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Giddens O que é ciência social

Giddens O que é ciência social

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Título origino I em inglês: In Defence of Sacio/agy. Essoys, tnterpretatio~s
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2000 do tradução brasileiro: Editom do UNESP (rEU)

Fundação

Praço da Sê, 108 01001-900 - São Paulo - SP Tel., (0)0<11) 3242-71 li fo" (0,,11)3242-7172
Horne poge:
WVNl.

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no Publicação (eIP)

Sumário

ediloro.unesp.br

E-moil: feu@editora.unesp.br

Dados Internacionais de Catalogcção
(Câmara Brosileira do livro, SP,Brasil) Giddens, Anlhony

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Fontes e agradecimentos Prefácio 9 11 pós-tradicional 97 21 7

Em defeso da sociologia. Ensaios, interpretações e tréph
cos / Anthony Giddens; tradução Roneide Venoncio Majer, Klauss Brandini Gerhordt. - São Paulo: Eqitoro UHESp' 2001. Título original: In Defence of Socio\cgy. Essoys,Interpretotions & Rejoinders. ISBN RS-7139-363-X 1. Sociologia 01-2942 I. Título. CDD-301

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I Em defesa da sociologia 2 A vida em uma sociedade 3 O que é ciência social? 4 Fu-ncionalismo: 5 A "britanidade"

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1

apres la lutte

115
161

---

e ?_sciências sociais 173 do pensamento 217

índice poro caiálogo sistemático: 1. Sociologia 301

6 O futuro da antropologia 7 Quatro mitos na história

social

181

8 Auguste Comte e o positivismo
Editoro afiliado:

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9 O problema

do suicídio na sociologia francesa

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10 Razão sem revolução?:

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Teoria da ação comunicativa, de Habermas 245
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a noção de que as ciências súciais deveriam se desenv::>lver nos moldes das ciências naturais e de que a estrutura lógica da ciência social aborda problemas semelhantes aos encontradcs na ciência natural. embora lhes possa ser atribuído praticamente o mesmo significado. porêm. A segunda característica do modelo ortodoxo é a idéia de que quando explicamos a atividade humana. "canônica". Prefiro o termo "naturalismo" a "positivismo".!l~~so ortodoxo".o que 3 é ciência social? Podemos distinguir três principais características da ciência social mais difundida. Essas visões têm sido predominantes na sociologia durante boa parte do período pós-guerra. . creio ser verdadeiro afirmar que também se estenderam em um amplo espectro de outras ciê. Ou seja: embora como agentes humanos possa parecer que saibamos o 97 I i ~ I . A primeira delas é o naturalismo.'lcias sociais. deveríamos fazê-lo no âmbito de algum tipo de concepção de causação social. Ou o que por vezes chamei de "c9.

diversas formas de interacionismo simhólico e de neoweberianismo. desinteresse. em que existem perspectivas coordenativas que dominam o núcleo profissional dos campos cientificos. o cientista social tem a capacidade de demonstrar que. Não conseguem nem mesmo concordar sobre as definições mais elementares do campo das ciências sociais. Isso atesta a inaplicabi99 . O autor identificou diferenças nos vários pontos de discordãncia entre os. Uma multiplicidade de teorias seria uma situação mais desejável do que o dogmatismo originário do predominio de uma tradição teórica específica. O consenso ortodoxo de hoje não pode mais ser chamado de consens~. já constitup. pois quando Kuhn apresentou a no.. Um terceiro elemento (sobre o qual não me estenderei na presente discussão) associado ao modelo é ofuncionalismo. buscando justificativas com base no trabalho de Feyerabend no campo da filosofia da ciência. rr:odificadas com o advento da cibernética foram consideradas fundamentais por muitos sociólogos para fins de análise social. somos movidos por causas de que não temos a menor consciência.__ . o estruturalismo.Gientistassociaisem relaçãõ àqueles WIficados nas ciências naturais. a lista parece quase interminável.. na verdade. Segundo Feyerabend. Trata-se da reação de desdém. porém. a fenomenologia.ão de paradigma na filosofia da ciência. Essa situação é inquietante.as sociai~seria o de revelar formas de causações sociais que os atOres. Falo de "perspectivas" ou "tradições".Anthony Giddens Em defesa da sociologia bastante sobre o que estamos fazendo e o porquê dt agirmos da forma como agimos. ou o "Eu disse que isso ia acontecer".~ . O papel das ciênci. Não sabemos ITlaisexatamente onde nos posicionarmos em relação à t"manha variedade de perspectivas.m maioria os que aceitam a idéia de que as ciências sociais não podem ser muito parecidas com a física cl. porquanto os cientistas sociais trabalham com sistemas. Aqueles que atualmentó defenderiam este ponto de vista representam apena. As noções de sistemas supostamente derivadas da biologia e. e sistemas parecem mais com conjuntos biológicos inteiros do que com fenômenos que interessam aos fisicos. De fato. ele passou a reconhecer grande variedade de perspectivas sociológicas concorrentes entre si. tratando-as como desejáveis. já se tornou minoria (certamente na área de te". A visão do "eu disse" observa a seguinte lógica: "Sou um pesquisador empírico.1sensoortodoxo . uma entre lima gama diversificada de perspectivas. . Embora de modo geral tenha sido sustentada a tese de que as ciências sociais deveriam assemelhar-se às ciências naturais. A primeira é aceitá-lo cem simpatia. na realidade.~.tais como a ernometodologia. ampliaram-se a pOnto de sair de seu enfoque original.] proiago. Merton foi uma das principais figuras que se propuseram a codificar o CO. nistas ignoram.Costumava ser uma postura assumida pela maioria na área de ciências sociais. em vez de "paradigmas".ia social. Esse modo de reação pode ser identificado mesmo entre os mais ardorosos defensores do consenso ortodoxo. que sejam bem-vindas.a negativa . na atualidade. Há dois tipos de reação a esse quadro. talvez nem tamo na pesquisa social empirica).)'. Embora não sem alguma relutância. A outra forma de reaçâo .surge com maior freqüência por parte daqueles que atuam nas áreas mais empiricas das ciências sociais. As visões de Merton elaboradas em épocas posteriores são substancialmente diferentes. muitas vezes. Outros abraçaram a causa do ?luralismo com entusiasmo._-. A filosofia de Kuhn e a definição do termo "paradigma".:r '»:- Robert K.\ssica. ---- . empregou o termo fazendo referência às 98 ciências naturais. Se há uma pluralidade de perspectivas teóricas. Em seu lugar encontra-se uma multiplicidade de diferentes perspectivas teóricas .que ele chamou (antes de Kuhn) de um paradigma para a sociologia. sob o aspecto positivo. a hermenêutica e a critica social-. também >laciência deveria haver uma pluralidade em vez de um único ordenamento de perspectivas. Merton foi o primeiro autor a utilizar o termo "paradigma" tal como empregado atualmente. Vejo que os teóricos sociais não conseguem chegar a um acordo entre si.

de critêrios racionais de avaliação de teorias. todos os pesquisadores empiricos devem manterse sensiveis aos debates teóricos. Os cientistas sociais acreditaram estar tentando reproduzir os tipos de descobertas que as ciências naturais afirmavam ter dcançado. ingenuamente. pois ê fácil demonstrar que os debates teóricos realmente fazem diferença na pesquisa empírica. Uma primazia indevida foi dada à descoº"na de leis como elementos constitutivos da "ciência" nos moà. em relação ao que deve ser um ser humano.nem de- presa humana. envolve sistemas interpretarivos de sigrâficado.io. será mais pela primeira do que pela segunda. Wright Mills chamou de "empirismo desprovido de reflexão" leva a trabalhos muito pouco desafiadores e não cumulativos."istem leis nas áreas de ciências naturais.' I 101 . e algumas perspectivas rendem mais frutos que outras. De minha parte. especificar os p:incipais elementos do acordo que daí advier. e a natureza da ciência encoo- tr~-se envolvida na criação de grades teóricas. Entretanto.à ratificação incondicional do pluralismo teórico. e}. não se consegue encontrar um único filósofo da ciência renomado que ainda acredite na concepção de ciência natural a que muitos cientistas sociais aspiraram. contudo 11 quais seriam as implicações para efeito de análise empírica. consiste ~m esforços hermenêuticas ou interpretativos. contudo o modelo de ciência natural tal c()mo imaginado por esses cientistas sociais apresentava falhas sQb~Ronro de . o consenso ortodoxo. O modo de documentar o movimento no sentido da síntese consiste em identificar o que há de errado com o consenso ortodoxo e. quais são seus componentes teáricos. q'Je tende a nos envolver em controvérsias a natureza de sua aç. ciência natural. Na teoria social da atualidade. confirma. Sem dúvida.Ieistêm de ser interpretadas. isto é.f'lostradicionais da ciência natural. A ciência natural. Existe alguma coisa elementarmente complexa no ato de explicar a emisso não nos leva . o enquadramento do significado demonstra-se mais importante do que a descoberta de leis. portanto. A ciência natu- ral. não resta dúvida de que existem indicias de uma síntese renovada acerca do que compreendem as ciências sociais. veria .>. A meu ver. não acredito que seja este o caso. e os cientistas sociais. Com efeito. A primeira apresenta falhas porque descarta a possibilidade da existêncie. em primeiro lugar envolVEUum 'modelo errôneo de conceituação da . para os que desenvolvem trabalhos empiricos.An!hony Giddens Em defesa da sociologia sobre lidade da teoria social para efeito da análise empirica. Acredito que haja algo que se possa contestar. Caso tenha alguma empatia por qualquer das visões antagônicas que acabo de descrever. Certamente conhecemos os méritos e as limitações dessas perspectivas antagônicas e temos noção das principais linhas de desenvolvimento c. mais aparente do que real. A r:nelhorforma de pesquisa empirica ê uma pesquisa empírica com fundamento teórico. que os debates teóricos lhes são. A ci~!lçiilsodal canônica. portanto. e isso deve ocorrer no ãmbito de sistemas teóricos. 100 a. O que C. inaplicáveis. de fato.ue nascemàos debates realizados. Posso cuidar dos meus trabalhos empiricos e deixar os teóricos brigando por suas perspectivas divergentes". A polifonia de vozes com que deparamos hoje é. t!Ondo como a mais elevada aspiração da ciência a criação de sistemas de leis de natureza dedutiva. Algumas teorias são melhores que as outras. e em essênéia. Há uma relativa autonomia entre teoria e pesquisa. A segunda visão ê questionável. Esta segunda reação. Entretanto. nenhuma das posições anteriormente descritas pode realmente ser justificada. então. aceitaram essa condição. Não creio que se possa atribuir a isso a criação de uma nova ortodoxia. sob determinados aspectos. Contudo.vista filosófic>o O modelo de ciência natural emprcgad0 E-elo consenso ortodoxo era essencialmente empirista. da mesma forma 'lue os teóricos devem estar atentos às questões aventadas pela pesquisa empírica. tal como claramente demonstrado na filosofia da ciência póskuhniana. As duas não podem ser fundidas por completo.

Poderíamos apenas falar de forma muito supertlcial sobre o que realmente sabemos . muitas vezes. reconhecemos como características básicas da ação humana. Os cientistas sociais se esquecem de que a maior parte de nossas ações como seres humanos é inte. Abra um desses livros e provavelmente ainda irá encontrar. logo nas primeiras páginas. e ainda existe a necessi. Ni\. cia prática. Foi iaentificada por Wittgenstein na filosofia. Eis a razão pela qual as indagações propostas pelos cientistas ortodoxos e as respectivas respostas foram. A previsibilidade do mundo social não 103 '-- . por. como cientistas sociais. podemos pensar que sabemos o que estamos fazendo ao reali:zar nossas ações. todos sabem muito mais sobre as razões pelas quais tomam este ou aquele curso de ação do que efetivamente as expressam de modo discursivo. A segunda limitação do consenso ortodoxo resiáia no fato de que a ciência social canónica implicava uma falsa interpretação da empresa humana. de fato.iffldIdou dê \ím sistema deleTS. mas às quais nem sempre conseguimos dar urr a forma discursiva. conforme já mencionado.]cional. a empresa humana deve ser explicada em termos de causação social. com correção gramatical. a recuperação da noção do ag-. mas pode ser entendido como elemento constitutivo dessas ações.como falantes de uma língua para que ela simplesmente possa existir.entc. surge como uma preocupação empírica na etnometodologia e se encontra documentada naobra de Goffman.a exposição discursiva de motivos e análises _ teria esgotado a capacidade de conhecimento dos age. ~ dade de estudar tais limites (restrições estruturais). Como atores sociais leigos. também tendemos a negligenciar."~--~ elevado grau de complexidade. e tal conhecimemo não está condicionado ao que fazem. Para o consenso ortodoxo. de um rr_odeloinútil para ser adotado nas ciéncias sociais. e de que estamos cientes das razões que nos levam a praticá-las. 102 J. Por "consciência prática" entendo uma noção que vem s~ndo "descoberta" em diversas tradições de pensamento. Por exemplo. encontraríamos grande dificuldade em fazê-lo. se alguém nos solicitasse uma análise discursiva dessas coisas que sabemos. Encontra-se delimitada institucionalrP. porém. somos conduzidos por influências das quais não temos consciência. envolve o conhecimento de um conjunto altamente complexo de regras sintáticas. O que temos de fazer na teoria social é recuperar a nação do agente humano conhecedor. e assim por diante. Nossa capacidade de conhecimento é sempre delimitada.-~tehumano conhecedor revela-se fundamental para a reformulação da resposta sobre o objeto das _~ciências sociais. devemos conhecer para fazer que a vida social aconteça. na realidade.e devemos saber . mas que. em nossa vida cotidiana. falar e entender um idioma como o inglês. como se derivasse diretamente de iorças sociais. táticas de uso da linguagem. Todos os agentes humanos dispõem de bastante conhecimento acerca das condições de sua atividade.I o último Anlhony Giddens Em defeso do sociologia reduto do consenso ortodoxo enconrca-se nos livros metodológicos das ciências 30ciais. por mais de um motivo.ntes humanos. No entanto.éJ!l o cientista social pode nos demonstrar que. dicas contextuais. Tal recuperação deve basear'sénâ iâéiaaecOr. O conceito refere-se a todas as coisas conhecidas por nós como atores sociais e que. o investigador passaria ao estudo de causas estruturais. Trata-se simplesmente de uma falsa visão da maioria das formas de explicação no campo das ciências naturais e.Séiêr. O que a ciência social ortodoxa fez foi trdrar-nos como se nosso comportamento fosse resultado de causação estrutural ou limitação estrutural. a idéia de que a "explicação" é a dedução de um evento oriundo __ ~-de-l. Contudo.cujàs rejaç6es aprese~ta. concebidas erroneamente: partiu-se da premissa de que aconsciência discursiva .'. Assim.ohá nenhuma contradição em afirmarmos que oJlngüista estuda "o que já sabemos". A consciência prática demonstrase fundamental no que concerne às 'armas com que tornamos o mundo social previsível. Precisamos saber tudo isso para poder falar inglês. Ou seja: as ciências sooais devem concentrar sua atenção em fenômenos que..

conseguem empregos com remuneração relativament'e baixa e moram em áreas de baixa renda.Anthony Giddens Fm defesa da sociologia :j "acontece" simplesmente da mesma maneira que a previsibilidade do mundo natural. Um dos papéis desempenhados por socióiogos e antropólogos é o de documentar as diferenças entre culturas.c!apelas práticas organizadas com o conhecimento dos agentes humanos. sua revelação deve ser uma das principais ambições do trabalho sociocientifico. de algum modo. Seria bastante desinteressante à maior parte dos atores leigos das sociedades modernas se os cientistas sociais estudassem . neste contexto. e. avaliar até que pOnto a previsibilidade em diferentes ambientes culturais está condicionad. obviamente. o raio de alcance de nossas ações escapa a todo momento às intenções e finalidades que as induziram. as generalizações do tipo dois jamais podem formar um paralelo p~rfeito com as leis pertinentes às ciências naturais 105 .!. Ao sairem da escola. ~ger":. também criam condições para que os agentes pratiquem suas ações na sociedade. bem como entre convenções. bem como o motivo disso . Se você vem de uma cultura diferente e jamais viu automóveis antes.que todos.'Quando o sinal está vermelho. O tipo de generalização que interessava à ciência social raturalista depende da premissa de conseqüências não-:. e assim o ciclo se repete. de carros que param no sinal de trãnsito. os carros param. AS generalizaçi5es do / .~a graus distintos de consciência das convenções.\ ~l"'. Mais tarde. os professores enfrentam problemas disciplinares em sala de aula. estabelecendo-se uma analogia mais ou menos direta com as leis existentes nas ciências naturais. Tomemos o exemplo. podem ser compreendidas como uma forma que se aproxima de generalizações semelhantes a leis na ciência natural. seus filhos freqüentam escolas nas mesmas áreas. Contudo.eu comportamento como motoristas e viessem com a descoberta de que. É verdade que todos nós agimos demonstrando conhecimento durante todo o tempo . por pane dos motoristas. Porém. Isso diz respeito às conseqüências não-intencionais da ação humana. Entretamo. embora todos sejamos atores Í!'. A bem da verdade. Claro.. eles param no sinal de trânsito. Generalizações desse tipo são absolutamente banais. na maioria das vezes.e convenções por parte dos atores sociais. portanto. conformê destacado com muita propriedade por Max Weber.ntencioIlais generalizadas. pode imaginar que exista algum tipo de raio entre os sinais Com o poder de parar os carros. todos sabemos que o que faz os carros pararem no sinal é o conhecimento. exceto quando fazem pane de um processo de reconstituiçâo antropológica.~i j~! . Pod~r-se-ia supor que neste caso existe uma "lei". " CI2ro que as generaiizações do tipo dois de fato existem nas ciências sociais. No campo das ciên- cias sociais. apresentado pelo filósofo Peter Winch. há dois tipos de generalização. fornecem as razões para o que fazem. o tráfego segue o seu curso. seria de fato uma iei ao estilo naturalista. Tomemos Como exemplo a existência de um "ciclo de pobreza". Se isso fosse verdade. 104 . cada um desses tipos difere das leis da ciência natural. lILeis".porque é algo que fazem no uso das convenções por eles aplicadas.. Os proponentes do consenso ortodoxo preocupavam-se com fatores sociais gerados por conseqüências intencionais _ que.tencionais. quando fica verde. se assim se preferir. os motoristas já sabem que param no sinal. Todavia. As escolas de áreas menos favorecidas dispõem de instalações precárias. os alunos não são motivados quanto à importância dos valores acadêmicos.. Podem ser chamados de "leis". Uma terceira deficiência verificada na concepção tradicional da ciência social foi a idéia de que é possivel descobrir as leis da vida social. essas pessoas possuem baixa qualificação.:"são as que dependem da observação consciente de regras. Chamarei as leis dessa categoria de le~_do liRa 9-º!S. das normas de conduta no trânsito e que tais normas e convenções de comportamento A segunda noçâo de "lei" está bem mais próxima da visão de generãlizações estabelecida no consenso ortodoxo. sabemos o que estamos fazendo e por quê.

Praticamente. Anthony Giddens Em defeso do sociologia porque as relações causais que pressupõem dependem de conseqüências não-intencionais da ação proposital. Talvezmais do que qualquer autor. A lingüística diz-nos o que já sabemos. não é de surpreender que uma nova descrição pelo cientista social das ações praticadas por essas pessoas seja desinteressante. da relação existente entre as atividades realizadas conscientemente. sendo claramente distintas da crítica de uma falsa crença. mais uma vez. atribuir uma forma discursiva aaspectos de conhecimento mútuo que os atores sociais leigos empregam de forma não discursiva em sua conduta. O Iluminismo nas ciências sociais pode ser equiparado à crítica de crenças falsas.1conhecimento à luz da convenção sofre transformações ao longo do tempo. A lingüística estuda o que o usuário da linguagem sabe . podem demonstrar . Ne entanto.. Por outro lado.(. As pessoas precisam saber não só O que estão fazendo mas também a porquê de o estarern fazehdó:"pai-ã que normalidades dessa natureza ocorram. Encontramos aqui um conjunto interessante de problemas e impasses. assim. além disso. As suposições contrárias a essa afirmação constituíram o principal erro daqueles que acred:taram que as generalizações do tipo um esgotam as possíveis contribuições das ciências sociais à compreensão do comportamento humano. Em um determinado contexto de ação. Tod03 nós vivemos em culturas específicas distintas de outras culturas distribuídas em todo o mundo e de outras recupe. 107 __ o • ~ _ . a maior parte do que sabemos para falar uma língua não é conhecida de forma discursiva.. sobre as generalizações do tipo dois. As ciências naturais. mas também o quanto são administrados com base em rotinas.. devemos acrescentar as influências das conseqüências não-intencionais. Aqui. o que as pessoas fazem cor. os trabalhos etnográficos da ciência social são importantes. partir de atividades sociais. e a reprodução social gerada de forma não-intencional. mas de uma maneira discursiva bastante distinta dos modos normais em que se expressam tais conhecimentos.1s sociais dependem do entendimento. Em conseqüência de suas limitações lógicas. existe um sentido lógico segundo o qual tal comportamento não pode estar baseado em crenças falsas.a ter condições de falar o idioma em questão. As ciências sociais.isto é. de uma comparação bastante direta com a ciência natural. à luz da convenção.~ gras e convenções de comportamento) e as do üpo dois (que dependem de conseqüências não-intencionais). exercendo influência. O termo "conhecimento mútuo" abrange uma série de técnicas práticas de apreender significados 2.s.e deve saber _ pa.tnos. Essa visão é completamente (rrônea ao considerarmos as diferenças entre as generalizações d0s tipos um e dois. contudo as conseqüências do qU( fazem tipicamente fogem às suas pretensões.. Tais informações só serão novidade para os que não pertencem ao meio cultural em que a ação observada acontece.~.tre generaÚzações ~j~ tip'. Todas as ciênci. termos das alterações na capacidade de conhecimento elos agentes hl' m. Aciênc@. Há um~relaçãointrT~e. o consenso ortodoxo sustentou uma visão ptimitiva da natureza da "iluminação" que as ciências sociais podem proporcionar aos leigos. todas as generalizações desse tipo são mutáveis no.. seja ele qual for. . Assim. dentro de circunstâncias históricas especificas.. ()s atores s. produzem o Iluminismo ao nos mostrar que muitas de nossas crenças preestabelecida~ sobre o mundo eram falsas. Nas situações em que o comportamento se manifesta normalmente em 106 decorrência do uso consciente da convenção. O modelo em que se fundou a perspectiva tradicional derivava. A essas formas potenciais de elucidação. Ervins Goffman deixou bem claro o quão complicados e sutis são os componentes constitutivos do conhecimento mútuo. Lógico. presumia-se..oc:ialnão pode ser puramente'~interpretativa". o paralelo com a lingüística é bem próximo.<lciais empre sabem o que estão fazendo (de acordo com alguma s descrição ou potencial descrição). ráveis por meio da análise histórica. a perspectiva naturalista incorreu em erro ao presumir que é possível explicar o comportamento humano de modo abrangente por meio da identificação de leis do tipo dois.

i~!og9? natur?-listas.r ç~es sociais não decorrem de áçõ~s intencionais d~ seus parti~ipantes. E isso. Por exemplo. tem de ser dissecada com cuidado e apresenta variações de acordo com o momento histórico. um historiador poderia levantar a questão: por que a Primeira Guerra Mundial eclodiu em um momento em que nenhuma das principais partes envolvidas agiu intencionalmente para produzir tal resultado? 108 ~. bastante diferente. . Tuda reprodução social em larga escala ocorre de acordo com con-: dições de "intencionalidade'mista". a perpetuação de instituições sociais envolve um tipo de mistura entre resultados intencionais e não-intencionais das ações praticadas.essas condições. eles têm procurado demonstrar que as instituições duas estão envolvidos. é partir da premissa de que. '. outra. a menos qt:e sejamos claros acerca da natureza do que é intencional. Entretanto. O monitoram~nto das condições para a reprodução de sistemas retlete. os agentes individuais são levados a agir por "causas sociais" que de algum modo determinam o curso de suas ações.ucional não pode fazer referência a necessidades sociais. Parece perfeitamente apropriado e. O que não é intencional não pode nem mesmo ser caracterizado. uma coisa é argumentar que alguns aspectos da vida ou institui. segundo Onaturalismo. bastante distintas das razões que os atores <.~in!~n. Essa mistura. Assim. como resultado de um exame crítico renovado do funcionalismo. No emanto. Há uma série de circunstãncias que afastam condições "altamente monitoradas" de reprodução de' sistemas daquelas que envolvem uma retroalimentação lfeedback) das conseqüências nãointencionais. exceto co..) Em parte. podemos nos interessar em indagar por que um determinado evento ocorreu. .r~. como resultado. fica aparente que uma análise dos processos de reprodução instir. Em outras palavras. Há muitos tipos diferentes de questionamento que aludem ao papel das conseqüências não-intencionais da ação humana. Contudo. Em outras palavras. um exame das conseqüên- sociais possam ter para quaisquer atos que pratiquem. sem dúvida.0 ~ ~ ~ ~~ ~ '. _. um fenômeno associado ao Surgimento da sociedade moderna e à formação de organizações modernas. eu diria. Isso porque o pOnto de explicação funcional tem sido normalmente o de demonstrar que há "razões" para a existência e continuidade das instituições sociais. P~~aos so<.s apresentam características que vão Nesse sentido. l.Anfhony Giddens Em defesa do sociologia A irrefutabilidade de versões naturalistas da ciência social depende justamente da observação de que não há intenção deliberada dos participantes envolvidos na ocorrência de muitos dos eventos e processos da vida social. ver Capítulo 4. Longe de reiterar tal conclusão.es..:. de modo geral.' I 1'"r1 '. É no desvio das instituições sociais em relação aos propósitos dos atores individuais que. a conexão entre fun'ciona. devem ser identificadas as tarefas cjas ciências sociais. também presume uma análise dos motivos dos agentes. sociai. necessário indagar quais são as condições indispen- p. cias não-intencionais da ação conduzir-nos-ia a assinalar a impor- tãncia de uma abordagem mui to be!:"elaborada da natureza proposital da conduta humana. entretanto. tal investigação pressupõe a análise dos mecanismos de reprodução social e. o. sávei~ à permanência de um determinado conjunto de instituições sociais durante um período de tempo específico. I além dos contextos específicos de interação nos quais os indivilismo e naturalismo tem Jma aplicação específica._. não fornece explicação pare. não há como dedicar o devido tratamento a esta questão de acordo com os termos da ciência social \ naturalista.'i .o propriedades "de simulação" pOstuladas de modo contrafactual. a despeito do fato de ninguém ter tido a intenção de que ocorresse. (Para discussão mais detalhada. cará~~.. Otipo de pergunta que tradicionalmente preocupa os cientistas sociais naturalisttls diz respeito:'à? condiç6es:da~reprodução social.1 A penetrabilidade das conseqüências não-intencionais é sinal de que devemos continuar a defender a versão da ciência social propagada pelo "cãnone sociológico" contra concepções mai" "interpretativas". por si só. 109 .~(). i . ~. Todavia. I cional dos processos sociais sustenta a visão de que a vida social gerida por influências ignoradas pelos atores sociais. muitas ve.

que remonta. Durkheim e todas as vertentes natural:stas do marxismo. as ciências sociais envolvem uma dupla hermenêu_ tica. Segundo. 111 \ ------- . envolve um tipo de hermenêutica."...e devem ser . por Sua vez. os conceitos técnicos atores sociais sobre a vida social e as condições para a reprodução social. no minimo.tidos diferentes. colocamo-nos em uma posição que nos permite fazer mudanças neSSemundo..l:'I"ªo cabe ao cien=-: tisti'_s. que passamoS a tomar maior conhecimento do mundo social. como afirma Winch." A ciência social preocup-ã"se com os agentes que geram e inventam conceitos. Esse processo de absorção contribui para explicar a aparente banalidade das descobertas sociocientíficas. A criação de descrições verídicas da ação humana pressupõe que o observador sociológico tenha acesso aos conhecimentos mútuos por meio dos quais os atores sociais orientam suas ações. contudo. Essa visão vem de uma herança profundamente arraigada nas ciências sociais.tro da visãociistorcida da capacidade de correção do senso comum. bem como sobre as condições nas quais praticam seus atos.teriormente mencionado. É exatamente este o sentido em que.~ciênc.•. quistas muito mais inovadoras da ciência natural. Ao contrário. mantidas por atores sociais leigos. como se tem esclarecido nas correntes mais recentes da filosofia da ciência.as sociais são . O que Winch em absoluto não leva em consideração é a absorção reciproca dos conceitos sociocientíficos no mundo SOcialem que são Cunhados para efeito de análise.---'- ---~ ~-- -. em qualquer COntexto de ação.. Se os argumentos anteriormen:e expostos forem válidos.. refiro-me a crenças proposicionais mantidas pelos falsas sobre o mundo social. os proponentes do consenso ortodoxo partiram do pressuposto que as conotações práticas da ciência social assumem um caráter tecnológico. a ligação entre os pro?ósitoS (de alguns agentes) e a continuidade das instituições sociais será direta e penetrante. contudo. a Montesquieu. Primeiro. a afirmação é ambígua com relação à intencionalidade. Em condições em que a reprodução é altamente monitorada. Via de regra. Ao contrário da ciência natural. bem como suas implicações práticas. o mundo objetivo da natureza. ao se explicar uma reprodução social em termos de afirmações do tipo "a função de x é.ciênciasnaturais. A ciência social não envolve a crítica de crenças 110 d.. faz-se essencial ressaltar tal diferença. da mesma forma que no caso do mundo natural. Dadas suas premissas naturalistas.?Sconceitos e as teorias desenvolvidos no âmbito destas se aplicam a um mundo constituído das atividades praticadas por indivíduos que conceituam e teorizam.. a mecânica do processo de reprodução será bastante diferente. vi"to que .. Nos casos em que uma retroalimentação não-intencional entra em ação. que teorizam sobre o que fazem. esse ponto de vista não pode ser sustentado. ~as o contexto em que tais idéias e teorias críticas são formula_ das. conforme ar. 1 Anthony Giddens Em defeso da sociologia Pode-se levantar uma objeção que atua em dois ser. Os conceitos e teorias da ciência natural são completamente isolados do mundo "deles". tal afirmação não possui valor explicativo e ~ó adql!ire signifjca<:iocausal il1teligivel'luandQaplicada à atividade social na forma de proposição contrafactual. é ser capaz de "seguir adiante" no âmbito da forma de vida em questão._- . quando comparadas ao que parecem ser as con.parasitários em relação' aos conceitos de origem laica. em que as teorias compreendem conjun_ tos estruturados de significados. Por senso comum.--. A ciéncia consiste em um esforço interpretativo.. os conceitos técnicos da ciência social estão atrelados logicamente àqueles do mundo do senso comum.. A ciência natural. A ciência social canónica demonstrou a tendência de ti abalhar der. Essas considerações têm implicações significativas e complexas na análise do impacto prático das ciências sociais. As ciências sociais corrigiriam 'as falsas crenças dos agentes a respeito da atividade social ou instituiçõe3 sociais. pelo menos não com base em nada parecido com a abordagem desenvolvida por esses autores.oc:~a~ interpretar os significados do mundo social para os ! atores sociais nele inseridos. é bastante difereme daquilo que está e~olv~do _nas. À medid2.---- ~~-. A condição de ser capaz de descrever o que os atores sociais estão f"zendo. tendo sido reiterada por Com te.

A ciência social não assume uma posição de neutralidade em relação ao mundo social. Desde suas origens nos tempos modernos. mas iam muito além. o próprio significado originalidade se perde. naturalmente se transformam em elementos familiares de rotinas sociais. risco. possam ter sido tão fantasticamente cias naturais. constitui um erro. sem a noção de soberania. do qual tá.. por exemplo.ndo social à altura das realizadas pelas ciências naturais? Se tais descobertas não existem. poder-se-ia argüir que as conseqüências transformadoras das ciências sociais para o mundo social têm sido consideravelmente maiores do que as das ciências naturais para o mundo "natural". ao serem construídos. todos nós aprendemos a dominar atualmente.is conceitos passaram a fazer parte constituinte. compreendendo noçôes como soberania e a própria noção de política. despontou um novo discurso político. Claro que era isso que estavam fazendo. !. Um cientista social da linha ortodoxa poderia supor que aqueles teóricos estivessem descrevendo apenas mudanças que ocorriam na vida social. mesmo que. Os pensadores não estavam descrevendo um mundo que lhes havía sido dado de modo inde112 Assim. Sempre que usamos um passaporte para viajar de um país para outro. i i i i ! Ii i • I 113 • I I . Anthony Giddens Em defesa da sociologia . Não podem ser entendidas apenas como descrições de um mundo de institClições estatais que nos é apresentado de modo independente. os conceitos introduzidos pelas ciências sociais tornam-se componentes familiares nas teorias e práticas de atores sociais leigos e não permanecem adstritos a um dfs- curso profissional. Poder-se-ia supor que os primeiros economistas Outro exemestivessem sociais leigos e incorporados na atividade social. de cidadania e de uma série de outras noções a elas associadas. Nos escritoS de Maquiavel e de outros autores. custo e. passaram a con~tituir essas instituições. porém. a noção de soberania é algo que. demonstramos algum domínio prático da noção de soberania. As implicações da dupla her . menêutica residem ne fato de que os cientistas sociais não podem deixar Qe permanecer alertas aos efeitos transformadores que seus conceitos e teorias possam porventura produzir sobre aquilo que se propuseram a analisar. tem-se a impressão de que n~o somos c~pazes de desenvolver as tecnologias sociais das quais dependem as conotaçôes práticas das ciências sociais (no modelo ortodoxo). O discurso das ciências econômicas fornece-nos plo.. basicamente.11. inevitavelmente. A invenção do discurso da ciência política contribuiu para formar o que hoje chamamos de Estado moderno.or qu~ as ciências sociai~I1ãoproduzi~am descobertas sobre ?I11.1 . De fato. Claro que descreviam teis mudanças. logo em suas origens. Além disso.~. em certo sentido. Sua descrevendo uma série de mudanças que vinham acontecendo na sociedade do século XIX. O discurso econômico ingressou como elemento constitutivo no que se conhece hoje como sociedade industrial. inovado- res quanto qualquer coisa que tenha existido no campo das ciênA história mais remota das ciências sociais esteve vinculada ao surgimento da teoria política nos séculos xv e XVI.. como um instrumento de transformação tecnológica. Tal visão. o trabalho crítico não pode se limitar à critica de falsas crençás leigas. investimento. o impacto prático da ciência social não é de ordem técnica. Uma vez assumidos p'or atores pendente. porém não era só isso que estavam fazendo. Ele se fez sentir pela absorção dos conceiros sociocientíficos no mundo social. até mesmo. as ciências sociais causaram e continuam a causar um impacto prático da maior abrangência sobre o mundo social. III A trivialidade da clên_c~a social foi uma das maiores fon tes de preocupação dos praticantes da sociologia canônica. A sociedade industrial não poderia exiStir se os atores sociais do cotidiano não houvessem dominado os conceitos de de economia. O Estado moderno é inconcebível. Contudo.

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