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A luta por direitos e a afirmação das políticas sociais no Brasil contemporâneo

A luta por direitos e a afirmação das políticas sociais no Brasil contemporâneo

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A LUTA POR DIREITOS E A AFIRMAÇÃO DAS POLÍTICAS SOCIAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO1
ALBA MARIA PINHO DE ste tema remete a um te país que, nos últimos 25/30 CARVALHO* desafio fundante: pensar anos, vivencia uma confluência o Brasil contemporâneo, contraditória de processos de RESUMO tendo como fio condutor a O artigo se propõe a analisar a luta por “redemocratização” e processos questão da luta por direitos direitos no Brasil contemporâneo e sua de ajuste ao sistema do capital, sociais e sua materialização em materialização em políticas sociais. Para a que se redefine nos termos da políticas sociais. Assumir tal autora, estas se constituem em um espaço chamada “mundialização”? desafio implica analisar o tecido privilegiado de ação política no redesenho Assim, vou delineando, do Estado, estabelecendo um vínculo entre com mais nitidez, o objeto de contraditório dessa sociedade, em meio ao agravamento da conflitos, demandas por direitos e busca de minhas reflexões, condensadas questão social, encarnando, alternativas de emancipação. Questiona, neste artigo e ouso fazer um por um lado, novas formas ainda, as possibilidades do sistema do ajuste de foco analítico, forcapital incluir o excedente de mão-de-obra de dominação do capital na mulando o tema nos seguintes (as populações “supérfluas”) e o potencial contemporaneidade e, por ou- emancipatório das políticas sociais. termos: a luta por direitos e a tro, as lutas que revelam uma afirmação das políticas sociais ABSTRACT espécie de “cultura da recusa”, no Brasil contemporâneo. sinalizando para um projeto de The article aims at evaluating the struggle for Isto posto, cabe (re)comeemancipação. É colocar-se no rights in Brazil today and its materialization çar a reflexão, contextualizando “olho do furacão”, no esforço by adoption of social policies. The author a análise ou, como se costuma consider them a special feature within the de compreender como as novas dizer, trabalhando, como “pano political spectrum for redefining the State by configurações do capital, em establishing links among conflicts, claims for de fundo”, as configurações suas atuais formas de domi- rights e alternate attempts at emancipation. deste novo momento do capinação, se expressam entre nós, The author, also, questions the possibilities talismo que estamos a viver. na condição de país periférico of a system moved by capital to absorb labor Desse modo, aqui esboço um da América Latina, desen- unoccupied labor (“superfluous” population) mergulho reflexivo – rápido volvendo processos de ajuste and the liberating potentiality of social e intenso como o são os mersubordinado à nova ordem do policies. gulhos – com um olhar pacapital. E, simultaneamente, * Doutora em Sociologia, professora da Universidade norâmico sobre o capitalismo entender, nessa “civilização do na contemporaneidade, tendo Federal do Ceará. capital”, as expressões de luta e clareza de um elemento que se resistência. constitui numa “chave analítica”: existe uma distinção De fato, nesses tempos contemporâneos em entre a forma de funcionamento do capitalismo no que as formas de dominação do capital se redefinem, século XIX, até os anos 1970, e aquela em vigor nas gerando, como conseqüência, uma “coletividade de duas últimas décadas do século XX, adentrando o despojados” – composta por aqueles para os quais foi XXI. Têm-se duas configurações específicas da chaimpossibilitado o acesso aos chamados direitos eco- mada civilização do capital, com distintos padrões nômicos e sociais (direito ao trabalho, a um emprego; de acumulação3. Vejamos, em traços gerais, como se à terra, à moradia, à educação, à saúde, ao lazer2) –, a apresenta este momento do capitalismo. Estamos sob o signo da revolução tecnocientífica questão que se nos põe como um desafio é: quais as possibilidades e limites de inclusão que se abrem com e do desenvolvimento das forças produtivas cibernéa luta por direitos, encarnada em políticas sociais, nes- tico-informacionais. O capital redefine os mecanis-

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com expressões próprias nos diferentes territórios. Antes de mais nada. em toda a sociedade. na extrema vulnerabilidade do trabalho. crise que o acompanha desde sua gênese. das condições de trabalho. da mundialização do capital. é importante ressaltar que essa mundialização é regida por uma lógica essencialmente assimétrica e excludente. no âmbito das novas conexões de tempo-espaço. enquanto exclui outros.26 17 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. adentrando os interstícios dessa dominação social – buscando apropriar-me da mesma no plano do pensamento. como “concreto pensado” –.. a cada dia. Nesta seletiva movimentação da contradição central e decorrente mundialização do capital. p. no subemprego. assinalado por Marx. vivenciando processos de exclusão e/ou de inclusões precárias. incapazes de vender a sua força de trabalho. impessoais e perversamente sutis.. Aécio Oliveira esclarece que se trata do poder de um metabolismo social que a todos aprisiona e no qual predomina um dos aspectos da mercadoria. apresenta-se. Nada menos que dois terços da população planetária estão postos à margem da reprodução do sistema do capital. A. Classifica-a como a forma de dominação mais pérfida da história. e trabalhadores. na medida em que se destitui sua dignidade como pessoa humana. que tornam o trabalho humano redundante. e das estruturas organizadas e adequadas para dar vazão à produção e à realização do valor. na liquidez da esfera financeira.indd 17 16/10/2008 12:45:56 .5 E. expressa nas crescentes taxas de desemprego estrutural e no quadro de instabilidade e de insegurança social. no mesmo movimento. mais e mais homens e mulheres sendo excluídos do mundo do trabalho. detento- res dos meios de produção. caindo no desemprego. nos Grundrisse (1971). passa pelo seu desenvolvimento até atingir as condições potenciais que poderão levá-lo à morte. Emaranhado numa crise de valorização posta em movimento por essa contradição. sob a égide da micro-eletrônica e da revolução das comunicações. explicitando o movimento da contradição central. Nas formulações da Teoria Crítica Radical. Daí. regiões no interior de um mesmo país. das condições para o trabalho. considerar-se a “dominância financeira” estruturalmente articulada aos processos de reestruturação produtiva. surrupiando recursos aplicáveis no processo de produção. São trabalhadores e trabalhadoras. constato que tal dominação torna mais visível a crise endógena do próprio sistema do capital. essa ‘dominação sem sujeito’ manifesta-se por meio de práticas das pessoas. proprietários da força de trabalho. gestando formas de dominação cada vez mais abstratas. pondo em risco a vida e comprometendo sua própria humanidade. enquanto etapa avançada e específica do movimento de sua internacionalização. em um contexto de precarização do trabalho. Desse modo. vivendo abaixo da “linha da miséria” ou próximo dela. definese tal dominação como sem sujeito. Tal crise se manifesta na crescente substituição CARVALHO. desterritorializado. Trata-se. escalonando continentes e países e. viabilizando a acumulação rentista. ainda. o capital insere determinados territórios. sem amarras e sem limites. a qual se dissemina como uma coerção silenciosa. Para Oliveira. e de uma divisão social do trabalho que opõe os seres humanos nos mais diversos níveis da hierarquia socioeconômica inerente ao modo de produzir da sociedade capitalista. 16 . de. São formas de dominação social que se impõem sobre todas as “personas” do capital – capitalistas. o capital efetiva transformações no padrão de acumulação e nas suas formas de valorização. o espaço privilegiado para a sua realização. o que o autor designou por “mundialização com dominância financeira”. É um padrão de acumulação que encarna a “financeirização da economia”. A luta por direitos e a afirmação . isto é.mos que comandam seu desempenho e seu modo de funcionamento. P. imprimindo o ritmo de valorização do capital na esfera produtiva. definindo modos de vida ou formas de sociabilidade. o valor-de-troca. constituindo-se em uma “população supérflua”. M. ou das classes sociais. Com efeito. Ele utiliza máquinas cada vez mais seletivas. Trata-se de uma dominação social abstrata que se materializa. É uma “nova ordem do capital”. na formulação de Chesnais (2003). o capital busca. segundo o qual o trabalho morto (máquinas) substituiria o trabalho vivo (trabalho humano direto). Observa-se.4 É uma força que faz sentir seu poder. sobretudo. ou seja. enfatizando a perspectiva atual de acumular riqueza na esfera financeira. sob a hierarquia do capital. a “pedra de toque” é a extraordinária mobilidade que o mesmo adquiriu nos circuitos virtuais. degradantes. Assim. incorporando o avanço científico e tecnológico. na sua conformação atual.

de incluir a “coletividade dos despojados” (trabalhadores precarizados). São homens e mulheres que encarnam a metáfora dos passageiros que perderam o trem da história e ficaram vagando na plataforma com pouca bagagem. para sua teia. dimensão de “crise estrutural”. em relação ao capitalismo até os anos 70 do século XX que. A ação expansiva do capital torna a vida do ser humano redundante. nas suas encarnações. o capitalismo se expande. pondo em risco a vida e comprometendo a humanidade de homens e mulheres. o capital seduz. destituídos do seu saber e do seu fazer. sob os imperativos da microeletrônica e da automação. surge aqui como um fator tecnológico” (grifos meus). aqueles que vivem para o trabalho e que dele obtêm seus meios de vida estão expostos a ameaças permanentes de negação do valor-de-uso de sua força de trabalho. que resulta na crise de valorização do capital. com encarnações específicas nos centros hegemônicos e nas regiões periféricas do sistema do capital. Na dinâmica do capital. no dizer de István Mészáros. estes parecem mais claros. da política. a mobilizar o novo exército do voluntariado. agride recursos sócio-ambientais. excluindo grandes contingentes de trabalhadores. ou seja. Reside aí uma dife- rença considerável. É o consumo metamorfoseado no único meio de “estar no mundo”. cada vez mais. Nos tempos atuais. numa perversa conjunção das fragilidades da não-inserção ou inserção precária com as fragilidades relacionais. no âmbito do capitalismo. o momento está a mostrar os limites intrínsecos à acumulação capitalista. Logo. há quase 150 anos. os elimina. no qual os limites entre o lícito e o ilícito são bastante fluidos. considerando o pressuposto fundante segundo o qual só o trabalho vivo produz valor. Nesta perspectiva. são submetidos à máquina que os substitui e. Ou seja. que está no cerne da produção capitalista.do trabalho vivo pelo trabalho morto. A subsunção de seu trabalho ao capital – a absorção de seu trabalho pelo capital –. é que Marx (1971) define o capital como a contradição em processo. é excluída. assume. Nos últimos 25 ou 30 anos. Assim. cria formas vis e degradantes de inclusão. expressando com clareza. espraiando-se. dentro dessa dinâmica. sob a égide da acumulação produtiva. na medida em que se acirra e ganha mais visibilidade a contradição central do próprio sistema: “a substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto”. a crise endógena do capital que. Os sobrantes vão sofrendo o tormento cotidiano da ruptura dos laços sociais. No entanto. no qual mulheres e homens tentam equi- 18 REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS v. às vezes. a apropriar-se do “saber” e do “fazer” dos trabalhadores. 1 2008 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. E. desnecessários e descartáveis na ótica do capital. põe em destaque ao afirmar: “trata-se do homem de ferro contra o homem de carne e osso. da cultura. a partir da sua exclusão do direito ao trabalho. Uma das dimensões centrais dessa crise é a incapacidade. Em verdade. essa população trabalhadora. põe em risco a própria vida planetária. o capital tende. em escala mundial. na formulação de Robert Castel. mesmo. via consumo. 39 n. Revelam-se trabalhadores inúteis. É a tendência contraditória do capital que Marx. É o “fio da navalha” na tensa dialética exclusõesinclusões. em ritmo vertiginoso. revelando-se os seus limites de resolução. em curso.indd 18 16/10/2008 12:45:56 . uma das marcas dos tempos contemporâneos é a emergência de um crescente contingente de trabalhadores supérfluos. da natureza. na atualidade. Logo. essa “crise estrutural”. São formas precárias de inserção no chamado mundo da informalidade. gesta populações supérfluas. enfim. afirmam-se como fenômeno de nossos dias a instabilidade e a insegurança no mundo do trabalho. que vive nas franjas da sociabilidade. efetivando a dominação social. do sistema do capital. formas que podem se manifestar através da filantropia. conforme interpretação de Oliveira (2006). incorrendo. transferindo-os para as chamadas “máquinas inteligentes”. desenvolveu-se na perspectiva de incluir uma massa de trabalhadores para exploração extensiva e intensiva do trabalho. na contabilidade do capital. essa exclusão não pode ser vista como total e absoluta. trabalhadores e trabalhadoras. um amplo contingente populacional. materializada em ações e programas compensatórios. dos sistemas de proteção social. pois a própria lógica do capital. imprescindíveis no processo de acumulação. e estas se fazem. supérflua. avançando predatoriamente sobre a natureza. se expressa nas esferas da economia. em processos de “desfiliação”. aglutinando tais formas. também.

Nesse contexto. mas. gestando a “cultura dos direitos”. cuja cobertura. dos direitos trabalhistas. acenando para um novo modo de vida. do patrimonialismo. Daí o significado transformador da afirmação. encarnando as lutas democráticas. de. para sobreviver. aquém. Assim. do “dar de si” a um outro que está abaixo. quando estes não são tratados como tais. É justamente a “cultura da recusa” a essa sociabilidade do capital – que mercantiliza. do clientelismo. Para podermos bem avaliar o significado sóciopolítico-cultural da “luta por direitos” entre nós. na sua luta por direitos. P. em um contexto no qual dois terços da população ativa vive na informalidade. com profundas raízes em nossa cultura política: . que é incapaz de prover suas necessidades. historicamente. envolvendo-a no humanitário discurso da “solidariedade”. Em verdade. um traço estrutural. M. da dependência que marca a vida brasileira. a chamada “constituição cidadã” é que se incorporou. conforme a lógica destrutiva do capital. destituído de cidadania. porque partimos de um legado extraordinariamente problemático. que circunscreve e atormenta o dia a dia da classe trabalhadora. portanto. no dizer de Hanna Arendt. de forma inconteste. a “cultura da negação” do modo de vida imposto pelo capital. profundamente distinta da tradição igualitária e universalista da modernidade. é contrapor-se aos padrões neoliberais das configurações capitalistas contemporâneas. à saúde. p. corporificadas nos direitos do trabalho e da previdência. quando se fala de direitos. “consumidos” pela lógica do dinheiro (OLIVEIRA. direitos reclamados nas redefinições da Assistência Social. 2006). é importante um resgate da nossa História política. direito à moradia. uma dificuldade muito grande de entender precisamente do que se trata. inexistente do ponto de vista das regras formais de cidadania. se materializa no processo de destituição e desconstrução de direitos econômicos e sociais: direito ao trabalho. a concepção universalista de direitos sociais. na fecunda gestação da “cultura dos direitos” na vida brasileira. sujeitos que exercem a “cultura da recusa”. em nosso país. do capitalismo e sua dominação abstrata que a todos aprisiona é o agravamento da questão social nos termos da crescente vulnerabilidade social daqueles que vivem para o trabalho. A. novas sociabilidades. no Brasil. pela impossibilidade de efetivação de direitos fundamentais universais. melhor dizendo. Uma outra clivagem histórica na cultura política brasileira é a proeminência dos direitos políticos sobre os direitos sociais. da “compaixão”. marcada por tortuosos caminhos na direção dos direitos. uma vez que o cidadão brasileiro aprendeu a pensar os direitos sociais dentro de uma matriz sustentada por dois vetores. Na Constituição Brasileira de 1988. à educação. E uma outra variável na tradição brasileira dos direitos é a perspectiva seletiva. tardiamente.. negações e paradoxos. tutelar. em meio a confusões. De fato. de saída. enfim. é o móvel das lutas dos sujeitos sociais. ao lazer.os direitos da tradição getulista. concebendo-se direitos nos termos da gestão filantrópica da pobreza.26 19 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. dos direitos sócio-assistenciais. não apenas pela pobreza. com grandes dificuldades de reconhecimento e concretização dos direitos sociais como direitos. hoje. o carente. Tal vulnerabilidade. homens e mulheres vêm sendo despojados. Inegavelmente. e. a um emprego. chega-se a ter uma sociedade excludente que se caracteriza. do “direito a ter direitos” que.. que reeditam a “cultura da benesse”. restringe-se a trabalhadores do mercado formal. dissocia e exclui – que os movimentos expressam. outorga uma importância substancial aos direitos humanos fundamentais. no interior de movimentos sociais de diferentes naturezas e formatos. no limite. lutar por direitos no Brasil é contrapor-se a toda uma “cultura da carência”. numa ótica corporativa.a confusão persistente entre direito-e-ajuda ou direito-e-proteção aos pobres e carentes. ambigüidades. do favor. Este paradoxo deixa um amplo e crescente segmento de trabalhadores à margem no “Brasil legal”. rompendo com a subordinação e a dependência das “benesses”. convertendo todos CARVALHO. Esta Constituição. atual. na verdade. A luta por direitos e a afirmação . e interpelam o Estado a conceber e instituir políticas sociais. É um submundo inteiramente encoberto pela teia intrincada da filantropia.indd 19 16/10/2008 12:45:56 . 16 . mais especificamente. direito ao acesso à terra.librar-se para não morrer ou. o avesso do Direito. sobretudo. consumindo e consumindo-se. tem-se. como “reino da carência”. privatiza. São os “sobrantes” na condição de “consumidores”. E mais. .

conseguimos incorporar no texto constitucional a perspectiva universalista de direitos sociais. regidas por princípios de direitos e sustentadas pela ação dos sujeitos coletivos. Tais direitos pressupõem ser dever do Estado garantilos. ou seja. a permanente disputa entre o poder estatal que detém o governo e o poder popular. a busca dos direitos sociais se situa como uma instância de lutas coletivas. os direitos sociais se constituem em espaços possíveis de construção de uma nova cultura política. o bem-estar. no sentido de garantir meios e recursos para o seu pleno exercício. que consubstanciam conflitos sociais. transformando-se em sujeitos de direito. moradia. das mulheres. imersos em um quadro de crescente vulnerabilidade social. a igualdade e a justiça”. previdência social. protagonizados em movimentos organizativos.indd 20 16/10/2008 12:45:56 . destinado a assegurar “o exercício dos direitos sociais individuais. Assim. na sua origem. talvez os mais cruciais. bandeiras de luta e proposições em políticas públicas. encobertos nas teias da filantropia. com a erosão e desmonte de direitos. E mais: as lutas por direitos sociais implicam ampliação de espaços públicos para o exercício da autonomia. regras da convivência pública. É fato inconteste a ampliação do Estado na relação com a sociedade civil. hoje. como demanda da cidadania. a liberdade. ativamente. pela implementação de políticas públicas. os direitos fundamentais – pelo menos formalmente – se converteram no núcleo básico do ordenamento constitucional brasileiro. Uma segunda peculiaridade é que são direitos que interpelam o Estado. saúde. trabalho. Em terceiro lugar. o artigo 6º da Constituição Federal estabelece como direitos sociais: educação. significa como conquista democrática? O que ela representa. a referência fundadora de uma modernidade democrática.os direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos em direitos legais. segurança. 20 REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS v. no sistema do capital. nos embates em busca do atendimento de demandas concretas. Assim. com novas clivagens. E. É esta uma velha questão que coloca em xeque padrões de sociabilidade entre nós e que. posicionam-se. Em seu preâmbulo. 1 2008 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. se constituem numa condição para a democracia. demarcando a medida do justo e do injusto. no sistema do capital que hoje funciona gestando uma “coletividade de despojados”. direitos sociais de interpelar o próprio Estado. na civilização excludente do capital. sobre as regras da vida em sociedade. personagens que viviam submersos em processos de discriminação. Em verdade. em tempos contemporâneos? Esta questão implica uma reflexão sobre a própria natureza dos direitos sociais. Desse modo. que se pronunciam sobre os parâmetros de eqüidade nas questões que lhes dizem respeito. Assim. assim. os direitos sociais têm. como perspectiva de embates. proteção à maternidade e à infância e. inclusive. finalmente. constituindo. Em primeiro lugar. A luta pela igualdade de condições de vida digna não é alcançada apenas pelas leis. ainda no mesmo preâmbulo. Ora. diante da convergência de uma longa história de desigualdades. dos negros. face aos processos de mundialização do capital e ajuste subordinado à nova ordem do mercado. direitos sobre a terra e direito ao trabalho sem transformar conquistas legais. o que essa inclusão da perspectiva universalista de direitos sociais. o desenvolvimento. mas. exigindo deste uma efetiva atuação. Assim. os direitos sociais revelam dilemas. nas suas formas de pressão e organização. através de políticas e programas de ação governamentais. a segurança. Os direitos sociais convertem-se em um imperativo ético que suscita a dúvida sobre as possibilidades de uma sociedade justa e igualitária. organizamse. na ordem do capital com sociedades estruturalmente desiguais – sobremodo as que apresentam profundas desigualdades sociais como o Brasil – os direitos sociais são condição essencial para a realização da liberdade. essa Carta propugna o “direito inalienável da propriedade privada”. Logo. E. É impossível pensar direitos da infância e da adolescência. enfocando a sua especificidade como móvel de lutas em busca de projetos emancipatórios. no texto constitucional. a Constituição estabelece o “Estado Democrático de Direito”. no âmbito da vida cotidiana. É o Estado Democrático reconhecendo direitos no âmbito da ordem do capital. mobilizada em suas lutas por direitos. lazer. ganha uma especial urgência. direito da diversidade sexual. 39 n. com perfis próprios. são direitos que tendem a realizar a “equalização de situações sociais desiguais”. das populações indígenas. a assistência aos desamparados.

no processo de democratização brasileira. a sociedade civil – organizada nos espaços públicos. nos últimos 15 anos. de sociedade política mais sociedade civil – confronta-se. M. as forças democráticas. como esse Estado se redesenha. até mesmo. em disputa. via “Consenso de Washington”. Estado ajustador que se restringe. a reestruturação produtiva e a redefinição do poder regulador do Estado em um mundo globalizado. ajustando-se à nova ordem do capital. reconhecidas em Lei. 16 . cabe-me delinear como se materializa. no interior do sistema do capital. com a pretensão de fechar qualquer alternativa de “outro caminho”. em meio à destituição da política. entre 1990 e 2005. segue a Agenda de Washington / Wall Street. de uma forma seletiva. a partir da década de 1990. respaldado na dominância do “pensamento único”. Ou melhor. expressando-se em duas configurações distintas: Estado democrático. São lutas através das quais se vai estruturando uma linguagem pública. A luta por direitos e a afirmação . A confluência desses dois processos da democratização e do ajuste. com destituição/ anulação da política. com a chamada rearticulação da sociedade civil. p.Assim. P. revelado no esgarçamento do tecido social. no tocante aos direitos e às políticas públicas. para melhor compreendê-lo. não conseguem interferir.. sob a ótica de uma ampliação da cidadania. ampliado. a vida dos brasileiros. em meio às conquistas democráticas e à própria “cultura do direito”? Que direcionamento o Estado brasileiro assume no cenário da crise estrutural do capital. na contemporaneidade. Têm-se. contraditoriamente. em permanente (re)elaboração. nos rumos da política econômica brasileira. ao encarnar a lógica seletiva da nova ordem do capital. E. essa idéia de confluência contraditória entre democratização e ajuste à nova ordem do capital. os movimentos sociais. diz tratar-se de um campo político construído pela convergência de várias temporalidades: o pesado legado de um passado excludente. na luta pela viabilização de direitos da maioria trabalhadora – não consegue alterar as configurações do Estado como gerenciador do capital financeiro. com uma crescente vulnerabilidade social de populações “sobrantes”? CARVALHO. que problematiza a questão social. o mercado se converte na “verdade da economia” e em seu único critério de realidade. Ao analisar-se o percurso da sociedade brasileira. com o processo de inserção do Brasil na nova ordem do capital. em curso a partir de meados dos anos 1970. no âmbito da “mundialização do capital” que se consubstancia no ciclo de ajuste da América Latina. de. com perspectivas distintas e. pela força das violências que tomam de assalto o cotidiano brasileiro. ao se reportar a essa tessitura contraditória da sociedade brasileira. com a implementação de políticas neoliberais. num amálgama. as reivindicações por direitos e as promessas de uma cidadania ampliada. que.indd 21 16/10/2008 12:45:56 . na busca de encontros e pactos. ampliam a política nas suas lutas pela afirmação e redefinição dos direitos. disciplinadamente. nesse contexto. BID. constata-se a dominância do Estado ajustador. configurando o que se convencionou chamar de ajuste estrutural. Ou seja. na perspectiva gramsciana. Esse processo de alargamento da política. Em minhas últimas análises e reflexões. num movimento de “elastecimento” do Estado na sua relação com a sociedade civil – Estado ampliado. nas suas múltiplas formas de organização. debruçando-me sobre o Brasil contemporâneo. Vera Telles (1999). com dimensões antagônicas. presentes na própria Constituição Federal de 1988. concebido. constitui o tecido do Estado brasileiro. os movimentos sociais. são distintos tempos que se misturam. se articulam. Nesse cenário. pois. em meio a tensões de uma cultura política democrática. dois projetos políticos. inclusive. a forjar um falso consenso. aqui. de forma decisiva. sob o monitoramento das instituições financeiras multinacionais: FMI. gesta-se na confluência desses dois processos estruturais básicos que. sob a égide do Mercado. o que projeta as políticas sociais no centro da crise e da redefinição dos modos de regulação social. BIRD. como “concreto prensado”. encarnam um sentido político emancipador: direitos sociais como via de libertação de múltiplas formas de exclusão e discriminação. Com efeito. tenho tomado como chave analítica. o perfil do Estado ajustador.26 21 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. assumindo a sociabilidade democrática. a partir da década de 1990. impondo a lógica da mercantilização. e das conquistas da democratização. A. nesse processo de “ajustes”.. Avançando na análise. reconhecendo o conflito como via democrática por excelência. Assim.

limita as possibilidades de qualquer atuação “no social” em uma perspectiva mais ampla. transnacional. no ciclo de ajuste da América Latina. convertendo-se em mero gerenciador financeiro da mesma. um padrão. “ajustando-se” à nova ordem. no Governo Lula.O cientista político José Luis Fiori (1997) apresenta uma formulação-síntese que bem define este Estado ajustador. em função de cumprir à risca a Agenda de Washington de pagamento da dívida. quase sempre como se o enfrentamento das questões sociais pudesse ser reduzido à esfera de “questões técnicas”. nos países periféricos. de superávit primário. subordinando sua atuação às exigências da rentabilidade do capital. com políticas estruturantes. 1 2008 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. “o Estado mudou de cara. A rigor. notadamente nos anos de 1990 – é efetivamente intervencionista. de amplo espectro. estruturalmente? Como esse Estado intervém no social. de curto prazo. funcionalmente. ao longo de diferentes governos. empreendidas nos últimos anos. Segundo ele. do capital. o Estado brasileiro contemporâneo – ao contrário do declarado no discurso oficial sobre o ajuste. nos ciclos do ajuste brasileiro. Na verdade. em nome da estabilidade econômica. E. por se movimentar numa economia fragmentada e não se sustentar em um sistema econômico nacional integrado. de custos do Estado. Nesta perspectiva. constata-se um traço comum à configuração de outros Estados-latinoamericanos: é um Estado de baixa responsabilidade social. restritas a situações localizadas. o Estado brasileiro se desmonta. A meu ver. De fato. nesse Brasil tão desigual. Assim. Assim. o Estado mudou de cara. nesta transformação. em primeiro plano. a serviço da valorização do capital financeiro”. um Estado gerencial. a sua ação é presidida por uma lógica contábilfinanceira. Para tanto. se coloca face às in- terpelações dos direitos sociais em termos de políticas sociais? Como esse Estado. A rigor. chegamos a uma questão-chave: como esse “Estado gerencial. de dinâmica de atuação. a serviço da valorização do capital financeiro. que funcionam como mecanismos destinados “aos mais pobres. em termos de políticas públicas? Apreciando a atuação do Estado ajustador brasileiro. não consegue tirar uma contrapartida de tal privilégio na rentabilidade do capital financeiro. a “mudança de cara” é mudança de perfil. É o caso. que se minimaliza “no social”. fica “encolhido”. 39 n. tem-se produzido um novo intervencionismo de Estado. no contexto da atual condução do país. para manter essa “alma capitalista”. combinando ortodoxia fiscal e monetária. na medida em que revela a dinâmica de “mudança na permanência”. vinculado às exigências e demandas do capital. No desenho das políticas públicas. Neste sentido. e. no Brasil. mantendo a mesma alma”. sem a devida avaliação do seu foco de ação. destacam-se as experiências chilena e brasileira que atestam. com possibilidades. sem controle. Inegavelmente. com amplos programas e projetos sociais. dentre os pobres”. à agenda do ajuste: desregulamentaçãodesnacionalização-privatização-privilégio da rentabilidade do capital financeiro. sem conseguir encarnar a sua inovadora proposta de “priorização do social”. Tais políticas sociais são marcadas por uma perspectiva assistencialista. terminando por enveredar numa perspectiva meramente compensatória. suas intervenções visam a atender. as exigências das novas formas de valorização do capital. o Estado brasileiro constitui-se. encarna interesses fundamentais do capital. é exemplar o manejo da dívida interna e da dívida externa. em benefício da acumulação rentista. cada vez menores. Desse modo. instituída nos processos de redesenho que os ideólogos do ajuste cunharam de “reforma do Estado”. nesta linha reflexiva. trabalha a vulnerabilidade social que atormenta as populações “sobrantes”. caracterizado pela emergência de políticas econômicas pragmáticas. no âmbito desses processos. voltadas 22 REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS v. dentro desse padrão. aqui retomando a caracterização de Lucio Oliver Costilla (2003). esta é uma definição fecunda. por exemplo. Assim. adaptando-se. nos moldes latino-americanos. o Estado se converte em uma espécie de refém do mercado e do cálculo financeiro. o Estado Brasileiro.indd 22 16/10/2008 12:45:56 . buscando amortecer os efeitos sociais imediatos das políticas de ajuste. É a reformatação do Estado para viabilizar os movimentos do capital face à sua extraordinária mobilidade a exigir sua entrada e saída. de investimentos nacionais e de atuação “no social”. E. do Programa Fome Zero que. esse Estado. o Estado vem assumindo políticas sociais compensatórias. cada uma à sua maneira.

ancoradas na tríade EstadoMercado-Sociedade.26 23 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. urdidos nas lutas pela democratização.. emergem na vida brasileira novas formas de regulação social. em mecanismo de preservação de desigualdades. mais. reforçando formas precárias e perversas de “inclusão excludente” de populações. Com efeito. desse modo. uma dupla dimensão: a primeira é a erosão real dos direitos. direitos do trabalho são destituídos e redefinidos. especialmente os atores coletivos. progressivamente. assim. o desmonte dos serviços sociais. difusas entre Estado. que retira a “alma do direito”. do seu papel de garantidor de direitos. É preciso atentar para o fato de que esse Estado ajustador. nesta perspectiva. o projeto neoliberal encontra. Trata-se de uma insuficiente compensação. Mercado e Sociedade. configurando um relativo peso político. Vivencia-se a dificuldade ou a impossibilidade de serem formulados como demanda.indd 23 16/10/2008 12:45:56 . em sua análise da política no Brasil contemporâneo. direitos sociais não conseguiram consolidar suas garantias. de.a mitigar a miséria. nas suas restrições da política. um mal-estar na enunciação dos direitos. isenta-se. no “Brasil do ajuste”. tem determinados rebatimentos na reorganização do Estado brasileiro. capturado pela racionalidade do Mercado. Evelina Dagnino (2003). o Estado coloca-se apenas na condição de partícipe. Assim. P. configurando-se. fazendo ganhar espaço fenômenos como a filantropia empresarial e o voluntariado. 16 . vem se operando um esvaziamento da dimensão fundante do direito. em um confronto explícito como o padrão do Estado democrático. A avaliação desse peso do projeto de democratização. relaciona-se com esse Estado ajustador? Como se materializa. no Estado brasileiro contemporâneo. então. o direito deixa de ser uma prerrogativa de todos e se transforma em elemento indexado ao desempenho individual. mesmo. que se constitui. ou seja. movimentase em meio a tensões. O Estado ajustador. obviamente. revelamse incapazes de responder à gravidade da chamada questão social. nesses últimos quinze anos. um contendor relativamente consolidado. p. Com efeito. Assim. pontualmente. nas redefinições do Estado. E. na ótica da valorização do capital.. o projeto de democratização. no Brasil. dentre outros atores”. abdicando de seu dever de garantir direitos sociais de cidadania. E. É o encolhimento do horizonte da legitimidade dos direitos. por exemplo – ou “flexibilizados”. um encolhimento de suas responsabilidades sociais. implica um balanço do legado democrático na vida brasileira recente. A questão-chave é: como a sociedade civil. mais precisamente “um. pela via da vulnerabilidade do trabalho. um fenômenochave nessa nova ordem do capital é a desconstrução dos direitos que assume. experimentando-se. A. A luta por direitos e a afirmação . capaz de construir um campo de disputa. como “recompensa”. embora não-hegemônico. Tais formas regulatórias. muitas vezes são tratados como ônus. ante às formas novas de dominação do capital. destacam duas conquistas que encarnam um processo de transformação em curso: CARVALHO. no cenário brasileiro dos últimos quinze anos? Eis uma via instigante de investigação. a contradição entre a ampliação e a destituição da política? Como vem se dando a confluência entre Estado ajustador e Estado democrático. concretizando-se. Nesse contexto. os segmentos mais excluídos e mais miseráveis. no confronto com os processos de democratização e suas conquistas. No mundo do trabalho. embora evidentemente não-hegemônico. esse Estado mantenedor dos processos de ajuste – responsáveis pela exclusão de amplos e crescentes contingentes da população brasileira – é o mesmo que “compensa”. assim. M. na gramática neoliberal dominante. ocorre uma transferência de responsabilidades sociais. E. “contabilizados” – tal como aparece na expressão “custo Brasil”. direitos historicamente conquistados são negados ou fragmentados. tal como definido na Constituição Federal de 1988. Maria Célia Paoli e Vera da Silva Telles. sustenta que uma especificidade brasileira é que o processo de ajustes neoliberais defronta-se com um projeto político democratizante. objeto de retórica. É o direito metamorfoseado em benefício. A outra dimensão é a erosão da própria noção de direitos e das referências pelas quais os direitos podem ser formulados. em resposta aos embates operados no âmbito da sociedade civil. amadurecido desde o período da resistência ao regime militar. Nesta direção. também para a sociedade civil. esta gestada nos processos de acirramento das desigualdades e ampliação da pobreza. No âmbito dessas novas formas regulatórias. fundado na ampliação da cidadania e na participação da sociedade civil.

numa “revolução cotidiana”. efetivando um desalojamento desta. com reformas no Código Penal e no Código Civil.• a criação de um espaço público informal. e a reivindicação de direitos interpela a sociedade. acenando com as possibilidades de construção partilhada e negociada de uma legalidade capaz de conciliar democracia e cidadania. constituem. traduzindo uma exigência de participação na gestão da “coisa pública”. Neste campo. dos movimentos sociais. como exigências de uma negociação possível. como conquista da luta de determinados movimentos sociais. que. exerçam a política pela via do conflito. fazendo-a enfrentar outras culturas e outras políticas (PAOLI e TELLES.indd 24 16/10/2008 12:45:56 . o Estatuto da igualdade racial. constituindo um lugar de cidadão para atores coletivos da cena política de democratização – moradores pobres. no plano jurídico-institucional. Essas políticas culturais democratizantes subvertem “hierarquias simbólicas”. visualiza-se um “patrimônio democrático” que consubstancia uma forma emancipatória a se confrontar com forças neoconservadoras de mercantilização da vida social e de seus valores neoliberais. minorias discriminadas – que estavam fixados em lugares subalternizados. a referência maior. desestabilização da cultura política dominante. em que a cidadania é buscada como luta e conquista. encontra-se no Congresso. 2000: 103-148). os movimentos sociais. entre uma trama densa de discriminações e exclusões (PAOLI e TELLES. assim. esse espaço público conforma os termos de uma experiência inédita na história brasileira. consubstanciando uma subversão de hierarquias simbólicas. famílias sem teto. as políticas culturais democratizantes desestabilizam a cultura política dominante. lutando pela materialização de direitos em políticas públicas. instituídas na cultura política dominante. tentam dar novos significados às interpretações culturais dominantes ou desafiam práticas políticas estabelecidas. Ressalte-se. a gramática democrática. 2000). constituindo. aparato legal de proteção social – possibilita condições objetivas e condições subjetivas para que atores coletivos da sociedade civil. negros. descontínuo. 1 2008 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. já aqui destacada. se cruzam com práticas políticas autoritárias. É inegável que as políticas culturais emancipatórias. A rigor. ainda. um avanço na construção da cidadania nos (incertos) caminhos do Brasil atual. excludentes. tais políticas viabilizam a constituição de identidades das chamadas minorias culturais e étnicas. 24 REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS v. têm-se. Examinando-se. os termos de uma disputa simbólica de valores e padrões. índios. quando intervêm em debates políticos. em sua diversidade. para votação. a partir da “constituição cidadã”. mulheres. E. A isto acrescentamos um outro aspecto de peso. • a constituição de políticas culturais. com diversidade considerável de formatos. encarnados em movimentos sociais plurais. trabalhadores sem terra. ressignificando noções. assim. Segundo Paoli e Telles. por força das lutas do Movimento Negro. arraigadas no imaginário social brasileiro. por uma vida decente. postas em prática – com mais ou menos clareza e em maior ou menor extensão – pelos movimentos sociais. que incorpora uma agenda universalista de direitos e proteção social. plural. que vem possibilitando o confronto com a lógica de financeirização do Estado ajustador: são as conquistas legais que viabilizam. impondo questões negadas e reprimidas ao longo da história. na tradicional cultura política brasileira. no cotidiano. hierarquizadas. é a Constituição Federal de 1988. Na cena pública brasileira. padrões e valores e instituindo o conflito. criam e difundem teias de sentidos e significados. De fato. 39 n. leis específicas que apontam para um novo padrão de proteção social e de caráter mais universalista e igualitário: SUS / ECA / LOAS / Estatuto da cidade / Estatuto do idoso / legislação de proteção dos direitos das mulheres. por uma sociedade justa. a dinâmica da sociedade. aberta ao reconhecimento dos interesses e das razões que dão plausibilidade às aspirações por um trabalho digno. Este legado democrático – criação de espaço público. no qual se elaborou e se difundiu uma “consciência do direito a ter direito”. garantindo o alcance do poder da fala e da expressão pública para estas “minorias silenciadas e tornadas invisíveis” pela cultura política dominante. como via democrática por excelência.

p. E aí reside a questão central a nos provocar: num olhar crítico e reflexivo sobre o rico percurso dos movimentos sociais no Brasil contemporâneo. qual o potencial emancipatório das políticas sociais? NOTAS 1 Este trabalho foi apresentado no Ciclo de Debates dos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No Brasil. de. em meio ao desmonte seletivo do Estado ajustador. Eliana Costa. Alba M. orientadas por direitos de cidadania. COSTILLA. 1998. essencialmente excludente. Fortaleza. o sistema de proteção social vivencia uma paradoxal situação de implantação. Fortaleza. confrontando-se. e GUERRA. colocando a exigência política de um enfrentamento. P. Petrópolis: Vozes. Maio de 2005 (mimeo). CASTEL. é a situação do ECA. no confronto com a lógica do capital mundializado. reatualizando-se nos formatos e nas estratégias. Aécio.. 2006. CHESNAIS. Universidade Federal do Ceará. Lucio F. Elza Maria Franco (org. que horizontes a luta por direitos abre para essa coletividade de despojados? Nesta civilização do capital. François et al. 2006. Metamorfoses da questão social: uma crônica salarial. sem trégua. são “trabalhadores no fio da navalha da lógica do capital”. com suas múltiplas expressões. Nessa tessitura do Estado brasileiro. 3 CARVALHO e GUERRA. para fazerem valer a lógica do Estado democrático. 2006. numa multiplicidade de programas residuais. “Tempos contemporâneos: trabalhadores supérfluos no fio da navalha da lógica do capital”. Maio de 2006 (mimeo).). estabelecendo o vínculo necessário entre conflitos / demandas por direitos e busca de alternativas de emancipação. É o caso do SUS. 4 OLIVEIRA. com potencial de inclusão social. realizado na cidade de Natal-RN. CARVALHO. 5 No dizer de Alba Carvalho e Eliana Guerra. continuamente. é a instauração da contraditoriedade na cena pública brasileira. América Latina: transformações económicas e políticas. na perspectiva da viabilização de direitos através de políticas públicas. articulando novas e tradicionais estratégias. tentando um frágil equilíbrio. Enfim. Coleção Zero à esquerda. tem sido possível e viável lutar por políticas sociais mais amplas. Aécio. Sob esse prisma. permanentemente. Robert. em que medida alguns desses movimentos têm colocado em xeque a lógica do capital e suas formas de dominação? E mais: considerando a impossibilidade do sistema do capital incluir as “populações supérfluas”. Transformações do Estado e da sociedade civil na América Latina. M. Em verdade. sob a ótica da cidadania. “Reorganização do Estado brasileiro na contemporaneidade: desafios das políticas públicas como direito de cidadania”. “no social”. em concomitância com a estagnação dos programas sociais e com uma grave deterioração das redes públicas de serviços. constituem-se vias abertas. P.Assim. 2 OLIVEIRA.. _____ “Direitos humanos em foco: direitos sociais”. In: BRAGA. P. no enfrentamento com a lógica do Estado ajustador. Seminário do Conselho Regional do Serviço Social. Alba M. em Junho de 2006. impondo a luta intransigente pela universalização do acesso a serviços de saúde de qualidade. os movimentos sociais pela definição e implementação de políticas públicas. A luta por direitos e a afirmação . 2003. com o desmonte da saúde pública. Oliver. são lutas que se (re)colocam. as políticas sociais constituem um espaço privilegiado de atuação política no (re)desenho do Estado. 16 . Fortaleza. Seminário do Conselho Regional do Serviço Social – CRESS. Uma nova fase do capitalismo? São Paulo: Xamã. CARVALHO. 2003. Trabalho e perspectivas da formação dos trabalhadores. na tensão entre exclusões e inclusões precárias. ampliando o movimento pela implantação do SUAS. é a questão da LOAS face à (re)atualização do assistencialismo. alimentando uma “cultura de discriminação”. continuamente desrespeitado pelas estruturas institucionais e pelos poderes instituídos. CRESS. pelo reconhecimento da condição de cidadania para crianças e adolescente atingidos pelas violências da exclusão. de reformas amplas. I Encontro internacional. repercutindo na reorganização do Estado Contemporâneo. do ponto de vista jurídico-institucional.indd 25 16/10/2008 12:45:56 . 2006. Fortaleza. em curso nos processos desencadeados pelo Estado ajustador.26 25 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARVALHO. na viabilização da Assistência Social como política pública de cidadania. A.

Revista Carta capital. Ed. Fortaleza. Caracas: 2003. Vera da Silva. Maria Célia. PAOLI. Siglo Veintiuno.DAGNINO. 2000. Aécio Alves de. “Direitos sociais: conflitos e negociações no Brasil Contemporâneo”. 26 REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS v. 2006. In: Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos: novas leituras. Sonia E. do que se trata? Belo Horizonte: Ed UFMG. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política (Grundrisse). 1999. 1997. “Dança das cadeiras: revolução silenciosa de Fernando Henrique muda a face do capitalismo brasileiro. MARX. Para uma socioeconomia política da transição: possibilidades e limites da economia solidária. 20 Ago.). FIORI. Evelina. Belo Horizonte: Ed. Karl. Laboratório de Estudos Marxianos (LEMARX). participação e cidadania: de que estamos falando?”. TELLES. Alvarez. 39 n. mas não mexe na sua alma”. 2006. José Luís. “Sociedade civil. 1971. Vera da Silva. Espanha. OLIVEIRA. Fortaleza. Setembro. Artur Escobar (orgs.indd 26 16/10/2008 12:45:56 . Tese de Doutoramento apresentada ao Programa de PósGraduação em Sociologia (Universidade Federal do Ceará). Colóquio internacional “Políticas de ciudadania y sociedade civil en tiempos de globalizacion”. Direitos sociais: afinal. “Autoapresentação Programática”. Evelina Dagnino. Volumes 1 e 2. TELLES. UFMG. 1 2008 Revista CIENCIAS SOCIAIS 39-1 ufc 2008.

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