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+ Marcelo Gleiser

O mundo não acabou!
A verdadeira missão do LHC
é manter vivo um campo de
pesquisa

Na madrugada de quarta-feira passada, o LHC, o gigantesco
acelerador de partículas nos arredores de Genebra, na Suíça,
passou por seu primeiro teste. Um feixe de prótons viajou em torno
do anel de 27 km de circunferência a uma velocidade próxima à da
luz, completando cerca de 11 mil voltas em um segundo. Em alguns
meses, quando o LHC estiver funcionando para valer, dois feixes de
prótons correrão em sentidos opostos e colidirão de cabeça dentro
de enormes detectores. Essas colisões terão energias jamais
atingidas na Terra: apenas durante os primeiros instantes após o
Big Bang, o venerável evento que deu origem ao cosmo, as
partículas colidiam constantemente com tal energia. Por isso, o LHC
é chamado de "máquina do Big Bang". Toda nova tecnologia gera
um misto de expectativa e medo, especialmente quando quebra
novas barreiras do conhecimento, como é o caso do LHC. No
século passado, o mesmo ocorreu antes do teste da primeira
bomba atômica, no deserto de Álamo Gordo: cálculos indicavam
que existia uma probabilidade mínima de a explosão rasgar a
atmosfera, possivelmente acelerando a extinção da vida no nosso
planeta. O teste veio, a explosão ocorreu, o mundo não acabou. No
caso do LHC, bem mais inofensivo, o medo vem da possibilidade de
miniburacos negros serem gerados durante as colisões. Dada a
reputação nefasta desses objetos astrofísicos, especulações
pipocaram em blogs do mundo inteiro: será que esses buracos
negros irão crescer e tragar a Terra inteira? Será que esses físicos
finalmente conseguirão acabar conosco? Vários processos foram
abertos, tentando bloquear a operação do LHC. Felizmente, foram
rejeitados por juízes que, se não conhecem a física, ao menos
obtiveram boa consultoria a respeito. Como garante a equipe de
segurança do próprio Cern, o laboratório onde fica o LHC, não há
qualquer perigo de que algo assim ocorra
(public.web.cern.ch/Public/en/LHC/Safety-en.html). Os miniburacos
negros que podem ser produzidos no LHC evaporam em frações de
segundo, sendo incapazes de qualquer efeito macroscópico. Na
natureza, raios cósmicos também atingem energias altíssimas e
podem, a princípio, produzi-los. Apesar de sermos constantemente
bombardeados por raios cósmicos, ainda estamos aqui. Mais
interessante do que as supostas ameaças é a sociologia do
experimento. Dezenas de países e milhares de cientistas do mundo
inteiro contribuíram para a construção do LHC. A física de partículas
experimental é hoje uma atividade internacional. Os Estados
Unidos, que dominarão a pesquisa nesse campo enquanto o LHC
não estiver operando plenamente, entraram com mais de US$ 500
milhões no projeto. No total, o LHC custou em torno de US$ 8
bilhões. Seria trágico se nada muito extraordinário fosse
encontrado. Existem várias previsões teóricas do que pode ser
encontrado, algumas realistas e outras bem especulativas (como os
miniburacos negros). Se apenas o mais "mundano" for visto, como
o bóson de Higgs, a partícula que presumivelmente determina a
massa de todas as outras partículas de matéria, o LHC terá servido
para confirmar o que já era esperado. Mesmo que essa confirmação
seja um feito espetacular, será como beber champanhe choco. A
verdadeira missão do LHC é manter vivo um campo de pesquisa
que, devido aos seus enormes custos, fica cada vez mais difícil de
justificar ao público. De minha parte, torço para que não só o Higgs
seja descoberto como para que algo inesperado ocorra. Nada como
uma boa surpresa para atiçar a curiosidade humana. E a natureza,
sem dúvida, é cheia delas.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1409200803.htm

Tirando onda
Brasileiro desenvolve modelo inédito para prever ondas em
lagos e rios, o que pode ajudar a reduzir acidentes de
navegação no Amazonas

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

Assim como a previsão das ondas no canal da Mancha foi decisiva
para o sucesso do desembarque das tropas aliadas no Dia D, em
1944, saber como será o comportamento das ondulações em lagos
é igualmente vital. O problema é que, até hoje, ninguém
desenvolveu um modelo eficiente para esse tipo de previsão. Um
brasileiro quer mudar essa história.

Marcelo Marques, da UEM (Universidade Estadual de Maringá),
desenvolveu um modelo matemático para prever ondas em lagos
que já foi testado com sucesso em dois reservatórios brasileiros, o
das hidrelétricas de Ilha Solteira e de Porto Primavera (Usina
Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta), ambos nas fronteiras do
Estado de São Paulo.

O próximo passo, segundo disse Marques à Folha, é testar as
equações armazenadas em um programa de computador feito por
ele no reservatório da usina de Itaipu. O desafio é obter uma
previsão também eficiente em uma área maior.

O reservatório da usina binacional, com os seus 1.350 quilômetros
quadrados de área inundada, é o sétimo maior do Brasil. Mas,
segundo Marques, ele é considerado o maior em termos de geração
de energia. A Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, é o maior
corpo de água doce em extensão.

"A previsão de ondas, em termos gerais, é importante tanto para
evitar a erosão das bordas dos lagos quanto para impedir acidentes
de navegação", disse o pesquisador da UEM.

No caso de Itaipu, onde os novos testes vão ocorrer até o fim do
ano, saber o comportamento das ondas tem mais uma aplicação:
"Com base nas ondulações é possível saber onde será melhor
colocar os tanques de criação de peixes. Existem espécies que
gostam de ondas e outras que não".

A pista do vento

O modelo matemático feito por Marques faz a previsão das ondas,
por enquanto, com uma hora de antecedência. O programa de
computador é alimentado pela força e pela intensidade do vento e
pela área da superfície do lago afetada pelo deslocamento de ar (a
chamada pista do vento).
Todos os dados são referenciados geograficamente e apresentados
sobre as imagens de satélite dos reservatórios.

"Até hoje, só existem modelos de previsão exclusivos para ondas
marítimas. O brasileiro poderá ser usado em todo o mundo", afirma
Marques. "Ele é feito com software livre."

Segundo o pesquisador, com algumas adaptações, que incluem o
cálculo das correntes, o modelo de ondas lacustres também poderá
ser usado em rios, como os amazônicos, onde a quantidade de
acidentes com barcos é freqüente. "Nas hidrovias, mesmo em São
Paulo, nós temos também acidentes por causa de ondas e ventos",
disse.

Mas, mesmo depois de o programa de previsão brasileiro ficar
totalmente pronto, o desafio a ser vencido será o de investir em
infra-estrutura, afirma o pesquisador da UEM.

"Será preciso instalar estações meteorológicas nos lagos para que
os dados básicos [como a velocidade e a intensidade do vento]
estejam disponíveis e nós possamos alimentar corretamente o
modelo." O uso de ondógrafos (equipamento para medir as ondas)
também é importante, segundo o cientista.

Segredo de guerra

Do ponto de vista metodológico, o pesquisador da UEM usou como
um dos seus pontos de partida o modelo de previsão de ondas
desenvolvido pelo oceanógrafo norueguês Harald Sverdrup (1888-
1957) -que chegou a participar de uma expedição ao Ártico como
membro da equipe do seu compatriota Roald Amundsen- e pelo
austríaco Walter Munk, 91, e que depois foi adaptado e melhorado
por outros cientistas.

As equações para prever ondas montadas pela dupla, trabalhando
já nos Estados Unidos para os aliados durante a Segunda Guerra
Mundial, evitaram que muitos soldados que participaram do
desembarque histórico na noite de 6 de junho de 1944 na
Normandia (França) morressem simplesmente afogados, segundo
vários analistas de guerra que escreveram sobre o Dia D.

A operação de guerra foi adiada em um dia por causa também das
péssimas condições do tempo no dia 5 de junho. E o mesmo
ocorreu com a publicação científica dos trabalhos sobre
oceanografia.

Sigilosos durante os anos de guerra, os estudos só foram liberados
para publicação pelas autoridades dos Estados Unidos em
novembro de 1945, aproximadamente dois meses após o fim dos
combates.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1409200804.htm

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+ Marcelo Leite

Higgs, 44
Há quem defenda que a
ausência do bóson será mais
fecunda para a física

O vôo de Stuttgart para Genebra, num jato de pequeno porte, durou
pouco mais de uma hora. A rota passava junto do Mont Blanc, uma
das montanhas mais belas do mundo. Do aeroporto internacional de
Cointrin, o grupo de jornalistas seguiu de ônibus para a sede da
Organização Européia de Pesquisa Nuclear (Cern), entre Meyrin
(Suíça) e St. Genis (França). Ali foram divididos em subgrupos, por
línguas. Aulas curtas foram dadas sobre o maior acelerador de
partículas do mundo. Seu túnel de 27 km fora aberto para penetrar
os últimos mistérios do Universo. Na mira de seus feixes de
partículas de alta energia estava o escorregadio bóson de Higgs,
cuja detecção já era o Santo Graal do Modelo Padrão da física.
Depois da palestra, os que entendiam inglês seguiram para o
detector Aleph de microônibus. No posto de fronteira, um oficial de
imigração subiu no veículo. A reportagem correu o risco de terminar
ali mesmo. O enviado especial da revista alemã "Bild der
Wissenschaft" não tinha o visto de entrada que a França exigia, na
época, de brasileiros. Nenhum passaporte, porém, foi vistoriado.
Ainda suando frio, este colunista seguiu com o grupo para o
elevador. O percurso de uma centena de metros para dentro da
terra pareceu interminável, tamanha era a expectativa. Ao abrir-se a
porta, o pé-direito com dezenas de metros não deixava espaço para
decepção. Uma legião de técnicos e cientistas se movimentava
entre centenas de quilômetros de cabos e gigantescas peças de
metal. Últimos preparativos para ligar a máquina que deveria
mapear as entranhas do átomo. O ano era 1989, e a máquina era o
LEP, construída para colidir elétrons com suas partículas-irmãs de
carga oposta (positiva), os pósitrons. O clarão da chuva de
subpartículas produzido com a colisão iluminaria a escuridão da
matéria. Era essa a promessa. A esperança. Em 2 de novembro de
2000, após 11 anos de operação, o LEP foi desligado. Ajudara a pôr
o Modelo Padrão em base sólida: só existiam três famílias de
partículas fundamentais da matéria -léptons, bósons e quarks. A
aposentadoria deveria ter ocorrido em setembro, mas o LEP
reservara uma surpresa de última hora. Em algumas de suas
colisões finais, os cientistas do Cern acreditaram ter vislumbrado a
assinatura do Higgs. Dois meses de sobrevida mostraram que se
tratava de um alarme falso. O bóson permaneceria incógnito, e
assim continuou durante os oito anos de construção do sucessor do
LEP, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês).
Chegou a vez do LHC de ser inaugurado, no mesmo túnel. Os
primeiros feixes foram acelerados na última quarta-feira. Agora,
prótons serão lançados contra prótons. Muito mais maciços, esses
ocupantes dos núcleos atômicos (hádrons) devem alcançar
energias nunca antes registradas num acelerador de partículas. Sua
colisão frontal, quando se realizar nos próximos meses, poderá
finalmente flagrar o bóson de Higgs. É essa a promessa. A
esperança. Isso ajudaria a explicar por que só algumas partículas
têm massa. Mas nada garante que o Higgs dê as caras, 44 anos
após a previsão teórica. Muitos físicos já dizem que sua ausência
resultará mais fecunda para a física que a detecção, pois forçará
uma reforma do modelo. São, ao todo, 19 anos de caçada no
subsolo da fronteira franco-suíça. Só no LHC foram enterrados US$
9 bilhões. É difícil imaginar uma fortuna mais bem empregada.

MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora da
Unesp, 2007) e de "Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade
e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros" (Editora Ática,
2007). Blog: Ciência em Dia ( cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br ).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1409200805.htm
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/inde14092008.htm
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