UNIVERSIDADE DE SOROCABA

PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO
LICENCIATURA PLENA EM HISTÓRIA

Ariana de Queiroz Lima

REPRESENTAÇÕES SOBRE A MORTE: SOROCABA E A IMPLANTAÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL

Sorocaba/SP 2011

Ariana de Queiroz Lima

REPRESENTAÇÕES SOBRE A MORTE: SOROCABA E A IMPLANTAÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do Diploma de Graduação em História, da Universidade de Sorocaba.

Orientador: Prof. Dr. Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho

SOROCABA/SP 2011

Ariana de Queiroz Lima

REPRESENTAÇÕES SOBRE A MORTE: SOROCABA E A IMPLANTAÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para obtenção do Diploma de Graduação em História, da Universidade de Sorocaba.

Aprovado em:

BANCA EXAMINADORA:

Ass.:___________________________ Pres.; Titulação, Nome, Instituição Ass.:___________________________ 1º Exam.: Titulação, Nome, Instituição Ass.: __________________________ 2º Exam.: Titulação, Nome, Instituição

Dedico este trabalho aos meus pais Ariosvaldo e Sebastiana, por guardar cada necessidade para hora certa, à minha irmã Jassiara com toda sua sensatez e dignidade; avó Ana, amigos Rômulo e Eli Cristina, minhas poucas, mas tristes e difíceis perdas.

AGRADECIMENTOS

Ao professor Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho, pelo cuidado e seriedade concentrados durante a orientação, também por todo bom humor e pertinências necessárias.

À professora Cássia Maria Baddini, personificação do eruditismo, paciência e esforço aplicados tão pontualmente, principal incentivadora, despertando-me para estudos locais.

Aos meus queridos pais Ariosvaldo e Sebastiana, tão compreensivos nos momentos difíceis e tão necessários em todas as outras ocasiões de minha vida, que com erros ou acertos me tornaram o que sou hoje.

À irmã Jassiara, pelo simples fato de sua existência.

Ao amigo Rafael, pelo apoio generoso, pelos incentivos, discussões e calma durante toda a ajuda proporcionada nesta longa jornada.

A Deus, pois embora de pouca fé, há sempre um motivo maior.

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“Duas vezes se morre: Primeiro na carne, depois no nome. Os nomes, embora mais resistentes do que a carne, rendem-se ao poder destruidor do tempo, como as lápides.” (Manuel Bandeira)

RESUMO

O presente trabalho tem por finalidade analisar e entender as modificações ocorridas na cidade de Sorocaba com a implantação do Cemitério Público Municipal, em 1863, com embasamento no movimento baiano denominado Cemiterada, abordado por João José Reis (1991), que mostra o enraizamento de pensamentos e percepções de uma sociedade diante da morte, suas atitudes em relação às mudanças tanto de novas perspectivas médicas quanto pela instituição de uma lei pelo governo que proíbe os enterros em cemitérios de igrejas, confrarias e irmandades, conferindo monopólio aos sepultamentos. As pesquisas basearam-se em publicações diversas da população como notas de falecimento e suicídio, sufrágios, queixas, entre outros divulgados pelos periódicos de circulação no município e as Posturas Municipais, regimentos e códigos desenvolvidos pela Câmara da cidade de Sorocaba para a abertura e funcionamento do Cemitério Municipal, fazendo uma análise entre as publicações populares e institucionais; o que foi inserido à população por todas as questões tocantes à época como os movimentos higienistas e novas formulações legislativas e qual a visão da população em relação aos novos modos de ver e sentir a cidade com mudanças impostas ao cotidiano entre moradores da cidade e seus hábitos para com os mortos.

Palavras-chave: Morte, Representações, Sorocaba, Cemitério Municipal.

ABSTRACT

The purpose of this research is to analyze and comprehend the changes occurred in the city of Sorocaba when deployed the Public Cemetery in 1863, with the “movimento baiano” called “Cemiterada” approached by João José Reis (1991) as a point of departure. His research shows the thoughts and perceptions of the society towards death, the attitudes regarding the changes of medical perspective and regarding the law created by the government which prohibits burial in church cemeteries and fraternities, giving monopoly of the burials. The research is based in many publications from popular releases such as death notes, suicides, suffrages and complaints among other publications released by newspapers from the city, to institutional publications like regiments developed by the municipal council to open the public cemetery of Sorocaba. Research trough institutional and popular publications are made. Also the elements added to the people’s lives in all matters regarding that time such as the hygienist movement, new laws and the point of view of the residents regarding new ways of life in the city.

Keywords: Death, Representations, Sorocaba, Municipal Cemetery.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..........................................................................................................9 AS MODIFICAÇÕES DIANTE MORTE..................................................................11 SOROCABA: TRANSFORMAÇÕES NO MODO DE VIDA....................................14 A IMPLANTAÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE SOROCABA E SEUS DESDOBRAMENTOS.............................................................................................17 POSTURAS MUNICIPAIS, REGIMENTOS E ADEQUAÇÕES..............................21 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................27 FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ..................................................29

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como intenção examinar e entender as modificações ocorridas na cidade de Sorocaba com a implantação do cemitério municipal, em 1863, com base no movimento baiano denominado como Cemiterada, abordado por João José Reis1, que expõe o enraizamento de pensamentos e concepções de uma sociedade perante a morte, suas atitudes em relação às mudanças impostas pelo governo, onde a instituição de uma lei proíbe os enterros em cemitérios de igrejas, confrarias e irmandades, conferindo monopólio aos sepultamentos e através dos discursos médicos vigentes que pregavam as questões miasmáticas e anti-sanitárias que tanto amedrontavam as populações. A pressuposição de que tenha existido em Sorocaba movimentação parecida ou que ao menos se aproxime ao que aconteceu décadas antes na cidade de Salvador, fez com que esta pesquisa tenha tomado moldes, assim como a problematização das mudanças que as populações sofrem no modo de pensar e agir perante a morte durante o passar do tempo, como se dão essas modificações e se efetivamente ocorrem mudanças no imaginário coletivo ao se alterarem os modos como os vivos passam a tratar seus mortos, pois são transformações que ocorrem de modo lento, ultrapassando gerações sem serem percebidas. As fontes2 escolhidas para a pesquisa são os jornais de circulação local da época, entre 1850 e 1900, baseando-se em publicações diversas da população como notas de falecimento e suicídio, sufrágios, queixas, entre outros divulgados nos periódicos vigentes no município e as Posturas Municipais 3, regimentos e
REIS, João José. A morte e uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. Periódicos utilizados na pesquisa: O Defensor, 1852-1853 – O Monitor, 1856 – O Arácoiaba, 1866-1867 – O Sorocabano, 1870-1871 – O Americano, 1871-1872 – Ypanema, 1872-1880 – Sorocaba, 1872-1873 – Gazeta Commercial, 1874-1875 – A Voz do Povo, 18751876 – Colombo, 1876-1878 – O Votorantim, 1877 - Gazeta de Sorocaba, 1878 – Diário de Sorocaba, 1880-1889 – O Alfinete, 1891. Código de Posturas da Câmara Municipal de Sorocaba acompanhada do Regulamento para o Cemitério, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques 1863 - Posturas Municipais de Sorocaba, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques, 1865 - Posturas Municipais de
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códigos desenvolvidos pela Câmara Municipal da cidade de Sorocaba para a abertura e funcionamento do cemitério municipal, fazendo uma análise entre os dois tipos de publicação, o que foi inserido à população por todas as questões tocantes à época como os movimentos higienistas e novas formulações legislativas e qual a visão da população em relação aos novos modos de ver e sentir a cidade com mudanças impostas ao cotidiano entre moradores da cidade e seus hábitos para com os mortos.

Sorocaba, São Paulo: typ. Americana, 1871.

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AS MODIFICAÇÕES DIANTE MORTE

É em meados do século XIII, em pleno desenvolvimento da Idade Média, que o homem inicia a transformação de suas representações em questões relativas à morte. Sem ansiedade ou inquietações com corpos ou crenças e tida como um acontecimento familiar; sem questionamentos e de fácil aceitação, uma morte sem culpa, domesticada; é entendida apenas como mais um rito de passagem na vida de uma pessoa e de sua família, aceita de forma passiva e sem aflições, o homem deste tempo reconhece a morte de si mesmo, e esses são modos que se mantém por um longo período. As modificações nesse pensamento surgem com os questionamentos e dúvidas do homem contemporâneo dessa época, que tentam ser sanadas através da racionalização do mundo onde vivem. Através de novas percepções e seguindo os princípios iluministas, a luz de todo seu caráter científico e racional, acontecia um movimento nos países europeus de condenação das práticas de enterramentos em ambientes fechados, no caso, no interior das Igrejas. Essa forma de sepultamento era considerada inadequada e não recomendada pelos novos padrões de higiene e de saúde pública à população da época:

Por volta das primeiras décadas do século XIX, entretanto, assistiuse ao desenvolvimento e a difusão do saber médico que, preconizando a prevenção de doenças, procurou voltar-se para uma política de higienização dos espaços urbanos, direcionando seu olhar e olfato para os sepultamentos eclesiásticos, dentre outras práticas, tidas como prejudiciais à salubridade pública. As práticas de inumação até então vigentes foram consideradas pelos médicos como passíveis de serem extintas, uma vez que as emanações cadavéricas poluiriam o ar, o que era agravado pelo fato de serem muitas as igrejas localizadas no perímetro urbano, todas repletas de sepulturas que, quando abertas na presença dos fiéis, provocavam odores mefíticos, causadores de doenças e alimentadores das epidemias. (RODRIGUES, 1997, P. 21-22).

Há então novas possibilidades e formas de pensar e agir, como também em função de epidemias e pestes que acabam por interferir no comportamento das sociedades em relação à morte, pois nesses momentos de dificuldade e fatalidade, os homens se viram desobrigados em relação aos os rituais fúnebres. Inicia-se então a tão conhecida romantização da morte, a necessidade do sofrimento e do luto, o sentimento da perda irreparável, da reflexão que acontece

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ao percebermos a separação entre corpo e alma, a morte passa ser entendida e tomada como tabu, torna-se abrangida como a morte do outro; tem agora o cunho de violação à vida cotidiana, um rompimento; a morte agora reafirma que a prosperidade do coletivo está ameaçada. Na impotência de impedi-la, é necessário agora calá-la e escondê-la:

Depois dos funerais, o luto propriamente dito. O dilaceramento da separação e a dor da saudade podem existir no coração da esposa, do filho, do neto; porém, segundo os novos costumes, eles não os deverão manifestá-los publicamente. As expressões sociais, como o desfile de pêsames, as “cartas de condolências” e o trajar luto, por exemplo, desaparecem da cultura urbana. Causa espécie anunciar seu próprio sofrimento, ou mesmo demonstrar estar sentindo-o. A sociedade exige do indivíduo enlutado um autocontrole de suas emoções, a fim de não perturbar as outras pessoas com coisas tão desagradáveis. O luto é mais e mais um assunto privado, tolerado apenas na intimidade, às escondidas, de uma forma análoga à masturbação. (MARANHÃO, 1986, p. 18 – 19).

Assim acontecem e nascem as novas crenças sobre a imortalidade da alma e a convivência post mortem ao lado de Deus. Começa então o afastamento entre cristãos e pagãos e os enterros ad Sancto, aquele onde os sepultamentos são feitos em solo sagrado, dentro e no entorno das igrejas, prática esta que está atrelada à ideia de que uma vez sepultados próximo aos santos e mártires se acreditava estar quase que de todo salvo, pois estes guardariam os mortos ali enterrados protegendo-os de todos os males, é onde cemitério e Igreja se confundem. Inicia-se então um novo tipo de estratificação social, a do morto, pois quanto mais abastada a família, mais privilegiado se tornava o local de sepultamento. Insere-se também nesse contexto, as práticas da boa morte, onde ainda vivo, é necessário seguir preceitos adequados ao tão querido descanso eterno, como a formulação de testamento, contendo seus desejos e confissões, admitindo e pedindo perdão de seus pecados, repartindo seus bens e guarda salvando seus familiares, assim estando pronto para que sua morte ocorresse de forma pacifica e honrada. O uso de mortalhas também fazia parte dos rituais de boa morte, aproximando o morto de seu santo de devoção, que era tido como intercessor por seu devoto, se encaixam novamente nesses ritos, as missas de

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corpo presente e após os enterros, pois a oferta de orações contaria como intervenção divina em intenção do morto. Levando em conta que todos os ritos fossem rematados, não haveria então motivo para ter medo dos mortos, pois nessas condições a alma não teria problemas em encontrar seu caminho, um alívio, tanto para quem necessitasse passar por tais ritos, tanto quanto para a família, que não seria em hipótese alguma perturbada pelo ente querido. Já se a morte fosse repentina, trágica, sem preparação e não havendo ritos ou enterro apropriado, era normal acabar por temer quem falecesse nessas condições, pois vagaria sem rumo, não teria chance de ter sua alma salva, seria uma alma penada pelo resto de toda a eternidade. Estas concepções permanecem arraigadas durante muitos séculos. Sofrem movimentações de extrema lentidão, por vezes despercebidas, ultrapassando assim a memória coletiva. O ponto de vista apenas começa a se modificar, quando as cidades passam por processos de maior desenvolvimento e começam a ser atacadas pelos chamados miasmas, termo que surge durante o século XIX e acaba sendo freqüentemente usado nos discursos de médicos e higienistas para explicar os problemas acarretados pelos maus hábitos em relação a não salubridade das cidades, levando em consideração então os sepultamentos intramuros, que segundo os mesmos discursos traziam e proliferavam e mantinham doenças, mau cheiro e caminhavam em direção contrária ao desenvolvimento e evolução das cidades.

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SOROCABA: TRANSFORMAÇÕES NO MODO DE VIDA

Sorocaba atravessa uma época de mudanças durante boa parte do século XIX. Na década de 1840 é elevada de vila à cidade, um tempo de incorporação de novos costumes e pensamentos. Com a intensa passagem das tropas de animais e as necessidades acarretadas com esse trânsito, o comércio local passa a abranger também a “feira de animais” 4 em sua economia, articulando-se próximo aos locais de passagem das tropas. Iniciam-se então as questões relativas às melhorias a respeito da salubridade na cidade, mas que não são necessariamente questões de cunho higiênico:
“A salubridade pública, no entender da época, aplicava-se ao saneamento do espaço, visando à modernização e ao embelezamento da cidade, e não propriamente à adoção de práticas higiênicas pelo conjunto da população.” (BADDINI, 2002, p.200).

Entre estas questões, há também que se compreender o fato de, a localização de o primitivo cemitério da cidade fazer parte do centro urbano, o que segundo as novas medidas higienistas, agora pregadas de uma perspectiva médica, não serem apenas questões de embelezamento ou de novas práticas indispensáveis a uma cidade em busca do tão sonhado “progresso”, não eram de modo algum condizentes com qualquer tipo de hábito saudável, era totalmente repugnante tal hábito, pois os enterramentos tanto em igrejas ou irmandades religiosas quanto em cemitérios em meio à urbe já fosse motivo de preocupação desde meados do início do século:

Os médicos preocupavam-se em mudar o costume que durante três séculos não tinha sido contestado: os corpos sepultados nas Igrejas estavam mais próximos de Deus, alma protegida, já a meio caminho da Porta do Paraíso. Nada foi feito à revelia da Igreja que desempenhou papel relevante em sua elaboração, regulamentação e legitimação. A questão não estava restrita aos bastidores do saber médico, tratava-se de tentar deter em São Paulo, pelo menos, o avanço de surtos epidêmicos de varíola. Mesmo antes da exigência médica, já no ano de 1798, o governo de Portugal recomendava ao bispo de São Paulo, que promovesse a A feira de muares que acontecia em Sorocaba geralmente entre os meses de março e maio – poderia haver mudanças por necessidades variadas como as climáticas – era conhecida não apenas pelo comércio de animais e questões relacionadas às tropas, mas havia também durante o tempo em que a feira acontecia, a vinda de profissionais de saúde como dentistas e médicos, comerciantes ambulantes e artistas, aproveitando então a concentração de pessoas durante o tempo em que a feira acontecia.
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construção de cemitérios separados para evitar os males dos enterramentos dentro das igrejas, havendo o mesmo governo, por carta régia de 14 de janeiro de 1801, ordenado aos governadores e capitães gerais, que de acordo com os bispos, fizessem construir cemitérios em lugares preparados. (AVELINO; MORENO, 2004).

Em Sorocaba, não existe de fato uma preocupação efetiva da população em relação às condições higiênicas e/ou de saneamento da cidade, do que se tem efetivo conhecimento com base nas pesquisas, são reclamações surgidas dos habitantes em relação aos casos como os do uso da cidade por pessoas portadoras de doenças consideradas perigosas ou contagiosas, deste modo não devendo elas fazerem parte do cenário urbano. As conhecidas queixas e posteriores ações tomadas pela Câmara Municipal em relação à higiene e salubridade na cidade são principalmente questões a respeito de portadores de doenças contagiosas que transitam pela cidade, sendo então causadores de grande incômodo aos moradores de Sorocaba e que não seriam condizentes com a urbe:

A intenção de distanciar os doentes do centro urbano relaciona-se à preocupação mais acentuada com o saneamento da cidade nas últimas décadas. Vários artigos publicados pela imprensa da época ressaltam o desconforto e a repugnância que a imagem dos doentes causava aos moradores. Dominava a idéia de que a cidade devia ser limpa e estar aberta ao uso das pessoas sadias e às iniciativas modernizadoras. (BADDINI, 2002, p.205).

O maior problema é então a preocupação com o desconforto e a aversão que essas pessoas causavam aos moradores e não a real questão sobre a falta de salubridade na cidade e os possíveis problemas advindos dela. Em meio às principais medidas tomadas pela Câmara Municipal, está a construção de hospital voltado a esses doentes, tanto a fim de satisfazer a vontade das elites quanto do poder local. Entende-se pois, que as intenções da população em relação à saúde pública eram então queixas de cunho pessoal, não eram necessariamente sobre melhorias legítimas em benefício da cidade para melhor uso e condições para a população, mas sim que a urbe estivesse ou parecesse mais limpa, organizada e

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habitável, ainda levando em conta a influência e poder das elites de prestígio da cidade:

Nas ultimas décadas do XIX, a elite local, residente na área urbana, reivindicou e empreendeu a introdução de vários benefícios, defendendo-os como necessidades públicas “a bem da salubridade”: a arborização de largos centrais para embelezamento da cidade, a iluminação pública, os chafarizes de água potável, o calçamento de ruas, o serviço de coleta de lixo (...). Grande parte dessas melhorias dependeu da iniciativa particular, reforçando o benefício público como escolha e favor ditados pelo grupo dominante. (BADDINI, 2005, p.42-43).

Fundamentalmente, Sorocaba tem o centro da cidade como local de maior assentamento de população. Os tão queridos ares de “modernidade” chegam com o passar dos anos, demandados por uma elite que passa a repudiar os aspectos “provinciais” ainda sustentados pela cidade. Há então, nas décadas finais do século XIX uma desaceleração do comércio de animais e novas percepções, tanto econômicas quanto urbanas que são aos poucos inseridas à realidade da cidade. É então, que a partir dos movimentos que levam Sorocaba a se tornar uma cidade mais desenvolvida, juntamente à desaceleração do comércio de animais e o amadurecimento de ideias sobre industrialização e “progresso”, que a preocupação com as questões de higiene e saneamento do ambiente se tornam cada vez mais intensos, levando cada vez mais a população a exigir e cobrar da Câmara Municipal ações concretas a respeito de melhorias e mudanças que sejam realmente sentidas e vistas pelos moradores da cidade.

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A IMPLANTAÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE SOROCABA E SEUS DESDOBRAMENTOS

O primeiro espaço denominado como cemitério na cidade de Sorocaba era a céu aberto, localizado na área central da cidade, encontrava-se ao lado do quintal do Mosteiro de São Bento, onde hoje se localiza a atual Rua 7 de Setembro. Segundo os discursos médico-sanitaristas e higienistas tão fortemente pregados durante a época, essa prática careceria ser abolida, pois deveriam ser levadas em conta as teorias miasmáticas, onde sepultamentos e hábitos inadequados para com os mortos trariam os conhecidos maus odores, vapores insalubres transmitidos pelo ar entre tantos outros malefícios terminantemente nocivos à saúde dos moradores da cidade onde métodos de enterramento como esse ocorressem:

A introdução das novas formas de sepultamento resultou na alteração das relações dos vivos com seus mortos. Estes antes vizinhos suportáveis, cuja presença se tolerava em nome de um hábito secular, não mais o seriam a partir de então. Os vestígios de sua presença tornarse-iam intoleráveis e temíveis; deveriam ser deslocados para lugares mais distantes dos vivos. (RODRIGUES, 1997, p.140-141).

Em uma ação da coroa portuguesa, em Carta Régia do início do século XIX, é decretada a necessidade da construção de cemitérios extramuros em todas as cidades do país, uma determinação nem sempre cumprida e/ou aceita, por vários motivos:

A sucessão de eventos que culminou na secularização do Estado brasileiro e conseqüentemente na absorção pelo poder público da legislação e registro sobre a morte e seus espaços tem seu início já na virada dos oitocentos. Mas devido a um conjunto de razões, sejam essas da permanência de costumes do cotidiano, ou seja, essas econômicas e políticas, a efetiva separação somente ocorre com a Proclamação da República e pela promulgação da primeira constituição republicana. Mesmo assim o poder eclesiástico continuou por muito tempo a influenciar o poder laico. (...) em São Paulo, a primeira imposição legal foi a Carta Régia de 14 de janeiro de 1801. Nela o Príncipe Regente de Portugal ordenava ao Governador da Província que cada cidade do Estado escolhesse um local para construção de um cemitério. Ao que parece a Carta Régia não produziu muitos efeitos. (GARCIA, 2006, p.41).

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Os motivos pelos quais essa determinação não tenha sido cumprida de imediato são vários. Um deles é a não aceitação aos novos modos de pensar e agir diante da morte, pois mesmo com o início do pensamento higienista, o costume de enterros ad sancto ou intramuros perdura até pelo menos a metade do século XIX no país, por isso então ser tomada como uma mudança tão branda e gradual, pois crenças e hábitos arraigados por tanto tempo não mudariam de uma hora para outra. Entre alguns desses motivos também, há uma importante questão, a financeira. A construção do Cemitério Municipal de Sorocaba demandaria então de uma razoável quantia para ser devidamente erguido e regulamentado, crédito esse não disponível pelo poder local, o que leva a Câmara Municipal a solicitar ajuda financeira:

Suposto estejam ainda em alguns lugares imbuídos os povos de vãos prejuízos contra a idéia da edificação de cemitérios, de cessar absolutamente a pratica de sepultarem-se os cadáveres no interior das igrejas, idéia alias reclamada pelos inconvenientes, que dessa pratica resultam em dano da saúde pública, seria todavia conveniente cuidar em desarraigá-los com lentidão, e prudência, promovendo a construção de Cemitérios, em lugares próprios, e adequados, naquelas povoações, em que menos dominassem tais prejuízos. As Câmaras Municipais de Sorocaba, (...) representando a necessidade de cemitérios, solicitam auxílios dos Cofres Provinciais para sua edificação, não podendo fazer face a essa despesa a tenuidade de suas rendas. (1844 apud CYMBALISTA, 2002, p.54).

Em Sorocaba, a intenção de erigir um cemitério municipal teria tomado moldes pela primeira vez no ano de 1851, pedido esse que fora negado pelo poder provincial. Um novo pedido feito em 1855 foi apresentado por uma Comissão Sanitária, atendendo devidamente às novas necessidades higiênicas para enterramentos requeridas, mas não havendo dessa vez resposta do poder provincial. No ano seguinte, 1856 houve então mais uma solicitação da Câmara Municipal:

Confessam hoje todos que é indispensável edificar cemitérios extramuros, proibindo o enterramento de cadáveres no recinto dos templos. (...) Grande número de Câmaras Municipais, impelidas por tão ponderosos motivos, e atendendo as reiteradas recomendações da presidência acerca do assunto, tem solicitado auxílio pecuniário para a

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construção de cemitérios, figurando entre elas (...) a de Sorocaba que requisita 1:60000$ 000 rs. (1856 apud CYMBALISTA, 2002, p.48).

Posteriormente ao pedido de verba acontecido em 1856 pela Câmara Municipal de Sorocaba, não há indícios sobre qual tenha sido o ano efetivo e as condições em que o cemitério municipal tenha sido edificado e entrado em funcionamento:

Infelizmente não foram encontradas as Atas entre novembro de 1856 e outubro de 1864, período em que o projeto foi aprovado e teve início a obra (...). Pelo Livro de Termos de Arruamento sabe-se que em 29 de agosto de 1860 foi feita a sua demarcação. (...) em 17 de maio de 1863 (...) o Cemitério Municipal foi bento. (BADDINI, 2002, p.160).

Há então, sob a necessidade de mudança do local onde estabelecer um novo espaço para enterramentos e de regulamentações para seu uso que dá-se início a construção do cemitério municipal na cidade de Sorocaba. Entre os vários motivos pelos quais o cemitério municipal é estabelecido, há entre eles um grande surto de varíola que ataca a cidade em meados de 1863, atingindo seriamente a economia local e fazendo com que sua construção tenha sido agilizada:

(...) em 1863, houve uma forte epidemia que desarticulou seriamente a economia local, provocando a evasão de condutores e negociantes de gado, de visitantes e aproveitadores da concentração de gente em época de “feira de animais”. Foi o motivo imediato para a construção urgente do Cemitério Municipal, que foi demarcado na estrada para Porto Feliz, distante do centro e em área ainda não arruada e ocupada por moradores pobres. (BADDINI, 2005, p.41-42).

Enquanto as discussões sobre a construção do cemitério municipal não surtiam nenhum tipo de efeito, em situações como as de epidemias então, era que a municipalidade era cobrada mais intensamente pelos moradores, pois não se sabendo como ou porque tais surtos aconteciam, o receio produzido à população se torna mais denso, assim como também outros problemas que passam a incomodar os moradores, como os odores fétidos:
Ao longo da primeira metade do século XIX, vimos a emergência de um discurso médico que propunha a separação entre vivos e mortos, com

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a transferência dos sepultamentos para fora dos limites da cidade. (...) como pode ser observado pelo desenvolvimento da intolerância olfativa de moradores de alguns bairros com relação aos seus mortos "vizinhos". Entretanto, a efetiva supressão das sepulturas do interior dos templos e das cidades não ocorreu nas proporções desejadas pelos médicos: para tanto contribuiu muito a ineficácia da municipalidade em pôr em prática suas posturas. Apenas quando surgia um surto epidêmico mais forte é que tais questões emergiam, sendo, após o enfraquecimento das epidemias, novamente ignoradas. (RODRIGUES, 1997, p.115).

Entende-se então que mesmo que a necessidade de um cemitério municipal sob as luzes sanitaristas e higiênicas se tenha feito presente, mas não deixando de lado as questões inerentes aos interesses econômicos da cidade, pois ao afastar toda a movimentação ocorrida com a feira de animais a cidade sofreria grave oscilação econômica. A denominada estrada para Porto Feliz era localizada no campo do Piques, em área alta, longe dos abastecimentos de água da cidade, a fim de evitar contaminações, uma região de baixo assentamento populacional e de pouca renda, distante do centro urbano onde se achava a maior concentração de moradores. A área construída do Cemitério Municipal em sua implantação no ano de 18635 se encontrava entre a Rua do Supiriri e a Estrada do Piques, onde hoje se encontram paralelamente as ruas Comendador Oeterer e Hermelino Matarazzo, perpendicularmente não existia arruamento. Nesse sentido o cemitério apresentava metade do terreno que ocupa nos dias atuais, onde hoje se encontram a Rua Princesa Isabel e a Praça Pedro de Toledo, não havendo na documentação pesquisada referência a licitações e/ou empresas disputando a edificação e manutenção do cemitério. A data oficial apresentada por alguns documentos oficiais como a da implantação do Cemitério Municipal de Sorocaba é a de 31 de Janeiro de 1863, mas há indícios de que seu funcionamento não tenha de fato acontecido imediatamente à sua inauguração.

As denominadas ruas que faziam parte do entorno do cemitério municipal sofreram mudanças com o passar do tempo e as modificações ocorridas pela cidade, pois as ruas passam a ser conhecidas pelas referências próximas ao local. Antes de serem conhecidas com os nomes atuais, em 1889 eram conhecidas como Rua da Liberdade e a Rua do Ipanema e que logo adiante era conhecida como Rua do Cemitério. Perpendicularmente há menção apenas à Travessa do Cemitério.

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É estabelecida então a tão desejada secularização e higienização da morte na cidade de Sorocaba, com regras específicas expressas no Regulamento para o Cemitério Público e nos Códigos de Posturas Municipais, documentos produzidos pela Câmara Municipal, a fim de normatizar e manter o espaço e o uso do novo Cemitério Municipal. Após alguns anos de questionamentos, embates e dificuldades que giraram em torno da construção e implantação de cemitérios por todo o país, há um abrandamento nas questões que envolvem o assunto, é onde a população passa a absorver e entender as novas possibilidades em relação aos cemitérios, fazendo dele parte integrante da cidade e usufruindo dele:

Após os primeiros impactos causados pela ruptura abrupta nos ritos fúnebres cultuados durante séculos (...), e pela imposição de um campo santo moldado segundo as normas sanitárias vigentes nas províncias brasileiras mais desenvolvidas, o assunto foi gradativamente caindo no esquecimento e, aos poucos, a população foi compreendendo a necessidade de se criarem espaços apropriados ao sepultamento dos mortos. (...). Depois de alguns anos, além de um equipamento urbano necessário à cidade, os cemitérios começavam a ser entendidos como espaços de afirmação social, onde os barões do café e outros membros abastados da sociedade construíram grandes mausoléus, visando demarcar seu poderio econômico através de gerações (PAGOTO, 2004, p. 126-127).

Os processos que tornam possível a edificação de um cemitério, ambiente destinado unicamente ao culto dos mortos, acaba por transformar os aspectos da cidade, desde o que diz respeito ao físico, onde vivos e mortos coexistem cotidianamente de forma corriqueira, até o que nos leva ao tocante das mentalidades, que conforme mudam, provavelmente de uma escala social elitizada que gradativamente se torna a visão geral da sociedade.

POSTURAS MUNICIPAIS, REGIMENTOS E ADEQUAÇÕES

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Os Códigos de Posturas Municipais entram em vigor como modo de teoricamente sistematizar o que se deve ou não fazer pelo conjunto da população, são regras e procedimentos a serem cumpridos pelo bem de todos os moradores da cidade, estabelecendo conceitos de organização social, como uma rudimentar política sanitarista que buscava combater a insalubridade e as epidemias. Em Sorocaba, o Regimento para o Cemitério da Cidade foi desenvolvido e aprovado pela Câmara Municipal aos 4 de Fevereiro de 1863, ao ser enviado à Assembléia Legislativa Provincial foi aprovado e inserido às Posturas Municipais da cidade em 31 de Março de 1863, revisada, com 30 artigos e algumas emendas. Não há menção na documentação pesquisada sobre licitações para a construção, administração ou manutenção do cemitério municipal, que por sua vez, desde o início teve todos seus trabalhos a cargo da Câmara Municipal, responsável por exercer a função de implantar, regularizar e fiscalizar todos os serviços que tivessem relação ao cemitério. Por sua vez fez do cargo de administrador do cemitério, um cargo de confiança, assim como os cargos de coveiro:

Art. 21. Emquanto a camara não tiver casa própria para residência do administrador e coveiros, poderá Ella nomear uma pessoa de fora para administrador, o qual perceberá uma gratificação que a mesma lhe marcará, e este tratará os coveiros que precisar para o serviço do cemitério, aos quaes a mesma camara marcará um salario. (CODIGO DE POSTURA DA CAMARA MUNICIPAL DA CIDADE DE SOROCABA COM REGULAMENTO PARA O CEMITÉRIO, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques, 1863).

Inicia-se então a quantificação dos serviços prestados à municipalidade por meio do cemitério, já que enquanto prestador de serviços é necessário que se dê satisfações sobre o uso e condições das instalações e demais ocupações do cemitério. O administrador se torna responsável então por levantamentos sobre sepultamentos e questões relacionadas a eles como condições em que os corpos tenham sido enterrados, o tipo de jazigo, se público, particulares ou pertencentes a irmandades religiosas, descrever e lançar rendimentos mensais, manter estatísticas sobre a espécie das mortes, descrevendo e dividindo categorias como

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sexo, idade, naturalidade, enfermidade, profissão entre outras especificações exigidas pela Câmara Municipal. O que se encontrava até então nos periódicos de circulação na cidade de Sorocaba são sufrágios, notas de falecimento e convites para missas em intenção aos falecidos, a partir da necessidade de quantificação apresentada pelo Cemitério Municipal, novos modos são sentidos, onde ao invés da intimidade familiar há agora igualdade entre os falecidos, onde apenas se explica quais pessoas faleceram, geralmente apresentando data, filiação, idade e causa da morte, os mortos passam agora e ser estatísticas. A obrigação da prestação de contas por parte da administração do Cemitério Municipal traz agora novas necessidades, pois agora há a concessão de jazigos particulares:

Art. 9º A camara municipal poderá tambem conceder para jazigos particulares os terrenos lateraes unidos a capella do cemiterio, mediante a contribuição de 1$000 por palmo quadrado. (CODIGO DE POSTURA DA CAMARA MUNICIPAL DA CIDADE DE SOROCABA COM REGULAMENTO PARA O CEMITERIO, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques, 1863).

Se torna agora, indispensável a cobrança das dívidas adquiridas pelos moradores que tenham comprado e mantido jazigos particulares:

Fellisbino d’Oliveira Cezar Leme, Administrador do Cemiterio publico d’esta cidade, roga ás pessoas que lhe são devedoras, de virem o mais breve possivel satisfazer seus debitos. Existem contas antigas e algumas d’elas tem sido exigidas;m é esta uma divida religiosa. (O ARÁCOIABA, Sorocaba, SP, anno I, n. 3, 30 set, 1866).

As questões que envolveram os novos arranjos determinados pela implantação do Cemitério Municipal se modificaram aos poucos na cidade. Enquanto no ano de 1863 em que o Regulamento para o Cemitério da cidade de Sorocaba foi publicado no Código de Posturas Municipais, foram apenas novas normas a serem cumpridas, mas como sendo novidade, não necessariamente tenham sido adotadas de imediato pela população.

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Nos Códigos de Posturas publicados nos anos seguintes, como a do ano de 1865 já se mencionava a proibição de enterros em igrejas:

Art. 1.º Fica absolutamente prohibido enterrarem-se corpos dentro das igrejas, sachristias, clautros dos conventos, e em outros quaesquer lugares nos recintos dos mesmos, podendo fazer-se somente no cemiterio publico desta Cidade. Os Administradores das igrejas e outras quaesquer pessoas que violarem esta postura, pagarão 30$ de multa e soffrerão tres dias de prisão. (CODIGO DE POSTURA DA CAMARA MUNICIPAL DA CIDADE DE SOROCABA, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques, 1865).

Mas, com a proibição de enterros em terrenos que não os do Cemitério Municipal e sob jurisdição que não a da Câmara Municipal, há então uma nova necessidade que deverá ser suprida pelo poder local, pois já que agora é necessário que toda a população tenha a obrigação de respeitar e aceitar os novos modos de sepultamentos, se torna necessário também que todos tenham alcance a tal tipo de serviço:

A incorporação do cemitério no programa da gestão secular e municipal traz outra demanda: as cidades agora deviam garantir um sepultamento a todos, independentemente de credo, cor ou posição social. Os cemitérios municipais teriam, obrigatoriamente, que apresentar um local de sepultamento de indigentes, custeado pelo estado. (CYMBALISTA, 2002, p. 63).

Então assim, no Regulamento para o Cemitério de Sorocaba há a distinção, em artigo próprio sobre as condições para os sepultamentos de indigentes, com qualidades e obrigações que comprovem a necessidade de que sejam então enterrados os corpos de pessoas que se encaixem neste tipo de situação:

Art. 19. Os indigentes, os pobres que fallecerem nos hospitaes da santa casa da misericórdia, e suas enfermarias externas, nos hospitaes e enfermarias do governo, ou nas prisões, os padecentes, e os corpos que forem remettidos pelas auctoridades policiaes, serão enterrados gratuitamente nas sepulturas geraes do cemiterio; a prova da indigência far-se-ha mediante attestado jurado do parocho ou de qualquer das auctoridades locaes. (CODIGO DE POSTURA DA CAMARA MUNICIPAL DA CIDADE DE SOROCABA COM REGULAMENTO PARA O CEMITERIO, São Paulo: typ. J. R. Azevedo Marques, 1863).

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Há também questões sobre o enterramento de pessoas sem religião ou protestantes, pois mesmo com a dita secularização da morte estabelecida na cidade, ainda se mantinha o hábito de enterrar nos cemitérios públicos apenas pessoas adeptas ao catolicismo, cenário que também acaba por mudar:

CEMITERIO – Diz a Imprensa, de Sanctos: <<o governo imperial recommendou aos presidentes das provincias e bispos diocesanos a providencia de reservar-se terrenos dentro dos cemiterios, que d’ora em deante se estabelecerem, para n’elle serem enterrados os cadáveres dos individuos a quem a egreja catholica prohibe a sepultura em sagrado. >> Ainda bem! (O SOROCABANO, anno I, n. 17, 5 jun, 1870).

Pode-se então entender que, enquanto a população tem a necessidade de se adequar e entender os novos meios de agir e pensar em relação à seus mortos, também assim se faz o poder local, que mantém o funcionamento do cemitério municipal e acaba por ter que, como a população, a se adaptar as novas normas e necessidades que surgem ao passar dos anos. Enquanto há uma mobilização em relação aos novos modos de tratar e pensar a morte pelo país, há na mão inversa, concessões feitas pela Assembléia Legislativa Provincial em favorecimento tanto de moradores quanto de instituições das cidades de todo o estado de São Paulo, sendo uma das permissões ao Recolhimento de Santa Clara, em Sorocaba:

A Assembléa Legislativa Provincial resolve: Art. unico. Fica permittido ás Freiras do Recolhimento de Santa Clara da cidade de Sorocaba, terem cemiterio – intra muros – do dito Recolhimento ; devendo observar-se o que dispõe sobre enterros as Posturas d’aquela cidade, approvadas por esta Assembléa. Revogadas as disposições em contrario. (ASSEMBLÉA LEGISLATIVA PROVINCIAL, 1866).

Autorizações como essas, nos mostram que mesmo ao exigir que populações inteiras aceitassem e modificassem crenças e hábitos tão arraigados, permitiam também que concessões fossem feitas. Não há resposta nas pesquisas sobre possíveis interesses ou ganhos do poder legislativo ao conceder licenças como estas. O monopólio que passa a ser exercido pela Câmara Municipal traz a ela obrigações e responsabilidades também sobre todos os serviços prestados em

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relação aos ritos desde a morte até a hora do enterramento, obrigações estas que deixam de ser cumpridas vezes ou outras e acabam por serem cobradas nos periódicos de circulação na cidade:

O Cidadão José Vaz Guimarães, Presidente da intendencia Municipal desta cidade de Sorocaba etc. Faz saber a todos que o presente edital virem, que em virtude da reclamação do cidadão Pilippe de Paula Bauer, empresário do serviço funerario desta cidade e de conformidade com as disposições da lei provincial n.104 de 30 de Junho de 1881, o Conselho de Intendencia Municipal, em sessão de 18 do corrente mez, resolveu de d’ora em diante fosse (como já foi) fielmente cumprida e executada a clausula 6ª do contracto firmado pela extincta Camara Municipal e pelo Emprezario em 3 de Agosto de 1882, comforme foi deliberado em sessão de 26 de Julho do mesmo anno (...). Fica, portanto subentendido que o cadáver que não for conduzido a qualquer dos Cemiterios na forma supra mencionada, não será aceito e nem dado á sepultura pelo respectivo Administrador dos Cemitérios, salvo apresentado attestado de pobreza será obrigado o Emprezario a fornecer transporte conforme a clausula 5ª do contracto. (O ALFINETE, Sorocaba, SP, anno II, nº 62, 25 fev, 1892).

Mostra-se então, que também os novos responsáveis pela prestação de serviços em nome da municipalidade se sentem lesados, já que enquanto é necessário que os trabalhos sejam prestados para o recebimento por parte dos que foram contratados, há do outro lado um poder que mesmo ao afirmar que as regulamentações são seguidas piamente, há um desencontro entre contratado e contratador.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo permitiu, durante todo o tempo de pesquisa, o uso concreto dos métodos mais freqüentemente usados por historiadores, tanto na pesquisa bibliográfica quanto na documental, e reafirma que é inegável o problema de se encontrar fontes históricas, especialmente as que dizem respeito às cidades do interior e região, em casos como esse, é corriqueiro o armazenamento fragmentado da documentação; outra complicação em relação às fontes é, por exemplo, a impossibilidade de pesquisa em órgão público como o Museu Histórico Sorocabano, que mesmo tendo a disposição arquivos conhecidamente públicos, incoerentemente é impossível analisá-los, trazendo então a dificuldade de produção de conhecimento histórico por não ser possível o manuseio e reprodução de material. No que se diz respeito aos periódicos pesquisados, há de se dizer que mesmo com todo o esforço do Gabinete de Leitura Sorocabano em armazenar e manter tais documentos, alguns exemplares não puderam ser analisados por estarem em condições difíceis de manuseio ou em restauração; foi claramente possível caracterizar que com o passar dos anos, os ritos fúnebres deixam o seio familiar, a partir da quantificação dos falecidos acaba por haver uma padronização dos mortos, fazendo parte agora do que se pode chamar de uma forma rústica de obituários. Os Códigos de Posturas são de ampla importância sobre as peculiaridades da cidade, pois mesmo com o conhecimento de leis sabidamente maiores como as da esfera federal, acabam por não fazer tanta diferença, não tendo força nem cobrança dos órgãos responsáveis, o que mostra a força e persistência dos costumes regionais e característicos às cidades.

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O modo de lidar com os mortos e toda a atmosfera aplicada a tal temática, faz com que seja necessário muito cuidado por parte dos legisladores no que diz respeito aos novos modos e locais amoldados para o enterramento dos corpos, cuidado esse que atrela a necessidade de criação de novas leis ao respeito e dignidade que devem ser levados em conta na tarefa de secularização da morte, não deixando de lado a preocupação com a saúde, já que também com a intenção de higienizar o meio urbano as novas propostas em relação às modificações perante a morte tenham sido aceitas e criadas.. Esta pesquisa não se mostra de modo algum perto do fim, serve como análise, nos mostra que ainda muitos estudos podem ser realizados com relação aos modos como a população sorocabana recebeu e reagiu as novas formas de ver, sentir e entender a morte, enfim, toda a atmosfera ligada ao assunto. Este é um tema explorado ainda de forma branda no país, discutido de vários ângulos como urbanístico e arquitetônico, no que diz respeito à iconografia e o papel dos cemitérios nas cidades enquanto modificação do espaço, se mostrando de grande importância, sendo ainda pouco explorado historicamente. A observância das modificações dos aspectos como os vivos tratam seus mortos, os cemitérios como um todo e seus pontos integrantes ao passar do tempo, nos comprovam quão propensa à mudança as verdades são.

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FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARIÈS, Philippe. Historia da morte no Ocidente: da Idade Média à nossos dias. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977. ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Permissão para sepultamento em igreja ou capela do cemitério (Projeto nº 148 e 125). Disponível <http://www.al.sp.gov.br/geral/acervoHistorico/FichaDocumentoImperio.jsp? idDocumento=21526>. Acesso em: 06 ago. 2011. ______. Cemitério “entra muros" do Recolhimento da Santa Casa. Disponível em: <http://www.al.sp.gov.br/repositorioAcervo/Acervo/Alesp/Imperio/Falp_565/PR66_ 012.pdf> Acesso em: 06 ago. 2011. AVELINO, Yvone Dias,; MORENO Tania Maria. A Sacralização e a higienização da morte em São Paulo – A sepultura: um espaço sagrado e uma questão de higiene pública. Núcleo de Estudo de História Social da Cidade, PUC / SP. - MISP 2004. Disponível em: < http://www.misp.pucsp.br/museu/artigos_08.html >. Acesso em: 16 ago. 2010. BADDINI, Cássia Maria. Sorocaba no Império: comércio de animais e desenvolvimento urbano. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2002 em:

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