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+ Marcelo Gleiser

Sede humana
Em 2050, serão quase 10 bilhões de pessoas para alimentar

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Tudo começou cerca de 10 mil anos atrás, quando os humanos
decidiram se agrupar em comunidades fixas numa determinada
região. Antes disso, grupos nômades pulavam de ponto a ponto,
colhendo frutos e raízes que achavam pelo caminho e caçando
animais e peixes para sua subsistência. Acumulando experiência,
aprenderam quais vegetais eram comestíveis, quais eram
venenosos e quais tratavam doenças. Nessa virada da história, os
homens descobriram que era possível acelerar a produtividade da
natureza, concentrando árvores frutíferas e vegetais em plantações.

Em vez de ir atrás da comida, passaram a viver em torno dela.
Assim foi, por exemplo, na região do Crescente Fértil, no Oriente
Médio. Essa transição de comportamento iniciou também o
profundo impacto ecológico causado pela presença dos seres
humanos na Terra.

Plantações precisam de espaço e de água. Portanto, era necessário
preparar a terra, ou seja, cortar vastas áreas florestais ou soterrar o
mangue para cultivá-las. Era também necessário redirecionar
enormes quantidades de água para suprir as novas plantações.

Com o sucesso da agricultura, o acúmulo de riqueza e o
desenvolvimento das primeiras cidades, essas necessidades
aumentaram. O equilíbrio dinâmico que havia definido a existência
da vida na Terra por bilhões de anos foi irreversivelmente rompido
pelo desenvolvimento da civilização humana.

É paradoxal que a atividade que historicamente mais devastou o
meio ambiente seja a agricultura. Olhe para as enormes áreas do
interior do Brasil e da maioria dos países do mundo com regiões
férteis. As florestas originais se foram há centenas de anos,
deixando plantações ou, caso estas tenham sido abandonadas, a
grama alta dos pastos, a terra sem uma árvore sequer.

Fazer o quê, certo? Afinal, as pessoas precisam se alimentar.
E cada vez somos mais. O aumento da população mundial é
assustador. Após atingir o pico em 1987 de 87 milhões de pessoas
por ano, chegou até a descer. Em 2002 foi de "apenas" 75 milhões
de pessoas, começando a subir novamente em 2007, com 77
milhões de pessoas por ano. Se a tendência continuar, em dez anos
teremos mais 800 milhões de pessoas no mundo, todas precisando
comer, beber e de combustíveis fósseis ou outras fontes de energia
para sobreviver.

Como comparação, estima-se que, no início da civilização, a
população aproximada da Terra fosse de 5 milhões, em torno de
25% da população da Grande São Paulo. No ano 1000, cresceu
para cerca de 300 milhões.

Em 1900, era de 1,7 bilhão de pessoas.

O enorme aumento de 570% em 900 anos foi devido ao
desenvolvimento de tecnologias de produção de alimentos, da
medicina e da extração de energia. Hoje, a população é de 6,7
bilhões de pessoas. Ou seja, em 108 anos a população mundial
quadruplicou.

As estimativas para 2050 giram em torno de 9,3 bilhões de
pessoas. Enorme, mas com taxa de crescimento relativo menor.
Mesmo assim, são quase 10 bilhões de pessoas para alimentar e
hidratar. Será que podemos continuar a nos fiar na inventividade
humana, no desenvolvimento de tecnologias para resolver nossos
problemas? (Resolver em parte, dada a enorme quantidade de
pessoas famintas e doentes no planeta.)

Os problemas da superpopulação, do aquecimento global, da
produção de alimentos e da distribuição de água são os maiores
desafios já enfrentados pela humanidade. Podemos ver isso com
desespero ou como uma grande oportunidade para nos reinventar.
Prefiro apostar na nossa capacidade de sobrevivência. Não temos
muito tempo a perder.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3108200803.htm

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