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Carlos de Oliveira

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Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva

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1. O movimento neo-realista
1. O neo-realismo pretende descrever a realidade mas também transformá-la, por isso, faz realçar a luta dos que são veículo dessa transformação, esse realce

não se prende a um indivíduo isolado, mas a um grupo e aos valores que defendem. A presença da ideologia neo-realista é evidente sobretudo com os temas da opressão, alienação e da vingança, visivelmente enfeudados a uma visão do mundo que encara as tensões e confrontações sociais como etapa necessária da transformação histórica da sociedade exactamente na linha ideológica do neo-realismo e do pensamento marxista que o inspira. O discurso literário neo-realista aspirava a ser um instrumento de consciencialização daqueles que mantinham afinidades estreitas com as personagens exploradas e oprimidas.

2. Acção
A história é constituída pelas relações conflituosa entre Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres (relações que se complicam em função da participação de outras

personagens António, Jacinto, Mariana, etc. - e das motivações sócioeconómicas que a todos condicionam). Mas não existe na história uma acção única, mas antes duas que estreitamente se relacionam: a principal, isto é, a das relações problemáticas e conflituosas entre Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre, e a secundária imbricada na primeira e constituída pelos amores de Jacinto e Clara contrariados de forma violenta. Por outro lado, só esta segunda história pode dizer-se comandada por uma intriga, isto é, por uma série de eventos de forma causal e encerrados com um desenlace irreversível (a morte de Jacinto e o suicídio de Clara,). Temos, pois, uma história principal em acção aberta e uma história secundária, com uma intriga fechada. Os amores de Jacinto e Clara e, sobretudo, os projectos de vida que lhes são inerentes constituem uma etapa bem demarcada: nos contexto de um longo processo que fica em aberto, o das profundas modificações sociais e económicas anunciadas pela rebeldia de Jacinto, modificações essas que se projectam no devir dum processo histórico muito amplo e longe de estar terminado. Ora, é precisamente neste contexto que, a acção principal surge como fragmento representativo, mas inconcluso, da crise vivida pelos estratos dominantes da sociedade em vias de transformação. Neste aspecto, esta obra mais não faz do que filiar-se na tradição geral do romance neo-realista português, virado para a representação de cenários sociais e históricos normalmente não balizados por intrigas com princípio, meio e fim.

na medida em que a analepse projecta muitas vezes as acções do passado sobre as do presente. se materialmente o tempo da acção é reduzido." (p. Em termos psicológicos. porém. as próprias relações de D.1. Organização das sequências narrativas Sequência 1 2 Acção Apresentação Viagem Catálise: Serão Capítulos I-IIl IV-VI VII . a água mansa Turvou-se ao longo do caminho. do tempo. muito ao longe. porque a focalização interna sujeita os eventos às vivências das personagens cuja óptica Comanda a representação narrativa. Este tempo revela-se. I) e a manhã do dia seguinte (XVI). O tempo do discurso "Primeiro. na infância. em dois outros aspectos ele apresenta-se mais dilatado. o crime perpetrado pelo oleiro. a fonte brotou tenuemente. 20) . muito mais extenso devido às Inúmeras evocações do passado. e agora é cachoante. o litígio surdo entre o par Jacinto/Clara e António. Tempo Conflito Revelação Crime Remorso Catálise: Serão Suicídio XI -XIV XV-XVII XVIII-XXVI XXVII-XXXI XXXII-XXXIV XXXV Encadeamento Encadeamento Encaixe Encadeamento Encadeamento 3.A acção do romance traduz-se na vivência de uma tensão praticamente constante. Em termos históricos. O tempo da história A cronologia da acção concentra-se em cerca de três dias. não deve induzir-nos em erro.2. Maria dos Prazeres com o cocheiro constituem os afloramentos mais evidentes da temática geral da opressão. 1º Período: entre as cinco horas duma quinta-feira do mês de Outubro (c.X Encadeamento Relação sintáctica 3 4 5 6 7 3. escura. já que. Este facto. depois. com o lixo que lhe foram atirando das margens. desesperada. 2° Período: duração de 24 horas o dia de sexta-feira (XVI-XXVI) 3° Período: o dia de sábado até ao amanhecer de domingo (XXVII-XXXV) 3. as disputas e os conflitos entre Álvaro e a mulher. pois.

acaba por ser a verdadeira vítima dos ódios e tragédias dos poderosos. como Montouro. muitas vezes. 4.3. Caetano e Fonterrada localiza-se na região de Cantanhede.3. comerciante e lavrador no Montouro. freguesia de S. A tese do romance pode sintetizar-se assim: não existe uma significativa mudança social que não produza sofrimento. fogem a um presente insuportável. às reflexões que originam Monólogos. O tempo psicológico O tempo psicológico diz respeito ao modo como as personagens do romance vivem o passar do tempo. na zona litoral do distrito de Coimbra. O espaço social Influenciado pelo movimento neo-realista. 4. O espaço psicológico . Designa-se por analepse ao retrocesso que revela factos pertencentes a um tempo anterior ao tempo do discurso 4. S.4.2. Espaço físico "Eu. 6) Geograficamente. a incomunicabilidade entre as personagens. 4. As analepses traduzem uma vivência interior por parte das personagens que refugiando-se no passado. As localidades referidas no romance. Álvaro Rodrigues Silvestre. Maria dos Prazeres e o palheiro onde se passam os amores de Jacinto e Clara. Caetano.1. e o pobre. devido à sua condição de subserviente. a acção é localizada com alguma precisão. A cena dialogada põe a nu. Carlos de Oliveira coloca a questão social na base dos conflitos: "Uma Abelha na Chuva" ilumina as trágicas consequências psicossociais resultantes da união forçada entre a moribunda aristocracia da província e a burguesia rural.4. concelho de Corgos. 0 espaço 4. Nota: Designa-se por prolepse ao processo que revela factos pertencentes ao futuro.3. O espaço interior Identificar as relações contrastivas entre o quarto ele Álvaro Silvestre/D." (p. aos serões e à preparação e consumação do assassínio de Jacinto. A cena dialogada A cena dialogada instaura um tempo discursivo isocrónico e surge quando se apresentam acções ligadas aos momentos de confronto entre as personagens. 3.

". XIII que serve para apresentar uma outra personagem ". Simbologia A abelha . concedendo um papel dominante à perspectiva subjectiva e parcial que as personagens têm da própria história. uma senhora pálida. a colmeia dos Silvestres" não atendera "a que lá dentro o enxame apodrecia" (pp. um estrato da sociedade (o dominante no microcosmos social deste romance) corrompido por força de uma aliança de interesses inconciliáveis. D. certo viajante entrou em Corgos. 6. Portanto o símbolo da abelha serve. a focalização externa. 77-8). capaz de penetrar no universo psicológico. "anos e anos aquela obra de pintar repintar. na condição de modo de apresentação do exterior de personagens e eventos.. social e cultural que determina o comportamento das personagens. Neto. Maria dos Prazeres. pode dizer-se que não mais se repete o recurso à focalização externa. e principalmente pela utilização da focalização interna. 5. pela negativa. é concedida uma função meramente acessória.. 7." Além destas duas ocorrências. os conflitos vividos pelos protagonistas na sua consciência. como processo de vigência de uma visão (a do narrador) transcendente à história. Maria dos Prazeres ligada à aristocracia decadente e saudosista António oleiro obcecado por anseios de promoção socioeconómica próprios da pequena burguesia. a focalização omnisciente. . encontra-se explicitamente posto em causa. de que. Quando abre a narrativa. Deste modo. pela via da simbolização. Personagens Refira-se o contraste entre os nomes das personagens: à simplicidade do de Álvaro Rodrigues Silvestre opõe-se por parte de D.170). como processo representativo autónomo.O espaço psicológico manifesta-se através do monólogo interior de algumas personagens. a representação da história através da óptica de uma ou mais personagens) aquela que o narrador utiliza de modo mais insistente. é em focalização externa que é apresentada a personagem em acção: " Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro. de meia-idade. para além desta referência outra surge no cap. a pé. de degradado e imperfeito existe num determinado nível social. isto é. apenas esporadicamente surge actualizada como signo da representação. depois de árdua jornada. o que. tal como o são os seus amigos íntimos. assim. Álvaro Silvestre é identificado com a burguesia rural. o equilíbrio de.saltou da boleia para receber as ordens da dona da charrete. O narrador A representação da história é conduzida por um narrador omnisciente.o casal Álvaro/D. o que explica a amarga conclusão do Dr. Maria dos Prazeres são identificados como “abelhas cegas obcecadas" (p. A focalização interna (ou seja... para vincar. agasalhada num xaile de lã e com manta de viagem enrolada nas pernas: -Perguntem no café se o viram. tendo ajudado. numa primeira utilização. revelando-se. a pomposa acumulação de nomes de família a que se vem juntar a rudeza patente no apelido Silvestre sarcasticamente acrescentado pela própria personagem em questão.

enquanto personagem norteada pelo desejo de transformar o mundo pela medida dos seus projectos. solidão. evoca o passado recôndito que flui da memória de certas personagens. Agressividade. futuro alcançado.esta evoca globalmente o sentido da agressividade (relacionada com o tema da opressão). Quando Jacinto é lançado às águas do mar. A água é também fonte e rio. E. Maria dos Prazeres . Jacinto / Clara . Aparentemente. do seu movimento e constantes mutações. Jacinto fecunda sobretudo o movimento de revolta popular que estilhaça os vidros do casal marcado pelo estigma da infertilidade. Álvaro Silvestre / D. A morte de Jacinto.passado. é ela que integra os sentidos da produtividade laboriosa e da fertilidade. Maria. Mas quando está em causa o desfecho das relações Jacinto/Clara. a personagem acaba por penetrar no elemento que ao seu comportamento habitual convém: no mar. a água é também mar e poço. a destruição da abelha não implica necessariamente a do enxame. Abre-se a possibilidade de uma inversão de juízos. símbolo da dinâmica da vida. porque com a sua presença gera o desconforto das personagens e acentua os seus conflitos. presente perdido. XVI) apontam para um futuro de optimismo (ou seja. vingança. classe social ameaçada. atingida pela força destruidora da água.presente destruído. o romance encerra com uma mensagem de pessimismo traduzida na eliminação daquela (Clara) que com o símbolo da abelha mais explicitamente se identifica. Ao nível de Álvaro e D. é junto do par Jacinto/Clara que o mel (isto é. a organização e compromissos sociais que sustentam. vitória do grupo produtivo. dos Prazeres "todos eles fabricam fel". isto é. para além de Clara. destruição. semente promissora.. os Silvestres) e a realidade (O enxame apodrecido. a perfeição apoiada no tempo) é susceptível de ser encontrado: tanto a gravidez de Clara como os projectos de ambos e até o envolvimento espacial em que estes últimos são considerados (c.180) . A água e a chuva . opressão. mas a morte de uma abelha isoladamente não só não compromete a sobrevivência e coesão o mel . comunhão. Por outro lado. A fonte. com efeito. com toda a nitidez. ou seja. de morte que a ambos atinge.a ideia de perfeição e de doçura e também o da transformação. aquilo que à primeira vista inculca destruição e morte pode finalmente não o significar: "A abelha foi apanhada pela chuva…" (p. de doçura idêntica à do mel) que o decorrer do tempo social e histórico propiciará. encerrando um ciclo de vida individual abre (fecunda) um ciclo de vida colectivamente assumida.evoca . quando se conclui que entre a aparência (a colmeia repintada. Os episódios finais do romance e a sua leitura simbólica clarificam o sentido do pessimismo. cenários particulares.. a existência social e psicológica degradada) a relação é de oposição. a doçura. exactamente na linha do pensamento de Jacinto. A fonte é imagem próxima da infância e quando se transforma em rio passa a evocar. o escoar de um tempo que quanto mais afastado da infância mais conspurcado se apresenta. porque. enquanto imagem da água que jorra e corre da terra. Existe uma relação simbólica evidente entre abelha / Clara. morte do grupo improdutivo.

Neto também tem todas as qualidades da abelha. para a casa que simboliza a concha. sem atender a que lá dentro o enxame apodrecia" . a força da opressão. aquela obra de pintar e repintar. para a casa que simboliza a concha. Colmeia apodrecida = colmeia morta = classe social a desaparecer. Tudo estava contra ela. nas feiras. da qual não consegue sair ou abrigar-se pelo que tentou debater-se. Dr. Colmeia verde = cidade verde = esperança na vitória = a consciência do povo desperta preparada para a luta. a continuidade do nome e da riqueza pois é um casal infértil. que diz "todos eles fabricam fel. O ambiente da casa dos Silvestres é tão viciado que não pode produzir nada de bom. abelhas cegas. o filho.social do enxame que a perdeu. As abelhas cegas remetem para o única objectivo deste casal que são os interesses económicos que os levam "a roubar ao balcão. Este casal também não é útil à sociedade porque para além de todos estes defeitos não asseguram a perenidade. o bem-estar a protecção que são sensações que não existem na casa dos Silvestres porque se vive num ambiente degradado. O zangão é o Jacinto que após a cópula com a abelha morre. A água . como sobretudo faz dessa abelha semente de um processo de transformação da vida que evitará a existência de futuras abelhas na chuva. corrompido perverso. pelo que não se conseguiu defender. confissão. A abelha obcecada serve para vincar o que de negativo e imperfeito existe porque uma abelha cega não é útil para a colmeia. Ainda. O Jacinto tem nome de flor da qual Clara se alimenta para produzir mel. através de Dr. obcecadas". mas acabou por morrer. Neto. Clara = abelha. Uma abelha morre = ficam as outras. Neto). tal como na colmeia. A chuva = a classe opressora. para além de ser ele próprio apicultor. a referência é a de que a abelha foi apanhada por uma chuva forte. este diz que ajudou "anos e anos. Por tudo isto são o oposto das abelhas pois não há equilíbrio na sua casa e só produzem fel. As Abelhas As Abelhas: simbolizam as "trabalhadoras disciplinadas e incansáveis". Comparação as abelhas: Clara que juntamente com Jacinto forma um casal equilibrado onde reina a harmonia. o bem-estar a protecção. nas soldadas dos trabalhadores e na legítima de meu irmão". A colmeia remete para o lar. A colmeia remete para o lar. sendo que este último se afigura na personagem de Álvaro quando veio avisar o mestre António. a colmeia dos Silvestres. Oposição às abelhas temos o casal Álvaro Silvestre e Maria dos Prazeres (esta referência é feita por Dr. era uma luta injusta. Asseguram a continuidade da espécie ao trabalharem para a colmeia fazendo o mel. No último capítulo. Clara morre = ficam as outras pessoas.

a chuva está patente. pelos seus movimentos de ondas. Silvestre significa que é próprio da selva. um tempo de bem-estar por oposição ao desconforto do presente. Os Nomes Álvaro Silvestre: pelo facto de ser curto revela que não tem linhagem.. No entanto. de grande tensão. Nos momentos de grande desconforto. mas depois tomase num rio.A chuva é o sinónimo de agressividade no ambiente social e está presente nos conflitos pessoais e nos momentos mais importantes da acção. . aumenta a sua densidade consoante o conflito está acentuado. O mar é o espaço para onde o corpo de jacinto é atirado. honesto e virtuoso. Álvaro vem de alvo que significa branco. que é selvagem. Silvestre: O seu nome extenso representa a sua linhagem. repleta de projectos por concretizar. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho . Do poço se recolhe a água que a vida. bravio. agreste e inculto.. como se fosse castigada pela ousadia de projectar uma outra vida sem o apoio do seu pai. Prazeres só mentais. e Jacinto acaba por ter um fim que se enquadra na dinâmica que era a sua vida. Clara atira-se ao poço. Simboliza a dinâmica da vida. sendo por isso um espaço de origem da vida. Para Maria dos Prazeres a fonte é também a imagem do passado. A fonte quando a água jorra e corre da terra simboliza a evocação de memórias do passado: quando Álvaro Silvestre recorda a sua infância como refúgio. puro. acabando por provocar-lhe a morte.

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