Interação humano-computador e as metáforas em uso

Lafayette Batista Melo 1 lafagoo@gmail.com

RESUMO: O objetivo deste trabalho é buscar uma nova forma de análise da interação humano-computador-humano com base em metáforas. É mostrado como os estudos de interação humano-computador (IHC) têm tratado a construção e avaliação de interfaces computacionais com suporte em metáforas, de modo a mostrar os limites de projeto e possíveis soluções para avaliar a interação com fundamentação na linguística. Verifica-se que a concepção de metáforas empregadas pelos projetistas de interface baseiam-se em semelhanças a entidades físicas, combinação de conceitos novos com antigos e analogias. É proposta uma abordagem para tratar interfaces que considere as metáforas em uso, construídas sócio-interativamente, em processos criativos. Abandona-se a abordagem de metáforas com base em transposição de conceitos, já que o enfoque desta pesquisa trata da investigação situada em usos concretos feitos pelos usuários. A pesquisa aborda a IHC de duas maneiras. Em primeiro lugar, faz-se uma revisão de conceitos e exemplos clássicos adotados nos projetos de interface para compreender como as metáforas em uso proporcionam construção de sentido criativa, válida, mas muitas vêzes não esperada pelos projetistas. No segundo enfoque, é feita uma análise de uso de redes sociais na plataforma Facebook, através da qual usuários realizam suas ações não apenas para interagir com o sistema, mas para operarem com interfaces e interagirem entre si, em atividades pedagógicas. Esta análise utiliza como proposta um quarto nível básico de metáforas de interação humano-computador denominado suporte à interação humana, incorporando-o aos três níveis metafóricos já utilizados em pesquisas anteriores. Conclui-se que o nível básico proposto – suporte à interação humana – é útil para o estudo de metáforas em uso na rede social, bem como que o estudo de IHC poderia ser mais bem aproveitado se combinado com pesquisas em lingüística, de modo a construir novos métodos de projeto e avaliação de interface, até trazer novos enfoques para os estudos da linguagem. PALAVRAS-CHAVE: interação humano-computador; metáforas em uso; interface; redes sociais. ABSTRACT: The objective of this work is to seek a new way of analysis of humancomputer-human interaction based on metaphors. It is shown how the study of humancomputer interaction (HCI) have dealt with the construction and evaluation of computer interfaces supported in metaphors, in order to show the limits of design and evaluate possible solutions to the interaction based on linguistics. It appears that the design of metaphors used by interface designers is based on similarities to physical entities, combining old with new concepts and analogies. It is proposed an approach to treat interfaces to consider the metaphors in use, constructed in socio interactional terms and in creative processes. It is not used the approach of metaphors based on the transposition of concepts, since the focus of this research is situated in concrete uses made by users. The research addresses the HCI in two ways. First, a review of concepts and projects adopted in the classic examples of interface
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Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba, PB.

A lingüística também trata de metáforas. Na seção 4. incorporating it into the three levels metaphorical already used in previous researches. social networking. but with interfaces to communicate each other and interact in educational activities. through which users perform their actions not only to interact with the system. Metáforas na interação humano-computador: conceitos e exemplos clássicos Os estudos de interação humano-computador (IHC). em alguns momentos para prover formas . Introdução A presença da tecnologia e das relações humanas permeadas pela tecnologia são hoje uma realidade indiscutível e com isso vem a necessidade de também haver pesquisas que unam o que é mostrado por diferentes disciplinas. são introduzidas as abordagens lingüísticas de interesse desta pesquisa e é mostrado como e por que é criado o nível de metaforização denominado suporte à interação humana. Um dos tópicos que a IHC trata é o uso de metáforas. in order to build new methods of interface design and evaluation. que pertence à área maior da computação. A área de interação humano-computador (IHC). it examines the use of social networking on the Facebook platform. metaphors in use. Na última seção. KEYWORDS: human computer interaction.metaphors to understand how the building in use is creative and valid. but often not expected by the designers. It is concluded that the proposed basic level . In the second approach. Para tanto. é efetivamente aplicado o nível de metaforização proposto em conjunto com outros níveis para avaliar a interação mediada por computador na rede social Facebook. O objetivo deste trabalho é buscar uma nova forma de análise da interação humanocomputador-humano com base em metáforas. no desenvolvimento de atividades pedagógicas. mas com intuito de compreender o funcionamento da linguagem humana. são feitas algumas constatações sobre o trabalho como um todo e são apontadas preocupações no sentido de se fazer novas pesquisas que envolvam interação mediada pela tecnologia e de forma interdisciplinar. aborda essas relações com objetivos de construir melhores interfaces para dar melhor suporte aos sistemas computacionais. invariavelmente tocam nos assuntos de metáfora e os relacionam com interação. to bring also new approaches to the study of language.human interaction support . integrando conceitos da IHC com enfoques da lingüística. na seção a seguir são melhor delineados alguns conceitos e preocupações da área de interação humano-computador.is useful for the study of metaphors in use in the social networking as well as the study of HCI could be better utilized if combined with research in linguistics. interface. 2. This analysis uses as proposed fourth basic level metaphors of human-computer interaction called human interaction support. Na seção 3.

manipulação e navegação – descreve a atividade de manipular objetos e navegar por espaços virtuais. explorando o conhecimento que os usuários têm do mundo físico e formas de exploração e pesquisa. Colocaremos adiante alguns dos principais aspectos apontados pela bibliografia específica da área. que pode estar na mente do projetista ou do usuário. por exemplo de um menu. 2010)]. mas que também tem seu próprio comportamento e propriedades”. As desvantagens envolveriam uso muito literal por parte dos usuários sem explorarem todas as possibilidades do programa. Para descrever operações específicas: Por exemplo: recortar e colar. (Dix. em outros para o desenvolvimento de projetos de interface [(Preece. de como deve se comportar e com que deve se parecer – que seja compreendida pelos usuários da maneira pretendida. Também são estudadas em IHC as principais vantagens e desvantagens no caso de se fazer avaliação ou projetos baseados em metáforas. Por exemplo. Por exemplo: mesa de trabalho (desktop). pode ser baseado em atividades. Os usos de metáforas para a IHC são dos mais variados:    Para conceitualizar um estilo particular de interação. o sistema como ferramenta. (Boy. quebra de regras no uso de uma interface para procurar o que ela não fornece. 1998). As atividades são:     instrucionais – o usuário diz ao sistema o que fazer através. conflitos com a experiência do . 2004). a partir do qual as metáforas serão concebidas: “Uma descrição do sistema proposto – em termos de um conjunto de idéias e conceitos integrados a respeito do que ele deve fazer.” A questão é que este conjunto de idéias. (Barbosa.de avaliar usabilidade e. Para instanciar parte de uma interface. As vantagens incluiriam trazer familiaridade para os usuários e tornar o uso do computador mais fácil tanto para leigos quanto para experientes. conversacionais – o sistema seria projetado de acordo com os postulados da análise da conversação. objetos ou ambos. 2005). 2011). As metáforas para a IHC seguem conceitos muito cognitivistas como pode ser observado na própria definição de metáfora de Preece (2005): “modelo conceitual construído para ser semelhante a aspectos de uma entidade física. é descrita a definição de modelo conceitual como enfatiza Preece (2005). Tais modelos poderiam se basear em atividades. objetos (artefatos gerais como um livro ou ferramenta) e metáforas. (Shneiderman. Em primeiro lugar.

conforme relatado por Sardinha (2007). muitas vezes relegada a um segundo plano e não observada conscientemente estaria em frases como “Vamos economizar tempo”. “Meu . Em primeiro lugar.designer/projetista. O Clipsi do Office tinha o formato de um rosto risonho e aparecia nas situações mais inesperadas para ajudar os usuários em programas utilitários. Nesta seção. parece que os conceitos desta área ainda estão amarrados a relações humano-computador mais do que humano-computador-humano. falaremos na próxima seção de contribuições que podem ser realizadas pela integração desta disciplina da computação com as ciências da linguagem. 3. causou mais frustração do que ajuda efetiva. pois nem toda imitação do mundo real leva a uma prática mais adequado de uso com o computador. Como os objetivos da IHC não são compreender o funcionamento da linguagem. não estender o uso do sistema além das metáforas. A importância na comunicação cotidiana. vamos ver como a lingüística pode orientar os estudos de metáfora e definir uma linha de pesquisa que mais se adéqüe a compreender a realidade vivenciada pelos usuários na comunicação que realizam entre si. apesar de hoje termos muito sistemas colaborativos e baseados em redes sociais. Metáforas como um processo criativo e em uso aplicadas à IHC Os estudos de IHC. como vimos. têm seus objetivos e já há algumas ponderações sobre o papel da metáfora na interface do computador. Apesar da IHC descrever bem os usos e alguns problemas com base em metáforas. Apesar de se basear na metáfora de assistente para ajudar nas tarefas com os programas. mas avaliar e construir interfaces. Este tipo de metáfora desconsidera que é muito mais eficiente para o usuário. onde em cada compartimento se encontra uma funcionalidade do sistema ou dados específicos. uso de modelos ruins e limitação da imaginação. a maneira como concebemos metáfora tem uma importância sem igual na comunicação humana diária. Alguns exemplos clássicos que envolvem tensão entre o projeto e o uso efetivo são os do Clipsi do Office e o da criação de mundos em três dimensões para representar a navegação em um sistema. eminentemente a lingüística com enfoque sócio-interacional. Ainda hoje são projetados sistemas em três dimensões para simular espaços físicos reais como uma casa ou um museu. Outro problema é que. utilizar uma lista direta como um menu. não tem ferramentas teórico-metodológicas para compreender o processo de construção de metáforas por parte do usuário.

até um componente da interface como um botão. que antes dos anos de 1940 se referia a pessoas. pois muito do que se diz está cristalizado pela cultura ou pelo uso na informática. Em cada uma dessas frases estaria a idéia de junção de conceitos díspares: tempo e dinheiro.namoro está indo muito bem” ou “Ele passou a idéia de que tudo daria certo”. Não é de se estranhar que o usuário de computador empregue termos sem maiores processos de conscientização. A metáfora não seria constituída em respeito à realidade. . O autor procura fugir da definição aristotélica que concebe a metáfora como transferência de sentido de um campo de conhecimento para outro. não seria resultado de operações lógicas. Sardinha (2007) ainda coloca como razões para estudo da metáfora os seguintes pontos: uso retórico por profissionais e artistas. Não haveria dicotomia significante-significado. sempre é estabelecido um ponto de tensão sobre o conhecimento do qual o projetista imagina que o usuário lançará mão e efetivamente o que será construído no uso ou re-significado. Desde a própria palavra “computador”. namoro e viagem. Este ponto é crucial na vida de projetista e usuários. como na linguagem denotativa. e sim. valor cultural e instrumento para criar novo conhecimento. pois “acho que” poderia estar fazendo o papel de dizer algo mais natural para dizer “provavelmente”. Portanto. meios naturais de estruturar o pensamento. Basta observar os exemplos do botão “Iniciar” e da lixeira do Windows – os projetistas não poderiam imaginar como os usuários iam conceber. Metáfora não seria fruto de comparação. o que para eles eram conseqüências óbvias das metáforas empregadas (a busca de um botão “Finalizar” para fechar um programa e o questionamento de a lixeira estar em cima da mesa de trabalho). A ordem psicológica teria prioridade sobre a ordem lógica e a metáfora fundaria a comparação. Haveria sim uma esfera do “não previsto” e a metáfora seria como que o foco para se identificar um mundo que a linguagem conceitual tenta apenas reorganizar. Desse modo. onde se clica. pois estes estariam em um plano conceitual. bem como da visão de metáfora como analogia e comparação. até expressões como “acho que sim” seriam metafóricas. no máximo. base para uma comparação a posteriori. comunicar e deslocar. Conforme Halliday (2004). É crucial atentar para o modo como Marcushi (2007) alerta sobre o uso e estudo das metáforas em suas várias abordagens linguísticas e os caminhos que podem ser seguidos. é muito pouco provável que as pessoas façam um préprocessamento para compreender a metáfora. mas de uma intuição prélógica. não o contrário. de forma não consciente. Outra questão salientada por Marcuschi (2007) seria o papel criativo natural da metáfora. modo simples de expressar um conjunto rico de idéias.

publicar mensagem. algumas expressões parecem já ter sido incorporadas rapidamente. antes em pessoas ou como elas estão conectadas através da Internet? Quando falamos em tuitar. um elemento não previsto que evidencia a própria criatividade. seja com palavras do português brasileiro ou pela inserção de termos em inglês. casos bem claros de metáforas facilmente reconhecíveis. há incorporação de termos relativamente novos à língua. o autor cita a afirmação sobre a língua não passar de “um dicionário de metáforas empalidecidas”. estamos pensando. estamos antes pré-concebendo alguma forma de comunicação no mundo fora da Internet? Talvez para quem não use computador ou comece a usá-lo pela primeira vez. comentar uma postagem (dentro do contexto de uso de uma rede social). pois se no uso da interação humano-computador. através destes dois exemplos: . há mais o efeito surpresa que ela causa.haveria necessidade de a metáfora ultrapassar o limite da discussão semiótica e criar um domínio próprio de investigação. por outro lado. linkar. porém. Sobre a consciência ou não do uso linguístico. Há. Vejamos as seguintes situações: Quando falamos mouse. Podemos levar isso em consideração. essas reflexões têm uma grande importância. que Marcuschi (2007) diz que deve ser eficaz e baseada em algo. pensamos em um animal? Quando falamos em janela (do Windows). essas associações passem pela cabeça. Referindo-se a Jean Paul. Marcuschi (2007) afirma que grande parte de nossa linguagem cotidiana baseia-se em metáforas “conscientes” ou mesmo “já congeladas”. questionando o alcance da criatividade do usuário em relação ao que foi projetado e construído por um desenvolvedor. hoje. dentro do jargão da informática. mas não é o que o ocorre na construção do sentido real ao se experienciar atividades práticas que façam parte do cotidiano do indivíduo. pensamos em página de papel? Quando falamos em rede social. pensamos em algum momento em partes de um quarto? Quando dizemos pasta e arquivo (do Windows) pensamos antes nos objetos do escritório? Quando falamos página Web. Sobre a questão da criatividade. Isso ocorreria em usos mais recentes de termos ainda não incorporados à língua. Para nossa pesquisa.

Para este autor. a metáfora resultaria de uma interação entre dois conteúdos semânticos distintos. algum projetista pensou em outro uso? Quando se colocou no Facebook. Para que apliquemos as diretrizes apontadas. em um uso concreto. Se há substituição de um termo por outro. é relevante considerar as linhas teóricas trabalhadas hoje em dia. a metáfora predicativa exemplificada por Black (“O homem é um lobo”). De todo modo. embora a teoria da interação supere a transposição de significado como propriedade basilar da metáfora. Metáfora gramatical – com aporte na lingüística sistêmico-funcional. um campo principal. há algumas características da abordagem da metáfora sistemática. não há um ou outro termo para a função de postar dentro de um mesmo sistema. o que se pretende investigar é como eles usam e-mails. o que importa para esta pesquisa são as considerações sempre orientadas para fugir da mera transposição ou analogia e não um provável exemplo mal aplicado de Black. para se colocar informações sobre o que se estava fazendo. Metáfora sistemática – uso recorrente da metáfora na linguagem real. por exemplo. abre espaço para uma possível comparação. formada pelo que ele designa de focus (conteúdo primário – a palavra usada metaforicamente) e frame (conteúdo secundário – que representa o contexto literal onde a metáfora é situada). com processos mentais. postagens. embora ainda não pertençam a uma teoria definida: . que merecem considerações para o presente trabalho. que “o e-mail é um correio eletrônico”. quando descarta a semelhança e analogia como modus operandi da metáfora. forma e condiciona uma comparação. e segundo uma teoria da interação. Até porque na interação dos usuários. Richards adotados por Max Black. Eles não dizem. Ações semelhantes com nomes diferentes só podem permear diferentes sistemas. do ponto de vista da semântica. estaria-se mais propriamente falando de metonímia e não de metáfora. simplesmente usam o e-mail e suas funções. Para Marcuschi (2007). Usuários vêem as indicações de suas ações nas interfaces e simplesmente agem. Reforça-se a este aspecto as considerações de Lakoff (2002). Segundo Sardinha (2007).Quando foi projetado no Twitter. as linhas teóricas podem envolver basicamente:    Metáfora conceitual – um fenômeno cognitivo. antes de ser produto de uma comparação. um campo principal para informação de status da pessoa. mensagens etc. Conforme Sardinha (2007) e Cameron (1999). Para Lima (2005). algum projetista pensou em outros usos? Marcuschi (2007) e Lima (2005) ainda fazem uma série de ponderações sobre os trabalhos de I.

Como a abordagem das metáforas em uso ou sistemáticas abre espaço para adequações com teorias ou outras orientações metodológicas. que incorporam preocupações da interação humanocomputador. A manipulação direta é também utilizada como interface gráfica. O uso é um fim em si mesmo e quaisquer suposições sobre o processamento mental das pessoas é secundário e só pode ser feito se houver dados para isso. por exemplo.   Não deve haver acepções sobre o uso de metáforas que não foram provadas. Menu e apontadores (Pointers) – WIMP. através das quais os participantes estão ativando algum tipo de representação metafórica. mostrada na seção seguinte. Iremos acrescentar a proposta de uma noção que nos parece adequada para investigar as metáforas em uso – o suporte à interação humana – de modo que façamos apropriadamente a aplicação da análise. espaço pelo qual se navega através de páginas (interfaces Web) com o auxílio do browser. lojas etc. O exemplo clássico é o da World Wide Web. algumas vezes referidas por outros autores como estilos de interação ou modelos de interação: Manipulação direta – pode ser expressa como “O DADO É UM OBJETO FÍSICO”. janelas etc. vamos considerar as observações de Fineman (2004). Casos especiais envolvem a imagem de objetos físicos que podem ser manipulados: arquivos. quartos. Fineman (2004) define três níveis básicos de metáforas da interação humanocomputador. Casos especiais desta metáfora retratados do mundo real poderiam envolver locais como prédios. Ìcones. superfícies. em um determinado contexto real de uso. Navegação – pode ser expressa como “O DADO ESTÁ NO ESPAÇO”.  O principal ponto a ser considerado nas pesquisa é a metáfora em uso. oceanos. através da qual são operadas janelas (Windows). A mesa de trabalho seria o exemplo clássico. O link é um elemento básico . Só pode haver alegações de que um usuário acessou alguma metáfora abstrata e mental se houver instância para isso. referentes ao evento discursivo em questão. Os usuário manipulariam dados conforme o conhecimento que têm para manipular objetos físicos como nas operações de “arrastar e soltar”. páginas. como ocorre na metáfora conceitual. Esta abordagem é chamada também abordagem discursiva ou metáfora em uso e advém da característica de que o ponto de partida são metáforas recorrentes. livros. bares. documentos.

Desta forma. Para que alguém receba uma carta ou telegrama. criamos um quarto nível: Suporte à interação humana – poderia ser expresso por “OBJETOS DA INTERFACE ABREM ESPAÇO PARA A COMUNICAÇÂO”. mas com elementos de outras formas tecnológicas. Como pretendemos avaliar não apenas a interação humano-computador. mensagens etc. porém.Interação humana – pode ser expressa como “COMPUTADORES SÃO PESSOAS”. Aplicação do nível metafórico suporte à interação humana para análise de uma rede social Nesta seção. Usuários pensariam que poderiam se comunicar com computadores como se fossem pessoas por meio de escritas imitando a conversação. Casos especiais envolvem amigos. na conversa face a face as pessoas simplesmente se comunicam e essas indicações são pouco obseravadas. através da qual foi dado suporte a duas disciplinas (“Análise e projeto de sistemas” e “Interface”) de um curso tecnológico presencial. consideramos que esses três níves não são suficientes. para termos acesso à comunicação com alguém. mas a interação humano-computador-humano. Desse modo. perguntas. esse nível representaria uma metáfora para o acesso em si através de elementos que poderiam ser de manipulação ou navegação: links ou botões como Reply e Retweet no Twitter. A investigação é feita qualitativamente e em profundidade. Casos especiais no mundo real envolveriam formas de acesso (indicações) para olhares. bem como objetivos do contexto da atividade em que as pessoas se encontram. Esta metáfora estaria relacionando a interface não com objetos. crianças. vamos analisar as construções metafóricas construídas sóciointerativamente em uma rede social. Cada turma tem . As análises são aplicadas à plataforma Facebook. perguntas. No telefone. ajudantes. observando interações reais e concretas realizadas na rede. que pode envolver formas melhores de adequar a comunicação. precisamos encontrar uma maneira de enviar. mas os usuários re-significam suas finalidades conforme o emprego da metáfora em uso. independentemente do que foi projetado e pretendido pelo projetista do sistema. assistentes etc. Como veremos na análise adiante. precisamos antes discar. há várias pistas na interface para o suporte à interação humana. no último período de 2010 e no primeiro período de 2011. conforme orientação da linha desta pesquisa. Comentar e Postar no Facebook etc. espaços ou relações do mundo real presencial com o físico. gritos. 4. Interagir com o computador seria semelhante a conversar com uma pessoa. pedidos.

no grupo fechado. Se esta mesma pessoa vai controlar as atividades – isso só poderá ser constatado. os grupos podem ser configurados em três tipos: aberto. a adjetivação de amizade para professor e alunos que estão se conhecendo não é o que podemos entender como a amizade que surge entre colegas ou conhecidos depois de algum tempo de convivência. Desse modo. Mesmo a idéia de grupo não encontra associação ou comparação direta com um grupo social comum. pode cadastrar outro aluno. que não é o administrador do grupo. um amplo espectro de possibilidades de interação proporcionado pelo conjunto de suportes de interação dados pelo sistema como um todo – amigos podem estar associados com outras pessoas de outras formas. No Facebook. um aluno. Haverá. antes mesmo do uso do sistema. A idéia de amigo em outras redes é referida como seguidor. Sobressai. O professor criou grupos próprios para trabalhar na rede e orientou os alunos que fossem “amigos” dele para que fossem cadastrados em cada grupo. fechado e secreto. vamos identificar o processo de “entrar” no grupo. colaborador etc. adquirem contornos específicos para uma nova conceitualização em torno de procedimentos de interação. páginas de grupo etc). será necessário que a outra pessoa responda positivamente através de outro botão. Estabelecida a forma como os grupos foram concretamente trabalhados. Portanto. Além disso. as metáforas grupo e amigos que. Optou-se por desenvolver as aulas em grupos fechados. menos as publicações das mensagens. fica difícil compreender que nesta situação há uma transposição de conceitos. O procedimento de ser autorizado pelo sistema após fornecer login e senha (com pistas que envolviam campos para preenchimento e botão “entrar”). porém. na verdade é estar ligado a um dos três tipos de suporte de interação humana que o sistema provê. além dos grupos (listas. A própria idéia de administrador do grupo é de alguém que simplesmente o criou através de uma operação de interface. depois entrar na . Novamente. pertencer a um grupo. O grupo aberto é público e o secreto é privado – só existe para aqueles que foram cadastrados. apesar de terem equivalentes fora da rede social. A metáfora de um espaço virtual onde havia divisões não causou qualquer estranheza.cerca de 30 alunos. para efetivamente haver a consolidação da “amizade”. que são aqueles através dos quais um membro não administrador pode convidar outra pessoa para participar e qualquer pessoa pode ver o grupo e quem está nele. apesar de esperado – durante o processo de uso do ambiente pelo professor no respectivo período letivo. perfazendo um total de quatro turmas nos dois períodos. As pistas de comunicação para um administrador de grupo e criação de um amigo estão respectivamente nos links “criar grupo” e no botão “adicionar aos amigos” dentro da página de outra pessoa no Facebook – nesse caso. nem para aqueles que usaram o Facebook pela primeira vez.

porque é a partir deste recurso que pode ser estabilizado um contato inicial identificado pela própria abertura para uma comunicação. usar webcam – para gravar vídeo ou fotografar em uma câmera do computador e criar álbum de fotos – através do qual é criada uma sequência de imagens. Adicionar foto não é simplesmente o que o texto poderia sugerir. tirando dúvidas. que possibilitam o pontapé inicial para que alunos e professores interajam. por exemplo. mas são orientados para fazer referência ao que é discutido na disciplina. No alto da segunda coluna. ao mesmo tempo que expande. que entendemos como suporte à interação humana. constituíram ações comuns para percorrer os passos que levam ao respectivo grupo. Além do link “adicionar foto” abrir outras sugestões diferentes do esperado. mas abre outros três possíveis suportes à interação humana: carregar foto ou vídeo – que implica fazer o upload de um arquivo de imagem ou de vídeo. “Adicionar foto” e “Perguntar”. ficam novamente à disposição um conjunto de metáforas do quarto nível (suporte à interação humana). alertando sobre exercícios a serem entregues etc. Vamos relacionar alguns usos peculiares da metáfora de nível quatro dentro do grupo.sua página. O sistema provê esses textos com idéias gerais iniciais do que deve ser feito. Os alunos também podem colocar o que quiserem em escrever mensagens. enviando mensagens com avisos sobre as aulas. o professor pôde colocar o seguinte nas situações presenciada: texto no campo: “AULA 1 – Apresentação da turma” ou links para livros em formato PDF ou no Google Books. Em Escrever mensagem. No . já que o conjunto do texto com os links. o Facebook coloca uma amostra em miniatura do material dentro da própria página. há três suportes à interação humana com pistas em forma de link: “Escrever mensagem”. Após todo esse procedimento. Este suporte à interação humana adquire contornos bem diferenciados de. possibilita suporte à interação humana. transmitir uma mensagem no dia-a-dia. clicar no link do nome do grupo. delimita os possíveis significados interacionais dentro do campo disciplinar. de acordo com a figura 1 (os quadros em branco cobrem informações para proteger a identidade dos participantes). e. navegação e interação humana – esta especialmente em mensagens de erro). compartilhando vídeos. É verdade que para alguns endereços como os vídeos do Youtube. vídeos e imagens. endereços no Youtube com vídeos para aulas gravadas por ele ou por outro professor. links para outros sites com material didático complementar. avisos sobre prova ou cancelamento da aula. através dos três primeiros níveis de metáfora na interação humano-computador (manipulação direta. links e outras modalidades de informação. em seguida. mas os usuários criam contornos criativos que podem ser os mais diversos. links para aplicações referentes ao material da aula. dentro do grupo com finalidades pedagógicas.

Nesse caso. temos na verdade a geração de uma enquete com perguntas e um conjunto de opções a serem marcadas. o uso foi feito pelo professor. Conversar com o grupo. Pode-se ver na coluna à direita. Consideramos suporte à interação humana na medida em que abre espaço para comunicar alguma satisfação por parte do usuário. Identificamos algumas . podia haver o uso do espaço para uma resposta de um exercício (normalmente cobrado pelo professor. De todo modo. Seguir publicação (na época ainda não disponibilizado pelo Facebook) e Compartilhar. Adicionar foto e Perguntar). aparece a mensagem no número de pessoas que “curtiram” a publicação. Os alunos poderiam acrescentar novas opções às perguntas e mesmo criar novas enquetes. Para cada postagem no grupo (com Escrever mensagem. deveu-se a avisos de adiamento de provas ou acréscimo de pontos em tarefas da disciplina. mas a grande maioria de marcações por parte os alunos. webdesigner ou gerente de projetos). há criação de sentido novo não previsto pelo projetista – e não transposição ou analogia propriamente –. podem ser a elas vinculadas novas funcionalidades que também identificamos como suporte à interação humana: Curtir. algumas mensagens do professor com conteúdo adicional foram “curtidas”. Compartilhar proporciona que o usuário divida com seus amigos em geral as informações postadas se isso for autorizado no grupo. Editar grupo e Deixar Grupo. uma série de funcionalidades (Adicionar amigos ao grupo. ao se clicar o link. Comentar. Criar evento. construído adequadamente para o contexto em uso da atividade dos participantes. Criar documento. foi perguntado em quais categorias profissionais os alunos mais se enquadrariam (analista de sistemas. professor e aluno encontravam endereços na Web para materiais adicionais e os colocavam no local destinado a comentar. programador. bem como a lista de documentos criados). Houve uma diversidade de usos no grupo para o contexto pedagógico. Não foi identificada criação de enquetes por parte dos alunos e esta função só foi disponibilizada pelo Facebook em 2011. Em Curtir. Alguma vezes. Exibir fotos. relacionando-o sempre a um conteúdo da disciplina. Em Perguntar. é utilizado para carregar vídeos de aula ou imagens ilustrativas para explicação de determinado assunto. Em Comentar. O professor utilizou este suporte para identificar o nível e a expectativa dos alunos e perfis.contexto das disciplinas. Por exemplo. podendo ser obrigatório) bem como eram colocadas correções das postagens pelo professor ou pedidos de esclarecimento de dúvidas por parte dos alunos. mas em um sentido que transcende muito a ação de comentar algo dentro de uma sala de aula. Em outras palavras. Como a informação compartilhada fica na página específica do usuário. não foi um aspecto observado.

manipulação direta (Adicionar amigos. no quarto nível metafórico propriamente. a pessoa que recebe a “cutucada” tenha como marcação o . elas não eram destinadas às interações entre humanos. podemos destacar alguns: 1) nas aulas em laboratório com o sistema aberto. sem texto. Exibir fotos Editar grupo e Deixar grupo) e navegação (todas as que abriam uma nova sequência de links para dar prosseguimento à atividade) ou que possibilitavam interação humana (todas as que geravam uma mensagem do sistema simulando comunicação – por exemplo.delas como níveis metafóricos de suporte à interação humana. apesar de algumas ações de manipulação direta serem visualizadas pelos usuários e eles partirem para o início do processo comunicativo. os alunos se comunicavam entre si ou com o professor. Porém. há uma lista de todos os amigos com nome e foto. que são conversas de bate-papo privadas entre duas pessoas. dos usos específicos nos grupos. Há um função peculiar denominada Cutucar. 2) para fazer exercícios em laboratório. já que gera também navegação e manipulação direta em uma janela à parte (dentro de um programa de bate-papo). o sistema emitia uma mensagem no grupo dizendo que determinado usuário havia realizado a ação). na própria página. Desse modo. vale comentar as funções de mensagem e cutucar. sempre usava esse recurso e o mesmo para os alunos. podemos identificar a funcionalidade Conversar com o grupo. As mensagens funcionam como um e-mail (talvez agora mensagem funcione como metáfora para e-mail dentro da rede social). marcados com um círculo verde quando estão online. A idéia é de que ao clicar no botão. mas ainda dentro do contexto das relações professor-aluno e aluno-aluno. Criar evento. Aparece suporte de interação humana um a um. Por último. Não vamos nos ater a ela. mas no mesmo formato da janela do bate-papo geral e usadas entre professor e alunos também do mesmo modo. Quando o professor precisava mandar uma mensagem para apenas um aluno que não estivesse online. alunos deixavam dúvidas escritas que o professor podia decidir se as comentava oralmente no momento ou no final da aula. Criar documento. acessadas a partir do botão mensagem na página da outra pessoa ou no segundo ícone de balãozinho. Esta função foi projetada para envio de mensagens indiretas. quando entra-se na página de alguém. ou seja de uma pessoa para outra. Como o que nos interessa é o suporte à interação humana. O suporte à interação humana na forma de bate-papo pode ser encontrado após clicar na pessoa com a qual se deseja comunicar. ao Deixar grupo ou Criar um Documento. A metáfora de conversa ou bate-papo adquiriu contornos bem específicos. Na terceira coluna bem à direita. 3) muitos alunos utilizavam o recurso online de casa para conversar com o professor e tirar alguma dúvida e 4) até mesmo conversas em paralelo com assuntos não propriamente da aula eram realizadas.

é uma função pouco utilizada no Facebook de uma maneira geral. mas não necessariamente terem correspondência. talvez por metaforizar funções comunicativas muito informais ou não cabíveis no ambiente acadêmico. FIGURA 1: – estrutura do Facebook para os 4 níveis de metaforização humano-computador 5. no caso o pedagógico. Algumas constatações Neste trabalhado. pudemos constatar como a área de interação humano-computador (IHC) tem tratado as questões da metáfora para o usuário e vimos exemplos clássicos de como algumas soluções desenvolveram-se concretamente. o que mostra que a lógica do projeto de metáfora e da metáfora em uso podem ambos fazer sentido. uma ameaça etc). Também escolhemos uma linha de pesquisa para dar apoio à IHC com base na lingüística de caráter eminentemente sóciointeracional e enfoque situado. Pudemos notar que idéias de funções comunicativas concebidas em projetos conhecidos como o Facebook. este uso não ocorreu.seguinte texto na sua página: “fulano cutucou você. Pudemos observar que a proposta desta pesquisa do quarto nível de metaforização humano-computador – o suporte à interação humana – encontra respaldo para compreender melhor a metáfora em uso (de “Escrever mensagem” no grupo a “Cutucar”). Para os participantes do grupo. à luz de estudos da . considerando um contexto situacional. uma paquerada. Isso só poderia ser entendido no contexto de convivência dos dois usuários. De todo modo. deseja também cutucar fulano?” Pretendia-se dar suporte a uma interação humana em que as pessoas quisessem chamar atenção de alguém sem necessariamente dizer porquê (uma lembrança.

podem trazer uma série de constatações sobre o modo de se avaliar/implementar e como realmente os usuários empregam/constroem/re-significam as metáforas. Uma coisa seria ver o texto e as imagens e analisá-los. 2010. Um primeiro momento de ação do usuário pode até ter como base o que é sugerido nos textos da interface. que só adquire sentido concreto no uso contínuo para as atividades pedagógicas). com usuários reais e em tarefas que lhes façam sentido (até porque em um primeiro momento professor e aluno podem até ter uma idéia inicial de como utilizar a interface. que é a ressaltada neste trabalho. . é a análise concreta de processos de metaforização em uso. S. B.metáfora em uso. Referências Bibliográficas BARBOSA. Finalmente. também precisamos de adequações e experimentações ao modo como o mundo tecnológico estreita suas relações com a linguagem humana. Além disso. resultados bem diferentes poderiam ser empregados. que incluem não apenas outras redes sociais como a importância de vários dispositivos. The handbook of human-machine interaction: a human-centered design approach. Novas formas de estudar estes fenômenos precisam ser abordadas em seus vários modus operandi dentro de sistemas sócio-colaborativos. Para estudos diferentes do aqui empregado. England-USA: Ashgate. Isso nos leva a considerar que estudos de IHC poderiam ser melhor aproveitados considerando a abordagem lingüística aqui tratada em conjunto com os estudos da computação.S.. Guy A. vale salientar que estudos da ação mediada pelo computador para comunicação humano-humano parecem constituir um lugar privilegiado para compreender o funcionamento da linguagem sob o aparato atual da tecnologia. Rio de Janeiro: CampusElsevier. Se não para fazer melhores projetos de interface ou avaliá-la. baseados em engenharia semiótica ou análises de enunciado. outra seria supor como o usuário iria se comunicar a partir do que é coletado textualmente como um produto na tela.J.D. Isso não quer dizer que esta é a melhor forma de pesquisar. mas não explica o efetivo papel da metáfora que decorre de processos interacionais concretos. mas que – para cada abordagem –. Interação Humano-Computador. ao menos para compreender o sentimento ou forma de aprendizado do usuário na sua interação com outros usuários mediados pelos recursos de interface. BOY. é fundamental que repensemos as metologias de pesquisa e a urgência de seu caráter interdisciplinar. tais como os que são representados pela computação móvel. Ainda uma outra orientação. Silva. 2011.

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