Mate Us

Autoria

Desde o segundo século da era cristã, a tradição da Igreja atribui ao apóstolo Mateus a autoria do
Evangelho que aparece em primeiro lugar nas várias edições da Bíblia (Mt 9.9 e 10.3).
Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, no início do século IV, já trazia citações de Papias, bispo
do século II, de Irineu, bispo de Leão e de Orígenes, grande pensador cristão do século III. Todos os
“pais da Igreja” (como ficaram conhecidos os notáveis discípulos de Cristo e teólogos dos primeiros
séculos), concordam em afirmar que este Evangelho foi escrito (ou narrado a um amanuense, pes-
soa habilidosa com a escrita), primeiramente em aramaico (hebraico falado por Cristo e pelos jovens
judeus palestinos de sua época) e depois, traduzido para o grego. Apesar das muitas evidências
sobre a existência do original em aramaico, todas as buscas e pesquisas arqueológicas somente en-
contraram fragmentos e cópias em grego. Entretanto, os principais estudiosos e teólogos do mundo
não duvidam que o texto grego que dispomos hoje em dia é o mesmo que circulou entre as igrejas
a partir da segunda metade do século I d.C.
Ainda que não apresentando explicitamente o nome do autor, o Evangelho Segundo Mateus,
fornece pelo menos uma grande evidência interna que confirma sua autoria defendida pelos pais da
Igreja. A história da narrativa de um banquete ao qual Jesus compareceu em companhia de grande
número de publicanos e pecadores (pagãos e judeus que não guardavam a Lei e as determinações
dos líderes religiosos da época) é descrita na passagem que começa com as seguintes palavras em
grego original transliterado: kai egeneto autou anakeimeou em te(i) oikia(i). Ou seja: “E aconteceu
que, estando Jesus em casa,...” (Mt 9.10). Considerando que os últimos três vocábulos significam
“em casa”, o trecho sugere que o banquete fosse oferecido “na casa” de Jesus. Contudo, a
passagem paralela em Mc 2.15 revela que essa festa aconteceu “na casa” de Levi, isto é, Mateus
Levi. O texto em Marcos aparece assim transliterado: en te(i) oikia(i) autou, “na casa dele”. O sentido
alternativo de Mt 9.10 esclarece que “em casa” quer dizer “na minha casa”, ou seja, “na casa” do
autor, e isto concorda perfeitamente com Marcos e com os fatos apresentados em todos os Quatro
Evangelhos.
Mateus, que tinha por sobrenome Levi (Mc 2.14), e cujo nome significa “dádiva do Senhor”, era um
cobrador de impostos a serviço de Roma, mas que abandonou uma vida de avareza e desonestidade
para seguir Jesus, o Messias (Mt 9.9-13). Em Marcos e Lucas é chamado por seu outro nome, Levi.
Propósitos
O principal objetivo do Evangelho Segundo Mateus é relatar seu testemunho pessoal sobre o fato de
Jesus Cristo ser o Messias prometido no Antigo Testamento, cuja missão messiânica era trazer o Reino
de Deus até a humanidade. Esses dois grandes temas: o caráter messiânico de Jesus e a presença
do Reino de Deus são indissociáveis e devem ser analisados sempre como um todo harmônico. Cada
qual representa um “mistério” – uma nova revelação do plano remidor de Deus (Rm 16.25-26).
Antes do grande evento da vinda do Messias, como o Filho de Deus (também chamado no AT e
pelo próprio Jesus de “o Filho do homem”), em triunfo e grande glória entre as nuvens do céu, a fim
de estabelecer Seu Reino sobre o planeta todo, terá em primeiro lugar, de vir sob a mais absoluta
humildade entre os homens na qualidade de Servo Sofredor, cônscio de que sua missão será dedi-
car a própria vida em sacrifício voluntário a favor da humanidade, especialmente dos que, crendo em
Seu Nome, se arrependerem dos seus pecados, nascendo para uma nova vida (Jo 1.12; 3.16). Esse
é o mistério da missão messiânica. Era um ensino completamente desconhecido para os judeus
do primeiro século da nossa era. Hoje, a maior parte dos cristãos que lêem o capítulo 53 de Isaías
não sentem qualquer dificuldade em identificar a pessoa de Jesus Cristo com o Messias prometido.
Entretanto, os judeus não observaram com cuidado a descrição do Servo Sofredor e deram mais
atenção às promessas de um Messias que viria com grande poder e glória, o que realmente está
registrado no contexto dessa passagem (Is 48.20; 49.3).
Por esse motivo, os judeus do primeiro século esperavam ansiosamente pelo Filho de Davi, um Rei
divino (uma vez que os reis humanos já haviam provado sua incompetência e limitação). O Filho de
INTRODUÇÃO
O EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
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Deus e Rei governará o Reino messiânico (Is 9 e 11 com Jr 33). Nesse Dia, todo pecado e mal serão
extirpados da terra; e a paz e a justiça prevalecerão. O Filho do homem é um ser celestial a Quem
está entregue o governo de todas as nações e reinos da terra.
O mistério do Reino é semelhante e está intimamente ligado ao mistério messiânico. No segundo
capítulo do livro do profeta Daniel temos a descrição da vinda do Reino de Deus em pinceladas
vigorosas e impressionantes. Todo poder que fizer resistência à vontade do Senhor será aniquilado.
O Reino virá todo, completo, de uma só vez, varrendo da sua frente todas as hostes do mal e todo
império contrário a Jesus Cristo. A terra será toda transformada e uma nova ordem, universal e
perfeita será instaurada.
Portanto, tanto a mensagem de Cristo como a Sua pessoa foram totalmente incompreendidas
pelos Seus compatriotas e contemporâneos em geral, incluindo os próprios discípulos. Todavia, a
nova revelação sobre o propósito de Deus é que o Reino deveria vir em humildade e doação: poder
espiritual, antes de vir em plena glória triunfante.
Mateus deixa claro que deseja apresentar, em ordem histórica, o nascimento, ministério, paixão e
ressurreição de Jesus Cristo. Para tanto, ele reúne os fatos em cinco grandes discursos proferidos
pelo Senhor: o chamado, Sermão da Montanha (Mt 5.1 a 7.27); a comissão aos apóstolos (Mt 10.5-
42); as parábolas (Mt 13.1-53); o ensino sobre humildade e perdão (Mt 18.1-35), e a palavra profética
(Mt 24.1 a 25.46). Mateus cita várias passagens e profecias extraídas do Antigo Testamento e, de
fato, interpreta essas profecias como tendo absoluto e certeiro cumprimento em Jesus Cristo; tudo
é escrito e ensinado de um modo que seria para o judeu do século I prova irrefutável, a qual a Igreja
cristã adota até nossos dias.
Data da primeira publicação
Embora alguns estudiosos considerem a forte possibilidade de o Evangelho Segundo Mateus ter
sido escrito na Antioquia da Síria, as evidentes características judaicas do texto original apontam sua
geração para alguma parte da antiga Palestina.
Considerando o fato de a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida por volta do ano 70 d.C., ser
ainda considerada um acontecimento futuro (Mt 24.2), e que Mateus, assim como Lucas, terem sido
beneficiados pela leitura dos escritos de Marcos, podemos entender que as primeiras cópias do livro
de Mateus circularam entre os irmãos da recém igreja cristã (chamada de igreja primitiva), quando a
Igreja era em grande parte judaica e o Evangelho pregado quase que exclusivamente aos judeus (At
11.19), por volta dos anos 50 e 60 da nossa era.
Esboço Geral de Mateus
1. Nascimento e infância do Cristo, o Messias (caps. 1,2)
A. A genealogia de Jesus (1.1-17).
B. O anúncio do seu nascimento (1.18 – 25)
C. A adoração ao bebê, filho do Homem, o Salvador (2.1-12)
D. A permanência de Jesus no Egito (2.13-23)
2. Prelúdio do ministério de Jesus Cristo (caps. 3.1 – 4.25)
A. João Batista e seu ministério preparatório para Jesus (3.1-12)
B. O batismo de Jesus Cristo (3.13-17)
C. A grande tentação de Jesus (4.1-11)
D. A investidura do Senhor (4.12-25)
3. O ensino do Rei Jesus Cristo (caps. 5.1 – 7.29)
A. A proposta da Vida no Reino (5.1-16)
B. Os princípios espirituais para se viver no Reino (5.17-48)
C. A Torá e a Lei de Moisés (5.17-20)
D. A lei sobre o assassinato (5.21, 22)
E. A lei sobre o adultério (5.27-30)
F. A lei sobre o divórcio (5.31, 32)
G. A lei sobre os votos (5.33-37)
H. A lei da não resistência (5.38-42)
I. A lei do amor (5.43-48)
4. Aspectos práticos da vida no Reino (caps. 6.1 – 7.12)
A. Sobre as esmolas e ajudas (6.1-4)
B. Sobre a oração (6.5-15)
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C. Sobre a disciplina espiritual do jejum (6.16-18)
D. Sobre o dinheiro (6.19-24)
E. Sobre a ansiedade e preocupações (6.25-34)
F. Sobre o Juízo (7.1-5)
G. Sobre a prudência (7.6)
H. Sobre a oração (7.7-11)
I. Sobre o trato com outras pessoas (7.12)
J. Sobre o caminho estreito do Reino (7.13-29)
5. Demonstrações da soberania de Jesus (caps. 8.1 – 9.38)
A. Poder sobre a impureza (8.1-4)
B. Poder sobre a distância (8.5-13)
C. Poder sobre as enfermidades (8.14-17)
D. Poder sobre os discípulos (8.18-22)
E. Poder sobre a natureza (8.23-27)
F. Poder para perdoar pecados (9.1-13)
G. Poder sobre a lei e as doutrinas (9.14-17)
H. Poder sobre a morte (9.18-26)
I. Poder sobre as trevas (9.27-31)
J. Poder sobre os demônios (9.32-34)
K. Poder sobre doenças da alma e do corpo (9.35-38)
6. A grande missão do Rei Jesus (10.1 – 16.12)
A. A missão é anunciada (10.1 – 11.1)
B. A missão é comprovada (11.2 – 12.50)
C. O consolo aos discípulos de João (11.2-19)
D. A condenação das cidades infiéis (11.20-24)
E. A convocação dos discípulos para Si (11.25-30)
F. As controvérsias sobre o uso do sábado (12.1-13)
G. O pecado imperdoável da incredulidade (12.14-37)
H. Alguns sinais extraordinários (12.38-45)
I. Relacionamentos transformados (12.46-50)
7. A missão tem seu objetivo ampliado (13.1-52)
A. A parábola do semeador (13.1-23)
B. A parábola do trigo e o joio (13.24-30)
C. A parábola do grão de mostarda (13.31, 32)
D. A parábola do fermento (13.33)
E. A parábola do trigo e do joio é explicada (13.34-43)
F. A parábola do tesouro escondido (13.44)
G. A parábola da pérola de grande valor (13.45, 46)
H. A parábola da rede (13.47-50)
I. A parábola do pai de família (13.51, 52)
8. A missão sofre fortes ataques (caps. 13.53 – 16.12)
A. Pelos conterrâneos do Rei (13.53-58)
B. Por Herodes – seguido de milagres (14.1-36)
C. Pelos escribas e fariseus – seguido de milagres (15.1-39)
D. Pelos fariseus e saduceus (16.1-12)
9. A teologia prática de Jesus, o Messias (caps.16.13 – 20.28)
A. Quanto à Sua Igreja (16.13-20)
B. Quanto à Sua morte (16.21-28)
C. Quanto à Sua glória (17.1-21)
D. Quanto à Sua traição (17.22, 23)
E. Quanto a impostos (17.24-27)
F. Quanto à humildade (18.1-35)
G. Alimentar uma fé pura e simples (18.1-6)
H. Sincera preocupação com os perdidos (18.7-14)
I. Disciplina e restauração entre os crentes (18.15-20)
J. Disposição para perdoar tudo e sempre (18.21-35)
K. Quanto aos dramas humanos (19.1-26)
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L. Problemas físicos (19.1, 2)
M. Divórcio e novo casamento (19.3-12)
N. Quanto às crianças e os pequenos na fé (19.13-15)
O. Quanto ao acúmulo de riquezas (19.16-26)
P. Quanto ao Reino (caps.19.27 – 20.28)
Q. Recompensas no Reino (19.27-30)
R. Reconhecimento no Reino (20.1-16)
S. Graduação e promoções no Reino (20.17-28)
10. A proclamação do Rei Jesus (caps. 20.29 – 23.39)
A. O poder do Rei Jesus (20.29-34)
B. A aclamação do Rei Jesus (21.1-11)
C. A purificação realizada pelo Rei Jesus (21.12-17)
D. A maldição da figueira (21.18-22)
E. O desafio ao Rei Jesus (21.23-27)
F. As parábolas do Rei Jesus (21.28 – 22.14)
G. Quanto à rebeldia de Israel (21.28-32)
H. A retribuição a Israel (21.33-46)
I. A rejeição de Israel (22.1-14)
J. Os pronunciamentos do Rei Jesus (caps. 22.15 – 23.39)
K. Em resposta aos herodianos (22.15-22)
L. Em resposta aos saduceus (22.23-33)
M. Em resposta aos fariseus (22.34-40)
N. Questionando os fariseus (22.41-46)
O. Contra os doutores da lei e fariseus (23.1-36)
P. Contra a cidade santa: Jerusalém (23.37-39)
11. As terríveis profecias do Rei Jesus (caps. 24.1 – 25.46)
A. A destruição do Templo (24.1, 2)
B. As indagações dos discípulos (24.3)
C. Os grandes sinais sobre o final dos tempos (24.4-28)
D. O sinal do glorioso retorno de Jesus (24.29-31)
E. Parábolas ilustrando as profecias (24.32 – 25.46)
F. A figueira (24.32-35)
G. Os dias de Noé (24.36-39)
H. Os companheiros (24.40, 41)
I. O pai de família atento (24.42-44)
J. O servo leal (24.45-51)
K. As dez virgens (25.1-13)
L. Os talentos (25.14-30)
M. O grande julgamento dos gentios (25.31-46)
12. O sacrifício do Rei Jesus por nossa Salvação (caps. 26.1 – 27.66)
A. A preparação da Paixão (26.1-16)
B. A Páscoa da Paixão (26.17-30)
C. A traição predita (26.31-56)
D. Os interrogatórios e julgamentos (26.57 – 27.26)
E. Diante do sumo sacerdote (26.57-75)
F. Perante o Sinédrio (27.1-10)
G. Respondendo a Pilatos (27.11-26)
H. A crucificação (27.27-66)
I. Martírio e humilhação (27.27-44)
J. Jesus entrega sua vida (27.45-56)
K. O sepultamento (27.57-66)
13. A ressurreição e a comissão do Rei Jesus (28.1-20)
A. O triunfo de Jesus sobre a morte (28.1-10)
B. A conspiração alegada (28.11-15)
C. A grande comissão dos discípulos (28.16-20)
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O EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
A linhagem real de Cristo
(Lc 3.23-28)
1
Livro da genealogia de Jesus Cristo,
Filho de Davi, Filho de Abraão:
2
Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó,
Jacó gerou Judá e seus irmãos,
3
Judá gerou Perez e Zera, de Tamar; Pe-
rez gerou Esrom; Esrom gerou Arão.
4
Arão gerou Aminadabe; Aminadabe ge-
rou Naassom; Naassom gerou Salmom,
5
Salmom gerou Boaz, de Raabe, e Boaz ge-
rou Obede, de Rute; Obede gerou a Jessé.
6
Jessé gerou o rei Davi, e o rei Davi ge-
rou a Salomão, daquela que foi mulher
de

Urias
1
;
7
Salomão gerou Roboão; Roboão gerou
Abias; Abias gerou Asa,
8
Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão;
Jorão gerou Uzias;
9
Uzias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz;
Acaz gerou Ezequias;
10
Ezequias gerou Manassés; Manassés
gerou Amom; Amom gerou Josias;
11
Josias gerou Jeconias e a seus irmãos
no tempo em que foram levados cativos
para a Babilônia.
12
Depois do exílio na Babilônia, Je-
conias gerou Salatiel; Salatiel gerou
Zorobabel;
13
Zorobabel gerou Abiúde; Abiúde ge-
rou Eliaquim, e Eliaquim gerou Azor;
14
Azor gerou Sadoque; Sadoque gerou
Aquim; Aquim gerou Eliúde,
15
Eliúde gerou Eleazar; Eleazar gerou
Matã, Matã gerou Jacó;
16
Jacó gerou José, marido de Maria, da qual
nasceu JESUS, denominado o Cristo.
2


17
Portanto, o total das gerações é: de
Abraão até Davi, quatorze gerações; de
Davi até o exílio na Babilônia, quatorze
gerações; e do exílio na Babilônia até
Cristo, quatorze gerações.
A linhagem divina de Cristo
(Lc 2.1-7)
18
O nascimento de Jesus Cristo ocorreu
da seguinte maneira: Estando Maria, sua
mãe, prometida em casamento a José,
antes que coabitassem, achou-se grávida
pelo Espírito Santo.
19
Então, José, seu esposo
3
, sendo um
homem justo e não querendo expô-la à
desonra pública, planejou deixá-la sem
que ninguém soubesse a razão.
20
Mas, enquanto meditava sobre isso,
eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo
do SENHOR, dizendo: “José, flho de Davi,
não temas receber a Maria como sua
mulher, pois o que nela está gerado é do
Espírito Santo.
21
Ela dará à luz um flho, e lhe porás o
nome de Jesus, porque Ele salvará o seu
povo dos seus pecados”.
4
22
Tudo isso aconteceu para que se cum-
prisse o que o SENHOR havia dito através
do profeta:
1
A expressão “daquela que foi mulher” não se encontra nos originais em grego; entretanto, desde 1611, a Bíblia King James
traz, junto ao texto bíblico, essa explicação rabínica, cujo emprego passou a se observar na maioria das traduções e versões
posteriores, em diversas línguas.
2
A expressão grega christos é o adjetivo verbal semita, equivalente a Messias, que, em hebraico, significa “o Ungido”. No AT,
essa forma designava o rei de Israel (o ungido do Senhor, como em 1 Sm 16.6), o sumo sacerdote (o sacerdote ungido – Lv 4.3).
No plural, essa expressão se refere aos patriarcas em seu ministério de profetas (“meus ungidos” – Sl 105.15). Jesus cumpriu a
profecia messiânica, desempenhando essas três funções.
3
O noivado judaico da época era um compromisso tão solene, que os noivos passavam a se tratar como marido e mulher. A
Lei, contudo, proibia qualquer relação sexual antes do casamento formal. O noivado só poderia ser desfeito por infidelidade, que
era punida com repúdio público e apedrejamento (Gn 29.21; Dt 22.13-30; Os 2.2).
4
Jesus (em hebraico Yehoshú’a) significa Yahweh Salva ou “O SENHOR é a Salvação”. Yahweh é o nome judaico impronunciável,
sagrado e sublime de Deus, na maioria das vezes traduzido por: SENHOR. Em hebraico: (Êx 6.3; Is 41.4). Em grego Egô Eimi.
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6 MATEUS 1, 2
23
“Eis que a virgem conceberá e dará à
luz um flho, e Ele será chamado de Ema-
nuel”, que signifca “Deus conosco”.
5
24
José, ao despertar do sonho, fez o que
o Anjo do SENHOR lhe tinha ordenado e
recebeu Maria como sua mulher.
25
Contudo, não coabitou com ela en-
quanto ela não deu à luz o flho primogê-
nito. E José lhe colocou o nome de Jesus.
A visita dos sábios do Oriente
2
Após o nascimento de Jesus

em Belém
da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis
que alguns sábios vindos do Oriente che-
garam a Jerusalém.
1
2
E, indagavam: “Onde está aquele que é
nascido rei dos judeus? Pois do Oriente
vimos a sua estrela e viemos adorá-lo”.
2

3
Quando o rei Herodes ouviu isso, fcou
perturbado e toda a Jerusalém com ele.
4
Tendo reunido todos os príncipes
dos sacerdotes e os escribas do povo,
perguntou-lhes onde havia de nascer
o Cristo.
3

5
E eles lhe responderam: “Em Belém da
Judéia, pois assim escreveu o profeta:
4

6
‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de
modo algum és a menor entre as prin-
cipais cidades de Judá; pois de ti sairá o
Guia, que como pastor, conduzirá Israel,
o meu povo’”.
5
7
Então Herodes, chamando secretamen-
te os sábios, interrogou-os exatamente
acerca do tempo em que a estrela lhes
aparecera.
8
Mandou-os a Belém e disse: “Ide, e
perguntai diligentemente pelo menino, e
quando o achardes, comunicai-me, para
que também eu vá e o adore”.
9
Após terem ouvido o rei, seguiram
o seu caminho, e a estrela que tinham
visto no Oriente foi adiante deles, até
que fnalmente parou sobre o lugar onde
estava o menino.
5
Mateus demonstra de forma clara e inquestionável que Jesus Cristo é o Messias prometido nas diversas profecias do AT,
como nesse texto de Is 7.14. (Mt 2.15-23; 8.17; 12.17; 13.25; 21.4; 26.54-56; 27.9; cf. 3.3; 11.10; 13.14, etc.) O próprio Jesus usa
as Escrituras para comprovar sua identidade e ministério (Mt 11.4-6; Lc 4.21; 18.31; 24.44; Jo 5.39; 8.56; 17.12, etc.)
Capítulo 2
1
O primeiro calendário foi elaborado por Dionísio Exíguo, de Roma (no século VI) e adotado em todo o mundo predominan-
temente cristão. Com o surgimento de novas e mais precisas tecnologias para a medição do tempo, constatou-se que Dionísio
errou em pelo menos 4 anos em relação ao mais antigo calendário romano.
Herodes, chamado “O Grande”, recebeu, do Senado romano, o título de “rei da Judéia” e, por isso, ficou conhecido como “rei
dos judeus”. Durante seu reinado (de 39 a.C. a 4 a.C.) mandou matar todas as crianças de Belém, de até 2 anos de idade. Nessa
época Jesus estaria em seu segundo ano de vida. E os cálculos demonstram que teria nascido quase 5 anos antes do “Anno
Domini” (ano oficial do nascimento do Senhor).
Quanto à expressão “sábios”, como traduzida pela Bíblia King James, refere-se a um grupo de sacerdotes babilônios, gentios,
reconhecidos entre os povos medo-persas como mestres, cientistas, astrônomos, e que se dedicavam ao estudo da medicina e
da astrologia. Algumas versões trazem a expressão “magos”, mas em nossos dias essa palavra tem uma conotação estritamente
mística e ocultista. A tradição das igrejas cristãs acrescenta que eles eram três reis, devido aos três presentes de alto valor mone-
tário oferecidos a Jesus, mas isso não tem comprovação bíblica.
2
Séculos mais tarde, o astrônomo Kepler calculou que essa imagem de estrela reluzente se tratava da conjunção de Júpiter e
Saturno na constelação de Peixes, em 7 a.C. Na China, o mesmo fenômeno foi observado no ano 4 a.C. e interpretado como o
aparecimento de uma estrela variável, com surgimento e desaparecimento periódicos.
3
Herodes convoca os responsáveis pela vida religiosa e moral da nação judaica. Os sumos sacerdotes eram os membros das
grandes famílias sacerdotais de Jerusalém. Os escribas geralmente pertenciam ao partido político dos fariseus; eram também
doutores da Lei e estudantes profissionais, pagos para estudar e ensinar, ao povo, a Lei e as tradições rabínicas. Também fun-
cionavam como advogados públicos, sendo-lhes confiada à administração da lei e da ordem, como juízes no Sinédrio (22.35).
Esses dois grupos se unem contra Jesus, em 21.15. Mateus associa com mais freqüência os sumos sacerdotes aos anciãos do
povo (26.3,47; 27.1). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os principais responsáveis pelo drama de um povo são seus
líderes e chefes.
4
A palavra “profeta” deriva do grego “pro” que significa “para adiante” ou “à frente” e “phemi” que quer dizer “o que fala”.
O profeta é aquele que traz a mensagem de Deus, o servo que anuncia prioritariamente, antes de tudo, a Palavra do Senhor.
Esse ministério pode incluir a previsão de futuros eventos. Deus continua a falar através de seus profetas nas igrejas de hoje.
Os arautos de Deus nos orientam e ensinam a ouvir o Espírito Santo e a obedecer à Palavra. Entretanto, a Bíblia também nos
adverte quanto aos “falsos profetas”, pessoas que são lideradas por um espírito diferente do Espírito Santo e causam confusão à
comunidade e grande dano a si próprios (Jr 7.4, Jr 14.14, Lm 2.4, Ez 13.6, Mt 7.15, Mt 24.11-24, 2Pe 2.1, Ap 19.20).
5
Mq 5.2; Jo 7.42; Ap 2.27
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7 MATEUS 2, 3
10
E vendo eles a estrela, alegraram-se
com grande e intenso júbilo.
11
Ao entrarem na casa, encontraram o
menino com Maria, sua mãe, e prostran-
do-se o adoraram. Então abriram seus
tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro,
incenso e mirra.
6
12
E, sendo por divina revelação avisados
em sonhos para que não voltassem para
junto de Herodes, retornaram para a sua
terra, por outro caminho.
A fuga para o Egito
13
Depois que partiram, eis que um anjo
do SENHOR apareceu a José em sonho e
lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e
sua mãe, e foge para o Egito. Permanece
lá até que eu te diga, pois Herodes há de
procurar o menino para o matar”.
14
José se levantou, tomou o menino e sua
mãe, durante a noite, e partiu para o Egito.
15
E esteve lá até a morte de Herodes. E
assim se cumpriu o que o SENHOR tinha
dito através do profeta: “Do Egito cha-
mei o meu flho”.
7
16
Quando Herodes percebeu que havia
sido iludido pelos sábios, irou-se ter-
rivelmente e mandou matar todos os
meninos de dois anos para baixo, em
Belém e em todas as circunvizinhanças,
de acordo com as informações que havia
obtido dos sábios.
17
Então se cumpriu o que fora dito pelo
profeta Jeremias:
18
“Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto
e grande lamentação; é Raquel que chora
por seus flhos e recusa ser consolada,
pois já não existem”.
8
O retorno para Israel
19
Após a morte de Herodes, eis que um
anjo do SENHOR apareceu em sonho a
José, no Egito, e disse-lhe:
20
“Dispõe-te, toma o menino e sua mãe,
e vai para a terra de Israel; porque já
estão mortos os que procuravam tirar a
vida do menino”.
21
Então, José se levantou, tomou o meni-
no e sua mãe, e foi para a terra de Israel.
22
Mas, ao ouvir que Arquelau estava
reinando na Judéia, em lugar de seu pai
Herodes, teve medo de ir para lá. Con-
tudo, tendo sido avisado em sonho por
divina revelação, seguiu para as regiões
da Galiléia.
23
Ao chegar, foi viver numa cidade
chamada Nazaré. Cumpriu-se assim o
que fora dito pelos profetas: “Ele será
chamado Nazareno”.
9
João Batista prepara o caminho
(Mc 1.2-8; Lc 3.1-18; Jo 1.6-8,19-36)
3
Naqueles dias surgiu João Batista pre-
gando no deserto da Judéia; e dizia:
2
“Arrependei-vos, porque o Reino dos
céus está próximo”.
1
3
Este é aquele que foi anunciado pelo
profeta Isaías: “Voz do que clama no
deserto: Preparai o caminho do SENHOR,
endireitai as suas veredas”.
4
João tinha suas roupas feitas de pêlos
de camelo e usava um cinto de couro na
cintura. Alimentava-se com gafanhotos e
mel silvestre.
5
A ele vinha gente de Jerusalém, de toda
a Judéia e de toda a província adjacente
ao Jordão.
6
Sl 72.10-11; Is 60.6
7
Os 11.1
8
Jr 31.15
9
A expressão hebraica traduzida por “nazareno” significa: desprezível ou desprezado. Nazaré era o lugar mais improvável para
o surgimento ou a residência do Messias, o Ungido de Deus e libertador do povo de Israel (Sl 22.6; Is 11.1; Is 53.3; Mc 1.24).
Capítulo 3
1
João começa seu ministério no deserto da Judéia, uma região árida e estéril, ao longo da margem ocidental do mar Morto.
O Reino dos céus sinaliza o domínio do céu e dos seus valores sobre a terra e o sistema econômico, político, social e religioso
mundial. O povo judeu da época de Cristo esperava esse Reino messiânico (ou davídico) e seu estabelecimento. Foi exatamente
esse o Reino que João anunciou como “próximo”. A rejeição de Cristo pelo povo adiou sua plena concretização até a segunda e
iminente vinda de Cristo (Mt 25.31). O caráter atual do Reino está descrito na série de parábolas (histórias com objetivo didático)
contadas por Jesus em Mt 13.
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8 MATEUS 3, 4
6
Confessando os seus pecados, eram
batizados por João no rio Jordão.
7
E, vendo ele muitos dos fariseus e dos
saduceus que vinham ao seu batismo,
dizia-lhes: “Raça de víboras, quem vos
ensinou a fugir da ira futura?
2
8
Produzi, sim, frutos que mostrem vosso
arrependimento!
9
Não presumais de vós mesmos, dizen-
do: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu
vos digo que mesmo destas pedras Deus
pode gerar flhos a Abraão.
10
O machado já está posto à raiz das
árvores, e toda árvore, pois, que não
produz bom fruto é cortada e lançada
no fogo.
11
Eu, em verdade, vos batizo com água,
para arrependimento; mas depois de
mim vem alguém mais poderoso do que
eu, tanto que não sou digno nem de levar
as suas sandálias. Ele vos batizará com o
Espírito Santo e com fogo.
12
Ele traz a pá em sua mão e separará
o trigo da palha.
3
Recolherá no celeiro o
seu trigo e queimará a palha no fogo que
jamais se apaga”.
O batismo de Jesus
(Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34)
13
Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão
para ser batizado por João.
14
Mas João se recusava, justifcando:
“Sou eu quem precisa ser batizado por ti,
e vens tu a mim?”
15
Jesus, entretanto, declarou: “Deixe
assim, por enquanto; pois assim convém
que façamos, para cumprir toda a justiça”.
E João concordou.
16
E, sendo Jesus batizado, saiu logo da
água, e eis que se abriram os céus, e viu o
Espírito de Deus descendo como pomba
e vindo sobre Ele.
17
Em seguida, uma voz dos céus disse:
“Este é meu Filho amado, em quem mui-
to me agrado”.
Jesus é tentado pelo Diabo
(Mc 1.12,13; Lc 4.1-13)
4
Jesus foi então conduzido pelo Espí-
rito, ao deserto, para ser tentado pelo
Diabo.
2
Depois de jejuar quarenta dias e qua-
renta noites, teve fome.
3
O tentador aproximou-se então dele e
disse: “Se tu és o Filho de Deus, manda
que estas pedras se tornem em pães”.
4
Jesus, porém, afrmou-lhe: “Está es-
crito: ‘Nem só de pão viverá o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de
Deus’”.
1
5
Então o Diabo o conduziu à Cidade
Santa, e colocou-o sobre a parte mais
alta do templo e desafou-lhe:
6
“Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui
para baixo. Pois está escrito: ‘Aos seus
anjos dará ordens a teu respeito, e com
as mãos eles te susterão, para que jamais
tropeces em alguma pedra’”.
2
2
Os fariseus eram a mais influente das seitas do judaísmo no tempo de Cristo. Embora apegados às doutrinas e à ortodoxia,
seu zelo, sem o entendimento espiritual da Lei de Moisés levara-os, ao longo dos séculos, a uma observância estrita das normas e
regras da Lei e das tradições rabínicas. Eram justos aos próprios olhos e inimigos implacáveis de Jesus Cristo (Mt 9.14; 23.2; 23.15;
Mc 12.40; Lc 18.9). Os saduceus, que pertenciam à elite econômica e às famílias sacerdotais, eram anti-sobrenaturalistas (não criam
em milagres e no poder sobrenatural de Deus). Opunham-se às tradições dos ensinos e interpretações dos fariseus e colaboravam
abertamente com os governantes romanos. Uniram-se aos fariseus apenas em suas perseguições a Cristo (Mt 16.1-4,6).
3
Algumas versões trazem a expressão: “...e limpará a sua eira”. A Bíblia King James optou por uma tradução mais clara dessa
frase, a partir do original grego; pois a “pá”, que Jesus traz em sua mão, tem a ver com uma pá de madeira usada para lançar
o cereal triturado ao ar, de modo que a palha, mais leve, fosse carregada pelo vento, e os grãos se amontoassem no solo. Isso
significa “limpar a eira” e reforça o cumprimento da profecia de Malaquias (Ml 3.1-6 e 4.1).
Capítulo 4
1
O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o
Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente
divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno
e suficiente (2Co 5.21; Hb 4.15, Rm 8.3; 1Jo 2.16; Tg 1.13). Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para
responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja.
2
O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe
dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Sl 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagrado
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9 MATEUS 4, 5
7
Contestou-lhe Jesus: “Também está
escrito: ‘Não tentarás o SENHOR teu
Deus’”.
3
8
Tornou o Diabo a levá-lo, agora para
um monte muito alto. E mostrou-lhe
todos os reinos do mundo em todo o seu
esplendor.
9
E propôs a Jesus: “Tudo isso te darei se,
prostrado, me adorares.
10
Ordenou-lhe então Jesus: “Vai-te, Sata-
nás, porque está escrito: ‘Ao SENHOR, teu
Deus, adorarás e só a Ele servirás’”.
4
11
Assim, o Diabo o deixou; e eis que
vieram anjos, e o serviram.
Jesus inicia seu ministério
(Mc 1.14-20; Lc 4.14-32; 5.1-11)
12
Jesus, entretanto, ouvindo que João
estava preso, voltou para a Galiléia.
13
E, deixando Nazaré,
5
foi habitar em
Cafarnaum, situada à beira-mar, nos
confns de Zebulom e Naftali.
14
Assim cumprindo-se o que fora dito
pelo profeta Isaías:
15
“Terra de Zebulom e terra de Naftali,
caminho do mar, além do Jordão, Gali-
léia dos gentios!
6
16
O povo que jazia nas trevas viu uma
grande luz; e aos que estavam detidos
na região e sombra da morte, a luz
raiou”.
17
Daquele momento em diante Jesus
passou a pregar e dizer: “Arrependei-vos,
porque é chegado o Reino dos céus!”.
18
E, caminhando junto ao mar da
Galiléia, viu Jesus dois irmãos: Simão,
chamado Pedro e André que lançavam a
rede ao mar, pois eram pescadores.
19
Então, disse-lhes Jesus: “Vinde após mim,
e Eu vos farei pescadores de homens”.
20
Eles, imediatamente deixaram suas
redes e seguiram Jesus.
21
Seguindo adiante, viu Jesus outros
dois irmãos: Tiago, flho de Zebedeu e
João, seu irmão, que estavam no barco
com Zebedeu, seu pai, consertando as
redes; e chamou-os.
22
Eles imediatamente deixaram o barco
e seu pai para seguirem a Jesus.
23
E percorria Jesus toda a Galiléia,
ensinando nas sinagogas, pregando o
evangelho do Reino e curando todas as
enfermidades e males entre o povo.
24
E sua fama correu por toda a Síria; e
trouxeram-lhe, então, todos aqueles que
sofriam, acometidos de várias enfermi-
dades e tormentos, os endemoninhados,
os lunáticos e os paralíticos. E Jesus os
curava.
25
E uma grande multidão da Galiléia,
Decápolis, Jerusalém, Judéia e de além
do Jordão seguia a Jesus.
O sermão do monte
(Lc 6.20-29)
5
Jesus, vendo as multidões, subiu a
um monte e, assentando-se, os seus
discípulos aproximaram-se dele.
2
E Jesus, abrindo a boca, os ensinava,
dizendo:
que não se ajustava a seus intentos. Esse mesmo método de interpretação inescrupulosa da Bíblia tem-se repetido ao longo dos
séculos, na criação e desenvolvimento de diversas seitas heréticas em todo o mundo.
3
Veja Dt 6.16
4
Somente uma análise profunda e detalhada dos diálogos aqui travados entre Satanás e Jesus pode revelar a magnitude dessa
batalha espiritual vencida por Cristo por meio da Palavra de Deus (Dt 6.13; 10.20), bem como a astúcia e o poder do Diabo para
iludir seus oponentes. Satanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos,
que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram
entregues por algum tempo (Jo 12.31; 1 Jo 2.15; 5.19; Jo 3.19; Tg 1.27; 4.4). Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo
e vencendo a tentação e o tentador.
5
Conforme Lc 4.16-30, Jesus foi expulso de Nazaré, terra onde fora criado, por ter se apresentado ao povo (em um sábado,
na sinagoga) como sendo o Filho de Deus e aquele que veio cumprir as profecias sobre a vinda do Messias, registradas no AT
(Is 61.1-2

a. Veja também Is 9.1-2 e 42.6-7).
6
Os melhores originais em grego trazem a palavra “gentios” (todos aqueles que não são judeus) em vez de “nações” como
consta em várias versões em português.
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10 MATEUS 5
3
“Bem-aventurados
1
os pobres
2
em espí-
rito, pois deles é o Reino dos Céus.
4
Bem-aventurados os que choram, por-
que serão consolados.
5
Bem-aventurados os humildes, porque
herdarão a terra.
3
6
Bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça, porque serão fartos.
7
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8
Bem-aventurados os limpos de cora-
ção, porque verão a Deus.
9
Bem-aventurados os pacifcadores,
porque serão chamados flhos de Deus.
10
Bem-aventurados os que sofrem per-
seguição por causa da justiça, porque
deles é o Reino dos Céus.
11
Bem-aventurados sois vós quando vos
insultarem, e perseguirem e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós, por
minha causa.
12
Exultai e alegrai-vos sobremaneira,
pois é esplêndida a vossa recompensa
nos céus; porque assim perseguiram os
profetas que viveram antes de vós.
O cristão deve ser sal e luz
13
Vós sois o sal da terra. Mas se o sal per-
der o seu sabor, com o que se há de tem-
perar? Para nada mais presta, senão para
se lançar fora e ser pisado pelos homens.
14
Vós sois a luz do mundo. Uma cidade
edifcada sobre um monte não pode ser
escondida.
15
Igualmente não se acende uma candeia
para colocá-la debaixo de um cesto. Ao
contrário, coloca-se no velador e, assim,
ilumina a todos os que estão na casa.
16
Assim deixai a vossa luz resplandecer
diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras e glorifquem o vosso
Pai que está nos céus.
1
A KJ de 1611 traz a expressão inglesa blessed (abençoado, bendito, muito feliz) que foi adotada pela maioria das traduções
em todo o mundo, inclusive pelas mais modernas. “Bem-aventurados” transmite melhor a idéia do original grego makarios refe-
rindo-se a uma felicidade que excede às circunstâncias, que tem a ver com o profundo sentimento de paz e alegria que todos os
que foram “abençoados” com a Salvação em Cristo e Seu Reino devem sentir e desfrutar, mesmo em meio às aflições cotidianas.
Esse discurso, conhecido como Sermão do Monte, é o primeiro dos cinco grandes temas tratados por Jesus (Mt 5 a 7; Mt 10;
13; 18 e em Mt 24 e 25). São ensinos primeiramente dirigidos aos discípulos (convertidos, que desejam proclamar ao mundo
sua fé em Jesus Cristo).
A expressão original: “abre a boca”, significa que Jesus passou a falar mais alto para que pudesse ser ouvido pelas demais
pessoas ao redor. A proclamação do “Reino dos Céus” é o ponto central da pregação de Jesus. Essa expressão vem do hebraico
malekhüth shãmayim. A KJ traduz como “Reino do Céu” mas tanto a palavra grega ouranos como a hebraica shãmayim estão no
plural (céus) e têm o mesmo sentido de “Reino de Deus”. Os judeus, por respeito, não mencionavam o nome de Deus e por isso,
Mateus, sensível a esse dado cultural, chamou o Reino de Deus de Reino dos Céus. O ser humano não tem em si mesmo força
moral e ética para viver como Deus ordena. Por isso Jesus Cristo, que viveu essa plenitude de vida espiritual na terra e venceu o
mundo, vem na forma do Espírito Santo habitar na alma humana para ajudar-nos a viver uma nova vida, com uma nova mentalida-
de, como cidadãos do Seu Reino, dirigidos por Deus.A plenitude dessa vida espiritual se dará no futuro (Ap 21.1-4).
2
A primeira estocada de Jesus atinge diretamente o coração arrogante e presunçoso. Jesus conhecia bem os ensinos dos
escribas e fariseus: “Quem cumpre toda a Lei com exatidão é rico no Altíssimo. Quem, além disso, observa literalmente a Halachá
(série de tradições judaicas transmitidas pelos pais de geração a geração) será ainda mais rico”. Jesus não estava dizendo que
não há bênção em obedecer a Lei, mas sim que um coração soberbo e orgulhoso por cumprir ordenanças e preceitos, não pode-
rá “entrar” (viver com amor, paz, alegria e liberdade) no Reino de Deus. Assim, “pobres em espírito” não é uma contradição nem
se refere a pessoas tímidas ou sem poder econômico. Significa sim, que o discípulo (seguidor) de Jesus, aquele que ama a Deus
sobre todas as coisas, conhece suas limitações e fraquezas e reconhece que sem a graça do Senhor é impossível viver a vida
cristã e que por isso não tem qualquer motivo para se orgulhar, pois o Reino dos Céus é também uma dádiva aos quebrantados,
humildes e arrependidos (Jo 3), e não pode ser alcançado através de qualquer esforço, barganha ou talento humano. Reino dos
Céus é o domínio de Deus sobre toda a criação, as pessoas e o mundo; tanto no presente como no futuro (Mt 5.3; 12.28 e Rm
14.17). Às vezes refere-se também a um lugar e uma vida futura com Deus (2 Tm 4.18).
3
A KJ traz aqui a palavra inglesa meek que pode ser traduzida como: pacífico, gentil, brando, suave, amável, manso, dócil,
submisso, resignado. Entretanto, a palavra: “humilde” é mais fiel ao sentido original do termo em grego e comunica melhor, em
português, a idéia dessa qualidade cristã: defender a justiça com paciência e sem amargura, entregando lutas e desafios ao
Senhor que tudo julga retamente. Esse caráter cristão, moldado pelo Espírito Santo, nos capacita a perseverar na fé em Cristo
ainda que em meio às injustiças, ofensas e falta de reconhecimento neste mundo. A promessa é nada menos do que a terra por
herança. Aqueles que aceitam perder algumas coisas nesta terra e neste tempo, mantendo uma fé serena no Senhor, serão os
reis de toda a terra no futuro (Ap 5.9-14), pois já vivem no presente como cidadãos do Reino. Seres humanos esses cujas vidas
estão sendo transformadas pelo Espírito Santo e cujos frutos de caráter lhes conferem a bênção de serem conhecidos como
“bem-aventurados” (muito felizes).
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11 MATEUS 5
A Lei se cumpre em Cristo
17
Não penseis que vim destruir a Lei ou
os Profetas. Eu não vim para anular, mas
para cumprir.
18
Com toda a certeza vos afrmo que, até
que os céus e a terra passem, nem um i
4

ou o mínimo traço se omitirá da Lei até
que tudo se cumpra.
19
Qualquer, pois, que violar um destes
menores mandamentos e assim ensinar
aos homens será chamado o menor no
Reino dos Céus; aquele, porém, que os
cumprir e ensinar será chamado grande
no Reino dos Céus.
20
Porque vos digo que, se a vossa justiça
não exceder a dos escribas e fariseus, de
modo nenhum entrareis no Reino dos
Céus.
21
Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não
matarás; mas quem assassinar estará su-
jeito a juízo”.
5

22
Eu, porém, vos digo que qualquer que
se irar contra seu irmão estará sujeito a
juízo. Também qualquer que disser a seu
irmão: Racá, será levado ao tribunal. E
qualquer que o chamar de idiota estará
sujeito ao fogo do inferno.
6
23
Assim sendo, se trouxeres a tua oferta
ao altar e te lembrares de que teu irmão
tem alguma coisa contra ti,
24
deixa ali mesmo diante do altar a tua
oferta, e primeiro vai reconciliar-te com
teu irmão, e depois volta e apresenta a
tua oferta.
25
Entra em acordo depressa com teu ad-
versário, enquanto estás com ele a caminho
do tribunal, para que não aconteça que o
adversário te entregue ao juiz, o juiz te en-
tregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia.
26
Com toda a certeza afrmo que de ma-
neira alguma sairás dali, enquanto não
pagares o último centavo.
7
4
A Lei e os Profetas representavam a totalidade do AT, que incluía os Escritos (Sl 78.12-16 é um exemplo desses Escritos e se
refere a Êx 7-12 e Nm 13.22, que fazem parte da terceira seção da Bíblia Hebraica). Jesus é o cumprimento das profecias sobre
a vinda do Messias e Seu Reino. Ao mesmo tempo, Ele foi o único ser humano a cumprir de maneira plena e fiel a essência da
vontade de Deus, não se limitando a uma obediência apenas religiosa, formal e exterior. Jesus levou seu amor pelo Pai e pela
humanidade às últimas conseqüências e enfatizou que toda a Palavra de Deus se cumprirá. Nem a menor letra do alfabeto
hebraico: (yod); em grego: i(iôta) que corresponde à letra “i” em português; nem mesmo o menor sinal gráfico (pequeno traço)
que serve para distinguir certas letras hebraicas, e que pode alterar o sentido de uma expressão, serão suprimidos das Sagradas
Escrituras. Jesus usa essa bem elaborada hipérbole para evidenciar a veracidade e autoridade da Palavra de Deus até o final
dos tempos. As próprias Escrituras testemunham acerca de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, Messias (Cristo), Rei dos Reis,
Senhor do Universo, nosso Salvador para toda a eternidade (Mc 14.49; Lc 24.27; Jo 10.35; At 18.24; 2Tm 3.16, 2Pe 1.20-21). Jesus
desejava que os doutores da Lei observassem essa verdade nas Escrituras, uma vez que o povo já estava aceitando que Jesus
Cristo era o Messias, pelas obras que realizava e o poder de suas palavras.
5
Jesus toma como exemplo a situação mais drástica da Lei: a morte (Êx 20.13; Dt 5.17) para demonstrar o que significa
compreender e obedecer ao espírito da Lei e não apenas à letra. Ou seja, uma vida no sentido mais amplo e saudável dos man-
damentos de Deus, em vez da interpretação meramente externa e restrita feita pela tradição rabínica. A KJ traz a palavra murder
(assassinar), pois os verbos em hebraico e grego usados nesse texto e em Êx 20.13 têm especificamente esse sentido claro.
6
Jesus demonstra como entender o sentido mais abrangente da Lei, ao relacionar o pecado de tirar a vida de alguém
(assassinato) com erros, aparentemente menos graves, como irar-se contra um irmão ou insultar alguém. A KJ e as versões de
Almeida acrescentam “sem motivo se irar”. Entretanto, os mais antigos e melhores originais gregos não trazem essa expressão.
Jesus revela que a ofensa verbal está no mesmo nível de um assassinato. Racá era uma antiga expressão aramaica rêqâ’ que
originou a palavra hebraica rêquïm usada no tempo dos juízes (Jz 11.3) para indicar pessoas de mau caráter, levianas e traidoras.
De maneira curiosa, essa era uma expressão freqüentemente usada na tradição rabínica, associada ao vocábulo nãbhãl (néscio),
para se referir aos insensatos e sem sabedoria. Já a palavra grega more, traduzida, em algumas versões, como “louco”, tem sua
origem na expressão hebraica moreh (desgraçado), alguém que por não crer em Deus merecia o inferno. O cerne do ensino de
Jesus está em que o pecado que leva alguém a ofender outra pessoa é o mesmo que motiva o assassinato. O vocábulo grego
synedrio cujo correspondente hebraico é sanhedrïn refere-se ao mais alto tribunal dos judeus, que se reunia em Jerusalém. A KJ
traduziu o termo para o inglês council (conselho), por se tratar da reunião dos sábios que julgavam as causas do povo. Synedrion
deu origem à expressão grega presbyterion que significa “corpo de anciãos” (Lc 22.66; At 22.5) e gerousia “senado” (At 5.21).
A expressão “fogo do inferno” tem a ver com o vale de Hinom em hebraico ge’hinnom que deu origem ao nome grego do lugar:
geena. Durante o reinado dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram realizados em
geena. Josias profanou o vale por causa das oferendas pagãs que realizou naquele lugar (2Rs 23.10; Jr 7.31,32; 19.6). Com o
passar do tempo, esse vale se transformou num grande depósito de lixo, constantemente em chamas, o que fez a palavra geena
significar o lugar dos perdidos, imprestáveis e destinados ao fogo que nunca se apaga.
7
Graças a Jesus temos a bênção do perdão à nossa disposição. Não fosse essa graça seríamos todos consumidos pela Lei.
Os cristãos devem, então, perdoar tudo e a todos, pedir perdão e procurar a paz com todos aqueles que se sentirem ofendidos
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12 MATEUS 5
Adultério no coração
27
Ouvistes o que foi dito: ‘Não comete-
rás adultério’.
28
Eu, porém, vos digo, que qualquer que
olhar para uma mulher com intenção
impura, em seu coração, já cometeu
adultério com ela.
29
Se o teu olho direito te leva a pecar,
arranca-o e lança-o fora de ti; pois te
é mais proveitoso perder um dos teus
membros do que todo o teu corpo ser
lançado no inferno.
30
E, se tua mão direita te fzer pecar,
corta-a e atira-a para longe de ti; pois te
é melhor que um dos teus membros se
perca do que todo o teu corpo seja lança-
do no inferno.
O casamento é sagrado
31
Foi dito também: ‘Aquele que se divor-
ciar de sua esposa deverá dar a ela uma
certidão de divórcio’.
32
Eu, porém, vos digo: Qualquer que se
divorciar da sua esposa, exceto por imo-
ralidade sexual, faz com que ela se torne
adúltera, e quem se casar com a mulher
divorciada estará cometendo adultério.
Votos e juramentos
33
Também ouvistes o que foi dito aos an-
tigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás ri-
gorosamente teus juramentos ao Senhor’.
34
Entretanto, Eu vos afrmo: Não jureis
de forma alguma; nem pelos céus, que
são o trono de Deus;
35
nem pela terra, por ser o estrado onde
repousam seus pés; nem por Jerusalém,
porque é a cidade do grande Rei.
36
E não jures por tua cabeça, pois não
tens o poder de tornar um fo de cabelo
branco ou preto.
37
Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu
não, não! O que passar disso vem do
Maligno.
8
Jamais use a vingança
38
Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho
e dente por dente”.
39
Eu, porém, vos digo: Não resistais ao
perverso; mas se alguém te ofender com
um tapa na face direita, volta-lhe tam-
bém a outra.
40
E se alguém quiser processar-te e ti-
rar-te a túnica, deixa que leve também
a capa.
41
Assim, se alguém te forçar a andar uma
milha, vai com ele duas.
42
Dá a quem te pedir e não te desvies de
quem deseja que lhe emprestes algo.
9
Ame os que o odeiam
43
Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu
próximo e odiarás o teu inimigo’.
44
Eu, porém, vos digo: Amai os vossos
com alguma de suas atitudes. Jesus não entra no mérito se o cristão está certo ou não, apenas ordena que a reconciliação seja
promovida o mais rápido possível e que a iniciativa seja sempre da parte daquele que crê em Deus. Jesus usa o exemplo do judeu
religioso e temente ao Senhor em um de seus atos mais sublimes — o sacrifício oferecido a Deus de acordo com a lei mosaica,
para ensinar que não pode haver culto, oração ou oferta maior do que um coração limpo, sincero, humilde, perdoador e em paz
com Deus e com os semelhantes. Em seguida, por meio de uma parábola, Jesus exorta os cristãos que estão em demanda com
alguém a que se apressem a negociar um acordo e estabeleçam a paz, antes que a questão se prolongue demais e acabe na
justiça onde não há misericórdia, apenas a lei.
8
No AT juramentos em nome do Senhor eram obrigatórios em determinadas ocasiões: quando a palavra necessitava de um
fiador idôneo ou mesmo diante de um voto. A quebra da palavra empenhada era um ato sujeito às penas da Lei (Êx 20.7; Lv 19.12;
Dt 19.10-19). Deus era (e é) o juiz onisciente de toda a falsidade. “...tão certo como o Senhor vive” (1Sm 14.39). Essa ênfase na
santidade dos votos ocorria devido à falsidade costumeira entre as pessoas em seus acordos cotidianos. Jesus ensina que o
verdadeiro cristão deve ser autêntico e sincero em suas afirmações; afastando-se de toda a ambigüidade e falsidade comuns
neste mundo controlado pelas forças do Diabo.
9
Jesus trabalha as questões universais do direito. De fato toda a humanidade participa de um grande julgamento, envolvendo
todos os povos de todos os tempos, no qual Cristo é nosso Advogado e garantia absoluta. Jesus começa citando a antiga Lei da
Retaliação (Lv 24.20). Entre os judeus, na época de Jesus, o ato de bater na face direita de alguém, com as costas da mão, era
um insulto e uma provocação; não exatamente uma agressão. O insultado poderia revidar ou ir ao tribunal pleitear uma punição,
em dinheiro, pela ofensa. Jesus exorta seus discípulos a oferecer a outra face, em sinal de paz e disposição para um acordo. A
próxima ilustração tem a ver com as leis dos fariseus: um credor tinha o direito de exigir a túnica do devedor por uma dívida não
paga. Quando não a recebia por bem, tinha o direito de exigi-la por meio de um processo jurídico. Mas, de acordo com Dt 24.10-
13, deveria ceder a roupa ao dono, conforme suas necessidades diárias de uso. Diante dessas questões jurídicas mesquinhas,
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13 MATEUS 5, 6
inimigos e orai pelos que vos perse-
guem;
45
para que vos torneis flhos do vosso Pai
que está nos céus, pois que Ele faz raiar
o seu sol sobre maus e bons e derrama
chuva sobre justos e injustos.
46
Porque se amardes os que vos amam,
que recompensa tendes? Não fazem os
publicanos igualmente assim?
10
47
E, se saudardes somente os vossos ir-
mãos, que fazeis de notável? Não agem os
gentios também dessa maneira?
48
Assim sendo, sede vós perfeitos como
perfeito é o vosso Pai que está nos céus.
Como viver no Reino
6
Guardai-vos de fazer a vossa caridade
e obras de justiça diante dos homens,
com o fm de serem vistos por eles; caso
contrário, não tereis qualquer recom-
pensa do vosso Pai que está nos céus.
2
Por essa razão, quando deres um do-
nativo, não toques trombeta diante de ti,
como fazem os hipócritas, nas sinagogas
e nas ruas, para serem glorifcados pelos
homens. Com toda a certeza vos afrmo
que eles já receberam o seu galardão.
3
Tu, porém, quando deres uma esmola
ou ajuda, não deixes tua mão esquerda
saber o que faz a direita.
4
Para que a tua obra de caridade fque
em secreto: e teu Pai, que vê em secreto,
te recompensará.
A oração modelo
5
E, quando orardes, não sejais como
os hipócritas, pois que apreciam orar
em pé nas sinagogas e nas esquinas das
ruas, para serem admirados pelos outros.
Com toda a certeza vos afrmo que eles já
receberam o seu galardão.
6
Tu, porém, quando orares, vai para teu
quarto e, após ter fechado a porta, orarás
a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará ple-
namente.
7
E, quando orardes, não useis de vãs
repetições, como fazem os pagãos; pois
imaginam que devido ao seu muito falar
serão ouvidos.
8
Portanto, não vos assemelheis a eles;
porque Deus, o vosso Pai, sabe tudo de
que tendes necessidade, antes mesmo
que lho peçais.
9
Por essa razão, vós orareis:
Pai nosso, que estás nos céus!
Santifcado seja o teu Nome.
10
Venha o teu Reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
Jesus exorta os discípulos a serem altruístas. Se credores, a desistir do penhor; se devedores, a dar além do devido, entregando
também a capa que era vestida sobre a túnica. Para o discípulo de Jesus, o direito jurídico já foi abolido na Cruz, a nova ordem é
a Lei do Amor em Cristo. Outra metáfora de Jesus reforça essa idéia. Tem a ver com o costume judaico de se pedir a companhia
de alguém numa viagem pelas perigosas estradas da época. Quando alguém se negava, e acontecia um crime, essa pessoa
era responsabilizada pela sua comunidade local, por não ter atendido ao pedido do viajante. O verbo grego traduzido aqui por
“forçar” advém de uma antiga palavra persa que significa “recrutar à força”. Curiosamente, é a mesma palavra que aparece no
final deste livro, em Mt 27.32, quando os soldados romanos “recrutam à força” Simão, para ajudar Jesus a carregar sua cruz. Os
fariseus haviam imposto uma lei: “devemos acompanhar somente a outro fariseu, não devemos caminhar com os incrédulos”.
Jesus, entretanto, vai além, e ensina que seus discípulos, ao serem solicitados por qualquer viajante a andar 1.609 metros (uma
milha), devem graciosamente estar prontos para caminhar em sua companhia por mais de três quilômetros (duas milhas). Ou
seja, exceder em amor, graça e misericórdia ao que pede a Lei.
10
O termo publicano (palavra latina com origem no grego telõnês) denominava um coletor de impostos a serviço do império
romano. Esses homens eram odiados por causa da impiedade com que exploravam o povo. Para os judeus, o publicano era
imundo, pois estava sempre em contato com os gentios. A palavra “publicano” tornou-se sinônimo de egoísmo, desonestidade,
falsidade, impiedade e incredulidade. Gentios (em hebraico gôyïm e do grego ethnikoi ou Hellênes traduzido pela Vulgata, em
latim, como gentiles) era um termo geral para significar “nações”. Entretanto, na época de Jesus, esse termo era usado pelos
judeus para se referir, em tom discriminatório e preconceituoso, a todas as pessoas que não fossem israelenses. Para os mestres
e doutores da Lei, os “gentios” eram idólatras, imorais e pecadores. Um judeu chamado de gentio significava um publicano; ou
seja, uma pessoa impura, incrédula, mau-caráter, inescrupulosa, impiedosa e digna de todo o desprezo. Jesus resgata o valor
real dos “gentios” (das nações) e convida a todos para Seu Reino (Rm 1.16; Cl 3.11; Gl 2.14; Ap 21.24; 22.2). Jesus conclui essa
parte do seu ensino revelando o segredo da ética cristã: o amor deve fazer muito mais do que a obrigação. Este foi o testemunho
de Cristo e este deve ser o objetivo maior dos cristãos: buscar o amor perfeito do Pai e agir assim, como filhos amados de Deus,
para que outros vejam a luz de Cristo e sejam libertos das trevas deste mundo.
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14 MATEUS 6
11
Dá-nos hoje o nosso pão diário.
12
Perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como perdoamos aos
nossos devedores.
13
E não nos conduzas à tentação,
mas livra-nos do Maligno.
1
Porque teu é o Reino, o poder
e a glória para sempre. Amém.
14
Pois, se perdoardes aos homens as suas
ofensas, assim também vosso Pai celeste
vos perdoará.
15
Entretanto, se não perdoardes aos ho-
mens, tampouco vosso Pai vos perdoará
as vossas ofensas.
Jejuar é adorar a Deus
16
Quando jejuardes, não vos mostreis
com aspecto sombrio como os hipócritas;
pois desfguram o rosto com a intenção de
mostrar às pessoas que estão jejuando.
17
Tu, porém, quando jejuares, unge tua
cabeça e lava o rosto.
18
Pois, assim, não parecerá aos outros que
jejuas; e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu
Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Investir os recursos no céu
19
Não acumuleis para vós outros tesouros
na terra, onde a traça e a ferrugem destro-
em, e onde ladrões arrombam para roubar.
20
Mas ajuntai para vós outros tesouros
no céu, onde a traça nem a ferrugem
podem destruir, e onde os ladrões não
arrombam e roubam.
21
Porque, onde estiver o teu tesouro, aí
também estará o teu coração.
Um corpo iluminado
22
Os olhos são a lâmpada do corpo.
Portanto, se teus olhos forem bons, teu
corpo será pleno de luz.
23
Porém, se teus olhos forem maus, todo
o teu corpo estará em absoluta escuridão.
Por isso, se a luz que está em ti são trevas,
quão tremendas são essas trevas!SSE
Servir somente a Deus
24
Ninguém pode servir a dois senhores;
pois odiará um e amará o outro, ou será
leal a um e desprezará o outro. Não po-
deis servir a Deus e a Mâmon.
2

1
Jesus ensina a seus seguidores o caminho da verdadeira adoração e comunicação com Deus. O primeiro passo é a
humildade, em contraste com o estilo dos fariseus, escribas, publicanos e gentios, que viviam uma religiosidade apenas de
aparência, formal e estéril. Os discípulos deveriam também evitar as “vãs repetições”, pois essa era a maneira como os pagãos
(aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses para obter favores.
Nessa época, os adoradores de Baal (1Rs 18.26-28) estavam cativando até judeus fiéis com suas hipocrisias (encenações
teatrais, do grego hupokrites, ator). Por isso Jesus oferece um modelo de oração: O nascimento espiritual dá ao cristão o direito
de ser filho de Deus (Jo 3) e, portanto, pode orar a Deus como quem conversa com seu pai amado (em aramaico: Abba, Mc
14.36; Rm 8.15, Gl 4.6). Devemos desejar e trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus, em nossas vidas e comunidades,
ao receber pessoalmente o Espírito Santo, que traz salvação, paz, alegria, e a justiça de Cristo. Reino esse que será estabelecido
de forma plena no futuro iminente, quando Jesus voltar, e o último Inimigo for vencido definitivamente (2Ts 2.8; 1Co 15.23-28).
Assim a terra usufruirá a mesma glória de Deus que há nos céus (2Pe 3.13). O cristão reconhece que é o Senhor quem supre
diariamente todas as nossas necessidades, e é grato por isso. A fome, as guerras e outros sofrimentos sociais não ocorrem por
indiferença da parte de Deus, mas pelos pecados dos indivíduos (malignidade) e das nações. Devemos nos lembrar de perdoar
as pessoas que nos devem (bens materiais ou justiça) com a mesma misericórdia e generosidade com que Deus nos perdoa
sempre (1Jo 1.5-9). Observemos como Jesus ressalta a importância do perdão no Reino de Deus (6.14,15). O servo do Senhor é o
alvo favorito dos ataques e artimanhas do Diabo. Mas Deus tem o poder de nos livrar de todo o mal e levar-nos, para lugar seguro,
longe do alcance dos demônios. Não há amargura, decepção, fraqueza, vício, perda ou dor maiores do que o amor e o poder
de Deus (Tg 1.13; 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). A maioria das versões da Bíblia em português inclui a frase: “...e não
nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”. A KJ apresenta a expressão inglesa: “...and do not lead us into temptation...”
(...e não nos induzas à tentação...). Os melhores originais gregos nos permitem traduzir: “...e não nos conduzas à tentação...”. A
palavra grega peirasmos aqui significa “tentação”, podendo significar também: “teste ou provação” em outros trechos. Assim, a
tentação, que do ponto de vista do Diabo é sempre uma cilada para nos destruir, do ponto de vista de Deus é uma oportunidade
para fortalecimento da fé e crescimento espiritual (Lc 22.32). Deus controla o universo visível e invisível, incluindo o Maligno e seu
reino; por isso, é ao Senhor que devemos pedir livramento das tentações e forças para vencer as provações (1Co 10.13). Jesus
deixa bem claro em sua oração-modelo, que o cristão somente consegue a vitória, vigiando e orando. O próprio Jesus venceu
sua grande batalha contra Satanás, com jejum (4.2), e recomendou que seus discípulos também usassem essa arma ao lado das
orações, e do contínuo louvor a Deus, contra os desígnios do Inimigo (9.15; 17.21).
2
Jesus escolhe uma palavra aramaica Mâmon para personificar um dos mais poderosos deuses pagãos de todos os tempos:
o Dinheiro. O adjetivo Mâmon, deriva do verbo aramaico amân (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos
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15 MATEUS 6, 7
Descanso na providência divina
25
Portanto, vos afrmo: não andeis preo-
cupados com a vossa própria vida, quanto
ao que haveis de comer ou beber; nem
pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de
vestir. Não é a vida mais do que o alimen-
to, e o corpo mais do que as roupas?
26
Contemplai as aves do céu: não se-
meiam, não colhem, nem armazenam
em celeiros; contudo, vosso Pai celestial
as sustenta. Não tendes vós muito mais
valor do que as aves?
27
Qual de vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar algum tempo à jornada
da sua vida?
3
28
E por que andais preocupados quanto ao
que vestir? Observai como crescem os lírios
do campo. Eles não trabalham nem tecem.
29
Eu, contudo, vos asseguro que nem
Salomão, em todo o esplendor de sua
glória, vestiu-se como um deles.
30
Então, se Deus veste assim a erva do
campo, que hoje existe e amanhã é lan-
çada ao fogo, quanto mais a vós outros,
homens de pequena fé?
31
Portanto, não vos preocupeis, dizendo:
Que iremos comer? Que iremos beber?
Ou ainda: Com que nos vestiremos?
32
Pois são os pagãos que tratam de obter
tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe
que necessitais de todas essas coisas.
33
Buscai, assim, em primeiro lugar, o
Reino de Deus e a sua justiça, e todas
essas coisas vos serão acrescentadas.
34
Portanto, não vos preocupeis com o
dia de amanhã, pois o amanhã trará suas
próprias preocupações. É sufciente o
mal que cada dia traz em si mesmo.
Amar mais e julgar menos
7
Não julgueis, para que não sejais
julgados.
1
2
Pois com o critério com que julgardes,
sereis julgados; e com a medida que
usardes para medir a outros, igualmente
medirão a vós.
3
Por que reparas tu o cisco no olho de
teu irmão, mas não percebes a viga que
está no teu próprio olho?
4
E como podes dizer a teu irmão: Per-
mite-me remover o cisco do teu olho,
quando há uma viga no teu?
5
Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu
olho, e então poderás ver com clareza
para tirar o cisco do olho de teu irmão.
2
6
Não deis o que é sagrado aos cães, nem
interesses mundanos. Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor
e adverte para a impossibilidade de se servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer
que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas, sim, que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Gn 13.2; Ec 3.13; 5.10-
19; 10.19; 1Tm 6.10). O dinheiro é para ser usado e as pessoas, amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas
desgraças (Is 52.3; 55.1; Rm 4.4; 1Tm 5.18).
3
A palavra grega psyche (alma) significa: “vida”, pois nas Escrituras, “alma” tem um sentido de algo diferente do atual, derivado
da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. Na Bíblia, a palavra “alma” vem da expressão hebraica nephesh que significa
“personalidade” e indica o centro das emoções e apetites. Por isso, em toda a Bíblia, o comer e o beber são considerados como
funções da alma. Algumas vezes pode também se referir à vida natural em contraste com a vida espiritual (Hb 4.12). Jesus usa uma
figura de linguagem para ensinar duas verdades: “Deus existe, e você não é Ele”. As preocupações tentam minimizar o poder de
Deus e colocar um peso insuportável sobre nossas costas. A versão de Almeida traduz a expressão grega helikia por “estatura”; po-
rém, melhores originais e estudos mais acurados, mostram que o termo se refere a tempo e idade. Em certo sentido, essa expressão
de Jesus poderia ser traduzida assim: “Ninguém ultrapassa, nem por meio metro, o ponto final da sua existência na terra”. Por isso,
Jesus recomenda um estudo (análise, consideração filosófica) sobre a maneira cuidadosa, generosa e particular com que Deus trata
cada um dos seres mais simples da terra, e os reveste de grande glória (1Rs 1-11; 1Cr 28; 2Cr 9; 1Rs 10.4-7). Concluindo: temos uma
visão distorcida da vida e de nossas prioridades. Somente a busca do Reino de Deus vai nos colocar em harmonia com o Criador, e,
assim, descobriremos a tão almejada paz, justiça e real felicidade (Jo 6.52-59; Jo 10.10, Rm 3.21-31 e 14.17-18).
Capítulo 7
1
Jesus mostra que é possível ajudar nosso semelhante com conselhos e críticas (v. 5 e 23.13-39), bem como devemos estar
sempre dispostos a aprender, avaliar e ensinar (Rm 2.1; 1Co 5.9; 2Co 11.14; Fp 3.2; 1Jo 4.1; 1Ts 5.21).Entretanto, como cristãos,
nosso dever é amar antes de julgar. Um coração repleto do amor de Deus não será acusador, mesquinho, invejoso, crítico con-
tumaz ou difamador. A marca do cristão deveria ser seu amor irrestrito e altruísta pelo próximo, em especial por seus irmãos em
Cristo (Jo 13.5; Jo 14.15; Rm 12.10; 1Pe 1.22).
2
Jesus usou muitas histórias (parábolas) e figuras de linguagem para ensinar. Em 19.24, por exemplo, Ele fala de um camelo
passando pelo fundo de uma agulha. Nesta outra hipérbole, Ele compara uma partícula de serragem ou pedaço de qualquer
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16 MATEUS 7
jogueis aos porcos as vossas pérolas, para
que não as pisoteiem e, voltando-se, vos
façam em pedaços.
Perseverança na oração
7
Pedi, e vos será concedido; buscai, e
encontrareis; batei, e a porta será aberta
para vós.
8
Pois todo o que pede recebe; o que bus-
ca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá.
9
Ou qual dentre vós é o homem que,
se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma
pedra?
10
Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará
uma cobra?
11
Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar
bons presentes aos vossos flhos, quanto
mais vosso Pai que está nos céus dará o
que é bom aos que lhe pedirem!
3
12
Portanto, tudo quanto quereis que
as pessoas vos façam, assim fazei-o
vós também a elas, pois esta é a Lei e os
Profetas.
4
Os dois únicos caminhos
13
Entrai pela porta estreita, pois larga é
a porta e amplo o caminho que levam à
perdição, e muitos são os que entram por
esse caminho.
14
Porque estreita é a porta e difícil o ca-
minho que conduzem à vida, apenas uns
poucos encontram esse caminho!
5
Pelo fruto se conhece a árvore
15
Acautelai-vos quanto aos falsos profe-
tas. Eles se aproximam de vós disfarçados
de ovelhas, mas no seu íntimo são como
lobos devoradores.
16
Pelos seus frutos os conhecereis. É
possível alguém colher uvas de um espi-
nheiro ou fgos das ervas daninhas?
17
Assim sendo, toda árvore boa produz
bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos
ruins.
18
A árvore boa não pode dar frutos ruins,
nem a árvore ruim produzir bons frutos.
19
Toda árvore que não produz bons fru-
tos é cortada e atirada ao fogo.
20
Portanto, pelos seus frutos os conhe-
cereis.
21
Nem todo aquele que diz a mim: ‘Se-
nhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus,
mas somente o que faz a vontade de meu
Pai, que está nos céus.
22
Muitos dirão a mim naquele dia:
‘Senhor, Senhor! Não temos nós profe-
tizado em teu nome? Em teu nome não
expulsamos demônios? E, em teu nome,
não realizamos muitos milagres?’
23
Então lhes declararei: Nunca os co-
nheci. Afastai-vos da minha presença,
vós que praticais o mal.
O sábio e o insensato
24
Assim, todo aquele que ouve estas
material com uma grande trave (viga) de madeira usada na estrutura de construções, para destacar a humildade, carinho e sen-
sibilidade que devemos ter para com nosso semelhante, quando tivermos de emitir um juízo, criticar ou aconselhar. Pois somos
sujeitos a erros, fraquezas e dificuldades iguais ou maiores que os de qualquer pessoa.
3
Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado.
A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão
suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas
pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele
sabe o que é realmente bom para cada um de nós.
4
Este versículo é conhecido em todos os continentes como “A Regra de Ouro”, a manifestação prática do amor cristão.
Orienta-nos Jesus aqui quanto ao procedimento diário: o amor, sem egoísmos, deve ser a força motriz das nossas ações (1Co
13.4-8), concedendo ao próximo o que buscamos para nosso próprio bem. Devemos chegar ao ponto máximo do amor e da fé
em Deus, que é retribuir com o bem a qualquer pessoa que, por algum motivo, nos ferir ou fizer qualquer mal. Foi assim que Deus
respondeu à rebelião e indiferença da humanidade, oferecendo-se em sacrifício, para nos salvar pela Graça (Ef 2.8-9). A “Lei e os
Profetas” é uma referência a toda a Escritura Sagrada, tanto em sua letra como em seu pleno conteúdo (Rm 13.8-10; Mt 5.17).
5
Jesus denomina o caminho para o céu de “porta estreita” ou “caminho difícil”, em algumas versões “caminho apertado”.
Não porque Deus tenha diminuído sua generosidade, graça e desejo de salvar a todos (2Pe 3.9), ao contrário, estamos vivendo
a “Época da Graça” onde todos – mais do que nunca – são bem-vindos ao Reino de Deus. Entretanto, poucos permanecerão
no Caminho, porque jamais foram dele realmente, e não suportam o negar-se a si mesmo, as renúncias do “Eu” nem os apelos
de uma sociedade cada vez mais hedonista e materialista. A idéia e a figura dos dois caminhos é muito anterior a Cristo, data de
400 a.C e foi difundida através do trabalho filosófico de Sócrates. O mesmo pensamento reaparece em duas grandes obras do
primeiro século depois de Cristo: Didaquê e Epístola de Barnabé.
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17 MATEUS 7, 8
minhas palavras e as pratica será compa-
rado a um homem sábio, que construiu a
sua casa sobre a rocha.
25
E caiu a chuva, vieram as enchentes,
sopraram os ventos e bateram com vio-
lência contra aquela casa, mas ela não
caiu, pois tinha seus alicerces na rocha.
26
Pois, todo aquele que ouve estas mi-
nhas palavras e não as pratica é como
um insensato que construiu a sua casa
sobre a areia.
27
E caiu a chuva, vieram as enchentes,
sopraram os ventos e bateram com vio-
lência contra aquela casa, e ela desabou.
E grande foi a sua ruína”.
28
Quando Jesus acabou de pronunciar
estas palavras, estavam as multidões atô-
nitas com o seu ensino.
29
Porque Ele as ensinava como quem
tem autoridade, e não como os mestres
da lei.
6
Jesus purifca o imundo
8
Quando Ele desceu do monte, gran-
des multidões o seguiram.
2
E eis que um leproso, tendo-se apro-
ximado, adorou-o de joelhos e clamou:
“Senhor, se é da tua vontade podes pu-
rifcar-me!”
3
Então, Jesus, estendendo a mão, to-
cou-lhe, dizendo: “Eu quero. Sê limpo!”
E no mesmo instante ele fcou purifca-
do da lepra.
4
Em seguida, disse-lhe Jesus: “Veja que
não digas isto a ninguém, mas segue,
mostra teu corpo ao sacerdote, e faze a
oferta que Moisés ordenou, para que sirva
de testemunho.”
1

Um comandante romano crente
5
Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiu-
se a ele um centurião, suplicando:
2
6
“Senhor, meu servo está em casa, para-
lítico e sofrendo horrível tormento”.
7
Então, Jesus lhe disse: “Eu irei curá-lo”.
8
Ao que respondeu o centurião: “Se-
nhor, não sou digno de receber-te sob o
meu teto. Mas dize apenas uma palavra,
e o meu servo será curado.
9
Porque eu também sou homem de-
baixo de autoridade e tenho soldados às
minhas ordens. Digo a um: Vai, e ele vai;
e a outro: Vem, e ele vem. Ordeno a meu
servo: Faze isto, e ele o faz”.
10
Ao ouvir isto, Jesus maravilhou-se, e
disse aos que o seguiam: “Com toda a cer-
teza vos afrmo que nem mesmo em Israel
encontrei alguém com tão grande fé.
11
Digo-vos que muitos virão do Oriente e
do Ocidente e tomarão lugares à mesa com
Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus.
12
Entretanto, os herdeiros do Reino se-
rão lançados para fora, nas trevas, onde
haverá choro e ranger de dentes”.
3
13
Então disse Jesus ao centurião: “Vai-te,
e da maneira como creste, assim te su-
6
Os doutores da lei (em grego grammateis, nomikoi) e os mestres da lei (em grego nomodidaskaloi) eram técnicos no estudo
da lei de Moisés (Torah). Em princípio era uma função reservada aos sacerdotes. Esdras, um homem de Deus, acumulou as fun-
ções de sacerdote e escriba (em hebraico sôpherïm). Veja Ne 8.9. Com o passar do tempo, os escribas se tornaram extremamente
formais e espiritualmente estéreis. Além disso, muitos se envolveram com o partido político dos fariseus e deixaram de ser impar-
ciais em relação ao ensino da lei. Jesus, entretanto, ensinava com “exousia”, em grego, “poder sobrenatural” que a todos deixava
maravilhados, pasmos, atônitos (1Co 2.4-5). Isso despertou a inveja e o ódio de muitos “líderes religiosos” contra Jesus Cristo.
Capítulo 8
1
A lei de Moisés (Lv 13,14) ordenava que em casos de doenças de pele, especialmente a lepra, somente um sacerdote ou seu
filho poderia realizar a cerimônia de purificação. O conceito de quarentena (para isolamento e tratamento de doenças infecciosas)
teve início naquela época. Para os judeus, a çãra’ath, palavra hebraica para um dos tipos de hanseníase, simbolizava o pecado,
por ser nojento, contagioso e incurável. Além disso, o sacerdote que tocava no leproso tornava-se cerimonialmente imundo. Je-
sus ao curar um homem da mais terrível doença de sua época, revela ao mundo parte de sua natureza e ministério. As instruções
mosaicas para o cerimonial de purificação dos imundos tipificam a nossa redenção em Cristo (Lv 14.2-32).
2
A centúria era uma divisão do exército romano, formada por cem homens e comandada por um centurião. Cornélio, um outro
centurião gentio, convertido, foi notável exemplo de cristão (At 10).
3
A tradição rabínica considerava o judaísmo como uma garantia herdada e absoluta de entrada no Reino de Deus, e por isso
também se dizia: “filhos do reino” (Is 41.8). Embora, os judeus sejam de fato o povo escolhido, Jesus está comemorando a entrada
dos gentios (todos os que não são judeus) no Reino do Pai, como verdadeiros filhos (Sl 107.3; Is 49.12; 59.19; Ml 1.11). Jesus
demonstra seu lado humano ao ficar admirado (surpreso) com a fé e a compreensão que aquele homem, não-judeu, demonstrou
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18 MATEUS 8
cederá!” E naquela mesma hora o servo
foi curado.
Jesus salva, cura e liberta
14
Tendo Jesus chegado à casa de Pedro,
viu a sogra deste acamada, enferma e
com febre.
15
Então, Jesus tocou a mão dela e a febre
a deixou. Em seguida, levantou-se ela e
passou a servi-lo.
16
No início da noite, trouxeram-lhe mui-
tos endemoninhados; e Ele, com apenas
uma palavra, expulsou os espíritos e
curou todos os que estavam doentes.
17
Assim se cumpriu o que fora dito por
intermédio do profeta Isaías: “Ele tomou
sobre si as nossas enfermidades e pesso-
almente levou as nossas doenças”.
4
A prioridade do discipulado
18
Quando Jesus viu que uma multidão o
rodeava, ordenou que atravessassem para
o outro lado do mar.
19
Então, aproximando-se dele um escri-
ba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para
onde quer que fores”.
20
Jesus lhe respondeu: “As raposas têm
suas tocas e as aves do céu têm seus ni-
nhos, mas o Filho do homem não tem
onde repousar a cabeça”.
21
Outro de seus discípulos lhe disse: “Se-
nhor, permite-me ir primeiro sepultar
meu pai”.
22
Ao que Jesus lhe respondeu: “Segue-
me e deixa que os mortos sepultem os
seus próprios mortos”.
Jesus domina as circunstâncias
23
Entrando Jesus no barco, seus discípu-
los o seguiram.
24
De repente, sobreveio no mar uma
violenta tempestade, de tal maneira que
as ondas encobriam o barco. Ele, contu-
do, dormia.
25
Então, seus discípulos vieram des-
pertá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos!
Vamos todos perecer!”
26
Mas Jesus disse a eles: “Por que estais
com tanto medo, homens de pequena fé?
E, levantando-se, repreendeu os ventos e
o mar, e houve plena calmaria.
27
Então, os homens maravilhados, excla-
maram: “Quem é este que até os ventos e
o mar lhe obedecem?”.
ter acerca do seu poder e autoridade divina. Aproveita o evento para proclamar a salvação para todos os povos e raças (22.1-14;
Lc 14.15-24), ao mesmo tempo em que adverte duramente aos judeus quanto ao fato de que a herança da vida eterna e do Reino
está em crer em Deus e na aceitação de Seu Filho que veio ao mundo para salvar todos os seus. De agora em diante a humanidade
não seria mais dividida entre judeus e gentios (os próximos e os distantes de Deus); mas, sim, entre crentes e descrentes. O padrão
de reconhecimento da herança não repousa mais sobre a nacionalidade ou linhagem judaica, mas numa fé sincera e absoluta no
Senhor (Sl 147.13,20; Mt 4.17; 9.28; Mc 4.40; 11.22; Lc 5.20; Jo 5.37-47; 8.45; At 14.16). Por isso acontecerá que do oriente e do
ocidente (de todo o mundo) virão gentios para o Reino (Is 49.12) e terão o direito de se assentar ao lado dos grandes pais da fé, pois
aceitaram a Graça da Salvação (Ef 2.8). Jesus conclui duramente, que muitos judeus, “herdeiros do Reino” (sacerdotes ou filhos do
reino) tornaram-se “filhos da desobediência” (piores dos que os pagãos e gentios), razão pela qual serão expulsos para o “reino dos
mortos” (sheol, em hebraico e hades, em grego), onde haverá tanto remorso e tristeza que se ouvirá o som do bater dos queixos
das pessoas aterrorizadas. Nesse estado intermediário entre a morte e a ressurreição (sheol ou hades), os salvos gozarão de paz e
descanso, enquanto os incrédulos estarão na escuridão (um lugar chamado: inferno) e sob tormentos. Na ressurreição, os salvos
habitarão plenamente o Reino, e os incrédulos (judeus ou não) sofrerão a segunda morte e serão banidos para o lugar de punição e
fogo eterno ou lago de fogo (em grego ten geennan tou pyros). Onde até mesmo o inferno será lançado (Ap 20).
4
Ao contrário do que alguns céticos e críticos afirmam, Jesus não andava com o AT nas mãos procurando cumprir profecias.
Mas, a cada instante, um evento admirável ocorria e seus discípulos, e todos os que conheciam a Lei e os Profetas testemunhavam,
na pessoa de Jesus o cumprimento de várias profecias messiânicas do AT. Tudo isso diante dos olhos atônitos de todos. Algumas
dessas profecias haviam sido escritas há mais de 1.000 anos antes que Jesus começasse a andar pelas terras da Palestina pregando
a Nova Aliança, como é o caso do Salmo 22 e outros (Sl 2,8,16,40,41,45,68,69,89,102,109,110 e 118). A profecia de Isaías 53.4 (cerca
de 750 a.C segundo os melhores estudos sobre os Papiros do Mar Morto) nos revela que Jesus, o Messias (Palavra hebraica que sig-
nifica: Rei Ungido, e que foi traduzida para o grego como: Cristo), refere-se ao ministério de cura e libertação de Jesus, cuja obra lhe
custou caro fisicamente (Mc 5.30, Lc 8.46). Os cristãos, hoje em dia, podem ter uma idéia desse desgaste físico e emocional quando
participam ativamente de qualquer dos ministérios da Igreja: exposição da Palavra, evangelização, louvor, adoração, missões, cura,
libertação, aconselhamento, administração, contribuição, ação social e outros, pois a verdadeira obra cristã requer do Espírito Santo
(que é o próprio Jesus habitando na vida de cada indivíduo que crê) o mesmo poder demandado da pessoa de Jesus Cristo.
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19 MATEUS 8, 9
Jesus domina as forças do mal
28
Quando Ele chegou ao outro lado, à
província dos gadarenos, foram ao seu
encontro dois endemoninhados, saindo
dentre os sepulcros. Eram tão agressivos
que ninguém podia passar por aquele
caminho.
29
E, de repente gritaram: “Que temos
nós contigo, ó Filho de Deus? Vieste aqui
para nos atormentar antes do devido
tempo?”
30
Não muito longe deles estava pastando
uma grande manada de porcos.
31
Então, os demônios imploravam a Ele:
“Se nos expulsas, permite-nos entrar
naquela manada de porcos!”
32
E Jesus lhes disse: “Ide!” Assim que
saíram entraram nos porcos. De repen-
te, toda a manada correu em disparada
e atirou-se violentamente precipício
abaixo, em direção ao mar, e nas águas
pereceram.
33
Aqueles que cuidavam dos porcos fu-
giram, foram para a cidade e contaram
tudo, inclusive o que ocorrera com os
endemoninhados.
34
Então toda a cidade saiu ao encontro
de Jesus; e assim que o viram, suplica-
ram-lhe que se retirasse da sua região.
Jesus perdoa e cura
9
E, entrando Jesus num barco, atraves-
sou o mar e foi para a sua cidade.
2
E eis que lhe trouxeram um paralítico
deitado em sua maca. Observando-lhes
a fé, disse Jesus ao paralítico: “Tem bom
ânimo, flho; os teus pecados estão per-
doados”.
3
Diante disso, alguns escribas diziam
consigo mesmos: “Este homem blasfe-
ma!”
4
Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensa-
mentos, questiona: “Por que cogitai o
mal em vossos corações?”
5
Pois o que é mais fácil dizer: ‘Os teus
pecados estão perdoados
1
’, ou: ‘Levanta-
te e anda?’
6
Entretanto, para que saibais que o Filho
do homem
1
tem na terra autoridade para
perdoar pecados – disse então ao paralí-
tico: “Levanta-te, toma a tua maca, e vai
para tua casa”.
7
Levantando-se, o homem partiu para
sua casa.
8
Ao ver isso, a multidão se encheu de
temor e glorifcava a Deus, pois dera aos
homens tamanha autoridade.
Jesus veio para os necessitados
9
Saindo, viu Jesus um homem chamado
Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe:
“Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu.
10
E aconteceu que, estando Jesus em
casa, à mesa, muitos publicanos e peca-
dores vieram para cear com Ele e seus
discípulos.
2
11
Quando os fariseus viram isso, per-
guntaram aos discípulos dele: “Por que
1
Freqüentemente Jesus refere-se a si mesmo como Filho do Homem (Mc 8.38; 13.26, 14.62; Lc 17.24; 21.27). Ele usou essa
expressão do AT para descrever seu caráter e missão em termos da visão de Daniel (Dn 7.13). O Filho do Homem se humilhou
como verdadeiro ser humano, sendo ao mesmo tempo, o Eterno Vitorioso (Mt 24.30). Além disso, Jesus revestiu essa expressão
com a necessidade e o profundo significado dos seus sofrimentos, morte e ressurreição expiatória (Mc 8.31; 9.31; 10.33; 14.21-
41; Lc 18.31-33; 19.10; Mt 20.18-28; 26.45; Lc 21.25-28; 22.29-30; Mc 13.26-27; 14.24-25,62; Jo 13.31-32).
2
Cafarnaum foi a cidade onde Jesus permaneceu mais vezes e por mais tempo, por isso era chamada de a “cidade de Jesus”
(Mt 4.12,13; 9.9; Mc 2.1; Lc 4.13, 23, 31, 38). Mas, apesar de Cafarnaum ter sido um grande centro comercial, presenciado mais
sinais e recebido mais da presença e da Palavra de Cristo do que qualquer outra localidade, Jesus encontrou ali apenas uns
poucos seguidores. Por isso o Senhor exclama seu “ai” sobre a cidade (Mt 11.23). Hoje Cafarnaum é um campo de entulhos,
chamado Tel Hum. Mateus era um cobrador de impostos a serviço de Roma. Os judeus se referiam a eles como “publicanos
e pecadores”, pois os consideravam “amaldiçoados” como os gentios (Jo 7.49). Jesus viu, porém, em Mateus, um discípulo e
o autor deste Evangelho o chamou, em aramaico akolutheo (Segue-me!), que é uma expressão que significa: “ir atrás de”. Na
época, essa expressão era um convite de honra. O aluno do profeta, em sinal de respeito, passaria a caminhar atrás do seu mestre
(rabino) e, por dois anos, aprenderia as leis do judaísmo. Mateus (Matias, em hebraico), deixa tudo e começa uma nova vida com
Cristo (Lc 5.28). Oferece uma ceia, em sua casa (Lc 5.27), para Jesus, os discípulos e seus muitos amigos pecadores. No Oriente
e naquela época, convidar alguém para cear em casa era uma grande demonstração de amizade e intimidade e por isso recebia
o nome de: “comunhão de mesa”. Isso foi o suficiente para provocar a ira de um grupo de fariseus (hassïdïns – leais a Deus - em
hebraico; eram os sacerdotes e doutores da Lei, temidos por seu rigor e poder político).
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20 MATEUS 9
ceia o vosso mestre com publicanos e
pecadores?”
12
Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os
sãos não necessitam de médico, mas sim,
os doentes.
13
Portanto, ide aprender o que signifca
isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifí-
cios’. Pois não vim resgatar justos e sim
pecadores’”.
3
O novo e defnitivo vinho
14
Então, chegaram os discípulos de João
e lhe perguntaram: “Por que jejuamos
nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus
discípulos não jejuam?”
15
Respondeu-lhes Jesus: “É possível que
os amigos do noivo fquem de luto en-
quanto o noivo ainda está com eles? Dias
virão, quando o noivo lhes será tirado;
então jejuarão.
16
Ninguém coloca remendo novo em
roupa velha; porque o remendo força o
tecido da roupa e o rasgo aumenta.
17
Nem se põe vinho novo em odres
velhos; se o fzer, os odres rebentarão, o
vinho derramará e os odres se estragarão.
Mas, põe-se vinho novo em odres novos,
e assim ambos fcam conservados”.
4
Jesus tem poder sobre a morte
18
Enquanto, Ele estava falando, um dos
dirigentes da sinagoga aproximou-se e,
ajoelhando-se diante dele, rogou: “Mi-
nha flha acaba de morrer; mas vem,
impõe a tua mão sobre ela, e viverá”.
19
Jesus então levantou-se e seguiu com
ele, e seus discípulos os acompanharam.
20
De repente, uma mulher que há doze
anos vinha sofrendo de hemorragia, al-
cançou-o por trás e tocou na borda do
seu manto.
21
Pois dizia essa mulher consigo mesma:
“Se eu conseguir apenas lhe tocar as ves-
tes, serei curada”.
22
Então Jesus voltou-se e assim que viu
a mulher lhe disse: “Anime-se grande-
mente, flha, a tua fé te salvou!” E, desde
aquele momento, a mulher fcou sã.
5
23
Quando Jesus chegou à casa do diri-
gente da sinagoga e viu os fautistas fúne-
bres e a multidão em alvoroço, ordenou:
24
“Retirai-vos daqui! Esta menina não
está morta, mas adormecida”. E todos
zombavam dele.
25
Assim que a multidão foi retirada,
Jesus entrou, tomou a menina pela mão
e ela se levantou.
3
O maior e mais agradável sacrifício (holocausto) para Deus é o nosso amor sincero, sem restrições e em plena fé. A
enfermidade da qual todos padecemos, inclusive muitos religiosos e líderes cristãos, é a distância do mais verdadeiro e puro
amor (em grego: agape) ao Senhor (1Jo 4.16) e aos nossos semelhantes. Jesus pede que os doutores em teologia, filosofia,
direito e ética da época, voltem às Escrituras, leiam atentamente Oséias 6.6, especialmente na edição grega do AT, a Septuaginta
(cerca de 260 a.C.), e entendam que Ele não estava pactuando com o pecado, mas salvando todos aqueles que reconhecerem
nele o Messias, o Filho de Deus.
4
Segundo a lei mosaica, apenas o jejum do Dia da Expiação era obrigatório (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o exílio na
Babilônia, outros quatro jejuns deveriam ser feitos durante o ano (Zc 7.5; 8.19). Na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas
vezes por semana (Lc 18.12). Os casamentos judaicos eram grandes celebrações familiares, cujas festas chegavam a durar
uma semana e, nessas ocasiões, os convidados eram dispensados da obrigação do jejum, uma vez que esse ato era sempre
associado à tristeza. Jesus então faz uma analogia entre as festividades das bodas e seu relacionamento com seus discípulos (os
amigos do noivo), dispensando-os do jejum enquanto o noivo (Ele) estiver presente. Jesus jejuava em particular, mas rejeitava a
observação da Lei de forma legalista e para autoglorificação (Is 58.3-11). O jejum seria praticado por seus discípulos, após sua
ascensão, voluntariamente e para edificação pessoal (Mt 4.2; 6.16-18). Jesus veio estabelecer uma nova ordem para o relaciona-
mento das pessoas com Deus. A lei deve ceder lugar à graça (o novo vinho, a nova aliança). Os odres eram bolsas feitas de pele
de cabra, onde se conservava o vinho (Gn 27.28; Êx 29.40; Lv 10.9; Sl 104.15; Ec 10.19; 1Tm 5.23; 1Tm 3.8; Tt 2.3; Rm 13.13;
Rm 14.21). À medida que o suco de uvas frescas fermentava, o vinho se expandia. Os odres novos tinham maior resistência e
flexibilidade, e se esticavam. Mas os odres usados e envelhecidos não suportavam a pressão e estouravam, colocando o vinho a
perder. Jesus usa essa metáfora para revelar que seu novo, puro e poderoso ensino não pode ser recebido pelas antigas formas
do judaísmo, nem pelo legalismo religioso.
5
Jesus se agrada da nossa fé e está sempre pronto para nos socorrer em qualquer necessidade. Basta que o procuremos
com sinceridade. O verbo grego sõzein significa “salvar e curar”. A mulher pensou em salvar-se, livrar-se de uma doença horrível
e antiga. Mas Jesus deu-lhe a cura integral, da alma e do corpo, quando a abençoou com a tradicional bênção dos rabinos da
época: “a tua fé te salvou”. Jesus demonstrou que essa não era apenas uma frase religiosa, mas a indicação de que o Reino de
Deus havia chegado para todos aqueles que nele cressem, pois que as palavras de Jesus são acompanhadas de poder.
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21 MATEUS 9, 10
26
Então a notícia desse acontecimento
espalhou-se por toda aquela região.
Os cegos passam a ver
27
Partindo Jesus dali, dois homens
cegos o seguiram, clamando: “Filho de
Davi, tem misericórdia de nós!”
28
Entrando Ele em casa, aproximaram-
se os cegos, e Jesus lhes perguntou: “Cre-
des que Eu seja capaz de fazer isto?” E,
responderam-lhe: “Sim, Senhor!”
29
Então, lhes tocou os olhos, dizendo:
“Seja-vos feito conforme a vossa fé”.
30
E os olhos deles foram abertos. Jesus
os advertiu, então, severamente: “Cuidai
para que ninguém saiba disto”.
31
Contudo, ao partirem, propagaram os
feitos de Jesus por toda aquela região.
Os endemoninhados são libertos
32
Após terem se retirado, algumas pes-
soas trouxeram a Jesus um homem, mu-
do e possuído por um demônio.
33
Assim que o demônio foi expulso,
o mudo passou a falar; e as multidões
admiradas exclamavam: “Jamais se
viu algo assim em Israel!”.
34
Por outro lado, os fariseus maldiziam:
“Ele expulsa os demônios pelo príncipe
dos demônios”.
Todos os enfermos são curados
35
E Jesus ia passando por todas as cidades
e povoados, ensinando nas sinagogas, pre-
gando as boas novas do Reino e curando
todas as enfermidades e doenças.
Jesus pede mais discípulos
36
Ao ver as multidões, Jesus sentiu gran-
de compaixão pelas pessoas, pois que
estavam afitas e desamparadas como
ovelhas que não têm pastor.
37
Então, falou aos seus discípulos: “De
fato a colheita é abundante, mas os tra-
balhadores são poucos.
38
Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi
que Ele mande mais trabalhadores para a
sua colheita”.
Jesus envia seus apóstolos
10
Jesus, tendo chamado seus doze
discípulos, deu-lhes poder para
expulsar espíritos imundos e curar todas
as doenças e males.
2
E são estes os nomes dos doze apósto-
los: primeiro, Simão, chamado Pedro, e
André, seu irmão; Tiago, flho de Zebe-
deu, e João, seu irmão;
3
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus,
o publicano; Tiago, flho de Alfeu, e
Tadeu;
4
Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, o
mesmo que traiu a Jesus.
5
Assim, a esses doze homens, enviou Jesus
com as seguintes recomendações: “Não
vos encaminheis aos gentios, nem entreis
em cidade alguma dos samaritanos.
6
Antes, porém, buscai as ovelhas perdi-
das da casa de Israel.
7
E, à medida que seguirdes, pregai esta
mensagem: O Reino dos Céus está a
vosso alcance!
8
Curai enfermos, purifcai leprosos, res-
suscitai mortos, expulsai demônios. Gra-
ciosamente recebestes, graciosamente dai.
9
Não vos provereis de ouro, nem prata
ou cobre em vossos cinturões.
10
Não leveis sacolas de viagem, nem
uma túnica a mais, segundo par de
sandálias ou um cajado; pois digno é o
trabalhador do seu sustento.
11
Em qualquer cidade ou povoado em
que entrardes, procurai alguém digno
de vos receber; fcai nesta casa até vos
retirardes.
12
E, quando entrardes na casa, saudai-a.
13
Se a casa for digna, que a vossa paz
repouse sobre ela; se, todavia, não for
digna, que a paz retorne para vós.
14
Porém, se alguém não vos receber, nem
der ouvidos às vossas palavras, assim que
sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a
poeira dos vossos pés.
15
Com toda a certeza vos afrmo que
haverá mais tolerância para Sodoma e
Gomorra, no dia do juízo, do que para
aquelas pessoas.
16
Observai! Eu vos envio como ovelhas
entre os lobos. Sede, portanto, astutos
como as serpentes e inofensivos como
as pombas.
17
E, acautelai-vos dos homens; pois que
vos entregarão aos tribunais e vos açoita-
rão nas suas sinagogas.
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22 MATEUS 10
18
Sereis levados à presença de governa-
dores e reis por minha causa, para teste-
munhardes a eles e aos gentios.
19
Todavia, quando vos prenderem, não
vos preocupeis em como, ou o que deveis
falar, pois que, naquela hora, vos será mi-
nistrado o que haveis de dizer.
20
Isso porque, não sois vós que estareis
falando, mas o Espírito de vosso Pai é
quem se expressará através de vós.
21
Um irmão entregará à morte seu irmão,
e o pai ao flho, e os flhos se rebelarão
contra seus pais e lhes causarão a morte.
22
E, por causa do meu Nome, sereis
odiados de todos. Contudo, aquele que
permanecer frme até o fm será salvo.
23
Quando, porém, vos perseguirem num
lugar, fugi para outro; pois com toda a
certeza vos asseguro que não tereis pas-
sado por todas as cidades de Israel antes
que venha o Filho do homem.
24
O pupilo não está acima do seu men-
tor, nem o escravo acima do seu amo.
25
Basta ao discípulo ser como seu mestre,
e ao servo ser como seu senhor. Se chama-
ram de Belzebu ao cabeça da Casa, quanto
mais aos membros da sua família!
26
Entretanto, não os temais! Nada há
escondido que não venha a ser revelado,
nem oculto que não venha a se tornar
conhecido.
A entrega do temor a Deus
27
O que vos digo na escuridão, dizei-o à
luz do dia; e o que se vos diz ao ouvido,
proclamai-o do alto dos telhados.
28
E, não temais os que matam o corpo,
mas não têm poder para matar a alma.
Temei antes, aquele que pode destruir no
inferno tanto a alma como o corpo.
29
Não se vendem dois pardais por uma
moedinha de cobre? Mesmo assim,
nenhum deles cairá sobre a terra sem a
permissão de vosso Pai.
30
E quanto aos muitos cabelos da vossa
cabeça? Estão todos contados.
31
Por isso, não temais! Bem mais valeis
vós do que muitos passarinhos.
32
Assim sendo, todo aquele que me decla-
rar diante das pessoas, também eu o decla-
rarei diante de meu Pai que está nos céus.
33
Entretanto, qualquer que me negar
diante das pessoas, também Eu o negarei
diante de meu Pai que está nos céus.
34
Não penseis que vim trazer paz à terra;
não vim trazer paz, mas espada.
35
Pois Eu vim para ser motivo de discór-
dia entre o homem e seu pai; entre a f-
lha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.


36
Assim os inimigos do homem serão os
da sua própria família.
1
37
Quem ama seu pai ou sua mãe mais do
que a mim não é digno de mim; e quem
ama o flho ou a flha mais do que a mim
não é digno de mim.
38
E aquele que não toma a sua cruz e não
me segue, também não é digno de mim.
39
Quem encontra a sua vida a perderá.
1
Jesus não veio trazer a paz no sentido de uma religiosidade cômoda e inconseqüente. O verdadeiro cristianismo é uma mudança
radical de vida com implicações conflituosas, inadequações e até perseguições cruéis. Algumas vezes na própria família (Mq 7.6)
e, com certeza, neste mundo secularizado, materialista e agnóstico. A paz do cristão está em sua plena comunhão com Deus (Jo
14.27) e a terra só verá paz completa na volta do Rei Jesus (Is 2.4). Uma das ofensas que mais feriram o coração de Cristo foi ouvir
dos teólogos da época (seu povo e família) que realizava milagres e sinais no poder de Belzebu (9.34; 12.24-29; Mc 3.22; Lc 11.15-
19; Jo 8.52). Chamar o Filho de Deus – o cabeça da raça humana – de Diabo, foi uma das maiores blasfêmias já ditas na história do
mundo. Belzebu é a forma grega da expressão hebraica Baal-Zebub que se refere a Satanás, o “príncipe dos demônios” e significa:
“senhor das moscas” (2Rs 1.2). Por isso, é preciso muito cuidado ao julgar e expressar publicamente opiniões dessa natureza con-
tra qualquer pessoa ou movimento cristão. Em 10.38, pela primeira vez em Mateus, aparece a palavra “cruz”. Os cristãos não devem
buscar o sofrimento, nem se desesperar diante dele, mas ter a atitude de Jesus: enfrentar as circunstâncias com fé, humildade e
coragem. O império romano obrigava seus condenados à morte a caminhar com a trave de suas cruzes nas costas até o local da
execução. Os discípulos já haviam visto milhares de judeus serem crucificados, por isso essa ilustração (metáfora) de Jesus foi tão
significativa. O crente, salvo por Cristo, deve carregar consigo a mesma cruz: renunciar a si mesmo, para servir com total dedicação
ao Senhor Jesus, como mortos para as demandas do sistema mundial e do nosso “eu” (Gl 2.20). Por isso, quem busca frenetica-
mente se dar bem nesta vida, acabará perdendo as bênçãos inerentes à condição dos salvos, agora e eternamente (2Co 5.17). Em
10.42, Jesus conclui esse trecho bíblico fazendo menção notável de recompensa a todos aqueles que ajudam e cooperam com os
servos do Senhor no estabelecimento da nova ordem: o Reino de Deus (1Co 15.58; Gl 6.9; Mt 25.35-36).
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23 MATEUS 10, 11
Mas quem perde a vida por minha causa
a achará.
40
Quem vos recebe, a mim mesmo rece-
be; e quem recebe a minha pessoa, recebe
aquele que me enviou.
41
Quem recebe um profeta por reconhe-
cê-lo como profeta, receberá a recom-
pensa de profeta; e quem recebe um justo
por suas qualidades de justiça, receberá a
recompensa de justo.
42
E quem der, mesmo que seja apenas
um copo de água fria a um destes peque-
ninos, por ser este meu discípulo, com
toda a certeza vos afrmo que de modo
algum perderá a sua recompensa”.
João. O arauto de Jesus
11
Havendo, pois, terminado de ins-
truir seus doze discípulos, partiu
Jesus dali para ensinar e pregar nas cida-
des da Galiléia.
2
Assim que, no cárcere, João ouviu falar
sobre o que Cristo estava realizando,
enviou dois dos seus discípulos para lhe
perguntarem:
3
“És tu Aquele que haveria de vir ou
devemos aguardar outro?”
4
Jesus, respondendo, disse-lhes: “Ide e con-
tai a João o que estais ouvindo e vendo:
5
Os cegos enxergam, os mancos cami-
nham, os leprosos são purifcados, os
surdos ouvem, os mortos são ressuscita-
dos, e as Boas Novas estão sendo prega-
das aos pobres.
6
E, abençoado é aquele que não se es-
candaliza por minha causa”.
7
Enquanto saíam os discípulos de João,
começou Jesus a falar às multidões a res-
peito de João: O que fostes ver no deser-
to? Um caniço agitado pelo vento?
8
E então? O que fostes ver no deserto?
Um homem vestido com roupas fnas?
De fato, os que usam roupas fnas estão
nos palácios reais.
9
Mas, afnal, o que fostes ver? Um pro-
feta? Sim, Eu vos afrmo. E mais do que
um profeta!
10
Este é aquele a respeito de quem está
escrito: “Eis que Eu enviarei o meu men-
sageiro à frente da tua face, o qual prepa-
rará o teu caminho diante de Ti”.
1
11
Com toda a certeza vos afrmo: Entre
os nascidos de mulher não se levantou
ninguém maior do que João, o Batista;
entretanto, o menor no Reino dos céus é
maior do que ele.
12
Desde os dias de João Batista até agora,
o Reino dos céus é tomado à força, e os
que usam de violência se apoderam dele.
13
Porque todos os Profetas e a Lei profe-
tizaram até João.
14
E, se desejarem aceitar, este é o Elias
que havia de vir.
15
Aquele que tem ouvidos para ouvir, que
ouça!
16
Mas, a quem hei de comparar esta ge-
ração? São como crianças que, sentadas
nas praças do mercado, fcam gritando
uma às outras:
17
‘Nós vos tocamos músicas de casa-
mento, mas vós não dançastes; entoamos
lamentos fúnebres e não pranteastes!’
18
Assim, veio João, que jejua e não bebe
vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’.
1
João Batista foi o último dos profetas do AT e o precursor de Cristo. O mensageiro do Rei (arauto) que veio anunciar a che-
gada do Filho de Deus à terra (Ml 3.1; 4.5-6). João estava preso em Maqueros, uma fortaleza inóspita, nas proximidades do mar
Morto (14.3-12; Lc 7.18-35) e desejava confirmar se Jesus era mesmo o Messias profetizado no AT. Jesus manda sua resposta
de maneira inequívoca, assim João poderia descansar e se alegrar no Senhor, pois sua missão estava cumprida: “os cegos
enxergam” e os demais milagres profetizados por Isaías (730 a.C.) sobre as obras que o Messias realizaria quando chegasse (Is
35.5; 61.1). Quem saiu para ver algo tão comum e simples como um pé de cana balançando ao vento, viu e ouviu o maior dos
profetas do AT, parente e amigo amado do Senhor (Lc 1.36; Jo 3.29). Entretanto, aqueles que têm o privilégio de ouvir o Filho de
Deus foram contemplados com bênção ainda maior que João (Ef 5.25-32). Jesus ainda registra o comportamento infantil dos
seres humanos em relação à vinda dos profetas de Deus - são como crianças: se ouvem uma música alegre, tocada com flautas,
nos casamentos (da época), não ficam contentes. Se ouvem uma melodia mais triste, como as executadas nos enterros, não se
emocionam. Ou seja, para muitos, infelizmente, não há como comunicar o Evangelho de modo a que este seja bem compreendi-
do. Por isso, muito felizes (bem-aventurados) são os que ouvem e aceitam a Palavra de Deus. A KJ de 1611 traz a expressão: “a
sabedoria é justificada por seus filhos” e significa que os frutos (obras) do ensino de João e Jesus são visíveis, palpáveis, práticos
e têm a ver com uma nova e abençoada maneira de viver.
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24 MATEUS 11, 12
19
Então chega o Filho do homem, comen-
do e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e
bebedor de vinho, amigo de publicanos e
pecadores!’ Todavia, a sabedoria é compro-
vada pelas obras que são seus frutos”.
Ai dos povos incrédulos
20
Então, começou Jesus a admoestar se-
veramente as cidades nas quais realizara
numerosos feitos prodigiosos, porque
não se arrependeram:
21
“Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida!
Porque se os milagres que entre vós
foram realizados tivessem sido feitos em
Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam
arrependido, vestindo roupas de saco e
cobrindo-se de cinzas.
22
Entretanto, Eu vos afrmo que no dia
do juízo haverá menos rigor para Tiro e
Sidom, do que para vós outros.
23
E tu, Cafarnaum, te arrogas subir até os
céus? Pois serás lançada no inferno. Por-
que se as maravilhas que foram realizadas
em ti houvessem sido feitas em Sodoma,
teria ela permanecido até o dia de hoje.
24
Eu, contudo, vos afrmo que haverá
mais tolerância para com o povo de So-
doma no dia do julgamento, do que para
contigo”.
Vinde a Cristo, os cansados
25
Naquela ocasião, em resposta, Jesus
proclamou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor
dos céus e da terra, pois escondeste estas
coisas dos sábios e cultos, e as revelaste
aos pequeninos.
26
Amém, ó Pai, pois assim foi do teu
agrado!
27
Todas as coisas me foram entregues
por meu Pai. Ninguém conhece o Filho
senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a
não ser o Filho, e aquele a quem o Filho
o desejar revelar.
28
Vinde a mim todos os que estais cansa-
dos de carregar suas pesadas cargas, e Eu
vos darei descanso.
29
Tomai vosso lugar em minha canga
e aprendei de mim, porque sou amável
e humilde de coração, e assim achareis
descanso para as vossas almas.
30
Pois meu jugo é bom e minha carga
é leve”.
2

O Senhor do sábado
12
Naquela época, Jesus passou pe-
las lavouras de cereal, em dia de
sábado. Seus discípulos estavam com
fome e começaram a colher espigas e
comê-las.
2
Assim que os fariseus viram aquilo,
disseram-lhe: “Vê! Teus discípulos estão
fazendo o que não é lícito em dia de
sábado!”
3
Mas Jesus lhes respondeu: “Não lestes
o que fez Davi quando ele e seus compa-
nheiros estavam com fome?
2
Corazim, mencionada apenas duas vezes nas Escrituras (aqui e em Lc 10.13) distava cerca de quatro quilômetros ao norte de
Cafarnaum. Betsaida ficava na extremidade ao norte do mar da Galiléia. Tiro e Sidom eram cidades pagãs da Fenícia. Jesus con-
clui esse trecho bíblico com uma “resposta” emocionada às graves circunstâncias descritas anteriormente. A expressão: “Graças
te dou” (em grego exomologoumai), significa: “reconheço”. A expressão: “Amém” (em hebraico transliterado amen) vem de uma
raiz que significa “digno de fé” ou “verdade” (Is 65.16), por isso a palavra grega é mera transliteração do hebraico, usada por
algumas versões na forma poética: “em verdade, em verdade”. No AT era, também, uma expressão de concordância (assim seja)
com uma doxologia ou bênção (1Cr 16.36; Sl 41.13). Jesus fez uso dessa expressão com autoridade messiânica, algo incomum
aos rabinos e mestres de sua época (2Co 1.20). Em certo sentido, Jesus pode ser chamado de “o Amém de Deus” (Is 65.16; Ap
3.14). Muitas sinagogas usaram essa expressão, que passou para as primeiras igrejas cristãs (1Co 14.16).
Nos versos 28 a 30 Jesus faz menção às Escrituras (Jr 6.16) e usa mais uma notável ilustração para mostrar como o cristão
pode encontrar descanso para as suas aflições: Jesus aponta para a canga dos bois. Uma trave de madeira robusta, quase
sempre ocupada por dois animais, colocados lado a lado, presos pelo pescoço e ligados ao arado ou carro que deveriam puxar.
Jesus considerou sua cruz (canga), útil e boa (no original grego chrestos). Algumas versões usam a palavra: “suave”. Jesus
considerou seu “fardo” leve, não pesado ou difícil de transportar até seu destino. Para alcançar o pleno descanso devemos
ocupar nosso lugar ao lado de Jesus e partilhar da sua canga; que não era um instrumento de tormento para os animais, mas
um meio útil e cômodo de levar mais carga com menos esforço, evitando os sofrimentos das antigas cordas amarradas pelo
corpo. Jesus quer partilhar sua força conosco. Além disso, bondade, paciência, mansidão, humildade são qualidades que nos
possibilitam trabalhar e descansar com fé no amor e na soberania do Senhor. Uma pessoa assim será querida e amável, e isso a
ajudará a vencer muitos problemas e descansar diariamente em paz.
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25 MATEUS 12
4
Como entrou na casa de Deus, e come-
ram os pães da Presença, os quais a lei
não lhes permitia comer, nem a ele nem
aos que com ele estavam, mas exclusiva-
mente aos sacerdotes?
1
5
Ou não lestes na Lei que, aos sábados,
os sacerdotes no templo violam o sábado
e, contudo, são desculpados?
6
Pois Eu vos afrmo que aqui está quem
é maior do que o templo.
7
Entretanto, se vós soubésseis o que
signifcam estas palavras: ‘Misericórdia
quero, e não holocaustos’, não teríeis
condenado os que não têm culpa.
8
Pois o Filho do homem é o Senhor do
sábado!”.
Jesus cura no sábado
9
Tendo Jesus saído daquele lugar, foi
para a sinagoga deles.
10
Encontrava-se ali um homem que
tinha uma das mãos atrofada. Mas, pro-
curando um motivo para acusar Jesus,
eles o questionaram: “É lícito curar no
sábado?”
11
Ao que Jesus lhes propôs: “Qual de vós
será o homem que, tendo uma ovelha, e,
num sábado, esta cair em um buraco, não
fará todo o esforço para retirá-la de lá?
12
Assim sendo, quanto mais vale uma
pessoa do que uma ovelha! Por isso, é
lícito fazer o bem no sábado”.
13
Então, dirigiu-se ao homem e disse:
“Estende a tua mão”. Ele a estendeu e ela
foi restaurada, fcando sã como a outra.
14
Diante disso, saíram os fariseus e co-
meçaram a conspirar sobre como pode-
riam matar Jesus.
Eis meu Servo amado!
15
Mas, Jesus, sabendo disto, afastou-se
daquele lugar. Uma multidão o seguiu e
a todos Ele curou.
16
Contudo, os advertiu para que não
divulgassem suas obras.
17
Ao acontecer isso, cumpriu-se o que
fora dito pelo profeta Isaías:
18
“Eis o meu Servo, que escolhi, o meu
amado, em quem tenho alegria. Farei
repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele
anunciará justiça às nações.
19
Não contenderá nem gritará; nem se
ouvirá nas ruas a sua voz.
20
Não esmagará a cana rachada, nem
apagará o pavio que fumega, até que faça
vencer a justiça.
21
E em seu Nome os gentios colocarão
sua esperança”.
O pecado imperdoável
22
Depois disso, aconteceu que lhe trouxe-
ram um endemoninhado, cego e mudo; Ele
o curou, de modo que pôde falar e ver.
23
Então, toda a multidão fcou atônita
e exclamava: “É este, porventura, o Filho
de Davi?”
1
O sábado (em hebraico shabbãth) é estabelecido nas Escrituras como princípio: um em cada sete dias deveria ser separado
(santificado) para o descanso. A raiz hebraica da palavra “sábado” é shãbhath, que significa “cessar”. Na Criação, o próprio
Deus legou à humanidade o exemplo da santificação do sábado (Gn 2.2; Êx 20.8-11). Em Êx 16.21-30 há uma menção explícita
sobre o sábado em relação à provisão do maná. O sábado (dia do descanso em homenagem ao Criador) nesse contexto, é
representado como um dom de Deus, visando o repouso e o benefício do povo. Não era necessário trabalhar no sábado (juntar
o maná), pois dupla porção era provida no sexto dia da semana. Os fariseus, no entanto, haviam acrescentado à Lei e ao sábado
uma série imensa de minuciosas regras e observâncias não prescritas por Moisés. Ao entrar pelos campos de trigo, Jesus e seus
discípulos estavam usufruindo um direito concedido pela Lei a todo viajante: comer para satisfazer a fome, sem levar nada (Dt
23.25), mas os fariseus implicaram com o ato de debulhar no sábado (Lc 6.1). Jesus então faz referência a 1Sm 21.1-6, lembrando
que em caso de necessidade, alguns detalhes da lei cerimonial podiam ser suprimidos. Os pães da Presença ou Proposição,
como em algumas versões, referem-se à presença do próprio Deus (Êx 33.14,15; Is 63.9). Os doze pães (cada um simbolizando
uma tribo) representavam uma oferta perpétua, de pão, ao Senhor, mediante a qual Israel declarava consagrar a Deus os frutos
do seu trabalho que, por sua vez, era uma bênção do Senhor (Lv 24.5,9). Esses pães eram colocados na mesa do lugar santo
do tabernáculo, todos os sábados, e depois da cerimônia podiam ser comidos pelo sacerdote e sua família. Ocorre que os
sacerdotes preparavam os pães e os sacrifícios no sábado, mesmo sob a proibição geral do trabalho nesse dia. Jesus então
argumenta que se as necessidades do culto no templo permitiam que o sacerdote profanasse o sábado, com muito mais razão a
missão de Cristo (o Messias) merece a mesma liberdade. Jesus ensina que a ética é mais importante que o ritual, e o espírito da
Lei maior que as letras e os mandamentos. Jesus declara que Ele é Deus, ao afirmar que é Senhor do sábado (Jo 5.17) e enfatiza
que o sábado foi dado à humanidade para o seu bem e não como uma obrigação prejudicial.
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26 MATEUS 12
24
Mas os fariseus, ao ouvirem isso, mur-
muraram: “Este homem não expulsa
demônios senão pelo poder de Belzebu, o
príncipe dos demônios”.
25
Entretanto, Jesus compreendia os pen-
samentos deles, e lhes afrmou: “Todo
reino dividido contra si mesmo será
arruinado, e toda cidade ou casa dividida
contra si mesma não resistirá.
26
Se Satanás expulsa Satanás, está divi-
dido contra ele próprio. Como poderá
então subsistir o seu reino?
27
E se Eu expulso demônios por Belze-
bu, por quem os expulsam vossos flhos?
E, por isso, eles mesmos serão os vossos
juízes.
28
Mas, se é pelo Espírito de Deus que
Eu expulso demônios, então, verdadei-
ramente, é chegado o Reino de Deus
sobre vós!
29
Ou ainda, como pode alguém entrar
na casa do homem forte e roubar-lhe
todos os bens sem primeiro amarrá-lo?
Só depois disso será possível saquear a
sua casa.
30
Quem não está comigo, está contra
mim; e aquele que comigo não colhe,
espalha.
31
Portanto, Eu vos assevero: Todos os
pecados e blasfêmias serão perdoados
às pessoas; a blasfêmia contra o Espírito
Santo não será, porém, perdoada!
32
Qualquer pessoa que disser uma pa-
lavra contra o Filho do homem, isso lhe
será perdoado; porém, se alguém falar
contra o Espírito Santo, não lhe será
isso perdoado, nem nesta época, nem no
tempo futuro.
33
Ou fazei a árvore boa e o seu fruto
bom, ou a árvore má e o seu fruto mau;
pois uma árvore é conhecida pelo seu
fruto.
34
Raça de víboras! Como podeis falar
coisas boas, sendo maus? Pois a boca
fala do que está cheio o coração.
35
Uma boa pessoa tira do seu bom te-
souro coisas boas; mas a pessoa má, tira
do seu tesouro mau, coisas más.
36
Por isso, vos afrmo que de toda a pa-
lavra fútil que as pessoas disserem, dela
deverão prestar conta no Dia do Juízo.
37
Porque pelas tuas palavras serás ab-
solvido e pelas tuas palavras serás con-
denado”.
2
O sinal da ressurreição
38
Então alguns dos mestres da lei e fari-
seus lhe pediram: “Mestre, queremos ver
de tua parte algum milagre”.
39
Ao que Jesus respondeu: “Uma gera-
ção perversa e adúltera pede um sinal
miraculoso! Todavia, nenhum sinal lhe
será dado, exceto o sinal miraculoso do
profeta Jonas.
3
2
Filho de Davi era um título exclusivo do Messias (Mc 3.22-30; Lc 11.14-22). A vinda e a vida de Jesus eram o evidente cumpri-
mento das profecias, especialmente de Isaías 42.1-4. Deus, assumindo a forma humana em Jesus, tratou os seres humanos com
misericórdia e delicadeza: como caniços (varas de pesca) que podem ser quebrados ou esmagados com facilidade; ou ainda
como pequenas chamas que podem ser apagadas com um simples movimento. Jesus percebeu, compreendeu (no original gre-
go eidôs) o que de fato os fariseus estavam tramando. Os judeus já praticavam o exorcismo (At 19.13-16) e Jesus os questionou
sob qual autoridade exerciam essa prática. Jesus já havia vencido Satanás em seus quarenta dias no deserto (4.1-11) e agora
estava invadindo o reino do Maligno (1Jo 3.8), para tirar das trevas as almas de todos aqueles que nele cressem, e para destruir a
“casa do homem forte” (Is 49.24-26; Lc 11.21). Por isso não pode haver neutralidade no Reino de Deus: quem não serve a Cristo
está servindo ao Diabo que é o diretor-geral do sistema (econômico, político, social e religioso) deste mundo. O único pecado
sem perdão é a rejeição consciente e sistemática da salvação graciosa em Cristo e a alegação de que Jesus e o Diabo são a
mesma pessoa ou as duas faces da verdade (o bem e o mal), como pensam algumas correntes filosóficas (Hb 6.4-6; 10.26-31).
Jesus acrescenta que o caráter de uma pessoa será sempre revelado por meio de suas palavras (Tg 3.2) e que essas palavras
pesam na balança da terra e do céu (Pv 18.21). Há três palavras gregas para designar milagres: 1) teras – algo portentoso; 2) du-
namis – poder maravilhoso; 3) semeion – uma prova ou sinal sobrenatural. No passado, muitos líderes de Israel haviam concedido
ao povo provas de sua missão por parte de Deus. Assim, para autenticar a obra de Moisés, o Senhor enviou o maná; para Josué,
o Senhor fez parar o Sol e a Lua; para Samuel, enviou o Senhor, trovões, de um céu claro e limpo, sem tempestades; para Elias,
mandou Deus, fogo do céu; para Isaías, fez recuar a sombra do relógio (da época) do Sol. Mas, para confirmar a obra de Jesus
Cristo, o Messias, seria realizado o maior milagre de todos: Deus ressuscitaria a Seu Filho Jesus da sepultura e esse seria um sinal
ainda maior do que aquele realizado para a conversão de toda a antiga cidade de Nínive (39-41).
3
O AT usa freqüentemente a metáfora: “adúltera” para significar “infiel a Deus”. Os três dias e três noites de Jonas e de Jesus
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27 MATEUS 12, 13
40
Portanto, assim como esteve Jonas
três dias e três noites no ventre de um
grande peixe, assim o Filho do homem
estará três dias e três noites no coração
da terra.
41
O povo de Nínive se levantará no Dia
do Juízo com esta geração, e a condenará;
pois eles se arrependeram com a prega-
ção de Jonas. E eis que aqui está quem é
maior do que Jonas.
42
A rainha do Sul se levantará no Juízo
com esta geração e a condenará, pois ela
veio dos confns da terra para conhecer
os sábios ensinamentos de Salomão. E
eis que aqui está quem é maior do que
Salomão.
43
Quando um espírito imundo sai de
uma pessoa, passa por lugares áridos
procurando descanso, mas não encontra
onde repousar.
44
Então diz: ‘Voltarei para a minha casa
de onde saí’. E, retornando, encontra a
casa desocupada, varrida e arrumada.
45
Diante disso, vai e leva consigo outros
sete espíritos, piores do que ele, e, en-
trando, passam a morar ali. E o estado
fnal daquela pessoa torna-se pior que o
primeiro. Assim também ocorrerá com
esta geração má!”.
A mãe e os irmãos de Jesus
46
Enquanto, Jesus estava pregando à
grande multidão, do lado de fora, sua
mãe e seus irmãos procuravam falar
com Ele.
47
Então alguém o avisou: “Tua mãe e
teus irmãos estão lá fora e desejam fa-
lar-te”.
48
Jesus, entretanto, respondeu ao que lhe
trouxera a informação: “Quem é minha
mãe e quem são os meus irmãos?”
4
49
E, estendendo a mão na direção dos
discípulos, afrmou: “Eis minha mãe e
meus irmãos.
50
Pois todo aquele que faz a vontade de
meu Pai que está nos céus, este é meu
irmão, minha irmã e minha mãe”.
A parábola do semeador
(Mc 4.1-20; Lc 8.1-15)
13
Naquele mesmo dia Jesus saiu de
casa e foi assentar-se à beira-mar.
2
Uma grande multidão reuniu-se ao seu
redor e, por esse motivo, entrou num
barco e assentou-se. E todo o povo esta-
va em pé na praia.
3
Jesus ensinou-lhes então muitas coisas
por meio de parábolas, como esta: “Eis
que um semeador saiu a semear.
1
(Jn 1.17) referem-se ao período que vai da sexta-feira à tarde até o domingo de manhã. A expressão hebraica traduzida por
algumas versões como “baleia”, significa no original: “grande monstro marinho”. A rainha do Sul (também chamada de rainha do
meio-dia) é a mesma rainha de Sabá (1Rs 10) cujo reino ficava a sudoeste da Arábia, onde é hoje o Iêmen. Jesus recorre à história
de Israel para fazer referência ao processo de purificação da idolatria, entre os judeus, durante o cativeiro babilônico, mas cujo
estado atual – de incredulidade e dureza de coração – era muito pior que antes do exílio (Lc 11.24-26).
4
Jesus tinha quatro irmãos (mencionados os seus nomes em Mc 6.3) e mais um número de irmãs não especificado nas
Escrituras. Alguns teólogos defendem a idéia de que esses seriam primos de Jesus, filhos de Alfeu com a irmã da mãe de Jesus
que também se chamava Maria. Mas, Jo 7.5 e At 1.14 os distinguem claramente dos filhos de Alfeu. Jesus aproveita o que seria
uma interrupção do seu discurso para ilustrar a verdadeira fraternidade: uma nova família espiritual à qual todos os cristãos
pertencem e a quem devem amar como à própria mãe e aos irmãos. Em nenhum momento Jesus tem a intenção de divinizar sua
mãe, muito menos de tratá-la sem o devido carinho e respeito.
Capítulo 13
1
Jesus saiu da casa de Simão e André, em Cafarnaum (8.14), e dirigiu-se às margens do “mar da Galiléia”, chamado também de
“o grande lago”. Os hebreus não tinham apreço pelo mar, pois as antigas crenças semíticas diziam que a profundidade (abismo)
personificava o poder do mal que combatia contra Deus. Para Israel, entretanto, Deus era o criador do mar e seu controlador,
fazendo que o mar coopere para o bem da humanidade (Gn 1.9; Gn 49.25; Êx 14,15; Dt 33.13; Sl 104.7-9; Sl 148.7; Mt 14.25-33;
At 4.24). O triunfo final de Deus será acompanhado pelo desaparecimento total do mar (Ap 21.1). A expressão “parábola” vem
do original grego paraboles, que significa, colocar coisas semelhantes, lado a lado, para estabelecer comparação, estudo e tirar
um ensinamento. Em nossa língua, a parábola é uma figura de linguagem em que uma verdade moral ou espiritual é ilustrada
por uma analogia derivada da experiência cotidiana. Com essa parábola, conhecida como “do semeador” Jesus inicia o primeiro
grupo de histórias didáticas sobre o Reino de Deus, registradas em Mateus. Os evangelhos sinóticos contêm cerca de trinta
parábolas. O evangelho segundo João não apresenta parábolas, mas emprega outras figuras de linguagem.
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28 MATEUS 13
4
Enquanto realizava a semeadura, parte
dela caiu à beira do caminho e, vindo as
aves, a devoraram.
5
Outra parte caiu em terreno rochoso,
onde havia uma fna camada de terra,
e logo brotou, pois o solo não era pro-
fundo.
6
Porém, quando veio o sol, as plantas
se queimaram; e por não terem raiz,
secaram.
7
Outra parte caiu entre os espinhos. Es-
tes, ao crescer, sufocaram as plantas.
8
Contudo, uma parte caiu em boa terra,
produzindo generosa colheita, a cem,
sessenta e trinta por um.
9
Aquele que tem ouvidos para ouvir,
que ouça!”.
O propósito das parábolas
10
Então, os discípulos se aproximaram
dele e perguntaram: “Por que lhes falas
por meio de parábolas?”
11
Ao que Ele respondeu: “Porque a vós
outros foi dado o conhecimento dos
mistérios do Reino dos céus, mas a eles
isso não lhes foi concedido.
2
12
Pois a quem tem, mais se lhe dará, e
terá em abundância; mas, ao que quase
não tem, até o que tem lhe será tirado.
13
Por isso lhes falo por meio de pará-
bolas; porque, vendo, não enxergam; e
escutando, não ouvem, muito menos
compreendem.
14
Neles se cumpre a profecia de Isaías:
‘Ainda que continuamente estejais ouvin-
do, jamais entendereis; mesmo que sem-
pre estejais vendo, nunca percebereis.
15
Posto que o coração deste povo está
petrifcado; de má vontade escutaram
com seus ouvidos, e fecharam os seus
olhos; para evitar que enxerguem com os
olhos, ouçam com os ouvidos, compre-
endam com o coração, convertam-se, e
sejam por mim curados’.
16
Mas abençoados são os vossos olhos,
porque enxergam; e os vossos ouvidos,
porque ouvem.
17
Pois com certeza vos afrmo que mui-
tos profetas e justos desejaram ver o que
vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e
não ouviram.
Jesus explica essa parábola
18
Portanto, atentai para o que signifca a
parábola do semeador:
19
Quando uma pessoa escuta a mensa-
gem do Reino, mas não a compreende,
vem o Maligno e arranca o que foi
semeado em seu coração. Estas são as
sementes que foram semeadas à beira
do caminho.
20
O que foi semeado em terreno rocho-
so, esse é o que ouve a Palavra e logo a
aceita com alegria.
21
Contudo, visto que não tem raiz em
si mesmo, resiste por pouco tempo. E,
quando por causa da Palavra chegam os
problemas e as perseguições, logo perde
o ânimo.
22
Quanto ao que foi semeado entre os
espinhos, este é aquele que ouve a Pala-
vra, mas as preocupações desta vida e a
sedução das riquezas sufocam a mensa-
gem, tornando-a infrutífera.
23
Mas, enfm, o que foi semeado em
boa terra é aquele que ouve a Palavra e
a entende; este frutifca e produz grande
colheita: alguns, cem; outros, sessenta; e
ainda outros trinta vezes mais do que foi
semeado”.
2
A expressão original grega, aqui traduzida por “mistérios”, refere-se a revelações especiais a que somente os devotos (cren-
tes, consagrados) a Jesus Cristo têm acesso. O v.12 anuncia um princípio básico do mundo espiritual: quem aceita a Palavra de
Deus, com humildade e reverência, receberá muitas outras bênçãos do Senhor, mas aos arrogantes e incrédulos, até a parcela
de fé e bênçãos que lhes foi concedida será retirada. Veja os exemplos do “filho pródigo” (Lc 15.17-24) e o que aconteceu com
o Faraó do Egito depois de ter feito pouco caso do aviso de Moisés (Êx 8.1-32; 9.1-12). As coisas de Deus não fazem sentido
para aqueles dotados apenas de crítica racional. Precisam ser iluminados em sua compreensão espiritual e isso é dom de Deus
(Rm 5.15,16; 1Co 2.14-16; Ef 2.8). Os versos 14 e 15 são copiados, palavra por palavra, da Septuaginta (Is 6.9,10), que descreve
o chamado do profeta Isaías, a mensagem que deveria pregar e o estado de calamidade espiritual do povo. Como no tempo de
Isaías, assim também na época de Cristo, os judeus fecharam os olhos à verdade (Mc 4.12). Jesus e Sua Igreja são as últimas
grandes luzes a brilhar neste mundo para todo aquele que quiser abrir os olhos (Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12).
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29 MATEUS 13
O trigo e o joio
24
Jesus lhes contou outra parábola: “O
Reino dos céus é semelhante a um ho-
mem que semeou boa semente em seu
campo.
25
Entretanto, quando todos dormiam,
chegou o inimigo dele, lançou o joio
no meio do trigo, e seguiu o seu ca-
minho.
3
26
Assim, quando o trigo brotou e for-
mou espigas, o joio também apareceu.
27
Os servos do dono da plantação fo-
ram até ele e perguntaram: ‘Senhor, não
semeaste boa semente no teu campo?
Então, de onde vem o joio?’.
28
Ele, porém, lhes respondeu: ‘Um
inimigo fez isso’. Então os servos lhe
propuseram:‘Senhor, queres que vamos
e arranquemos o joio?’
29
Ao que o senhor respondeu: ‘Não, pois
ao tirar o joio, podereis arrancar junta-
mente com ele o trigo.
30
Deixai-os, pois, crescer juntos até à
safra, e, no tempo da colheita, direi aos
ceifeiros: ‘Primeiro ajuntai o joio e amar-
rai-o em feixes para ser queimado; mas o
trigo, recolhei-o no meu celeiro’”.
O grão de mostarda
31
Outra parábola ainda lhes propôs Je-
sus, dizendo: “O Reino dos céus é como
um grão de mostarda, que um homem
tomou e plantou em seu campo.
32
Embora seja a menor dentre todas as
sementes, quando cresce chega a ser a
maior das plantas, e se torna uma árvore,
de maneira que as aves do céu vêm ani-
nhar-se em seus ramos”.
O fermento
33
E contou-lhes mais outra parábola: “O
Reino dos céus é semelhante ao fermento
que uma mulher pegou e misturou em
três medidas de farinha, até que toda a
massa fcou levedada”.
34
Todas essas coisas falou Jesus à mul-
3
O propósito desta parábola é revelar o método por meio do qual Deus está agindo no mundo durante a era (tempo) do
Evangelho (das Boas Novas de Cristo). Jesus raramente interpretava suas histórias enigmáticas (parábolas). Isso porque sabia
que todas as pessoas que verdadeiramente amavam a Deus entenderiam sua mensagem. Mas, para que nada faltasse aos
discípulos, ele explica algumas delas (18-23; 36-43). O joio é uma erva daninha, também chamada de cizânia ou centeio falso,
que enquanto está crescendo é muito semelhante ao trigo. Apenas quando as espigas se formam é que é possível fazer uma
distinção correta. A farinha de trigo feita com a mistura desse centeio falso é venenosa. A semente de mostarda era a menor
semente que os agricultores da Palestina, na época de Cristo, costumavam semear. Em condições favoráveis, essas “plantas” (no
original grego lachanôn) podiam alcançar cerca de três metros de altura. Jesus aproveita essa ilustração da árvore para lembrar
as Escrituras (Ez 17.23, 31.5; Sl 104.12; Dn 4.12,21). Em Ez 17, por exemplo, a “árvore” é o “Novo Israel”, mas em Ez 41 e Dn 4,
a árvore representa os impérios dos gentios: Assíria e Babilônia (região onde hoje se situa o Iraque). Dessa maneira, a parábola
antecipa o desenvolvimento da Igreja de Cristo. Entretanto, as aves (v.19), como figura do Maligno, completam o quadro da Igreja
visível (na terra) em sua apostasia (tempo de frieza espiritual da Igreja) e revelam aos discípulos que o Reino de Deus, tendo um
início tão humilde quanto a menor das sementes, se expandiria até atingir domínio mundial, envolvendo pessoas de todas as
nações (Dn 2.35-45; 7.27; Ap 11.15). Nas Escrituras, o fermento quase sempre é um símbolo de algo perverso ou impuro. Nesta
parábola, entretanto, significa: crescimento, progresso. A expressão “uma medida” vem do hebraico seah (no original grego: sata)
e corresponde a cerca de seis litros. Ou seja, assim como o bom fermento se alastra pela massa, dessa mesma maneira, o Reino
de Deus envolve a alma da pessoa que recebe o Espírito Santo, e vai moldando seu caráter à imagem de Cristo (2Co 4.1-15). No
v.35, a citação bíblica vem do Sl 78.2-3, sendo que a primeira parte é tirada da Septuaginta (tradução grega do AT) e a segunda
parte, do hebraico. Mateus interpreta esse texto como mais uma profecia sobre Jesus Cristo. A palavra “filhos” neste contexto
e no original significa: “aqueles que pertencem”. No v.41 há uma alusão ao texto hebraico de Sf 1.3, sendo que a palavra grega
anomian, traduzida algumas vezes por “iniqüidade”, e aqui por “mal”, também significa: “ilegalidade”. A expressão “consumação
do século” como aparece em algumas versões, aqui traduzida por “final desta era”, como base a tradução dos melhores origi-
nais; nos quais, a palavra grega, éon, significa mais propriamente: um período de tempo marcante na história da humanidade,
ou seja, uma era. Literalmente: “finalização do éon” ou do período que vai do nascimento de Cristo à sua volta triunfante (Mt
24; 25; Mc 13). A expressão: “fornalha ardente”, mencionada muitas vezes nos textos apocalípticos (Ap 19.20; 20.14), ocorre
mais cinco vezes em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e em nenhuma outra parte do NT. Não compete à Igreja de Jesus
Cristo arrogar-se o direito de julgar e condenar pessoas antes do Dia do Juízo (a grande colheita). Essa parábola não se aplica
às questões da disciplina comunitária que é tratada em Mt 18; mas, sim, da necessária e inevitável convivência que deve haver
entre cristãos e descrentes enquanto estivermos neste mundo, até a segunda vinda do Senhor (1Co 4.5; 2Co 10.4). Não devemos
nos preocupar em destruir o joio, mas em levar a todos a Palavra da graça salvadora de Jesus Cristo e assim brilharemos por
toda a eternidade (Dn 12.3).
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30 MATEUS 13
tidão por meio de parábolas e nada lhes
dizia sem usar palavras enigmáticas.
35
E assim cumpriu-se o que fora dito por
meio do profeta: “Abrirei em parábolas a
minha boca; proclamarei coisas ocultas
desde a fundação do mundo”.
Jesus explica a parábola do joio
36
Então, Jesus se despediu da multidão e
foi para casa. Seus discípulos aproxima-
ram-se dele e pediram: “Explica-nos a
parábola do joio na plantação”.
37
E Jesus explicou: “Aquele que semeou a
boa semente é o Filho do homem.
38
O campo é o mundo, e a boa semente
são os flhos do Reino. O joio representa
os que pertencem ao Maligno.
39
O inimigo que semeou o joio é o Diabo.
A colheita é o fnal desta era, e os ceifeiros
são os anjos.
40
Da mesma maneira que o joio é colhi-
do e jogado ao fogo, assim será no fm
desta era.
41
O Filho do homem mandará os seus
anjos, e eles ceifarão do seu Reino tudo
o que causa tropeço e todos os que pra-
ticam o mal.
42
Eles os lançarão na fornalha ardente e
ali haverá pranto e ranger de dentes.
43
Então os justos reluzirão como o sol
no Reino de seu Pai. Aquele que tem ou-
vidos para ouvir, que ouça!
O tesouro escondido
44
O Reino dos céus assemelha-se a um
tesouro escondido no campo. Certo ho-
mem, tendo-o encontrado, escondeu-o
novamente. Então, transbordando de ale-
gria, vai, vende tudo o que tem, e compra
aquele terreno.
A pérola de grande valor
45
Da mesma forma, o Reino dos céus é
como um negociante que procura péro-
las preciosas.
46
E, assim que encontrou uma pérola va-
liosíssima, foi, vendeu tudo o que tinha e
a comprou.
Os bons e os maus peixes
47
O Reino dos céus é ainda semelhante
a uma rede que, lançada ao mar, recolhe
peixes de toda espécie.
48
E, quando está repleta, os pescadores
a puxam para a praia. Então se assentam
e juntam os bons em cestos, mas jogam
fora os ruins.
49
Assim também ocorrerá no fnal desta
era. Chegarão os anjos e irão separar os
maus dentre os justos.
50
E lançarão os maus na fornalha arden-
te; e ali haverá grande lamento e ranger
de dentes”.
O mestre é um pai de família
51
Então lhes perguntou Jesus: “Enten-
destes todas estas parábolas?” Ao que eles
responderam: “Sim, Senhor”.
52
E Jesus lhes disse: “Portanto, todo
mestre da lei, bem esclarecido quanto ao
Reino dos céus, é semelhante a um pai
de família que sabe tirar do seu tesouro
coisas novas e coisas velhas”.
4
O profeta não é honrado pelos seus
53
Havendo terminado de contar essas
parábolas, retirou-se Jesus dali.
54
Chegando à sua cidade, começou
a ensinar o povo na sinagoga, de tal
maneira que as pessoas se admiravam,
e exclamavam: “De onde lhe vem tanta
4
Depois que os judeus blasfemaram contra o Espírito Santo (12.24-30) e começaram a tramar seu assassinato (12.14), Jesus
passa a revelar aspectos mais profundos sobre o Reino de Deus, apenas aos seus discípulos, preparando-os para continuar
sua obra. O termo grego grammateus (escriba), significa “escrivão” ou “letrado”. Poucos sabiam ler e escrever naquela época e
lugar. Os escribas eram responsáveis por copiar e arquivar as leis e tradições judaicas, e assim se tornaram mestres, doutores e
advogados (Lc 5.21), pois não havia distinção entre a lei de Deus e a dos homens. A sinagoga era a principal instituição religiosa
judaica daqueles dias e podia ser estabelecida em qualquer cidade com mais de dez judeus casados. Teve origem no exílio e
servia de local onde os judeus podiam estudar as Escrituras e adorar a Deus. Jesus, como também Paulo (At 13.15; 14.1; 17.2;
18.4), aproveitou o costume judaico de convidar mestres visitantes para pregar nas sinagogas locais e lhes anunciou a chegada
do Reino de Deus: O Evangelho de Cristo. No original grego, a palavra aqui traduzida por “carpinteiro” é a mesma usada para
identificar o trabalho do “pedreiro”. Jesus, como filho mais velho da família, era o principal ajudante do pai nos trabalhos com
madeira e alvenaria, ofício que desempenhou para cooperar com o sustento da família, após a morte de José (Mc 6.3; Lc 8.19).
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31 MATEUS 13, 14
sabedoria e estes poderes para realizar
milagres?
55
Ora, não é este o flho do carpinteiro?
O nome de sua mãe não é Maria, e o de
seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas?
56
Não vivem entre nós todas as suas
irmãs? Portanto, de onde obteve todos
esses poderes?”.
57
E fcavam escandalizados por causa
dele. Entretanto, Jesus lhes afrmou:
“Não há profeta sem honra, a não ser em
sua própria terra, e em sua própria casa”.
58
E Jesus não realizou ali muitos mila-
gres, por causa da falta de fé daquelas
pessoas.
5

João Batista é decapitado
14
Por aquele tempo Herodes, o
tetrarca, ouviu os relatos sobre os
feitos de Jesus.
2
E disse aos seus servos: “Este é João
Batista; ele ressuscitou dos mortos e,
por isso, nele operam poderes para fazer
milagres.
3
Porque Herodes tinha mandado pren-
der João, amarrar suas mãos e jogá-lo
na prisão. Isso por causa de Herodias,
mulher de Filipe, seu irmão.
4
Pois João o havia advertido, dizendo:
“Não te é lícito esposá-la”.
5
Herodes, portanto, queria matá-lo, mas
temia o povo, pois este o considerava
profeta.
6
Mas, tendo chegado o dia da celebração
do aniversário de Herodes, a flha de He-
rodias dançou diante de todos, e muito
agradou a Herodes.
7
Por conta disso, ele lhe prometeu, sob
juramento, conceder qualquer pedido
que ela desejasse fazer.
8
Foi então que ela, infuenciada por sua
mãe, pediu: “Dá-me aqui, num prato, a
cabeça de João Batista”.
1
9
O rei fcou angustiado; contudo, por
causa do juramento e da presença dos
convidados, ordenou que lhe fosse dado
o que ela pedira.
10
Então mandou decapitar João na prisão.
11
Sua cabeça foi levada num prato e en-
tregue à jovem, que a entregou à mãe.
12
Os discípulos de João vieram, levaram
seu corpo e o sepultaram. E foram contar
a Jesus o que havia acontecido.
A multiplicação dos pães
13
Assim que Jesus ouviu essas coisas, re-
tirou-se de barco, em particular, para um
lugar deserto. As multidões, entretanto,
ao saberem disso, saíram das cidades e o
seguiram a pé.
14
Quando Jesus deixou o barco, viu
numerosa multidão; sentiu-se movido
de grande compaixão pelo povo, e curou
os seus doentes.
15
Ao fnal do dia, os discípulos se apro-
ximaram de Jesus e disseram: “Este é um
lugar deserto, e já está entardecendo.
Manda embora, pois, as multidões, para
5
Existe uma clara correlação entre a fé e a realização dos milagres de Jesus em Mateus (8.10,13; 9.2,22,28,29). A arrogância dos
teólogos e líderes religiosos e a presunção dos que pensavam conhecer a Jesus desde criança, fizeram com que eles perdessem a
maravilhosa oportunidade de receber as preciosas revelações e bênçãos do Messias, o Filho de Deus em pessoa: Jesus Cristo.
Capítulo 14
1
Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta
parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o
Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela
Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (16.13-14).
A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do
espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de
Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16;
20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de
Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva
diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu
entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande),
que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (v.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira
onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além
de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (11.2).
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32 MATEUS 14
que possam ir aos povoados comprar
comida”.
16
Jesus, porém, lhes respondeu: “O povo
não precisa ir embora; dai-lhes vós mes-
mos algo para comer”.
17
Ao que eles replicaram: “Tudo o que
temos aqui são cinco pequenos pães e
dois peixes!”
18
Mas Jesus lhes disse: “Tragam-nos aqui
para mim”.
19
E mandou que as multidões se assen-
tassem sobre o gramado. Tomou, então,
os cinco pães e os dois peixes e, olhando
para o céu, os abençoou. Em seguida,
tendo partido os pães, deu-os aos discí-
pulos, e estes serviram às multidões.
2
20
Todos comeram até fcar satisfeitos,
e os discípulos recolheram doze cestas
cheias de pedaços que sobraram.
21
Os que se alimentaram foram cerca de
cinco mil homens, sem contar as mulhe-
res e as crianças.
Jesus anda sobre o mar
22
Imediatamente após, Jesus insistiu com
os discípulos para que entrassem no bar-
co e fossem adiante dele para o outro lado,
enquanto Ele despedia as multidões.
23
Assim que mandou o povo embora,
subiu sozinho a um monte para orar. Ao
chegar da noite, lá estava Ele, só.
24
Todavia, o barco já estava longe, no
meio do mar, sendo fustigado pelas on-
das; pois o vento era contrário.
25
Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter
com eles, andando por sobre o mar.
3
26
Quando os discípulos o viram andan-
do sobre as águas, fcaram aterrorizados
e exclamaram: “É um fantasma!” E gri-
tavam de medo.
27
Mas, imediatamente, Jesus lhes disse:
“Tende bom ânimo! Sou Eu. Não temais!”.
28
Ao que Pedro exclamou: “Senhor! Se
és tu, manda-me ir ao teu encontro por
sobre as águas”.
2
Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que
fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de
Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma
região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no
meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a
multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6.30-46; Lc
9.10-17; Jo 6.1-15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado
(vv. 1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe
da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de
“bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim
como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar,
curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida no vv.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou
folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a
fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente
os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos
é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo.
3
Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”,
sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus
rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os
discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro
lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde
(Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx
12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No v. 13, trata-se da primeira tarde; no v. 23
refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (26.36-46). Para os romanos, entretanto, a
noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio
(em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros.
Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of
good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio
das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A
proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso,
no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.
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33 MATEUS 14, 15
29
Então Jesus lhe responde: “Vem!” E Pe-
dro, deixando o barco, andou por sobre
as águas e foi na direção de Jesus.
30
Todavia, reparando na força do vento,
teve medo, e começando a afundar, gri-
tou: “Senhor! Salva-me!”
31
Jesus estendeu imediatamente a mão,
segurou-o e lhe disse: “Homem de pe-
quena fé, por que duvidaste?”.
32
Assim que ambos entraram no barco,
cessou o vento.
33
Então os que estavam no barco adora-
ram-no, exclamando: “Verdadeiramente
Tu és o Filho de Deus”.
4

34
Depois de atravessarem o mar, chega-
ram a Genesaré.
Jesus curou a todos que o tocaram
35
Quando os homens daquele lugar re-
conheceram Jesus, divulgaram a notícia
em toda aquela região e lhe trouxeram
todos os enfermos.
36
Suplicavam então a Ele que ao menos
pudessem tocar na borda do seu manto.
E todos os que nele tocaram fcaram
plenamente sãos.
Jesus, as tradições e a Lei
(Mc 7.1-23)
15
Então alguns fariseus e escribas,
vindos de Jerusalém, foram até
Jesus e questionaram:
2
“Por que os seus discípulos transgridem
a tradição dos anciãos? Visto que eles
não lavam as mãos antes de comer!”.
3
Ponderou-lhes Jesus: “E porque trans-
gredis vós também o mandamento de
Deus, por causa da vossa tradição?
4
Pois Deus ordenou: ‘Honra a teu pai e a
tua mãe’, e ainda, ‘Quem amaldiçoar seu
pai ou sua mãe seja punido com a morte’.
5
Contudo, vós dizeis que se alguém disser
a seu pai ou a sua mãe: ‘Oferta é ao Senhor
a ajuda que de mim devias receber’;
6
esse jamais estará obrigado a honrar
seu pai ou sua mãe com seus bens. E
assim invalidastes a Palavra de Deus, por
causa da vossa tradição.
1
7
Hipócritas! Bem profetizou Isaías sobre
vós, denunciando:
8
‘Este povo me honra com os lábios, mas
seu coração está longe de mim.
9
Em vão me adoram; pois ensinam dou-
4
Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir
tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de
Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a
mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de
Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura.
As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; At 19.12).
Capítulo 15
1
Os escribas e fariseus chegaram de Jerusalém para reforçar o grupo dos inimigos de Jesus, que já estava se estruturando, como
no caso dos fariseus com os herodianos (Mc 3.6). Mais tarde, até os saduceus, tradicionalmente rivais dos fariseus, se juntariam aos
perseguidores do Senhor (Mt 16.6). A “tradição dos anciãos” era a interpretação oral e escrita da Lei de Moisés, mas com muitas
outras doutrinas e preceitos que foram sendo adicionados com o tempo; e que tinha autoridade quase igual a da própria Lei, entre
os fariseus (5.43). Todas essas orientações deram origem, mais tarde (200 a.D.) à Mishná, a parte mais importante do Talmude,
que é a fonte da lei judaica. O legalismo e o volume de pequenos preceitos haviam crescido tanto que a simples tradição, por
motivos higiênicos, de se lavar as mãos antes das refeições, tornou-se um ritual de purificação para afastar a mínima possibilidade
de um judeu ter sido contaminado pela poeira vinda de algum pagão (10.14). A ocupação romana intensificou esse estado de
“guerra contra a impureza” mediante o cumprimento de inúmeras doutrinas e obrigações religiosas. A intenção por traz dessas
práticas, entretanto, era conseguir o favor de Deus para a expulsão dos pagãos (romanos). Jesus passa a citar os mandamentos
(Êx 20.12; Dt 5.16; Êx 21.17; Lv 20.9), mostrando como a tradição dos judeus e muitas interpretações e práticas religiosas estavam
em desacordo com a própria Lei e, portanto, se constituíam em maior pecado contra Deus. Por exemplo, se alguém desejava
livrar-se da responsabilidade judaica de cuidar dos pais idosos, era só fazer uma declaração falsa de que havia doado seus bens ao
templo (em hebraico korban, quer dizer, oferta). Assim, os bens dessa pessoa seriam registrados em nome do templo como uma
oferta ao Senhor, até a morte dos pais, quando então se “negociaria” com os escribas, um valor a ser pago para reavê-los. Jesus
censura esse tipo de amor às regras, maior do que o amor devido a Deus e às pessoas (Is 29.13). Adverte que a comida que não foi
preparada segundo as tradições dos antigos mestres não prejudica o corpo ou traz pecado sobre a alma (At 10.10-15). Jesus usa
um vocábulo raro (em grego aphedrôna), que significa: esgoto, privada, latrina. O que profana (em grego koinein), ou seja, torna
uma pessoa comum, impura e, portanto, sem direito a participar do culto público ou, sequer, aproximar-se de Deus em oração, é o
mal concentrado no íntimo do ser humano e que é expresso por meio das palavras da boca (Tg 3.6-12).
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34 MATEUS 15
trinas que não passam de regras criadas
por homens’”.
10
Então, Jesus conclamou a multidão a
aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei!
11
Não é o que entra pela boca o que tor-
na uma pessoa impura, mas o que sai da
boca, isto sim, corrompe a pessoa”.
12
Então, aproximando-se dele os discí-
pulos, avisaram: “Sabes que os fariseus
se ofenderam quando ouviram essas tuas
palavras?”.
13
Mas Ele respondeu: “Toda planta que
meu Pai celestial não plantou será arran-
cada.
14
Deixai-os! Eles são guias cegos guian-
do cegos. Se um cego conduzir outro
cego, ambos cairão no buraco”.
15
Então, pediu-lhe Pedro: “Explica-nos a
outra parábola?”.
16
Ao que Jesus replicou: “Também vós
não compreendeis até agora?
17
Não entendeis ainda que tudo o que
entra pela boca desce para o estômago, e
mais tarde é lançado no esgoto?
18
Entretanto, as coisas que saem da boca
vêm do coração e são essas que tornam
uma pessoa impura.
19
Porque do coração é que procedem os
maus intentos, homicídios, adultérios,
imoralidades, roubos, falsos testemu-
nhos, calúnias, blasfêmias.
20
Essas coisas corrompem o indivíduo,
mas o comer sem lavar as mãos não o
torna impuro”.
Jesus atende ao clamor dos gentios
(Mc 7.24-30)
21
Deixando aquele lugar, Jesus retirou-
se para a região de Tiro e de Sidom.
22
E eis que uma mulher cananéia, natural
daquelas regiões, veio a Ele, clamando:
“Senhor! Filho de Davi, tem compaixão
de mim! Minha flha está horrivelmente
tomada pelo demônio”.
23
Ele, porém, não lhe respondeu qual-
quer palavra. Então, os seus discípulos,
aproximando-se, pediram-lhe: “Manda
essa mulher embora, pois vem gritando
atrás de nós”.
24
Ao que Jesus replicou: “Eu não fui en-
viado, senão às ovelhas perdidas da casa
de Israel”.
2
25
Chegou então a mulher e o adorou de
joelhos, suplicando: “Senhor, ajuda-me!”
26
Ao que Jesus lhe respondeu: “Não é
justo tirar o pão dos próprios flhos para
alimentar os cães de estimação”.
27
Ela, porém, replicou: “Sim, Senhor, mas
até os cães de estimação, comem das miga-
lhas que caem das mesas de seus donos”.
28
Então Jesus exclamou: “Ó mulher,
grande é a tua fé! Seja feito a ti conforme
queres”. E naquele exato momento sua
flha fcou sã.
Outra multiplicação de pães
(Mc 8.1-10)
29
Partiu Jesus dali e foi para a orla do
mar da Galiléia; e, subindo a um monte,
assentou-se ali.
3
30
Então, multidões dirigiram-se a Ele,
levando consigo mancos, aleijados, cegos,
mudos e muitos outros doentes, e os colo-
caram aos pés de Jesus; e Ele os curou.
31
O povo fcou atônito quando viu os
mudos falando, os aleijados curados, os
mancos andando e os cegos enxergando.
E louvaram o Deus de Israel.
2
A expressão “cananéia” ocorre muitas vezes no AT, mas no NT, apenas aqui. Tem a ver com os descendentes dos cananeus
que Josué expulsou de Canaã, a Terra Prometida, cuja civilização ficou estabelecida na cidade de Tiro. Marcos chamava essa
senhora de “grega” (gentia), quer dizer, helênica, por causa de sua origem sírio-fenícia (Mc 7.26). A palavra “cães de estimação”
ou “cachorrinhos”, como em algumas versões, vem do grego original kunarion, que significa: pequenos cães de colo. Jesus
precisava deixar claro que a prioridade máxima de sua missão era salvar os judeus. Por algum motivo, aquela senhora grega e
gentia compreendeu perfeitamente a mensagem de Jesus, e reverentemente, usou a própria metáfora do Senhor para reivindicar
seu espaço no coração compassivo de Cristo. A fé daquela mulher humilde mostrou-se maior, mais verdadeira e pura que a fé de-
monstrada pelos mestres e líderes religiosos que haviam contestado a santidade (pureza religiosa) de Jesus e seus discípulos.
3
O monte era uma subida para a planície atrás de Cafarnaum, no sentido de quem sobe do mar da Galiléia. Nesse lugar Jesus
costumava pregar, ensinar e curar as muitas pessoas que sempre o procuravam; o mesmo local onde pregou o Sermão do Monte
(5.1). Ao contrário do que pensam alguns teólogos, esse milagre não é apenas outra versão do mesmo fato ocorrido em 14.15-21.
O próprio Jesus destaca claramente os dois acontecimentos (16.9 e10), além do que, essa segunda multiplicação ocorreu em
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35 MATEUS 15, 16
32
Chamou Jesus os seus discípulos para
dizer-lhes: “Tenho compaixão destas mui-
tas pessoas, pois há três dias permanecem
comigo e não têm o que comer. Não que-
ro mandá-las embora em jejum, porque
podem desfalecer no caminho”.
33
Mas os discípulos lhe disseram: “Onde
poderíamos, encontrar, neste lugar deser-
to, pães sufcientes para alimentar tantas
pessoas?”
34
Perguntou-lhes Jesus: “Quantos pães
tendes?” Ao que eles responderam: “Sete,
e mais uns pequenos peixes”.
35
Ele mandou, então, que o povo se as-
sentasse no chão.
36
Tomou os sete pães e os pequenos pei-
xes e deu graças. Em seguida os partiu e
os entregou aos discípulos, e estes distri-
buíram à multidão.
37
Todas as pessoas comeram até se far-
tarem. E foram recolhidos sete grandes
cestos, cheios de pedaços que haviam
sobrado.
38
E assim, os que comeram eram quatro
mil homens, sem contar as mulheres e as
crianças.
39
A seguir, Jesus se despediu da multi-
dão, entrou no barco e foi para a região
de Magadã.
Religiosos pedem um sinal
(Mc 8.11-13)
16
Os fariseus e os saduceus apro-
ximaram-se de Jesus e, para o
provar, pediram que lhes mostrasse um
sinal vindo do céu.
2
Então Ele lhes ponderou: “Quando
começa a entardecer, dizeis: ‘Haverá bom
tempo, pois o céu está avermelhado’.
3
Ou, pela manhã, dizeis: ‘Hoje haverá
tempestade, porque o céu está de um
vermelho nublado’. Sabeis, com certe-
za, discernir os aspectos do céu, mas
não podeis interpretar os sinais dos
tempos?
4
Esta geração perversa e infel pede um
sinal; mas nenhum sinal lhe será conce-
dido, a não ser o sinal de Jonas”. Jesus se
afastou, então, deles e partiu dali.
O fermento dos religiosos
(Mc 8.14-21)
5
Indo os discípulos para o outro lado do
mar, esqueceram-se de levar pães.
6
E Jesus lhes falou: “Estejais alerta, e
acautelai-vos do fermento dos fariseus
e saduceus”.
7
Entretanto, eles discutiam entre si, di-
zendo: “É porque não trouxemos pães”.
8
Percebendo a desavença, Jesus indagou:
“Por que discordais entre vós, homens de
pequena fé, sobre o não terdes pães?
9
Não compreendeis até agora? Nem
sequer lembrais dos cinco pães para
cinco mil homens e de quantas cestas
recolhestes?
10
Nem dos sete pães para aqueles outros
quatro mil e de quantos cestos recolhestes?
11
Como não entendeis que não vos fala-
va a respeito de pães? E, sim: tende, pois,
cuidado com o fermento dos fariseus e
saduceus”.
12
Compreenderam, então, que não lhes
dissera que se guardassem do fermento
dos pães, mas que se acautelassem da
doutrina dos fariseus e saduceus.
Deus revela Jesus Cristo a Pedro
(Mc 8.27-30; Lc 9.18-21)
13
Quando Jesus chegou à região de Ce-
saréia de Filipe, consultou seus discípu-
los: “Quem as pessoas dizem que o Filho
do homem é?”
1
14
E eles responderam: “Alguns dizem que
é João Batista; outros Elias; e ainda há
quem diga, Jeremias ou um dos profetas”.
outro lugar (Decápolis, Mc 7.31), com um número diferente de pães e peixes, uma multidão menor, menos sobras recolhidas,
os “cestos” (no original grego spyridas), mencionados aqui eram usados nos mercados da época e maiores do que as alcofas,
pequenas “cestas” de vime ou folhas de palma, usadas na primeira multiplicação (14.20). Jesus toma um rumo diferente, após a
segunda multiplicação, desta vez segue com seus discípulos para Magadã, também conhecida como Magdala e Dalmanuta (Mc
8.10), a cidade de Maria Madalena, que ficava entre Tiberíades e Cafarnaum.
Capítulo 16
1
A cidade de Cesaréia de Filipe ficava ao norte do mar da Galiléia, perto das encostas do monte Hermom. Seu nome antigo era
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36 MATEUS 16
15
Então Jesus interpelou: “Mas vós,
quem dizeis que Eu sou?”.
16
E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo”.
2
17
Ao que Jesus lhe afrmou: “Abençoado
és tu, Simão, flho de Jonas! Pois isso não
foi revelado a ti por carne ou sangue, mas
pelo meu Pai que está nos céus.
18
Da mesma maneira Eu te digo que tu
és Pedro, e sobre esta pedra edifcarei a
minha igreja, e as portas do Hades não
prevalecerão contra ela.
3
19
Eu darei a ti as chaves do Reino dos
céus; o que ligares na terra haverá sido li-
gado nos céus, e o que desligares na terra,
haverá sido desligado nos céus”.
4
20
E, então, ordenou aos discípulos que a
ninguém dissessem ser Ele o Cristo.
Jesus prediz seu sacrifício
(Mc 8.31-9.1; Lc 9.22-27)
21
A partir daquele momento Jesus co-
meçou a explicar aos seus discípulos que
era necessário que Ele fosse para Jerusa-
Panéias (em homenagem ao deus grego Pan). O filho de Herodes, Filipe, reconstruiu essa cidade, como parte de sua tetrarquia, e
lhe deu um novo nome, em homenagem a Tibério César e a si mesmo. Essa era, portanto, uma região extremamente pagã. Jesus
costumava se intitular de “o Filho do homem”, expressão que aparece mais de 80 vezes no NT, jamais se referindo a qualquer
outra pessoa. No AT, em Dn 7.13,14, esse título é usado para retratar a personalidade celestial a quem, no final dos tempos, Deus
confiou toda a sua glória, honra e poder (soberania divina).
2
Havia muitas lendas e superstições nessa época e lugar. O próprio Herodes cria na reencarnação de João Batista, que foi
um profeta muito estimado pelo povo e até pelo rei. A volta de Elias foi profetizada em Ml 4.5 e muitos judeus ligavam o nome
de Jeremias ao profeta prometido em Dt 18.15. Contudo, em meio a tantas idéias e correntes religiosas, Pedro (Bar-Jonas ou,
melhor traduzido, filho de Jonas), que falou em nome dos discípulos (v. 20), é agraciado com a maior das revelações que uma
pessoa pode receber de Deus: a compreensão de que Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é o Filho Unigênito de Deus, o Cristo
prometido (Messias, em hebraico), que significa,Ungido. Palavra que, no original hebraico, transmite a idéia de uma pessoa
escolhida por Deus, separada (consagrada, santificada), e revestida de poder para a realização de uma missão divina e específica
na terra (Êx 29.7,21; 1Sm 10.1,6; 16.13; 2Sm 1.14,16). No final do AT, essa palavra passou a ter uma conotação particular: referia-
se a um rei ideal, ungido e capacitado por Deus para libertar os judeus dos inimigos pagãos e estabelecer um reino de justiça e
paz (Dn 9.25,26). Por isso, na época de Cristo, o título Messias tendia a uma compreensão política, nacionalista, revolucionária e
militar e isso fez que Jesus evitasse usar o termo em relação à sua pessoa e missão (Mc 8.27-30; 14.61-63). Pedro obteve de Deus
a revelação de que Jesus é o Messias prometido desde a antiguidade, o Cristo. Essa é a pedra (o alicerce) sobre a qual a Igreja
seria construída e nada poderia deter o seu avanço e o cumprimento da sua missão até o Dia do Senhor.
3
Jesus comemora a bênção da revelação de Deus a Simão (nome comum em Israel, com origem no AT) conferindo-lhe um sobre-
nome marcante. Jesus conviveu com várias pessoas com o nome de Simão: um dos filhos de José e Maria, seu irmão (Mt 13.55; Mc
6.3), um amigo leproso, na casa do qual foi ungido (Mt 26.6; Mc 14.3), um homem de Cirene, compelido a ajudá-lo a levar sua cruz
e que, mais tarde, tornou-se cristão (Mc 15.21; At 13.1), um fariseu em cuja casa os pés de Jesus foram ungidos (Lc 7.40), Simão
Iscariotes, pai de Judas (Jo 6.71; 12.4; 13.2). Na época dos apóstolos, houve um outro Simão, samaritano, ilusionista, feiticeiro e
enganador, que misturava elementos de magia com ensinos helenísticos e judaicos. Foi o criador da doutrina gnóstica e alegava
ser o principal representante de Deus na terra. Dizia-se convertido ao cristianismo, mas desejou comprar o poder dos apóstolos e
recebeu enérgica repreensão de Simão Pedro (At 8.9-24). Em Pedro, temos o exemplo de que Jesus nos concede um novo nome, a
marca espiritual da salvação e da bravura cristã. O nome Pedro (em grego Petros) significa “pedra separada” ou “homem-pedra”. Na
frase seguinte, Cristo usou a palavra grega petra (“sobre esta rocha”), que significa “leito de rocha resistente” e que não era um nome
próprio. Jesus utilizou a arte dos significados das palavras para ampliar o poder do que desejava comunicar aos seus discípulos,
e não apenas para aqueles dias. Ele não disse “sobre ti, Pedro” ou “sobre teus sucessores”, mas sim “sobre esta rocha” – sobre
esta revelação de Deus e sobre este seu testemunho de fé em Jesus. O uso do tempo futuro do verbo demonstra que a formação
da Igreja ainda estava por acontecer. E, de fato, a Igreja – como a conhecemos hoje – teve início no dia de Pentecostes (At 2). Nos
Evangelhos a palavra Igreja (em grego ekkesia ou ekklesia; e em latim ecclesia) é usada somente por Mateus, aqui e duas vezes em
18.17. Na Septuaginta (o AT em grego), é usada para identificar a congregação (sinagoga) de Israel. Entre os gregos, nos tempos
de Jesus, significava a assembléia dos cidadãos livres e votantes da cidade (At 19.32,39,41). Hades (em grego haidês, e no hebraico
Sheol) é a palavra grega que consta nos originais das Escrituras neste texto e significa o lugar onde estão os espíritos dos que
morreram. Onde, também, os salvos desfrutam de paz e os descrentes de aflições. Todos, no entanto, aguardam a volta de Jesus,
quando os cristãos desfrutarão plenamente das bênçãos da vida eterna e os incrédulos (os que, na terra, rejeitaram a salvação) o
Juízo e a pena da segunda morte: o afastamento eterno de Deus (Gn 37.35; Jó 17.16). Assim sendo, “as portas do Hades” significam
“os poderes da morte” e todas as forças opostas a Cristo. Algumas versões usam a palavra “inferno” (em grego geena que deriva
do hebraico gê’ hinnõm, e significa: lugar de punição para pecadores), como sinônimo de Hades.
4
A partir daquele momento, Jesus estava concedendo a Pedro e aos demais discípulos, poder e autoridade para abrir as portas
da cristandade aos judeus, prosélitos e mais tarde a todos os gentios e pagãos em todo o mundo. Pedro usou essas chaves com
os judeus no dia de Pentecostes (At 2) e para os gentios na casa de Cornélio (At 10). Deus, e não os apóstolos ou discípulos, é
quem inicia o “ligar” e o “desligar” nos céus. Os apóstolos devem proclamar tais fatos (At 5.3,9). Em Jo 20.22-23 Jesus fala de
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37 MATEUS 16, 17
lém e sofresse muitas injustiças nas mãos
dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e
dos escribas, para então ser morto e res-
suscitar ao terceiro dia.
22
Pedro, porém, chamando-o à parte,
começou a admoestá-lo, dizendo: “Deus
seja gracioso contigo, Senhor! De modo
algum isso jamais te acontecerá”.
23
E virando-se Jesus repreendeu a Pedro:
“Para trás de mim, Satanás! Tu és uma
pedra de tropeço, uma cilada para mim,
pois tua atitude não refete a Deus, mas,
sim, os homens”.
5
24
Então Jesus declarou aos seus dis-
cípulos: “Se alguém deseja seguir-me,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e
me acompanhe.
25
Porquanto quem quiser salvar a sua
vida, a perderá, mas quem perder a sua
vida por minha causa, encontrará a
verdadeira vida.
26
Pois que lucro terá uma pessoa se
ganhar o mundo inteiro, mas perder a
sua alma? Ou, o que poderá dar o ser
humano em troca da sua alma?
27
Mas o Filho do homem virá na glória
de seu Pai, com os seus anjos, e então
recompensará a cada um de acordo com
suas obras.
28
Com toda a certeza vos afrmo que
alguns dos que aqui se encontram não
experimentarão a morte até que vejam o
Filho do homem vindo em seu Reino”.
6
A transfguração de Jesus
17
Passados seis dias, Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João, ir-
mão de Tiago, e os levou, em particular, a
um alto monte.
1
2
Ali Ele foi transfgurado na presença deles.
Sua face resplandeceu como o sol, e suas
vestes tornaram-se brancas como a luz.
3
De repente, surgiram à sua frente Moi-
sés e Elias, conversando com Jesus.
4
Expressando-se Pedro, disse a Jesus:
“Senhor, é bom estarmos aqui. Se dese-
jares, farei aqui três tendas: uma para ti,
uma para Moisés e outra para Elias”.
5
Enquanto ele ainda estava falando, uma
nuvem resplandecente os envolveu, e
pecados; aqui ele está falando de práticas. Veja um exemplo dessas práticas determinativas em At 15.20. Jesus pede aos discí-
pulos sigilo quanto à confissão pública de Pedro. Isso porque uma multidão dos seus seguidores queria proclamá-lo libertador
nacional e iniciar logo uma revolução contra Roma. Crescia a inveja dos doutores da lei e líderes religiosos, contra Jesus, e já
planejavam sua morte. O Senhor queria completar sua missão, mas o entusiasmo de Pedro e dos apóstolos poderia precipitar os
acontecimentos (9.30; 12.16; Mc 1.44; 5.43; 7.36; 8.4; Lc 8.56).
5
O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro a influência de Satanás; a mesma artimanha que o Inimigo usou no deserto para
tentar persuadi-lo a ter compaixão de si mesmo e trocar o alto custo da sua missão pela glória e os prazeres deste mundo. Jesus
usa a palavra aramaica Enganador, não para dizer que Pedro estava endemoninhado, mas para alertar a todos que é muito fácil
cairmos na ilusão do Diabo e começarmos a pensar com os valores, conceitos e argumentos do pai da mentira. Jesus recorre
à força da linguagem (palavra) e usa a metáfora: “pedra de tropeço”, que no original significa: “rocha de ofensa” ou “motivo de
escândalo” (Rm 9.33), para admoestar Pedro quanto à sua recente revelação, nova posição no Reino de Deus e missão. Assim
como a palavra hebraica traduzida por “Satanás”, a palavra grega “Diabo” significa “Acusador” ou “Caluniador”. Em Jó, essa
expressão (Jo 1.6), no original hebraico, vem sempre acompanhada do artigo definido (o Acusador, o Caluniador, ou ainda, o
Enganador), mas com o passar do tempo essa palavra virou o nome próprio do Inimigo (1Cr 21.1 com 2Sm 24.1; 1Sm 16.14 com
2Sm 24.16; 1Co 5.5; 2Co 12.7; Hb 2.14; Ap 2.9).
6
Uma semana depois desses acontecimentos, Pedro, Tiago e João presenciam o cumprimento dessa profecia na experiência
da transfiguração de Cristo (17.1-8), que foi também uma antevisão da plenitude do Reino, com o Senhor aparecendo em glória
(Dn 7.9-14). A passagem bíblica de 16.13 a 17.8 trata do ministério do discipulado cristão. Os versículos de 13-20 falam da obra
do Messias; de 21-23 tratam da expiação; 24-26 advertem para o custo da missão; 27-17.8 dizem respeito à escatologia com suas
recompensas. Juntos, esses textos, tratam das verdades fundamentais da teologia bíblica do NT.
Capítulo 17
1
Lucas fala em “cerca de oito dias” em seu texto paralelo (Lc 9.28), pois indica os seis dias de intervalo mais o dia em que Jesus
falou e o dia em que a transfiguração aconteceu em algum ponto do monte Hermom (com cerca de 3000 metros de altura), a 20
km de Cesaréia de Filipe. Como prometera, Jesus oferece a alguns discípulos (mais íntimos), uma antevisão da exaltação futura
do Senhor e do pleno estabelecimento do seu Reino. Jesus foi visto em sua forma glorificada. Moisés comparece representando a
antiga aliança e a promessa da salvação (que dentro em breve seria cumprida no sacrifício de Jesus). Elias representa os profetas
e o cumprimento da Palavra de Deus. Lucas acrescenta que conversavam a respeito da iminente morte de Cristo (Lc 9.31). Jesus
é revelado como a realidade gloriosa à qual a totalidade do AT apresenta como o cumprimento de toda a história da redenção
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38 MATEUS 17
dela emanou uma voz dizendo: “Este é o
meu Filho amado em quem me regozijo:
a Ele atendei!”.
6
Ao ouvirem isso, os discípulos prostra-
ram-se com o rosto em terra e fcaram
atemorizados.
7
Então Jesus, aproximando-se deles,
tocou-os e disse: “Levantai-vos, e não temais!”.
8
Ao erguer os olhos, a ninguém mais
viram, senão somente a Jesus.
9
Enquanto desciam do monte, Jesus lhes
ordenou: “A ninguém conteis a visão que
tivestes, até que o Filho do homem res-
suscite dentre os mortos”.
10
E os discípulos lhe perguntaram: “En-
tão, por que os escribas ensinam que é
preciso que Elias venha primeiro?”.
11
Ao que Jesus lhes respondeu: “Elias, com
certeza, vem e restaurará todas as coisas.
2
12
Eu, todavia, vos afrmo: Elias já veio,
mas eles não o reconheceram e fzeram
com ele tudo quanto desejaram. Da mes-
ma forma, o Filho do homem irá sofrer
nas mãos deles”.
13
Os discípulos entenderam, então, que
era a respeito de João Batista que Ele
havia falado.
A cura do menino possesso
14
Ao chegarem onde se reunia a multi-
dão, um homem aproximou-se de Jesus,
ajoelhou-se diante dele e clamou:
15
“Senhor, compadece-te do meu flho,
pois tem sofrido horrivelmente com ata-
ques epiléticos. Muitas vezes cai no fogo,
e outras tantas, na água.
3
16
Apresentei-o aos teus discípulos, mas
eles não conseguiram curá-lo”.
17
Então Jesus exclamou: “Ó geração sem
fé e perversa! Até quando estarei convos-
co? Até quando vos terei de suportar?
Trazei-me aqui o menino”.
18
E Jesus repreendeu o demônio; este
saiu do menino, que daquele momento
em diante fcou são.
19
Então os discípulos chegaram-se a
Jesus e, em particular, lhe perguntaram:
“Por qual motivo não nos foi possível
expulsá-lo?”.
20
E Ele respondeu: “Por causa da peque-
nez da vossa fé. Pois com toda a certeza
vos afrmo que, se tiverdes fé do tama-
nho de um grão de mostarda, direis a
este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele
passará. E nada vos será impossível!
21
Contudo, essa espécie só se expele por
meio de oração e jejum”.
Jesus prediz novamente seu martírio
22
Ao se reunirem na Galiléia, compar-
tilhou com eles, dizendo: “O Filho do
homem está prestes a ser entregue nas
mãos dos homens.
23
Eles o matarão, mas no terceiro dia
Ele será ressuscitado”. Então, profunda
tristeza abalou os discípulos.
Jesus paga o imposto secular
24
Quando Jesus e seus discípulos che-
garam a Cafarnaum, os cobradores do
imposto de duas dracmas abordaram a
Pedro e questionaram: “O vosso mestre
não paga o imposto das duas dracmas,
ao templo?”.
25
“Sim, paga”, respondeu Pedro. Mas
quando ele entrou em casa, Jesus se
humana, desde o dia em que Abraão foi chamado para obedecer a Deus e abandonou tudo o que tinha, para receber a herança
prometida (Gn 12.2,3; 15.4,5).
Na experiência da transformação de Jesus, Deus Pai intervém na história para consolar o Filho, que já estava a caminho da
crucificação (22-23 com 16-21), e também aos discípulos, a fim de darem toda a atenção às palavras de Jesus e continuarem
firmes na fé após sua morte e ascensão. Bem mais tarde, Pedro vai citar esse evento em suas pregações, como uma das provas
irrefutáveis da divindade de Jesus, o Messias (2Pe 1.16-18).
2
Os mestres da lei (escribas) defendiam, com base em Ml 4.5-6, que Elias deveria reaparecer em Israel para anunciar a vinda
do Messias. Contudo, Jesus demonstrou que foi João, o Batista, a pessoa que cumpriu essa missão profética, pois até suas
vestes, maneira de viver e personalidade revelavam o caráter de um Elias, e esse era o sentido da profecia.
3
A expressão grega original, em algumas versões traduzida por “lunático”, significa: “epilético”. Evidentemente nem todo
ataque epilético tem a ver com possessão demoníaca; mas, neste caso, o menino estava mesmo possuído por um demônio
muito poderoso. Todavia, qualquer discípulo que tivesse fé e comunhão com Deus (jejum e oração) poderia expulsá-lo e curar
o menino.
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39 MATEUS 17, 18
antecipou e perguntou-lhe primeiro:
“Simão, qual a tua opinião? De quem
cobram os reis da terra impostos e
tributos? Dos seus flhos ou dos estranhos?”.
26
“Dos estranhos”, respondeu Pedro.
Ao que Jesus concluiu: “Logo, estão, os
flhos, livres dessa obrigação”.
4
27
Entretanto, para que não os escan-
dalizemos, vai ao mar, lança o anzol,
e o primeiro peixe que fsgar, tira-o,
e, abrindo-lhe a boca, acharás um es-
táter. Retira aquela moeda e entregue a
eles para pagar o meu imposto e o teu
também.
Quem é o maior no Reino?
(Mc 9.33-37,42-26; Lc 9.46-48)
18
Naquele momento os discípulos
aproximaram-se de Jesus e per-
guntaram: “Quem é o maior no Reino
dos céus?”.
1
2
E Jesus, chamando uma criança, colo-
cou-a no meio deles.
3
E disse: “Com toda a certeza vos afrmo
que, se não vos converterdes e não vos
tornardes como crianças, de modo al-
gum entrareis no Reino dos céus.
2
4
Portanto, todo aquele que se tornar hu-
milde, como esta criança, esse é o maior
no Reino dos céus.
5
E quem recebe uma destas crianças, em
meu nome, a mim me recebe.
Jesus adverte sobre as ciladas
6
Entretanto, se alguém fzer tropeçar um
destes pequeninos que crêem em mim,
melhor lhe seria amarrar uma pedra
de moinho no pescoço e se afogar nas
profundezas do mar.
7
Ai do mundo, por causa das suas cila-
das! É inevitável que tais ofensas ocor-
ram, mas infeliz da pessoa por meio da
qual elas acontecem!
8
Sendo assim, se a tua mão ou o teu pé te
fzerem cair em pecado, corta-os e lança-
os fora de ti; pois melhor é entrares na
vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo
as duas mãos ou os dois pés, seres atirado
no fogo eterno.
9
Se um dos teus olhos te faz pecar, ar-
ranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor
é entrares na vida com um olho só, do
que, tendo os dois, seres lançado no fogo
do inferno.
A parábola da ovelha perdida
(Lc 15.3-7)
10
Tende todo cuidado para que não des-
prezeis a qualquer destes pequeninos;
pois Eu vos asseguro que seus anjos nos
céus vêem continuamente a face de meu
Pai celestial.
3
11
Porque o Filho do homem veio para
salvar o que se havia perdido.
12
Que opinião tendes? Se um homem
tiver cem ovelhas, e uma delas se desgar-
rar, não deixará ele as noventa e nove nos
montes, indo procurar a que se perdeu?
13
E se conseguir encontrá-la, com toda a
certeza vos afrmo que maior contenta-
mento sentirá por causa desta do que pelas
noventa e nove que não se extraviaram.
4
O imposto das duas dracmas era cobrado anualmente de todos os homens de 20 anos para cima, sendo destinado à manuten-
ção do templo. Havia cobradores para outros valores e tipos de impostos (Êx 30.13; 2Cr 24.9; Ne 10.32). Valia meio estáter ou siclo,
por pessoa (valor que correspondia a dois dracmas ou dois dias de trabalho braçal). Jesus se antecipa à confusão mental de Pedro,
ao demonstrar que os membros da família real ficam isentos de pagar os impostos do Reino. Assim, Jesus, o Filho de Deus (dono
do templo) não estaria pessoalmente obrigado a arcar com parte do sustento da casa do seu Pai (Lc 2.49). Como Pedro ainda não
tinha entendido a amplitude desse conceito e, além disso, já havia se comprometido com o pagamento, Jesus ilustra para ele, e para
nós, mais esse ensino sobre a Sua pessoa, Reino e Missão, além dos nossos deveres civis e religiosos (Rm 13.7).
Capítulo 18
1
Este é o último grande discurso de Jesus antes de ir para Jerusalém (Mc 9.33 com 17.25). Estavam todos reunidos na casa de
Pedro e Jesus notou que havia se manifestado entre seus discípulos o mal do ciúme, da inveja e da competição por proeminência
no ministério.
2
A expressão grega straphete significa “virar”, “mudar completamente” e está relacionada a uma nova vida voltada
(consagrada) para Deus e não apenas a adoção de certa religiosidade formal. Ser como as crianças, é admitir um novo começo
e dispor-se humildemente a aprender a viver como cidadão do Reino.
3
A referência aos pequeninos pode ser tanto às crianças quanto ao novos (neófitos) na fé cristã. O escândalo e o desprezo
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40 MATEUS 18
14
Da mesma maneira, vosso Pai, que está
nos céus, não deseja que qualquer desses
pequeninos se perca.
4
Como tratar o pecado de um irmão
15
Se teu irmão pecar contra ti, vai e, em
particular com ele, conversem sobre a
falta que cometeu. Se ele te der ouvidos,
ganhaste a teu irmão.
16
Porém, se ele não te der atenção, leva
contigo mais uma ou duas pessoas, para
que pelo depoimento de duas ou três
testemunhas, qualquer acusação seja
confrmada.
5
17
Contudo, se ele se recusar a considerá-
los, dizei-o à igreja; então, se ele se negar
também a ouvir a igreja, trata-o como
pagão ou publicano.
18
Com toda a certeza vos asseguro que
tudo o que ligardes na terra terá sido li-
gado no céu, e tudo o que desligardes na
terra terá sido desligado no céu.
19
Uma vez mais vos asseguro que, se
dois dentre vós concordarem na terra em
qualquer assunto sobre o qual pedirem,
isso lhes será feito por meu Pai que está
nos céus.
20
Porquanto, onde se reunirem dois ou
três em meu Nome, ali Eu estarei no meio
deles”.
6
Quantas vezes se deve perdoar
(Lc 17.3-4)
21
Então, Pedro chegou perto de Jesus e
lhe perguntou: “Senhor, até quantas ve-
zes meu irmão pecará contra mim, que
eu tenha de perdoá-lo? Até sete vezes?”.
22
E Jesus lhe respondeu: “Não te direi
até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes
sete”.
7
A parábola do servo que não perdoou
23
“Portanto, o Reino dos céus pode ser
comparado a certo rei, que decidiu acer-
tar contas com seus servos.
24
Quando teve início o acerto, foi trazi-
por essas pessoas teriam o efeito de uma cilada (uma armadilha provocada pelo Diabo), afastando-as da verdadeira vida em
Cristo. O provocador de escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus. Quanto aos anjos, são seres criados por Deus
para Sua adoração e serviço. Há várias classes de anjos com diversas especialidades. Aqui, Jesus se refere aos anjos guardiões,
destacados pelo Senhor para cuidar das crianças e do povo de Deus em geral (Sl 34.7; 91.11; At 12.15; Hb 1.14).
4
A história da ovelha perdida também se acha em Lc 15.3-7. Ali é aplicada aos incrédulos, mas aqui aos cristãos. O v.14 não
exclui a possibilidade da perdição, mas ressalta que a vontade de Deus é que todos sejam salvos. A pessoa que vai para o inferno,
desde já recusa a salvação e aceita – direta ou indiretamente – a condição de perdido, não porque Deus queira (25.41;1Tm 2.4).
Jesus usou a mesma parábola para ensinar verdades diferentes em situações específicas.
5
Jesus orienta seus discípulos quanto aos passos que devem ser observados para resolver os problemas de relacionamento
interpessoal, pecados evidentes, e casos de excomunhão da igreja (congregação local): 1) Como primeiro passo (muitas vezes
ignorado), o crente que se sente vítima de alguma ofensa ou que descobre um pecado em seu irmão de fé, deve convidá-lo para
uma conversa a sós (ninguém mais deve saber desse assunto) e tentar estabelecer um diálogo honesto, sincero e cordial com
o ofensor, a fim de “ganhar o seu irmão”; ou seja, que haja acertos e reparações (se necessário) para que os dois obtenham
paz e alegria, e sigam servindo ao Senhor, dando bom exemplo ao mundo. 2) No caso da recusa ou indiferença do ofensor, a
pessoa ofendida deve convidar um ou mais irmãos maduros na fé, que chamarão o ofensor para uma conversa em grupo, onde
se buscará o Conselho de Deus, as reparações necessárias e a celebração da paz em Cristo (Gl 6.1-5). Jesus cita o texto de Dt
19.15, da Septuaginta (o AT em grego), incorporando esse justo e sábio princípio da lei mosaica para benefício da Igreja Cristã. 3)
No caso de total indiferença ou falta de arrependimento por parte do ofensor, os líderes espirituais da igreja devem ser informados
pelo grupo que tentou trazer o irmão faltoso ao bom senso e à perfeita comunhão em Cristo. Os líderes devem fazer o possível
para “não perder” o irmão faltoso. No caso de claro desrespeito à Palavra de Deus e à liderança da igreja, então esse pecador
obstinado deve ser afastado da comunhão cristã, ao menos até que recobre a sensatez, reconheça suas faltas e se disponha
sinceramente a viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus (1Co 5.4-5; 1Tm 1.20).
6
Essas são promessas dirigidas a todos os discípulos de Cristo (cristãos totalmente consagrados ao Senhor), pois saberão
agir com sabedoria celestial. O v.19 é uma das grandes promessas do Evangelho, em relação à oração. Entretanto, é preciso
observar a conexão desse versículo com o seu contexto imediato e o conteúdo do capítulo. Ou seja, a promessa é dada aos
discípulos reunidos, tendo Jesus Cristo em seu meio (v. 20), com o objetivo de restaurar um irmão que esteja vivendo no erro (pe-
cado – v. 17). Jesus confirma a autoridade dos discípulos para o exercício dessa função (v. 18 e 16.19), e a promessa é cumprida
porque agem da parte do Pai, em nome do Filho (v. 20). O verdadeiro entendimento e unidade entre os seres humanos é algo
raro, mesmo entre os cristãos. Deus só exige um acordo entre as pessoas: que Jesus Cristo, seu Filho, seja a grande paixão da
humanidade e o ponto comum e central da fé. Jesus é o fator básico da unidade (Jo 17.19-21). É possível discordar e viver em
comunhão, respeito e cooperação no Reino.
7
Os rabis e mestres judaicos ordenavam perdoar até três vezes. Pedro sugeriu um salto espiritual: sete vezes! O número
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41 MATEUS 18, 19
do à sua presença um que lhe devia dez
mil talentos.
8
25
Porém, não tendo o devedor como
saldar tal importância, ordenou o seu se-
nhor que fosse vendido ele, sua mulher,
seus flhos e tudo quanto possuía, para
que a dívida fosse paga.
26
O servo, então, com toda a reverência,
prostrou-se diante do rei e lhe implorou:
‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei!’
27
E o senhor daquele servo, teve compai-
xão dele, perdoou-lhe a dívida e o deixou
ir embora livre.
28
Entretanto, saindo aquele servo, en-
controu um dos seus conservos, que lhe
estava devendo cem denários. Agarrou-o
e começou a sufocá-lo, esbravejando:
‘Paga-me o que me deves!’
29
Então, o seu conservo, caindo-lhe aos
pés, lhe suplicava: ‘Sê paciente comigo e
tudo te pagarei’.
30
Mas, ele não queria acordo. Ao con-
trário, foi e mandou lançar seu conservo
devedor na prisão, até que toda a dívida
fosse saldada.
31
Quando os demais conservos, compa-
nheiros dele, viram o que havia ocorrido,
fcaram indignados, e foram contar ao
rei tudo o que acontecera.
32
Então o rei, chamando aquele servo lhe
disse: ‘Servo perverso, perdoei-te de toda
aquela dívida atendendo às tuas súplicas.
33
Não devias tu, da mesma maneira, com-
padecer-te do teu conservo, assim como
eu me compadeci de ti?’
34
E, sentindo-se insultado, o rei entre-
gou aquele servo impiedoso aos carras-
cos, até que lhe pagasse toda a dívida.
35
Assim também o meu Pai celestial vos
fará, a cada um, se de todo o coração não
perdoardes cada um a seu irmão”.
Casamento e Divórcio
(Mc 10.1-12)
19
E aconteceu que, concluindo Jesus
essas palavras, partiu da Galiléia e
dirigiu-se para a região da Judéia, no ou-
tro lado do Jordão.
2
Grandes multidões o seguiam e a todos
curava ali.
1
3
Alguns fariseus também chegaram até
Ele e, para prová-lo, questionaram-lhe:
“É lícito o marido se divorciar da sua
esposa por qualquer motivo?”.
2
4
E Jesus lhes explicou: “Não tendes lido
que, no princípio, o Criador ‘os fez ho-
mem e mulher’,
5
e os instruiu: ‘Por este motivo, o homem
deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher,
e os dois se tornarão uma só carne’?
6
Sendo assim, eles já não são dois, mas
sim uma só carne. E, portanto, o que Deus
uniu, não o separe o ser humano”.
3
7
Replicaram-lhe: “Então por qual razão
mandou Moisés dar uma certidão de
divórcio à mulher e abandoná-la?”.
perfeito, completo. Mas, Jesus lhe respondeu com uma expressão matemática e filosófica que tende ao infinito. Ou seja: sempre!
O cristão, por sua fé no Senhor, deve perdoar todas as vezes que o ofensor arrependido lhe pedir perdão. Só assim será possível
ao crente compartilhar do amor, misericórdia e generosidade de Deus.
8
Jesus ilustra por que devemos perdoar sem limites. O perdão que Deus nos concedeu, ao nos abençoar com o dom da salva-
ção, é tão grandioso, que qualquer ofensa que outro ser humano venha a praticar contra nós torna-se irrisória, embora possa nos
fazer sofrer por algum tempo. Perdoar sempre dará mais espaço à plenitude divina em nossa alma. O “talento” era uma medida de
peso, usada para pesar ouro e prata, equivalente, a cerca de 35 quilos. Cada talento valia cerca de 6.000 denários. O “denário” era
uma moeda de prata que equivalia a um dia de trabalho braçal. Deus, finalmente, julgará a todos conforme seu amor longânimo
e justiça severa; e espera de nós o mesmo senso de misericórdia (Tg 2.13).
Capítulo 19
1
Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrar-
quia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22).
2
Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de
Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase
“por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor
quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar),
sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual
pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada.
3
Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duas
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42 MATEUS 19
8
Ao que Jesus declarou: “Moisés, por cau-
sa da dureza dos vossos corações, vos con-
cedeu separar-se de vossas mulheres. Mas
não tem sido assim desde o princípio”.
9
Eu, porém, vos afrmo: “Todo aquele
que se divorciar da sua esposa, a não
ser por imoralidade sexual, e se casar
com outra mulher, estará cometendo
adultério”.
4
10
Então os discípulos consideraram: “Se
estes são os termos para o marido e sua
esposa, não é vantagem casar!”.
11
Mas Jesus ponderou-lhes: “Nem todos
conseguem aceitar essa palavra; somente
aqueles a quem tal capacidade é dada.
12
Pois há alguns eunucos que nasceram
assim do ventre de suas mães; outros
foram privados de seus órgãos reprodu-
tores pelos homens; e há outros ainda
que a si mesmos se fzeram celibatários,
por causa do Reino dos céus. Quem for
capaz de aceitar esse conceito, que o
receba”.
5
Jesus abençoa as crianças
(Mc 10.13-16; Lc 18.15-17)
13
Então, trouxeram-lhe algumas crian-
ças, para que lhes impusesse as mãos e
orasse por elas. Os discípulos, contudo,
os repreendiam.
14
Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a
mim as crianças, não as impeçais, pois o
Reino dos céus pertence aos que se tor-
nam semelhantes a elas”.
15
E, depois de ter-lhes imposto as mãos,
partiu dali.
6

Difcilmente os ricos serão salvos
(Mc 10.17-31; Lc 18.18-30)
16
Eis que alguém chegou perto de Jesus
e consultou-o: “Mestre, que poderei fazer
de bom para ganhar a vida eterna?”.
7
grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra.
Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta
(AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2.23-24). Portanto, o propósito divino na
criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para
a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e
espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer
bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento.
4
A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim,
à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original
de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações
arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com
a influência do Diabo na terra (Gn 3.8-13; 22-24).
5
A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”.
No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”.
Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos
haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra
refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em At 8.27 ambos
os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas
duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes
ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma
metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão.
Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea,
sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum
momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e
punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem
ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e,
portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja;
caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um
dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo.
6
Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao
ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretan-
to, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem
com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14).
7
Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugar
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43 MATEUS 19
17
Questionou-o Jesus: “Por que me per-
guntas a respeito do que é bom? Há so-
mente um que é bom. Se queres entrar na
vida eterna, obedeça aos mandamentos”.
18
Ao que ele perguntou: “Quais?”. E
Jesus lhe respondeu: “Não matarás, não
adulterarás, não furtarás, não darás falso
testemunho,
19
honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o
teu próximo como a ti mesmo”.
20
Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso
tenho obedecido. O que ainda me falta?”.
21
Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito,
vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos
pobres, e terás um tesouro no céu. De-
pois, vem e segue-me”.
22
Ao ouvir essa palavra, o jovem afas-
tou-se pesaroso, pois era dono de muitas
riquezas.
8
23
Então disse Jesus aos seus discípulos:
“Com toda a certeza vos afrmo que
difcilmente um rico entrará no Reino
dos céus.
24
E lhes digo mais: É mais fácil passar
um camelo pelo fundo de uma agulha do
que um rico entrar no Reino dos céus”.
9

25
Ouvindo isso, os discípulos fcaram
atônitos e exclamaram: “Sendo assim,
quem pode ser salvo?”.
26
Mas Jesus, fxando o olhar neles, re-
velou-lhes: “Isso é impossível aos seres
humanos, mas para Deus todas as coisas
são possíveis”.
As recompensas no Reino
27
Então Pedro manifestou-se dizendo:
“Veja! Nós deixamos tudo e te seguimos;
o que será, pois, de nós?”.
28
Jesus lhes respondeu: “Com toda a
certeza vos afrmo que vós, os que me
seguistes, quando ocorrer a regeneração
de todas as coisas, e o Filho do homem se
assentar no trono da sua glória, também
vos assentareis em doze tronos, para jul-
gar as doze tribos de Israel.
10
29
Também todos aqueles que tiverem
deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe,
flhos ou terras, por causa do meu Nome,
receberão cem vezes mais e herdarão a
vida eterna.
privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela
que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e
ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele
não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (6.33). A riqueza gera soberba e arrogância,
provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade
de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só
nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8).
8
Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei:
ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir
a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em
grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20.12-16; Dt 5.16-20;
Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão
almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu.
Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos
pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos.
9
Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na
época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta
principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim,
somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural
de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as
demais coisas necessárias (6.33-34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo
e desviando-a do Reino (1Tm 6.9-10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14;
Jó 42.2; Zc 8.6-7).
10
A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a
nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com po-
vos gentios), serão restauradas para o julgamento (25.31; At 3.20-21; Ap 7.4-8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem
a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase
tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, comparti-
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44 MATEUS 19, 20
30
Entretanto, muitos primeiros serão
últimos, e muitos últimos serão primei-
ros”.
A parábola dos pagamentos
20
“Portanto, o Reino dos céus é se-
melhante a um proprietário que
saiu ao raiar do dia para contratar traba-
lhadores para a sua vinha.
1
2
Depois de combinar com cada traba-
lhador o pagamento de um denário pelo
dia, os enviou ao campo das videiras.
2
3
Por volta das nove horas da manhã, ao
sair, viu na praça do mercado, outros que
estavam parados, sem ocupação.
3
4
Então lhes disse: ‘Ide vós também tra-
balhar na vinha, e Eu vos pagarei o que
for justo’. E eles foram.
5
Tendo saído outras vezes, próximo do
meio dia e das três horas da tarde, agiu
da mesma maneira.
6
Ao sair novamente, agora em torno das
cinco horas da tarde, encontrou outros
que estavam sem trabalho, e indagou
deles: ‘Por qual motivo estivestes aqui
desocupados o dia todo?’
7
E lhe informaram: ‘Porque não houve
alguém que nos contratasse’. Então lhes
falou: ‘Ide igualmente vós para o campo
das videiras’.
8
Ao pôr-do-sol, o senhor da vinha or-
denou ao seu administrador: ‘Chama
os trabalhadores e paga-lhes o salário,
começando pelos últimos contratados e
terminando nos primeiros’.
4
9
Chegaram os que haviam sido contra-
tados em torno das cinco horas da tarde,
e cada um deles recebeu um denário.
10
Quando vieram os que haviam sido
contratados primeiro, deduziram que
receberiam mais; contudo, também estes
receberam um denário cada um.
11
No entanto, assim que o receberam,
começaram a se queixar do proprietário
da vinha,
12
dizendo-lhe: ‘Estes últimos homens
trabalharam apenas uma hora; apesar
disso o senhor os igualou a nós que su-
portamos o peso do trabalho e o calor
do dia’.
13
Mas o dono da vinha, explicando,
falou a um deles: ‘Amigo, não estou
sendo injusto contigo. Não combina-
mos que te pagaria um denário pelo dia
trabalhado?
14
Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te;
pois é meu desejo dar a este último tanto
quanto dei a ti.
15
Porventura não me é permitido fazer o
que quero do que é meu? Ou manifestas
tua inveja porque eu sou generoso?’
5
16
Portanto, os últimos serão primeiros, e
os primeiros serão últimos. Pois muitos
serão chamados, mas poucos escolhidos”.
6
lharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20.1-16, Ele adverte os seus seguidores sobre o
perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno).
Capítulo 20
1
A declaração de Jesus feita em 10.30, é explicada por meio desta história e repetida em 20.16, enfatizando a soberana gene-
rosidade de Deus Pai. Essa parábola foi registrada apenas em Mateus.
2
O denário ou dinheiro (em latim denarius) era uma moeda romana, de prata. Tinha o mesmo valor de um dracma (em grego
drachma), ou meio shekel judaico. Correspondia a um dia de trabalho de um soldado romano na época de Jesus. Um escrivão
de documentos altamente qualificado, na Palestina daquele tempo, ganhava dois denários por dia.
3
A contagem das horas começava às 6h da manhã. Portanto, a terceira hora correspondia às 9h da manhã e assim por
diante. Nos originais gregos, assim como na tradução KJ de 1611 constam as expressões: “da hora terceira; sexta; nona e da
décima primeira hora”. Entretanto, o Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James decidiu, para melhor compreensão
dessa parábola, pelo uso do atual sistema de divisão do dia natural em 24 horas. Tempo que a Terra leva para fazer uma rotação
completa sobre si mesma.
4
A Lei de Moisés garantia aos trabalhadores pobres (que ganhavam salário mínimo, ou um denário por dia) que fossem
pagos por seus contratadores até o fim do dia ou até que o brilho das primeiras estrelas pudesse ser observado no céu (Lv
19.13; Dt 24.14,15).
5
A parte final deste versículo no original grego é: “...ou o olho teu mau é porque eu bom sou?” Essa expressão está relacionada
ao suposto poder de amaldiçoar que existe nos olhos de uma pessoa que inveja (não apenas do invejoso compulsivo). Desde o
AT (1Sm 18.6-16), havia uma associação entre o olhar perverso e a inveja (daí a expressão popular: mau-olhado).
6
Esta parábola está repleta de ensino e sabedoria. Não é possível um comentário extenso aqui, mas é importante dizer que
Jesus usou uma história bem conhecida dos judeus para esclarecer um pouco mais sobre como é a vida no Reino de Deus.
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45 MATEUS 20
Outra vez Jesus prediz seu sacrifício
(Mc 10.32-34; Lc 18.31-34)
17
Jesus estava, então, pronto para subir a
Jerusalém, quando chamou à parte seus
doze discípulos e lhes falou:
18
“Agora estamos subindo para Jerusa-
lém, e o Filho do homem será entregue
aos chefes dos sacerdotes e aos escribas.
Eles o condenarão à morte.
19
E o entregarão aos gentios para ser
zombado, torturado e crucifcado; mas
ao terceiro dia Ele será ressuscitado!”.
7
É preciso sabedoria para pedir
(Mc 10.35-45)
20
Naquele momento, aproximou-se de
Jesus a esposa de Zebedeu, com seus flhos
e, prostrando-se, fez um pedido a Ele.
8
21
“O que desejas?” - perguntou Jesus. Ela
respondeu: “Ordena que no teu Reino
estes meus dois flhos se assentem um à
tua direita, e o outro à tua esquerda”.
22
“Não sabeis o que pedis!”, contestou-
lhes Jesus. “Podeis vós beber o cálice que
Eu estou prestes a beber e ser batizados
com o batismo com o qual estou sendo
batizado?”. E eles afrmaram: “Podemos!”.
23
Então Jesus lhes declarou: “Certamen-
te bebereis do meu cálice; mas quanto ao
assentar-se à minha direita ou à minha
esquerda, não cabe a mim outorgá-lo.
Esses lugares pertencem àqueles a quem
foram reservados por meu Pai”.
9
24
Ao ouvirem isso, os outros dez fcaram
injuriados contra os dois irmãos.
25
Então Jesus os chamou e explicou:
Desde o AT, muitos mestres e rabinos usavam parábolas para comunicar seus ensinos. Acontece que essa história, em várias
versões, era contada para realçar a doutrina das recompensas divinas, e seguia a mesma linha moral da conhecida fábula de La
Fontaine: “A Cigarra e a Formiga”. A história rabínica, em síntese, era assim: “Um rei recrutou muitos trabalhadores, mas um deles
trabalhou muitos dias para o reino. No dia do pagamento, o rei pagou pouco aos que tinham trabalhado pouco e recompensou
regiamente ao que fora fiel o tempo todo”. Ou seja: muito trabalho, muita recompensa; nenhum trabalho, punição ou nenhuma
recompensa. Jesus, porém, dá um desfecho novo, inusitado e ameaçador ao recontar essa parábola tradicional. Jesus declarou
que Deus dá recompensas aos seus filhos (Mt 5.12,46; 6.1; 5.16; 10.41). Mas, da mesma maneira inequívoca, ensinou que todos
os que servem a Deus com a principal intenção de com isso “merecer” bênçãos e favores, perderão a verdadeira felicidade, aqui
e na eternidade. Quem realiza boas obras contando com as recompensas, vai se aborrecer com a misericórdia e a bondade de
Deus. É por isso que os judeus, especialmente os que mais se esforçavam (escribas e fariseus), começaram a odiar a Jesus. Eles
tinham um lema na época: “A Torá (a Lei) foi dada a Israel para mostrar como adquirir méritos”. É até compreensível que eles se
irritassem com o novo ensino e com a generosidade de Deus; e que muitos deles, como na parábola, de “primeiros” se tornaram
“últimos”, ou como o irmão mais velho, que na história do “filho pródigo” irou-se e excluiu-se da alegria de reaver o irmão perdido
(Lc 15.11-32). Jesus ensina também, através dessa parábola, que os judeus, os primeiros a receber a gloriosa chamada divina,
não serão os primeiros a receber o galardão final (recompensa, prêmio), pois a Salvação não vem da herança racial, nem do
legalismo religioso, mas da generosidade e graça divinas. Assim também, a Salvação é a maior gratificação que um ser humano
pode receber em toda a sua vida e vale por toda a eternidade. Portanto, não existem “salvos de segunda classe”. Uma vez salvo;
salvo de primeira classe e para sempre. Deus é soberano e, absolutamente tudo depende dele. O ser humano não pode fazer
nada para salvar-se, a não ser aceitar humildemente a vontade do Senhor e andar segundo a Palavra. Entretanto, a graça de Deus
pode transformar qualquer fariseu em um dos “primeiros” (novamente), como aconteceu com Saulo de Tarso, nosso irmão Paulo
(At 9.1-31). A frase: “Pois, muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”, não consta de alguns manuscritos gregos, embora
faça referência às palavras de Jesus em 19.23-26 e refíra-se a parte de todas as revisões da KJ desde 1611 até hoje.
7
Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Teve início na cidade de Efraim (Jo 11.54), passando pela Galiléia (Lc 17.11),
seguindo mais para o sul, chegando a Jericó, passando pela Peréia (Lc 18.35), por Betânia (Lc 19.29), até chegar a Jerusalém (Lc
19.41). Jesus desejou muito celebrar sua última Páscoa com seus discípulos; uma multidão de peregrinos os acompanhava. Jesus
seria o Cordeiro Pascal da humanidade; mas nem seus discípulos mais chegados conseguiam entender por que o Messias haveria
de ser humilhado e morto se as profecias apontavam para um grande libertador, maior que Moisés. Nesta terceira predição sobre o
seu sacrifício, Jesus acrescenta que Ele não seria executado pelos judeus, que o apedrejariam, mas pelos gentios (romanos). Todos
esses detalhes proféticos só fariam sentido na mente dos discípulos após a morte e ressurreição de Jesus (28.6).
8
Marcos nos revela que esses filhos de Zebedeu e Salomé (irmã de Maria, mãe de Jesus) eram os primos do Senhor: Tiago e
João. O pedido foi feito numa reunião com Jesus, solicitada pela mãe dos dois apóstolos (27.56; Mc 10.35; 15.40; Jo 19.25). Tanto
o pedido como a indignação dos outros discípulos revela que todas aquelas pessoas aguardavam para breve o estabelecimento
do poderoso reino do Messias na terra, apesar da clara profecia sobre a Paixão do Senhor.
9
Jesus usa uma metáfora bastante conhecida dos judeus, especialmente no AT (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7),
quase sempre associada ao juízo e à ira de Deus contra o pecado. A expressão hebraica: beber o cálice significava compartilhar do
destino de alguém. Assim, o cálice refere-se ao castigo divino que Jesus teria de receber em lugar de cada ser humano. O batismo é
outra figura de linguagem que, assim como o cálice, explica o sentido do sofrimento e morte do Senhor (Lc 12.50; Rm 6.3,4). Jesus
demonstra mais uma vez sua absoluta divindade ao revelar que conhecia o destino dos discípulos, mas que não podia usurpar a
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46 MATEUS 20, 21
“Sabeis que os governadores dos po-
vos os dominam e que são as pessoas
importantes que exercem poder sobre
as nações.
26
Não será assim entre vós. Ao contrário,
quem desejar ser importante entre vós
será esse o que deva servir aos demais.
27
E quem quiser ser o primeiro entre vós
que se torne vosso escravo.
28
Assim como o Filho do homem, que
não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida como único resgate por
muitos”.
10
Os cegos recuperam a visão
(Mc 10.46-52; Lc 18.35-43)
29
Ao saírem de Jericó, uma grande mul-
tidão acompanhava Jesus.
30
De repente, dois cegos, que estavam
assentados à beira do caminho, tendo
ouvido que Jesus passava, puseram-se a
gritar: “Senhor! Filho de Davi, tem mise-
ricórdia de nós”.
31
Entretanto, a multidão os repreendeu
para que se calassem, mas eles clamavam
ainda mais: “Senhor! Filho de Davi! Tem
misericórdia de nós!”.
32
Jesus, parando, chamou-os e lhes
perguntou: “O que quereis que Eu vos
faça?”.
11
33
“Senhor! Que se abram os nossos
olhos”, responderam eles.
34
Jesus sentiu compaixão e tocou nos
olhos deles. No mesmo instante os cegos
recuperaram a visão e o seguiram.
Jesus é aclamado pelas multidões
(Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)
21
Ao se aproximarem de Jerusalém,
chegaram a Betfagé, no monte
das Oliveiras. Então, Jesus enviou dois
discípulos,
1
2
e recomendou-lhes: “Ide ao povoado
que está adiante de vós e logo encon-
trareis uma jumenta amarrada, com seu
burrico ao lado. Desamarrai-os e trazei-
os para mim.
2

3
Se alguém vos questionar algo, deveis
dizer que o Senhor necessita deles e
sem demora os devolverá”.
4
No entanto, isso ocorreu para que se
cumprisse o que fora dito por meio do
profeta:
5
“Dizei à flha de Sião: ‘Eis que o teu rei
chega a ti, humilde e montado num bur-
rico, um potro, cria de jumenta’”.
autoridade do Pai. Assim, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). A última parte da pergunta de Jesus não
consta de alguns originais gregos, mas é clara em Mc 10.38 e consta de todas as revisões textuais da KJ desde 1611.
10
Não é aconselhável rejeitar a ajuda e o serviço dos nossos companheiros, mas “ser servidos” não deve ser a nossa ambição.
Devemos seguir o exemplo de Jesus que, sendo Deus, entregou “a sua vida” ou “a sua alma” (em grego ten psychen autou) para
pagar toda a punição imposta à humanidade pela quebra da ordem (Lei) de Deus no Éden: a morte eterna. Todo pecado demanda
indenização, expiação e pagamento. A Lei de Deus jamais ordenou sacrifícios humanos; mas, em relação ao pecado original, era
necessário que um ser humano sem pecado fosse imolado. Jesus se ofereceu para pagar nosso “resgate” (em grego lytron), palavra
derivada do verbo grego luo que significa “libertar” e usada na época ao se tratar da alforria de escravos. Jesus usou outra forte me-
táfora para comparar seu sacrifício ao ato de pagar o preço pedido pela venda de um escravo muito caro, comprado, todavia, para
ganhar a liberdade. Por isso, os cristãos estão livres, de uma vez por todas, do poder e da escravidão do pecado (do erro) e da pena
da morte eterna. Essa frase de Cristo é uma das poucas ocasiões em que a doutrina da redenção vicária é citada nos Evangelhos
sinóticos (1Tm 2.6). A salvação é oferecida de graça a todos, mas apenas os “muitos” a recebem em seus corações (1Jo 1.12-14).
11
Mateus cita dois cegos, enquanto os demais sinóticos destacam apenas um (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43). Realmente eram
dois cegos, ocorre que Bartimeu, devido à sua personalidade, ganhou proeminência. A cura ocorreu durante a saída da Velha
Jericó para a Nova Jericó.
Capítulo 21
1
Betfagé, em hebraico significa “Casa dos Figos” (Lc 19.29). Segundo o Talmude, era uma pequena vila situada a cerca de
um quilômetro a leste de Jerusalém, na encosta sul do monte das Oliveiras. Aqui tem início a última semana da vida humana
de Jesus Cristo.
2
Jesus decide entrar em Jerusalém, desta vez, montado em um jumentinho (Jo 12.15). E isso, sob as homenagens das multi-
dões, para demonstrar claramente que Ele era o Messias prometido há séculos (Zc 9.9). O Filho de Davi, escolhido para ocupar
seu trono (1Rs 1.33,44). Os potros ou burricos (crias de jumenta), antes de serem submetidos a qualquer trabalho secular, eram
especialmente considerados para trabalhos religiosos (Nm 19.2; Dt 21.3; Sm 6.7), e simbolizavam humildade, paz, e a majestade
de Davi. Mateus revela o cuidado de Jesus em não apartar o jumentinho de sua mãe e levar ambos consigo para sua procissão
triunfal como Rei de Israel.
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47 MATEUS 21
6
Então os discípulos foram e fzeram o
que Jesus lhes havia mandado.
3
7
Trouxeram-lhe a jumenta com o
jumentinho, os selaram com mantas
para cavalgar, e sobre as mantas Jesus
montou.
8
Então, uma grande multidão estendia
suas capas pelo caminho, muitos outros
cortavam ramos de árvores e os espalha-
vam pela estrada.
9
E as multidões, tanto as que iam adi-
ante dele, quanto as que o seguiam, pro-
clamavam: “Hosana ao Filho de Davi!
‘Bendito seja Ele que vem em o Nome do
Senhor!’ Hosana nas alturas!”
4
10
Assim que Jesus entrou em Jerusalém,
toda a cidade fcou alvoroçada, e comen-
tavam: “Quem é este?”
11
Então as multidões exclamavam: “Este
é o profeta Jesus, vindo de Nazaré da Galiléia!”.
O templo é casa de oração!
(Mc 11.15-19; Lc 19.45-48)
12
Tendo Jesus entrado no pátio do tem-
plo, expulsou todos os que ali estavam
comprando e vendendo; também tom-
bou as mesas dos cambistas e as cadeiras
dos comerciantes de pombas.
13
E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A mi-
nha casa será chamada casa de oração’;
vós, ao contrário, estais fazendo dela um
‘covil de salteadores’”.
5
14
Então levaram a Jesus, no templo, ce-
gos e aleijados, e Ele os curou.
15
Entretanto, quando os chefes dos
sacerdotes e os escribas viram as mara-
vilhas realizadas por Jesus, e as crianças
exclamando no templo: “Hosana ao Fi-
lho de Davi!”, revoltaram-se e indagaram
dele:
16
“Não ouves o que estas crianças estão
proclamando?”. Ao que Jesus lhes res-
pondeu: “Sim. E vós, nunca lestes: ‘Dos
lábios das crianças e dos recém-nascidos
suscitaste louvor’”.
17
E, deixando-os, saiu da cidade em di-
reção a Betânia, onde passou a noite.
6
A fgueira que não deu fruto
(Mc 11.12-14; 20-25)
18
Ao amanhecer, quando retornava para
a cidade, Jesus teve fome.
19
Avistando uma fgueira à beira da
estrada, aproximou-se dela, porém nada
encontrou, a não ser folhas. Então decre-
tou-lhe: “Nunca mais se produza fruto
3
O próprio Jesus usa a expressão: “Senhor” (Senhor de Israel) como seu título divino (16.18). Mateus usou as profecias regis-
tradas na Septuaginta (AT em grego), em Is 62.11 e Zc 9.9 para mostrar que a maioria do povo havia compreendido que Jesus
era mesmo o Rei-Messias prometido.
4
Hosana é uma expressão grega (hõsanna), que significa “Salva-nos!” e vem do hebraico transliterado (hôshi´â nã´), que quer
dizer: “Salva, Senhor, por misericórdia!” Mateus revela que expressões de júbilo emanavam da multidão, e não que fosse uma
frase só a ser repetida indefinidamente. Essa aclamação do povo é baseada em 2Sm 14.4, Sl 118.25-27 e Sl 148.1-2, cantada
na Festa dos Tabernáculos e, em Mateus, aplicada a Jesus. Como um ato de homenagem régia, o povo pavimentou, com seus
próprios mantos (capas), o caminho por onde passou o Senhor. Com o passar do tempo, a palavra “hosana” tornou-se uma
exclamação de louvor e alegria espiritual.
5
O termo grego original (to hieron), que significa “o templo”, indica toda a área sobre o monte Moriá, ocupada pelos diversos re-
cintos e a corte do templo. No domingo, após a entrada triunfal, Jesus continua sua obra de purificação da Casa do Senhor, iniciada
três anos antes (Jo 2.14). Uma atitude para demonstrar o quanto os judeus haviam ofendido ao Senhor, permitindo que seus cora-
ções fossem corrompidos pela ganância, dominados pelo pecado, e faltos de amor sincero para com Deus e com seu próximo. Isso
ocorre infelizmente ainda hoje em alguns templos cristãos, e entre seus membros. Jesus citou as Sagradas Escrituras, usando, da
versão Septuaginta (AT em grego), os textos de Is 56.7 com Jr 7.11. As ofertas, taxas e compras de animais para sacrifícios no templo
só podiam ser pagas com moeda hebraica (siclo hebreu), pois as demais moedas eram cunhadas com a imagem de divindades
pagãs ou do imperador, considerado pelos romanos e outros gentios como um deus. Entretanto, esse serviço de troca de moedas
(câmbio), compra e venda de animais, e produtos para os sacrifícios, deveria ser realizado com dignidade, no “grande átrio exterior
dos gentios”, um espaço reservado para essas atividades com mais de 50.000 m
2
. Todavia, os cambistas estavam explorando os
romeiros que vinham de muito longe e com dinheiro gentio para ofertar e sacrificar no templo. Além disso, a venda dos animais cul-
tualmente aceitáveis transformara-se apenas em lucrativo comércio, tanto que a área antes reservada já não comportava os estandes
de vendas e haviam invadido até o recinto sagrado. Vários sacerdotes lideravam a corrupção institucionalizada no templo, posto que
ao receberem os animais para holocausto, em vez de efetuarem o ritual do sacrifício, matavam apenas alguns deles, e repassavam
todos os demais para comerciantes fraudulentos, que os revendiam sucessivas vezes.
6
Os líderes dos sacerdotes e os doutores da lei viram os milagres de Cristo e temeram por suas vidas e negócios. Tentaram
enredar o Senhor num sofisma, ao alegar que um mestre tão zeloso como Jesus, não deveria deixar que crianças o adorassem
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48 MATEUS 21
em ti!”. E, no mesmo instante, a fgueira
fcou completamente seca.
20
E quando viram o que ocorrera, muito
se admiraram os discípulos e exclamaram:
“Como foi possível esta fgueira secar tão
depressa?”.
21
Então Jesus explicou-lhes: “Com
certeza vos asseguro que, se tiverdes fé
e não duvidardes, podereis fazer não
apenas o que foi feito à fgueira, mas da
mesma forma ordenardes a este monte:
‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e
assim acontecerá.
22
E tudo o que pedirdes em oração, se
crerdes, recebereis”.
7
Líderes religiosos duvidam de Jesus
(Mc 11.27-33; Lc 20.1-8)
23
Tendo Jesus chegado ao templo, en-
quanto ensinava, acercaram-se dele os
chefes dos sacerdotes e os anciãos do
povo e o questionaram: “Com que auto-
ridade fazes estas coisas aqui? E quem te
deu essa autorização?”.
8
24
Jesus, porém, replicou-lhes: “Eu igual-
mente vos lançarei uma questão. Se me
responderdes, também Eu vos direi com
que autoridade faço o que faço.
25
De onde era o batismo de João? Divino
ou humano?”. E eles discutiam entre si,
avaliando: “Se respondermos: divino, Ele
nos indagará: ‘Sendo assim, por que não
acreditastes nele?’
26
Porém, se alegarmos: humano, teme-
mos o povo, pois todos consideram João
como profeta”.
27
Por isso disseram a Jesus: “Não sa-
bemos!”. Ao que Jesus afrmou-lhes:
“Nem Eu vos direi com que autoridade
procedo.
9
A parábola do pai e dois flhos
28
Agora, qual a vossa opinião? Um ho-
mem tinha dois flhos. Aproximando-se
do primeiro, pediu: ‘Filho, vai trabalhar
hoje na vinha’.
29
Mas este flho lhe disse: ‘Não quero ir’.
Todavia, mais tarde, arrependido, foi.
30
Então chegou o pai até o segundo flho
e fez o mesmo pedido. Então este lhe res-
pondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi.
31
Qual dos dois fez a vontade do pai?”.
Ao que eles responderam: “O primeiro”.
Então Jesus lhes revelou: “Com toda a
certeza vos afrmo que os publicanos e
as prostitutas estão ingressando antes de
vós no Reino de Deus.
32
Porquanto João veio para vos mos-
trar o caminho da justiça, mas vós não
acreditastes nele; em compensação, os
cobradores de impostos e as meretrizes
creram.Vós, entretanto, mesmo depois
como se fosse Deus. Entretanto, Jesus citou novamente as Escrituras e revelou que mais uma profecia acerca dele se cumpria
naquele momento (Sl 8.2). Jesus foi, então, para a casa dos seus queridos amigos Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que ficava
em Betânia, uma aldeia no declive oriental do monte das Oliveiras, uns dois quilômetros a leste de Jerusalém.
7
Mateus condensava suas narrativas, em contraste com o texto dos demais autores sinóticos (Marcos e Lucas). Marcos situa a
maldição da figueira na manhã de segunda-feira, mas na terça-feira pela manhã foi que os discípulos, passando por ela outra vez,
a observam completamente aniquilada (Mc 11.12-14, 20-25). Mateus, mais tarde, ao escrever seu Evangelho (testemunho ocular
da vida, mensagem e sinais de Jesus), segundo a inspiração do Espírito Santo, enfatiza o caráter imediato do Juízo de Deus.
Diversas podem ser as inferências teológicas acerca dessa passagem, especialmente em relação a Israel (Os 9.10; Na 3.12). Con-
tudo, a única aplicação que o próprio Senhor Jesus faz, tem a ver com a eficácia da oração que não duvida do poder de Deus.
8
Aqui começa a terça-feira da chamada “Semana Santa”. O Sinédrio (supremo juiz da corte de Israel) decide apelar para
o legalismo e pede credenciais autorizadas a Jesus por estar realizando um ato oficial no templo. Eles já haviam usado essa
estratégia com João Batista (Jo 1.19-25) e, em outra ocasião, com o próprio Jesus (Jo 2.18-22). Os líderes religiosos sentiam
em Jesus uma forte ameaça à sua posição, privilégios e lucros financeiros ilícitos. Por isso, procuravam apresentá-lo como um
revolucionário, fora da lei, e inimigo de Roma.
9
Grandes oradores e conhecedores do poder da palavra, os líderes religiosos procuram comprometer a Jesus por meio de um
questionamento ardiloso. Jesus é levado a declarar publicamente que era o Messias (como o povo aclamava). Assim poderiam
prendê-lo e entregá-lo aos romanos. A outra opção seria negar sua autoridade divina, passando então a ser totalmente desacre-
ditado pela multidão que o acompanhava. Jesus apelou para o testemunho de João Batista acerca dele e lhes propôs também
uma questão (Jo 1.32-34).
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49 MATEUS 21
de presenciardes a tudo isso, não vos arre-
pendestes para acreditardes nele.
10
A parábola dos vinicultores maus
(Mc 12.1-12; Lc 20.9-19)
33
E mais, atentai a esta parábola: Havia
um certo proprietário de terras, que
plantou um campo de videiras. Ergueu
uma cerca ao redor delas, construiu um
tanque para prensar as uvas e edifcou
uma torre. Finalmente, arrendou essa
vinha para alguns vinicultores e foi
viajar.
11
34
Chegando a época da safra, enviou
seus servos até aqueles lavradores, para
receber os seus dividendos.
35
Porém os lavradores atacaram seus
servos; a um espancaram, a outro mata-
ram, e apedrejaram o terceiro.
36
Então lhes mandou outros servos, em
maior número do que da primeira vez,
mas os lavradores os trataram da mesma
maneira.
37
Por fm, decidiu enviar-lhes seu pró-
prio flho, considerando: ‘Eles respeita-
rão o meu flho’.
38
Contudo, assim que os lavradores
viram o flho, tramaram entre si: ‘Este
é o herdeiro! Então vamos, nos unamos
para matá-lo e apoderemo-nos da sua
herança’.
39
E assim, eles o agarraram, jogaram-no
para fora da plantação de videiras e o
assassinaram.
12
40
Sendo assim, quando vier o dono da
vinha, o que fará com aqueles lavradores?”.
41
Diante disso, responderam-lhe: “Ele
destruirá esses perversos de forma ter-
rível e arrendará seu campo de videiras
para outros cultivadores que lhe enviem
a sua parte no devido tempo das colhei-
tas”.
13
42
Então Jesus lhes inquiriu: “Nunca
lestes isto nas Escrituras? ‘A pedra que
os construtores rejeitaram, tornou-se
a pedra angular; e isso procede do
Senhor, sendo portanto, maravilhoso
para nós’.
43
Por isso, Eu vos declaro que o Reino
de Deus será retirado de vós para ser
entregue a um povo que produza frutos
dignos do Reino.
44
Todo aquele que cair sobre esta pedra
se arrebentará em pedaços; e aquele sobre
quem ela cair fcará reduzido a pó!”.
14
45
Depois que os chefes dos sacerdotes e
os fariseus ouviram as parábolas que Je-
sus lhes havia contado, compreenderam
que era sobre eles próprios que Jesus
estava falando.
46
E por causa disso procuravam um
motivo para prendê-lo; mas tinham
receio das multidões, porquanto elas o
consideravam profeta.
10
As versões de Almeida invertem a posição dos versículos 29 e 30. Entretanto, a Bíblia King James e a NVI seguem a mesma
ordem original. Jesus resolve o debate com os sacerdotes, propondo duas histórias (as respostas parabólicas de Jesus). A
autoridade maior vem da obediência amorosa e sincera a Deus; não de uma liderança autoritária, maquiavélica e despótica, que
depende apenas de títulos e diplomas e, ainda mais, corrompida pela falta de dignidade. Como podem os eleitos para cuidar da
Casa do Senhor (autoridades eclesiásticas), rejeitar o dono da Casa e o Evangelho do Reino?
11
Segundo a tradição rabínica, uma “torre” deveria ser construída na vinha, para abrigar o responsável pelo campo, que vigiava
a plantação, especialmente quando chegava o tempo da colheita e as uvas ficavam maduras. Era, normalmente, uma plataforma
elevada feita de madeira, com cerca de 5m de altura por 2m de lado.
12
Assim como seria um absurdo que os agricultores de um campo arrendado pudessem herdar essa terra ao assassinar seu
dono, maior loucura foi os líderes espirituais e teólogos da época imaginarem que a incriminação e a crucificação de Jesus Cristo,
o Filho de Deus, lhes garantiria a herança e o domínio de Israel.
13
Ao se escandalizarem com o erro dos outros, sem atentarem para seus pecados, e julgarem severamente os lavradores da
parábola de Jesus, os sacerdotes estavam decretando sua própria punição: os judeus que não aceitassem a verdadeira men-
sagem de Deus em Cristo ficariam sem a herança espiritual. No ano 70 d.C. o Templo e toda a cidade de Jerusalém sofreram a
mais arrasadora destruição até hoje registrada em sua história. Uma vez que o Evangelho foi rejeitado pelos judeus, Deus dirige
sua graça salvadora aos gentios, salva e convoca Paulo para ser seu apóstolo (em grego apostellõ, enviado por Deus com uma
missão específica). Já no segundo século da era cristã, a Igreja era composta, quase que totalmente, por não judeus (gentios).
14
Jesus é o alicerce seguro, a pedra fundamental, para todos aqueles que confessam o seu nome e edificam suas vidas nele,
passando assim a fazer parte do grande edifício de Cristo, como pedras vivas (16.18; 1Pe 2.4-5). Entretanto, para os que rejeitam
o Senhor, recusando-se a crer em Jesus, o Cristo (o Messias prometido), Ele se torna em pedra de tropeço e de condenação
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50 MATEUS 21, 22
A parábola do banquete nupcial
(Lc 14.15-24)
22
Jesus continuou a pregar-lhes por
meio de parábolas, dizendo:
2
“O Reino dos céus é semelhante a um
rei que mandou realizar um banquete
nupcial para seu flho.
1

3
E, por isso, enviou seus servos a concla-
mar os convidados para as bodas do f-
lho; mas estes rejeitaram o chamamento.
4
Uma vez mais, mandou outros servos,
com esta ordem: ‘Dizei aos que foram
convidados que lhes preparei meu ban-
quete; os meus bois e meus novilhos
gordos foram abatidos, e tudo está pre-
parado. Vinde todos os convidados para
as bodas do meu flho!’
2
5
Mas os convidados nem deram atenção
ao chamado dos servos e se afastaram:
um para o seu campo, outro para os seus
negócios.
6
E outros ainda, atacando os servos,
maltrataram-nos e os assassinaram.
7
O rei indignou-se sobremaneira e, en-
viando seu exército, aniquilou aqueles
criminosos e incendiou-lhes a cidade.
3
8
Então, disse o rei a seus servos: ‘O ban-
quete de casamento está posto, contudo
os meus convidados não eram dignos.
9
Ide, pois, às esquinas das ruas e convi-
dai para as bodas todas as pessoas que
encontrardes.
10
E, assim, os servos saíram pelas estra-
das e reuniram todos quantos puderam
encontrar, gente boa e pessoas más, e a
sala do banquete das bodas fcou repleta
de convidados.
11
Entretanto, quando o rei entrou para
saudar os convidados que estavam à
mesa, percebeu que um homem não
trajava as vestes nupciais.
12
E indagou-lhe: ‘Amigo, como aden-
traste este recinto sem as suas vestes
próprias para as bodas?’ Mas o homem
não teve resposta.
13
Então, ordenou o rei aos seus servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-
o para fora, às trevas; ali haverá grande
lamento e ranger de dentes’.
4
14
Portanto, muitos são chamados, mas
poucos, escolhidos!”.
Dai a César o que é de César
(Mc 12.13-17; Lc 20.20-26)
15
E, assim, se afastaram os fariseus, tra-
mando entre si como fariam para enre-
dar a Jesus em suas próprias afrmações.
16
Então, mandaram-lhe seus seguidores
juntamente com alguns herodianos, que
lhe questionaram: “Mestre, sabemos que
és íntegro e que ensinas o caminho de
Deus, de acordo com a verdade, sem te
deixares induzir por quem quer que seja,
pois não te seduzes pela aparência das
pessoas.
17
Sendo assim, dize-nos: que te pareces?
É correto pagar impostos a César ou não?”.
5
18
Contudo, Jesus percebeu a má inten-
eterna (Is 8.14-15; Lc 20.17; Rm 9.32; 1Pe 2.6-8). Assim como um vaso de barro se despedaça ao ser arremessado contra uma
rocha, ou é esmagado ao ser atingido por uma enorme pedra, da mesma forma virá a destruição sobre todos aqueles que rejei-
tarem o senhorio de Cristo (Is 8.14; Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). É importante notar que, mais tarde, o apóstolo Pedro fez questão de
salientar que Jesus era a sua Pedra, Rocha Principal, seu Sustentador, e que cada indivíduo deve aceitar a Pedra (Jesus), para
ser salvo e ganhar a vida eterna (At 4.8-12).
Capítulo 22
1
Jesus apresenta o Reino dos céus em outras parábolas, veja no capítulo 13.
2
A proclamação do Evangelho é o doce e insistente convite do Rei do Universo a todo ser humano, para tomar parte em seu
maravilhoso banquete de núpcias. Ainda assim, muitas pessoas estão de tal forma iludidas com suas exigências presentes e
materiais que se recusam a dar atenção à generosidade divina.
3
Todos aqueles que se apresentam como inimigos declarados do Evangelho, assim como os falsos cristãos, serão destruídos.
Da mesma forma como a cidade de Jerusalém foi completamente arrasada e queimada pelos romanos, no ano 70 d.C.
4
Era costume, naquela época e região, o anfitrião fornecer roupas adequadas ao casamento, para os convidados que não
pudessem comprá-las. Como esse grupo de pessoas veio diretamente das ruas, todos ganharam suas roupas cerimoniais.
Entretanto, um daqueles novos convidados, rejeitou também a hospitalidade e a generosidade do rei. A veste nupcial simboliza a
justificação com a qual Cristo veste todas as pessoas que aceitam o dom gratuito da Salvação (Rm 13.14; Ap 19.8).
5
Os fariseus, como nacionalistas radicais, eram contra o domínio romano. Os herodianos, entretanto, como a própria denomi-
nação revela, apoiavam o império romano de Herodes. Mas, diante de uma ameaça maior, fariseus e herodianos se unem numa
cilada dialética contra Jesus. Os maus se juntam no ataque ao Sumo Bem. Se a resposta de Jesus fosse “Não”, os herodianos
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51 MATEUS 22
ção deles e replicou-lhes: “Por que me
tentais, hipócritas?
19
Deixai-me ver a moeda com a qual se
pagais os tributos”. E eles lhe mostraram
um denário.
20
Então lhes indagou: “De quem é esta
fgura e esta inscrição?”.
21
Responderam-lhe: “De César!”. Então,
lhes afrmou: “Portanto, dai a César o que
é de César, e a Deus o que é de Deus!”.
22
Ao ouvirem tal resposta, fcaram per-
plexos e, afastando-se dele, se retiraram.
6
Os saduceus e a ressurreição
(Mc 12.18-27; Lc 20.27-40)
23
Naquele mesmo dia, os saduceus, que
pregam a inexistência da ressurreição,
aproximaram-se de Jesus com uma
questão:
7
24
“Mestre, Moisés ensinou que se um
homem morrer sem deixar flhos, seu
irmão deverá casar-se com a viúva e dar-
lhe descendência.
25
Entre nós havia sete irmãos. O primei-
ro casou-se e morreu. Como não teve
flhos, deixou a mulher para seu irmão.
26
Da mesma maneira ocorreu com o
segundo, com o terceiro, até chegar ao
sétimo.
27
Finalmente, após a morte de todos, a
mulher também faleceu.
28
Sendo assim, na ressurreição, de qual
dos sete ela será esposa, considerando
que todos foram casados com ela?”
29
Então Jesus lhes esclareceu: “Vós estais
equivocados por não conhecerdes as Es-
crituras nem o poder de Deus!
30
Na ressurreição, as pessoas não se ca-
sam nem são dadas em matrimônio; são,
todavia, como os anjos do céu.
31
E, com relação à ressurreição dos mortos,
não tendes lido o que Deus vos declarou:
32
‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele
não é Deus de mortos, mas sim, dos que
vivem!”.
8
33
Ao ouvir tudo isso, as multidões fca-
ram estupefatas com o ensino de Jesus.
O maior dos mandamentos
(Mc 12.28-34)
34
Assim que os fariseus ouviram que
Jesus havia deixado os saduceus sem pa-
lavras, reuniram-se em conselho.
35
E um deles, juiz perito na Lei, formulou
uma questão para submeter Jesus à prova:
36
“Mestre, qual é o maior mandamento
da Lei?”
9
o delatariam ao governador romano, que teria o direito de executá-lo por traição. Se respondesse “Sim”, então os fariseus o
denunciariam diante do povo judeu, por deslealdade a Israel e ao judaísmo.
6
O dinheiro usado no império romano para pagar os impostos chamava-se “denário”. Uma moeda romana, cujo valor corres-
pondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do
outro, a inscrição em latim: “Tibério César Augusto, filho do divino Augusto”. Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa
todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade
(Rm 13.1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo
espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20.20-25; Gl 5.22-26). O Reino de Deus
não é deste mundo. Seu modus vivendi (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do ho-
mem pelo homem. Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e
obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos
nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e a dedicação de todo o nosso ser.
7
Os “saduceus” formavam um partido aristocrático que dominava a vida política dos judeus, inclusive a posição do sumo sa-
cerdote. Não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e, muito menos, na imortalidade da alma. Para eles, a vida
era apenas um “aqui e agora” e nada mais. Esse era um dos aspectos que mais lhes causava divergências com os fariseus.
8
Os saduceus apresentaram uma questão fechada para Jesus. Eles aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia como
autoridade divina, e há séculos estudavam o assunto sobre o qual interrogaram Jesus. Reivindicaram a lei do levirato (do latim levir,
cunhado), promulgada a fim de proteger as viúvas, garantir as propriedades e a continuidade da linhagem familiar (Dt 25.5,6; Gn 38.8),
para zombar da doutrina da ressurreição defendida por Cristo e com isso desmoralizá-lo. Entretanto, Jesus usou o próprio Pentateuco
para mostrar que eles não estudavam as Escrituras com o devido amor a Deus e por isso erravam. Nos céus não há casamentos e re-
ceberemos novos corpos, como os de anjos, entre os quais não há macho ou fêmea. Portanto, debater esse assunto não faz sentido.
Além disso, os crentes ressuscitados viverão eternamente, uma verdade firmada no caráter de Deus (Êx 3.6; Lc 20.28).
9
Os fariseus eram muito legalistas, tanto que se emaranhavam em suas próprias leis e decretos. Discutiam sempre sobre
quais, dentre suas muitas ordenanças, eram prioritárias para que um judeu alcançasse o Reino dos céus e o Shabbãth (o grande
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52 MATEUS 22, 23
37
Asseverou-lhe Jesus:

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o
teu coração, de toda a tua alma e com
toda a tua inteligência.
10
38
Este é o primeiro e maior dos manda-
mentos.
39
O segundo, semelhante a este, é:
‘Amarás o teu próximo como a ti
mesmo’.
40
A estes dois mandamentos estão sujei-
tos toda a Lei e os Profetas”.
Jesus é o Senhor de Davi
(Mc 12.35-37; Lc 20.41-44)
41
Estando reunidos os fariseus, Jesus
lhes indagou:
42
“Qual a vossa opinião acerca do Mes-
sias? De quem Ele é flho?”. Ao que eles
lhe afrmaram: “É flho de Davi”.
43
Contestou-lhes Jesus: “Então, como se
explica que Davi, falando pelo Espírito, o
trata de ‘Senhor’? Pois ele afrma:
44
‘O Senhor disse ao meu Senhor: Assen-
ta-te à minha direita, até que Eu ponha
os teus inimigos debaixo dos teus pés’.
45
Considerando que Davi o chama
‘Senhor’, como pode ser Ele seu flho?”.
11
46
E ninguém foi capaz de oferecer-lhe
uma só palavra em resposta à questão;
tampouco ousou alguém mais, a partir
daquele dia, dirigir-lhe qualquer outra
pergunta.
Os doutores da Lei falam, mas não agem
(Mc 12.38-40; Lc 11.37-52; 20.45-47)
23
Então, Jesus pregou às multidões
e aos seus discípulos:
2
“Os escribas e os fariseus se assentam
na cadeira de Moisés.
1
3
Fazei e obedecei, portanto, a tudo
quanto eles vos disserem. Contudo, não
façais o que eles fazem, porquanto não
praticam o que ensinam.
4
Eles atam fardos pesados e os colocam
sobre os ombros dos homens. No entan-
to, eles próprios não se dispõem a levan-
tar um só dedo para movê-los.
5
Tudo o que realizam tem como alvo
serem observados pelas pessoas. Por isso,
fazem seus flactérios bem largos e as
franjas de suas vestes mais longas.
2
6
Amam o lugar de honra nos banquetes
e os primeiros assentos nas sinagogas.
7
Gostam de ser cumprimentados nas
Sábado, ou o descanso eterno). Eles haviam interpretado e abstraído do AT um total de 248 preceitos afirmativos. E mais 365
negativos, que acreditavam ser da vontade de Deus, pois o número coincidia com o número de dias do ano. Além disso, o total
desses mandamentos: 613, era o mesmo que o número de letras contidas no Decálogo.
10
Jesus mais uma vez aproveita a oportunidade para mostrar àqueles líderes religiosos e a seus muitos discípulos ao redor, res-
ponsáveis pela continuação do ensino das Escrituras ao povo, que a mentalidade divina e o modo espiritual de raciocinar dife-riam em
muito da limitada e egoísta dialética humana. Jesus então cita Dt 6.5, uma parte do Shema, orações e reflexões diárias dos judeus. Na
Septuaginta (o AT em grego) a palavra aqui traduzida por “inteligência” é, literalmente, “mente” (Mc 12.30). O verbo grego traduzido
aqui por “amarás” não é phileõ, como em algumas versões, que significa uma afeição entre amigos; mas, sim, o verbo agapaõ: uma
obrigação de dedicação absoluta a alguém, determinada pela vontade (Mq 6.8; Am 5.4; Is 33.15; Hc 2.4). Jesus foi o primeiro líder
espiritual judeu a combinar os dois mandamentos de amor, para formar o mais sintético resumo da Lei (Lv 19.18), revelando aos
fariseus, e a todos nós, que não são os muitos regulamentos e leis que tornam uma pessoa santa; mas, sim, seu genuíno e sincero
amor a Deus e a seu próximo mais achegado (familiares), e a seus próximos e vizinhos (comunidade, sociedade).
11
Finalmente, é Jesus quem questiona. Os fariseus eram profundos estudiosos sobre o Messias e sua vinda, como Libertador
de Israel. Entretanto, há séculos interpretavam erroneamente a pessoa e a obra do Messias. Imaginavam um rei, pleno de poderes
divinos, que viria como guerreiro invencível, para libertar Israel do império gentio e conceder saúde, paz e riqueza ao povo judeu.
Conheciam o Messias como Filho de Davi, mas não como o Senhor de Davi (Sl 110.1), tampouco seu domínio espiritual em
amor e humildade (Lc 20.42-44). Jesus desejava que os seus compreendessem que ele era o Messias prometido: o descendente
humano de Davi e o seu divino Senhor.
Capítulo 23
1
Os escribas, doutores e mestres da Lei, bem como os fariseus, partido político religioso que defendia a observância literal
da Torah (Lei) e mais uma série de ordenanças e preceitos por eles criados para situações não diretamente cobertas pela Torah.
Convencidos de que possuíam a correta interpretação da vontade de Deus, afirmavam que a tradição dos anciãos, a lei oral (tôrâ
shebe‘al peh) vinha de Moisés e desde o monte Sinai. Fariseus e escribas eram, portanto, os sucessores autorizados da tradição
de Moisés como mestres da Lei.
2
Os filactérios ou tefilins eram pequenos rolos ou caixinhas de couro que os judeus religiosos usavam presos à testa, perto
do coração, e no braço esquerdo. Essas pequenas cápsulas continham quatro passagens da Torah: Êx 13.1-10 e 11-16; Dt
6.4-9 e 11.13-21. Com o passar do tempo, os judeus começaram a respeitar e honrar esses pequenos recipientes, tanto quanto
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53 MATEUS 23
praças e de serem, pelas pessoas, chama-
dos: ‘Rabi, Rabi!’.
3
8
Vós, todavia, não sereis tratados de
‘Rabis’; pois um só é vosso Mestre, e vós
todos sois irmãos.
9
E a ninguém sobre a terra tratai de vos-
so Pai; porquanto só um é o vosso Pai,
aquele que está nos céus.
10
Também não sereis chamados de líde-
res, pois um só é o vosso Líder, o Cristo.
4
11
Porém o maior dentre vós seja vosso
servo.
12
Portanto, todo aquele que a si mesmo se
exaltar será humilhado, e todo aquele que
a si mesmo se humilhar será exaltado.
13
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque fechais o reino dos
céus diante dos homens. Porquanto vós
mesmos não entrais, nem tampouco dei-
xais entrar os que estão a caminho!
5
14
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque devorais as casas das
viúvas e, para disfarçar, encenais longas
orações. E, por isso, recebereis castigo
ainda mais severo!
15
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque viajais por mares e
terras para fazer de alguém um prosé-
lito. No entanto, uma vez convertido, o
tornais duas vezes mais flho do inferno
do que vós!
16
Ai de vós, guias cegos! Porque ensinais:
‘Se uma pessoa jurar pelo santuário, isso
não tem signifcado; porém, se alguém
jurar pelo ouro do santuário, fca obriga-
do a cumprir o que prometeu’.
17
Tolos e cegos! Pois o que é mais impor-
tante: o ouro ou o santuário que santifca
o ouro?
18
E mais, dizeis: ‘Se uma pessoa jurar pelo
altar, isso nada signifca; mas, se alguém
jurar pela oferta que está sobre ele, fca,
assim, comprometido ao seu juramento’.
19
Embotados! O que é mais importante:
a oferta, ou o altar que santifca a oferta?
20
Portanto, a pessoa que jurar em nome
do altar, jura pelo altar e por tudo o que
está sobre ele.
21
E quem jurar pelo santuário, jura pelo
santuário e em nome daquele que nele
habita.
22
E aquele que jurar pelos céus, jura pelo
trono de Deus e em nome daquele que
nele está assentado.
6
as Escrituras, e seu tamanho era considerado um sinal de zelo espiritual de quem os ostentava. Os fariseus acreditavam que o
próprio Deus usava filactérios. Por isso, eram considerados como amuletos de boa sorte e proteção contra o mal. As “franjas”
eram as borlas descritas em Nm 15.37-41 que todo judeu deveria usar. Jesus também as usava nas quatro pontas de seu manto
(em Mt 9.20 são chamadas de “orla”), essas borlas eram um tipo de madeixas de lã, branca e azul, e tinham a singela função
de declarar o amor de quem as usava a Yahweh (o Senhor) e a vontade do seu coração de cumprir a Torah (ou Torá, a Lei) da
maneira mais fiel possível. As borlas tinham o tamanho médio de até 10 cm; entretanto, os fariseus as alongavam muito mais em
sinal de maior espiritualidade. O que Deus criou para ser apenas um lembrete de fé e marca de devoção, tornou-se objeto de
adoração e ostentação (fetiche).
3
Os mestres da Lei e os fariseus gostavam de ocupar os melhores e mais importantes assentos na sinagoga, aqueles que ficam
defronte à representação da arca e que continha os rolos das Escrituras Sagradas. Além disso, os que se assentavam ali podiam
ser facilmente vistos por toda a congregação. Eles também apreciavam muito ouvir as pessoas os chamarem, insistentemente,
aos gritos e em público (nas praças do mercado) de Rabbei (em grego), que significa literalmente em hebraico: “meu professor,
meu mestre!”
4
A expressão “pai” ou “padre” (em hebraico ’abh) não deve ser usada como título de qualquer autoridade religiosa. Jesus faz uma
séria advertência quanto à busca desenfreada por reconhecimento e prestígio, coisas que alimentam a soberba humana. Entretanto,
devemos ter cautela com possíveis aplicações de literalismo insensato dessas passagens. Jesus está ensinando princípios de vida
espiritual a quem só conseguia enxergar regras exatas de comportamento religioso. Os cristãos, líderes (em grego kathegetai, guias
ou dirigentes) ou não, devem ser conhecidos por um espírito e atitudes diaconais (em grego diakonos, servo).
5
“Ai” é uma expressão de profunda tristeza e indignação da parte de Deus, expressa através dos lábios do seu Filho contra
a falsidade (hipocrisia) dos maiores conhecedores das Sagradas Escrituras da época e líderes religiosos dos judeus, o povo do
Cristo (Messias). Essa atitude apenas legalista, arrogante, soberba e desprovida de sincero amor a Deus e às pessoas, fazia que os
“prosélitos” (pagãos e gentios que se convertiam ao judaísmo) se tornassem ainda piores que seus mestres e não tivessem verda-
deira comunhão com Deus, o Pai (em aramaico: abba). Esses líderes religiosos e juízes de direito, eram tão dissimulados que chega-
vam a usar suas posições como juristas para processar viúvas ricas ou para fazer que elas lhes legassem suas propriedades.
6
Com relação aos juramentos, Jesus argumenta com os mestres fariseus, com seus próprios pressupostos em relação à Lei,
para lhes revelar o verdadeiro espírito da Lei e a vontade de Deus (5.33-37).
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54 MATEUS 23
23
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque dais o dízimo da hor-
telã, do endro e do cominho, mas tendes
descuidado dos preceitos mais impor-
tantes da Lei: a justiça, a misericórdia e
a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos,
sem omitir aqueles!
7
24
Líderes insensíveis! Pois coais o peque-
no mosquito, mas engolis um camelo!
8
25
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque limpais o exterior do
copo e do prato, mas por dentro, estes
estão repletos de avareza e cobiça.
26
Fariseu que não enxerga! Limpa, an-
tes de tudo, o interior do copo e do pra-
to, para que da mesma forma, o exterior
fque limpo!
27
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque sois parecidos aos
túmulos caiados: com bela aparência
por fora, mas por dentro estão cheios
de ossos de mortos e toda espécie de
imundície!
9
28
Assim também sois vós: exterior-
mente pareceis justos ao povo, mas
vosso interior está repleto de falsidade
e perversidade.
29
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque construís os sepul-
cros dos profetas, adornais os túmulos
dos justos.
30
E declarais: ‘Se tivéssemos vivido na
época dos nossos antepassados, não tería-
mos tomado parte com eles no assassina-
to dos profetas!’
31
Dessa forma, porém, testemunhais
contra vós mesmos que sois flhos dos
que mataram os profetas.
32
Acabai, pois, de encher a medida do
pecado de vossos pais!
33
Cobras venenosas, ninho de víboras!
Como escapareis da condenação do
inferno?
34
Por isso, eis que Eu vos envio profe-
tas, sábios e mestres. A uns assassinareis
e crucifcareis; a outros açoitareis nas
vossas sinagogas e perseguireis de cida-
de em cidade.
35
E, dessa maneira, sobre vós recairá todo
o sangue justo derramado na terra, desde
o sangue do justo Abel, até o sangue de
Zacarias, flho de Baraquias, a quem ma-
tastes entre o santuário e o altar.
10

36
Com toda a certeza vos asseguro, que
tudo isso ocorrerá a esta geração”.
O lamento sobre Jerusalém
(Lc 13.34-35)
37
“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassi-
nas os profetas e apedrejas os que te são
enviados! Quantas vezes Eu quis reunir
os teus flhos, como a galinha acolhe os
7
Oferecer ao Senhor a décima parte (o dízimo) de diversas ervas era uma prática religiosa baseada em Lv 27.30. Embora
o dízimo dos grãos, frutos, vinho e azeite fosse o exigido, dos judeus, pela Lei (Nm 18.12; Dt 14.22-23), os escribas e fariseus
haviam ampliado a lista dos itens especificados na Lei, para incluir o dízimo das menores e mais simples hortaliças. A hortelã
era usada como tempero e para adornar o chão das casas e sinagogas. O endro era usado como medicamento e para perfumar
ambientes. O cominho, que são as sementes de erva-doce, tinha vários usos culinários. Entretanto, o valor comercial dessas
ervas era mínimo; mas os fariseus desejavam mostrar ao povo um zelo religioso que, na verdade, não fazia parte de suas vidas
com Deus e com seus próximos.
8
Os escribas e fariseus coavam com muito cuidado toda água que bebiam através de um pano branco, bem tecido, para ter
certeza de não engolir nenhum pequeno mosquito; considerado pelos religiosos como o menor ser vivo impuro. Entretanto,
figuradamente, engoliam um camelo inteiro, um dos maiores animais impuros para os judeus, ao praticarem uma série de fraudes,
atrocidades e pecados.
9
Por ocasião da celebração da Páscoa, época em que os peregrinos de várias partes da Palestina iam a Jerusalém, e momento
no qual Jesus está falando, era costume pintar, várias vezes, toda a parte exterior dos sepulcros (túmulos) com cal. Isso para que
os túmulos pudessem ser vistos inclusive à noite, uma vez que, pela Lei, se alguém pisasse sobre um túmulo ou área de sepultura
tornava-se instantaneamente impuro (Nm 19.16). Por isso, todos pareciam iguais, limpos, belos e puros; mas em seu interior jazia
a morte, o mau cheiro e a podridão.
10
Os líderes religiosos judaicos no tempo de Jesus estavam acrescentando pecados sobre pecados à longa lista de seus pais
(antepassados) históricos. Jesus também seria um dos profetas martirizados. Seus apóstolos não seriam igualmente aceitos
(10.17,23). E Jesus resume a história dos martírios no AT citando o assassinato de Abel (Gn 4.8; Hb 11.4) e o martírio do profeta
Zacarias registrado no livro de Crônicas. Na Bíblia Hebraica, o último livro do AT (2Cr 24.20-22).
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55 MATEUS 23, 24
seus pintinhos debaixo das suas asas, mas
vós não o aceitastes!
11
38
Eis que a vossa casa fcará abandona-
da!
12
39
Pois eu vos declaro que, a partir de
agora, de modo algum me vereis,
até que venhais a dizer: ‘Bendito é o que
vem em o Nome do Senhor!’”
13

Jesus prediz o fnal dos tempos
(Mc 13.1-2; Lc 21.5-6)
24
Então, Jesus saiu do templo e, ao
caminhar, seus discípulos chega-
ram mais perto dele para lhe apontar as
construções do templo.
2 Ele, entretanto, lhes observou: “Estais
vendo todas estas coisas? Com toda a
certeza Eu vos afrmo que não fcará aqui
pedra sobre pedra, pois que serão todas
derrubadas”.
1
O princípio das dores
(Mc 13.3-13; Lc 21.7-19)
3
Tendo Jesus se assentado no monte das
Oliveiras, os discípulos chegaram até Ele
em particular e lhe pediram: “Dize-nos
11
O próprio Jesus reconhece que os seus próprios irmãos não o receberam. Deus tem feito tudo para seu povo, mas a rejeição
de Israel ilustra o coração empedernido da raça humana, em relação ao seu Criador (Jo 1.11).
12
Jesus faz referência a 1Rs 9.7-8; Jr 12.7, 22.5 e adverte seu povo. No ano 70 d.C. toda a nação de Israel e, em especial, a
cidade de Jerusalém, foram assoladas e profanadas pelos exércitos pagãos de Roma.
13
Jesus se despede de Jerusalém e do seu povo, declarando que não os ensinaria mais em público até sua volta em glória
no final dos tempos, quando Israel o receberá como o Messias que fora rejeitado (Zc 12.10). De agora em diante a salvação dos
judeus, como de qualquer outra pessoa sobre a face da terra, do mais alto líder religioso ou político ao mais simples ser humano,
só tem uma única possibilidade: a confissão do Senhor Jesus Cristo, como Salvador, Senhor e Filho de Deus (21.9, Sl 118.26).
Capítulo 24
1
O primeiro Templo foi idealizado por Davi (2Sm 7.2; 1Cr 22.8,3; 2Sm 24.18-25). Entretanto, coube a Salomão (em hebraico
transliterado shelômõh, homem de paz), seu filho com Bate-Seba (2Sm 12.24), a honra da sua construção, que teve início no
quarto ano do seu reinado e foi concluída sete anos mais tarde. Mas o filho de Salomão, Reoboão, não deu a mesma atenção ao
Templo e sucessivas pilhagens ocorreram desde Sisaque, do Egito (1Rs 14.26), até a invasão de Nabucodonosor em 587 a.C.
(2Rs 25.9,13-17). Mesmo depois de sua destruição, alguns fiéis ainda iam oferecer sacrifícios entre suas ruínas (Jr 41.5). Hoje
em dia não há qualquer estrutura do antigo Templo de Salomão acima do nível do chão. Porém, curiosamente, sobre os seus
escombros foi construída a mesquita mulçumana, conhecida como “Cúpula da Rocha”, destaque na maioria dos cartões postais
de Israel (2Cr 3.1; 2Sm 24.24). O segundo Templo foi erguido por ocasião do retorno dos exilados da Babilônia, cerca de 537 a.C,
conforme autorização e ajuda de Ciro, rei da Pérsia, e do ministério de Neemias e Esdras (Nm 2.11-20). Toda a área teve de ser
limpa do entulho do primeiro Templo destruído (Ed 1; 3.2-10). A arca havia desaparecido no tempo do exílio e jamais foi encontra-
da. No lugar do candelabro de Salomão, com dez lâmpadas, foi colocado um novo, com sete hastes, juntamente com uma mesa
de ouro para os pães da proposição e o altar do incenso. Esses e outros objetos sagrados foram tomados como despojos pelo
rei da Síria, Antíoco IV Epifânio (entre 175 e 163 a.C.), o qual colocou um altar e uma estátua pagã no lugar santo, no dia 15 de
dezembro de 167 a.C. Os macabeus venceram os sírios e purificaram o Templo (1Macabeus 1.54; 4.35-59), substituindo todos os
seus móveis e transformando o Templo numa fortaleza que lhes permitiu resistir durante três meses ao cerco de Pompeu (63 a.C.)
quando foi, então, destruído (os livros dos Macabeus, com alguns outros, não são considerados canônicos, por isso não fazem
parte da maioria das Bíblias evangélicas em língua portuguesa, entretanto, muitos de seus relatos históricos são dignos de crédi-
to). A terceira construção, chamada de Templo de Herodes, começou no ano 19 a.C., mas seu motivo principal não foi glorificar
a Deus, e, sim, reconciliar os judeus com o seu rei gentio (idumeu). Mesmo assim, o rei teve grande cuidado com a reverência
ao Templo, convocou mil sacerdotes que foram treinados como pedreiros para conduzir a edificação do santuário, e procuraram
construir uma cópia do Templo de Salomão. Em uma área com mais de 144.000 m
2
, ergueu-se uma magnífica estrutura de
pedras creme, adornadas de ouro. Um muro feito com blocos de pedras com 60 cm de largura por até 5 metros de comprimento
circundava o Templo. Contudo, alguns anos após o término da construção, exatamente 40 anos depois da profecia de Jesus,
durante as celebrações da Páscoa judaica, as tropas do comandante romano Tito tomaram posição de combate, às portas de
Jerusalém. A cidade estava em festa e repleta de judeus de todas as partes. Os dois mais poderosos partidos judaicos, que deve-
riam estar atentos à defesa da cidade contra Roma, achavam-se em violenta guerra interna, a ponto de incendiarem os estoques
de alimentos um do outro. Somente quando os enormes aríetes dos romanos arrebentaram o primeiro portão de Jerusalém foi
que os políticos decidiram se unir contra o invasor. Tarde demais. Tito incendiou tudo, e até as pedras foram separadas para
colher o ouro derretido que se infiltrara nas junções. O comandante romano deixou apenas um resto da muralha, como símbolo
do aniquilamento de Israel, conhecido em nossos dias como ‘Muro das Lamentações’. Mais de um milhão de judeus morreram
naquela época. Todas as estradas que passavam por Jerusalém estavam tomadas por judeus crucificados. Os sobreviventes fo-
ram vendidos ou negociados como escravos. Israel desapareceu como nação e os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro,
sob a maior humilhação já sofrida por um povo até nossos dias. Em homenagem à marcha triunfal de Tito, foi construído o arco
do triunfo, o “Arco de Tito”. Esse monumento persiste em Roma até hoje e mostra, em seus trabalhos de escultura, cenas das
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56 MATEUS 24
quando ocorrerão estas coisas?
2
E qual
será o sinal da tua vinda e do fnal dos
tempos?”.
4
Então Jesus lhes revelou: “Cuidado, que
ninguém vos seduza.
5
Pois muitos são os que virão em meu
nome, proclamando: ‘Eu sou o Cristo!’, e
desencaminharão muitas pessoas.
6
E vós ouvireis falar de guerras e rumo-
res de guerras, todavia não vos deses-
pereis, porque é preciso que tais coisas
ocorram, mas ainda não será o fm.
7
Porquanto, nação se levantará contra
nação, e reino contra reino. Haverá fo-
mes e terremotos em vários lugares.
8
Contudo, esses acontecimentos serão ape-
nas como as primeiras dores de um parto.
9
Então eles vos entregarão para serem
afigidos e condenados à morte. E sereis
odiados por todas as nações por serem
meus seguidores.
10
Nessa época, muitos fcarão escandali-
zados, trairão uns aos outros e se odiarão
mutuamente.
11
Então, numerosos falsos profetas sur-
girão e enganarão a muitos.
12
E, por causa da multiplicação da mal-
dade, o amor da maioria das pessoas se
esfriará.
13
Aquele, porém, que continuar frme
até o fnal será salvo.
14
E este evangelho do Reino será pre-
gado em todo o mundo habitado, como
testemunho a todas as nações, e então
chegará o fm.
A grande tribulação
(Mc 13.14-23; Lc 21.7-19)
15
E, assim, quando virdes a profanação
horrível da qual falou o profeta Daniel, no
Lugar Santo (ao ler o profeta entendereis
isso),
3
16
então, os que estiverem na Judéia fu-
jam para os montes.
4
17
Quem estiver sobre o telhado de sua casa,
não desça para retirar dela coisa alguma.
legiões romanas carregando os objetos sagrados e valiosos do Templo, e os mais valorosos guerreiros judeus algemados. Tito
profanou o Templo, entrando no santo lugar, despojando todo o tesouro e utensílios preciosos, tais como o grande candelabro
de ouro maciço, uma réplica dourada da arca com os preciosos rolos sagrados da Lei, a mesa de ouro e muitos outros objetos
preciosos. Finalmente, o imperador Vespasiano, pai de Tito, declarou toda a nação de Israel como sua propriedade particular e
doou grandes propriedades a seus amigos e colaboradores, entre eles o conhecido historiador judeu e fariseu, Flávio Josefo, cujo
carisma e poder intelectual haviam conquistado a amizade do rei e a cidadania romana.
2
Jesus se retira do Templo e sobe com os discípulos em direção ao monte das Oliveiras - uma cordilheira, a leste de Jerusalém,
do outro lado do vale Cedrom, com quase dois quilômetros de extensão e cerca de 70 metros acima do nível da cidade (Mc
11.1). De agora em diante, nunca mais entrará no Templo. Tudo é parte da grande visão profética de Ezequiel, que viu a glória do
Senhor abandonar a cidade de Jerusalém e o Templo, mais precisamente em direção ao monte das Oliveiras (Ez 8.4-6). Naquele
momento estava se cumprindo a Palavra do Senhor que veio a Ezequiel em 592 a.C. Ao chegar ao alto do monte, Jesus lança
um último olhar sobre a cidade amada que o rejeitou. Ao pôr-do-sol, senta-se com seus discípulos e ficam observando a noite
chegar sobre o Templo e o povo de Jerusalém. Jesus não revela quando sucederão essas coisas, mas responde, em forma de
profecia, às demais questões: O fim dos tempos entre os versículos 4-14; a destruição de Jerusalém entre 15-22 (Lc 21.20), e o
glorioso retorno de Jesus Cristo entre 23-31.
3
A expressão grega, aqui transliterada por bdelugma tes eremoses vem do hebraico shiqquçe shõmem e significa: “a
profanação horrível”, “o sacrilégio terrível”, ou ainda, como em versões antigas: “o abominável da desolação”. Essas são formas
de traduzir o significado literal da frase original: “a coisa abominável que causa horror e repulsa” (Dn 9.27; 11.31; 12.11). Jesus
ressalta que os leitores do livro escrito pelo profeta Daniel poderão compreender melhor o que ele está dizendo. Jesus faz
referência a um tipo de idolatria tão perversa e antagônica a todos quantos crêem no Pai de Cristo, como ocorreu no ano 168 a.C.,
quando o rei Antíoco Epifânio erigiu um altar a Zeus no lugar do altar de Jeová (em hebraico  transliterado por Yahweh –
1Macabeus 1.54-59; 6.7; 2Macabeus 6.1-5). Assim também aconteceu no ano 70 d.C., quando os romanos ofereceram sacrifícios
pagãos em Jerusalém, no lugar sagrado, ao proclamar Tito imperador supremo (2Ts 2.4; Ap 13.14-15). A história registra que
muitos cristãos e judeus, pouco antes do ano 70 d.C., lembraram-se das palavras de Jesus, cumpriram à risca as orientações
proféticas e tiveram suas vidas salvas daquelas catástrofes e perseguições. O Grande Retorno de Jesus, em glória, marca o final
da ordem mundana, na qual vivemos. Porém, antes disso, surgirão muitos enganadores, falsos messias (cristos), o tema guerra
e terrorismo dominará a mídia mundial, tribulações, terremotos, vulcões, tempestades, alterações na atmosfera, no clima, falsos
profetas por toda parte, multiplicação da iniqüidade (maldade) e da arrogância cientifica, lascívia, bestialidades, esfriamento do
amor e das virtudes morais e éticas. Todos esses são apenas sinais que criam o ambiente para a manifestação do maior dos
sinais: a pregação do Evangelho até os confins da terra (28.18-20). Então virá o fim.
4
A história registra que muitos cristãos, pouco antes do ano 70 d.C., fugiram de Jerusalém e se refugiaram nas montanhas
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57 MATEUS 24
18
E aquele que estiver no campo, não
volte para pegar sua túnica.
19
Serão dias terríveis para as mulheres
grávidas e para as que estiverem ama-
mentando.
20
E orai para que a vossa fuga não ocorra
durante o inverno nem no sábado.
5
21
Porquanto haverá nessa época grande
tribulação, como jamais aconteceu desde
o início do mundo até agora, nem nunca
mais haverá.
6
22
E, se aqueles dias não tivessem sido
abreviados, nenhuma carne seria salva.
Mas, por causa dos eleitos, aquele tempo
será encurtado.
7
23
Então, se alguém vos anunciar: ‘Vede,
aqui está o Cristo!’ ou ‘Ei-lo ali!’ Não
acrediteis.
24
Pois se levantarão falsos cristos e falsos
profetas e apresentarão grandes milagres
e prodígios para, se possível, iludir até
mesmo os eleitos.
8
25
Vede que Eu o preanunciei a vós!
26
Portanto, se vos disserem: ‘Eis que Ele
está no deserto!’- não saiais. Ou ainda:
‘Ele está ali mesmo, nos cômodos de
uma casa!’- não acrediteis.
27
Pois, da mesma maneira como o re-
lâmpago parte do oriente e brilha até no
ocidente, assim também se dará a vinda
do Filho do homem.
9
28
Onde houver um cadáver, aí se reuni-
rão os abutres.
O retorno de Cristo em glória
(Mc 13.24-27; Lc 21.25-28)
29
Imediatamente após o tormento da-
queles dias, o sol escurecerá e a lua não
dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu,
e os poderes celestes serão estremecidos.
30
Então surgirá no céu o sinal do Filho
do homem, e todos os povos da terra
prantearão e verão o Filho do homem
chegando nas nuvens do céu com poder
e majestosa glória.
10
31
Ele enviará os seus anjos, com podero-
so som de trombeta, e estes reunirão os
seus eleitos dos quatro ventos, de uma a
outra extremidade dos céus.
A lição da fgueira: o Dia do Senhor
(Mc 13.28-37; Lc 21.29-36)
32
Portanto, aprendei com a parábola da
fgueira: quando, pois, os seus ramos se
renovam e suas folhas começam a brotar,
sabeis que está próximo o verão.
33
Da mesma forma vós: quando virdes
todos esses acontecimentos, sabei que
Ele está muito próximo, às portas.
11
34
Com toda a certeza Eu vos afrmo, que
não passará esta geração até que todos
esses eventos se realizem.
da Transjordânia, onde se localizavam as terras de Pella. Fuga semelhante haverá num período futuro de tribulação conhecido
como a 70
a
Semana de Daniel (Dn 9.27). Entretanto, aquelas pessoas que verdadeiramente crêem no Senhor (os salvos, a Igreja),
serão arrebatadas da terra no exato momento em que Cristo cruzar a atmosfera da terra. Os cristãos não precisarão fugir, apenas
devem perseverar até o Dia do Senhor.
5
Gestantes, idosos e pessoas com deficiência física terão maior dificuldade naqueles dias de tribulação e perseguição. Mateus,
como escreve principalmente aos judeus, observa os detalhes do inverno e do sábado, dia em que os judeus somente podiam
caminhar 800 metros.
6
O historiador judeu-romano Flávio Josefo foi testemunha ocular desta terrível tribulação e narra o episódio com palavras pareci-
das às de Jesus. Entretanto, aquela grande tribulação foi apenas mais um sinal da maior das tribulações ainda por vir (Dn 12.1).
7
Este último e terrível tempo de aflição será abreviado em relação ao que já havia sido pré-determinado nas profecias (como
a 70
a
Semana de Daniel – Dn 9.27, ou os 42 meses mencionados em Ap 11.2; 13.5). Os eleitos são o povo de Deus em todo o
mundo, a Igreja de Jesus Cristo.
8
Compare esta descrição com a pessoa do anticristo revelada em 2Ts 2.9-10.
9
Que ninguém se iluda. A segunda e definitiva volta de Jesus Cristo será um evento portentoso. Em segundos, a glória e o
brilho da sua presença varrerão o planeta, e os salvos (sua Igreja) serão arrebatados, sumindo instantaneamente de toda a terra.
(27, 31, 1Co 15.12; 1Ts 4.16,17). Jesus cita um antigo provérbio para explicar que seu glorioso retorno será tão certo quanto o es-
voaçar dos urubus (abutres: aves falconiformes e vulturídeas comuns no Oriente e Europa) sobre um cadáver. Ou seja, o mundo
está moribundo e os urubus já sobrevoam aqueles que morrerão e lhes servirão de banquete (Lc 17.37).
10
Fenômenos cósmicos acompanharão a volta triunfal do Filho do homem (Mc 8.31, Ap 1.7). O brilho, como um relâmpago,
que o mundo inteiro verá, é a Shekinah: a glória do Senhor (Is 13.10; 24.21-23; 34.4; Ez 32.7-8; Jl 2.10,31; 3.15; Am 8.9, 2Ts
1.6-10; Ap 19.11-16).
11
No Oriente as figueiras anunciam o início do verão, quando renovam seus ramos e novas folhas brotam. Esse evento é tão
certo e esperado quanto o será a volta de Cristo, e por isso todos os cristãos devem estar preparados para não serem apanhados
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58 MATEUS 24
35
O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras jamais passarão.
Só Deus sabe o dia e a hora exatos
(Mc 13.32-37)
36
Entretanto, a respeito daquele dia e
hora ninguém sabe, nem os anjos dos
céus, nem o Filho, senão exclusivamente
o Pai.
12
37
Como aconteceu nos dias de Noé,
assim também se dará por ocasião da
chegada do Filho do homem.
38
Porque nos dias que antecederam ao
Dilúvio, o povo levava a vida comendo
e bebendo, casando-se e oferecendo-se
em matrimônio, até o dia em que Noé
entrou na arca,
39
e as pessoas nem notaram, até que
chegou o Dilúvio e levou a todos. Assim
ocorrerá na vinda do Filho do homem.
40
Dois homens estarão na lavoura: um
será arrebatado, mas o outro deixado.
41
Duas mulheres estarão trabalhando
num moinho: uma será arrebatada, a
outra fcará pra trás.
42
Por isso, vigiai, porquanto não sabeis
em que dia virá o vosso Senhor.
13
43
Contudo, entendei isto: se o proprie-
tário de uma casa soubesse a que hora
viria o ladrão, se colocaria em sentinela
e não permitiria que a sua residência
fosse violada.
44
Portanto, fcai igualmente vós alertas;
pois o Filho do homem virá no momento
em que menos esperais.
14
O destino do bom e do mau servo
(Lc 12.42-46)
45
Sendo assim, quem é o servo fel e
sábio, a quem o senhor confou os de
sua casa para dar-lhes alimento no seu
devido tempo?
46
Feliz aquele servo a quem o seu senhor,
quando voltar, o encontrar agindo dessa
maneira.
47
Com certeza vos afrmo que o senhor
confará a seu servo todos os seus bens.
48
Entretanto, supondo que esse servo,
sendo mau, diga a si mesmo: ‘Meu se-
nhor está demorando muito’,
49
e, por isso, passe a agredir os seus
conservos e a comer e beber com be-
berrões.
50
O senhor daquele servo virá num dia
inesperado e numa hora que o servo
desconhece.
51
E o senhor o punirá com toda a seve-
ridade e lhe dará um lugar ao lado dos
hipócritas, onde haverá grande lamento
e ranger de dentes.
15

As virgens sábias e as tolas
25
Portanto, o Reino dos céus será
semelhante a dez virgens que pe-
de surpresa, como acontecerá com o mundo descrente. Jesus ainda afirma que a geração que presenciar o início dos sinais
também verá sua volta triunfal. A expressão “geração” (em grego antigo genea), também podia significar “raça” ou “família” e, por
certo, Jesus fez referência à profecia de que o povo judeu não seria exterminado da terra por mais que seus muitos inimigos, em
todas as épocas, tenham se empenhado nesse objetivo (Mc 13.30; Lc 21.32). As palavras de Jesus são todas mais verdadeiras
e duradouras que o Universo.
12
O Dia do Senhor é uma expressão que se refere ao AT como o dia em que Jesus voltará em glória para levar seu povo (a
Igreja) para a Nova Jerusalém (Am 8.3,9,13; 9.11; Mq 4.6; 5.10; 7.11). Mas o dia exato desse evento a ninguém foi revelado, e
Jesus, enquanto esteve na terra, também não pretendeu saber, pois decidiu em tudo obedecer ao Pai e viver pela fé como todo
ser humano deveria.
13
Jesus dedica seis parábolas para enfatizar a extrema necessidade da vigilância, enquanto estamos vivos na terra e ele não
retorna: O porteiro (Mc 13.35-37). O pai de família (Mt 24.43-44). O servo fiel (24.45-51). As dez virgens (25.1-13). Os talentos
(25.14-30). As ovelhas e os bodes (25.31-46). A vida passa, e passa muito rápido. É preciso estar com a consciência tranqüila de
que amamos ao Senhor e buscamos praticar sua vontade em todas as áreas de nossa vida íntima e relacional.
14
Jesus nos adverte de que perto da sua volta, o mundo estará descrente, religioso talvez, mas sem a convicção da salvação
nem da militância evangélica. O poder do sistema mundial forçará muitos religiosos a se afastarem de Deus e de sua Palavra.
Intérpretes de um “evangelho” que não é o de Cristo conduzirão milhões de pessoas à perdição. Até os cristãos fiéis correrão o
risco de ser enganados por um estilo de vida massificado pelo sistema (globalização do pensamento humanista, cético e hedonis-
ta) e serão apanhados de surpresa pela iminente volta do Senhor. Não é sábio tentar calcular a data do retorno de Jesus. É mais
errôneo, porém, negligenciar esse evento fatal. A expectativa da volta de Cristo confere senso de urgência e dinâmica à missão
evangélica em toda a terra. A parábola do “bom e mau servos” ensina como o filho de Deus deve viver sua vida cristã (45-51).
15
O contexto revela que “hipócrita” é aquele cuja vida prática não corresponde à sua alegada fidelidade a Cristo. A expressão
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59 MATEUS 24, 25
garam suas candeias e saíram para encon-
trar-se com o noivo.
1
2
Cinco delas eram sábias, mas outras
cinco eram inconseqüentes.
3
As que eram inconseqüentes, ao pega-
rem suas candeias, não levaram óleo de
reserva consigo.
4
Entretanto, as prudentes, levaram óleo
em vasilhas, junto com suas candeias.
2
5
O noivo demorou a chegar, e todas fca-
ram com sono e adormeceram.
6
À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Eis
que vem o noivo! Saí ao seu encontro!’
7
Então, todas as virgens acordaram e
foram preparar suas candeias.
3

8
As insensatas recorreram às sábias: ‘Dai-
nos um pouco do vosso azeite, porque as
nossas candeias estão se apagando’.
9
Porém as sábias responderam: ‘Não po-
demos, pois assim faltará tanto para nós
quanto para vós outras! Ide, portanto,
aos que o vendem e comprai-o’.
10
Mas, saindo elas para comprar, chegou
o noivo. As virgens que estavam prepara-
das entraram com ele para o banquete de
núpcias. E a porta foi fechada.
11
Mais tarde, todavia, chegaram as vir-
gens imprudentes e clamaram: ‘Senhor!
Senhor! Abre a porta para nós!’
12
Contudo ele lhes respondeu: ‘Com
certeza vos afrmo que não vos conheço’.
13
Portanto, vigiai, pois não sabeis o dia,
tampouco a hora em que o Filho do
homem chegará.
4
O investimento dos talentos
14
Digo também que o Reino será como
um senhor que, ao sair de viagem, con-
vocou seus servos e confou-lhes os seus
bens.
15
A um deu cinco talentos, a outro, dois
e a outro, um talento; a cada um con-
forme a sua capacidade pessoal. E, em
seguida, partiu de viagem.
5
16
O que havia recebido cinco talentos
saiu imediatamente, investiu-os, e ga-
nhou mais cinco.
17
Da mesma forma, o que recebera dois
talentos ganhou outros dois.
18
Entretanto, o que tinha recebido um
talento afastou-se, cavou um buraco na
terra e escondeu o dinheiro que o seu se-
nhor havia confado aos seus cuidados.
19
Após um longo tempo, retornou o se-
nhor daqueles servos e foi acertar contas
com eles.
20
Então, o servo que recebera cinco ta-
lentos se aproximou do seu senhor e lhe
“ranger de dentes” só é usada em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e tem a ver com o profundo, doloroso e eterno arre-
pendimento que os incrédulos e os falsos cristãos (hipócritas) sentirão a partir do Dia do Senhor.
Capítulo 25
1
Havia duas fases nos casamentos judaicos típicos da época de Cristo. Na primeira, o noivo ia à casa da noiva e participava da
cerimônia de entrega da noiva. Na outra fase, o noivo voltava e a levava para um grande banquete em sua casa. As virgens eram
damas-de-honra e tinham o dever cerimonial de preparar a noiva para o encontro com o noivo.
2
Essas candeias eram grandes tochas, capazes de permanecer acesas ao ar livre, feitas com longas varas, com trapos
enrolados numa das pontas, embebidos em azeite de oliva. Pequenas candeias de barro eram comumente usadas no interior
das residências.
3
Quando o azeite era consumido pelo fogo cortavam-se as pontas chamuscadas dos trapos e adicionava-se mais óleo para
um novo período médio de iluminação de 15 minutos.
4
Essa parábola é continuação da mensagem de Jesus sobre a necessidade do cristão estar sempre preparado e vigilante, pois
a volta do Senhor é certa, repentina e iminente. Essa expectativa quanto ao glorioso retorno de Jesus confere ética, dinamismo e
senso de urgência à evangelização e ao estilo de vida cristão. A mensagem de Cristo é também um forte apelo aos israelitas em
todo o mundo, para que coloquem sua esperança no Noivo Eterno: O Senhor Jesus. Ele é o Messias prometido. A parábola das
dez virgens, como é conhecido este trecho das Escrituras, não está ensinando que Cristo arrebatará os atentos e preparados es-
piritualmente e deixará para trás “crentes” distraídos ou negligentes. Se cinco virgens ficaram sem óleo (o Espírito) é porque nun-
ca creram verdadeiramente no Senhor, pois todo o que crê – recebe o Espírito Santo – e será salvo (24.13; Jo 1.12; Hb 3.13-14).
5
Um talento correspondia à cerca de 35 quilos de prata pura, o equivalente a 6.000 denários (o denário, como já vimos, era uma
moeda de prata e valia um dia de trabalho de um soldado romano). Deus concede, aos cristãos, fé e capacidades espirituais para,
em primeiro lugar, compreenderem a pessoa e a obra do Seu Filho Jesus, e, em seguida, para servirem no Reino: testemunhando,
anunciando a Salvação e cooperando com o Corpo de Cristo, a Igreja. Curiosamente, o uso atual da expressão portuguesa
“talento”, significando o conjunto de dons, capacidades e habilidades de uma pessoa, originou-se com base nessa parábola
(Lc 19.13). Jesus não está ensinando que o julgamento das pessoas em geral e dos cristãos em particular tem algo a ver com
o esforço pessoal e o pleno uso dos dons e capacidades, pois o caminho da Salvação é bem diferente. O uso dos talentos é
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60 MATEUS 25
entregou mais cinco talentos, informan-
do: ‘O senhor me confou cinco talentos;
eis aqui mais cinco talentos que ganhei’.
21
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem,
servo bom e fel! Foste fel no pouco,
muito confarei em tuas mãos para ad-
ministrar. Entra e participa da alegria do
teu senhor!’.
22
Assim também, aproximou-se o que
recebera dois talentos e relatou: ‘Senhor,
dois talentos me confaste; trago-lhe
mais dois talentos que ganhei’.
23
O senhor lhe disse: ‘Muito bem, servo
bom e fel! Foste fel no pouco, muito con-
farei em tuas mãos para administrar. En-
tra e participa da alegria do teu senhor!’.
24
Chegando, fnalmente, o que tinha
recebido apenas um talento, explicou:
‘Senhor, eu te conheço, sei que és um ho-
mem severo, que colhe onde não plantou
e ajunta onde não semeou.
25
Por isso, tive receio e escondi no chão
o teu talento. Aqui está, toma de volta o
que te pertence’.
26
Sentenciou-lhe, porém, o senhor:
‘Servo mau e negligente! Sabias que co-
lho onde não plantei e ajunto onde não
semeei?
27
Então, por isso, ao menos devíeis ter
investido meu talento com os banquei-
ros, para que quando eu retornasse, o
recebesse de volta, mais os juros.
6
28
Sendo assim, tirai dele o talento que
lhe confei e dai-o ao servo que agora está
com dez talentos.
29
Pois a quem tem, mais lhe será con-
fado, e possuirá em abundância. Mas a
quem não tem, até o que tem lhe será
tirado.
30
Quanto ao servo inútil, lançai-o para
fora, às trevas. Ali haverá muito pranto e
ranger de dentes’.
7

O juízo fnal
31
Quando o Filho do homem vier em
sua glória, com todos os anjos, então,
se assentará em seu trono na glória nos
céus.
32
Todas as nações serão reunidas diante
dele, e Ele irá separar umas das outras,
como o pastor separa os bodes das ove-
lhas.
33
E posicionará as ovelhas à sua direita e
os bodes à sua esquerda.
34
Então, dirá o Rei a todos que estiverem
à sua direita:‘Vinde, abençoados de meu
Pai! Recebei como herança o Reino, o
qual vos foi preparado desde a fundação
do mundo.
35
Pois tive fome, e me destes de comer,
tive sede, e me destes de beber; fui es-
trangeiro, e vós me acolhestes.
36
Quando necessitei de roupas, vós me
vestistes; estive enfermo, e vós me cui-
dastes; estive preso, e fostes visitar-me’.
37
Então, os justos desejarão saber: ‘Mas,
Senhor! Quando foi que te encontramos
com fome e te demos de comer? Ou com
sede e te saciamos?
38
E quando te recebemos como estran-
geiro e te hospedamos? Ou necessitado
de roupas e te vestimos?
39
Ou ainda, quando estiveste doente ou
encarcerado e fomos ver-te?’.
apenas uma conseqüência natural na vida diária de quem já foi contemplado, abraçou a fé em Jesus e agora vive a alegria da
Salvação, mesmo em meio aos sofrimentos deste mundo. É um julgamento semelhante àquele pronunciado contra o convidado
que comparece à festa eterna sem vestir-se da justificação (salvação) em Cristo (22.12-14).
6
A palavra “banqueiro” vem do grego trapeza (mesa), e ainda hoje é comum ver essa palavra nas fachadas das instituições
financeiras na Grécia. Na época de Jesus, os “banqueiros” eram pessoas que ficavam sentadas atrás de pequenas mesas e
trocavam dinheiro (21.12). Outra palavra interessante é “juro”, que tinha o sentido de “prole”, ou seja, os juros eram considerados
“filhotes” do principal emprestado ou investido.
7
Os escravos foram libertos e elevados à posição de servos (mordomos), aos quais aquele senhor confiou todos os seus bens.
O servo que não fez uso do talento concedido, agiu assim porque não gostava do seu senhor e desconfiava dele. Não queria
trabalhar e se arriscar apenas para tornar o senhor mais rico. Preferiu a conveniência e a tranqüilidade de uma aparente isenção
de responsabilidade. Os dons e talentos de Deus multiplicam-se quando os utilizamos, pois transformam nossas vidas e ficamos
preparados para receber ainda mais da plenitude do Espírito Santo. O amor de Cristo em nós gera mais amor, a fé mais fé, o
caráter mais caráter de Deus nos crentes, e a obediência à Palavra do Senhor produz uma fonte de virtudes que influencia todo
o ambiente (2Pe 1.3-7).
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61 MATEUS 25, 26
40
Então o Rei, esclarecendo-lhes respon-
derá: ‘Com toda a certeza vos asseguro
que, sempre que o fzestes para algum
destes meus irmãos, mesmo que ao me-
nor deles, a mim o fzestes’.
8
41
Mas o Rei ordenará aos que estiverem
à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de
mim. Ide para o fogo eterno, preparado
para o Diabo e os seus anjos.
42
Porquanto tive fome, e não me destes
de comer; tive sede, e nada me destes de
beber.
43
Sendo estrangeiro, não me hospedas-
tes; estando necessitado de roupas, não
me vestistes; encontrando-me enfermo e
aprisionado, não fostes visitar-me’.
44
E eles também perguntarão: ‘Mas Se-
nhor! Quando foi que te vimos com fome,
sedento, estrangeiro, necessitado de rou-
pas, doente ou preso e não te auxiliamos?’
45
Então o Rei lhes sentenciará: ‘Com
toda a certeza vos asseguro que, sempre
que o deixastes de fazer para algum des-
tes meus irmãos, mesmo que ao menor
deles, a mim o deixastes de fazer’.
46
Sendo assim, estes irão para o sofri-
mento eterno, porém os justos, para a
vida eterna”.
A trama para matar Jesus
(Mc 14.3-9; Lc 22.1-2; Jo 11.45-53)
26
Tendo Jesus concluído esses en-
sinamentos, declarou aos seus
discípulos:
2
“Como sabeis, daqui a dois dias, a Pás-
coa será celebrada; e o Filho do homem
será entregue para ser crucifcado”.
1
3
Enquanto isso, os chefes dos sacerdo-
tes e os anciãos do povo se reuniram no
palácio do sumo sacerdote, cujo nome
era Caifás.
2
4
E fzeram um acordo para prender Je-
sus por meio de traição e matá-lo.
5
Porém recomendaram: “Que isso não
seja feito durante a festa, para que não
ocorra grande alvoroço entre o povo”.
Jesus é ungido para o sacrifício
(Mc 14.3-9; Jo 12.1-8)
6
E aconteceu que, estando Jesus em Be-
tânia, na casa de Simão, o leproso,
7
chegou próximo dele uma mulher
portando um frasco de alabastro, repleto
de perfume caríssimo, e lhe derramou
sobre a cabeça, enquanto ele estava
reclinado à mesa.
8
Diante daquela cena, os discípulos se
8
Jesus ensina que o grande pecado do ser humano é a falta do exercício do amor verdadeiro: primeiro em relação ao seu
Criador e depois para com seu semelhante e próximo (Tg 4.1-17). Há duas interpretações escatológicas mais aceitas, sobre
esse aspecto do Julgamento: 1) Vai acontecer no início de um reino milenar na terra e definirá quem terá o direito de fazer parte
do Reino (vv.31,34), com base no tratamento dispensado ao povo israelense (“meus irmãos, mesmo que ao menor deles”
– vv.40-46) no período anterior à Grande Tribulação (vv.35-40, 42-45). 2) Para muitos estudiosos, o Julgamento ocorrerá diante
do Trono Branco no final dos tempos (Ap 20.11-15). Seu objetivo será identificar as pessoas de todas as épocas, culturas,
povos e nações que poderão ingressar no reino eterno dos salvos e aqueles que serão condenados a viver em punição eterna
no inferno (vv.34,36). A base desse julgamento definitivo será a atitude de amor com a qual, aqueles que afirmam crer em Deus,
trataram seus irmãos e semelhantes (1Jo 3.11-24).
Capítulo 26
1
Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de
habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um
período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre
a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão
(o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora
o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que
significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de
35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrepen-
dimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida
no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no
dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e
fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8).
2
Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como
Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor
de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.
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62 MATEUS 26
indignaram e comentaram: “Por que este
desperdício?
9
Porquanto esse perfume poderia ser
vendido por alto preço e o dinheiro dado
aos pobres!”.
10
Percebendo isso, Jesus repreendeu-os:
“Por que molestais esta mulher? Ela pra-
ticou uma boa ação para comigo.
11
Pois, quanto aos pobres, sempre os
tendes convosco, mas a mim nem sem-
pre me tereis.
12
Ao derramar sobre o meu corpo esse
bálsamo, ela o fez como que preparando-
me para o sepultamento.
3
13
Com toda a certeza vos afrmo: Em
todos os lugares do mundo, onde este
evangelho for pregado, igualmente será
contado o que essa mulher realizou,
como um memorial a ela”.
O pacto da traição
(Mc 14.10-11; Lc 22.3-6)
14
E aconteceu que um dos Doze, chama-
do Judas Iscariotes, foi ao encontro dos
chefes dos sacerdotes e lhes propôs:
15
“O que me dareis caso eu vo-lo entre-
gue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moe-
das de prata.
16
E, desse momento em diante, procu-
rava Judas uma ocasião apropriada para
entregar Jesus.
A Ceia do Senhor
(Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)
17
No primeiro dia da festa dos Pães
Asmos, os discípulos aproximaram-se de
Jesus e o consultaram: “Onde desejas que
preparemos a refeição da Páscoa?”.
18
Ao que Jesus os orientou: “Ide à
cidade, procurai um certo homem e
falai a ele: ‘O Mestre manda dizer-te: É
chegada a minha hora. Desejo celebrar
a Páscoa em tua casa, juntamente com
meus discípulos.’”
19
Os discípulos fzeram como Jesus
lhes havia instruído e prepararam a
Páscoa.
4

Jesus revela o traidor
(Mc 14.17-21; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30)
20
Ao pôr-do-sol, estava Jesus reclinado,
próximo à mesa, com os Doze.
5
3
Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo
de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as al-
mofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus,
em hebraico: ), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada
pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião,
Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a
responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria
a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de
plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón).
Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no
instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e
aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (20.2; Jo 6.7). Maria
ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os
judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios
básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13.1-17). Considerando
que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à
pessoa de Cristo (Jo 12.4-5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer
os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem
é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação
(somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma
alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano
(Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações
em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus.
4
Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12.1-11) e tiveram de imolar o
cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado
religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a
Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12).
5
É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (Jo
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63 MATEUS 26
21
E, durante a refeição, Jesus revelou:
“Com toda a certeza vos afrmo que um
dentre vós me trairá”.
22
Essa declaração consternou a todos e
começaram a indagar, um após outro:
“Senhor! Porventura, serei eu?”.
23
Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu
juntamente comigo, do mesmo prato,
este é o que vai me trair.
24
O Filho do homem vai, como de fato
está escrito a respeito dele. Mas ai daque-
le que trai o Filho do homem! Melhor
lhe seria jamais haver nascido”.
25
Então Judas, que haveria de consumar
a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu
Mestre?”. E Jesus afrmou-lhe: “Sim, tu o
declaraste!”.
6
A Ceia do Senhor
(Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25)
26
Enquanto comiam, Jesus pegou um
pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos
seus discípulos, recomendando: “Tomai,
comei; isto é o meu corpo”.
27
Em seguida tomou um cálice, deu graças
e o entregou aos seus discípulos, procla-
mando: “Bebei dele todos vós.
28
Pois isto é o meu sangue da aliança,
derramado em benefício de muitos, para
remissão de pecados.
29
E vos afrmo que, de agora em diante,
não mais tomarei deste fruto da videira
até aquele dia em que beberei o novo
vinho, convosco, no Reino de meu Pai”.
30
E assim, após terem cantado um hino
de louvor, saíram para o monte das Oli-
veiras.
7
Jesus prediz a traição de Pedro
(Mc 14.27-31; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)
31
Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta
noite, todos vós me abandonareis. Pois
assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as
ovelhas do rebanho serão afugentadas’.
8
32
Todavia, depois de ressuscitar, seguirei
adiante de vós rumo à Galiléia”.
33
Respondeu-lhe Pedro: “Ainda que
venhas a ser motivo de escândalo para
todos, eu jamais te abandonarei!”.
34
Replicou-lhe Jesus: “Com certeza te asse-
guro que, ainda nesta noite, antes mesmo
que o galo cante, três vezes tu me negarás”.
35
Então Pedro lhe declarou: “Mesmo que
seja necessário que eu morra junto a ti, de
modo algum te negarei!”. E todos os discí-
pulos fzeram a mesma afrmação.
Jesus ora no Getsêmani
(Mc 14.32-42; Lc 22.39-46)
36
Seguiu Jesus com seus discípulos e
13.1-20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26.21-25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt
26.26-29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia
de Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26.47-56).
6
Jesus não foi vítima involuntária das artimanhas do Diabo nem da inveja ou da avareza dos homens. Jesus não foi surpre-
endido pelos ardis do inferno nem pelas fraquezas da humanidade. Ele, por sua livre e espontânea vontade, se ofereceu em
obediência ao Pai e em sacrifício (holocausto) para resgate de todo o mundo. Jesus respondeu, decerto, a Judas em voz baixa,
para que os demais discípulos não ouvissem e viessem a impedir o intento do traidor.
7
O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11.23-25). Lucas
e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta
iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é
para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano.
Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em
que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança
no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela
aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9.19-28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada
pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8.7-13). Depois de cearem, Jesus e seus
discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor)
da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar
localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de
Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite.
8
Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite
(verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).
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64 MATEUS 26
chegando a um lugar chamado Getsê-
mani disse-lhes: “Assentai-vos por aqui,
enquanto vou ali para orar”.
37
Levou consigo a Pedro e aos dois flhos
de Zebedeu, e começando a entristecer-
se fcou profundamente angustiado.
38
Então compartilhou com eles dizendo:
“A minha alma está sofrendo dor extre-
ma, uma tristeza mortal. Permanecei
aqui e vigiai junto a mim”.
39
Seguindo um pouco mais adiante,
prostrou-se com o rosto em terra e orou:
“Ó meu Pai, se possível for, passa de mim
este cálice! Contudo, não seja como Eu
desejo, mas sim como Tu queres”.
40
Mas, ao retornar à presença dos seus
discípulos os encontrou dormindo e
questionou a Pedro: “E então? Não pudes-
tes vigiar comigo durante uma só hora?
41
Vigiai e orai, para não cairdes em tenta-
ção. O espírito, com certeza, está prepara-
do, mas a carne é fraca”.
9

42
E afastando-se uma vez mais, orou
dizendo: “Ó meu Pai, se este cálice não
puder passar de mim sem que eu o beba,
seja feita a tua vontade”.
43
Quando voltou, entretanto, surpre-
endeu novamente seus discípulos dor-
mindo, pois não suportaram os olhos
pesados de sono.
44
Então, retirou-se novamente, e foi orar
pela terceira vez, proferindo as mesmas
palavras.
45
Passado algum tempo, voltou aos
discípulos e indagou: “Ainda dormis e
descansais? Eis que a hora é chegada!
Agora o Filho do homem está sendo
entregue nas mãos de pecadores.
46
Levantai-vos e sigamos! Eis que meu
traidor está se aproximando”.
10
Jesus é traído e preso
(Mc 14.43-50; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
47
E, estando Ele ainda a falar, eis que
chegou Judas, um dos Doze, e trazia
consigo uma grande multidão armada
de espadas e porretes, vinda da parte
dos chefes dos sacerdotes e dos líderes
religiosos do povo.
11
48
Mas o traidor havia combinado um
sinal com eles, informando-lhes: “Aquele
a quem eu saudar com um beijo, esse é
quem procurais, prendei-o!”.
49
Então, aproximando-se rapidamente
de Jesus, disse-lhe Judas: “Eu te saúdo, ó
Mestre!”. E lhe deu um beijo.
50
Jesus, contudo, lhe perguntou: “Amigo,
para que vieste?”. os homens avaçaram
sobre Jesust?”. No mesmo instante sobre
Jesus e o prenderam.
12

9
Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demons-
tra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar
que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O
Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto
que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se
preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza
humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo
de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com
Deus, desde os primórdios (Gn 2.15-17; 3.22-24; 4.1-8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsê-
mani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por
nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário
de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc
22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia
sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e
aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14).
10
A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus
discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam.
11
Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religio-
sos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados
especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da
época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio.
12
A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o pai
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65 MATEUS 26
51
Eis que um dos que estavam com Je-
sus, estendendo a mão, puxou a espada
e ferindo o servo do sumo sacerdote,
decepou-lhe uma das orelhas.
52
Mas Jesus lhe ordenou: “Embainha
a tua espada; pois todos os que lançam
mão da espada pela espada morrerão!
53
Ou imaginas tu que Eu, neste momen-
to, não poderia orar ao meu Pai e Ele co-
locaria à minha disposição mais de doze
legiões de anjos?
54
Entretanto, como então se cumpririam
as Escrituras, que afrmam que tudo deve
acontecer desta maneira?”.
55
E naquele mesmo instante Jesus se dirige
às multidões indagando-lhes: “Lidero Eu
algum tipo de rebelião, para que venham
contra mim com espadas e porretes e me
prendam? Pois todos os dias estive ensinan-
do no templo e vós não me prendestes!
56
Todavia, esses fatos todos ocorreram
em cumprimento às Escrituras dos
profetas”. E assim, todos os discípulos
abandonaram a Jesus e fugiram.
13
Jesus diante do tribunal
(Mc 14.53-65; Lc 22.63-71; Jo 18.12-14, 19-24)
57
Então, os que prenderam Jesus o con-
duziram à presença de Caifás, o sumo
sacerdote, em cuja residência estavam
reunidos os mestres da lei e os anciãos.
58
Contudo Pedro seguiu a Jesus de longe
até o pátio do sumo sacerdote, entrou e
sentou-se junto aos guardas, para sondar
qual seria o fm daquela ocorrência.
59
Mas os líderes dos sacerdotes e todo
o Sinédrio estavam tentando suscitar
um falso testemunho contra Jesus, para
que tivessem o direito de condená-lo à
morte.
14
60
Todavia, nada encontraram, apesar
de se terem apresentado vários depoi-
mentos inverídicos. Ao fnal, entretanto,
compareceram duas testemunhas que
alegaram:
61
“Este homem afrmou: ‘Tenho poder
para destruir o santuário de Deus e re-
construí-lo em três dias’”.
15
62
Então o sumo sacerdote levantou-se e
interrogou a Jesus: “Não tens o que res-
ponder a estes que depõem contra ti?”.
63
Mas Jesus manteve-se em silêncio.
Diante do que o sumo sacerdote lhe inti-
mou: “Eu te coloco sob juramento diante
do Deus vivo e exijo que nos digas se tu
és o Cristo, o Filho de Deus!”.
16
64
“Tu mesmo o declaraste”, afrmou-
lhe Jesus. “Contudo, Eu revelo a todos
vós: Chegará o dia em que vereis o
Filho do homem assentado à direita do
Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens
do céu!”.
recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de
Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim,
alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os
seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15.1-2; Jo 3.16).
13
O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num
golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber
de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000
soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12.23-27) e libertar o povo de Israel do cativei-
ro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice
do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra).
14
O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com
testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para
uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18.12-14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote
em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (26.57-68; 27.1). Em seguida, levado ao
julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15.2-5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23.6-12), retornando à
presença de Pilatos (Mc 15.6-15) para conclusão e condenação final.
15
Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência
israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa.
16
Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação
de blasfêmia, cuja pena era a morte.
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66 MATEUS 26, 27
65
Diante disso, o sumo sacerdote rasgou
as suas vestes denunciando: “Ele blasfe-
mou! Por que necessitamos de outras
testemunhas? Eis que acabais de ouvir tal
blasfêmia!”.
17
66
“Que vos parece?”. Responderam eles:
“Culpado e merecedor de morte é!”.
67
Neste momento, alguns cuspiram em
seu rosto e o esmurravam, enquanto ou-
tros lhe desferiam tapas, vociferando:
68
“Profetiza-nos, pois, ó Cristo, quem é
que te bateu?”.
18
Quando Pedro negou a Jesus
(Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)
69
Pedro encontrava-se assentado do lado
de fora da casa, no pátio, quando uma
criada, aproximando-se dele, afrmou:
“Tu também estavas com Jesus, o galileu!”.
70
Ele, entretanto, negou a Jesus perante
todos os presentes, declarando: “Não sei
do que falas.”.
71
E, saindo em direção à entrada do
pátio, foi ele reconhecido por outra
criada, a qual o denunciou a todos que ali
se achavam, exclamando: “Este homem
estava com Jesus, o Nazareno!”.
72
Mas Pedro, sob juramento, o negou
uma vez mais, afrmando: “Não conheço
tal indivíduo”..
73
Algum tempo mais tarde, os que esta-
vam ao redor aproximaram-se de Pedro
e o acusaram: “Com toda a certeza és
igualmente um deles, porquanto o teu
modo de falar o denuncia”.
19

74
Então, ele começou a jurar e a pedir
a Deus que o amaldiçoasse caso não es-
tivesse dizendo a verdade, e exclamou:
“Não conheço esse homem!”. No mes-
mo instante um galo cantou.
75
E naquele momento, Pedro se lembrou
da palavra de Jesus que lhe advertira:
“Antes que o galo cante, tu me negarás
três vezes.” E, deixando aquele lugar,
chorou amargamente.
20

Jesus é levado a Pilatos
(Mc 15.1; Lc 23.1-2; Jo 18.28-32)
27
Assim que o dia amanheceu, to-
dos os chefes dos sacerdotes, e os
líderes religiosos, anciãos do povo, cons-
piraram para condenar Jesus à morte.
1
2
Então, amarrando-o, levaram-no e o
entregaram a Pilatos, o governador.
2
Judas com remorso suicida-se!
3
E sucedeu que Judas, seu traidor, ao ver
que Jesus havia sido condenado, sentiu
terrível remorso e procurou devolver
aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as
trinta moedas de prata.
4
E declarou: “Pequei, pois traí sangue
inocente”. Mas eles alegaram: “O que
temos a ver com isso? Esta é tua ques-
tão!”.
5
Judas atirou então as moedas de prata
dentro do templo e, abandonando aque-
le lugar, foi e enforcou-se.

6
Entretanto, os chefes dos sacerdotes
ajuntaram as moedas e comentaram: “É
17
O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar
seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”.
18
Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria.
19
Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém.
20
A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (v.33).
2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (vv.40-44). Esquecimento quanto às advertências e
conselhos de Jesus (v.75; conforme v.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos
erros despercebidos ou tratados com displicência.
Capítulo 27
1
Como a Lei não permitia que o Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) tivesse reuniões juridicamente válidas, durante a noite, for-
mou-se um outro conselho logo ao nascer do dia com o propósito de oficializar a acusação de “traição” perante a autoridade civil (Lc
23.1-14), mais incriminadora para os romanos do que “blasfêmia” para os juízes judeus; e assim, levar Jesus à sentença de morte.
2
O Sinédrio tinha sido destituído pelo governo romano do seu poder de condenar qualquer cidadão à pena de morte. Por
esse motivo, Jesus só poderia ser executado por ordem expressa de Pilatos, o governador romano da Judéia (26 a 36 d.C.). Sua
residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Quando visitava Jerusalém, especialmente nas festas nacionais,
para garantir a ordem e ostentar o domínio de Roma, hospedava-se no deslumbrante palácio erguido por Herodes, o Grande,
localizado a oeste do Templo, onde presidiu o julgamento romano de Jesus.
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67 MATEUS 27
contra a lei depositarmos este dinheiro
no cofre das ofertas, pois foi obtido a
preço de sangue”.
7
Mas concordaram em usar aquelas
moedas de prata para comprar o Campo
do Oleiro, e formar um cemitério para
estrangeiros.
8
Por esse motivo ele se chama Campo de
Sangue até estes dias.
9
E assim se cumpriu o que fora anuncia-
do pelo profeta Jeremias: “Então eles to-
maram as trinta moedas de prata, o valor
que lhe atribuíram os flhos de Israel.
3
10
E as usaram para comprar o Campo
do Oleiro, assim como o Senhor me ha-
via indicado”.
Pilatos lava as mãos
(Mc 15.1-15; Lc 23.1-5, 13-25; Jo 18.33-19.16)
11
Jesus foi conduzido à presença do go-
vernador; e este o interrogou: “És tu o
rei dos judeus?”. Afrmou-lhe Jesus: “Tu
o dizes”.
4
12
Então, passou a ser acusado pelos che-
fes dos sacerdotes e pelos anciãos, mas
Ele nada respondeu.
13
Foi quando lhe questionou Pilatos:
“Não ouves a acusação que todos levan-
tam contra Ti?”
14
Jesus, entretanto, mantinha-se em ab-
soluto silêncio; e, por isso, fcou o gover-
nador fortemente impressionado.
15
Contudo, por ocasião da festa, era cos-
tume do governador dar liberdade a um
prisioneiro escolhido pelo povo.
16
Detinham eles, naqueles dias, um
criminoso muito conhecido de todos,
chamado Barrabás.
17
Então, Pilatos dirigiu-se à multidão
que ali se havia reunido e lhes propôs:
“A quem desejais que eu vos solte, a Bar-
rabás ou a este Jesus, que é chamado de
Messias?”.
18
Isso porque tinha conhecimento de
que o haviam entregado por inveja.
19
E aconteceu que estando Pilatos senta-
do no trono do tribunal, sua esposa lhe
enviou a seguinte mensagem: “Não faças
nada contra este homem inocente; pois
hoje, em sonho, muitas coisas sofri por
causa dele”.
5
20
Todavia, os chefes dos sacerdotes e os
anciãos infuenciaram a multidão para
exigir o livramento de Barrabás e a exe-
cução de Jesus.
21
Então, o governador entregou à mul-
tidão o dilema: “Qual dos dois homens
quereis que eu vos deixe livre?” Exclama-
ram eles: “Barrabás!”.
22
Pilatos ainda questionou-lhes: “Se assim
é, que farei de Jesus, que é chamado de
Messias?” Bradaram todos: “Crucifca-o!”.
23
Outra vez insta Pilatos: “Por quê? Que
crime cometeu este homem?”. Apesar de
tudo, a multidão esbravejava ainda mais
furiosa: “Crucifca-o!”.
3
Lucas (At 1.18) informa que Judas comprou um terreno argiloso (Campo de Sangue ou Vale da Matança de Jr 19.1-13 com
Zc 11.12,13 e Jr 18.2-12 com Jr 32.6-9), pois pela lei judaica considerava-se a aquisição em nome da pessoa da qual provinha
o dinheiro, mesmo no caso de falecimento. Enforcou-se e foi empalado (suplício persa usado algumas vezes pelos exércitos
israelenses, Gn 40.19; Et 2.23, e que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer).
Quando seu corpo caiu apodrecido sobre a terra, partiu-se ao meio. Mateus faz alusão a dois textos do AT para revelar o cumpri-
mento desta terrível profecia (Jr 32.6-9 e Zc 11.12-13). Era comum citar-se o profeta maior quando se combinavam seus escritos
com profetas menores (assim como Marcos 1,2,3 cita Ml 3.1 e Is 40.3, mas atribui todo o texto a Isaías). Judas sempre teve olhos
somente para si mesmo e seus interesses. Por isso, em vez de chorar e se arrepender como Pedro, não consegue tirar os olhos
de si mesmo e do seu pecado e só viu a morte como solução. Exatamente o que o Diabo espera que todo ser humano faça.
4
Flávio Josefo, historiador judeu que viveu em Roma entre os séculos I e II d.C.; narra vários atos de impiedade e falta de
sabedoria de Pilatos, cujo principal registro na história está ligado exclusivamente à sua atuação na condenação de Jesus. Pilatos
desviava fundos do templo, massacrou alguns samaritanos sem um julgamento justo, foi deposto pelos romanos e suicidou-se
entre os anos 31 e 41d.C.
5
Pilatos era muito supersticioso e pesou-lhe o sonho de sua esposa pagã. Além disso, o nome “Barrabás” em aramaico
significa “filho do pai” e Jesus era conhecido como “Filho do Pai” em relação a Deus. Pilatos percebeu a divindade de Jesus
(Jo 19.11-12). Tentou aproveitar a tradição do indulto de Páscoa para influenciar a multidão a pedir a libertação de Jesus. Mas
o povo, atiçado pelos sacerdotes e anciãos, sedento pela volta do bandido zelote (Mc 15.7,27; Jo 18.40) às suas atividades
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68 MATEUS 27
24
Percebendo Pilatos que não conseguia
demover o povo, mas, ao contrário, um
princípio de tumulto já era visível, or-
denou que lhe trouxessem água, lavou
as mãos diante da multidão e exclamou:
“Estou inocente do sangue deste homem
justo. Esta é uma questão vossa!”.
25
E todo o povo respondeu: “Caia sobre
nossas cabeças o seu sangue, e sobre nos-
sos flhos!”.”
6
26
Diante disso, Pilatos soltou-lhes Bar-
rabás, mandou que Jesus fosse fagelado
e o entregou para ser crucifcado.
7
Jesus é humilhado e agredido
(Mc 15.16-20)
27
E sucedeu que os soldados do gover-
nador conduziram Jesus ao Pretório e
agruparam toda a tropa ao redor dele.
8

28
Despojaram-no de suas vestes e o co-
briram com um manto vermelho vivo.
29
Trançaram uma coroa de espinhos e a
forçaram sobre sua cabeça. Puseram em
sua mão direita um caniço e, ajoelhando-
se diante dele, escarneciam exclamando:
“Salve! Salve! Ó Rei dos Judeus!”.
30
Cuspiram nele e, tirando o caniço de sua
mão, espancavam-lhe com ele a cabeça.
31
Depois de haverem zombado dele,
despiram-lhe o manto e o vestiram com
suas próprias roupas. Em seguida, o leva-
ram para ser crucifcado.
A crucifcação do Rei
(Mc 15.22-32; Lc 23.32; Jo 19.17-24)
32
Assim que saíram, encontraram um
homem da cidade de Cirene, chamado
Simão, e o obrigaram a carregar a cruz.
9
subversivas contra Roma, rejeita o “Filho de Deus” e aclama o “filho do homem pecador”. A humanidade, narcisista e hedonista,
tende a ignorar o verdadeiro Deus e seus profetas e se entrega nas mãos de sua própria imagem e caráter, de um seu semelhante
induzido pelo Diabo.
6
Pilatos, de sua cátedra (trono, cadeira, estrado) de juiz, evoca uma tradição judaica de obediência à Lei de Moisés (Dt 21.1-9),
numa tentativa de esquivar-se da responsabilidade de condenar um justo à pena de morte, ainda mais sendo o “Filho de Deus”.
Entretanto, uma pequena multidão ensandecida tomou para si e para seus descendentes todo o ônus daquele julgamento injusto.
Alguns líderes justos se manifestaram contra, mas não foram ouvidos (Lc 23.51). Cerca de 40 anos mais tarde, mesmo antes do
cerco a Jerusalém, o sangue dos judeus jorrava por todo país. Ao final do ano 66 foram trucidados mais de 20.000 judeus em
Cesaréia, por seus próprios concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios massacraram 13.000 judeus. Em Alexandria, mais de
50.000 judeus foram chacinados por cidadãos gregos e soldados romanos, e suas casas, reduzidas a cinzas. O massacre em Je-
rusalém não poupou nem os bebês. O próprio pátio do templo virou um lago de sangue. Durante o sítio, os poucos sobreviventes
esfomeados eram forçados a roer as próprias sandálias e cintos de couro. Diariamente mais de 500 judeus morriam crucificados,
até que não houvesse mais madeira para confeccionar cruzes. Segundo o historiador Flávio Josefo, mais de um milhão de judeus
foram mortos durante todo o período do sítio romano. Cerca de 97.000 homens jovens que sobreviveram foram vendidos como
escravos, transformados em gladiadores ou morreram na arena do anfiteatro, lutando contra animais ferozes.
7
Pilatos tenta evitar a morte “do divino”, como teria se referido ao Senhor mais tarde, e saciar a sede sanguinária da multidão,
submetendo Jesus a uma terrível sessão de açoites. Esse tipo de castigo era tão cruel que fora proibido aos cidadãos romanos, sob
qualquer motivo. Apenas escravos e provincianos eram chicoteados como preparação para a crucificação. Os chicotes eram feitos
de finas tiras de couro duro, trançadas com pedaços de osso, chumbo e espinhos agudos e venenosos. O martírio de Policarpo, por
exemplo, é descrito nos documentos da comunidade de Esmirna como: “dilacerado pelos açoites, a ponto de ser possível ver os
vasos sanguíneos interiores e a estrutura do seu corpo”. Eusébio relata sobre o flagelo do cristão Doroteu, sob Diocleciano: “até seus
ossos ficaram expostos”. Por isso, eram comuns os flagelados morrerem antes da crucificação. Mas Jesus suportou tudo em silêncio
(Is 53). Muito sacrifício foi oferecido para que os discípulos de hoje possam servir a Cristo com liberdade e alegria.
8
O Pretório era a fortaleza de Antônia, residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Dizia-se que uma “tropa” ou “coorte”
era composta de um décimo dos soldados que formavam uma “legião”, algo entre 360 e 600 homens.
9
Tem início a via crucis ou via-sacra, o caminho da cruz. O Talmude relata que era costume oferecer ao condenado, antes
da crucificação, uma bebida anestesiante, que algumas mulheres piedosas de Jerusalém mandavam preparar às suas custas.
Entretanto (v.34), Jesus nega-se a aceitar esse tipo de alívio (Sl 69.19-21; Pv 31.6; Mc 15.23). A cruz era composta de duas peças
de madeira, uma viga vertical staticulum e outra horizontal antenna. Na primeira, mais ou menos no centro, era fixado um pino de
madeira, chamado de cornu chifre, sobre o qual o crucificado ficava montado. Os crucificados viviam em média cerca de doze
horas. A febre que logo se manifestava causava um tipo de sede ardente. A crescente inflamação das feridas nas costas, mãos
e pés, o ataque dos insetos e aves carniceiras que se aproximavam devido ao odor de sangue e dos excrementos, assim como
a pressão do fluxo sanguíneo contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o inchaço de todas as veias provocavam a mais horrível
agonia e dor. Cícero dizia: “A crucificação é o mais cruel e terrível dos castigos”. A execução tinha de ocorrer fora da cidade (Lv
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69 MATEUS 27
33
Chegaram a um lugar conhecido como
Gólgota, que signifca Lugar da Caveira.
10
34
Deram-lhe para beber uma mistura
de vinho com absinto; mas ele, depois de
prová-la, negou-se a beber.
35
E aconteceu que após sua crucifcação,
dividiram entre si as roupas que lhe per-
tenciam, jogando sortes.
36
E se acomodaram ali, para o vigiar.
37
Acima de sua cabeça fxaram por es-
crito a acusação forjada contra ele: “ESTE
É JESUS, O REI DOS JUDEUS”.
38
Dois ladrões foram crucifcados com ele,
um à sua direita e outro à sua esquerda.
39
As pessoas que passavam lançavam-
lhe impropérios, balançando a cabeça.
40
E exclamavam: “Ó tu que destróis o
templo e em três dias o reconstróis! Ago-
ra salva-te a ti mesmo. Desce desta cruz,
se és o Filho de Deus!”.
41
Do mesmo modo, os chefes dos sa-
cerdotes, os mestres da lei e os anciãos
zombavam dele, vociferando:
42
“Salvou a muitos, mas a si mesmo não
pode salvar-se. É o Rei de Israel! Desça
agora da cruz, e passaremos a crer nele.
43
Pregou sua confança em Deus. Então
que Deus o salve neste instante, se ver-
dadeiramente por ele tem piedade, pois
afrmou: ‘Sou Filho de Deus!’”.
44
Igualmente o ultrajavam os ladrões
que ao seu lado haviam sido também
crucifcados.
11
A morte de Jesus na cruz
(Mc 15.33-41; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)
45
Então, profundas trevas caíram por
sobre toda a terra, do meio-dia às três
horas da tarde daquele dia.
12
46
E, por volta das três horas da tarde, Jesus
clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá
sabactâni?”, que signifca “Meu Deus, Meu
Deus! Por que me abandonaste?”.
47
Mas alguns dos que ali estavam, ao
ouvirem isso, comentaram: “Ele chama
por Elias”.
13
48
Sem demora, um deles correu em
busca de uma esponja, embebeu-a em
vinagre, colocou-a na ponta de um
caniço, ergueu-a até Jesus e deu-lhe a
beber.
49
Entretanto, os outros o censuraram:
“Deixa! Vejamos se Elias vem livrá-lo”.
50
Então Jesus exclamou, uma vez mais,
em alta voz e entregou o espírito.
14
51
No mesmo instante, o véu do santu-
24.14), como um sinal da exclusão da sociedade humana (Hb 13.12). João relata que Jesus saiu da cidade (Jo 19.17) e, segundo
o costume (Mt 10.38), carregou pessoalmente sua cruz. Um seu discípulo africano, chamado Simão, de Cirene (região localizada
na Líbia, onde viviam muitos judeus), foi constrangido (em grego, engareusan – palavra que tem a ver com o costume militar
romano de obrigar os civis a entregar cartas) a seguir o caminho do Calvário, carregando a cruz de Jesus. Mais tarde, Simão e
sua família serviram à comunidade cristã que se formava (Mc 15.21; At 6.9; Rm 16.13).
10
A palavra Gólgota é a tradução latina do nome em aramaico da nossa palavra Calvário. Um monte fora dos muros de Jeru-
salém, que, visto de longe, se assemelha a uma caveira humana.
11
Jesus, Deus encarnado, foi cravado e erguido numa cruz entre o céu e a terra, fora da sua cidade amada, como sinal de
vergonha e horror, com uma acusação escrita nas três principais línguas da sua época. Posto entre dois criminosos, foi escar-
necido principalmente pelos mais religiosos e conhecedores das Escrituras. Cumpriram-se todas as profecias sobre o Messias,
notadamente as descritas por Davi no Salmo 22 (mil anos antes do nascimento de Jesus). Cristo morreu pelos nossos pecados
(1Co 15.3-4). Felizes são os que, humildemente, reconhecem esse fato.
12
Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã (a terceira hora dos judeus da época, contada desde o raiar do sol). Ao meio dia (12
horas), densas trevas cobriram a terra. Às três da tarde Jesus expirou. As sete frases que Jesus pronunciou durante essas seis horas
de martírio, estão registradas na seguinte ordem: Lc 23.34; Jo 19.26-27; Lc 23.43; Mt 27.46; Jo 19.28; Jo 19.30 e em Lc 23.46.
13
Jesus, num último fôlego, brada em seu dialeto de família, aramaico nazareno, o início do Salmo 22. Chegamos ao mais
profundo do mistério da redenção. O Filho de Deus e Filho do homem experimenta a terrível e momentânea separação do Pai,
para que seu sacrifício pudesse ser aceito e consumado em resgate de todos os que nele cressem em todas as eras (2Co 5.21).
Os circunstantes não compreenderam bem essas palavras e deduziram que Jesus chamava por Elias.
14
Cristo não foi morto diretamente por alguém ou vencido por qualquer infecção (comum aos crucificados na época). Ele, vo-
luntariamente, e no auge do seu poder espiritual entregou a sua vida humana (Jo 19.31-37). Depois do seu brado de vitória, Jesus
explode seu próprio coração. Especialistas afirmam que foi por isso que, ao perfurarem seu lado com uma lança, imediatamente
verteu uma mistura de sangue coagulado e soro (este tem aparência de água). Esse quadro clínico ocorre nos casos de ruptura
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70 MATEUS 27
ário rasgou-se em duas partes, de alto a
baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se
as rochas.
15

52
Os sepulcros se abriram, e os corpos
de muitos santos que haviam morrido
foram ressuscitados.
53
E, deixando as sepulturas, logo após a
ressurreição de Jesus, entraram na cidade
santa e apareceram para muitas pessoas.
54
E aconteceu que o centurião e os que
com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremo-
to e tudo o que se passava, foram tomados
de grande pavor e gritaram: “É verdade! É
verdade! Este era o Filho de Deus!”.
55
Estavam presentes várias mulheres,
observando de longe; eram discípulas,
que vinham seguindo Jesus desde a Ga-
liléia, para o servirem.
16

56
Entre as quais estavam Maria Mada-
lena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a
mãe dos flhos de Zebedeu.
O sepultamento do corpo de Jesus
(Mc 15.42-47; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42)
57
Ao pôr-do-sol chegou um homem rico,
de Arimatéia, por nome José, o qual havia
se tornado discípulo de Jesus.
58
Teve ele uma audiência com Pilatos
para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos
ordenou que lhe fosse entregue.
59
Então, José tomou o corpo e o envol-
veu com um lençol limpo de linho.
60
E o colocou em um sepulcro novo, o
qual ele próprio havia mandado cavar na
rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra
sobre a entrada do sepulcro, retirou-se.
61
Estavam ali, assentadas em frente ao se-
pulcro, Maria Madalena e a outra Maria.
Pilatos manda vigiar o sepulcro
62
No dia seguinte, isto é, no sábado,
reuniram-se os principais sacerdotes e
os fariseus e foram até Pilatos e argu-
mentaram:
63
“Senhor, recordamo-nos de que aque-
le enganador, enquanto vivia, prometeu:
‘Passados três dias ressuscitarei’.
64
Manda, portanto, que o sepulcro dele
seja guardado até o terceiro dia, para que
não venham seus discípulos e, raptando
o corpo, proclamem ao povo que ele
ressuscitou dentre os mortos. E esta der-
radeira fraude cause mais dano do que a
primeira”.
65
Ao que ordenou Pilatos: “Levai con-
vosco um destacamento! Ide e guardai o
sepulcro como melhor vos parecer”.
66
Seguindo eles, organizaram um siste-
ma de segurança ao redor do sepulcro. E
além de manterem um destacamento em
plena vigilância, lacraram a pedra.
17

Jesus foi ressuscitado!
(Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)
28
Tendo passado o sábado, ao raiar
do primeiro dia da semana, Maria
do pericárdio (o tecido celular que reveste o exterior do coração). Esse episódio anula uma teoria surgida no século XIX, a qual
tentando explicar a ressurreição, alegava que Jesus desmaiou nesse momento, para então despertar no túmulo.
15
Desde Moisés sempre houve, no santuário, uma cortina (véu) de tecido que separava o ambiente do Santo dos Santos (Êx
26.37; 38.18; Hb 9.3). Lugar sagrado onde ninguém podia entrar a não ser o sumo sacerdote, e este apenas no Dia da Expiação.
Este acontecimento foi trágico para os judeus, mas um grande sinal para os cristãos de todos os povos, culturas e épocas: Em
Cristo ficou abolida toda e qualquer separação entre o pecador arrependido (adorador) e Deus, nosso Pai (Jo 14.6). O fato de o
véu ter-se partido de alto a baixo, sem contato humano, demonstra que o próprio Senhor abriu um novo e vivo caminho para Sua
Santa presença (Hb 10.20; Ef 2.11-22). E muitos vieram a ser reconciliados para sempre com Deus (At 6.7).
16
Jesus sempre tratou as mulheres com o respeito e a dignidade que Deus requer, diferentemente da forma como os homens
as tratavam em sua época. Era proibido às mulheres aproximarem-se do crucificado. Aquela cena foi um escândalo. Várias dis-
cípulas seguiram o Senhor desde o início do seu ministério, na Galiléia, e permaneceram servindo até sua morte e novo começo
(28.1; Jo 20.11-18). O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18).
17
Dois juízes e membros do Sinédrio, que não compactuaram com a condenação de Jesus, José, da cidade de Arimatéia
(uma próspera aldeia montanhosa a cerca de 32 km ao noroeste de Jerusalém) e Nicodemos (Jo 19.38-39), cuidaram do sepul-
tamento de Cristo. Trataram das formalidades civis, das despesas, e proveram um túmulo novo (Is 53.9), nunca antes usado, que
pertencia a José de Arimatéia e localizava-se no monte do Calvário (Jo 19.41). Os líderes civis e religiosos, para evitar qualquer
tentativa de remoção do corpo e possível versão sobre a ressurreição do Mestre, violaram o sábado de Páscoa para tomar todas
as providências necessárias e vigiar a área do túmulo.
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71 MATEUS 27, 28
Madalena e a outra Maria foram visitar
o túmulo.
1
2
E eis que aconteceu um forte terremoto,
pois um anjo do Senhor desceu dos céus
e, chegando ao túmulo, rolou a pedra da
entrada e assentou-se sobre ela.
3
O anjo tinha o aspecto de um relâm-
pago, e suas vestes eram alvas como a
neve.
2
4
Os guardas foram tomados de grande
pavor e fcaram paralisados de medo,
como mortos.
5
Contudo, o anjo dirigiu-se às mulheres
e lhes anunciou: “Não temais vós! Sei que
viestes ver a Jesus, que foi crucifcado.
6
Mas aqui Ele não está. Foi ressuscitado,
como havia dito. Vinde e vede vós onde
Ele jazia.
7
Ide caminhando depressa e anunciai
aos seus discípulos: Ele ressuscitou den-
tre os mortos e está seguindo adiante de
vós rumo à Galiléia. Lá o vereis. Atentai
para o que vos disse!”.
8
As mulheres abandonaram o túmu-
lo correndo, amedrontadas, mas com
grande júbilo, e foram imediatamente
anunciá-lo aos seus discípulos.
9
De repente, Jesus veio ao encontro delas
e as saudou: “Alegrai-vos!” Elas se apro-
ximaram dele, jogaram-se aos seus pés
abraçando-os, e o adoraram.
10
Então Jesus lhes declarou: “Não te-
mais! Ide e dizei aos meus irmãos que
sigam para a Galiléia, lá eles me verão”.
Os sacerdotes subornam os guardas
11
E sucedeu que enquanto as mulheres
estavam a caminho, alguns dos guar-
das foram à cidade e contaram aos
chefes dos sacerdotes tudo o que havia
ocorrido.
12
Então, os chefes dos sacerdotes reu-
niram-se em conselho com os anciãos
e tramaram outro plano. Deram aos sol-
dados vultosa quantia em dinheiro.
13
E lhes recomendaram que declaras-
sem a todos: “Os discípulos dele vieram
durante a noite e raptaram o corpo, en-
quanto cochilávamos.
14
Se isso chegar ao conhecimento do
governador, nós o persuadiremos a vosso
favor e vos livraremos de qualquer repri-
menda”.
3
15
Os soldados receberam o dinheiro e
fzeram como haviam sido orientados.
E, por isso, essa versão dos aconteci-
mentos se conta entre os judeus até o
dia de hoje.
A Grande Comissão
16
Os onze discípulos rumaram para a
Galiléia, em direção ao monte que Jesus
lhes determinara.
17
Assim que o viram, prostraram-se
e o adoraram, mas alguns ficaram em
dúvida.
18
Então, Jesus aproximando-se deles
lhes assegurou: “Toda a autoridade me
foi dada no céu e na terra.
1
Conforme o horário judaico, o domingo começava logo após o pôr-do-sol do sábado. Lucas nos informa que Maria Madalena
e Maria, mulher de Clopas (Lc 24.1; Jo 19.25) saíram de madrugada, ainda escuro (Jo 20.12), para visitar o corpo de Jesus,
lamentar e ungi-lo com mais especiarias. Chegaram ao túmulo com os primeiros raios da aurora na esperança de que lhes fosse
autorizada a entrada para a continuação do ritual fúnebre (período de luto) judaico da época (Mt 28.1; Mc 16.2-3).
2
Deus manda seus anjos anunciarem o nascimento e a ressurreição de Jesus. Ele é concebido e ressuscitado pelo poder do
Altíssimo (Lc 1.35; Rm 6.4; Ef 1.20). Essas mensagens são comunicadas em primeiro lugar a mulheres devotas e humildes e que
receberam um nome simples, mas conhecido em todo o mundo: Maria (forma helenizada do nome hebraico Miriã, que foi derivado
de um antigo vocábulo egípcio Marye, e que significa: princesa, amada, mulher de esperança). O anjo não rolou a pedra para que
Jesus saísse do sepulcro, a pedra foi rolada para que as mulheres e, mais tarde, outras pessoas, entrassem e verificassem o túmulo
vazio, o selo (lacre estatal feito com cordas que envolviam a pedra e eram atadas ao sepulcro com as marcas de Roma e do Sinédrio)
rompido e nenhum outro sinal ou dano. Séculos mais tarde, expedições arqueológicas, como as organizadas pelo General Christian
Gordon, localizaram esse túmulo e confirmaram algumas alterações para acomodar um corpo maior do que o de José de Arimatéia
(segundo a tradição de baixa estatura). Contudo, análises físicas e químicas jamais atestaram qualquer vestígio de restos mortais na
sepultura. O túmulo era novo quando foi oferecido para sepultar o corpo do Senhor e continuou novo após sua ressurreição.
3
Agostinho (354-430 d.C.) observou: “Se acordados, por que permitiram a alguém raptar o corpo de Jesus? E, se dormindo,
como podiam declarar que foram os discípulos?” De qualquer modo seriam todos condenados à morte, não fosse o interesse dos
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72 MATEUS 28
19
Portanto, ide e fazei com que todos os
povos da terra se tornem discípulos, ba-
tizando-os em nome do Pai, e do Filho, e
do Espírito Santo;
20
ensinando-os a obedecer a tudo quanto
vos tenho ordenado. E assim, Eu estarei
permanentemente convosco, até o fm
dos tempos”.
4
líderes religiosos judaicos em divulgar uma falsa versão sobre o desaparecimento do corpo de Cristo e levar a população a não
crer na intervenção divina, presenciada por soldados e discípulos, nas primeiras horas daquele domingo no monte Calvário.
4
Jesus recebeu todo o poder de Deus (em grego .çuc.c) e do Senhor Ressuscitado parte a ordem plenipotenciária: Ide! (lite-
ralmente “indo”, em grego v,.u-...~). Agora esse “envio” não é provisório, limitado e transitório como em Mt 10, mas definitivo,
ilimitado e permanente. Rompeu-se o estreitamento étnico das sinagogas e abriu-se a Salvação (comunhão com Deus) para
todos os povos, raças e culturas. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu a “velha aliança” pela “nova
aliança”, que congrega toda e qualquer pessoa cujo coração creia no Senhor para ser convertido em discípulo. Jesus ensinou e
demonstrou com a sua própria vida o que significa ser um discípulo do Senhor (obediência a Deus). A tríplice ordem missionária
(discipular, batizar e ensinar a discipular) é emoldurada pela garantia da onipresença de Jesus na alma daquele que crê (o crente).
A essência da Igreja de Jesus é que o Ressuscitado continua vivo e atuante no indivíduo e na comunidade. Ao orarmos, não é
mais necessário buscarmos a Deus nos céus, mas, sim, em nossos corações. A promessa da presença contínua de Deus é a
chave de ouro com a qual vários livros da Bíblia são concluídos (Êx 40.38; Ez 48.35; Ap 22.20).
Jesus, após ressuscitar, apareceu a várias pessoas em diversas ocasiões: a Madalena (Jo 20.11-18), a algumas discípulas
(28.9-10), aos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-33), a Pedro (Jo 21.15-19; Lc 24.34-35), a dez discípulos no Cenáculo (Jo
20.19), aos onze discípulos (Jo 20.24-29), a sete discípulos na Galiléia (Jo 21.24-29), aos onze no monte, na Galiléia (Mt 28.16-17),
a Tiago e a todos os apóstolos (1Co 15.7), a uma multidão no monte das Oliveiras (Lc 24.44-49), ao apóstolo Paulo (At 9.3-8).
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