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Conteúdo
CAPÍTULO UM................................................................................................................................ 7 CAPÍTULO DOIS............................................................................................................................ 15 CAPÍTULO TRÊS............................................................................................................................ 23 CAPÍTULO QUATRO ..................................................................................................................... 30 CAPITULO CINCO ......................................................................................................................... 37 CAPÍTULO SEIS ............................................................................................................................. 46 CAPÍTULO SETE ............................................................................................................................ 54 CAPÍTULO OITO ........................................................................................................................... 61 CAPÍTULO NOVE .......................................................................................................................... 67 CAPÍTULO DEZ ............................................................................................................................. 75 CAPÍTULO ONZE .......................................................................................................................... 85 CAPÍTULO DOZE........................................................................................................................... 91 CAPÍTULO TREZE.......................................................................................................................... 97 CAPÍTULO CATORZE .................................................................................................................. 103 CAPÍTULO QUINZE ..................................................................................................................... 110 CAPÍTULO DEZESSEIS ................................................................................................................. 116 CAPÍTULO DEZESSETE ................................................................................................................ 121 CAPÍTULO DEZOITO ................................................................................................................... 128 CAPÍTULO DEZENOVE ................................................................................................................ 134 CAPÍTULO VINTE ........................................................................................................................ 140 CAPÍTULO VINTE E UM .............................................................................................................. 147 CAPÍTULO VINTE E DOIS ............................................................................................................ 153 CAPÍTULO VINTE E TRÊS ............................................................................................................ 160 Receitas Secretas................................................................................................................... 168

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Para Marlee Alex uma mulher gentil uma artista das palavras minha querida e estimada amiga E para os meus amigos de Butterfly Court. Eu amo vocês!

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Porventura não esquadrinhará Deus isso? Pois ele sabe os segredos do coração.
SALMOS 44:21

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CAPÍTULO UM
Jessica Morgan agarrou o volante do seu carro e lendo a placa em voz alta: - Glenbrooke, cinco quilômetros. A brisa de verão chicoteou pela sua janela aberta e dançou o cabelo loiro-mel que lhe caía na altura dos ombros. - É isto, Jessica murmurou enquanto a estrada de Oregon a levava à beira da sua nova vida. Por meses ela planejou este passo de independência. Então ontem, na véspera do seu vigésimo-quinto aniversário, ela botou o pé na estrada, com o banco traseiro de seu carro usado cheio de caixas e o seu coração cheio de sonhos. Ela dirigiu durante dez horas ontem até parar em um hotel em Redding, Califórnia. Depois de comprar comida chinesa; ela sentou de pernas cruzadas na cama, e comeu isto enquanto assistia o fim de um velho filme em preto e branco. Jessica acabou dormindo, sonhando com novos começos. Levantou às 6:30, pronta para dirigir outras nove horas no dia do seu aniversário. Eu estou quase lá, ela pensou. Eu realmente estou fazendo isto! Olhe pra todas essas árvores! É lindo! Eu vou amar isto aqui. A estrada rural seguia por um arvoredo de salgueiros tremulantes. Enquanto passava por elas, as árvores pareciam acenar para a ela, dando boas-vindas ao seu canto do mundo. O sol de fim de tarde atirou fachos de luz por entre as árvores, atingindo o lado do seu carro em intervalos rápidos e criando faixas. Iluminava. Escurecia. Luz. Sombra. Enquanto Jessica se afastava do grupo de árvores, a estrada se curvou à direita. Ela virou o carro para fazer bem a curva. Um feixe de luz atingiu-a de repente, cegando-a momentaneamente. Desviando à direita para evitar um caminhão, ela sentiu que o pneu dianteiro pegou o pedregulho no lado da estrada. Antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, ela perdeu o controle do carro. Em um instante, Jessica sentiu o carro derrapar no pedregulho e tombar para um lado. O cinto de segurança a deteve num instante, enquanto Jessica gritava, segurando o volante. O carro desceu o dique e caiu numa vala seis metros abaixo da estrada. O mundo parecia ter parado. Jessica tentou gritar, mas não saía som de seus lábios. Atordoada, ela se deitou de lado, imóvel. Ela piscou depressa, numa tentativa de se desfazer de um devaneio bizarro do qual ela podia sair. Seu cabelo caiu sobre metade do rosto. Ela sentiu um líquido quente e úmido descendo sobre seu rosto e o gosto ácido invadiu sua boca. Estou sangrando! Mirando seu cabelo bagunçado, ela tentou focar sua visão. Quando a vista clareasse, ela poderia observar a vista do para-brisas, agora estilhaçado, e o volante, entortado para baixo, pressionando sua perna esquerda no lugar. FBTCB 7

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De repente, sua respiração voltou ao normal, e com ela veio a dor. Cada parte do seu corpo doía, e um anel de pontos brancos girava freneticamente diante dos seus olhos, tanto quando ela os abria ou quando os fechava. Jessica tinha medo de se mexer. Medo de descobrir que alguma parte do seu corpo não respondia. Isso não aconteceu! Não pode ter acontecido. Foi rápido demais. Acorde, Jé! Em meio a todo o algodão que parecia encher sua cabeça, ela ouviu o chiado de um walkietalkie e uma voz masculina ao longe, dizendo: - Eu localizei o carro. Estou procurando agora por sobreviventes. Câmbio. Estou aqui! Aqui embaixo! Socorro! Jessica gritava em pensamento. O único som que saiu de sua boca foi um ríspido “Arrghhh!”. Só então ela percebeu que sua língua estava sangrando e seu lábio superior estava inchando. - Oi, você aí, a voz masculina disse calmamente. O homem se apoiou na abertura da janela do motorista, abaixo de Jessica, do seu lado esquerdo. – Você está me ouvindo? - Sim, ela balbuciou. Sua língua estava inchando e sua mandíbula tremia. Ela começou a sentir frio e tremia incontrolavelmente. - Não se mova, a voz profunda disse. - Eu já chamei ajuda. Nós vamos te tirar daqui. Isso vai levar alguns minutos, então não se mexa, ok? Jessica não podia ver seu rosto, mas a voz daquele homem a acalmou. Ela ouviu uma raspagem de metal sobre ela, e uma mão grande, firme tocou seu pescoço e sentiu seu pulso. - Você estava usando o cinto de segurança. Boa garota, ele disse. O walkie-talkie chiou novamente, desta vez logo acima dela. - Sim, Mary, o homem disse. – Temos uma mulher aqui, de uns vinte anos, eu acho. Condição estável. Vou esperar pela ambulância para removê-la. Câmbio. Jessica sentiu a mão dele novamente. Desta vez, sobre sua bochecha, tirando seu cabelo do rosto. - Como está se sentindo? Eu sou Kyle. Qual o seu nome? - Iéfica, ela disse. Sua língua agora latejava. Com o canto dos olhos, ela viu de relance um cabelo escuro e um rosto bronzeado. - Eu vi quando o carro começou a capotar. Deve ter sido horrível pra você. Jessica respondeu com um aceno da cabeça. Percebeu, então, que podia mover o pescoço sem sentir dor. Ela virou a cabeça devagar e olhou o rosto do seu salvador. Jessica sorriu com surpresa e prazer quando viu aqueles olhos verdes, o nariz fino, o cabelo escuro ondulado. Juntamente com seu sorriso veio uma forte palpitação em seu lábio superior e uma sensação de sangue escorrendo pelo seu queixo. FBTCB 8

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- Então você pode se mexer, hein? Kyle disse. – Vamos tentar o braço esquerdo? Legal! Muito bem! Como estão suas pernas? Jessica tentou dizer que a perna direita estava bem, mas a esquerda estava imobilizada. Suas palavras, no entanto, saíram desarticuladas. Ela não tinha certeza do que pronunciara. Seu maxilar estava tremendo muito agora. Ela se sentia desamparada. - Calma... Kyle disse. - Assim que os caras chegarem com a ambulância nós vamos colocar tudo no lugar. Vou colocar alguma pressão em seus lábios agora. Tente manter a respiração devagar e constante assim. Kyle se apoiou nela. Seu rosto estava a quinze centímetros do dela. Ele começou a inspirar pelo nariz e expirar pela boca. O cheiro de canela do chiclete preenchia sua respiração, confortando-a estranhamente. Jessica ouviu o barulho distante de uma sirene. Em minutos, ela estava no meio de uma agitação. Alguns homens estabilizavam o carro, enquanto outros cortavam a porta para alcançá-la mais facilmente. Logo, um conjunto de mãos firmes desfez seu cinto de segurança, afastou o volante e a colocou sobre uma longa tábua. Eles prenderam a testa dela na tábua, assim ela não podia mexer a cabeça. Um dos homens a embrulhou com uma manta. Eles levantaram a maca e com passos firmes subiram o barranco, levando-a até a ambulância. Jessica sentia como se suas pálpebras pesassem quilos. Ela apertou os olhos. Sua cabeça cheia de perguntas. Por quê? Por que eu? Por que logo agora, no meu novo começo? Com um solavanco, os homens arrumaram os pés da maca e a deslizaram para dentro da ambulância. Um deles alcançou seu braço por baixo da manta. Deslizando o polegar sobre sua mão esquerda, ele a pediu que a fechasse bem a mão. Outro paramédico falava, calmamente, a poucos centímetros de sua cabeça: - Pode abrir os olhos pra mim? Muito bem. Pode me dizer onde dói mais? - Minha perna, Jessica disse. - É a esquerda. Jessica reconheceu a voz forte de Kyle. A mão dele a alcançou, pressionando seu lábio outra vez. A sirene começou a tocar, e a ambulância partiu pra estrada, rumo ao Hospital de Glenbrooke. Assim que a maca sacudiu na ambulância, o paramédico que segurava a mão esquerda de Jessica disse: - Mantenha sua mão fechada. Você vai sentir um beliscão. Com uma agulha borboleta, ele picou a veia saltada em sua mão.

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- Ai!, ela disse debilmente. Ela sentiu um pano macio sobre seus lábios e queixo. Abriu os olhos. Kyle sorriu pra ela. Com uma mão ele pressionava seu lábio, enquanto passava a outra sobre o sangue seco sobre sua bochecha e queixo. - Pode abrir a boca um pouquinho? Preciso colocar isso em sua língua, disse ele, enquanto colocava um chumaço de algodão entre sua língua e sua bochecha. – Parece que o sangue aqui está estancando. Agora, se seu lábio cooperar, logo você estará em boa forma. Vamos chegar ao hospital em poucos minutos. Você está bem? Ela tentou acenar, mas a fita na cabeça a impediu. Ela forçou um sorriso inchado sob a pressão da mão dele. Jessica se sentiu ridícula, tentando flertar naquele estado. Ali estava o homem mais bonito e gentil que ela já viu, e ela era um desastre inevitável. Ele deve ser casado e ter seis filhos. Esses caras são treinados para ser legais com vítimas de acidentes. O impacto da situação a pegou em cheio. Ela era uma vítima. Nada disso era pra ter acontecido. Ela pensara em chegar a Glenbrooke calmamente, e começar sua vida tranquilamente. Sim, tipo secretamente. Agora como ela responderia as perguntas intrometidas que eles certamente fariam a ela no hospital? Ao menos ela tinha o Sr. McGregor, seu velho professor de inglês do Ensino Médio. Ele era a única alma que ela conhecia em Glenbrooke, e quando ele respondeu sua carta dois meses atrás, prometeu a ela um emprego como professora no Colégio de Glenbrooke, e se ofereceu para procurar um lugar onde ficar. - Aqui estamos nós, disse Kyle, assim que a ambulância parou no estacionamento do hospital. Jessica fechou os olhos novamente. A maca foi removida para fora da ambulância, para a sala de emergências, numa área cortinada com o soro pendurado. Um médico apareceu logo. A dor surgiu novamente por todo o seu corpo. Ela tremia sob as luzes enquanto o médico e o paramédico discutiam sobre suas condições na linguagem abreviada deles. Ela sabia que Kyle ainda estava lá por causa da pressão em seu lábio. - Alguém me arranja um par de compressas mornas? Alguns momentos depois, Jessica sentiu a compressa sobre ela. Aquilo pareceu a coisa mais maravilhosa do mundo. Forçando seus olhos a abrir, ela viu outro rosto sobre ela. Era uma enfermeira de cabelo ruivo, óculos de armação azul e batom alaranjado cintilante. - Eu tenho algumas perguntas a fazer, querida, disse ela, arrumando os papéis na prancheta enquanto lia uma lista. – Qual o nome do seu plano de saúde? Você tem o seu cartão aí? - Eu... eu não tenho, Jessica balbuciou. Seus lábios pareciam ter o dobro do tamanho normal.

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- Não tem seu cartão? Sabe o nome do seu plano de saúde? - Não. - Você não tem um plano? - Não. - Sei... Bem... Você é casada? - Não. - Preciso do nome de algum parente, querida. Jessica hesitou antes de dizer: - Não tenho. - Não tem parentes?, a mulher parecia irritada. – Não tem plano de saúde nem parente algum? Jessica não respondeu. - Talvez devamos começar com questões mais simples. Qual seu nome completo? - Jessica..., ela parou. Dar o seu sobrenome poderia arruinar tudo. Rapidamente, forçou-se a abrir os olhos, procurando algo para dizer. Ela viu, com a cabeça ainda presa à tábua, uma caixa de suprimentos cirúrgicos na prateleira no canto da sala. As letras em negrito diziam “Laboratórios Fenton”. - ... Fenton, disse ela, com os lábios inchados. - Jessica Fenton, a mulher repetiu preenchendo o formulário. – E seu endereço? - Eu não sei. - Sabe o número do seu telefone ou de alguém que poderíamos telefonar?, sua voz parecia paternalista. Jessica parou. - Não. - Meu bem, antes de começar o tratamento precisamos da sua cooperação. O hospital precisa do depósito de cem dólares ainda hoje. Você pode pagar ou precisa de financiamento? - Eu pago. Ela se sentia confusa, e as perguntas da mulher de batom laranja não estavam ajudando. Ela se forçou a dizer: - Minha bolsa... FBTCB 11

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- Deve estar no local do acidente, Kyle disse. – Olha, Betty, não pode fazer isso depois? Ela obviamente passou por muita coisa hoje. Assim que ela recuperar a bolsa, te dará toda a informação de que você precisa. Não vê que ela não está bem para responder às suas perguntas agora? - É a política do hospital, Kyle. Você sabe disso! Kyle tirou o algodão da boca de Jessica e afastou-se da cama, levando Betty consigo. Ela podia ouvir ele cochichar de algum canto sobre o que ele achava da política do hospital. O doutor voltou ao lado de Jessica, começando a examiná-la removendo o algodão ensangüentado e verificando língua e lábios. - Parece estar tudo bem aí dentro. O lábio superior vai precisar de alguns pontos. Jessica fechou os olhos assim que a equipe médica começou seu trabalho. Primeiro, uma injeção para anestesiar o lábio. Depois os oito – ou seriam dez? – pontos precisos. Ela podia sentir os pontos apertados conforme a agulha puxava seus lábios, mas aquela era a única parte do seu corpo que não doía, graças à anestesia local. Outro doutor continuava o exame enquanto os pontos eram dados. - Isso dói?, ele perguntava, enquanto pressionava seu maxilar, checava suas orelhas, e testava seu corpo rígido, puxando e cutucando cada pontinho. Tudo doía. Tudo exceto seus lábios anestesiados, que pareciam ter dez vezes o tamanho normal, inutilizados. Quando o doutor chegou à sua perna esquerda, ordenou um exame com raios-X assim que terminassem com os pontos. Enquanto eles a levavam, ela ouviu a voz de Kyle. Esforçou-se ao máximo para vê-lo novamente em meio a tantos médicos, mas ele tinha ido embora. Nas horas seguintes, Jessica passou por uma série de exames, raios-X e puxões. Tinham injetado algum tipo de analgésico ou sedativo pela agulha-borboleta presa à veia em sua mão, e começava a fazer efeito. Ela se sentia sonolenta, e tudo ao seu redor parecia embaralhado. Em algum momento, ela abriu os olhos e viu um grande relógio na parede apontando 6:35. A próxima vez em que ela abriu os olhos tentando focar algo ao seu redor, a sala estava escura. Ela percebeu que estava deitada em uma cama de hospital, embora não tenha percebido quando a colocaram lá. Tudo parecia embaralhado e fora de foco. Ela adormeceu novamente até uma enfermeira chegar para checá-la algum tempo depois. Ela tentou se esticar enquanto a enfermeira conferia seu pulso. Percebeu que podia enxergar e pensar mais claramente. Voltou também a sentir dores, pois o efeito dos remédios estava passando. - Como se sente? - Tá doendo... Jessica respondeu. Seus lábios e língua ainda estavam inchados e doloridos. - O doutor virá em alguns minutos.

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Ele apareceu na deixa, vestindo um jaleco branco, óculos de armações grossas e um estetoscópio pendurado no pescoço. - Sou o Dr. Laughlin. Tenho boas notícias para você, Srta Fenton. Srta Fenton? Ah, sim! Deve ser eu. - Nenhum osso quebrado. Vários hematomas, alguns inchaços. Sua perna vai doer por alguns dias, mas deve melhorar em uma semana. Relaxe e tente descansar o máximo que puder nos próximos dias. Precisa voltar aqui em uma semana para tirar os pontos. Ele checou o prontuário e antes de devolver ao fim da cama, disse: - Eu te deixaria ir agora, mas o Sr. Buchanan nos pediu para segurá-la aqui esta noite. - Sr. Buchanan?, Jessica perguntou. - Sim. Kyle. Lembra-se de Kyle Buchanan? Ele é um dos nossos bombeiros. Foi o primeiro a chegar à cena do seu acidente. - Como eu poderia esquecer aquele rosto, aquela voz?, foi o que ela quis dizer. Mas tudo o que disse foi: - Sim, Kyle. Kyle Buchanan. Eu me lembro dele. O médico chegou mais perto; agora ele parecia um pai preocupado. - Eu vi sua ficha. Você não listou nenhum plano de saúde. Você tem plano de saúde? Algum parente para contatar? - Não, eu... - Algum conhecido em Glenbrooke? - Sim, Hugh McGregor., as palavras vieram emboladas. – Ele é o diretor do Colégio. Ele me contratou. Eu sou professora., ela achou os p’s e m’s muito difíceis de pronunciar. O médico ajeitou os óculos e sentou-se na beira da cama de Jessica. - Imagino que você ainda não saiba sobre o Sr. Hugh. Jessica imaginou o pior. - Ele deu entrada aqui dois dias atrás, com derrame. O quadro é estável, mas ele sofreu paralisia parcial. Não pode falar, até o momento. - Ele está aqui agora?, perguntou ela tentando sentar e instantaneamente sentido a cabeça girar – Posso vê-lo? - Está no segundo andar. Sugiro que espere até amanhã, Srta Fenton. O melhor a fazer é descansar. A Srta terá muito a fazer amanhã quando sair daqui. A enfermeira chegará logo com algo para lhe ajudar a dormir. Boa noite. Dr. Laughlin dirigiu-se à porta, mas parou e virou-se. Com um sorriso simpático, disse:

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- A propósito, bem-vinda a Glenbrooke. Acho que minha filha será sua aluna. Dawn. Dawn Laughlin. Ela está entrando no colegial esse ano. Ouvi dizer que ela é a garota mais popular do colégio. Jessica forçou-se a sorrir e tentou acenar com a cabeça. A forma como ele disse aquilo tudo soou como se estivesse se desculpando, o que a fez pensar o que um médico cuja filha é a garota mais popular da escola teria pra se desculpar. - Durma bem, disse Dr. Laughlin, saindo para o corredor iluminado, fechando a porta em seguida. Com os remédios já sem efeito, o impacto das dores e hematomas a pegou na solidão do seu quarto. Mas o mais doloroso foi perceber que estava sozinha em uma cama de hospital, numa cidade desconhecida, e seu único amigo estava deitado em uma cama no andar de baixo, em estado pior que o dela. Amanhã pela manhã ela teria alta, mas e aí? Pra onde iria? O Sr. McGregor deve ter encontrado uma casa para ela, mas se não podia falar, como ela saberia pra onde ir? E se ela encontrasse a casa, como chegaria lá? Sobrou alguma coisa do carro? E todos os seus pertences cuidadosamente empacotadas na traseira do carro? Outro medo a assombrou, encobrindo todos os outros. E se descobrissem sua verdadeira identidade? Tudo estaria arruinado. Todo o seu plano cuidadoso. Todo o esforço para cobrir qualquer pista que a levasse para aquela cidadezinha no Vale Willamette no Oregon. Tudo destruído em um piscar de olhos. Enquanto as lágrimas caíam, ela se lembrou de que hoje era seu aniversário. Virando sua cabeça para o travesseiro do hospital, Jessica chorou copiosamente frente a seus medos e dores. Nunca em toda sua vida ela se sentiu tão completa e dolorosamente sozinha.

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CAPÍTULO DOIS
- Srta Fenton? – disse a enfermeira enquanto tocava o braço de Jessica. – Preciso tirar sua temperatura agora. Jessica virou-se tentando focar sua visão na mulher no canto da cama. Então, tudo voltou à sua mente. O acidente, o hospital, os pontos em sua boca, e Kyle. Engraçado eu pensar nele agora Jessica se ajeitou para que a enfermeira pudesse fazer sua tarefa. - Que horas são? Jessica perguntou. - Quase oito horas. Você poderá ir depois que o doutor vier aqui. Vai querer o café-da-manhã? - Eu acho que sim. Jessica pensou em suas roupas ensangüentadas e se perguntou onde elas estariam. Ela não se lembrava de ter colocado aquela roupa de hospital. A enfermeira terminou de verificar a pressão sanguínea de Jessica e marcou os resultados na ficha. Depois ela saiu da sala, retornando pouco tempo depois com uma bandeja de café-damanhã. Cereais, suco de laranja e torradas. Jessica pensou em dar algumas mordidas, mas achou que seria pior. Ela não tinha certeza de como seria, mas sabia que seria pior. Assim que o médico de plantão examinou Jessica, a enfermeira abriu um armário no canto do quarto e puxou as roupas sujas de Jessica. - Queria ter outra coisa pra vestir. Por falar nisso, tem algum chuveiro por aqui? Seus primeiros passos foram oscilantes, ela ainda estava meio tonta, mas ela tinha medicação suficiente no corpo para aliviar a dor enquanto ela tomava um banho rápido. Ela saiu do banheiro vestida com seus jeans e camiseta sujos. Ela desejou ter outra coisa para usar – se ela estivesse com a bolsa, teria ao menos uma escova para pentear os cabelos. Quando ela entrou no quarto, ouviu uma voz grave dizer-lhe ”Bom dia”. Kyle estava sentado na cadeira no canto, perto da janela. Sobre a cama, estava sua bolsa e uma camiseta GG com os dizeres em vermelho: ”11º Festival da Panqueca dos Bombeiros de Glenbrooke” - Nós temos umas camisetas dessas que sobraram lá no Corpo de Bombeiros. Imaginei que você gostaria de uma roupa limpa. Kyle sorriu para Jessica. Ela achou que ele parecia tímido. Diferente da expressão dele no meio da emergência do dia anterior. - Obrigada. Que... Que bom que você fez isso por mim. Essa blusa está um lixo. - Como se sente? FBTCB 15

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- Melhor. Um pouco tonta. Você foi ótimo em trazer minha bolsa e tudo mais..., Jessica pegou a bolsa e a camiseta, pensando em como ela estava ridícula toda ensanguentada, com pontos na boca e com seu longo cabelo caindo no chão. – Volto logo. Quando entrou no banheiro, ela percebeu que suas mãos tremiam. Ela não sabia se era por causa do choque do acidente, ou os remédios, ou a surpreendente aparição de Kyle. Por que ele voltaria se não estivesse interessado nela? Jessica penteou rapidamente os cabelos e pegou seu estojo de maquiagem. Olhando para o espelho, segurando o rímel, ela percebeu que não havia motivo para se maquiar. Seus lábios, ainda inchados, pareciam algo de um filme de terror, desfigurados, com pontos por toda a parte de cima. Seus olhos tinham teias de aranha vermelhas saindo do centro verde e olheiras enormes. Sua pele, normalmente cor de pêssego, tinha um tom verde-acinzentado sob a luz fluorescente do banheiro. De muitas maneiras, ela parecia uma mulher diferente do que aparentava há algumas semanas. De outro, ela era a mesma. - Deixa pra lá, sussurrou fechando o tubo de rímel. Não era costume dela sair em público sem nenhuma maquiagem. Também não era de seu feitio sair por aí com uma camiseta de anúncio de um Festival de Panquecas. Mas ela estava no Oregon agora. Ela não era a mesma pessoa. Tudo seria diferente. Jessica abriu a porta do banheiro e tentou fazer sua cara mais digna e apresentável. - Obrigada de novo por trazer minha bolsa. E muito, muito obrigada por tudo o que você fez por mim ontem. Eu realmente admiro isso. Kyle sorriu, mostrando-se tímido outra vez. - Não espalha. Só voltei porque pensei que você poderia querer uma carona pra algum lugar. Jessica sentou na cama, sentindo-se exausta por tudo o que acontecera no dia anterior. Resolveu que contaria a Kyle a história sobre o Sr. McGregor, seu trabalho no colégio e sobre ela não saber onde era sua nova casa. Ela se sentiu frágil, mas, por cuidado, guardou suas palavras. - Gostaria de ver o Sr. Mc Gregor no andar de cima. Se ele não puder falar... Bem... Eu acho... Olha, se ele não puder conversar, não faço ideia do que fazer depois. Kyle levantou e sentou-se perto de Jessica. Ele falou no mesmo tom calmo e gentil que falara quando a encontrou no dia anterior: - Eu ouvi você mencionar o nome dele na sala de emergência, então eu procurei por ele esta manhã. Hugo está estável, mas sua situação não é muito boa. A esposa dele faleceu há alguns anos, né... Então eu tomei a liberdade de ligar para a vizinha dele, Ida Dane. Então... Acabei descobrindo que a casa que ele arrumou pra você alugar é dela. - Você conhece o Sr. McGregor?, Jessica perguntou. FBTCB 16

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- Cidade pequena..., Kyle respondeu. Enfiou sua mão no bolso e tirou dele uma chave – Eu tenho uma chave. Espero que você não se importe. Jessica não sabia se ela se importava ou não. Aliás, a chave e o nome do proprietário da casa eram a solução de um de seus mistérios. O outro mistério, Kyle, parecia mais complexo. Ela queria dizer: Por que você está sendo legal comigo? Ainda mais agora que eu estou parecendo um jaburu. O cabelo de Jessica era loiro claro, como o de sua mãe. Por muitos anos ela o manteve bem comprido, pra baixo da metade das costas. No caminho de vinda, há dois dias, ela parou no primeiro salão que encontrou e mandou cortar o cabelo na altura dos ombros. Seus olhos eram verde-musgo, ela gostava deles, mas não achava neles nada de especial. Seus dentes eram certos, graças a três anos usando aparelho. Seu corpo era, em sua opinião, um tipo comum. Nem magra, nem gorda. O que Kyle tinha visto nela? Certamente ele não a tinha visto em sua melhor forma. Será que Glenbrooke estava sofrendo de falta de mulher aguda? Ou Kyle era algum tipo de assassino em série? - Então..., Jessica disse, com cuidado – Você sabe onde fica essa casa? - Rua Marigold. Não fica longe do colégio. Acho que dá umas quatro quadras de distância. Quer que eu te leve lá? - Olha, você está sendo muito legal, Kyle. De verdade. Mas você não precisa ficar fazendo isso por mim. Kyle baixou os olhos, fitando o chão do hospital, enquanto parecia procurar uma linha em seu cartão. Jessica percebeu como era ondulado o cabelo escuro dele. Ele levantou os olhos. Seus olhos verdes cruzaram com os dela. - Eu só pensei que poderia ajudar. Você é nova aqui, e o acidente e tudo mais. Se você não se sente bem com essa atenção, tudo bem. O que eu puder fazer por você, será um prazer. É só avisar, ok? Ele colocou a chave da casa em cima da cama e caminhou em direção à porta. - Espere, Jessica disse. Kyle parou e virou, esperando o que Jessica tinha a dizer. - Está tudo acontecendo rápido demais. É que de onde eu venho as pessoas não são legais assim como você. Eu vou precisar da sua ajuda. Provavelmente mais do que eu estou pensando. Um largo sorriso se formou no firme maxilar de Kyle. - Muito bem. Vamos pagar a conta do hospital primeiro, depois vamos para a oficina do Al. - Al? FBTCB 17

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- É pra onde levaram seu carro. A gente pode pegar umas caixas e ver se por algum milagre o Al pode juntar os pedaços daquele Humpty Dumpty1. Jessica pegou sua bolsa e dirigiu-se à porta. Suas pernas obedeciam firmemente. - Estou melhor do que você pensava, hein? Kyle acenou para uma cadeira de rodas no canto do quarto. Depois posicionou-se atrás dela, indicando que Jessica deveria sentar-se nela. - Tudo bem, eu consigo andar. - Acho que é mais uma daquelas políticas do hospital. Ninguém sai daqui pelas suas próprias pernas. - Isso é ridículo! Eu posso andar, e muito bem! Kyle não se moveu. A expressão de seu rosto inacreditável acompanhava o inacreditável olhar que se dirigia a ela. Ele estava decidido que não sairiam do hospital sem que Jessica estivesse sentada naquela cadeira, com ele na direção. Jessica não gostou da ideia, mas não tinha escolha. Jessica sentou-se, colocando a bolsa no colo, decidida a não olhar para ninguém enquanto Kyle empurrava a cadeira. Ele se inclinou para conversar em voz baixa enquanto se dirigiam à porta da frente: - Você perguntou sobre o seu carro. Acho melhor a gente ver o que o Al vai dizer, mas na hora que eles levaram pra lá, estava horrível. - Você estava lá quando eles levaram meu carro? Novamente Jessica se sentiu desconfortável com o fato de esse homem estar tão envolvido nos detalhes de sua vida. Ela aprendeu com a experiência que tudo tinha um preço, especialmente a caridade. - Passei lá quando saí do hospital na noite passada. Eu tinha que voltar ao local do acidente pra pegar minha caminhonete e sabia que Al me daria uma carona até lá. Além do mais, você tinha dito a Betty que precisava da sua bolsa, aí eu pensei que poderia trazê-la. - Obrigada, de novo. Será que podemos dar uma paradinha pra ver o Sr. McGregor? - Você é quem sabe. Como eu disse, ele não está muito bem. Provavelmente não vá te reconhecer, ou sequer saber que você estará no quarto. Se quiser, será um prazer ir com você. - Acho que vou fazer como você sugeriu: primeiro acerto a conta do hospital com a Betty, depois vou ver meu carro. Talvez eu volte ainda esta tarde para vê-lo, depois de começar a mudança.
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Humpty Dumpty é o personagem de uma história do folclore americano: “ Certo dia Humpty Dumpty sobre um muro se sentou. Mas deu azar e – tibumba! – um belo tombo levou. Nem todos os cavaleiros do rei, com os seus cavalos, puderam novamente colocar Humpty Dumpty de volta em seu lugar.”

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Ela não voltou à tarde. Al disse que seu carro deu perca total. - Pegue o dinheiro do seguro e não olhe para trás, disse ele, consolando-a. Jessica acenou e saiu com Kyle, mortificada com a notícia. Não havia nada a fazer, o carro não tinha seguro. Ela tinha planejado adquirir o seguro com seu primeiro pagamento. Não parecia necessário preocupar-se com insegurança na hora que ela comprou o carro. A mulher que o vendeu estava disposta a pegar o dinheiro e liberar o carro na hora, o que era o mais importante no momento. Ela sabia que teria que obter uma placa do Oregon para seu automóvel e pensou em adquirir o seguro quando fosse obter a placa. Agora ela percebeu como foi burra. Pior ainda, agora que ela parou para pensar nisso, achou que provavelmente isso era ilegal. Talvez essa aventura toda fosse uma ideia idiota. Jessica sempre acreditou que ela podia terminar qualquer coisa que começasse. “Se você pode sonhar, você pode fazer” foi a frase-tema dela desde que ela a viu num pôster de uma colega de faculdade com quem dividiu o quarto no primeiro ano. Agora ela tinha sérias dúvidas quanto a essa filosofia de vida. Expectativas podem se tornar dolorosamente perigosas quando o destino é atingido por forças invisíveis e injustas. Kyle encheu a traseira de sua caminhonete branca com as caixas esmagadas de Jessica e as levou até a Rua Marigold, 226. Jessica se manteve em silêncio durante todo o caminho, imaginando se sua vinda foi a coisa certa a fazer. Talvez não fosse aquele seu destino, seu sonho, do jeito que ela pensou que seria. Tudo mudou quando ela viu a casa. A pequena casa amarela com chaminé de tijolinhos vermelhos a deixou sem fôlego. - Essa é a minha casa?, ela perguntou a Kyle enquanto ele estacionava o carro, perto de uma frondosa árvore2. - Sim. A vizinhança é ótima. A maioria dessas casas tem entre setenta e cem anos. Eu costumava... Kyle fez uma pausa. – Conheço um pessoal que mora na rua de trás. É uma vizinhança excelente, acrescentou ele, rapidamente. Jessica desceu da cabine da caminhonete de Kyle, parando em frente à charmosa casa, admirando as rosas cor-de-rosa crescendo sobre uma treliça sobre a porta da frente, o caminho de pedras e as venezianas brancas. Agora sim ela encontrou o que procurava em Glenbrooke. Uma casa de contos de fadas, de verdade. Girando a chave na fechadura da porta da frente, Jessica a abriu com Kyle logo atrás dela. Talvez aquela fosse uma segunda chance para seu sonho se realizar. A luz do sol matinal entrou com eles pela porta da frente. Centenas de minúsculos grãos de poeira subiam na hibernação da casa vazia, dançando para Jessica no polido chão de madeira.

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Olmo, Ulmus Procera http://elmtree.org/images/american-elm-tree.jpg

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- Que lindo!, disse Jessica. – Não acredito que o Sr. McGregor conseguiu uma casa tão boa! Aqui deve ser a cozinha. Lá estava a cozinha. Pequena, mas suficiente. Completa até com geladeira. Uma porta nos fundos da cozinha, à esquerda, dava para o quintal, que tinha uma área de madeira com alguns móveis de varanda e os restos mortais de um jardim perto da cerca dos fundos. Ela reparou que os vizinhos mantinham seus quintais arrumados e bem cuidados, e também tinham um jardim. Dentro da casa, do lado direito da cozinha, duas portas davam para uma espaçosa área retangular, que parecia ser uma sala conjugada, com sala de jantar, sala de estar e escritório. Um sofá verde escuro, uma mesinha de café de madeira e uma pequena televisão em uma estante preenchiam a parte da sala de estar na frente da casa. As paredes eram brancas, com espelhos largos de madeira nas portas e janelas. Havia uma persiana branca aberta na janela da frente, com cortinas de lacinho dos lados. A mesma coisa na janela da sala de jantar. Jessica amou tudo. Era branco, ventilado e espaçoso. A mesa da sala de jantar era dessas que se encontra em bazares de garagem. Além de útil, a toalha de mesa e o vaso de flores davam a elegância. O tesouro da sala era uma escrivaninha de mogno no canto mais distante, que vinha com uma cadeira com assento bordado em flores. A sala parecia uma foto de revista, principalmente o jeito como a luz do sol entrava pela janela da frente, fazendo brilhar o vitral da escrivaninha. Uma toalha, algumas flores frescas, talvez alguns de seus antigos livros de poesia dentro do armário da escrivaninha com portas de vitral, e esta seria a sala que Jessica sempre sonhou. - É maravilhoso, ela disse, curtindo a descoberta de cada canto da casa, enquanto Kyle a seguia silencioso. - O banheiro e o quarto devem ser lá em cima, Kyle disse. – Por que você não vê isso enquanto eu trago suas coisas pra dentro? Ela gostou da idéia de ver o andar de cima, apreciando devagar os catorze degraus da escada, por causa de sua perna machucada. O quarto estava à esquerda, logo acima da entrada da frente. Uma cômoda velha de madeira com um espelho oval ficava perto da porta do closet, e do lado oposto estava uma antiga cama branca de ferro trabalhado coberta por uma colcha de retalhos, e um baú nos pés da cama. Havia um pequeno criado-mudo também de madeira ao lado da cama. Sobre o criado-mudo, um excêntrico abajur com base de metal e cúpula de vitral. Duas janelas com vista pra rua tinham os mesmos enfeites das janelas de baixo, os mesmos espelhos de madeira, as mesmas persianas e as mesmas cortinas de lacinho. Jessica seguiu em frente e abriu as persianas para que entrasse um pouco de ar fresco naquele quarto cheirando a poeira. Ela viu Kyle dirigindo-se à caminhonete, pegando duas caixas de uma vez e levando-as à frente da casa.

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Por que ele está fazendo isso? Ninguém é legal com os outros de graça. Será que eu posso confiar nele? Será que já não falei pra ele coisas demais? E se ele olhasse na minha bolsa a minha carteira de motorista? Se ele soubesse que meu sobrenome é Morgan, e não Fenton? - Quer que eu leve essas malas aí em cima?, gritou Kyle da entrada. - Claro. Tem uma caixa escrito ‘closet’ que é pra vir aqui em cima também, se você não se importa, Jessica disse enquanto Kyle subia as escadas, levando as pesadas malas ao seu novo quarto. Ele parou e deu um olhar de aprovação ao cômodo. Ela teve vontade de dizer “Não é uma gracinha?”, mas hesitou. Não estava certa se deveria conversar sobre seu quarto com um homem que ela mal conhecia. - Pode colocá-las ali, disse ela, do modo frio como se fala com um carregador de hotel. Ele obedeceu sem dizer uma palavra e desceu as escadas para pegar o resto. Quando ele entrou no quarto novamente, carregando a caixa e o porta-vestido, a alça do porta-vestido chamou sua atenção. Ele colocou a caixa no chão e travou uma briga contra alça. Foi quando Jessica avistou a etiqueta da bagagem a poucos centímetros da mão de Kyle. Ainda tinha seu endereço antigo e “Jessica Grace Morgan” escrito no topo em letras douradas. Jessica prendeu a respiração enquanto Kyle tirava a alça e colocava o porta-vestido em cima da cama. - Quer ajuda pra desempacotar? Ele não reparou... ou será que sim? - Ah, não... Obrigada... Ta tudo bem. Eu dou conta. Kyle passou os dedos por seu espesso cabelo e se aventurou a outra questão: - Tá com fome? Quer um hambúrguer ou qualquer coisa assim? - Não, eu estou bem. Obrigada. Agora ele parecia tímido de novo. - Quer uma carona pra algum lugar? Quer passar no hospital pra ver o Hugo? - Na verdade, disse ela cautelosamente - eu estou bem cansada. Acho que vou desencaixotar algumas coisas e depois dormir um pouco. Kyle parou na porta do quarto. Ele parecia preencher todo o espaço do vão da porta. - Bem, então eu já vou. Se precisar de qualquer coisa..., ele parou até que ela levantou a cabeça e os olhos se encontraram – qualquer coisa mesmo, me chama. Você me encontra no corpo de bombeiros. Se eu não estiver lá, certamente um dos rapazes poderá te dizer onde estou.

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Jessica acenou que sim e desviou o olhar. Ele estava muito lindo. Não só a aparência, tudo nele parecia muito atraente. Cada vez que seus olhos encontravam os dela ela tinha que se segurar para não ficar corada. - Obrigada, de novo, Jessica disse. – Parece que é só isso que eu tenho dito a você ultimamente. Obrigada, obrigada, obrigada..., ela olhou para sua camiseta. – Ah, eu vou devolver sua camiseta. - Precisa não. Pode ficar com ela. Na verdade, esse ano será o 15º Festival da Panqueca. Se você guardar essa camisa por mais alguns anos, pode ser que valha alguma coisa. Tipo uma relíquia. Jessica forçou-se a olhar pra cima e sorrir. Então sentiu uma dor rasgante em seu lábio superior, que a lembrou de tomar os remédios. - Então ta, não vou te incomodar mais, disse Kyle passando o indicador e o polegar pelo maxilar. Ele levantou o indicador e tocou seus lábios fechados. – Qualquer coisa, já sabe, né? Fique a vontade pra me ligar. - Tá certo. Obrigada. - Não precisa descer, eu encontro a saída. Espero que você fique bem logo. - Eu vou. Tchauzinho. E obrigada, de novo. Jessica permaneceu onde estava, ouvindo a porta da frente se fechar. Logo em seguida, ela correu para a janela para ver Kyle andando até sua caminhonete e ir embora. Deitou na cama com cuidado e deixou escapar um suspiro. Eu to sonhando. É isso. Um sonho comprido e bizarro. Kyle não pode ser real. Homens como ele simplesmente não existem, então eu só posso estar sonhando. Eu vou fechar os olhos, então quando eu os abrir, nada disso terá acontecido e eu estarei de volta à California. Mas aquilo era definitivamente um pesadelo. Sem chance de ela ter ficado na Califórnia. E sem chance que ela iria voltar. Ela alcançou a mala do outro lado da cama e tirou as roupas de dentro. Ela estava em Oregon agora. Era àquele lugar que ela pertencia. Ela arrancou a etiqueta com seu nome e rasgou o cartão em pedacinhos. Deveria ser muito mais cuidadosa. Muito mais cuidadosa.

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CAPÍTULO TRÊS
Anoiteceu, e Jessica dormiu o dia todo, aninhada em sua cama, abraçando a colcha de retalhos na altura do queixo. Quando finalmente acordou, estava quase escuro. Cambaleou até o banheiro, sorrindo ao ver o charme de antigamente da banheira3 e da pia. A janela se abria no meio. A neve branquinha poderia abrir essa janela numa tarde de verão, e todos os passarinhos azuis voariam até lá para sentar-se sobre o peitoral e cantar para ela. Jessica ficou em dúvida se deveria tomar mais remédio ou procurar alguma coisa pra comer. O remédio, obviamente, a deixou sonolenta, o que era bom, mas o estômago já estava reclamando que aquelas mordidinhas no café da manhã já tinham ido faz tempo... Desceu os degraus devagar. Sentia sua perna tremendo, insegura. Ela foi até a cozinha ver se encontraria alguma comida. Se não, ela não saberia o que fazer. Ela não tinha nenhum meio de transporte, nem tinha como saber pra que lado ficava o restaurante mais perto. Isso se a perna dela a deixasse caminhar. Ela se sentia uma pioneira patética. A geladeira estava vazia. Um armário guardava quatro pratos, tigelas, xícaras, vasilhas, panelas e assadeiras para cookies que compunham aquela cozinha pronta-pra-usar. Um telefone, meio rolo de papel-toalha, uma cafeteira e um liquidificador eram do conjunto de eletrodomésticos. Só faltava a comida. Havia um armário que ela não tinha olhado ainda, acima da geladeira. Ao abrir, Jessica viu alguma coisa no cantinho. Arrastou uma cadeira da sala de jantar e subiu, para ver o que havia no armário. Para seu deleite, ela encontrou dois pacotes de miojo e quatro saquinhos de chá. Ela nunca tinha comido miojo na vida, nunca nem pensou nisso. Mas é melhor que nada. Em vinte minutos, ela já tinha preparado e comido meio pacote de miojo, tomado o remédio, encontrou o pijama, os vestiu e caiu na cama de novo. Ela não fazia idéia do horário, mas fez uma nota mental para se lembrar de, no dia seguinte, desempacotar o relógio. Aqueles foram seus últimos pensamentos, até, aproximadamente, meio-dia do dia seguinte. Ela acordou com uma dor de cabeça terrível. Ela dormiu bem, um sono pesado e profundo. Mas seu pescoço e sua cabeça doíam como se ela tivesse tentado dormir em uma longa viagem de avião, como na que ela fez para a Inglaterra. Melhor eu desempacotar primeiro os objetos do banheiro. Quem sabe eu acho uma aspirina. Jessica andou devagar até o banheiro. Engraçado. Minha boca está doendo ainda mais, mas minha perna melhorou. Ou será que a dor no pescoço me impede de sentir o resto do corpo? A campainha tocou antes que ela pudesse encontrar as aspirinas. Ela pensou se poderia deixar tocar. Ela ainda estava de pijama. Tocou de novo, duas vezes, dessa vez. E se fosse Kyle? Jessica mexeu nas malas para encontrar um robe e desceu a escada.

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Banheira: http://www.bathtubsfactorydirect.com/catalog/HY982%20Claw%20Foot%20Bath%20Tub%20Thumb%20Nail.JPG

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- Já vou..., ela gritou no quarto toque da campainha. Ela destrancou a porta e a abriu, esperando por Kyle. Uma senhora estava parada na entrada. As armações prateadas de seu óculos se harmonizava com o tom prateado de seus cabelos. Na gola de seu suéter estava um amor-perfeito roxo. Em suas mãos, um vaso cheio das mesmas flores para Jessica. - Bem-vinda! Meu nome é Ida. Ida Dane. Eu vi que Kyle te ajudou com a mudança. Tá tudo certo aí? A mulher lembrava a Jessica uma versão mais velha de Harriet Nelson4. - Sim, obrigada. Por favor, entre, disse Jessica. – Devo pedir desculpas pela minha aparência. - Oh, pobrezinha! Não se preocupe com isso. Kyle me contou sobre o acidente. Mas que jeito horrível de começar uma vida em Glenbrooke. Espero que esteja se sentindo melhor. Aqui, pra você. Ela entregou a Jessica o vaso cheio de amores-perfeitos. - Obrigada, são lindas! E, sim, me sinto melhor, exceto por um torcicolo... As duas mulheres se dirigiram à sala e sentaram-se no sofá. Jessica colocou o vaso na mesinha de centro. - Sabe, disse Ida - acho que é melhor colocar uma toalha de papel embaixo do vaso. Fique aí, eu já volto. Jessica gostou da Sra. Dane na mesma hora. Ela se sentia sem jeito em convidar alguém para entrar numa casa que não era exatamente sua, onde os convidados sabiam mais sobre seus móveis do que ela. Ela desejou que Ida não pensasse que ela não cuidaria dos móveis por causa disso. - Aqui está, disse Ida, dobrando o papel duas vezes para servir de aparador – Isso vai funcionar. Queria que você soubesse que as taxas de água e lixo estão inclusas no valor do aluguel, e que eu já coloquei a conta do telefone no seu nome. - Que ótimo! A casa é uma graça, tenho certeza que vou amar morar aqui. Dado por completo o lado comercial da conversa, Ida já mudou de assunto: - Então, você disse que está com torcicolo. Sabe, meu filho acabou de se formar em quiropraxia5. Ele é o melhor! A mulher dele é um anjo. Ela pode te dar uma massagem, você vai ver como esse nó no seu pescoço vai sair! Por que eu não ligo pra marcar uma horinha com eles?

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Personagem de uma série de TV antiga http://www.bathtubsfactorydirect.com/catalog/HY982%20Claw%20Foot%20Bath%20Tub%20Thumb%20Nail.JPG
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Uma mistura de médico, fisioterapeuta e massagista; especializado em coluna. Curso superior de 4,5 a 5 anos. Poucas faculdades oferecem o curso.

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- Ah, tudo bem. Só que eu ainda não estou vestida. Jessica não tinha certeza se ela queria uma consulta com um quiroprático. Seria uma experiência nova pra ela, e bem cara. Quando ela pagou a conta do hospital ontem, gastou todas as suas economias. Agora ela só tinha vinte dólares e uns trocados. Ela certamente não tinha pensado em sua situação financeira antes de se mandar. Ela não tinha de onde arranjar dinheiro até o seu primeiro pagamento, o que provavelmente seria daqui duas ou três semanas. Caiu a ficha sobre sua situação financeira, ela estava mesmo quebrada. Como ela compraria comida se pagasse o quiroprático? - Sra. Dane, temo não poder... Ida pediu silêncio para falar suavemente ao telefone: - Becky, querida, tenho uma nova paciente pra você, queria saber se posso levá-la aí daqui a pouco. Ela é minha inquilina aqui na velha casa da Rua Marigold. Seu nome é Jessica Morgan. MORGAN! Jessica gelou. Sr. McGregor tinha dado a ela o seu verdadeiro nome, e agora alguém chamado Becky do consultório de quiropraxia sabia também. - Vinte minutos? Perfeito. Até logo, querida, Ida desligou e fez sinal de positivo pra Jessica – Vista-se, querida, nós já vamos. - Isso é muito gentil, mas eu não posso, quer dizer, eu não... Jessica não sabia exatamente o que dizer. Ela nunca tinha ficado sem dinheiro antes. Antigamente, era só ir até o seu banco ATM para refazer seu estoque de dinheiro. A situação estava difícil, e ela nem sabia como dizer isso. Especialmente pra dona da casa, que poderia desistir de alugar o imóvel para ela se soubesse a verdade. - Vá agora! Sem desculpas. Quer ajuda para subir as escadas? Jessica desistiu. - Não. Volto em uns minutinhos. Além do mais, ela poderia enrolar. Era só esquecer a bolsa em casa e dizer pra ele que estava sem dinheiro. Aí ela pediria pra ele pendurar a conta. Vestir-se demorou mais do que o esperado. Vestida em jeans, ao colocar sua camisa Eddie Bauer azul favorita, sentiu seu torcicolo piorar. Agora sua cabeça estava mesmo latejando. Quem sabe, se o quiroprático realmente resolvesse, ela poderia viver na miséria por uns dias. Calçou suas sandálias huarache e gastou mais alguns minutos escovando o cabelo. Novamente, maquiar-se pareceu não fazer sentido algum. Ela apareceu no topo das escadas com um sorriso tímido, sentindo-se mais confiante. - Coitadinha..., disse Dona Ida, que já a esperava na porta da frente, - Acabei de lembrar que você deve estar sem nada pra comer em casa. Deve estar morrendo de fome! Por que não

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paramos pra almoçar logo mais? É por minha conta. Você aproveita e me conta mais sobre você Hugo me falou tão pouco... Jessica deixou que aquela doce senhora, que parecia ser daquelas velhas fofoqueiras, a levasse até o consultório do quiroprático, onde Jessica tirou um monte de Raios-X, seguidos por uma consulta. Dr. Dane mostrou a ela onde o acidente atingiu sua coluna, deixando-a desalinhada, e recomendou uma série de ajustes e massagens, começando com três sessões semanais. Na privacidade do consultório, Jessica tentou encontrar as melhores palavras para recusar sua recomendação. - Vou ser bem direta, Dr. Dane. Eu não tenho seguro, e, por enquanto, temo não poder pagar as despesas que terei pela frente. Talvez eu possa começar o tratamento depois que as aulas começarem, assim que receber meu primeiro pagamento. Dr. Dane pensou longamente antes de fechar a pasta que estava na mesa. - Você definitivamente precisa desse tratamento agora. Este desvio vai persistir e piorar se não for tratado logo. Por que não deixamos as consultas desse mês como meu presente de boasvindas a Glenbrooke? Mais uma vez, Jessica se viu desprevenida diante de tamanha gentileza de um cidadão de Glenbrooke. - Se você tem certeza de que está tudo bem... Parece que tem muita coisa a fazer. Você nem me conhece... - Acidentes podem causar problemas na coluna que duram toda a vida. Como profissional, me sinto melhor em te atender o quanto antes. Vamos colocar você na mesa de massagens e a Becky vai te fazer a primeira massagem. - Muito obrigado, Dr. Dane. É muita gentileza sua. Enquanto Jessica deitava de bruços, com seu estômago roncando, naquela confortável mesa acolchoada, Becky trabalhou em suas costas com um massageador quase silencioso. Jessica sentiu a tensão passando por seus músculos. Pensou em Dr. Dane, e imaginou se esse jeito generoso era um estilo de vida das pessoas dessa tão pequena e amigável cidade. Talvez todas as suas suspeitas sobre Kyle não tivessem fundamento. Talvez ele estivesse fazendo o que qualquer bombeiro de Glenbrooke faria por alguém que tivesse resgatado. O pensamento era um conforto, mas, ao mesmo tempo, era um desapontamento. Ela estava quase se convencendo de que ele estava a fim dela. Depois da massagem e dos ajustes, Jessica podia sentir a melhora. A Sra. Dane as guiou para um restaurante chamado “A Trepadeira”, e o nome era levado a sério na decoração. As plantas preenchiam as paredes por dentro e por fora do restaurante, e de cada planta, caíam flores em cascatas. - As margaridas não são maravilhosas?, Ida perguntou, enquanto se dirigiam a uma mesa de canto, perto de chamativas margaridinhas amarelas. – Este é meu cantinho favorito. FBTCB 26

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Jessica logo pensou que Ida amava flores. Seu jardim devia ser cheio de uma variedade delas. O assunto ‘flores’ foi um campo seguro durante toda a conversa, enquanto Jessica dava conta de seu sanduíche, tentando não atingir seu ainda machucado lábio. Ela mal acreditava em como se sentia melhor, não só pela comida, mas também pela massagem e pelos ajustes. - Você ficou apenas ouvindo, disse Ida, enquanto chegavam à porta da frente da casa de Jessica. – Eu queria saber mais sobre você, e acabei falando de mim o tempo todo. Acho que devemos marcar outro almoço. Quando começam a trabalhar? - Segunda-feira, eu espero. - Faltam apenas dois dias! Chegou em cima da hora. - Haverá reunião de professores durante a próxima semana. As aulas começarão na outra terça-feira, logo depois do Dia do Trabalho6. - Ah, sim, claro. Quero visitar Hugo amanhã às dez da manhã. Não quer ir comigo? Eu sei que ele ainda não está reconhecendo ninguém, mas deve melhorar logo. Quanto mais caras e vozes conhecidas ele tiver por perto, mais rápido isso acontecerá. É o que eu acho. - Com certeza. Seria ótimo irmos juntas. Na manhã seguinte, às 10:15, Jessica estava sentada em uma cadeira ao lado da cama do Sr. McGregor, e cuidadosamente segurou sua mão, fazendo-lhe um afago. Sua careca estava maior desde a última vez que ela o viu, há seis, sete anos atrás. E o pouco cabelo que tinha estava todo grisalho. Seu rosto parecia envergonhado. - Bem, estou aqui, Sr. McGregor. É Jessica Mor..., ela interrompeu para se corrigir – Fenton., Então ela se lembrou de que a Sra. Dane estava no quarto e sabia que ela se chamava Jessica Morgan. – Sou eu, Jessica, disse ela, rapidamente – Cheguei há alguns dias. A casa que o senhor encontrou pra mim é maravilhosa. Gostei mesmo., Jessica olhou para Sra. Dane, que lhe deu um aceno e um sorriso de aprovação. - Eu a levei para ver Dale, a senhora se intrometeu no monólogo - Jessica não disse que teve um acidente quando estava chegando na cidade. Jessica se encolheu. O A última coisa que ela pensava que o Sr. McGregor precisava saber era sobre seu acidente. Aquele pobre homem já tinha problemas demais. - Eu estou bem, Jessica disse. – Não foi tão ruim. Eu passei minha primeira noite em Glenbrooke nesse hospital. Não é engraçado? Nós dois no mesmo prédio, só que eu estava no andar abaixo. Por um instante, pareceu que as pálpebras de Sr. McGregor se moveram. As duas mulheres chegaram mais perto, esperando que ele abrisse os olhos e conversasse com elas, como se nada tivesse acontecido. É o que aconteceria se ele estivesse apenas tirando uma soneca.

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Nos EUA, o Dia do Trabalho é na primeira segunda-feira de setembro.

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- Então, quando vai pra casa, Hugo?, Ida perguntou. – Mandei Wendel cortar a grama em sua casa ontem. Já estava parecendo uma selva. Não queremos que seu jardim tire o prestígio das casas da vizinhança, né? Acho que devemos manter o lugar. Você não quer que fiquem cuidando de sua vida por muito tempo. Você precisa voltar logo pra casa pra cuidar das suas coisas. Jessica não tinha certeza se o discurso de Ida estava ajudando alguma coisa, mas parecia que os olhos do Sr. McGregor se moviam por baixo das pálpebras, que não tinha acontecido antes. Ida parou de falar, e o único som era o bip dos monitores, indicando eletronicamente que o Sr. McGregor estava vivo, ainda que dormente. - Bom, acho que é melhor irmos embora., disse Ida, depois de tagarelar por quase quarenta minutos. – Volto para te ver segunda-feira, se ainda estiver aqui, é claro. Ah, é bom você tentar sair daqui ainda hoje, Hugo. Sabe como você prometeu ir à igreja conosco um dia desses... Então, amanhã é o primeiro dia do novo pastor. Ele é da Califórnia, mas acho que vamos gostar dele de qualquer jeito. Acho bom você estar lá. Jessica acarinhou novamente a mão do Sr. McGregor, Ida deu-lhe um beijo no rosto, e as duas mulheres se foram. No carro, indo pra casa, Ida estendeu o convite dominical a Jessica. De acordo com Ida, sua igreja era a melhor da cidade. - Obrigada, mas acho melhor eu descansar e recuperar minhas forças, Jessica respondeu, esperando que ser inquilina de Ida não signifique aceitar a todos os seus convites. A igreja não fazia parte da vida de Jessica desde os seus oito anos. Ela não tinha a menor intenção de começar a ir agora. A mãe de Jessica era a influência espiritual da família, e, quando ela morreu, quando Jessica estava na segunda série, ela e toda sua família não conseguiram manter um relacionamento com o Deus que deixou uma mulher como Carol Morgan morrer. Jessica viu que, se vivesse moralmente bem, Deus não a incomodaria, e ela não tinha motivos para incomodá-lo também. Além do mais, Ele já tinha as guerras, a fome e o aquecimento global pra se preocupar. Ele não precisava ser incomodado com seus caprichos mesquinhos. Ida parecia pensar que Jessica tinha ido à mercearia, pois disse algo sobre cozinhar pra si mesma, agora que estava tudo resolvido e estava tudo certo na cozinha. Jessica respondeu: - É, está tudo bem. A verdade era que há dois dias Jessica estava economizando os dois pacotes de miojo que tinha. Na noite anterior, ela encontrou uma barra de Snickers7 na bolsa, e guardou um pedaço na geladeira pra mais tarde. Ele parecia triste e mole, sozinho na prateleira da geladeira. - Eu entendo sua vontade de se estabelecer, Jessica. Assim que estiver tudo certo, espero que vá à igreja comigo. A Sra. Dane falava claramente, sem ser agressiva. Ela deixou Jessica na porta de casa, avisando que poderia ligar pra ela se precisasse de alguma coisa.

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O tempo estava bom, e Jessica não estava cansada da ida ao hospital, então passou um bom tempo trabalhando no jardim depois que Ida foi embora. Uma espreguiçadeira velha com uma almofada suja a esperava na varanda. Jessica deitou e fechou os olhos, entregando sua face ao sol de agosto. Não era nenhuma Malibu, mas era tão relaxante e calmante quanto. Conforme seu corpo relaxava, sua mente se tornava mais tensa. Ela reviu sua situação pela quadragésima vez. Eu tenho vinte dólares, meio pacote de miojo e cinco pedaços de uma barra de chocolate. Eu não vou receber nada em uma semana, talvez até duas. Não tenho ninguém de quem emprestar dinheiro, e, de qualquer forma, não teria coragem de pedir emprestado. Kyle disse que me ajudaria, mas eu não ouvi nem falar dele desde que me deixou aqui quinta-feira. Não tenho carro. Não tenho dinheiro pra comprar um carro. Por que eu não trouxe mais dinheiro? Onde é que eu estava com a cabeça? Não estava nem pensando. Como eu vou sair dessa? Pelo menos não tenho nenhuma conta pra pagar até outubro. E o telefone? E a conta de luz? Como eu vou lidar com isso? Eu nunca fiquei no vermelho antes! Não posso voltar agora. Tenho que fazer esse trabalho. Jessica se sentia exausta depois de tantos problemas. Ela queria dormir, mas seus pensamentos não deixavam. Tentou liberar um pouco dessa tensão. O quintal parecia pronto para ser capinado. A jardinagem a chamava, mesmo com sua perna machucada. Ao menos o trabalho braçal distrairia sua mente. Jessica se abaixou com cuidado e começou a arrancar as plantas mortas. Tirou algumas folhas e achou uma abobrinha que parecia comestível, apesar de um pouco seca. Tinha outra, um pouco menor, já apodrecida embaixo, mas a grande parecia boa. Parecia ter encontrado um tesouro. Comida! Ela levou a abobrinha para a cozinha e a lavou na pia. Pelo menos ia durar bastante. Ela não sabia bem como preparar uma abobrinha. Cozinha nunca foi uma prioridade. Talvez ficasse gostosa cozida no vapor. Depois de passar um tempo procurando algum tempero no armário, ela encontrou um frasco quase vazio de canela, uma caixa cheia de bicarbonato de sódio, e um potinho de tempero alho e sal. Levar a abobrinha ao vapor temperada ao alho e sal era um prodígio culinário. Carregando orgulhosamente sua tigela, vaporizando nutrientes em sua sala de jantar, Jessica sentou-se à mesa, ansiosa pela refeição. Ela quase sentiu que devia orar, mas não sabia bem o que dizer. A primeira mordida fez sua boca salivar e derreteu em sua língua quase curada. Estava gostoso. Muito gostoso. Ela saboreou cada garfada. Acho que vou me sair bem. Se eu levar um dia de cada vez. Não preciso da ajuda de ninguém. Posso dar conta disso sozinha. Jessica se afastou da mesa, se jogou no sofá na sala de estar, tentando reforçar os pensamentos positivos que acabara de ter. Sem avisar, uma lágrima escorreu por sua face. Ninguém estava lá para ver. Ninguém podia imaginar quão terrível ela era.

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CAPÍTULO QUATRO
- Muito bem, senhores. Encontrem logo seus assentos, precisamos começar a reunião. – Uma mulher de cabelos escuros vestindo um blazer vermelho e uma saia preta apertada bateu com força sua mão no pequeno púlpito à frente da espaçosa sala de reuniões. Jessica encontrou um lugar no fundo da sala. Ela ainda se sentia constrangida com os embaraçosos pontos no seu lábio superior. Na verdade, a manhã toda foi um sucesso. Ela conseguiu tomar banho, se vestir, arrumar o cabelo decentemente e fazer uma boa maquiagem, e ainda andar as quatro quadras até o colégio sem se sentir cansada. A melhor parte foi o que ela encontrou logo na entrada. Um farto café da manhã, com uma cesta de muffins7, café fresco e uma bandeja cheia de frutas da estação. Uma voz dentro de si a aconselhou a pegar uns cinco muffins e mais umas maçãs e enfiar tudo na bolsa. No dia anterior, tudo o que ela comeu foi o último pedaço da barra de Snickers e uma tigelinha de abobrinha no vapor. Mesmo assim, Jessica se controlou e pegou apenas um muffin de blueberry e algumas bandas de laranja. Ela não falou com ninguém enquanto despejava um saquinho de açúcar e uma colher de creme no seu café. Agora, sentada na cadeira de metal, ela provou o café enquanto lançava o olhar sobre a sala, observando os outros professores. Muitos deles eram velhos camaradas; se organizaram em pequenos grupos de conversa, como se estivessem em uma festa. Depois se sentaram juntos. Jessica sentia como se fosse seu primeiro dia de aula e ela era a aluna nova. - Bom dia, senhores – a mulher disse sorrindo – É um prazer conhecê-los. Eu sou a Sra. Charlotte Mendelson, e sou a nova diretora. Como devem saber, o Sr.McGregor está hospitalizado, e eu fui chamada para preencher a vaga. Já venho de três anos de experiência à frente do Colégio Logan, em Salém. A Sra. Mendelson continuou a lista suas qualificações e prometeu que o ano escolar que se iniciava seria o melhor ano que Glenbrooke jamais vira. Jessica calculou que ela deveria ter seus trinta anos, com um sotaque do nordeste do país8. Ela pronunciava as palavras bem articuladas, e frequentemente se valia de gestos que mostravam suas longas unhas vermelhas. Ela parecia totalmente deslocada nessa cidadezinha. - Perguntas? – Sra. Mendelson terminou seu discurso, depois de mais de uma hora falando sobre alguns pontos que anotara. - Muito bem. Encontrarão seu ensalamento atrás da porta9. Sei que será um ano maravilhoso para todos nós.

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Uns bolinhos deliciosos. Esse é o de blueberry (uma frutinha que parece uva, mas dá em arbusto): http://www.gardennc.com/images/Blueberry%20Muffin.jpg 8 Boston, Nova York, Nova Jersey. Lá nos EUA o nordeste é correspondente ao sudeste brasileiro. 9 Nos EUA os professores dão aula em sua própria sala. Os alunos é que mudam de uma sala pra outra no intervalo das aulas.

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De repente, Jessica sentiu como se mãos geladas cercassem eu pescoço. Como estaria seu nome na lista? Se o Sr. McGregor deu seu verdadeiro nome à Sra. Dane, deve tê-la cadastrado na escola como Jessica Morgan também. - Ah, mais uma coisa! – A Sra. Mendelson falou mais alto, sobressaindo ao barulho das cadeiras arrastando e ao reinício da conversa. – Preciso falar com a nova professora de inglês – ela correu os olhos sobre suas anotações – Jessica... Jessica apressou-se para a frente. - Sim? Eu sou Jessica. A Sra. Mendelson a olhou de cima a baixo antes de responder. Seus olhos demoraram mais nos lábios de Jessica. - Eu sei que está aqui por recomendação pessoal de Hugo. Jessica acenou afirmativamente. - Posso perguntar o que aconteceu com seu rosto? - Eu sofri um acidente de carro há alguns dias. - Espero que esteja bem - isso não soou simpático, mas Jessica imaginou que era o melhor que poderia sair de alguém como a Sra. Mendelson. - Sim, estou. - Espero que tire esses pontos antes do início das aulas. - Tenho consulta quarta-feira – Jessica sentiu uma mistura de raiva e vergonha. Charlotte Mendelson examinou o lábio de Jessica ainda mais de perto antes de dizer: - Te disseram que isso vai deixar uma cicatriz? Jessica já havia pensado sobre essa hipótese terrível uma centena de vezes nos últimos dias. Em todas as vezes ela decidiu varrer o medo pra debaixo do tapete. Como essa pessoa podia levantar seu tapete e expor seu medo desse jeito? - A senhora me chamou por algum motivo específico? Charlotte se comportou como se ela é que tivesse mudado de assunto. - Parece que não temos sua ficha no arquivo. Nossa secretária tem apenas um post-it amarelo escrito ‘JESSICA – INGLÊS CHEGA QUARTA OU QUINTA’. - É, sou eu. - Pode passar na secretaria para providenciar suas informações antes de ir para sua sala? – era mais uma ordem do que uma pergunta.

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Sra. Mendelson saiu em seu salto vermelho de encontro a um homem que Jessica presumiu ser o professor de treinador do time de futebol, pelos shorts azuis e sua camiseta-apertadacomo-sou-musculoso. Jessica encontrou a secretaria e tentou acalmar a raiva. Sra. Mendelson era alguém com quem ela deveria aprender a lidar, e a melhor forma era se esquivar de qualquer possibilidade de conflito que surgisse. Jessica desejou ter se vestido melhor. Ao invés de um traje social, ela preferiu um jeans, uma camiseta marfim e um colete em tom cru com quatro botões em metal antigo na frente. Ela imaginou que passaria o dia limpando estantes e fazendo murais, não sendo forçada a travar uma batalha contra sua nova chefe. Se ela soubesse, teria, definitivamente, vestido seu tailleur Liz Clairbone azul. Sim, definitivamente uma consideração a se fazer para os próximos primeiros dias em colégio. Ou talvez para a primeira reunião de professores. Quando Jessica abriu a porta da secretaria, notou uma silueta familiar atrás do balcão, falando com a secretária da escola. - Pode me informar em que sala está a Srta. Fenton? – perguntou a voz grave de Kyle Buchanan. - Srta Fenton? Acho que não temos ninguém com esse nome – respondeu a pequena mulher. - Na verdade, sou eu – disse Jessica. Um sorriso surgiu na face de Kyle assim que ele a viu. - Você parece bem melhor! Você está bem, Jessica? A secretária encarou Kyle atrás do balcão. - Ah! – ela disse – Então você é a Jessica. Nós ainda não temos seu último nome. Fenton, né? Fe-n... – a secretária parou, com o lápis sobre o caderno, esperando. - T-o-n – Jessica terminou para ela. - Muito bem. Preciso que você responda a algumas perguntas antes de ir. - Não quero atrapalhar – disse Kyle. Ele abaixou o tom de voz e chegou mais perto de Jessica. Seus olhos verdes correram sobre sua face antes de encontrar os dela. – Estive de plantão no corpo de bombeiros ultimamente, mas estou de folga pelos próximos dias, então pensei se você não precisaria de qualquer coisa. Não tem uma consulta quarta-feira? Quer carona? Jessica estava quase dizendo seu ‘tudo bem, não precisa se preocupar’ de sempre, quando Charlotte bruscamente abriu a porta. - Bem, olá! – Ela paralisou no momento em que viu Kyle. – Acho que ainda não nos conhecemos. Sou a diretora, Charlotte Mendelson. – Ela estendeu a mão, esperando que Kyle a beijasse. Kyle educadamente cumprimentou-a com um aperto de mãos. - Kyle Buchanan. FBTCB 32

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- Por algum lance de sorte, você é algum professor novo que eu ainda não conheci? - Ele é bombeiro – disse a secretária – todos na cidade conhecem Kyle. Charlotte continuou sorrindo e disse: - Ora, um bombeiro! Poderia vir dar uma palestra sobre prevenção de incêndios pra mim. Estou certa de que é um ótimo palestrante. Podemos nos dirigir à minha sala para acertar uma data? Jessica sentiu sua raiva se incendiar novamente. - Na verdade, eu tenho que ir. – Kyle disse educadamente – Qualquer um da equipe poderá ministrar esta palestra de bom grado. Pode ligar para o corpo de bombeiros quando encontrar uma data em sua agenda. - Certo. Farei isto. – Charlotte sorriu para Kyle como se pudesse hipnotizá-lo. Ele voltou sua atenção a Jessica. - Quarta-feira? – perguntou. – Te ligo pra combinar a que horas passo pra te pegar. Jessica concordou. - Com licença, senhoras. – Kyle se despediu com um aceno antes de partir. - De onde vocês se conhecem? – Charlotte perguntou a Jessica. Jessica pensou em não responder e simplesmente sair andando, mas teria que voltar de qualquer forma para responder ao questionário da secretaria. Além do mais, gostando ou não, aquela mulher era sua chefe. Ela já esteve em situações piores. Podia lidar com Charlotte sozinha. - Nos encontramos em uma curva. - Ahn? – perguntou Charlotte. Jessica deu dois passos para trás, voltando-se para a secretária. - Precisa que eu preencha alguma ficha? A mulher magra atrás da mesa encarou Jessica e disse: - Ah, sim. São só alguns formulários. Não temos nenhuma informação sua em nossos arquivos, sabe. Às vezes demora semanas para conseguir alguma coisa nos locais de origem. Isso certamente vai ajudar, se você não se importa. - Claro. Quer isso hoje ou posso trazer amanhã? - Pode ser amanhã – disse a secretária.

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- Precisamos pra hoje – Charlotte interrompeu a conversa – enquanto esses papéis não estejam preenchidos, você não está empregada no meu colégio. Entendido, Sra... – Charlotte virou-se para a secretária como se Jessica fosse invisível – Qual o sobrenome dela? A secretária olhou para seu caderno: - Ahn.. Fenton. Jessica Fenton. - Entendido, Sra. Fenton? Jessica não deixaria essa mulher levar a melhor hoje, amanhã ou qualquer dia. Charlotte Mendelson não a controlaria. Sem uma palavra, Jessica virou-se à secretária e disse: - Preencho a caneta, a lápis, ou tanto faz? - Caneta, é claro – disse Charlotte de dentro de sua sala. Propositadamente deixara a porta aberta. - Acho que de caneta – respondeu a secretária, estendendo a Jessica dois pequenos formulários – E este é o manual da escola. Pode ficar com ele. Acho que pego os formulários assim que você terminar de preencher. Jessica sentou em uma cadeira de madeira no canto da sala de espera, o mais longe possível da porta de Charlotte. Preencheu seu nome, endereço e telefone, que ela copiou de um cartão que colocou em sua bolsa no dia anterior. Não havia muita coisa em sua carteira além disso. Ela tinha queimado seus cartões de crédito, cartões de banco, de plano de saúde e a carteira de motorista. Tudo o que restava era o cartão que ela fez na noite anterior com sua nova identidade e a sua última foto com sua mãe, de 1977. Da diretoria, Jessica podia ouvir Charlotte ao telefone. Tocou duas vezes, antes de uma voz masculina atender: - Corpo de Bombeiros de Glenbrooke. Bobbie falando. - Kyle Buchanan, por favor. – respondeu Charlotte. - Kyle está de folga pelos próximos três dias. É só com ele? - É.. Acho que vou tentar na casa dele. Você tem o número dele por aí? Eu não consigo encontrar... Jessica tentou não pensar no joguinho da sala ao lado. Prestou atenção aos formulários, preenchendo na frente e atrás, e os entregou à secretária. - Até mais. Jessica saiu o mais rápido que pôde para a segurança da sala 14 – sua sala. Ela entrou rapidamente, fechando a porta atrás de si, deixando escapar um suspiro.

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Abriu os olhos e observou a sala. Espaçosa o bastante, velha o bastante, e até limpa o bastante. A sala 14 a lembrava de uma das velhas salas do seu tempo de colegial. Os prédios que compunham a estrutura do Colégio Glenbrooke deviam ter trinta, quem sabe quarenta anos. A sala cheirava a pó de giz e tinha recebido várias alterações ultimamente, como a nova iluminação, e quadros brancos que substituíam os velhos quadros de giz, como em qualquer escola “moderna”. Jessica encarou a mesa na frente da sala. Reverentemente aproximou-se e correu as mãos sobre a superfície de madeira, sentindo o relevo. Sorriu, contente consigo mesma. Enquanto a mesa era velha, com sua madeira sólida, ostentando um intrigante mapa deixado pelos anos anteriores, a cadeira era novinha em folha, com braços de vinil negro e assento cinza. Tinha ajustes de altura, para frente e para trás. Jessica testou a sua cadeira high-tech, indo para baixo em uma velocidade assustadora. Melhor não mostrar o mecanismo ao engraçadinho da classe. Mas eles sempre sabem, né? Ela ouviu uma leve batida à porta, e então esta se abriu. Jessica imediatamente se levantou, como se tivesse sido pega fazendo alguma idiotice e Charlotte estivesse vindo chamar sua atenção. - Olá, uma voz doce chamou – Você é Jessica? Meu nome é Teri. Uma mulher hispânica de altura mediana com longos cachos castanhos entrou na sala. Ela vestia uma blusa branca sem mangas e uma bermuda cortada. Em contraste com sua pele bronzeada e seus olhos escuros, seus dentes brilhavam como pérolas. Jessica cumprimentou Teri já no meio da sala,estendendo sua mão. - Sou sua vizinha – disse Teri – ensino espanhol naquela sala ali – ela apontou para o fundo da sala – Ouvi dizer que você vai dar aulas de inglês e de educação para saúde. Já dei aulas de saúde. Este ano acho que resolveram dividir a matéria, então todo mundo tem uma turma. Não é muito ruim. Na verdade, é quase uma folguinha. Há quanto tempo está aqui? Já se instalou? Teri se encaixava no perfil amigável do povo de Glenbrooke. Mais de perto, Jessica percebeu que Teri não usava um pingo de maquiagem, mas sua pele era maravilhosa. Jessica pensou que elas tinham a mesma idade, mas como uma pessoa de vinte e quatro anos de idade pode ter a pele de um recém-nascido? Jessica disse a Teri que já havia desencaixotado no fim de semana, mas que demorava um pouco pra organizar tudo por causa do acidente de carro. - Acidente de carro? – disse Teri – Que terrível! Com os paramédicos e tudo mais? Você ficou com medo? - Parece que um bombeiro viu o acidente, aí parou e pediu ajuda pelo rádio. Acho que se ele não tivesse visto, eu ficaria lá naquela vara por horas. - Quem te achou? Bobbie, Rod, Kyle ou Jim? - Kyle. Conhece?

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- Claro. Todo mundo conhece o Kyle. Ele é o melhor. Sério. O Kyle é um cara incrível. O típico cavaleiro de armadura reluzente, sabe? Jessica acenou, não muito certa se Kyle era o cavaleiro de todas as mulheres de Glenbrooke ou o cavaleiro de armadura reluzente particular de Teri, ou simplesmente um cara legal. - De todo jeito, estou bem instalada lá em casa, e tenho consulta de novo depois de amanhã pra tirar esses pontos – Jessica fez um gesto teatral apontando ao seu lábio superior. Teri olhou de perto. - Ah, quase não percebi – disse Teri – Então, vamos arrumar nossas salas logo ou paramos para almoçar rapidinho? Antes que Jessica pudesse responder, Teri disse: - Voto pelo almoço, e é por minha conta. Então, o que acha? - Vamos lá – disse Jessica. Ela pegou sua bolsa e as duas seguiram ao Golf de Teri. Jessica sentiu que completara com sucesso o teste de ingresso pelo qual passam todas as crianças em seu primeiro dia de escola – fez uma nova amiga.

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CAPITULO CINCO
- Seu lábio se recuperou muito bem – disse o Sr. Laughlin, enquanto a examinava sob uma luz forte – Mesmo assim, temo que não fique completamente restaurado. O que você quer dizer com isso? Onde tem um espelho? Deixa eu ver! - É só uma leve cicatriz – prosseguiu Dr.Laughlin, coçando o nariz e ajeitando os óculos – Quase não dá pra ver. Temo que, exceto por cirurgia plástica, não haja muito a fazer. Creio que não vai afetar muito sua vida. Tente não pensar nisso. Jessica sentiu que iria chorar. Como poderia não pensar nisso quando um médico diz que ela tem uma cicatriz permanente? Como ele pode falar assim? É sobre o rosto dela que estão falando. Antes mesmo de se olhar no espelho, Jessica decidiu que faria uma cirurgia plástica assim que conseguisse algum dinheiro. Ela tinha dispensado o plano de saúde da escola porque não sabia como conseguir atestados médicos antigos falsos com o nome Fenton. Tinha que economizar de qualquer jeito. Então seria isso, depois de economizar pra comprar um carro. E para o seguro do carro. Mas primeiro ela tinha que conseguir uma carteira de motorista no Oregon. Como ela conseguiria uma carteira sem registros antigos? Essa nova vida estava ficando complicada. - É isso – disse Dr. Laughlin, tirando a lâmpada de cima da cara de Jessica e lavando as mãos na pia de aço inox – Eu ainda quero que você economize essa sua perna esquerda. Tente sentar e deixá-la levantada, em cima de uma cadeira, sempre que possível. E nada de exercícios aeróbicos, andar de bicicleta, corrida, caminhada nas próximas três semanas. Certo? Jessica acenou afirmativamente. Ela mal podia esperar pra olhar no espelho em cima da pia sua cicatriz, assim que o médico saísse da sala. Ela sabia que Kyle a estava esperando do lado de fora, e ela queria ver a marca antes dele. Dr. Laughlin abriu a porta, gesticulando para que ela saísse antes dele. Ela desejou que ele a deixasse ali sozinha por alguns minutos. - Pronto? – Kyle perguntou, levantando-se do sofá marrom da sala de espera, olhando rapidamente o lábio superior de Jessica. O que ele estaria pensando? Será que era muito ruim? Não dava pra saber pela expressão dele. - Acho que vou ao banheiro, se não se importa de esperar um minutinho – disse Jessica. - Imagina. Te espero aqui – Kyle pegou a revista Time que estava lendo e sentou-se,ajeitandose no sofá. Jessica entrou no banheiro, esperando que ninguém estivesse lá. Ela parou na frente da pia e observou seu reflexo no espelho. A cicatriz podia ser vista com facilidade. A forma esbranquiçada em forma de meia lua ficava metade no lábio superior e metade no rosto. Aproximadamente a uma polegada do canto da boca. Jessica tentou pensar positivamente. Não é tão ruim.

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Mas seu lado pessimista tinha pensamentos galopantes: Ah, é sim! É terrível! É permanente! Não, é temporário. Vou fazer a cirurgia plástica assim que puder Claro, daqui uns cinquenta anos, quando você tiver economizado dinheiro suficiente. Até lá, vai andar pelas ruas com essa cara deformada. Todo mundo vai olhar. Onde quer que você vá, vão reparar no seu lábio. Jessica tentou dispersar a guerra interior. Tirou um batom da bolsa e começou a trabalhar nisso. Uma última olhada no espelho a dizia que o batom tinha sido um ótimo investimento. Cobria pelo menos metade da lua, isso, por enquanto, bastava. Kyle parecia não ter notado a diferença quando ela chegou na sala. Ao menos ele não olhou pra ela do jeito que olhou quando ela saiu do consultório. Ele andou ao seu lado até o carro, conversando sobre um artigo que acabara de ler sobre buracos negros no espaço sideral. Jessica achou bom eles focarem a conversa no espaço sideral. Kyle a tinha pegado no consultório do quiroprático antes da consulta com Dr. Laughlin. Agora faziam uma parada numa lanchonete antes de voltar ao colégio. A situação ficou embaraçosa a partir daí. Kyle fez o seu pedido, então virou-se para ela: - O que vai querer? O orgulho de Jessica falava bem alto. - Pode deixar que pago meu lanche. Ela só tinha vinte dólares que estava guardando há quase uma semana. Não era o suficiente para seu sustento, mas ela não podia aceitar a oferta de Kyle. Ele pagou o pedido dele e Jessica ficou no balcão, até decidir por um hambúrguer tamanho Junior e uma Coca pequena. A atendente perguntou se ela queria tomate ou cebola no hambúrguer. Jessica exitou, pensando se seria um gasto extra. - Não, obrigada – disse ela, tirando o dinheiro da carteira e entregando uma nota de dez dólares como se tivesse muito mais de onde essa viera. Eles sentaram em uma das mesas em frente à lanchonete. Jessica com seu hambúrguer junior e Kyle com seu hambúrguer triplo, batatas-fritas tamanho grande e Oreo Shiver. Ela já havia saído com vários caras, cada um pagando o seu, e se saiu muito bem todas as vezes, mas não se lembrava de ter saído com um cara pra almoçar em uma lanchonete. E certamente não se lembrava de ter sentido antes esse pânico ao pensar em dinheiro. Durante os cinco primeiros minutos do almoço, Jessica contou quatro pessoas que vieram cumprimentar Kyle pelo nome. Ele apresentou Jessica a eles, e mais uma vez ela sentiu o jeito acolhedor de Glenbrooke. É claro que Kyle a apresentou como Jessica Fenton. À primeira vista, usar um sobrenome falso não parecia uma coisa errada, mas uma necessidade, e ela não se sentia mal se protegendo dessa forma. Mas agora ela se sentia incomodada toda vez que ouvia este sobrenome. Teri a havia convidado para jantar em sua FBTCB 38

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casa na sexta-feira. Como ela poderia se tornar amiga íntima de Teri sem revelar sua verdadeira identidade? E se houvesse possibilidade de ter um relacionamento com Kyle? Como ela poderia se permitir a aproximar-se dele? Jessica Fenton não deveria se aproximar de ninguém. Ela poderia ser amigável, é claro, mas nunca íntima do jeito que Jessica Morgan era. Enquanto ela dava outra mordida em seu hambúrguer, surgiu um doloroso pensamento. Jessica Morgan foi íntima de alguém? Ela sabia que, com exceção de sua mãe, a resposta era não. “Os Morgan não têm amigos”, seu pai uma vez disse. “Os Morgan têm contatos”. - Acho que devemos voltar ao colégio – observou Kyle, catando as últimas batatinhas. Ele amassou o saquinho e jogou na lata de lixo atrás dele, junto com o copo de refrigerante vazio. – Teri disse que você tem reuniões marcadas o dia todo amanhã e sexta. - Sim. Estou ficando exausta. - Na sua última escola era essa loucura toda na primeira semana?, Kyle perguntou. - Pra falar a verdade, essa é minha primeira escola. É a primeira vez que eu dou aulas em qualquer lugar. Sem contar o estágio, é claro. - Tenho certeza que você vai se dar bem, disse Kyle. Dois adolescentes subiram em uma velha caminhonete azul. Eles buzinaram, chamando Kyle pelo nome, e acenaram. - Você parece ser bem popular por aqui, disse Jessica. - Cidade pequena – disse Kyle – Vai ser a mesma coisa com você depois de alguns dias de aula. Espera pra ver. Temos ótimos garotos na cidade. - Faz tempo que você mora aqui? – Jessica perguntou quando eles já estavam na caminhonete de Kyle, indo pro colégio. - Uns seis anos. Gosto daqui. Cresci em Portland. Essa cidadezinha é mais a minha cara. Ta gostando de Glenbrooke? - To sim. As pessoas são legais e amigáveis. É como eu pensei que seria. - Você veio de uma cidadezinha da California? - Como você sabe que eu sou da California?, perguntou Jessica, armando seus escudos. - As placas do carro. Por falar nisso, Al não levou a conta do carro pra você, né? Eu disse a ele pra não fazer isso. - Por quê? - Sabe... é que... Jessica esperou que ele dissesse ”porque eu sei que você não tem dinheiro”. Ela odiaria ser alvo da caridade alheia. FBTCB 39

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- Porque eu disse a ele que você é nova na cidade, e eu... – novamente Kyle parecia escolher as palavras com cuidado – eu disse a ele que ficaria devendo um favor. É assim que as coisas funcionam por aqui. A troca de favores é frequente em Glenbrooke. Jessica tentava decidir se falaria algo em sua defesa ou simplesmente deixaria pra lá. Até onde a bondade de Kyle era parte do estilo de vida da cidade? Será que ele estava interessado nela mais do que como uma nova vizinha? Kyle entrou na vaga do estacionamento da escola e desligou o carro. - Eu vou com você. Tenho que ver umas coisas no prédio administrativo. Eles andaram em silêncio enquanto Jessica imaginava a Sra. Mendelson sendo “as coisas” no prédio administrativo que Kyle tinha que ver. Charlotte devia ser cinco, talvez seis anos mais velha que Kyle. Por que ela estava correndo atrás dele? Jessica deu uma olhada de lado pra Kyle, e a resposta era óbvia. O cara era maravilhoso. Sem falar na gentileza, sensibilidade, compreensão, bondade. Qualquer mulher seria louca se não tentasse atrair sua atenção exclusiva. Jessica sentiu um pouco de remorso por ter decidido se manter afastada. - Ei, olá! – disse Charlotte, aparecendo de repente assim que eles entraram no prédio. Jessica ficou pensando se a diretoria tinha vista para o estacionamento e se ela os tinha visto chegando à escola. Ignorando Jessica, Charlotte aproximou-se de Kyle. - Parece que recebeu meus recados. Vamos entrando na minha sala. Temos muito pra falar. Kyle permaneceu onde estava, mesmo com Charlotte o puxando pelo braço. - Te vejo mais tarde – disse Jessica – muito obrigada pela carona. Então lembrando-se do que Kyle disse sobre Al e o sistema de troca de favores, Jessica adicionou, só pra alfinetar Charlotte: - Tenho que fazer uma coisa legal pra você um dia desses. Ela saiu do prédio a passos lentos para ouvir a conversa entre Kyle e Charlotte. - Tchau, Jessica – disse Kyle. Então mudou o tom de voz para falar com Charlotte – Posso fazer a checagem da segurança no prédio amanhã. Preciso dos formulários do corpo de bombeiros, não estou com eles hoje. Sobre a palestra, pra mim o melhor é no fim do mês. - Maravilhoso – disse Charlotte – E quando podemos marcar um jantar para eu te agradecer? - Não por enquanto, disse Kyle. Jessica não conseguia mais ouvir de dentro de sua sala, mas ela ouviu o bastante para ter esperança de que Kyle estava passando tempo com ela porque ele queria. Esperança de que haveria espaço para desenvolver esse relacionamento. Mas de que jeito? E o que ela ia fazer se isso acontecesse? O telefone da sala tocou. Jessica deu um sobressalto antes de correr pra atender.

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- Oi, vizinha, é a Teri. Ouvi você chegando. Posso passar aí? - Claro, pode vir. Teri chegou um minuto depois. Ela tinha prendido seu cabelo cacheado com uma piranha e vestia uma regata vermelha e uma calça branca um pouco justa. Jessica percebeu como Teri tinha o quadril largo em proporção ao resto do corpo. Ela tinha disfarçado bem nos últimos dias, mas essa calça branca não disfarçava nada. - Como foi a consulta? - Fiquei com uma cicatriz permanente – Jessica tentou fazer com que parecesse uma piada. - Sério? Teri chegou mais perto olhando para o lábio de Jessica. Ela olhou como se precisasse olhar muito bem para ver a marca. Jessica sabia que a marca podia ser vista facilmente, mas ela apreciou a tentativa de Teri. - É, tem uma cicatriz, disse Teri – Um pouco de babosa e essa marca vai sumir. Minha vó plantava no quintal dela em Escondido. É onde eu cresci. Tenho uma dúzia de plantas no meu quintal. Te trago uma amanhã. Já passou babosa? É só quebrar uma folha e colocar o gel na região. Em pouco tempo você vê o resultado. A única coisa que Jessica sabia sobre babosa é que eles colocavam nas embalagens de xampu e condicionador quando os fabricantes queriam fazer parecer um produto natural. - Funciona de verdade. Eu uso no meu rosto, também. É meio pegajoso e tem cheiro de mato, mas acostuma. Minha avó começou a passar o gel de babosa no meu rosto quando eu estava entrando na adolescência. Você ia gostar dela. É uma figura. To até ouvindo ela dizendo: “Teresa Angelina Raquel Moreno, já passou la babosa hoy?” – Teri disse alto, com voz de vó, em perfeito sotaque espanhol. Jessica imaginou se essa babosa era mesmo o segredo da pele de Teri. Teri olhou a sala de Jessica: - Tá ficando legal. Chegaram todos os seus livros? - Nem sei. Como eu descubro? - Pergunta pra Charlotte, eu acho. - Então acho melhor esperar. - Tá feio, hein? Ela já convenceu Kyle a dar a tal palestra? - Sim. Eu ouvi eles conversando depois que Kyle me trouxe. Ela estava esperando na entrada, pronta pra dar o bote assim que passássemos pela porta. É nojento. Ela está irritando todos os professores ou é só comigo?

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Antes que Teri pudesse responder, o telefone tocou. Como Teri estava mais perto, ela atendeu. - Tá brincando! Sério? Que maravilha! Claro. Nós já vamos! – ela desligou e virou-se para Jessica, seus olhos castanhos brilhando. – Adivinha! - Sei lá. Charlotte se demitiu. - Melhor. O Sr. McGregor acordou e quer te ver. - Ta brincando! - Claro que não. Vou pegar as chaves do carro e nós já vamos. É a resposta das nossas orações. Obrigada, Senhor! Jessica sabia, em seu interior, que era a resposta de uma oração. Mas ela se surpreendeu ao ouvir Teri dizer isso, especialmente por ter adicionado a parte do “Obrigada, Senhor!”. As duas mulheres foram correndo até o segundo andar do hospital ver o Sr. McGregor. Ida as cumprimentou à porta. Ela usava um cordão de sementes cor de rosa que caía sobre o lado direito de sua blusa amarela. - Que bom! Você recebeu meu recado, Jessica. Agora, uma de cada vez, meninas, e falem devagar e bem claramente. Jessica entrou primeiro. Ela se sentou na cadeira perto da cama e sorriu para os olhos observadores do homem que ela considerara ser o mais sábio do mundo. - Oi. Sou eu, Jessica. - Jessica? Como você está? Eu soube que você chegou à cidade bem anunciada. O Sr. McGregor não parecia estar sentindo alguma dor, mas seu semblante era caído. Expressão inexistente. Quase parecia que havia algum ventriloquista puxando cordas invisíveis para mover os olhos e lábios de Hugo, pondo palavras em sua boca na hora certa. - Foi um tanto excitante. Eu estou bem. - Que bom... Gostou da casa? - Ah, sim!, Jessica anunciou – É exatamente como eu queria. É muito charmosa. E confortável. Obrigada, Sr. McGregor. - Você está em segurança? - Quer dizer em minha casa? Sim, me sinto segura. - Você está segura aqui? – disse Sr. McGregor com cuidado. - Acho que sim.

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Jessica não quis dizer nada sobre como Ida soube seu sobrenome, mesmo estando curiosa pra saber o que mais ele havia contado. - O colégio está bem? - Todos sentem sua falta e aguardam sua volta. A nova diretora é... bem, vamos dizer que ela não parece disposta a fazer amigos este ano. - Seu arquivo... Hugo começou, mas Ida entrou com Teri. - Tudo bem, disse Ida – Seu tempo acabou, querida. Agora é a vez de Teri. - Seu arquivo... – Hugo começou de novo, mas parou, aparentemente percebendo a interrupção, e que agora Teri estava sentada ao seu lado. Jessica esperou do lado de fora enquanto Teri ficou com Sr. McGregor por alguns minutos. O que tem o meu arquivo? O que você ia me dizer? Mesmo com os avisos de Ida, Jessica entrou logo depois que Teri saiu e disse: - Você falou sobre meu arquivo. Tem alguma coisa que eu preciso saber? Hugo respirou fundo e disse: - Eu… não lembro. Jessica não tinha certeza se ele estava cansado e realmente não se lembrava ou se ele só poderia falar a sós, já que agora Teri e Ida estavam ao lado dela. - Bem, não se preocupe com nada – disse Jessica, tentando soar confidente. – Fique tranquilo. Volto a te visitar assim que puder. E se de repente você se lembrar o que queria dizer sobre o arquivo, pode me falar da próxima vez, ta bom? Assim que as três se reuniram no corredor, Ida começou a falar entusiasticamente. - Não é maravilhoso? O doutor ainda não prometeu recuperação total, mas ele está confiante. Vocês querem comer uma coisinha? Hoje é dia de sopa de brócolis com queijo no ‘A Trepadeira’. - Obrigada, eu já almocei – disse Teri. - Eu também – disse Jessica. – Obrigada por ter me chamado. Vou tentar voltar aqui para vê-lo amanhã ou sábado. - Me liga se precisar de carona. – disse Ida – Ah, e Teri, você já falou pra Jessica sobre o grande piquenique da igreja no dia do trabalho? É claro que você será mito bem-vinda! É sempre muito divertido. Corrida do saco, concurso de comer torta, e um sorteio para levantar fundos. Todo o dinheiro arrecadado no sorteio será enviado para nossa missão no México. - O nenenzinho de Kyle – disse Teri, disfarçadamente, para Jessica. Jessica não fazia ideia do que ela estava falando. FBTCB 43

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- Quero ver suas lindas carinhas no piquenique. – Ida acenou e se dirigiu à saída do hospital. - Que fofa – disse Teri – Essa mulher me impressiona. Espero ter toda essa energia quando tiver oitenta e dois anos. - Fala sério! Ela parece ter uns sessenta! - Eu sei. O marido dela não aparenta ser mais novo do que é, mas Wendel é muito mais engraçado que ela. Ele teve uma loja de peças aqui na cidade por uns cinquenta anos. – Teri estava chegando ao carro no estacionamento do hospital. – Será que a Charlotte percebeu que a gente saiu? - Ah, dá um tempo, - disse Jessica ao sentar no banco do carro – Você acha que ela vai durar como diretora o ano todo? Antes que ela pudesse responder, Teri adentrou na rua principal. Uma glamoroso conversível amarelo passou por elas. A garota que buzinou e acenou para Teri. Teri acenou de volta: - Oi Dawn. - Dawn? – perguntou Jessica – A filha do médico? - Sim – confirmou Teri. – O que você acabou de ver foi um flash de Dawn Laughlin, a Garota Maravilha. - Carro dos sonhos... - Garota dos sonhos... – completou Teri. - Alguma coisa em particular que eu deveria saber sobre ela? - perguntou Jessica. - Não sei o que eu poderia dizer que você não possa descobrir sozinha. Ela é caloura esse ano. Aluna nota 10, líder de torcida. Deixa eu ver… O que mais? O carro novo foi o presente dela de dezesseis anos, em maio. Ela passou dois meses em Paris com a mãe agora no verão. Na verdade, os pais dela são separados; ela é a caçula. Os outros dois são casados, e a mãe dela mora em Paris. Dawn é milionária. É isso aí. - Como é a relação dela com os colegas? - São todos seus fãs. E ela parece gostar do cargo de ídolo. Alguma coisa em Dawn tocou um alerta em Jessica. Ela imaginou que havia muita expectativa de que Dawn fosse um tipo de garota, ocupando uma determinada função, não só pelos pais, mas também pelos colegas. Jessica conhecia esse tipo de pressão, simpatizou com Dawn antes mesmo de conhecê-la. - Claro que foi bom ver o Sr. McGregor se recuperando tão bem – disse Teri, enquanto dirigia. Ela entrou em uma rua ladeada por árvores que formavam uma cobertura natural. – Eu amo essa rua. É um pouco afastada do centro, mas sempre que dá eu entro nesse túnel de árvores. Espere até o outono, você vai amar esse lugar! Estou tão feliz por você estar aqui em Glenbrooke. FBTCB 44

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- Eu também – disse Jessica. Ela não podia expressar nem a Teri nem a ninguém como ela se sentia.

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CAPÍTULO SEIS
Jessica andava as quatro quadras em direção ao colégio, com o sol brilhava entre as nuvens matinais, ela podia sentir o calor do sol em seus ombros. Ela cantarolava baixinho. Ao virar a esquina da Rua Maple, sua cantoria encontrou competidores. Dois passarinhos cantavam um para o outro nos fios de telefone sobre sua cabeça. Como meu pai e minha mãe faziam. Jessica pensou em Dawn e seus pais divorciados. Será que meus pais teriam se separado se minha mãe fosse viva? Um esquilo pulou de um arbusto de hortênsias, deslizando até o poste. Com o barulho do esquilo, os pássaros voaram para longe. Outro esquilo colocou o nariz pra fora das hortênsias azuis. Rapidamente subiu o poste atrás do outro esquilo. Jessica achou que eles estavam namorando. Abrindo uma porta em sua mente chamada “Histórias Infantis”, Jessica desenrolava uma história de dois esquilos apaixonados, vivendo grandes aventuras, e, quem sabe, formando uma família com vinte esquilinhos. Ela deu à história o nome de “Debaixo de Um Arbusto Florido”. Aquele era seu sonho secreto: escrever histórias infantis, e escrever bem o suficiente para que fossem publicadas. Seu professor de inglês a mostrou um mundo de autores que ela passou a admirar. Há pelo menos seis anos ela colecionava ideias para histórias infantis. Mas ela nunca contou seu sonho a ninguém. Era só seu, um tipo solitário de fantasia. Seus pensamentos de repente foram preenchidos pela imagem de Kyle. Ele também era um tipo de fantasia? Jessica sabia muito pouco sobre ele. E era assim que as coisas deveriam ser. Uma pena. Se alguma vez ela desejou ser seguida como aquele esquilo do poste, esse era o momento. Jessica voltou os olhos ao poste atrás de si, seguindo as linhas telefônicas, tentando encontrar os esquilos brincalhões. Eles se foram. Uma vez dentro da sala 14, sua zona de conforto, ela começou a se lembrar das suas anotações para as duas primeiras semanas de aula. Ela havia chegado mais cedo, e estava feliz por ter tempo para finalizar seus planos de aula antes da reunião diária começar. Alguns minutos antes das nove horas, ela trancou as gavetas da mesa e dirigiu-se para a reunião. Acima de tudo, ela pensava na mesa de café-da-manhã, sempre recheada com muffins, frutas, café e, às vezes, iogurte. Naquela manhã, ela pegou dois muffins, tantas frutas cabiam em um guardanapo e um potinho de iogurte de morango. Ela não tinha comido muito desde o hambúrguer com Kyle na Dairy Queen. Na noite anterior, ela tentou preparar diferente a última parte da abobrinha, fritando em tirinhas. Sem manteiga nem óleo, as tirinhas queimaram sem cozinhar e a cozinha ficou cheia de fumaça. Jessica não soube o que fazer quando o detector de fumaça disparou. Ela arejou a casa, lavou a frigideira e, tristemente, escolheu as cinco ou seis tirinhas ainda comestíveis. Como auto-consolação, ela usou um dos dois saquinhos de chá mate restantes, Jessica sentou FBTCB 46

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no sofá com sua xícara de chá e um velho livro de poemas infantis de Walter de La Mare. Ela pensou como estariam deliciosos os muffins do colégio no dia seguinte. Ela estava certa. Antes de encontrar um lugar para sentar, ela deu uma mordida no muffin de blueberry, que derreteu em sua boca. - Aqui, Jé – acenou Teri, da segunda fila. Jessica juntou-se a ela. Teri não estava lá muito bonita. Jessica achou que ela estava parecendo um cacto. Teri pareceu notar o olhar estranho de Jessica. - A babosa que eu te falei. Achou que fosse o quê? - Sei lá... Alguma planta carnívora. - Tem folhas vermelhas. Lembra o que eu falei? Quebra a folha e espalha o gel na cara. - Mas isso não acaba com a planta?, Jessica perguntou, comendo o último pedaço do muffin de blueberry. - Não, ela se regenera. - Como uma estrela do mar – disse o homem atrás delas, inclinando pra frente se convidando para a conversa. - Oi, Martin. – disse Teri sem virar para vê-lo. - E quem é esta? – perguntou Martin. O homem aparentava estar na meia-idade, magro, com barba. Como ninguém respondeu de pronto, ele se adiantou – Eu sou Martin Monroe. Biologia. – Ele estendeu a mão direita a Jessica. - Eu sou a Jessica – disse ela, colocando o copo de café no chão para cumprimentá-lo – Darei aulas de inglês esse ano. - Prazer em conhecê-la – disse o homem com um sorriso que revelava a falha entre seus dois dentes da frente. – As mocinhas estão dividindo um apartamento esse ano? Você é solteira, não é? Jessica não podia se proteger. Se sentia como se estivesse em um bar e aquele cara extravagante estava tentando sua melhor cantada com ela. Antes que Jessica ou Teri pudessem responder, Charlotte estava ao microfone chamando a todos para a reunião. Todos pareceram se ajeitar nas cadeiras. Jessica pensou ser este um ato involuntário, não muito diferente da forma como agem os subordinados em uma empresa quando o general chega à caserna. Ela se recusava a responder a Charlotte daquela maneira, e se afundou mais na cadeira de propósito. O resto da manhã passou enquanto os professores ouviam instruções sobre tudo: desde o que fazer em caso de terremoto até como preencher formulários de pedidos de materiais. Pra FBTCB 47

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Jessica, aquelas instruções eram pior que a morte. A necessidade de Charlotte de ter tudo sobre controle estava quase paralisando todos os professores. Olhando ao seu redor, ela viu cadeiras vazias, e imaginou o rosto feliz daqueles que faltaram à reunião. Mais uma vez, Jessica recusou-se a ser manipulada. Virou a página do seu caderninho e começou a escrever. Debaixo de um Arbusto Florido. Ela começou a pensar como chamariam os esquilinhos. Frank e Maude? Mac e Melanie? Puffy e Fluffy? Logo meia folha estava preenchida e ela não fazia idéia do que Charlotte estava falando. Depois de uma pausa, Charlotte disse: - Agora teremos uma pausa para o almoço. Está tudo lá no fundo da sala. Por favor, tentem comer rápido. É uma pausa de meia horinha apenas. Jessica e Teri entraram na fila junto com os outros professores com cara de sono. Mais uma vez, Jessica não teve vergonha nenhuma de encher o prato. O sanduíche de carne assada e a maionese estavam com uma cara ótima, ainda mais quando ela só tinha meio pacote de miojo e um saquinho de chá em casa. Jessica e Teri saíram da sala para comer em pé. Foi bom mudar de posição. Teri abaixou a cabeça e fechou os olhos, parecendo estar congelada. Jessica pensou que ela tinha ficado tonta e estivesse tentando se equilibrar. - Você ta bem? – perguntou Jessica, abaixando a cabeça pra tentar olhar nos olhos de Teri. Teri abriu os olhos lentamente. Um sorriso surgiu em sua face. - Estava orando - disse suavemente. - Ai, desculpa. Eu não sabia. Eu pensei... esquece. Pode ir. Espero não ter te interrompido. Teri riu das palavras de desculpa de Jessica e disse: - Tudo bem, Jessica. Não se preocupe. Eu falei bem de você também. Agora Jessica riu, mas Teri não. Que mulher esquisita. Acho que nunca vi alguém orando em público. Até imagino Charlotte com as regras dela. “Regulamento sobre os direitos dos professores de orar antes do almoço”. Jessica comeu de uma vez uma grande garfada de salada. Por trás dela ouviu a voz de Charlotte. - É... Parece que alguns de nós não querem saber de dieta. Tentando engolir toda a maionese em sua boca, Jessica virou-se para responder. Então ela notou que Charlotte estava mostrando uma lata de Slim Fast10 para alguns professores e anunciou:
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Um daqueles shakes dietéticos.

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- Vinte minutos, pessoal. Jessica e Teri trocaram olhares e continuaram a almoçar. Antes de terminarem, Martin se juntou a elas, voltando ao seu estilo ‘qual é o seu signo, gatinha?’ de cantada. - Pode nos dar licença? – disse Teri antes que ele começasse a falar demais – Precisamos ir ao banheiro antes da reunião começar de novo. Jessica seguiu Teri até o banheiro. Metade do sanduíche e um pouco de salada. Na verdade, parece que seu estômago diminuiu graças à dieta restrita da última semana, ela não conseguia mais comer nem um pedaço. Mas se recusava também a jogar a comida fora. Dentro do banheiro, ela decidiu enrolar o sanduíche em papel toalha e colocar dentro da bolsa. Ela se sentiu como uma neurótica passa fome, mas fez mesmo assim. - Acho que não tenho que te avisar pra tomar cuidado com Martin, o conquistador barato – disse Teri, uma vez dentro do banheiro. - Acho que ele é mais que isso. Ele me lembra um cientista que passou a vida toda fazendo experiências com lagartos até que suas moléculas se misturaram. – Jessica sentiu um calafrio – Ele parece asqueroso, mas também inofensivo. Será que ele come moscas e rasteja entre pedras quando ninguém está olhando? - Sei lá. Eu tento manter distância. - Melhor se manter em local seguro. A gente podia mudar de lugar antes de começar a reunião. Vou me sentir bem melhor se ele não estiver respirando no meu pescoço. - Boa idéia. Elas se sentaram nos fundos dessa vez, dava pra dormir sem ninguém perceber. Pra Jessica, parecia que todo mundo estava cochilando sem que ninguém notasse. Jessica sabia que todas aquelas informações estavam no manual e nos formulários que ela pegou no primeiro dia. Ela já tinha dado uma lida e não encontrou razão alguma pra Charlotte ter que repetir aquilo tudo. Depois de algumas horas falando, Charlotte parou no meio da frase e olhou na porta dos fundos. Jessica olhou por sobre o ombro. Kyle estava parado em seu uniforme de bombeiro. Ela não esperava que seu coração fosse disparar, mas foi exatamente o que aconteceu. Kyle olhou para Jessica e sorriu. - Não acredito! – sussurrou Teri quando viu que o sorriso de Kyle se dirigia a Jessica. - O quê? – Jessica sussurrou de volta. - Nada. Charlotte ordenou uma parada de dez minutos. Ela correu pra cumprimentar Kyle à porta. Jessica virou-se na cadeira, como se estivesse se alongando, só pra olhar Kyle e Charlotte. Charlotte apontava com o lápis para o teto. Jessica imaginou que Kyle estivesse no meio da inspeção que Charlotte pediu. O que será que ele tinha que falar com ela? FBTCB 49

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- Muito interessante – disse Teri suavemente. - O quê? – perguntou Jessica, virando-se de volta, tentando adivinhar o que significava a expressão de Teri. Teri cruzou os braços, olhando atenciosamente para Jessica, como se a visse sob uma nova luz. - Eu nunca ia adivinhar... – foi tudo o que ela disse. - Adivinhar o quê? – Jessica queria pegar Teri nos ombros e sacudir, pra ver se o mistério despencava dela. - Kyle me disse semana passada que conheceu alguém. Eu nunca ia adivinhar que era você. - Como assim? Ele não me conheceu. Ele me resgatou. Deve ser outra pessoa. - Quem, por exemplo? Charlotte? Acho que não, Jé. Kyle não me disse quem era, mas depois daquele sorriso, certeza que é você. Jessica sentiu um frio na barriga. Ela tinha que colocar um fim nessa história urgentemente. - Teri, nós estamos falando como duas meninas de colégio. Era pra sermos duas professoras maduras, lembra? Não duas aluninhas namoradeiras. Por falar nisso, chegam terça-feira, né? Teri riu alto, alguns professores se viraram pra ver o que era tão engraçado. - Essa foi boa, Jessica. Vou lembrar disso: “aluninhas namoradeiras”. Gostei. Jessica teve que rir. Ela não tinha percebido o que dissera. Tentando convencer Teri de que estava falando sério, disse em voz grave e baixa: - Não há nada entre Kyle e eu, entendeu? Teri parou de rir, mas continuava a sorrir. - Sabe, Jessica, a negação é ótima no sofrimento, mas não é uma boa coisa no amor. - Sofrimento? – ela sabia muito sobre sofrimento – Amor? – Ela percebeu secretamente que sabia muito pouco sobre o amor. – Não é quase a mesma coisa? Teri olhou para Jessica com expressão solene. - Acho que não necessariamente, mas creio que às vezes sim. A Sra. Mendelson voltou ao seu púlpito chamando a atenção para a reunião novamente. Jessica não se virou para ver se Kyle ainda estava à porta. Seu estômago ainda estava esquisito e ela decidiu que era por causa da maionese. Certamente não era nada emocional. Se ela não soubesse controlar as emoções aos vinte e cinco anos, então ela certamente era uma... como é que ela tinha dito antes? Aluninha namoradeira. É claro que Jessica não podia permitir que nada tomasse o controle sobre sua vida, especialmente suas próprias emoções.

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A reunião foi até umas cinco horas da tarde. Jessica estava exausta, só pensava em chegar em casa e desmaiar no sofá. No último minuto, ela decidiu voltar à sua sala pra pegar um dos livros que ela não tinha terminado de ver. Quando abriu a porta, Kyle estava lá, em uma escada, olhando alguma coisa no teto. - Oi! – disse ele calorosamente assim que ela entrou. - Olá. Tudo certo aí em cima? – ela checou o tom de voz, a aparência, a expressão corporal, até ter certeza de que estava agindo como se qualquer bombeiro estivesse olhando sua sala. - Sim. O extintor está funcionando corretamente. Então essa é sua sala, hein? – perguntou ele descendo a escada. Jessica se perguntou se ele já não sabia disso e estava só esperando ela chegar. - É, essa é a minha sala. - Parece que está tudo pronto pro grande dia. - Só tenho que olhar umas coisinhas em um dos livros-base – disse ela alcançando o livro na prateleira. Por que ela estava explicando a razão de estar em sua própria sala? - Então vai ficar muito ocupada hoje à noite com esse livro? Jessica não sabia o que dizer. Segurou o livro contra o peito, olhando para seus sapatos. Ela sabia o que Kyle perguntaria em seguida e não queria responder antes de passar a vermelhidão em seu rosto. Naquele momento, a porta se abriu. - Oi, Jé – chamou Teri – quer uma carona – então parou no meio da frase – Oi, Kyle, tudo bom? Jessica virou-se para olhar Teri, tentando parecer natural. Ela imaginou que seu rosto ainda estava um pouco corado porque Teri levantou uma sobrancelha e disse: - Bem, acho que Kyle poderia te levar em casa hoje. Se não for muito sofrimento pra você, né Kyle... Jessica pegou o recado de Teri ao enfatizar a palavra ‘sofrimento’. - Claro, disse Kyle. – Será uma honra. Jessica lançou um olhar para Teri que dizia: que você ta fazendo, sua louca? Teri simplesmente riu, deu tchau e disse: - Então tá. Nos vemos amanhã, Jessica. E nos vemos qualquer dia desses, Kyle. Tchau pra vocês. – E foi-se embora. - Precisa pegar mais alguma coisa? – perguntou Kyle, que já tinha descido da escada.

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- Não, só esse aqui. – ela andou até a porta com Kyle atrás dela, segurando a escada em uma das mãos. Jessica pegou sua bolsa, seu caderninho e as anotações do dia, junto com a babosa de Teri. - Quer que eu te ajude a levar? - Não, ta tranqüilo. Obrigada. Eles andaram silenciosamente até o prédio principal. Vários professores os cumprimentaram no caminho, chamando Kyle pelo nome e acenando para Jessica como se lembrassem tê-la visto, mas não se recordassem do nome. Ela pensou se estava parecendo que ela e Kyle estavam ‘juntos’ e desejou que Martin visse os dois. Ela adoraria dar a ele a impressão de que ela estava indisponível. Kyle guardou a escada em uma sala de equipamentos perto da porta da frente, depois disso saíram os dois juntos. Jessica ajeitou seus pacotes um tanto desarrumados antes de descer as escadas. No quarto degrau, sua perna esquerda fraquejou, e ela quase caiu. Kyle a segurou pelo cotovelo rapidamente, e gentilmente ofereceu seu braço para ajudá-la a descer os degraus seguintes. - Tem certeza que não quer que eu carregue essa planta? - Tenho sim, obrigada – disse Jessica. Kyle a soltou com cuidado. Eles estavam quase chegando à caminhonete branca de Kyle quando Charlotte veio correndo atrás deles, com seus saltos finos batendo no asfalto. Ela deve tê-los visto sair da janela de sua sala. Talvez até tenha visto Kyle amparando Jessica. - Kyle, você não olhou minha sala – ela chegou posicionando-se entre Jessica e Kyle, de costas para Jessica. – Você precisa ir à minha sala pra que eu assine os papéis – disse Charlotte bruscamente. Jessica tentou, mas não conseguiu conter o acesso de tosse assim que o perfume de Charlotte chegou às suas narinas. Ou ela tinha mergulhado no pote ou a corrida no estacionamento potencializou o cheiro. Kyle explicou que já tinha levado os papéis, e que a secretária os tinha levado à sua sala. Enquanto Charlotte tentava convencer Kyle a ir com ela para mostrar onde estavam os papéis, Jessica concluiu que, com certeza, Kyle tinha terminado a inspeção e estava esperando por Jessica em sua sala. Talvez Teri estivesse certa. Talvez Kyle estivesse interessado nela de uma forma mais que gentil. Jessica queria se sentir cortejada, mas não podia se dar ao luxo. Ao invés disso, ela pensou que deveria sair dali, deixar Kyle e Charlotte no estacionamento, e ir andando pra casa, ignorando os dois e recusando-se a brigar com as emoções que se afloravam dentro dela. Ela deveria encontrar seus amiguinhos esquilos, pensar em historinhas e não nutrir sentimentos por pessoas de verdade. Antes que ela tivesse a chance de pôr em prática seu plano, Kyle finalizou a discussão: FBTCB 52

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- Tenho certeza que encontrará seus papéis. Se não conseguir, a Sra. Blair pode ajudá-la. - Mas nós nem falamos sobre a palestra... - Já conversei com a Sra. Blair. Serão vinte minutos de palestra, a partir das 9:30, dia 28 de setembro, é uma terça-feira. É uma apresentação padrão do corpo de bombeiros. Kyle abriu a porta do passageiro e ajudou Jessica a entrar. Ele fechou a porta e deu a volta para o seu lado. Charlotte o seguiu. Kyle disse educadamente: - Tenha um bom dia – entrou na caminhonete e acionou a ignição. Charlotte ficou olhando Kyle, até que sue olhar cruzou com o de Jessica, para quem ela lançou um olhar cheio de veneno. Jessica sentiu um arrepio, mas forçou-se a olhar para longe, mudando de posição. Aquela mulher não a controlaria. Kyle dirigiu lentamente para fora do estacionamento. Abrindo o porta-luvas, pegou um pacote de chiclete de canela, oferecendo um a Jessica. - Não, obrigada. Kyle desenrolou o seu, enquanto segurava o volante com a coxa. Logo a cabine se encheu com o cheiro de canela. Jessica lembrou quando Kyle a socorreu, dizendo-a para respirar devagar. O cheiro de canela a confortou naquele momento, e a tranqüilizava agora também. Kyle entrou na Alameda dos Cravos e se arriscou a perguntar: - Então, muito ocupada hoje à noite? - Tenho mesmo muitas coisas pra fazer. Jessica começava a ficar com raiva dela mesma e do seu joguinho de distância. Haja o que houver, Jé, não olhe para ele. Se o olhar de Charlotte pode te dar arrepios, o de Kyle certamente será de derreter. Não deixe que isso aconteça!

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CAPÍTULO SETE
Kyle parou em frente ao gracioso chalé de Jessica e desligou a caminhonete. - Obrigada pela carona, disse Jessica, tentando demonstrar ser gentil, mesmo sem poder dar esperanças a ele. Jessica abriu a porta da caminhonete, pegou suas coisas e começou a descer. Sua perna esquerda fisgou assim que ela apoiou seu peso nela. Segurando na porta para não cair, ela agarrou a planta deixando cair metade dos papéis que segurava. Kyle saltou do seu lado do veículo para ajudar Jessica a se equilibrar. - Estou bem, disse ele, recusando a mão de Kyle para apoiá-la. – Minha perna ainda dói um pouco. Deve ser por ter passado o dia todo sentada. - Deixa que eu levo isso aqui, disse Kyle, recolhendo os papéis antes que o vento os espalhasse. Jessica achou que seria ridículo recusar ajuda em uma coisa tão pequena. Ela conseguiu andar até a porta da frente sem mais acidentes. Assim que eles entraram, sentiram o cheiro da abobrinha queimada na noite anterior. Ela esperou que Kyle não notasse. Mas como não notar? Ele é bombeiro. - Alguma comida queimada recentemente?, perguntou ele, farejando o ar como o urso Smokey11. - Só uma abobrinha que eu deixei queimar ontem à noite. Nada de mais., ela desejava que ele deixasse por isso mesmo. - Você tem detector de fumaça?, disse ele, entrando na cozinha. - Sim, disse Jessica, seguindo-o. Ela apontou para o objeto marfim sobre a geladeira, sem mencionar que ele tinha pifado na noite anterior. - Você sabe se Ida mandou fazer uma checagem de segurança antes de você se mudar?, perguntou Kyle. – Posso fazer isso rapidinho, se não se importa. Como ela poderia recusar uma checagem de segurança? Kyle começou olhando debaixo da pia, passando para as tomadas da cafeteira e da torradeira e a tomada na parede. Então, ele foi à geladeira, olhando atrás dela, depois colocando no lugar e abrindo a porta. Jessica prendeu a respiração. Será que ele perceberia que ela estava vazia? Claro que sim. Kyle parou um momento, com a porta aberta, estudando a estrutura do fundo da geladeira. - Parece que está tudo bem, disse ele fechando a porta, sem perguntar porque a geladeira estava vazia – Seguro e tranquilo.
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Smokey é um urso, mascote da polícia florestal dos EUA, criado para ajudar na política educacional de segurança contra incêndios florestais. Ele tem um site: http://www.smokeybear.com

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Era assim que Jessica começava a se sentir perto de Kyle. Segura e tranquila. Mas ela não podia nem iria se sentir assim. Ela não imaginava que conheceria alguém como Kyle em Glenbrooke. Alguma coisa drástica precisava ser feita, e tinha que ser agora. - Olha, Kyle, disse Jessica – Aprecio todas as coisas legais que você tem feito. Obrigada. Mas você tem que me deixar sozinha. Não posso mais te encontrar esperando por mim em minha sala, ou carregando meus livros, ou checando se minha cozinha é segura contra incêndios, sua voz começava a se alterar – Desculpa ter que dizer isso a você, mas, por favor, me deixa em paz. Ela usava todas as suas forças para segurar o choro. - Foi isso mesmo que eu quis dizer. Me deixa sozinha! Me deixa em paz!, ela estava gritando agora, apontando para a porta. Kyle parecia atordoado. - O que foi, Jessica? Qual o problema? Jessica teve que desviar o olhar. Ao fazê-lo, não pode conter as lágrimas que jorravam sobre seu rosto corado. Esgotada pela explosão de fúria, Jessica falou mecanicamente, repetindo seu pedido em um tom mais baixo. - Só me deixa em paz. - Não enquanto você não me disser por quê. - Não posso. - É outro cara? Problemas financeiros? O que é, Jessica? Eu posso te ajudar, se você quiser. Jessica piscou lentamente, tentando encontrar mais alguma fúria dentro de si para encontrar uma resposta adequada. - Não é da sua conta. Me deixe. Ela deu as costas a Kyle, mancando pela cozinha em direção ao quintal, batendo a porta atrás de si. Sentando-se na espreguiçadeira, Jessica deixou as lágrimas rolarem – lágrimas pela forma com que tratou Kyle, lágrimas pela sua perna dolorida, lágrimas pelos medos de que ela sempre fugiu. A porta dos fundos se abriu, e passos determinados se aproximaram dela devagar. Ela se recusava a encará-lo. Ela determinou que as lágrimas cessassem, mas elas não obedeciam. Kyle parou atrás dela. Ela não se moveu. - Jessica, deixa eu te falar uma coisinha sobre segredos, suas palavras eram firmes, proferidas com um tom de raiva profunda. - Quanto mais você os guarda, pior eles ficam, dito isto, ele virou-se, indo embora. Agora era sua vez de bater a porta. O que isso significa? O que ele sabe sobre os meus segredos?

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Jessica se levantou, indo à porta da frente. Assim que chegou, ouviu Kyle dar a partida e sair cantando os pneus. Ela ficou lá parada um tempão. Até que sua perna a convenceu a subir as escadas e mergulhar numa banheira quente. Ao sentar na banheira, Jessica tentou se convencer de que fez a coisa certa. Na sexta-feira, Jessica estava sentada desconfortavelmente durante a reunião interminável e, em sua opinião, desnecessária, sob o comando de sua chefe. Teri não tocou no assunto Kyle. Como a reunião terminou ao meio-dia, não serviram almoço. Jessica esperava que a rosquinha e o suco de laranja vindos da mesa de café da manhã fosse o bastante para o dia todo. Ela já tinha comido a metade do sanduíche que guardou na bolsa no dia anterior, e não tinha nada em casa. Após dispensar os professores, Charlotte anunciou no microfone. - Preciso falar com a Professora Fenton na minha sala imediatamente. - Quer que eu vá com você? Teri perguntou. – Eu posso ir dizendo que fui pedir qualquer coisa. - Imagina, eu não tenho medo dela. Olha, ela ta lá falando com o professor de educação física de novo. Acho que vou na frente esperar por ela na diretoria. - Você quem sabe, disse Teri. – Vai ficar aqui até que horas? Eu tenho treino com as líderes de torcida até 5:30. Posso te dar uma carona depois dessa hora. - Não sabia que você era a responsável pelas líderes de torcida. - Pois é, um resquício dos meus tempos de Kelley High School em Escondido. Fui líder de torcida no último ano. Quase não consegui entrar pro grupo, mas... Teri e Jessica notaram que Charlotte se encaminhava à diretoria. – Bem, fica pra outro dia. - Pode contar. A Charlotte que me espere. - Ah, não. É uma longa história. Nos vemos 5:30? - Certo, Jessica aceitou. Teri seguiu seu caminho, deixando Jessica ir sozinha à sala de Charlotte. Charlotte não estava lá quando Jessica chegou, então ela entrou, com a permissão da secretária, e sentou-se de frente para a mesa e as estantes cheias de livros. Um deles chamou sua atenção. Ela foi olhar de perto. Olhando por sobre o ombro para ter certeza de que Charlotte não estava por perto, Jessica deslizou o livro para fora da prateleira. Era um livro velho, como as antigas obras em sua estante. Jessica cuidadosamente o abriu, lendo os escritos “Londres, Chapman e Hall, 1872”. A lombada do livro dizia “Ensaios, primeiras séries, Emerson”. Jessica parou. Era um livro de ensaios de Ralph Waldo Emerson, um dos livros que ela queria ter em sua coleção. Cuidadosamente colocou de volta, olhando os outros títulos na prateleira. Era uma coleção incrível, e pertencia a Charlotte Mendelson.

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Jessica retornou perplexa ao seu assento. Ela nunca imaginou que Charlotte fosse apaixonada por literatura clássica. Era difícil pensar uma coisa dessas de uma pessoa que parecia não ter coração. Agora parecia ser mais difícil e doloroso continuar a sentir antipatia por uma pessoa que compartilhava de um de seus hobbies. Era uma pena não poder comparar as coleções e trocar histórias de como adquiriu alguns de seus tesouros. A porta da sala se abriu, e Charlotte entrou. - Temos um problema com sua ficha, Fenton. Você não preencheu o campo “parente mais próximo”. Pelo olhar de Charlotte, Jessica percebeu que ela estava corada. Todos os pensamentos sobre interesses em comum se esvaíram. - Precisamos de um nome, endereço e número de telefone, para alguma emergência. - Certo, posso trazer terça-feira, disse Jessica. - Quer dizer que você não sabe nem nome, endereço, telefone,nada de nenhum parente seu?, perguntou Charlotte. Jessica pensou antes de responder. - Minha mãe é morta. Agora, se me der licença, ela levantou da cadeira – Trarei alguma informação terça-feira, como disse, Jessica andou firmemente em direção à porta. Ao pegar a maçaneta, ouviu a voz de Charlotte, em um tom mais baixo. - Ficou mesmo uma cicatriz. Que pena, Seu tom de voz não transmitia nenhuma compaixão. Jessica apertou forte a maçaneta. Ela usou todas as suas forças para prosseguir ignorando o comentário. E conseguiu. Ela fechou a porta calmamente, cumprimentando Sra. Blair, a secretária. A Sra. Blair parecia ter envelhecido cinco anos desde a última vez em que a viu, na segunda-feira. O telefone estava tocando, havia papéis em todo lugar e ela tinha derramado café ou chocolate quente em sua blusa branca. Jessica se perguntou quanto tempo a Sra. Blair agüentaria. Certamente as coisas eram diferentes com o Sr. McGregor como diretor. Jessica foi andando devagar para casa, forçando a evaporar todos os pensamentos sobre Charlotte. Era uma tarde agradável, e ela andava admirando as casas antigas na vizinhança. Cada casa era diferente. Algumas casas tinham grandes varandas, com balanços na frente. Outras casas tinham um estilo colonial, com grossas colunas brancas na frente, avisando que alguém importante morou ali. Próximo a uma dessas mansões estava uma pequena cabana branca, com floreiras na frente. Há oitenta anos atrás,aquela deveria ser a casa dos empregados da mansão. Ou talvez fosse a casa onde eles guardavam a carruagem. Hoje, era a casa de alguém que provavelmente pagou mais pela casa do que a quantia que os trabalhadores ali receberam em toda sua vida. O sol da tarde dava a ilusão de estar no meio do verão, com muitas semanas de noites quentes, melancias e crianças correndo entre regadores automáticos de jardim. Só os girassóis da casa da esquina da Rua Marigold mostravam a verdade. Seus caules de um metro e meio de FBTCB 57

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altura estavam inclinados para baixo. Todos eles tinham depositado suas sementes e pareciam implorar para descansar em uma pilha de compostagem. Mais alguns dias dourados e os ventos viriam, e, com os ventos, a chuva. Tudo em Glenbrooke era como ela imaginava, as casas, a temperatura, os vizinhos. Ela parou na calçada duas casas antes da sua para ver algo que nunca viu em Los Angeles: lençóis brancos balançando em um varal. Uma mulher de sua idade pendurava a última peça, uma fronha branca na linha enquanto uma criancinha loira brincava ao redor da estaca do varal, cantando consigo mesma. A cena fez doer o coração de Jessica. Ela queria ser a mulher pendurando as roupas no varal. Ela queria um garotinho loiro cantando aos seus pés. Chegando em casa, Jessica destrancou a porta, subindo as escadas até o seu quarto, e abriu o baú que ficava aos pés da cama. Debaixo de seu chapéu preto e uma caixa de luvas de couro italianas, Jessica retirou um álbum de fotografias que trouxe consigo. Antes de abrir, ela achou que a ocasião merecia o seu último saquinho de chá. Ela se serviu de uma xícara de chá, bom e forte, e então voltou ao quarto onde o álbum a aguardava. O sol da tarde brilhava por trás das cortinas de renda de lacinho, traçando seu desenho no chão. Jessica sentou no meio do mosaico, encostando as costas no baú. Devagar, ela abriu o álbum da família. Por tê-lo visto mil vezes, ela já havia memorizado todas as páginas. Quando chegou na quarta página, parou. Ali, no canto superior direito, estava a foto que ela procurava. Era uma foto em preto e branco idêntica à cena que ela acabara de ver. Uma mulher de cabelos cacheados, com prendedores de roupa de madeira na boca pendurava roupas brancas em um varal. Aos seus pés estava uma garotinha com tranças no cabelo, segurando para sua mãe uma fronha retirada da cesta cheia de roupas limpas. A garotinha posava para a câmera. Vestidinho curto. A meia esquerda preta cobria o sapato. Ela era encantadora. Era a mãe de Jessica. Soltando um suspiro inconsolável, Jessica lamentou a perda de sua mãe enquanto as fadas de poeira andavam na luz solar em torno dela. Eram suas únicas consoladoras naquela tarde. Ninguém nunca chorou com Jessica. Nem mesmo no primeiro dia, quando ela voltava da escola. Ela tinha oito anos, quase a mesma idade que sua mãe tinha na foto. Jessica entrou em casa, e a tia Bonnie apertou sua mão levando-a à cozinha para comer leite com biscoitos. - Por que você está aqui, tia Bonnie?, perguntou Jessica – Tio João veio também? - Não, Jé. Eu estou aqui porque sua mãe estava muito doente. - Ela está doente há dois dias. Vai ficar boa logo. - Bem, Jé, às vezes as pessoas não melhoram. Às vezes elas tem que ir pra outro lugar. - Pro hospital? - Não, não para o hospital, Jé. Às vezes as pessoas tem que nos deixar. Sabe, sua mãe se foi. Ela virou um anjo.

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Jessica se lembrou de como sua tia Bonnie começou a chorar, e de que ela não entendeu nada, então ela foi o consolo de tia Bonnie, sem derramar uma lágrima. E ela não chorou depois. Nem quando seu pai chegou de sua viagem de negócios, a colocou nos braços e chorou até a blusa do seu pijama cor de rosa ficar ensopada. Nem quando ela estava sentada em um iate na costa da Ilha Catalina assistindo os adultos chorando enquanto jogavam um pó branco na água. Ela não chorou. Até agora. Aos vinte e quarto anos, solitária, Jessica finalmente chorou, apertando os joelhos e balançando pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Primeiro era soluçou em silêncio, depois mais alto, finalmente, soluçava profundamente, alto, do fundo do seu coração. Ela gemeu e suspirou até estar totalmente entregue à tristeza. Exausta, ela deitou-se no chão. Então veio o sono, calmo, suave como o sol do fim do verão à sua janela. Em alguma parte do sonho, ela ouviu alguém a chamando, depois batidas altas. Acordando rapidamente, ela percebeu que alguém a estava chamando à porta lá embaixo. Era Teri. - Já vai! Ela gritou, tentando se recompor. Descendo as escadas com cuidado, por causa da perna, Jessica abriu a porta da frente, começando a se desculpar. – Estou morrendo de sono. Podemos nos falar mais tarde? Teri observou seu semblante e perguntou: - Tá tudo bem? Posso fazer alguma coisa? - Acho que eu só preciso de umas horas de sono. - Quer que eu entre e faça alguma coisa pra você comer? Uma sopa, ou sei lá... - Não, disse Jessica, respondendo um pouco rápido demais. – Quer dizer, não, obrigada. Não estou com fome. To bem. Desculpa não ter te avisado, ter feito você dirigir até aqui… - Até aqui? Perguntou Teri. – Não dá nem um quilômetro, e é no meu caminho pra casa. Teri olhou mais uma vez. – Tem certeza de que você está bem? Jessica forçou o melhor sorriso que pôde. - Foi uma semana cheia. - Te ligo amanhã, prometeu Teri. - Tá, tudo bem. Tchau. Jessica acenou, fechou e trancou a porta, e subiu as escadas. Ela abriu a gaveta da cômoda, procurando pijamas limpos. A primeira coisa que encontrou foi uma camisetona larga, ela escorregou na camisa e caiu na cama. Seu braço estava por cima da frente da camisa. Parecia meio áspero. Aí ela percebeu que eram as letras estampadas na camisa “11ª Festa da Panqueca dos Bombeiros de Glenbrooke”. A camisa de Kyle. FBTCB 59

Segredos – Robin Jones Gunn
Jessica não se mexeu. Uma parte dela queria deixar tudo pra lá e se entender com Kyle. Outra parte dela queria empurrar Kyle para longe, para que ela pudesse levar adiante seu plano sem ter os sentimentos de alguém – e os dela – em seu caminho. Ela tinha que continuar empurrando tudo e todos que tentassem impedi-la, com todas as suas defesas. Era só uma camisa estúpida. Não significava nada. Ela ficou deitada ali um tempão, esperando o sol se pôr, extinguindo a luz natural da sala. De algum lugar da rua ela podia ouvir gritinhos de crianças e barulhos de todas de patins, de alguma partida de hockey. O outono estava chegando. Ela podia sentir o cheiro da brisa. No pé da roseira em frente à sua casa, um grilo trilava. Jessica conhecia a música. Ela sabia que ele estaria lá a noite toda. Vai lá, amiguinho. Cante com todo seu coração. Não vou te incomodar.

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CAPÍTULO OITO
- Alô? Oi, pode me ligar com o quarto de Hugo McGregor, por favor?, disse Jessica à telefonista do hospital. - Alô, Ida falando. - Oi, Ida. É a Jessica. - Oi, querida. Eu deveria ter te ligado pra perguntar se queria vir comigo ao hospital. Mas aí eu pensei que como hoje é sábado você estaria cheia de coisas para fazer. Quando quiser vir aqui, é só me ligar, ta bom? Jessica estava começando a odiar a depender da carona dos outros. - Como está o Sr. McGregor? - Maravilhoso, meu anjo. Simplesmente maravilhoso! Ele já recuperou oitenta por cento dos movimentos, ou sei lá como eles chamam, vai pra casa na terça-feira. Não é uma maravilha? Ele está bem aqui. Por que não diz um oi a ele? Jessica falou com Hugo McGregor por alguns minutos, e ele realmente parecia estar melhor. Ela sorrateiramente perguntou sobre o arquivo que ele mencionou no dia em que ela o visitara. - Não está completo, disse Hugo. Disso Jessica já sabia. Será que ele estava tentando falar algo mais, mas não podia por causa de Ida? Jessica disse a ele para descansar, e prometeu que ligaria no domingo. Ida pegou o telefone novamente e lembrou a Jessica das programações da igreja no domingo e do piquenique na segunda-feira. Jessica agradeceu, mas sabia que ela não iria a nenhum dos programas. Ela planejou ficar em casa, sozinha, o fim de semana inteiro. Ela tomou essa decisão na noite anterior, depois de Teri chegar. Estar com outras pessoas seria muito difícil para ela, logo agora que estava tão emotiva. Seria melhor e mais seguro ficar sozinho. Mas o maior problema era que sozinha ela teria muitas horas para pensar em tudo o que poderia não dar certo em sua vida e em tudo o que já deu errado. Kyle certamente estaria na lista. Jessica sabia que o veria novamente. Cidade pequena… O que ela diria? A única vez que ela se aventurou a sair de casa no fim de semana foi no final da tarde de sábado. Havia uma mercearia a cinco quadras dali, e Jessica precisava desesperadamente de comida. Ela não tinha comido ainda desde o donut com suco de laranja na escola, na sexta pela manhã. Com a mixaria de dez dólares e vinte e sete centavos, ela foi ao mercado e voltou com uma sacola cheia de comida. Ela comia um pedaço de pão dormido pelo caminho. Tinha custado a bagatela de trinta e nove centavos. Jessica achou que se ela fosse persistente, os ovos, o pão, as latas de feijão e as frutas durariam, no mínimo, a semana inteira.

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O melhor de tudo foi descobrir que no Oregon não há imposto sobre a venda. Significava que ela ainda poderia comprar alguma coisa com os oitenta e quatro centavos que restaram em sua bolsa. A situação absurda a fez rir. Nunca em sua vida ela se imaginou um dia andando em uma ruazinha do Oregon com apenas oitenta e quatro centavos. É claro que a parte engraçada é nunca ter imaginado isso. Ela sabia que seria feliz aqui. Ela sempre soube que seu coração era de uma garota do interior, como sua mãe. Quando Jessica estava na metade do caminho até sua casa, avistou a caminhonete branca de Kyle estacionada no final da quadra seguinte.Uma parte dela queria correr pra longe, parte dela queria se encontrar com ele e parar com o jogo. Sem saber exatamente o que estava fazendo, Jessica andou em direção à caminhonete. Vai ver que nem é dele. Se for, e se ele me vir, e se me perguntar o que estou fazendo aqui, eu digo que me perdi. É até bom se ele me vir com a sacola. Ele vai pensar que eu ainda não tinha feito compras, por isso que a geladeira estava vazia quando ele foi lá em casa. Antes de se dar conta, ela estava a poucos metros da caminhonete. Era mesmo de Kyle. Ela imaginou em que casa ele estaria. Foi aí que ela percebeu que ele estava no cemitério do outro lado da rua. Kyle estava agachado sobre um joelho, colocando o buquê de margaridas sobre uma das lápides. Ela queria chegar mais perto. Ela pensou em se esconder atrás de uma árvore para tentar enxergar o nome na lápide. Mas isso não daria certo. Ela não poderia se esconder, porque não havia muitas árvores daquele lado da rua. As árvores mais frondosas ficavam dentro do cemitério, e se ela tentasse atravessar a rua para se esconder atrás de uma árvore – segurando uma sacola de compras – ele certamente a veria. Além do mais,não estava certo espiar alguém em um momento tão particular. Jessica deu a volta e andou rapidamente de volta ao caminho para casa.E se ele entrar na caminhonete, dirigir por este caminho e me avistar? Assim que avistou sua casa, acelerou seus passos. Rapidamente destrancou a porta, entrou e fechou-a atrás de si, soltando um suspiro de alívio. Ela estava ridiculamente agindo como uma adolescente. Por que ele mandou esse cara embora, e dois dias depois o seguiu, só pra correr dele novamente? Como ela poderia confiar em si mesma na próxima vez em que o visse, se ela não conseguia agir racionalmente? Jessica guardou sua preciosa, e escassa, comida e ficou pensando em velhas canções que falavam sobre as loucuras que as pessoas fazem quando estão apaixonadas. Jessica imaginou se sua vida era diferente. Se ela estivesse em Glenbrooke sob outras circunstâncias, ela se permitiria apaixonar por Kyle? - Não seja ridícula, Jessica repreendia a si mesma enquanto enchia uma panela com água para cozinhar um ovo para o jantar. – Eu não sei nada sobre ele. Como poderia me apaixonar por um estranho?

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O jantar de Jessica foi um ovo cozido e um copo de água, que ela comeu em frente À TV, mudando de canal até encontrar um velho filme em preto e branco que tinha acabado de começar. Ela já o tinha visto, mas não se lembrava do final. Foi assim que Jessica passou todo o seu fim de semana, comendo apenas quando necessário, relaxando com sua coleção de livros antigos e assistindo filmes velhos na TV. Os comerciais de comida eram sua única frustração. Ela rapidamente mudava de canal toda vez que uma propaganda tentadora aparecia, e prometia a si mesma um congelador cheio de sorvete assim que recebesse seu primeiro salário. Na manhã de terça-feira, ela se sentia descansada, tranqüila, e pronta para o desafio que enfrentaria. Era bom que fosse assim, porque nos quatro dias seguintes não houve descanso. Depois de tudo o que Jessica ouviu sobre Dawn, se surpreendeu quando descobriu que ela era uma estudante de ensino médio como as outras. Sues cabelos loiros, lisos e compridos cobriam suas costas, tinha um rosto inocente. Jessica se identificou com ela. Nos primeiros dias de aula, ela esperou uma chance de falar com a garota, mesmo sem ter muita certeza do que diria. A oportunidade apareceu na quarta-feira após a aula. Dawn veio À mesa de Jessica enquanto o resto da turma se dirigia para o corredor. - Gostaria de comprar um doce? É para arrecadar fundos para a viagem missionária para o Mexico, disse Dawn. Jessica pensou se poderia gastar esse dinheiro. - Desculpe, Dawn. Agora não dá. Só depois que eu receber. - Tá bom, disse Dawn. Ela já estava indo quando Jessica a parou. - Dawn? - Sim? Ela parecia tão infantil quando seu olhar se encontrou com o de Jessica. - Só quero dizer que minha porta estará sempre aberta pra você, se você tiver alguma dúvida, pra qualquer coisa. Desculpe não poder ajudar com a arrecadação esta semana. - Tudo bem. Até amanhã. Jessica acenou, vendo Dawn correr para fora. Os alunos do horário seguinte estavam chegando. Jessica os assistia enquanto eles sentavam em suas cadeiras e conversavam uns com os outros. Eram ótimos alunos. Ela gostava de todos. Mas ela sentia algo mais com Dawn, da mesma maneira que ela se apegou mais a Teri do que aos outros colegas. Teri parecia sentir o mesmo sobre Jessica, porque continuou a procurá-la durante a semana. Na tarde de sexta-feira, Teri sentou-se na mesa de Jessica e disse: - Acha que consegue voltar segunda-feira e fazer tudo de novo? - Que semana! Jessica sacudiu as mãos. – Não acredito que passou tão rápido.

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Teri girava a cabeça devagar, tentando relaxar. - Eu fico pensando... foram só quatro dias. NA semana que vem serão cinco! E depois outra semana, outra semana... Sua voz diminuía enquanto ela continuava a se alongar. Ela parecia mesmo uma professora, vestindo macacão azul marinho justo e blusa branca. Jessica reparou que Teri nunca usava jóias ou bijuterias, mas seu visual parrecia sempre completo e estiloso. Em contrapartida, Jessica tinha acessórios para todas as ocasiões. Hoje ela usava uma saia na altura dos joelhos marrom Donna Karan e um casaco de tricô. O dia acabou sendo mais quente do que ela imaginou, ela acabou tendo que arregaçar as mangas tantas vezes que seus cotovelos estavam coçando. - Você tem hora com o quiroprático hoje? Perguntou Teri. - Não, eu fui ontem. Ida me levou. Não sei o que seria de mim se não tivesse começado as sessões com Dr.Dane logo depois do acidente. Você já fez uma massagem com a Becky? - Não, mas seria ótimo agora, disse Teri. – O que vai fazer no fim de semana? - Não muita coisa. Talvez uns planos de aula. - Topa comer umas sobras de macarrão? Eu sei que você não estava muito legal na sexta-feira passada, se essa semana ainda não estiver, eu entendo. Jessica pensou em seus dois ovos e quatro pães. Ela tinha conseguido guardar seus oitenta e quatro centavos! Só faltava uma semana para o pagamento. Uma refeição grátis seria ótimo, e seria legal passar a noite com Teri. - Claro. Eu gosto de macarrão. Quer que eu leve alguma coisa? Jessica não sabia porque perguntou aquilo; ela não poderia levar nada, mesmo se Teri tivesse pedido. Por sorte, Teri disse que tinha tudo de que precisava. Elas pararam na casa de Jessica para que ela vestisse uma calça jeans, depois seguiram os seis quarteirões para a pequena casa de Teri. Era uma casa antiga como a de Jessica, mas nem de longe era tão charmosa. Talvez fosse a cor da casa – verde-menta com detalhes em marfim. A casa alugada tinha dois quartos e um porão cheio. Por dentro, tudo era creme e branco, bem simples. A mesa da cozinha estava coberta com uma toalha marfim, combinando com as cadeiras brancas. Uma cestinha com guardanapos de linho estava no centro da mesa, ao lado do saleiro e da pimenteira. Teri mostrou sua casa confortável, iluminada e arejada a Jessica, terminando na cozinha, onde Teri começou a arrumar o jantar. Enquanto ela trabalhava, contava histórias sobre como conseguiu boa parte dos móveis. Ela comprou suas plantas de umas pessoas que estavam se mudando, e os pratos eram uma coleção de louça chinesa que ela comprou em várias vendas de garagem. Ela entregou a Jessica um prato chinês cheio de flores azuis e amarelas na borda e a chamou para ajudá-la a colocar a salada na tigela de madeira sobre o balcão. FBTCB 64

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Teri e Jessica se viam todos os dias na escola e conversaram várias vezes, mas elas ainda não tinham conversas mais profundas. Jessica se sentia confortável com essa amizade casual e estava feliz porque Teri não forçava nada. Suas conversas deveriam se manter sempre neste nível. - Viu o Sr.McGregor ontem? Perguntou Teri. Jessica colocou molho rosé em sua salada e disse: - Sim. Ele já esta em casa, e está muito melhor. A enfermeira que está cuidando dele é um doce. Mas eu não acho que ele volte à escola tão cedo. Temo que vamos conviver com Charlotte pelo resto do ano. Teri colocou macarrão em seu prato, deixando um pedido de ajuda no ar, esperando o prato de Jessica. - Você viu o cartão que Charlotte comprou para o Sr. McGregor? Ela fez uma torta de blueberry. Mandou ontem. Jessica não podia imaginar Charlotte em outro papel senão no de vilã. Por que ela comprou um cartão e fez uma torta? Vai ver estava ganhando alguma cosia com isso. - Não, eu não vi nenhum cartão chegar enquanto estava lá. - Kyle estava lá quando ela mostrou. Ele disse que a torta podia ganhar o primeiro lugar de um concurso. Ei, Jessica, alguma coisa aconteceu com você e Kyle? Eu pensei que estava rolando um clima entre vocês, mas aí você não falou mais nada dele e ele desapareceu. - Acho que não está acontecendo nada, disse Jessica, espalhando molho de tomate no seu macarrão, depois indo sentar-se à mesa. - Ele perguntou de você no piquenique do Dia do Trabalho segunda-feira, disse Teri. - O piquenique da sua igreja? perguntou Jessica. - Sim, Kyle vai na minha igreja, disse Teri, juntando-se a Jessica à mesa – Ele trabalha com os adolescentes. Uma espécie de pastor de jovens voluntário. Kyle vai à igreja e trabalha com adolescentes. Eu devia ter imaginado. Tudo mundo nessa cidade vai à igreja. Jessica já ia perguntar a Teri o que Kyle perguntou, mas Teri falou primeiro. - Você se importa se eu orar? Jessica deu de ombros. - Fique à vontade. Teri orou, e Jessica ficou com os olhos meio fechados, olhando para a fatia de pepino em sua salada. Ela estava agindo mais em respeito a Teri do que em respeito a Deus. Como Teri falava tão naturalmente com Deus? Era estranho, mas legal.

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Elas começaram a comer, e Jessica esperou que elas mudassem de assunto, mas Teri voltou a falar de Kyle. - Ele vai levar um grupo de crianças da igreja ao México mês que vem. Algum deles já tentou te vender uma barra de doce? Eles estão tentando arrecadar fundos desde a viagem do ano passado. - Dawn Laughlin me perguntou se eu queria comprar uma barra. Ela também vai ao México? - Sim, disse Teri, cortando o espaguete antes de comer. – Acho que é a melhor coisa do mundo pra ela. Ela sabe tudo sobre luxo e hotéis caros em Paris, mas dessa vez ela vai ver como vivem os outros. Eu fui uma das pessoas que a convenceram a ir. - Você deve ter um bom poder de persuasão, disse Jessica. – O México não é pra todo mundo. Teri arregalou os seus olhos castanhos, abaixou o garfo e olhou para Jessica. - Por que você não vai também? perguntou ela entusiasticamente. – É uma viagem maravilhosa. Você vai amar! - Eu? Ir pro México? Acho que não, Teri. Não sou muito ligada nesse tipo de coisa. - Ah, deixa disso! Eu vou. Eu fui ano passado também. Eu sou a intérprete oficial deles. Você fala alguma coisa em espanhol? - Tacos, disse Jessica, com a boca cheia de salada. - E huevos rancheros, ela engoliu a comida. – Só. Acho que não é o suficiente para ser intérprete. - O que nós precisamos, disse Teri com um brilho nos olhos – é de outro adulto responsável. Até agora só Kyle e eu vamos, e teremos no mínimo vinte, talvez quarenta crianças e adolescentes viajando. Jessica balançou a cabeça. Ela jamais iria a um lugar como o México se responsabilizar por um bando de crianças, ainda mais em uma viagem da igreja. Ainda mais com Kyle. - Não, Teri, sério. Melhor você encontrar outra pessoa. - Quem, por exemplo? Martin? Charlotte? Jessica continuou a comer.Ela não estava convencida. - Vou te dar uma semana pra pensar no assunto. Vou te perguntar de novo, disse Teri.

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CAPÍTULO NOVE
Fiel à sua palavra, Teri apareceu na sala de Jessica uma semana depois daquela sexta-feira e disse: - Então? - Então o que? - Te dei uma semana para pensar. Mudou de idéia sobre o México? - México? Jessica pensou em muitas coisas durante a semana, mas o México não foi uma delas. - Se você está falando sobre a viagem da igreja, acho que não, Teri. Depois você me fala como foi. Eu até assisto com você três horas de slides de fotos. Teri riu alto. - Com muita pipoca, né? Jessica sorriu de volta. Pensar em pipoca deu água na boca. Sua situação alimentícia ia de mal a pior. Todos os dias ela ia À sala dos professores onde havia uma caixa com donuts, alguns muffins ou pão de banana em cima da mesa. Quando havia outro professor na sala, ela pegava apenas um pouco. Mas se ela estivesse sozinha, aproveitava o máximo que podia da boca livre. Com seus últimos oitenta e quatro centavos ela comprou outra metade de pão amanhecido e dois pacotes de miojo na quarta-feira. Ela detestava miojo, mas era a coisa mais barata do mercado. As compras deram oitenta e nove centavos, e ela teve que se desculpar com o caixa, dizendo que não tinha mais moedas.Um garotinho atrás dela lhe estendeu uma moeda e disse: - Quer uma moeda? Jessica agradeceu o menino, escreveu seu nome em uma notinha e prometeu que o pagaria. Hoje era o dia do pagamento. Ela estava salva. Ela poderia ir ao banco, abrir uma conta com o salário, guardar algum dinheiro e começar uma vida normal. Mas nas quatro vezes em que ela checou seu armário, o salário não havia chegado. Ela imaginava o envelope branco do pagamento nos armários dos outros professores, mas nenhum no seu. - Quer carona pra casa? Perguntou Teri. - Preciso ver uma coisinha na secretaria, disse Jessica – Acho que é melhor você ir. Não quero te segurar. Sei que você tem que voltar aqui para o jogo com sua equipe de líderes de torcida. - Eu tenho tempo. Dá pra esperar. - Não, é sério, disse Jessica – Pode ir. Não sei quanto tempo vou demorar. - Ta certo. Me liga se quiser carona pro jogo.

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- Ta, obrigada. Jessica se sentiu aliviada por estar sozinha. Teri a levou em casa todas as noites, e, na quartafeira, Ida a buscou para a consulta com o quiroprático e depois à visita ao Sr. McGregor. Quando Ida saiu do quarto rpa pegar um vaso de flores que havia comprado, Jessica perguntou novamente sobre o arquivo. Tudo o que ele disse foi: - Não está completo. - Eu sei, respondeu Jessica. – Charlotte já me disse. Tenho certeza de que isso vai se resolver. Não se preocupe. Hugo balançou a cabeça devagar. - Estou com um mal pressentimento quanto a isso. - Isso o que? - Sua vinda a Glenbrooke para se esconder. Ninguém pode se esconder realmente, Jessica. A verdade encontra o caminho quando menos esperamos. Jessica segurou a mão do Sr. McGregor e disse: - Não se preocupe comigo. Eu estou bem. Ela realmente acreditava nisso. Até porque, ela tinha uma casa, estava gostando de ensinar, e hoje ela receberia seu primeiro salário. Depois que Teri saiu, Jessica fechou a porta da sala e caminhou para a secretaria, pensando em como perguntaria sobre seu pagamento. Ela nunca tinha pedido dinheiro em sua vida. Se a Sra. Blair não estivesse lá, ela teria que discutir o problema com Charlotte. Enquanto ela manteve distância de Charlotte nas duas últimas semanas, tudo correu bem. Só que como Kyle não esteve por lá não dava pra ter certeza se estava mesmo tudo “bem”. Jessica não o tinha visto desde aquela tarde no cemitério. Era horrível ficar esperando o momento em que trombaria com ele. Ela observava cada caminhonete branca que passava pelo colégio, e toda vez que ouvia a sirene de um caminhão de bombeiros, ficava imaginando se seria Kyle o motorista. Será que ele estava indo salvar mais alguém? Ou já havia feito? Jessica parou na secretaria, espantando seus pensamentos involuntários. A Sra. Blair estava sentada à sua mesa, quase aos prantos. - Você está bem? A senhora olhou para cima, assustada. - Sim, sim, claro. Em que posso ajudar, Jessica? - Meu pagamento não chegou, vim ver se a senhora sabe alguma coisa. O interfone tocou na mesa. As duas mulheres saltaram de susto. FBTCB 68

Segredos – Robin Jones Gunn
- Diga a Fenton que quero vê-la em minha sala. Jessica e Sra. Blair trocaram olhares. Jessica deu de ombros, respirou fundo e disse: - Tenha um bom fim de semana, Sra. Blair. Ela andou em direção à sala de Charlotte como se não tivesse medo de nada nem de ninguém. - Você estava perguntando sobre seu pagamento, certo? - Não é hoje o dia do pagamento? Jessica respondeu com uma questão, se recusando a concordar com Charlotte. - Você não trouxe a informação requisitada. Charlotte mostrou a Jessica um formulário com seu nome no topo, apontando com sua unha postiça vermelha para a linha não preenchida abaixo de “Parente mais próximo”. Jessica lembrou que tinha dito que traria um número no primeiro dia de aula, mas tinha se esquecido completamente. Ela se sentiu como uma aluna sendo repreendida por ter esquecido o dever de casa; ela prometeu que jamais faria seus alunos se sentirem assim. - Trago segunda-feira. Sem problemas. - Ah, sim, isso é um problema. Olha, eu telefonei ao escritório regional, e eles não tem seu arquivo em lugar algum. Parece que você não existe para eles. Professores que não existem não recebem salários. - Então vamos chamar Hugo para que ele fale com o escritório regional, disse Jessica, tentando manter o tom de voz estável, sem demonstrar os sentimentos que explodiam dentro dela. Foi quando ela teve um pensamento terrível. O Sr. McGregor devia tê-la registrado como Jessica Morgan, já que o nome falso Fenton foi inventado quando ela chegou a Glenbrooke. Logo, ela não tinha qualquer identificação. Como poderia abrir uma conta no banco? Depois de ficar tanto tempo pensando acordada várias noites, como pode isso não ter passado por sua cabeça? - Eu já liguei para Hugo, disse Charlotte rispidamente. – Eu perguntei a ele se mandou o arquivo de Jessica Fenton, e sabe o que ele me disse? Jessica sentiu sua temperatura subir e suas bochechas começando a arder. Ela se forçava a não demonstrar emoções. - Ele disse que não conhece nenhuma Jessica Fenton, perguntou se eu não quis dizer Jessica Morgan. Jessica se sentiu atingida por uma flecha de medo. Por que, meu Deus, por que ela não avisou ao Sr. McGregor, ou ao menos disse a ele que estava usando o nome Fenton? Jessica tentava pensar rápido.

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- Simples. Morgan era o sobrenome do meu padrasto, Jessica mentiu, e eu escolhi voltar a usar o sobrenome da minha família depois que minha mãe morreu. Só uma pequena confusão. Quero que mudem meu arquivo no escritório regional para Fenton. - Eu pedi que me mandassem seu arquivo, disse Charlotte, sem revelar se acreditara ou não na mentira de Jessica. – Veremos quanto à mudança assim que chegar. - Mas o que eu posso fazer quanto ao meu pagamento? Perguntou Jessica, tentando acalmar a raiva. - Esperar, disse Charlotte, se acomodando em sua cadeira. - Você não pode fazer isso, disse Jessica. - Quê? Jessica tentou se manter tão calma quanto possível. Charlotte não a controlaria. - Sra. Blair, disse Jessica, tentando não aparentar qualquer emoção, pode por favor me fornecer o número do escritório regional? E pode me dizer com quem eu falo sobre meu arquivo? A secretária escreveu a informação e estendeu o papel a Jessica. - Espero que tudo dê certo, sussurrou a Sra. Blair. - Vai dar, respondeu Jessica, confiante. – Vai dar certo. Voltando à sala dos professores para usar o telefone, Jessica discou o numerou e pediu para falar com a pessoa indicada no papel. - Desculpe, ela já foi. Alguém mais pode ajudar? - Acho que sim. Sou uma nova professora no Colégio Glenbrooke, e parece haver uma confusão com meu arquivo. Não recebi meu pagamento hoje e preciso saber quem pode me ajudar com isso. - Um momentinho, por favor. A mulher colocou Jessica na espera. Ela esperou três minutos até ouvir outra voz na linha. - Você é Jessica Morgan? - Sim, mas estou usando Jessica Fenton agora. Parece que temos uma pequena confusão, e... - Certo. Recebemos um telefonema da diretoria de Glenbrooke ontem. Pode me dizer o número do seu seguro social12?

12

Uma mistura de CPF com RG e CTPS. É a identificação nacional da pessoa americana. Cada pessoa só pode ter um número do seguro social. A carteira de motorista é um documento estadual. Faz sentido, as leis de trânsito são diferentes em cada estado.

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Jessica repetiu o número, e a voz do outro lado perguntou. - Você mudou o nome no seu seguro social? Eles tem você como Fenton ou Morgan? Jessica viu que seria mais complicado do que previra. Algumas pessoas na cidade a conheciam como Jessica Morgan; talvez ela devesse sair do esconderijo. - Deixa eu te perguntar uma coisa. Meu holerite vai chegar em nome de Jessica Morgan? - Não, vai chegar do jeito que você estiver registrada aqui. Se você quer Fenton, precisaremos de uma carta escrita por você e com a autorização da sua diretora para modificar o seu arquivo. Melhor ainda se você puder juntar o número da sua carteira de motorista do Oregon. - Eu ainda não fiz. Jessica começou a se sentir agoniada e cansada de toda essa bagunça. – Vamos fazer assim, você me manda o pagamento com o nome de Jessica Morgan e nós deixamos isso como está, ok? - Podemos. A pessoa que cuida disso já foi embora, mas podemos mandar o pagamento na segunda-feira, e você receberá na terça. - Ótimo. Faça isso, por favor. Ela desligou e saiu da escola o mais rápido que pôde, caminhando em passos longos em direção à sua casa. Ao invés de virar para sua rua, ela continuou andando. O encontro de Charlotte a encheu com tanta raiva, que ainda não tinha se esvaído no momento em que alcançou sua rua. Virando a rua seguinte, ela deu de cara com o cemitério. Aí ela se lembrou que, há duas semanas, ela queria ver a lápide onde Kyle deixara as margaridas. Agora era uma boa hora para espiar. O portão do cemitério estava aberto. Jessica entrou, sentindo que cruzara uma linha invisível que guardava um lugar calmo e silencioso. O cemitério aprecia um parque, com árvores grandes e pássaros cantando. Um banco de pedra estava há alguns metros à sua esquerda. Jessica achou que era um ótimo lugar para sentar um dia desses para uma viagem interior. Mas não hoje. Seu interesse estava à direita, não no banco à esquerda. A lápide foi fácil de encontrar. As margaridas estavam murchas, mas ao redor da pedra cresciam cravos e pequenas flores brancas13. Jessica se ajoelhou e leu a inscrição “Lindsey Sue Atkins. 3 de março de 1971 – 3 de setembro de 1991. Amada por todos. Segura nos braços de Cristo”. Atkins. O sobrenome de Kyle é Buchanan. O que ela era dele? Um antigo amor? Alguém que ele resgatou? Como ela morreu? Jessica já estava saindo quando viu a lápide ao lado da de Lindsey. Esta escrito “Thelma Jean Atkins, amada esposa de Clyde Jacob Atkins. Nascimento: 7 de janeiro de 1909. Morte: 14 de novembro de 1991. Segura nos braços de Cristo.”

13

Queen Anne’s lace. São as flores de uma espécie de cenoura selvagem. Mas seria muito estranho dizer que havia cenouras em volta da lápide, até porque, o que interessa aqui são as flores, não as raízes.

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Ela morreu só alguns meses depois de Lindsey. Será que morreram da mesma causa? Será que eram muito chegadas? Jessica saiu devagar, com sua curiosidade mais do que satisfeita. Ela sentou no banco de pedra. Estava frio. Ela se sentia fria. Algumas das árvores ao seu redor começavam a deixar cair suas folhas verdes do verão. Algumas delas adornadas com bordas douradas. As nuvens cobriram o sol, algumas gotas de chuva passaram pelo labirinto de folhas, caindo ao lado de Jessica, como se tivessem sido convidadas. Ela não se importava com a companhia. Estava pensando em sua mãe de novo. Jessica percebeu que foi disso que ela sentiu falta enquanto crescia. Um cemitério. Uma lápide. Um lugar para chorar sua perda. Ela não podia visitar as cinzas jogadas no Oceano Pacífico. Não existia nenhuma marca no oceano que ela pudesse ler, e reler, e reler, e recordar. Estranhamente, Jessica sentia agora a morte de sua mãe como nunca antes. O choro de semanas atrás fez muito bem. Aquele banco silencioso estava lhe fazendo um bem também. Ela poderia sentar-se ali para recordar, sempre que precisasse processar os sentimentos que guardara nos últimos dezessete anos. Jessica fechou os olhos e ouviu os pássaros. O cheiro de terra molhada a confortava. - Srta Fenton? Uma voz gentil falou, vinda do nada. Jessica abriu os olhos e viu Dawn Laughlin parada à sua frente. - Dawn, você me assustou! Não ouvi você chegando. - Eu te vi aqui e, bem, se não se importa, podemos conversar? Dawn vestia seu uniforme roxo e dourado de líder de torcida, suas pernas compridas estavam arrepiadas. - Claro, mas está meio frio aqui. - Tudo bem, disse Dawn, sentando no banco de pedra gelado, ao lado de Jessica. Dawn cruzou as pernas e cruzou os braços, balançando a cabeça para que o cabelo caísse sobre seus ombros. Ela aparentava ter menos de dezesseis anos. Talvez fossem seus traços. Seu nariz era redondo, assim como seu queixo, seus olhos, seu rosto, e até as bochechas quando sorria. Isso a fazia parecer uma garotinha. - Foi uma coisa que você disse na sala essa semana, começou Dawn. - Sim? Jessica ouviu um barulho de motor, e olhou por cima do ombro de Dawn em direção à rua. O carro esportivo amarelo de Dawn estava estacionado perto da entrada, e à frente dele, a caminhonete de Kyle tinha acabado de estacionar. O motor ainda estava ligado. Jessica desviou o olhar, pensando se Kyle a tinha visto. Ela prestou atenção em Dawn. - Qual é sua dúvida?

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Segredos – Robin Jones Gunn
- Sabe aquele livro que você ontem? Jessica tentou se lembrar. - Ah, sim, O Conto do Vendedor de Indulgências, de Chaucer. Não vai cair na prova, se é essa a sua pergunta. Apenas li para mostrar À classe como soava o inglês arcaico. - Na verdade, eu estava pensando onde você comprou o livro. Disse que comprou uma cópia por cinquenta centavos de libra em uma livraria de segunda mão. - Isso mesmo. Jessica não fazia idéia de onde Dawn queria chegar com isso. – Foi só um comentário. É um hobby meu, coleciono livros antigos. - Você o comprou na Inglaterra? - Sim, em Londres. Por quê? O rosto de Dawn se iluminou e seus olhos castanhos pareciam ver uma revelação. - Então esteve na Inglaterra. - Sim. - Já foi a Paris? Se aventurou Dawn. - Sim. - Eu também, disse Dawn. - Minha mãe mora lá. - Já ouvi dizer, disse Jessica. Ela olhou sobre o ombro de Dawn e viu que a caminhonete ainda estava lá, mas Kyle não estava à vista. - Provavelmente vai parecer idiota, mas posso falar com você sobre Paris de vez em quando? Perguntou Dawn. Sabe, ninguém nessa cidade foi a lugar nenhum. Quer dizer, exceto os que foram na viagem da igreja ao México. Mas é diferente. É como se eu tivesse outra vida porque passo os verões com minha mãe e não tenho ninguém pra conversar sobre isso. Entendeu? - Acho que sim. Vou amar conversar com você sobre Paris, disse Jessica calorosamente. – Minha porta está sempre aberta pra você, Dawn. Eu moro na Alameda dos Cravos, no chalé amarelo de dois andares com janelas brancas. - Sim, sei qual é a casa, disse Dawn. - Você será sempre bem-vinda para uma visita. Dawn pulou do banco, com um largo sorriso em suas bochechas. - Vou sim. Obrigada! Tenho que ir agora. - Tchau, disse Jessica, vendo a saia de Dawn se levantar enquanto corria em direção ao seu carro. - Passe lá quando quiser, Jessica gritou.

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Segredos – Robin Jones Gunn
Dawn acenou, entrou em seu carro, e foi embora. Jessica a viu aprtir, e estreitou os olhos para ver se Kyle estava dentro da caminhonete. Não dava pra saber. Agora ela tinha que se decidir. Deveria sair, arriscando se encontrar com Kyle? Ou ficar naquele banco gelado, esperando pra ver onde ele estava? Antes que ela pudesse decidir, uma voz grave atrás dela disse: - Oi, Jessica.

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CAPÍTULO DEZ
Jessica deu um pulo sem querer e virou-se na direção de Kyle. Ao olhar seu queixo firme e seus olhos verdes, Jessica sentiu-se como uma colegial, constrangida e sem fala. - Eu vi que você estava falando com Dawn, não quis interromper. Kyle novamente se parecia com um garotinho tímido como naquela manhã em que a visitou no hospital. – Não quero tomar seu tempo. Só pra você saber que Ida me pediu pra dar uma olhada no vazamento da sua banheira. - Ah, disse Jessica, pegando sua bolsa e seus livros, mais que rapidamente. Ela se lembrou de ter mencionado o vazamento a Ida na quarta-feira. Nunca imaginara, no entanto, que seria Kyle o homem designado para o problema. – Tudo bem. - Ahn, só queria te avisar que não vou fazer isso nos próximos dias, talvez daqui uma semana. - Tudo bem. Sem problema. Quando quiser. Jessica começou a dar alguns passos para trás. - Vou para Nevada por uns tempos. Kyle falou como se eles não tivessem nada que esconder um do outro. – Estou num time de bombeiros de emergência. Saímos hoje às seis. Não sei exatamente quando volto. Jessica se lembrou vagamente de ter ouvido alguma coisa sobre um incêndio florestal em Nevada, juntamente com outro devastador em Wyoming. - Hm, o incêndio em Nevada está piorando? Seu coração batia forte, Jessica se sentia embaraçada tentando formar uma frase. - Já queimou mais de cento e sessenta hectares. Já está chegando perto da cidade de Fallon. Eles pediram reforços no Oregon porque os bombeiros locais foram pra Wyoming há alguns dias. Kyle parecia um soldado indo para a guerra sem saber se voltaria. Jessica não sabia o que dizer. - Então, concluiu Kyle, tomando fôlego, - Darei uma olhada na sua banheira quando voltar. Comparando com o drama de ir lutar contra um incêndio, um vazamento na banheira parecia besteira. Jessica disse: - Não se preocupe. Não é lá grande coisa. Um silêncio abafado se formou entre eles. As poucas gotas de chuva que escaparam dos céus na última meia hora agora desfrutavam da companhia de todos os seus amigos e parentes em um chuvisco. Jessica permaneceu quieta, com o banco de pedra entre ela e Kyle. Ela imaginou se ele a ofereceria uma carona pra casa. Mas ele não o fez. Ele saiu, desajeitado, e ela foi caminhando para casa, sozinha na chuva.

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Segredos – Robin Jones Gunn
Naquela noite, no silêncio do seu quarto, debaixo dos cobertores, Jessica ouviu a chuva cair no telhado e pensou como era esquisito que neste momento Kyle estivesse em um lugar quente e seco, lutando contra o incêndio, enquanto aqui tudo estava frio e molhado. Ela não queria pensar em Kyle. Ela já fez isso o suficiente para a vida toda nas últimas três semanas. O que ela precisava fazer era pensar em Jessica. Ela tinha problemas suficientes sem contar com Kyle. Comida, novamente, no topo da lista. Será que ela poderia esperar até terça-feira, quando seu pagamento supostamente chegaria? Ela se sentiu insone, pensando em bifes, batatas assadas e DoveBars14. Na tarde de sábado, Jessica ouviu alguém bater à sua porta. Ela deixou seus papéis na escrivaninha de mogno e, calçando apenas meias, foi atender a porta. - Oi. Boa hora pra uma visita?, perguntou Dawn, franzindo seu rosto redondo em uma expressão hesitante. - Claro, pode entrar, Jessica fez um gesto em direção à sala. Dawn sentou no sofá verde, cruzando e descruzando suas pernas descobertas. Chovera durante todo o dia, mas não estava lá muito frio. Ainda assim, Jessica estava de legging, blusão e meias. Dawn estava de rasteirinha, shorts, e uma camisa jeans. Jessica ainda pensava como uma sul-californiana. Quando chover, vista roupas quentes, acenda a lareira e fique dentro de casa o dia todo. O povo do Oregon aparentemente via um dia de chuva como um dia qualquer. - Temo não ter nenhuma bebida pra servir, disse Jessica. - Tudo bem, eu não estou com sede. Dawn olhou a sala, apreciando os detalhes. Jessica não tinha adicionado muita coisa à decoração além de um pequeno vaso com flores silvestres sobre a mesa da sala de jantar. – Estava escrevendo cartas? Perguntou Dawn, notando os papéis na escrivaninha. - Ah, não, só algumas notas e outras coisinhas. Jessica não se sentia confortável para falar a Dawn que estava trabalhando em sua historinha “Debaixo de um Arbusto Florido”. Ela desejou que tivesse fechado a escrivaninha antes de abrir a porta. – Então, me fale sobre Paris, disse ela, tentando mudar de assunto. - Tudo bem, eu acho. As pessoas lá são diferentes das pessoas daqui. Muito fechadas. Na verdade, é um lugar de muita solidão pra mim. Acho que minha mãe é meu solitária, também, ainda que não admita. Ela é muito orgulhosa. Nunca admitiria que foi um erro ter fugido de casa. - Fugido? Perguntou Jessica, pensando ser este um termo engraçado pra se referir a uma mulher crescida que deixou o marido.
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Picolé cremoso coberto com chocolate. Sabores: chocolate ao leite com sorvete de baunilha, chocolate amargo com sorvete de baunilha francesa (sabor original), chocolate ao leite com sorvete de baunilha e amêndoas, e chocolate ao leite com sorvete de chocolate e mais chocolate dentro (o triplo chocolate).

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- Ela queria a vida glamorosa da irmã dela. Minha tia casou com um cara rico, e minha mãe achou que era melhor do que ser casada com um médico, então um dia ela foi embora. Nós não sabíamos onde ela estava por quase um mês. Então meu pai recebeu esta carta, e ele me disse que eles estavam se divorciando. Uns seis meses depois minha mãe me chamou para passar o verão no seu iate em Riviera. - Você se divertiu? - Eu não fui. Eu disse que já tinha planejado minhas férias. No verão seguinte eu fui, claro. E no verão passado também. De certa forma, aprece coisa de filme, sabe? Os empregados, a mansão, o iate e tudo o mais. Mas é muito solitário. - Imagino, disse Jessica, tentando soar o mais simpática possível. - É muito falso. Eu conheci esse cara no verão passado. Giovanni. Ele é italiano. Ele foi a uma festa no iate numa noite e… Dawn parou e olhou para seus joelhos. Ela não conseguia dizer mais nada. - O Giovanni te fez alguma coisa que você não quis que ele fizesse? Perguntou Jessica com cuidado. - Mais ou menos, disse Dawn, as lágrimas começavam a cair em suas pernas bronzeadas. – Eu queria que ele me beijasse, mas depois disso ele não parava mais. Me senti tão infantil. Ele me beijava e ficava me agarrando em todo lugar, aí quando ele tentou desabotoar minha blusa, eu corri e me tranquei no meu quarto. Foi tão... humilhante. - Eu acho que você fez a coisa certa, disse Jessica, ternamente. – Você não estava pronta. - Minha mãe disse que eu deveria estar. Ela teve uma conversinha comigo de manhã, disse Dawn, olhando para cima e limpando as lágrimas. – Aquele papo de ‘proteção’ e ‘estar prevenida’. Ela até me deu uns... bem, você sabe, uns negócios daqueles pra levar na bolsa. Jessica esperou que Dawn continuasse. - Só que eu não estou pronta, disse Dawn. - Tudo bem. - Mas olha só, parece que todo mundo pensa que eu já, ahn.. dormi com alguém. Os meninos na escola me tratam diferente das outras garotas. Pra ser bem honesta, às vezes eu quase penso em sair e... Dawn parecia procurar pela palavra certa – E fazer isso logo de uma vez. - Você tem que ser fiel a quem você realmente é, Dawn, disse Jessica. Só você pode decidir quem você é e quem você quer ser. Um meio sorriso surgiu no canto esquerdo da boca de Dawn. - É o que eu estou tentando entender. E é isso que eu espero que você me ajude a entender. Olha, é com eu já disse, você não parece com as outras pessoas da cidade. Você já esteve em outros lugares. Você conhece as coisas. Você pode dizer. Você é experiente. FBTCB 77

Segredos – Robin Jones Gunn
- Bem, talvez não exatamente do jeito que você pensa, Dawn. Além do mais, você não pode viver como outras pessoas. Você tem que viver sua própria vida. - Acho que preciso de um modelo. - Modelo? Jessica se sentiu desconfortável. – Olha, Dawn, posso ser sua professor e uma boa ouvinte. Mas eu não sou nenhum tipo de modelo, nem quero ser. Jessica percebeu como suas palavras soaram abruptas e rudes. Ela queria tê-las formulado melhor. - Ta, posso pelo menos te pedir um favor? - Claro, disse Jessica, esperando que, o que quer que fosse, ela pudesse dizer sim e contornar a má impressão com Dawn. - É meio que um favorzão. Dawn fez uma pausa e olhou nos olhos de Jessica. – Você iria nessa viagem da igreja ao México? Jessica riu alto. - México? Por que você quer que eu vá ao México? - São só quatro diazinhos, disse Dawn. – Eu vou esse ano, pra mim vai ser como um teste de resistência. Quero ver até onde eu aguento. - Acho isso ótimo, mas certamente você não vai precisar de mim pra descobrir isso. - Eu não tenho muitos amigos, disse Dawn, cuidadosamente. – Quer dizer, um monte de pessoas ficam querendo sair comigo, mas eles não me entendem. Olha, essa viagem é um grande desafio pra mim, eu gostaria muito que você estivesse lá. Jessica tentou entender o que Dawn estava dizendo, captar a mensagem por trás das palavras. Ela conhecia alguns desses sentimentos de insegurança, de crescer e tentar fazer suas decisões, quando se é a única criança em casa, vivendo com um pai ocupado demais para te enxergar, desejando todos os dias ter uma mãe com quem conversar. Sim, Jessica entendia o que Dawn estava sentindo. Mesmo assim, não era o bastante para convencer Jessica a ir ao México. - Dawn, eu aprecio que você tenha me pedido isso, mas não dá. - Por que não? Os líderes tem as despesas pagas. Não tem aula na sexta, e segunda-feira é feriado. Eu sei que você tem tempo. Jessica balançou as mãos. - Desculpa, eu não posso. Dawn deixou sair um ‘puff’ meio irritado. - Você pode pelo menos pensar nisso e orar? Jessica mordeu os lábios, e sentiu que sua cicatriz estava mais fina. FBTCB 78

Segredos – Robin Jones Gunn
- Vou pensar. Dawn ficou mais animada. - Obrigada. Ela é uma ótima menina. Eu odiaria que ela desperdiçasse sua vida. Dawn mudou de assunto, contou a Jessica como os meninos da escola venceram o jogo de futebol americano na noite anterior. Um tempo depois, Jessica perguntou uma coisa a Dawn que não conseguiria perguntar a mais ninguém naquela cidade. - Eu vi uma lápide ontem de onde eu estava sentada. O nome era Lindsey Atkins. Você a conheceu? - Lindsey? Era a neta de Thelma. Veio de Spokane para cuidar de Thelma quando ela teve câncer. Só que ficou aqui só por uns cinco meses, pegou uma pneumonia ou sei lá o que, e morreu. Foi um choque pra todo mundo. Jessica acenou, esperando que Dawn continuasse. - Ela era linda. Ruiva, pele bem clara. Tinha uma voz linda. Eles faziam uns jantares para o hospital, uma vez meu pai me levou. Depois do jantar, Lindsay cantou todas aquelas músicas irlandesas. Eu estava na sétima série, mas me lembro muito bem. - Parece que ela era uma pessoa maravilhosa, disse Jessica. – Que triste ter morrido aos vinte anos de idade. - Acho que a parte mais triste da história é que ela e Kyle tinham acabado de ficar noivos. Conhece Kyle Buchanan? Ele é bombeiro. Jessica tentou manter sua expressão equilibrada. - Sim, eu o conheci. - Eles estavam completamente apaixonados, é o que todo mundo diz. Quando ela morreu, Kyle tirou uma licença no emprego e se mudou pra casa e Thelma. Ele cuidou dela até o dia em que ela morreu, como se fosse a sua avó. - Puxa, foi tudo o que Jessica disse. Que homem... cuidando de uma mulher idosa em estado terminal. Ele devia amar muito essa Lindsey. - Meu pai disse que isso tudo fez Kyle enlouquecer, alguma coisa assim. - O que ele quis dizer com isso?, perguntou Jessica. - Sei lá. Acho que Kyle não saiu com mais ninguém depois que Lindsey morreu. Depois que Dawn foi embora Jessica pensou em quanto tempo se passou sem que ela tivesse sentido o luto por sua mãe. Talvez Dr. Laughlin a chamasse de louca também, mas pelo motivo oposto. Kyle lamentou por muito tempo, e ela tinha acabado de começar. FBTCB 79

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Naquela noite, ela se sentou sozinha novamente com o velho álbum de fotos e chorou sobre as fotos de sua mãe, mas não as lágrimas doloridas, fortes de semanas atrás. Dessa vez, suas lágrimas eram uma chuva calma que trazia limpeza e cura para seu coração. E aquilo foi o bastante para o seu fim de semana. Ela pensava constantemente em Kyle e assistia o jornal das seis e das onze para saber as novidades do incêndio. Ele estaria seguro? O fogo seria contido logo? O jornal de domingo à noite disse que mais oitenta hectares haviam sido destruídos pelo fogo. Vinte por cento do incêndio estava controlado, nenhuma casa fora atingida. Quanto tempo Kyle permaneceria lá? Ela pensou em seu cabelo escuro e o jeito que ele se ondulava na parte de cima. Pensou no toque de sua mão firme em seu lábio na ambulância, e no cheiro de canela. Assim passou o fim de semana, pensando em Kyle e em comida na maior parte do tempo. Na segunda-feira, ela decidiu pedir aos alunos uma redação. Ela estava com muita fome para se concentrar na aula. - Muito bem, destaquem uma folha de papel, instruiu Jessica – e escrevam uma redação descritiva, sobre uma pessoa que vocês conhecem bem. Usem os cinco sentidos em suas descrições. Mínimo de três parágrafos. Jessica sentou, seu estômago roncou alto. Ela esperou que ninguém tivesse ouvido. Pensou que depois da aula poderia ir à sala dos professores para pegar alguns donuts, café, qualquer coisa. Porém tudo o que encontrou foram barrinhas de arroz. Como ninguém estava vendo, Jessica comeu o pacote inteiro. Ela disse a si mesma que no dia seguinte ela receberia seu pagamento e a primeira coisa que faria seria comprar uma caixa e DoveBar e algumas guloseimas para compensar a carestia das últimas semanas. Na terça feira, o cheque não estava em sua caixa. Depois das aulas, ela foi novamente à diretoria. Ela tinha colocado sua tia Bonnie como parente mais próxima. Tia Bonnie e tio João moravam na Pensilvânia. Ela tinha pouco contato com eles, mas mesmo assim, era o melhor que ela podia fazer. - Procurando alguma coisa? Charlotte perguntou assim que Jessica entrou na secretaria. Jessica não disse nada. Apensa devolveu o olhar que Charlotte deu a ela. - Aqui está, disse Charlotte, estendendo o envelope branco. – Antes de dar isto a você, disse Charlotte, recolhendo o envelope para perto de si – quero que saiba que estou de olho em você, Morgan. O coração de Jessica congelou. Ela mecanicamente abafou suas emoções. - Não sei qual é o seu jogo, nem quem você é, muito menos o que faz aqui em Glenbrooke, mas estou na sua cola, e pretendo descobrir. Porque, você sabe, mulheres que se formam em

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Segredos – Robin Jones Gunn
Oxford não se tornam professoras de inglês de colégios em cidades pequenas a menos que estejam se escondendo de alguma coisa. Da lei, talvez? Jessica pegou o cheque da mão de Charlotte e pôs-se a andar. - Me aguarde. Vou descobrir do que você se esconde, gritou Charlotte atrás dela. Os passos longos de Jessica a levaram à porta, ela desceu as escadas, dois degraus em cada passo. Ouviu uma buzina. O carro de Teri estava estacionado na frente. - Entra aí, chamou Teri. Jessica estava muito esgotada para fazer qualquer outra coisa. Ela entrou no carro e bateu a porta. - Pegou o cheque? - Finalmente! Qual é o problema dessa mulher? - Ai, não deixa ela te irritar. Vamos ao banco. Onde você tem conta? - Ainda não tenho uma conta, disse Jessica. - Então já sei onde ir. Teri virou na esquina e se dirigiu ao centro da cidade. Ela ligou o radio e começou a cantar a música, preenchendo o ambiente. A disposição dela reverteu o efeito da raiva de Jessica. Quando elas chegaram ao banco, Jessica se sentia recuperada do encontro com Charlotte. - Preciso de dois documentos de identificação, disse a gerente do banco, enquanto digitava o formulário de Jessica. - Hm, temos um problema, disse Jessica. – Não tenho nenhum documento aqui. - Nem mesmo carteira de motorista? Pode ser de outro estado. - Não, nenhum documento aqui. A mulher parou de digitar. - Desculpe. Não posso continuar sem nenhum documento. Você que voltar amanhã com um documento seu pra terminar? - Pode ser. Disse Jessica. Ela não tinha pensado nisso. O que ela diria a Teri, que estava falando com alguém que ela conhecia? - Foi rápido, disse Teri. - Não pude abrir a conta. Preciso de uma carteira de motorista primeiro. O DMV15 é aqui perto?
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Correspondente ao DETRAN

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- Não é muito longe, mas eles vão fechar daqui a pouco. Teremos que voltar amanhã. Enquanto andavam em direção ao carro de Teri, o pânico tomava conta de Jessica. Como ela poderia esperar até amanhã pra comer alguma coisa? - Teri, aqui tem algum lugar onde eu posso trocar esse cheque? Sabe, aquelas lojas onde eles te dão o dinheiro sem pedir a identidade? - Eu sei o que você ta falando. Tinha um monte dessas lojas em Escondido. Glenbrooke é muito pequena pra essas coisas. Quer algum dinheiro emprestado enquanto não consegue o seu salário? Jessica hesitou. Seu orgulho falou mais alto. - Não, está tudo bem. Obrigada. - Pra onde vamos agora? Pro mercado, pra uma lanchonete, pra sua casa, qualquer lugar onde tenha comida!, pensou Jessica. Tudo o que disse foi: - Pra casa, eu acho. Ficou tudo em silêncio por um minuto, então Teri disse: - Quer saber de uma coisa? Mesmo que tudo tenha sido difícil desde que você chegou... o acidente, Charlotte, não ter um carro e tudo o mais... Eu sei que Deus está cuidando de você. E as coisas vão mudar. Jessica não podia ajudar, mas continuava descrente. - Às vezes é difícil confiar em Deus, não é? Perguntou Teri, cuidadosamente. - Digamos que eu acredito que Deus ajuda àqueles que se ajudam. - Acho que não é bem assim, disse Teri, virando a esquina da rua de Jessica. – Acho que quando entregamos a Deus, ele age de uma maneira incrível. - Maneira incrível? - Você sabe o que quero dizer. Ele age de forma sobrenatural para que o melhor aconteça. Jessica não tinha forças para argumentar contra a versão de Teri sobre o supernatural e sua opinião sobre o melhor de Deus. Elas estacionaram na frente da casa de Jessica e perceberam três sacolas em frente à porta. Jessica foi até lá e olhou o que havia dentro delas. Estavam cheias de comida. Pelo jeito, tinham acabado de entregar, porque o suco de laranja ainda estava gelado. O cartão dizia simplesmente “Bem-vinda a Glenbrooke”. - O que tem nas sacolas? Perguntou Teri.

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Segredos – Robin Jones Gunn
- Comida, disse Jessica, em um tom de não-me-importo. Por dentro, estava exultante. - Quem deixou elas aqui? - Não sei. Jessica mostrou a ela o cartão. Um sorriso surgiu na face de Teri, que disse: - Tá vendo? Essa é a maneira incrível de Deus. Você não podia ir ao mercado hoje, então Deus trouxe o mercado até você. Jessica destrancou a porta e carregou a primeira sacola. - Não posso dizer que entreguei alguma coisa a alguém, como você disse que seria o prérequisito. O orgulho de Jessica não admitia que ninguém controlasse sua vida. - Isso é o que eu chamaria de colchão da graça. Deus sabia que você precisava e providenciou isto antes que você tivesse a chance de pedir a Ele. Ele te amparou em seu colchão da graça antes de você cair. Teri carregou as outras duas sacolas para a cozinha e as colocou no balcão. – Preciso ir ao banheiro. Depois eu te ajudo a desempacotar essas coisas. Onde é o seu banheiro? - Subindo as escadas, disse Jessica. Assim que Teri saiu da sala, Jessica respirou fundo, tentando segurar as lágrimas de felicidade. Ela tirou um pacote de carne da sacola e pressionou o pacote vermelho com seus dedos. Sua boca se encheu de água. Ela nem se lembrava da última vez que comeu um bife. Deve ter sido aquele hambúrguer na Dairy Queen há três semanas, com Kyle. Depois veio um saco de cenouras, depois batatas, leite, ovos, manteiga, queijo, pão, frango, alface, sopa enlatada, vários temperos, suco, peras, maçãs, café, brócolis, e então, no fundo da última sacola, lá estava. Jessica não conseguia acreditar no que seus olhos viam, quando levantou uma caixa de DoveBars. Ela começou a chorar em silêncio, antes de guardar no congelador seu precioso presente. Quem saberia? Ela não tinha contado a ninguém seus sonhos com DoveBars. Quem poderia saber que, entre todas as coisas que poderiam ser compradas no mercado, esta era o seu desejo mais profundo. Quem saberia? Deus? Jessica apagou o pensamento no momento em que apareceu. Um Deus que lhe dá toda essa comida, incluindo uma caixa de DoveBars, destruiria sua imagem firme e estabelecida de um Deus estraga-prazeres. - Quanta coisa! Disse Teri, voltando à cozinha. Jessica piscou os olhos para afastar as lágrimas, discretamente colocando a caixa de sorvete no balcão com o resto da comida. - Onde você quer que eu guarde isso? Perguntou Teri – Na geladeira? Antes que Jessica pudesse impedi-la, Teri abriu a geladeira, ficando com a mesma expressão que Kyle fez.

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- Cara... disse Teri, rindo. – Você estava mesmo sem comida. Ela abriu a porta do freezer e teve a mesma reação surpresa. – Parece que essa comida chegou na hora certa! Teri começou a encher as gavetas da geladeira com as doações. Jessica abriu o armário com cuidado, começando a guardar as latas de sopa e os pacotes de macarrão nas prateleiras, esperando que Teri não percebesse que também estava vazio. Mas Teri viu. - Parece que você estava sem nada. A voz brincalhona de Teri agora estava séria. – Jé, quanto tempo você ficou sem comida? - Não muito, disse Jessica, nervosa. Deveria ela abaixar a guarda e ser honesta com Teri? Havia muito tempo desde que ela falara sinceramente o que estava sentindo e pensando com alguém. Todas as suas palavras estiveram guardadas. Teri parou de guardar a comida. Chegando perto de Jessica, ela perguntou: - Quanto tempo, Jessica? Ontem? Anteontem? Jessica não respondeu. - Pensei que fôssemos amigas, Jessica. Amigos confiam uns nos outros. Amigos podem falar quando passam por um momento difícil. Eu quero ser sua amiga. Pode, por favor, me deixar ser parte da sua vida? Você vai me dizer a verdade, Jessica? - A verdade é..., Jessica começou a falar bem devagar, ainda controlando as emoções – Eu fiquei sem comida, e estava esperando meu pagamento para poder fazer compras. É isso. Não gosto que você fale comigo como se eu fosse criança. Não gosto mesmo. - Não foi essa a minha intenção, disse Teri. – Desculpa se foi assim que você entendeu. Ela hesitou, então, aparentemente percebendo que Jessica não daria uma resposta melhor, Teri voltou a guardar os alimentos em silêncio. Logo que tudo ficou em seu lugar e as sacolas de papel foram dobradas, Teri disse: - Bem, acho que já vou. Te vejo amanhã. Ela caminhou até a porta, então parou. – Ah, se quiser uma carona até o DMV, não tem problema. Posso te levar logo depois da aula. - Beleza, disse Jessica. Até amanhã. Obrigada! Assim que Teri fechou a porta atrás de si, Jessica correu para o freezer, tirou a caixa de DoveBar, abriu, tirou um sorvete, tirou a embalagem e, lenta e solenemente, deu uma mordida. O sorvete e o chocolate derreteram em sua boca do jeitinho que ela pensou. Ela esperou muito por esse momento. Que delícia! Com uma certa dor, ela lamentou não ter um amigo para compartilhar esse momento de alegria. Mas esse era o preço a pagar para manter um segredo.

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CAPÍTULO ONZE
Durante mais de uma semana, Jessica comeu como uma rainha e se sentiu otimista. Ela tinha uma carteira de motorista do Oregon, uma conta no banco com dinheiro, relativamente poucos aborrecimentos com Charlotte e a consciência da crescente admiração de Dawn por ela. Jessica decidiu manter uma certa distância de Teri, sem desfazer a amizade. Ela gostava dos olá’s todos os dias e dos seus “serviços de táxi” prontos para Jessica sem traço de incômodo para Teri. Mas Teri apreciava ainda mais que Teri não trouxe à tona o assunto da comida ou a insinuação de que ela não confiava o suficiente em Teri pra contar o que estava acontecendo. A única coisa que Teri estava pegando no pé de Jessica era a babosa. Jessica confessou que tinha usado o gel só uma vez e não tinha certeza se tinha melhorado. Teri disse que ela deveria usar regularmente e passou a perguntar todo dia a Jessica se ela tinha passado o gel no lábio. Kyle esteve fora a semana toda, lutando contra o incêndio de Nevada. Todas as noites, quando Jessica estava sozinha, ela lutava contra o incêndio que Kyle provocara em seu coração. Desde que ela soube de Lindsey e de como Kyle cuidou de sua avó depois que ela morreu, Jessica sentiu uma grande compaixão por Kyle crescer dentro dela. De alguma forma, seu ato de misericórdia por aquela mulher suavizou a dor de Jessica pela perda de sua mãe de um jeito inexplicável. A cada dia, enquanto Jessica andava para a escola, descobriu que estava assombrada. Não pela memória de sua mãe ou pelas complicações que a levaram a Glenbrooke. Era o rosto de Kyle que ela via entre as nuvens. Era a sua voz profunda que ela ouvia no vento. Uma enorme tortura. Kyle ainda estava em Nevada no dia 28 de setembro, o dia da palestra de Charlotte. Um dos outros bombeiros, Bobbie, deu a palestra em seu lugar, Jessica percebeu que Charlotte não ficou no auditório depois que o apresentou. Charlotte estava muito atarefada ultimamente, o que significava que estava prestando menos atenção em Jessica, e parecia ter esquecido do seu voto de descobrir o passado misterioso de Jessica. Charlotte estava preocupada porque, num momento de fúria, despediu a Sra. Blair na segunda-feira e estava freneticamente tentando encontrar um substituto. Alguns professores diziam que, na verdade, a Sra. Blair foi quem pediu as contas. Claro que, como Glenbrooke era uma cidade pequena, estava muito difícil conseguir uma substituta com a fama que Charlotte conquistou na cidade. Na primeira segunda-feira de outubro, Jessica estava no meio da terceira aula, discutindo um dos ensaios de Thomas Carlyle, quando alguém passou pela porta da sala, que estava aberta. Ela podia jurar que tinha sido Kyle. Tentando se concentrar na turma, ela perguntou: - Alguém pode me dizer o que entendeu da primeira linha?

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Segredos – Robin Jones Gunn
Bill levantou a mão. Jessica gostava dele. Alto, magro, usava uns óculos redondinhos, e era muito esperto, sempre encontrava um jeito de fazer todo mundo rir. Parecia um garotinho da roça. Ela já o tinha visto com botas de cowboy mais de uma vez, e esperava vê-lo com um chapéu de cowboy um dia desses. Jessica olhava para a sua terceira turma todos os dias, na certeza de que Bill estaria lá para animar o pessoal. - Sim, Bill? - Significa que ainda não estamos prontos. Ele pressionou o dedo no topo de sua cabeça, como um cozinheiro espeta o bolo pra ver se está pronto. – Não. Ainda está muito mole. A turma riu. - Muito bem, disse Jessica – Mas e quanto à aparência exterior? Aqui diz: “A casa que está inconstruída16 não se parece com uma casa construída”. O que Carlyle quer dizer com não parecer? Bill levantou a mão de novo. - Porque uma construção parece uma construção, e uma casa parece uma casa. Construções são construções e casas são casas. Nunca assistiu a programação infantil, madame? - Como eu disse, isso foi escrito em 1837. Que expressão nós usamos hoje para inconstruída? - Toca pra cima! Se aventurou Bill. A classe riu. - Que tal “em construção”? perguntou Jessica. – Como são pessoas em construção? - Como eu disse, voluntariou-se Bill – Não estamos prontos ainda. Entendendo que não sairia melhor daí, ela os mandou ler o resto do ensaio na sala e responder as questões que ela tinha entregado. A turma ficou relativamente silenciosa quando eles começaram a ler a tarefa. Pelo menos pareciam estar fazendo a tarefa. Jessica usou a desculpa de ir até a prateleira só pra ficar perto da porta que estava aberta. Para o caso de Kyle – se é que foi ele quem passou antes – passar novamente por ali. - Usem bem o seu tempo, pessoal, disse Jessica. – Vou cobrar essa tarefa amanhã. Ouviram-se alguns lamentos abafados na sala. Jessica olhou o relógio. Mais cinco minutos pra terminar a aula, e então ela teria um intervalo. Ela tinha que dar uma volta pra ver se Kyle estava no colégio. Se ela o visse, não saberia como reagiria. Uma coisa a intrigava. Não saber como ele estava depois de Nevada. Mas se ele estava aqui, ele estava por conta própria ou porque Charlotte o chamou? O sino tocou. Os estudantes saltaram das cadeiras, os corredores se encheram de adolescentes estabanados. Jessica ficou na porta, sorrindo para os estudantes que passavam
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Em inglês, a expressão “em construção” já foi “a-building”, hoje é “under construction”. Tive que criar o neologismo para fazer sentido.

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por ela. Ela gostava dos seus alunos. Eles eram incrivelmente uma revigorante fonte de energia e coragem para ela. O último a sair foi Bill. Ele tinha desenhado uma placa num pedaço de papel que colou com fita crepe na nuca. Ele passou por ela como se não se importasse se ela leria a ‘placa’ ou não, mas é claro que ela leu. Dizia: “Desculpe, ainda em construção”. A parte do “em construção” estava destacada, embaixo ele tinha escrito “inconstruído”. Jessica riu, assim como os outros três alunos perto de Bill. - Que bom que aprendeu alguma coisa hoje, Bill. Bill olhou por cima de Jessica e sorriu. - Ei, Kyle! Quando você voltou? Jessica prendeu a respiração, virando-se lentamente. Sim, definitivamente era esta a face que a visitou em seus sonhos na útilma semana. Kyle estava de calça jeans e camisa jeans, com as mangas arregaçadas. - Ontem à noite, disse Kyle, respondendo a Bill, mas olhando para Jessica. Ela quis se jogar naqueles ombros fortes, ser envolvida por auqeles braços, pressionar o seu queixo em seu rosto, e sussurrar em seu ouvido que ela estava muito, muito feliz por ele estar de volta, são e salvo. - Oi, foi tudo o que ela disse. Ela podia sentir o cheiro de canela. - Teri me disse que você queria ir pro Mexico com a gente no fim de semana, disse Kyle. Jessica ficou muda. - Que ótimo! Disse Bill. – Você vai amar! O pessoal das vilas é ótimo. É a terceira vez que eu vou. Ei, Dawn sabe que você vai? Bill olhou a sua volta procurando Dawn, a placa ainda estava em sua nuca. - Eu... Jessica olhou nos olhos verdes de Kyle. Ele parecia cansado. – Eu não sei. De repente Dawn estava ao seu lado. - Você vai mesmo com a gente? - Bem... - Faz tempo que eu estou tentando convencê-la, Kyle, disse Dawn. Voltando-se para Jessica, disse com voz adocicada – Você tem que ir. Vai ser a minha primeira vez também. Se eu posso, você também pode. Com o canto dos olhos, Jessica viu Teri sair da sala, voltando rapidamente ao ver que Kyle estava falando com Jessica.

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Ela vai ver só! - Nossa última reunião é hoje à noite na igreja, disse Kyle, aparentemente consciente da dificuldade da situação – Sete horas. - Ela estará lá, disse Dawn. - Você é quem sabe, disse Kyle. – Tenho que ir. Posso te ligar depois pra gente ver o que faz com a banheira? Banheira? - Ah, claro! O vazamento da banheira. Claro. Quando quiser. Estarei em casa. Acho que o vazamento também não vai a lugar algum. Ela sorriu da sua tentativa de fazer uma piada. Kyle sorriu, disse tchau para Jessica e Dawn, e penetrou no tráfego de estudantes, sua cabeça e ombros ficavam acima da maioria dos alunos. Vários deles reconheceram Kyle e o cumprimentaram. O sino tocou, os alunos se dirigiam às salas. Menos Dawn. Ela continuou perto de Jessica, com os olhos fixos nela, implorando. - Ai, ta bom! Eu vou na reunião e daí eu decido. - Massa! - Massa? - É, massa! Te vejo hoje à noite. Jessica acenou, Dawn correu pelo pátio, atrasada para a próxima aula. Em passos determinados, Jessica marchou até a sala de Teri, e esperou enquanto ela escrevia sete verbos em espanhol no quadro. Teri viu Jessica e falou à turma para conjugar os verbos em uma folha avulsa sem conversas. Aí ela foi com Jessica para o pátio. - Paz? Foi tudo o que Teri disse. - Por que você fez isso? Perguntou Jessica. – Por que você disse que eu iria? - Porque ele perguntei se eu encontrei mais algum responsável. Aí eu disse que eu só tinha falado da viagem com você. O que é verdade. Nãos ei de mais ninguém que toparia uma viagem dessas. - E por que você acha que eu toparia? Jessica perguntou. Ela não estava brava com Teri, ela só não gostou de ser pressionada a ir nessa viagem. Ela se recusava a ser forçada a fazer qualqeur coisa. - Olha, disse Teri, eu sinto que Deus tem reservado alguma coisa pra você nessa viagem. Desculpe se eu ultrapassei os limites. - Você sente que Deus tem alguma coisa pra mim? É mais uma das suas incríveis coisas sobrenaturais? Porque não é assim que eu faço as minhas decisões. Não basta sentir alguma coisa. Eu não me baseio nos meus sentimentos, disse Jessica firmemente. FBTCB 88

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- Eu sei, disse Teri, solene. – É uma pena. As palavras de Teri foram como um tapa na cara de Jessica. Quem era Teri para avaliar a crença e o comportamento de Jessica e dizer se era aceitável ou não? As vozes dos alunos começaram a avançar. Teri olhou para a classe. - Tenho que ir. Podemos conversar depois da aula? No fim da aula, Dawn já tinha dito a vários colegas que Jessica estava pensando em ir ao México. Cada um deles foi à sua sala implorando para que ela fosse. Bill parou e disse a Jessica todas as razões pelas quais ele achava que ir ao México era uma boa idéia, e depois mostrou um abaixo-assinado com a assinatura de uma dúzia ou mais estudantes dizendo que queriam que ela fosse com eles. Era quase impossível dizer não a Bill. Jessica imaginou se as garotas já tinham descoberto isso. - Você não está brava? Perguntou Teri enquanto dirigia para a reunião. - Estou decidindo. - Se está brava comigo ou se vai ao México? - As duas coisas. A risada gostosa de Teri invadiu o ambiente. - Pode pensar em pelo menos um bom motivo pra ir? Jessica tinha um bom motivo. Kyle. Estva surpresa em admitir isso a si mesma. - Porque Dawn pediu, eu acho. - Chegamos, disse Teri. Ela estacionou o carro e desligou a ignição. – Fiqeu com esse pensamento, ta? Jessica se virou para abrir a porta do passageiro e levou um susto quando viu Bill com a cara grudada na janela do carro, imitando a boca de um peixe. Ela abriu a porta, e Bill saiu do caminho. - O que achou da minha imitação de peixe morto? - Muito realista, disse Jessica. - Obrigado, obrigado. Os três entraram pela porta dupla na lateral da igreja, caminhando em uma sala bem espaçosa. Teri os conduziu pelo salão para a única sala que estava com as luzes acesas. Uns doze adolescentes estavam na sala, envolvidos em suas conversas. Jessica observou a sala, reconhecendo três dos adolescentes. Kyle estava no canto, falando com um pai, e Dawn estava sentada sozinha no fundo da sala. No minuto em que Jessica entrou, Dawn se levantou com um sorriso e correu para cumprimentá-la. FBTCB 89

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- Estava preocupada pensando que tivesse mudado de ideia, disse Dawn, dizendo a Jessica para sentar-se com ela. – Eu já tinha resolvido que se você não aparecesse, eu ia sair e esquecer essa coisa toda de viagem. Elas se sentaram, e Jessica disse: - Dawn, você não deveria depender tanto de mim. Você precisa fazer suas próprias decisões. - Você não está entendendo, disse Dawn, suavemente. – Isso é o que eu sempre faço. Eu decido o que vou vestir, o que vou comer, onde eu vou depois da aula. Eu faço tudo sozinha. Eu não queria ir sozinha nessa viagem. Deu pra entender? Jessica entendia. Talvez mais do que gostaria. A força de sua empatia por Dawn a fazia vulnerável. Kyle terminou com o pai e chamou o grupo para começar a reunião. Ele viu Jessica, olhando para ela por um tempo bastante longo. Talvez mais do que necessário. Seu olhar a fez imaginar se ele pensou nela enquanto estava em Nevada. Será que ele tinha notado como ela tinha se produzido? Ela tinha mudado de roupa quatro vezes, depois sentou na cama e riu consigo mesma. Por que ela estava se esforçando tanto se, supostamente, ela não estava nem aí pro Kyle? Ela finalizou a luta vestindo calças jeans e uma camiseta preta decotada, com um cinto. Bem básica. E era assim que ela agiria com Kyle. Bem básica. Natural e despretensiosa. No decorrer da reunião, Jessica percebeu como Kyle se dava bem com os adolescentes. Talvez até melhor do que ela como professora deles. Ele não parecia dar nenhuma atenção especial a ela quando entregou a lista do que precisariam levar e a que horas o avião sairia de Portland. Um pensamento terrível tomou conta de Jessica. E se Kyle não quisesse que ela fosse? Na escola ele não falou nada, nem nas entrelinhas, do tipo “Espero que você vá” ou “Seria ótimo se você fosse”. Ele não fez nenhum comentário pessoal. Talvez eu tenha sonhado tanto com ele que acreditei que ele queria que eu estivesse por perto. E talvez eu tenha decidido que gostaria de estar perto dele, e então falei para mim mesma. Jessica pensou em como ela o tratou na última vez emq eu ele foi à sua casa, mandando que ele saísse de sua casa e de sua vida. O que mudou em seu coração e em sua mente desde então? Por que agora ela desejava esse relacionamento? E se for tarde demais? E se ele me excluiu aquela tarde? E se eu desperdicei minha única chance?

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CAPÍTULO DOZE
Os adolescentes da viagem se espremiam em um círculo no estacionamento da igreja na manhã de sexta-feira, de braços dados na manhã gelada. O sol estava quase nascendo. Jessica podia ver a sua respiração quando saltou do carro de Teri se juntando ao pessoal. - Que tal uma ajudinha pra subir a bagagem? Perguntou Kyle de trás da caminhonete branca. – Como uma brigada de bombeiros, ele sugeriu. O grupo se posicionou e passou as malas, um para o outro. Bill era o último da fila, entregando tudo pra Kyle. Cada mala vinha com um comentário. - Uau! Cuidado com a cabeça! Tem uma bala de canhão aqui dentro! Ao infinito e além! Jessica notou como a atitude de Bill rapidamente contagiou o restante da turma. Nas últimas malas, todo mundo tinha uma piadinha a fazer. Até Teri. Ela levantou uma mala gigante e disse: - Toma aí. Minha mala de cosméticos. Todo mundo sabia só de olhar para Teri que ela não usava nada de maquiagem. Ajudou muito o clima descontraído, leve, porque o céu certamente não estava, nem as emoções de Jessica. Na noite anterior, ela quase ligou para Kyle e Teri para dizer que mudara de idéia. O único problema é que ela não saberia o que dizer a Dawn. Não se sabe se motivada por culpa ou por loucura, mas Jessica estava lá, indo passar quatro dias no México. - Ei, molecada, chamou Kyle depois de colocar a última mala na caminhonete. – Vamos orar, e depois pegar a estrada, se é que queremos pegar o vôo das 9:30 em Portland. Jessica gostava do jeito como Kyle lidava com os meninos. Ela gostava também da aparência dele. Um bocadinho sonolento. Seu cabelo estava um bocadinho bagunçado. Seu sorriso um bocadinho torto. Ela sabia que ele devia estar cansado, depois de voltar de uma luta intensa contra um incêndio, depois ter mais uns poucos dias para arrumar tudo pra essa viagem. O grupo formou um círculo meio oval, e Kyle orou. O jeito de Kyle parecia muito com o de Teri orar, como se estivessem falando com uma pessoa de verdade, alguém próximo, não distante como o Deus com que Jessica se acostumou. - Amém, amém, os adolescentes disseram em coro quando Kyle acabou. Parecia um aperto de mão secreto, algo que eles faziam automaticamente. Dawn era a única que parecia meio alheia ao grupo. Todos eles entraram na van, dirigida por um dos pais. Jessica sentou no banco da frente, Dawn sentou-se ao lado dela. Kyle veio até a van, olhando pela janela da frente, fixando o olhar em Jessica. Ela imaginou se ele a trataria diferente do resto do pessoal. Ele ligou pra ela dois dias antes pra se desculpar por não poder consertar a banheira antes da viagem. Jessica disse que não tinha problema e a conversa ficou por aí. FBTCB 91

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- Alguém quer ir comigo? Perguntou Kyle, olhando para Jessica. - Eu vou! Gritou uma menina do fundo da van. Ela rapidamente saiu do seu lugar e foi sentarse na caminhonete. - Tem lugar pra mais um? Perguntou Bill. - Claro, disse Kyle, ainda olhando para Jessica. - Então eu vou com você, se voluntariou Bill. Ele ainda estava do lado de fora da van, filmando o pessoal que estava entrando. – Aqui é Bill, o Selvagem. Até a próxima tomada. Ele desligou a câmera e correu pra se sentar ao lado daquela bela garota no banco da frente da caminhonete de Kyle. Jessica continuou olhando “indiferentemente” para Kyle enquanto ele corria para sua caminhonete. Ele estava de bermuda e camisa moletom cinza. Bonito. Como ela ia prestar atenção nas crianças durante o fim de semana com Kyle por perto o tmepo todo? Ela achava que não seria uma boa líder. A viagem até Portland demorou algumas horas. Jessica encostou na janela e tentou dormir. Era impossível. Os adolescentes lá atrás não paravam de conversar. Uma coisa que ela notou foi que esses meninos pareciam ter uns conceitos morais muito mais rígidos do que os outros. Isso era visível nas conversas deles e no jeito com tratavam uns aos outros. Teri disse a ela que eles mudaram a viagem para o feriado do Dia de Colombo porque na primeira vez eles foram no Dia de Ação de Graças e muitas famílias reclamaram por seus filhos estarem viajando num dia de celebração em família. Ela imaginou que Dawn não tinha esse problema. Pais solteiros, na experiência de Jessica, nãos e importavam muito com feriados em família. Os pensamentos de Jessica voaram para um Natal em especial, quando ela estava no colegial. Seu pai viajou por uma semana com sua última namorada, e deixou Jessica sozinha em casa. Desde então, o Natal e outros feriados significavam dor e solidão para Jessica. Ela queria uma vida onde pudesse participar das comemorações. Ela se imaginou morando no Oregon, arrumando uma mesa no Dia de Ação de Graças que pareceria uma pintura de Norman Rockwell, com um peru e todos os enfeites e uma dúzia de carinhas sorridentes ao redor da mesa. Agora que ela estava no Oregon, a pergunta era: Quem seriam essas carinhas sorridentes? Ela tinha se afastado de relacionamentos e mantido as pessoas a uma certa distância de segurança desde o dia em que chegou. Quem viria ao seu jantar de Ação de Graças? Talvez Teri? Dawn? Será que ela poderia convidar Kyle? A van parou em um semáforo. Jessica abriu os olhos e viu a placa que dizia “Bem-vindos a PDX”. Eles já estavam no aeroporto, e ela teve que admitir que ela mesma afastara todo mundo de si. Eu tenho que mudar. Tenho que encontrar um jeito de me abrir um pouco. Não posso viver assim pelo resto da minha vida. Eu só vou ficar mais e mais solitária, e não é isso que eu quero. Tenho que mudar! Mas como posso mudar se tenho que manter meu segredo? FBTCB 92

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Jessica fez um grande esforço pra se abrir no vôo até San Diego. Dawn sentou ao seu lado de novo. Jessica fez todo tipo de perguntas. Era um jeito de manter contato sem ter que revelar nada sobre si mesma. No meio da conversa, Dawn mencionou que era difícil pra ela ser cristã, e perguntou a Jessica se era assim pra ela. - Acho que não entendi sua pergunta, disse Jessica. - Eu me tornei cristã há quase um ano, mas é mais difícil do que eu imaginava, - O que você quer dizer com se tornar cristã? Como você se tornou cristã? Dawn olhou surpresa para Jessica. - Sabe, você entrega sua vida a Deus. Pede a ele para perdoar seus pecados, e entrega tudo a ele. Então, como se fosse uma pergunta de gincana, Dawn adicionou – É isso, não é? - Estou te perguntando em que você acredita, disse Jessica, devolvendo a responsabilidade para Dawn. - É nisso que eu acredito, disse Dawn firmemente. – Só que às vezes é difícil. Por isso que eu quis ir nessa viagem. Quero provar que estou com Deus e que sou cristã de verdade e tudo o mais. Um monte de gente na escola acha que eu sou uam dessas que vivem em festas, mas eu não sou assim. Eu acho sei o que é certo, mas já fiquei na beira do precipício muitas vezes. Jessica não sabia o que dizer. De certa forma, Dawn parecia ter suas crenças e objetivos mais claros do que ela. A parte de “se tornar cristã” a confundiu totalmente. Jessica se considerava cristã. Era algo que nasceu com ela, do mesmo jeito que algumas pessoas nascem judias ou italianas. Cristianismo era parte de sua cultura, de sua herança, não alguma coisa que ela decidia se tornar. Chegando a San Diego, a diversão começou. Kyle tinha alugado uma van para quinze pessoas e uma caminhãozinho pequeno, que já estavam no aeroporto esperando por eles. Toda a bagagem e mais algumas coisas extras foram no caminhão, e os adolescentes entraram na van. A bagagem lotou o caminhão. Bill se voluntariou a entrar lá e arrumar tudo até caber. - Bungee jump horizontal! Bill gritou e pulou na bagagem amontoada. - Cuidado! Gritou Teri. – As caixas de isopor estão aí embaixo. - Você só está preocupada com seus cremes, Srta Moreno., brincou Bill. – Ei, quem ta com a minha câmera? Essa é uma ótima cena! Um dos garotos tirou a pequena filmadora da mochila de Bill na van e começou a filmar os saltos nas malas. Jessica sentiu que esse negócio de filmar cada besteirinha seria a maneira deles de encher o saco na viagem. Joel, o menino segurando a câmera, virou as lentes para Jessica e disse: - Que tal, Srta Fenton? Está pronto para os mistérios e perigos que nos aguardam nas regiões mais remotas do Vale Mexicano? FBTCB 93

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Jessica virou-se para longe da câmera, olhando para a carinha sorridente de Teri. - Mexico? Jessica disse com horror. – Teri, pensei que você disse que estávamos indo a Maui! Todo mundo riu. Joel virou a câmera para Teri e disse: - Tem algum comentário a fazer, Srta Moreno, diante da acusação da Srta Fenton? - Mas é claro que tenho, disse Teri. Joel deu um close em seu rosto. Com um sorriso travesso, Teri começou a falar um monte de coisas em espanhol, finalizando com um ‘bueno?’. - Nem vem! Disse Bill. – Todos os comentários para a câmera devem ser ditos em inglês. - Ah, sem essa, disse Teri. – Vocês, como meus alunos, deveriam ter entendido tudo o que eu disse. - Oh, não, disse Bill. Joel virou a câmera para ele. – Senhora e senhores, disse Bill em voz de locutor – estamos entrando na Zona Bueno, onde estudantes de Espanhol II desavisados como eu de repente se vêem obrigados a entender frases inteiras em língua estrangeira. Um aviso às crianças aí no sofá, não tentem isso em casa! Kyle veio do outro lado da van e pegou as últimas linhas do monólogo de Bill. - E aí, molecada. Prontos pra por o pé na estrada? - Nós até iríamos, mas pode machucar nossas mãos de donzela, disse Bill. - Anda, entra logo na van, rapaz, disse Kyle. Ele mostrou um molho de chaves para Teri e disse – Vai encarar? - Claro! Jé, quer dividir o volante comigo? Ela na verdade queria dirigir com Kyle e os outros caras malucos na van. - Ta, Jessica se ouviu dizer. Ela percebeu que Kyle estava olhando para ela de novo. Parece que ele me persegue! O que ele quer? Mais um olhar desses e eu viro um marshmallow gigante! Todos em seus lugares, e a caravana começou a longa e quente jornada. Quando chegaram em Calexico, cidade na fronteira americana, Kyle parou em um Burger King enquanto ele e mais dois garotos iam a uma loja de peças. Eles compraram pedaços de madeira, tinta e acessórios para o projeto de construção. Levou mais uma hora dirigindo até chegar na vila. Jessica esperava pobreza por todos os lados e vilas sujas no momento em que cruzassem a fronteira do México, ela se impressionou com as indústrias e as lojas modernas em Mexicali, a cidade na fronteira mexicana. Os ônibus, entretanto, que dirigiam meio perto demais do caminhão, pareciam meio velhos. Um deles parecia que ia se despedaçar a qualquer minuto e a dúzia de passageiros dentro dele seria jogada pra longe.

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Quando finalmente chegaram na vila Nueva, o sol estava quase se pondo. Teri acenou e sorriu para as pessoas que saíram de suas casas de madeira ou barro. Todos eles acenaram para Teri e Jessica, e vindas de não sei onde, um monte de criancinhas veio correndo atrás da van. Como Kyle estava dirigindo bem devagar, alguns garotos se penduraram no pára-choque traseiro do carro, enquanto a van ia pela estradinha de terra até o centro da vila. - Você não vai mandar eles saírem dali? Perguntou Jessica a Teri. – É um perigo aquilo lá! - É o jeito deles de nos dar as boas-vindas, disse Teri – Acho que está tudo bem. Kyle sabe que eles estão lá atrás. Uma garotinha descalça, faltando dois dentes da frente, veio correndo para o caminhão e pegou no braço de Teri, que ela deixou pra fora da janela. - Ana Maria!, ela gritou, reconhecendo a menina – Como estás, mi chica? A garotinha segurou a mão de Teri e correu do lado do caminhão o caminho todo, toda feliz. A cena era tocante. Jessica agora entendia o que Teri disse, como essas crianças esperavam a chegada deles, assim como as crianças americanas esperam ansiosamente pelo Natal. Jessica tinha visto as caixas de roupas, brinquedos e Bíblias que a igreja tinha coletado e estava mandando Kyle e a turma. De certa forma, Jessica se sentia uma espécie de Papai Noel. Essas crianças tinham muito pouco. Eles pararam em frente a uma construção quase terminada e estacionaram a van e o caminhão. No minuto em que pararam os veículos, milhares de bracinhos sujos envolveram cada um dos americanos e um coral de crianças animadas preencheu o ar. Para sua surpresa, três menininhas se agarraram a Jessica abraçando-a e olhando-a com olhos castanhos brilhantes. Elas todas falavam rapidamente, parecia que perguntavam alguma coisa. Jessica só podia balançar os ombros e sorrir. - Teri, perguntou ela, o que elas estão falando? Teri estava segurando um bebê, uma mulher jovem estava orgulhosamente ao seu lado, e uma criancinha de uns oito anos estava agarrada à sua saia. Elas todas pareciam amar Teri. - Devem estar perguntando seu nome, disse Teri. – Pode falar em inglês. Jessica apontou para si mesma e disse: - Eu, Jessica. As três criancinhas tentaram pronunciar, mas parecia muito difícil. - Jessica, ela repetiu. – Não está ajudando. Elas não conseguem dizer Jessica. As meninas apontaram para si mesmas e disseram seus nomes. Jessica achou difícil de entender, e mais difícil ainda de repetir. Não parecia importar pra elas. Elas agarraram os braços de Jessica e a levaram até onde estavam suas mães, junto com várias outras pessoas da pequena cidade. FBTCB 95

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Era uma recepção comovente. O homem apertava a mão de Kyle e dos outros meninos, emocionado. A mulher levou suas mãos calejadas a Jessica, recebendo-a calorosamente. Uma velha senhora veio a Jessica, falando gentilmente, ela pediu para que Jessica se abaixasse para que ela pudesse lhe dar um beijo no rosto. Ela tinha lágrimas nos olhos. Jessica queria entender o que a mulher dizia, ainda que em seu coração a mensagem fosse tão clara. Essas pessoas estavam emocionadas em ver Kyle e o pessoal. Jessica se sentiu honrada por ser um deles. - Muito bem, disse Kyle ao grupo depois de vinte minutes de abraços e apertos de mão. – Vamos armar as barracas antes que anoiteça. Bill, você e o Joel podem começar a esvaziar o caminhão? Kyle se distanciou do grupo de veio a Jessica. Ele tinha uma expressão um tanto peculiar. Era aquele garotinho tímido, com algumas rugas de preocupação. - Jessica, disse ele baixinho – Preciso falar com você um minuto. Em particular.

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CAPÍTULO TREZE
Jessica seguiu Kyle até a frente da van, longe de todo o pessoal. Ela não podia acreditar como seu coração estava disparado. Qual era o problema? Kyle parecia tão preocupado. Assim que se distanciaram de todos, Kyle manteve uma distancia respeitável de Jessica e ficou olhando para os seus próprios tênis. Depois de um momento, ele olhou nos olhos dela e disse: - Estou me sentindo mal por causa de uma coisa, e quero que fique tudo bem claro antes que comece a programação do fim de semana. Jessica estava nervosa. O que ele ia dizer? Que ele queria que ela não tivesse vindo? Que ela não fazia parte disso? Que ele estava ofendido pela forma com que ela o tratou ha algumas semanas? O quê? - Preciso ser honesto com você, disse Kyle. – Eu fico muito sem jeito perto de você. Isso me incomoda todo dia. Bem, na verdade, me incomoda há algumas semanas. Sei lá o que te deu aquele dia na sua casa... Kyle esperou por uma resposta, mas Jessica não disse nada. - Daí eu não entendi mais nada quando você decidiu vir, sabendo que eu estaria aqui. - Você acha que eu estou brincando com seus sentimentos? Perguntou Jessica, defensivamente, desejando em seguida não ter dito nada. Kyle colocou o indicador e o polegar em sua mandíbula, esfregando o maxilar, depois tocou os lábios com os dedos. Jessica já o tinha visto fazer esse gesto antes. Parecia ser o sinal de que ele estava pensando antes de falar. - Acho que você está escondendo alguma coisa, disse Kyle. – Não sei o que é, e imagino que não seja da minha conta. Mas olha, eu tenho um problema. Ele parou de novo. – O problema é eu descobri que estou intensamente atraído por você. Jessica sentiu sua garganta apertar. - Mas eu não sei nada sobre você. - Por que você está me dizendo isso? Novamente Jessica se ouviu falando sem pensar. - Porque nós estaremos muito próximos nos próximos dias, e como líder do grupo, eu preciso te perguntar algumas coisas. Eu devia ter perguntado antes da gente sair. Mas antes tarde do que nunca, eu acho. Jessica não se deixaria ficar vulnerável. Ela não se entregaria. - Preciso saber onde você está, espiritualmente. - Espiritualmente? Kyle fez que sim.

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- Essa é uma viagem missionária. Não é muito mais do que ajudar os pobres e necessitados enquanto falamos a eles sobre Jesus. Por isso estamos construindo essa igreja. Ele apontou para a construção inacabada em frente à van. Nós começamos ano passado, mas ficamos sem dinheiro e material. Essas pessoas esperaram um ano até voltarmos para terminar a igreja, para que então eles tivessem um lugar de adoração. Todos os adolescentes que vieram são crentes. Eles tem a Cristo como Salvador e aceitaram seguir a ele como Senhor de suas vidas. Kyle olhou para Jessica, estreitando as sobrancelhas. Ela supôs que ele esperava que ela preenchesse a pausa com suas convicções. - Eu não sei onde estou, se é o que você pergunta. Eu... ela parou, tomando cuidado com as palavras. – Não sei onde estou em muitas áreas da minha vida. Acho que poderia dizer que estou em uma jornada. A expressão de Kyle se atenuou, assim como suas palavras. Ele acenou. - É um bom lugar. Quero que saiba que estou em uma jornada também. A diferença deve ser que há oito anos eu me converti a Jesus Cristo. Eu entreguei minha vida a Ele, e agora minha jornada segue em direção a Ele. Jessica achou interessante que Kyle e Dawn usassem as mesmas palavras no mesmo dia sobre se entregar a Deus e se converter a Cristo. Ela não conhecera ninguém que usasse esses termos. O que eles queriam dizer? Em que eles eram diferentes dela? - Kyle! Um dos garotos chamou, - precisamos de uma lanterna aqui. Ta ficando muito escuro. Não dá mais pra enxergar as coisas. - Já vai, gritou Kyle. Voltando-se a Jessica, ele segurou seu braço, sua mão enorme fez sumir o cotovelo dela. – Quero dizer que estou aqui pra o que precisar, se você quiser. E quero que você fique aberta. Só isso. Fique aberta. Ele balançou seu braço e correu para ajudar os meninos. Aberta? Aberta pra quê? Aberta para um relacionamento? Ele não entendeu. Não é assim tão fácil. Jessica andou devagar para o grupo de garotas, desastradamente tentado montar suas barracas. A frase de Kyle veio à sua mente “Descobri que estou intensamente atraído por você” Por que ele me disse isso? - Pode ficar na nossa barraca, disse Dawn a Jessica. – Tem só Marjie e eu. Tem lugar sobrando. Jessica gostou de ver que durante a viagem de van Dawn se relacionou com uma das outras garotas. Jessica não estava certa se deveria ficar com elas ou deixar que desenvolvessem uma amizade sem interferir. Ela acabou na barraca de Teri, que tinha espaço suficiente para duas pessoas. Kyle emprestou um saco de dormir para Jessica, quando ela desenrolou, veio um cheiro de madeira queimada. Jessica abriu a mala e vasculhou as coisas em busca da solução de limpeza e do estojo das lentes de contato para poder retirá-las. FBTCB 98

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- Onde é o banheiro? Perguntou a Teri. Teri apontou a lanterna pela abertura da barraca. Estava bem escuro. A luz caía sobre uma cabana de madeira. - Ali. - Engraçadinha, disse Jessica. – Perguntei onde é o banheiro. Teri começou a rir. - É isso aí! Ela mirou a luz da lanterna na casinha, dando voltinhas em frente à porta com o flash de luz. – El Baño! Bem nessa hora, a porta abriu e Bill saiu de lá, tentando bloquear a luz na cara com o braço. - Ta bom, eu confesso! Seja lá o que for, eu confesso! - Desculpa, gritou Teri, abafando a risada. Jessica se aproximou, rindo atrás de Teri. - Pobre garoto! - O Bill agüenta. Ele é cabeça dura! - Ah, eu concordo com a parte do cabeça dura. - Ei, eu ouvi isso, disse Bill, agora a poucos metros da barraca delas. - Os meninos não podem vir perto da zona feminina! Gritou uma das meninas da barraca perto da de Teri, com a cabeça pra fora da abertura de sua barraca. E assim foi por mais uma meia hora, enquanto o grupo tentava se arrumar pra dormir. Era só nove e meia, mas Kyle avisou na reunião que o café da manhã seria servido às seis em ponto, e que todos deveriam estar prontos e vestidos para depois ajudar na construção. Teri ensinou a Jessica a arte de se lavar com lenços umedecidos e escovar os dentes com uma garrafa de bochecho ao invés de água. - Vou ajustar o alarme pra 5:15. Precisa de mais tempo? - Pra quê? perguntou Jessica. – A menos que tenha um chuveiro por aqui, por que não dormimos até 5:45? Quinze minutos pra mim serão mais que suficientes pra nos preparar para o café da manhã. - Você não entendeu. Nós vamos fazer o café da manhã. Você e eu, amora. Jessica se enfiou no saco de dormir e disse: - Pelo jeito eu devia ter feito umas perguntinhas antes de aceitar o passeio. O que mais você não me disse?

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- Nada más, disse Teri inocentemente em espanhol, - Nadinha. - Ta, certo, disse Jessica, já meio que dormindo. Ela tinha uma esteira debaixo do saco de dormir, que também era de Kyle, que a deixava mais confortável. Um cheiro de poeira estava impregnado no ar, da poeira fina que entrava pela abertura da barraca. Era uma noite quente. Seca, poeirenta e suja. Não muito longe, ouviram o rosnar de um cão, seguido por latidos ferozes. Teri saiu do saco de dormir. - Talvez seja melhor fechar o zíper. Prefiro ficar com calor do que virar o lanche da meia noite de algum cachorro bravo. Jessica repousava silenciosa, ouvindo os sons ao seu redor, um cachorro respondia aos latidos. Uma música dançante estava tocando no rádio de alguém, e as vozes de Kyle e mais alguns rapazes podiam ser ouvidas há alguns metros dali. Jessica tentou ouvir o que eles estavam falando. Ela só conseguia pegar umas palavras. A maioria delas de Bill. Era ele, sem sombra de dúvida, quem entretia seus colegas de barraca. Jessica dormiu mal aquela noite, mas Teri parecia não ter problemas para deitar e dormir em qualquer lugar. Enquanto Jessica ouvia a respiração de Teri, pensava nas coisas que conversavam enquanto dirigiam, vindo de San Diego. Teri apontou o desvio na estrada que dava em Escondido e falou como era crescer em uma família grande, com um pai que é pastor em uma igreja em espanhol. Teri tinha vindo ao México várias vezes. Ela disse que tinha ido a Nueva duas vezes antes e que o sonho de Kyle era construir um orfanato lá, que era uma das maiores vilas do vale. Havia muitas crianças abandonadas naquelas pobres vilas, elas poderiam ser levadas a um orfanato, se houvesse um. Cochilando e acordando durante a noite, os sonhos de Jessica tinham temas variados. Vez e outra ela ouvia de novo Kyle dizer “Descobri que estou intensamente atraído por você”. Depois ela sonhou com um orfanato cheio de crianças mexicanas sorridentes. Ela acordou e pensou em seu pai, aí dormiu de novo e sonhou que estava de volta À sala de aula. Charlotte Mendelson estava andando com um policial ao seu lado, aí apontou com sua unha postiça para Jessica. Acordando de repente, Jessica ouviu o silêncio, acalmando suas emoções, imaginando como seria falar com Deus íntima e abertamente como Teri fazia. Por que ela não poderia fazer isso? Justamente quando Jessica estava caindo em um sono profundo, o alarme de Teri tocou bem acima da sua cabeça, fazendo-a se levantar num susto. Teri acordou, desligou o alarme, ligou a lanterna e sentou no saco de dormir, lendo alguma coisa. - Que ta fazendo? Sussurrou Jessica. - Lendo a Bíblia, respondeu Teri. – Quer que eu leia em voz alta? - Não, tudo bem. Preciso ir àquela casinha adorável. Jessica vestiu calça jeans e tênis e abriu a barraca. Foi cumprimentada pela lente da câmera de Bill em sua cara. - Buenos dias, Senorita Fenton! Ele disse – Como estás? FBTCB 100

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- Você vai ver o como estás em um minuto, disse Teri, colocando a mão na frente da câmera. - Sem fotos, por favor, adicionou Teri, em sua melhor voz de estrela do cinema. - Ei, Bill, deixa a mulherada em paz, gritou Kyle de dentro da barraca. - Melhor deixar as belezas descansando, né? Disse Bill para sua câmera, com um sorriso de sono. - Por que não arruma o fogareiro e vê se acha uns ovos? Kyle saiu da barraca, perseguido por um galo. - Que massa! Um galo que canta em espanhol. Ele apoiou a câmera no ombro, se dirigindo à ave, disse: - Hola, Senor Galo. Quer aparecer no filme? Jessica foi rapidinho pra casinha e voltou pra barraca. Ela não acreditava em como estava cansada. Tudo o que queria era voltar pro saco e dormir umas boas horas. Mas ela não podia satisfazer seu desejo. Havia muito o que fazer. Ela fez o melhor que pode pra se limpar com uma toalha. Suas lentes foram um desafio, mas ela conseguiu colocá-las a tempo de juntar-se a Teri na cozinha do acampamento, onde Teri estava Teri estava preparando um monte de ovos mexidos no fogão. Algumas garotas acordaram, ajudando com os pratos de papel, os copos de plástico e os talheres. Era tudo novo pra Jessica. Ela nunca esteve em um acampamento desses antes e nunca tinha visto garotos dessa idade se divertirem tanto trabalhando. Foi o que Jessica viu durante todo o dia. Aqueles adolescentes estavam se divertindo. Era um trabalho pesado fazer o telhado e os acabamentos da igreja. Várias mulheres da vila se juntaram a eles pela manhã, junto com os homens que não trabalhavam aos sábados. Dúzias de crianças corriam em volta, junto com uns cachorros sarnentos, uns gatos magros e um par de galinhas. Jessica viu que o trabalho era cansativo. Ela nunca tinha feito nada assim e ficou surpresa ao perceber que estava gostando. As três menininhas que tinham se agarrado a ela na noite anterior a seguiram a manhã toda. O que Jessica fizesse, elas queria fazer também, inclusive pregar com martelo e pintar. Perto do meio-dia, quando estavam todos exaustos e suados, Teri começou a fazer os sanduíches. Alguns garotos acharam uma torneira, e tentaram com seu melhor espanhol perguntar a uma mulher mexicana se eles poderiam se lavar ali. Ela concordou, e em minutos começava uma guerra de água. Até Jessica levou um balde de água nas costas. Ela se virou, pingando. Kyle estava a poços metros com um balde vazio e um sorriso safado na cara. Jessica pensou por um momento o que as mulheres da vila pensariam se ela devolvesse. Teri a havia instruído a não escandalizar a cultura local, já que as mulheres de lá eram mais reservadas que as americanas. Olhando em volta rapidamente, ela percebeu que as mulheres e crianças estavam em casa para o almoço e talvez uma sesta. Os únicos que estavam assistindo eram os adolescentes da turma, e todos queriam ver o que Jessica ia fazer em troca.

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- Obrigada, ela disse a Kyle, sorrindo – Estava mesmo com calor. - Por nada, señorina, disse Kyle em espanhol – Fique à vontade, quando quiser. Ele foi se juntar aos rapazes, nas cadeiras de praia do outro lado do caminhão. Jessica voltou à barraca e pegou sua garrafinha de água, que veio grátis com uma bebida que ela comprou no dia anterior. Ela levou a garrafa pra cozinha do acampamento. Quando ninguém estava olhando, ela foi até a caixa de gelo e encheu a garrafa com água gelada. Depois foi se juntar ao pessoal que estava almoçando. Kyle estava de costas pra ela, mastigando uma super mordida do sanduíche de manteiga de amendoim com geléia. Ninguém viu Jessica se aproximar. Estavam todos entretidos com Bill, fazendo seu sanduíche com um fantoche enquanto Joel filmava. Jessica chegou atrás de Kyle, abriu a garrafa e derramou a água gelada nas costas dele. - Aaaaaaai! Kyle deu um pulo, virando-se para encarar seu oponente. Ele olhou, um tanto chocado, ao perceber que era Jessica. Ela sorriu e foi para a mesa fazer seu prato. - Consegui filmar o Kyle! Disse Joel triunfantemente – Caraca! Você é a primeira que consegue pegar ele. Ele sempre arma uma com a gente, mas não sei porque a gente nunca consegue dar o troco. - É porque eu durmo de olhos abertos, disse Kyle, dando uma piscadela, tremendo de frio, sentando-se em sua cadeira de praia de novo. – Sorte sua que eu não faço o tipo vingativo, Senorita Morgan! Morgan! Tudo pareceu parar para Jessica. Ela olhou para Kyle, procurando freneticamente. O que mais ele sabia sobre ela? - É Senorita Fenton, corrigiu Bill. - Ah, é mesmo. Senorita Fenton, disse Kyle. Seu olhar para Jessica era meio compassivo, meio ‘pode confiar em mim’. Mas será que ela deveria?

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CAPÍTULO CATORZE
Toda a tarde Jessica andava entre os adolescentes e um monte de crianças das vilas. Mentalmente ela visualizava todas as maneiras de Kyle saber seu sobrenome. Ele poderia ter olhado sua carteira quando ficou com a bolsa dela. Ida poderia tê-lo tido quando ele pegou as chaves da casa. Talvez ele tenha notado a etiqueta da bagagem no dia em que ela se mudou. Ou Charlotte pode ter tentado usar a informação para jogá-lo contra Jessica. De todas as opções, a mais confortante é aquela em que Ida conta a ele. Isso explicaria sua reação aquela tarde em que ele disse que os segredos se tornam piores com o tempo. Jessica tentava decidir se ele saber o seu sobrenome mudaria alguma coisa. Isso significaria que ela deveria baixar a guardar e dizer a Kyle do que ela estava correndo? Não, isso está fora de questão. Isso significa apenas que ele tem mais informação do que ela gostaria que tivesse. Mas isso não muda nada. Ao menos nenhum dos alunos pareceu pensar que isso fosse alguma mais que uma confusão. Quer dizer, nenhum exceto Dawn. Quase no fim da tarde ela ajudou Jessica a lavar os pincéis. Dawn estava com o cabelo e o macacão manchados, até as sobrancelhas estavam meio pintadas. Mas Jessica viu o quanto ela se divertiu com cada pincelada. - Por que Kyle te chamou de Señorita Morgan? Perguntou Dawn, olhando para os pinceis no balde de água já branca. - Vai saber... disse Jessica. – Quer me ajudar com o jantar? Teri foi visitar uma mulher no fim da rua, posso precisar de uma mãozinha. - Ta, disse Dawn. Jessica deu uma olhada de rabo de olho para Dawn. Era sua imaginação ou Dawn estava olhando pra ela de um jeito diferente? Estou ficando paranóica! Jessica sorriu para Dawn. - Vamos começar logo. Teri me disse que não sabe quando volta. Jessica e Dawn se lavaram em um balde de água limpa e acharam as coisas do jantar em cima da mesa. Macarrão. Bem fácil. Elas encheram uma panela grande com água e jogaram o macarrão. Dawn abriu o pote gigante de sal, e Jessica encontrou dois pães de alho. Elas teriam que procurar nas coisas de Kyle outra panela para fazer o molho. - Tenho que te contar uma coisa, disse Jessica a Dawn, no meio do caminho – Eu não sou muito boa na cozinha. Minha especialidade é comidé congeladé ao microondas. Ela espantou algumas moscas, notando que o clima estava melhorando. Dawn riu. FBTCB 103

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- Eu também só sei fazer isso. Às vezes eu faço ovos cozidos. Ah, eu já fiz biscoitos de chocolate um bocado de vezes. É engraçado porque você tinha que ver a cozinha lá em casa. É cheia de apetrechos tipo um fazedor de macarrão e um super processador. E a gente nunca usa essas coisas. Meu pai e eu compramos comida congelada ou vamos comer fora. - Meio irônico, né? Disse Jessica. - Acho que a pior parte é que eu me lembro de quando eu ia jantar na casa da minha avó, quando era pequenininha. Ela tinha uma cozinha simples, sem lavadora de pratos ou triturador de lixo, acho que tinha só umas três panelas e uma frigideira. A comida era ótima. Ela era uma excelente cozinheira. E nunca teve um microondas ou processador. Jessica riu e continuou à caça, até encontrar uma colher de pau para mexer o molho. - Também não posso dizer que já fiz comida pra quinze pessoas. - Dezesseis, corrigiu Dawn, espantando os mosquitos. Quinze pessoas vinham, com você dezesseis. To tão feliz que você ta aqui. - Acho que eu também. Aqui é tudo tão diferente, né? As pessoas, o modo de vida. Faz as pessoas refletirem. Jessica percebeu alguma coisa atrás de si. Era a câmera de Bill. - E aqui, pessoal, temos uma de nossas famosas refeições misteriosas, disse Bill, bisbilhotando a panela de molho vermelho borbulhante. - É só macarrão, disse Dawn. - Isso é o que dizem! A pergunta é: o que tem nesse molho? - Barriga de lagartixa, tripa de esquilo e cérebros de abelha podres, disse Kyle, se intrometendo na conversa. - Olha que você errou por pouco, disse Jessica, espantando outro mosquito. Ela balançava a cabeça, tentando se livrar do mosquito que achava que a orelha de Jessica estava no cardápio. – De onde vêm todos esses bichinhos? - Eles dormem no calor do dia e aparecem quando o tempo esfria, disse Kyle. - Ótimo! Disse Dawn. – O que você prefere: calor ou mosquitos? - Sim, senhoras e senhores, esse é o dilema desta noite. O que você prefere? Calor ou mosquitos? Ligue agora. Nossos operadores estão esperando para gravar sua resposta. Bill continuou falando sozinho, andando em direção às barracas das meninas, com um olho fechado e o outro no visor da câmera. - Será que ninguém mais se preocupa com esse garoto? Perguntou Jessica. - Ele é uma figura, disse Kyle. – Acho que quando crescer vai virar um tipo de apresentador de reality show. Kyle se aproximou por trás de Jessica, olhando sobre seu ombro para a panela de molho – Como vai o jantar?

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Jessica pensou em como ela e Kyle, mesmo em meio à sujeira e à bagunça do local, podiam fingir que estavam em sua aconchegante cozinha. Ela poderia levantar a colher de pau para ele provar o molho vermelho, com a outra mão embaixo para aparar o molho que escorresse. Ou poderia dizer: - Vá tomar um banho, querido. Acenderei as velas, você pode pegar o champanhe. Essas cenas foram tiradas de um dos filmes em preto-e-branco que ela assistiu em casa. Cenas – fortes cenas – do que ela imaginava que uma família deveria ser. Jessica não se mexeu. Ela sabia que, se ela se virasse, estaria a poucos centímetros do rosto de Kyle. - Estamos dando conta, disse ela, sem graça, e então, quando Kyle se afastou, ela respirou fundo. Ela queria continuar com aquele cheiro de Kyle. Cheiro de terra, suor, e tinta lavada com sabão em barra. A fragrância parecia leve, mas depois se percebia o cheiro forte que só se consegue com trabalho duro. Ela conheceu poucos homens que tinham esse cheiro. - Caramba! Gritou Dawn. A panela de macarrão estava transbordando suas bolhas brancas, molhando o chão perto da panela. – Como se desliga essa coisa? Jessica testou todos os botões do latão até os queimadores apagarem com um ‘puff’. - Eu diria que o jantar está servido. Venham se servir, pessoal! - Ou deveríamos dizer venham se desapontar. Bill chegou com a câmera no ombro e a turma atrás dele. – Nossas cozinheiras de hoje não demonstraram muita habilidade com comida, pessoa. Comam por sua conta em risco. Naqueal noite, quando todos estavam em suas barracas, Jessica saiu, sentando-se sozinha na caixa térmica. Ela olhou para o céu, cheio de belas estrelas, e pensou no que ela desejava. Ela queria alguma coisa. Ela podia sentir no seu interior. Não alguma coisa. Alguém. Quero Kyle. Mas ela tinha Kyle. Ou talvez com algum esforço poderia tê-lo. Ele deixou claro que estava interessado nela. Mas não era isso. A questão era mais delicada. Ela já sentira essa dor várias vezes. No passado, ela costumava chamar isso de solidão. Ultimamente, ela pensou que a dor era meio pelo luto por sua mãe. Essa noite parecia diferente. Olhando as experiências vividas nos últimos dias, ela desejou tê-las vivido mais intensamente. Alguma coisa não estava certa em sua vida. Alguma coisa lhe havia sido tirada. E ela queria de volta. Na área das barracas, um zíper se abriu. Nas sombras, Jessica pode ver a silhueta de Teri saindo da barraca. Ela se aproximou de Jessica iluminando o caminho com a lanterna. - Aí está você, disse Teri, iluminando Jessica. – Está tudo bem? - Estou bem. Só... pensando. Teri olhou para o céu. FBTCB 105

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- Uau! Olhe só essas estrelas. Sabia que uma dessas estrelas é minha? - Ah, você entrou naquela promoção de ciências da escola que você paga pra ter o seu nome na próxima estrela que descobrirem? - Não, disse Teri. – Estou falando da promessa de Deus a Abraão, o patriarca hebreu. - Certo, disse Jessica, não tendo idéia de onde Teri queria chegar com isso. – Eu sei quem foi Abraão. - Deus prometeu a Abraão que seus descendentes seriam tantos quanto as estrelas do céu e os grãos de areia. - Tá me dizendo que você é, na verdade, de uma família judaica? - Não, não nesse sentido. Estou dizendo que sou crente, seguidora de Cristo. Sou uma entre aqueles que receberão a bênção de Deus, a herança prometida a Abraão. Só que recebo por adoção. Não sou uma escrava da lei, mas uma filha. Filha do Rei do universo. Jessica estreitou os olhos na escuridão, tentando ver o rosto de Teri. - Teresa Moreno, eu não estou entendendo nada do que você está falando. Será que estamos na mesma conversa? - Desculpa, disse Teri. – Coisas de filha de pastor. Cresci sabendo a linguagem bíblica, pra mim é natural. O que estou tentando dizer é que eu sei que tenho a vida eterna. Só. Jessica riu. - Só? É uma declaração um tanto arrogante. Conheci pessoas com três vezes a sua idade que procuraram isso a vida toda e não puderam declarar isso. - Vai ver eles não conheceram a Jesus, disse Teri. – Ele é o único caminho. Eles simplesmente não foram restaurados – limpos de todo o pecado e trazidos de volta a um bom relacionamento com Deus. - Ah, ta bem, acho que todos precisamos ter um bom relacionamento com Deus, disse Jessica, tentando sair bem na conversa. – E acho que o que nós precisamos agora é de algumas horas de sono. Jessica se levantou e começou a andar em direção à barraca. - Posso te dizer uma coisa? Perguntou Teri, correndo para alcançar os passos longos de Jessica. - Não sei, disse Jessica, armando suas defesas. – Pode? - Eu não sou muito boa em dizer isso da maneira certa, começou Teri. Agora elas estavam em frente à barraca, pararam antes de entrar. Teri falava suavemente, Jessica se perguntava se as outras pessoas, especialmente Kyle, estavam ouvindo a conversa. – O que eu quero dizer é que talvez seja hora de parar de fugir, Jessica. Quero que você conheça a Deus. - Bem, você já disse, disse Jessica, tirando os tênis. Ela deixou os sapatos sujos do lado de fora. Abriu o zíper e entrou seguida por Teri. FBTCB 106

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- Não direi mais nada sobre esse assunto, disse Teri, dentro do saco de dormir, desligando a lanterna. – Me preocupo muito com você, Jé. Não quero que vá para o inferno. A noite estava silenciosa, exceto pelo latido de um cachorro distante. Teri deixou escapar um suspiro profundo. - Não foi como eu gostaria. Nunca fui boa em testemunhar. - Acho que a gente tem que dormir, disse Jessica. O silêncio circulou entre elas. - Desculpe, sussurrou Teri. – Não quis soar tão dura. Por favor, tente ouvir meu coração, não minhas palavras sem jeito. - Não se preocupe, disse Jessica. - Boa noite, disse Teri. - Boa noite, disse Jessica, cochilando enquanto falava. Ela dormiu até que um esquilo resolveu usar a sua barraca para anunciar que o dia começara. - Sai daqui! disse Jessica, batendo o travesseiro na barraca. – Que horas são? Teri estava com o relógio perto e disse: - 5:27. Gallo estúpido! Disse para o roedor. Jessica virou de lado e murmurou: - Estou toda dura. Acho que não consigo me mexer. Por que meus braços estão doendo tanto? - De ficar pintando. To com uma dor no pescoço, disse Teri. Talvez melhore se a gente levantar e se espreguiçar. Jessica não se sentiu melhor. Também não estava melhor depois de comer. Quando o grupo sentou em círculo em suas cadeiras de praia, Jessica se espalhou na cadeira baixa, usando a camisa de trabalhar como se fosse um cobertor. O céu estava nublado, grande contraste com o calor dos últimos dias. Parecia chuva. - Precisamos começar logo com o trabalho, disse Kyle, olhando para o céu escurecido. Meu palpite é que o telhado vai levar mais umas duas horas e nós queremos sair antes dessas nuvens descarregarem. Lembram do primeiro ano quando choveu dois dias antes da gente sair? - Lembro, disse Bill. – As estradas viraram pura lama. - Daria um bom filme, disse Joel, jogando o prato de papel no lixo. Algumas abelhas voavam pero da sacola aberta. – Por falar nisso, cadê sua câmera?

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- É bom que esteja na barraca, disse Bill. – Não que eu não confie nas pessoas dessa cidade de porquinhos, mas.. é não confio. Ele se levantou e foi até a barraca. Um momento depois surgiu segurando vitoriosamente a câmera de vídeo. - Que ótimo, disse Brenda, uma das garotas – Mais um dia com o fantástico Bill e seu set imaginário. – Acha que um dia aquele cara vai cair na real? - Espero que não, disse Teri. – Ele é muito engraçado do jeito que é. - Sim, claro, tenta sair com ele, disse Brenda, em segredo. – É muito engraçado na primeira hora. Depois, quando você quer ficar mais séria, ele continua. Ela tinha cabelo escuro curto. Suas sobrancelhas protegiam olhos verdes debaixo de cílios que nunca precisariam de uma camada de rímel. - O Bill pode ser sério, disse Teri. - Eu nunca vi. - Acho que o que você quer é que ele te leve mais a sério, certo? - É tão óbvio? Perguntou Brenda. - Não para as pessoas normais, disse Teri, com um sorriso reconfortante. – Mas sabe, eu não sou normal. Tenho o dom de perceber essas coisas a quilômetros de distância. Vem me ajudar a limpar a bagunça do café da manhã. Jessica podia ouvir Teri avisando a Brenda sobre os garotos enquanto entrava na área da cozinha. Quando Teri tinha algo a dizer, ela dizia mesmo. O resto do pessoal tinha jogado seus pratos e estava se encaminhando para terminar o trabalho da igreja. Jessica ainda não se sentia bem. Tudo o que ela queria era um banho quente. Um chuveiro quente, pra ser mais precisa. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo, para ficar afastado do rosto. Dawn se ofereceu pra pentear o cabelo dela enquanto ela comia, mas ela não estava a fim de que ficassem pegando nela. Nem no seu cabelo. Ela percebeu que era a única na “sala de jantar”, e estava quase saindo daquela posição quando sentiu duas mãos firmes sobre seus ombros. - Ta mal? Perguntou Kyle. - Bastante, respondeu Jessica, deixando-se relaxar enquanto Kyle massageava seus ombros. Ela começou a sentir as mãos com a melhora na circulação, e a dor de cabeça começou a acalmar. De repente Kyle parou e tirou as mãos dela. - Buenos dias, Hermano Cristobal, cumprimentou Kyle, um homem vestido com camisa branca e calça escura, se aproximando deles. Jessica permaneceu sentada enquanto os homens se cumprimentavam e falavam em espanhol. Quando terminaram, o homem acenou para Jessica, sem estabelecer contato visual. Era um jeito educado de notar a presença do outro. Kyle cumprimentou Cristobal de novo, e ele foi embora. Voltando para Jessica, Kyle estralou o pescoço, dizendo: FBTCB 108

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- Que chato. - O quê? Ele veio pedir alguma coisa? - Não. Eu quis dizer que ele ter-me visto tocar em você foi chato. Não é aceitável na cultura deles, especialmente entre cristãos, um homem tocar uma mulher assim. - Assim como? Você só estava massageando meus ombros. Aliás, estava ótimo. Não tem pecado nisso, certo? - Não pra nós. A cultura deles é diferente. Kyle parecia envergonhado. - Cristobal vai pregar na igreja hoje à noite. Não gostaria de ofendê-lo jamais. Jessica pensou que Kyle era muito íntegro para ficar constrangido a ofender o homem. E ela entendeu a importância de honrar às outras culturas. - Não se preocupe, disse ela. – Eu gostei da massagem. Se você soubesse o quanto eu estava precisando, perceberia que eu conseguir levantar dessa cadeira será mais importante do que o que o homem está pensando. - Ta mal mesmo, hein? - É tudo novidade pra mim. Nunca acampei antes. Mesmo. Não desse jeito. - Puxa, estou impressionado, disse Kyle. Com todas as suas experiências em acampamentos, ele era um especialista em dormir fora de casa. Seus olhos se encontraram. Jessica podia sentir seu coração ser atraído do seu isolamento gelado para o calor daquele olhar. Movida pela emoção, ela deu um passo em direção a Kyle. Ele parecia estar pronto, esperando que ela fizesse o próximo movimento. De repente, algo dentro dela voltou a ser gelado, e ela voltou às paredes de cimento da sua alma solitária. - Acho melhor ir trabalhar no telhado, disse Jessica. As palavras caíam como peças de dominó. – Ainda mais se você estiver certo sobre a chuva. Vou achar umas aspirinas e vou pra lá. Ela andou para a barraca. Atrás de si, podia sentir o olhar de Kyle. Ele não se movera. Mais uma vez, Jessica percebeu que era a única que estava fugindo.

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CAPÍTULO QUINZE
- O que acha? Perguntou Bill, quando Jessica parou em frente à igreja, olhando o telhado onde mais ou menos dez alunos estavam ocupados em suas tarefas. - O que eu acho da igreja? Ta ficando muito bom. - Eu acho, começou Bill, mas aí parou e pegou a câmera, entregou a Jessica e disse – Filma isso. ‘Vai ser’ profundo. Jessica ajustou a lente em sue olho e apertou o ‘on’. - Eu acho, disse Bill, estendendo sua mão em direção à igreja – que uma casa que está inconstruída não se parece com uma casa em construção. Jessica abaixou a câmera e deu um sorriso bem grande. - Então você aprendeu alguma coisa na minha aula! Bill parecia estar orgulhoso de si mesmo. - Espere pra ver esse lugar hoje à noite. Vai parecer outra coisa quando estiver cheio de gente. A previsão de Bill foi certeira. Parecia completamente diferente, tudo bem – porque estava chovendo. Choveu sem parar desde as duas da tarde. Eles planejaram terminar o telhado e almoçar antes de chover. Kyle falou com Cristobal e eles decidiram fazer o culto de dedicação às cinco ao invés de sete horas, se a chuva não diminuísse. Então Kyle decidiu que eles deveriam empacotar as coisas naquela tarde ao invés de passar mais uma noite nas barracas. Eles iriam sair da vila depois do trabalho e dirigir para um hotel em Calexico. Ninguém reclamou da possibilidade de ter chuveiros quentes aquela noite. Em tempo recorde, o grupo guardou as barracas e colocou o equipamento já molhado no caminhão. Tudo estava enlameado. Teri, Kyle e alguns estudantes fizeram capas de chuva com sacos de lixo e andaram na vila convidando as pessoas para vir ao culto às cinco horas. Jessica ficou na igreja com duas garotas, tentando varrer a poeira e os pregos que ficaram no chão de cimento. No meio da limpeza, a porta da igreja se abriu. Sete crianças, três mulheres e dois homens entraram, completamente encharcados. Eles cumprimentaram Jessica e as garotas com calorosos apertos de mão. Então as mulheres se sentaram nos bancos de madeira de um lado da igreja e os dois homens ficaram parados perto da porta dos fundos. Jessica olhou o relógio. Eram só 4:20. Essas pessoas estavam adiantadas, e não estavam sozinhas. Tinha mais gente chegando. Todas elas cumprimentaram Jessica e as meninas da mesma forma. Às 4:45 a igreja estava cheia. Lá fora, a chuva continuava. - O que vamos fazer? Perguntou Jessica às garotas. – Nossos únicos intérpretes se foram, e estas pessoas parecem prontas para começar o culto. Alguma de vocês fala espanhol?

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As meninas balançaram a cabeça. - Eu trouxe uns fantoches, disse uma das garotas. – Talvez a gente pudesse fazer uma apresentaçãozinha, sei lá. Antes que elas pudessem pensar nos detalhes, a porta da igreja abriu de novo e entraram dois adolescentes da vila, deixando entrar um porco que ficou gritando na igreja. Ele correu por todo lado, guinchando e deixando marcas de lama no chão. As crianças amaram. As mulheres ficaram horrorizadas. Os homens cercaram o animal e o levaram de volta à porta da frente. Só quando o porco encontrou seu caminho, chegaram Kyle e Teri com o resto do grupo. Mais umas trinta pessoas vinham com eles. Bill estava certo. A igreja que estava inconstruída não se parece com uma igreja construída. Jessica não sabia como eles iam fazer caber tanta gente naquela igrejinha. Ela ficou contente por ter guardado lugar mais cedo. Uma de suas amiguinhas sentou ao seu lado, e as outras duas a seus pés. O cheiro de seus cabelos e roupas molhados era quase avassalador. Mas não eram só elas. Todos cheiravam a mofo. Teri conseguiu sentar ao lado de Jessica com duas meninas no colo. Exatamente às cinco horas, Cristobal e Kyle foram à frente da sala na pequena plataforma que Kyle construíra. Kyle parecia que ia explodir de alegria. Cristobal falou primeiro. Jessica imaginou que ele cumprimentou a todos e os pediu para continuar ali. - Vamos a orar, disse Cristobal, levantando a Bíblia acima de sua cabeça e fechando os olhos. - “Pray”, sussurrou Teri a Jessica, traduzindo. Jessica fechou os olhos e ouviu um leve sussurrar no templo, dos homens e mulheres que compartilhavam da oração de Cristobal, que ele pronunciava com força e sinceridade. A oração soava como um rio que corria para encontrar o oceano, ficando mais alto conforme prosseguia adiante. - Amen, amen, concluiu Cristobal, e todos na sala ecoaram – Amen, amen. Jessica se lembrou dos adolescentes terem dito a mesma coisa no final da última reunião. Deve ter sido aqui que eles pegaram esse costume. O grupo se sentou, e Teri, colocando de volta as garotinhas em seu colo, chegou perto de Jessica e sussurrou: - Segurar a Bíblia acima da cabeça significa, para ele, que ele quer ficar sob a autoridade de Deus. Teri continuou a interpretar a Jessica em palavras sussurradas no prosseguimento do culto. Kyle falou por poucos minutos. Seu espanhol parecia fluente o bastante, mas as palavras travavam um pouco, Jessica pensou ter visto lágrimas em seus olhos. Ela percebeu como era gratificante para Kyle ver seus sonhos se realizando. Talvez u dia ele estaria em outra plataforma na vila, dedicando um orfanato. A música começou. Cristobal pegou um violão e dois rapazes se juntaram a ele, os dois com violões também. Sem nenhum hinário ou projeção da letra, as pessoas começaram a cantar. A FBTCB 111

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cantoria deles tocou profundamente em Jessica, e ela desejou participar. Ela olhou para Teri. Teri estava com seus olhos fechados, sua face erguida, e lágrimas corriam em suas bochechas enquanto ela cantava do fundo do seu coração. Lá fora, a chuva parou, dentro, as pessoas cantavam. Jessica nunca se sentiu tão balançada. Olha como essas pessoas estão emocionadas enquanto adoram a Deus. Nas próximas horas, vários homens falaram, todos eles dizendo como Deus os abençoou. Jessica pensou que eram homens de poucas letras, mas de muita fé. Sua fé, entretanto, era pouca. Teri traduzia para Jessica, que ouviu um homem dizer que desde que ele conheceu a cristo, há três anos, ele descobriu que Deus providenciou todas as suas necessidades. Não tudo o que ele queria, mas tudo o que ele precisava. Isso fez Jessica pensar em sua abobrinha, e nas compras e até nas DoveBars. Que coisa idiota pra relacionar a Deus. Mas pra ela foi a primeira evidência de que Deus era misericordioso e queria abençoá-la, como Teri disse. Ela percebeu então que, ou ela acreditava em um Deus real que se importava com ela, ou ela o rejeitava de vez. Ela não poderia ficar longe dele ou fugir. Não esta noite. Não aqui, no meio dessas pessoas. Mais mensagens, mais orações e mais canções se seguiram. No final, Kyle orou. Ele também segurou a Bíblia sobre sua cabeça e terminou com “Amen, amen”. A dedicação oficial da igreja estava terminada, mas os abraços e despedidas duraram uma hora. Crianças corriam pra lá e pra cá na sala apertada. Dúzias de moças tentaram conversar com Jessica. Ela teve que oferecer um aperto de mãos e um abraço ao invés da conversa. Teri estava atarefada, traduzindo pra todo mundo, e também falando com algumas mulheres que ela parecia conhecer. Uma das jovens, Letty, tinha ajudado durante todo o fim de semana e parecia entusiasmada com os adolescentes. Jessica percebeu Dawn perto de Letty, com os braços, posando para a câmera de Bill. Dawn tinha crescido muito neste fim de semana. Não só no relacionamento com as mulheres e crianças mexicanas, mas também com o grupo de jovens. Dawn realmente não precisava de mim para vir. Mas eu estou feliz por estar aqui. A opinião de Jessica mudou rapidamente quando eles saíram do abrigo da construção e correram para a van. Ainda estava chovendo. Toda aquela lama fez Jessica enrolar, esperando até o último minuto pra sair. Ela viu Kyle entregar a Cristobal as caixas de roupas e suprimentos que a igreja mandara a eles. - Vem, gritou Teri, segurando com os dois braços seu saco de lixo. – Nós duas podemos correr debaixo disso aqui. Jessica se encolheu ao lado de Teri, e quatro crianças se juntaram a elas, como patinhos se escondendo nas asas da mãe. Elas deram uns quatro passos na lama quando Teri caiu de cara na lama, carregando o saco e mais duas criancinhas. - Ce ta bem? Perguntou Jessica, tentando ajudar Teri a se levantar. FBTCB 112

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Teri ria tanto que não conseguia responder. Ela estava toda preta na frente, coberta de lama, com exceção do branco dos olhos e dos dentes. - Que idiota! Ela falou de si mesma. Teri se levantou e examinou as pequenas, que também riam. – Espero que minha mala esteja nos fundos do caminhão, disse ela, limpando o barro da cara. – Acho que os guardas não vão me deixar sair do país com uma aparência dessas. Teri deu mais um passo e caiu de novo. – Ai! Ela segurou a perna direita e tentou subir com o outro pé – Meu tornozelo, ela disse. Jessica ofereceu o braço a Teri, e elas chegaram à van onde um monte de adolescentes assistiam à comedia, nenhum deles notou que Teri tinha se machucado. A câmera de Bill estava à porta da van, seus comentários fazendo a trupe toda rir. - Ei, ela se machucou de verdade, advertiu Jessica. - To bem, disse Teri. - Não ta não. Você mal consegue andar. - Kyle! Gritou Bill – abaixando a câmera e tentando chamar a atenção de Kyle. – Kyle, vem cá! Teri ta machucada! Teri sentou no degrau da van e seguro a respiração. Jessica ficou perto dela, a chuva caindo sobre elas, a lama escorrendo do braço de Teri. Kyle chegou, deixando seu rastro na lama. Na hora que viu Teri toda cheia de lama, começou a rir. - Essa foi a melhor da semana! Foi idéia de Bill? - Kyle, ela machucou o tornozelo, disse Jessica. O sorriso de Kyle desapareceu. - Qual é o tornozelo, Teri? Jessica reconheceu o tom de voz daquele que a resgatou. Demorou quase uma hora, com a ajuda das pessoas dali, até que Teri estivesse limpa, com o tornozelo enfaixado. Jessica e alguns adolescentes ensopados aproveitaram a oportunidade pra trocar de roupa também. A única coisa boa no atraso foi que a chuva passou. Depois de mais lágrimas, abraços e despedidas, Kyle chamou Jessica pro canto, distante do resto do grupo. Eles estavam atrás da igreja, os pés afundavam na lama macia. - Acho que Teri não deve dirigir, disse Kyle. Jessica engoliu em seco. - Você quer que eu dirija o caminhão?

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Kyle olhou pra ela sem responder. Seus olhos verdes procuravam nos dela um espírito aventureiro. Jessica olhou ao longe. - Acho que é o jeito. Eu vou te seguindo, ta? Kyle acenou. Ele segurou seu cotovelo e deu uma leve sacudida. - Obrigada, Jé. Ele nunca a tinha chamado assim. Ele amou o jeito como soava, saindo do interior de Kyle para o coração de Jessica. – Você é uma heroína. - Acho que este título é seu, disse Jessica, rapidamente. Um sorriso torto surgiu no canto de sua boca, e ela sentiu o puxão familiar da sua cicatriz. A mão de Kyle foi em sua direção, e antes que ela pudesse perceber, ele estava tocando em sua cicatriz, suavemente traçando o semi-círculo com seu dedo grande e áspero. Jessica segura a mão dele, levando-a à sua bochecha. Ela fechou os olhos e sentiu a mão de Kyle segurar seu queixo e bochecha. Kyle não se distanciou. Jessica não se moveu. Tudo o que Jessica pensava era nas palavras de Kyle na primeira noite na vila “estou aqui pra o que precisar, se você quiser. E quero que você fique aberta. Só isso. Fique aberta”. Nesse momento, Jessica sentia seu coração mais aberto do que esteve há meses – não, anos. Parecia estranho se sentir assim no meio de um monte de lama mexicana. - Kyle, sussurrou Jessica, abrindo os olhos e olhando para ele. Não houveram outras palavras. Tudo o que saiu foi uma pequena lágrima que correu em sua bochecha. Ele sorriu. - Parece que está cicatrizando bem. Novamente ele traçou a meia lua com seu dedo. - Espero que sim, disse Jessica, sentindo que estava corada. Ela sentia que algo dentro dela também estava cicatrizando. De repente, ela retomou a consciência. Olhou para o longe e perguntou: - Quer que Teri vá comigo no caminhão? - Ah, é.. Na verdade, eu deixei um lugar separado pra Teri na van, pra ela poder ficar com o pé pra cima. Você já viu como está a cabina? Nós empacotamos tudo com tanta pressa que alguns sacos de dormir vão ficar no banco da frente com você. Não cabe mais ninguém lá. Jessica tentou parecer calma. - Aqui estão as chaves. Kyle as tirou do bolso e entregou na mão de Jessica. – Vai ficar bem dirigindo sozinha? Nós podemos colocar algumas tralhas na van e mandar alguém ir com você. Começou a chuviscar e Jessica pensou em como estavam atrasados. - Não, vou ficar bem. Certeza. Só não me deixe comer poeira. Quer dizer, lama. FBTCB 114

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- Não vai ser difícil perceber que você está por perto. Um dos faróis quebrou quando chegamos aqui. Vai ficar fácil de ver você, mas vai ficar ruim pra você ver a estrada. Toma cuidado, viu? E se quiser que eu pare por qualquer motivo, é só piscar os faróis algumas vezes e eu encosto. - Certo, aceitou Jessica. Ela pegou as chaves e foi para o caminhão, determinada a provar que era uma mulher forte, pronta pra qualquer parada, até mesmo uma enlameada estrada mexicana no meio de uma noite chuvosa. Ela era forte e independente. Ela podia fazer isso.

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CAPÍTULO DEZESSEIS
Os limpadores de para-brisa do caminhão iam de um lado para o outro, limpando a visão de Jessica. A van entrou na estrada asfaltada anunciando quilômetros bem mais confortáveis à frente. As luzes vermelhas da traseira da van era a única coisa que ela podia ver na escuridão daquela noite chuvosa. Kyle estava certa sobre a dificuldade de dirigir só com um farol. Dirigir para fora da vila foi complicado, principalmente para o caminhão ter que cooperar com toda aquela lama. Quando os pneus alcançaram o asfalto firme na estrada principal, Jessica respirou aliviada. Ela não reparava nas armadilhas antes de bater o carro, mas agora, qualquer solavanco a fazia apertar os dentes e agarrar o volante com medo. Ela se lembrava de como o acidente aconteceu rapidamente. Esta noite tudo estava contra ela, e ela quase sentia a ameaça de um acidente em qualquer movimento impreciso que ela fizesse. Diminuindo a velocidade, Jessica deu uma olhada na estrada à sua frente, tentando enxergar alguma curva ou relevo na pista. Vai, Kyle, diminui aí! Eu também quero sair daqui logo, mas você tem que dirigir a 80km/h na estrada da morte? A chuva diminuiu, permitindo a Jessica maior controle sobre o volante. Seu pescoço doía. Ela mexeu os ombros e se lembrou da maravilha que era a massagem de Kyle. Sua imaginação a levou para um mundo ilusório onde ela estava livre de segredos complicados. Nesse mundo, ela se entregaria facilmente a Kyle. Ela confiaria a ele seu coração, seus lábios, sua vida inteira. Uma luz forte brilhou no retrovisor, cegando Jessica momentaneamente, trazendo-a de volta ao mundo real, frio e lamacento. O caminhão atrás dela estava chegando perto de seu parachoque, piscando os faróis. - Pode passar, cara, ela murmurou. – Sai da minha traseira! A lata velha passou por Jessica, e diminuiu a velocidade na frente dela, ficando entre ela e a van. - Agora passa a van, seu maluco! Mas o caminhão não obedeceu aos seus comandos. O caminhoneiro parecia bem satisfeito com seus 55km/h bloqueando a visão de Jessica para Kyle. Agora era a vez de Jessica piscar os faróis, não só pra pressionar o caminhão À sua frente, mas também esperando que Kyle a visse e encostasse como prometera. O caminhão da frente não respondia. Mesmo não podendo ver a van, ela viu que não tinha nenhuma mudança de pista à vista. Kyle provavelmente continuaria na estrada principal. Por quilômetros Jessica andou logo atrás do caminhão intrometido, ocasionalmente levando uma baforada de fumaça. Ela tentou ultrapassar o caminhão várias vezes. Mas sempre mudava de idéia no último minuto. Não estava disposta a se arriscar com um farol só numa estrada escura onde não dava pra enxergar os possíveis buracos. Depois de um tempo, Jessica desistiu FBTCB 116

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e seguiu atrás do caminhão. Ela concluiu que uma hora ele iria encostar e ela voltaria a seguir Kyle. Então outro par de faróis brilhou no retrovisor. Esse carro não parecia querer ultrapassá-la, pelo contrário. Parecia bem contente em segui-la tranquilamente. Jessica ajustou a postura para não ficar com a luz na cara. Nos vinte minutos seguintes, Jessica dirigiu com os olhos na estrada, desviando dos buracos, tentando não ficar hipnotizada pelos limpadores de parabrisa. De repente, o caminhão virou para a direita. Jessica o seguiu, e dirigiu por uma curta distância antes de perceber que tinha saído da estrada principal. A estrada em que estava tinha se transformado em cascalho. Jessica parou. Não tinha nada naquela escuridão a não ser uma plantação de soja. Ela dirigiu mais à frente, procurando outra estrada ou um lugar para fazer o retorno. A porcaria do caminhão que ela seguia já tinha ido, e não havia carros, casas ou qualquer coisa que ela poderia enxergar à vista. - Ok, ela orientava a si mesma. Vamos fazer o retorno e voltar pra estrada. Vamos encontrar um lugar largo o bastante... Aí! Parece que vai dar certo. Jessica lentamente fez uma curva no cascalho, os pneus dianteiros entraram na plantação de feijão cheia de barro. - Devagar agora… Vamos… vamos… Não para… Tarde demais. Quando as rodas traseiras entraram na lama, perderam a tração, girando freneticamente enquanto Jessica tentava acelerar. A rodas dianteira direita e as rodas traseiras estavam atoladas. Só a roda dianteira esquerda estava na estrada de cascalho. Agora ela estava com medo. A chuva caía no para-brisas como uma chuva de ervilhas congeladas e parecia que a traseira do caminhão estava afundando na terra. Jessica ficou sentada por vários minutos, tentando não entrar em pânico. Ao seu redor, nada além da escuridão. Ela checou as portas para ter certeza se estavam trancadas. Certamente Kyle viu quando ela saiu da estrada. Ele estaria lá a qualquer momento, e a van poderia desatolar o caminhão. Ela iria falar para ele dirigir mais devagar pelo resto do caminhão para que ela pudesse segui-lo. E ele balançaria seu cotovelo e pediria desculpas. Jessica tinha tudo em mente. Ela sentou sozinha com seu cenário “Kyle ao resgate” como companhia. Ela esperou. A chuva caía sobre o para-brisa. O caminhão lentamente se inclinava para a direita, afundando na lama. Uma hora se passou e Kyle não chegava nunca. Agora ela estava brava. Por que ele tem que dirigir tão rápido? Por que aquele caminhão idiota ficou na minha frente? Como é que eu fui me perder? Deus, por que isso está acontecendo comigo? Você não se importa comigo? Essa é sua ideia de uma hora agradável: me ver passando esse sufoco? Pois eu não estou achando nada engraçado. Jessica percebeu que ela falava com Deus como se ele pudesse ouvi-la. Na verdade, ela estava berrando com ele mentalmente, mas a maneira como ela se dirigia a ele era diferente de todas

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as outras vezes. Depois de tanto tempo entre esses “crentes”, como Teri os chamou, e de ter participado do culto aquela noite, a opinião de Jessica sobre Deus começava a mudar. - Ok, disse ela em voz alta, tentando orar. – Você me pegou, Deus. Tem minha atenção agora. O que você quer? Por algum motivo, a imagem que veio à sua mente foi de Kyle e Cristobal segurando suas Bíblias acima da cabeça enquanto oravam. O que Teri disse? Era pra mostrar que estavam sob a autoridade de Deus. A idéia bateu fundo em Jessica. Ela se recusava a estar sobre a autoridade de qualquer pessoa. Sua filosofia de vida era estar no controle de sua vida, da situação e da forma como os outros a tratavam. Bem, na solidão dessa noite escura, ela não tinha o controle de coisíssima nenhuma. Jessica se sentiu fraca, totalmente perdida, tentando juntar os pedaços da sua vida. Ela sentiu um intenso clamor dentro dela, que pedia por alguém. Ela queria ser restaurada. Só agora, pela primeira vez, ela percebeu que não era sua mãe quem ela queria. Nem Kyle, nem qualquer outra pessoa. Ela ansiava por Deus. Isso a perturbou. Estar ligada a Deus, estar sob seu controle e sua autoridade, se entregar – isso não era natural dela. Mas era isso que ela ansiava. Parecia uma estranha barganha. Sua vida, com falhas e tudo mais, em troca da graça de Deus. - Mas você é tão perfeito, ela argumentava em voz alta com Deus. – Tem tudo. Por que me quer? Ela sabia a resposta. Ela sabia desde que saiu de Los Angeles. Mesmo um pai que tem absolutamente tudo, quer ter uma relação harmoniosa com sua filha. Antes de se dar conta, Jessica estava chorando. – Me desculpa, ela sussurrou na orelha invisível de seu pai celestial. – Desculpa. Me perdoa. Se me quer mesmo, então aqui estou. Quero te conhecer. Eu me entrego. Ela deu um soluço e sussurrou de novo – Eu me entrego a ti, meu Deus. Jessica ouviu um carro se aproximar na estrada. Estou salva! pensou ela, alegremente. Mas estava tudo escuro à frente. Foi quando ela viu os faróis pelo retrovisor e congelou. Não pode ser Kyle. Ele vem pelo outro lado. E se… Ela não queria pensar nas possibilidades. Uma estrada deserta no meio da noite não era um bom lugar para uma mulher nas melhores circunstâncias. Estar sentada sozinha num caminhão atolado no meio do México era a pior circunstância que ela poderia imaginar. O carro parou atrás dela. Ela podia ouvir vozes masculinas se aproximando do caminhão. Um deles ria alto. Parecia estar bêbado. Jessica sabia que as portas estavam trancadas. Ainda assim, ela se sentia uma isca. Os homens pararam na traseira do caminhão e tentaram abrir a porta. Balançou, mas não abriu. Ela sabia que eles chegariam à frente a qualquer momento. Sem tempo a perder, Jessica deslizou para o chão do lado do passageiro e se cobriu com alguns sacos de dormir. Ela ficou parada naquela posição, se permitindo apenas respirar. Aterrorizada, ela ouvia na escuridão. Alguém tentou abrir a porta do motorista, descobriu que estava trancada e tentou forçar. Alguém fez o

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mesmo do lado do passageiro. Jessica sentia que seu coração ia sair pela boca. Jessica imaginou os homens olhando lá dentro, decidindo se valeria o esforço de quebrar a janela. Então um deles gritou da traseira do caminhão. Com as costas no chão, Jessica percebeu que a porta dos fundos se abria, expondo toda a bagagem deles e o caro equipamento de camping de Kyle. O homem na janela da frente deixou pra lá a empreitada e se juntou aos outros lá atrás. Pelo barulho, Jessica podia imaginar os homens roubando tanto quanto podiam o mais rápido que podiam. Ela permaneceu congelada em sua posição no chão, orando para que eles não quebrassem a janela da frente e tirassem sua camuflagem. Então ela ouviu o som do motor do carro ligar e depois eles se distanciando. Jessica engoliu em seco, respirando forte, tentando se acalmar, e se convencer de que estava tudo bem. Eles se foram. Pelos próximos cinco minutos, aproximadamente, Jessica permaneceu no seu esconderijo, paralisada, sem se atrever a por a cabeça rpa fora. Ela imaginou uma cara grudada na janela olhando pra ela. Não uma das caretas de Bill, mas o rosto de um homem embriagado. Deus! Onde você está? Me salva! Me protege! Uma paz inexplicável tomou conta de Jessica. Seu coração voltou ao normal, e ela se sentia quse confortável em seu pequeno esconderijo. Ocorreu a ela que ela estava salva. Nada acontecera a ela. Deus a havia protegido. Isso a fez pensar em algumas outras “coincidências” que aconteceram nas últimas semanas: Kyle estar por perto na hroa do acidente; a abobrinha no jardim; as compras na porta, com DoveBar, inclusive. E agora, a cobertura de sacos de dormir que foram jogados ali no banco da frente. Antes da viagem, Jessica classificaria isso como um “fato”. Agora ela via tudo diferente. Nos últimos dias, Deus se tornou real pra ela, e ela queria se relacionar com ele. Jessica pensou nos “colchões de graça” de que Teri falou no dia das compras. No meio dauqeles sacos de dormir, Jessica pensou que ela tinha literalmente caído em um daqueles colchões de graça. Fechando os olhos, ela dormiu. Aproximadamente quarenta minutos se passaram. Mas o sono fez parecer horas, o bastante para dar a ela um fôlego extra e força pra pensar no próximo passo. Jessica olhou pelas janelas. Nenhuma cara esperando por ela. Ela repensou a situação. As coisas deles tinham sido roubadas, mas ela esperava que eles percebessem que foram só as coisas, coisas podem ser substituídas. Ela poderia sair do caminhão e tentar chegar andando na estrada, mas era mais ou menos meia-noite e estava tudo escuro lá fora. E ainda tinha o barro e a chuva. Ao menos ela estava seca e protegida na cabine trancada. O melhor que ela poderia fazer era sentar e esperar. E orar. - Deus, ela falou – obrigada. Jessica parou, e começou a rir de si mesma, falando com alguém invisível. – Espero que entenda que isso é muito novo pra mim. Jessica sentou no banco. – Claro que entende, você sabe tudo, né. Não quero nunca perder isso, essa consciÊncia de que você existe.

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Por algum tempo, Jessica sentou em paz, pensando em sua vida. As coisas ainda eram complicadas. Muito complicadas. De vez em quando, um pensamento assustador vinha à sua mente. E se os homens voltassem pra pegar o que restara? E se os “banditos” quebrassem a janela da próxima vez que viessem? Quanto tempo até que Kyle notasse que ela não estava atrás dele? Quando ele voltaria? Será que ele conseguiria encontrar essa estradinha deserta? De repente, ela viu faróis se aproximando na chuva à sua frente. O primeiro impulso de Jessica foi de descer e fazer sinal para o motorista. Aí ela lembrou que poderiam ser os ladrões voltando. Seu esconderijo a salvaria de novo? Jessica desceu para o chão e se cobriu com os sacos de dormir. Seu coração batendo rápido. Ela sentia tanto medo quanto da primeira vez. Talvez ainda mais, pois agora eles tinham mais chances de vir atrás dos sacos de dormir. Ela não conseguia orar. Ela não conseguia pensar. Por um momento, ela achou que não conseguia respirar. O carro parou. Uma porta se abriu. O barulho da chuva encobria o som das vozes lá fora. Jessica apertou os lábios enquanto eles mexiam na porta do motorista. Eles mexeram de novo e então o coração de Jessica parou. Eles queriam abrir a porta!

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CAPÍTULO DEZESSETE
A porta se abriu lentamente. Não havia som. Nem movimento. Nem vozes. Eles a viram? Jessica sentiu seu corpo inteiro tremer. Ela fechou os olhos e implorou pela salvação de Deus. - Jé? Jessica? Você está aí? - Kyle? - Cadê você? Jessica forçou suas mãos paralisadas a se abrirem e empurrar os sacos de dormir. - Aqui. Aqui embaixo. Ela rastejou para fora do buraco onde se enfiara. Chegando ao banco onde Kyle estava inclinado, alcançou uma forte mão que a ajudou a se levantar. - Você está bem? Jessica deixou que Kyle a tirasse de lá. Impulsivamente jogou os braços ao redor de seu pescoço e começou a soluçar. - O que aconteceu, Jé? Disse ele gentilmente, envolvendo-a em seus braços, encostando os lábios na orelha dela. Uma enxurrada de emoções atingiu Jessica, e ela se afastou. Com as mãos fechadas, ela bateu no peito de Kyle. - Você me deixou, foi isso o que aconteceu! Por que você fez isso? Kyle rapidamente segurou Jessica pelos pulsos. - Eu não sei. Suas palavras eram firmes. – Eu não vi quando você saiu da estrada. - Um caminhão entrou na minha frente e eu o segui até aqui. Ela começou a chorar de novo – Eu pisquei os faróis, mas você não parou. - Pensei que você estivesse atrás de mim. Eu não percebi que tinha te perdido. Desculpa, Jessica. Deve ter sido terrível ter ficado aqui. - Eles vieram e saquearam o caminhão, ela disse, controlando as lágrimas e pegando as rédeas das suas emoções. - Quem veio? Kyle ajeitou o cabelo dela e limpou suas lágrimas com sua grande mão. - Uns homens. Eles quebraram a porta de trás do caminhão. Eu não sei o que levaram. Kyle trouxe Jessica para perto de si, acolhendo-a em seu colo. - Ah, Jé, me desculpa. Agora entendi porque você estava escondida. Eles não te viram? - Acho que não. Pensei que você fosse eles. Aí voltei pra debaixo dos sacos de dormir. Jessica podia ouvir as batidas do coração de Kyle, em ritmo suave e compassado, enquanto se rendia FBTCB 121

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ao seu abraço. Eles ficaram ali em silêncio por um minuto até Kyle se afastar. Ele ainda estava com uma perna pra fora do caminhão e outra dentro, os braços esticados para abraçá-la. - Vou ver o que eles levaram. Volto já. - Eu vou com você, disse Jessica, se arrastando pelo banco para se juntar a Kyle na garoa lá fora. Kyle colocou o braço sobre os ombros dela, e eles andaram na lama para os fundos do caminhão. A tranca estava quebrada e a porta ainda estava aberta. Tudo o que restara foram duas caixas térmicas vazias, três malas e um saco de dormir. - Caramba, eles fizeram a limpa! Disse Kyle. Jessica se perguntou se ele estava chateado. Ele parecia estar levando. – Que bom que você está bem, disse ele, abraçando-a novamente. Jessica também o abraçou, descansando a cabeça no ombro dele. Ela pensou em como Kyle se sentia agora e como ela encaixava perfeitamente no abraço dele. Ela pertencia a ele. Isso não acabaria jamais. - Acho que o melhor a fazer, disse Kyle, é pegar o que sobrou e colocar na van e dirigir até Mexicali. O resto do pessoal está na alfândega, lá na fronteira. Não dá pra desatolar esse caminhão no meio da noite. Nós vamos para um hotel de estrada no lado americano, e depois voltamos aqui de manhã para tirar o caminhão. Jessica ajudou a colocar a bagagem na van. Kyle trancou a van com um molho de chaves reserva e fez o que pode para fechar a porta quebrada, para ao menos deixar livre da chuva. Jessica sentou no banco da frente da van e Kyle ligou a ignição. Nada aconteceu. Ele tentou de novo. Tudo o que eles ouviram foi o clic da ignição. - Não acredito nisso! Disse Kyle, dando um soco no volante. – Parece que foi a bateria. Ele se abaixou procurando debaixo do banco alguma lanterna, depois saiu na chuva para olhar o capô. – Tenta ligar agora, gritou pra Jessica. Ela girou a chave. Nada. - Tenta agora de novo. Ela tentou de novo e... nada. Kyle bateu o capô e voltou ao banco da frente, sacudindo a lama da jaqueta antes de entrar. - Não sei qual é o problema. Eles ficaram em silêncio por um momento. - Acho que estamos presos aqui. Vai amanhecer em... ele olhou o relógio com a lanterna – quatro horas. Aí nós poderemos andar até a estrada pra pedir ajuda. Seria idiotice ir lá agora. - E Teri e o resto do pessoal? Perguntou Jessica. - Eles estão bem. Eu sei onde estão. E eles têm um abrigo, sofás e uma máquina de doces. Mais do que nós temos, disse Kyle. FBTCB 122

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Jessica queria dizer: - Mas eu tenho você, e estou segura agora. Mas ela disse: - Que bom que você me encontrou. - Tenho que te contar uma coisa, disse Kyle, encostando as costas na porta fechada, encarando Jessica. – Por um momento, eu fiquei com muito medo lá. - Você estava com medo! Disse Jessica, encostando-se na porta como ele, para olhá-lo de frente. – Essa foi a pior noite da minha vida! Depois ela se lembrou da conversa com Deus e adicionou: - E acho que a melhor de todas também. - Como assim? Agora Jessica não sabia o que dizer. Ela pensou que Kyle gostaria de saber onde ela estava em sua jornada, mas ela não sabia como dizer isso. Kyle esperou pacientemente enquanto ela encontrava as palavras. Finalmente, ela disse: - Eu tive uma conversa com Deus. Acho que dá pra dizer que eu caí de cara no chão na minha jornada espiritual. Naquele escuro, não dava pra ver o rosto de Kyle. Ela sentiu o calor em sua voz ao dizer: - E aí? - E aí que... eu me entreguei. Foi um grande passo pra mim, confiar em Deus desse jeito. Ele nunca pareceu estar do meu lado antes. - Mas agora você está do lado dele, sugeriu Kyle. Jessica acenou. - Eu não sei como dizer, só sei que tudo é diferente agora. Kyle avançou no espaço entre eles e segurou a mão de Jessica. Ele a balançou três vezes, e em uma voz emocionada, disse: - Estou tão, tão feliz. A vida eterna começou essa noite, Jé. Você está salva. Ela achou aquelas palavras fortes demais. Mas ela sentia o calor e a segurança da mão dele sobre a sua. - Você ta com frio, disse Kyle. – Deixa eu pegar um saco de dormir pra você. Ele pulou pros fundos da van e voltou com dois sacos de dormir. Abrindo o zíper do primeiro, Kyle encobriu Jessica. Ele usou o segundo como descanso entre suas costas e a janela fria. Então, encostando o braço esquerdo no volante, ele perguntou – Quer dormir?

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Jessica não podia fazer nada, mais admirava a bondade de Kyle. O que ela queria fazer mesmo era conversar. Ela tinha se deixado mais vulnerável a Kyle do que pretendera. Ela não sabia o que aconteceria quando voltassem ao mundo real, onde ela se guardava cuidadosamente. De qualquer forma, naquela noite, pelas próximas quatro horas, eles estariam sozinhos. Completamente sozinhos. Se ela quisesse saber alguma coisa sobre esse homem a hora era agora. Ela não sabia o que fazer com as informações Ela sabia que não devia pensar em Kyle como uma pessoa a quem ela deveria estar ligada. Isso significaria que ela deveria contar a ele a verdade sobre si mesma, e isso ela não podia fazer. Mas agora, ela podia ouvir. Ela podia ouvir da boca de Kyle porque ele estava interessado nela. Antes que perdesse a coragem, Jessica disse: - O que eu quero mesmo é ouvir você. - Me ouvir? - É, me fala sobre você. - O que você quer saber? - Fala da sua família. - Eu tenho dois irmãos mais novos. Um é um ano mais novo, o outro três. Meus pais foram casados por trinta e cinco anos, e moraram na mesma casa em Portland durante trinta e um anos. Meu pai era piloto. Que mais você quer saber? - O que você quer me contar? - Eu tenho um cachorro, ele disse. – Ela é o outro membro da família. O nome dela é Amber. É uma golden retriever. Gosta de cachorros? - Claro. E gosto dos golden retrievers. São lindos. Jessica se sentia aconchegada no calor do seu saco de dormir. Ele tentava imaginar como seria fazer uma caminhada ou acampar com Kyle e ter Amber ao lado deles na fogueira à noite. - E você? Perguntou Kyle. - Eu não tenho cachorro, disse Jessica. - Isso eu já sei. To perguntando da sua família. - Olha, começou Jessica devagar, minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Meu pai é empresário, e eu cresci no sul da Califórnia. Não tenho muito a dizer. Eu sempre quis morar em uma cidade pequena e ser professora. Acho que estou fazendo o que sempre quis. Ela esperou que Kyle ficasse satisfeito com sua resposta. Rapidamente pensou em uma pergunta. – Sempre quis ser bombeiro? - Não é o que querem todos os meninos? Disse Kyle. – Na verdade, eu me tornei bombeiro do jeito não tradicional. Eu queria ser orientador de colégio, ou treinador do time de futebol, porque eu gosto de trabalhar com adolescentes. Mas aí, há quatro anos, eu acabei cuidando FBTCB 124

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de uma senhora em estado terminal, e eu decidi ajudar as pessoas e então ser voluntário no trabalho com adolescentes. E é isso que estou fazendo. Jessica presumiu que aquela mulher fosse Thelma. Ela queria ouvir mais - O que tinha a mulher? Ela arriscou, imaginando se ela deveria dizer que sabia sobre Thelma. - Ela estava com câncer. - Me conta essa história, disse Jessica. – Eu quero mesmo saber. Kyle suspirou fundo. - O nome dela era Thelma Atkins. Ela era a mulher mais querida que qualquer um poderia conhecer. Ela orava por mim todos os dias. Não algumas frases. Estou falando que ela orar por horas a fio. Uma mulher maravilhosa. Pelos próximos dez minutos, Kyle falou de Thelma e repetiu o que Dawn já havia contado sobre Lindsay ter vindo para ajudar e depois de ter morrido alguns meses antes de Thelma. - Você e Lindsay estavam noivos? Perguntou Jessica, Kyle não tinha usado esse termo. - Sim. Ela tinha só dezenove anos quando ficamos noivos. Achei que sabíamos o que estávamos fazendo. Nosso noivado não durou dois meses até que ela morreu. - Morreu de quê? Perguntou Jessica. Kyle não respondeu. Jessica lembrou que Dawn disse que fora de pneumonia. No escuro, não dava pra saber se Kyle estava tentando se lembrar ou esquecer. Suas palavras pareciam muito sinceras e íntimas agora. Jessica não tinha certeza se tinha passado dos limites. Não importava a ela ouvir sobre Lindsey. Ela sentia a mesma simpatia que teve no cemitério, pensando na morte de sua mãe. - Desculpa se estou sendo inconveniente, disse Jessica. - Não, tudo bem. Kyle parou e depois disse – Lindsey morreu de AIDS. Jessica nunca imaginou ouvir isso. - Ninguém sabe disso, falou Kyle, logo em seguida. – Não sei porque te disse isso. Além do Dr. Laughlin, que mantém isso como um segredo profissional, ninguém mais em Glenbrooke sabe dessa história. Thelma nunca soube. Ela ficaria tão... decepcionada. Jessica não sabia o que dizer. “Sinto muito” foram as únicas palavras que saíram de sua boca. Mas sua mente estava cheia de perguntas. Jessica tinha pensado uma coisa ao saber de uma bela jovem morrendo de pneumonia, mas experimentou um sentimento completamente diferente ao ouvir que ela morrera de AIDS. - Você está bem? Perguntou Jessica, percebendo que a pergunta poderia gerar muitas respostas diferentes.

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- Se você está perguntando sobre a morte dela, acho que sim. Demorou muito tempo até digerir tudo, mas acho que finalmente estou bem. Kyle respirou fundo. Se você está perguntando se eu tenho AIDS, não. Eu não tenho. Lindsey e eu nunca tivemos contatos muito íntimos. Ela pegou de um jogador de futebol no colegial. Ela tinha quinze anos; ele se formaria naquele ano. Ele a paquerou durante um mês até que ela aceitou sair com ele. Eles saíram duas vezes. Ele teve o que queria no segundo encontro e depois a deixou para sair com a chefe das líderes de torcida. Típico do colegial. Lindsey não sabia o que estava acontecendo. Ela era muito inocente. Ela não teve outras relações depois dessa. Mas só é preciso uma vez. Jessica podia ver que Kyle estava emocionado pelo seu tom de voz oscilante. Ela segurou sua mão enquanto ele terminava a história. - Eu a conheci quando ela chegou em Glenbrooke para cuidar da avó. Nós namoramos quatro meses e eu a pedi em casamento. Um dia depois que nós compramos o anel de noivado, Lindsey recebeu uma ligação daquele cara. Ele estava em um hospital em Spokane, disse que estava com AIDS e estava tentando falar com todas as garotas com quem ele já havia se deitado. Acho que era uma lista bem extensa. Ele disse a ela que sentia muito. Morreu quatro meses depois dela. - Que terrível, disse Jessica, segurando mais forte a mão de Kyle. - Não acredito que estou te contando esta história, disse Kyle. – eu nunca disse isso a ninguém. Ninguém. Nem minha mãe sabe disso. - Estou feliz que tenha me contado, disse ela docemente. Ela lembrou do que Kyle dissera aquela tarde, quando ela mandou que ele a deixasse em paz. – Acho que agora sei porque você disse que segredos ficam pirões quando você os guarda. Que bom que não tem que guardar isso sozinho agora. - Não é uma informação pública, disse Kyle, indo pra frente. – Quero que guarde isso em segredo, Jessica. Chocaria muitas pessoas se elas soubessem a verdade. - E provavelmente acabaria com sua reputação, né? Kyle tirou sua mão das mãos dela. - Desculpa, disse Jessica rapidamente. – Não foi isso que eu quis dizer. É que você tem muitos amigos em Glenbrooke, muitas pessoas que te admiram. A AIDS é uma doença que gera muito preconceito. As pessoas poderiam te olhar diferente se elas soubessem. - Você me olha diferente agora? - Não, ela pegou a mão dele de novo. – Kyle, eu sei que isso foi muito difícil pra você, e seu o que é ter que carregar segredos complicados. Saber disso não muda minha opinião sobre você. Verdade, Na verdade, eu te admiro mais agora. Ela parou. – Posso te perguntar uma coisa? - Fala. - Se você soubesse que poderia salvar a vida de alguém, você faria isso não é? FBTCB 126

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- Claro. - Eu sei disso. Quer dizer, você me salvou, e cuidou da Sra. Atkins. Kyle, e se você pudesse salvar a vida de alguém, alguém como Dawn Laughlin? - Onde você quer chegar, Jessica? Ela ouviu um tom de irritação em sua voz. - Várias garotas como Lindsey têm quinze anos agora. Você poderia influenciá-las de forma que elas nunca tivessem que receber um telefonema aos dezenove anos. Jessica não sabia se estava sendo impertinente. Kyle estava quieto agora, sua mão não se mexeu. Jessica balançou a mão dele e disse – Talvez eu esteja falando uma coisa bem nada a ver, mas Kyle, se você viesse à minha aula de educação para saúde e contasse sua história, acho que teria muito impacto nesses adolescentes. Tudo o que eu posso dar a eles são estatísticas. Você pode mostrar a eles a realidade. Kyle puxou sua mão e passou os dedos no cabelo. Jessica encostou na porta de novo. Por que você jogou essa bomba nele? Agora você o afastou. Que coisa mais estúpida pra se fazer, Jessica! - Vou pensar nisso, disse ele. – É que você não sabe como é difícil. Com toda sua coragem, Jessica deixou suas convicções falarem mais alto. - Kyle, acho que vai ser bem mais difícil pra você descobrir daqui três ou quatro anos que um desses adolescentes nesta viagem está com AIDS quando você poderia ter feito alguma coisa para que isso não acontecesse. Jessica ainda estava sentada, ouvindo o coro de vozes acusadoras em sua cabeça. Por que ela tinha que falar tudo assim num impulso? Depois de semanas controlando a língua e a própria personalidade, como ela pode deixar tudo rolar assim com Kyle? E que direito ela tinha de sugerir a alguém expor seu segredo dessa maneira? Ela não poderia culpar o cara se ela a deixasse na chuva e disse para ela ir andando pra casa. - Você está certa, ele disse, com voz embargada. – Há muito tempo eu não estou mais protegendo Thelma ou honrando a memória de Lindsey. Eu estava tentando me proteger.

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CAPÍTULO DEZOITO
Para ser honesta ela precisava de coragem. Mas pra ser direta e objetiva ela precisava de muita coragem. Mas ser direta Jessica não podia acreditar que tinha falado com Kyle daquele jeito. Ela desejou ter simplesmente escutado. Só escutado. Não é isso que fazem os bons amigos? Ser simpático, sem confrontar. Não balance a canoa. Apenas ouça e acene. - Kyle, disse ela, quase em um sussurro, me desculpe. Dentro dela estava um irresistível impulso de voar para os braços dele, abraçar bem apertado e confortá-lo. Ela não soube o que a segurou do outro lado da van. Menos ainda porque o desafiara a pegar seu segredo tão doloroso e estendê-lo como se fosse uma faixa diante do povo gentil de Glenbrooke. Então ela pensou novamente em Dawn, uma jovem sincera em busca de algo mais. Uma hora com o cara errado poderia destruir sua vida inteira. - Eu pego pesado, às vezes. Me desculpa, foi tudo o que Jessica disse. Ela ouviu um ‘sniff’ e então uma tosse como se Kyle limpasse a garganta. - Você não sabe o que isso significa pra mim, Jé. No dia em que eu te conheci, o dia do acidente, eu estava voltando de um tipo de retiro particular. Eu estive acampando por três dias sozinho e pedi ao Senhor duas coisas. Primeiro, que eu pudesse retomar minha vida normal. Nos últimos quarto anos, eu vivi enlutado, incapaz de investir em qualquer relacionamento. Então eu pedi a Deus que tirasse de mim essa dor, e a transformasse em alguma coisa boa. Nunca pensei em falar com os adolescentes sobre isso. Estava sempre tão preocupado em proteger Lindsey e Thelma. Mas você está certa. Parte de mim estava protegendo a mim mesmo, também. Eu preciso pensar nos outros, pensar em como eu posso transformar isso num meio de ajudar às pessoas. - Mesmo assim, disse Jessica, sentindo como se ele não tivesse ouvido seu pedido de desculpas, você poderia ter chegado a essa conclusão de um jeito mais simpático. Eu tenho tendência a não pensar muito quando tenho uma ideia. - Você não entendeu, disse Kyle, o calor retomando o seu tom de voz, Deus te usou para me ajudar a enxergar. Eu precisava ouvir suas idéias. E, pela simpatia, isso foi tudo o que eu dei ao povo de Glenbrooke nos últimos anos. Todos sentem pena de mim. Eles dizem que me admiram. Ótimo. Agora deixa eu seguir em frente! Bem naquela hora, uma luz intensa os atingiu o rosto. Kyle tentou enxergar que tipo de carro estava vindo. - E se forem os ladrões? Perguntou Jessica. Ela não estava com medo. - Parece que é um carro de passeio, não uma caminhonete. Pode ser que a ajuda tenha chegado. Kyle desceu, passou pelo caminhão, erguendo os braços acima da cabeça enquanto se dirigia ao carro. Já tinha parado de chover. Pela luz do outro carro, Jessica viu que a lama já se transformara em barro, todo o cascalho estava barrento. O carro parou, e Kyle conversou

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com o motorista, apontando para os dois veículos, e depois apontando de novo para a van. Alguns minutos depois, ele correu para a van enquanto o carro dava a volta. - E aí? Perguntou Jessica. - Ele está indo pra casa. Disse que vai chamar um reboque de manhã. - Tem uma vila no fim da estrada? - Parece que sim. Apesar de ser uma estrada de cascalho, parece que é bem movimentada durante o dia. Ele nos convidou para ir à casa dele, mas eu disse que preferíamos esperar aqui. Espero que não se importe. Jessica pensou nas casinhas de pau a pique em Nueva e no jeito que as galinhas e os porcos corriam no chão sujo. - Ótima escolha, ela disse. Aqui na van está ótimo. - É. Eu espero que a van agüente nos levar até a fronteira. Sabe, eu detesto quando a gente acaba tendo que usar esses carros de segunda mão nas viagens. Dois anos atrás nós alugamos uma van. Na volta o motor esquentou e quase explodiu. - Por que você não aluga outras vans? Quem sabe umas mais novas. - Dinheiro, disse Kyle. – Se nós tivéssemos dinheiro, muita coisa seria diferente. - Tipo? - Tipo as vans. Eu poderia gastar mais para alugar veículos melhores. E se eu tivesse dinheiro, tomaria as devidas providências para que, na próxima vez que começássemos a construir uma coisa, terminássemos em uma viagem, pra não deixar as pessoas esperando por um ano pra terminarmos o que começamos. Já pensei em tantas coisas que eu faria se tivesse dinheiro. Eu sonho demais, disse ele, rindo. - Sonha com o quê? Perguntou Jessica. - Quer mesmo saber? - Claro. - Meu maior sonho é ter um milhão de dólares. Nem precisa ser um milhão. Meio milhão já seria suficiente. - Suficiente pra quê? Perguntou Jessica de novo. Ela podia sentir a excitação em sua voz. - Primeiro, eu construiria um orfanato por aqui. Provavelmente em Nueva. E contrataria pessoal qualificado pra cuidar das crianças. Depois, eu iniciaria um fundo educacional para adolescentes. Eu sei que temos ótimos alunos em Glenbrooke que deviam ir pra faculdade,

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mas não vão. Seus pais trabalham na roça, ou em lojinhas na cidade, e não têm dinheiro para mandar os filhos para a faculdade. - Parece bom, concordou Jessica. - E se ainda sobrasse dinheiro, tenho dois amigos que são missionários no Quênia. Eles vivem com muito pouco. Eu gostaria de cobrir as despesas deles para que a escola missionária não precisasse fechar por alguns meses por falta de recursos. Jessica pensou que Kyle devia ser o homem mais nobre que ela já conhecera. Desejar ter um milhão de dólares para dar aos outros era incrível para ela. - Sabe o que eu percebi? Disse Kyle, pegando a mão de Jessica. – Já faz uma hora que estamos falando só de mim. E você? Me fale sobre a Jessica. - O que você quer saber? Ela se perguntou se o seu senso de auto-defesa ficou aparente em sua voz. - Hm, vamos começar com os desejos. O que você faria se tivesse um milhão de dólares? - Um milhão de dólares? Disse Jessica, sentido-se ficar mais tensa. – Sei lá. Acho que compraria uma casa. - Que tipo de casa? - Um chalezinho. Com um pé de hortênsias azuis na frente. Kyle riu. - Vou te contar... Se Deus me abençoar com um milhão de dólares, eu compro um chalezinho pra você com dois pés de hortênsia! Jessica sabia que ele estava brincando, mas se sentiu desconfortável só de pensar em receber a caridade de alguém. Jessica riu, esperando que Kyle não notasse a artificialidade de sua risada. - E se eu tiver um milhão de dólares, prometo que compro pra você um orfanato, um fundo educacional, e o que mais? - Quênia, disse Kyle. - Ah, sim, eu te compro o Quênia também. Eles riram. Quando se acalmaram novamente, Kyle se inclinou e segurou as duas mãos de Jessica. - Jé, disse ele. Ela podia ver que ele estava sério através da fraca luz verde do relógio do painel. – Eu sei que muita coisa aconteceu pra você nessa viagem e antes dela. Eu espero que nós estejamos em condições de começar a passar algum tempo juntos. Tudo bem pra você? Eu quero muito te conhecer.

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- Olha, eu realmente não... Quer dizer... Não é muito... Jessica descobriu que era impossível dizer não a esse homem quando ele segurava suas mãos daquele jeito. - Não precisa responder agora. Eu não sei o que você tem passado, mas eu posso esperar por você. Kyle balançou as mãos dela três vezes e as soltou. – Eu vou na sua aula de educação para a saúde semana que vem ou quando for melhor pra você. E eu quero que saiba que sou um bom ouvinte também. Você viu quão profundamente meu segredo me afetou. É incrível como tudo parece diferente agora que eu contei pra você. Eu não sei o que você está carregando, Jessica. Mas se quiser alguém para dividir o fardo, pode contar comigo. Kyle foi tão honesto com ela, que ela sentiu que tinha que contar a ele o segredo. Ela tinha que dizer alguma coisa. - É o meu pai, ela disse de sopetão. – Tenho alguns problemas com meu pai, e preciso ficar longe dele. - Posso perguntar o que você fez para melhorar a situação? Precisa de um acompanhamento profissional, ou sei lá? Kyle arriscou. Jessica sacudiu as mãos. - Não. Meu pai é cheio de “profissionais”. Ele não precisa de mais ninguém. E não precisa de mim. O jeito mais fácil de explicar é que nós discordamos do modo como eu devo viver a minha vida. Eu tenho que manter minha identidade e o meu paradeiro em segredo. Eu sei que pode parecer alguma loucura de um filme de espião ou sei lá, mas é o único jeito de viver do jeito que eu quero. Por isso eu mudei meu nome para Fenton. Ela se sentiu aliviada em falar a Kyle parte dos seus segredos. Mas ela esperava que ele não perguntasse nada além. – Por falar nisso, como descobriu que meu sobrenome verdadeiro é Morgan? - Ida. Quando eu peguei a chave da casa ela disse que Hugo pedira o aluguel para Jessica Morgan. Jessica sentiu aliviada que a inocente Ida tivesse dado a informação, e não Charlotte, ou a carteira de Jessica, ou a etiqueta na bagagem. - Ainda não respondeu à minha pergunta, disse Kyle. - Que pergunta? - Quer sair comigo? Quem sabe um jantar, ou cinema, ou qualquer coisa depois que a gente voltar... Jessica viu travada dentro de si uma guerra entre o seu bom senso e seus sentimentos. Ela se ouviu dizendo: - Sim, vou amar sair com você. O guincho chegou depois das sete e tirou o caminhão da lama. Kyle e alguns mexicanos que ficaram parados no caminho do trabalho por causa da van mexeram na van e encontraram um

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fio solto. Já era umas 7:30 quando o sol apareceu entre nuvens, vindo secar a terra. Jessica e Kyle estavam de volt AA estrada principal, indo para Mexicali. Dessa vez Jessica não teve dificuldade em seguir a van até a fronteira, onde já tinha uma fila de carros. Eles tiveram que sentar e esperar com o resto dos motoristas. Vendedores ambulantes insistentes andavam entre os carros mostrando seus produtos. Tinha de tudo. Do jornal do dia até cofres de porquinho passando pela janela fechada do caminhão de Jessica. Cada vez que um vendedor se dirigia a ela, ela sorria e balançava a mão. Jessica viu que Kyle dava dinheiro aos vendedores, principalmente às crianças. Vários meninos mal vestidos chegaram na frente da van com trapos sujos para lavar sua janela. Kyle pagou a eles e logo surgiram vendedores vindos de não sei onde. Jessica viu Kyle tratar a cada um deles com generosidade. Mais uma vez ela estava impressionada com esse homem. Ela estava ansiosa para passar tempo com Kyle em Glenbrooke, mas ao mesmo tempo se sentia culpada por começar uma coisa que não poderia terminar. O resto do pessoal que tinha passado a noite com as roupas cheias de lama na alfândega não acreditou quando soube que as malas tinham sido roubadas e eles não poderia se trocar. - Quais malas sobraram? Perguntou Bill. – Não que eu me importe. Eu até gosto da ideia de pegar o avião em San Diego parecendo e cheirando igual um mendigo. Se eu conseguir um chapéu, posso até arrecadar uma grana no aeroporto. Uma das malas era de Teri, a outra era de Jessica, e a terceira era de Brenda, que Jessica notou que estava bastante sociável com Bill. O conselho de Teri deve ter funcionado. Jessica estava pensando se Teri teria alguns conselhos pra ela quando ela contasse que ia sair com Kyle. - Parece que os meninos não vão poder emprestar roupas limpas, disse Bill. Ele estava muito sujo, mas mesmo assim Brenda se sentou ao lado dele na van no caminho para San Diego. Jessica foi dirigindo o caminhão de novo, dessa vez com Teri ao seu lado. - Parece que você teve uma noite e tanto, disse Teri, a caminho de San Diego. Jessica usou algumas frases incompletas para falar que ela passou boa parte do tempo refletindo e que se entregara a Cristo. Teri gritou, abraçou Jessica, e ficou pulando sentada no banco. Lágrimas caíam em seu rosto enquanto ela ria. Jessica começara a perceber que essa decisão parecia ser maior e mais importante do que ela pensara. Ela decidiu não contar a parte de sair com Kyle. Teri logo descobriria, mesmo. Quando elas voltaram ao colégio na terça, tentando se livrar do choque cultural e voltar à normalidade das coisas, Kyle parou na sala de Jessica depois da aula quando Teri estava lá. Ele chamou Jessica para jantar na sexta à noite e perguntou se quartafeira seria um bom dia para ele ir à aula de educação para a saúde. Quando Jessica disse sim às duas coisas, Teri esbugalhou os olhos. Kyle ofereceu carona para casa. Ela poderia dizer que Teri estava morrendo de vontade de saber o que estava acontecendo. Kyle a deixou em casa, mas não entrou, pois tinha que ir para o corpo de bombeiros. Teri apareceu uns cinco minutos depois. FBTCB 132

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- Eu reparei que não tinha nenhum carro aí na frente, disse Teri com um brilho no olhar. – Daí eu pensei que poderia parar pra... conversar. - Aceita uma xícara de chá? Perguntou Jessica, sorrindo. - Se não for incômodo... respondeu Teri, entrando na sala. - Fique à vontade, disse Jessica – Vou buscar o chá e já volto. Teri estava indo para o sofá quando o telefone tocou. - Quer que eu atenda? Disse Teri. - Claro, pode atender, gritou Jessica da cozinha. Teri não chamou Jessica, então ela esperou a água ferver na chaleira, depois derramou uma boa quantia de chá, e levou com duas xícaras em uma bandeja para a sala. - Quem era? - Era engano, disse Teri. Um tal de Greg Fletcher procurando uma Jessica Morgan. Jessica colocou abruptamente a bandeja na mesinha de café, fazendo as xícaras balançarem. - Opa!, disse Teri, segurando uma xícara antes que derramasse o chá. – Peguei. Ela tomou um gole do chá e olhou pra Jessica, que ainda estava de pé. – Jé, você ta bem?

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CAPÍTULO DEZENOVE
Jessica sentou e tentou beber calmamente o seu chá. Ela mudou de assunto para falar de Kyle. - Ele disse que quer me levar a um restaurante chinês. Quer vir com a gente? Tenho certeza que Kyle não vai se incomodar. Teri fez que não com a mão, morrendo de rir da sugestão de Jessica. - Acho que ele prefere que vão só vocês dois. Não inferiorize o momento, Jessica. Você tem que ver que é a primeira mulher em quatro anos que ele chama pra sair. Não é pouca coisa, não. Principalmente de um cara como o Kyle. E olha... ele é O cara, viu? - Então por que você nunca saiu com ele? Perguntou Jessica. - Não rola. Não tem química, disse Teri, batendo os dedos um contra o outro. – Não saem faíscas. Nós estamos na posição de irmãos desde o começo e nenhum dos dois tentou modificar a situação. - Então com quem é que saem essas faíscas? - Ele não é daqui. O nome dele é Mark. Mark Hunter. - E onde está esse Mark Hunter? - No Havaí, disse Teri, com um sorriso que ia até as orelhas. – Uma irmã minha se mudou pra lá, eu fui visitá-la no verão passado. Eles me apresentaram a Mark na primeira noite. Nós ficamos juntos o máximo que pudemos por uma semana e meia, depois eu vim embora. - Vocês dois se acertaram de verdade? Teri acenou e sorriu. - Química, disse ela. – Faíscas, fogos de artifício e tudo o mais. - Então por que não foram adiante? - Mark é biólogo marinho. Ele ganhou uma doação para o projeto dele. Um ano estudando as baleias e o modo como elas se comunicam. É fascinante. Sério. Aconteceu que eu fui pra lá uma semana antes do projeto começar, aí ele teve um tempinho pra mim. Agora ele está ocupado com as pesquisas até julho. Teri bebeu o resto do chá e continuou – Além disso, só posso falar de três cartões postais e dois telefonemas. Mas eu deixei esse relacionamento pendurado até o verão que vem. - Então ta planejando voltar ao Havaí em julho? Perguntou Jessica. - Quero ir assim que acabarem as aulas. To juntando cada moedinha. Vamos ver o que Deus planejou pra nós. Por enquanto ele parece estar completamente silencioso quando eu falo a Ele sobre Mark. - Tomara que dê tudo certo, disse Jessica. FBTCB 134

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- Tomara. Teri colocou a xícara na bandeja e se levantou para sair. – Obrigada pelo chá e pela simpatia, ela disse, sorrindo brilhantemente para Jessica e se dirigindo à porta. – Tornozelo idiota. Que raiva! Eu torci quando estava fazendo teste pra ser líder de torcida no colégio, depois disso, torci o mesmo tornozelo mais umas cinco vezes. Você deve achar que eu deveria ter me acostumado, eu tenho uma variedade interessante de tornozeleiras, faixas, bandagens... Enfim, te vejo amanhã. Tchau. Teri saiu, e Jessica voltou à cozinha, colocou as xícaras na pia e olhou para suas mãos. Estavam tremendo. Será que eu ligo pro Greg? Mas o que eu vou dizer? Como ele me achou? E se aconteceu alguma coisa com meu pai? Jessica foi à escrivaninha e pegou sua agenda. Ela procurou o número e discou rapidamente. - Fletcher, Holcomb e Meiers, boa tarde. Jessica não conseguia falar. - Alô? - Oi, disse ela, tentando estabilizar a voz, Greg Fletcher, por favor. - Quem deseja? Sem pensar, Jessica desligou. Isso é ridículo! O que eu to fazendo? Não posso ligar pro Greg. Ainda não. Pelo resto da semana, Jessica ficou pensando porque Greg Fletcher tinha ligado. Mas ainda se recusava a ligar de volta. Na quarta-feira, Kyle veio à aula de educação para saúde como tinha prometido. Ela sabia que sua pequena palestra seria importante para ele e para os adolescentes. O que ela não sabia era o poder que aquelas palavras teriam. Enquanto Kyle falava à classe sobre Lindsey e como ela pegou AIDS – só uma vez, com um único garoto – as garotas estavam soluçando e os meninos recuaram nas cadeiras, com os braços cruzados, prestando atenção em Kyle com expressões obscuras. A parte da apresentação de Kyle que mais a surpreendeu foi quando ele disse à classe que era virgem. Ela nunca tinha imaginado que um cara como Kyle ainda fosse virgem aos vinte e seis anos, e que ainda falasse disso abertamente. Jessica imaginou que nenhum outro homem na face da terra fosse um exemplo maior de virtude e pureza. Não para estes alunos. Ela ficou ainda mais convencida de que estava certa ao chamar Kyle para falar quando ouviu duas alunas conversando no fundo da classe. Uma delas estava banhada em lágrimas falando com a amiga. - Se eu soubesse que haveria um cara esperando por mim como Kyle – intacto – quando eu terminasse o colegial, eu nunca teria feito aquilo com o Andy.

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- Isso ficou pra trás, disse a outra garota. – Você ainda pode ter um herói. Comece hoje. Você pode ser pura daqui em diante. Não é tarde demais. Jessica pensou se deveria interferir na conversa, mas achou que elas estavam indo bem. Quando Kyle estava quase saindo da sala, olhou para Jessica de um jeito que ela nunca tinha visto, como se ele estivesse alegre e dolorido ao mesmo tempo. Ela podia ver vitória e esperança em seu rosto. A ansiedade de Jessica pela sexta, quando eles sairiam para jantar e conversar, cresceu ainda mais. Ela se pegou pensando em falar com Kyle sobre o telefonema de Greg Fletcher. Mas como ela poderia dizer que o advogado do pai dela tinha ligado e ela estava receosa em ligar de volta sem contar a história toda pra Kyle? E ela não podia contar tudo. Ela odiava sua posição. Ela não tinha contado que alguém como Kyle apareceria em sua vida quando decidiu deixar o passado para trás pra sempre. Na noite de quarta-feira, Kyle ligou do corpo de bombeiros. - Minha escala mudou. Estou de folga amanhã, fiquei pensando se você não quer sair amanhã à noite comigo. Jessica imaginou se Kyle estava se sentindo como ela – a sexta-feira estava longe demais. Ela aceitou, e ele disse que a pegaria na escola. O restaurante chinês que ele queria levá-la ficava a uma hora dali. - Você vai amar esse lugar, ele disse. Eles fazem a melhor galinha kung pao do Oregon. Compensa a viagem. Jessica se vestiu com cuidado extra na quinta-feira de manhã e andou até à escola sob o céu nublado, com uma canção em seu coração. Ela passou pelas hortênsias onde tinha encontrado os esquilinhos e percebeu que os pequenos buquês azuis tinham se transformado em bolinhas secas marrons. Como foi curta a primavera delas. Um medo familiar apareceu para torturar Jessica, o medo de que o que ela começara com Kyle seria apenas uma primavera que logo passaria. Nos últimos dias, ela notou uma paz em seus sentimentos, ela sabia que era resultado da sua mudança com Deus. Ainda assim, sua vida ainda era uma bagunça. Ela não podia impor nada disso a Kyle. Jessica entrou na sala faltando alguns minutos pras oito. Charlotte Mendelson estava sentada no canto da mesa dela. - Está com problemas, Srta. Morgan-Fenton. Começou Charlotte. – Teve um convidado na sua aula de educação para a saúde ontem? - Sim, Jessica guardou a bolsa e se aproximou de Charlotte. – Foi a melhor coisa que eu fiz esse ano. - Você não me disse nada, não levou o assunto à reunião dos professores, e não mandou para a casa dos alunos a carta de aviso aos pais. Charlotte se levantou, arrumou os ombros, e se FBTCB 136

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inclinou para Jessica. – Discutiremos uma ação disciplinar na próxima reunião. Você será avisada. Batendo seu salto alto em direção à porta, Charlotte olhou sobre seu ombro – Tomarei providências para que você esteja fora dessa escola antes do fim do mês. Antes que Jessica pudesse responder, os alunos começaram a encher a sala. Deixa pra lá, Jé, ela orientava a si mesma, Não deixa aquela mulher te assustar. O corpo escolar vai entender quando ouvir como foi importante a palestra de Kyle. Charlotte não tem nada pra te pegar. Dawn veio à mesa de Jessica e disse: - Posso falar com você em particular? - Claro. Elas foram a um canto da sala. Dawn falou emocionada, levando o cabelo comprido para um lado da cabeça, depois para o outro. - Eu só queria agradecer pelo que Kyle falou ontem. Ele me fez pensar. Mesmo. Eu não sabia da Lindsey. Ninguém sabia, eu acho. Depois de tudo que aprendi no México no fim de semana, dos amigos que eu fiz, acho que as coisas estão mudando pra melhor em minha vida. E aí a fala de Kyle ontem aqui, eu tenho uma perspectiva diferente de vida agora. Eu sei que devo ter sido meio incompreensível aquele dia na sua casa. As coisas estão mais claras pra mim agora, e você me ajudou muito nisso. Só queria agradecer, mesmo. Jessica repetiu as palavras de Dawn para Kyle naquela noite enquanto iam ao restaurante. Ela também contou a ele sobre Charlotte. Kyle disse para nãos e preocupar com ela. - Ah, eu sei, Jessica concordou. – Não deixo ela me dominar. Mas eu achei que você devia saber o que ela disse caso alguém te chamasse por causa disso. Um sorriso surgiu na face de Kyle, e ele olhou para Jessica. - Isso não será problema, disse ele, baixinho. Jessica queria ter o mesmo otimismo. Uma vez sentados no banco vermelho de vinil no pequeno restaurante chinês, Jessica abriu o menu comprido e olhou os itens da lista. Era uma lista grande, principalmente pra um restaurante tão escondido. - Como achou esse lugar? Ela perguntou a Kyle. - Dois dos nossos homens acharam por acaso, quando voltavam de uma viagem no outono. O que achou? Muito autêntico, né? Jessica não sabia o que ele queria dizer com autêntico. Ela pediu o porco agridece e um prato de bolinhos de carne, que eles dividiram. A comida estava boa. Mas para Jessica, pouco importava a comida. Estar com Kyle é que era o melhor. Ela ouviu ele falar sobre a estação de cervos no Oregon e sobre acampar no inverno, na neve de Idaho. - Ah, quase esqueci de contar a boa notícia, disse ele. – Os guardas da fronteria de Calexico ligaram hoje de manhã. Eles encontraram os caras que levaram nossas coisas. Eles estavam FBTCB 137

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tentando vender a maior parte do equipamento para uma pessoa, que os entregou para a polícia. - Que ótimo! Disse Jessica. – Então boa parte das coisas foram recuperadas? - Eu não sei. Vamos descobrir. Eles encaixotaram tudo e colocaram num ônibus. Deve chegar aqui na segunda. - Que dez, Kyle! Espero que recupere seu equipamento de camping. - Eu também. Não tenho todo o dinheiro pra comprar tudo de novo. Quer experimentar um desses? Ele ofereceu a ele seus pauzinhos de madeira (hashi) enfiados em um montinho de frango e arroz frito. - Claro. Ele desajeitadamente tentou equilibrar um monitnho de arroz entre os hashis e os segurou entre eles. Jessica se inclinou, tentando alcançar o arroz. A maior parte caiu em sua boca enquanto ela segurava o riso. Kyle sorriu e colocou a outra mão embaixo, para tirar os grãos grudados em sua boca. Aquele toque teve um poderoso efeito sobre ela. O dedo dele, o lábio dela. Foi assim o primeiro toque deles. Jessica prendeu a respiração e desviou o olhar. Ela voltou ao seu prato, tentando conter a vontade de falar abertamente com Kyle, aliviar a carga do seu coração e se libertar como Kyle se libertou do segredo da morte de Lindsey. - Jé, eu quero te perguntar uma coisa. Jessica olhou para ele, tentando esconder a preocupação em seu rosto. - Pode me contar o que aconteceu na Califórnia? Do que você está fugindo? - Eu disse no México. Meu pai. Kyle esperou que ela continuasse, mas ela não o fez. - E você não pode reatar com ele? - Acho que não. Não até que eu volte pra lá. E pra lá eu não volto. Eles comeram em silêncio. Jessica sentiu um nó no estômago. Ficou difícil comer, ela colocou os hashis na mesa. Com as duas mãos no pequeno copo, ela bebeu seu chá. O garçom trouxe a conta e um prato com dois biscoitos da sorte. Jessica escolheu um, esperando que o provérbio idiota que estivesse dentro do biscoito mudasse o assunto da conversa. Ela quebrou para abrir, tirando de dentro uma tirinha de papel branco, e leu silenciosamente. - O que diz? Perguntou Kyle. - Ta escrito: “Não procure a fama. Ela te encontrará”. Isso sim é que é profundo... FBTCB 138

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Kyle abriu o biscoito dele e leu em voz alta. - Em matéria de amor, permaneça firme. - Uaaau, Jessica disse – Arrasando corações? - Você quem ta falando, disse Kyle. Ele pegou a carteira, e Jessica viu ele guardar o papel enquanto pegava o cartão de crédito. Ela achou uma gracinha ele guardar o papelzinho e decidiu fazer o mesmo com o dela. - Quer ir no jogo de futebol comigo amanhã à noite? Kyle perguntou no caminho para casa. – Acho que você ainda não viu os nossos garotos defendendo o título, né? - Claro, eu vou amar. Jessica deslizou no banco para chegar mais perto de Kyle. Kyle respondeu como ela esperava. Passou o braço por trás dela, envolvendo seu ombro com sua grande mão. Jessica chegou ainda mais perto e encostou a cabeça no ombro dele. Era maravilhosamente relaxante. Nenhum dos dois disse uma palavra. A estrada parecia ainda mais longa, eles sentavam-se tão perto que podiam ouvir a respiração um do outro. Com todo o seu coração, Jessica desejou que o tempo parasse naquela noite. Quanto tempo ela esperou por um homem como ele, e uma noite como esta, para estar perto dele. Eles não tinham que discutir nada. Nem o passado, nem o futuro. Eles têm o agora, e isso é o que importa.

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CAPÍTULO VINTE
- Sabe, disse Kyle quando eles estavam a poucos quilômetros de Glenbrooke, eu nunca te agradeci por ter me desafiado a me abrir sobre a morte de Lindsey. Hoje à noite quando você me falou de Dawn, eu tive certeza que era uma coisa boa vindo disso, e eu creio que outras virão. - Eu também, concordou Jessica. - Só uma coisa, disse Kyle gentilmente, eu me sinto preparado e aberto para começar um relacionamento sério com você. Foram longos quatro anos. Eu não sei, mas acho que foi Deus quem mandou você pra mim. Jessica sentiu um calor por dentro. Ela nunca tinha sido a resposta da oração de ninguém. As palavras de Kyle a confortavam ao mesmo tempo em que a deixavam lisonjeada. As duas sensações eram maravilhosas para guardar com este momento congelado. - O que eu queria mesmo, disse Kyle, balançando o ombro de Jessica, é saber o que você está sentindo. - Eu amo estar com você, Kyle. Eu amo ouvir você e ficar assim pertinho que nem a gente ta agora. E eu acho que de alguma maneira Deus mandou você pra mim. Minha vida inteira mudou. - E o futuro? Ele perguntou. - Não sei, disse Jessica, sentindo a tensão nos músculos. - Jé, disse Kyle, sua voz grave ressoando no peito dele e ecoando em seus ouvidos – Acho que você não vai saber até acertar os ponteiros com seu pai. - Não é assim tão fácil, disse Jessica, se distanciando alguns centímetros dele. – Você não sabe o que está em jogo. - Eu gostaria de saber, se você deixasse, Kyle disse. Jessica balançou a cabeça. - Eu não posso. Por favor, tente entender. Não que eu não deseje que as coisas sejam diferentes, e que eu fosse livre pra me apa... ela se freou. – Pra estar com você. - Você não tem que ficar consertando as frases, Jé. Acho que nós dois sabemos que estamos apaixonados. Por que não se abre comigo? - Porque isso mudaria tudo. - Isso não. Eu prometo.

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- Você não pode prometer, disse Jessica, ficando nervosa. – Você nem sabe o que ta prometendo! Não podemos viver hoje, depois amanhã, sem se preocupar com o que vem depois? - Acho que não, disse Kyle. Ele virou na rua de Jessica e estacionou em frente à casa dela. – Não é o bastante pra mim. - Então esqueça! Disse Jessica, deslizando no banco e abrindo a porta. – Você não tem ideia do que está pedindo. Ela bateu a porta com força. Com passos enormes de largos, ela marchou em direção à porta. É claro que Kyle sairia e iria atrás dela. Eles poderiam chegar a um meio termo. Mas Kyle não a seguiu. Quando ela virou a chave na porta, ouviu os pneus cantando, Kyle já fazia a curva na esquina de baixo. Jessica entrou em casa e bateu a porta. Ela tirou a bolsa do ombro e jogou no chão. - Jessica, sua mula! Ela gritou. – O que você ta fazendo? Ela foi até a cozinha e encheu um copo com água. Bebendo tudo de uma vez, ela tentava se acalmar. Por que eu fui fazer isso? Estou agindo que nem uma criancinha de dois anos de idade. De onde vem isso? Ela não sabia responder suas perguntas. Tudo o que ela tinha era uma bola de ansiedade e energia. Nessa hora ela queria ter uma bicicleta ergométrica. Ela poderia pedalar a noite toda até descarregar. Jessica viu a escada e decidiu subir e descer os catorze degraus. Três vezes, quatro vezes. Sua respiração e seus batimentos cardíacos começavam a pulsar em harmonia com suas emoções, à flor da pele. Seis vezes pra cima, seis vezes pra baixo.m Sete. Oito. Na nona vez, Jessica parou no topo da escada. Seu coração acelerado, e a perna doendo. Com Kyle, sem Kyle, ela iria sobreviver. Ela nunca devia ter deixado as coisas irem tão longe. Não devia ter ido ao Mexico. Mas aí, ela não teria entregado sua vida ao Senhor. - Deus? Jessica suspirou. – Eu estou fazendo a coisa certa, né? Você me entende, não é mesmo? O único pensamento que veio à mente de Jessica foi entrega. Ela não gostou disso. Decidiu ignorar, tomar um banho quente e ir pra cama. Ela se sentiria bem depois de uma boa noite de sono. Jessica não se sentiu bem na manhã seguinte, porque ela não conseguiu dormir. Greg Fletcher tinha, de alguma maneira, conseguido seu telefone. Quanto tempo até ele a encontrar? E ela queria mesmo viver com Kyle? Já que ela não poderia ter um relacionamento com ele se ele queria uma coisa que ela não podia dar. Ela se sentiu encurralada. Ela lutou para se vestir e estar mentalmente preparada para o dia que viria. No dia anterior ela tinha dito às suas turmas que aplicaria prova hoje, mas ela não tinha preparado nada. Provavelmente nenhum deles se incomodaria com isso, mas ela não gostava de desobedecer ao seu calendário. Ainda mais hoje, com os nervos em frangalhos.

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Jessica correu para a porta da frente, saiu e trancou. Quando virou para a rua, viu a caminhonete de Kyle parada na frente. Kyle estava encostado no carro, com os braços cruzados. Eu não to pronta pra isso. Não quero falar com ele. Não agora. Jessica abaixou a cabeça e cruzou o jardim, caminhando para o colégio. Ela podia ouvir Kyle vindo atrás dela. Ele a alcançou e andou ao seu lado meio quarteirão antes de falar. - Fugir não é uma boa opção, Jé. Vamos encarar isso juntos. Jessica não respondeu. Um milhão de respostas passaram em sal cabeça, mas nenhuma chegou aos seus lábios. - Fiz uma reserva de avião pra você, disse Kyle. – Portland para Los Angeles. Você vai hoje à tarde e volta domingo À noite. Aluguei um carro pra você. Vá falar com seu pai, Jessica. Resolva esse assunto, e depois venha pra casa comigo. Jessica parou de andar e encarou Kyle, com o rosto vermelho. - Me esquece! Acima de suas cabeças, um par de esquilos corria no fio telefônico, um perseguia o outro. Jessica pensou que ser perseguido não era uma coisa tão romântica, afinal. - Não, você vai pensar no assunto, disse Kyle, elevando a voz. – Eu te pego meio-dia. Você vai ter que dispensar as últimas aulas, e vai ter alguns minutos pra fazer as malas. Se eu não me importasse com você, não estaria fazendo isso. Jessica estreitou os olhos, tentando fazer Kyle ficar com raiva. Ele, ao contrário, permaneceu atrás dela, firme. Seus olhos limpos, numa expressão cheia de compaixão. - Em matéria de amor, permaneça firme, ele disse, repetindo o que dizia seu biscoito da sorte. Havia um sorriso em seu rosto. Jessica sentiu o cansaço tomar o lugar da raiva. Ela já estava se sentindo exausta há algum tempo, mas se recusava a reconhecer isso. Agora ela simplesmente não tinha forças para continuar. - Ta bom, sussurrou ela, olhando pra baixo. – Ta bom. Kyle colocou a mão no queixo dela e levantou seu rosto. Ele não disse nada, mas carinhosamente passou o dedo sobre a cicatriz em sua boca. A cicatriz que primeiro os aproximou parecia ter tanto poder sobre Kyle quanto tinha sobre ela. Quando ele a tocava assim, ela ficava completamente indefesa. Tudo o que ela pensava era na palavra entrega. Ela ainda não gostava disso. - Estarei pronta ao meio-dia, disse Jessica, permitindo-se mergulhar nos olhos verdes de Kyle. Ele a trouxe para perto, acolhendo a cabeça dela em seu peito. Ela pensou que ele iria beija-la mas ele não o fez. Ele a abraçou e sussurrou: FBTCB 142

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- Obrigada. Ela sentiu o cheiro de canela. Kyle se afastou e disse: - Tenho uma reunião da equipe no corpo de bombeiros. Estarei no colégio ao meio-dia. Em ponto. - Ta, disse Jessica, vendo-o virar-se e correr até a caminhonete. Os esquilos tinham descido pelo poste de madeira e correram atrás de Jessica, depois subiram em uma árvore frondosa. Ela chegou na escola alguns minutos atrasada, ficando desanimada ao encontrar Charlotte esperando por ela em sua sala, sentada em sal mesa novamente. Alguns alunos já estavam na sala. Jessica não queria que eles ouvissem o que quer que a diretora teria a dizer. - Atrasada, disse Charlotte. Jessica sentou em sua cadeira, destrancou a gaveta e guardou a bolsa, sem ligar pra Charlotte. - Tive uma agradável conversa com sua tia Bonnie ontem, disse Charlotte. Jessica não olhou pra cima. Quando listou Bonnie e João como seus parentes mais próximos, achou que eles nunca seriam contatados. Obviamente, Charlotte estava bancando a detetive sozinha. - Ela disse que a família toda está desesperada desde que você desapareceu há dois meses. Parece que ninguém sabia que você estava no Oregon. Jessica comprimiu os dedos dentro do sapato e cerrou o queixo, esperando a próxima informação descoberta por Charlotte. - Bonnie me deu um número interessante. Charlotte leu cada número devagar. Isso te lembra alguma coisa, Srta Morgan? Era o número do seu pai. A sua linha privada. - Eu liguei hoje de manhã, mas Sharon, sabe, a secretária dele, Sharon, então, Sharon disse que ele tinha acabado de voltar de uma viagem de negócios e vai passar a tarde em casa. Charlotte se inclinou e apontou o dedo para Jessica. – Ou você me fala o que está acontecendo agora ou eu te demito! - Você não pode me demitir, disse Jessica calmamente. – Essa é uma decisão da equipe escolar. - Depois que eu falar com seu pai, tenho certeza que terei informação suficiente para apresentar à equipe escolar na reunião segunda-feira à noite. Charlotte estava falando alto o suficiente para que todos os alunos na sala ouvissem. – Você viu o seu nome na pauta, não viu? - Desculpe, disse Jessica, pegando a bolsa e levantando da cadeira. – Não estou me sentindo muito bem. Parece que terei que usar um dos meus dias de licença médica hoje.

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Jessica andou até a porta. Ela não parou até chegar em casa. Aí ela ligou para Kyle no corpo de bombeiros e disse a ele o que aconteceu. - Você agiu certo, disse ele. – Ela provavelmente está tentando te forçar a pedir demissão, como fez com a Sra. Blair. Se fizesse isso, seria muito difícil pegar o emprego de volta. Foi uma boa tirar o dia de licença. Boa saída, Jé. Quer ir para o aeroporto agora? Tenho quase certeza que dá pra pegar um vôo mais cedo. - Certo, disse Jessica. – Vou arrumar uma mala. - Eu já chego aí, disse Kyle. - Kyle? Ele já tinha desligado. Tudo estava acontecendo rápido demais. Ela queria agradecê-lo por arranjar esse encontro, embora ela ainda estivesse com medo. O encontro com seu pai agora era imprescindível e inevitável. Jessica jogou algumas roupas na mala e pegou seus cosméticos no banheiro. O telefone tocou enquanto ela fechava o zíper. - Já? É a Teri. O que aconteceu? Dawn disse que Charlotte te demitiu e você foi embora. - Não, eu tirei o dia de licença, disse Jessica, equilibrando o telefone no ombro enquanto voltava ao armário para pegar um par de sapatos. – Estou indo para a California. Volto no domingo à noite. - Você o quê? - Não dá tempo de explicar agora, disse Jessica, ouvindo Kyle chegar com a caminhonete. – Nos falamos na segunda. Ela desligou, esperando que Teri se conformasse com essa explicação corrida. O telefone tocou de novo. - O que pensa que está fazendo saindo da sala daquele jeito? Gritava Charlotte. - Eu vim para casa porque não estou passando bem, disse Jessica. Não era bem uma mentira. Naquele exato momento, ela estava transpirando e com ânsia de vômito. – Professores têm permissão para ficarem doentes. Está no meu contrato. Com licença, tenho que desligar agora. Ela ainda ouvia Charlotte gritando do outro lado da linha enquanto apertava o botão para desligar, então pegou a mala e desceu as escadas. Ela abriu a porta bem na hora em que Kyle bateu. - Estou pronta, ela disse. Kyle pegou a mala dela. - Você ta bem? Está tão pálida.

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- Foi uma manhã cheia, ela disse, pegando a bolsa e trancando a porta. Ela não podia fazer nada, mas se sentia como uma criminosa, saindo da escola no meio da manhã e correndo pra outro estado. – E pra complicar eu não dormi essa noite. Jessica entrou na caminhonete, e Kyle dirigiu em direção a estrada. Ela limpou o suor em sua testa e abriu a janela. Uma chuvinha fina entrou. Ela não se importou. Estava refrescante. - Eu sou uma mula, Kyle, disse Jessica, pegando no braço dele. – Desculpe te meter nessa confusão. Obrigada por fazer tudo isso por mim. Eu deixaria as coisas rolarem, mas agora, com Charlotte me perseguindo, você tem razão. Tenho que esclarecer as coisas. - O que Charlotte está procurando? Perguntou Kyle, ligando o limpador de pára-brisas. Jessica fechou a janela e deslizou pra perto de Kyle. - Não sei o que ela está tentando provar. Não fiz nada ilegal ou imoral. A única coisa que eu fiz foi... fugir de casa. Só isso. Sou uma mulher de vinte e cinco anos que fugiu de casa. Não tem nenhuma lei contra isso, né? - Por que não quer que ninguém te encontre? Jessica procurou as melhores palavras para falar a Kyle. - Só posso dizer que eu não quero mais ser a princesinha do papai. Eu sei que pode não fazer sentido pra você, Kyle, mas é a melhor forma que eu posso te falar agora. Talvez quando eu chegar domingo à noite possa esclarecer tudo. Por enquanto, tudo o que eu posso dizer é que, se eu quiser viver minha própria vida, tenho que ficar longe do meu pai. - O que mudou? Perguntou Kyle. - Nada, disse Jessica rapidamente, colocando sua mão sobre a dele. – Só eu. Eu mudei. Nas circunstâncias mais esquisitas que eu passei nos últimos meses, eu mudei demais. Acredito que posso encarar meu pai e falar que eu tenho minha vida e que pretendo viver sem a intervenção dele em tudo. Ele vai ficar furioso quando eu contar que me converti a Cristo. - Por quê? - Digamos que o cristianismo não combina com o estilo de vida dele. - Você vai ficar bem? Quer que eu vá com você? Jessica balançou o ombro dele. - Vou sim. Obrigada por perguntar. E Kyle, obrigada mesmo por fazer tudo isso. Não acredito como me sinto mais leve só em saber que vou arrumar essa bagunça. Você estava certo quando disse que segredos são pesados demais pra se carregar. Obrigada, Kyle, obrigada por aliviar meu fardo. Kyle olhou para Jessica e disse:

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- Jé, eu acho que ainda não entendi bem o seu segredo. Mas acho que não preciso ficar sabendo dos detalhes. Pra mim basta saber que vai ter lugar pra mim em sua vida. Ele passou o braço sobre os ombros dela e disse – O coração é interessante. Pode ser grande como o oceano, mas um segredo ocupa todo esse espaço. Aí não dá pra abrir. O meu coração está aberto, Jé. Está esperando por você. Mas eu me não posso entrar no seu coração com um segredo mal resolvido. Jessica se sentiu aquecida com a honestidade de Kyle - É hora de fazer uma faxina na casa, disse Jessica. – quer dizer, no coração. Eu prometo, Kyle, quando eu voltar vai estar tudo arrumado, pronto pra você. Ele se inclinou e beijou-a acima da orelha. - Estou orando por isso, ele disse.

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CAPÍTULO VINTE E UM
Jessica sentia o coração leve durante o voo a Los Angeles. Ela conseguiu pegar um voo mais cedo para desembarcar no começo da tarde. Enquanto estava na fila para pegar o carro que Kyle tinha alugado pra ela, Jessica pensou em como ele era generoso. Ele arranjou tudo isso pra ela, e quando ela disse que o pagaria, ele rejeitou a oferta como se tivesse custado alguns dólares, não algumas centenas. Ele tinha reservado um carro econômico, por isso Jessica pediu para trocar. - Um conversível, por favor, ela disse, mostrando sua carteira de motorista do Oregon. Era uma clara e ensolarada tarde de outono. Não tinha muita neblina, só uma brisa leve pra refrescar. Jessica entrou na rodovia com o conversível vermelho, seguindo para a pista rápida assim que pôde. O tráfego estava tranquilo, assim como o humor de Jessica, enquanto virava na Avenida Por do Sol, dirigindo por ruas que lhe eram familiares. Ela pensou em dar uma passadinha na Praia Venice, mas achou que primeiro precisava encarar seu pai. Ela poderia se divertir mais tarde. Talvez um brunch17 no Chez Monique’s em Santa Monica. Ou compras no Bervely Center. Ela precisava mesmo de umas botas novas pra voltar para o chuvoso estado do Oregon. Jessica virou à esquerda para entrar em uma área residencial em uma colina. Ela parou diante dos brancos portões trancados e digitou o código de segurança na caixa ao lado do carro. - Dennis? Disse ela para a caixa. – Denis, você ta ai? - Jessica? Disse uma voz assustada, estalando na caixa. - É, sou eu. Surpresa! Posso entrar? - Claro, madame. Os altos portões ornamentados se abriram, Jessica passou por eles, por uma fonte, e então parou diante do homem uniformizado à entrada da luxuosa mansão. - Dennis!, disse Jessica, rindo, enquanto dava ao homem as chaves do carro e um grande abraço. – Você parece um peixe! Ele abria e fechava a boca, com os olhos esbugalhados, mas nenhum som provinha dele. - Onde esteve? Perguntou Dennis, quando encontrou sua voz. – Seu pai sabe que está aqui? - Ainda não, disse ela, apertando a bochecha de Dennis. – Bom te ver. Ela caminhou até a porta da frente. Antes de girar a maçaneta, aporta se abriu, e Elsie, uma das empregadas, a cumprimentou e disse: - Bem-vinda ao lar, Srta Jessica. Nós todos sentimos saudades.

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Refeição que substitui o café-da-manhã e o almoço.

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Jessica abraço Elsie, assim como os outros três empregados que apareceram de repente. Eles foram todos muito bem treinados para não demonstrar abertamente suas emoções, mais ainda para não fazer perguntas. - Papai está em casa? Elsie acenou negativamente. - Ele saiu há alguns minutos. Incrível não terem se cruzado no caminho. - Quem sabe? Disse Jessica, sentindo o coração acelerar. Ela estava pronta pra isso, né? – Te vejo mais tarde. Ela sorriu para todos e seguiu para o escritório de seu pai na Asa Sul³. Jessica não pode deixar de reparar como tudo era caro e impecável. Ela nunca tinha prestado atenção ao luxo que a cercara enquanto crescia ali. Agora, comparando com seu pequeno chalé, tudo parecia espaçoso e exagerado. Ela detestava isso. Entrando silenciosamente no escritório do pai, Jessica viu Sharon ao telefone, anotando alguma coisa, com a cabeça abaixada. Ela nem viu Jessica ali. - Sim, disse Sharon, eu me lembro de ter recebido sua ligação hoje pela manhã. Sim, o Sr. Morgan está no escritório. Eu o colocarei na linha. Sharon apertou o botão, ainda sem olhar pra cima, não percebera Jessica ali. – Sr. Morgan? A mulher que eu te falei, Sra. Mendelson, está na linda um. Sharon viu Jessica; a secretária parecia estar vendo uma assombração. Jessica colocou o dedo nos lábios, pedindo-a para fazer silêncio. - Deixa eu fazer uma surpresa, ela disse. Sem nada dizer, Sharon apertou o botão de segurança em sua mesa que abria a fechadura da porta do escritório. Jessica entrou. Seu pai estava à mesa, gritando para o telefone em vivavoz. - Ta, ta. A senhora é diretora de um colégio. Eu quero saber da minha filha! Onde ela está? - Estou aqui, papai. Disse Jessica. Ela permaneceu onde estava, vendo a cabeça de seu pai levantar e o queixo cair. - Ainda está ai, Sr. Morgan? A voz de Charlotte estalava no telefone. – Sr. Morgan? Jessica andou até a mesa e disse: - Sim, Charlotte, ele está aqui. E eu também estou. Jessica apertou o botão para desligar. Seu pai levantou da cadeira de couro como um touro, com as mãos cerradas sobre a mesa. Ele olhou para ela, para seu cabelo curto, para a cicatriz em seu lábio. Ele sussurrou: - Jessica? Antes que ela pudesse responder com um abraço e um beijo, ele berrou: - Onde é que você estava? FBTCB 148

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- No Oregon, ela respondeu, tentando ficar calma. – Papai, nós precisamos conversar. - Precisamos mais que conversar, Jessica. Ele saiu de trás da mesa, e a segurou pelos ombros. – Tem ideia da situação em que você me colocou? Como você pôde fazer isso comigo? O que você estava pensando? E que diabos estava fazendo no Oregon? Depois de seu momento de fúria, Harold Morgan abraçou sua única filha, pressionando sua face contra o seu terno. Enquanto ele a abraçava, Jessica sentiu o cheiro do whisky e dos cigarros caros. O pai de Jessica a afastou a um braço de distância. Seu cabelo escuro estava ficando mais grisalho perto das orelhas? Talvez o estilista estivesse testando um novo visual. Pra ela parecia que seu queixo estava menor. Ou ele tinha emagrecido. Ele não era muito mias alto que Jessica, mas Harold Morgan era daqueles homens que tiravam uma hora do dia para dedicarse a exercícios com seu personal trainer para manter seus 90kg. - O que aconteceu com seu lábio? - Sofri um acidente. Não foi lá grande coisa. Jessica detestava o jeito como ela a olhava, checando-a como um cavalo de raça. Ela sentia como se aquelas paredes tão familiares estivessem chegando mais e mais perto. - Sharon! Harold gritou. A porta dupla se abriu. - Sim, Sr. Morgan? - Sharon, ligue para Nate Goldberg e marque o primeiro horário de segunda-feira para Jessi. Depois ligue para Greg e... - O Sr. Fletcher está vindo para cá, disse Sharon. – E eu já comuniquei todos os membros da diretoria, exceto Peter, para informar sobre a reunião extraordinária às sete da noite. Mais alguma coisa? - Por enquanto não. Mas tente contatar Peter. Onde será a reunião? No centro da cidade? - Não, eu marquei para cá, senhor. Quer que eu mude? - Papai... disse Jessica, tentando interromper. Ele sinalizou para que ela ficasse em silêncio. - Não, não precisa. Aqui ta bom. Mande preparar a sala de reuniões. Às sete, então. Mande Greg entrar quando chegar. Sharon acenou e saiu, fechando a porta. - Papai, não vou para essa reunião da diretoria. Nem essa noite, nem nunca mais. Por isso que precisamos conversar. Estou declinando da minha posição na diretoria. Não quero cargo nenhum nessa empresa. Eu sou professora. Eu sou feliz, e é isso que eu quero fazer. Jessica falava rápido, sabendo que ele a bombardearia com acusações e argumentos assim que ela parasse para respirar. O fato de ele não dizer uma palavra a surpreendeu. - Sente-se. Ele mostrou o sofá, sua voz derretida como manteiga. FBTCB 149

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Jessica não queria sentar, não queria ser manipulada por seu pai como ela o vira fazer a seus clientes tantas vezes antes de fechar negócio. - Não se importa que eu me sente, não é? Não é todo dia que uma filha entra no escritório de um homem depois de desaparecer por quarenta e quatro dias. Os quarenta e quatro dias mais longos da vida desse homem. Quarenta e quatro dias sem receber nenhum sinal. Nenhuma esperança. Ninguém para dizer se ao menos ela estava viva. Nenhuma palavra sequer, exceto estas. Ele tirou um pedaço de papel com a letra de Jessica do bolso. - Papai, ele leu, - cheguei à conclusão de que enquanto eu estiver sob seu teto, nunca me tornarei eu mesma. Por favor, tente entender. Não estou fazendo isso para te machucar. Ele olhou pra cima, terminando a carta que sabia de cor. – Tenho que fazer isso sozinha. Por favor, não tente me encontrar. Com amor, Jessica. Ele andou até o sofá e se sentou. Olhou para ela com o olhar de alguém que estava ferido por dentro. Jessica não tinha certeza disso, ela já tinha visto essa expressão em seu rosto antes. - Papai, eu preciso que entenda. O que está escrito nesse bilhete é verdade. Enquanto estiver sob seu teto, serei sempre a sua garotinha. Nunca serei capaz de pensar por mim mesma, nem de ser quem eu quero ser. Jessica sentou-se perto de seu pai. Ela queria segurar as mãos dele, mas ele nunca fora esse tipo de pai. Mesmo nesse momento, ele parecia bem. – É tudo verdade, papai. Não fiz nada para te magoar. Estou fazendo isso porque eu preciso. Não existe jeito de o senhor entender? Seu pai não aparentava emoção alguma, apenas observava Jessica. - Você pode ter o que quiser aqui. Não é o suficiente pra você? Por que você desapareceu? Eu contratei detetives particulares. Os melhores. Semana após semana eles não encontravam nada. Tem ideia do que fez comigo? Pela primeira vez, ela percebeu o ponto de vista de seu pai, e se sentiu mal. - Desculpe, papai. Acho que não tive escolha. Eu tive que fugir ou não teria coragem de partir. - Por quê? Você podia ter me dito que queria ser professora. Eu deixaria. Eu não deixei você ir para Oxford? Jessica balançou a cabeça. - Ta vendo? Eu não quero passar o resto da vida implorando por liberdade e esperando que você me deixe ir onde eu quiser ou fazer o que eu quiser. E mesmo em Oxford eu não tive minha própria vida com Ruben me seguindo pra todo canto. - Qual o problema com Ruben? Ele era o melhor guarda-costas da equipe. Pensei que gostaria dele. - Claro que gostei do Ruben. O que não gostei foi de ser seguida e observada o tempo todo. Eu sabia que enquanto estivesse sob o seu controle, dependendo do seu dinheiro, sempre haveria um Ruben ou alguém pra ficar de olho em tudo o que eu faço. Não quero viver assim. Não

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posso viver assim. Eu precisava começar tudo de novo, sozinha. Sem ninguém tentando me controlar. Ela esperou pela reação dele. Vendo que ele não respondia, resolveu ter certeza de que ele entenderia seu ponto de vista. - Deixa eu contar, disse Jessica, com toda coragem, - Só fico aqui até domingo, depois eu volto pra lá. Por isso, você e eu, sem membros de diretoria nenhuma, só você e eu, devemos resolver nossas pendências. A primeira delas é que eu estou me exonerando da diretoria da Morgan Enterprises. Ela parou, percebendo que não falava mais como uma professora de inglês de colégio do interior. Agora ela falava com na sua juventude, quando exercia o cargo de vice-presidente Junior que ela sempre odiou. Ela ficou assustada com a rapidez com que voltara aos velhos tempos. - Nós podemos conversar, disse Harold calmamente. – Mas primeiro vamos jantar. Acho que você deve querer relaxar um pouco. Que tal nadar um pouco? Ou uma massagem? Os membros da diretoria ficarão aqui por pouco tempo. Não custa nada se sentar com eles por cinco minutos. Só cinco minutos. - Papai, eu não vou para essa reunião da diretoria. E eu não sou uma criança que pode ser subornada com agradinhos. Não está entendendo o que digo? - Sim, eu entendo. Você não é mais criança. Sua voz se elevou um pouco. – Você já tem vinte e cinco anos. Hora de pedir a sua herança. Vá em frente, Jessica, pegue seu dinheiro e vá embora. Greg vai preparar os papéis para você assinar. Ele parecia derrotado, uma expressão poucas vezes vista na face de Harold Morgan III. Jessica queria que ele a entendesse, que não se magoasse. Queria que ele entendesse que ela não fazia isso para desafiá-lo, mas porque precisava ser ela mesma. - Não quero dinheiro. Eu saí daqui sem nada. Você percebeu? Eu levei menos que trezentos dólares quando fui embora. Só. Eu consegui viver por quase dois meses com quase nada! NA verdade, eu passei vários dias sem comida porque eu não tinha dinheiro. Papai, eu sequer tenho um carro. E eu sou tão feliz! Harold olhou para Jessica com as sobrancelhas cerradas. - Feliz como? Não faz sentido. Por que ficar por aí sem o que comer quando num estalar de dedos você pode ter tudo o que quiser? Você sequer parou pra pensar em mim. Você está feliz agora? Pois eu fiquei infeliz. Completamente infeliz! - Me desculpe por te magoar. Mas a minha vida agora é aquela que mamãe teve enquanto cresceu. Eu estendo minhas roupas em um varal no meu quintal, eu caminho até o meu trabalho todos os dias, e eu tenho um jardim. Você me conhece tão pouco. Se conhecesse realmente, saberia que esta é a vida que eu sempre quis. Eu nunca fui feliz aqui. Só mais uma coisa, papai. Harold Morgan deu de ombros, como se não importasse a próxima conclusão estapafúrdia a que chegara sua filha. FBTCB 151

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- Eu me tornei cristã. Aquela coisa de nascer de novo. Jessica tinha um grande sorriso em seu rosto. – E eu conheci um homem que na faz ideia do dinheiro que eu tenho, e que me ama. Só pelo que eu sou. Pode imaginar o que é isso? Harold olhou para Jessica como se nunca a tivesse visto na vida. - Você está louca? O que aconteceu? Te seqüestraram e levaram para algum culto estranho onde você sofreu uma lavagem cerebral? Eles tem um líder, não tem? Ele te mandou aqui para pegar meu dinheiro. É isso, não é? As portas do escritório se abriram, e o ativo advogado de seu pai entrou na sala, no auge dos seus cinqüenta e dois anos, todo engravatado, segurando sua maleta. - Jessica! Ele jogou a maleta no chão e abriu os braços para abraçá-la. Ele a paparicava desde que ela era uma criança. Jessica aprender desde cedo a correr para os abraços de Greg Flatcher. Se ela fosse do tipo assanhada, provavelmente teria se insinuado por ele na adolescência. Mas nada disso aconteceu, e ela ainda o via como tio Greg. O físico de corredor maratonista de Greg foi presenteado com cabelos braços, bem aparados na frente, com um rabo de cavalo de uns sete centímetros atrás. - Jessica, Greg a abraçou novamente. – Você voltou! Ela sentiu o cheiro de canela quando ele falou, e de repente percebeu porque ela se sentia tão confortável com o hálito de canela de Kyle. Greg era o único naquela empresa com quem ela se sentia segura. Ele era um homem íntegro. Coisa rara em Bervely Hills e mais rara ainda na Morgan Enterprises, a companhia de eletrônicos de seu pai. - Vamos matar um bezerro cevado! Disse Greg entusiasmado, levantando os braços para cima. – A filha pródiga retornou!

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CAPÍTULO VINTE E DOIS
Jessica se espreguiçou no sofá no meio do seu antigo quarto. A lareira, que já estava ali há alguns anos, mais decorativa do que útil, nesse daí estava acesa. Ela sentou sobre seus pés, vestindo um robe branco bem fofo e pantufas de pelo de coelho. Na antiga mesa de café à sal frente estava posto um chá inglês completo18, com bolinho de groselha, creme Devonshire, morangos frescos e sanduíches de pepino. A empregada tinha servido uma xícara de chá para Jessica, com creme e açúcar, deixando a xícara na bandeja de prata. E lá estava o chá, esfriando. Ela pediu o chá porque queria comer alguma coisa antes de ir para o aeroporto. Mas ela não conseguia tocar em nada. Sua mente estava cheia com tudo o que acontecera nos últimos dois dias. Jessica desejou poder se conectar em alguma coisa para drenar toda a informação obsoleta e ficar só com os acontecimentos importantes. Alguém bateu à porta. Jessica gritou: - Pode entrar. Greg entrou e fechou a porta. - Hora do chá? Perguntou ele, alegremente. - Sirva-se, por favor, Jessica ofereceu. – Não consigo comer nada. Greg pegou um sanduíche de pepino, abocanhando o petisco triangular. Ele se sentou em uma das poltronas e disse: - Então, mudou de ideia? - Não, eu não mudei de ideia. - Vai sentir falta dessa casa? Perguntou Greg, se servindo de uma xícara de chá do elegante bule de prata. - Nunca senti, disse Jessica. – A minha vida é o que eu tenho em Glenbrooke. Isso aqui, ela mostrou a sala decorada por arquitetos famosos com mobiliário antigo, não passa de conto de fadas. - A princesa sai do castelo e nunca mais olha pra trás, disse Greg. Ele estava vestido com shorts, sapatos de corrida e camisa branca, parecendo um corredor que acabara de passar triunfantemente pela fita no fim da corrida. Certamente não aparentava seus cinqüenta e dois anos de idade. - Só que eu olhei pra trás, disse Jessica.

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O bolinho de groselha é um bolinho com pedacinhos de groselha, e esse creme é um creme de leite feito em um lugar da Inglaterra chamado Devon que só é encontrado nos Estados Unidos em lojas especializadas.

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- E agora está com medo de virar uma estátua de sal e ser soprada pelo vento. - Quê? - Sabe... disse Greg, a mulher de Ló. Sodoma e Gomorra. Ela olhou pra trás quando deveria fugir, e virou uma estátua de sal. Deixa pra lá. Quer que eu te sirva outro chá? Esse aqui esfriou. - Claro, disse Jessica. – Pode comer aí à vontade. Eu vou me vestir. Ele foi ao banheiro, com banheira de hidromassagem, bicicleta ergonômica, cama de bronzeamento, e um arranjo de flores frescas no canto. Muito diferente do seu pequeno banheiro em Glenbrooke, com sua banheira antiga, sem tela na janela, e com a pintura visivelmente descascando. Há uma hora, Jessica tinha saído de uma piscina coberta para uma massagem de quarenta minutos. Agora ela estava em frente a meia dúzia de espelhos, cobrindo seu corpo mimado com um suéter novo e a mesma calça jeans que ela estava naquela noite em que o caminhão atolou na lama no México. A diferença era realmente gritante. Jessica se sentiu bem em manter seu ponto de vista durante todo o fim de semana. Ela travou discussões acaloradas com seu pai, negociou com vários dos mais velhos, e cabeçudos, membros da diretoria, manobrando no último esforço de Peter, chefe da divisão alemã, para fazê-la mudar de ideia. Peter a convidou para jantar na última noite, e enquanto eles comiam um Alasca assado19, ele a pediu em casamento. Quando ela recusou, ele disse: - Seu pai ficará decepcionado. Ele disse que eu era sua última esperança para te manter na empresa. Não que ele tenha sido o único motivo porque eu te pedi em casamento. Acho que você seria uma excelente esposa. Greg tinha sido o único mente-aberta durante o fim de semana, e ela sabia que podia contar com ele. Olhando pela última vez para todos aqueles espelhos, ela saiu para sempre daquele banheiro, sentindo um alívio em saber que em sua casinha em Glenbrooke só havia um espelho de corpo inteiro, e ficava do lado de dentro da porta do armário, no andar de baixo. Espelhos demais, assim como auto-avaliações demais, podem desanimar uma pessoa. Jessica sabia disso muito bem. - Você ainda não me disse o que acha, disse Jessica, chegando mais perto de Greg e de uma das empregadas da cozinha que estava trazendo outro bule de chá fresco. – Obrigada, disse Jessica para a serviçal. – Quer comer alguma coisa? Um morango? A mulher olhou assustada para Jessica, recusando educadamente, saiu da sala rápido como um coelho. - Puxa, Jessica, disse Greg, servindo-se de mais uma xícara de chá, chamar uma empregada da cozinha pra um piquenique no seu quarto! Você mudou, garotinha. Ele entregou a xícara e o pires de porcelana chinesa para Jessica. – E eu, particularmente, acho isso maravilhoso. Você

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Uma espécie de bolo de sorvete

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fez algumas grandes decisões neste fim de semana. E eu acredito que você foi muito bem. Mas eu sou seu advogado. Ficar te elogiando faz parte do meu trabalho. - Quer dizer que você acha que eu não fiz a escolha certa. - Eu não disse isso. Só estou dizendo que nunca vi nenhuma mulher que, em situação como a sua, fez as escolhas que você fez. - Greg, por favor diga que entende porque eu tenho que ir embora. Greg não respondeu. Ele inclinou a cabeça, esperando que ela explicasse melhor. - Isso aqui pra mim é uma prisão, uma cela luxuosa e enfeitada. Greg, você se elmbra que minha mãe contava que quando ela era criança fazia molho de maçã com as maçãs que ela mesma tirava da árvore? Greg balançou a cabeça e tomou um gole de chá. - Algo dentro de mim precisa disso. - Fazer molho de maçã? - É, fazer molho de maçã. Não vê? Essa prisão é sufocante! Eu não posso ri até a cozinha fazer o que eu quiser. O pessoal da cozinha ia me pedir para sair, ou iriam pegar tudo e fazer pra mim. Esse estilo de vida não combina comigo. Jessica se sentou, sem saber se algum dia ela saberia explicar a Greg ou a qualquer outra pessoa porque ela desejava desesperadamente a vida que Glenbrooke oferecia a ela. Talvez ela estivesse tentando alguma conexão emocional com sua mãe e a vida simples que ela tinha antes de se casar com Harold Morgan. Talvez Jessica esperasse escapar do jeito sufocante com que seu pai regrara sua vida. Ou talvez essa escolha viesse do medo que ela tinha de que nenhum homem fosse capaz de amá-la verdadeiramente ao invés de amar o que ela poderia dar como sócia das empresas de seu pai. Provavelmente todos esses motivos juntos – e outros ainda que ela sequer poderia confessar a si mesma – a tivessem levado a isso. - Então, Jessica, para você, neste momento, é uma boa decisão. Greg interrompeu seus devaneios. – Pra falar a verdade, com seu amigo, não como seu advogado, mas como seu amigo, eu devo te aplaudir. Especialmente por decidir colocar Cristo no centro de sua vida. Você sabe que eu cresci nesse meio cristão. E desde o ano passado, sinto que devo voltar ao lar. Parece que Deus está meio obcecado em me trazer de volta. - Ele é tão inflexível, né? Greg direcionou sua xícara a ela, como que a fazer um brinde, concordando com o que dissera, e tomou mais um gole. Colocando a xícara novamente no pires, ele disse: - Agora. Que tal assinar esses papeis? Ele tirou uma pilha de documentos da maleta. - Assine no final de cada pagina, Jé. Isso mesmo. Essa aqui também, e essa, e aqui tem que assinar nesses dois lugares. Peraí, você começou na página seis? Isso, certo. Tá ótimo. Só mais FBTCB 155

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algumas. Isso aí! Greg arrumou o monte de papeis e colocou de volta na maleta. – Pronto. Não foi tão ruim assim, hein? Jessica sorriu e pegou um morango. - Acho que não. - Você está com aqueles documentos que eu te entreguei hoje de manhã? - Sim, estão na minha bolsa. - Então está tudo certo. Greg se levantou e abriu os braços, convidando Jessica ao seu abraço amigo por uma última vez. Ela se levantou, o abraçou, e beijou sua bochecha. - Obrigada, Greg. Sério. Obrigada por tudo. - Você vai me ligar se precisar de alguma coisa? - Claro. Dê lembranças a Holly e às crianças. - Pode deixar. Greg a olhou como se estivesse lutando com algum sentimento dentro de si. – Você, Jessica Grace Morgan, é uma mulher de fibra. É uma honra te conhecer. Ele tão nobre, como se fosse aquele um adeus definitivo, que deixou Jessica meio balançada. Esse foi um dos motivos pelo qual ela fugiu em segredo e viveu escondida nos últimos dois meses. Era completamente diferente de ir embora vendo o advogado de seu pai poeticamente colocar o casaco por cima da lama para que ela pudesse passar, se podemos assim dizer. - Quer uma carona para o aeroporto ou vai com a limusine? - Na verdade, Kyle alugou um carro para mim. Eu tenho que levá-lo de volta ao aeroporto. - Então este é o nome dele, disse Greg. Esse Kyle deve ser o cara. - Ele é diferente de todos os homens que eu já conheci. Talvez com exceção de você, Greg. Jessica disse, com uma piscadela. Ela fechou o zíper da mala e colocou a bolsa no ombro. - Deixa eu levar isso aqui pra você, disse Greg, pegando a mala dela. – Oh, não! O que você está fazendo, Jé, pilhando a prataria da família? - Só algumas fotos, respondeu Jessica. – Eu pedi para papai me deixar levar estas. - Já se despediu dele? - Sim. Jessica comeu um último morango e deu uma última olhada no seu antigo quarto antes de seguir Greg até a porta. – Nós conversamos longamente esta tarde. Eu me desculpei pelo modo como parti há dois meses. Naquele momento, eu não podia pensar em outra maneira de me livrar da vida que ele tinha construído para mim. Agora estou indo abertamente, tudo em ordem. Mas ainda assim, ele não me deu sua bênção. Para papai só existe um jeito, e é o jeito dele. Não posso viver assim. Ou devo dizer, não vou viver assim.

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Greg a acompanhou enquanto desciam a ampla escada que os levaria à entrada principal. Todos os empregados estavam enfileirados em seus uniformes preto-e-branco para se despedir de Jessica. Ela se despediu de cada um deles, e depois acenou do carro alugado antes de partir em direção à rua. Ela pensou em como nenhum deles notara sua fuga naquela manhã, na primeira vez em que partira. Olhando pelo retrovisor, Jessica viu uma figura solitária em pé em frente à janela do quarto de seu pai. Jessica sussurrou: - Tchau, papai. Por favor, por favor... tente me entender. O vento do outono soprava os cabelos de Jessica enquanto ela dirigia para o aeroporto. Para parar de pensar em seu pai, ela pensou em Kyle e em como explicaria isso pra ele. Ele não acreditaria nisso. Ela poderia ligar para Greg, e ele contaria a verdade a Kyle – que Jessica Morgan era a filha de um multimilionário e, por sua vontade, ela quis abandonar seu posto de vice-presidente da Morgan Enterprises, posição que legalmente assumiria no seu aniversário de vinte e cinco anos. Jessica pensou em mais uma dúzia de situações enquanto voava para Portland. E se Charlotte tivesse descoberto uma maneira de demiti-la? Ou então e se o corpo escolar estivesse do lado de Charlotte e concordasse que Jessica não deveria ter convidado Kyle para falar aos alunos sem antes enviar uma carta aos pais? Jessica pensou que ela tivesse desistido de ser vicepresidente para então descobrir que tinha sido demitida do seu emprego como professora. O avião pousou à meia-noite, e Jessica entrou no terminal, tentando encontrar Kyle. Lá estava ele, esperando por ela com um buquê de flores diversas em sua mão. Jessica foi em direção aos braços dele. - Bem-vinda ao lar, disse Kyle, abraçando-a bem apertado. – Senti saudades. - Também senti saudades suas, disse Jessica, sua bochecha encostada no peito dele. - Como foram as coisas? Kyle lhe entregou as flores e colocou o braço sobre os ombros dela, caminhando enquanto levava a bagagem. - Como eu pensei que seriam. - E isso é bom? Perguntou Kyle. - É, acho que acabou tudo bem. Jessica percebeu que dificilmente poderia dar uma resposta decente a Kyle enquanto ele não soubesse dos detalhes de sua história. Ela pensou em como ele confiava nela, mandando-a para resolver suas pendências, sem saber o que exatamente ela tentava resolver. Quando eles estavam na caminhonete a caminho de Glenbrooke, Jessica começou a dar a ele os detalhes.

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- Conversei muito com meu pai. Ele não está inclinado a aceitar que eu permaneça aqui, ou que eu siga a minha carreira de professora. Não sei se algum dia ele vai me entender, mas eu sei que é o melhor pra mim. - Que bom, disse Kyle. – Eu também acho que é melhor que você fique em Glenbrooke. Mas é por motivos pessoais. Ele olhou para Jessica e piscou. Meu relacionamento com meu pai sempre foi distante, ela continuou. – Eu não esperaria que ele respondesse diferentemente da forma que sempre agiu comigo. - Deve ser difícil confiar em Deus assim, disse Kyle. - O que disse? - Acho que nós tendemos a ver nosso Pai celestial da forma como enxergamos nossos pais aqui na terra. Ele não é como os outros, né. Estou falando de Deus, é claro. Ele é amoroso, perdoador e misericordioso. Não há nada que possamos fazer para que ele pare de nos amar. Tudo o que ele quer é que confiemos nele e que o amemos. Isso é que fica difícil quando não confiamos nem amamos nossos pais humanos. Jessica pensou na indiferença de seu pai. Kyle tinha razão. Era assim que ela imaginava Deus. Até a semana passada. Então Jessica pensou em outra coisa. Kyle daria um pai maravilhoso. Quantos filhos ele quer ter? Jessica parou de pensar no futuro e voltou ao presente. - Estou feliz que você tenha me obrigado a encarar meu pai, Kyle. Não sei como eu pensei que poderia continuar levando as coisas assim. Eu precisava voltar, como você disse, tomar algumas decisões e acertar as coisas. Obrigada por me fazer ir pra lá. - Então acho que eu devo te agradecer por me fazer contar o meu segredo sobre a morte de Lindsey. Essa manhã na igreja quatro casais, pais de alunos, vieram até mim contar que seus filhos chegaram em casa e contaram sobre o que eu disse na classe. - Ui... Eles estavam bravos por não terem recebido nenhuma carta? - Não, não... Eles disseram que foi a primeira vez que eles puderam falar com seus filhos abertamente sobre sexo. Contaram que os filhos deles decidiram na sua aula que o único caminho era manterem-se virgens até o casamento. - Kyle, isso é maravilhoso! Espero que o corpo escolar saiba disso. Kyle sorriu. - Eles saberão. Três desses pais que eu falei fazem parte do corpo escolar. Um deles é superintendente. - Ta brincando!

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- Não. Ah, tem mais uma coisa. Parece que existe um membro do corpo escolar com o qual Charlotte não pode discutir. Seria muito difícil convencê-lo de que você deveria ser castigada pelo que fez. - Quem é? - Eu.

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CAPÍTULO VINTE E TRÊS
Kyle e Jessica chegaram em casa quase duas horas e meia da manhã. Eles passaram a maior parte da viagem do aeroporto até lá discutindo a situação que enfrentariam na escola com Charlotte. A reunião do corpo escolar estava marcada para aquela noite, e Kyle ensinou Jessica como falar com o corpo escolar quando e se eles a chamassem para falar. Eles ficaram tão ocupados falando do problema com Charlotte, que Jessica acabou sem contar aquilo que planejava dizer a Kyle. Ele estacionou a caminhonete, levando a bagagem dela, e estava quase indo embora quando ela disse: - Queria te dar isso aqui, Jessica vasculhou entre os papeis em sua bolsa até encontrar um cheque para Kyle. Quando ele viu o cheque, levantou as mãos e disse: - Não quero que você me pague a passagem de avião. - Então pega isso aqui pra pagar a gasolina. Ela estendeu o cheque a ele, mas ele ainda se recusava a pegar. - Kyle, pega. Por favor. Durante dois meses eu não tive nada para dar a ninguém. Por favor, aceite. Estou dando de coração. Kyle sorriu para ela e aceitou o cheque. Ele olhou de relance para o cheque antes de colocar no bolso. Então parou e olhou de uma vez, antes de cair na gargalhada. - Por isso que eu gosto de você, Kyle disse, balançando o cheque no ar, seu excelente senso de humor. Quinhentos mil dólares! Essa foi boa, Jé. A expressão facial de Jessica não mudou. - Que foi? Disse Kyle. Ele parecia não entender sua expressão séria. – Perdi alguma coisa? É um daqueles cupons de quinhentos mil abraços, ou algo do tipo? Ele analisou o cheque, com uma expressão intrigante na face. - É serio, Kyle. - Como assim é sério? Quer dizer que eu posso retirar esse dinheiro no banco amanhã? - Não, você pode depositar. Os bancos geralmente não liberam saques de mais do que dez mil dólares. Kyle olhou para ela, meio confuso, parecendo que ia estourar de rir a qualquer momento. - Tem uma coisa importante que eu não te disse ainda, disse Jessica. – É que o meu pai, além de indiferente e tudo o mais, é milionário. Aliás, ele é multimilionário. Kyle parecia estar mais calmo.

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- Quando eu completei vinte e cinco anos no mês passado, tive acesso à minha poupança no banco e assumi automaticamente o posto de vice-presidente da Morgan Enterprises. - Como em Morgan Eletrônicos? Disse Kyle, empalidecendo. Jessica acenou afirmativamente. - Era disso que eu estava fugindo. Eu queria uma nova vida, longe do meu pai dominador e do dinheiro dele e de toda essa história de negócios com que eu cresci. Eu me sentia sufocada pelo poder, pelo dinheiro e por aquele estilo de vida. Começar tudo de novo, com uma nova identidade, foi a única maneira que eu achei que seria possível deixar aquilo tudo para trás. Você me mostrou que eu poderia parar de me esconder, encarar minhas responsabilidades, e legalmente me livrar delas. Kyle sentou no primeiro degrau, com as mãos nas bochechas. - Eu abri mão da minha posição, disse Jessica, sentando-se ao lado dele. Eu tive que dar minha poupança para a empresa. Mas o advogado do meu pai encontrou um jeito pra que eu tivesse algum dinheiro vendendo as ações que eu tinha da companhia. Eu vendi quase todas. Estou livre para viver como que quero. Ou devo dizer, como Deus quer que eu viva. Kyle olhou para Jessica, seus olhos ainda incrédulos. - Não posso ficar com isso, disse ele. - Claro que pode! Jessica se sentia aliviada por finalmente revelar todo o seu segredo. – Você está segurando em sua mão um cheque de meio milhão de dólares. Você disse que era tudo de que precisava. Só meio milhão. Você pode construir o seu orfanato. Ela tentava olhar dentro de seus olhos, tentava falar com o homem que estava lá dentro. – Ou começar seu fundo para mandar jovens à faculdade. Jessica balançou a mão na frente da cabeça dele – Oi... alguém aí? Kyle não respondeu. - Não é tanto assim, Kyle. Eu tenho mais de 47 milhões de dólares, então não se sinta como se estivesse me lesando ou sei lá. Ele ainda não respondia. - Sabe, que talo Quênia? Podemos tentar comprar o Quênia, se você quiser. Kyle bruscamente ergueu o braço em direção a Jessica, como se tivesse levado um choque, segurando o cheque o mais longe que podia. - Não posso ficar com isso! Ele disse, parecendo meio maluco. – Não quero seu dinheiro! Percebendo que Jessica não pegar ao cheque, Kyle o partiu em pedacinhos e jogou nela. Sem dizer uma palavra, ele foi embora. Ela estava confusa. Jamais esperara essa reação dele. Em toda sua vida, os homens a procuravam por causa do seu dinheiro. Ela nunca soube se algum deles estava sinceramente interessado nela ou no que ganhariam com o casamento. Kyle era o oposto de todos esses FBTCB 161

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homens, mas mesmo assim ela não esperava que ele a rejeitaria por causa do seu dinheiro. O pensamento de que ela o tivesse perdido doeu profundamente. - Eu não sei o que eu achava que ele diria, Jessica disse a Teri depois da aula. Quando Teri a levava pra casa, Jessica a convidou para tomar um refrigerante e cuidadosamente contou a ela o seu segredo. – As pessoas dessa cidade são as primeiras que me tratam como uma pessoa normal. Mas agora eu estou começando a achar que sou um tipo de aberração. Não qeuro que ninguém saiba do meu dinheiro se isso significar que tudo vai mudar. Sinto como se estivesse perdendo tudo que eu tão desesperadamente desejei ter aqui em Glenbrooke. Teri, é terrível! Teri suspirou longamente. Um sorriso engraçado, digno de um palhaço, estava em seu rosto. - É, imagino que seja terrível. - Mas é! Você não entende. As pessoas pensam que todos os seus problemas se resolveriam se elas tivessem um milhão de dólares. Bem, eu tenho, eles não. E eu só tenho mais problemas. Problemas complicados. Teri parecia estar dando o seu melhor para tentar entender o que Jessica dizia. Ela chegou mais perto e balançou o braço de Teri. - Você vai continuar sendo minha amiga? Eu não sou muito boa em fazer amigos porque eu sempre fui meio que isolada. É estranho, mas, honestamente, você é a minha primeira amiga assim, de verdade. Quer dizer, talvez com exceção de Greg, o advogado do meu pai. Teri pareceu reconhecer o nome. - Greg Fletcher? O cara que te ligou há um tempinho? Jessica acenou afirmativamente. - Por isso que você ficou daquele jeito. Ai, Jessica, eu mal posso imaginar tudo o que você tem passado. Você estava mesmo sem comida naquele dia que chegaram aquelas compras em sua casa? Jessica balançou a cabeça. - Eu não planejei muito bem a minha fuga. Eu fiquei com doze dólares para três semanas. - Ai, Jessica! Teri chegou mais perto e a abraçou. – Por que não me disse? Eu teria feito o que estivesse ao meu alcance pra te ajudar. - Eu sei, disse Jessica. – Na verdade, posso te pedir um favor? - Claro. Qualquer coisa. Jessica foi à escrivaninha e pegou um pedaço de papel de pão. - Conhece um garotinho chamado Adam Kelsey? - Claro. A prima dele, Laura, é minha aluna. FBTCB 162

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- Pode fazer com que ele receba isso de um anônimo? Jessica entregou a Teri uma nota de cem dólares. – Um dia no mercado, quando eu gastei os meus últimos doze dólares e fiquei com uma moeda faltando, esse anjinho me deu uma moeda do cofrinho dele. Eu prometi que o pagaria. Teri pegou o dinheiro, com uma expressão misteriosa em seu rosto. - Sabe o que mais? Ninguém precisa saber do dinheiro, a menos que Kyle diga alguma coisa, o que eu duvido. Você disse que quer ajudar as pessoas. Nós podemos arranjar pra que você faça o desejo do seu coração sem que ninguém saiba de onde vem. - Gostei, disse Jessica, se sentindo aliviada por Teri se sentir à vontade com a ideia de Jessica ser milionária. - E não se preocupe com Kyle. Acho que ele volta quando passar o choque. Ele se apaixonou por você de forma tão intensa, e ele pensava que você era pobre. Ele ama a você, não ao seu dinheiro. Jessica se sentiu encorajada pelas palavras de Teri, esperando com todas as suas forças que Teri estivesse certa. Ela descobriria à noite, na reunião. Teri sugeriu que elas fossem jantar no A Trepadeira antes de ir à reunião. Jessica pediu uma tigela de sopa, mas mal sentiu o gosto da carne e dos vegetais. Ela estava nervosa por causa de Kyle e pelas acusações de Charlotte, para as quais ela deveria estar preparada. Teri falava sobre sua irmã no Havaí enquanto comia sanduíche de atum com batatas fritas. Quando a conta chegou, Jessica pegou antes que Teri visse e disse: - Você pagou da última vez. Dessa vez é por minha conta. Teri começou a rir. Ela riu tanto, que chorou de rir. Riu até ficar torta. Todo mundo estava olhando, mas Teri não conseguia parar de rir. - Qual é a graça? - Você disse... Teri tentava recuperar o fôlego – Você disse que é por sua conta. - Ta. E qual a graça disso? Teri ia cair na risada de novo, mas dessa vez conseguiu se conter. Ela balançou a mão em frente ao seu rosto, tentando se acalmar. - Desculpa, Jé. É que quando você disse isso, eu lembrei que você poderia pagar pra todo mundo que está aqui. Ela estava falando baixo, inclinada na direção de Jessica, com os olhos brilhando. – Você poderia pagar a conta de tudo mundo nessa cidade – ou no Oregon inteiro – e ainda sobraria dinheiro. Jessica ainda não entendia o que era tão engraçado, se esforçando pra dar um sorriso. - Desculpe, disse Teri, mais calma. – Desculpe. Ainda estou meio impressionada com essa história. Não deve mesmo ser engraçado. FBTCB 163

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Teri se recompôs e pediu desculpas novamente no caminho para a escola. - Não sei porque eu reagi daquele jeito. Espero que não tenha te envergonhado. - Não, tudo bem. Não se preocupe. Jessica não entendia. Mas de qualquer forma, isso a fez imaginar se a reação de Kyle seria uma variante da reação de Teri. As expectativas que tinham sido colocadas sobre ela e sobre sua herança tinham gerado nela uma variedade de sentimentos dolorosos. Tudo o que ela sempre quis foi essa vida simples. Agora que ela tinha isso, pensava em como as pessoas à sua volta reagiriam ao, de repente, saber que ela tem todo esse dinheiro. Se ela tivesse continuado como vice-presidente, teria na conta mais de quatrocentos milhões, e quando seu pai morresse, seria tudo dela. E daí? Ela já tinha mais do que precisava, e tinha a vida que sempre quis. Isso se ela tivesse certeza de que ela tinha Kyle. A reunião começou pontualmente, Jessica assistia Kyle cuidadosamente do lugar onde ela e Teri se sentaram nos fundos da sala. Ela tinha certeza de que ele a vira entrar, mas Kyle não olhou diretamente para ela. Isso a deixou nervosa. Dez minutos depois do começo da reunião, Dawn e seu pai, Dr. Laughlin, se sentaram nos fundos da sala. Mais alguns alunos de Jessica entraram na sala com seus pais. Quando chegaram ao item seis da reunião “Srta. Morgan-Fenton: violação da regra de notificação aos pais”, todas as cadeiras do fundo da sala estavam cheias de pais e alunos. Jessica esperava que aqueles fossem os pais que Kyle mencionara. Ou isso ou eram os pais que reclamaram a Charlotte. Chalotte parecia se deliciar ao descrever a forma como Jessica deixara que um convidado falasse na sua aula sem esclarecer primeiro, e como esse convidado falou sobre AIDS, sem que os pais soubessem disso anteriormente. - Devo acrescentar que esta professora tem continuamente violado políticas dessa instituição, continuou Charlotte. – Seus arquivos não estão completos, mesmo com freqüentes advertências. Ela chegou a enganar ao núcleo regional, escondendo sua real identidade. Eu estou preocupada com a descoberta dessa sua grande mentira, se escondendo atrás do falso nome de Fenton, quando seu verdadeiro sobrenome é Morgan. O barulho dos sussurros das pessoas no auditório encheu a sala. Jessica não podia negar nenhuma das acusações de Charlotte. Ela tinha sido falsa. Isso não a incomodava no início, já que os fins justificariam os meios. Mas agora, ela sentia seu estômago embrulhar. Talvez por estar mais perto do Senhor ela podia enxergar melhor a verdade. Ela se alguém tivesse acendido a luz de onde ela estava, e todas as coisas que ela não podia ver no escuro agora eram claras pra ela. Ela não culparia Kyle se ele desistisse dela. Nem tanto pelo choque por causa do dinheiro, mas por toda essa decepção. Ele sequer sabia quem ela era. Não a verdadeira Jessica. Jessica sentiu em seu coração o doloroso medo de que possivelmente, não, provavelmente, Kyle se sentia idiota demais pra continuar investindo numa relação com ela. - Eu busquei as referências, já que o Sr. McGregor aparentemente não o fez, e descobri que esta mulher, Jessica Morgan, é na verdade a filha de Harold Morgan. Sim, disse Charlotte às FBTCB 164

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pessoas que aparentemente pareciam ter reconhecido o nome – Harold Morgan, o multimilionário. - É... sussurrou Teri – Lá se vai o plano de ninguém precisar saber. - Srta. Morgan, queira vir à frente? Parecia mais uma ordem de Charlotte do que um pedido. Há um mês, Jessica teria se recusado. Esta noite, tudo o que ela podia pensar era naquela palavra cada vez mais familiar em seu subconsciente: entrega. Jessica se levantou e andou até a frente. Ela queria ter vestido seu terninho Liz Clairbone azul. - Minha pergunta é, disse Charlotte, apontando o dedo para Jessica enquanto ela sentava-se atrás no pequeno palco, atrás de Charlotte, porque devemos manter uma mulher como essa no corpo profissional do Colégio Glenbrooke? Ela mentiu para todos, todo esse tempo, e ela sequer precisava disso. Eu recomendo que esta impostora seja imediatamente demitida. O argumento de Charlotte era muito fraco, Jessica sabia disso. Não havia qualquer motivo razoável para que ela fosse demitida. De qualquer forma, era uma cidade pequena, e um pequeno grupo de membros da diretoria. Charlotte Mendelson estava em pé diante deles com fogo nos olhos. Muita gente começou a falar ao mesmo tempo. Charlotte voltou para os fundos do palco, e o diretor da reunião se levantou e pediu ordem na sala. Uma mulher nos fundos permaneceu em pé e gritou: - Ela é a melhor professora que meu filho já teve! Você não pode demitir uma pessoa por causa da cor da pele, então certamente não pode demitir uma pessoa porque seu pai tem muito dinheiro. - É mesmo! Alguém concordou. - Mas ela falou sobre AIDS à minha filha, disse uma mulher em um simples vestido azul, sem se levantar – E não pediu minha permissão! - Ta certo, disse o diretor, levantando as mãos. – Antes que isso se torne uma balbúrdia, eu tenho algumas coisas a dizer. Primeiramente, a Srta. Morgan deveria ter mandado uma notificação aos pais, mas não o fez. Este é o seu primeiro ano, e eu acredito que podemos perdoá-la por não ter familiaridade com a nossa política. Charlotte falou alto: - Ela já conhecia a política. Falamos sobre isso nas reuniões antes das aulas começarem. - Mas nós podemos perdoar esse erro. E a diretoria não considera qualquer das demais acusações motivo suficiente para demiti-la. Neste momento Kyle subiu ao palco. O diretor se afastou, e Kyle falou com ele em particular. - O Sr. Buchanan agora tem a palavra.

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O coração de Jessica rapidamente subiu à boca. Se existia alguém que poderia convencer a todos, este era Kyle. Ela queria saber se ela ainda tinha crédito com ele. Se ele pelo menos olhasse para ela, ela poderia saber pela sua expressão o que ele estava sentindo. - Quero deixar claro que a Srta Morgan realmente me convidou para falar à classe, e eu aceito toda a responsabilidade pelo conteúdo da minha apresentação. - Kyle! Charlotte levou as mãos ao rosto. Provavelmente ela não sabia quem era o convidado de Jessica. A nova informação pareceu tirar-lhe o ar dos pulmões. - Além do mais, continuou Kyle – Eu concordo com a Sra. Powell que uma pessoa não pode ser discriminada pela sua situação econômica. Eu sei que conhecer alguém vindo de um meio tão influente é uma coisa nova aqui na cidade. Tudo bem se você se sentir um pouco impressionado com a situação. Eu sei disso porque eu fiquei chocado quando descobri. Até esse ponto, Kyle falara ao auditório, de costas para Jessica. Neste momento, ele virou para trás, dando quatro passos em direção à cadeira dela, pegou suas mãos e a fez levantar, de costas para a audiência. Quando ela olhou eu seus olhos, Jessica se sentiu que estavam calmos. - Me desculpe, disse Kyle. – Você me perdoa por ter sido tão teimoso e insensível? - Claro que sim, sussurrou Jessica em resposta. – Me perdoa por não ter sido honesta com você? Quero começar tudo de novo. Uma lágrima correu em sua bochecha. Kyle acenou, colocou a mão na bochecha dela, e limpou aquela lágrima. Então seu dedo encontrou o caminho até a cicatriz em seu lábio. Seus olhos verdes observavam sua face. Pararam nos seus lábios. Com toda a sua alma ela desejava que Kyle a beijasse. Ela não se importava se metade de Glenbrooke estava na frente deles. O diretor andou até o microfone novamente e disse: - Sra Mendelson, espero que tenha visto que esta mão de ferro insensível não é bem vista por esta diretoria. Recomendo que a senhora mantenha sua atenção na educação dos jovens de Glenbrooke ao invés de se preocupar com os arquivos dos professores. Charlotte se levantou e olhou para Kyle e Jessica. Ao invés de raiva, seu rosto mostrava desprezo. - E eu sugiro, continuou o diretor – que todos nós comecemos novamente. - Talvez eu tenho ultrapassado os limites um pouco. Creio que a diretoria vai perdoar isto em vista do meu desempenho nesta escola. Charlotte parecia trabalhar muito para sair com dignidade. Ela desceu da plataforma e sentou-se em uma das cadeiras no fundo do auditório. - Nós podemos começar de novo também, disse Kyle para Jessica. – Se lembra da minha promessa no México? Jessica balançou a cabeça, seus olhos fixos nele. FBTCB 166

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- Eu prometi que, se eu tivesse um milhão de dólares, te compraria uma casa e plantaria um pé de hortênsias azuis no jardim. - Dois, relembrou Jessica, sorrindo, inclinando a meia-lua em direção a ele. Kyle se inclinou e lhe deu um beijo longo e intenso. Todos no auditório aplaudiram de pé. Até Martin, o conquistador, estava aplaudindo. Teri parecia exultante. Kyle passou o braço ao redor dos ombros de Jessica, e eles se viraram para encarar as pessoas que os aplaudiam. Kyle inclinou-se, irreverentemente reverenciando o público, enquanto Jessica assistia Charlotte sair da sala, discretamente seguida pelo treinador de futebol. - Não sei se eles estão aplaudindo a gente ou a decisão da diretoria, disse Jessica. Kyle olhou para baixo, encarando-a. - É pra gente, Jé. Metade dessas pessoas orou por mim nos últimos quatro anos. Você é a resposta das orações deles. - Não se incomoda com o dinheiro? - Não, disse ele, segurando o queixo dela, - Só quero que me prometa uma coisa. - Qualquer coisa. - Prometa que não haverá mais segredos daqui pra frente. - Sem segredos, prometeu Jessica, fazendo o gesto dos escoteiros com sua mão direita. Kyle sorria enquanto dizia: - Então, já que o que sentimos um pelo outro não é mais segredo, acho melhor reafirmarmos a fé dessas pessoas te pegando em meus braços e te dando outro beijo. E ele o fez.

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Receitas Secretas
O pessoal da cozinha da Mansão Morgan preparou para Jessica um chá inglês completo na tarde antes dela voltar pra Glenbrooke. Entre as delícias servidas em uma bandeja de prata, estavam sanduíches de pepino, morangos frescos, bolinhos de framboesa e creme Devonshire (creme inglês). Minhas companheiras de chá e eu concordamos. O creme Devonshire disponível nos Estados Unidos não chega nem perto do verdadeiro Devonshire, ou creme coalhado, que nós experimentamos na Inglaterra, Escócia e Irlanda. Imagino que Jessica deve ter sentido falta do creme Devonshire que ela experimentou enquanto estudava em Oxford, e o pessoal da cozinha da Mansão Morgan fez o que pôde para fazer o creme para ela. A receita abaixo, “Creme Devonshire da Jessica”, chega bem perto. Meus agradecimentos a Loch Grant pela ajuda com os bolinhos de framboesa. E minha filha Rachel é expert em sanduíches de pepino, sempre que nós duas fazemos uma festa do chá. A receita dela está anotada. Bolinhos de Framboesa da Mansão Morgan Pré-aqueça o forno em fogo médio ½ xícara de manteiga em temperatura ambiente ½ xícara de açúcar ½ colher de chá de sal 1 ½ xícara de creme de leite (não substitua por creme de leite light) 1 ½ xícara de farinha de trigo especial para bolo (Dona Benta hahaha) 1 ½ xícara de farinha de trigo comum 2 colheres de fermento em pó ¾ xícara de passas 1 colher de raspas de limão Misture devagar o açúcar, o sal e o creme de leite até formar uma mistura cremosa. Em uma tigela separada, misture as farinhas e o fermento. Adicione as passas e as raspas de limão. Misture. Abra um buraco no centro dos ingredientes secos. Adicione a mistura de manteiga no buraco. Mexa até que se forme uma massa macia. Coloque a massa em uma superfície coberta de farinha e sove. Corte a massa com uma faca untada com farinha em dez partes iguais. Coloque em formas de bolinho, deixando um espaço de três centímetros, aproximadamente, entre cada um. Asse na prateleira de cima do forno entre 40 e 50 minutos. Os bolinhos devem ficar dourados. Deixe esfriar antes de servir com o Creme Devonshire da Jessica. Creme Devonshire da Jessica 80g de requeijão light 1 colher de açúcar ¼ colher de essência de baunilha 1 xícara de creme de leite (com aproximadamente 40% de gordura)

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Misture o requeijão e o açúcar com o mixer ou na batedeira até ficar leve e fofinho. Adicione a essência de baunilha e o creme de leite. Bata na velocidade alta até tomar forma de ‘picos’. Cubra e coloque na geladeira até o dia seguinte. Sirva em uma vasilha bonita com Bolinhos de Framboesa da Mansão Morgan. Sanduíches de Pepino para a Hora do Chá 2 pepinos frescos ½ xícara de requeijão light 6 a 8 fatias de pão de forma fresco Uma pitada de salsa triturada e pimenta Lave os pepinos e descasque em faixas intercaladas, para dar um ‘efeito zebra’. Corte os pepinos em rodelas finas. Tire as cascas do pão e cubra com requeijão. Adicione uma pitada de pimenta e salsa triturada antes de colocar as rodelas de pepino em metade dos pães. Coloque outro pão por cima e corte na diagonal, ou use cortadores de sanduíches em forma de coração ou florzinha. Deixe os sanduíches cobertos antes de servir para que o pão não desidrate.

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Segredos – Robin Jones Gunn
Querido Leitor No verão passado, minha mãe encontrou meus trabalhos escolares e os mandou para mim. Meu marido, Ross, e eu rimos quando lemos o comentário da professora da primeira série no fim do ano letivo: “Robin ainda não consegue trabalhar com as habilidades matemáticas básicas. Apesar disso, ela consegue manter toda a classe entretida na hora do tapete com suas historinhas imaginárias” Aí está onde a paixão por contar histórias começou! (Isso também explica porque eu não consigo fazer meu balanço financeiro) Ross e eu trabalhamos em um ministério com jovens em período integral nos últimos dezessete anos. Enquanto nossos filhos eram bebês, eu escrevi alguns artigos e escrevi alguns livros infantis. Para minha alegria, eles foram publicados! Então as meninas no nosso grupo de jovens começaram a me pedir a escrever alguns livros para elas, então eu escrevi uma série de doze livros chamada Serie Cris. A paixão por contar histórias continuou a crescer. Segredos é meu primeiro livro para adultos. Como todo recém-nascido, há um certo deslumbramento no momento em que ele finalmente é conhecido. E um tanto de alegria. Estou alegre porque este livro é um romance. Se eu continuar contando histórias, quero continuar contando romances porque, pra mim, romance é a essência da redenção. Pense em um amante incansável que busca seu primeiro amor até que eles finalmente se unem. Deus é o amante incansável, e nós somos o seu primeiro amor. Obrigada por ler este livro. Compartilhar com você essas histórias é um tipo de hora do tapete. Tomara que passemos muitas horas dessas juntas. E que este romance te leve aos braços do amante incansável que conhece os segredos do seu coração. Sempre, Robin Jones Gunn.

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