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Movimentos sociais e as corporações no campo da biopolítica

Por Marcelo Castañeda*
(Publicado na Revista Digital Envolverde no dia 20 de abril de 2007)

A discussão dos movimentos sociais dos países latino-americanos em torno da esfera do campo da
biopolítica leva, por diferentes caminhos a um enfrentamento das corporações transnacionais
sediadas no hemisfério norte. Este artigo tem como foco o posicionamento dos movimentos sociais
nesse conflito e muitas vezes cita o caso brasileiro, por ser aquele ao qual estou inserido.
O termo biopolítica pode ser entendido aqui como sendo o campo de diálogo em torno de questões
referentes: I) às recentes aplicações de mercado para o desenvolvimento científico de
biotecnologias (verde e vermelha) e da bionanotecnologia; II) à biopirataria da biodiversidade por
grupos transnacionais, visando patentear para obter margens de lucro cada vez maiores; e III) a
formulação de conceitos como bioética e biosegurança (ou biorisco, dependendo do referencial)
para entendermos a contemporânea face da eugenia no mundo.
Entre os movimentos sociais que atuam em áreas e questões relacionadas ao campo da biopolítica
relacionam-se as pessoas, organizações e redes que atuam: no feminismo, na luta pela terra, nos
direitos humanos, na questão ambiental e propriedade intelectual, na luta contra transgênicos, na
prevenção à AIDS, entre outros.
Qual a postura dos movimentos sociais frente a essas novas tecnologias que pertencem ao que
muitos já chamam de "Indústria da Vida"?
Primeiramente, há que se destacar o fosso existente até então entre os movimentos sociais e a
produção científica ligada a biologia e manipulação da vida, cada vez mais acelerada no último
quartil do século XX e neste início do terceiro milênio.
A velocidade das descobertas científicas não vem possibilitando, a tempo, uma contestação dos
movimentos sociais relacionados, muito menos um diálogo democrático com a sociedade civil de
uma forma geral. Há um certo desprezo, pode-se dizer, dos cientistas para com a sociedade em
geral ao optar, de forma isolada ou em conluio com o capital, por pesquisas que desembocam em
determinado tipo de tecnologia em detrimento de outras.
Por outro lado, os movimentos sociais não se mostram a par do que vem sendo produzido,
normalmente reagindo, de forma isolada ou fragmentada, ao invés de adotar uma postura pró-
ativa e integrada em frentes ou redes no sentido de acompanhar de perto essas pesquisas. Por
exemplo, no Brasil, sabe-se que grande parte da produção científica está dividida entre as
universidades públicas (e nesse caso, não há justificativas para essa desatenção) e os laboratórios
de grande corporações aqui instaladas (o que até justifica-se uma certa surpresa quando as
descobertas são apresentadas através da mídia, normalmente).

Em segundo lugar, a posição dos movimentos sociais quando entende a ciência como produtora de
verdade em um mundo pós-moderno não se traduz em realidade, considerando que, atualmente,
as estruturas midiáticas praticamente "selecionam" que versão de verdade científica será
massificada. O papel da ciência é importante no processo, mas não se pode mais afirmar que seja
determinante como outrora.
No Brasil, especificamente, pode-se dizer que há, já a algumas décadas, uma aliança ciência-mídia-
corporações transnacionais que não pode ser desprezada. Logo, ações teriam que ser
empreendidas em três frentes, a princípio, o que requer foco e pessoas capazes para tal objetivo.
Em terceiro lugar, os movimentos sociais latino-americanos que atuam em áreas relacionadas ao
campo da biopolítica entram em consenso em relação a uma postura de enfrentamento a ser
adotada contra as corporações transnacionais que atuam com apetite voraz no campo de produção
de biotecnologias relacionadas a manipulação e privatização da vida.
Entretanto, esse consenso ainda não se traduz em ações que façam frente ao poderio econômico
dessas estruturas de poder. Argumentar que é difícil (e é, realmente), que "não há pernas" (e pode
ser que não há, por exemplo, se não acontecer uma horizontalização da questão de forma
urgente), não é suficiente quando a questão que mais chama atenção é o desconhecimento de
grande parte dos movimentos sociais acerca das práticas de mercado destas corporações
transnacionais aliado a um comportamento maniqueísta contemporâneo (com um discurso
simulado aqui: "nós, movimentos sociais, somos os hereges pós-modernos que salvaremos o
mundo das transnacionais, que são os demônios do novo mundo...") que só prejudica a ação dos
próprios movimentos sociais, desestimulando em muito que as pessoas continuem na luta.
Mais que desconhecimento, nota-se um desinteresse dos movimentos sociais relacionados ao
campo da biopolítica em entender as estratégias de marketing, de criação de necessidades e
desejos no inconsciente do público-alvo dessas corporações técnico-científicas-produtoras-da-vida
(em geral, as classes mais abastadas, ou seja, a elite) em relação aos "benefícios" de utilização, por
exemplo, de novas tecnologias reprodutivas conceptivas e genéticas, como, por exemplo, a FIV
(fertilização em vitro), a ICSI (injeção introcitoplasmática de espermatozóide), a heteroplasmia
mitrocondrial, o DGPI (diagnóstico genético pré-implantacional) e até da clonagem animal e
humana.
Também pode-se destacar que técnicas - como as utilizadas por organizações como o Greenpeace
junto a Exxon e a Texaco nos EUA - mais agressivas de adquirir ações, negociadas publicamente
em Bolsas de Valores, de companhias que atuam no campo da biopolítica ainda não são utilizadas
pelos movimentos sociais latino-americanos de um modo geral.
O quadro é desanimador?
Nem tanto. Talvez o caminho seja longo, desgastante e os resultados de ações dos movimentos
sociais não apareçam de uma hora para outra.

A princípio, esse caminho pode envolver:
1. A formação de uma rede de movimentos sociais latino-americanos relacionados ao campo da
biopolítica;
2. O mapeamento, por essa rede, das linhas de pesquisas de universidades públicas brasileiras e
latino-americanas envolvendo o campo da biopolítica. Através dessa "radiografia", desenvolver
estratégias de aproximação e fortalecimento das versões científicas que fazem contraponto ao que
está sendo hegemonicamente estabelecido por cientistas midiaticamente selecionados. Ao mesmo
tempo, buscar uma contestação através de pedidos de esclarecimento, intervenções em fóruns
científicos onde essas "descobertas" são apresentadas, ou seja, estabelecer resistência presencial,
face a face;
3. A participação ativa nos colegiados públicos correlacionados a formulação de leis, políticas
públicas para o campo da biopolítica (CNTBio, GIPI, entre outros);
4. O entendimento das estratégias de mercado das corporações transnacionais (Monsanto /
Syngenta / Groupe Limagrain / KWSAG / Land O' Lakes / Merck / Sakata / Dupont / Pioneer /
Bayer) que atuam no desenvolvimento de biotecnologias e bionanotecnologias a fim de se
contrapor na formação do desejo no inconsciente do público-alvo dessas corporações;
5. A produção de "contra-informação" midiática (difícil, mas não impossível) para tentar um
contraponto ao espaço livre das corporações transnacionais na grande mídia.
São indicativos apenas para o começo de uma construção coletiva de enfrentamento dos
movimentos sociais latino-americanos frente à "Indústria da Vida" fomentada pelas grandes
corporações transnacionais.

(*)Marcelo Castañeda é cientista social e coordena o Núcleo de Pesquisas e Projetos Sociais da Faculdade de Filosofia Santa
Dorotéia em Nova Friburgo-RJ. Atua no Fórum da Agenda 21 de Nova Friburgo e no Fórum Permanente de Direitos
Humanos / RJ. É associado ao CECNA (Centro de Estudos e Conservação da Natureza).

FONTES:
Caderno "O que é biopolítica?" – Alejandra Rotania / Vanessa Ventura – Ser Mulher – 2006.
Oficina de Reflexão sobre Biopolítica – Fundação Heinrich Böll – 10 a 12 de Abril de 2007.
(Envolverde/O autor)