MARAVILHAS DO CONTO

HÁ MANEIRAS DE LER QUE SÃO MANEIRAS DE SER

CONTOS DIABÓLICOS
“O diabo existe e não existe?” João Guimarães Rosa “A maior astúcia do diabo é convencer-nos de que não existe.” Charles Baudelaire

Sumário
A Igreja do Diabo – Machado de Assis Eu e Bebu – Rubem Braga Um Conto – Margareth Stevens O Telespectador – Frei Betto A Conversão do Diabo – Leonid Andreiev

Compilação e Edição Luiz Edgar de Carvalho

Mensanapress Publicações para Ler e Pensar
Janeiro, 2012

A IGREJA DO DIABO MACHADO DE ASSIS
CAPÍTULO I DE UMA IDÉIA MIRÍFICA
Conta um velho manuscrito beneditino que o diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. Dizendo isto, o diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPÍTULO II ENTRE DEUS E O DIABO
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor. – Que me queres tu? perguntou este. – Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos. – Explica-te. – Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros... – Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura. – Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece? – Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

– Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental. – Vai. – Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra? – Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto tempo da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja? O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse: – Só agora concluí uma observação começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu me proponho a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para a minha igreja; atrás delas virão as de seda pura... – Velho retórico! murmurou o Senhor. – Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor – a indiferença, ao menos – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo. – Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicoulhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos de tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez? – Já vos disse que não. – Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão? – Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega. – Negas esta morte? – Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los... – Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai! Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar: dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

CAPÍTULO III A BOA NOVA AOS HOMENS
Um vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cógula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas. – Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, e despertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram o diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada. Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não sr mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quando à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento. As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamavalhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundilo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à

vista, do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele. Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

CAPÍTULO IV FRANJAS E FRANJAS
A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo. Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudadores falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros. A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo, foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são.

Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária, e conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pode crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro. Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno: Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe: – Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

EU E BEBU (NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA) RUBEM BRAGA
Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos o elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos e comemos juntos. A princípio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorinha de olhos de garapa e cabelos castanhos muito simples, que eu conheço e me conhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se portou honestamente. O dia todo - era um sábado - correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho, no restaurante, no engraxate, no barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou o bonde. À tarde, eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu, e ele me chamava de Rubem. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei duzentos réis. É meu hábito, sempre dou duzentos réis. Ele deu uma prata de dois mil-réis, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco; não havia assunto. À noite, depois do jantar, fomos ao cinema... Outra vez me voltou a inquietude, que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranqüilizei-me. Foi então que reparei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma rapariga que me pareceu bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos quase crespos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava a fita com muita atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece por acaso com as pessoas que estão sentadas juntas no cinema. Mas aquela carícia banal me encheu as veias de desejo. Suavemente, não deslizei a minha mão para a esquerda. A moça continuava olhando para pio o filme. Achei-a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava emocionado, e que isto lhe dava prazer. Mas neste momento, ouço um pequeno riso e viro-me. Bebu está do me olhando. Na verdade não está rindo; está sério. Mas em seus olhos há uma qualquer malícia. Envergonhei-me

como uma criança. A fita acabou e não falamos no incidente. Eu fui para o jornal fazer o plantão da noite. Só conversamos à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. É quando passo a tarde toda trabalhando, e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. É aí que vem, não sei como, a hora neutra. Eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja em um bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervescência, alguma coisa morna, como há um pequeno peso. Isto sempre me acontece: é a madrugada, depois de um de dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o que. Pedimos outra cerveja. Muitas vezes pedimos outra cerveja. Houve um momento em que olhei sua cara banal, seu ar de burocrata avariado, e disse: - Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo. Ele me fitou com seus olhos escuros e disse: - Um pobre-diabo é um pobre Deus que fracassou. Disse isto sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava. Mas a nossa conversa estava ficando ridícula. Desagradava-me falar eu sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não me deu a menor atenção. Grunhiu apenas: - Existem. Depois, afrouxou o laço da gravata e falou: - Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de cabelos castanhos... Estas palavras de Bebu me desagradaram. Ele dissera exatamente como por acaso: aquela moça de olhos de garapa... Era assim que eu me exprimia mentalmente, era esta a imagem que me vinha à cabeça sempre que pensava nos olhos daquela senhorinha. Sei que não é uma comparação nova; ha muitos olhos que tem aquela, mesma cor meio verde, meio escura, de caldo de cana; olhos doces, muito ver doces; e muitas pessoas já notaram isso; e até eu já vi essa imagem em uma poesia, não me lembro de quem. Mas a coincidência era alarmante; não podia ser coincidência. Bebu lia no meu pensamento, e, o que era pior, lia sem nenhum interesse, como se lê um jornal de anteontem. Isso me irritou: - Ora, Bebu, não se trata de mim. Você estava falando do Bem e do Mal. Uma conversa besta... Ele não ligou: - Está bem, Rubem: o Bem e o Mal existem, fique sabendo. Você morou muito tempo em São José do Rio Branco, não morou? - Estive lá quase dois anos. Trabalhava com o meu tio. Um lugarzinho parado... - Bem. Lá havia um prefeito, um velho prefeito, o Coronel Barbirato. Mas o nome não tem importância. Imagine isto: uma cidade pequena onde há sempre um prefeito, o mesmo prefeito. Esse prefeito nunca será deposto, nunca deixará de ser reeleito, sempre será o prefeito. E há também um homem que lhe faz oposição. Esse homem uma vez quis depor o prefeito, mas foi derrotado e o será sempre. O povo da cidade teme, aborrece, estima, odeia o prefeito; não importa. Pois é isto. Bebu pôs um pouco de cerveja no copo e continuou falando. - É isto: o Bem e o Mal. O prefeito acha que os bancos do jardim devem ser colocados diante da igreja: isto é o Bem. O homem da oposição acha que eles devem ficar em volta do coreto? Isto é o Mal. Entretanto...

- Bebu, deixe de ser chato. - Não amole. Você sabe a minha história. Fiz uma revolução contra Deus. Perdi, fui vencido, fui exilado; nunca tive nem implorei anistia. Deus me venceu para todos os séculos, para a eternidade. É o prefeito eterno, ninguém pode fazer nada. Agora, se tem coragem, imagine isto: eu saio de meu inferno uma bela tarde, junto meu pessoal, faço uma campanha de radiodifusão, arranjo armamento, vou até o Paraíso e derroto aquele patife. Expulso de lá aquela canalha, todas aquelas onze mil virgens, aquela santaria imunda. O que acontece? Eu não respondi. Irritava-me aquele modo de falar. Bebu continuou com mais veemência: - Acontece isto, Rubem, seu animal: não acontece nada! Você reparou quando uma revolução vence? Os homens se renderão diante do fato consumado. O Bem será o Mal, e o Mal será o Bem. Quem passou a vida adulando Deus irá para o inferno deixar de ser imbecil. Eu farei a derrubada: em vez de anjinhos, os capetinhas; em vez dos santos, os demônios. Tudo será a mesma coisa, mas exatamente o contrário. Não precisarei nem modificar as religiões. Só mudar uma palavra, nos livros santos onde estiver “não", escrever “sim", onde estiver “pecado", escrever “virtude". E o mundo tocará para a frente. Vocês não seguirão a minha lei, como não seguem a dele; não importa, será sempre a lei. Eu me sentia atordoado. Percebi que lá fora, na rua, as lâmpadas se apagavam e murmurei: seis horas. Bebu falava com um ar de desconsolo. - Mas não pense nisto. Aquele patife está firme. É possível depô-lo? Impossível! Impossível... Olhei a sua cara. Dentro de seus olhos, no fundo deles, muito longe, havia um brilho. Era uma pequena, miserável esperança, muito distante, mas todavia irredutível. Senti pena de Bebu. É estranho, eu não posso olhar uma pessoa assim, no fundo dos olhos, sem sentir pena. Fui consolando: - Enfim, meu caro, não adiantaria coisa alguma. Você como está, vai bem. Tem seu prestígio... Ele estourou: - Eu estou bem? Canalha! Pensa que, quando me revoltei, foi à toa? Conhece o meu programa de governo, sabe quais foram os ideais que me levaram à luta? Pode explicar por que, através de todos os séculos, desde que o mundo não era mundo até hoje, até sempre, fui eu, Lúcifer, o único que teve peito para se revoltar? Você sabe que, modéstia à parte, eu era o melhor da turma? Eu era o mais brilhante, o mais feliz, o mais puro, era feito de luz. Porque é que me levantei contra ele, arriscando tudo? O governo atual diz que eu fui movido pela ambição e pela vaidade. Mas todos os governos dizem isto de todos os revolucionários fracassados! Olhe, Rubem, você é tão burro que eu vou lhe dizer. Esta joça não ficava assim não. Eu podia lhe contar o meu programa; não conto, porque não sou nenhum desses políticos idiotas que vivem salvando a pátria com plataformas. Mas reflita um pouco, meu animal. Deus me derrotou, me esmagou, e nunca nenhum vencedor foi mais infame para com um vencido. Mas pelo amor que você tem a esse canalha, diga-me: o que é que ele fez até agora? A vida que ele organizou e que ele dirige não é uma miséria? - uma porca miséria? Você sabe perfeitamente disto. Os homens não sofrem, não se matam, não vivem fazendo burradas? É impossível esconder o fracasso. Deus fracassou, fracassou mi-se-ra-vel-men-te! E agora, vamos, me diga: por pior que eu fosse, acha possível, camarada, acha possível que eu organizasse um mundo tão ridículo, tão sujo? Não respondi a Bebu. Esvaziamos em silêncio o último copo de cerveja. Eu ia pedir outra, mas refleti amargamente que não tinha mais dinheiro na bolso. Ele, por sua vez, constatou o mesmo. Saímos. Lá fora já era dia: - Puxa vida! Que sol claro, Bebu! Isto deve ser sete horas. Andamos até a esquina da Avenida.

Ele me perguntou: - Onde é que você vai? - Vou dormir. E você? Bebu me olhou com seus olhos escuros e respondeu com um sorriso de anjo. - Vou à missa... Julho, 1933.

UM CONTO DE MARGARETH STEVENS
Um homem morreu e foi para um lugar lindo, rodeado de todo conforto imaginável. Um ser vestido todo de branco aproximou-se dele e disse: – Aqui, o senhor pode ter tudo o que desejar: qualquer comida, qualquer tipo de prazer, qualquer forma de entretenimento. O homem ficou encantado e por todos os dias deliciou-se com todas as formas de deleite que sonhara na terra. Um dia, porém, entediou-se de tudo. Chamou o atendente de trajes brancos e explicou: – Estou cansado de tudo isso. Preciso fazer alguma coisa. Que tipo de trabalho você pode me oferecer? O atendente sacudiu a cabeça tristemente e respondeu: – Sinto muito, senhor. Essa é a única coisa que não podemos lhe oferecer. Não há trabalho aqui. O homem retrucou: – Essa não! Eu bem poderia estar no inferno! O atendente completou com brandura: – E onde o senhor pensa que está? Extraído de “Histórias da alma, histórias do coração”, de Cristina Feldman e Jack Kornifield

O TELESPECTADOR FREI BETTO
Após uma existência de devassidão e indiferença, Viriato viu-se nas profundas do Inferno. Não se assombrou. A vida que levara, os pecados cometidos, os valores ignorados, já lhe haviam imprimido a convicção de que não mereceria, no encontro com a morte, o Céu e nem mesmo o Purgatório.

Inquietava-lhe, porém, conhecer o tipo de castigo que deveria suportar por toda a eternidade. Em países em que vigora a pena capital o crime nem por isso reflui. Aos condenados resta sempre a dúvida de como serão executados. Não é a morte que os assusta. É o modo como ela virá, na forma de uma descarga elétrica ou de uma injeção letal, a forca ou a guilhotina, o fuzilamento ou a empalação. O mesmo intrigava Viriato, curioso quanto ao modo como Asmodeu haveria de tratá-lo. A primeira surpresa foi constatar que o Inferno é muito diferente do que imaginara. Isso sucede com os viajantes. Ansiosos por chegarem ao porto almejado, nutrem a imaginação de múltiplas fantasias, cirando na mente uma quimera bem distante da realidade. Assim como quem visita Veneza sem imaginar que a beleza daquela cidade flutuante às margens do Adriático cheira à podridão, ou Manhattan, onde as sirenes de ambulâncias, bombeiros e carros de polícia impedem o sono tranquilo. Viriato viu-se condenado à solidão. Nada de multidão de almas penadas, de caldeirões ferventes atulhados de hereges, de tridentes atravessados em quem transgrediu as leis dos homens e de Deus. Talvez tudo isso exista em alguma esfera de transcendência, até mesmo a fornalha ardente onde corpos lambidos pelas chamas queimam sem se consumir, mas não lhe tocara nenhum desses castigos que vira em brochuras catequéticas. Ele estava só, conduzido pelo Pé Cascudo através de imensos corredores cujas paredes entrecortavam-se de portas. Tudo se assemelhava a um hospital, tamanha a brancura e a limpeza do edifício. Após longa caminhada, o Rabudo abriu uma das portas e convidou-o a entrar. Era um quarto de tamanho razoável, todo pintado de branco, mobiliado com apenas duas peças: uma cadeira e, à sua frente, um televisor. Viriato teve vontade de rir. Tudo aquilo lhe parecia infinitamente melhor do que esperava. – Funciona? – indagou de olhos no aparelho. – Funciona – respondeu o Cafuçu. – E capta todos os canais de entretenimento. Fique à vontade – disse o hospedeiro ligando o televisor. Entregou-lhe o controle remoto e convidou-o a sentar. Acrescentou o Coisa Ruim que Viriato não se preocupasse com a falta de banheiro e cama. Por toda a eternidade ele jamais precisaria ingerir nutrientes e expelir excessos, nem seria acometido pela fome e pelo sono, e sua única ocupação seria a TV. Tão logo Viriato acomodou-se na cadeira, resignado à boa sorte, o Arrenegado retirouse, batendo a porta. O falecido reparou, então, que não havia trinco nem fechadura pelo lado de dentro. Quis levantar-se para examinar um jeito de abri-la e deu-se conta de que o seu corpo e a cadeira formavam, agora, uma só peça. Suspirou sem conseguir fechar os olhos. Suas pálpebras se recusavam a obedecer-lhe. Descobriu ainda que poderia mudar de um canal a outro, mas jamais desligar o aparelho e reduzir o volume do som. A TV o olhava continuamente, ad aeternum. Enfim, estava condenado a ficar com os olhos pregados no televisor por toda a eternidade. Não julgou cruel a sua pena. Afinal, escapara do fogo eterno e da chatice de companhias indesejadas. E tinha a seu dispor uma variada programação televisiva. Nas primeiras semanas Viriato chegou a achar graça da falta de imaginação do Tisnado. Que diabo de castigo era aquele que lhe propiciava um atrativo cardápio de variedades? Havia o inconveniente de não poder desligar o aparelho nem fixá-lo numa emissora que estivesse fora do ar. As imagens estavam sempre ali, à vista, e os olhos e a mente não podiam ignorá-las, assim como os movimentos de Viriato eram todos observados pela TV. Foi ao fim de três meses que Viriato começou a perceber que a sua pena não era tão leve quanto pensara. Sua imaginação refluía. A TV não era uma mera transmissora de atrativos. Tratava-se de um ente real que imaginava por ele, pensava por ele, sonhava por ele, raciocinava por ele, sequestrando-lhe a identidade. Um vazio instalara-se no âmago de seu ser. Ele estava hipnotizado pelo aparelho e o fluxo das imagens impregnava-lhe os olhos, a mente, o cérebro, as entranhas, descosturando-lhe a subjetividade.

A sucessão infinita de clipes publicitários corroía-lhe a alma. Viriato tinha ânsias de consumo e, no entanto, estava impedido de acesso ao mercado. E o seu desejo desenrolava-se como um fio infinito. Seria menos doloroso se a sua auto-estima não estivesse sendo minada dia a dia. Não possuir aqueles produtos que conferiam valor a seus proprietários acarretava-lhe um sofrimento que lhe parecia sempre mais insuportável. Sentia-se um faminto diante de farto banquete, mas com a boca irremediavelmente costurada. A programação saturava-o. Embora variada, obedecia aos mesmos modelos repetitivos: o sorriso saúde-e-afeição dos apresentadores, a beleza esguia das mulheres, a ridicularização dos homossexuais e dos gordos, a apologia do adultério, a comicidade derivada da desgraça alheia, a prosperidade como fruto da sorte, a espetacularização da notícia, a nova embalagem de velhas piadas, velhas histórias e velhas imagens. Viriato entendeu o significado da eternidade: a televisão suprimia o tempo, já não havia passado, presente e futuro, e instalava a soberania do espaço, majestosamente ocupado por ela, não só no espaço das horas e dos dias, das fantasias e das ideias, mas também no espaço subjetivo do telespectador, asfixiado por aquela profusão de signos que lhe roubavam a palavra e sonegavam o silêncio, dilacerando-o interiormente. Viriato não podia se ausentar, fugir daquele aluvião no qual se afogava sem perecer. A sucessão de anúncios incutia-lhe irremediável indigência, a infinidade de cores acinzentava-lhe o espírito, a velocidade fluida dos programas mergulhava-o numa vertigem irrefreável. Era pior que o fogo capaz de queimar sem consumir, pois todo ele era sugado indefinidamente e a dor não era na carne, era no espírito, absorvido por aquele aparelho que o monitorava, transportando-o a um mundo virtual que escravizava o seu ser dominado pelas correntes invisíveis da sedução. Viriato sofria por não poder fechar os olhos diante do televisor que, incansável, jamais cerra o olhar nem silenciava a fala, onipresente e onisciente, reduzindo-o a um exíguo e imponderável espaço que não admitia diálogo, contestação, objeção ou resposta. O império imagético oprimia-o por toda a eternidade, esmagando-o sem destruí-lo na viscosidade daquela teia cuja aranha o prendia sem devorá-lo. O demônio modernizara-se.

A CONVERSÃO DO DIABO LEONID ANDREIEV I
- Quem não ama o bem? Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Narigudo, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se, na sua mocidade, como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já um tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido. Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais acentuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar. Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos. Enfadava-se principalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário.

Para lutar contra essa situação que tanto lhe perturbava o espírito, entregou-se ao trabalho, mudando várias vezes de ofício. De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença. Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espírito. Ali, também principiou sua conversão. A igreja era muito pequena, e ele tinha pouco trabalho. As míseras velhacadas que tanto agradavam diabos jovens – apagar as velas, fazer com que o sacristão tropeçasse ou que as velhinhas, enquanto rogavam a Deus, pensassem coisas escabrosas – não o agradavam; ao contrário, chegavam a lhe causar engulhos. Quanto às tratanhadas importantes, não se oferecia oportunidade para elas. Todos os paroquianos eram pessoas modestas, que dificilmente se deixavam tentar. Nem ouro, que nunca haviam visto; nem o amor passional, que jamais conheceram; nem os orgulhosos sonhos de ambição, completamente estranhos a sua natureza, podiam turvar a paz de suas almas superficiais, razão pela qual todos os esforços do diabo eram inúteis. Quanto aos pecados insignificantes, os fieis entregavam-se a eles de-per-si, sem necessidade de serem tentados pelo diabo, e este não precisava quebrar a cabeça para inventar coisa alguma, mesmo porque o número dos pequenos pecados era muito reduzido. A princípio quis tentar o pároco em pessoa, mas todas suas tentativas fracassaram; o pároco era um velho já desdentado, um tanto volvido a infância novamente, e puro como uma donzela. Somente conseguia fazê-lo esquecer, algumas tardes, as palavras de sua oração, substituindo-as por outras, ou comer carne nos dias de jejum, ou então dormir até muito tarde, faltando à missa da madrugada. Mas o diabo sentia muito bem que tudo isso não passava de pecadilhos exteriores e que semelhantes meios não bastam para a perdição da alma de um crente. Pouco a pouco começou a cansar-se do seu ofício, pondo no trabalho cada vez mais indiferença ou formalismo. Por descargo de consciência, ocasionalmente contava, a alguma velha ajoelhada diante da Virgem, uma anedota escabrosa, cuspia duas ou três vezes num canto da igreja, ou fazia com que o velho sacerdote confundisse as palavras da missa sempre no mesmo ponto. Depois de haver cumprido o seu dever, apressava-se a sentar no seu lugar favorito, à sombra de uma coluna, para acompanhar, devotadamente, num breviário furtado, as palavras do santo ofício. Mas esse passatempo, embora agradável, era contrário à natureza ativa do diabo. Para não permanecer ocioso começou paulatinamente a trabalhar. Tornou- se, por vontade própria, uma espécie de sacristão-ajudante da igreja. Varria-a de manhã, limpava o metal das portas, ativava os candeeiros durante a missa e, junto aos demais paroquianos, acompanhava o coro, cantando em voz de falsete o "Ora pro nobis." Se lhe acontecia entrar na igreja pela porta da rua, molhava suas garras na água benta, benzendo-se com ela. Quando todos os crentes se acercavam do pároco para que os abençoasse, acompanhava a multidão, atropelando as pessoas, conforme seus hábitos diabólicos. Durante as raras visitas ao inferno, onde precisava apresentar informes acerca de suas atividades (os quais, por sua vez, eram arqui-falsos, como todos os informes dos diabos de Satanás), nosso diabo sentia aumentar cada vez mais seu asco pelo inferno, e por seus costumes, sua barulheira infernal, sua sujeira e desordem. As bruxas gritadeiras, que antigamente lhe pareciam tão cativantes e belas, não lhe inspiravam agora senão aversão; se divertia prendendo-lhes as vassouras com a porta, observando depois o terror e as torturas dessas desventuradas, que procuravam inutilmente livrar suas vassouras de tal aperto. No inferno todo o mundo mentia e re-mentia sem cessar; cada palavra era um embuste. Satanás mentia mais do que todos juntos; e o nosso diabo, que já havia perdido os hábitos do ambiente, sentia-se enfermo, ansioso por sair dali, para respirar um pouco.

Após uma de suas visitas ao inferno, voltou com particular satisfação à tranquila igrejinha e durante dois dias e duas noites dormiu como um justo atrás da coluna. Quando despertou, disfarçou-se de homem, dirigindo-se ao confessionário, onde se achava o.pároco, pois era hora das confissões. O velho sacerdote ficou estupefato, quando este senhor desconhecido, já idoso, de expressão triste e aborrecida, nariz grande, lábios finos e enrugados, apresentou-se como diabo. Mas este lhe jurou, e o sacerdote acabou por acreditá-lo. Com curiosidade perfeitamente infantil, pôs-sé a interrogá-lo sobre as coisas do inferno. O diabo, porém, não mostrou desejo de querer falar nelas. - Ai! meu padre. Aquilo não é viver; é um verdadeiro inferno. . . - Bem, mas onde estão os teus cornos e os teus cascos? - perguntou o padre, curiosamente. - E para que vieste aqui? Para tentar-me, ou para arrepender-te? Se julgas que me tentas, previno-te de que não o conseguirás. E com um sorriso levemente irônico acrescentou: - Eu, meu caro senhor não me deixo tentar! O sacerdote desatou a rir, dando palminhas amigas no ombro do diabo. - Pois apesar de tudo, logrei fazê-lo cair em tentação muitas vezes. Recorda-se da carne que comeu no último dia de jejum? - Que carne? - Faz hoje quinze dias... O sacerdote ficou inquieto. - Então, foste tu quem me sugeriste essa ideia pecadora? Ai meu Deus! Vai-te... vai-te! Não te quero ver mais! Põe teus cornos na cabeça, vai-te! Se não fizeres, chamarei o sacristão. - Vim para arrepender-me... e o senhor me escorraça! – exclamou tristemente o diabo. No entanto, está escrito no Evangelho que, se uma ovelha desgarrada. . . - Mas, conheces tu o Evangelho? - perguntou o assombrado sacerdote. - O senhor pode examinar-me - respondeu orgulhosamente o diabo. - Impossível! - Interrogue-me e verá. - Eis uma surpresa! Vamos à minha casa; ali te examinarei. Não convém que continues neste santo lugar. . . Que coisa tão extraordinária! Um diabo que conhece o Evangelho! Vamos para casa! . . . Durante toda a noite o pároco, em sua casa, examinou o diabo e cada vez mais se assombrava. - Tu és um verdadeiro sábio em questões religiosas! Realmente! - Porventura as estudaste? - Um pouco - respondeu modestamente o diabo. Apesar dessa modéstia, conservava sua dignidade; não se humilhava; nem mostrava demasiada afetação. Via-se logo que era um diabo sério, ponderado e judicioso. Não se orgulhava dos seus conhecimentos, e por isso agradava mais ainda ao velho sacerdote. - Afinal, - perguntou-lhe o padre - o que desejas? Então o diabo caiu de joelhos, exclamando:

- Ensine-me, meu padre, a praticar a virtude. Sinto grande desejo disso. Eu não posso viver sem praticar a virtude, porém não sei como fazê-lo. Quanto ao Satanás e a todos os misteres diabólicos, renuncio a eles para sempre. E, com o fito de confirmar suas palavras, o diabo cuspiu desdenhosamente três vezes seguidas. O pároco, então, bateu amigavelmente no ombro do diabo; este afastou- se um pouco, pois não lhe agradava que o tratassem com demasiada familiaridade e perguntou insistentemente e com melancólica entonação na voz: - Meu padre, vai o Senhor ensinar-me a praticar a virtude? - Já o veremos! Antes de mais nada, é preciso começar ler as obras dos Santos. Tu conheces bem a Bíblia, mas isso só não basta. . . Vai passear um pouco. . . Enquanto passeias, farte-ei uma lista do que deves ler. - Ouve, meu amigo. . . Estás sempre assim? - Que diz o senhor? - Falo da tua aparência. . . Tens um aspecto estranho. . . Dir-se- ia que comes pouco e te entregas sempre a tristes reflexões. . . Ou talvez não estejas sempre assim! . . . Se podes tomar outra forma, mostra-me. . . embora seja eu tão velho, nunca vi outros diabos. . . Mas o diabo não lhe quis dizer a verdade. - Não! Estou sempre assim - foi a resposta. - Verdade? . . . Tanto melhor. . . Pois olha: vai dar uma voltazinha, enquanto eu trabalho para o teu bem . . . Embora tivesse dito que és sábio, na realidade, meu amigo, ainda te falta muito . . . muito . . . - O que mais me interessa é aprender a praticar a virtude. Ensinar-me-á o senhor? - Sim, sim. . . - disse o velho sacerdote, tranquilizando-o. – Lerás muitos livros e aprenderás tudo. . . Não tenhas medo. . . Durante dois anos o diabo estudou de cabo a rabo todos os livros que o sacerdote lhe dera, esforçando-se por encontrar neles resposta à pergunta que o perturbava: No que consiste o bem e como fazê-lo para que não se transforme no mal? Há muito tempo que conhecia a língua hebraica e agora estudou também o grego, para poder ler os livros religiosos não traduzidos, no próprio original. Comparou os textos, procurando os erros que tinham escapado aos outros, fez vários descobrimentos e chegou mesmo a criar novos esquemas religiosos. Com tudo isso a saúde do nosso abnegado diabo começou a ressentir-se sensivelmente. Emagreceu e, apesar de tudo, não pôde encontrar resposta ao problema que tanto o preocupava. Acabou por desesperarse. Ao fim de dois longos anos de sofrimento e trabalhos, apresentou-se em casa do sacerdote. Despertando-o em plena noite, gritou-lhe: - Salve-me, meu padre! - Vamos. . . vamos! . . . O que aconteceu? - perguntou o sacerdote espantado. – Que te sucede agora? - Li todos os seus livros e continuo tão ignorante como antes a respeito de tudo que se refere ao bem. Salve-me, meu padre! Eu não posso viver assim!

- Estás certo de que lestes todos os livros? Tens tão pouca paciência? - Todos, meu padre ! Agora mesmo terminei o ultimo. Desgraçadamente, para mim, tenho um espírito curioso, diabólico e incapaz de suportar contradições, e os seus livros estão cheios delas . . . O sacerdote moveu a cabeça num gesto de reprovação. - Isso é mau ! . . . muito mau . . . Em vez de crer, não fazes outra coisa senão criticar e procurar contradições. Satanás te incita a isso. - Que posso fazer? Não posso ser de outra maneira. Não encontro nesses livros senão contradições. De um lado, tudo é proibido; de outro, tudo é permitido; o que é bom segundo um livro, torna-se mau noutro. Por exemplo: para começar dignamente uma nova vida, tinha a intenção de me casar com uma mulher honrada, a fim de praticar o bem ao seu lado. Mas depois de ter lido todos esses livros, já não sei se o matrimônio é um bem ou é um mal. - Aquele que se sente capaz. . . - Não se trata disso. O senhor, por exemplo, celibatário, como todos os sacerdotes católicos, que consideram o matrimônio como um pecado mortal. No entanto, os antigos patriarcas, que eram tão santos como os senhores, possuíram mulher, e ate muitas mulheres cada um. Se São Joaquim não se tivesse casado, não teria aquela filha, que era uma santa também. . . O sacerdote, assustado, interrompeu o diabo: - Cala-te, pecador! . . . É realmente perigoso falar contigo. Obriga-nos a incorrer em heresias . . . Se te parece bem, casa-te. - Não é isto que espero do senhor. - Que esperas então? - Preciso de uma resposta que me possa servir sempre, para todos os casos da vida, que encerre em si nenhuma contradição, e que me indique como devo proceder para não cometer erros. Isso é o que necessito. Quanto ao matrimônio, como não tenho pressa, esperarei um pouco. Entretanto, meu padre, reflita. Concedo-lhe o prazo de sete dias. Se, transcorrido este prazo, o senhor não me puder dar uma resposta clara e decisiva, voltarei ao inferno, e o senhor não me verá nunca mais. Estava furioso o pobre diabo! Como se apaixonara pela causa do bem! O velho sacerdote, compreendendo seu estado de alma, não se zangou ao ouvir suas grosseiras palavras e começou a refletir. Refletiu seis dias seguidos. No sétimo, chamou o diabo, dizendo-lhe: - És um diabo inteligente e, no entanto, ao leres os livros, escapou-te uma coisa muito importante. Olha aqui: vê o que está escrito: "Ama a teu próximo como a ti mesmo". Bem vês que não pode ser mais claro. Ama. A isto se reduz tudo. O sacerdote tinha um ar triunfal. Mas o diabo não parecia nem um pouco entusiasmado, e respondeu: - Não! Isso não está claro. Para provar o amor do próximo, é preciso fazer-lhe algum bem; mas como ignoro em que consiste o bem, posso fazer-lhe algum mal, algum grande mal, até mesmo arremessá-lo ao inferno. Além disso, não é nada difícil isso de dizer que devemos amar ao próximo como a nós mesmos. . .

- Como és exigente! Pois bem: ama o teu próximo simplesmente, e não como a ti mesmo. Então compreenderás tudo, principiarás a praticar o bem, sem nenhum esforço de tua parte. - Amar? Como se isto fosse tão fácil! É precisamente o que não posso fazer. De que maneira quer o senhor que um diabo ame? Compreenda-me padre, que sendo diabo por natureza, não posso me sentir como um anjo; mas ao mesmo tempo não quero fazer mal, antes, ao contrário, pretendo somente fazer o bem. Isto é o que desejo que o senhor me ensine. O sacerdote respondeu-lhe tristemente: - Por desgraça, por causa da tua natureza, tu possues uma alma abominável. - Claro! - confirmou o diabo. - Por isso quero lutar contra minhas inclinações naturais. Não quero ser condenado ao inferno para toda a eternidade, pois aspiro ao céu, como os anjos. Espero que os anjos não sejam os únicos candidatos ao céu, não é verdade? . . . Preciso que o senhor me ajude. Concedo-lhe, novamente, um prazo de sete dias. Se não encontrar o senhor nenhum meio de salvar-me, acabou-se. Irei para o inferno! Passaram-se outra vez os sete dias. O sacerdote chamou novamente o diabo e lhe disse: - Depois de largas reflexões, encontrei para ti dois preceitos muito práticos. Espero que não tenhas nenhuma dificuldade em adotá-los. Está escrito no Evangelho: "Se te pedem a camisa, dá-a, embora não tenhas outra". Outro preceito ordena: "Se te dão uma bofetada na face direita, oferece igualmente a esquerda". Segue estes mandamentos. Será a tua primeira prova. Logo veremos o resultado. Hás de convir que é muito simples! O diabo refletiu um pouco, sorrindo, depois, alegremente: - Isto sim! Agora já sei o que é o bem. Não sei como lhe agradecer. . . Transcorreram outras duas semanas. O velho sacerdote estava certo de que havia encontrado o meio de salvar a alma do diabo. Mas logo este voltou à sua casa. Mostrava-se mais triste do que nunca: estava com o rosto cheio de manchas de sangue e de cicatrizes. Brilhava no seu corpo escuro uma camisa complemente nova. - Isto não dá resultado! - declarou com voz pesarosa! - Que dizes? Que te aconteceu? - perguntou assustado o sacerdote. - É de se acreditar que brigaste com alguém. Olha teu nariz. . . E teus olhos? . . . Ai! meu Deus! Tinhas a intenção de praticar o bem e, ao invés, te entregaste a brigas. . . Ou será que alguém te feriu? - Não! O caso é que eu briguei. - Mas, como? Não te havia dito: "Se alguém te dá uma bofetada na face direita, oferece igualmente a esquerda?" Não te recordas? - Sim, recordo-me perfeitamente. Estive durante quinze dias, passeando pela cidade, à procura de alguém que me esbofeteasse, mas como ninguém o fez, me vi na impossibilidade de cumprir o santo preceito. - Mas não disseste que andaste a brigar? - Isto é outro caso. Tive uma disputa com certo senhor; ele me deu uma bengalada na cabeça. Naturalmente eu lhe devolvi a pancada. A discussão acabou numa verdadeira batalha. Sem me ufanar disso, devo informar ao senhor que ele não foi sem uma lembrança minha: quebrei-lhe duas costelas. O velho sacerdote fez um gesto de desespero:

- Mas, homem! Eu te havia dito "Se te esbofeteiam a face direita. . . Mas o diabo o interrompeu, gritando: - Eu digo ao senhor que não me deram na cara, mas na cabeça. Se se tratasse do rosto, teria sabido como fazer. . . O pobre sacerdote ficou completamente desnorteado. Afinal, depois de um largo silêncio, disse ao diabo: - Ai meu Deus! Como és estúpido! Geralmente mostras grande habilidade, e até mesmo regular erudição, mas no que se refere ao conceito do bem, qualquer um o entende melhor. Como não compreendeste que as palavras do Evangelho devem ser interpretadas num sentido mais amplo? - No entanto, o senhor mesmo disse que não se deve interpretar os santos preceitos, e sim cumpri-los ao pé da letra!.. - Tu és um desgraçado! Que vou fazer agora contigo? Não posso seguir-te por toda a parte, para acautelar-te sobre os erros. . . É preferível que não saias à rua. . . E que quer dizer esta camisa nova? Ganhas-te-a, de presente? - Qual! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. Durante quinze dias estive passeando pela cidade, entre os pobres. Pediram-me tudo que o senhor possa imaginar, menos a camisa. Provavelmente ignoram o caminho do bem. . . - Desgraçado! Mil vezes desgraçado! - exclamou furioso o sacerdote. – Mas não acabaste de dizer que te pediram muitas coisas? - Sim. - Pediram-te, por exemplo, pão? - Sim. - E não lhes deste? - Não. Esperava que me pedissem a camisa. . . Vejo, meu padre, que não faço senão asneiras. Não me repreenda o senhor, se me engano ao procurar o caminho do bem. Quero encontrá-lo, custe o que custar. Por algum motivo renunciei ao inferno, como a todos os seus prazeres. Por algum motivo passei, durante dois anos, os dias e as noites sobre os livros, devorando-os. Agora vejo que não existe salvação para mim. . . - Espera. . . e não te desesperes. Vou ensinar-te ainda umas tantas coisas. . . Diz-me, porém; por que deu aquele homem uma bengalada na tua cabeça? Talvez sejas uma vítima inocente e, nesse caso, uma parte dos teus pecados poderá ser perdoada. O diabo fez um ar de dúvida. - Nem eu mesmo o sei. Antes, também acreditava ser uma vítima inocente, mas agora já não sei mais nada. A coisa ocorreu da seguinte forma: depois de longos passeios pela cidade, cansado e desesperado, mas ainda cheio do mais ardente desejo de fazer o bem, sentei-me à margem do rio Arno, para descansar um pouco e restaurar as forças. De repente vi que um homem se afogava no rio. Nos seus esforços desesperados para se salvar, chegou muitas vezes perto de mim. - E tu, infeliz?

- Eu? Contemplei-o, perguntando a mim mesmo como era possível que ele se mantivesse à tona da água quando, segundo todas as leis da física, ele já devia ter-se afogado. Enquanto assim refletia, acudiu uma porção de gente, atraída pelos seus gritos. Se o senhor quer saber a verdade, não foi um só que me bateu, mas inúmeros. . . Triste e abatido, cheio de feridas e cicatrizes, o diabo permaneceu de pé ante o sacerdote. Este contemplava-o atentamente, com ar pensativo. Depois suspirou e, aproximando-se dele, atraiu-o para perto de si, beijando-lhe a fronte. Ao fazer isso, percebeu que a cabeça do diabo estava coberta de sangue seco. O diabo, depois de haver recebido o beijo, disse com voz assustada: - Tenho medo, meu padre. Vi no inferno horrores sem nome, mas jamais me senti tão perturbado e inquieto como agora. Não há nada mais terrível do que aspirar apaixonadamente o bem e não saber como ele é. Não consigo compreender como podem viver as pessoas na terra, ignorando o que é o bem. Com todo o meu coração, tenho piedade delas! - Vivem, apesar de tudo, - respondeu o sacerdote. - Uns, como animais, sem se preocuparem com estes graves problemas; outros procuram, como tu, o caminho do bem e da virtude, e sofrem porque não conseguem encontrá-lo. Outros, ainda, crendo haverem encontrado o bom caminho, inventam preceitos saudáveis e vivem perfeitamente com eles. - E essa gente se salva? - perguntou o diabo, desconfiado. - Só Deus o sabe! Isto vai além dos nossos conhecimentos. . . Quanto a ti, não te desesperes. Eu não te abandonarei, e te ensinarei ainda algumas coisas mais. Não me faltara tempo nem paciência para tanto. Tu és um diabo muito impulsivo, mas não se deve perder a esperança. Agora, vai lavar as feridas da cabeça. Assim terminou a conversa entre o diabo e o sacerdote. Ambos ignoravam que, precisamente no momento de beijar o sacerdote a fronte abominável do diabo, ao mesmo tempo em que este, por sua vez, se compadecia dos que desconheciam o bem, se realizava esse mesmo bem, que eles inutilmente buscavam. Separaram-se. O sacerdote foi à procura de novos caminhos que conduzissem ao bem. O diabo encerrou-se na igreja, atrás das empoeiradas colunas, para ali se restabelecer dos ferimentos, e esforçar-se por compreender os grandes e misteriosos problemas do bem e do mal.

II
O sacerdote começou, novamente, a ensinar o bem ao dócil diabo. Isto, porém, foi a causa de uma nova série de aborrecimentos para ambos. Dava o bom padre a seu discípulo ensinamentos pormenorizados para as diferentes circunstâncias da vida, e tudo caminhava bem enquanto estas se apresentavam justamente sob o mesmo aspecto, e na mesma ordem prevista pelo professor. O diabo executava, não só zelosamente, mas com abnegação, tudo quanto lhe era ordenado, dando provas de uma vontade de ferro. Não obstante, o débil engenho humano não podia prever todas as complicações da vida, e ele se enganava a cada instante, procedendo bem num caso e portando-se mal noutro. Se um pobre lhe pedia alguma coisa de forma não prevista pelo sacerdote, negava-o. Eram tão freqüentes estes casos, que o próprio sacerdote principiava a de-

sanimar-se. Não suspeitava que a vida tivesse tantos e tão variados aspectos, nem que escondesse em si tantos e tão obscuros mistérios, e tantos e tão inesperados problemas. "De onde provem tudo isto?" - pensava quebrando a cabeça, enquanto o diabo, sentado atrás de uma coluna da igreja, curava as feridas, soltando suspiros dolorosos, e sem nada compreender. Não só o diabo, mas também o servo de Deus não conseguia compreender nada daquilo. E o velho padre continuava pensando: "não haverá mais remédio a não ser que lhe permita comentar os preceitos, embora seja um tanto perigoso. Ensinar-lhe-ei as leis gerais, e ele que as comente depois tratando de adaptá-las às circunstancias." Com suma docilidade o diabo se aveio com este novo sistema. Sentia-se alquebrado, quase sem energias, mas estava pronto a todos os sacrifícios. Até então todos os seus sacrifícios não lhe haviam servido para nada. Batiam-lhe tanto, que só isto bastaria para fazer dele um mártir; mas em vez de acontecer isso, as pancadas não faziam mais do que sobrecarregá-lo de novos pecados, pois os que lhe batiam tinham sobradas razões para se enfurecerem contra ele. Aliás, ele mesmo o reconhecia, assim como o sacerdote que o protegia. O pobre diabo, que jamais vira uma só lagrima, aprendeu até a chorar. Chorava tanto, que somente por suas lagrimas e por seu fervoroso desejo de encontrar o caminho do bem merecia ser inscrito no numero dos santos. Quando o sacerdote anunciou ao diabo que daquela data em diante lhe seria dado comentar os preceitos e adaptá-los à vida real, tal como os compreendia, ele sentiu-se cheio de alegria e foi com certo orgulho que declarou: - Agora, meu padre, o senhor pode ficar tranquilo a meu respeito. Já que o senhor permite que eu comente os preceitos, não farei mais tolices. Tenho espírito firme e ideias positivas; há muito tempo que não bebo álcool, e estou certo de não mais me enganar. Somente lhe peço que não me oculte nada. Diga-me qual a lei mais importante e mais grave da vida. Principiaremos por esta e depois o senhor me ensinará as outras. O velho sacerdote pôs-se a procurar na sua memória e a consultar tudo quanto havia lido e aprendido durante a sua vida. Depois soltou um suspiro de consolo e disse: - Existe uma lei como a que tu queres, mas tenho medo de revelá-la, pois é perigosa. Tenho, porém, confiança na ajuda de Deus. Presta atenção para não cometeres nenhum erro. Olha! . . . E abrindo um livro sagrado, o sacerdote mostrou ao diabo estas palavras, grandes e misteriosas: * * * NÃO TE OPONHAS AO MAL * * * Ao ver estas terríveis palavras, o diabo ficou assustadíssimo, perdendo todo o seu habitual orgulho: - Tenho medo, meu padre, disse ele. Estou quase certo de cometer erros com isto. O sacerdote também estava assustado. E ambos, o servo de Deus e o de Satã, cheios de terror, se contemplavam, reciprocamente. - Apesar de tudo, experimenta! - disse, por fim, o padre. - 0 que há de bom nesta lei é que tu mesmo não deverás fazer nada; tem que deixar os demais fazerem contigo o que bem quiserem. Permita-lhes procederem à vontade e submete-te repetindo sempre esta frase: "Perdoai-os, Deus Onipotente, porque não sabem o que fazem". - Estas palavras são importantíssimas. Não as esqueças!

O diabo se foi, novamente, à procura do caminho do bem. Passaram-se dois meses sem que aparecesse. Durante esse tempo o velho cura esperava-o ansiosamente, a todo momento. Finalmente ele regressou. Havia emagrecido horrivelmente e todo ele era apenas ossos. Estava faminto e sedento. Tudo quanto possuía lhe havia sido arrebatado. Estava todo coberto de cicatrizes. O velho sacerdote sentiu certa alegria: tudo testemunhava que seu discípulo não se havia oposto ao mal. No entanto, impressionava-o dolorosamente a expressão de temor e de angústia que se lia nos olhos do diabo. Este, respirando com dificuldade e escarrando sangue, olhou para o velhinho, a quem amava com todo o corarão e a velha igreja, onde encontrara um refúgio sossegado e desandou a chorar, perdidamente. O sacerdote pôs-se a chorar também adivinhando que sucedera qualquer coisa de muito grave. - Vamos! Conta-me os erros que acaso cometeste. - Não cometi nenhum - respondeu tristemente o diabo. - Procedi de acordo com a lei que o senhor me ensinou sem me opor ao mal. - Então, por que choras, fazendo-me também chorar? - Ah! meu padre ! Antigamente não sofria, mas agora sofro infinitamente.Talvez o que fiz, seguindo suas indicações, seja verdadeiramente o bem, mas por que não me causa ele nenhuma alegria? É impossível que aquele que pratique o bem, não sinta alegria de espécie alguma. Se o senhor soubesse quanto eu sofro! Sente-se, e lhe contarei tudo. O senhor mesmo verá onde está o bem e o que tenho feito. E o diabo contou minuciosamente como o haviam perseguido, batido, saqueado e maltratado. Eis aqui o que lhe acontecera por último: - Achava-me deitado, meu padre, atrás de uma grande pedra à beira da estrada. Vi que se aproximavam dois bandidos. Do outro lado da estrada e na mesma direção, vinha uma mulher com um embrulho nos braços que parecia de valor. Os bandidos correram para ela e gritaram: "Dá-nos isso!" Mas a mulher negou-se. Então um dos bandidos tirou sua espada. . . - E o que fez? - exclamou, com voz comovida, o sacerdote. - Feriu com ela a infeliz mulher, partindo-lhe a cabeça. Ela caiu, juntamente com o precioso fardo que levava nos braços. Quando os bandidos o abriram viram que. o tesouro da assassinada era uma criança. Os bandidos puseram-se a rir e um deles, o que estava com a espada, segurou a criança por uma das perninhas, alçou-a no ar e. . . - Como? - perguntou, trêmulo, o sacerdote. - . . . atirou-a contra as pedras. . . O sacerdote se pôs a gritar: - Mas tu, tu? . . . Não fizeste nada para defender a mãe e o filho ? Desgraçado! Como não atacaste os bandidos? - Com o que? Antes do acontecido me haviam roubado até meu bastão, única arma que possuía.

- Vamos ver! . . . Uma vez que tu és diabo, deves ter cornos. . . Devia atacá-los com os teus cornos! Na tua qualidade de diabo, podias haver encontrado um meio de lutar contra eles. - O senhor se esquece, meu padre, que está escrito: NÃO TE OPONHAS AO MAL? Reinou um demorado silêncio. Depois o sacerdote, pálido como um cadáver, caiu de joelhos, e disse cheio de submissão: - A culpa é minha! Não foste tu, nem foram os bandidos quem assassinou a mãe e o filho. O assassino fui eu. . . Espera um pouco, meu amigo: vou rogar a Deus que perdoe nossos pecados. A oração durou muito tempo, tanto, que o diabo dormiu. O sacerdote o despertou dizendo-lhe: - Estas grandes palavras não são para nós. Em geral, não se necessitam palavras, nem leis. Vejo bem claro, que algumas vezes é preciso amar, mas vejo, também, que, algumas vezes, é preciso odiar. Em algumas ocasiões convém deixar-se bater, mas há circunstâncias em que se torna necessário maltratar os demais. Este é o verdadeiro sentido do bem! - Nesse caso estou perdido - disse resolutamente o diabo, com uma triste entonação na voz. - O senhor pode fazer por seu lado o que lhe agrade; a mim, porém, dê-me leis para seguir. - Nada mais posso fazer! Para que te enganes outra vez e me faças pecar? Não, meu amigo; basta. Acabaram-se as regras! Já não existem mais regras que valham! O diabo ficou furioso. - Mas se não existem regras é que tampouco existe o bem? - Como? Não existe o bem? Então, não é o bem isto de ocupar-me de ti há tanto tempo? Vai-te! És um ingrato! . . . Mas o diabo, que parecia sumir-se no mais profundo desespero, replicou: - O que o senhor me ensinou é bem pouca coisa. Não tem do que se ufanar. - É difícil ensinar o diabo. - Se o senhor não possui forças para ensinar o diabo, é porque o seu bem vale muito pouco. - Cala-te, desgraçado, ou te porei na rua. - Faça-o. Não me restará outro remédio senão voltar ao inferno. Reinou novamente o silêncio. Depois o diabo disse: - Hei de regressar, por força, ao inferno, meu padre? Sua voz era tão triste e comovida, que o sacerdote se condoeu e, com um gesto de amizade, lhe falou: - Perdoa-me que te haja ofendido, meu amigo. Quanto ao problema do bem, vou fazerte uma pergunta: tu és um diabo curioso de saber tudo; provavelmente visitaste inúmeros templos e museus e viste muitas obras de arte. Dize-me: agradaram-te? O diabo refletiu um pouco, e respondeu:

- Umas sim, outras não. - Mas as que apreciaste, foi por sua beleza, não é verdade? - Naturalmente. - E ouviste falar que existem leis para a beleza? - Sim, muito já se escreveu sobre isso. - Muito bem. Suponhamos, agora, que aprendeste essas leis. Poderias criar algo de belo? - Não basta conhecer as leis; necessita-se também ter talento e isso me falta. - Eis aí! Mas então, por que, ó animal, pretendes praticar o bem, sem talento para ele? Requer-se mais talento para o bem do que para a beleza. O bem exige um enorme talento. O diabo contemplava, com grande assombro, o sacerdote. - Ótima saída! - disse. - O senhor exagera, meu padre. Se eu pinto um mau quadro, não me mandarão, por esse crime, ao inferno, ao passo que se quebro a cabeça a meu próximo, já não será a mesma coisa. Além disso, ninguém me obriga a pintar quadros. No entanto, existe a obrigação moral de fazer o bem. Mandam fazê-lo e não indicam de que maneira. . . E se alguém se engana, ainda o castigam. - Não te dizia eu que para fazer o bem é preciso talento? - E no caso de não o possuir, devo sofrer eternamente as penas infernais, não é isso? O sacerdote fez um gesto desesperado dizendo: - Não sei, meu amigo. Perdi a cabeça, falando contigo. - Pois não me fale mais do talento. Dê-me regras ou leis. Desejo fazer o bem e o seu dever é ensinar-me como devo fazê-lo. Do contrário. . . Estava tão enfurecido, que ameaçou ir à casa de outro sacerdote. O velho pároco sentiu-se ofendido, e disse num tom de censura: - Portas-te mal, muito mal comigo. Sofri em tua companhia, esperei trazer-te ao bom caminho como a ovelha desgarrada, principiei a querer-te como a um filho e tu pretendes agora me atraiçoar. Eu também tenho amor próprio e não é justo que o firas. Se não te parece mal, em lugar dessas regras gerais, perigosas não somente para um diabo, mas também para um homem, vou traçar-te uma linha de procedimento, a que deves te submeter todos os dias. Tenho muito tempo de sobra, e começarei a trabalhar imediatamente. Farei, para ti, uma espécie de agenda para todo o ano; nela encontrarás tudo quanto deves fazer diariamente. . . Mas não deverás te afastar um milímetro sequer do que estiver escrito nela. Caso contrário, cometerás novos erros. Se esqueceres alguma coisa, ou tiveres dúvida a propósito de qualquer detalhe, melhor será que nada faças, a expor-te a novas desventuras. Fecha os olhos, tapa os ouvidos, não te movas e fica sossegado, pois assim, pelo menos, estarás livre de dar mau passo. Hoje mesmo principiarei a trabalhar e tu subirás no alto da igreja e permanecerás ali, quietinho. Se te aborreceres, auxilia um pouco o sineiro. O coitado já está velho e se esquece de tocar os sinos, muitas vezes. Tocao, pois, para a glória de Deus! O velho sacerdote entregou-se ao trabalho com afinco, enquanto o diabo principiou a não fazer nada. Instalara-se num pequeno desvão situado na torre da igreja, entre os sinos, as

cordas e os trastes velhos. Uma das paredes da torre tinha na sua parte superior uma janelinha cheia de teias de aranha. Cada dois ou três dias, o velho sacerdote levava ao diabo um pouco de comida, sentando-se um instante ao seu lado, a fim de conversar com ele. O resto do tempo o diabo não via ninguém e não fazia outra coisa senão refletir. O sacerdote temia essas reflexões, vendo nelas - e razão tinha ele – uma espécie de ação, impelindo-o a cerrar hermeticamente o espírito do diabo, não deixando que ele pensasse em nada. Este prometia obedecer-lhe, porém isso era mais forte do que a sua vontade. Tornava-se dificílimo não pensar no que havia visto e ouvido, no que consistia sua ideia fixa, isto é, no bem. O bem possui tantas formas. . . O próprio Deus diz tão depressa uma coisa como outra ! Há inumeráveis verdades que se cruzam, entrechocam-se, batem-se umas contra as outras. Parece que se contradizem, mas na realidade não é assim. Qual é pois a "verdade"? Ou, se todas são verdades, como distingui-las e encontrar a que possa servir melhor? Tais pensamentos quase enlouqueciam o diabo inspirando-lhe mesmo certo terror. Permanecia, durante horas inteiras, imóvel no seu canto empoeirado, sem se mover, sem respirar sequer. - Que há, meu amigo? Aborreceste? perguntava-lhe o velho sacerdote ao trazer-lhe a comida. Paciência! Não deves fazer nada! prosseguia ele. Breve terminarei meu trabalho, e então começarás a viver. É verdade que a minha saúde me traz cada vez mais apreensivo, mas farei todo o esforço possível para concluir o trabalho antes de minha morte. Não te posso deixar dessa maneira. . . O diabo ouviu-o. No entanto, pareceu não perceber coisa alguma, tão absorto estava em suas reflexões. - Contradições por toda a parte! murmurou com os olhos cheios de espanto. - Como? exclamou alarmado o sacerdote. Onde encontras tantas contradições?As contradições não existem senão no espírito, que, sempre descontente, procura a lógica em tudo. O principal não é o espírito, mas a consciência. Isto, porém, se se vive com a consciência tranquila! - Mas, por acaso a consciência não é guiada pelo espírito? O senhor, meu padre, se contradiz. - Oh! Santo Deus! Como és difícil de te contentares! Cada conversa contigo me fatiga enormemente e acabo com dor de cabeça. Devo, no entanto, conservá-la serena, pois, do contrário, não poderei acabar o trabalho que estou fazendo. Para dizer a verdade, és um diabo muito desagradável. Confessa-me, com franqueza, se obedeces exatamente às minhas ordens. - Em que? - Ficas imóvel? Não fazes nada, absolutamente nada? - Sim. Ontem matei uma mosca, tão somente porque me aborrecia demasiado! . . . Não sei se é ou não permitido matar moscas. . . - Moscas? . . . Naturalmente!. . . Isto é, espera um pouco. . . Estás vendo? Agora, eu mesmo ignoro se pode ou não matar moscas. Grande acontecimento! Antes que me fizesses tal pergunta, jamais havia pensado nisso e, também eu, matava moscas. . . Agora. . . - A mosca é um ser vivo - disse o diabo com triste acento.

- Quem o duvida? - respondeu comovido o sacerdote. - Então, também eu matei seres vivos! Quão pecador sou!. . . O diabo, que procurava soluções claras e precisas, perguntou-lhe: - Em resumo, é licito ou não é licito matar moscas? - Moscas? . . . Tais palestras perturbavam os dois. Ambos acabavam confusos e, mirando-se reciprocamente, com olhares estúpidos, não sabiam de que maneira prosseguir. O sacerdote não levava muito a sério essas contradições; de regresso à sua casa, esquecia-se delas e punha-se, tranquilamente, a trabalhar. Mas para o diabo elas constituíam verdadeiro martírio. Cheio de forças diabólicas, capaz de mover montanhas, permanecia indeciso ante as moscas que o picavam e como uma criança - não sabia de que modo portar-se com elas. Como se as moscas compreendessem seu estado de alma pareciam zombar e caçoar dele: zumbiam insolentemente ao redor de sua cabeça, metiam-se-lhe nas suas peludas orelhas, faziam cocegazinhas nos seus lábios cerrados, assumiam posturas provocadoras, desafiavam-no. . . O diabo havia odiado muito em sua vida, mas todos estes ódios não eram nada comparados ao ódio feroz que nutria pelas débeis e insignificantes moscas. . . O sacerdote estava cada vez mais fraco: a saúde declinava e as poucas forças diminuíam cada vez mais. . . Sentia-se a todo o instante tão cansado, que era obrigado a se deitar um pouco. Há três anos que o diabo estava encerrado no canto da torre da igreja, condenado a uma inação absoluta, esperando pacientemente o programa do bem, que o sacerdote lhe havia prometido. Não atormentava mais o professor com as suas contradições; suplicava-lhes somente, que concluísse quanto antes o seu trabalho. - Apresse-se, meu padre! - Não tenhas medo, amigo! Não morrerei sem concluir minha obra. Segundo os meus cálculos, ainda me restam seis meses de vida, pouco mais ou menos. Sim, seis meses! Meu trabalho está quase terminado. Continua tranqüilo, e não percas o ânimo. Vim precisamente para te anunciar uma boa notícia: hoje vão queimar vivo um herege. Vem comigo para assistir o espetáculo. Isto nos agradará, e nos divertirá um pouco. - Não obstante, está escrito nas Santas Escrituras: "Não matarás" - pensou o diabo; porém, não disse uma palavra ao sacerdote e aceitou gostosamente a proposta, sobretudo porque se aborrecia terrivelmente na solidão. Há muito tempo já que estavam queimando o herege e o povo se divertia a valer. O diabo experimentava, também, certa alegria, porque aquilo lhe recordava o inferno. Mas lembrouse, repentinamente, da mosca, a qual não se atreveu a matar, e as contradições começaram a desassossegá-lo outra vez. Olhou o velho sacerdote e viu que este, mantendo-se de pé a custa de grandes sacrifícios, por causa de sua debilidade, estava pálido de emoção; tremiam-lhe as mãos, nos seus olhos brilhavam lágrimas de felicidade, e todo o seu semblante parecia iluminado por uma divina alegria. No inferno, os diabos queimavam, com frequência, os pecadores, mas durante essa operação seus rostos jamais exprimiram tão grande felicidade. Ficou estonteado, sem nada compreender. O sacerdote estava louco de alegria. Regozijou-se tanto com o espetáculo que, de regresso à casa, foi obrigado a se meter no leito, tal era a sua emoção. O diabo não se pôde conter e entabulou conversa: - Quisera saber, meu padre, por que se regozija o senhor desse modo.

- Pois é muito natural: acabam de queimar um herege - respondeu o padre com doce acento na voz. - Esquece o senhor que está escrito nas Santas. Escrituras: "Não matarás?" No entanto, mataram um homem, e o senhor se alegra! - Ninguém o matou. - Mas se o queimaram! - Claro, meu amigo! Queimaram-no, graças a Deus. Revirou os olhos, deliciado, e seu rosto expressou uma beatitude tão cândida e inocente, como a de uma criança. O diabo esfregava a fronte enrugada, com sua ampla e peluda garra, e quebrava a cabeça para explicar-se esta nova contradição. "Não entendo nada pensava. - Provavelmente tudo dependerá de como se faça o bem." E, com o coração opresso, resolveu ter paciência e esperar que o sacerdote concluísse o trabalho. Mas não voltou ao seu cantinho; permaneceu junto ao padre, como criado. Servia-lhe a comida, arranjava-lhe o aposento, limpava-lhe a roupa e varria o solo. - Em tudo isto - dizia - não pode haver o menor pecado. Quando o sacerdote, vencendo sua crescente debilidade, se assentava à mesa para escrever, o diabo esticava o busto largo e musculoso, seguindo o trabalho com o olhar, temeroso de que seu professor cometesse o menor erro. Aquele trabalho era a sua única e ultima esperança. Afinal, o manuscrito ficou pronto. A vida de seu autor parecia acabar-se com ele. O sacerdote já não podia se levantar da cama; nela foi obrigado a escrever, deitado, as últimas linhas. Eram irregulares e pouco legíveis, mas tornaram-se as mais queridas para o diabo, precisamente por serem as últimas. Ajoelhado ante o sacerdote moribundo, o diabo recebeu de suas mãos aquela preciosa dádiva, e beijou com verdadeiro amor a mão esquelética que a entregara. - Estás contente? - perguntou-lhe o sacerdote. - Pois eu também estou. Mas tem cuidado, para não praticares nenhuma tolice! - Agora estou seguro de mim - respondeu alegremente o diabo. – Vou cumprir, palavra por palavra e letra por letra, tudo o que está escrito aqui. A menos que o senhor haja cometido algum erro. . . - Sim; eu sei que porás muito zelo nisso. Mas, pelo amor de Deus! não percas o manuscrito, porque não encontrarias outro . . . Aonde pensas ir? Se não te distanciares muito, vem verme de vez em quando. Sentirei falta de ti. Acostumei-me tanto a ver-te! Antes, teu nariz pareciame muito feio; agora me agrada. . . O que é o hábito! . . . Aonde pensas ir? . . . - Vou percorrer o mundo! - respondeu o diabo. É pena que o senhor morra logo. O senhor devia viver ainda seis meses, pelo menos. Assim poderia lhe contar muitas e boas coisas. Ah! se o senhor soubesse como estou ansioso para fazer o bem! Que lástima que o senhor não possa ver-me trabalhar! O diabo partiu, mas eis aqui o que lhe aconteceu: Em lugar de começar sua obra com juízo, conforme o programa elaborado pelo velho sacerdote, apresentou-se no inferno, para nele propagar o bem. Por que o fez? Não se sabe. Talvez tenha perdido a razão, de alegria, talvez movido pelo orgulho e pela vaidade e quisesse exibir-se perante os demais diabos, ou talvez tivesse sentido a imperiosa necessidade de visitar o

lugar de seu nascimento. O caso foi que mal abandonou a casa do sacerdote, encaminhou-se diretamente ao inferno, sem a mínima hesitação. Qual foi o resultado da visita? Apenas abriu a boca para pregar um sermão e os demais diabos plantaram-se diante dele e começaram também a pronunciar sermões acerca da necessidade do bem, até com mais energia e eloquência do que ele. Todos eram especialistas na arte de mentir. Num instante toda a verdade se transformou numa mentira e as mais santas palavras, gritadas por aqueles lábios impuros e desavergonhados, transformaram-se em abomináveis opróbrios. Todo o inferno se encheu de predicadores e de santos. E Satanás, alegre com esta nova diversão, se pôs diante de todos e, morrendo de rir, entoava cânticos religiosos com voz fanhosa. Algumas bruxas, velhas e repelentes, representavam comédias cujos assuntos eram a Verdade, o Bem e a Virtude. Nunca, até então, nem nos dias de maiores festivais, teve o inferno um aspecto tão infernal. Vieram depois cenas de obscenidade, cheias de gestos impudicos e, por último, acabaram brigando uns com os outros. Nosso diabo, que há muito tempo havia perdido o costume da vida infernal, assim como a força física e a habilidade, era maltratado e batido como nenhum outro. O mais triste de tudo, porém, foi que, no curso da luta, lhe rasgaram o manuscrito. Quando, depois de conseguir livrar-se das mãos de um grupo de bruxas ébrias, deitou sobre o pobre manuscrito um olhar e o viu completamente roto, ficou quase louco de dor, e soltou longos e queixosos gemidos. No seu desespero chegou a insultar o próprio Satanás. Este deu tais mostras de cólera, que o infeliz discípulo do velho sacerdote se apressou a fugir. Corria com toda a velocidade que lhe permitiam suas pernas cansadas, apertando ao peito o manuscrito despedaçado. Corria à casa do velho professor, para que este lhe desse outro. Mas o velho sacerdote estava moribundo. - Espere o senhor um momento! - suplicava-lhe o diabo, ajoelhando-se diante de sua cama. - Espera! Acabam de rasgar o meu manuscrito! . . .

III
Durante dez minutos pelo menos, o diabo gritou, gemeu e implorou, rogando que lhe trocassem por outro o manuscrito rasgado. Depois, esforçou-se por tranquilizar-se e deixando de lado o manuscrito, aproximou-se ainda mais da cama do velho sacerdote. Após um prolongado silencio, este abriu, penosamente, os lábios ressequidos, perguntando com voz débil: - Fizeste alguma nova tolice? O diabo lançou um olhar triste ao manuscrito esfacelado, mas, para não afligir o moribundo, ocultou-lhe a verdade. - Não é nada, meu padre, senão que vê-lo assim me enche de pesar. É verdade que o senhor vai morrer? Ou o senhor viverá ainda um pouco? - Nem um só dia mais, meu amigo. Ontem fiz os meus preparativos para a grande viagem; decidi, porém, esperar mais um dia, com a ilusão de tornar a ver-te. E aqui estás! . . . Graças, meu amigo! . . . Faça o favor de levantar a cortininha da janela; quero olhar os arredores pela última vez.

Mas pela janela somente se via um cantinho de telhado vermelho e um pedacinho de céu, onde pairava uma nuvem vagarosa. O sacerdote se pôs a contemplá-la com alegria, enquanto o diabo pensava: "O que olha ele? Não há nada a ver: o telhado e um pedacinho do céu . . . Será porventura a nuvem que lhe causa tanta felicidade? . . . " E teve uma idéia. "Vou levá-lo ao alto do campanário: dali verá todas as nuvens que passam no céu e todos os telhados de sua Florença . . .” E assim o fez. Sem nada perguntar ao sacerdote, segurou em seus braços musculosos o corpo frágil e extenuado deste e levou-o, com muitas precauções, ao campanário, sobre uma pequena plataforma, da qual se descortinava o admirável panorama da cidade e dos campos circunvizinhos. - Agora olhe, meu padre. Isto é melhor do que olhar pela janela. Aqui se aprecia uma vista mais ampla e mais bela. Puseram-se, ambos, a olhar, cheios de admiração. O sol já estava quase escondido. Na margem oposta do rio Arno, sobre uma elevada colina, distinguiam-se alguns ciprestes negros, que pareciam prontos a perfurar o sol mortiço com suas copas agudas. Na outra margem do rio, os confins do horizonte, estendiam-se as montanhas que, aos suaves reflexos azulados do entardecer, pareciam diáfanas e fantásticas. Toda a formosa cidade estava como que rodeada de gigantescas grinaldas de flores perfumadas. Os povoados longínquos, situados nas encostas da montanha, pareciam florezinhas rosadas, espalhadas aqui e ali. As sombras crepusculares perdiam-se entre as montanhas. . . - Eu nasci atrás dessas montanhas, meu amigo! Ali está minha aldeia natal. Ali amei uma linda criaturinha, mas renunciei ao amor para servir a Deus. Durante inúmeros anos não pude me esquecer dela, nem da aldeia e, muitas vezes, olhei na direção das montanhas, suspirando saudosamente. O sacerdote moribundo olhava cheio de alegria ao seu redor e se entregava a suas recordações. O sol desaparecia pouco a pouco. - Amo também Florença, esta formosa cidade, em que vivi tanto tempo - continuou o sacerdote. - Agradava-me sentir sob meus pés as pedras tépidas de suas calçadas. Ah!, meu amigo, quando se anda pela terra setenta anos, esta se torna em alguma coisa assim como nossa mãe e até suas pedras perdem a dureza. . . E isto que estou dizendo será ainda mais certo ali, aonde vou agora. . . O diabo soltou um suspiro; o sacerdote, que continuava em seus braços, sentiu-o, compreendeu a dor do diabo e lhe disse com moribunda entonação: - Não suspires. . . Não te desesperes. . . É muito possível meu amigo, que também vás ao Paraíso. . . porque és. . . um diabo. . . muito bom. . . O sol verteu manchas sangrentas pelo céu, empurrando o horizonte e extinguindo-se. O velho sacerdote extinguiu-se com o sol. Morreu, abandonando sua querida Florença e todas aquelas terras, que tanto amava. Desesperado, o diabo esforçava-se por despertá-lo, falando-lhe com voz rude e áspera: - E as estrelas, meu padre? O senhor não admirou ainda as estrelas! O senhor não viu ainda a lua, que está quase a surgir no horizonte, e vai projetar, neste instante, sua pálida luz sobre as lajes da sua amada Florença. Abra os olhos, meu padre, e olhe! Suplico-lhe. . .

Quando compreendeu que tudo estava findo, e que seu amigo e protetor estava bem morto, transportou-o para baixo, para sua alcova. Enquanto o levava em seus braços, pensava: "Subi com ele vivo ao campanário e o desço morto! . . . " Uma dor profunda apoderou-se da alma do diabo. Agitava-se, chorava, gemia, uivava como um animal feroz, arrepelando os cabelos: não estava acostumado à dor humana, e manifestava-a de forma ridícula. Tão grande era seu desespero, que apanhando seu único tesouro – o manuscrito despedaçado - o atirou a um canto. No entanto, ao fazer isto, não compreendia que, precisamente naquele mesmo instante, se realizava o bem, esse bem intangível e misterioso, que ele procurara com tanto afã e a custa de tantos e tão grandes sofrimentos. E não o compreendeu em toda a sua vida. Aquele precioso manuscrito tinha um aspecto muito desagradável. Rasgado, maltratado, com as folhas engorduradas pelas garras dos demônios que o tocaram, achava-se ante os tristes olhos do nosso diabo, que envelhecera muitos anos num só dia. Abriu-o com mão trêmula, na primeira página, e mergulhou largo tempo no estudo das linhas cuidadosamente escritas. À medida que ia lendo, seus olhos exprimiam espanto e incompreensão. Ao terminar, estava fora de si, de tão surpreso e assustado. Até então, nunca, nem nos momentos mais difíceis de sua vida, teve o diabo um ar tão estúpido e assombrado. O manuscrito inteiro parecia- lhe uma pilhéria de mau gosto. Dir-se-ia que o velho sacerdote zombava do bem e do pobre diabo, que tão ansiosamente aspirava à virtude. Também, o sacerdote havia, com certeza, perdido o juízo nos seus últimos dias, porque, agora se recordava o diabo, balbuciava, com a gravidade de uma criança que diz cândidas simplicidades, coisas néscias, atribuindo grande importância às coisas mais insignificantes. De qualquer forma ele via, claramente, que o haviam enganado. Perdeu sua última esperança e sentiu-se furioso. Todo o manuscrito, da primeira à última página, estava composto de curtas prescrições, que diziam, semana por semana, dia por dia, hora por hora, o que o diabo teria de fazer. Não havia nele uma só lei geral, nem uma só regra, nem um só principio. A palavra "Bem", tampouco, era mencionada, uma única vez. Nele figurava simplesmente a descrição minuciosa do que se devia fazer em tal dia e a tal hora. O manuscrito parecia-se, portanto, mais do que qualquer outra coisa, com um livro de receitas. O que mais dolorosamente impressionou o diabo foi não ver em todo o manuscrito nem uma só das formosas verdades que a humanidade recolheu durante milhares de anos e que estão destinadas a embelezar o bem. Ele mesmo conhecia inúmeras delas; esperava, com razão, que o velho sacerdote que tanto estudara, colocasse grande quantidade destas verdades em sua obra. Mas não pusera uma que fosse. Subitamente um raio de esperança iluminou seu coração. Havia-o feito calculadamente o velho sacerdote, para que o diabo deduzisse por si mesmo as conclusões gerais? O velho sacerdote era muito malicioso. . . O diabo pôs-se a trabalhar. Examinou palavra por palavra, letra por letra com minucioso cuidado. Copiava, comprovava comparando os textos, esforçando-se por se apoderar do fio sutil e apenas perceptível, que conduzia ao bem. Se o fio se quebrava, esforçava-se por juntar as extremidades. Não se cansava nem se irritava, esperando sempre chegar às conclusões necessárias, às regras do bem, regras que iriam servir para todos os povos e a todas as épocas. Não era ambicioso, mas às vezes dizia consigo com certo orgulho, talvez trabalhasse para a humanidade.

Julgar-se-ia sua obra; reconheceriam o muito do seu trabalho e seria erigido um templo novo e magnífico em sua homenagem! . . . Impossível descrever o seu desespero e o seu horror, quando, depois de terminado o trabalho, nada encontrou, absolutamente nada. Nem uma ideia geral, nem uma verdade concludente, clara, indiscutível! . . . Não matarás; porém, se for necessário mata. Não mentirás; porém, se for preciso, mente. Dá tudo que tens ao próximo; porém, algumas vezes, tira-lhe o que possua. Não cometas adultério, ainda que, a rigor, possas cometê-lo Não cobices a mulher do teu próximo; porém, se não há outro remédio, podes tirar-lhe sua mulher, seu escravo e seu boi. E assim por diante, em tudo o mais. Quase não havia uma só prescrição do manuscrito, que não fosse desmentida páginas adiante. Em seus esforços para chegar a conclusões gerais e claras, o diabo encontrava a cada passo mil contradições. O mais terrível era que o sacerdote admitia, prescrevendo mesmo em alguns casos, os assassínios e as mentiras, com uma serenidade desconcertante. - Quer dizer que sempre esteve a me enganar! - exclamou o diabo pesaroso. Instintivamente uma idéia medonha passou por sua cabeça. Imaginou que o sacerdote fora um grande pecador. Porventura fora Satanás em pessoa que havia querido achincalhar o diabo?! Encolhido num canto, dizia para si, cheio de terror: - Sim . . . sim . . . é ele . . . é Satanás ! . . . Sabendo de que eu procurava o bem com todo o meu coração, disfarçou-se em sacerdote, como eu me disfarcei em homem, e me perdeu para sempre. Não conhecerei jamais a verdade, jamais compreenderei o que é o bem. Serei desgraçado para todo o sempre. Desgraçado e maldito! . . . Esperou que a porta se abrisse e que Satanás nela se mostrasse com a boca escancarada no seu riso alegre e ruidoso. Satanás o perdoaria e o convidaria a voltar com ele para o inferno. Mas Satanás não apareceu e a porta continuou silenciosa. Depois de haver refletido, o diabo disse com seus botões: - Viverei no desespero fazendo o que ordena este manuscrito, sem saber jamais o que é o bem! Estou maldito para todo o sempre! . . . Foi envelhecendo cada vez mais. Quando, de acordo com o manuscrito, precisava salvar alguém, salvava; quando era preciso matar, matava. Pouco a pouco se habituou a isso, tranquilizando-se. Cumprindo ao pé da letra tudo o que ordenava o manuscrito, chegou até a sentir certa alegria. Apesar da certeza de estar maldito para todos os séculos, mal se desgostava com isso. Deixou, mesmo, de pensar no bem. Passava, no entanto, algumas vezes, por situações difíceis. Isso acontecia quando o manuscrito, meio destruído, interrompia-se e o diabo ficava sem saber o que havia de fazer em tal ou qual dia. Subia, então, ao campanário e ali permanecia horas e horas, dias inteiros, sem fazer nada, em plena vagabundagem. Os olhos fechados para não ver, os ouvidos tapados para não ouvir, permanecia imóvel como uma estátua. Suas mãos, capazes de derrubar montanhas, estavam cruzadas sobre o peito, condenadas à impotência. Sua abundante cabeleira tornara-se com-

pletamente branca. Ao vê-lo quieto e inerte, na velha igreja de Florença, ninguém diria ser aquele mesmo diabo um ser vivo, condenado ao sofrimento; acreditar-se- ia, mais facilmente, tratarse de qualquer vetusta coluna, à qual ninguém até esse momento, tivesse prestado atenção. Transcorriam assim as horas e os dias, sem que ele fizesse o mínimo movimento, numa inércia absoluta. As moscas passeavam no seu rosto e metiam-se-lhe pelos ouvidos e pela boca; um pó cinzento cobria-lhe todo o corpo; as aranhas teciam suas teias sobre sua cabeça. . . E ali continuava, sempre imóvel, aquele pobre diabo velho, tão amante do bem.

FIM
Sobre o autor: LEONID ANDREIEV nasceu em Orel, Rússia, de origem muito humilde. Até os trinta anos de idade curtiu miséria sem conta, a ponto de passar dias e dias sem ter com que se alimentar. Chegou mesmo a atentar contra a própria existência. Ainda no hospital, percebeu o engano que cometera. Compreendeu que o sofrimento, no fundo, o fortalecera e que o homem poderia vencer tudo, menos o destino. Apesar de todos os reveses, prosseguiu nos estudos e formou-se em direito. Não possuindo vocação para a carreira, dedica-se inteiramente à literatura e ao jornalismo. Suas primeiras novelas alcançam relativo sucesso. Tolstoi – em plena glória – saúda-o com entusiasmo. Os editores mostram-se interessados em seus livros, que ele publica continuamente até 1922, quando falece em condições misteriosas, na Finlândia, onde se exilara cinco anos antes. Ninguém o lê sem sentir uma grande compaixão pelos infelizes que povoam a sua obra literária. Porque as imagens de tragédia e de amargura desse estranho pintor de vencidos são desenhadas com matizes novos, inesperados e complexos de um estilo revoltado, impetuoso e torturantemente pessoal. Em geral, os trabalhos de Andreiev refletem a vida sombria e atormentada dos que já perderam todas as esperanças, todas as ilusões. Até mesmo o humor com que tenta, por vezes, impregnar esta ou aquela história, – embora com ironia – provocam, às vezes, arrepios de terror. Sempre chama nossa atenção para o lado profundamente trágico e cruel da vida, fustigando o egoísmo e a impiedade, a covardia e a brutalidade humanas, mas sem a mínima esperança, desiludido do efeito de suas próprias palavras. Colocado entre os grandes pessimistas, Andreiev desce ao âmago das misérias que o rodeiam, não hesitando nem mesmo diante do mórbido, tudo expondo com uma crueza quase selvagem. A dúvida sempre o atormenta e por isso mesmo, da sua numerosa bagagem literária (contos, novelas, romances, dramas, comédias) poucos trabalhos refletirão tão nitidamente a sua personalidade como "A Conversão do Diabo". Amarga ironia, completo fracasso diante das contingências da vida, inutilidade de um destino, experiências e sofrimentos para, no fim de tudo, resultar em nada, absolutamente nada.

Mensanapress Publicações para Ler e Pensar Janeiro, 2012

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