O DISCURSO DO JORNAL

JOSÉ REBELO

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Ao Rui André

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APRESENTAÇÃO
Este livro é, antes de tudo, a expressão de um investimento teórico que se iniciou em 1983 quando, então na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, decidi criar uma cadeira intitulada “Discurso dos Media” para o terceiro ano da Licenciatura em Comunicação Social. A mesma temática foi desenvolvida a partir de 1991, agora já no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa, no âmbito das cadeiras “Sistema dos Media” e “Práticas Discursivas”, do Mestrado em «Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação», e do curso de Pós-graduação em Jornalismo, lançado conjuntamente pelo ISCTE e pela Escola Superior de Comunicação Social. Ao preparar uma dissertação de Doutoramento em Sociologia, os instrumentos de análise discursiva que, entretanto, tinha aperfeiçoado, revelaram-se de importância capital: forneceram-me o quadro metodológico de natureza transdisciplinar – da sociologia, à linguistica, à semiótica, à pragmática -, adequado ao estudo da propagação e massificação de um discurso ideológico não democrático como o do salazarismo 1. Por

A dissertação de Doutoramento denominada Contribuição para o estudo das práticas discursivas do salazarismo foi defendida, no ISCTE, em Janeiro de 1998, e editada por «Livros e Leituras», em Novembro do mesmo ano, com o título Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo.

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isso, grande parte dos conceitos apresentados nas páginas que se seguem foram ilustrados com exemplos retirados do corpus Salazar. Mas este livro é, também, a expressão da minha paixão pelos jornais. Muito jovem entrei no República como jornalista profissional. O República de Carvalhão Duarte e de Artur Inês. Mais tarde, exilado em França, entrei no Le Monde. Como enviado especial, primeiro, e correspondente permanente, depois, cobri para este jornal os acontecimentos políticos em Portugal durante uma boa quinzena de anos. E, sobretudo, vivi experiências jornalisticamente inesquecíveis durante o chamado Verão quente de 1975. Quando prevalece o princípio da leitura rápida. Da leitura em diagonal. Quando prevalece o princípio da informação em simultâneo, próprio, para dizer como Hermínio Martins, de uma sociedade tecnomórfica. Quando ao tempo diferido se sobrepõe o tempo directo. Quando cada um de nós é avassalado por essa pressão do instante, apetece parar. Para reflectir. Numa das suas crónicas publicadas no Público, Eduardo do Prado Coelho dava conta de uma revista francesa significativamente chamada Don Quixote que propunha, num dossier especial, “soluções para um futuro mais lento”. Ficámos assim a saber que, no Peru, o direito à sesta está legislado desde os anos oitenta e que uma tentativa de suprimir esse direito provocara, de imediato uma greve da função pública. Ficámos igualmente a saber que na ultra tecnológica Califórnia, a Fundação Long Now programa constituir uma Biblioteca do Tempo Longo. E que, na Holanda, se fundou a Sociedade europeia para a Cronobiologia que defende a causa dos ritmos biológicos. A partir daí Prado Coelho formulava diversas sugestões “quixotescas”, nomeadamente: que o minuto de silêncio passasse a ter dois minutos, que se incrementasse o turismo imóvel, que a 13ª semana passasse a fazer parte do calendário. Tudo sugestões, acrescentava, com o objectivo de nos permitir “ler devagar”. Ora bem, a proposta contida neste livro é, justamente, a de fornecer mecanismos de leitura desconstructiva versus compreensiva do jornal. Lancemo-nos, então, o desafio

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de tentar descobrir como é que o jornal diz o que diz e porque é que o jornal diz o que diz. Lentamente. Na consciência de que a rapidez pode ser uma das estratégias mais eficazes para nos esconder o como e o porquê.

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1 - OBJECTIVIDADE E DISTANCIAMENTO

Tal como o camponês da Europa mediterrânica põe um colar de alhos em volta do pescoço para afastar os espíritos malignos, também o jornalista invoca a objectividade para se defender de eventuais acusações de parcialidade. Afirma-o Gaye Tuchman 2. Na sequência de uma investigação que conduziu junto de um jornal diário americano. Tuchman concluíu, por outro lado, que a táctica jornalística de escapar à crítica implica um cuidado especial em valorizar "factos" considerados incontornáveis e

inquestionáveis e em colocar as aspas nos sítios mais adequados 3. Gaye Tuchman não alimenta ilusões sobre a razão pela qual tal "facto" ou tal personalidade é ou não é notícia: a razão, assegura, é ideológica. Numa obra

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Cf. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”, in Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”, org. de Nelson Traquina, Vega, Lisboa, 1993.
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Intervindo num colóquio sobre "O 25 de Abril revisitado pelos media internacionais" organizado pelo jornal Diário de Lisboa, em Abril de 1990, Dominique Pouchin que, na altura da revolução de Abril, trabalhava no Le Monde, contou o episódio seguinte: "Em 1976, a sociedade de redactores do Le Monde convocou uma reunião e Hubert Beuve-Méry que, apesar de ter deixado a direcção do jornal seis anos antes, era sempre convidado, quis nesse dia usar da palavra. Levantou-se e disse, rápida e discretamente, com a sua voz sombria: «Fiquei um pouco inquieto quando li o jornal, há dias, porque vocês têm uma estranha maneira de pôr aspas. Li legitimidade revolucionária sem aspas e legitimidade democrática com aspas. Gostaria que pusessem as aspas no seu lugar»". Cf. Mesquita, Mário e Rebelo, José, O 25 de Abril nos Media Internacionais, Afrontamento, Porto, 1994, pp.182-183.

7 significativamente intitulada Making News 4, Tuchman sustenta, sem ambiguidades, que é a ideologia que faz com que certas ocorrências irrompam no campo da informação, enquanto outras são repelidas para fora desse campo. E a mesma autora acrescenta que, para conferir à escolha um tom de isenção, isto é, para camuflar a razão verdadeira, invoca-se, nos meios profissionais, a figura do "critério jornalístico". Remonta à segunda metade do século XIX, época em que surgiram, pela primeira vez, grandes orgãos de comunicação de massas destinados a extensos e variados públicos, o culto da "objectividade" e da "independência" do jornalismo. Anteriormente, os jornais pouco mais eram que simples instrumentos de debate político e religioso, ou suportes de ideias aprofundadas no âmbito de pequenos grupos. Em Paris, por exemplo, existiam, em 1848, cerca de 450 clubes de reflexão e mais de 200 jornais. Por vezes, as figuras de proprietário, de editor e de redactor, convergiam numa só e mesma pessoa, o "intelectual orgânico", de Gramsci, auto-investido na missão de interpretar, condensar, explicitar e defender os anseios da classe com a qual se identificava 5. Este tipo de jornalismo que Jürgen Habermas qualifica de "literário" corresponderia, segundo o filósofo alemão, a uma fase de evolução da imprensa em que o fim lucrativo era relegado para o último plano. E a falência formalmente assumida como instrumento de financiamento de um projecto político ou ideológico 6... A industrialização, implicando a descida acentuada de alguns custos de produção nomeadamente do preço do papel, aliada à melhoria das redes de transporte, ao alargamento do espaço público, à expansão do alfabetismo - aumentando o universo de leitores potenciais assim como os respectivos campos de interesse -, em suma, o desenvolvimento do capitalismo que, segundo Yves de la Haye, utilizou os meios de
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Free Press, New York, 1978.

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Sobre o conceito de “intelectual orgânico” em Gramsci, cf.Almeida Santos, João de, Os intelectuais e o poder, Fenda, Lisboa, 1999.
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Cf. L’ Espace Public – archéologie de la publicité comme dimension constitutive de la société bourgeoise, Payot, Paris, 1986, p.190.

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comunicação social como "lubrificantes das novas relações sociais de produção, de consumo e de troca" 7, explica as profundas alterações entretanto verificadas. Em França, Moïse Millaud lança, a 1 de Fevereiro de 1863, Le Petit Journal, vendido a 5 cêntimos. No ano seguinte, sai para a rua o Diário de Notícias, de Eduardo Coelho, a 10 réis 8. Na Grã-Bretanha a imprensa popular é definitivamente consagrada com a fundação do Evening News, em 1881, e do The Star, em 1888. Crescem exponencialmente as tiragens. Em 1900, Le Petit Parisien torna-se, com catorze anos de existência, o maior diário do mundo distribuindo cerca de um milhão e meio de exemplares. No começo da Segunda Guerra mundial, Paris-Soir ultrapassa os dois milhões, volume que, mais perto dos nossos dias, um jornal japonês, Asahi Shimbum, multiplica por cinco. Empenhados numa lógica de expansão constante, factor indispensável à captação de publicidade, logo, ao sucesso da empresa, os grandes jornais vocacionam-se para atingir todo o tipo de destinatários, sem distinção de classes ou de opções políticas. A objectividade jornalística apresenta-se, então, sublinha Mário Mesquita, “enquanto construção resultante de uma nova estratégia comercial da Imprensa”, já que “a extensão e diversificação dos públicos aconselham uma nova atitude, que se traduz num relato dos acontecimentos que seja válido para todos os leitores e não apenas para este ou aquele indivíduo ou grupo de indivíduos” 9. À chamada "imprensa de opinião" - expressão que passa a abranger pouco mais do que os orgãos oficiais dos partidos políticos - sucede a "imprensa de informação" que pretende limitar-se à apresentação de "factos". "O facto é sagrado, o comentário é livre", tal é o lema do chamado jornalismo "independente" claramente evidenciado no projecto original do Diário de Notícias que

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Dissonances – critique de la communication, La Pensée Sauvage, Paris, 1984, p. 42. Realce para a rapidez com que o novo modelo se implantou em Portugal. “Em louvor da Santa Objectividade”, Jornalismo e Jornalistas, Nº 1, Lisboa, 2000, p. 23.

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no número zero, editado em 29 de Dezembro de 1864

, proclama: "Eliminando o

artigo de fundo, não discute política, nem sustenta polémica. Regista com a possível verdade todos os acontecimentos, deixando ao leitor, quaisquer que sejam os seus princípios e opiniões, o comentá-los a seu sabor". Ao jornalista/"intelectual orgânico" sucede um jornalista investido no estatuto de agente moderador e divulgador. À identificação com uma classe sucede a identificação desideologizada com a sociedade no seu todo. Ao apelo vanguardista sucede a defesa da norma contida no senso comum. À actividade "literária" do redactor, sucede um trabalho considerado, este sim, especificamente jornalístico: "trabalhar a informação, separá-la, revê-la, paginá-la", afirma Habermas, "passa, frequentemente, a ser mais importante do que guardar fidelidade a uma «linha» cuja manutenção estava ligada à eficácia do discurso literário" 11. Desenham-se estratégias de concorrência que implicam a simplificação dos conteúdos e o recurso à espectacularização (o lead, a linguagem icónica, os grandes títulos, a ilusão da interactividade). Consolida-se um jornalismo do presente que, conferindo a prioridade à palavra do protagonista, relega para segundo plano a enunciação de causas ou a previsão de consequências. Causas e consequências que, naturalmente, implicariam interpretação: justamente o que se pretende evitar. Desenha-se, enfim, a tendência, que se confirmaria com o decorrer dos anos, segundo a qual o sucesso de um jornal deixa de estar ligado ao nome de um jornalista talentoso e sim ao de um editor hábil e ousado. Separando, formalmente, a notícia do comentário, e endeusando o jornalismo de reportagem ou de investigação, a escola anglo-saxónica contribuiria, decisivamente, para o avolumar desta ficção da objectividade e, correlativamente, para reforçar o mito do leitor-activo. Colocado perante uma mensagem isenta de conotações, este exerceria

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Analisado por José Manuel Tengarrinha em História da Imprensa Periódica Portuguesa, Portugália Editora, Lisboa, 1965, pp. 186-187.
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L’ Espace Public, op. cit., p. 193.

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livremente o seu poder criativo interpretando a mensagem em causa de acordo com a sua visão das coisas. Assim sendo, o "acontecimento" constituiria a "matéria prima", o recurso energético do eco-sistema da informação, o antecedente cronológico da notícia que, por seu lado, asseguraria a sua materialização. Um jornal, ou, de uma maneira geral, um suporte de comunicação
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, funcionaria como elo de ligação entre o "acontecimento",

situado a montante, e o "público", a juzante. Funcionaria como uma espécie de duplo funil, apto para captar os factos no seu próprio local de ocorrência, para os encaminhar na direcção do centro e, em seguida, para os redistribuir. Daí a noção de jornal como espelho da realidade, como transportador do real. Daí a noção de jornal ou de jornalista convertido numa espécie de satélite, pairando sobre o mundo, capaz de tudo captar, com o seu olhar panóptico, e de tudo transmitir sem reelaboração nem constrangimentos. Daí títulos como "A Voz", o "Correio da Manhã", "Le Nouvel Observateur", "Les Echos", etc.. Ladeando a crítica dessa suposta escrita de grau zero, parafraseando Roland Barthes que: 1. A "realidade social" não é a superfície lisa, o conjunto perfeitamente articulado, homogéneo e coerente que visões idealistas pretenderam impôr e que o aparelho da informação se limitaria a revelar. 2. O "acontecimento" não existe de per si. Ele está no ponto de convergência da ocorrência com a respectiva percepção. 3. Os media não são meras estruturas tecnológicas particulares. São, simultâneamente, sujeito e objecto do ambiente que os rodeia. São aparelhos sociais institucionalizados, como refere Enric Saperas
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, uma escrita neutra, isenta de qualquer dimensão interpretativa, observemos

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,

geradores de

O uso do termo “suporte”, muito frequente em estudos de imprensa, não é inocente: denota, com efeito, a vertente “mecanicista” de comunicação detectada em certos autores como Jakobson.
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Le degré zéro de l’ écriture, Seuil, Paris, 1972, p. 56. Cf. Os efeitos cognitivos da comunicação de massas, Asa, Porto, 1993.

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mediações simbólicas pelas quais se hierarquiza, se tematiza a realidade social. Recorrendo a uma noção tornada comum em sociologia da comunicação, os media, se não nos dizem como é que devemos pensar, indicam-nos, pelo menos, sobre o que devemos pensar. 4. O olhar do jornalista não é o do historiador que se confronta com acontecimentos já esgotados no tempo. Nem é o do dirigente político gerador de “verdades” adaptadas às estratégias e às tácticas que adopta em cada momento. O jornalista não é aquele sujeito exterior e distante, armado de uma independência, de uma neutralidade sem falha. Entre ele e o objecto da sua intervenção não há verdadeiro distanciamento. Nem espacial, nem temporal, nem cultural, nem sociológico. Até porque, como salienta Paul Ricoeur “narrar é já ‘reflectir sobre’ os acontecimentos narrados” 15. O jornalista transporta, em si, a Lebenswelt, conceito que Habermas retirou da fenomenologia de Husserl para designar aquele nível profundo de um grupo, de uma colectividade, onde se enraízam linguagens, normas e comportamentos comuns
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. Inscreve-se, pela

sua própria praxis, na realidade que descreve e estabelece, com o jornal para o qual escreve, uma relação mimética que o conduz a reproduzir o léxico e os valores desse mesmo jornal. Actua, assim, duplamente, como protagonista de um discurso dialógico e como parte de um colectivo profissional com regras e projectos próprios 17.

A realidade social não é uma superfície lisa. O "acontecimento" não existe de per si. O jornalista não é aquele sujeito exterior e distante, armado de uma
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Temps et récit II – La configuration dans le récit de fiction, Seuil, Paris, 1984, p. 92.

Em Théorie de l’agir communicationnel, Fayard, Paris, 1987, Habermas disserta longamente sobre os fundamentos da Lebenswelt - termo que se pode traduzir pela expressão “mundo vivido” ou “vivência do mundo” – e sobre as relações entre Lebenswelt e sistemas sociais, em particular os sistemas de comunicação.
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Cf. de José Rebelo “Imagens de um pretérito Imperfeito”, in O 25 de Abril nos Media Internacionais, op. cit.

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independência, de uma neutralidade sem falhas. Os media não são meras estruturas tecnológicas particulares... Estas considerações, tecidas em redor do fazer jornalístico, funcionam como pontos de partida para rápidas incursões em domínios que julgamos capitais para uma melhor desconstrução do tal discurso da objectividade. Um primeiro domínio tem a ver com a problemática da “leitura” ou da “compreensão” do real. Um segundo com a diversidade de actores que intervêm na produção de informação. Um terceiro com os complexos processos de retroacção que condicionam a génese e o desenvolvimento das empresas jornalísticas e dos seus conteúdos.

1. 1. DE GADAMER A HABERMAS: DOIS PARADIGMAS DE “LEITURA” DO REAL

Na esteira de Heidegger e da sua teoria do "círculo hermenêutico", Gadamer considera que a "leitura" de um texto e, generalizando nós, a "leitura" do real, pressupõe um projecto prévio, um projecto de "leitura" que existe por antecipação. O sentido que se retira dessa "leitura" é guiado pelas expectativas geradas, antecipadamente, pelo projecto que, por sua vez, se vai modificando, se vai reconstruindo, em função da sua aplicação a cada situação concreta com a qual entra em relação dialéctica 18. Esse projecto que vai guiar a nossa "leitura" do real, exprime-se pelos préconceitos de que cada um de nós está armado. Positivos uns, negativos outros. Uns e outros construídos no decurso do processo histórico. "No acto de compreender", precisa Gadamer, "entra sempre em jogo uma pré-compreensão em si mesma imbuída da marca da tradição determinante, na qual se situa o intérprete, e dos pré-conceitos formados no âmbito dessa tradição" 19.

18

É, precisamente, neste vai e vem projecto-objecto-projecto que se inspira a ideia desenvolvida por Heidegger de círculo hermenêutico.
19

Langage et vérité, Gallimard, Paris, 1995, p. 110.

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A história é, aliás, para o filósofo alemão, a instância última que tudo determina: "Não é a história que nos pertence, nós é que lhe pertencemos", afirma. E acrescenta: "Bem antes de chegarmos à compreensão de nós próprios através da meditação reflexiva, nós compreendemo-nos de maneira irreflectida no seio da família, da sociedade e do Estado em que vivemos" 20. Pertencendo nós à história, sendo nós da história parte integrante, impossível para nós dela nos distanciarmos. Impossível para nós olhá-la, observá-la, de fora. Citemos, de novo, Gadamer: "Não podemos escapar ao devir histórico, não podemos criar essa situação de distanciação que objectivaria o passado" 21. A mesma impossibilidade de distanciação caracterizaria as "ciências do espírito" que Gadamer opõe às "ciências da natureza". E caracterizaria as "ciências do espírito" já que os respectivos conteúdos não seriam mais do que conjuntos de efeitos históricos. Inscritas na história, as "ciências do espírito" alimentar-se-iam da tradição acumulada. Constituiriam seus pressupostos todas as formas de autoridade fundadas na e pela tradição. Note-se que, para Gadamer, a autoridade surge como algo de natural. "A autoridade", esclarece, "não encontra o seu fundamento último num acto de submissão e de abdicação da razão, mas num acto de aceitação e de reconhecimento: reconhecemos que o outro nos é superior na sua perspicácia e na sua capacidade de julgar, que o seu julgamento nos ultrapassa e prevalece sobre o nosso" 22. Temos pois, de acordo com o paradigma de Gadamer, que nós somos o que somos e nós pensamos o que pensamos. Não podemos ser senão o que somos e não podemos pensar senão o que pensamos. Porque o que somos e o que pensamos é determinado pela história. Pela tradição. Pela autoridade imanente. Passemos, agora, ao paradigma de Habermas.
20

Vérité et méthode: les grandes lignes d’une hermenéutique philosophique, Seuil, Paris, 1976, p. 115. Citado por Paul Ricoeur in Du texte à l’ action – essais d’ hermenéutique, Vol. II, Seuil, Paris, 1986. Vérité et méthode, op. cit., p. 118.

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À noção de pré-conceito como factor estruturante da compreensão do real, própria ao modelo de Gadamer, opõe Habermas a noção marxista (de um marxismo revisto pela escola de Frankfurt) de interesse, ou melhor, de interesses
23

. Destes há os

que, dissimulados por ideologias pretensamente desinteressadas, devem ser, no seu entender, desmascarados por uma filosofia crítica. Assim, às "ciências do espírito" entendidas por Gadamer como ciências da cultura, como ciências da tradição, opõe Habermas as "ciências críticas" cuja tarefa essencial consistiria em discernir, a partir da análise das regularidades observáveis pelas ciências sociais empíricas, relações de antagonismo, de dominação ideologicamente dissimuladas. Consistiria em revelar a dependência do sujeito relativamente aos constrangimentos institucionais. Consistiria em canalizar o reconhecimento dessas formas de dependência no sentido de uma libertação desse mesmo sujeito. Habermas recusa a convergência de tradições e a consequente consensualidade que o modelo de Gadamer pressupõe. Recusa a imposição ou a glorificação do passado como fonte do ser e do saber. Recusa, enfim, o conceito gadameriano de autoridade que associa não à aceitação, não ao reconhecimento, mas sim à violência institucional ou

institucionalizada.

Regressemos ao discurso da objectividade e do distanciamento. Fácil será concluir que nem um nem outro dos paradigmas aqui muito resumidamente expostos lhes reconhece validade. Com Gadamer, diríamos que o fazer jornalístico assenta em pré-conceitos que exprimem, em cada momento, a tradição e a autoridade comummente reconhecidas.

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Em Connaissance et intérêt (Gallimard, Paris, 1976), Habermas considera a existência de um pluralismo de esferas de interesse das quais se destacam três, cada uma delas estruturando um grupo de ciências: a esfera do interesse técnico (ou acção instrumental) que regula as ciências empírico-analíticas; a esfera do interesse prático (ou acção comunicativa) que regula as ciências histórico-analíticas; a esfera do interesse pela emancipação que regula as ciências sociais críticas.

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Com Habermas, diríamos que o fazer jornalístico assenta em esferas de interesses que exprimem, em cada momento, posições ideológicas mais ou menos dissimuladas.

1. 2. A DIVERSIDADE DE ACTORES NA PRODUÇÃO DE INFORMAÇÃO "Media e intelectuais: uma autonomia ameaçada" era um dos temas inscritos na agenda do Parlamento Internacional dos Escritores quando este se reuniu em Lisboa, em 1994. Pensar-se-ia que a ameaça referida incidiria tanto sobre os media como sobre os "intelectuais". O equívoco foi, no entanto, levantado pelo investigador francês Patrick Champagne, encarregado de introduzir o debate. Afinal a ameaça, contra a qual o dito Parlamento era convidado a insurgir-se, incidia, apenas, sobre os "intelectuais". Melhor ainda: a autonomia dos "intelectuais" estaria ameaçada pelos media. Para chegar a esta conclusão algo maniqueísta, Patrick Champagne opôs o "campo dos media" ao "campo dos intelectuais". O primeiro seria constituído por jornalistas mais ou menos ignorantes (abriu, claro está, as devidas excepções), obcecados pela busca incessante da notícia, pela "cacha" que faz vender o jornal ou aumentar a audiência do programa radiofónico ou televisivo. No segundo, encontrar-seiam os escritores, praticamente impedidos de se fazer ouvir, sujeitos a opções jornalísticas de cariz mercantilista, expostos a regras castradoras do pensamento que obrigam, por exemplo, a resumir uma obra em dois parágrafos ou em dois minutos. E daí a proposta que, solenemente, formulou: deveria o Parlamento Internacional constituir uma espécie de "conselho" ao qual caberia uma dupla função. Por um lado encaminhar os jornalistas para tal ou tal escritor (note-se que, ao longo da sua exposição, Patrick Champagne associou sistematicamente as categorias de "escritor" e de "intelectual" excluindo desta última a de "jornalista") em função dos objectivos enunciados pelo profissional da informação. Por outro lado, alertar o escritor/intelectual para as estratégias de comunicação e de manipulação que os novos media, sobretudo os audiovisuais, praticariam.

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Um ano mais tarde, o mesmo Patrick Champagne debruçou-se de novo sobre o estatuto do jornalista e a prática do jornalismo 24. Adoptando, agora, um tom mais moderado, Patrick Champagne considerou que a imagem social do jornalista oscila entre dois polos: O polo positivo - o grande reporter, o jornalista de investigação, o grande comentador político; O polo negativo - o corrupto, o paparazzi que, por motivos comerciais, invade a vida privada do cidadão. A polémica ou a crítica ao papel e às funções dos media e, consequentemente, dos jornalistas, basear-se-ia, na sua opinião, em dois argumentos: - Desproporção entre a capacidade crítica dos jornalistas e a importância dos instrumentos que a tecnologia, cada vez mais sofisticada, coloca ao seu dispôr; - Desenvolvimento de uma forma de poder - a mediocracia - cujos agentes não são controlados pela vontade popular expressa no voto. Incompetência e impunidade, portanto. Ao acentuar este duplo aspecto sobre o qual residiria o poder nocivo dos media
25

, Patrick Champagne inscreve-se num

movimento protagonizado por sociólogos que se reclamam do pensamento de Pierre Bourdieu e cujos trabalhos - Contre-feux, Les nouveaux chiens de garde, juntamente com Sur la télévision, assinado pelo próprio Bourdieu 26 - se encontram reunidos numa colecção de pequeno formato e de preço reduzido intitulada «Liber-Raisons d'Agir» 27. Em Les nouveaux chiens de garde, Serge Halimi recorre à expressão usada, em 1932, por Paul Nizan, para denunciar os filósofos por ele apelidados de "cães de guarda" que,
24

“A dupla dependência. Algumas observações sobre as relações entre os campos político, económico e jornalístico”, in Hermes Nº 17/18, Paris, 1995, pp. 215-229.
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Muitos são os casos apontados como exemplos desse poder nocivo: suicídio, em 1936, de Pierre Salengro, ministro socialista da Frente Popular; suicídio, em 1993, de um outro ministro socialista francês, Pierre Béregovoy; acidente mortal que vitimou a princesa Diana e o seu acompanhante, em 1997, etc.
26

Todos eles já editados em Portugal pela Celta.

27

O objectivo dos mentores da iniciativa é o de criar uma espécie de biblioteca popular de cariz manifestamente panfletário.

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ao abrigo do que consideravam ser uma reflexão filosófica, mais não fariam do que proteger o capitalismo. Os "novos cães de guarda", no entender de Serge Halimi, seriam os jornalistas empenhados em defender, directa ou indirectamente, o poder dominante. Se nos abstrairmos das formas mais radicais da polémica aqui traçada
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,

diremos que ela tem origem na grande proximidade entre os campos. Campos que se cruzam. Campos que, por vezes, se confundem. É justamente neste ponto que assenta um dos aspectos mais controversos da análise dos media efectuada pelo grupo de Bourdieu, nitidamente espelhada na intervenção em Lisboa de Patrick Champagne, aquando da reunião do Parlamento Internacional dos Escritores. A oposição "campo dos media"/"campo dos intelectuais", tem cada vez menos sentido. Atestam-no Daniel Defert e François Ewald que, no décimo aniversário da morte de Michel Foucault, compilaram, num espesso volume de três mil páginas, todos os textos, todas as entrevistas e todos os prefácios relativos ao filósofo francês. Num balanço a essa obra, publicado no «Magazine Littéraire», em Outubro de 1994, pode lerse a seguinte afirmação de François Ewald: "diverti-me a sublinhar, nas entrevistas em que pediam a Foucault para se definir, as ocasiões que ele aproveitava para dizer 'o que eu não sou': eu não sou filósofo, eu não sou historiador, eu não sou estruturalista. Uma das suas identificações positivas é: eu sou jornalista". No "campo dos media" cruzam-se, pois, jornalistas, dirigentes políticos, escritores, advogados, juízes. Todos eles formadores de opinião. Muitos deles em busca de uma maior visibilidade social. A este propósito, são particularmente interessantes duas entrevistas publicadas no «Expresso Revista» de 24 de Setembro e de 8 de Outubro de 1994. A primeira, de um célebre advogado americano, William Kunstler, especialista em causas que envolvem políticos radicais de esquerda. A segunda, de Jacques Vergès, um advogado
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Em O jornalismo segundo Bourdieu (um volume editado pela Fayard, em 1999, com as características dos que constituem a colecção «Liber-Raisons d’Agir», pequeno formato e baixo preço), Daniel Schneidermann, jornalista do «Le Monde», convida os jornalistas a passarem ao contra-ataque. “Chegou o tempo de levantar a cabeça”, proclama.

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francês não menos célebre, tanto pelos constituintes que aceita defender, como pela sua estratégia de utilização dos media enquanto instrumentos de contestação da filosofia ocidental do direito, da ordem e do Estado: "A justiça é como a guerra, nunca é limpa", declara Jacques Vergès que acrescenta: "Não há justiça, há justiças". Relembrando o caso dos "terroristas" argelinos e angolanos conclui: "Um terrorista condenado aqui seria certamente declarado herói noutros locais e noutros tempos". Kunstler insiste, por seu lado, na necessidade de trazer para a rua os processos em curso, ou melhor, os seus processos, por natureza extremamente melindrosos. "As questões revolucionárias tratam-se na rua. Ou seja, à saída do Tribunal, nas escadas, em conversa com a imprensa", confessa o causídico americano. E tratam-se na rua, esclarece, para influenciar o juiz ou condicionar os jurados. Sobre os jurados, Kunstler não esconde, aliás, um certo pragmatismo ou, até mesmo, uma certa displicência: "Procura-se constituir um grupo de 12 pessoas que reuna as condições de inteligência e isenção. É discutível que tais pessoas existam, ou que o sistema as possa detectar. Mas ainda que assim fosse, nenhuma garantia existe de que elas se mantenham puras até ao fim do julgamento. Nenhum isolamento as impedirá de perceber em que direcção sopram os ventos". Mais ainda que um céptico, Kunstler não alimenta, quaisquer ilusões sobre as virtualidades do sistema. Por isso afirma, peremptório: "Um assassino, se for popular, não é um criminoso". À semelhança de Kunstler, também Vergès preconiza a publicização dos processos. Embora por razões diferentes. Menos confiante na possibilidade de influenciar o tribunal, Vergès espera tirar, dessa publicização, efeitos para o futuro: "um experiente advogado de defesa sabe, pela prática, que este tipo de processos estão antecipadamente julgados, seja qual for o regime, democrático ou totalitário, seja o governo de esquerda ou de direita. Neste contexto, a defesa trabalha para o futuro, e é por isso que eu defendo sempre que estes processos sejam filmados".

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Outro aspecto que aproxima os dois advogados é a percepção do tribunal como um espaço cénico. Um espaço de representação. Onde o "fazer crer" é mais importante que o "crer". Diz Kunstler: "Naquele 23º andar do edifício federal de Chicago, aprendi que o tribunal é como um palco. Aprendi como usar o meu corpo e a minha voz. Aprendi que os 12 indivíduos do júri eram pessoas, primeiro, e jurados depois. Aprendi a manifestar o meu lado com o qual os jurados se podiam identificar, a ser convivial, nunca arrogante. Chicago ensinou-me que a oposição ao "establishment" - o qual se destina a assegurar, por meios justos ou injustos, que não haja nenhuma reestruturação significativa da ordem sócio-político-económica - não tem a mínima chance de vencer se não lutar tão duro como o próprio sistema." Corrobora Vergès: "A defesa deve ser encarada como uma obra de arte - uma criação". Entre nós, as mesmas teses são assumidas pelo que se acordou chamar "a nova vaga da justiça" que encontra expressão, por exemplo, no juiz António Martins que julgou o chamado "caso Beleza", na juiza Filipa Macedo e no juiz Ricardo Cardoso, ambos ligados ao "caso Emaudio". Todos determinados pela vontade mais ou menos oculta, ou claramente afirmada, de afirmar um protagonismo no espaço público. Neste desfiar de actores que, a diferentes níveis, intervêm no processo de produção de informação / opinião, uma palavra para aqueles que, no espaço público, são identificados com tal ou tal corrente política ou ideológica. Referimo-nos aos chamados opinion makers que em Portugal, por exemplo, têm vindo a assumir uma importância crescente, nomeadamente por razões ligadas à inovação tecnológica e por razões ligadas a estratégias empresariais. Com as novas tecnologias, a informação contínua, a informação em directo, prevalece no dia-a-dia das redacções. Ao tempo diferido vai-se sobrepondo o tempo real. Gradualmente, acentua-se a tendência para a simultaneidade entre o momento da ocorrência e o da respectiva divulgação, susceptível de reduzir a função do jornalista à

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de mero relator, reduzindo a sua capacidade de comentar, de interpretar. Donde, linha aberta para o recurso aos opinion-makers. Mas ao recorrer aos opinion-makers, as empresas de comunicação social podem visar outros objectivos: 1. Criação da ilusão de pluralidade. 2. Transferência de responsabilidades para o exterior da própria empresa. 3. Desencadeamento de jogos de espelho entre media(s) e respectivo(s) público(s): os media constituindo painéis de comentadores externos segundo a representação que eles próprios constroem do(s) seu(s) público(s); o(s) público(s) encontrando coincidência entre os paineis que lhe são proporcionados e a representação que tem (ou têm) dos seus órgãos de comunicação social preferidos. 4. Contrapartida a apoios, habitualmente discretos quando não confidenciais, obtidos junto de organizações políticas, culturais, religiosas etc. A análise da génese e do estatuto dos opinion makers deverá ainda ter em conta que estes: 1. Constituem, por vezes, focos de tensão no contexto das redacções, sobretudo quando beneficiam de honorários claramente superiores aos níveis salariais dos jornalistas. 2. Podem contribuir para desencadear, no interior da própria classe dos jornalistas, uma reflexão positiva sobre o exercício da respectiva profissão. 3. Funcionam em circuito fechado, isto é, constituem grupos reduzidos, de lenta renovação. 4. Entregam-se à prática de leituras recíprocas que induz efeitos de estandardização dos conteúdos. 5. Situam-se, frequentemente, na convergência de uma vertente mediática e de uma vertente político-partidária: valem politicamente enquanto sujeitos mediáticos e valem mediaticamente enquanto sujeitos políticos.

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Centremo-nos, por fim, nos jornalistas propriamente ditos, ou seja, naqueles que fazem do jornalismo a sua efectiva actividade profissional 29.
29

Embora a questão seja, aqui, abordada em termos abstractos, será, talvez, oportuno fornecer alguns elementos que permitam uma primeira caracterização do jornalista português. Esses elementos, obtidos através da Comissão da Carteira Profissional, assim como de inquéritos à classe lançados pelo respectivo sindicato e sociologicamente analisados por José Manuel Paquete de Oliveira, professor do ISCTE, e José Luís Garcia, assistente de investigação no ICS, mostram: 1. Progressão de portadores de carteira profissional: 700 profissionais em 1974; 1281 em 1987; 2374 em 1990; 3850 em 1994 e 4300 em 1997. O crescimento verificado até meados da década de oitenta explica-se, em grande medida, pela entrada de militantes partidários em órgãos de comunicação social do sector público e pela multiplicação de assessorias na administração local e central assim como no sector empresarial público. Um segundo período, em que se acentua fortemente essa curva de crescimento, é marcado pela liberalização da rádio (1988), pela abertura de canais privados de televisão (1990/91), pela privatização e modernização do «DN» e do «JN» (1990 em diante) e pelo lançamento do «Público» (1990). Uma vez preenchidos os quadros reservados às assessorias, uma vez satisfeitas as necessidades imediatas dos novos órgãos de comunicação social; uma vez desencadeada a crise na televisão pública com a consequente limitação de novas admissões, regista-se uma desaceleração do crescimento, primeiro, e uma inversão do sentido da curva, depois. Hoje, o recrutamento de jornalistas ou, mais genericamente, de profissionais das ciências da comunicação, deve-se, apenas, ao preenchimento de vagas suscitadas pela normal rotatividade profissional. Rejuvenescimento: em 1990, mais de 2/3 dos interrogados tinha menos de 45 anos de idade (segundo dados da Comissão da Carteira Profissional, para o ano 2000, a proporção será, actualmente, de 4/5) ; 44% entrara numa Redacção há menos de 10 anos e 59% há menos de quinze. Feminização: em 1974, apenas algumas dezenas de mulheres exerciam a profissão. Em 1987, as mulheres já representavam 19,8% do total dos jornalistas inscritos no sindicato. Em 1994, o índice de feminização atingia os 30% e, em 1997, os 37%. Aumento dos níveis de escolaridade: os titulares de um bacharelato ou de uma licenciatura em áreas ligadas à comunicação social correspondiam a 6,5% do total, em 1988, e a 13% em 1992. Em termos globais o índice de licenciados, nos diversos ramos do ensino superior, ultrapassava, em 1997, os 37%. Precarização da relação de trabalho: segundo o 1º Inquérito aos jornalistas portugueses, realizado em 1990 19,4% dos inquiridos tinham contratos a prazo; 7,3 % não possuiam qualquer contrato; 62% faziam, habitualmente, horas extraordinárias; destes, 73% confessaram não auferir, disso, qualquer contrapartida financeira. Origem social vincadamente burguesa (dados de 1990): filhos de quadros técnicos superiores ou membros de profissões liberais (burguesia dirigente ou burguesia profissional) – 29,8%; filhos de quadros administrativos ou exercendo profissões de chefia (pequena burguesia técnica ou de enquadramento) – 22,1%; filhos de escriturários ou de empregados da administração pública, da indústria e do comércio, sem posições de chefia (pequena burguesia de execução) – 26%; filhos de operários – 19,6%; filhos de pequenos agricultores ou de assalariados agrícolas – 2,6%.

2.

3. 4.

5.

6.

Da análise das respostas ressalta, igualmente, que os jornalistas se subdividem em três estratos. No topo, encontra-se um grupo extremamente reduzido, em número, mas dotado de grande visibilidade social. Os membros desse grupo são os principais responsáveis pela imagem da profissão junto da opinião pública. Quando em situações de crise, optam pela lealdade à entidade patronal, em detrimento de atitudes de deserção ou de protesto. Constituem o chamado star system. Detecta-se, em seguida, um grupo de jornalistas recém chegados à profissão. Jovens, aceitam sem relutância especial situações de precaridade contratual. São altamente motivados em termos de ascensão hierárquica: objectivo que relega para um plano secundário quaisquer preocupações de ordem deontológica. Desenvolvem atitudes miméticas relativamente ao grupo de topo, isto é, à elite. O terceiro grupo, o grupo intermédio, é formado por jornalistas mais antigos mas sem grandes expectativas de promoção.

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Importa relativizar o paradigma negativo do jornalista, tal como interessa questionar o conceito de autonomia absoluta do jornalista: o jornalista que corre mundo, qual justiceiro universal, que descobre tudo contra ventos e marés. O perfil do jornalista que procura insaciavelmente a "cacha", esboçado por Patrick Champagne, corresponde a uma espécie que se rarifica. Porque se assiste a uma progressiva centralização das fontes. Porque as novas tecnologias permitem, cada vez mais, que todos tenham acesso a tudo. Assim, para além da obtenção da notícia, em si, o importante, para o jornalista actual, passa a ser o seu tratamento, a maneira como a aproveita, as ilações que dela consegue extrair. Por outro lado, o jornalista é, na esmagadora maioria dos casos, um profissional assalariado e, como tal, sujeito a condicionamentos vários. Condicionamentos económicos inerentes à situação da empresa jornalística no mercado concorrencial. Condicionamentos ligados à inovação tecnológica, alguns dos quais já foram referidos a propósito da emergência dos opinion-makers. Condicionamentos ligados à evolução da própria profissão, nomeadamente: multiplicação de outras profissões na sua periferia compositores, revisores, paginadores, desenhadores, fotógrafos; especializações no seu interior - jornalismo económico, político, cultural, desportivo...

1. 2. 1. JORNALISTA / FONTES

Exceptuando o caso das agências noticiosas cuja razão social é, justamente, vender informação, a negociação entre fontes e jornais é, sobretudo, simbólica
30

. O valor de

troca é, de alguma forma, coincidente com o valor de uso. A fonte cede ao jornal uma informação que interessa a este difundir e que interessa a ela que seja difundida. A relação negocial salda-se, pela parte da fonte, na medida em que a difusão da
Revelam acentuada acomodação social e profissional e aceitam que, sobre eles, recaiam as principais tarefas de rotina.
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Sobre a problemática das fontes, cf. Wolf, Mauro, Teorias da Comunicação, Editorial Presença, Lisboa, 1992, e Santos, Rogério, A negociação entre jornalistas e fontes, Minerva, Coimbra, 1997.

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informação por si transmitida é feita nos termos que julga mais proveitosos. Salda-se, pela parte do jornal, na medida em que este verifica possuir informações cuja qualidade e oportunidade lhe permite acompanhar, senão ultrapassar, a concorrência. 31. A colheita de informações fundamenta-se, portanto, em relações mais ou menos precisas, mais ou menos vagas, entre pessoas, grupos ou instituições diversas, por um lado, e a empresa jornalística ou os próprios jornalistas, por outro. Dir-se-à, em resumo, que a circulação da informação, da fonte até ao destinatário/leitor supõe uma tripla estratégia: - a estratégia da fonte que faz chegar à empresa jornalística apenas as informações que ela julga úteis de colocar em circulação; - a estratégia da empresa jornalística que dá, apenas, guarida às informações que julga adequadas ao seu projecto editorial e, por extensão, ao(s) seu(s) público(s); - A estratégia do destinatário último que manifesta disponibilidade em relação, apenas, às informações susceptíveis de integrar o seu quadro de referência. Que a relação entre o jornal e a fonte (regular, intermitente, ocasional ou efémera) seja unilateral, estimulada ou solicitada, pelo jornal ou pela fonte, nada disso altera a questão central. E a questão central é que, em torno dessa relação, se desenvolve a estrutura fundadora do sistema de comunicação de massas, constituída pelo jornalista, activo ou operacional, em relação com uma fonte ou com um stock de informações. Tal como a informação, nela própria, não tem sentido, também o jornalista isolado, extraído da sua estrutura, não existe. Frequentemente o seu "valor", sobretudo

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Desta grande proximidade, quando não imbricação, entre fontes e media, resulta a criação de empresas de consultoria encarregadas da preparação de dossiers de imprensa, da organização de conferências de imprensa etc. Assiste-se, então, a uma alteração do estatuto da empresa jornalística que passa a ser objecto de uma mediatização a montante. Ao sair da fonte, a mensagem traz, já, título e subtítulo(s). E, se necessário, foto com a respectiva legenda. Encontra-se, pois, em condições de ser imediatamente difundida pela empresa jornalística que não lhe acrescenta nenhum "valor" e se assume, assim, face à empresa consultora em comunicação, como empresa-relais.

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no caso do jornalismo especializado, é aferido pela qualidade e quantidade de fontes com as quais estabelece laços de exclusividade. Destas, interessa destacar as fontes institucionais: órgãos da administração local ou central; partidos políticos; tribunais; polícia, bombeiros e hospitais; organismos parapúblicos como, por exemplo, sindicatos, associações patronais, câmaras do comércio, da indústria, da agricultura; grandes instituições sociais como o exército, as igrejas, as universidades; associações permanentes, encarregadas da organização de manifestações periódicas como feiras comerciais, exposições, colóquios; grupos recreativos com as respectivas federações e delegações locais. A rede por elas constituída reflecte, de algum modo, a estrutura social e as formas de poder existentes numa dada região. Ligadas à vida política, económica, social e cultural, tecem, com os órgãos de comunicação social, relações estáveis e estruturadas, constantemente corrigidas pela prática. A preponderância da informação por si proposta, e aceite, permite-lhes “contaminar” o conteúdo dos media. Cabe-lhes, de facto, a iniciativa de propor muita da informação a difundir, assim como lhes cabe, repetidamente, a iniciativa de criar o(s) acontecimento(s) a que essas informações se reportam. Quanto maior for a sua respeitabilidade, quanto maior for a oportunidade, a produtividade e a credibilidade das informações que disponibilizam, tanto maior será o interesse nelas depositado pelo jornalista. Em fontes deste tipo, generaliza-se a prática da acreditação. A empresa, a administração, a instância económica social ou política, confere crédito a um jornalista, reconhecendo-lhe capacidade para tratar informações relativas a actividades por si desenvolvidas. Mas se o jornalista, ao ser acreditado, passa a beneficiar de uma relação privilegiada com a instituição acreditante, converte-se, por outro lado, em refém dessa mesma instituição. De acreditado pode passar a personna non grata. É corrente, então, a instituição que acredita exercer pressões sobre a empresa jornalística, no sentido de esta se fazer representar por um outro jornalista.

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Assim, directa ou indirectamente, a instância-fonte "escolhe" os jornalistas com os quais vai trabalhar. Estabelece com estes uma relação de cordialidade que, por vezes, se confunde com formas de promoção social: acesso fácil ao gabinete do ministro, almoços frequentes com tal ou tal personalidade, reconfortante sensação de entrar num segredo só partilhado por quem goza de incontestável confiança. Mas que é susceptível de produzir efeitos menos transparentes: possibilidade da fonte filtrar o que deve e o que não deve ser objecto de notícia ou de se eximir a ocupar o lugar da enunciação, transferindo para o jornalista ou para o jornal a responsabilidade do dito. Perante uma atitude de filtragem por parte da fonte, qual deve ser a resposta do jornal ou do jornalista? Deve respeitar o desejo de ocultação revelado pela fonte? Deve ultrapassá-lo recorrendo, se for caso disso, a outras fontes? Por quem e por quê optar? Pela manutenção das relações com a fonte? Por aquilo que entende serem os direitos do leitor? Sem nos alongarmos em considerações de natureza deontológica, cremos que a solução depende da avaliação, feita pelo jornal ou pelo jornalista, da importância daquilo que, caso a caso, está em jogo. Mais radical é, todavia, a posição adoptada por Eliseo Véron, na análise que faz à repercussão, na comunicação social, do acidente ocorrido, em 1979, na central nuclear americana "Three Mile Island"
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. Diz ele que, mesmo na posse de informações

incompletas, os media não devem nunca guardar silêncio. A sua obrigação é falar, acrescenta. As informações emitidas podem revelar-se inexactas? Pouco importa: o ónus das inexactidões recairá, sempre, assegura Eliseo Véron, sobre as instituições que apostaram no segredo. Mas as pressões sobre os jornalistas não vêm somente das fontes institucionais, aliás, as mais fáceis de identificar e as de mais fácil resposta. Inexplícitas, quase que desmaterializadas, bem mais insidiosas, são as provenientes de lobbies que defendem,

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Veron, Eliseo, Construire l’ événement – les médias et l’accident de three mile island, Minuit, Paris, 1981.

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já não instituições, mas os seus próprios interesses de grupo, ou as provenientes dos chamados líderes de opinião. Durante muito tempo, a sociologia da comunicação considerou o campo da recepção constituído por indivíduos isolados, expostos à acção dos media. Estes funcionariam como uma agulha hipodérmica através da qual o conteúdo da seringa se espalharia, uniformemente, pelo corpo. No espaço público, ainda hoje prevalece a mesma ideia de poder incontrolável dos media. Daí a confiança, por vezes cega, que um dirigente político, por exemplo, deposita na acção desenvolvida por um órgão de comunicação social. Confiança que só tem igual no vigor com que denuncia práticas jornalísticas que não se harmonizem com os seus interesses. Paul Lazarsfeld em The People's choice e Elihu Katz em The twostep flow of mass communication, dois clássicos das ciências da comunicação, verificaram que o processo de circulação da notícia não é tão simples. No interior dos grupos sociais encontram-se indivíduos mais expostos ao conhecimento do que outros. Líderes dos seus grupos, transmitem, a estes, a informação a que foram mais sensíveis, acrescida dos seus próprios comentários. A questão complica-se, no entanto, quando se analisa mais em pormenor o estatuto e as funções de tais líderes. É que, em muitos casos, eles não se limitam a transmitir a notícia recolhida de um órgão de comunicação social, acrescida dos seus comentários. Dispondo da possibilidade de conhecer, antes do próprio jornalista, o futuro desencadear de uma dada ocorrência, eles podem funcionar como fontes do jornalista ou do jornal. Podem estar, assim, na origem dos próprios fluxos de informação, geradores da notícia difundida à qual acrescentam os seus comentários. Para não considerar os casos em que a ocorrência é criada por eles mesmos. À semelhança do que afirmámos, a propósito das pressões exercidas por fontes institucionais, também no que toca às pressões de lobbies ou de líderes de opinião, o grau de aceitabilidade deve ser função de uma avaliação casuística. À partida, não convirá ao jornal ou ao jornalista entrar em situações de ruptura. Qualquer eventual contemporização não pode, todavia, pôr em causa nem as convicções do jornalista, nem

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o estatuto editorial do jornal, nem a representação que o jornalista ou o jornal construiram do seu público. Tratando-se de líderes de opinião, a avaliação terá, ainda, de considerar o papel por estes exercido enquanto portadores de pontos de vista e de preocupações de grupos sociais; enquanto promotores de respostas, de reacções, a notícias relativas ao seu grupo ou que ao seu grupo possam, indirectamente, interessar; enquanto fontes exclusivas de determinados conteúdos.

1. 2. 2. JORNALISTA / MERCADO

O objectivo de uma empresa jornalística, de dimensão comercial, consiste em criar riqueza traduzível em benefícios, mais valias etc. Para que esse objectivo seja alcançado, é necessário que o saldo entre valor produzido e valor consumido seja positivo. Isto é, que a relação entre receitas marginais e custos marginais seja superior à unidade. Dito de outro modo. A fim de maximisar os seus benefícios, a empresa de comunicação de massas analisa constantemente as suas receitas marginais: o benefício é máximo quando as receitas marginais são iguais aos custos marginais e, consequentemente, quando um aumento de produção deixa de ser vantajoso já que o suplemento de receitas, assim obtido, passa a ser inferior ao correspondente suplemento de custos. Os rendimentos de uma empresa jornalística estão, pois, ligados à venda, à audiência dos respectivos produtos. Só que, enquanto produto, um jornal escapa à concepção tradicional de troca económica realizada num dado espaço e num dado tempo e que se traduz numa alteração de haveres: aquele que vende perde o bem que, antes, possuía; aquele que compra apropria-se de um bem que, antes, não tinha. Ora os media nunca perdem a "sua" informação, tal como os leitores ou os telespectadores nunca ficam detentores, em exclusivo, de uma qualquer informação. Diremos que o que está em causa no "mercado media" é algo de diferente. O que os media vendem é o acesso a uma informação. O que os leitores ou os telespectadores compram é a possibilidade de aceder a essa informação.

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Em função da representação sociológica dessa audiência, assim os media tendem a configurar os seus conteúdos. Relação de adequação que nem sempre é pacífica. O dever de informar e, duma forma genérica, os princípios deontológicos da profissão de jornalista adaptar-se-ão a esta necessidade de vender um produto? A contradição entre dever de informar e dever de fazer um produto vendável (deveres de natureza diferente, aliás) é, por demais, evidente. Muitas das vezes, opera-se, então, um jogo de influências, uma relação de forças internas, ou, ainda, uma confrontação entre princípio do prazer e princípio da realidade que desemboca num compromisso, num modus vivendi diferente de caso para caso. Mas, sendo esta a necessidade primeira de uma empresa jornalística de dimensão comercial, situada, portanto, no mercado da concorrência, daí resulta - sobretudo quando se trata de medias do mesmo tipo - um efeito de uniformização. O que confirma a teoria de Baudrillard sobre a mais pequena diferença margina l33: o que os outros não têm, sublinha o sociólogo francês, é que faz a nossa diferença. Pressupõe-se, portanto, que, para um determinado público, temos tudo aquilo que os outros têm. A relação entre media e mercado, expressa nas vendas ou nos índices de audiência, introduz a ideia de marketing. Para os teóricos do marketing na comunicação social, o produto-jornal não é um fim mas um meio posto ao serviço da satisfação da vontade dos leitores. Um media não se definirá, apenas, a partir dos desejos de quem está encarregado de o conceber e de o realizar. Definir-se-à, também, a partir das necessidades que emergem no exterior. Que emergem, em particular, nas populações que ele pretende atingir, ou satisfazer. Eis-nos perante um conceito de marketing que, em vez de consagrar os jornalistas como principais actores na definição e produção dos conteúdos do jornal, ou da estação de rádio ou do canal de televisão - e o caso é mais gritante nalgumas revistas especializadas, tal como nalgumas rádios locais – lhes reserva um papel de executores,

33

Cf. La société de consommation – ses mythes, ses structures, Gallimard, Paris, 1983.

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dentro de um quadro previamente fixado. Quadro que corresponde a um produto previamente definido, previamente determinado. Compreensível, portanto, a reacção negativa que a “dimensão marketing”, cada vez mais espalhada, provoca em muitas Redacções. Porque prevalece, ainda, uma certa ideia de "poder" dos media, visto isoladamente, isto é, autonomizado em relação a outros poderes, o poder do sistema político, o poder do sistema económico, etc. Porque as funções de redacção e de impressão gozam, ainda, de um estatuto de "nobreza" relativamente às funções de gestão e de comercialização 34. Repare-se que falamos de empresa comercial. Outros objectivos e, portanto, outras relações estarão presentes, por exemplo, numa empresa sem fins comerciais, virada, sobretudo, para a prestação de um serviço público.

1. 3. PROCESSOS E EFEITOS DE RETROACÇÃO

Uma empresa jornalística, enquanto sistema, é uma espécie de "caixa negra" na qual os fluxos de entrada - matérias primas imateriais (as mensagens em estado bruto), matérias primas materiais (papel, tinta, etc.) e outros (trabalho, investimento, receitas, créditos, subsídios) - se combinam entre si, segundo um processo particular delimitado no tempo, para se confundirem num fluxo de saída concretizado pela produção em série de jornais e pela concomitante realização de rendimentos. Mas, e de acordo com o mesmo conceito de sistema, essa “caixa negra”, em que se articulam harmoniosamente os diferentes elementos da empresa jornalística, está, por sua vez, em articulação com o meio envolvente 35.

34

Consequência algo perversa: no «Le Monde», até finais da década de sessenta, os salários dos serviços administrativos eram, em média, mais elevados dos que os da redacção. Partia-se do princípio de que os salários dos redactores eram parte do respectivo ganho. A parte restante correspondia à notoriedade inerente à assinatura, identificando o autor do artigo.
35

Sobre o conceito de sistema e sua aplicação ao estudo dos media, cf. Mathien, Michel, Le système médiatique, le journal dans son environnement, Hachette, Paris, 1989.

30

A instância que assegura o interface entre a empresa jornalística, entendida como sistema, e o meio envolvente, assume características de gate-keeping. Sendo assim, à figura do gate-keeper, corresponde um papel bem mais vasto do que aquele que, insistentemente, lhe é atribuído em sociologia da comunicação. Mais do que um mero seleccionador de ocorrências, susceptíveis de conversão em notícias (operação habitualmente atribuída aos jornalistas), o gate-keeper é o gestor do processo de adaptação das notícias às reacções suscitadas pela respectiva difusão. É o agente regulador dos media. Para além dos jornalistas, a instância gate-keeper, ou instância de regulação pode, por isso, incluir o conselho de administração da empresa, os principais accionistas, o director da publicação, os membros de um comité de programas, de um conselho de redacção ou de uma sociedade de leitores (quando existam) e, até, grupos de pressão - políticos, económicos, culturais, religiosos - que financiem, explícita ou discretamente, o órgão de comunicação social em causa. A função de regulação exercida pela instância gate-keeper, acabada de descrever, exprime uma das principais características do sistema mediático: a retroacção. Diz Eliseo Véron que o destinatário de um tipo de discurso faz parte das condições de produção desse discurso 36. O produto fabricado pela empresa jornalística, enquanto sistema, vai contribuir para a modelação do sistema que lhe é exterior, isto é, o sistema envolvente
37

. Do

sistema-envolvente, ou sistema-ambiente, partem, no entanto, sinais que, uma vez absorvidos pela instância de regulação, são, por esta, acrescentados aos sinais que a mesma instância de regulação recolhe no interior da própria empresa jornalística. O conjunto de sinais provenientes do interior e do exterior actuando sobre os pressupostos
36

Le Hibou, Communications, Nº 28, Paris, 1978.

37

No conceito de meio envolvente é preciso distinguir a noção “audiência”, por natureza abstracta, da noção “público”, por natureza concreta. Digamos, como Daniel Dayan, que a audiência ignora os seres. Esvazia o homem da sua substância. Pode ser expressa por uma fórmula do género: "não sei em nome de quem falo, mas conheço todas as suas características" (“Les mystères de la réception”, in Le Débat, Nº 71, Gallimard, Paris, 1992).

31
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doutrinários do jornal

originam a decisão da instância de regulação que se repercute

nos sub-sistemas do jornal: concepção, fabrico, difusão, gestão e manutenção 39 Transmitida às diferentes fases de fabricação, a decisão vai acelerando, retardando ou transformando esta. Vai, em suma, criando o paradigma em que se inspirará a função de newsmaking. Note-se que a rede de decisões que regula os fluxos, que determina a utilização dos stocks, que organiza as diferentes fases de fabrico, não se limita a verificar a boa aplicação das normas previamente fixadas e a introduzir, quando necessário, os ajustamentos devidos. Do ponto de vista da teoria da informação, essa rede de decisões gera informação que vai impedir a tendência natural para a desordem, para a entropia.
Segundo Abraham Moles (Théorie structurale de la communication et société, Masson, Paris, 1985), a definição das políticas das instâncias de regulação podem inspirar-se em doutrinas mais ou menos combinadas entre si. Esquematicamente: Uma doutrina demagógica ou publicista - O emissor dará ao receptor o que este espera que lhe seja dado ou o que ele, emissor, pensa que o receptor espera que lhe seja dado. O produto será fabricado em função da representação do receptor construída pelo emissor. Assim agindo, este procura garantir a maior audiência possível. Uma doutrina dogmática ou subliminar - A empresa está dependente de um grupo de pressão interessado em utilizá-la como instrumento de propagação de um programa, de uma ideologia, de um qualquer partido político ou de uma qualquer sociedade religiosa. Uma doutrina piramidal - Fundada na ideia da separação do público, ou da audiência, em diferentes camadas sociais, cada uma das quais com os seus valores próprios. Difundir-se-ão, então, diferentes conteúdos dirigidos a diferentes camadas. Conteúdos dirigidos a uma camada superior, a elites, e conteúdos dirigidos à camada inferior, a grande massa de consumidores. Uma doutrina eclética ou culturalista - Baseia-se na possibilidade de dar a cada indivíduo uma amostra de cultura correspondente a um reflexo fiel da "memória do mundo". Baseia-se no mito dinâmico da informação objectiva, segundo o qual cada homem possuiria, em si, uma imagem em formato reduzido da cultura universal. Imagem alimentada, justamente, por essas amostras de cultura que, constantemente, iria recebendo dos media. Uma doutrina sociodinâmica - Prevalece a ideia de que a quase totalidade das "notícias" pode situar-se, de maneira relativamente objectiva, numa escala de orientação passado versus futuro. O conjunto das notícias, segundo a respectiva orientação, vai influenciar a evolução da sociedade: travando essa evolução quando orientado para o passado, acelerando-a quando orientado para o futuro.
39

38

Poderia supor-se que cada sub-sistema está condicionado por uma lógica coerente que excluiria qualquer margem de liberdade, qualquer autonomia de funcionamento. Suposição verdadeira e falsa. Verdadeira porque, de facto, cada parte está ligada a uma outra e o próprio conjunto de partes, assim constituído, assume uma unidade que insufla a sua própria lógica nas partes constituintes. Verdadeira porque cada sub-sistema, ou seja, cada parte, assim como o conjunto por elas formado, é objecto de decisões da instância de regulação. Falsa porque cada sub-sistema determina-se, também, segundo objectivos próprios e segundo a sua própria capacidade de os executar. Cada sub-sistema dispõe, portanto, de um grau variável de autonomia interna, de uma certa margem de manobra, de uma certa capacidade de auto-organização

32

Diremos, então, que a quantidade de informação fornecida ao sistema é directamente proporcional ao nível de neguentropia desses mesmo sistema.

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2 - O JORNAL COMO SUJEITO SEMIÓTICO

O fazer jornalístico desenvolve-se em dois planos. No primeiro, o jornal procura narrar as notícias do dia. Cumpre a sua função referencial ou, para utilizar uma expressão corrente, a sua função informativa. Simultaneamente, porém, e num segundo plano, gera sistemas de valores - associados à posição do jornal como sujeito da enunciação - que configuram a narrativa produzida. Esta, já não é uma narrativa qualquer. É a narrativa do jornal. Se no primeiro plano, o plano do récit, prevalece o saber sobre "aquilo de que se fala", no segundo, o plano do discurso, prevalece o saber sobre "de que modo é que se fala" e "porque é que se fala". Na justaposição destes dois planos enraíza-se a capacidade do jornal de, por um lado, a/re-presentar o real, construindo assim uma história do presente, e, por outro, despertar e alimentar um hábito junto da clientela cuja espectativa satisfaz quotidianamente. Em virtude das regras e dos projectos que lhe são próprios, um jornal afirma-se socialmente, citando Eric Landovski, como um sujeito semiótico
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, dotado de

personalidade jurídica mas também, graças ao estilo, ao tom, ao perfil que cultiva, de uma entidade figurativamente reconhecível pelos leitores.
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La Société Réfléchie, Seuil, Paris, 1989, p. 157.

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Por isso, qualquer jornal é extremamente prudente quando pretende mudar de formato, alterar a disposição das rubricas, introduzir ilustrações, usar a cor, etc.. Antes de tudo, vigora o princípio de não hostilizar o leitor, de não romper com habituações subjacentes ao manuseamento e à leitura. Primeiro exemplo. Tendo em conta o seu projecto editorial, de jornal virado para a intelectualidade e para os estratos da burguesia decisora, o «Le Monde» afirmou-se, desde a sua fundação, como um jornal difícil. Difícil pela linguagem utilizada. Difícil pela ausência de ilustração e de cor. Difícil pela dimensão dos caracteres tipográficos, Difícil pelos reduzidos espaços ocupados pelos títulos (compostos a poucas linhas e a poucas colunas). Um jornal difícil cuja leitura exigia esforço. E exigia, sobretudo, largos conhecimentos anteriores, de modo a decifrar siglas, a explicitar o que, frequentemente, não era mais do que sugerido. Porque o «Le Monde» era um instrumento de classe. Um sinal de privilégio. Caracterizava quem o lia. Caracterizava, até, quem o exibia, mesmo que não o lesse. Não poderia, portanto, banalizar-se. Colocar-se ao alcance de qualquer. Ser compreendido por qualquer. Só que, a crise económica que se acentua com a década de setenta provoca, entre outras consequências, uma alteração radical do mercado da publicidade. O «Le Monde» deixa de ter, como interlocutores, tal ou tal empresa, tal ou tal marca, interessada em anunciar tal ou tal produto. Passa a confrontar-se com centrais de compras que representam todo um conjunto de empresas, todo um conjunto de marcas. Que movimentam elevadíssimos volumes de negócios. Entre o jornal e a entidade publicitária altera-se, então, a relação de forças. Já não é o jornal quem impõe as tarifas. Quem impõe as datas de inserção. Quem impõe o modelo gráfico do anúncio. Ao jornal pouco mais lhe caberá que aceitar. Aceitar as exigências do representante do conjunto de empresas, do conjunto de marcas que, interessadas em

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divulgar produtos de gama alta, condicionam a escolha do suporte às características técnicas deste: qualidade do papel, cor, profusão de ilustrações, etc. E o «Le Monde» tem de mudar. Mas devagar. Começa por inserir, na primeira página, desenhos humorísticos assinados por comentadores políticos, os célebres cartoons que, pela sua natureza, se situam entre o texto e a ilustração propriamente dita. Depois cria espaços brancos, para arejar a paginação. Depois introduz a cor. Uma cor discreta, um azul claro que, discretamente, sublinha este ou aquele título. Depois edita suplementos, que encarta no corpo do jornal, já em bom papel, já com belas e coloridas ilustrações. Mas, note-se, o suplemento não é apresentado como um produto comercial. Dito de outra forma, o seu custo de produção não se repercute, pelo menos é o que se proclama, no preço do jornal. Não: o suplemente é um brinde, distribuído gratuitamente ao leitor do jornal. E pouco a pouco, novos hábitos se vão criando. Eventuais resistências se vão esbatendo. Um quarto de século após ter-se iniciado, o processo de mudança da apresentação do «Le Monde» encontra-se, ainda, muito longe do seu termo. Segundo exemplo Tradicionalmente, o «Diário de Notícias» era um jornal de grande formato. De súbito, contudo, revelou-se de manuseamento complexo. Talvez por causa da lotação cada vez mais preenchida dos transportes colectivos. Talvez por causa de novos hábitos do leitor. Talvez.... Criaram-se suplementos temáticos de meio formato. Que agradaram ao público. E sondagens repetidas confirmaram esse agrado. No novo formato, o jornal seria de mais fácil leitura. Mais fácil de folhear. Já não se incomodaria o parceiro de banco, no autocarro, no metro. E, certo dia, o «DN» surgiu impresso, todo ele, em formato mais reduzido. Mas, avisava-se: nada de opções definitivas. Tudo à experiência. Tudo sujeito à reação, positiva ou negativa do destinatário.

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Segredo de Polichinelo. Se necessário fosse, lá estaria o “Correio dos Leitores” para assertar a evidência. O certo é que, com a mesma tonelagem de papel, com a mesma quantidade de tinta, duplicou-se ou o número de páginas ou a tiragem de cada edição. O que significa, potencialmente, maiores receitas de publicidade 41 ou maiores receitas de vendas. Tanto no primeiro como no segundo exemplo são razões económicas, sobretudo ligadas ao mercado da publicidade, que estão em jogo. A habilidade, nas estratégias adoptadas, está em endossar ao leitor a responsabilidade da decisão. A relação jornal / leitor assenta, portanto, numa dinâmica de imagens e numa dupla conivência. 1. Assenta numa dinâmica de imagens. Com efeito, diversas imagens podem, teoricamente, ser construídas na relação entre o jornal e o leitor ou, se se quizer, entre o emissor e o receptor. - O emissor pode construir uma imagem do receptor ou do conjunto de receptores que não coincide, necessariamente, com a imagem que cada um destes tem de si próprio. - O emissor pode construir uma imagem de si que não coincide, necessariamente, com a imagem de si construída por cada um dos receptores. - O receptor pode construir uma imagem do emissor, do seu papel, da sua função que não coincide, necessariamente, com a imagem que o emissor constrói de si mesmo. - O receptor pode construir uma imagem de si que não coincide, necessariamente, com a imagem de si construída pelo emissor. Para que haja efectiva relação jornal / leitor, concretizável no acto de compra, é necessário, contudo, que a imagem do leitor junto do jornal e que a imagem do jornal junto do leitor apresentem uma zona comum. Quanto maior for essa zona comum mais se reforça a relação de fidelização leitor / jornal. A sua diminuição implica riscos de
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As tarifas de publicidade são frequentemente calculadas, não em cm/col., mas segundo a área que ocupam relativamente ao total da página: meia página, um quarto, um oitavo, etc.

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conflito. A inexistência de qualquer zona comum traduz-se pela ausência de relação. Donde, pela não compra. 2. Assenta numa dupla conivência. - Uma conivência quanto aos conteúdos: ao definir o seu quadro de referências ("de que é que se fala", "como é que se fala" e "porque é que se fala") o jornal realiza aquilo que julga ser a vontade do leitor. Este, por sua vez, vai encontrar no jornal aquilo de que quer que se fale e da forma pela qual quer que se fale. - Uma conivência quanto ao produto propriamente dito, ou seja, quanto ao aspecto do objecto-jornal: ao pensar o aspecto do objecto, o respectivo editor antecipa as sensibilidades estéticas do leitor fiel. Este, ao confrontar-se com o jornal, actualiza um ritual que supõe uma "primeira leitura", uma leitura em diagonal, no âmbito da qual se avaliam espaços, se comparam títulos e se percorre, com o olhar, as ilustrações; uma "segunda leitura" em que o olhar se retarda sobre tal "caixa" ou tal lead; uma "terceira leitura" em que se escolhem as rubricas e se isolam os textos que vão ser, efectivamente, lidos. Neste processo de mútua apropriação (em que o leitor se apropria do jornal, ao folheá-lo, ao vê-lo, ao lê-lo, e em que o jornal se apropria da atenção do leitor) consolida-se a envolvente mediaticamente estável dos conteúdos informativos organização espacial das rubricas, volume médio dos títulos
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, proporção das áreas

ilustradas, distribuição da cor - que constitui o que poderíamos chamar o relevo da página-jornal 43. Relevo que gera efeitos de real: ao estratificar e hierarquizar as leituras, ao normalizá-las através da imposição de categorias abstractas.
42

Em La marque du titre – dispositifs sémiotiques d’ une pratique textuelle (Mouton Éditeur, La Haye, Paris, New York, 1981) Leo H. Hoek faz um levantamento exaustivo dos estudos já publicados sobre o título, conferindo a esta problemática a dignidade de disciplina científica que ele designa por “titulogia”.
43

A importância atribuída ao relevo da página-jornal tem levado alguns investigadores a quase confundirem análise de conteúdo com análise morfológica de imprensa. Como se a morfologia dos jornais determinasse, inexoravelmente, os respectivos conteúdos. Das metodologias mais usadas para análises deste tipo ressalta a de Jacques Kayser, exposta em Le Quotidien Français (Armand Colin, Paris, 1963). Numa obra que se tornou clássica para os estudos de imprensa, Kayser propõe uma complexa fórmula de “mise en valeur” que combina e atribui coeficientes a variáveis como comprimento e altura dos títulos, existência ou não de cor nos títulos em questão, dimensão e peso relativo dos caracteres tipográficos utilizados, comprimento, em cm/col., dos textos, localização dos títulos e respectivos textos (na 1ª página ou nas páginas interiores e, nestas, em páginas pares ou em páginas ímpares, ao alto, a meio da página ou

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2. 1. TÍTULOS REFERENCIAIS E TÍTULOS INFORMACIONAIS

Ao efectuar a "primeira leitura" de uma dada edição do jornal que regularmente adquire, o leitor depara, imediatamente, com títulos invariantes, isto é, com títulos que já conhece de edições anteriores. São títulos familiares que respondem a uma dupla pergunta: o que é que há no jornal e onde é que aquilo que há se encontra situado. Esses títulos articulam-se segundo um eixo horizontal (Política Nacional, Estrangeiro, Economia, Desporto, Cultura, Sociedade, etc.) e segundo eixos verticais (Estrangeiro, Américas, Canadá, etc.). O eixo horizontal caracteriza-se pela fraca relação entre os seus elementos constituintes - apenas uma relação de contiguidade - e por se tratar de uma cadeia aberta, acrescentável em qualquer momento. Em contrapartida os elementos dispostos ao longo de cada eixo vertical estão em relação de implicação cujo ponto de partida é localizável algures, no eixo horizontal. No plano da língua, estes títulos a que chamaremos referenciais não constituem frases, não remetem para uma qualquer frase existente no jornal, não resumem artigos. No plano da informação, não significam mas designam. São títulos vazios no que respeita à informação sobre as coisas, sobre os acontecimentos, sobre o "estado do mundo possível". Um jornal que contivesse apenas destes títulos, seria um jornal vazio de substância, como se estivesse sujeito a uma censura drástica, total. Seria como que uma grelha à espera de ser preenchida. Não informam sobre o que se passa no mundo, informam sobre o próprio jornal e exprimem a dupla organização desse mesmo jornal: a organização temporal da sua publicação e a organização espacial de cada número. Dupla organização implicando que
em baixo, à esquerda ou à direita, etc.), existência ou não de ilustração para cada conjunto título/texto, importância relativa do conjunto título/texto na página em que está inserido ... Pelo empirismo de que se revestem, temos grandes reservas quanto a análises deste tipo. Pressupõem uma relação, nem sempre verificável, entre destaque formal e importância dos conteúdos. Em termos de significado o “não dito” é, por vezes, mais importante que o “dito”. Pelo que, uma análise quantitativa como a proposta por Kayser, pode incorrer num grave risco: o de, como escreve Greimas no prefácio ao livro de Dominique Memmi Du récit en politique (Fundação Nacional das Ciências Políticas, Paris, 1986), “ocultar em vez de revelar”.

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os números do jornal se sigam diariamente, mas que cada número não seja meramente a sequência do anterior. Isto é, que exista de um número para o outro algo de comum: a identidade, a memória do jornal que fideliza as clientelas. Mas que cada número constitua, de per si, uma totalidade, onde caiba a totalidade do mundo que se reporta. Porque informam sobre o próprio jornal, o mais referencial de todos os títulos referenciais é o próprio título do jornal. Porque informam sobre a informação veiculada pelo jornal, constituem a meta-informação do jornal. Tendo em conta as suas características, os títulos ou enunciados referenciais exigem a presença de outros títulos ou de outros enunciados complementares. Digamos que o enunciado referencial representa o "tema" enquanto que o enunciado complementar representa o "rema". O segundo actualiza o primeiro. Gramaticalmente, o enunciado referencial é um sintagma nominal enquanto que o enunciado complementar, ou enunciado de actualização, é um sintagma verbal: forma uma frase e estabelece a ligação com o real. A este último enunciado chamaremos informacional. A ele corresponde o título informacional 44. O título referencial e o correlativo título informacional constituem, no seu conjunto, um micro-sistema em que cada uma das partes supõe a verificação da outra e em que se conjugam duas funções primordiais: a reprodução ou o reforço dos paradigmas e a produção de diferenças. A escolha dos paradigmas é da responsabilidade do jornal. É a expressão da identidade do jornal que o distingue dos restantes. É a estrutura estável, a estrutura normalizadora que marca a continuidade dos números do jornal. Já a produção de diferenças é inerente à óbvia necessidade do jornal se renovar de um para outro número. O micro-sistema título referencial / título informacional oferece, assim, ao jornal, essa possibilidade espantosa de, de um dia para o dia seguinte, ser outro, continuando no entanto a ser o mesmo.

44

Cf., sobre títulos referenciais e títulos informacionais, de Maurice Mouillaud, “Le titre et les titres”, in Le Journal Quotidien, Presses Universitaires de Lyon, Lyon, 1989, pp. 115-128.

40

Numa perspectiva dinâmica, sublinhe-se que o micro-sistema está em constante renovação, reconstruindo-se em cada momento pela substituição da parte informacional. Sublinhe-se ainda que, em função da actualidade ou de estratégias informativas mais variadas, assim um assunto que, antes, apenas justificava um título informacional pode passar a justificar um título referencial. E reciprocamente. Até à revolução de Abril de 1974, raramente Portugal surgia nas páginas do «Le Monde» como, aliás, nas páginas de outros jornais estrangeiros. De tempos a tempos, um título informacional, articulado com o título referencial “Europa”, dava a conhecer a existência de fraudes nas legislativas, revelava os últimos elementos apurados pela comissão internacional de inquérito ao assassinato de Delgado, denunciava os massacres cometidos em Moçambique. Após o 25 de Abril e, mais precisamente, após os acontecimentos de 11 de Março de 1975, o mundo descobriu Portugal. E, naturalmente, o «Le Monde» também. Diariamente, o «Le Monde» passa a incluir diversas páginas relatando confrontos políticos em Lisboa, manifestações no Porto, tentativas separatistas nos Açores, actos violentos em Luanda, reacções em Washington, em Moscovo e na sede da NATO, em Bruxelas, relativamente a riscos de tomada do poder pelos comunistas. Diariamente, dezenas de títulos informacionais submetidos a um título referencial: Portugal. Acontece, entretanto, o 25 de Novembro de 1975. Altera-se a relação de forças em prejuízo da esquerda radical que, paulatinamente, é afastada do aparelho político. Promulga-se a Constituição. Realizam-se as primeiras legislativas e presidenciais em contexto democrático. Forma-se o primeiro governo constitucional. Normaliza-se o edifício democrático e o interesse jornalístico por Portugal vai esmorecendo. Até que o título referencial “Portugal” eclipsa-se do «Le Monde» e dos restantes jornais mundiais. Decididamente, a diacronia do acontecimento nos media é uma. No real é outra. Jornalisticamente, uma ocorrência ganha, a dado momento, foros de acontecimento. Progride na curva ascendente do interesse: logo, é objecto de um

41

tratamento noticioso cada vez mais intenso. Atinge o ponto mais elevado da curva ascendente do interesse e inicia o seu percurso pela curva descendente do interesse. A partir de certa altura, porém, a ocorrência deixa de ser avaliada em termos de curva de interesse e passa a ser avaliada em termos de curva de desinteresse. É o momento crucial. É o momento da mudança de registo. É o momento da mutação qualitativa. Chamemos-lhe o momento Kairos
45

. A ocorrência já não suscita mais ou menos

interesse. Passa, sim, a suscitar mais ou menos desinteresse. Se a existência de título referencial marca a posição da ocorrência nas imediações (para mais ou para menos) do topo da curva de interesse. O momento Kairos é aquele em que se dá a morte jornalística dessa ocorrência. Nem títulos referenciais, nem, salvo episodicamente, títulos informacionais. Por isso a narrativa jornalística é composta de histórias inacabadas. Dia após dia, o nome de Laurent Kabila surge, invariavelmente, nos títulos dos jornais. A cara de Laurent Kabila é-nos apresentada em inúmeras fotografias. De repente, some-se o nome e some-se a cara. Nem a mínima alusão. E, no entanto, Kabila continua a viver (a governar?) em Kinshasa. O perigo existe para o leitor fiel do jornal, para qualquer leitor fiel de qualquer jornal, de ver o mundo em fragmentos.

2. 2. ANAFORISMO E CATAFORISMO

Se é ao título referencial, ou ao conjunto dos títulos referenciais, que cabe a organização temporal da publicação e a organização espacial de cada número da publicação, é ao titulo informacional, ou ao conjunto dos títulos informacionais, que cabe estabelecer a relação entre o saber novo e o saber anterior e apresentar o texto referente à informação nova que veicula (apresentação que implica, simultaneamente, justificar o texto e ser justificado pelo texto).
45

Conceito trabalhado por Louis Marin no Seminário “Sémantique des Systèmes Représentatifs” realizado, no ano lectivo 1990/91, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris.

42

Esse movimento para trás, esse recurso ao saber anterior que fixa o quadro memorial de elementos necessários à compreensão da informação nova
46

, opera-se

através de anáforas, conceito desenvolvido por Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov 47. Já o movimento para a frente, o movimento para o texto, texto ancoragem do título e texto espelhado no título, encontra frequentemente a sua manifestação em anáforas de um tipo especial, que Jean-François Tétu designa por catáforas 48.

2. 2. 1. APLICAÇÃO

Vejam-se os títulos seguintes: 1. A nobre atitude de Portugal 49 A imprensa inglesa elogia a política seguida pelo nosso governo e reconhece os deveres que a segurança nacional nos impõe
(«Diário de Notícias», 11/1936)

2. Portugal no Estranjeiro A obra de Salazar antes e depois da guerra analisada pelo jornal «La Croix»
(«Jornal do Comércio», 17/6/1943)

3. A ultima recepção na Casa de Portugal em Paris
(«D. N.», 2/3/1934)

46

Baseando-se na gramática generativa, Leo H. Hoek distingue entre “a competência passiva, que têm todos os locutores de compreenderem os títulos, e a competência activa que têm certos locutores de os produzirem”. Esta última, acrescenta o mesmo autor, “não é inata, deve ser aprendida e mantem-se muitas vezes em estado latente”, La marque du titre, op. cit., p. 293.
47

“Diz-se que um segmento do discurso é anafórico quando a sua interpretação exige que se recorra a um outro segmento do mesmo discurso: chamaremos ‘interpretante’ ao segmento ao qual a anáfora nos envia”, Dictionnaire encyclopédique des sciences du langage, Seuil, Paris, 1972, p. 358. “Nos títulos que comportam nominalizações claramente anafóricas (‘a queda do dollar’, por exemplo) é melhor empregar o termo “catáfora” já que a expansão sintagmática (‘ontem, em todas as grandes praças internacionais o dollar perdeu [...]’) se encontra no artigo que se segue, isto é, após a expressão condensada”, Le discours du journal: contribution à l’ étude des formes de la presse quotidienne, Tese de Doutoramento de Estado, Universidade de Lyon II, 1982 (exemplar policopiado).
49 48

Sublinhado nosso. No original este segmento do título aparece claramente destacado.

43 4. «O interesse que Salazar desperta...»
(«Diário da Manhã», 28/11/1939)

5. Palavras exemplares
(«Nação», 13/12/1947)

6. Léon de Poncins publicou ontem no «Jour» o ultimo artigo da sua reportagem sobre o nosso País
(«D. N.», 4/7/1935)

No título (1), dá-se adquirido o conhecimento, por parte do público leitor, da atitude assumida pelo governo português que merece do jornal o epíteto de “nobre” 50. Esse conhecimento supostamente já adquirido é manifestado pelo artigo definido, de características anafóricas A existente na primeira parte do enunciado-título (A nobre atitude de Portugal) que, por conseguinte, nos impele a um movimento para trás, em direcção ao nosso quadro de referência, condição indispensável à compreensão do dito no título. Repare-se que se o artigo fosse retirado do título, este mudaria por completo de significado. No título assim construído (Nobre atitude de Portugal) não haveria conhecimento anterior, a não ser o da existência de um país chamado “Portugal”. A “nobre atitude” inscrever-se-ia, então, na área do saber novo, provavelmente explicitado no texto correspondente ao título em questão. Acrescente-se que a transformação seria ainda mais visível se, em vez de se suprimir o artigo A, este fosse substituído pelo artigo indefinido Uma. Retomando o exemplo, sublinhe-se que a dimensão anafórica de “A nobre atitude de Portugal” traduz-se, no texto, pela inexistência de qualquer frase que explique, claramente, de que atitude se tratou. Que justifique o epíteto “nobre”. Apenas referências indirectas cuja compreensão assenta no conhecimento antecipadamente adquirido a que aludimos no início deste comentário. Fica assim a saber-se, pela leitura do texto, que, segundo o «Morning Post», “Longe de merecer recriminações, o Governo
Trata-se da decisão tomada pelo governo português de romper as relações diplomáticas com o governo republicano espanhol.
50

44

de Lisboa merece todos os encómios pela prudência que revela perante a ameaça contra a sua própria existência que, certamente, adviria de um regime ‘vermelho’ que triunfasse além da fronteira”. E que, para «The Observatore», “Em legítima defesa e para a sua própria conservação é impossível a Portugal conservar-se neutro”. No título (2), estamos perante um anaforismo de tipo especial que designámos por cataforismo, isto é, um anaforismo para a frente. Com efeito o artigo A, do fragmento “A obra de Salazar”, impele para a leitura do texto. Este movimento para a frente é, aliás, explicitamente indicado pelo próprio título ao referir que a obra de Salazar é “analisada pelo jornal «La Croix»”. Contrariamente ao exemplo anterior, toda a explicação está agora no texto: “[...] quatro anos de segurança dentro de rigorosa neutralidade. Quatro anos durante os quais o Chefe do Govêrno de Lisboa não tem deixado de ser o porta-voz autorizado e esclarecido da consciência dos povos e dos govêrnos que na sua conduta apenas são inspirados pela preocupação do bem estar da sua pátria, do seu progresso social, da sua elevação moral, de tudo o que únicamente se funda na sã justiça, nos direitos legítimos dos cidadãos e ao mesmo tempo nos deveres de governantes e governados, dos Estados e das Nações”. No título (3) verifica-se um duplo movimento: um movimento para trás, anafórico, expresso pela partícula a contida em “na Casa de Portugal em Paris”, e um movimento para a frente, catafórico, evidenciado pela partícula A de “A ùltima recepção”. Enquanto que, no primeiro caso, se dá como adquirido o conhecimento prévio do que é a Casa de Portugal (sem o qual o enunciado título seria ininteligível), no segundo deixa-se para o texto a função de fixação do sentido: “[...] A «Comoedia» insere um longo artigo de Pierre Lagarde, intitulado em duas colunas: ‘Quando M. Paul Valery, diante dos portugueses fala de Ditadura’. Nesse artigo o autor começa por frisar nesta fórmula breve o imenso interesse despertado pela festa de ontem: a multidão dos grandes dias, ontem na Casa de Portugal”. Mas o cataforismo pode realizar-se, também, através de construções interrogativas, depreendendo-se, então, que a resposta está no texto. Pode realizar-se através de outras formas apelativas como as exlamações ou as reticências ou realizar-se,

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como nos títulos (4) e (5), através de frases algo enigmáticas porque retiradas de um contexto que se deixa apenas entrever. Nos exemplos escolhidos a decifração do título surge algures no texto. - em (4), quando se cita Luciano Berra autor de um artigo intitulado “Prima era lo spirito” publicado no jornal milanês «L'Italia»: “O que interessa [...] no estadista não é tanto o método como a doutrina nem tanto o temperamento como os conceitos filosófico, político, social e económico, sôbre os quais ele baseia a sua acção. É êste o verdadeiro interêsse que Salazar desperta...”; - em (5) quando se lê algum dos extractos do artigo publicado no jornal espanhol «Arriba», transcritos pela «Nação»: “Com uma claridade mediana, o Presidente do Conselho de Portugal esboçou a tragédia do mundo, num esquema de evidências [...]". Claro está que estes processos anafóricos podem servir estratégias de manipulação relegando para o plano do conhecimento anterior, portanto indesmentível e inquestionável, aquilo que, afinal, não o é. Analise-se o título (6), autêntico feixe de movimentos anafóricos. Pela forma como está construído, supõe-se que o leitor já sabe quem é Léon de Poncins, já sabe da existência do jornal «Jour», já sabe que Léon de Poncins escreveu uma reportagem sobre Portugal, já sabe que só faltava publicar um dos artigos dessa reportagem. A única informação transmitida - o saber novo - é que esse artigo, que ainda faltava, foi publicado “ontem”... 51 Comentando esta capacidade manifestada pelos enunciados-título de gerar um discurso ideal, diz Jean François Tétu que o título "Impõe uma informação sem ter, previamente, que a justificar. [...] A informação justifica-se a si mesma pela forma sob a qual aparece" 52.

51

Esta questão será desenvolvida mais à frente, no estudo do posto e do pressuposto enquanto estratégias enunciativas.
52

Le Discours du Journal, op. cit., pp. 296-297.

46

3. ESTRATÉGIAS ENUNCIATIVAS

Analisar o discurso de um jornal implica ter sempre presente um modelo de comunicação. Qual o modelo de que se parte para a análise que se pretende fazer? Escamotear a questão significa passar ao lado do rigor científico minimamente exigível. Por isso esclareça-se, desde já: postulamos uma relação de simbiose entre destinador e destinatário, mediante a qual o destinador existe pela existência do destinatário e o destinatário pela existência do destinador; postulamos, em consequência, a génese híbrida dos conteúdos assim produzidos. Simbiose e hibridismo que rompem com a clássica noção de sistema de comunicação, linear e mecanicista, em que cada um dos seus elementos constitutivos gozaria de ampla autonomia. Antes de abordarmos as estratégias enunciativas presentes no discurso do jornal, propomo-nos apresentar, sucintamente, alguns aspectos da investigação americana no domínio das ciências da comunicação que culminou com a teoria dos efeitos, expressão acabada desse sistema linear e mecanicista, constituído por elementos autónomos, que recusamos. Abordaremos, também, o modelo de Jakobson que se nos afigura uma solução de compromisso entre teoria dos efeitos e funcionalismo. Abordaremos, por

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fim, o conceito de dialogismo em Bakhtine, numa dupla perspectiva: crítica do modelo jakobsiano e fundamento teórico de algumas das posições que adoptamos. A célebre questão-programa formulada por Harold Lasswell nos finais da década de quarenta - Quem, diz o quê, através de que canal, a quem, e com que efeitos - ilustra bem a autonomia que era reconhecida às diferentes instâncias do modelo de comunicação clássico. Autónomos, isoláveis, cada um dos elementos da cadeia de comunicação poderia merecer um estudo próprio. E a investigação, segmentada, compartimentada, individualizada, atingiria o grau máximo de operatividade. Ao primeiro «quem» da pergunta corresponderia o estudo sociológico dos meios e dos organismos emissores: jornalistas, vedetas da rádio ou de televisão e empresas jornalísticas ou de radio-televisão. As «mensagens» produzidas por essas fábricas de um género novo seriam passíveis de uma análise de conteúdo e corresponderiam ao «quê» da pergunta de Lasswell. O estudo dos «canais» ocuparia um terceiro capítulo: reportar-se-ia ao conjunto das técnicas que, em dado momento e numa dada sociedade, difundem simultaneamente a informação e a cultura. Mas o sector mais desenvolvido e mais célebre seria o relativo ao segundo «quem» da fórmula: visaria as audiências, os públicos ou, se se preferir, a clientela dos diversos organismos de difusão, empresas jornalísticas ou estações de radio-difusão. Enfim, a questão-programa do politicólogo convidaria os investigadores a identificarem e a avaliarem os «efeitos» da comunicação. Uma aplicação desta matriz encontra-se na proposta formulada por Claude E. Shannon e Waren Weaver em The Mathematical Theory of Communication
53

. Em

síntese, os autores identificam uma fonte de informação onde se acumulariam mensagens destinadas a ser difundidas; um transmissor ou emissor com capacidade para transformar as mensagens num sinal transmissível; um canal, ou média, que asseguraria
53

University of Illinois Press, 1949.

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a respectiva transmissão; um receptor que, descodificando o sinal, recuperaria a mensagem inicial; um destino, individual ou constituído por um suporte físico, ao qual a mensagem deveria dirigir-se. Diversas perturbações poderiam afectar o funcionamento do sistema: "ruídos" associados à transmissão, à codificação e à descodificação da mensagem; desperdícios ou perdas de sinal, inerentes a falhas ou insuficiências do transmissor ou do receptor.

MODELO DE COMUNICAÇÃO DE SHANNON E WEAVER ruído semântico fonte de inform ----» transmissor ----» mensagem sinal emitido receptor semântico ----» receptor ----» destino sinal mensagem recebido

fonte de ruído

O paradigma de Lasswell teve consequências de certo modo perversas já que instrumentalizou uma boa parte da investigação americana durante as décadas de 40 e 50, levando-a a preocupar-se, quase em exclusivo, com a resposta à questão dos “efeitos”. Tratava-se, muito pragmaticamente, de avaliar as relações entre a comunicação social e os comportamentos eleitorais. Assim, por exemplo, Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet concluem, na obra conjunta The People's Choice, publicada em 1944, que uma campanha eleitoral na imprensa e na rádio em vez de baralhar as cartas, isto é, em vez de mudar sentidos de voto e de virar eleitores contra os respectivos grupos de referência, reforça, sim, a influência e a homogeneidade destes últimos. Em 1955, Bernard Berelson corrobora a conclusão anterior ao estimar, em Voting, a study of opinion formation in a presidential campaign, que o efeito directo da comunicação

49

consiste sobretudo em reforçar as opiniões préexistentes, na medida em que apenas os argumentos de antemão favoráveis são tidos em consideração. No mesmo ano de 1955, Elihu Katz e Paul Lazarsfeld verificam, em Personal Influence, que as mensagens atingem, sobretudo, os "guias de opinião", funcionando, estes, como elementos retransmissores, via relações pessoais directas tecidas no interior de grupos mais ou menos restrictos. De entre os sociólogos que marcam a transição, da teoria dos efeitos limitados para a teoria funcionalista, destacam-se George Gerbner, John e Matilda Riley, e o próprio Elihu Katz. Gerbner chamou a atenção para as influências susceptíveis de condicionar o papel do comunicador, que dividiu em duas categorias: - influências «internas», exercidas pelo público do órgão de comunicação social, pela respectiva hierarquia e, de um modo geral, pelo grupo redactorial; - influências «externas», exercidas pelas autoridades (nomeadamente através do arsenal legislativo), pelas organizações que intervêm no tecido social de um ponto de vista social, político ou económico, e pelo patronato. John e Matilda Riley ocuparam-se, não apenas das influências exercidas sobre os comunicadores, os emissores, mas ainda das exercidas sobre os receptores, uns e outros integrados em grupos primários (a família, o meio profissional ou religioso, etc.). Katz inverte, por completo, a orientação das análises até então praticadas ao entender que a questão não se põe tanto na relação órgão da informação / público, mas sim público / órgão de informação, isto é, não é tanto o órgão de informação que influencia um dado público mas esse público que influencia o órgão de informação. Este, limitar-se-ia a «dar» aquilo que julga corresponder ao desejo de quem «recebe». Passada que foi a sua época de ouro, o paradigma lassweliano, inspirador da teoria dos "efeitos limitados", foi sendo gradualmente substituído por uma abordagem mais globalizante que desembocaria na teoria funcionalista das comunicações de massa. O problema de fundo, já não era o dos efeitos mas o das funções exercidas pela comunicação numa sociedade em equilíbrio.

50

Este período de transição ocorre, justamente, na altura em que Roman Jakobson, conseguia, enfim, que o seu valor fosse reconhecido pelas universidades americanas, após longos e difíceis anos de emigração e exílio
54

. Interessado pelas questões da

comunicação, Jakobson aceita concepções próximas da teoria dos efeitos, como a de “engenharia da informação”. Adequando, por outro lado, certos aspectos da teoria funcionalista à sua démarche científica, contrapõe, às funções sociais da comunicação, objecto do trabalho do sociólogo, o estudo das funções da linguagem no processo de comunicação. Em Essais de Linguistique Générale
55

, apresenta uma estrutura

comunicacional assente em seis factores a cada um dos quais associa uma função da linguagem: - a função dita referencial, denotativa ou cognitiva, estabelecendo a ligação entre a mensagem e o respectivo contexto; - a função expressiva ou emotiva, indicando a atitude do destinador a respeito do objecto do seu discurso; - a função apelativa, visando a obtenção de determinados efeitos junto do destinatário; - a função poética, procurando, pela modulação da linguagem, conferir à mensagem a melhor configuração possível; - a função fática, mantendo ou reforçando o elo de comunicação, o contacto, entre destinador e destinatário; - a função metalinguística, fixando as regras, o código, em que a mensagem deveria ser produzida.
54

Provavelmente em ruptura com o regime saído da revolução de Outubro (a sua biografia é parca a este respeito), Roman Jakobson, um dos fundadores do formalismo russo, instala-se, em 1920, na Checoslováquia onde lança, com Troubetzkoy, as bases da moderna fonologia. A expansão do nacionalsocialismo na Europa central e do norte, obriga-o a emigrar, sucessivamente, para a Dinamarca, a Noruega e a Suécia. Em 1941, consegue chegar aos Estados Unidos. A integração não é fácil e Jakobson procura apoios junto de outros exilados europeus, nomeadamente franceses como Claude Lévi-Strauss. Em 1946, é nomeado professor na universidade de Columbia. Seguem-se outros estabelecimentos de ensino superior de grande nomeada, como a universidade de Harvard e o MIT. Alcança, então, a celebridade.
55

Les Éditions de Minuit, Paris, 1978 (1ª edição publicada em 1963).

51

MODELO DE COMUNICAÇÃO DE ROMAN JAKOBSON

CONTEXTO (função referencial) DESTINADOR ----------» (função emotiva) MENSAGEM ---------» (função poética) CONTACTO (função fática) CÓDIGO (função metalinguística) DESTINATÁRIO (função apelativa)

Popularizado nos meios académicos, eminentemente sedutor pelas perspectivas que abria quanto à criação de um instrumento analítico aparentemente objectivo e eficaz, o modelo de Jakobson, viu-se, todavia, envolvido na crítica global que se abateu sobre o empiricismo da sociologia americana. Segundo François Flahault, psicosociólogo francês, especialista em análise e interpretação das narrativas, Jakobson não fornece qualquer explicação sobre a maneira como cada um dos factores necessários para a realização da comunicação verbal dá origem a uma função específica da comunicação. Um "mistério", considera, por isso, Flahault que acrescenta: "a explicação que, ao que julgo, se impõe, é a de que Jakobson dispunha, por um lado, de uma descrição através de cinco ou seis factores e, por outro, da distinção entre cerca de seis funções da linguagem e que as ajustou entre si, construindo assim, de forma astuciosa, um sistema simbólico que, impondo-se exclusivamente pela correspondência que estabelece entre cada um dos elementos de ambos os registos que dele fazem parte, é epistemologicamente comparável aos que a

52

alquimia nos propõe: quando, por exemplo, estabelece uma relação entre os astros e os corpos químicos" 56. Menos incisiva mas, seguramente, mais profunda é a objecção de Mikhaïl Bakhtine
57

. Com a seguinte particularidade: foi levantada trinta anos antes da

publicação dos Essais de Linguistique Générale. Inserida na polémica que opôs Bakhtine aos formalistas, a objecção, se revela as marcas que nunca deixaram de estar presentes no pensamento de Jakobson, assume também uma dimensão premonitória. Diz Bakhtine: "O que é transmitido é inseparável das formas, das maneiras e das condições concretas da transmissão. Ora, os formalistas, na sua interpretação, pressupõem tacitamente uma comunicação inteiramente prédeterminada e imutável, e uma transmissão igualmente imutável. Poder-se-ia exprimir essa pressuposição da forma seguinte: temos dois membros da sociedade, A (o autor) e B (o leitor); as relações sociais entre eles são imutáveis e não sujeitas a troca; temos, também, uma mensagem completa X que deve ser simplesmente remetida por A a B. Nessa mensagem completa X distingue-se o «que é que» («conteúdo») e o «como» («forma») [...]. O esquema proposto é radicalmente falso. Na realidade, as relações entre A e B estão em transformação e em formação permanentes e continuam a modificar-se ao longo do próprio processo de comunicação De igual modo, não existe nenhuma mensagem completa X. A mensagem forma-se no processo de comunicação entre A e B.

56

A Fala Intermediária, Via Editora, 1979, p. 30.

Mikhaïl Bakhtine tentou a síntese impossível entre o idealismo Kantiano e o materialismo marxista. Opôs-se, decerto, aos formalistas cuja démarche teórica se situava, em absoluto, no exterior da opinião vigente na Rússia revolucionária da época, sem enfileirar, no entanto, com outros intelectuais do seu tempo, como Nicolas Marr, exemplo da ortodoxia dominante. Em 1929, com 34 anos de idade, é preso e exilado, julga-se que devido às suas ligações com a igreja russa. Fisicamente debilitado, regressa, em 1969, à capital soviética. Morre, em 1975, num asilo de velhos. É a partir de então que a sua obra se torna conhecida no estrangeiro, nomeadamente em França através de Julia Kristeva e Tzvetan Todorov, ambos universitários curiosamente de origem búlgara.

57

53 Em seguida, ela não é transmitida por um ao outro, mas construída entre eles, como uma ponte ideológica, no processo da respectiva interacção" 58.

Retenhamos este ponto da argumentação de Bakhtine: não há mensagem completa transmitida de A a B, mas sim uma mensagem que se vai construindo no próprio decurso da comunicação entre A e B. E vai-se construindo como? E vai-se construindo porquê? Eis-nos perante a questão fulcral da teoria bachtiniana do enunciado, que revolucionou por completo as ciências da linguagem 59. No primeiro texto que publicou com a sua própria assinatura 60, um estudo sobre a obra de Dostoievski, afirma Bakhtine: "Nenhum membro da comunidade verbal encontra, alguma vez, palavras neutras, isentas de aspirações e de avaliações feitas por outro, inabitadas pela voz de outro. Não, ele recebe sempre a palavra pela voz do outro e essa palavra está sempre preenchida pela voz do outro" 61.

No acto de produção do discurso, cada um de nós utiliza palavras já utilizadas por outros. O discurso assume uma perspectiva histórica. Uma espessura. Ao

58

Todorov, Tzvetan, Mikhaïl Bakhtine – le principe dialogique, suivi de Écrits du Cercle de Bakhtine,

Seuil, Paris, 1981, pp. 87-88.
59

Em A improbabilidade da comunicação, Niklas Luhman actualiza, numa perspectiva eminentemente sociológica, o pensamento de Bakhtine ao sustentar que “a comunicação não pode ser entendida como uma «transferência» de informações, relatos ou unidades significantes, de um lado para o outro”. A partir das teorias da informação que recusando a “metáfora da transferência”, ou seja, a “distinção entre emissor e receptor”, definem informação em termos de “selecção de um repertório comum a ambos os lados”, aquele sociólogo alemão considera que, sendo assim, uma "componente indispensável da informação" terá que estar já presente no lado que a vai receber. Daí a sua conclusão: “a comunicação só pode ser entendida como a disseminação da informação dentro de um sistema”.
60

Diversos textos apareceram assinados com os nomes de dois dos seus discípulos: Volochinov e Medvedev.
61

Mikhaïl Bakhtine, op. cit., p. 77

54

descrevermos este movimento para trás actualizamos, em nós, as palavras que até nós chegaram numa sequência ininterrupta. Mas a matéria linguística, constantemente reiterável, verbalmente realizável em cada momento, que constitui o código partilhado por todos os falantes de uma dada comunidade, coexiste, num enunciado, com um contexto de enunciação que é único. Um contexto de enunciação que se reporta ao espaço e ao tempo (o «onde» e o «quando»), ao objecto ou tema (o «do que é que...») e à relação do(s) locutor(es) com o tema em causa - avaliação. É este contexto de enunciação que, por ser único, confere ao enunciado a sua identidade. Uma identidade só compreendida na diversidade dos enunciados anteriores com os quais, tal como a língua, ele estabelece uma relação dialógica: uma relação intertextual. Um discurso produz-se, portanto, a partir de outros discursos, sobre outros discursos. Mas não só. Citemos, ainda, Bakhtine: "O discurso (como em geral todo o signo) é interindividual. Tudo o que é dito, expresso, encontra-se fora da «alma» do locutor e não é sua propriedade exclusiva. Não se pode atribuir o discurso unicamente ao respectivo locutor. O autor (o locutor) tem os seus direitos inalienáveis sobre o discurso, mas o auditor também os tem, tal como ainda os têm todos aqueles cujas vozes ressoam nas palavras encontradas pelo autor (visto que não existem palavras que não sejam de ninguém)" 62.

Para além de um movimento para trás, o locutor descreve um outro, para a frente. Em direcção do seu interlocutor. O seu discurso é, então, função de um complexo jogo de imagens, desde a imagem que tem de si, à que ele gostaria de ter de si, à que ele tem do auditor, à que ele pensa que o auditor tem de si, à que ele gostaria que o auditor tivesse de si... . Duplo dialogismo, num "drama", como salienta Bakhtine, que "comporta três papéis": o do autor ou locutor, o do auditor e o daqueles "cujas vozes ressoam nas
62

Idem, p. 83.

55

palavras encontradas pelo autor". Três papéis, para três protagonistas em relação dialéctica.

3. 1. CITAÇÃO

A teoria do enunciado de Bakhtine, sobretudo o seu conceito de intertextualidade, abriu novos horizontes para o estudo da citação. É nesse quadro que se colocam Julia Kristeva para quem o texto, construído como um “mosaico de citações”, é “absorção e transformação” de textos anteriores 63, e Antoine Compagnon segundo o qual “a citação é, antes de mais, uma leitura”: "Quando cito, extirpo, mutilo, recolho. Há um objecto primeiro colocado diante de mim, um texto que leio; e a minha leitura interrompe-se numa frase. Recuo: re-leio. A frase relida torna-se fórmula, ilha no texto. A releitura desliga-a do que a precede e do que a segue. O fragmento eleito converte-se, ele próprio, em texto, já não é fragmento de texto, membro de frase ou de discurso, mas pedaço escolhido, membro amputado; ainda não é excerto, mas já é órgão cortado e posto em reserva: Porque a minha leitura não é, nem monótona, nem unificante; faz estalar o texto, desmonta-o, espalha-o. É por isso que, mesmo sem sublinhar uma frase, sem transferi-la para o meu bloconotas, a minha leitura releva, já, de um acto de citação que desagrega o texto e o separa do contexto" 64.

No que poderia considerar-se como uma interpretação conjunta das duas citações, Maria Augusta Babo declara, por seu lado: “Como acto de leitura, a citação integra-se numa operação de corte e de transposição; como acto de escrita, ela opera uma repetição do já escrito e uma reinserção num novo contexto”. Por isso, acrescenta, “citar é, talvez, o único “roubo” consentido ou com sentido” 65.
63

Recherches pour une sémanalyse, Seuil, Paris, 1969, p. 146. La seconde main ou le travail de la citation, Seuil, Paris, 1979, pp. 17, 18 e 21.

64

65

“Da intertextualidade: a citação”, Revista de Comunicação e Linguagens, Nº 3, Lisboa, Junho de 1986, p. 115.

56

Começa-se, portanto, por ler. E, ao ler, por sublinhar. E ao sublinhar, por isolar. E, ao isolar, por outorgar ao fragmento isolado um estatuto que vai permitir o seu transporte e a sua (re)escrita. E dessa operação nasce o texto novo. O texto que se constrói, reconstruindo, de acordo com regras e lógicas próprias ao sujeito enunciador. Regras e lógicas portadoras de sentido e, por isso, geradoras da identidade do texto produzido. Assim apresentado, nas suas linhas gerais, importa verificar, agora, como é que o processo da citação se desenvolve no âmbito específico do discurso jornalístico ou jornálico 66. A este propósito Maurice Mouillaud estabelece uma distinção fundamental entre o espaço da citação propriamente dita e o espaço da intertextualidade pura
67

. O

primeiro é preenchido pelas vozes provenientes dos campos político, social, económico, cultural ou desportivo que conservam o seu estatuto. O segundo por aquelas que, uma vez transpostas para o plano da informação, desaparecem por completo. Explicando melhor: no caso da citação, o jornal diferencia, autonomiza, conserva o estatuto dos enunciados que reporta; no caso da intertextualidade, o jornal apaga completamente as marcas da enunciação e absorve o respectivo conteúdo. A citação supõe a existência de uma relação orgânica entre o enunciador e o enunciado por ele produzido. O enunciado insere-se, por conseguinte, numa estratégia prosseguida pelo enunciador. A intertextualidade, pelo contrário, supõe a inexistência de qualquer relação desse tipo, de qualquer intenção do enunciador ao produzir tal enunciado. E é essa ausência formal de intenção
68

, essa ausência formal de estratégia,

que legitima a separação, o corte realizado pelo jornal.

66

O termo “jornálico” é utilizado por Maurice Mouillaud nos seus estudos sobre imprensa.

67

Cf. capítulos “Critique de l’ événement” e “Les stratégies de la citation, Le Journal Quotidien, op. cit., pp. 11-33 e 129-149. Este livro é assinado, conjuntamente, por Maurice Mouillaud e por Jean-François Tétu. Numa nota preliminar assinala-se, no entanto, a autoria de cada um dos capítulos.
68

Sublinhe-se a expressão ausência formal que não significa ausência real.

57

Sendo assim, ao trabalhar o espaço da intertextualidade, o jornal neutraliza o enunciador assumindo ele próprio a responsabilidade do dito ou, em alternativa, remetendo essa responsabilidade para o senso comum ou para a evidência. Ao trabalhar o espaço da citação o jornal celebra como que um pacto simbólico com o enunciador. Reporta-lhe o dito mas mantém-lhe a identidade. Sabe-se quem disse o quê. E porquê. É prática corrente das instituições políticas, sobretudo quando no poder ou

na órbita do poder, encorajarem o discurso que Maurice Mouillaud associa ao espaço
da intertextualidade para o que reduzem, ou tentam reduzir, o seu papel ao de simples fonte. Pretendem, assim, ocultar o enunciador de origem, transferindo para o domínio do jornal ou, mesmo, da opinião pública, a responsabilidade da asserção
69

. Com efeito,

considerar um enunciado como informação, sem o ligar à fonte, equivale a reconhecê-lo como do domínio do real e, portanto, a veicular, automaticamente, os interesses que a fonte investiu no discurso ao produzi-lo.

As forças políticas de menor expressão pública, tenderão, por seu lado, a encorajar o discurso da citação: o que lhes interessa de sobremaneira não é, já, contrariamente ao caso anterior, fazer aceitar um dito, mas sim dar a visibilidade máxima a quem diz.
Regressando a Antoine Compagnon e à sua teoria da citação dir-se-à, por extensão, que também o discurso do jornal é, antes de mais, uma leitura. Começa-se por ler o real. E, ao ler, por sublinhar, por isolar o “facto”, o “acontecimento”. E, ao isolar, por outorgar ao “facto”, ao “acontecimento” isolado, um estatuto que vai permitir o seu transporte e a sua (re)escrita. O seu transplante. Processase assim, como diz Maurice Mouillaud, uma “libertação” e uma “captura”: “um discurso libertado dos seus laços orgânicos é capturado no interior de uma rede de comunicação”
70

.

69

Trataremos este tema em pormenor no âmbito do estudo da dictização. Le Journal Quotidien, op. cit., p. 16.

70

58

Dupla operação: de libertação e captura. Dupla excisão. Recorta-se o acontecimento da totalidade existencial, em si mesma incaptável porque abstracta. Em seguida, e posto que o discurso do jornal não se realiza directamente sobre o acontecimento mas sim sobre o discurso sobre o acontecimento, recorta-se o discurso do jornal do discurso sobre o acontecimento. Conservável e transportável o acontecimento, tal como um filme, necessita agora, para ser visível, de um écran que funcione como obstáculo. O jornal constitui esse écran. Tal como a cor de um objecto é a cor das frequências que o objecto não absorve, também a imagem do acontecimento é aquilo que o écran, obstáculo do real, não anula, não retem para si. É aquilo que o écran permite ver desse real, dá a ver desse real. Por outro lado, e se o jornal funciona como écran sobre o qual se projectam as frequências luminosas, a imagem dada pelo jornal será, também ela, invertida. É por isso, explica Maurice Mouillaud, que a representação mediática de uma greve dos transportes implica a imagem de uma cidade entendida como um fluxo contínuo de circulações. É por isso que, em geral, o acontecimento revela a sociedade ao contrário: são os acidentes, as catástrofes, a delinquência, o terrorismo, etc.. Resta abordar a segunda excisão. O discurso do jornal é recortado do discurso sobre o acontecimento, afirmámos. Esta operação de recorte que, para utilizar uma expressão de Bakhtine, põe em “interacção dinâmica” o “discurso narrativo e o discurso reportado”
71

, processa-se, ainda de acordo com Bakhtine, dentro de uma das

modalidades seguintes: 1. Conservação, na sua integralidade e na sua autenticidade, do discurso reportado que fica protegido, ao nível da narrativa produzida, por “limites claros e estáveis”; 2. Absorção do discurso reportado após decomposição da sua estrutura compacta e fechada.
71

Le marxisme et la philosophie du langage – essai d’ application de la méthode sociologique en linguistique, Minuit, Paris, 1977, p. 166.

59

Tendo no entanto em conta que a citação obriga a que sejam mantidas certas marcas da enunciação original, o acto de (re)escrita deverá oscilar entre dois limites possíveis: 1. Limite da continuidade discursiva, ou grau zero da assimilação. Se não existir uma relação de encadeamento entre os dois discursos em interacção não haverá citação. Haverá, quando muito, situação de diálogo entre discursos totalmente autónomos ou relacionados, apenas, num plano exterior ao enunciado produzido. 2. Limite da assimilação, ou grau máximo da assimilação. Se desaparecerem todas as marcas da enunciação do discurso primário, isto é, se os dois discursos se fundirem numa estrutura aparentemente homogénea, não haverá citação. Haverá intertextualidade.

60

TIPOLOGIA DA CITAÇÃO

reprodução

transformação

reprodução mimética

reprodução polifónica

amálgama

pseudocitação

identifi -cação

distanciamento

encastramento

dialogismo

integral

parcial

Fonte: Maurice Mouillaud, Le Journal Quotidien, p. 146 (esquema adaptado).

3. 1. 1. APLICAÇÃO

61

Títulos
(1) Um grande homem de Estado português («D.N.» 16/11/1934); (2) Um mestre da actualidade («D. N.» 11/1/1935); (3) Salazar criador do novo Portugal («D. N.» 3/5/1935); (4) «A nova fase de Portugal e o seu extraordinário ditador» («D. N.» 13/4/35); (5) «Um clarividente estadista» («D.M.» 18/3/1939); (6) «Um árbitro da Europa» («D. M.» 18/3/1939); (7) O director de «Le Jour» afirma ser Salazar o chefe mais completo da Europa («D. N.» 3/10/1934); (8) A nobre atitude de Portugal / Palavras do General de Castelnau / «O Dr. Salazar receou sempre, não sem razão, o contágio e irrupção da infâmia bolchevista no seu País» («D. N.» 31/10/1936); (9) «As palavras de Salazar valem o mais belo ouro do mundo» escreve Maurras num artigo da Action Française («D. N.» 22/10/1942); (10) O ressurgimento financeiro de Portugal apreciado elogiosamente por um jornal francês («D. N.» 6/3/1933); (11) O «Times» exalta a figura do chefe do governo através do livro do nosso camarada António Ferro «Salazar - o Homem e a sua Obra»" («D. N.» 23/4/1933);

Textos
(12) "[...] salienta a maneira digna como tem sido conduzida a nossa neutralidade que «não é apenas uma declaração oficial, mas que está no desejo e no sentimento de todos os portugueses». Diz que nenhum dos estrangeiros que se acolheram à protecção de Portugal jamais se esquecerá que o nosso País «soube ser, em toda a acepção do termo, a irmã de caridade da Europa»" («D. N.» 18/2/1944);

62 (13) "[...] Analisando a alternativa Corporativismo/comunismo, pronuncia-se a favor do primeiro dos sistemas, tal como ele é definido por Salazar «o genial economista de Portugal». Salienta que embora Portugal não tenha ainda atingido a perfeição, «o que importa é que os alicerces de uma ordem social melhor, estejam sendo firmemente assentes nos princípios da nossa Fé cristã tradicional»" (Jornal do Comércio 2/2/1945); (14) " [...] E afirma depois: «Não se pode dizer que ele seja popular no sentido que vulgarmente se dá a este termo. Os politicantes de vários países - que é a gente mais inútil que existe - ignoram geralmente quem seja, o que faz e fez e o que quere esse homem que há onze anos dirige os destinos de Portugal». Salazar despreza e nunca procurou essa popularidade que se adquire com promessas deslumbrantes que embriaga a imaginação [...]" («D. M.» 28/11/1939);

Título e Texto
(15) Salazar e a sua política apreciados por um escritor socialista "[...] Sem ocultar algumas divergências de princípios e de interpretação na sua análise objectiva dos factos, o conceituado escritor socialista salienta que Salazar, ao aceitar o poder, era já avesso ao culto do regime ditatorial"
(«D. N.» 17/11/1946)

O primeiro grupo de títulos - (1), (2), (3), (4), (5) e (6) - apresenta as seguintes características:

- Cada um deles é a reprodução, pelo «Diário de Notícias» ou pelo «Diário da Manhã», do título publicado no jornal estrangeiro que serviu de enunciador primário. Por ordem temos: «La Vie», «L'Eveil Provençal», «Deutsche Corpszeitung», «Kurger Polski», «La Republique de Sud-Est», «Le Volontaire de Lyon». - São enunciados completos, ou melhor, utilizando de novo a expressão de Bakhtine, são enunciados balizados por “limites claros e estáveis”. - Manifestam, relativamente aos enunciados primários, uma relação mimética já que o enunciado primário é transcrito integralmente.

63

- Transcrevendo-o integralmente, ou o jornal se apropria do enunciado transcrito, como sucede nos títulos (1), (2), e (3), em que não há qualquer marca de citação, ou o jornal se apaga diante do enunciado cujo teor tacitamente aceita como sucede nos títulos (4), (5) e (6) que aparecem entre aspas. Em qualquer caso há uma identificação entre o jornal e o enunciado em questão. - São enunciados assertivos, o que significa que a prova da veridicção está contida no próprio acto de enunciação (basta dizer para ser verdade). -Produzem efeitos de facto, isto é, assumindo a enunciação do enunciador primário, o jornal institui-a como “facto” e integra-a na mesma categoria dos “factos” que asserta directamente.

No segundo grupo de títulos - (7), (8) e (9) - observa-se que:

- Embora a transcrição seja integral e revele, portanto, a mesma relação mimética já constatada nos títulos anteriores, acrescenta-se, agora, a referência à fonte (o "director de «Le Jour»", o "General de Castelnau" e "Maurras num artigo da Action Française"). - A importância já não reside, apenas, no dito do enunciador L1, mas também no facto de ele ter dito (o director que afirma, Maurras que escreve, ou as palavras do General). - A fonte, ao ser referida, passa a funcionar como instância de legitimação. Investindo no poder dizer do enunciador L1, o jornal produz efeitos de estatuto. Realça o estatuto do enunciador. Afirma a competência deste. - Não sendo ele a dizer, não se identificando tacitamente com o enunciado transcrito, o jornal toma uma atitude de distanciamento formal que pressupõe, segundo as circunstâncias, um distanciamento efectivo ou um

pseudodistanciamento.

64

- Nos títulos presentes trata-se, como é óbvio, de um pseudodistanciamento: o jornal reforça os efeitos de facto recorrendo aos efeitos de estatuto. Esse reforço ou, se se quiser, esse pseudodistanciamento, é claramente evidenciado no exemplo (8) pela utilização do subtítulo de carácter valorativo "A nobre atitude de Portugal".

Do terceiro grupo de títulos - (10) e (11) - ressalta que:

- O enunciado primário é sujeito a uma operação de amálgama: deixa de ser reproduzido na sua forma própria; é apagado e substituído pelo enunciado do jornal que impõe o seu vocabulário. - A tendência para assimilar o discurso da fonte faz com que a relação estabelecida entre o enunciado primário e o enunciado portador se aproxime da fronteira que separa a citação da intertextualidade. - O interesse do jornal já não está centrado no dito do enunciador primário mas na sua interpretação. - O enunciado produzido reveste-se das características de um comentário (formalmente atribuível a uma instância exterior) e comporta valores.

Os textos (12) e (13) têm a particularidade de :

- Reproduzirem, do enunciado primário, apenas fragmentos não autónomos cujas marcas figuram, todavia, no enunciado em que estão encastrados. - Evidenciarem a intenção do jornal em atribuir-se a competência de conferir sentido global ao enunciado que produz (sem, no entanto, substituir o fazer do enunciado primário por um outro), contrariamente aos casos anteriores em que,

65

ao reproduzir mimeticamente os enunciados primários, o jornal reproduzia, também, os respectivos sentidos 72. - Revelarem as estratégias discursivas inerentes ao enunciado portador que, para assegurar a permanência do fazer do enunciado primário (estar no desejo de todos os portugueses [a neutralidade], ser a irmã de caridade da Europa, ser o genial economista, assentar a ordem social nos princípios da fé cristã) usa, exclusivamente, verbos declarativos (salientar, dizer, pronunciar-se).

Por sua vez, no texto (14):

- Embora o discurso do outro seja integralmente reconstituído, tal como na reprodução mimética, o jornal coloca-se ao mesmo nível do enunciador primário (L1) com o qual estabelece uma relação de quase diálogo. Duas vozes em confronto: um jornal, através do seu jornalista, tornado actante, entre outros actantes do jogo político.

Finalmente, o texto (15):

- Distingue-se da amálgama ao provocar uma relação paradoxal entre o estatuto do enunciador L1 (um "escritor socialista") e o respectivo enunciado, à partida inesperado. - Institui um quadro semelhante ao da confissão em que o confessado, apesar de "algumas divergências de princípios e de interpretação" exprime o seu apreço por Salazar.

72

Kristeva designa por ideologema a unidade mínima de sentido, isto é, a “unidade de uma ideologia, enquadrada num sistema significante”, Semeiotiké - recherches pour une sémanalyse, Seuil, Paris, 1969, p. 114.

66

- Pode induzir uma situação de pseudocitação: a que se regista quando o jornal endossa a um suposto enunciador L1, um enunciado que, no fundo, lhe pertence a ele próprio jornal.

3. 2. MODALIZAÇÃO

Em "Théorie de l'énonciation et discours sociaux", Sophie Fisher e Eliséo Véron analisam as quatro modalidades lógico-linguísticas trabalhadas por Antoine Culioli na sua teoria da enunciação 73:

- a modalidade 1, de natureza assertiva; - a modalidade 2, referente à necessidade ou à possibilidade de; - a modalidade 3, afectiva ou apreciativa; a modalidade 4, co-enunciativa ou injuntiva 74.

As modalidades 1 e 2 implicam um processo de validação que remete para um plano exterior ao do próprio enunciador. Pelo contrário, a validação da modalidade 3 é estritamente limitada ao enunciador respectivo ("eu penso que"). Qualquer uma destas modalidades tem origem num enunciador único. Nisto se diferenciam da modalidade 4 que supõe a existência de um co-enunciador, potencial ou virtual. M4 introduz, com efeito, uma relação modal, intersubjectiva, que põe em jogo o Eu e o Outro.

3. 2. 1. APLICAÇÃO
73

In Etudes de Lettres, Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Lausanne, 1986, pp. 71-92. Os autores seguem as notas de um Seminário ministrado por Antoine Culioli na Universidade de Poitiers, no ano lectivo de 1983-84.
74

Em registos diversos – lógicos, linguísticos, semióticos – outros autores propõem outras tipologias. Assim, por exemplo, Herman Parret distingue quatro tipos de modalidades: lexicalizadas, proposicionais, ilocucionárias e axiológicas. Divide as proposicionais em aléticas (do domínio do possível), epistémicas (do domínio do provável) e deônticas (do domínio da obrigação). Cf. “La pragmatique des modalités“, Langages, Nº 43, Didier-Larousse, Paris, 1976.

67

Modalidade 1 Em Portugal há ordem, há liberdade e há progresso («D. M.» 25/8/47); Modalidade 2 A neutralidade de Portugal pode ser citada como exemplo a todos os governos («D. N.» 13/2/42); Modalidade 3 Um notável artigo do «Temps» sobre a personalidade e a obra do Chefe do Governo («D. N.» 7/9/34); Modalidade 4 - O fim do parlamentarismo? («D. N.» 14/1/35 - transcreve título do jornal belga «Gazette»); - Quando nos resolveremos a seguir o grande exemplo de Portugal? («D. N.» 22/7/39 - transcreve título do jornal francês «Republique»); - Um povo que há dez anos estava no fundo do abismo, inspiremo-nos no modelo em que se tornou hoje («D. N.» 4/7/35 - transcreve título do jornal francês «Le Jour»)

Ao distinguirmos as modalidades 1 e 2 da modalidade 3, salientámos que o processo de validação das primeiras remete para um plano exterior ao do próprio enunciado enquanto que a validação da terceira está estritamente limitada ao enunciador respectivo. Acrescentemos um segundo aspecto que se nos afigura de importância capital para a compreensão da classificação de todas as modalidades (de 1 a 4). Não se trata agora de saber para onde remete a validação realizada. Trata-se, sim, de saber qual o ponto de partida dessa realização. Afirmemos, então, que o ponto de partida para a validação da cada uma das modalidades deve situar-se no próprio plano da enunciação. À luz desta observação, analisemos o título que serviu para exemplificar a modalidade 1: “Em Portugal há ordem e há progresso”. Se o ponto de partida para a validação se situar no plano da enunciação temos uma afirmação peremptória. Suponhamos, porém, que o ponto de partida para a validação se situa no exterior da enunciação, isto é, que em vez da validação estar centrada no enunciador L1 está

68

centrada, sim, num meta-destinador (que, no fundo, é o leitor do enunciado, mas não necessariamente aquele a quem o enunciado se dirige, o respectivo enunciatário). Este meta-destinador tenderá a envolver-se numa malha interpretativa atribuindo uma intenção ao enunciador L1. O enunciado "Em Portugal há ordem e há progresso" converter-se-à, no termo da operação de validação centrada no meta-destinador, em “Ele pensa que em Portugal há ordem e há progresso”. O mesmo se pode dizer a respeito dos enunciados “A neutralidade de Portugal pode ser citada como exemplo [...]” e “inspiremo-nos no modelo em que [...]”. Se a validação se situar no plano do meta-destinador, os enunciados converter-se-ão em “Ele pensa que a neutralidade de Portugal pode ser citada como exemplo [...]” e “ele pensa que nos devemos inspirar no modelo em que [...]”. Em conclusão: confundindo os planos do enunciador e do meta-destinador, centrando a validação no meta-destinador e relegando tudo para a responsabilidade do enunciador, os enunciados são, todos eles, classificáveis na modalidade 3, isto é, apreciativa. Deixaria, assim, de haver modalidades. Deixaria de haver distinção entre enunciados que, efectivamente, revelam estratégias enunciativas diferentes. Dizer-se que “Em Portugal há ordem [...]”, é uma coisa. Dizer-se que “Penso que em Portugal há ordem [...]”, é outra coisa. E bem diferente. Os exemplos da modalidade 4 sugerem-nos, por outro lado, os seguintes comentários:

- Em todos eles é patente a relação entre enunciador e co-enunciador, seja através da formulação na interrogativa seja através do uso do imperativo; - Em (1) estamos perante uma interrogação propriamente dita, manifestada, aliás, pelo marcador «?», cuja primeira resposta será dada no texto correspondente; - Em (2) estamos perante enunciados que tanto podem ser interrogativos como assertivos. Aceitando a primeira das hipóteses temos, então, que o enunciador se institui em arqui-leitor colocando um enigma cuja decifração estará,

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provavelmente, no texto. Trata-se de uma pergunta sem resposta que poderia ser substituída pela paráfrase seguinte: "é preciso resolvermo-nos a seguir o grande exemplo de Portugal", ou ainda "resolvamo-nos a seguir o grande exemplo de Portugal". - Em (3), a imperatividade, ao mesmo tempo que exprime a modalidade M4, comporta também a modalidade M1 ("há dez anos estava...", "... o modelo em que se tornou hoje") tal como comporta a modalidade M2 (subjacente à imperatividade há sempre a possibilidade). 3. 3. DICTIZAÇÃO "No eixo da modalização constata-se que o enunciado não modalizado constitui a norma, a transparência [enquanto que] o enunciado modalizado é fundamentalmente opaco. Com a dictização, constata-se exactamente o inverso. O que é transparente na dictização discursiva é a presença do sujeito: o facto primitivo é a presença transparente da instância de enunciação. O que torna o discurso dictizado opaco é, precisamente, o desinvestimento do sujeito, ou o facto de a instância de enunciação se retirar (se ausente, projectando ao mesmo tempo a representação do seu contrário, a objectividade do mundo)" 75.

A partir da comparação entre modalização e dictização, Herman Parret chega a uma definição, metodologicamente importante, entre enunciado transparente e enunciado opaco. Considera ele que, no eixo da modalização, o grau máximo de transparência, ou o grau mínimo de opacidade, corresponde ao grau zero de modalização operada sobre o enunciado em questão. Aumentando a modalização, diminui a transparência desse enunciado e eleva-se a respectiva opacidade. A modalização funciona, portanto, como roupagem que, ao envolver o enunciado, o desvia da norma.
75

Parret, Herman, “L’ énonciation en tant que déictisation et modalisation“, Langages, Nº 70, Larousse, 1983, p. 90. O mesmo texto, com o título “La deictisation et la modalisation“, foi publicado em Prolégomènes à la théorie de l’ énonciation – de Husserl à la pragmatique, Peter Lang, Berne, Francfortsur-Main, New York, Paris, 1987, pp. 112-137.

70

Se nos situarmos, porém, no eixo da dictização, o grau máximo de transparência, ou o grau mínimo de opacidade, corresponde, pelo contrário, à presença máxima do sujeito da enunciação ou das suas marcas. À medida que o sujeito se retira, que desinveste, diminui a transparência do enunciado. E aumenta a sua opacidade. Cruzando os dois eixos, diremos que a transparência máxima implica a modalização mínima e a máxima presença do sujeito e que a opacidade máxima implica a modalização máxima e a máxima ausência do sujeito. No limite máximo de ausência do sujeito ou das suas marcas (ausência do sujeito que se traduz pela re-presentação do não sujeito) e, portanto, no limite máximo de opacidade e mínimo de transparência, do ponto de vista da dictização, encontramos o discurso científico. Um discurso nominalizado, objectivado, autonomizado ao extremo. Um discurso no qual a ausênsia do sujeito é compensada pela estruturação do objecto. Um objecto cada vez mais estruturado, decerto. Mas, também, cada vez menos pessoalizado, menos temporalizado, menos espacializado. Nas antípodas do discurso científico encontramos o discurso ideológico marcado pela forte presença do sujeito e, consequentemente, menos nominalizado, menos objectivado, menos autonomizado. Discurso da desestruturação do objecto que emerge, todavia, mais pessoalizado, mais temporalizado, mais espacializado. Pessoalização, temporalização, espacialização, que constituem, afinal, os vértices do triângulo díctico a seguir apresentado.

71

O TRIÂNGULO DÍCTICO

PESSOA

eu tu

não eu ele

ESPAÇO

TEMPO

aqui ali

não aqui lá

agora ontem / amanhã

não agora «um dia»

Fonte: Herman Parret, Langages,.Nº 70, p. 94 (adaptação)

O discurso ideológico e o discurso científico são exemplos de dois casos extremos quanto ao maior ou menor investimento do sujeito e quanto à maior ou menor estruturação do objecto. Relembre-se que, no caso do discurso ideológico, se assiste, em geral, a um forte investimento do sujeito que ocupa plenamente o lugar da enunciação e a uma fraca estruturação do objecto. Mas nem sempre assim sucede. Casos há em que o discurso ideológico, produzido por um dado enunciador, se caracteriza, sobretudo, pelo

72

apagamento deste e pela prioridade concedida à estruturação do objecto. Neste segundo caso, o discurso ideológico como que se confunde com o discurso científico. A opção por uma ou outra das duas variantes depende, fundamentalmente, do estatuto do enunciador assim como da relação de forças – forte ou fraca – existente entre ele e o seu auditório. Mostrou-o, de forma convincente, a socióloga Lucile Courderesse, numa investigação realizada em 1971, em que comparou discursos pronunciados, em Maio de 1936, pelos líderes dos socialistas e dos comunistas franceses, respectivamente, Léon Blum e Maurice Thorez 76. Produzidos na mesma altura, os discursos em causa tinham, aproximadamente, a mesma extensão e dirigiam-se aos militantes de cada um dos dois partidos políticos. Neste aspecto, os dois destinadores encontravam-se em pé de igualdade. As diferenças situavam-se a um outro nível:

-ao nível da organização partidária, centralizada a comunista e disseminada a socialista; -ao nível da mobilização dos militantes, intensa nos comunistas e ligeira nos socialistas; - ao nível do estatuto de chefia, praticamente irrevogável nos comunistas e permanentemente revogável, nos socialistas; - ao nível da relação de poder entre os chefes e as bases, forte a de Thorez e fraca a de Blum.

Era, justamente, a expressão discursiva destas diferenças que Lucile Courderesse pretendia encontrar. O estudo revela, para o caso de Blum, uma multiplicação de marcas de enunciação - os dícticos «eu», «nós», etc. - e uma densíssima modalização - «eu creio», «eu gostaria de dizer», «eu penso que», «eu sei que». Revela, igualmente, a existência
76

Investigação relatada por Olivier Reboul em Langage et Idéologie, Presses Universitaires de France, Paris, 1980, pp. 85-88.

73

de um grande número de proposições negativas e imperativas, o que supõe uma relação dialógica com um opositor virtual, cujo discurso Blum estaria apostado em desqualificar (Repare-se que esta relação de tensão com um adversário virtual pode reflectir incertezas sobre o grau de aceitabilidade, pelo auditório, do discurso que se produz e, por extensão, do poder que se exerce. O adversário construído funciona, então, como o écran onde se exibe a rejeição, ampliada, enfatizada). Já o discurso de Thorez conota uma muito menor pessoalização. Emprega 11 vezes o díctico «eu», enquanto que Blum o faz 76 vezes. O «nós» de Blum é, sempre, esclarecido pelo contexto, enquanto que o «nós» de Thorez tanto pode designar «eu» + «vós» (o público), como «eu» + «vós» + todos os comunistas (abrangência máxima), como «eu» + a comissão política, como o partido na sua totalidade. Ao invés de Blum, Thorez usa raramente advérbios de tempo e expressões modais. Opta, com frequência, por sintagmas nominais em detrimento de proposições passivas ("propomos a designação de uma comissão" em vez de "propomos que uma comissão seja designada"). Da aplicação, às conclusões de Lucile Courderesse, dos modelos teóricos de transparência e de opacidade que antes apresentámos, resulta:

QUADRO COMPARATIVO DOS DISCURSOS DE BLUM E DE THOREZ Dictização Modaliz. Presença do sujeito Blum Thorez maior menor maior menor Estruturação do objecto menor maior Transparência Menor na mod. maior na dictiz. maior na modal. menor na dictiz. Opacidade maior na modal. menor na dictiz. menor na mod. maior na dictiz.

74

Léon Blum assume, sem ambiguidade, os dois tipos de representação definidos por Jean Ladrière
77

: a representação diplomática e a representação teatral. Assume a

representação diplomática ao expôr-se, abertamente, àqueles cuja decisão legitima o mando. Trata-se, por isso, de os convencer. Não tanto por aquilo que diz mas, antes, pela forma como diz. E a forma como diz é condição indispensável à re-construção, à re-elaboração do perfil de líder, exigência esta a que o líder está constantemente sujeito. «Sou eu» que digo. «Sou eu» que penso. «Sou eu» e «vós» quem decide... Ocupando o espaço público, assume a representação teatral. O acto de enunciação prima sobre o próprio enunciado. Impõe-se o sujeito da enunciação. Desestrutura-se, desautonomisa-se o objecto. No fundo, Léon Blum é o sujeito e o objecto do seu próprio discurso. É um discurso transparente porque é, efectivamente, o discurso do sujeito, produzido neste preciso local e neste preciso momento. É um discurso opaco porque repleto de modalizações, porque retorizado, porque instrumentalizado. Diferentes legitimidades, diferentes posturas. Para Thorez, a decisão de liderança inscreve-se noutras instâncias. Não tem que se mostrar, não tem que conquistar o auditório. É ele e não é ele quem fala. Porque quem o ouve, ouve por ele a voz do partido. E para que se oiça cada vez melhor a voz do partido é necessário que ele, Thorez, se vá apagando, se vá retirando da enunciação. O díctico «nós», tão utilizado e tão pouco definido, como se salienta na investigação de Lucile Courderesse, é um sinal dessa passagem latente do interior para o exterior do espaço da enunciação. Thorez vai-se retirando do espaço da enunciação e o objecto da enunciação vai-se estruturando, vai-se autonomizando relativamente ao enunciador respectivo (abundantes sintagmas nominais). É sobre o objecto, é sobre o enunciado autonomizado que se centram as atenções. Objecto, enunciado autonomizado que corresponde à mensagem do partido, da qual Thorez é o simples portador. O suporte. Enunciado transparente porque liberto dos artifícios modais (modalização mínima).
77

“Représentation et connaissance”, Encyclopaedia Universalis, Vol. XV, pp. 904-906.

75

Aparece tal qual é. Sem disfarces. Enunciado opaco porque mistificador. Mistificador porque intemporal (raros advérbios de tempo). Mistificador porque envia para um nãosujeito 78. Alargando a sua investigação às situações de comunicação em que não existe relação tácita de poder entre destinador e destinatário, Lucile Courderesse analisou o apelo que Maurice Thorez dirigiu pela rádio, em 17 de Abril do mesmo ano, ao eleitorado católico. Estava-se, então, em vésperas de eleições legislativas. É desse apelo o fragmento que reproduzimos: "[...] Nós que somos laicos estendemos-te a mão, católico, operário, empregado, artesão, camponês, porque tu és nosso irmão e porque, tal como nós, vives esmagado pela mesmas preocupações [...]" 79.

Repare-se, ainda, no uso dos dícticos «nós» e «tu» na expressão “estendemos-te a mão”. O diálogo não se estabelece entre «nós» e «vós», tal como não se estabelece entre «eu» e «tu». A primeira hipótese implicaria o reconhecimento da instituição Igreja. A segunda hipótese implicaria a assunção, pela parte de Maurice Thorez, de um acto - o de “estender a mão” - que, em última instância, não é da sua responsabilidade mas da responsabilidade do partido comunista. O «nós» em relação com o «tu»
78

Ao longo da sua produção discursiva, Salazar descreve trajectórias semelhantes ora às de Léon Blum, ora às de Maurice Thorez. Tanto se coloca no plano da enunciação, ocupando por inteiro o respectivo lugar de sujeito, como se retira ostensivamente desse mesmo plano da enunciação. Ao colocar-se no plano da enunciação, apresenta-se de corpo inteiro. Ou sobre a forma de um «eu», claramente enunciado, ou como parte dinâmica de um «nós», isto é, de um «eu»+«vós». Parte dinâmica de um «nós» que se opõe, dicotomicamente, a um «eles»: a “minoria que substitui ao da Nação o seu próprio sentimento”. De uma maneira ou de outra, é insofismavelmente ele o autor da “obra de ressurgimento nacional”. Ao colocar-se fora do plano da enunciação, objectiva-se, então, o objecto. A “obra” assim estruturada, autonomizada, já não é a de Salazar. A “obra” decorre, brota “naturalmente” da história. É forjada na história e pela história. Salazar não é mais do que o executante que a própria história escolheu, ou impôs. Curioso vai-e-vem e curioso desdobramento que um curto fragmento retirado do Prefácio de Salazar às entrevistas de António Ferro deixa transparecer: “Este homem que é governo não queria ser governo”. Salazar instituído em destinador que se dirige a um destinatário anónimo para designar um sujeito (“este”) que não é outro senão ele próprio, Salazar. Cf. de José Rebelo, Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo, op. cit.
79

in Langage et Idéologie, op. cit., p. 86.

76

manifesta pois, no plano discursivo, o contacto entre o colectivo, a organização comunista, e alguém estrategicamente reduzido à dimensão individual: o católico que pode ser operário, ou empregado, ou artesão, ou camponês. Mas, para além dos dícticos usados, importa destacar os termos em que Thorez se exprime. O sintagma verbal “estender a mão” conota o ritual católico e não o ritual comunista. O mesmo se pode dizer de “irmão” que, contrariamente a “camarada”, remete para uma linguagem de índole religiosa. Por outro lado, o qualificativo “laico” permite evitar a dicotomia crente/ateu e deslocar a questão para um campo comum aos dois intervenientes no processo de comunicação, sejam eles católicos ou não: o campo dos que não pertencem ao clero. A redundância que resulta do emprego, no mesmo enunciado, de “tal como nós” e “mesmas preocupações” tem como objectivo enfatizar a relação de proximidade entre uns e outros. Enfim, viver “esmagado pelas mesmas preocupações” é algo que todos admitirão, independentemente das respectivas convicções ideológicas. Trata-se de um enunciado ideologicamente neutro ao qual se poderia contrapôr, por exemplo, “explorado pelas mesmas forças capitalistas”. Ao recorrer a termos, a expressões e a imagens identificáveis com o seu interlocutor que, sublinhe-se, se situa no exterior da área de influência gerida pelo partido comunista, Maurice Thorez procura, evidentemente, persuadi-lo, obter a sua adesão a um conjunto de princípios básicos e, a partir dessa adesão, incitá-lo a uma determinada acção. No caso presente, o voto no P.C.F. Eis-nos em plena retórica.

3. 4. RETÓRICA E ARGUMENTAÇÃO

O ensino e a prática da retórica parecem remontar ao século V antes de Cristo e o seu lugar de nascimento terá sido a Sicília. Segundo Corax, talvez o primeiro retórico siciliano, a estratégia discursiva produzida em tribunal deveria estar organizada em partes que se sucederiam naturalmente: primeiro o exórdio, em que se chamava a atenção do auditório para o

77

interesse do tema em presença; seguidamente a narração em que o tema era apresentado de modo a captar, desde logo, a simpatia dos decisores; depois a argumentação em que se procurava, através da exposição dos aspectos positivos e negativos inerentes a qualquer uma das soluções teoricamente possíveis, abrir caminhos no sentido da solução querida; por fim a peroração em que se mostrava o fundamento, a justificação para a adopção dessa solução 80. Rapidamente, a retórica derivou para outros domínios bem mais controversos. Monopolizada pelos sofistas, adeptos da verdade relativa, tornou-se, gradualmente, um puro instrumento ao serviço de todos os poderes. Este desvio viria a provocar a reacção de Platão e de Sócrates, deliberadamente opostos a toda a organização discursiva que não visasse, antes de tudo, a procura da verdade absoluta. Sócrates alargaria, mesmo, a sua crítica ao acto de escrita que desvirtuaria, assegurava ele, a própria natureza do saber. Em Fedro, por exemplo, Sócrates considera a escrita um jogo e compara-a à jardinagem: escrita e jardinagem como sinónimos de divertimento .... No século XVI, Pedro Ramo e Omer Talon acentuaram o carácter restritivo da retórica. O primeiro, definindo-a como a arte de bem dizer, sendo a dialéctica a arte de bem raciocinar e a gramática a arte de bem falar. O segundo, reduzindo-a ao estudo das figuras. Instaurava-se desta forma a retórica clássica, “essa retórica das figuras” que, para Chaïm Perelman, “pela degenerescência, conduziu progressivamente à morte da retórica” 81. Uma morte que, afinal, não o foi. De há duas ou três décadas para cá assiste-se, de facto, à recuperação da retórica como disciplina científica. “Quem sustentasse, há uma dezena de anos, que a retórica se iria tornar uma disciplina maior, provocaria sem dúvida risos”, afirma-se em Rhétorique générale, edição que resulta de uma reflexão empreendida por um grupo de
Cf. de Philippe Breton e Serge Proulx, L’ explosion de la communication – la naissance d’une nouvelle idéologie, La Découverte, Paris, Montréal, 1991, p. 30.
81 80

O Império Retórico – retórica e comunicação, Asa, Porto, 1993, p. 23.

78

universitários, membros do Centro de Estudos Poéticos da Universidade de Liège, que adoptaram, simbolicamente, a designação de Groupe µ. "Ora, a retórica aparece hoje", prosseguem os mesmos autores, "não somente como uma ciência de futuro, mas também como a ciência da moda, nos confins do estruturalismo, da nova crítica e da semiologia"
82

. Uma ciência ligada ao desenvolvimento das modernas sociedades

democráticas e, acrescenta Tito Cardoso e Cunha, uma ciência "central na consideração de toda e qualquer acção comunicativa" 83. Isto não significa, evidentemente, que as ditas figuras de estilo não guardem uma importância grande, em particular no discurso ideológico onde, segundo Olivier Reboul84, elas desempenham: - uma função pedagógica, animando o discurso tornado, assim, mais facilmente captável; - uma função lexical, enriquecendo o vocabulário, preenchendo lacunas, encontrando novas designações para novas relações, novos temas e novos comportamentos; - uma função estética, dando origem a discursos onde não há "poesia pura", mas "poesia para": "Cultiva batata na vinha / Encherás a adega e a cozinha", "Capoeira povoada / Riqueza amealhada" 85. Multiplicam-se, pois, as metáforas, as metonímias, as sinédoques, as antíteses, os trocadilhos, as hipérboles, os paradoxos 86.

82

Seuil, Paris, 1982, p. 8.

“O pavor da retórica e as suas origens”, Revista de Comunicação e Linguagens, Nºs 21-22, Cosmos, Lisboa, 1995, p. 28.
84

83

Langage e idéologie, op. cit. pp. 119-120.

85

Para Pierre Bourdieu, este tipo de associação, assente na rima, “que instaura relações quase materiais de semalhança de forma e de som, pode [...] tornar visível uma relação escondida entre os significados ou, mais frequentemente, fazer com que a relação exista, apenas pelo jogo entre as formas”. Cf. Ce que parler veut dire – l’ économie des échanges linguistiques, Fayard, Paris, 1982, p. 173.
86

Para um conhecimento completo das figuras de estilo cf., de Pierre Fontanier, Les Figures du Discours, Flammarion, Paris, 1968.

79

Sucedem-se as antonomásias (variedade de sinédoques em que um nome próprio, como parte, se substitui ao todo, designando esse todo) que assumem importância relevante no discurso ideológico e, de uma maneira muito particular, no discurso histórico. É assim que são os reis ou os presidentes a ganhar e a perder guerras, a criar a abundância ou a espalhar a penúria, a fazer e a desfazer. É assim que a história dos povos se confunde com uma sucessão dinástica de acções. Propagam-se as paranomásias, ou seja, o uso da rima na construção de um slogan ("Yes PS", slogan lançado pelo partido socialista português na campanha para as legislativas de 1991; "CRS = SS", slogan gritado nas ruas de Paris, em Maio de 1968). Só que, em vez de ser exclusivamente entendida como simples manuseamento de figuras, de tropos, a retórica passa a ser entendida, num sentido amplo, como quadro onde se desenvolvem as mais diversas estratégias argumentativas. Para derrotar um adversário como se de um jogo se tratasse (posição de Jaakko Hintikka). Para obter a adesão de um auditório pelo persuasão ou pelo convencimento deste (posição de Perelman) 87 A partir da teoria dos jogos, Jaakko Hintikka distingue entre “regras definidoras” e “regras estratégicas”. As primeiras, tratam dos lances que podem ser executados numa situação particular e, por conseguinte, são aplicadas lance por lance. As segundas, normalmente globais, são concebidas para sequências maiores de lances, em princípio para o decurso de todo um jogo. Da conjugação dos dois tipos de regras resulta que, insiste Hintikka, o ganhar-se ou perder-se um jogo é função não apenas “do modo como o jogo termina, nem da soma cumulativa das perdas ou ganhos produzidos lance a lance, mas sim de toda a história que pode desenrolar-se quando o jogo é jogado 88.

87

Para referir, apenas, dois dos modelos mais citados. “Estratégia e teoria da argumentação”, Retórica e Comunicação, Asa, Porto, 1994, p. 83.

88

80

Explicando melhor e seguindo a interpretação de Manuel Maria Carrilho: as regras definidoras indicam “quais os lances possíveis e quais os interditos” enquanto que, pelas regras estratégicas, se decide quem joga “bem ou mal, melhor ou pior” 89. Perante um tabuleiro de xadrês, dois jogadores partilham as mesmas regras definidoras. Ambos conhecem o movimento autorizado para o peão, e para o cavalo, e para a raínha, e para o rei... Sendo comum, esse conhecimento não é, portanto, suficiente para se apurar um vencedor. Mas se as regras definidoras são comuns, já as estratégicas são próprias a cada um dos jogadores. Isto é, cada um dos intervenientes define as suas regras estratégicas no decurso do jogo. No decurso do jogo, sublinhe-se. É que, ao contrário das definidoras, as regras estratégicas não são antecipadamente conhecidas. Definem-se no contexto de cada jogo. Variam de jogo para jogo. São, por um lado, função da história já acumulada desde o início do jogo e, por outro, antecipam sobre aquilo que podem ser as regras estratégicas do opositor. São elas que ditam a sorte do jogo. Por analogia, também em situação de argumentação a vitória penderá para o lado daquele que dispuser de um melhor arsenal estratégico, ou que melhor o souber utilizar. As regras definidoras como, por exemplo, o código linguístico, servirão unicamente para estruturar o espaço onde o embate se irá desenrolar. Perelman, por seu lado, ao definir a sua teoria da argumentação, concebida como uma "nova retórica" ou uma "nova dialéctica", pretende cobrir todo o tipo discurso que vise convencer ou persuadir, “seja qual fôr o auditório a que se dirige e a matéria a que se refere” 90. Seja qual fôr o auditório e seja qual fôr a matéria, não significa, contudo, que auditório e matéria sejam indiferentes para quem procura convencer ou persuadir. Bem pelo contrário. Como assinala Perelman, o único conselho, de ordem geral, que uma teoria da argumentação pode dar, é recomendar ao orador que se adapte ao seu
89

“A retórica, hoje: um novo paradigma?”, idem, p. 15. O Império Retórico, op. cit., p. 24.

90

81

auditório, não necessariamente constituído por aqueles que o orador interpela expressamente, mas pelo conjunto daqueles que o orador quer influenciar pela sua argumentação. Em que consiste essa adaptação, assumida como uma exigência específica da argumentação? À pergunta, que ele próprio formula, Perelmam responde peremptório: “em o orador só poder escolher, como ponto de partida do seu raciocínio, teses admitidas por aqueles a quem se dirige” 91. As teses, assim adequadamente escolhidas, darão corpo a premissas aceites pelo auditório. Toda a estratégia argumentativa terá, então, como finalidade, transportar para o plano da conclusão a aceitabilidade verificada. Transporte, ou transferência, de algo não provado mas admitido, que marcará a diferença entre argumentação e demonstração: “Com efeito” precisa Perelman “a finalidade da argumentação não é, como a da demonstração, provar a verdade da conclusão a partir da verdade das premissas, mas transferir para as conclusões a adesão concedida às premissas” 92. Mas que significado atribuir a expressões como “teses admitidas” e “adesão concedida”? De que modo se chega à admissibilidade dessas teses ? E à adesão a essas premissas? Através de manobras tendentes a levar o auditório a “admitir”, ou a “conceder” o que, afinal, lhe é imposto? Não, explica Jean Pierre-Cometti, claramente favorável às posições perelmianas: a aceitabilidade das teses e das premissas, declara, em 1987, numa comunicação apresentada ao Colóquio de Cerisy-la-Salle, passa por um consenso livremente gerado entre o orador e o auditório e sujeito a um questionamento constante 93.
91

Idem, p. 41. Ibidem

92

93

Para maior precisão transcreve-se o fragmento da comunicação em que o assunto é evocado: “Como Perelman sublinhou, toda a argumentação supõe um apelo a premissas que, sem terem o estatuto de evidências, no sentido restrito do termo, devem ser objecto de um consenso que pode ser a todo o momento posto em causa”, Revista Crítica, Terramar, Lisboa, 1992, p. 59.

82

Seja ela a expressão das regras definidoras e estratégicas que decidem qual o vencedor, esteja ela apostada na procura da adesão, através de um processo de negociação permanente, o certo é que a argumentação se materializa, em geral, no desencadeamento de uma acção ou, pelo menos, na criação de uma disposição para a acção. “Para mim, argumentar é procurar conduzir, pelo discurso, um auditor ou um auditório a uma determinada acção” reconhece Jean-Blaise Grize
94

. No mesmo sentido

se pronuncia Santo Agostinho em Da doutrina cristã, capítulo 13 do livro IV 95: “Se as verdades ensinadas são tais que basta crer nelas ou conhecê-las, dar-lhes o assentimento nada mais implica que o reconhecimento da sua verdade. Mas, contudo, se a verdade ensinada deve ser aplicada na prática, de nada serve ser persuadido da verdade do que foi dito, de nada serve encontrar prazer na maneira como isso foi dito, se ela não é apreendida para ser praticada.”

No discurso do jornal, a argumentação pode assumir, no entanto, contornos algo singulares. Se considerarmos as publicações integradas no grupo conhecido por imprensa de informação (o que exclui os órgãos partidários), parece-nos, com efeito, que o objectivo da argumentação não é, exactamente, o de levar o destinatário à prática de uma acção. Pelo menos no imediato. Salvo em casos excepcionais, um jornal não faz directamente apelo ao voto em tal ou tal partido político
96

. Participa, isso sim, na formação da

opinião, consciente, embora, de que, ao contribuir para a formação da opinião, está, indirecta ou potencialmente, a contribuir para que o eleitorado evolua em determinada

94

“L’ argumentation: explication ou seduction”, L ‘Argumentation, Presses Universitaires de Lyon, 1981, p. 30.
95

Transcrito por Chaïm Perelman em O Império retórico, op. cit., p. 32.

Uma dessas excepções teve por cenário o «Le Monde» que, em Maio de 1974 apelou ao voto em François Mitterrand contra Giscard d’Estaing. A iniciativa, inútil, já que Mitterrand saíu derrotado, provocou numerosíssimos protestos de leitores habituais do jornal e abriu um longo período de reflexão sobre os conceitos de liberdade e de independência da informação.

96

83

direcção. Se a opinião corresponde a um certo «dizer», então um jornal empenhar-se-à mais num «fazer dizer» do que num «fazer agir». Empenhar-se-à, como? Que tipo de argumentação se adequa a esse objectivo? No uso corrente, o termo "informação" significa transmissão de «saber» de A para B de maneira a que, no final de processo, haja equilíbrio entre o «saber» de A e o «saber» de B, relativos à matéria em causa. Contudo, na informação entendida em termos mediáticos, a transmissão de um «saber» é acompanhada da produção de um «crer». Temos, então, a informação processada através do jornal como equivalente a um «fazer saber» + um «fazer crer», assim se procurando persuadir o destinatário de que aquilo que se diz é verdade. No final do processo, o equilíbrio já não se realiza entre o «saber» de A e o «saber» de B, mas entre o «fazer crer» de A e o «crer» de B. Conjugam-se, o fazer persuasivo de A e o fazer interpretativo de B, no âmbito de um "contracto" a que Greimas chama "fiduciário" 97. A argumentação de A para B pode construir-se de maneiras diversas. Abordaremos duas, que designaremos por "argumento polifónico" e "argumento de autoridade".

3. 4. 1. APLICAÇÃO

1. Argumento polifónico.
Com o título "Opiniões acêrca do ultimo discurso do Chefe do Governo português", publicava o «Diário de Notícias», na edição de 11 de Janeiro de 1940, uma "Carta de Paris" subscrita por Jorge Guernier, de onde extraímos o fragmento seguinte: "Nunca será demais registar a imensa repercussão que tem tido o último discurso pronunciado na Assembleia Nacional, pelo sr. dr. Oliveira Salazar.
97

Sémiotique – dictionnaire raisonné de la théorie du langage, Hachette, Paris, 1979, p. 71.

84 Pela nitidez das suas afirmações, pela elevação da sua doutrina, pela sua flagrante oportunidade, pode dizer-se que esse discurso constituíu um acontecimento mundial. «Verdadeira obra prima de eloquência», chamou-lhe «Marianne», o semanário esquerdista de Paris, outrora hostil ao regime português. «Palavras de razão e de ideal», escreveu a «Vigie Marocaine», de Casablanca. «Palavras de alta moralidade e de ampla moralização, que deveriam ser afixadas em muitas capitais», comentou a revista «La Vie», dos célebres irmãos Leblond. O «Frond Latin» cita as palavras do chefe do Governo português, em lugar de honra, entre as dos «pilotos latinos na tempestade». O «Republicain», de Constantina, aproveita o ensejo para lembrar que o valoroso Portugal, pequeno na Europa, grande pelo seu império colonial, ... é admirávelmente governado». E isso é tanto mais importante, sob o ponto de vista internacional, neste momento, quanto é certo que, como nota o «Semaphore», de Marselha, «Portugal é a sentinela exterior que guarda a porta do Mediterrâneo». Joannès Dupraz, no «Lyon-Soir», examinando a situação europeia, escreve, precedendo uma larga transcrição do discurso de Outubro: «É ao presidente Salazar, uma vez mais, como com tanta frequência nos tem acontecido desde há um ano, que deixaremos o cuidado de concluir». O «Journal Belge de France», examinando a barafunda política que sucedeu à outra guerra, diz: «A casta dos homens de Estado desapareceu, salvo talvez em Portugal, nos países escandinavos e na Inglaterra». Um outro jornal belga, esse de Bruxelas, o «Informateur», num artigo intitulado «Princípios do Racismo Pan-Europeu» cuja doutrina e cujos argumentos seria aliás impossível aceitar sem reservas, cita: «Salazar, Primeiro Ministro Português, merece desde já o epíteto mais invejável aos nossos olhos: o de grande europeu». [...]". Note-se, em primeiro lugar, a preocupação do autor do texto em diversificar as fontes. Diversificação geográfica, por um lado, diversificação ideológica, por outro. Reune testemunhos publicados em jornais de Paris, Lyon e Marselha (as três principais cidades de França, do ponto de vista demográfico e do ponto de vista económico), em jornais de Marrocos e da Argélia (à época, colónias francesas) e em jornais da comunidade francófona belga.

85

A jornais de direita, acrescenta um "semanário esquerdista". Faz referência, até, a um artigo "cuja doutrina e cujos argumentos seria alias impossível aceitar sem reservas". A argumentação do autor (L0) consiste em mostrar diversos enunciadores «Marianne», «Vigie Marocaine», «La Vie», etc. (L1, L2, L3, etc.), que assertam diversas proposições (P1, P2, P3, etc.). A partir da verificação de P1, P2, P3 ..., e pressupondo que P1, P2 e P3... justificam, tornam possível, um Q, então L0 outorga-se o direito de assertar Q - ("imensa repercussão [...] um acontecimento mundial"). A verdade da asserção Q estriba-se, mais, no conteúdo das proposições P do que na autoridade dos enunciadores L... , dos quais apenas se exige diversidade. Mas diversidade que não se destina a caracterizá-los, a eles, enunciadores, mas a caracterizar as respectivas proposições.

2. Argumento de autoridade
Repare-se nestas passagens de uma longa reportagem de Raymond Recouly, publicada na edição de 23 de Abril de 1937 do jornal «Gringoire»: “[...] A ditadura em Portugal inspira-se na razão e inspira razão. O seu chefe é, ao mesmo tempo que um homem de acção, e talvez mais que um homem de acção, um homem de pensamento, de doutrina, um professor, um intelectual, cuja regra é a de medir atentamente o que faz, de meditar longamente antes de agir, de procurar e de encontrar uma explicação racional para o seu comportamento. [...] No exame dos diversos regimes ditatoriais, Salazar - e com razão - coloca os Soviéticos à parte. «Muitas pessoas, diz ele, imaginam que o comunismo representa um progresso relativamente ao estado actual da humanidade. Para mim, ele é um recuo.» Matou por completo a liberdade; em vez de melhorar, como pretende, a situação da classe operária, essa classe é actualmente uma das mais miseráveis, das mais oprimidas do mundo inteiro (o autor refere-se, obviamente, à classe operária soviética).”

86

No primeiro fragmento reportado, o autor do texto apresenta o sujeito sobre o qual recairá o estatuto de autoridade. A apresentação tem que ser feita de modo a legitimar essa autoridade junto do público a quem o autor do texto se dirige. Ou seja, a “autoridade” terá que o ser para um público como o do «Gringoire». E para esse público o conceito de “autoridade” está, segundo parece, associado à síntese homem de acção / intelectual. Após a apresentação, o autor (L0) dá a palavra ao sujeito apresentado (L1) que asserta P1: «muitas pessoas [...] ele é um recuo». Em seguida, L0 asserta Q que, ou coincide com P1, ou é implicado por P1: "matou por completo [...] mundo inteiro". Para que o processo tenha sucesso é preciso que:

- a apresentação de L1 seja a mais adequada - se o público destinatário não “vir” no sujeito as características inerentes ao seu conceito de “autoridade”, toda a sequência argumentativa será posta em causa 98; - a asserção Q coincida ou seja efectivamente implicada pela asserção P1.

Contrariamente ao que se observou no caso do “argumento polifónico”, em que o essencial assentava nos conteúdos e na diversidade das proposições P1, P2, P3 ..., no “argumento de autoridade” o essencial assenta nas efectivas características de L1.

3. 5. PRESSUPOSIÇÃO

O conceito de “pressuposição” pode ser definido em termos lógico-semânticos ou em termos pragmáticos.

98

O mecanismo tem algumas semelhanças com uma outra estratégia enunciativa: a referencialização

87

Comecemos pela definição lógico-semântica recorrendo a dois filósofos da linguagem: Peter Frederick Strawson e Van Fraassen. Segundo P. F. Strawson, uma proposição A pressupõe uma proposição B se a verdade de B fôr uma condição prévia da verdade ou da falsidade de A 99. Dito de outro modo: Se A pressupõe B, é necessário que B seja verdadeiro para que A também o seja. Definição equivalente é a dada por B. Van Fraassen, para quem A pressupõe B se, e só se: se A fôr verdadeiro, B é verdadeiro; se A fôr falso, B é verdadeiro melhor: se A pressupõe B, não A pressupõe igualmente B. Frege ilustra esta relação lógica com o enunciado “Képler morreu na miséria” em que o pressuposto é “Képler morreu”. Apesar da negação do enunciado, ou seja, da negação de A – “Képler não morreu na miséria” - o pressuposto B – “Képler morreu” mantem-se 101. Passando à definição pragmática de “pressuposição”, veja-se o que, a este respeito, consideram Edward Keenan e Charles Fillmore. Para Keenan o enunciado de uma frase “pressupõe, pragmaticamente, que o seu contexto seja apropriado”
102 100

. Ou

. Para Charles Fillmore, são aspectos pressuposicionais de

uma situação de comunicação, “as condições que devem ser satisfeitas para que um acto ilocutório particular seja efectivamente realizado quando frases particulares são pronunciadas” 103. Importa, antes de mais, precisar o que se entende por “acto ilocutório”. Segundo John Langshaw Austin, principal representante da filosofia analítica dita “filosofia da linguagem”, característica da escola de Oxford, o acto ilocutório revela, numa situação

99

Introduction to Logical Theory, University Paperbacks, Londres, 1963, p. 175. “Presupposition, Implication, and Sel-reference”, Journal of Philosophy, 1968, p. 137. Citado por Paul Larreya, Enoncés performatifs. Présupposition, Nathan, Paris, 1979, p. 42.

100

101

“Two Kinds of Presupposition in Natural Languages”, Studies in Linguistic Semantics, Holt, Rinehart e Winston, Londres e New York, 1971, pp. 49.
103

102

“Verbs of Judging: An Exercise in Semantic Description”, Idem, p. 276.

88

de comunicação, a intenção do enunciador, enquanto que o acto locutório exprime o conteúdo da enunciação e o acto perlocutório o efeito produzido no enunciatário 104. Fillmore refere-se, além disso, às “condições” (ou “contexto” se se partilhar a definição de Keenan) que importa satisfazer para que o acto ilocutório seja realizado. Trata-se daquilo a que ele próprio, na esteira de Austin, chama "condições de emprego" e "condições de sucesso"
105

. As primeiras situadas no plano do real e as segundas no

plano do simbólico (ver exemplos em “Aplicação”). Mas avancemos um pouco mais nesta problemática da pressuposição, interrogando-nos sobre os efeitos que ela pode ter no discurso do jornal. Em que medida é que a pressuposição não poderá servir de esteio a estratégias de manipulação? A dinâmica cognitiva assenta no que podemos chamar um tríplice saber: o saber anterior, o não saber e o saber novo. É a partir de um saber anterior que temos condições para compreender, contextualizando, o saber novo contido num dado

104

Em Quand dire, c’est faire, Seuil, Paris, 1970, p. 114, Austin distingue, assim, os três actos de fala:

“Acto (A) - locutório Ele disse-me «Dispara sobre ela», querendo dizer por «dispara» dispara, e referindo-se por «ela» a ela. Acto (B) - ilocutório Ele aconselhou-me (ou ordenou-me) a disparar sobre ela. Acto (C) - perlocutório Ele convenceu-me a disparar sobre ela.”
105 Ao teorizar sobre as “condições de emprego” e as “condições de sucesso” que, no seu entender, rodeiam o acto ilocutório, Fillmore responde às críticas formuladas por Bourdieu relativamente ao conceito de ilocutoriedade de Austin. De facto, para Bourdieu, Austin comete o “erro” de “descobrir no próprio discurso, isto é, na substância propriamente linguística - se a expressão me fôr permitida - da fala, o princípio da eficácia da fala” (Ce que parler veut dire, op. cit.p. 105). Essa eficácia dependerá, de acordo com Bourdieu, de condições exteriores: “A eficácia do discurso performativo que pretende fazer acontecer o que enuncia pelo simples acto de enunciar é proporcional à autoridade daquele que enuncia: a fórmula «autorizo-vos a partir» não é eo ipso uma autorização senão na medida em que aquele que a pronuncia estiver autorizado a autorizar” (idem, pp. 140-141). Explicitando melhor a sua posição, Bourdieu sublinha, a propósito do discurso herético, que a eficácia deste “reside não na magia de uma força imanente à linguagem, como a illocutionary force de Austin [...], mas na dialéctica entre a linguagem autorizante e autorizada e as disposições do grupo que a autoriza e ao autorizá-la se autoriza” (idem, p. 152). A relação assim determinada entre linguagem e grupo corresponde, na nossa opinião, às “condições de sucesso” tal como Fillmore as concebe.

89

enunciado. Mas, por ser novo, esse saber deve inscrever-se numa área de não saber. Caso contrário assistir-se-á, tão somente, ao desenrolar de um exercício tautológico. Na relação pressuposto/posto, o saber anterior corresponde ao pressuposto enquanto que o novo saber corresponde ao posto. Por outro lado, como se viu anteriormente, só o posto pode ser negado ou interrogado, nisto se distinguindo do pressuposto, por natureza inquestionável. Donde se deduz que:

- No contexto de uma enunciação, a liberdade do destinatário está limitada à área correspondente ao posto, ou seja, ao saber novo do enunciado em questão, a única que ele pode negar, criticar, enfim, interpretar. -No discurso dos media poderá haver tendência para transferir (ou para criar a ilusão de transferir) para o domínio do pressuposto, para o domínio do saber anterior, os conteúdos cuja circulação/imposição é julgada prioritária e, por conseguinte, interessa subtrair ao filtro da recepção.

Esta operação de manipulação processa-se segundo um de dois mecanismos possíveis: - Conversão sintáctica, através da qual o enunciado passa da activa para a passiva, ou vice-versa; - Intervenção no eixo sintagmático, com a junção de um novo posto.

3. 5. 1. APLICAÇÃO

1. Definições lógico-semânticas
Repare-se no título: “A edição francesa de «Salazar - o homem e a sua obra» é aguardada com curiosidade”, (D. N. 6/3/34). A verificação do pressuposto, isto é, a existência de uma edição francesa do livro «Salazar - o homem e a sua obra», é

90

condição necessária para que o enunciado seja verdadeiro. Se não existir livro, o enunciado não tem sentido (cf. Strawson). Algo de semelhante se pode observar no título:“A Itália já seguiu e a França deve seguir o exemplo de Salazar”, (D. N. 15/2/39). A negação de A – A Itália ainda não seguiu e a França não deve seguir o exemplo de Salazar - não põe em causa o pressuposto B, isto é, que Salazar é um exemplo. O que é válido para a negação é, igualmente, válido para a interrogação. No título “A revolução de Salazar comentada por um jornal de Viena” (D. N.
30/6/35), são possíveis duas interrogações:

-uma incidindo sobre o predicado – “[foi] comentada?” -outra incidindo sobre o agente – “por um jornal de Viena?” Nem uma nem outra das duas interrogações afecta, todavia, o pressuposto: a existência da designada “revolução de Salazar” (cf. Van Fraassen).

2. Definição pragmática
Através do fragmento seguinte, em que um jornalista egípcio descreve a sua entrevista a Salazar
106

, analisa-se o modo de funcionamento das “condições de

emprego” e das “condições de sucesso” (cf. Fillmore): “[...] às dez horas em ponto, ele entra na sala. Estava eu de costas para a janela. Apertando-me a mão, puxa-me para a luz. Um olhar doce e penetrante cria, entre nós, um clima de confiança: «Queira sentar-se»”.

Para que a vontade, a intenção de Salazar - «Queira sentar-se» - se realize, é necessário a verificação:

106

"Comment j'ai été interviewé par Salazar", Salazar vu d' Egipte, Cairo, 1954;

91 Da condição de emprego - Que haja um lugar livre onde o interlocutor se possa sentar Das condições de sucesso - Que o interlocutor esteja em condições para interpretar devidamente o pedido, isto é, que saiba exactamente onde se deve sentar (é ali e não noutro lugar). Que entre os dois sujeitos da comunicação se estabeleça uma relação de legitimidade implicando pedido e aceitação (se aquele a quem o pedido é feito não reconhecer, a quem pede, legitimidade para o fazer, a solicitação não produzirá resultados. O mesmo poderá acontecer se quem pede estiver investido de um estatuto de tal forma elevado, relativamente a quem se dirige, que este último se veja compelido a um cerimonial de recusa).

3. Pressuposição versus manipulação
Exemplo da primeira operação (conversão sintáctica). No título “Um jornal de Cuba elogia o Estado Corporativo Português” (D. N.
9/2/35), a possibilidade de negação ou de interrogação confina-se ao segundo segmento

do enunciado, isto é, ao posto, à informação nova. Poderemos, então dizer que não é o Estado Português quem beneficia do elogio de um jornal de Cuba. Como poderemos perguntar-nos se é, de facto, o Estado Corporativo Português a ser alvo desse elogio. Se operarmos a conversão sintáctica, obtemos o enunciado seguinte: “O Estado Corporativo Português elogiado por um jornal de Cuba”. A negação ou a interrogação incidirá, agora, já não sobre o facto de o Estado Corporativo Português ter sido elogiado (sublinha-se facto, já que é mesmo como “facto” que esse elogio passa a ser apresentado), mas, eventualmente sobre quem tê-lo-à feito.

Exemplo da segunda operação (intervenção no eixo sintagmático). No título “Salazar, o espírito da renascença portuguesa” (D. N. 13/5/35), o pressuposto envolve a figura de Salazar (pressupõe-se que o destinatário sabe de quem se trata) e o posto reside no qualificativo: ele é, ou ele representa, ou ele manifesta “o

92

espírito da renascença portuguesa”. Qualificativo susceptível, obviamente, de contestação. Imaginemos, no entanto, uma intervenção sintagmática pela qual se chegaria a: “Salazar, o espírito da renascença portuguesa, homenageado em Paris”. O novo posto, “homenageado em Paris”, atrairia sobre si grande parte da capacidade de interrogação ou de negação do destinatário, impelindo, em consequência, o restante enunciado para a área do pressuposto. E o movimento prolongar-se-ia com a junção de novos postos: “Salazar, o espírito da renascença portuguesa, homenageado em Paris por uma sala repleta”... Cada vez mais, aquilo que, inicialmente, constituía o único objecto sobre o qual poderia recair a oposição ou a dúvida, vai-se distanciando e imergindo no pressuposto. Até se (con)fundir na evidência.

3. 6. IMPLÍCITO E NÃO DITO

No título “A nova fase de Portugal e o seu extraordinário ditador” («Diário de Notícias»,
13/4/1935), há todo um conjunto de pressupostos que incidem sobre “nova fase” e

“extraordinário ditador”. Pressupõe-se que o leitor sabe de que nova fase se trata e que sabe, igualmente, de que ditador extraordinário se está a far. De contrário, o título seria ininteligível. Mas, para além da significação pressuposta, existe uma outra, não dita nem pressuposta, expressa pela conjunção “e” que liga as duas partes da proposição. A sua apreensão passa, ou pela leitura do texto, ou pela verificação de uma relação de habituação ou de conivência, em elevado grau, entre locutor e auditor que leva este a decifrar, automaticamente, os espaços brancos do discurso produzido por aquele
107

.

"Compreender", precisa Pierre Bourdieu, "é também compreender as meias palavras e ler entre as linhas, operando de um modo prático (isto é, na maior parte das vezes de
107

Era o que permitia, por exemplo, aos leitores mais assíduos de um jornal, ler “entre as linhas” desse mesmo jornal, nos tempos em que vigorava, em Portugal, a censura prévia.

93

maneira inconsciente) as associações e as substituições linguísticas que o produtor inicialmente operou" 108. Essa significação, não pressuposta nem dita, situa-se, segundo Oswald Ducrot, ao nível do implícito discursivo: estratégia do enunciador interessado em escapar aos constrangimentos do dizer, que supõe o contradizer e investe quem diz da responsabilidade do dito 109. O implícito surge, portanto, como resposta à necessidade de dizer sem ter dito; à necessidade de rentabilizar a cumplicidade inerente ao dizer rejeitando, ao mesmo tempo, os riscos da explicitação; à necessidade de, citando ainda Oswald Ducrot, "beneficiar, simultaneamente, da eficácia da palavra e da inocência do silêncio" 110. Formalmente, o enunciador resguarda-se por detrás da possibilidade de reduzir a sua responsabilidade à significação literal do enunciado, relegando para o enunciatário a reconstrução da respectiva significação implícita. Tal jogo permite-lhe, de acordo com as circunstâncias do momento, negar ou ratificar a interpretação do enunciatário. Impondo um quadro de leitura mais eficaz mas, também, mais incerto do que o pressuposto já que nada prova que o não-dito seja compreendido, o implícito pode ser classificado de um ponto de vista lógico e de um ponto de vista psicológico. Logicamente, distinguem-se o implícito do enunciado, fundamentado no conteúdo deste, e o implícito da enunciação, respeitante ao próprio acto enunciativo, ou melhor, ao estatuto do enunciador. O implícito do enunciado é um processo banal através do qual se dão a entender os factos que não se quer apresentar de uma maneira explícita. Revela-se pela existência, na cadeia das proposições explícitas, de uma lacuna só preenchível pelo destinatário do discurso produzido. O implícito da enunciação, por seu lado, não desempenha essa função de prolongar ou complementar o nível explícito do enunciado.
108

Ce que parler veut dire, op. cit., p. 204. Dire et ne pas dire, Hermann, Paris, 1972, pp. 5-24. Idem, p. 12.

109

110

94

Assume-se, antes, como condição de validade da enunciação realizada. É assim que, implícita a uma ordem, está frequentemente a vontade de afirmar a competência de a dar, isto é, dá-se uma ordem não tanto para se fazer obedecer mas, sobretudo, para se exibir a capacidade de ordenar. E o mesmo se dirá da interrogação quando esta se destina, não à obtenção de uma resposta, mas a vincar o direito de interrogar. Psicologicamente, o implícito pode corresponder a uma manifestação involuntária do enunciador. É o que sucede quando, num texto, se detectam reflexos das culturas próprias à época em que foi redigido. Mas pode ser, pelo contrário, um revelador de artifícios estilísticos conscientemente elaborados. Conhecendo (ou pensando conhecer) antecipadamente a disposição do enunciatário para analisar as eventuais motivações de um acto de enunciação e, consequentemente, para medir as consequências dos factos enunciados, o enunciador tentará condicionar, à distância, os seus percursos dedutivos. Nesse sentido, fornecerá, ao enunciatário, dados susceptíveis de o conduzir à conclusão por si desejada. No limite, o enunciador começará por se questionar sobre os efeitos que quer produzir junto do enunciatário para, em seguida, escolher as palavras e as expressões julgadas mais adequadas ao objectivo prosseguido.

3. 6. 1. APLICAÇÃO (1) Portugal de hoje e a obra de Salazar
(«D. N.», 25/11/1934, transcrição do artigo com o mesmo título publicado no jornal francês «La Republique»)

(2) Os orçamentos de Portugal e a vitória da ditadura
(«D. N.», 12/1934, título do artigo publicado no jornal espanhol «El Siglo Futuro», transcrito com o título “Apreciação da imprensa espanhola sobre o orçamento português”)

(3) No país de Salazar: o Colbert português
(«D. M.», 15/5/1939, título do artigo publicado no jornal belga «La Marche du Monde», transcrito com o título “No país de Salazar”)

95 (4) Um pequeno país e um grande chefe - o Portugal de Salazar
(«D. N.», 13/1/1940, título do artigo publicado no jornal francês «Le Journal», transcrito com o título “Nenhum outro país suscita em França mais simpatia e curiosidade do que o Portugal de hoje”)

(5) O desaparecimento de Salazar seria uma grande desgraça para o País
(«D. N.», 7/10/1945, título do artigo publicado no jornal francês «Résistance», transcrito com o título “Opiniões do jornal francês «Resistance» sobre o Chefe do Governo e a sua política”)

(6) A palavra “fascismo” é em Portugal deslocada e ridícula - afirma um jornalista francês que visitou o nosso país
(«D. N.», 29/7/1947, transcrição de um artigo publicado em «Le Pays», cujo título original não é indicado)

(7) Uni-vos povo de França em volta do vosso «Salazar» - proclama o «Libérateur»
(«D. M.», 23/7/1948, transcrição de um artigo cujo título original é “Salazar e De Gaulle”)

Tanto em (1) como em (2), a junção das duas partes ([Portugal de hoje] + [a obra de Salazar], [Os orçamentos de Portugal] + [a vitória da ditadura]) provoca efeitos de sentido que se explicitam nos textos correspondentes. - em (1): “Portugal instituiu uma ditadura militar, onde os militares compreenderam que o mais simples era entregar o Poder a um civil, o sr. dr. Oliveira Salazar, que, tendo ideias, inteligencia, gôsto de iniciativas, amor das responsabilidades, propôs-se criar um Estado novo, o que parece ter conseguido, com o mais perfeito exito”; - em (2): “A Ditadura portuguesa salvou o país vizinho e irmão das convulsões demagógicas, das tentativas comunistas. A sua fazenda publica está florescente e, como consequência lógica, há em Portugal paz espiritual e material, cultura, trabalho e bem estar geral". Em (3) atribuem-se implicitamente a Salazar as qualidades reconhecidas ao ministro de Luís XIV, restaurador do aparelho económico e financeiro francês. Em (4) estabele-se implicitamente uma relação horizontal, dois a dois, entre os elementos que compõem cada uma das partes do enunciado-título: “Um pequeno país” / “Portugal”; “um grande chefe” / “Salazar”;

96
111

Em (5) e em (6) desenvolvem-se processos denegativos

. Implícita, está a

ideia de um eventual desaparecimento de Salazar (em 5) e de uma acusação de "fascismo" (em 6). Em (7), está implícito o reconhecimento das qualidades de Salazar, ao ponto de poder servir de modelo para o "povo de França". Pressupõe-se o conhecimento da personalidade (De Gaulle) que é objecto da relação analógica.

Igualmente interessante é a comparação entre as estratégias enunciativas dos dois enunciadores - o jornal citado e o jornal citante - presentes em cada um dos títulos referidos. Em (3), o implícito só aparece com a confirmação do pressuposto, isto é, sabendo-se, efectivamente, quem é Colbert. Neste caso, a significação implícita (Si) é como que acrescentada à significação literal (Sl), sendo a relação entre as duas significações de natureza irreversível, ou seja, só no contexto da compreensão de Sl é que se pode compreender Si excluída na versão portuguesa. Em (4), a associação entre “pequeno país” e “Portugal”, poderá não ter sido do interesse da instância citante: razão provável do seu desaparecimento. Em (5), substitui-se a declaração constante do título original por um enunciado eminentemente descritivo: “Opiniões do jornal francês [...]”. Visivelmente, a hipótese de um desaparecimento de Salazar é inadmissível, seja em que condições fôr. Já o mesmo não acontece em (6) onde se mantém a referência ao fascismo. Postular-se-à, neste caso, que a força da negação explícita supera, na óptica do jornal citante, a força da denegação implícita. Enfim, em (7), assiste-se a um nítido reforço da relação de implicitação.
112

. Talvez por isso, a referência a Colbert tenha sido

111

A denegação, como estratégia enunciativa, será analisada mais à frente. Ducrot, Oswald, Dire et ne pas dire, op. cit, p. 11.

112

97

3. 7. REFERENCIALIZAÇÃO

Em "La Sémiosis et son monde", Eliseo Véron apresenta cinco aspectos importantes, a seu ver, para a determinação das bases de uma teoria da referencialização 113 que podem resumir-se assim:

1. Toda a referência implica uma remissão; “referir-se a” significa “remeter para”. Estamos, portanto, perante dois termos e uma relação. Um desses termos é a “origem” da referência; o outro é o respectivo “destino”, ou melhor, o “ponto de aplicação” da operação de referência.

2. O primeiro termo, o “ponto de origem”, é, na sequência da operação de referência, posto em relação com o segundo: “referir-se” é, com efeito, sinónimo de “situar-se relativamente a”. A referência releva, por conseguinte, de uma localização.

3. Tanto o primeiro como o segundo termo da referência, isto é, tanto o “ponto de origem” como o “ponto de aplicação” da referência, são signos.

4. Se um signo estabelece com outro signo uma relação de referência é porque necessita dele para instaurar a sua própria credibilidade. A relação instituída pela referencialização é, por isso, da ordem da caução.

5. A caução inerente à referencialização garante que os dois signos, os dois conjuntos significantes, se articulem entre si, se mantenham, ambos, no interior do mesmo universo discursivo.

113

Langages, Nº 58, Larousse, Paris, 1980, pp. 62-63.

98

Sublinhe-se que, para que a estratégia funcione, é necessário que o segundo termo da operação de referência beneficie de legitimidade junto do auditório visado pelo produtor da operação. Em caso contrário a estratégia produz efeitos exactamente opostos aos pretendidos 114.

3. 7. 1. APLICAÇÃO (1) “Como noticiámos, o sr. dr. Oliveira Salazar esteve nesta cidade no passado sábado, seguindo, no dia imediato, para o distrito de Bragança. Um pouco adiante de Vinhais, junto à ponte da Soeira, nas margens do rio Baceira, o presidente do Conselho e a sua comitiva tiveram uma paragem, para, á sombra de frondosas nogueiras, tomarem uma ligeira refeição. No decorrer desta, apareceu ali um camponês, da vizinha freguesia da Soeira, que, certamente, levado pela curiosidade, entabulou conversa com os presentes e, a breve trecho, num grande á vontade, ignorando absolutamente com quem falava, se referia ás terras, ás culturas, aos rendimentos, ás décimas, etc. Em certa altura, o sr. dr. Jeronimo de Lacerda perguntou-lhe se gostava do dr. Oliveira Salazar. Resposta pronta: - Gosto sim senhor. Nós todos gostamos do dr. Oliveira Salazar, que governa bem. E a conversa continuou. O presidente do Conselho inquiriu das condições de vida local, do preço dos cereais, da produção, dos juros pagos por empréstimos de particulares, etc., fazendo anotações no seu canhenho. Terminada a refeição e quando todos seguiam para a estrada, o sr. dr. Lacerda, retardando-se um pouco, informou o camponês de que estivera a falar com o chefe do Governo. O bom homem ficou perplexo, mas logo se recompôs e, mostrando na fisionomia um intenso regozijo, exclamou: - O quê, pois é ele, o dr. Salazar? Quero dar-lhe um abraço! E correndo para o chefe do Governo, apertou-o efusivamente nos braços”.
(«D. N.», 22/9/1934)

A operação de referencialização está presente noutras estratégias enunciativas, em particular na citação.

114

99 (2) “[...] Embora haja algures a tendência de dizer mal de Salazar, devo terminar por repetir que ele não se assemelha a qualquer outro ditador. Por exemplo: recusou aceitar uma demonstração que os seus admiradores tinham proposto organizar para comemorar o 20º aniversário do seu governo. Pode-se bem calcular como outro ditador - e mesmo muitos democratas - teriam aproveitado essa oportunidade”.
(«D. M.», 23/6/1948, transcrição de uma reportagem publicada no «Daily Telegraph»)

(3) “- Quem está ao telefone? - perguntou. - O ministro das Finanças - Que deseja? - Nada. Queria saber simplesmente se ainda era ministro da Fazenda. Mas, pela resposta, vejo que não. Muito obrigado”. (4) “O Estado quiz pagar as despesas, já que o acidente tinha acontecido em serviço. Mas ele opôs-se terminantemente e para obter a verba necessária vendeu a quinta que possuía em Santa Comba” 115. Em qualquer uma destas “histórias”, Salazar funciona como “ponto de origem” de uma referencialização cujos “pontos de aplicação” são, sucessivamente, a refeição no campo, a conversa com o camponês, a recusa da homenagem, o telefonema para o presidente da República, a venda da quinta. Através da referencialização assim operada, pretende-se realçar qualidades diversas: simplicidade, popularidade, discrição, desapego do poder, austeridade ... Sem as explicitar.

115

As histórias (3) e (4) são contadas por J. L. Diéz Gutiérrez O'Neil, Portugal Corporativo, Editorial Aldecoa, Madrid, 1940, pp. 13 e 15. Consideramo-las, porque manifestam aspectos curiosos. Na primeira, relata-se o que teria sido uma conversa telefónica entre o recém-empossado presidente da República, Óscar Carmona, e Oliveira Salazar que, logo em seguida, abandonaria as suas funções de ministro das Finanças e regressaria a Coimbra. Ora a curta estadia de Oliveira Salazar nas Finanças teve lugar em 1926, de 30 de Maio a 30 de Julho, enquanto que a eleição presidencial do General Carmona data de 25 de Março de 1928. Na segunda, relata-se uma atitude de Salazar ao quebrar uma perna quando descia as escadarias do Palácio de São Bento. Só que não consta que para pagar os respectivos tratamentos tivesse vendido “a quinta que possuía em Santa Comba”. Na ânsia de exprimir as qualidades do protagonista pouco interessa a verdade da narrativa. Mas esta mesma história, sobre o modo como Salazar teria custeado as despesas relativas ao tratamento da fractura, encontra-se noutros relatos, de diversos jornalistas, de diversos jornais, de diversos continentes. Independentemente da veracidade da narrativa, o que interessa aqui notar é a forma como ela circula. Ou porque a fonte consultada pelos diversos jornalistas é a mesma. Ou porque, na fase de preparação do seu trabalho, o jornalista lê e adopta considerações, ou fragmentos de texto, mais ou menos importantes, com maior ou menor destaque, de outros trabalhos jornalísticos.

100

3. 8. EXORTAÇÃO

De todas as estratégias enunciativas a exortação é das que melhor exprime a função fática da linguagem, de que fala Jakobson. Procura-se com ela, ou através dela, garantir, restabelecer ou reforçar o contacto entre sujeitos envolvidos num processo de comunicação. É utilizada sempre que se trata de captar, ou de fixar, a atenção. Impõe-se no discurso do dirigente político que a ela invariavelmente recorre, ou para iniciar o seu discurso ou para prevenir eventuais momentos de ruptura relativamente ao seu auditório (é por isso que, algures a meio do seu discurso, ou no momento em que aborda a conclusão, o deputado retoma a exortação inicial). É prática corrente no discurso do chamado jornal de opinião, nomeadamente quando lança um apelo, quando anuncia algo de importância rara, ou para a vida quotidiana do leitor, ou para a existência do próprio jornal. A exortação dará, assim, o tom da solenidade. É performativa porque é ritual. O seu emprego deve corresponder ao estatuto do enunciador e à relação que este pretende estabelecer com o respectivo auditório. Hitler iniciava todas as suas intervenções pela exortação ritual Volksgenossen
116

. Criava,

assim, uma relação de identidade com os seus interlocutores. Uma identidade no quadro da nação. No quadro da raça ariana. Evitava, por outro lado a conotação marxista, inerente a uma exortação ritual do tipo camaradas, sem abandonar, todavia, a fraseologia populista que era a sua. Parecida, por remeter igualmente para o conceito de nação, era a exortação preferida pelo general De Gaulle: françaises, français. Quando falava, De Gaulle dirigia-se à nação. Era com a nação que ele se confrontava, discursivamente. Postura diferente da assumida por Valéry Giscard d’ Estaing. Ultraliberal, teoricamente inspirado num conceito de sociedade atomizada, Giscard d’ Estaing dirigia-se a cada um, em particular. Daí a exortação ritual por si
116

“Companheiros do povo”.

101

usada: Mesdames, mesdemoiselles, messieurs. À alocução sucede, com Giscard d’ Estaing, o diálogo. Sugerido, claro está. No plano da recepção procura criar a ilusão da interactividade: é conosco, é comigo que ele fala. Em nossa casa. Já a fórmula tradicionalmente usada por Salazar é impessoal: Meus Senhores. Sem mais. É preciso deslocar-se oficialmente ao Porto, em Abril de 1934, para alargar, um pouco, o campo dos seus destinatários. Começa então o discurso, proferido no Palácio da Bolsa, com a exortação Minhas Senhoras e Meus Senhores. Mais tarde, com o desencadear da guerra colonial e em momentos cruciais para a afirmação da sua política, opta por mudar de exortação que passa a ser: Portugueses. Significativo. Mas há um outro tipo de exortação a que poderíamos chamar “insólita”, de carácter inabitual, cujo objectivo consiste em provocar especiais efeitos de tensão. Em Julho de 1941, na sua primeira alocução radiofónica após a invasão das tropas alemãs, José Estaline dirige-se, dramaticamente, aos “Camaradas, cidadãos, irmãos e irmãs, combatentes do nosso exército e da nossa marinha, amigos”. Apelo inesperado que, pela sua estrutura, transgride os códigos marxistas. Também em Julho, mas de 1958, De Gaulle, comovido, começa, assim, a sua mensagem aos franceses residentes na Argélia: “compreendi-vos”. O efeito de tensão é provocado não tanto pelo significado da expressão mas, sim, pelo respectivo contexto. De Gaulle dirigia-se a franceses que, apanhados num grave conflito armado, a guerra de independência, se julgavam abandonados pelo seu país. É, ainda, insólita, a exortação escolhida por Salazar quando, no Pavilhão dos Desportos, a 4 de Junho de 1958, intervem, desprendidamente, na campanha de Américo Tomás para as eleições presidenciais: “Cinco minutos bastam para o que devo dizer”. Desta vez, o seu discurso não se inicia pelo usual Meus Senhores. Rituais ou insólitas, as exortações revestem-se de uma dimensão eminentemente ideológica.

102

Porque exprimem um código próprio de cada situação concreta: escandalizaria tanto o padre que, do púlpito, pregasse aos camaradas como escandalizaria o dirigente sindical que, em plena contestatação operária, se referisse a meus irmãos 117. Porque exprimem a diferença de estatutos entre protagonistas de um processo de comunicação. Um professor pode dirigir-se aos seus alunos através da exortação ritual caros amigos. O contrário seria dificilmente compreensível.

3. 9. DENEGAÇÃO

O conceito foi elaborado por Freud para designar um processo defensivo que consiste em enunciar desejos, pensamentos, sentimentos, sem, todavia, os reconhecer ou admitir. Em psicanálise, a denegação funciona como importante instrumento técnico já que permite a manifestação de representações recalcadas; permite estabelecer a ligação, embora pela negativa, entre dois elementos, entre dois acontecimentos que, até então, se afirmavam como totalmente separados; permite chegar a uma confissão através da interpretação da insistência numa dupla negação. Genericamente, diremos, então que o sujeito X denega p:

- ao recusar uma afirmação ou um epíteto reconhecido pela comunidade envolvente como sendo, a ele, aplicado. - ao negar p num contexto que não obrigaria a essa negação, isto é, ao negar p num contexto de resposta a uma pergunta não formulada. - ao insistir, ostensivamente, na negação de p ("disse e repito que não sou ...").

Frequente, tanto no discurso do jornal como no discurso por ele reportado, a denegação é um processo tendente a justificar o discurso próprio, através da recusa, por
Note-se que, ao romper ostensivamente com o código, as exortações manifestam de igual modo a sua dimensão ideológica. É o que sucederia se, em condições especialíssimas, o Padre se dirigisse aos camaradas e o dirigente sindical aos irmãos.
117

103

antecipação, do discurso do outro que se adivinha. Ao declarar “eu não sou racista” ou “eu não faço política” o declarante revela, na maior parte das vezes, receio do que podem julgar, a seu respeito, aqueles que o rodeiam. Donde a atitude de defesa que, preventivamente, assume. Mais do que uma negação, a denegação pode acabar por funcionar como uma afirmação formulada na negativa.

3. 9. 1. APLICAÇÃO (1) “Seria absolutamente ridículo votar Portugal ao ostracismo, só porque não é um país democrático, segundo a nossa maneira de ver, ou socialista” («D.M.», 23/6/48, transcrevendo
artigo publicado, na véspera, pelo «Daily Telegraph).

(2) “Devo precisar que ao escrever este livro, não tive a intenção de defender um regime político: não é esse o meu propósito porque não quero, de maneira nenhuma, fazer política” (Le vrai visage du Portugal d’ Outre-Mer tel que je l’ai vu, de Emile Marini, edição do autor, Friburg, 1964). (3) “Este pequeno e despretensioso estudo – depoimento à margem do grande momento histórico que atravessamos – não vem a público clamando por outra razão que não seja o desejo muito sincero, e muito natural em um português, de focalisar um grande homem de Estado e a sua obra, que estão honrando Portugal. Isto se declara em tempo para o ressalvar da acusação de intenções outras que, por acaso, lhe queiram atribuir, como sejam a adulação e a venalidade, uma vez que o seu auctor só procura fazer justiça ao homem e aos acontecimentos, sem nada mais desejar que a paz da sua consciência de cidadão, amante da glória da sua Pátria” (Salazar, o homem do momento, biografia assinada por António Guimarães e editada pela Livraria M. Antunes, Rio de Janeiro, 1936). (4) “Sou um simples professor que deseja contribuir para a salvação do seu País, mas que não pode fugir, porque a sua natureza não lho permite, a certas limitações de ordem moral, mesmo no campo político” (Salazar, Edições do Templo, 1978, p. 79 - resposta de Salazar a
António Ferro quando este o questionava sobre o futuro do seu projecto político, nomeadamente sobre as suas relações com católicos e monárquicos).

104

Em (1), a denegação acontece ao exprimir-se uma relação entre ostracismo e governo não democrático. É, justamente, ao condenar essa ligação, que o autor admite a sua existência. Em (4), quando se considera “um simples professor que [...]”, Salazar denega, reduzindo voluntariamente o seu estatuto, na plena consciência de não ser esse o estatuto que lhe é reconhecido no País. Mais interessante são, talvez, os exemplos (2) e (3). Quem pergunta ao autor de (2) se ele teve ou não intenção de defender um regime político? Se ele faz ou não faz política? Quem pergunta ao autor (3) quais as razões pelas quais redigiu uma biografia de Salazar? Porque é que (3) se sente na necessidade de esclarecer (resposta a pergunta não formulada) que as razões não são outras senão “o desejo muito sincero, e muito natural em um português de focalisar um grande homem de Estado e a sua obra”? “Isto se declara em tempo”, sublinha o autor explicitando, assim, o objectivo de se antecipar. Mas de se antecipar a quê? A acusações de “adulação” e de “venalidade”? A simples admissão da hipótese mostra que, para o autor, existe em seu redor um ambiente propício a tal ocorrência. Donde a sua denegativa insistência: não se trata apenas de “fazer justiça ao homem e aos acontecimentos”, trata-se, também, de se pôr em paz com a “sua consciência de cidadão”.

105

4. O PODER DO DISCURSO

“A informação, sob pena de parecer falsa, ou de parecer não ser informação, deve dar a impressão de que «reproduz» a realidade”, considera Jean-François Tétu 118. O poder do discurso do jornal está, pois, na sua capacidade em construir essa ilusão da realidade, sendo certo que, na maior parte das vezes, a matéria prima utilizada, isto é, a que chega à redacção para ser convertida em notícia, é, já ela, o resultado de uma cadeia enunciativa de dimensão indefinida. A este respeito, o jornalista produtor do discurso “realista” ou, para abreviar, o “jornalista realista”, situa-se no mesmo plano do “artista realista” que, segundo Roland Barthes, “nunca identifica a origem do seu discurso com a «realidade», mas, sempre e somente, tão longe quanto se possa ir, com um real já escrito, com um código prospectivo, ao longo do qual, e a perder de vista, nada mais se pode encontrar do que uma enfiada de cópias”
119

. Esse “código prospectivo” que, no exemplo dado por

Barthes, fundamenta o conceito de beleza para o artista plástico, fundamenta, também, o conceito de verdade para o jornalista.
118

"L'effet de réel", Le Journal Quotidien, op. cit., p. 153 e Le Discours du Journal, op. cit., p. 541. S/Z, Seuil, Paris, 1970, p. 173.

119

106

Quando confrontado com o seu conceito de verdade, o jornalista reage como o artista plástico “que não faz mais do que citar o código supremo, fundador de todo o real e que é a arte, de onde derivam as verdades e as evidências”
120

. Tal como o artista

plástico, o jornalista “é infalível, não pela segurança das suas performances (ele não é apenas um bom copiador da «realidade») mas pela autoridade da sua competência; é ele quem conhece o código, a origem, o fundamento, e quem se assume, assim, como garante, testemunha e autor (auctor) da realidade” 121.

4. 1. MECANISMOS DE AUTENTIFICAÇÃO

A redundância, as histórias paralelas, o recuo temporal e a delegação de saber, constituem mecanismos de autentificação deveras importantes, na construção do texto jornalístico.

4. 1. 1. REDUNDÂNCIA E HISTÓRIAS PARALELAS

No título, no lead, nas gravuras, nas próprias legendas das gravuras, no interior dos textos, pontifica a insistência, a repetição de sentido. Processo fático que contribui para a solidificação, para a coesão da informação, a redundância procura prender o leitor, convidando-o ao reencontro constante com aquilo que já conhece. Na verdade, e para além da informação nova, o que o leitor procura no jornal é, sobretudo, a confirmação dos elementos que já fazem parte do seu universo referencial. Confirmação que é chave da fidelização. Nas histórias paralelas, tenta-se caracterizar positiva ou negativamente a personagem central, através da caracterização positiva ou negativa de personagens colaterais com as quais a central tem evidentes nexos de causalidade. Trata-se de uma
120

Ibidem. Ibidem.

121

107

aplicação da estratégia de referencialização em que a personagem central é o “ponto de origem” e a (ou as) personagem colateral o respectivo “ponto de aplicação”. Em vez de se atribuirem tais características a tal sujeito, atribuem-se essas mesmas características a outros sujeitos que, pelas mais diversas circunstâncias, remetem para o sujeito que se quer efectivamente caracterizar. A caracterização opera-se indirectamente e a eficácia aumenta já que, de algum modo, se transfere para o leitor a responsabilidade pela efectivação das relações produtoras de sentido. É ele que interpreta o não dito. Analisemos mais em pormenor os dois outros mecanismos de autentificação já evocados.

4. 1. 2. RECUO TEMPORAL

O discurso jornalístico situa o início do acontecimento narrado num tempo anterior ao da sua produção enquanto discurso e, obviamente, ao da sua recepção pelo leitor. Através deste recuo temporal, ele actualiza o passado, ou melhor, transporta virtualmente o leitor para o momento de ocorrência do acontecimento já ocorrido. E, por já ocorrido, indesmentível. Em seguida, fá-lo percorrer o caminho entretanto percorrido pelo próprio acontecimento no seu desenrolar. Chega-se, assim, imperceptivelmente, ao momento zero, isto é, ao instante que separa passado e futuro: mutação qualitativa que a narrativa não contempla. Por isso, ainda imperceptivelmente, o leitor mergulha num mundo já não do realizado mas do realizável que a narrativa antecipou.

4. 1. 2. 1. APLICAÇÃO "[...] hoje, 31 de Maio, às 4,30 h., o presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar receber-me-à no seu gabinete da presidência. Quem não esteve ainda em Portugal, não pode compreender o que representa ser-se recebido por Salazar. [...] Às 4,15 h., o automóvel que nos esperava arranca. Em silêncio, com o coração apertado, atravessamos a cidade [...]. às 4,25 h. entro na presidência do Conselho, por aquele

108 portão que tão poucas pessoas têm atravessado. Subimos as escadas em silêncio; em silêncio somos introduzidos num salão de chão encerado e paredes pintadas de beige onde reina uma atmosfera calma e serena de claustro". («Le Jour», 19/6/1935, artigo de Léon
de Poncins).

Observe-se, em primeiro lugar, esse trajecto pelo passado para o qual a narrativa convida o leitor: às 4,15h. o automóvel arranca, às 4,25h. entramos na presidência, depois subimos a escada, depois somos introduzidos no salão... O título da entrevista é: “Oliveira Salazar construtor de um mundo - o ditador português revela ao nosso enviado especial Léon de Poncins os «fins» e os meios do Estado que dirige soberanamente desde há sete anos”. E aqui reside o segundo aspecto que interessa observar: enquanto o texto nos coloca num tempo anterior ao da entrevista, cujos preparativos descreve, o título anuncia o respectivo conteúdo. Colocase, já, num tempo posterior ao da entrevista. Abre para o futuro.

4. 1. 3. DELEGAÇÃO DE SABER

Em vez de “eu jornalista asseguro-lhe, a si, leitor, que lhe digo a verdade dizendo que”, o discurso jornalístico assenta numa estrutura do tipo “uma personagem X, de estatuto indiscutível, presente no enunciado e participando na narrativa, diz a Z que P”. Frente a frente já não estão o destinador jornalista e o destinatário leitor, mas sim duas personagens, dois actantes da narrativa, inscritos na própria narrativa: um informado (o destinador) e outro não informado (o destinatário). Assiste-se, portanto, a uma delegação de estatutos que pode representar-se assim 122:

122

Tetu, Jean-François, Le Discours du Journal, op. cit., p. 563.

109

MODELO DE DELEGAÇÃO DE SABER Jornalista (Destinador informado) Personagem X ==========> Saber P ==========> Personagem Z (Destinador (Destinatário informado) não-informado) Leitor (Destinatário não-informado)

Quando o jornal dá a palavra a alguém (um governante ou uma qualquer outra autoridade por si legitimada), esse alguém ocupa o lugar X e estabelece, a partir daí, uma relação com quem ocupa o lugar Z: o leitor, implícito na narrativa; o jornalista; outra personalidade cujo estatuto seja, igualmente, reconhecido pelo jornal. Verificando-se uma das duas últimas situações, o leitor é como que relegado para o exterior do acto de comunicação. Como se estivesse a assistir, passivamente, ao que acontece no palco onde contracenam as personagens X e Z. Em La Société Réfléchie
123

, Eric Landovski expõe uma teoria do porta-voz, de

feição greimasiana, que, pela sua semelhança com o que acaba de se descrever, julgamos ser útil resumir. Segundo o autor, o aprofundamento da relação entre dirigentes políticos e público, condição da vida moderna, supõe a existência de uma estrutura de mediação capaz de personificar, de representar o povo junto dos seus dirigentes e de, ao mesmo tempo, manter o interesse da representação, isto é, de manter a relação entre dirigentes e povo. Essa função de mediação desdobra-se em opinião propriamente dita e em porta-voz da opinião. Por analogia com o teatro grego, teremos:

123

Seuil, Paris, 1989.

110

MODELO DE MEDIAÇÃO GOVERNANTES / GOVERNADOS

Plateia (Koilon)
Espectadores Público ou governados

Orquestra (Orchestra)
Coro-------------Corifeu Opinião---------Porta-voz

Palco (Logeion)
Actores Classe política ou governantes

Entre governantes e governados encontram-se assim, na dramaturgia política de hoje, a opinião e os seus porta-vozes que se distinguem do público por este não dispôr de competência discursiva. Simples instância receptiva, o público encontra-se desqualificado enquanto emissor. As duas instâncias emissoras, a opinião e os portavozes, desempenham, então, um duplo papel ora virando-se para a cena a fim de interpelarem a classe política, ora virando-se para a plateia a fim de se dirigirem ao público. Entre elas, subsistem, no entanto, importantes diferenças de natureza. É que, enquanto a opinião assume, prioritariamente, uma função persuasiva destinada, essencialmente, a fazer agir a classe política e a dar ao público a consciência da sua própria identidade, os porta-vozes assumem, prioritariamente, uma função interpretativa dando a conhecer aos governantes as reacções do povo e explicando ao povo o sentido de acções empreendidas pelos governantes. Se quisessemos estabelecer uma comparação entre o modelo de mediação governantes/governados e o modelo de delegação de saber, como processo de autentificação do discurso jornalístico, diríamos que a opinião ou os porta-vozes de Landovski, correspondem ao jornalista ou à personalidade (não leitor) que ocupa o lugar Z. Mas o jornalista pode, também, ocupar o lugar X, dirigindo-se, a partir daí, ao leitor que ocupa Z. É o que ocorre quando o jornalista assume, explicitamente, o papel de testemunha do acontecimento que relata ou quando enuncia, ele próprio, as características da personagem sobre a qual recai a atenção do jornal.

111

No caso de reportagens ou de entrevistas, o lugar do leitor pode ser ocupado pelo jornalista que serve, por conseguinte, de instância de mediação entre a autoridade X, entrevistada ou reportada, e o leitor, de novo exterior ao acto comunicativo. Pode suceder, enfim, que o entrevistado ou a autoridade cujo dito é reportado seja um jornalista. E que este jornalista fale para outro jornalista. Teremos então dois jornalistas ocupando os lugares X e Z, embora com estatutos diferentes: estatuto de “fonte” para o que ocupa o lugar X e estatuto de auditor/mediador para o que ocupa o lugar Z.

4. 1. 3. 1. APLICAÇÃO (1) “Maurice Maeterlink, o grande escritor e poeta belga, figura luminar da literatura e do pensamento europeu contemporaneos, celebridade mundial, prefaciou a edição francesa - «Une Révolution dans la Paix» - do famoso livro «Discursos», do dr. Oliveira Salazar. A personalidade e a obra do Chefe do Governo português ultrapassaram as fronteiras do País e são hoje devidamente conhecidas em todo o Mundo. Contudo, quando uma altissima individualidade como a de Maeterlink sobre uma e outra se pronuncia, e as julga, e as louva com entusiasmo, não pode passar despercebido esse facto, nem tampouco deixar de se lhe dar o condigno registo. Essa razão nos leva a dar hoje ás palavras de Maurice Maeterlink, traduzindo-as dessa edição francesa, o lugar de maior destaque do nosso jornal, onde elas ficam a honrá-lo e a ilustrá-lo pelo prestígio do seu nome e das suas opiniões. Maurice Maeterlink, que visitou a nossa terra e nela observou detidamente as pessoas e as coisas, diz do Chefe do Governo português, e da sua obra, o seguinte: «Não venho aqui recordar a ninguem o estado em que se encontrava Portugal quando Oliveira Salazar tomou conta do Poder. Esse desventurado país - um dos mais belos do Mundo - após um passado magnifico a que a nossa civilização deve um reconhecimento de que se esquece com muita frequencia era a vergonha da Europa [...]»” («D. N.», 1/3/1937) (2) “No banquete que ontem se realizou na Embaixada inglesa, oferecido ao sr. Presidente da República, o ilustre embaixador da Grã-Bretanha em Lisboa proferiu o seguinte discurso:

112 Senhor Presidente: Anuindo a vir de novo a esta Embaixada, onde tive já a honra de acolher Vossa Excelencia o ano passado, [...]” («D. N.», 30/5/1933) (3) “Sir Alexandre Roger, antigo Ministro do Governo britânico [...] enviou ao Sr. Dr. Oliveira Salazar a seguinte saudação: Tendo chegado ontem a Portugal, apresso-me a juntar as minhas saudações ás dos portugueses a S. Exª o Sr. Dr. Oliveira Salazar, por ocasião do 20º aniversário da sua entrada para o Governo deste País [...]” («D. M.», 30/4/1948). (4) “No centro da cidade durante o tempo de calor, vêem-se ao meio-dia poucos peões. Quem não circula de automóvel fica em casa ou sentado, nas esplanadas, debaixo dos toldos de riscado, quando o sol está no mais alto do céu. Mas na cidade antiga as vendedeiras ambulantes não temem o sol, por mais quente que seja.” («D. M.», 7/5/1949, transcrição de uma reportagem publicada no jornal de Berlim «Tagesspiegel»). (5) “Desde 27 de Abril de 1928, Salazar vem seguindo uma linha, a sua, e observando uma regra, a sua, sem a menor preocupação de demagogia. Apesar da natural tendência para a dispersão e para a crítica, os portugueses, em grande maioria, reconhecem e proclamam os seus exitos” («D. M.», 14/ 5/1948, transcrição de um artigo publicado na «Gazette de
Lausanne» pelo seu enviado especial a Lisboa)

(6) “[...] O numero de abstenções sobe exactamente a 40 por cento e nenhuma razão poderia explicar melhor esse facto do que a frase que ouvi a um humilde engraxador: Para que são as eleições se temos Salazar?” («D. N.», 7/1/1954, transcrição de uma reportagem
publicada em «Aspects de la France»)

(7) “No seu regresso á Bélgica e entrevistado pelo correspondente em Bruxelas do importante diário «La Métropole», de Antuérpia, o Sr. Paul Struye, Ministro da Justiça do Governo Belga [...] fez áquele jornal interessantes declarações [...] «Visitei, a cerca de 60 quilómetros de Lisboa, num local maravilhoso, uma prisão do último modelo, vasta, espaçosa, bem iluminada e cuja conclusão é continuada pelos próprios prisioneiros. É, a todos os títulos, uma obra notável e a saúde dos prisioneiros só tem a ganhar com a permanência em pleno campo»” («D. M.», 1/5/1948, transcrição de uma entrevista
publicada no jornal belga «La Métropole»)

(8) “De regresso a Londres, chegou ontem a Lisboa , no avião da Panair, o conhecido jornalista norte-americano Henri Tosti Russell, antigo director da «United Press» na

113 Bélgica [...] Henri Russell é um admirador de Portugal - um admirador e um notavel propagandista das coisas portuguesas no estrangeiro. - Digo-lhe francamente - começa por nos dizer Henri Russell - falei com vários amigos meus, na Câmara dos Comuns e noutros meios britânicos e fiquei com a impressão, que me desgostou, de que não se conhece ainda bem Portugal [...]” («D. M.»,
30/7/1948)

(9) “Raymond Recouly, embaixador errante do espírito francês, um dos jornalistas mais especializados na reportagem política, seria, se fosse pintor, um genial retratista [...] Esquecendo que a entrevista com um colega é quasi sempre uma das mais difíceis, resolvi procurar Recouly e tentar ouvir-lhe as suas impressões da audiencia que lhe fôra concedida pelo sr. dr. Oliveira Salazar, na tarde de terça-feira. Favoreceu-me, estou certo, a linda manhã de ontem. Cheio de saúde, de bom humor, bebendo sol e aspirando, deliciado, os perfumes de primavera que subiam do jardim á sua varanda no Aviz, o grande jornalista pareceu-me até contente da oportunidade de se expandir. - A minha impressão do Chefe do Governo português é das mais fortes. Em toda a minha vida já longa de peregrinador nunca um homem publico me interessou tanto [...]” («D. N.», 19/2/1937).

Em (1), o jornal dá a palavra a uma personalidade cujas qualidades são amplamente enaltecidas (“grande escritor e poeta”, “figura luminar da literatura e do pensamento europeu contemporaneos”, “celebridade mundial”, “altissima

individualidade”...) e coloca-a, virtualmente, em relação com os seus leitores concedendo-lhe (ou concedendo aos seus escritos) “o lugar de maior destaque” dentro da superfície redaccional. Em (2) e em (3), os lugares X e Z são ocupados por personalidades exteriores ao jornal, todas elas devidamente credenciadas (o embaixador da Grã-Bretanha e o antigo ministro britânico em X; o Presidente da República portuguesa e o Dr. Oliveira Salazar em Z. Nem o jornalista nem o leitor integram a narrativa. Em (4) e em (5), o jornalista ocupa o lugar X, oferecendo-se como testemunha dos acontecimentos que descreve para o leitor, no primeiro exemplo, enunciando ele próprio as qualidades da personalidade tratada, no segundo.

114

Em (6), o lugar X é pertença de alguém que explica ao jornalista, colocado em Z, a razão de uma percentagem elevada de abstenções. Em (7), verifica-se uma situação de entrevista em que o ministro belga da justiça dá conta do agrado que lhe provocou a visita a um estabelecimento prisional de Lisboa. Em (8) e em (9), o entrevistado é também jornalista. Um jornalista que entrevista outro jornalista. O entrevistado ocupando o lugar X e o entrevistador o lugar Z. Entrevistador/mediador, posicionado entre o entrevistado e o leitor.

4. 2. GÉNEROS JORNALÍSTICOS

Se o discurso do jornal manifesta o seu poder na capacidade em construir a ilusão da realidade, materializa-se em “géneros” assim agrupados do menor para o maior grau de elaboração jornalística 124:

1. Informação bruta - breve, "filet", eco, revista de imprensa e montagem; 2. Narrativas - relato, "fait divers", retrato biográfico, retrospectiva, e reportagem; 3. Estudos - resumo de relatório, análise e inquérito ou sondagem; 4. Palavra de fora - "bonne feuille", correio dos leitores, correio sentimental, comunicado, opinião, entrevista e mesa redonda; 5. Comentários - bilhete, crítica, crónica e editorial.

Abstraindo-nos de uma descrição exaustiva dos “géneros”, o que seria fastidioso, fiquemo-nos por alguns comentários.

124

Cf. Agnès, Yves e Croissandeau, Jean-Michel, Lire le Journal, Éditions F. P. Lobies, Paris, 1979, pp. 34-36. Capítulo transcrito por Adriano Duarte Rodrigues, Eduarda Dionísio e Helena G. Neves, Comunicação Social e Jornalismo - 2º Vol. Os media escritos, A Regra do Jogo, 2ª edição, Lisboa, 1983, pp. 145-146.

115

Nenhum dos géneros existe em estado puro, ou seja, a maior parte dos textos jornalísticos integra características próprias de diferentes “géneros”. Caberá ao analista determinar, em cada caso, qual o “género” dominante. A distinção é por vezes, extremamente difícil de fazer. Admitindo que a diferença fundamental entre “montagem” e “relato” está em que, no relato, existem elementos de informação obtidos, exclusivamente, pelo jornalista ou pelo jornal enquanto que, na montagem, a especificidade está apenas na combinação dos elementos, sendo certo que todos eles são já conhecidos, como optar? O critério implicará, talvez, a consulta de textos jornalísticos sobre o mesmo acontecimento, publicados noutros jornais. Concluir-se-à, então, se aquele que queremos classificar contem, ou não, informações exclusivas.

4. 2. 1. O CORREIO DOS LEITORES

O “correio dos leitores” pode significar mais do que a expressão de interactividade entre o jornal e o seu público. Pode significar mais do que uma simples disponibilização de espaço. Ele pode ser um ponto de partida para operações de marketing, ou outras, que o jornal queira desenvolver. Através de uma gestão habilidosa do “correio dos leitores”, o jornal pode desencadear uma vaga de elogios (auto-elogios?), tão necessários sobretudo em situação de crise. Pode chamar previamente a atenção para esta ou aquela rubrica que lhe importe encorajar. Pode lançar perguntas relativas a questões que, de antemão, lhe interesse abordar. Pode suscitar uma espécie de jogo de interesses no qual apostam jornal e público, em simultâneo. Exemplo: o “correio dos leitores” do «Expresso». Quando não emanam de personalidades conhecidas do espaço público, as cartas são invariavelmente subscritas pelo nome dos autores acompanhado das respectivas profissões ou actividades: advogado, médico, professor, advogado, dirigente sindical, autarca, etc. Para o «Expresso», essa panóplia funciona como mostra do seu público. Para o leitor do

116

«Expresso», a mesma panóplia funciona como mostra da classe social com a qual se identifica, com a qual quer que o identifiquem ou com a qual quer vir a identificar-se.

4. 2. 2. O FAIT DIVERS E O CORREIO SENTIMENTAL

Geralmente considerados “géneros” menores, o “fait-divers” e o “correio sentimental” são, provavelmente, dos que mais estudos socio/semiológicos têm provocado. O “fait divers” é uma estrutura fechada, autosuficiente, em que a relação de causalidade entre os seus elementos é substituída por uma relação de casualidade ou em que a causa banal dá lugar a uma causa paradoxal. Paradoxo de coincidência ou de repetição: a ourivesaria que é assaltada pela terceira vez consecutiva, à terceira terça feira de cada mês. Paradoxo de oposição lógica: o chefe da esquadra de polícia que é surpreendido a assaltar a mercearia do bairro. Ao ocupar-se do desvio, o “fait divers” acaba por impôr a norma. Acaba por mostrar um mundo pleno de sentido mas a contrario. Para Roland Barthes, o seu papel consiste em preservar, no seio da sociedade contemporânea, a ambiguidade do racional e do irracional, do inteligível e do insondável 125. Quanto ao “correio sentimental”, e servindo-nos da análise feita por Claude Chabrol às cartas e respostas publicadas pela revista «Elle», assim como de estudos empreendidos por sociólogos como Edgar Morin 126, ressalta:

- oposição entre amor e conjugalidade (“a si de o convencer que deve escolher entre a amante e você, entre os prazeres de uma vida dissoluta e a felicidade do lar”, lê-se numa das respostas publicadas pela «Elle»);

125

Cf. Mythologies, Seuil, Paris, 1957 Cf. Burgelin, Olivier, A Comunicação Social, Edições 70, Lisboa, 1981.

126

117

- catadupa de conselhos práticos pequeno-burgueses (interesse avolumado pelo lar, pelas crianças, pelos pais; esforço no sentido de disciplinar amores desorientados e desorientantes); - pregação da moral do esforço e do sacrifício assumidos discretamente, sem alardes, como um dever e como uma necessidade; - clara afirmação da hierarquia de sexos.

Uma investigação sincrónica sobre o “correio sentimental” de diversas revistas será reveladora, pelo teor das cartas, das características sociológicas dos respectivos públicos femininos. E, pelo teor das respostas, da representação que cada revista opera, do seu próprio público. Diacronicamente permitirá avaliar o grau de relação entre a norma que prescreve e a que socialmente impera. Mais avançada? Escrupulosamente respeitadora? Em recuo?

4. 2. 3. A CRÓNICA E O EDITORIAL

Ambos eminentemente opinativos, o género “crónica” e o género “editorial” diferem pela estrutura e pelo estatuto. Diferem pela estrutura. A estrutura da “crónica” segue de perto o célebre triângulo invertido: figura usualmente avançada para significar a narrativa jornalística. Começa-se por reunir o máximo de informações e de comentários sobre a ocorrência. Depois, à medida que se avança na narrativa, vão-se retendo, apenas, os aspectos mais relevantes até se chegar ao decisivo. Que mais não é do que a conclusão. No “editorial”, a estrutura é mais complexa e divide-se em duas fases. A primeira apresenta características muito semelhantes às da “crónica”.

Esquematicamente, poderíamos também figurá-la em termos de triângulo invertido. Só que, no “editorial”, o vértice desse triângulo invertido não funciona como conclusão mas como ponto de partida para uma segunda fase figurável, esta, em termos de

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losango. Um losango cujo vértice superior coincide com o vértice inferior do triângulo da primeira fase. Ou seja: há uma primeira conclusão que respeita à ocorrência motivadora do “editorial”. Essa primeira conclusão é pretexto para a abordagem de um tema de incidência mais alargada. Reunem-se, então, mais informações e mais comentários já não sobre a ocorrência inicial mas sobre o tema a tratar. Até que se inicia novo processo de filtragem que conduz à conclusão final. Em resumo, na “crónica” a conclusão respeita à ocorrência que motivou a iniciativa. No “editorial” a conclusão é apenas sugerida pela ocorrência que lhe serviu de pretexto. Mas a “crónica” e o “editorial” diferem também pelo estatuto. O editorial espelha, sem qualquer sombra, pelo menos do ponto de vista formal, a posição da empresa jornalística. Não se passeia pelo espaço jornálico. Pelo contrário, dispõe de um lugar certo na paginação do jornal. É assinado pelo director ou por quem este mandate para o efeito. A sua feitura obedece, frequentemente, a um ritual que reforça a carga simbólica de que está revestido. No «Le Monde», por exemplo, e segundo um ritual criado por Hubert BeuveMéry, fundador do jornal, o jornalista, encarregado de redigir o editorial do dia, dispunha de uma pequena sala exclusivamente reservada para esse fim. O seu texto, o único que produzia nesse dia, era o último a entrar na gráfica. A primeira prova destinava-se ao director que, imediatamente após a recepção, convocava o jornalista para, com ele, trocar impressões sobre o tema escolhido para “editorial”e o modo como estava tratado. Uma vez concluída a discussão, com os dois intervenientes geralmente de pé, o texto podia seguir para a impressão 127.

4. 2. 4. A SONDAGEM

127

Muito recentemente, e na sequência de grandes transformações registadas no jornal, este ritual foi algo banalizado e o editorial, intitulado Bulletin de l’ étranger, deixado de ocupar a totalidade da coluna de esquerda da primeira página.

119

O linguista belga Herman Parret determina o grau de transparência ou de opacidade de um enunciado em função da maior ou menor modalização de que esse enunciado é objecto e em função do maior ou menor investimento do respectivo sujeito de enunciação 128. Digamos, como Herman Parret, que um enunciado é tanto mais transparente quanto menor fôr a sua modalização e quanto mais explícita fôr a presença do sujeito enunciador. Pelo contrário, um enunciado é tanto mais opaco quanto mais modalizado se apresentar e quanto mais dissimulada ou quanto mais distanciada fôr a posição adoptada pelo sujeito. Aplicando a definição à questão das sondagens concluiremos que o tratamento mediático destas é exemplo acabado de discurso opaco. Opaco, porque fortemente modalizado. De natureza previsional o discurso do jornal baseado nas sondagens recorre, prudentemente, a condicionais, a sintagmas e a formas adverbiais que protegem o enunciador. Que lhe permitem contornar a prova da veracidade inerente à asserção. Ele escreverá, então, que a crer em tal sondagem o partido X ganharia ou perderia as eleições. Escreverá que, provavelmente, as abstenções crescerão, etc. Opaco, porque marcado pela forte dissimulação do sujeito enunciador, ou melhor, porque marcado pela construção de um sujeito virtual: o público sondado para o qual se transfere a responsabilidade do dito. Tudo se passa como se não fosse o jornal mas sim o público sondado a dizer que... O jornal seria apenas o suporte, apenas o veículo transportador de uma opinião outra. No limite o jornal funcionaria, relativamente ao seu público, como seu espelho, devolvendo-lhe as suas próprias afirmações, as suas próprias representações. Transferência de responsabilidades que tem vindo, aliás, a acentuar-se no campo dos media em Portugal. Concebidos como produtos sujeitos às leis do mercado, o
128

Cf. Capítulo 3. 3. sobre a dictização.

120

jornal, a estação de rádio, o canal de televisão procuram criar a ilusão de descompromisso político e ideológico. Tendem a afirmar-se como espaços de neutralidade. E, por isso, a instituir fontes de legitimação externas. Como as sondagens. E como os "fazedores de opinião" que, investidos na função de comentar, de avaliar, de especular sobre as sondagens, se sobrepõem, enquanto entidades citadas, aos próprios órgãos de comunicação social. É o autor e não o jornal que é citado. É o nome do autor e não o nome do jornal que se retem como sujeito de tal ou tal opinião. Para além da delegação de responsabilidades, o tratamento mediático das sondagens oferece ao jornal a possibilidade de programar um acontecimento. E, ao programar um acontecimento, a possibilidade de gerir, com maior eficácia, os seus espaços, os seus tempos, ou as suas relações com o auditório. De facto, as sondagens, ou antes, os seus resultados, assumem-se como acontecimento, por vezes, até, antecipadamente anunciado. Dirigentes políticos e público especialmente virado para este tipo de informação aguardam, ansiosamente, que chegue o dia, ou a hora, ou o minuto em que o segredo será revelado. As sondagens tornadas acontecimento. E como tal exploradas pelos órgãos de comunicação social que, a partir delas, concebem as suas manchetes. Melhor ainda: as sondagens concebidas como acontecimento repetível no tempo segundo a vontade de quem as encomenda. Uma sondagem por semana, ou uma sondagem por quinzena, ou uma sondagem por mês. Magnífico, exclamará o editor. Programação antecipada da manchete. Programação antecipada do sucesso. Acontecerá tal dia desta semana. Tal dia desta quinzena. Tal dia deste mês. Mas a vida da sondagem não começa nem termina com a sua publicação. Começa em edições ou em emissões anteriores em que ela é anunciada. Prolonga-se em edições ou em emissões posteriores em que ela é dissecada. Ela e os impactos por ela provocados.

121

E temos, assim, sobretudo nos momentos de maior actividade - política, por exemplo - a sondagem, qual massa fluida, preenchendo espaços e tempos. Discurso da sondagem entre duas sondagens. Fluxo contínuo, ininterrupto. E, durante esse período de actividade maior, o jornal ocupará, continuamente, ininterruptamente, uma posição central no debate público. Posição privilegiada e, simultaneamente, desresponsabilizada. Condição de optimização do jornal como produto, num contexto sociocomercial.

4. 2. 5. O RETRATO BIOGRÁFICO

Numa rápida enumeração dos traços fundamentais do retrato biográfico, acompanhados de exemplos, temos:

1. Contradição entre passado anódino e presente espectacular. O passado como antipresente, isto é, um passado que suporia um presente oposto ao realizado. “Este homem, que dum berço plebeu chegou à Ditadura [...]”
(«D. N.», 25/7/1934, transcrição de entrevista a Salazar feita por Gerard Bauer e publicada na revista francesa «L'Illustration»)

“Salazar podia dizer, como o chanceler austríaco assassinado: «Sou filho dum camponês». Seu pai era um humilde fazendeiro dos arredores de Santa Comba”
(«A Voz», 4/10/1934, transcrição de artigo publicado no jornal católico dinamarquês «Nordisk Ugeblad For Katholske Kristne»)

“[...] o filho modesto de Santa Comba Dão, cujo valor e cujo patriotismo impuseram-no ao seu País e aos seus patricios e cuja fama, transpondo as fronteiras portuguesas, espalhou-se pelo Mundo!”
(«D. M.», 12/9/1947, transcrição de um artigo de Candida Yvette publicado nos jornais «Brasil-Portugal» e «Voz de Portugal»)

122

2. Sequência de momentos decisivos que actualizam o destino “Antes dos seus 20 anos, os princípios de Salazar estavam completamente formulados. Para ele a principal importância da educação reside no desenvolvimento do caracter moral e de um amor de sacrificio pelo seu país. Quando tinha 25 anos vêmo-lo a expor, em pormenor, no Porto, os mesmos principios que hoje ainda mantém. [...] Quando traça o seu curso, o Destino actua secretamente e com determinação. Os políticos que presenciaram a chegada do jovem professor ao Ministério e que o viram partir, da primeira vez, sem deixar qualquer traço da sua passagem, recordariam as suas palavras, quando voltou revestido de mais amplos poderes, e reconheceriam o homem que enfrentava realidades. No dia em que ele tomou posse começou a história do moderno Portugal”
(«D. N.», 11/2/1954, transcrição de um artigo de Ellery Sedgwick publicado na revista norteamericana «The Atlantic»)

3. Aparência física que conota características morais e temperamentais adstritas aos poderes que lhe são reconhecidos “De mãos metidas nos bolsos do sobretudo, percorria com passos cautelosos os corredores [da Universidade de Coimbra], perscrutando as coisas e as pessoas com os seus olhos enigmaticos e doces”
(«D. N.» /7/1933, transcrição de um artigo de Raymond de Nys publicado no «Petit Parisien»)

“Os seus traços fisionómicos são regulares e expressivos. Tem uma testa de iluminado e idealista, uns olhos negros perscrutadores e um inegavel encanto”
(«D. N.», 16/8/1933, transcrição de um artigo de Paul Bartel publicado no «Figaro»)

“Figura de místico e de asceta que evoca um prelado da Idade Média; rosto iluminado por uns olhos negros como de tição..., traços regulares mas extremamente móveis, bastante alto, mãos nervosas”
(«Le Mois», Setembro de 1933)

“Uma bela cabeça de contornos perfeitamente desenhados; um perfil de medalha; um rosto de prelado que poderia muito bem representar-se num

123 retrato de tempos passados, com as insígnias e a púrpura cardinalícias; aspecto concentrado e doce e, simultaneamente, enérgico.”
(«Gringoire», 26/2/1937, artigo de Raymond Recouly)

“De estatura mediana, nem gordo nem magro, com uma cabeleira grisalha a emoldurar-lhe a fisionomia simpática, senhor de lindos dentes, que apareciam a cada um dos frequentes sorrisos, olhos castanhos, bondosos e claros, nariz recordando o das esculturas gregas, enfim, um homem simpático, fino, agradável, tal é a primeira impressão que tive de Salazar”
(«D. M.», transcrição de artigo de Cândida Yvette, já citado)

“[...] Com os seus 62 anos de idade não se pode considerar um velho, porém a severidade conventual do trabalho que ele se impôs, as responsabilidades dos passados 23 anos curvaram-lhe os ombros e cansaram-lhe a vista. O seu passado académico, que é um motivo de orgulho para ele, ainda hoje exerce uma certa influência na sua maneira de ser e na natureza da sua actividade, encontrando-se igualmente marcado no seu rosto em cujas linhas reflectem duma maneira curiosa as feições de um sábio e de um arquitecto”
(«A Semana», artigo de Rudolph Rahn, antigo embaixador da Alemanha em Roma, 10/10/1951)

De uma análise integral do corpus resultam, a este propósito, os quadros seguinte 129:

129

Rebelo, José, Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo, op. cit., pp. 288-289.

124

ATRIBUTOS MORAIS

- ascetismo - atenção (capacidade de) - austeridade - autocontrole - autocrítica - circunspecção - clareza - clarividência - coerência - confiança - cordialidade - correcção - cortezia - desinteresse (pelo poder) - desinteresse (coisas materiais) - desinteresse absoluto - determinação - equilíbrio - espírito de missão

- familiaridade - fascínio - fé inquebrantável - franqueza - generosidade triste - grandeza - grandeza moral - grandiosidade de carácter - honestidade - impassibilidade - imperturbabilidade - inacessibilidade - ironia - lucidez - meditação (capacidade de) - moderação - nobreza - nobreza de carácter - objectividade

- patriotismo - poder de concentração - pontualidade - pureza de sentimentos - pureza religiosa - resignação superior - sentido de método - serenidade - simplicidade - simplicidade burguesa - sinceridade - sobriedade - transparência - unidade de pensamento - valor - vontade firme e ordenada - vontade inflexível

ATRIBUTOS FÍSICOS

- O CORPO - um verdadeiro homem - homem simpático - homem fino - homem agradável - pessoa insinuante - distinção impressionante - senhor elegante - ar jovem - mais alto que o habitual - mais alto do que as fotografias no-lo deixam adivinhar - bastante alto - estatura mediana - magro - alto - magra figura morena - nem gordo nem magro - esbelto - ar de profunda concentração - ombros descaídos para a frente - ligeiramente curvado - vestido de preto

- O ROSTO -

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- perfil de Dante - traços firmes de medalha antiga - perfil de medalha - rosto moreno - máscara pálida e grave - delicada coloração de âmbar - pureza de traços - lábios finos - nariz longo e estreito - nariz recordando o das esculturas gregas - bela fisionomia do tipo clássico-romano - fisionomia de asceta, meditativa e distinta - rosto de prelado - perfil anguloso marcado pela reflexão e pelo estudo - testa de pensador - rosto de intelectual - músculos imóveis - sinais de fadiga - fisionomia simpática - ar concentrado e doce - ar enérgico - rosto honesto e aberto - rosto sorridente e bom - frequentes sorrisos - sorriso doce mas que perscruta e julga - alternância de expressões (grave e sorridente) - sorrisos pouco frequentes

- OS OLHOS - olhar vivo - olhar melancólico - olhar expressivo - olhar de profunda serenidade e esperança - olhar de um crente - olhos bondosos - olhos claros - olhos castanhos - olhos negros de carvão - olhos admiráveis - olhos que riem quando ele fala - olhos que olham para os outros, que olham para a vida, que vêem - olhos vivos e puros que a meditação contínua não virou para dentro - olhar que, por penetrante que seja, permanece velado dir-se-ia que por uma extrema atenção e por uma contínua reflexão - olhar que parece cinzento claro sob a luz das lâmpadas, mas de um azul quase negro na sombra

- AS MÃOS, OS GESTOS, OS CABELOS, A VOZ, OS DENTES - mãos nervosas - as mais belas mãos que um homem pode ter - mãos finas - sobriedade de gestos - cabelos de prata - cabeleira grisalha - voz calma e doce - voz doce - lindos dentes

5. Modo de vida. Oposição entre a imagem esperada (decorrente do estatuto do biografado) e a constatada. Oposição que prolonga, com frequência, a oposição já apontada em (1): o passado como anti-presente “Tinha imaginado vistoso palacete, do tipo tão repetido no bairro das Avenidas Novas. Foi porem numa rua modesta e deante de casa mais modesta ainda, que o meu taxi parou, ou, melhor dizendo, que o «chauffeur» parou um pouco mais longe, pois ninguem conhece a casa onde não vai visitante.

126 Veio abrir a porta do carro um homem muito simplesmente vestido, tipo de «guarda-livros» que vive ao «guichet». Diante de mim tenho a cancela de ferro que abre para o jardim, tão intimo como um quintal meio coberto de videira de que pendem cachos de uvas grossas como Portugal as produz. Da janela da cozinha debruça-se uma rapariga, fazendo-nos sinal de esperarmos um instante”
(«D. M.», 16/8/1933, transcrição de uma "carta de Lisboa" assinada por Van Balen e publicada no jornal de Amsterdam «Algemeen Handelsblad»)

6. Identificação por oposição ou por analogia com personalidades homólogas

Por oposição: “Em contraste com o Duce e com o Führer cuja força essencial, princípio de governo, consiste em exaltar, por todos os meios e em todas as ocasiões, o dinamismo do partido e do povo, Salazar nunca organiza nenhuma manifestação, nenhuma parada, nenhum desfile. Nunca pronuncia nenhum discurso inflamado, do alto de um palco ou de uma varanda. A imprensa, o cinema, não reproduzem, diariamente, os seus gestos, a sua palavra.”
(Artigo de Raymond Recouly, já citado)

“Nem fotografias do chefe coladas em todas as esquinas, nem «slogans» lançados a todos os ecos”
(«D. N.», 27/3/1952, transcrição de uma reportagem de Robert de Saint-Jean, enviado especial a Portugal do semanário parisience «Carrefour»)

Por analogia: “O presidente do Conselho, dr. Oliveira Salazar, e o chanceler do Reich, Adolfo Hitler, têm muitas afinidades: Ambos são de origem modesta; ambos provaram ser filhos do seu povo e ascenderam aos altos postos que hoje tão dignamente ocupam, graças a uma energia férrea, aliada a inteligente previsão; apesar de chefes ficaram sempre os mesmos homens, modestos, que nada querem para si, antes a todo o momento se esforçam por ser fieis servidores da Nação”

127
(«D. N.», 4/5/1934, transcrição de um artigo de Friedhelm Burbach, comissario do Partido Nacional Socialista para Portugal e Espanha, publicado no jornal «West Deutscher Beobachter»)

Passado como anti-presente, destino em actualização permanente, corpo espelho da alma, analogias, oposições: a narrativa biográfica, ou, no dizer de Pierre Bourdieu, o “discurso de celebração”, é, por excelência, o lugar de todas as implicações lógicas. Não é por acaso que Salazar tem um “perfil de medalha”, um nariz “recordando o das esculturas gregas”. Perfil e nariz manifestam a imagem positiva do homem de estado, superior, forte, quase a-temporal. Salazar é tudo isso. Mas, para além disso, ele é, asseguram os autores dos retratos, bondoso. Daí os seus “olhos negros”, inspiradores de um “inegável encanto”. E ele é “sábio” e é “arquitecto”: qualidades também elas espelhadas no seu rosto. Um homem completo, em suma. Não é por acaso que Salazar surge envolvido nessa auréola de misticismo e de ascetismo e que o seu rosto faz lembrar “um rosto de prelado”. Não fora ele investido na missão divina de salvar o seu povo? Não é por acaso que “cachos de uvas grossas” como que pendem de uma videira que se imagina a cobrir parte do quintal de sua casa. Não vem ele de Santa Comba? Tudo está implicado em tudo. E é dessa implicação total, ou melhor, é da anulação de toda e qualquer contingência que emerge o sentido. Uma implicação que supõe relações de contiguidade e de distanciamento, de analogia e de oposição; que é tanto mais forte quanto maior for o grau de tensão que essas relações provocam. Implicação lógica, total, que se processa da frente para trás. A aporia da biografia consiste em dar, ulteriormente, à origem, um sentido que a origem não tinha. Escreve-se o passado à luz de uma leitura do presente (nisto reside a diferença fundamental entre a biografia, quando assumida pelo próprio, isto é, a autobiografia, e o diário, em que cada episódio é construído na ignorância do episódio seguinte). Ser-se “filho de camponês”, ser-se “filho modesto de Santa Comba”, ser-se “filho do povo”,

128

adquire um outro sentido quando se é chamado a dirigir esse mesmo povo. Quando se é portador de uma fama “espalhada pelo Mundo”. Como passagem do bios ao logos, o retrato biográfico é a marca da distância entre a vida vivida e a vida biografada. Exprime a submissão do vivido a uma ordem que o transcende, figurativizada no senso comum pelo destino. Aquele destino que, ao olhar-se para trás, se constata ter despontado em cada momento da vida do herói. Como história do herói, a biografia constrói esse mesmo herói. Funda o herói que descreve.

129

5. O DISCURSO DO PODER

No discurso do jornal, encontram-se peças que dispensam qualquer arranjo jornalístico, qualquer tratamento operado por um qualquer sujeito exterior ao enunciador. Ei-lo, o enunciador, virado para si próprio, escrevendo para si mesmo. Ou para ninguém. Ou eilo, mergulhado numa relação dialógica com um auditório virtual, aquele a quem ele se dirige através do jornal. Jornal que se abstem, deliberadamente, de qualquer tipo de intervenção (corte, montagem, comentário adicional, etc.) Ou há solilóquio ou há diálogo. E este, exclusivamente entre o locutor e o auditório. E, para a efectivação desse solilóquio ou desse diálogo, o jornal empresta (cede, voluntária ou compulsivamente) o seu espaço. O que se afirma, agora, já não é o poder do discurso, enquanto discurso do jornal. O que se afirma, agora, é o discurso do poder ou dos poderes que recorrem ao veículo jornal para atingir os seus destinatários. Por oposição ao discurso científico, epistémico, que integra na sua própria estrutura o conjunto de regras axiomáticas pelas quais se norteia, designaremos esse discurso por doxológico já que se constrói num quadro axiomático que lhe é exterior.

130

Inspira-se directamente na doxa, sua fonte de alimentação constante. Por isso, o discurso científico é demonstrativo e o doxológico não o é 130. Tético, porque orientado para um julgamento, e teleológico, porque orientado de um menor para um maior saber, o discurso doxológico subdivide-se em homodiegético
131

e agónico, sendo característica deste último a intervenção de duas personagens, o

enunciador e o opositor (real ou virtual), separados pelo tema em debate. O discurso homodiegético integra dois tipos de ensaio: o ensaio cognitivo e o ensaio meditação. Do discurso agónico fazem parte, nomeadamente, a polémica, o panfleto e a sátira.

5. 1. DO ENSAIO COGNITIVO AO ENSAIO MEDITAÇÃO

O ensaio cognitivo, ou ensaio-diagnóstico, asserta a evidência. As suas premissas encadeiam-se logicamente. As suas conclusões estão potencialmente contidas nos seus pontos de partida, nunca sujeitos a contestação. Recorre a uma retórica da constatação que visa manifestar a universalidade, a neutralidade, o afastamento do enunciador que não justifica nem reivindica o seu direito à palavra: omissão que é a prova irrefutável de um direito que não precisa, sequer, de ser afirmado. Nas antípodas do anterior, o ensaio-meditação é um pensamento em construção. Caracteriza-se por uma estrutura não linear, ziguezagueante. A passagem de uma proposição a outra não obedece, necessariamente, a critérios lógicos. Não se faz, necessariamente, a partir do elemento principal da proposição remetente. A intuição tem mais força que o silogismo. A desordem que daí resulta é, por vezes, uma forma de ordem já que o importante, neste discurso, não é mostrar um “conteúdo” mas sim questionar constantemente os mecanismos íntimos pelos quais o pensamento cria os

130

Cf. Angenot, Marc, La Parole Pamphlétaire – typologie des discours modernes, Payot, Paris, 1982.

131

Por analogia com a noção de narrador homodiegético de Gerard Genette, cf. Figures III, Seuil, Paris, 1972.

131

seus próprios objectos. Não é pronunciar-se sobre um saber, mas encontrar a génese desse saber. Tradicionalmente presente na instituição literária, o ensaio-meditação não se distancia do objecto e o enunciador afirma claramente o seu “eu”, não para garantir a verdade do escrito, mas para o reduzir à sua subjectividade (“sou eu que digo”, “o que é dito, é dito por mim”).

5. 1. 1. APLICAÇÃO

Nos numerosíssimos textos ensaísticos do corpus Salazar é, obviamente, o ensaio cognitivo que predomina. Os autores debruçam-se sobre a obra e a personalidade do antigo presidente do Conselho de Ministros, de acordo com um quadro ideológico fixo e previamente determinado em que sobressai:

1. Criação, através do recurso a abstrações e a falsos constativos, da ilusão de afastamento do locutor que se limitaria a transmitir uma opinião geral. “É ainda muito cedo para julgar os resultados do plano económico adoptado por Portugal no que respeita a cultivadores, moageiros e padeiros.”
(Paul de Hevesy, Worl Wheat Planning and Economic planning in general, Oxford University Press, Londres, 1940, p. 596)

“O território [Angola] e os seus residentes sentem que não estão isolados e que têm, por trás de si, um Estado vigilante, beneficiando com toda a justiça da consideração universal.”
(Gabriel Lefebvre, L'Angola - son histoire, son économie, Georges Thone Editeur, Liège, 1947, p. 252.

Quem decidiu ou quem decide ser ainda cedo para avaliar o plano económico ? Como se soube ou como se sabe que Angola e os seus residentes sentem que não estão isolados? Como se apurou ou como se apura, e por quem, o grau de vigilância de um

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Estado? Quem determinou quais os beneficiários da consideração universal? Quem avalia a justiça da respectiva atribuição? Repare-se, por outro lado, no uso de abstrações como “a consideração universal”.

2. Desenvolvimento de uma estrutura axiomática em que se apresentam teses e destas se retiram automaticamente conclusões sem que, alguma vez, os seus pressupostos sejam questionados. “Enquanto que o Estado, coisa estável por essência, sustentava ontem, com a sua estabilidade, aqueles que o governavam, hoje, é a força moral dos chefes de Estado que deve sustentar e consolidar o próprio Estado. Assim Salazar. Eis um homem que é chefe do Estado e que, em vez de tudo exigir do Estado, lhe dá a própria vida”
(Marcel de Corte, Salazar et son oeuvre, SNI, Lisboa, 1956, p. 140)

À tese, inscrita na primeira proposição (“Enquanto que o Estado [...] o próprio Estado”) segue-se a conclusão (“Assim Salazar [...] a própria vida”).

3. Desenvolvimento de uma estrutura axiológica em que o enunciado é, no seu conjunto, um juízo de valor e em que cada uma das suas componentes é marcada positiva ou negativamente (marcação entre parênteses no exemplo seguinte). “Em tempo de decadência do pensamento filosófico (-), principalmente da filosofia social (-), quando o espírito de facção perturba (-) até aqueles raros que se distinguem nas meditações metafísicas (-), o chefe do governo português - com o aprumo que só uma civilização pode dar - (+) encara e resolve um problema - o problema da liberdade - (+), em face do qual veem fracassando outros genios políticos (-), empolgados pela sedução da violência (-)”
(Arnobio Tenorio Wanderley, Salazar e o problema da liberdade, Pernambuco, 1938, p. 30)

5. 2. A POLÉMICA, O PANFLETO E A SÁTIRA

133

O polemista define a sua posição e refuta a do adversário. Assinala, a seu modo, as divergências, procurando um terreno comum a partir do qual lhe seja possível desenvolver e impôr as suas teses. O panfletário, ao invés, reage perante o que se lhe afigura como sendo um escândalo, uma impostura. Anima-o o sentimento de defender uma evidência que, por razões para si incompreensíveis, não pode partilhar. Anima-o o sentimento de, embora na posse da verdade, da verdade única, insofismável, estar reduzido ao silêncio por causa de um incrível e de um generalizado absurdo. Lança um olhar simultaneamente incrédulo e indignado sobre o mundo que o rodeia. Que diferença, quando se compara esse olhar do panfletário com o olhar do satírico, um olhar divertido, displicente, sobre uma “realidade” na qual, ostensivamente, o satírico não se reconhece... Com o objectivo de (con)vencer o seu adversário, o polemista institui um metadestinador, espécie de árbitro investido de um estatuto de universalidade e de neutralidade, que ele invoca para legitimar as suas posições. Tenta operar, assim, uma transferência de responsabilidades: as teses deixariam de ser apenas as suas e passariam a ser as de todos. Na polémica, pressupõe-se, como já se disse, a existência de um meio tópico (do conceito aristotélico de topos) comum aos intervenientes. É esse meio tópico comum que torna possível o confronto entre posições diversas. Que torna possível o (con)vencimento. Já na sátira, não há espaço comum. Ou, pelo menos, o destinador não admite a existência de espaço comum a si e ao seu destinatário. O que o move, aliás, não é (con)vencer o adversário que ele contempla à distância. O que o move é vencê-lo. Mas vencê-lo pelo ridículo e nunca pela argumentação. Na polémica, o discurso manifesta dois isótropos de sentidos contrários mas sujeitos aos mesmos princípios gerais. Na sátira, a verdade está toda do lado do enunciador que tenta reproduzir num espelho esférico a imagem caricata do adversário. Se, na polémica, o objectivo é (con)vencer e na sátira, muito simplesmente, o de vencer, no panfleto a situação complica-se: afinal, quem deve o panfletário (con)vencer

134

ou vencer? No limite, o panfletário não tem adversário, tal como não dispõe de qualquer mandato para defender a verdade que julga incontestável. Automandata-se, invocando convicção ou foro interior. Sem adversário e sem mandato efectivos, o panfleto é, assim, o lugar da palavra impossível. Na polémica, os intervenientes afrontam-se num plano de igualdade formal e vence a argumentação. Na sátira, o adversário está despojado de estatuto. Na polémica e na sátira a acento é colocado na relação entre destinador e destinatário (reconhecida pelo destinador no primeiro caso, e desqualificada pelo destinador no segundo). No panfleto, o respectivo autor dirige-se a todos e a ninguém. Isola-se no que poderíamos chamar uma “singularização lexical”: é o “seu” cristianismo, o “seu” nacionalismo, o “seu” patriotismo, a “sua” liberdade. Discurso da doxa, o panfleto afirma-se, justamente, contra a doxa. Maximalista, imerge, frequentemente, no catastrofismo, no patético. “Se o panfleto se apresenta aparentemente como um discurso trágico e pessimista”, explica Marc Angenot, “ele afirma e reinstaura, no entanto, uma forte positividade, razão, em grande parte, da sua eficácia política: autonomia do pensamento, acessibilidade e transcendência da verdade, dialéctica da violência, identificação metafísica dos poderes com a ideia de usurpação” 132.

5. 2. 1. APLICAÇÃO

Curiosamente, os aspectos a que temos feito referência são mais visíveis no discurso sobre o salazarismo do que no discurso de Salazar: Ou melhor, Salazar faz uso de um certo estilo panfletário apenas quando aborda a situação política e económica internacional. Já no plano interno, e citando José Gil, “[...] Salazar recusa os efeitos oratórios emocionais, assim como a polémica dirigida contra as pessoas - discursos de comprovadas virtudes demagógicas. Nunca exclui brutalmente a oposição, procurando
132

Idem, p. 341.

135

sempre, pelo contrário, integrá-la na situação; nunca lança as massas contra os inimigos” 133. Nunca “exclui brutalmente a oposição” nem “lança as massas contra os inimigos”, porque Salazar não reconhece, no plano da discursividade, nem a existência de oposição nem a existência de inimigos. Citemos, ainda, José Gil: “Salazar nunca discute os argumentos dos seus adversários, ignora-os deliberadamente. De facto, na narrativa da acção política do Estado Novo, faz-se apenas alusão a tudo o que se lhe opõe, nunca constituindo a luta e o combate episódios importantes da saga; o novo regime surge na sua plena positividade, sem que nunca se distingam nele as feridas da guerra. Também os argumentos dos opositores nunca são evocados, limitando-se Salazar a dar a entender - quase sempre por meio de não-ditos - que poderia haver opiniões contrárias à sua” 134. Salazar é a voz da imanência. “Sendo a voz da imanência não cita (a entidade divina, a única que poderia legitimar o seu discurso, não é citável). Sendo a voz da imanência, não entra em polémica: não há opositor com o qual partilhe o espaço da argumentação. Não há opositor e, por isso, não há sátira: não há necessidade de destruir pelo ridículo”
135

. E também não há panfleto, porque o destinatário da enunciação é

perfeitamente definido: Salazar sabe bem para quem fala. É aos outros enunciadores do discurso salazarista, actuando por deliberação expressa de Salazar, ou de uma forma aparentemente espontânea, que caberá a tarefa de polemizar, de satirizar, de panfletizar... Alocutário, o discurso de Salazar é, como explica José Gil, um discurso feito para ser lido. Mas para ser lido não a multidões e sim a “milhares ou milhões de consciências individuais que comunicam em separado, cada uma por si, com Salazar”
136

. Os media, em particular a rádio e a televisão relativamente às quais Salazar nunca

133

Salazar: A Retórica Da Invisibilidade, Relógio d'Água, Lisboa, 1995, p. 12. Idem, pp. 25 e 26. Rebelo, José, Formas de Legitimação do Poder no Salazarismo, op. cit. pp. 124-125. Idem, p. 20.

134

135

136

136

escondeu uma certa aversão, servem-lhe, apenas, de instrumento que torna possível essa ligação com as consciências individuais.

5. 3. SOBRE O ENUNCIADOR DO DISCURSO DO PODER
Em função da avaliação que faz do auditor, ou do auditório, assim o enunciador do discurso do poder assume plenamente o lugar de sujeito da enunciação e a responsabilidade plena do enunciado produzido, assim ele envereda por uma dupla estratégia: de dissimulação, através do emprego de sujeitos colectivos (no discurso ideológico o destinador coincide, frequentemente, com o “povo”, “os trabalhadores”, a “consciência das massas”) e de naturalização, através do emprego de sujeitos indefinidos ou, para utilizar conceitos de Guillaume, de sujeitos universais ou pessoas do universo. Os sujeitos indefinidos abrem para o exterior do campo da enunciação. É o que sucede, por exemplo, na passagem de “nós sabemos que...” para “todos sabem que...”. Enquanto o “nós”, do primeiro fragmento, identifica um grupo do qual faço parte, o “todos”, do segundo fragmento, refere um “eles” totalizante, difuso, no qual só indirectamente me incorporo
137

. Por sua vez o sujeito universal ou pessoa de universo

implica a extensão máxima do enunciado veridictório. A verdade é de tal forma evidente e universal que dispensa a explicitação do sujeito da respectiva enunciação: “é claro que...”. Mas esta procura de universalidade, ou melhor, de pseudo-universalidade, pode ser acompanhada de uma outra atitude: a de desmascar, ou de desqualificar discursos adversários, também eles eventualmente apostados nos mesmos objectivos de

Mais difuso ainda é o “se” em expressões como “sabe-se que” que remete para a comunidade. Analisando esta utilização do “se” - o “on”, em francês - diz Pierre Bourdieu: “Tirânica (a «ditadura do “on”»), inquisitorial (o “on” mete-se em tudo) e nivelador, o “on”, o «comum», foge às responsabilidades, descarta-se da sua liberdade, abandona-se à frivolidade e à facilidade, numa palavra, comporta-se como um assistido que vive, irresponsável, à custa da sociedade”, Ce que parler veut dire, op. cit., p. 177.

137

137

dissimulação e de naturalização. Gera-se, então, uma estrutura do tipo: “Toda a gente sabe que é X quem está por detrás do discurso de Z”. Dissimulação, naturalização e desqualificação: ilocutório, por natureza
138

, o

discurso do enunciador faz tendencialmente apelo a todas as outras estratégias enunciativas já referenciadas. Pode recorrer ao argumento polifónico: “X diz que..., Y diz que..., Z diz que..., logo nós dizemos que...”. Pode recorrer ao argumento de autoridade: “como dizia X” (“já Marx dizia que...”, “como dizia Freud...”). Pode recorrer à modalização e à figuração retórica, dando origem a uma linguagem só conhecida, só dominada, pelo auditório antecipadamente definido e, por conseguinte, reforçando os laços de coesão entre o locutor e o auditório, por um lado, e no interior do auditório propriamente dito, por outro. “Todas as ideologias têm a sua missa em latim”, declara Olivier Reboul
139

,

ilustrando, assim, a tendência do discurso ideológico para fomentar um código, factor de securização de um grupo social determinado e expressão de uma cultura esotérica que, para Pierre Bourdieu, é feita “de conceitos e de discursos sem referente na experiência do cidadão comum e, sobretudo talvez, de distinguos, de matizes, de subtilezas, de agudezas que passam despercebidos aos olhos dos não-iniciados e que não têm outra razão de ser que não sejam as relações de conflito ou de concorrência entre as diferentes organizações ou entre as «tendências» ou as «correntes» de uma mesma organização” 140. Produtor de discurso de poder, o enunciador pode recorrer a exortações, rituais ou insólitas, a denegações, a pseudo-constatações legitimadas por argumentos pseudocientíficos (a superioridade da raça ariana, por exemplo). Pode recorrer a palavraschoque, que provocam efeitos de tensão ou que, em função da respectiva conotação, orientam, numa ou noutra direcção, a reacção/resposta do destinatário. Em La
138

Cf, Capítulo .3. 5 sobre a pressuposição. Langage et Idéologie, op. cit., p. 111. O Poder Simbólico, Difel, Lisboa, 1989, p. 178.

139

140

138
141

Connotation

, Catherine Kerbrat-Orecchioni estuda a repercussão de certas palavras-

choque junto dos respectivos destinatários. Analisando as respostas a perguntas como “É favorável à liberdade de trabalho?” ou “Pensa que, em caso de greve, todos os trabalhadores devem ser solidários?”, Kerbrat-Orecchioni conclui que a conotação positiva de termos como “liberdade” e “solidários” se estende a todo o enunciado. De tal forma que o questionado, partilhando o mesmo sistema de valores, é induzido a responder afirmativamente 142. A especificidade do discurso do poder, do discurso de autoridade, reside no facto de “não lhe bastar ser compreendido mas, também, de ser reconhecido como tal” assegura Pierre Bourdieu 143. O objectivo fundamental de uma instância de poder dominante, ou que aspire a sê-lo, consistirá, então, em garantir, ou em reforçar, as condições necessárias a esse reconhecimento, de modo a que se estabeleça uma espécie de tácita cumplicidade entre dominante e dominado através da qual o dominado, esquecendo-se de si próprio, ignorando-se, reconheça e ao reconhecer fundamente, a existência do dominante. Para alcançar esse objectivo, desenvolvem-se estratégias diversas, nomeadamente, a imposição de um ritual de instituição e a imposição de uma máquina censurante. Consagrar significa, ainda de acordo com Bourdieu, “reconhecer como legítimo, natural, um limite arbitrário”
141

144

. Melhor: significa investir o consagrado da capacidade

Presses Universitaires de Lyon, 1977.

A conotação positiva ou negativa de um termo é, sincronicamente, função do grupo social que o usa e, diacronicamente, dos contextos que se vão criando. Assim, por exemplo, durante a ocupação da França pelas forças alemãs, o termo “patriota” era conotado positivamente pela esquerda e negativamente pela direita. No contexto da guerra de Argélia, a situação inverteu-se e o termo passou a ser positivamente conotado pela direita e negativamente pela esquerda. Outro exemplo: no Portugal de Salazar o epíteto “nacionalista” variava de conotação consoante o enunciador e consoante o referente. Um “nacionalista” angolano, no contexto da guerra de independência, não era o mesmo que um “nacionalista” membro da União Nacional. Para a direita ou para os adversários da independência das colónias, o primeiro revestiase de conotação negativa e o segundo de conotação positiva; para a esquerda ou para os adeptos da descolonização, o primeiro revestia-se, inversamente, de conotação positiva e o segundo de conotação negativa.
143

142

Ce que parler veut dire, op. cit., p. 111. Bourdieu, Pierre, Idem, p. 122.

144

139

de

impôr

os

seus

próprios

limites,

transgredindo

assim,

licitamente,

extraordinariamente, os limites antes inerentes a uma dada ordem social. A imposição de um ritual de instituição destina-se, justamente, a consagrar. Uma vez consagrado, o sujeito fica socialmente autorizado a criar novos limites, ou seja, a transgredir. E não só. Uma vez consagrado o sujeito transforma-se. Transforma-se, pela transformação da sua representação junto dos outros, obrigados que são a alterar os comportamentos que adoptavam a seu respeito. Transforma-se, pela transformação da representação que ele, o sujeito consagrado, constrói de si mesmo e pelos comportamentos que passará a adoptar, julgados mais adequados à nova representação que tem de si. Transgride. Transforma-se. Ou (trans)forma-se. Mas a manutenção, senão o aprofundamento, dessa capacidade de transgredir, de se transformar, ou (trans)formar, exige uma clara circunscrição do universo político possível. Donde a imposição de uma máquina censurante capaz de gerar os contornos daquilo a que Bourdieu chama o universo do pensável politicamente" 145. Com a delimitação desse universo, é toda uma relação com o mundo que é estabelecida. Frequentemente, uma relação de denegação, de neutralização "que visa restaurar o estado de inocência originária da doxa e que, orientando-se para a naturalização da ordem social, utiliza a linguagem da natureza"
146

. Uma relação

baseada na retórica da imparcialidade, da simetria, do equilíbrio, do chamado meio termo. Uma relação baseada numa linguagem eufemística e eufemizante, aparentando universalidade, que "desrealiza tudo o que nomeia [...], censurando, de uma forma total e totalmente invisível, a expressão dos interesses dos dominados assim remetidos à eufemização do discurso oficial ou à indignidade da raiva impotente" 147.
145

Bourdieu, Pierre, La distinction - critique sociale du jugement, Minuit, col. Le sens commun, Paris, 1985, p. 536.
146

Bourdieu, Pierre, Ce que parler veut dire, op. cit., p. 155.

147

Traduzimos por "da raiva impotente" a expressão "de la rogne et de la grogne". Bourdieu, Pierre, La distinction, op. cit., pp. 538-539.

140

Temos, portanto, que uma instância de poder só assume características de dominante a partir do momento em que é consagrada, via ritual de instituição, e em que pode exercer efeitos de censura. Mas, se esse momento é ponto de partida para o exercício efectivo de poder, ele é, simultâneamente, ponto de chegada de um percurso, visando a tomada de poder, desdobrável em três fases: introdução, no espaço público, dos grandes pressupostos relativos à instância referida; propagação e massificação dos ditos pressupostos. Que práticas discursivas correspondem a cada uma destas fases? O acto discursivo implica a sobreposição de um nível linguístico, o nível da enunciação, e de um nível semiótico, o nível narrativo. Nessa sobreposição em dois planos que se fundem sem se confundirem já que, sobrepondo-se, permanecem distintos quanto à forma e quanto ao conteúdo, vê Louis Quéré um aspecto "paradoxal" da comunicação que ele enuncia assim: "não há mensagem sem metamensagem; [...] quando dizemos qualquer coisa, dizemos também qualquer coisa sobre aquilo que dizemos, para definir o respectivo modo de emprego ou o respectivo sentido"
148

. A

metáfora do palimpsesto, nos termos em que Gérard Genette a utilizou, exprime perfeitamente a sobreposição evocada: "vê-se, no mesmo pergaminho, um texto sobrepôr-se a outro sem contudo o dissimular completamente, deixando-o ver-se por transparência" 149. O nível linguístico é constituído pela teia dos enunciados produzidos, com os respectivos enunciadores e enunciatários. Estes não constituem, obviamente, figuras estáveis: em função dos enunciados o anterior enunciador pode surgir agora como enunciatário, tal como o anterior enunciatário pode surgir, depois, como enunciador. No emaranhado de enunciados pode até suceder que os estatutos de enunciador e de enunciatário coincidam no mesmo sujeito, isto é, aquele que funciona como enunciador

Des miroirs équivoques aux origines de la communication moderne, Aubier Montaigne, Paris, 1982, p. 30.
149

148

Palimpsestes - La littérature au second degré, Seuil, Paris, 1982, p. 451.

141

de um enunciado pode ser, em simultâneo, objecto de um enunciado por outro produzido em sua direcção. Já no nível semiótico distinguimos o primeiro de todos os enunciadores, o primeiro elo da cadeia de enunciações, a origem mais profunda e, ao mesmo tempo, o horizonte de remissão de todos os enunciados produzidos. Trata-se do destinador, causa e justificação de todo o processo narrativo, que pode fundir-se na figura do narrador, assumindo-se como meta-narrador e fixando os fundamentos da sua própria doutrina. Que pode separar-se desse mesmo narrador, confiscando-lhe, contudo, a voz (o destinador fala pela voz do narrador privilegiado). Que pode dissimular-se, ele e o narrador privilegiado, resguardando-se ambos por detrás da figura do narrador anónimo, expressão de uma suposta vox populi. No polo oposto ao do destinador surge-nos, sempre no mesmo nível semiótico, o destinatário, triplamente objecto do processo narrativo. Directamente, quando é interpelado pelo destinador. Indirectamente quando é interpelado ou pelo narrador privilegiado ou pelo narrador anónimo. Regressando às três fases que marcam o percurso da instância de poder diremos que, na fase de introdução dos pressupostos, o primeiro enunciador, ou seja, o destinador, confunde-se com o narrador. É a fase em que o destinador se atribui um estatuto de quase meta-narrador. Em que o núcleo central da instância de poder anuncia os seus princípios fundamentais. Fixa o paradigma. Traveja a sua doutrina. Já na segunda fase, a fase de propagação, destinador e narrador distinguem-se. É a fase em que o narrador, beneficiando de uma implícita ou explícita relação de privilégio com o destinador, fala ou escreve “em vez dele”, “por ele”, sem se instituir, no entanto, em porta-voz, isto é, sem falar ou escrever, oficialmente, “em nome dele”. É a fase em que o dito é assumido pelos círculos que envolvem o núcleo central. Enfim, na terceira fase, a fase de massificação, destinador e narrador dissimulam-se. No seu início, esta fase caracteriza-se pela multiplicação de narradores o que implica perda progressiva da respectiva identidade e diluição do respectivo estatuto de privilégio. No seu termo, anula-se, pura e simplesmente a figura do narrador. A

142

responsabilidade pelas afirmações contidas nos enunciados recai sobre sujeitos colectivos, indefinidos ou universais. A colectividade apropria-se dos pressupostos. São múltiplos os instrumentos a que recorre a instância de poder com vista a atingir essa almejada fase de massificação. Recorre à iconografia: “é pela imagem”, afirma o jurista e psicanalista francês Pierre Legendre, “que o poder se infiltra na nossa pele” 150. Recorre à montagem de infindáveis sequências de "testemunhos insuspeitos". A unanimidade, laboriosamente forjada, remete para o senso comum. A repetição do elogio confere-lhe legitimidade universal e universalmente incontestável ao instaurar um processo que Moscovici descreve assim: "Pela repetição, a ideia dissocia-se do seu autor. Transforma-se numa evidência independentemente do tempo, do lugar, da pessoa. Deixa de ser a expressão do homem que fala e passa a ser a expressão da coisa de que se fala" 151. A passagem das duas primeiras à terceira fase, é a passagem do nível da citação ao nível da intertextualidade.

150

Le Désir Politique de Dieu - étude sur les montages de l'État et du Droit, Fayard, Paris, 1988, p. 40. L' Âge des Foules, op. cit., pp. 198-199.

151

143

6. EM JEITO DE CONCLUSÃO: DO DISCURSO DO JORNAL AO DISCURSO DOS MEDIA OU QUE PAPEL PARA A COMUNICAÇÃO NUM CONTEXTO DE GLOBALIZAÇÃO

Para Anthony Giddens, globalização significa desinserção das relações sociais relativamente aos contextos locais de interacção e sua reestruturação através de extensões indefinidas do binómio espaço/tempo 152. Sublinhando os efeitos produzidos pelas novas tecnologias que anulam a distância em termos de comunicação, Harvey desenvolve a ideia de compressão do espaço/tempo. Daí a curiosa metáfora por ele construída: a de que bastou que se generalizasse o transporte aéreo para que o mundo da década de sessenta se tornasse 50 vezes mais pequeno do que o do século XVI 153. A partir de pressupostos diferentes - transformação progressiva, evolutiva, no caso de Giddens, que considera a globalização como expressão de uma modernidade tardia; transformação por ruptura, no caso de Harvey, que situa a globalização num contexto de pós-modernidade - ambos chegam a uma mesma conclusão: a supressão de barreiras tanto ao nível da produção como ao nível da comercialização. Globalização implica, pois, deslocalização, isto é, coincidência entre o espaço da produção e da
152

Cf. As Consequências da Modernidade e Modernidade e Identidade Pessoal, Celta Editora, Oeiras, 1995 e 1997.
153

Cf. The Condition of Postmodernity, Blackwell, Oxford, citado por Malcolm Waters, Globalização, Celta Editora, Oeiras, 1999.

144

comercialização, por um lado, e o espaço mundo, por outro. Dito de outra forma: tudo deve poder ser produzido e tudo deve poder ser consumido em qualquer parte do mundo. Temos, portanto, uma globalização simultâneamente geográfica, financeira e tecnológica. O momento de viragem em que nos encontramos, hoje, enquadra-se numa sucessão de fases assim escalonadas: Uma primeira fase, associada ao século XVII, caracterizada pela instauração do Estado moderno que dá forma e consistência ao território e à nação. Uma segunda fase, situada já no século XVIII, durante a qual se assiste ao desabrochar de um processo de emancipação da sociedade civil, marcada pela criação de uma economia de mercado e pela afirmação de uma certa autonomia individual. Uma terceira fase, emergente no século XIX, em que se dá a "invenção do social", em que se reorganizam as relações sociais e em que se desenvolvem formas de solidariedade que nem o Estado clássico nem a economia de mercado eram, por si só, capazes de assumir. A quarta fase, a da globalização, encontra expressão numa dupla crise: na crise do Estado-Providência, esse modelo de Estado herdado do século XIX, e na crise do sujeito. O seu funcionamento exige uma padronização de estilos de vida, de hábitos de consumo. A mesma coca-cola, os mesmos jeans serão usados nas grandes cidades e nas mais pequenas aldeias dos cinco continentes. Exige, citando Ignacio Ramonet, a institucionalização de uma "cultura global"
154

que converta o capitalismo num "estado

natural da sociedade", segundo a definição de Alain Minc, em que termos como "mercado", "concorrência", "competitividade", "privatização", "liberalização",

"autoregulamentação" etc., se vão confundindo com o senso comum 155.

154

Geopolítica do caos, Editora Vozes, Petrópolis, 1998, p. 47. Cf. O Triunfo da Mundialização, Instituto Piaget, Lisboa, 1999.

155

145

O seu funcionamento exige, enfim, a superação dos constrangimentos ligados ao Estado-Nação. A internacionalização integral da produção e do consumo não se compadece, com efeito, com quaisquer limitações de ordem regional ou nacional. Por isso, aprofundam-se clivagens entre centro, periferia e semiperiferia que atravessam os próprios Estados-Nação. Por isso, verifica-se a substituição gradual dos agentes do poder. Pouco a pouco, o poder muda de mãos. Resultado: o volume de negócios da General Motors é mais elevado que o produto nacional bruto da Dinamarca; o da Ford é mais importante que o PNB da Noruega, Polónia, África do Sul, Grécia, Finlândia; o PNB de Portugal é inferior ao de quatro potências económicas americanas (General Motors, Ford, Exxon, Wal-Mart) e cinco japonesas (Mitsui, Mitsubishi, Itochu, Marubeni e Sumitomo). E falamos de economia real, de troca de bens e de serviços concretos. Porque se considerarmos os principais vectores da actividade financeira, nomeadamente os principais fundos de investimentos americanos e japoneses que dominam o mercado financeiro, o peso dos Estados torna-se, então, quase negligenciável. Uma sondagem recentemente publicada em França mostra que, da lista das cinquenta personalidades mais influentes do planeta, não consta nenhum chefe de Estado ou de governo. Não consta nenhum ministro, nenhum deputado. Todos os anos, banqueiros e representantes de grandes grupos económico-financeiros, membros do clube dos global leaders que, no total, não ultrapassa os dois mil elementos, encontramse em Davos, pequena cidade suíça, para fazer o balanço dos avanços da economia de mercado, do livre comércio e da desregulamentação. Este Fórum Económico de Davos tornou-se a Meca do hiperliberalismo, a capital da globalização, o núcleo do pensamento único cuja origem remonta aos Acordos de Bretton Woods que deram corpo a grandes organizações económicas e financeiras como O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Pensamento único que vai alimentar e ser alimentado por jornais ligados aos grandes grupos industriais e financeiros como The Wall Street Journal, The Financial Times, The Economist. Ou por agências noticiosas, como a

146

Reuter. Ou, ainda, por redes planetárias de televisão como a CNN. Pensamento único que vai ser reproduzido nas Universidades, nos partidos políticos, etc. Os jornais, em particular, e os media, em geral, irão constituir os instrumentos decisivos para a imposição/aceitação dessa nova ordem. É ainda Ignacio Ramonet quem afirma: “Hoje em dia, eles [os diferentes órgãos de comunicação social] estão interligados, funcionam em círculo, os media repetindo os media, imitando os media”
156

. No campo dos media diremos, então, que a globalização se vai materializando

paulatinamente. Inicia-se pela formação de grupos multimedia essencialmente nacionais: foi este, talvez, o aspecto determinante da evolução do campo dos media em Portugal, na primeira metade da década de noventa, com a reunião, sob a mesma tutela financeira, de jornais e revistas, estações de rádio e canais de televisão. Segue-se a transnacionalização dos capitais investidos. Assiste-se, por fim, à transsectorização dos grupos multimedia transnacionalizados e consequente diluição numa complexa rede de sociedades que Yvonne Mignot-Lefebvre e Michel Lefebvre designam por sociedades combinatórias
157

. Ao lado, ou melhor, em relação de simbiose com os grupos multimedia surgem

sociedades prosseguindo os mais variados interesses: do turismo à especulação imobiliária, da comercialização de produtos alimentares à especulação financeira. Tecese, assim, uma malha de contornos indefinidos e de hierarquias difusas que levou Michel Serres a escrever, em 1988: "Constato a existência de um poder como nunca se viu em nenhuma outra sociedade [...]. Mas, não sendo esse poder de natureza tipicamente material, não consigo imaginar que contrapoder se poderá levantar contra ele" 158.

156

A Tirania da Comunicação, Campo dos Media, Porto, 1999, p. 39

157

La société combinatoire – réseaux et pouvoirs dans une économie en mutation, L’ Harmattan, Paris, 1989.
158

Citado por Yvonne Mignot-Lefebvre e Michel Lefebvre, Idem.

147

Nessa malha aparentemente desmaterializada, pertencerá aos media a tarefa de despertar novas necessidades que irão ser satisfeitas por novos produtos, gerados por novos complexos maquínicos em elaboração permanente. Cabe, no entanto, perguntar: não haverá contradição entre essa necessidade de "cultura global", de que fala Ramonet, e a multiplicação de órgãos de comunicação social que se verifica nos nossos dias e que a futura televisão numérica não deixará de acentuar? Haveria se, à multiplicidade de órgãos, correspondesse uma multiplicidade de conteúdos. Assim não acontece, contudo. Por duas razões. Em primeiro lugar porque a uma profusão de jornais, de estações de rádio, de canais de televisão, corresponde, como já se viu, um punhado de grupos transnacionais e transsectoriais. Sujeitos ao controlo de um número reduzido de grupos, as estratégias dos media convergem num discurso que é unificado pelos interesses de uma classe particular. Desse modo, o conflito que se trava não é já entre diferentes grupos em busca de uma audiência, mas entre imperativos económicos, comuns aos diversos grupos, e imperativos democráticos. Em segundo lugar, porque novas lógicas de gestão e de fazer política vão implicar um volume cada vez menor de produções próprias de cada órgão de comunicação social. Vão implicar a constituição de empresas exteriores aos jornais, às rádios e às televisões, por vezes também elas inseridas em redes de sociedades combinatórias mas, sobretudo, especializadas na produção de conteúdos ao menor custo possível, segundo economias de escala. Vão implicar, também, a proliferação de acessorias, fontes inesgotáveis de conteúdos politicamente orientados. Multiplicidade de órgãos de comunicação social, por um lado. Estandardização, dessingularização, uniformização, por outro. Em síntese: nivelamento por baixo e expansão das hegemonias. Mas, será a dita "cultura global" extensível a todo o planeta. Obviamente que não.

148

A apropriação dessa "cultura global" por parte de grupos sociais mais ou menos extensos, mais ou menos dispersos, mais ou menos definidos, de um ponto de vista económico e sociológico, faz-se à custa de marginalização, de exclusão. A globalização de que tanto se fala não é, portanto, global. Apresenta, isso sim, duas faces indissociáveis em absoluto: homogeneização de necessidades e, logo, de consumos, nas sociedades desenvolvidas; afirmação de exclusão nas sociedades onde grassa o subdesenvolvimento, nos grupos onde impera a crónica pobreza. E se, nos meios desenvolvidos, os media contribuem para a homogeneização de necessidades e consumos, comportam-se, fora deles, como máquinas produtoras de representações. Como instrumentos geradores de virtual. Como fábricas de sonhos. Como dispositivos apaziguadores de tensões? Como dispositivos censurantes? Como dispositivos castradores? Fragmentado e uniformizado pela globalização, o espaço público de hoje pouco ou nada terá a ver com aquele, gerado nas tertúlias e nos cafés setecentistas, que Habermas glorificou. Numa das suas últimas obras 159, o próprio Habermas o reconhece ao teorizar sobre o conceito de "democracia radical" que ele coloca em alternativa ao modelo caduco da democracia representativa e ao modelo demagógico/populista da democracia directa. Na sua opinião, a construção do Estado-Providência terá suscitado um acentuado paternalismo, um incentivo à recentragem dos indivíduos na sua vida privada e, consequentemente, um claro desinvestimento na esfera política. Olhando para a sociedade actual ele detecta, contudo, sinais de mudança: hostilidade crescente face às elites tecnocráticas e, em contrapartida, um papel cada vez mais saliente desempenhado pelos mais diferentes "movimentos sociais". Habermas propõe, então, a criação de um novo laço social que já não estaria baseado nem na tradição, nem na tutela exercida por uma qualquer autoridade política exterior, mas sim na coresponsabilidade e na solidariedade, um princípio que ele considera de ressurreição indispensável. O seu
159

Droit et démocratie, Gallimard, Paris, 1997. Sobre o mesmo assunto consultar, também, do mesmo autor, Après l’ État-Nation, una nouvelle constellation politique, Fayard, Paris, 2000.

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projecto passaria por uma nova leitura dos Direitos do Homem - redescoberta que motiva outros filósofos como Marcel Gauchet
160

e Etienne Balibar

161

-, assim

expurgados da sua dimensão liberal. Direitos do Homem que não se resumiriam ao direito a ser protegido do arbitrário e ao direito a dispôr de si mesmo, mas que comportariam, igualmente, o direito a participar efectivamente no poder político o que, segundo Habermas, deve situar-se para além da simples capacidade de eleger representantes e de vigiar os actos do governo. Procurando actualizar a sua teoria do espaço público, Habermas confere um lugar primordial às discussões, aos debates que se desenrolam nas diferentes esferas da sociedade civil: génese de práticas informais de decisão colectiva que, por sua vez, se assumem como formas de pressão constante sobre os aparelhos jurídicos e políticos. Discussões e debates em que intervêm cascatas de novos actores como todos aqueles movimentos mais ou menos espontâneos, mais ou menos precários, que, descrentes das grandes narrativas redentoras da humanidade, se estruturam em função de objectivos concretos, imediatos: movimentos étnicos, regionalistas, ecologistas, feministas, juvenis, etc. Não há global sem local nem há local sem global. Com efeito, se a característica fundamental do global está na sua capacidade de emergir no local, a característica fundamental do local está na sua capacidade de se representar no global. É por isso que em todo o globo se ouviu o protesto de cerca de um milhar de ONG, reunidas em Seattle para gritar ao mundo que “o mundo não é uma mercadoria”. No seu conjunto, esses movimentos correspondem ao que Boaventura Sousa Santos chama a globalização contra-hegemónica que se faz de baixo para cima
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. De

todos eles se compõe a sociedade civil. De todos eles depende que essa sociedade civil se oponha com sucesso às forças de inércia, de acomodação, que germinam à sombra da
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La Révolution des Droitas de l’ Homme, Gallimard, Paris, 1989. Les Frontières de la Démocratie, La Découverte, Paris, 1992.

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162

Cf. “A Globalização, a Europa e Nós”, sessão plenária do IV Congresso Português de Sociologia, Coimbra, Abril de 2000.

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globalização galopante. De todos eles depende a edificação de uma democracia participativa que restitua ao indivíduo a liberdade plena e responsável. Que restitua ao indivíduo o seu estatuto de cidadania. Que dê sentido a essa "paradoxal pluralidade de seres únicos" de que fala Hannah Arendt. Em torno de muitos desses movimentos florescem sistemas próprios de comunicação - lugares de confluência de gestos, de gostos, de medos, de esperanças comuns - anunciadores da dialéctica global/local. Afinal, nunca, como hoje, foi tecnologicamente tão fácil fazer um jornal, montar uma estação de rádio ou, mesmo, fazer televisão. E aos media clássicos acrescentam-se, agora, os novos media. Através da Internet, criam-se novas formas de mobilização: apelos e abaixo-assinados circulam, constantemente em redes cada vez mais alargadas. Criam-se novas formas de solidariedade: muitos dos que trocam mensagens, fazem-no, apenas, para dizer que existem. Reata-se uma relação epistolar que só o telefone interrompera. Em Chaosmose 163, Félix Guattari recusa-se a formular um julgamento definitivo da actual evolução maquínica. Tudo dependerá, assegura ele, da utilização que lhe fôr dada. "A melhor das hipóteses é a criação, a invenção de novos universos de referência", sublinha o filósofo. "A pior", acrescenta, "é a massemediatização embrutecedora à qual estão hoje condenados milhões de indivíduos". Guattari guarda, todavia, um certo optimismo quando conclui: "As evoluções tecnológicas, conjugadas com experimentações sociais nos novos domínios por elas gerados, são talvez passíveis de nos fazer sair do período opressivo actual e de nos lançar numa era pós-media, caracterizada por uma reapropriação e por uma resingularização da utilização dos media".

163

Galilée, Paris, 1992.

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