INSTITUTO DE BOTÂNICA – IBt Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente Curso de Capacitação de monitores e educadores

BROMÉLIAS: IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA E DIVERSIDADE. TAXONOMIA E MORFOLOGIA
Bianca Alsina Moreira, Maria das Graças Lapa Wanderley & Maria Amélia Vitorino da Cruz-Barros

São Paulo, outubro de 2006

cujo papel eco fisiológico é de grande importância. Reitz 1983). que ocorre no oeste do continente africano (Smith & Downs 1974). É uma família essencialmente neotropical com exceção de uma única espécie. até plantas de grande porte. temperatura e umidade (Wendt 1999).Pós-graduação do Instituto de Botânica de São Paulo Curso de Capacitação de Monitores .. Está tradicionalmente dividida nas três subfamílias Pitcairnioideae. tanto na nutrição das bromélias. 1994). Chev. rupícolas e epífitas. encontrada nos Andes. Os representantes da família apresentam em geral inflorescência vistosa e folhas distribuídas em roseta. A família destaca-se como um dos principais componentes da flora e da fisionomia dos ecossistemas brasileiros abrigando aproximadamente 36% das espécies catalogadas. usualmente com bainha alargada na base. alguns deles encontrados exclusivamente na Floresta Atlântica (Martinelli.) L. com alguns centímetros de comprimento. Taxonomia e Morfologia Bianca Alsina Moreira Maria das Graças Lapa Wanderley & Maria Amélia Vitorino da Cruz Barros Introdução A família Bromeliaceae Juss. propiciando a formação de um reservatório de água e nutrientes (Reitz 1983). Tillandsioideae e Bromelioideae. possui 3010 espécies distribuídas em 56 gêneros (Luther 2004). como Puya raimondii Harms.Estágio de Docência Bromélias: Importância Ecológica e diversidade. Bromeliaceae é constituída por plantas terrestres. As espécies de Bromeliaceae ocorrem em latitudes tropicais e subtropicais das Américas entre os paralelos 37o N e 44oS nas mais variadas condições de altitude. Possui vários gêneros endêmicos. como Tillandsia recurvata (L. que chega a atingir mais de 10 metros de altura (Smith & Downs 1974.) Harms & Midbr. variando de plantas delicadas e de pequeno porte. geralmente herbáceas.. como em constituir . Pitcairnia feliciana (A.

os estudos florísticos que envolvem a família como revisões genéricas. 1977. com a apresentação de 100 espécies incluídas em 15 gêneros. Outra espécie de grande valor econômico é o “caroá-verdadeiro”. colocando algumas espécies com maior grau de ameaça. sapos.) Mez. doces e sobremesas. . utilizada como produtora de fibras. que pode variar amplamente em tamanho e coloração das folhas. Em função da grande procura pelas bromélias de valor ornamental. Neoglaziovia variegata (Arr. sendo atualmente muito cultivadas e utilizadas em decorações de interior e projetos paisagísticos. sendo em geral plantas bem características e ornamentais. Cam. serpentes. A importância econômica da família Bromeliaceae é referida como plantas ornamentais. Nesta obra foram referidas cerca de 2. como produtora de bebidas. 1979). como digestiva. Na medicina natural. depurativa e com outras funções. O tratamento taxonômico mais abrangente para a família foi realizado por Smith & Downs (1974. o extrativismo de seus ambientes naturais tem se intensificado nos últimos anos. aracnídeos. vem ampliando consideravelmente na última década o conhecimento desta importante família neotropical. número bastante ampliado em função dos trabalhos posteriores e das novas espécies descritas.um micro ambiente onde habitam animais diversos. Outros trabalhos podem ser citados como o de Reitz (1983) que realizou o estudo das bromeliáceas do Estado de Santa Catarina. tem-se o uso da enzima “bromelina”. Atualmente. Ananas comosus (L. A importância econômica das bromélias é destacada pelo delicioso fruto do abacaxi.) Merril. desde formigas.000 espécies para a família. presente em algumas espécies do gênero Bromelia. assim como na morfologia das flores.000 espécies. a natureza do substrato influenciam no aspecto da planta. dentre outros. que apresentaram a monografia das três subfamílias em três volumes como parte da monografia de Bromeliaceae para a Flora Neotropica. especialmente. A família apresenta grande variabilidade de formas. Segundo Rizzini (1997) e Benzing (2000) os diferentes habitats e. atingindo no momento mais de 3. muito apreciado na alimentação.

publicada em 2000. Sm. Vriesea drepanocarpa (Baker) Mez Billbergia distackia (Vell. Aechmea nudicaulis (L.) Beer Bromelia antiacantha Bertol.) Griseb. Abaixo segue relação das espécies da flora do PEFI. Aechmea disticantha Lem. . e a “Flora Fanerogâmica da Reserva do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI)”.) Beer *As espécies em negrito não foram mais encontradas na região há mais de 50 anos. em fase de conclusão.f. Dentre os levantamentos florísticos realizados no Estado. Tillandsia dura Baker Vriesea incurvata Gaud.) Mez Vriesea ensiformis (Vell. Vriesea bituminosa Wawra Ananas bracteatus (Lindl. Aechmea coelestis Wawra Tillandsia tenuifolia L. coordenada pela Dra. pesquisadora do Instituto de Botânica.) Lindl. destacam-se a “Flora Fanerogâmica da Ilha do Cardoso”. 140 espécies distribuídas em 19 gêneros. Vriesea friburguensis Mez Quesnelia humilis Mez Vriesea gigantea Gaud.) L. Vriesea erythrodactylon (E. Wanderley. Aechmea bromeliifolia (Rudge) Baker Tillandsia stricta Soland. com a ocorrência de nove gêneros e 30 espécies. Maria das Graças L. Dyckia tuberosa (Vell. e fará parte do volume 5 da obra “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”. Morr. onde foram encontradas 42 espécies distribuídas em 13 gêneros. Vriesea schwakeana Mez Tillandsia recurvata L. publicada em 1992.B.) Schult. Vriesea carinata Wawra Billbergia amoena (Lodd. Vriesea paraibica Wawra Tillandsia linearis Vell.) Beer Vriesea heterostachys (Baker) L. Tillandsia gemeniflora Brong. sendo possivelmente extintas para estas localidades. Vriesea simplex (Vell. Tillandsia usneoides (L.A família Bromeliaceae no Estado de São Paulo No Estado de São Paulo a família está representada por ca.) Mez Nidularium innocentii Lem.

ocorrendo em representantes de Tillandsia. as escamas em Bromeliaceae exercem importante papel eco-fisiológico. Presença de rizomas horizontais ou estolões é característica de alguns gêneros e espécies.: A.Morfologia Hábito As espécies de Bromeliaceae apresentam em geral hábito herbáceo. Rizomas As raízes em Bromeliaceae (Fig. Os representantes da família podem ser terrestres. Nestas espécies a absorção de água e nutrientes é efetuada através de escamas absorventes (Fig. Existe presença de longos estolões formando touceiras com projeções de suas rosetas. entretanto. Estolões. 2. 1. num mecanismo de osmose. R. onde a mesma vive como epífita. dando um aspecto bem característico (Fig. muito peculiar nas formações florestais. Portanto. 1) podem ter função apenas de fixação nas espécies atmosféricas. como uma longa cortina. 1).: A. prevalecem na família plantas de pequeno a médio porte. Fig. podem ultrapassar 10m de altura. . Entretanto. Em Tillandsia usneoides ocorre a formação de plantas pendentes. com caules geralmente contraídos (Fig. pode ocorrer raramente o hábito lenhoso em espécies andinas pertencentes ao gênero Puya. Raízes Raízes Fig. As espécies deste gênero como Puya raimondii. W. Caule. epífitas ou rupícolas. 3). 2).

permitindo a instalação de uma flora e fauna neste micro-habitat. 4: Escamas de Tillandsia sp. 3: Tillandsia sp. desempenhando importante função na absorção de água e nutrientes e na proteção contra a dessecação em ambientes com restrição hídrica. Pode ocorrer também representantes com folhas dísticas. . As escamas foliares (Fig. comum no gênero Tillandsia (Fig. 3). algumas vezes tubulares (Fig. A coloração argêntea aumenta a reflectância da luz solar na superfície foliar minimizando a transpiração.4). Fig. características importantes no reconhecimento das subfamílias e gêneros.Folhas As folhas se dispõem espiraladamente e de forma imbricada formando uma roseta. 4) são compostas de duas unidades o pedículo e o escudo. Na superfície foliar a presença de indumento formado pelos tricomas absorventes (Fig. Fig. especialmente em espécies de Tillandsia e Dyckia. recipiente que permite o acúmulo de água e nutrientes. Pela forma da roseta e disposição imbricada das bainhas é freqüente a formação de um “vaso” ou “tanque”. 2) até amplamente abertas. As folhas podem apresentar margens lisas a espinescentes. Em algumas espécies este indumento é muito conspícuo e de cor argêntea. que varia amplamente quanto a morfologia. nestes casos sem formação de roseta e tanque.

dispostos em duas séries. o escapo.5). pétalas livres ou parcialmente soldadas. exercem papel importante na atração de polinizadores. parcial ou totalmente recoberto por bráctea.Inflorescências A inflorescência em Bromeliaceae é em geral muito vistosa pelo colorido das flores e das brácteas. 5). hermafroditas ou muito raramente funcionalmente pistiladas ou estaminadas. destacando-se na família a ornitofilia. actinomorfas a zigomorfas. Possuem sépalas livres ou concrescidas na base. com perianto diferenciado em cálice e corola. simples (Fig. racemo ou capítulo. 9). placentação axial (Fig. Fig. trilocular. Fig. brilhantes e coloridas. 3) ou composta . estames seis. estilete simples. Flores As flores são trímeras. que são em geral vistosas. ovário súpero (Fig. algumas vezes adnatos à corola formando um tubo. dispostas em panícula. filetes livres ou concrescidos. mais raramente as flores são isoladas (Tillandsia usneoides). semi-ínfero ou ínfero. Estas brácteas. juntamente com as flores coloridas. algumas vezes providas de um par de apêndices membranáceos na face interna (Fig. 5: Corte longitudinal . simétricas a fortemente assimétricas. São terminais ou laterais. 4: Flor trímera de Vriesea sp. A inflorescência pode ser séssil ou mais comumente ser sustentada por um eixo de origem caulinar. estigmas três.

6) ou aliformes. pela atração das brácteas vistosas e coloridas e pela presença de néctar abundante. abelhas e besouros. A dispersão está diretamente relacionada aos diferentes tipos de frutos presentes na família. Em Tillandsioideae as sementes são plumosas e nas Bromelioideae as sementes não possuem apêndices. Fig. ou serem desprovidas de apêndices. cujas sementes não possuem apêndices. Os morcegos também são importantes agentes polinizadores. Polinização e Dispersão A grande maioria das espécies é polinizada por beija flores. ou ser carnoso. Além da ornitofilia e quiropterofilia são referidos outros tipos de polinização por borboletas. 6: Sementes com apêndices plumosos . pela presença de odor forte em muitas flores de antese noturna. A dispersão das sementes aladas ou plumosas presentes no fruto cápsula é auxiliada pelo vento. baga. a dispersão é feita auxiliada por animais. cápsula septicida ou mais raramente loculicida. As sementes podem apresentar apêndices que podem ser plumosos (Fig.Fruto e Sementes O fruto pode ser seco. e no caso das bagas suculentas. Na subfamília Pitcairnioideae ocorrem sementes aladas.

ou vegetativa. que podem sair da base da planta por estolhos (Fig. Nas subfamílias Pitcairnoideae e Tillandsioideae predominam grãos de pólen monocolpados. ou do interior da própria roseta. 2) ou rizomas. Dyckia encholirioides (Pitcairnioideae) Neoregelia johannis (Bromelioideae) . A reprodução sexuada. ou por sementes é freqüente em representantes da subfamília Tillandsioideae. A formação de estolhos é característica para algumas espécies. Grãos de pólen O padrão dos grãos de pólen enquadra-se em três tipos polínicos de acordo com padrão de abertura e a escultura da exina (Ehler & Schill 1973). A subfamília Bromelioideae possui grãos de pólen irregularmente monocolpados. onde as sementes podem germinar na própria planta mãe ou serem dispersas a longa distância. monocolpados típicos e porados.Propagação A propagação pode ser feita assexuada ou sexuadamente. formam-se brotos a partir da planta mãe. Na reprodução assexuada.

...... entretanto será apresentado abaixo a caracterização das três subfamílias acima citadas. Plantas geralmente epífitas............. Bromelioideae............. ovário ínfero e sementes sem apêndices... Bromelia (36) ocorre na América do Sul com folhas fortemente espinescentes e sépalas adnatas às pétalas.................. sementes com apêndices plumosos..... Tillandsioideae... sementes aladas ou com outros tipos de apêndices... 1’................... Recentemente com base em dados moleculares existe uma proposta de subdividir a subfamília Pitcairnioideae em outras subfamílias.......... ovário súpero ou raramente semi-ínfero............. Orthophytum e Quesnelia...... serrilhadas ou raramente lisas. Outros gêneros da subfamília: Billbergia..... Caracteriza-se pelo fruto baga. Bromelioideae Esta subfamília possui cerca de 30 gêneros e ca............... ... Tillandsioideae Possui plantas essencialmente epífitas.. de 425 espécies......... Nidularium (43) possui folhas formadoras em geral de “tanque” e inflorescência nidular.. ovário ínfero ou semi-ínfero......... folhas com margem inteira................. fruto baga.... 2.. Pitcairnoideae........ Aechmea (135) apresenta apêndices petalíneos......... Tillandsioideae e Bromelioideae...... folhas com margens espinescentes.................... sementes sem apêndices. Plantas geralmente terrestres............. sementes com apêndices...... ovário súpero ou raramente semi-ínfero (Glomeroptcairnia).... Margens inteiras a espinescentes....... É exclusivamente brasileiro.. Margens foliares serrilhadas ou espinescentes......... Chave para as subfamílias 1..................... fruto cápsula. 2’. sementes com tufos de apêndices ....Estudos da Taxonomia na Família Bromeliaceae A família Bromeliaceae é tradicionalmente dividida nas subfamílias Pitcairnioideae. . folhas com margens inteiras.. . Ananas (3) tem uma coroa de brácteas no ápice do fruto.......

Sarasota. 9th ed. RIZZINI. 1973. 1934. Pollen et Spores 15(1): 13-45. The Bromeliad Society International. Bibliografia consultada: BENZING. Brom.: 518p.plumosos nas extremidades. Ilustr. University of St. Cambridge University Press. 2000. Tillandsia é o maior gênero (400). Bromeliáceas e a malária – bromélia endêmica. Âmbito Cultural Edições Ltda. Rio de Janeiro. EHLER. Catarinense. um gênero Andino com representantes no Brasil.T. O maior gênero é Pitcairnia (185). 1983. 1997. Dissertação de Doutorado. Alguns subgêneros foram elevados a gênero como Racinaea de Pseudo-catopsis e Alcantarea de Vriesea. Tratado de Fitogeografia do Brasil: aspectos ecológicos. Fasc. Bromeliaceae: profile of na adaptative radiation. Andrews. A subfamília inclui plantas terrestres. Algumas espécies são grandes e com base lenhosa e inflorescência muito ramificada. R. L. 1994. An alphabetical list of Bromeliad binomials.H. Parte. Geografical evidences on the lines of evolution in the Bromeliaceae. Botanischer Jahrbericht 66: 446-468. Apresentam flores levemente zigomorfas e cápsula septicida. . St. 2004. Reproductive Biology of Bromeliaceae in the Atlantic Rain Forest of Southeastern Brazil. MARTINELLI. G. LUTHER. de 675 espécies. Possuem nove gêneros e ca. em seguida Vriesea (220). fruto cápsula com sementes geralmente providas de alas ou outros apêndices. New York. . Possuem cerca de 13 gêneros com 420 espécies. REITZ. N & SCHILL. 109p. SMITH.B. Puya (90) e Dyckia (75) e vários outros gêneros têm cápsula septicida ou loculicida e flores actinomorfas. D. geralmente folhas com espinhos nas margens. Andrews. sociológicos e florísticos. Pitcairnoideae Caracteriza-se pelas flores hipóginas (ovário súpero). outras são pequenas e possuem folhas sem espinhos. 197p. 2ª ed. Muitas espécies ocorrem sobre rochas e poucas são epífitas. R. 690p. C. Die Pollenmorphologie der Bromeliaceae. Fl. 747p.

Ilustração: RAUH. R. 14 (1): 1-658. Melo. WANDERLEY. G. The Bromeliad Lexicon. L. M. 14 (3): 1493-2142. Wanderley.).J. & DOWNS. G. Flora Fanerogâmica da Ilha do Carodoso (São Paulo. Brasil). & GIULLIETTI. M. L. XVII-XXI. G. Hibridização e isolamento reprodutivo em Pitcairnia (Bromeliaceae). Pitcairnoideae. Hoehnea 27(3): 259-278. L. B. eds. New York. The New York Botanical Garden. WENDT. M. 1999. 1977. In Wanderley et al. Monagr. G. F. Brasil): 178-Bromeliaceae. The New York Botanical Garden. M. M.SMITH. Instituto de Botânica (3): 90-140. Dissertação de Doutorado. Ed. Fl. S. 2001. ________________________. 7 fig. Neotrop. Jung.1 – Poaceae (Introdução) p. Bromelioideae. Kiruzawa. 141p. Barros. & MOLLO. L. T. A. Blandford. New York. (Bromeliaceae). 1992. SHEPHERD. Neotrop. Chiea (eds. 14 (2): 663-1492. 1979. The New York Botanical Garden. 2000. . Tillandsioideae. Bromeliaceae. Kiruzawa.. In M. L. W. Fl. L. WANDERLEY. Flora Fanerogâmica do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (São Paulo. Monagr. M. Germany. ________________________. (Bromeliaceae). L. A. 2 ed. & MOREIRA. F. 1974. New York. vol. Neotrop. Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Universidade Federal do Rio de Janeiro. A. M.Mendaçolli & S. C. Monagr.B. 1990. Fl. G. University of Heidelberg. WANDERLEY. 431p.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful