Coisas do Passado LO B I S O M E N S João ASMAR Um dos mais graves defeitos na educação da criança é inculcar-lhe idéias fantásticas que

alteram-lhe o sentir, impregnando o seu pensamento, através dos anos, mesmo até a maior idade. Quando pequeno contaram-me muitas histórias, que jamais delas me esqueci, aquelas que me faziam arrepiar os cabelos, com medo, transmitidas na época da quaresma. Eram as lendas dos lobisomens e das mulas sem cabeças que me aterravam, tirando-me o sono. Depois, os anos foram passando e, felizmente, desvaneceramse as imagens amedrontadoras do meu espírito. Nem sexta e nem quarta-feira, em qualquer tempo, me espantam mais. Entretanto, coisas esquisitas, agora, acontecem por aqui que, não fosse o amadurecimento pela idade e pela evolução da mente, teria motivos para acreditar que os bichos da noite, que antes nos apavoravam, ainda existem. Eram duas horas da madrugada. A cidade e o povo dormiam. Mas, pancadas surdas, continuadas, seguidas de gemidos roucos, foram acordando muita gente nas imediações do cruzamento das ruas 15 de dezembro com a Barão do Rio Branco. Parecia que estavam tentando arrombar alguma casa... mas... com tanto barulho? Sobressaltado com o incômodo pancadear, levantei-me, e procurei averiguar o que estava acontecendo. Abrindo a porta, devagarzinho, embora com pouca luz, divisei cinco homens ao redor de uma bonita árvore, ocupados em derrubá-la.

para o lado da Praça do Bom Jesus. para não dar trabalho para os homens cortá-la depois . eliminada às caladas da noite.Esse machado não presta. que ele agrediu.. mas ouvia as suas reclamações . naquela hora. Mas. Deram-lhe um tratamento de proteção e tudo indicava que ela. ali estiveram vários trabalhadores. que caiu gemendo. Cortaram-lhe os galhos e o seu tronco foi partido ao meio.. à pessoa que o apanhara: -“ quebrei o broto da muda para ela não crescer. Bufando e suando.. Com ele não tem pau que aquenta. desafiava a fúria dos formigões. seria. Cavando em volta. assim. em plena madrugada ? – Por que não fazer o serviço durante o dia. Os homens continuam agitados. ainda encravado no chão.Curioso é que há pouco mais de uma semana.Por que cortar a árvore.como ja fizeram em . O bom é aquele lá da Prefeitura. enquanto o meu pensamento procurava entender: . Eu os observava à distância. porque elas estavam levantando a calçada. Um trabalhador alto e robusto jogava parte da galharia nos ombros e subia.. falavam alto e gesticulavam. Ele corta de qualquer banda. está “cego”. naquela madrugada a coisa foi diferente. tombaram o “fícus”. porventura o medo da opinião pública contra a violência. que cortaram algumas raízes dessa mesma árvore. apanhado junto de uma muda de acácia. O toco. bem cuidada ali devia permanecer. carregado. durante o dia. em sua volta. perturbando o sossego público. tentando arrancar o que restava da bonita árvore.? Talvez encontrasse respostas no proceder revoltado daquele menino de rua. funcionários da Prefeitura. Respondia ele.

muitas ruas. que tanto molestam o povo. Agora. em Anápolis acontece isso. O que está feito desmancham. E quando alguém reclama dizem que é impertinência. Ao invés de taparem os buracos do asfalto abrem armadilhas junto aos bueiros para acidentar os pedestre e levar os entulhos para os canais de esgoto. O que está por fazer espera providências. pois é mais fácil e econômico a enxurrada levar o lixo para o subterrâneo do que removê-lo das ruas. . Não bastando os desmandos e fracassos administrativos. como aconteceu naquela sexta-feira da quaresma quando muitos pensaram que aqui haviam chegado os temíveis LOBISOMES. arrancando os arvoredos que davam sombras ao povo”. por cúmulo não o deixam dormir.

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