SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

Instituto Nacional de Investigação Científica

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

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Quadras populares – Cap. I Toponímia

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas do autor 2.ª Edição

SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

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OUTRAS OBRAS DO AUTOR Sisenando Mártir e Beja sua Pátria (de Frei Manuel do Cenáculo Viuas-Boas. - Comentário e notas. Pubjicado no «Arquivo de Beja», - III, 352; IV. 1ó8 e 352: V. 211; VI, 229 e 42ó (em 194ó. 1947. 1948 e 1949). (Esgotada). As Rezas e Benzeduras do nosso povo. - Publicado no «Arquivo de Beja»,-VIII, 75; IX, 48, em 1951 e 1952. (Esgotada) Linguagem Popular do Baixo Alentejo, - Beja. 1951 (Esgotada). Gentílicos e Apodos Toponímicos Alentejanos e Algarvios, Opúsculo, Lisboa, 1953. (Esgotada) O que o nosso povo reza... e o que reza ... Orações e Ensalmos. Publicado no «Mensário das Casas do Povo» - N.ºs 91, 92, 94, 95 e 9ó, em 1954. (Esgotada). Crendices, superstições e adágios do nosso povo. As «maias» e o «enterro do bacalhau» em Beja. - Publicado no «Mensário das Casas do Povo» - Nºs 103, 104, 105 e 10ó, em 1955. (Esgotada). Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. - Vols. I e 1I (Edição de Álvaro Pinto – «Revista de Portugal» - Lisboa, 1955. (Esgotada). A Etnografia e o Fofclore no Baixo Alenlejo - (Separata da Revista; «Ocidente» - Vols. LIV e LV) - Lisboa, 1957/58. (Esgotada). O Fruto da Vida (Poemas), Lisbca, 19ó7. Estudos Linguísticos - O Idioma Português, Lisboa, 19ó8. Ensaio Monográfico (Histórico, Biográfico, Linguístico e Crítico) acerca de Beja e dos bejenses mais ilustres, Lisboa, 1973. Pendor Etemo (Poemas), Beja, 197ó. O Pão da Culpa (Poemas). Lisboa, 1979.

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SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

2.ª edição

Instituto Nacional de Investigação Científica LISBOA 1980

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Reprodução interdita - Direitos reservados

Capa de Vasco Grácio

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Quadras populares – Cap. I Toponímia

CURRICULUM VITAE - ALGUNS ELEMENTOS BIOGRAFICOS DO AUTOR Manuel Joaquim Delgado, nasceu em Beja a 2 de Janeiro de 1910. Filho de Pedro Jose Delgado e de Carolina das Dores Engana Delgado, o autor de «Pendor Etemo» (Poemas) era o 4.°, em ordem decrescente de idades, de 12 irmãos dos quais 3 já faleceram. Todos naturais de Beja. Seu pai era lavrador alentejano e sua mãe, doméstica - e não se diga que sua mãe não tivesse tido sempre que fazer!... criar e educar tantos filhos! Como provincianismo alentejano, o vocábulo lavrador significa, não já «0 que trabalha a terra, o que a lavra e cultiva», mas o próprio proprietário, o dono dela, no caso presente, não de grandes latifúndios, mas tão somente de alguns olivais e ferragiais, algumas courelas, - terras de semeadura - e duma bela quinta denominada Fonte Figueira a cerca de 2 quilómetros da cidade, junto à linha férrea de Lisboa - a linha do Sul e Sueste - que, com tanto esmero, seu pai cultivou e tratou, com o melhor esforço e a mais viva inteligência, durante os últimos anos de sua vida. Possuía ainda algumas modestas moradias na cidade. Tudo poquenas propriedades rústicas e urbanas, fruto do seu trabalho e esfoços persistentes. É casado com Isabel da Conceição Ramos Piteira, professora oficial aposentada. Tem três filhas, a mais velha das quais Maria Manuela é Professora no Liceu de Camões e licenciada em Filologia Românica; a do meio em ordem decrescente de idades, Maria Isabel, é licenciada em Ciências Biológicas e presentemente Assistente na Faculdade de Medicina, em Lisboa; e a Maria Gabriela a mais nova e educadora de infância, mas presentemente é Técnica dos Serviços Sociais de Assistência. Sem grau académico, pois suas habilitações oficiais resumem-se ao curso de professor primário e ao 7.0 ano de Letras do Liceu – o autor de «Pendor Etemo» é-o também de uma série de obras de carácter dialectal, linguístico, filológico, etnográfico, folclórico, monográfico, literário (poético), etc., as quais menciona no começo desta obra e de outras, tais como: «Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo», «A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo», «Gentílicos e ápodos toponímicos alentejanos e algarvios», «0 Fruto da Vida» (Poemas), «Estudos Linguísticos», «Ensaio Monográfico (histórico, biográfico, linguístico e crítico) acerca de Beja e dos bejenses mais ilustres», «Pendor Etemo», (Poemas) e «O Pão da Culpa» (Poemas).

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O leitor curioso e interessado poderá, querendo, ler, no final das últimas obras publicadas, as críticas e os comentários que, oportunamente, foram feitos às mesmas. Como professor primário exerceu funções docentes cerca de 18 anos e, durante mais de 20, desempenhou funções administrativas de direcção e inspecção do distrito escolar de Beja. Cumulativamente com as de adjunto desempenhou, ainda, por três períodos, durante cerca de 4 anos e meio, as funções de director da distrito escolar de Beja. A sua primeira actividade literária foi a de colaborador assíduo nos jomais que se publicam em Beia «Diário do Ajentejo», «Notícias de Beja» e «A Planície», que se publicou em Moura. As crónicas e arligos que neles inseriu e publicou, durante vários anos tratam, quase todos, de assuntos histórico-literários, linguísticos, biográficos e críticos. Depois, dedicou-se à etnografia, ao folclore, à linguística e começou de publicar os seus trabalhos, como colaborador assíduo, nas revistas «Arquivo de Beja», «Mensário das Casas do Povo», «A Planície», «Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa», «Boletim da Casa do Alentejo», «Revista de Portugal Língua Portuguesa», revista «Ocidente», «Revista Portuguesa de Filologia», «Anales del Instituto de Linguistica» de la Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza (Argentina), etc. Sua maneira de ser é genuinamente alentejana. Sem subserviências de espécie alguma para com os seus semelhantes, por idiossincrasia, sempre se mostrou contrário à sem-razão, ao falso espírito crítico, ao comentário injusto. Teve sempre manifesta tendência a sentir, de modo especial e muito seu, a influência de diversos agentes, quer do meio ambiente, quer do meio social e humano em que tem vivido. Isso mesmo bem o mostra nas suas obras, com especial relevo no «Pendor Etemo». Teve sempre réplica pronta ou comentário adequado à contestação do juízo crítico de quem quer que seja quando a sua crítica não é séria e peca por falsa ou injusta. Por outra parte, sempre aceitou por bem o reparo oportuno, leal e justo, a correção do erro quando na verdade ele existe e se verifica. O AUTOR

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Quadras populares – Cap. I Toponímia

ACERCA DESTE CANCIONEIRO
A ideia da organização de um Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo representou-se em minha mente, depois que, no «Arquivo de Beja», em que tenho vindo colaborando de há cinco anos a esta parte, publiquei alguns artigos acerca das cantigas populares desta Província. E, movido por uma tendência ou interesse especial, dediquei-me então com entusiasmo à recolha de «cantigas», «modas» e outras composições poéticas do nosso Povo. Mas, não me contentei com recolher materiais de natureza folclórica, senão também variadas produções etnográficas: provérbios, contos, lendas, adivinhas, orações, romances, factos ou fenómenos da linguagem popular (vocábulos e e sua pronúncia especial e regional, expressões próprias do falar alentejano, modos de dizer, frases feitas, alterações semânticas de algumas palavras, etc.). Mui particular interesse me mereceram, desde logo, as coisas da linguagem e, tal como sucede às cantigas, tenho vindo publicando no referido «Arquivo» alguns artigos de linguagem popular do Baixo Alentejo. Com paciente devoção e tenaz persistência continuei na recolha de «modas» e «cantigas». De tal modo elas se avolumaram que reconheci a necessidade: de organizar uma colectânea que formasse um cancioneiro (sob pena de perder-se todo o material recolhido). Ela será, assim o cremos, subsídio valioso para mais completo cancioneiro popular desta Província se. Porventura, um dia houver de organizar-se: o qual, por sua vez, será boa achega para futuro Cancioneiro Nacional que há-de formar-se de cancioneiros regionals. Mais de dois terços das poesias aqui coligidas foram por mim próprio recolhidas directamente da boca do povo, não só em Beja, senão também noutras localidades Baixo Alentejo. As restantes foram-me enviadas por pessoas amigas de vários pontos da Província. Julgo oportuno abrir neste lugar um parágrafo para fazer uma referência particular. A essas pessoas que, de boamente, se prontificaram a fomecerme materiais para este cancioneiro, e a todas quantas de igual modo mostraram sua boa vontade, ditando ou cantando as cantigas que sabiam, a fim de eu as escrever, vai meu agradecimento par sua valiosa colaboração, que me foi prestada, sem a qual não seria passivel a organização do presente cancioneiro.

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Apesar do número considerável de quadras populares e «modas» coligidas foi nosso propósito intitularmo-lo de SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR DO BAIXO ALENTEJO (aliás, como saiu na 1ª edição, mau-grado contra-vontade do editor, o Senhor Álvaro Pinto, já falecido), e não de Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo,para não fazermos crer, ainda que aos menos avisados, que se trata de trabalho completo em tal matéria. Não, não o é, pois muito há que recolher e registar, e seria estultícia ou vã lisonja se desse modo procedessemos, porquanto sabemos por experiência própria e directo conhecimento quão vasto é o campo a explorar e investigar, tanto em matéria folclórica como na etnográfiica. É nossa Provincia uma das mais ricas e características por sua fonte inesgotável de materiais folclóricos. Como manifestação espiritual e artística da vida e do sentir de um povo, a poesia e o canto sempre, em todos os tempos, tiveram papel de relevo. Demais, tão ligada à vida ela está que não é senão manifestação extema da própria vida, forma de expressão dos sentimentos e pensamentos do povo que a cria, reflexos da alma que sente, pensa e quer. E possível em dado momento inquirir do ror de produções que o povo há criado. Criações, que serão recentes, umas; outras, antigas, e que pela força da tradição chegaram até nossos dias por via oral, transmitidas de pais a filhos, de avós a netos, de geração em geração no decurso dos tempos. Passado, porém, esse momento, surgem novas criações, outras se perdem, tudo isto numa evolução contínua, que não cessa, e de que se não pode precisar bem nem o começo nem o fim. Esse poder de criação contínuo, tão ligado ele está à vida que, integrando-a em si próprio, outra coisa não é senão aquilo a que Bergson chamaria com justificada razão «L'evolution creatrice». O Povo Alentejano canta e sabe can tar em todos os momentos da sua vida, quer nos dias festivos, alegres e de regozijo, quer nas horas amargas e tristes da existência. Atente-se na quadra a seguir, os sentimentos de tristeza e desconsolo que sente a alma daquele que, abandonado e sozinho no mundo, sem ninguém de família, se lamenta, quando diz:
Já não tenho pai nem mãe Nem nesta terra parentes, Sou filho das águas turvas, Neto das águas correntes. Variante: Já não tenho pai nem mãe Nem nesta terra parentes, Sou filho das tristes ervas, Neto das águas correntes.

Note-se a linguagem figurada nestes versos:
Sou filho das águas turvas, Neto das águas correntes. Ou Sou filho das tristes ervas,

A ideia e os sentimentos expressos em ambas as cantigas são os mesmos – o de um abandonado, um enjeitado ou órfão de pai e mãe.

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Quadras populares – Cap. I Toponímia
Tentaríamos ainda a seguinte interpretação:

A metáfora aqui empregada faz comparar, por certa, e ainda que apagada semelhança, os pais já falecidos às águas turvas. Turvo é o contrário de limpido, claro e sinónimo de escuro, negro. A vida é a luz, a verdade. A morte é antítese da vida, é falta de luz, negridão, turvação. Turvos são os semimentos de tristeza e amargura que provocam em quem os sente a conturbação ou perturbação da alma. Águas correntes dão-nos o sentido de movimento contínuo, que não pára. É a sucessão contínua de umas gerações a outras. Portanto, águas correntes também aqui significam, em relação ao passado, águas que já correram, já passaram. E os avós distante vai o tempo que faleceram. Aí está outro a lamentar-se, desgostoso da vida, da perda irreparável de sua mãe amada:
Ó minha mãe, minha mãe, Ó minha mãe, minha amada, Já perdi a minha mãe Já não faço gosto em nada. Variante Ó minha mãe, minha mãe, Ó minha mãe, minha amada Quem tem uma mãe, tem tudo, Quem não tem mãe, não tem nada.

Sim, ter mãe é a suprema ventura, é ser feliz. Não a ter é não ter nada, porque nada no mundo iguala a amor matemo. Esse amor é graça divina, é sentimento sagrado por excelência. Acerca do plano e trabalho de ordenação diremos que este Cancioneiro está dividido em três partes. A primeira, a mais extensa, trata de quadras populares, ou como o povo lhes chama - cantigas, naturalmente porque se cantam; a segunda, São «modas», isto é, canções regionais alentejanas; e a terceira parte é formada de variadas composições poéticas do nosso Povo. Tanto umas como outras foram ordenadas alfabelicamente. Por sua vez as primeiras destas composições formam grupos au séries. cujos capítulos são fontes ou motivos gerais de inspiração de seus criadores. Deste modo, as quadras que se referem às povoações ou lugares do Baixo Alentejo serão ordenadas num grupo; as que falam de objectos de adomo ou peças de vestuário farão parte doutro; as que se referem aos sentimentos - a paixão do amor, o ódio, o ciúme, a tristeza, a alegria, a saudade, etc., irão noutro. Esta ordenação alfabetada por partes e o agrupamento em séries, formando capítulos é meramente arbitrária. Entendêmo-lo assim, crendo numa maior facilidade de consula. Todavia, o critério adoptado no plano deste trabalho julgamolo acertado no que respeita à ordenação alfabetada das quadras, posta que se assim não procedessemos (e tivemos disso a experiência) sucedia repetirem-se, por vezes, as mesmas cantigas. E, para obstar a tal inconveniente eis a razão por que assim fizemos. A ordenação e o agrupamento deste modo feito não é nem absoluto, nem rigoroso e nem mesmo tem carácter de classificação, porquanto se há cantigas que falam de amor, paixão e fazem parte de um capítulo

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outras há que, falando numa e noutra coisa e referindo-se a localidades, a astros, etc., terão de fazer parte de algum desses grupos. Então, surge a pergunta: em que grupo incluiremos essas? Já esclareci que nãoé rigorosa esta ordenarção por partes. E o facto de uma cantiga se referir a certa localidade ou a algum dos sentimentos humanos, não significa que aí esteja a ideia ou os sentimentos que se querem exprimir, pois o objecto principal poderá ser outro. Para ordenar alfabeticamente todas as «cantigas» e «modas» recolhidas, houve que registá-las primeiro em verbetes. Trabalho um tanto exaustivo e demorado. Nesses registos respeitei, tanto quanto possivel, a pronuncia característica das localidades estudadas, o que, de certo modo, contribuirá para valorizar este trabalho. Cada cantiga leva registada a localidade ou localidades onde foi colhida. A verdadeira procedência ou origem de muitas delas, nem sempre é fácil sabe-lo, pois há cantigas com oito, nove e dez registos. E ainda naquelas que levam apenas um registro, pode, em certos casos, ser igualmente duvidosa a verdadeira origem, porquanto nem todas as freguesias foram estudadas. O que se não pode duvidaré que elas não sejam alentejanas (salvo raríssimas excepções) e muito portuguesas. Algumas das cantigas regitadas são originais de conhecidos poetas. Nem por isso deixei de as incluir, pois de tal modo se identificam com as populares que a próprio povo as toma como criações suas. Outras há, porém, que, sendo essencialmente as mesmas apresentam, contudo, ligeiras variantes, quer nas formas vocabulares empregadas, quer apenas na pronúncia. Tudo isto é necessario registar-se para conhecimento do seu meio geográfico, e para que um dia passa ser feito o seu estudo comparativo com as de outros cancioneiros regionais, onde igualmente são conhecidas. Farei as anotações de que houver necessidade para seu esclarecimento e compreensão e, acerca de cada capílulo, ligeiro comentário ou considerações de conjunto. Variadas são as cantigas populares. As mais delas exprimem ossenlimentos da pessoa humana. A paixão do amor tem especial relevo. Toda a gama de sentimentos que constituem a vida afectiva do indivíduo elas exprimem. O prazer e a dor, a alegria e a tristeza, o ódio, o ciuúme, a inveja, o desgosto, a resignação, a saudade, a melancolia, o orgulho, etc., tudo nelas se versa. Os próprios sentimentos - religioso, moral, intelectual e estético aí se retratam. A flora e a fauna da região, os astros, as produções agrícolas, as povoações, os diversos e variados trabalhos campestres (sementeiras, mondas, ceifas, debulhas), e as estações ou quadras do ano em que se realizam, tudoé motivo paraser cantado em verso. Há cantigas humorísticas, sarcásticas e mordazes. Há as irónicas, sentenciosas, anedóticas, de disputa ou desafio. Há outras que requerem cálculo e ainda as de carácter filosófico, pois o povo tem a seu modo uma filosofia, que é muito sua, filha da experiência.

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A finalidade deste trabalho, que se resume quase exclusivamente na recolha, ordenação e inventário de materiais folclóricos do Baixo Alentejo, pouco mais é que uma tetativa de estudo, para que melhor possa conhecer-se a alma alentejana. É certo que muito há ainda que investigar e recolher tanto no campo folclórico como no etnográfico. Mas, se não houver curiosos, investigadores interessados, a quem os outros faltos de paciência põem a ridículo e podem com ironia apelidar de «maduros» -, dizia eu, se não houver pessoas imeressadas por estas coisas, trazendo à publicidade tais cancioneiros, não será possível o conhecimento mais perfeito e pormenorizado dos valores espirituais e morais do nosso Povo. Com serem eles muito do interesse dos folcloristas e etnógrafos, nem por isso deixarão de merecer a todos a curiosidade e atenção que se Ihes deve. Cancioneiros regionais há alguns por esse País fora, e já o grande Mestre da Etnografia Portuguesa, Doutor J. Leite de Vasconcelos, dizia que não tínhamos falta de cancioneiros, o que era preciso era fazerem-se estudos comparativos, interpretativos, de investigação. Mas, num cancioneiro de seis ou sete mil cantigas, quem se abalança a tal empreendimento? Certo também de que aqueles que integrados nesta materia reconhecem quão exaustivo isso seria e o tempo que tal estudo levaria, não o farão em conjunto e no todo, senão em pequenas partes em anigos de revista. Demais, se é verdadeiro o provérbio: «nem só de pão vive o homem», a recíproca é igualmente verdadeira: «o homem não pode viver só do espírito». «Logo, primeiro, viver; depois, filosofar» ou, como diriam as latinos: «primo vivere; secundo, philosophari». E, para tenninar estas breves considerações, duas palavras são devidas ao nosso Alentejo. Desde há muito que ele foi apresentado ao mundo, logo nao carece de apresentação. De resto, nem seria eu (pobre de mim que nada valho!) o escolhido para o fazer A não ser neste ou naquele pormenor o Alentejo é de nós todos conhecido. Ainda o não conheceis bem e quereis conhece-lo, caros leitores? Empreendei, na Primavera, uma viagenzita por estas terras de além-Tejo e, então, ficareis maravilhados com o panorama que ante vossos olhos se vos depara: um mar de verdura em terreno ligeiramente ondulado e entrecortado de manchas negras, mais ou menos extensas, dos montados, acinzentadas dos olivedos e avermelhadas dos terrenos de poisio. E, a aqui ou acolá, salpicando todo esse mar de verdura, pontos brancos-os «montes». Vosso olhar se perderá extasiado nos longes dilatados do horizonte. Quereis conhecê-lo? Vinde em Julho ou Agosto, na época das ceifas e debulhas e vereis que aquele mar de verdura da Primavera se transfonnara, como por encanto, agora, no Estio, numa toalha loira de messes abençoadas, de rico pão, que, duramente, heroicamente, os pacíficos ceifeiros deitam por terra. Vereis a rija tempera dos trabalhadores nessa luta portentosa de ceifa e carregar, dificultada pelo calor abrasador e sufocante dos raios solares. E, depois, nas eiras, aquele pão, que a terra fecundíssima e uberrima gerou e produziu em tanta abundancia, ser debulhado por maquinismos modemos. A fisionomia panorâmica da Provincia é variada nas várias quadras do ano.

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Na verdade, a quem, desconhecendo a Província, passe, de comboio, em Agosto, sob um calor abrasador e tropical, através destas terras transtaganas, a caminho do Algarve, não colherá, por certo, impressão muito favorável, e toda a Província lhe parecerá estéril, profundamente monótona, desconsoladora e triste. Quão enganadora é essa aparência de esterilidade! Aqui, verá terreno de poisio avermelhado. Mais adiante, extenso sobreiral ou montado a perder-se de vista; ali, isolado, um «monte» muito alvo; mais além, num cabeço, outro de maiores proporções, a denotar assento de lavoura. E, junto dele, serras de palha para o gado; medas de lenha bem empilhada para se queimar; currais para os bois de trabalho, etc. O comboio continua a sua marcha através da planície, e não é difícil divisar, sobre as pemadas vergantes e esgalhadas das azinheiras ou dos chaparros, ou sobre algum penedo informe, isolado na terra de alqueive, negros corvos a crucitarem, cujo eco se perde ao longe nos vales pouco sinuosos e profundos. Também o viandante au turista pode ver, junto da linha férrea, por onde o comboio desliza, algum pequeno ribeiro, quase seco, onde as perdizes, em bando, quais galinhas bravas da cor da terra, molham os bicos sequiosos no charco lamacento, e, em que, agradados das frescura sob o céu cor de chumbo e ardente, se banham imundos as porcos disformes e enlameados. Quereis conhecer o Alentejo? Passai uma temporada numa desas grandes herdades e observai cuidadosamente toda a vida do «monte», e da lavoura, e da ceifa e da debulha, ou ide à feira de S. Mateus, em Elvas, à de S. João, em Évora, ou à de S. Lourenço e Santa Maria, no mês de Agosto, em Beja. Senão bastar-vosá simplesmente assistirdes a um desses mercados semanais ou mensais que se realizam em Évora e Beja. E aí vereis quanta riqueza animal (gados de toda a espécie: porcos, ovelhas, muares, burros, cabras, bois de trabalho, gada vacum, etc.) se cria por todo este Alentejo fora, e que são manancial inesgotável e fecundo, fonte de riqueza nacional. Mais adiante, o curioso verá num pequeno vale alguma verdura, a denotar fonte ou poço, qual oásis nos escaldantes desertos de África, onde pemaltas brancas e acinzentadas (as cegonhas), batendo matrácula, se deliciam nessa frescura apetecida. Atente-se um momento nessas fisionomias estranhas e tipicas dos pastores alentejanos. torrados do sol, de olhos fundos, chapéu grande de abas largas, de samarra e safões, manta ao orubro, tarro de cortiça enfiado no braço, estáticos, com o queixo apoiado sobre as mãos que seguram a volta arredondada do cajado alto, o cão deitado a seus pés, e verá que mais parecem figuras lendárias e mitológicas dos tempos patriarcais que verdadeiros homens. Neles está a expressão viva dos puros alentejanos. São manifestação eloquente da riqueza folclórica do Baixo Alentejo os concursos de cantos e trajos regionais desta Provincia que, em tão boa hora, o ilustre Govemador Civil do Distrito tem, de há três anos a esta parte, por ocasião do S. João, levado a efeito, com tanto exito,

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Quadras populares – Cap. I Toponímia
nesta cidade de Beja. É a prova de que no Baixo Alentejo todos cantam e bem. Direi ainda que, a ilustrar este trabalho folclórico e etnográfico, junto um mapa, que contém por concelhos todas as freguesias da Província, e que ajudará a localizar as povoações estudadas. Antes de terminar cabe fazer ligeira referenda aos escritores e poetas alentejanos. Silva Picão, no «Através dos Campos», dá-nos em linguagem simples, mas cuidada, a descrição realística e sincera da verdade alentejana; põe-nos em contacto com a alma deste povo, acolhedora e franca com estranhos, porém, desconfiada, desconfiança que se perde, quando se ultrapassa o limite do retraimento com que se defende dos desconhecidos; faz-nos sentir a epopeia heróica do trabalho agrícola, a luta do homem com a terra e sol; dá-nos a conhecer os usos e costumes e as festas tradicionais, a religiosidade de suas gentes. Fialho de Almeida, em «Os Ceifeiros», dá-nos um trecho incomparável do trabalho penoso e árduo da ceifa, a luta do homem com a terra e o calor ardente do sol. Manuel Ribeiro, em «A Planície Heróica», mostra-nos a alma dos chamequenhos, no conhecimento de sua força poderosa , nas ambições e sonhos que alimenta, e na consciência plena de seu poder genésico fecundado pelos raios criadores do sol. Mário Beirão, O Conde de Monsaraz e Fiorbela Espanca, em versos primorosos, cheios de lirismo, exaltaram, cada um de seu modo, o Alentejo e deram-nos a conhecer a verdadeira alma alentejana, não se contentando com fixar formas extemas, mas sondando o subjectivo e procurando desvendar os segredos mais íntimos da alma, dão-nos imagens, que sugerem e vislumbram um quê de mistério, o espectro das almas perante a tragédia do trabalho, a incomodante presença do génio das coisas. A alma do ermo, da solidão, do isolamento aparece-nos na visão poética de Mário Beirão, na hora em em que o silêncio estagna nos paúis em febre. Florbela Espanca, com os olhos a order em êxtase de amor, Boca a saber a sol, a fruta, a mel, no delírio ardente e sede de amor, sentindo-se a si própria, é bem a alma da planície, o espírito a casar-se com a matéria. E tantos outros poetas, escritores, pintores, cientistas, que, não sendo como aqueles estrelas de primeira grandeza, têm, no entanto, escrito sobre o Alentejo, exaltando-o no que tem de típico, de característico e de belo. Eis em síntese o plano do presente trabalho, o objectivo em vista e os comentários que me sugeriram. Que alguma coisa dele se aproveite e sirva de incitamento para mais completo e, porventura, mais perfeito conhecimento do folclore desta Província. Manuel Joaquim Delgado

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CARTA COROGRÁFICA do BAIXO ALENEJO

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Quadras populares – Cap. I Toponímia

PRIMEIRA PARTE

QUADRAS POPULARES

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CAPÍTULO I TOPONÍMIA - Nomes de lugares, aldeias, vilas, cidades, ruas e outros da Província do Baixo Alentejo. As «cantigas», que formam este capítulo, referem-se ao Baixo Alentejo, - às suas aldeias, às vilas, a Beja, em particular, aos nomes de certas ruas, etc. Igualmente elas falam das produções cerealíferas, da abundância de gados que se criam por toda esta Província, e ainda da riqueza do seu subsolo, isto é, dos minérios que se extraem em S. Domingos e Aljustrel. As referências a esta cidade de Beja são um tanto lisonjeiras, ampliadas pelo espírlto visionário e bairrista de seus criadores.
1.

A aldeia de Ficalho Está feita num deserto, Onde vivem meus amores Parece um céu aberto.*
*Observe-se que Ficalho, ou mais propriamente Vila Verde de Ficalho é, como seu nome indica, vila, e não aldeia

Beja

2.

A balí do Alentejo, Olhí para trás chorando. Alentejo da minh'alma, Que tã lõis me vás ficando!... A cidade de Beja Está que mete dó; Tem um regedor Com um olho só. A cidade de Lisboa Cercada de líios brancos Onde o mê' amor passeia Domingos e dias santos Adeus, aldeia de Brinches, Cercada de cravos brancos, Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus, aldeia de Quintos! Tudo à roda são quintais; Adeus, largo da igreja, Sepultura dos meus ais Adeus Beja, minha terra, Cidade do meu coração, Tenho-te, Torre de Menagem, Gravada no coração. Adés castelo de Beja, Vales mais que mil tesoiros, Tens sete séculos de idade, Conquistado pelos Moiros

Beja

3.

Beja

4.

Aldeja do Futuro

5.

Serpa

6.

Quintos

7.

Beja

8.

Beja

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Quadras populares – Cap. I Toponímia
9.

Adeus castelo de Moura, Pôs-se o sol, combate o vento; O meu coracão do teu Já não tem apartamento. Adés cidade de Beja, A dond' ê tô’enzestindo, Diverte-se a mocidade Cantando, balhando e rindo. Adeus cidade de Beja, És minha terra natal, Capital do Alentejo, E celeiro de Portugal. Adeus cidade de Beja, Não é de ti que me lembro, É de que nela passeia, Que os meus olhos não estou vendo. Adeus cidade de Beja, Que tão longe me vas ficando. Em chegando à estrada nova, O vento me vai levando. Adeus cidade de Beja, Terra da minha desgraça. Eram três horas da tarde, Condo* ê assenti praça.
*Condo, por quando. Também se pronuncia – cando, forma arcaica. Dpnde em vez de onde. Nenguém (ant.) ninguém.

Moura

10.

Beja

11.

Beja

12.

Beja e Penedo Gordo

13.

Beja

14.

Beja

15.

Adés cidade de Béja, Toda à roda olivais; Adés largo da parada Onde combatem més ais. Adeus cidade de Beja, Tu és a minha desgraça. Eram quatro horas da tarde Condo ê assenti praça. Adeus, Ervidel, adeus, As costas te vou virando. Minha boca vai·se rindo, E mê’ coração chorando Adês «monte», adês «monte», O nome nã' quer' dezer, Dond' ê' tenho o mê' «sentido» Nenguém precisa saber. Adés, ó campos de Ourique, Onde Cristo apareceu, Foi adond' Afonso Henriques Sua batalha venceu.

Beja

16.

Fomalhas, Vale de Santiago, Odemira Ervidel

17.

18.

Beringel

19.

Garvão

19

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
20.

Adeus ó castelo de Moura! Quem te vira derrubado! Por mor daquele* castelo, Meu amor foi ser soldado.
*Por mor de - por amor de (= por causa de).

Moura

21.

Adés ó monte d'àlěi, Manda-me pro cá dezêri S'um amor que pr’àlem tenho Ind' ô chigarei a vêri. Adés ó monte d'àlěi, O nome é qu'ê' cá nã' digo Qu’ê’ na' quer' que nenguém saiba Dond’ ê’tenho o mê' «sentido» Adês ó Monte da Torre Próximo fica a estação. Não vejo quem aí está, É essa a minha paixão. Adeus ó Penedro Gordo, Não és vila nem cidade, Es uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Adés ó Portas de Moura, À roda tudo são fitas. À porta de minha sogra Essas sã' nas mais bonitas. Adeus ó Portas de Moura, Não és vila nem cid.ade, És uma rua galante Onde brilha a mocidade. Adés ó Portas de Moura, Pra baixo, pra cima não; Pra baixo correm nas aguas, Pra cima mê' coração. Adeus ó praia de Sines, Mal de ti nunca direi. Dá o mundo tanta volta, Nã' sei se cá voltarei. Adeus, ó rua da Fonte, Que 'sta cheia de piais, * Onde o mê’ amor se assenta, Dando suspiros e ais.
*Piais, por poiais. «Bancos fixos de pedra; lugar onde se põe ou assenta alguma coisa».

Garvão

22.

Panoias

23.

Fomalhas (Vale de Santiago), Odemira

24.

Penedo Gordo

25.

Beja

26.

Beja

27.

Beja

28.

Ervidel

29.

Ferreira do Alentejo

30.

Adeus ó Serra da Estrela Onde tive inspiração, Comparo a tua tresteza Co'a do mê’ coração.

Colos

20

Quadras populares – Cap. I Toponímia

31.

Adês, ó sítio d'àlěi, A des mimóira* sagrada Inda hôis adoro o chão Onde contigo falava.
*Mimóira, memória – é um dos inúmeros casos de metátese.

Vale de Santiago

32.

A des, ó vila d'àlěi, Hê-de-te mandar calçar Com biquinhos d'alfenetes, Per*ô mê’ běi lá passar.
*Pera (prep. Ant. e arc.) – para.

Panoias

33.

Adeus ó vila de Colos Feita de pedra morena; Dentro dela estão dois olhos Que me causam tanta pena. Adeus ó vila de Colos, Não és vila nem cidade; És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Adeus ó vila de Colos Tu também és um jardim Onde cresce o loiro trigo E viceja o alecrim. A des ó vila de Crasto Adond’ o Senhor apar'ceu, Adonde D. Afonso Henriques Sua batalha venceu. Adeus ó vila de Entradas, À roda tudo são linhas: Vão-se os mços para a tropa, Ficom nas moças sozinhas. Adeus ó vila de Entradas, Cercada de cachos de uvas. Vão-se os moços para a tropa, Ficom nas moças viúvas. Adeus ó Vila de Frades, Boa terra, melhor gente, Dás de comer a quem passa, E dás bom vinho excelente. Adeus, ó vila de Moura, Ceroada de olivais És a mãe dos forasteiros, Madrasta dos naturais. Adeus ó vila de Ourique Cercada de cravos brancos

Colos, Odemira

34.

Colos, Odemira

35.

Colos, Odemira

36.

Beja

37.

Entradas, Castro Verde

38.

Entradas, Castro Verde

39.

Vidigueira

40.

Moura

41.

Ourique

21

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos.
42.

Adeus ó vila de Ourique. Cercada de olivais, Acareias* os de fora, Desprezas os naturais.
*Acarear - «proteger, defender, amontoar, ajuntar, acarinhar, etc.».

Ourique

43.

Adeus ó vila de Ourique, Náo és vila nem cidade, És u ma capela d'oiro On de brilha a mocidade. Adeus ó vila de Sines Cercada de cravos brancos On de o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus ó vila de Sines Cercada de pinheirais Com o castelo no meio Onde combatem mês ais. Adcus ó vila de Sines Samiada de pinhais, Com o castelo no meio Onde combatem meus ais. Adeus povo da Vidigueira Cercado de cravos verdes Onde o meu amor passeia, Não é sempre, mas às vezes. Adeus rabalde* da Graça Não és vila nem cidade! És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade.
*Rabalde – em vez de Arrabalde «subúrbio, cercanias de uma povoação». Neste vocábulo deu-se a supressão de letras no princípio da palavra (fenómeno de aférese).

Ourique

44.

Ervidel

45.

Ervidel

46.

Ervidel

47.

Vidigueira

48.

Beja

49.

Adês rua da Sardoa, Lavada do vento norte, Quem nela tever amôris, Nã’ pode ter melhor sorte. Adês rua de Lisboa, Banhada do vento norte, Quem nela tever amores, Nã’ pode ter melhor sorte. Adês ó ruas de Beja, Hê-de as mandar calçar

Garvão

50.

Alvito

51.

Beja

22

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Com botãozinhos de rosa, Prô mê' amor passear.
52.

Adeus sítio das Fomalhas Cercado de cravos brancos Onde 0 meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus, torre, adeus, sino. Adeus, igreja, adeus, adro, Adeus, aldeia de Quintos, Adond'* ê** fui baplizado!
*Adonde em lugar de onde. ** Ê por eu.

Fomalhas Vale de Santiago, Odemira Quintos

53.

54.

Adeus vila da Vidigueira, Nao és vila nem cidade, És uma capela de oiro Onde brilha a mocidade. Adeus vila de Alvalade Cercada de cravos brancos Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus vila de Alvalade Cercada de cravos roxos. As moças sã' mas donzelas, Os moços são uns entrouxos. Adês vila de Alvalade, És um jardim em botão; Numa rosa qu'ê' lá tenho Prendi o mê’ coração. Adeus vila de Alvalade És um jardim em flor. Vivam os meus condiscípulos, Viva o nosso Professor. Adeus vila de Entradas, Cercada de cravos brancos Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus vila de Ferreira, Tens uma fonte à entrada; És uma capela d'ouro Onde brilha a minha amada. Adês vila de Garvão, Mal de ti nunca direi; O mundo dá muita volta, Não sei se pra lá irei. Adês vila de Panoias,

Vidigueira

55.

Alvalade

56.

Alvalade

57.

Alvalade

58.

Alvalade

59.

Entradas Castro Verde

60.

Ferreira do Alentejo

61.

Garvão

62.

Panoias

23

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Pra bàxo, pra cima não; Pra bàxo correm nas águas, Pra cima mê' coração.
63.

À entrada das Fomalhas Está um chafariz doirado Onde o meu bem vai chorar Lágrimas de apaixonado. À entrada de Aljustrel Tá* um chafariz doirado, Onde mora a minha sogra, A mae do mê namorado.
Tá - é forma reduzida de está, do verbo estar. Na pronúncia popular ouvem-se frequentemenle as formas reduzidas. E não só entre o povo, mas ainda nas outras classes, se ouvem, de igual modo, pronúncias destas: tava, teve, tarei, teja, tivesse, etc.

Fomalhas Vale de Santiago Odemira Aljustrel

64.

65.

À entrada de Beja está Uma pedrinha amarela Onde o mê' amor passea* Cando 'stá de sentinela.
Passêa e cando são formas antigas e arcaicas, respectivamente, do verbo pessear e conj. temporal quando.

Mina de S. Domingos

66.

À entrada d’Elvas Achi uma agulía Com duas letrinhas Viva a D. Júlia. À entrada d'Elvas Achi um didal* Com duas letrinhas: Viva Portugal.
*Achi - achei. Didal- dedal.

Mina de S. Domingos

67.

Mina de S. Domingos

68.

A entrada d'Elvas Achi um didal Com letras que dizem: Viva Portugal. A entrada d'EIv:as Ach/ um didal Que em letras dizia: Viva Portugal. À entrada d'Elvas Achi um testão; Ó moças, já tenho Prà minha fonção.*
Fonção, por função «boda, casamento, etc.».

Beja

69.

Mértola

70.

Mina de S. Domingos

71.

À entrada d'Elvas Tã’ duas cadêras:

Aljustrel Mina de S. Domingos

24

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Uma, é pràs casadas, Outra, é pràs soltêras.
72.

À entrada de Lisboa Tá um chafariz dourado, Onde o meu bem vai chorar Lágrimas de apaixonado. Afonso Anriques um dia Além do Tejo passou, Em S. Pedro das Cabeças Suas tropas aeampou. Albemoa é minha terra, Mal de ti nunca direi. O mundo dá muita volta, Não sei se p'ra lá irei. Albemoa é nossa terra É como a mãe co’as filhas A Trindade é diligência, Lisboa, das maravilhas. Albemoa telefona, Entradas tamem* já tem. S. Marcos d'Ataboeira Comboio já p'ra cá não vem.
Tamém em vez de também.

Ferreira do Alentejo

73.

Beja

74.

Mina da Juliana Aljustrel

75.

Albemoa

76.

Entradas Castro Verde

77.

Aldeia da Amarleja, A que muita gente inveja, Ficou em terceiro lugar Nos cantes* que houve em Beja.
*Cantes, por cantos - subslantivo verbal (=cantares).

Amareleja

78.

Aldeia da Amareleja Não és vila nem cidade; És uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Aldeia da Boavista* Hê-de-te mandar calcetar Com pedras de diamantes, Para o meu bem passear.
Boavista - aldeia de Sanla Clara de Louredo.

Amareleja e Barrancos

79.

Beja

80.

Aldeia da Bracieina, Não és vila nem cidade; És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Aldeia da Bracieira Tudo à roda cravos brancos, On de o meu amor passeia Domingos e dias santos.

Beja

81.

Beja

25

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
82.

Aldeia da Corte Gafo, Nã’ énem cidade; É uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Aldeia de Santa Bárba No meo tens um calitro,* Na folha mais delicada Tem mê nome aí escrito.
*Calitro, acalitro ou êcalitro - formas populares de eucalipto.

Beja e Enfradas

83.

Santa Bárbara de Padrões

84.

Aldeia de S. Matias Esta fêta numa cova; Quem quer ver o seu amor, Sobe acima à estrada nova. Aldeia Nova é minha, Aldeia Velha também; De Aldeia Nova sou eu, De Aldeia Velha o meu bem. Alentejo não tem sombra, Senão a que vem do céu. Abrigue-se aqui, menina, À sombra do meu chapéu. Alentejo, terra do pão, E sã' lindos os trigais; Tamanha ei a farura Que dá comer òs pardais. Algarve, Alentejo e Beira, Faro, Tavira e Olhão, Eu sou como' a dàroeira: Dobrar, sim, mas partir, não. Aljustrel é minha terra, É a terra do mê' pai; Amanhã ê' vou-me embora, Aljustrel camigo vai. Aljustrel, mimosa terra, Terra nova dos poetas, Adond'o primer'amor Desfechou doiradas setas. Alentejo vive em guerra Numa paz que se disfruta, As armas cuidam da terra, E todos vencem na luta. Amareleja és um jardim Não há p'ra mim outro igual. São belas todas as terras, Aldeias de Portugal.

Beja

85.

Serpa

86.

Beja

87.

Beja

88.

Salvada

89.

Aljustrel

90.

Aljustrel

91.

Beja

92.

Amareleja

26

Quadras populares – Cap. I Toponímia

93.

Amareleja, minha terra, Quando de ti vivo ausente, O meu coração encerra Uma saudade ardente. Amarleja nã val' nada, Santo Aleixo um bintém; E Barrancos val' tudo Pelas mocinhas que tem. A Mina de S. Domingos Não é vila nem cidade, E uma aapela d'oiro Onde brilha a mocidade. A minha praça é Beja, O meu regimento o onze; Inda espero de abrandar O teu coração de bronze.*
*Já recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses.

Amareleja

94.

Barrancos

95.

Mértola e Mina de S. Domingos

96.

Beja

97.

A minha terra é Garvão, Ê' na' no posso negar; Taměi ê som* um aluno Da escola elementar.
*A forma - som, usada mui particularmente nos concelhos de Odemira, Mértola e Almodôvar, é arcaica.

Garvão

98.

A minha terra é Leiria Onde o papel fêto éi; A minha sogra éi Amêla. E o mé' amor é Jeséi. A Póvoa, rei des alarves, A Granja dos machacos, * Safára, dos charôquentos, ** Amareleja dos bons moços.
*Machacocos - babosos, abananados. **Charôquentos, de charôco, corruptela de sirôco vento friorento que sopra do Sueste,.

Beja

99.

Amareleja

100.

A Porta de Moura é minha, Que me custou meu dinheiro; Quem nela tiver amores, Tem que me pedir primeiro

Beja

27

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

101.

A É É É

rua de Aldeia Nova 'ma rua empaciente; só p'ra quem mora nela, que sabe estar doente

Mina de S. Domingos

102.

A rua de Beja é minha, Hei-de-a mandar calçar Com biquinhos de alfinetes, Para o meu bem passear. A rua de S. Bento tem No meio um jardim florido; Inda qui quêra nã' posso Tirar de l´s meu «sentido». A rua de Serpa é minha, Hê'-de-a mandar calcetar Com biquinhos de alfinetes, Para o meu bem passear A rua do Rabaldinho Hê'-de-a mandar calcetar Com pedras de diamantes, Par'ô meu bem passear. As meninas de Barrancos Vão-se tornando ao antigo, Já não querem permanente No seu cabelo comprido. As meninas de Vila Nova São muitas, parecem poucas, São com'às folhas da rosa, Encobrem-se umas às outras. As meninas lá de Beja Sao bonitas, cantom bem; Em tendo uma saia nova, Já não falom a ninguém. As moças da Salvada E as da Cabeça Gorda Cudom qu'o casar Éi alguma açorda. As moças da Salvada, Essas que vós sabeis, Foram para lá dezoito E vieram trinta e seis. As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizão, Onde quer que as pedras caem Até fazem tremer o chão. As moças de Serpa atiram

Cuba

103.

Barrancos

104.

Mina de S. Domingos

105.

Beja

106.

Barrancos

107.

Vila Nova da Baronia

108.

Entradas Castro Verde

109.

Beja e Barrancos

110.

Quintos

111.

Beja

112.

Ervidel

28

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Pedras às de Baleizão. Onde quer que as pedras caem Eazem tremer o chão.
113.

As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizao; Também eu hei-de atirar Pedras ao teu corarção. As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizão; Vão no ar fazendo fogo, Quando lhes saem da mão. As moças de Val'-de-Vargo Treme-l’a perna com brio. De lõis* fazem fachada. * Ao pé metem fastio.*
*Lõis – longe *Fazer fachada - «fazer vista, ter bom aspecto». *Meter fastio - meter nojo, causar repugnância».

Ervidel

114.

Serpa

115.

Beja

116.

As mocinhas de Beja Não são como as daqui; Essas vinham correndo Abrançaram·se ami'. Assente-se aqui, menina, À sombra do meu Chapéu, O Alentejo não tem sombra, Senão a que vem do Céu. Assim como em Serpa há loiça Em Pedrógão há cravão; * Em Pias, «acarladores», «Partidários», em Baleizão.
*Cravão, por carvão. É um dos muitos casos de metátese que acorrem na loquela popular.

Beja

117.

Beja

118.

Serpa

119.

Atafona, Corte Cobres, Malhada, Monte das Figueiras. Organim, Val'-de-Camelos, E as duas Amendoeiras Até à freguesia das Neves Tudo é caminho chão, Tudo são cravos e rosas Dispostos par minha mão. A vila de Colos tem Duas coisas que dão graça É o relógio da torre, E os candeeiros da praça. A vila de Garvão tem Duas coisas que dão graça: A ponte no meio da vila,

Mértola

120.

Beja

121.

Colos Odemira

122.

Garvão

29

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
E poço no meio da praça.
123.

A vila de Moura é minha, Hei-de mandá-la calçar Com pedras de diamantes Para o meu bem passear. A vila de Ourique tem Duas coisas que dão graça: É o relógio da torre, E os candeeiros da praça. A vila de Santo Tirso De pequenina tem graça; Tem um chafariz no meio, Dá de beber a quem passa. Bairro Alto anda ardendo, E a Mina a anda atiçando. Corte Pinto acartando* água, Montes Altos apagando.
*Acartando, por acarretando, do verbo acarretar (=carregar, transportar, etc.).

Moura

124.

Ourique

125.

Beja

126.

Mina de S. Domingos

127.

Bairro Alto, Bairro Alto * Bairro Alto desgraçado, Precisavas uma forca Ou senão afllzilado. *
*Bairro Alto - nome por que é conhecido certo arrabalde na Mina de S. Domingos.

Mina de S. Domingos

128.

* Afuzilado em vez de fuzilado. Há prótese do a. Beja, cidade rica, De cereais abundantes. A Cuba, que perto fica, É das vilas mais galantes. Beja com Amareleja, E Safára co'a Póvoa, Santo Aleixo com Barrancos, Brinches com Aldeia Nova.*
V. nº 155 a versão barranquenha.

Beja

129.

Amareleja

130.

Beja, terra alentejana, O teu bom nome se espalha. Munto porduto tens dado Ò senhor Dr. Mealha. Bendito Senhor da Serra Lá do alto do Padrão, Quem nao quer que o mundo fale, Não lhe de ocasião. Cada vez qu'ê vejo Beja Lembra-rn'o mê batalhão. Mê' cavalo, minha espada,

Beja

131.

Beja

132.

Beja

30

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Minha lata do fêjão.
133.

Cada vez qu’ê vejo Beja Lembra-m'o mê regimento, Mê cavalo, minha espada, E o mê' lindo fardamento. Cada vez que vejo Elvas Lembra-me o mê regimento, Mê' cavalo, minha espada, E o mê rico fardamento. Cada vez que vejo Elvas Lembra-me do mê’ regimento, Mê cavalo, minha espada, E o me' rico fardamento. Cada vez que vejo vir Barcos a meia ladeira, Lembram-me as moças da Cuba, Rapazes da Vidigueira. Campinho, terra de bruxas, S. Marcos, das feiticeiras, Cumiada, das manhosas, Reguengos, das bonacheiras. Campo Maior, Vila tão querida, Toda aquela gente É muito atrevida. Cand'é' de Beja abali* Olhi para trás chorando. Adês Béja da minh' alma Que tã' longe me vás* ficando.
*Abali e olhí em vez de abalei e olhei. A pronúncia de tais formas e doutras dos verbos de tema em a deve obedecer à analogia pela semelhança das formas da 1ª pes. do pret. indo dos verbos de tema em e e i. * Vás, par vais, isto é conjuntivo porindicativo.

Beja

134.

Cuba

135.

Cuba

136.

Beja

137.

Amareleja

138.

Beja

139.

Beja

140.

«Castro, S. Marcos, Entradas, Albemoa e a Trindade, Cabeça Gorda e Salvada, Quinlos, Ba!eizão e cidade.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V, III, 309, 1946 .

Beja

141.

«Cidade de Beja das eiras, Termos do meu andar. Já se acabou o tempo De eu por ela passear.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V, III, 309, 1946 .

Beja

31

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
142.

Cidade de Beja é minha, Compri-a c'o meu dinheiro; Quem quiser lá namorar Temn que me pedir primeiro. Cidade de Beja tem Treze moinhos de vento, Quando urn começa a moer, Moem todos a um tempo. Comparo Beja com Quintos, Ba'eizão com Salvadinha, Comparo-te a ti comigo, A tua mãe co' a minha Comparo Beja com Quintos, Salvada com Baleizão, A Cuba é com Alvito, Vila Nova c'o Torrão. Camparo Serpa com Beja, Brinches com Aldeia Nova, Safára com Santo Aleixo, Amareleja co'a Póvoa. Comparo Serpa com Brinches, Baleizão com Aldeia Nova, Safára com Santo Aleixo, Amareleja, Granja e Póvoa. Comparo Serpa com Brinches, Baleizão com a Salvada, Compara-te a ti comigo, Ó minha prenda adorada. Condado Vasco da Gama, Minha terra, Vidigueira, A Senhora das Relíquias, Sua nobre padroeira. Corte Pinto, Corte Pinto, Corte Pinto desgratçada, Vão os homens pró trabalho, Levom o cesto sem nada. Crasto Verde nesse tempo, Cais* que na' enzestia.** Veio aí p'ra batalhar Afonso Anriques***3 um dia.
*Cais, por quase. **Enzestia, por existia. ***Anriques, em vez de Henriques.

Beja

143.

Mértola

144.

Beja

145.

Beja

146.

Serpa

147.

Amareleja

148.

Serpa

149.

Vidigueira

150.

Mina de S. Domingos

151.

Beja

152.

«Cuidava que só em Beja É que havia gente «nência»;* Em Setúbal também há Quem lhe faça diligência.»

Beja

32

Quadras populares – Cap. I Toponímia

*Nência, «néscia, ignorante, parvajola». 153.

Dá-me um beijo, eu dou-te dois, Que a minha paga é dobrada, Pois o dever dos amores É pagar não dever nada. Daqui ó Sobrá é longi, Túdu é caminhu chão, Túdu são crábu' i rosa' Dihpostuh pu minhah mão'.
*Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha V. Nº 129.

Salvada

154.

Barrancos

155.

Das povoações qu'eu conheço Fiz uma comparação; Vão os homens prò trabalho, E Pias com Baleizao. Das ruas que Serpa tem, P'ra mim a que tem mais graça É a da Porta de Beja. Desde o Arco até à Praça. D'Aldeia Nova de S. Bento, Raparigas e rapazes, Onde chegam dão palmada É porque eles são capazes. De Aldeia Nova, São Bento, De Pias, Santa Luzia; De Brinches, Consolação; De Serpa, Santa Maria. «De Casa Branca para Beja Vai o comboio a vapor. Muita gente tem inveja De tu seres o meu amor.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Ill, p. 309, 1946.

Amareleja

156.

Serpa

157.

Serpa

158.

Serpa

159.

160.

Desejava arrasar Beja Com um copo d'aguardente, Que ficasse o mê' amôri E rnorresse toda a gente. Desejava ser de Serpa, Ou em Serpa ter alguém, Para ter a rnesma dita* Que os moços de Serpa tem
*Dita - «sorte, ventura, fortuna», etc.

Alcaria Ruiva Mértola

161.

Beja

162.

De Vila Nova às Pias Já não há quem vá à missa. Que lindos olhos que tem

Beja

33

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
A Antóina «Campaniça»!*
* «Campaniça» - Designam-se por campaniços os trabalhadores que, do termo de Mértola, em especial de Campo Branco, costumam vir fazer a temporada de trabalho (mondas e ceifas) para o concelho de Beja mui particularmente. 163.

Digam lá se não é triste Ter umn amor, não o ver! Cada vez que eu penso nisto Meus olhos choram sem querer! Ditosa vila de Crasto Onde O Senhor apar’ceu Onde o rei Afonso Henriques Sua batalha venceu. Do Algarve até ao Minho Tudo no mar se espelha. Portugal é um brinquinho Que Europa traz na orelha. É capital da Província Linda cidade de Beja. Os habitantes são crentes, E das outras nada inveja. Ê’ ca som do Monte Branco, Freguesia Messejana, Findo os dias nas Fornalhas, Se um coração não me engana. Eu fui a Lourenço Marques Qu'ê’ mais lõis do qu'ô Brasil. Vi terras americanas, Cidades oitenta mil. Eu hei·de ir morar p'ra Serpa, Para aprender a cantar, Já que os bons cantares de Beja Na' me querem ensinar. Em Aldeia Nova e Pias Há cantadores afamados, Mas em Serpa também há Alguns que são invejados. Em Beja está uma fonte Nunca deixa de correr; Sã' nos meus olhos chorando Com pena de te não ver. Em Brioches tenho onze amores, Nas Pias teoho só um; Mas tenho oito no Outeiro, Contigo são vinte e um.

Beja

164.

Beja

165.

Beja

166.

Beja

167.

Fornalhas Vale de Santiago, Odemira Colos Odemira

168.

169.

Beja

170.

Salvada

171.

Beja

172.

Beja

34

Quadras populares – Cap. I Toponímia
173.

Em Ervidel já estão Dois grupinhos teatristas: Um dos grupos leva dramas, O outro leva revistas. Em Moura tudo é bonito, Em Moura tudo verdeja; Mas o sol, que brilha em Moura, Primeiro passa por Amareleja.*
* Observe·se que Amareleja fica a Nascente e mais para Norte de Moura.

Ervidel

174.

Amareleja

175.

Em Sangalhos (?), linda terra! Uma campnia vivia, Na doce paz do seu lar, Gozando pura alegria. É' nã’ sê’ que tenho em Beja, Que Beja me 'sta lembrando; Em chegando à Boavista O vento me vai levando. É na terra de Leiria Que se favrica o papel. A minha sogra é Maia, E o meu arnor é Manuel Entradas e Castro Verde, Albernoa e a Trindade, E S. Marcos - cinco terras Onde brilha a mocidade. És de Serpa, mas não sabes Cantas freguesias são: São Pedro, Santa Maria, São Francisco e São João. É' sô’ das Portas de Moura, A minha pátria não nega; Encant’ * é’ te nã' lograr, Mé’ «sentido» nã' sessega.
*Encanto, por enquanto. Sessega em lugar de sossega.

Mértola

176.

Beja

177.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Entradas Castro Verde

178.

179.

(Serpa

180.

Beja

181.

Esta «moda» veio de Beja, Dirigida a Baleizão, De Baleizão a Panoias, De Panoias a Garvão. Esla «moda» veio de Beja, Dirigida a Conceicão, De Conceicão a Panoias, De Panoias a Garvão. Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. O rapaz do chapéu preto

Beja

182.

Ervidel A ljustrel

183.

Beja

35

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Não é homem como os mais.*
*Os mais - «os outros, as restantes, a maior parte». 184.

Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. Quem não usa chapéu branco Não é homem como os mais. Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. Queria ver se te esquecia, Cada vez m'alembras* mais.
*M'alembras - do verba alembrar-se (= lembrar-se). Outro caso de prótese do a.

Mértola

185.

Beja

186.

Esta «moda» veio de Beja, Nas asas de urn passarinho. Quem namora sempre alcança Um abraço e um beijinho. Esta rua cheira a sangue, Alguém nela se sangrou. Foi a mãe do meu amor Com 'ma sova que lovou. Estes moços das Fornalhas Enrolados nurn capacho Todos no «(bico» dum cerro, Jogados de lá abaixo. Estes sítios das Fornalhas Hê’-de mandá-los calçar Com cabeças de alfinetes, Plara o meu bem passear. Eu cá sou do Monte Branco, Freguesia Messejana; Findo a vida nas Fornalhas, Se um coração não me engana. Eu fui a São Bento, Eu fui a São Brás; Cheguei à Boiada, Voltei-me p'ra trás. «Eu hei-de ir a Beja No tempo do Verão, Pedir às bejenses O seu coração.*
*Recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses.

Mértola

187.

Cuba

188.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Fornalhas Vale de Santiago Odemira Fornalhas Vale de Santiago Odemira Serpa

189.

190.

191.

192.

Beja

193.

Eu já fui a Vale de Vargo Fazer uma diligência. Às vezes faço·me parvo,

Serpa

36

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Par minha conveniência.
194.

Eu não sei que tenho em Beja, De Beja me estou lembrando. Em chegandoà estrada nova, O vento me vai levando. Eu não sei que tenho em Beja, Que Beja me está lembrando. Em chegandoà Gudiana.* As ondas me vão levando.
*O povo diz: a ribeira do Glldiana, e não - o rio Guadiana. *Adevinho - adivinho, (fenómeno de dissimilação).

Ferreira do Alentejo

195.

Beja

196.

Eu não sei que tenho em Serpa, Que Serpa me ‘stá lembrando. Em chegando à estrada nova, O vento me vai levando. Eu não sei que tenho hôis,* Que o meu cantar é tã' triste! Adevinho,* meu amor, Que Barrancos não existe.
*Hôis em vez de hoje.

Mina de S. Domingos

197.

Barrancos

198.

Eu tenho quarenta amores, Nestas quatro frequesias: Dez em Serpa, dez em Moura, Dez em Brinches, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Só em quatro freguesias: Dez em Moura, dez em Serpa. Dez em Cuba, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Só em quatro freguesias: Dez em Serpa, dez em Moura, Dez em Brinches, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Todos os quarenta fixes; Tenho dez na Aldeia Nova, Dez em Serpa, vinte em Brinches. Ferreira do Alentejo É minha terra natal. São lindas como os amores As terras de Portugal. Fornalhas é minha terra, Ê' nã' no posso negar. Toda a gente me conhece Polo* modo de falar.

Serpa

199.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Beja

200.

201.

Serpa

202.

Ferreira do Alentejo

203.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

37

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

*Polo em lugar de pelo. É forma antiga da prep. per e o artigo o (lo), que se ouve ainda na pronúncia popular. 204.

Fui ao jardim da Itália Apanhar linda flor; Pediste-me amor-perfeito, Aqui tens perfeito amor. Fui à Torre da Gadanha, Para ver o meu rapaz. A amizade era tão grande Que me fez voltar atrás. Tã moças bonitas Lá na Vidigueira E vinho barato Cont' a gente queira. Ja andi pela Brasil, Ja passi ò Maranhão; Tenha visto muitas terras, Com'à minhaé qu'inda não. Já Beja não vale nada, Baleizão val' um vintém Moura val' mil cruzados, Pelas mocinhas que tem. Já Beja não val' nada, Santa Vetóira um testão, Ervidel val' mil cruzados. Tem campo de aviação. Já cá tenho o teu retrato Que rôbi ô retratista; Só me falta chale e manta, Para ir à Boavista. Já em Serpa se não canta, Está o cantar poribido.* Já os cantadores de fama De certo têm morrido.
* Poribido por proibido. - São inúmeros os casos de matátese na boca do povo. Este fenómeno fonético obedece, sem dúvida, à lei do menor, esforço tendência natural que o homem tem para empregar o menor esforço na pronúncia dos fonemas.

Ervidel

205.

Cuba

206.

Beja

207.

Mértola

208.

Beja

209.

Beja Ervidel

210.

Ervidel

211.

Mértola

212.

Já me vou para Ficalho, Que o campo já me aborrece, Qu' eu em Ficalho tcoho Quem de mim nunca se esquece. Já Moura não vale nada, Safara val' um cruzado, A Póvoa é que vale tudo Tenha lá meu namorado.

Serpa

213.

Moura

38

Quadras populares – Cap. I Toponímia

214.

Já não me lembrava Beja, Nem cuidava que existia; Mas agora não me esquece Nem de noite nem de dia. Já Serpa não vale nada, Baleizão só urn vintém, Aldeia Nova val' tudo Pelas moças que lá tem. Lá vai Serpa, lá vai Moura, E as Pias ficam no meio. Onde quer que Serpa chegue Não há que haver arreceio. Lá vai Serpa, lá vai Moura, As Pias ficam no meio. Quando chego a Aldeila Nova, Nao deve haver arreceio.*
* Arreceio, por receio. Outro caso de prótese

Beja

215.

Serpa

216.

Beja Mértola

217.

Serpa

218.

Linda cidade de Beja, Como tu não há igual; A todas causas inveja, Meu lindo torrão natal. Lisboa com ser Lisboa E ter navios no mar, Não é mais que a minha terra, A mais linda em Portugal. Lisboa com ser Lisboa, Tamém tem casas em vão, Tamém tem moças bonitas, Claras com'ò cravão. Lisboa, nobre cidade, Que lá se formam doutores. Para lá irão agora Os meus primeiros amores. «Lisboa, por ser Lisboa, Com braços de mar ao pé, Não é tão grande cidade Como Val' de Vargo é... *
*Já recolhida em A Tradição, nº 7 - ano 3 0, Julho de 1901, p. 110.

Beja

219.

Beja

220.

Ervidel

221.

Mértola

222.

Serpa

223.

Lisboa por ser Lisboa, Também tem terra de pão, Também tem moças bonitas, Claras como o carvão. Lisboa tamém é terra, Mas não é terra de pão;

Vidigueira

224.

Beja

39

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Tamém tem moças bonitas, Claras com' ò cravão.
225.

Mas tamém tens lindas vilas, E eu não digo asneira: Está Serpa, a seguir Moura, Prô Poente está Ferreira. *
* V. Nº 371.

Beja

226.

Meu arnor não é daqui, É da Ilha da Madeira; Lá por ele aqui nã' 'star, Canto da mesma maneira. Meninas de Vila Nova Sao muitas, parecem poucas: São como as folhas das rosas, Encobrem-se umas às outras. Mértola, quem te arrasasse Com um copo de licor! Que toda a gente morresse, Só ficasse a meu amor! Meu Alentejo, Alentejo, Terra bendita do pão! Remoço, quando te vejo, Pulsa mais meu coraição. Minha rua é estrada nova, Oode passa a deligência. É’ nã’ engraço contigo,* Menina, tem paciência.
*Engraçar com alguém - Simpatizar. gostar de alguém.

Colos Odemira

227.

Vila Nova da Baronia

228.

Mértola

229.

Beja

230.

Beja

231.

Moças das Portas de Moura Cuidam que sabem cantar; Pedem aos do Terreirinho Que os vão lá ensaiar. Mônti de D. Maria Těi binte e quatru janelah. Bai uma pombinha branca Apoisá ě uma delah *
*Binte e bai, por vinte e vai. Em Barrancos é usual a troca do b pelo v e vice-versa. Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha.

Beja

232.

Barrancos

233.

Monte do Marmeleiro é vila, Barradinha 'ma cidade, Fornalhas são cachos de ouro Onde brilha a mocidade. Moura, rainha das vilas, Que lindo mercado tem!

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

234.

40

Quadras populares – Cap. I Toponímia
Seu castelo e sua igreja Que tão lindos são também!
235.

Moura, rainha das vilas, Que lindo rnercado tem! Viva Serpa e Aldeia Nova, E a Vidigueira tambem. **
**V. nº 225

Amareleja Barrancos

236.

Muito gosto eu de ver B'rcos à rneia ladeira. Lembrom-me as mças da Cuba, E os vinhos da Vidigueira. Muito linda é Lisboa, Passear pela Avenida. Quem tem dinheiro e faz gosto, É o maior gozo da vida. Na Cabeça Gorda Está urn figurão; Tem na «tromba» torta D'afoçar no chão. Na Cabeça a Gorda Há um santo só De pau carunchoso Talhadoa enxó. « Na Cabeça a Gorda Não há senão prantos... Caíu a igreja, Morreram os santos!»
De A Tradição, nº 8 - ano 3º - Agosto de 1901. p. ]26.

Beja

237.

Mina da Juliana Aljustrel

238.

Beja

239.

Beja

240.

Beja

241.

Nao sei que tenho em Beja, De Beja me estou lembrando; Em chcgando àestrada nova, O vento me vai levando. Nao sei o que teoho em Beja, Que Beja me está lembrando; Em chegando à Boavista. O vento me vai levando «Não sei o que tenho em Serpa, Que Serpa me está lembrando; Em chegando à Gudiana. As ondas me van levando.» *
*Já recolhida por Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Vol. III, p. 71. Atente-se em queo povo diz: a r’bêra do Guadiana, por rio Guadiana.

Mina da Juliana Aljustrel

242.

Beja

243.

Serpa

244.

Não sou de Beja, mas sei Quantas freguesias são: Salvador, Santa Maria,

Beja

41

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
S. Tiago e S. João.
245.

Na rua Ancha de Beja Está um laço de algodão. Todos passam, não se prendem, Só eu fico na prisão. Na rua nova de Beja Está um laço de algodão. Todos passam, nao se prendem, Só é’ fiqui na prisão. Nestes campos em flor Alentejo é um jardim, Onde vive o meu amor, Dando suspiros por mim. No Alentejo não há sombra, Senão a que vem do céu. Abrigue-se aqui, menina, À sombra do meu chapéu. No castelo de Beja Nasceu uma rosa, Com o pé voltado P'ra Vila Viçosa. Ó aldeia da Salvada Não és vila nem cidade; És uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Ó aldeia de Albernoa, Ao centro tens um pontão, Onde as moças vão cantar Na noite de S. João. Ó aldeia de Albernoa, Nao cs vila nem cidadc; Es uma capela d'oiro Oode brilha a mocidade. Ó aldeia de Albernoa, No centro tens um pontão. Por baixo, correm nas águas, Por cima, meu coração. Ó aldeia de Ervidel, Não és vila nem cidade, És uma terrinha reles, Onde brilha a mocidade. «Ó aldeia de Pedrogão, Formada numa alagoa! Valem mais as «Pedras Altas» Que a cidade de Lisboa.»
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. V 1948, p.

Mértola

246.

Beringel

247.

Ferreira do Alentejo

248.

Beja

249.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Beja

250.

251.

Albernoa

252.

Albernoa

253.

Albernoa

254.

Ervidel Aljustrel

255.

Vidigueira

42

Quadras populares – Cap. I Toponímia
269. 256.

Ó aldeia de Trigaxes, Ó terra da clareza, Qu'alegria pode ter Quem perdeu as seus alforjes? ...
*Cantiga de pé-quebrado.

Beja

257.

O Alentejo é alegre, Uma terra d'encantar. Eu gosto do Alentejo, Que me ensinou a amar. O Alentejo e que éi * O celeiro da Nação. Nos samos** alentejanos. Samos da terra do pão.
*Ei, por é **Samos ou semos (do verde ser) em vez de somos. Cêmu, no dialecto barranquenho.

Beja

258.

Beja

259.

O Alentejo tem sido A terra sempre do pão; Dês que* há racionamento. Já perdeu esse condão.
Dês que - desde que

Beja

260.

«(Ó amor não «vaias» À Cabeça Gorda! Que te cai em cima A Salvada toda!»*.
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. III, 310.

261.

Ó amor se fores À Salvadaà missa, Emprega os teus olhos Numa campaniça. Ó Baleizão, Baleizão, Ele lá e eu aqui; Os anjos do céu me levem Para a terra onde eu nasci. Ó Baleizão, Baleizão, Ó Baleizão do almece. Ande lá por onde andar, Baleizão nunca me esquece. Ó Baleizão, Baleizão, Quem te atirara dois tiros, C'uma espingarda de beijos Atacada de suspiros! Ó Barcelos, ó Barcelos,

Beja

262.

Quintos

263.

Quintos

264.

Beja

265.

Ervidel

43

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
De pequenina tens graça; Passa·te um rio pelo rneio, Dás de heber a quem passa.
266.

Ó Barrancu', minha terra, Quandu de ti bibu ausênti, U mê coração encerra Uma saudádi ardenti. Ó Beja, amável Beja, Terra da minha afeição; Tenho aí ó meu amor, Ninguém me diga que não. Ó Beja, bendita sejas, Tu a mim nunca me esqueces. Éis a más linda cidade Que adorom nos Portugueses! Ó Beja, mãe dos rurais, E operários de construção, Ó Beja tu dás produtos A toda a nossa Nação. Ó Beja, Ó Beja, Quem dera lá ir, Para ver as morças Dos homens fugir. Ó Beja, ó linda Beja, É de Beja qu' é' m'envejo; És o celeiro da Nação, Capital do Bàxo-Alentejo. Ó Beja, ó linda Beja, O teu nome é imortal. Terra amada, hospitaleira, Tu não tens outra rival. Ó Beja, munta atenção, Os tés filhos vão cantar; Enconto os tés filhos cantam Ó Beja, põe-te a chorar. Ó Beja, não vales nada, Penedo Gordo um vintém, Boavista, um milhão Só pelas moças que tem. Ó Beja, se tu não fosses Dois olhos que tu lá tens, Nã’ me vinhas ò sentido Tanta vez conforme vens. Ó Beja, terrível Beja, Terra de tão mau ladrilho! Onde uma mãe vai chorar

Barrancos

267.

Beja

268.

Beja

269.

Beja

270.

Beja

271.

Beja

272.

Beja

273.

Beja

274.

Beja

275.

Penedo Gordo

276.

Ervidel

44

Quadras populares – Cap. I Toponímia
A desgraça de seu filho.
277.

«Ó Brinches, ó linda Brinches, Tu dantes eras aldeia; Agora és nobre cidade, Onde o meu amor passeia.»*
*Já recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses, IV. 330.

Serpa

278.

Odemira, minha terra, Lá narcê' o mê' amori; Ê’ narci* na mesma rua Ao pé daquela flôri.
*Narcí em vez de nasci. Também se pronuncia - nací, do verbo nacer (= nascer)

Vila Nova de Milfontes

279.

Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista. Já não faz milagres S. João Baptista. Ó Ermidas, Ó Ermidas, De pequenina tens graça, Com um chafariz no meio Dás de beber a quem passa. «Ó Ficalho. Vila Verde, Cercada de olivais, Eu de ti tenho saudades, Por quem lá está solto ais.»*
*Já registada por Carlos Martins, Cancioneiro da Saudade, 1920, p. 104.

Beja

280.

Ervidel

281.

Serpa

282.

Ó linda vila de Alvito, É piquinina* e tem graça: Tem umas «bicas» no meio Dá de bober** a quem passa
*Piquinina em·lugar de pequenina. Devemos concordar que aquela pronúncia tern mais energia que esta. **Bober, por beber.

Beja

283.

Ó Mertola, quem te arrassase Com um copo de licor! Que toda a gente morresse, Só ficasse o meu amor! ÓMértola, querida Mértola, És minha terra natal. És bonita como todas As terras de Portugal. «0 meu amor é da vila, Mora lá na rua larga. Anda no caminho de Beja, Em calhando,* também lavra.»

Mértola

284.

Mértola

285.

Beja

45

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

*Em calhando - «quando se proporciona a ocasião;

quando calhar; em quadrando», etc. Já recolhida par Victor Santos. Cancioneiro Alentejano, 1938, p. 52. 286.

O meu amor é de Mértola, Mora perto da cadeia. Mais val' urn arnor da vila Que quatro ou cinco d'aldeia. Ó Mina da Juliana Feita de pedra morena, Drento dela há dois olhos Que me causam tanta pena. Ò Mina de S. Domingos Cercada d' ecalitrais,* Onde o mê amor passêa Em companha**doutros mais.
Écalitrais - eucaliptais. Em companha de - na companhia de.

Mértola

287.

Mina da Juliana Aljustrel

288.

Mina de S. Domingos

289.

Ó Mina de S. Domingos, Cercada de cravos brancos, Onde o me' arnor passêa Domingos e dias Santos. Ó Mina de S. Domingos, Não é de ti que m'eu lembro, E dum amor que lá tenho Que a toda a hora stom* vendo.
*Stom ou tom - estou, do verbo estar .

Mina de S. Domingos

290.

Mina de S. Domingos

291.

Ó Mina de S. Domingos. Nao é vila nem cidade, És uma capela branca, Onde brilha a mocidade. Ó moças, arriba Serpa, Que além vem no Baleizão; Onde quer que Serpa chega, Prantam-se* as arma's no chão.
*Prantam-se - «põem-se, colocam-se, poisam·se», etc.

Mina de S. Domingos

292.

Serpa

293.

Ó moças, arriba Serpa, Que além vem no Baleizão; Vem dizendo. Ó camarada, Não sei se cante se não. «Ó moças de Beja, Quem me dera vê-las, Dizem que são lindas, Q'ria conhecê-las.»*

Alvalade

294.

Beja

46

Quadras populares – Cap. I Toponímia
*Tomás Pires. Cantos Populares Portugueses. 295.

Ó Moura, melhor das vilas, Também que muitas cidades; Quem me dera eu já lá ir Para matar saudades. Onde brilha a minha amada, Onde brilham meus amores; Adeus vila de Ferreira. És um jardim de flores. Onde quer que eu cheguí, Chegou Portugal à França; Tenho corrido, não acho Quem me dobre o fio à lança. Ó Pias, Ó Pias, Ó Pias, Piais! À roda das Pias Só vejo currais. Ó Pias, Ó Pias, Ó Pias, Piais! De roda das Pias Tudo são quintais. O povo do Alentejo É sincero, hospitaleiro, Trabalhadar e honesto Com o seu feitio guerreiro.

Moura

296.

Ferreira do Alentejo

297.

Ferreira do Alentejo

298.

Serpa

299.

Mértola

300.

Beja

47

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

Instituto Nacional de Investigação Científica
Para que este precioso subsídio de MJDelgado não se perca, antes sirva para uma pesquisa permanente e enriquecedora... AQUI vão aparecendo de 100 em 100... as mais de 5000 recolhas a que se seguem as modas... do II volume... A ideia desta divulgação é a de permitir, a todos os interessados, em especial às novas gerações, uma pesquisa eficaz e proveitosa do tesouro imenso do nosso CANCIOEIRO... é possível uma pesquisa por terras, palavras ou versos... enfim... até pode permitir uma organização por locais de recolha... Qualquer inconveniente que seja considerado pelos detentores de direitos de autor ou edição, basta comunicar e estas notas serão retiradas... JRG.

joraga.net 2012 / 2013 – ano do CANTE
1 a 300

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