A economia ribeirinha e os tempos da natureza

Ana Rieper1
A história das atividades produtivas no baixo São Francisco é um espelho das formas de relação entre sociedade e natureza ao longo do tempo – não um espelho simétrico, objetivo, mas um espelho de impressões, em que as imagens se formam de maneira difusa, podendo ser reinterpretadas repetidas vezes.

A agricultura e a pesca, fundamentais para a economia da região e para a sobrevivência da população, têm características que não chegam a constituir uma exceção dentro do contexto brasileiro das populações ribeirinhas tradicionais. No entanto, possuem especificidades ligadas ao regime de cheias do rio São Francisco e à própria história de sua ocupação. As formas particulares como a agricultura, a pesca e o transporte fluvial se estruturaram na região, atuam na construção de um conjunto de valores em que o rio tem um papel fundamental na elaboração da cultura ribeirinha.

A existência da tradição naval característica do baixo São Francisco influenciou profundamente as formas de convivência com o rio e o modo de vida às suas margens. Os mestres carpinteiros da região e seus ajudantes construíram, ao longo de mais de um século, barcos absolutamente característicos desta região – as canoas de tolda e chatas – não existindo embarcações deste tipo em nenhum outro lugar do Brasil2.

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Ana Rieper é geógrafa, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema – UFS) e coordenadora do Projeto Memória do Baixo São Francisco. 2 Carlos Eduardo Ribeiro, projetista naval e coordenador do Projeto Canoa de Tolda, da Sociedade SócioAmbiental do Baixo São Francisco – Canoa de Tolda, é um profundo conhecedor das embarcações tradicionais do Brasil, tendo navegado todo o litoral do país por diversas vezes. Realiza, atualmente, pesquisa sobre as embarcações tradicionais do baixo São Francisco, apontando o caráter absolutamente original destes barcos na história da navegação no Brasil, em especial, na navegação fluvial.

A rotina das viagens pelo rio marcou a história de vida tanto dos pilotos de canoa e seus ajudantes, que viviam seu dia-a-dia literalmente “na veia do rio”, quanto da população que via nestes barcos uma marca de sua paisagem de valores e afetos, um pedaço de sua história.

Desta forma, a análise do desenvolvimento do cultivo de arroz, da pesca e do trabalho nas embarcações de transporte no baixo São Francisco busca compreender as bases materiais em que se construíram e se constróem permanentemente as formas de relação com a natureza criadas pela população e a importância destas atividades na elaboração de sua identidade.

2.1. Rizicultura de vazantes
O cultivo de arroz nas lagoas marginais do baixo São Francisco representa um marco na reprodução sócio-econômica e cultural dos moradores do lugar. Manoel Correia de Andrade, em seu livro “A Terra e o Homem no Nordeste”, afirma que “No baixo São Francisco, na jusante de Propriá, a principal cultura, aquela que dava maior renda e mais interessava aos proprietários era o arroz.” (Andrade, 1998, p.128), chamando a atenção para a alta produtividade das terras ribeirinhas do São Francisco. Apesar de o autor especificar sua análise na região a jusante de Propriá, o plantio de arroz de vazante teve grande importância nas margens de todo o baixo São Francisco, sendo este o cultivo predominante desde o início do século passado, pelo menos.

A cultura do arroz no baixo vale era associada ao regime de cheias do rio, baseando seu calendário no ciclo de vazantes e enchentes do São Francisco. Esta atividade representava um vínculo estreito do ribeirinho com o tempo da natureza, condicionando o calendário da produção (e com isso da sobrevivência, pois as atividades produtivas da população ribeirinha, em geral, estiveram sempre muito mais ligadas à subsistência que à acumulação) ao ciclo do rio.

os lameirões prontos para a semeadura. Além do cultivo nas praias. (D.. que observou que “Entre Penedo e Propriá a semeadura se procede em maio e o transplante vai sendo feito à proporção que as águas do rio vão baixando. o rio vazava direto. formavam-se as praias. mais próximo à foz. Esta argila servia de adubo e irrigação para a agricultura. aquela lama. Dona Cabocla comenta em seu depoimento este sistema de cultivo: A vazante é o seguinte: ali pra baixo daquela garoba. A colheita estende-se de setembro a dezembro.. tanto no sertão. ficava aquele lamerão. com depósito de sedimentos argilosos deixados pelo rio na cheia. “Começava a plantar no mês de abril pra maio. onde a produção era mais significativa.” (D. 130). quanto na região de Traipu/Gararu. A época do plantio acontecia quando as lagoas marginais estavam cheias. no relato do geógrafo Manoel Correia de Andrade. formava . Estela e também a montante da cidade de Penedo. e a gente cortava. Traipu-AL). Aquele arroz cacheava. aí de outubro pra novembro era os cortes. entre setembro e dezembro). no depoimento de Seu Romão. quando acabava ia mudar (refere-se à muda. e as terras mais altas não mais alagadas. onde era feito o plantio. fazia aquele canteiro. Estela. ia bater. conforme a fala de D.Segundo Seu Romão. havia também o plantio de arroz nas lagoas marginais. matéria orgânica trazida pelas águas do rio. aí cabou as cheia. A gente ia e plantava arroz era com a lama por aqui (aponta a altura dos joelhos). No depoimento de uma antiga agricultora. além da umidade que se conservava na lama. ou lagoas de arroz. Em janeiro o rio começava a baixar. botava dentro de casa. novembro. A gente semeava o arroz.. era o fim da época da cheia. Quando o rio enchia. botava num saco. Conforme seu curso atingia cotas de vazão mais baixas. p.” (Andrade. Observa-se uma coincidência entre as épocas de plantio (fim das cheias. Quando o rio começava a secar. pois possuía nutrientes naturais. aí a gente metia o pau a plantar”. entre fevereiro e abril) e colheita do arroz (fim da época de vazantes do rio. dezembro e janeiro. ou lameirão – faixas que acompanham as margens do rio. Bom Jardim. onde o arroz é arrancado e transplantado). Cabocla). que lavavam as margens nas enchentes. Outubro. op cit. “mês de outubro ele enchia.

aí aumentava a plantação. muitas vezes. quando foram introduzidas as trilhadeiras ou batedeiras para tirar a casca do arroz. aí uns iam sacudindo o arroz e os outros lameando o arroz. como também pelo afogamento da foz de pequenos tributários. cinco covas. porque é na lama. quando era pra plantar arroz lachado quem arrancava eram os homens. O sistema manual de produção e beneficiamento de arroz perdurou até a década de sessenta do século XX.” O depoimento de Dona Maria José.lagoas não só nas diversas depressões existentes às margens do baixo São Francisco. (Esta era a primeira etapa da produção. descreve detalhadamente o sistema utilizado tradicionalmente na rizicultura no baixo São Francisco: Primeiro fazia o canteiro. né. O batalhão era só de mulher. Então daquela touceira fazia três. com a construção de pequenas barragens na foz das lagoas para controlar a saída da água para o rio. significando tirar a casca. ou fechamento. ou a palha. cacheava. Daí ele ia crescendo. Sacudia o arroz e uma porção de gente fazia o canteiro. arrancavam a planta. porque as mulheres não podiam arrancar. com o plantio. Plantava feijão. os homens é que iam arrancar. botavam na lagoa e iam plantar. aí vai aquelas mulheres arrancar aquele arroz. A colheita é denominada de corte. conforme o relato de Seu Romão: “as praias que a gente diz é aqui onde a gente plantava. da mesma forma que nas “praias”. porque era muito pesado.. Aí a gente enchia de legume. Quando ele (o rio) vazava muito aí ficava aquelas praionas. né. O cultivo era feito no sistema de vazantes. substituindo o processo de batida a pau (Vargas 1999). Daí a denominação de bater o arroz. depois vamos cortar. depois quando ficava maduro. obrigados a vender a metade que lhes cabia ao dono da terra por preços muito abaixo dos praticados no mercado. Agora. arroz.) Depois que aquele arroz crescia. A gente chamava arroz lachado porque era uma touceirazinha assim. A produção de arroz no baixo São Francisco baseou-se na meação e no arrendamento de terras. quando era pra arrancar a planta. com condições precárias de vida. Bom. aquele batalhão de mulher arrancar o arroz. moradora de Bom Jardim. sobretudo na cultura do arroz. em que eram. quatro. Uns jogavam a semente manualmente e outros iam atrás cobrindo com lama. tava grandinho.. Vários estudiosos3 apontam para a exploração dos trabalhadores meeiros e arrendatários de terras na região. depois botava o cacho. aí elas iam. .

Isto era possível com a complementação de renda advinda da pesca na entresafra. pois não havia facilidade de crédito nem vendas à prestação. índio Xocó da Ilha de São Pedro.” Heleno relativiza a questão do plantio de arroz no sistema de vazantes no baixo São Francisco. garantiam o sustento de toda a família com peixe e arroz o ano todo. permitindo. expressas na maioria dos depoimentos cedidos nas entrevistas.Araújo (1961) comenta o processo perverso de endividamento eterno de trabalhadores arrendatários nos barracões das fazendas da região de Piaçabuçu. ele e a família andavam rotos e não iam às festas por vergonha de não terem uma roupa decente. No entanto. Barros (1983. “O pessoal plantava o arroz. enchia. tendo sido inclusive relatados por informantes que viveram na região há tempos atrás. Vargas (1999). ponderando as dificuldades que enfrentavam e também a tranqüilidade com que 3 Andrade (1998). Estes fatos não podem deixar de ser considerados. filme e histórias de vida trabalhados nesta pesquisa. que mais pessoas pudessem usufruir da mesma. . no entanto. Nas famílias dos pequenos proprietários. encontram-se associadas à “época do arroz” as idéias de fartura e solidariedade. mesmo aqueles que não possuíam terras. e o peixe. a terra era dividida até um limite inferior ao da subsistência familiar. e passava o verão todinho comendo aquele arroz. aí fazia um paiol muito grande dentro de casa. os patrões. aí dividia com os donos das lagoas. onde não eram proprietários e. A fala de Heleno. O sistema de meação dava oportunidade de trabalho para um grande número de pessoas. denunciando o estado de miséria em que viviam. com as paredes de taipa. quando era empregado nas terras de um grande proprietário na região de Propriá. indica a existência do regime de meação. ainda assim. os donos dos terrenos. 1985). Um dos entrevistados declarou não ter sido bom o tempo que passou.

Dona Zezé. percebem as relações de produção empreendidas na cultura de arroz no baixo São Francisco. no feijão. A vida era mais fácil.. né”. por outro lado. do povoado de Mato da Onça. Por todo canto era tudo cheio de arroz nessas vazantes. Segundo ele.”5 Seu Romão afirma que plantavam arroz para comer. Era cheio de arroz. A alimentação era baseada no arroz. era uma maravilha. arroz e feijão é hoje motivo de indignação entre a população do baixo São Francisco. município de Porto da Folha6. “Todo mundo plantava e todo mundo tinha. No entanto. nas vazante aqui até. pois associam a tranqüilidade e a fartura à certeza que tinham de que a natureza proveria os recursos necessários à sobrevivência e à reprodução familiar. Depois de refletir sobre a forma injusta com que era feita a divisão do arroz com os patrões e os peixes capturados nas lagoas de arroz4. 5 A idealização do passado. O fato de precisarem comprar peixe. beber. é uma característica que pode ser notada em algumas passagens. conclui se perguntando por que eram mais felizes naquela época. nesse tempo lá. Dona Cabocla. ave Maria. feijão de corda. É interessante notar 4 O arroz era dividido em meação e o peixe em terça.a vida corria.. acredita que no tempo passado a vida era mais fácil porque não faltava o que comer. índia Xocó da Ilha de São Pedro. a gente plantava arroz. em que o dono sempre tirava mais que o devido. . ou seja. locomover-se. através de suas memórias. antigos rizicultores. a veracidade comprovada dos fatos objetivos. A força de trabalho era suficiente para a satisfação das necessidades de comer. Alguns trechos de depoimentos deixam clara a forma como os moradores da região. no peixe e na farinha de mandioca. cuja obtenção não dependia de dinheiro. que nem sempre foi tão fácil e farto quanto o relato dos depoimentos. duas partes para o dono e uma para o agricultorpescador. indicando que o excedente não existia para o meeiro ou arrendatário. e sim entender de que forma o espaço preenche a afetividade e a intimidade destas pessoas. recorda-se: “De um tempo atrás. milho que ninguém ligava. não representa uma meta neste trabalho. A gente vivia mais tranqüilo. segundo Heleno.

Segundo Seu Hamilton do povoado de Bom Jardim. Ainda assim. isso era uma lagoa. Hoje nestes projetos os agricultores são pequenos proprietários – antes eram meeiros ou arrendatários –.” Na cidade de Propriá pude conversar informalmente com alguns agricultores que trabalham nos perímetros irrigados da Codevasf os quais também se reportaram à fartura e ao “tempo bom”. ó. . O batalhão do arroz era uma prática ligada àquele tipo de cultivo de arroz que sintetizava uma série de pressupostos culturais. quando havia arroz de vazante. A colheita do arroz. “daqueles milhos lá no fundo. até aí. Esta palavra surge diversas vezes nos depoimentos da maioria dos entrevistados. nas palavras de um integrante do grupo Xocó. mas desestruturou as condições materiais que eram a base das representações de seu universo simbólico. O modo de vida associado às cheias do rio é constantemente representado pelos ribeirinhos através da noção de fartura.que a situação dos índios Xocó atualmente é mais confortável que há vinte anos. ver Mata (1989). nem o conforto de uma vida farta de “classe média rural”. A noção de que viviam mais felizes e com mais fartura no passado reporta à importância da tradição para esta população. dava o peixe. dispõem de linhas de crédito e insumos para produzir. A técnica avançada não trouxe “tranqüilidade” para os produtores. quando brigavam por suas terras e tinham que viver acampados sob a mira dos fazendeiros. muitos índios recordam-se do tempo das cheias como uma época “mais fácil” de suas vidas. em que se formavam os batalhões. quando dependiam do rio para a sobrevivência e “viviam libertos”. Isso aí enchia. aqui todo mundo tinha a barriga cheia. o pessoal plantava o arroz. em que a solidariedade entre os 6 Sobre a integração dos índios Xocó e Kariri-Xocó na sociedade “branca” do baixo São Francisco. era um ritual de afirmação do espírito de comunidade. ainda que seja discutível a eficácia deste sistema.

de trabalhar na roça. a partir do ciclo anual do rio. com a roupa cheia de lama mesmo. metia a sanfona e dançava até nove. Esta forma de produzir tem um valor simbólico importante na história de vida dos ribeirinhos. pro dono da terra. tudo molhado. Só quando tava no meio d’água. aquelas saionas pra poder se abaixar. Estela. né. aí amanhã era na sua terra. Vinha embora. terminava de cortar. aí ia. Batia. E daqui ia pras casas. Tinha verso de Lampião. Na colheita. no outro dia era a minha. Aí ficava aqui os homens. festivo e de celebração. aí começava a cantar. Na terra de uma pessoa. Por exemplo. (Seu Hamilton).agricultores era celebrada com trabalho em mutirão. com água assim no peito. divisão da colheita e festas. enfatizando o aspecto ritual. Dona Estela explica como funcionava o batalhão: Juntava aquela ruma de gente. que era duro e as mulher não podia. aí ia. aí ia. molhado. e os chapelões de palha. O significado do plantio de arroz para estas comunidades vai muito além da esfera econômica. verso do tamanho da peste que eles inventavam. ei ei ei ei ei ei ei. arrancando o arroz. dez horas da noite. e passava o dia todinho cortando o arroz. mesmo que não exista mais há cerca de trinta anos. ajudar o dela. saco de açúcar. tudo sujo assim mesmo. Seu Hamilton descreve o evento. daqui a pouco era gente bebo era mulher era moço era menino era velho era a peste. Era divertido. Esta festa de comunhão e solidariedade é viva na memória de muitas pessoas. né. né. de pescar. . depois dividia para a comunidade toda. (D. enfeitava tipo reisado. Aí colocava aquelas rouponas que fazia de saco. enquanto tava bom. O batalhão do arroz existia em todo o baixo São Francisco. Quando não agüentava trazia pra fora. o calendário da região – as épocas de construir. povoado de Bom Jardim). quem houvesse perdido sua safra ou deixado de produzir por algum motivo participava do batalhão e recebia dos demais uma parcela de arroz suficiente para a alimentação da família. estabelecendo também formas próprias de relacionamento com a natureza. O arroz de vazantes referenciava. pois fazia parte da estruturação de um modo de vida em que o sentido de comunidade e a solidariedade eram fundamentais. Aí cantava aquela ruma de gente assim. hoje é o fechamento. a falar verso lá.

No caso dos ribeirinhos do baixo São Francisco. ou para as cidades ribeirinhas que têm função de capitais regionais. que dispõem de maior autonomia por possuírem embarcações a motor próprias e pescadores embarcados e armadores que atuam na pesca comercial de maior escala. A venda do excedente varia de acordo com a quantidade pescada e com a ocupação principal do pescador. A atividade da pesca é algumas vezes combinada com a agricultura e/ou pecuária extensiva no baixo São Francisco. independente de qual fossem suas atividades principais. em maior parte. A grande maioria dos homens do baixo São Francisco pescava. aplica-se a classificação de pescadores-lavradores por exercerem ambas atividades consorciadas. No entanto. não só como fonte de alimento mas também como atividade profundamente envolvida nas formas da população criar seu sistema de valores a partir da convivência com o rio. em que a combinação entre agricultura e pesca é freqüente entre as populações ribeirinhas (Diegues. Encontra-se na região pescadores-lavradores7. No baixo São Francisco esta atividade é caracterizada pelo aspecto artesanal e tradicional das formas de captura. . sendo vendido o excedente nas cidades e povoados próximos ao local de moradia do pescador. 1983). 7 Diegues (1983) aponta a existência de três grupos de pescadores do mar no litoral norte de São Paulo. geralmente pescadores de praia. também encontrados na maior parte da costa brasileira: pescadores-lavradores. podendo também o ribeirinho dedicar-se exclusivamente à pesca. Nesse sentido. pescadores artesanais.2. tem grande representatividade. que combinam a pesca artesanal em botes a vela e a remo à pequena agricultura familiar e também pescadores que consorciam a atividade da pesca com a criação de gado. que associam a pesca à atividade agrícola em pequenos lotes de terra. Pesca artesanal A sobrevivência dos beiradeiros do baixo São Francisco baseia-se na interatividade com o meio natural. o baixo São Francisco não é uma exceção no contexto brasileiro. sendo uma atividade que influencia as relações entre o homem e a natureza. para o consumo próprio. A pesca.2. O pescado é destinado.

roncaria. covos. atividade produtiva da região. onde o peixe ficava preso quando se fechavam suas comportas para a retenção da água. não sendo . colheita e processamento do cereal. senão a mais importante. Ramos (1999) considera os níveis tecnológicos utilizados pelos pescadores do baixo São Francisco. linha de vara. manjuba de cará. A pesca é praticada de maneira artesanal. pescaria de lanço. maior grau de autonomia. facho. Seus efeitos no baixo São Francisco ocorrem na década de 70. Com a extinção das lagoas marginais pela alteração no regime hidrológico do rio São Francisco. quando a mão de obra era liberada. a pesca nestas lagoas deixou de existir. 9 Silva et al. com uso de técnicas tradicionais9. dedicavam-se à pesca. o cultivo de arroz era a mais vultosa. No caso dos pescadores dedicados exclusivamente a esta atividade é mais comum que haja excedente e que este seja comercializado. a fonte de proteínas mais constante e segura. por vezes. e no leito do rio. praticamente inexistindo fonte de renda para estes trabalhadores. quando as águas do rio foram definitivamente regularizadas no baixo São Francisco pela represa de Sobradinho8. A regularização foi planejada na década de 50 com a proposta de construção de uma série de barragens e alcançada nos anos 70 do séc. em pequenos botes. região de Piaçabuçu – AL: rede de travessia. na medida em que o pescado sempre foi abundante (hoje não é mais) e as técnicas artesanais de captura acessíveis a todos. transplante. Havia duas modalidades de pesca – nas lagoas de arroz. vender o excedente. pescaria de baque. jereré redondo. groseira. em pequena escala. Nas entressafras.Até a década de setenta. batim. para a população ribeirinha do baixo São Francisco. (1990) fazem um inventário dos tipos de pesca praticados na Várzea da Marituba. XX. todo o calendário baseava-se nas épocas de plantio. manjuba de piau ou pescaria de manjuba. com a construção de Sobradinho. tarrafas e redes de arrasto. portanto. mas nas entressafras a atividade se intensificava pela necessidade maior de obtenção de renda. cuvu. a categoria de pescadores artesanais também se aplica devido à utilização de embarcações próprias e. O peixe representa. com o objetivo inicial de garantir o alimento para a família e. A pesca realizava-se durante todo o ano para o consumo próprio. 8 A regularização do rio São Francisco inicia-se no final dos anos 50 e início dos 60 do século XX. linha de mão. como sendo adaptados às condições hidrológicas do rio e à piscosidade. bóia. Conforme foi exposto anteriormente.

o café. passando noites a fio sem dormir. a acerola.. Porque o cara que é pescador. Seja o peixe. A facilidade de se pescar. ele dizia – olha. às vezes vinha dois. mas é comum tomar emprestado o bote de um amigo ou parente. Era assim. o sabão.. chegava vinha cheio. permite que os pescadores saiam para a pesca em função de sua necessidade e disponibilidade. 82 anos. mostra em seu depoimento a segurança que representava saber que o alimento não faltaria em hipótese alguma. ele ia pescar. era peixe que era uma beleza.. né. sempre em pequenos botes próprios ou pertencentes a um compadre ou companheiro de pesca. Também no universo da pesca a fartura é destacada como uma noção ligada ao passado. ou então sair acompanhando um companheiro que seja dono de uma pequena embarcação) e a ausência ou flexibilidade de relações hierárquicas que os obrigue a transações comerciais pré-estabelecidas. que viveu a vida toda na cidade ribeirinha de Traipu – AL: A gente ia pescar. Preenchem as normas das autoridades constituídas para tal e. do povoado de Bom Jardim. mulher. pra vender que dava pra comprar o açúcar. nesse rio. o prazer de presentear um amigo ou visitante exprime fortemente a solidariedade que perpassa as relações entre as pessoas. pela abundância de peixes no rio. desde que se dispusesse de artefatos mínimos para a pesca. dizia tire aí. a macaxeira.10 Outra noção fundamental para a compreensão do valor da pesca na organização da vida social e afetiva dos homens ribeirinhos é a de autonomia. eu vou ali. Quando vinha trazia peixe pra comer. agora.Seu Hamilton. A dádiva é ainda hoje uma característica que chama a atenção na convivência da beira do rio. é ressaltada por Seu Joviano. leve. tire aí. não são os responsáveis pelo decréscimo de peixes. o feijão. seis peixes. Isto não significa dizer que a vida de pescador seja uma vida “descansada” – eles saem para pescar todos os dias e o trabalho é muito duro. No inverno ficam molhados de chuva e com frio. voltava que já tinha peixe que dava pra uns dez ou doze comer. Chegava até ali. portanto.. que ele tinha o arroz. ver Mauss (1974). Por exemplo. o umbu ou o milho. o rio enchia. põe o arroz no fogo. 10 Sobre a dádiva como um sistema de trocas nas sociedades arcaicas. O fácil acesso às canoas (nem todos possuem uma. três. cinco. rudimentares ou primitivos. A autonomia caracteriza a maneira como a pesca se realiza no baixo São Francisco. o remédio e a roupa dos filhos. pescador. Vinha nos covo. . O presente cria um vínculo entre que doa e quem recebe.

associando este ciclo às épocas do ano em que as águas do rio estavam barrentas – nas cheias do rio – ou claras.51) . No mês de abril. classificando seres e eventos. Deu fome. aí ele fica cego. o brejeiro aí insere-se também cognitivamente.” A autonomia e a liberdade são faces da vida pelas quais os ribeirinhos justificam o prazer de viver na beira do rio. observando seu comportamento nas diferentes estações. aí o peixe já tá desse tamanho. têm do ecossistema complexo em que vivem e de que vivem. É peixe. Fica uma pelezinha amarela na menina do olho dele. Propriá). sem dever nada a ninguém. na Serra da Canastra).” (Marques. Os cardume de peixe vai pras pedra tudo esperar a água barrenta até ele ficar cego. dentro deste modo de vida. convivendo e interagindo intensamente com o ambiente natural. p. morador de Propriá. É interessante notar no depoimento deste antigo pescador o profundo conhecimento das relações ecológicas em que estão inseridas as fases de reprodução do peixe nas diversas estações do ano.” (Seu João. pega o bote. pega um peixe pra comer e volta. ele clareia a vista. o ribeirinho pescador desenvolve um grande conhecimento do ecossistema do rio. tem aquele tempo que as Canastra soberba. Sua explicação envolve interações entre aspectos físicos do meio ambiente. sem sedimentos em suspensão. como o comportamento das “peixas” nas diferentes fases. aí ele fica choco. no mês de São João pra Santana. e biológicos. Aí vai pras pedras.11 Seu João. Por estarem em contato diário com as águas do rio com a fauna aquática. fica choco. a soberba na Canastra (época de chuvas abundantes nas nascentes do rio. 1995. quando é assim ela gosta daquela água. aí o peixe choqueia. pra quando a água barrenta chegar. vai e volta a hora que quer. Aí é aquela safra esquisita. maio. É peixe que não tem como nunca se acabar. descritos por ele detalhadamente. como a composição das águas.A vida de pescador é considerada por eles como “uma vida liberta. Aí ela solta a ova. começa a ver. O peixe tem duas classes. distribuindo-os no tempo e no espaço e até descrevendo os intrincados caminhos pelos quais a energia flui através de cadeias tróficas. é. ex-pescador. 11 José Geraldo Marques aponta o conhecimento profundo que os brejeiros da Várzea da Marituba. é a soberba lá. Quando ele cega. que aí o peixe adivinha. “Além de inserir-se comportamentalmente na complexa rede de um ecossistema dulciaquático influenciável pelas marés. próxima à foz do rio. quando a água pega a clarear. agosto. descreve o sistema de reprodução do peixe. peixe. aí desova. sabe.

A entrada em cena dos atravessadores não foi. (risos) Naquele tempo na minha idade de vinte anos não tinha a quem vender peixe. A mudança ocorrida com a introdução desta figura na organização social da pesca é relatada por um pescador: A gente ia pescar. e o peixe fica sempre por baixo da água. O fim do regime de cheias trouxe um quadro de desequilíbrio ecológico que se agrava cada vez mais com o passar dos anos. A pesca já foi considerada na região como uma atividade relativamente bem remunerada. vambora.. Ia lá e vendia. não se formam mais. juntava dois ou três. fazendo com que gerações de pescadores se sucedessem com a transmissão de um conhecimento oral. os atravessadores. dois. A gente salgava o peixe. A banca era ali naquela casa ali onde tem os meninos encostado nela. existem atualmente comerciantes que compram o peixe diretamente nos barcos de pesca. vambora. vambora. (Seu Joviano. E a água fica muito limpa. As lagoas marginais. o rio enchia. a única transformação no universo da pesca no baixo São Francisco nas últimas décadas.. vamo sembora. (Heleno. atribuindo aos animais características humanas. Ilha de São Pedro). A água criou um mato que a gente chama de golfo. não tinha cambista. Mas deve-se notar que em grande parte das localidades inexistem atravessadores e o pescado destina-se ao consumo próprio. que não deixa o chumbo das tarrafas chegar no chão. infelizmente. que naquele tempo não tinha cambista. A importância das cheias é analisada por um pescador: O rio não enche mais. não tinha a quem vender. As barragens impedem a passagem dos nutrientes presentes nos sedimentos em suspensão. Quanto à venda do pescado. Aí passava um dia. . Traipu). Este fato diz muito sobre o patamar de igualdade em que o homem ribeirinho se coloca diante da natureza. Mas hoje tá bem difícil. como são chamadas as fêmeas). alterando o ciclo de reprodução dos peixes. aí todo mundo era pescador. contribuindo também para a extinção de algumas espécies de peixes e escassez do pescado em geral. com pequenos excedentes. a água ficava suja. não tinha ninguém. Isto lhes permitia entender a natureza e atuar junto com seu ritmo de reprodução. fica por cima. consideradas “berçários naturais” da fauna aquática por representarem o local natural de desova dos peixes (ou “peixas”. exercendo a pesca de forma adaptada e não-predatória ao longo de séculos.As vontades e gostos dos peixes são considerados por Seu João como elementos definitivos para sua existência e reprodução. quando o povo vinha do centro aí vendia.

. porque o bicho é do jeito de um sapo. exigindo a busca de outras alternativas de subsistência. não era dois três. pescando. comadre. em menor escala. uma época em que havia esperança e segurança no seu papel enquanto patriarca da prole. pra calçar. não ia comer sapo. pra farrear. (Ramos. O passado do pescador aparece como um momento de saudosismo. Muitos ribeirinhos dizem que para comer peixe hoje no baixo São Francisco tem que comprar. a pesca no baixo São Francisco. acabou-se as coisa boa todinha. 45 anos. Hoje não consegue comprar niquim na banca. quando aparece um já tem as pessoas certas pra vender né. Gilberto. Hoje.. Aí dava pra você vestir. Bastinho. 1999). Que todo o dia você vivia liberto. quando tem um já tá encomendado. E aí os niquins na rede só. pegou sua tarrafa. andamo com eles. A pesca entra na vida dos homens do baixo São Francisco como uma atividade familiar e constitui-se em um saber oral. Seu Joviano vê a desestruturação da atividade da pesca no rio como a desintegração de todas as coisas boas pertencentes a seu universo: Naquele tempo se pegava niquim. p. andando com ele em uma canoa. uma triste realidade para grande parte de uma população ribeirinha em que “todo mundo era pescador”.. Era dez. sua rede. não sabia pescar. Tanto eu como meus irmãos. é difícil. . não. Mas antes sobrava. hoje não existe mais peixe no São Francisco. inquestionavelmente. Não tinha emprego igual. E hoje não dá pra nada. cada um usa sua canoinha. é parte do patrimônio cultural herdado das gerações passadas e transmitido pela oralidade e pela experiência do cotidiano. pra comer. pra tudo. E eu aprendi já posso dizer com ele. não quer ver seus filhos na vida da pesca. Os pescadores iniciavam-se na pesca ainda crianças. como grande parte dos pescadores do baixo São Francisco.. Esta é. representa um fracasso pessoal. a gente que tá aqui sabe que de pesca tá acabado. Não tinha quem comesse.” (Silva. Aquilo sim era coisa boa. 43 anos. aprendemo a remar. Assim.. conta que começou a pescar com 8 anos de idade. presidente da Colônia de Pesca de Traipu. aí dava...Segundo Veralúcia Ramos.. passado de pai para filho. 1998. de atividade principal passa a secundária. que tempo bom. Este aprendizado “. ele pescava. Entretanto. Olha. porque o rio. Não tem mais coisa boa no mundo não. doze niquins.. .. Meu pai realmente me criou pescando. a pesca tradicional ainda subsiste. por não conseguir manter o papel do provedor familiar. né. Hoje só existe peixe de viveiro. que todo dia você saía e pegava. ele e mais outro parceiro. do povoado de Mato da Onça fala da forma pela qual aprendeu a pescar junto com seus familiares: Aí a gente foi trabalhar por conta da gente.48). Se fosse como era há alguns anos atrás. apesar de dominar os segredos da profissão. que tinha muito peixe demais.

. “Eu fui pescar uma vez. seja para a comercialização em pequena escala. em seu estudo sobre os pescadores de Amparo do São Francisco. discute a rotina da pesca no lugar. 45 anos. confeccionados manualmente. o surubim veio. 24 quilos. mas da agricultura. tem a lembrança de uma pesca que não existe mais. para capturar peixes de tamanhos diversos. A participação das mulheres na pesca se dá de forma indireta. Apresentam uma estrutura cônica em seu interior. As modalidades mais comuns são a pesca com a rede. Os recursos para aquisição e manutenção dos equipamentos de trabalho muitas vezes não vem da pesca. seja para o consumo próprio. é feita pelos pescadores durante o dia. Mas ainda pescam. Quando havia fartura de peixe no rio. que deixam no fundo do rio durante a noite para recolher no dia seguinte. a pesca ainda é uma atividade que garante a subsistência de grande número de pessoas. pesquei só um peixezinho de 24 quilos. um surubim. e o peixe. com uma abertura na parte mais estreita.” Seu Hamilton. A manutenção de redes e botes. fala da participação das mulheres na pesca e da abundância de peixes que existia: 12 Nas bancas de peixe de cidades com tradição de pesca. uma espécie de armadilha confeccionada na região13. rasgada. Na banca de peixe de Pão de Açúcar todos os peixes vendidos são pescados na região (esta constatação que se faz hoje como uma comemoração. apontando a desilusão dos pescadores pela degradação ambiental que está acabando com o peixe. Ele é depositado no leito do rio e recolhido dias depois. 13 Os covos são artefatos de pesca feitos de cipó.Ramos (1999). pescam a noite toda e retornam no dia seguinte pela manhã ou à tarde. de forma cilíndrica. pitus ou camarões do rio. Em toda a região a montante de Pão de Açúcar.12 Os trabalhadores do rio geralmente saem para a pesca nas pequenas canoas no fim da tarde. sendo elas que confeccionam as redes. onde é maior a circulação de dinheiro. por onde o peixe entra e não consegue mais sair. pareceria óbvia e redundante em tempos passados). algumas pescavam na beira do rio para a alimentação da família. e a pesca com o covo. vende-se peixe congelado importado da Argentina. como Traipu e Propriá. Dona Elina. moradora do povoado de Bom Jardim. Existem diferentes tipos de covo. Uma redinha velha.

São estas. pegava com uma panela de barro. estudos e relatos que tratam do baixo São Francisco análises da economia e do modo de vida da população ribeirinha a partir das atividades da rizicultura. O arroz foi a atividade econômica mais intensa. pelo menos. geralmente estes últimos pressionavam os trabalhadores para trocar os peixes grandes e mais nobres por uma quantidade maior de peixes menores. tendo participado de forma fundamental no impulsionamento da economia regional até a década de setenta. “As canoas são a tradição do São Francisco” É comum encontrar nos trabalhos. historicamente. com a água. era ou não era? Tô mentindo? Era! Tampava e botava pra fora.Na minha época de moleque a minha mãe. a vida no lugar.. menos valiosos.. .) a mãe de família pra dar de comer moqueca14 aos meninos. A pesca sempre foi uma das mais importantes fontes de alimentos e atuou profundamente nas formas de estruturação da relação sociedade/natureza. menção ao trabalho nas embarcações de transporte de carga e passageiros. 2. E hoje a senhora não vê nenhuma piaba no beiço d’água. a piaba entrava. É raro encontrar. Na divisão dos peixes das lagoas marginais entre os parceiros e os patrões. Esta mudança representa o desaparecimento de um saber oral tradicional que acompanha os ribeirinhos do baixo São Francisco há. Esta atividade ocupou um grande número de pessoas no baixo São Francisco. com o rio. que empregava a maior parte da mão de obra. (. Representa também uma ruptura da relação de convivência com a natureza. 14 O prato conhecido por moqueca no baixo São Francisco é uma peixada feita com diversos tipos de peixes pequenos cozidos na mesma panela. sendo presença constante na memória da população ribeirinha. Botava a farinha dentro. da pesca e da policultura de alimentos. de fato.3. dois séculos. no entanto. A policultura de alimentos completava a alimentação da população local e movimentava as feiras livres da região. Era só botar no fogo. questões de grande relevância para a compreensão da forma como se estruturou.

que era o comandante da embarcação. sendo que o piloto e os ajudantes ganhavam por viagem. é um grande patrimônio da região e do Brasil. nos principais portos a estiva. dependendo do porte da embarcação. pois constituía um saber transmitido oralmente pelos mestres carpinteiros. As pessoas que confeccionavam as velas. encontra-se em grande parte das famílias ribeirinhas pessoas que trabalharam embarcadas no baixo São Francisco. Os ribeirinhos sabem facilmente identificar quem foi o mestre que fez uma embarcação pelas formas da proa. tendo grande autonomia inclusive na negociação de cargas e preços. Em cada barco trabalhavam seu dono. a cordoaria e a parte de carpintaria – todas atividades especializadas e artesanais – estão muito velhas ou já morreram. pau d’arco para os mastros e cedro para o costado. Não existem informações sistematizadas sobre o tipo de construção destes barcos. Este saber tradicional existente unicamente na memória dos mestres carpinteiros. Cada mestre carpinteiro tinha a sua nuance. Grande parte dos carpinteiros navais em atividade hoje no baixo São Francisco. ou até mais. um ou dois ajudantes. que. mais novos. o piloto. não dispensam a energia elétrica em suas atividades profissionais. e está prestes a se perder. Quando utiliza-se plainas e lixadeiras elétricas na confecção dos barcos perde-se o traço característico de cada . Havia. As canoas de tolda desapareceram do baixo São Francisco. pois se tornaram obsoletas frente às modernas estradas e caminhões. o seu estilo. formato do casco. carregadas de mercadorias produzidas na região significava que havia muita gente trabalhando em sua produção e também consumindo aquilo que estava sendo transportado. em geral.O intenso tráfego de canoas. além disso. onde recebiam por saco embarcado ou desembarcado. receber o dinheiro e manter a canoa. não embarcava nas viagens. e guardado a sete chaves como um segredo de família. e. desenho da popa. a madeira para sua construção ou não existe mais ou é encontrada a preços que inviabilizam a obra – braúna para as cavernas. também. as ferragens. A absorção de mão de obra para o trabalho nos barcos era significativa. desempenhando mais a tarefa de fiscalizar o trabalho.

Os barcos eram e ainda são construídos embaixo de palhoças feitas especialmente para cada construção. peixe seco. no alto sertão. atualmente. 200. No povoado de Ilha do Ferro existe até hoje uma craibeira cuja sombra tem sido um dos estaleiros mais tradicionais da região. O tamanho dos barcos era medido por sua capacidade..um e as peças ficam retas e “perfeitas”. etc. Era um fator muito forte de integração do baixo São Francisco. foi reformada na craibeira da Ilha do Ferro. que podiam ser levados por cada canoa definia seu porte. antiga canoa de tolda e. uma vez que certas curvas e certas distorções da madeira só podem ser realizadas com o machado. 800. cobria uma área grande. última lancha de passageiros a fazer linha de longo curso entre Propriá e Pão de Açúcar. A maior canoa de tolda que já existiu no baixo São Francisco foi a Igarité. na foz. não se limitando a algumas cidades. mas também na qualidade dos barcos. 1000 sacos. ao contrário da maioria dos rios brasileiros. milho. feijão. pela quantidade de carga que era capaz de transportar. não havia estaleiros fixos. de 1200 sacos. até as grandes canoas de tolda de 600. e em Piranhas. É importante observar que esta mudança não implica apenas em questões de ordem visual. Cada saco pesava sessenta quilos. Atualmente mestre Nivaldo está construindo uma lancha no lugar. arroz. e tem a tradição de construção e navegação em barcos tradicionais em toda a região. madeira. A lancha Oriente. ou seja. . O número de sacos de carvão. 300 sacos. Pode-se dizer que esta é uma tradição de todo o baixo São Francisco – que está se perdendo. existiam canoas menores de 150. cal. Por ela passaram diversos carpinteiros que construíram muitos dos mais conhecidos barcos do baixo São Francisco. Assim. Este trecho do rio tem muito vento. O baixo São Francisco destaca-se dentro do Brasil pela existência de navegação fluvial a vela com barcos de grande porte percorrendo longas distâncias. Os mestres iam aonde o trabalho estava. Construía-se e andava-se em canoas de tolda em Piaçabuçu. Antes as canoas eram o único meio de transporte coletivo do lugar. nos portos onde ficariam as futuras canoas.

da chuva e do estio que a sociedade local estruturava seu calendário. Havia também as canoas que transportavam apenas passageiros.) era percebido como uma reprodução do passado. Na viagem rio abaixo. tendo como referência o ciclo sazonal do rio São Francisco. um terrível acidente. pois senão poderia até quebrar o mastro da canoa.. domingo em Pão de Açúcar e na segunda-feira descansavam para voltar a Piranhas na terça para a viagem do dia seguinte. carregadas principalmente de lenha para as fábricas de arroz e tecido de Penedo. majoritariamente carregadas de arroz. A própria concepção de estabilidade estava circunstanciada à percepção do tempo. mas a noção de tempo e a distribuição do espaço social. pois dependiam do vento: tinham que encostar na margem quando o vento parava ou quando era época de “trevoada”. antes de mais nada. que tornavam a viagem perigosa. O tempo não era.. marcada pelo modo como o rio era visto e entendido. a correnteza ajudava a empurrar o barco. o verão. Era em torno das enchentes e vazantes do rio.O percurso das canoas era de Piaçabuçu até Piranhas. Saíam sexta-feira de Piaçabuçu. com ventos fortes e chuva. Nem sempre esta rotina podia ser seguida à risca.218) Uma moradora da cidade ribeirinha de Belomonte – AL. (Mata. pois nele também haveria o rio e suas diversas faces significativas. a forma como a sociedade estruturava a contagem do mesmo. pois. a chuva. p. Este organizava não apenas o ciclo agrícola. contra o vento. distantes uma da outra cerca de 300 quilômetros pelo rio. comentava sobre a sazonalidade das atividades produtivas. Propriá. Havia o dia certo da passagem das canoas em cada localidade. provavelmente em função dos dias de feira. em estudo que realizou sobre a reconquista da terra e da identidade dos índios Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio. um dos mais experientes pilotos de canoa de tolda do baixo São Francisco. estabelecidas a partir do movimento do rio. 1989. Desta forma de apreender o fluxo das estações decorriam as estruturas simbólicas que caracterizavam este tempo e ordenavam as relações interpessoais. sem o corte em algum formato específico.. em função do tipo de carga que as embarcações transportavam pelo rio: . mas. Na quarta-feira saíam de Piranhas. o piloto tinha que ter sabedoria para parar na hora certa. O futuro (. Neópolis. no sábado chegavam a Propriá.. Este tipo de lenha é chamado de tonelada e constitui-se de galhos de árvores diversas em estado bruto. analisa a importância das relações temporais nas populações ribeirinhas do baixo São Francisco. Vera Lúcia Calheiros Mata. Segundo Seu Abel. meramente o ciclo anual que se repete.

. pp. O tempo de carregar cal é depois da safra. funcionalidade) isto é. ou então. por uma razão julgada justa. que são as chuvas de verão. mudam os processos que asseguram a incidência do acontecer. A espera pela permissão das forças da natureza era considerada normal e até mesmo prazerosa. No inverno tava (referindo-se ao passado. em época de trovoada. é definida por sua temporalidade. quando o povo tá com um dinheirinho a mais. Por exemplo. Se o dono ou algum passageiro tem que resolver algum problema na cidade antes de viajar. “Ai quando as canoas paravam. sem que isto seja considerado anormal. e muda a função das coisas. (. A cada momento muda o valor da totalidade (quantidade. Neste depoimento observa-se o processo de valorização de um evento. que 15 A cal era utilizada na região para a construção e reforma de casas. No entanto. a lancha não sai.” (Santos. pode-se esperar por horas seguidas após a hora marcada. importante. o transporte de cal. Não dá pra querer fazer uma coisa quando não é o tempo certo15. botava aquele feijão no fogo. esperar pelo tempo bom para viajar. seu valor específico. Há uma cumplicidade entre os que esperam (na lancha ou na canoa) e os esperados. por exemplo. a saída das lanchas de transporte de passageiros tem horário marcado. isto é. diz uma professora de Belomonte – AL. geralmente realizadas nas épocas em que circulava mais dinheiro ou mercadorias. quando havia cheia no rio) todo mundo trabalhando na sua roça. afirmando que seu valor (dos objetos) enquanto dado social vem de sua existência relacional que.. Possivelmente esta é uma herança do tempo em que o transporte na região era feito por barcos a vela. 16 “A idéia de tempo é inseparável da idéia dos objetos e de seu valor. pois os papéis podem ser invertidos nas próximas viagens. Milton Santos (1996) teoriza sobre o tempo como intérprete da realidade dos objetos. 1996.16 No baixo São Francisco o tempo do relógio não governa o momento em que as coisas acontecem.Há um tempo para cada coisa.125-126). . Você não sabe como era gostoso aquele feijão de canoa”. todos esperam. não é cobrado pelas pessoas que vivem no lugar que sejam seguidos os horários previamente estabelecidos. era bom demais. dentro de uma ordem social em função do tempo. ou melhor. Se falta alguém. em que tinham que esperar pelo vento para seguir viagem. após a safra. Às vezes o barco tinha que encostar na margem para esperar o vento ficar mais forte. por sua vez.) É o instante que valoriza diferentemente os objetos. ou passível de provocar insatisfação. qualidade.

Romário. ou melhor. a entes da natureza – Filha da Floresta. Igarité. Tinha feijão. Pirapora. Vai Andando. O lirismo dos nomes das grandes canoas de tolda e chatas foi desaparecendo do imaginário da beira do rio. Paraíba.andou em canoas de tolda desde criança com o pai e o irmão. né. em tempo de trevoada. Laços de Família. Baianinha. Alguns exemplos de nomes de botes: SBT. . Paladina. Nova Iorque. Luís Carlos diz que não faltava nada nas viagens e o povo gostava. Sumatra. Diplomata. Rio Claro. sem vento. Jamaica e Maravilhosa. tinha onde dormir. Oriente. ligadas ao mundo da televisão e do computador. Itabajara. Os nomes reportam a lugares distantes. é um processo ainda em curso. ainda que tenha se iniciado há décadas. A história das embarcações do rio nos conta que a mudança que mexe com a memória e as referências dos ribeirinhos é recente. Os nomes das canoas dizem muito sobre o imaginário das pessoas que tinham suas vidas ligadas a estes barcos. Teve uma vez que nós passemo lá de fofoca quinze dias amarrado no porto do Curralinho. Mantiqueira. Segundo Seu Romão. a planetas distantes – Júpiter. É um momento de transição e de ruptura muito decisivo. CNT. Seresta. Canindé. Luzitânia. nos nomes dos botes de pesca mais recentemente construídos. Excel. Elias Júnior. pra ir pra Piranhas. Amaralina. Cruzeiro do Sul. Júpiter. Aviadora. O que existia não acabou de vez – mas está acabando. Nova Brasília. então não precisava de mais nada. Diz que a mãe a mandava para “vigiar” o pai em suas viagens. com a vida útil muito mais curta que a de uma antiga canoa de tolda. Filha da Floresta. Rio Solimões. As canoas de tolda citadas nos depoimentos são Marialva. Dava aquele mormaço. Candelária. como Paladina que é a defensora dos oprimidos. a atitudes heróicas grandiosas. Tempra 16V de Luxo. que luta por justiça. como se os barcos carregassem a possibilidade de conhecer realidades exóticas. São embarcações mais efêmeras – como o universo que passa a ser associado aos desejos dos pescadores e beiradeiros -. Bebeto. dando lugar a idéias modernas e “tecnológicas”. Vanderlita. Buenos Aires. Adeus Olinda. Ouro Branco. Vasp. e a gente só esperando pra ir pra Piranhas.

Existem cerca de 6 chatas navegando atualmente neste trecho do rio. a favor do vento e contra a correnteza. Os botes são. as herdeiras motorizadas das canoas de tolda.As embarcações do baixo São Francisco dividem-se em quatro tipos. podendo chegar a R$ 600. a propulsão é a remo. caiu de forma radical. o mesmo trajeto que fazia pelo rio. No sentido inverso. agora por terra.00. os mais numerosos dentre os quatro tipos. Mais próximo à foz são mais quadradas e mais coloridas. Muitos donos de lancha deixaram de “andar no rio” para procurar outras ocupações. encontram-se os botes de pesca. Durante a década de noventa ocorreram importantes mudanças no transporte fluvial do baixo São Francisco. se for recém construído. As chatas são canoas de médio porte. carvão e gado. quanto ao formato e às cores das velas destes barcos. mais fina e alongada. O movimento nas lanchas de transporte. sendo muitas das quais antigas canoas de tolda reformadas e transformadas em lancha. como Seu Tonho da Lancha. as lanchas a motor. diferentemente das grandes canoas (as velas das canoas de tolda possuem uma espécie de retranca situada no alto do mastro. o que faz com que seja mais veloz e também menos estável – vira com maior facilidade. . As lanchas servem basicamente para transporte coletivo de passageiros.00. Na foto 10 pode-se constatar a forma como velejam rio acima. para a pesca e para as corridas de canoas. São mais acessíveis por terem o custo de construção muito mais baixo – um bote usado pode ser adquirido por cerca de R$ 300. sem a tolda – a cabine de proa – e com formatos de vela triangulares. guardadas as devidas proporções. Podem ser utilizados para deslocamentos curtos. são destinadas ao transporte de carga. a favor da correnteza e contra o vento. inquestionavelmente. denominada carangueja). e as chatas. menores que as canoas de tolda. Existem pequenas variações dentro do baixo São Francisco. enquanto que no sertão é freqüente encontrar panos de canoas feitos de sacos de náilon (foto 10). principalmente lenha. Em geral. Além das canoas de tolda. Para subir o rio. arma-se o pano e o remo vira leme. Uma canoa de corrida tem uma forma específica. que acontecem nas festas locais. dono da Oriente. que vendeu a outra embarcação que possuía para comprar um ônibus que faz.

Nota-se na foto 7. cheio de movimento. . em que os barcos têm um papel fundamental. o precário estado de conservação da embarcação. A Luzitânia foi adquirida por uma Organização Não-Governamental do baixo São Francisco e está sendo restaurada17 no povoado de Mato da Onça – AL. Da economia regional à integração nacional A integração do baixo São Francisco às demais regiões do Nordeste e do país fez parte do projeto governamental que tinha como slogan a construção do “Brasil Grande”. A região. modificando as formas de convivência do ribeirinho com o rio e. 17 Não é mais um trabalho de reforma.4. deixava de ser autônoma. Os anos setenta são um marco histórico na relação entre sociedade e natureza no baixo São Francisco. que só não teve o mesmo destino das demais canoas de tolda do baixo São Francisco – o fundo do rio – devido à dedicação de seu piloto. quando passa. A Paladina teve o mesmo destino de diversas outras canoas – “se acabou” no fundo do Velho Chico no ano de 1997. último grande barco do baixo São Francisco que lembra toda semana. mas de restauro pelo valor histórico da última canoa de tolda do mundo em atividade. com isto. o que representava para a população olhar para o rio e vê-lo vivo. Com o fechamento da barragem de Sobradinho. está prestes a parar.A própria Oriente. que carrega um imenso valor simbólico para a população ribeirinha. Espera-se que a Luzitânia possa. elevando o país à condição de potência mundial. em 1972. Este programa teve diversas e profundas conseqüências para o baixo São Francisco. progressivamente. O preço da madeira e a concorrência com os caminhões tornaram inviável a reforma. regulariza-se o fluxo do rio. a importância material. de alguma forma. 2. As últimas canoas de tolda navegando no baixo São Francisco foram a Luzitânia e a Paladina. simbólica e afetiva do São Francisco na história íntima e coletiva dos moradores de sua “beirada”. em péssimo estado de conservação. reforçar e participar da comunhão existente entre ribeirinhos e rio.

“por ser o mercado de todo comércio interior do São Francisco” (D. tonelada. como sendo um promissor centro de comércio do baixo São Francisco. Marcos A. umbu. Considerando a inexistência de vias terrestres de acesso que ligassem o interior sertanejo do São Francisco às demais localidades. revelando a ancestralidade deste tipo de atividade. arroz. como a cidade de Propriá. Antes da intervenção estatal na região no sentido de garantir a expansão capitalista. de Souza. p. peixe seco. esta era integrada pelo rio. tamancos. com capacidade de carga de até 12 toneladas. como são chamadas as maiores embarcações. apud Mott. .O rio São Francisco agora deve atender aos objetivos de gerar energia através da construção de usinas hidrelétricas e modernizar as relações de produção na agricultura. Estes barcos eram os elos que ligavam todos os moradores da beira do rio. entre os quais destacam-se os perímetros irrigados da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). 1986. Existe referência à feira de Propriá. casas estavam sendo construídas. com a expansão do capitalismo a partir de um sucessivo rol de projetos. ladrilhos. artefatos domésticos de cerâmica. mas já foram contabilizadas mais de uma centena. Não se sabe com precisão a quantidade de canoas de tolda e chatas que existiram no baixo São Francisco. pode-se constatar que o transporte das mercadorias daquela região era realizado nos barcos a vela. Avistar as “canoonas”. As mercadorias transportadas pelas canoas eram a base do comércio da região e do consumo da população. milho. O movimento de carga e passageiros dava mobilidade a quem vivia na margem e a segurança de reconhecer na paisagem a continuidade de uma vida farta. comida sendo cozinhada. era a confirmação de que a colheita estava sendo feita. no início do século XIX.75). as fábricas de tecido funcionando. carregadas de arroz. telhas. feijão. tijolos. gado. algodão.

As mudanças começaram a ocorrer e a subverter a ordem das coisas. intensificado nos anos setenta. o acesso a bens de consumo vindos do Sul ou das capitais nordestinas que começavam então seu processo de metropolização. o fogão a lenha por gás. com isso. O tempo do barco foi 18 Não se pretende. pois a tradição se mantinha. Observa-se. a comunicação por terra entre as cidades e povoados da beira do rio fez com que o transporte fluvial perdesse espaço cada vez mais para o transporte terrestre. morar. trouxe a competição com os produtos vindos das demais regiões do Brasil. Salvador e Fortaleza. sobretudo. É a partir desta época que se começa a trocar as panelas de barro por alumínio. feijão. Com a lenha e o carvão se cozinhava e funcionavam as fábricas de processamento de arroz e as de tecido. construía-se as casas. viver entre pessoas com quem se tem laços afetivos. Posteriormente. . o grau de autonomia no passado era muito maior do que atualmente. As panelas e potes de cerâmica serviam para guardar água e cozinhar. encurtou as distâncias. milho. que eram pintadas com a cal também produzida no baixo São Francisco. como Recife. farinha e peixe eram a base da alimentação. a satisfação das necessidades básicas.Arroz. na região do sertão. vestir-se. A continuidade da vida dava segurança aos ribeirinhos. como comer. estas abastecidas com o algodão também plantado no lugar. no interior da própria região. o elevado grau de autonomia18 do baixo São Francisco e a integração e complementação entre os diversos setores produtivos. quase que tida como uma “ordem natural”. colocando a mensuração do tempo em outra perspectiva. Com os tijolos. independente e fechada. dessa forma. Estava praticamente assegurada. afirmar que o baixo São Francisco era uma região completamente autônoma. mover-se. A construção de estradas facilitou o acesso às capitais e ao resto do país. beber. telhas e ladrilhos de barro produzidos nas inúmeras pequenas olarias concentradas. O processo de integração nacional. Os tecidos produzidos no baixo São Francisco serviam para vestimenta da população. sem sombra de dúvida. as indústrias locais (arroz e tecidos) passam a mecanizar cada vez mais a produção. cozinhar. para o ensacamento do arroz e para a confecção das grandes velas das canoas de tolda e chatas. No entanto.

As pessoas mais novas que vivem hoje no baixo São Francisco não conhecem quem mora em outras regiões deste trecho do rio. 1997. estranhamente. telhas. observa-se que de fato a lancha movimentava um número de pessoas bastante grande. No barco chegava limpo. antiga canoa de tolda transformada em lancha de transporte de passageiros. o transporte fluvial se limita ao curto trajeto de travessia em alguns locais. a produção de panelas de barro é irrisória. mais ou menos. Na foto 24. Passou sua freqüência para uma viagem semanal. Andava cheia até. Porém conhecem. vêm de fora. aos poucos. o arroz muitas vezes é importado de outros países ou regiões brasileiras. Desde então viaja cada vez mais vazia. ou às localidades que ainda não contam com o acesso por terra. feito as pessoas pararem de viajar? A história da Oriente. sem sair de onde vivem. chegando a deixar o porto de Propriá sem carregar passageiro algum. gradativamente perdia espaço seu . de junho de 1998.ficando para trás. a última que faz a linha de longo curso no baixo São Francisco entre Pão de Açúcar e Propriá. ladrilhos. cimento. no falar. Através de novos padrões de consumo – mortadela Sadia e iogurte Danone nas vendas das pequenas cidades ribeirinhas – e da difusão da circulação de informações pela televisão e mesmo pela escola. mostra que este processo de mudança de modo de vida e escala de valores é ainda vivo e. lugares distantes. Teria o advento do carro e das estradas. mas demorava. O peixe é congelado – vem de longe. de certa forma. não conhecem sequer outras cidades e povoados ribeirinhos um pouco distantes de seus locais de moradia. modos de vida exógenos que incorporam no seu dia-a-dia no vestir. A integração nacional desintegrou o baixo São Francisco. fragmentando seu espaço. Ao passo que a região foi sendo inserida nas redes nacionais e internacionais de produção e circulação de mercadorias e informações. sendo substituído pelo tempo do caminhão. A escala de valores e de referências foi. segundo seu dono. nos gostos e paladares. recente. mudando. ao invés de duas. os jovens vão incorporando novos hábitos e valores. tijolos.

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