P. 1
Walter Benjamin Paris Capital do Século XIX

Walter Benjamin Paris Capital do Século XIX

|Views: 1,556|Likes:

More info:

Published by: Maria Dolores Brito Mota on May 09, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/04/2015

pdf

text

original

-

---

As grandes damas vão passear.! /Dans Jes objets qu'étalent leurs portiques. mercadorias. os primeiros estabelecimentos a manterem grandes estoques de. rival das artes mortais.31 Os magasins de nouveautés. doce é contemplar o entardecer. Dos dois lados dessas ruas. In: -." 1 NGUYEN-TRONG-HIEP.ZQue l'industrie est rivale des arts. um material artificial. As galerias são centros comerciais de mercadorias de luxo. a arte põe-se a serviço do comerciante. CAPITAL DO SÉCULO XIX * "As águas são azuis e as plantas são róseas. Recuei! de verso Hanói. começando então as lutas entre construtor e decorador. exibem-se as lojas mais elegantes. Walter. tampouco os arquitetos. com o qual o princípio construtivo principia a sua dominação na arquitetura.. o teórico da arquitetura. Jahrhunderts. A segunda condição para o surgimento das galerias é dada pelos primórdios da construção com ferro. por todos os lados. >I< Reproduzido de BENJAMIN. Frankfurt a. 1897. do engenheiro oriundo das guerras da revolução. 1 [UDieWasser sind blau und die Gewachse sind rosa. 1. pela primeira vez na história da arquitetura. Suhrkamp Verlag. por Rolf Tiedemann. PARIS. Fourier ou as passagens "As mágicas colunas desses palácios mostram ao amador. A isto subjaz uma evolução cujo ritmo se acelera no decorrer do séculcr. de modo tal que uma dessas passagens é uma cidade em miniatura. são vias cobertas de vidro e com o piso de mármore. o Empire viu uma contribuição para a renovação da arte no antigo sentido grego. Die grossen Damen gehen spazieren. Nessa técnica.-Isto recebe o decisivo impulso quando fica claro que a locomotiva. Boetticher. "A construção adota o papel de subconsciente. Paris capitale de Ia France."] As galerias são o cenário das primeiras iluminações a gás. Org." Nem por isso deixa de começar a se impor o conceito de engenheiro. Nas vigas de sustentação esses construtores imitam colunas pompeianas e nas fábricas eles imitam moradias. A maioria das galerias de Paris surge no decênio e meio após 1822. V. t. Os contemporâneos não se cansam de admirá-Ias. passando por blocos de prédios. Gesammelte Schriften. p." 2 Nouveaux tableaux de Paris. 1. I. cuja iluminação vem do alto. para o qual o Estado é um fim em si mesmo. O Empire é o estilo do terrorismo revolucionário. começam a aparecer. 27. daquela época reconheceram a natureza funcional do ferro. expressa uma convicção generalizada quando afirma que "o princípio formal da sabedoria helênica há de entrar em vigor em função das formas artísticas do novo sistema". nos objetos que expõem seus portais: a indústria. Assim como N apoleão reconheceu bem pouco a natureza funcional do Estado enquanto instrumento de dominação da classe burguesa. Um Guia ilustrado de Paris afirma: "Estas galerias são uma nova invenção do luxo industrial."] :2 ["De ces palais les colonnes magiques/A l'amateur montrent de toutes parts. é até mesmo um mundo em miniatura". Poésie XXV./Man geht spazieren.M. Bcole Polytechnique e École des Beaux-Arts. der Abend ist süss anzuschauen. V. 1982. p. atrás delas pequenas damas vão se passando. São os precursores das grandes casas comerciais. cujos proprietários se reuniram para tais especulações. die Hauptstadt des XIX."] . hinter ihnen ergehen sich kleine Damen. com a qual se faziam experiências desde o final dos 3 ["Le grand poême de l'étalage chante ses strophes de couJeurs depuis Ia Madeleine jusqu'à Ia porte Saint-Denis. 1828. É a época sobre a qual Balzac escreveu: "O grande poema da estalagem canta as suas estrofes de cores. desde a Madeleine até a porta Saint-Denis" 8. Por longo tempo continuaram a ser um local de atração para os forasteiros. Com o ferro aparece. Paris. Paris. 45-59. assim como mais tarde as primeiras estações ferroviárias tomam por modelo os chalés. A primeira condição para o seu florescimento é a alta do comércio têxtil. Em sua decoração. Passeia-se. I.

salas de exposições e estações de trem . o cinema mudo e o cinema sonoro. Contemporânea aos panoramas. tais experiências. Fourierestabelece o colorido idííio do Biedermeier 5. para além da fotografia. o país onde corre leite e mel. Sua organização extremamente complexa aparece como maquinaria. a intrincada interação das passions mécanistes com a passion cabaliste são primitivas elaborações teóricas feitas. essa literatura é pano5 Estilo burguês da primeira metade do século XIX. o primevo símbolo do desejo a que a utopia de Fourier deu um novo alento.33 anos 20. geram a utopia que deixa o seu rastro em mil configurações da vida. O seu brilho se mantém. toma cuidado!" A. mas respeitando a vigilância policial do absolutismo. o surgimento da lua. 6 Oeuvres littéraires. As engrenagens das passions. eles prenunciam. Paris. No sonho. por analogia com a máquina. até Zola. nelas. no entanto. Contrário ao estilo "império". ainda é dominada pela do modo antigo (Marx) . Era incansável o empenho de. Tais tendências fazem retroagir até o passado remoto a fantasia imagética impulsionada pelo novo. ficou conhecido na França -como estilo "restauração". A ela pertencem: Le livre des Cent-et-Un. s6 era utilizável sobre trilhos de ferro. há uma literatura panoramática." MICHELET. 100 anos depois. em que ante os olhos de cada época aparece em imagens aquela que a seguirá. desaparecem os adornos de bronze e se busca a comodidade e a descontração. Essas imagens são imagens do desejo e."] 11. Mesmo do ponto de vista social. mediante artifícios técnicos. do T. Foi uma forma de "evasionisrno romântico". La grande ville. Mas isto não se expressa de modo imediato em seus textos: eles partem tanto da imoralidade da atividade comercial quanto da falsa moral posta a seu serviço. cujo revestimento anedótico corresponde às figuras plasticamente situadas no primeiro plano dos panoramas e cujo fundo informativo corresponde aos cenários pintados. vita-se o ferro nas moradias. (N. O phalanstêre deveria reconduzir homens acondiçõés de vida em que a moral se tomasse desnecessária.construções que serviam para fins de trânsito. Este acolhe as idéias de Fourier no seu Travail. a coletividade procura tanto superar quanto transfigurar as carências do produto social. WIERTZ. 374. O phalanstêre se toma uma cidade feita de galerias. Essa maquinaria feita de seres humanos produz Cocagne. Depositadas no inconsciente da coletividade.) 6 ["Soleil. destacando a sua "colossal visão dos homens". p. mas ele é empregado nas galerias. fazer dos panoramas pontos de uma imitação perfeita da natureza. nessas imagens desiderativas aparece a enfática aspiração de se distinguir do antiquado ---:-mas isto quer dizer: do passado recente. A sua reestruturação reacionária por Fourier é significativa: enquanto ["Chaque époque rêve Ia suivante. Nesses livros prepara-se o coletivo trabalho beletrístico para o qual Girardin criou um espaço com o folhetim dos anos 30. assim por sua vez a pintura o fez com' os panoramas. com ele se tornam moradias. Jean Paul é de fato tão afinado com o pedagogo Fourier quanto Scheerbart em seu Glasarchitektur [Arquitetura do vidro] com o utopista Fourier. ou seja. Também foi ele quem chamou a atenção para o humor de Fourier. No rigoroso mundo das formas do Empire. no qual voltam as linhas curvas. Procurava-se reproduzir a alternância das horas do dia na paisagem. âmbito da psicologia. esta última comparece conjugada a elementos da proto-história. o fragor das cascatas. Daguerre ou os panoramas "Sol. Simultaneamente se amplia o campo de aplicação arquitetõnica do vidro. "Cada época sonha a seguinte. Nas passagens Fourier viu o cânone arquitetõnico do phalanstêre. prends garde à toi!"] . a elementos de uma sociedade sem classes. Les Français peints par eux-mêmes. O apogeu na difusão dos panoramas coincide com o surgimento das galerias. num estilo idílico e culto. no. Os pressupostos sociais para o seu crescente emprego como material de construção só são descobertos. Ainda na Glasarchitektur [Arquitetura do vidro] de Scheerbart (1914) ele aparece em termos de utopia. desde construções duradouras até modas fugazes. Contrapondo-se a Carl GTÜn. Seu impulso basilar reside no surgimento das máquinas. David aconselha seus discípulos a desenharem os panoramas segundo a natureza. O trilho se toma a primeira peça montável de ferro. assim como em Thérêse Raquin se despede das grandes galerias. sendo o precursor da viga de sustentação. ainda que mais pálido.Marx defendeu Fourier. no começo. Tais circunstâncias tomam-se recognoscíveis na utopia de Fourier. Em seu Levana. Eles se compõem de vários esboços. Além disso. 1870. J. Le diable à Paris. Assim como a arquitetura começa a se emancipar da arte com a construção em ferro. Avenir! Avenir! 4 originariamente elas serviam a finalidades comerciais. À forma de um meio de construção que. interpenetradas pelo novo. bem como as deficiências da ordem social da produção. À medida que os panoramas procuram reproduzir na natureza representada alterações enganosamente similares. à época da monarquia. correspondem imagens na consciência coletiva em que o novo se interpenetra com o antigo.

/Il neigera du vin. Quando o expressionismo cede lugar ao cubismo. A razão técnica disso reside no longo tempo de exposição. Sua importância se torna tanto maior quanto mais problemática se percebe ser o caráter subjetivo da informação pictórica e gráfica em relação à nova realidade técnica e social. A referida exposição foi inaugurada com o discurso de Chaptal sobre a indústria. a expressão de um novo sentimento de vida. Estiver. se não a previu. Com isso. ao menos postulou a montagem como uma utilização da fotografia para fins de agitação. Louis-Bronre et le Saint(Théâtre du Palais-Royal 27 février i832).lL'âge d'or doit renaitre avec tout son éc1at."] 8 ["L'Europe s'est dépIacé pour voir des merchandises. para o [lâneur. diminui o significado informativo da pintura. 11 pleuvra des poulets. Exposições universais são centro de peregrinação ao fetiche mercadoria. Com gostosos pães torrados postos ao redor. As exposições universais transfiguram o valor de troca das mercadorias. Isso não acontece apenas por motivos econômicos." 7 LANGLÉ et -Simonien VANDERBURCH. uma apresentação especial à "fotografia". tenta trazer o campo para a cidade. Profetiza as suas aplicações científicas. pela primeira vez./Les épinards viendront au monde fricassés. de Paris até a China. Criam uma moldura em que o valor de uso da mercadoria passa 7 ["Oui. Ainda não se formara o quadro da indústria da diversão. o operário aparece nela fora de sua classe. é discípulo de Enfantin e editor do jornal saint-simoniano Globe. Os artistas começam. a fotografia era artisticamente superior ao retrato miniatural pintado. Como seus próprios quadros mostram. Wiertz publica o seu grande artigo sobre a fotografia. contudo. As exposições universais foram precedidas por exposições nacionais da indústria.lO divin Saint-Simon. Nos panoramas. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação. mas nada fizeram nas questões concernentes ao proletariado. cuja supremacia política sobre o morador do campo tantas vezes se manifesta ao longo do século. a cidade se abre em paisagem. Os espinafres virão ao mundo já guisados. No mesmo ano.lLes fleuves rouleront du thé. ao mesmo tempo.quando o mundo inteiro. Daguerre é um discípulo de Prévost. quand le monde entier. Em seus primórdios. ó divino Saint-Simon. a objetiva ousa fazer descobertas. A fotografia amplia. a primeira das quais ocorre em 1798 no Campo de Marte. du chocolat. pela primeira vez. Chevalier. Descrição dos panoramas de Prévost e Daguerre. Açafrão e temperos verdes poderão ser ceifados. como mais tarde ela o fará. A Exposição Universal de 1855 dedica. rolarão até chocolate. que exigia a máxima concentração do retratado. lançando no mercado uma quantidade imensa de figuras. o operariado tem o primado enquanto freguesia. Os saint-simonianos previram a evolução econômica mundial. As árvores produzirão os frutos já em compota. que planejavam a industrialização de todo o planeta. Reagindo contra a fotografia. mas não a luta de classes.consideravelmente a esfera mercantil."] . por sua vez. a primeira autoridade nesse novo setor. Os panoramas anunciam uma revolução no relacionamento da arte com a técnica e são. Para aumentar as vendas. afirma Taine em 1855. Pela última vez. acolheram a concepção das exposições universais. Suculentos carneiros encherão as planícies E solhas azuis nadarão pelo rio Sena. ela começa por enfatizar os elementos do colorido da imagem. em tua doutrina.lEt Ies brochets au bleu nageront dans Ia Seine. E do céu os patos cairão em nosso papo. tornando-se uma festa de emancipação para elas". A fotografia leva ao aniquilamento da grande corporação dos pintores de retratos miniaturais. Grandville ou as exposições universais "Sim. Esse espaço é ocupado pela festa popular. "A Europa se deslocou para ver mercadorias" 8. o que acaba determinando toda a posterior história da fotografia. No mesmo ano ele torna pública a invenção da daguerreotipia. Arago apresenta a fotografia num discurso na Câmara. de Paris jusqu'en Chine. a pintura se arranjou um novo domínio em que a fotografia inicialmente pôde segui-Ia. 111. galinha até há de chover. Ela decorreu do desejo de "divertir as classes trabalhadoras.Os saint-simonianos. Aí. tem renovado os seus objetos alterando a técnica das tomadas./Et du cieI les canards tomberont aux navets. . o pintor de panoramas. ele entendia tal "iluminação" no sentido político. a partir da metade do século. Prenuncia o seu lugar na história da técnica. como um figurante de um idílio. Participaram nos empreendimentos industriais e comerciais por volta de meados do século. paisagens e eventos que não rum sequer utilizáveis ou então só serviam para ilustrar uma mensagem./Et l'on moissonnera des carricks et des bottes. A idade de ouro há de renascer com todo o esplendor. A dianteira de Nadar em relação aos seus colegas de profissão caracteriza-se em seu projeto de fotografar o sistema de canalização de Paris./Les arbres produiront des pommes en compotes. de maneira ainda mais sutil. sera dans ta doctrine.l Avec des croütons frits tout autour concassés. atribuindo a ela a função de iluminar filosoficamente a pintura. A razão social disso reside na circunstância de que os primeiros fotógrafos pertenciam à vanguarda e dela é que provinha em grande parte a sua clientela. cujo estabelecimento se encontra na Passagem dos Panoramas. Wiertz pode ser considerado o primeiro que. Vinho há de nevar.4 râmica. a debater o seu valor artístico. O morador da cidade. Os rios rolarão chá./Les moutons tout rôtis bondiront dans Ia plaine.

Luís Filipe ou o interieur "A cabeça . Mobiliza todas as reservas da interioridade." '3 repousa 9 BAUDELAIRE. Elas o modernizam. formas de sustentação. Esta necessidade é tanto mais aguda quanto menos ele cogita estender os seus cálculos comerciais às suas reflexões sociais.38 para segundo plano. com a lnauguração em Paris de uma loja de objetos . Para essa casa. Percebe no ser vivo os direitos do cadáver. A ampliação do aparelho democrático através da justiça eleitoral coincide com a corrupção parlamentar organizada por Guizot. nas flores como símbolo concreto da desnuda natureza vegetativa. a partir de 1895. O escritório é seu complemento. " LEOPARDI. Para a Exposição Universal de Paris de 1867. Caracteriza-se pela exuberância da deco vegetal (floral). a casa aparece como expressão da personalidade. quer que o interieur sustente as suas ilusões. interessam a esse estilo modernista. As fantasias de Grandville transferem para o universo o caráter da mercadoria. /Sur Ia table de nuit. eis o secreto tema da arte de Grandville.Dialog zwischen der Mode und dem Tod. o interior da residência representa o universo.:estilo desenvolvido na Europa e EUA entre 1890-1910. Como um ranúnculo. das quais a primeira foi enviada para a Exposição Universal de Londres de 1851 e a segunda. Ele acaba demente. Ele procura tête . para a de 1862. Protegida por ela. O culto à mercadoria coloca-o a seu serviço. O homem privado. Expressa-se na linguagem mediúnica das linhas. ele parece. desfrutando a sua própria alienação e a dos outros. da interioridade. Inicial.. a natureza toda se transforma em "especialidades". o naturalista Toussenel. comme une renoncule. "Moda: Dona Morte! Dona Morte!" 37 IV. passa a ser -divulgado o nome nouveau.também esta palavra surgiu naquela época . O significado real do art nouveau não encontra sua expressão nessa ideologia.. Os interesses deles foram defendidos antes.e de um modo mais claro. . De acordo com a sua ideologia. O anel de Saturno se torna um terraço metálico. Representa a última tentativa de fuga de uma arte sitiada em sua torre de marfim pela técnica. Sob o lápis de Grandville. Relaciona o corpo vivo ao mundo inorgânico. Pela primeira vez. Une martyre". (N. representar a plenitude do interieur.com 750 membros. pelas delegações de trabalhadores franceses. o ornamento é o que a assinatura é para um quadro.. que se contrapõe a um ambiente tecnicamente armado. Os novos elementos da construção com ferro. Para o homem privado.A fantasmagoria da cultura capitalista alcança o seu desdobramento mais brilhante na Exposição Universal de 1867. Ela consiste na contra posição ao orgânico."] nouveau ---. A issocorresponde a defasagem entre o seu elemento utópico e o seu elemento cínico. Ele as apresenta dentro do mesmo espírito com que o reclame . O Império está no apogeu do seu poder. Inauguram uma fantasmagoria a que o homem se entrega para se distrair. elevando-o ao nível da mercadoria. Seu nervo vital é o fetichismo. Paris se afirma como a capital do luxo e da moda.) 9 ["La 10 Art "r' .fundada em Munique em 1896. Apóia o governo desse Luís Filipe como o governo do empresário. Digressão sobre J ugendstil (art nouveau) 10. A antítese literária dessa utopia gráfica é representada pelos livros do seguidor de Fourier. contornos sensuais e requintados. . O sujeito se entrega às suas manipulações. A indústria de diversões facilita isso.lRepose. no entanto. no qual os moradores de Saturno espairecem ao anoitecer. mente denominado style moderne na França.A moda prescreve o ritual segundo o qual o fetiche mercadoria pretende ser venerado. As suas sutilezas na representação de objetos mortos correspondem ao que Marx chamou de "argueiros teológicos" da mercadoria. o espaço em que vive o homem privado se contrapõe ao local de trabalho. rltm.designação de uma espécie de mercadoria surgida a essa época na indústria de luxo. Eles se sedimentam marcadamente na "specialité" . em especiarias. devido li revlll Jugend. Ao levá-Ios até os seus extremos descobre a sua natureza. subjacente ao sex-appeal do inorgânico. realista no escritório. A opereta é a irônica utopia de um duradouro domínio do capital. A entronização da mercadoria e da aura de dissipação que a envolve. O abalo do interieur ocorre por volta da virada do século com o art nouveau.começa a apresentar os seus artigos. Disso se originam as fantasmagorias do "interior". linhas finas e contínuas. Sob Luís Filipe. As exposições universais constroem o universo das mercadorias.Offenbach prescreve o ritmo da vida parisiense. Na Alemanha foi chamado Jugendstil (estilo jovem). a burguesia realizou seus objetivos de 1789 (Marx). formas ondulantes. Grandville estende tal pretensão aos objetos de uso cotidiano e inclusive ao cosmos. Estimula a construção de ferrovias para beneficiar as ações que possui. Com a Revolução de Julho. Reprime ambas ao confirmar o seu pequeno mundo privado. Organiza-se no interior da moradia. do T. Nele se reúne o longínquo e o pretérito. Esta última foi importante. pois contribuiu indiretamente para que Marx fundasse a Associação Internacional de Trabalhadores.decorativos. . A transfiguração da alma solitária se apresenta como sua meta. ~I classe dominante faz história fazendo os seus negócios. o homem privado pisa o palco da história. cioso. Na mesa da noite. O seu salon é um camarote no teatro do mundo.. Em Van de Velde. Victor Hugo redige um manifesto "Aos povos da Europa".

No interior. Com o spleen ele deixa o ideal em pedaços ("Spleen et Idéal"). O estudo deste tema está desenvolvido em KOTHE. Alinha-se no lado do associal. A multidão é o véu através do qual a cidade costumeira acena ao ilâneur nquanto fantasmagoria. O supra-sumo do Jugendstil é dado pelo Baumeister Solness: a tentativa do indivíduo no sentido de rivalizar. já para encontrar um comprador. a de Paris. Nessa fase intermediária. A casa comercial constrói tanto um quanto outro. com Baudelaire. nutrindo-se da melancolia. em que os homens estejam tão despojados daquilo que necessitam quanto no cotidiano. fando com que a ilânerie se torne útil à venda de mercadorias. empresta-lhe tão-somente um valor afetivo. burguesa. Em nenhuma delas ele se sente em casa. Paris se torna objeto da poesia lírica. a cidade é ora paisagem. a '14 ["Facilis descensus Avemo. Isto se expressa de modo mais palpável nos conspiradores profissionais." Paris. Isso ocorre aí através da ambigüidade inerente às relações e aos eventos sociais da época. cuja forma de vida envolve com um halo reconcilia- dor a desconsolada forma de vida vindoura do homem da cidade grande. Colchas e cobertores. 14 Eneida. ela aparece como bohême. São Paulo. bem como as novelas de detetive apontam Poe como o primeiro fisionomista de tal interieur.. A casa omercial é a última grande molecagem do jlâneur. A poesia de Baudelaire extrai a sua força do pathos da rebelião. o centro de gravidade do espaço existencial se desloca para o escritório. Flávio R. No lugar do valor de uso." VIRGíLlO. Mas essa camada encontra os seus adversários entre os autênticos líderes do proletariado. no entanto."] 11 O típico da poesia de Baudelaire é que as imagens da mulher e da morte se interpenetram numa terceira. na verdade. retirar das coisas o seu caráter de mercadorias. mais tarde será a pequena burguesia. mas pessoas privadas pertencentes à burguesia. Por essa época. Ele busca o seu asilo na multidão. Pensa que para dar uma olhada nele. o que o acaba levando ao naufrágio..) 11\ ["Tout pour moi devient allégorie. Baudelaire ou as ruas de Paris ''Tudo para mim se torna alegoria. contudo. que persegue esses rastros. O seu campo inicial de trabalho é o exército. O Manifesto comunista acaba com a sua existência política. 11 39 Msa poesia não é nenhuma arte nacional e familiar. do T. mas já começa a se familiarizar com o mercado."] . ilãneur ainda está no limiar tanto da cidade grande quanto da classe LÉON DEUBEL. Na multidão. que pertencem de modo total e completo à bohême. a lei da diaiética em estado de paralisação. Assume o papel de transfigurador das coisas.8 através do ornamento recuperar essas formas para a arte.." "Le cygne". Ambigüidade é a imagem visível e aparente da dialética. um substrato social. a Coisa. Essa paralisia é utópica e. Daí nasce a história de detetive. Com o jlãneur. Recai-lhe a tarefa de Sísifo de. A "Filosofia do mobiliário". fronhas e estojos em que os objetos de uso cotidiano imprimam a sua marca são imaginados em grande quantidade. O seu contraponto. 33 et seqs. Também os rastros do morador ficam impressos no interior. a intelectualidade parte para' o mercado. Habitar significa deixar rastros. fácil descer o Averno. com sua interioridade. Nenhuma delas ainda o subjugou. estando as coisas. o antigo leito abandonado do rio Sena. é alegórico.a sua formação topográfica. p. Alies. O interior da residência é o refúgio da arte. O engenho de Baudelaire. ["le crois . 1929.o cimento lhe acena a perspectiva de novas configurações plásticas potenciais na arquitetura. 1978. Os criminosos das primeiras novelas de detetive não são cavalheiros nem apaches. porém. Aí estão bem marcados os elementos primevos da cidade . V. A Paris de seus poemas é uma cidade submersa. o olhar do alegórico a perpassar a cidade é o olhar do estranhamento. dessa camada. A sua única comunhão sexual ele a realiza com uma prostituta. À indefinição de sua posição econômica corresponde a falta de definição de sua posição política.· Pela primeira vez. ocasionalmente o proletariado. pelo contrário. O decisivo em Baudelaire é. "Creio . O colecionador sonha não só estar num mundo longínquo ou pretérito.. "f'. Mas é exatamente o moderno que sempre cita a história primeva. O moderno é um acento primordial de sua poesia. à mon âme: Ia Chose. no "idílio fúnebre" da cidade: o moderno. esvaziado de realidade. constrói seu refúgio no lar. eles são acentuados. Benjamin & Adorno: confrontos. liberadas da obrigação de serem úteis. em que ainda tem um mecenas. ." O interior não é apenas o universo do homem privado."] Ia Benjamin operacionaliza aqui a categoria da "aura". em minh'alma: Oeuvres. a técnica. g o olhar do jlâneur. Em Poe e Engels ncontram-se as primeiras contribuições para a fisionomia da multidão. por isso. 193. mas também num mundo melhor. 13 BAUDELAIRE. mais submarina do que subterrânea. p. (N. mas também o seu estojo. ora ninho acolhedor. pela sua posse. O colecionador é o verdadeiro habitante desse interior.

ele faz com que Paris se torne uma cidade estranha para os próprios parisienses. da arquitetura E de todo o efeito do cenário repousam Sobre a lei da perspectiva pura. que são tanto casa quanto rua. é vendedora e mercadoria. des grandes choses. tenho o amor da primavera em flor: fêmeas e rosas!" 18 BARON HAUSSMANN. Paris. A arte. der Architekturl IUnd aller Szenerie-Effekt beruhenl Auf dem Gesetz der Perspektive nur.) "O reino florescente das decorações. na falsa aparência do sempre-igual. Através disso. f: a quintessência ela falsa consciência. VI. p. Lafargue explica () jogo como uma imitação miniatural dos mistérios da conjuntura econômica. As expropriações feitas por Haussmann dão vida a uma enganosa speculação. Do lado dos magasins de nouveautés se colocam os jornais. O produto desse processo' de "reflexão" é a fantasmagoria da "história da cultura". do Bom./J'ai I'amour du printemps en fleurs: femmes et roses!"] 10 ["Das Blüthenreich der Dekorationem. já é tempo! Alcemos a âncora!" 16 A derradeira viagem do flâneur: a morte. Assim como no século XVII a alegoria se torna o cânone das imagens dialéticas. p. regard."] ["Je voyage pour connaitre ma geographie. O seu arbiter rerum novarum [árbitro das coisas novas] é o snobe. Começa-se a tomar consciência do caráter desumano da grand 18 ["J'ai le culte du Beau. da bela natureza inspirando a grande arte. Surge o cinturão vermelho. 74. Ambas fazem abstração da existência social do homem. 1ft 1ft IT O ideal urbanístico de Haussmann eram as visões em perspectiva urnvés de longas séries de ruas. expressa o seu ódio contra a desarraigada população da grande metrópole. Baudelaire sucumbe à sedução de Wagner. das coisas grandiosas. Isso corresponde à tendência que sempre do novo se pode observar no século XIX. Sentia-se como que chamado para a sua obra. inspirada pela oposição burguesa e orleanista. 1907. num discurso na Câmara. no século XIX é a nouveauté que exerce o mesmo papel. o que enfatiza em suas memórias./Der Reiz der Landschaft. a imagem de um sonho. ste favorece o capital financeiro. em hipostática união. no sentido de enobrecer necesdades técnicas fazendo delas objetivos artísticos. que começa a pôr em dúvida a sua tarefa e deixa de ser "inséparable de l'utilité" [inseparável da utilidade] (Baudelaire). Haussmann ou as barricadas "Tenho o culto do Belo. provocando logo uma alta. "Ao fundo do desconhecido para encontrar o novo!" 17 O novo é uma qualidade que independe do valor de uso da mercadoria. do eterno retorno do mesmo. que tenta impermeabilizar a arte contra o desenvolvimento da técnica. 131. du Bien. il est tempsl levons l'ancre!"] ["Au fond de l'Inconnu pour trouver du Nouveau!"] . cujo incansável agente é a moda. As sentenças da Corte de Cassação. "Confession vieux". L'art chez les [ous.' Sua meta: o novo. Theater-Katechismus. precisa fazer do novo o seu valor máximo. Haussmann deu a si mesmo o nome de "artiste démolisseur" [artista demolidor]. (MARCEL RÉJA./Qu'il enchante l'oreille ou charme le. Tal imagem é presentificada pela prostituta. Assim. Esta aumenta constantemente através dos seus empreendimentos./De Ia belle nature inspirant le grand art. Os ritos de consagração com que a arte é celebrada são o contrapeso da dispersão que caracteriza a mercadoria. Tal imagem é presentificada pela mercadoria enquanto fetiche puro e simples. os bairros perdem a sua fisionomia própria. Tal imagem é presentificada pelas passagens e galerias. München. Não se sentem mais em casa nela. Haussmann trata de encontrar apoio para a sua ditadura e colocar Paris sob um regime de exceção. Eles se agrupam em torno da bandeira de l'art pour l'art. O jogo transforma o tempo em ópio. velha capitã." Apontamentos 15 quer ela encante os ouvidos ou agrade o olhar. Em 1864. vieux capitaine. Paris vivencia um flores cimento da speculação. Os inconformados protestam contra a entrega da arte ao mercado. A elevação dos aluguéis empurra o proletariado para os arrabaldes. que. o último poema das Flores do mal: "Le voyage". "O morte. As instituições da dominação laica deveriam encontrar a sua apoteose no traçado das avenidas: antes de serem inauguradas eram recobertas por uma lona e depois desencobertas como monumentos. A imprensa organiza o mercado dos valores espirituais. Às fantasmagorias do espaço a que o flâneur NO entrega correspondem as fantasmagorias do tempo pelas quais o jogador se deixa levar. d'un Iion devenu de um louco. O encanto da paisagem. "Viajo para conhecer" a minha geografia.40 imagem dialética é uma quimera. Dessa palavra de ordem se origina a concepção de obra de arte total."] ["O Mort. que pertence de modo inalienável e intransferível às imagens geradas pelo inconsciente coletivo." 19 FRANZ BOHLE. como um espelho em outro. em que a burguesia saboreia a sua falsa consciência. Ele é para a arte o que o dandy é para a moda. Essa falsa aparência de novidade se reflete. A atuação de Haussmann insere-se no imperialismo napoleônico. f: a origem da falsa aparência. Especular na Bolsa ocupa o lugar dos jogos de azar herdados da sociedade feudal. aumentam o risco financeiro da haussmannização.

começamos a reconhecer como ruínas os monumentos da burguesia antes mesmo que desmoronem. Mas eles ainda vacilam no limiar. p.) 4 apontasse o caminho. a todo momento a burguesia passou a assumir a aberta posição da luta de classes. as barricadas desempenharam um papel na Revolução de Fevereiro. assim também a Comuna liquida com a fantasmagoria que domina a primeira época do proletariado. Cada época não apenas sonha a seguinte. Mais fortes e mais seguras do que nunca. 1851. ó República. a poesia se submete à montagem."] . "Meu bom pai esteve em Paris. chegando com freqüência à altura do primeiro andar e protegendo as fronteiras que se encontram atrás delas. por outro lado. Carrega em si o seu próprio fim e como Hegel já o reconheceu . a ficar sujeito aos piores elementos dela. Se é 'a desgraça dos antigos levantes de operários que nenhuma teoria da revolução lhes 110 ["Pois Balzac foi O primeiro a falar das ruínas da burguesia. do Levante de Lyon até a Comuna. 1842. m seguida vem a fotografia enquanto reprodução da natureza. Mas só o surrealismo liberou-as à contemplação. Mesmo assim. Zwei Monate in Paris. Engels se ocupa com a tática das lutas de barricada. O início disso é dado pela arquitetura enquanto construção de engenheiro. Leipzig. Através dela dissipa-se a ilusão de que seria tarefa da revolução proletária completar de braços dados com a burguesia a obra de 1789. Tal ilusão domina o período de 1831 a 1871. No século XIX. os salões de exposição e os panoramas. 58. deve o seu nascimento a essa consciência. Oldenburg. Ele queria tornar impossível que no futuro se levantassem barricadas em Paris. aus Paris. A avaliação dos elementos oníricos à hora do despertar é um caso modelar de raciocínio dialético. se encaminha para o seu despertar. Briefe I. Ao lado da encoberta tomada de posição que é a filantropia." 20 Canção de operários por volta de .desenvolve-o com astúcia. As lérémiades d'un Haussmannisé dão-lhe a forma de uma lamentação bíblica. Por isso é que o pensamento dialético é o órgão do despertar histórico. assim como no século XVI as ciências se livraram da filosofia. As criações da fantasia se preparam para se tornarem práticas enquanto criação publicitária. 199. agora. a essas perversões A tua grande face de Medusa. a monumental obra de Maxime Du Champs. Atravessam as grandes avenidas. Il. assim também é. Os contemporâneos batizam esse empreendimento de "embelissement stratégique" [embelezamento estratégico]. O desenvolvimento das forças produtivas deixou em pedaços os símbolos dos desejos do século anterior. a força imediata o entusiasmo com que assumem a tarefa de construir uma nova sociedude. en déjouant Ia ruse. sonhando. voir. que alcança o seu apogeu na Comuna. tal desenvolvimento emancipou as formas configuradoras da arte. Assim como o Manifesto comunista encerrava a era dos conspiradores profissionais. Em meio a rubros clarões. Haussmann quer impedi-Ias de duas maneiras: a largura das avenidas deveria tornar impossível erguer barricadas e novas avenidas deveriam estabelecer um caminho mais curto entre as casernas e os bairros operários. "Vencendo. Faças ver. no entanto. Com o folhetim. Desta época é que se originam as passagens e os interiores. à astúcia.1850. Rimbaud e Courbet colocam-se do lado da Comuna. Todos esses produtos estão a ponto de serem encaminhados ao mercado enquanto mercadorias. A sua luta contra os direitos sociais do proletariado já começa na Grande Revolução e coincide com o movimento filantrópico que a encobre e que experimenta o seu desdobramento 'sob Napoleão IH. O incêndio de Paris a digna conclusão da obra de destruição de Haussmann. p. conquista temporariamente para o operariado os melhores elementos da burguesia.lO république à ces pervers/Ta grande face do M6duse/ Au milieu de rouges éclairs. São reminiscências de um mundo onírico. Nas comoções da economia de mercado. mas. Paris. Com essa intenção Luís Filipe já introduzira o calçamento com madeira. A verdadeira finalidade das obras de Haussmann era tornar a cidade segura em caso de guerra civil. levando-o depois.4 metrópole. As barricadas ressurgem com a Comuna. (AOOLF STAHR. A burguesia jamais compartilhou desse erro." KARL GUTZKOW. antes mesmo que desmoronassem os monumentos que os representavam. Já em 1831 ela reconhece no Iournal des Débats: "Cada fabricante vive em sua fábrica como os donos das plantações entre os seus escravos". Surge então com ele a monumental obra dessa corrente: Ouvriers européens de Le Play. Esse entusiasmo.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->