação e invenção. des-construção e re-construção. p. a desconstrução e a esquizo-análise buscam acentuar e intensificar os processos de desterritorialização. ele reintegra incessantemente tudo que pareceria escapar a suas esferas de influência. Elas nos compõem. em vez disso. E contudo o sujeito funciona. a desconstrução e a esquizoanálise de-limitam os fluxos. por meio de uma imóvel viagem que nos leva da identidade à multiplicidade. (DELEUZE & GUATTARI.diz Deligny. da arborescência aos rizomas. Ele é um agenciamento que está continuamente estragando. v. da posição ao potencial. trata-se de um acoplamento de fluxos assimétricos: desterritorialização e re-territorialização. tantas articulações duplas e tantos movimentos de pinça que tornam (o lugar do) sujeito uma inescapável obra-em-andamento: sujeito haverá. 3.

. 1987). DESCONSTRUÇÃO: DESESTABILIZANDO O SUJEITO A fim de remodelar.às variáveis. Pois. se existe algo como o dever. MERQUIOR. não se trata. deve vir depois disso. se sujeito deve haver. 120) Já tocamos em três das mais importantes características da desconstrução: afirmação. há um dever na desconstrução. Tem que haver. impassiva e indiferente ao fluxo dos eventos (CENTORE. de uma “filosofia da hesitação” que permaneça neutra. da moralidade. sobre o qual se sustentará o lugar do sujeito (da lei. O sujeito. nem ética. dos fragmentos aos fractais. (DERRIDA. 1992). 1991. 1992. nem política. CRITCHLEY. nem responsabilidade). movimento e responsabilidade. ela intervém em um esforço para liberar o potencial do corpo pleno sem 93 . de forma alguma. p. mas em vez de intervir em uma tentativa para impor a ordem molar. 1991. 1988a. dos órgãos sem corpos aos corpos sem órgãos e da subjetivação à esquizofrenia. Ao contrário. Essas características contrastam fortemente com a prevalente e muitas vezes maliciosa caracterização da desconstrução como negativa. ROSEN.. estática e irresponsável (MARGOLIS . 1986. da política – tantas categorias apanhadas na mesma turbulência!) deve-se passar pela experiência de uma desconstrução. embora seja verdade que a desconstrução funciona por meio do indecidível (sem o qual não haveria nem teoria. se não rigorosamente re-fundar um discurso sobre o “sujeito”. a desconstrução intervém. MARTIN.

do desejo e do poder.. Enquanto a primeira afirma o corpo pleno sem órgãos.. a desconstrução não está absolutamente confinada à assim chamada “prisão da linguagem”. a uma nova onto-teologia ou idealismo rejuvenescido do Texto. Em outras palavras..órgãos. pois. 1992. 1988b). em suma. da sobrecodificação e da subjetivação. Além disso. transformando-as em uma multiplicidade Aberta: “se o todo não é . Ela não é nem um investimento especulativo na negatividade – um investimento que tenha como base uma expectativa racional de um retorno acumulável – nem é uma tentativa de efetuar uma despesa sem retorno: ela não é parte de um regime de acumulação nem um local de consumo expiatório. nem tampouco equivale a uma “dissolução do sujeito” (DERRIDA. na medida em que intervém nos fluxos materiais e imateriais heterogêneos de toda a história-do-mundo (DERRIDA. É. Em suma. A desconstrução não tem absolutamente nada a ver com a catástrofe ou com o apocalipse. por um lado. uma des-construção reativa (DOEL. por outro. a fim de alavancar e deslocar estabilizações forçadas. estabilizado e estabelecido. ela intervém ao longo das linhas de força. de perdurar” (DELEUZE. importante distinguir rigorosamente entre. Ela não é nem niilista nem destrutiva. e porque sua natureza é a de mudar constantemente. 1986. p 7). da re-estratificação. p. a desconstrução não vem depois que o sujeito foi construído. 1994a). a última esforça-se por recapturá-lo por meio da reterritorialização. a desconstrução não encontra seu lugar 94 . 9). ou de fazer emergir algo novo. Especificamente. uma desconstrução afirmativa e. é porque ele é o Aberto.

1992). a desconstrução afirmativa segue os movimentos de desestabilização que atravessam o (lugar do) próprio sujeito. Em suma. Em contraste com o risco fingido da des-construção reativa que é sempre avalizada por uma garantia de re-construção e ressurreição dialética. dos aparatos sociais de captura e dos estratos codificados. ela afirma a iterabilidade. coerência. Como já vimos. na medida em que seu único efeito discernível consiste em fornecer os recursos necessários exigidos para uma re-construção. a alterabilidade e a alteridade do Mesmo. ser uma catástrofe simulada. a desconstrução afirma a desestabilização em movimento que Abre o (lugar do) sujeito àquilo que é inteiramente Outro. mas da perspectiva dos fluxos moleculares eles fornecem linhas expedientes de desarticulação e de fuga em direção a algo inteiramente Outro: 95 . estabilidade e pertinência. Da perspectiva do organismo molar. Qualquer esforço para des-construir. Conseqüentemente. a desconstrução está menos preocupada em perturbar. apenas e sempre.próprio nem numa série dialética de investimentos especulativos (construção/des-construção/re-construção) nem uma binarização metafísica de despesa absoluta (construção/destruição) (DOEL. desmantelar e destruir o sujeito do que em trazê-lo para o Aberto que está sempre e já perturbando e ameaçando sua consistência. desmantelar ou destruir pode. a questão “quem vem depois do sujeito?” exemplifica esta hipertelia por meio da qual a filosofia do sujeito “continua a viver” a despeito da total exaustão de seus recursos. esses movimentos aparecem como um colapso catastrófico e um declínio terminal.

Não se trata absolutamente de um corpo despedaçado. MP. esquartejamento. v. de catástrofe e de apocalipse que tão prontamente implantam-se na leitura equivocada da desconstrução como uma des-construção arquitetônica: desmantelamento. O CsO é exatamente o contrário. complicação. p. na desconstrução. uma expressão que resume toda a dificuldade). 114-5) A insistência de Derrida em um retorno ao (lugar do) sujeito e um retorno do (lugar do) sujeito surpreenderá. tentar reconstituir ou reconstruir o que já foi desconstruído (e que. desintegração. fragmentação. àqueles que gostariam de acusar a desconstrução de defender sua morte. dissolução etc. Ao contrário. sem dúvida. (DERRIDA. ou de órgãos sem corpo (OsC). desarranjamento. 3. decomposição. nem retorno ao indiferenciado em relação a uma totalidade diferenciável. 28) Em outras palavras. renunciar ao impossível. desmembramento. sua dispersão e sua liquidação. p. o sujeito é precisamente aquilo que evita todos esses momentos de negatividade. (DELEUZE & GUATTARI. isto é. desconstruiu a “si próprio”. esfacelado. 1988a. Mas quem vem depois do sujeito? A fim de desenvolver essa questão ao longo de linhas topológicas (“Qual é o lugar do sujeito?”).experimentação. Não há órgãos despedaçados em relação a uma unidade perdida. seria necessário. talvez. a desestabilização em movimento que atravessa o (lugar do) sujeito não nos 96 . invenção e singularidade. além disso.

ao fato de que o CsO deve ser criado. trata-se sempre de um corpo em ex-apropriação. Pois para haver um momento negativo. a equação fechada: eu=eu=não você). menos ainda a um indivíduo. É por isso que o CsO nunca pertence a qualquer agregado molar. não resta nada a não ser uma distribuição de hecceidades. Eles não estão tampouco estabilizados em si mesmos. Portanto. órbitas e quantas.faz retornar a uma massa amorfa. como uma multiplicidade virtual. antes... em direção à alteridade e à singularidade. nem como um indivíduo. a genealogia do sujeito não pode ser mapeada como se fosse a trajetória de uns tantos átomos circulando em um espaço-tempo quatridimensional. curto-circuitando. com suas velocidades e trajetórias. Em outras palavras. Ao contrário. tanto nomádico quanto rizomático. ela nos leva para além do molar e do molecular.+y+z+a. Conseqüentemente. trata-se sempre de um corpo pleno a advir. Em suma. nem fixos no lugar.. Entretanto. fusões e fissões. quanto tudo é levado embora. Em vez disso. mas.).. misturando e levando embora todas as pretensões à propriedade. atrações e repulsões. um momento negativo no qual um sujeito ou um organismo cairia. de singularidades e de eventos. 97 . o sujeito é uma variável em uma modificação contínua e Aberta (por exemplo. a equação aberta: . deveria já haver algo arranjado no lugar. é vital compreender que a intensidade zero do CsO não é um momento negativo em relação a alguma Unidade ou Totalidade positiva. indiferenciada ou homogênea (um estado de confusão empírica). Mas o sujeito e o organismo não são absolutamente constantes (por exemplo. o sujeito não deve ser entendido nem como um universal.

o Todo. a rizomática. E não há maldade que chegue para cumprir essa tarefa (DELEUZE E GUATTARI. o objeto. tanto nomádico (sem casa ou refúgio) quanto rizomático (sem raízes ou ancoragem). em grupos ou em indivíduos. o Verdadeiro. a esquizoanálise. ESQUIZOANÁLISE: CORPO SEM ÓRGÃOS Temos tantas linhas enleadas em nossas vidas quanto as que temos nas palmas de uma mão. 1983. [. 98 . mas processos singulares – de unificação. Esquizoanálise. a cartografia não têm outro objetivo do que o estudo dessas linhas. p. na verdade.. (DELEUZE. É por isso que o sujeito é sempre tanto uma obra-em-andamento quanto um aparato social. verificação. Mas nós somos complicados de uma forma diferente. o sujeito não são universais. Em suma. O Uno. cenas de teatro.. objetivação. é o universal que precisa ser explicado. 71-2) Destruir. Ele é. p. toda uma raspagem do inconsciente. sofrendo a contínua variação do Devir-Outro por meio de uma viagem no lugar. 1992. a diagramática. p. 162). a micropolítica. 325. subjetivação (DELEUZE.O universal. nada explica.. destruir: a esquizoanálise tem que passar pela destruição. p. o sujeito perdura por meio da contínua variação da ex-apropriação e do DevirOutro.. portanto. Todas as linhas são linhas de variação que não têm sequer coordenadas constantes. o pragmatismo. de uma viagem imóvel.] Destruir crenças e representações. totalização. 1966. fazer toda uma limpeza. 328).

1989. exatamente da mesma forma que a desconstrução afirmativa deve ser distinguida da desconstrução reativa. De forma similar. O (lugar do) sujeito é sempre e já uma multiplicidade apinhada. assim também deve a destruição esquizoanálitica ser diferenciada da destruição paranóica. impassiva ou indiferente aos aparatos sociais de captura que impõem variados graus de estabilização à fluidez heterotópica dos eventos singulares. Pois. Uma vez mais. PEREZ.Frente a isso. ser convocados pela ordem molar para 99 . Em suma. MASSUMI. ela intervém a fim de liberar um CsO pleno. nem apocalíptica. p. da viagem sem sair do lugar. DELEUZE. mas essa inclinação seria equivocada (BOGUE. Esses agregados podem. nem catastrófica. Tal como a desconstrução. a esquizoanálise afirma a eterna recorrência da viagem imóvel. o local de um CsO pleno: “há toda uma geografia nas pessoas” (DELEUZE & PARNET. tanto a desconstrução quanto a esquizoanálise ativam multivariadas linhas de perburbação. a ênfase que a esquizoanálise coloca na destruição pareceria alinhá-la com o reativo em vez de com a desconstrução afirmativa. a esquizoanálise não é neutra. da desestabilização sempre em movimento e da contínua variação das multiplicidades proliferantes – o CsO pleno. descobriremos que a esquizoanálise não é nem negativa. 1988). então. Algumas delas se embaraçam e convergem para formar nós. juntando tudo que flui para seu meio em agregados molares. 1992. 1990). nem expiatória. 10. redemoinhos e vórtices de relativa estabilização. Existem muitos tipos de linha que atravessam o (lugar do) sujeito. 1988. agitação e comoção no (lugar do) sujeito a fim de afirmar a alteridade do Mesmo.

se molecularizam e se decompõem em um CsO. as quais são distribuídas de uma maneira inteiramente diferente. desaparição e desterritorialização. Mas a coisa importante a observar é que esses desvios e distanciamentos permanecem relativos na medida em que a ordem pode apertar o torniquete sobre eles por meio de reinvestimento. reprodução e rearticulação. família. é necessário distinguir entre três tipos de linha. estratos. escavando células. comunidade. Mas que tipo de CsO emerge desse viajar imóvel? Para lidar com essa questão. rosto etc. as quais produzem segmentos flexíveis. fábrica. Os agregados se dividem. provocando movimentos de relativa desestabilização que traçam linhas de fuga. existem linhas de segmentaridade molecular. Em segundo lugar. estado. um fluxo repentinamente transborda seu canal ou um programa momentaneamente perde seu código. eles permanecem relativos enquanto a ordem 100 . Em suma. outras linhas se soltam desse emaranhamento e embaraçamento. Em primeiro lugar. reintegração. Nesse meio tempo. elas se abrem em pequenas fraturas. um fluir molecular e desestabilizações em movimento. em agregados molares e em territórios distintos. regiões e identidades por meio de divisão e bifurcação: casa. uma célula começa a se distanciar de seu metabolismo usual.mais experimentação e complicação: reconstrução. reconstrução e sobrecodificação. existem linhas de segmentaridade rígida que confinam o movimento em células específicas. Esse tipo de linha age por meio de uma infindável laceração do CsO. linhas dissimuladas de desorientação e desarticulação e partículas irreconhecíveis.

]”. da classe. a ordem molar assegura que a possibilidade e a força da anomia e da transgressão será neutralizada e contida sob a curvatura assintótica da anomalia estatística: tudo será explicado como constituindo uma quantidade determinada de desvios-padrão da distribuição normal do Mesmo (BAUDRILLARD. Em suma. a máquina rejeita rostos não-conformes ou com ares suspeitos. mas essa fuga momentânea de desterritorialização absoluta – uma vez detectada pelo aparato molar – será submetida ao torniquete com a plena força da Lei e confinada em uma nova identidade.. “A cada instante. É por isso que a ordem molar é irredutivelmente despótica e paranóica na medida em que ela acredita que tudo cai na sua jurisdição e nas suas esferas de influência. a molaridade “jamais detecta as partículas do outro.molar puder capturá-los em um novo segmento. Mas somente em um certo nível de escolha. ela propaga as ondas do mesmo até à extinção daquilo que não se deixa identificar [. 1994b). por meio de um novo lançamento dos dados. 1990. um evento curtocircuita os segmentos.. Parado! – quem vem lá? Em suma. Da perspectiva da molaridade.. Por exemplo. DOEL. do gênero e da sexualidade. de vez em quando. mas simplesmente eventos e ocorrências que ainda não foram reconhecidos e integrados na distribuição normal de uma economia do Mesmo. imperceptível e acategórico.]” 101 . estrato ou código. não existe mais qualquer lado de fora. as estriações e os códigos da raça. Pois será necessário produzir sucessivamente desvios padrão de desviamento para tudo aquilo que escapa às correlações biunívocas [. por meio de um devir-clandestino..

amaciamento e estriação. A cumplicidade potencial da segmentação molar e da segmentação molecular permite-nos clarificar o significado do último tipo de linha: as linhas de fuga. O que importa à ordem molar é que – por intermédio de uma contenção que é imposta por quaisquer meios que forem necessários – todos esses movimentos de desestabilização continuam relativos. O CsO pleno é aquilo que resta quando tudo foi 102 . canalizar. Essas linhas se soltam do espiralamento tipo Möbius da segmentaridade molar e da segmentaridade molecular. interromper e avariar o devir. MP v.(DELEUZE & GUATTARI. Enquanto as lacerações molares estão para sempre inclinadas a fatiar o (lugar do) sujeito em uma polpa desmembrada. Daí . o fato de que o (lugar do) sujeito é tecido e trançado por meio do emaranhamento desses dois tipos de linha: uma molecularização do molar e uma molarização do molecular. os movimentos moleculares podem ser sempre arranjados a fim de levar os restos de volta aos aparatos molares para uma perpétua reciclagem. limites e constrições são interpolados sobre o CsO pleno a fim de deter. escorrendo sobre o CsO. desestabilização e re-estabilização. desarticulando os estratos e misturando os códigos à medida que eles levam embora eventos singulares para uma desterritorialização absoluta: fluido em estado puro. Na verdade. 3. p. sem limitação ou interrupção. 45-6). Em suma. fragmentada e dispersa. decodificação e sobrecodificação. as funções de molaridade funcionam por meio da dupla articulação e de um espiralamento tipo Möbius de desterritorialização e reterritorialização. 44-5.

canceroso e viral que ataca os órgãos e faz proliferar segmentos molares e moleculares redundantes por todo lado. sua cobertura de rosto e seu amálgama de carne. ou mesmo um CsO totalitário. significado. a esquizoanálise sugere que um corpo nunca pode ir demasiadamente longe com a desterritorialização. 3. Quais são seus segmentos rígidos. nós não somos simplesmente divididos por máquinas binárias de classe. com seu envelope de pele. Trata-se do plano de consistência sobre o qual as viagens imóveis fatalmente se aproximarão assintoticamente. MP v. reside em saber de que forma melhor se pode atravessar o (lugar do) sujeito. entretanto.tirado. intensidade=zero (eu sou outro). Conseqüentemente. É relativamente fácil produzir um CsO vazio ou descosido por meio de uma desestratificação demasiadamente violenta. sexo ou idade: existem outros que nós constantemente 103 . desestratificação e decodificação dos fluxos. A dificuldade. que os faz recair sobre nós. suas máquinas binárias e sobrecodificadoras? Pois mesmo essas não lhe são dadas prontas. mais pesados do que nunca” (DELEUZE & GUATTARI. deve-se perguntar: 1. Em cada ocasião. por meio de um ódio dos órgãos. o CsO pleno só pode ser abordado por meio de uma experimentação e uma complicação cautelosas no interior de contextos singulares. 23-4). . paranóico e suicida. À questão “quão longe pode o demasiado longe ir?”. p. ou um CsO drogado. sujeitado – mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente. Desmantelar a si mesmo por meio de um processo esquizofrênico de dessubjetivação tem seus perigos: “O pior não é permanecer estratificado – organizado.

fragmentos ou estruturas. Ao contrário. nas quais os fluxos são combinados.. Quais são suas linhas flexíveis. seu lugar é apenas o dos lineamentos que atravessam toda a ordem molar.. Quais são suas linhas de fuga. do corte-fluxo.. inventamos sem nos dar conta. o “esquize” da esquizoanálise é traçado pelo “passeio ao acaso” de um fractal de dimensão infinita e porosidade imensurável – um fractal de encher o espaço.mudamos. O elemento figural puro [.] que nos leva até às portas da esquizofrenia como processo” (DELEUZE & GUATTARI. Como uma obra-em-andamento. 1993. É nesse sentido que o (lugar do) sujeito é ex-apropriado por meio de uma imóvel viagem. 1966. o lugar do sujeito é um lugar de embaraçamento interminável: “a única unidade sem identidade é do fluxo-esquize. fluindo sem interrupção e jorrando sobre a superfície 104 . é importante clarificar que a esquizoanálise não reside em elementos. órgãos. p.. agregados.] na qual uma besta espreita ou um microfascismo prospera? 3.. Em suma. sujeitos. nas quais os limiares alcançam um ponto de adjacência e ruptura? São ainda toleráveis ou já ficaram presos em uma máquina de destruição e autodestruição que pode reconstituir um fascismo molar? (DELEUZE. E quais são os perigos se explodimos esses segmentos de forma demasiadamente rápida? [. quais são seus fluxos e limiares? Qual é seu conjunto de desterritorializações relativas e reterritorializações correlativas? E a distribuição de buracos negros [. relações.] 2. 253-4).. percorrendo os indivíduos assim como os grupos: uma proliferação e uma invaginação das linhas. p. 254). de uma viagem sem sair do lugar.

Mas. traçada pela linguagem e dissolvida pelas idéias. p. estabilizar e limitar esses fluxos no interior de uma pletora de aparatos sociais e organizações molares. nada a não ser fluxo. Elas levam os fluxos ossificados conservados no interior do (lugar do) sujeito para o contexto Aberto da inteira história-real-do-mundo. 138). 1977. o Corpo pleno está sempre por chegar. A esquizoanálise e a desconstrução simplesmente esforçam-se por desestabilizar. Ao contrário. pois. É ao seguir essa desintegração e essa decomposição do organismo humano – com sua carne estriada. os desejos e os poderes que se esforçam por capturar. É pouco surpreendente. É um Devir em estado puro. que o sujeito maquinicamente agregado está fadado a se des-organizar. estrangulando hierarquias 105 . com seu envelope de pele e sua cobertura de rosto – ao longo das linhas de desterritorialização que somos levados em direção ao CsO pleno. para além da dupla prisão e do espiralamento tipo Möbius da universalização e da individuação. descarregar e curto-circuitar as forças. o locus de um eu dissociado. decodificação e sobrecodificação. as linhas de fuga fazem com que a produção maquínica de sujeitos humanos passe da fragmentação paranóica para a fractalização esquizofrênica: nada a não ser movimento. como vimos. adotando a ilusão de uma unidade substancial – um volume em desintegração” (FOUCAULT. desterritorialização e re-territorialização.de um CsO pleno. Em outras palavras. esse Corpo não é um retorno ou uma regressão. é aquilo que resta quando tudo é tirado: intensidade zero. a se fragmentar e a se despedaçar: “O corpo é a superfície inscrita dos eventos. a se desestratificar.

ou outro. a maioria de nós intuitivamente saca aquilo que Deleuze e Guattari (MP v. mas é apenas geometria pura [. de fugir e se desestratificar. 74) cha.: “Os estratos eram juízos de Deus. não parava de se esquivar ao juízo.arborescentes e instituindo rizomas intrincados à medida que se movem: complicação. 54).. para recortar”. invenção. o desejo por organização e o poder para impor limites arbitrários à fissiparidade não deveriam ser subestimados. p. ou o corpo sem órgãos. MP v. Além disso. mas para cortar. os estratos. experimentação. 3. Sua ação de corte age sobre “os movimentos. Entretanto. se descodificar.]” (MP v. quando examinamos o abismo fractal. ou. com 106 . A luneta para recortar sobrecodifica todas as coisas. 1. singularidade. 73) a fim de res.. .. que serve não “para ver. Na verdade. . 3. Você será um ou outro. perturbações e rebeliões que se produzem no abismo” (MP v. p. o fractal é o motivo perfeito para a esquizoanálise. mam de “a terrível Luneta de raios”. a estratificação geral era todo o sistema do juízo de Deus (mas a terra. segmentos e códigos que ela escava do CsO forçam os movimentos moleculares a se juntar em agregados molares: uma verdadeira Geologia da Moral. Como a figura fissípara sem limite por excelência. se desterritorializar)”. À medida que a capacidade de sustentação do (lugar do) sujeito aproxima-se do zero absoluto. assignificante e acategórica do CsO pleno (DELEUZE & GUATTARI. a caminho da proliferação assubjetiva. taurar “a ordem molar por um instante ameaçada. p. p. trabalha na carne e no sangue. 3. a desconstrução e o CsO pleno.. alteridade. as manifestações súbitas. 73). as infrações.

uma hemorragia de fluxos anteriormente estabilizados em todas as direções, há uma tendência de ambos a se recolher dos CsOs vazios e a se abster de produzir um CsO pleno. Em vez de se arriscar a experimentar com linhas de fuga, há uma tentativa geral a revigorar e a rejuvenescer a ordem molar: alguns temem perder os agregados molares; outros buscam impor segmentos flexíveis sobre o fluxo molecular; outros exigem que todo o terreno seja estabilizado por meio da sobrecodificação; enquanto outros ainda transformam as linhas de fuga em uma paixão pela destruição. Em particular, a decomposição do (lugar do) sujeito tem feito com que muitos se apeguem ao rosto do Outro como uma forma de cultivar “um sujeito-ético-em-processo” (KEARNEY, 1988, p. 365; CRITCHLEY, 1992). Mas a produção maquínica da rostidade é precisamente o aparato molar por excelência, que serve para impor ondas de mesmidade sobre um plano de hecceidades, eventos e singularidades. “O quanto se é tentado a se deixar prender aí [ao buraco negro da subjetividade, da consciência e da memória, do casal e da conjugalidade], a ser embalado aí, a se agarrar a um rosto... [...] Rosto, que horror [...]” (DELEUZE & GUATTARI, MP v. 3, p. 56, p. 61). Em contraste , com essa ânsia por identificação e reconhecimento molar, a desconstrução e a esquizoanálise intervêm a fim de desmantelar os aparatos de captura que constroem e animam o sujeito, o corpo e o rosto, ao reterritorializar, reestratificar e sobrecodificar os fluxos moleculares. Elas esfolam os autômatos, os simulacros e as aparições que assombram o (lugar do) sujeito a fim de afirmar o CsO pleno. Seja lá onde estivermos, nunca poderemos ir demasiadamente
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longe ao longo das linhas de fuga que vão em direção à desterritorialização absoluta. Na verdade, o (lugar do) sujeito fica inundado com essas modalidades de desaparecimento que se Abrem para a imóvel viagem do Devir-outro. Na verdade, até mesmo o rosto do Outro é, antes e sobretudo, uma superfície cheia de furos. Entretanto, qual linha de fuga seguir em qualquer contexto particular de estabilização forçada só pode ser determinado por meio de um lançamento de dados. Sacode. Chacoalha. Deixa rolar.
NOTA DO TRADUTOR
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No original, “mOther”.

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A dobra: psicologia e subjetivação Miguel Domènech Francisco Tirado Lucía Gómez 111 .

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totalizado e totalizante. 1992). 113 . Fala-se de subjetividade distribuída. apareceram novas imagens. dialógica. de subjetividade inscrita na superfície do corpo. Em seu lugar. unificado. estável. nômade. múltipla. Sob a rubrica “crise do eu”. Há já mais de vinte anos que o sub-jectum não é o sol em torno do qual gira nosso pensamento social. interiorizado e individualizado. critica-se e rejeita-se a definição de um sujeito universal. produzida pela linguagem. situada. socialmente construída.O MITO DA INTERIORIDADE EM PSICOLOGIA Há mais de duas décadas as ciências sociais assistem à morte do Sujeito. Nessa mudança. descentrada. etc. o psicológico abandona o espaço privado e intransferível das psiques individuais para alojar-se nas encruzilhadas e nas ruelas que marcam o estar-no-mundo com outros seres humanos (KVALE.

amplas raízes e uma gestação complicada. Semelhantes imagens têm raízes em uma longa tradição cultural. observemos por um momento o que diz o senso comum. a moral ou a virtude remonta a concepções cristãs. pensamentos e idéias que. para a distinção entre um mundo “interior” e outro “exterior”. mas. atenta diretamente contra evidências inquestionáveis. em que o primeiro é povoado por conjuntos e séries de entidades mentais. em si mesmas. Como argumentou Taylor (1989). intransferível. O que persiste é a imagem de uma experiência privada. ao invés disso. inquestionável e irrenunciável. a habilidade de sermos conscientes de nossa mesmidade. Pensar é algo que diz respeito a nossas cabeças. Assim. é algo que produzimos. afirma-se que aquilo que nos diferencia dos animais não é mais do que nossa capacidade reflexiva. more geometrica. 114 . são independentes do segundo. o mental. pretender que o psicológico não é uma questão individual. que adquire sua formulação mais acabada na obra de Descartes.Esta crise do eu1 possui. De acordo com o senso comum. Na obra desse pai da modernidade. a possibilidade de representarmos a nós mesmos como entidades próprias. essa linha genealógica. Para acompanhar. certamente. a tendência a situar em um espaço interior tudo aquilo que tem que ver com a alma. espaço relegado para o material. de forma breve. trata-se de um dado que define nossa própria condição humana. o inerte e o mecânico. um evento social. Santo Agostinho é o exemplo mais palpável desse exercício. manipulamos à vontade e interrompemos quando nos apetece. é possível encontrar a justificação filosófica. a subjetividade.

produzidas nesse reino secreto e privado que é nossa interioridade. Essa concepção do ser humano adquire imediatamente. a forma do individualismo metodológico. na psicologia. Por um lado. Segundo essa perspectiva. a única matéria relevante para o investigador são decisões privadas tomadas por indivíduos que operam em um exterior mais ou menos hostil e do qual tentam extrair a máxima vantagem. O abismo entre o âmbito interior e o exterior parece alargar-se.Nosso senso comum não fez mais do que converterse em caixa de ressonância desse diagrama. quanto maior for a certeza que tenhamos sobre nossa existência mental como mundo interior. que os 115 . Esse esquema tem colocado dois problemas aparentemente insolúveis e que têm perseguido a epistemologia moderna durante dois séculos. um processador de informações. continuando a ocupar uma psicologia que não consegue romper com a herança cartesiana. A análise do indivíduo como sendo. essencialmente. Por outro lado. denominador comum de diversos enfoques teóricos. seguir Descartes até o final nos coloca na difícil situação de explicar como essas entidades mentais foram engendradas. em primeiro lugar. Nessa mesma linha. implica. Torna-se impossível de ser salvado. o recurso ao cérebro como locus específico da atividade mental não faz mais do que reforçar esse dispositivo metodológico ao essencializar os processos cognitivos e enfatizar o papel desempenhado pelas práticas culturais e pelas produções sociais na conformação do pensamento. mais problemas teremos para não duvidar da existência da realidade exterior e da verosimilitude de outras mentes pensantes.

processos cognitivos convertem-se no centro da reflexão científica e. a própria identidade – prestar mais atenção ao que fica fora do espaço interior. Não poderia ser de outra maneira. originadas no interior das ciências sociais. por exemplo. por meio de diversos procedimentos. servindo para definir como a estrutura da sociedade se reflete na estrutura do eu1 e gera indivíduos competentes em seus contextos sociais (WIDDICOMBE. 116 . de serem examinados e descritos (BRUNER. 1990). em segundo lugar. têm insistido na idéia de que é preciso – para compreender o mental. a definição de ser humano em termos de “ser social” antes que de “ser psicológico” é tanto o ponto de partida de sua reflexão quanto a definição de sua própria identidade. que tais processos estão localizados em nosso interior e são capazes. De fato. Noções como as de internalização. educação ou socialização remetem à idéia de que nosso espaço interior se configura a partir do efeito que sobre ele exerce o espaço do social ou do cultural. A versão débil implica aceitar que nossa identidade toma forma a partir de poderosas influências externas. Para todas essas perspectivas. “indivíduo-sociedade” ou “agência-estrutura”. DO SER PSICOLÓGICO AO SER SOCIAL Sem abandonar esse dualismo interior-exterior. refletido em inumeráveis tensões como. 1995). poder-se-ia dizer que dispomos de uma versão débil e de outra forte para pensar o ser humano como ser social (BAKHURST & SYPNOWICH. o subjetivo. diferentes perspectivas.

citado em BAKHURST & SYPNOWICH. na versão forte. Ela simplesmente recebe sua “forma” do exterior. A superação do abismo que existe entre um mundo privado e interior. 1981. 6) Essa versão forte pretende uma dissolução definitiva da dicotomia interior-exterior.1998). a subjetividade pre-existe às influências posteriores. da trama social nos quais todo indivíduo está sempre inserido: Pressupõe-se. que aquilo que chamamos entidades mentais pertence à discursividade em que se banha – e da qual está em parte feito – todo ser social. o processo de internalização não é a transferência de uma atividade externa a um “plano de consciência” interno pre-existente: é o processo no qual esse plano se forma. Ela é in-formada a partir de fora. p. no social: Assim. Nessas versões. a “realidade psicológica” 117 . constitui. de um lado. em outras palavras. Em todas as suas versões. de outro. desde há muitos anos. Ao contrário. o cavalo de batalha essencial dos denominados “construcionismos sociais”. (LEONTIVEV. Quando se rejeita a dicotomia interior/exterior. Aquilo que chamamos subjetividade não é senão parte do tecido relacional. e um mundo externo e público. rejeita-se tanto a possibilidade de uma psique isolada e alheia aos contextos socioculturais que a produzem quanto de uma identidade que molda e in-forma sob a ação de um mundo exterior. questiona-se a própria possibilidade de que pre-exista algum interior à margem de certos processos constitutivos que teriam sua origem e localização no exterior.

p. 19) Assim. o que antes denominávamos mente converte-se em um dispositivo essencialmente retórico. (DOMÈNECH & IBÁÑEZ. do discursivo e do significado na constituição de nossos mundos mentais: Em vez de contemplar o estudo do discurso como um caminho para a vida interior dos indivíduos. os construcionismos sociais enfatizam o papel determinante do lingüístico. 118 . Desse modo. 1987). atividades tradicionalmente consideradas como próprias do mundo interior aparecem agora dotadas de um caráter eminentemente social e cultural: pensar já não é um processo psicológico mas um processo de argumentação coletivo (BILLIG.apresenta-se sob outras características e se abrem novas perspectivas para sua investigação. Em suma. 1990). baseado na interação contínua dos membros de uma comunidade determinada (MIDDLETON & EDWARDS. do discurso e/ou do significado. 1992. p. 127) LIMITES DO CONSTRUCIONISMO SOCIAL: O LOGOCENTRISMO Todas essas propostas compartilham um mesmo e único centro de gravidade: o “eu” é um relato que emerge essencialmente a partir das propriedades da linguagem. nós vemos as questões psicológicas como construídas e postas em ação no próprio discurso. seja essa constituída de processos cognitivos. 1998. a memória já não é uma possessão individual mas um bem partilhado. (EDWARDS & POTTER. motivações ou algum outro material mental.

também exclusiva. (GERGEN & GERGEN. nessas análises. Entretanto. embora essas análises representem um avanço na denúncia do essencialismo naturalista dominante nas explicações psicológicas. atos de fala ou significados que a cultura põe à nossa disposição e que manipulamos nas realidades interacionais que habitamos. elas apresentam certos elementos que estariam implicados nessa interação: indivíduos humanos. 1998). relatos. por outro. A linguagem. 18) A subjetividade constitui-se. palavras. dessa perspectiva. 1988. p.Temos um bom exemplo disso em Gergen e Gergen (1988. um problema: o êxito ou fracasso da interação. Por um lado. por outro. Como se pode observar. elas fracassam em sua concepção do lingüístico e do discursivo e. nada 119 . mas. atribuições. com os quais se elaboram mensagens que estabelecem intenções. apresentam certos recursos lingüísticos. no uso e elaboração de um complexo de narrativas. nossas relações são vividas também em uma forma narrativa. 18). p. histórias. não é mais do que uma espécie de “fala”. explicações. por isso. conversações. desses indivíduos. uma dupla de intelectuais que se pode considerar como fundadora do construcionismo social em psicologia: Não apenas narramos nossas vidas sob a forma de relato. Por um lado. à persuasão e agem sobre outras pessoas. discursos. também na concepção do “social” (DOMÈNECH. em um sentido importante. levam à ação. temos um canal. negociada exclusivamente entre indivíduos localizados em uma situação concreta e por meio de significados produzidos na interação.

é implicitamente re-invocado como uma exterioridade a esse evento lingüístico que já está em si mesmo unificado e totalizado. o ser humano é definido de modo acrítico como um agente que se constrói a si mesmo como um “eu”. porque não conseguem escapar do logocentrismo e da circularidade que encerra seu modo de entender a conformação da subjetividade. (DELEUZE. mas tempo em estado puro. p. 1992. Nada é mais perturbador que os movimentos incessantes do que parece imóvel. embora seu propósito seja desfazê-los. enquanto virtude ou capacidade de narrar-se de diversas maneiras. Essas propostas põem no centro das atividades produtoras de sentido e significado as relações entre agentes humanos.). e flexibilidades. natureza/sociedade. essas abordagens acabam mantendo velhos dualismos (sujeito/objeto. e sobretudo ver e tocar as montanhas a partir de seus dobramentos para que percam sua dureza... o “eu”. dando à sua a coerência de uma narrativa. DELEUZE: SUBJETIVAÇÃO E DOBRA Basta compreender. e para que os milênios voltem a ser o que são. Assim. Dessa maneira. utilizando e pondo em ação recursos lingüísticos. E apenas aparentemente rompem com a imagem clássica de Sujeito. Como assinala Rose (1996). 195) A questão é que é preciso buscar em outro lugar a crítica mais radical e a proposta mais alternativa à 120 .de novo: o velho modelo comunicacional. Leibniz diria: uma dança de partículas reviradas em dobras. não permanências.

imagem convencional da subjetividade. Deleuze. p. desenhando uma subjetividade em movimento e continuamente produzida. onde e quando?. para Deleuze. remetem sempre a circunstâncias: em que caso?. linhas de fuga. Neste sentido. espaço liso. enquanto os conceitos atuam como imagens performativas (BRAIDOTTI. continua presa. o pensamento de Deleuze apresenta-se como um caminho. autônoma. porque a metáfora implica uma relação com algo que já existe. sob formas as mais diversas. “fabrica” conceitos que rompem com as modalidades dominantes de pensar e representar a subjetividade e que são inseparáveis de novos perceptos (novas maneiras de ver e escutar) e de novos afectos (novas maneiras de sentir). acrescentar uma região às existentes. e nunca a essências. estável. frente a uma idéia de Sujeito essencializado. agenciamento. preencher um vazio” (DELEUZE. por isso. que servem para combater a primazia do verbo ser e. remete a um significado prévio. não consiste em justificar mas em procurar outra sensibilidade. porque mais do que significar buscam cartografar futuras paragens. 1995). Para isso. de contornos 121 . Conceitos e não metáforas. linhas moleculares. corpo sem órgãos. território. que nos permite pensar a subjetividade à margem dos pressupostos aos quais a psicologia. máquina abstrata. dotado de uma identidade unitária. A crítica. privada. nômade. Conceitos como hecceidade. “construir uma região no plano. rostidade. explorar uma nova região. 1996. como uma saída. rizoma. como?. 234). dobra. Assim. linhas molares. devir. cria. que não reduzem a linguagem a logos.

O sujeito já não é uma unidade-identidade. pelo “e”. mil passividades e formigueiros lá onde reinava. de subjetivação. movimentos de individuação em vez de espécies e gêneros. profundidades em vez de comprimentos e larguras. de confins fluidos. na qual analisa os processos de subjetivação. Pensar intensidades em vez (e antes) de qualidades e quantidades. mil pequenas palavras dissolvidas. que identifica. o sujeito soberano. para Deleuze só existem processos e esses processos só podem ser processos de unificação.. heterogêneas. um território povoado de singularidades pré-individuais: intensidades.fixos. que relaciona: a identidade pela multiplicidade. Ele examina a gênese da subjetividade em um momento e em um nível anterior à individuação. assim. A geração de subjetividades não consiste na demarcação dos limites de um eu. enclausurado e interior. ontem. E o 122 . De fato. fronteira: sua interioridade transborda em contato com o exterior. mas envoltura. Deleuze substitui a lógica do ser pela lógica da conjunção. Ele tenta. p. 1993.. 238) Ele nos mostra. de racionalização. substitui o “é”. mas na idéia de que ele é o efeito de uma função ou operação que sempre se produz na exterioridade desse eu. (FOUCAULT. Deleuze efetua uma genealogia da subjetividade. compreendida como entidades do tipo “substâncias” ou “sujeitos”. e mil pequenos sujeitos larvares. sujeitos larvares. movimentos. pele. profundidades. ajuda-nos a perfilar formas de subjetividade múltiplas. como assinala Foucault.

Ela oferece apenas uma análise parcial de nossa realidade social. relações de movimento e descanso. entre sujeitos e 123 . A dobra. é mais como uma latitude ou uma longitude na qual diferentes vetores. capacidades de afectar e ser afectado. mas a de uma superfície descontínua. da exterioridade. é preciso resistir à tirania do dispositivo linguagem-discurso-significado na hora de pensar a subjetividade. Rose (1996. ROSE. portanto. de diferentes intensidades. uma dobra do exterior. das anatomias mentais imaginárias e lingüísticas fabricadas por nossas ciências sociais. Como assinala Rose. contínua pre-posição. no prelo) Assim. p. pois. não precisam do recurso a meta-teorias psicológicas ou lingüísticas. se cortam. (ROSE. A “interioridade” que tantos sentem-se compelidos a diagnosticar não é aquela de um sistema psicológico. entre seres humanos e espaços.sujeito seria. definindo. a dobra serve para nos deslocar. a partir do próprio campo da psicologia: O ser humano não é. para um universo de fluxos ou linhas de força geradas nas conexões entre órgãos e objetos ou artefatos. uma entidade com uma história. Do ponto de vista de Rose. 1996. Essa figura faz referência a processos. o espaço de conexão ou de montagem. por isso. de uma espécie de dobramento. mas o alvo de uma multiplicidade de tipos de trabalho. E nesse sentido. a partir das propostas deleuzianas. modos de individuação que não correspondem a um sujeito e que. 1999) afirma que a imagem de um “eu”1 dialógico defendida pelo construcionismo social é insatisfatória. aqui. para dentro. 37. cf.

inscrições. com as velhas dicotomias articuladoras das ciências sociais: As dobras incorporam sem totalizar. no prelo) LINGUAGEM. As relações entre signos sempre estão agenciadas. manifesto – a parte molecular. juntam-se de maneira descontínua na forma de plissês. assim. incerta. conectadas. ROSE. formando superfícies. evidente.escolas ou oficinas. prevalece – relativamente a qualquer objeto total e acabado. fluxos e relações. MULTIPLICIDADE E AGENCIAMENTO Por isso. de agregação.. fragmentada. Rose propõe que o pensamento social se volte não para o signo ou a comunicação. entre instituições. espaços. que nos acompanham e determinam. juízos. objetos. mas para a analítica dos dispositivos nos quais esse emerge como tal. p. A subjetivação não se refere tanto à linguagem e às suas propriedades internas quanto a um agenciamento ou arranjamento de enunciação. internalizam sem unificar. 37. a linguagem seria simplesmente outro elemento entre os muitos que compõem os diferentes agenciamentos ou arranjamentos em que nos vemos implicados. 1996. de disposição ou agenciamento ou arranjamento. práticas. A subjetivação compreendida como dobra é um processo de agrupação. com certo sentido e valor interacional. de concreção sempre relativa do heterogêneo: de corpos. 124 . Na subjetivação.. cf. vocabulários. Nessa analítica. técnicas. (ROSE. rompendo. de composição.

nem se trata de saber o que conota ou o que denota. A linguagem não deve ser tomada como matéria prima e primária na constituição da subjetividade. Se aceitamos que a linguagem está organizada em regimes de significação. “agindo de que maneira?”. que. como parte de um complexo maior. mentira e crueldade?”. Trata-se de ver o que faz a linguagem. com que ela conecta e para quê. de um relato ou de uma narração. “segundo que critério de verdade?”. “sob que formas de persuasão. “autorizado de que maneira?”. sanção. O problema é. “a partir de quais lugares e espaços?”. “apoiando-se em que hábitos e rotinas?”. E nossas práticas não habitam ou não se localizam em espaços de significado e negociação entre indivíduos homogêneos. Para a análise da produção de subjetividades. Perguntas tais como. O lingüístico e o discursivo certamente estabilizam relações e geram relações. não precisamos de semânticas ocultas. Seus efeitos são apenas uma parte dessa trama. “em que relações?”. por meio desses regimes. zonas.reunidas. ela está distribuída em espaços. antes. amorfos e assepticamente funcionais. mas não são. estratos e forças. “quem fala?”. em outras relações. passam ao primeiro plano e delimitam a atividade do pensamento social. tempos. Elas estão sempre localizadas em estabelecimentos e procedimentos particulares. Não se trata de conhecer o significado de uma palavra. mas do esclarecimento de regimes de produção de conexões superficiais. antes. de uma frase. em “quê” multiplicidades se implica. com “quê” outras multiplicidades se junta. então a construção da subjetividade adquire outra aparência. mas. em 125 . com “quê” se conecta.

1998). organizam. Apesar de constituir uma teorização extremamente complexa.essência. Desse modo. que são as entidades que têm o privilégio e o status de explanans. 1986. se existe algo que possa resumir de alguma maneira a contribuição da Teoria 126 . o essencialismo naturalista é substituído por um essencialismo social que não se problematiza e continua justificando a dicotomia natureza/sociedade. nascida. Esta é. LATOUR. incorporado em práticas que capturam os seres humanos sob diversas formas. na qual se reconheça que humanos e não-humanos formam parte do mesmo coletivo. questões interacionais e interpessoais. no interior dos estudos da ciência. 1987. O que torna possível qualquer relação ou intercâmbio é um regime de linguagem. Para romper com essa dinâmica torna-se necessário praticar uma sociologia simétrica (DOMÈNECH & TIRADO. elas nos apresentam um exterior povoado exclusivamente por seres humanos e suas relações. sem dúvida. são sempre excluídos e tratados como explanandum. LAW. a principal contribuição da Teoria do Ator-Rede (CALLON. por exemplo. os objetos tecnológicos. enquanto que outras entidades. mas. inscrevem. 1994). ao exteriorizar a subjetividade. formam a produção dessa mesma linguagem. a partir das formulações de Michel Serres. ONDE ESTÃO OS OBJETOS? É certo que as análises baseadas no discurso e no lingüístico supõem uma proposta que evita a referência a um lugar interior.

127 . 1994. Jesus Cristo. pobres consumados. nas explicações sobre questões que se vêm formulando como alheias a essa classe de elementos: as relações de poder. as dinâmicas institucionais ou a constituição de subjetividades. Serres (1994) ao falar. São Francisco. Para Serres não existe vida humana sem diferença. assinala a importância dos objetos. o social e o natural. do natural. precisamos de uma dobra para onde nos retirarmos. Ao defender essa perspectiva. única e exclusivamente. um pertencimento. Confundidos permanentemente na coletividade de seres considerados como animais verdadeiramente políticos. com humanos. daquilo que não é meramente corporal e/ou humano. Em lugar de continuar ampliando a fratura entre o humano e o não-humano. carentes de quase tudo. precisamente.do Ator-Rede é precisamente sua tentativa de uma redefinição do que significa reflexão social. Nessa linha. mesmo que seja apenas por um pequeno lapso de tempo. E no “quase” é que está a questão. perderíamos nossa condição humana. dos objetos. Precisamos de algo que nos permita diferenciar-nos. p. uma propriedade. uma membrana que nos dê um limite. A dobra permite o mínimo espaço que a vida necessita para ter lugar: “só habito dobras. sou apenas dobras” (SERRES. a Teoria do Ator-Rede recupera o papel do tecnológico. para apresentar apenas alguns exemplos. Diógenes. Serres traz à baila a vida de vagabundos consumados. da dobra. E o que permite que apareça a mínima diferença é o caráter objetual. aparecem sob uma nova luz ao deixar de considerá-los como processos que têm a ver. 47).

portanto. que traça. Não se pode falar de processos de subjetivação sem referir-se a dobras. como a porciúncula. o mundo. técnica ou natureza – goza dessa função? Escolhe. em uma mesma rede. o solo – alguns resultados que nós atribuíamos a nós próprios: essa inteligência sutil. sobre a terra. no caso de São Francisco. Assim. em latitude. A dobra mínima aparece na relação com um objeto. ou referi-la ao mundo. nesse sentido. ou a túnica. no de Jesus Cristo. p. A subjetividade. mas não se pode falar de dobras sem referir-se ao objetual. temos que chamá-la de própria. o eixo do quadrante solar escrevia – em nossos tempos. de interior a nossos neurônios e vinculante de uma sociedade de cérebros. seguindo Serres. por outro lado. se você se atreve! (SERRES.caracterizados por sua renúncia dos bens materiais não podem evitar possuir alguma propriedade. é sempre um dispositivo que exige ao menos a relação com um objeto. está coerente com a cosmovisão serresiana. podemos dizer que não existe vida humana sem ao menos um objeto. artificial. Essa perspectiva. sobre si. 1994. do lugar. O tonel é a propriedade de Diógenes – tomando-se propriedade em sua dupla acepção: aquela coisa que é possuída e atributo ou qualidade essencial de uma pessoa. automaticamente. ou remetê-la às ferramentas e. algo que não tenha nada a ver com os demais. que implica. 125) 128 . os aparatos e nós próprios: Podemos dizer que essa harmonia é tão nova sob o Sol? Quando indicava a hora do equinócio e a posição. a longitude sombreada de sua própria luz? Qual das três – cultura.

despojar o Sujeito de toda identidade (essencialista) e de toda interioridade (absoluta) e.. da psique. pois. da mente ou da alma. Não tem sentido. cambiante. cerrado. múltiplo. mas que pode fazer o ser humano. Em outras palavras. para enriquecer a flexibilidade. precisamente. a dobra nos permite pensar os processos pelos quais o ser humano transborda e vai para além de sua pele. dessa variedade. de gêneros diferentes. Façamos 129 . reconhecer a possibilidade de transformação e de criação que eles deixam aberta. é multiplicá-los. Agora. do corpo. independente. Essa capacidade não é tampouco uma propriedade da carne. algo variável. simplesmente. que capacidade de afectar e de ser afectado tem em um dispositivo concreto. o que se deve. inacabado. dispositivos de ação e pensamento. ao contrário. artefatos técnicos. defender com unhas e dentes um de nossos pertencimentos.. com base em seu caráter aberto. flutuante em função da duração..O MOVIMENTO DA DOBRA: POLÍTICA E POÉTICA DAQUILO QUE SOMOS Pensar os processos de subjetivação como dobra implica. Não deixamos de coser e tecer nossa própria capa de Arlequim. produto ou propriedade de uma cadeia de conexões entre humanos. É nessa direção que vão as palavras de Serres: Quem somos? A intersecção. É. sem recorrer à imagem de um Sujeito autônomo. ao mesmo tempo. agente. como vimos. a não ser.. numerosa e muito singular. o problema já não seria tanto perguntar-se sobre que tipo de sujeito é produzido. tão matizada ou tão disparatadamente colorida quanto nosso mapa genérico.

1994. de “passar para o outro lado”. vive um impasse. em que se coloca a possibilidade de ir além do poder-saber. é necessário ressaltar que precisamente o conceito de dobra é utilizado por Deleuze para explicar a possibilidade – lançada por Foucault em seus dois últimos livros – de um si mesmo constituído como núcleo de resistência frente a poderes e saberes estabelecidos. p. assinala Deleuze (1991). Neste ponto. ele concebe os processos de subjetivação como ensaio. possível na medida em que a dobra nos mostra um cenário diferente àquele ao qual a oposição interior/exterior nos remetia. sem renunciar à sua concepção do sujeito como forma constituída historicamente e não como norma constituinte. recria o conceito de dobra para explicar os processos de subjetivação como modificação dos limites que nos sujeitam. Assim. 200).farfalhar ao vento ou dançar como chama a bandeira multicolor do mapa-documento de identidade (SERRES. E é aqui que Deleuze. porque. isto é. Modificação dos limites que nos sujeitam. leitor de Foucault. com outra delimitação. os volumes II e III da História da sexualidade assinalam um ponto de inflexão. de passar o limite prescrito pelo nexo poder-saber. os estados mistos de poder-saber que nos constituem. depois de haver analisado as formações de saber e dos dispositivos de poder. como processo ético e estético que busca produzir modos de existência inéditos. de transição. para nos reconstruir com outras experiências. na obra foucaultiana. que nos convertem em sujeitos. 130 . Foucault.

o exterior sólido e extenso distingue-se de um interior inexpugnável e isolado. independentemente de quem ou quê esteja em um ou outro lado. Trata-se. de uma luz insustentável e de um abismo obscuro: “a lei sumária de tudo ou nada”. Mundo cru e negro.. num combate sem nuanças [. o percebido e o não-percebido enfrentam-se em termos absolutos. 1998. mas também estéril: O que ocorre quando falta outrem na estrutura do mundo? Só reina a brutal oposição do sol e da terra. mantêm-se as coerções identitárias: sujeitos e objetos aparecem enquadrados em gêneros e espécies. 315-6) Entretanto. reconduzindo-nos à forma do Mesmo. Assim. por isso. essa separação remete-nos sempre ao já existente. ao já conhecido. nas palavras de Deleuze: 131 . precisamente porque a dobra permite habitar o limite que traça as bordas do que somos. mas em todos os casos e em todas as versões. sem potencialidades nem virtualidades: é a categoria do possível que se desmoronou. permite nos situar em uma linha instável e arriscada.. na separação interior/exterior. irrepresentável) e. marcando um território e relações completamente distintas.]. O sabido e o não-sabido. a linha do lado de fora. em sua versão mais cartesiana. a dobra supõe um movimento que incorpora essa categoria do possível. na qual os contornos do familiar (imaginável e representável) diluem-se em contato com o desconhecido (intraduzível.O movimento da dobra tem lugar entre um lado de dentro e um lado de fora que não equivalem a um interior e a um exterior. p. (DELEUZE. não apenas de uma dicotomia estática.

essa zona estranhamente intermediária. o Outro instala-se e atravessa a subjetividade. para construir espaços. 138) Enfrentar a linha do lado de fora. 2000). (DELEUZE. um lado de dentro que não é mais o dobramento. dobrado que se produz quando uma força afeta a si mesma em vez de afetar a outras forças. que não pára de se reconstituir variando sua direção. 130) Dessa maneira. que definem o que fazemos. enfrentar. Por isso. 1992. respirar – em suma. por uma conversão ao mais próximo: a vida nas dobras. membrana. 1991. O mais longínquo tornase interno. dobras. pensamos e dizemos. ao mesmo tempo. isto é. p. impedindo uma identidade fechada. É o lado de fora o que abre um si mesmo. mas confusão. por meio da relação de si consigo mesmo: É como uma glândula pineal. borda. 1996). (DELEUZE. mas coextensivo a toda a linha do lado de fora. o dobrado do lado de fora. 132 . limite e. de modo análogo ao que ocorre no movimento do aprender quando se o compreende como possibilidade de tornar habitável a fronteira onde se encontram e se transformam o representável e o que ainda não se conhece (JÓDAR. p. desvanecimento de poderes e saberes (DELEUZE. intercâmbio. que permitam alargar o que somos. para constituir uma zona vivível onde seja possível alojarse. apoiar-se. pensar. dar-nos um novo corpo com outro umbral de sensibilidade. traçando um espaço do lado de dentro.é preciso conseguir dobrar a linha. entre o lado de fora e o lado de dentro não há separação. e ser capazes de dobrá-la. inversão.

que impede a prolongação de suas linhas. as 133 . A dobra. redobrar: o maneirismo substitui o essencialismo (DELEUZE. Dobrar. excita. desde o feminismo até certos nacionalismos. mas que é o irredutível a qualquer identificação. pois. O conceito de dobra constitui uma figuração ou imagem da subjetividade necessária. A dobra.privada. quer dizer. autêntica e pura. para combater o tipo de individualidade que se nos impõe e para pensar(-nos) de outra maneira. Dessa maneira. Tendo em conta que o Outro não faz referência a uma identidade em confronto com outra. como assinala Foucault (1982). É necessário dobrar. desestabiliza a ordem do sistema e o submete a turbulências e flutuações (CALABRESE. a produção de novidade (DELEUZE. 232). se a dobra só pode avançar variando. que produz novidade. mas como continuá-la. adquire imediatamente uma dimensão política. o problema não é nunca como acabar a dobra. como aquilo que faz diferir. 1996. como diferença. não apenas porque os processos de subjetivação são continuamente penetrados pelo saber e recuperados pelo poder. p. o Outro. 1989). redobrar. desdobrar. como a arte barroca. compreendida agora como criação de possibilidades de existência que rejeitam a ordem de identificação existente. mas porque as próprias subjetivações – se estão assentadas dentro das estruturas fixas e da segurança agradável da identidade – podem converter-se em um obstáculo que impede cruzar a multiplicidade. que enfrentam os limites. bifurcando-se e metamorfoseando-se. 1992). desdobrar. a dobra nos permite entender a crise que afeta diversos movimentos. Nesse sentido.

funcionando como mecanismos de constrição e exclusão (GÓMEZ & BUENO. a outra.. se é verdade que o próprio saber é cada vez mais individualizado. ênfase nossa) 134 . identidades que devem ser recuperadas. a cada vez.. de fazer política com a identidade. isto é. 2000). segundo a orientação das dobras que subjetivam o saber e recurvam o poder. e que quando o são acabam convertendo-se em lei. os perigos. de reivindicar identidades modernas de caráter essencialista. nossa interioridade e individualidade. (DELEUZE. princípio e código. 112-3. desveladas. se ele se faz individualizante. 1991. reencontradas. que nos vincula. o que é que sobra para a nossa subjetividade? Nunca “sobra” nada para o sujeito. como um foco de resistência.contradições. p. a variação. E não apenas isso: entender a subjetivação como dobra inaugura outra política. a metamorfose. que consiste em individuarnos de acordo com as exigências do poder. ele está por se fazer. formando hermenêuticas e codificações do sujeito desejante. pois. nos ata a uma identidade sabida e conhecida e à qual devemos responder: Se é verdade que o poder investe cada vez mais nossa vida cotidiana. como formas de resistência a duas formas atuais de sujeição: uma. afirmando a diferença. uma política que renuncia ao esquema opressão/libertação/identidade e que busca criar novas formas de experimentar e de sentir.

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Inventando nossos eus
Nikolas Rose

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A idéia de “eu”1 entrou em uma crise que pode muito bem ser irreversível. Os teóricos sociais têm escrito inúmeros obituários da imagem de ser humano que animou nossas filosofias e nossas éticas por tanto tempo: o sujeito universal, estável, unificado, totalizado, individualizado, interiorizado. Para algumas análises, particularmente aquelas inspiradas na psicanálise, essa imagem sempre foi “imaginária”: os humanos nunca existiram, nunca puderam existir, nessa forma coerente e unificada – a ontologia humana é necessariamente a ontologia de uma criatura despedaçada no seu próprio núcleo. Para outros, essa “morte do sujeito” é, ela própria, um evento histórico real: o indivíduo ao qual essa imagem do sujeito correspondia surgiu apenas recentemente, em uma zona limitada de tempo-espaço, tendo sido, agora, varrido pela mudança cultural. No lugar do eu, proliferam novas imagens de subjetividade: como socialmente construída; como dialógica; como inscrita na superfície do corpo;
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como espacializada, descentrada, múltipla, nômade; como o resultado de práticas episódicas de autoexposição, em locais e épocas particulares. Deve-se assinalar, entretanto, que no mesmo momento em que essa imagem do ser humano é declarada passé pelos teóricos sociais, certas práticas regulatórias buscam governar os indivíduos de uma maneira que está, mais do que nunca, ligada àquelas características que o definem como um “eu”. Da mesma forma, as idéias de identidade e seus cognatos têm se colocado no centro de muitas das práticas nas quais os seres humanos se envolvem. Na vida política, no trabalho, nos arranjos domésticos e conjugais, no consumo, no mercado, na publicidade, na televisão e no cinema, no complexo jurídico e nas práticas da polícia, nos aparatos da medicina e da saúde, os seres humanos são interpelados, representados e influenciados como se fossem eus de um tipo particular: imbuídos de uma subjetividade individualizada, motivados por ansiedades e aspirações a respeito de sua auto-realização, comprometidos a encontrar suas verdadeiras identidades e a maximizar a autêntica expressão dessas identidades em seus estilos de vida. As imagens de liberdade e autonomia que inspiram nosso pensamento político operam, da mesma forma, em termos de uma imagem do ser humano que o vê como o foco psicológico unificado de sua biografia, como o locus de direitos e reivindicações legítimas, como um ator que busca “empresariar” sua vida e seu eu por meio de atos de escolha. A julgar pela popularidade das problemáticas do psi na mídia, pelas demandas por toda espécie de terapia e pela enorme quantidade de todo
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tipo de conselheiros, parece que os seres humanos, ao menos em certos locais e entre certos setores, acabaram por se reconhecer nessas imagens e nesses pressupostos e por se relacionar consigo mesmos e com suas vidas em termos análogos – isto é, nos termos da problemática do “eu”. A dispersão conceitual do “eu” parece caminhar em paralelo com sua intensificação “governamental”. Teremos nós, então, apesar dos argumentos dos filósofos e teóricos críticos, nos tornado “sujeitos psicológicos”? É hora de abordar a questão da “subjetividade” mais diretamente. Não em termos dos efeitos da “cultura” sobre a “pessoa” ou em termos de uma “teoria do sujeito”, mas buscando caracterizar, por assim dizer, o modo de ação das diversas tecnologias psi de subjetivação. Isso nos obriga a um desvio por alguns textos contemporâneos sobre o “problema do sujeito”, antes de retornar, em conclusão, a uma análise do tipo de criatura que nós nos tornamos.
VOCÊ É MAIS PLURAL DO QUE PENSA

Gilles Deleuze e Félix Guattari foram, provavelmente, os autores que formularam a alternativa mais radical à imagem convencional da subjetividade como coerente, durável e individualizada: “Você é longitude e latitude, um conjunto de velocidades e lentidões entre partículas não formadas, um conjunto de afectos não subjetivados. Você tem a individuação de um dia, de uma estação, de um ano, de uma vida (independentemente da duração); de um clima, de um vento, de uma neblina, de um enxame, de uma matilha (independentemente da
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de quebrar as funções à força de agenciamentos. pode consegui-la” (MP4. mas como um plano “imanente”. os humanos. são mais múltiplos. de embaralhar as formas a golpe de velocidade ou lentidão. de uma pessoa ou de um sujeito. Eles chamam essas formas não-subjetivadas de “hecceidades” – modos de individuação que não são os de uma substância. formado apenas da distribuição e da relação entre seus efeitos – está um outro plano de organização. de uma hora. 49). p. de microagenciamentos. De modo que o plano de organização não pára de trabalhar sobre o plano de consistência. em oposição a essa dimensão ou a esse “plano de consistência” – que não deve ser pensado como uma estrutura oculta. o plano de consistência não pára de se extrair do plano de organização. Ou pelo menos você pode tê-la. p. parar ou interromper os movimentos de desterritorialização. 60). reconstituir formas e sujeitos em profundidade.3 Você pode tê-la – para Deleuze e Guattari. estratificação. mais transientes e mais não-subjetivados do que somos levados a acreditar. reestratificá-los. (MP4. Inversamente. Além disso. 142 . territorialização. de um inverno. tentando sempre tapar as linhas de fuga. 47). mas os de uma nuvem. lastreá-los. poder de afetar e ser afetado” (MP4. de uma data – “relações de movimento e de repouso entre moléculas ou partículas. p. podemos agir sobre nós mesmos para habitar essas formas não-subjetivadas de existência.regularidade). ao menos ao longo de um determinado plano de existência. de levar partículas a fugirem para fora dos estratos. Entretanto.

em quais agenciamentos. objetos. afectos de outros humanos. em ser “fiel a Deleuze e Guattari” – o que seria uma aspiração curiosa – do que em usar o que eles escreveram como uma plataforma de lançamento para minha própria questão: como os humanos são subjetivados. movimentos.4 Estou menos preocupado. A subjetivação é. práticas e relações que tentam transformar – ou operam para transformar – o ser humano em variadas formas de sujeito. efeitos do fato de sermos-reunidos-em-um-agenciamento. forças. animais. e como podemos pensar as práticas psi como um elemento operativo no seu interior. Existem.Se a experiência e a relação que temos com nós mesmos não é de movimentos. decomposições e recomposições é por causa da localização dos humanos nesse outro plano. fluxos. em seres capazes de tomar a si próprios como os sujeitos de suas próprias práticas e das práticas de outros sobre eles. o nome que se pode dar aos efeitos da composição e da recomposição de forças. de qualquer forma. Aqueles que utilizam uma “teoria do sujeito” – cujas condições mesmas de possibilidade se situam no interior de um certo regime histórico 143 . no interior de agenciamentos. muitas dificuldades com essas hipóteses. espaços e lugares. ao nos reunir – em um agenciamento – com partes. as quais eu retirei de seu contexto para utilizá-las em minha própria teorização. assim. esse plano de organização que tem a ver com o desenvolvimento de formas e com a formação de sujeitos.3 cujos vetores. É nesses agenciamentos que são produzidos os efeitos de sujeito. sem dúvida. forças e interconexões subjetivam o ser humano.

constituindo justamente o próprio horizonte de pensamento que esperamos ultrapassar. habitado e animado por sua própria alma – “o” sujeito. nos tornamos o que somos. de 144 . que foi precisamente a forma como. limitado pelo envelope da pele. “Por que nossos corpos devem terminar na pele? Do século XVII até agora. isso não surge. [. como alguns sugerem. p. as máquinas podiam ser animadas – era possível atribuir-lhes almas fantasmas para fazê-las falar ou movimentar-se ou para explicar seu desenvolvimento ordenado e suas capacidades mentais. Essas teorias da subjetividade são desenvolvidas para explicar eventos que aquelas próprias teorias ajudaram a produzir. desnecessárias” (HARAWAY. Se os seres humanos acabaram por se conceber como sujeitos. em um momento histórico e cultural particular. “o” eu. na discussão que se segue uma análise da subjetivação que não utiliza uma metapsicologia para explicar como.. eventos que elas plantaram ao longo de nossa existência. localizando-os em uma interioridade que elas próprias ajudaram a cavar. Em contraste com essa perspectiva. 2000. com uma predisposição ao ser. com um desejo de ser. a própria possibilidade..] Essas relações máquina/organismo são obsoletas. historicamente. a própria idéia. de uma teoria sobre um corpo separado e envelopado. O eu não deveria ser investigado como um espaço contido de individualidade humana. proporei. “a” pessoa – é parte daquilo que tem que ser explicado. 101). ele acabou por conceber sua relação consigo mesmo.de subjetivação – para explicar esse regime de subjetivação encontram-se em uma situação contraditória. De fato.

em vez disso. 160). propriedades e ontologias são constituídas e moldadas ao serem utilizadas. sugiro que todos os efeitos da interioridade psicológica. certamente. juntamente com uma gama inteira de outras capacidades e relações.algum desejo ontológico. sendo. um animal humano biologicamente equipado com sentidos. p. pela interação entre. a resultante de uma certa história e de suas invenções (cf. de outro. físico. instintos. nas quais os humanos. Ela tampouco é algo que deve ser explicado pela “socialização”. Essa “aquisição” de capacidades dá-se em conseqüência das formas pelas quais suas forças. no qual um mundo psicológico interior é produzido pelos efeitos da cultura sobre a natureza. colocar a si mesmos em ação. Nossas investigações deveriam buscar as linhas de formação e de funcionamento de uma gama de “práticas de subjetivação” historicamente contingentes. Dessa perspectiva. BRAIDOTTI. ser vista como um dado primordial e nem mesmo como uma capacidade latente de um certo tipo de criatura. a subjetividade não deve. um ambiente externo. Ao contrário. interpessoal. ao se relacionarem consigo mesmos sob formas particulares. falar a si mesmos. inscritas e talhadas por agenciamentos diversos e ao serem conectadas a agenciamentos diversos. julgar a si mesmos. 1994b. dotam-se de determinadas capacidades. social. tais como: compreender a si mesmos. são constituídos por meio da ligação dos humanos a outros objetos e 145 . de um lado. energias. necessidades e. Escrever no espírito de Deleuze significa formular nossas questões em termos daquilo que os humanos podem fazer e não daquilo que eles são.

cf. 1995b. estratificações e ligações para os quais eu utilizei o termo psi. 1994. 1995a. Uma forma melhor de ver os sujeitos é como “agenciamentos” que metamorfoseiam ou mudam suas propriedades à medida que expandem suas conexões: eles não “são” nada mais e nada menos que as cambiantes conexões com as quais eles são associados (MP1. apreendido. no sentido que lhes dou aqui. p. de forma constitutiva. 146 . diversificado. multiplicidades e forças. 116). os seres humanos se relacionam consigo próprios em termos de um interior psicológico: como eus desejantes. em uma montagem.práticas. os seres humanos a diferentes relações no século XX – os “rizomas” que têm conectado. como eus intencionais – como eus capazes de agir como sujeitos (ver ROSE. As disciplinas psi compreendem mais que uma forma historicamente contingente de representar a realidade subjetiva. São essas variadas relações e ligações que produzem o sujeito como um agenciamento. formado pontos de entrada. pontos de separação e saída para os humanos – deve algo importante a esses conceitos. como eus sexuados. como eus pensantes. p. tem uma importância particular em relação aos agenciamentos contemporâneos de subjetivação. em seus próprios tempos. A psicologia. GROSZ. têm feito parte. autoridades. elas próprias fazem emergir todos os fenômenos por meio dos quais. divergido. 16-37). como um corpo de discursos e práticas profissionais. Sugiro também que a multiplicidade de linhas que tem reunido. como eus trabalhadores. como uma gama de técnicas e sistemas de julgamento e como um componente de ética. As disciplinas psi. expandido. ações.

das prisões. professores. Eles estão presos a aspirações sociopolíticas. a sonhos. por outro. das salas de aula. definidos de modos particulares. amantes. pessoas e objetos. relativamente a questões tais como a qualidade da população.das reflexões críticas sobre a problemática do governo das pessoas de acordo com. a promoção da autodependência e da capacidade de empreendimento. técnicas. as disciplinas psi estabeleceram uma variedade de “racionalidades práticas”.8 147 . e regimes de prática. Essas racionalidades práticas são regimes de pensamento.. intervenções sociais e projetos administrativos. como pais.. envolvendo-se na multiplicação de novas tecnologias e em sua proliferação ao longo de toda a textura da vida cotidiana: normas e dispositivos de acordo com os quais as capacidades e a conduta dos humanos têm se tornado inteligíveis e julgáveis. homens. mulheres. por meio dos quais os humanos podem fazer de si próprios seres “éticos” e dotados de “agência”. Os saberes e as autoridades psi têm gerado técnicas para moldar e reformar os eus. Dessa forma. sua natureza e verdade e. por um lado. a prevenção da criminalidade. dos quartos de dormir. a maximização do ajustamento. e por meio de sua associação com vários dispositivos. das clínicas. com as exigências da ordem social. chefes. da harmonia. por meio dos quais as pessoas podem dar importância a aspectos de si próprias e à sua experiência. as quais têm sido reunidas – em um agenciamento – com os aparatos dos exércitos. a esperanças e a medos. da tranqüilidade e do bem-estar. Eles têm sido corporificados em uma proliferação de programas.

como sujeito de enunciação.NARRANDO O EU Comecemos com a linguagem. porque é apenas a linguagem que pode estabelecer a capacidade de a pessoa se colocar como um sujeito. o qual colocava uma grande ênfase na capacidade de criação de sujeito que têm os pronomes pessoais. que não ia discutir a questão da linguagem. que os humanos se constituem a si próprios como sujeitos. 1979b. Ele acreditava que não havia nenhuma tribo ou linguagem na qual a palavra “eu” não existisse. o que é visível na abundância de sufixos posicionais que dizem respeito às relações no tempo e no espaço entre o sujeito falante e aquilo sobre o qual ele fala (MAUSS. com respeito às propriedades subjetivantes da linguagem. p. foi apresentado por Émile Benveniste. forma um locus de subjetivação. entretanto. ressaltando o associado culto do eu e o respeito pelo eu na lei e na moralidade. mesmo que os sujeitos assim formados nem sempre refletissem sobre si mesmos como sujeitos no sentido que nossa cultura dá a esse termo. Um argumento diferente. e que a onipresença do eu se expressa também na linguagem. “como 148 . na qual ela claramente não representasse algo. aqui. Marcel Mauss. Para Benveniste (1971). em seu famoso ensaio sobre a história da noção ou concepção de eu. o eu. Concedia-se. argumentava que essa categoria havia surgido apenas recentemente. mas relacionado. um lugar no interior do qual um sujeito pode surgir. Ele advertia. à própria linguagem. criando uma “posição de sujeito”. argumentava ele. É através da linguagem. 61). efeitos subjetivantes.

1977. pois não existe qualquer sujeito por detrás do “eu” que é posicionado e capacitado para se identificar a si mesmo naquele espaço discursivo: o sujeito tem que ser reconstituído em cada momento discursivo de enunciação (cf. o lugar do sujeito é um lugar que tem que ser constantemente reaberto. deve refe149 . 224). quanto é tornada possível por esse mesmo fato. é insuficiente.a unidade psíquica que transcende a totalidade das experiências reais que ela reúne. A subjetividade “é apenas a emergência. Entretanto. que se torna “plena” quando o falante introduz a si próprio em uma instância de discurso. ao se referir a si próprio como “eu” em seu discurso. de uma propriedade fundamental da linguagem” (ibidem. essa ênfase nas propriedades subjetivantes da linguagem concebida como um sistema gramatical. p. 133). sem referência a qualquer realidade. dessa perspectiva. no ser. 85-6). como uma relação entre pronomes colocada em jogo em instâncias de discurso. precisamente por causa disso. com Deleuze e Guattari que a subjetivação nunca é um processo puramente gramatical. entretanto. p. produzindo a permanência da consciência”. A subjetivação. ela surge de um “regime de signos e não de uma condição interna à linguagem” e esse regime de signos está sempre preso a um agenciamento ou a uma organização de poder (MP2. aqui. COWARD & ELLIS. Devemos concordar. As formas pronominais são um conjunto de signos “vazios”. A linguagem tanto torna possível que cada falante se estabeleça a si mesmo como um sujeito. A subjetivação nunca pode ser uma operação puramente lingüística. p. Para o presente objetivo.

1986a. um enunciado interpretativo em psicanálise ou uma expressão de paixão em relações eróticas. no regime que. só formaliza a expressão. operável: o médico. em sua outra face inseparável. aqui. o cientista. formas que são irredutíveis às categorias lingüísticas (FOUCAULT. dos diversos lugares. Foucault propôs o termo “modalidades enunciativas” para conceptualizar as formas sob as quais a linguagem aparece em espaços e épocas particulares. a pessoa que está falando e o objeto do qual ela fala e. das diversas posições” que devem ser ocupadas em regimes particulares para que algo se torne dizível. 1986a). seguindo Foucault. aqueles que são os sujeitos de sua fala? Pode-se pensar. de uma questão dos “diversos status. Assim. governa a enunciação de um enunciado diagnóstico na medicina. uma explicação científica em biologia. ele formaliza os conteúdos. em uma de suas faces. 150 . de um lado. aqui. 61). as relações entre os signos são sempre reunidas no interior de outras relações: “O agenciamento só é enunciação. p.rir-se. Essas enunciações não são colocadas em discurso por meio de “uma função unificante de um sujeito”. antes de tudo. o terapeuta. p. Em A arqueologia do saber. mas àquilo que Deleuze e Guattari chamam. em qualquer espaço ou época particular. 98). é agenciamento maquínico ou de corpo” (MP2. de outro. não à linguagem e às suas propriedades internas. o amante (FOUCAULT. nem tampouco produzem esse sujeito como uma conseqüência de seus efeitos: trata-se. Quem pode falar? De qual lugar fala? Que relações estão em jogo entre. audível. de um “agenciamento de enunciação”.

p. explicar um processo. Mas à luz do que foi dito até agora. até emitir ordens. cantar. planejar uma campanha. elas são estruturadas em variadas relações que concedem poderes a alguns e delimitam os poderes de outros. os eus são realmente constituídos no interior da fala. alguns a falar a verdade e outros a reconhecer sua autoridade e a abraçá-la. alguns a curar e outros a serem curados. Logo retornarei a esse argumento. fazer um diagnóstico. desde contar. aspirá-la ou submeter-se a ela. 1988. discutir uma teoria. capacitam alguns a julgar e outros a serem julgados. os afectos e as intensidades que os atravessam são pré-pessoais. mesmo na forma de “fala”. listar. Essas práticas não habitam um domínio amorfo e funcionalmente homogêneo de significação e negociação entre indivíduos – elas estão localizadas em locais e procedimentos particulares. aqui. é entendida como um complexo de narrativas do eu que nossa 151 . aparece como um agenciamento de “práticas discursivas”. a própria linguagem. 18). comprar uma mercadoria. A linguagem. “Não se trata apenas do fato de que dizemos nossas vidas como estórias: mas existe um sentido importante no qual nossas relações mútuas são vividas de forma narrativa” (GERGEN & GERGEN. os quais consideram a subjetivação em relação à linguagem e que buscam explicar o eu em termos de “narrativa”: as estórias que contamos uns aos outros e a nós próprios. confessar.Dessa perspectiva. fazer contratos. Para aquelas pessoas que argumentam dessa forma. quero examinar alguns desenvolvimentos recentes na própria psicologia. passando pela recitação de preces.

. (SHOTTER & GERGEN. amor. trata-se de uma forma de inteligibilidade historicamente dependente. Em vez disso. 1989. p. falar sobre o eu é tanto constitutivo das formas de autoconsciência e de autocompreensão que os seres humanos adquirem e exibem em suas próprias vidas quanto é constitutivo das próprias práticas sociais. mantidas em bom estado. descobrimos que essas mesmas relações são constituídas pelas formas de fala que as inspiram. x) A subjetividade e as crenças sobre os atributos do eu. não devendo nada a outros por nossa natureza como tal. e assim por diante. para atribuir significado à sua própria conduta e às condutas de outros em termos de agressão. pelas formas de responsabilização [accountability] pelas quais elas são. das intenções. Se nos descobrimos agora como vivendo a nós próprios como indivíduos autocontidos.cultura torna disponível e que os indivíduos utilizam para dar conta de eventos em suas próprias vidas. intenção. por assim dizer. acabamos por supor que esse é um estado “natural” ou fixo das coisas.. para sua sustentação continuada. que exige. dos sentimentos. rivalidade. autocontrolados. são entendidas aqui como propriedades não de mecanismos 152 . um conjunto de compreensões partilhadas. na medida em que essas práticas não podem ser levadas a efeito sem certas autocompreensões: Em vez de supor que as relações das pessoas com a natureza e com a sociedade são pouco ou nada afetadas pela linguagem no interior da qual elas são formuladas. Isto é. para dar a si mesmos uma identidade no interior de uma estória particular.

] para dar conta dela” (SHOTTER. como um recurso textual desenvolvido de forma cultural – o texto do ‘individualismo 153 . apenas em sociedades onde essas coisas podem. ela própria. em grande parte. na verdade. 34). a referência ao indivíduo solitário serve. argumenta-se. ser ditas por pessoas sobre pessoas. poderia. nos habitantes de culturas particulares. as quais são atribuídas. 168) e devemos falar dessa forma porque as exigências para cumprir nossas obrigações como membros responsáveis de uma sociedade particular têm uma qualidade moralmente coerciva. de gramáticas de fala. p. Elas são possíveis e. para localizar no “eu” aquilo que é. As regras de “gramática” que dizem respeito a pessoas ou ao que Wittgenstein chamou de “jogos de linguagem” produzem ou induzem um repertório moral de características relativamente duradouras. 1985. mas de conversas. ao mesmo tempo. de forma enganadora.. apropriadamente.. o produto de um conjunto de relações: “nós falamos dessa forma sobre nós mesmos porque estamos presos no interior do que se pode pensar como um ‘texto’..mentais. “A tarefa da psicologia é a de expor nossos sistemas de normas de representação. Essas noções de constituição das características da pessoalidade por meio da fala são freqüentemente consideradas como exigindo uma análise mais explicitamente “dialógica”. p. “Nossa compreensão e nossa experiência de nossa realidade é constituída para nós. 1989. pelas formas pelas quais nós devemos falar em nossas tentativas [. à pessoalidade. inteligíveis. Uma análise desse tipo. servir como uma espécie de crítica de certas formas de falar o eu. o resto é fisiologia” (HARRÉ..

possessivo’ – para o qual nós. na passagem por suas vidas. as pessoas vêm a conhecer a si próprias como pessoas de um tipo particular. A análise. “são colocados à nossa disposição como recursos no interior das ordens sociais nas quais fomos socializados” (ibidem. por meio de um ato de reconhecimento mútuo. devemos (moralmente) nos voltar. Assim. Procedimentos. Por “social”. estórias sobre os eus culturalmente fornecidas. a forma de uma espécie de “etnografia interacional” das “formas de falar” que são utilizadas pelas pessoas ao colocar em ação seus encontros sociais e nos quais elas mutuamente constroem-se a si próprias por meio do gerenciamento do sentido. HERMANS & KEMPEN. sofrendo alteração contínua à medida que a interação avança [. na verdade. as quais. A autonarrativa é um implemento lingüístico construído pelas pessoas. aqui. que recentemente acabou por se destacar (cf. Mary e Kenneth Gergen argumentam em favor da importância do que eles chamam de “autonarrativas”. p.. pois. histórica e culturalmente desenvolvidos. toma. construções sociais. Foi esse caráter dialógico das autonarrativas. esses autores querem dizer “interpessoal” e “interacional”. p. fornecem os recursos dos quais os indivíduos lançam mão em suas interações mútuas e com eles mesmos. práticas ou métodos.]. 1989. “As narrativas são. aparentemente. 143) e ao lançar mão deles e ao usá-los em seus encontros. 1993). como já se terá tornado evidente. o fato de que elas são “sociais e não individuais”. para a produção de sentido. quando confrontados com a tarefa de descrever a natureza de nossas experiências de nossas relações com os outros e com nós mesmos” (SHOTTER.. em 154 . 136).

37).]. com o indivíduo escolhendo entre as diferentes formas de narrativa às quais foi exposto. certas formas estoriadas culturalmente disponíveis. Ao organizar. um eu é. 35). coerente (GERGEN & GERGEN. explícita ou implicitamente. seria um engano ver essas construções como o produto ou a propriedade de eus isolados [. 20-1). reforçar ou impedir uma diversidade de ações [. por assim dizer..]. 1988. 1988. negociações que assumem. Trata-se de uma socialidade que é reforçada pelas formas e respostas relacionais que certos modos de falar sobre o eu recebem em trocas contínuas entre as pessoas de vários tipos. 155 . Mas “embora o objeto da autonarrativa seja um só eu. apoiamo-nos no discurso que nasce da troca social e que inerentemente implica uma audiência” (p.relações para sustentar. Ao compreender a relações entre eventos em nossa vida. elas próprias. crítica e solidificação social” (GERGEN & GERGEN. nas quais os indivíduos negociam conjuntamente teorias particulares sobre si mesmos e sobre outros. aqui. de acordo com as exigências feitas na negociação da vida social – por exemplo. p.. compreendida como uma conseqüência da proposição de que “o indivíduo aloja a capacidade para uma multiplicidade de formas narrativas” e domina uma gama de meios de se tornar inteligível por meio de narrativas.. A “multiplicidade” do eu é. de que a pessoa se faça inteligível como uma identidade duradoura. As autonarrativas são sistemas simbólicos utilizados para propósitos sociais tais como justificação. suas relações consigo mesmos e com outros em termos dessas narrativas. p.. integral. “gerado pela estória”.

atribuições – para construir mensagens que transmitem intenções. sua análise segue o modelo banal da comunicação.Esses estudos sobre o eu. Mas as análises conduzidas sob os pressupostos do “construcionismo social” são problemáticas por causa da visão de linguagem que elas sustentam. o eu. Evidentemente. utilizam vários recursos lingüísticos – palavras. é implicitamente reinvocado como um exterior inerentemente unificado relativamente a essas comunicações. Se a subjetivação é analisada em termos das relações dos humanos consigo mesmos. A linguagem. como constituída de significados situacionalmente negociados entre indivíduos. nessas análises. os vocabulários discursivamente estabelecidos exercem um papel importante na composição e recomposição dessas relações. que o tomam como sendo construído em narrativas interacionais de acordo com os recursos culturais disponíveis. em uma variedade de formas. na qual as partes envolvidas. agir. simplesmente em virtude de ser capaz de se narrar a “si próprio”. os indivíduos humanos. explicações. Essas análises inescapavelmente colocam o agente humano como o núcleo dessas atividades de produção de sentido. certamente apreendem algo de importante. estórias. Isso nos faz lembrar a observação de Nietzsche de que “um pensamento vem quando ‘ele’ quer e não 156 . ao ativamente negociar sua trajetória através das teorias disponíveis a fim de viver uma vida significativa. é vista como “fala”. ou da falta de comunicação. Portanto. Como “fala”. persuadir. o ser humano é entendido como aquele agente que se constrói a si próprio como um eu ao dar à sua vida a coerência de uma narrativa. ou para mutuamente afetar.

aquele reconfortante “eu” da filosofia humanista. assumem sua forma. na verdade. da “comunicação”. dos significados e das comunicações que devemos nos voltar. p.]. apenas uma suposição.quando ‘eu’ quero [. uma afirmação. o que nossos psicólogos radicais invocam é. dito de maneira suave. a pessoa em quem os efeitos de sentido. constituir uma possibilidade. o velho e familiar eu. exigindo uma atenção mais generosa e produtiva do que a que eu serei capaz de dar aqui. Ao tentar explicar nossa história e nossa especificidade. comunicação. 23). ele próprio. Isso pensa: mas que este ‘isso’ seja precisamente o velho e decantado ‘eu’ é. do “significado”. e certamente não uma ‘certeza imediata’” (NIETZSCHE. agora sendo postulado aqui como a solução para o problema de como poderia. supostamente em virtude da natureza especial de seu objeto. que é o ator que interage com outros em um contexto cultural e lingüístico..9 Obviamente.. mas para a analítica das técnicas. no curso de suas pretensões a se distinguirem das “ciências naturais”. do eu da fenomenologia. seria absurdo colocar a análise produzida por lingüistas como Benveniste nesse mesmo campo hermenêutico. com todos os pressupostos que o acompanham. Seu trabalho é refrescante como um copo d’água tomado depois do adocicado humanismo dos “construcionistas sociais”. É hora. não é para o domínio dos signos. Entretanto. 1992 [1886]. Trata-se do eu da hermenêutica. 157 . pressupostos que afirmam a singularidade e o caráter cumulativo do tempo vivido da consciência. entretanto. desde há muito invocados pelas “ciências sociais”. de questionar toda a tirania da “linguagem”.

158 . p. os regimes que constituem a autoridade por meio de uma relação com aqueles que são seus sujeitos como pacientes. zonas e estratos. Quem fala. analisandos. os arranjos desenhados para esses encontros. locais e regimes de enunciação que dão poder a certas autoridades para falar nossa verdade na linguagem da psique. em quais espaços e lugares. e se ela está agenciada em regimes práticos de coisas. de quais lugares. Análises como as que estive discutindo aqui atribuem coisas demasiadas à linguagem como comunicação e absolutamente nada à linguagem como agenciamento. esses são precisamente os tipos de questões com que devemos lidar: a emergência de práticas. Pode ser “relativamente fácil não dizer mais ‘eu’. mas sem com isso ultrapassar o regime de subjetivação. mentiras e crueldades? Em relação às disciplinas psi. das autoridades e dos aparatos. agindo sob quais formas. os vetores afetivos da compulsão. as paisagens. autorizado sob quais formas. fregueses. clientes. em quais relações. de acordo com que critérios de verdade. sustentado por quais hábitos e rotinas.das intensidades. então deve-se conceber a “construção discursiva do eu” de uma forma bem diferente. para agradar. podemos continuar a dizer Eu. desde as salas de consulta até as enfermarias dos hospitais. corpos e forças. sanção. da sedução. e inversamente. os edifícios. e já estar em um outro regime onde os pronomes pessoais só funcionam como ficções” (MP2. do contrato e da conversão que fazem a conexão das linhas. 95). épocas. as salas. Se a linguagem está organizada em regimes de significação por meio dos quais ela se distribui ao longo de espaços. e sob que formas de persuasão.

Isto é. seus papais. p. uma sentença. 12). de sonhar. da invenção da escrita pela qual os humanos são capazes de se tornar “máquinas escreventes” por meio do 159 . primária na produção de pessoas. sua mecânica de invenção e suas noções de cura. as máquinas psiquiátricas com suas arquiteturas reformatórias. antes. Em primeiro lugar. suas necessidades e suas desilusões. formas de andar. mas no que ela faz: que componentes de pensamento ela coloca em conexão. a linguagem é. que é bem reconhecida. sobre “com o que ele funciona. mas. suas grades de diagnóstico. em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades. a diagramar. seus órgãos e suas patologias.10 Em qualquer circunstância. obviamente. as máquinas de curar com seus médicos e pacientes. a fantasiar uma determinada existência. a se reunirem em um agenciamento: os sexos com seus gestos. devemos reconhecer que a linguagem não é. não se trata de uma questão sobre o que uma palavra. seus bebês. de forma alguma. uma estória ou um livro “quer dizer” ou o que “significa”. mais que apenas “fala” – daí a importância. as famílias com suas mamães. que vínculos ela desqualifica. Mas significa sugerir que essas análises são mais instrutivas quando se focalizam não no que a linguagem significa. Isso não significa voltar as costas para a linguagem ou para todos os instrutivos estudos que têm sido conduzidos sob os auspícios de uma certa noção de “discurso” ou que têm desenvolvido a analítica da retórica. de vestir. de desejar. em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua [multiplicidade] (MP1. o que capacita os humanos a imaginar.

por exemplo. diferenças e similaridades. Goody. acumular informação. 1977. 1982. Ao escrever. as penas. cf. ONG. “escrita na alma do ouvinte 160 . os pincéis. Platão. 1982).treinamento da mão e do olho. A invenção da imprensa torna possível a generalização de “máquinas de leitura” e uma variedade de novas coisas se torna pensável: novas formas de compreender o lugar dos humanos em uma cosmologia. por meio de uma relação com a superfície mais ou menos transportável de inscrição. disciplina o pensamento e as auto-relações de uma forma distintiva (previsão e prudência. 1979). os humanos capazes de novas coisas. por meio da fabricação de instrumentos tais como os estilos. e de comparar. A invenção de técnicas por meio das quais os humanos desenvolvem a capacidade de calcular torna. por meio de um certo conjunto de hábitos corporais. como é bem sabido. 52-111. enviar mensagens. p. em um único lugar e em um único plano. quando se calcula a situação financeira futura na forma de um orçamento) e é similarmente dependente de técnicas e aparatos – agenciamentos maquinados nos quais as forças do humano são criadas e estabilizadas (CLINE-COHEN. ROSE. 1968. similarmente. por meio de um modo de compor e decifrar. por meio de cálculo dos movimentos dos corpos celestes. estendendo novas linhas de força (GOODY & WATT. tabular mudanças. o ser humano torna-se capaz de novas coisas: fazer listas. concebendo-a não apenas como inferior à palavra falada. a partir de locais distantes. por exemplo. expressou reservas sérias à escrita. ou novas formas de praticar a espiritualidade em relação ao “livro sagrado” (EISENSTEIN. 1991).

131). 1998 [1887]. 1994. mas também como destrutiva das artes da retórica e da memória (PLATÃO. Mas a memória não deveria ser contraposta à escrita como algo imediato. 1998. mas vista em termos daquilo que Nietzsche chamou de “mnemônica” (NIETZSCHE.para capacitá-lo a aprender sobre o certo. como uma capacidade psicológica universal. um aparato de negociação. um consolo. que a memória pode ser entendida como uma arte ou uma série de técnicas inculcadas na forma de procedimentos particulares: uma arte que foi revivida e ampliada na Idade Média e envolvia técnicas tais como a invenção de lugares ou espaços nos quais itens de saber ou experiência eram “colocados” e que poderiam ser “recuperados” pelo 161 . p.. 51. 51). GROSZ. martírio e sacrifício quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória” (NIETZSCHE. Fedro. Não se trata de uma questão. Mas a noção de mnemônica abre um campo muito importante de investigação para o agenciamento de sujeitos.] a fim de viver os benefícios da sociedade” (p. Frances Yates mostrou. como exemplos do preço pago pelos seres humanos para fazê-los superar seu esquecimento e “reter na memória cinco ou seis ‘não quero’ [. natural. p. para meus propósitos. “Jamais deixou de haver sangue. uma arma ou uma ferida. de forma convincente. cf. 52). 278a). As preocupações de Nietzsche são com as variedades históricas de punição cruel. da validade das asserções genealógicas específicas de Nietzsche – elas são certamente problemáticas..5 Esse termo refere-se aos aparatos pelos quais se “marca a ferro em brasa” o passado em si próprio. p. tornandoo disponível como uma advertência. o bem e o bom”.

do intelecto. bibliotecas. cf. edifícios. da vontade. rituais. a organização do tempo e do espaço: tudo isso – e muito mais – estabelece a possibilidade de que um passado mais ou menos imaginário possa ser re-evocado. obviamente. p.sujeito ao fazer um passeio imaginário através deles (YATES. agenciada. escritas. projetos de arquitetura. do desejo. A memória que temos de nós próprios como um ser com uma biografia psicológica. Mas reconhecer o êxito técnico e prático da memória é apenas um primeiro passo: essas técnicas da memória não são limitadas pelo envelope da pele do sujeito e muito menos pelo volume de seu cérebro. inventado toda uma gama de outras técnicas de memória. têm adotado e desenvolvido as tecnologias da memória desde ao menos a época de Mesmer e têm-se envolvido em 162 . o dossiê real ou “virtual” dos boletins escolares. o sentido e o valor que lhes são vinculados. a tortura. dívidas. a repetição ritual de estórias. é produzida por meio dos álbuns de fotografia de família. livros. obviamente. no presente ou no futuro em locais particulares. a memória é. contratos. ela própria. a acumulação de artefatos e a imagem. os sacrifícios que Nietzsche descobre como constituindo as raízes impuras de nossos aparentemente bálsamos morais puros. 39). 1966. canções. mas também juramentos. 1982. Isto é. uma linha de desenvolvimento da emoção. As práticas da pedagogia têm. HIRST & WOOLEY. dinheiro. As disciplinas psi. Não apenas os golpes. tendo proliferado ao longo da experiência de quase todos os humanos contemporâneos e tendo sido elas próprias alimentadas pelas disciplinas psi. gravuras. buscando inculcá-las nas salas de aula.

[1799] 1957). que continuam estranhas e malignas a muitas culturas. têm sido “naturalizadas” em nossa própria cultura – espelhos. que servem de “substitutos” para eventos passados mas “não esquecidos”). por meio das tecnologias da psicoterapia. romances narrativos.6 As disputas sobre essa questão revelam. ao menos em parte. Muitas daquelas tecnologias inventadas na genealogia das disciplinas psi – embora. fotografias. Por pelo menos um século. diários. retratos. surpreendentemente não sejam aparatos 163 . Certas dessas tecnologias. agora talvez o vídeo da gravidez de nossa mãe e o momento de nosso nascimento. as asserções das disciplinas psi sobre a memória têm sido controversas precisamente porque as memórias em questão pareciam ser o produto de suas “tecnologias” não-naturais – das quais a hipnose e a associação livre constituíam apenas dois exemplos. cartões de aniversário e cartas. a dificuldade de reconhecer que aquilo que é lembrado só o é por meio do envolvimento dos humanos com as tecnologias da memória. inscrições duráveis (por exemplo. As dificuldades contemporâneas da mnemotécnica psi são exemplificadas naquilo que se poderia chamar de “crise de memória” em torno da produção. A memória foi central às concepções de “desordem nervosa” antes que Freud anunciasse que a histérica sofria de reminiscências e levantasse a possibilidade de que a memória podia não distinguir entre experiência e fantasia. “memórias recuperadas”. das anteriormente ausentes memórias da violência contra crianças – “memórias falsas”.toda uma história de competição sobre o status das memórias assim produzidas (M ESMER .

nem são intercambiados de acordo com o modelo da comunicação. listas e diagramas. no sentido em que faz uma diferença nas formas pelas quais os humanos agem e se relacionam consigo mesmos. Eles vão além do envelope da pessoa. ainda não naturalizado. embora as linguagens. práticas. a escrita simplesmente exemplificam o fato de que as análises da linguagem que se centram na questão do significado concedem demasiada autonomia à semântica e à sintática e dão muito pouca atenção às práticas situadas que intimam. os vocabulários e as formas de julgamento sejam. certas relações da pessoa consigo mesma. Assim.de memórias tais como a “história de caso” da medicina – continuam tendo um status problemático. incitam. a habilidade de cálculo. estabilizar e intimar “seres humanos. tais como aparelhos de televisão e fogões. desde livros de estória. perduram em locais. A memória. até vitrais e fotografias. Elas ignoram os aparatos de inscrição. gráficos. mas mesmo assim são vistas como suspeitas por causa de sua associação com a tecnologia aparentemente antinatural que as fizeram nascer. tabelas. rituais e hábitos particulares e não estão localizados em pessoas particulares. de imensa importância em intimar e estabilizar certas 164 . Mas me é possível ser “uma-pessoa-com-memória” tão-somente em virtude de eu “ter-entradoem-composição” com esses elementos heterogêneos – a memória. Esses aparatos constituem tecnologias culturais que funcionam como formas de codificar. indubitavelmente. é uma propriedade de “máquinas de lembrar”. desenho de salas e peças de equipamento. inscrevem.

legal. é vista como algo situado. para desejar. não apenas para responsabilizar [accounting] mas para manter como responsabilizável. para trocar. espiritual. para educar. Essas dispensáveis referências a formas de vida são pouco adequadas à tarefa. nas linhas de força e nos fluxos definidos que constituem pessoas e as atravessam e as circundam em maquinações particulares de força – para trabalhar. Quando a linguagem.relações da pessoa consigo mesma. eles não deveriam ser entendidos como sendo primariamente intencionais e interacionais. nessas explicações. erótica. ela o é apenas ao modo wittgensteiniano vago de “formas de vida”. Não se trata de um apelo por uma localização mais delicada e sutil da comunicação “em seu contexto social”. doméstica. econômica. Aquilo que torna qualquer intercâmbio particular possível surge de um regime de linguagem. Mas essa referência às práticas e aos agenciamentos dos quais a linguagem faz parte chama a atenção para outra das inescapáveis debilidades das estórias “psicológicas” do eu narrado. moldam e exigem a produção da fala – médica. para reformar. nas quais a “responsabilização” [accountability] funciona para tornar possíveis as ações. mas por uma rejeição da forma binária que separa a linguagem de seu contexto apenas para reinseri-la contextualmente em um mundo que é reduzido a uma espécie de pano de fundo cultural para o significado. 165 . que inscrevem. o qual está alojado em práticas que apreendem o ser humano sob variadas formas. organizam. nos vínculos. O que precisa ser analisado é o modo da relação consigo mesmo que é intimado nas práticas e nos procedimentos. para curar.

mas de um agenciamento heterogêneo de corpos. Não se trata. de um eu que emerge por meio da narração de estórias. Aquilo que os humanos estão capacitados a fazer não é intrínseco à carne. à mente ou à alma: está constantemente deslocando-se e mudando de lugar para lugar. um agente – e mais em termos daquilo que os humanos são capacitados a fazer por meio das formas pelas quais eles são maquinados ou compostos. como arranjos cujas capacidades são fabricadas e transformadas por meio de conexões e ligações nas quais elas são apreendidas em locais e espaços particulares. antes. anteriormente. emerge uma imagem diferente do processo de “construção de pessoas”. práticas. de época para época. Em cada caso. maquinadas e localizadas em lugares e práticas. mas. de sujeitos desejantes em máquinas de paixão. de examinar o agenciamento de sujeitos: de sujeitos combatentes em máquinas de guerra. julgamentos. vocabulários. de sujeitos responsáveis nas variadas máquinas da moralidade. As pessoas funcionam. ao corpo. técnicas. ANATOMIAS IMAGINÁRIAS Sugeri. à psique. inscrições. de sujeitos laborais em máquinas de trabalho. 166 .Uma vez tecnicizadas. a subjetivação em questão não é um produto nem da psique nem da linguagem. como uma forma inescapavelmente heterogênea. portanto. um indivíduo. aqui. que podemos produzir mais em termos de inteligibilidade se consideramos a questão da subjetivação menos em termos de que tipo de sujeito é produzido – um eu.

1994. das sexualidades e das diferenças sexuais. corporificados. as conexões maquínicas formadas. que produzem e canalizam as relações que os humanos estabelecem consigo mesmos. por assim dizer.com a ligação dos humanos a aparatos de pensamento e ação – desde a mais simples conexão entre um órgão (ou uma parte do corpo) e outro em termos de uma “anatomia imaginária” até aos fluxos de força tornados possíveis pelas ligações de um órgão com uma ferramenta. A corporeidade humana. como afirmam esses argumentos. MP1. recursos ou forças (cf. forças. as possibilidades assim impedidas. desde o Iluminismo. afinal. como muitas vezes se sugere. as questões a serem tratadas têm a ver não com a “constituição do eu”. mas com as ligações estabelecidas entre. GROSZ. os agenciamentos dos quais eles formam elementos. os muitos e recentes textos que buscam fundamentar sua analítica de relações de poder e formas de saber sobre “o corpo”. as capacidades e os devires engendrados. procedimentos. dos fenômenos de resistência e agência. da constituição dos desejos. com uma máquina. para descrevê-los como criaturas de razão e para afirmar que essa capacidade para raciocinar afasta os 167 . pode fornecer a base para uma teoria da subjetivação. p. as conexões e fluxos tornados possíveis. de outro. objetos. de um lado. 91). Dessa perspectiva. Ao pensar dessa forma. 165. em um espaço montado tal como um quarto de dormir ou uma sala de aula. p. o humano e. outros humanos. com partes de outro ser humano ou de outros seres humanos. a despeito de todas as tentativas dos filósofos. podemos ler ao contrário. condutos. Os seres humanos são.

E embora aceitando que a corporeidade não dá qualquer forma essencial ou estável à subjetividade. E tal é a aparente compulsão de uma tal forma de pensar que mesmo uma escritora antinaturalista como Elizabeth Grosz. 1993). fluidos vitais e fluxos – é o resultado de uma história 168 . portanto. copulam. a história e a técnica escrevem e. 1994.humanos – ou ao menos os humanos masculinos – quase que inteiramente de suas características como criaturas. 1990. sexualmente diferenciada. p. um fenômeno histórico. BUTLER. de corpos infantis que são incapazes de automanutenção. processos. defecam. deterioram e morrem (por exemplo. sugere que “o corpo” é o material sobre o qual a cultura. Essa ambivalência está resumida na asserção de Braidotti de que “o ponto de partida para as redefinições feministas da subjetividade é uma nova forma de materialismo que coloca ênfase na estrutura corporificada e. que quer questionar todos os essencialismos e todos os binarismos. de todos os corpos que comem. ênfase minha). do sujeito falante” (1994a. 199. bebem. como poderíamos discordar da asserção de que as formas da subjetividade são irrecuperavelmente marcadas pela facticidade biológica de corpos sexuados. como poderíamos negar a asserção dessas análises de que é sobre esse material bruto do “corpo” que a cultura trabalha sua constituição da subjetividade? Embora abjurando todas as formas de essencialismo. “a bifurcação de corpos sexuados é um universal cultural irredutível” (GROSZ. Mas “o corpo” é. Nossa presente imagem dos lineamentos e da topografia do “corpo” – seus órgãos. ele próprio. 160). p. portanto.

que trabalhos intelectuais estiveram implicados em estabilizá-la na forma da natureza duplicada do corpo masculino e do corpo feminino. Daí que grande parte da recente ênfase. ao simplesmente inverter o velho tropo de que as mulheres são mais corpóreas. 1979a). entretanto. há tantos estudos históricos mostrando quão diversa é essa aparentemente imutável divisão. talvez. Mesmo o caráter aparentemente natural dos limites e das fronteiras do corpo. a carne como a perspectiva governante da razão feminista. E quanto aos “dois sexos”. cf. conserva a própria analítica que busca subverter. conectando prazer. deslocando a normalização “iluminista” das propriedades da razão e da abstração. Mas os corpos são sempre “corpos pensados” ou “corpos-pensamento”: algum dia. reprodução e companheirismo em uma “sexualidade ciborgue” que acabamos por habitar como sendo nossa verdade (por exemplo. é um fato recente e pertence a uma cultura específica (FOUCAULT.cultural. GROSZ. cavar. sobre o corpo e sobre a corporificação. vontade. 1994. que parece definir como que inevitavelmente a coerência de uma unidade orgânica. VALVERDE. científica e técnica particular. 1989. sexo. cf. NADAFF & TAZI. mas retendo. sobre a história da noção de “imagem do corpo”). sobre nossa fabricação como sujeitos sexualmente desejantes). saber. 1990. em fazer de nosso desejo sexual nosso desejo secreto. nós viremos a olhar retrospectivamente para o “sexo-pensamento-corpo” 169 . FEHER. As propriedades do corpo – andar. 1994. mais carnais. LAQUEUR. na escrita feminista. nadar – não são propriedades naturais mas conquistas técnicas (MAUSS. 1985. sorrir. BROWN. 1989.

crenças ou experiências do sujeito.. a bens para formar uma máquina de consumo. processos. pois. Em vez de falar de “o corpo”.que tanto tem afetado nosso próprio século. Abandonemos. FOUCAULT. “não uma totalidade orgânica que é capaz de expressar globalmente a subjetividade. prazeres. fluxos. pois. bem como o alinhamento de um aspecto com outro. 170 . O corpo é. mas um agenciamento de órgãos. que não exista essa coisa de “o corpo”: um envelope limitado que pode ser revelado para conter no seu interior uma profundidade e um conjunto de operações que funcionem à maneira de uma lei. mas com as ligações estabelecidas entre superfícies. Em vez de “o corpo”. nossa própria repetitiva e cansativa ansiedade sobre nossos corpos sexuais. muito menos “material” do que costumamos pensar. a ferramentas para formar uma máquina de trabalho. Deveríamos estar preocupados não com corpos. uma concentração das emoções. agenciamentos – de dimensões variadas – de humanos com outros elementos e materiais: conectados a livros para formar uma máquina literária. nossos compromissos com a diferença de gênero que nos marca tão indelevelmente. paixões. conexões. 1985a). pois.. pois. atitudes. órgãos. as forças transgressivas e os poderes restauradores do sexual e tudo o resto. tem-se. precisaríamos analisar apenas como um particular “regime de corpo” foi produzido. forças e energias particulares. com um certo deleite perverso (cf.10 O corpo é muito menos unificado. uma série de “máquinas” possíveis. É possível. esse “carnalismo” do corpo de uma vez por todas. descrevendo a canalização de processos.

induzindo uma certa relação consigo mesmos como corporificados. o tato. 1993. criando uma multiplicidade de novos sentidos através de cada qual “reluzem momentos de conexão mimética. LAQUEUR. comportamentos. DUDEN. E os próprios órgãos são “tácteis”: o olho. que afectos ele pode ter. p. como o multiplicam. A questão de Deleuze. simultaneamente individuais e sociais” (TAUSSIG. ele está discutindo aqui o trabalho de Walter Benjamin). 1991. como o 171 . atravessado por processos vitais. reúnem pensamento e objeto em sensuais relações de contato. enfraquecem. troca e interpenetração. ele próprio. 23. segmentos e agenciamentos” (GROSZ. tornando-o praticável a fim de amarrá-lo a práticas e a atividades (sobre “o corpo da mulher”. 1985). sobre o corpo racializado. tornando o corpo organicamente unificado. 1990. estabelecendo as coisas que ele pode e não pode fazer. ver. que para ele era a questão de Spinoza. o nariz. 1994. assim. capacitam-no de diferentes formas. por exemplo. embora o argumento seja de Taussig. ver GILMAN. em grande parte de nossa história por meio da “raça”. definindo sua vulnerabilidade em relação a certos perigos. p. equipando-o com uma sexualidade. Nosso regime de corporeidade deveria. simultaneamente corporificados e mentalizados. “De que um corpo é capaz?” (o que ele pode fazer. como esses afectos reforçam. ser visto como a resultante instável dos agenciamentos nos quais os humanos são surpreendidos. 120). ligados por tênues linhas e imprevisíveis redes a outros elementos. o ouvido. dando-lhe uma certa profundidade e um certo limite. diferenciando – hoje por meio do sexo.atividades.

a experiência da morte vodu. onde o lado de fora de um é. terror e até mesmo morte. Mas isso apenas na medida em que concordemos que um corpo não é “o corpo”. maquinando desejos. ferramentas. coordenando-as. mas apenas uma relação particular. paixões. órgãos. simultaneamente. toques. morrendo. as capacidades de transe que tornam os órgãos capazes de suportar queimaduras ou de recuperar-se de feridas. 172 . sonhos. sons. hormônios. enxames de células em troca constante entre si. cap. coleções – juntando-os com outros elementos. julgamentos. eles próprios. mas ligam o “lado de fora” e o “lado de dentro” – visões. que conectam e transformam as capacidades das várias partes – excitando-as. o lado de dentro de outro. cantos. Consideremos as variadas maquinações das quais o corpo é capaz: a coragem do guerreiro na batalha. moléculas químicas. afecções. de nervos. capaz de ser afetada de formas particulares. de músculos. fundindo-as ou desligando-as. armas. a resistência do prisioneiro político sob tortura. aromas. Esses agenciamentos não são delineados pelo envelope da pele.metamorfoseiam?) é um ponto de partida (DELEUZE. Não se trata de propriedades de “o corpo”. conectando e combinando. reconfigurando. técnicas. Trata-se de uma questão de órgãos. 14). forças. Trata-se também de uma questão de cérebros. mas de maquinações do “corpo pensado”. a ternura ou a violência do amante. grupos. ligando e separando. temores são reunidos por meio de conexões com palavras. cujos elementos. energias. hábitos. de aparelhos que são. 1992b. tristeza. as transformações efetuadas pelas práticas da ioga.

mas que apelos “materialistas” à corporeidade como o “material” sobre o qual a cultura trabalha não são coisas “boas para pensar”. “Um ato performativo é aquele que faz nascer ou coloca em ação aquilo que nomeia.. em virtude. assim. Judith Butler propôs a noção de performatividade ao desenvolver uma análise da construção da “identidade de gênero” que não supõe qualquer sujeito essencial ou pré-dado situado por detrás de suas ações. Duas metáforas para as maquinações dos corpos-sujeito foram recentemente propostas: performatividade e inscrição. 1990). o poder constitutivo ou produtivo do discurso. de “serem pensados” e nós não sabemos os limites do que essas máquinas-corpo-pensamento são capazes. mas por causa das formas pelas quais.Isso não significa sugerir que os humanos possam ser anjos. marcando..11 Se nos tornamos criaturas psicológicas não foi por causa do caráter dado de um interior. ele deve basear-se e 173 . em Austin e Derrida. os vetores psi acabaram por atravessar e por ligar essas maquinações.. Para Butler. a identidade é performativamente constituída pelas próprias ‘expressões’ que se supõe ser seus resultados” (BUTLER. Os corpos são capazes de muita coisa. nem por causa dos significados de uma cultura. que possam voar pelas janelas ou que possam movimentar-se como minhocas. em tantos locais e práticas. para argumentar que o gênero é o resultado de atos performativos. não precisamos “nenhuma teoria da identidade de gênero por detrás de expressões de gênero. Para que um performativo funcione.. Sua noção de performatividade baseia-se. ao menos em parte. aqui.

p. constituído por meio dos efeitos de significação engendrados pelas perfomances da linguagem (1990. O gênero é.. Mas essa noção de performatividade limita-se a si própria ao manter a ênfase no lingüístico. da aparência.. uma fantasia “instituída e inscrita na superfície de nossos corpos”. desvie seu olhar e não mostre nenhuma expressão no rosto. Ande por uma rua da cidade. do pensamento. 19):12 Sente-se em uma cadeira reta. pois. 1995. Cruze suas pernas na altura dos tornozelos e mantenha seus joelhos pressionados um contra o outro. da vontade. o qual devo a Susan Bordo (BORDO. mantendo seus joelhos juntos. do intelecto. Toda vez que um homem passar por você. Olhe. altos. Corra uma certa distância. como reconhece Butler. Tente fazer isso enquanto está conversando com alguém..recitar um conjunto de convenções lingüísticas que têm tradicionalmente funcionado para assegurar ou implicar certos tipos de efeitos” (BUTLER. significa seguir uma prescrição meticulosa e continuamente repetida da conduta. na qual as pessoas são reunidas em uma montagem não apenas ao serem conectadas com os vocabulários mas também com regimes de conduta 174 . em direção reta. mas tente o tempo todo manter seus joelhos fortemente pressionados um contra o outro. juntamente com muitas outras pessoas.. para a frente. Consideremos este argumento sobre a performance da feminilidade. p. p. “Transformar-se em uma pessoa ‘dotada’ de gênero”. Você descobrirá que terá que dar passos curtos. 136).. 1993. 134).. da fala.

a linguagem. ao mesmo tempo. o corpo e suas superfícies (concebidos como marcados. cadeiras. na qual a cultura seria escrita na carne. fazer gestos). ao menos no sentido do modelo da enunciação lingüística. automóveis. com espaços e lugares (salas de aula. por outro. p. de produção e manipulação. a memória podem ser. de leis e práticas na carne a fim de entalhar um sujeito social como tal. por meio do treinamento. cada uma delas implicando verdades. compreendido” (GROSZ. a escrita. elas próprias. inscritos. interpretado. Em vez de pensar em uma analítica da inscrição. instrumentos para escrever. um sujeito capaz de trabalho. capaz de ser decifrado. um sujeito capaz de agir como um sujeito e. plataformas. hábitos. e inseridos em associações mais ou menos 175 . considero ser mais útil pensar em termos de tecnologia.(andar. maquiagem. médicos e econômicos. sapatos. gestos. 117). bibliotecas. vitrines). olhar. livros. é uma imagem bastante enganadora para pensar esse processo de montagem da pessoa: é necessário insistir que nós não somos “constituídos pela linguagem”. Tampouco é suficiente uma imagem lingüística diferente. a da escrita ou da inscrição. aparatos. vistas como elementos de uma técnica. por um lado. “o traçado de textos pedagógicos. reunidos. A performatividade. com artefatos (roupas. em uma montagem. gravados) e. em que é definida em termos de citações e convenções. panelas. técnicas. estações de trem. livros). como sugeri. 1994. Na verdade. Essa noção é utilizada tanto por Butler quanto por Grosz para descrever a relação entre. museus) e com os objetos que os habitam (mesas. jurídicos.

resistam. nem qualquer força ou desejo primordial que circule por esses agenciamentos. mudem. sofram mutações. ajam. fixando. as operações pelas quais somos reunidos. com instrumentos intelectuais e práticos. 136).duráveis. pois. Não existe nenhuma necessidade de supor qualquer “meio de propulsão” por detrás de todas essas tecnologias. Para dar conta da capacidade para agir não precisamos de nenhuma teoria do sujeito que seja anterior e que resista àquilo que a apreenderia – tais capacidades para a ação surgem dos regimes e tecnologias específicos que maquinam os humanos de variadas formas (nesse caso estou de acordo com BUTLER. estratificando. divergências. em locais e lugares específicos. A assim chamada “questão da agência” coloca um falso problema. componentes. fazendo com que seja possível que eles se movam. produzindo certas formas de ser-humano. territorializando. tornando possível e estabilizando relações particulares conosco mesmos. organizando e tornando duráveis as relações particulares que os humanos podem honestamente estabelecer consigo mesmos. p. Poderemos compreender melhor as práticas de subjetivação se as concebermos em termos das complexas interconexões. as diferentes promessas que elas fazem e as variáveis exigências que elas representam para o ser humano – podem produzir todos 176 . 1995. interconexões e alianças. as maquinações. em uma montagem. entidades e aparatos particulares. incitando. A heterogeneidade dessas práticas e técnicas – seus múltiplos conflitos. As tecnologias da subjetivação são. técnicas e linhas de força que se estabelecem entre componentes heterogêneos.

amo ou ama. ao longo do século XX. na segunda metade do século XX. as quais invocam os seres humanos como sujeitos de um certo tipo de liberdade e fornecem as normas e técnicas pelas quais aquela liberdade deve ser reconhecida. como “personalidades”. 1992. como “agentes livres” de escolha e autodesenvolvimento. as quais. cap. dependendo do caso: se a pessoa era homem ou mulher. utilização. Na verdade. gostos. as disciplinas psi tiveram. a agência é. como um tipo que estava em posse de certos traços. um resultado distribuído de tecnologias particulares de subjetivação.os efeitos de resistência. funcionário ou servo (cf. ela própria. em guerra contra todas as máquinas que nos maquinariam como bons sujeitos da burocracia e do conformismo. agenciada e exercida em domínios específicos. apropriação. quando moldadas pelo efeito do hábito e da influência sobre a constituição da pessoa. formas de vestir. 1). transformação e transgressão que os teóricos do pósmoderno têm ressaltado. por exemplo. produzia a impulsividade ou o controle. com funções nervosas. um efeito. sem a necessidade de invocar uma concepção unificante de “agência humana”. SMITH. expressava seus sentimentos e se associava a artefatos. estilos de gesticulação e expressão. um papel bastante particular na criação das condições para a emergência da nossa capacidade de nos relacionar conosco mesmos como certo tipo de agente – como “personagens”. manifestados nas formas pelas quais a pessoa reagia à experiência. trabalhador temporário. Para dizê-lo de outra forma. que diminuiriam 177 . ao longo do século passado.

e mais próximo de nós. 1973. cujos elementos eram a psyche (alma). HIRST E WOOLLEY. por meio da intervenção dos deuses. os efeitos motivadores dos xamãs e dos rituais. cf. obviamente. Não há dúvida de que nem sempre foi assim. A ação era entendida não em termos de qualquer faculdade interna da agência. que obrigavam a pessoa a um curso particular de ação. obviamente. 178 . mas em termos de forças tais como ate.nossa auto-estima e impediriam nosso autodesenvolvimento. ser multiplicados: os poderes explicativos das vozes das deidades ou dos demônios. 1982). uma “força”. mas é uma força que surge não de qualquer propriedade essencial de “o sujeito”. para Homero. eram agenciamentos dispersos. de sonhos e visões (DODDS. cada um deles com seu modo independente de operação. sugere que a descrição homérica dos humanos é mais do que uma questão de convenção estética: os humanos. das Fúrias. Esses exemplos poderiam. A agência é. mas das formas pelas quais os humanos têm se reunido em um agenciamento. das deusas do Destino. desejos ou aspirações interiores. as conseqüências das multidões ou bandos em arrebatar o indivíduo em um novo e multicéfalo agente com uma única – ainda que maligna – vontade. a thumos (vontade) e o noos (intelecto). A clássica interpretação da Ilíada e da Odisséia. parte de uma “experiência” de internalidade – ela parece acumular-se e emergir de nossas profundidades. sem dúvida. talvez. A. feita por E. a agência é. Para nossa própria cultura. Dodds. de nossos instintos.

137). linhas. uma vontade de ser. dobradas. pois. os locais institucionais e as relações enunciativas da medicina clínica 179 . não mais que um momento. as técnicas. desdobrar. “O que importa. para formar um lado de dentro ao qual um lado de fora deve sempre fazer referência. é. 1992a. isso se deve às formas pelas quais relações particulares do exterior têm sido invaginadas. o subjetivo. veja especialmente o uso dessa noção em sua discussão da subjetivação em seu livro sobre Foucault: DELEUZE. redobrar” (DELEUZE.ALMAS DOBRADAS Se hoje vivemos nossas vidas como sujeitos psicológicos que vemos como sendo a origem de nossas ações. 1988. é dobrar. as multiplicidades e as superfícies – sua formação de profundidades. ou uma série de momentos. Esse diagrama da dobra descreve uma figura na qual o lado de dentro. p. técnicas e invenções que as sustentam. se nos sentimos obrigados a nos colocar a nós próprios com sujeitos com uma certa e desejada ontologia. 1992b. A profundidade e sua singularidade não são. ele próprio. por meio do qual uma “profundidade” foi constituída no ser humano. 94123). Uma vez mais. é Deleuze quem refletiu mais instrutivamente sobre uma filosofia da dobra (DELEUZE. 1992a. estabilizações. singularidades. sempre. p. as conexões. plissados e campos que só existem em relação àquelas mesmas forças. As linguagens. O conceito de dobra pode fazer surgir um diagrama generalizável para pensar as relações. mais do que aquelas coisas que foram escavadas para criar um espaço ou uma série de cavidades.

essas devem ser entendidas “no sentido de que a relação consigo adquire independência. o poder que se faz incidir sobre os outros é reconfigurado como uma relação de poder entre o lado de dentro da gente e o lado de dentro do outro. “Eis o que fizeram os gregos: dobraram a força. em termos de um problema de “autodomínio”.introduziram dobras profundas no corpo. p. edifícios e técnicas que o mantêm no lugar. se curvassem para formar um forro e deixar surgir uma relação consigo. Ou. Esse lado de dentro singularizado e dobrado é. Nesse mesmo processo. o lado de dentro como uma operação do lado de fora. Para os gregos. como sugere Deleuze em sua discussão da arqueologia que Foucault faz do olhar clínico. o sujeito é agenciado/montado de novas formas. em relação às técnicas éticas introduzidas pelos gregos. mas em relação a uma configuração de forças. não em relação a um domínio de processos psicológicos. fazendo com que incida sobre si mesmo – aquele lado de dentro atuando sobre si mesmo – o poder que fazemos incidir sobre outros. corpos. os jogos de poder e de lazer e as relações eróticas por meio dos quais aqueles varões que exerciam o poder eram agenciados. de novo. Uma vez que essa nova dimensão tenha sido estabelecida. as relações de família. os tribunais. sem que ela deixasse de ser força. isso compreendia todo o aparato de formação ética estabelecido na cidade. assim. 1991. constituir um lado de dentro que se escava e desenvolve segundo uma dimensão própria” (DELEUZE. Eles a relacionaram consigo 180 . inevitavelmente estabilizado. 107). É como se as relações do lado de fora se dobrassem. o lado de dentro do lado de fora.

pois. ao ser levada a efeito. esse dobramento que produz os efeitos de subjetivação. punitivas ou sedutoras. mas como uma derivada. a subjetividade.. Embora tivessem inventado uma formulação particular dessa dimensão “da relação do ser consigo mesmo”. com as técnicas de sexualidade. Nossa própria “agência” é. 108).. eles inventaram o sujeito. com os estilos de jogo e esporte. não é algo passivo. os últimos – nem provavelmente os primeiros – a fazê-lo. o que eles exemplificam é uma forma particular de uma relação mais geral. 181 . Apesar de todos os desejos. a resultante da ontologia que nós dobramos sobre nós mesmos no curso de nossa história e de nossas práticas. Essa relação consigo mesmo. criatividades e vontade-de-auto-realização que foram dobrados sobre nós mesmos por nossas psicotecnologias. nem um produto passivo ou um marionete de forças culturais. nossa própria agência não é menos artificial. 1991. motivações. inteligências. O humano não é nem um ator essencialmente dotado de agência. mais ou menos disciplinares ou passionais. de forma alguma. os gregos não foram. paixões. p. Longe de ignorarem a interioridade. menos fabricada. a individualidade. a agência é produzida no curso das práticas. ao se envolver com as técnicas de governo do corpo e de controle da dieta. como o produto de uma ‘subjetivação’” (DELEUZE. com a oratória e a exposição em público. ela é criada apenas ao ser praticada.mesma. como observa Deleuze. em vez disso. mais ou menos explícitas. uma relação na qual a subjetivação é sempre uma questão de dobramento. sob toda uma variedade de restrições e relações de força mais ou menos onerosas. De novo.

mas. técnica. o importante é que qualquer coisa pode ter autoridade. 1991. portanto. do vestir. da leitura. As maquinações da aprendizagem. Mas o que é que é dobrado? É. uma certa invocação de esperança ou medo (você pode se tornar o que você quiser ser). confusa. isso simplesmente nomeia um campo. dependente-da-máquina – do que a problemática agência dos robôs. O que é invaginado é composto de qualquer coisa que possa adquirir o status de autoridade em um agenciamento particular. os vetores que são dobrados têm limites que não são ontológicos mas históricos. em qualquer época e lugar. seria a da raridade das autoridades na realidade e não a de seus infinitos componentes e possibilidades. do querer. Não é como qualquer coisa que as pessoas podem ser agenciadas em qualquer época e lugar particulares. do consumir. híbridos. do lutar. em princípio. Mas. Talvez para nossos próprios propósitos. nem tudo a tem. 171-2). do confessar. Em outros locais.menos não-natural – e. dos replicantes e das monstruosas simbioses que Donna Haraway utiliza para pensar nossa existência: ciborgues. aqui. sem dúvida. Uma análise a ser feita. verdade que para Deleuze o que é dobrado é sempre alguma “força”. quimeras (HARAWAY. sentido e afeto (a “italianidade” que 182 . mosaicos. devêssemos tratar dessa questão de uma forma um tanto modesta. do andar. efetiva. do curar invaginam uma certa voz (a de nosso sacerdote. p. não menos real. além disso. utilizei o termo “autoridade” para os dobramentos que fazem diferença. Obviamente. a de nosso médico ou a de nosso pai). uma certa forma de ligar um objeto com um valor. não o define ou o delimita.

Foucault. racional. sugere ele. estética. um certo pequeno hábito e uma certa técnica de pensamento (morda a bala.Barthes tão maravilhosamente revela nas massas Panzani ou talvez o “autocontrole” manifestado pelo corpo escultural da “mulher pós-moderna”). uma certa conexão com um artefato dotado de autoridade (um diário. autocontrole é tudo. Está. 1988). O terceiro. a relação entre forças. do intelectual. portanto.. surge do fato de que cada relação consigo mesmo está organizada sobre o eixo da subjetivação do saber e. O segundo.13 O primeiro. pois. da relação de nosso ser com a verdade. diz respeito à regra de acordo com a qual a relação entre forças se torna uma relação consigo mesmo – uma regra que pode ser natural. sempre associada com uma autoridade particular – a do sacerdote. um dossiê ou um terapeuta). diz respeito aos aspectos do ser humano que devem ser circundados e dobrados – o corpo e seus prazeres para os gregos. Deleuze transcreve cada um desses quatro eixos por meio do conceito de dobramento (DELEUZE. a carne e os desejos para os cristãos.. A quarta dobra (aqui Deleuze se refere à noção de “uma interioridade da expectativa”. em nossos próprios dias. olhe antes de saltar. a dobra do saber ou a dobra da verdade. cada qual associada com diferentes autoridades. talvez o eu e suas aspirações para nossa própria época. devida a Blanchot) é a 183 . é bom partilhar os próprios sentimentos). do artista. sugeriu que as tecnologias éticas podem ser analisadas ao longo de quatro eixos. quer essa verdade seja teológica. como vimos anteriormente. talvez a regra oscile entre a terapêutica e a estilística. divina. quer seja psicológica. quer seja filosófica.

PSICOLOGIAS DE SUBJETIVAÇÃO Sugeri que as disciplinas psi exercem um papel constitutivo em nossas “quatro dobras”. de seus variados ritmos e padrões. mas mesmo assim sobrepondo-se a eles. Meu trabalho de análise tem sido uma tentativa de responder a essa questão. da moderna relação consigo? Quais são as nossas quatro dobras?” (DELEUZE. p. nas profundezas do humano. pois. E a subjetivação é. Concluirei com algumas reflexões sobre o papel que as psicociências e as psicotécnicas exercem nesses dobramentos. mas o eu/realização. investindo-os. da salvação. por uma inescapável interioridade que escava. econômico. em suas tecnologias. infundindo-os. da liberdade. de tal modo que mesmo o “estilo-de-vida” estético. 1991. a interação da múltipla variabilidade dessas dobras. Deixem-me esboçar algumas das características desses dobramentos psi. espiritual. em seus modos de julgamento e em suas exibições de autoridade. um universo psíquico com uma topografia que tem suas próprias características – seus 184 . 112). financeiro ou a ética erótica são saturados com as disciplinas psi em seus regimes enunciativos. O aspecto do ser humano que é circundado e dobrado em tantos dos agenciamentos contemporâneos de subjetivação não é nem o corpo/prazer nem a carne/desejo. da morte ou da separação. “E o que dizer. de nossos próprios modos atuais.dobra da esperança – da imortalidade. Passamos a ser habitados por uma ontologia psi. obviamente em complexas e variáveis relações com outros vetores. da eternidade.

projeções e fantasias. a personalidade tendente ao câncer. a mimese. a “boa forma” como uma espécie de economia psíquica da autoestima e de reforço do poder pessoal. 185 . o mapeamento desse universo psi é incompleto e disputado. outros ainda viram a internalização de expectativas sociais e outros mais observaram apenas a inscrição de um regime de recompensas e punições comportamentais. “o corpo” é agora. do desejo e da frustração. seus fluxos e precipitações. seus mapas lembram os de homens do mar de épocas remotas: onde alguns relatam terem visto instintos. em parte.planos e platôs. a habituação e outros rituais de autoformação escavam e moldam esse espaço “interno” de uma forma psi. seus terremotos. suas erupções vulcânicas. seja de uma forma ou outra: pelos processos da auto-estima e da auto-abnegação. Obviamente. outros encontraram repressões. por meio de conexões constitutivas com as tecnologias psi que a imaginam e que agem sobre ela. Mas essas dinâmicas são agenciadas por meio de vetores que atravessam o envelope da pele. Na verdade. a emulação. das ansiedades e das fobias ou das involuções sadistas de objetos internos. ele próprio. A inculcação. características herdadas e predisposições. A ontologia humana é estabelecida. assim. visto menos como um dado corporal do que como um complexo orgânico cujas propriedades são marcadas por esse psi interior – a imagem do corpo. As dinâmicas dessa ontologia são contestadas. seus climas e tempestades. a performance. a psicossomática. do estresse e da realização. seus aquecimentos e esfriamentos. a gordura ou a magreza consideradas como manifestando o desejo de amor e de um eu interior.

a mãe normal. 1993. A cópia compreende. objeto. Para nossos propósitos. diagrama – quanto uma forma de ser. mas por meio da mímica e da imitação. modelo. de forma reveladora. 1993). pois. as conexões estabelecidas consigo mesmo por 186 . entre a iconicidade e a arbitrariedade. aqui. as imagens do eu normal – a criança normal. nos modelos e simulacros de eus desejáveis que servem como espelhos para reativar e refletir de volta fabricações de subjetividade às quais se pode aspirar. a garota normal. em termos de “mimese” – o devir colocado em ação na contínua interação entre a cópia e aquilo que é copiado (TAUSSIG. a dimensão mimética das disciplinas psi pode ser vista em aparatos tais como manuais de autoajuda centrados no auto-aperfeiçoamento. entre o todo e a fragmentação. gesto. pois. dança. o paciente normal. por meio da emulação e da bricolagem. na autoestima e no autoprogresso.Essas conexões ativam algo que Michel Taussig analisou. a sentir quão estranha e complexa se torna a noção de cópia” (TAUSSIG. “Entre a fidelidade fotográfica e a fantasia. artefato. tanto uma “representação” – gravura. 17). o adolescente normal. p. não apenas por meio de “recompensas e punições” (como se jamais houvesse sido claro o que é o quê). o trabalhador ou o gerente normal – desenvolvidas em toda e qualquer prática imaginável. por meio tanto do copiar quanto do diferir. A multiplicidade dessas breves fulgurações que Taussig chama de “mimese” dobra certas “formas de ser” sobre nós – não apenas por meio de “estórias”. começamos. nos padrões psi forçados a se tornarem visíveis em todas as sessões que se passam nos diversos tipos de consultórios.

o tornar-se eu é um copiar recorrente que tanto emula outros eus quanto difere deles. torcidas. 1989). sobre esse tema). pois é esse nome que nossa época 187 . Ele é “ficcional” apenas no sentido de que o psi “inventa” e reinventa mundos imaginados em busca daquilo que toma como sua premissa: de que um mundo real habita nosso ser como humanos (cf. Para ser o eu que a gente é. das aspirações. Assim. E embora seja. nossas relações conosco mesmos têm sido. outra vez. sem dúvida. nas autobiografias e nas histórias de caso. Falar do dobramento dessa ontologia psi em humanos é acenar – neste estágio não pode ser mais do que isso – para os processos que escavam um interior por meio do dobramento dos componentes psi que têm sido distribuídos através desses aparatos e dessas tecnologias. das personalidades. TAUSSIG. nas estórias e nas fabulações. das sexualidades. as características pertinentes da mimese e da alteridade são estabelecidas nos vetores dos estilos-de-vida.meio das tecnologias culturais da fotografia. irrevogavelmente marcadas por nossa dobra do eu. não obstante. 1993. rejeitada ou abjeta. A exigência para que a gente seja um certo tipo de eu é sempre conduzida por meio de operações que distinguem ao mesmo tempo que identificam (veja. HARAWAY. Hoje. do filme e da propaganda: uma multiplicidade de máquinas miméticas. a gente não deve ser o eu que a gente não é – não aquela alma desprezada. verdade que as características desse mundo dobrado são tão amarrotadas. esfarrapadas e puídas quanto os materiais de que é feito. por pelo menos um século. Esse espaço psi é composto de uma complexa mistura de elementos da pesquisa psicológica nos humanos e nos animais.

dobrada em termos terapêuticos – problematizando a si mesmo de acordo com os valores da normalidade e da patologia. diagnosticando nossos prazeres e desgraças em termos psi. entretanto. “Terapêutica”. “Terapêutica”. ou mesmo apenas em termos da proliferação dos ramos e variedades de psi – psicólogos forenses com sua construção de perfis de criminosos e vítimas. Pelo menos uma dimensão-chave da dobra da autoridade. uma multiplicação dos 188 . pode ser chamada de “terapêutica”: é de acordo com uma regra terapêutica que as linhas de força são flexionadas para se transformar em um espaço moldado de acordo com o eu em nossa existência e experiência. hoje. buscando retificar ou melhorar nossa existência cotidiana por uma intervenção em um “mundo interior” que temos dobrado como sendo tanto fundamental para nossa existência como humanos quanto. tão próximo à superfície de nossa experiência do cotidiano. É essa relação terapêutica conosco mesmos e os componentes considerados autorizados dessa relação que têm se multiplicado em nosso presente. ela própria. não no sentido de um privilégio concedido à própria “psicoterapia”.tem dado ao agitado universo no interior do qual todos os humanos serão registrados. psicólogos do esporte com seus exercícios mentais para se ter sucesso no campo ou na pista. consultores organizacionais com seus protocolos de uma crescente produtividade e harmonia. em vez disso. aqui. explicados e afetados. localizados. por meio de uma ação sobre as inclinações de auto-realização dos empregados e semelhantes. no sentido de que a relação consigo mesmo é.

o que podemos esperar dela? O que dobramos. nossas comunidades. produzido. nossos medos e nossas esperanças cotidianas. misérias e obrigações urbanos – “ligue-se. Não se trata. nossos filhos. nossas mães e nossos pais.condutos entre as autoridades que falam as verdades de nós mesmos e as formas nas quais agimos sobre nossa própria existência. finalmente”. no planejamento e na avaliação de nossas paixões. é uma aspiração tão patética quanto comovedora. os sinos de uma liberdade bem diferente ecoam em nossos sonhos: um modo de ser no mundo no qual atribuímos valor às nossas vidas 189 . entretanto. O eu é produzido no processo de praticá-lo. sintonize-se e caia fora”. tampouco. graças ao Deus poderoso. de uma libertação dos laços da servidão e da sujeição: “livre. Essa esperança não é uma esperança de libertação para o mundo e seus cuidados. finalmente. não é mais patética e comovedora. portanto. do que nosso esforço por maximizar nossos estilos-de-vida e nos realizar como pessoas por meio de nossas relações com outras pessoas – nossos amantes. as seduções e as promessas pelas quais atribuímos a essas formas terapêuticas de praticar a subjetividade um valor e uma autoridade. livre. A essa esperança demos o nome de “liberdade”. na compreensão. livre. finalmente. o que nos dobra. E o que podemos dizer sobre a quarta dobra. Em vez disso. como uma interioridade que é complexa e contestada. Essa interioridade fraturada – por meio da intersecção da multiplicidade de atividades e julgamentos que fazemos incidir sobre nós mesmos no curso de relacionar nossa existência sob diferentes descrições e em relação a diferentes imagens ou modelos – as sanções.

máquinas punitivas. máquinas de esporte. mas uma aspiração que não existe em uma relação de externalidade com nossas ansiedades e frustrações: esse sonho de liberdade constitui as próprias formas pelas quais nós codificamos e experienciamos nós mesmos e as formas pelas quais dividimos nós mesmos daquilo que. Uma aspiração louvável? Sem dúvida. Isso não significa afirmar o domínio do 190 . máquinas espirituais. máquinas de trabalho. máquinas de mercado. e daquilo que. máquinas de consumir. não está de acordo com esse sonho ou que fracassa por seus princípios. É possível identificar uma variedade de agenciamentos nos quais uma tal territorialização tem sido organizada: máquinas desejantes. podemos começar por estabelecer algum tipo de topografia dos espaços psi. em relação à sombra formada por nossos pais internalizados ou pelas restrições impostas por nosso temor da própria liberdade). Poderíamos chamar isso de “o onde” do psi: sua territorialização. nos outros. em nós mesmos. máquinas pedagógicas.na medida em que somos capazes de construí-las em termos que são simultaneamente políticos (livres para escolher) e psicológicos (livres para escolher em nome de nós mesmos e não em nome de nossa subordinação à autoridade de um outro. máquinas de guerra. máquinas curativas. máquinas financeiras. das práticas ou dos agenciamentos pelos quais nossa subjetividade é maquinada. máquinas burocráticas. O EFEITO PSI Para investigar essas hipóteses mais diretamente. máquinas de governo.

por exemplo: “Um tal efeito não é em absoluto uma aparência ou uma ilusão. por exemplo. inseparável de seus efeitos (DELEUZE. dos olhares e das atividades nas máquinas 191 . antes. delineado pela descrição das formas pelas quais a existência humana se torna inteligível e praticável. e na qual pode-se prestar uma atenção terapêutica àqueles que se sentem desconfortáveis com a distância entre sua experiência de suas vidas e as imagens de liberdade e de eu às quais eles aspiram. mas.. p. em parte. das relações dos corpos. das técnicas e das seduções da economia? Não significa tampouco identificar uma “causa” externa de todas essas transformações e mutações que vieram a permear tão amplamente toda nossa existência. Isto é.psi em nossa experiência. o efeito psi não deve ser identificado com uma causa particular. Mas significa registrar esse “efeito psi” no sentido de “efeito” de Deleuze. p. 73. forçada e agenciada. 1991. tal como no efeito Kelvin ou no efeito Compton. Por “cenários éticos” quero significar os diversos aparatos e contextos nos quais uma particular relação com o eu é administrada. das linguagens. Temos muitos e instrutivos estudos da arquitetura “disciplinar”. co-extensivo à sua própria causa e que determina essa causa como causa imanente. é um produto que se estende ou se alonga na superfície e que é estritamente co-presente. de uma questão da moldagem do próprio espaço. pois não se poderia dizer o mesmo. citado em BURCHELL et al. das imagens. 1998. Trata-se. em toda uma multiplicidade de pequenos “cenários éticos” que permeiam nossa experiência. ix). sob uma certa descrição. no sentido de “efeito” do discurso científico.

ROSE. Além disso. da sessão de aconselhamento. Mas. da visita dos assistentes sociais. com a exceção da atenção que os autores têm dedicado. veja também a interessante discussão em ERÄSAARI. 1993. cf.. 1992. recentemente. mas uma nova gama de técnicas – desde grupos T até às terapias de grupo – para administrá-los terapeuticamente. da cirurgia dos médicos. temos poucos estudos da “arquitetura sedutora” de nossa própria época (sobre espaços de consumo. 1991). do ginásio de esportes. dos programas radiofônicos de conversa telefônica com os ouvintes. permitindo não apenas uma nova dimensão para a explicação dos problemas coletivos. do grupo terapêutico. dos tribunais. veja BOWLBY. 1995a).de moralidade inventadas no século XIX: prisões. Exigiria que examinássemos também a penetração do psi na configuração da casa. aos shoppings e às lojas de departamento. escolas. e SHIELDS. das enfermarias dos hospitais psiquiátricos. hospícios. do consultório do analista. 1985. Uma multiplicidade de cenários tem sido 192 . (MARKUS. uma topografia dos cenários éticos precisaria examinar os arranjos espaciais e materiais estabelecidos pela cornucópia de cursos e experiências de treinamento que buscam instrumentalizar uma nova concepção psicológica das relações humanas. da entrevista com o diretor de recursos humanos. do encontro de aconselhamento de casais. Isso exigiria que fôssemos além dos espaços tutelares das escolas. reformatórios. De particular importância aqui seria a forma pela qual a coleção de pessoas no espaço e no tempo tem sido reconstruída como grupos atravessados por forças inconscientes de projeção e identificação..

uma gama de locais para cura. apesar 193 . Sobre que coisas há ação? Que linhas. Mas. de nosso atual “efeito psi”. identificações e dos impulsos de fala e conduta que são estabelecidos no interior dessa ontologia desejante. Talvez igualmente importantes no interior das novas obrigações éticas de realização pessoal seja a nova relação do eupara-com-o-eu exemplificada pela noção de autoestima: “uma inovação que transforma a relação de si para consigo em uma relação que é governável” (CRUIKSHANK. projeções. fantasias. Além disso. superfícies ou fluxos de ser humano são capturados nessas máquinas? Desejos? Sim: sem dúvida um dos vetores de nossa relação contemporânea conosco mesmos passa através dos fluxos de pulsões. pedagógicos ou íntimos. o desejo é apenas um dos vetores da maquinação psicológica contemporânea do ser humano. exercícios envolvendo a narrativização da vida da pessoa em uma variedade de cenários terapêuticos. Poderíamos também querer enfatizar os vetores que fluem em torno da superficialidade do próprio “comportamento” – as pedagogias das habilidades sociais e do estilo-de-vida e todas as tecnologias comportamentais que elas fizeram surgir. como sugeri. seria sensato evitar construir alguma metafísica do desejo.inventada para a interação terapêutica com o sujeito humano. no curso da qual toda uma procissão de técnicas psi tem sido desenvolvida – induzindo um novo vocabulário de auto-respeito. repressões. Para o genealogista. 1993). reforma. conselho e orientação tem sido transformada de acordo com o “efeito psi”. ou ao menos deixar esse projeto para nossos filósofos. forças.

Em todas essas maquinações do ser. de seu mundo interior e de seu estilo-de-vida. das emoções e dos sentimentos em relação a imagens psicológicas de realização e autonomia. uma série de temas é recorrente: escolha. Seria tolo afirmar que a psicologia e seus experts são a origem de todas essas máquinas de 194 . Isto é. êxito. em todos esses heterogêneos agenciamentos. precisamos examinar as técnicas de composição e adorno da carne (estilos de andar. de uma interminável hermenêutica e de uma relação subjetiva consigo mesmo: um constante e intenso auto-exame. os pelos corporais e os adornos) – toda uma maquinação do ser – em termos de uma relação entre. uma avaliação das experiências pessoais. auto-realização. expressão. de outro. tem sido composta e caracterizada por meio das tecnologias culturais da propaganda e do marketing que têm desenvolvido aparatos psi para compreender e agir sobre as relações entre pessoas e produtos em termos de imagens do eu. as técnicas contemporâneas de subjetivação operam por meio do agenciamento. o exterior e o visível e. de um lado. autodescoberta. ao longo do curso do século XX. as práticas contemporâneas de subjetivação colocam em jogo um ser que deve ser anexado a um projeto de identidade e a um projeto secular de “estilo-de-vida”. Cobrindo todas as suas diferenças. vestir.de não parecer implicar de forma tão direta uma ontologia psi. o interior e o invisível. no qual a vida e suas contingências adquirem sentido na medida em que possam ser construídas como o produto da escolha pessoal. a face e o olhar. Pois também essa relação. gesticulação. em toda uma variedade de locais.

se rico ou pobre. de trabalho e consumo. as asserções de verdade e os sistemas de autoridade têm participado na elaboração de códigos morais que enfatizam um ideal de autonomia responsável. EUS QUE SE DESFAZEM É possível sugerir. branco ou negro. como fiz no livro há pouco mencionado (ROSE. ao moldar esses códigos em uma certa direção “terapêutica” e ao aliá-los com programas para regular os indivíduos em consonância com as racionalidades políticas das democracias liberais avançadas. comecei a mapear as formas pelas quais os modos psicológicos de explicação. 1996). No livro do qual esse ensaio foi extraído (ROSE. a variedade de atributos da pessoa que elas identificam como sendo de importância ética e as variadas formas de calibrá-las e avaliá-las que elas propõem. dependendo da identificação da pessoa – se ajustada ou mal-ajustada. 1996). É importante. têm dado aos seus sujeitos uma forma psicológica. antes. de uma questão de como os agenciamentos de paixão e prazer. empregado ou desempregado. 195 .subjetivação – trata-se. reconhecer simultaneamente que este território ético não é um espaço livre: as relações das pessoas consigo mesmas são estabilizadas em agenciamentos que variam de setor para setor. que uma das características intrigantes e possivelmente esperançosas de nossa atual topografia ética é a heterogeneidade do território mapeado pelas maquinações do eu. operando via diferentes tecnologias. de guerra e esporte. se homem ou mulher. de estética e teologia. entretanto.

nos novos territórios da exclusão e da marginalização que emergem da fragmentação do social. ser traduzidos e utilizados sob formas que não são dadas por uma lógica interna. nos quartos de dormir da casa conjugal e nos bordéis das zonas de prostituição. Uma máquina abstrata é. embora eu tivesse enfatizado a heterogeneidade dos dobramentos que agenciaram nossas relações contemporâneas conosco mesmos. seja de emancipação. Mas isso não significa dizer que o efeito psi que estive mapeando está confinado a uma elite cultural. Os novos modelos psi de pessoalidade e os regimes éticos aos quais eles estão ligados não têm qualquer caráter político intrínseco: eles têm uma versatilidade que lhes permitem multiplicar. mas como sendo imanentes nelas. Entretanto. seja de dominação. no desenvolvimento das tecnologias comportamentais tão amplamente utilizadas nas práticas de reforma que buscam “dar poder” a seus sujeitos e restaurá-los ao status de cidadãos dotados da capacidade de livre escolha (BAISTOW. neste contexto. nada mais que um diagrama de coisas que 196 . também tentei argumentar que elas operam de acordo com um “diagrama” comum. proliferar. Novos modos de subjetivação produzem novos modos de exclusão e novas práticas para reformar as pessoas que são assim excluídas: como. Por “diagrama” refiro-me àquilo que Deleuze e Guattari descrevem como “máquinas abstratas” – não algo que seja a causa ou origem de todas as máquinas reais que temos investigado.operando sob diferentes formas de autoridade na prisão e na fábrica. por exemplo. partilhado. no supermercado e no cabeleireiro. 1995).

uma positividade trazida à existência pelo saber e pelas práticas das ciências humanas. colonizar. que buscamos hoje governar sob o ideal 197 . o próprio império que elas iriam mapear. ao mesmo tempo. cuja invenção é tão recente. Esse ser psicológico está agora colocado na origem de todas as atividades de amar. É esse ser. trabalhar. falar. esse a priori histórico. adoecer e morrer: a interioridade que tem sido dada aos humanos por todos esses projetos que buscam conhecê-los e agir sobre eles a fim de dizerlhes sua verdade e tornar possível seu aperfeiçoamento e sua felicidade. cf.elas têm em comum. povoar e conectar pelas redes de pensamento e ações. 83. isso “diagrama” um ser que. 1985b). FOUCAULT. na análise de Foucault. é a positividade aberta por nossos regimes contemporâneos de subjetivação. ou obrigado a saber. nos quartéis (MP1. Se podemos parafrasear Michel Foucault. 1977). desejar. uma espécie de plano irreal de projeção de todos os agenciamentos e maquinações heterogêneos – da mesma forma pela qual. estabelecendo para elas. FOUCAULT. do interior dos discursos que o rodeiam e das práticas pelas quais ele é agenciado/montado. é capacitado a saber. a “disciplina” era o nome de uma espécie de máquina abstrata que era imanente na prisão. p. que delimita a possibilidade de suas práticas de liberdade no mesmo momento em que concede a essas positividades o status de verdade (cf. aquilo que está em sua positividade – um ser que pensa a si mesmo tanto como livre quanto como determinado pelas positividades essenciais a si mesmo. na escola. embora tão fundamental à nossa experiência contemporânea. Esse diagrama.

nem na aurora de uma nova era nem no crepúsculo de um tempo passado. em Mil platôs. possamos ao menos reforçar a questionabilidade das formas de ser que têm sido inventadas para nós e começar a inventar a nós mesmos de forma diferente. por exemplo. Assim. nesse sentido de montagem. sem dúvida. combinação. “o ato ou efeito (resultado) de reunir diferentes partes para formar um novo objeto”. do T. o desconectar de algumas das linhas que formaram esse diagrama. começar a discernir o rachar desse espaço de interioridade que foi uma vez seguro. por sua vez.regulativo da liberdade – um ideal que impõe tantas cargas. ansiedades e divisões ao mesmo tempo que inspira projetos de emancipação e no nome do qual viemos a autorizar tantas autoridades para nos ajudar no projeto de sermos livres de qualquer autoridade menos a nossa própria. seguido do número do correspondente volume da edição brasileira (N. decidiu traduzir agencement precisamente por assemblage. talvez. por “agenciamento”. assemblage será traduzida. O tradutor de Mil platôs para o inglês. As referências ao livro Mil platôs. No original assemblage. como na montagem de uma máquina ou de um carro. Tem sentido similar à palavra francesa agencement. NOTAS 1 Traduzi self por “eu”.).). a possibilidade de que. podemos. do T. Embora não estejamos. amplamente utilizada por Deleuze e Guattari. de Deleuze e Guattari. arranjamento. O 2 3 198 . mesmo que não possamos desinventar a nós mesmos. uma vez que “eu” não tem a mesma conotação de “reflexividade” de self (N. aqui. e que os tradutores brasileiros decidiram traduzir pelo neologismo (em português) “agenciamento”. consciente da imprecisão dessa tradução. serão abreviadas por MP.

Embora me encontre em desacordo com algumas de suas conclusões.). A referência à retórica. aqui. bem como as possibilidades de que eles resistam ou recusem certos regimes de subjetivação. “reunir” ou “combinar”. do capítulo escrito por Boundas (1994). Devo enfatizar outra vez. Quando estava concluindo este ensaio. em particular. meu pensamento deve muito a suas esclarecedoras discussões. sua associação a assemblage (= agenciamento=montagem) (N. especialmente capítulo 16). como fiz em outras partes do livro do qual este ensaio foi extraído (ROSE. Beneficiei-me aqui da leitura de um capítulo do estudo. em particular. entretanto. 1996). beneficiei-me enormemente da leitura da extensa meditação de Elizabeth Grosz sobre a analítica do corpo (1994). deveria indicar que tampouco devemos colocar a fala no lado da natureza. por sua vez. o leitor não encontrará aqui qualquer “corpo sem órgãos” nem uma redução empiricista da problemática do desejo. Tenha-se em mente. tendo-me beneficiado. e como essa última imagina outras formas de relações entre as criaturas (1989. correspondente. em particular. do T. por “montar”. aqui. por exemplo. A tecnologia não esmaga a subjetividade – ela produz a possibilidade de que os humanos se relacionem consigo mesmos como sujeitos de certo tipo. em alguns casos. aqui. O trabalho de Deleuze e Guattari tem sido também utilizado em uma variedade de estudos que eu não pude levar em conta aqui. por “agenciar” ou. ao utilizar o trabalho de Deleuze e Guattari. será traduzido. que afirmar que a subjetividade é tecnológica não significa alinhar-se com as vigorosas críticas sobre os efeitos malignos da ordem tecnológica sobre a subjetividade mais estreitamente associadas com os escritores da Escola de Frankfurt. Lembro-me. das formas pelas quais Donna Haraway liga o empreendimento da primatologia com a escrita da ficção científica. Qualquer pessoa que esteja familiarizada com o trabalho de Deleuze reconhecerá imediatamente que eu resolvi compreender de maneira diferente alguns de seus conceitos e evitar muitos outros. a 199 5 6 7 8 9 . tomei conhecimento da coletânea de Constantin Boundas e Dorothea Olkowski (1994) sobre Deleuze. nas suas diferentes formas verbais.verbo to assemble. 4 Ao desenvolver o argumento deste ensaio e.

Just looking: consumer culture in Dreiser. 34-36. Berkeley: University of California Press. 1994. Obviamente. p. ser remontada a Aristóteles – é formada por ontologia. Gostaria de agradecê-la por ter-me permitido consultá-lo em sua forma de rascunho. aquilo que parece estar implicado na afirmação de Braidotti. leuze and the theather of philosophy . em vez disso. (org. Rose. 1971. 161). o simbólico e as condições sociais materiais” (1984b. 200 . 42. K. BENVENISTE. BOWLBY. sem dúvida. C. Olkowski (org. 1994. 171. S. In: C. D.). p. deontologia e teleologia. p. 1984. and the theather of philosophy. Problems in General Linguistics.ser brevemente publicado. R. “Liberation and regulation? Some paradoxes of empowerment”. Miami: University of Miami Press. Nova York: Routledge. muitos dos escritores que enfatizam a importância de “o corpo” também tentam reconhecer isso: isto é. Adaptei a linguagem de Deleuze para que servisse aos meus próprios objetivos. 1993. 11 12 13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAISTOW. V e OLKOWSKI. Critical Social Policy. E. Gilles De. A divisão quádrupla de Foucault – que pode. C. Nova York: Methuen. 1995. ascética. BOUNDAS. Gilles Deleuze . de Celia Lury. 1985. mas. V Boundas e D. 1986b. Unbearable wight: Feminism. Western Culture and the Body. Dean.). Nova York: Routledge. como um ponto de intersecção entre o físico. 99-118. sobre a memória e a identidade. Gissing and Zola. Bordo cita a partir de um artigo intitulado “Exercises for Men”. 1995a. 1985c. em The Radical Therapist. por Williamette Bridge Liberation News Service. Veja Foucault. dezembro-janeiro. 10 Veja Deleuze e Guattari (1994) para algumas observações sugestivas sobre o “carnalismo”. BORDO. 1994. de que “o corpo” “não deve ser entendido nem como uma categoria biológica nem como uma categoria sociológica. “Deleuze: serialization and subject formation”. BOUNDAS.

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1968) é Professor Auxiliar de Psicologia Social do Departamento de Psicologia da Saúde e Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona. Marcus Doel é Professor de Geografia Humana. “Unglunking geography: spatial science after Dr Seuss and 205 . de onde foi extraído o ensaio aqui traduzido. 14. Nessa linha. A Change of Episteme for Organizations: A Lesson from Solaris. and the Power of Address (Teachers College Press). Difference. Outra de suas linhas de trabalho centra-se na temática das instituições e suas transformações sociais. Silvia Travesset e Ana Vitores. juntamente com Miquel Doménech e José Manuel Alcaráz. “A hundred thousand lines of flight: a machinic introduction to the nomad thought and scrumpled geography of Gilles Deleuze and Félix Guattari” in Environment and Planning D: Society and Space. juntamente com Miquel Doménech. Algumas de suas publicações: Poststructuralist Geographies: The Diabolical Art of Spatial Science (Rowman & Littlefield). La desinstitucionalización y la crisis de las instituciones. Francisco Javier Tirado (Barcelona. Extituciones: del poder y sus anatomías e. da Universidade Swansea. Pedagogy.Sobre as autoras e os autores Elizabeth Ellsworth é Professora de Currículo e Instrução na Universidade de Wisconsin-Madison. Sua mais recente publicação é Teaching Positions. publicou Against Social Constructionist Cyborgian Territorialisations e. País de Gales. Sua linha de pesquisa principal se centra no estudo e aplicação de novos conceitos para pensar o social. 1996: 421–439. Sobre esse tema publicou. com Miquel Doménech.

Nikolas Rose é Professor de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e Matemáticas do Goldsmith’s College. Homepage: http://ralph.ac. Politics and Society in England. Seus trabalhos de pesquisa giram. É autor de The Psychological Complex: Psychology. juntamente com Francisco J. Miquel Domènech (Barcelona. tecnologia y sociedad. 1869-1939 (Routledge) e Governing the Soul: The Shaping of the Private Self (Routledge). Entre suas publicações pode-se destacar a coordenação. De la liberación a las prácticas de libertad: reflexiones desde el pensamiento de la diferencia sexual. de um número monográfrico da revista Anthropos sobre Psicologia Social Crítica e a coordenação.uk/personal/mad/ Lucía Gómez Sánchez (Valencia. Ensayos sobre ciencia. Universidade de Londres. Psicología y Regulación Social. Suas publicações mais recentes: Power of Freedom: Reframing Political Thought (Cambridge University Press) e The Self: A Reader (Free Association Books). juntamente com Tomás Ibáñez. bem como uma problematização da identidade em relação com o movimento feminista. ao redor de dois eixos básicos: as relações de poder a psico-sociologia do conhecimento científico.Gilles Deleuze. London). publicado por Gedisa. Deleuze y la psicología Social: identidad y multiplicidad. Tirado. 206 .1970) é Professora Auxiliar de Psicologia Social no Departamento de Psicologia Social da Universidade de Valencia.swan. Sua pesquisa pretende analisar criticamente a Psicologia Social a partir de uma perspectiva pós-estruturalista. de Sociologia simétrica.” In: Thinking Space (Routledge.1960) é Professor Titular de Psicologia Social do Departamento de Psicologia da Saúde e Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona. Entre seus trabalhos se destacam: Política de la verdad y Psicología Social (tesis de licenciatura). fundamentalmente.

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