ESTUDO DA FRATURA DO PLANALTO TIBIAL ATRAVÉS DA TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA

Estudo da fratura do planalto tibial através da tomografia computadorizada*
NARCISO ALVES FAUSTINO JÚNIOR1, RICARDO DE SOUZA ANDRADE1, CONSTANTINO JORGE CALAPODOPULOS2

RESUMO No período entre maio de 1995 e julho de 1997, 21 pacientes portadores de fratura do planalto tibial foram submetidos a radiografias simples do joelho e à tomografia axial computadorizada. Este exame mostrou-se eficiente para a caracterização da fratura, indicação do tratamento e planejamento operatório.
Unitermos – Fratura do planalto tibial; planalto da tíbia; tomografia computadorizada

detalhe anatômico pode subestimar uma depressão articular anterior ou central e exagerar a depressão posterior(1,4,6,7). A indicação do tratamento operatório do planalto tibial baseia-se na depressão articular maior que 5mm(5,8), nas condições gerais do paciente, na demanda funcional e, sobretudo, no tipo de fratura(1,2,7). O objetivo deste trabalho foi verificar a importância da tomografia computadorizada em fraturas do planalto da tíbia. CASUÍSTICA E MÉTODOS

SUMMARY Study of the tibial plateau using computerized tomography From May 1995 to July 1997, 21 patients with fractures on the tibial plateau were submitted to simple knee X-rays and axial computerized tomographies. This exam proved to be efficient in the characterization of the fracture, indication of the treatment, and surgical planning.
Key words – Tibial plateau fracture; tibial plateau; computerized tomography

Foram estudados 21 pacientes com fratura do planalto tibial. Quatorze (66,7%) eram homens e 7 (33,3%), mulheres, com idade média de 46 anos (variação: 16-74). O joelho direito foi afetado em 8 (38%) pacientes e o esquerdo em 13 (62%). As fraturas foram classificadas conforme preconizado por Shatzker et al.(9) (figura 1).

INTRODUÇÃO A fratura do planalto tibial é intra-articular. O deslocamento do fragmento e a depressão da superfície articular, quando não tratados em tempo hábil e de maneira eficaz, levarão a artrose pós-traumática em articulação que suporta o peso(3,9,10). Bohler, em 1958, relatou que os planaltos tibiais declinam no plano horizontal no sentido ântero-posterior, em aproximadamente 10º, formando ângulo de 80º com o eixo da tíbia. Em radiografia simples do joelho nessa incidência, esse
* Trab. realiz. na Disc. de Ortop. e Traumatol. da Fac. de Med. do Triângulo Mineiro (FMTM), Uberaba, MG. 1. Residente. 2. Prof. Adjunto Doutor; Chefe do Grupo de Joelho.
Rev Bras Ortop _ Vol. 33, Nº 6 – Junho, 1998

Fig. 1 – Classificação das fraturas do planalto tibial(9)

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2%). 1998 . 2) Corte da base da espinha tibial ou planalto não fraturado. R. Para esse cálculo. os cortes axiais foram de 2mm de espessura a cada 2mm no sentido distal (figuras 2 e 3).N. 33. 2 – Diagrama da elaboração da tomografia axial computadorizada: 1) Secção da superfície dos côndilos femorais. ANDRADE & C. em 2 (9.5%) e ambos em 3 (14. a linha referencial era a superfície dos côndilos femorais. M = Planalto medial TABELA 2 Classificação e comparação das aferições da depressão articular Tipo de fratura Caso 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Paciente IAF OPM VFS MAM NR ASJ CAGD ECS ZBF ARS MDB EA SJB EO GAM JVM SFA JDT GSS JBS GLS Radiografias CT VI II VI IV V II II VI II II V II I VI III II II VI VI V IV VI II VI IV V II II VI II II V II II VI III II II VI VI V IV Depressão (mm) Radiografias 9 0 8 (L)/0 (M) 2 – 3 4 2 3 2 3 (L)/0 (M) 6 0 4 7 5 – 8 181 3 (L)/0 (M) 3 CT 10 06 10 (L)/2 (M) 06 08 06 06 02 04 04 4 (L)/2 (M) 08 08 04 10 08 06 10 20 6 (L)/2 (M) 06 Rev Bras Ortop _ Vol.8%) não houve diferença.J.3%) (tabela 1). A tomografia axial computadorizada em 18 (85. sexo. Todos os pacientes foram submetidos a radiografias em ântero-posterior e em perfil e à tomografia axial computadorizada com o aparelho Shimadzu SCT 3. que fornece cortes axiais e não permite os biplanares sagitais e coronais. lado e planalto acometido Caso 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Paciente IAF OPM VFS MAM NR ASJ CAGD ECS ZBF ARS MDB EA SJB EO GAM JVM SFA JDT GSS JBS GLS Idade (anos) 49 45 44 52 74 36 41 69 70 16 37 64 24 28 31 47 48 34 55 41 57 Sexo F F M F M M M M F F F F M M M M M M M M M Lado Direito Direito Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Esquerdo Direito Esquerdo Esquerdo Direito Direito Direito Esquerdo Direito Esquerdo Direito Planalto L L L/M M L L L L L L L/M L L L L L L L M L/M M Fig. o medial em 2 (9. As características gerais dos pacientes encontram-se na tabela 1. RESULTADOS Das 21 fraturas. Se ambos os planaltos estivessem fraturados.5%) não foi possível aferir devido à má qualidade das radiografias (tabela 2). Em 1 (4. 490 L = Planalto lateral.7%) fraturas evidenciou maior depressão da superfície articular em relação ao estudo radiológico. sendo o espaço articular normal de 5mm. CALAPODOPULOS TABELA 1 Características gerais dos pacientes submetidos à tomografia axial computadorizada quanto a idade. o planalto lateral foi acometido em 16 (76.000T. Nº 6 – Junho. FAUSTINO JR. na base da espinha tibial do planalto não fraturado.A.S. Esses parâmetros serviram de referência para cálculo da depressão do planalto fraturado.. Durante esse exame foram realizados dois cortes: um ao nível da superfície dos côndilos femorais e o outro.

B) Secção da base da espinha tibial: a área escura no planalto lateral indica o local e a extensão da depressão articular. C) Corte da superfície da depressão articular. do tipo I para o tipo II de Shatzker. visão panorâmica (diagrama) da elaboração dos cortes axiais. alterou-se. D) Secção distal: nota-se a extensão do traço da fratura de anterior para posterior sem cominuição. quando comparada com as radiografias.8%) a classificação do tipo de fratura. após a avaliação com tomografia computadorizada. 3 – A) Tomografia axial computadorizada. o lateral de 55 a 79% e ambos de Rev Bras Ortop _ Vol. 33. e em 8 (42%) não houve alterações (tabela 3). em 11 (58%) a tomografia computadorizada evidenciou maior fragmentação. Comprometem o planalto medial em 10 a 23%. 1998 TABELA 3 Cominuição da fratura Radiografia Nenhuma Leve Moderada Grave Total 06 05 06 02 19 CT 03 03 06 07 19 Obs. com variadas configurações da topografia anatômica. Nº 6 – Junho.ESTUDO DA FRATURA DO PLANALTO TIBIAL ATRAVÉS DA TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA Fig.: Consideraram-se os seguintes critérios de comunuição: Nenhuma = 1 traço fraturário Leve = 2 traços fraturários Moderada = 3-4 traços fraturários Grave = > 5 traços fraturários 491 . DISCUSSÃO As fraturas do planalto tibial constituem 1% das fraturas do esqueleto e em 8% nos pacientes idosos. Dos 19 pacientes. Em 1 (4. área circular branca.

.: Radiographic evaluation of tibial plateau fractures. Raffi. et al: Computerized axial tomography for tibial plateau fractures. et al: Fractures of the tibial plateau: value of spiral CT coronal plane reconstructions for detecting displacement in vitro. entretanto. 9. J Bone Joint Surg [Am] 50: 1505-1521..J. CALAPODOPULOS 11 a 31%(9. McEreny. Elstrom. Pankovich. 5.3%). do tipo I para o tipo II de Shatzker. Embora a tomografia axial computadorizada tenha demonstrado maiores valores de depressão articular em 18 (85. Sassoon. J Bone Joint Surg [Am] 58: 551-555. H. Dias. A.M. O aparelho de tomografia utilizado não realizou os cortes biplanares sagitais e coronais. & Bruce. R.W. grau de cominuição e a depressão articular. 492 Rev Bras Ortop _ Vol. R. L.K. 1974..S. Leberman. 1984. J. et al: Evaluation of tibial plateau fractures: efficacy of MR imaging compared with CT. Management and expected results..7%) pacientes. 1993. et al: Computed tomography of tibial plateau fractures. C. proporcionando maiores detalhes quando comparada com as radiografias convencionais.. P. Golimbu.. caracterizando a topografia da lesão. Pilgram. 7. Tscherne. a classificação da fratura foi alterada. J. 1975. 1979. 10. 1994. 6. Schatzker. em um caso. o planalto tibial estava fraturado em 2 (9. Roberts.J. D.: Fractures of the condyles of the tibia. 1987.2%) e ambos em 3 (14.A. Clin Orthop 262: 87-100. Em nosso estudo. 1978. 8.10). K. AJR Am J Roentgenol 142: 1181-1186. Clin Orthop 138: 94-104. A. A. A. M. 2. 4. 3. D. o lateral em 16 (76. ANDRADE & C. REFERÊNCIAS 1. Hohl. Finlay. Firooznia.: Tibial condylar fractures long term follow-up. AJR Am J Roentgenol 163: 141-147.. M. Kode. permitiu verificar a cominuição e a localização da fratura. Wilson..B. Nº 6 – Junho. Radiology 126: 319-323. T. H. não aferindo o deslocamento da fratura. 33. Motta. McBroom. 1968. & Greenstein. J. Tex Med 70: 46-56.J. & Lobenhoffer. J. AJR Am J Roentgenol 163: 117-181.5%) casos. 1976. J Bone Joint Surg [Br] 69: 84-88... Concluímos que a tomografia axial computadorizada é de grande valor na avaliação da fratura do planalto tibial. J. A. Stirling. The Toronto Experience 1968. 1998 . fornecendo identificação nítida dos fragmentos. 1994.J. Newber. R. et al: The use of tomography in the assessment of fractures of the tibial plateau.N..H. FAUSTINO JR.: The tibial plateau fracture..M.: Tibial plateau fractures. H.