Everardo P. Guimarães Rocha

O QUE É ETNOCENTRISMO
1ª edição 1984 5ª edição

editora brasiliense 1988
Copyright © Everardo P. Guimarães Rocha

Capa e ilustrações: “Pineaple Fields Forever”

Revisão: José G. Arruda Filho José W.S. Moraes

ISBN: 85-11-01124-2

editora brasiliense s.a
________________________________________________ Everardo P. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo?

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rua da consolação, 2697 01416 – são paulo – sp. Fone (011)280-1222 Telex 11 33271 DBLM BR

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ÍNDICE
Pensando em partir Primeiros movimentos O passaporte Voando alto A volta por cima Indicações para leitura

________________________________________________ Everardo P. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo?

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Claudia Lebelson Sterental. Rubem Rocha Filho. Pereira. Ana Paula Carvalho de Oliveira. Rosane Manhães Prado. Maria Alice R. José Carlos Rodrigues. de Carvalho. ________________________________________________ Everardo P. Maria Madalena Diégues Quintella. aos comentários críticos e à amizade de: Agenor Miranda Rocha. Angela Menezes Pimentel.Agradeço à leitura. Heloísa Fontes Leuzinger. Carlos Alberto M. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 4 . Anthony Seeger. Roberto da Matta. Angeluccia Bernardes Haebert. Patrícia Sobral de Miranda.

Assim. o “nosso” grupo. muito simplesmente. anormal ou ininteligível. nossos modelos. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. veste igual. O grupo do “outro” fica. chamam. conhece problemas do mesmo tipo. distribui o poder da mesma forma. ainda que diferente. então. também está no mundo e. pois. também existe. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. um mal-entendido sociológico. etc. talvez. De um lado. bárbara. um daqueles de mais unanimidade. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. de repente. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. “excelentes” ou. nos deparamos com um “outro”. dentre os fatos humanos. como sendo engraçado. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. da sua visão a única possível ou. E. o grupo do “diferente” que. que come igual. a natural. No limite. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. gosta dela. pois. por vezes. mais discretamente se for o caso. pensamentos. ao estrangeiro. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. De qualquer forma. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. a superior. a superior. medo.PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. casa igual. semelhantemente. Grosso modo. empresta à vida significados em comum e procede. Aí. acredita nos mesmos deuses. mais grave ainda. por muitas maneiras. então. No plano intelectual. a vida deles não presta. gosta de coisas parecidas. a melhor. mora no mesmo estilo. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. O monólogo etnocêntrico pode. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. às vezes. hostilidade. conhecemos um grupo do “eu”. este “outro” também sobrevive à sua maneira. nossas definições do que é a existência. “ser humano” e ao “outro”. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica temos a experiência de um choque cultural. enfim. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. absurdo. Talvez o etnocentrismo seja. como sentimentos de estranheza. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. representada como o espaço da cultura e da civilização por ________________________________________________ Everardo P. os caminhos e razões. na constatação das diferenças. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 5 . no plano afetivo. a certa. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. as formas. No etnocentrismo. nessa lógica. a sociedade do “eu” é a melhor. é selvagem. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não.

Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 6 . Levantou-se. pendurado a vários metros de altura. O que importa realmente. É onde existe o saber. pois. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. infalível. do barulhento. após alguns meses. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. agora mínimo e sem nenhuma função. O barbarismo evoca a confusão. o progresso. por outro lado. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. alarmes. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no roso do pastor. A surpresa maior estava. o relógio. a desarticulação. São qualquer coisa menos humanos. o índio fez o pastor divisar. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. por vir. especialmente. a desordem. Ao chegar. neste conjunto de idéias. por fim. estes somos nós. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. seu trabalho. deu uma olhada no relógio novo. porém. o trabalho. vencido por insistentes pedidos. não sem dificuldade. O selvagem é o que vem da floresta. ________________________________________________ Everardo P. pentes. São os selvagens. a vida animal. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. meio sem jeito e a contragosto. é o fato de que. E o espaço da natureza. A atitude etnocêntrica tem. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Muito generoso. fazer contas. O etnocentrismo não é propriedade. naquela manhã. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. Tempos depois. na nossa. comprou para os selvagens contas. modesto. venceu as burocracias inevitáveis e. espelhos. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. o pastor perdeu seu relógio dando-o. etc. de uma única sociedade. ao jovem índio. nunca o “igual” ao “eu”. Existe realmente.excelência. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. no etnocentrismo. como já disse. os bárbaros. de alguma maneira. colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava freqüentemente. quinze para as dez. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. marcar segundos. Fora-se o relógio. ainda por cima. Era hora de ir. arcos. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. muito feliz. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. da selva que lembra. Dias depois.. apesar de que. Nelas. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. A sociedade do “outro” é atrasada. Um dia.

de toda evidência. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 7 . (fórmula. Em terceiro lugar. Em segundo lugar. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. da qual falamos na nossa sociedade. posso pensar dele o que quiser. de um etnocentrismo “cordial”. obviamente. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. que. inteligente e super-poderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. Privilegiaram ambos as funções estéticas. a lógica do extermínio regulou. decorativas de objetos que. e até uma flauta formavam uma bela decoração. não necessariamente verdadeira. Também. de um grande centro urbano. Assim. como o marciano não diz nada. ornamentais. bordunas. muito comum e de uso geral no etnocídio. porém. “brabos e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. de um ponto de vista do grupo do “eu”. aliás. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. Para o pastor. No mais das vezes. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. Como já vimos. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. Em primeiro lugar. os personagens de cada uma delas fizeram. Aliás. diretor do Museu Paulista. por exemplo. tacapes. se isso fosse possível. um famoso cientista do início do século. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. tanto aqui como em vários outros lugares. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. seja na indústria cultural. seja nos livros didáticos. na cultura do “outro”. na matança dos índios). os que estão de fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. Tanto no presente como no passado. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. Assim. trazia-lhe estranhas lembranças. como “atraso ao desenvolvimento”. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. Claro. cocares. bastante plausível. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. seja em casa. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. ________________________________________________ Everardo P. neste choque de culturas. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. como “algo a ser destruído”. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. tristemente exemplar. de uma criança. Esta estória. pode colocá-lo como “primitivo”.flechas. esta estória representa o que se poderia chamar. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. infinitas vezes. a mesma coisa. Isso lembra o comentário. são apenas uma representação. porque somos os autores destes filmes e livros. Hermann von Ihering. demonstra alguns dos importantes sentidos da questão do etnocentrismo.

por exemplo. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. carregam um valor de autoridade. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. “sério” e “científico”. em outros. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. para o livro didático. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 8 . como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçoso” alguém. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. mas também em diferentes contextos no presente. mera imagem sem voz. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. numa lavoura que não é a sua. pois são lidos e. Isto não só ao longo da história. o índio é.A figura do louco. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. Da mesma maneira. Este “escândalo” esconde. há alguns anos. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. Ora. como o “outro” é alguém calado. mais ainda. num corpo. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. na nossa sociedade. ela deve mostrar e esconder. que são permanentemente aplicados a estes índios. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos ________________________________________________ Everardo P. muito pelo contrário. manipulado de acordo com desejos ideológicos. A estória do nosso amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. Os estudantes são testados. no mínimo. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. Na nossa chamada “civilização ocidental”. determinados estereótipos. esta recusa é. Assim. sinal de saúde mental. via de regra. Eu mesmo realizei. na verdade. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. a quem não é permitido dizer de si mesmo. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre estes dois pólos. Nesse sentido. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. em face do seu conteúdo. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. Os livros didáticos. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. um povo ou uma pessoa. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. que se recuse a trabalhar como escravo.

“antropófago”. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. Ela. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. os “empregados”. para fazer parecer que os índios é que precisavam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. os “caretas”. os “vagabundos”. persistências do que chamamos etnocentrismo. “inocente”. jornais. Ver que a verdade está mais no olhar que naquilo que é olhado. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. Ali. “pré-histórico”. baseado em formulações ideológicas. as “dondocas”. Nele o papel do índio é o de “criança”. A “indústria cultural” – TV. os “velhos”. A nossa sociedade já vem. nasceu marcada pelo etnocentrismo. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com a diferença. Os exemplos se multiplicam nos nossos cotidianos. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. uma ciência sobre a diferença entre os seres humanos. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 9 . como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. os “doidões”. a diferença não se ________________________________________________ Everardo P. Assim. os “colunáveis”. ele aparece como “selvagem”. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. violências. num passe da mágica etnocêntrica.brancos. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses.. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. etc. “almas-virgens”. se quisermos. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. revistas. etc. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta mas no contexto em que acontece: estamos relativizando. Esta ciência chama-se Antropologia Social. Diferentemente do saber de “senso comum”. E no capítulo “Etnia brasileira”. O terceiro papel é muito engraçado. Mas. os “surfistas”. os “paraíbas de obra”. Assim são as sutilezas. cheio de “amor à liberdade”. Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia. publicidade. por oposição. há alguns séculos. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. os “negros”. capaz de ter um fim ou uma transformação. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. são uma espécie de “conhecimento” um “saber”. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. em superiores e inferiores ou em bem e mal. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos: estamos relativizando. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. “altivo”. Enfim. Uma das mais importantes é a de relativização. Em outras palavras. vira “corajoso”. uma série de valores de um grupo dominante que se auto-promove a modelo de humanidade. “infantil”. muitas vezes. certo tipo de cinema. “primitivo”. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição: estamos relativizando. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. construindo um conhecimento ou. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas.

O percurso que. sacações e aberturas. agora. expedições. cujas formas de existência serão sempre a presença do humano em sua singularidade. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura de que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. Trata-se dos séculos XV. de ver isto tudo – os conceitos de cultura nas teorias formais da Antropologia –. no mínimo. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. De fato. Ela não é uma hostilidade do “outro”. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. no conhecimento antropológico. no plano da sociedade mais geral. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. E um momento básico de encontro com o “outro”. Assim. ________________________________________________ Everardo P. aqui e pelo mundo afora. alucinações. colonizações. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. Antes. com maior ou menor grau de dificuldade. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. Acredito até que. na Antropologia. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 10 . Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. ser observado a partir de vários ângulos. A diferença das escolhas humanas se fixa. mas com a alternativa.equaciona com a ameaça. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolvê-lo. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. XVI e XVII com suas navegações. porém. gostaria. espantos. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. num certo nível.

de comparação entre as sociedades sem pensar que uma delas deva ser a “dona da verdade”. Ninguém entendia nada. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. Que costumes. paradoxos. T. que aí já não era mais preciso! As novas técnicas empolgavam os alunos. faz uma análise das diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. a pensar a diferença. interesses. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. o risco era imenso. pouco a pouco. nos centros avançados de estudo. mas ali esboçava-se algo que seria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. Aqui se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. para o pensamento ocidental. freqüentemente. Muita violência. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. E de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. frente ao “outro”. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. Destes encontros. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. O mestre. Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. um conjunto radical de novas questões. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI discute-se e especula-se.” o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. dizia o professor aos seus alunos pilotos e comandantes supertreinados.PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. O mundo do “eu” se via obrigado. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. monstros. ________________________________________________ Everardo P. que lei. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. ele foi sendo superado. serpentes. escrevia sobre estas dúvidas: “Que gente será esta? Em si diziam. que rei teriam?”. Buracos sem fundo. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. à outra a própria natureza humana. mesmo sem viver. Mesmo com as novas tecnologias. compenetrado e falante. um esforço de compreensão da diferença. aqui nascia. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 11 . se não para todos ao menos dentro da Antropologia. num certo sentido. Assim. que era preciso.

sua formulação clássica. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. quase que como uma âncora. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. equivale a desenvolvimento. para os trabalhos e estudos que procuravam fazer da Antropologia uma ciência.Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. ________________________________________________ Everardo P. Assim. nos séculos XV e XVI. tem um lugar de destaque. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica e. Progresso. Assim. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. a esta noção orgânica. no seu sentido mais amplo. por sua vez. evolução? Evolução. vão assumindo novas formas. de evolução já se juntavam os pensamentos e discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. pelo processo evolutivo. O homem a caminho. pouco a pouco. vai ser a permanência do etnocentrismo agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. é conhecido como Evolucionismo. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. encontra. a cada vez. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. em plena metade do século XIX. nos séculos XVIII e XIX. Mas. mais e mais absoluta em suas conquistas. Mas. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. evolução. mostrando. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. um espaço correto para um tipo de pensamento que. Tudo isso forma um campo intelectual. de Darwin. então. exatamente. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 12 . Para o evolucionismo antropológico a noção de progresso torna-se fundamental. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. na história dos saberes sobre o ser humano. procurando compreender as diferenças que. biológica. ao nível biológico do desenvolvimento. tem no livro A Origem das Espécies. ocorridos na Antropologia e que procuram explicar a diferença. O resultado disso. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. Evolução. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. A direção é a de um estádio superior de civilização. em outras palavras. então. O primeiro destes pensamentos. avanço no tempo. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. E é esta perplexidade que vai. sua potencialidade. sempre mais matizados. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos. é claro. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. o que é. uma segunda forma. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico.

Lewis Morgan –. Sabemos que são relativos. no mínimo. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. o mais famoso da Antropologia e. no entanto. no seu sentido etnográfico estrito. moral. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. como se os problemas colocados aos seres humanos fossem. a Inglaterra do século XIX era. arte. Também transparece uma espécie de princípio geral. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. mais cedo ou mais tarde. restava ainda um problema teórico. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. por exemplo. Para os evolucionistas. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. uma lei. em certas sociedades. a era vitoriana. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estádio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. em toda parte. pode-se dizer que é. por exemplo. Se pensarmos nesta definição podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. que em plena época da rainha Vitória. então. talvez. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. o século XIX. diz o seguinte: “Cultura ou civilização. para eles. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 13 . etc. dentro da cultura. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. unitários. os mesmos. tendo aceitação. logo na primeira página.E foi toda uma geração de antropólogos que. Este conceito é. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. separados. contemporânea dos aborígenes australianos. a melhor por definição. Explicando melhor. em meados do século XIX – na Inglaterra. de fato. Mas. nos Estados Unidos. porque se compararmos Brasil. leis. O que é Arte? Lei? Moral?. um clássico. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio “primitivo” e os ingleses avançado para um estádio “civilizado”. Sabedores desta origem remota dos antepassados procuravam escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. que formam um “todo complexo”. A lógica do raciocínio é simples. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer ________________________________________________ Everardo P. Sim. Que. Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. começou a produzir seus estudos consciente de que a presença do homem sobre a terra remontava a uma idade muito antiga. Faz-se. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. Se o “medidor” for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. crença. Aqui. é este todo complexo que inclui conhecimento. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. estas idéias eram nítidas e claras. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. na direção do progresso.

qualquer “trabalho de campo”. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. por via do progresso. encontramos ainda. “meios de subsistência”. Diz uma anedota que Sir James Frazer. Dessa maneira. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. Dessa forma. neste mesmo evolucionismo ________________________________________________ Everardo P. evidentemente.. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”. de modo a que estes e outros itens pudessem ser pensados como uma linha de evolução a partir de um pólo “primitivo” e.. paradoxalmente. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. Lembra o cowboy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo . descobertas e instituições ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizam as fases passadas pelas culturas humanas. A relativização não tinha espaço. Estudando invenções. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. No extremo inferior os povos “primitivos” e no extremo superior os povos ditos “civilizados”. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. Isto faz com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. importante antropólogo da época. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. temos dois marcos básicos. barbárie e civilização. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. como faria isto ou aquilo?”. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. Mas. fortemente entrincheirada. Ainda mais. para onde eu teria ido?” Claro. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. ele nunca achou o cavalo. De fato. Para Morgan. postulavam uma permanência. etc. chegando ao pólo “civilizado”. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo.que se encontrasse a cultura. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. aqui no evolucionismo. por trás do ser “civilizado”. pois que tudo já estava pronto. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. O que fosse importante para sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. “família”. a visão etnocêntrica. Este espírito teria. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”.. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. “propriedade”. “religião”. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução.. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 14 . A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. “arquitetura”. A mudança nas sociedades se daria pela invenção..

pouco a pouco. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então.se armam as bases que virão. seu campo de estudos. esta consciência que vai levar a Antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. Ou. exatamente. me parece que nesse sentido. a falta ou excesso de significações do “outro”. que foram os séculos XV. Tanto aqui. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. já apresenta alguma diferença. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. o medo oculto. a visão caótica do “outro”. o espanto. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. ________________________________________________ Everardo P. a hipótese que coloco aqui é simples. por assim dizer. pelo menos. nem “deus” nem “diabo”. Entretanto. É o que veremos a seguir. entre si. Neste processo. a sociedade do “eu” começa até a questionar-se a si própria. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos mais sabemos o quanto falta saber. um “outro” tão humano quanto o “eu”. é claro que a época do novo mundo. num resumo. Assim. Sabemos que ambos não são bons mas pode-se também ver qual se distancia mais. tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. A magia. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. E vai ser. neste processo. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. complexa do que isto. num primeiro momento. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. Agora relativizando. Menos evoluído mas. multiplicando muito. vê-lo como atrasado e primitivo. já traz em si alguma semente de relativização. mas muito mais mesmo. o evolucionismo. É certo que a escolha. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. apresentam diferenças e. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 15 . A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. Se o “eu” negava. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação desta ideologia? Acredito que a resposta é simples. o evolucionismo e a comparação entre ambos é muito mais. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe.

Ao seu nome se liga toda uma escola de pensamento que ficou conhecida como difusionismo ou escola americana. alguém influenciando alguém. A Antropologia consegue. Para não contar esta “historinha” da Antropologia. tipo uma fábula malfeita. das ideologias. de outra maneira. é necessário relativizar a própria noção de tempo como história. a visão etnocêntrica dos diversos “outros” deste mundo muito pouco se abala com as “revoluções” da Antropologia. Vamos a ele então. ver que sociedades diferentes podem ter concepções da existência tanto diversas entre si quanto igualmente boas para cada uma. deveria fazer uma “historinha”. Este alemão. como vocês já devem ter notado. ao nível do senso comum. por mais que possam ter alguma ordem cronológica. vou poder falar de etnocentrismo e de relativização sem precisar fazer uma “historinha” linear. Com este paradoxo tocamos bem fundo no que é a problemática etnocêntrica e nas dificuldades de sairmos das suas intrincadas malhas. o apito soou e a saída pode ter sido dada por um alemão chamado Franz Boas. Vamos. encontramos. vai trabalhar nos Estados Unidos e influencia todo um importante grupo de alunos que desenvolve um trabalho fortemente inspirado na fertilidade do seu pensamento. como os evolucionistas que tão pouco relativizaram. Tudo isto vai. exorcizando o fantasma do etnocentrismo de dentro da disciplina. didática e evolucionista. têm maior valor pela posição dos jogadores e a criatividade dos lances. nesta explicação. curioso. hoje. confusa e rapidamente. até hoje. certinha. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 16 . Deveria. Desde os momentos “primitivos” do etnocentrismo aos momentos “civilizados” da relativização. com tudo se encaixando no seu lugar devido. Gênio inquieto. Escolhidos os campos. falar de um jogo – o jogo da Antropologia – onde as jogadas. dos cotidianos da sociedade ocidental. O século XX traz para a Antropologia um conjunto vasto e complexo de novas idéias formuladas por um grupo brilhante de pesquisadores. muito pouco saiu das fronteiras do conhecimento produzido pela Antropologia. normalzinha. acompanhando o etnocentrismo dentro da nossa ciência do “outro”. como passagem linear dos acontecimentos. Explicar o avanço da Antropologia em direção à superação do etnocentrismo procedendo. muitas conquistas. assim como outras tantas noções tão fundamentais à sociedade do “eu”. Melhor dizendo. feito de causa e conseqüência. paulatinamente. a ordem de um tempo linear. fazer tal como fizeram os evolucionistas. E agora? Me prendi num paradoxo.O PASSAPORTE Agora tudo começa a acontecer muito rica. felizmente. A ordem “natural” em que eu devo explicar estas conquistas é. É bem verdade que. dentro da disciplina que estuda a diferença. Mas. procurou investigar muitas áreas do conhecimento humanístico dando toques de primeira linha em inventiva e criatividade. ________________________________________________ Everardo P. instigante. por uma questão de clareza. com um fato atrás do outro. Relativizar é uma palavra que. assim como a noção ocidental de indivíduo. uma coisa resultando na outra. no início do século. Assim. O mais interessante é que a própria Antropologia vai ser capaz de relativizar a noção ocidental de tempo. em suma.

o resultado disso só podia ser um: tudo passa a ser infinitamente mais complicado no estudo das culturas humanas. odeiam qualquer possibilidade de relativização. a Antropologia se transforma substancialmente. a partir de suas condições históricas. que relativiza as já bem estabelecidas noções evolucionistas. climáticas. O esforço de relativizar problematiza qualquer “saber”. Esta complexificação é quase sempre fecunda. deixa os estilhaços como possibilidades a serem exploradas. no pensamento evolucionista. pois é verdadeiro que o caminho de um pensamento que se quer científico é percorrido nesta justa medida. essa pluralidade de culturas diferentes. passam a se contrapor. Assim. as idéias de cultura e história também se modificam. O interesse do seu pensamento se manifesta mais em levantar hipóteses novas do que em torná-las sistematicamente formuladas. instigante. uma determinada cultura que se caracterizava. neste processo de fuga ao etnocentrismo. por ser única. torná-la como um conteúdo evidente do seu trabalho. características até então insuspeitáveis. nuanças. como absoluta e. Franz Boas criou a sua revolução. É claro. no seu lugar. então.Com Boas. da absolutização da cultura do “eu”. complexas enfim. do “eu”. No caso. O conceito de cultura não fica nitidamente cristalizado no seu trabalho. Nesta transformação. mas não um novo bolo de idéias superorganizadas. se lança de frente para a complexidade. Passam a apresentar aspectos. organizava toda uma classificação das culturas do “outro”. e ainda bem. a articulação destas idéias era um dos eixos da forma de pensar o “outro” dentro do evolucionismo. seja um pouco paradoxal.. Foi ele o primeiro a perceber a importância de estudar as culturas humanas nos seus particulares. Cada grupo produzia. ele também se relativiza. refratárias a estas explicações. Mas. se compararmos. etc. por não serem mais de um só tipo. Tornam-se mais difíceis. a alguém que fizesse uma “história das idéias” antropológicas. que acontece na Antropologia pela mão de Franz Boas. a Antropologia cresce e se transforma muito com isto. a partir de seus padrões. soluções e perguntas. lingüísticas. ________________________________________________ Everardo P. ampliou conhecimentos e enriqueceu enfoques através dos quais as diversas culturas do “outro” passaram a ser percebidas e estudadas. esta relativização. Boas não organizou e apresentou para a posteridade uma teoria da cultura que permitisse. faz com que seu papel. De qualquer forma. inquieto. É parecido com o de alguém que estilhaça um bolo de idéias superorganizadas como o evolucionismo e. a necessitarem de refinamento maior no seu debate. Toda vez que um campo de conhecimento se abre. Era um homem de deixar pistas férteis. em especial as extremadas. Em outras palavras. As ideologias. O grande passo que parece estar vinculado ao trabalho de Boas é o de iniciar uma reflexão que veio a relativizar o conceito de cultura. Elas são centradas em seu próprio monólogo e a descentralização quebra sua auto-referência abrindo espaço a uma multiplicidade de pontos de vista. suas idéias e seus alunos. Este relativismo cultural. As possibilidades de explicação. uma ruptura importante do centramento. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 17 . com interesses demasiadamente múltiplos para se conter num conjunto de idéias bem arrumadas e acabadas. visto por Boas é. Num programa onde o evolucionismo tomava a cultura ocidental. específica. as culturas humanas emergem da classificação evolucionista pura e simples que literalmente explode. Como vimos.

se transforma. um clássico da Antropologia brasileira. ora com as línguas por eles faladas. Todas estas idéias. pistas. Assim. privadas. era minúsculo. Os alunos de Boas levam adiante seu pensamento. Aqui. na observação de universos microscópicos. Organização Social e. suas sutilezas. etc. peculiares. o leitor de Casa Grande & Senzala. Vai aprender que a Antropologia Social se faz. inapelavelmente. com estes alunos. grandiloqüentes que pelas suas manifestações descontraídas. Não havia uma única história que se acumulava. Vai ver que a Antropologia conhece uma cultura menos pelas suas manifestações oficiais. vai ________________________________________________ Everardo P. vai se reconhecer no detalhe. ou melhor. Do etnocentrismo à relativização. as fronteiras do próprio campo de onde partiu. ora com os indivíduos – corpo e espírito – que criam estas culturas. Enfatiza os processos de mudança. Folclore. é reencontrada diferentemente adiante. Mas. na microscopia. no cotidiano. como conseqüência de um pensamento tão fértil. com ele. em larga medida. geral. Vamos acompanhar mais um pouco este importante caminho de fuga ao etnocentrismo tal como aconteceu na escola americana. para o mundo do “outro”. relativizações e complexidades. em toda parte. Vai aprender o quanto se pode revelar da cultura brasileira a partir de um sistemático interesse pelo que os brasileiros fazem e pensam para criar um tipo de existência e uma forma particular de ser na vida que faz desta uma cultura única. ora com o ambiente que envolve o grupo. os parâmetros. de alguma maneira. em diferentes planos e estratégias.Nessa linha. plurais) vão ser vistas como relacionadas. particular de cada cultura ao invés de. enfim conhecer um grande livro. agora. como o evolucionismo. Migrações. Geografia. Lingüística. pelo estudo meticuloso do detalhe da prática social. onde teriam de caber todas as culturas. pela análise de pequenos quadros do cotidiano. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 18 . em direção à sociedade do “eu”. em direções distintas. se ancoravam nos escritos e nos projetos de Boas. nisto tudo. O “outro” também passa a poder contar sua história que não iria desembocar. saiu pesquisando sobre nada mais nada menos que: Antropologia Física. a idéia de cultura se renova. singular. avançamos algumas décadas a caminho do final da primeira metade do século XX. Quem ler Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre. de troca e empréstimo cultural como capazes de repercutir nos caminhos trilhados por cada cultura humana. se afinal acabaram por não expressar uma nítida “teoria” da cultura ao menos expressaram a riqueza de uma reflexão que assumiu os riscos de relativizar os limites. toda uma geração de antropólogos vai ser influenciada e vai desenvolver. Em certos momentos. o seu “H” maiúsculo tão fundamental aos evolucionistas. O “h”. Vai. sentir uma oscilação na forma pela qual a cultura brasileira como um todo é explicada. definitivamente. na “avançada” sociedade do “eu”. necessariamente. A categoria de história perdia. Vai se sentir ali como brasileiro. a Antropologia dá andamento ao jogo entre o “eu” – que faz Antropologia – e o “outro” – que cada vez mais pode nela intervir. ter uma história única. recebem influências de outras idéias que já nasciam na Europa e mantêm bem vivo o jogo da Antropologia. também. Na inquietação e curiosidade do seu pensamento a cultura humana. foge. Preocupado com o estudo da história concreta. as diversas culturas humanas (para Boas elas eram diferentes. vai aprender muita coisa sobre a cultura brasileira. toques e intuições que. Sem seguir cronologias rígidas voltaremos depois a outras importantes reviravoltas que aconteciam na Europa. voltou-se. públicas. vai.

Todos sabíamos que as aulas batiam com o horário das transmissões televisivas dos jogos. onde foram escritos e editados. agitou e renovou dentro da Antropologia. Um grupo de alunos parte. que não só produziu boa Antropologia como também best-sellers. Começarei pela escola personalidade e cultura. segundo sua própria lógica. a relativizam por colocar elementos próprios à vida do povo que produz essa cultura como chave para seu entendimento. por exemplo. mais e mais a Antropologia escapava ao etnocentrismo e relativizava. São. pois. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 19 . traços e elementos culturais se misturando para formarem a brasilidade. ecológico. Todos estávamos. como professor do segundo grau de um famoso colégio do Rio de Janeiro. buscando aí explicação para a cultura e a história das sociedades humanas. comparando ao evolucionismo. da personalidade à família. É a famosa escola personalidade e cultura. para investigar a relação ente a cultura e o ambiente – geográfico. onde foram traduzidos. dois motivos. Ruth Benedict e Margaret Mead. Vamos examiná-los um pouco mais de perto. Em suma. visões da cultura que. O primeiro é esta oscilação e criatividade que Gilberto Freyre tão bem captou de seu professor. Estes grupos são muito importantes. vai achar que ela se explica pelas raças e pela personalidade dos povos que a formaram. são estudos que começam a fugir do etnocentrismo por conseguirem ver que o ambiente onde vive uma sociedade deve ser. esta corrente de pensamento que tanto sucesso fez extrapolando até o mundo acadêmico e sendo lida por muita gente? Vou dar um exemplo da sua penetração e tentar explicar rapidamente seus fundamentos. físico –.achar que a cultura brasileira pode ser explicada pelo clima. pelo menos três e até talvez mais grupos de alunos desenvolveram e exploraram algumas das idéias principais lançadas como sementes pelos trabalhos do professor. Um segundo parte para relacionar a mentalidade. O segundo é pela incrível capacidade de Boas para a formação de grandes alunos que perpetuaram suas visões da cultura humana e do fazer da Antropologia. a psicologia dos indivíduos com a cultura por eles vivida. características. através deles. Assim. difusão. Vai ouvir falar de trocas. enfim. tudo aparece e tem seu espaço numa hesitação e num arrojo típicos do grande aluno de Franz Boas que foi Gilberto Freyre. Um terceiro grupo investiga as relações entre linguagem e cultura. do povo à raça. Estava trabalhando. venderam muitos livros nos Estados Unidos. Em outras palavras. O “outro” já era olhado com a preocupação de entendê-lo segundo seus próprios problemas. ________________________________________________ Everardo P. dois dos seus nomes mais famosos. geografia e ambiente. fator importante para explicar sua cultura. instigou. Casa Grande & Senzala tem muito a ver com Boas por. o que é. Mas. e no resto do mundo. Em outros. às vésperas da copa do mundo de futebol. Ainda poderá achar que é a língua que aqui se fala a chave para entender a cultura. Da língua à geografia. pois. Comparou a sociedade americana com sociedades tribais fazendo um trabalho de ida ao “outro” e volta ao “eu”. Estabeleceu fértil diálogo com as teorias produzidas pela Psicologia. na verdade. pelo menos. Foi uma escola que relativizou e muito.

de fato uma velha e importantíssima professora. a “coloração”. conversando com colegas. A nossa querida professora talvez não tivesse se dado conta do tipo de terminologia (caráter. grosso modo. Mas nós apoiamos veementemente suas palavras que. Assim. traduzidas em termos de superioridade e inferioridade – hipóteses evolucionistas – também encontramos. o seu destino popular por assim dizer. Nem tanto pela “matação” de aula. Tanto jogar quanto assistir. temperamento. A cultura marca as características que quer nos indivíduos ali formados – como se pode ou não se pode ser – e ela mesma se torna função do temperamento e da personalidade dos seus membros. Quando falou todos pararam para ouvi-la. não raro. Neste espírito. começaram a agitar um abaixo-assinado à direção pedindo a suspensão das aulas durante os jogos do Brasil. Disse que era muito difícil manter as aulas. então. a abertura da Copa. futebol é muito importante para mim. mas porque.portanto. agradeci. os importantes para o Brasil. Quando acabou o primeiro tempo e já ia começar o segundo. A cultura marca e é marcada. com problemas. Era. quando o diretor da escola entra assumindo ares indignados. o “feitio” que a cultura vai adquirir. no caso. diretora. personalidade) que estava utilizando. vai ser definida pelo padrão de características sistematicamente impressas nas personalidades individuais. estava torcendo muito pelo sucesso da reivindicação. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 20 . constrangidos. A cultura. A primeira seria a de instalar um profundo diálogo entre Antropologia e Psicologia. os clássicos entre outras seleções. pois a copa do mundo era tão importante no país que ninguém iria mesmo comparecer à escola. pois fazia parte integrante do caráter e do temperamento nacional. O conjunto das personalidades assim marcadas dá o “tom”. Algumas características dos indivíduos. quase sempre a principal força renovadora de uma escola. E fechou brilhantemente sua intervenção concluindo que o futebol era um fato tão incorporado à personalidade brasileira que a mobilização em torno de uma copa do mundo era inevitável. Como se a cultura fizesse a escolha daquilo que iria minimizar. caráter. duas são as principais marcas desta escola. salvaram nossa copa do mundo. mentalmente. me encontrava na sala dos professores. estabelecer a relação entre a cultura e as personalidades individuais. Eu. a eficácia dos argumentos da escola personalidade e cultura que permitiu esta rápida e persuasiva análise do futebol como fato cultural no Brasil. e sua biografia se fundia com a história do colégio. A idéia central da escola é. da sua personalidade teriam um “valor” – positivo ou negativo – para a cultura que o incentivaria ou reprimiria. particularmente. acentuar ou ignorar nas vidas humanas. durante o recreio.. Os alunos. temperamento – hipóteses da escola personalidade e cultura. discutindo as formas de interação entre indivíduo e sociedade. Indivíduo e cultura se ________________________________________________ Everardo P. Começa a deitar falação sobre o abaixo-assinado (era contra) dizendo que a “educação não poderia parar por causa de partidas de futebol” e outras jóias do pensamento como esta. realmente. A segunda marca seria a incrível penetração conseguida pela escola. freqüentemente. etc. Todos. foi interrompido pela voz fina porém firme e decidida de uma velha professora. Eu. etc. as diferenças vistas como questão de personalidade. ouvíamos. Da mesma forma como as diferenças entre as culturas humanas são. Fora fundadora da escola. particularmente interessado em Antropologia.

As idéias de personalidade e temperamento são como fatores capazes de determinar a base normativa da cultura. Se a escola personalidade e cultura instaurou um criativo debate entre Antropologia e Psicologia. A importância e a atualidade deste grupo está em ter dado muita substância e base para uma série de estudos de lingüística e comunicação que procuraram relacionar. recortando formas diversas ao se chocarem com a água. este professor está tocando no vínculo entre cultura. exatamente. explicar o todo – a cultura – por uma de suas partes. Ele está. Um dos problemas maiores desta corrente de pensamento. no caso. a cultura. Outro problema é a dificuldade de trabalhar o complicadíssimo conceito de personalidade com o complicadíssimo conceito de cultura. industriais. para aqueles que a falam. segundo aquilo que ela elaborou como significativo. Quando um professor de língua estrangeira nos alerta para que não tentemos “traduzir” o que vamos falar. a personalidade. Neste grupo estava o antropólogo e lingüista Edward Sapir. por outro. Ou seja. Cada rede. de dar sentido diverso à “lógica” da apreensão da realidade que nos cerca. pois. As redes batem n’água e formam desenhos diferentes. também particular. por um lado. Cada língua. Imaginemos que a realidade fosse como um mar. por exemplo. que procurou pensar. dizendo que aprender uma língua estrangeira é aprender uma outra maneira de ver o mundo. contemporâneas. e. A idéia básica que vincula as relações entre cultura e linguagem é uma idéia complexa e abstrata. ao se deparar com a realidade a transforma em algo. Explicar a primeira pela segunda era o projeto. o fator determinante que organiza sua visão do mundo que os cerca. como de resto dos demais grupos que desenvolveram as idéias de Boas. para que não pensemos na nossa língua. é aquilo que chamamos “reducionismo”. A língua substanciaria a realidade e. têm como projeto fazer a junção entre a língua. Os problemas levantados por este grupo. o emprego da linguagem e as diferenças de classes sociais nas chamadas sociedades complexas. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 21 . As idéias deste grupo muito contribuíram para o avanço de disciplinas como a sociolingüística e a etnolingüística. Ambas são disciplinas que. Neste mar cada língua lança uma rede de pesca como se fossem pescadores do alto dos barcos. a partir de Boas. a língua. as relações entre cultura e linguagem.influenciam mutuamente. modelaria a ordem cultural. tocaram bem fundo questões seriíssimas para o ________________________________________________ Everardo P. difícil e extremamente interessante. como um véu que faz a mediação entre a cultura e o mundo da realidade. ainda mais usando um para explicar o outro e o outro para explicar o um. a dificuldade de explicar alguma coisa que contém várias outras a partir de uma única das coisas contidas. visto por muitos como o mais brilhante dentre os alunos de Boas. o transforma em algo particular segundo aquilo que nele se desenhou. de certa forma. Assim. Melhor dizendo. O mesmo problema – o “reducionismo” – se dá com o grupo que seguiu a pista de relacionar a cultura com a linguagem. Vamos tentar pensá-la juntos. ao se chocar com o mar. de um grupo que encarava a cultura privilegiando a língua nela falada como o instrumento determinante para o seu entendimento. pensamento e linguagem. o grupo étnico ou a sociedade. a estrutura própria de uma língua qualquer é. mas que procuremos estruturar nosso pensamento já na língua que estamos aprendendo. É. o grupo cultura e linguagem buscou no debate entre a Antropologia e a Lingüística a principal fonte de seu pensamento. para eles.

Em segundo lugar. enquanto isso tudo de que falamos se passava. já fomos longe demais. das terapias e investigá-las mais a fundo é uma tarefa imensa e fascinante. Vamos ver um pouco do que se fez por lá nas primeiras décadas do século. o desenvolvimento de uma Antropologia inquieta. para a ordem cultural. como uma história de “h” minúsculo. Ali costuravam-se. pois nos leva a abrir mão das “certezas” etnocêntricas em nome de dúvidas e questões que obrigam a pensar novos sentidos para a compreensão da sociedade do “eu” e da sociedade do “outro”. os mais importantes movimentos de relativização dentro da disciplina. de específico. Este grupo é encabeçado por um antropólogo chamado Julien Steward. Estamos aqui tratando de etnocentrismo. também diversamente. à natureza dos símbolos. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 22 . talvez. o jogo da Antropologia do século XX tramava na Europa novas e fascinantes jogadas. Mas. tem no guia Franz Boas alguém capaz de nos deixar grandes lições. Um terceiro e também importante grupo de alunos de Boas partiu para relacionar a cultura e o ambiente. Nesta visão da cultura entram em cena problemas como a tecnologia empregada no meio ambiente. uma concepção da história pluralizada. A importância deste grupo é a de ter colocado questões de equilíbrio.entendimento do ser humano. estilhaçada. A cultura passa a ser como que uma resposta possível e adequada ao meio onde se estabelece. atenta. Mas. pósevolucionista. Os elementos culturais terão nos ecológicos. Relativizar é sempre mais complicado. A importância desta viagem que faço com vocês por algumas paragens do continente da Antropologia está em que ao se perceber a complexificação e a densidade cada vez maior destas paisagens percebemos também que ela significa relativizar. Existe uma interação onde elementos de ordem ecológica constrangem. tornam-se precondição. pistas. Finalmente. o seu determinante fundamental para a mudança. no meio. intuições de formas de estudo da cultura e da história humana poderiam ser vistas como devedoras do trabalho e da abertura de pensamento propiciada por Boas. da filosofia. e na França o etnocentrismo ia cedendo espaços. Ainda outras linhas. no ambiente. Questões ligadas aos significados das coisas. os modelos de comportamento e exploração de uma área ecológica e a busca de equilíbrio entre a esfera ambiental e a cultural. Aqui fica pressuposta a noção de que o ambiente é o fator determinante que restringe as opções culturais. de muitas maneiras. de cada cultura humana no que esta tinha de seu. servir para dimensionar a própria sociedade do “eu”. o perfil das culturas. uma concepção de cultura que não colocou a cultura do “eu” como centro. preservação e mútua dependência entre as culturas e destas com o ambiente onde se erigem. o “outro” começa a deixar de ser um simples retrato dos momentos primitivos do “eu” e passa a ocupar um lugar mais destacado como algo que transforma a teoria antropológica e pode. se criando e se transformando pelo enfrentamento do risco que significa estudar a diferença. Relativizando com ele temos: em primeiro lugar. ________________________________________________ Everardo P. humilde e propondo diálogos com outras disciplinas em volta. mas que procurou ver que fatores diversos determinavam. Na Inglaterra. Assim. do etnocentrismo à relativização. aos códigos por nós empregados e muitas outras nesta linha se encontram na ordem do dia de diversas disciplinas das ciências humanas. Nosso “turismo antropológico”. numa espécie de jogo de readaptações e respostas.

desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. de cada cultura particular. no entanto. Malinowski. no entanto. cenários. uma idêntica concepção da natureza da história. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. troca e empréstimo que as caracterizariam. Radcliffe-Brown discordou desta vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. O presente não precisava ser ________________________________________________ Everardo P. para o crescimento. contribuiu. Para estes dois movimentos uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. Todos eles tinham personalidades peculiares. via de regra. a sua maneira. permanece como tema de importância central no estudo da cultura para as duas escolas. A história. É uma história com “h” minúsculo. que a hipótese evolucionista criava. de Adão e Eva ao Juízo Final. Durkheim. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. dessa maneira. era como uma escada onde cada sociedade acumularia “progresso”. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. para a maturidade e complexidade da disciplina e. o que nos interessa mais de perto. os processos próprios de mudança. nos dois movimentos. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. juntamente com Boas. o da “evolução”. que era o do “progresso”. cada uma a sua maneira. Por outro lado. Não se pode dizer. e muito. Todos os três. Radcliffe-Brown são pesos pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 23 . O longo caminho da história. Como se. Alguns nomes fundamentais para a vida da disciplina fazem sua entrada aqui.VOANDO ALTO Diferentes atores. controvertidas. era uma única para toda a humanidade. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. enredo. todos caminhassem num mesmo sentido. Cada um. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. São importantes ao ponto de ninguém poder deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. específica. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. interessantes. demonstravam a permanência de um tema. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX.

não concordou Radcliffe-Brown. A sincronia. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. como ________________________________________________ Everardo P. para o historicista. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. antes de tudo. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. por seu turno. Ao fazer esta opção a Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado desta sociedade. Sim. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. torres. Em termos mais técnicos a sincronia – presente – não está submetida à diacronia – história.. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. se interessa pelas posições. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. Passando para a análise das culturas humanas. veremos que a preocupação com a história é. faríamos uma análise diacrônica. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. Se. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. nem entre estes e o evolucionismo. da “diferença”. seja ele difusionista ou evolucionista. das posições das peças no vigésimo movimento.necessariamente explicado pelo passado. se pensarmos bem. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. especulativa. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. feito de acontecimentos sucessivos. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. bispos. duas seriam as visões possíveis desta partida. forças e significados internos a este movimento. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. histórico. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. a discussão realmente importante. por eles. estabelece seu conhecimento do vigésimo. etc. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. O verdadeiro ponto de ruptura. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 24 . aí. desde o primeiro até o vigésimo. A nossa sociedade. neste sentido. A Antropologia. estaríamos analisando sincronicamente. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. Mais simplesmente. definitivamente. a sociedade do “eu”. para fora do etnocentrismo. O funcionalismo. dos valores atuais dos peões. Com isto. diferentemente. Para ele a história conjetural. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura.

é um processo: o “processo social”. a da “estrutura social”. o coração. se obriga. ao certo. mais relativa. tem a vida como um fluxo permanente que habita este corpo. ao menos. por exemplo. possui uma estrutura composta de ossos. Em primeiro lugar. “estrutura” e “função”. que nem sempre poderia ser lá encontrada. descrita. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. Este organismo. é importante que se saiba o que. dentro desta imensa diversidade de fatos do “processo social”. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. Este. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. Transportava termos das Ciências Naturais e.que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção do tempo. tão a seu gosto. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo permanente. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 25 . A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. por analogia. serve para explicar o conceito de “função e sua relação com “processo” e “estrutura”. o processo vital. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. Comparava o sistema social ao corpo humano. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. recorrentes. A vida caracteriza um constante processo. e uma preocupação com ele. repetitivas. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. mais complexa. tecidos. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. Com isto. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. de ter na hierarquia sua regra número um. os aplicava ao estudo da sociedade humana. Nesta linha. Dentro do “processo social” a constância de determinados tipos de relação – a disposição de pessoas num certo número de famílias. Uma de tais analogias. das ações. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. como um organismo complexo que é. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. Por outro lado. por exemplo – aponta uma outra dimensão. observada. dá outras dimensões à Antropologia. o que a levava. como já disse. inexoravelmente para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. agora. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. Radcliffe-Brown. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. por mais míope que seja. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. como no evolucionismo. Assim. desempenha a função de bombear ________________________________________________ Everardo P. com seu corte teórico. fluidos. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. Nela as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. Para ele. Assim. podemos perceber a e existência de formas regulares. etc. É neste quadro. A realidade concreta a ser estudada. E. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. É o caso de noções como “processo”. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade o estudioso. por sua vez. se constituía no objeto antropológico por excelência.

é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. o superior pelo inferior. Se parar de executá-la. em diferentes momentos e de várias formas. Na sociedade. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. O antropólogo. fazendo “trabalho de campo” no mundo do “outro”. um tema aparece e se repete. Contando. ao colocar novas questões em jogo. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. Isto significou que. onde outras instituições terão. muito mais complexas. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. E.o sangue através do corpo. para a Antropologia e para o processo de relativização. conseqüentemente teve de procurar. Um outro nó. principalmente. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. Antes. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. por períodos significativos de tempo. pagou o preço de uma forte relativização. além de mais amplas. livre para estudar a sincronia. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. experimentando-se a si próprio como diferente. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. novos instrumentos para pensá-las. Se estas funções forem suprimidas aquela sociedade se transformará numa outra diferente. Conhecer a diferença. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. ________________________________________________ Everardo P. A sociedade não morreria. Qualquer estudante da vasta. tem de viajar. A Antropologia. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 26 . Mas. outras “funções” cruciais. produzido na sociedade do “eu”. então. Tem de ir morar. sutis. atacada numa função básica. o complexo pelo simples. enquanto estrutura viva também desaparece. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. Espero que ele me perdoe. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. histórico. Neste sentido. com instrumentos teóricos que eram criados. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. um outro lado do laço. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. na questão do etnocentrismo e de sua superação. experimentar a existência junto ao “outro”. obrigado a estudos sincrônicos. aqui procuro apenas demonstrar que. na produção teórica. mas seus projetos tinham rumos diversos. por seu turno. por estar. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. vai ser desatado por Émile Durkheim. termina o processo vital e a estrutura orgânica. me parece. e não menos importante para a autonomia antropológica. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. mas. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”.

Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. De repente. demonstrar que o fato social coage. Alguém mais – ________________________________________________ Everardo P. principalmente.Os fatos sociais são externos. A nós. Na definição do fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social – diante de explicações. independente das manifestações individuais que possa ter”. Ninguém. novamente. intitulado “Que é Fato Social”. em primeiro lugar. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. independente do indivíduo. no sentido de sua concretude que independe da natureza. apresentando uma existência própria. ou então ainda. Em segundo lugar. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer uma certa atitude mental. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. autônomos. Aqui. É. parece tudo muito simples e óbvio. Em outras palavras. ele é externo ao querer e ao poder do indivíduo. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir fixa ou não. uma “coisa” que ultrapassa a cada um. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. Com isto. assim. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. Possui força autônoma. que é geral na extensão de uma sociedade dada. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. outro. que independe do indivíduo. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. Explicando melhor vou utilizar o próprio Durkheim que. por todos e para todos. Fatos sociais são dotados de uma sóciológica. Na verdade. O fato social é. o fato social pressiona o indivíduo. (2) extenso e (3) externo. o fato social se estende por todo o grupamento onde ele acontece. pode dele se ausentar. mas também se afirma como entidade autônoma. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. Com isto ele queria. O social tem seu próprio caminho. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 27 . o fato social. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. São “coisas” porque autônomos. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. alguém – RadcliffeBrown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. para além das manifestações individuais. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. Acompanhando esta definição vemos que o fato social é (1) coercitivo. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. E. independente e própria. São “coisas”. São “coisas” no sentido de apresentarem propriedades que os marcam como algo fora das consciências individuais. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. na sincronia. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. Em terceiro lugar.

As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Este é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. para os parceiros. profundo. no repto lançado pela experimentação do relativismo.” Imaginou-se? Pois é. aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. no fim de cada ciclo. a ser traçado. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. Malinowski foi nosso grande viajante. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. eis aí! Está inaugurado. viajar ao “outro”. agora. e os colares. são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. Malinowski dedicou-se. entre outras tarefas. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. no intrincado bolo do saber. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. de um enfrentamento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. Os braceletes. O ideal é que. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 28 . E. É. neste contato com a “diferença”. Estas conquistas que podem parecer. A “diferença” cara a cara. escolhidos de antemão. pela primeira vez. o “outro” com todos os seus desafios. assim. rodeado apenas pelo seu equipamento. um longo esforço de relativização. neste processo. Mas. Um argonauta era um tripulante de Argo. evidentes em si mesmas. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados. “Imagine-se o leitor sozinho. de conchas vermelhas. uma nave lendária na mitologia.Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. ________________________________________________ Everardo P. a força da passagem realizada por Malinowski é a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Com Malinowski. Qualquer um que. no entanto. a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. à primeira vista. numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa. exigiram. vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista. na Antropologia. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. No circuito do Kula trocavam-se braceletes e colares que. feitos de conchas brancas. nas ilhas circunvizinhas. também. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. ao estudo de uma “festa”. tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Para a Antropologia. eram plenos de valor e significado. Lá. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Para Malinowski.

procurando o sentido dos objetos do Kula. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. ________________________________________________ Everardo P. O importante. Idéias. comparando com relativismo. Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Ele mesmo. nas duas culturas. na nossa sociedade do “eu”. Do etnocentrismo à relativização a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. O “outro” é. mas pela sua posse pura e simples. cada vez mais. dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Esquematicamente falando. da própria sociedade do “eu”. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 29 . o trabalho de campo. Resta agora confirmar esta perspectiva. ousou sempre. Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. o vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”. belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas. que mais caracterizavam o Kula. é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais. a “diferença” feita alternativa possível de existência. métodos. similares que podem ser comparados. observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. dos seus amigos nativos. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos. pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. ele vê que estes objetos possuem. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. Com os vôos altos de Durkheim. a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandese versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. A comparação relativizadora. finalmente. Neste momento. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obriga a ida na direção do “outro”. Nisto. qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem. todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível. Passos gigantescos nesta disciplina que. Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir. uma fonte possível de reflexão. não eram comerciais. fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Acompanhando Malinowski. de transformação até. eles valem pela glória. a cada momento. aponta um caminho fundamental: o “outro” é. também. A comparação relativizadora. teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores. Visitando o castelo de Edimburgo.Como estas transações. de onde consegue.

estando ele na porta da rua. chance. A própria opção de ser o estudo do “outro”. a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo. Acho que a Antropologia sempre soube. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. à flor da pele. ainda. de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto. já atesta. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor. acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. essa questão do etnocentrismo. que são. o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso. É alternativa. ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France. sua palestra falando do “outro”. mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Claude Lévi-Strauss estava nascendo.A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos dos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Diz-se. de um campo de conhecimento. fundadores e pioneiros da disciplina. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia. “discípulo e testemunha”. algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. são para lembrar que destes “outros” gostaria de ser. Possui. nesta aula. e suas últimas palavras. Com ele iriam nascer. de alguma forma. para ele. independente. Encerrou. abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. com a ideologia da conquista. seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. merecedores de muita ternura. pode ter observado a existência constante de uma tentativa. entre nós. a força fundamental. Cerca de cinqüenta anos depois. Trata-se de escapar ao etnocentrismo. Tratase. No caso. porém. mas como alternativa a ser preservada. não como ameaça a ser destruída. de toda evidência. quase um compromisso. Assim. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 30 . Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. sempre soube. com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. mesmo em seus momentos mais distantes. Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”. Mas. no caso particular da nossa sociedade ocidental. de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. aliados poderosos. ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência. leitor. faria uma homenagem a todos os grandes mestres. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você. devedor do que aprendeu com eles. a “diferença” é generosa. que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central. também. ________________________________________________ Everardo P. acredito. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia. ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras. que conhecer a diferença. com o desejo da riqueza.

Economia de subsistência se traduz. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. estudando a vida destas sociedades. em larga medida. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. uma outra – a deles –. como uma experiência da diversidade. norma constante. ou melhor. as sociedades tribais. os índios. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. foram vistas como tendo uma economia de subsistência. que podem transformar a teoria antropológica. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. mas porque não querem. Três ou quatro horas por dia. um professor americano. antropólogo Marshall Sahlins. Por exemplo. me parece. neste sentido. a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. Mas. Este paradoxo levou. será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. Assim. de reflexão. para pensar o mundo do “outro”. muito pouco tempo é dedicado a atividades econômicas. Ora. sobrevivência ou miséria. uma máquina produtiva que.Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. seria necessariamente pobre e miserável. comparando. colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro”. em economia de sobrevivência ou. Isto se torna possível. nelas. dados obtidos pelo trabalho de campo. modelo. muitas vezes. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. durante muito tempo os primitivos. que não pratica esta acumulação. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 31 . O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência. na verdade. na vida concreta dos antropólogos. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente as necessidades do grupo. comportamentos e idéias do mundo do “eu”. ________________________________________________ Everardo P. de miséria. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. seria o óbvio. a Antropologia a ter como parâmetro. porque fizeram uma opção diferente. conjugado. como menos etnocentricamente convém chamá-las. preso a uma determinada visão da história humana. Mas. nascida e criada na sociedade do “eu” com vistas ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência na terra. os costumes. pelo trabalho de campo. mais diretamente. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Isto. Isto. o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico. Muito pelo contrário. é perceber o “outro” na sua autonomia. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. comprova que. pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte.

Assim. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. A visão de cultura como itens corresponde a da história como trajetória única. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. Quando este conceito. encaixada com os conceitos de cultura. como capaz de explicá-la inteiramente. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença concretamente existente numa única. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. a definição de história era legitimada. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. porque evoluí. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as ________________________________________________ Everardo P. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. se tornava mais “verdadeira”. quando havia uma determinada visão da cultura. a complicação se tornou ainda maior. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. ou melhor. A esta visão de história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que seriam o sentido da vida em qualquer lugar. também particular. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. ou pela linguagem. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. É um passado pelo qual já passei. ou pelo ambiente. Ainda assim. Com o evolucionismo tudo isto fica muito nítido. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa toda parece menos etnocêntrica. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. Numa palavra: o “diferente”. mais que isto. o “outro” é atrasado. Parece que. esta forma de ver a passagem do tempo. qualquer que seja. sua contraparte. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. na verdade. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. Ainda mais. então. grande e completa explicação. É. mas ainda bastante problemática. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 32 . vice-versa. em vários momentos da teoria antropológica. ou pelo indivíduo. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. Lembram-se das aulas de História? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. ou seja. são reciprocamente definíveis. A cultura vai ser entendida como moldada. numa idéia de história. de trajetórias distintas. Do momento em que se privilegia um lado da cultura.Isto se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. E. progredi. Outra vez os dois conceitos se conjugam. no fundo está-se fazendo uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. foi.

da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é nem absoluta nem universal. pode passar a ser questionado. sendo parte dela. ele demonstra. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. É o próprio Lévi-Strauss quem. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. Você. Por incrível que possa parecer. experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. assim. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. Assim. Neste questionamento. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. o coração por assim dizer. Passamos. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. Colocava-se. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 33 . Antes.suas diversidades. pois. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura toma uma força extraordinária e se desprende da História. totalizador das “diferenças”. tudo se relativiza. através dela. leitor. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. Este é o último capítulo do livro. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. para conhecê-la. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. Para elas. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-Strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. Nesta perspectiva. histórico. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. o conceito de tempo linear. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. No plano teórico. Com Durkheim. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. simplesmente. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. Em outras palavras. se sente fazendo história. nos capítulos anteriores. Ou seja. também. o tempo e a sua passagem não é a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. É. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamados ________________________________________________ Everardo P.

No entanto. enfim. Talvez isto possa parecer extremamente complexo. do antropólogo americano Clifford Geertz. O mundo muda. tal como para nós. de uma redefinição de seu papel como ciência. os trobriandeses estão aí vivos. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. desdobrar-se. na medida em que esta concepção de tempo nos exige que relativizemos a nossa. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. Mas. Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 34 . outro no chão. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. um jogo de espelhos. diz ele. até mesmo. Em termos mais simples. estudada por Malinowski. Aniquila experiências sociais e propõe novos projetos de viver. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. estranho e ininteligível até. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. nosso tempo. mas de maneira errada. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. tentando explicar poeticamente. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. É. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. sua existência. a unidade. pensado e vivido como descontinuidade. pensam o seu mundo. o fluxo. tipo causa e conseqüência. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. fixa de maneira ________________________________________________ Everardo P. que são como dois momentos fixos. mas. à qual nos referimos no capítulo anterior. Esse tempo se contrapõe. destrói sociedades. de relativizar. para um Apinayé. Um no céu. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como este “outro” experimenta a vida. O tempo não é. Para um Apinayé. Dá para sentir. o tempo é sentido. o quanto é difícil o processo de relativização. nossa existência. Mais fácil. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. o que se quer saber é como os Apinayé. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. pelo trabalho de Malinowski. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência de tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. seu tempo. cria outras. métodos e. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir.Apinayés. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. no caso. A Antropologia. E é mesmo. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. não existem mais. uma linearidade ininterrupta. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” –. foram realizados pela Antropologia. um fluxo. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. ao contrário.

Este código é a cultura. sentidos. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. Para se pensar o fenômeno da cultura. livrou-se. Pode também ser vista como uma teia. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. Assim. sua “morte”. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. então. Cada um de nós. como que mapas. A cultura. se quisermos. Nesse sentido. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. As culturas são “versões” da vida. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. imposições. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos.recuperável as existências que se esvaem. seja ao seu “tempo”. Em termos mais precisos. o que pensamos e fazemos. cada cultura atribui significados. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. enfatizando sua dimensão interpretativa. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. um conhecimento ou. pela qual “falamos” uns com os outros. que seria a própria cultura de determinada sociedade. Melhor dizendo. a cultura “fala” da existência. por assim dizer. trocamos mensagens. enquanto ator social. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. mas das interpretações relativas. tanto humilde quanto generosa. nessa linha. teias. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. ________________________________________________ Everardo P. O que faz. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. classificar e praticar sua experiência. escolhas de uma “política” dos significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. sua “sexualidade”. destinos próprios. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 35 . guardar. Tal como um código. enfim. utilizando símbolos de diferentes tipos. Esta tarefa. um saber. existe e troca mensagens dentro do código fundamental que temos em comum. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. ao menos. seria interpretar este fluxo do discurso social. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. Aquela de ser uma ciência. o sistema de comunicação mais amplo. seu “corpo”. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. metáfora explorada por Clifford Geertz. etc. uma literatura que não é das verdades absolutas.

mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. LéviStrauss vai mostrar. Aqui voltamos direto ao nosso tema. por vezes quase invisíveis. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. Se entre nós a escolha do cônjuge. não é um dado psicológico. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. pareciam. A afinidade nestes sistemas. mostra ele. Herança. parentes afins. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. Este caminho. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. da afinidade no parentesco. movimentos que aconteceram na Antropologia. seja no “parentesco” ou na “economia”. seja na “individualidade” ou na “história”. para entender estes sistemas de parentesco. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. nos próprios termos de Lévi-Strauss. para compreender o “outro”. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. Assim. a chave para sua compreensão. As Estruturas Elementares do Parentesco. etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. O que é. e às vezes principalmente. por exemplo. para dizer o mínimo. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. como o cônjuge. Tudo isto indica que a Antropologia. descendência e afinidade. quem serão meus amigos e aliados. Tudo isso é muito pouco. é decidida individualmente. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. Mas. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. o caso do domínio das relações de parentesco. uma escolha psicológica. o centro deste sistema. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. de “foro íntimo”. irmãos. etc. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou uma certa forma de personalidade e sentimento. num famoso livro. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 36 . enfim. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. Disso resulta. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. realmente. do etnocentrismo à relativização. Este é. portanto. é necessário ver que o coração. propriedade. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. absurdos. sistemas de parentesco. está numa unidade que inclua também a afinidade. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. direitos e deveres. – mas também. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. encontrados nas sociedades do “outro”. Isto quer dizer que. o lado. é trilhado na medida em que. ________________________________________________ Everardo P. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar.definitivamente.

onde a comparação se traduz num enriquecimento de possibilidades existenciais. como vimos nesta pequena viagem por algumas de suas paisagens. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. morais. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. também. Devem estar. O plano onde as diferenças se encontram. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social.frente a um sem-número de ideologias. ________________________________________________ Everardo P. na indústria cultural. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. O que se passou na Antropologia. nos costumes políticos. sentimentos. Este. interétnicas. Enfim. problematizada e generosa. conjuntos de idéias. Aí também. conceitos. se transformam. no jogo de seus movimentos. Nas relações internacionais. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. constituindo um sem-número de estereótipos do “outro” A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 37 . acredito. A Antropologia reflete. muito pouco se relativiza. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. no encontro entre o “eu” e o “outro”. princípios e juízes espalhados na nossa sociedade. a um só tempo. esperança e generosidade. métodos e técnicas que. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. emerge uma compreensão do ser humano. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. se relativizam. o etnocentrismo é exorcizado. Aí. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo.

seja um de seus melhores aspectos: a possibilidade de relativizar e conhecer o “outro”. Foi escrito originalmente a pedido da UNESCO e por ela publicado em 1952. Creio que a mais acessível saiu no volume Lévi-Strauss da coleção “Os Pensadores”. Arqueologia da Violência e A Sociedade contra o Estado. A própria idéia de perguntar “o que é?” já significa um primeiro passo no sentido da relativização. da “história” e da “cultura”. da “evolução”. entre outros. pequeno. o excelente livro do professor Roberto Da Matta. cujo título. Dois livros do antropólogo francês Pierre Clastres. Vários livros da coleção “Primeiros Passos” podem mostrar muitas formas de fugir ao etnocentrismo. são maravilhosos e polêmicos. Extremamente interessante. com várias traduções para o português. É um belo livro sobre o respeito à diferença e à igualdade de direitos entre os seres humanos. já diz muito sobre a posição assumida no tratamento dos temas. O livro é simples. É um livro que permite uma primeira aproximação com a Antropologia no que. tratando de relativizar e mostrar dimensões diversas de fenômenos como a economia e a política. gostoso de ler e repleto de idéias que servem para debates profundos sobre a humanidade. Em termos de Brasil.INDICAÇÕES PARA LEITURA Em primeiro lugar um clássico na literatura antropológica sobre o assunto: é o livro Raça e História de Claude Lévi-Strauss. Nele são debatidas as questões do “etnocentrismo”. das “raças”. acredito. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 38 . ________________________________________________ Everardo P. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. rico.

entre os quais “Um índio Didático” na coletânea Testemunha Ocular: Textos de Antropologia Social do Cotidiano da Editora Brasiliense. formei-me em Comunicação Social na PUC do Rio de Janeiro. fiz meus estudos pré-universitários no Colégio São Vicente de Paula e. Atualmente. entrei para o Mestrado de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. sob a orientação do Prof. sou professor do Departamento de Comunicação Social da PUC/RJ. rituais e ao pensamento mágico das sociedades tribais. em 1982. Dr. ________________________________________________ Everardo P. Em seguida. Guimarães Rocha – O que é etnocentrismo? 39 . o grau de Mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ.Biografia Everardo P. como ator. entre outras “viagens”. bolsita do CNPq e curso o Doutorado em Antropologia Social do Museu Nacional. Guimarães Rocha Carioca nascido em 1 de outubro de 1951. Obtive. A carreira como pesquisador me levou. completando o curso em 1979. Nesta instituição. escrevo a dissertação “Magia e Capitalismo: um estudo antropológico da publicidade” na qual investigo a ideologia dos anúncios publicitários e procuro compará-los aos mitos. Tenho diversos trabalhos publicados. porém sinceramente. ainda. em 1975. Roberto da Matta. à realização de estudos para o roteiro do filme Quilombo de Cacá Diégues onde apareço rápido.