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MEDIR É PRECISO

23-03-200

"Cada vez que estendemos nossa habilidade de enxergar, nós
vemos algo novo"

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Louis-Victor-Pierre-Raymond, o sétimo duque de Broglie, teve uma
carreira um tanto excêntrica. Seu interesse inicial era em história.
Porém, em torno da Primeira Guerra Mundial, influenciado pelo
irmão Maurice, um físico experimental, Louis começou a se
interessar pela nova ciência que estudava os átomos, a física
quântica.

Em 1922, apresentou sua tese de doutorado, "Pesquisas sobre a
Teoria Quântica", onde teve uma idéia revolucionária: a matéria, tal
qual a luz, tem propriedades ondulatórias. Até então, todo mundo
imaginava que a matéria fosse feita de átomos, e os átomos, de
prótons e elétrons, pequenas partículas, visualizadas como bolas de
bilhar. Onda é o oposto, espalhada pelo espaço. Como a matéria
pode ser ambas as coisas?

Ondas são descritas pelo seu "comprimento de onda", a distância
entre duas cristas consecutivas. (A melhor imagem aqui não é uma
solitária onda do mar, mas aquelas que vemos quando jogamos
uma pedra numa poça d'água, ondas concêntricas separadas por
uma distância fixa, o seu comprimento de onda.) De Broglie sugeriu
que objetos materiais, de elétrons a cadeiras e pessoas, têm um
comprimento de onda que diminui com sua massa.

Eu e você, caro leitor, temos um comprimento de onda
ridiculamente pequeno, razão pela qual não nos vemos ondulando
quando nos deparamos com nossa imagem no espelho. Mas
elétrons, ou mesmo átomos, com massas bem menores, têm
comprimentos de onda perceptíveis. Sendo assim, exibem efeitos
atribuídos a ondas de luz, como a refração e a interferência. Esses
efeitos podem ser usados para construir equipamentos de medida
ultraprecisos. O que se faz usando a interferência da luz pode ser
repetido com a interferência de átomos com uma precisão 10 mil
vezes maior.

Quando duas ondas se encontram, suas cristas e vales se
sobrepõem, ou melhor, interferem. Se as duas ondas estiverem
perfeitamente em sincronia (ou em fase), crista se soma com crista,
vale com vale e temos uma onda duas vezes mais alta. Essa é a
interferência construtiva. Se uma crista bate com um vale, as ondas
se anulam, numa interferência destrutiva.

Entre esses dois extremos muita coisa pode acontecer. Imagine por
exemplo duas ondas idênticas que viajam em direção a uma
parede. Ao serem refletidas, espelhos forçam as ondas a interferir.
Detalhes no padrão de interferência revelam diferenças na distância
percorrida pelas ondas, causadas por irregularidades na parede ou
durante o percurso.

Dentre as várias aplicações, uma das mais lucrativas é o estudo de
cavidades subterrâneas. Por exemplo, a existência de bolsões de
petróleo e gás natural ou de veios de minérios e diamantes. Outra
aplicação em desenvolvimento, talvez não tão lucrativa, é a
detecção de terroristas em cavernas.

Para atingir alta precisão, os interferômetros atômicos precisam
funcionar a baixíssimas temperaturas, da ordem de um milionésimo
de grau acima do zero absoluto, um feito tecnológico que De Broglie
jamais poderia imaginar possível. Mas ele concordaria que as idéias
de hoje são a tecnologia de amanhã.

Grupos de cientistas nos EUA e na Europa estão usando o efeito
para medir a força da gravidade com alta precisão. Por exemplo, a
teoria de Newton prevê uma variação da gravidade entre o nível do
mar e o topo do monte Everest de 0,3%. O objetivo aqui não é só
aumentar a precisão de uma medida, mas sim, como disse o
Prêmio Nobel Steven Chu, "medir o primeiro dígito de uma nova
ciência. Cada vez que estendemos nossa habilidade de enxergar,
nós vemos algo novo".
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2303200803.htm