P. 1
O Poder Da Imagem

O Poder Da Imagem

|Views: 9|Likes:
Published by Eduardo_Baptis_7234

More info:

Published by: Eduardo_Baptis_7234 on Mar 30, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

02/13/2014

pdf

text

original

O Poder da Imagem

O Poder da Imagem

A estética está de várias formas presentes no poder, especialmente nas cerimônias palacianas. Assim como uma autoridade escolhe as palavras para fazer um discurso, também elege os gestos para ilustrá-lo. Assim como imposta a voz para ser ouvida no rádio, também cuida da própria estampa para sair na foto. A fala e o visual realmente estão na lista de suas preocupações. Do mesmo modo, dá especial atenção aos pormenores do ambiente onde estará presente. Esse conjunto de cuidados lhes revela a personalidade, reflete o andamento que deseja impor a um determinado assunto, o grau de importância que um tema deve merecer. Essa porção de códigos, muitas vezes, é imperceptível. Da mesma maneira que os seres humanos têm alma, os fatos trazem consigo uma marca que traduz o espírito de quem os protagoniza.

Pode-se perceber de que maneira os governantes são envolvidos por um grupo de pessoas aparentemente lhe dão a sensação de segurança e desvelo. Vemos que vão sendo gradativamente envolvidos por um sistemático e infalível jogo de isolamento próprio dos gabinetes. Fazem de tudo para e pelo gerente. Este raramente se dá conta de que seus hábitos mais simples vão sendo substituídos pelos de seus assessores. Alguém os faz em seu lugar. Ele abdica das coisas mais naturais como ler jornal, ouvir rádio, abotoar a própria camisa, calçar os próprios sapatos, tomar um neto nos braços, chegar à janela para observar a luz do dia e mesmo olhar o relógio para conferir o horário. As notícias lhe chegam filtradas nos recortes de clipping, já eleitas de acordo com a pauta de interesses. Se é manhã ou tarde, se chove ou faz sol, não interessa. Em nome da liturgia do poder, põe-se sobre o governante uma redoma de proteção que extrapola a racionalidade. Logo, como descarta a simplicidade, adquire o desdém pela realidade das ruas. Ninguém deve, porém, desconhecer a importância da política e dos políticos para a boa saúde da democracia. Esse implacável processo de substituição do “Eu” proporcionou, certa vez, uma vil demonstração dos limites a que pode chegar o capricho de um auxiliar extremamente dedicado em puxar pelo lado mais sensível de seu chefe. Ao chefe, aliás, todas as vontades e nenhum problema. O importante é seguir à risca os dogmas palacianos. A adulação – atitude própria dos submissos – acaba produzindo momentos de pobre lembrança.

O salão oeste do planalto estava em festa, tapete vermelho estendido sobre o piso de mármore, soldados dos Dragões da Independência formados em fila, bandeirolas coloridas, convidados ilustres, diplomatas bem vestidos, gente refinada. O espírito natalino tomara conta do coração

em postura de genuflexão. lhe fugira da memória. Por favor. do que vossa excelência deseja se lembrar? Estou aqui para ajudá-lo. Faca para churrasco. para sua desilusão. o corpo para trás e para frente. Médice visitou muitas vezes o estado em que nascera. excelência. estalou os dedos. Ao conversar com o embaixador de Portugal. artistas. correu em seu socorro. Este mundo. colete de cordeiro. o Rio Grande do Sul. empresários. Médici não suportava mais ouvir “Prenda Minha”. celebridades. picanha maturada. tapete de couro. mais uma visita ao interior do Rio Grande estava programada para aquela sexta-feira. jornalistas. onde a vaidade e o interesse jamais se ausentam abastece poder. cientistas. aprendeu. Quem não sabia. Já bem perto de passar o Poder ao sucessor e de tantas visitas recheadas de presentes. As bandas de música dos quartéis locais estreavam uniforme novo e não perdiam tempo. cerimônias. Aqui. esqueceram de avisar ao feliz prefeito local. heróis. O presidente ganhava presentes de todos os tipos. alternando a posição de sentido e a continência. na qual. em todo desembarque ou entrada nos centros de tradições gaúchas. a determinação superior seria cumprida à risca. mordeu o lábio inferior. “Prenda minha”. ajudante-de-ordens. o foco está sobre políticos. Tentando lembrar-se. por ocasião dos cumprimentos de fim de ano. coçou a nuca. Em cinco anos de mandato. puxa-sacos. cinzeiro de chifre. futriqueiros. colcha de chenile. chefe. olhou para cima. Jamais faltava a dança da chula. especialmente os musicais. Assim que desceu do avião da Força Aérea e botou os . o general queria contar-lhe algo que. uma festa. cenas explícitas de esforço para agradar o ilustres conterrâneo de Bagé. Mas nada de resgatar do fundo de sua fraca recordação aquilo que desejava narrar ao ansioso interlocutor. do qual habitam figuras circunstanciais. me dê um tempinho e eu me lembro pelo senhor. no mais garboso estilo militar. militares. Em cada festa. Cada viagem. cela para cavalo. Prestimoso e ligeiro. vilões e até gente comum. desfilando sua mais pantomímica reverência: Diga. meu general. glória e solidão. Onde quer que chegasse com sua comitiva. operários. Alguém secreto. Entretanto. O general Garrastazú Médici recebia o corpo diplomático sediado na capital. o capitão. Mas como em todo fim de governo algumas recomendações já não são tão obedecidas. cuia de chimarrão. cismou que o homem adorava ouvir a mais famosa canção do folclore de sua terra. esperava-se. mas com o visível intuito de acariciar o ego do general. franziu a testa. grupos folclóricos se apresentavam para o general. colocou a mão no queixo.presidencial. E cantava. bombacha colorida. E ordenou que jamais permitissem idêntica homenagem. não se aflija. a palavra de ordem era tocar “Prenda minha”. Quem não gostava de “Prenda minha” passou a gostar.

Há mais de 100 anos. E tanto quanto gostar de “Ballantine’s”.. mostrando-se envolvidas com a administração do país. um ano após sua invenção em 1839. Daí em diante nenhum candidato renunciou ao uso de fotos para eleger-se. O presidente Costa e Silva não era homem de muito riso. mandou ver: “Vou-me embora. sua assessoria não permitia a presença de fotógrafos nessas ocasiões. mas em todas as nações. Para protegê-lo de um flagrante que pudesse passar a figura de bom bebedor. especialmente as governamentais. irritação dos auxiliares e decepção dos bajuladores. Só trocou a farda verde-oliva quando . a fotografia também vive. para dissabor do presidente. Ministro da guerra no governo Castello Branco. passou a ser usada em larga escala com o objetivo de ganhar votos ainda em 1840. Gostava de “Ballantine’s”. Justamente nesse momento é que se requer do fotógrafo a exata consciência da função de elo entre acontecimento e leitor. apreciava ouvir o barulho que as pedras de gelo faziam quando ele as girava com o dedo indicador dentro do copo grande e vestido num guardanapo. exibindo presença e proximidade da população. Uma foto credibiliza um fato.. Distribuíam-se fotos do futuro morador da Casa Branca vestindo farda. É a força da imagem. testando máquinas arrojadas e tudo o que o aliava ao sucesso. seguindo o sinal do desavisado anfitrião.pés sobre os rincões do sul. visitando quartéis. Em algumas cerimônias. jamais falta o momento das fotos. Nos Estados Unidos. grandes. prenda minha. a todo pulmão. Na agenda diária das autoridades. também o general Theodore Roosevelt disputada a presidência e não abriu mão de sua imagem de militar vitorioso. É a garantia de que suas excelências estarão no dia seguinte nas páginas da imprensa.”. É artifício fundamental de comunicação e arma decisiva nas campanhas eleitorais. Adorava uísque. O resultado foi a folgada vitória nas urnas. não teve dúvidas e. “seu” Arthur. Foi a última vez que o general ouviu “Prenda minha”. na França. Assim como a música e o cinema – além de outras formas de expressão – vivem seu grande momento no mundo moderno. retirava do bolso traseiro o lenço para enxugar o suor da testa. por exemplo. raramente tirava os óculos escuros. o presidente parecia dar mais atenção a esta peculiar mania do que propriamente escutar seu interlocutor. É a transformação de fotos em votos. não somente os americanos. Foi aí que nasceu a proibição do “pessoal da imprensa” nos coquetéis. como era chamado pelos mais próximos. O candidato a presidente James Polk agregou em sua campanha um retratista para registrar momentos que julgava imprescindíveis. Não raro. a banda de música. É a força do ditado: “Uma imagem vale mais que mil “palavras”. vou-me embora.

processadas. dona Yolanda. uma foto predizia esta realidade. indicam uma resposta já esperada. E embora retrate o passado. De tal maneira que se sabe o próximo lance. tinha que tirar os óculos para ler. Freava com a força do pulso os cumprimentos mais expressivos. Nunca falta no púlpito uma caneta testada previamente para o autógrafo oficial. possivelmente não teria topado a . fazia caminhadas na via interna protegida pela cerca de proteção do Palácio da Alvorada. sem flexão facial. Na verdade. apenas captam a aura capacidade para interpretar o que nela está “escrito”. Costa e Silva tinha também especial preocupação com a forma física. Seus ternos eram todos de tecido inglês. a “Canção do Soldado”.. Ele usava sua própria caneta. Quem fitava seu rosto. Ao fazer isto. Costa e Silva e Médici. astuciosa. Pois dois anos antes de sua internação na véspera da posse. o sargento Siqueira assobiava a música predileta do marechal. é repleta de futuro. Nada. Não permitia uma saudação que ultrapassasse o aperto de mão. definitivamente não externava o sentimento de forma visual. mulher de voz rouca e temperamento forte. Era dono de uma imagem realmente silenciosa. Talvez ninguém soubesse o porquê. Tinha sempre um ar grave. Logo que o sol nascia. ao som de “Nós somos da pátria amada. a três metros de distância. Pois com Geisel isto não funcionava. marcando o passo. numa marcha cadenciada.” Ernesto Geisel. Quem poderia imaginar que Trancredo Neves sofresse de uma complicada doença no intestino?. Vestidos com abrigos de malha. fiéis soldados. Como sofria de miopia. mais domínio se tem sobre as imagens a colher. chega veloz e com impressionante dose de surpresa. Escoltando-o. também não gostava muito de sorriso. Se Fernando Collor tivesse visto o que uma foto viu. Algumas trazem consigo uma admirável carga de premonição..virou presidente. ciumenta. quando este momento chega. movimentos de estátua de pedra. de tapinha nas costas. lá iam os dois. O que lhe cabe. assim como Castello Branco. um gesto somente percebido pela máquina fotográfica. imperativa. Tinha a maior cautela com as reações de sua esposa. é ter sangue frio. Geralmente. para isso. O futuro presidente do Brasil apertava o pé da barriga. A imagem política vive intrinsecamente do tempo. É como se houvesse um pacto com o futuro. Tinha semblante forte. nunca. Nos eventos do palácio há sempre o momento em que o presidente assina um decreto e. A experiência demonstra que quanto mais se “entra” em um assunto ou na alma de um personagem. Detestava ler discursos escritos. jamais percebia sinal de aprovação ou desaprovação sobre qualquer assunto. uma conta de muitas parcelas que. o suficiente para revelar-lhe uma deficiência. ultrapassam a casualidade da simples coincidência. o segurança. o cerimonial organiza o ritual de forma a facilitar o andamento do ato. Via-se que suas emoções eram exclusivamente suas. as folhas de papel ficavam muito próximas dos olhos. fazendo o “cooper” matinal. e o general.

Em . Collor tirara o paletó. Collor. A camisa era cor-de-rosa. se preocupava como iria ser apresentado nas páginas da imprensa. cabelos cuidadosamente penteados. um retrato de sua mulher. Já na alucinante campanha rumo ao Planalto. dava foto. cuidava ele mesmo do seu marketing. Meia hora depois. fazia a festa dos fotógrafos. demonstrava que novos tempos fotográficos estavam prestes a chegar. Na cobertura da corrida eleitoral de 1989. o novo presidente da República proporcionava um paraíso de iamgens. de plástico. bem populares. Somente uma pessoa muito próxima de sua personalidade.briga com seu irmão. agora em tom pastel. Os cabelos ligeiramente despenteados. a do Jornal do Brasil. e o colocara no espaldar alto da cadeira. um bloco de risque-e-rabisque. Sobre sua mesa. Como primeiro brasileiro a ser eleito pelo voto direto após o período dos militares. já atendendo a um fotógrafo. caneta-tinteiro colocada ao lado de um copo d’água sobre um pires prateado. gravata de lã com nó Windsor. ele estava sendo filmado para um canal de televisão pertencente a uma congregação de padres de uma cidade do interior. virou alvo dos sentimentos de Pedro. emoldurado. A expressão de Pedro ao presenciar a festa do irmão recém-eleito presidente. do lado. A Bíblia. Aquele novo mundo de notícias era considerado material de primeira. Desta feita. As fotografias do exgovernador e deputado de Alagoas eram publicação garantida. Em 1990 dizia-se que nada era tão vibrante no jornalismo quanto ser fotógrafo. trabalhar em Brasília e cobrir o governo de Collor. Representava o orgulho de. Tinha formidável noção da influência das imagens. repleto de mudanças. lá estava o doutor Tancredo na mesa de operação. enfim. uma bíblia encadernada. fora substituída pela imagem uma Nossa Senhora de manto azul. aliás. Coincidências? Pode até ser. a escolha dos fundos. conhecedor dos limites de seu gênio poderia entender o sorriso de Pedro. Claro. Sobre a mesa. Estava claro que o candidato desejava aparecer para o público religioso demonstrando um visual mais clássico. Collor emprestava novo andamento à estética do Poder. vários anotadores coloridos. certeza de utilização no jornal e na revista. mais heterogênea. era impressionantemente de alguém que desejava estar em seu lugar. Na rente. era outro homem colocado dentro um novo cenário. na tela da tevê. usava paletó azul marinho. No lugar da canetatinteiro. Fernando Collor. mais tradicional. Gravata bordô “naturalmente“ afrouxada da garganta. desses usados pelos executivos mais descontraídos. e dono do maior complexo de mídia em seu estado. um livro de literatura. No caso de Collor. com seu viés de movimentada juventude e promessa de uma mandato moderno. Mais ao fundo. uma agenda de couro preto. um frasco de guaraná em pó. alguns biscoitos de maizena e. Fazia recomendações sobre a iluminação. Mas o certo é que dois anos depois. um dos motores que moveram seu mandato para o impeachment. camisa branca. Provavelmente por ser egresso de uma redação. no tempo reservado para as fotos de uma revista de circulação e abrangência maiores. ao invés da agenda de couro.

o apresentam como um apaixonado pelos detalhes. conversar. não. O limite existente entre o imprevisto e o previsível é tênue e somente a atenção dá condições de transitar com segurança nessa fronteira. Toda reportagem ensina uma lição. Uma delas é nunca desacreditar completamente no impossível. Fotógrafos possuímos propriedades aparentemente antagônicas. cujas fotos de sua época. eleito ao vencer Lula. as inaugurações e a horas das fotos. são o grande néctar da fotografia jornalística. João Batista Figueiredo era a melancolia de paletó e gravata. tapinha nas costas. O inesperado e o improvável. somente gostava das cerimônias no momento do toque de saudação do clarim. ouvimos do próprio Geisel.primeiro plano. sem gravata. Arnon Affonso e Joaquim Pedro. Toda vez que entrava em seu gabinete. não como prazer. O impossível acontece sim. Incapaz de mentir visualmente. Adorava viajar de avião. a caminhar meio sem jeito. escrito por um expert americano em eleições. Depois. na verdade. estão ligados em uma imagem. por exemplo. o livro Como Se Faz Um Presidente da República. um ramo seco de trigo e uma capa da Time – daquelas feitas na Disney – com a foto dos dois filhos. substituindo Machado de Assis. em frente ao hotel em Natal. Ao interpretar o significado simbólico de tudo ali disposto. JK amava ser presidente. Ulysses Guimarães era igual. afinal. sem farda. pelo gesto. Encarava a presidência como missão. Conhecendo os costumes do presidente. quando soube que sua foto ilustrava a primeira página e dava o que falar: “Esta imagem representa os novos tempos que o Brasil viverá. Destino e futuro. além de checar tudo sobre o presidente. muitas vezes. A imagem de ambos. pelo convívio com as questões. de abertura política”. de adequar sua originalidade em relação à imagem. descalço. acrescentando a eles um mapa mundi em forma de globo iluminado. Para surpresa de todos. . não. Se não. Figueiredo. sem paletó. enfim. Eram referência do estado de espírito de seu proprietário. Exercia o poder de gosto contrário ao de Juscelino. usar fraque nas recepções. como demonstra outro fato ocorrido em meados do governo do presidente Geisel. concluímos: este é o Fernando Collor em sua mais perfeita representação fotográfica. exprimia isto. jamais poderíamos imaginar tamanha surpresa: o general Geisel estava tomando banho de mar. sem camisa e sem calças?! Apenas de sunga. Mas era autêntico em relação aos seus gestos. Já me eram bem conhecidas. Se estivesse bem. receber visitas. Ulysses era uma efígie. refletia a exata intensidade de cada momento. sobre as areias da Praia dos Reis Magos. pelo Poder. embora adversários. Collor transportou para sua mesa no palácio do planalto todos aqueles elementos. eu conferia também a presença de cada uma das peças. Figueiredo sentia-se bem mesmo era no papel de general comandante.

A democratização do conhecimento e a universalização dos meios de comunicação injetam vida e verdade. quase sempre deliberado. sobretudo. glória e solidão é um exemplo aos poderosos e um alento para aqueles sobre os quais o poder é exercido. Silas Andrade . ao contrário. Pode parecer mera frase mas. Mas. traduz uma evidência inapelável. Poder. É só reparar na imagem de cada um. a elite se bastou com seu próprio juízo acerca das mazelas com que decidiu o destino de gerações de brasileiros. é forte constatação. àquele mandado constitucional: “Todo Poder emana do povo e em seu nome é exercido”. em doses crescentes. Não há como fugir do julgamento da história. esse tribunal é cada vez mais amplo e menos tolerante com o erro. Hoje. Da colônia ao império e durante grande parte da república.Quando mais se deixa retratar. mais democrática é uma autoridade.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->