William Nunes Dias

A HOMOSSEXUALIDADE NO CINEMA:
Os aspectos da identidade homossexual masculina no cinema LGBT contemporâneo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

William Nunes Dias

A HOMOSSEXUALIDADE NO CINEMA:
Os aspectos da identidade homossexual masculina no cinema LGBT contemporâneo

Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social, do Departamento de Ciências da Comunicação do Centro Universitário de Belo Horizonte – Uni-BH, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador: Fabrício Marques

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Dedico a minha mãe, Kátia que é a pessoa mais especial da minha vida, a minha tia e madrinha Selma, por me ter como um filho que ela não teve e ao meu irmão, Wellerson que sempre esteve ao meu lado.

Agradeço aos meus queridos amigos, em especial, Andressa Caroline e Beatriz Paiva que estiveram ao meu lado nessa dura e longa jornada. Ao meu orientador Fabrício Marques pela dedicação e paciência que teve comigo e, ao professor Maurício Guilherme, pelas palavras de apoio e incentivo nesses anos de estudo. Por fim, agradeço a todas as pessoas que passaram por mim e de certa forma me marcaram.

“Eu sou homem e nada do que é humano me é estanho”. Terêncio

.1 Construção da Narrativa Fílmica......45 6 CONCLUSÃO......................27 4 CINEMA .......................................................................................................................2 Homossexuais no Cinema .52 ........................................... 50 ANEXOS...................................................................................................................44 5.................................36 5 ANÁLISE DOS FILMES .....................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................25 3................................................................................................................................................aspectos identitários e sociológicos.................................................................................................aspectos identitários e sociológicos......................................................................................................................................................................1 Construção da Narrativa Fílmica..................... 10 2....................5 Identidade Homossexual..........................................................08 2...........................................................................................................................1.......................2 Orações para Bobby: Construção do Personagem ............................................................................... 39 5........20 3....................................................... 08 2..................................................................................................................A Voz da Igualdade: Construção do Personagem ......................2 O Impacto da AIDS no Movimento Homossexual.......................................................................................... 23 3............... 31 4..................40 5...............................................3 Os festivais LGBT.................................................3 Sobre o Movimento Homossexual.............33 4................................................................49 7 REFERÊNCIAS ...............................................................................................................................1 O Movimento Homossexual e sua história...1 Cinema e Homossexualidde..4 Em busca de Visibilidade: as Paradas Gays.....30 4..................................................................12 2............. 20 3..........2.........1 Milk .......................................................................................................................... 30 4..........................................................................................14 2... 07 2 IDENTIDADE...............................................................3 Os Cinco Descentramentos da Identidade.............................39 5..................1 Conceito de Identidade........................................................................17 3 MOVIMENTO SOCIAL ....................4 Identidade e Diferença....4 A Relação da AIDS e das Paradas do Orgulho Gay com o Cinema LGBT......2 As Três Concepções de Identidade de Stuart Hall ......................................

buscaremos analisar os filmes Milk – A Voz da Igualdade (Milk. como destaca Codato (2003).7 1 INTRODUÇÃO Com este trabalho. o cinema passa a ser um fato gerador de exclusão social. como o homossexualismo. 2003. não mostram toda a realidade dos fatos que geraram as suas histórias. Para o autor. Henrique Codato (2003) esclarece que devemos compreender o cinema como um produto social e autêntico que produz modelos de comportamento. atribuído às suas qualidades seu papel dentro da sociedade. ou seja. nos quais o cinema se insere de maneira muito forte. (CODATO. por despertarem um forte impacto no público. criando. 2009) direção de Russel Mulcahy. simplesmente. . isso é. de certa forma. iremos perceber como homossexualidade masculina é representada no cinema. Para isso. sem uma identidade cultural ou social delimitada. Antônio Moreno (2002) nota que. e terá então. ficaríamos à mercê da forma como o homossexual é frequentemente representado pelos meios de comunicação de massa. uma padronização entre os diversos grupos desenhados nas grandes telas. Eles forem escolhidos. o personagem gay/lésbica será julgado e classificado. ou. ajudando na evolução de uma questão. é a partir daí que entram os aspectos sócios-culturais. de maneira humorística ou trágica. a partir do momento em que passamos a entender o mundo de forma estanque. mostrando-a como uma questão de comportamento desviante. através de um filme. não podemos reduzir a representatividade dos homossexuais a isso. 2008) dirigido por Gus Van Sant e Orações para Bobby (Prayers for Bobby. “Ao construir um modelo único de comportamento. deixando a imagem caricatural ou de sofrimento de sujeito marginal. mas parte dela. sem a possibilidade de diversidade”.10) Os filmes Milk e Orações para Bobby são obras que representam o recorte da realidade. pois assim. Devemos perceber que apesar de trazermos para a análise dois filmes com finais trágicos. p.

classes. um processo de produção. uma relação. 89) . O processo de classificação pode ser entendido como um ato de significação pelo qual dividimos e ordenamos o mundo social em grupos. 2000). 2000. Como esclarece Silva (2000). é uma demonstração do caráter “artificialmente” imposto das identidades fixas. inconsistente. estável. supõem e. A identidade é uma construção. 2000. nos interstícios. mais do que a partida ou chegada. é nas próprias linhas de fronteira. a identidade não é uma essência. é cruzar a fronteira. permanente. de ter uma identidade ambígua. que sua precariedade se torna mais visível. A identidade não é fixa. 2005. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas.8 2 IDENTIDADE 2. afirmam e reafirmam relações de poder (SILVA. que é o acontecimento crítico. (SILVA. “O conceito de „identidade‟ é complexo. Aqui. é estar ou permanecer na fronteira. fragmentada. 89) Como Silva (2000) explica. p. a teorização cultural contemporânea sobre gênero e sexualidade ganha centralidade. ao mesmo tempo uma poderosa estratégia política de questionamento das operações de fixação de identidade. A evidente artificialidade da identidade das pessoas travestidas e das que se apresentam como drag-queens. seja da cultura. nos limiares. unificada. não é um dado ou um fato – seja da natureza. muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para definitivamente ser posto à prova”.1 Conceito de Identidade De acordo com Tomaz Tadeu da Silva (2000). coerente. indefinida. é entretanto. dividir o mundo social entre “nós” e “eles” significa classificar. o processo de classificação é central na vida social. (SILVA. inacabada. 8) A identidade está sempre ligada a uma forte separação entre “nós” e “eles”. Para ele. denuncia a – menos evidente – artificialidade de todas as identidades. Essa demarcação de fronteiras. O movimento entre fronteiras coloca em evidências a instabilidade da identidade. a possibilidade de “cruzar fronteiras” e de “estar na fronteira”. p. essa separação e distinção. Neste caso. por exemplo. p. (HALL. O cruzamento de fronteiras e o cultivo propositado de identidades ambíguas. ao mesmo tempo.

Se a identidade é construída por meio das práticas sociais de um indivíduo. estão em declínio.9 A identidade não deve ser algo dado pelo outro. Se não for dessa forma. mas sim um conjunto de características que seja reconhecido pelos que o incorporam. as identidades. 2000). deslocadas ou fragmentadas. Para Stuart Hall (2005). aceita por aquele que segue essas determinadas práticas. Para Hall (2005). Identidades diferentes podem ser construídas como “estranhas” ou “desviantes” (WOODWARD. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança. 2003). fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno. Como esclarece Codato (2003). Uns dos possíveis conflitos surgem das tensões entre as expectativas e as normas sociais. as identidades confundem-se e fundem-se com as representações sociais. isto é. Por exemplo. ou seja. que por tanto tempo estabilizaram o mundo social. Kathryn Woodward (2000) lembra que a complexidade da vida moderna exige que assumamos diferentes identidades. tensões entre nossas diferentes identidades quando aquilo que é exigido por uma identidade interfere com as exigências de uma outra. até o século XX visto como um sujeito unificado. pelo diferente. deve ser algo inerente a ele. uma representação social. e que essas diferentes identidades podem estar em conflito. ela deixa de sê-lo e passa a ser meramente. algo que venha a ser assumido pelos que recebem esses rótulos (CODATO. espera-se que as mães sejam heterossexuais. . podemos viver em nossas vidas pessoais. as identidades modernas estão sendo “descentradas”. Segundo ela. que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. se os chamados “outros” ou os “diferentes” resolvem dar a esse indivíduo uma identidade.

um homem passivo. apud HALL. Em português. De acordo com Silva (2000). um lado sempre é mais valorizado que o outro. 2004). a divisão binária da sociedade segundo o sexo. Christopher Lane. A historiadora Tânia Navarro Swain (2000) aponta que o binário naturalizado de identidades demarcadas em torno da heterossexualidade e reprodução. a identidade somente se torna uma questão quando está em crise. do sujeito sociológico e do sujeito pós-moderno. quando algo que se supõe como fixo. Os dualismos recebem pesos desiguais num sistema hierarquizado de identidades e diferenças. Conforme a autora explica. incômodas. na década de 1990. não é questionada. a teoria feminista e a teoria Queer 2 contribuem de forma decisiva para o questionamento das oposições binárias masculino/feminino. pessoas do mesmo sexo que se amam são enquadradas no espaço do erro. 2. coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza. estratégias múltiplas que buscam fixar uma identidade masculina ou feminina normal e duradoura articulada a modelo único de uma identidade sexual: a identidade heterossexual.10 Como observa o crítico cultural Kobena Mercer 1 (1990). Para Elis Regina Araújo da Silva (2004). o termo queer – estranho em inglês – passou a ser utilizado. Deste modo. heterossexal/homossexual.2 As Três Concepções de Identidade de Stuart Hall Hall (2005) discute três concepções diferentes de identidade. enfatizando sua relação com a transgressão. incorretas. nas quais se baseia o processo de fixação das identidades de gênero e das identidades sexuais. São investimentos. além de naturalizada. é hierárquica e assimétrica e gira em torno da reprodução como eixo principal de relação entre os sexos definindo as noções de “normalidade” e “natureza” (SILVA. traça espaços de identidades consideradas incompletas. 1 2 Mercer (1990. . uma mulher viril. 2005) Segundo o professor. nesse dualismo. já que é naturalizada. por um grupo de teóricos que desenvolveram um pensamento a respeito da homossexualidade. ao chamar a atenção para o caráter cultural do gênero e sexualidade. queer teria um significado próximo ao termo bicha. as concepções do sujeito do Iluminismo. A construção binária de homens e mulheres.

a identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade. dotado das capacidades de razão. unificado. contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e como ele se desenvolvia. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. composto não de uma única. O autor afirma que a identidade. previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável. ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores. mas era formado na relação com “outras pessoas importantes para ele”. esse sujeito refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente. tornando-os “parte de nós”. De acordo com ele. que . sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava. mas de várias identidades. que mediavam para o sujeito os valores. Correspondentemente. de consciência e de ação. Para ele. a identidade dele: já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como masculino)”. 2005. as identidades. o sujeito. cujo “centro” consistia num núcleo interior. 11) Em seguida. preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo pessoal e o público. A identidade costura o sujeito à estrutura. algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. nessa concepção sociológica.11 Segundo o autor. Hall discorre sobre a noção de sujeito sociológico. 2005). o sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado. o fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais. (HALL. tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis (HALL. ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo. De acordo com autor. “Pode-se ver que essa era uma concepção muito „individualista‟ do sujeito e de sua identidade (na verdade. nessa concepção sociológica clássica da questão. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam. está se tornando fragmentado. p. Como explica Hall (2005).

utilizando recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidos por gerações anteriores. seus novos intérpretes leram isso no sentido de que os indivíduos não poderiam de nenhuma forma ser os “autores” ou os agentes da história. como resultado de mudanças estruturais. . uma vez que eles podiam agir apenas com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais eles nasceram. De acordo com ele. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos. todos de acordo com o sujeito do Iluminismo. Segundo o autor. tornou-se mais provisório. para a teoria de Freud. 2. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. esse processo produz o sujeito pós-moderno. Um dos modos pelos quais o trabalho de Karl Marx foi descoberto e reinterpretado na década de 1960 foi à luz da afirmação de Marx de que “os homens fazem a história. contextualizado como não tendo uma identidade fixa. O próprio processo de identificação. essencial ou permanente. Hall (2005) afirma que.12 compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura. nossas identidades. identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpretados nos sistemas culturais que nos rodeiam. através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais.3 Os Cinco Descentramentos da Identidade Hall (2005) elabora cinco descentramentos da identidade. a primeira descentração refere-se às tradições do pensamento marxista. O autor assegura que o segundo descentramento no pensamento ocidental do século XX vem da descoberta do inconsciente por Freud. Dentro de nós há identidades contraditórias. estão entrando em colapso. Segundo Hall (2005). mas apenas sob as condições que lhes são dadas”. variável e problemático. empurrando em diferentes direções. de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas.

2005. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. os “autores” das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos pela língua.13 Para Hall (2005). está sempre “em processo”. incluindo o significado de sua identidade. em vez de falar da identidade como uma coisa acabada. 40) O autor lembra que o que modernos filósofos da linguagem. 39) Já o terceiro descentramento. (HALL. Assim. “A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos. por exemplo. influenciados por Saussure e pela “virada lingüística” argumentam que. p. e não algo inato. na vida adulta. apesar de seus melhores esforços. Numa série de estudos. A língua é um sistema social não um sistema individual. deveríamos falar de identificação e vê-la como um processo em andamento. O autor lembra que Saussure argumentava que nós não somos. sempre “sendo formada”. O quarto descentramento principal da identidade e do sujeito ocorre no trabalho do filósofo e historiador francês Michel Foucault. (HALL. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Segundo Hall (2005). que se desdobra ao longo do século XIX. como Jacques Derrida. permanecem com o sujeito/indivíduo e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas. Foucault produziu uma espécie de “genealogia do sujeito moderno”. segundo Hall (2005). p. mas de uma falta de inteireza que é „preenchida‟ a partir de nosso exterior. em nenhum sentido. As partes “femininas” do eu masculino. 2005. que ele chama de “poder disciplinar”. Foucault destaca um novo tipo de poder. o/a falante individual não pode nunca fixar o significado de uma forma final. através de processos inconscientes. a identidade é algo formado. pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros”. ao longo do tempo. que são negadas. Falar em língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais. existente na consciência no momento do nascimento. O autor ressalta que a identidade permanece sempre incompleta. chegando ao seu desenvolvimento . está associado com o trabalho do lingüista estrutural Ferdinand Saussure. significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.

tal como a diferença. Ela não é simplesmente definida. os movimentos pela paz e tudo aquilo que está associado ao ano de “1968”. a vigilância do governo da espécie humana ou de populações inteiras e. o poder disciplinar está preocupado. apud HALL. em segundo lugar. o feminismo apelava às mulheres. as lutas raciais aos negros. que emergiram durante os anos 1960 (o grande marco da modernidade tardia). Assim.14 máximo no início século XXI. Hall (2005) explana que cada movimento apelava para a identidade social de seus sustentadores. os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas. as atividades. assim como sua saúde física e moral. com base no poder dos regimes administrativos. juntamente com as revoltas estudantis. em primeiro lugar. Seu objetivo básico consiste em produzir “um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil. O objetivo do “poder disciplinar” consiste em manter “as vidas. 2005) Rabinow (1982. a relações de poder. tanto como uma crítica teórica quanto como um movimento social. é uma relação social. O autor explica que o feminismo faz parte daquele grupo de “novos movimentos sociais”. p. Para o autor. os movimentos revolucionários do “Terceiro Mundo”. sob estrito controle e disciplina. e assim por diante. com a regulação. 2005.4 Identidade e Diferença Silva (2000) assegura que a identidade. Isso significa que sua definição – discursiva e lingüística – está sujeita a vetores de força. suas práticas sexuais e sua vida familiar. ela é imposta. o trabalho. as lutas pelos direitos civis. 42) Hall (2005) observa que o quinto descentramento trata do impacto do feminismo. as infelicidade e os prazeres do indivíduo”. apud HALL. do conhecimento especializado dos profissionais e no conhecimento fornecido pelas “disciplinas” das Ciências Sociais. a política sexual aos gays e lésbicas. 2005) 2. 1982 apud HALL. RABINOW 4. com a vigilância do indivíduo e do corpo. (DREYFUS 3. 3 4 Dreyfus (1982. 2005) . (HALL. Isso constitui o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade – uma identidade para cada movimento. Aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres e expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero.

p. Há. que pode reproduzir identidades iguais ou dessemelhantes. estamos partindo do pressuposto de que existe um modelo padrão de comportamento. Nas relações sociais. mas parece que algumas diferenças são vistas como mais importantes que outras. (SILVA. 2000. passando a entender como diferentes aqueles que não participam dessa hegemonia. p. p. ao menos em parte. por meio de sistemas classificatórios. Woodward (2000) esclarece que cada cultura tem suas próprias e distintivas formas de classificar o mundo. Quando falamos de identidade. (CODATO. Os sistemas classificatórios são construídos em torno da diferença e das formas pelas quais as diferenças são marcadas. “Podemos dizer que onde existe diferenciação – ou seja. não podemos caracterizar uma identidade pela semelhança ou pela diferença. mas devemos substituir o termo diferença pela diversidade.15 Para o autor. O poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais amplas de poder. 2003. Diversidade também significa pluralidade. a partir do momento em que passamos a entender o mundo como produto de diversas representações sociais e de diversas identidades que se manifestam de maneiras variadas. a identidade e a diferença estão em estreita conexão com relações de poder. Se falarmos apenas nesses dois fatores. especialmente em lugares particulares e em momentos particulares (WOODWARD. Acreditamos que diferença nos faz aceitar um modelo de comportamento hegemônico. É pela construção de sistemas classificatórios que a cultura nos propicia os meios pelos quais podemos dar sentido ao mundo social e construir significados. As identidades são fabricadas por meio de marcação da diferença. A diferenciação é o processo central pelo qual a identidade e a diferença são produzidas”. 2000. identidade e diferença – aí está presente o poder. essas formas de diferença – a simbólica e a social – são estabelecidadas. é necessário falar de diferença.202) A identidade é marcada pela diferença. . um certo grau de consenso sobre como classificar as coisas a fim de manter alguma ordem social. 39-40) O autor lembra que os sistemas classificatórios por meio dos quais o significado é produzido dependem de sistemas sociais e simbólicos. Essa marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão social. 81) De acordo com Codato (2003). 2000). (WOODWARD. entre os membros de uma sociedade.

o encontro com o outro. da diferença e do outro é um problema social porque. o outro é a outra raça. diferença entre duas identidades. deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente a mim” ou “relativamente ao mesmo” mas que é absolutamente diferente. difusa e descentrada. A identidade e a diferença traduzem-se em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence. em absoluto. confrontos. hostilidades e até mesmo violência. cada vez mais. . por exemplo. em um mundo heterogêneo. deixar ser uma diferença que não seja. Para Silva (2000). significa deixar que o outro seja diferente.101) Woodward (2000) explica que a diferença pode ser construída negativamente – por meio da exclusão ou da marginalização daquelas pessoas que são definidas como “outros” ou forasteiros e não como proposta de heterogeneidade e diversidade. 2000. de preconceitos. a forma como vivemos nossas identidades sexuais é mediada pelos significados culturais sobre a sexualidade que são produzidas por meio de sistemas dominantes de representação. O outro é o outro gênero. expressa-se por meio de muitas dimensões. heterogeneidade e hibridismo. de crenças distorcidas e de estereótipos. explodindo em conflitos. que “sou feliz em ser gay”). A incapacidade de conviver com a diferença é fruto de sentimentos de discriminação. deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu. 97) Silva (2000) conclui que a “natureza” humana tem uma variedade de formas legítimas de se expressar culturalmente e todas devem ser respeitas ou toleradas. o outro é a outra sexualidade.16 Segundo a autora. que não pode ser (outro) eu. o outro é a outra nacionalidade. a volta do outro é inevitável. isto é. afirmar a identidade significa demarcar fronteira. (SILVA. sendo vista como enriquecedora: é o caso dos movimentos sociais que buscam resgatar as identidades sexuais dos constrangimentos da norma e celebrar a diferença (afirmando. com o estranho. O autor defende que a questão da identidade. 2000. numa sociedade em que a identidade torna-se. p. que eu não posso ser. a diferença pode ser celebrada como fonte de diversidade. O problema é que esse “outro”. sobre quem está incluído e quem está excluído. com o diferente é inevitável. sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade. mas deixar que o outro seja como eu não sou. o outro é a cor diferente. (SILVA. Por outro lado. Mesmo quando explicitamente ignorado e reprimido. Respeitar a diferença não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro)”. p. mas diferença da identidade. o outro é o corpo diferente. de imagens do outro que são fundamentalmente errôneas.

a forma como vivemos nossa identidade sexual é mediada por significados culturais sobre sexualidade que são produzidos por meio de sistemas dominantes de representação. são utilizados para diminuir a condição de homossexuais masculinos e femininos. De acordo com Silva (2004). (CODATO. mostrando a interação e os valores comuns da comunidade e o papel da comunicação neste sistema e em seu cotidiano. manifestando-se numa variedade de práticas. veado. Como lembra Codato (2003).5 Identidade Homossexual Codato (2003) nota que é muito comum. passa-se a ser considerado estranho. Segundo Woodward (2000). entendemos que o discurso ou sistema cultural criado em torno da identidade homossexual parte de um lugar específico. encontramos termos como gay “homossexual” ou “entendido” para os indivíduos do sexo masculino e “lésbica”. essa construção é excludente e estabelece fronteiras e normas. com pontos de vistas diversos. gay ou marica. como a utilização de diversos pseudônimos que acabam por adquirir um significado relevante na construção da representação social desses indivíduos. apesar de reconhecermos que o desejo homoerótico articula identidades múltiplas. 2003. Segundo Codato (2003). ou sapatão. no caso dos homens. caminhoneira e fanchona.83) Segundo o autor. homens e mulheres. esses rótulos passam a ser incorporados na linguagem cotidiana como nomenclaturas comuns dadas àqueles que se sentem atraídos por pessoas do mesmo sexo. p. 82 . “sapatão” ou “entendida” para os indivíduos do sexo feminino. sempre múltiplas e desordenadas. onde certos signos podem ser reconhecidos – como linguajar próprio e vestimentas – apelando para a unidade de uma comunidade. . Termos como: bicha. Ao fugir da regra da heterossexualidade e assumir um papel diferente. por exemplo. as identidades nunca são únicas. Talvez ser homossexual não implique.17 2. Os homossexuais são sempre tratados de maneira pejorativa. necessariamente em assumir um único modelo de comportamento. Para ela. no caso das mulheres. assim somos designados ao nascer.

a identidade de gênero (as múltiplas formas de tornar-se homem ou mulher) e a identidade sexual (as múltiplas formas como são subjetivadas as orientações sexuais) são compreendidas como idênticas. apud CODATO. 70-71) Como bem observa Silva (2004). pois o papel masculino é o de penetrar e não o de ser penetrado”. Para ele. por exemplo. Aquele considerado bem másculo não ganha o rótulo de gay. no senso comum. (SILVA. se for mulher. peso ou cor dos olhos. 103) 5 Butler (1999. 2004. que busca um grupo que apresente características semelhantes às suas. logo é heterossexual. (CODATO. como altura. “O homossexual passivo é aquele que se coloca em posição feminina. 2003) . Nesse sentido. a partir do momento em que poderíamos buscar outros fatores que servissem como padrões na construção de identidades. 2003. outras formas de sexualidade são constituídas como antinaturais. logo é heterossexual. universal e normal. 79) Como afirma Judith Butler 5 (1999). p. com trejeitos e gestos mais delicados tem um valor relevante na construção da identidade homossexual. Nesse sentido. pois dele não se desconfia”. ao coito anal. 2003. “Parecer homossexual. Consequentemente. ainda que o sexo biológico seja apenas umas das diversas matrizes identitárias que o ser humano pode utilizar para identificar-se. Codato (2003) lembra que essa caracterização dos iguais pelo sexo biológico é uma construção social. a identidade homossexual passa a ser vista como “falha” grave na identidade de gênero. p. p. sempre menosprezado em detrimento da posição masculina.18 “A heterossexualidade é tida como natural. encontrar semelhanças entre os que nos cercam é apenas uma condição social do indivíduo. Codato (2003) nota que a identidade homossexual está ancorada à prática sexual. a lógica é: se for homem. É necessário remarcar também que a atividade passiva é sempre inferiorizada diante da atividade ativa. (CODATO. bizarras e anormais”. no caso do homossexual masculino. O autor percebe que o estereótipo do efeminado ainda é um fator identitário entre o grupo.

sem dúvidas.19 Codato (2003) mostra que. p. Aos poucos ao transformar essa prática num discurso. elaborada. o autor ressalta que ser negro é um fator incontestável. sua delimitação sempre depende da aceitação daqueles que são construídos sob esse modelo de representação social. 2003. Existe entre os homossexuais um padrão de comportamento específico para que a identidade homossexual possa ser representada. mas também passa-se a assumir todos os padrões que são socialmente destinados a essa prática social chamada de homossexualidade. “O fato de assumir sua posição dentro de um conjunto de práticas faz com que o outro perceba que existem outras formas de manifestação identitária. esperam encontrar “pistas” que o façam reconhecer um semelhante. pois. Portanto. p. 2003. (CODATO. sua identidade será questionada entre o grupo. . Já o fato de ser gay ou homossexual é sempre contestável. por cada uma das experiências que são vivenciadas durante a vida. 77) A prática da homossexualidade deve ser assumida para que passe a ser vista como uma prática “normal”. 145) Por fim. Se você é homossexual. mas não parece com um. passa-se a carregar consigo uma identidade única. é um fator identitário que se origina por meio de uma prática. pois faz parte do fenótipo de um indivíduo. quando se assume a prática homossexual. (CODATO. passa-se também a construir uma identidade”. é uma característica de sua etnia. como já dito. Mesmo aqueles que se identificam como gays. por todos os elementos que encontramos em uma personalidade.

em 1978. Então. o fazer político e a participação dos indivíduos nesse meio. os movimentos sociais são laboratórios de criatividade que produzem novas formas de se pensar a política. os movimentos sociais têm um papel fundamental no questionamento da fixação dos significados. entre as principais características dos novos movimentos sociais. basicamente. as identidades transformam-se em poder nas mãos desses agentes que se reconhecem e se solidarizam com uma causa.20 3 MOVIMENTO SOCIAL Para Evelina Dagnino (2000). 3. 2007) . é considerada o marco do início da luta política dos homossexuais em São Paulo no Brasil (GREEN. também conhecidos como novos movimentos sociais. ou seja. surgindo um campo de luta no espaço social entre antagônicas. Nas palavras de Ilse Scherer-Warren 6 (1994). Essas identidades seriam definidas pelos membros dos grupos a partir de suas propostas de intervenção e modificação social. formando um “nós”. TREVISAN. De acordo com Maria da Glória Gohn (2000). pós década de 1960. Embora.1 O Movimento Homossexual e sua história A fundação do grupo Somos. buscando. 2000). Marcos Ribeiro de Melo (2008) lembra que os movimentos identitários. têm proposto a problematizarão das relações de poder que giram em torno das produções sociais das identidades e das diferenças. a mobilizações devem ser entendidas como um sistema multipolar que combina o resultado de objetivos. ao incluirmos esses atores. desde o 6 Scherer-Warren (1994 apud COSTA. Alberto Melucci (2001) esclarece que os movimentos sociais desafiam os códigos culturais dominantes. Segundo Melucci (2001). 2000. dando sentido ao agir coletivo. uma orientação finalizada e construída das relações sociais no interior de um campo de oportunidades e vínculos. Contudo. propondo desafios para o campo teórico-metodológico que abordam esse fenômeno. destacam-se a criação e a defesa de identidades coletivas que permeiam as ações dos grupos. recursos e limites. novas e complexas questões emergem. desafiando um poder constituído. o respeito aos direitos fundamentais e à liberdade dos indivíduos.

fosse o ocorrido na relação entre homem e mulher ou mesmo entre o casal homossexual (COSTA. rejeitando modelos hierárquicos de relações sexuais/afetivas presentes na cultura brasileira. Também propunha um modelo igualitário de identidade sexual. Gustavo Gomes da Costa (2007) observa que o Somos surgiu em um momento de extrema efervescência política. A partir de uma nova conjuntura. milhares dos movimentos sociais emergiram em torno de diversas reivindicações coletivas. encontrar seus pares. 7 8 Fry (1982. boa parte das forças para que isso acontecesse já estivesse se fazendo presente (GREEN. os grupos mais atuantes parecem ter sido o Triângulo Rosa (do Rio de Janeiro). Marcelo Tavares et al (2006) notam que num segundo momento. Juntamente com a mobilização das mulheres contra o machismo e o sexismo. apud COSTA. afirmar a homossexualidade. 2007). O autor lembra que como outros movimentos sociais da época. fosse este oriundo da repressão do regime militar. com outras demandas. Cristina Câmara (2002) garante que o principal objetivo do grupo era reunir homossexuais interessados em assumir sua orientação sexual. o Grupo Gay da Bahia (GGB) e o Atobá (do Rio de Janeiro). pela primeira vez no país. das hostes da esquerda. apud COSTA. sem o controle da ditadura militar. 2007) . o movimento homossexual dava grande ênfase à sua autonomia em relação a partidos políticos. ressalta Edward Macrae8 (1990). mas com a chegada da Aids ao país. 2000). politizar a homossexualidade. Era consenso no movimento homossexual a rejeição a qualquer forma de autoritarismo. marcado por um esvaziamento do movimento. oriunda do processo de abertura do regime militar. outras formas de ativismo foram produzidas. 2007) Macrae (1990.21 final da década anterior. a fim de romper os limites do gueto e reivindicar direitos iguais. observa Peter Fry7 (1982) e reivindicando uma identidade homossexual na qual se identificariam todos aqueles que eram vítimas da discriminação e do preconceito independentemente das diferenças dentro da comunidade homossexual. os homossexuais buscaram.

Anos depois. Ainda nesse período. a luta contra a Aids passou a ocupar um lugar de destaque ainda maior entre as bandeiras do movimento. em função da dependência que estes passaram a ter das verbas oriundas do Ministério da Saúde para a continuidade de suas ações. adota-se em parte do movimento. no final dos anos 1980. organizações da sociedade civil. ainda que o movimento homossexual já tivesse abordado a temática dos direitos. Multiplicam-se as categorias nomeadas como sujeitos políticos ao movimento: em 1993. pela retirada da homossexualidade do Código de Classificação de Doenças do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). GGB já havia coordenado uma campanha. estava selada. 2002). Bissexuais e Transgêneros). o encaminhamento e a campanha para que fosse criada uma lei que punisse a discriminação por “opção sexual”. surge a expressão “Movimento de Gays e Lésbicas”. 36) De acordo com Tavares et al (2006). a partir de São Paulo. lésbicas. Constituição Federal. em que o pânico em relação à Aids se ameniza. Isadora Lins França (2006) observa que os anos de 1990 emergem num contexto diferente. a expressão GLBT (Gays. possibilitando o revigoramento de uma militância homossexual calcada em outros discursos e estratégias. (CÂMARA. Dessa forma. p. em 1995. temos o movimento “GLT” (Gays. . o grupo da Bahia fez a proposta. mas com uma atuação secundária. Regina Facchini (2002) observa que a década de 1980 foi marcada por uma rearticulação desse movimento. e em 1999. Para Tavares et al (2006). Lésbicas e Travestis). sem deixar de atribuir valor positivo à categoria de homossexual. no início da década de 1980. com relativa participação dos grupos existentes. o grupo Somos/SP também participou.22 O enfoque do Triângulo Rosa era promover políticas públicas. via partidos políticos. que buscou caminhos da cooperação com o Estado na luta contra a AIDS e abandonou a crítica do autoritarismo. o movimento homossexual voltou a crescer com o aparecimento de novos grupos para preencher esta lacuna. 2002. exigindo providências e tomando a frente em algumas ações. com o crescimento dos casos de Aids e a demora do governo em produzir respostas à epidemia. seu significado não teve a importância que adquiriu com a atuação do grupo neste âmbito. OAB. Dessa ação. o termo utilizado na época (FACCHINI. A aproximação entre o movimento homossexual e o poder público. leis e ações que pudessem ajudar a diminuir a discriminação contra os homossexuais. que já vinha acontecendo lentamente. Segundo Tavares et al (2006). adota-se o termo LGBT.

3. mas sempre em comunicação com outros atores sociais. Para a autora. como o grupo dos ursos. 2002. entretanto. que procurava reverter o estigma e a depreciação social que se abatia sobre as pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo. Entre os homossexuais. Lins (2006) nota que. e também as fronteiras do que pode ou não ser considerado atuação política. amplamente divulgada na mídia como a “peste gay” ou “câncer gay”. Assim. se a construção de identidades coletivas sempre foi um aspecto central do movimento homossexual. a década de 1990. a Aids tornou-se uma realidade no Brasil. judeus gays. trouxe consigo uma configuração diferente do “gueto” homossexual de outrora: os espaços de consumo e sociabilidade passaram a incorporar em certa medida o discurso político do orgulho e da visibilidade. Segundo o autor. perde força a grande diferenciação estabelecida pelo movimento a partir da “invisibilização” dos homossexuais pelo “gueto”. explicitando o seu direcionamento a um público de orientação sexual determinada e incorporando símbolos popularizados pelos militantes. como a bandeira do arco-íris. além das grandes categorias presentes na sigla LGBT. além de expansão deste circuito.205) De acordo com Lins (2006). só em 1983. deve-se levar em conta que essas construções nunca se desenvolveram isoladamente. universitários. advogados gays. barbies. há também subgrupos. (FACCHINI. Várias identidades convivendo no movimento e na cena homossexual. mas seguiu uma tendência internacional”. a presença da .23 “A inclusão das categorias „bissexuais‟ e „transgêneros‟ (termo que pretendia agrupar travestis e transexuais). p. com a morte do estilista Marco Vinícius Resende. incentivados pela proliferação de fóruns e listas de discussão na internet e pertencentes principalmente ao segmento dos gays. o Marquito. lembra Costa (2007). jovens homossexuais etc.2 O Impacto da AIDS no Movimento Homossexual Embora o primeiro caso de Aids tenha sido diagnosticado em 1981 nos Estados Unidos. a Aids reforçou o pânico geral contra a homossexualidade. não se deu pela demanda desses grupos.

de um lado ela [a Aids] veio reforçar antigos preconceitos que já pareciam ultrapassados [. (COSTA. O autor lembra que o aumento do número de casos. esse contato permaneceu restrito. aliado a uma equipe de sanitaristas progressistas. Com as primeiras mortes. às instâncias estatais de saúde – secretarias estaduais e municipais de saúde. explica a resposta relativamente prematura à epidemia no Brasil (TEIXEIRA 2007). na década de 1990. Facchini (2002) lembra que devido ao avanço da epidemia e ao processo de desmobilização dos grupos homossexuais. apud COSTA.] políticas de prevenção. entre heterossexuais (principalmente mulheres) acabou por "auxiliar" nesse sentido. muitos militantes homossexuais ficaram assustados.. 2007) . os grupos de prevenção foram um dos responsáveis por desvincular a Aids da comunidade homossexual. Para Costa (2007). No caso brasileiro. 9 et al apud COSTA. o que os obriga.. mais especificamente. Como explana Facchini (2002).]. coloca as sociedades e os Estados em confronto direito com a necessidade de implementar [. a emergência da doença ocorreu em um contexto de políticas favoráveis. a crescente desvinculação dos homossexuais como “grupo de risco” e a manutenção dos recursos do PN DST-Aids possibilitaram a reestruturação do movimento homossexual em todo o país. Ministério da Saúde e. o Programa Nacional de DST-Aids (PN DST-Aids).. nos anos de 1980 e em parte da década seguinte..] a lidar diretamente com os grupos gays. 128) De acordo com Costa (2007) não foi o mero surgimento da doença “forçou” os governos a lidarem com o problema. [. À exceção da participação na Constituinte. ela. 9 Teixeira (1997. O fato de haver na época um governo estatal-SP (Franco Montoro [1983-1987]) interessado na participação da sociedade civil. Se. pelo enorme drama social que evoca. p... a presença de uma estrutura de oportunidades políticas favorável possibilitou os primeiros contatos da militância homossexual com órgãos estatais. 2007. Costa (2007) lembra que como afirmado anteriormente. o caráter da militância homossexual sofreu grande mudança.24 doença gerou muitas dúvidas devido à falta de informação. por outro lado.

p. Esse processo não se faz sem conflitos. O principal deles foi o grupo Gay da Bahia (GGB). um sujeito político bastante complexo. 10 De acordo com Anderson Ferrari (2004). hoje. 2005). formado por múltiplas categorias identitárias. Frederico Viana Machado e Marco Aurélio Máximo Prado (2005) observam que ao conceituar o que exatamente chamamos de Movimento LGBT iremos nos deparar com alguns dilemas e poderemos observar a artificialidade dessa unidade. também produziu imagens estereotipadas de um universo bastante diversificado. como campo institucional de regulação e atuação política privilegiado. vários grupos mantiveram atividades mais relacionadas à discussão em torno da homossexualidade. formas de militância e origens históricas. e via de regra essas Organizações Não-Governamentais (ONG‟s) apresentam as mais diversas e/ou contraditórias posições políticas. 10 Ferrari (2004. Nas palavras de Machado e Prado (2005). nem sempre movidas pelos mesmos discursos. e a sociedade civil como uma força numérica e conseqüente poder na produção cultural. PRADO. uma vez que encontraremos um número de grupos independentes que realizam seus projetos e tentam unir suas forças em atividades conjuntas quando possível. 126) 3. o Movimento Homossexual pode ser entendido como educativo. apud MELO.3 Sobre o Movimento Homossexual Lins (2006) escreve que o que chamamos de movimento homossexual é. já que se o desenvolvimento da comunicação midiática permitiu um aumento da visibilidade. Nesse ponto notamos que o Estado. Sem a consideração dessa problemática torna-se difícil compreender muitas das posições internas ao movimento no que diz respeito ao mercado segmentado ou mesmo à relação com outros atores sociais que integram o seu campo de ação. (MACRAE apud COSTA. interpelam-se e vemos surgir um novo sujeito social que redefine o espaço da cidadania (MACHADO.25 Embora basicamente envolvidos com atividades voltadas ao combate à Aids. 2008) . 2007. que continuou a se empenhar em campanhas que não se restringissem apenas ao combate à Aids. na medida em que contribui para elaborar novas formas de conhecimento para além de seus integrantes e para além da homossexualidade. vemos que a mediação do sistema capitalista na construção da visibilidade homossexual deve ser tomada em sua ambigüidade. definições de homossexualidade.

em parte. sem com isso degenerar em comunitarismo agressivo e sectário. que exige somente aplicar e tornar operativo o que foi decidido por um poder anônimo e impessoal. a elevação da auto-estima. Tendo consciência de seu papel e contribuindo nas transformações estruturais da lógica capitalista sem deixar ser tragado por ela. é interessante perceber como a forma atual de fazer militância convive com um tipo de ativismo característico da primeira fase do movimento. o reconhecimento da relação afetiva. A luta atual pelo direito a uma lei que reconheça a união entre pessoas do mesmo sexo parece aglutinar a luta contra a discriminação. os homossexuais se mostram de maneira deliberada. . passa a ser a busca do equilíbrio entre a afirmação das liberdades individuais e o direito de identificar-se. porque moderniza sua cultura e sua organização. as mobilizações levantam interrogações não previstas na lógica da racionalidade instrumental. o movimento surgiu da ação contra o preconceito cultivado há anos. afrontar a nova força dos fundamentalismos. Para Tavares e Andrade (2006). segundo Flávio Santos e Medeiros (2007). Como lembram Santos e Medeiros (2007). os homossexuais precisam tornar-se visíveis no espaço público. político e cultural. Em contrapartida. desvio.26 Flávio Santos e Neusvaldo Medeiros (2007) afirmam que o grande desafio do movimento gay é tentar constituir uma nova identidade coletiva diante das realizações desses eventos (as paradas) e tentar apaziguar a necessidade inerente ao ser humano de dar sentido à vida e à sua transitoriedade e. Mas. sendo ele demonstrado em todas as esferas do convívio social. Tavares e Andrade et al (2006) notam que para que tenha seus direitos civis reconhecidos. e “Orgulho Sim. pecado. Preconceito Não” tomando a Parada do Orgulho Gay diametralmente antagônica aos valores ou aos códigos culturais dominantes da sociedade hegemônica. Em contrapartida. Melucci (2001) entende que a ação da Parada Gay produz efeitos sobre as instituições. à vontade e dizendo “Eu tenho Orgulho de Ser Gay”. portanto. tudo isso no formato de um direito. ao mesmo tempo. submissão. que o caminho democrático. esse reconhecimento baseia-se na construção de uma identidade que contrapõe o padrão heteronormativo (normalidade) e associa a homossexualidade aos campos da doença. Percebendo. crime (anormalidade). que tem como pano de fundo a discussão sobre direitos humanos.

tornando-se o combustível necessário para o auto-reconhecimento identitário e transformador. 2007) . Então. que mesmo depois de uma primeira tentativa frustrada em 1996. Ao reunir aproximadamente um milhão e meio de pessoas. aproximadamente duas mil pessoas seguiram pela Avenida Paulista com o intuito de atrair a atenção da sociedade e dar visibilidade pública às reivindicações dos homossexuais. o movimento pelos direitos dos homossexuais tem ganhado grande visibilidade e importância no cenário político brasileiro. Melucci (2001) chama atenção para o fato de que os movimentos desafiam os códigos culturais dominantes. apud SANTOS. principalmente em virtude das diversas “Paradas do Orgulho LGBT”. 11 Mott (2000. enquanto emerge como o momento de propiciar o desvelamento do preconceito que se encontra no cerne da sociedade. surgindo um campo de luta no espaço social entre antagônicas.4 Em busca de Visibilidade: as Paradas Gays Segundo Costa (2007) foi no ano de 1996 que os grupos de São Paulo organizaram primeira a Parada do Orgulho GLT. as “Paradas Gays” personificam a contestação dos códigos político-culturais dominantes. De acordo com Santos e Medeiros (2007). Para Luiz Mott 11 (2000). que os gays afirmam que querem ser aceitos e respeitados. MEDEIROS. as identidades transformam-se em poder nas mãos desses agentes que se reconhecem e se solidarizam com uma causa. de forma plural e reflexiva. é na ação das Paradas. 2007. 127) O autor observa que nos últimos anos. tornando-se parte integrante do calendário oficial da cidade. em 28 de junho de 1997. desafiando um poder constituído. Dagnino (2000) garante que os movimentos sociais têm um papel fundamental no questionamento da fixação dos significados. que têm chamado a atenção de todas as instâncias da sociedade.27 3. que se tornou símbolo do movimento homossexual no Brasil. na qual ainda persistem práticas de violência aos homossexuais. a Parada mostra-se como o momento de fixação provisória do sentido de ser gay. O autor lembra. em meio à sociedade conservadora e machista. Para os autores. (COSTA. p. A Parada do Orgulho LGBT passou a acontecer todos os anos. esse evento passou a ser uma das principais formas de o movimento homossexual afirmar sua existência como sujeito político.

948/2001. bissexual ou transgênero”. 2007) Tarrow (2004. Além da novidade representada pela Parada do Orgulho. por mais que seja considerada o ápice do movimento. em outros momentos. fóruns. está restrita a espaços específicos (guetos) (SANTOS. Podemos afirmar que essas experimentações referem-se aos movimentos de combate ao preconceito. Influenciado pelo exemplo das 12 13 Nunan (2002. nota Sidney TARROW 13. que pune “toda manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra cidadão homossexual. o que revela o aumento expressivo da participação nas Paradas nos últimos anos. lembra o autor.28 A Parada é um momento no qual os integrantes criam um espaço público de expressão de sua identidade compartilhando da liberdade de manifestação pública da forma de ser que. 2007). MEDEIROS. como a lei 10. os militantes beijam-se em espaços públicos ou privados onde ocorreram episódios de discriminação contra homossexuais. Costa (2007) percebe que essas ações tiveram como resultado a maior interlocução com os poderes públicos e a garantia. lembra Costa (2007). A crescente imagem que o mercado segmentado LGBT passou a ter na mídia e a ênfase no poder de consumo dos homossexuais (a ideia do pink money) contribuíram também para tais experimentações (COSTA. 2007) . nas palavras de Adriana Nunan 12. MEDEIROS. 2007). palestras e outros debates acerca de assuntos variados e pertinentes às reivindicações e concepções dos grupos gays. é na verdade o evento final e realmente festivo. de uma legislação favorável à comunidade homossexual. apud COSTA. O autor ressalta que neste tipo de ação. o movimento homossexual utilizou outra forma de mobilização que ficou conhecida como “beijaço”. Esse contexto de maior visibilidade do mercado LGBT e de uma cultura gay (FACCHINI. mesmo que de forma restrita. O autor observa que no que diz respeito aos repertórios de ação coletiva. A Parada gay. 2002) somado à presença de aliados nas instituições políticas repercutiu na sociedade civil. sendo realizada após uma semana de reflexão. Os “beijaços” foram inspirados nos Kiss-in norte-americanos. apud SANTOS. o movimento homossexual inovou nas formas de mobilizações no Brasil.

. Com a crescente participação da comunidade homossexual. as Paradas conseguiram atrair a atenção dos meios de comunicação de massa. assim como de heterossexuais.29 Gay Pride Parades norte-americanas. inserindo a questão dos direitos homossexuais na pauta de discussão política. o movimento adotou esse tipo de ação para dar visibilidade à causa homossexual.

ou pelo menos uma nova forma de compreendê-la. é um reflexo dela ou. sintomaticamente. em grande parte. se forem. 2002. carrega ideologias que visam explicar sua estrutura simbólica. são recursos técnicos que têm um objetivo. como. Que. Como observa Moreno (2002). um filme geralmente transmite uma mensagem através da composição e imagem. mas que nos parecem reais. Sua leitura se dá por meio de vivências e experiências anteriores daqueles que assistem à obra. por exemplo. as alegrias de um encontro amoroso ou as tristezas de uma morte trágica. como um produto cultural. esta visão cinematográfica demonstrará também uma preocupação com a sociedade à qual pertence e em que provoca estes estados de manifestação. na construção de planos. percebemos que o cinema reflete um lugar de fala. uma recusa aos seus valores culturais e sociais. 10) . a ênfase que pode ter um plano próximo filmado com grande angular. críticas construtivas ou negativas. limitado. O autor reflete que o cinema nos oferece a chance de vivenciar uma história com começo. intolerância. Para ele. o cinema apresenta a visão de mundo de diferentes indivíduos e tem uma linguagem que performa uma inteligência verbal e imagética. em cada uma de suas etapas.1 Cinema e Homossexualidade Codato (2003) explica que um filme é efeito de um processo e por ser processual é que.30 4 CINEMA 4. no oposto. nos fazendo experimentar sensações que não nos atingem de forma direta. Não obstante. por exemplo. obedecendo a códigos que são estabelecidos. O cinema como resultado de uma produção mental-criativa trará um conjunto das observações pessoais. em que muitas vezes anos se passam em minutos. idiossincrasias e preconceitos de seus realizadores. (MORENO. ou mesmo o destaque de um personagem em primeiro plano num plano médio de conjunto. num tempo condensado. Assim. uma vez que as testemunhamos. p. o ponto de vista de quem conta uma história. só revelarão a inépcia de seu criador. meio e fim. pela técnica cinematográfica. buscando em suas realidades um sentido para o que é visto e criando uma nova noção de realidade. não são construídos ao acaso e. um discurso ideológico carregado de diferentes interpretações e significados. Segundo Codato (2003).

2 Homossexuais no Cinema Nazário (2007) esclarece que o cinema. dando sentido a um discurso específico. vídeo – que utilizam a imagem e o som para informar. pela influencia dos meios de comunicação audiovisuais – cinema. nota o autor. p. não só as classes sociais dominantes devem aparecer no cinema. estruturada. enquanto indústria. O autor lembra que. Assim. apud CODATO. refletindo aquilo que vem sendo construído socialmente. as mulheres. o que vemos e ouvimos é. modelos tão criticados pelas feministas. entreter. projetaram suas fantasias sobre a tela: a cinefilia é um dos componentes fundamentais da cultura homossexual. mesmo que ainda submissas ou reproduzindo os papéis de mãe e esposa perfeitas. segundo impressões preconcebidas ou entendidas como padrões de comportamentos fixos. Contudo. Temos então os negros. os gays. 2003. e os homossexuais. mas dita regras e modelos de comportamento. que se configuram como realidade ao serem representadas. 13) Luiz Nazário (2007) explica que o cinema sempre serviu de refúgio para os homossexuais que. sempre contou com grande staff de homossexuais e lésbicas. mas também reproduz uma realidade. Codato (2003) nota que na intenção de uma suposta reprodução de uma realidade. mais do que “parece ser” (ALMEIDA 14 apud CODATO. mesmo que representados como escravos e subalternos. Assim. até bem pouco tempo. 4. sufocados pela realidade. Codato (2003) afirma que o cinema constrói uma realidade por ser massivamente consumido. gerando um conjunto de representações sociais que passam a permear e dar sentido à noção de realidade de um grupo. a grande tela começa a mostrar também as chamadas minorias. Percebemos a configuração de uma nova oralidade na sociedade moderna. as lésbicas. educar e comunicar. 2003) . sem dúvidas. um filme depende do olhar seu espectador para ser interpretado. aqueles que mantêm relações eróticas ou afetivas com pessoas do mesmo sexo.31 Como observa Codato (2003). mas têm sua imagem exibida de forma parcial. a primeira dessas sugestões ocorreu em 14 Almeida (1994. televisão. pois traz consigo os valores dos que custeiam sua produção. o cinema apenas sugeria a existência da homossexualidade.

desvinculada aqui de seu caráter econômico. de Thomas Edison. ao criar e depois fazer crer ao público que aqueles personagens são os mesmos da vida real. para uma dessemelhança. 100) Moreno (2002) afirma que o cinema caricaturiza o papel do homossexual na sociedade. como discurso desaprovador de um sujeito. p. passamos a deslocá-las de uma representação da diferença. E para isso contribui. no caso o hollywoodiano. (NAZÁRIO. Segundo o autor. alegremente. Mais focado no tema. 2007. tal comportamento. ou seja. medido também pelo seu gestual. . parte integrante de sua psicologia existencial. e masculinizada e agressiva. é este comportamento que vai ser julgado pela sociedade”. no caso do homem. construindo um processo múltiplo de preconceito e prejulgamento. essa nova forma de exclusão social. ter aparência dos dois. 2002. O círculo vicioso da arte que imita a vida e vida que imita a arte impede uma visão “depurada” da homossexualidade. o que fica é a imagem de um ser ridículo. os clichês que cercam os homossexuais tornaram-se. pois. e talvez o primeiro filme a abordar diretamente a homossexualidade. vai ser julgado por essa sociedade.32 The Gay Brothers (1898). em que todo o indivíduo identificado como homossexual passa a ser encaixado nos modelos fornecidos por um produto cultural. sem nenhum estatuto legal dentro da sociedade. “O horror causado pelo „amor que não ousa dizer seu nome‟ é tão profundo que mesmo os atores heterossexuais que interpretam homossexuais costumam ser estigmatizados”. dois homens dançam. no caso da mulher. fraco. p. aparece de forma simbólica. ao mesmo tempo. Moreno (2002) nota que se o personagem homossexual é representado de maneira estereotipada. que está fora dos padrões de gestualidade que a sociedade acredita ser o único: o gestual próprio de um homem ou de uma mulher heterossexual. pelo fato do homossexual ser um fator variante entre os conceitos de homem e mulher ditados pela sociedade e. gerando assim. efeminada e vestindo cor-de-rosa. graças às agressões generalizadas. 12). uma valsa. uma forma de exclusão social. Para o autor. (MORENO. No filme. ou segmento. “Como todo papel pressupõe um comportamento. Segundo Nazário (2007).

procura nas relações entre os seres. nos anos 1990. como observa Vilches quem os vê. passamos a compreendê-lo como parte do que chamamos de realidade. 2002. de maneira mais convincente as mensagens desejadas. são os párias da sociedade. o ser que não se realiza como tal. são frutos da subjetividade de outros. (ORLANDI 15 apud CODATO. Ela é uma composição de diferente elementos que. entretanto. apud CODATO. 2003. isto é. desde os anos de 1990. Segundo o autor. assim. Num filme. o trabalhador que não se realiza. 14-15) Segundo Codato (2003). ressalta o autor. a família que não se realiza. de modo positivo. 13) 16 . 2002. são relegadas à categoria de miseráveis. os personagens que vivem à margem. que dá elementos para que um sujeito e sua maneira de pensar se manifestem. Karla Bessa (2007) lembra que um dos pontos de partida do circuito de festivais LGBT. 13) Uma fotografia. p. (MORENO. um espelho da realidade. exatamente. ao assistir a um filme. Uma imagem é um universo de sentidos. O cinema. a linguagem do gesto. é o fato de serem primeiramente constituídos e constituintes de práticas representacionais que visam tornar presente. como podemos ver e ouvir esse universo. (MORENO. devido à sua escolha. os lúmpenoperários. 2003) . Propomos que significado seja aqui entendido como aquilo que produz efeito de sentidos. e no caso dos homossexuais. por exemplo. 15 16 Orlandi (2002. são os desencontrados. o boom da produção com temática homossexual. mas são intermediários na compreensão de mundo de 4. de comédias baratas a obras-primas cinematográficas. no caso de uma obra escrita. pois é através desta linguagem. essas imagens já são dadas. um programa de televisão não são. copiar a sua gestualidade. preferência ou orientação sexual. os biscateiros. Dessa forma. p. imagens (função de mimeses. por exemplo.33 Na vida real. 2003) Vilches (1997. assista ou observa. o leitor pode criar imagens particulares deste universo descrito valendo-se muito mais de sua subjetividade para entendê-la e interpretá-la.3 Os festivais LGBT Nazário (2007) percebe que vivemos. que ele veste a personagem e comunica à platéia a sua personalidade e. a personagem está sendo vista e escutada e não apenas lida como em um livro. p. em termos geralmente de imagem e de som. apud CODATO. Pessoas que na vida real. em seu conjunto e interação dão origem a um ou diversos significados. ao imitar a vida. de formato e qualidade variada: de melodramas pornográficos a exercícios explícitos de sadomasoquismo. um filme.

p. personagens gays vinculadas à criminalidade. permanece a questão se esses festivais estariam na mão do narcisismo típico da cultura contemporânea ou poderiam ser entendidos como espaços transgressivos de uma corporalidade e uma subjetividade convencionais já cultuadas pelo cinema. o último lugar onde um verdadeiro discurso participatório pode ainda valer e onde pessoas de firmes convicções e mentes abertas podem trocar opiniões. encontra vazão num mercado paralelo formado por mais de 100 festivais de cinema LGBT em todo o mundo. 2007) . 265) A autora observa que nos anos 1990. mas que também revelam para um público mais amplo o outro cinema”. abrir mão do controle e ser mudadas para sempre pelo que acontece na tela. (NAZÁRIO. p. Comecei a pensar nos festivais de cinema como o último refúgio da democracia neste nosso mundo cada vez mais controlado e manietado. monstruosidade. o circuito cinematográfico por ele concebido e o modo como essa dinâmica compõe a produção de subjetividade e suas respectivas marcas de gênero nas urbis contemporânea. ou. como na própria sociedade. (RICH 17 apud BESSA. Promover a ruptura com o padrão estético da sissy (gay efeminado). 2007. em meio à proliferação dos diversos tipos e especialidades de festivais de cinema. destaca-se o boom de festivais gays e lésbicos. festivais que funcionam como importante reconhecimento de identidade para seu público específico. naquilo que eles geram em termos de produção e consumo de bens culturais (materiais e imateriais). noutras. fadadas a finais trágicos reservados aos que se permitiam participar das mais grotescas perversidades. Um dos desafios iniciais do "festival" era criar um espaço de produção e exibição de filmes que estabelecesse um diálogo entre a pluralidade de sujeitos e subjetividades pertencentes à cena "homo". ainda. VHS. Digital). autocrítica e bem humorada) relativas ao universo "homo" e seus arredores. o desejo homossexual viu-se impelido a refluir para as margens e para o subterrâneo: somente no cinema marginal e 17 Rich (2000 apud BESSA.34 muitas vezes espelhada. (BESSA. “A produção de filmes com temática homossexual. com cenas de erotismo entre mulheres – direcionadas para a libido masculina heterossexual –. ou seja. interage com a constituição da cena gay. 2007. incluindo os que contemplam as mudanças na tecnologia e formatação dos filmes (curtas. há uma relação entre os festivais LGBT. 261) De acordo com Bessa (2007). 2007. Nazário (2007) esclarece que no cinema.105) Bessa (2007) nota que a configuração dos festivais LGBT de cinema. p.

Algumas produções não abordam diretamente o cenário gay. 2007). enfatizando o compromisso político com uma estética diferente dos filmes comerciais e possibilitando uma abordagem direta da homossexualidade sem passar pelos subterfúgios clássicos da indústria cinematográfica. limitavam a oportunidade de produção e exibição (concorrendo a verbas para novos filmes) àqueles diretamente ligados ao tema e à identidade. são outros importantes festivais de cinema LGBT. (NAZÁRIO. foi criado o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Miami. e ainda é. a controvérsia existiu ao longo da década de 1990 e cada festival formulou suas “regras” e critérios de inscrição. para uma platéia que ainda permanece majoritariamente feminina. em sua 23ª edição em 2008. onde o Gay Pride Day leva metade da população às ruas. que os distingue dos demais festivais de cinema. lésbicas. De fato. 206) . Em 1995. Em São Francsico. desenvolveu uma prática de conversa. O mais peculiar dos festivais é o de Tóquio. 106) A maioria dos festivais. já que a censura japonesa proíbe a mostra de genitais: seus organizadores têm de imprimir tarjas pretas sobre os órgãos e editar as cenas de sexo explícito. dado o interesse "formativo" que lhe é inerente (BESSA. como nota o autor. em Israel. p. transgêneros e bissexuais”. tem lugar o San Francisco International Lesbian & Gay Film Festival. obrigado a comprar as cópias dos filmes programados. 2007. objeto de controvérsias. como as práticas sado-masoquistas. No Brasil desde 1992. Embora pareça possuir um recorte claro – “gays. Alguns festivais eram mais abertos a temáticas que "interessariam" ao público majoritariamente homossexual. mas incluem sexualidades consideradas fora dos padrões de normalidade heterossexual. p. outros. de debate. Segundo Bessa (2007). dirigido por André Fischer e Suzy Capó.35 no cinema underground a homossexualidade pôde ser expressa e celebrada sem véus e máscaras. ultraortodoxos liderados pelo rabino Yitzhak Kulitz protestaram contra a realização do Festival de Cinema Homossexual e Lésbico promovido pela Cinemateca de Jerusalém. (BESSA. instituindo uma convenção. ao longo de suas edições. a demarcação do que hoje se entende por um festival LGBT foi. Já em 1999. e foram produzidas e/ou dirigidas por pessoas que se autoidentificam como gays. mais restritos. mas sua diretora Lia Van Leer ignorou as ameaças e manteve a programação. o Mix Brasil – Festival de Manifestação das Sexualidades. Ele lembra que um dos mais antigos é o Festival Internacional do Filme com Temática Homossexual “De Sodoma a Hollywood” de Turim. 2007.

Desde o início. fazendo florescer um vigoroso cinema gay e lésbico. pela lógica do mercado. Os ex-perversos. pela sociedade e pela família. seu erotismo na sombra (NAZÁRIO. Bessa (2007) destaca que. p. ao obrigar a sociedade a retirar a homossexualidade da clandestinidade na tentativa de controlar a epidemia. filmes mais bem produzidos ganharam o circuito alternativo. bem como reserva parte do repertório de exibição para filmes com forte conteúdo erótico. Para o autor. protagonizado por Tom Hans e Antonia Banderas. solidão e desafios e dificuldades de se "assumir" uma identidade gay. percebe Nazário (2007). agora. não apenas pelo ponto de partida – São Francisco. mantendo. foram integrados ao mundo normal. (NAZÁRIO. essa “espécie em extinção”. Hollywood foi levada a rever sua posição sobre os gays. de Jonathan Demme. o cinema passou a demonstrar “piedade ecológica” em relação aos gays. na década de 1970 –. mas pela referência à .4 A Relação da AIDS e das Paradas do Orgulho Gay com o Cinema LGBT Nazário (2007) destaca que sob o efeito da AIDS e da pornografia de massa. 2007). não apenas por Deus. houve uma ligação entre os Festivais e as Paradas do Orgulho Gay. foi a partir da comoção que ele produziu que a sociedade tomou consciência de homossexuais que contraem a AIDS e continuam a viver sua vida condenada. Um Oscar foi concedido a Filadélfia (Philadelphia. os festivais dessa natureza priorizam películas sensíveis a questões como AIDS. 4. discriminação. a partir daí. surgiram “filmes simpatizantes”. 2007). 1993). Embora não haja nenhum erotismo no filme. centrado no drama do amante que agoniza de AIDS. 104) Desde então. como também pela própria “vida”. a AIDS facilitou a explosão das sexualidades reprimidas. alguns arrecadaram fortunas e forçaram.36 Graças a esses festivais. sustentado pelo crescente “mercado gay”. é claro. 2007. nos quais o casal straight é cercado por personagens secundários gays. convertidos em “seres de luz”. a introdução da temática em seriados de TV (NAZÁRIO. O autor observa que. “inteligência” e “sensibilidade”. que conquistam o público tolerante com sua “doçura”. em geral.

montados como drags. os festivais ganharam um contorno abrangente que instigou a produção e difusão de toda uma gama de "novas subjetividades". Bessa (2007) esclarece que ao incluir outras marcas de diferenciação (classe. lésbicas. sobretudo. Londres e Paris – assumidamente exótica (homens seminus. mas da ousadia e da beleza de ser e se . mulheres travestidas). Bessa (2007) ressalta que esses grupos buscavam a possibilidade de conquistar visibilidade. cross-dressing. festas e guetos –. bissexuais. ou até grotesca. De acordo com Bessa (2007). de um jeito queer. Chicago) e só nos anos 1980 estendida para Nova York.37 constituição de espaços de sociabilidade. cuja conotação não fosse mais a da perversão. desejo e sexualidade. para a autora. mas. se auto-denominou freak e vivia. criando. havia uma consciência clara sobre a importância de construir uma auto-representação. às vezes carnavalesca. por vezes. as barbies e seus musculosos corpos. em primeira mão. uma população que. o objetivo era fazer com que cada um saísse do seu próprio universo – bares. A autora percebe que os festivais investiam e investem na concepção de um cinemadivertimento. mas também na configuração de novas formas de expressões de prazer. Bessa (2007) ressalta que outro dado que liga os festivais às "paradas" é a possibilidade de construir uma dada visibilidade – ainda que tímida nos anos 1970 e restrita a algumas poucas cidades (São Francisco. na auto-representação das lutas travadas contra a homofobia. e na valorização daquilo que os estereótipos ridicularizavam – a "sapatona" e seus maneirismos masculinizados. as drag queens e seus exageros visuais. Segundo a autora. cuja aposta política estava vinculada ao compromisso de subverter a imagem hegemônica veiculada sobre a homossexualidade pela indústria cinematográfica. na crítica à heterossexualidade como norma. usos de tatuagem e piercing). de encontro entre gays. transgêneros. uma tolerância à diversidade interna da “comunidade”. bonecos. destaca Bessa (2007). cujas diferenças nem sempre foram negociadas harmonicamente. Deste modo. nesse sentido. raça e nacionalidade) – e ao adentrar em práticas eróticas e de estilização corporal (sadomasoquismo. a travesti. os festivais atuaram (e continuam atuando) não apenas na constituição de performances de gênero.

às vezes.38 reconhecer diferente. uma afirmação da identidade. . configurando um jogo com regras. porém. prazer e identidade sexual ainda são acionados. O uso político do termo queer tem assim uma posição estratégica na luta contra a fixação de identidades trivializadas e normatizadas pelas práticas/discursos institucionalizados. sobretudo. sempre foi justificada em face de uma leitura de que até meados dos anos 1980 a maioria dos filmes apresentava uma visão bastante distorcida dos gays. p. criando a falsa ilusão de uma continuidade e coerência entre estas diferenças. bem como o convite a pesquisadores da área da sexualidade. essa produção cinematográfica deveria trazer uma nova abordagem. éticas e estéticas que vão desde a reposição do "casal". sem necessidade de vínculos a identidades essencializadas e de demarcar políticas identitárias em sua construção fílmica. produtores e dos que participam dos júris dos festivais. realizado em São Francisco (1976). 2007. até seu avesso. esferas da nossa subjetividade. nos moldes dos parâmetros “hétero”.). da psique e/ou relacionados com a temática em questão (violência física contra gays. circunstanciais. A autora esclarece que a aparição nos festivais LGBT de diretores. Assim. os vínculos mecânicos entre desejo. apesar de sofrer os desgastes das apropriações da mídia e do mercado nos últimos anos. AIDS etc. Bessa (2007) lembra que a preocupação de engajamento político de realizadores. a filmografia da década de 1990 colocou em cena a ambivalência política já presente no propósito dos festivais que. como a exploração de técnicas e outros coadjuvantes eróticos. 263) Nas representações do que somos. atores e críticos. rígidas. desde o primeiro. porém intercambiáveis. que descaracteriza a tradicional relação passiva e aumenta as chances de esclarecimento ou mesmo de germinação de dúvidas (existenciais ou não) que permitirão um prolongamento da exibição do filme a uma relação maior (engajamento) com o que se consome em termos de imagem-representação. (BESSA. reforçando estereótipos e (re) alimentando a homofobia. sobre as décadas de 1980 e 1990 do século XX implica perceber como os filmes exibidos estiveram vinculados às lutas (simbólicas ou não) políticas. Refletir. se aposta na construção de identidades de gênero. promove outra dinâmica de projeção-audiência. bem como tocar nos problemas candentes enfrentados pelos gays no dia-a-dia. Como aponta Bessa (2007).

O longa mostra diversos personagens homossexuais. Ele é inteligente. mas também. o protagonista utiliza de um meio para expressar-se. década posterior ao movimento Ele busca uma nova forma de conquistar votos para sua campanha eleitoral. negros. homossexuais oriundos de todo o mundo. notamos que Harvey. colocados à margem da sociedade. Harvey Milk é um nova-iorquino que decide se mudar para São Francisco. defendia a igualdade entre todas as pessoas. Assim como ocorre no filme. Harvey Milk (interpretado por Sean Penn) tem pouco mais de 40 anos no início da história. já que o mesmo encontra-se nos anos de 1970. o personagem utiliza um gravador de aúdio.1 Milk – A Voz da Igualdade: Construção do Personagem – aspectos identitários e sociológicos Baseado em fatos reais. mas analisaremos o principal deles. Ele lutava para que não somente os homossexuais. Ao invés de utilizar um diário. em um momento da história. Ele novamente se mostra elegante. Podemos dizer que Milk nesse momento do filme. sofre influências hippies no seu modo de vestir. pois nesse local. Quanto ao seu visual. ouvimos a narração de Harvey. pois são nesses locais que acontecem as marchas dos manifestantes. jaqueta jeans e botas. pois queria fazer algo de importante em sua vida. luta pelo que acredita. Milk volta a se vestir da mesma maneira que se vestia em Nova Iorque para trabalhar. As ruas são um dos principais cenários do filme. ou seja. mostra o início do movimento homossexual norte-americano. idosos. aparece de forma descuidada. Com isso. o longa Milk – A Voz da Igualdade mostra a história do primeiro homossexual assumido a conquistar um cargo público nos Estados Unidos e. Devemos destacar a Rua Castro como o centro dessas manifestações.39 5 ANÁLISE DOS FILMES 5. O cenário principal do filme é a cidade de São Francisco. começaram . Ao longo da história. entre outros. grande reduto dos homossexuais de todo o mundo. defende as minorias. Através do título do filme Milk – A Voz da Igualdade. com o cabelo e a barba grande e com roupas bastante simples: calça. fossem respeitados e não. perseverante. Orações para Bobby. após mudar-se para São Francisco.

1. que podemos descrever como pequeno e simples de fato Milk viveu nele. outros gays. podemos descobrir um pouco mais sobre ele. usado para as filmagens. através de alguns diálogos e gestos.1 Construção da Narrativa Fílmica Para a construção da narrativa do filme. ao apontarmos cenas chaves que indiquem a identidade de Milk e claro. Scott do lado de dentro dela vai ao encontro de Harvey. A primeira delas mostrará cenas que denotem o preconceito vivido por Harvey e. isso nos Estados Unidos. que está do lado de fora. aquilo indica a identidade homossexual do personagem. O homem cumprimenta Milk com um aperto de mão. faremos a separação do filme em duas categorias. ou seja. Vale ressaltar que essa via está em um tradicional bairro católico irlandês. a parte em que Milk decide mudar-se para São Francisco. Isso sem falar que o local que serviu como comitê de campanha do ativista. A narrativa do filme é construída através da luta de Harvey pelos direitos dos homossexuais na sociedade. 5. Os dois dão um breve selinho na frente de um homem que os veem se beijando e questiona se são os locatórios da loja. Essa batalha pela igualdade permite a percepção da identidade homossexual de Milk. Nesse ambiente. Dentre as cenas que podemos enquadrar na primeira categoria de análise. a obra não tem a sua narrativa focada na vida sexual do personagem protagonista. e possui seis quarteirões. o preconceito sofrido por ele. Outro cenário importante é o apartamento de Harvey. observamos que o cenário do filme é totalmente urbano. com Scott (namorado dele no início do filme). No filme. Essa cena mostra os dois arrumando a fachada da loja que alugaram na cidade (loja essa que fica embaixo do apartamento que moram e que serviria como comitê de campanha).40 a se aglomerar para reivindicar direitos civis. em seguida . podemos destacar de início. os gestos. notamos a homossexualidade do personagem. Já na segunda categoria perceberemos as vestimentas. Apesar de aparecerem alguns beijos e sutilmente relação sexual com pessoas do mesmo sexo. na vida real era onde se localizava o seu negócio. já que ao verificarmos a personalidade das pessoas com quem convive. Tal percepção será descrita no item seguinte. Com isso. o modo que comportam entre si. os diálogos.

pois ele é um homem público e também porque a sua afirmação foi . O homem responde: “Há as leis dos homens e as leis de Deus neste bairro”. “Segundo a lei não se pode. A fala do personagem é importante. como pessoas ruins. podiam ser ouvidos gritos. fala o jornalista.41 sem nenhum incômodo limpa sua mão com um pano. por meio não somente do que para ele a sociedade condena. Nesse momento. Ao fazer tal afirmação. Na mesma cena. que não fazem parte da sociedade. aparece uma entrevista dela na qual afirma que se forem permitidos direitos civis aos homossexuais. ou qualquer um. a não ser que se prove que a homossexualidade afeta as crianças e se prove inadequada para as aulas. mas estão à margem dela. Ele sai de cena. temos um depoimento real dado para uma emissora de TV. O homem começa a andar e afirma que a polícia de São Francisco cumpre as duas. Nessa parte do filme. percebemos mais um cena em que o preconceito é exarcebado. que o homem justifica a sua rejeição aos homossexuais. Deus os pôs em uma categoria de moralidade”. a Associação e a polícia iriam cassar a licença dele. Tal comportamento assegura a afirmação de que aquele personagem é preconceituoso e tem certo nojo de homossexuais. Percebemos assim. Eles entram em um bar de cidade e agridem homossexuais. que recrutam nossos filhos para participar desse estilo de vida. O senador é entrevistado: “Minha proposta é proteger nossos filhos desses gays pervertidos e pedófilos. Segundo o entrevistado. pancadas e esmagamentos. “logo serão as prostitutas. O senador John Brigss quer mudar isso”. A cena é de uma reportagem sobre a permissão de demissão de professores homossexuais da Califórnia. o senador John Brigss mostra que considera os gays. Em seguida. ladrões. mas também através do que aprendera em sua religião. Milk está encostado de pé na parede de seu apartamento assistindo à entrevista dela na televisão. Chegou a hora de acabarmos com isso”. Incluindo os que fazem isso em nossas escolas públicas. A cena seguinte evidencia a violência cometida por policiais. como molestadores de crianças e que só pensam em sexo. Ele afirma que essa experiência foi a mais pavorosa que teve em sua vida. Milk pergunta: “Sob que lei?”. Anita coloca os gays. No filme. o homem afirma que se Milk abrir a loja. Cenas reais de Anita Bryant.

entrega a Harvey diversos jornais que apoiam sua candidatura. isso nos anos de 1970. Em uma nova cena. (ele é vaiado) Agora. descendo a escada do metrô. mas não podemos discutir com Deus”. Milk responde que tem 40 anos e que não fez nada que o deixasse orgulhoso. Jack. Harvey contrapõe a resposta do jovem e afirma que aquela é a noite de sorte dele. para melhor percebermos a sua homossexualidade. Querem saber? Podem discutir comigo. destacaremos trechos que mostrem a identidade homossexual de Harvey. pois ainda tem 39 anos até a meia-noite. Ele responde: “Desculpem. ele parte para cima e dá um beijo no jovem e os dois seguem juntos. Na conversa iniciada por Milk. Em seguida. A cena seguinte é no apartamento de Milk. os diálogos. . Os dois transam. Alguém: “É. Finalmente o cara se apresenta. Scott olha para o relógio e percebe que agora Milk tem quatro décadas de vida. Tão fundamental quanto os gestos. Ele está bêbado. a nova coordenadora de campanha (que entrou após o término de namoro de Scott com Milk). em uma clara cantada no jovem. como? Irá chupá-los. aparece um homem. o nome dele é Scott. Na cena Harvey Milk (vestido de terno) conhece um homem na escada da estação do metrô. ou seja. o comportamento homossexual de Milk. em seguida. pois os dois se encontram deitados na cama conversando. a atuação dele como ativista político é um importante meio para a nossa melhor percepção. Nessa conversa. tanto através do diálogo dele com Scott. do lado de fora de sua loja (Jack será o novo namorado de Harvey). Briggs?”. A continuação da cena mostra alguém questionando o senador: “Como vai determinar quem é homossexual? O político responde: “meu projeto define procedimentos para identificar os homossexuais”. ele diz que é “seu aniversário”. Uma troca de carinhos começa e mesmo sem mostrar explicitamente uma relação sexual entre os personagens. quanto por meio de seu beijo..42 para a televisão. de Milk com os outros personagens.. Ele fica feliz e todos saem para comemorar. Só que o jovem afirma que não gosta de caras com mais de 40 anos. que será seu futuro namorado. os dois bebem e ouvem música. aquilo que disse repercute por todo o mundo e contribui para o aumento do preconceito. Milk o leva para dentro de seu apartamento. Observamos nesse trecho do filme. sabemos que o ato aconteceu.

Milk aparece narrando: “É preciso eleger gays. para que o movimento continue. mas sem esperança a vida não é digna de viver. já que no discurso anuncia sua candidatura para supervisor da Cidade de São Francisco. As minorias. Essa cena é da marcha de homens homossexuais reunidos por seus companheiros de eleições. todas as minorias devem lutar por seus direitos. ao fundo da cena da marcha dos homossexuais. Todos os “S” se apresentaram. Em outra parte. . Podemos ouvir ao fundo. Nos trechos que iremos descrever a seguir. os gays. Harvey discursa sobre os abusos cometidos por policiais enquanto Scott mostra fotos de homossexuais sendo presos. Porque não é um jogo pessoal. Essas pessoas seguem até a prefeitura para homenagear Harvey e o prefeito. De fato. os idosos. esse é um discurso político. contribui para a diminuição do preconceito. Na ocasião. em 1977. todos estavam juntos. Sei que você não pode viver na esperança sozinho. Harvey narra: “Eu peço. Mas os negros. Os sindicatos. Finalmente Milk vence a eleição.. Milk vence. Tem que dar esperança”. Não só gays. os asiáticos. uma narração de Harvey: “Pela primeira vez.. Não é sobre o poder. Os “nós” desistem.43 Na cena Scott carrega um caixote e outros materiais pela rua. a participação deles na política. Milk sobe no caixote e com um mega-fone fala para um reduzido número de ouvintes. os „nós‟.e você e você. uma vela. Os sem esperança.. notaremos que Harvey acredita que a união dos homossexuais. Ele é ovacionado pela população”. Nessa cena.. É sobre os que são como „nós‟ aí fora. Aparecem muitas pessoas caminhando. Então você. as mulheres. os deficientes. E não só no Castro. Devemos lutar. A esperança de um futuro melhor”. Harvey revela verdadeiramente o seu caráter de ativista político. que não mais nos esconderemos quietos nos armários. Milk discursa: “Sei que estão com raiva! Eu estou com raiva! Vamos marchar nas ruas de São Francisco e mostrar a eles nossa raiva! Estou aqui esta noite para dizer. Mas onde quer que as Anita forem! Anita Bryant não ganhou essa noite! Anyta Bryant nos uniu! Ela vai criar uma Força Nacional Gay”. Temos outra cena. carregando cada uma. Para ele. Não é sobre o ego. os idosos. Não só em São Francisco. Milk desliga o gravador. Para que uma criança e outras milhares tenham a esperança de uma vida melhor. Ela mostra Milk votando.

Com isso. . em uma típica casa de classe média norteamericana.2 Orações para Bobby: Construção do Personagem – aspectos identitários e sociológicos Assim como Milk – A Voz da Igualdade. Ao assistir ao filme. mas sim devido à educação. por vezes. o longa Orações para Bobby é baseado em fatos reais e. podemos notar que uma das pessoas que mais condena a sua homossexualidade. bem comportado e com roupas bastante alinhadas. acentuam-se. vive com seu irmão mais velho. suas duas irmãs e seus pais em Walnut Creek (cidade do Estado da Califórnia. gentil. gestos. A sua homossexualidade só é realmente percebida porque ele. Em todos os argumentos para condenar o comportamento do filho. descobrimos o que está escrito. por parte da sociedade e principalmente pela sua mãe. o filho. olhares e diálogos que denotam que Bobby é gay. Claro que com o decorrer do filme. já no segundo o protagonista suicida-se.44 5. inteligente. pois segunda ela. igualmente como o outro. O jovem de 20 anos é visto com bons olhos por todos. através de seu diário revela o fato (em todo filme. não segue os preceitos da Bíblia. até o momento que a sua homossexualidade não é revelada. A identidade homossexual do jovem não é claramente percebida no filme. transmitida de geração em geração. uma espécie de punição da sociedade para a sua sexualidade “desviante”. carinhoso. continua a ter um fim fatídico. nos Estados Unidos). pois ele é educado. é a sua mãe. Pode ser que isso ocorre não porque queira. como um pecador. ela utiliza do nome de Deus. o personagem Bobby Griffith (interpretado por Ryan Kelley). pois quando isso ocorre. No filme Orações para Bobby. o personagem usa o diário como forma de expressar seus sentimentos. ele deixa de ser visto bem visto e passa a ser considerado. No primeiro o personagem principal é baleado e morto. Claro que Bobby é visto como uma boa pessoa. podemos perceber que embora o homossexual passe cada vez mais a ser representado no cinema de forma não estereotipada. já que ele mesmo é do tipo reservado e não possui trejeitos que denunciem sua verdadeira sexualidade. tem um final trágico. que teve no âmbito familiar e religioso. pois ele narra o que escrevera).

desaprova a homossexualidade do filho através daquilo que acredita que a Bíblia. Eu tento. segundo ela. Pior ainda é . A sua mãe ao ver a cena ordena que o filho pare de fazer tal brincadeira. como se todos os homossexuais fossem efeminados. os maricas deviam ser todos alinhados e abatidos”. Essa cena não somente mostrou o preconceito de Mary. pois. A Bíblia chama-lhe abominação. percebemos que a mãe de Bobby tenta curar a homossexualidade do filho através de diversos meios.2. mas parece-me impossível. devem ser ambos mortos”. É um sentimento horrível acreditar que estamos nos dirigindo para o fogo do Inferno. Em seguida. Também analisaremos o preconceito vivido pelo personagem em sua casa. diálogos). Em conversa com o marido. iremos notar algum comportamento (vestuários. estou sempre com Deus”. A primeira cena do filme que mostra o preconceito vivido por Bobby é a seguinte. ela demonstra uma religiosidade fanática. principalmente através das ações de sua mãe. podemos destacar que a mãe de Bobby. separaremos o mesmo em duas categorias. ele. Ao fazer isso. é fruto da educação obtida. Em diversas cenas. para ela a homossexualidade não é natural. pelo ambiente. é um pecado condenado por Deus. bilhetes com termos religiosos. a religião prega. Milk – A Voz da Igualdade através de algumas cenas.1 Construção da Narrativa Fílmica Para a construção da narrativa do filme. No Levítico. que destaquem a homossexualidade do personagem principal. após ser revelada por seu outro filho a homossexualidade de Bobby. ou seja. neste caso. a psiquiatria e bilhetes pregados pela mãe por toda a casa. ajo como eles. aquilo era nojento. Bobby escreve em seu diário: “Nada daquilo que faço parece fazer diferença. Com as mãos ela segura o marido pelos ombros e esbraveja: “Eu não vou arriscar a união da minha família na próxima vida”. Bobby Griffith. mas também descobrimos que o comportamento praticado por ela. seu irmão mais velho e seus pais comemoram em sua casa o aniversário de sua avó.45 5. entre eles. Após as inúmeras tentativas da mãe. dada pela sua mãe. mesmo sem querer. se um homem se deitar com outro homem. “Este é um pecado terrível. Mary aparece em casa. explica. Por meio dessa cena. Do mesmo modo que no filme. O personagem está suas duas irmãs. Em um dado momento. Em outra cena. reproduz um comportamento estereotipado dos homossexuais. “eu sou puro de coração. a avó solta: “Se quiserem a minha opinião. por exemplo. seu irmão pega uma bolsa e a coloca nos ombros.

Mary mostra que considera a condição homossexual do filho como uma doença. e chora. o jovem aparece empurrando a cadeira de rodas de uma idosa no hospital em que está trabalhando. Bobby. Enquanto que. Mary. mas ainda temos o outro lado.. “Pessoalmente. em Portaland (cidade do Estado de Oregon. Faz-te parecer uma moça. Bobby: O quê?”. quanto atos que identificam sua homossexualidade. Ou você contou-lhes?” Ela responde: “Olha para o que tem vestido. que está lavando as louças. chega a casa dele. talvez eu simplesmente não possa fazer nada”. Bobby vai embora de casa para morar com sua prima. Bobby percebe que a mãe saiu da mesa para que as amigas dela. E a SIDA começa a ser conhecida como a doença gay”. apesar de todo o esforço de Mary para “curar” seu filho. nos Estados Unidos). percebemos tanto o preconceito sofrido pelo jovem. E você continua a fazê-lo”. acho que as pessoas deveriam poder amar quem quiserem”. Janette prima de Bobby. pois pela primeira vez notamos alguém de seu vínculo familiar que não se importa com sua orientação sexual. pela janela. Essa parte é importante. Você não quer que as suas amigas me vejam. Portanto. E eu te disse outra vez para que não fizesse assim com o braço (as mãos de Bobby estão na cintura). afirma a prima. ele argumenta: “Talvez não seja uma escolha. E agora é tão óbvio. É noite. Sua mãe. Bobby argumenta: “Eu sempre me vesti assim”. que está dentro de casa. o preconceito familiar. “A Joy (irmã de dele) está certa. (na cena. Nessa cena. em sua casa. Em uma das cenas.46 todos dizerem-te como a solução é simples. Na mesa em que todos almoçam. “Acha que eu não percebi. Eles não sabem o que é estar em minha pele”. Nessa parte do filme. A irmã dele o confronta: “Então quer dizer que roubar não é uma escolha?”. ela está em um restaurante com algumas amigas. Após sua saída de casa. nenhum efeito é surtido surge. A Bíblia diz: homens que cometem atos sem vergonha com outros homens recebem as inerentes penalidades pelos seus erros”. uma blusa preta e uma jaqueta na cor bege). o vê indo embora. Bobby usa calça jeans. Mary Griffith mostra que sente vergonha do comportamento do filho. não olhassem para ele.. . Em outra parte do filme. para o que está fazendo para assistir na televisão a uma matéria que informa: “A maioria dos novos casos parecem estar localizados na comunidade homossexual.

Perto desse estabelecimento. Na cena. Em uma das cenas. Claramente. ele desaprova o ato do irmão. Bobby segue com seu carro e para em frente ao bar Armony. Diversos veículos passam por embaixo dela. não consegue suportar as pressões sofridas por ele em sua casa. pela primeira vez. pois ele olha fixamente (admirado) para o rapaz. sua mãe reza por sua cura. ele sai do local. Ao fechar o armário ele vê um aluno. que coloca uma bolsa nos ombros no aniversário da avó. Bobby revela a alguém o que sente. sobre quem realmente é. ele fica de costas para a avenida que está em baixo. Ele não quer e termina o relacionamento com a jovem. Diversas imagens que mostram as sua lembranças são passadas. o atrapalha. deixa escrito no cartão que acompanha o pacote: “SIDA – A Ira de Deus”. Bobby está em seu colégio. seu irmão. Ed. O personagem morre instantaneamente atropelado por um caminhão. tanto é que ao enviar para Bobby um presente de aniversário. Ela quer transar: “Bobby. Em seguida. Agora. Agora. Na primeira delas. esse homem o chama com a mão. Devemos destacar que antes dessa cena. Podemos notar que essa é a primeira cena do filme em que Bobby de fato demonstra a sua identidade homossexual. Podemos identificar a identidade homossexual do personagem. Mary reafirma esse preconceito através da mídia. podemos perceber a atração de Bobby pelo jovem.47 Como se não bastasse o preconceito obtido através de sua educação familiar. Assustado. Bobby suicida-se. mas não teve coragem). Ele se joga de costas. Nesse momento. em sua casa. a entender sua homossexualidade. Ele desce e caminha sobre ela. chega e avista vários remédios no chão. a única que denuncia sutilmente a homossexualidade do personagem é a aquela em que através do olhar. Enquanto isso. estou pronta. Ele abre o armário para pegar sua mochila. notaremos algumas cenas que representem a identidade homossexual do personagem. Ele segura Bobby e desesperado pergunta por que seu irmão fez aquilo (Bobby pensou em tomar remédios para suicidar-se. Ela sai do carro. Nota-se que ele acha esse cara bonito. Os dois . Bobby está em seu carro com uma menina. Sua mãe. ao invés de ajudá-lo. Ele vai verificar o que ocorreu e vê Bobby deitado na cama. Quero ir mais longe”. Bobby sobe no viaduto. pois. vemos Bobby dirigindo e parando com seu carro em cima de uma ponte. o jovem vê dois homens caminhando de mãos dadas e outro parado na porta do bar. de sua educação religiosa. A última delas é a da mãe falando: “Eu não quero ter um filho gay”.

Você é mesmo bonito”. após ter se desentendido com a mãe. rejeitado pelo jovem. Agora. . Contudo. Podemos considerar os bares. Eles se beijam. para que essa orientação sexual passe a ser vista como natural. Bobby sai às pressas do bar. Bobby: “Tenho que ir”.48 conversam por um longo até que Bobby. Um rapaz lhe dá um beijo e diz: “Nunca te vi por aqui antes. Mas não é. apesar de acreditar que todos de sua família irão “odiá-lo” após saberem dela: “Não sou como você. Eu não sonho com meninas. não sabe o que falar. incentivado pelo irmão. Ele ouve a batida de uma música. Os freqüentadores (homens) olham para ele. Ele anda. Seu irmão. esses ambientes podem ser tornar guetos e. Bobby não mais esconde o fato de ser gay. as boates gays. Venho dizendo para mim mesmo que um dia vou acordar e ser diferente. como você. Pedido esse. O jovem observa o ambiente. revela a verdade. Rapaz: “Posso te ligar?” Bobby: “Não”. fecha os olhos e começa a balançar a cabeça no ritmo. a segregação por meio desses ambientes. Ed. Bobby está meio assustado. Sonho com rapazes”. como espaços de socialização para aqueles que identificam-se como homossexuais. o ideal seria a inclusão deles na sociedade e não. no primeiro momento. Ele passa pelo bar gay Armony e entra. Eu continuo tentando. Ele fica consternado e pede a Bobby que converse com mãe deles. vemos Bobby dentro de um ambiente gay.

Certamente. esses filmes apresentam a eles. e não os reduzem ao mundo de festas e cores que a sociedade rotineiramente. a homossexualidade passa a cada dia a ser percebida como uma forma natural de expressão da sexualidade.49 6 CONCLUSÃO Com alto teor dramático os filmes Milk – A Voz da Igualdade e Orações para Bobby de fato possuem as características que o cinema comercial. tenhamos analisado apenas dois longas. . pois é através dele que muitos se identificam com essa identidade. Para aqueles que não se enquadram nessa condição sexual. podemos perceber que muitas vezes é nessa mídia que muitos buscam alguma história. podemos notar que cada vez mais os gays deixam de ser vistos como estranhos. contribui para divulgar. de certa forma. Através dos filmes escolhidos. é um espelho da maneira pela qual a sociedade percebe os homossexuais. mesmo que inconscientemente. que devem respeitados. como qualquer heterossexual. desviantes. independente da sexualidade. a sociedade pode de fato. ou identidade de gênero. Embora. principalmente o norte-americano. Podemos afirmar que esses dois longas. um fundamental meio para a diminuição do preconceito sofrido pelos homossexuais. Podemos dizer que o cinema. alegrias. assim. representam para o movimento LGBT. pois com a contribuição do cinema. finais trágicos. suas angústias. devemos assegurar que os filmes escolhidos para análise são um marco na forma com os homossexuais são representados. devemos destacar o cinema como um importante meio para aqueles que se percebem homossexuais. e. já que através dele. através deles podemos perceber os indícios de como a homossexualidade é representada nesse meio de comunicação de massa. medos. Deste modo. os insere. o cinema pode ser um importante aliado para o combate ao preconceito. Assim como Codato (2003). Devemos ressaltar que embora. pois ambos tratam os homossexuais como indivíduos que possuem suas particularidades. um personagem que possa de certa forma ser co-relacionada com a sua. os gays como sujeitos comuns. conhecer a homossexualidade. destinem aos seus personagens principais. enxergar-se parte integrante da sociedade.

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2009) disponível em <http:// www. Damian Ganczewski.jpg >. Orações para Bobby (Prayers for Bobby) Título original: Prayers for Bobby Gênero: Drama Tempo de duração: 1 h 29 min Ano de lançamento: 2009 Direção: Russell Mulcahy Roteiro: Katie Ford.com.mycool.54 Cartaz do filme Orações para Bobby (Prayers for Bobby. Acesso em 5 de junho de 2010.br/ptg/wp-content/uploads/2009/11/prayers-for-bobby. Daniel Sladek. Leroy Aarons Produção: Chris Taaffe . Brooks . David Permut e Stanley M.