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Andre Vianco - Setimo

Andre Vianco - Setimo

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APRESENTA

SÉTIMO – ANDRÉ VIANCO
Versão Digital para fins didáticos e divulgação. PROIBIDA qualquer forma de comercialização do conteúdo desse arquivo. Caso goste, COMPRE O LIVRO ORIGINAL e incentive o autor na publicação denovas obras! Veja outros livros de André Vianco no site.

Para meus pais, Valdir e Sônia, que me criaram com amor paternal e fraternal, com toda liberdade, dignidade e confiança que eu pudesse desejar. Sem eles, nada disso seria possível Beijos. Agradeço a todos os leitores que enviaram e-mail, telefonaram, contaram aos amigos sobre Os Sete, que leram o livro sem despregar os olhos, que tiveram pesadelos à noite, que chegaram atrasados a um compromisso porque não conseguiam parar de ler, e que, de uma forma ou de outra, tornaram este novo trabalho algo especial. O special thanks vai para meu amigo Tom Mendonça... sem a habilidade desse rapaz, ninguém estaria lendo estas Unhas... Benditos sejam os back-ups! Muito obrigado.

CAPITULO 1
César freou o pequeno caminhão e m frente ao velho Luxor Hotel, fazendo a borracha dos pneus derrapar sobre os pedriscos. Helicópteros militares cruzavam o céu nervosamente. Haviam tido muita agitação naquela noite. Mas o moral estava alto. Apesar de tantas baixas, tinham derrotado um grupo maldito de vampiros. Agora, o que o Exército não sabia é que o caminhão parado em frente ao hotel tramava tirar de Amarração o pior dos monstros. Um vampiro chamado Sétimo. César não concordava com aquilo. Pensara em pegar Eliana e fugir. Tiago estava ficando louco! Para que compactuar com aquele demônio? Para que salvar a pele de Sétimo? Ele que se virasse com os homens de verde. Era um monstro. Ainda sentia sua garganta doer e seu ferimento no tórax latejar. Provavelmente os efeitos analgésicos estavam passando. Não acreditava que estava prestes a salvar o couro de um vampiro. O pior dentre os sete. Pior que Afonso, o Lobo, que também escapulira e não sucumbira com os demais, na explosão nuclear, a bordo da caravela. Lobo jurara César de morte. Dissera que, mesmo que demorasse, ele estivesse preparado, pois viria em seu encalço. Pensando bem, lembrando da ameaça do vampiro Lobo, até que não lhe parecia má idéia estar com Sétimo por perto. Certamente Afonso haveria de temer Sétimo e se borrar nas calças só de ouvir o nome dele, como os demais faziam. Eliana, cansada, estava deitada e adormecida ao seu lado. Desceu do caminhão e entrou no hotel abandonado. A recepção empoeirada e o chão entulhado dificultavam a caminhada. Apesar do Sol já banhar o dia com luminosidade, a claridade dentro do Luxor ainda era precária. — Tiago? — chamou. Encontrou com o amigo nas escadas que iam para o salão inferior. — O caminhão está aí? — quis saber o amigo. — Sim. Vamos logo. O Exército tá por todo lado. Se encontram você e a Eliana, não sei não... — É, eles acham que morremos lá na caravela, com os demais. — ...ainda mais agora, com essa Cuca andando com a gente. Tiago teve vontade de rir. Cuca? De onde ele tirou isso? Nem nas horas extremas César perdia o bom humor. Um par de olhos chamejantes surgiu no escuro no fim das escadas. Um leve tremor percorreu o corpo de César e seu sorriso costumeiro desapareceu. O vampiro. — Pai... — balbuciou a fera. — Sétimo. Os três subiram para a recepção. Os passos do monstro, semelhante a uma cruza de gorila com morcego gigante, eram pesados e arrastados. Raios de Sol invadiam o hotel. Tiago avançou para a rua, mas assim que ficou totalmente exposto, um desconforto descomunal tomou conta de seu corpo. Os olhos ardiam como nunca haviam ardido em sua vida mortal. A pele parecia recobrír-se de algum tipo de ácido invisível que corroía e queimava os poros. Dirigiu-se rapidamente para o compartimento traseiro do caminhão, que consistia num pequeno baú vedado, onde a luz do Sol não mais o perturbaria. Assim que Sétimo atingiu a rua, inspirou prolongadamente. Tantos odores chegavam às narinas! César, o homem que lhe dera sangue para a ressurreição, conduziu-o ao baú do caminhão. Quando o monstro embarcou, a estrutura traseira rangeu e afundou sobre as molas do eixo. Será que conseguiriam transportálo? Que estranha carruagem era aquela? Assim que a fera acomodou-se, acocorada ao lado de Tiago, César fechou as portas. Era hora de zarpar e rodar para longe de Amarração. Para um lugar onde pudessem esconder os rabos sem serem notados. Onde diabos poderia esconder um vampiro com a cara da Cuca sem ser notado? César deu partida no caminhão, deixando o velho Luxor Hotel e a decrépita rua do Maestro para trás. Ainda na periferia de Amarração, cruzou com um jipe militar. Os soldados sequer perceberam o caminhão. Em dez minutos, chegaram à rodovia. Se tudo corresse bem, ao anoitecer estariam em São Paulo.

CAPITULO 2
Não se falava em outra coisa nos telejornais. Fontes confidenciais informavam que um dispositivo nuclear fora acionado em alto-mar, dentro dos limites brasileiros. Ao que se sabia, o Brasil não possuía armas nucleares. Besteira! Se não possuímos armas nucleares, como diabos as teríamos usado?! O Exército também tinha seus ossos no armário. E se usaram, usaram para quê? Os jornalistas estavam atônitos. Havia muita coisa estranha acontecendo nos últimos dias. Neve no verão. Neve onde jamais nevara. Tempestades repentinas e sem explicação. Como a neve, os meteorologistas não conseguiam explicar aquele fenômeno. Tempestades não surgem do nada, mas aquelas estavam surgindo. Neve aparecia num passe de mágica. E o monstro? A polícia negava. O Exército negava, mas um batalhão de gente testemunhava. Tinham visto um monstro percorrendo as ruas de Porto Alegre. Um monstro... descrito como um lobo gigante. Uma fera que destruíra um helicóptero do Exército. Destruíra carros civis. Fizera dezenas de vítimas. E os caras-de-pau tinham coragem de negar. Negariam até o fim, como negariam a utilização de uma arma nuclear. Para que fins? Em alto-mar... talvez um teste... um teste. Esse quebra-cabeça desconexo não fazia o menor sentido. Nenhuma ligação. Um monstro em forma de lobo. Tempestades repentinas. O Exército, como nunca visto antes, zanzando armado dos pés à cabeça. Neve em Porto Alegre e Osasco. Uma bomba nuclear. Um trem descarrilado... nada se encaixava. Nenhum ser humano comum juntaria as pontas, se é que pontas existiam. Entretanto, as pontas uniram-se na cabeça de um homem... um homem incomum. Um homem com uma missão. Um homem adormecido que agora, assistindo ao telejornal, via-se desperto em suas raízes, pela advertência de seus ancestrais portugueses. Ouvindo aquelas coisas malucas, conseguia ordená-las, conseguia criar um esboço. Uma hipótese formavase. Um instante, uma certeza... — São eles... — murmurou o homem. Tudo se encaixava. Tudo! Eram eles! Os sete demônios do rio D'Ouro! Sim! Eram eles! Finalmente... — Meu pai não estava louco! O homem correu ao quarto. Dentro de um espaçoso closet, arrastou de debaixo de uma prateleira um pesado baú. Um cadeado destravado, antiqüíssimo, selava a peça de madeira sólida, contornada por grossas cintas de couro e ferro. Retirou o cadeado com pressa e abriu a pesada tampa. Um livro com capa de couro estava por cima de tudo. Cheiro de mofo eterno. Era isso que procurava. Era isso que queria. O livro. Levouo para o quarto. Abriu-o em cima da cama. — Como eram os nomes?... — perguntou-se em voz alta. Um podia gelar o ar, outro podia controlar as águas. Tinha a fera... sabia que tinha... um que lembrava um lobo... Encontrou. Sim. Inverno era o vampiro maldito que gelava o ar. Tempestade fazia chover. E Lobo era a fera maldita de que falavam em Porto Alegre. Havia os outros... sim. Espelho, que podia transmutar o corpo para a forma humana que bem entendesse. Podia ainda assumir a forma de alguns mamíferos. Acordador, Dom Manuel, esse era seu predileto. De acordo com os documentos deixados por seus antepassados, era capaz de acordar os mortos. Gentil... era uma incógnita, jamais descobriram o que o vampiro de feições amigas era capaz de fazer. Talvez fosse esse seu dom maldito... parecer amigo. E por último, o monstro mais malévolo, o vampiro mais perverso: Sétimo. O sétimo vampiro. Esse era o mal na terra, o perigo maior, um ser capaz de tornar-se um monstro alado, capaz de transportar-se durante as horas de Sol. Era o pior dentre os malditos do rio D'Ouro, diziam os ancestrais em relatos que mais pareciam invencionice misturada a puro folclore. Aliás, para ele, tudo aquilo não passava de folclore do mais grosso, um folclore particular, de sua família, pitoresco, passado de pai para filho. Passado de Tobia para Tobia, como um ritual, geração após geração. Agora era a hora da verdade. Agora era hora de relembrar todo o ensinamento dado pelo pai. Era hora de assumir seu propósito, de obedecer ao destino ditado por sua alcunha. O propósito de sua vida. O propósito de não dar trégua àqueles malditos vampiros. O propósito de caçá-los eternamente. Era hora de ser um Tobia.

CAPITULO 3
Sol poente. O astro-rei deita-se vagarosamente no horizonte. Sombras negras tomam a superfície do hemisfério. A noite avança preguiçosa, sem sinal do frio sobrenatural que abatera a região nos últimos dias com a presença funesta de Guilherme, o vampiro Inverno. Em Amarração, a presença militar ainda é forte. Tinham exterminado naquela manhã a existência de cinco vampiros. Inverno, Espelho, Tempestade, Acordador e, Gentil. Tinham certeza de que haviam eliminado quatro deles, pois o quinto, Gentil, que atendia pelo nome de Miguel, adentrara o perímetro acompanhado de Tiago, o humano. Por conta dessa incerteza, dessa presunção, ainda buscavam por três das criaturas. Um, já conhecido, era o vampiro que atendia pela alcunha de Lobo. Alvejado por uma bala de prata, estívera inconsciente por horas. Por fim, despertara e escapara do IML, de Amarração. Se Gentil não fosse o acompanhante de Tiago, também haveria de estar à solta; até o momento não tinham idéia de qual era o poder maldito daquele vampiro. O corpo de Sétimo permanecia desaparecido e era bem provável que, como os demais, estivesse vivo. Apesar de ainda estarem negando a existência de tais criaturas, seria fácil localizar Lobo, pois a população não ficaria calada ao ver o monstro de mais de dois metros de comprimento. Não muito longe de Amarração, Afonso, o vampiro Lobo, abandonava seu esconderijo. O Sol já havia deitado no horizonte. Um resto de luminosidade persistia a enfeitar o céu, mas os raios solares não mais tocavam a superfície daquela parte do planeta. Afonso saiu à rua. Havia passado o dia todo coberto por lonas velhas em uma borracharia abandonada. Vestia calça social caqui e sapato preto de bico fino. Uma camisa amarela desbotada cobria o peito. Não gostava da cor, mas foi a que encontrou primeiro. Apesar de sua velocidade vampírica, detestava assaltos. Preferia comprar. Trocar favores. Porém, não estava em condições de barganhar. Ao menos a roupa era limpa e exalava uma fragrância adocicada. O tecido tinha uma textura jamais experimentada. Aquela terra era diferente em tudo de sua terra. Apesar do estranho português falado pelos aldeões, conseguia entendê-los cada vez mais. Sentia que estava muito longe de Portugal. Além do idioma, pouco pudera absorver daquele povo. Precisava mimetizar-se de maneira mais eficaz. Não podia saltar aos olhos. Esse, sim, era o melhor truque que qualquer vampiro deveria se empenhar em desenvolver. Que terra estranha era aquela? Tão cheia de bruxos! Homens que iam em carruagens que se moviam sem cavalos... luzes que surgiam de varas sem chamas, sem calor. Que gente estranha! Para ele, que se transformava em lobo, era bom que a primeira noite de lua cheia já o houvesse assaltado, pois agora tinha controle total de seu dom maligno. Ele se transformaria apenas se desejasse. Perdia o controle sobre sua mutação apenas na primeira noite, quando a lua refletia com maior intensidade a luz do astro-rei, noite em que todos os vampiros eram mais fracos, em que a força da fera-lobo tornava-se mais intensa, mais ansiosa que a força vampírica. Era por essa razão que, quando em forma de lobo, refestelava-se de sangue humano para voltar à forma humana com força suficiente para dominar a fera, a fera estúpida que consumia seu desejo, que o tornava mais bruto que o vampiro Inverno. A fera que, em muitos casos, matava indistintamente. O lobo tomava sua cabeça, transformava amigos em inimigos, inimigos em caça. A fera involuntária. Era imprescindível dominá-la. Era fundamental dominá-la, poder evocá-la apenas se necessário. Era adorável aquele dom. De quantas emboscadas a fera não o salvara! Quantos perigos contornados! Era bom ser um monstro... mas apenas quando assim o quisesse. Odiava aquela primeira noite de lua cheia, quando a mente tornava-se vazia, descontrolada. Quando os músculos lutavam inconscientemente contra a transmutação. Era inevitável. A fera sempre vencia. Lobo era o dono da noite. Afonso ouvia o mar. Estava a poucos quilômetros. Fechou os olhos. Podia até ver as ondas quebrando na praia. Teve vontade de ver o mar de fato. Pôs-se a caminhar pelas ruelas da vila. Um cãozinho aproximou-se. Cheirou-o. Deu dois latidos curtos e nervosos e então partiu, correndo e ganindo. Afonso levou o braço até as narinas. Meneou a cabeça, estranhando o cãozinho. Não havia traço da fera em sua pele. Luzes no céu. Via algo movendo-se no horizonte. Não era uma estrela, mas algo bem parecido. Um grupo de luzinhas... todas enfileiradas, cruzando o ar. Eram lindas! Agora, tudo mais calmo, podia observar melhor aquele povo. Devia integrar-se. Naquele lugar, o chão era coberto com material negro, tornando o caminho das carruagens mais suave.

um homem passeando por aquelas bandas. tu és português.. Era difícil pintar um turista por ali. Não chegava a ter ali o amontoado de gente que tinha em Lisboa. Faz o seguinte. Havia bolinhas andando pelo líquido! Bruxos! Terminou o copo virando-o de uma vez. — resolveu o balconista. mas ficou curioso a respeito daquele líquido tão peculiar. — Bá. — Tu queres uma Brahma ou Antarctica? Afonso não entendeu.. rindo após exibir as opções ao novo cliente. tu é de fora mesmo. Lá estava ela.. Afonso apertou os olhos. a gente toma esse troço bem gelado. deixando o vampiro ver a gente que ia dentro. Tinha o mesmo sabor. Outras passavam assustadoramente velozes. — Deixa que eu abro. Apanhou uma das latas. pelos mortais. E a textura! Sim..Seria piche? E elas. passavam encantadoras.. não sei como vocês bebem em Portugal. fazendo o tórax crescer e diminuir compassado. só podia tratar-se disso. com espuma no topo dos copos. Interessavam-se. te dou uma lata de cada.. tchê. Aproximou-se do balcão. Seus olhos encontraram algo que.. As palavras saíam cantadas. mas era algo parecido. — Dá-me o que beber. deveria ser uma estalagem. tchê. Os turistas costumavam buscar os bares do centro. Riam e bebiam. Antarctica. não é? Pois bem. a julgar pelo sotaque estranho. O chiado repetiu-se. não demorou em atender. Eram boas as duas. Algumas vagarosas. O balconista continuou encarando-o. — Toma aí. Olhou para a esquerda. Que serviam o líquido que lhe proporcionava controle sobre a fera. Uma Brahma e uma Antarctica. não eram bichos! Adentrou uma ruazinha. Tinha luzes públicas que desciam do céu espetadas na ponta de hastes feitas daquela coisa cinza ou na ponta de postes de madeira. Apreciou o sabor levemente amargo. Afonso estava achando engraçado o modo daquele homem falar. não? Vais ficar olhando? Ela está esquentando. Leu em uma placa de madeira: Boteco do Alemão. Entrou. sim. Falavam de coisas que ele não entendia. que serviam-lhes energia para as aventuras.? O que vai ser? — Ora pois. para as batalhas.. O líquido gelado tocou sua língua. Muitos falavam alto. Mas. É cerveja da boa. nunca se aventuravam pela periferia. sem medo dos perigos.. em geral. O estômago gelado estranhava o líquido nunca dantes provado. Bruxos! Como faziam aquelas coisas moverem-se sem tração de animal algum? Eram engenhocas.. servia pessoas conhecidas. Toma das duas e depois decide qual tu queres beber daqui pra frente. O cliente permaneceu imóvel. Cada um gosta de uma coisa. — Tu não vais beber. admirando as latas de cerveja. Um odor forte. pra apreciar a cerveja. Tinha gente andando à noite. O balconista notou o estranho sotaque do forasteiro. . Estava gelada! Que diabos era aquilo? Não conseguia pressentir os irmãos desde o despertar. estalajadeiro. chamava de vilarejo porque não sabia do que chamar. A maioria ingeria um líquido dourado. imitando o balconista. fazendo a lata soltar um chiado. O alimento. aqui no Brasil. mas. a fera que todos chamavam de Lobo. Raras eram as vezes que os vampiros se interessavam pelas bebidas ou pelos víveres mortais. vai saber me dizer qual tu preferes. Um cheiro acre chegou às narinas do vampiro. — Esquentando? — Sim. e virou uma dose do líquido dourado em um copo. puxou o anel de cima da lata.. O atendente pôs duas latas em cima do balcão. pela quantidade de carruagens e gente à porta. Afonso meneou a cabeça concordando.. mais prolongadas do que costumava ouvir. gajo? Dá-me da melhor. que diferença faz. Afonso inspirou o ar. da próxima vez que tu estiveres por aqui. Tomou diretamente na lata. misturado ao cheiro das partes de uma fêmea. Uma das poucas mulheres. Algumas damas acompanhavam uns poucos. a mesma impressão. tocando sua mão. lentamente. — Então? Brahma. mas agora parecia que Inverno estava ali. como para toda regra havia uma exceção. — Tá aqui. para as fugas. Depois. As frutas maduras que jorravam sangue pelo talho. Afonso apanhou o copo e levou à boca. Não se deu ao trabalho de colocar o líquido no copo. A mulher era linda! Se continuasse a olhá-la. a tal cerveja era boa! Ergueu o copo na altura dos olhos. Muitos homens sentados às mesas de ferro fino. tchê. O balconista puxou o anel metálico no topo. fregueses habituais. Não sentia necessidade de beber ou comer. Como tinha casas naquele vilarejo! Aliás. Estalajadeiro?! O boteco. as carruagens.

. não? O sotaque lusitano. quase balbuciando. Bruxaria! — Estalajadeiro. a partida recomeçou.. Sabe. Deveria ser algo como as lendárias pelejas romanas no Coliseu. Não tinha como pagar. e chutar a bola para dentro de uma rede. — Pra cima de mim. o cheiro era ainda convidativo. Na frente da caixa. Concentrava a audição vampírica ora na televisão. não entende picas de futebol. Ainda sorrindo. o rapaz seria o primeiro de sua lista para aquela noite. — Não. Sim. que ele não conseguia ver. — Que que há? — Diz-me. O vampiro entornou a lata de cerveja e passou a observar atentamente a partida de futebol. né?! Afonso virou-se. Quanto ao jogo. prestou atenção a uma caixa que soltava barulhos.. percebendo que o cliente português continuava encantado com a caixa. não vou ficar paparicando cliente só porque é estrangeiro! Ainda mais português se fazendo de sonso! Se fosse norte-americano. A mulher estava nos dias e. Afonso ensaiou um sorriso. que ainda fazia chacota às suas custas. imagens em movimento contínuo eram exibidas. Já estava quase na rua quando a voz do atendente chegou forte ao ouvido apurado. Decidiu afastar-se antes que perdesse o disfarce. por que a disputavam tão bravamente com os pés. Terminou a cerveja e afastou-se do balcão. Partidas de gladiadores. Sorte do balconista ele estar hoje com vontade apenas de misturar-se. de aprender.provavelmente perderia o controle.. seu sotaque não engana. Um homem. Entornou a cerveja e. O balconista. — O portuga! Volta aqui! Sabia! Tu tava dando uma de louco só para não pagar. como se houvessem vencido uma batalha. Pra lá. ser um deles. não tem televisão de onde você vem. descrevia a partida de futebol.. O time estava vencendo. Os sons eram tantos dentro do Boteco do Alemão que não se dera conta da caixa. foi uma festa. A seleção brasileira sempre ganha da portuguesa. não tem. Corriam junto a um objeto esférico. isso tem. cerveja e futebol são sagrados! — Aqui é o Brasil? Onde fica essa terra no Império Português? — Bá. percebendo a cara assombrada do cliente de pele pálida. fazendo algumas mesas rirem à beça. tu não me engana! — esbravejou o balconista. com camisas diferentes das de seus companheiros. A fêmea que exalava o odor sangüíneo continuava no recinto. Os homens brincavam! — . ô Manuel.. o que é isso nesta caixa? — Na televisão?! Que que tem a televisão? Cês chamam televisão de caixa em Portugal? — Como sabes que venho de Portugal? — Afonso encarou-o. ah! ah! ah! — riu o balconista.. tu tá de piada pra cima de mim. pedira pela bebida e via-se agora em . decidiu que um dia iria a uma arena para ver in loco uma partida de futebol com o tal herói Raí. o que realizara a proeza e despertara aquela festa. ô português. Ninguém a apanhava. apesar do sangue estagnado. — repetiu baixinho o vampiro. mas nunquinha ouviu falar da seleção brasileira? É piada. Mas que coisa. — Seu sotaque. algo que o remetia à infância distante. em Portugal tem muitos times bons. mas tu. notou logo que naquela brincadeira aquilo era proibido. — Aqui no Brasil. pois se estivesse com a menor predisposição a matar.é impossível que você nunca tenha visto uma partida de futebol. Logo. Precisava aprender a falar como eles falavam.. não. por que os homens corriam atrás da bola. homem?! Cê tá curtindo com minha cara! Tu queres dizer que nunca. continuou: — Ao menos sabe o que eles estão fazendo? Afonso observava os homens correndo. Dizia que o herói. com tantos brasileiros jogando por lá. Também. pra cá. ora no balconista. aproximou-se curioso. Era divertido assistir àquela disputa.. — chamou o vampiro. tu tá me sacaneando! Tu és artista. — Meu nome é Afonso! — corrigiu. — Cê tem é que tomar suco de beterraba. chamava-se Raí. Precisava imitá-los. quando os olhos ergueram-se junto à lata. A caixa exibia os companheiros se abraçando. Seleção brasileira? Futebol? — Seleção brasileira? — Santo Deus. ô Manuel. Afonso sorriu. notou que um dos humanos conseguiu atravessar todo o gramado desviando-se de outros homens. é? Tá dando uma de louco? Alugando minha cara! Vá-te à merda. não é cerveja. O balconista. afastando-se do estranho homem de pele pálida. Feito aquilo. de não ser o sangue vivo. presa à parede por peças de metal. vá lá. mas que tem time bom lá. Não tinha moedas. Queria entender como aquilo funcionava....

. Próximo a Afonso. passando do negro absoluto para o vermelho vivo e. Contudo. Tão chamando a polícia. rapidamente. Não trago cá moedas. Entretanto. devia permanecer incógnito. aproximando alguns passos do forasteiro. ameaças. português. Te aviso agora que é melhor virar as costas e deixar-me seguir o caminho. Com eles. e não sabia o que os deixava mais assustados: um homem que tudo podia ou a fera monstruosa que tomava conta de seu corpo. Alguns também haviam notado a forma sobrenatural com que o encrenqueiro arremessara o balconista para dentro do bar. Agarrou o agressor e enquanto o fitava. Afonso enfureceu-se. tomar e sair sem pagar nada. — Promete o cacete! — esbravejou o homem. Poucos sabiam o que estava acontecendo. e não vira aquele rosto expelir um único sinal de dor. com um porrete à mão. isso não. — Ou tu paga agora. ó pá. Gritos dentro do bar pediam que alguém chamasse um médico. Agora eu quero ver você explicar para os caras esse negócio de entrar. os olhos apagaram lentamente. ninguém queria estar por perto. Um humano comum teria o osso quebrado. Não se tornaria fera. desviou do braço. aplicara à madeira. Afonso simplesmente colocou o braço entre a barra de madeira e sua cabeça. O Silvinho contou pra gente qual é a tua. saltando de trás do balcão. — disse o homem. Afonso aceitou o golpe. Os olhos arregalaram-se e as mãos foram tomadas por um tremor súbito e forte. Tinha de ter um braço de ferro. Golpeara o espertalhão.. não . Todos no bar estavam tensos. Vendo a arma empunhada e o modo arrogante com que o humano lhe falava. deixando a arma cair. Volto com duas vezes mais o que estas poucas cervejas valem. impossível para um sujeito comum e franzino como ele. demonstrando ao homem que não sentia dor perante ataques tão medíocres. A confusão era geral. Acha que pode chegar aqui e fazer o que quiser? Afonso viu o homem tirar um objeto que vinha preso à cintura parecido com aquele que o mortal utilizara para detê-lo quando estivera na forma de lobo pela última vez. — Parado. exibindo ao humano os longos e vampirescos caninos. urrava ferozmente. Uma arma. Os maís próximos do homem que tomara as dores do balconista gritaram quando ele sacou o revólver. Só agora notavam que alguma confusão séria estava se formando. Ali tinha coisa e tinham medo de descobrir o quê. Afonso ria alto. Poderia acontecer tudo. O balconista estava morrendo. dirigindo o porrete ao estômago do oponente. o balconista não aceitou a proposta. A face modificou-se.. de modo que só o adversário pudesse ouvir. não! Se fez de tonto. derrubando mesas. outro dia. Lobo virou-se. — disse o vampiro. Não era hora para contendas. Não o deixariam ir embora facilmente. O balconista estava atônito. voltando aos olhos negros. com balas de prata. hombre. deixou seus olhos cintilarem. brandindo o porrete e correndo na direção do estrangeiro.. atingindo fregueses. mas não tomaria uma sova daquele sujeito presunçoso e grosseiro. Temos um trato. agarrando-o com as mãos e arremessando-o violentamente para dentro do bar. Protestos. Alimentou-se do pavor que cresceu dentro do homem. Teria deixado mole sua cabeça aquele sono prolongado? — Desculpa-me. ou tu não paga nunca mais. Se saísse tiro.apuros. — Não tenho moedas. tentando acertar a cabeça do oponente. Acendeu os olhos. — Amanhã eu volto e pago tua cerveja. sem dar atenção à advertência do vampiro. Afonso permaneceu à porta do bar. tamanho o vigor que o balconista baixinho. Afonso fechou a boca e. Vos trago outra hora. alongando o corpo. mas não é. Vários clientes puseram-se de pé. Riu alto. — Pára agora que te deixo viver. relaxando os músculos. virando-se para seguir caminho.. — Fica quietinho aí. não por causa de uma dúzia de mortais assustados e bêbados. — balbuciou o vampiro. Certamente teria aceitado se pudesse ao menos imaginar o que sua petulância e ousadia em enfrentar o vampiro Lobo iria provocar.Tu não me engana. tornando-os escarlates e brilhantes. mas troncudo. olhando-o nos olhos.. estalajadeiro. — gritou alguém do meio da confusão. Não era fácil fazer aquilo. Gritaria e confusão. Só porquê assim o quis. O homem estacou. estralou os ossos da coluna. Te prometo. podia lidar daquele forma. Rapidamente. Agora vai ver. como brasas que se extinguem. — Fica quietinho. — ameaçou o balconista. o balconista ergueu o porrete e abaixou-o velozmente. gritos. —. Sou honrado. Sorriu.

Sentir um vampiro desconhecido só seria possível se um dos irmãos houvesse criado um filho. ou se o vampiro tomasse do sangue do outro que quisesse rastrear. Confronto. Havia umas poucas árvores e mato alto nos cantos. ao centro. O vozerio estava lá. Ninguém o incomodaria ali. tinha contas a acertar. A mesma voz escapava de uma caixa. Por que teriam feito aquilo? Por que um novo irmão? Seria possível? Sim. apesar de ser seu irmão. Encostou-se ao muro. ou seja. estava a morada. presente do próprio Satã: nenhum vampiro conseguia percebê-lo. Aquele que o detivera com uma bala de prata. era a única explicação. Teria tempo mais que suficiente. correndo atrás da bola. Se aquele demônio fosse desperto. Não conseguia perceber os irmãos.seria preciso matar naquela noite. Se os humanos quisessem vê-lo. Gabara-se perante os demais. Prometera matá-lo de forma sofrida. depois de ter sido atingido pelo humano e derrotado em sua forma de lobo. menos falatório. Mesmo sem os irmãos. Bradavam. de onde provinha o som solitário da caixa que falava do futebol. O filho de um irmão. Era hora de retornar o caminho. Era estranho. Tirara sua vida. tinha um encantamento. Medo. O ódio queimava seu peito. criara um filho. O terreno escuro lhe proporcionava segurança. Estava confuso. Tinha de buscá-lo agora. Miguel.. Mas. encontraria o desgraçado. mais cedo ou mais tarde. Quando tentara localizar Miguel. da maneira mais cruel que pudesse conceber. um calafrio percorreu o corpo do vampiro. Havia poucas maneiras de se localizar um vampiro pela sensação: se fossem os vampiros seus irmãos.. se por ventura houvessem se tornado vampiros no mesmo dia. Estava exatamente naquele mato. Era hora de descobrir o novo irmão e saber o que acontecera aos demais.. Desde que acordara. O mesmo que ouvira no Boteco do Alemão. era essa nova criatura quem o faria. com sua velocidade vampírica.. E se existia alguém para responder às suas perguntas. um vampiro novo existia. Sabia fazer sofrer. o fraco. Outra forma de se localizar um maldito vampiro era aquela que o assaltava no momento. descrevendo as proezas que os humanos faziam.. Aquele que o derrotara na forma de lobo. não recebera sinal algum do velho irmão. teriam de buscar luz. Apertou o passo. Um som conhecido chegou aos ouvidos. Era hora de encontrar o humano. Certamente se vingaria. Saltou um muro alto.. Sétimo se vingaria. não sentia mais os irmãos. Uma casa escura. Sétimo. confusos. no entanto aquela nova sensação surgira. . O ousado mortal que aguardasse a vingança.. Estava intrigado. não mais sentia os irmãos. seria inevitável. Afonso adentrou uma rua escura onde havia várias casas. feito no mesmo dia. antes de voltar ao seu castelo no D'Ouro. pelo mesmo demônio. Um novo maldito. Menos rastro. tendo suas almas roubadas pelo mesmo demônio. descobrir que raio de lugar era aquele. Prometera dar-lhe tempo para preparar-se para o novo confronto. Ainda se lembrava de seus gritos de ódio enquanto era carregado pelo próprio demônio para as profundezas do inferno onde fora feito escravo por cento e cinqüenta anos. para sair dali se fosse seu desejo. Estavam lá para trás.. Dentro do terreno bem divisado. Afonso acocorou-se. O barulho da estalagem ficara para trás. No entanto. Onde estariam? O que acontecera? Sétimo! Onde estava Sétimo? O irmão traído. mas ninguém se atrevera a ir em seu encalço. Um novo irmão. desde sua libertação.

Um fedor terrível escapou ao abri-la. e sair. Quantas vezes não foram avisados para não se meter com o Sofia? Quantas? Inúmeras! Nunca ouviram da boca de Dimitri uma palavra. todos vivos. no entanto. lembrando o beijo escondido dado aquela tarde no homem. Matador voltou à porta do corredor. mas saber que valera a pena. a esconder-se rapidamente. silenciosa e rapidamente. Um assassino dos melhores. Estão relaxados. agora morto. buscando as sombras. Ninguém. disparou duas vezes. risos. Cruzou o galpão. Não havia nenhum anão espreitando no banco de trás do possante Comodoro. Talvez nem acreditassem que Dimitri existisse. também era um matador. ajudando-o a espreitar com maior facilidade. olhando todos os cantos. A despeito da constante sensação de monotonia que o assaltava nos últimos tempos.. lhe dava desafios à altura. Entrar.. todos mortos. Era um assassino. Sentir o coração calmo na hora de puxar o gatilho. Com silenciadores. Saltou para dentro da área da velha fábrica. tudo quieto. Fez um sinal para que Ed e Fred . Vazio. O barulho vinha da esquerda. Seqüestrar gente do Sofia para arrancar informações! Que baixeza! Matador escalou o muro lateral do galpão. Ao contrário de alegrar-se. No interior do galpão. isso era. Movimentava-se lentamente. Por mais amadores que fossem os concorrentes. Dimitri divertira-se muito com a história do homônimo. ali no pátio. Aqueles caras eram incompetentes demais para merecer algum zelo. Encostou o Comodoro em frente ao velho galpão da fábrica. Chegou aos cômodos do fundo. Pequenos ex-escritórios. não teria a menor chance. Adorava o que fazia e fazia direito para continuar vivendo e fazendo o que adorava. Dimitri. Vasculhou o primeiro cômodo. Com o vizinho assistindo à novela das oito. Os dois seqüestrados estavam algemados a um cano de ferro naquele banheiro imundo. Alegria ao ser ferido.CAPITULO 4 O Comodoro entrou lentamente na rua paralela ao cemitério do Santo Antônio. Estudar o caso. mas que era engraçado. Levou o dedo indicador para a frente da boca. Fred sacudiu a mão algemada para Ed a fim de acordá-lo. Era uma lenda. Como agora. Estacionado. Um Matador. Ouvidos. Excesso de confiança era um veneno poderoso naquele ramo. Nuvens carregadas cobriam o céu de Osasco. tornava-o quase uma sombra. sem medir conseqüências. Um duelo. Duas portas. sempre tinham armas e gente idiota o suficiente para tentar entrar em seu caminho. Nada era simples com o número um de Osasco. pois o corte profundo seria bem mais fácil de curar do que as duas balas que enfiara no peito do oponente. Entrar e sair sem ser notado. Os paspalhos nem imaginavam que seriam pegos naquele mesmo dia. Contudo. Tinha um trabalho encomendado. emblemas de funerária. o segundo cômodo. pensando em emprestar uns trocados com um amigo para pagar a conta de telefone no dia seguinte. sem que ninguém sequer desconfiasse. Talvez por isso tivessem sido tão estúpidos. O punho de Ed estava sangrando um pouco. Uma lenda. Sentir a cabeça leve. adorava o coração batendo mais forte durante a preparação e depois sentir toda aquela tensão indo embora juntamente com as balas cuspidas por sua pistola automática. Sentia a alma quente perante a adversidade. estava o carro dos trabalhadores seqüestrados. Uma Caravan preta de vidros filmados.. As coisas não eram assim naquele mundo. seus olhos treinados varreram o interior do local. ótimos para vigiar e matar invasores incautos. não para cumprir objetivos. nunca um cara comum que fez uma bobeirinha. preferia trabalhar à noite. sem pensar por quê ou quando. sim. Aqueles idiotas! Não precisava sequer esconder o carro. Tudo escuro. Haviam tentado sair dali. Ser uma sombra. Trabalhava apenas para o Sofia. Apenas os risos dos vagabundos. Não sabia de onde o Jô tinha tirado aquele sexto dedo. Apontou a pistola. verificando por onde fugiria mais rápida e seguramente. o de carne e osso. alguns cômodos. Dimitri olhou de volta para a porta. Atravessou. A dica fora quente. sem ser visto. Ao fundo. olhos. um que não ficava na intenção. A porta do galpão estava aberta. Fácil demais. Com a vizinha tomando banho. à direita. Nem sinal dos caras. se Motilah ali estivesse para tentar qualquer gracinha. Até aqueles dois tinham percebido que lidavam com gente estúpida. mais o sobretudo escuro. Fred e Ed estão lá dentro. livre de qualquer vigia. que ficava junto a um terreno baldio. A corrente da algema cedeu. tudo. Adorava receber uma missão. havia três mezaninos. Não precisava sequer chegar na surdina. da casa ao lado. Verificar as possibilidades. um matador eficaz. Os idiotas ainda estavam na sala. atento. a apreensão aumentou. Foi até a porta silenciosa. Dimitri logo viu que estavam igualmente desprovidos de vigia. mas sabia usar como ninguém os cinco de cada mão. Vazio. Dimitri sacou do colete o cano silenciador e o conectou à pistola. Ele. no alto. onde provavelmente os dois caras a serviço de Sofia estavam aprisionados. Ouvia apenas o Sofia. Por isso. Dimitri encostou-se à porta. Sofia sempre lhe passava histórias. A roupa negra. Liquidava histórias. Não possuía o sexto dedo. gente que se torna instável ao menor susto e que puxa o gatilho por medo. Nada. Dimitri estava concentrado. Vozes. um artista. Como o aventureiro do romance.. Aproximou-se. Uma TV ligada.

A inaptidão das vítimas permitiu que Dimitri os observasse um instante.. Tiros precisos. se possível. — Sem ligar. Contou cinco. mas sua missão principal era outra. Puxou os gatilhos. Amadores. Matador sabia que aquilo vinha dele mesmo. salvar os homens do Sofia. Premeditando a briga. Voltou rapidamente ao corredor. Apesar de já tê-lo feito dezenas de vezes durante as duas travessias. Uns seis ou sete homens. desta vez contra o pequeno cadeado que deveria selar a fortaleza inimiga. Nenhum som além de suas botas batendo contra o chão de cimento. Ninguém vivo. Chegou aos cômodos do fundo. com a visão completa da sala apertada. Soldados do tráfico. Ergueu as armas. dezenove no máximo. cada um com duas pistolas e sede de briga da boa. Dali. ao menos fazia-lhes um favor. Preciso. agora no último alvo. Todos mortos. . Dimitri ficou com raiva deles.. violento. Popó Freitas teria sua audiência reduzida naquela noite. Gritos e vivas. era dar um recado. Ninguém vivo. Ninguém. lançou mais uma olhada para a sala. De dentro do sobretudo de couro preto. Adentrou a sala. Recostado à parede. um recado com uma assinatura inconfundível. Barulho era o que interessava agora. amadores esforçados. empurrou o pesado portão de ferro. vendo Popó carregado nos ombros. Voltou para fechar o pesado portão. Matador levou o cano da pistola até o meio dos olhos falantes e puxou o gatilho pela última vez. preso ao colete de igual cor. Se eram tão ruins. Crianças. Voltou a atirar nos corpos caídos. Só podia. Essa era a assinatura. Dimitri acelerou a respiração. Fora mandado para. Dimitri voltou a disparar. Se por ventura houvesse alguém. Meninos com dezessete. por que arriscavam-se naquele meio? O som da televisão parecia ter aumentado. Fator importante.viessem para fora. A respiração rápida. abreviando uma existência estúpida a serviço das drogas e antecipando o fim certo. Adrenalina? Levou a mão enluvada ao silenciador e desprendeu-o da pistola. Os olhos arregalados do último moleque pareciam implorar pela vida. seguiu caminhando lateralmente. Ainda não era hora de voltar ao carro. Dimitri olhou para seu Comodoro negro estacionado ali.. Fred desceu e ajudou Dimitri a empurrar a barca para fora do estacionamento. Desligou a TV. O carro atingiu o asfalto com o barulho dos pneus rodando sobre a areia. As explosões simultâneas ecoaram pelo galpão. mirando as cabeças. já teria tomado bala. — disse Matador. sacou uma segunda pistola.. crescendo à medida que ganhava velocidade. os olhos voltaram a procurar inimigos no galpão. Torcida. Rapidamente. Ed e Fred já haviam entrado na Caravan. Seus olhos profissionais continuaram a vasculhar o mezanino e os pontos onde haveria possíveis surpresas. Acendeu um cigarro e voltou a cruzar o galpão. O susto e pavor nos olhos! Surpresa a favor. apontando para a cabeça de um ao fundo e de outro mais próximo. Correu para o carro a tempo de deter a mão de Ed que ia ao contato. Na segunda puxada. Crianças. Quantos seriam? Três? Quatro? Podia ser um pouco mais difícil para exercitar-se melhor. Virou e se assustou. já derrubava os dois alvos seguintes.. mas permaneceu do lado de dentro. os instintos aflorando. Atravessaram a porta metalizada que guardava a porta do galpão. Era ele interessan-do-se pela caça. Hora de voltar ao Comodoro e aguardar o próximo chamado. Arremessou o palito de fósforo a um canto.. Mais dois tiros. Ninguém vigiando a porta. Mas não era isso. Conduziu-os através do galpão. Ficou ao fundo da porta. Fim do trabalho.

Levou um cacete. doutor.. Tu conheces. Disse que o homem era o capeta. De noite. — Mais do que já arranjaram? Fica difícil. — Tá. — Teve uma confusão de botequim. ligou aqui chorando pra gente não prender os guris.. e a própria mãe deu parte. — Que bobagens? Bira olhou para o delegado com cara de perdido. sem entender muito o interesse do delegado.. No entanto.. e o delegado iniciou o processo de transmissão. e parecia que estavam ficando sérias. interessado pela pequena confusão. Veio com uma testemunha mais bêbada que gambá. O sinal de fax foi recebido automaticamente. doutor? O delegado anuiu. — Esteve um estrangeiro lá. Coisa de cachaça.... Teve mais uma queixa daquele troço dos tijolos. Ambas as cidades não estavam longe da sua. — Que bobagens. arruman-do-se na mesa.. Quero ver melhor. — Fala. Quando botarmos a mão no espertinho. centenas de homens. Um pouco frio nos últimos dias. e sim aos caras de verde. não tinha os problemas que o pessoal de Amarração e Barraquinha vinham enfrentando. Bira. que estavam procurando algo diferente nas redondezas.. Foi no bar do Alemão. Até me arrependi de anotar essas bobagens. Uma de marido e mulher. passou-lhe os papéis. Depois. para Amarração. Até agora nem sinal. Quem tava aqui riu à beça. O Exército enviara tropas. Todo mundo queria saber quem era o sujeito que vinha atirando tijolos nas vidraças envoltos em páginas arrancadas de revistas pornográficas da pior qualidade. que ficássemos lá. foi agarrado e arremessado para dentro do bar. Coisa mais besta. — Teve também um furto de veículo. que o tal estrangeiro. não. Volta e meia. — Bira revirou os papéis que trouxera e continuou. Ele queria que a gente fosse até o bar. Disse que o homem tinha dentes de leão e queria morder todo mundo. que não sabia o que era jogo de futebol. O plantão não fora dos melhores. — Tem duas brigas de família.. com a população no pé. Ao menos. helicópteros militares passavam em rasantes pela região. Aquele fanfarrão que já tem passagem. Tudo que queria agora era encostar o corpo numa cama e dormir horas a . tipo. Moleques provavelmente. disse um monte de bobagens aqui na hora de dar queixa. Tinha um caso pendente. — A mãe? Isso vai dar encheção de saco.. os problemas estavam. Posso ajudar? — perguntou Bira. ligou para o 190. que era novo e ainda chamava o delegado de doutor. Que o homem tinha a força de um touro apesar de parecer um frangote. O rosto maduro e sulcado parecia ter envelhecido muitos anos naquelas últimas e exaustivas horas. mas. aquilo não era nada. Conhecia. mas tomou a pior.. mas nada anormal. Só prometia. — A testemunha falou o quê? — perguntou o delegado. Que quando tentou detê-lo amigavelmente. Mas só se ela levar pra frente. Coisa de pinguço. Nada de neve sobrenatural despencando do céu. Bira? Cê disse que o balconista disse um monte de bobagens. — murmurou. Ele passou os olhos pelo boletim de ocorrências e tomou sua decisão. Fui obrigado a tocá-lo daqui. Quebraram a janela do Samuel. Os homens do Exército haviam feito um pedido às delegacias.CAPITULO 5 O delegado recostou-se na cadeira. Não queria pagar a conta. esses meninos não dão mole. — Vai. houve alguma novidade no último plantão? Algum caso diferente? — É por causa dos militares.. — Bira. deixa ver. — Um homem com sotaque português. — Ah! É. bebeu duas cervejas e quis sair sem pagar. Outra de dois irmãos que se pegaram. Acho que só queria assustar os dois. — Esse não falava nada com nada.. — Deixa esse boletim aqui. Bá. revirando os papéis de novo. Deixaram um número de fax para onde deveriam destinar as páginas de ocorrências estranhas.. prometia. mediano. né? O delegado consentiu. Era pálido. não caberia a ele julgar. Procurássemos o diabo. Parece que não têm medo de encrenca. Coisa de sempre. As coisas andavam atrapalhadas em volta.. Nada de mortos sumindo do necrotério. O doutor deve conhecer.. — Olha. Provavelmente. Acionou o aparelho de fax e discou os números presentes no comunicado do Exército.. isso sim. Chamou o escrivão. nada muito interessante. graças a Deus. O tenente Brites estava cansado. O balconista partiu pra ignorância. Ocorrências cujas anormalidades fossem o ponto forte. Deu no que deu.

— Desculpe acordá-lo. Os países do Primeiro Mundo cairiam em cima do Brasil. O vampiro que devorava homens. de departamentos diferentes. O tenente que tentava rascunhar naquele papel amassado em sua frente alguma coisa para o departamento de comunicação divulgar naquela manhã. mas não tão pitoresco quanto o primeiro. tenente. Outro foi em Roda Velha. em vez de morrer de infarto no banheiro. . Vidas demais mesmo para ele. Algumas delegacias da região enviaram por fax as situações que envolveram anormalidades. Sabia que os veria em toda sombra. Tantas vidas. prossiga. dando ênfase à palavra mordida. Rápido e poderoso. O homem que apanhou disse que o agressor era forte como um touro. virando raiva. Dois monstros imprevisíveis. que fora ferido em Moçambique.. — Chegaram alguns boletins de ocorrências. o homem fugiu antes que a polícia chegasse. Quem era ele para decidir? Ninguém. Eram soldados! Tinham morrido no cumprimento do dever. conseguimos pegá-lo ainda atrás das grades. Tiago. Que ceifava vidas mais veloz que o anjo da morte. A maioria já havia gasto sua cota de dispositivos nucleares para essa encarnação do planeta. morto. que estivera no IML. pedindo para que ele tirasse de algum lugar uma máquina do tempo que recuperasse suas vidas perdidas. — E com o primeiro? O que atacou os namorados? — Um guarda municipal passava pela praça e conseguiu colocá-lo no xadrez.fio.. Estas. — Chegou a ferir a mulher a ponto dela sangrar. — Senhor? — chamou um recruta. vindo a bordo da lancha com o civil.. — O que aconteceu? — Uma briga de bar. Brites ergueu o rosto cansado para o rapaz.. Sabia que os temeria para o resto da vida. Encontraria Lobo e Sétimo. O sétimo vampiro. Um em Barraquinha. Era o homem que tinha matado dezenas e dezenas de soldados. a bendita sorte que desaparecera naqueles últimos dias. Vieram de cidades diferentes. duvidava que fosse.. Quisera ele estar lá e ter morrido com tal honra. O tenente que explodira os malditos com uma bomba nuclear. sim. que quisera o céu fossem mais mansos que os extintos. Dois deles ainda estavam soltos. — Sotaque português? — Sim. acostumado a ver mortes. Atacou a mordidas. Tantas vidas por aqueles cinco vampiros! Cinco. Que seria agora um menino de cinco anos morrendo de medo do escuro. que a cada segundo aumentava. um veterano do Exército. O tenente Brites. Espalhava o pavor como o vento espalha os odores. — O que aconteceu? — Nada. Tinha medo de que os fantasmas dos soldados mortos no maldito iceberg concebido pelo vampiro Inverno tomassem sua mente e gritassem acusações. Agora ele precisava trabalhar. encontraria os dois. A merda todos eles. — Quem pediu isso? — Não sei. que eram granadas comparadas àquela arma poderosa? Que eram granadas? O pior era a preocupação que o afligia. Um país que nunca tivera uma bomba nuclear havia explodido uma naquela noite.. Ele. Sabia que seria impossível. que também fora destruído pelo fogo implacável da reação atômica... senhor.. Desapareceu.. — O que você tem aí? — Recebemos seis boletins. Um deles. Não fora ele quem tomara a decisão. O quinto unira-se ao final. Dera a sugestão. só pode ter sido um informativo oficial. Um deles tinha identidade. — Não estava dormindo soldado. senhor. Um deles era o Lobo. Um homem com sotaque português quis sair sem pagar e brigou com o proprietário. — disse o recruta. com medo de vampiros que não existiam mais. Se tivesse sorte. Dois chamam a atenção. Que estivera em meio a explosões de granadas. Descobrir para onde fora o vampiro Lobo. Matava com uma abocanhada só. debaixo de suas barbas. O cansaço parecia sumir e a esperança rejuvenescer sua face. Um martelar sinistro dentro da cabeça o fazia duvidar se havia realmente conseguido. desejo. Os olhos do tenente brilharam. Se nos apressarmos. Desejo de vingança misturado a temor. Havia sido vencido em todos os outros planos e emboscadas que traçara para capturar e destruir as criaturas demoníacas.. Dois! Dois malditos vampiros. senhor. aproximando-se sem saber se o tenente estava acordado. O vampirofera que abatera um helicóptero. onde um homem atacou um casal de namorados na praça da igreja.. Que servira em missões da ONU.

localizados. pelotão! — gritou. Temos uma pista. exaurido. O lugar dele é num manicômio. Todos puseram-se de pé em posição de sentido. Qualquer homem acompanharia Brites atrás daqueles malditos que haviam levado dezenas de guerreiros no fogo da bomba. Estamos de novo no encalço dessas malditas criaturas. desde armamento a sofisticados aparelhos meteorológicos. — Chame um helicóptero! Acelerado! . Que os erros nos sirvam de lição! Vinte homens e armas pesadas! Um grupo maior do que o solicitado apresentou-se ao tenente. Vamos atrás da outra história. O recruta. Brites dirigiu-se ao homem do rádio. Não tinha mais o aspecto combalido. Era novamente o tenente Brites. Eles pagariam. — Quero vinte homens para seguirmos em diligência até Roda Velha.— Esqueça esse idiota. Um sargento à frente foi chamado. Eu conheci essas criaturas. Brites foi ao meio do galpão. — Sargento Soares! Escolha seus dezenove melhores soldados. O homem cansado e pronto para cair numa cama. cresceu e ganhou volume ao colocar-se de pé. viu o tenente Brites rejuvenescer dez anos diante de seus olhos. Elas não se deixariam capturar por um guarda municipal. convalescendo de uma doença qualquer da terceira idade. destruídos sem descanso. Seriam caçados. Vamos para Roda Velha. Aprendemos muito nos últimos dias. Qualquer um naquele acampamento estaria disposto a segui-lo. sem piedade. calado. — Atenção. Um homem com sotaque português e com a força de um touro. o bravo guerreiro do Exército brasileiro. munido por toda sorte de equipamentos.

Tomarei sangue. — Tu logo o serás também. Tinham diálogos curtos. César dirigia incessante. mas aproveitaram para comer. mas desistindo quando as orelhas pontudas.. O monstro roncou e então se calou. — Não sou guerreiro. Temia dizer algo que atormentasse ainda mais a fera. Sua aparência anunciava uma fera que poderia tornar-se incontrolável a qualquer instante. — Não basta ser uma réplica do demônio para afugentar os que te caçam? — Ninguém me caça! Ninguém ousará! Digo que todo senhor deve ter seu exército! E te dou a honra de ser meu general. Aprisionado no gelo pelo maldito vampiro Inverno. tocaram o teto do diminuto compartimento. ou vampiro a vampiro. perguntara o ano. o corpo era recoberto por escamas úmidas. E contigo como general de meu exército. melhor sem aquele demônio por perto. Tiago assustou-se. Tornar-me-ei poderoso como antes. Que dizes? — Não sabe nada de mim. mas não fora a sede.. engolira o líquido vermelho. E para isso preciso de uma legião ao meu redor. Abocanhou-o para afastá-lo. Precisavam ser rápidos. Sétimo riu da resposta do quase-vampiro. embora quase não tivessem fome. Como chama um desconhecido para ser seu general? — Me insultas?! — bradou a fera. Hei de voltar à minha terra e reestabelecer meus domínios. se sou um humano. faltava pouco para chegar a São Paulo. Ah! Ah! Ah! Logo serás tão maldito quanto Guilherme. nem isso . mesmo quando murmurava." Venceste Guilherme mais de uma vez em confrontos homem a homem. Da quarta hora em diante. — Malditos. O caminhão rodava monotonamente pela BR-116. Antes. — Reinarei. Miguel havia pedido para libertar o irmão. O monstro assemelhava-se a um morcego gigante. Tiago encarou Sétimo. Agora hei de voltar ao D'Ouro. certamente haverás de ser um bom general. o monstro emudeceu. Sétimo. Eliana ia na frente. A morada dos vampiros. Sangue. de onde escapavam pêlos grossos que. De acordo com César. Que seguisse para Portugal e os deixasse em paz. Sou um homem que queria sua mulher de volta. Seria possível? É verdade que tomara do sangue de Guilherme. estava prestes a perecer em suas garras. Nenhum rei jamais ousará contra mim. sem relutar. cochilando. Com meu pai em meu castelo. Já tinha desgraça demais em seu próprio corpo. Com a resposta. junto da dobra das asas. Não sei se sou um vampiro. terminando num grunhido e inclinando o corpo na direção de Tiago. Quem seria capaz de deter um pupilo do diabo? Tiago viajava atrás. se assim preferires. — Estou livre da caixa. vampiro. — Não tenho experiência militar. Tiago evitava falar. Em muitas partes. A voz do monstro soava grave e em alto volume.CAPITULO 6 Era noite. fora o instinto de sobrevivência. Isso estava feito. porém. Defendeuse como podia. — Que te pareceram meus irmãos? — perguntou a fera antes de emudecer. — Exército? — Sim. Nenhum bloqueio do Exército fora encontrado na estrada. seus olhos vampirescos cintilaram e encheram o baú com uma claridade escarlate. Que o monstro fosse embora. — Pensas que não sei escolher os que me cercam? — reforçou o monstro. Não resististe à sede e cravaste as presas no meu irmão. Se tudo que me disseste for verdade.. quase confortável no banco velho. em vez de brotar da fera. — Tu aprendes! Aprendes rápido. Não conheço a noite escura que tu trilhas há centenas de anos. pareciam espetados. O temido e legendário Sétimo acocorado à sua frente. Haviam feito apenas duas paradas para o banheiro. Agora. metia medo. Quero paz em minha terra. vampiro. O sangue penetrara em sua boca e. por um couro de aparência áspera. Sua promessa fora cumprida. Nenhum Tobia virá a meu encalço.. Não vou correr mais riscos. em outras. Tiago ouvia Sétimo sem nada dizer. O monstro no compartimento traseiro era desconhecido. fazendo menção de levantar-se. Maldito sangue. A polícia rodoviária tampouco se interessara pelo pequeno caminhão solitário.

O causador do meu sofrimento. — Vamos para Osasco. Está com os olhos abertos neste exato momento. Sabe que não há de tardar. As palavras do vampiro entraram em sua cabeça.. Tu me guiarás por esta terra. mais violento de minha terra. O voto que me mandou ao inferno como escravo de Satã. Agora que meus irmãos estão mortos. César adquiriu feições de asco. guarda. Era pegajoso. tendo de usar muita força para libertar-se. nem de perto. Essa não! O policial acionou o farol alto. César assustou-se. que estava recostado no baú. como iria explicar aquilo? Não esquenta. Ele se pergunta quanto tempo demorará até que eu o encontre. já estava tudo certo para alugarmos uma. queimados pelo fogo da bomba que descreveste. Olhou para Tiago. e uma imagem sinistra formou-se. menino. Um barulho na trava do baú. Precisamos decidir para onde vamos. recebi o dom de andar exposto ao Sol. Sou o vampiro perfeito. Uma viatura da polícia rodoviária encostava atrás do caminhão com o giroflex ligado. é só um vampiro- . Como poderei ter o amor de uma humana? — Terás outros amores. dos melhores. — Onde estamos? — perguntou Tiago. acho que precisamos de uma maior. a fera que tua mente concebeu. o ódio que residia em meu peito morto está ainda mais distante. Tiago continuou calado. A luz repentina parecia incomodar. que também me alimenta. um exército da escuridão. Era César. tu hás de ser meu general. Queria examinar de perto. estarei pronto para a grande caça que será abater o Lobo. iluminando em cheio o baú. aderiu à sua mão. Então. isso ainda sou. Não queria. Tiago afastou-se. tu conheces este novo mundo. Caminharei nas sombras ou na luz. A fera estava amontoada no canto. acocorando-se novamente e se aquietando. se assim desejar. mortalmente perfeito. eu garanto. Não sou mais.. Precisava estar atento. Quando saímos. Havia cochilado. com presas afiadas e poderes vampíricos. passando a mão repetidas vezes na camisa. Apesar de Sétimo considerá-lo peça importante. — O ódio intenso que consumia minha mente quando deitei naquela maldita caixa de prata parece ter amainado. Um material semelhante a uma espessa teia de aranha. que. tomando todo o canto oposto àquele em que Tiago dormira. O som dos pneus velozes invadindo o acostamento fez Tiago voltar-se. Dom Afonso caminha nesta terra. — grunhiu a fera. Tiago não havia notado. Lá o meu cunhado ajuda a alugar uma casa. Sou produto do ódio. indo do chão até o teto do baú metálico. ainda temia o monstro disforme.. vampiro novo. mais temido. — Osasco? — É. E tu. deitou-se. Eliana está no mundo dos vivos enquanto meu corpo claudica lentamente para a terra dos mortos. Fartar-me e deleitar-me com o medo. Que seria isso agora? César subiu no baú. Há de provar de meu veneno. Ambos olharam para Sétimo. Se o policial quisesse investigar o baú do caminhão. Preciso apenas me adaptar à nova terra.. Não queria ser o general de algo tão horrível. Demônios prontos para invadir a noite. Fui o vampiro mais odiado. meia hora no máximo até chegarmos a São Paulo. Abastecer meu ventre de sangue novo. Tiago. Tiago levantou-se. Me ensina tudo dos mortais deste tempo que te ensino a ser um vampiro. +++++++++++++++ O caminhão parou. — Estamos chegando. sim. Resta um deles. Agora que a família aumentou. O amigo passou a mão sobre o estranho material. Caçar. O astro-rei não mais me aflige. Dá uns vinte minutos. imediatamente. Sou perfeito. Como fizera aquilo? Sétimo estava recoberto por uma espécie de casulo.tenho mais. Como prêmio por minha escravidão. Tiago viu-se à frente de um sem-número de vampiros que cresciam e reverenciavam a fera. — Perto de Itapecerica da Serra. César notou o monstro remexer-se dentro do casulo. Mais essa agora. Silêncio. Seu sangue gelou.

o policial provavelmente acharia suspeito. Estamos levando pro Butantã. Chegou junto de Tiago. não. O policial voltou para perto de Tiago. Juntos com um vampiro?! Confusão. Lentamente. O policial andou para olhar o outro lado do caminhão. estava lá. César permanecia atrapalhadamente dentro do baú. Estamos esperando esfriar para seguir viagem. Ao se colocarem na posição exigida. César obedeceu. Ia repetir a ordem quando notou algo diferente. que agora tampava parcialmente César e o fundo do caminhão. Tiago saltou para o acostamento. Se ficasse. Olhou para César. ainda indeciso. — Boa noite. — respondeu César. Estavam limpos. logo ele vira borboleta e tá tudo bem.. junto ao acostamento. Olhou para o lado do caminhão junto à pista. — Vocês são do sul? — Somos. Se descesse. César torceu para que o idiota do policial rodoviário não desse uma geral na boléia. Queria aqueles dois sujeitos onde pudesse ver. Tiago estava apreensivo. — São morcegos. Está dormindo. — Vocês estão sozinhos? Tem mais alguém na cabine? — Tem minha namorada. Ponham as mãos no assoalho do baú e separem as pernas. Eram suspeitos. Voltou a olhar para Tiago. Lá na frente.monstro num casulo. por favor. Precisavam manter-se incógnitos. — disse o policial. Tiago e César entreolharam-se enquanto colocavam as mãos no caminhão. Não era hora de interrogatórios. olhando-o fixamente. gaúcho. Rio Grande do Sul. com balas de prata. tirou a mão da frente dos olhos e abaixou-a. chegar num posto. Tiago deu um passo de lado. mantendo a mão na frente dos olhos. Tá precisando tomar suco de beterraba. olhando-o fixamente. Tão escondendo o quê ali? Drogas? Contrabando? Desembucha que tudo acaba mais rápido. Deixou transparecer uma expressão indagativa quando enxergou o casulo ao fundo. — Sai da frente da placa pra eu ver. por favor. — Cê tá doente? — perguntou o policial. parecendo mexer numa caixa de ferramentas no assoalho do baú. vacilante. Os dois caminharam devagar até o carro sob a mira do policial. O guarda rodoviário desceu da viatura. O policial. O policial anotou num dos papéis fixos à prancheta que trazia. pois seu trinta-eoito. gaúcho?! Morcegos! Vão para a minha viatura. Desce do baú. Não sabia se descia. era certo que notaria o estranho casulo ali no fundo. — Cês tão encrencados. O estalar do solado das botas contra os pedriscos à beira da estrada era suprimido quando o ronco dos carros velozes passava junto deles. Andava devagar. com o revólver na mão. — Morcegos? Cê tá com graça comigo. É melhor colaborar. — Vou tentar uma hora dessas. passou a procurar armas com os suspeitos. O policial ficou à frente de Tiago. Barraquinha. — Passa-me a habilitação e documentos do caminhão. — Cê tá muito pálido. Olhava para trás a todo instante. — Que porra é essa aí no baú? Os homens ficaram sem resposta. Também. Vire-se devagar. Se mexerem um músculo. Não era hora de confusão. Tiago. pudera! Que diabos estavam fazendo com um vampiro-monstro? — Virem-se de costas. Coloquem a mão no capo e separem as pernas. O policial estava com a mão pousada na coronha do revólver. Meneou a cabeça negativamente. O motor esquentou um pouco. junto com Eliana. . juro por Deus que atiro no meio dos olhos. Tiago sorriu. — Boa noite. policial. O policial ergueu a cabeça. Que diabos seria aquilo no fundo do baú? Por que o outro ainda estava abaixado? — Você aí. se ficava lá. — Que temos aí? — Tu não precisas te preocupar.. — Que ela tá fazendo? — Não sei. o guarda apoiou-se no pára-choque do caminhão e subiu no baú. protegendo-os da luz potente. virando-se para a placa do veículo. Os problemas recomeçariam.

. policial. Tiago colocou o corpo do policial no banco do motorista. Cês tão encrencados. Aquele homem estava armado. Tiago deixou suas presas brotarem e atirou-se para cima do agressor. enchendo a boca e engolindo. Ele ouviu os passos da mulher e do amigo do lado de fora do baú. O corpo fazia sombra. Voltou silencioso ao caminhão. O policial puxava desesperadamente o gatilho da arma. mas não notaram que os olhos de Tiago cintilaram mais uma vez e os dentes caninos retomaram o tamanho normal. Tiago colocou o policial no colo e caminhou para fora do baú. Desesperado e gritando. filho da puta. O amigo não poderia ter virado um deles.. Precisava do antídoto para aliviar a dor. O policial tentou tirar a mão do casulo. Caiu sentado. deixando o braço aderir-se ao material. como se afastasse a possibilidade. mas não restavam mais balas. Tiago arrancou o braço do homem do casulo. a fera revirou-se. Deixa eu ver. Tiago saltou para dentro do baú. César não discutiu. A criatura moveu-se nervosamente. César teve a impressão de ver uma mancha de sangue na mão do amigo enquanto se apoiava na porta já fechada. César. Seus olhos. apagara de tanta dor após Sétimo agarrá-lo e quase matá-lo. Tiago recuou dois passos. tingindo-o alternadamente de vermelho e azul. Agora. Seus dentes despontaram novamente. O policial disparou uma vez mais. olhando para Tiago. — Espera. Tiago adiantou-se. armado e matando um vampiro. o guarda rodoviário disparou contra o gaúcho. — Fica quieto! Que porra é essa? Que tem aqui dentro? Não é morcego. aproximando-se da porta traseira. O amigo não discutiu e correu para o carro. Tiago? — perguntou a mulher. O ferimento à bala pulsava doloridamente. O senhor está preso. Olhou para fora. Pousou a mão enluvada no casulo e apalpou tentando descobrir o que se escondia no seu interior. que pendeu e tombou para o banco do passageiro. Perceberam que o policial perdera os sentidos. o policial disparou três tiros seguidos. Assustado. Aquilo mais parecia um corpo envolto do que morcegos. Estava com dor. Mais uma vez. Um monstro! César não conteve o sorriso. Cravou os caninos na jugular do policial rodoviário.aproximou-se do casulo. Aquela sensação ruim fez com que se lembrasse de algo pela manhã. fitando os olhos abertos do cadáver. Afastou-se da vítima. Um desespero crescente tomou conta do policial. Era algo maior. César fechava o compartimento traseiro. Havia esquecido os gaúchos. Aqueles dois sulistas estavam com coisa. O policial deu mais um puxão. — disse. Sorveu do líquido que brotou timidamente. Vou denunciá-los. conseqüentemente abrindo uma fenda no material semelhante à teia de aranha. sem sucesso. Colocou-se de lado para que a luz alcançasse o estranho amontoado. Onde estaria o segundo? Fora buscar uma arma para matá-lo! Céus! — Parado aí. um deles estava entrando. Tinha tomado uma decisão e tinha de agir rápido. Limpou o sangue com as costas da mão. Os gritos desesperados cessaram. — Vai lá e acorda a Eliana. Não eram morcegos. uma espécie de teia de aranha. Atacado agora pelo homem. Ele desmaiou quando botou os olhos no Sétimo. aturdida. — Abre a porta da viatura. pois o coração daquele homem já não batia. instintivamente. — Tiago! — gritou Eliana. Parado! — Calma. Eliana e César estavam na porta do baú e podiam ver o guarda de costas. Tiago sugou o sangue duas vezes. A luz do giroflex da viatura batia contra seu corpo. Teria sido impressão? Teria sido alucinação? Balançou a cabeça negativamente. subindo no baú. lembrava-se de ter visto os olhos de Tiago acender-se como os dos vampiros. . Só quero ajudar. — Que aconteceu. Estava ferido. precisa de ajuda. Sétimo grunhiu. atrapalhando a investigação. Eu vou ajudar o policial. Sétimo remexeu-se uma vez mais. apertando-os brutalmente entre os dedos e a palma da mão. disparou contra o casulo. Um movimento brusco vindo de dentro do estranho saco o assustou. Tiago agarrou o pescoço e destruiu os ossos da garganta do policial. cinti-laram. mas ela estava presa à teia sinistra e pegajosa.

não seriam importunados até chegar à cidade. juntandose a César. Ruim com ele. tchê? Tô fora! Tiago riu. é melhor termos alguma proteção.. A mulher abriu um sorriso e abraçou o companheiro. . — E quanto a Lobo? Tu disses que a fera escapou do IML. César fechou a porta restante. Eliana ainda se sentia debilitada. César subiu e deu partida no caminhão. Sabiam que a vingança não tardaria assim que a fera abrisse os olhos.Tiago verificou o casulo. Enfiou a camisa para dentro da calça. Temia a violência anunciada e o terror estampado nos olhos dos vampiros que traíram Sétimo. — confirmou. Limpou a mão suja de sangue no avesso da camiseta. Estava feito. era o único vampiro que conhecia. Não sangrava. Tiago suspirou. engolir-nos inteiros. precisava de um cicerone. ele acordara o vampiro. — Vamos embora. Sétimo remexeu-se dentro do casulo. Se aquele lobisomem vier atrás de você. Se tivessem sorte.. Aqueles que a chamavam de mãe haviam se servido de seu sangue até o limite. — Cão de guarda? — Sim. aconchegando a moça em seu corpo. E César fornecera o elixir da vida às entranhas de Sétimo. vamos. A cabeça doía. Titi. deixando a viatura para trás. travando o baú. Temia. Sabia que aquelas criaturas não pereciam assim. Com alguma sorte. Ficaram em silêncio por um minuto. Se o Exército descobrir que estou vivo. — É. — respondeu finalmente ao amigo. Um vampiro maldito. Eram os dois igualmente importantes.. — Precisamos de um cão de guarda. viva e jurando vingança. Osasco. o pupilo do demônio. O monstro haveria de considerar. Não podia. escondendo a falha. Saiu do baú. Mas ele. Era uma boa idéia. César concordou com o amigo. Não havia prometido acompanhá-lo. pode querer. havia um pequeno furo produzido pelo disparo certeiro do guarda rodoviário. como a gente pode confiar nele? Ele é um monstro. E tinha. Que barbaridades teria aprontado o vampiro para encravar igual assombro nos irmãos? Haviam vendido o irmão ao demônio. O vampiro Sétimo. ciceroneá-lo pelo novo mundo. seu ânimo foi se reduzindo. — Temos de arriscar.. Mas esse bicho. Li. — Não. fácil demais.. Na barriga. Daqui a pouco. — murmurou o amigo. meneando a cabeça. essa Cuca. aqui atrás. que o aguardava. Fora pedido apenas que acordasse o irmão de Miguel. debaixo de seu nariz. o Sol queimara sua pele e os olhos quase cegaram. Sétimo saberá que ele está vindo. Ele pode sentir os irmãos. — Osasco? — É. Como poderemos dormir em paz? Um vampiro! — Ele te chama de pai! — Bá. — pediu Tiago. Já havia cumprido sua promessa. Resistiria a mais um minuto sob a luz do Sol? Que armadilhas lhe reservava a vida escura? Ele. olhando fixamente para a viatura.. virá atrás de mim.. Estava fraca e com hematomas no corpo todo. junta mais viatura dessas aí. Só tinha que acordar a fera e ela estava acordada. o monstro teria morrido. — Verdade. — Durma. Por que tentaram me matar enquanto ajudava-os a capturar aquelas criaturas? — Não sei. o melhor deles. — O que aconteceu com o guarda? — Desmaiou. ao deixar o Luxor Hotel. E temos. Tiago subiu na cabine. Não podia deixar o vampiro.. Um animal. o melhor deles... Naquela manhã.. até que César questionou: — Por que não abandonamos este caminhão quando chegarmos? Por que não deixamos este demônio para trás e prosseguimos sozinhos? Tiago ficou pensativo. além de nosso sangue. pior sem ele. Sétimo.. Haviam ficado pouco tempo juntos após o desfecho do último confronto com os vampiros na caravela. Os amigos ainda não sabiam o que ele se tornara ou estava prestes a se tornar. sim. acomodando-se ao lado de Eliana. Acelerou. temos de arriscar. mas os outros vampiros não podem sentir Sétimo. Entretanto. isso me arrepia! Não agüento ouvi-lo me chamando de pai! Onde enfiei meu pau pra ter um filho desse. Tiago. Sabia que seu corpo já trilhava um caminho sem volta. Durma.

Ela deve estar doida comigo. — Não quer ligar antes? Amanhã de manhã. — respondeu secamente. — Temos de ir agora. . Saímos sem dar explicações. Acelerou o caminhão. César não respondeu. tinham de chegar rápido a Osasco. a gente chega na casa dela. Pisa fundo no acelerador. Estava cansado de tanto dirigir e dormir seria bom. Deixamos a casa dela quando Inverno fez nevar na cidade. Precisamos de um lugar para esconder esse bicho aí atrás. não quero tirar ninguém da cama. Minha irmã deve estar puta da vida comigo. Para tanto.— Vamos para Osasco. São quase dez da noite. quando o Sol estiver alto. — Não.

Não sairia a cavalo com uma dúzia de estacas presa às costas em cima de um andaluz. — O Euclides está aqui. — Poxa. Tinha ensinamentos para relembrar. presente de Dom Afonso IV. Era chegada a hora de Tobia fazer o que um Tobia fazia de melhor. Peça desculpas por minha ausência ao senhor Euclides. A armadura produzia um barulho a que seus ouvidos haveriam de se acostumar. Tínhamos uma reunião. Gostavam de demonstrar seus poderes satânicos. A linha muda. Uma estaca no peito. Envenená-los com alho. sob a recriminaçâo da mãe. levantou o tórax nu. Durval. esses foram feitos pelos demônios invisíveis que habitavam nossas terras. Jamais um Tobia pereceu na mão de uma daquelas criaturas. Tobia caminhou até a janela. Corpos que não morriam como corpos humanos. Doentes. Seus filhos eram feitos do sangue envenenado. Era feita de prata.. Com feitos tão incomuns. Iria rastreá-los. não me procurem. Não me liguem. Agora havia mais recursos. pois tanto armadura quanto espada foram ungidas na sagrada Igreja Católica pelo próprio Papa. Birfões. A razão primeira de sua existência. limpando a peça com tanto vigor que precisou interromper para ter certeza de que ouvira o aparelho. mas com algum treinamento logo não atrapalhariam sua agilidade e habilidade com a espada. Arrastá-los para fora de suas tocas e deixá-los arder ao Sol. Afinal. Essa era a última. caindo sobre os ombros. Existiam transportes mais velozes. Calçou as botas recobertas pelo metal e prendeu à cintura a espada ernbainhada. Os Sete. A armadura de prata o protegeria das garras vampirescas que investissem contra seu corpo. Eram pesadas. Logo estariam em suas mãos. Era Durval.. Tobia levantou-se e atendeu. A campainha soou de novo. Criaturas feitas por demônios. Seus corpos sem alma pereciam e faziam deles aquilo que eram. Havia ainda o capacete português. você. do primeiro ao último. Caçar vampiros! Contudo. O homem. forjada com fé e bravura. o Bravo. Seu adorado pai lhe contava as aventuras dos antepassados. Tudo se encaixava. que o fazia um legítimo guerreiro do exército lusitano. — Desde quando te devo explicações? Durval não respondeu. Tinha coisas mais importantes para resolver. Criaturas amaldiçoadas. Os Sete do Rio D'Ouro.. Resolva o que quiser com ele. Tiveram as almas tomadas para que delas fossem feitos novos demônios.. — Como. A cabeça decepada e o corpo cremado. como eram descritos no velho livro de família.. Esfregava o pano.. — Férias?! Você não disse nada.. passada de pai para filho. mas os vampiros originais.. Voltou para o meio da sala e. Tirou a calça jeans e passou a vestir as peças. Uma malha prateada cobria a cabeça e cercava completamente o pescoço. Encontrá-los... Serviam. igualmente de prata. Assassinos cruéis. Tobia. debruçou-se sobre a peça metálica. Abençoada era sua missão. Precisavam de rituais. sem alma. O homem desligou sem aguardar a argumentação do funcionário. Eram fanfarrões. — Onde você está? — Em casa. Até chegar a ele. Criaturas vis. O incumbido de destruir os vampiros. não sei quando volto. assim? — Estou de férias.. Saio. O guerreiro da vez. O último descendente. não se manteriam incógnitos.. Tinha vampiros para caçar. recebera os ensinamentos paternos desde a infância. voltando a esfregar com vigor a superfície reluzente. por inúmeras gerações. sangue de gente do bem.. Telefono quando achar conveniente. Armas mais eficazes. Dependentes do nosso sangue. — Não vou. gerente-geral de sua rede de escolas de informática. Chegara a esquecer de sua missão. De Tobia a Tobia. Assim eram os vampiros originais. debruçado sobre uma grande peça metálica. que livraram Portugal do mal dos sanguessugas. . ajoelhando. Todos. Ainda mais estes. como seus antecessores. implorando por sua existência. Não me liguem. — Fala. Nunca saí de férias. — Você é competente o suficiente para não deixar meus negócios afundarem até eu voltar.. Tobia sabia que os tempos eram outros. Batalharam bravamente contra os malditos.CAPITULO 7 O telefone tocou.

E tinha de agir rápido. pois lá nevara havia poucos dias. . Os aficionados por criaturas tão aberrantes haveriam de alardear todas as pistas de sua existência. antes que a maldição se alastrasse. Iria primeiro para Osasco. rumaria para o sul. estaria em seu encalço. Se nenhuma pista encontrasse. onde a fera em forma de lobo fora vista. Vasculharia na Internet. antes que começassem a germinar filhos das trevas em todos os cantos. Não havia tempo a perder. Mais rápido do que aqueles malditos pudessem prever. Onde o Exército movimentava-se freneticamente e até utilizara um artefato nuclear. Deveria munir-se de armas e partir ao encalço das criaturas.

só podia ser uma competição. Estava melhor assim. Os policiais zanzavam. pois ele. Uma cama e um grande guarda-roupa. sem perder a presa de vista. Não havia pensado nisso ainda. A claridade provinha da caixa.CAPITULO 8 Na madrugada em que Afonso. Se Sétimo viesse a seu encalço. O terreno escuro era o melhor esconderijo. Apertou os cordões que vinham às pontas e improvisou um laço em cada um. Há séculos um humano não lhe proporcionava aquela sensação. Afonso. mas bastante confortável. o vampiro Lobo. ainda maiores e pontiagudos. Todos os homens de plantão torciam para topar com o engraçadinho e encher os bolsos com a gratificação. encontrou um calçado. Um pouco grande. Caminhou pelo corredor contíguo ao quarto que dava em um cômodo maior. Roupas estranhas! Coloridas. Sétimo deveria ser ódio puro. Ainda podia ver os guerreiros atrás da pelota. Com sua velocidade vampírica. Ele mesmo. Não queria atenção sobre si por ora. fora voto certo para enviá-lo às profundezas do inferno para servir ao Cão. quase chegando aos ombros. Uma dava para um corredor. cabelos cheios e ondulados. escapando pela boca. apesar de agora serem possuidores de armas muito mais poderosas do que as usadas pelo exército de Tobia. novamente fora hábil para livrar-se do cárcere. Mas se era isso que os moradores da vila usavam. era isso que iria usar. sim. quando vampiro. em forma de lobo. Esgueirou-se por ela. Os olhos cinti-laram.. homens solitários caminhavam admirando o céu. haveria de encontrá-lo com forças.. Tinha gente arremessando tijolos com bilhetes indecentes contra as vidraças dos moradores mais ilustres de Roda Velha. Dirigia a boca à jugular pulsant. Lobo suspendeu a respiração. Um esporte! Era isso! Futebol era um esporte. Mais uns quilômetros e nenhum dos patrulheiros estava dando a mínima para o português. Por que não podia senti-los? Onde e como estariam? Enfeitiçados? Mortos? Talvez. Sétimo liberto. Será? Poderia estar a espreitá-lo. afastou-se até ficar protegido pela escuridão do corredor. outra para um cômodo pequeno. Acompanhava incessantemente o ir e vir dos competidores. O carro dos policiais vagou por mais de uma hora nas curtas ruas do pequeno bairro. Uma gangue. isso não. apenas encontrar o novo irmão. quando não havia nem sinal do turista português. negros como o céu da noite. Não queria que o ar expelido despertasse a presa. Um bufao. Andava silenciosamente. Uma gorda recompensa estava correndo por fora.. um homem. não conseguiriam ludibriar seus irmãos vampiros. se Sétimo estivesse liberto. Ora. Voltou ao quarto e abriu o armário.. Os caninos brotaram. O lobo perecera temporariamente. Duas portas. Só poderia ter acontecido isso. o vampiro-monstro. Estavam sempre atrás daquela bendita bola. As luzes apagadas. Ali mesmo. E quereria matá-lo também. mas ele. vinha o som da televisão. Abaixou-se. este parecia acolchoado e disparatado. Estava liberto de novo. mas nenhum que se encaixasse nas descrições oferecidas pelos espectadores do confuso episódio. O ódio. Um banheiro. bolas! Tinham coisas mais importantes com que se preocupar. a viatura só apareceu bem depois do fim da bagunça. e a cada quilômetro avançado o interesse pelo ladrão de chope diminuía. Da casa. mais nada. Afonso abraçou os joelhos. com camisa amarela e calça cáqui. Casais passeavam de mãos dadas. O prazer da caça. Esse novo irmão falaria dos outros. Era hora de abastecer o corpo com sangue humano. De costas. Aproximou-se sorrateiro. Levantou-se. colocou uma blusa preta de tecido grosso com capuz. Só ele poderia dizer o que fora feito dos demais.. A casa voltou ao silêncio. escravo apenas do medo que tomava sua mente ao imaginar Sétimo desperto e sedento para extinguir sua sofrida existência. Retirou os sapatos e calçou o novo par. Magro. Por cima. Ficou alerta. arqueando as costas. O homem estava absorvido pelo jogo. Uma janela aberta. — Goool! — O humano emitiu um grito explosivo. Os humanos. Lobo contra demônio. sem aquela camisa chamativa. Um homem de estatura mediana. estaria disparado naquele momento. arranjara aquela confusão no Boteco do Alemão. Fora vítima de uma bala de prata. . Levantou-se. Afonso ainda permanecia no amplo quintal gramado da casa onde se refugiara. O quintal escuro era seu cúmplice. Afonso caiu para trás. Lutar de monstro para monstro. vencera vários soldados e destruíra a máquina voadora. no guarda-roupa. Se seu coração morto e maldito ainda pulsasse. Talvez até tivesse uma pista sobre Sétimo. deitado em um sofá. Nenhum deles levava arma e poucas vezes se atracavam. sentado ao chão. Diferente de todas as botas que já vira em sua vida. Um som de tosse chegou aos ouvidos.. Livrou-se da camisa amarela e vestiu uma peça branca que ajustou-se ao tórax magro. Apoiou a mão no sofá. As luzes apagadas não impediam que sua visão examinasse detalhadamente o aposento. Sorveria até a última gota. certamente. Tinha que encontrar o novo irmão.

ali no corredor.. — Raí! Raí! De calcanhar! São Paulo! São Paulo! Eô. retardando a ação. Não saía sangue do ferimento. Cuspiu as onze balas restantes. gajo! — bradou o vampiro. eô. — Sou um vampiro. Mas o que despertou aquela vontade fora o susto cômico que o ser desprezível conseguira lhe pregar. Fora valente. Um impacto poderoso fê-lo parar. O homem caído. Poderia matá-lo aplicando um único golpe. Era isso que dava força aos vampiros. protegendo-se no encosto do móvel. Era um rapazote. mais assustado que ele. Que vampiro. Levaria apenas um instante até aquela dor pavorosa abandonar seu corpo. a mão tremia. Assombração? O coração disparado. Dezesseis menos cinco. Lobo viu a arma. Estava recostado à parede. Não conseguiria oferecer resistência. — Estás a te perguntar quem sou eu. a boca tremia. Morto? Percebeu que a mão do homem tremia. Ignorando a advertência. estático: os olhos apagaram. Ia se divertir com aquele menino sozinho em casa. O medo dos humanos.. como o pai ensinara. Sempre correndo. não estás? O rapaz manteve-se em silêncio. mas não estava caindo. Os pais viajando. Um homem. Virou-se atrapalhadamente. erguendo-se devagar. Morto. dezesseis. A caça aquietou-se. O homem estava vestindo seu moletom! Seu tênis! Um ladrão. tremia na sua frente. Lágrimas brotaram nos olhos. Ergueu a mão na direção do homem que avançava pelo corredor. Lobo examinou-o melhor. Assustado por um humano! Tobia. quatro vezes. Gritava. O homem firmou-se de pé. eram bem diferentes das armas portuguesas. Não se lembrava de ter convidado aquele filho da puta a entrar nem encorajá-lo a gritar ameaças. Três. Novo demais para morrer. O homem parecia possuído. firmar a pistola. olhando-o nos olhos. Seria esse o maluco que todo mundo procurava? O doido que arremessava tijolos nas janelas? Não ia perguntar. sorrindo-lhe. com medo. Os olhos da criatura emitiram um brilho vermelho. Nunca tinha atirado em ninguém. Hemorragia interna? Ouvira numa conversa dos tios. Era isso que era um ser humano. Leonardo calculou rapidamente. estaria em apuros. . tricolor! Afonso sentiu vontade de rir. o pai entregara-lhe a arma e dissera para sentar chumbo em quem entrasse na casa sem permissão. Mas aquele homem. hemorragia interna.. Arma automática. A adrenalina fora injetada em sua corrente sangüínea. Poderia abraçá-lo com sua força vampírica. Leonardo passou a respirar rapidamente. Estava sozinho. O menino estava apavorado. Leonardo assustou-se. Sentia-se bem..Susto. O menino. Puxou o gatilho.. Pálido. Estava vivo! Vivo? Quinze mais um. O rapaz tomou um susto tão grande que caiu do sofá.. Concentração! Era isso que o pai ensinara. Apontou para a cabeça do moribundo e puxou o gatilho. Cinco disparos. mas a mão não tremia mais. não um homem. Encostou-se. Viu a vítima cambalear. sorvendo lentamente o líquido de suas artérias. E também que um homem cairia assim que o balaço explodisse no peito. o ombro atingidos. O coração batia rápido. Poderia agarrá-lo pelo pescoço com uma única mão. A dor tomou conta de seu corpo mais uma vez.. — Um faminto. — O. avançando lentamente. gajo! Vampiros não morrem com tiros. O peito. o rapazote voltou a atirar. a barriga. erguê-lo do chão. O primeiro disparo explodiu contra seu peito... deleitando-se com o debater da vítima. Morto. Os olhos vermelhos voltaram ao normal. O homem saltava no sofá. Um homem pálido e magro. Desprezível. — Sou um vampiro! — gritou Afonso. Arqueou e cambaleou. Deveria estar se perguntando por que ele não estava morto. aquele homem cambaleou até a parede. Pulou o sofá e foi ao corredor. Não era um homem! Não era! Voltou a mão direita à coronha para firmar a mira. onze. E se fosse um vampiro? O homem caído. Nem em passarinho. deixar o corpo suspenso e sufocando. sorriu e voltou a caminhar. Os olhos brilhavam! Como? Assombração?! Tinha dezesseis anos. Lobo não teve chance de terminar sua explicação. Acendeu a luz. Caiu. precisava se controlar.. Invocava a velocidade vampírica.. sabia como aquelas coisas funcionavam. Afonso sorriu. festejando. Se deixasse o louco de olhos vermelhos dar mais dois passos. mas não fora hábil o suficiente. O coração fazia a mão tremer. Parecia um louco.. O sorriso desapareceu. O vampiro levou a mão ao peito. Deixou o fundo do corredor. Precisava de sangue mais do que nunca. tricolor. Escondido da mãe. O Deus! Que ele estivesse morto agora!. urrava como se estivesse possuído pelo capeta. De que manicômio havia escapado aquela figura? Deixou a mão deslizar para baixo da almofada. que nada! Um ladrão muito pálido.

Seria rotulado. estaria encrencado. Tinha que se livrar do corpo. O pai havia deixado estrategicamente um hiato nos balaústres num dos cantos da varanda justamente para que pudessem colocar coisas pesadas dentro do carro sem precisar de muito esforço. Remuniciou a arma. Agarrou a ponta do tapete e puxou o corpo para dentro do carro. Abriu a porta da sala. O nervosismo estava tomando conta de sua cabeça. Rodeou a casa. Era novo demais para carregar esse fardo. Voltou para a Parati. nervoso. Ouvira dos tios. Não acreditariam nos olhos vermelhos. Era menor de idade. Um arrepio cruzou seu corpo. Saiu do quarto e deu uma olhada na sala. Um duro golpe. substituindo o equipamento vazio por um completo. sem vigia. conseguiu arrastar sem muita dificuldade o cadáver até a varanda. político. criando mais espaço. Legítima defesa. A recepcionista norte-americana atendeu. soltando o freio de mão. — disse o menino. Para ela. instantaneamente. Teriam os vizinhos ouvido os disparos? Teriam chamado a polícia? O coração ainda estava acelerado. Não era um vampiro. vermelhos. com prolongador. Desligou. Criaria problema para o pai. Leonardo agradeceu pelo fato da empregada ter encerado a casa naquela manhã. Ia ficar mais nervoso. Arrancou-os e os arremessou pela janela. Os pés do morto estavam próximos ao banco do lado. Havia uma mancha discreta. pelo menos à noite. Embaixo do aparelho havia um pequeno papel com o telefone do hotel onde os pais estavam hospedados. esquentando. — São novinhos. Não ainda. Balançou a cabeça negativamente. era sua própria imaginação que tirava conclusões. Voltou rápido para dentro. O corpo sem vida jazia. Dissera que comprara de um amigo policial. Pegou o controle remoto do portão frontal da casa e a chave da Parati. Colocou a ponta do tapete dentro do porta-malas. assustadores. enquanto voltou para dentro da casa. A velha granja Cazuza. isso nunca. Tinha falido e estava às moscas. o pai teria de responder pelo crime. Os buracos de bala estavam lá. Não queria uma acusação de assassinato nas costas. O velho se enforcara bem no meio de uma das incubadoras quando recebera a notificação de despejo. Tiros. Segurava a arma. seu babaca. Bateu . Violência excessiva. O pai adorava armas. era isso. Não ia falar ao pai. Certamente. Era uma peça comprida e estreita. Leonardo apontou o controle para o portão de madeira. A prova. Cruzou o portão lentamente e acionou o controle mais uma vez. Tinha a impressão de que havia deixado o rosto daquele infeliz muito mais estragado. Mentira. Sentou e colocou o cinto de segurança. Rolou o cadáver para cima de um extenso tapete trançado. A arma era do pai. Alguém esperando lá fora. mas isso ele sabia. excrementos. O corpo imóvel. tudo contribuía. Puxando o tapete. Vira seus olhos brilharem. Arma de assassino. Invasão de domicílio. que parecera maior instantes atrás. Não era registrada. Tinha que deixar a casa antes que a polícia chegasse. direto na boca. Ganhou a rua e partiu em alta velocidade. Diziam que a velha granja era assombrada pelo espírito do seu Cazuza. nenhum traço definido. usado no corredor. só com azar encontraria algum casal de namorados utilizando as velhas instalações como alcova. as meninas não se deixavam levar para lá. já tinha um endereço em mente. imóvel. uma massa destruída. O estranho intruso. Em geral. Foi para o banco do motorista e afastou o carro do muro da varanda. acomodando-o de modo que a cabeça não atrapalhasse na hora de fechar o compartimento. Estava morto. Olhou para o terreno. Não iria preso. Leonardo estava disposto agora a transformar a velha granja em cemitério. que havia roubado uma blusa. Tinha que ligar para a polícia. que. Se tivessem chamado a polícia. Tudo quieto. Correu até a mesinha da sala. Não havia opção. Que besteira! Olhava para o retrovisor de cinco em cinco segundos. Seus tênis. Foi ao carro e manobrou até deixar o porta-malas encostado na varanda. Leonardo aproximou-se. aproveitando-se do seu nervosismo. Enfiou a arma na cintura. Voltou para a sala. Estava descarregada. Não acreditariam nele. Tudo parecia suspeito. Discou o número. começou a abrir. Qualquer luzinha no espelho era a polícia em seu encalço. Responderia processo. Acelerou.Vencera o intruso. Descarregara a trezentos e oitenta. Ficava a uns quinze quilômetros e. Deixou-o ligado. que dava para uma varanda. Estava lhe pregando peças. Escuro. saltou por cima dos balaústres e entrou no carro. presa à calça jeans. que vampiros não morriam com tiros. Tinha desfigurado completamente. O crânio desfigurado. Apanhou mais um municiador para a pistola. O intruso poderia estar acompanhado. Olhou para trás. Munição era o que não faltava. O homem dissera que era um vampiro. de um jeito ou de outro. Não deixaria sobrar culpa para ninguém. Estava impressionado. O lugar era feio e malcheiroso. Enquanto manobrava. Não havia tanto sangue esparramado como mostravam na televisão. Animais mortos. na sua cabeça. Ouvira os tios dizerem. Pagar impostos é nossa sina. Dezesseis. Mais ninguém. onde ficava o telefone. Ele dissera que era um vampiro. mas serviria muito bem ao propósito do rapaz. Legítima defesa é cessar o ataque. Destravou o banco traseiro e o deitou. contra um homem de aparência doente e desarmado. colocando-o no bolso. Leonardo ainda era um bebê. Mas temia as complicações. Não caracterizaria legítima defesa. Acendeu as luzes externas. A mãe podia morrer antes de voltar ao Brasil.

Estava escuro. Acomodou o morto na ferramenta. Caminhou rente à cerca. Voltou ao carro e o retirou da estrada. tornando a noite ainda mais sombria. sem arma. Cadeados! Mais essa agora! A fechadura da porteira estava enrolada por duas correntes grossas. recolheria as balas e as cápsulas. Afonso estava voltando à consciência. Pronto para vingar-se do contratempo burlesco que o mortal providenciara. Ainda estava ferrado. Chegou a um canto do galpão. despejando o morto e caindo de cansaço ao seu . com os pés para frente e a cabeça junto das alças. mas tinha quase certeza de que o rosto do morto estava limpo. sem crime. Nada. sem janelas. de tecido bem fino. Desligou o carro e os faróis.. o fedor do corpo putrefato não chamaria a atenção. Poderia demorar lá dentro. O galpão distava muito mais de seiscentos metros. Antes. agitado. Estava com o rosto destruído. pegou o carrinho de mão e trouxe até o cadáver. Limparia a arma e colocaria no bolso do cara. Carniça. Droga! O peito subia e descia descompassado. Chegou até a porteira que dava acesso à velha granja. Reviraria seu bolso e jogaria a carteira na beira da estrada. Não seria mais de seu pai. Os bíceps ardiam. sem ventilação. ele divisou a sombra de algo que poderia ser a salvação. pensando no que fazer. limparia o pouco de sangue que ficara no chão. Era isso. Mau cheiro.. sem ferimentos. cada vez com os braços mais cansados. A lua encobriu-se de uma hora para outra. a necessidade de livrar-se daquele corpo com urgência supria o rapaz com energia extra. Dera o que fazer para recolocá-lo em cima da ferramenta. Seria de um assassino. extinguindo da existência aquele rapazote que criara problemas. completamente fechado. O carrinho já tinha tombado. Mesmo com a ajuda do carrinho de mão. uma placa pensa avisava: Vai a leilão. sorrateiro. Pronto para finalmente se abastecer de sangue e aí. Uma pá! Tinha esquecido! Precisaria de uma pá! Merda! Ah! Fosse como fosse. ao menos. Gotas grossas de suor brotavam do alto da cabeça. a caminhada seria menos sofrida. Esquecera-se do próprio Sétimo. o homem não era gordo. Um odor desagradável invadiu as narinas. E se o homem tivesse falado a verdade? E se fosse um vampiro? Caminhou mais vinte minutos e alcançou o galpão. A droga do galpão. um perigo. colocaria o sofá em cima da madeira. Leonardo. forçando o veículo a subir um barranco à margem do caminho. Talvez fosse por isso que as coisas fediam tanto lá dentro. Ninguém teria como identificá-lo. perfeito para esconder o corpo ficava a mais de seiscentos metros da estrada. Precisava se livrar daquela coisa estranha.. Leonardo caminhou por meia hora. curando os ferimentos.. O chão de madeira da sala! Não olhara! Não olhara! Estaria danificado? As balas poderiam ter atravessado o maldito e terem feito buracos suspeitos na madeira. Por sorte. Era nisso que pensava. Um carrinho de mão. estavam reconstituindo seu cérebro danificado. engatando a primeira marcha. Sem corpo. Agradeceu pelo fato da porta frontal não estar acorrentada. trajando camiseta de mangas longas. escorrendo da testa ao queixo. Leonardo tombou o carrinho. Aquela construção enorme. Se tivesse um pouco de luz. sem provas. ia raiar o dia até chegar lá. Deixa-se enganar por sua aparência juvenil. terminaria sua diversão. provavelmente já estaria bem mais perto do galpão. voltar ao plano inicial: procurar o novo irmão. sim. tornava-o um forno gigante. mas. com as portas imensas trancadas.. Voltava lentamente. Arrastou a porta pesada até criar espaço suficiente para passar com o carrinho. Pronto e ponto. sem que o meticuloso garoto pudesse notar. Saltou a cerca de arame farpado e confirmou. passado e repassado em sua cabeça.. Um perigo. Logo o mal estaria desperto. a caminhada seria dura. Caminhou até a entrada. encurvado. Só. O caminho tortuoso atrapalhava. tinha as feições de um pobre inocente. de um ladrão. Pelo menos. junto à cerca. Ia deixar aquele vagabundo lá. Voltando ao terreno da granja. Entretanto. Era chão pra danar com aquele peso nas costas. Mas sozinho. rapidamente. Voltou à Parati e abriu o porta-malas. como aquele menino. O vento fez o mato alto chiar. Dentro do carro. o corpo do vampiro tremelicou. procurando alguma falha. passou as mãos nos antebraços tentando se aquecer. Carregouo até a cerca de arame farpado e empurrou-o para dentro do terreno. poderiam carregar o corpo lá para dentro. mudaria a mobília de lugar! Isso! O sofá.a mão nervoso no volante. A vida sem alma. O terreno não favorecia. e o peso do corpo gradativamente aumentaria com a chegada do cansaço.. que. Leonardo estava impressionado. não tinha falhas. Isso. Deixou a Parati e providenciou para que o mato ao redor a escondesse o máximo possível. Abraçou o cadáver e arrastou-o para fora. Se tivesse chamado o João. Em casa. Suor brotou na testa. devolvendo-lhe à vida escura. Deus! Apressou o passo. desprendiam-se da franja. A pouca luz não ajudava. Seu plano perfeito. Estava morto.. Um vento frio cortou a estrada. Seus poderes vampíricos. Mesmo com a escuridão. Precisava tomar cuidado para que ninguém o visse. derrubando três vezes o defunto.

Preciso me alimentar. que tinha de desbravar com as mãos. — Quem é você? Quem é? — gritou Leonardo. virando o corpo para todos os lados. Estava fraco. os olhos se apagaram. O som da gargalhada do vampiro aproximando-se o manteve alerta. Estava morto! E agora não estava! Tirou a pistola da cintura. e ele gemeu doloridamente. Tua vontade é me liquidar. Queria acabar com a raça daquele homem com sotaque português.. Um soco. Quase conseguiste. As fases do plano tinham que se concluir com perfeição. o humano ! irpreendeu-o mais uma vez.. Afonso avançou. Leonardo não o temia mais. ó gajo. O maldito rapazote não se entregaria fácil. Leonardo pôs-se a correr mais uma vez. Voltou ao caminho.lado. Impossível. Mas aquele filho da puta não o mataria de graça. Ah! Ah! Ah! Leonardo levantou-se. Vampiros. era preciso cravar uma estaca no seu coração. menino. — É boa essa arma. arremessando a pistola para o meio do mato. Lobo deleitou-se com o medo estampado no rosto do garoto magro. Os movimentos cessaram. . Um garoto revidando seu ataque. e partiu para cima do vampiro. A arma perfurou a pele e aprofundou-se. Foste um bravo até aqui. A maioria dos humanos perecia com os primeiros golpes. Levantou-se. já disse. mas o que atrapalhava era o mato alto. Um barulho próximo. Sou um vampiro. O filho da puta estava surpreso. continuava sendo um corpo. Conseguiria evocar o lobo? Quando tentava se levantar. O sangue gelou nas veias. Achas que é fácil voltar da morte? Achas que é fácil me recuperar do estrago que fizeste com tua arma? Não corras mais. rapaz! Va. Agora entrega-te. tão pálido quanto um vampiro. Vampiro ou não. Batera numa árvore? Algo sólido. Entrara e agora tinha de sair sem que ninguém o visse. mas não o bastante. Leonardo havia se levantado. O galho não suportou e foi ao chão junto com o rapaz. — Vamos. Agarrou o galho que caíra da árvore. sem nada enxergar.. — Ah! Ah! Ah! — ecoou uma gargalhada na escuridão.. Agora. ai. — Não amoles.. Leonardo não tremia mais. Se aquele merda voltasse. A merda do homem não estava morto! Não estava! Como?! Quinze. Uma pedra feriu suas costas. tentando recuperar o controle da respiração. Rato? O barulho seco novamente. O mato à margem da trilha de terra lhe dizia onde se manter. Estava rápido demais. estava. Ouvia o vampiro. tentando evitar a queda. Enxergava sem dificuldade. Empunhou a estaca. Precisava lutar se não quisesse acabar morto. Voltou ao galpão e apanhou o carrinho de mão. agarrando-a firmemente. sim. A escuridão atrapalhava. Estava com medo. . Sim. Preciso de sangue. pois havia também batido a cabeça. com a ponta lascada e aguda. teria de brigar. apavorados com os dentes sobrenaturais e os olhos cintilantes. assustado. Recostou-se a um amontoado de pneus. Sorriu. Leonardo assustou-se. cruzando o ar como se fosse feito de pano. Era um vampiro? Assistira a muitos filmes de vampiros. Ficou sentado ao lado do corpo imóvel. com a ponta aguda mirando o peito. Sentiu o monstro atordoado. dezesseis tiros na cabeça. um corpo à vista dos curiosos. o vampiro estaria morto. Era hora de invocar a fera. Não se entregaria. Ainda tinha um plano a cumprir. quase.. Seria o morto? — Tu. A mão poderosa de Afonso agarrou o humano pela camiseta e arremessou-o para o meio do matagal que margeava o caminho. tu és rápido.. Estou exaurido. desesperado. atordoado. Olhava-o fixamente: um vampiro. sim. O vampiro caiu de costas. mortal. Deixaria o lugar o mais rápido possível. As costas doíam. Se ele. e bateu forte contra uma árvore. seria sua arma. seria sua estaca. aproveitando o peso do próprio corpo para afundar ainda mais a peça de madeira. mal se mantendo de pé. Para matar um. de acordo com a lenda. Agarrou-se ao galho. nunca ouviu falar? O único som que chegava aos ouvidos da criatura era a respiração descompassada do humano. não é? Um golpe forte acertou a mão do rapaz. O pé! A perna do morto estava se movendo! Leonardo levantou-se e disparou correndo. um golpe fatal. Um par de brasas surgiu na escuridão. Era hora de acabar com a valentia daquele ser desprezível. Não morro com disparos de arma de fogo. acertando outro golpe. Leonardo tombou por cima dele. mataria de novo. — Já disse. Recuperava o controle da respiração. Cuspiu sobre o cadáver. Estava exaurido. tentando localizar o oponente. O monstro caiu. O galho. com a arma apontada para frente. Leonardo caiu. Um demônio. O rapaz começou a tremer.. Se fores condescendente faço tua morte ser rápida.

Sem pá. Abriu o capô. Estava com frio. Encaixou-a no primeiro parafuso. Suspendeu o carro. Não queria que a polícia o visse na rua a uma hora daquelas. Leonardo desceu o carro. teria passado muito tempo. Um frio cruzou a estrada. Estava duro e recusava-se a ceder. Parou. Bateu a porta do motorista e deu partida. e todo mundo sabia que estragava a roda. Apanhou um monte de caixas de madeira e papelão abandonadas e cobriu o máximo que pôde o cadáver. O pneu dianteiro esquerdo estava murcho. Daria certo. Acelerou. mas se topasse com a polícia. certificando-se de que os parafusos tinham sido bem apertados. Girou a manivela rapidamente. Tinha dificuldade de manter o carro na estrada de terra. Retornou ao cadáver e refez o caminho. subindo na chave de roda e deixando o peso do corpo atarraxar os parafusos. Muita emoção para um garoto na mesma noite. Mesmo descendo. O carro balançava. Foi ao porta-malas e apanhou o macaco. Olhou para os lados. colocou-se no banco do motorista. certamente ficaria. Só queria estar em paz pela manhã. Voltou à parte traseira do veículo e apanhou a chave de roda. Nunca vira o pai precisar dele! Desenroscou e removeu a peça. tomando o cuidado de não remover a estaca. Leonardo voltou ao carro. Não podia. O carro parecia ter-se enroscado. Voltou à chave de roda e finalmente venceu o primeiro parafuso. Um rasgo visível fora feito na borracha. Não estava preocupado em ser pego sem carteira de habilitação. Não sabia se teria a mesma sorte outra vez. Estava cansado de matá-lo. Colocou o cadáver em um canto. A noite começara fresca. Ainda tinha de voltar para casa. Sua respiração voltou a acelerar. Continuava olhando no retrovisor a todo instante. iria demorar a noite toda. Sumiria dali o mais rápido possível. mas era o mesmo que fizera algumas vezes. Concluiu a substituição. Estar em paz para explicar a história quando o pai chegasse. como se fosse cair. Se o encontrassem. em vez das luzes da polícia. Escuridão. Estava cansado de ser perseguido por aquele morto. Precisava trocar o maldito pneu. Seria a última vez em sua vida que entrava naquele galpão fedorento. O caminho estava ruim. se chegasse em casa daquele jeito e ela tivesse sido acionada pela vizinhança. precisou forçar o motor para colocálo de volta à estrada. vencendo o terreno íngreme. Agora via relâmpagos explodindo no horizonte. O parafuso que prendia o estepe estava duro. Ficaria orgulhoso dele. Considerou a hipótese de continuar assim mesmo. Irritado. o que dificultava a condução do veículo. Tinha de voltar depressa para casa. Sua cabeça zunia. Retirou o estepe e deitou-o no chão. Passou as mãos nos antebraços e entrou no carro. Fazia um barulho danado. mas em tornar sua ausência suspeita. iriam certamente estranhar a condição do pneu. Estava com pressa. Chuva. os olhos vermelhos do vampiro. . Temia agora encontrar. Não encontrou nada que ajudasse a cavar o chão de terra firme. Apressou-se.Tinha de escondê-lo. Deu ré. Os parafusos são retirados com o pneu no chão. sem impressão de frio. Abriu o vidro e ouviu um barulho estranho. Seu plano daria certo. Não queria cruzar de novo com o vampiro. Assim ele não gira e facilita o trabalho. Um trovão. Lembrou-se: tinha de descer o macaco. Descobriu a Parati e.

Contrabando de armas. Era a hora de toda a casa cair. Prendeu ao colete duas granadas. Crianças metidas a marginais. Eles têm a mercadoria que eu quero. Levava os compradores sem estardalhaço. — Tenho um caso. olhando para o estacionamento. Trancou o compartimento. As sombras amigas. Atiravam flechas. vestido de preto. municiou e destravou. Só tinha aquela mania insalubre de se estranhar com o Sofia. Gostava de ir lá tarde da noite e sentar-se ao fundo. As pessoas não o perturbavam. coberto por um sobretudo preto. O sobrado do contrabandista estava com as luzes da frente apagadas. é só ligar no fim do trabalho. Contrabando internacional de armas. precisaria de reforços. Sabia respeitar e se fazer respeitado. Malaquias começara com contrabando de eletrodomésticos. uma espécie de taberna. Continuo rápido. que o Brasil participava de um acordo internacional contra tal aberração. — Sou rápido. — Não. Ia ser bem diferente do trabalho do dia anterior. Um dizia que era impossível. Nenhum curioso. Um teste. de pele morena. Descreviam batalhas contra alvos de palha para os olhos e ouvidos atentos de garotas adolescentes. a polícia chega rápido. O . Outro dizia que se o Brasil quisesse ter e não contasse pra ninguém. e o carro deixou o estacionamento de marcha a ré. esses eram os quatro da casa. O único barulho próximo era o das botas contra as britas no chão. cara. retirou uma metralhadora. Estacionou o carro na praça. nada de carros importados. — Onde? — Tão no Bela Vista. Ali estavam os reforços. numa praça. Pessoas riam na entrada. Faziam festa. Atarraxou um silenciador ao cano da arma. Tem que ser tudo rápido. Dimitri desligou. sem suspeitas. Acabou a independência. Tomou mais um gole de cerveja Skol. quando tinha apagado amadores. Fazia churrasco na varanda superior do sobrado e parecia boapraça para os vizinhos. sem a ostentação dos traficantes. Bateu a porta traseira e entrou pela do motorista. Dimitri abriu o porta-malas. Sim. e quase sempre estava. Abriu a porta traseira esquerda do Comodoro. Em carros populares. Não quero mais ninguém. Havia deixado lá dentro armamento suficiente para abastecer uma pequena milícia revolucionária. a compra seria pequena. Olhou para trás. Discutiam a respeito de uma notícia que ganhara os telejornais naquela tarde.. Alguns arqueiros contavam vantagens. Com Sofia era assim. te ligo antes da última tragada. O motor trabalhava junto com o cérebro do motorista. Do porta-malas. — O pessoal do carregamento vai estar de prontidão.CAPITULO 9 Dimitri estava no bar. e agora era a hora do acerto. — Semana cheia. não davam atenção àquele homem alto. Malaquias sabia trabalhar. Deixa o Malaquias comigo. Sabia onde o bando do Malaquias enfiava o rabo. São bons. Colocou mais uma pistola no colete. Escreveu não leu. Apaga todo mundo. Acabou o boa-praça. Voltou. mais três negociando. e se ele fosse levar a mercadoria. no bairro do Bela Vista. Passou-a para o banco de trás. haveria três homens com Malaquias. Seu carro estava no estacionamento do bar. ele teria. chefe. Levantou-se e foi ao caixa.. Nada pesado demais. Riam alto. Havia suspeita do Brasil ter detonado uma arma nuclear em alto-mar. Um homem vigiando. Estrategicamente ao fundo. de ouvidos ligados na conversa da mesa ao lado. Ganancioso. cargas roubadas nas estradas. Melhor para ele. Se a possante moto estacionada na frente da casa fosse a do cliente. o Dimitri comeu. Tinha uma toca em Osasco. Manobrou em frente ao hospital do centro da cidade. fazendo pedriscos voarem. vizinhança estritamente residencial. Se Sofia estivesse certo. a arqueria Rock'n Wood. que o Exército brasileiro não possuía armas nucleares. O Bela Vista não é periferia. Aquele era dia de trabalhar. — Quatro caras. casas de famílias pacatas. Quer mais gente? Dimitri irritou-se com a pergunta de Sofia. Limpa o lugar que depois eu mando alguém buscar as armas. — Fala. Acende um charuto. Sem barulho nem confusão no seu pedaço. — Dimitri. — Malaquias? — Rum-rum. O motor possante roncou. desviou de um Voyage branco e subiu a rua Pedro Fioretti. entrara para o ramo da pesada. A discussão prosseguia animada quando o celular tocou.

Nesse mundo. Comprar armas sozinho? Burrice. Abriu a porta e arremessou o cigarro ao asfalto. a confiança se perdia e se modificava a cada batida do coração. Tinha que saber de quem e como comprar. Viera sozinho? Só se fosse conhecido do Malaquias ou um novato no ramo. o ramo dos matadores. apertadas nas luvas de couro. No seu ramo. Estendeu o braço e apanhou a metralhadora com silenciador no banco de trás. Hora de trabalhar.comprador poderia dar problema. desligando o motor. a confiança ficava nas peças metálicas que se aqueciam entre os dedos. Pousou a mão na chave do Comodoro e cortou a corrente. .

Neve em Porto Alegre.. Alphaville. Tobia montou na Honda e deu partida. o cara vai achar que você é cana. Pistolas. Os ensinamentos. Era uma missão. Tobia? Aí eu não posso fazer nada. Se aqueles vampiros haviam de alguma forma ressuscitado e escapado da legendária caixa de prata. Observar. Para acossar um vampiro. você está indo comprar armas pra caçar codornas. tem que ir atrás de nego da pesada. — Vou dar uma ligada antes. em cidades litorâneas onde nunca acontecera. Para todos os efeitos. Pra conseguir isso. que virariam cinzas ao ter o corpo arremessado à fogueira. — Nunca fui pra esses cantos. Tobia? Você tá me pedindo o que não tenho. Se você chegar todo mauricinho lá.. Um trem descarrilado num trecho que nunca experimentara acidentes. fazendo uma seqüência de roncos crescer na garagem. Tobia acendeu o farol e ganhou a rua. tem contrabandista em todo canto. pistolas munidas de balas de prata. Animais falíveis que sucumbiriam ao combate homem a vampiro.. — respondeu a voz metálica através do celular. Era disso que precisava. E arma israelense. escutar minuciosamente as notícias que chegavam. bicho.. Osasco. tem de tudo. — Não amola. Queria encontrar os vampiros. passados de Tobia para Tobia. — Codornas grandes. nunca. Tinha de se acostumar com aquelas vestes antes de se encontrar com tais criaturas. Deveria rastreá-los. Não ter medo dos olhos cintilantes e das presas afiadas. A mão enluvada girou a manopla seguidas vezes. explosivos de guerra e. Um Tobia que conhecia o maior segredo dentre os existentes para combater vampiros. Tem que ir. Não queria chamar a atenção na rua. Não ia aos vampiros indo naquele contrabandista. Com um sinal de luz..CAPITULO 10 De quem eu posso comprar? — Tem um cara em Osasco. você não ia dizer isso. Higienópolis. é arma de exército. Encontrariam metralhadoras israelenses. Não ter medo. — Não quero saber. perfeita para perseguição veloz e fuga rápida. fosse com a armadura de prata. Direção: Osasco. Só não podia aparecer na rua com a armadura reluzente. Motos de mil e cem cilindradas. todos os soldados do rei devem seguir em cavalos perfeitos. Morumbi. Amarrou o cinto preso à vestimenta. Estava com a armadura. — É foda! Comprar arma é foda! — Tá com medo. Passa o endereço. Foi ao closet e apanhou o sobretudo de couro marrom escuro. seu merda! Tchau! Tobia desligou o telefone. cada segundo mais pronto para o confronto. um Tobia. agora iriam experimentar as maravilhas do mundo novo. esportiva. principalmente. Centenas de soldados mortos. mas ia pelos vampiros. Tobia estava ciente de que necessitaria de um pouco mais que simples estacas e doses de alho. Não ter medo do mal enclausurado naqueles corpos semelhantes aos humanos. — Compra um guia. que arderiam sob o Sol. . Iria se armar. pneus largos. cara. Não temer. — Osasco?! — É. Um cara bom. Não quero nem saber! Já tenho fantasmas demais dentro do meu armário. um descendente legítimo de Tobia. metralhadoras. Isso os tornava caça comum. Tirou o pé de apoio e saiu lentamente. se estavam acostumados com cavalos e floretes para inibir suas atitudes maléficas. rezavam que. um vampiro. Era isso que rezava a bíblia da família dos caçadores de vampiros. — Quem diria? O poderoso empresário do mundo das escolas de informática indo comprar armas de contrabandista. Que se imobilizariam com uma estaca no peito. é normal. Te passa bala. porra. — Porra. O Exército testando armas num vilarejo. Coisas estranhas poderiam trazer mensagens incógnitas. Pistas.. As botas altas tapavam o brilho da prata que descia até as canelas. Desceu à garagem. em Amarração. Soldados que não foram hábeis o suficiente para confrontar os vampiros. o cara é contrabandista?! — Cê queria o quê. que acionou o portão automático. — Medo! Se você soubesse o que eu tenho que fazer com essa arma. Puxou uma capa de náilon de cima de um objeto. alertou o porteiro. Debaixo da capa surgiu uma reluzente motocicleta Honda. O homem passou o endereço para Tobia. Não amola. Pronto. arma dos Focas. para cada saída atrás dos vampiros. Estava coberto. Precisaria contar com amuletos e armas mais poderosas que o Sol. explosivos.

Se pintar um engraçadinho. Tinha de manter a calma. Miltão? — perguntou nervosamente o cara de gorro para o homem que recebeu Tobia na entrada. o lugar era bem melhor do que esperava. Um vento frio e cortante espantava as pessoas da rua. — O Sapo que te mandou? — Sapo? O Everaldo. — Tem ninguém não. deixando Tobia entrar e fazendo-o subir na frente. . de cano longo.. O segundo homem. de jaqueta preta. O homem ficou parado um instante. Tá com medo do quê? — bronqueou o desconhecido. Periferia era coisa de peixe pequeno. O Everaldo. — disse ele. não? Até a canela. Maluco dando güelo só dá azar. Tobia entrou. desarmado. apontou-lhe um revólver cromado. com um gorro da Gaviões na cabeça. junto a uma praça. conseguiria entrar ou sair daquele lugar. Entra logo. Um suor frio brotou em sua testa. Falar pouco. O Sapo é foda. Tobia encontrou um corredor e uma porta imediatamente à sua esquerda. Uma armadura para caça. como tomado por um tique nervoso. — Vai. Também. Passa a grana e rapa fora. o Brooklin Novo e o escambau. mergulhando ainda mais a noite numa sombria escuridão. enquanto o segundo empunhava um fuzil longo. olhava para uma mesa à direita de Tobia. caralho! — espantou-se o contrabandista. O mais alto. Tobia notou que os ângulos vigiados pelas câmeras alternavam-se constantemente. Hesitou. o do fuzil. — Entra aí.. a gente vê ali. — Mas que porra é essa. — É. Nunca chegara tão perto do submundo. Fazia aquilo em nome da família. As duas mãos para trás. deixando à mostra a reluzente armadura de prata. — Qual é o teu nome? — Tobia. Fala logo o que tu quer. armas. No final das escadas. olhando para a porta. nunca. irritantemente educados e treinados: Quer a promoção número um? Submetralhadora. O máximo que fizera fora parar na delegacia por causa de uma confusão arranjada com um flanelinha do Olímpia. é o mesmo cara. vendo as peças reluzentes recobrindo a perna de Tobia. chegava ao endereço indicado. Surpreendera-se. Ninguém. Tanto faz. Entra logo. sem autorização. vacilante. Teria feito besteira? — Vim só. só manda pirado. Um homem vinha descendo as escadas. Abriu a vestimenta. O céu estava coberto de nuvens. Nada daquele clichê de bandido de periferia. Insuspeito. Conferiu o número anotado num pedaço de papel. A casa estava escura e pouco convidativa. — Essa armadura faz parte da minha missão. Encostou a moto em frente à casa. Tobia girou a maçaneta. Ser rápido. deixando a cabeça balançar. Tobia desmontou da moto e foi tocar a campainha do sobrado. de aparência tão civilizada e ordinária. Notou que o mesmo tinha outra arma na cintura. provavelmente um AR-15. Isso aí não é colete à prova de bala. Tobia soltou o cinto de couro que fechava o sobretudo. devagar. Em bairros tão bem localizados quanto o Morumbi. Comprar drogas. — É uma armadura. — Armadura? Cê tá de sacanagem. o Sapo. mira laser.. Ser um Tobia. Imaginava apenas um amontoado de favelas e botequins em cada esquina. Quando ouvia falar de Osasco. — Não tem ninguém lá fora. O homem destrancou três fechaduras tetra do portão menor. A linhagem dos Tobias. Dois homens estavam na sala. bazuca de sobremesa? Quer? Sem chance. O contrabando agia assim. cara.Quarenta minutos depois. não imaginava que lá existissem bairros tão bonitos e arborizados. não queremos nenhum abelhudo de olho na gente. Ninguém o vira entrar. As mãos para trás daquele homem indicava que ele vinha trazendo armas escondidas.. O sobrado tomava em sua mente as proporções de uma fortaleza. Talvez nunca mais o vissem sair. Não se sentia nem um pouco à vontade fazendo aquilo. — Abre esse casaco. Tinha de munir-se contra o mal prestes a combater. Um nó formou-se na barriga de Tobia. — Foda-se. grã-fino? Cê tá de sacanagem? Veio mais alguém com ele. — declarou o comprador. — Quer vender? Miltão ergueu o sobretudo: o cara estava limpo. trazendo uma pistola em cada mão. apontando para três monitores de TV em circuito fechado. Era o que seu contato dizia. e põe as mãos na cabeça. Pelo menos. o que ele queria? Atendentes estilo fast-food perguntando.

— Quero armas. Coisa leve, fácil de usar, letal. — Tá bom, madama. Vamo dá uma olhada no nosso acervo. O homem de gorro conduziu Tobia por um corredor. O comprador era novato. Se não fosse indicação do Sapo, que sempre levantava serviço com grana boa, esse mauricinho ia voltar pelado pra bocada. Sairia rapelado. Mas era indicação do Sapo. Tobia espantou-se com o cômodo. Era uma desorganização completa, mas o lugar estava abarrotado de revólveres, pistolas, armas de toda a sorte. — Cê qué coisa da pesada, mas compacta... — começou o vendedor. — ...tenho um fuzil do exército norte-americano que é coisa fina. A munição é salgada, mas vale a pena. Derruba elefante, parede, abre carro-forte... neguinho caga nas calças quando tu mostra o berro. Pega essa doze, cano duplo, serrado... coisa fina também. — exibiu o contrabandista, arremessando a arma para Tobia. — última palavra em calibre doze. A espingarda bateu no peito metalizado do caçador de vampiros. Tobia achou a arma pesada, empunhou-a, trazendo-a para a posição de tiro, apontando para a parede. Sentiu o corpo encher-se de coragem para enfrentar as criaturas. Não sabia o efeito que aquele calibre exerceria contra as vítimas, mas era disso que precisava, dessa sensação, tinha de se sentir seguro, superior às criaturas. Livrar a mente do medo do combate. — Ela é boa? — quis saber. — Boa? Cê já traçou duas minas ao mesmo tempo? Já? Vô te dizer, compadre, atirar com essa coisa é ainda melhor. Tobia sorriu. Nunca tinha traçado duas minas ao mesmo tempo mas já tinha ouvido falar tanto no estrago que a doze faz como no estrago que duas minas ao mesmo tempo proporcionavam. — Levo o fuzil compacto e essa espingarda. O homem de gorro riu. — Não é da minha conta, chefe, mas tu tá com raiva de quem? — Ninguém importante, pode ficar sossegado. Mostra-me mais. — pediu Tobia, amarrando o cinto, fechando o sobretudo. Lá fora, Dimitri descia do Comodoro negro. Colocou um gorro de lã grossa na cabeça. Hora de trabalhar. Embaixo do sobretudo, presa a uma cinta de náilon, trazia a metralhadora com silenciador. Também equipada com esse recurso era a pistola que trazia no bolso, pronta para disparar. Atravessou calmamente a rua. Os olhos experimentados viram duas câmeras de circuito fechado. Uma grande, nada profissional, e outra menor, mais escondida. Os caras, há anos no ramo, deveriam estar mais atualizados, não com câmeras do tamanho de uma manga-rosa. Já existiam instrumentos potentes menores que uma caixa de fósforo. Dimitri sacou do colete uma granada de fumaça e arremessou à distância, acertando a garagem do sobrado. Saberiam que alguém queria entrar, mas nunca quantos, nem como. Um tiro rápido com a pistola silenciosa destruiu a câmera no andar de cima do sobrado. Um olhar rápido em volta. A praça vazia. As casas vizinhas silenciosas. Nenhum curioso. Ia trabalhar do jeito que mais gostava, do jeito que mais assustava os que ficavam no mundo dos vivos: entrar e sair como uma sombra. O assassino mais temido era aquele que executava em silêncio, sem alarde, sem propaganda. Um assassino patológico. Um operário do submundo. Encostou no muro da casa. Na parte de cima, dando para a rua, havia uma aconchegante varanda, onde Malaquias e seus homens costumavam fazer churrascos insuspeitos. Tirou do colete outra granada de fumaça e arremessou para o alpendre. Uma nuvem branca e compacta já tomava toda a frente da casa, e o providencial fenômeno repetiu-se lá em cima. Dimitri agachou-se brevemente e retirou da bota uma corda fina, em cuja ponta havia uma peça metálica reluzente. Girou a corda e fez a peça prender-se ao beirai da varanda. Iria entrar por cima. Dentro do sobrado, Tobia continuava recebendo instruções e valores do equipamento que estava prestes a adquirir para um completo arsenal que começava a se formar em seu carrinho de supermercado. Provavelmente, teria de voltar outro dia para buscar tudo o que seus olhos estavam vendo e aprovando. Até mesmo facas eram apresentadas e pareciam extremamente indispensáveis para o confronto que se avizinhava, mediante a lábia impressionante do vendedor. Na sala, Milton conversava com Adalto, o comparsa. Cochichavam a respeito do estranho comprador que adentrara o escritório. Que coisa era aquela de armadura? Estavam entretidos, quando, subitamente, Milton levantou-se e deu um tapa num dos monitores. — Que porra é essa? Que aconteceu?

Adalto juntou-se. As telas não registravam nada. A imagem estava enfumaçada. — Sei lá. Chama o Dito. Chama o Dito, cara. Ele que entende dessa... — Dito! Dito! — Miltão saiu gritando peio corredor. O contrabandista não estava preocupado com Tobia, mas assustado com os gritos urgentes do comparsa, antes de deixar o quarto, disse: — Não mexe em nada, cabaço, não mexe senão eu te sento chumbo. Tobia ficou estático. O sangue gelou. Ouvia atentamente, sem coragem de dar um passo em direção à porta do quarto. Talvez, quando o fizesse, o tal do Dito poderia estar voltando e interpretar sua atitude de forma errada, encerrando sua missão antes mesmo de começar. Tinha algo errado naquilo. Era cagão demais para ser um descendente dos Tobias, ancestrais que lutavam sem tantos recursos contra as feras malditas, e lá estava ele, com uma doze, cano serrado nas mãos e cagando de medo de três seres humanos. Teria de aprender rápido a ser um Tobia ou não duraria uma noite quando chegasse a hora, quando descobrisse onde os malditos vampiros escondiam o rabo. Estava perdido nesses pensamentos, mergulhado no mundo dos vampiros descritos por seus ancestrais quando um baque surdo o trouxe de volta ao mundo dos vivos. Dito estava demorando. Qual seria a urgência? Alguém na porta? Teve a impressão de uma névoa tênue tomar conta do corredor e invadir a porta do quarto. A impressão tornou-se certeza quando a névoa fina intensificou-se e cobriu suas botas. Olhava para o chão, admirado com a fumaça, tentando deduzir de onde diabos ela vinha, e nem notou aquele homem de sobretudo e gorro na cabeça parado na porta. Tobia ergueu lentamente os olhos. O sangue gelou em suas veias. A boca ficou entreaberta. Um assassino! O homem, de feições duras e olhos inexpressivos o encarava, com o braço estendido, apontando uma pistola prolongada por um silenciador. Onde estava todo mundo? Rezou para que os bandidos aparecessem e dessem um fim naquele cara. Aquele cara que estava prestes a disparar. Os bandidos tornaram-se heróis. E aquele bandido... Dimitri puxou o gatilho duas vezes. O corpo de Tobia voou para trás, batendo contra a mesa repleta de revólveres e tombando no chão, coberto pelas armas. Dimitri virou-se e abandonou a casa. Fim do serviço. O peito queimava. Desgraçado! Desgraçado! Tobia revirou-se debaixo das armas. Livrou o corpo e levantou-se. Era aquela sua prova de fogo. Um sinal. Uma provação enviada pelos ancestrais. Se sobrevivesse àquilo, sobreviveria a tudo. O coração batia rápido e livre do medo. Abriu o sobretudo: a armadura estava levemente afundada no peito em dois pontos. Bendito era o manual de caçadas! A bíblia dos Tobias. Bendito era onde rezava que sempre que se ausentar da morada em missão contra os vampiros, fosse usada a armadura abençoada. Apanhou o fuzil e uma caixa grande de munição. Pegou a doze de cano serrado e encheu o bolso do casaco com cápsulas carregadas. Aquele desgraçado não fugiria tão facilmente. Saiu para o corredor. A fumaça estava naquele estágio em que se dissipava rapidamente, valsando entre as pernas do caçador a cada passo. Miltão e Ditão estavam mortos no chão da sala, com os corpos atravessados por dezenas de disparos, olhos e bocas abertos. Tobia parou perto do Ditão e cuspiu dentro da boca escancarada do defunto. — Deus lhe pague. Atingiu o térreo da casa a tempo de ver o assassino entrar no Comodoro negro. Recostou-se ao portão para esconder-se, ouviu o ronco possante do motor, que fez o carro descer rapidamente a rua. Bateu o portão e apressou-se; atravessou o asfalto até chegar à moto, prendeu a caixa de munição na parte traseira, montou e deu partida. Se cruzasse com uma viatura da Polícia Militar, certamente se meteria em encrenca. Afinal de contas, um motoqueiro com espingarda pendurada de um lado e rifle estrangeiro pendendo do outro jamais passaria despercebido. Desceu a rua em alta velocidade. Os olhos ardiam em ódio. O coração batia disparado. O sangue circulava quente. Avistou o Comodoro saindo de um farol. O filho da puta dirigia lentamente, calmo, com se nada tivesse feito! Tobia era movido pelo impulso. Só queria alcançar o assassino e acabar com a raça dele. Dimitri soltou o freio de mão e pegou a avenida Santo Antônio. Iria voltar ao bar. Beber, pensar. Adorava seu trabalho. Sabia exatamente o que fazer em cada situação, e era justamente isso que o estava entediando. Era perfeito, sem surpresas. Entrar, atirar no meio do peito, cessar o coração, sair... sair. Sempre igual. Sempre com sucesso. Poucas vezes algo de diferente aconteceu. Voltar para terminar o que ficara inacabado... não, isso não era com ele. Era preciso. O problema estava nos oponentes. Peças fáceis. Carne, sangue, burros. Talvez se houvesse uma guerra, um lugar onde pudesse exibir todo seu potencial assassino...

mas os oponentes eram aqueles, sujeitos do submundo, com corpos e mentes corrompidas pela droga. Burros... não liam, não viam. Eram patéticos. Agiam sem estratégia, sem organização. Não entravam em sintonia. Morriam... temiam... toda vez era isso... morriam. Dimitri acelerou e entrou na rua Salem Bechara. Voltaria à taverna Rock'n Wood. Fumaria mais cigarros. Observaria as pessoas comuns, que não suspeitavam do que ele fazia para defender o pão sagrado de cada dia. Atiraria com arco e flecha, passaria o tempo. Cada dia mais acreditava que estava na hora de encerrar a conta com o chefe Sofia. Ir para outro país. Tornar-se um outro tipo de profissional. Pescar... O sinal vermelho acendeu antes que pudesse atravessar a avenida dos Autonomistas. Freou. Um casal de crianças esmolava, provavelmente a mando da mulher que tomava cachaça encostada em uma banca de jornal. A garotinha aproximou-se da janela do carro negro. Dimitri encarou-a, pensando se deveria abrir o vidro. Não costumava dar dinheiro, pois sabia que na maioria das vezes a grana terminava nas mãos de gente como a mulher embriagada do outro lado da rua. Temendo os olhos frios do condutor, a menina afastou-se rapidamente. Dimitri bateu os olhos no retrovisor. Uma moto. Tobia acelerou. O Comodoro estava parado no farol vermelho. Pessoas cruzavam a faixa de pedestres, alheias ao motoqueiro desvairado que trazia duas armas penduradas no pescoço. Tobia freou seis metros antes de chegar ao alvo. A menina, que esperava ao lado do carro do assassino, espremida entre os veículos que se amontoavam no semáforo, correu ao vê-lo se aproximando. Melhor. Queria apenas o motorista. Faria aquele maldito se arrepender de ter puxado o gatilho minutos atrás. Empunhou o fuzil compacto. Dito tinha lhe dado uma lição expressa; destravou, segurou firme e disparou. A arma chacoalhou arredia. O tranco forte fizera a mira desviar. O coração batia mais rápido. Os olhos ardiam. Endireitou o punho, firmou ainda mais a máquina de cuspir tiros, prendendo a parte posterior ao ombro, encaixada na axila. Queria liquidar o oponente sem dar chance de reação. Teria que ser assim com os vampiros, rápido e letal. A arma continuou gritando, e faíscas escaparam do Comodoro. Os tiros acertaram a lataria em pontos diversos. Tinha certeza de que havia atingido os vidros laterais, por onde podia ver a cabeça do assassino pego de surpresa. Dimitri deitou-se, protegendo a cabeça, escondendo-a atrás do banco de passageiro. Apanhou a metralhadora ainda com o silenciador acoplado. Quem era aquele filho da puta?! Estaria na casa do Dito? Parecia o estranho... o estranho de sobretudo marrom! O estúpido atirara pelas costas! Dimitri levantou-se mais calmo. O abobalhado ainda não tinha percebido que o Comodoro era blindado. Mais um amador para aporrinhá-lo. Trocou o pente da metralhadora. Hora de trabalhar. Os carros aceleraram. Alguns chegaram a bater as laterais, sem que os motoristas saíssem para se estapear no cruzamento. Todos sabiam que precisavam escapar dali. Os mais observadores notaram que o maluco da moto não atirava com um simples revólver. Era um fuzil. Uma metralhadora... uma coisa grande... não era uma arminha qualquer... Melhor se esfolar no carro do lado do que terminar no cemitério do Santo Antônio com uma bala na nuca. Tobia segurou a arma até o cão estalar sem mais disparos. As balas tinham acabado. Sua fúria inexplicável parecia ter ido embora com os últimos projéteis. Uma coisa quente percorria suas veias... algo que trazia uma sensação boa... contentamento... tinha tido a coragem de puxar o gatillho. Deitou o fuzil e tentou tirar o municiador descarregado... Não conseguiu. O coração ainda batia disparado. Um calafrio percorreu a espinha. O carro parecia inteiro. O homem lá dentro se mexia. Não estava caído com a cara no volante fazendo a buzina disparar como visualizara em sua mente perturbada um instante atrás. O assassino estava vivo e erguendo uma arma. Tobia largou o fuzil. Engoliu seco. Não lembrava como trocar a munição... o cursinho expresso de como matar uma dúzia de pessoas enquanto prepara seu miojo parecia ter pulado uma lição. Tobia empunhou a doze. A respiração ficou pesada, o peito demorava uma eternidade para encher e esvaziar. Sentiu as pernas amolecerem. O assassino estava vivo! Dimitri ia descer e acabar com o maldito sobrevivente. Poucas vezes aquilo acontecia... ao menos, teria a rotina quebrada, a monotonia ligeiramente alterada. Entrar, atirar, matar, sair. Não abriu a porta. Aquele imbecil estava erguendo uma espingarda calibre doze. Um perigo na mão de um idiota. Tinha que agir logo: em pouco tempo, a avenida dos Autonomistas estaria tomada por barcas da Polícia Militar. Tinha de ser rápido, mas não podia deixar barato. Uma doze?! Dimitri pisou fundo no acelerador e deu um cavalo-de-pau no meio do cruzamento. Iria acertá-lo de frente. Tobia disparou com a doze. O tiro passou longe do Comodoro, acertando e destruindo um carrinho de cachorro-quente estacionado próximo à esquina. Tobia perdeu o equilíbrio depois de tomar um coice da

arma. A moto caiu sobre sua perna. Graças à proteção metalizada da armadura, não se feriu. Levantou-se com dificuldade, as armas penduradas no pescoço, chacoalhando. Ouviu o som de sirenes e o pneu do carro negro cantando logo à frente. O Comodoro estava voltado para ele agora, parado no meio do cruzamento. Apenas um carro ou outro aventurava-se a cruzar aquele trecho, mesmo com o sinal aberto para os que vinham pela larga avenida. Os veículos esperavam pelo desfecho daquela cena de guerra, não ousando entrar na linha de tiro, com gente correndo e gritando. Tobia levantou-se; o ombro doía pela batida da coronha. A porta do carro abria-se lentamente. Se deixasse o assassino sair, seria seu fim. A imagem de Dito veio à cabeça. Essa é uma doze punheteira... Cê faz assim pra atirar de novo. Tobia reengatilhou a arma como o contrabandista ensinara, fazendo a espingarda cuspir os cartuchos deflagrados. Apoiou firme no ombro e disparou mirando a porta do carro. Dimitri estava calmo. Tinha acabado de virar o Comodoro. Os vidros estavam todos trincados. O maldito do bobalhão até que tinha feito um bom estrago, mas era um novato... vira quando ele caiu desequilibrado depois do disparo com a doze. Que diabos ele queria? Vingança? Essa lição era demorada, e ele não estava nem um pouco interessado em dar tempo para o homem de sobretudo aprender. Abriu a porta e pôs o pé pra fora. A porta blindada serviria de escudo. Inclinava o corpo para sair quando... Bummm!... O disparo da espingarda atingiu o vidro em cheio, deixando-o deformado, levando a porta para trás com violência e acertando seu joelho. Matador gemeu de dor. Filho da puta! Sorte de principiante. Tobia subiu na moto, com a doze pendendo, presa pela cinta de náilon ao pescoço. O som de sirenes o trouxe de volta à realidade. Tinha que sumir. Preso não poderia lutar contra os vampiros. Não havia tempo a perder; o cretino que se preocupasse em reformar o carro. Deu partida e disparou, descendo a rua, enquanto o assassino parecia se recuperar do susto. O carro preto atrapalhava a curva. Passou rápido, pois o homem estava querendo sair novamente. Viu o grande viaduto metálico: o caminho era aquele. Ao ver viaturas circulando rápido pela avenida, decidiu cruzar reto. Seria melhor até para despistar o carro do assassino, embora temesse por não conhecer o caminho. Continuou reto, descendo a rua Primitiva Vianco, sem imaginar que poucos dias antes ali estiveram os vampiros que tanto queria encontrar. A rua tinha pouco movimento, apenas alguns ônibus encostados recolhendo e deixando passageiros. Tobia escapava rapidamente. Dimitri viu o principiante passar sem ter tempo de atingi-lo. A moto era possante e, se soubesse usá-la, teria êxito. Matador queria aquele cara. Ninguém fazia aquilo com seu carro. Dava um trabalho danado cuidar do Comodoro para deixar-se destruir por um banana qualquer, que sumia ao primeiro sinal da polícia. Dimitri engatou a ré e deu um novo cavalo-de-pau, seguindo a moto pela rua Primitiva Vianco. Acelerou. Tobia estava longe, logo alcançaria o largo. Não podia perdê-lo. Pisou fundo. As pessoas nas calçadas paravam para olhar o carro negro passando como uma bala. Tobia chegou ao largo. Parecia um ponto final de coletivos. Parou um instante. Uma placa indicava o shopping, outra indicava a avenida dos Autonomistas. Era para onde queria ir. Precisava da avenida ou das marginais. Olhou para trás. Um carro, com os faróis acesos, aproximava-se em alta velocidade. O Comodoro vinha como louco. Tobia disparou com a moto para a direita, e o ronco estridente do motor encheu o largo de Osasco. Uma criança atravessando a rua. Tobia freou, a moto derrapou, perdendo o controle. Acelerou novamente, mas a máquina, involuntariamente, foi para a esquerda. O coração disparou. O pneu dianteiro bateu na guia, jogando o caçador na calçada. Tobia sentiu o corpo doer. Agora sabia por que o manual da família Tobia apregoava o uso daquele equipamento. Quedas de cavalo não deveriam ser muito piores. Um estrondo fenomenal chamou a atenção do caçador, que ainda se levantava arquejante. Virou-se. Um ônibus arrastava a moto. Não perdeu tempo procurando entender o motorista desatento, que provavelmente fora surpreendido com o objeto deslizando no meio da rua. Olhou para os lados. Estava preocupado com o assassino. Não dava tempo de ir atrás da moto, que certamente estaria imprestável agora, mas queria ao menos salvar a munição do pequeno fuzil. Não a encontraria facilmente por aí. O ronco forte do Comodoro chegando ao largo fê-lo lembrar que tinha que salvar o rabo antes de tudo. Se aquele maluco o encontrasse, estaria liquidado. A armadura era resistente, mas não estava disposto a descobrir o quanto. Faria o teste outra hora. Estava ao lado de um banheiro público. Não era um bom esconderijo. Os ônibus no outro lado talvez demorassem para sair. Chamaria a atenção e seria descoberto antes de sumir de Osasco. Perto dali, viu pessoas descendo uma escada. Atravessou a rua estreita, tomando cuidado com os carros dos curiosos que queriam entender o acidente com a moto. Tobia percebeu que era um túnel. Desceu os degraus apressado. A perna doía, e as armas pesavam cada vez mais no pescoço. Parou

para olhar o joelho. Um filete de sangue vazava pela armadura de prata reluzente. — Ei! — alguém gritou. Tobia virou-se arfante. Um barulho, instantaneamente seguido por um impacto contra o peito. Tobia caiu de costas, e a armadura estalou contra o piso metálico da ponte. O som do rio fedorento correndo logo abaixo. Estava zonzo. Uma sensação de cansaço. Como se o velho e conhecido Tobia, o empresário das escolas de informática, estivesse voltando ao seu corpo. Que fizera nas últimas horas? Estivera fora para comprar armas de um contrabandista? Seria possível? Comprara armas. Fora alvejado por um assassino profissional que acabara com o bando de vendedores de armas ilegais. Perseguira o assassino e disparara no meio da rua. Agora estava ali, atingido novamente, com o peito doendo e ouvindo o estalar dos passos do assassino aproximando-se. Estava tonto. Soltou a cinta da espingarda, tirando-a do pescoço. Ergueu-a. Um chute no braço fez a arma deslizar pelo chão. Gritos de gente correndo apavorada. Sirenes. A voz. Dimitri aproximara-se lentamente, com a arma apontada para a cabeça do intruso. Que era aquilo? Uma armadura! Cara estranho. Chegou calado e chutou a arma quando o engraçadinho tentou erguê-la. Por isso o desgraçado saíra vivo do sobrado do Dito! Estava usando uma armadura, uma espécie de colete à prova de balas. Os balaços haviam deformado o peito metálico, mas não o atravessaram. A coisa era boa. Já tinha visto estranheza no seu trabalho, mas aquilo... Dimitri olhou para a boca do túnel. Ouvia as sirenes das viaturas entrando no largo. Não demorariam para procurar ali, naquela passagem que levava ao bairro Presidente Altino. — Foi divertido, amigo, mas custa caro arrumar aquele carro... Não fosse a sua palhaçada... atirar no meio da rua. — Você tentou me matar. Dimitri sacou um cigarro do bolso do sobretudo preto e colocou-o na boca. — Que diacho cê tá fazendo com essa armadura? Nunca antes, pelo menos que se lembrasse, Dimitri se interessara pela vítima segundos antes de puxar o gatilho. Mas aquele cara era diferente de tudo o que já havia apagado para o Sofia. Não era um dos contrabandistas... deveria ser um daqueles colecionadores birutas... pelo modo que atirava, não era um profissional. Um maluco... — Sou caçador. Dimitri riu com o canto da boca enquanto acendia o cigarro e dava uma tragada longa. — Um caçador. — Estou precisando de um instrutor... Você entrou naquela casa, sozinho, e matou aqueles caras. Preciso aprender a fazer isso. O que vou caçar... você nunca viu, preciso de toda a ajuda que conseguir. Um justiceiro. Era isso que aquele esquisito era. Ou melhor, era isso que ele queria ser. — Cê tá procurando encrenca, playboy. Cê não tem a menor pinta de justiceiro. Precisa aprender muito antes de sair matando gente. — O som das sirenes estava próximo demais. — Chega de papo. Vou terminar meu serviço. Dimitri aproximou a pistola da cabeça de Tobia. — Não sou justiceiro. Sou caçador de vampiros. Gente que nem você consegue matar. — murmurou o homem, com a voz perdida, respirando prolongadamente. Tobia encostou a cabeça no chão, afastando-se da arma empunhada pelo grandalhão assassino. Sentiase cansado, vencido. Relaxou os músculos, deixando o corpo desfalecer. Dimitri vacilou. Reafirmou a mão, pronto para atirar. Era um assassino. Tinha que atirar e atravessar o túnel. Abandonar o Comodoro de placa fria. Comprar outro no dia seguinte. Tinha de deixar o túnel antes da polícia chegar. O soldado saltou da Blazer da Rota. Adiantou-se e recostou-se ao lado da entrada do túnel. Pelo rádio, receberam a informação de que testemunhas tinham visto o motoqueiro entrando. O soldado empunhava o revólver, descendo rapidamente. O casaco cinza de tecido grosso balançava quando corria. Ouvia os passos rápidos dos companheiros juntando-se a ele, mas quando chegou no final da escadaria, seus olhos nada encontraram. O túnel estava deserto. Correu para atravessá-lo rapidamente. Um transeunte desavisado, que descia a escadaria da outra extremidade, chegou a cair sentado quando cruzou com o soldado esbafo-rido. O policial militar saiu pelo túnel já em Presidente Altino. O sinal de pedestres estava no vermelho piscante. Pessoas comuns indo e vindo. Poucas. Nenhum homem de sobretudo marrom. Nuvens de vapor escapavam de sua boca, acompanhando a respiração agitada. Os companheiros de viatura chegaram. Um atravessou a

a bala da pistola. Só queria chegar logo ao fim da ponte onde conseguiria entrar na marginal do rio Pinheiros. ajuda mesmo. Se fosse mentira. Frio. Queria comprar o CD do Tomb Rider pelo qual ele tanto enchia o saco. A bala estava na agulha... Era uma corrida como outra qualquer. morreria.. aparentemente desmaiado no banco ao lado. Os dois protagonistas da violenta cena ao lado do Bingo Estoril tinham desaparecido. Para o experiente policial. Pediu que esquecesse as armas. ao lado do motorista. Estaria chegando ao destino. Outro dirigiu-se a uma viatura que se aproximava. Não estava nem aí para a roupa estranha do passageiro. se pudesse caçálos. Um desafio. Não tinha chance. Levá-los até o largo da Batata. em Pinheiros. Queria viver para isso. ia o estranho dentro da armadura prateada. Era bom que tratasse de convencê-lo.. Passara o destino para o taxista.. com uma promessa de assassinato imediato se as coisas dessem errado. Levaria aquele imbecil para casa. . Se estivesse pedindo ajuda. se houvesse vampiros. Caro e discreto. Descobriria logo. finalmente. Dimitri meneou a cabeça negativamente. Só que era difícil para o motorista tratar aquilo como uma corrida comum. Tinha seu colete protetor. A arma apontada para a nuca do taxista garantia a condução do Santana para fora da área confusa.. Deixara claro que aquilo não era um assalto. Não tinha desistido de matar aquele que o apanhara de surpresa. Só voltar para casa e abraçar o filho com quem discutira à tarde por causa do volume alto da televisão. Não queria chamar a atenção de polícia nenhuma. Poderia sair vivo daquela. Sentado à frente.. Um desafio. Só não deveria chamar a atenção da polícia. parecia que o trabalho estava perdido.rua em direção ao terreno da frente. acelerar na pista expressa e avistar o mais rápido possível o prédio do Unibanco. morreria.. não iria recusar. pudera! Com uma armadura daquelas! Aquela porra segurara as balas da metralhadora. como as coisas de um bom assassino deveriam ser. também.. O motorista não dizia uma palavra. importado do mercado negro britânico. Não sabia o que estava fazendo. Por que não havia matado aquele idiota? Caçador de vampiros. Uma corrida normal. não se importava com a doze de cano serrado que vira muito bem na mão daquele cara do banco de trás. Era coisa fina! Mas muito espalhafatosa. talvez fosse por causa da sentença: gente que nem você pode matar. Se houvesse aquele tipo de gente.. Era difícil esquecer um cano frio na nuca. Se recusasse. queria. Deu o dinheiro para o cara.

. Sem poder revelar que ela estava próxima do perigo. Estava ansioso para falar com Paulo. É por isso que eu quero falar com o Paulo. e o aluguel tá um achado por se tratar de imóvel mobiliado. um chamado antigo estivesse arraigado em seu ser. Eram quase onze horas. — No Jardim das Flores. Devolvi para a imobiliária... não se falava. O dinheiro recebido da USPA estava com ele. mas você sumiu. Um sorriso brotou em seu rosto. Sabrina encarou o irmão. Eu dou um jeito com a papelada amanhã. — Mas eu estou com uma chave aqui. neve maldita. sua namorada. incógnitas. de bacana.. Problemas. fujão! Pra onde cê foi naquele dia. bairro bom.. a neve forrava o asfalto das ruas de Osasco. Tiago esboçou um sorriso para despistar e despreocupar o cunhado. pondo a mão no ombro de Tiago. está com você? — No caminhão. A porta da casa abriu-se. tudo em ordem. — Você disse que tinha uma casa pronta para nos alugar. — Onde você foi? Que aconteceu naquele dia? — Estou passando por uma crise. Não quero falar agora. Tiago olhou para a garagem.. a menina. — Vocês vão ficar aqui esta noite? — Não. Titi. Estavam em frente à casa de sua irmã. Se você tem dinheiro para pagar um mês antecipado. Tiago havia tomado o sangue daquela criatura durante um embate feroz. Sabrina sumiu dentro da casa e logo voltou trazendo um molho de chaves.CAPITULO 11 César freou o caminhão. Tocou a campainha.. O vampiro que ele próprio havia derrotado. — Nossa. trazida pelo vampiro Inverno. com um demônio no porta-malas. Sabrina.. cravara os dentes no adversário. — ordenou a irmã. desanimado. Havia sucumbido à última barreira. próxima de criaturas que matavam para saciar a sede. — A Eliana não vai entrar? — Não. Tenho coisas pra resolver.. vindo pelo corredor. no portão da irmã.. mas você aparece do nada e some pra lugar nenhum! — O Paulo tá acordado? — Tá. Você não incomoda.. como você está pálido! Está doente? Tiago não deu atenção.. a irmã. Não tinha idéia de como Sabrina o receberia. Não quero te incomodar nem trazer preocupações pra sua cabeça. . fugindo dos vampiros que vinham ao encalço de Eliana. apressou-se em descer. que vinha na cabine. tornara-se um vampiro. e não poderia pedir pousada à irmã desta vez. O sorriso distraído desapareceu quando a irmã chegou ao portão e destrancou. Os caninos tinham crescido a seu desejo. Tiago suspirou. Agora estava ali. — Tiago! ? — Oi. uma casa muito boa. é que eu fico preocupada. como se um instinto natural. acendeu a luz. O Fiesta do cunhado Paulo continuava com a porta amassada. é verdade.. Foram para a sala. Tiago hesitou na entrada da casa. Tiago levantou-se e vasculhou o bolso da calça jeans. Sem poder revelar que ela tinha agora um irmão vampiro.. Estava na rua. Criaturas. como garantia. Havia deixado a casa dela abruptamente.. tão preocupado? Sua irmã queria pôr a polícia atrás de você. rapaz. — Fala. espera que eu vou abrir esse portão. Eliana despertou mais uma vez. Tiago. Era inacreditável ter vivido aquilo. Tiago. sabendo que não tinha como explicar o sumiço repentino. Coisa de figurar em roteiro de ficção hollywoodiana. — Problemas?! Precisa sumir assim? Sem me dar um telefonema? Sumir! Tudo bem que a gente não se via há um tempão. vítima de um motorista que derrapara na neve que cobrira o asfalto poucas noites atrás.. — Entra. O cunhado entrou. Nenhum produtor conseguiria conceber personagens tão singulares. por enquanto. Naquele dia. Neve sobrenatural. uns problemas. Não poderia colocar o que sobrara de sua família em perigo. Os sobrinhos.

Passava um pouco das onze horas da noite. Praticamente falavam e empurravam o homem para o portão. Ficaram no portão enquanto Paulo manobrava o Fiesta. Matara o policial para garantir a fuga. Olhando para o céu. Um rival que jurara seu amigo de morte. Havia Dom Afonso. no sentido próprio da palavra. Eliana entrou. Subiu na cabine e ligou o motor. deixara a casa naquela manhã sem a certeza de um dia voltar. Um pseudo-vivo. Aquele monstro horrível. E havia deixado tudo aquilo naquela manhã. Um frio na barriga cresceu em Eliana. Nuvens baixas lambiam o céu. energia que poderia ser quintuplicada! Ainda não estava farto! Podia sentir-se muito mais poderoso. Matara o policial num piscar de olhos. Além disso. A voz desconhecida. os três olharam para o caminhão. Ter um poder que nenhum humano jamais experimentou. feridas abertas por dentes pontiagudos. Outro monstro diabólico. Seria ali que teria um novo pai. Sim. os três deveriam estar bem cansados. O ar trazia odores atraentes e o desejo de se afastar dos amigos. Sua cabeça lutava contra aquela sensação de bem-estar. O que estava se tornando? Tomara do sangue de Inverno. não resistindo à atitude do cunhado e seus amigos. com o sangue cada vez mais morto em suas veias. Por que fazia o sinal-da-cruz? Era agora um demônio.. percebeu que seus olhos nunca mais seriam os mesmos. querendo se convencer de que fizera o certo. Voltaria a ver sua casa. Era isso que repetia internamente.Do maço. O quintal era descoberto. Meneou a cabeça. com precisão assustadora. o vampiro que restara. àquela satisfação nova que sentia. Isso lembrava uma das razões pelas quais não poderiam se separar do monstro. Era o lugar que receberia o novo vampiro. Ouviu passos. para fora do terreno espaçoso. Não tinham idéia de quanto tempo Sétimo permaneceria naquele estado. mas não tinha certeza se era alto o bastante para o baú não entalar. sabia disso. teriam o ex-pupilo do diabo como defesa. E agora estava ali. Paulo despediu-se. Encostaram à porta de um sobrado de frente ampla. Estava com um sono danado. César deveria juntar-se a ele para ajudar a trancar o portão. O Lobo. Estava coberta de hematomas. sem paradas demoradas. Eram amigos desde a adolescência. Teriam Sétimo. Baixou a cabeça. quando deu por si.. Saudade. Saudades do povoado. De espreitar. Abominado por Deus Todo-Podero-so.. protegendo-o a pedido de Tiago. Tiago ficou junto ao portão. providenciando guarida a um vampiro. Era quase impossível não notar que o amigo do peito se tornava.. sim. havia sofrido. Paulo entrou apenas para anotar o número do telefone instalado no imóvel. se o Exército jamais suspeitasse de que escapara da bomba lançada pelo Tucano da FAB. Um calafrio percorreu seu corpo. Era largo o suficiente para o pequeno caminhão passar. Ao mesmo tempo. Estava certo de que César já desconfiava.. talvez César precisasse de ajuda para manobrar o veículo. guardando-o em uma casa. Tiago interrompeu os pensamentos e fez o sinal-da-cruz. cada vez mais. A noite era diferente. A rua inclinada estava deserta. — Tá na mão. Que viria em seu encalço. O cão de guarda. irmão? Tiago arrepiou-se.. O velho Tiago. incógnito. Tiago apresentou César ao cunhado. se rastreasse César como os vampiros rastrearam Eliana. Pegou as chaves e combinaram de conversar pela manhã. um vampiro. Ergueu os olhos e. Por que estavam fazendo aquilo? Por que Tiago queria proteger a fera? Teriam de escondê-la até quando? Sofrerá nas mãos daquelas criaturas nos últimos dias. Um desgraçado. desaparecendo no fim da rua e devolvendo a escuridão para aquele trecho. imóvel no baú do caminhão. Tiago encostou o portão enquanto o som do motor cessava. passando ligeiras. Um calafrio percorreu o corpo. César olhou para o portão duplo. chegou repentina aos ouvidos. aquele imóvel estranho era sua casa. O trio sulista estava impaciente. Onde é a casa? Fazia quinze minutos que tinham deixado a casa de Sabrina. Casa. Um escudo. nunca mais estaria na casa simples em Amarração. mas o corpo o traía. Agora. Um rival.. só assim para poderem guardar um trambolho daquele dentro de casa. — Pensas no que lhe foi proposto. Teria de contar ao amigo.. mas o calor no estômago dizia o contrário. mal prestando atenção no que o gentil corretor dizia. isso era certo. Pele pálida. e aquilo o fizera se sentir melhor! Como se o enchesse de energia. torcendo para que ele fosse embora. havia. De andar. negando os pensamentos. com sotaque carregado. ao sabor do vento forte. da gente de pele curtida pelo Sol. impulsionando-o àqueles desejos. Fora preciso. A sede de vampiro. Teria paz novamente? Talvez. O frio. tirou algumas notas de cem reais.. pois ele também estava morrendo de sono. O calor dizia que fizera aquilo para aplacar a sede. Havia conseguido. Mostrou rapidamente os cômodos. olhos frios. Estava cada vez mais certo de que trilhava um caminho sem volta. César já estava estacionando o caminhão no quintal. Não resistira e tomara do sangue humano.. pois César comentara que viajaram do Rio Grande do Sul para Osasco num tiro só. Não era . que a cada instante tornava-se mais frio. Se o Lobo quisesse cumprir sua promessa. a palavra despertou um sentimento. Talvez não.

César virou-se. aquiesceu. claro. pai? Posso caminhar na aldeia ao teu lado. sutil.. Não negues que gostaste. que os olhos humanos o tomassem por normal. surgindo. Tiago surgiu atrás do rapazote. A cama trazia um . Este também sou eu. um disfarce daquele com couro escamoso e aparência de morcego gigante. vacilante.. Os olhos do desconhecido brilharam em resposta. agora é hora de dar as boas novas ao meu pai. talvez mais agora por causa da nudez do vampiro. vampiro. Sétimo estava certo. Tira essa coisa da frente da minha amiga. — Sétimo?. — Muito bem. exibindo os dentes pontiagudos. — Pai.. — Pensas que não vi o que fizeste ao homem que me tirava do sono? Que tipo de soldado é aquele? É soldado do rei? — Era um patrulheiro. Vamos arrumar uns panos pra cobrir esse corpo magrelo. pai? Eliana recostou-se na parede. — O que quer de mim? — Além de roupas dignas? Quero que sejas meu general.. Instintivamente. Nunca vira aquele menino antes.. — Mataste.. Com quem aprendeste a fazer essa cara feia? Tiago usou sua audição vampiresca. Usos e cheios. Sorriu. Vasculhou um guarda. mas não ficaste tímido. — murmurou. As vozes de Eliana e César conversando no interior da casa o acalmaram. Sim. Eliana correspondeu. — balbuciou César. não há! Ah! Ah! Ah! — gargalhou.. o monstro poderia passar despercebido na multidão. mataste e tomaste do sangue quente. — Vês? És perfeito para ser meu general.. liberando um curto rosnar ferino.. Silêncio. — Sim. César. os olhos se acenderam.. Tiago balançou a cabeça. — Sétimo?!! O menino consentiu. Na certa era o amigo entrando para conhecer melhor a casa. ninguém repara. César não se alarmou com os passos. Tiago aproximou-se da amada. Um perigo com rosto inocente. Vestido. Nem sinal de César ou Eliana. dando uma volta. Ainda assimilava a novidade. ó gajo? Tiago fez os dentes brotarem. Vem. cabelos castanhos claros.roupa. que não deveria ter mais de dezesseis anos.César.. Subitamente. mas logo a expressão sumiu. Quantos demônios existiriam? Estaria a Terra tomada por aqueles malditos vampiros? Sem pensar. Foi preciso. sobressaltando tanto César quanto Eliana. Um disfarce perigosíssimo. Ainda mais nu. uma voz juvenil encheu a sala. Com sotaque português. — Não é um despiste perfeito. Sétimo permanecia em silêncio no baú do caminhão. O monstro assumira a forma de um rapaz.. César chamou Sétimo para outro cômodo. Um vampiro. Não sabes quem sou. Abraçou-a. Lançou um olhar para o caminhão.. Um calafrio percorreu o corpo do homem. Eliana gritou ao ver o rapaz sem roupa. uma luminosidade vermelha. — Não te conheço. — Pronto para a luta. Outro arrepio percorreu o corpo. — Vais atacar? Não me reconheces mais? Tiago estava perdido. Tiago recolheu os caninos.. — Claro. Não negues. ó pá. Que era isso agora? — Não me conheces. ele era um demônio perfeito. — Não sou um demônio perfeito? — perguntou o vampiro. És um vampiro. era provável que a palidez abrandasse. meu soldado fiel. Outro demônio português? Que raça era aquela? Sentiu-se zonzo por um momento. — Preciso cobrir meu corpo. Aprendes rápido. exibindo-se para o pupilo. Apenas a palidez destoante chamava a atenção. Um rapaz nu. Um perigo. apertando Tiago entre os braços e afundando a cabeça em seu peito. Forma humana. ainda surpreso. pai. Tiago ficou estático. Um rapaz. Com licença. Vazio. um exemplar comum e de aparência jovem. Sim. Virou a cabeça rapidamente. franziu o cenho. Mostraste-me os dentes! Queres ofença maior de um vampiro para outro? Não. bonito. negando o que via.

Como vou fazer isso. — Humanos são palermas... Não quero terminar assim. Na pia. César balançou a cabeça em sinal positivo... Está bem. pai. tchê. qualquer um que observasse a cena poderia tomar como um diálogo entre pai e filho. Quero seguir meu caminho. Tiago engoliu seco. — É isso que me dá medo. querem me matar. — César passou a mão pelo cabelo. Tinham um trato. Crueldades. Temos de ser o negro no negro. — Tens medo de mim. até meu sotaque está a mudar. Assassínios. fico com você até sentir-se seguro. — Em casa temos amigos! Escuta. Se me temes assim. Estou certo de que seguirás. Não fosse a idade díspar. Poderia acabar com o vampiro como fizera da última vez. mas são criaturas dotadas de justiça. Não pode ser uma atração. com sotaque lusitano. Queres ficar só? Diz. isso me dá arrepios! Sétimo gargalhou. — Que foi. Não me apetece o que temos em casa. repentinamente. Li? Está se sentindo mal? — Você. eterno. você está tão gelado. Precisa mergulhar nos costumes da aldeia. esse negócio de me chamar de pai. pousando a mão fria no ombro do brasileiro. Nós somos humanos.. Um cara que muda o corpo. A quem nos dá vida. pai. Se me descobrem.. Tu és qualquer coisa. — Pai. Um vampiro precisa se integrar. Sétimo seria o cão de guarda. Não posso caçar enrolado neste trapo velho. Agora preciso de proteção. uma toalha pendurada. — Caçar? Caçar o quê? — Sangue humano. Um vampiro que me chama de papai. Não temas. É isso. Teria a mesma sorte? Faria vigília. Na sala. Vês como terminaram meus irmãos. A voz juvenil pareceu misturar-se com a do monstro. Precisas me ensinar a ser um brasileiro.... pai. Queres enfrentá-lo sozinho? Desculpe.. — Isso é difícil. acho melhor cada um de nós seguir seu caminho. Escondê-lo?! — Escuta. o azul no azul. O outro era um vampiro. Refletiu. tu és um vampiro! Claro que tenho medo. Olha. tchê. ela parecia ser a solução para combater Lobo de igual para igual. — Preciso de roupas. Balas de prata.. César retribuiu. tomara que nunca sonhes com o que já fiz. o protetor. -— Um trato? — Um trato. num suporte preso à parede-. Um vampiro servindo de cão de guarda. — Toma. com mulher na casa. Eliana desvencilhou-se do abraço de Tiago. Titi. Estava diante de um impasse. Havia um banheiro contíguo ao quarto. — Bá. Seria a hora de contar? . a morte. tu acaba com a raça do vampiro Lobo. — retrucou a criatura. Pode ser comum zanzar pelado de onde tu vens. dia e noite? Ele era um mortal.. nas mais simples coisas — disse o garoto. que teria paciência infinitamente maior para esperar e atacá-lo de surpresa.. Meu ódio ficou na caixa de prata. Não buscaram proteção. tchê. Tenho fome. Ajudo os que me ajudam. Deste a mim o sangue que trouxe a vida. uma garça dentre as garças. a vida. um espetáculo. Sétimo obedeceu. A quem nos quer trazer a morte. O rapaz assustou-se. Algo estranho estava acontecendo. Tô cagando nas calças. E se ele disse que virá te buscar. Apesar do repúdio à fera com cara de morcego.colchão descoberto. Te ensino a ser um brasileiro.. César tinha esquecido por algumas horas a jura do vampiro lobisomem... manso. Em troca. Morro por ti se for preciso. Posso dar-te uma vida diferente de tudo. sim. — Como pode ser? Tu tem parte com o demo. — Seguirás. que envelhecia dia após dia. Enrola na tua cintura.. — Está bem.. mas aqui. vampiro. quer que te ensine algo para tornar-se um assassino. pai? Vês. — replicou o vampiro. O único que quero matar por prazer é Dom Afonso. Vampiros são monstros. não posso crer que o que dizes é de fé. Sétimo estendeu a mão branca para selar o acordo. César arrepiou-se e por um instante teve a impressão de ver os olhos do rapaz brilharem de maneira perigosa. é melhor se comportar. acredita que ele virá. Cada palavra que sai da tua boca eu absorvo. — Agora não. pronto.

A viagem. estou exausta... . iria atacá-los? Não sabia. Acho que preciso de um médico. — choramingou. Atacar o parceiro fiel de muitas aventuras. Ainda me sinto exausta. de César. Tinha de se afastar de Eliana. Um risco que corriam sem saber. dando as costas para o namorado. Tiago entristeceu-se. Era um maldito.. Titi. Matálos. Tiago amparou Eliana e conduziu-a escada acima. Estou tão assustada. Afagou os cabelos encara-colados da amada por uns instantes e beijou levemente sua boca.— Deus me livre. E era justamente isso que temia. Lençóis. Tenho feridas que doem. Ela adormeceu. desculpe. Titi. — Preciso dormir. Atacar a mulher linda que sentia calafrios em sua presença. Até quando eles estariam seguros ao seu lado? Quando tivesse sede novamente. Atacar quem amava. copos. tive a impressão de estar atracada com um daqueles malditos. tudo que a gente precisa. Amanhã vamos comprar coisas para a casa. Tiago deitou Eliana e beijou-lhe a testa. Tinha de se afastar. Tinha de contar.. — Deite aqui e descanse. Era um deles agora e não tinha coragem de dizer à amada... os acontecimentos. cravando dentes afiados em suas jugulares.

Numa sala dos fundos.O. monotonamente. O rapaz se levantou e foi ao arquivo que estava logo às suas costas.? — perguntou o tenente. — Sim? Posso ajudar? — perguntou o homem. Brites dirigiu-se para a casa que servia de delegacia e cadeia. encontrou dados contundentes. — Resumida? — É. — Agüenta aí. que tinha dentes de leão. O coturno estalava contra o chão de tacos a cada passo firme e rápido do tenente.. Meneou a cabeça e passou a mão no cabelo. um jovem magro e compenetrado datilografava rapidamente.. o escrivão. bem longe da sutileza.. dentes de vampiro. O cara é fogo. Desdobrou. quebra um galho. aproximando-se da mesa do escrivão. Hoje.. tirou uma folha fina de papel ofício e entregou ao militar. ele tá lá na casa do vereador.. Ele foi verificar. — Cadê o delegado.CAPITULO 12 O soldado freou o jipe em frente à pequena delegacia de Roda Velha. Vampiros?! Brites não deu atenção ao escrivão. foi você quem redigiu este B.O. mas o retinir de teclas de uma máquina de escrever lhe dava a certeza de que o local não estava abandonado às moscas.. tenente.. não me pergunte. Não ligo nem um pouco do senhor vir aqui e pedir coisas.O. Ontem nos ligaram denunciando tiros numa residência. — Posso ver o original? O escrivão parou abruptamente. A que cita dentes de leão.O. estava claro. O cara tava bêbado. Eu pego o papel pro senhor. eu não me incomodo em parar de escrever meu romance..não dá pra acreditar. Brites não respondeu. A primeira sala estava vazia. Vasculhou a gaveta. ao menos. mas. — É. Sabia que não era nada. Tem faro. — Escrivão. não dá. Eu não tenho a bagagem daquele coroa. A testemunha deveria estar desnorteada. — Dá um tempo.. — A respeito do evento no bar do Alemão. tenente. Não queria passar por ridículo com o seu pessoal. mas isso aí não é o B. O rapaz voltou a datilografar. Tinha tanta coisa esquisita. B. Lia compenetrado o B. — .. mesmo.. não pergunte... eu dei uma resumida. Bufou. — continuava a balbu-ciar. Bira caiu na gargalhada. — Ontem. tenente. — Não é pra você acreditar. virou para o rapaz e disse: — Vampiros. no trecho que transcrevia as palavras de uma testemunha...O...... enquanto outros veículos militares enfileiravam-se logo atrás.. me diz o que o Exército está procurando.. — O delegado investigou isso? .. O rapaz sorriu. Ontem. — Olha. pára com isso. Pau-d'água. Estamos procurando vampiros.. — Ah. Parecia incomodado com a interrupção.. E apenas para comunicar. Brites apertou a folha como se apertasse a garganta do caçado. Edson Neves? — Foi atender uma ocorrência. O tenente saltou. até o aparelho de fax e tirou uma cópia. Cada palavra poderia esconder um dado sutil. Dentes de leão. escrivão. arrumando os óculos e se espantando com a presença de um tenente na delegacia.. O tenente deu uma olhada rápida no B. Levou o B. — Dados importantes? Que dados? — Uma das testemunhas que depôs não foi inclusa no resumo que você nos enviou. dando uma sacudida. Dizia que o agressor era o capeta.O. Na verdade. Brites sacou um papel do bolso no peito do uniforme. O delegado é meio estranho. tinha que cavar nas entrelinhas pistas que o orientassem se estava na trilha do que procurava ou não.. Quase no final. — Foi. tenente. peguei o importante e mandei pro número que o Exército deixou aqui. Muito obrigado por omitir dados importantes.

não. Assassinato.. Foi até a sala e ergueu uma pontinha da cortina. Leonardo respirou fundo. — No Cazuza? — É. . descompassado. Bira correu até a porta e perguntou: — Agora. Nem tinham pedido permissão para copiar o boletim de ocorrência. cara. — Qualquer coisa. — Bira? — É. Pensavam que ele era o quê? Garoto de recados? Que fossem atrás dos pinguços. essa semana parece que vai ser agitada no nosso pacato distrito. Puxou João para dentro e voltou a trancar rapidamente. Dá pra acreditar? Ah! Ah! Ah! Tá parecendo aqueles filmes de terror..O. dos tipos mais variados. Com certeza. companheiro de inúmeras viagens a São Paulo para ver o Tricolor jogar.. Pulava no peito. — O Neves taí? — Não. Levantou-se num pulo. haviam saltado o muro. — Morreu do quê? — Estaca no peito. tinha dentes de leão.. qualquer coisa! O escrivão passou a mão na cabeça mais uma vez. retomando o controle da respiração e do subir e descer do peito. A voz do amigo sumiu. — Achou o quê com ele? — Nada.. O telefone tocou. como fizera o monstro invasor. Parece tiro. Quando adormecera? Não se lembrava. Conhecia aquela camisa do São Paulo com uma mancha amarela do lado direito. — Puta.. Uma estaca no peito. um dos policiais do distrito. caminhou pelo corredor. — Tô no galinheiro. seu chapa. — Aqui tem o endereço. falando do celular. não tem buraco de bala na pele.. Batiam na porta. deixado na máquina de fax. Roupa furada. O coração estava disparado. Tirou o molho de chaves do bolso e destrancou a fechadura... Vampiros! Tem cabimento um negócio desses? Voltou e apanhou o original do B. — Quem é? — É forasteiro. Leonardo acordou sobressaltado. Bira caiu sentado em frente à máquina de escrever. Era Reginaldo. Apanhou um e. Cê não vai acreditar. Briga de bar acontece todo fim de semana em Roda Velha. fala sério. O novo invasor deu um passo para trás. Tinha deixado o portão trancado.. Não é do pedaço. Mas. Olhou.— Bá.. Tava indo pro distrito quando me chamaram no celular. tenente. Virou a folha e. Reginaldo! — respondeu o escrivão irritado. De cima do cobertor.. mas não foi. Estaca no peito! Um vampiro! Deus! Um vampiro! Bira benzeu-se. por volta das onze horas da manhã. Uns idiotas. Bateram novamente. porra! O rapaz foi até a porta. — Leonardo! Acorda. para que lado fica esse bar? Bira indicou. ++++++++++++++ Naquele mesmo dia. Era João. para poupar meu tempo.. Sabe onde eu tô? — Sei lá. foi ao chão meia dúzia de facas pontiagudas e enormes. Os militares eram uns folgados. Graças a Deus tinha atendido ao seu telefonema. nem a pau. O militar deu as costas e saiu. — Que tá fazendo aí na granja? — Acharam um cadáver aqui. amigão do peito. tá na casa do verea. O que o senhor está procurando? Brites subiu no jipe e mandou tocar. fazendo-o sobressaltar mais uma vez. mas não foi tiro. Cê acredita? Mataram um homem. Amigo de infância. Caíram também dois revólveres calibre trinta e oito. por coincidência talvez. — Mantenha-nos informados das novidades! — gritou antes de zarpar. seus olhos bateram primeiro nas seguintes palavras: .. com as costas arqueadas.

. — Por que tá tudo fechado? Tá escuro aqui. e ele. — Cadê o defunto? Leonardo soltou o corpo de costas para a parede e deslizou até cair sentado no assoalho. duas marcas com o reboco arrancado. Meu pai vai me matar. Acho que não. acredita em mim.. João. — Calma. Estava com uma aparência péssima. Juro. Cê não sabe da pior. com vários buracos. foi em cada janela da sala. Sem olhar para o amigo. Onde tá o corpo? — Lá na granja falida. apontando o revólver para o amigo. tava frio. João chegou a assustar-se com a reação repentina do amigo. — Aquele filho da puta. Eu acabo com a tua raça.. — Eu descarreguei a arma no desgraçado. e eram muitas. antes. A gente sabe quando é mentira. antes.João encarou o amigo. não pra tirar sarro. Pensei que ele ia morrer.. Isso vai dar um bochicho.. ameaçou ajoelhar.. O estado emocional do amigo não inspirava confiança. O que ele estava querendo dizer? — Eu dei. não ri. Nardo. levantando-se. Essa merda tá quebrada. Peraí. O cara estava desnorteado. E o desgraçado ficou de pé. — Eu já explico. assustado. Eu tava gritando. — Cara.. cê não vai acreditar. porque ele cambaleou. — Assombrada? Assombrada! — gritou Leonardo. Um vampiro! João esboçou um sorriso.. João empalideceu. não errei nenhum. Apontou para o assoalho. Do que ele estava falando? Leonardo puxou o amigo para o fim do corredor e mostrou. Correu até a cozinha e certificou-se de que a porta estava trancada e calçada com uma cadeira que colocara na madrugada passada... olhar através das cortinas cerradas... — O cara.. — Se estiver.. uns dez tiros na cara dele aqui no chão.. quando ele estava de pé eu acertei o desgraçado bem no peito.. me fala. bem próximo às marcas dos tiros no chão. — Alguém te viu? — Sei lá. — Eu atirei nele aqui também. eu liguei de volta a manhã inteira. Seria verdade? O duro é que estava acreditando no amigo. E acertei. Bem depois do gol do Raí. pelo amor de Deus. — Eu atirei naquele desgraçado aqui.. — Não sei! Não sei se está morto! — Como. — A granja do Cazuza é assombrada.. — Tá com medo do quê. Morto.. era tão tarde. balançando a cabeça.. ô florzinha? Leonardo olhou sério para João. tá com medo de Sol? O rapaz arrastou João pelo braço até o corredor. é? Leonardo negou. — revelou o amigo. fazendo tilintar na madeira as cápsulas deflagradas no combate. o lugar é deserto. mas é que tá estranho o negócio aqui. caralho.. uns perto dos outros. João arrepiou-se. João coçou a cabeça. Cê enterrou o cara lá na granja. Eram quase duas horas da tarde e Leonardo parecia ter acabado de acordar. Ele tá morto. João não entendeu. nem ouvi o filho da puta entrar. No peito...... mas. — Ao menos. — Do que cê tá falando? — Tô falando que um desgraçado entrou aqui em casa ontem à noite.. — Chamei-te pra me ajudar. Enfiou a mão no bolso do moletom e soltou. — ameaçou Leonardo. — Não ri.. na parede.. Tudo escuro. mas ficou de pé! Tiro de pistola trezentos e oitenta. cara. Calma. — Do seu Cazuza. O cara não era desse mundo.. sei lã. O cara é um vampiro. Eu tava enterrando ele na . ninguém fica pra fora no frio. com o cabelo desarrumado e olheiras profundas. — Assombrado era aquele corno que entrou aqui ontem de noite.. O chão de madeira estava lascado. cara. — Bá. ele levantou de novo. nenhum.. — Desculpa. nunca vira Leonardo daquele jeito.

— Cê não tá entendendo. pode ter acertado o cara de raspão. Tão pouco que usara papel-toalha para removê-la. Nem tomando pinga eu fico com a imaginação tão fértil. — Como. Matar gente não é fácil. Uma estaca. E sabe como eu me livrei do maldito? Sabe? João. balançou a cabeça negativamente. — balbuciou. mentira.. o sangue não aparece.. é assim que se mata vampiro. bem dinho. que sorte! — Um vampiro? É duro de acreditar. sem fazer a mínima idéia. Quase. enterrou na granja. cara. — Pode. — Leonardo levou a mão fechada até a boca. Não tem graça nenhuma! — gritou.. Não dá. — Tá vendo... Nardo?! Cadê o sangue?! Nardo ficou sem fala. — Pouco sangue! Cê atirou na cabeça do cara e era pouco sangue?! Atirou na cabeça de um homem adulto ou na cabeça de um pardal? — .. João. Podia ver um ou outro projétil encravado na madeira. homem. Mas foi muita coisa pra tua cabeça... derrubei ele. O amigo precisava de ajuda.. Descarregou a pistola. com os dedos encostando-os no pescoço.. meu tênis.. — O cara pode ter tido uma hemorragia interna. pensando. Pode ter acontecido um monte de coisas. Sentouse de novo e quando falava dos dentes gesticulava. Tem gente experiente que faz isso. não de um encrenqueiro! — esbravejou Leonardo. sim. — E. levantou e veio pra cima de mim. eu sei.. cê tá lascado. — Bá! Desisto! Não quer acreditar. O desgraçado tomou os tiros na cabeça e depois levantou. Mais uma vez o rapaz levantou-se descontrolado. João voltou até o assoalho lascado para examinar a marca das balas... Preciso de ajuda. .. — Limpou? Tudinho? — É. No cinema. — Leonardo falava com a voz embargada e com lágrimas rolando pela face. meu inconsciente tava se borrando na hora. pode ir embora. Nardo. Cê trouxe uma câmera aí? Acha que isso é pegadinha? Se é pegadinha. com lágrimas nos olhos. assim? — Era pouco sangue. não é? Não é? João bufou. A gente é brotber. Lembrava-se de uma mancha discreta. — A casa iria estar toda arregaçada. — Eu limpei. não tem graça nenhuma. eu achei que era lorota.... Eu acreditei. — Se o delegado vem aqui. mas não acertou. Não é fácil. Cê ficou apavorado quando ele apareceu. — É.. — Por que disse "no cinema"? Não tem ninguém filmando o que eu tô fazendo agora.. dirigindo-se para a porta da sala e abrindo-a para o amigo. Sonhou. — Já tinha visto uma penca de filmes de vampiro. eu dei sorte. — Tu pode ter acertado o cara de raspão. Cara. O desgraçado disse que era vampiro. é assim que se mata vampiro. tava quase enfiando aqueles dentes filhos da puta no meu pescoço.. Seu inconsciente pode ter desviado a arma. É uma explicação lógica para ele ter levantado. Minhas redações fazem a dona Noemi dormir. Emudeceu por um instante. Tomou tiros na cabeça lá na granja. Diga-se de passagem. a gente tem que dar um jeito nesse chão. — .... Roubou meu moletom. O maldito levantou de novo. Se o Neves vem pra cá. Deixa isso pra lá. — E que você matou o cara. Tu voltou e dormiu.. enfiei uma estaca no peito dele. Vamos arrumar um jeito de limpar a barra e agradecer por não existir esse maldito sangue. — Cadê o sangue. Já ouvi falar disso: quando a hemorragia é interna. não. eu tive muita sorte. tu não acreditou numa palavra do que eu disse! — Não é isso. — Mas com tiro na cabeça não é assim.granja e ele levantou de novo e quase acabou comigo.. Não dá pra sonhar com isso. na cabeça dele. me atacou. Eu atirei num lugar só. Nardo. mas tu só tá me vendo aqui porque eu acreditei.. sei lá. sei lá.. puta merda.

sem jeito. Sabia que isso irritava os investigados. Vou ver quem é. Leonardo ficou mais aliviado em poder contar com a colaboração dele para resolver aquela parada. — Fica suspeito. Que o delegado fosse à merda. Estava perdido! Estava perdido! Passou a mão pela cabeça. é ruim de ouvir. não iria querer encrenca. nervoso. o pai e a mãe encontrando sua foto no jornal. Só quando João o ajudou é que conseguiram erguê-la e assentá-la no corredor. — concordou o rapaz. tinha conseguido.. Seu pai tá fora. Mais de um tiro já deixa a coisa diferente. a campainha retiniu. o quintal é grande. Eu vim aqui porque pensei que você estava precisando de ajuda. Muitas explicações. não sai. impedindo que o delegado observasse a parte interna. estava fazendo um lanche na cozinha.. — Mais de um tiro. O jovem. Conhecia o filho do vereador.. — Escuta. com a voz carregada.. então? Mais de um. Neves viu o portão abrir-se repentinamente. parecia que ia ter um ataque. Leonardo puxou uma mesa decorativa pesada em formato de margarida que a mãe mantinha no centro da sala. mas não deu. Bateu forte na madeira.. deve tá com defeito. Não ouvi a campainha. Naquele instante. estranho. aquele jeito que o delegado reconhecia na primeira encarada. seria crime. Acontece. O delegado respeitava seu pai. — respondeu Leonardo. Ali estava o filho do vereador. O delegado passou a mão no bigode mais uma vez. Se o delegado queria assustá-lo. Ninguém. — Não aconteceu nada.. — Fica aqui escondido. Para ele. filho. Via-se enjaulado. E eu só me. Era um pedaço maciço de madeira. João concordou. de chofre. E se não atendesse? Se fosse o delegado. passando a mão na nuca. como que adivinhando a preocupação da dupla. Aquela resposta. Ele vai precisar de um mandado.. Como explicar?. Era a voz do Neves. Teria sido sua pancada? Não. fazendo ambos congelar e olhar um para o outro. — Converso com ele no portão.Apesar de um pouco contrariado pela desconfiança do amigo. O garoto não dizia nada. Por que demorou para atender? — Demorei? Desculpe. ele não iria invadir a casa. A campainha tocou mais uma vez. Sei que não quer confusão.. Também poderia ser um daqueles vendedores do A Sentinela enchendo o saco. — E se for o delegado? — perguntou João. Desmaios da mãe. Se invadisse. Com a cara lívida. logo acreditamos que o senhorzinho andou brincando com as armas. Ele não pode. Leonardo borrou de medo. Não ia abrir. me atrapalhei. A campainha tocou mais uma vez. — Posso entrar? — Tem um mandado? A cara do delegado endureceu ainda mais. Leonardo saiu para a varanda. poderia não ser o delegado. em cima da discreta mancha de sangue e das marcas dos disparos. mas o culpado por ele estar ali. — O que aconteceu ontem.. O que você aprontou. Não ia sair dando tiro com pistola a troco de nada. — Ligaram-me dizendo que ouviram tiros aqui ontem à noite.. pensando que devia ter dito que dera um tiro apenas. Ela não saiu do lugar. Atravessou o quintal gramado e aproximou-se do portão menor de madeira. Garoto inteligente. O menino não era propriamente um investigado.. Só isso. Tentei parar. Estava mexendo na pistola do pai e disparou. caso contrário. agora começo a . nem ele acreditaria. Não precisa se complicar nessa história também. Girou novamente a maçaneta com violência. mas queria dar uma olhada lá dentro. delegado Neves.. empalideceu ainda mais.. piá? — Foi um acidente. Leonardo? Pode falar. Sabia que era bom aluno porque sua filha estudava com Leonardo. Se for o delegado. O sangue gelou. Vou ver se não abro. Sorte que estava limpo na noite anterior.. A boca secou. um filho assassino! Ninguém iria acreditar na história de vampiro. não. — Dou um jeito. Não era nenhum abobalhado. — Vários tiros. Só ouvi quando o senhor bateu. O delegado estava tentando abrir o portão. meu pai não tá em casa. Podia ver parte do quintal. Neves cocou lentamente o bigode. o moleque tinha brincado com a arma e deixado um tiro escapar. — É. filho. fazendo Leonardo sobressaltar. Leonardo arremessou-se e destrancou o portão. hem. apenas o olhava daquele jeito culpado. apesar de impossível. O menino não saiu da frente do portão. a maçaneta girou. Esperou. os olhos arregalados.

. né? Onde foi parar o outro? Quer me contar. Leonardo estremeceu. Quantos tiros tu deste? — Três. Não tinha cheiro de morto no pedaço. Atirara no peito do homem. Não gosta que ninguém entre quando ele não tá em casa. No meio do corredor. moleque! Volto em vinte minutos com um mandado do juiz. Traga-me a arma que a gente descobre quantos tiros tu deste agora mesmo. filho. Leonardo? Antes que o menino respondesse. sei que em casa ninguém entra sem autorização. Vereador ganhava bem. Voltou ao corredor e abriu a porta oposta. Nãc estavam lá. — Cadê a arma. Neves olhou para o corredor. Onde a vira pela última vez? No carro? No quarto? Onde estava João? O delegado olhou pela porta aberta à sua frente. se eu não quiser.. pó De repente. Precisava sumir dos olhos do delegado por pelo menos cinco segundos e se recompor. A arma. tu é amigo do meu pai. vai lá e vê. Na cozinha. é que conheço meus direitos. — Isso a gente não esquece de um dia pro outro. Volto e acho alguma coisa pra trancar sua cara assustada no xadrez por quanto tempo eu quiser. estava nervoso... Não esperava. Olhou para o corredor de modo ligeiro. Leonardo. Estava era analisando os prós e os contras de abrir a porcaria da . falando em tom amigável. Nada daquelas coisas interioranas. não. Era o quarto do rapaz. Leonardo titubeou.. João as tinha apanhado. O sangue de Leonardo gelou. engoliu seco. Marcas de bala na parede. Andou até uma mesinha em forma de flor. Tapetes grossos. — Nem teve a curiosidade de ver o estrago? Não contou as cápsulas... No meio da sala. três.desconfiar que tem gente precisando da minha ajuda pra ter proteção contra você. fiquei nervoso quando disparou. Se faz questão.. O delegado não perdeu tempo. Quantos teriam acertado a parede? Tinha visto. mas agora não podia perder o investigado de vista. Então. Nem se lembrava onde havia deixado a pistola. três tiros. — Pô. um sulco profundo. cê não vai gostar. A janela aberta deixava a cortina esvoaçar ao sabor do vento. É que meu pai não tá em casa. depois atirara quando ele se levantou. Coisa de rico ou de pobre safado. — Quantos tiros? — Não lembro. Pesada. Onde estava a arma? Os passos do delegado batiam atrás dos seus.. não se lembrava. O delegado foi ao fim do corredor. Graças! — Traga-me a arma. sofás mais caros que seu carro. bum! Um tiro.. madeira maciça... Era cosmopolita. — Mas vou entrar nessa casa. Tá com medo do quê. Raciocinou rápido: aquilo era sua deixa. As cápsulas! Tinha soltado no chão quando falava com João. Neves. Neves coçou o bigode. se tu quer entrar. entra. Precisava verificar embaixo do móvel assim que voltassem. Assassinato tem pena comprida. Não contei. filho? — quis saber. O moleque estava mentindo. Não tinha ouvido o cacete! Ela estava funcionando e muito bem. Olhava tudo. Escondendo o quê? Não tinha sangue na casa. Janela fechada. Vários tiros. o menino com a cara mais pálida que nunca. não tô escondendo nada. Era o quarto do casal. Leonardo? — Estava ner. Televisor vinte e nove polegadas. avançando para dentro do quintal gramado. quatro. A decoração era bem diferente da local.. cruzou o gramado e subiu para a varanda. Neves deu um empurrão no rapaz. Chegou ao veredicto assim que a campainha tocou. — Tu não vem com essa história de direito. tchê. — Aqui tem dois. só. Leonardo? — Nada. guri? Leonardo respondeu com um sorriso amarelo. Assim que o menino concordou. Estranho. — Tá mudando a decoração. não tinha um farelo. Leonardo sorriu amarelo. Deixo um policial aqui na porta pra tu não esconder o rabo em outro lugar. O delegado o encarou... nada. Mas vai ficar com cara de tacho.. Entrou na sala ampla da casa do vereador. Que história é essa de tiro? — Bá. — Quantos tiros foram. outro. Até aquele instante. não estivera lá fazendo sanduíche porcaria nenhuma. com contornos semelhantes aos de uma flor. A arma não estava à vista.. Ligaram porque ouviram tiros aqui ontem à noite. a campainha.

— disse o delegado. aliviou-se. Assassino. dando um suspiro aliviado. Era o seu. Um barulho chamou sua atenção.. O delegado lançou um olhar para o menino empalidecido antes de prosseguir. vai acabar. Vontade de vomitar. O tal de Bira mesmo falou que não tinha buraco de bala no corpo. matei aquele desgraçado. Neves consternou-se.. Bá. — Vamos agora pra lá.. Falou que não tinha nenhum tiro. Se o tenente que passara pela delegacia não estivesse tirando uma com a sua cara. armando um sorriso vitorioso. Alguém estava pulando o muro. cara. Um espasmo estomacal. Era João. O delegado deixou a casa do vereador e entrou na viatura. virou-se e apontou um dedo para Leonardo. Ainda mais agora.. Iria descobrir o que estava acontecendo. Sem tiros?! Isso afastava um pouco a hipótese de ser o cadáver que Leonardo escondia. Só a estaca. Antes de cruzar o portão. Leonardo.. A gente fica nervoso. João aproximou-se ressabiado. tinha que pedir ajuda. Não ficou ninguém. Foi morto assim. João trazia a colcha da cama de Leonardo enrolada em forma de trouxa. — E tu.. acharam o corpo do vampiro. Pelo menos. correndo. Assassinato aqui em Roda Velha. Não poderiam estar falando do seu cadáver. Queria informar Neves o mais rápido possível. — E agora? — Agora? Agora eu tô fodido. — O Reginaldo foi chamado por telefone. — Quem morreu? — O Reginaldo disse que é gente de fora. O mistério estava para acabar. Leonardo abriu o portãozinho. Era muita coincidência terem encontrado um defunto com estaca no peito. delegado. — Isso te livra a cara. Um homem que nunca vira estava parado na calçada e parecia ansioso. eles realmente procuravam vampiros. Vamo lá pra casa...porta para a polícia. tenso que só faltava explodir. — O Neves taí? Leonardo saiu da frente do portão. ele me dá uma orientação.. Tô ficando maluco. Leonardo estremeceu. com aquela história do Exército. delegado. — Sei lã. Assassinato. Ninguém vai acreditar que o cara era um vampiro. Nessa hora. Se tu liga pro seu pai. A gente fala com o . né? Acho que só veio o Bira mesmo. O danado tinha saído da casa quando percebeu que era o delegado. Uma estaca no coração.. — Por que não ligou no celular? — Só deu caixa postal. — disse Leo. puxando força não sabia de onde. — Ué? Mas ele não tem como ligar o corpo a você! Tem? — Não. Por pior que fosse a bronca. nervoso. Mais tarde eu volto pra tirar essa história a limpo. — Vou ligar pro pai. e isso não podia esperar. — Nenhum. não some daqui. os ataques da mãe. Falo com ele. — Bira? Que foi. fala o que não era para falar. Caminhou até a varanda e sentou-se. O delegado vinha pelo gramado. Leonardo fechou o portão e encostou-se na madeira. João.. O filho do vereador teria muito o que explicar agora.. fazendo menção para o homem entrar. não. Firmou-se... Uma emergência. não é daqui. deu a entender. — Quantos tiros? — quis saber animado. Foi até a granja do Cazuza. Tinha que ligar para seu pai. Tinha vindo a pé. apoiando o corpo com as mãos atrás do tronco. — Não tem ninguém. encontraram um cara com um pedaço de madeira no peito. Leonardo cambaleou. Bira? Por que deixou a delegacia sozinha? — Uma emergência. Bira o acompanhou. Um advogado. A coisa estava fugindo do controle. Um enroscado era o suficiente para uma cidade daquele tamanho. Uma estaca no peito. Tinha sido esperto. sua mãe tem um troço. desanimado. Chegou a pensar que o levariam naquela mesma hora para o xadrez. fiquei até aliviado... Interpretou como nunca. pelo menos. Sorte o delegado estar vidrado no escrivão. — Vi os dois saindo. o delegado vai voltar com um monte de suposições... — .

O cara é gente fina. como não tem nada a ver com você. — Então cê tá limpo.. relaxa. — Tenho que achar a arma. cê sabe. a encrenca com o corpo vai ser tão grande e. Daqui a pouco. Leonardo deitou-se no chão de lajotas da varanda. — lamentou-se. — Não tem nada lá que te denuncie. Roupa não é pista de nada.Moisés. teu pai taí mesmo. tem? — O cara tá usando um blusão que me roubou. Um de moletom. relaxando o corpo.. as cápsulas e facas que decoravam o quarto de Leonardo. Tô ferrado e mal pago. cara. Qualquer um compra uma daquelas em qualquer bazar da região. — Não está aqui. — Pode crer... mas até aí.. trabalha no fórum. essas coisas. Quem sabe esse delegado não me esquece. As vezes. . Foi tudo tão corrido. Vou pro xadrez.. tem um monte de leva-e-trás. — Poder a gente pode. o delegado te esquece por uns dias. Tinha colocado ali dentro os revólveres. — A gente pode confiar no teu padrasto? Se isso cai no fórum. João estendeu a trouxa para Leonardo. O delegado quer ver a arma. Se perdi. — Tô fodido. Ver quantos tiros dei... O rapaz revirou os objetos. aí é que entorta de vez. Espera até de noite. Não lembro onde deixei.. — Então procura a bendita arma. Isso é diferente.. Ele sabe muito de direito. Já quebrou cada galhão pra eu não tomar surra da mãe.

deixando a questão valorizar-se. Era o Valadão. viu os pés estendidos de um homem. Era longo e largo. Mas que é estranho. As feições do morto eram estranhas. provocando ânsias. A porteira estava aberta. Percorreram lentamente a estradinha com mato alto nas margens. — Eles disseram que estavam atrás de vampiros. mas agora com uma entonação de voz diferente.. — Quero chegar logo. Que tipo de gente louca faria isso? Ainda mais com esse negócio do Exército pedindo informações. assassinado com uma estaca no peito. fala logo. tampando cada vez mais o céu azul que cobria Roda Velha.. — Tu é besta mesmo. homem! Não sou adivinho. Neves desviou de um buraco. — Repentinamente. mas não vinha do defunto. Neves olhou de soslaio para o escrivão. — Sou besta? Besta! Pra onde a gente tá indo agora. o delegado se calou... Caminhou devagar. Até parece. Neves parou a viatura. Neves espantou-se com o tamanho do galpão.. Vivia pelos botecos de Roda Velha. levou a mão ao nariz... é. Quando chegou ao cadáver. entrou primeiro. carregando uma polaróide. — Será? — O quê? — Será que o morto era um vampiro? — Deixa de besteira.. batendo papo com um velho gordo que fumava um charuto. mas não era sujeito de confusão. delegado? Pra onde? — Pra granja.. Reginaldo estava sentado numa pilha de pneus a um canto. Ai. — Merda. Eram raras as vezes que podia acioná-la. Um cara morto com uma madeira no peito. Teve um tenente lá na delegacia..CAPITULO 13 Neves contornou a curva em alta velocidade. mas o mais estranho aconteceu quando eu perguntei que raios eles estavam procurando. absorto em pensamentos. deve estar no bar agora. tu acredita?! Neves riu.. o chão estava seco e firme. — Um homem morto. Olhou para o relógio. Isso cheira estranho. Bira indicou conforme havia conversado com Reginaldo. mesmo quando deixou as ruas asfaltadas e alcançou a estrada de terra. olhando para o delegado. Como um lugar tão grande poderia ir à falência? junto a um amontoado de caixas de papelão feitas para acondicionar ovos. — Desembucha. o cara era de fora. — Que é que tem? — Ele se interessou. Pisou fundo. — retrucou o delegado.. Logo viram o carro do policial encostado à porta.... doutor! Corri até lá pra te falar disso. hem. O pé deslizou uma vez na lama. sabe o que eles me disseram? — perguntou o escrivão. Nuvens carregadas começavam a se ajuntar. — Um instante em silêncio. Bira! Vampiros! Ainda fala com essa solenidade toda. Vai na manha. como de costume. Irritou-se com o silêncio do Bira. Um cheiro de carniça invadiu as narinas. Por causa daquele fax que o senhor passou a respeito da ocorrência no bar do Alemão. — Não existe essa coisa de vampiro. Nunca tinha visto o sujeito antes.. O delegado. Passava um pouco do meio-dia. sem reduzir. Um fedor danado. Bira agarrou-se ao puta-que-o-pariu sentindo um frio na barriga.. O corpo estava dentro de um dos galpões da granja. viu um objeto largado na estrada. só podia. Estavam certos. Desceram do veículo e caminharam sobre o chão úmido e um tanto lamacento por causa da chuva rápida que despencara durante a noite. — balbuciou o delegado... O morto. Olhou no retrovisor. — Uma estaca no peito. Sinal de que o homicídio fora recente. atender uma ocorrência. Conhecia aquele senhor. Sentia-se mais delegado. delegado. fazendo os pneus deslizarem sobre pedriscos. assim que entrou. um galho de árvore enfiado . — O cara já morreu. Bira olhou para cirna.. Bira seguiu-o e. O corpo estava pálido. vacilante. vampiros. um homem.. Imaginou aquilo cheio de galinhas. Fez questão. — Deve ter algum biruta solto por aí.. Bira. — O quê? — Do Exército. que saudade do atirador de tijolos! Chegaram à granja do Cazuza. Que diacho estava fazendo morto na sua cidade? Ainda mais daquele jeito mórbido. De relance. O delegado ligou a sirene. O almoço ia ficar para mais tarde.

A pele estava intacta. era onde as mortes mais perversas aconteciam.. o merda só iria chegar quando o corpo estivesse decomposto. Um calor fugaz tomou suas veias. — Eles tão atrás de vampiro.. Fala logo o que sabe. Depois. doutor. presas. Nunca vi isso. Troço estranho. Dei uma varrida nesse canto. Animou-se. — Não mexi em mais nada. — murmurou a voz de Bira. Ligou pra mim. — continuou o homem. trabalho perdido. Eram furos feitos por projéteis de arma de fogo. tinham um legista. não acharam mais nada estranho? — Não. a gente achou um cara com estaca no peito. Apanhou o cartão plástico expelido pela câmera. Se requisitasse um perito. Credo em cruz. Deixar tudo limpo. Valadão. Era o que tinham. No mundo do tráfico. passando a mão repetidas vezes do bigode ao queixo.. Os marginais eram cada vez mais estranhos. Tava indo pra delegacia. Enfiou a caneta entre os lábios do defunto.. Sorte que ele veio.. Nada. delegado! Parece coisa do cão. Fazia questão de trazer sua polaróide. Reginaldo começou a rir: — Vampiro? Ah! Ah! Cê tá de brincadeira? Neves foi ao defunto e tirou algumas fotografias. Neves tirou uma caneta do bolso da camisa. Neves foi cumprimentar Reginaldo. — Como que tu achou este defunto. — Olha o dente dele. homem? Está enrolado? — Não. mas esse complexo vai a leilão. O galho enfiado no peito. O homem vestia camiseta branca. Vai que fizesse alguma coisa errada e não captasse nada. Tinha que levar o cadáver para autópsia. Vão vender tudinho. apesar da pequeneza da cidade. protuberante. Neves encarou o assistente. olha o dente dele.. Perícia em cidadezinhas como Roda Velha praticamente não existiam. Deu-me até um nó nas tripa. onde deixei meu celular — falou dando ênfase ao celular. — Quem te chamou? — O Valadão aqui. Pode deixar. ô Valadão? Virou papa-figo? Que tava fazendo aqui? Valadão chegou a arregalar os olhos antes de responder.. A cara pálida. delegado! É que o senhor me deixa nervoso. Valadão benzeu-se.. Não quero me enrolar nessa história. Neves sentiu o coração disparar.. Morte instantânea? Provável. pontiagudo. e uma blusa de moletom por cima. — Cheguei de manhã e empilhei todo esse bando de pneu. mas que susto! Tava dando um jeito na bagunça e encontro esse negócio... — Tem o Exército. Pobre Cazuza. — Então.. contudo. — Bá. achando o escrivão impertinente.. delegado! Respondo-te tudo.. Lá estava o corpo. — Na verdade. Agachou-se ao lado do defunto. atravessei até onde tá o corpo e comecei a arrumar essas coisas de papelão. Não é coisa daqui. Se o Exército tá procurando vampiro. Sem saber por quê. orgulhoso — liguei pro Reginaldo. olhando para o chão e meneando a cabeça. Corri até o meu trator. que é meu vizinho. Trazia a polaróide porque não podia se dar ao luxo de arriscar uma revelação.. — Fiquei com um medo danado. calma. O corpo não tinha hematomas. fotografava e verificava na hora se tinha pego o que queria. O que tava fazendo aqui? — Tão me pagando para arrumar o lugar. Por sorte.. olha o dente dele. Nada. Bira debruçou-se sobre Neves. Encostei um por um. Massageou a barba no queixo. Puxou a caneta até o lado . Não sei se o senhor sabe. perfurada. Dei meia-volta e vim espiar. — respondeu Reginaldo. encarando o cadáver de face plácida e boca cerrada. Como podia? Poderia ter feito aqueles buracos para enfeitar a camiseta. tchê. Seria traficante? Bem provável. — Neves cocou a barba.. Nem sei o que vamos fazer. sem demora. Homem. tava esperando o senhor. Tinha a impressão do canino ser maior que o normal. Com a ponta da caneta. — remoeu o velho. delegado.no peito.. Esperou um pouco. aproximando-se do delegado.. com capuz embolado na nuca. — Não custa nada. também querendo ver. Com a bendita polaróide. — Isso a gente descobre. os legistas ajudavam bastante nas investigações.. põe estranho nisso. — Ué. Tantas perguntas. seria suspeito? — Barbaridade. Neves concentrou atenção nos buracos no tecido. — lembrou Bira. mas quem disse que tu tá enrolado. resolveu atender. ergueu a camiseta através das perfurações. Neves meneou a cabeça. — Deixa de besteira. erguendo o superior próximo ao canino.

Vampiros! — E a gente achando que o moço era um vampiro. Alguém teria de dar respostas. chamou a atenção... entre os cabelos.. pois teria de pegar uma carona com o delegado. nem de perto queria estar na pele do filho do vereador.. — Fala Neves. Ficou calado. Quem diria? Deixara-se impressionar pelas galhofas do escrivão. Não era papel.. — Normais. Sabiam que quando o delegado ficava parado. Era uma etiqueta. Parecia um papel. era uma daquelas que as mães pregam às roupas de filhos adolescentes para que as peças não desapareçam na escola. depois correu. que não parecia ser própria da blusa.. Afastou o corpo e virou a cabeça para Bira. Quero você lá quando eu chegar com o moleque. Reginaldo. Deu com os ombros. bá! — disse o escrivão. em passeios com turmas. sabia como eram as coisas. Uma etiqueta comprida. fazendo um sinal para que ele também examinasse. Neves balançou a cabeça concordando. e olhou demorado para o lábio erguido pela caneta. Sabia que teria trabalho. Uma pista. Bira olhou para Vaíadão e Reginaldo.. delegado. Falaram uma coisa absurda por falar. Neves levantou-se. arrumou os óculos. O fato do corpo não ter nenhum buraco ficaria. nada de escrever novelas na Olivetti. Os homens olhavam para ele. Certamente. ora o esquerdo. sendo que tinham ouvido disparos em sua casa na noite passada. Santana.. para examinar o outro canino. levantando-se e olhando para os homens recostados na pilha de pneus. Um choque percorreu o corpo do delegado. pois não trazia logomarcas nem indicação de modo de lavagem. Bira. tu volta para a delegacia. Neves saiu apressado do galpão. era porque tinha alguma coisa. O tenente com quem falara de manhã não parecia estar para brincadeira. com cara de perdido. quieto daquele jeito.. ele ia avisar o Exército. nessa cidade. Vou voltar lá. Cê fica aqui e chama o IML agora. O Exército não gosta de dar satisfações. — Que tem? — Ela é do filho do vereador. Quero esse corpo examinado de cabo a rabo. O escrivão abaixou-se mais. Uma etiqueta de identificação.. Outra coisa: querendo o delegado ou não. que ia de lá pra cá. Levou a caneta até lá. não do delegado. só tem ele. Uma pista. . A coisa vai feder. Neves preparava-se para levantar quando uma coisa branca junto à nuca do corpo.oposto. Não ia ser nada fácil explicar o que sua blusa estava fazendo num cara morto. É do Leonardo Santana. o Exército estava de brincadeira com o Bira. Não tem erro. por conta do legista. exibindo ora o canino direito. cheia de buracos de bala. — Essa blusa.

Vai fazer o quê? Entrar e matar todo mundo que vive aqui? — Não.. Ele tinha dito bá?! — Tu podes ficar mudando de forma assim. — Dói-te o peito. Sétimo vestia roupas emprestadas por César. Atravessavam o asfalto. Tiago fazia nuvens ralas escaparem timidamente da boca a cada respiração. — murmurou.. Não é a minha natureza. não são? — perguntou o vampiro. é a pior parte deste dom. por que tanto espanto? Tiago continuou parado enquanto o vampiro recomeçava a caminhar. — Vamos por essa rua. O sulista resolveu tirá-lo da casa antes que a vida dos amigos estivesse em risco maior. Tornam-se assassinos. De raros espasmos. precisando de sangue. nem dá pra acreditar que tu parecias um morcego hoje de manhã! — Bá. apontando para as residências. — Sim. Adoro o poder vampírico. Mas não vão! São vampiros! Os originais. Tu crias um traço. como se fosse possível existir um vampiro bom!. O monstro precisava de sangue. Sétimo acompanhava-o de perto. Deixo essa forma fraca e torno-me monstro num instante. Tiago parou e observou melhor a nova forma do vampiro. Preciso descansar até poder atuar como humano.. na outra calçada da rua. Um rapazote.. Um coração seco.. Tiago leu a placa: Parque Chico Mendes. Tobia. Parecia perder as forças. Não deixes rastro onde moras. — Bá. matam o primeiro que cruza o caminho. Que chegarão aos portões do Céu. lado a lado. Apanha o cavalo e corre. preciso de muito sangue.. que te deixarão louco.CAPITULO 14 Caminhavam a passos lentos. O melhor. Se não tiver. Digo-te porque vi.. como eu. Tem de saciar a sede ao longe. dizendo: — Porque hoje será o último raiar de Sol a que assistirás. Como os de sangue quente. Tinha esfriado um bocado. Sétimo. Um joelho tocou o asfalto. estas coisas são casas. Eram grandes para o corpo pequeno do menino. gajo. podias me dar trabalho.. Fica mais difícil te encontrar.. teu coração será um coração de vampiro. matar. Por que achas que não destruí o patrulheiro com minhas próprias unhas? Não podia. vampiro? Por que me pede isso? Sétimo estendeu a mão para Tiago levantar-se. comas mãos enfiadas no bolso da blusa. Um rapazote comum.. estava inerte. Preciso de tempo para me recuperar. Depois do raiar do Sol. de qualquer raio. é um soldado fiel ao rei. Estas casas. Esqueceram que os demônios da Batalha tomaram nossas almas. Aprende agora para que não percas tempo procurando formas. assim a gente não deixa traços. Uma dor fêlo parar repentinamente. É o melhor. pá. fazendo-te acreditar que voltará a bater. E um caçador excelente. viver a Aventura. Os tolos acham que voltarão a viver. quando bem quer? — Posso mudar. mais alguns passos alcançariam a rotatória no meio da avenida. Sétimo parou em cima da grama e ergueu o rosto. sem se espantar.. Agora. Só os vampiros tolos cedem a esse apelo. mas não é fácil não. Os que se dizem bons. do inferno. Torça para isso. Para ter força. Acho que tem ônibus lá em cima. Saíram da rotatória. Que irão para o Vale Negro. Tiago alcançou o vampiro e indicou logo à frente. com a expressão entristecida. Um alambrado extenso descia a rua e estava agora às suas costas.. Um mapa para os caçadores. Preciso de tempo para esconder o monstro. A dor foi sumindo. Vai ao vilarejo mais longínquo. — Aaaahg! Que dor! — Vê o Sol raiar esta manhã. Tomaram nossas almas e largaram na . encontraremos um táxi.. Tiago levou a mão ao peito. não têm alma! Meus irmãos foram palermas. São casas... acordo fraco. Aprende. É lá que deves beber. Estou fraco. depois meneando a cabeça. — Sentes? Cheiro de sangue humano. Quando tu mostraste os dentes lá na casa. o inverso é mais difícil. por isso estou sedento. Preciso de forças. pouco a pouco.. — Por quê. Odeio ser presa fácil. Tiago caminhava novamente. não para matar a sede. Sétimo ouviu o gemido do acompanhante e encarou-o. Uma pontada mais forte. Vizinhos prestam para emprestar montaria. Acham que o coração voltará a bater. Viver para morrer como os mortais.. Já sofri muito por conta dos vizinhos.. que voltarão a ser humanos! Que bobos! Nenhum vampiro volta a ser humano.

A noite não era mais escura. Teria de aprender com ele. Acho que só poderá ser numa casa . com sangue de gente com ânimo vertendo do pescoço e enchendo meu corpo de energia.. sem que ele desconfiasse algo começou a mudar. o vampiro se adiantou. sentia-se ligado a ele. que és novo nessa vida maldita. Para quê deixar gente sofrer assim? Por que Deus deixa isso acontecer? — Não sei. Tiago tentava absorver sua nova condição. pego de surpresa com a consternação do vampiro. olhando demoradamente para o veículo. ouvia sons distantes. digo que não se importa! Digo quantas vezes quiser ouvir! Ele nunca me pediu desculpas. Lembrava-se da primeira vez que o cheiro de sangue o encheu de gana. Ele não se importa com o que nós fazemos. — Tchê. Talvez fosse esse o sentido mais modificado. Um carro vermelho passou veloz pela rua. movia o sangue lentamente pelas artérias e veias. — Quase. Não liga para nós! Não se importa com o que aconteceu conosco. quase parado. quente. — . Nunca antes.. — respondeu o rapaz. Tiago odiara os vampiros. — Se Ele não se importa conosco. a não ser através de livros e cinema. Sétimo. Sentia que poderia evoluir ainda mais naquela condição. Voltou-se para Tiago. um vampiro bom. Diga-me. porém. uma dessas. muito. Como não respondeu. que deixara um rastro de luz para trás. Assassinos. Sétimo apontou para a máquina. Motocicleta. — Quero um desses. quando Miguel derramou o sangue vampírico em sua boca. Sétimo fez uma pausa. Desgraçadamente vivos! Para quê? Diga-me você. Sétimo. lições. Anos. — Uma. fazendo um barulho ensurdecedor. deixa-nos aqui. Tiago. — Tu vais precisar de dinheiro e arrumar trabalho para ter salário. Funciona a gasolina. sentia-se atraído por Sétimo. Sétimo se admirava com cada carro que passava. cada vez mais crescia a certeza de que era um deles e não adiantava lutar contra tal condição. Poderia ter atacado o amigo. Anos. Tiago. não diz isso! Deus se importa com todos. não deixando o corpo apodrecer. ouvira falar de vampiros. O coração.. Tiago. Que somos nós? Só nos restou esta herança.. a seu modo. o trânsito estava mais intenso. — Acredita. Sabes que resposta encontrei? — Não. — Um cavalo?! — perguntou admirado. Nunca! Se ao menos permitisse que nossos corpos fossem levados! Não permite.Terra nossos corpos. era seu único irmão.. Não se importa. Terminaram a subida sem conversar. Tu. Qual é a melhor parte desta lição. César sangrava. Nas escadarias do Luxor Hotel. Tiago. general? Tiago refletiu um pouco. Tiago teve a impressão de que o vampiro sofria. salvando-o da morte certeira..e isso significa muito. mas nem um pouco com o que aconteceu às nossas almas. Como no momento em que comentou sua dor.. general. Significa que Deus não liga. — Tens muito o que me contar. Enxergava mais longe. Mas depois. para vermos os nossos irem. Voltaram a andar. recusava a tornar-se um deles. Talvez por essa razão. Importa-se mais com quanto um padre defeca. Enquanto a fera centenária se maravilhava com as coisas do novo mundo.. Quero uma dessas.. Estranhava não lutar contra aquilo. Não morremos. — Tchê.. mais forte. sermos chamados de malditos por aqueles que foram nossos semelhantes. Uma moto passou pelos dois. Ganhara poder extra para conseguir salvar Eliana. enquanto lutava para salvar Eliana. Existiram outros? Sétimo era a única família que tinha agora. — Pois eu tive anos para pensar. Nunca mais seria um coração de homem. pulsante. Ele não se importa conosco. só o sangue do homem nos sustenta. E uma moto.. — Gasolina? — Sim.. Chegando ao topo da avenida. Teria de aprender a ser um vampiro. — Não encontrei nenhuma resposta. também começava a se entreter com um outro novo mundo. como aprendera agora. Repugnara os vampiros enquanto lutava contra suas ações.. Seus olhos tudo viam. Deus não se importava com os vampiros nem com o que os vampiros faziam. Nenhuma. Tiago estremeceu ao ouvir o monstro chamálo de general. enquanto nós ficamos. só isso. Nunca haviam noticiado um no Brasil. Isso é quase um cavalo.. como o caminhão que nos trouxe para cá. Nem um pouco. Tornara-se um homem melhor. O olfato. ó gajo.

. mas tem que perder esse acento completamente para ser tomado como um brasileiro comum. a moeda corrente é o real. Eu precisava consertar muito cano no fundo do mar para descolar meus trocados. — Deixa-me ver a grana. Viria assim. sempre junto com o ônibus? A máquina fabulosa freou. Voltaram a caminhar pela avenida. — Tem que perder o sotaque português também. Precisa trabalhar.. não estava certo se passaria algum ônibus naquele horário. Tiago foi para o fundo do ônibus. — Para ter uma dessas eu preciso de dinheiro. Com o troco na mão. — O que é trampo? — Trampo é trabalho. É claro que aprendo rápido. Tiago procurava uma parada de ônibus. — Pedaço? — Isso. — Isso é a língua portuguesa falada nestas paragens? — Também é.. Os olhos do vampiro pediam explicações. e a condução ganhou velocidade. preste atenção. Dentro do ônibus. por mais incrível que tivesse sido a narrativa. Tiago riu.. preste atenção.. vampiro. Ninguém a tocou. e olha lá. busão é ônibus. é quase como as . Se tu anda com grana no bolso sem ter um trampo. A história de seus irmãos. o que fez o cobrador armar uma careta desgostosa. Uma carruagem pública. produzindo um barulho incrível... eu caminho durante o dia. com os olhos arregalados. preciso pensar no que fazer com o dinheiro que recebi da USPA. contaminando a noite com um ar fantasmagórico. — No pedaço. — Gíria? — É.. certamente estaria disparado. nada se conta em moedas de ouro. Cada nota tem o valor estampado. além do cobrador e do motorista. — O que é ônibus? — É aquela carruagem. — Não sou mané. olhando para Tiago. — Mané? — É tudo gíria. — repetiu o vampiro. mané. — Veja. — explicou Tiago. havia apenas duas pessoas. Sétimo experimentou uma excitação tremenda. a polícia vai achar que tu é ladrão. Era bela. — Quer ver a grana. vai ter de aprender a falar como eles. só se for em casa noturna. Pensava nisso quando um circular despontou na avenida. Sem poder sair durante o dia.. quantas moedas de ouro? — Aqui no Brasil. estendendo o braço para que o coletivo parasse. burro. O brasileiro passou pela catraca. Sétimo sorriu. Sétimo olhou para a grande máquina que se aproximava. te ensino a usar. E não é paragem. Tenho miolos de vampiro. vai ser difícil descolar um trampo. Quer ser um brasileiro. lã vem o busão... — Nesta forma. passando alguns reais para Sétimo. general. caminhar na luz do Sol. Preciso conhecê-la. Passava um pouco da meia-noite.. que terminavam mortos pela bomba nuclear. mas. contudo. Este é o meu dom. O homem que conduzia a carruagem fez a porta de entrada fechar com magia. Abriu a gaveta e passou a contar notas e a juntar moedas. Sétimo sorriu para Tiago.noturna. até que você aprende rápido. Se quiser se parecer com um jovem que vive aqui em Osasco. Um totem no quarteirão seguinte indicava o local. jogando luz pelas janelas.. principalmente pelos jovens. Como te disse. é gíria. tem que ficar esperto. Está menos acentuado que hoje pela manhã. pagando as duas passagens com uma nota de cinqüenta reais. Traduzindo o que eu te disse: se tu anda com dinheiro no bolso sem ter um trabalho. não tinha experimentado sensação como aquela. Sétimo parou de andar.. vampiro.. É a língua portuguesa falada por um montão de gente. É a língua portuguesa falada no pedaço. pois não vinha tracionada por cavalos. Deveria ser movida pela magia da gasolina. Uma garoa fina começou a cair. Se tivesse um coração vivo. Um ronco poderoso. O mago. Tiago contara-lhe uma história fantástica naquela manhã. — disse Tiago. somos vampiros. tem que aprender a falar gíria. Agora. Queria tocála. Um monstro mágico que se movia sem cavalos. os gambés vão achar que tu é malaco. — Fica com esse dinheiro. é pedaço. Tiago nada respondeu.. como um menino que brinca com o pai no carrossel. dono da carruagem. fez a porta abrir. Sétimo olhava para tudo.

Andaram por vários quarteirões.. às vezes. inflação embutida. — explicou Tiago. Vamos ver. Vamos comer um.. com um pó branco. mas o vampiro. espetou-o num dos palitos de batata e enfiou-o na boca. Chegaram ao centro em quinze minutos. O pedido de Tiago chegou. Sétimo viu o rapaz apanhar uma cápsula pequena e cobrir os palitos amarelos. Depois de andar bastante. Tiago sacou da . — disse Tiago. Tiago pegou um copo no balcão e o encheu. Os assuntos eram os mais diversos. Toma. mas acho que não vais apreciar mais a comida mortal.. os vampiros. passando por onde enfrentara os vampiros na noite da nevasca. meu estômago não trabalha mais. explicando as coisas ao vampiro. — Posso me arrepender. havia muitos caminhando em pequenos grupos. mas. — É estranho. tentando entender a conversa. Um palito após o outro. Os clientes falavam alto e riam ao sabor do álcool. O trânsito estava fluindo bem. — Isto é refrigerante.. me chame de cara. Tiago. Terminaram as batatas e o refrigerante. Era bom! Sorriu para Tiago. quase não havia carros na rua. Tiago pediu um refrigerante e uma porção de fritas.. Sétimo observou-o comer. para o calçamento público. Silencioso. ora. Aprendia. Tiago convidou Sétimo a entrar num bar. Dera-se conta de que não estava ali ensinando um rapazote loiro. Sétimo virou um gole tímido.. A garoa descia. greve de caminhoneiros. sal. conversando um pouco. o vampiro Inverno também fizera nevar na cidade. pois.. Ninguém lhes deu atenção. tanto pela neve sobrenatural quanto pela chuva trazida por Tempestade. que comia fritas. general. Que era aquele líquido que o vampiro novo ingeria? Um líquido negro e borbulhante. Obediente. que sorria como uma criança. Algo estranho. Decidiram andar. adivinhando o interesse do vampiro.. que fazia um curso rápido de costumes para tornar-se um assassino mais eficiente. essa fome e por sangue. Sorriu novamente.. — É coca-cola. no centro. Desceram. observava os brasileiros..moedas portuguesas de tua época: quanto mais juntar. Tiago pediu mais duas garrafas da bebida.. Observando o rapaz beber e sorrir daquela forma. que tomava cocacola. tocando a calçada com suavidade.. Sétimo mastigou e saboreou o tubérculo frito. — Comer? Se tiveres sorte tuas tripas ainda trabalham.. que formaria um exército.. A boca parecia queimar. O garoto era um demônio. estou faminto. Duas pessoas excessivamente pálidas na multidão. — Cachorro-quente? O que é isso? — Hoje tu aprende. Saboroso.. mas não deixou transparecer. brasileiros falam cara. mais tem. Ficaram em pé. Ficaram lá por quase meia hora. os osasquenses estavam desanimados naquela noite. Eram pessoas na multidão. A língua aqueceu-se.. e estes palitos? — São batatas fritas. preciso aprender a ser um brasileiro. Afinal. — Ah. Mal matara a curiosidade e lá vinha outra. Sétimo a tudo observava. Sétimo sabia onde estava: numa taberna... e Sétimo ouvia atentamente. Tinha saudade de ser humano. liberando para a noite. que pretendia ressurgir para o mundo. sentiu um vazio no peito. Havia percebido a curiosidade do monstro pelos lugares cheios de gente e animados. cada vez mais instalado. Ali. Naquele tempo. vampiro. Tiago assustou-se. Tiago? — Sal. portugueses falam pá. — Vamos ver. Sétimo aquiesceu e imitou Tiago: apanhou um palito de madeira. essa tua fome não é por cachorro-quente. não é? Se tu tenta beber tudo. não tinha variação no preço do petróleo. — Vai? — ofereceu ao vampiro. precisa levar tudo isso em consideração para comprar um cachorro-quente. Perguntava.. Acidentes jamais vistos foram desencadeados. que o taberneiro trouxera. o gás faz arder a língua. Fritas.. outros vinham sozinhos. estava ensinando um morcego gigante. com um pouco de medo ainda. ouvia as palavras. Sétimo gostou tanto do sabor que tentou tomar o copo todo de uma só vez. desconfiado. Bateu o copo no balcão. Provavelmente.. a carruagem parou e a porta abriu. não diga ora pois nem me chame de pá nunca mais.. Sua mente brigava com o vampiro que ele começava a ser. — O que é isso. Sétimo observou Tiago acionar um botão e uma luz se acender. espetando mais um. pá! — Então come. no balcão. enchendo as janelas do coletivo de gotículas. fomentava essa ambigüidade de sentimentos.

tomando um tiro nas costas. sabia. com certeza. Alguém ameaçando. Caminhavam. Uma semana atrás ter-lhe-ia metido medo.. — Cês tão travados de medo. chefe. — respondeu.. porra! Uma risada encheu a rua. Homens jovens. e o caixa entregou-lhe o troco. você vai ver o que é bastante gente. mas sabia que o tutor-vampiro estava faminto. Sétimo. Sétimo sentiu o velho demônio desperto.. longe.. Livre para matar. magros. .. — esbravejou o de boné. rindo. Dá o dinheiro. quero sair fora. Não! Não estava agonizando. falando rápido e tirando um revólver do blusão de moletom. imóvel. Estava faminto. — Muita gente nessa cidade. — Só acho engraçado. — Que foi. Nunca. — Cê tava no bar. Saíram do bar e entraram numa rua estreita e pouco movimentada. contava histórias. O pai. não tão? Passa logo a grana que acaba tudo bem. Estavam a sós com dois marginais que queriam tirar o dinheiro de seu tutor. — disse o de verde. tem fogo? Tiago parou e encarou o par. ouviu a voz do humano que se aproximava. Um homem ao seu lado observava a operação. Ameaças-me com uma única arma. — Então cê é o cara que tá com uma nota preta na carteira. Antes que Sétimo terminasse. Tomara sangue do vampiro Inverno. Tamo pra brincadeira. Eram dois patetas pondo o pescoço na forca sem saber. sem pressa. Nervosos. — Vai. rostos de expressão dura. Tossiu. riu e ajoelhou-se diante do olhar incrédulo da dupla de assaltantes homicidas.. mano. delegado. ninguém pára desconhecidos numa rua escura para conversar..carteira uma nota alta. Não. Pobres almas! — Passa a carteira. Tiago fez os olhos cintilarem. — Não. — Aí. sozinhos comigo. esqueceu que você agora é um. — Encrenca? — É. Tiago virou-se. mano. Continuou rindo. Uma casa comercial sem grades bem onde estavam parados. Cê tava no bar. Não queria que Sétimo atacasse.. Os dois estavam atônitos... Tiago virou a cabeça. Tiago. Acho que tá vindo encrenca por aí. — Sem pressa. não é? Tiago nunca fora assaltado. O cenário perfeito. posso estar enganado. provavelmente segurando um trinta e oito. Tem um cara. — Sei que cê tá com dinheiro. Mais ninguém na rua. voltando a caminhar. mas acho que está vindo atrás da gente. Estava livre da caixa de prata. problemas. São patetas! O de boné apontou o revólver e disparou. Hoje não. não temos. não é? Foi Sétimo quem parou primeiro desta vez. eles não metiam medo. mano. Trinta metros até o fim da rua. As presas brotaram. Era um assalto. A dupla não cagou nas calças porque olhavam incrédulos para Sétimo. com um pouco de luminosidade transbordando. Já tinha perseguido vampiros. Estava se levantando e rindo da cara deles. — Continue andando... Passos. Despreparados para aquela nova situação.. não tava? — perguntou o de verde. Sétimo. — Não estou com medo. ele estava no bar. mãos nos bolsos. Vocês dois. Uma arma. outro com um abrigo verde. Sétimo via a porta do bar. Sétimo continuou a rir ainda mais alto. Fora atrai-çoado pelo Exército brasileiro. — Para quê? — Roubar meu dinheiro. e aqueles dois vagabundos tinham mexido com a dupla errada. Livre da perseguição de Tobia. Sétimo caiu de costas. Aquele safado falando de seu dinheiro. Amanhã. pivete cabeludo? Tá rindo do quê? Quer tomar um balaço? — Dá a carteira. O rapaz separou as notas mais altas das pequenas e colocou-as na carteira. Tiago imóvel. a gente sai mais cedo de casa. Percebeu que o de boné ia atirar mais uma vez. — ameaçou o outro. — Você ainda não viu nada.. Um de boné. não.. Dois homens. agonizando e rindo. nervoso. — disse o vampiro. — Isso é problema.. Um homem baleado. Tiago aquiesceu. Engasgou.

Os policiais cercavam um carro negro. O segundo pulou nas costas de Tiago e aplicou-lhe uma gravata. Por hoje. A entrada de outro bar... Tiago gritou. mas não acertou o vampiro. Tiago encostou o trinta-e-oito na cabeça do agressor e detonou.. As presas brotaram monstruosas. deixando as luzes das viaturas para trás. não que precisasse. Um calafrio. sabia onde estava: no estacionamento do supermercado onde encontrara os vampiros em Osasco pela primeira vez. — Vamos. e cravaram no pescoço do mortal. Arrancou a arma do assaltante e jogou-o contra o muro do outro lado da rua. Atravessaram. A cena da batalha com os vampiros. — Vamos para casa. Chegaram até a rua Pedro Fioretti e desceram. deixa os corpos aí. mas ria. Saudade do amigo Miguel. Tiago arremessou-se contra o atirador. ainda debilitado. — Que é aquilo? Tiago saiu do transe com a pergunta do vampiro. Se fosse para a direita e descesse a rua. — Sim. Arrastou o homem pela rua de paralelepípedos até a calçada onde Sétimo estava. espaçadamente. Passou para um latejamento. Não tinha pensado em escondê-los. um ardor discreto. Logo a polícia estaria ali. vampiro. Um descuido. e uma motocicleta esportiva. logo acham e levam ao padre. tio. deixando os cadáveres para a polícia. — Polícia. mas sair logo do local. um espasmo. A bala cortando sua barriga. Pessoas na porta do bar. passando em frente ao hospital municipal central. Seu corpo estava se curando. Esse verme não merece perdão. aparentemente destruído por disparos de arma de fogo. Um terceiro disparo. O baque surdo do corpo indo ao chão. chega de aventuras. Sétimo arremessou o corpo da vítima em cima de um amontoado de sacos de lixo na garagem da casa comercial. Os dois vampiros. Seduzido pela força vampírica. ao lado da estação de trem do largo.— Agora chega. Chegou ao largo. encostado no muro. amoleceram. Tomou aquele rumo. Nem se deu conta de que uma viatura da polícia desceu zunindo a rua. Via seu general. vamos sair daqui. Seu defensor. narrando mais uma vez a Sétimo tudo o que acontecera ali. A mão do marginal desvencilhou-se da sua. Tiago arrastou o corpo do outro assaltante. chegaria ao centro. — Não me mata! Não me mata! Pelo amor de Deus. seguiram para a lateral de um viaduto... amassada. tirando-o do meio da rua. Furo! — Pede-me clemência e mente?! Tiago arremessou o revólver para além do cruzamento. Saindo do outro lado. Poderoso.. mas queria que Tiago se sentisse assim. num túnel. — Ninguém. Tiago não quis entender. a clavícula quebrada. acocorou-se. — conduziu Tiago. Sétimo ria. Tiago viu uma passagem escura entre o boteco e um prédio de três andares. pois não havia tomado sangue após sua transmutação. A dor foi momentaneamente indescritível. deixando claro que o motoqueiro havia tomado um tombo cinematográfico. — Não me mata! Não me mata! Sétimo arrancou o boné do homem para agarrar o cabelo curto e fétido e fazê-lo envergar o pescoço. — Vamos por aqui. Sétimo caminhou naquela direção atraído pela luz do giroflex no topo de cada carro. mas não era má idéia. É tua comida. Passaram como dois curiosos. Gritava. O de boné. maiores que a dos outros vampiros. Os braços em volta de seu pescoço. misturados ao amontoado de pessoas. . — Quantos você já matou por causa de cinqüenta contos? — perguntou Tiago. onde fora ferido mortalmente por Acordador com dois tiros no peito e salvo da morte em seguida por Miguel. — Toma. As pessoas voltaram para dentro do bar com a explosão do revólver. Havia uma porção de viaturas no largo. Não queria que a confusão toda recomeçasse. O homem gritou. que conseguiu disparar.

O homem pareceu conduzir-se sozinho. A hora avançada ajudava. isso sim. como se procurasse dinheiro. A casa estaria cheia de crucifixos. pagava pela organização. até que a noite fora bem animada. pardacento. granadas. Fora seduzido temporariamente pela frase que o lunático dissera. Se o cara fosse um caçador de vampiros. desembocando na avenida Rebouças. mas móveis caros. Dimitri desceu e puxou Tobia. Olhou ao redor mais uma vez. vasculhou. Abaixou-se.. Ou melhor. O porteiro sorriu. Dimitri viu uma câmera junto ao portão. Um desafio. armadura de prata. Na sala. Sangue na armadura. nem sabia para que servia o botão de liga-desliga do aspirador de pó.. Sentou-o na calçada. ele iria ao chão antes de completar o primeiro passo.CAPITULO 15 O táxi encostou no largo da Batata. olhando-os ressabiado. O livro aberto no chão.. No carpete. Caçador de vampiros. Dimitri fez a maçaneta girar e empurrou a porta. O cara era organizado. seu arsenal ambulante. Caminhou claudicante. Rico. deveria ser conta de peixe pequeno. o fuzil compacto do homem de armadura. tapetes. Fechou o sobretudo do caçador de vampiros. certamente eram caros. pois não fez perguntas nem notou que quem o amparava era o homem que esteve a um triz de tomar-lhe a vida. barulhento. Depositava a cada cabeça abatida. Matador olhou para os lados. o novato dos novatos. . Dimitri tinha certeza de que se o soltasse. Onde estava com a cabeça quando resolveu bancar a babá daquele bosta? Parecia novato. que ainda estava desmaiado.. O condutor levava para casa uma história para contar em todo churrasco de sua vida dali em diante. Meu colega encheu a cara. a carteira de Tobia. Por praticidade. tentando esconder a armadura e o sangue. Duvidava que o playboy pusesse a mão num espanador no meio da semana. Dímitri checou o número. Nenhum pó. Sem trânsito. Bateu a porta. O carro cruzou a Pedroso de Morais. Dimitri abaixou-se ligeiramente. Folhas antigas.. Leu o nome. réstias de alho. O táxi disparou. duas pistolas. Lá em cima. Colocou o desfalecido no banco da frente e entrou na parte de trás. Uma mesa de centro. uma marca de sangue. havia decidido montar uma casa. liberando a entrada do assassino e do morador. Olhou ao redor. Chaves. Por que não dera um tiro na cabeça daquele cara? Caçador de vampiros o caralho! O cara era muito amador. chegou rápido à Paulista. Debaixo do sobretudo. O vigia fez o portão estalar. levando um homem com armadura de prata... dando a entender que Tobia havia tomado todas. O taxista obeso virou-se pra trás. Levantou-se. No apartamento silencioso. Dimitri não entendeu. coisas de magnata.... comparada à do magnata que tentara abatê-lo. Há poucos dias. Passou pelo porteiro. Decoração discreta. Iria entregar o maluco em casa e sumir. iria morar numa igreja. Não tinha nada daquilo. Um pacote pardo. chefe? — Rua dos Franceses. que pagara cem reais por uma corrida de vinte. Andar com carteira! RG! Endereço no bolso quando sai para comprar armas! Um imbecil. Depois que os dois passaram. O elevador abriu e os homens foram engolidos pela porta metálica. Matador encontrou o que queria.. Para quem reclamava da monotonia da vida profissional. não enchia a casa com coisas caras. O corpo do caçador de vampiros tombou na cama. Mas. Quarto bonito. não num apê caro daqueles na Bela Vista. a armadura de prata produzia um tilintar marcado pelas passadas incertas de Tobia. A menos que a identidade fosse falsa. Enfrentar gente que não conseguiria matar. Chique. Estendeu a mão. Tudo arrumado. Era um doido. por favor... Dimitri era assassino. Estava apagado. outra gota.. armas de assassino. Home theater. Um livro grosso no chão. próximo à sacada principal da enorme sala. papel amarelado. Com uns tapas na cara. Aproximou-se. fuzil norte-americano. O táxi parou em frente a um condomínio grã-fino. Estava ficando velho. televisores de todas as polegadas. Haviam reconhecido o morador maluco. Duvidava. apoiado no assassino de sobretudo preto. fez o homem sustentar-se sobre as pernas. inerte. Havia aberto uma conta no banco. como a que ele costumava usar. Outro táxi. e para o bairro da Bela Vista foi mais um instante. não era burro. Voltou para o corredor. A cada empecilho resolvido. escrito a mão. um lunático. Ainda estava apagado. acabou a noite por hoje. inconsciente. Abandonou a doze de cano serrado dentro do carro. Dimitri deixou Tobia apoiado.. Tudo no lugar. onde pudesse ser o chefe.. Dimitri amparou-o até um quarto amplo. baixa. O homem era rico. longe de Osasco. — Pra onde. Nenhuma resposta. Gesticulou. do joelho para baixo. Sacou vinte reais da carteira de Tobia e pagou ao motorista. O taxista riu e fez um comentário animado. Estava absorto em pensamentos. O dia em que fora seqüestrado por um homem com cara de assassino. Na mão. Conduziu Tobia para a entrada. Vasculhou os bolsos do caçador. Balançou o homem pelos ombros. espichou o pescoço. afastando-se o mais rápido possível.

Nenhum sangue naquela direção. Ninguém saiu.. era a indenização que cobrava pela perda do Comodoro negro. não dá.. os porteiros faziam chamadas infundadas. porteiro? — É sim. Marido violento. Uma mancha de sangue no carpete. entreaberta. O policial ergueu a mão. O segundo policial. vendo o banheiro invadido.. Prata pura. Caminhou na direção daquela segunda. — Quanto tempo faz? — Quase vinte minutos.. Não estava roubando. conduzindo. Uma marca generosa de sangue no chão da sala. dirigindo-se a Tobia. — Fica aqui. Nenhuma pessoa. — Que é isso? Um esquadrão inteiro. .. Mas eu vim até aqui e vi estes pingos de sangue no chão. senhor. também empunhando seu revólver. Valioso. Tinha que ser. O soldado de bigode também entrou. fazendo o cara se calar. O porteiro abriu o elevador. Vampiros. confusões diversas. Uma viatura da polícia militar parou na frente do condomínio na rua dos Franceses. Caralho! O cara era rico mesmo! Hora de sair. a obra falava de vampiros. O porteiro adiantou-se. um corpo. O de bigode seguiu pelo corredor. Subiram. Um corpo. Novato. — respondeu o porteiro. A água correndo. percorreu a sala até a sacada. Alguém atrás da porta? Não.. ortografia antiga. Ninguém na sala. ele estava ajudando. Um homem na banheira. — Nunca viu?! — indignou-se o segundo policial. imprescindível para a caça aos demônios noturnos. semidesenhando a pegada do maluco de armadura de prata. Interessou-se. — Ele disse que o morador estava bêbado. — Nunca. O coração acelerado.. Era aquilo que o soldado de bigode procurava e temia. — Como você deixa um vagabundo entrar aqui sem falar com o morador? O porteiro não respondeu. com arma em punho. Raras eram as ocorrências que tinham prosseguimento. Era assassino. Interessou-se. — disse baixinho o de bigode. Tem guarita na garagem. Suspeita de ladrão no apartamento. O segundo soldado.Português de Portugal. não ladrão. Iria fazer uma retirada. o senhor subiu carregado. — Mas que porra é essa! — gritou Tobia. Os sugadores de sangue. Passos lentos. O pacote pardo no bolso. O primeiro entrou. pô? — indignou-se o morador.. Quase tinham pisado na evidência. Fez sinal para o parceiro aproximar e entrar. o lunático estava com aquele pacote para pagar pelas armas. O companheiro chegando à porta. Mais um pingo de sangue no carpete. O porteiro. Nada. O porteiro chegou... cheio de dólares norte-americanos. Passou a mão pelo queixo. Devolveria após a leitura. — Leva a gente lá. Normalmente. Desenhos. Abel. de bigode.. Nunca vi. Encostou-se à parede. Um banheiro. Certamente. tem câmera em tudo que é canto. O quarto amplo. — Cadê o sujeito que te trouxe pra cá? — inquiriu o policial. Mesmo que o cara quisesse sair escondido. — Esse aí é o dono do apartamento. eu deixei ele subir para levar o homem ao apartamento. Destrancada. — Não saiu? — Não. Tinha que mostrar a eles.. sem sair da banheira. empurrando os policiais para dentro. ergueu o revólver e saltou para dentro do banheiro.. Era sangue mesmo. Esposa com TPM. Sangue no lençol. armas na mão. aparvalhado. Bate-boca de vizinhos. Esposa traída esfaqueando a porta. Manuscrito.. Estavam acostumados a encontrar aquele tipo de rastro. uma porta entreaberta. Teria de comprar e preparar outro. — Quem é ele? — Não sei. É que o morador parecia bêbado. Tinha um ferimento. Essa hora é mais tranqüilo. — Que sujeito? — Segundo o porteiro. Indicou a porta de entrada. correu para recepcionar os policiais. O livro era grosso e antiguíssimo. Desenhos da armadura de prata. Os policiais estacaram. Ninguém no quarto. Blindagem era coisa cara. Dinheiro no bolso... quebra-quebra na reunião do condomínio. Desceram no andar de Tobia.

— Sei lá quem me trouxe aqui. Acho que era um morador também. Deixou-me na porta do apartamento e foi embora. Eu tô com um machucado na perna, só isso, ele me ajudou porque estava doendo pra cacete. Eu não tenho que ficar dando explicação pra porteiro nenhum. Pago essa porra em dia e não dou permissão pra ninguém trazer a polícia na minha casa. — Eu só queria ajudar... — resmungou o porteiro, defensivo. — Ele descreveu uma cena suspeita, senhor. Só viemos checar. Devia agradecer por alguém primar por sua segurança. — O que vocês querem? Um muito-obrigado? Obrigado. Agora, me deixem em paz. Tive um dia cheio. Uma guerra. Os policiais sabiam que não tinham o que fazer. Sabiam onde aquela espécie de discussão iria chegar. Viam esse tipo de folgado todos os dias. Burgueses com o rei na barriga, cheios da razão... provavelmente aquele merda estava devendo. Devia estar dando o rabo para o tal vizinho. — Vamos. — disse o de bigode. O soldado Abel deu uma olhada no quarto: tudo parecia normal. Enquanto o porteiro pedia desculpas ao morador, seu parceiro saiu do banheiro e deu uma espiada debaixo da cama. Nada. Talvez fosse verdade... o porteiro é que andou vendo demais. Dimitri caminhava normalmente. Sobretudo fechado. O livro grosso e antigo debaixo do braço. Pegou a Ribeirão Preto, não conhecia muito o bairro. Rua Dr. Seng, Silvia, Itapeva. Sabia que a última o levaria até à avenida Paulista. Não queria ir para a avenida. Um táxi descendo. Fez sinal, Queria sair da rua. Poderia até voltar de ônibus. Parque Continental. Tinha de evitar a atenção. Armas embaixo da roupa. Muita confusão num dia só. A sorte, por aquela noite, poderia estar acabando. O azar maior tinha sido o fato de Malaquias, o contrabandista de armas, não estar na casa. Provavelmente, com um recado tão eloqüente, não iria mais folgar com o Sofia. Conhecia o Malaquias. Era um amarchand, um homem de negócios. Não iria revidar. Para seu bem, era melhor que desaparecesse. — Osasco. — murmurou ao taxista. — Pela Corifeu ou pela Castelo? — Castelo. — Tá. O homem acelerou. — Viu o jogo do São Paulo? — Não quero conversa. Silêncio. Pneu cantando. Gente lá fora, alheia ao assassino. O assassino que não puxara o gatilho naquela noite. Não tirara a vida do homem. O assassino que olhava o livro. Primeira página. Uma prece... uma prece bizarra. Português arcaico, diferente. Alguma coisa podia entender. Ajudai, ó Pai, aquele combatente. Dai força e inteligência. Os Filhos das Trevas são muitos e estão em todo lugar. Dimitri virou mais uma página. O desenho de uma estaca de madeira, um crucifixo. Madeira e fé, eis nossa espada e nosso escudo. Mais uma página... um texto pequeno, inteligível. Um nome escrito por Tobia, o matador de vampiros. Uma data: No Ano do Senhor de Mil, Trezentos e Vinte e Seis, escrevo assombrado meu testemunho. Matador. O nome! Aquele homem, o louco da armadura, vira os documentos, seu nome era Tobia! Como? O livro era muito antigo, páginas amareladas e ressequidas, parecia que iam esfarelar ao menor descuido. Uma herança de família, só podia ser; ninguém viveria tanto. A relíquia tinha uns oitocentos anos! Porra! Quem era aquele cara? Um vampiro? Um vampiro, segundo a lenda, viveria muito tempo, bicho eterno, mas não teria aquela aparência humana... eram deformados, dentes imensos. Aquele bosta tinha cara e jeito de grã-fino espirocado, só. Não era vampiro. Estão em todo lugar, ecoou a escritura. O táxi parado num farol. Gente passando. Frio. Noite. Estão em todo lugar. Impossível. Saberíamos. Televisão, jornais, internet, informação rápida, curiosos... vampiros, um prato cheio. Saberíamos. Dimitri folheou mais um pouco. Um capítulo começando. A letra desenhada, a palavra Inverno. Fechou o livro. Vampiros não existiam. Um embrulho no estômago. Não tinha enjôos quando pedaços de cérebro e osso atingiam seu corpo. Quando sangue do inimigo impregnava suas luvas. Mas quando lia dentro de um veículo em movimento, o enjôo nunca tardava. Aquele capítulo iria esperar. Pelo sim, pelo não, leria o livro. O manual de caçada aos vampiros.

CAPITULO 16
Reginaldo auxiliava a entrada da camioneta do IML. Fazia sinais com a mão. O motorista queria entrar de ré, mas o retrovisor esquerdo havia sido partido por uma bolada certeira da molecada que batia uma pelota na semana anterior. Até o governo repor aquele espelho, ele próprio já teria sido carregado nos gavetões que vinham na traseira do veículo. — Vem, Getúlio, pode vir! Anda homem, olha o tamanho dessa entrada! — Bá, eu sei que o caminhão passa. Quero que tu vejas se não vai pegar num prego. Basta esta merda de retrovisor quebrado! Não vou tirar dinheiro do meu bolso no borracheiro. — Tá limpo. Pode vir. — ordenou Reginaldo. O motor roncou engatado na marcha a ré, e Getúlio freou, estancando quando Reginaldo gritou. — Pára! Tá bom! Quer arrancar o pé. do defunto? Valadão, que não tinha arredado pé do galpão com seu defunto, riu. Era verdade: mais um metro e o pneu teria entortado o pé do cadáver. Getúlio puxou o freio de mão. Acendeu um cigarro antes de descer. Abriu a porta, virado para fora, e deu uma baforada comprida. — Vamos ver o que temos aqui... O agente do IML rodeou a camioneta. Viu primeiro os pés do cadáver. Deu outra baforada comprida. Soltou a fumaça devagar. — Esse aí sofreu, hein? — comentou. — Um pedaço de pau no peito. — balbuciou Reginaldo. Getúlio agachou junto ao corpo. — Já vi de tudo. Isso não é o pior, nem de perto. Vou precisar de ajuda. Vim sozinho. O Valadão, pega no pé do bicho. — Credo em cruz, tchê! Pego nada! Sai de retro. — Deixa de viadagem, Valadão. Pega no morto; vou descer o gavetão. Valadão benzeu-se três vezes. — Deixa que eu ajudo. Esse velho é cagão. — Bá... nunca ouviu falar que dá azar pôr a mão em defunto? — Cê deve tá certo, Valadão. Deve ser por isso que eu levo essa vida fodida. Sábio Valadão, sábio. Sou um fodido, mesmo. Eh! Eh! Eh! — brincou o agente, arrastando um dos gavetões para fora do compartimento traseiro da camioneta negra com as letras garrafais do IML. — Cê tá fodido, mas tá melhor que esse. Defunto, apagado, presunto, pé junto, abotoado. Podrão, esse é o melhor. Podrão, que nem o Otávio Augusto dizia no Sábado, dentro do elevador, preso com um defunto. Getúlio não perguntou nada. Colocou o gavetão ao lado do corpo. Reginaldo segurou os pés. — No três. Um, dois, três, vai! Barro e algumas embalagens de ovos foram parar no fundo da chapa metálica. Lobo estava de novo dentro de uma caixa de metal. — Agora é mais fácil, Reginaldo. E só arrastar o gavetão pra dentro da gaiola de levar presunto. As alças ajudam. A operação transcorreu sem problemas. Em menos de um minuto, Getúlio estava travando as portas traseiras da viatura. — Agora é só levar. — Pra que a pressa, Getúlio? Vamos tomar uma no Boteco do Alemão. — sugeriu o Valadão. — Ih! No Alemão, não. Tava cheio de repolho lá. O Exército tá chouriçando alguma coisa por aqui. Nunca vi tanto agito em Roda Velha. — Vamos no Menezes, aqui mesmo. — sugeriu o policial. — Dá não, pessoal. Tenho que entregar o cadáver. Trabalho é trabalho. Já demorei uma vida pra chegar aqui. A bateria arriou, chamei o Celso pra fazer uma carga rápida. Só assim para chegar aqui. O dr. Artuin tá esperando a entrega. Tá numa ansiedade... nada como um assassinato para exercitar sua capacidade forense. — Capacidade forense... — repetiu o Valadão. — Bonito isso. Getúlio subiu e bateu a porta da camioneta. Despediu e deu com a

chave no contato. O motor girou esforçado, pegou e morreu. — O geringonça! — esbravejou o condutor. Deu na chave novamente. O motor gemeu, sem pegar. Na terceira tentativa, nem sinal. — Cacete! — Bateria? — Não pode ser. Dei a carga agora mesmo. — Tá parecendo. — O Reginaldo, pára de rogar praga. — reclamou Getúlio, girando a chave novamente, sem o menor sinal de partida. — Vamos dar um tranco. — Bá, essa bichona é danada de pesada. — Vem cá, Valadão, vamos empurrar esta joça. O senhor obeso veio lentamente. Getúlio desceu, agradecendo a si mesmo por ter entrado de ré. Empurraram os três. A camioneta moveu-se muito lentamente. Tentaram. Getúlio pulou para dentro. Mesmo engatando a terceira, era pouco embalo. — Não vai dar. já são quase quatro horas. O Neves vai me comer o figo! — Calma, Getúlio. Tu tem culpa que a merda da viatura tá quebrada? Arrumar ninguém quer. Vamos dar um tranco dando embalo com o meu carro. Tem uma corda aí? — Nada. O Valadão, vê uma corda pra gente. — Tenho no meu trator. Espera um pouco. Assim que o zelador saiu, o celular de Reginaldo disparou. Era o delegado. — Calma lá Neves. O carro do IML quebrou. Estamos resolvendo aqui com o Getúlio, mas acho que em uma hora estamos colocando esse cadáver na geladeira. Reginaldo apressou-se em encerrar a ligação, tranqüilizando o delegado e o coitado do Getúlio. Esperaram vinte minutos até o ágil zelador retornar com a maldita corda. O policial manobrou seu carro, amarrou a corda no engate e, posteriormente, no pára-choques do veículo do IML. Funcionou. A camioneta precisou de um embalo para fazer o motor pegar. Getúlio acelerou forte para esquentar o motor. Desataram a corda e então seguiram pela estradinha. Reginaldo conduzia lentamente à frente, escoltando o veículo. Queria estar por perto se o amigo precisasse. Desde que retornara para a delegacia, por volta da hora do almoço, Bira não tivera um momento de sossego. Faz isso, faz aquilo. Prepara os papéis para a detenção do moleque. Estava sem tempo para escrever as coisas que se amontoavam na cabeça. O Neves fora agitado para a casa do filho do vereador. Queria passar o fax para o número do Exército. Um homem com estaca no peito. Se o tenente não estivesse brincando... seria possível. Que coisa! Vampiros! Haviam chegado à delegacia por volta da uma hora da tarde. Neves nem descera do carro, zarpando para a casa de Leonardo. Estava demorando muito. Intercorrências? Algum problema? Será que o menino revidara? Preocupação. Terminou as tarefas. Ajeitou uma das celas. Só tinham duas para oito detentos no total. Duas vezes em seus quatro anos de polícia vira as celas cheias. Sem carcereiro. Eles é que tinham que dar um jeito. Tirou algumas cadeiras quebradas que haviam sido depositadas na cela e pedaços de ferro. Amontoou tudo no corredor. Não era faxineiro, droga! A outra estava pior. Havia se tornado um depósito de papéis e coisas quebradas. Ambas estavam cobertas de pó. Nem cogitou varrer. O menino que se danasse. Não ia limpar cela para ninguém. Se confessasse, ia mofar ali até a audiência ou transferência para uma detenção de menores. Não haveria vereador no mundo que tirasse aquele moleque da prisão. Cadê o Neves? Ia ligar para o Reginaldo. Duas e meia da tarde quando ouviu o carro do delegado encostando. Ansioso, foi para a porta. Lá vinham eles, o delegado, Leonardo e mais um rapaz. Parecia o enteado do Moisés. Leonardo de algemas. Neves o fez passar à frente. Por último, entrou o rapaz que acompanhava o detento. Leonardo sentou no lugar indicado pelo delegado. Bira correu para a máquina de escrever. Sabia o que fazer. Neves tomou o depoimento do rapaz, que tudo negava. A respeito dos disparos na parede, dizia ter sido um acidente. Não tinha nada a ver com o defunto na granja do seu Cazuza. — Mas o defunto tá com sua blusa de moletom. — Minha? Como, minha? — Sua mãe, Leonardo, sua mãe pôs uma etiqueta nela. Leonardo ficou quieto. Pensou. — Esse cara que morreu...

— Foi assassinado, Leonardo, assassinado. — Ele pode ter roubado minha blusa. Ele entrou lá e roubou. — E você deu uns tiros nele porque ficou zangado, não foi? — Não dei tiro nenhum, delegado. Não dei. — Por que disse que a campainha estava quebrada? Quando o Bira chegou e tocou, eu ouvi muito bem! Por que tirou a mesinha em forma de flor do meio da sala e arrastou para o corredor? Escondendo o quê, moleque? Leonardo ficou quieto. — Cadê a arma? Quantos tiros você deu? Ninguém dispara dois tiros por acidente... explica. — Não fala nada até o advogado chegar, Leo. Meu pai foi buscar. — Bico calado, pivete! Tá com ele nessa história? — inquiriu o delegado. — Pra cima de mim, não, ô Neves. Pra que essa banca toda? Cê não tá falando com marginal nenhum! Conhece a gente desde que nascemos. Conhece meus direitos. — retrucou João. — Você e seus direitos vão a pequepê. Seu colega começou essa história com o pé esquerdo. Não queria que eu entrasse na casa... onde tem fumaça, tem fogo. Cê fecha o bico que ele já está bem complicado. — Não falo nada até o advogado chegar. — Pois bem, vai esperar no xadrez. Bira, leva o moleque lá pra trás. — Pega leve, Neves. Meu pai não vai gostar de saber que você abusou do poder. — Não me tira do sério, moleque. Não me irrita. Tô sendo bacana com você, nem te enfiei a mão na fuça ainda. — bradou o delegado, erguendo a mão pro menino. — Com assassino é assim, na base do sopapo. Seu pai não vai gostar é de saber que tem filho assassino... assassino e impertinente. Não abra mais a boca na minha delegacia. Quer falar com o advogado, pois muito bem. Espera com o rabo no xadrez. Se abrir o bico, toma pau. Se chorar, toma chute. Tira esse menino da minha frente, Bira! Já falei! Os garotos perderam a pose com os berros ferozes do delegado. O homem estava uma fera. Passava a mão no bigode irritantemente e parecia a ponto de sacar o revólver da cintura e meter uma baía no guri. João recuou, dando passagem ao escrivão, que levava o amigo. Não disseram nada. Estavam com medo. Foi para a frente da delegacia e sentou na calçada: só restava esperar. O Sol forte das três da tarde incomodava um pouco. Moisés prometera arrumar um advogado quando o Neves saiu de sua casa arrastando o amigo algemado. Neves dissera que tinha evidências irrefutáveis. Leonardo estava encrencado e ia precisar de um advogado de cinema para salvar o rabo. Moisés era bacana, argumentara tudo, mas nada adiantou. A coisa estava complicada. Quando Bira voltou do xadrez trazendo as algemas para o delegado, Neves falava ao telefone com o dr. Artuin. Queria saber a quantas ia a autópsia. O corpo ainda não havia chegado. Neves desligou e discou para o Reginaldo, cobrando notícias. — Não acredito. Arruma logo esse negócio! Esse caso vai dar pano pra muita manga... uma hora! Porra, Reginaldo! Tá bom, tá bom. Apressa isso. — Neves desligou e olhou para o escrivão. — A viatura do IML quebrou. Saco. Vai demorar para chegar no legista. Daqui a pouco, é noite, e a gente ainda não vai ter tudo levantado. Se o advogado desse merdinha chegar, já queria ter o laudo da autópsia na mão, preparado. A gente viu o corpo por cima. Quem sabe o moleque não meteu uns balaços nas costas do homem, sei lá. O legista é que vai investigar, mas se o corpo não chega... ah! paciência! Vou fumar. Até eu já estou nervoso, tchê. Bira adiantou os papéis da prisão preventiva do rapaz. Teriam de fazer um pedido ao fórum. Agrupar todos os dados. A visita do delegado, o laudo da autópsia, as provas. O menino estava enroscado. Podia se safar, mas ia ter trabalho. O vereador iria voltar das férias mais cedo naquele ano. Apanhou uma folha nova. Datilografou algumas linhas, arrancou da Olivetti e foi ao fax. Sabia que Neves não aprovaria... por isso, não comentou nada. Aquele troço estava esquisito, já que o Exército pedira, tinham de saber. Um corpo com estaca no peito. Mesmo que tivesse sido o filho do vereador, sabe-se lá por qual motivo, a estranheza qualificava uma notificação. A máquina cuspiu uma tarjeta que comprovava a transmissão perfeita da mensagem. Agora sabia que não ia tardar uma nova visita do tenente-qualquer-coisa que viera de manhã. Paciência. A camioneta encostou em frente ao IML, uma casa pequena, com a frente revestida de lajotas vermelhas, cobertas por folhas amareladas que caíam da árvore frondosa na calçada, com as placas estatais que identificavam a benfeitoria do Instituto Médico Legal. Reginaldo estacionou a viatura logo atrás. Getúlio

destravou o compartimento traseiro e aguardou a chegada do policial para ajudá-lo. Até que fora bom a camioneta ter falhado. Tinha um ajudante num dia que era para estar sozinho. Carregar defunto não é nada fácil. Não é qualquer cidadão que está passando que se presta ao trabalho de ajudar. Getúlio foi ter com o dr. Artuin. Ia colocar o morto na geladeira ou direto na mesa para o estudo? O dr. Artuin queria direto na mesa. Sem demora. O agente voltou à camioneta. Agarrou a alça e tirou o gavetão. Reginaldo ajudou. Cara pesado. O agente cobrira o cadáver com um plástico preto que tinha uma protuberância central: o galho de árvore enfiado no peito. Coisa estranha. Getúlio orientou-o como tirar o corpo e depositá-lo na mesa. Fez o policial calçar um par de luvas plásticas. O dr. Artuin era chato nessas coisas. Queria tudo rigorosamente de acordo com as regras do livro. Vivia falando das regras. Que se divertisse com o traficante. Só podia ser. Um forasteiro, cara estranha, morto violentamente. Só podia ser bandido. Isso era coisa para o Reginaldo descobrir. Roda Velha não tinha crimes assim. Arruaça, tinha. O merda do moleque que ficava quebrando vidraça e mandando bilhetes obscenos para todo mundo. Coisa de interior. Queria entregar logo o defunto e rapar fora. Em casa estavam preparando as coisas para ir à Lagoa dos Patos. Um fim de semana revigorante era o que precisava. Nada de defuntos, nada de dr. Chato Artuin. Só lazer, mulherada de biquíni, Sol e água. Pronto, o corpo estava preparado para a autópsia. Agora, o dr. Artuin que se virasse. Profissão do caralho. Ficar mexendo em defunto. Não bastava o que aquela gente já tinha penado até esticar as pernas? Tinha ele que ir lá com o bisturizinho fuçar, cortar mais um pouco? Avisou o doutor. Puxou Reginaldo para fora. — Vou ficar aqui, Getúlio. Tô curioso, quero ver no que vai dar. — Ih, isso demora! Deixa o doutor aí. O cara é chato... faz as coisas devagarinho. Só sai laudo amanhã. — Com o Neves atacado? Duvido. — Tô falando. Não gosto do Artuin. É cheio de coisa. Não faz nada rápido, tudo no livro. Regrado, metódico, parece louco. Daqui a pouco, liga aquela merda de rádio. Sempre as mesmas músicas, parece até que gosta de revirar tripa de defunto. Cê já viu autópsia? Ele queria me ensinar. Idéia de doido. Ensinar-me pra quê? Fica tirando aquelas coisas nojentas. Fígado, vesícula, babento, credo. Meu negócio é pegar e trazer. Não quero, nunca, fuçar em barriga de morto. Deus me livre. Dá até um arrepio. — Mas tu tá muito apavorado, tchê. Tem que ter medo é de vivo, não é de fígado de defunto. — Eu não tenho medo, tenho é nojo. Coisa nojenta, Reginaldo. Um dia, pede pra ele te mostrar. Hoje não, vamo no Alemão. Olha a hora, o Exército deve ter ido embora e o bar deve tá aberto. Vamo logo que eu não posso demorar. Reginaldo coçou o queixo. Queria ficar. Mas o calor, o mormaço daquele fim de tarde... não podia fazer uma desfeita dessa com o Getúlio... um chopinho gelado... — Só um. — redargüiu o policial. — Só um e eu volto. Getúlio deu de ombros. — Vamos na viatura; deixa essa camioneta aí. Depois, não pega de novo... Foram. O dr. Artuin entrou na sala de autópsia. Acendeu a luz sobre o cadáver coberto pelo plástico preto. Retirou a capa. Seus olhos, acostumados aos cadáveres, não esboçaram reação. Olhou para o galho enterrado no peito do homem. Não era tão grosso. Como teria passado pelo tórax sem quebrar? Pontiagudo, provavelmente. Ferimento estranho. Aquele corpo daria um laudo e tanto. Soube disso nos primeiros cinco segundos de observação. Sem sangue no ferimento aberto pela madeira. O homem já estava morto quando o galho entrou. LaceraçÕes pósmorte, sem sangue. Estranho. Apanhou um instrumento afiado, maior que um bisturi cirúrgico, cortou a camisa e as mangas da blusa de moletom, deixando-o nu na parte superior. Mordidas de animal roedor no membro superior esquerdo. Examinou a manga esquerda: estava roída. O ataque dos ratos fora na granja. Rigidez cadavérica. A primeira vista, parecia morto há menos de doze horas. Abriu a boca do cadáver para examinar as vias aéreas. Narinas desobstruídas. Nada na garganta, nem resíduos de alimento. Examinou os dentes. Brancos. Caninos pontiagudos. Demorou olhando para os caninos superiores. Um tanto proeminentes. Dentes estranhos. Afiados. Aquele homem não deveria ter dificuldade alguma para rasgar carnes duras no churrasco. Causa mortis? O galho fora traspassa-do no tórax após o homem ter morrido. Isso era evidente para o legista. Era melhor removê-lo. Talvez o idiota autor daquela maldade o tivesse feito para despistar. Segurou firmemente o galho e arrancou-o num puxão só. O corpo estremeceu. Artuin, acostumado a espasmos post mortem, assustou-se. Que diabos era aquilo? Diacho de morto esquisito? Essas coisas passavam pela cabeça do legista, que permanecia estático, olhando para o cadáver, segurando o galho com

— resmungava o pinguço. mas português. Caçando vampiros. após o pôr-do-sol. Bêbado demais para ficar com o corpo ereto e parado. Detiveram os demônios. Fora o tal que no B. pareciam na pista de algo. e colocou o galho em cima de uma prateleira ao lado da mesa. Silvinho disse apenas que o homem falava como português. Estavam caçando. Não gostava do Exército. A testemunha inclinou o corpo. — Ele era português? — Sei lá. Apanhou um bisturi. Precisavam ser localizados. dando cobertura ao tenente. Levantara o nome de dez testemunhas da confusão armada por um forasteiro na noite anterior no bar do Alemão. Riu. Társio Costa. fora o cabo Souza. Fora atacado por um homem com dentes grandes. seguindo o do tenente. Tinha sotaque carregadíssimo. como nas lendas. O escrivão dissera que o homem estava bêbado. Fora arremessado. citara dentes de leão. Podia estar imitando? Não sabia responder. mas agora. Ao menos. com o Sol poente. Tinha um sotaque estranho. Quem conduzira o interrogatório. levantando-se com dificuldade. Sol poente. — disse o homem. Atacados por animais selvagens. — Vamos. destruídos. O soldado quase tomou as chaves da mão do pinguço para agilizar a missão. Estava lá agora com uma coleira no pescoço e um braço lesionado preso numa tala. Isso nunca! Falara demais com os repolhos. Encarou o morto uns instantes. Brites ouvira o homem atentamente. Não deveria ter muito mais de quarenta anos. Um bicho. Cobertos por neve. não pode. Buscando a morte. não sei. Veio caminhando lentamente até o portão. Confirmou tudo o que disse na delegacia na noite anterior. atentos. O balconista resolveu partir pra cima do cliente. Já volto. — Bá. Abandonaram a casa com o portão escancarado. Ninguém admitia. — Desculpa. Fizeram ataques pelo ar. Os soldados desciam. Teriam um confronto? Ouviram as histórias mais estranhas referentes aos últimos embates. português mesmo. tentando tirar o molho de chaves do bolso.. Agarrou-se aos ferros do portão para não cair. Quê tu quer. a pior época de sua vida. Um barulho na porta. Não era uma testemunha confiável. Cinco jipes do Exército encostaram próximos à casa. após recuperar-se do susto ligeiro. Restava o último nome. Um homem surgiu. trazendo cada um seu FAL. Perderam um helicóptero. Droga. Olhavam ao redor. Disse apenas que bateu com um bastão no braço e no estômago do português. Társio caiu sentado. acossados. pelo mar. — ordenou Brites. Era tudo. Era para isso que estavam ali. podiam andar pelas ruas. caindo dentro do bar. O homem cambaleou. Mas restavam dois ou três. que não sentiu um tiquinho de dor com as porretadas e depois não lembrava mais nada. todos ganhavam uma dose a mais de ansiedade. Ansiosos para voltar ao posto em Amarração. As outras testemunhas pouco contribuíram. Brites sentia-se cansado. Soldados mortos no gelo. Preciso tomar um remédio. voltando para dentro da casa. Deveria ser um ET. Um freguês queria pendurar duas latas de cerveja. disparado. Abra o portão. Conversaram com ele. — Se eu não tomar um negócio. com as perguntas redigidas pelo tenente. Eu tô mal pra cacete. Vamos descobrir o que te matou. — Fica quieto. Passos incertos. Bêbado. buscando pistas. De acordo com as instruções. Não pregava os olhos há horas.firmeza na mão esquerda. Os jipes dispararam pela rua. Estavam cansados e famintos. com flores enfeitando o passeio. como vou poder ir pro bar hoje à noite? Isso não pode acontecer. O serviço militar obrigatório fora. onde teriam comida e descanso. coronel. Queria distância. Conversas desencontradas. que confusão é essa na minha porta? Tô preso? — Você é Társio Costa? — Sou eu mesmo. Era português? Era. eles que fossem falar com outras pessoas. Não diria aos homens do Exército que o português maldito fizera os olhos brilhar.O. Era casado. — Senhor Társio Costa? — inquiriu o soldado. Um soldado acionou a campainha da casa. Sol na cabeça. O céu rosado revelava que teriam pouco mais de . piá? — O cabo Souza tem umas perguntas para o senhor. Brites examinava o sujeito. piá.. aquelas criaturas. Seria tomado por louco. Diligências a tarde toda. O quintal limpo. O soldado afastou um passo bem a tempo de livrar-se de um jato de vômito. O motivo da confusão fora frívolo. Nenhum deles queria passar a noite longe do grupamento.

Por que matou o cara? — Não matei. teria que liberar o menino.. Só depois do laudo do médico poderia voltar a pôr as mãos no moleque. eu nem disse que a blusa era preta. O moleque era menor. Neves. Artuin levou a mão ao peito tamanho o susto desta vez.. permissão para falar. senhor. Neves. enfiou a mão pelas grades e puxou Leonardo violentamente. suaviza a coisa. Sotaque português. Os tiros de ontem. Por que matara o forasteiro? Tinha que saber o motivo.. Espremia o rapaz.vinte minutos de luz do Sol. Queria saber o motivo. Quem manda aqui dentro sou eu. Queria uma confissão. Foi você que matou o desgraçado. mas também conhecia a fama do delegado. caralho! Fala! Foi por drogas? Dinheiro? Cê tava devendo? Tô querendo te ajudar. — Não enche. O dr. Já foi o tempo. e daí? Mas você tem que me ajudar também. Nenhum advogadozinho de porta de cadeia vai livrar seu rabo. O rosto marcado por barras vermelhas. Não deixo e ponto. Tá achando que aqui manda coronel? Aqui não tem mais disso. Preso?! Meu pai vai acabar com sua raça. Sabia que quando o advogado chegasse. — Tenente Brites. O jipe do tenente conduzia a tropa para a praça central de Roda Velha. Com a noite entrando. batendo forte contra as portinholas da geladeira de guardar defuntos. O operador correu até Brites. — Se acha que eu sou burro. Neves? Explicar que o cara foi morto com um pedaço de pau no peito? Sem tiro nenhum no corpo? — murmurou Leonardo. Abre o bico. Neves? Acha? — gritou Leonardo. Providenciaria comida aos homens e descanso para os mais debilitados. Encostavam na praça quando chegou uma mensagem pelo rádio. — Seu pai não acaba com a raça de ninguém. Lusco-fusco.. . Um maluco aparece aqui na cidade. mesmo com a prisão ilegal. A verdade era que Leonardo estava nervoso e com medo. — Cê tá enrolado. cê deu uns tiros. O dr. Se o advogado amigo do Moisés demorasse. Porra! Deixa-me em paz! — Eu sei que matou. — Vai. Não matei aquele desgraçado. Viu ele roubando suas roupas do varal. Moleque safado! Tinha ouvido sua conversa com Bira. a mão mexia! Na delegacia. a gente complica também. Como. com o rosto comprimido contra a grade. Artuin estava demorando com aquela merda de autópsia. sim. Quando você viu? — Não falo mais nada. Quero saber o porquê. Com uma confissão. Agora vai ter que explicar. Não enche! — Roubou? Aí você deu uns tiros. Um calafrio poderoso fê-lo tremer e arrepiar da cabeça aos pés. Leonardo. Neves. Cê vai me pagar.. — Não matei ninguém. Neves. e olha que a gente nem encostou em você. Sabia que podia ficar calado. — Pode falar soldado. como podia? O morto. Não é isso que eu quero saber. Só podia ser. Neves bufou. Cambaleou. A coisa toda já tá clara.. Você arregaçou o cara na bala. teriam chance de voltar a rastreá-lo. Tá vendo? Não falo mais. lembra? — Não foi isso. filho. se você complica. não foi isso. se tá até chorando. A não ser que ele mesmo tivesse cravado o galho no peito do defunto. Aqui mesmo em Roda Velha foi encontrado o corpo de um homem com uma estaca no peito. Não enche. Você viu o cara. Isso você não precisa negar. não. O que o pai ia falar? A mãe podia ter um troço. Quer dizer que você viu o cara. você já sabia. A prisão fora ilegal. Se ele tava com a minha blusa preta de moletom é porque roubou. moleque. Pra começar. Pronto! Neves. saindo do alcance do delegado. fazendo o rapaz bater a cabeça nas barras de ferro. uma suspeita forte.. Neves relaxou a mão e Leonardo apressou-se em se afastar. as coisas ficariam mais fáceis para ele e complicadas para Leonardo.. — Abre o bico. Eu não fiz nada. mas precisaria da autorização de um juiz para botar as mãos em cima do pivete. O que há? — Fomos avisados por Amarração da chegada de um fax. Força sobre-humana. zonzo. não é? Se acha o tal. nervoso. com lágrimas nos olhos. dentes proeminentes.. — Você se acha esperto. — Tá vendo.. Tinham de ficar alertas. sem flagrante. puta que o pariu! Cê tá fodido. moleque. Fala. meu Deus! A mão. Leonardo. temia por sua integridade física. O morto. Havia indícios fortes de que o arruaceiro do bar do Alemão fora um dos vampiros. a gente leva em consideração. a gente vai descobrir mais tarde. — Explicar o quê. Se você colabora. Neves estava no corredor da carceragem. de supetão.

Murmurava algo. Na sala de autópsias. O legista começou um pai-nosso. O homem falava de um lobo.. Os mortos que havia cortado a vida toda estavam se vingando através daquele maldito falante sentado na mesa de exames. Pelos fundos? Haveria escapatória? Muros altos. — Eu não matei ninguém! — gritou Leo... ainda de costas. Só podia.. Tinha que pegar a chave. As pernas bambeavam.. Quando o homem sentou-se na mesa. Lembrou-se. veio ao seu encontro. Suor frio brotou na testa. passinhos curtos. O braço flexionou. Fugir. Um legista vai fazer. Nem parecia português. Não matei ninguém! . Se fosse devagar. O legista estava passando mal. O coração disparado de Artuin havia deixado todo seu corpo quente. se do corte no peito não vazava sangue algum? O coração parado! Coisa do demônio! Só podia ser. A chave? Onde? Lembrou. Entrou num corredor. falando com um rapaz nervoso. Sem chance para espasmos pós-morte. Sentia-se preso num pesadelo inusitado. aproximando-se da porta...Um alvoroço montou-se na praça. não eram. atrás da mesa. pensando. — No necrotério. O corpo parecia num transe. Bira. O homem. Lanças. O homem nem o deixara falar.. Apanhou o bisturi com lâmina maior. O tenente parecia histérico. Artuin não conseguiu mais ficar. entendeu uma palavra. ao lado do ex-morto. com aquela cara de quem não dormia há um século. Avançou na direção apontada. As palavras que o homem pronunciava. — Foi você quem cravou a estaca no peito.. de frente para a porta da sala de autópsia. Controlou os espasmos. — Quem é você? já perguntei.. o escrivão que o atendera de manhã. Brites invadiu a delegacia de Roda Velha. Deus do céu! O cadáver estava vivo! Como? Como. talvez o maldito não o ouvisse. Arrastava as costas na parede.. Palavras desconexas. Uma bolsa velha no canto da recepção.. A chave. o coração disparado. Parou no batente da porta. silencioso. de costas para a porta. — O delegado está com o assassino aqui no xadrez. Um demônio. Não. Ar escapando dos pulmões. Trancada! A porta estava trancada! Santo Deus! A janela ampla da recepção era protegida por uma grade contra invasão e agora impediria a fuga do legista. não estava pronto para aquilo. debruçado na grade de uma delas. deixando na língua o gosto acre e ácido do líquido estomacal. — Tenente. português misturado com espanhol. hipnotizado pelo evento.. Abriu a porta atrapalhado e correu pelo corredor da pequena casa que servia ao IML.. Ia vomitar a qualquer segundo tamanho o nervoso.. O morto. Artuin arrastou-se. Atravessou a recepção e girou a maçaneta.. O morto. Um líquido quente veio até sua boca e depois foi engolido mais uma vez. transtornado. Bira estava confuso. passo a passo. Fez o sinal-da-cruz e passou pela porta. ansioso. Uma arma. o delegado. a palavra lobo repetida diversas vezes. — Autópsia? Vai tirar a estaca do peito do vampiro? Não pode! Onde fica esse necrotério? Temos que correr! — gritou o tenente. Estava agora bem perto da prateleira onde deixara o molho de chaves.. com medo de entrar. Nada de chave. mas instrumentos de autópsia. Os olhos correram pela sala. — Onde está o corpo? Onde está o corpo com a estaca? — indagou o militar sem prestar atenção à saudação que o escrivão ensaiava. Duas celas. Tinha medo de cair. Como matar o que já estava morto? Encostou-se à parede do corredor. Artuin. Olhou para o rapazote aprisionado. Brites aproximou-se rapidamente.. Artuin podia vê-lo. Pé ante pé. o militar não esperou a conclusão do idiota do escrivão. Ouvia a voz do morto.. — Não falo nada. sentado na mesa de exame. A voz diabólica do ex-morto entrando em seus ouvidos parecia furar os tímpanos. com medo de estar ao alcance dos braços roídos por ratos daquele forasteiro vindo do inferno. Artuin jamais presenciara tal fenômeno. Balbuciava coisas inaudíveis. Contrações estomacais. Outro calafrio. preciso saber. Santo Deus! Um movimento curto. ainda mais agora com um militar com cara de serial killer adentrando a delegacia. Abriu-a. uma tremedeira. mas repetitivo. — Escuta rapaz. parecia examinar a ferida aberta pelo galho de árvore. Mais uma vez. Tinha que pegá-la.. Artuin percebeu um sotaque. — Quem é você? — perguntou Neves. junto da mesa de exame. Decididamente. quando o morto produziu um barulho.

Uma euforia cresceu no peito. — Era um vampiro. Podiam estar a um passo. acredite. — Fui eu. Brites virou de repente. Não temos tempo a perder. de frente para a porta aberta. Ia ser uma noite longa. Fitou o menino magro e assustado trancafiado ali dentro. Quisera Deus. Tarde demais. O garoto estava enlouquecido. Fantasmas. — Aquele moleque não está mentindo. Um tique-taque macabro em seu ouvido. Estava puto da vida. — Cale a boca! — esbravejou o tenente. O menino falando mais que locutor de rodeio. que ia em direção a um jipe parado na frente da delegacia. os ouvidos do delegado foram tomados pelos gritos de Leonardo. mas eu enfiei um galho no peito dele e o matei. delegado. Mais soldados amontoaram-se em frente ao IML. Trancada. Ainda mais com a baboseira de vampiros. — Eu estou falando com o moleque! — Quem você pensa que é para chegar gritando comigo na minha delegacia? Brites ignorou a pergunta de Neves. pelo bem dele e pelo nosso. destravou o municiador e checou. desde a visita à casa e há uma hora naquele lenga-lenga no corredor da carceragem. O piso cheio de sangue. tenente. Recolocou a munição na pistola e sentou-se na cadeira de couro. O braço arrancado. Sinalizou. Um jipe ficara para trás. Fala logo para facilitar as coisas. estacionado ao lado do distrito. saiu do corredor. Ninguém atendeu. Matei o vampiro! Matei! Matei! Ninguém ia acreditar. Agora. Bateu com a coronha da pistola. fui eu! Ele tentou me matar. — Vampiros não existem! — berrou o delegado. sim! — emendou Neves.— Matou. dando cobertura. Pressionara tanto. com lágrimas enchendo os olhos. guri. Disse que ia me matar. Brites entrou primeiro. Pegadas de alguém descalço dirigindo-se para os fundos do IML. Sem reposta. não era? Você enfiou a estaca no peito do vampiro? Um arrepio poderoso percorreu o corpo de Leonardo. Neves entrou.. para perto do tenente. um vampiro! Vampiro! Brites deu meia-volta e. Vampiros não existem. Nenhum frio sobrenatural. olhando para a rua. que continuou golpeando a porta até vencê-la.. ávidos para colocar os fuzis em ação. aquele militar filho da puta o fizera falar com duas perguntinhas. — Delegado. A trilha de sangue terminou no quintal dos fundos da casa adaptada para o Instituto Médico Legal. peça ao legista para não tocar no corpo. O silêncio na repartição pública não inspirava boas novas. com certeza. um passo de cada vez. prontamente acompanhado por dois soldados armados com fuzis. Estava cheio. Vampiros. aproveitando o nervosismo despertado no suspeito pelo aparecimento inesperado do militar. Confessando o crime. Nem tempestades fora de hora. Alguém que o entenderia. O motorista deu partida no jipe e já começava a rodar quando o tenente respondeu: — Quisera Deus. Bira correu em direção ao jipe sob o olhar sisudo e repreendedor do delegado. sacando a pistola do coldre. retirou a pistola da cintura. derrapando e parando em frente ao IML de Roda Velha. Que coisa de maluco! Quando a barulheira dos veículos do Exército desapareceu. Podiam esconder-se nas sombras. Um alerta com que ainda não se habituara a lidar naqueles dias de caçada. Sangue no chão. O tenente alcançou a porta da casa. Neves ficou parado feito tonto alguns instantes em frente à delegacia.. como se quisesse arrancá-las. O jipe freou. Um corpo decapitado. Um tanque de lavar roupas. Desatou a falar. delegado. pôs as mãos na grade. Perdi centenas de homens nesses últimos dias caçando esses filhos da puta. passando por Bira. saco! — Que merda é essa? — gritou às costas de Brites. Deu duas ombradas violentas contra a porta. assustando o experiente delegado Neves. Alcançou o corredor. e girou nervosamente a maçaneta.. Entrou na sala de autópsias. Digitou os números do IML. não duvide. Até o Exército tá querendo você. Brites desceu. Olhou para o corredor da carceragem. Onde fica o IML? Não podemos perder tempo. Neves seguiu-o. braço estendido. Sabia que tratava com criaturas traiçoeiras. Os malditos já tinham perecido. cada uma segurando uma barra vertical. Correu para a grade. Devolveu o fone ao gancho. Gesticulou para um dos soldados. Queria me pregar aqueles dentes pontudos. ligue para o IML. — É melhor abrir o bico. Era como se alguém lhe despejasse um balde de água fria na cabeça. — Eu te levo. Desapareciam e apareciam como coisas feitas pelo demônio. acelerado. com a poeira levantada pelos jipes ainda assentando. pistola para frente. O coração experimentado do tenente acelerava conforme avançava para os fundos. tomado .

Instantes atrás discutiam se algum dia encontrariam aquelas criaturas de quem tanto se falava ultimamente. Abocanhou a cabeça de um adversário que se apoiava no capo do veículo. Um animal excepcionalmente grande. Crianças corriam horrorizadas. tanto que quando bateu no mecanismo para destravar o fuzil. A porta aberta. Lobo sentiu uma bala penetrar o membro dianteiro. à solta. Um homem debatia-se sob suas patas. Um vulto veloz cruzava a rua. O vampiro estava na cidade. A hora do vampiro. O ódio queimava o pensamento primitivo. cruzou o ar. A presa não estava longe. assassino. Um medo primitivo tomou conta de sua mente. Uma máquina de matar. Eduardo efetuou os primeiros disparos. A boca imensa salivava. em alta velocidade. — Liguem os faróis. galopando. Pelas ruas estreitas de Roda Velha. Fixou a direção e disparou em galope. abraçava as pernas e só ouvia. O monstro que abatera o helicóptero em Porto Alegre. A fera chamada Lobo. Num salto. Perante o oficial. Escuridão. com a arma de fogo. Os outros soldados viraram-se com o grito. Eduardo limpava o fuzil que nunca precisara disparar fora do quartel. sentado no chão. A poeira deixada pelos jipes acabava de assentar. Queria encontrá-lo. Um monstro descrito sob centenas de formas diferentes nos últimos dias. Era um monstro. Um monstro horrendo. Neves sentiu novo calafrio. Uma criatura coberta de pêlos escuros e aparência selvagem. mas impossível não notar aquela estranha silhueta. O cigarro caiu da boca do soldado Laerte. Era o cão. Três disparos atingiram suas . mas não era. dando as últimas instruções antes de entrar no jipe. arrancava membros com a facilidade de quem tira manga de árvore. Que droga era aquilo?! Correu para a porta com a arma na mão. Disparos potentes de fuzis. Neves empunhou a pistola e começou a disparar. Lobo ergueu a narina e levantou-se. Ao menos agora. Não teve tempo de reagir quando um deles voou pela porta e arremessou-se ao chão tentando esconder-se atrás de uma mesa. Um dos malditos. A fera saltava ziguezagueando. Não queria matá-lo. O detento também percebera a agitação. Os soldados. Um urro selvagem. Não controlava as pernas quando elas o carregaram para dentro da delegacia. evitando os disparos das armas poderosas dos soldados. A cobertura do jipe afundou com o peso da fera. Estaria louco o Eduardo? O sangue gelava nas veias à medida que a sombra da fera crescia ligeira na rua escura. A mão encheu-se de suor. apoiado em duas patas. Dobrava a primeira esquina. outra vez. caindo em cima do jipe. O medo puro estampado nos olhos. Primeiro. Leonardo não soltava um pio. cada um estava tragando seu cigarro. Lobo viu um segundo soldado abandonar o fuzil e fugir. O ódio era maior que a dor. fora dos exercícios de tiro. cruzava com transeuntes que gritavam apavorados. Foi Eduardo quem notou primeiro. fazendo-o se jogar num dos cantos da sala de entrada. O terceiro soldado debruçou-se no capo do jipe para firmar mira e começou a atirar. desceu do jipe e caiu com um joelho no chão. Seria amaldiçoado. O soldado Ferreira sentiu o coração bater descontrolado. não podiam relaxar. quando um uivo sobrenatural entrou pelos ouvidos. no interior do veículo. Se houvesse alguma pista vital. Na rua. Não criaria problemas. Não economizem munição. Aquele em forma de lobo. A rua era precariamente iluminada. que decapitava oponentes. Os pêlos das costas eriçaram. Um homem sentado na cadeira de couro. Passava a mão pelo rosto. mirando a silhueta galopante que se aproximava veloz. inúmeros dentes pontiagudos exibiam-se. tentando organizar as idéias e esquecer os gritos do detento quando o som dos primeiros tiros chegaram. Instruiu-os com as viaturas. guardava o último traço do vampiro.pela poeira. Não sabiam que a decisão de ficar seria também sua sentença de morte. O garoto. e avançava rapidamente. depois. O fedelho teria algo pior. alguma chance de identificar o vampiro. O rapaz que o vencera. O cadáver encontrado ainda tinha o corpo quente. Homens urinavam nas calças. Não fazia mais de um minuto que o delegado Neves se acomodara na cadeira. Ia voltar à delegacia. O delegado levantou-se. Sentiu um calafrio. Benziam-se. O cheiro do ousado rapaz que lhe cravara a estaca no peito convidava-o para mais um embate. Um monstro feroz. Não. Ficaram contentes quando souberam que o tenente havia pedido que ficassem. Destravou o fuzil e empunhou a arma. Lobo! A fera rosnou furiosa. Vasculhem as ruas. Estava. Subestimara o corpo mirrado e o jeito medroso do menino. Algo de ruim estava acontecendo. Mulheres desmaiavam. Briga! No jipe estacionado ao lado da delegacia estavam quatro soldados. Primeiro. Uma pequena construção no outro lado da rua. Lobo alcançava quase três metros de altura naquela posição. Mais tiros. Quero esse vampiro! — bradou. Gritou alucinado. pensou ver um cavalo. Brites olhou para o céu. Brites e os homens saíram. com a madeira. só o menino poderia ajudar. homens uniformizados agitando-se. A marca de sangue dizia que a criatura usara a peça como ponto de apoio para transpor o muro. os dedos escorregaram. Tinha de falar com o garoto. Era um deles. O monstro que comera um de seus amigos.

O garoto levantou-se assustado. Com os gritos da vítima tomando a cena. Estava fora do alcance do monstro e agradecia a Deus por Neves ter falhado ao abrir a cela. Brites sentiu o ar pesar e um mormaço desconfortável tomar conta de seu corpo. Leonardo sentiu o bafo quente da fera atingir o rosto e o urro descomunal ferir os ouvidos. avançou um passo e urrou o mais alto que pôde. Brites devolveu a arma ao coldre. Não merecia continuar vivendo depois de tantos dos seus terem morrido. Poderia. . ali no corredor. A lista de baixas aumentava. Perdeu os sentidos.costas. O cansaço voltando. O pesadelo continuava. nenhum vestígio. Vingança. Sem trégua. Brites saltou antes do carro parar. Sangue no chão. Poderia fazer. A presa que buscava estava ali. Lobo agarrou as barras de ferro com as patas poderosas. — Vamos. evitando chamar a atenção da fera bestial. cruzava a porta. fazendo o metal ranger e envergar-se lentamente. estático e incrédulo. O pesadelo sem fim. Aquele morreria em poucos segundos. O soldado Ferreira chorava no canto da sala como uma moça traída. Lobo. Leonardo encostou na parede e sentou-se. delegado? Neves não respondeu. O jipe militar freou. O menino chorava. soltando um grito de pavor. Caralho! Um rosnar. tentando encontrar a chave. A cela. esmagando o delegado no chão. sem descanso. Não tinha culpa pelos demônios existirem. o delegado. Triturou o braço do soldado que tentava efetuar disparos. — Que foi isso. Pelo amor de Deus! Eu não queria isso! Juro! Eu não queria isso! — gritava Neves. Leonardo gritou horrorizado. Inspirou prolonga-damente. chorando. Sai daqui. Um homem no canto da sala. Empregou mais força sobrenatural arrancando a grade e parte do reboco. Ergueu a pistola e encostou o cano na cabeça. Seus homens chamando. Então. abocanhou ombro e peito e arrancou pele e músculos. deixando as costelas do soldado à mostra. A derrota. O homem que disparava da diminuta porta havia desaparecido. Lambeu o sangue quente e doce que vertia do pescoço do corpo espasmódico que tombava ao lado do veículo. Quatro explosões até a pistola começar a expelir apenas um cliqueclique. A fera levantou-se e olhou para dentro da cela. Encostou a cabeça na parede fria da cela. Um urro ensurdecedor encheu a carceragem. Chave errada. Os olhos da presa congelaram. morto no corredor da carceragem. trazendo sangue e vísceras para fora. Leonardo pôde ver na íntegra a razão de tamanho pavor. Do garoto. triturou o crânio. Graças a ele. Movia-se o mínimo possível. Mais uma vez. Passos no corredor. O ar faltava no pulmão. O policial não se mexeu. Lobo avançou. Letal e horrível. mas teria de acabar com a raça daquele lobo dos infernos. A fera. Um salto para trás e avançou a boca para dentro do carro. Neves?! Responde! O delegado começou a atirar. estava a salvo. Virou-se. Jogou o molho para dentro da cela. Estava cansado. dilatando e movendo as narinas. Lobo voltou à posição quadrúpede. Poderia até fazer aquilo no final da história. Incapaz de vingar a morte de tantos homens. mas o fardo era pesado demais. Um monstro peludo voou pelo corredor. sem munição. Neves estava morto! A barriga aberta e o monstro desproporcional com as patas dianteiras em cima do corpo. Precisava descansar. revirando o molho. Tudo recomeçando. Puxou o molho de chaves com a ponta do pé. fora um inútil. Neves ficou paralisado. Leonardo quase atravessou a parede de concreto tamanho era o desespero alimentado pela cena. Retirou a cabeça de dentro do jipe. Teria Lobo devorado o menino por inteiro? Bem provável. apavorado. — Que aconteceu. sempre grunhindo de modo animalesco. Puxou a porta. moleque. Urina. Um inútil. Não traria problemas. provavelmente já estava morto quando o monstro levou a bocarra escancarada de encontro ao ventre do homem vencido e levantou-a. Com duas mastigadas. Voou pela porta da delegacia. Precisava de paz. Os homens mortos. Sentia-se assim. destruída.

Fosse o que fosse. O frio nada incomodava. Um silvo ardido fez-se ouvir. repentinamente. Nunca temera Inverno. Linda. Estava na floresta. Tiago despertou sobressaltado. Um homem mediano.. mas sabia que era o demônio. Cesão. extinto pelo artefato nuclear. Estava curioso quanto à silhueta que tomava forma dentre as árvores. — . Talvez já soubesse. nas árvores. Girou sobre os pés. Uma estátua opaca. Inverno. O vampiro congelado. A névoa se afastando lentamente. a melhor definição seria: Inverno congelou. esguio. Sua pele estava retraída. imponente. O demônio. cabelos longos. Um frio sobrenatural dominava o ambiente.CAPITULO 17 Tiago ouviu uma risada prolongada. e. César não retrucou. nada de pele vermelha. pronto para o ataque. O vampiro Inverno.. Tiago não se incomodou. seu corpo. num raio de trinta e poucos metros. com a cabeça e o tórax ainda muito doloridos. Ai. Desarmou a guarda. os ouvidos captavam o crepitar da grama congelada. O corpo morto não produzia mais o calor das células vivas. o que fariam? Fugiriam? Abandonariam o amigo? César não quis comentar sobre a mancha de sangue em Tiago após o encontro com o policial rodoviário nem da impressão de ter visto os olhos do amigo se iluminarem no encontro com Sétimo no fundo do Luxor Hotel. Posicionou-se de modo que o cutucar ficasse bem na testa. Estranho. tô pensando o pior. aos poucos... estava na sua frente. Um vampiro aproximando-se. tenho medo. O corpo doía. forte. foi envolto por uma fina camada de gelo que preservara com riqueza de detalhes os contornos do vampiro. Literalmente. obrigou-o a mudar a disposição dos pés para equilibrar-se. cansado e estressado. As árvores estavam distantes. O frio sobrenatural intensificou-se. magro. ouvindo a amiga. Saiu com o diabo ontem à noite e agora passou o dia todo na toca com o monstro. Desta vez. o maldito vampiro? Farfalhar de asas. Tiago deu seu primeiro passo. César estava sob efeito de medicação forte.. Sabia tornar os músculos rijos como rocha. Tiago estava diferente. fria. se movia. . César colocava uma porção de enlatados no armário. Inverno parecia sorrir. poderosos. Era um sonho. aprendia mais e mais. Tiago. o vampiro Gentil. Nada de chifres. O que fazia o maldito Inverno em seu sonho? O que quer que fosse. forte. Tiago só fora salvo pela poderosa intervenção de Miguel. Um vento gelado. Entristeceu-se. Na ocasião. que cerrou os punhos e preparou-se para a luta. Lutaria. Estranho. velozmente. não queria tirar conclusões apressadas. Olhou para o pássaro que agora planava rente à grama. Som de passos. Um vento forte cortou a relva.. O homem parou a uma certa distância e disse: — Cuidado. Tiago tornara-se um deles. Abriu a boca e exibiu os dentes transmutados para o adversário que tudo congelava. Pálido. mas. Só quando ele próprio. Confuso. Um calafrio. Tiago relaxou os músculos. Seu rosto no rosto de Inverno. O gramado crepitou sob o peso de seus pés.. lá vinha ele. escondido pela neblina ainda existente. Quando contaria a Eliana e César? Quando saberiam que havia se tornado um vampiro maldito? César talvez desconfiasse. Guilherme franziu o cenho. Cesão. Ele tá estranho. Nenhuma luz. Sabia que o vampiro Guilherme estava acabado. Um homem alto. A lua no céu. Já dominava a velocidade vampírica. Frio. que ganhou força e mais força.. Os olhos apagaram. Não estava no porão da casa alugada.. Arvores. Um vampiro. Uma neblina espessa não deixava seus olhos vampíricos desvendarem muita coisa da paisagem. Reparou que a respiração não exalava mais nuvens de vapor. vermelhos. Virou-se. Estava num gramado. arrepiada. disparou na direção de Tiago. Olhos que brilhavam. Fazia os olhos cintilarem para aprimorar a visão. Uma impressão ruim. Caminhou vacilante até Inverno. Olhos chamejantes. Já o novo visitante parecia não ter peso. Aliás. A névoa quase não existia mais.. Sabia o que a amiga estava pensando e temia do mesmo modo. — Estou preocupado com Tiago. Um vampiro cruel que se alimentava do medo e do sangue. morta. Inverno deveria saber que ele agora era um vampiro de fato. Era como se estivesse despertando de um sono extenso. de meses. Olhou ao redor. Se a suspeita se confirmasse. intimidador. Um homem caminhando lentamente. Onde estava? Que lugar era aquele? Cadê Sétimo. Desde o confronto com os vampiros. Tiago acendeu os olhos. temia menos ainda agora que era um vampiro também. O campo verde parecia coberto por uma fina camada de gelo.. Um latejar insistente na cabeça. que mudava de lugar quando girava o corpo. De um segundo para outro. Seu corpo refletido na estátua de Inverno. em advertência. Uma coruja. Nenhum som. Um latejar que indicava uma direção. Inverno parou no meio da corrida. Outro calafrio. Um pesadelo..

escuro para olhos humanos. imitando o sotaque do rapaz. Temia que a amiga se chateasse por não esperar a refeição preparada com atenção. — Nem comer ele está comendo. é só tu me ensinares. Muito estranho. Mas. Não sei explicar. Não podia ser. Está estranho. só ouço vampiros. Sentiria o cutucar na cabeça ao querer detectá-los. Respirava rápido. mas eu consegui acabar com a raça dele. É de pirar. Será que ele virou um deles? — Não sei. pai. — O que vai fazer agora que está livre? — Temos um trato. Mas era um vampiro .. Se ele comer. eu senti na pele a raiva dele. andar. Até a chegada da noite. Sétimo. O frio. de meus poderes vampíricos. estendendo um pote para Eíiana. mais nada. com a raça do Lobo. Recorda-te? Me ensinas a ser uma garça dentre as garças. observando o monstro em forma de menino. — reclamou a mulher. vai ter uma puta dor de barriga. Ele só não sabia que a moça se sentia aliviada cada vez que Sétimo se afastava. Tem que considerar isso também. Depois vou te mostrar. — comentou o rapaz. deixando a noite ganhar o céu. e era justamente isso que a impressionava. Sétimo. — comentou. Sétimo entrou na cozinha. Mete isso em tudo. cá estou de volta. o rei dos vampiros. e os últimos raios do dia invadiam o recinto. que vivia numa cidadela à beira-mar. Eliana e César sobressaltaram-se. O maldito ainda está vivo. Ainda não sei. — Vamos sair. Acabara de despertar assustado em função do estranho pesadelo. — Pensei que você fosse arder e esfumaçar até tornar-se cinza. Acabo. me foi permitida a tolerância à luz do Sol. que a amedrontava. — Todos nós passamos por uma experiência estressante nesses últimos dias. por exemplo. O maldito fora consumido pelo fogo da bomba. pai. pois de Brasil é chamada esta terra. descompassado. fugir. César riu. achei que você não suportasse o Sol.. — Foi assim no passado. atingindo o vampiro. Um brasileiro. estavam negros e insensíveis à luz do Sol. Lembrava-se do frio. Eliana continuava calada. César olhou para Eliana.. disso eu vou gostar. mergulhar. O que causara o estranho fenômeno? Chegou a alarmar-se. Eli. tudo isso é demais pra cabeça da gente. Não seria possível. O Sol escondia-se atrás do morro. Guarda um pouco pro Tiago. Eliana rompeu o lacre da embalagem. Tu põe bastante na comida. estava gelado. Olha o que eu comprei. — Bá. Aquele Lobo. abriu o forno e espalhou um pouco do produto sobre a carne. não tenho a plenitude de minha força. é porque não virou vampiro. atacar quase como um mortal. Inverno. como nos filmes. Agora só vejo. Dormiu o dia todo. Eli. como dizia. Minha vida era a repartição pública. Se esse maluco do Sétimo se engraçar. — Bá. sentada à mesa. que aquiesceu prontamente. Ele virá me buscar um dia. Tiago descobriu uma fina camada de gelo sobre a mão e o desconfortável colchão velho que lhe servira de cama. como disseste. Acabei com a raça dele no galpão. Mas quando a noite cai. Só se Gentil tivesse mudado os planos. porque eu vi. Ao abrilos. apenas o suficiente para me locomover. pondo o dedo poíegar e o indicador sobre as páípebras. Eliana colocou uma peça de carne para assar. pai? — Esquece. O Sol ainda não havia deitado completamente. Mostra-me teu povo. pescar. Ele matou soldados a torto e a direito. O cômodo.— Ele ficou com Sétimo em vez de ficar conosco. Alho. Um pesadelo com o vampiro Inverno. Depois de servir de escravo ao anjo banido. Não demorou muito para César e Sétimo deixarem a casa no caminhão que os servira na fuga de Amarração. Sétimo fechou os olhos claríssimos. — É extrato de alho. Não sentia nada. Teria ele salvado os outros? Estariam vivos e por perto? Não. Acorda à noite. Um rapaz bonito. Lembra do que o Tiago disse? Foi o alho que o salvou num dos encontros com os vampiros. Nosso sangue ele não toma. — Filmes? O que são filmes. — retrucou o vampiro. Sétimo não estava. Sabia que o mundo nunca mais seria o mesmo após a descoberta da caixa de prata por seus amigos de Amarração. até no suco de laranja. Os olhos de Tiago abriram-se de repente. Apenas César notou a sinistra adaptação. o poderoso. disso eu sei.. Haviam soltado no mundo vampiros poderosos.

Um sorriso enfeitou a face ainda cansada. Sétimo teria de responder. Abraçou o amigo por um instante. Onde estaria? Sabia que Sétimo eles não conseguiam sentir. Eliana sentiu um calafrio. Estava com saudade. Cesão pagou. Qualquer pessoa que passasse.. Até tudo se acalmar. como brasas morrendo. Um caminho de pedras levava ao quintal gramado da frente. demoradamente. — Comprei duas calças para você hoje. Cuidado. ainda com resquícios do gelo que apanhara durante o sono. Um vento rápido cortou o quintal. Subiu os degraus até a varanda e dirigiu-se à porta de entrada. Te amo muito. O toque-toque chegando aos ouvidos. Só isso eu temo. Por isso dormiu durante o dia. Eli. seu escravizador. Estava de cuecas em frente ao portão. Parece que vamos ficar um bom tempo aqui. Cuidado. Agora. Li. Abraçou mais uma vez Tiago. — Que vai ser agora. Tiago passou a mão fria.. Eliana estava na cozinha. Seus olhos acenderam-se por um instante e apagaram lentamente. O corpo dele estava gelado. Titi? — Não sei. Recordou-se do pesadelo. uma coisa gelada crescer na boca do estômago e espalhar-se pelo corpo. mais combativo. Eliana levou as mãos ao rosto. Tiago passou a mão no cabelo louro e cacheado da amiga e sentou-se ao seu lado. Que diabos de aviso era aquele? Cuidado com Sétimo? Cuidado com o quê? Já tinha tantos problemas. Titi. Foi encontrá-la. Estava batendo com o cabo da faca no tampo da mesa.. . Também estava emocionado. teria de se preocupar com adivinhações. Titi. Afastou-se rapidamente.. outro presente arranjado por Lúcifer. — Por isso ficou com ele a noite toda. Com o gelo? Seria isso? Estaria enganado? Se Inverno estivesse vivo. Compramos comida também. agora. O que teria ocasionado aquele fenômeno? Tiago deixou o cômodo dos fundos do sobrado. — Estou com medo de te perder. mas não vou suportar sem ter você por perto. — Oi. — Titi. Ela ergueu o rosto. — cumprimentou.novato. Um inimigo dos humanos. A boca seca. Sentiria. morto. Tinha de contar que não era mais o Titi. Não poderia. o veria daquele jeito. — Você é um deles. Tinha de falar com Sétimo. na face de Eliana. Carne e alho. você só anda com aquele. Um embrulho no estômago. da clareira coberta de grama verde e congelada. Era um bicho. Li. Juro que não sei. Enxugou as lágrimas. pois tinha essa proteção. O cheiro da amiga amada. Vou aprender a viver nesta nova condição. seu inimigo mais feroz. — Oi.. Agora. Um vampiro. Um iniciante. Lágrimas brotaram nos olhos. Titi? O rapaz nada disse.. Um cheiro forte de carne assada vinha de dentro da casa. Li. Vivo. Tiago aproximou-se. agitando o cabelo de Tiago.

embora recuperando-se . Uma máquina de misturar concreto. Mas sabia. Algo se arrastando. Vamos andar. mas não era como antes. Lembrava-se. tudo voltou a escurecer. afastado da cidade. que esgarçou e rangeu com o partir de alguns fios ao levantá-lo. Um clarão. Estava solto. Rolou e ficou de bruços. Inesperadamente. Tudo escuro. Um homem de pé ao seu lado. O céu encoberto por nuvens deixava pouca luz chegar ao chão. Algo estranho no estômago. Podia ver contornos. como se uma luz mágica houvesse acendido. Estava solto agora. Procuraria uma hora oportuna para empreender a escapada. Cachorro molhado. Tijolos vermelhos sem chaprisco. Encaracolado. dolorido. Vamos sair. Leonardo não entendeu. Sem saber onde estava e o que acontecia. O monstro. Queria enxergar. Um gosto estranho na boca Semelhante a ferrugem. o rapaz protegeu a cabeça entre os braços. — Fica de pé. a escuridão completa voltou. Não estava. Estava lá. no meio do nada. porém sentiu um alívio na circulação sangüínea dos braços. Fugir e esconder-se. fraco e inocente. Leonardo a conhecia. Um clarão repentino. E.. Era ele! Falta de ar. Que matara o delegado Neves a bocadas ferozes. Não pôde. após arrancá-lo da cela. O erro mortal. Não tinha forças para lutar. emendando um riso. — Acorda. Apertado. Um hotel? O rapaz olhou em volta. Onde estava? Escuridão. O corpo doía muito. Nenhuma janela. Não vira. Lembranças esparsas. vivo e poderoso. Um cômodo inacabado. via nele agora um novo fruto em sua aventura. — Estou com sede. Não divisava mais nada. Afonso puxou Leonardo para fora do canteiro de obras. outrora furioso com o rapaz. Perdido. Tijolos soltos no chão. Viu o cômodo com claridade por um segundo. O homem tinha sotaque lusitano misturado com espanhol. Leonardo continuou parado. Acordara antes. Os silvos de algumas aves noctívagas vinham do mato. Estaria morto? Será que o lobisomem o devorara na Terra? Onde estava? Que lugar era aquele? Um cheiro forte entrando pelo nariz. O vampiro. O desgraçado queria vingança. amedrontado. Estavam no porão do que um dia seria um prédio de três andares. A voz. Que arrancara com as garras dianteiras as grades como se fossem feitas de pau podre. O vampiro era o monstro que o arrancara da cadeia. Os contornos na escuridão. Sabia que o vampiro o mataria. viu os contornos de um homem deitado. Todos os músculos do corpo doíam. Leonardo despertou atônito. A barriga ardendo. Desmaio. Não sabia nem se estava em Roda Velha. Mato. Aquele gosto ruim. Leonardo era puxado pelo vampiro agarrado ao seu punho. Dormiu demais. Escureceu. Tontura. sabia que era impossível matar a criatura de sotaque português. Afonso agarrou-o pela camiseta. preso como bicho. Os pulsos doeram mais. Estava preso. o havia derrubado duas vezes. aquela impressão de enxergar as coisas momentaneamente estava se desfazendo de maneira vagarosa. vencidoo definitivamente se houvesse largado seu corpo estacado ao Sol. o único erro. Falta de ar. Tontura. Entretanto. os braços. Um canteiro de obras. Obedeceria. Estava amarrado. Por último. fugir da cadeia com o corpo ferido multiplamente. Só não sabia quando seria executado. Amarrado firmemente. Poderia ser a noite seguinte. Depois. Sede. Um segundo tapa. magro. — Levanta. Antes de entender o que acontecia. Cheiro de bicho. Sem arame. O rapazote. Fugir.. Os pulsos doendo. O vampiro! O vampiro em que havia cravado a estaca! Não vira o rosto do homem. O que tinham colocado em sua boca? Cuspiu. Leonardo levantou-se. Um calafrio. Sentiu ânsias. As costas. Poderia até ter interrompido sua existência. Um tapa na cara. Uma coisa estranha aconteceu. O que se arrastara na escuridão? O monstro? Queria ver. Essa era sua única chance. Tentou mover-se. como da primeira vez. como se houvesse engolido um punhado de cabelo. Cada passo era um suplício. Afonso. Como se uma luz piscasse. todos os músculos reclamavam. Estava envolto por um arame grosso. Os olhos pareciam acostumados à escuridão. Quanto tempo ficara apagado? Não estava morto. Os braços doendo. Era a mesma noite? Não sabia se estava no mesmo dia em que fora resgatado da cadeia. Não conseguiu separar as pernas. quieto. Tonto. brutal. a escuridão voltou. ó brasileiro. Parou um instante para cuspir. Falta de ar. Depois daquele episódio na granja e na cela. Amarrado. O gosto ruim persistia. forte. — Já? — retrucou o vampiro. Um barulho. Muita sede. com medo.CAPITULO 18 Leonardo acordou. ó pá. antes de tudo voltar ao breu. Um lugar escuro. Não o fez. A respiração piorou. Horas antes. pronto para quebrar o pescoço do menino num piscar de olhos. Queria enxergar.

O menino saíra-se muito bem nos confrontos. O jovem olhou para trás. De nada se lembrava desde o desmaio na cela. das criaturas da noite.velozmente dos buracos abertos pelas armas poderosas. buscavam o lobisomem e o vampiro maldito. Por essa razão. Após a ingestão. reteve as presas afiadas do lobo. que dizer de novos confrontos com os homens uniformizados? Precisava aprender sobre aquela terra. Afonso se julgava um ser poderoso. Afonso. Recebe meu dom! Leonardo obedecera. Estavam agora cruzando a mata. Para safar-se da perseguição dos malditos caçadores. dentro em breve. serviu-lhe uma dose generosa de sangue vampírico. rumando em direções opostas e jogando ao solo fachos de luz. aprender a ser mais um entre os humanos. enquanto ainda estava inconsciente. assumindo a forma humana. Precisaria de um cicerone. mas nada conhecia da estranha terra nova. Teria de cruzar aquela terra estranha ao encalço do novo irmão e futuramente buscar o humano insolente que o derrotara no passado. e não os sentia mais. ordenando: — Chupa meu punho! Desejas roubar meu poder e a mim ser igual. Estava separado dos irmãos. absorviam informações com uma capacidade cem vezes maior que os humanos comuns. Apenas o novo vampiro. tentando fugir. Leonardo desfaleceu mais uma vez e ficou apagado durante todo o dia. se deixara vencer pelo menino. E aquele menino lhe daria isso. despertando na nova noite. a oferenda não enfraquecera o vampiro. Após amarrar o garoto nos fundos do prédio em construção. o destino sombrio dos vampiros. Não fazia idéia das transformações que ocorreriam em seu corpo rapidamente a partir das próximas horas. sabia que as luzes distantes eram da cidade de Roda Velha e que os dois helicópteros que se distanciavam no horizonte. . quando o monstro a invadiu e ele já contava com a morte. seria ele também um lobo transformado pela luz da primeira noite de lua cheia. Seria um bom soldado. Mortalmente inteligentes. Seguiria um dos ensinamentos básicos dos vampiros. Ainda não se dera conta de que o gosto horrível que impregnava sua língua e descia pela garganta eram resquícios do sangue ingerido. lembrou-se do humano que o abatera com a bala de prata. De um guia de costumes. Sugara o líquido vertente do punho do vampiro. De um soldado forte. Os vampiros assimilavam rápido. Contudo. Não demoraria. Uma garça dentre as garças. Se ele. o vampiro antiquíssimo e experiente. e que. Pouco conhecia dos brasileiros. Não sabia que ele e o maldito forasteiro já trilhavam o mesmo fim. pois a lua rumava para o quarto crescente. Era esperto e valente. Ainda não se dera conta de que os dois detestáveis personagens eram um só. Afonso teria de ser um brasileiro entre os brasileiros. Os pensamentos começavam a entrar em ordem. Eram seres inteligentes. Com o corpo abastecido do alimento maldito roubado dos soldados e do delegado de Roda Velha.

. O confronto com o assassino. Falam coisas desencontradas. — Alô.. mas. eu li. Isso mesmo. — Inverno. Não vai ser nada fácil. que o helicóptero caiu e que tinha uma criatura enorme na cena. Lembrava-se apenas de estar em casa. Ele continuava tocando.. — Precisamos falar mais. que inventavam coisas e enfiavam no livro. tu me dizes o que fazer com vampiros. A compra fracassada das armas.. Acho que isso se chama empatia. — Não.. — Vamos trocar cartas. Vou te mostrar umas coisas.. Esse negócio da bomba nuclear? Se o Brasil detonou mesmo um míssil nuclear. Se não for capaz de encarar qualquer ser humano. O dia anterior não fora fácil. O filho da puta do Lobo. Se tudo isso for verdade. Tô cansado dessa gente que morre fácil. Você viu a parte da caixa? — A caixa de prata com os sete vampiros. — Como confia assim em mim? Não me conhece. indignado. Que" te encarei. teve um monte de testemunhas. Quero caçar coisas novas.. Acho que eles estavam adormecidos e de alguma forma alguém os despertou. Caíram árvores. É uma história maluca. Mas taí. mas eu não vejo a hora de bater de frente com esses negos. te dou mais. Isso é muito doído. Que saí à compra de armas. — Vamos para Portugal? — Portugal?! Para quê? — Essas coisas. Nunca vi um... são e salvo. que dizer desses monstros. se essas criaturas existem mesmo. Pelo menos. com a polícia no banheiro. uns dias atrás teve aquela tempestade horrível. Mas os vampiros estão aqui! — Aqui?! — surpreendeu-se Matador. onde você age.. — Lobo. Cinco da manhã.caiu poste na avenida dos Autonomistas. Esquecera. — . Não estou inventando. Não se lembrava de nada depois de desfalecer no piso úmido e metálico da fétida passagem no centro de Osasco. Quero um novo trabalho.. isso ninguém pode desdizer. Matou gente. Se você deu uma boa folheada você. li o livro velho. seus antepassados não são portugueses? — São. — Isso mesmo. bem diante de nossos olhos. acho que não. Quase morrera. eu sei. — Meu. . — Não. É por isso que me agitei. Eu achava que minha família fosse uma linhagem de malucos. — É... Dimitri não respondeu. Cansaço. Aquele helicóptero que caiu no Rio Grande do Sul. — Cê me ajuda. — Você também não me conhece e está agora conversando comigo. — Tobia? — Quem está falando? — Sou eu. Foi nevasca.. O cara que você tentou matar ontem. cara. — Você nunca viu um deles? — perguntou Dimitri. que estava atrás deles. cara. Atendeu. Nevascas no Rio Grande Sul em pleno verão! E não era a neve fajuta que costuma despencar. O telefone. Traga o livro. Acho que tem a ver com aquela coisa da caixa. chapa. — Eu achei que você já tinha visto. Dor de cabeça. Te digo o que fazer com armas. — Até em Osasco.. que o Exército também não quer admitir.CAPITULO 19 Tobia acordou com o telefone tocando insistente. Os olhos ardendo. — Fechado.. — Tempestade. sem precedentes...... As autoridades sabem reconhecer algo sério. não tem se. Eram... te dou um curso expresso de manejo de armas e te ajudo a botar pra fuder com essas coisas. Testes do Exército? Duvido. Já tenho dinheiro pra me aposentar. qual seria a razão? Algo sério.. Esses vampiros existem.

Tinha que aprender sobre aquilo. não de bater. O professor do cursinho não agüentava mais. Tocar o solo com leveza. Manter soldados. vivia outra época. Ser uma fera temida. Um misto do que era bom e ruim. Copo cheio. mágoa profunda e um mar de incerteza. para os amigos. O som alto incomodando seus ouvidos sensíveis. Ouvia as conversas sem nada entender. mas sabia que nunca faria nada. que ainda estava abobalhado com sua condição vampírica e lutava contra a força que dominava seu coração. Puxar ferro e encher a cara. Um prazer. as tecnologias. Era o Naldão. Prazer em roubar sangue dos vivos. tudo bem. mas ao se deparar com o tamanho do garoto. Nunca iria entrar para a faculdade. Olhou ao redor. Interessadas. Costumes totalmente diferentes. Era isso que achava de si mesmo. Um olhar vago. Para a família. Expressão de tristeza. Era por ela que ainda tentava. Arrastava-se entre as pessoas. movimentos atrevidos. Ia aceitar a proposta do Carlão. Sétimo havia pedido para César encostar quando passaram em frente ao Hortência Dance Club. Saltar com graça. Um excelente soldado. Pediu para César parar. Famintas. Sétimo sorriu. Se pudesse. Fugir do pai estúpido e da mãe falsa. Bloquear a audição vampírica. dormir em caixões. Só a Inês prestava. Esforçava-se. Olha o tamanho dele. que dizer de um ser humano comum. Perguntava tudo e César respondia. Só a Inesinha. Um vampiro. infiel. Caçado. e os pais o tratavam como um moleque de dezesseis. Era bom saber: os homens pensavam duas vezes antes de encarar. A vítima perfeita. Homens e mulheres dançando. Não olhava para as meninas. Queria mais um copo de vodca com laranjada. Queria ser um escroto. Os Skrotinhos eram demais. Meninas novas com jeito de mulher. Um ser humano comum não sobreviveria um dia diante de tantas novidades. vivem alguns dias. Gostava de puxar ferro. matança depois. O martelar cadenciado expelido pelas caixas acústicas não incomodavam Agnaldo. Lindas. Pernas potentes. César conversava com . Estavam conversando há bastante tempo. Olhos das mulheres. Além de estar em outro país. Sétimo emudeceu. Não existiam mais as moedas com a efígie do rei. a única que não o chamava de burro. porra! Mas nada daquilo entrava na sua cabeça. Diferente de Tiago. Prazer em apavorar os humanos. Ser filho da noite. Uma cadeira num canto. Ser uma máquina de matar. Supino inclinado. Nem para o cabeludo que o observava. Exercícios. Meninas. Sessenta quilos. que não mais existia. pois precisaria aprender a ganhar dinheiro. Comprar um novo castelo. infiel. A única que não cobrava nada. Uma multidão espremida. os objetos. Cruzar os séculos. Não havia ainda pensado naquilo. Estava de saco cheio. Depois de mais de uma hora. Mover-se com velocidade incrível. Pensava nessas coisas. Força. Liam sua coleção antiga da Chiclete com Banana e riam. Meninas lindas. Tríceps. a sustentar seu feudo. Que estudar. Briga para atravessar o salão da danceteria Hortência. impressionou-se. Ser instrutor na academia de musculação. Nunca na vida faria nada. O menino mirrado e desinteressante. Um paspalho. que não mais era problema. Dentro da danceteria. Iria precisar de muito dinheiro.CAPITULO 20 Som alto. Já tinha visto aquela história uma centena de vezes. só assim para os tímpanos não explodirem. Estava embriagando-se. O pai. Pulley Asa. Malhar. o vampiro. Palavreado enigmático. Para não decepcioná-la. Aquele dinheiro de papel era tudo. Só gostava da irmãzinha. Um rapaz forte. Levantar oitenta quilos. Um cérebro comum não assimilaria tão velozmente as maneiras. Um guerreiro. Negação primeiro. Na verdade. largamente distinta da sua. Bebida. Abdominais. Os pais não o agüentavam mais. Roupas estranhas. Era um imprestável. Bíceps inchados. Puxar ferro. Prazer na caça. Não olhava para ninguém. Enxergar na escuridão. Era isso e muito mais. Queria chegar ao bar da danceteria mais uma vez. Caçado por Tobia. fugiria. Ele mesmo. Diversão. A mãe. César pagou as entradas. Iria montar seu exército. os olhos do vampiro encontraram Agnaldo. Supino reto. deixava o queixo cair para as coisas. Há muito não era mais o Agnaldinho. Roupas negras. Rosca direta. Tanta gente. A única que merecia seu apreço. músculos avantajados. Queria encher o copo mais uma vez. Queria chegar ao bar. Um beberrão. entornando com rapidez uma bebida destilada. Assistiam ao Pink e o Cérebro juntos e riam. Quase vinte anos. Nem isso conseguia. Observava as pessoas demoradamente. Seres comuns não vivem séculos. Não agüentava mais aquela vida. Tudo próforma. Não arriscavam. Lotado. Queria cair na calçada. nunca entrara numa briga depois de ganhar tamanho. que nada! Estava farto daquela cobrança. Idiotas. O garoto estava cabisbaixo. no qual o vampiro sensível captou abandono. Pensava. Viver eternamente. Teve de proteger-se. Fugir do Sol. Cento e vinte quilos. Era disso que gostava. Já tinha falhado em dois vestibulares. Força bruta. Não era briguento. Era disso que gostava.

Uma senhora com criança de colo reclamou e recebeu uma sonora vaia. Tiago subiu. Debaixo da blusa de lã. O veículo pintado em tons de verde deixou escapar um chiado ao abrir a porta. O cobrador olhava fixamente para o de blusa. Ninguém notou. Estava se defendendo. Tiago havia deixado a casa. Conhecia o dance club. Precisava de respostas para algumas perguntas. Garotos só tinham olhos para as meninas. Freada. Sétimo não tinha olhos para mais ninguém. pensativo. por qualquer motivo. O ônibus acelerou. Subia a rua em direção ao bairro de Novo Osasco. estava perfeito. A noite não estava tão fria para uma blusa grossa daquela. O cobrador reclamava da bagunça. irritando visivelmente o cobrador. Precisava encontrar o vampiro. Parecia que aquela turma toda ia ao Rhapsody. O segundo assaltante sacou a arma também. Não notou o pequeno caminhão estacionado alguns passos adiante. Cabisbaixo. Vinte minutos se passaram. Mesmo desmaterializado pela bomba. Agnal-do saindo do salão. esperando. Não queria ficar na casa sozinho com Eliana. Um ônibus. Uma inquietação gigante borbulhava internamente. Um de boné vermelho e outro com blusa de lã. Afundou-se no banco para não ser notado. Desespero. chamando por Nossa Senhora. Não chamava a atenção de ninguém. César ria. Chiado do dispositivo pneumático. Tragou. Um pressentimento ruim. A mulher com a criança ficou pálida. Ninguém queria notar. Provavelmente. de roupas pretas naquele salão escuro. As meninas exibiam-se dançando sensualmente para os meninos. Os dentes cresceram. O rapaz de boné vermelho sorriu para uma das meninas na frente.. Teriam ido ao centro de Osasco ou teria César levado o vampiro para conhecer a cidade de São Paulo? Tentaria Osasco. Algum dinheiro no bolso e a esperança de encontrar com Sétimo e César. imóvel. — Ce não tava todo machão? Cadê o machão? — indagou o de boné ao garoto que acompanhava a menina. não mais agora. Ninguém em pé. Estava distraído. Ninguém reparou quando os olhos do vampiro cintilaram discretamente. Tremia. O homem empalideceu. O de boné tirou uma sacola plástica de debaixo da camiseta e passou a recolher carteiras e dinheiro dos passageiros. — Todo mundo quieto! — gritou o de blusa. sem parar no ponto. Não notou que sua existência mortal se encerraria naquele instante. Sentou-se de frente para Agnaldo. Estendeu o braço. Sétimo. Maldito Inverno. O que o demônio queria com ele? Cuidado com o quê? Por que acordara com gelo espalhado pelo corpo? Frio. Agnaldo cruzou a porta. Agnaldo seguiu por uma ruela de frente à danceteria. Dirigiu-se ao ponto de ônibus. O motorista freou. Alguns dias atrás. Circulando. Sangue e seu primeiro soldado. Sentia o frio sobrenatural até agora. Gritos desnecessários e bagunça excessiva. Gritaria. O outro aproximou-se do cobrador e sacou o revólver. não notou o rapaz cabeludo aproximando-se às suas costas. O som cadenciado do coração do caçado misturava-se harmoniosamente às batidas compassadas que vinham das caixas acústicas da danceteria. obrigando-o a tombar o corpo e encostar-se na lateral do veículo. cumprimentou o motorista com um rápido aceno. uma arma. O rapaz forte levantou-se. muitos jovens fazendo algazarra. ganhando a rua. O motorista fez uma curva em alta velocidade. Boa conversa. Sétimo apertou o passo.uma moça de longos cabelos castanhos e pernas grossas. O acompanhante da menina bateu boca com o de boné. Os caninos vampirescos brotaram instintivamente. Algo chamava sua atenção. Vamo fazê a goma rapidinho. Perigo iminente. todo mundo quieto e a gente sai fora. Tiago atento aos dois homens. Frio sobrenatural. Aquele sonho estranho com Inverno e com o demônio. Não notou a ruela deserta sem testemunhas. A garotada gritou entusiasmada. O garoto seguiu pela rua agitada sem olhar para trás.. com o rosto colado no rosto da moça. Dois homens entraram. pagou a passagem e procurou um banco vazio na parte traseira do coletivo. porém mais promissor do que buscá-los em São Paulo. Não conseguia sentir Sétimo. Choro. continuava a assombrá-lo. Pediu um cigarro para outro jovem. Toca o bumba. O rapaz de boné recomeçara a gritar com o menino sentado no . veio. O cobrador entregava o dinheiro. O mais alto. Emitiu um rosnado quase inaudível. sabia que podia sobrar bala a qualquer instante. Agora tinha medo. O assaltante encobriu a arma com o corpo. isso era tudo o que queria. buscaria mais destilado. Caminhava rapidamente. Perfeito. quase na praça à qual se dirigia. Ouvia as conversas. Os olhos de Tiago chamejaram. Ai daquele se que interpusesse em seu caminho. ninguém percebendo o assalto. Já seria como procurar agulha no palheiro. deixando escapar um espectro de luz vermelha por um breve instante. Já fora assaltado. Gritaria de bagunça. mas aqueles dois pareciam drogados. — Nem pensa nisso. Agora queria sangue. ficou atrás. de boné.

motorista! — gritou Tuquinha.. Chiado dos pneumãticos abrindo as portas. Um homem estranho ali atrás.. — Que é isso. Frio. Enca-racolou-se. Olhou para o homem: estava vivo. desfalecido. Ninguém por perto. mas não era o medo. Quem eram aqueles marginais? Que direito tinham de agir assim com as pessoas? Iriam enfrentar alguém de verdade. O ônibus voltou a circular. — Anda com essa porra. Tuquinha levantou o revólver. que ficassem sentados e quietos. Ordenou ao motorista que corresse. fazendo-o largar a arma e gritar prolongadamente. Gritos. mais rápido do que um humano faria. O coração disparou. Os vidros do veículo estavam embaçados. Tiago recolheu os dentes vampíricos. Queria pular do ônibus ali mesmo e se enfiar em qualquer buraco. eu te arregaço na bala. em pé. vai pro Jardim D'Abril. gelo! Tiago saltou pela porta traseira do ônibus em movimento. Alguém saltou e agarrou-se na arma do Tuquinha. quietos e amedrontados. lutando para esquecer o odor. e. levando-o ao chão. Ódio consumindo o pensamento. Todos tremiam. agarrou o de blusa creme. desprendendo da roupa a película de gelo. caindo imediatamente de costas. O moleque tombou no corredor. Tuquinha começou a tremer. Gritaria e choro dos amigos. Um rapaz agarrou o Tuquinha. — Puta que pariu. Olhos estranhos. Tuquinha sorriu ao perceber que acertara o desgraçado em cheio.. Esmagou a mão do assaltante. Um calafrio. Todos tremiam de frio dentro do ônibus. Todos pareciam imitá-lo. Tiago teve uma vontade súbita de experimentá-lo. Sabia de onde vinha: dele. Tuquinha? Pra que atirar? — Esse folgado tava dando uma de machão! Pra cima de mim. — Toca esse ônibus. Gritos e nova freada. Dentro do ônibus. Uma fina camada de gelo prendeu-se ao seu corpo. Não era muito bom com o revólver a mais de três metros. Era assim que funcionava. — Toma. Um tiro no peito já não era a mesma coisa. mas não conseguiu completar o movimento. pipoco na certa. Ninguém que assistia à cena entendia o que se passava. Se pára. olhando-o fixamente. que frio! Tiago abriu os olhos e estendeu a mão na direção do marginal. Frio. pou. Tuquinha sentia a adrenalina fazendo efeito. Um frio absurdo tomando conta do lugar. Qualquer problema. Tremia. sem produzir ruído algum. Respeito e segurança. teria mais chance de se esconder. Ia apontar o revólver mais uma vez em sua direção. onde o motorista freou e encostou o ônibus. Voltou a concentrar-se na situação. Tocou o chão com leveza. O rapaz o largara para socorrer a moça. Não sabia se aquele frio era alguma reação. que se calassem. Pequenas nuvens de vapor escapavam com a respiração. vinha dessa raiva. A dor era fenomenal. Ninguém mais se atrevera a tocá-lo. Uma menina estava reagindo. O estômago queimou. pulou para a calçada batendo no corpo. Era assim que queria.. O de blusa correu para a frente. Um disparo. eu me viro por lá. mas a raiva era maior. Dor. aos passageiros. Um rapaz. permaneciam . Olhou para a mão apavorado. Precisava arriscar mais um pouco. Com agilidade vampírica. Tiago levantou-se e. O segundo disparo havia atingido a menina que agarrara a arma. Gelo. Era o frio repentino que tomara conta do coletivo. Seu braço não obedecia mais tamanho o frio que se apoderara dos músculos. apavorado. enquanto a dor diminuía gradativamente. O frio apertando. Mas. mas começava a incomodar. O de blusa passou pela catraca apontando a arma para os passageiros da parte traseira da condução. Arremessou-o ao chão e pisou em sua cabeça repetidas vezes até fazê-lo perder os sentidos. Desejou isso. Um homem em pé. com os vidros completamente embaçados. vagabundo. mas atingira o peito do verme. não. equilibrou-se. Novo disparo. refeito após o ataque. Da boca de todos os ocupantes escapavam nuvens espessas de vapor. Raiva. Os passageiros estavam cobertos por uma finíssima camada branca de cristais de gelo. Tiago encarava o assaltante. evitando um tombo desastroso. Sangue do garoto baleado se esparramando. Muita gente no quarteirão seguinte. Iria congelar o desgraçado. no D'Abril. O frio sobrenatural. Viu o comparsa caído no chão.banco da frente. Sirenes ao longe. Viu o pessoal descer e se agitar. se suja. apontando a arma. Um cheiro impregnante de sangue preenchia o ambiente. filho da puta! Tiago foi atingido no peito.

dirigindo-se para os fundos. Tinha dom especial. e arremessá-lo ao ombro. Poderia até mesmo existir um descendente de Tobia. Iria aprender a guiar aquelas carruagens. — Cara? Cê aprende rápido. Uma profusão de gente. Viaduto metálico. Se eu demorar mais um pouco. A gente precisa roubar um banco um dia desses para encher o bolso de dinheiro. — O que tu tá fazendo. Banco de novo. Polícia. Maloqueiros. Ao lado do caminhão. quando as vítimas fossem numerosas. O primeiro soldado para construir seu exército e preparar-se contra os caçadores. McDonald's. — Por que saiu de lá? — Muito barulho. Ninguém notara o gesto do rapaz baleado. Se o policial rodoviário passou o número de nossa placa para alguma central. Sétimo havia lhe servido do próprio sangue. não seria capaz de derrotá-lo. Vou colocá-lo lá dentro. se ele não estiver bem. Churrascaria. César soltou a alavanca do freio de mão. Delegacia. Risadas. O rapaz não estava morto. Pessoas compram de tudo no Shopping center.. retornaram à casa alugada. Vamos sair fora. Tinha asas e corpo agigantado. César olhou ao redor. Telefone celular. O Tiago vai ter de liberar algum dinheiro para mandarmos este bagulho de volta ao meu amigo. Ruas que não acabam mais. mas não tardaria a se acostumar à condição. Um hipermercado. mas por pouco. não serei grosseiro a ponto de fazê-lo pernoitar na carroceria deste caminhão. O que quero dizer é que não é seguro ficarmos zanzando neste caminhão. tchê. Seu filho seria forte. moleque-vampiro. que viria rápido na primeira caravela para a terra nova. Muita gente na frente do Dance Club Hortência. Nada de agressividade. Onde havia se metido o vampiro? Deixou a garota com quem conversava. como Tiago lhe descrevera. Esse caminhão não é muito seguro. Aí entorta de vez. Seu nome seria temido em todos os cantos da Terra. Praça. Pelo que podia observar. aparentemente morto. ele bota os canas atrás da gente. Universidade. já que afastava-se em passos apressados em direção ao centro da cidade. César estava se acostumando com a presença daquele que o chamava de pai. Acabara de pensar que Sétimo era um bom sujeito. relutava contra a Vida Escura. criando seu primeiro filho depois de centenas de anos.. — Fecha a porta. César pediu que Sétimo abrisse o portão. O vampiro passou pela escada que dava para a varanda da casa sem subir. Sentiu um alívio. tchê? — Ora. Não lhe agradava ser um vampiro. para acossá-lo. Motociclista. pagou a despesa e saiu. que não tardariam quando os sinais fossem mais claros. E aquilo? Um supermercado. Prefeitura. Dirigia-se para dentro quando notou que Sétimo se encaminhava para o compartimento traseiro e tentava destravar a porta. César nada disse e foi até o vampiro. Era um monstro selvagem quando queria. Tiago era um simplório. Fonte. Posto de gasolina. sem sotaque algum. Era um vampiro estranho. Um hóspede?! Que diabos era aquilo?! A expressão de curiosidade mudou para espanto quando viu o moleque franzino arrastar um rapaz corpulento. Carro de polícia. Lutava porque não era um . Desceu para a praça. pois.. Lá estava ele agora carregando um cadáver nos ombros. Sim. para o cômodo onde ele e Tiago haviam passado o dia anterior. Tiago. Lá estava o vampiro. E mesmo o Exército brasileiro. você o viu de dentro daquele casulo? Não importa. Carros. pois era o primeiro. — respondeu o vampiro. e algo me diz que ele não terminou bem o encontro na estrada. Que é aquilo? Um banco. Passaram por várias ruas. seria. Gasolina. formaria seu exército.apenas o bandido desmaiado e o cadáver congelado do segundo assaltante. Era assim que seu plano começava. Shopping center. Um lanchinho para a fome da noite. longe de se parecer com o monstro repugnante que conhecera.. — Sair fora. César passou a mão na cabeça. Terminal rodoviário. Um gay. Voltaria triunfante ao seu castelo. com suas bombas de fogo. com o rapaz de músculos avantajados o servindo como guerreiro. Soltou o corpo de Agnaldo no chão. Os olhos do vampiro se encheram com as luzes. Sétimo apenas prestava atenção nas palavras e nos movimentos do pai.. Um rei. Droga! Onde estaria Sétimo? Atravessou a rua em direção ao caminhão. e poucos perceberam que ele estava faltando na cena. O vampiro em forma de adolescente obedeceu. Tantas coisas! Quase uma hora depois. Seria treinado como seu general. esse lugar chamado Brasil.. — Vamos dar um giro e voltar pra casa. trouxe cá um hóspede. para abastecer as carruagens. Encostou o caminhão na garagem e desceu. cara. O motor roncou e o caminhão tremeu.

sem exceção. viraria comida de vampiro. Ensinaria tudo aos dois. Queria sangue. Transformara o idiota numa estátua de gelo. Cheiro de sangue chegou-lhe às narinas. Sentira ódio do assaltante e transferira o sentimento para ele em forma de frio. Caso contrário. Seria bom que nenhum outro marginal cruzasse seu caminho naquela noite. Uma base boa para começar. e uma fina camada de gelo desprendeu-se da palma. Tiago não encontrou o amigo. mas logo enxergaria todos. Precisava alimentar-se. o vampiro original. tampouco o vampiro. que teve a alma roubada por um demônio. Fora ele. Viria do ônibus ainda? Fome. como caça disponível. um soldado.desalmado como ele. estava ainda absorvido pelo desespero que o tomara dentro do ônibus. Tiago abriu e fechou a mão. A bem da verdade. como alimento. . Amava a gente. Energia. Um general. Amava os humanos. quem congelara e quase matara todos do coletivo. não Inverno.

O som de água correndo alcançou os tímpanos. procurando em locais onde o lobo pudesse estar entocado. clareando o alto das árvores. Ergueu a lanterna. movendo os troncos de algumas árvores antiquíssimas. O soldado iluminou o rosto do sujeito. Um chamado pelo rádio para que se reportassem. O terreno. Poucos admitiam. Balas revestidas de prata. Um homem. O helicóptero sacolejou quando tocou o chão. Vaga-lumes. As vozes dos amigos distantes. Virou-se repentinamente. mas não os viu. Granadas. O caiçara ensinara. mais um minuto havia passado. os soldados falavam no rádio. enchendo a escuridão de sons assombrados. Um homem chegando. em declive. rapaz. Ergueu o fuzil.CAPITULO 21 O helicóptero desceu numa clareira. Meu nome é Afonso. Passos. Isso dava muito medo. Um riacho. Um vento mais forte chacoalhou com violência. Todos munidos de fuzis. Havia se afastado dos outros. Jogou a luz na direção. rádio e faca. Dissera aos soldados que fora assim que abatera o lobo no armazém. da clareira para a floresta. Alto. Que era aquilo? O que o homem estava fazendo ali no meio da noite? — Vamos. Ninguém encontrara nada. ouvindo os gritos do tenente. A única coisa que encontrariam seriam corujas. no mínimo. Não iria dar trégua. Um vento úmido chacoalhava os galhos das árvores. Liquidar o monstro. Outro. Fatiá-lo numa máquina de frios. Somente o tenente Brites era chamado pelo nome. Puxou a trava. Separaram-se. Reportem-se minuto a minuto. Quanto podia correr em uma noite na pele de lobo? Teria fome. iria aparecer. o chão e os troncos. Minuto a minuto. que protegia o rosto dos grãos que se desprendiam do solo com o vento brutal causado pela aeronave. teria de queimá-la. Galhos estalando às suas costas. Procurando o vampiro. magro. — Identifique-se! — Calma. Era ponto de honra localizar aquele demônio. A luz da lanterna batia em cheio no rosto dele. Alguns com metralhadoras. Não podia perder o rastro. O soldado retomou a calma aos poucos. A bota partiu um galho seco. Um rangido forte. Afonso? Procuravam . vamos. naquela busca sem sucesso. Mais ódio alimentando seu espírito. tudo ok. Estavam apavorados. Identificavam-se por número. Fazer tudo isso ao mesmo tempo para pôr um ponto final naquela história de desgraça. quase nos ombros. Expô-lo ao Sol. Os fachos de luz percorriam as copas. liberando a arma para disparar. Só queria evitar que mais inocentes estraçalhados fossem a dica para encontrar o lobo. Dê um passo à frente e identifique-se! Mão na cabeça! O homem levou as mãos à cabeça e em seguida deu um passo à frente. Agora. Um coelho? Não ouvia mais as vozes. — Alto! Parado! Identifique-se imediatamente. Medo. O corpo. Trazia uma pistola com munição especial. O lobo deveria estar bem longe. Todos com o rádio ligado. Olhava para o desconhecido. — Soldado Três. Iluminou na direção. Haviam feito buscas durante todo o dia. a mente. Só continuava com a lanterna em riste. Não acreditava que iriam se deparar com a fera. Os homens estavam encurvados na clareira. Já era noite. O coração do soldado batia acelerado. Nem ele. não havia muita coisa. As botas faziam gravetos estalarem e as folhas em decomposição no solo fofo afundarem. O vulto imobilizou-se. Mais homens mortos engrossando a lista. Detê-la. Brites despertou do transe. Passos. Na verdade. Alguns deles tinham visto o que sobrara dos companheiros que montaram guarda defronte a delegacia. carregavam medo. mas dentre as tralhas. de um a dez. de cabelos pretíssimos. Brites poderia ter voltado para a base em Amarração. Procurar em todos os cantos. — Vamos. Quero todo mundo vivo! Vamos acabar com esse desgraçado! Dez soldados desceram. sabia que quando cravasse a bala de prata no corpo da fera e ela tombasse. homem. Brites estava cansado. lanternas. As vozes de dois amigos bem afastados. A escala subiu até o décimo soldado. O helicóptero alçou vôo imediatamente. Folhas desprenderam-se do alto. O soldado número três era o que tinha descido mais. era íngreme. mas queria rastrear a fera. Um brilho avermelhado dentre as árvores. Estava longe. Tinha que encontrá-la. Desceu alguns passos. procurando o causador dos estalos. Não teria ido para muito longe. Vasculhou com a luz e nada encontrou.

soldado. soldado Três? — Desci o morro. O barulho das botas dos companheiros. Tinha acertado a fera. mas ele. — reportou-se o soldado número três quando chegou sua vez. Era o ritual. Tranqüilizou-se. Aquele não tinha sotaque português algum. pois. Percebeu que o menino havia se desesperado.. Não arredou pé por pura teimosia. — Ora. Um riso sinistro encheu a mata. Deus! Era o desgraçado! Sem dúvida. Tinha-o visto ali. erguendo-se em duas patas. mas a fera foi mais rápida e arrancou-lhe a arma com uma patada. — O gajo está com medo. Por que não o encheu de balas? Um rugido encheu a floresta. só que inúmeras vezes maior. estamos chegando. quando um arrepio tomou seu corpo. Não se mova! Não o procure! Fique aí. — Ele tem sotaque português. ouviu o grito da fera e apertou o passo. pra que temer o Afonso.. está? O pá. incrédulo. Criatura horrível.. Três soldados chegaram enquanto o lobisomem fugia. chamando a atenção de Afonso. bem no seu nariz. — Ele o quê. O homem havia desaparecido enquanto respondia ao tenente sem dar-lhe atenção. tchê? Tá caçando rã? — Cala a boca. A corrida dos amigos revelava que estavam mais próximos. voltando a olhar para Afonso. Te fiz uma pergunta. Com ela. — Fique atento. Desconfiar de homens com sotaque português. não tem. Ouvia os passos dos amigos que corriam em sua direção. Não era motivo para preocupação. O fuzil disparou repetidas vezes. Estavam longe. — Está acampado aqui? Vacilante. Só encontrei um sujeito acampado aqui na mata. — Não se mova. tenente.. Com as quatro patas no chão.um lobisomem. Tinha. Não tem. — respondia o soldado. na sua frente. saltou de trás da árvore e colocou-se de frente para o soldado. Rugiu no rosto do soldado. era o desgraçado! O lobisomem. vivia para aquilo. mas vinham rápido. Um deles ainda divisou. coberta de pêlos. então puxou o gatilho. a sombra do . pode deixar. que desmaiou de medo. a cabeça semelhante à de um lobo.. Não perca o homem de vista. Não vem me procurar? — brincou Afonso. Outro rugido. O pavor era tamanho que não conseguiu disparar de imediato. Um rosnar. O soldado não respondeu. Disse que está acampado aqui. O rádio emitiu um chiado. soldado. O rapaz ia tentar um novo disparo. O coração disparou. — Tudo bem.. Um monstro gigante. — Tudo em ordem. me matas num instante. soldado? — Ele sumiu. Nada demais. — ordenou o tenente. Disparos. que é um homem? Tu tens esta arma. O soldado estremeceu ao identificar o sotaque lusitano. A presa caiu. — Um homem. Gritos. Agora. o soldado caiu para trás e bateu numa árvore. estava salvo. Adorava aquilo.. — Vim buscar água no riacho.. O soldado número três não acreditava no que via. atirando sem olhar. na parte sul da clareira. soldado? — Não. — Que está fazendo aqui? — Para que essa arma. Estou com sede. meneou a cabeça positivamente. Torcia para os outros chegarem logo. Brites. Estou ao lado de um riacho. ainda do outro lado da clareira. Recuou dois passos.. rugindo enlouquecida. — Onde você está. não um homem. Para o tenente chegar logo. — Encontrou o quê? — quis saber Brites. tinha uma direção. O riso voltou a encher a escuridão. Lobo desviou-se dos disparos. soldado. Estava salvo. porque a cabeça gritava corre! corre! e ele não obedecia. muito mais próximo.. — o soldado vacilou. Tiveram um preparatório com Brites.

Tinha de tomar sangue humano tão logo fosse possível. o menino Leonardo. Brites voltou à corrida. senhor. vocês viram? — Por ali. senhor. A mata voltava a formar-se à frente. Até o inferno. As pegadas da fera que galopava sobre quatro patas desapareceram. se preciso. Escorregou. — avisaram pelo rádio. Logo. Cativá-lo. poderia morrer como um humano. Procurando no lugar certo. Deveria estar fraco. Ofegante. benzeu-se ao ver o soldado.. pela própria vontade. Iria persegui-la. Quando Brites chegou. Correu mais dois minutos. Só o do inseto metálico era ouvido. seu soldado. A fera estava escapando. As pernas não agüentavam mais. Andava acelerado. quieto e obediente. provocando escorregões e o cansaço precoce dos músculos. Olhava fixo para as pegadas da fera. Brites parou de correr. Barro. Rápido. Brites estacou. Os soldados vinham com armas. Pés humanos. Tinha de cercar-se de novos vampiros. com a sede. Ofe-gando. O peso da arma. Tinham de buscar uma nova toca para se proteger da luz solar. Determinado. se necessário. Teria uma surpresa: uma alcatéia pronta para combatê-lo e. Afonso não estava tão forte. Comentavam sobre a agilidade do tenente. estava o novo vampiro. Os olhos no céu. mas não era esse o motivo de sua admiração. O barulho dos soldados chegando. Não tentara fugir. Tinha de ratificar sua condição de vampiro. Alguns instantes em silêncio e estariam a salvo. Não podia. Apanhou o fuzil. que fosse na boca do maldito. espantados. Os meninos não tinham nem metade da sua idade e tinham percorrido metade do que ele tinha. Maldito lobisomem. Matá-la na porrada. longe dos olhos dos soldados. Em cima de uma árvore. Não podia fugir. sob o efeito do sangue vampírico. Afonso observava-os. Afonso notara que o rapaz estava silencioso e com poucos movimentos. Tinha matado mais um. Brites olhou para trás. rasgando o ar como flecha. atônito. orientou o piloto. Sem sinal da fera. as pegadas do vampiro juntavam-se a mais um par de pés calçados. mas. se possível. Incessante. O tenente entrou na floresta à procura do maldito. Se morresse. A seu lado.monstro desaparecendo entre as árvores. — Ele morreu. Mais alguns passos. Patas. Iria apanhá-la na unha. Um som ensurdecedor acima das árvores. a busca que terminaria sem resultados. O pulmão doendo. Bateu a mão no coldre. destroçá-lo. As árvores tinham sumido. — indicou o que tinha visto o vulto grotesco. Tinha de ensiná-lo sobre os poderes vampíricos. Um pouco à frente. para seu desespero. Torcia para o maldito estar debandando em linha reta. buscando. Patas da fera. mesmo Leonardo não suportaria a claridade do astro-rei. . O helicóptero ia reto. Tinha de confirmar seu caminho para a Vida Escura. Não podia fugir. Levou a mão ao rádio. O helicóptero passando. sem sinal de parar. Chão enlameado.. Do contrário. O helicóptero girava para o lado. Precisava alimentar-se em outro lugar e começar a instruir seu pupilo. O som dos soldados desapareceu no meio das árvores. Um rastro nítido. Correu mais um minuto. antes de sumir dentro da mata. não era a hora propícia para incentivar tal feito. distante. Entusiasmá-lo. tornar-se um vampiro de fato. não vítima de um infarto fulminante no meio do mato. Queria a aeronave vasculhando. voando baixo. Sétimo. — Vamos. assim que desperto. A pistola com balas de prata ainda estava lá. — Por onde ele fugiu. Os soldados estavam próximos. dando vez a dois pés descalços. O companheiro tinha sinais de mordidas por toda a parte superior do corpo. Todavia. O chão fofo dificultava o avanço em velocidade. queimando. O monstro não estava sozinho. O tenente começou a correr. não tardaria em buscá-lo. Holofotes para o chão.

não é? Estão me achando com cara de otário? São fanáticos de alguma seita? — irritou-se o médico. — . Avistou o homem magro chamado Tobia em frente ao McDonald's. escondendo cinco tipos de armas embaixo do couro.. cumprimentando-o rapidamente. O médico-legista deu as costas à dupla e alguns passos na direção de outra saía.. É coisa desse vampiro.CAPITULO 22 Dimitri dirigiu-se ao ponto de encontro. É isso que a gente tá procurando. — Não é nada disso. Preferia guardar o dinheiro. Precisava encontrar algo que comprovasse aquela maluquice em que estava se metendo. — Vou cobrar uma taxa por essas aulas. esses malditos estavam agindo no Rio Grande do Sul. nunca vi isso. — Blindado. Quatro mil dólares. estava feito. levou a mão à cabeça. Tobia obedeceu. — Coisa do vampiro Inverno. — . Quero me familiarizar com o trabalho. — Pelas últimas notícias.. — Cobrar? — É. — Blindado. agora tenho que agüentar isso. Era noite. reclamou.. — Retorna no farol.. Tenho mais o que fazer. mas era melhor não chamar a atenção. Caçar vampiros.. Tobia meneou a cabeça. Dez minutos depois. quando se retirasse. Tem até indícios da presença do Lobo. No meio do caminho. Vocês encontraram algum cadáver estranho esses dias? — Estranho? Eu vejo cadáveres estranhos todos os dias. com mordidas no pescoço. senhor.. — Cês não estão procurando parente nenhum. queria uma aposentadoria bem gorda para conhecer o mundo e esquecer os rostos. Dimitri passou a mão no queixo. voltando às gavetas. ou muito azar. Tobia interveio. doutor. Esquecer o cheiro de pólvora. mas. Entraram num Passat importado. os nomes dos contatos. fechando um gavetão. Virou-se lentamente. — Estou procurando um cara que tenha tido o sangue drenado do corpo.. Usava uma touca de lã enrolada na cabeça. estavam encostando o Passat na frente do IML. Orientado por Dimitri. — Neve. Abandonou um milk-shake pela metade e saíram. ainda não sei. isso. Quando se retirasse do ramo. estacou. à esquerda. — Aqui deu uma puta nevasca uns dias atrás. Esquecer o chefão Sofia. Tem um no Bela Vista. se viu algum cadáver com o sangue drenado. tentaram obter do legista de plantão dados mais específicos. Na recepção. O mundo dos assassinos de aluguel dava bastante dinheiro. de sobretudo preto amarrado na cintura... — Aonde vamos? — Li no seu livro de caçar vampiros. — Me conta uma coisa. na verdade. O legista apanhou o bloco fixado com um barbante ao lado da geladeira e vasculhou apressadamente algumas páginas. Uma das primeiras coisas a se fazer é checar os necrotérios. — Quem vocês são? Caça-vampiros? Dá um tempo.. próximo à saída do terminal. Ninguém reparou muito naquele homem truculento. poderia comprar um quando quisesse. Tobia deixou o carro no estacionamento do supermercado Solar. Preciso de aulas de assassinato. Dimitri inventou uma história para convencer o funcionário a levá-los até a sala onde se conservavam os cadáveres não identificados. o Matador. No meio da conversa. — Eu só posso estar ficando maluco também. — quis explicar o caçador de vampiros. Nunca. para aumentar o medo das testemunhas. Dimitri. Um carro lindo. queria experimentar aquele novo desafio. Tobia olhou para Dimitri. Como se houvesse. — resmungou. Preciso de um Comodoro novo.. . Vamos dar uma olhada.o salário já é uma merda. doutor.. encerrando uma senhora pálida dentro da geladeira. coçando o topo com dois dedos. um dos mais perigosos do grupo dos sete do rio D'Ouro. Agora. — repetiu Matador. Esquecer o nome das melhores armas.. Dimitri realmente havia se envolvido com alguém de dinheiro... uma escaramuça para dificultar a identificação do assassino profissional.. Esquecer o sangue.. o terminal rodoviário da Vila Yara. — Seria muita sorte encontrá-lo aqui. Se o cara soubesse economizar.

— Achei. Abriu a geladeira. — Esse cara aqui deu entrada ontem. Sem documentos, sem nada. Um indigente. Vinte anos no máximo. Corpo magro demais. Provável usuário de drogas... mas não morreu de overdose, não. Marcas no pescoço, duas perfurações profundas, marcas de outros dentes. Não é cachorro. É de gente, com toda certeza. Como perfuraram assim, não sei, mas que foi gente, foi. Pelo tamanho, provavelmente um homem. A gente não perde muito tempo com indigente. Não temos a causa mortis; ainda não o examinei. Não sei por quê, depois da visita de vocês, acho que não vou encontrar muito sangue neste cadáver... pálido demais. Acharam seu troféu? Têm alguma explicação? Sou todo ouvidos agora. — Não temos explicação, doutor. Somos curiosos. — disse Dimitri. — Se encontrarmos mais novidades, te damos um toque. Liga para este celular se ficar sabendo de alguma coisa, se puder ajudar. — Ajudar no quê? — A achar quem fez isso... lembra? Vampiros? O legista sorriu e meneou a cabeça. — Se eu vir alguma coisa diferente eu ligo, pode deixar. Tobia quase não agüentou segurar até sair do IML. Na escadaria, gritou: — Estão aqui, Dimitri! Estão aqui! — Que fazemos agora? — Nossa primeira ronda. Está armado? Ora, não adianta. Precisamos nos montar. Precisamos das ferramentas de trabalho... mas vamos fazer nossa primeira ronda. Toma. Você, que conhece essas ruas, você dirige. — disse Tobia, arremessando a chave do carro para Matador, entusiasmado.

CAPITULO 23
César acordou cedo. Esperara Tiago até as três da manhã, mas o amigo não voltara. Era um vampiro. Sabia que o amigo tornara-se um. Até quando poderia confiar nele? Não sabia. Os olhos pareciam cheios de areia e teimavam fechar. Estava preocupado com o caminhão. Tinha de resolver o problema naquele dia. Encontrar um guincheiro que o levasse de volta ao sul. Ou um motorista. Não conhecia ninguém na cidade. Não era íntimo do cunhado de Tiago o suficiente. Resolveu comprar um jornal e procurar nos classificados. Já estava no portão quando foi alcançado pelo rapaz de aparência inofensiva, Sétimo. Caminharam juntos, calados no princípio, com César procurando uma banca. Perguntou a uma mulher que lavava a calçada da casa duas ruas abaixo. Desceu mais uma, chegando à rotatória. A banca, segundo a mulher, só lá em cima. Como a caminhada seria longa, quebrou o silêncio. — Por que trouxe para casa aquele rapaz ontem à noite? — Porque precisei. Tenho de montar meu exército. Os caçadores de vampiros não tardarão. Conheço bem essa história, cara. Cara?!, repetiu César em pensamento. Nem parece um português do século XV falando. — Notícias de morte são as que se espalham mais rápido. Tenho que ficar esperto. Montar meu exército. Se me acham, preciso de defesas. As armas dos homens hoje são outras. Tenho que me preparar. Aprender a me defender. Preciso de brasileiros que conheçam isso, que vivam o dia-a-dia. Meu exército. Chegaram ao topo da longa pista de asfalto. Na avenida, carros passavam em profusão. Era a primeira vez que Sétimo chegava ali em plena luz do dia. Os olhos do vampiro não paravam, Nem via direito por onde andava. César afastou-se um pouco para comprar o jornal. Iria procurar um motorista particular. Deveria sair mais barato que o guincho. Quando voltava, encontrou Sétimo prostrado diante de uma loja de veículos, abundantes naquela avenida. Em Amarração, ao contrário, havia apenas uma loja de compra e venda de carros. Percebeu que os olhos do vampiro de cabelos longos estavam fixos em uma moto amarela, modelo esportivo. Sétimo, sem se dar conta da aproximação de César, rodeou o alambrado que protegia a loja e entrou, sendo prontamente atendido. — Quero essa motocicleta. — disse ao vendedor. — Linda essa moto. Nenhum arranhão. Único dono. Pode sentar. Sinta o peso. — convidou o homem, estendendo ao rapaz um cartão da casa. Sétimo não perdeu tempo. Montou na máquina. Tinha altura suficiente e não pesava nada. Tiago ensinaria a controlar o equipamento. Percebeu que havia vários dispositivos, além da direção. Certamente, teria de dominar os mecanismos para conduzir o cavalo com segurança e agilidade. — Seu pai não vai encanar? Não parece ter habilitação. Não é da minha conta; só quero saber se vamos perder tempo. — Não, não vamos perder tempo, cara. Quantas moedas? — O preço? Essa V-max está por onze mil reais. Tudo facilitado pelo Panamericano. — Onze mil reais? César entrava. — Pai, paga onze mil reais ao homem. Quero esta motocicleta. O homem olhou com estranheza. Aquele cara não parecia pai do rapaz, parecia irmão. — Cê tá louco, tchê? Acha que ando com onze mil reais no bolso? Toda minha grana está no sul. Tenho um trocado aqui, mas o grosso ficou lá. Estou duro. O vendedor deixou o sorriso artificial esmorecer. Perdendo tempo. Sétimo saiu da moto. — Peço ao Tiago. — Tá, vai lá e pede. Duvido que ele tenha. Não só parece um moleque: age como moleque. Tem que aprender que dinheiro se ganha com trabalho... e demora para ajuntar onze mil reais. Tem que consertar muito cano no fundo do mar... — O Tiago também já falou isso. — retrucou o vampiro, saindo da loja. — Não tem um jeito mais rápido de fazer fortuna? Recompensas? Heranças de família? — Herança? Olha, eu comprei o jornal... começa a ler... você precisa aprender que no Brasil o povo não fica rico com herança de família. O povo herda dívida do pai. Um carrinho, na melhor das hipóteses. Quando sai uma casa, tem que

dividir com três irmãos. O povo é pobre. Dinheiro rápido, só roubando. — Ora, pois! Nós, vampiros, não somos ladrões. — Então vai entregar pizza... cê não morre mesmo... tem toda a eternidade para ir juntando as gorjetas e comprar a V-max... até lá, cê pega ela com um bom desconto! Ah! Ah! Ah! — brincou César. Sétimo não deu muita bola para o sarro do acompanhante. Agora, estava hipnotizado por outra coisa. Uma mulher. Uma mulher de pele morena e longos cabelos castanhos-escuros escorridos até as costas. Linda. Nenhuma mais linda que ela estava na rua. Não vira nenhuma mais linda que ela na danceteria na noite passada. Acompanhou-a com os oíhos até a moça sumir dentro de um coletivo. Fechou os olhos para gravar a fisionomia em sua mente vampírica... aquele rosto e aquele corpo lindamente cheio de curvas. Se possuísse um coração comum, estaria acelerado. Sétimo estava apaixonado. Desceu o caminho em silêncio. Nem comentou mais o desejo pela motocicleta esportiva. Seu desejo agora era outro. A mulher linda. Até César estranhou. Não dissera nada porque se preocupava com o caminhão emprestado. A luz solar ofuscou os olhos do vampiro. O Sol, até ali escondido em grossas nuvens, despontava com o vigor matutino. Os olhos de Sétimo cintilaram, mudando do verde ao preto, para proteger-se da claridade diurna. Mesmo assim, ardiam com o Sol. Ele precisava de sangue. Precisava de força vampírica extra, porém não atacaria ninguém durante o dia. Esperaria a noite bem-vinda. Sairia com o novo soldado e com Tiago. Precisavam habituar-se ainda mais com a vida noctívaga. Na verdade, para Agnaldo seria a primeira saída. Estava agora sob o efeito do sangue de Sétimo, numa espécie de transe. Precisaria de sangue para tornar definitiva a transmutação de seu corpo mortal em imortal. Precisaria desejar o líquido quente que conduzia a vida nas veias mortais. Do contrário, haveria sempre uma chance para a humanidade em seu corpo. A Tiago restava apenas aceitar ainda mais sua nova condição. Sétimo sentia o general vacilante, ora apreciando, ora rejeitando a vida noturna. Era preciso firmar-se para fortalecer-se, senão seria presa fácil quando os caçadores detectassem os traços e viessem à caçada. Na volta, César ocupou-se em vasculhar o jornal. Por enquanto, não podia voltar ao Rio Grande do Sul, por isso contrataria alguém para devolver o caminhão ao amigo. Trabalharia até que tudo se resolvesse. Precisava abastecê-lo e limpar o baú, sujo pelo estranho casulo formado por Sétimo quando transmutou-se para as formas humanas e jovens com que transitava agora. Eliana saiu. Tiago havia lhe pedido que comprasse outras roupas para ele. Sentia-se melhor. O corpo da mulher não doía mais. As marcas estavam sumindo aos poucos. Ela mesma precisava de muitas coisas. Tiago dera-lhe uma boa quantia em dinheiro. A moça tinha algum trocado em conta-corrente, mas não sabia se era prudente movimentá-la agora. Será que o Exército desconfiava de alguma coisa? Estaria monitorando seu saldo bancário? Passaria pela cabeça dos militares que os dois tinham escapado da explosão gigantesca causada pela bomba graças à ajuda inesperada do vampiro que parava o tempo? Teria alguém visto quando eles abandonaram a cidade no caminhão? Tantas perguntas! Tomaram tanto cuidado! Estavam apavorados com a fera. Ela mesma, Eliana, que parecia em choque na ocasião, não vira nada. Mas se alguém os tivesse visto... o Exército poderia estar à procura deles. Não poderia dar pistas. Iria usar somente o dinheiro vivo de Titi, o dinheiro obtido com a descoberta da caravela maldita com a caixa de prata. Precisavam pensar em alguma coisa. Com uma casa cara como aquela, se não conseguissem uma forma de economizar ou ganhar dinheiro, a grana de Tiago sumiria em poucos meses. Da última vez que estivera ali, em Osasco, Sabrina lhe dissera que havia dois grandes shoppings na cidade. Certamente, encontraria roupas para Tiago. Roupas escuras. Camisetas pretas. Calças. O amor-vampiro cedendo, tornando-se cada vez mais um deles.

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Tiago despertou com a chegada da noite. Uma claridade fraca ainda caía do céu, chegando até a entrada do cômodo em penumbras. Não precisou da visão vampírica para enxergar Sétimo, acocorado junto à parede, observando-o. Ao lado de Sétimo, algo que não havia notado ao se recolher pela manhã: um corpo. Um rapaz de compleição avantajada, forte como um touro, daqueles que fazem você evitar confusão quando encontra na rua. Vinte anos, no máximo. O que fazia ali? Por que Sétimo trouxera o cadáver? O cheiro do sangue do rapaz invadiu-lhe as narinas. Notou então os lábios de Sétimo sujos de líquido vermelho. Uma refeição. Tiago sentiu o estômago arder. O corpo queria sangue. A mente, ainda contaminada pela humanidade que persistia, declinava. Não queria sangue. O ar frio. Lembrou-se do episódio no ônibus.

Congelara o bandido. Talvez tivesse matado o outro. Vampiro. Poderoso. Em poucos dias na Vida Escura, já se via poderoso. Tomara um tiro na rua. Dor instantânea. Momentânea. Passageira. O poder vampírico curando velozmente. Consumindo suas energias. Curando. Obrigando o corpo vampiro a urrar por mais sangue. O cheiro arrebatador do líquido naquele porão. A voz de Sétimo enchendo o ambiente. — Veja o que trouxe pra você, general. — disse o vampiro, gesticulando, estendendo o braço vagarosamente sobre o corpo do rapaz, como se o oferecesse. — Não quero. Não quero sangue. — disse Tiago, com a cabeça dolorida, movendo-a em sinal negativo repetidamente. — Não é sangue que te trago, general. É teu primeiro soldado. O primeiro de muitos que trarei. Nosso exército. — Não é comida? — Não. Vê. Está vivo. Logo desperta. É vampiro. Criei na última noite. Forte... uma excelente promessa como soldado. Tiago calou-se. Estava espantado demais para expressar qualquer coisa. Estava confuso. Um soldado! O demônio falava sério? Sétimo iria constituir um exército de fato? Maldito! E aquela coisa de chamá-lo de general deixava seus pêlos em pé. Arrepiava-se. Era como ter parte com o demo. Talvez ter parte com o demo fosse mais fácil do que lidar com aquele vampiro. Sétimo fazia Inverno parecer um bom moço. — Sou mais poderoso que todos os outros que conheceu, general. — disse o vampiro, como que lendo os pensamentos de Tiago. — Posso fazer quantos filhos quiser. Os outros eram fracos. Criavam um filho e perdiam força. Eu a recupero em poucas horas e, em poucas horas, crio outro. Basta tomar mais sangue. Basta sair para a caçada. Não quero guerra, general, mas quero armas para lutar se for preciso. Não quero chamar a atenção dos caçadores, mas quero estar forte e folgado quando eles chegarem. Escuta, Tiago. Os caçadores não tardam. Pode passar uma década, um século, duas vidas, eles virão. São uma maldição. Rapidamente, Sétimo amordaçou o corpo desfalecido de Agnaldo e amarrou os braços às costas. Sabia que os novos acordavam arredios na maioria das vezes. Ainda mais quando eram feitos novos vampiros sem um prévio contato ou consentimento. — Vamos, Tiago. Vamos para a caçada. Tiago olhou para a porta. A claridade fraca que vira antes já desaparecera. Era noite. — Vamos. — insistiu o vampiro, dando-lhe um tapinha no ombro. — Não quero sangue. — Estás fraco. Posso ver. O que aconteceu ontem? — Não quero matar mais ninguém. — Vai viver de quê? És novato. Precisa de sangue. Está com uma cara péssima. — Viver de sangue... isso não é viver. Não quero caçar. Não quero aprender nada. Trouxe um cara pra cá. Matou-o, tornou-o vampiro. Disse que quer mais. O que vai fazer? Criar um exército?! É louco. Quantos vampiros quer? Cem, mil? Acha que vou te ajudar matando gente? Acha que o governo vai deixar? Não basta o que aconteceu com teus irmãos? Os olhos de Sétimo cintilaram na escuridão. — Não me obrigue a te arrastar para fora desta toca, general! Não me afronte! Temos um trato. Te ensino a ser vampiro. Te dou proteção. A ti e a meu pai, que será caçado por Dom Afonso. Cedo ou tarde, Lobo encontra César, ele tem um faro bom, pode localizá-lo a dez estádios daqui. E é bom que eu esteja por perto. Temos um trato, lembra? Te ensino a ser um bom vampiro. Tu me ensinas a ser como os humanos. — Quer que te deixe um monstro mais perigoso do que és. Escuta você mesmo falando. Já não parece um português. Fala igual a mim. Um arremedo. — Ora, pois, tu mesmo disseste para não falar gajo, ó pá. E é isto que eu estou fazendo. Estou falando como o povo desta cidade. Sou um brasileiro, cara. Tá ligado? Tiago sorriu. O desgraçado aprendia rápido. — Agora, chega. Vamos caçar. Quero um general forte... não um maricas que vive às custas de sangue de ratos e galinhas. Tiago reparou em um conjunto de sacolas próximo do canto onde dormia. Roupas, como havia pedido a Eliana. iria acompanhar o vampiro, mas não iria tomar sangue.

CAPITULO 24
A escuridão começava a ser vencida por uma linha vermelha no horizonte. Leonardo notara o exato momento em que Afonso entrara em transe, cerrando os olhos fantasmagoricamente, adormecendo. Caminhou lentamente até o vampiro. Passou a mão repetidas vezes sobre os olhos da criatura. Estava apagada. Leonardo foi saindo, arrastando-se para fora da gruta descoberta pelo vampiro. Ficara surpreso com a facilidade do monstro em localizar aquele abrigo escuro. Essa era sua chance de escapar. Sentia o peito doendo. Estava doente. A boca, que não se livrava daquele sabor amargo. Sabia que estava doente. Arrastouse cerca de cinqüenta metros. No meio do caminho, começava a esbarrar em velas e cumbucas cheias de oferendas aos deuses do candomblé. Cheiro de cachaça, papéis. Podia enxergar bem na escuridão. Só isso parecia ter melhorado em seu corpo. O estômago queimando. Uma dor aguda no peito fê-lo interromper o arrastar. Bateu o queixo no chão, doloridamente. Sentiu que uma pedra abrira um corte no local. Um rasgo profundo. Um talho. Levou a mão à ferida. Dor. Arrastou-se. A dor no peito sumindo. Precisava de um médico. Era seu coração que doía. Precisava fugir daquela criatura. Avisar aos pais que estava vivo. Certamente, a mãe já teria enlouquecido. Mesmo distante, já teriam lhe dado a notícia de seu sumiço. Dois dias... mais. Já estava perdendo a noção do tempo que estava prisioneiro daquela criatura. Respiração agitada. Velas... todas apagadas. A gruta alargava-se, dando para ficar de pé. Levou a mão ao queixo. Nada de sangue. Nem uma gota. Estranho. Muito estranho, porque passando a mão, tinha a clara impressão de haver ali um talho. O queixo costuma sangrar pra caramba quando é ferido. Via nos campeonatos de ValeTudo. Quando os atletas se feriam, era problema, o sangue vertia. Algo de errado. Claridade. Uma linha vermelha tímida no horizonte. O Sol nascendo. A escuridão indo embora. Correu pela mata. Estavam num morro. Longe, lá longe, uma cidade. Uma cidade pequena. Muito menor que Roda Velha. Seria Amarração? Não podia ver o mar porque a manhã brumosa impedia de enxergar o chão com clareza. Leonardo arfava. Não lhe faltava ar, não era isso. Era a tensão. Correu. As pernas, graças a Deus, pareciam ir mais rápido do que nunca. Não era Amarração. Em Amarração, não havia prédio. Tinha de alcançar a cidade. O Sol despontando. Os primeiros raios solares acertando o morro. Os olhos de Leonardo. O rapaz gritou. Algo de errado com os olhos. Com a pele. Ardor. O Sol. Leonardo rolou pelo chão. Maldito vampiro! Maldito vampiro! O Sol o estava matando. Encaracolou-se. A pele parecia a ponto de estourar. Os braços estavam inchando. Protegeu-se à sombra de uma árvore frondosa. O tronco majestoso dificultava a passagem do Sol ainda tímido. Leonardo melhorou rapidamente, O braço desinchou. O ardor desapareceu. Era o Sol. Chorou. Era um vampiro. Agora fazia sentido. O maldito o havia transformado. As lágrimas desciam em quantidade. Pingavam nas pernas do menino. Não queria. Desespero. Levantou-se. Logo o Sol ganharia força. Correu. Refez o caminho até chegar à gruta. Arremessou-se para dentro. A luz forte queimando as costas. Dor. Arrastou-se para a escuridão, respirando descompassado. Aproximou-se de Afonso. Leonardo agarrou-o pela gola da camisa e balançou o corpo adormecido da fera. — O que fez comigo?! O que fez comigo?! — gritava, chorando. Largou o corpo morto do vampiro. Recostou-se nas pedras no fundo da gruta. A luz do Sol jamais chegara ali. Abraçou os joelhos e encostou a testa neles. Silêncio. As lágrimas ainda desciam pela face, indo até o queixo curado, dali desprendendo-se e caindo no colo. Leonardo cerrou os olhos e, naquela posição, adormeceu. Noite. Leonardo abriu os olhos, saindo do transe. Estava sozinho no fundo da gruta. O corpo, sem nenhuma sensação do desconforto da manhã. Passou a mão no queixo. Não encontrou o talho aberto pelo ligeiro acidente. Lembrou-se. Era um maldito, agora. Somente o estômago ardia. Precisava se alimentar. Há quanto tempo não comia? Não lembrava. Tinha que aproveitar a ausência do vampiro e fugir. Ligar para casa. Tentou repetir mentalmente o número da residência. Não conseguiu. Agilmente, esgueirou-se até onde podia se levantar e andar. Na boca da gruta estava Afonso. A fuga parecia impossível. O vampiro nunca o deixaria ir. A escuridão atrapalhava. Desejou enxergar melhor e, como um milagre, um clarão formou-se repentinamente. Fechou os olhos e apertou-os. Quando abriu, a noite havia virado dia. Tudo podia ver com nitidez. Era até melhor do que se houvesse luz do Sol. Correu. Ódio queimando no peito. Se era um vampiro, não deveria temer o maldito que na boca da gruta aguardava. Afonso notou a aproximação do aprendiz. Lentamente, virou-se para dentro do túnel escuro. Surpresa. Sabia que ele viria, mas não daquela maneira. Afonso mal teve tempo de levar os braços à frente. Um par de olhos vermelhos vinha em velocidade espantosa na sua direção. Perigosos. Olhos de vampiro. As mãos do

São nossa comida. Leonardo olhou para a lua. Leonardo ergueu os olhos e viu. A pele ardendo. foram ao chão. Afonso desvencilhou-se das mãos trêmulas do menino e. obrigando-o a arquear o tórax para frente. As pernas transmitiam ondas de dor como se estivessem fraturadas. Estava sozinho. Atônito. nua e poderosa no céu. Leonardo havia roubado parte do dom maldito de Afonso e era agora . e ele gritou ainda mais. Leonardo rolou no chão. — Logo descobre. — disse o vampiro. Seus olhos buscaram o céu negro. O peito aumentou de volume. Logo. Lá estava ela. Lembra da gruta e volta depois de alimentar-se. — Vês? E noite de lua cheia. O cheiro de sangue. e presas alongadas brotaram na boca. Lambeu a ponta dos dedos. Linda. tentando recuperar a calma. Torno-me fera quando quero. A luz era cegante. Quando tentou se levantar.. O estômago queimando. Afonso arremessou-se. Não seja tolo. Cheiro de chuva entrando pelo nariz. sem causar som algum ao tocar o solo. que se alongavam. O vento bateu forte no morro. A ave passando sobre sua cabeça. Os olhos cintilaram. quando tentara enfrentar o Sol.. Encontrou o par de olhos cha-mejantes em cima da árvore. rindo. Afonso riu. Não vou comer nenhum ser humano. canalha?! O riso de Afonso encheu a mata. Sentiu o estômago arder. com agilidade de vampiro. agora vais experimentar ser fera. Tenho controle sobre essa metamorfose. Não queira ficar lá e matar todos. caindo de forma fantasmagórica. Uma dor intensa tomou o corpo inteiro. atormentado. em seguida. Os ossos pareciam se encher de espinhos que feriam toda a musculatura. Logo à frente. enquanto saltava ao chão. saltou para trás e. dentre os galhos e folhas. Leonardo respirava descompassado. No começo. Apontoulhe o dedo: — O que fizeste comigo? — A mim. E assim será contigo. Ser indestrutível. Só não tenho controle sobre meu corpo quando chega a primeira noite de lua cheia. mantendo uma distância segura. Logo. A pele ardia levemente. a cidade iluminada.rapaz agarraram seu pescoço. quando tenho de empreender escapada. os homens do rei estarão atrás da gente. Caiu de joelhos. só se ouvia o barulho das folhas secas se quebrando sob os pés da criatura. — O que fizeste comigo. Uma gota acertando-lhe a testa. — O que fizeste comigo?!! — urrava Leonardo. Vieste como flecha. A transmutação estava completa. Leonardo levantou-se e procurou. furioso. As risadas de Afonso desapareceram. Leonardo gritou. Ouviu o farfalhar de ave noturna. para cima de uma árvore. sentiu o estômago contrair e provocar náuseas. — Que tem a lua? — Ganhei do diabo um dom maldito. Olhou espantado para os dedos da mão. Arrancou a camiseta. Fitou prolongadamente as luzes da cidade ao pé do morro. Ser poderoso. Vem. A dor cresceu. Leonardo passou dois dedos sobre o local. Logo descobre. Posso me tornar uma fera quando preciso. Uma fera à solta. Desequilibrados. estarás descontrolado. — Vê as casas. ao qual. Lá embaixo. a luz da lua gigante no céu. conferindo-lhe aspecto horrendo. quando me reabasteço do sangue humano. Calor.. Estava assustado. Uma coruja carregando um pequeno animal nas garras. — Não vou me tornar um lobisomem como você. parece que já tens a resposta. Tomaste do meu sangue. homem. Leonardo arrancou as calças. quando quero matar os homens. As mandíbulas rangeram enquanto dentes descomunais brotavam na boca. Não demorou muito para os gritos desesperados tornarem-se uivos. O cheiro hipnotizante.. Seus olhos de vampiro tornavam-na mais linda. Um cheiro adocicado misturando-se ao da chuva. Quando ela está assim. enfiando-se na vegetação lá embaixo. Afonso deu alguns passos até o garoto. fora de controle. Guarda para amanhã. Toma cuidado: come um e volta pra cá. Dor forte. o lobo vem e toma conta de mim. Além do vento batendo nas árvores. Ouviu o guincho da pequena vítima. — Sou um vampiro? — É mais. — chamou o vampiro. Olhos vermelhos. fazendo-o lembrar-se do episódio da manhã passada. Desejaste ser como sou. Lá está nossa comida. Maravilhosa. o rapaz seguiu Afonso além das árvores. Um uivo de lobo. havia um barranco com cerca de oito metros.

confundindo os homens. Não eram balas de prata. notou que a dor era momentânea. Talvez. e partiu para cima da fera. Estavam prestes a partir para um novo embate quando o som de sirenes alcançou os ouvidos de ambos. fazendo o carro afundar. A boca desceu. evitando mais que duas passadas em linha reta. desferiu um potente golpe na face de Leonardo. ergueu o focinho. Não fosse isso. Leonardo. Prudência. a fera. com os dentes descomunais à mostra. Abriram fogo. — Caralho! Eles estão vindo! — gritou um deles. Lobo afastou-se do novato insolente. Num segundo movimento. Metralhadora cuspindo projéteis de maneira desordenada. Ergueu o focinho. Bateu as patas no capo do Santana da PM. voando na direção das viaturas. furioso por ter-se tornado um monstro tão horrendo quanto o vampiro-lobisomem. avistaram duas viaturas da polícia em alta velocidade. os pêlos eriçados. Estava louco para matar. A dor havia deixado o corpo. No entanto. Os homens. Desceu pela grama e pelo barro e atingiu o asfalto. Descobriria isso em breve. Só assim para justificar o prazer que tomava conta dos pensamentos. Tiros de pistola e carabina ferindo a pele. Confusão. Era valente. mas aqueles ali não fariam isso. Lobo correu na direção dos policiais. pingaram gotas de sangue. Afonso. com a dianteira. lambuzando o focinho no sangue fresco. encontrou Lobo debruçado sobre um cadáver. inspirando repetidas vezes o ar da noite. Levantou-se sobre duas patas e notou que se equilibrava com facilidade. Escancarou a boca gigantesca e urrou feroz. Cinco lutando. O monstro perfeito. Dentes pontiagudos cravando em carne. disparando repetidas vezes. como se estivesse se afastando. observando. Rugido. Dor na região atingida. Lobo. Ardiam. Duas feras em forma de lobo expunham sua fúria no meio da rua de uma cidadezinha litorânea do Rio Grande do Sul. rolando pelo chão. espreitando. Depois de alguns quarteirões. que repeliu o novato. Eram sábios sem saber. engolindo braço e ombro do policial que empunhava a metralhadora. O novato foi atingido. Leonardo disparou pela calçada. voltou às quatro patas e disparou morro abaixo. assim que cravasse as presas em sua primeira vítima. um ferido definitivamente. Lobo rugiu. Gritos. Pânico. Os olhos ferinos de Leonardo cintilaram. Botou-se de pé e urrou. cravando os dentes nas costas de Lobo. muitos se recolhiam assim que o Sol caía. não daquela vez. Não durou dois minutos e todos estavam mortos. Os olhos encontraram as luzes da cidade. Disparos. O novato estava ali. protegendo-se nos carros. mas nenhum atingindo a fera mais próxima. enchendo a noite de um brilho escarlate efêmero. Não era tão grande quanto Afonso em forma de lobo. estava louco para encontrar Afonso e nele cravar os dentes. Fez sinal com a cabeça para o novato e disparou. a culpa era dele. pois. Morte. trazendo na boca o braço de outro soldado. Levantou-se sobre duas patas e. Leonardo mordia Lobo repetidas vezes. se agora era um monstro. Soltou novo urro. Leonardo saltou sobre pedras altas. O vento constante avisando que a tempestade que se aproximava talvez fosse a razão das ruas estarem vazias àquela hora. Leonardo deu um passo para trás. mastigando carne humana. certamente seria tão assustador quanto. Caiu atrás da segunda viatura. Contou seis policiais. grunhindo ferozmente. Engalfinharam-se. O novato devorava vorazmente uma vítima. as viaturas pararam a cem metros dos monstros. talvez fugissem com vida para contar a história aos netos. talvez os habitantes ainda estivessem impressionados com as nevascas recentes nos arredores. aos olhos de qualquer humano. Mantiveram-se em pé. que surgia no meio das viaturas. pulou para cima de um muro e impulsionou o corpo gigantesco de volta para o asfalto. e parte da mente fora arremessada para um canto escuro do cérebro. Virou-se. Correu. Fizera uma boa escolha para iniciar a matilha. viraram a cabeça na direção do som. empunhando carabinas por cima da lataria dos veículos. fugindo dos tiros. Farejava Afonso. Imitou Lobo e começou a correr de encontro às viaturas. era hora de aproveitar a noite. Daria uma boa fera aquele rapaz! Era guerreiro. Estava na cidade. Lobo virou levemente a cabeça. Lobo fez o mesmo. talvez durassem. Talvez estivessem acuados. Policiais desceram. tombando com o peito dolorido. O novato vacilou e estacou. rosnando furioso. que rolou pelo asfalto e bateu num poste da rede elétrica. Prudentemente. chacoalhando o dorso musculoso e colocandose de pé. já estavam desesperados. Lobo desabalou em zigue-zague. Os policiais pulavam para o outro lado. mas num segundo arrependeu-se. Refeição feita. mas. Gritos.um lobisomem. No início da rua. com medo do lobo que uivara antes mesmo dele tornar-se um lobo também. Saltou para a calçada. Lobo ouviu mais sirenes. impondo a silhueta gigantesca. mas não eram ferimentos mortais. antes do ataque. Saltou. . Muitos atribuíam o feito ao demo. Da face. Estavam com medo. Talvez os policiais armados dessem algum trabalho. para confundir os policiais. Não fosse o segundo lobo. na rua. Dor desaparecendo. Ato reflexo.

Sétimo benzeu-se. Tornava-se um monstro. Sétimo não parava um instante de perguntar. A boca selada deixava escapar grunhidos curtos e quase inaudíveis para ouvidos humanos. buscando uma presa. Sétimo desferiu um soco forte na cabeça do novato. Sétimo antecipou-se. Os músculos rijos como nunca. Os olhos vasculharam. ao abri-los. Carros. um vampiro. Tentou mover o braço e logo descobriu que continuava com os . A boca de Agnaldo encheu-se. — disse Tiago. Os olhos brilharam vermelhos. CAPITULO 26 Agnaldo despertou quando anoiteceu. o primeiro soldado. O rapaz tinha lágrimas nos olhos esbu-galhados. Os punhos feridos pelas amarras mostravam que o novato estava pouco contente com a condição de prisioneiro. Queria apenas descansar a cabeça. apanhou o corpo pesado do soldado e acomodou-o num canto da toca. Eram armas. A cidade era gigante. Só por isso os da casa não haviam despertado. Não resistira à fome. estariam abertos como que por encanto. Não conseguia julgar o vampiro nem se incomodava com a presença do rapaz apanhado por Sétimo. Soldados. O corpo estava explodindo de energia. Não era Sétimo que chamava — era ele. o novato. subitamente. A noite fora agitada. A face tornara-se dura. Sangue humano. Sétimo apertou os olhos e. Deixou o vampiro chegar sozinho ao meio da passarela. Como seu guia permitira que demorasse tanto para descobrir o tamanho daquela coisa gigante que era a cidade de São Paulo? Tiago parou. Poucas pessoas àquela hora. sem demorar muito. Subindo e descendo. Tiago sentiu um cansaço grande e repentino apoderar-se da mente. Precisava se alimentar. Mas a cabeça exausta. Os dentes alongaram-se. Não iria ao McDonald's. Como seu coração vampiro não pulsava. Ninguém notava que dois vampiros estavam ali. Tiago lembrou-se do novo vampiro. Bruxos. Quero comer. Sabia que não era o Tiago de antigamente. Soltou um curto grunhido e seguiu o general. Tiago se encaminhou para a escada. Estavam numa das passarelas da avenida Rebouças. como se estivesse debruçado sobre cálculos complexos dias a fio. Sétimo estava impressionado também com a quantidade de habitantes. imóvel. Precisava de sangue. Recostou-se e. que o fez desmaiar. Era a cara de um predador sedento. carros e mais carros. Tiago também debruçou-se. — Vamos. Num instante. O corpo forte e firme. de táxi. cerrou os olhos. Fechou os olhos e em mais nada pensou. Entraram. Sétimo repôs a fita adesiva. Tiago estava acocorado ao fundo. Não comeria frango frito. morto. Sétimo vedou e calçou a porta para que não fosse aberta durante o dia. Fome de sangue. Que fossem recebidos na porta do Céu. Voltaram para casa pouco antes do amanhecer. Queria proteção. A cabeça zumbindo. Sétimo aproximou-se de Agnaldo. Aprendia rápido. Que um padre os encontrasse e desse a todos boas orações. Alimento. perto do Hospital das Clínicas. Que não fossem ignorados por Deus como os vampiros foram e eram. Sétimo sorriu ao notar os olhos do parceiro. Era estranho. O sobretudo recém-comprado batia ao passar do vento. e ninguém dava bola para o homem pálido debruçado no parapeito. precisou espremer o corte para que o líquido vertesse. Estava começando a ficar obcecado pela idéia de montar um exército. Achar aqueles de quem os outros não sentiriam falta.CAPITULO 25 O vampiro estava boquiaberto. Era tanta gente que poderia escolher. já haviam transmutado. admirando a avenida. O discurso eloqüente de quem repudiava o sangue humano caía por terra. e arrancou a fita adesiva de sua boca. Seis cadáveres tinham sido abandonados nas calçadas à própria sorte. Ouvira da boca de Tiago quão poderosos haviam se tornado os homens com armas. Nunca precisava repetir um nome. O estômago queimando. perdendo o ar juvenil adotado no disfarce de adolescente. ouviu um grunhido que vinha do cômodo escuro. Providenciou um talho com a unha no próprio punho e abasteceu o novato de sangue. Notava que ele estava espantado com a profusão de carros e luzes que passavam velozes abaixo de seus pés. Estava aceitando sua condição. O novo soldado. Tiago havia perdido a batalha. contorcia-se. Com a chegada da próxima noite. Sétimo sabia que o rapaz despertara havia pouco. Tiago pagou ao motorista. que o encaravam com medo. Quando chegava à toca. que fingiu ignorar o filete seco no canto da boca do estranho passageiro.

Tinha sido pego por um bando de malucos. Agnaldo ouvia em silêncio e respirava rápido. Não podia crer no que estava acontecendo. assim que assumires tua nova condição. Audição aguçada. Porém. poderia não dar conta. que lembrava sangue. Tornou-se um caçador fenomenal. Se queres sair desta toca e . Agnaldo sentiu que os olhos estavam mais acostumados com a escuridão. E forte. — Te escolhi dentre muitos. O general mesmo muito lutou contra a força vampírica. Não tinha mordaças. Vampiros?! Aquela coisa só existia no cinema. — Você não vai sair. que foi de encontro à parede e caiu desequilibrado. Com fome. Um par de olhos vermelhos feito brasas boiava no ar.. porque quando os outros chegassem. Estaria tendo um pesadelo? — Deixa eu sair! Deixa eu sair! — começou a gritar. como se o coração fosse explodir. Uma fera. Agnaldo levantou-se abruptamente. vindo em sua direção. Sétimo acertou o bíceps avantajado do rapaz. — Que eu tô fazendo aqui? — Você foi escolhido.. apenas obedecendo à sede. mas um garoto um pouco mais novo que ele. Agnaldo assustou-se com o brilho vermelho que tomou a escuridão por um instante. És um vampiro. Acredita em vampiros? Agnaldo meneou a cabeça. procurando uma saída. não conseguiria. um vampiro. Um homem levantou-o e desatou o nó das costas. Com um soco. Sétimo aproximou-se ainda mais e grunhiu prolongadamente. Só podia ser isso. — Onde está a porta? Fica longe de mim. há de se comportar. Será um bom soldado. mas a maldita não se movia. — Escolhido? Que merda é essa? — Você fará parte do meu exército. com os olhos chamejantes. prote-gendo-o da presença daquele ser. Agora. sem traço de saliva em canto algum. — O que é isso? — Meus olhos. Visão clara na escuridão. mas ontem cedeu. exibindo os dentes pontiagudos. Agnaldo lembrou-se do gosto de sangue e cuspiu enojado. Tateava a parede. Ouviu passos. Te escolhi porque és forte. Olfato capaz de farejar longe.. — Sou um vampiro.. Os desgraçados que fizeram aquilo tinham machucado sua boca. como conseguiria golpear com tamanha força e precisão? Só algo diferente de um humano. A boca estava seca. Serás meu melhor soldado. Só podia ser verdade o que o maldito dizia! Um rapaz sem músculos aparentes. que a partir deste instante começará a crescer e a apoderar-se de seu corpo. Um gosto amargo. O magrelo não o teria apanhado sozinho.. Um assassino perfeito. Perturbado. seu maluco. Emitiu um gemido prolongado. então. Com o passar dos anos. O rapaz sentiu-se enlouquecer. O braço doía. diante dos seus olhos. tentando empurrá-lo para longe. Tentava abri-la. Não conseguia dizer palavra alguma. soldado? Quer sair para a noite? — perguntava o vampiro. És um filho de vampiro. Agora. Aprenderá a caçar e a sobrepor-se à raça humana. com o coração disparado. Os dentes pontiagudos que vira na boca do agressor condiziam com o folclore.punhos amarrados. — Quem é você? O homem não respondeu. Tudo de mentira. — Quer sair. Tu estás vindo para a vida noturna. aquele par de brasas flutuantes colocava em xeque sua convic-Ção. Sairá comigo e com teu general. Já és forte. mas não conseguiu tirá-lo do lugar. Sétimo fez os olhos cintilarem. E tu. tornar-se-á mais firme que rocha. Tinha que aproveitar agora para fugir. — Quem vai me deter? Você? Agnaldo encontrou a porta de madeira. Estava zonzo. o coração não estava disparado. verá tua força quintuplicada num instante. golpeando a porta. Sem piedade. Não era um homem. Era que nem Papai-Noel. acocorou-se ao lado dele. Tenha a honra de se juntar ao meu exército. Procurou o ferimento com a língua e não encontrou. — Quem é você? — Quem eu sou? Quer saber quem eu sou ou o que eu sou? Agnaldo encostou-se na porta. tu não tardas a sucumbir à vida vampírica. Sentia uma dor forte no peito. empurrando-a com o corpo.. Levou instintivamente a mão ao pescoço procurando feridas. — Já te dei do meu sangue. Esbarrou no rapaz. Com sede. — Se quiser sair. Aprenderá a usar sua força vampírica.

diga já que não me dará trabalho. mas nunca mais pare de fugir. Não queria ter aquela certeza no peito.caminhar sobre a terra novamente. A certeza de que estava morto. Lágrimas brotaram. Ninguém. A certeza de que sua vida acabara ali. tudo bem. te dou uma chance. Ninguém me faz de bobo. Agora.. . Rezava para que fosse um pesadelo. Te dou meia hora de vantagem. Fuja. para que acordasse em casa.. se pretendes fugir. Vou te achar e trucidar seu corpo. Agnaldo agachou-se.

além do mais. vendo que realmente acertara na escolha. você também é um vampiro. Logo.. A lua cheia estava esplendorosa. o novo soldado cederia às vontades humanas e logo estaria achando normal ferir a carne e das artérias extrair sangue vivo. Sabia que não tardaria.. Mas o que ganhei? Um tiro pelas costas. Não vou mais fazer o serviço deles... Ele quer criar um exército.. Ele quer proteger-se. . Quando Tiago se aproximou.. Li. Havia dito algo de errado. — O nome dele é Agnaldo. Tiago debruçou-se na mureta. — Mas temos ao menos que avisá-los sobre os planos desse monstro. Tiago. Que o ensine a viver como humano. Eliana sorriu. Tiago. — Deus.. Havia sucumbido ao poder vampírico. — balbuciou a mulher. não estava arrependido. Quer reerguer-se. ele é minha garantia de vida até liquidar o Lobo. Esse pesadelo não vai acabar nunca. a polícia está atrás dele por seus próprios feitos. esse Sétimo já foi traído não sei quantas vezes. — As roupas ficaram boas. Li. Vi seu R.. Tinha se perguntado como isso teria acontecido. interromperam a conversa.. Matamos gente esses dias.CAPITULO 27 Tiago havia abandonado a toca enquanto Sétimo vigiava seu novo soldado. Isso não demora muito a estourar. Era como ter tirado um bife duma vaca. Li. você está matando gente junto com esse monstro?! Tiago emudeceu. O tal Lobo vivo em algum lugar. Titi.G. Justo ele que tanto odiara aquelas criaturas quando deu-lhes vida. mais se tornava um deles. Não faz mal nem pra mosquito. Eliana. Que eu seja seu general. — Não deve ser fácil. Quer tudo isso. Como vamos explicar que nos salvamos de uma detonação nuclear? — O César não estava no barco. assustados com a presença do amigo. Mas não vou cagüetar o cara. pode deixar. Todas as peças eram pretas... temos dois no porão. — Matamos?! Você. Quer um exército. porém não conseguiu manter os olhos fixos no satélite por muito tempo. Tiago? — quis saber Eliana. Até o assombroso dom de congelar havia herdado de Inverno.. Estávamos na caravela quando a bomba explodiu. Tiago sentou-se no muro da varanda. Logo. Matá-los. Não sei.. O cheiro da noite invadiu suas narinas. Abaixou a cabeça. Eliana. Tentamos ajudar o Exército a apanhá-los... — Não sou traidor. — Quem é esse rapaz. Quer encher essa casa de vampiros. Deus me livre! — O César tá certo. — Que jeito? Vai matar Sétimo? Lobo? Só se for esse o jeito! — exclamou César. Cesão! Não quero me aliar. Obrigado. ele chama a atenção.. Subiu até a varanda. É um moleque. — Tiago parou ao notar a expressão de Eliana.. — Vou arrumar um jeito de parar com isso. Não conseguia mais olhar para a luz da lua. meneando a cabeça... Notou que começava a habituar-se à nova condição. Tem dezoito anos. retirando-as da caravela! Agora era um deles. — Por que ele pegou esse menino? — Já te falei. É isso mesmo. Ele pode denunciar. como ele havia pedido. um dos malditos. — Não sei. Havia matado muita gente na noite anterior. nem se sentia mal. Tiago suspirou. — respondeu. onde César e Eliana estavam sentados.. não precisamos abrir. A cada dia. — quis ajudar César. — retrucou a mulher. acho que já fizemos nossa parte. quando. como se lamentasse. — Mas se você não denunciá-lo. Respirou fundo. E quando forem cem vampiros?! O que faremos? Vamos estar do lado de quem? Dos bandidos ou dos mocinhos? — Nós não podemos avisá-los.... Um ardor leve apoderou-se dos olhos e da pele onde a luz da lua tocava. estranhamente. — Agora. num flash. vai fazer o quê? Aliar-se a esse plano maluco de rechear o Brasil de vampiros? — Pô. — Boa coisa ele não é. veio-lhe a lembrança e a imagem dele. A gente conhece esse cara. mas. cravando os dentes em Guilherme e tomando o sangue contaminado com a maldade e a selvageria de um dos vampiros mais cruéis que caminhara sobre a Terra.

Os três ficaram em silêncio por um longo momento. só quebrado quando Tiago disse: — Vamos deixá-lo só. Vamos fugir! . Não vamos participar disso.

Dimitri encarava fixamente grupos de jovens vestidos com sobretudos e jaquetas pretas. poderiam encontrar as portas do céu fechadas. Não escondiam os cadáveres. notas reveladoras. se os corpos não recebessem os sacramentos antes de subir ao reino das almas. Encontrá-los seria uma questão de tempo. desceu do Comodoro e abordou suspeitos. Gente pirada. O Comodoro continuou transitando. não adianta grudar uma cruz na testa do vampiro para vê-lo queimando? — Não. Só com pistas mais conclusivas conseguiriam achar o lugar certo: o covil dos vampiros. depurando estranhezas. lendo as páginas policiais. mas dava moedas aos clérigos peregrinos. Tobia sabia que um vampiro astuto deveria caçar longe de seu covil. procurando assassinatos suspeitos. Eram geralmente muito pálidos. por outro. tiravam a vida. — Não. Porque. alguns vampiros eram até religiosos. — Outros assumiam publicamente um ódio mortal contra a Igreja e Deus. que não lembrava de ter encontrado qualquer artigo esclarecendo. mas. Dimitri descobriu que as criaturas tinham obsessão por roupas pretas. dava proteção. — Os vampiros temem crucifixos? — indagou Dimitri. Mandavam construir capelas nas vilas mais afastadas e doavam fortunas para pequenas igrejas. Esse negócio de crucifixo é folclore. mesmo os mais crentes não perdoavam a vítima na hora de saciar o vício do sangue. Lendo o livro dos caçadores. Mais de uma vez. Estavam próximo ao centro. eram poucos. Sem isso. — Então. Passava o dedo enluvado no rosto e trazia uma marca na ponta. Dimitri dirigia enquanto Tobia continuava a revirar os jornais do dia. Gostavam de se parecer com mortos e freqüentar cemitérios. Os pálidos estavam maquiados. procuravam encaminhar o morto. Preocupavam-se com isso. deixavam os cadáveres onde fossem certamente encontrados. Tinham que detectar os locais de presença vampírica. teriam de usar a cabeça e ter sorte. Crucifixos no pescoço. Góticos. assinalar pontos no mapa. Rodavam pelas ruas a bordo do novo Comodoro. Os olhos poderiam brilhar no momento de perigo. — Esses bichos são estranhos. Decidiram continuar em Osasco depois de encontrar a primeira vítima no IML. — Encaminhar? — É. encontrava gente pálida. A maior parte podia até não ir a solo sagrado. . e por isso cometiam os maiores desatinos. — Estranhos e perigosos. Eventualmente. estranhamente. Independentemente de serem religiosos ou não. Quando matavam. Seguiam com o carro. Pregavam que Deus tinhalhes roubado a alma. Segundo o livro dos Tobia. destoantes. Uma dualidade: por um lado. — Estranho. Sabiam que em Osasco havia atividade de vampiros. Só faziam isso com quem odiavam.CAPITULO 28 Tobia e Dimitri estavam na terceira noite de ronda.

Iria conquistá-lo. Agora há pouco... Quando conquistasse a confiança daquela criatura. Aqui não é mais seguro. menino. Leonardo sentiu a visão clarear. vi insetos metálicos voando sobre nossas cabeças. Não encontrou os sapatos. Vamos andar. vampiro. — Qual é seu nome? — Afonso. Precisava de aliados. Os dentes apontando. — Que vampiro novo? Fez um novo vampiro? — Não. Leonardo encontrou seu par de tênis no mato. — Leonardo. Falo de um que veio antes de ti. trazendo-lhe o benefício da visão vampírica. — Para onde vamos? Afonso lançou um rosnado. voltaria para casa. Leonardo aproximou-se. Eechou os olhos. — Acho que já respondi. — Vamos! Anda. Grunhiu baixinho. Calçou-os rapidamente e seguiu o vampiro. vivo? Que tão logo pudesse. quatro? Seus pais teriam chegado dos Estados Unidos? Queria contatá-los. sem saber que seus olhos haviam cintilado. Deveriam estar sofrendo.. Já havia feito isso quando era o simples garoto que fora toda a vida.. Colocou a roupa. Tornar-se um seguidor fiel. Tiros. Estava descalço. Não queria ser morto. Afonso observava-o de longe. Havia imobilizado o vampiro com uma estaca no peito. Certamente conseguiria fazê-lo mais uma vez. Tinha que se livrar do vampiro. — Vamos andar. Fiel apenas aos olhos do vampiro. Leonardo.. Nervoso. dizer que estava vivo. falar com eles. Leonardo. Viaturas de polícia. menino. — O quê? — Meu nome. Um que está na Terra alguns dias a mais. comparsas. Meu nome é Leonardo. menino. iria destruí-lo. Queria ver a mãe. Vamos buscar o vampiro novo. Olhou para o chão. . Cenas relâmpago tomavam sua mente. Feito aquilo quando tornara-se um lobo. nu. Iria matá-lo. — Siga-me. A oportunidade de ouro. Não queria ser pego. Não iria fugir.. vindo em torrentes repentinas. Ele havia feito aquilo. e seremos pegos. Fingiria estar obediente. só assim conseguiria voltar para seus pais. Logo alguém lembra que existe esta toca.CAPITULO 29 Noite seguinte ao ataque às viaturas. Não temos a noite toda. Bastaria a hora certa aparecer. Gente morta. Leonardo. despertou no escuro da gruta encravada no morro. Abriu os olhos. Um lobisomem. jogando ao novato as roupas largadas no mato na noite passada. Não temos tempo para conversa. — Para onde quer ir? — Vamos para o norte. Há quantos dias estava desaparecido? Três. Viu Afonso deixando a caverna. voltaria para eles.

De certa forma. sem dúvida. Tão diferente de seu passado imediato! Os feudos eram outro mundo. Continuaria pálido. Somente Dom Afonso perambulava pela Terra.. Criaria seu exército poderoso. Queria reencontrar as duas coisas. ninguém se dava conta de estar cruzando o caminho do vampiro mais poderoso da face da Terra. Seu coração vampiro fora tomado por duas coisas. magro. Seus olhos encheram-se. um conforto. Reparou num casal que conversava com um homem uniformizado. Gente. Tiago dissera que ele não fizera parte daquele pacto maldito. Rumou em direção ao som. O cavalo metálico. Possivelmente. Saíra sozinho. que viam ali um adolescente de cabelos longos e lisos. Sabia que lá encontraria um jeito de voltar pra casa. adaptando-se a à grande quantidade de luz. A raça humana não precisava mais caçar. Eram reluzentes e pareciam carruagens novíssimas. lembrava-se. Já havia decorado o nome dos coletivos que seguiam em direção ao bairro onde morava. intuitivo e de rápida assimilação. por sua valentia e selvageria. Miguel fora enganado por Inverno. Apesar de todas as desavenças. Seria mais poderoso e mais temido que o próprio demônio. Era isso. que supriam os moradores das recentes vilas. No entanto. haveria de camuflar um pouco mais o rosto vampírico. mas não tinham dinheiro no bolso sequer para a gasolina que tiraria o veículo da concessionária. pois sabiam que era o único vampiro temido pelo implacável caçador de vampiros. não precisava mais lutar. não contavam com muralhas. cedo ou tarde. uma espécie de máquina. Para a primeira. Eles o invejavam. Após atravessar o estacionamento. Sétimo sabia que sempre fora invejado por sua perspicácia e determinação. Não possuíam portões. Odiava-os. Podiam estranhálo no momento. perguntavam isso e aquilo. Seus olhos claros passaram para negros instantaneamente. resultando na entrega de Sétimo ao demônio para ser escravo. sem ser incomodado pelos vendedores. com a pele queimada.. Sétimo dava por certo que o coração bateria acelerado quando avistasse novamente a beldade morena. que mantinham os humanos afastados e os fazia respeitar a raça dos vampiros. Era tanta gente que não dariam falta pela perda de alguns. já alimentavam essa relação de amor e ódio. Como era linda! A motocicleta também! Daria um jeito. alcançou o prédio onde todos entravam. Não era uma loja de carros. desceu na avenida para examiná-los de perto. mas. precisaria de sorte. não se distinguiam tanto dos mercados antecessores.. Não faltaria naquela terra matéria-prima para a construção do seu grupamento. já tinha se maravilhado com outros desejos. Acertaria as contas com Satã. O som contagiante vinha de uma pequena caixa. precisaria de dinheiro. O vampiro atravessou a avenida dupla e desceu no sentido viaduto metálico. Muita gente. chamado de motocicleta. sentia falta dos irmãos.CAPITULO 30 Eram quase cinco horas da tarde quando Sétimo. lá embaixo. Ninguém temia ser banido da cidade para viver na floresta escura e fria. Sétimo encontrou a origem do som. Passou a examinar os carros despreocupadamente. crianças e homens. mas também não podia negar que sentia falta daqueles bastardos. Não tinha mais como acertar as contas com os irmãos. tinha tanta gente obesa nas ruas. ficava o terminal rodoviário da Vila Yara. imensamente maior que o da loja. de possuir as duas em seu castelo. apesar de achar os carros bastante bonitos e reluzentes. Tomaria a cidade. encantado com o pátio repleto de automóveis. quando o entregaram ao demônio em troca de poderes. não negava. Não havia conjunto harmônico algum. Precisava caminhar mais ao Sol. Esbarrou em duas pessoas. Miguel. Uma música contagiante tomou conta de seus ouvidos. Carrefour. Mulheres. Fosse humano. Sétimo. entendia que os gigantescos supermercados eram a evolução dos mercados simplórios. e a estonteante moça morena que se dirigia a um ponto de ônibus. Era um supermercado. mas nenhuma como a que vira noutro dia. Parou em frente a outro pátio de veículos. muito diferentes. Voltaria ao D'Ouro como rei. das coisas mais variadas. Tiago lhe dissera que seus irmãos tinham passado por ali. porém divertidos e abastados de novidades... não carregavam machados e espadas pesadas. Por isso. onde os humanos se abasteciam de víveres. Sétimo. Mulheres lindas. Para a segunda. Não caçavam. impressionado com sua pele ainda muito alva.. Um rapaz olhava-o espantado. um conjunto tocava. exceto pela distância dos séculos e pelo salto da modernização. funcionário do supermercado. Mesmo antes da traição fatídica. Sempre enchiam muito o saco. deduziu o vampiro. mas. um roqueirozinho sem dinheiro. Tobia. O rei-vampiro. Compravam uma máquina de fazer barulho. de roupas escuras. Certamente. Não era o suficiente. Eram tantos! Desceu a rua e leu a placa luminosa. Não muito distante dali. Tiago havia lhe comentado algo. .

deixando o corpo cair de encontro a uma das prateleiras. Viu-os esvaziando habilmente os caixas. imediatamente. uma nuvem de fumaça formou-se.. Iria destruí-los e levar o dinheiro. Eram ricos e temidos. retirando as balas presas ao corpo. não dos bandidos. Sétimo usou a velocidade vampírica. O casal afastou-se com o vendedor. preparando-se para o confronto. Sétimo colocou o rosto no corredor. Acionou um botão e uma sirene ativou o giroflex. agonizante.. Com certeza. Sétimo sentiu o corpo ser perfurado inúmeras vezes. que. até alcançar o automóvel.Prestando atenção. Nunca faltou dinheiro após organizarem-se no castelo. — Fim do tempo. Girou um botão. Rápido. Mais dois chegaram. queria enfrentá-los.. ganhavam a marginal Pinheiros. Queria um. e então tomaria seu dinheiro. Viu os assaltantes. Passaram por vários e vinham em sua direção. Gritos de mulher. Estava poderoso. Explosões repetidas. Usou a força que restara para sair do supermercado. Compraria o CD-player.. ria Havia caçado nos últimos dias. emaranhados no costumeiro congestionamento da tarde na cidade de Osasco. Um segundo esvaziou mais uma gaveta. Explosões sucessivas soaram dentro do supermercado. saindo de trás da coluna. promovendo. Sétimo recostou-se a uma pilastra. Sim. Queria entender o que acontecia. e o som voltou ao normal.. Voltou a esconder-se na coluna. Era. a grosso modo. sem sonhar que se deparavam com um vampiro maldito. O bando fugia nervosamente. tinham um aposento cheio de ouro e objetos adquiridos em pilhagens e negócios feitos no feudo. Enfiou a mão no bolso direito e retirou as notas dadas por Tiago. faziam lembrar os mosquetes usados pelo Exército do rei. dirigindo-se a outro. agora lhe deviam tudo o que tinham. Sétimo sentia o peito queimar. Vinte metros à frente. abastecido o corpo de sangue fresco. Davam terra aos criados e recebiam sua parte. O assaltante que abatera o vampiro sorriu e disparou novamente sobre as caixas de cereal que cobriam sua nova vítima. Os carros. Os assaltantes aproximavam-se e disparavam contra as gavetas registradoras. e um terceiro fez um sinal. Sétimo aproximou-se do aparelho e tocou a frente metalizada. Mais tiros. Sentia agora os benefícios daquele cuidado. Sétimo abria a boca. O motorista era ágil e seguia a rota de fuga planejada. — Assalto! Assalto! — ouviu o vampiro. Desfez o giro. o furgão a ambulância. O sangue fresco ajudava o poder vampírico a regenerar a carne destruída e expulsar os projéteis metálicos. Mais disparos. Queria que Tiago estivesse ali. As pessoas começaram a correr desesperadas. Tinha que conseguir dinheiro. Os homens começaram a abrir os sacos de lona e a examinar os resultados do assalto. compraria o cavalo metálico que tanto apreciara. davam passagem aos salvadores de vida. arrombando-as e jogando o dinheiro dentro de sacos de lona. Contou seis homens. transformando-se numa sombra indistinguível. Bateu a mão no peito. recuou. O assaltante surgiu e assustou-se ao se deparar com o moço de negro junto ao caixa. Os seguranças trocavam disparos com os assaltantes. Disparos. o que afastava os ladrões e os saqueadores. Seu poder vampírico regenerava rapidamente a carne destruída. seu dinheiro. Pensava nisso quando ouviu gritos desesperados. O novato o ensinara a conhecer o valor do real. porém. a força vampírica também se esvaía.. Contudo. que o encobriu com mercadorias esparramadas. Prosperavam. As perfurações feitas pela arma do mortal haviam desaparecido quase por completo. Deixava um viaduto. não queria chamar a atenção do bando. O cheiro do sangue vertente alcançou suas narinas e apeteceu-lhe. Setecentos reais! Afastou-se contrafeito. e o som ampliou-se abruptamente. Precisava dar um jeito. junto a um dos caixas. Sétimo retesou os músculos. Sétimo estava fascinado. Dirigiu-se à entrada da loja. Vamos rapar. quieto. Os dentes sobressaíram. Saltou para cima do furgão e agarrou-se o teto. que fugiam num furgão branco. O corpo de um funcionário no chão. Manteria-se agarrado fortemente às hastes no topo do furgão até se recuperar. Todos os humanos se afastaram. correndo. no imenso corredor do supermercado. Instantes depois. Espreitou. A dor insuportável cedia. todos empunhando armas compridas. Sétimo descobriu que o objeto era o melhor CD-player do mercado e que a música que escapava das caixas acústicas era da banda Raimundos. Ao contrário de perturbar-se. Tinha vinte. Chamou outro funcionário e pediu o preço. quando foi surpreendido pela poderosa arma do marginal. No castelo português. Levantou-se num movimento único. todos encapuzados. mas dos assustados clientes. Os olhos cintila-ram. Não estava acostumado a privar-se de prazer por falta de ouro. Como todos corriam. Não suportando o impacto. Percebeu que olhares humanos recaíram sobre ele. preparando-se para atacar o primeiro. eles se fariam de homens valentes. Os malditos haviam o atacado. . Correria. Sétimo não cogitava sair. poderoso e estaria restabelecido em poucos minutos. potencialmente assassino. Os ouvidos atentos acompanhavam a ação dos bandidos. negociando detalhes para fechar a compra.

Contornou o furgão pé ante pé. Ninguém mexia com o Sofia. o cara é só o seu chefe. para levar recados. Um jogo de sofá. Não tardariam a se embebedar. Régis. a gente apaga você em dois segundos. Só não contavam com o intruso no andar de cima. vendo o rapazinho aproximar-se. O bando saltou do furgão sem notar o vulto esguio esconder-se na armação do telhado. com a forração igualmente puída. poderiam ver um par de brasas ardendo na escuridão. Lentamente. abaixa essa porra.. Os homens riam e sentiam-se a salvo. Torná-los soldados. tinham coisa mais importante para fazer. O próximo passo seria chegar ao galpão alugado e aguardar até o dia seguinte.. — bronqueou o assaltante. virando-se para o motorista. O chão estava sujo e manchado por incontáveis poças de óleo seco. E apagar funcionário do gordo chefe do crime organizado da Zona Oeste não era coisa sabida. tirou um . mas recebeu uma nova e violenta coronhada no meio da testa. no meio do lixo. Haviam entendido o recado. atento ao que os homens diziam. não notou o humano às suas costas. sem máscara. é que aluga pra você o armamento. Cês tão tendo o prazer de estrear. e vocês? Que vão fazer amanhã. Sétimo tocou o solo silenciosamente. o furgão imbicava no armazém. com o som do motor enchendo o ambiente. Sétimo tombou desfalecido. quando eu não voltar pro serviço? Onde vão esconder esses rabos? Régis abaixou a arma. um homem normal abrindo um portão. algumas cadeiras. Depositaram os sacos de lona sobre a mesa e passaram a separar as notas. Do bolso do colete. O galpão amplo parecia uma velha oficina de carros. O veículo entrou lentamente.. — Trinta mil? — Trinta por cento. Falavam alto. Não possuía equipamentos e estaria liso. Cobra barato para pôr tanto na mão de bandido pouca bosta feito tu. Que tu vais fazer? — Se vocês me apagarem? Eu não vou fazer nada. Dezessete minutos depois. tomou-o como um vagabundo invasor e. Sofia pagava um cara para manter a ordem. — Quanto deu? Quanto deu? — Peraí. Uma lenda. Ratão. palhaço. Já havia contornado o furgão e aproximava-se do grupo. sem poupar força. os ânimos se acalmaram. uma velha mesa de bilhar. Um dos bandidos desceu. — Caralho! O porra do Sofia não faz merda nenhuma e leva trintão?! Ouviu-se um engatilhar de arma. Contar o dinheiro. poderia até deixálos vivos. Da geladeira. Os homens começaram a comemorar.. abandonariam o furgão e voltariam para Osasco em dois carros. Sem polícia no encalço. E. Todas as etapas estavam se concretizando como planejado. Se estivessem atentos. O Sofia não manda em mais ninguém aqui dentro. Abaixou porque quis. O agressor o agarrou pela gola da camiseta preta e arrastou-o para um cômodo nos fundos do galpão. O bandido. Essas belezas vieram do Iraque semana passada. Os assaltantes viraram-se imediatamente e ergueram as armas. se aceitassem lhe ensinar o manejo daquelas armas maravilhosas. — Mais respeito com o Sofia. acertou uma coronhada de rifle na nuca. eles sabiam. Régis. Poderia juntá-los ao seu exército. Logo desapareceriam. com o tecido rasgado. O rapaz tentava se levantar. Não contestaram sua resposta. como tu falo.. Caio morto. Um Fiat Palio e um Uno estavam estacionados. e uma geladeira azul funcionando. — Cala a boca. tiravam latinhas de cerveja. não fossem alguns móveis velhos organizados num canto.. O rapazote caiu de joelhos e tombou de cara no chão. Talvez por essa razão e por já ter empregado uma boa parte de sua força vampírica na recém-regeneração. para Régis. Porque os homens se calaram. Com o pé. Ratão. — Quanto temos que dar pro Sofia? — Trinta. sem capuz. Acha que tá falando com um filho da puta qualquer? — O porra do Sofia. Riam.Havia bastante dinheiro. Tamo contando. Se os bandidos lhe entregassem o dinheiro sem objeção. Sétimo acompanhava a discussão. — Calma aí. alheios ao homem que se desprendia do telhado e despencava. Se tu não tirar a mira da cabeça do Ratão. Tamo contando. desvirou o corpo do invasor e sacou a pistola. Ratão. Dimitri. Um dos assaltantes apontava uma pistola para Ratão. restava conferir a féria e levar a parte que tocava ao Sofia.

porém. Ratão olhou de relance para a porta do quartinho destruído. Sétimo protegeu os olhos com o braço. foi. O grupo abriu fogo. cada um ruminando algarismos no meio do som áspero das notas passadas uma a uma. Os assaltantes estavam debruçados. sem um tico de ressentimento. Zóio? — Bem dito. Tomou o sangue do Zóio também. Régis teve a impressão de que era um cachorro. foi pro inferno. Tão potente que chegou a a fazer poeira desprender do teto. olhando para Régis. Sétimo estendeu dois dedos com unhas afiadas e cravou no crânio do assaltante. Com o braço estendido e o dedo em riste. Levou a boca ao pescoço desmembrado e sugou todo o sangue do corpo da vítima.. Duas garras gigantes tomavam conta do batente. Agora. dando as costas ao pivete.. bloqueando a fuga dos bandidos. sentir-se-ia vingado do mesmo modo. — balbuciou Grilo. Apontou para o rosto e. Três homens se puseram em fuga desabalada. o vampiro transfigurado já estava nas costas do bando. Ela estava ali. Um segundo rugido ribombou no salão. alheios à preocupação do funcionário do Sofia. Assim não fica mais marcando na rua. — Que porra é essa?! — espantou-se Ratão. Régis deu um passo à frente empunhando a pistola Glock. Olhou em volta: faltavam três assaltantes. estava mais alto e vinha do cômodo dos fundos. — tentou acalmar Ratão. Parecia um grunhido. — Precisava matar o pivete. vagabundo. Sétimo avançou veloz sobre o primeiro marginal e. — Se era nóia. pois seriam loucos pelo resto da vida.. Retornar à forma humana consumia muito mais energia vampírica do que o contrário. Grilo. arrancou a cabeça do bandido. já foi tarde. prontas para uso. acertando dois disparos em cada olho. O som feroz calou o grupo inteiro. olhando ao redor. novo barulho. Duas bolas de fogo acenderam no cômodo escuro.. Zóio também notara algo e inclinou a cabeça para precisar de onde vinha o ruído. dando a entender que eles que não sairiam dali com vida. mas não viu a fera. Usei até o cano silenciador prós vizinhos não virem encher o saco. pois outro urro se fez ouvir. — Que foi. Caiu de . atravessando a cabeça da vítima pelos orifícios oculares.. Instantes depois. agora muito mais forte. queria mais sangue fresco no corpo. pois começava a se mexer. causando tosse e interrompendo os disparos. Disparos perdidos cruzavam o galpão. surgiu um vulto que tomou a forma da fera que viam no cômodo. — comentou Grilo. Sétimo farfalhou as asas gigantescas e fez da poeira depositada no chão uma nuvem espessa. impressionado. virados em direção aos fundos. Foi Régis quem detectou primeiro o barulho. — balbuciou. Noventa mil reais. num segundo.. tentavam abater o monstro a todo custo. Uma rosnadura assustadora escapava da garganta do monstro. Os homens estavam boquiabertos. Ao se levantar. Interrompeu a contagem e ergueu a cabeça. apanhando com as garras mais um componente. fazendo o sangue vazar pelo crânio. Estavam concentrados. Notou que o menino era forte. Perdidos e apavorados. — O Zóio é foda. Zóio? Deve ser um nóia que se enfiou aqui dentro. desesperados. O grupo se aquietou e continuou a tarefa de contar o dinheiro. só pode ser um cachorro. — Não viaja. Sentiu a unha aguda da fera entrar na barriga e sair junto com suas entranhas. Precisava do líquido poderoso. derrubou a cadeira. — Um tigre. largando o corpo estrebuchando no chão. Agarrou Grilo e. A sua frente estava aquele que tentara abatê-lo nos fundos do galpão. Os homens seguraram firme nos rifles alugados por Sofia e alguns destravaram as armas. Zóio berrou desesperado. voltando à consciência. puxou o gatilho. Régis foi o próximo a perecer nas garras de Sétimo.silenciador e atarraxou à arma. transformando as paredes de gesso da edícula em pó para dar passagem ao corpo grotesco. e sem que percebessem. gesticulava um não. Antes que alcançassem a porta do galpão. Se os deixasse. — Vai pro inferno. Bem dito. Dispendera toda a energia na mutação e teria de se recuperar antes de voltar ao covil. que caiu agonizante.. Num tinha nada que tá aqui espiando.. Não podiam crer no que viam. Entretanto. fez o pescoço do homem estralar e a cabeça dar uma volta de trezentos e sessenta graus. numa bocada só. Trocaram as pequenas pilhas e recomeçaram a contagem. e todos se colocaram de pé. Sétimo farfalhou as asas novamente e com maior intensidade a fim de manter a poeira suspensa. Sétimo repetiu a estratégia. Ratão benzeu-se. Grilo. o homem perdia a vida ao ser trespassado por dezenas de disparos feitos pelos próprios companheiros que. antes de estrangulá-lo. onde o assaltante apagara o moleque. Ato vingativo.

Apanhou três fuzis e enroscou as cintas na mão para melhor transportá-los. Ficou imóvel por um instante. sem se preocupar com os humanos. A arma seria sua agora. Sétimo ganhou altura velozmente.. Havia conseguido. Bateu contra o telhado. Mortos os assaltantes. Um exército com o qual andaria pelo mundo sem temer os caçadores. O céu estava escuro. abaixou-se perto do corpo de Régis e pegou a pistola da mão do bandido. Lobo? Não... Dos olhos do bandido marejaram lágrimas. ao mesmo tempo. Foi até o centro do salão. Cuidadosamente. sabia que o demônio viria ter com ele. O monstro estava satisfeito. ele estava certo de que sua vida ia embora.joelhos e viu o monstro se afastar e abater. Mais cedo ou mais tarde. Sétimo aquietou-se. Um exército que o ajudaria a vingar-se do pior malfeitor. que nunca entenderia de onde tinha surgido aquele monstro infernal.. Não era isso que interessava agora. numa saída. Foi até a mesa revestida de tecido verde. . como mágica. alçou vôo. Levantou o rosto escarlate. os dois homens que restavam. com certa dificuldade por culpa dos dedos disformes e unhas afiadíssimas. Tinha de se preparar. de que nunca mais sairia daquele galpão imundo. Corpos e sangue recobertos por uma película de poeira estavam espalhados pelo chão. estendeu as asas e. jogando para o alto as velhas telhas de barro. Logo teria o que desejava: um exército formado. Deitou a boca na barriga de Régis e sorveu o sangue. guardou o dinheiro numa sacola de lona. dinheiro e armas para seu exército. pois seria a hora de acertar as contas. evitando se mostrar aos humanos. treinado e poderoso. aguardando a poeira assentar. Ainda não era hora de chamar tanta atenção. Lobo era apenas uma peça naquele jogo. Lobo era um traidor seduzido pelo maldito demônio.

um som grave encheu o porão escuro.. Fora capturado.CAPITULO 31 Agnaldo abriu os olhos. Era um sobrado grande. Você tornouse vampiro através do vampiro Sétimo. Abriu-a devagar.. dizer que estava bem. Voltar para o cursinho? Para falhar em outra faculdade? Voltar para a vida comum e tornar-se um trombadinha? Tinha medo daquela coisa toda de vampiro. Fui vampirizado por outro vampiro. alguém agitava uma grande lona do lado de fora. — Gentil? Que nome é esse? — É uma conversa longa. Você ainda não saiu.. É o que você faz agora. Repentinamente. Acho que dá tempo de ouvir sua história. mas logo você se acostuma. — Agnaldo engasgou.. Foi até a porta.. — vampiros são imortais. não pelo que você conheceu. Teria um posto. — Vamos sair. surgiu à porta um monstro agigantado. Ouviu o barulho de um carro passando na frente da casa. Ele só parece um cara simpático. enfim. Aos ouvidos de Agnaldo.. O vampiro da noite passada havia dito que seria um soldado.. Somos vampiros e ponto. Tinha um cérebro lento. — Meu nome é Tiago. — Você também é? — Vampiro? Agnaldo aquiesceu. Agnaldo voltou e sentou-se no chão. O que tá vindo aí não é nada bonito de se ver. mas podia enxergar. atrapalhando-se com as palavras. Agnaldo não respondeu. — Então você também é um vampiro novo? — É uma longa história. — O que eu faço agora da minha vida? Minha irmã. Fora seduzido. Parecia loucura. — Fica perto de mim. Agnaldo permaneceu calado. Não vamos chegar a um final feliz. Bebe sangue. meus amigos. Estava se lixando para os pais! Queria era falar para a Inesinha que estava vivo. Sim. Só. tchê. — Não é um conto de fadas. cara. Na noite anterior. — Se o que dizem sobre vampiros.. enfim. Mas em cabeça funcionara. dez? Não fazia idéia. nem se incomodariam com dele. com a incerteza. Demoraria para assimilar.. Como se chama? — Agnaldo. Vamos dar uma volta e conversar. Fugir para onde? O único lugar em que teria prazer em voltar era a academia do Carlão. Dos outros. — Caralho! Que porra é essa?! — espantou-se Agnaldo. o que eu faço? — Toma sangue. Estava perdido. guri. — afirmou Tiago. Mas era fato. Ensaiou um passo para fora. Para que voltar para os pais falsos que pouco ajudavam e pouco se importavam com o que fazia? Talvez nem houvessem atinado a sua falta. Um homem de preto estava acocorado do outro lado do cômodo. Antes que Tiago terminasse. nós. Tem muita coisa a respeito de Sétimo que deve saber. Um ar quente invadiu o quarto frio. — Que porra é essa. Te conto em outra ocasião. na rua. Não fosse pela Inesinha. Seria. Refletiu melhor. Não podia ver a rua dali. — Sou. quando tiver vontade de repeti-la. afastando-se o máximo possível da porta. Não gostava daquele título imposto pelo vampiro. Apenas os exercícios de musculação entravam rápido e direto no labirinto de massa cinzenta. Agnaldo levantou-se lentamente.. Não com a promessa de ser caçado pelo vampiro. Sou um vampiro novo também. Estava morto. Não sou bom em lidar com essas coisas. Olhou para o homem. Apenas fitava o homem de preto no fundo do quarto. apenas um gramadinho e um caminho rente à residência. — Benvindo à Vida Escura! — cumprimentou Tiago. O tempo parecia ter congelado. Sou um vampiro. Há quantos dias estava ali? Um. — Você é o general? Foi a vez de Tiago menear a cabeça em sinal positivo. mas era assim que ele o chamava. mas conteve-se. Tiago já sabia. pensara. general? — Não se metendo em confusão. Um soldado importante. se não quiser acabar morto. não ousara sair. Sei que não está sendo fácil. — Como posso te ajudar. Se você. se é que podia chamar-se de vivo. Seria importante em algum lu-gar. Quem fez isso comigo foi o vampiro Gentil. Tiago?! . Não era mais um humano. com formas de morcego. sem preparação. Estava destrancada. Não havia luz. Pensara em fugir. Havia ficado e refletido muito.. — Desculpe pelo modo como falei. Fora sugado da vida comum sem aviso prévio. não é? Agnaldo concordou..

Precisamos de uma toca à nossa altura. Tiago passou a separar as notas. Esse lugar logo será pequeno. Teu criador. indicando que era hora de deixar Sétimo. A altura de um rei. conhecera os sete do rio D'Ouro. Sabia no que aquelas criaturas se transformavam e do que eram capazes quando assumiam seu papel. Estava fadado a anoitecer e amanhecer boquiaberto para o resto de sua existência. apesar de ser um vampiro novo também. que certamente seria montado para tomar o mundo. isso não podia negar. Nunca quisera isso. Não queria tomar parte daquele exército. general. — disse. Contraiu as asas e. Estava aterrorizado. Tiago ajoelhou-se surpreso. Sua vida nunca mais seria a mesma. O rapaz. general. . Preciso descansar. pelo visto. Isso será para prover meu exército. quando se predispunham a matar. Eram cruéis. elas tocavam o teto. — Este monstro é o Sétimo. Era muito dinheiro! — Bá. Separa uma parte deste dinheiro e deixa ao meu lado. Vou comprar o cavalo metálico. algo incontrolável se apossava dele. disposto a matar para manter o poder. Sabia que não adiantava contrariar a criatura. Tiago pegou um punhado. talvez seduzido pela lenda do vampiro imortal. cinqüenta e dez reais. Não tomaria parte daquele espetáculo bizarro e torcia para ter tempo de tirar Agnaldo dali também. É meu dinheiro. tornando-o um monstro como Sétimo. Estava lúcido e em paz no momento. Sétimo apanhou o saco de lona e virou no chão. Era um vampiro. Sétimo jogou dentro do cômodo a sacola de lona contendo o dinheiro e as armas. Dinheiro. Era irresistível. — Guarda. A situação mostrava-se cada vez mais complicada.. mesmo assim. — Que é isso? Meu Deus do céu! Eu não quero morrer! — Cala a boca. mostrara-se entregue à sua nova condição. reservava surpresas sem número. que fizeste? — Tomei de bandidos. com a voz rouca e poderosa. — Toma. Tiago. Sétimo esgueirou-se pela porta com certa dificuldade em fazer passar o corpo largo.O monstro deixou um riso rouco escapar entre os dentes pontiagudos. Agnaldo não respondeu. mas quando a sede vinha. Preciso voltar à forma humana. Amanhã. quando oferecera ajuda. Deste dia em diante tu e ele irão trazer-me soldados. Queria a vida apenas daqueles que serviriam para alimentá-lo. algo primitivo. vai e leva o novato para a noite. Sabia que contra isso não tinha mais forças para lutar. Daí sairá tua paga. tenho uma coisa importante para fazer. Tinha mais de três mil reais na mão. mas não se mancomunaria com a fera. Agnaldo! — ordenou Tiago. — Depois de contar o dinheiro. sem ter idéia do que lhe reservava a Vida Escura. Quero que arranjes uma casa maior. envergadas. O mundo dessas criaturas. Para ceifar muitas vidas. Eram notas de cem..

CAPITULO 32
O celular tocou. Dimitri levou o aparelho ao ouvido. Conhecia aquele número. Era o Sofia. O chefe explicou a situação. Dimitri estava na ronda costumeira com Tobia. — Vamos mudar o roteiro esta noite. Tenho que atender um chamado do meu chefe. Sem esperar consentimento, alterou o caminho. Tinha que tomar o rumo da marginal Pinheiros. Sofia passara o endereço. Haviam perdido contato com Régis, e o chefe sabia que era para lã que o grupo do assalto iria após o roubo: um galpão onde os marginais se juntavam após um evento para dividir o dinheiro levantado. O trânsito estava fluindo bem e não demoraram muito para chegar. — Você vem comigo, Tobia. Tá na hora de aprender alguma coisa na prática. Pistola 380; coloca o silenciador. Nada de barulho. É entrar e encontrar o cara. Não abre o bico. Se alguma palavra tiver que ser dita, quero que saia da minha boca. Vestindo por baixo do sobretudo marrom a armadura prateada, Tobia sacou a arma e, com prestreza, atarraxou o silenciador. — Vou abrir o portão. Você passa com o carro, devagar. Se os vagabundos abrirem fogo, relaxa. Este Comodoro é igualzinho àquele que você destruiu. Pode amassar, mas nenhuma baía vai passar. Farol alto aceso, o resto deixa comigo. Dimitri abriu a porta do carro e tocou pesadamente o chão cimentado com o coturno. Desceu rápido e dirigiu-se ao portão. Tudo correu como o combinado. Em instantes, Tobia estava adentrando o galpão com o motor do Comodoro roncando compassado. Deixou o carro passar e, com um rolamento ágil, atirou-se atrás do veículo. O farol alto garantia que ninguém teria notado a manobra. Se alguém lá dentro quisesse confusão, iria pensar que o matador do Sofia ainda estava dentro do carro. Surpresa sempre funcionava bem, e ele era bom no que fazia. Por isso, para Matador, o jogo já não tinha graça. Era fácil resolver qualquer problema. Estava ávido pelo encontro com seus novos inimigos. Queria saber como se sairia contra os vampiros. Era um profissional em aniquila-mento. Um estrategista nato. Implacável, instintivo. Por tudo que lera no livro de Tobia, o confronto não seria nada fácil, e isso o excitava enormemente. O Comodoro estacou. Dimitri irritou-se quando o parceiro desligara o motor. Apesar de não ser essa a estratégia, ao menos serviu para ouvir o galpão. Nada de vozes. Era estranho, mas nem tanto, afinal, bandido esperto é aquele que trabalha e desaparece como fantasma. Não tinha ninguém, ali. Levantou-se. Manteve a arma pronta para o tiro. Corpos no chão. Uma telha desprendeu e veio rodando, até espatifar-se contra o cimento. Outros cacos espalhados. Matador olhou para cima. O lugar estava caindo aos pedaços. Aproximou-se do primeiro cadáver. Ratão. Um bandidinho sem-vergonha. Sem tiros. Lábios cianóticos. Pescoço retorcido. Dimitri apurou os ouvidos. O silêncio persistia. Gesticulou com a arma para Tobia, convidando para assistir à cena macabra. Seria bom o parceiro ir se acostumando com sangue e morte. Enquanto Tobia olhava calado e espantado para o corpo de Régis, Dimitri continuava a examinar. Três passos à frente, achou outro corpo. O rosto estava um tanto deformado pela violência do assassino, mas não tinha dúvidas de que era o Zóio. Um bandido meio maluco, que recebera a alcunha por sempre matar a sangue frio, com dois tiros em cada olho da vítima. E, ao que parecia, tinha encontrado a morte da mesma forma, com os olhos estourados. Nenhum tiro. Isso intrigava o assassino. Alguém tinha enfrentado aquele bando de vagabundos e, ao que parecia, não tinha dado um tiro. Mais um passo. Solto no chão, com a barriga aberta e moscas dançando sobre as tripas, Dimitri encontrou o colega de firma, Régis. Fez um ligeiro sinal da cruz e cuspiu para o lado. — Quem disse que vaso ruim não quebra? perguntou-se o Matador. Tobia estava espantado com a violência da cena. Ao se deparar com tripas e órgãos no chão, correu para um canto e respirou fundo. Ia vomitar. Todo mundo morto. Nenhum tiro. Em cima da mesa velha de carteado, uma nota ou outra de dinheiro. Tinham roubado o dinheiro dos ladrões. Que sacanagem, pensou Dimitri, com um leve sorriso que afungentou por um segundo o ar soturno e sério, constante na face do assassino. Olhou para o fundo do galpão. Tinha uma edícula, com as paredes quebradas a uns três metros de distância. O cômodo recendia um odor desagradável e impregnante. Dimitri precisava examinar. Estava escuro. Tobia voltou para o meio dos corpos e notou que dois, decapitados, apresentavam indício forte de ação

vampírica. Os corpos estavam sem cabeça e deveriam ter, logo após a ferida, uma notável poça de sangue... que não existia! A mancha discreta não condizia com a lógica. Vampiros! Só poderia ter sido um grupo de vampiros! Irritou-se profundamente. Sabiam que os malditos existiam, estavam à solta, mas não conseguiam deitar-lhes as mãos. Eram lisos, escapavam entre os dedos. Nenhuma pista. Nenhum começo. Só estavam contando com a sorte, que não estava sendo generosa. Não era possível que não encontrassem nada. Era uma coincidência tremenda. Tinham que revirar o galpão até encontrar uma pista. Só podia ser obra do destino. Dimitri abaixou-se. Um punhado de roupas rasgadas. Nenhum corpo. Vasculhou os bolsos da calça, encontrou uns trocados, notas amassadas. Mexeu no bolso da camisa. Um cartão. Uma loja de carros da avenida Novo Osasco. Conhecia o endereço. — Te pego, filho-da-mãe.

CAPITULO 33
Sétimo rompeu o casulo. Estava novamente investido da forma humana, que o tornava uma ameaça maior entre os mortais. O corpo mirrado mantinha a gente inadvertida contra os perigos escondidos na criatura de cabelos claros e escorridos até as costas. Sentia-se fraco. Esse era o problema da metamorfose. Quando se tornava fera, não ficava tão exaurido, tão vulnerável, mas quando voltava à forma humana, parecia ter levado uma surra de homens e padecia como um mortal. Sentiu uma zonzeira quando deu os primeiros passos e tentou escorar-se na parede. Tiago e Agnaldo encontravam-se no transe vampírico. Dormiam. Cheiro de sangue. Haviam saído naquela madrugada e caçado. Nenhum novato. Pedira ao general que trouxesse gente nova. Cheirou Agnaldo. O vampiro novo ainda deveria estar assustado. Ele não havia se servido de sangue. Já Tiago tinha o rosto manchado com resquícios do líquido. Sétimo não pensou duas vezes. Nessas horas de necessidade, um vampiro deveria valer-se de tudo. Lambeu o rosto do general, tomando dele os traços de sangue ressequido, o que já lhe renderia alguma melhora. O estômago queimava; os músculos estavam fracos. Precisava de mais sangue; precisava urgentemente. Grunhiu nervoso e foi até a porta. Ao menos, já conseguia andar sem ter de escorar na parede. Com a mão trêmula, abriu a porta do cômodo e saiu rapidamente. A luz do Sol não invadia o porão, mas a claridade foi o suficiente para fazer Tiago transmutar as feições em visível desagrado. Sétimo fechou o recinto, garantindo segurança ao general. Caminhou pela grama até alcançar a varanda. Estava nu. Subiu os degraus com dificuldade. O cheiro de sangue o atraía. Eliana estava na casa. Eliana serviria aos seus propósitos. Sétimo grunhia, irritado com a fraqueza. Os olhos chamejaram debilitados. Os caninos alongavam. Protegeu os olhos contra a luz do Sol. Fraco daquela forma não suportaria mais que vinte minutos na rua. Podia andar de dia. Podia. Era um vampiro poderoso, dotado pelo demônio dessa capacidade. Todavia, precisava ter um mínimo de energia vampírica para tanto. Atravessou a porta da sala. César via TV junto com a mulher. Grunhiu agressivo, caminhando rapidamente para cima de Eliana. Pegos de surpresa, sobressaltaram-se. Ela gritou apavorada. César, inconscientemente, desferiu um chute no abdome do vampiro, que se debruçava como um selvagem sobre a mulher com as presas expostas. Estava louco! César assombrou-se quando se deu conta de que expelira o vampiro com um único golpe. Havia algo de errado com Sétimo! — Sangue! — bradou, colocando-se de pé com certa dificuldade. Eliana permanecia atrás de César, que recuava passo a passo, em direção à cozinha. — Preciso de sangue! Estou fraco. A luz... — Sai daqui, Sétimo! Prometeu que não nos atacaria. — Promessas, pai... não podem ser mantidas nessa hora. Dê-me a muíher... estou fraco! — Nunca! Sétimo voou para cima dos dois. Mais uma vez, César conseguiu impedi-lo, arremessando o vampiro em cima do balcão da cozinha, enquanto panelas iam ao chão com estardalhaço. Eliana gritava desesperada. Sétimo balançava a cabeça atordoado, preparando-se para um novo ataque. César apanhou uma vassoura e quebrou o cabo contra a parede. O pedaço de madeira agora possuía uma ponta afiada. — Te mato, vampiro! Fica onde está, senão te mato! — Dá-me a mulher, pai. Meu estômago está queimando! Não sabe como isso dói! — gritou o vampiro, emendando um extenso grunhido. Desesperado, empregou o que lhe restava da força vampírica. Mesmo sem velocidade para desaparecer diante dos olhos de César, conseguiu surpreendê-lo e arremessá-lo sobre a mesa, aparentemente desacordado. Apanhou Eliana com uma das mãos e subjugou-a, envergando seu pescoço, que expunha uma artéria pulsante. Não a mataria, apenas tomaria o sangue necessário para se restabelecer. Se preciso fosse, entretanto, não pensaria duas vezes. Quando descia a boca de encontro à pele da mulher, que chorava e se debatia debilmente, obedeceu à voz do pai. — Pare, desgraçado! Sétimo encarou César. O homem apanhou uma faca no chão e abriu um talho na própria mão. — Toma teu sangue e deixa a guria em paz, maldito. Sétimo, rapidamente, largou Eliana e caiu de joelhos, sorvendo so-fregamente o sangue que pingava da

mão do mortal. César permitiu que o vampiro retirasse três pequenos goles de sangue, quando então fê-lo afastar-se com outro chute no tórax. Apanhou o cabo de vassoura pontiagudo e, ato contínuo, trespassou o vampiro na altura do abdome. Sétimo, antes de cair de joelhos, ainda tomou um potente soco no rosto e a cabeça girou para a direita. Caído, começou a rir. Debruçou-se, apoiando uma das mãos no chão. Eliana correu para trás de César. — Da próxima vez, vampiro, a estaca vai no seu peito. Sétimo continuava rindo, Um riso fraco e ameaçador. Retirou o pedaço de madeira da barriga. Sentia dores. — És valente, pai. Quando quiser se juntar ao meu exército, é só dizer. Mas advirto, pai. Nunca mais, nunca mais ouse me enfrentar. Sétimo debruçou-se ainda mais e lambeu as grossas gotas que tinham caído no chão. César enrolou um pano de prato na mão para proteger o ferimento e estancar o sangue. — Obrigado pelo sangue, pai. Sétimo levantou-se e, sorrindo, enfiou um dedo no buraco aberto pelo cabo de vassoura. — Ainda preciso de sangue... para curar isto aqui. Vendo a mulher encolhida atrás de César, Sétimo riu. — Ah! Te acalma, mulher fraca. Minha loucura já passou. Agradeça ao meu pai. Coma alho, mulher. Coma alho. Ao menos, se te pego assim, durante a loucura, tomo de teu sangue e morro. Ah! Ah! Ah! Num piscar de olhos, ele desapareceu da cozinha e foi para o quarto onde estavam guardadas as vestimentas. Apanhou uma calça preta e uma camiseta clara. Era hora de sair. Precisava de mais sangue... precisava comprar o cavalo metálico. Calçou um sapato maior que o pé, amarrando-o firmemente. Antes que os dois humanos se dessem conta, já estava voltando ao porão. No cômodo escuro, com a visão vampírica funcionando novamente, encontrou o monte de dinheiro roubado, em pilhas uniformes e uma menor, separada das outras. Era o que pedira ao general. O dinheiro para a motocicleta. Enfiou o monte de notas no bolso e saiu. O Sol brilhava forte, mas não incomodava. Precisava de sangue, apenas para voltar à plena forma para curar a ferida aberta. Subiu rápido a avenida. Sorriu. Estava ansioso. A loja ficava na esquina do quarteirão seguinte, à esquerda. Pelo alambrado, viu a moto. Estava reluzente e parecia pronta a disparar pela rua. Sétimo aproximou-se lentamente e tocou-a com suavidade. Ao lado, um novo modelo, mais esportivo, mais arrojado. Alisou o tanque de combustível e o banco de couro. O comerciante chegou. Tinha o rosto fechado, pois já conhecia aquele tipo de cliente. — Essa mil e cem está em promoção. — Qual é o preço, cara? — Tá saindo por oito mil e seiscentos. Sétimo sacou o dinheiro. Contava e passava as notas de cem, quando foi interrompido pelo atendente, espantado com tanta grana. — Olha, moleque, eu não sabia que você ia comprar. Vamos pro escritório. Não é seguro contar dinheiro vivo aqui na frente. Na sala, o vampiro separou rapidamente o dinheiro e o colocou na mesa. O vendedor recontou e percebeu que o volume que restava ainda era invejável. — E carro, qual vai levar? Sétimo espiou para fora. — Nada me agrada tanto quanto aqueles cavalos metálicos. Hoje levo um. A mil e cem. Não quero mais nada. — Quantas motos já teve, filho? — Nenhuma. É a primeira. — Realizando um sonho. Sétimo levantou sem se dignar a responder. Não queria perder tempo com papo furado. — Posso ir? — Pode, a moto é sua. Precisamos assinar o recibo de venda no cartório a fim de você passá-la para seu nome. — Não tenho tempo agora. Meu serviçal fará isso. — Mas você não pode sair dirigindo por aí sem documento. Se a polícia te pega, vai te dar uma dor de cabeça danada. Essa bichinha é bastante... até provar que nariz de porco não é tomada... — Meu serviçal virá. Basta que tu seja honesto e lhe entregue o tal documento.

O homem notou que o guri era esquisito pra danar. Serviçal. Era um riquinho nojento. — Já pilotou uma destas? Sétimo, que mantivera o tempo todo uma postura superior, com o peito aberto, de repente deixou o corpo murchar gradativamente. Estive-ra tão ansioso com o plano de comprar a moto que sequer lembrara que teria de pilotá-la para chegar em casa. César, certamente, saberia, mas o vampiro não queria chamá-lo. Era um vampiro. Dotado de cérebro vampírico. Aprenderia num instante. — Tem combustível para uns quinze quilômetros. Cê tem que ir até um posto e encher o tanque. Aí, você roda à vontade. Se nunca teve uma dessas, você vai pirar. É uma delícia. E a mulherada fica toda acesa quando você chega com uma. — Como é que pilota isso, mercador? O sorriso do homem apagou. — Você nunca pilotou, mesmo? Tá falando sério? Quantos anos você tem? — Uns oitocentos e setenta. — Ah! Ah! Ah! Oitocentos e setenta e nunca pilotou moto? Quer morrer tão cedo, garoto? Cê é louco. Cê vai morrer. É loucura. Tem que ir prum terrenão, dar uma pá de voltas, depois que acostumar com a potência, pegar a rua. Sem habilitação então... pode escrever; com uma bichona dessa, você é parado uma vez por mês. Os canas põe a maior pressão. Crescem os olhos. O vendedor aproximou-se, tirou do bolso a chave. Sétimo estava com a mão sobre o tanque. O homem girou a chave e apertou um botão junto à manopla. O motor funcionou. O vendedor empunhou a manopla e girou. O motor rugíu estrondoso, agudo. Sétimo assustou-se, retirando a mão do tanque rapidamente. — Se tu engata essa bichona, ela vira um foguete. Cê não vai conseguir andar daqui até ali; vai tomar o maior capote. — Capote? — É, vai cair. Se pega um poste, morre. Não posso deixar você subir nisso. É suicídio, ainda mais para um cara idoso como o senhor. — comentou o homem rindo, achando que Sétimo estava fazendo graça da idade. — Como funciona? — Tem que ter saco pra ensinar. Aqui é a embreagem. Se puxa pra passar a marcha. Sabe onde fica o câmbio? Sétimo meneou a cabeça. — Tá vendo? Tu não sabe nem onde é o câmbio. Não tem nenhum amigo que possa vir buscar? Usa meu telefone, liga e chama. A moto já é tua; ela não vai sair daqui. Vai lá e busca alguém, dá um jeito. Se tu quer montar e sair com ela assim mesmo, que vou fazer? A moto é tua. Você é de maior. Vou fazer o quê? Mas é que dá dó. De você, não, mas dessa belezinha. Tu é o segundo dono. Quilometragem baixa, sem um arranhãozinho... moto de garagem. Vai estragar tudo. Cê que sabe, depois pra vender é uma bosta. Sétimo empunhou as manoplas e fez o pezinho subir. A moto era pesada, mas não para um vampiro. O sangue cedido por César já fazia efeito. Empurrou-a para a calçada. Sorriu. Gostava da imponência da máquina. Aprenderia a pilotar ainda naquele dia. — Vou levar assim. — Cê é doido, moleque. Tá fissuradão, né? Sei como é, vejo isso todo dia que vendo um carro. O cara quer sair com o produto na hora... tá certo. Não tenho ninguém pra levar a moto pra você. Se você agüenta, vai firme. Só não vai esquecer de vir buscar os documentos. Sétimo aquiesceu e foi para a rua. Andava lentamente, tomando cuidado para não perder o equilíbrio. Logo que embicou na descida percebeu o peso aumentar sensivelmente. Um mortal teria problemas para chegar com a pesada máquina ao final da rua. Estava envolvido em pensamentos quando um arrepio assaltou seu corpo. Os olhos encontraram os de uma linda garota que subia a rua. Teve de novo a sensação de que se possuísse um coração mortal, ele estaria pulsando violentamente tamanha e agradável surpresa que o apanhara. Linda. Olhos lindos. Corpo esguio e provocante. Trajava calça e jaqueta de couro escuro. Estava encantado. Era a mulher perfeita. Chegou a bambear a motocicleta. A garota percebeu e abriu um sorriso encantador. Sétimo retribuiu e interrompeu a descida. Lembrou o que o mercador havia dito sobre moto e mulheres. — Gostou da moto? A garota parou. — Bonita. Muito bonita. Acabou a gasolina, motoqueiro? — Não. Tem para uns quinze quilômetros. A menina riu francamente.

— Por que não está em cima dela? É muito mais sexy. — retrucou o vampiro. Exalava um cheiro delicioso. Acabei de comprar. Estou levando pra casa. além de motoqueiro.— Tá falando sério? Esse negócio é pesado pacas! Por que está empurrando com os pés? — É pesado pacas. . tentando imitá-la para criar simpatia. Sei pilotar quase todas as motos mais selvagens do mercado.. — É toda sua. logo percebido pelo vampiro. Vou te contar uma coisa. A garota soltou um grito entusiasmado. enquanto Sétimo ainda procurava entender como a coisa funcionava. A experiência da garota. Ele estava extasiado. — Sério? Não sabe pilotar? E o que está fazendo com ela aqui no meio da rua? Roubou? — Não. é muito pesada. num piscar de olhos. Sétimo agarrou-se à motoqueira pelos quadris. tenho uma queda por motoqueiros. Quase todas. maravilhado com as curvas sensuais da morena. A moto atingiu velocidade incrível em poucos segundos. Sentia-se feliz por estar com duas coisas que gostara à primeira vista: a motocicleta e a garota que vira na rua dias atrás. havia se unido a seu destino de modo mágico. A garota pela qual se apaixonara de imediato. Deu partida e convidou Sétimo para tomar lugar na garupa.. — Não sei pilotar.. motoqueiro. Parecia que os deuses manipulavam tudo à sua volta. meio sem graça. tentando recuperar o equilíbrio. é melhor se segurar em mim. motoqueiro. logo ali. sabia? — Sabe pilotar essa aqui? — Posso parecer uma patricinha. — Só que você tem que segurar ela pra mim. — Meu último namorado era motoqueiro. logo se juntaria à Vida Escura. e segura forte. — respondeu. e o penúltimo também.. coisa rara em sua existência secular. A motocicleta já era sua propriedade. Bastava que ficassem sozinhos e que ela experimentasse de seu sangue maldito.. logo mostrou que falava a verdade. Meu último namorado. se a situação fosse favorável. assim você vira um motoqueiro de verdade e depois me leva pra tomar um chope. estavam no final da rua. Assustou-se com o tranco do veículo e inclinou o tórax para frente. que à primeira vista parecia uma jovem frágil.. mas não é pra tirar proveito. — Não brinca!! A garota aproximou-se e tocou o banco. mas te garanto que sei. — Tá precisando de umas aulinhas de pilotagem? Sou uma ótima professora. Segura. — Vamos dar um role. e. A garota debruçou-se sobre o tanque da máquina e partiu. A garota. Se você nunca andou numa destas. Te dou umas aulinhas de graça. trabalhava numa importadora de motos esportivas como esta aqui.

agarrando-se ao tórax do amigo. sentir os vampiros. Abraçou-a e beijou-a na boca. Proteger os amigos com a própria vida. Pobre Olavo! Não tiveram tempo para chorar a morte do amigo nem velar o corpo. Era hora de abrir o jogo. avisá-la que estava deixando a cidade. Teria de ligar para ela. Entretanto. e tinham bastante tempo para correr. com vermes devorando as entranhas.. teriam de se virar. Agnaldo dormia.. Tiago juntou suas coisas. e se eu não estou em casa. encostando o queixo no peito e cheirando o cabelo da amiga. Tiago foi ao guarda-roupa e apanhou o maço de dinheiro. ela já era. Aquela casa. Invocou na mente o nome de Lobo. Meneou a cabeça. Tinha dado dinheiro para ele ajeitar as coisas. teria de munir-se de mais balas de prata e enfrentá-lo. Poderiam ao menos notar a presença quando Lobo se aproximasse. Não podiam se dar ao luxo de assistir de camarote ao surgimento de um exército vampiro. Os olhos cintilaram e o quarto passou do escuro ao visível. Afastaria seus amigos do vampiro e bateria de frente com Sétimo se preciso. Daria para alguns meses. Estaria apodrecendo no porão fedorento do Luxor Hotel. e era hora de parar de temer a figura de Sétimo. Lusco-fusco. Os olhos arderam por um breve segundo. A pobrezinha ficara preocupada da última vez.CAPITULO 34 Tiago despertou. No fundo do cômodo escuro. O Sol acabava de se pôr. Agora. Arrependeu-se de já ter providenciado a devolução do caminhão-baú ao amigo sulista. Preferia a extinção a deixar a mulher amada à mercê daquela fera. Batiam à porta. melhor sentar o rabo naquele porão e continuar lá por toda sua imortalidade. Era preciso considerar que Tiago não podia mais se expor à luz. dizer a verdade. se controlasse os gastos. enfiou-as numa providencial sacola de lona que encontrou na varanda. Virou-se para o quarto: vinha daquela direção. — O que aconteceu? — Ele atacou a Eliana. adaptando-se à fraca luminosidade. Roupas pretas era tudo o que tinha. Que vida era aquela? Até quando permitiria que Sétimo colocasse a vida do amigo e da amada em risco? Era hora de abandonar o monstro. mas ao menos saberia de onde o perigo viria. mas decidiram que tinham que fazer agora e rapidamente. Tinha que adverti-los do que se passava. Sabia que ele os perseguiria. Tiago estava estranhíssimo nos últimos dias. como um cutucar em sua nuca. matando gente para viver. Bá. Bastava a morte de Olavo. Estranhamente. — Juntem suas coisas. o cunhado. Estava assustado. Parecia urgente. que temia o ataque do Lobo. Era impossível medir a distância. Estava inseguro. O rapaz olhou para o novato. Sem rumo. Só querendo ganhar distância. Trombou com Eliana no corredor. Se fosse a opção. ao menos estaria do lado dos benfeitores. César checou arma e munição. Deveria avisá-lo? Sabia que Sétimo logo faria dele um assassino. Vamos embora daqui. chamou-o pelo nome duas. não queria ser chamado de general nunca mais. Deixou algumas peças para Sétimo. Tiago! — gritou Eliana. Agnaldo cerrou os olhos ao perceber que Tiago iria encará-lo. três vezes. depois do que o vampiro aprontara. Um garoto assassino. Não sabia o que tinha atrás da porta número dois. Eliana. Do contrário teria de imitar Sétimo: assaltar. e agora essa condição era irreversível. Voltou-se para os amigos e subiu até a casa para discutir a fuga. caso necessário. Inverno fora um inimigo poderoso e nos confrontos sempre conseguira surpreender o adversário. não podia desistir. de alma perdida. Era hora de encará-lo de igual para igual. Dois monstros. Algo lhe dizia que o confronto não tardaria. Estavam dando um passo importante. Tiago detinha esse poder. As vozes de César e Eliana atravessavam a madeira grossa. foi assustador. melhor seria. Se perecesse. Tiago mantendo-se próximo à porta. Partir na louca. Foi até a porta e destravou-a. Estava sentindo saudade daquilo. Era loucura. A irmã. Tiago não queria participar. sentia-se feliz de estar se afastando da fera. — Ele enlouqueceu. Quanto a César. Era a única explicação para o surgimento de todo aquele dinheiro e armas. como fizera com os outros. Aquele latejar conhecido. Não sabiam onde ele estava. Não vamos mais participar dessa loucura. Afastar e proteger. Espalhou as notas e contou: pouco mais de sete mil reais. Era um vampiro. e então a sensação o assaltou. embora soubesse que o alívio viria somente após estarem bem longe dali. que comprara umas poucas mudas de roupas. Tinha que dar satisfações. já que viraria um monstro maldito. mas o que o afligia era não saber para onde essa resolução os estava levando. com . mas decidira enfrentá-lo. César puxou o amigo para fora. Tiago abaixou a cabeça. Todavia. Tinham de se afastar de Sétimo. Não temia os vampiros.

Sentia saudades do vampiro Gentil. Vindo ou não vindo. O rapaz fora seduzido pelo vampiro. Sabiam que ali havia uma rodoviária. Aprendera a fazer aquilo. força para vingança. Passageiros apressados levavam a bagagem através do portão de embarque. — A gente se pega outra hora. — Eu quero ser importante. que Miguel o salvara da morte. gente descendo de táxis e rumando para a plataforma.. Os olhos cintilaram. Miguel salvara-o da extinção. homem. Tiago não respondeu. Miguel fizera dele um filho novo. Tiago sentiu um calafrio deslizar pelo corpo. Impedira sua partida dando-lhe o sangue vampiro. Vou deixar essa loucura. Sétimo sabia escolher os discípulos. Tiago deixou o porão. vem com a gente. daria um jeito. de ser consumido com os irmãos pelo fogo da bomba. na entrada daquele túnel.medo de contaminar a linda mulher de cabelos cacheados com seu lado amaldiçoado. Não compactuava com a maldade. Não tem idéia do poder que tem. saindo ao lado da estação rodoviária.. Um aliado com o dom de parar o tempo. Te cuida menino. Descendo os primeiros degraus. Agnaldo não respondeu. — Vamos. Do único vampiro que se predispusera a ajudá-lo a retirar Eliana das garras de Guilherme e seu bando. Sabia que estava diante do novo general. — Estou indo embora. aquele era o fruto de um primeiro assalto. um soldado forte e poderoso. — Nem tente. Sentia que Sétimo começaria a concretizar o que almejava. fugitivo. arrancando-o das garras da dama portadora da foice. rapaz. não dá tempo de discutir. Os olhos do novato apagaram-se. Parecia despertar de um breve transe quando ouviu César chamá-lo. apressando os companheiros. outro tanto no de trás. — Olha. Certamente. — Escuta. Fora ali. tchê. Acabo com tua raça em um segundo. . — Para onde vamos? — Guarujá. Nem tente. Seus olhos cintilavam quando cruzavam com os dela. Notou que Agnaldo abrira os olhos naquele instante. Certamente. Enfiou as notas no bolso da calça. vamos! Está saindo. você é um vampiro. Você pode vir com a gente e explicar essa coisa de ser importante no caminho. com força vampírica ampliada através do tempo. Sentia falta do amigo. Agnaldo. Vamos para o Guarujá. Não faz idéia no que está se transformando. Agnaldo seria um escudeiro fiel. Seria um aliado a mais naquela luta. Não faria falta ao vampiro. Pediram informação e lhes indicaram a boca de um túnel. Não queria estar ali nunca mais. mas não podia resistir. para tanto. Dera-lhe vida e força. Quero ser um vampiro. Se é esperto. Atravessaram o túnel. Tá sonhando? Corre. E mais uma vez. Meia hora depois desembarcavam no centro de Osasco. Sabia que o irmão de sangue de Sétimo jamais permitiria a criação de um exército vampiro. Voltou ao porão rapidamente e apanhou um punhado do dinheiro empilhado. Construiria seu exército e. te cuida. Um pouco nos da frente. Já tô escolado nessa história de brigar com vampiros. — Boa sorte. Voltou com as passagens. Era a primeira vez que desejava rever o vampiro. — Não vou. novato. César passou de guichê em guichê até encontrar o que vendia bilhetes para o ônibus de partida. faria muito mais dinheiro que aquele. — Vamos.

criando uma ventania tão forte. Jana virou-se e beijou o namorado. sem dar pinta de voltar. Janaína levantou e afastou o lençol. Todos estavam felizes. Hélio tivera de gastar muita lábia e grana para organizar o acampamento de amigos junto à Lagoa dos Patos. Hélio. O lazer naquele local requeria paciência. Hélio sorriu. que voltariam no dia seguinte. O barulho trovejante do motor afastaria os parcos peixes. As outras barracas estavam em silêncio.. mas já te disse. Tomara que não viesse para o seu lado. para surpresa do casal. Pena não haver bichos naquela localidade! Por que não se lembrara dos filmes norte-americanos? Agora sabia porque os casaizinhos ficavam em volta da fogueira inventando histórias de terror. Passou tão baixo. Estava doido para levar o namoro adiante. Vieram seis casais de amigos. O som da máquina desapareceu por completo. Sabia que o namorado queria. deitado. porém a adolescente mostravase insegura. mas na hora do vamos ver. — Não ouvi na. Tomava um gole direto no gargalo quando viu o helicóptero passando ao longe. Será que todo mundo conseguiu dormir? Hélio soergueu os ombros. a paciência não se extinguiria. Jana tinha razão. Se tivesse vinho. admirando o aparelho que se afastava rente ao espelho d'água. Em outro ponto da lagoa. Alguns já tinham apagado as lamparinas. pescava em silêncio.. — murmurou o rapaz.. mas o sacrifício foi convencer pais e mães. um helicóptero surgiu. Que era aquilo? Um monstro?! Hélio recuou. e as garotas não ficavam fazendo hora para se pendurar nos braços dos mocinhos. O rapaz saiu e abraçou a namorada. De repente. — Bá. O céu estava lindo. — Você é linda. O homem temperava a vigília com uma garrafa de bom vinho. e ele .. secura. Que trabalho! Agora. Hélio. Coçou a cabeça.. desvencilhando-se dos braços fortes de Hélio e olhando para a mata. o velho Onofre percebeu o aparelho se afastar e sumir atrás dos morros. Pescava há anos no lugar e nunca vira nada sobrevoando. O coração batia forte. um senhor de posse de uma lanterna. sabe? Eu sou muito ciumenta. refletindo divinal na água da lagoa. Passava da meia-noite. poderia ficar ali sem fisgar um peixe sequer até o amanhecer. enfeitando a mata que margeava a água. lançando sobre a água um potente facho de luz. avançar os sinais.. mas as formas eram sensualíssimas. Depois. Um ronco forte encheu o acampamento. sabia como jogar um balde de água fria no fogo juvenil. espalhavam um halo de claridade através da lona.. Um espetáculo. — Um helicóptero. calçou os chinelos e inspirou fundo. sentado à margem. Janaína gritou assustada. era só esperar Janaína se soltar. pois a piscosidade era baixa. — O quê? — Esse barulho. e um vento repentino tomou conta do lugar. Daquele jeito. — Vem pra cá. Adorava beijar e se esfregar. Prometeram que seria um passeio de um dia só. A lua cheia deitava luz na Terra de forma esplendorosa. eu gosto de beijar você. mas tinha medo. Tudo para aumentar o clima romântico. não pra Marcinha. — É? Por que então você fica olhando para a Marcinha? — Porque ela é bonita também.CAPITULO 35 —Dá-me um beijo? — pediu a garota. pintava aquele medo. A lua tá linda. Só de pensar. só você. a emoção formava um bolo na garganta. — Que foi isso? — perguntou a menina. cortando o céu. relaxar e sentir-se protegida ao seu lado. que chegou a temer que a barraca desprendesse do chão. causava engasgo. apoiou-se num dos cotovelos e beijou a boca da menina. Tinha dado tudo certo. na hora do almoço. Meu coração dispara quando eu olho pra você. deixando a mão de Hélio percorrer seu corpo. Olhou para o céu. — Tá muito calor aqui. ainda mais tão baixinho. Abriu o zíper da barraca. Duas barracas com a luz acesa. O som parecia um rosnar. Com prazer. — Se quer continuar me beijando tem que parar de olhar para as outras gurias.. Janaina não era exatamente magra. mas você é mais.

Deus! Leonardo rosnava baixinho. Hélio beijava a nuca úmida da parceira. Que amolação! Logo naquele momento! Intensificou a chama do lampião.. A luz poderia chamar a atenção do lobo. um lobo gigante. Fez menção de apanhar a lanterna. bem maior dos que conhecera no zoológico de São Paulo.. outro daqueles bichos. Hora de esperar. Nada. — Hélio! Hélio! — Fica aí. Erguiam as fuças para o céu. talvez o bicho nem o tivesse visto. Queria devorá-lo. Hélio gritou. muito grande. Avistou barracas. com claridade mínima. Hélio queria que fosse especial. Diacho! Tinham levado a isca. Nenhum barulho. Onofre deu uma nova golada no vinho. mas desistiu. Não matariam ninguém. sem algazarra da criançada. Até a água da lagoa parecia ter adormecido. apenas subjugariam. Os dois monstros juntaram-se. Lobos não ficavam em duas patas. grunhindo pro-longadamente. quadrúpede. Nenhum barulho. Janaína. Leonardo. Bastava a luz da lua para notar que a silhueta da criatura era pavorosa. que se afastavam da barraca de Janaína. Ao menos. Os olhos viam com clareza. Não poderia correr. Que era aquilo?! Um urro rompeu no meio do acampamento. Prevenira o garoto. O medo jorrava em profusão dos olhos do menino. Espantou-se quando um deles colocou-se de pé. Nus. Uivou para Afonso.. adiantou-se ligeiro. paralelamente à mata. Não ouvia mais o cricrilar costumeiro. Iriam caçar soldados. Abraçaram-se. exalavam um cheiro adocicado e juvenil. Irritação. Apurou a visão e virou-se para trás. O coração disparou. Lobo aproximou-se e inspirou fundo. Talvez um cão de raça. Os cabelos longos da garota misturavam-se aos braços do rapaz. uma prainha. saindo da mata. Os olhos do rapaz estavam esbugalhados e a boca. começava uma faixa de grama e mato baixo. Teve a impressão de uma fisgada. mas não podia. Aquilo só servia para incitar ainda mais a fera ao ataque.. A fera bloqueava a passagem. Pousou a mão no pote ao lado para retirar um preparado especial que atraía os peixes da lagoa. pois sabia que sua querida nunca estivera tão íntima de um homem. Prendeu a massa ao anzol. Aquela caçada tinha propósitos distantes da alimentação. O helicóptero já havia se afastado o suficiente. Sério. O gosto adocicado do vinho desceu pela garganta. Afonso daria a eles seu sangue poderoso. Por essa razão preferia pescar durante a madrugada. Estava numa parte feita de areia. Correu. Nada. afastando-se. farejando. podia ouvi-lo. O lampião estava aceso. Era gigantesco. Juras de amor e paixão eterna eram trocadas. abaixando bastante o dorso. Precisava de aliados. A garotada agitou-se. saindo de cueca. Fariam deles seguidores de sua matilha. Se tivesse fogo. sentando e cobrindo-se. Lobo rosnou iradamente. de uma alca-téia para cercar-se de proteção e força. Suas sombras estampadas na lona da barraca. Apaixonados. Lobo aproximou-se do rapaz. muito menos cães de guarda. caminhando em sua direção. não sai! O lobo avançou com a boca escancarada. os corpos fervendo feito brasas. Só o do órgão batendo no peito. Puxou a vara rapidamente. não tinha obstáculos pela frente. Hélio ficou atento. Hélio e Janaína abraçavam-se. Franziu o cenho. entrelaçados dentro da barraca. Não era hora de comer. Caminhava sobre a grama. — Bá. Um rosnar. Notou que o silêncio havia aumentado. Os olhos vermelhos pareciam brasas. roçando a barriga na grama e cercando o rapaz. estavam alheios ao perigo. Olhou ao redor.voltou a ouvir o cricrilar dos insetos e sentir a paz que a lagoa transmitia quando tudo era silêncio. talvez afungentasse aquele monstro. Entretanto. continuava na barraca. Onofre engoliu seco quando viu. Este era bem maior. seria aquela a primeira noite de amor do casal. começava a mata. Leonardo uivou às . deu um jogo no braço e arremessou a isca para o meio d'água. Cheiro de uva fermentada. O primeiro desviou.. Estavam relaxando. Podia jurar que estava vendo um lobo. E tinha achado aqueles tão grandes! Abaixou-se e apanhou um galho. não seriam localizados. atônita. estão de sacanagem! — irritou-se Hélio. um ruído junto à barraca colocou-os alerta. Hélio sabia que não era um animal comum. aberta. Trouxe o anzol para perto dos olhos. Sabia que o rapaz não ousaria atacá-lo com o pedaço de pau. fazendo-a retrair-se de prazer. depois. Estalos de galhos pisados. Sem lanchas. e outra surgia logo atrás. Buscavam comida? Onofre benzeu-se e pôs a mão na boca para abafar um gemido. Vinte metros para trás. Ficou quieto. — Que foi isso? — perguntou a garota. O coração de ambos batia acelerado. Ia entrar na barraca quando o sangue gelou nas veias.. suficiente para se olharem na penumbra. estava conseguindo prender a atenção das feras.

A hora era aquela. Ferir. Gritos e medo. Teria de deixá-los fracos.suas costas. Gritos.. mais um instante. Outros rapazes surgiam à frente das barracas. Uma patada no rosto de Hélio abriu novo ferimento e fê-lo desfalecer. Era disso que um vampiro vivia. desespero. A fera parecia sorrir ao ver Leonardo com uma vítima dançando entre as patas. para que se embebedassem de seu sangue imortal. ingressassem na Vida Escura.. A ferida fez o sangue banhar o peito do rapaz. e poderiam perder o controle da situação. . sem matar. Afonso saltou e cravou os dentes no garoto.

De pé. — Tenho observado seus feitos. sua nova aquisição para a batalha que pretendia travar. O que definia era a hora em que o coração parava de bater como o de um mortal e tomava as características de um coração vampírico. Conversaram um bocado.CAPITULO 36 Sétimo enxugou o sangue da boca. Fora escravo do demônio por mais de cem anos. lembro o tratamento dos mortais para com meu povo. Quando abrisse os olhos. mas notou que. Tem estilo. Paola.. fez a mulher abrir a boca. Reconhecia o lugar. irmão. Como era linda! Seria uma companheira maravilhosa. ornaria os cabelos longos e de cheiro bom com enfeites preciosos. Bastava a névoa desaparecer que ele surgiria. sua nova condição passava a ser definitiva. Os olhos não viam nada. vens a mim e em poucas palavras trocadas já me insultas?! — Eu. Sétimo soltou o corpo da jovem. Desse momento em diante. cresce minha força e enfraquece meu desejo de ficar quieto no meu canto. trancou a porta e guardou a chave no bolso. jazia num colchão coberto. Não abandone toda a vida. mas. Ele só não escondeu o interesse nos olhos brilhantes e no rosto atraente da escolhida. ainda teria a chance de andar com o dia claro. Alguns novatos podiam mais. não é. se a nova criatura não resistisse à sede. Crias novas criaturas. Ela soubera conduzir muito bem a máquina possante do vampiro e explicar os princípios básicos do funcionamento da motocicleta. Conhecia seu modo de agir. O vampiro desceu ao porão. seria tempo de socorrer a nova vítima do choro. Sétimo conseguiu esconder o sotaque lusitano. Com a mão livre. O vampiro girou sobre os pés. Sétimo abriu os olhos: estava no centro de uma clareira. Tapou com os dedos o ferimento no pescoço da pretendida e certificou-se de que ela havia ingerido o suficiente. Para tanto. era necessário que agisse rápido. sem se importar com o futuro que o vampiro lhe reservava.. — Ah! Dono da Terra! Bravateiro! — Como ousas? Pensei que querias uma conversa de amigos! Depois de quinhentos anos. Sétimo talhou o próprio pulso. Lembras do vampiro que fui.. A cada gota. beba. Sétimo alisou o rosto da garota. Quero voltar ao D'Ouro. Colocaria uma coroa na cabeça. Estava fora apenas. por alguns dias. Te quero eterna. Precisava recuperar as energias perdidas. a menina achava graça no seu modo de falar. O nevoeiro dissipou-se rapidamente. Sétimo recostou-se na parede escura. enfeitada com jóias. Serei fera e dono da Terra. ousar? És tu quem insultas! Pensas que tenho que medir palavras para falar contigo ou com qualquer outro ser rastejante deste planeta horroroso? Achas que és muito melhor que a carne que caminha . Depôs o corpo e envolveu a ferida numa tira de pano. e. Retomaste a matança. mesmo assim. A garota tinha sangue saltando pela jugular.. era o cenário preferido dele. o coração parando sofregamente.. Não vou parar. Teria perecido ao Sol? O cutucar na cabeça disse que não. — Estás certo. Os pulmões já não tinham forças para inflar e carregar oxigênio para dentro do corpo. que transmitia um ar de cumplicidade. um coração gelado. antes que a pretendida fosse levada pelo barqueiro para a névoa e se perdesse no reino dos mortos. outros podiam menos. Fora fácil convencer a garota a entrar em casa. Seria sua rainha.. Estaria junto para vê-lo triunfar quando tivesse seu exército ampliado. Amanhecia. e algo me diz que não vais parar com esses dois. mergulhada num limbo fronteiriço à morte. A jovem espantou-se com a velocidade com que Sétimo dominou e manejou o equipamento. O que pretendes? Não sou tolo. vampiro? — Faz tempo. Não estás quieto como deverias estar. Com presteza. Providencialmente. sem direção. A nova vampira não teria forças para arrombar a porta. mais fraco a cada batida distanciada do coração. alisou o rosto da mulher e beijou-a suavemente nos lábios. Tiago não estava. Paola. A garota tinha um sorriso gostoso. A pele. Chega de ser um escondido. mas vê como são fortes as armas dos homens hoje? Preciso estar forte. Não tardaria para o sangue maldito fazer efeito e tornar a garota uma vampira. Horas depois. Uma névoa fina escondia as árvores. banhados por lágrimas que faziam o rosto brilhar. — Paola. a luz do Sol não seria mais tolerada. cerrou os olhos. Abandonou o quarto. sua nova cria. encontrou-a vazia. marginal. Venha reinar comigo. com ouro. empastados. Ele a ensinaria a ser guerreira. meus irmãos. pálida como nunca. Não serei mais cordeiro. — Faz tempo. A cada gota de sangue. Onde estava ele? Um riso. Era hora de descansar. Mais uma vez.

no plano físico. Te falo agora. ando de noite. vampiro? Queres o quê? Que arranque tua cabeça? Nunca! Sabes que não arranco a cabeça de inferiores... — Basta-me água. como acreditas que conseguirás me deter? Agora. aqui na Terra não fazes nada. por quê? Sabes que não podes. E só tiveste poder para me carregar por meio da traição. Jamais! — Estás bravo porque sou mais poderoso que você? — Poderoso? — Sim.. Os olhos cintilaram. tu viveste um instante. O medo presente. Trago de volta os que me darão o poder de deter essa tua tentativa fraca de apoderar-te do que não te pertence. sou livre e mais forte do que tu. Nessa nova terra. desdenhas. Lázaro. faz quem é carne. neste planeta. Dizes que estás formando um exército.. Não me faças perder tempo. O demônio riu. — Fazer. Esqueceste por que o Inferno é tão quente? — O poder da vida não pulsa em teus domínios. — Pobre criatura tu és. Preso nesta Terra que tanto odeias. já paguei minha cota. sabes também que não podemos dar trela aos bravateiros. Tu te dizes líder e então assumo que saibas como temos que lidar com vermes que tentam nos diminuir. permitiu que teus cães a tomassem. Controlo os homens. sem meus irmãos para consentirem... jamais te darei a honra de seres por mim diretamente escorraçado. Satanás. Que são dois soldados? Sabes quantos eu tenho? Não sabes o que posso fazer. de manchar meu nome. não tens poder algum sobre mim. — Se não pretendes me tocar. Um medo para os tolos.. Sétimo. Execrado.. Aqui na Terra. trago teus irmãos! . como tu. banido como tu foste.. Sou desalmado. sou a fera perfeita. um soldado de carne? Seria muita glória para quem não merece.. — Sou Lúcifer! — Carregas luz. nem tu. sob os olhos do Pai. Pobre de ti. Sou forte. já fui teu escravo. não sou um banido. eu vivi sempre. — Tu. e sabes. Vencerei os exércitos da Terra. — És presunçoso. Mas como és líder.. diabo. arrancar do topo do pescoço essa cabeça pequena. calá-los com elegância.. Melhor assim. Eva. — Sou livre. — Tomas-me como tolo. Não dou essa honra à tua gente. Guerreiros da tua espécie. arremedo de santo. Não és a luz. ponho medo. afirmo. Caim. que foste expulso do Céu? Tu não podes. Viveste muitos anos. — Trazes o quê? — Trago teus irmãos. agora. Braço torto. menino. Para isso tenho poder. Não trazes à vida os mortos. quem parece burro não sou eu. mas não tanto quanto eu.. Serei o príncipe da noite que caminhará aqui. vampiro. Com bravata. mas tu. O demônio riu. Nem medo me fazes. vampiro. Sétimo fechou a boca. Quem está no meio deles. tu não tens como me afligir. Bastaria um movimento meu para extinguir tua existência.. Estou aqui. porque vou ganhá-la. aquele que tu tanto amas. tu és lenda. arremedo de demônio. Não fazes mal algum. Meus guerreiros se espalharão como veneno. besta estúpida. demônio. Carne da tua carne. Foste punido e agora perderás esta Terra. Sétimo. Enquanto o Pai descansava. Até nisso. Temos que esmagá-los. Caído. Achas que invejo esta porcaria? Achas que invejaria as possessões de algum ser terreno? Já vi tanta coisa nesse universo. um exercito que caminha sobre a Terra. Deus.. tentando me diminuir em meus domínios. criatura de pouco cérebro. tu. Por que não vais para os domínios de teu Pai. Criatura sem alma. jamais serão problema na verdade. Tu não ressuscitas ninguém. terminam muitos daqueles que têm alma.por essas terras. mas calá-los. desde o sétimo dia.. mais poderoso. Tenho um exército se formando. nem filho teu nem dEle. teu Pai. não tenho alma. um medo mental. O que não permito e nunca permitirei é que um ser terreno tente me enfrentar como tu pretendes. ah! ah! ah! Tu serás história no livro. tem gente que nem em ti acredita. — Até nisso te venço. O poder da ressurreição é do Pai de Luz. E tu.. como doença. besta.. Serei o medo real.. Conheci Adão.. Queres que te combata? Achas mesmo que me rebaixaria ao nível de combater com meus exércitos um soldado presunçoso da Terra. besta. ando de dia. Parece que também não tens cérebro.. que a Terra parece um traste velho. Muitos. Tenho meus domínios. E dentro dos meus portões. — Não preciso fazer muito. nem Ele. aqui na Terra. — Falas de mim.. Não me levas de novo. eu aprendia. E me ofendes.

. — explicou. Desceu ao porão. Partiram. afastando-se calmamente. Era isso que o irritava. Logo. Nada temo. rindo baixinho. A vida eterna. Sétimo estava fascinado pelo fato da mulher ter aceito sua sina tão prontamente. Dei-te do meu sangue. — Deus. Ela voltou a olhar-se no espelho. examinando a ferida seca no pescoço. e eles existirão. logo notou que as feições inocentes do garoto louro estavam alteradas. Os olhos queimavam como brasas. no entanto estivera em transe todo o período diurno. Em tu não vive nada. Não me amedrontas. Paola foi até Sétimo e deu-lhe um beijo. O poder relaxa. muita luta. — Meu peito dói.— Não me amedrontas. eu não sabia. Sou mais forte que todos! Duvido que os tragas de volta. A argumentação. que vem pelo ar ou pelas coisas. Estava impressionado com a naturalidade com que Paola absorvera a nova condição de existência. Assim tornei-te uma vampira. criaturas não naturais do seu reino. — Digo que és burro. Apanhou um maço de dinheiro e colocou na calça. O demônio deu as costas para o vampiro. fazendo-o voar até a parede dos fundos do porão. Mas tão cedo? — Meu estômago está queimando. mostrando a cicatriz em seu pulso. Sétimo abandonou o cômodo escuro. Perdera o duelo verbal com o demônio. injetados. A mulher assustou-se com a entrada do rapaz. desalmados como tu. Faze-os virem contra mim. pois neles não havia vida alguma quando se foram. — Não. Vai. Percebendo como Sétimo estava nervoso. — O gato comeu tua língua. E te digo agora que trago teus irmãos. seu corpo transformou-se num espectro e desapareceu entre as árvores. Não me levas sem o consentimento de meus irmãos. Parecia que desejara aquilo a vida toda. Vai. sempre foi do teu Pai. Agnaldo acordou. e a partir de agora. demo! Vai-te e ri. Olhar para o corpo nu e o jeito doce de Paola acalmou seus pensamentos por um instante. Cairão. se tivesse me dito. Sempre havia muito choro. demo. Somos ignorados. Vampiros não têm lugar ao lado do Pai. é um ritual. Satanás. Os irmãos não lhe botavam medo. Sétimo estranhou a naturalidade com que a mulher examinava a ferida. Duvido. um por um. Satanás. — Que fez comigo? — Tornei-te vampira. Os . O poder relaxa. Apanhou sua roupa ao lado da cama e vestiu-a. chegou a sentir medo. avisando: — Eles foram embora. As presas saltaram ferozes. esse sempre foi meu melhor trunfo. Ele não tem mais nada a ver com você. Subiu para a casa e foi até o quarto. oíhando-se no espelho. mas o que Satã dizia fazia sentido.. — E assim que acontece. Não destróis o que está na Terra. — Ele não tem nada a ver com isso. Anoitecia. — Tornar-se vampiro não é doença.. Sétimo engoliu seco. Não ressuscitas um peixinho.. vai. como eu. Os novos recusavam a situação. Mal conhecia aquela criatura. sou mais forte que eles. Sou mais forte que tu. Sétimo sorriu. uma doação. Olhos vermelhos. — Ainda está. O pesadelo com a fera parecia ter durado alguns minutos. como vampira? Sétimo abriu um sorriso largo. da ressurreição. eram mortos. Se nem Lobo é páreo.. — Esta mordida? Foi assim? Sétimo apagou os olhos. Perdera a pose. — Maldito! Maldito! Maldito! — vociferou. O poder da vida.. põe medo em alguém. Fato raro.. E para sempre será. azucrina a cabeça fraca dos homens.. Ela aceitara. e tu nada podes fazer para me impedir de tomar a Terra. Encontrou Paola em frente à cômoda.. — Ainda estou bonita para você? Assim. que humano será? Tobia! Ah! Duvido que essa raça ainda exista. Sétimo desferiu um soco no peito do novato. Pra que trazer vida ao que era morto? Ânimo aos que não tinham alma? Basta-me ordenar que existam. vampiro. — Tentou detê-los? — Não. vampiro? Ah! Ah! Ah! — Vai-te. — murmurou a mulher. Agnaldo interpelou-o.. O mundo mudou demais. muita dor. Sétimo despertou aturdido. uma figueira seca.

passando a mão na nuca. — Se quer ser de meu exército. Agora. Deu partida.. nossa nova aliada. Não podes mais agir como um tolo. levanta e vamos. acionando o botão na manopla. Girou a chave na moto e montou. um vampiro dos bons. Paola estava na varanda. Agnaldo levantou-se. Ou estão conosco ou estão contra nós. — Paola? — Sim. Quando Agnaldo apareceu.olhos cintilaram. Paola está conosco. Serás meu general doravante. os cabelos longos aloirados misturando-se aos fios castanhos da garota. Terá de fazer jus a seus músculos e a seu posto. Sinalizou para que a mulher sentasse na garupa. Tem de aprender a ser um vampiro. na avenida. . É hora de caçar. tem que saber. A cabeça doía. ordenou que trancasse a casa e os encontrasse no topo do morro. um bufão. Paola. Nunca deixe ninguém partir. que fez o possante motor funcionar. um guerreiro de presas. Sétimo saiu. Vamos caçar. O vampiro adiantou-se e abriu o portão.. Zarpou com a mulher agarrada em suas costas. minha última aquisição.

aderindo a seu corpo. Sente falta de Miguel. mas as gotas continuavam lá! Suspensas no céu! Sorriu. Estava no meio daquele círculo perfeito. Dois segundos depois. Parecia exposto às sensações humanas novamente. batendo os galhos na grama. Num raio de vinte metros. aliviando-o de um calor incômodo. Que fazia ali? Um par de brasas flutuantes bruxuleava no meio da neblina. Nada. prontas para um confronto. Retraiu os caninos. Podia estar enroscada. Passou a mão no rosto e continuou a falar. Um trovão ribombou no céu. não posso negar. placidamente. já sente prazer em matar e se alimentar. — Gostou do que viu. Chuva. Gente se mexendo. Tiago ouvia calado. No centro.. Que adianta querer ser bom se não é possível sê-lo? Você mesmo. o menos mau. Alguém se mexendo no mato. Um susto. Um relâmpago poderoso explodiu muito próximo de onde estava. temendo o impacto. não é? Confunde o nome dele com bondade. Ele fora destruído. transformando. Ah! Ah! Ah! — riu. Parar o tempo! Miguel! Tiago levou a mão às gotas. demorou para processar. O demônio em forma de homem. Repentinamente. Num ato reflexo as presas caninas surgiram. Como eram poderosos os sons da natureza! Um silvo. um trovão prolongado ribombou. A árvore estava caindo. Um calafrio. Um cintilar na escuridão. Ah! Pobre é aquele vampiro! Acha que pode mais que eu. vampiro? Olhou em volta até encontrar aquele que falava. Um clarão na floresta. — E verdade que Sétimo vai constituir um exército para tomar a Terra? — E verdade. Tiago arrepiou-se. Uma árvore gigante curvou-se.CAPITULO 37 Quando Tiago abriu os olhos estava novamente no meio da relva onde tivera aquele estranho sonho. Tornara-se um filhote de Inverno. Deu alguns passos. Nenhum cutucar sobrenatural em sua cabeça. Já estava habituando-se àquela imagem. — Assustado. só isso. pendendo dos galhos frondosos. que há pouco era humano. Estava se divertindo. Ia bater bem pertinho. Saudade. Congelara o coletivo estendendo a mão para o assaltante. Era sempre assim. se liqüefazendo. Onde estava? O tempo parado! Miguel! O vampiro Gentil! Só ele podia fazer aquilo. Tiago fez seus olhos cintilarem. Não foi seduzido pelo poder prometido por Sétimo. porém seria o vampiro Inverno que correria para atacá-lo. Virou sobre os pés. A névoa foi se desfazendo. Olhos de vampiro. Acha realmente que Miguel era bom? Era o menos mau. Antes que os galhos da árvore se acalmassem. como da primeira vez. O que se seguiu foi tão espetacular. vampiro. Havia formado um corredor em forma de Tiago. acontecera o episódio no ônibus. Inverno também. porém não havia gelo no chão. Olhou para trás. Começou fraca. As folhas da planta gigante subiam e desciam. Perigo iminente. Um relâmpago surpreendente marcou o céu. O rosto levemente transfigurado foi relaxando. a chuva cessou. que movia-se lentamente.. o visitante. Lembrava-se do estranho aviso no último sonho. vampiro. O tronco ganhava velocidade na descida a cada instante. Um riso encheu a clareira. Quando as tocava. Juntando esta observação. vampiro. . Não podia ser o vampiro Tempestade. de boca aberta. que Tiago. Lembrou-se dos desenhos animados. O tronco parou no meio da descida. O homem rodeou Tiago.. Cuidado. Recuou. Sentia olhos pesando no corpo. Depois do sonho ruim. Estava sobre um gramado. O portador daquela mensagem fora o demônio em forma de homem.. A árvore estava imóvel. Admiro. Era um sonho de fato? Como saberia? — Isso tem um nome. já sai para as caçadas. Aos poucos. As gotas frias batiam no topo da cabeça. Ou você corre sem olhar para trás ou você responde à altura. mas o visitara naquele breve pesadelo. escorrendo. Nenhum vampiro. Tinha parado de chover. não foi? Tiago olhava-o silencioso. Não. Tempestade? Não era possível. Talvez chegasse a invadir o círculo com os galhos compridos. Tiago voltou a tomar uma postura altiva. outro arrepio cruzou seu corpo. Tiago não via mais o par de brasas. Estava difícil de ver com tantas gotas de chuva na sua frente. Tiago curvou-se assustado e recebeu uma saraivada d'água na cabeça. Tiago pôs a mão em concha sobre a testa para enxergar melhor. — Mas o admiro. examinando-o de cima a baixo. Tinha certeza de que estava sendo observado. começava uma floresta fechada. a árvore foi ao chão com estardalhaço. Era verdade o que o demônio dizia. Tirou a mão da frente da testa. A chuva intensificouse. Estava cercado por uma névoa espessa. Tiago assustou-se. era como se fossem colhidas de um pé de chuva. Lembrou-se da coruja. Olhos vermelhos. rodou sobre os pés novamente. Farfalhar de asas. o círculo livre daquela névoa foi crescendo ao seu redor.

. Perguntou sobre a cidade. Assim que trancou a porta. mas está tudo bem. Estavam tensos. pois acabavam de comprar uma boa briga. conversando ame-nidades. Tens é medo de admitir que posso tanto e que logo eles estarão com você. Manter-me-ei concentrado. Sabe que ele virá destruí-lo. Trago-os de volta. Sou um líder. — o homem falante fez uma pausa e. Como gostaria de vê-lo vencer! Mas você é novo. Não conheciam a cidade do Guarujá. mas Sétimo caçoa de mim e de mim faz pouco. perdendo a expressão amistosa. Nem este tronco pesado lhe feriria a carne. Vou bloquear esse poder do vampiro. Amavam-se cada vez mais. Procuraram descontrair. No começo não queria interferir. Só não trago os mortos à vida. Não quero isso.. com cama de casal. tapando as laterais. Agora mesmo. Sou o visitante.— Admiro você. Cada um procurava deixar para trás o gigantesco problema. Serão seus soldados. Era noite. Abandonou o vampiro. general.. Terá ajuda. Dou-lhe mais uma vantagem: inverto o que está feito. Antes de acordar. Mas isso não basta. Saudade. Quero carne contra carne. A voz do visitante ecoou. isso vai desarranjá-lo. o corpo do homem tornou-se etéreo. Dê tempo para eles voltarem. dei-lhe força em nome da vingança. vampiro. sobressaltado. diga. quem. Sabe. Serão aliados para combater o exército do vampiro que se intitula rei. Novo demais. como uma assombração. Ao aproximar o raiar do dia. e como líder não posso deixar que me difamem.. isso eu não faço.. dentre eles. Ah! Ah! Ah! Um vampiro cego! O visitante fechou o rosto. Se fosse meu servo. Tenho de fazer a você o que fiz àqueles do rio D'Ouro. Nem que esta árvore caísse sobre sua cabeça seria destruído. Como demora a hora dEle chegar. saberá do que falei. Tiago abraçou Eliana demoradamente. Quem há de sofrer é o vampiro Lobo. A partir de agora você tem seu próprio dom. esgueirou-se para debaixo da cama e caiu em seu transe vampírico. O portador da luz. Pra combater um exército é preciso outro. Para isso virão e depois disso partirão. Trago boas novas. Sugar e digerir. Foi meu escravo. não posso me sujeitar a chamar meu exército para combater um exército que é da Terra. Ganhou força comigo. no princípio da noite. Sétimo não sentirá mais ninguém. Carne? Ah! Vai adorar.-. Haviam dado uma volta e diziam que o lugar era muito bonito.. — Reserva cinco moedas. mas. com voz séria. . e a dupla não tardou. Só aceitou ficar ali após certificar-se de que o quarto era provido de grossas cortinas. estava vivo? Diz. vampiro. Já falei que eles não lhe farão mal. Não conversa comigo e quer meu lugar. Virão te ajudar. mas ele não o sente. Ah! Ah! Ah! Pobre coitado! Aposto que adoraria ver meus anjos contra seus soldados. Tiago lembrou-se de sua casa à beira-mar. Está um inferno. O que foi dito foi claro como água. isso não sou. Sétimo é o mais poderoso. sobressaltado. Te trago boas novas e sabe do que falei. César e Eliana ficaram com um quarto de duas camas e Tiago pediu um separado. Conversaram durante o tempo que restara da noite. ele vai ficar louco. Por medo de se juntar ao exército do vampiro... Você sente Sétimo. Vingança que ele não teve por completo. Após tê-lo através da traição. reverbe-rando no ar. Os amigos entenderam que era hora de se afastar. Tiago espalhou cobertores sobre a cama.. que ainda zanza pela face deste planeta. por amor à mulher. Terá ajuda. e felizes. Contudo. Nada mais há que se fazer. continuou. — Eles? — Ah! Ah! Ah! Não fique assustado. Não sou um arbusto que arde. ouviu as vozes dos amigos no quarto vizinho. Tinham chegado durante a madrugada e se instalado em um hotel. Seriam suficientes para vedar o Sol. como quem diz: Está tudo bem. Deu as costas para Tiago e. A partir de já. Fraco. Tiago despertou. cedo ou tarde. Acha que me rebaixaria a tanto? Meus soldados contra carne? Tolo. — Ah! Ah! Ah! Acha isso parecido com um enigma? Não. Ao despertar. mas nada comparado às deliciosas prainhas de Amarração. Não me sujeito a essa vergonha. sabe do que falei. desaparecendo gradualmente antes de alcançar o esconderijo na floresta. Deu uma batida forte na parede. Pediram sanduíches e bebida. antes que o vampiro manifestasse qualquer reação. — Precisará de tempo para se fortalecer.. faziam piada e riam uns para os outros. Sétimo teria tempo para sugar o sangue deste mundo três vezes. E você é o único na face da Terra com gana e coragem para enfrentá-lo. por estarem juntos e vivos longe do maldito Sétimo. vampiro! Ofereça ao barqueiro que ele trará seus soldados do mar! Vá e faça! Em seguida. E prometo que agora eles não lhe farão mal. mas agora se recusa e me repudia.

.. Por isso que temo por vocês dois. — Eu também não. — Bá. — Tive um sonho estranho durante o transe desta manhã..— Hoje foi um dia de muito Sol! Muita gente na praia. — emendou o amigo. — O que foi? — perguntou a moça.. Eliana abraçou-o. Disse também que eu seria capaz de sentir Sétimo e que Sétimo não seria capaz de me detectar. A gente nem enterrou o Olavo. Tiago baixou a cabeça. Ajudar a combater Sétimo. — Quem? — O demônio. Eliana. — O demônio?! — disse. Não especificou qual. Teria Tiago ligado o ar-condicionado? — Ele me disse umas coisas. no seu sonho. — balbuciou Tiago.. Apesar de Tiago ainda ter a pele morena.. Quer um general. típica de quem trabalha no mar. esfregando os braços para se aquecer. Me faria um deles. tchê! Quer nos matar de curiosidade? — Sonhei com o demônio. — Tiago fez uma pausa. Disse que me daria um dom. como ele era? . mas ele disse. velho. tu vai me desculpar. — Se vem dele. Eliana passou a mão na face preocupada do namorado. quer a mim. Tiago meneou a cabeça. Para nos proteger. Lembrou-se do que o demônio lhe dissera. — Eu sei Li. Tá lembrado? Tiago sorriu para a namorada.. quem estava provocando? — Disse que ia traze-los de volta. Queria que não fosse apenas um sonho.. que expressava gratidão. Só sinto falta do Lalá. Titi? — Nada. E mais. Ele não quer vocês.. Forte para lutar contra Sétimo. Era um cara. disse que vai nos ajudar. Eliana afastou-se e encarou o rapaz. sentindo um aperto no peito. benzendo-se. — Fica quieto! Foi você quem me salvou na caravela. Estava uma delícia. — Credo. me bastava nunca mais ter que cruzar seu caminho. — É. — Lembrem-se que Sétimo pode aparecer de dia. Não iria atrás daquele maldito. Seria verdade? Será que Sétimo estava impedido de localizá-lo? Como seria bom acreditar. Queria que fosse verdade o que ele disse. — O que ele te disse. — Contra Sétimo. Olhou ao redor. Mais estranho que na primeira. Tiago?! — Ele disse que eles viriam para nos ajudar.. Tiago notou o frio que o amigo sentia. Tiago! — gemeu a mulher. na verdade. Li. — Que foi. — Como ele é? — perguntou César. Será que era ele. — Tchê. Beijou-a de leve. se somente isso fosse verdade. — Foi a segunda vez. Os amigos notaram a expressão no rosto do rapaz. — Sétimo não vai nos deixar em paz. — O que mais? César ouvia calado. deixaria ele fazer o que quer. pode chegar até voando. já me bastava.. fico feliz de terminarmos juntos. o rosto estava empalidecendo cada vez mais. ela era grata. — Sua cara mudou. eu aceito tudo. e isso lá é ajuda. sei que vai ser uma barra. mas não acredito que aqueles vermes possam ajudar alguém. Pode surgir a qualquer instante. — Um troço esquisito. Durante a noite. o vampiro. lamentando a morte do amigo. Mas não tinha nada de chifres. — apoiou César. — Eles quem? — Os vampiros do rio D'Ouro. Apesar de tudo o que tinha acontecido. Só coloco os outros em perigo. Nada de patas de carneiro. — É. afinal? — inquiriu César. — O Olavo. mas a gente começou junto e se tiver que terminar... — Desembucha. Um sábado gostoso. César sentiu o quarto esfriar. eu sei.. nada pode ser bom.

tentar lembrar como é viver normalmente. vamos primeiro... — Então. não se esqueça. E como estar de frente pra um louco. Saber onde estamos e o que queremos. como rezo para que estejam.. e o bom é que os malditos vão continuar destruídos. para ir atrás daquele cachorro supercrescido. Pela história que ele me contou. aquele olhar penetrante dá medo. Na verdade. — E quanto a sentir Sétimo? — Não sinto nada. Tu podes senti-lo. Tem o rosto duro. Cesão. dons malditos.. E a melhor coisa: deixar a mente clarear um pouco. Miguel me disse que o dom se revela na hora em que você precisa. Se sair faísca da tua mão.. movimentando a cabeça. Vampiros portugueses. se acontecer alguma coisa diferente.— Um cara normal. eu diria que essa história é maravilhosa. Então usa. Vamos dar um tempo aqui. Não sinto nada. Cesão. — Não é assim que o dom aparece. O bicho tá solto. Vamos dar um tempo. disse que até queria que o pesadelo tivesse sido verdade. Podia ser qualquer um que tu encontra na rua. correr. um cara até franzino. O resto pode continuar no inferno. Acho que devemos aproveitar agora. não pode? Tiago aquiesceu. Se tu tiver medo dos veados. Mas ao mesmo tempo. — Beleza! Vamos fazer mais balas de prata. Tiago riu. em vez de ficar roendo as unhas esperando o dia em que ele vier para me pegar. Esse é o ponto. Lembra? Basta não ter medo dessas criaturas que nossa força se iguala. um psicopata. Com certeza. No apuro.. que coisa! — comentou a mulher. Tiago sorriu. pelo menos. Tinha orgulho de ser amigo de um guerreiro. só fizemos correr... — Se esses caras não fossem os vilões. Deve tá matando gente. Basta o vampiro Lobo. — Espera. Estranhamente normal. — O quê? — Mais balas de prata. Se não. então não tenho dom. parecia fraco — mas não era. César concordou. ficará surpreso. — Só quero fazer uma coisa enquanto esperamos. é porque é verdade. que temos dinheiro e tempo. . simplório. — Só que ele também pode me sentir. que está à solta. Vamos começar a vasculhar os jornais. — Esse é o ponto. os poderes foram revelados numa emboscada armada por Tobia. Por isso. Nos últimos dias. consegue quebrá-los na porrada. — Não é problema. Só sinto falta do Miguel. — Ele disse que te deu um dom.. se for possível. a pele queimada.. O único vampiro que me ajudou. Vamos respirar um pouco. vamos encontrar alguma coisa. eles ficam cem vezes mais fortes.

Os inimigos eram descritos como perspicazes e engenhosos. O medo era a arma do vampiro. Dimitri acelerou. Os dois mal puderam observar a moto esportiva que subiu zunindo no asfalto. Após quinze minutos de muda espera. O aumento dessas ocorrências também apontava para uma propagação da atividade vampírica. Uma direção. A avenida principal era larga e limpa. pois agora. e uma determinação pétrea varria e empurrava o seu querer. — Pode ser aqui. Detectava o ponto fraco. — Descendo aqui.CAPITULO 38 Dimitri desacelerou o carro. confortável. — O quê? — O tal covil. entediado. tinha enfrentado o homem que conduzia o Comodoro. quando transmutava. A pista era quente. e que a parte baixa da residência comportava um porão. pois o Sol. Seria páreo para tais criaturas? Atormentava-se. Passou por uma dúzia de ruas: ninguém nos portões. recostou-se quieto e esperou. seguro e vedado. Bastava focar. grande? Como saber? Com certeza. Nem a metralhadora que trazia ao colo confortava. inseguro ainda. por exemplo. partindo para cima do assassino com raiva e força. focado. Sabia encontrar as vítimas. encostando o rosto no vidro enegrecido. escondido no horizonte.. mulheres.. Assassinos. sentia a alma esvaindo. alimento mais poderoso que o sangue. Carros passando furtivamente. Tobia lera no livro dos ancestrais que encontrar roupas rasgadas junto a corpos mutilados era forte indício de ação de vampiros. insetos extermináveis. Seria assim contra os vampiros? Será que seus instintos o conduziriam com tal bravura diante das criaturas malditas? Torcia para que sim. Estacionaram numa esquina. Estavam em frente à loja citada no cartão que encontraram no galpão. Pouco movimento. Dimitri localizaria o covil. Por exemplo. as forças multiplicavam-se. Não sabia de onde viera a fúria que tomara conta de sua mente. varanda espaçosa. Um rapaz vestido de negro e uma garota na garupa. Com o motor engatado. o que poderia lhe custar a vida. de boné. — balbuciou o descendente de portugueses. Os Tobias ensinavam que para vencer o vampiro o caçador primeiro teria que vencer o medo. Vamos dar uma batida. Esses malditos logo cairiam em seu caminho e pereceriam em suas mãos. Loja de esquina. acuado no banco de couro do Comodoro negro. Só os olhos pareciam vivos. praga a ser combatida. — Ah. Um endereço. em frente ao Bingo Estoril. — Talvez. carros usados e motocicletas esportivas. dançando de lá para cá. Tobia estava ansioso. O carro era suspeito. Uns tinham o corpo duro como rocha. O discreto caminho de pedras que levava para a parte posterior do terreno o intrigou. aquelas peças haveriam de ter-lhe pertencido. Combatê-los como seres inferiores. um rapaz robusto.. Reviver as aventuras grafadas. ideal para esconderijo de vampiros. A cada ano. examinavam as casas. Uma construção aqui outra ali. a gente sai na City Bussocada. crianças. Tobia foi pego de surpresa quando o motor do carro foi acionado. Dimitri olhou para Tobia. deixava apenas sombras avançarem sobre os sobrados. o casarão assobradado em frente ao qual se encontrava estacionado. temendo o confronto. Fortes e eternos. Naquele dia. atentos. A escuridão avançando. O olhar experiente não captou indícios. Só lembrava que tinha puxado o gatilho. com balaústres pintados de branco. Lobo. deixava para trás as vestes imprestáveis. Fotografias de rostos jovens ilustravam a página: deficientes mentais. desaparecido havia cerca de uma semana. onde a luz do Sol não penetraria. Uma construção ou outra chamava a atenção. Se um vampiro tivesse se transformado no fundo do galpão. Tobia. O motor trabalhando. — resmungou Tobia.. Pequeno. Estava certo de que ali havia uma porta. sem passar dos vinte por hora. Quintal amplo e coberto de grama. Cê disse que os vampiros se juntam e se escondem num covil. Era um excelente matador. sorridente. apanhou o Diário de Osasco no banco de trás. Os vidros com insulfilm escuro impediam que os dois fossem identificados. Tudo o que tinham encontrado no emaranhado de trapos foi o cartão. Rodaram vagarosos pelas ruas. Instruir-se com as advertências dos ancestrais contidas no velho e precioso livro do clã dos Tobias só incitava seu medo. Chegava a sentir um nó na boca do estômago. sem agito e longe da polícia. Dimitri desligou o motor. O céu trazia pouquíssima claridade. O Comodoro desceu a rua vagarosamente. Lugar perfeito para um covil. Estava dobrado na seção de pessoas desaparecidas. . Ermo. O bairro era pacato.

rodando a esmo. ganhou a rotatória que fazia a ligação com a avenida principal do bairro e deixaram a região sem maiores incidentes. Pressentia que aquele ordinário caminho de pedras terminaria no presumido porão.. — argumentava Tobia. onde criaturas satânicas recolhiam-se nas horas de Sol e evadiam-se durante a noite para subjugar seres humanos e furtar-lhes a vida. Aquela casa era o alvo. Outros. sem entrar na rua desejada. ocultam o corpo. mas pode ser tudo.. Pressentia que Tobia estava certo. Um tilintar na cabeça dizia que aquela casa era o esconderijo. — Mano. Dimitri tomou o sentido do bairro Santo Antônio. Não vira o rosto. — retrucou o Matador. aliados. que aquele rosto. O sobrado continuaria ali. Entretanto. O fato do rapaz estar parado na frente da casa não indicava a condição de covil da residência. seguindo o Comodoro. de compleição avantajada. Chegavam à rua quando foram bloqueados por uma viatura. e pediu que acendesse a luz de teto. não queria dizer nada. Como já te disse. apenas a silhueta de um homem forte. Dimitri apanhou o jornal e olhou fixamente para a fotografia do rapaz. A segurança privada estava desconfiando daquele Comodoro negro estacionado no bairro. uma pessoa estava passando pelo portão. Entretanto. . vampiros matam pessoas e. Tinha um cara parado na frente da casa. Orgulhava-se de sua visão fotográfica. precisavam de luz do Sol. — Não quer dizer nada. Dimitri não questionou. Dimitri cocou o queixo com a barba por fazer. uma das qualidades que Dimitri possuía e que nunca desprezava era esse seu feeling. — Caralho.. Engatou a terceira marcha e deixou para trás a rua estreita em que se encontrava.. — E tu vais precisar de um curso rápido sobre cortar cabeças de vampiro. Podia ser. afim de que sejam recebidos no Paraíso.— Como você consegue olhar através desse vidro? Como pode ser o covil? Dimitri soltou o freio. por que queria vê-lo novamente? Tobia apanhou o jornal dobrado. Acelerou. Algumas vezes. — Esses merdas vão atrapalhar. mesmo assim. Acho que ele é o cara que estava no portão. Precisavam juntar forças a favor. O rosto é desse rapaz. Não parecia vampiro. Como permitir que abordassem seu Comodoro forrado de armas de fogo e dispositivos explosivos? — Aquele cara no portão. em novos vampiros. Não invadiriam a casa agora. — Um dos desaparecidos? — É o que parece. Dimitri. — entredisse. erguendo o vidro elétrico. tu vai precisar de um cursinho intensivo sobre bombas incendiárias e tiro rápido.. O carro de ronda saiu da esquina. passando ao lado da viatura. — Isso não quer dizer nada. deixam os cadáveres para que os padres encomendem a alma do pobre diabo. O garoto da fotografia parecia praticante de halterofilismo. e o carro deslizou rua abaixo. antes que a viatura os alcançasse. mais educados. mas todo cuidado era pouco. Tinham uma estratégia e não iriam por as coisas a perder. Chegavam na esquina quando finalmente Tobia conseguiu abrir o vidro e enfiar a cabeça para fora. Droga! Por que a merda daquele carro foi aparecer? Dimitri mordeu o lábio. tinha quase certeza. parado ali por tanto tempo. nem que confirmassem a existência dos vampiros. Não acreditava que a polícia militar se envolvesse naquele evento. aquele rosto era o do rapaz da seção de desaparecidos do jornal! — Dê a volta no quarteirão! — gritou. — Esse rapaz na foto. Conhecia aquelas ruas.. tramando um assalto. Dimitri continuou. Chegou às grades do Parque Chico Mendes. Na avenida principal do Novo Osasco. Dimitri avaliou a situação. mas olhara de relance pelo espelho retrovisor. colocando a cabeça para dentro do carro. Passaria despercebido não fosse o fato de. Olhou para o casarão. pois já viravam a esquina. Bateu o olho no retrovisor e deu a volta no quarteirão. como se vigiasse as residências. Saberia como despistar um adversário. Um rapaz robusto. na maioria das vezes. — Pode ser esse o caso. mas não podia ver o quintal ajardinado. seqüestram pessoas e as transformam em soldados. Agnaldo era o primeiro nome.

podia imaginar que estava em Amarração. Como reagiria sabendo que o filho tornara-se um assassino? Saudade do pai. Tiago. Ainda conseguia congelar o ar. Valdo e Naldinho afastaram-se. Nomes. Podia senti-lo. a força aumentava. Valdo segurou-o pela camiseta e socou-o repetidas vezes no rosto até largá-lo desfalecido na areia. Estava em Osasco. Tiago nem ouvia. em seguida. como o visitante prometera. Um vento morno batia no rosto. é porque tinha ganhado um dom. Somente quando os dois traficantes olharam para ele. examinando o ferimento. Ergueu o dedo médio em gesto obsceno e. Um cutucar no lado esquerdo da cabeça. Eliana era cruzeirense fanática e zombava de Cesão. mas não notou que Naldinho percebera seu interesse. Se podia sentir Sétimo. Mais uma vez. Mantivera-se no mesmo ponto nos dez últimos dias. Dia após dia. Cobrava dinheiro. O rapaz parou um instante. Lembrava-se de vitórias fantásticas e gabava-se para a amiga. sorridente. De soslaio. Não quero. Correto. Não era um torcedor fanático. transferido de Porto Alegre para Amarração. Naldinho.. mas era um apaixonado.. Delegado. o amigo andava constantemente armado. O pai. estrelas que passaram pelo time. Fechou a cara ao perceber que o estranho ainda o observava. tu torce para um time que nem da tua terra é. Eliana ria. e o vampiro manteve os olhos cerrados por uns instantes. — Filho da puta! Rasguei a mão no dente daquele folgado. Olhando para o calçadão. César argumentava. única herança material do pai. Palavras chegavam aos ouvidos. Os outros não reagiram. sentados próximos de onde as ondas vinham lamber a areia. Parecia se distanciar. mas os olhos. Tiago sentiu o corpo invadido pelo cheiro de sangue que gotejava da mão de Valdo. sentado no calçadão encarando os dois. Elencava jogadores.. o episódio violento fora tão rápido que nem chamaria a atenção. de roupas negras. um burburinho. engrossou com um dos adolescentes. notou que os marginais se afastavam. Fixou o olhar em Valdo. O dom de congelar fora dado por Inverno. Não queria os malandros próximos de seus amigos. a atenção. pálido. antes de sumir na esquina. Longe. Sabia que discutiam futebol. desviou o olhar. Concentrava a audição vampírica. quer sorvete? — perguntou a mulher. como o vampiro Inverno. saber onde o monstro estava. Naldinho reparou no cara de rosto estranho. Severo. Valdo. Crack. Vinham em direção ao calçadão. César sentou-se ao lado do amigo.CAPITULO 39 O som da arrebentação agradava a Tiago. que torcia para o Flamengo. para uma garota de pele dourada que rebolava deliciosamente em direção ao sorveteiro. De calça na praia. deu-se conta de sua indiscrição. Desde que deixaram a casa em Osasco. Tiago mexeu a cabeça pra lá e pra cá. Podia erguer um carro. Um volume por baixo da camiseta formou-se. a imagem de Sétimo.. braços musculo-sos e jeito truculento de falar. Sua velocidade vampírica estava excepcional. desapareceu na rua perpendicular à avenida. Não tem como discutir comigo. poderoso. — Tiago. estralando os ossos do pescoço. Dois deles eram traficantes. O defeito na luz pública dificultava que os transeuntes os vissem. Iam atravessar a rua. — Que aquele palhaço tá olhando? — Será que viu você arregaçando o Adriano? — Grande bosta! Dou um pau nesse mauricinho. de bermuda e sem camiseta. se necessário. viu César e Eliana se aproximando. só pode ser playboizinho de São Paulo. — Não. Mesmo que pudessem. cabelo tingido de vermelho. Estava curioso. Droga pesada. Discutiam futebol. concentravam-se numa roda de adolescentes na praia. O moleque reclamava. sentado na varanda de sua casa simples e gostosa. . O traficante. Estavam envenenando a garotada. mas não sabia se era o dom prometido pelo visitante. direto para ele. bem próximos ao vampiro. Eliana deu um tapa em Cesão. sem tirar os olhos dos dois traficantes. — Bá. Risadas. Estavam numa parte afastada do calçadão. ouvindo os comentários maldosos. Riam. Fechando os olhos. Risadas. De repente. nunca fora ao estádio. olhou para trás. César e Eliana entabularam uma conversa animada. Subiram para o calçamento. O cheiro do sangue. Tiago estava concentrado na dupla. O barulho do povo passando. Fez que olhava para o outro lado. com uma corrente de ouro grossa no pescoço batendo no peito.

um justiceiro. mas a pele estava acinzentada e os dedos duríssimos. até perder as forças e o corpo amolecer. Tinha provocado um traumatismo craniencefálico no marginal. — observou Eliana. — Filho da puta! — gritou Valdo. sentía-se bem. agarrou o braço do rapaz e torceu-o até ouvir um estalo. Os marginais entreolharam-se. A dor insuportável foi crescendo. Tiago golpeou-lhe violentamente o nariz. tu tá estranho. com a boca manchada de sangue. Tiago cravou os dentes em Naldinho.. Valdo atacou. que se debatia. Apoiou um joelho no chão e trouxe o pulso do rapaz até a boca. guri.— Tiago. tamanha a violência dos golpes. Tiago incitou seus poderes. Os cabelos vermelhos confundiam-se com o sangue que tomava conta da pele. caiu no chão gritando. e o braço inchava. Tiago grunhiu. ia apagar o sorriso desse vagabundo passando fogo no cara. deslocando-o. Valdo. Abriu uma ferida e roubou o sangue do traficante. Tiago segurava firme a mão do rapaz. Tiago sorriu. O rapaz gritou e lutou por quase um minuto. Matara-o com violência. Valdo rastejava quando sentiu a mão forte agarrando seu tênis. fechar o punho e dar ao delinqüente um pouco do próprio veneno. pois estava pagando ao bandido com a mesma moeda que distribuíra a suas vítimas do tráfico. O nariz era uma bolota inchada. foi agarrado pelo pescoço. . cara! Como o homem não se mexia. Violência.. Como ele fizera com o rapaz na areia. Tentou abri-la. Imóvel e veloz. Naldinho xingou-se por não ter trazido o cano. Desesperado. Sabia que quando estivesse satisfeito culparse-ia pela crueldade de sua ação. A face do bandido havia se transformado numa massa de carne disforme. e prendeu-o num abraço mortal. contudo. com muita dor. naquele momento. — Rapa fora! Sai. Ele voltou-se para os amigos. O cara deveria ser um maluco. — É o capeta! É o capeta! Deus me ajuda! — gritava ensandecido. mas quando passava por Tiago. escapando por incontáveis ferimentos. Viu o intruso. Agarrou o jovem. Os dedos tinham virado gelo! Naldinho tentou correr. Viu quando os olhos do homem ficaram vermelhos incandescentes. e os olhos tinham se unido. recolocando o corpo no terreno baldio. relutou até arrancar a mão do poder do invasor. transferindo o frio sobrenatural que sabia produzir.

contar as coisas novas. o rosto encovado. é diferente. Enquanto decidia para onde seguir. Aquela cidade nunca deixaria faltar matéria-prima para a criação de seu exército. Ensinara sobre a cidade vizinha. Sétimo estava contente. capturados e vampirizados por Agnaldo. princesa. Que graça tem descobrir um mundo assim sozinha? Você é homem. Cabelos fluindo ao vento débil que dançava entre os prédios. artistas. Rapidamente alcançou a avenida Vital Brasil. — Agnaldo tem novos amigos. o vampiro novato mostrara-se determinado a tornar-se um soldado valioso e fiel. A mulher sorriu e. Sétimo. o desligamento da vida passada. Em dois dias. Depois de muito rodar. mas sem o brilho nos olhos. — Conte a mim. Olhos atentos. Uma mulher. Em breve. Sétimo sabia que os filhos de Agnaldo seriam fracos. Danceterias. Sétimo. Paola o esperava na varanda da casa. Que seja. seus olhos cruzaram com os de uma linda jovem que atravessava a avenida. pretas. Elas fugiriam de mim. Corpo voluptuoso. Atravessou um viaduto e alcançou a Rebouças. Precisava de sangue. Como todos os dias. tomaria o controle daquelas ruas. — Te trago esse presente. Era isso que importava agora.. Olhos claros. Uma mulher que quisesse ser vampira. deixaram o desespero e agora aceitavam a nova condição. Traria comida como uma coruja-mãe. Parou num cruzamento. Passou pelo centro da cidade. tomou a avenida dos Autonomistas e rumou para a cidade de São Paulo. Luz verde. Em poucos dias. o vampiro desapareceu da frente de seus olhos. — Tem a mim.. Pernas envoltas numa espécie de meia negra. estava cansado com a criação dos soldados: consumia muita força de um vampiro novo e ainda fraco. Os olhos vampíricos enxergaram a torre do Unibanco. Agradou-lhe à primeira vista o jeito da mulher. Deixo o mundo para amanhã. Sétimo encarou Agnaldo. Quero alguém para conversar. Lugares perfeitos para as caçadas. Porém. Precisava de um exército. pousando a cabeça no peito do vampiro. As roupas. A noite há muito havia entrado. que o novo general precisaria de muitos litros de sangue para se recompor. Sabia que a criação drenava Agnaldo. minha rainha. translúcida.. minha querida. curta. Parecia real- . Sétimo deixou a toca. já disse. Te trago uma dama de companhia esta noite. Estava se acostumando.. Apenas executava o que o vampiro pedia. sem sorriso a enfeitar o rosto. não perguntava o porquê disso ou daquilo. Carros em grande quantidade. acompanhando a garota. Mas uma mulher linda. Jovens. comparado aos antigos. a motocicleta de mil e cem cilindradas. Jaqueta entreaberta e uma peça de renda agarrada aos seios volumosos e hipnóticos. Lugares coalhados de gente. para enfeitar ainda mais o castelo e servir de companhia para sua eleita. Bares. Não posso mais falar com minhas amigas antigas. eu não tenho ninguém.. estava pálido. Tem a mim. Formas deliciosas. uma mulher. Preciso de uma amiga. Elas não entenderiam. — Que tem. De acordo com o figurino vampírico.. partilhar meus descobrimentos. A boca tão bem desenhada que faria qualquer coração humano bater mais forte ao tocá-la. Saia de couro. Sétimo trafegava em baixa velocidade com a recente aquisição. Precisava que os novos ganhassem poderes e produzissem crias. a mulher de pele morena e cabelos esvoaçantes estava linda. minha princesa? O que te aborrece? Paola abraçou Sétimo. Eram vampiros. buscando a vítima certa. — Quer uma dama de companhia? É isso? — Que seja.CAPITULO 40 Sétimo despertou. Deitados à sua frente quatro novos vampiros. Protegeria o covil e daria tempo para que os novos se fortalecessem. antes que agradecesse. Excelentes soldados. bêbados. Conseguira quatro soldados. Demorariam muito e muito tempo para adquirir a resistência de um vampiro comum. Sétimo satisfazia-se com o aumentar do séquito. sem encontrar quem despertasse sua atenção. Extremamente atraente. agarrada à pele. Paola gostava muito de passear naquela direção. — Não serve. Sétimo. tu me contas o que quiser. jovens e fortes. — Estou só. Não questionava os ensinamentos de Sétimo. Sétimo deu força à motocicleta e dobrou à direita. preciso de uma amiga. de tão bem feitos. O que mais quer senão a mim e às coisas do mundo que vou lhe trazer? Paola soltou do corpo frio e duro do vampiro. Sou todo ouvidos. Mostrara os lugares quentes. Sangue disponível. Ultrapassou-a e estacionou no calçamento público a duas quadras.. Luz vermelha.

já possuía um valor muito grande para ser descartada. Sétimo.. adorava o poder que seu corpo lhe proporcionava. — Qual é o seu nome? — Aléxia. Sétimo queria aquela mulher. — Oi! A garota notou a pele pálida do rapaz. Era linda! Seria a acompanhante perfeita para sua Paola. deixando o vampiro para trás. algumas vezes. endinheirados. frio.. sem diminuir a velocidade e passando pelo vampiro. Quando Aléxia passou. Aléxia. Rua deserta. Um corpo irresistível. O cara estranho e pálido era magro. Como era alva! — Oi. Fora escolhida. Talvez Paola não aceitasse uma concorrente. ele me deixa assim. Sétimo seguiu com os olhos. Não que a opinião da vampira lhe fosse importante. — Não. Ainda mais nos garotos! Sabia que tinha um corpo atraente e um rosto irresistível. . Sétimo deu partida e alcançou a moça. Sétimo encostou alguns metros à frente e voltouse. A garota sorriu. — disse o vampiro.. Sétimo deu partida e voltou um pequeno trecho na contramão para pegar a via. maravilhosa.. Estava excitada. — É o vento. e Paola mostrava-se uma vampira que aprendia rápido e disposta a conquistar a noite ao seu lado. — Para onde vamos? — Para onde quiser. acelerando a moto. Seguia o jeito provocante de andar. pois. Os olhos do rapaz não desviavam de seu corpo. Como era sexy! Pernas bem torneadas. como se atravessassem o couro grosso de sua roupa. Esqueceu-se momentaneamente das possíveis complicações com Paola: estava enfeitiçado pelas curvas da escolhida. Ela percebeu o olhar insistente do vampiro em seu decote. — Ora. — Quer uma carona? — Sem chance. o coração batia mais rápido.mente hipnotizado pela garota. Ela viria por bem ou por mal. — respondeu Sétimo.. Ela entrou numa rua perpendicular à avenida. a abordagem de um estranho e o medo crescente em seu peito faziam da excitação uma compulsão pelo perigoso e proibido. Acho você linda. Talvez fosse melhor esquecê-la. Para onde quiser. Sorriu para Sétimo. A garota levantou os olhos ao perceber que o rapaz reduzia a velocidade. estendendo a mão. que gostavam de botar com pinta de malvados em cima de motos esportivas e carros envenenados. saia curta.. Estava curiosa. Aléxia. chegava a corar. Tão bela quanto! Uma jóia de olhos verdes para enfeitar seu castelo.. Que mal poderia lhe fazer? Parecia um desses filhinhos de papai. subiam e desciam. Acha que sou o quê? Louca? Não te conheço. — Para onde vai? — Para casa. Não se preocupe.. cara. — respondeu a garota. Subiu na moto e abraçou o vampiro. mas precisava de aliados fiéis. fazendo a garota se agarrar ainda mais. — Nossa. Te deixo onde quiser... — Uau! Que nome lindo! — Você não desiste! Não vou pegar carona. e. não pode ficar desacompanhada. você está gelado. e de rosto muito simpático. — Suba. Aproximou-se. Aléxia continuou. — Sou Sétimo. Não aceito carona de estranhos. tão magro que parecia frágil. Adorava exercer aquele hipnotismo sobre os homens. quem disse que sou estranho? A garota não respondeu. que conseguia prender os homens pelo olhar.. Sétimo entreviu um crucifixo encaixado nos seios da mulher.. A rua escura.

antes que a chama se apagasse. mesmo estapafúrdio. A última deixada pelo lobo fora um presumido ataque na região da Lagoa dos Patos. Nem os carros. com marcas condizentes ao ataque de vampiros em São Paulo. Talvez o álcool fizera o homem ver o bicho duplicado. Fizera um pedido de verba extra ao comando. Depois. que se feriam com balas de prata. Tinha que agir. Eventualmente. Nada restara no local do acampamento. Passou a mão no cabelo. Sabia que eram presos na prata. A situação já lhe fugia ao controle. Olhando para monitores. Os homens trabalhando automaticamente. Brites não entendia aquela história de dois lobisomens. Tinha que tomar uma decisão. ou com alguma esperança. ou continuariam amargando infrutíferas investidas. Tinha recebido notificação de uma fazenda atacada e o gado dizimado quase completamente cem quilômetros ao norte do acampamento. talvez roubados por saqueadores.CAPITULO 41 Brites analisava o mapa desenrolado à sua frente. E rápido. Osasco e região. Somente sangue. chegavam relatos de pessoas mortas em condições estranhas. Doze adolescentes desaparecidos simultaneamente e o depoimento de um senhor que pescava à beira da lagoa. que afirmava ter visto dois lobisomens. O lobisomem parecia ter desaparecido. O fato era que não conseguia mais achar traços do bicho. lobisomens. mas o fato é que o avistamento coincidia com o sumiço dos garotos. Sim. Era ele. levados por possíveis sobreviventes. mas ainda restava uma ponta de confiança. uma chama de fé. Olhou em volta. Acreditava que poderia livrar sua terra e sua gente daquelas criaturas. Precisava de armas adaptadas para lidar com aqueles seres. pois jurava que tinham as formas lupinas e caminhavam sobre duas patas. Não encontrava mais pistas que antecipassem uma emboscada. Assumia que estava alcoolizado naquela noite. mais nada. a cento e setenta quilômetros de Amarração. . Ou o comando atendia ao pedido. Frustração. Papéis. Se houvesse. Olhando para gráficos. Brites suspirou. Queria vingar os soldados.

nada. Com o alicate de cabo prolongado. Contaram cinco vampiros. e os seguranças particulares estariam rondando o local. Vantagem. Hora de agir. Matador gesticulou para Tobia. Não tinha tempo de persegui-lo. Dimitri ergueu a tampa do porta-malas. o que estava mais ao fundo abriu os olhos. Homens. Cômodo por cômodo. Ergueu a metralhadora e disparou contra o vampiro de olhos abertos. Vai ter muito o que explicar quando os bombeiros chegarem. Um cheiro acre entrava pelas narinas. Tobia espalhou o líquido sobre as roupas dos vampiros. enfim. Dimitri gastara dias ensinando Tobia a manejar as armas. Acudiria as mulheres primeiro. Cheiro de fumaça. Estava destrancada. Dimitri não se alterou. passou uma metralhadora com silenciador para Tobia. Um vampiro não poderia andar livre ao Sol. Tobia terminou de espalhar o líquido inflamável sobre os vampiros e recuou até a porta. Dimitri empurrou a pesada porta. achava mais eficaz que um punhado de chapas de prata. O primeiro confronto do novo desafio. Agora era entrar. Dimitri recostou-se na parede oposta e bateu violentamente com o solado do coturno. Sétimo ia em alta velocidade. O coração batia rápido. Um sujeito que não deveria apresentar grau importante de periculosidade. Tinham pouco tempo até que as viaturas da segurança particular voltassem. Pensavam assim até encontrar uma porta trancada. o artefato explodiu. Inimigos sobrehumanos. O guardião estava afastado. protegendo o pescoço. recostados à parede.CAPITULO 42 O Comodoro encostou. enquanto o artefato explodia. Dimitri apanhou uma metralhadora e escondeu-a sob a roupa. Havia algo diferente naquele fogo. Todos em pé. Era difícil de apagar. mas tinha fumaça vindo de cima. reduziu o poder das chamas. De dia. Sétimo atravessou as chamas e. Ambos vestiram uma malha de ferro trançado que descia da cabeça até o peito. Dimitri desceu. Os vampiros não conseguiriam persegui-los. usando sua velocidade vampírica. O carro negro subindo a rua. — Por quê? — Já devem ter acionado a polícia. o humano incumbido de cuidar da casa para os vampiros. na verdade. enrolado. Vira fogo saindo pela porta do porão. mas a criatura não se moveu. Entrou no quintal e largou a moto no chão. Assim que saiu. Seriam mortos pela luz do Sol. Caçadores? Tão cedo?! Quase caiu ao entrar na curva. sem sucesso. Foi ao portão. Dimitri retirou do sobretudo um artefato cilíndrico. do tamanho de uma lata de ervilhas. olhos cerrados. Não poderiam retaliar. — Vamos voltar! — ordenou Tobia.. O alvo era a cabeça do vampiro desperto. Tobia tinha ainda o reforço da armadura prateada. pois não era vampiro. num instante arrebentou um elo da corrente e liberou a entrada. num único golpe de mão. Tinha limpado o covil. Puxou um pino e jogou o dispositivo. Os olhos do vampiro transformaramse em duas brasas. matar vampiros e sair. seguido por Tobia. que foi ao chão. não emitiu som algum. O tempo estava acabando. Subiam a rua principal para chegar ao Novo Osasco quando viram o guardião descendo velozmente. Não tinham tempo. Nenhum vampiro. garotos. Um sentimento de perigo iminente. Sétimo apanhou um tapete grosso e. fez a tranca da . Velocidade vampírica invocada. não poderia saltá-lo. Logo. Elas poderiam ser destruídas sem notar. Dimitri mantinha a metralhadora empunhada. Terra amontoada num canto. A claridade que invadia o cômodo fez alguns franzirem o cenho. — Cuidado! — bradou Tobia. Haviam aguardado o rapaz de cabelos longos deixar o lugar. na tentativa de abri-la. Durante a observação. Concluíram que o covil estaria desprotegido após o cabeludo se retirar. mas nenhum abriu o olho. presumiram que ele seria uma espécie de guardião. Tobia golpeou-a com o ombro. Não havia dado muita atenção. Sol a pino. Atravessaram o gramado rapidamente e entraram no carro. fechando-se entre braços e pernas para proteger-se. Arremessou a ferramenta a um canto do gramado e avançaram para o fundo da casa. Matador armou outra bomba incendiaria na porta.. incendiando o cômodo e fazendo uma labareda vermelha avançar para fora. a fumaça chamaria a atenção dos vizinhos. Um sentimento ruim. Fora acometido por um pressentimento. Subiram até a varanda. Fogo no corredor. O portão aberto. Tinham passado e repassado o plano. Não teriam uma segunda chance. onde puderam observar movimentação em inspeções anteriores. Eles existiam. Repentinamente. Dimitri deu partida e zarpou. Dimitri acertou todos os vampiros. mas lembrava-se que estava em frente à casa quando saiu. Voltou ao porta-malas. Tobia entrou logo atrás. Acabariam com os cinco de uma vez. — Não podemos. Cadeado e corrente. Aquele banana não vai conseguir fazer muita coisa. Tobia pegou um pequeno galão que trazia embaixo das roupas. Contava mentalmente.

Um bocado de sangue poderia ajeitar as coisas. Tinham que salvar os novatos. Gemiam ininterruptamente e mal podiam se mover. mãos cruzadas sobre o peito. Agnaldo levantou-se sobressaltado. Os vampiros novos estavam em estado lastimável. uma viatura da segurança particular encostou. — advertiu o vampiro. aguardando a noite para buscar novos soldados. Não fosse a união dos sete vampiros do D'Ouro. As meninas teriam de agir. tinha que estar lá para encarar os atrevidos caçadores e liquidar suas vidas miseráveis. Por que o chão estava alagado? Ele descreveu brevemente os fatos e passou às mulheres a urgência da situação. certamente. viria a calhar naquela situação. No máximo. Estava queimando uma mesa velha. Apaga esse fogo. abafava rapidamente. — Mas você não pode sair queimando coisas assim. mas logo chegaria às cortinas negras que mantinham o ambiente completamente escuro. Mais que impetuoso. Apanhou outro tapete e eliminou o fogo do quarto. corpos nus. mas os cinco novatos que ficaram para fora estavam praticamente perdidos. A noite chegou. estavam queimados. Sofrerá um ligeiro acidente doméstico. mas essa possibilidade o fazia perder o controle. dentro do guarda-roupa. Tal atrevimento lembrava as buscas de Tobia. Só tinha que torcer para os curiosos se cansarem e nenhuma autoridade se incomodar. o problema estaria resolvido. Agnaldo e mais dois que jaziam no fundo da cova improvisada estavam salvos. Sétimo subiu ao quarto de suas queridas vampiras. e o fogo pouco atingiu sua pele resistente. O general estava lá. Sétimo conectou uma mangueira a uma torneira. Vou abrir a porta. impacientando-se. aproveitando a fragilidade imposta ao covil. Seria uma noite de caçadas. Deixariam de existir em pouco tempo. Logo que coordenasse tudo. seriam destruídas pelo Sol. Tempestade. Sétimo abriu as torneiras dos dois banheiros. Os vampiros tinham a fascinante capacidade de curar o corpo com velocidade assombrosa após a ingestão de sangue humano. pois. Ficaria na casa. Ajuda-me. Paola foi a primeira a notar e perguntar o que acontecera na casa. os malditos voltariam a atacar. Ainda não é noite. com o grosso pedaço de tapete. Havia pouco fogo. As moças estavam de olhos cerrados. A manutenção da casa estava assegurada. Teve muito mais trabalho com o cômodo inferior. . — Não se preocupem. — Cuidado. Sétimo fechou a porta do cômodo. se ainda existisse. Arrancou do chão o que sobrara da tampa de madeira que Agnaldo construíra. As mulheres haviam despertado e o brindaram com um sorriso largo. Nenhum incêndio era páreo para o velho Tempestas.porta em pedaços. não se inflamavam. Mas parava ali. Mas os soldados. jurava. Sétimo. mas a fumaça aumentara. Gritou enraivecido. Sétimo festejou a negligência das autoridades brasileiras. se o Exército viesse em seu encalço. Um estrategista que já tivera a cabeça de Inverno nas mãos. Se suas vampiras não perecessem às labaredas. Bem naquele instante. o corpo não seria percebido por olhos humanos. Não queria se afastar do covil. vampiro. Um pouco de fumaça ainda infestava o ambiente. Está tudo controlado. O fogo havia tomado todo o ambiente. Entrou para certificar-se de que suas mulheres não corriam perigo. Se o carro negro voltasse. mas o fogo fora banido. ninguém viera questionar o ocorrido. mas por sorte o chão estava cheio de barro. Sétimo entrou. Um simples querer faria água vir abaixo em abundância. Eram filhos fracos. atrair sangue para a toca. Era hora de acudir o covil. veriam uma mancha distorcendo o ar. Nenhum soldado. Se muita gente juntasse. Guilherme teria perecido. Estava nervoso. Desceu rápido. tinha que agir. — Não saia. no quintal. Girou até o limite e levou o esguicho para a porta do cômodo. Queria seus soldados. Rasgou o tapete e deu ao general. Sorte. Iria destruílos. apenas chamuscado. esperaria. — explicou o vampiro. sem acabamento. Repetiu na cozinha. Podem seguir e tomar conta de tuas vidas. As paredes de tijolos vermelhos à vista. Cerrou a porta para que a fumaça não chamasse a atenção dos passantes. O dinheiro do grupo ficara a salvo. Os homens perguntaram o que acontecia. trazendo-o à consciência. como podia. O perigo havia passado. Sétimo levou ao gramado o pedaço de madeira que sobrara. O chão estava encharcado e uma fina camada dágua já tomava conta do piso. A fumaça não incomodava seus pulmões mortos. e outros móveis acondicionados no porão haviam se inflamado. o Impetuoso. Onde estaria Tempestade? Se o vampiro Baptista ainda fosse vivo. re-cém-transformados. imóvel. Tinha visto Eliana. teria de abandonar tudo e todos. a desertora. Pouco fogo tinha invadido o quarto. um estrategista. resultado da providencial escavação de Agnaldo. Aliviou-se. Não era o que desejava. o fogo insistente. os chuveiros e tapou os ralos para que a água tomasse o assoalho. aguar as plantas do pequeno jardim usando aquele encanamento. Sétimo chacoalhou-o. É perigoso.

Aléxia fora feita do sangue do mestre. Dera trabalho apenas no primeiro dia. Era uma vampira. Sabia que homem nenhum resistiria ao seu olhar. Hoje vamos sair para arrasar. Como ela. Confiava no corpo atraente e nas formas arrasadoras.— Deixe com a gente. devolvendo o sorriso com que fora recebido. após conversar com a nova irmã. com o passar das horas. Paola estava feliz com a companheira de Vida Escura. Vigie a casa. Iria caçar. Aléxia sorriu para a vampira. . Sétimo. Mas. Para mim. Era forte e mostrava-se cada vez mais impetuosa. Gritara. Sétimo. Adorava a noite e o jogo da sedução. Chorara. Sétimo estendeu a chave a Paola. aceitara. Aléxia. Iria trazer sangue para os novatos. ponha sua roupa mais sexy. — Vai. É sangue que quer? Sangue traremos. excitada com a vida noturna. basta a moto. arrefecera.

Gatas requintadas em geral demandavam muito tempo de conversa. Apenas Agnaldo estava no recinto. — reclamou Marcelo ao entrar. Marcelo. Paola saiu na frente e subiu na moto. Dez minutos após. para trazer comida para casa. A hora perfeita. Sétimo. com os olhos acesos. Marcelo e o companheiro não teriam como fugir. Sabia que era isso que as mulheres traziam. O recinto encheu com a risada dos rapazes embriagados. mas a luta não durou muito. Um cheiro forte de queimado ainda recendia no ambiente. Paola voltava. A mesa era assediada por grupos de rapazes a todo instante. Ele cuidava dos novos pupilos. pela janela da sala. empregando sua força peculiar. Em vez de indicar a escada que dava na varanda. O último gritou e tentou correr desesperado. Ela fez um gesto para que se contivessem. Seria a última vez que ele faria aquilo. avançou e. pouco à vontade. Um carro grande parou do outro lado da rua. Se os dois da frente gritassem. invisível a olhos humanos. Os rapazes tinham uma Blazer e sugeriram um lugar mais reservado para uma festa particular. que os segurava firme pelas mãos. um por cima do outro. que se contorcia. vendo que Paola também iniciava seu ataque. espreitava. A vampira. Permitira que ele se extasiasse. meia preta colada à perna e uma blusinha leve de seda. não foram vítimas das chamas. Já tinham encontrado as vítimas perfeitas: um quarteto de rapazes de vinte e poucos anos que tinham vindo do interior do estado para aproveitar a noite paulistana. não estou vendo nada. pois não queria chamar a atenção de um possível espectador. e começaram a jogar conversa fora. Iriam para sua casa. Os malditos invasores pagariam. pois a escuridão era total. Antes que esboçasse reação. tamanha a força empregada. Os jovens faziam barulho e riam alto. largando ao chão o corpo. Paoía arremessou sua primeira vítima contra a parede. Agnaldo. Aléxia trazia Marcelo pela mão. Os papéis estavam se invertendo. Seriam localizados. conduziu-os diretamente ao cômodo dos fundos e empurrou a porta. Não tinha quem não notasse o par de mulheres. cedo ou tarde. na direção onde acreditava estar a bela Aléxia. trajava saia diminuta. Os olhos da vampira apagaram-se. Retirava o primeiro quando notou Sétimo adentrando acompanhado de Lúcio e Rafael. engoliu . e os olhos cintilaram brevemente. Sétimo cravou-lhe os dentes na jugular. Não queriam perder tempo. viu dois pontos vermelhos no ar. Viu Aléxia. Nunca fora tão fácil arrastar para a festa particular mulheres tão belas. aproveitasse. Sétimo sorriu. Paola deixara o portão aberto. A vampira valeu-se de sua visão vampírica. — Nossa! Que cheiro! Vocês fizeram churrasco aqui? — Onde acende a luz? — Não vamos precisar de luz. de sobressalto. Os rapazes estavam entusiasmados. Por um instante. Aléxia subiu na Blazer. batendo de encontro a um rapaz magro de cabelos longos. que providenciara uma nova tampa de madeira para a cova aberta no fundo do porão. Quatro vítimas. Repetiu o movimento com o segundo rapaz. enquanto as mulheres saiam para caçar. Os rapazes riam. As garotas pediram bebidas. como ele. cediam à beleza da dupla feminina. Cravou os dentes pontiagudos no pescoço de Marcelo e fechou mortalmente a mão sobre a traquéia do segundo. Uma morena lindíssima e uma loira fatal. Com sangue em fartura. removeu-a. relaxasse. mas estavam a caminho de um covil de vampiros. O que havia de errado com aquele cômodo? Pensava nisso quando. Os novatos estavam mal. buscando respirar. Não estavam no interior da casa. levando-a à inconsciência. Marcelo debateu-se e golpeou-a com violência. sabendo que não teria de lançar mão de toda sua técnica de sedução. tocando seu corpo com malícia. Jovens adultos. Colocou o capacete e deu partida. agarrou-o com uma mão pelo pescoço e suspendeu-o. Levemente embriagados. O garoto viera falando em seu ouvido o trajeto todo.CAPITULO 43 Paola. Perfeitos. encostou Aléxia na garupa. sorridente. sem enxergar a saída. Não sabiam. estranhava a situação. O general estava acocorado a um canto. e quatro jovens. deixando os outros por conta de Aléxia. estavam deixando o bar. Aléxia divertia-se. Paola fez com que dois jqvens entrassem. precisavam de sangue. Sétimo ouviu o motor da possante motocicleta. O objetivo seria alcançado rapidamente. queridos. — Vamos acender a luz. um pensamento passou pela cabeça. os vampiros que. Os vampiros atingidos pelo fogo estavam acondicionados ali. calça de couro preta e jaqueta de couro com uma cruz vermelha nas costas.

Não faziam idéia de que estavam se metendo com Sétimo. Alguns minutos após. totalmente queimado e sem ânimo. . o garoto morria. Poderiam sucumbir a tão duro golpe. O silêncio deu vez a um choramingo. Tonto. Entreabriu a boca do vampiro carbonizado enquanto Paola levava até sua boca contorcida o pescoço ferido do rapaz. Malditos caçadores! Pagariam por aquela ousadia. Sétimo ainda não estava certo da recuperação deles. Estivera até aquele instante pressionando a ferida no pescoço do rapaz para que o sangue não se perdesse. pois estavam muito debilitados. Uma dor aguda no pescoço. Que diabos era aquilo? Que balada de merda era aquela?! Paola agarrou-o pelo colarinho e levou-o até Agnaldo. Agnaldo puxou o corpo de Henrique para um canto da sala e voltou à cova para retirar o próximo. prendendo-a entre as pernas. que depositava cuidadosamente ao chão o vampiro Henrique. Pagariam. As forças não estavam enraizadas. porque o rapaz debatia-se furiosamente. Aléxia cuidou para que o sangue caísse dentro da boca do outro vampiro queimado. Faltava treino. arrastado pela gola da camisa. lutando pela vida. não sabiam dominar os pode-res recém-adquiridos.o sangue quente da vítima e soltou-a. Eram vampiros novos. Aléxia trouxe Marcelo. Gritou aturdido. o pior dos vampiros do D'Ouro. imóvel. embebendo sua roupa. A vampira teve que montar no corpo da vítima. Um dos rapazes gemia no chão. Sangue esvaindo.

Tinha que proteger-se e criar ainda mais vampiros. à sua reintegração. Só os mais antigos. procuraria vingança. — Não saiam por ora e contenham-se. Gostava do som da água arrastando-se na areia. Afonso percebeu quando o cutucar mudou repentinamente de rumo. Afonso estava curioso. bastava deitar os olhos por um instante em cima do novo parente para cadastrá-lo entre aqueles passíveis de ser localizados e pressentidos. Serviriam. A direção do novo vampiro mudava a cada instante. Afonso ainda se encantava com a luz elétrica. Vampiros novatos. Podia sentir o cheiro do mar. a cada dia. repetido. era por isso que queria localizar o vampiro novo. e seus poderes aumentavam visivelmente. Não conhecia o vampiro. Logo seriam excelentes guardiães. Leonardo se revelava excelente ajudante. Afonso ordenou que o comboio parasse e saltou. Um vampiro novo. Porém. aguardando seu retorno. E Leonardo lhe parecia suficientemente confiável. Hélio deu luz alta para ler a placa. Por três minutos. O grupo comemorou. porém ferozes e monstruosos. Aumentar a prole. Afonso transmitiria seus conhecimentos com rapidez. conduzindo o veículo para o centro urbano. Mata atlântica. mas que aprendiam rápido. Hélio. conhecer. Em geral. pensando. Guarujá -136 quilômetros. quase na nuca. não temeria tanto. Depois de quase uma hora. Adentraram o caminho estreito cercado por vegetação densa e árvores altas. ainda assim apenas quando os desconhecidos tinham um vínculo forte com quem tentava detectá-los. O trecho requeria tração nas quatro rodas e um bom braço. O líder. Iria encontrá-lo. o Gentil? Não era seguro. As pick-ups avançavam em velocidade reduzida. venham comigo. O terreno era acidentado. como se adivinhasse o pensamento coletivo. E algo indicava que estavam chegando ao final da viagem. Dom Afonso concentrou a sensibilidade no vampiro desconhecido. Alguns já dominavam a evocação do lobisomem. não se conseguiria pressentir um vampiro nunca visto. mais e mais. Hélio embicou à esquerda. Precisavam parar próximo a um centro urbano e se alimentar. O cutucar repetitivo tomou a parte traseira da cabeça do vampiro. Ganhavam força vampírica. de alguma forma. Ele e Leonardo tiveram de caçar três fugitivos. O velho Portugal estaria na outra extremidade do Atlântico. Estavam cansados. quilômetros à frente. Um morro. exigindo habilidade dos condutores. Teria roubado o poder de Miguel. naquela cidade. A noite ia alta. Se estivesse em companhia dos irmãos. Dali em diante. veículos comuns de passeio não conseguiriam avançar. Uma clareira. Cedo ou tarde. Cheiro de comida. como Leonardo. Era quase impossível. com os prédios numerosos e a ebulição de gente. Afonso conhecia muito bem aquele maldito.. Estava próximo. farejou o ar e percebeu o cutucar no lado direito. tomando uma nova rua. procurava alguém. Não era producente adentrar a cidade com o grupo inteiro. Afonso ordenou o retorno. Hélio foi para o volante da Ranger. Além da força vampírica. . Ordenou que Hélio parasse no acostamento. sempre conseguiam. Respirava lentamente. Começava a entender os humanos. ficando para trás. eram mais fracos que o Lobo original. O vampiro.. Seriam vampiros. ainda não poderia se dar ao luxo de matá-los. Um vampiro que responderia a algo importante. O mar arrebentando. Guarujá. Sétimo poderia estar vivo. Estava satisfeito com o grupo que formara. Não arriscaria a prole quase treinada. divisou uma estrada aberta à beira da rodovia. Como os soldados eram escassos. Seriam eternos! Estavam agora sob controle. Todos os poderes reunidos eram o suficiente para repelir Sétimo. Dom Afonso. Voltaria ao castelo.CAPITULO 44 Três pick-ups em comboio vinham pela estrada. e viajavam há cinco horas. Um cutucar na têmpora direita. suave. Aviso quando for o momento de caçar. — advertiu Afonso. procedendo. estava conectado aos vampiros do D'Ouro. sem os irmãos. Tinha que examinar. havia transmitido a todos seu dom. Fora difícil no início controlar todos. a cada passo. O vampiro que. Acho que encontramos o que procurávamos. Aumentar sua força. Era o que sabiam. Só com muita sorte sairia ileso de um confronto sem um grupo poderoso para defendê-lo. Estavam seguindo naquela direção havia dois dias. Viu uma cidade grande. Entretanto. É claro que. — Leo. Tudo tão diferente de sua terra. Meia hora nessa labuta até encontrar um caminho mais ameno. de seu tempo! Começava a assimilar o jeito daquela gente. Conhecia muito bem a selvageria do vampiro. os mais poderosos o faziam. Os amigos trataram de convencer os fugitivos a ficar e a se submeter à alcatéia. prédios e mais prédios. — Montem acampamento aqui. então. pois precisava de soldados inteligentes e poderosos. Vou visitar um amigo.

Lobo. Não sou capaz de senti-los mais. O sobretudo. hombre. vivamos nossa Aventura. As ondas batiam selvagens contra as pedras. está morto também? — Está. O muro estendia-se por toda a subida. ainda mais para carregar tantos! Tiago estava tenso. que.. Não havia lua. Afonso aquiesceu. Certamente. — E Sétimo? . Sem sair do muro. Um dos soldados acionou o farolete e jogou a luz no rosto de Leonardo. Afonso. um pequeno e convidativo restaurante. Assim que Lobo ganhou o muro. homens sem alma. — Quem te fez vampiro? — Miguel. Apesar da altura insignificante. nem padre. Na subida. — Ora. quase na testa. Não tiveram os rituais fúnebres celebrados. com as cortinas abertas. instintivamente.. balançava ao sabor do vento.— Volte. avançava orientado pelo cutucar. — A tal da bomba nuclear que ouvi muito na televisão? — Essa. os olhos de Afonso chamejaram. estava atrás de Cesão. protegeu os olhos. Sem recompensa. A única luz provinha da iluminação pública na praia e de alguns apartamentos do hotel. Certamente. eventualmente. Ordenou que parassem e aguardassem ali. o barqueiro não trabalha. estaria no meio dos olhos quando fizesse a curva que se avizinhava. Jurara vingança. indiferente. Era indiscutível que havia um vínculo entre aquele vampiro novo e seus irmãos. um prédio apontava para o céu. Virou o rosto. Seus olhos encontraram uma silhueta peculiar. os olhos de Tiago acenderam-se. Não sabia por que razão o vampiro viera ter com ele. Estavam a mais de dez metros do nível do mar. Os transeuntes com quem cruzava não escondiam a estranheza quando se deparavam com um homem tão pálido.. Devem estar apodrecendo à beira do rio. isso se Deus permitir que nós. Cem anos. — Quem é você? — Sou o homem que descobriu vocês no fundo do mar. — Imaginava isso. Pouca gente andava no calçadão àquela hora. — Gentil. Tiago percebeu a chegada do sujeito através de sua visão periférica. aberto. Um cutucar rápido na testa. Venho em paz — disse Afonso. Tiago saltou para o calçamento. Aposto que nem tiveram moedas deitadas nos olhos. nem missa. O vampiro deu alguns passos em direção a Tiago. e. Cruzaram uma viatura da polícia militar que trafegava em baixa velocidade. com certa animação. — O que aconteceu a eles? — Foram destruídos por uma bomba. Tiago ficou de frente para o vampiro. O sobretudo negro. A direita. gotículas e espuma alcançavam o vampiro. estava de pé.. sem poder atravessar. Hélio fez o retorno. Uma onda mais forte bateu nas pedras. — O que quer? — Me conheces? — Lobo. perdendo-se na curva. Dom Afonso interrompeu o monólogo. Afonso manteve-se quieto por um instante. também de roupas escuras e sobretudo negro. Saltou e pôs-se a caminhar pelo calçamento. silenciosamente provando que ele usara seu dote. — Cem anos na beira do rio. — Onde estão meus irmãos do D'Ouro? — Estão mortos. Não restavam dúvidas. Retomaram a avenida à beira-mar. vinha um muro de pedras de aproximadamente sessenta centímetros de altura. admirando o mar. o corpo bateu suave no chão. Um homem. Serão desprezados por Caronte. Lobo viera para vingar-se de César. pois! Fica calmo. Alguns quiosques permaneciam abertos. com forro vermelho vivo. Logo após. Pobres. em cima do muro. O vampiro não está para cá. irmão. — Deveras?! — espantou-se sinceramente o vampiro. Do outro lado da rua. Um hotel. tremulava como uma bandeira presa na haste.

O sargento que comandava a operação estranhou. Leo era mais experiente. O Santana encostou no meio fio. baixando a cabeça e demonstrando certa contrariedade. O facão de aço afiado estava em cima da mesa. — sussurrou o vampiro mais experiente. irritado. Seus olhos vampíricos enxergaram a Ranger estacionada rente ao calçadão. Viu também a viatura da polícia militar encostando atrás dos vampiros. Quero mais detalhes sobre Sétimo. — Desçam do carro! Mão na cabeça! Devagar! Hélio olhou para Leonardo. Os olhos de ambos se acenderam. mas manteve-se a distância. Elíana dormia confortavelmente. Mal terminou. — respondeu Tiago. — cochichou Hélio. — Muito agradável tua companhia. Não posso perder meu exército. — Vamos entregar e conversar? — Não. Não houve tempo para uma boa pontaria e uma boa oportunidade de tiro. não hesitou em prosseguir a averiguação. Afonso não teria uma segunda chance com ele. O vento batia forte contra os olhos. chamando a atenção do vampiro. — Os documentos da Ranger estão no meu bolso. O pior deles. — Tó falando com você. Quatro policiais desceram com armas em punho cercando estrategicamente a pick-up. gaúcho. Pensara demais. Nem suspeitavam do desfecho mortal que a batida provocaria quando dois garotos de corpos magros e esguios desceram e puseram as mãos separadas sobre o capo da pick-up. no outro lado.— Vive. Se os soldados pudessem prever o resultado daquela abordagem. César recolhia a espingarda calibre doze que comprara. vagabundo! As portas abriram-se simultaneamente. já que vinha sentado como passageiro. que estava com pedido de busca e apreensão: roubado. Não iria despertá-la. Nem ao menos tinha certeza se ele viria. Dom Afonso desapareceu. Era a única entrada disponível para o vampiro. chamaria muito a atenção. Estava munida de balas de prata. atrás da pick-up. Haviam puxado a placa do veículo. Tenho crias em apuros. Dom Afonso chegou naquela hora. Para onde teria ido? Ao apartamento? Virou-se instintivamente para a porta do quarto com a arma apontada. erguendo as cortinas e enchendo o apartamento. contra o muro. Dois pares de olhos em brasa. Arrancaria a cabeça do desgraçado assim que o derrubasse com o disparo daquele canhão. Do alto do apartamento. Sem carteira para conferir documentos. o vampiro poderia escapar. por isso. que deixou escapar um sorriso enquanto Afonso batia o pé. — De onde vocês são? — Rio Grande do Sul. Se vacilasse. Se errasse o tiro. né? Veio entregar a pick-up roubada aqui? Leo encarou Hélio. no sexto andar do hotel. Sabia que ladrão não tinha cara. Desarmado. poderia atingir Tiago. mas preciso ir agora. Dom Afonso também desceu ao calçamento. e olhou para a praia. e tinha de pensar. Separou as pernas do rapaz com o coturno e vasculhou o corpo. Dois meninos. — Raios! Desgraça! Por que não foi destruído pela bomba também? Que azar! Viver com essa sombra não vai ser fácil. não? Vieram entregar a pick-up aqui? Quem é o receptador? . Problemas. No entanto. novato. — Saiam! Mão na cabeça! Desce. Deixou as unhas crescerem pontiagudas e perigosamente afiadas. — Tá longe de casa. Hélio viu pelo retrovisor a aproximação da viatura e deu um toque para Leonardo. O sargento aproximou-se de Leonardo. Tenho que me proteger mais e mais do irmão restante. estava diante de adolescentes imberbes. Não queria um confronto naquele momento. de expressões truculentas e barbas por fazer. senão vou mandar bala. Leo balançou a mão discretamente. Raios! A indignação do vampiro chegou a divertir Tiago. Correu o apartamento rapidamente com a visão. Uma aproximação brusca poderia precipitar as coisas. saberia como se safar. rapaz? Não lavou o ouvido. junto ao calçadão. — Qual é teu nome? — Tiago. Vamos treinar. jamais teriam parado a viatura. Não estamos em férias escolares. Esperava encontrar dois caras com jeito de bandido. Tinha certeza de que a silhueta macabra junto ao amigo era o vampiro Lobo.

Cesão. em postura que lembrava um exímio lutador de arte marcial. O militar conseguiu desviar-se a tempo. — Cuidado. cara! Tá querendo me matar? — Aquele maldito. As unhas afiadas da criatura rasgaram a carne do policial. O sargento estava na linha de fogo. — Não temos tempo para isso. Em troca. Motor ligado. lançando o braço estendido num movimento que descreveu um arco no espaço. Veio atrás de mim. Tu não precisa ficar tirando vida de terceiros. mas como tu não sabe?! Tá louco? Se o bicho não sabe que eu estou aqui. Leonardo agarrou o sargento pelo colarinho e pela virilha. Veio saber dos irmãos. Levantava o braço para disparar. — Acho que não. O soldado caiu no calçamento. Duas costelas quebradas. talvez mais medo do Sétimo que ódio de você. e arremessou com violência contra o soldado. — Cala a boca. quando o rapaz tomou-lhe a arma. que levava a mão ao ferimento aberto na altura da traquéia. Que droga era aquela? Como podia mover-se tão rápido? Era um ninja dos filmes japoneses? Leonardo agarrou-o pela traquéía e comprimiu até senti-la esmigalhar na mão. Tiago chegou ao apartamento e abriu a porta rapidamente. Até tu anda matando. recuando e apontando a arma para o rapaz. Sem ofensas. — Você não é vampiro. Aproveitar que está desprevenido. Alguém gritou no quiosque. os poucos ocupantes se esconderam até que a pick-up disparasse pela avenida. Outro disparo perdeu-se no ar. Tiago. num celular. Um tiro. virou-se num salto e flexionou as pernas. Antes de dar o segundo disparo. — Me achou. Alguém. disparou. limpando o sangue com as costas da mão. Ele tem medo do Sétimo. surpreendido. pára. Podia até ter estragado tudo. A gente compra. Logo vai infestar de polícia. — Temos que matá-lo. Ele está com medo de ficar sozinho. Podemos fazer um trato. Pelo amor de Deus. esse monstro me mata. Leonardo saltou para trás do sargento. mas não teve sorte. — Bá. Você melhorou nesse negócio de ser vampiro. e passou os dedos esticados rente ao pescoço do policial. Os militares estavam mortos. — Não sei. O soldado vacilou. ser-vindo-se do sangue de um dos soldados que se debatia tentando escapar da morte certa. abaixando-se. os donos tentavam reanímar o funcionário. Tiago. ficando de jeans e camiseta preta. Abaixou-se por reflexo e. enquanto o soldado que cobria o sargento ensaiava uma reação. ágil como um lobo. deparando-se com Cesão empunhando a doze. O sargento. Você devia estar contente de eu nunca ter desejado teu sangue. — Não confio em vampiros. É minha melhor chance de me livrar desse pesadelo. Hélio levantou-se. mas depois que uma bala perdida atingiu um dos garçons. tchê. perdendo-se na escuridão. Leonardo. Acha que gosto de meter os dentes nos outros? — Senão gosta. Acompanhavam a abordagem. mas percebi que ele não te procurava. ele esquece que não vai com a tua cara. Se eu vacilo. transformando-o num escudo humano. agarrando o cano da arma. Leonardo permaneceu imóvel por um breve instante. Pelo amor a mim. Ninguém no quiosque próximo serviria de testemunha. Desesperados. Temos que tomar cuidado. pedia ajuda à polícia. perdendo sangue copiosamente. O projétil cruzou o ar. — Que é isso?! — espantou-se o sargento. estava atrás do amigo. num piscar de olhos. Vamos dar o fora. Vamos armados até os dentes. você pode rastreá-lo. Leonardo deu um salto ligeiro para frente. Podemos ajudá-lo a eliminar o Sétimo e deter o exército maldito do vampiro. Hélio saíra-se bem. Dispararam em direção ao vampiro. Quando o soldado que deveria proteger o sargento saiu do choque e procurou fazer mira. Deixou o policial brigando por ar e foi ao outro lado da pick-up. — Talvez possamos fazer um acordo. O vampiro voou e atingiu-o com os pés. — gritou . Tiago descartou o sobretudo. Pensa que a gente não sabe? — Preciso de sangue de gente! Onde acha que vou conseguir? — Vamos num banco de sangue. Cesão. Lobo saltou para a carroceria da Ranger e desapareceram da praia. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. mas essa raça é assassina por natureza.Leonardo soltou um grunhido. Era o Lobo? — Era. Afonso aproximava-se. Entraram na pick-up.

— Posso não entender. Aposto que até os outros vampiros têm medo dele. mas não vou fazer porra de pacto nenhum com aquele vampiro filho de uma puta. Se eu tiver que caçá-lo sozinho. Você nunca esteve cara a cara com o Lobo. Ele vai me matar. vou caçar. Ainda não estava acostumado aos novos modos do amigo. Já fiz uma vez. e nada. César calou-se. Eram cinco. — Precisamos de ajuda. com sua audição vampírica. ouviu-as mergulhando na água. Tiago desceu velozmente. Mudando perigosamente. Apostava que ele começava a gostar da nova condição. Retirou as moedas do bolso. Tiago afagou a cabeça e enfiou a mão no bolso da calça. Tocou o chão como se não possuísse peso e subiu no muro. Procura-se doido varrido que queira matar vampiros. Precisava de ajuda. Vou pegar o miserável sozinho. Só não vamos pedir ajuda para aquele vampiro. Uma descarga elétrica. precisamos de ajuda. César. César sentiu o corpo gelar. cara. ainda mais para tantos! Tiago sentiu um arrepio percorrer o corpo de baixo para cima. O amigo estava mudando. Ninguém o observava. . mas tem certas regras que você nunca vai entender. então não atrapalha. Os dias passavam. Se queremos impedir que a Terra se transforme num jardim de vampiros. Os dedos brincavam com as moedas obtidas após o assassínio dos traficantes. vampiro! Ofereça ao barqueiro que ele trará teus soldados do mar! Tiago levantou-se. Como era o nome? Caronte? Uma voz repetiu em sua mente: Caronte não trabalha de graça. A paga. então! Vamos pôr uma merda de anúncio no jornal. Cada vez mais precisava mover as peças no tabuleiro de xadrez. Isso o impacientava. Iria aguardar ali até o Sol raiar. deu uma pirueta e caiu de pé. Correu e tomou impulso. Ele vira o bicho. Mesmo distante. Segurou firmemente as moedas e lançou-as ao mar. Moedas de prata. Escorriam entre os dedos.descontrolado. cedo ou tarde ele vai me matar. Tivera um pesadelo com o diabo. — Vamos recrutar caçadores de vampiros. A sorte foi lançada. se tem a chance. lá de cima. Brincando. Se me pega. Não havia tempo para aguardar elevador. Quando me lembro dele no necrotério. Só César. O vampiro Lobo disse que os cinco não seriam carregados pelo barqueiro. nada. — Não gosto de ser vampiro. mas até aquele instante. eu fico arrepiado. Cesão. A gente nunca teve medo desses vagabundos! Não vamos começar a nos acovardar agora que estamos adquirindo know-how. Ele disse que eles voltariam. Se tu não quer me ajudar. mas não sabia quais. Que dissera o visitante em seu sonho? Reserva cinco moedas. A janela estava aberta.

rapidamente. ambos estavam saindo do hotel. tão rápido. Aproximou-se de uma árvore. Afonso estava ali. Dez vampiros! Lobo estava se multiplicando como Sétimo! Deu mais um passo. O pé afundando em lama. poderia matar a pessoa. O vampiro não se moveu. Seguir naquela direção. Tinha sangue nas mãos. Os demais estavam em volta da fogueira. Queria encontrar o amigo. Atingiu a periferia. Arvores. Os olhos de Tiago cintilaram involuntariamente. Tiago sentia-se culpado por afundar os amigos naquela história horrenda de vampiros. Naquele momento. Peça para ele ficar longe do Afonso. O cheiro poderoso entrava em suas narinas e parecia lhe dar mais força só pelo fato de aspirá-lo. Afonso não estava sozinho. Só podia ser. O estômago ardia furioso. Estava em chão seco. Ande pelo calçadão. Tiago desapareceu. Os olhos acenderam. Suas feições começaram a transmutar e. prontos para a briga.CAPITULO 45 Tiago despertou com Eliana acariciando sua face. Afonso. por enquanto. A noite estava fria. Ruas escuras. Ele está correndo perigo. as moedas eram o de menos. Temos que encontrá-lo. O novato levantou-se rosnando. Tiago viu o atacante cair e levar a mão no nariz fraturado. vampiro! — bradou Tiago. Podia ver algumas árvores. Poderia estar morto àquela altura. — Se meteu com a turma errada. Tomava cuidado para não trombar com ninguém. Um vulto saltou de um galho. já vai sair? — queixou-se Eliana. Aguçou os ouvidos. Essa briga não vai acabar bem pro teu lado. Um vulto. O Lobo está na cidade. mas abriu a boca. que os humanos não podiam ver. Fiquei esperando você acordar um tempão. — Espero que não tenha se metido em confusão. Algo estranho. o vampiro-vigia foi repelido com um potente soco. — Poxa. Em instantes. O maldito vampiro era um . O cutucar na testa. Jogara as moedas. fizera uma vigília frustrada. caminhando pra lá e pra cá em frente a uma fogueira. Não era hora de prudência. Pisou em mato molhado. Arrepiou-se. Afonso estava se movendo. — Intruso! — gritou o vampiro em meio a um grunhido. Lobo tinha encontrado o amigo. Tiago precisava de sangue. Parou.. Atravessou a rodovia. Tiago saltou para trás. O Lobo. Li. Mato. o irmão de tantos mergulhos. A boca espichou. O cutucar mudou da testa para o lado direito da cabeça. Nada. — Você é um novato. Tiago levantou-se sobressaltado. Tiago assustou-se. O chão parecia alagado. em sua direção. deixou um rosnar escapar pela garganta. Não desgruda dele. Os caninos alongaram-se. a pele foi se enchendo de pêlos. Antes de alcançar o ouvido. Se fosse. nem ouvia sua voz. Era hora de encontrar Lobo. Havia muito o Sol se pusera. Tiago caminhou lentamente. Contou mais dez pessoas. Tiago lamentava que César não fosse um vampiro naquela hora. Os arbustos terminaram. eu fui caçador de vampiros.. Ouviu um rosnar. O vampiro não sabe que ele está aqui nem deve saber. Li. Tiago corrigiu sua posição. — Calma. adquirindo formas caninas. — Afonso. Teria que seguir seus instintos. Tiago varreu o lugar com sua visão privilegiada. num rugido furioso. Vozes. Talvez um riacho. Na madrugada anterior. O vampiro deveria estar perto. Antes que colocasse as mãos no invasor. Cheiro do mar. César poderia ter ido atrás de Afonso! Poderia estar morto! Colocou o sobretudo e amarrou na cintura. vampiro! — retrucou o ferido. Correr com velocidade vampírica. e nada. Carros passando velozmente. — Fique na praia. César não estava ali. saindo da cidade. Não sentia o cheiro de César. Pode estar atrás de Cesão. — Cadê o Cesão? — Saiu faz tempo e ainda não voltou.. O grupo de Afonso não os havia percebido ainda. que mais parecia um filme da televisão. brasas brilhavam na escuridão. Antes de me tornar vampiro. salvar o amigo. Precisavam de um carro! Precisavam de dinheiro! Chegaram ao calçadão. Cheiro de vampiro. Não fosse a velocidade vampírica. Precisou quebrar gravetos para limpar o caminho. poderia detectá-lo e localizálo em poucos minutos. guri. Os vampiros do acampamento se deram conta do combate e se aproximaram.. César não teria feito nenhuma besteira. Coisa de cinema. acreditando ter encontrado a chave para dar prosseguimento ao estranho sonho que tivera com o demônio. Um vampiro caiu na sua frente. destroçando seus ossos num acidente. Procure o César. O vampiro saltou para cima de Tiago. teria sido atingido.

Sentiu o ar esfriar. Era hora de observar o oponente. afundou o olho direito do atacante. Hélio! — alguém gritou. na intenção de amputar o braço estendido do intruso. descobrir um ponto fraco. A fera partiu para o ataque. Sem dó. Evocou todo seu poder vampírico e concentração. mas inspirou fundo e expirou lentamente. Tiago sentia os olhos das criaturas cravados nele. repentinamente. com o punho esquerdo. Tiago esquivou-se. Mataria o desgraçado. Os outros vampiros assistiam. Poderia exterminar todos. teria de voltar para a mata. O maldito lobisomem não teria chance de liquidar a sua existência. Olhou para o vampirolobo. Não descobrira seu dom. escancarou ainda mais a boca e fechou-a violentamente. Agarrou o lobo pelo focinho e. provocado. A fera prendia seu tórax com uma das patas dianteiras e um bafo quente descia até o rosto. Tiago estava excitado.. Cuspiu o volume que . Hélio! — gritou outro vampiro.. Tiago derrotara o primeiro e sentia-se confiante. Não seria derrotado num canto escuro. De novo. fazendo lama e grama voarem do chão. como se fosse um lobisomem semitransformado. Não iria matá-lo. correria para as árvores. provalvemente deslocado. Começava a se sentir idiota acreditando em sonhos com o demônio quando. gelo formando-se na ponta dos dedos... — Vem. Se tivesse de fugir. Paradoxalmente. Estava em séria desvantagem. O gelo! Não! O gelo fora roubado de Inverno. mas era suficiente para colocá-lo por preciosos minutos fora de combate. Sentia os poros dilatarem e a musculatura enrijecer. Tiago sentia a mesma tensão prévia ao primeiro combate. Poderia morrer. Hélio.pelo menos. Sobreviveria ao novo oponente? Outros lobisomens se juntariam? Droga! Estava cercado. e o corpo foi atropelado pelo monstro volumoso. flexionando as pernas e girando o tronco. O punho doía. Não era fácil se esconder de um vampiro. Tiago centrou-se na roda. pois subestimou o oponente. — balbuciou. O punho do vampiro desapareceu no pêlo do lobo. Tiago gritou. E ele não era tão poderoso quanto aquele vampiro. Examinou ao redor. Maldito! Estava perdendo o braço. A dor era aguda e penetrante. Ouviu um segundo rosnar. Galopava em quatro patas e mataria qualquer humano do coração antes de abocanhá-lo. Cravara-se no chão como rocha. provocando um estalido. imediatamente absorvido. sem abandonar o lugar que ocupava. Um mero arremedo. Bocarra escancarada.. Se a contenda não terminasse com aquele primeiro oponente. Tiago concentrou-se. — Vai. O lobisomem. Só pêlos e dentes. mais forte que o primeiro. voltando imediatamente ao ataque. uma imitação barata. sorriu. batendo a cabeça numa pedra.lobisomem também! Tiago desejava estar com o revólver carregado de balas de prata. e aquela era a hora certa para ser revelado. Hélio ergueu a cabeça e separou as arcadas. Desceu a bocarra escancarada. Tiago agarrou o lobo ferido e extravasou o frio intenso que acumulava. seu corpo. O lobo fechou a boca. Tiago arfou e foi ao chão abruptamente. pois precedia um derradeiro confronto para um dos combatentes. movendo-se suave. igualmente tenso. Queria destruir o exército de Sétimo. fugir era o plano B. que dizer de um bando . César definitivamente não estava nem estivera por ali. avançando contra o vampiro intruso. Repetiu. O rapaz sabia que aquele hiato era perigoso. disparou. O monstro vinha sobre duas patas.. a leveza tomou conta de seu corpo sólido. Inverno conseguira congelar todos eles em segundos. Ele era um vampiro. nem que o pai ressuscitasse e lhe dissesse que vampiros existiam. Infelizmente essa autoconfiança veio a prejudicá-lo. O lobo rugia. O monstro rodopiou e ganiu. Desferiu um potente mas ineficaz soco na fera. firme como rocha. — Vai. O lobo rosnava enfurecido. correndo. socou a costela da fera. Precisaria de sangue em poucos segundos. medindo Tiago. ganhava a leveza de um dente-de-leão. como derrotar Sétimo?! A fera levantou a mandíbuía. salivando. O membro musculoso encaixou-se entre os dentes: bastava arrancá-lo. provocando um barulho assustador de chocar de dentes. Os segundos arrastavam-se eternos. baixinho. Afonso estava junto à fogueira e não demonstrava intenção de intervir. haveria de tê-lo. Um estalar de ossos ecoou na clareira. um sorriso brotou no meio daquele momento adverso. exibindo a dentição assassina. Tiago estendeu os braços e deixou os punhos gingarem à sua frente. Há cerca de um mês. juntando-se. Outro vampiro transmutara-se em lobo. Seus olhos brilhavam ainda mais. vitoriosa. O lobisomem tombou envolto numa fina camada de gelo.. as árvores criariam maior dificuldade aos perseguidores. O novo lobo era maior. Lançou novo olhar para a mata. Não iriam deixá-lo ir sem uma boa briga. Queria voltar para Eliana. Seu dom! Qual seria?! Se perecesse. Não precisava de oxigênio. não acreditaria! Se o demônio lhe dera um dom para combater Sétimo.. compondo um semicírculo. O lobo recolheu a língua. não cedendo à ansiedade.

um era Hélio. Aproximou-se do quiosque. Estou voltando para o hotel. Sentiu o calor do fogo chegar ao rosto. livrando-se do vampiro. Teriam todos eles o poder de se transformar em lobo? Percebera outra coisa. Conheço Sétimo. cravando os caninos em seu pescoço. O problema é que quero detê-lo justamente porque o maldito está espalhando vampiros pela face da Terra. invertendo os papéis. — Serás caçado. — O gajo. prontos para empalá-lo pelos buracos! Ah! Ah! Ah! Tiago aproximou-se da fogueira. notou a garota de pele pálida ob-servando-a a distância. não entendia. Vampiros me seguem. O vampiro olhou para o grupo que conversava e fazia comentários. Tentava disfarçar. vou tirar proveito da condição. vejo que tu és vampiro novo. seja na praça pública. enfia os pés pelas mãos. O estômago queimava. hombre! Tiago limpou o sangue que escorria do canto da boca. mas um sujeito chegou e foi ter com Lobo. Eliana. O monstro não entendia o que acontecia. Ia falar com Afonso. com a outra mão. coisa que tu também fazes. Não se importa em matar. os caçadores virão indistintamente. como demonstrava claramente sua intenção. Outro vampiro. sendo bom ou sendo mau. Por isso. Não conseguiu ouvi-los. aos olhos de qualquer um que passa. mas nenhum cadáver. e o que se erguia do chão era um adolescente com cerca de dezoito anos. eles eram onze. um perigo. um perigo. Não se importa em exibir seu poder. Exibe-se. Não seria surpreendido com facilidade. adverti-lo de que. — Está recrutando um exército. Como o lobo tinha errado o golpe. é letal e extermina o poderoso em instantes. O monstro sacudiu o dorso.. Tiago levantou-se. Olhou para Hélio. Ele mesmo prepara o caminho para ser caçado. Lobo? — Estou recrutando guardas. Gravou na memória as feições. é traçoeiro e rasteiro e prepara o bote aos poucos. mas dela escapou apenas terra e grama. — Não pedi para ser vampiro. apesar da idade avançada e do cérebro abençoado. — Tiago! Tiago! Que guerreiro formidável! Junte-se ao nosso grupo. não seria fácil afrontar Sétimo. com a marca de mordida no pescoço por onde Tiago absorvera o sangue que abundava em sua forma lupina. Algumas vezes. Conversaram rápido. é o caso de Sétimo. Contando com Afonso e o lobo congelado. Se conhece nossa história. sabes que a vingança não tardará. gajo: os caçadores já devem saber que os vampiros caminham pelo Brasil e logo estarão aqui. será muito bem recompensado se ficar ao meu lado. O sangue que ingerira ainda tinha o sabor humano. Afonso dirigia palavras a dois rapazes. Agora que teu irmão me fez um. mesmo unindo forças. Aproveitou-se da indignação da fera e atacou novamente. Tomou-lhe do sangue. Isso você também quer. — Basta! — gritou Afonso. Pensou em voltar para o hotel. E contente por estar inteiro e vivo. mas o prédio estava longe. Onde estava Tiago? O sangue gelava nas veias só de imaginar-se de novo nas garras daquelas criaturas. Olhou para trás. te aviso.. O coração disparou. quebrando algumas costelas. Logo verá que. . aquele vampiro parece fazer vista grossa ao bom senso. O vampiro presumiu que o lobo calculara mal a mordida e não conseguira mutilá-lo. queria apenas examinar o acampamento. Não sentia frio. com certeza. Dirigiu-se a um quiosque de onde vinha uma música animada. Só quero deter Sétimo. Vinte minutos antes do vampiro ir ter com Afonso. És um gajo valente.enchia a boca. O primeiro lobisomem era bem mais fraco que o segundo. O lobo caiu. olharam para Tiago.. infiltrando em seu organismo parecia diluir a tensão que precedera o embate. seja na quinta mais afastada. nutríndo-se precariamente do líquido que deveria restabelecer sua energia sobrenatural. — Não fico ao lado de vampiro nenhum.. O vampiro não tinha mais a forma de lobo. Virão para rancar tua pele. e Tiago saltou animalescamente sobre ele. caminhava devagar. talvez nunca chegasse até lá. com dificuldade. vampiro. mas Eliana sabia que a estranha garota a vigiava. O líquido. Urrou. acredite. O lobisomem havia se alimentado há pouco. Virão atrás de teu couro. Onze! Rapazes novos e meninas adolescentes. sozinha. o outro ele não conhecia. E um meninote impetuoso e sem rédeas. O poder é o pior dos venenos. que estavam bem expostas.. algumas linhas num guardanapo. pediu uma caneta e rabiscou. Outras. ainda na praia aguardando o retorno de Tiago. imóvel no chão. agilmente. Cheiro de sangue fresco. A adolescente a perseguia. recolocando-se de pé. sem ferir o próprio punho. mas foi contido por um rosnar severo do líder. e Tiago sentia reforçada a idéia de que o amigo nunca estivera ali. Sétimo está vivo e à solta. César não fora a vítima. Hélio fez menção de iniciar novo ataque. Estava distante. César não tinha aparecido. Nada posso fazer para voltar atrás.. Tiago baixou a guarda e encarou Afonso. Estava com medo... Estava feliz por ter escapado da mordida que extirparia seu braço. Isso o aliviou.

Voltaram para o hotel sem perceber que. certamente pertencia ao Lobo.. Aliás. Não havia previsão de chuva. não vendo mais pastéis. Afonso ouviu o breve relato do vampiro. Deve estar me procurando até agora. Estava me seguindo. Precisava caçar. e um arrepio correu o corpo. Outro relâmpago. Uma onda bateu com violência contra as pedras jogando água no casal.. César e Eliana pararam um instante junto ao muro de pedras observando a arrebentação. César perdeu a embarcação de vista. Contudo. Um amigo ia me encontrar aqui. Eliana levou a mão ao peito.— Moço. Eliana deixou o quiosque para trás. O balconista fez uma careta. Pelo sim. A garota vampira ainda a perseguia. quando o raiar do dia chegasse. César olhou para o calçadão. Toma. Li. — Tá louca?! Tanta gente doida. Estava caminhando rápido. — afirmou. abraçou-se ao amigo.. Sabia que eram próprias para lobisomem. Tinha que caminhar. vem tanta gente aqui. Preocupado com os amigos. Por essa razão. Tiago abandonou o acampamento enquanto Afonso conversava com o vampiro que acabara de chegar. — Vou precisar. amiga. Uma tempestade se aproximava. saberia apontá-los. Se conseguisse atraí-la. mas notou o céu cheio de nuvens pesadíssimas. Rosto pálido. Agora você desapareça antes que acabe com meu molho de alho. não conseguiu usar sua velocidade vampírica para retornar à praia. andando rápido pelo calçamento de madeira. Que ligação aqueles dois teriam com o jovem Tiago? Precisava averiguar. de sobretudo. crescente. examinando-lhe as feições. Assustada. Como vou saber quem é teu amigo? — É um cara vestido todo de preto. segui-la e descobrir onde o vampiro se escondia. Disparou na direção de seu vampiro. Talvez ele tivesse voltado para o quarto também! Só podia ser isso! Animou-se. evitando cruzar com Tiago. Sem esse molho. mas abriam um bom buraco em carne de qualquer qualidade. — Eliana estendeu uma nota de dez reais. pelo não. soltou um grito. Roupas despojadas. A vampira havia sumido! — Tinha uma vampira. Só conhecera aqueles malditos do D'Ouro. — Com certeza. A pequena porção roubada do corpo do lobisomem não fora o suficiente para repor a energia consumida no confronto. — César! Ainda bem que é você! Soltou-se do amigo e olhou para trás. No hotel. Outro relâmpago iluminou o horizonte por um breve momento. no meio do oceano. você entrega? — Vixe. era melhor buscar abrigo. Balas de prata.. — Calma. dois vampiros os perseguiam. isso é para os clientes. me faz um favor. — Uau! — espantou-se a mulher. no sobe-e-desce da água agitada. detectá-la. Sabia que não adiantava correr. Pode deixar. só podia ser. tomando o frasco na mão e já sorvendo um generoso gole. Em . Dom Afonso agradeceu. Quanto é isso aqui? — perguntou Eíiana. um instinto disse-lhe que era hora de informar o líder.. quando a mão firme agarrou seu braço esquerdo. O vento. Tiago pode demorar. César virou-se. — O negócio vai ficar feio.. talvez pudesse grudar os olhos nela e. jogava as ondas cada vez com maior furor de encontro às pedras. eu compro. Um vento forte vinha do mar para a praia. Era um dos dois que vigiavam Eliana. Quando o jovem aproximou-se. Acompanhara o noticiário. Teve a impressão de ver um barquinho jogando no mar. cabisbaixa. Um caçador de vampiros. negras e baixas. Se chegasse ao hotel. Estava armado. escondidos a distância. tenho certeza que era uma vampira. Seu estômago ainda ardia. dá para você comprar mais cinco. apontando para um frasco.. além da garota. tinha mais munição e a espingarda calibre doze. lembrou-se de que nunca tinha visto uma vampira. Entrego esse bilhete se seu amigo aparecer. Li. Vou deixar esse bilhete para ele. fazendo trombas d'água subirem alguns metros. de surfista. Leonardo continuava seguindo-os a distância. de frente para eles. se pusesse a mão em uma das armas de César. Um relâmpago súbito. rápida como flecha.. é o único que vai me procurar. chamou sua atenção. Outro relâmpago poderoso. a alvura cadavérica da pele denunciava: era um vampiro. Se houvesse uma vampira por ali... César apertou os olhos. — Acho melhor subirmos para o hotel. Nenhuma garota suspeita. direto do gargalo. Precisava nutrir-se. a garota perceberia a ansiedade e viria em seu encalço. — Não estou vendendo. Havia um rapaz parado. — Pensa que eu não sei? Também morei na beira da praia um tempão. precisava de mais sangue.

Para surpresa de todos. mas não se importou. Tiago molhou-se. Um cutucar leve na testa. Os mais curiosos desistiram. dizendo que o céu trazia tempestade. Há uma pessoa que quer vê-los. Estavam longe. era difícil identificar o barco. Minutos depois. Não era à toa que os mortais tinham partido em busca de abrigo. Os olhos acenderam. águas tão plácidas que faziam o mar parecer uma lagoa. Pouco podia apreciar daquela demonstração de poder da natureza. O exército de Sétimo estava com os dias contados. César fez menção de levar a mão às costas. os dentes pontiagudos brotaram. o vampiro agarrou seu braço e atingiu-o com força na cabeça. Que assim fosse. O sobretudo dançava à mercê do vento. onde estava o revólver. A chuva apertou. deslizando. mesmo sabendo que a nova onda chegaria. como os vampiros. na superfície da água.. o barco retomou seus movimentos. Um vento rasteiro e cortante erguia porções de areia.seguida. A escuridão da noite desapareceu. estava de volta! Ainda distante da praia. uma garota juntou-se. mas. murmurante. Um espetáculo fabuloso para os olhos de qualquer um. Olhos arregalados. Só a chuva. Tiago estava ansioso. ancorou. encarando o mar. Era preciso uma aproximação maior. mas Tiago teve a impressão de vislumbrar vultos saltando para a nova embarcação. Tiago continuava firme. Em instantes. estaria disparado. agourenta. Outras só saíram do calçadão quando ouviram um novo rugido avançando. quase perpendicular ao corpo. Tiago estava ansioso para vislumbrar o desfecho daquele espetáculo. uma onda atingiu o calçadão. Inverno! Espelho! Estavam vindo! Do mar! Seus soldados. com um movimento rápido. Gentil! Se no peito pulsasse um coração comum. As nuvens baixas e as paredes nevoentas refletiam e enchiam-se de luz. corrediça. apenas acompanhando o subir e o descer do oceano. vermelhos e reluzentes. Mesmo assim. os contornos de uma embarcação deslizando suavemente. espantava os mortais da praia. Dentro dele. um de cada lado. ele estaria explodindo. as ondas quebravam barulhentas na areia. jogando uma torrente salina para cima. A embarcação parou minutos depois. O ar tinha um cheiro estranho. podia ver a água. Todo cuidado era pouco. Acordador! Outro. A pick-up encostou. e profundidade até onde os olhos do vampiro podiam alcançar. Quando saíra. O espetáculo era tão hipnótico que Tiago esqueceu os amigos por um momento. Era provido de remos. A chuva forte chegou à costa. Tiago olhou para os lados e notou que cada vez mais gente acumulava. mas. Mais uma vez. era impossível ver a areia. A água bateu forte no cimento. Não havia previsão de chuva naquela noite. virando. O corredor d'água tinha a superfície atribulada apenas pelos respingos das gotas da chuva. Aquela embarcação. Subiu no muro do calçadão e fitou o mar.. singrando e provocando um murmúrio encantado até bater no fundo na areia. fazendo água subir ao receber o impacto das . todavia começava a formar-se em sua cabeça.. As nuvens baixavam cada vez mais. Era a moça que seguia Eliana. A iluminação fugaz permitiu que Tiago vislumbrasse num átimo. imóvel sobre as águas Serenas. Agora. Incomum. que subiam e desciam de forma cadenciada e inalterada durante todo o trajeto de cerca de dez minutos. um minuto depois. Tempestade! Grossos pingos explodiam com força contra a pele do vampiro. Um barco menor surgiu ao lado da caravela e parou. eram um perigo. Tiago empertigou-se: bem que o vampiro poderia continuar inexistindo! O Demônio dissera que os vampiros surgiriam obedientes. levando três ou quatro pessoas ao chão.. Algumas pessoas se assustaram. que causavam desconforto ao rosto de Tiago. Quando Tiago chegou à praia. e aquele fenômeno não era comum. barulhenta. pois as nuvens rasteiras cortavam a praia e impediam a visão. Um vento frio somou-se à tempestade. e um extenso corredor abriu-se. há pouco. uma névoa tomou conta da praia. O vampiro saltou para a areia. provavelmente despercebido ao olfato humano. As águas estavam calmas. Dois saltaram primeiro. Mesmo com o poder vampírico implorando por mais sangue. Inverno. deixando a praia completamente deserta. O mar estava irritado. se possuísse um coração mortal. A chuva continuou furiosa e ainda mais forte. As pessoas fugiram. impressionada com o espetáculo. furiosa. Quando a névoa espessa permitia. — Acompanhem-nos. O nevoeiro poderoso desobedecia às leis da física. escondida pelas nuvens baixas. a água chegava suave à areia. permitindo que Tiago enxergasse o mar. Tiago teve a sensação de que. e os dois foram colocados na carroceria. As ondas já não batiam contra o muro de concreto. era a caravela! Sabia que tinha sido destruída pela bomba. Reunidos. A superfície do oceano parecia tomada por cordilheiras. Cinco homens se levantaram. Um relâmpago iluminou o céu. Tiago continuou no muro do calçadão. Um relâmpago prolongado desenhou-se no horizonte. A garota segurou Eliana firmemente e tapou-lhe a boca para evitar que gritasse. pois o toque persistia. mas era só água formando paredões que se moviam rápido. Tempestade! Um arrepio. Os relâmpagos mais próximos vinham acompanhados de estrondosos trovões. As remadas cessaram apenas quando o barco chegou perto da praia. sem ondas. gritava. O corredor tinha cerca de trinta metros de largura. Desmaiou.

castanhos tão claros que eram aloirados. Estava encapuzado. Rosto doce. subindo e descendo. Isso já nos dá uma boa vantagem. Servir-te exclusivamente para deter nosso irmão. aproximou-se. Passou a mão pelo cabelo. levantou o braço direito. não sabes? Podemos agora senti-lo. Os outros três desceram pelo lado esquerdo. ganhou o topo do muro cimentado. Tiago ainda estava atônito e tenso na companhia daqueles assassinos. mas não precisamos cá de teus préstimos. friccionando-se contra a água. A medida que o barqueiro se afastava. Eernando. partimos ao encalço do maldito. Inverno encarava-o sem nada dizer. o fog repentino ia desfazendo o providencial corredor. Os pedaços de pele que escapavam das mangas denunciavam ser mais velho que os cinco vampiros juntos. — Continuam belas as luzes da tua terra. Obrigado. que aproximou-se e pousou as mãos nos ombros de Tiago. o maior e mais forte. Tiago sorriu. Braços cruzados. Tiago? Pela primeira vez. Ficaram com água até o joelho. um rapaz empurrava a água para fora do quiosque-lanchonete. mas ele não. Os remos. Abriu um sorriso franco para Tiago. mas de compleição robusta. voltaram à coreografia assombrada. Um aperto no peito. Sizudo. poderoso. Com o rodo. — Vai. Num salto vampírico. Roupas escuras e jaqueta de couro. Tiago deu as costas aos vampiros. O barqueiro. vampiro. — Tu sabes onde ele está. não fosse a palidez mórbida e patente. para evitar que Sétimo tome este planeta. Rosto frio. barqueiro bendito. a chuva cessou. Em instantes. Baptista fez um sinal com o braço para o céu. Caronte. — Viemos para servir-te. As nuvens compactas mantiveram-se baixas. perdido num pesado pano marrom. O terceiro tinha cabelos encaracolados. Por último. Continuam belas. Miguel aproximou-se e abraçou o amigo. No último encontro o vampiro comentara a luz elétrica. Os quatro acompanharam a gargalhada. pois não mudaste um nadinha esta tua cara feia! Cara de bacalhau! Ah! Ah! Ah! — gargalhou o vampiro. Um legítimo morto-vivo. que desapareceu quando Acordador virou-se para o mar. aumentando a silhueta avantajada. Um homem negro surgiu atrás de Gentil. como por encanto. Ao teu comando. Inverno. Nem sinal de Caronte. o vampiro que o salvara da morte para que o rapaz resgatasse Eliana da garra dos irmãos. de tórax largo e forte. Vai e volta para o inferno. sem expressão. Três ou quatro pessoas passavam pelo calçadão. — Ora.botas batendo na superfície. de músculos visíveis. desprendendo o barco da areia. Onde estariam os amigos? . Miguel. surgiu Baptista. jamais denunciaria ser um vampiro. magro. O segundo. Miguel. como Inverno. gajo. Acordador. — disse o vampiro. Um homem baixo. — balbu-ciou Acordador. de cabelos longos e o de pele mais pálida dentre os cinco. mantinha-se calado e inexpressivo. o vampiro Tempestade. com sua inconfundível voz sussurrada e grave. — Continuam. aferrado a uma madeira que deveria guiar o leme. e a paisagem desaparecia sob a névoa.

Jogar seu corpo ao Sol. Era um lobisomem! Eliana soltou um grito. Quantas balas caberiam naquele revólver? Torcia para que coubesse o suficiente. Pro meu azar. — Ousou me afrontar! Lembra que prometi me vingar? Certamente. Era a única chance. Retirou-a da cintura e a manteve nas mãos. era muito rala. César matutava. Vez ou outra. A criatura deu mais alguns passos. que recostou-se na lateral do veículo. — O homem primeiro. O lobisomem. Estacou. Apontava a arma para frente e tentava manter Eliana protegida. uma névoa densa dificultava a visão. Os olhos exalavam ódio puro. voando com as patas dianteiras estendidas para agarrar o mortal. Um minuto. ficando suspenso no ar o par de olhos vermelhos. Era horrível. Um par de olhos brilhantes surgiu na mata. posto que ainda estava com a arma. Dois vampiros agarraram os capturados. A chuva não caía mais. empurrando a garota. A pick-up parou. que perfume agradável é esse que me chega às narinas? Que cheiro! Mulher. Disfarçava bem. Contaram nove vampiros. O coração de César disparou. Tinha que apagá-lo e capturá-lo. estava a três metros da dupla. Eliana apertou-se contra o amigo.. O lobisomem arrancou. Afonso afastou-se lateralmente. onde o mato rareava. Era a arma. lembrando um tigre.. Sabia que a possibilidade de sair com vida daquele encontro era mínima.. são amigos dele? César aquiesceu. Vampiros burros. Raspou as patas dianteiras nervosamente. Era pesada. O lobisomem estava imó- . Era uma esperança.. ora. O céu estava completamente coberto de nuvens e. — ordenou. Aquelas balas de prata iriam parar na cabeça do lobo. O lobisomem urrou. Parecia tomado por uma preocupação. ora! Se não está cá meu amigo caçador de lobisomens! — chacoteou uma voz grave com forte sotaque lusitano. em uma clareira. lembra. exibindo os dentes pontiagudos. Grunhiu. — São amigos do guerreiro? Não responderam. Um disparo. Viu o humano erguendo uma arma. Não o tinham revistado. — Lobo. Notaram que o vampiro não mais apresentava o característico sotaque português. vez ou outra. — Ora. pois eram grandes demais para pertencer ao amigo. — Será que são do exército de Sétimo? — Acho que não. A mulher segurou firmemente sua mão. O homem vinha. colocou-se atrás do amigo. relampejava. Lágrimas desciam pelo rosto. Respirou fundo. quando se formava. Foram arrastados até onde o chão era feito de lama. A névoa. não teriam chance. Li. aproximando-se. mas ao menos dariam fim à criatura.. Um cheiro acre infestou o ar. deixando o caminho livre para sua fera. desprendendo grama do chão a cada passada feroz. Havia muitos vampiros ali.. Estavam no meio da mata. apesar de um pouco menor que Lobo. Afonso deu mais um passo à frente. Voltou a olhar fixo para César. Ergueu a narina e fez cara de estranhar alguma coisa. César chegou a pensar que fosse Tiago. aproximando-se sorrateiramente. que cheiro bom tem teu sangue! Eliana arrepiou-se.. em semicírculo. — balbuciou César para Eliana. O corpo do lobisomem bateu em César. Pensava em como ganhar tempo. Encostou ainda mais no corpo forte de César. mas logo esse fio de esperança foi abaixo. Se corressem para a mata. Seu rosto era completamente visível àquela distância.CAPITULO 46 César acordou na carroceria da pick-up. Um vampiro. A silhueta desapareceu. Nunca tinha visto nenhum deles antes. Só viveriam se Tiago chegasse antes de serem liquidados. acho que são do Lobo. Morreriam. Uma coisa dura contra sua costela. Saltou. — Tiago. Afonso rosnou prolongadamente.. Tudo escurecendo. arisco. Aproximou o rosto das costas de César. Um par de brasas reluzia na mata. derrubando-o. acocorados. Tinha que esperar a hora certa e fazer uso da arma. César colocou a mão rente à coxa e apanhou a arma estendida por Eliana. assustava do mesmo jeito. Dor explodindo. Olhou para os lados. Eliana abraçou o amigo.. — Ah. Tem medo de mim agora? César permaneceu imóvel. Destruir definitivamente aquele mal. Névoa. César levantou-se agilmente. Deu um passo para trás.

Afonso sabia que não podia subestimar o adversário e. Estava morto. Afonso puxou o gatilho repetidas vezes. Outro disparo escapou involuntário. as costelas. apertando os ossos até esmigalhá-los entre os dedos. Tentou se levantar. — Larguem a mulher! Larguem a mulher! — gritou para os vampiros. Diabos! Não podia morrer. apontando o revólver para o rapaz.. Sorveu uma generosa quantidade de sangue e. não conseguia respirar. Não iria protegê-la mais. Ergueu o braço e disparou por instinto. em forma humana. Arrancou o revólver da mão de César e torceu-lhe o punho. Malditos! — Ri agora. Rastejou até pegar o revólver que havia arremessado para o lado. tinha de destruir a fera antes que a forma de lobo abandonasse o corpo do vampiro. Viu Eliana sendo arrastada pelos cabelos por uma garota pálida. Sabia que ele ainda . Onde estava o vampiro? O ar faltou. Os relâmpagos não paravam. segurando suas pernas. poderiam perecer. Gritava. era o soldado mais forte em seu campo visual. que não reagia mais. a bem da verdade. Depois disso. Lágrimas brotaram. Afonso desapareceu. estendendo o dedo médio para o vampiro. colocando-se de pé com dificuldade. poderia voltar a viver. sufocado com a falta de ar. afastou o cabelo de sua pele e passou a alisar o pescoço. Dor no tórax. A boca do adversário estava arroxeada. maldito! Eu que te tirei da caixa onde Tobia te lacrou! Não pode me matar! — gritou César. — Senta aqui. não podia se dar ao íuxo do desperdício.vel. caindo sobre o ombro. mas não ouvia os vampiros. Se voltasse a ser vampiro sem ser destruído definitivamente. que ela resistisse até a chegada de Tiago. A mão pendia presa somente pela pele. Iriam beber seu sangue. ao menos. Ouvia os gritos de César. impiedoso. Um último juntou-se e segurou sua cabeça. César cerrou os olhos. só se ouvia o estalar do cão contra o tambor abastecido de cápsulas vazias. desviando-se com segurança do disparo grosseiro. Pingos grossos começaram a despencar. O vampiro. Três disparos enterraram-se no peito do humano. Dor. César girou no ar.. Por essa razão. O rapaz sentiu um potente golpe no peito que o jogou a alguns metros. Olhou para Hélio. e. O estômago queimava doloridamente. usando um xingamento recém-incorporado ao seu vocabulário. Via Afonso espancar César. aprendera com o garoto Leonardo que não deveria subestimar nenhum brasileiro com aquelas armas modernas.. Eliana debatia-se entre os vampiros. Dom Afonso pousou um dos joelhos na lama e agarrou o brasileiro pela garganta. A chuva caía forte. cometera esse erro com Afonso. Um vampiro imobilizou seu braço esquerdo. Uma tempestade repentina tomou conta do céu e da terra. Tinham se precavido. Ia perder os sentidos. Arqueou as costas para inspirar. as vértebras. Levantou-se e caminhou cambaíeante. murmurou. Os fios louros e encaracolados tinham grudado no corpo. As costas doíam muito. Tiago. Água começava a escorrer de sua testa. com a voz esganiçada. soergueu a mão direita e. desferiu um chute violento nas costelas do humano. caindo de costas na lama. Os malditos envenenariam seu exército. Os novatos eram fracos. O humano contorcia-se. outro vampiro juntou-se. César era um homem duro. Eram oito.. sabia que o indesejado estaria morto em questão de minutos. mas não se conteve ao ver que os vampiros iriam matar a amiga. A tempestade se fora. As balas estavam acabando. Não precisou de velocidade vampírica para se aproximar.. — Elíana! Olhou em volta. Sua roupa estava ensopada. A garota vampira imobilizou seu braço direito. O braço arrepiou. filho da puta! — desafiou o vampiro. Dom Afonso ergueu a cabeça.. O som da última explosão ecoou pela clareira. Queria. — Insolente! Tu me paga! —. mais o vampiro líder. As costelas afundaram. que. — Maldito! Maldito! — esbravejou o vampiro. Dom Afonso caiu de joelhos. Ele gritou prolongadamente. mas antes que atingisse o líder. expondo os dentes pontiagudos. Era como se o golpe tivesse rasgado seu pulmão. Chorava. Olhou para a clareira. Mesmo que o largasse ali. mesmo assim. rompidos. O amigo jamais o perdoaria. Os malditos tinham ingerido alho. Os vampiros concentraram-se em sua frente. Afonso grunhiu. mandou um gesto obsceno. Buscando forças sobre-humanas. Afonso abriu a boca e cravou os dentes salientes no pescoço do rapaz. vampiro. César notou que extensas nuvens de vapor eram sopradas com sua respiração. Estava entregue. A visão escureceu. Afonso caiu. César disparou. Para concluir. ao abri-los. Caiu de joelhos. Queria dar-lhe uma morte lenta e dolorida. — Eu que te libertei. Afonso ouvira um riso sofrido escapando de sua garganta. Apertou os olhos e. os músculos pareciam es-tirados. largou o corpo no chão.bradou o vampiro. Respirava rapidamente. Cuspiu sangue. Cesão inspirou pela última vez na vida. Gritou. Estava gravemente ferido. O ombro saíra do lugar. Ouviu a voz do vampiro ao lado. viu Afonso correndo em sua direção. O ar da noite estava frio. estava atento.

mas conseguia. Traga cá o corpo do menino. Que os urubus os comam. — Pega o corpo do menino Carlos. estúpido. — E a mulher? — Ela está morta? — Parece. fraco. — Hélio! Tire-nos daqui! Um dos vampiros ajudou a carregar Dom Afonso até uma das pick-ups.. O alho. senhor. — instruiu o vampiro. — Larga a maldita aí. deixando três barracas de náilon e dois corpos para trás. mas a hibernada na caixa de prata revelava não ter sido tão inútil. — Mortos todos vocês estão. — Ele está morto. Seu corpo adormecido e cadavérico ficara mais forte. Haveria de matar seus pupilos como vingança. senhor. isso o vampiro não ousaria. Os vampiros arremessaram o corpo do lobisomem abatido dentro da caçamba e abandonaram a clareira. em outros tempos. Conseguia caminhar. Quatro de seus novatos contorciam-se no chão.se recuperava dos ferimentos causados pelo vampiro Tiago. que vamos dar um jeito. mas comandaria a retirada. anulando o poder recebido. Sabia que ele estava atrás da mulher e do amigo. Sabia que Tiago se aproximava. — Onde está Dom Leonardo? — Foi à caça com os outros.. . Tiago não ousaria atacá-lo pessoalmente. Ele próprio ainda estava zonzo. o teria feito rolar no chão. A garota também ingerira alho.

O vampiro fugindo não importava. Cuide dela. Tiago olhou para Miguel. — Está viva. Tiago atingiu a clareira. O lado direito do peito afundado com um chute. Tiago soluçava. Estava devendo aquele choro a Olavo. O retorno de Miguel. Estava fraca. Os vampiros vinham em silêncio. Aproximou-se do corpo do amigo e ajoelhou. fazendo galhos quebrarem contra o couro do sobretudo. enxugou as lágrimas. acocoran-do-se. Deitou o corpo do amigo na clareira. Levantou o amigo e abraçou-o com força. sempre disposto a enfrentálos. Tiago abria uma picada com os braços. pois tinha certeza de que o amigo fora espancado antes de morrer. Nada importava. Não faria o mesmo com o corpo de César. Guilherme e companhia não importava. Uma poça de sangue que se diluía na água da chuva estava se espalhando em volta do corpo de César. . Chegou aonde estava o corpo da amada.. Olhos acesos. Do conselho não seguido. Silêncio. Pedira a extinção ao tirar a vida de César. Uma gota de seu choro vermelho atingiu a face do cadáver. Dois corpos caídos na grama. Abraçou o amigo fraterno mais uma vez e chorou copiosamente. e os membros penderam. A força nas pernas pareciam fugir. Os vampiros estavam à margem da clareira. inclinou o tórax e beijou calidamente a boca da mulher. César.. As páípebras da moça estremeceram. Precisava salvar Eliana antes de decidir o que fazer.... Tudo começara com aqueles malditos que. estranhamente. Pediu aos vampiros que vigiassem o corpo do amigo. Oito pequenas perfurações e muito sangue vazando. guerreiro. Lágrimas escarlates mancharam seu rosto. Colega de repartição. agora estavam do seu lado. Concentrava-se no vampiro Lobo. Marcas dos pneus das pick-ups na lama. O brother. do tronco. O amigo de infância. Descanse em paz. Ficou naquela posição por quase cinco minutos. O pensamento estava confuso. provavelmente. lentamente. Miguel parou a seu lado. Lembrou-se da valentia de César. Silêncio absoluto. Tiago levantou-se. Olhou para trás. A morte de César libertou emoções reprimidas. Um ódio crescente foi se apoderando de seu coração vampiro. Morto pelos vampiros. Tomou Eliana nos braços e saiu. acompanhado por Miguel. o golpe de misericórdia. César estava morto. Adolescência. Tinha que sair dali rapidamente se não quisesse chorar também a morte da mulher amada. Olhou para César e disse: — Descanse em paz. Não podemos perdê-la.. Dom Afonso estava deixando a clareira. Tiago esboçou um sorriso.CAPITULO 47 Um mau pressentimento. Lembranças voltavam à mente. O rapaz levantou-se. A boca roxa. — balbuciou o vampiro. Uma garoa fina despencava. inertes. O punho esquerdo estraçalhado.. Prontos para a briga. — Tapa os ferimentos. Tiago foi chegando. Pousou um joelho no chão. Três barracas abandonadas. Foi a sensação que assaltou repentinamente Tiago quando chegava à clareira. Eliana. pois tiveram de abandonar o corpo de Olavo no porão fedorento e fugir com Sétimo no baú do caminhão. beijou sua testa.. — orientou Tiago. O corpo ainda estava quente. Lembrou-se da última conversa. Três buracos de bala no peito. O cutucar mudara de direção. Tiago soluçou. Lobo tinha selado seu destino quando decidira atacar seus amigos.

Idéias. Comprava DVD aos montes. Fazia rondas em Osasco. Dava escapadas constantes. deixando ao lado da van. Afastado dos olhos curiosos e cercado por soldados do tráfico.. Era um homem experiente que só fazia fortalecer o grupo de Sétimo. estava uma pickup Blazer. e os carregadores apressaram-se em descarregar caixas de madeira. Consumia música. e. Os carregadores adiantaram-se até o baú do caminhão. Conhecia o submundo. Carregavam seu exército noturno. já que não esperavam encontrar gente naquele compartimento. Toda noite saía para caçar. Os homens puxaram as folhas pesadas abrindo os fundos do compartimento. Dominaria o mundo junto do vampiro. dia-a-dia tornava-se mais poderoso. Um dos seguranças particulares de Danilo ergueu a porta de uma das garagens. tinha influências em diversos setores. por extensão.. O vaivém era incessante. Quanto a ele. prontamente. Um rapaz de pele pálida e compleição avantajada retirou o veículo do caminhão e manobrou-o. Pouquíssimos desertavam. e. Tornara-se cria de Aléxia e sempre acompanhava a vampira. Logo na ponta. espaçosas o suficiente para acondicionar um corpo. Graças às novas perspectivas. Conversava muito com Sétimo. pedindo o maior cuidado no manuseio das caixas. Perguntas. montado na moto. logo atrás do gigantesco caminhão. que. Os músculos pareciam feitos de concreto. Céu escuro. e a porta do baú foi destravada eletronicamente. Os que tentavam eram destruídos pelos aprendizes. Carregavam seu tesouro. Cada caixa tinha como suporte uma espécie de carrinho. um de seus conjuntos prediletos e mais executados. Apenas checaram a identidade do motorista e da equipe de carregadores que vinham em uma van. de matança e de segurança. Durante o dia.CAPITULO 48 O caminhão Scania parou na frente da suntuosa propriedade. para sempre. Tinha dinheiro em fartura. assim que o caminho ficou livre. Muito dinheiro. Obras de grandes generais. Tomara gosto saudável pela leitura e devorava obras importantes para sua formação bélica. Seus principais soldados carregavam aparelho celular e armas de fogo importadas. o corpo mais se enrijecia. Formava-se. Separava tudo o que lhe interessava. que tinham visual gótico. serviam de garagem. Agnaldo também mudara bastante. Em seguida. da polícia e do Exército. com dois metros de altura. Sétimo. sobretudos pesados. Dizia que com os filmes aprendia muito sobre os seres humanos. Estava impressionado com sua capacidade para reter informações. Sétimo perdia horas na frente da TV Dizia que estava se antenando às modernidades. Destinara um dos soldados vampiros para cuidar exclusivamente de sua moto. estacionando em frente a pequenos boxes que. Farejava os malditos caçadores que haviam atentado contra seu covil no mês anterior. Colocava o som no último volume e se divertia com a banda Raimundos. estavam descarregando setenta e duas caixas. Sétimo desceu. Aprendia rápido e desenvolvia com gana seus dons vampiros. Tornava-se cada vez mais violento. crucifixos. Fazia quase dez dias que Danilo fora anexado ao grupo. Cruzou o portão lentamente e passou pela mansão. . Aprendia. Ele os encontraria. Estes pareciam estar predispostos a tornar-se vampiros e trilhar a noite em seu bando. o corpo mirrado era capaz de tombar um caminhão. Buscava novos soldados. Toda noite aprendia mais e mais sobre a vida contemporânea. Faria tudo o que Sétimo pediria e da melhor forma. com certeza. Levaria Sétimo para o castelo. tinham carros e treinamento constante. Tudo o que via. Os seguranças já estavam avisados. Os olhos acendiam-se ferozes. mas aquele veículo chamava a atenção. o vasto patrimônio do traficante. Musashi. com competência e com gana. Fora um momento decisivo naquele jogo de conquista. como aprendera nos filmes. Roupas escuras. Danilo era o associado perfeito. Táticas de guerra e de guerrilha. seu soldado mais fiel. A cada gota de sangue ingerido. Todos os que trajavam negro. parado junto ao caminhão. A van parou a certa distância. tornaria o país e voltaria para Portugal. destruídos. eram suas vítimas preferidas. Um castelo afastado do centro urbano. profundas. Sétimo tinha uma morada digna de sua posição. manejado por dois empregados. Entendia de armas. teve seu motor acionado. Estavam acostumados a entregas fora de hora. Ali cresceria seu exército da noite. fortemente armados. colocara à disposição do exército de seu novo senhor. agora que tinha um cérebro vampiro. Tornara-se fã de filmes. Uma rampa acionada por comandos hidráulicos desceu. para Portugal e seria. O armário estava entulhado de roupas negras. Eram largas. Pensadores. Preparava-se para a ordem de espalhar o mal vampiro pelo mundo. ouvia e lia cravava-se em sua cabeça e jamais abandonava sua memória. e a expressão adolescente transmutava-se em forma horrenda quando franzia o cenho e preparava o ataque à vítima desejada. Os carregadores ficaram assustados. O alistamento era assim: involuntário e irreversível. coturnos. acompanhava severo o trabalho. Lua crescente.

. Não tinha ar lá dentro. — Vai com Deus. E agora era uma vampira.. Caçar para recrutar mais e mais aliados. Seu sangue indo embora! Uma oferta.. minha garganta tava uma lástima. Era quase sempre o último a deixar a loja de eletrodomésticos. contendo cinco vampiros. Estava presa. Uma garota no banco de trás. Chegaram a uma rodovia e ganharam velocidade. Não tinham tempo a perder. levava novatos para a caçada. O que estava fazendo ali? Sensação de aperto. tudo vai estar bom. Dentes cravando sua carne. Os vampiros novatos estavam calados. Nervosa. o ponto de ônibus distava quinze minutos de onde estava. Uma lufada de vento bateu na marquise. Agnaldo instruíra todos os iniciados a trazer novas pessoas. Júlio já estava do lado de fora. Outros vampiros despertaram. queixando-se da garoa. Chegou à porta entreaberta e cumprimentou Jeová com um meneio de cabeça. — Tu confia em mim. filho? — Confio. lembranças embaralhadas. A caixa era vedada. mas ao mesmo tempo próximo o suficiente da metrópole para continuar trabalhando e vivendo. Deus! O que seria aquilo? Um caixão? Só poderia. O com-partimento onde estivera presa não era um caixão. Estava agora num caixão. Era uma caixa de madeira. Um Landau negro cruzando a rua. estava no salão. Dentes pontiagudos. Júlio estava com uma malha fina por cima do uniforme. Confio. Confia em Deus que. Eram tantos! Um Landau negro. e relâmpagos iluminavam a noite. Caçar para desenvolver os dons vampíricos. Chovia forte. Uma vampira! Outras tampas caíram. A garoa batia silenciosa no chão. Dezenas de caixas.. Patrícia despertou. nos fundos de um cômodo largo e amplo. aguardando o garoto sair para trancar-se dentro da loja. que fora vampirizada por ele próprio dois dias atrás. Júlio sorriu. a salvação. Tontura.CAPITULO 49 Escuridão. e a rua ficou mais escura. Uma carona. pois preferia sempre tomá-lo no ponto final e ter um lugar garantido para viajar sentado. Não tardaria o combate contra os caçadores e as autoridades brasileiras. Júlio sorriu para o segurança. Outros. . Seu caixão estava de pé. A tampa caiu no chão. Esfregou as mãos. próspera. tinha o rosto molhado. Fora apanhada por uma criatura. O estudante apanhou uma mochila e colocou nas costas. do trocadilho com os nomes. brilhantes. acionou o limpador de pára-brisa.. refletindo as luzes dos letreiros. Não via a hora de terminar a faculdade e abandonar aquele estágio sem graça e mal remunerado. Estressado. Respiração apressada. — Nem trouxe uma blusa mais grossa. o iniciado há mais tempo. Gritou. Porém. Somente Jeová. Um vento rasteiro mexeu papéis ainda secos debaixo da marquise. As histórias começavam a aparecer nos jornais. Uma embalagem de Sonho de Valsa prendeu em seu cadarço. Deveria alimentá-los e trazer novos recrutas para o covil. Júlio estava cansado. Sangue. receoso de sair para a noite fria. com os olhos chamejantes. Alguns expondo caninos alongados. Acelerou até o carro deslanchar sobre o asfalto. A porta fechou-se. Tinha dezenove anos. e parte da rua de paralelepípedos ficava brilhosa. Lembranças. — Tá com medo do frio. Lembrou que não precisaria de ar nunca mais. Risadas. Júlio morava em Barueri. Rafael. Jeová. Olhos vermelhos. defronte a única porta aberta. Gritou. Achou graça da situação. Arranhou a madeira. e bastava uma condução para chegar em casa. Sangue vampiro. Acabara de ouvir Jeová falar de Deus. A cidade crescia. Olhos fantasmagóricos. Um convite. A calçada abaixo da marquise estava seca. — resmungou. que comprara o Landau especialmente para as caçadas. Parou. aproximando-se da saída. — Droga. Empurrou a madeira. Estava próximo à rua principal do comércio de Jandira. filho? — Ah. Esmurrou a madeira até afastá-la. deixou a nova morada. com gente de toda a Grande São Paulo buscando um lugar afastado da agitação da capital. Rafael. Patrícia deu um passo para fora. Precisavam aumentar seu poder o mais rápido possível. Jeová. Olhou pela janela do escritório. com o piso composto por lajotas intercaladas em preto e branco. lágrimas. meu filho. o segurança.. As ordens eram caçar para alimentar e fortalecer-se cada vez mais. O neon que enfeitava a fachada lançava estalidos elétricos com tubos que não acendiam devido ao curtocircuito. Semana passada tive uma bruta gripe. Uma garoa fina despencava. mesmo quando tudo tiver ruim.

a frente do Rhapsody. mas de cabelos compridos. ou na rua. Apertou o passo. De outra pessoa. Soldados buscaremos mais tarde. limpou o excesso de sangue do canto da boca. de cabeça baixa. O Landau parado era bastante suspeito. mas não via ninguém. Viu o rapaz correndo. Voltou-se. Um risco d'água desceu pela testa.. Vai ser comida. Talvez não fosse nada. Uma olhadela para trás. mas naquela rua deserta. E aquela estória maluca de neve em Osasco? Vira na TV dias atrás. — Vai ser um novo recruta? — Não. Um rapaz.. Outra rísa-da. A avenida dos Autonomistas. onde estava o homem de jaqueta preta. dois às suas costas. Júlio estendeu os . o desejo de morte não poderia ser consumado. Já ouvira muitas histórias de assaltos a quem andava sozinho. que recusava desde as entranhas sua nova condição vampírica. Tinha um homem parado. Júlio quase corria. Rafael apagou a luz e desligou o carro. Uma das criaturas. Por um temor repentino. Júlio virou-se. Continuou. Repudiava o sangue. Não queria viver daquele jeito. Tinha mais um rapaz vindo dali.. Estava tão tenso que o ar escapou involuntário da garganta. Um rapaz no meio da rua. O Landau manobrando. O cheiro do líquido impregnava suas narinas. O coração bateu mais rápido. sem olhar para trás. Um carro parado pode não ser nada. Júlio estranhou o Landau estacionado. onde carros passavam. um crucifixo vermelho costurado no couro negro. O homem de jaqueta preta estava de costas. olhou para trás de novo. Ouvia passos cada vez aproximando-se mais. estava chegando à esquina. Precisava saber se estava correndo perigo. Estava cansado. Júlio olhou para trás. A porta do motorista estava escancarada. o corpo de uma menina se debatia ali. tentando sacar com os cartões magnéticos das vítimas. Continuou andando. Sabia que o vampiro a queria no grupo. Ao menos uma coisa: não ouvia passos. parada no farol ou saindo de um caixa automático. Estavam fortes e receptivos aos ensinamentos de Rafael. Um baque surdo. Queria que ela tomasse sangue. Olhou para o outro lado da rua. — Vamos caçar. Ouviu uma risada às suas costas. Júlio parou e encarou o carro por alguns segundos. Sessenta metros até chegar à esquina. Estacou. O que fazer? Era um assalto. Menos Patrícia. Dolorida. Era novo para pensar em casar. Nada. no banco de trás do Landau. gritando e tentando agarrar-se à vida retirada pelas bocas famintas daquelas criaturas que a chamavam de irmã. Problemas demais na cabeça. O homem virou-se. Era ele quem ria c o encarava. Olhou para o Landau. Precisava alcançar a rua perpendicular. E as histórias de seqüestrorelâmpago. A garoa fininha chegava a ser pior que chuva. olhando para o carro. As quatro portas estavam abertas e ninguém na calçada. negro e liso. — disse Rafael. então? Os assaltantes eram brutos. O Landau estava distante. Caminhava apressado pelo calçamento. O limpador de pará-brisa varreu o vidro mais uma vez. Que tipo de gente louca era aquela? O ronco de motor. A rua deserta assustava. Os faróis banharam de luz os paralelepípedos que reluziram por um segundo. tudo tomado pela neve. recebia a garoa na cabeça. Respiração pesada. Muito trabalho naquele dia. Às vezes. Ninguém. Um crucifixo vermelho costurado no couro. Só faltava nevar ali em Jandira também. Estava há quinze segundos parado. ou seja. ao menos ninguém tinha descido. ao menos poderia morrer quando desejasse. O Landau dobrou a esquina. como ele. Que medo tolo! Um arrepio. Precisamos de mais força.Empreendeu passos rápidos. o coração batendo forte e uma fina camada de vapor desprendendo da malha molhada e colada ao corpo. Estava com o estômago queimando e a cabeça explodindo. Não tinha nada. Como morta-viva. Olhou para a esquina e recomeçou a andar. Um homem com uma jaqueta preta de couro. é pior. menos o capô. O atraso da namorada. eles espancam.. Seus olhos acenderam-se para continuar a observar o rapaz com a mesma facilidade. um adolescente de cabelo longo. com as portas fechadas. Queria sua vida insípida de volta. Eram as quatro portas do carro fechadas num golpe só. Pegavam a pessoa no carro. onde mais gente passava. Um ônibus passou na rua transversal à que se encontrava. Ouvira cada história! Quando a gente não tem nada.. e a colocavam dentro de um veículo roubado para excursionar pela cidade. O carro estava coberto por gotículas. Todos tinham se alimentado. Torceu para uma viatura da polícia aparecer. Porra! O cara na esquina. Um grunhido rápido e reverberante escapou da garganta. A cabeça. Passos e risadas. Todos os vampiros olharam para o garoto. Não queria se molhar. de onde escapava uma rala nuvem de vapor. Entre um prédio e outro. Apertou o passo.. As idéias estavam confusas. Minutos antes. Olhou para a esquina. de costas para ele. Via o olhar pesado de Rafael sobre sua pessoa e sentia medo. Pagar a faculdade atrasada. Acordar naquela caixa fora uma experiência aterradora. que ardeu ao contato com a água misturada ao suor. Bufou. O contato do pneu com os paralelepí-pedos fazia um barulho diferente no asfalto. Passou apressado pelo carro. caminhando rápido. A violência crescente dava medo. incomodando o olho.

comprimindo a jugular.. e não quero virar torrada. estava longe de se tranqüilizar. — Sirvam-se vocês e vamos embora. acuada. mas as mãos fortes dos outros atacantes o imobilizaram.. Entra no carro. filho. Júlio começou a se debater. Não conseguia enxergar nada. O Landau parou ao lado dos dois. preso pela mão de Rafael. Repúdio. Rafael sorriu. Ele agarrou Júlio e arrancou-o do chão. Estavam matando o coitado.. Por que o seu Jeová não estava vigiando a rua? O homem da jaqueta veio ao seu encontro. um terço com um diminuto crucifixo. Tinha se fartado de sangue. — Vem. se juntaria ao reino dos mortos. Ou toma do sangue ou perece. jogou-o por cima de Patrícia e trancou-os no porta-malas. exibindo as fileiras de dentes brancos. Júlio bateu os pés no chão e cambaleou. nervoso. Júlio. Abriu a boca voraz e dirigia-se ao ferimento molhado. estava morto? Não podia sentir o coração do rapaz. Voltou e agarrou Patrícia pelos cabelos e arremessou-a. mas antes de servir-se sentiu um golpe forte em-purrando-o para o lado. foi ao chão. Dali a pouco.. Rafael grunhiu. Vai aprender. Patrícia abraçou os joelhos e deixou lágrimas molharem a calça jeans. Patrícia abraçou-o comovida. O garoto gritou a plenos pulmões. gemendo. vem que te ajudo. O jovem não lutava mais. Agarrou o pescoço e suspendeu-o no ar. Um empurrão. O corpo ferido estremeceu.. um vampiro! Rafael deu dois passos até alcançar o moleque. Pendendo no pescoço. Daqui a pouco vem o Sol. praticamente sentada no assoalho do veículo. Júlio estava cercado. O que a fedelha pretendia? Os vampiros. tão longos que lembravam. O estômago queimava. Rafael foi até o Landau e acionou um dispositivo que fez o porta-malas abrir-se. mas ainda fluía. — Deixem ele morrer em paz! Deixem ele. Rafael tomou mais uma golada do líquido vermelho. não se aproximavam. Estava assustado. Os outros já não precisavam segurar os braços de Júlio. Um outro vampiro saltou do carro. oscilava. aproximando-se do homem que julgara um salvador. No compartimento escuro. A hora chegava. mas aquele espetáculo escarlate escapando do pescoço era irresistível. Mantém essa vaca aí atrás para deixar de ser engraçadinha. Um choque. Ainda chorava. irresistível. ficou de pé. Acendeu um cigarro e tragou encostado na porta do motorista. Ouvira dizer que um ferimento na jugular era fatal. Sabia que ela o retirara das garras da morte. quer ser uma vampira valente. arfando. Um grito explodiu dentro de sua cabeça. em seguida. dois passos em falso para trás. a estava enlouquecendo. A palavra misericórdia ribom-bou no pensamento. que mantinha a mão colada ao ferimento... Patrícia não acreditava: tinha enfrentado o bando.. Os vampiros rodearam o corpo moribundo. Via o corpo do garoto chacoalhando no ar. — Basta. Júlio abriu os olhos embaçados. cambada. Risadas. Patrícia tapou a ferida com os dedos de uma mão. Soltou o rapaz. poderoso.. — Sua vaca! Ou tu come dele ou te deixo apodrecer aí dentro! Rafael circulou o carro. A mão apertava com tanta força que sufocava. Gritou e chutou o metal. mas agora tinha os olhos vermelhos e a expressão de raiva. — Vai. Fraco. Percebera a pele pálida do estranho de jaqueta. sujo de sangue. Ainda escapava sangue pela jugular. — disse Rafael. Patrícia intervinha e tomava o rapaz nos braços. tem que tomar sangue. Ganiu baixinho.. Patrícia. A morte não tardaria. Os vampiros pararam. — bradou a vampira. Sabia que . Escorregando com as costas na porta metálica de uma loja. — Vai morrer. essa vaca. enfrentar meus homens. — balbuciou o vampiro de cabelos compridos. assustados com a súbita interferência. morna pelo sangue. Tinha os dentes caninos longos demais. Tem que tomar. Júlio deixou cair a mochila com o material universitário.. apenas sentia a presença da mulher. apanhou o corpo do jovem agonizante. O coração batia tão rápido que doía. mas ainda tinha sangue escapando de seu ferimento. assistia ao ataque. A imagem de Cristo. Sentiu um frio na barriga quando notou o sorriso esquisito do homem de jaqueta. Rafael trouxe o pescoço do rapaz à boca e cravou os dentes. — Me ajuda! — gritou o menino. Pararam e riram alto.. Aquele cheiro de sangue. mas faltava forças ao menino.braços. A custo. O garoto.

. Virou o rosto. procurando o da vampira. — murmurou Júlio. Aproximou sua boca da boca da mulher e beijou-a sofregamente. antes de desfalecer.ela havia mudado seu destino. — Obrigado... Agradeceu com a voz embargada.

Sétimo que fosse à merda. Não podia. Nem sombra das criaturas sem coração que haviam seqüestrado Eliana. Levantaram-se. Desceu dois níveis. Sem acompanhantes. Só devo um aviso para um sujeito. ó pá. Não deixaria que Eliana tivesse o mesmo fim que César. Viu o que fiz quando chegamos? Fiz nevoeiro. — Tenho que cuidar de Eliana. Calmos. Toda noite. A morte do amigo era por sua culpa. Não queria mais saber de guerra alguma. com voz sinistra e ameaçadora.CAPITULO 50 Tiago caminhava pesadamente. Me falta ânimo. Outra. Os vampiros permaneciam adormecidos. Atacar Dom Afonso. não diz isso. Só estamos aqui para isso. Uma. Tu sempre foste valente. — Ora. aguardando seu chamado. fiz tempestade. — redargüiu o vampiro mais baixo e corpulento. caindo fantasmagoricamente dentro da propriedade. Igualaria as coisas. Iria retirá-la das garras da morte. — disse Guilherme. Manoel. — Não amoleças. Agora não me restou vontade de lutar. Ela não suportaria um novo ataque. Derrubo raios sobre as cabeças de nossos inimigos. Os cinco corpos. — argumentou Fernando. — Não vou me bater com o Lobo. Só assim ela poderia defender-se dos malditos. Há dias não safa do hotel. logo após a missa de sétimo dia encomendada ao amigo César. — Acordem. Miguel. com uma barra enferrujada servindo de tranca. o vampiro Espelho. Sua expressão tornou-se mais sizuda e o rosto duro. emprestando ao cômodo uma lúgubre luminosidade vermelha. — E Sétimo? Viemos para destruir Sétimo e seu exército. gajo. Não queria saber de vampiro nenhum. Estavam sob seu comando. Prontos para partir dali e com ele atacar o exército de Sétimo. Caminhou em direção a Tiago. depois. Tiago passara as últimas noites mergulhado num marasmo absoluto. Abandonada em uma enfermaria. Eu tinha que defendê-lo quando me pediu ajuda. Chegara em choque ao pronto-socorro. bloqueando o caminho de Inverno. — Quero que fiquem despertos. Dom Afonso! O maldito Lobo! O assassino que levara ao túmulo seu melhor amigo! Culpado por estar afastado de sua amada. gajo! Tu nos deves isso! Sê valente. Os olhos do quarteto acenderam-se. Não vou me bater com ninguém. vamos. impedindo que se aproximasse mais de Tiago. Um arrepio tomou-lhe o corpo: mal terminara de pronunciar a ordem e os cinco vampiros abriram os olhos. mas para cumprir minha missão. deprimido. Imóveis. Com nossas forças agrupadas vingamos teu amigo e destruímos aquele que quer tomar a Terra. vampiro. Estava triste.. ameaçador. Faço a tempestade vir. e entrou no prédio. Não deixaria nunca mais a amada submeter-se às criaturas. obedientes. Não permitiria perder mais um ente querido. O tecido pesado do sobretudo ondulando a cada passada. Acordador. — Essa é boa. Hemorragia. .. ó brasileiro. com sua característica voz murmurante. Esconderijo perfeito. Cães de guarda. Tomara a decisão naquele dia. Vais ver meu poder! Sinto que estou mais forte. tiraste-nos de nossa espera. Os outros vampiros interpuseram-se. Poder de vampiro. Saltou o muro alto. Não amoleças agora. Iria ver Eliana à noite. Estavam lá. Vais precisar de nosso auxilio. Imutáveis. seu corpo e sobretudo sua mente estavam cansados. arrombada por invasão antiga. Que haviam dizimado dezenas de soldados. Obedientes. Adentrou a câmara. Queremos nossa luta. Baptista e Fernando. Daria poder a Eliana. Adormecidos. — Vais vingar teu amigo? — perguntou Inverno. Coturnos bem amarrados. Ele e o quinteto vindo dos infernos! Ele e Dom Afonso. Câmaras frigoríficas. Servis. — Lobo não é um inimigo fácil. Os olhos de Inverno acenderam-se. preciso que a vigiem. aparecia para checar se o esconderijo continuava seguro. Lançou mais um olhar para os vampiros imóveis. pois vou me ausentar por um ou dois dias. Guilherme. César não podia morrer. Sempre precisava da força vampírica para removê-la. Iria tirá-la das sombras do medo. Não daria mais aquele troféu a Dom Afonso. Estavam nos fundos de uma velha fábrica abandonada. Uma fábrica de conservas. Só assim a teria para sempre. Teria de fazer dela uma guerreira. completamente empoeirada. Eliana estava internada. como ordenara. Tenho que cumprir uma missão. Cuidem dela. sem traços de humanos zanzando pelos cômodos. Tiraste-nos da beira do rio. Entorpecido. Lutava entre a vida e a morte. Abri uma trilha. Estou mais forte. — murmurou.

amigos. ó Baptista. Seu lado vampiro estava cada vez mais forte. Passou a mão pelo cabelo. de tecido pesado. fazemos. Tiago abriu o quarteto que o protegia. Fiquem alerta e defendam a toca. — Como dizes isso. Inverno grunhiu. — Sabem que o desejo do mortal é nosso desejo. — Vem. Com ele assim. Momentos de paz. Manuel e Fernando chegaram ao cemitério. lentamente. Quando completaram o curso de mergulho e compraram o primeiro equipamento para curtir o hobby. Dom Manuel? — O cemitério. Fernando. e o cheiro característico do mar chegava ao nariz. — Acham que vou atacar o menino? Ah. está colocando a toca em perigo. O cemitério. também sinto-me mais forte. Quando eram adolescentes e brincavam na areia da praia. Não haverá batalha. Viam a luz do aglomerado distante. os vampiros e toda aquela confusão. — Mas se tu sais. A decisão estava tomada. Não temos desejo.. na maior parte do tempo preenchida por imagens do passado. Momentos com os amigos em Amarração. tornava-se assustador. Uma garota com perfume adocicado cruzou seu caminho. Tiago deu as costas. Farei dela uma vampira forte e com ela passarei meus dias. Os vampiros apagaram os olhos enquanto o rapaz desaparecia atrás da grossa porta. e essa pessoa não vive mais. O estômago ardeu. Grânulos de areia subiam. Tinha bastante gente na rua. Farei com que Tiago volte atrás em sua decisão. Quero deitar as garras no couro de Sétimo. O céu estava coberto por nuvens e um vento frio varria o chão. Mas não vos aborreçais. . Acordador e Espelho saíram.. Um riso gutural tomou a câmara. Atacá-lo seria expor-me ao Sol. Guardem o covil. — os olhos do vampiro congelante apagaram-se e. — Do que ris. sobretudo preto. Aquele fedelho terá um adversário à altura desta vez. Só uma pessoa na Terra iria até o inferno para destruir Sétimo. vampiro. Como tu. Não haverá luta. Vou sair para resolver esse impasse. e Fernando. quando fechava a expressão. Trarei Eliana para renascer para a vida eterna. apontando um dedo para o rosto do robusto adversário. Cheiro forte de parafina queimando. pois só assim estará reparado o mal que começaram. serão devolvidos à beira desse rio que falou. vem comigo. aparecendo para Inverno no meio do grupo. Sei como pôr fim a esse infortúnio. Até que eu mude de idéia. Se minha vontade é tua vontade. longe dos monstros da sua laia. Esse foi o aviso. amigo. depois de encontrarmos um lugar seguro. Próximo à fábrica. havia uma encosta recoberta por mata atlântica. Tinha os caninos prolongados e a expressão agressiva. Nada mais me importa. Quando a celebração acabou. Sonhos. Se Sétimo descobre que estamos aqui. Dom Fernando. ergueu as narinas e aspirou fundo o ar da noite. Não tive chance de fazer a César o que farei a Eliana. sonhos simples. Estavam com as mesmas roupas de quando seus corpos foram va-porizados pela bomba nuclear. couro cabeludo à mostra. expondo os dentes pontudos. desobedeces ao comando. Manuel. de cabelos curtos e ondulados. Cheiro de sangue. com uma jaqueta de couro preto. Acordador. Tiago passou a missa calado. César. fazendo um sinal para Fernando. vem e nos des-trói. Eliana. — Tiago disse para guardarmos a toca e ficarmos alerta. Mãos para trás. Olavo. vamos ao cemitério. — explicou o vampiro. Tiago chegou a olhar para trás. confuso e com medo de nos liberar para destruir Sétimo. foi o primeiro a deixar a igreja. O perfume desaparecendo. Serão nossos protetores e. Tiago. essa é boa! Sabem que não posso. Rumou para o pronto-socorro da cidade. Fernando era forte. insatisfeito. A caçada ficaria para depois. As palavras proferidas pelo padre chegavam pela metade à sua mente. — Rio porque acho essa situação engraçada. Manuel? Do que ris? Manuel caminhou até o centro da roda. restando apenas aquele recender hipnótico. Então. justa em seu tórax largo e firme. — Que procuras. Miguel? Queres confrontar-se com teu irmão! — Que é desejo nessa condição? Se Tiago diz. Caminhou por cinco longos quarteirões. com um sobretudo recobrindo as roupas escuras roubadas do trem cargueiro. não haverá luta. Graças à tua raça maldita meu melhor amigo está morto e minha amada está nas garras da morte. Mas não quero voltar à beira do Hades sem uma boa briga. os dentes voltaram à normalidade. cala-te agora. negro. Me desfaria em cinzas. o baixinho atarracado. Estavam afastados da cidade. Gentil abaixou a cabeça e comentou: — Que passeio chato viemos fazer. Sangue. silenciosamente. — Cala-te. Nenhum vigia.Guilherme franziu o cenho.

seguido por Espelho. Não fazia sentido. Tiago tirou o sobretudo: ela deveria estar com frio. com a sonda de soro conectada ao braço. Pôs as mãos. não podia confiar a vida da amada àquelas feras. Hematomas no pescoço e braços. Encontrou mais uma com restos de flores com o propósito de enfeitar a cova. Como? Se a enfermeira tivesse olhado para fora. abandonam a Aventura e voltam para a Terra dos vivos. A pele de Eliana arrepiou-se. Tomou um susto. Um barulho chamou a atenção da enfermeira de plantão. Debruçou-se sobre ela e beijou-lhe os lábios demoradamente e recostou sua cabeça no chão. — Acorda. ao ver o vampiro se levantando. havia bastante gente precisando de atendimento. perguntou: — Só isso? Só um chamado? — Ora. foram trancados na caixa de prata. Sabia que não mais precisaria temer pela vida da amada. Manuel percorreu alguns metros do corredor principal. Um barulho vindo do túmulo. por duas fileiras. Não era seguro para ela ficar com os vampiros do rio D'Ouro. Olhos cerrados. A agulha arrancada. pois! Até parece que nunca me viste acordando os mortos! Basta um chamado. Caminhando em direção ao odor do defunto. — Que quer aqui. algumas esparramadas e as pétalas perdidas sob os castigos das intempéries. Uma mancha de sangue. só poderia ser o homem que procurava: César José Golpin. Desviaria do pronto-socorro. Encontrou Eliana na enfermaria. Suspirou. filho. vieram parar nas presas de Lobo. Havia encontrado o túmulo que buscava. Estacou em frente ao novo sepulcro. No meio do caminho para a fábrica. Voltava para sua mesa quando notou o leito vazio. Caminhou pelos corredores. Um ruído. O baixinho repetiu a operação. Que destino! Fugiram de Osasco para se afastar do perigo das crises de Sétimo e. em frente à boca. desta vez. Movimentou os lábios. Faria um bate-volta de táxi. Visivelmente doente. Tantas aventuras! Tantas escapadas! Sorte que Tobia não haveria de existir mais.. Ergueu a narina. Lobo matara César e poderia arrastar Eliana para a cova. Apesar de tê-los visto servis e prontos para lutar a seu lado. Lágrimas brotaram dos olhos do vampiro. Encontrou outra cova enfeitada. O soro vazava no chão. refazendo o caminho. Manuel abaixou-se. Não era o defunto que queria. Numa rua afastada. Ela foi até o meio da enfermaria. Um vento frio e cortante invadia o recinto.Espelho rompeu a grossa corrente que selava o terreno. Os lábios haviam se contraído. Manuel foi o primeiro a entrar. — Escuta! — chamou Acordador. irmão? — Salvar-nos do tédio. A pele estava amarelada. em posição de prece. um pouco mais murchas. Tiago separou-os. abandonando o plano original de levar Eliana para o esconderijo: levaria para o hotel. Uma quantidade tímida de sangue enegrecido brotou da ferida. no retiro. Uma máscara com oxigênio. tamanha a instabilidade que a mulher apresentava. desferiu um talho no próprio pulso. . Queres ficar confinado naquele calabouço empoeirado? Venho fazer o que faço melhor. Não era o que queria. ludibriados inclusive por Sétimo. as flores. mas nada suspeito. pressionou a ferida e extraiu mais sangue. Fernando apurou os ouvidos. quando. como se ela recusasse o que recebia. acorda e vem pra fora! — gritou. talvez tivesse visto um estranho afastando-se com uma mulher no colo. talvez tivesse visto um cadeado esmigalhado no chão. Tiago mudou de idéia. As cortinas que separavam os leitos esvoaçavam. As flores estavam secas. Era hora de chamá-lo. Tiago adentrou o pronto-socorro. O morto estava acordando. Olhou para algumas sepulturas. encontrou uma sepultura recoberta por flores frescas. Tiago arrancou a agulha da veia da moça. buscando cheiro de defunto novo. a não ser que estava destravada. A janela fora destrancada. Abraçou-a ternamente. Era vazada. Verificou a portinhola que trancava a sepultura. Envolveu-a com o casaco e tomou-a no colo. Um filete de sangue desceu pelo punho e veio manchar o lençol branco. Fazia tanto tempo que não via Manuel acordando gente que realmente havia se espantado. Correu de volta à janela. O nome grafado na lápide. Leu na lápide. a roupa negra e a pele excessivamente pálida. Continuou caminhando. Um falar alto. Muitos séculos os separavam do último e fatídico confronto. Por sorte. Um dos pacientes reclamava do frio. Leandro de Almeida. Espelho.. tirando o irmão das lembranças. Estariam juntos para sempre de agora em diante. Caminhou. Mulher. Ergueu a narina e aspirou prolongadamente. e logo esqueceram o rapaz. com a unha afiada. Espelho calou-se. Chamava a atenção pelo porte avantajado. deitou-a no chão e. Era hora de acordar os mortos. Como eram bonitas! A maioria tinha a imagem dos defuntos cravadas em placas de mármore. Deixou umas poucas gotas pingarem na boca entreaberta da mulher. Lembranças voltando à mente. Quando estas coisas escutam minha voz. Se tivesse examinado com maior cuidado o terreno.

.Poderiam ter dado falta da paciente. Rumou para a avenida principal do Guarujá à procura de táxi. Era melhor evitar confusão.

Os helicópteros estavam com os motores ligados. Ao que tudo indicava. Estava particularmente obsedado pelos relatórios que vinham das cidades costeiras. inúmeras referências sugeriam atividades vampíricas. Estavam seguindo para o Guarujá. Brites saiu da sala. material de gente que caçava essa raça. Entrou na aeronave e. sangue drenado. Quatro aparelhos militares deixaram o chão. cidade da Grande São Paulo. — Vamos em cinco minutos. tão violento e numeroso quanto o verificado no litoral. Juntou uma verdadeira biblioteca sobre o assunto. Brites fez o sinal da cruz e pediu a Deus que colocasse os vampiros em seu caminho. deu ordem para decolar. A fera não estava sozinha. havia muita brincadeirinha nos corredores. Relatos de populares afirmavam ter visto uma verdadeira matilha de criaturas estranhas. Os soldados novatos não acreditavam naquela história de caçar vampiros. sobre corpos encontrados. quanto mais acreditavam. Brites estava convencido de que teria de dobrar-se aos meios de caça mais arcaicos para conseguir resultado contra os vampiros. após caçadas e caçadas sem sucesso. onde. Isso se repetia em Osasco. agora o lobisomem trilhava pelas praias. as brincadeiras foram perdendo a força. — Estamos prontos para partir. Enciclopédias dedicadas às criaturas sugadoras de sangue. mais crescia o medo de se defrontarem com as criaturas. descreveram um semicírculo e embicaram em sentido ao mar. corpos examinados nos IMLs. e. No entanto. corpulentas e semelhantes a lobos. boletins de ocorrência e queixas de desaparecidos surgiam em profusão. Brites estava no comando de uma base em Santos. . As pistas cessavam no Rio Grande do Sul. que tinham participado de outras caçadas. Gente que testemunhava ter visto lobisomens. Os soldados passavam ávidos os olhos sobre documentos. tratados. Seus homens. soldado. perfurações no pescoço. Lobos. aguardando o tenente. Mas depois do contato mais profundo com Brites e os soldados veteranos. Assim que ganharam altura. mortos com ferimentos bizarros. dedicava-se ao estudo dos vampiros. evidentemente. eram instruídos a ingerir ao menos dois dentes de alho cada um. As informações agrupadas tomavam um vulto assustador. Nos últimos dias. no estado de São Paulo. Dos centros litorâneos. Estavam se convencendo. antes das caçadas. No início. assim que se acomodou. se concentrava outro ninho de vampiros. Mortes violentas.CAPITULO 51 O tenente Brites recebeu o novo relatório. senhor.

Incompreensivelmente. Tiago irritou-se porque. deixando o bosque e aparecendo para os demais. Sétimo estava roubando muito dinheiro. pareciam garagens. subjugando-o na frente do exército de Sétimo. Tiago desviou-se com velocidade e atacou-o pelas costas. Tiago. Olhos sobre ele. sem lua. Estava despreparado. rapidamente desprendendo-a dos ossos do pescoço. Pulou para o chão. provavelmente esqueceu que os de sua raça não mais precisavam de oxigênio. Não queria um confronto prematuro. O exército do vampiro. Um cutucar em sua testa anunciava que Sétimo estava próximo. surgindo a silhueta mirrada de Sétimo. Tragava um cigarro e deixava espessas nuvens de fumaça subirem ao céu. Sentiu uma movimentação leve no cutucar. As luzes em frente à mansão se acenderam. Tiago sentiu a pele arrepiar. Graças ao pacote de facilidades providenciado pelo estranho homem que lhe aparecera no pesadelo. Um vampiro desprendeu-se do círculo que havia se fechado ao redor de Tiago e partiu certeiro para cima do intruso. Vestidos de negro. escuros. Uma mansão e mais soldados. pois não conseguia livrar-se da incômoda situação. que era um pouco mais experiente. Frio. Era precaução. Tinha que alcançar Sétimo. Exceção era um Landau preto. Viera apenas para isso. Dezenas de vampiros já rodeavam os dois e riam. Jovens vampiros. o novato queria apenas exibir-se. moendo-lhe os ossos. Com a outra mão. Um cutucar surgiu na sua nuca. o vampiro era capaz de sentir Sétimo. como o de um gato enraivecido. O rapaz sentia a irritação crescer a cada movimento. Deveria ter mais de trinta componentes. iria fazer o assassino pagar. Era hora de mostrar ao novato que tomara sangue dos bons. Pensava nisso quando Rafael o agarrou pelo pescoço e aplicou uma gravata. Antes que outro acudisse o covil e enfrentasse o ousado invasor. e sentiu os músculos enrijecerem. quando tentou imobilizá-lo daquela forma. O golpe. combatia o invasor com as mãos limpas. O vampiro caiu desfalecido. Tiago deixou os olhos acenderem. O vampiro. Virou-se rapidamente. de imediato. Grunhiu enraivecido. descendo de forma assombrada. Eram três compartimentos grandes. nem mesmo precisava se preocupar com falta de ar. Num canto da propriedade havia oito carros. cravando as unhas afiadas. Tiago evocou toda sua energia. Concentrou-se no vampiro do capô. serviria para tirá-lo de combate por alguns dias. O único som audível era o do farfalhar do pesado tecido de seu sobretudo. aparentemente. Sétimo estava acordado. correndo ligeiro e grudando-se ao muro. que após treinamento árduo com Agnaldo e os professores de artes marciais. trajando apenas calça jeans . desferiu repetidos golpes no tórax. desvencilhou-se do braço do oponente sem que ele percebesse ou tivesse afrouxado o golpe. haveria uma mansão do outro lado do muro. o demônio. o céu encoberto por nuvens. com um vampiro sentado no capô. O vampiro correu alguns passos e tomou impulso. Tiago caiu encurvado. Há quanto tempo havia deixado o vampiro? Menos de um mês! E o maldito já havia se instalado numa fortaleza. mas porque devia uma coisa ao amigo César. Sétimo estava incapacitado de sentir sua presença. O vampiro saltou para cima de Tiago. a maioria importados e caros. Certamente. Evocou sua força vampírica. Jovens. sem deixá-lo escapar. afundando o punho no peito do adversário. Duas portas de correr ergueram-se junto ao Landau. Esgueirou-se por trás de algumas árvores que compunham o bosque particular. Estaria sempre preparado para o inimigo. Mas não iria ao covil para um combate. Ambos rolaram para o gramado. mas um vampiro o observava. com sentinelas nas extremidades. Tiago praguejou. tivesse lhe dito apenas verdades. As presas brotaram. estendeu o braço e agarrou agressivamente o vampiro pela pele do rosto. chutando o adversário no abdome. Muito mais do que os trinta que imaginara! Muito mais de sessenta! Sétimo estava recrutando jovens com velocidade impressionante. não parava de sair gente. Saltou para cima do muro e pairou sobre o arame farpado. fatal para o ser humano. Quando Rafael perdeu a capacidade de reagir. Tiago recebeu um chute forte no joelho que o fez dobrar a perna. Uma permaneceu fechada. um corredor abriu-se no círculo. pendurada apenas por pele e músculos. Tiago chegou até um muro alto. Já que não podia devolver-lhe a vida. Rafael aplicou um novo golpe. Tinha de estar preparado para um confronto. Das outras. Maldito. O vampiro que detectara o intruso era Rafael. de vidros filmados.CAPITULO 52 Tiago não teve dificuldades para encontrar o novo covil de Sétimo. Tinha se distraído um segundo. Não podia ver. foi ao chão. Agarrou a cabeça do vampiro entre as mãos e girou. Se o homem do pesadelo. O vampiro havia desaparecido do capô. não sentia dor. O vampiro estava sem camisa. Não viera para lutar. como se algo atravessasse sua carne e seus ossos. Em seguida. Tiago se deixara surpreender. No entanto. Ouviu um grunhido. Silêncio. A noite estava escura. Transformou-se em sombra.

— Acho que não veio aqui para destruir os meus. Paola lançou um olhar penetrante para o intruso. ainda transmutadas. Endireitou o corpo. Leva-me ao assassino do meu pai. Tiago inspirava prolongadamente. O resultado era até melhor do que o esperado. relaxando. transmutando-se. um monstro musculoso que. — Pai! Arremessou o pano ao chão. Enfiou a mão numa dobra do sobretudo onde havia prendido uma camiseta rasgada. veio? Tiago meneou a cabeça negativamente. O maldito cumpriu sua promessa. Os olhos vermelhos apagaram-se. Deu uma volta sobre o próprio corpo. Tiago e os vampiros recuaram alguns passos. — Foi morto. Sétimo abraçou Tiago pelas costas. e o corpo triplicou. chegava a três metros. Tiago. apanhou no ar o pedaço de pano. uma muralha assombrada. mas não consigo sentir o maldito. com voz de trovão. provocando uma ventania momentânea. A pele tornou-se escamosa. as orelhas tornaram-se pontiagudas. Não pude impedir. meu primeiro e único desertor. Sétimo enfiou a camiseta no nariz mais uma vez. ora. o corpo encurvado. Era isso que queria. general?! Por que deixou que matassem meu pai?! — gritou o vampiro. Eram Paola e Aléxia. mas satisfeito. Sangue. vampiro. ora. O rosto desfigurou-se. te levo até a toca do maldito. enrijecido. Sétimo caiu de joelhos e enrolou-se. aproximando-se do rapaz. Sétimo parecia ainda mais pálido. — Como?! Por que deixou. A pele das costas do vampiro enraivecido se rompeu. Voou para Tiago e empurrou-o com violência. A ira de Sétimo.escura. pronto para o combate. Mais uma vez. — O que aconteceu com meu pai? — bradou o vampiro. Foi ele quem matou César. descontrolado. com expressão indagativa. com sangue seco. Os olhos acenderam-se. Me enganou. Ao se deparar com Sétimo. Sabia que o obstáculo era intransponível. As feições. — Não sei o que o diabo me fez. dando lugar a longas asas de morcego. Apenas para não restar dúvidas levou o sangue seco até as narinas e estremeceu. — Lobo. Uma garoa fina começou a molhar o gramado. — Ora. em pé. semelhantes às de morcegos. — Diz! Diz quem foi! — rugia o vampiro. A maioria temeu a silhueta monstruosa que ia surgindo. o corpo estremeceu levemente. arquejante. Vou agora! — sentenciou. Sétimo. abrandaram. Um odor fétido tomou conta do ar. enfurecido. esburacada. . tomava a forma agigantada. apertou-o firmemente e decolou. o único dos sete vampiros arrancados da caixa de prata que tinha o poder de fazê-lo temer o confronto. — Dom Afonso! Maldito! Vou vingar a morte de César. As asas se estenderam lentamente e farfalharam repetidas vezes. O corpo pesado abriu outro corredor no círculo. — Vamos. e arremessou-a para o vampiro. e o corpo mirrado inchou. se não é Tiago. Nem mesmo você. Tiago viu duas vampiras findas se aproximarem de Sétimo tentando acalmá-lo. mais terrível a cada segundo. Poucos ali tinham tido a experiência de ver Sétimo tão enraivecido. Tiago recolocou-se de pé.

Viram-na brevemente. não para bichos. Pássaro é que não era. Ainda o temos no radar. mas tão rápido como apareceu. voltavam de mãos vazias. As piadas acabavam nas delegacias quando os investigadores do Departamento de Homicídios se deparavam com ocorrências muito estranhas. O piloto acionou o rádio. equipamento de primeira. Alguns mascavam alho. saia das nuvens. Adeptos do movimento gótico. civil e federal. Para tanto. que se encarregava de repassar as informações para o tenente Brites. quase tudo importado. nem helicóptero. Era o oficial de maior experiência naquele assunto. a lista que servira de chacota por dias a fio. ainda mais tratando-se de captação de OVNIs. Exclamações de surpresa. na maioria. Um pterodáctilo? Impossível. — Está vindo em nossa direção? — Sim. Baixaram mais ainda. a coisa surgiu. As patrulhas. muita munição. Um certo nervosismo e um burburinho crescia entre os soldados. — O que é? — Um objeto voador não identificado. Céu escuro. Alta tecnologia. como dentes de cão. Calados. senhor. — Podemos segui-lo? — Talvez. Isso aqui foi feito para equipamentos. Sem combate. senhor. O piloto obedeceu. Na região de Osasco. — Deus do céu! Que foi aquilo? — perguntou o tenente. pode desaparecer. senhor. A Grande São Paulo voltara a ter rondas noturnas feitas pelos caminhões do Exército. — E para nos alcançar? — Cerca de trinta segundos. enquanto foi banhada pela luz dos aparelhos. aproximando-se rápido. Os pilotos conversavam com uma torre de controle de tráfego aéreo. Há muito os soldados não sabiam o que era guerra. — Que droga é essa. Não é aeronave comercial. Tudo era enviado para Quitaúna. O range do aparelho é pequeno. — Um pássaro? — Muito grande para ser um pássaro. Perfurações duplas. Qualquer um que tivesse informação a estava direcionando para o Exército. paralelas. colando o rosto no vidro. Era algo assombroso. Dezenas. Estavam calados. soldado? — inquiriu o tenente. sem ocorrência de vampiros. Carapicuíba e São Paulo. pintadas de verde-oliva. Era algo pequeno para os aparelhos de controle terrestre. senhor. Sem razão para tomar chá de sumiço. Comunicava-se com as outras aeronaves: também tinham captado o OVNI pelos radares. tenente. — Baixe a aeronave. Os pilotos conversavam freneticamen-te. nem avião. Saíram das nuvens. Estava chegando. Apenas o som barulhento do motor do helicóptero explodia em seus ouvidos. Repentinamente. até aquele momento. A criatura alada não pretendia atingir as aeronaves. Jovens. A maioria deles tinha armas adicionais. Tinha uma operação bem montada. Tudo estava na lista fornecida pelo Exército. — Quanto falta para o Guarujá? — Três minutos. de costas contra as paredes metálicas. combatendo em campo o inimigo vampiro. não causou um acidente. — Temos algo na tela. Tinham agora que lidar com um inimigo sobrenatural. Radares sensíveis. pois passou rápido como flecha pelos helicópteros e. por um triz. A coisa estava vindo da direita e ia para a frente do esquadrão. Os soldados vinham enfileirados. senhor. O tenente Brites conseguira total apoio das Forças Armadas. fora dado poder ilimitado para a operação. as queixas de desaparecimento aumentavam. Corpos sem sangue. grande. Os caminhões e as viaturas do Exército não rodavam pelas ruas à caça de gente desde o fim do regime militar. Duas aeronaves eram dotadas de potentes metralhadoras de grosso calibre e outras duas tinham lança-foguetes. Alguns vinham para a frente. metralhadoras compactas. — Um monstro. Estavam conectados às polícias militar. As nuvens dificultavam a visão. tirando todos daquele estado letárgico. O Brasil estivera à parte dos conflitos internacionais por décadas. Barueri. senhor. Somente os helicópteros captavam a criatura. onde estavam os vidros. cada qual com seu fuzil. .CAPITULO 53 Os helicópteros cruzavam as nuvens em alta velocidade.

repentinamente. e com as baixas também. senhor. Era nisso que estávamos em desvantagem. Qualquer bolinha que piscar nessa tela. — Vai logo. — Vamos. — Desça mais. Não viam a criatura. empolgado. você me avisa. Estavam a cerca de cinqüenta metros de altura. O piloto obedeceu incontinenti. O motor rugia mais alto. — Vamos perdê-lo. Continuavam em linha reta. — murmurou o tenente. A criatura ganhava distância na escala do radar. O coração batia disparado no peito dos jovens. sargento. Hoje vamos matar esses calhordas para honrar as calças que vestimos. mas prédios e luzes de antenas se aproximando. você vai atrás daquilo. Para poucos era a primeira vez com Brites. Enquanto respondia ao tenente. Vamos ver se aprendemos algum truque bom naqueles livros malucos. Brites calou-se. . Prata é também o único metal que o vampiro não consegue destruir com as mãos. Por um breve instante. isso pode sumir. e já era possível notar o chão. — Senhor.— Desvie. Os soldados tomaram seus assentos. Os outros já estavam acostumados com as fortes emoções. — Impossível. a maioria checou as armas e as munições pela enésima vez. o governo está gastando uma pequena fortuna com esses brinquedinhos aqui. a criatura fechou as asas e deixou o corpo despencar. prendendo os cintos de segurança. mas vou desobedecer. Os primeiros agrupamentos de casas nos bairros da periferia do Guarujá começavam a surgir. — Desça! — gritou Brites. O piloto orientou as demais aeronaves e começou a perseguir a criatura. Preparados para pousar. A criatura desapareceu da tela do radar. tenente. — E uma ordem. ultimamente. O piloto acreditava que alcançaria o objetivo quando. tenente. Por isso. entusiasmados pelo tenente. — Não podemos detê-lo. Coisas estranhas. As outras aeronaves sigam para o destino e procurem pousar. — Tenho que subir. Balas de prata matam lobisomem e machucam feio os vampiros. puderam novamente visualizá-la: a envergadura era inacreditável. Estamos chegando ao perímetro urbano. Queria esclarecer aquela aparição.. Estava nervoso.. — Desça ou vamos perdê-lo! — Não posso. desaparecendo da vista dos homens. tenente! As luzes da cidade ficavam cada vez mais próximas. sargento. O que seria? Era um deles! Só podia ser. o piloto foi obrigado a dar uma guinada violenta para fugir de uma árvore. Os holofotes estavam apontados para frente e a luz tentava alcançar a criatura. estavam relacionadas aos vampiros. — Pode ser um vampiro. O helicóptero ganhou aceleração. — Preparem o novo kit caça-vampiros com que presenteei vocês. Os soldados responderam com um grito. junte-nos aos outros. Brites encarou o pelotão. desça esse helicóptero! — Desculpe. senhor.. Não vou arriscar a vida de civis nem dos homens desta aeronave.

Seriam o banquete. começou a atar os pulsos das mulheres para que não escapassem. Era o lobo mais forte e poderoso depois de Afonso e esperava a oportunidade certa para acabar com o líder e tomar conta do bando. Começaram a gritar quando os olhos brilharam. . um vampiro que dispensa apresentações. cada um com duas vítimas. Protestos. Era sua vingança contra o vampiro português que o retirara de sua saudosa vida ordinária. Eram cinco mulheres e um rapaz. saborendo calmamente a escuridão entre as árvores silvestres. rosnavam ameaçadores. mas trouxe alguém que gostava do meu amigo. os olhos ardendo como brasas. Elas choramingavam. e dentes longos surgiram nas bocas daqueles esquisitos. A cabeça do vampiro não lhe pertencia. Olhou para o grupo capturado. à beira do D'Ouro. Passava um pouco das três horas da manhã. iniciando a transmutação. Com um rolo de fitilho. Traziam humanos para ser servidos ao bando. Um farfalhar de asas encheu a noite. fazendo os galhos estalarem. com o passar dos dias e a ausência do inimigo para reclamar seu morto. Ele está aqui. Afonso pediu silêncio. As luzes dos faróis brilharam na estradinha. Afonso rugiu. olhando para o bando sinistro que se agrupava logo à frente. Diante dos olhos incrédulos dos vampiros e também dos olhos esbugalhados de Dom Afonso. No meio da transformação. arrastando duas garotas. Mulheres chorando. Gritos. Tocou o chão com suavidade. Isso não vai ficar barato. Olhavam para a fogueira e para aquela gente estranha. Havia se instalado em local estratégico. impossibilitando um ataque sorrateiro pela retaguarda. notando a aproximação do veículo. esperava o ataque vingativo de Tiago. pousou no meio da clareira. O homem saltou da árvore. — É Tiago. Tanto que. Era a pick-up com seus pupilos. foram levantando e formando um semicírculo onde uma picada desembocava. Tomando por base o último confronto. leves e gélidas. Leonardo faria com que os demais não interferissem. Afonso se lembrou de Tiago. — Quem é você para me desafiar? Todos os vampiros têm medo do Lobo. Hélio surgiu no início da trilha. Caía uma garoa fina. E mais forte. Os filhotes do Lobo tornaram-se ariscos. Fechou os punhos tão rigidamente que os ossos estalaram e doeram. aos poucos. Um barulho intenso desprendeu-se das árvores em que Tiago estivera alojado. Aos poucos. com um paredão de pedras às costas. de cara fechada. Afonso despertou do sonho rápido ao ouvir um veículo se aproximando. Estavam um pouco afastados do Guarujá. com pêlos espessos surgindo na pele e a boca se agigantando. gajo. Sua matilha estava ao redor do fogo. As folhas compactas impediam delinear o vulto. se alvoroçou. No entanto. desacordado. e todos seriam pegos pela transformação involuntária. os vampiros. Tiago apontou o dedo desafiadoramente. Eram vampiros! O grupo fechava o cerco sobre as vítimas. Movia-se lentamente. em nenhum momento naquela noite. Tiago retesou os músculos e cresceu desafiadoramente aos olhos dos vampiros. Se Lobo confrontasse o forasteiro e levasse desvantagem. — Na verdade. tu mataste o pai de um amigo meu. Leonardo manteve-se afastado. mas foi interrompido. vampiro. O bando.CAPITULO 54 Afonso levantou-se da beira da fogueira. Um par de brasas incandescentes surgiu no alto de uma árvore. via-se nas cercanias do castelo. Concentrou-se: lá estava Dom Afonso. Tiago notou que vários pares de olhos acenderam-se. — Quem sou? Eu não sou ninguém. Uma criatura assemelhada a um morcego. Sabia também que não moveria um músculo. Depois de ter liquidado o maldito humano. Traziam comida. Fechando os olhos. Outros dois vampiros vinham atrás. Precisavam reabastecer os corpos com sangue e energia vampírica. vampiro. mas esqueces que sou assassino feroz! — gritou Lobo. Talvez o pavor fosse tanto que os gritos das mulheres cessaram. relaxavam e desciam a guarda. O vampiro estava sizudo. Nenhum deles estava transmutado em lobo. Era Tiago. uma sombra bizarra. És um guerreiro. Repentinamente. passou a flutuar. Só viera até a matilha para que Afonso soubesse que fora ele quem providenciara sua morte. com gotículas que flutuavam ao toque suave do vento. Aguardavam Hélio e mais dois vampiros com o resultado da caçada. — Tu mataste meu amigo. Era por ali que os vampiros chegariam. Afonso era maior que os pupilos. com a refeição viva e o sangue quente. Logo seria noite de lua cheia. vermelhos. Sabia que o adversário era especialmente perigoso e que tomava a forma de lobisomem. a expressão do Lobo era indagativa. Iria conduzi-los à sua maneira. Não demoraria. Uma das vampiras adiantou-se aos capturados. asas gigantescas escaparam da copa das árvores.

Antes de embrenhar-se na mata. ganindo de dor. desaparecendo no oceano. engasgado. — VOCÊ MATOU MEU PAI!!! — gritou. Evocou energia para autocurar-se e tomou uma postura ameaçadora. acordaria na manhã seguinte acreditando ter sofrido o pesadelo mais estranho de sua vida. O homem desmaiado continuou no chão. mantendo-o preso entre os dedos. exibindo-o aos membros da matilha de Afonso. — murmurou Afonso. Sabia que o líder perecia. soltou Lobo. Os lobos afastaram-se quando Sétimo voltou ao solo. Sétimo grunhiu de maneira assustadora.As mulheres raptadas começaram a gritar descontroladamente. Lobo levantou-se cambaleando. Apanhou Lobo com as mãos. Eram novatos. Enfraqueceriam dia após dia. Vingança é a coisa mais querida pelo meu coração maldito. Tinha mais três lobisomens ao seu redor. Pereceriam nas mãos dos caçadores que haveriam de surgir. Estava voltando para casa. . Logo bateriam à porta de seu covil pedindo proteção. Queria estar ao seu lado quando ela despertasse. silencioso. tentava conter o sangue que esguichava de um extenso ferimento. mas elas não hesitaram em levantar e correr. Ponderou sobre o passo seguinte: não mataria os vampiros. Sétimo desferia seu primeiro soco. provocando medo nas vítimas. Onde estava Tiago? Tinha desaparecido. e largou a cabeça da fera. Sétimo abriu e farfalhou as asas.. não pode ser. Foi algo tão súbito. tão repentino que todos os lobos ao redor ficaram paralisados. de coração. Sétimo agarrou a cabeça e tomou-a na mão.. Transpôs cerca de dois quilômetros de água. Os vampiros deram um passo para trás. Leonardo observava tudo atentamente. Espero. Desejava ter torturado muito mais o maldito. Estava morrendo. caindo de quatro patas no chão.. que tua morte seja dolorosa. o corpo peludo e agigantado. olhou para trás. Lobo estacou e silenciou. sobrevoando. Tu e aqueles desgraçados me entregaram ao diabo. o vampiro terminava sua mudança. mas o ódio era tamanho que tomava conta de seus movimentos. garantia de que o inimigo permaneceria morto. descrevendo um arco na altura do queixo do adversário. Sétimo abaixou-se. Eles morreriam sozinhos. Abaixou o troféu. Sétimo alinhou o curso. gajo. Tiago cortou o fitilho que prendia as mulheres e ordenou que fugissem. Se tivesse sorte.. arremessando-o metros adiante. Tinha ossos quebrados. Que demônio era aquele?! Tiago deu lugar ao vampiro alado. Passou rasante por cima da clareira mais uma vez. que afundou. Dirigiu-se rapidamente ao mar.. urrando vitorioso. Sua missão estava cumprida. Avançou para atacar. Iria tirar as mulheres dali e abandonar Sétimo para trás. Com os dedos.. Decolou e cerca de vinte metros acima. Decolou levando a cabeça transmutada de Afonso. contraiu um dos braços e arremessou-o contra a fera. Lobo soltou um som estranho. poupando-a do desconfortável translado até São Paulo. Ouviu urros. Enquanto Sétimo tocava o solo. Sétimo? Não. Os vampiros em forma de lobo afastaram-se mais. com a voz afetada pela transformação. gingando o corpo lateralmente até alcançar o lobo caído. — Sé. O golpe acertou Lobo lateralmente. Os olhos continuavam chamejantes. com a garganta cheia de líquido. O lobisomem bateu contra o chão. pressentindo que algo estava errado. Lobo levou as garras ao pescoço. então o corpo caiu pesadamente em direção a Sétimo. Correu até a picada para certificar-se de que nenhum vampiro seguia as mulheres. e sua cabeça de lobo rolou pelo chão enlameado. — Vingança. Tinha deixado Eliana no hotel.

Como temia! Era o Exército brasileiro. Luzes sobre as árvores. Um terceiro aparelho girava em círculos acima dos dois primeiros. O rapaz estava desesperado. Não sabiam o que estava acontecendo. O corpo do vampiro tombou pesado. Em menos de um minuto. um grupo de soldados surgiu à beira da clareira. Acabara de ver um soldado alvejar um vampiro na cabeça. Disparou o fuzil repetidas vezes. ainda em forma humana. Cinco estavam investidos da forma de lobisomem. Estavam sendo caçados! Brites fez um sinal para o soldado que empunhava a metralhadora. De cima do aparelho. Um lobo rugia feroz. não teria um grupo para ajudá-lo em suas pretensões. vivas. valente. botas estalando gravetos no chão. atingindo a criatura na cabeça. Tinha mau pressentimento a respeito daquela força organizada que se aproximava. Nem mesmo Leonardo apresentara-se para socorrê-los. Sua visão permitia enxergar claramente mesmo àquela distância. talvez os únicos que poderiam causar problema ou disputar a liderança do grupo dali em diante. sangrando. tentando localizar o vampiro Tiago. Leonardo embrenhou-se ainda mais na mata. O soldado esperou a vampira arrastar-se um pouco mais. gemendo e gritando. Os disparos haviam cessado. Fabrício recebeu o comunicado do tenente Brites. Era um vampiro mesmo! Deu dois passos para frente. Lanternas de fachos poderosos. Queria que os cinco lobos fossem destruídos pelos invasores. O som aumentava. Avisou pelo rádio. não sabiam o que fazer. o grupo de vampiros lobisomens ouviu o ronco forte que fez o ar tremer. Olhando para cima. O local onde a bala de prata ficasse alojada não teria reparo nunca mais. Luzes vasculhavam a mata. Aqueles lobisomens estavam mortos. Olhou para trás. O helicóptero estava estabilizado e deslizava lentamente para a esquerda. Os cinco vampiros transmutados eram os mais fiéis ao vampiro lobo. com os alvos em mira. tombaram com os primeiros disparos. Apertou o gatilho. Os demônios tinham uma capacidade fenomenal para se regenerar. passadas. Olhou em volta e detectou o inimigo. assemelhado a um rifle. Bam! Bam! Bam! Bam! Bam! O lobo tombou. O bom é que o vampiro permaneceu estático. que comunicassem aos demais. e o garoto firmou a mão na empunhadura. e demoraria muito mais para o dom vampírico regenerar a carne. Brites sabia que aquele resultado era temporário. Seriam detidos apenas quando os soldados em terra os alcançassem e alvejassem os malditos com as balas de prata. Não era um fuzil. Julgavam-se indestrutíveis. Deveriam apenas assistir. Era uma garota bonita. Eram fracos. Duas. Os ferimentos eram feios. Tão largo. Soldados. Eram vampiros novatos. Usava um binóculo com visão noturna. Os soldados no chão. distanciando-se dos outros vampiros. O helicóptero circulava a clareira. que evadira levando as mulheres. não se intimidando com a presença ameaçadora dos helicópteros. de grande diâmetro. Dois helicópteros surgiram acima da clareira. Estaria morto? Brites comandava o batalhão em terra via rádio. do contrário. estremecendo. imóvel. vibrando os tímpanos. Alcançou o primeiro parceiro e instruiu que se afastassem. organizar o contra-ataque e a destruição dos insolentes. Cinco. Explosões repetidas encheram de som a aeronave. cauteloso. cercando os vampiros. em forma de lobo. Não era hora de agir. Leonardo eriçou-se. Respondendo em sincronia. . As feras uivavam. Praticamente. abriram fogo. Apurou os ouvidos. O som produzido pelas aeronaves atrapalhava bastante. ganhando altura intimidante.CAPITULO 55 Não tinha completado três minutos desde que Sétimo desaparecera no céu negro quando. O coração do soldado batia disparado. enquanto outros permaneciam protegidos pelas árvores. disparos de fuzil para dar cobertura à equipe de terra. Uma vampira tentava escapar. pois acertara mais de cinco disparos no mesmo ponto. viu um helicóptero pairado a poucos metros. Contudo. Fabrício ergueu a arma. Graças a Deus! E graças às balas de prata! Estava assustado. com a aparência humana. erguendo agressivamente as patas dianteiras. Tiago impedira que reabastecessem o corpo com líquido quente que tomariam das veias das mulheres apanhadas por Hélio. o homem continuava vivo. não esboçaram reação alguma. eram agressivos. mas seu poder vampírico permitiu ouvir o som cadenciado. Tinha certeza de que acertara o branquelo no peito duas vezes. desafiando as máquinas. a não ser que se removesse o metal do corpo. Estavam morrendo. quatro estavam no meio da clareira. Nem metralhadora. Não tinham mais o vampiro-líder para organizar a retirada ou. sete criaturas jaziam. Fachos de luz varriam o chão e demoravam-se nas criaturas. Estavam em diferentes pontos. melhor ainda. As balas de prata provocavam extrema dor. que o punho de um homem entraria com facilidade. Era um cano. ainda assustado e perdido. Estavam mortas. Deixou o esconderijo. mas não deixaria que os demais fossem também. A mulher arrastava-se para a mata. Era hora de assistir. Estavam fracos. Imóveis.

aquelas criaturas tinham muito o que temer. larga o suficiente para abraçar um homem grande e gordo. ele disparou. especialmente projetados para aquele equipamento. Os outros vampiros. As criaturas foram enlaçadas em dois grupos e presas ao bojo dos helicópteros.de rosto atraente e pele excessivamente pálida. Viu os olhos da garota tornarem-se vermelhos. Empunhou a arma. A trama. envolveu o corpo da garota. Quando a vampira se levantou. De agora em diante. As quatro aeronaves sobrevoavam a área. Estavam aprendendo. Brites torcia para que estivesse ali o total dos vampiros capazes de se transformar em lobo. se encontrasse o mais agressivo. Uma desceu e pousou na clareira para recolher a equipe de soldados. Sua pele era marcada quando ela forçava e pequenos fios de sangue desprendiam para se livrar do trançado argênteo. Brites deixou um sorriso escapar. Uma nuvem de fumaça escapou pela boca da arma. foram presos por algemas de prata nos pés e nas mãos. não conseguia romper a peça que a envolvia. Por mais força que a vampira fizesse. Fabrício portava um lança-redes. fazendo menção de atacá-lo. Estavam completando a primeira missão bemsucedida. que atacara a delegacia em Roda Velha. dentre eles. onde submeteria as criaturas capturadas a estudos a fim de combater a atividade dos vampiros que se concentravam na Grande São Paulo. Fabrício arrepiou-se. . Ela encarou o soldado e soltou um rugido rouco. Esperava que. mais precisamente na área compreendida entre Osasco e Barueri. Tudo que sabiam era isso: a prata era o único material indestrutível contra os vampiros. Seguiria agora para Quitaúna. A criatura gritou e foi ao chão. Manteria o controle de patrulhas a distância. Cinco soldados envolveram os lobisomens em grossos fios de prata. Era assustador. temporariamente desacordados. como injetados de sangue em toda sua órbita. Os fios eram de prata pura.

ao que parece. . nada que eu sequer reprovasse e mantivesse oculto em favor da união do grupo. Você sempre foi perfeito. Ouço de tudo nas ruas. Sabe a que conclusão cheguei? — Você sempre foi perfeito. passaram a ser da sua conta. para me tirar a tranqüilidade. Ele está se preparando para alguma coisa grande. Nunca me aporrinhou. Tinha até desencanado desse assunto quando ontem. Sofia era assim. Dimitri. essa atividade paralela não é da minha conta. mas me vejo obrigado a comentá-lo..CAPITULO 56 Dimitri sentou-se na conhecida e confortável poltrona classuda do escritório. A conversa foi pouca. — Os negócios do Danilo não são da minha conta. Agora.. Não anda mais durante o dia.. mas. Dimitri? — inquiriu o corpulento chefe do crime. Dimitri. Se precisar de mim. mas começa a envolver gente da pesada.. faça bom proveito. O problema é seu. Sofia entrou na sala envergando um elegantíssimo smoking preto.. isso te diz alguma coisa? Está investindo o dinheiro para sustentar um grupo. — Dimitri. Estou te elogiando. Não interrompa. digamos assim. Uma fragrância adocicada entrou junto. O aviso é esse. — O próprio. — Sabe o que me assusta mais? O que me assusta é que você nunca pisou na bola.. Tantos anos de trabalho ao seu lado era um dos segredos daquela descontração. Que se foda o que está fazendo. Só não vai me enrolar com esse Danilo. Só peço que tome cuidado. Sofia parecia relaxado. Dimitri era um dos poucos funcionários do mafioso de Osasco que podia ficar à vontade na presença do chefe. Achei que fosse um passatempo qualquer.. — Você sabe que nesse nosso negócio o que conta é a informação. Sentou-se em frente a Matador. — Sofia fez uma pausa como se tentasse adivinhar alguma coisa. Quando ouvi os primeiros comentários.. até achei graça. bastava não fazer piadinhas com o nome feminino do chefão que metade das coisas já iriam bem. além de não andar no Sol. inclinando-se para frente e sorrindo. Assusta. mas importante. — Se o senhor. deixe-me ir ao bendito municipal. O assunto nem será tão demorado. Sofia apertou a mão do funcionário sem ouvir um pio da boca de Dimitri além do sussurrado agradecimento. Dimitri. Nada. — Não interrompa. — Quase quinze anos. Nada. Tem gente de dentro dizendo que ele ficou estranho. Mas. Sinceramente. Conduziu o rapaz até a porta e encerrou-se dentro da casa com seu reluzente smoking.. sabe que não posso falar muito ao telefone. lembra do Danilo Cabelo? — Traficante.. não importa de onde venha. comprou um caixão. nunca pediu aumento. Só me basta confiar na fonte que nada mais me interessa. Inclusive sobre esse seu novo passatempo. Esse seu novo trabalho... estamos às ordens. Além disso. — Sofia passou o lenço na testa e no nariz e prosseguiu o discurso. surpreendente. pensei em lhe interrogar a respeito. fiquei sabendo de uma outra coisa relacionada a esse seu hobby.. cara. O Danilo se meteu com aquela turminha que está te tirando o sono... Isso assusta. cada coisa que inventam. isso era estranho. especialmente esta semana. Nunca fez nada de errado. Se isso te ajuda. cara. de hábitos igualmente pitorescos.. Não vou te perguntar nada.. O da fortaleza naquele condomínio bacana depois de Barueri. Está comprando mais armas também. Há quantos anos trabalha para mim.. mas justamente me peguei pensando em quanto tempo você trabalha para mim. adequado às suas avantajadas proporções.

abandonando a forma monstruosa. O rosto estava deformado e o tórax. Tomava sangue. Paola era mais sutil. O carro alcançou o asfalto. e os olhos ficavam ainda mais esmeralda. Som alto. Aléxia tornara-se uma das caçadoras mais eficientes graças a esse dom natural. deixando ver seu corpo de formas igualmente generosas. não havia rivalidade entre as duas. Sentia-se poderosa e irresistível. Muitos julgavam estar indo para a melhor noitada de suas vidas. Rendia os homens. Aléxia vestia uma calça agarrada ao quadril voluptuoso. misturados ao gado. avistaram um galpão grande. Rafael era um soldado forte. com Charlie Brown Júnior ecoando pelos corredores. O carro ganhou velocidade até alcançar uma estrada estreita. Sétimo chegara quase ao raiar. uma segurança altiva resplandecia em seu olhar e aprisionava os homens que ousavam encará-la. Não fosse o ronco do poderoso motor. rendiam-se às curvas sensuais. Ouviu nos corredores da mansão que alguns vampiros não tinham retornado. hipnóticos. à comida fácil. Desses homens. poucos permaneceram na fortaleza. A casa. A única disputa que Aléxia alimentava era atrair os olhares dos soldados e dos homens do mundo. de certa forma. Muitos vampiros novos. Escondidos. Escutando. Uma arma. o traficante providencialmente vampirizado por Aléxia. merecia ser bem tratado. Os guardas dos portões eram de uma empresa privada. Os que resistiam aos olhos verdes. prontos para detonar qualquer invasor. Um desejo infinito corria em seu corpo. dirigiam-se para as garras da morte. Mais uma vez. passariam despercebidos na rua. na verdade. Engatou a primeira marcha e saiu. A fortaleza ficava sempre vigiada por eles. Nada da amiga. O motor roncou potente. menos exibicionista. afundado. recuperando a aparência frágil. Batiam os olhos em seu corpo escultural e perverso e no instante seguinte já estavam entregues à sorte amarga como fel. uma algazarra. O ferimento que o forasteiro causara era sério. contudo. pelo menos nas próximas semanas. Como sempre. quando. que controlavam os acessos e os muros que cercavam a luxuosa mansão. Sentia-se muito mais bela que Paola. Minutos depois o carro descia a rua da Consolação. Procurou Paola com os olhos. em São Paulo. a sedução. Risadas altas. mais profundos. passando sob a praça Roosevelt. Foram recostados no fundo do covil. Precisava de sangue. estava uma bagunça. Ainda estava envolto num casulo viscoso e espesso. que esbanjava beleza e atração. estava sexy. que chegavam a assustar a mulher. Os homens. e as ações mais ousadas sempre terminavam em chacinas. Mais dez minutos e estariam na rodovia Castelo Branco. Espreitando. precisava que a organização continuasse sem prejuízo humano ou financeiro. Apesar de pare-lhas em beleza e parceiras do mesmo vampiro. Na noite. Os vampiros entreolharam-se. mas não conseguia negar o instinto. Choro em alguns cômodos. As brigas entre as facções do tráfico eram selvagens e violentas.. Danilo queria seu negócio lucrativo de drogas funcionando bem. Alimentavase daquilo. Eram tantos que circulavam pela casa. Fez um sinal com os faróis para os seguranças que fechavam o portão frontal da fortaleza de Danilo. Um manobrista aproximou-se.CAPITULO 57 Aléxia apanhou a chave do Landau. Onde estava Agnaldo? Por que o general não mantinha os vampiros agrupados? Um exército deveria ser organizado. cada vez mais lindo. E a cada gota de sangue ingerida. Cinco vampiros no carro. Os olhos verdes luziam brilhantes. Estava desacordado ainda. sua beleza parecia aumentar. Sentia-se fraca. o líder dos vampiros. tomando parte da pista. Era a vampira de Sétimo. e o obstáculo moveu-se automaticamente. Usava um top rendado colado aos seios fartos. até mais doce parecia. E mais meia hora. Os ocupantes eram dotados de olhos vampiros. armados até os dentes. Protegidos. Matando. muito mais desejada. Talvez por isso. também conquistava a atenção dos homens por onde passava. uma arma fatal. Danilo contava também com um segundo time de seguranças. uma emboscada sobre rodas. não queria colaboradores expostos aos vampiros.. Aléxia sentiase muito diferente de Paola. eram presas fáceis para Aléxia. Servia-se deles e então lhes tomava do sangue. com uma agitação tremenda e jovens aglomerando-se à entrada. Homens inescrupulosos. libertando os caçadores noturnos para mais uma investida. em particular. Aléxia apertou as mãos no volante. tomando o rumo da Zona Leste. Rafael não reclamaria se ela usasse o carro. Eram os soldados do tráfico. naquela noite. Outro vampiro ferido tinha a cabeça pendendo no corpo. Quinze minutos percorrendo a radial sem trânsito. Serviram-lhe sangue na boca. a noite perdia segurança. Juntou alguns vampiros. Um carro preto. atraente. a vontade de ser secada pelos olhares famintos. Avançava com as luzes apagadas. O corpo tornava-se cada vez mais rijo. sem luz. e o carro encostou. Aléxia enchia-se de prazer ao se saber desejada. As quatro portas do . Os humanos se deixavam seduzir pelos vampiros. não precisavam de auxílio para enxergar as imperfeições do caminho.

Queriam mais força. de pele fria e olhar magnético. Estava de saco cheio daquele trabalho. a casa continuava lotada. Todos estavam com a pele ligeiramente corada. Pura diversão. a gente tá fodido. O rádio chiou. Bêbado filho da puta. desacordado. que nem ao menos sabiam da existência daquelas criaturas sombrias. morreria sufocado. Em busca de beijos. correndo para o banheiro mais próximo. Aléxia foi a última a chegar. Chegando à luz. Diego levou o rádio à boca e acionou o speaker. Se vomitasse. Cheiro acre. os vampiros voltavam ao carro. A maioria tinha o canto da boca sujo de sangue. Assim era melhor. Caiu. O pescoço do bêbado estava ferido. Diego voltou ao sofá e agarrou o homem pelo colarinho. um líquido viscoso entre os dedos. Ninguém acendeu os olhos nem os caninos brotaram. examinou a mão. recebiam eventualmente uma ou outra inspeção dos seguranças. Deveriam ter enchido a cara até desmaiar abraçados. Tropeçara na perna do cachaceiro com tamanha violência que o homem caíra debruçado no sofá. um dos funcionários. . Tráfico de drogas não era tolerado pelos sócios-proprietários. em busca de diversão. Em busca de aventura e excitacão. Levantou-se. todo mundo junto. Votos de boa caçada. Diego. Aquilo era parte da festa. Estava com hemorragia ou coisa parecida. examinou a mulher. A mulher estava morta! Olhou para o braço. Os corações mortos buscavam sangue e sabiam fazê-lo com eficiência. apesar da luminosidade precária. — Porra! Só falta ser vômito. Então. será uma cambada de maloqueiros tudo nóia? — reclamou.Landau abriram-se simultaneamente.. Tem uma porrada de presunto aqui embaixo. Facadas?! Temeroso e sem raciocinar direito. soltando a gola do pinguço. com o joelho latejando. Os cinco vampiros adentraram a danceteria. Sempre terminava a noite carregando bêbado para fora do salão. No passo seguinte. Os vampiros separaram-se. Os cantos escuros. O som explodindo nos ouvidos com ritmo e excitação fazia com que os corpos dos humanos requebrassem de forma cadenciada. Do coração pulsante de humanos desprevenidos. imóvel. criaturas que desbancavam a raça humana do topo da cadeia alimentar. Poderia estar em coma alcóolico. ferrugem. Até as três da manhã. Infiltraram-se discretamente. recostando-o ao lado da mulher desacordada. Fazia vista grossa aos casais enroscados. Uma amolação. Um frio percorreu a espinha. Duas horas depois. Xingou alto. E só encontrariam alimentando-se do sangue quente e vivo extraído da fonte. Estavam à mercê de assassinos instintivos. Aléxia estava sendo uma excelente professora. bebidas e alegrias. e as criaturas ganharam a rua. Vamos para casa. contatando o chefe. A pele fria não fora tocada. onde luz alguma batia durante a festa. — Porra. — reclamou. — Fabiano. Olhou com mais atenção.. — Vamos embora. O pescoço estava limpo. infestada pela energia do sangue fresco. Suor brotava da testa do segurança. dando tapas onde o pó se fixara. que um rapaz alisava os seios fartos de uma garota animada. o corpo começando a enrijecer. mais poder. enfiando um joelho no chão. Estavam na noite. Limpou a calça. passava por uma das áreas menos iluminadas. Meio a contragosto. Diego sentiu a palma da mão umedecida. tropeçou num homem embriagado. Notou em um dos sofás. Sangue!!! Correu ao casal desmaiado. Só então percebeu que era um casal. Cedeu a direção a um dos companheiros. A única obrigação era retirar os fornecedores de entorpecentes do recinto. Era o chefe da segurança contatando. Não conseguiu distinguir o que era. mas ela estava gelada. Os rostos pálidos não chamaram a atenção. notou que no sofá do lado tinha mais dois casais. O sangue tinha escapado por um ferimento na altura do pulso.

Os lobisomens mataram ele. Ele beijou-a na boca. Vagou no vale da morte. Acariciou os cabelos de Eliana. observando a arrebentação. Seu sangue não serve mais para eles. Entenda. Eliana foi até a janela. Como era linda! Estava de pé. Sabia que ela estava viva. Sétimo matou Afonso. — Agora? É noite e garoa. Séria. . Jogando luz para baixo. Transformei você em uma criatura eterna. Eu tive medo. volto e acabo com o resto com minhas próprias mãos. Ela não morreria mais. A selar aquela passagem. Tiago sabia que teria de ser forte. pensei que tinha morrido. lentamente. Quero vê-lo. Poria sangue em sua boca. Tiago sentou-se e passou a velar o sono da amada.. Que seria? — Tiago.. resistiu. — Onde ele está? — No cemitério. — Te deixaram com uma hemorragia. Estaria ao lado da amada para o que desse e viesse. Não vão durar.. o Lobo. Criatura da noite. — O quê? — Você não teve alta. entreabrindo os lábios e deixando a língua do vampiro passear na sua. — Eu estava desesperado... de igual para igual. Eliana voltou-se para Tiago. — murmurou a mulher. Correu até a cama. Não ia permitir que os vampiros ganhassem mais um troféu de batalha. daquele momento em diante. Sabia que ela repudiaria aquela condição. Li. Eliana levantou-se. Perdera o viço apaixonante de sempre. — Eu ingeri alho. prendê-la-ia nos braços. — disse. eles não conseguiriam. O vampiro percebeu o incômodo e afastou a boca da mulher.. Pousou um dedo no pulso da mulher. O vampiro voltou-se rapidamente. Olhou-a fixamente. restabelecida. Vivia as horas de transição. Nunca mais irão rasgar tua pele. não foi possível determinar. Um barulho ritmado chamou sua atenção. Não permitirei que matem rnais ninguém de quem eu goste. Agora. Li. Um arrepio cruzando o corpo. Helicópteros.CAPITULO 58 Tiago. Logo passaria a ser eterna. Tomou uma das mãos de Eliana. Você foi para a UTI. eles tentaram matar você. O perfume natural não se desprendia mais do corpo. Eliana ainda jazia inerte na cama. A mulher lutaria. Examinou a mulher. Cruzando o céu. Tiago sentia-se triste. Sentiu o rosto enrubescer. Eliana.. — Tem uma coisa que não contei. Sabia que ela se desesperaria. muda. O que seria aquilo pendurado num deles? Mesmo com os olhos de vampiro. — Cesão. Li. caminhava para o mundo vampiro. retornou ao hotel. Você estava morrendo. Nunca mais precisara temê-los. — Quero vê-lo. logo após o confronto que culminou com a morte de Lobo. Dei-lhe de meu sangue. — Tiago. Eliana correspondeu. eles estão sem guia. Caso ouça sobre eles. mas fora o único recurso para garantir a vida da querida Eliana. Parecia gente.. Tinha que convencê-la a tomar do sangue. A pele empalidecera... Tiago foi até a janela e empurrou as pesadas cortinas de veludo. Era humana e. — O que aconteceu? Cadê o Cesão? — Os lobisomens. Era hora de contar.. Sentiu dor no peito quando o coração parecia bater mais rápido. — Pensei ter ouvido helicópteros.. Tiago não disse nada. Batidas fracas e lentas impulsionavam seu sangue. Mal pressentimento. O sangue vampiro já teria se instalado? — Quero ir lá. Tirá-la do jugo dos malditos vampiros. Vários. Parecia espantosamente forte. deixou um par de lágrimas descer pelo rosto. voltando à consciência. Temia. Não a deixaria se desesperar. — Ele não conseguiu. Evitaria matar para se alimentar nos primeiros dias. — Eu já comecei a vingança. O sangue vampiro agira bem. A mulher abriu os olhos. Estava morrendo.

. somente Tiago. Mas o que fez sua pele eriçar e um tremor repentino cruzar suas pernas e braços foi o nome balbuciado pelo amado vampiro. Parecia ter ouvido passos. A sepultura de César estava violada. Tiago concordou. virando-se para encarar o vampiro. Cheiro de vela. revolvidos e espalhados pelo chão da cova. Se alguém tinha culpa nisso tudo. olhando para fora. Abraçou a mulher. conversando amenida-des. adorava Tiago. O caixão vazio. o amigo valente que lutou por ela. Nada. Sem um tchau. Olhou para Eliana. Era um ambiente triste. Ele tomara uma decisão extremada para salvar-lhe a vida. — Você imaginava que tudo isso pudesse acontecer quando me procurou no Departamento de História da USPA? — perguntou. Chorava.. Adiantou-se alguns passos. Caminharam lentamente.. Os olhos acenderam. Eliana olhou para a silhueta das estátuas que se erguiam sobre os túmulos. Algo errado. juntarem-se no queixo e pingarem no chão. Escuro. Procuraram uma parte onde a rua fosse mais escura. até chegar aos muros do cemitério.. Concordava: Eliana tinha o direito de despedir-se de César. Fez sinal para que a mulher esperasse. dando as costas a Tiago. Tiago parou em frente a uma sepultura.. — balbuciou a mulher. O rosto duro. uma sombra passou ligeira entre as covas. O amigo tinha partido. Na tumba escura. — Quero ver o túmulo do Cesão. Não quero deixar outro amigo para trás sem me despedir. Logo que ela estava adequadamente vestida. Mão clamando ao céu. Que queriam com César? Tiago abaixou-se. Apurou a audição. Alguém tinha estado ali. Crucifixos. Ao mesmo tempo que odiava a condição vampira. e deixou o nome escapar: — Acordador. . não Tiago. com um par de olhos vermelhos como brasas. Eliana apoiou as mãos no parapeito da grande janela e arqueou o tórax. Ela estava contente por ainda viver.. César havia abandonado a sepultura. cerca de quarenta minutos. sem gente que os flagrasse entrando às escondidas.— Vampira. Mas nada disse. As tábuas laterais do esquife arrebentadas. olhando-a fixamente. Deixou as lágrimas descerem pelo rosto. que espiava pela portinhola. O rapaz cruzou o chão acarpetado. eram os vampiros. Os olhos vermelhos eram sinistros. Esgueirou~se agilmente para dentro da tumba. Anjos. Tiago balançou a cabeça negativamente. Tiago. que enfrentou os vampiros. O túmulo. Tiago ajudou a mulher a saltar o muro alto e começaram a andar entre os jazigos. Os tijolos. Algo errado. tocando um dos joelhos no chão. com a portinhola aberta. Soluçava. deixaram o hotel. Estava morto. O vampiro guiou a namorada. Andaram por mais duas fileiras inteiras. Tiago estacou. Eliana olhou para dentro do sepulcro. Porém. Pegadas no chão. Podia ver melhor. Olhou para trás. O peito doendo. Encarou Eliana. Aquela figura macabra no túmulo escuro assustou-a. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. após ter analisado o cenário inusitado chegou a apenas uma conclusão. ao virar-se. Não poderia ficar sem uma homenagem.

Tiago compadeceu-se diante da figura. Sabe que toda essa história. Chegaram ao frigorífico desativado. eles voltaram. — Inverno. meu Deus. viciados no mal. A diferença é que agora estavam do seu lado. Não ordenei isso. O homem voltou ao pranto... — Sei disso. Pulou para cima do homem e agarrou-o pelos braços. Os dentes pontiagudos de Tiago saltaram e seu poder vampírico foi evocado.. assim? Acordador está morto! Tiago se deu conta do erro. — Ainda estou traumatizada. Tremia... Gentil.. — Eles estão diferentes.. Li. sentiu a pele arrepiar-se. — Você os mandou aqui tirar César da cova? — Não. ele disse que eles seriam enviados para me ajudar a destruir Sétimo. não estão imóveis. Voltou-se para Eliana. Estranhos. — Os vampiros. eu tô morto? — Estava. O terno de listras tinha um rasgo no ombro. — Como? O que está dizendo? — Os vampiros. Ainda tenho marcas na pele por causa daqueles vampiros. pensando ter ouvido passos. — Então. agora acordei aqui. parecem hipnotizados.. Um morto-vivo. — Tenho que te contar algo. Como fazê-la entender? Tiago impulsionou o corpo para fora do sepulcro... — Eu tava no hospital. Tiago. enquanto andavam. Não sei se Acordador esteve aqui. não vai fazer diferença. Tiago guiou Eliana pelos corredores empoeirados segurando firme . Chorava.. — Que faz aqui? — Não sei. não ajudam ninguém. ele me apareceu num sonho. Um zumbi. — respondeu o homem. Deu dois passos em direção a outro túmulo. Não parecem os mesmos. — disse. não vai? Tiago não respondeu. Espelho. choroso. Me colocaram lá.CAPITULO 59 — Como.. Acordador. Ficam imóveis.. Abaixou-se choramingando quando Tiago o interpelou. como? — O demônio. Estava assustado.. — Foi Acordador. — argumentou apenas para acalmá-la. A moça. Ela o encarou. largou o ex-defunto e foi ao corredor onde deixara Eliana. Tiago. Eliana estava olhando para trás. — Estamos tirando conclusões precipitadas. Não sei o que faço aqui... — Não acredito. o diabo. Estava tonta. — Diferentes? Quero eles mortos! Você vai destruí-los. mais uma vez.. Mas acho que não preciso te explicar muitas coisas. Sentou-se num túmulo. Mais uma loucura. Eles estão. não sei o que vai acontecer se um deles tentar me atacar.. Tudo ficou escuro.. Disse que os enviaria para me ajudar.. pego de surpresa. — O demônio que vi no sonho. — Ajudar? Como aqueles desgraçados podem ajudar? São uns demônios. Ai. malévolos. Li. — Eu tava num caixão. Eliana levou as mãos ao topo da cabeça. Tava tudo escuro. Ainda não havia prevenido Eliana a respeito do retorno dos malditos... Alguém espreitava.. Acordado por Manuel. Uma pessoa se movia no corredor paralelo. Tiago saltou agilmente para cima do túmulo. Aqueles malditos. — Inverno? Tiago aquiesceu. me diz. Tiago aproximou-se. tomou a mulher pela mão e saíram do cemitério. O único que se preocupou e lhe estendeu a mão foi Gentil. é incrível. Li. desde o começo. mas já admitindo para si próprio que aquilo só poderia se tratar de uma intervenção do vampiro que acordava mortos. menos uma. Vai ver como estão diferentes. aguardando meu comando. eles me maltrataram. — Eu mato. moço. São como robôs..

— É hora de cortar o mal pela raiz. Tinha chorado.. Isso não era problema. como se dissesse estou aqui para o que der e vier.. — Bem-vindo ao grupo. — Tiago. Alimentava ódio contra o bandido. preparando-a. Quer mesmo encarar Sétimo e todos os outros vampiros? — Vi o mal que o vampiro fez. A jovem aproximou-se de Tiago. naquela sala. Passou a mão na face. Tinha o tamanho do amigo. mãos cruzadas sobre o peito. Como posso voltar para casa assim? Meus pais vão querer me matar. Nunca quis participar disso. Tiago e Eliana viraram-se repentinamente. trocaram um olhar e foram juntos até César. Tornarão nossa cruzada mais fácil. — disse uma voz desconhecida. Quero extravasar minha ânsia por destruição contra os vampiros que tentam espalhar o sangue envenenado pelo planeta. — O que quer? — quis saber a mulher. — Cesão? Ele ergueu a cabeça... Eliana ajoelhou-se e tocou o amigo. Um calafrio deslizou pelo corpo. Tiago adiantou-se e estendeu a mão para o rapaz: não precisava ouvir mais nada. Olhou para o homem. O cômodo escuro ganhou um espectro vermelho.. Lançou um olhar do tipo: viu? estão imóveis. Não precisa disso. agüenta firme. — Ele já está morto. Tiago puxou Eliana pela mão. Mortos que caminhavam. . — Li.. Me tirou a vida. vontade de lutar e o cômodo escuro clarear.em sua mão. de alguma forma. — sentenciou o vampiro. Um vampiro estava parado na porta da câmara frigorífica. Eliana também sentiu calor no peito. — E os outros? — Estão lá. Era como se uma luz mágica tivesse sido acionada. Sem líderes. o mal que embutiu em meu coração. ele me matou. Empurrou a pesada porta. — Quero destruí-los! Quero lutar enquanto puder! Não vou deixar barato! Eliana beijou o rosto do morto-vivo. — Lobo? Tiago afirmou com a cabeça. recostados à parede. Eliana. Todos mortos. Seus olhos estavam vermelhos como brasas. Lobo. como se limpasse uma sujeira. Agora é a vez de Sétimo ser destruído. Um homem acocorado no canto do compartimento parecia dormir. Um pensamento provocou aquela reação. Quero me livrar disso. Só podia ser. aquele desgraçado me matou. Estava gelado. Lá estavam eles.. guri. Olhou-a nos olhos. — Quem é você? — Sou Leonardo. estranhamente impetuosa. Tiago acendeu os olhos mais por reflexo do que por precaução. gelado também estava o dela. Me tirou de meus pais. — Concordo. Já eliminamos um dos mais poderosos. estavam mortos. esses vampiros ficarão mais fracos. — Desde que fui capturado por Lobo. O primeiro humano convertido em vampiro e lobo por Dom Afonso. eu vim em paz. — Bá.. planejava escapar. Tiago soltou Eliana e caminhou até o meio da câmara. em pé. Dava-se conta de que todos. -— A coisa não vai ser fácil.

com armas empunhadas e mirando a garota. os oficiais começaram a ouvir os gritos medonhos. colocou-se de pé e estendeu o braço tentando alcançar os soldados que ajustavam os microfones. num puxão só. . Precisava de sangue como nunca. vivos em cativeiro.. descontrolados. apagando-se. Seriam estudados. Tamanho susto fez o soldado cair sentado. — Preciso de sangue!!! — urrou. Imediatamente. O soldado obedeceu. Outros dois empunhavam rifles carregados com balas de prata. próximo à cidade de Guarujá. Observavam tudo graças a um moderno sistema de circuito fechado. pois eram de prata pura. Como? Se não conseguisse abocanhar um imediatamente à transformação. O local estava propiciamente escuro para que os vampiros pudessem ser estudados. tamanho era seu receio em aproximar-se tanto da jaula. Um empunhava um lança-chamas de cuja ponta desprendiam pequenas gotas incandescentes que iam ao chão e ardiam brevemente. arrancou a proteção. Tinham de aprender com os espécimes. — Preciso de sangue!!! — gritou desesperada. atentos. trazendo cada qual um pequeno tripé. — ordenou o tenente ao microfone. assemelhado a um hangar. introduziram um microfone e acionaram um botão. as celas com barras do mesmo metal surtiriam o efeito esperado. Preferia botar a mão na boca de um leão a ser pego por vampiros. ele voltou-se para Janaína. O rosto e os braços da mulher-vam-piro estavam cobertos por hematomas negros. não estava poupando despesas para combatê-los. encos-tando-a nas barras. As redes compostas de fios de prata mostraram excelente resultado... depois de presenciar o perigo real daqueles seres. Assim. Um soldado.CAPITULO 60 As criaturas urravam descontroladas. Se assumisse voluntariamente a forma de lobo. deram um passo à frente. de onde provinham urros selvagens e ferinos. encoberta por uma lona verde-oliva. Sentia que as reservas iam-se em velocidade assustadora. Gs outros três. Era um vampiro poderoso. Parece que meu coração vai voltar a bater.. Uma das primeiras lições fora tirada da caixa de prata. O estômago queimava.. assustado. não agüento mais. Ele e alguns oficiais graduados acompanhavam a operação de uma sala em outro prédio. Mais dois soldados entraram em cena. sem chance de escapar até serem mortos. em livros e toda a crença rezava que o encontro de um vampiro com a luz do Sol resultaria na morte da criatura. O Exército brasileiro.. não conseguiria atravessar a prata pura. sem responder verbalmente. No topo da peça. Um dos rapazes recuou. sem condições de mover o corpulento lobisomem. seguras para mantê-los presos. não consigo me transformar. mas até então nunca tinham visto acontecer. pois ele tombaria inanimado. Por mais que ela se arremessasse contra a cela. As criaturas estavam presas em duas peças individuais atreladas uma à outra. pilotando um pequeno carro elétrico. O vampiro continuou bradando. como se quisesse afastar os soldados a grito. O carro elétrico desconectou-se da jaula e se afastou. Sabiam que os vampiros não podiam destruir o metal. surgiram mais três. Outro soldado se aproximou. O peito doía. no quartel de Quitaúna.. Em todos os filmes. Transpirando gotas frias.. meu estômago dói. As jaulas reluziam. O soldado estava embasbacado e só despertou quando a vampira mais próxima saltou contra as barras e jogou o braço na direção do jovem. A vampira caiu de joelhos abruptamente e abaixou a cabeça. Estava reticente. Brites passava ordens pelo alto-falante. Era assustador. — murmurou baixinho a vampira. voltando a balbuciar nervosa. seria o experimento do dia. Às suas costas. Teria de lutar contra os soldados. Repentinamente. Segurou firmemente o tecido pesado e. Ambos gritavam desesperados. a parceira-vampira e namorada.. Queria sair de lá. os soldados nem precisariam das armas. guinchou para o meio do galpão uma grande jaula. — Hélio. gastaria toda sua força. estou enlouquecendo. O soldado que chegara perto da jaula parecia um pouco assustado com o barulho agressivo que os monstros faziam. Estavam em um barracão. foram mantidos vivos. parado. — Tragam a cela para o centro. prata polida.. Estou fraca. Sabiam que o Sol era um limitante para eles. — Retire a lona. soldado! — ordenou Brites pelo alto-falante. Hélio. Eles lhes diriam como destruí-los. Os vampiros capturados na mata serrana.

Hélio deixou os caninos brotarem e urrou furioso. lentamente. Cuidadosamente. perturbado apenas por um choramingar de mulher. A claridade aumentou sensivelmente em poucos minutos. Quando a vampira estendeu os braços. Seu namorado.. As chamas intensificaram-se. — gemeu a menina-vampiro. estendendo o braço e arremessando repetidamente o corpo contra as grades. Afastaram as jaulas. incomodava as criaturas. revelando um imenso espelho.. Os vampiros estavam cansados. e um líquido espir-rou para frente. O telhado começou a abrir. O barulho sumiu quando a abertura alcançou dez metros de largura. estaria disparado. Um ronco. caindo sentado num canto. mais que algumas gotas. Lembrou-se de tempos atrás. desprotegendo os olhos. Os vampiros só voltaram a se levantar quando os compartimentos se distanciaram. Um ar frio invadiu o galpão. A luz direta do Sol não invadia o recinto. Era tamanha a apreensão de janaína que. Abriria um talho. Um zumbido estridente teve início. lentamente. ao ser atingida pela luz. Jana apertou os olhos e inspirou fundo. Leve o outro para trás da risca. sentou-se. Antes que socorressem o companheiro. jorrou para dentro do galpão. Estava bem debaixo da fenda que surgia no teto. Um clic. Alinhava-se para capturar a luz direta do Sol. Barulho de correntes arrastando-se. Lentamente. A vampira gritou ainda mais de dor. escondida da luz. enchendo o galpão de fumaça e cheiro de carne queimada. Penetraria a carne humana com as unhas de vampiro.Metal maldito. que começaram a lacrimejar. O soldado foi até a parede oposta àquela onde Hélio se encontrava. os globos oculares. Não importava quanta força vampírica despendia: elas não se moviam um centímetro. Logo não sobraria o suficiente para manter-se em pé. — Janaínaaaaa!!! A vampira enrolou-se. Janaína. Apoiou a mão num dispositivo e abaixou a chave. Uma peça retangular deslizou sob o telhado do galpão. — ordenou a voz metálica do tenente. — Deixem a mulher. embora mínima.. Os gritos cessaram. Não chegavam muito perto. Janaína olhou para cima. — Abrir. Hélio arrepiou-se. sempre com um segundo vigiando.. pois não havia espaço. Por que não conseguia envergar aquelas barras? Eram finas. estendendo duas tiras vermelhas borbulhantes no chão. cada vez mais claro e luminoso. mas. Chamas desprenderam de suas costas e ela ficou imóvel. bastaria um descuido. a luz do Sol. empunhadas por dois soldados de cada lado. O que estava acontecendo? O ronco aumentou. — Sol. Hélio levou as mãos aos olhos. — Separem as celas. — Aaaaaaaaah!!! Héééliooo!!! Os soldados afastaram-se carregando para longe a jaula de Hélio. O galpão tornou-se silencioso. instantaneamente. O objeto subiu através de guias metálicas. Traria sangue à boca. Armas apontadas. A vampira. Com um bastão longo. — Hélio! Me ajuda! Me ajuda. A garota também sentia os olhos ardendo. explodiram. acertou a trava. Estenderam os braços um para o outro. Nas extremidades das jaulas havia correntes. Os olhos de Janaína estavam completamente vermelhos. totalmente escarlates. Os vampiros olharam para os lados.. e um pesado tecido branco desprendeu-se do artefato. Felicidade. A cada esforço. — Não!!! Janaína! Jana! — gritou Hélio. Manchas avermelhadas brotaram na pele. — ordenou o tenente. com a força renovada pelo sangue quente e fresco e investido da forma de lobo. e uma claridade modesta anunciava o alvorecer. Após um minuto. O mesmo soldado alinhou-a abaixo da abertura. Hélio pensava partir as barras feitas de manteiga. e lágrimas escarlates desciam pela face. Se ao menos um daqueles soldados chegasse perto da cela. Eram mágicas. A jaula foi arrastada até uma marca amarela no meio do galpão. O céu estava cheio de nuvens. O espelho começou a inclinar-se e subir um pouco mais. se possuísse um coração pulsante. Bandidos! Hélio recostou-se. gritou e espremeu-se contra o piso metálico da jaula: Não podia sequer deitar-se. poderia sorver alguns goles. Da Lagoa dos Patos. Apenas olhavamse. Do acampamento. até ficar completamente submersa nas sombras. mais energia queimava. Se tivesse sorte e o humano tombasse próximo à jaula. Sossegou. o fogo .. num esforço sobrenatural para tentar afastar o medo. Mas os desgraçados estavam atentos. Ela entregando-se para Héíio. ocultando o céu. o soldado aproximou-se do engate que ficava entre as peças.

Ia juntar-se aos demais espécimes. vedado. — Encerrar experimento. sobrara apenas a forma humana encaracolada no chão.extinguia-se. Uma espécie de estátua negra. — Janaína! — murmurou o vampiro. Janaína fora destruída. transbordando em lágrimas. tinha as mãos cadavéricas agarradas às barras de prata. evitando como podiam. Tempo de exposição ao Sol: cinco minutos e trinta e dois segundos. Tinham matado sua namorada. O teto começou a fechar. da qual ainda escapava fumaça. Não duravam um minuto sequer. O zumbido agudo se repetiu quando o espelho começou a baixar. O vampiro estava calado. Era isso que acontecia. carbonizada. O cheiro de carne queimada recendia. cadavérica e negra. Os soldados tapavam o nariz. . Hélio secou o rosto. Sua cela foi atrelada ao carro elétrico mais uma vez para ser levado de volta ao galpão vizinho através de um corredor subterrâneo. Vampiros jamais poderiam se expor ao Sol. Da vampira. Mais lágrimas brotaram nos olhos da criatura. misturando o zumbido agudo ao ronco de correntes. então. A jaula passou próximo à da vampira.

O mais baixinho. Não teria como se proteger. — Mãe. Tiago encarou os cinco vampiros. deram um passo à frente e franziram o cenho. mesmo que trazido pelo demônio. que costumava proteger-se atrás de seus corpos musculosos. — emendou Inverno. Devastadores. Teria que cair como raio em cima de Agnaldo. Estavam vermelhos. de olhar penetrante. Passariam pelo hotel.. de mudar as feições. Sabia que por causa dele Tiago deixara se abater. que o encarou no encontro com Sétimo. brilhantes o suficiente para iluminar a câmara frigorífica. Pesados sobretudos. Fúria. O vampiro estava preocupado em proliferar seu exército. Abriu a boca e grunhiu. — És cria de Dom Afonso? — questionou Manuel. e a maioria com coturnos de cano alto. — murmurou Tiago. Tiago estivera em sua nova toca. Não temos tempo a perder. do general. Cerrou os olhos. Para a rua. o acordador de mortos. ao abri-los. satisfeito. Os cinco abriram os olhos simultaneamente. Poderosos. vampiro. — Alto. desfazendo a linha em que se dispunham os cinco. Apanhar o dinheiro. Estava vivo o amigo de Tiago. Eliana passou as mãos pelos braços cruzados. Eliana e César tinham de apanhar seus pertences. O empecilho. Medo. Havia também aquela vampira linda. vampiros! Ele se aliou ao nosso grupo! — Ora. ardiam. Sétimo não se dava conta do perigo. Tiago não tinha dito nada. saindo um a um. como pode ser?! — Esse aí fede como um lobo. Como conseguir transporte àquela hora da noite para tanta gente? . apertou-os e.. a belíssima vampira de corpo esguio e cabelos negros. quero que tomem cuidado. o vampiro recém-chegado. peitava o olhar desafiador do vampiro. Os dentes foram recolhidos.. olhos nos olhos do vampiro.. De olhos abertos.. Eram diabólicos. — Despertem. — Sétimo quer cobrir a terra com vampiros. Sétimo não poderia pressenti-los. como se tivesse sido acometida por um frio repentino. não emanava tanta perversidade. Seria prudente saber mais sobre ela. Mais uma vez. mesmo assim. — Ele é. outro. vamos acabar com Sétimo o quanto antes. Os vampiros estão mudados. E está conosco. Tiago. como se tivesse sido capturada pelo frio sobrenatural do vampiro. Eliminando o líder. os irmãos se juntavam para detê-lo. Fitou Eliana. caminhando para perto de Tiago. A mulher sentiu o corpo gelar. Estão servis. logo após dar as boas-vindas ao novato. Daquela vez. Exceto César. Nem pense nisso. Inverno deixou sua assustadora risada preencher a câmara frigorífica. — Se dizes que podemos confiar. Mesmo numerosos. — Não sou mais sua mãe. Sétimo carregava a sina da traição. E estavam sob seu comando. Tiago aquiesceu. e sem ele não queria lutar. — disse Fernando. mas aqueles eram os terríveis vampiros das ricas histórias contadas por Afonso. expondo dentes pontiagudos contra Leonardo. Havia o que evocava as tempestades. Manuel encarou César. gajo. o restante vai ser mais fácil. Gentil. mas certamente não seria menos perigosa que a primeira. preveniu os demais: — Vou chamá-los. Os vampiros se calaram. e aquele capaz de parar o tempo. o único que conseguira discernir pela insistente descrição. todos trajavam negro. imitar o rosto de qualquer ser humano. Pressentia que a idéia tinha mudado: Tiago estava cheio de energia. que era um dos vampiros mais velhos e melhor preparado para dar seguimento às atividades de Sétimo quando de sua ausência. Inverno sorriu. Precisariam para a viagem. Tiago não encontrara nenhum vampiro que representasse perigo. Crescia. Da outra. era Acordador.CAPITULO 61 Tiago. Os olhos verdes e frios pareciam anunciar o mal. Um era capaz de congelar as coisas. Tiago e César se espantaram com Eliana. Inverno circulava. vinha engrossar o grupo. Vamos para São Paulo. Leonardo sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.. Tiago guiou todos pelos corredores da velha fábrica.

. Sigo em separado. Leonardo despediu-se. Temo que os soldados voltem para capturá-los. poderemos ser um excelente reforço para seu exército. Tiago.Quando deixavam a fábrica de conservas. piá. Dom Afonso me ensinou a sentir um vampiro. Nosso líder foi morto. Ele concordou com a cabeça. Vou formar um grupo. juntos. — Preciso agrupar os lobos perdidos. Acredito que. Alguns amigos foram levados pelo Exército. Alcanço vocês assim que tiver controle sobre os lobisomens restantes. — Boa sorte. Vamos precisar.

Nenhum barulho. Girou a corda flexível e arremessou-a ao ar. O companheiro também apanhou suas armas prediletas. uma peça de tecido enrolada. Dimitri puxou o cordão resistente e arremessou. A tarefa não era fácil. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. aproximavam-se da mansão de Danilo. A propriedade era tão grande que. suas armas poderiam não ser suficientes. Tobia abriu a manta portuguesa: uma espada embainhada. nervoso. Granadas. Pela primeira vez. Havia despedido duas empregadas por quebrar suas preciosidades domésticas. usando a árvore para descer. Era avesso a religiosidade. Se enfrentassem aquele desafio. as placas metálicas assentaram. durante a noite. Apontou um guarda com lanterna fazendo a ronda no meio do gramado e outro vindo rente ao muro. Assim que Tobia desapareceu. mas quando são partidos acionam o alerta na central de controle. Tobia não havia danificado nenhum. e não sabia se viveria para voltar para casa. Teriam de arriscar. encontrariam. Matador. Pediu que Deus iluminasse seu caminho. Podia não ser um assassino profissional. O cabo de marfim desenhado trazia a legendária inscrição: Tobia. seria impossível transpor o muro e ter tempo hábil para encontrar as feras adormecidas. Pertences. Manteve a espada embainhada. Tobia sentou-se no banco de couro. Chegando em silêncio. Pra te trazer sorte.CAPITULO 62 Tobia ajoelhou e orou. enfiou a mão no bolso do sobretudo e retirou um crucifixo dourado. Enroscou uma metralhadora no pescoço. cobrindo a armadura prateada. Dimitri decretara que a invasão teria de ser durante a noite. — Toma. mas tinha o corpo e a obstinação de um atleta. Desceu em seguida. Na mesa baixa. com uma peça metálica na extremidade. Vendo o caçador de vampiros se aproximar. os guardas já estariam no encalço deles. além de vampiros. incendiar os vampiros e atirar. Dimitri tirou o carro da estrada e deixou o celular no porta-luvas. envolvendo e protegendo crânio e pescoço. Prendeu duas pistolas no tórax. Se Tobia tivesse rompido algum. Muito peso significava muita ação. acocorando-se ao lado de Tobia. Não estavam esperando um ataque. Na cabeça. O apartamento luxuoso. acionou o motor. vasto poder de fogo dos soldados do tráfico. Quarenta minutos depois. O galho balançou suspeitosamente. Pela primeira vez. o mais fraco e menos experiente. seu propósito. A lâmina prateada tinha brilho impecável. — disse. Vestiu o sobretudo marrom. O gancho fixou-se num galho grosso. Inimigos que não caíam ao primeiro tiro. Gesticulou para Tobia. Seriam eles os responsáveis e os auxili-ares da invasão. o capacete de soldado real português. Dimitri sacou do sobretudo uma corda fina. em frente ao sofá. Por causa dos seguranças e das câmeras de circuito fechado. Os fios não carregam tensão. Haviam espreitado a fortaleza onde os vampiros fizeram morada. na velocidade em que o vigia vinha. pertencia a um traficante. Não sabia se voltaria ao seu conforto. Não tinham idéia de quantos vampiros encontrariam. invejou a armadura prateada de Tobia. uma cota de prata. Debaixo do braço. Dimitri experimentava um misto de excitamento e medo. Tinham visto seguranças armados nos portões e nas torres laterais. Era a única vantagem. A luz do dia. inimigos de qualidade. A armadura rilhou. Respirava rápido. várias árvores tinham crescido e galhos frondosos escapavam da muralha. colocando o crucifixo no pescoço. Sorte. Não estava certo de sua integridade. Na garagem do subsolo. Alisou o carpete. tudo aquilo perdera a importância. Só pensavam em exterminar as criaturas desgraçadas. Invadiriam a fortaleza. Logo após a invasão. dentro do terreno da mansão. Entrariam no covil. Prendeu-a na cintura e desembainhou a arma. Destravou o porta-malas e foi para a traseira do veículo. Finalmente. Só conseguiriam se dessem aquele passo. Tobia beijou a empunhadura com deferência. Segundo Dimitri. levaria cerca de dez minutos para chegar ao pequeno bosque onde . Evitar que se espalhassem ainda mais. o covil de Sétimo e seu exército. Munição. Por um instante. Levantou-se. Dimitri aguardava a bordo do Comodoro. Fechou a mão. Que fosse a cobaia. — Obrigado. Então. Por baixo do tórax de prata havia prendido o colete à prova de balas. Rastejaram até encontrar um ponto fraco. Que Deus fizesse sua pontaria certeira. Queria que ele fosse primeiro. Depois que abraçara seu destino. Embrenharam-se no mato alto que circundava a propriedade. Era isso que mais o atraía. caçador abençoado. Bombas incendiárias. Colocou óculos para visão noturna. Dimitri apanhou a peça e examinou-a na palma da rnão. Dimitri escalou. Para surpresa de Matador. Não freqüentava igrejas. atirar até escapar. teriam de localizar o ninho. ganhariam minutos valiosos. Tobia transpôs o obstáculo com desenvoltura. Quando o carro ganhou a rua. Um vaso raro. Um rifle compacto. e ele puxou com força para medir a resistência. Desceu pelo elevador. Um tapete persa. Junto ao muro. Fios de alarme. A propriedade era imensa. não estava certo do êxito.

Dois homens suspeitos. andando de cócoras até encontrar o que procurava: a manilha de escoamento. Cronometra essa porra! Vou deixar um negócio aqui no muro. Vou dar a última volta e troco com o Zé Carlos. — Vamos trabalhar. Cê vem pra cá para ver o jogo? O Corinthians tá dando uma goleada! Você que é Fiel. nos noticiários. observado por Tobia. faziam ferver seu sangue. PC. se outro é mais preto. que não estavam ali antes. Abaixou-se. Tobia imitou o professor. Até as mulheres. PC. Sabia que fora preciso. aí sim. Só não vai enfiar bala no meu rabo. Te ensinei muito. Não avalie se um é mais fraco. Nem mais. — Saíram? Quando? — Não me interrompe. Ultimamente. Estava doido para atirar. Gente que só andava à noite. Voltou o facho para o chão. Dois carros saíram há pouco. Se a bomba fosse presa ao muro. — corrigiu Tobia. Os músculos não obedeciam. sobre um cimentado. Agora. Tamo aqui na escuta. Eu me preocupo com você. É entrar. Dois homens. nem menos. É por aqui. Por que doía tanto? Viu os estranhos passando a seu lado. A bomba estava armada. cruzavam rapidamente o gramado. provocaria uma explosão dos diabos. que adentrava o muro na altura do chão. Andando para matar. Um frio na espinha. mas talvez não chegasse a abrir um buraco para saída. Bateu com as costas no chão. Todos são iguais. Ainda não dá para sair dando aula. É um serviço. Surpresa. Respirava rápido. A barra. Não ia precisar. sem dúvida. Era sua missão. Os óculos para visão noturna estavam guardados. — Sou Fiel. Não temos idéia de quantos vampiros vamos encontrar nessa casa. Seus ancestrais inflavam sua alma. mas. O mais importante de tudo: dez minutos. Odiava pegar plantão naquele serviço. aqui. Os disparos silenciosos não despertaram os demais vigias. — Que é isso? . Era a tensão fazendo jorrar adrenalina na corrente sangüínea. Escuridão. Não é para pensar. Que seja! Podem ser bem mais de vinte. A roupa negra do Matador tinha camuflado a bomba atada em sua coxa. O coração disparado.se escondiam. O coração doendo mais. Levou a mão ao cabo do trinta e oito. pressinto que pode ser tudo diferente e tudo o que sei pode ser pouco. Largou a lanterna. atirar. Todo dia. Estava fazendo o que melhor sabia: matar. Todos na mansão esquisita usavam roupas como aquelas. — O Paulinho. — Escuta. Mas aqueles dois apontavam armas para ele. Seu coração começou a bater mais rápido quando viu Dimitri rosqueando o silenciador à metralhadora. com você. — Covil. Casa esquisita. pelas árvores que vamos sair. Fazia tempo que não assistia a um jogo do Corinthians. Estava com raiva daquelas criaturas. mais gente desaparecida. Não pelos casacos. sair. Todos de negro. que levantou-se majestoso. O inimigo não conseguira sequer sacar a arma. Não houve explosão. mais tenho dois filhos pra criar. Tobia viu Dimitri ajustando o cronômetro num artefato pouco menor que uma caixa de sapatos. Todos são inimigos. Vou te dar uns toques. Dimitri desprendeu a bomba do corpo e vasculhou o muro. A coisa é séria. Sorriu. Olho para frente. por enquanto. As palavras de Dimitri pareciam possuir eco. Tinha que pôr um basta. Não precisou olhar para o alvo. já tem café pronto? Alguém rindo respondeu. covil. Mato gente. Como o filho da mãe do Marcelinho jogava bem! Ergueu a lanterna. Tobia ouviu três apitos eletrônicos. Um brilho vinha da arma do homem de gorro preto. Não escutou disparo. Tirou do bolso interno do casaco um pequeno aparelho e acionou-o. Dimitri passou pelo guarda. o resultado seria o esperado. — Tá certo. Tem alvo. sem nada poder fazer. apenas com a cautela necessária. estava limpa. matei poucos vampiros. Vamos matar o maior número possível de vagabundos em dez minutos. Gosto de sangue na boca. Um led verde acendeu. Seu corpo estava leve. Perfeito. Tobia calou-se. — Casa. É noite. se estivesse enfiada no meio do muro através daquela tubulação. Um Landau estacionado do lado de fora da garagem. O guarda prendeu o rádio no peito. Não se preocupa comigo. tem que ver. Bem mais. Dedo no gatilho. O guarda que caminhava no meio do gramado levou o rádio à boca. Estão despertos. — Tá pronto. O facho poderoso alcançou a casa. a mansão estava se entupindo de gente estranha. O homem de gorro não tinha atirado. Não faria as coisas sorrateiramente. Não houve explosão. Aqui não tem gente.

Tobia contou cinco e abriu a mão na direção de Dimitri. Uma sala gigantesca. fez o municiador vazio voar longe e inseriu um novo. Teremos um breve treinamento. pois ouviam vozes e risos mais adiante. Dimitri surpreenderia qualquer matador. sim. Pagariam com a vida pela audácia. Despertaria a fera de olhos verdes para iniciar o castigo dos humanos. mas o tamanho impressionava. Tobia retirou uma estaca do sobretudo e afundou no peito da criatura. O quinto vampiro. Dimitri. Tobia cruzou a porta. pensou Dimitri. Deixaram a cozinha e cruzaram um extenso corredor. Aléxia levantou-se e rapidamente colocou a roupa. Os vampiros olharam para o homem que arremessava um cilindro ao chão. Agora. sua vampira mais selvagem. Dimitri abriu fogo contra os que corriam pela sala e derrubou todos. Parecia bêbado. com o corpo em chamas. Vacilar. Até os vampiros tiravam uma hora de telinha para descontrair. Aprendia rápido. Duas máquinas de lavar. gata-vampira. Dimitri puxou o gatilho da metralhadora. Tomavam aquela direção quando um vulto estacou na frente dos homens. a cada gota de sangue. Dimitri recostou-se no batente da porta lateral. Quero Ag-naldo e Danilo aqui. espatifando os vidros. Sétimo voltou-se para a exuberante Aléxia. quero que desça pela janela. dentes pontiagudos. Tocou a testa da vampira e deslizou suavemente os dedos até tocar o seio direito da amada. Com o passar dos dias de sua existência vampírica. Contou o vulto de quatro vampiros correndo. Invasores. — Tem homens nessa casa. Era uma área de serviço. Tobia viu o parceiro afastar-se do carro e correr até uma das entradas nos fundos da mansão. a gente acha ele. Dimitri chutou a porta e entrou. Secadoras de roupa. Ficaria imóvel até morrer queimado. . Cheiro de sangue. Um rapaz estava com a cabeça apoiada na mesa. Nem cogitava transformá-los em vampiros. Abriu a boca. Um deles voou contra o vitrô da sala. Aléxia abriu os olhos. arrancando do colete uma bomba incendiaria. Luz de um televisor. Paola vestiu apenas uma camisola transparente e desapareceu. A cada noite. Tecnologia. deixando o coturno estalar contra o chão de mármore caro. Inclinou o corpo e beijou-a no pescoço. A mansão tinha acabamento simples. Seriam devorados vivos por seus homens.— Um localizador. Devia ser a cozinha. caindo para fora da mansão. Silenciosos. O fogo se espalhou pela sala rapidamente. Agora Tobia estava recostado à outra porta e lhe gesticulava com a cabeça. repousavam as mulheres. Fumaça começava a se formar com a combustão do mobiliário. Poderia pôr tudo a perder. Matador puxou o pino e começou a contar mentalmente. Apontou uma escada para Dimitri. Ela. — Psssiu! Dimitri entrou. apreciaria trucidar os invasores. Suas deusas. Iria caçar para seu amo. pelo faro. meu doce. Cinco. Quero que você degole os dois. Quero que você os destrua. Paola era fiel. Oito disparos na cabeça. Entrou na sala sem cerimônia. mais lindas. o caçador. os mesmos que tentaram dizimar seu exército da outra vez. nuas. que escapara graças à experiência e à velocidade vampírica. Sétimo beijou a boca de Paola. eles ficavam cada vez mais lindos e profundos. Cozinha. Tobia adentrou a sala com a pistola engatilhada. Tobia recostou-se no batente. Vá até o covil e desperte os guerreiros que estiverem dormindo. Sétimo abriu os olhos. sabia que os invasores eram um presente especial. — Me quer agora. A vampira acordou e deu um sorriso. agilmente. O morador notou o intruso. provocando ruído grave conforme rolava. Os outros trombavam contra móveis. Se algum filho da mãe escapar e fugir nesse carro. Saía do transe. Ainda estavam boquiabertos quando a bomba explodiu. era Agnaldo. donos de um brilho perigosamente hipnóticos. espalhando ainda mais o fogo pegajoso que aderira em suas roupas e os fazia tochas ambulantes. desfiando-os a unha. Ao seu lado. Não havia uma folha de porta ali. O cão estalou contra a carga vazia. Dimitri já havia procurado abrigo. Sétimo. O vampiro tombou inconsciente. Abriu a porta e gesticulou para o outro caçador de vampiros. Sétimo? — Mais tarde. Tem homens querendo me destruir. Aléxia sorriu. Até Sétimo começava a temê-los. Tábua de passar. saltando pela janela. mas ainda carregava muita bondade humana no coração. Cada qual dona de beleza deslumbrante. Ignoraram as portas laterais. Conhecia o mercado e seu trabalho.

Estava envenenado! Aléxia terminou de descer os degraus. brilhantes. matador de vampi. Ali havia portas demais. Demorou tanto que o vampiro mais uma vez virou sombra. e ele não fazia idéia do que poderia sair de trás de cada uma. arremessado contra o chão. levando a mão livre para o topo da cabeça. — Você é meu. Tinha que distrair as criaturas. Atordoado pelo sufoco. Antes de completar a frase. O que estava acontecendo? O estômago queimava. o jogo ganhava tempero. Dimitri adorava o poder das granadas. Apertou um botão na extremidade do objeto de aço escovado e ouviu um ruído de liberação de ar-comprimido. tinha que ser lá fora. Sétimo. Flexionou os joelhos e desceu o quadril abaixo do quadril adversário. mostrando os longos dentes. Retirou o pino no dente e arremessou o explosivo para o outro extremo da sala. Sorriu. A coisa estava ficando difícil. Sua fêmea. Sem o adversário perceber. Levantou cambaleante. ferida. tempo mais que suficiente para Dimitri evocar sua habilidade marcial. a céu aberto. Tobia. Dimitri já tinha na mão o pequeno artefato. ergueu o corpo pesado de Agnaldo. Apontou a pistola e disparou. O vulto negro ia em direção às costas de Dimitri. Uma explosão. Ela haveria de se levantar. A dor era infernal. Passos no corredor. Onde diabos estava Tobia? Agnaldo grunhiu. Dimitri recebeu uma gravata firme. somado a uma pontente cotovelada. surgiu na escadaria. mas faltava força. Estilhaços de madeira e gesso voaram para todos os lados. mas antes que disparasse no vampiro. perdendo-se nas chamas. com a boca cheia de saliva. Grunhiu. Adversários sobrenaturais. mas tinha que colher um resultado dos bons. agarrando Agnaldo pela gola. no palco. Um vampiro poderoso na sua frente. na luta. Com o traseiro. A mão demorou para voltar com o cilindro do tamanho de uma caneta e uma agulha na extremidade. Dimitri sentiu um torpor. Olhos acesos. Voou pelo corredor. Tobia viu quando o vulto tornou-se maciço. finalizou o golpe. Se iam continuar brigando. O corpo musculoso ganhou tamanho. que. tombada. Um rapaz forte. Atrás dele. Os olhos tornaram-se vermelhos como sangue. — Ainda não! — vociferou Aléxia. Afundou as duas mãos no sobretudo. Saltava para o piso de mármore da sala quando um deslocamento poderoso de ar o fez perder o equilíbrio. era assim que queria. Enfiou a mão no colete e desprendeu o próximo truque. ficaria sem um osso inteiro na coluna cervical. era tão linda quanto imaginava. Os . do contrário. Agnaldo levantou-se. A coisa ia ficar feia. haveria de se curar com o sangue do malfeitor. Se morresse. cambaleou para trás. Sétimo. uma granada. folgou um pouco a gravata. pois não queria morrer. vitorioso. Combate vampírico. Tobia sentiu um impacto contra o peito.. perdeu os invasores de vista. pego de surpresa. Todas as forças somadas e sincronizadas fizeram o vampiro voar por cima do oponente. Abastecido. Hora de começar a usar os brinquedinhos especiais. Os olhos acenderam-se. e sentia vontade de vomitar. com expressão de dor. Seu susto durou um segundo. Dor. O maldito ia pagar por aquilo. caiu assustado.. Os músculos perderam a força e a coordenação. Assim que obteve resultado. Tentava arrastar-se para as escadas. Agnaldo arqueou o corpo e desviou dos disparos seguintes. A interrupção oportuna da vampira distraiu o oponente por um segundo. Estava forte. pois as baías não poderiam detê-la. Naquela noite queria ganhar. Uma sacou seu segundo brinquedinho: a pistola automática carregada até a boca com balas de prata. Tobia voltava correndo para a saía. Uma vampira descia as escadas. Entretanto. inumano. mas tombou desorientado. que acabava de voltar à sala. Três tiros no peito fizeram Aléxia arriar. arrastan-do-se até retornar para a cozinha. — Ippon ! — gritou Dimitri. Uma bala atingiu o ombro da criatura. e a arma voou para o outro lado da sala. — Ele é meu! Dimitri notou que a vampira que descia as escadas era a mesma que vira num Landau nas rondas rotineiras. enfiou a agulha no pescoço do vampiro. Ato contínuo. não naquela noite. Dimitri acionou a pistola. Que munição era aquela? Sétimo lhe dissera para não temer as armas mortais. Virou-se rapidamente. A outra. que ainda não se dera conta do que acontecia. o monstro desapareceu de sua frente. Apanhou o parceiro pela mão e correu para fora através de um buraco criado pelo explosivo. Um golpe forte atingiu sua mão. A mulher gritava atônita. Não sabia o que provocaria.Dimitri ergueu a metralhadora. Adrenalina esparramada pelo corpo. Dimitri contou oito vampiros. Realmente.

Desatou as tiras que prendiam o colete e deixou-o cair pesadamente. — Agora você xinga. Dispôs cinco granadas e separou uma para Tobia. meu Deus?!! — emendou o companheiro. — Quanto tempo? — Cinco minutos. Tobia tentava acompanhá-lo. — O PC não responde! — gritava Zé Carlos. Contenha-se! — Mas você também nunca me viu morrendo. né? Cadê esse papo de honra. Ao contrário do parceiro. uma para cada ombro. ao despir-se do sobretudo marrom. que terminavam em hastes curtas e raiadas para serem parafusadas. deixando só os olhos à mostra. Sétimo havia dado ordem à guarda para que impedisse que os invasores passassem pelo portão. temos que olhar para a frente e para os lados. Tobia. Retirou o estojo amarrado na coxa. Dezenas de olhos vermelhos acenderam-se na escuridão.. isso ajuda pra caralho! A direita. Pelo rádio. O ar queimava os pulmões. mas os olhos viam muito mais. caralho! Porra! Vampiros filhos duma puta! Que merda de bisavô que eu fui arrumar! Que ódio! — Cale a boca. — Fodeu. uma em cada cotovelo. Depois. Quatro minutos. de não falar palavrão? Ignorando os comentários do parceiro. estariam no olho da rua. Se aquele estrago não fosse resultado de um acidente doméstico. A bomba. Os vampiros estavam agrupados na entrada da mansão. estava o pequeno bosque. Tobia. Era hora de fazer barulho. três portas de correr foram levantadas. Dimitri despiu-se do sobretudo negro. Tem muito vampiro. Tinha que enrolar quatro minutos para tentar fugir. chapa. — Pra quê? Se vamos morrer. Talvez ainda aparvalhados com a súbita invasão. Morra com honra. Tobia imitou Dimitri. Retirou o silenciador da metralhadora. Dimitri torcia para que fossem no máximo trinta. acredite. Não sabia o que os vampiros planejavam. O peito subia e descia rápido. Os humanos corriam pelo gramado. Tudo o que pudesse intimidar deveria ser posto à mesa. quem vai cobrir nossas costas? Se chegarmos no muro. Dezenas de vampiros andaram vagarosamente para fora. na manhã seguinte. Envolveu-se no preparativo das armas. mas o tempo era bem-vindo. Baixou o gorro. — Quatro minutos! Caralho! — Nunca te vi tão boca-suja. de prata. Retirou o fuzil do pescoço e depôs aos pés. Dimitri. pelo menos que a gente esteja descansado para enfrentá-los. Mesmo assim. porra! Dimitri corria. Dimitri. Pra que carrega essa espada na bainha? Seja valente! Honre teus ancestrais! Ao lado da mansão.. Se ficarmos aqui no meio. contendo várias lanças coniformes. Duas peças pequenas. também assustado com a repentina explosão. Não vai dar. Paulinho! A casa tá pegando fogo! — Chama o PC no rádio! E o André! A explosão trouxe os homens de volta à vigília.malditos eram bons.. Temos que resistir mais cinco minutos. Tremia tanto que a armadura tamborilava. mas a pesada armadura de prata atrapalhava. Onde estava Danilo e seus capangas? Aqueles seguranças particulares eram um bando de bananas! — Puta que pariu! Que foi isso?! — espantou-se Zé Carlos. Sétimo sabia que não era bom dar tempo aos caçadores. Tobia. quando se deu conta do que o amigo fazia. — Precisamos alcançar o muro. E. pois eram ótimos criadores de . atrapalhado. Dimitri soltou o peso do corpo contra o concreto gelado. Tem que ser forte. — Tem muito vampiro nessa merda. — Não vai dar. — balbuciou Matador. — Que foi isso. Os vampiros ainda estavam na frente da mansão. Estavam se juntando. tremia. só. A segunda foi parafusada no lado esquerdo. — A casa. Colocou a primeira no lado direito do peito e atarraxou à armadura. — Tenta o André! Tenta logo. ficou surpreso. Caminhavam lentamente e dirigiramse para a mansão.. Encostaram-se no muro. Intimidação. por certo. Se os dois não voltassem. que os deixasse em paz. Eram fodidamente bons! Que humano duraria dois minutos dentro de um covil infestado de vampiros? Era um excelente treino para os soldados novatos. Sétimo atravessou as chamas e os escombros do que restou da porta frontal da mansão. Sorriu.

— antecipando-se. na peça do antebraço prateado. levando carne e ossos. só há uma paga. Dor excepcional. Se Agnaldo estivesse consciente. Os vampiros marchavam para cima dos dois oponentes. — Vinte minutos de carro. Abaixou-se. — Pode ser. em frente aos vampiros. Caçadores. Os mais experientes na frente. Quatro de helicóptero. quando obstinados.. — Aquele andou. Olhos do passado. Um erro e tanto. Olharam para frente. — Tô lembrando de uma coisa. senhor! Primeiro. Tempestade. Se estivermos enganados. aguardava apenas seu exército se reunir para liberar o ataque. na certa teria organizado melhor a manobra. Tncêndio. Os veteranos devem seguir atrás.E. Por causa desse erro e dessa presunção. não tinha medo. mas avance tropas por terra. chamado para o corpo de bombeiros. Mataram vossos irmãos. quando acertavam o corpo. abriam e fragmentavam-se. — Que é. no meio da neve. Seus homens estavam ali. Tinham a carne atingida. — Onde? — Região entre Itapevi e Jandira. apanhou o rifle e olhou para Dimitri. que ainda o observava boquiaberto. — Fogo! Dimitri apertou o gatilho. Ele é vampiro. Um garoto loiro em cima de um cavalo tordilho. Faltava o toque final. Aprendera duramente quando ele e seus irmãos foram caçados durante séculos pelo exército de Tobia. Tobia abriu os olhos. Escapar seria impossível. Serenidade. O cavalo empinava. Brites abriu a porta e encarou o soldado. Que perigo representariam? Marchavam. vinham duas pequenas tiras de couro. — disse Dimitri. Tobia sentia o coração acelerado. Dezenas. senhor. . — Não o vi. E aquele era seu mundo. uma explosão e disparos de arma de fogo. Os humanos empunhavam metralhadoras. Sentiu uma tontura repentina. O que é que tem? — Ele era o cara da moto no dia que invadimos a primeira casa. Um vampiro. Olhos que já tinha sentido sob sua pele. — Do quê? — Aquele magricela que apareceu na escada. Vamos de helicóptero. Para que tanta gente? Dois sujeitos acuados. Uma zonzeira. Vampiros não andam na luz do dia. Apertou o gatilho. — Preparar. Munição especial. Indo ao inferno. Como um pelotão organizado. Um caçador de vampiros. Duas lanças prateadas sobraram nas mãos trêmulas de Tobia. mandamos os moleques de volta do meio do caminho. Os vampiros vinham mais rápido. Tobia segurou a primeira com firmeza e puxou-a com força. As balas. Por isso. — Não pode ser. os mais fortes foram os primeiros a tombar. Apoiando. Matem os malditos. Chuva forte. os soldados de Sétimo avançavam. o soldado prosseguiu. No meio da chuva. Olhos vermelhos. Tobia olhou para os lados.temíveis artimanhas. Posso dar a ordem? — Todos os soldados de O. Nos punhos da armadura. mesmo humanos. — Pode colocá-las nas costas. Escuridão.. Pedaços desprendiam de seus corpos. Uma cena. surgiram pequenas e afiadas lâminas. Um escarpado. Os vampiros gritavam. Todos os seus homens estavam ali. Um cerco. — Apontar. — Ele pode ter virado vampiro agora. Olhos vermelhos. Fechou novamente. de maneira uniforme e sombria. O garoto loiro. Estendeu-as para Dimitri. Para esse crime. — Senhor! Senhor! — berrava o soldado à porta do alojamento. Todo o seu exército caçador de vampiros estava ali. Ele era um Tobia. Pode ser algo grande. se fosse necessário. soldado? — Uma ocorrência. por favor? Matador fixou-as rapidamente. Brites levantou-se assustado. senhor. A tira estendeu-se e. Depois. Tobia repassou os ensinamentos mentalmente.. Apertou os olhos. Repetiu a operação no segundo braço. eram um perigo. Explosões repetidas. Tobia abriu os olhos. — Soldados! Esses dois miseráveis ousaram adentrar nossa casa. — Por que eu não tenho uma dessa? Tobia deu de ombros. O castelo coberto de neve.. — concordou Dimitri.

sentada sobre o próprio calcanhar. Estavam próximos. Apanhou as granadas e removeu os pinos. Sabia que lutaria ao lado de Sétimo. Os veteranos se curariam com o sangue daqueles ousados invasores. Cada bala era uma jóia que não poderia ser desperdiçada. com uma perna flexionada. mas Entendiam que ele era o mais perigoso. Perdeu o equilíbrio e a arma. na linha de frente. Dimitri jogou a metralhadora para o lado. Estendeu o braço para cima. seria fácil de exterminar. cobrindo a prata com sangue enegrecido. Dimitri não podia. da frente da casa. espetando-lhes a carne com a lança. O outro. Diversos vampiros tombaram vitimados pelos estilhaços. estaria perdido sem tempo de recarregar a arma. Aos poucos ia se desvencilhando. Cabelos compridos amarrados para trás. decolou e caiu cinco metros à frente. Não os eliminaria. tentando provocar lesões nos vampiros que o tocavam. Mesmo assim não o ignoravam. — BUMMMMMMM!!! A bomba explodiu. Tobia também teve que mudar de arma quando ficou sem balas. então. . Um vampiro poderoso. arrancou a cabeça da criatura. protegendo Dimitri às suas costas. Sétimo. Dor. escapariam. Dor. Os vampiros apertavam o cerco. Sua espada varreu a frente e os lados. Aceleraram a marcha. Desferia golpes contínuos. Os vampiros mais fortes. Mirava a cabeça. Dor de cabeça. Levou a mão. Os vampiros iriam agarrá-lo em instantes. Agüenta firme. Os vampiros ilesos grunhiram raivosamente. fechavam em cima deles. a lâmina reluzia. pisavam em sua cabeça.. golpeado nas costelas. não quebrariam seu pescoço. Tobia. a visão do menino de cabelos longos empinando o tordilho. Falta pouco. Dimitri corria e recarregava a arma ao mesmo tempo. — Vamos. percebeu o rombo no muro. O bravo guerreiro afastou. Um ponto fraco. um a um. e o combate seria corpo a corpo. Novamente. Passou a espada. Os vampiros não conseguiam dobrar a prata. Grunhiu nervoso ao ver que os caçadores ainda não estavam mortos. Duas cabeças de vampiro rolaram. Um dos malditos tentava cravar os dentes em sua jugular. Alguns vampiros atingidos pelas baías comuns já se recolocavam de pé. a turba vampiresca. ao ferimento. Decepou o membro e. Ele se debatia. mas sentia a lâmina penetrar os adversários. Vampiros gemendo. eles não podem fugir! Tobia e Dimitri corriam em direção ao portão construído pela bomba. Inúmeros e mais poderosos. Paola. o atirador de capuz. Tobia apanhou uma pistola com balas de prata e desembainhou a espada afiada. Com muita. estavam com medo. assim que o municiador se esvaziasse. arrancava cabeças. Quando a munição acabou. e arremessou-as contra a multidão vampira à frente. Lesão. muita sorte. não percebendo o vulto passar na sua frente. Jogava o corpo contra os vampiros. Dentes pontiagudos. havia derrubado o humano com uma rasteira. involuntariamente. Nem o pé no caminho. Estilhaços do muro ainda choviam do céu. Quatro explosões clarearam a noite. Estavam tão colados a ele que. porém. mas ele e Tobia continuariam vivos. era um dos vampiros mais novos. Tobia posicionou as pernas de forma que pudesse se levantar. Estendeu o braço e iniciou os disparos. caçador. Poderosa. Gritava feroz. livre. Ali. mais ligeiros e combativos. mas o metal mágico protegia-o da investida mortal. deslocando o ar. Pedia ajuda. Uma nuvem de mãos e braços cobriam sua visão. Um tentou enforcá-lo. sem ver onde golpeava.aleijando.. Pensei que ia ser pior. Sangue estagnado. Queriam esmagar sua cabeça. Duraria apenas o tempo que durasse sua munição. mas a armadura era implacável. mais uma vez. Dor insuportável! O crânio estava sendo comprimido contra o chão. Paola. Novatos eram burros! Um humano! Como o deixaram dar tanto trabalho? Dimitri. no jardim. Pneumotórax. Os soldados tombavam. Mais perto. Uma criatura comprimia seus olhos desprotegidos. Mesmo com a escassa iluminação. muitos continuavam marchando. Bendita cota prateada! Os disparos da pistola de Dimitri embalavam seu ouvido. num segundo e preciso golpe. Mais alguns segundos. Um após o outro. Socorreu Dimitri quando um vampiro deitava-lhe o braço. Levantou-se rapidamente e chutou o tórax do homem caído. Vivos para um novo combate. Experiente. colocou-se de pé. A dor inexplicável que assaltara seu peito cedia. — Tempo? — Dois minutos e meio. foram atingidos na primeira linha. Júlio. Sabia que assim tirava os vampiros mais fracos de combate por um bom tempo. Apanhou o rifle carregado e começou a atirar mais uma vez. Abriu espaço no raio de alcance da lâmina. Tinha o corpo prateado. Costelas partidas. Tobia estava cego. diminuindo ainda mais o temor ao encapuzado. As aulas de tiro com Dimitri mostravam sua valia.

— Para o covil.. Nenhum poderia dirigir-se a ele naquele tom. Sétimo! O mais sanguinário. O que era aquilo agora?! — São vampiros. transmutou os olhos do vermelho para o negro absoluto e rugiu irritado. Tobia jogou-se no chão. Até Agnaldo. doloridíssimo. malditos inúteis! A turba silenciou. vamos defender a toca. O homem de armadura. os soldados disparavam. derrubando o que viam pela frente. com as portas laterais abertas. — Droga! Que fazes aqui? Impossível! Como ainda existes?! Não creio! — esbravejava Sétimo. Precisavam ser um só. imaginando que os soldados o acompanhariam. Um exército. empossado de velocidade vampírica. — Sim. acendendo os olhos e exibindo os caninos. clareando o caminho. Não podia colocar o parceiro no ombro. O helicóptero fez uma . mas não era isso que acontecia. Esperavam ver Sétimo trucidando o cavaleiro de armadura. Esse é meu nome. Para proteger-se. Por isso. a guerra estaria acabada. ainda afetado pelo alho. Apanhem as armas de fogo.. solitariamente. — Vamos matá-lo! Agora! —vociferou Sétimo. desengonçadamente. Passou o braço forte do Matador por cima do pescoço e correu com ele em direção ao buraco. Tobia não contava que o vampiro também o reverenciava. Sangrava. Tobia partiu para cima do vampiro. Sangue. Levou a mão ao peito ferido. Sétimo suava frio. Sétimo gritou. Um facho de luz os acompanhava. Sétimo. vampiro! Abra caminho se quiser viver mais um dia! — Como ousas? — Cala-te. caiu para trás. Precisaria de sorte e. Sétimo! Acaba com ele! — gritou um vampiro. com um novo rasgo no braço. Tobia colocou-se de pé. furioso. Os vampiros entenderam a mensagem. Dos helicópteros. Tobia!!! — Maldito! Como vieste parar aqui?! És de fato Tobia? — perguntou Sétimo.. o homem teve como se defender. A armadura do humano possuía lanças! — Malditos! Quem pensam que são? Acham que escaparão com vida? Os vampiros reagruparam-se. se tivesse a sorte de liquidá-lo na frente dos discípulos. encarou Tobia. — Abrir fogo! Atacar! Atacar! — ordenou Brites. A lança não permitia. Nenhum ser humano lhe causava medo. Sétimo tornara-se sombra e já estava ao lado do bando.. bloqueou a passagem de Tobia. Não podia ser! — Cala-te. os vampiros pararam. vampiro! Retira teus homens e deixa-me ir. Nenhum tinha esse poder. Quatro fachos de luz atingiram o gramado. Exceto. Todos estavam atônitos. — Tobia. Atacar simultaneamente aqueles que deveriam perecer. Sétimo olhou para cima. mas não contes com tanta sorte no próximo encontro. exceto. Quem era aquele que causava tal reação em Sétimo? Paola empurrou o homem para o meio da roda.. Os feridos estavam recuperando os sentidos. O temor de Sétimo demonstrava respeito. — engrossou Tobia. Sétimo. E o último aviso. e o embate resultou em nova ferida. Um selvagem. Tobia manteve a espada em riste. — Acaba com ele.. engrossava a multidão vampírica. Tiros às costas. Imitando o líder. A espada cortou o vazio. — Hoje tu escapas. O mais traiçoeiro. Sai agora! Mediante o espanto e o estarrecimento do líder. Tobia correu pelo gramado até alcançar Dimitri. Mais de sessenta. O peito doía bastante. estufou o peito e empunhou a espada. investiu contra Tobia. — Calem-se! Calem-se. Todos tinham balas de prata. Sétimo. descrito em minúcias em vários combates nas crônicas das caçadas deixadas pelos ancestrais.Perdição. Sétimo sentiu um arrepio percorrer o corpo. pois o vampiro poderia atacá-lo. mirando seu pescoço. Sabia que estava diante de um vampiro poderoso. Os vampiros tiveram de proteger os olhos com os braços. chocando-se contra o nada. acenderam os olhos e partiam para cima do alvo quando um ronco poderoso irrompeu na propriedade. caçador. senhor! São vampiros. O caçador de vampiros manteve a postura altiva. Dimitri foi atingido. Sétimo recuou dois passos. soltando-se das mãos do companheiro.

Ficou imóvel. Agora. Tobia apanhou uma pistola presa à cintura e começou a revidar. Do helicóptero. com soldados do Exército invadindo a propriedade. Vários soldados foram pegos de surpresa. O soldado continuou parado. chegando às marginais da Castelo Branco. Mais tiros. Os militares pareciam cometer o mesmo erro dos vampiros contra os dois caçadores: subestimaram o inimigo. senhor. Era poderoso ainda. — Fogo pesado. Dois soldados caídos. morrem. Vamos nos proteger em outro lugar. Os helicópteros.manobra e parou acima de suas cabeças. No chão. surpreendido. que ainda estava deitado. Atravessaram o muro e ganharam a mata. Eram jovens demais e nunca haviam combatido. logo saram. A resposta veio de um sargento a bordo de um caminhão que subia uma curva fechada. preocupados em subjugar o exército da noite. Gritos. Uma das salas da casa do traficante era um verdadeiro arsenal. mas aparentemente um pequeno incêndio ocorrera há pouco. aliviando o peso do pescoço de Tobia. Estava quieto. Principalmente seres sobrenaturais. se possível. Erraram. sargento! Não quero perder meus homens aqui por causa de demora. para dar seguimento aos testes com espécimes vivos. ouviram os disparos pelo rádio. com o tórax dolorido. desceram sincronizados até certa altura e pararam. balançava como um pêndulo o crucifixo. Os soldados. Os filhos da mãe lá fora são homens! Se tomam bala. Em trinta segundos já ouvia disparos. — replicou a voz chiada. Em outra direção. Os vampiros esconderam-se e os tiros cessaram por um instante. O rapaz estava mudo. olhou para o lado. Ali perto. na altura do bairro do Tamboré. mas ainda dava passadas. Sétimo deixou que apanhassem as armas. sem que eles se dessem conta do que acontecia. Foi o suficiente para ele apanhar Dimitri e fugir da propriedade. Cabos negros foram arremessados pelas laterais e. O companheiro ao lado parecia optar pela mesma tática. Mais tiros em sua direção. Ao ver a debandada dos vampiros do gramado. Usaria sua velocidade vampírica para dizimar os militares. acharam que tinham ido esconder os rabos dentro da vistosa mansão. O soldado Djalma. Os coletes à prova de bala eram da melhor qualidade. devemos chegar em quinze minutos. Ainda estava atônito. Sétimo apanhou uma pistola. Franco? — Acho que sim. — Onde estão as tropas de reforço? — berrou ao rádio. Foram pegos de surpresa pelos primeiros disparos. — Está bem. Capturariam vampiros. Ouviu um gemido. Enquanto os humanos estivessem lutando. — Acelerado. Tão forte que as feridas causadas pela prata não doíam mais. Vários soldados tombaram com tiros no peito. Aqueles soldados não usavam armaduras de prata. Cinco caminhões verde-oliva ganharam a Castelo Branco em alta velocidade. Pelo navegador. Mais homens descendo dos helicópteros. Sobre o colete à prova de balas do Matador. As cicatrizes. abrindo fogo com as armas carregadas com projéteis de prata e vencer a batalha com facilidade. os soldados desceram pelos fios. eram demoradas. Defendam a toca! Os vampiros gritaram excitados. mesmo assim o coice do balaço não era fácil de agüentar. Queriam combate. sentados um de frente ao outro. enfileirados. Se tomarem bala. ele ceifaria suas vidas. Haviam descido. estavam em campo aberto. Brites viu quando os inimigos começaram a revidar. o jogo seria duro. cada um com trinta homens a bordo. Mataria um a um. entretanto. outro que fora atingido no peito: três ao mesmo tempo. Uma das máquinas abriu fogo contra a fachada da mansão. O soldado Franco ajoelhou-se. Se chegassem ao Comodoro. A voz nervosa do tenente os assustou. Virou de bruços. com dor. — Pode levantar. — Estamos a caminho. Iria para o gramado. Metralhadora. Só podia. talvez ossos quebrados. apenas as criaturas atingidas por balas de prata. escapariam com vida. Sétimo ordenara um ataque de mãos limpas contra os primeiros invasores para servir de treinamento. Muita fumaça escapava pela porta frontal. Dimitri levou a mão à peça e segurou-a com firmeza. com agilidade. Djalma olhou para o outro. Os vampiros começaram a se armar. . Vocês são vampiros. com o gramado livre de vampiros. teve que manobrar para escapar dos tiros. ficando apenas um entre ele e Djalma. Artilharia pesada. Não viam chamas. O helicóptero. Djalma abaixou-se e virou o corpo do soldado com o rosto escondido. Pensavam entrar vitoriosos na casa.

Não temeu. Djalma perdeu a ação. Os helicópteros circundavam a propriedade. Não sabiam quantos vampiros havia lá dentro. ferida. aquilo não era bom. quase um pra um. Em terra. Havia sessenta soldados no gramado. Disparou contra Sétimo. tamanho o nervosismo que se apossou de seu corpo. Djalma. Pagariam pela afronta e principalmente pelo desrespeito em capturar sua mulher de olhos verdes. Estavam agora se posicionando melhor para invadir a mansão e liquidar a batalha. que não notou o vampiro postado às suas costas. o primeiro soldado lançou a rede com fios argentinos. não encontraram nenhum. um dos mais experientes. Sentiu vontade de vomitar. Problemas! Sétimo voltou ao casarão. um segundo soldado abriu fogo contra ele. antes de cair. Sétimo rastejou para dentro. De lá. após baterem cômodo por cômodo. Estaria se regenerando. certamente. Seguiu o instinto para localizar Paola. sacudindo-lhe o corpo. Aquelas redes de prata. Dispensou o grupo e concentrou-se em Aléxia.. Esses miseráveis não perderiam por esperar. e. — murmurou Djalma. temos que evacuar o covil. Apertou o gatilho. Os vampiros começaram a saltar pelas janelas e avançar pelo gramado. Poderia assumir a forma monstruosa. Não encontrou Aléxia. Franco gritou. Mataria todos. fazendo dentes e sangue voarem do outro lado. Fizera muitos soldados encontrarem a morte. despejando uma avalanche de soldados. escapariam levando muito dinheiro. O soldado Marcelo parecia desfalecer em câmara lenta. Estendeu a mão para evitar a queda de Franco. o que começava a incomodá-lo. Balas comuns misturadas às de prata. o vampiro desapareceu. mas queria o trunfo na manga. O vampiro ergueu a pistola e encostou o cano na nuca do soldado. Mal concluiu o pensamento. Sua vampira amada. uma vez capturado. Ordenou que os vampiros fossem para o subsolo secreto e se escondessem. a melhor arma era o lança-redes. mas não teve tempo de avisar. Era o soldado Almeida. mas. mas pressentia o perigo. Uma explosão no portão. Djalma deu uma volta sobre os pés. Aléxia não se encontrava na sala. capturado. Ao sair da casa. colocou-se de frente para a mansão e abriu fogo contra um dos atiradores. mas a maioria havia levado apenas um susto. ele seria o próximo assim que acabasse com aquele que tinha nas mãos. Caminhões invadiam o local. Pagariam na hora certa. sem tiros adversários. abobalhado. torceu o braço até ouvir o osso quebrar. Os soldados com as metralhadoras procuravam dar a melhor cobertura possível para os companheiros. Correu e arremessou os pés contra o soldado. Os ilesos buscavam um alvo e disparavam na cabeça dos soldados. Mais um amigo morto. como saindo de um transe. Não sabiam quantos vampiros havia no interior da mansão. O vampiro foi ao chão. Sua vampira. O vampiro reuniu um pequeno grupo. Sétimo deixou a mansão e pulou para cima do soldado mais próximo. o sargento ordenou a invasão. Após cinco minutos de quietude. Lúcio. armas e vida para reorganizar o exército.. — Vamos. mas antes que a rede envolvesse o alvo. gritando desnorteado. Carregava uma faca e ia enterrá-la no coração humano quando um soldado surgiu às suas costas portando um lança-redes. também usava velocidade vampírica para atacar. o vampiro estava fora de combate.. pois. Ainda não tinham como avaliar as baixas. queria pegá-los de surpresa. Balas de prata! Cambaleou para trás. Estava pleno de energia. uma saraivada de balas recebeu-o à porta. Os soldados cercaram a mansão e avançavam passo a passo. O último helicóptero descarregou seus homens. Os humanos aprendiam rápido.. O cutucar levou-o de volta ao gramado. Vingança era sempre uma delícia quando apanhava o inimigo de surpresa. nem se mexeu. . Um tiro na perna.. Os atingidos tombavam gritando. Ainda considerava seu exército e o desejo de conquistar o mundo mais importantes. Djalma acompanhou tudo. Onde estava o maldito? Sétimo viu que alguns soldados imobilizaram os vampiros inconscientes com algemas de prata nos pés e nas mãos e sentiu o perigo que aqueles artefatos representavam. Não deixaria a paixão prevalecer sobre a razão. Tinha que salvá-la. De repente.Estremeceu. Ajuda-me a escolher os melhores homens. Tinha aniquilado três soldados e partia para o quarto. Teria tempo para ir atrás de Aléxia. Sétimo cumpria sua promessa. Não será produtivo persistir nesse confronto. O vampiro escondeu-se. Faltava um pedaço do rosto do Almeida! — Ele morreu. Djalma soltou o fuzil pendurado ao pescoço e ergueu o lança-redes.

os oito entraram no veículo. — Acharam-nos. César percebeu logo o que acontecia. comentara que precisava de um carro grande o mais rápido possível. A placa indicava: São Paulo . Imediatamente. . Certamente. O carro não fora comprado. Um bloqueio. — Problemas... — sussurrou. Tiago queria chegar. Fora roubado.. Duas viaturas da polícia rodoviária fechavam o caminho. varrendo o asfalto. Tirou a arma do coldre. Enquanto caminhavam pelo calçadão do Guarujá. O policial rodoviário notou a Cherokee. Os policiais pediam que os carros passassem. Vamos algemá-los. Uns nove carros na frente. o vampiro só poderia fazê-lo uma vez a cada ciclo lunar. que ficasse desmaiado por um bom tempo. Entreolharam-se. Vocês têm direito a um advogado. Um relâmpago cortou o céu. Com um carro roubado? Será que estavam procurando a Cherokee? Reduziu a velocidade.. estariam em São Paulo.. selecionam por amostragem. Tiago e Eliana torciam para que o rapaz não estivesse morto. Os policiais dispuseram-se estrategicamente. o covil abandonado nos arredores do bairro do Novo Osasco. a gente passa batido. — Mão na cabeça! Mão na cabeça! Os olhos acenderam-se. — Devagar. alcançou o motorista de uma pick-up parado na porta do veículo. Quatro policiais com cara de poucos amigos. e o céu. Queria chegar em silêncio. surpreender a criatura. Deve ser operação de rotina. adiantou-se.. Não param todo mundo. Teriam sorte se passassem despercebidos. Tiago não teve tempo de protestar. Isso o fizera incluir um bilhete em sua memória: cuidado com o que fala aos vampiros. Inverno. Vai ser problema. — Saiam do carro! Saiam já desse carro! — gritava um deles. Estavam tensos. mas algo o tirou do torpor.. obrigando os carros a passar um por vez. Ordem para os carros passarem. Estão procurando documentação irregular. Eliana saltou do lado do passageiro. Dois de cada lado. — emendou César. estava calado.160 km. — E agora. Não havia saída lateral. Encostem no carro. Não poderia dar ré. o Corsa prosseguiu. devagarinho! — Vocês estão presos sob acusação de roubo de carro. lentamente. — Pai do céu?! Que é que é isso? — espantou-se um deles.. Inverno agarrou o rapaz pela garganta e o arremessou para a areia. — Todo mundo quieto. Não que temesse um confronto. chamaria a atenção. — Abaixem os faróis. e agora a estrada parecia retilínea. apenas. como os vampiros. Não queria pedir a Gentil que usasse o poder de parar o tempo. — Calma. Tiago obedeceu. Tiago desceu vagarosamente. Imaginavam ter encontrado uma simples Cherokee roubada. Os guardas não tinham noção do risco que corriam. bem antes do Sol raiar. Os faróis da pick-up iluminavam o caminho. Era só mais um usuário da estrada. Os cinco carros da frente passaram lentamente. Em menos de duas horas. O motorista foi abordado por um dos policiais e passou pelo vidro os documentos e a habilitação. no entanto. Rodaram mais meia hora. Com passadas largas. imediatamente. Titi? — afligiu-se Eliana.. caindo desacordado. Inverno foi o segundo a tocar o asfalto. Tiago não queria confusão logo na chegada. haveria oportunidade mais nobre para gastar esse trunfo. Inspecionada a documentação. Estamos agindo sem violência. O guarda levou a mão à arma e andou rapidamente para perto do segundo.CAPITULO 63 Tiago conduzia uma Grand Cherokee serra acima. Longe.. A viagem estava monótona. As luzes dos gíroflex iluminavam o asfalto.. Com sorte. flertando com uma garota. sem dar chance para que o maldito se preparasse para a tormenta. Alguns tinham o interior examinado pelas lanternas. luzes no meio da pista. Estavam em alta velocidade. Haviam vencido a serra. — balbuciou Tiago. — Vão nos delatar para as autoridades. pois confusão teriam demais quando encontrassem o vampiro Sétimo. A noite estava escura. Precisava achar um pouso seguro.. enérgico. Todos abriram os olhos. encoberto por nuvens negras que tapavam a luz da lua crescente. César. por motivos mais que óbvios. O guarda se deslocava rapidamente. Um Corsa sedan foi para o acostamento. Tiago manteve a expressão normal. Iria para a velha casa.

Baptista separou os braços. mãos na cabeça. Tinha medo de perder o controle. Miguel abaixou-se para pegá-lo. formou-se uma enxurrada. quentes. Tiros! A tempestade intensificou-se. Poderia ser um modelo ou algo assim. Tiago que tomasse a decisão. o vampiro Tempestade. Não demoraria muito e estariam seguros na velha casa em Osasco. e girou a cabeça do homem. Mais um policial morto. Os tiros agora incomodavam menos do que antes. Poderiam ser assaltantes de banco. estáticos. Os guardas do outro lado começaram a atirar. Do outro lado do carro. Antes que o fizesse novamente. mesmo com dois tiros no peito. mas o maldito cheiro impregnava suas narinas e fazia arder o estômago. com um tiro na barriga. Os policiais não desgrudavam os olhos do bando. O último pereceu nas mãos de Dom Fernando. Acordador desceu. Um segundo policial aproximou-se e algemou-lhe as mãos às costas. Precisavam eliminar aquele bando antes que acabassem todos mortos. O vampiro Fernando. Assistia a tudo. tornando a pele da vítima tão pálida quanto a de Miguel. de tão grande. que disparou a arma. Gentil e César. — Todos para o carro. Os suspeitos somavam o dobro dos policiais. Raspou o chão com o solado do coturno. Trovões. Gotas grossas de chuva começaram a cair. o céu parecia desabar. até com arma na mão... — Parado! — gritou. como se as algemas fossem feitas de papel. fazendo que o mesmo parasse de atirar. Eliana não havia provado do sangue. Olhou para as nuvens e sorriu. O policial continuava apontando a arma. Fernando franziu o cenho. Estavam fugindo ao controle. Miguel.. acalmando o guarda. Outro relâmpago acendeu o céu. levando água para o acostamento. Relâmpagos. Eliana permaneceu escondida no mato que crescia beirando a estrada. Tinha dois homens sob mira. Ainda não sabia o que aconteceria caso fosse atingido. Um policial olhou para cima. ergueu um policial pelo pescoço. Tiago. Tiago aplicou um chute na virilha de outro policial. César descia do carro. A chuva virou tempestade. Deixou-a no assoalho: não ia precipitar as coisas. Inverno. Poderia cair o mundo. pois Miguel o encarava e Dom Fernando olhava para sua jugular pulsante. Tempestade encostou-se na Cherokee. e o brilho vermelho voltou. Os suspeitos desapareceram num relance! Como?! Somente o algemado continuava encostado na pick-up. Ficou mais nervoso. Repentinamente. Vamos dar o fora daqui antes que chegue mais gente. A chuva forte derrubou seu quepe. Esparsas. — murmurou o soldado para o sargento. um instante. Tempestade e Eliana ergueram os olhos para os policiais. os dentes dele são de vampiro. Tinham voltado mais fortes. encaravam o atirador. Sorriu para o policial. arrastando pedriscos. de joelhos e encurvado. avançou um passo. O tipo de homem que dá medo de peitar. Estranhava o fato daquele outro homem demorar para descer. expondo os dentes protuberantes. O rapaz virou-se para o capo.. violento. Acordador. Um rapaz bem apessoado. Apontava a arma para a cabeça de Tiago. — Os dentes dele. Ainda mais com a pick-up cheia. e forte como um touro. ele estava no comando da ação. Rapidamente. acomodaram-se na Cherokee e seguiram viagem. Olhou para Tempestade e aquiesceu. César pulou para dentro da pick-up. Um trovão poderoso ribombou. calado. Acordador aproximou-se.. Os outros três acorreram ao amigo que disparara o revólver. Inverno chegou por trás e quebrou-lhe o pescoço. O que ia mudar para a mulher é que . com um metro e noventa aproximadamente. Que merda estava fazendo com aqueles bandidos? O outro. Não era todo dia que entravam em ação. de feições muito bonitas. César carregava a doze dentro do carro. Do outro lado. O homem estava muito nervoso. Olhou o interior da Cherokee.— Virem-se. adiantava-se para descer. Estava com as armas na cintura. Ainda não lhe apetecia a idéia. arrancou a arma e cravou os dentes. sem participar da matança. — Encostem no carro! Já falei! — gritava o soldado. Trovões. Tempestade desceu. Em poucos segundos. ao seu lado. a cena era a seguinte: Fernando no chão. Quem rouba um carro potente desses nem sempre é um simples ladrão de carro. Era sempre perigoso lidar com esse tipo de assaltante. Baptista. assustado com a quantidade de gente saindo. Do outro lado da pick-up. colocaram os cadáveres dentro das viaturas. apontando a arma para a cabeça do vampiro. que a água arrastava. um homem negro. Os policiais não estavam enxergando direito. um dos rodoviários aproximou-se do veículo. que sugou-lhe o sangue com velocidade. Não queria ser baleado. O coração estava disparado..

.não poderia descansar no confortável quarto de casal.. como qualquer outro vampiro.. teria de juntar-se aos demais e repousar no covil.

Sua atenção se voltou especialmente para a figura de dois que corriam para fora do terreno da mansão. Iriam dizer onde encontrá-lo. O garoto de cabelos longos. Eles se acumulavam no galpão e começavam a constituir perigo. Câmeras instaladas nos helicópteros e também acopladas à indumentária de alguns soldados permitiam que muitos detalhes fossem resgatados. Fora os corpos sacrificados à luz do Sol e dos decapitados e queimados pelos lança-chamas. Trazia o rosto do vampiro impresso numa folha de sulfite. O entardecer avançava lentamente. franzindo o cenho. Seis horas e quarenta minutos da tarde. — Calados! — gritou Aléxia. — Sétimo! — exclamou um deles. Os homens treinavam com armas e ouviam palestras. Sétimo. o tenente Brites. Com programas de computador. deram um passo para trás. Apesar das câmeras. Seriam destruídos. Virou-se de frente para os prisioneiros. aproximando-se. — O Sol está descendo. chacoalhando nervosamente as barras de prata. Eles eram fichados digitalmente. Um vampiro chamado Sétimo. dos sentinelas e do quartel fortemente armado. como se o protegesse de uma possível estacada.. — Imprima o rosto desse vampiro. eles já vão acordar. mas os olhos vermelhos causavam calafrios. começamos bem. cambada de alfaces. Entre eles. Os vampiros abriram os olhos. Estava à solta. O tenente. Cada qual. Para Brites. Ao menos. vigiando atentamente. executados pelo mesmo assassino. identificavam cada um dos vampiros. iriam lhe dizer quem era aquele da foto. Dois ou três soldados. Assassino dos mais experientes. recebendo de Brites um olhar reprovador. Procurava o assassino. Brites cansou-se do vídeo e desceu para o galpão onde as criaturas capturadas continuavam nas jaulas de prata. quase louros e longos. Certamente. Seriam mantidos até se cumprirem mais algumas experiências. Um. A maioria despertava pela primeira vez após a captura. Sacou a pistola e disparou contra a cabeça da criatura. um garoto pálido e de corpo franzino destacava-se. tenente. Os vampiros explodiram em gritos de aprovação.. — disse um soldado. Sol poente. Logo daria fim àquele grupo de vampiros. — Bem. O maldito não fora capturado.. Diriam ou morreriam. A troca de turno já acontecia. observando suas expressões. Os cabelos eram lisos. Talvez o par mais poderoso. O de armadura atirou contra as aeronaves. deixando o coturno estalar suave contra o assoalho. Retirou do bolso da camisa verde-oliva o sulfite dobrado em quatro e exibiu aos vampiros. Alguns grunhiram. a prioridade era capturar o vampiro perigoso. com seu plano de fuga. Quando os malditos despertassem. Ao pôr-do-sol. sem conhecer um ao outro. flagrado em dois momentos atacando soldados. um nome eu tenho. — Calem-se. Brites olhou para os vampiros. Hélio e Aléxia. Sétimo virá nos salvar! — gritou o outro.CAPITULO 64 Brites reassistia à invasão ao covil. ainda espantados com a fúria. Olhou demoradamente para a fotografia do vampiro de cabelos longos. A maioria sorria. A primeira coisa que viram foi a fileira de sentinelas armados logo à frente. voltando com passadas firmes para uma das paredes do galpão. o número de soldados triplicava. Os novos sentinelas adentravam o galpão e prestavam continência ao superior. — Vocês estão fodidos. mãos cruzadas sobre o peito. Entretanto. que tombou inanimada. o Exército aprendera e ainda aprendia a combatê-los. O Sol ainda estava no céu. Passou pela fila de garotos e garotas até conseguir o que queria.. carregava o outro. Um grupo de soldados também analisava as gravações. com uma touca cobrindo a cabeça.. Alguns sentinelas permaneciam no cativeiro. Matar mais inocentes. recostada às grades. de traços fortes. Olhos cerrados. restavam dezoito vampiros. O rosto reto. Olhava para os vampiros adormecidos. vampiros agrupados eram como um barril de pólvora: assassinos velozes. Vinte e dois homens abatidos do mesmo modo: tiro na nuca. Parte dos novos prisioneiros atirou-se contra as grades. disponíveis para futuras pesquisas. Um a um. Caminhou entre as celas. trajando vistosa armadura metálica que refletia ao ser atingida pela luz dos helicópteros. aproximou-se de um dos vampiros mais revoltados. Identificar vampiros fugitivos era um dos principais objetivos. de rosto duro e expressão decidida. . Matar mais soldados. com o despertar das criaturas.. A maioria de pé. Livre para matar. Brites deu as costas ao bando. No meio deles.

chorando horas a fio.. Rejeitava ter se tornado uma criatura da noite e evitava o sangue. E aos demais também. um vampiro que estivesse em contato com o líder. Acabaria com os soldados e a libertaria. — Tira-me dessa cela de prata que te ensino o que é a morte! — gritou. voltando a esconder-se nas sombras. — grunhiu a fera. Bastaria sentir Paola. — Onde encontro Sétimo? — Cê quer morrer. aos poucos. pele pálida. Olhos lacrimejantes. dispararam o fogo. — Não vai dizer onde ele está? — Ah! Ah! Ah! Prefiro pegar um bronze. mas de pele ligeiramente empalidecida. A criatura arremessou-se contra as grades e estendeu o braço. o elo fraco que procurava. — Eu te levo. As outras criaturas. chorando. perdeu o controle do corpo. Sabia que o cárcere não ia durar muito tempo. Brites afastou-se e estalou os dedos. sobretudo.. Ele não respondeu. — Não são poderosos quanto pensam. maís uma vez. aproximando-se do vampiro. e. Olhou para a fila. capitão? — Acho que antes de ser vampiro. — Onde eu encontrarei Sétimo? — perguntou Brites. lutava contra aquele estado. Brites voltou a estalar o coturno contra o chão. Quando os gritos cessaram e a grade foi juntar-se ao primeiro queimado. mais Aléxia e Patrícia. a criatura empertigou-se. tentando agarrá-lo pelo pescoço. Ao tentar queimar-se com a luz do Sol. cê não tem idéia de quem Sétimo é. Os jatos de fogo queimaram o vampiro. o ritual de gritos começou. Brites aproximou-se devagar. Um haveria de abrir a boca. iria destruir aquele tenente de meiatigela. não conseguiria delatar o líder. Não são indestrutíveis. Quando percebeu o tenente. Aléxia contraiu as pálpebras. Um estampido. — Não se mata o que já está morto. Brites chegou perto do vampiro. uma chance. Os vampiros sacudiram as celas tentando entortar as barras. — Ah! Ah! Ah! Cê é engraçado. Ela ergueu a cabeça. Se tivesse chance. sem dentes alongados.Brites gesticulou para uma dupla de soldados. Parecia debilitada. Brites sorriu. se aquietaram. Não poderiam localizar Sétimo. Dentro da cela. Brites voltou-se para os soldados: — Desatrelem a cela. Se você topar com ele. sobre um quadrado amarelo pintado no chão.. Mesmo que quisesse. você é um brasileiro. vampiros. O olhar de Brites parou sobre uma garota ajoelhada. Eles engancharam um caibro numa das celas prateadas e arrastaram para o centro do galpão.. Ao contrário do Sol. caminhando até o quadrado amarelo. mas era impossível. — Diz isso para aquele churrasco de vampiro ali no canto.. — Sétimo é nosso líder. Nunca sugara um corpo humano quente e a única vez que recebera alimento. O sangue daqueles soldados insolentes. Os soldados avançaram. O resultado era sua fraqueza.. Não posso permitir. Se conseguisse escapar. chegaria ao vampiro. Os soldados com lança-chamas foram para perto da cela. morre. pois os vampiros mais novos ainda não haviam desenvolvido o poder de sentir. Dentro. É nosso pai.. O vampiro também fora capturado na mansão. te levo onde Sétimo está. Um haveria de temer a destruição. mas viria. ô capitão! — o vampiro fez os olhos acenderem e os dentes brotarem. a vampira ergueu um dedo. — Acha que sou dedo-duro. Carbonizado o corpo. a morte nas chamas era lenta. a cela foi arrastada para um canto do galpão. tamanho o desespero. Estalou o dedo. Uma vampira. por causa dela. Ela mesma não tinha coragem de acabar com a vida. São mortais. avermelhados. Apenas seis vampiros não participavam da agitação: quatro que pertenciam ao grupo remanescente do decapitado Dom Afonso. e a dupla de soldados repetiu o trabalho.. Desde sua vampirização. fora contra sua vontade. debilitada. . Abaixou-se até ficar perto da moça. Não o faria. Esse Sétimo está disseminando essa doença. Por que ajudaria a destruí-lo? — Ajuda ou morre. um rapaz negro. não é? Mano. Estava exterminando os soldados de seu amado. Brites afastou-se. Preferia as chamas a trair Sétimo. Dois lança-chamas acesos. um dos recém-capturados na abordagem ao covil. Assistia àquela cena com esperança de ser a próxima. propagando essa raça assassina. seria fácil localizá-lo. Os gritos do monstro sugador de sangue tomaram conta do galpão. Chegando à amiga. jogando-se para o dia. Sétimo cairia como um raio sobre o quartel maldito. rugindo como um gato eriçado. exausta. com o rosto colado nas grades. Brites gesticulou com a cabeça. Queriam o sangue de Brites.

mais do que nunca. — Estou presa. A fraca Patrícia não encontraria Sétimo. Estava olhando para uma vampira. disponíveis. Um conferiu o aparelho de fax. — Por que vou confiar em você? — Você é quem está procurando Sétimo. soldado. senhor. Urgia colocar a Grande São Paulo em quarentena. Interrogando os vampiros. os lobisomens. soldado. Revistar cada canto escuro. teria de ser reavaliada. alguma coisa lhe dizia que a aparição de Sétimo tinha algo a ver com aquela oportuna limpeza. Patrícia soluçava. Era um dos malditos do rio D'Ouro. — Quero um relatório da última hora. cabelo nos ombros. O dom de seguir um ao outro mentalmente. Quer escapar daqui.. Um monstro. Outros treze foram expostos ao Sol assim que o astro-rei despontou no horizonte. o que posso lhe fazer? — Por que pode encontrar Sétimo e ela não? — Sou uma vampira mais desenvolvida que esta aí. Você está matando todos e quando encontra um que quer levá-lo vai querer destruí-lo também? — Tenho impressão que não posso confiar em você. fora o pelotão do sargento Tavares. Acelerado! Brites tinha pressa. não eu. Tudo que pudesse abrigar a merda de um vampiro. todos incinerados no local. Ao todo. Não sabe como encontrar Sétimo. — Busque detalhes.. Bueiros. e está blefando. Os soldados técnicos em informática continuavam cadastrando as criaturas capturadas pela câmera filmadora. vinte e sete foram destruídos no combate. e dois queimados naquele dia. Cerrou os olhos e concentrou-se. Sorria para a vampira antes de desaparecer de seu raio de visão. Aléxia encarava Patrícia quando separaram sua cela prateada. Brites virou-se para as criaturas. Mande o sargento Tavares. noventa e seis vampiros. Sou linda. — O que te difere dela? — Ela está fraca. Posso sentir Sétimo. Coloquem a vampira loira no helicóptero. — Eu levo você até Sétimo. Seis soldados correram aos telefones. Sabia que Sétimo era poderoso como os irmãos e que sua captura e destruição ia requerer muito cuidado e fogo pesado. quatro foram destruídos. Só assim conseguiriam livrar o mundo daquele mal. era um dos sete grafados na caixa de prata. Loira. — Desatrelem a cela. no pátio. Não quero minha pele marcada! Não vou me arriscar por causa de Sétimo. Principalmente porque sabia que aquele nome. — Guarujã é no litoral sul? — Sim. a priori descartada pelos superiores. Fogo e prata. Eu vou sair com tropas para encontrar o tal do vampiro Sétimo. Sétimo. Era linda! Um perigo! Manteve a expressão dura e retomou o controle.. — Onde? — Rodovia Piaçagüera. Tenho esse poder. Tinham cerca de cinqüenta vampiros catalogados. localizá-los e destruí-los. Só podia ser um dom. — Quatro policiais rodoviários foram degolados. descobrira que Lobo fora destruído por uma fera alada. Brites sabia que ela poderia estar falando a verdade. Brites sentiu-se hipnotizado pela sensualidade da mulher. Todo e qualquer indício de atividade vampírica deveria ser investigado. senhor. Estava triste e sem forças sequer para rebater os argumentos da vampira. Brites voltou para a sala de comando. O coração disparou. Posso levá-lo ao vampiro. Encontrá-los mediante um sentir. Pelos cálculos. Não estava olhando para uma mulher. Sua proposta de instaurar toque de recolher.. Cada buraco abandonado. Eu posso encontrá-lo. pois parte do mistério que intrigava os militares era como Inverno tinha encontrado os vampiros removidos para Porto Alegre.E. Sabia o que Aléxia estava tramando.. olhos verdes cintilantes. Os malditos estavam se proliferando como lebres! Era preciso. Mande um pelotão de Operações Especiais para lá. — Por que quer entregar Sétimo? — Porque não quero ser queimada. Do grupo capturado na clareira. Outro começou a buscar nos sites de notícias da internet. que fica no litoral sul a São Paulo. Sou uma jóia.— Ela está muito fraca! Não vai conseguir! — interferiu outra vampira. A vampira estava no bloco de trás.. Quero decolar em sete minutos. Quero todos os soldados de O. mas poderia ter a sorte de causar .

. A cela chacoalhou quando foi içada para dentro da aeronave. Aléxia queria preservar a integridade do amado vampiro. Um vampiro que invadira o covil e desaparecera em companhia de Sétimo. Ela nunca os levaria a Sétimo. Daria a eles um vampiro intrometido. transmutado em fera alada. Mas teria de dar algo se não quisesse se ver vítima do próprio ardil. Daria a eles o vampiro chamado Tiago. Nunca.algum prejuízo.

A vampira de olhos verdes e de corpo enfeitiçado. Maldito! Precisava se proteger. Provavelmente. Sétimo podia conversar em paz com os seus. distribuiu aos seus melhores homens. Sétimo pedira que a mulher encomendasse uma dúzia. com os olhos acesos. uma explicação. Após o ataque. Apanhe uma moto para você. tirar a atenção sobre seu covil. Sétimo remoia-se de ódio. uma cruz sugerindo quatro pontas afiadas. — Agnaldo. os vampiros não usavam luz. Que trouxessem o pânico. estavam assegurando que a mansão não abrigasse mais vampiros. Um assassino mais terrível ainda. Não fosse a intervenção das tropas do Exército. Sua outra parte. Ficara tão surpreso na ocasião que baixara a guarda. Sétimo apanhou uma camiseta preta e colocou sobre o tórax magro. Pagaria como os demais. Iria trespassar a muralha prateada que constituía a armadura de Tobia. Soldados do Exército circulavam na superfície. teria de fortalecer seu exército. Seria uma espécie de identificação. É um vampiro forte. Como planejado. com um crucifixo vermelho nas costas. mas que não os trouxessem à proteção do covií. Ali ficava o laboratório de refinamento da droga do traficante. Amanhã. Um pressentimento incomum cortou seu peito. — Ainda está machucado. Estava desativado. recuperaria seu outro amor. Tinha duas feridas ainda doloridas causadas pela prata. — Agnaldo! O general apresentou-se. mas ele e Paola usariam uma só. Longe dos holofotes. com as pontas terminadas em linhas retas agudas. mas pronto para lutar. Tomem cuidado com os soldados. Sétimo encheu uma bolsa de lona com dinheiro. Agira por impulso. Tiago tramava contra ele. metade do exército. após deixar Paola em uma toca segura e dar descanso ao próprio corpo. Encontraria o esconderijo onde mantinham Aléxia em cativeiro. Criem vampiros. No entanto. mesmo após o calor da batalha. jaqueta preta.. Porém. senhor. mas não achou prudente. O covarde vampiro desaparecera logo após o confronto que exterminara Dom Afonso. Ordenou aos vampiros mais experientes que saíssem à noite. Agora que os vampiros se espalhariam pela cidade. estava contra ele. um membro direto da gangue do vampiro Sétimo. me encontrem aqui se conseguirem se aproximar da entrada do esconderijo com segurança. Tobia! Implacável Tobia! Caçador maldito! Desrespeitara-o na frente de seus vampiros. vou buscar Aléxia. com ordem para acionar somente dois quilômetros dali. Tiago o levara para destruir Dom Afonso. Quero armas. reforçado por seu exército noturno. Os brasileiros iriam pagar pela afronta! O Exército. Sétimo saiu. Os cômodos eram de concreto liso. durante a noite. Descentralizar suas forças. Quero Danilo. a jaqueta negra com o crucifixo indicava que ali ia um seguidor. Amanhã. Quando o Sol raiasse. Espalhar o mal vampírico. de músculos bem delineados. Talvez a campana durasse dias. Desaparecera sem dar uma palavra. Por cima. não encontrou a entrada secreta para os pisos subterrâneos da fortaleza do traficante Danilo. Um clã maldito. Que os deixassem no seio da família. Bem iluminados. Conseguiria. Os malditos e estúpidos caçadores haviam lhe pregado uma peça. Pensava retornar ao casarão. mas os subterrâneos não eram mais seguros. — Senhor. Um sinal. e Paola colocou armas em outra. Que enlouquecessem. em vigilância constante. Ele buscaria uma toca segura para a linda morena vampirizada. Tornar-se um tormento. Isso cheirava mal.. Sem poeira. Para combater os militares. Sétimo reunira-se com os vampiros sobreviventes.CAPITULO 65 Logo após a invasão de seu covil. Seus pensamentos eram puro ódio. Eram quase cinqüenta. evitando o antigo covil não imaginava estar ajudando o grupo de Tiago. Descobrir onde estava o atual castelo do caçador. Onde estava Tiago? Ele saberia guiá-lo naquela situação! Por que renegara o império que ele estava arregimentando? Pagaria. ja era conhecido dos caçadores. teria eliminado Tobia no primeiro encontro. Duas ficaram na toca. os técnicos estavam de férias havia uma semana. Sétimo viu quando os vampiros deixaram o esconderijo. Quando tiveram essa conversa. ainda estavam no subterrâneo da mansão. Isso não continuaria assim. Sua fiel parceira. Que fizessem mais vampiros. Ordenara que os demais procurassem jaquetas iguais. Sua vampira adorada. Já havia sofrido um ataque. Levaram quatro motocicletas esportivas. Se não estava com ele. Causar terror. Sol a pino. . — Entendido. Longe dos olhares dos soldados. sairia às ruas. Estudaria a casa do inimigo e. Estão por toda parte. Tiago fugira. — Como está Rafael? Quero ele bem. Andavam no escuro. O crucifixo era igual ao de Paola. entrando para o corredor estreito que terminava cerca de trezentos metros além dos muros. saiam essa primeira noite.

Acionou o motor e disparou. Orientava-se pelo cutucar. Desceu a avenida. Estava no caminho certo. saltou do terreno e tirou os papelões que protegiam a moto. a brasileira. era só mais um moleque parado nas redondezas. Os olhos estavam negros como piche para proteger o vampiro do incômodo da luz solar. Talvez a aglomeração fosse produto do serviço militar obrigatório. Vou buscar Aléxia. Do outro lado da avenida também. Sétimo deixara Paola num conjunto residencial abandonado próximo a um rio fedorento de tão poluído. Tropas a pé na rua. tremulando ao vento. sorriu para as garotas. Nunca imaginariam que ele tivesse a coragem de entrar no quartel para resgatar seus homens e sua adorada Aléxia. via o centro de Osasco e um complexo de viadutos. Vira na televisão. Só podia. Vários caminhões carregados de soldados entravam e saíam. — Onde? — Encontrar Agnaldo. e ganhou a avenida Maria Campos. Pegou a chave no bolso e enfiou na ignição. O prédio escolhido foi batido cômodo a cômodo. Suspirou fundo. Era bom mesmo que os soldados estivessem de sobreaviso. Pedi que ele arranjasse as coisas. Sétimo cuspiu com ódio.que naquele momento lá se entocava na companhia dos vampiros enviados para ajudar a destruí-lo. dobrou à direita e chegou ao viaduto metálico. Notou que do outro lado era a entrada de uma fortificação. provando ser seguro o suficiente para uma hibernada. O sinal abriu. Ele tinha aparência de adolescente: não desconfiariam dele parado na avenida dos Autonomistas. retornando à toca provisória. De uma das janelas. chegou ao ponto onde o cutucar mudava de direção. passando em frente a uma praça com várias bandeiras hasteadas. Sétimo os pegaria de surpresa. No mastro mais alto. Um quartel. concentrando-se nos olhos verde-esmeralda da amada Aléxia. a rua fervilhava de humanos alheios ao mau vampiro. Um grupo de garotas com uniformes do Vicente Peixoto passou pela faixa de pedestres. Sétimo. Mal Paola abriu os olhos. exibindo os cabelos longos e lisos e o rosto atraente. Em dois minutos. Precisava cuidar de Paola. O sinal fechou. subindo para a avenida dos Autonomistas. Montou e disparou pela avenida. Contornou no semáforo seguinte e estacionou na calçada. encontrava-se. Passou pela frente do Rhapsody. foi agarrada pelo punho por Sétimo. acelerou a máquina e imprimiu velocidade para cruzar a avenida. o castelo do inimigo. que retribuíram com risinhos e olhadelas. Subiu em alta velocidade um viaduto. Os inimigos não lhe davam bola. jipes. Voltou à feição sisuda. cartão-postal da cidade. Sétimo pousou o coturno no asfalto. Percebeu que inúmeros garotos se concentravam num portão ali perto. — Vamos. naturalmente. Homens fardados. O cutucar estava quase na testa. Pouco antes do meio-dia. Não sabia como viveria se perdesse a outra mulher. A noite demorou a chegar. Acelerou. Cutucar na testa. Sétimo continuou. Era ali que ousavam manter Aléxia presa. Soldados. que não portava capacete. mas naquela noite não escapariam de um ataque. Poderiam se proteger como fosse. Sétimo deixou a toca provisória pelas escadarias. cruzando por cima da linha do trem. e o vampiro só sossegou quando constatou que estava completamente deserto. . Estavam alerta.

Recomendou que Dimitri ficasse de repouso por um mês.. mas era seu material de trabalho. Tá ficando velho? — Foram vampiros. Discorreram sobre o tema horas a fio. Sorte que o Exército também estava estudando a matéria. Poderia ajudar na eliminação das criaturas satânicas. O médico riu gostoso.. Deixe tudo trancado e quietinho. pra ser chamado de louco?! — Médico filho da puta. Pontos de mordida de cachorro. abandonado na invasão ao covil. Quem sabe. foram ao subsolo e apanharam as motocicletas esportivas. Dimitri achava impossível. filho. de um canto. O médico descartou pneumotórax. com os quais empreendessem fuga rápida. Talvez fosse a mancha negra nas costas que preocupasse tanto o doutor. Haviam descansado apenas na parte da manhã. mas nunca te vi apanhar. Já tirei bala do braço. Até que tinha o corpo muito bem feito para um homem que passava dos quarenta. Não esperou o elevador chegar. Um calombo composto de sangue estagnado e pele macerada.. que te dei? O médico aquiesceu. Fizeram curativos e enfaixaram firme o tórax de Dimitri.. O tal amigo que ele vai te dar o telefone. Ainda mais se o Exército pintasse na parada novamente. Dimitri? Nunca te vi de surra tomada. que poderia matar. Não se importava de gastar quando se tratava de trabalho. fechando a porta e abandonando a dupla no hall escuro. Era como água e óleo. pesado. Se achar um filho da puta desses querendo entrar. — te ligo mais tarde. chegou o médico e a enfermeira. limpando a pistola. Haviam atirado contra eles. Acha que eu tô louco? A gente tem que enfrentar uma pá de neguinho com dente pontudo. As costelas fraturadas estavam soltas. Ele era um fora-da-lei. Ligaram o localizador. com bolsos internos. Precisavam aproveitar o bom momento. Jamais se juntaria ao Exército. Tobia lembrou-se do emissor de sinal plantado pelo parceiro no Landau negro. Mais curto que o primeiro. Sorte que Dimitri estava com um colete à prova de balas. Era reserva. — Vampiros! Tá de sacanagem! Tá ficando velho mesmo. o projétil. — Puff. até unissem forças. Fratura de dedo. — Que foi isso. Dimitri não queria saber de convalescença. Desgraçados. Balas de prata. Olhou para Dimitri. — Vou te passar o telefone de um amigo meu. no Top Center. O pulmão estava em ordem. Durante o dia.. mas outros órgãos poderiam ter sofrido com a agressão. o matador de Sofia. Dimitri tiraria alguns dias de descanso. . Sorria. E te dou um conselho. durante a noite. — resmungou Tobia.T. Repouso era o remédio. Em Osasco. No colete. Doloridíssimo. Não se misturavam. um casaco que fosse de seu agrado. Depois que eliminassem os mais fortes. Velho e gagá. Não podiam se dar a esse luxo. Era osso duro de roer. Fica com Deus. um dia. Vampiros.. Passaram a tarde aprontando as armas. A bala do soldado quase transfixara a proteção. Eu é que tenho cabelos brancos e é você quem caduca? — Estou falando sério. De couro. Dimitri vestiu uma blusa de lã preta justa.. Dimitri abriu a porta do luxuoso apartamento de Tobia para que o médico e a enfermeira saíssem. não saia de casa neste mês e no outro. pensava Tobia. — Médico filho da puta. enfraquecidos. Matador mantivera contato com aquele que chamava de chefe e que tinha o nome mais estranho que já vira num homem: Sofia. — Quem manda tagarelar? Agora agüenta. Dimitri deu uma única saída para comprar. Surpresa era sempre um bom soldado. na avenida Paulista. doutor. uma vantagem indiscutível na arte da guerra. quem sabe. corno poderia ter um nome daqueles? Sofia! Meia hora depois. — Psiquiatra? — É. doutor. Tinham visto o líder fraquejar frente a Tobia. Outras forças até cediam ao dinheiro. Preencheu uma guia para ele fazer uma ressonância eletromagnética o mais rápido possível. mas não o honrado Exército brasileiro. Não podiam esperar um mísero par de costelas quebradas fixar novamente. — Aposto que é um psiquiatra. Se era o chefe do submundo osasquense. Cê tá trabalhando demais — disse o médico sério.. Era caro.. Deviam se valer da desorganização dos vampiros. Psiquiatra.CAPITULO 66 Tobia atou com um nó o sobretudo marrom. Era a hora certa da imposição.. Precisavam de veículos mais dinâmicos. passa fogo! Ainda tem aquela P. A noite.

surgia uma corrente prateada que terminava em enorme crucifixo da mesma cor.P. Dimitri reduziu a velocidade para examinar o aparelho. Eram quase nove horas da noite. e tinham escapado com vida. O coração de Tobia pulsava rápido. e a recuperação poderia levar anos! Graças ao poder mágico da prata! Embicaram na avenida Rebouças.Dimitri sorriu e acenou para o caçador: o emissor estava funcionando. O localizador dava uma pista! Os vampiros estavam no range. Nem os vampiros tiveram chance de apanhá-las e costurá-las nos corpos dos parceiros. enfrentando as criaturas apenas com sua espada. como se tivesse tido o corpo possuído. o vampiro sobreviveria. Seriam pegos de surpresa. Entravam numa rua perpendicular à avenida Rebouças. . Subiram a alameda Joaquim Eugênio de Lima lentamente. não vinham atrás dos caçadores. o vampiro mais perigoso. Mesmo assim. acelerando e disparando. Aquilo fortalecia os dois. a vida não estava garantida. O correto era carregar as cabeças e jogá-las em água salgada. Com auxilio de um G. Coincidência? Talvez. Inesquecível. passando pelos fundos do Hospital das Clínicas. O semáforo abriu. Somente assim. Ao que parecia. Era hora de ação. e as motos ganharam a avenida Paulista. Do interior do capacete do homem de sobretudo marrom. A decapitação com lâmina de prata. Tinham penetrado o covil de Sétimo. tentando precisar o trajeto das criaturas. Prático. logo chegariam ao veículo-vampiro. sob o olhar dos transeuntes. As calçadas forradas de gente. Havia destruído muitos deles. A noite começando para os que iam ao encontro da morte. mas não houvera tempo. já sentindo o efeito da adrenalina ao rememorar o marcante combate da noite anterior. embora emocionalmente afetados. Um bip. e com muita sorte. segundo o livro dos Tobias. Os dois entraram na avenida Faria Lima para contornar em frente ao prédio da CardSystem. com as motos roncando impositivas. Tobia acelerou para seguir Matador. Tobia sentia a coragem sucumbir ao terror sempre que se lembrava do apuro. Mas depois vinham as recordações daquele momento. — Acho que eles estão no Eldorado! — gritou Dimitri. A noite começando para os que buscavam diversão naquela sexta-feira. os vampiros vinham ao encontro deles. Uma atmosfera enigmática parecia transbordar daqueles dois.S. era o método mais eficiente de eliminar um vampiro. Desceram mais devagar. limpo e rápido.

— sentenciou Inverno. os vampiros do D'Ouro. quebrar-lhe os ossos. Não nasceste no rio D'Ouro. — Devemos usar meu poder na hora certa. E para te refrescar a memória. — Covardia? Discordo. os dos demais também. ele é limitado: uma única vez até que cada ciclo da lua se complete. — sentenciou Tiago. César havia removido a barricada da porta e deixado o cômodo. Se ele tem um exército. — O diabo te presenteou com nossa companhia e servidão. — Precisamos nos alimentar. Será mais que suficiente. Os dentes brotaram. Por tua causa. Estava no porão. Nós vamos lá e cortamos a cabeça de Sétimo. é covardia. Nem permitirei que ele queira ser um de nós. eu fui um dos poucos que quebrou tua cara. mas que seja. brincamos com os restantes. O sangue dos policiais não foi suficiente para restabelecer nossa força. — Quero tomar-lhe o sangue. viro pó no mesmo instante. fui destruído e não mais andarei por esta terra após a destruição do vampiro. — disse Miguel. Tiago foi o primeiro vampiro a despertar. pois! Mas ele não é um vampiro também!?! — Mas disse algo que não me agradou. — Sétimo já era. — Se não me engano. mas não preciso gostar dele.. — protestou Inverno. Aquele vampiro não é nada fácil. ó gajo? — quis saber Baptista. Inverno franziu o cenho. — Temos nossos dons. nós temos o nosso. Gentil. Ele tem que ver com os próprios olhos que quem está destruindo suas crias. Inverno? — Não és um vampiro da nossa estirpe. — Assim espero. vampiro. Não gosto de ti. — E será. Imediatamente.. inclusive Eliana. imóvel. — Eu quero luta. — Ora. Tiago. Precisaremos de todo o poder vampírico que conseguirmos. nos fundos do sobrado. Esperteza. — murmurou Manuel. os vampiros acordaram e o encararam. — Precisamos de sangue. Não precisamos nos afligir. mas não podemos brincar com Sétimo. — Por que não acabamos com isso logo? Gentil usa seu poder. Caso não bastem. somos nós. Se eu mover um passo à frente para esmigalhar tua traquéia entre meus dedos. Ele não poderá nos vencer. Precisa ser na hora certa. — Vamos usar nossos poderes primeiro. Isso é esperteza. — reclamou Inverno. Sou obediente e não posso te atacar porque estou enfeitiçado. — Não dá para congelar vampiros. Se paramos o tempo. com sua característica voz baixa. mas logo postaram-se ao lado de Tiago. — O que foi? — perguntou Acordador. Gentil pára o tempo. grunhindo. encarando o vampiro que congelava o ar. Paramos o tempo e destruímos Sétimo sem que ele nos veja. gajo. que seja dessa forma. — Tem razão. — retrucou Baptista. mas isso não te dá o direito de sentirte um de nós. ó pá. Que seja covarde. — resmungou o vampiro. lembrarei que mordi teu pescoço e tomei do teu sangue. Não fosse isso. quero arrebentar todos aqueles soldados. — Não sou da tua estirpe? Dou graças! Os olhos de Inverno acenderam-se. — Pra que tanta amolação. Se queres brincar. desencostando-se da parede. És um reles novato. Nós vamos liquidar Sétimo e não será graças a ti. ainda como ser humano. Tem razão. Resistimos. — disse Miguel. — Serei um vampiro guerreiro ao lado de Tiago. — Estou mais forte. Vou congelá-lo. — emendou Fernando. . — É? De que valerá toda nossa força? Assim é muito fácil. faria engolir essas graças. apagando os olhos. — Insolente. Um silêncio estranho tomou conta do covil. Uma única vez. Sou tão bravo quanto tu se diz ser.CAPITULO 67 Lusco-fusco. Como sabem. quem está afastando seus sonhos. — Vamos para a batalha. Simultaneamente. Tiago deu um passo. — Que quer dizer.

— Primeiro vou mostrar outra coisa. Sentiu os músculos mais rijos. colocando-se de pé num salto. mas tenho meu dom também. mas não tanto quanto você. O vampiro caído passou as costas das mãos na boca. girou a cabeça. de fato. — Qual é. recuou dois passos. Eliana levou a mão à boca. duros como rocha. Só depois de muito repassar aqueles momentos em sua cabeça. Inverno era o vampiro mais forte do grupo. disse que me daria um dom também. Inverno não precisou ouvir segunda ordem. —A demonstração foi suficiente. — Roubaste meu dom. Tiago virou com agilidade e aplicou um soco no peito de Inverno. estalando o pescoço e provocando o vampiro. Queimava em ódio. Tiago levantou a cabeça e ergueu a mão. o dom lhe fora revelado. — Quando tive o sonho com o homem solitário na relva. Estacou na frente de Inverno: deixaria que todos entendessem o que se passava. Olhavam seu corpo de cima baixo. — É. mas tomei ciência em meu último combate. — Bá. gajo! Diz qual é. — Diz. descomposto. Uma névoa fria começou a entrar pela porta. Inverno voou e aplicou-o uma gravata. olhos nos olhos. então? — Inverno. Mas esse ainda não é o dom com o qual fui presenteado. Inverno voltou a acender os olhos. mas ótimo para que todos percebessem. tentando adivinhar. que também já mudara de posição para ficar de frente. Frio sobrenatural. Voou certeiro para cima de Tiago. Uma crosta fina de gelo cobria seus dedos. prendendo a cabeça do rapaz no seu braço. limpando a saliva. Iria trucidá-lo. mas ele havia escapado. É ele. e Tiago acreditava que teria o membro amputado. — murmurou incrédulo. abaixou-se e socou o abdomem do adversário que. não demonstrava medo. Inverno. Agarrou-se aos punhos firmes de Inverno. que o erguia pelo pescoço e batia sua cabeça contra o teto. Os vampiros não intervinham.— Disse: vamos usar nossos poderes primeiro! Quem é ele para ter poder? Que poder tem o novato?! — Além do poder sobre vocês cinco? Isso já seria o bastante. que foi contra a parede. sem que Inverno afrouxasse o golpe. Colocou as mãos na cintura e encarou o vampiro.. — Consigo esfriar o ar. — Fantasma. Os olhos acenderam-se. Não percebera porque era um poder sutil. virando para encarar Tiago. surpreso. ordeno que venha e me ataque. tu que está tão furioso. apesar de ter mandado. — ordenou Tiago. Tiago acendeu os olhos. Deixou Inverno acreditar que estava preso. O novato. Tiago foi para o meio do quarto e baixou a cabeça. Vai quebrar a concentração do novato! — reclamou Baptista. Os vampiros se voltaram para Tiago. espantada. mas quando alcançou o objetivo. Guilherme fechou as mãos no pescoço de Tiago. O espaço era pouco para a luta. mas não levara seu braço. Tiago virou-se de costas. homem! Diz! Que dom ganhaste? — perguntou Dom Fernando. Gentil também pediu a revelação. Havia se dado conta de que. Era como se grilhões invisíveis fossem desatados. Tiago abriu um sorriso e estendeu a mão. Voou para cima de Tiago que. Guilherme grunhiu. sem escapatória. Concentrou-se. Os vampiros estavam boquiabertos. fora justamente em momentos de pressão como aquele que o poder o salvara milagrosamente. mas que dom é esse? — quis saber Eliana. Estava tão confiante que não se apavorou quando Inverno o arremessou contra a parede. — Inverno! Pare! Não esfrie o ar. Tiago impulsionou o corpo para frente e. o rapaz se fez livre. Me mate. Sentou-se. sem entender como Tiago havia esvaído pelas mãos. animado e curioso. com as pernas separadas. Os olhos de Guilherme apagaram-se. certeiro. Com rapidez vampírica. Porém. como fizera no confronto contra os lobos de Dom Afonso: o lobo fechara a boca sobre seu braço. O lobisomem Hélio fechara a boca. como se fosse água. Demorei para descobrir qual era. contudo. ajudado por Baptista. O vampiro rejeitou. foi pego de surpresa. quando ele me disse que traria vocês. fora agraciado com um dom: O diabo não tinha mentido.. Não tinha aliviado em nada a pressão contra a garganta do rapaz. que mantinha os dedos fechados com firmeza. Tirou sua garganta das mãos de Inverno. Faria com ele o que havia feito contra o vampiro Rafael. viu seu corpo mergulhar no vulto do inimigo e bater desequilibrado na parede oposta. Evocou seu dom. Tinham um novo irmão! Alguém dotado de poder concedido pelo . gajo. afastando um passo. — Não fiz nada. — Pare.

Comentários. Pareciam defuntos ambulantes! Tiago fez o pagamento. mesmo liquidando Sétimo. havia ampliado seu exército. tinha certeza de que estaria disparado. se queria partilhar da eternidade vampírica. Um cutucar disparou na testa. Após cerca de vinte minutos. com vam-piros-lobo. tomaram a esquerda. chegaram a um ponto onde a avenida se encontrava com outra. mas se queria participar daquele confronto. Não sabia se estaria viva no dia seguinte. Teria de fortificar-se. — Não sei quanto tempo continuarei aqui.mesmo que os presenteara no passado. Sabia que. Não teve uma pessoa que não levantasse os olhos na dire-Ção do grupo. Morto-vivo. Nunca mais teria a vida pacata que abandonara no Rio Grande do Sul. Quero destruí-los. Abraçou Eliana. pálido. — Vamos. — O que esperam? Vamos logo. como o resto de seu corpo de pele acinzentada. nenhum ônibus passava. Não sabia o que aconteceria naquela noite. Vamos atrás de Sétimo. Todos acordaram? — Rum-rum. cabisbaixo. contar-lhe a novidade. Desciam. Estava morto. o grupo de sete vampiros mais um zumbi subia a rua larga que dava na avenida principal do Novo Osasco. — Consigo fazer meu corpo passar através da matéria. o vampiro não passa. mais preocupado com o desfecho daquele encontro. evitando contato visual com os policiais. calados. — É. Encostou o nariz nos cachos aloirados da mulher. Tiago percebeu uma viatura de polícia vindo lentamente. sérios. Desta noite. queria ver o amigo. Queria estar com ele. Eliana saiu. Peito largo. estalando o coturno no piso metálico.. fazendo sinal para o coletivo.. Através de meus adversários. Teriam tempo para conversar. Logo. Não chamariam a atenção dos adversários no meio da multidão. Apesar de não externar. Problemas. — resmungou Inverno. Mais uma vez. o trabalho não estaria terminado. Estava ansiosa. De preferência. Transporte público. pareciam uma gangue. Só sabia que queria acompanhar Tiago. na parte direita. Eliana aproximou-se e afagou a cabeça fria de César. Eliana olhou para César. Os humanos estranharam. Destino: Vila Yara. pois devia a ele sua vida. Estava na varanda. Não sei quanto tempo dura esse feitiço. Quero acabar logo com tudo. teria de tomar sangue humano. Iriam de ônibus. pele branca. Cabelos longos. — Fantasma. Queria falar com César. para se preparar para o combate. — César. Estava com medo. Poderiam ser aquelas as horas derradeiras do grupo. Todos de negro. Ergueu os lábios e beijou suavemente Tiago. enfezado. sem dúvida. Eliana retribuiu o afago. estava cada vez mais ansioso. Sentia que iam em direção ao objetivo. e seus soldados não deixariam barato o fim do mestre. Não sabia se ela concordaria. Risadas no fundo. é como um fantasma. Avenida Internacional. Que grupo macabro! Todos de aparência soturna. Um problema a mais. Ao chegar ao fim da subida. Ela estava fraca. Estavam em frente a um muro de colégio quando um ônibus apontou. fosse o que fosse. Tiago concentrou-se em Sétimo. O amigo estava estranho. O maldito. Subiram. Abraçou-o forte. o poder conspirava contra Sétimo. Linha 001. Apesar de não ser tão tarde e as ruas estarem cheias de gente. Precisava de sangue. Quero encontrar vampiros. Aquele ônibus certamente os colocaria mais próximos de Sétimo. — Eli. Tiago apareceu. Era roubado. entregando-se ao balançar do coletivo. Tiago abdicara à Grand Cherokee. passou altivo pelo corredor. — disse Tiago. Inverno fechou a cara. Nunca mais seria o velho Tiago. pois fora auferido para destruí-lo. . Se tivesse um coração humano. — Vamos. Afastaram-se a passos lentos.

O frentista vira bem as pessoas. Tudo em paz. — Corre. mãe! Vamos entrar no shopping! Tá frio pra danar! — Frio do inferno. Estava embaçado. Lá dentro procuraria a blusa da mulher. do outro. O policial balbuciou para si mesmo: vocês precisam é ver isso aqui dentro. Virou e saiu. Rafinha? . de um lado. Entretanto. — Rafa. Nenhum veículo desaparecido. Jorge benzeu-se. Frio em todo lugar. tá? Assim. O menino estava assustado. colocava a blusa rapidamente. sem dúvida. Que vento da peste! — Ai. tremendo. Naquele instante. mãe. subiu no ônibus. Mais um cadáver. mãe. Nenhuma linha da empresa passava por aquela alameda. Não eram os donos do ônibus. forçou uma janelinha corrediça no lado do motorista e colocou a mão para o lado de dentro. Uma camada fina de gelo recobria todo o corpo. o tal posto de gasolina. Alcançou o botão que abria a porta e ouviu o ar comprimido escapar dos pneumáti-cos. Começou de repente. correu para a rua. Oito pessoas vestidas de preto tinham descido do coletivo. Apontou a lanterna para o vidro. A viatura. Escuro. Na esquina com a avenida ficava. O vento aumentou. Bastante esquisitos. A rua. mas espera a gente chegar do outro lado. que desciam arredios contra a luz do poste. A névoa foi se desfazendo.CAPITULO 68 A viatura de polícia encostou logo atrás do microônibus. mais quinze metros estariam protegidos. permaneceu com o giroflex ligado quando os policiais desceram. outra ali. Silêncio. Todos muito pálidos. Gente e gelo. a gente sai logo desse vento. A mulher. Os policiais foram acionados para abordar o veículo e verificar a ocorrência. de treze anos. Um ferimento no pescoço e uma mancha de sangue na pele. Tinha certeza. perpendicular à Vital Brasil. O policial chegou ao último banco. Ela não cedeu. Poderia ser roubado! Naquele instante. ia na frente. — Mãe. mais aquecida. Puxou a mãe para os portões do shopping. nenhum microônibus deveria estar parado fora da rota. — Falta muito. No meio da alameda. nada pôde ver. Os militares tinham verificado na Himalaia. As luzes giratórias banhavam a lataria do ônibus.. Os policiais sentiram um frio avassalador penetrar na pele. Nenhum roubo. Algo macabro ocorrera. mas sabia que tinha coisa estranha ali. Uma pessoa aqui. acionou a polícia. Outras pessoas corriam para dentro do shopping fugindo do vento congelante. que frio! O menino puxou a mãe e começou a descer a passarela após ter cruzado sobre a Rebouças. vendo que o amigo não conseguira abrir a porta. olhando para os flocos. Outra surpresa. mas o veículo permanecia parado. eu queria que a senhora pudesse ver isso! — exclamou o menino. chegando a fazer barulho. Estavam próximos à entrada do Instituto Butantan. era escura e de pouca movimentação. Mãe e filho atravessavam a passarela em frente ao Shopping Eldorado. — Ver o quê. Mas anda logo. cê trouxe blusa? — Trouxe. mãe. Dá-me a malha. com as portas fechadas. uma churrascaria. cautelosos. estacionado junto ao canteiro central da alameda. O microônibus. Um terceiro. um Land Rover Defender. o veículo pertencia a uma viação de Osasco. — Jorge! Vem aqui! Você tem que ver isso aqui fora! — gritou um dos parceiros. Lanterna em punho. Um chegou na porta de embarque e desembarque e forçou.. Tinha certeza de que atendia a ocorrência mais estranha de sua vida. reparara que o microônibus estava abandonado. Tá esfriando muito. deveria circular na avenida Vital Brasil. menino. Sete homens. Parecia mais frio fora da geladeira sepulcral do que dentro. Um frentista relatava uma cena suspeita. — Dá pra mim. O ônibus ia para o Itaim. canteiros arborizados. Quatro policiais. talvez porque todos estavam mortos. muito menos abandonado. Talvez pelo gelo. A nuvem de vapor escapou do coletivo. Então. E que merda era aquilo caindo do céu? — Neve? — perguntou em voz alta. Sufocado. O filho. A pele arrepiou-se com o frio súbito. uma mulher. Tinha gente. O frentista não tivera coragem de abordar o veículo. Uma mulher com a boca aberta e os olhos embaçados. espantado. Rafa? — Falta não. Estranho. — Tá mesmo. como todos os outros. embaçando a visão. Rafa começou a bater o queixo. Um policial lançou luz no painel do itinerário. — reclamou a mulher. — Virgem santa! — exclamou um. ajudando a mãe cega.

Não queria aquilo. com esse frio dos infernos. Estava no shopping Eldorado! Só podia ser. não pensava no amanhã. sem sobrar vontade para mais nada. descendo ora lentamente ora revoando agitados pelo vento forte e repentino. Atravessavam a ponte sobre o rio Pinheiros para chegar à avenida Rebouças. flocos de neve começavam a cair do céu. Tinha se fartado de líquido humano e estava completamente recarregado. Deixou seu frio sobrenatural fluir. Antes que atingissem a Rebouças. pois o cutucar movia-se de um lado para outro com rapidez. Inverno fora o que mais ingerira sangue. Não se sentia bem. Estava alimentada. Extravasou seus poderes de congelar. e ela estava ali para jogar. Tiago notou o frio mágico emanando do vampiro. Sentia que Sétimo estava adiante. Minutos atrás. Não pensava na morte.Nos intervalos do abrir e fechar automático da porta. Acho que é neve. Sua força estava maior do que nunca. Mas também. Explodindo. Sua mente permanecia ocupada por esse desejo de vingança contra os vampiros. Tiago dissera que se aproximavam de Sétimo. Trazia os olhos acesos e um sorriso no rosto.. César vinha calado. Sétimo encontraria um adversário como nenhum outro. Que Sétimo tivesse uma chance de ser avisado. Mas era o jogo. Os oito cruzaram a ponte sobre o rio Pinheiros. Trazia a doze com balas de prata embaixo do sobretudo. Muito perto. O queimar intenso no estômago desaparecera. o garoto entrevia os flocos brancos flutuantes. Não podia ser meio-vampira. — Acho que é neve. Guilherme sentiase tão poderoso que achava-se capaz de enfrentar Sétimo sem o reforço dos irmãos. Sabia que a prorrogação providenciada por Manuel não haveria de ser duradoura. mãe. Que a briga era iminente.. Pensava em matar vampiros... O zumbido na cabeça sumira. — Menino doido. +++++++++++ Eliana limpou o sangue que escorria do canto da boca com as costas da mão. Não se incomodou com o frio. Era hora de dar a São Paulo o seu sobrenatural cartão de visita. não duvido nada. Levaria quantos vampiros fosse possível para o inferno antes de retornar para sua cova. .

eles vão revidar como quiserem. ficaria sem cabeça. com Tobia. O vampiro gritou. Estavam aprovadas no teste. Entraram pelo subsolo. Rafael ainda tinha o rosto . A dupla de jaquetas chegou à praça de alimentação. Andam rápido. apontando o dedo para cima. Não pretendiam ver inocentes feridos. Vestiam jaquetas negras.. chegando onde estavam os vampiros. Era pequeno. Caso notassem os exóticos apetrechos. mas o que poderiam afirmar? Nada. e seria mais fácil de ser agarrado. sem parar. agilmente. Não olham para os lados. Subiam pelo elevador panorâmico. Dimitri observou-os. Terceiro piso. graças à força do gás comprimido. Sabem onde querem chegar. Sinalizou para Tobia. — Lá! — gritou Dimitri. separou a cabeça do vampiro do resto do corpo.. com a touca cobrindo a cabeça de cabelo curtíssimo. Se quisesse permanecer incógnito. Sobre o couro do casaco vinham. Avançaram rápido. Eles não estão passeando. — Acho que vi algo. com uma agulha na ponta. Um ou outro segurança já tinha botado os olhos nos dois. Prefiro atirar no estacionamento. Dois homens grandes. Apanharam a escada rolante para subir ao térreo. — Calma. Sétimo. Usariam outras injeções de alho. De dentro do sobretudo. Dimitri retirou uma espada curta. Tinham que entrar no shopping e procurar rápido. Pôs a mão no peito de Tobia. Aqui tem muita gente. Em segundos. Se nós não tomarmos cuidado. — Umm. Indo encontrar alguém ou alguma coisa. Olhos espertos. não se distraem com nada. entraram no elevador panorâmico oposto. Retirou o plástico protetor da agulha e. — Como sabe? E se perdermos os caras de vista. Shopping cheio. Estão indo. tinha uma agulha no pescoço injetando. — Veja.CAPITULO 69 Dimitri e Tobia desceram das motos e estacionaram a alguns metros do Landau negro. Não podiam perder tempo. teria de abdicar das lanças que atarraxava na armadura. Saíram atentos. Eles estão andando reto. Dimitri. Só vem direto para cá quem tem fome ou quer ir ao cinema. Eram suspeitos. Viram dois vampiros deixando o veículo enquanto um ficava dentro. avançou para o Landau. Dimitri desferiu-lhe um soco no rosto. Era a primeira vez que Dimitri passava por aquela parte do shopping. presunçoso e confiante demais. Atravessaram a frente de um supermercado. Não podiam abordá-los alegando que eram estranhos. além de duas armas de fogo curtas e algumas granadas. Com sorte. Crianças divertiam-se em uma Playland. fazendo-o diminuir a velocidade. Tinham que tomar muito cuidado com as câmeras de circuito fechado e com os seguranças. Tobia viu dois homens de costas através de um vidro grosso. extrato de alho no corpo. voltariam a se deparar com Sétimo. Mônica e Cebolinha estavam representados por bonecos gigantes suspensos no ar. Se colocasse as lanças. Tobia estava especialmente preocupado. Acho que nos levarão a Sétimo ou a algo importante. Foi Tobia quem descobriu os vampiros graças às jaquetas e à cruz. Passos seguros. Vampiros! Esperaram o elevador parar. Seus olhos tornaram-se vermelhos.. Dimitri sacou um cilindro metálico do sobretudo. Eram só clientes estranhos iguais aos que os olhos cruzavam às dezenas todos os dias. Deixaram a distância aumentar entre eles. debilitada. teria de tirar o sobretudo e expor totalmente a armadura. viu Rafael se aproximar com Danilo. não se importou com a aproximação dos humanos. vigiando. Podem pôr todo mundo em perigo. com lâmina de prata. a espada de prata. Pareciam uniformizados. Uma droga. Não viam o rosto dos vampiros para constatar sua clássica palidez. A fera. saindo em frente a um parque temático. certamente causariam problema. Quando abriu a porta e colocou um pé para fora. Seria um alvoroço. muita gente inocente. puxando Matador. acompanhado por Agnaldo. — disse Tobia. mas as jaquetas de couro com a cruz eram inconfundíveis. Vamos segui-los com calma. — Espero que encontrem o que querem e comecem a sair.. Grande erro. Subiram direto para cá. Gritaria dos que passeavam numa pequena montanha-russa. Subiram apressados pelas escadas rolantes. Observavam os vampiros. O vampiro. atingindo o hall de entrada principal. As pessoas passavam por eles e muitas voltavam o rosto para observá-los. com um crucifixo rubro nas costas. Um com peças de prata aparecendo na canela. Se Sétimo surgisse na sua frente. caiu. Sobretudo. e. No primeiro andar.

— Trânsito. Sétimo! Eu nunca estourei um quartel. Te levo ao lugar combinado. — Precisamos resgatar Aléxia. não me preocupo com o tempo perdido nesse trânsito infernal de São Paulo. Tem arma a dar com pau. E quando eram coloridas? Como era divertido observá-las! Queria viver mais mil anos para ver onde os homens iriam parar! Criavam coisas curiosas. depois de retirado da caixa. tem buraco. ainda se espantava com o poder da luz. o burburinho do Shopping center voltou aos ouvidos. Sétimo. — Temos armas. — emendou Agnaldo. Tá querendo dizer que vamos estourar um quartel?! — Tá com medo? Danilo riu. serenidade.. — Se não a devolverem por bem. — repreendeu o vampiro. — Adorei! Adorei. mas tem dignidade também. A luta pela vida. Lojas de perfume. Não é mesquinharia. Podem estar mortos. O ataque do Exército foi pesado. não pago aquele assalto de pedágio da Castelo Branco nem fodendo. Rafael deu de ombros. Os vampiros tinham . Os outros entreolharam-se sem entender o comentário. cabelos encaracolados e barba.. Um vampiro consciente! Preocupado com o preço proibitivo praticado nos pedágios da Castelo Branco. dando um tapinha nas costas do vampiro de aparência adolescente. com sangue em abundância. isso basta. Quitaúna. nascido no campo. A luta pelo poder. vocês têm a mim. — Deixe-os em paz. Luz. Estavam em frente à Gelateria Parmalat. Os pais estavam em viagem quando a mãe deu a luz ao sétimo filho na cidade de Lisboa. sempre se surpreendia com os locais fartamente iluminados. general. ela deve estar em um quartel.. Sétimo. cara. se ela foi pega pelo Exército.bastante machucado devido ao último encontro com Tiago.. — Espera. diferentemente do irmão. um.. A luta pelo dinheiro. Em nada lembravam Lisboa. — Quieto. temos uns quarenta e oito vampiros prontos para lutar. Calma. Precisaram roubar um furgão para trazer as armas. — completou Danilo. Disse que os queria aqui o mais rápido possível. Os caras têm um puta arsenal. Danilo. É inteligência.. numa constante evolução. Perdido em pensamentos. botas pesadas. — Falei para ele vir por Carapicuíba. — Estão a caminho. — Vamos encontrá-los. sua cidade natal. calando-se. assim. Luz elétrica? Nem em sonhos. Coisa da guerra do tráfico. — Sétimo... Vamos com esse time. vampiro. dia após dia... — Onde estão os outros soldados? Pedi que trouxesse meus homens.. É coisa pra caramba! O que você tá querendo? Começar uma guerra? — Terminar uma guerra.. — sentenciou o líder. Apesar de Sétimo estar acostumado com a vida cosmopolita. Sacanagem. Danilo.. Soldados treinados. Tem mais dezesseis que ainda estão precisando se recuperar dos ferimentos. Os quatro se levantaram. mas não sei se basta. Ainda bem que agora sou eterno. A Castelo engarrafada. passos cadendados. — Contando com a gente. somos vampiros. — Olhos humanos. — A gente discutindo o futuro de nossa raça e você discutindo mesquinharias! — reclamou Agnaldo.. Trânsito. — Quantos homens temos? — Não sobrou muita coisa. Tem arma pra cacete. muito provavelmente.. Sétimo. Não sei como os políticos deixam fazer aquilo. você é louco. Passaram pelo cinema e desceram a escada rolante. — ordenou Sétimo. mas já era conhecida como centro urbano de referência. Sétimo. — Aléxia não está. Assalto a banco. Quando chegam? — Combinamos que eles também estacionariam no shopping.. pressentindo a vigília. Um bem. Conivência. vão devolver por mal. Viemos por Carapicuíba. riu do comentário de Rafael. dois dias de recuperação. Estavam num átrio circular. Evita chamar a atenção dos gambés. Não pago.. com o desenvolvimento arquitetônico e tecnológico. — Demoraram. Cê vai gostar. — murmurou Sétimo. que ainda não era a grandiosa capital portuguesa. O piso era maravilhosamente iluminado. Enervou-se. — Temos coisas mais urgentes para discutir. — Calma lá. — Ealou.. Levaram um monte de gente que não deu mais notícias. Sétimo. você é que pode avaliá-los.

Gente desistindo da escada rolante. seria capaz. Tiros! Tiros! Sétimo. Agnaldo ergueu-se com Sétimo nos braços e correu em direção ao mezanino. Neve descendo em flocos leves. o vampiro Inverno. Os três vampiros pareciam voar. mas quando tocaram o chão. Sétimo! Ele já era. quebrados. Iam para o estacionamento. Danilo aprendera o truque com Agnaldo. Sabia que era impossível. Estavam os quatro vampiros juntos. Não que os eventuais estilhaços lhe dessem preocupação. Levantaram-se e se entreolharam. Só podia ser. caído. assim que usasse e abarcasse as conexões de Danilo. alheios à chegada furtiva da dupla. os gritos vinham da montanha-russa cheia de crianças e papais. O vampiro rolou no chão e escorou-se numa pilastra. Desceram com os cabelos esvoaçando. Iam encontrar-se com as armas e com os vampiros. com disparo na cabeça.. A menos que o vampiro se corrigisse. Vidros da arrojada estrutura arquitetônica do shopping eram destruídos pelos projéteis. O clima no Brasil não propiciava tal espetáculo. Rafael. Adrenalina.parado porque Danilo havia entrado em uma loja. ameaçando os consumidores. Ele havia prometido que traria os irmãos de volta à vida. Sétimo gesticulava. dando meia-volta. Só via os outros dois correndo. lembrando-se das armas e de Aléxia. Pagariam. Sabia o que estava fazendo. — murmurou. Sétimo! Temos que pegar as armas e salvar Aléxia! — gritou Danilo. Sétimo franziu o cenho e urrou. Sétimo reconhecia-se infinitamente superior àqueles homens. mas acontecia. Os quatro vampiros olhando para cima. alheios aos disparos. mais o rapazinho de sobretudo. — General. Os sobretudos abrindo-se. nadando contra a maré. Gritos. surpreso com a demonstração de fidelidade. Gritos. Danilo juntou-se à dupla. Os vidros do teto. Voltou para Danilo e Agnaldo a tempo de vê-los desaparecendo no ar. diante do espanto da platéia. sorrindo. Coração batendo rápido. correndo para cima. assustando algumas pessoas ao redor. Momento inoportuno! Vampiro insolente! Quando terminasse essa fase da guerra. Para sua sorte a munição de prata estava escassa. Não temeria o ataque. os cinco. Pânico tamanho que os seguranças nem sabiam o que procuravam. — murmurou Sétimo. Estavam destruídos. O vampiro desapareceu. Ao seu encontro. Disparos. Agnaldo saltou sobre Sétimo. Cacos iam para fora. O momento certo! Matador gesticulou para Tobia. sim. abraçando-o e recebendo os disparos nas costas. outros vindo para dentro.. — Rafael. elevando a voz. tombando com um tiro de prata no peito. distraídos com a discussão.. — Filho da puta! — gritou Danilo. Armas surgindo nas mãos dos caçadores. Estavam destruídos! O demônio! O diabo! Era isso! Ele estava interferindo. Dimitri acionou a metralhadora. Danilo. Os caçadores iriam ver o que é bom pra tosse! Sétimo desvencilhou-se de Agnaldo e pôs-se de pé. com as duas mãos. quase no ombro. — Maldição! Não é possível! — reclamava Sétimo. Onde estava Sétimo? — As armas. eram mágicos. Tobia sacando duas pistolas negras. O que ele não estava gostando era daquele fenômeno que presenciava. Agnaldo erguendo os olhos para a escada rolante.. As pessoas que se dirigiam ao estacionamento pareciam congeladas. Barulho das travas sendo desativadas. movimentando-se. filho da mãe! Sétimo viu Danilo e Agnaldo saindo através de uma porta deslizante. Frio intenso.. Sem interromper a corrida. Na confusão. Tudo entrando no efeito câmera lenta. gente entrando. Viram Danilo saindo da loja de lingerie. foram consumidos no fogo da bomba nuclear. Nada! Não poderia ser Guilherme. querendo se proteger do frio . Sétimo acendendo os olhos. pedia calma. O vampiro concentrou-se em Inverno. O demônio não queria ver o exército do vampiro sobre a Terra. — Danilo! — chamou Sétimo. pareciam pluma. parecia sem vida. Estavam próximos do mezanino. Lá embaixo. Tiros voavam pelo ar. — Balas de prata. Como era bom ser vampiro! Sétimo estava sisudo. corria Tobia e seu soldado. Dimitri erguendo a metralhadora.. Só precisavam ganhar o estacionamento frontal do shopping. Os vampiros. a metralhadora tinha balas comuns. saltando do mezanino. desistiu do ataque. impaciente.. Sétimo iria descartá-lo. por onde chegariam rapidamente ao piso térreo.. Dimitri e Tobia desciam a escada rolante. Os homens de jaqueta preta.

Tão poderosas quanto as deles. Titi! — exclamou Eliana. Boa coisa não era. Dom Fernando e Baptista ajudaram César a transpor o . Os idiotas achavam que eles estavam fugindo! Mas estavam indo para as armas! Iriam revidar. Espalhar o terror. — advertiu Tiago. Não queria perder tempo ali. Tiago liderou o grupo até as grades do estacionamento. Gente escondendo-se. procurem se proteger. Os flocos caiam grossos. derrapou na neve espessa. — O Exército.. Esgueirou-se rápido para fora. — Quando quiser meu poder. o fodido descendente dos caçadores portugueses. depositando-se no asfalto com rapidez. Não vamos ter outra chance tão cedo! — gritou Tobia. Neve. pairando e equilibrando-se no alto da proteção metálica. chocava-se com gente saindo assustada com os disparos. porém leves. Salvar seu exército noturno. Dimitri caiu para um lado e Tobia para o outro. E gelo. Tiago aquiesceu. A neve chegava às canelas. Os seguranças não entendiam o que estava acontecendo.que tomara a noite. quando o homem barbudo tombou. Disparos no peito. Rapidamente. O sangue começou a macular a neve branca. o coração disparou. fizeram a maioria tombar. Recuperar sua deliciosa Aléxia. Arrepio. Precisavam de um tiro certeiro. Helicópteros passaram em vôo rasante sobre o estacionamento. que escondia o Shopping Eldorado às costas. Temos que acabar com Sétimo. Abriram o corredor. Os vampiros tinham avançado cerca de cem metros. Estalos e fagulhas fugiam da tela partida. destemido. — O Exército de novo. É agora ou nunca. peito aberto. misturando-se ao gelo. — Vamos continuar. Sabiam que a hora da ação tinha chegado. Gemidos. Medo. aproximando-se da grade do shopping. A noite. Dimitri sinalizou para Tobia. — Boa sorte para eles. Três homens empunhando fuzis surgiram e começaram a disparar. Gelo caindo do céu. — Merda! — exclamou Dimitri. Sétimo precisou se abaixar. lembrando-se do caroço dolorido no peito provocado pelo impacto da bala de um soldado. Era um ataque terrorista sem precedentes em área pública no Brasil. Cacos de vidro ainda teimavam em desprender do alto. A neve causaria sérios transtornos para os que dirigiam. protegendo-se nos carros estacionados. Miguel segurou o rapaz pelo braço. Tiros! Entreolharam-se rapidamente. Manter-se vivo. deixando o caminho livre para as balas cruzarem o ar e atingir os primeiros seguranças que corriam para interceptar os atiradores. Helicópteros passaram sobre suas cabeças. dançando ao sabor do vento fustigante. em sua cola. fazendo barulho. Um cenário improvável. pernas e braços. — Vamos para fora. Com uma freada brusca. sentiu o cheiro podre do rio Pinheiros. César. O confronto não vai ser fácil. abaixando-se. Atravessaram em frente ao prédio do Unibanco. Colocar Sétimo no chão e separar a cabeça do corpo. A neve descia em grande volume. Eram das Forças Armadas. Precisavam de sorte. Mais tiros perfuravam a lataria dos veículos estacionados. Dimitri caminhava rumo aos carros. No primeiro passo em direção ao estacionamento. Os motoristas passavam embasbacados e já trafegavam com velocidade ultra-reduzida. A Playland estava vazia. — comandou Matador. um furgão azulescuro surgiu. Desembainhou a espada prateada. ganhava um chão branco. do outro lado.. Tiago e os vampiros terminavam a travessia da ponte. Armas surgiam em suas mãos. Tobia obedeceu. Dimitri alcançou o térreo. Ergueu a metralhadora e começou a atirar. Gritos. Uma das máquinas de jogos havia entrado em curto-circuito. a porta lateral correu. — Eliana. Gesticulava para Tobia acompanhá-lo mais rápido. Com armas de fogo. Mal concluía o aviso. No final do corredor. Transpunham o calçamento. Tomar a Terra. Movimentavam-se atentos. Lã de cima. é só avisar. — Inverno. que caminhava empertigado. colocando a porta lateral de frente para o corredor. evitando os loucos com armas. O frio aumentava. vão precisar. fugindo de tiros de metralhadora que vinham em sua direção. — Proteja-se. Mil coisas na cabeça. Tobia. Saltaram de forma mágica. outrora negra. E aquela neve maldita? De onde provinha? O que significava? Farejava problemas no ar. Os segu-ranças começavam a se organizar.

achava graça no medo do tenente. onde está? O piloto falou no rádio. o militar precisou desviar rápido. dois. Brites silenciou um instante e recostou-se na parede metálica da aeronave. o gelo aumentou. Tinha duas aeronaves na escolta.. — Fogo também mata vampiros. Aproximando-se de Pinheiros. Os helicópteros deram meia-volta. revidando o fogo. — orientou Tiago. Apertou os olhos e. trinta soldados vinham aferrados a seus fuzis e orações. senhor. Neve cobrindo a pista. escapando da linha de fogo. Ergueu os braços. Eles não podem sair de nossa vista. outra à esquerda. Ele tem que morrer. Ele é o líder. O cenário estava montado. três. — Não era isso que queria. tenente. O soldado pisou no freio. Quem entrar na frente. O bloco vampiresco teve de se desfazer para escapar das balas.obstáculo. morre. — Marginal Pinheiros. Duas pessoas. Aléxia sorria. Sétimo estava naquele carro. Soltou o freio. você morre também. Dificuldade. Eram nove caminhões agora. passando o posto de combustível . rodopiando no ar. dois carros estacionados explodiram.. Os motoristas já enfrentavam o primeiro obstáculo sobrenatural. perdiam o controle. O piloto fazia a volta. livrando-se do gelo. — A equipe terrestre. Retomou o controle. O piloto do primeiro caminhão conduzia assustado. Uma contenda. Assim que César caiu no chão forrado de neve. tentando sair da marginal.. Carros de passeio. — Você me trouxe até o maldito! Eu vou comê-lo vivo. com armas pesadas. caído sobre Eliana.. Vinha do meio da testa. entrou devagar. maldita. Deslizou. Aléxia riu. Os insetos se encontravam além do rio e faziam a volta. Riu mas não sabia que seu engodo servira para colocar Sétimo na fogueira. no meio dos carros. era experiente. — A neve está atrapalhando a visibilidade. Estava nervoso. senhor! — Chegada? — Três a quatro minutos. Não se distraiam com os demais. mas Tiago viera atrás do líder dos vampiros assassinos. Se a gente cair.. Não tenho medo. os seis vampiros postaram-se lado a lado no alto da grade.. começava ali o espetáculo mais bizarro da terra. quatro acidentes. Reduziu ainda mais a velocidade. — Quando Sétimo me encontrar. Vampiros. Olhou para o céu. Enormes engavetamentos. senhor. Olhou no retrovisor. Uma explosão. Havia levado o Exército até Tiago. O furgão moveu-se rapidamente. Ri o quanto quiser. — Já estou morta. vamos ter de descer. como se estivessem no meio de uma guerra. Coração disparado. disparando de dentro de um furgão. pegos de surpresa. Um Renault Clio entrou na frente. Tiago. Quero Sétimo destruído nesta noite. Tinha vampiros para caçar e um tenente furioso berrando dentro do helicóptero. — Retornem! Retornem a toda! — ordenou Brites. Completaram a manobra. Bateu contra o sobretudo negro. Se aumentar. nunca dirigira sobre o gelo. encontrou os da vampira. como se o grupo fosse o alvo principal. Sabiam que a missão não seria fácil. e o caminhão escorregou de lado. fazendo a aeronave chacoalhar demais. só isso essa noite. Ele não podia parar. não conseguiu evitar e acertou em cheio o Renault. Os helicópteros vieram para cima dos seis vampiros. — Acerte aquele furgão também! Não erre desta vez. Quase metade deles participara da invasão ao covil. mesmo advertido pelo rádio. Não podiam cair. dentro do helicóptero principal. A mulher do Renault rodou. Santo Deus. Dez caminhões verde-oliva cruzavam a marginal Pinheiros em alta velocidade. vai te comer vivo. Abriram fogo. Estava enjoando. a velocidade desceu. Podiam ver o tiroteio. ao abri-los. — Entendido. — Não podemos descer antes do apoio de terra chegar. Os seis saltaram com leveza e partiram em passos decididos ao encontro do furgão. Reduziu antes do Jockey Club. Antes de atingirem o furgão. A outra metade ouvira as histórias. Em cada um. Os dois carros pararam danificados. Um. uma à direita. Rajadas de vento tripudiavam. sincronizados. O caminhão que vinha atrás. tenente? Encontrar o vampiro? Ah! Ah! Ah! — Ri. Explosões potentes expeliam projéteis de artilharia antiaérea contra o chão. mas nunca vira aquilo. O cutucar era preciso. — Queremos Sétimo. Vinham de frente para os seis vampiros. gritou: — Tempestade! Baptista levantou-se.

Ensopados. senhor. Os três helicópteros voavam em círculos sobre as nuvens espetaculares.. não vou abandonar meus homens lá embaixo! — Não é uma questão de escolha. Os insetos voadores tinham ido embora. colando os cabelos à testa. Se a coisa continuar feia eu volto para cima. O primeiro da fila já escapava para ganhar a ponte Eusébío Matoso. com pisca-alerta ligados. Aquela chuva. rodando no meio da marginal. Era uma visão fantástica.. O piloto insistia com o tenente que tinham que abandonar a missão. Pára de melodrama e desce essa merda. Relâmpagos explodiam de dentro delas. tenente.. os olhos dos sete vampiros acenderam-se. Um carro de passeio bateu atrás enquanto os outros adentravam a rua. a situação tornava-se extremamente perigosa. — Cuidado com aqueles dois. tudo bem. Os três helicópteros tinham subido quando a tempestade começou. — Se perdermos Sétimo. Depois outra e mais outra. O quarto caminhão perdeu a curva e colidiu contra o poste. Coragem. derrubando um vampiro. Brites largou o rádio e ordenou ao piloto que baixasse. Tempestade levantou um braço e estalou o dedo. Dimitri também estava exultado. ou os combatentes usavam munição especial.. pois era isso que aqueles bravos pareciam.logo na esquina. Não poupem munição. César tirou a doze escondida no sobretudo: também queria diversão. Espalhavam-se rapidamente. Tiago notou que os que caíam não se levantavam de imediato. abandonados à própria sorte. Divirtam-se! Simultaneamente. O cenário era horroroso. Ou eram muito fracos. . fortes enchurradas formavam-se instantaneamente. Brites estava confuso. Só dava para saber que o resto do prédio estava lá porque. Talvez Sétimo fosse capaz de criar mais monstros daqueles. Os carros de passeio pararam. Conforme ganhavam altitude podiam notar que as nuvens giravam exatamente sobre o Shopping Eldorado. Era assustador. — Se perdermos Sétimo. — Vamos descer. O piloto bufou. Como a neve. — Rápido. pelo menos tinham que deixar a área. Acuem os filhos da mãe contra a grade. — Façam um cerco.. o segundo.. Tempestade! Trovões rugindo. pouco se via à frente. mesmo com o limpavidros acionado em máxima visibilidade. Não precisamos derrubar todos os helicópteros da corporação. A chuva engrossou e.. Se quer ficar com teus homens. O céu escuro. Nas sarjetas. carros engalfinhados. ora ou outra. A chuva caía pesada. mas sozinhos. revidando o fogo forte e. senhor. montando um cerco que se fecharia em cima dos dois caçadores em questão de minutos. Estavam sendo envolvidos pelas criaturas perversas. Tobia percebeu a estratégia. A tempestade trouxera ventos inconstantes e ferozes que empurravam os aparelhos para baixo. iluminando o espetáculo satânico. assustados com a quantidade de veículos do Exército que escapuliam da rua. recém-criados. Neve e tempestade. Vampiros saíram do furgão e de mais duas pick-ups que se aproximaram. — Não. Não posso colocar a vida de todos aqui em risco. pode pular. — murmurou Tiago.. era possível acompanhar a silhueta do prédio com a claridade. mas estes soldados aqui não merecem morrer. — Sim. apostaria que era obra daqueles demônios. Cerca de quarenta vampiros tomaram conta do estacionamento. Era essa sua teoria. Iriam liquidar os dois caçadores de vampiro. O soldado acabava de notar que uma gota d'água atingira o pára-brisa. aquela chuva fora trazida pelo demônio. Se não tivesse presenciado os vampiros explodindo junto com a caravela. Tiago e os seis vampiros assistiam à batalha. que acabava de se levantar e atirar. A Rebouças também ganhara sua cota de acidentes. senhores. A neve cessou. o terceiro. sargento. Derrubem o máximo. atrapalhando a visão. Se o senhor quiser. esprememos essa vadia mais uma vez e a obrigamos a nos colocar na cola daquele demônio de novo. Brites correu para o rádio. fora do comum. no explodir de um relâmpago e outro. Sabiam que lidavam com um inimigo sobrenatural. Não precisaria derramar mais chuva. Separaram-se e caíram sobre os vampiros. Já vamos descer. As nuvens estavam extremamente baixas. apontando para Dimitri e Tobia. aquela chuva não era natural. Aqui e ali. — Os homens estão entrando no shopping. eu desço e tu salta. com nuvens que engoliam o topo do prédio do Unibanco. O primeiro. — Vamos aproveitar a confusão. Voando àquela altitude.

dava tempo e aumentava as chances. Quando tinha espaço. amputando-lhes o braço. as portas traseiras desabaram. e os demais. — Inverno! Que fazes aqui? — Vim comer teu fígado. O cenário estava semelhante à disputa entre torcidas. Combater os caçadores. e as lâminas pequenas apareceram no metal do antebraço da armadura. após a escapada. saltariam para liquidar Sétimo. Dois corredores os separaram das criaturas. — Arrrgh! — gritou Inverno. — Ora. pois. voltando a tocar o chão. atingindo o peito do irmão com um soco potente. Um ficaria de olho na vampira chamada Aléxia. voltando para o asfalto. socando-os com violência. Acabamos de chegar.. Tobia atracou-se com a primeira leva que se abateu sobre eles. Protegiam-se e. Dimitri e Tobía agradeceram a oportuna intromissão. usaria os truques possíveis. seriam liquidados. Ele parecia feito de água. eram açoitados por golpes duros e bem aplicados. Assustou-se. Atirar para matar. impacientou-se. facilitando o retorno de outras aeronaves. De novo.— Precisamos recuar um pouco. Era bom meter o bedelho e acabar logo com aquela contenda. Pancadaria para todo lado. Tinham que se acautelar contra os soldados também. Apenas tocou o chão. Brites já preparava seus homens a bordo. sentiu a mão forte fechando em sua garganta. Protegera-se da tempestade. as balas daquela tropa não eram de prata. suspendendo o vampiro. o que causou receio em Tiago. A maioria dos vampiros sem noção do que tinham que fazer. pois. Sincronizados. de cada um. — Coisa feia.. o vampiro escapava. Estava seco. recuando dois passos. pá. Balas perdidas. se desvencilhava. toda vez que agarravam seu braço ou o prendiam pelo pescoço. pois. gajo. ora. Para sua surpresa. Inverno e Tempestade revidaram. Tiago e Manuel atracavam-se com os vampiros que tentavam socorrer o mestre. que tombaram atingidos no peito por diversas balas. Em geral. revidavam o fogo com artilharia pesada. O vampiro-líder. percebendo que tiros ainda penetravam a lataria do veículo. atirava contra o furgão. e os dentes brotaram mais uma vez. estavam sendo salvos por tropas do honrado Exército brasileiro. o arsenal móvel do bando e onde Sétimo tinha ido esconder o rabo. vê se nos convida para um chá. que os afastavam momentaneamente da briga. caminhões verde-oliva irromperam no estacionamento. Afastou-se e preparou-se para a briga. — Ainda não destruíram esses filhos da puta? Levantou-se num salto. para surpresa do Exército. Dimitri atirava contra os mais afoitos. Vampiros arremessados contra os carros estacionados. Sujeitos perigosos. ora. Queria que seu exército crescesse em experiência mas irritava-se com a demora na eliminação de dois míseros caçavampi-ros. Os vampiros que confrontavam Tiago não entendiam. Não tinha tempo de montar as lanças sobre o corpo. proteger nossa retaguarda. O ronco cadenciado de um helicóptero passou zunindo sobre a cabeça dos vampiros. E sempre. Momentos antes. Uma saraivada pegou Inverno e Tempestade des-prevenidos. Precisava manter-se atento. deslizando sobre o gelo dissolvido pela água. Puxou as tiras de couro no punho. Saltou para cima do capô de um Celta. O alvo sempre era a cabeça. Não podia ser. e uma onda de soldados escapou de cada um. Os olhos de Sétimo acenderam-se. . Sétimo desvencilhou-se da mão ousada. Baptista surgiu ao lado de Inverno. o que era bom. Os rapazes eram treinados e sabiam o que fazer. Sétimo voou sobre os dois. assim. se não é nosso irmão mais feio! — disse Inverno. o grupo de vampiros adversários que atacavam Sétimo ou matar os soldados? Os vampiros que controlavam o arsenal junto ao furgão recuperaram-se do susto depois que alguns tombaram. Os caminhões não paravam de chegar. descia uma avalanche de soldados armados com fuzis devastadores. Naquele momento. Surpreendeu dois vampiros com sua espada de prata. podiam proteger a retaguarda e combater dois ou três vampiros por vez. Sétimo foi ao chão. o golpe arremessaria o vampiro inimigo a cinco metros. os vampiros mal perderam o equilíbrio. logo após ordenar a descida do helicóptero. com munição especial. Incrédulo. Por sorte. espantando os vampiros próximos e deixando o sobretudo marrom cair por terra. A chuva diminuía de intensidade. as nuvens dissipavam-se. Ossos quebrados. Para piorar. Se demorassem muito para responder. Imediatamente. atravessando seus ossos como fantasma.

formando um cerco. e o medo brotou dentro deles. bem sob a mira dos soldados. e os helicópteros voavam insistentes. Atravessou o estacionamento. tenente. — Queres me matar? Trouxe à vida meus irmãos? Aposto que foi com ajuda do diabo. disparou para cima de Tiago. Sétimo gritou. Dimitri e Tobia também se resguardavam. no chão e bastante ferido. lançando fogo e destroços para o ar. que começaram a atirar. provocando baixas imediatas. A maioria das criaturas levantou-se dos esconderijos. Brites baixou a arma. Disparou contra a turba de soldados. — Miguel! Miguel. O jogo ia virar. — Pare. tiros choveram contra o veículo. procurando poças d'água para aplacar o fogo.. com Eliana.. Percebendo o deleite da vampira. A quantidade de soldados era incontável. vampira! Estouro seus miolos. ele velo a mim.. Sétimo deixava o furgão empunhando um lança-granadas. Ainda gemiam. Arrastou Guilherme e Manuel para fora da linha de tiro... a quem os fracos recorrem na hora do aperto. Sétimo ficou preso. Os soldados estavam perdendo a força e não sabiam o porquê. mas o vampiro usou seu dom. Tiago só precisava separar a cabeça de Sétimo do resto do corpo. Tiago sustentava o vampiro na linha de tiro pois conseguia manter o corpo como o de um fantasma e apenas os braços ainda materializados. Tiago correu mais um pouco e alcançou Sétimo. percebendo que o incontável número de soldados crescia. associado do cão! — bradou o vampiro. — Para que essa violência. os olhos hipnotizantes.. Era impossível transitar sem ser atingido. Não tinham um segundo a perder. Tiago. Os soldados já tinham avançado bastante. aquiesceu. não podia encarar aquele rosto um segundo mais. Aléxia moveu-se insinuante até colar o corpo todo na grade. disparou para cima de Sétimo. te prepara que está chegando a hora. Como aquela mulher era bonita! O corpo bem feito.. Tiago deixou que as balas atravessassem seu corpo etéreo. Isso é o que você pensa. Farejou tua fraqueza. atiçada pelo medo que era servido. em resposta. Protegia-se. Tiago colocou-se às costas do adversário e voltou a materializar-se. Vampiros em chamas corriam. espalhando-se pelo estacionamento. e. Tiago postou-se em campo aberto. Os tiros voltaram a espocar.. Brites apontou-lhe a arma carregada com prata. como o cheiro do sangue que alimenta o vampiro. encarando-o com os olhos esmeralda. Arrancou-o debaixo de um carro e o arremessou para um vazio do estacionamento. a aeronave começou a chacoalhar violentamente. eu sou forte.. evitando a aproximação de qualquer vampiro. seu poder de parar o tempo. atingindo exclusivamente o vampiro. ele só vem para os fracos. perto da saída dos automóveis. Os soldados estavam se organizando e começavam a se espalhar. com as mãos fechadas no pescoço do vampiro. Aquela situação fugiria do controle em instantes. Aléxia voltou a sorrir.Assim que adentrou as nuvens. estariam voltando ao combate. Os soldados benzeram-se. A granada lançada por Sétimo detonou no meio dos soldados. O vampiro de feições doces e cabelos encaracolados. Em dois minutos. era um demônio! Virou-se para frente. deixando a mão de Sétimo varar seu corpo momentaneamente impalpável. mas penetrante.. inúmeras. . ó general! Nunca pensei que fosses um dia me trair. Parece ser seu dia de sorte.. Seu corpo ia esfarelando. cicatrizavam a olhos vistos. — Tu. seriam pegos pelo Exército. Era hora de Miguel usar seu poder. — Larga-me... ele farejou teu medo. apoiados aos carros.. Brites apertou os olhos. — Balela. e logo estaria em apuros. — Não recorri a ele. mas as feridas. — As nuvens estão se desfazendo. Se não fossem pegos pelos vampiros. Aléxia comprimiu os seios entre as barras de prata e estendeu a mão para o tenente. agarrando e tentando imobilizar o oponente. que explodiu. vê se ele vem a mim? Desarmado. contra a descarga de tiros que vinha dos soldados naquele exato instante. tenente? Você pode fazer coisa muito mais interessante comigo do que estourar meus miolos. e o som do motor tornou-se inconstante. Tiago. precisavam voltar ao foco original. correndo em direção ao furgão. além de rebuliço e correcorre. As balas provocavam uma dor ligeira. Sétimo tentou socar Tiago. Sétimo aproveitou para livrar-se de Tiago e mandá-lo ao chão com um golpe. esmoreceu. Os vampiros voltavam a se proteger. Os soldados perderam a concentração.

Movia-se! Seu corpo se agigantava e em alguns segundos estaria transformado em fera alada. Tiago e seu grupo. — Miguel! Miguel! Faz agora! Gentil levantou-se. Mas ele não era o velho Gentil. comparada à dos vampiros do D'Ouro. prontos para disparar. Sétimo não fora capturado pelo feitiço de parar o tempo. Tiago! Voou até os soldados paralisados e passou as garras nas gargantas daqueles que estavam ao alcance. César girou a cabeça. Pararia o tempo. Era para o vampiro estar imobilizado. Confusos. Acocorouse enquanto um tiro ou outro ainda o atingia. talvez não compactuasse com aquele golpe sujo. Não pretendera manter Sétimo liberto de seu poder. Três metros de altura. — Ah! Ah! Ah! Quem arrumou esse exército para você. imóveis. Sétimo. Os helicópteros. Olhos em forma de brasas. irmão maldito! Agora acabo com estes soldados e logo acabo com vocês. Concentrou-se. O ronco cadenciado dos helicópteros foi suspenso. Baptista olhava fixamente para Sétimo. Tudo seria silêncio. com a boca aberta de espanto. estendendo o braço. com os dentes vampíricos expostos. como um gato surpreendido por um caçador. olhando para os lados. Voltaram-se. pairando sobre as marginais. Um deles. elevando-se dois metros. Tiago. onde os tiros eram bloqueados pelo metal. deixado a vida que tentavam iniciar. O maldito tentara tomar seu sangue. como os demais. A verdade era aquela. O estacionamento parecia uma praça de guerra. externou um grunhido involuntário. subserviente a Tiago. Sétimo colocou-se de pé. Pressentia que se a tocasse. Os vampiros estavam cercados por todos os lados. Estalos de balas perfurando os automóveis. Ele não poderia tornar-se aquele monstro. Nada. precisou proteger-se um instante.. pelo desejo de Miguel. Os três helicópteros baixaram. Tinha como fazer essa seleção. Era hora de intervir. maldito! Achou que o Diabo lhe daria a vitória de mão beijada? Ele não é flor que se cheire. pois os vampiros se alimentam de sangue e medo. mas movia-se. Urrou furioso. congele-o! Rápido! O vampiro obedeceu. obrigando os inimigos a proteger os olhos com os braços. Seria uma nova traição. os vampiros estavam sendo sistematicamente empurrados para o centro da armadilha. Tiago olhou para Gentil. e mais soldados postaram-se com armas apontadas para o estacionamento do shopping. ridícula. evocando seu dom. Sétimo farfalhou as asas gigantes. As explosões cessaram. Fosse ainda o velho Gentil. As armas não davam descanso. O silêncio inundou o mundo. Em segundos. não sobraria nenhum. Se o combate já estava difícil. enchendo aquele mundo paralisado com um som de trovão. encaracolado no chão. parecia agonizar.. pairados no ar. conservavam o calor. O fogo não ardia nem crepitava. Ergueu os olhos e percebeu Sétimo transmutando-se. Correu para os carros. Tiago? Foi o Diabo? Ah! Ah! Ah! Sétimo começou a bater as asas. afastado do cerco. Inverno baixou e levantou o outro. Era mágica. os soldados a bordo. com expressões duras. o gemido foi se tornando rugido. Fora a razão de terem deixado Osasco. Um carro em chamas estava suspenso no céu. permaneceram soltos. Sétimo não teria como se defender. mas aprendera com o bravo Tiago que não temer os vampiros e enfrentá-los como iguais valia muito e chegava a equilibrar a briga. não fosse um gemido repetido. As portas corrediças abriram. Os vampiros ainda estavam aturdidos. Eliana. Os estampidos não cessavam. Estendeu as asas. Os soldados não disparavam. queimaria o dedo. — Inverno. Naquela noite. O vampiro de cabelos encaracolados encolheu os ombros. era nada. Manuel abandonou a proteção dos carros. Teriam que confrontá-lo. Gentil encheu os pulmões para vibrar as cordas vocais. — Ah! Obrigado. obrigados a recuar mais e mais. Sabia que sua força. Fogo. — Páaaaaara! O tempo parou. criando uma corrente de vento. mais difícil ficaria. Fernando andava lentamente. Aproximou-se da coisa bizarra. Veículos de clientes continuavam a explodir quando tinham os tanques perfurados e a gasolina inflamada. Sétimo continuava enrolado no chão. . Era um boneco enviado pelo demônio. Sabia que era novata naquele mundo. triplicou sua força rapidamente e largou-se das mãos de Tiago. para recuperar o fôlego e voltar ao ataque. livres para apreciar o encanto. Detestava Sétimo. Estou livre. mas as chamas.Sétimo. Com o tempo parado.

Gritos. Sétimo começou a andar. Os helicópteros voltaram a roncar. Precisava de um médico. Estavam todos confusos. Brites arrepiou-se. — Miguel! Faça o tempo correr. — Balas de prata! — gritou. Tiago. Talvez tivesse tempo de tirar Rafael de dentro do shopping. começaram a disparar.mas nada aconteceu. Tinham de refazer o caminho sobre a ponte e desaparecer daquele lugar enquanto Sétimo debatia-se preso entre os soldados. Sétimo despencou das alturas com um tiro na barriga.. mas ainda estava forte. O demônio pregara-lhe uma peça tornando Sétimo imune ao dom de Gentil.. A luz foi jogada para baixo. Sétimo era capaz. Inverno desferiu um chute na ferida que Sétimo tentava proteger. Explosão. Viria atrás deles um por um. com a mão na ferida.. Decolou e voltou para o meio dos soldados. o cano fumegante apontado para a criatura. Corriam ao encontro dos helicópteros. Acreditavam que bastava pular a grade e estariam livres daquela cena. derrubando os agressores. Enfraquecê-los. Precisava da confusão instaurada. ainda mais investido da forma monstruosa. Os vampiros agruparam-se e Tiago organizou a retirada. estranhamente dolorida. o vampiro alado alçou vôo. Sétimo alçou vôo. Os muros do Shopping center. Vai ter que ser no braço mesmo! — O pai. Estava matando os soldados. dias e anos fora de seu alcance. Estava ferido. senhor. Os helicópteros afastaram-se mais ainda. o amigo não conseguia correr muito. César estava com a espingarda erguida. Os militares estavam assustados e incrédulos com aquele monstro gigante bem no meio da formação. . O rosto. Pele pálida. — Era a última.gargalhou com voz poderosa. Brites viu a criatura.. Começou a ferir mortalmente mais soldados. roubando-lhe sangue. Soldados caíram esguichando sangue. Sentia o ferimento queimar. Os olhos injetados. Iria destruí-los. — Fogo! Os fuzis começaram a trabalhar. Sem chance de salvamento. Tiago recebeu um tiro de raspão. ó pai! — gritou Baptista. vamos acabar com ele. O carro foi ao chão. Os vampiros estavam quase na grade. arrancando urros e carne de Sétimo. Do helicóptero. Sétimo agarrou-o e arremessou-o contra Tiago. impotente diante da fera. Antes de completar a frase. Furioso. — Vamos. A criatura estendeu as asas. Um guerreiro experiente. Quando Fernando se aproximou. — Bala de prata. Os vampiros protegeram-se num muro baixo de concreto. Prata! A dor o consumia persistente. Nem sempre conseguimos usar os poderes quando o tempo está parado. uma explosão súbita. expelindo projéteis furiosamente. Os vampiros voltaram-se. Extrair a prata. Quando o tempo voltasse. — murmurou Gentil. Uma mulher olhou para cima. O vampiro só seria pego de surpresa. — Volte. enervou-se. E os vampiros que há um segundo atrás estavam na sua frente? — Não atirem! Vão acertar nossos homens! — Vampiros às seis horas. Já tinha rompido a garganta de vinte soldados. Depois. Sabia que Sétimo era poderoso. O maldito que engendrara tudo aquilo. correndo. Precisava aquietar-se e dedicar-se à cura ou iria piorar. Brites olhou para baixo. Eliana deu a mão para César. tirando pele do braço. Poderia ficar voando por horas. Lamentos. — Debandar! — gritou Tiago. disparando repetidas vezes. Precisava se concentrar no ferimento. vampiro. Os helicópteros balançaram e afastaram-se. Desespero. O tenente passou ordens pelo rádio. — Ah! Ah! Ah! —. — Holofotes. Aquele ataque parecia naufragar. parecia familiar. Jogou Eliana no chão. Concentrou o poder vampiresco para obter um mínimo de melhora. cairiam mortos. Os vampiros correram para cima de Sétimo. Tiago tentou cercá-lo. Fernando cravou os caninos no pescoço de couro enegrecido do monstro. surpreendido. — balbuciou. Roupas negras. aproveitaria a paralisação para resgatar Aléxia... — avisou um soldado. Estamos perdendo esse jogo. Era como se a carne voltasse a ser humana. Oito pessoas correndo. Mataria Tiago. Reduzindo os inimigos. — Não posso. — Posso ficar aqui em cima toda a éter. espalhando fogo líquido para os lados. De onde surgira?! Desesperados.

. Tão subitamente que não lembrou-se sequer do poder de desmaterializar-se para escapar. atacariam Sétimo novamente. Aléxia.. Sétimo soltou os soldados das garras e deixou-os encontrar a morte no chão. Subiria e o atiraria contra as hélices de um helicóptero. Sorte os soldados serem tantos. Guilherme compreendeu e ergueu a mão para o céu. mesmo assim em velocidade extremamente reduzida. Antes que Tobia saísse correndo. A nevasca ganhava força e dificultava a navegação.. como que possuída. disparou atrás de Tiago. Uma fisgada incômoda no joelho. Dor. Dimitri e Tobia olhavam incrédulos para a criatura alada. A saída de automóveis estava sob a mira de um grupo de aproximadamente duzentos soldados armados. — Deixe os soldados irem primeiro. — murmurou a criatura. Vocês estão fodidos! Brites ergueu a pistola e disparou. Começou a rir. Mais nada faltava acontecer. Um animal violento. Tobia viu Sétimo descer a agarrar um dos vampiros em cima da cerca. Precisaram se afastar devido ao vento. Mal concluiu o pensamento. Conheciam aquele monstro. A nevasca se intensificou. Mas o poder nem foi necessário. Surpreendeu os vampiros quando pulavam a grade do Shopping center e caíam na marginal Pinheiros. Ventos forres. que se irritava profundamente. com lágrimas de sangue escorrendo pelo rosto. Cerca de trinta remanescentes corriam para o gradÜ dos fundos. Tinham visto representações traçadas a lápis no livro dos ancestrais de Tobia. — Ele vai matar você. que tombou instantaneamente. Um buraco estava aberto no seu peito e sangue vertia do ferimento. Olhando para a grade. Sabiam que quando Sétimo assumia aquela forma tornava-se um assassino invencível. amada Aléxia. Era inconfundível. A garoa fina desapareceu dando lugar a pesados flocos de neve. gemia no chão. Para sorte de ambos as pistas estavam intransitáveis. Não havia outra escapatória. . — Aléxia. Estavam mais fortes. — Inverno. O som ensurdecedor dos disparos dos soldados era muito mais poderoso. a manifestação satânica de Sétimo. para sua surpresa. terminaria o serviço sem dificuldades. Fechou os olhos. mais uma vez. por essa razão decidiram investir contra os vampiros que corriam em direção ao muro. Desceu rápido como bala. o ferimento poderia ser fatal. ficou excitada quando ouviu as palavras monstro e asas. Tiago viu Sétimo decolar carregando quatro soldados nas patas. tenente! Ele vai matar todos vocês! — Cale a boca. Os vampiros de Sétimo imitavam o grupo de Tiago. Suas palavras só chegavam aos ouvidos de Brites. Sétimo havia subido nove metros quando largou-o tão repentinamente quanto o agarrou. Brites aproximou-se da jaula. Tiago foi agarrado de surpresa por Sétimo. tenente.. — Você está perdido. O muro de concreto esfarelava a cada rajada de fogo enviada pelo helicóptero. por causa do gelo que cobria o chão. Estava fraturado. Tiago colocou-se de pé com agilidade. Em seguida. Se sobrevivesse. Os pilotos das aeronaves começaram a trocar mensagens. tentava acabar com ele. Agarrou Tiago no alto da grade. Se tinham sobrevivido até ali. Dimitri assistiu a nuvem verde-oliva correr no encalço dos vampiros que tentavam fugir. Antes do nascer do Sol. Instantaneamente um vento frio tomou conta da noite. Tudo muito rápido. O Exército. a fim de ganhar a marginal Pinheiros. O vampiro-monstro levantou-se. Flocos de neve invadiam a aeronave. O tiro acertou em cheio o coração de Aléxia. Não escaparia com vida. Um enxame verde-oliva formou-se ao redor do monstro. atenta aos comentários. sobreviveriam até o fim daquela batalha. Não conseguia olhar para fora. vampira! — gritou Brites.Tiago viu que Sétimo ainda se confrontava com os soldados... Como antevendo o próximo passo. tenente! Sétimo vai matar todos vocês! Seus gritos não ganhavam a atenção de quase ninguém. Sétimo. Se não tomasse sangue. Blocos de pedra e pó caíam sobre suas cabeças curvadas. levantando-se com dificuldade. Aquele verme matreiro podia rastreá-lo. Dimitri segurou-o. Era a forma mais cruel. Eram poucos os carros que se arriscavam. Os dois tombaram pesadamente sobre o asfalto da marginal Pinheiros. — Ele vai matar todos vocês. Iria recuar apenas um instante para se recuperar do susto e deixar que o Exército mandasse para o inferno alguns deles. esquecido de Tiago. Aléxia gargalhou alto e continuou a gritar. Ele seria a próxima vítima. mas sabia que Sétimo estava nas redondezas.

Olhou para Sétimo. A vampira estava a bordo! — Aléxia!!! — urrou o vampiro. que voava enlouquecido de encontro ao helicóptero. Indo da esquerda para a direita. espichou a cabeça. virou-se para a grade do shopping. quase acertando a aeronave e fazendo faíscas saltarem quando o raio atingiu a água do rio. mas o sangue e a dor continuavam lá. sem condições de combatê-lo. que seria o curinga decisivo. sem que . O grupo de Operações Especiais tem que descer! — Vou tentar. — Soldados! Vida ou morte! Atirar. quase no topo. Escapar dos soldados. senhor! — gritou o piloto. — O monstro alado! Acertem o monstro alado! — gritava Brites. Precisavam continuar em frente. agarrado ao manche. Sustentem os pássaros até chegarmos ao chão. Os soldados estavam atirando. Mas aquela nova surpresa fê-la tremer dos pés à cabeça. tentando dominar a aeronave. — Não podemos sustentar as aeronaves. sobrecarregados. Percebeu que o cutucar dançava junto com o helicóptero central. podia jurar que tinha ouvido o monstro gritar o nome da vampira. caso contrário ela ficaria sozinha. e viu a fera decolar. O feitiço do tempo. — Vamos acabar indo para corte marcial por essa teimosia! — Se alguém for a julgamento serei eu. ganhando altura rapidamente. A dor no peito provinha da amada. Nenhum carro passava. mas faça o que estou falando! Agora! Sétimo concentrou-se em Aléxia. — Afastar! Afastar! Porra! — gritou o piloto pelo rádio. A nevasca poderosa diminuía a dirigibilidade das aeronaves. O ferimento em seu peito de fera já tinha fechado. Um demônio alado voava em direção a um dos helicópteros. Nenhum lugar para fugir. dando meia-volta para reposicionar e voltar a atirar. afastando-se.Tempestade levantou a mão para o céu. Seria impossível. Um vento ascendente jogou os três helicópteros para cima. Um relâmpago riscou o firmamento. Estavam na plataforma da estação de trem Hebraica. Os soldados. Apesar do som ensurdecedor do motor. tamanho frio. Repetira o nome Aléxia duas vezes. Ato contínuo. Dezenas de vampiros vinham em seu encalço e uma onda de soldados corria logo atrás. A neve descia forte e já chegava quase no joelho. Ou será que decidiu quando a neve começou a despencar? Ou quando uma tempestade repentina açoitou a plataforma? Tantas coisas inacreditáveis que ela simplesmente se recusava a deixar de assistir tudo aquilo. na direção de um helicóptero. Olhou para os lados. Brites sentiu os pêlos do corpo arrepiarem. O motor roncava. puta que pariu. Um helicóptero passou com as hélices quase decapitando os atiradores da aeronave de Brites. senhor! O vento é demais. agarrados um ao outro. piloto! Garanto o meu rabo e o seu. Já teriam abandonado a plataforma se Isabel não tivesse implorado para Joel ficar. — Estabilizar! — gritou Brites para o piloto. mas estão desprotegidos! Dentro das aeronaves estão nossos melhores homens. Dali a quarenta anos seria a avó com a história mais incrível para contar para os netos. vencendo o frio e a neve. Seu amor era tanto pela cria. incrédulos. A aeronave jogou para lã e para cá. Aléxia estava em apuros. Ergueu os olhos completamente vermelhos. A tempestade ocasionada anteriormente fizera o leito do rio subir assustadoramente e a água quase chegava à linha de trem que corria paralela ao rio. após saltitar para longe de Sétimo. presos por cintos de segurança. Os helicópteros dançaram. Os soldados começaram a atirar. Os pilotos manobraram. Os soldados lá embaixo são muitos. com o peito sangrando. — Desçam na pista. penduravam-se na porta do helicóptero. Viram Sétimo vindo rápido de encontro ao helicóptero. Isso foi quando ouviram tiros vindo do shopping e logo em seguida perceberam os helicópteros chegando. do outro lado da pista local da marginal. Os motores chiaram. na esperança de que um trem aparecesse para levá-los para casa. que sofria quando ela sofria. Tiago viu quando as explosões começaram. O cutucar surgiu em sua cabeça. Difícil estabilizar. Os pedais dançavam e a cauda era jogada de lá para cá. Só podia ser um demônio! Um morcego gigante! Tiago. Refazerem-se para tramar e encurralar Sétimo em nova armadilha. Isabel e Joel assistiam aquela cena. estava descartado e aquilo deixara-os completamente abalados. Sétimo tinha perdido a razão. Vamos cair. Morreria se não recebesse sangue.

— Desça. Estavam danados. O rio Pinheiros estava imóvel. Repentinamente o som da correnteza cessou e tudo ficou muito quieto. como vidro trincando. A noite estava escura. Estava escuro. Acordador e os demais. combatendo o frio. Os olhos de Tiago brilharam. — Vamos! Sétimo está no fundo! Ferido. Não entendera aquilo. Aléxia. Isabel parecia querer deixar os olhos saltarem das órbitas. Mesmo com a nevasca intensa e os ventos cortantes. Vamos deixar seus vampiros para o Exército. agora! — Senhor?! — Aterrisse sobre o rio! Temos os vampiros em nossas mãos. raios! Desça! Tiago e os vampiros alcançaram o rio. também chegavam ao leito e. quase alcançando os vampiros. — Desça. reforçados pela presença de César. Os soldados espalharam-se pelo gelo fétido. munidos de prata. — Inverno! O rio! Guilherme entendeu. tenente! O rio congelou! — gritava um dos soldados. Os coturnos deslizavam um pouco e era preciso concentração para manterem o equilíbrio. lanternas na ponta das armas. Estendeu a mão à frente e gritou. mas o som do rio sumiu. diante do facho de luz que varria o gelo. o rio Pinheiros estava congelado! Tiago tinha se desconcentrado. desaparecendo nas águas negras e podres do rio Pinheiros. chegando ao guard-raü oposto e encontrando um muro que os separava da linha de trem. gritando e atirando. mas aquilo não passou despercebido. Precisavam saltar e se afastar da turba de vampiros que vinham naquela direção. o grupo transpôs a pista expressa. O chão parecia firme o bastante para escaparem. Outros dois continuavam lutando contra o vento irregular trazido pela nevasca. O rio Pinheiros. Saltaram as grades anexas ao guard-rail. Dois jovens. desviando-se das baías. seus olhos depararam-se com algo inacreditável. — Temos que sair agora. O vento está aumentando. Viram Sétimo ser acertado pelos projéteis de prata e sofrer. Tiago. os helicópteros desafiavam a intempérie e pareciam descer ameaçadoramente. Um novo tiroteio começou. assistiram incrédulos à passagem dos vampiros. estivesse naquele helicóptero. Mesmo congelado. Um deles virou-se para o grupo de Tiago e começou a atirar. Vários soldados. abraçados. Despencou velozmente em resultado aos ferimentos sem número e submergiu. — O rio congelou. . perplexo. o rio Pinheiros continuava fétido e turvo. Só uma idéia na cabeça. guiava a escapada. Inverno fizera a superfície do rio tornar-se uma chapa espessa de gelo. Os helicópteros dançavam à direita. Piscou os olhos e deixou-os chamejar. Manuel rolou pelo gelo. — Livrem-se dos helicópteros.. Não vou desistir agora! — No gelo?! — No gelo. a grande maioria com as jaquetas com o crucifixo rubro às costas. Os vampiros de Sétimo. Se tivermos sorte está preso no gelo. matar vampiros! — Corram! Rápido! — gritou Tiago. atrás deles. havia o motor dos helicópteros. O vampiro general procurava reestabelecer o controle sobre o grupo. Passaram sobre a linha do trem e transpuseram a plataforma. Grupo de Operações Especiais.. mas talvez a tal amada.. mas mal concluíra a ordem. estavam no meio da pista. Um helicóptero conseguiu pousar. quando viram o mestre cair e sucumbir nas águas do rio. queriam derrubar Inverno. logo à frente. — Procurem Sétimo! Procurem Sétimo! Ele vai voltar à tona! — bradou Agnaldo. emanando seu poder vampiro. Os sete vampiros se reuniram. vinham os soldados do Exército. Os tiros crivaram o corpo da criatura. com os vampiros tentando revidar o fogo. Joel deixou o queixo cair. saltando o espaço entre uma e outra e voltando ao chão. espero que morra. Havia o vento. A escuridão desapareceu. tenente. indo à frente.. O barulho era ensurdecedor. Os vampiros mais uma vez se separaram. Os vampiros do grupo de Sétimo.tivesse recebido tiro algum. Precisavam ajudar o líder. Iriam fugir. Enquanto Inverno exalava frio. atravessando sobre o rio congelado e chegando ao outro lado. Estalos sinistros vieram do rio.

Mas a imobilidade para realizar o ato custou-lhe um tiro no peito. Com a ajuda de outros vampiros arrastaram o pesado corpo para baixo da ponte. concentrando-se mais uma vez. pois ao contrário do estacionamento. os jovens soldados correram para a grama molhada que ficava na beira do rio. A água podre subia rapidamente e Brites. tinham se afogado. mas não podia. postaram-se ao lado dos vampiros. agarrado quando fugia do helicóptero de Brites. Estavam ocupados demais salvando o próprio rabo. o leito congelado não oferecia meios para se esconderem e protegerem os corpos das balas de prata. Uma explosão! Fogo dentro do helicóptero. encorajados pelo ressurgimento do líder. Era poderoso. Tiago e seus vampiros pareciam cercados. atiravam contra os homens de Sétimo. Trazia pelo colarinho um soldado. Lascas de gelo saltavam quando as balas atingiam o grosso muro. Os disparos pararam por um instante e todos viram o vulto de Sétimo rasgar o ar em direção ao helicóptero. fazendo a água solidificada rachar e placas soltarem-se. O helicóptero não afundou completamente graças ao gelo que o prendeu pelas ferragens. que fê-lo tombar. Molhados e desesperados. Piloto e co-piloto. do outro lado do rio.. Acertavam ao demônio descontrolado. Os lobos. O cerco apertava quando. Ouvia tiros. derrubando vários soldados. Uma matilha de lobisomens surgiu. agigantados. não poderia agora tirá-los daquela enrascada. Sétimo tombou seriamente ferido. Os homens não podiam vêlo. Precisava urgente de mais sangue. Sétimo arremessou o próprio corpo contra o fundo do helicóptero. Sétimo gritava de dor. chamas na porta. momentaneamente. Aléxia. Brites sufocava com a fumaça e mais ainda com cheiro fétido da água imunda que chegava em sua barriga. Os olhos estavam nublados. Inverno estendeu o braço para um dos soldados.. parecia tomar consciência de que encontrava-se a meio caminho de sua tumba. com o corpo perfurado pela prata mística. O bico afundou rápido e a aeronave incendiou-se. Fogo no helicóptero. bem embaixo da ponte. que encontravam-se em desvantagem estratégica. Gritavam desesperados. esse alguém estaria morto. ajudada pelos homens à beira do rio. — Leonardo! — exclamou Tiago. aliviado. distribuindo bocadas perigosas nos homens do Exército. e um urro veio da escuridão. Não conseguia livrar-se da jaula da vampira. mas a prata era ainda mais. O terceiro helicóptero pousou próximo ao grupo de Tiago e impediu-os de cruzar o rio. Brites estava preso pela jaula com a vampira morta. um rugido varou a noite. Três deles foram mortos pelos vampiros no fogo cruzado. O pânico estava instaurado. Sétimo estava sem forças. — Montem! — gritou Tiago. Agnaldo rastejou até junto ao líder. Inverno perdeu as forças. vendo soldados abrindo fogo e aproximando-se lentamente. A tropa no chão abriu fogo. ficando no alto da borda do rio. Três das criaturas caíram sobre os soldados. presos ao cintos de segurança. Conseguira minar-lhe as energias.Os soldados. Desviavam como podiam. espantando os soldados. desesperado. Os soldados tinham-lhe acertado em cheio. A água invadia com velocidade e os soldados procuravam escapar como podiam. que foi envolto em um bloco de gelo. Os soldados vindo do shopping procuravam não descer ao gelo. tendo de combater soldados pela frente e por trás. estendeu o braço. Estavam em maus lençóis. empurrando os vampiros para o meio do gelo. protegendo-se como podiam. Inverno. Estavam todos no calor da batalha quando uma parte do gelo rompeu. A nevasca havia cessado quando Inverno fora atingido. Mais baías vinham pelas costas. Evocou o frio e construiu diante deles um muro de gelo. que recuaram alguns passos. Bateu contra o gelo. atirando de cima para baixo. Se houvesse alguém lá dentro. Agnaldo arrancou a cabeça do humano e enfiou o pescoço aberto na boca de Sétimo. . Prata em seus órgãos internos. Manuel também tinha ferimentos e Fernando recebera quatro tiros ao proteger Eliana. A aeronave perdeu a estabilidade e tombou descontrolada. Os vampiros aproveitaram o susto e reverteram a desvantagem. onde estaria menos exposto às balas. Queria levantar-se. — Aléxia!!! — urrou Sétimo. Miguel só podia congelar o tempo uma vez a cada ciclo. Sem perder tempo o grupo rastejou e deitou.

— Debandar! Debandar! — gritou Agnaído. dado o tamanho agigantado das feras. observando a patente do homem. — Levem Eliana! É uma ordem! — comandou Tiago. olhou para trás. o helicóptero afundou um pouco mais. — Maldito. na marginal. logo ao ser capturado. Dimitri tomou-lhe a arma com rapidez e arremessou-a para o gelo. Logo lembrou que era capaz de atravessar a matéria. — Vão. Meu coração bate. E se fosse? Preferia morrer? Brites não respondeu.. próximo ao Jockey Club. Tiago erguia Inverno e acabava de colocá-lo em cima de um lobo quando um dos soldados aproximou-se e disparou com uma arma de tubo largo. ameaçando levantar. Agarrou o braço do imbecil e puxou com toda força. No gelo. soldado. fujam! Fujam e peguem Sétimo! Eu vou escapar! Os vampiros. — Não sou vampiro. com os vampiros as costas. — Me dá a mão. ficando apenas um pedaço de menos de um metro da cauda para fora. Havia um soldado lá dentro. — respondeu Dimitri. soldado! Brites abriu os olhos. Não sabia se o gelo suportaria o peso do próprio corpo. A água podre chegou ao queixo de Brites. foram impelidos a disparar. Instantes atrás. Enquanto um dos helicópteros preparava-se para decolar. Não poderia ingerir uma gota que fosse daquela água podre. Dimitri debruçou-se o máximo que pôde. obedientes como deveriam ser às ordens de Tiago. que resfolegou. não podia atravessar a prata. O helicóptero terminou de afundar. O lobo disparou com Inverno em seu dorso. Dom Fernando retornou e barrou a vampira. — Temos de libertá-lo! — gritou Fernando. Dimitri aproximou-se do helicóptero que afundava lentamente. Precisa preservar bons vampiros. Dimitri caminhou com rapidez para fora do rio. desmaiado. maluco! Não tem muito tempo! Brites ergueu a mão. afastado uns dez metros. Pôs o pé em cima de uma cela. Um homem de sobretudo preto. Com a água imunda quase no pescoço. Estava tonto e entorpecido. O metal estava quente e ele precisou de coragem para entrar. parecendo voltar a sentir o frio e o medo. — balbuciou o resgatado. até alcançar a porta da aeronave em chamas. tenente. Tinha uma mulher morta lá dentro. mas quando tirou-a da água na ponta vinha a pistola.. tentando agrupar o que restava de seu grupo. Tossiu por causa da fumaça. . Me espera lá em cima. — Não sou vampiro. decepcionou-se ao notar que era como um vampiro qualquer. Fora capturado. jazia o militar. — Não sou vampiro! Dimitri abriu o sobretudo e colocou os dois pés dentro da aeronave. os lobisomens pararam. Quando juntou-se ao caçador. numa montanha-russa de sensações. Tiago ficara surpreso. vendo o parceiro amado ficar para trás. — Tiago! — gritou Eliana. ameaçando fazer a besteira de voltar sozinha. vampiro! Me deixa morrer! Dimitri desistiu. Mal deitou o soldado no gelo. — Tiago! — gritou a mulher. Ardiam por causa da fumaça. Eliana reteve-se.. Uma vampira. mas... Apanhou a mão de Brites e colocou-a em seu peito. — De nada. Conseguiu arrancá-ío debaixo da cela e arrastou-o para fora. Um grito. As criaturas dispararam para fora do rio. Os lobisomens se distanciavam e o grupo parecia não notar que ele fora agarrado pela rede prateada. Dimitri arrastou-se pelo gelo. A estrutura rangeu e afundou um pouco mais. — Estende a mão! — Vai embora vampiro! — Estende a mão. Tiago viu seu corpo envolto por uma rede. — Vai embora. do contrário não restaria nenhum para um novo combate.. Acreditava-se morto. mas batendo a cabeça no chão. para a marginal do outro lado. Um vampiro! — Não quero ser salvo por vampiro nenhum! — retrucou. servindo perfeitamente de montaria. — Tiago! — gritou Eliana.Os vampiros entenderam e fizeram dos lobisomens montaria. Sou homem. Pedaços do gelo sujo balançavam conforme se mexia. — Vai Tobia. A água gelada. Dimitri e Tobia atravessavam o rio congelado correndo. No alto. levando-o para cima. Um homem no fundo. imbecil.

Estava fedendo à água podre do rio. Viu a matilha de Leonardo batendo em retirada. Os soldados examinaram Brites ainda deitado. As energias faltaram. Outros vampiros foram capturados e presos no helicóptero. Um dos homens precisou curvar-se para ouvir. Uma massa podre estendida no chão. — Quero a vampira. Não queira saber dos vampiros. Melhor assim. Logo os ferimentos seriam vencidos. Seu peito não se movia. Teria fraturado algum osso importante? Coluna? — Estou inteiro. quando eram humanos. Para que lembrar-se disso agora? Estava sendo carregado. ter a amada a salvo do que nas mãos do Exército. Encarou o rabo do helicóptero. quinhentos anos atrás. Ainda percebia tiros cruzando o ar. Via as estrelas. Não queria os soldados. Não sentia-se agora um monstro tão poderoso assim. Aléxia! O peito era o local que mais doía. Foi arrastado pelo gelo e teve uma extremidade da rede presa a um cabo de aço e fixada a um helicóptero. O único ferimento realmente fatal. senhor. sabia que daria. O soldado aquiesceu. levando embora os vampiros e Eliana. Já pedimos um helicóptero ambulância. como adivinhando o que os homens pensavam. Sua vampira. — disse o tenente. — Vamos tirá-lo daqui. soldados. — Que vampira. O sangue estava agindo. . Sujeira recobrindo seu corpo até o queixo. Em minutos a aeronave decolou.. — balbuciou o tenente. Os olhos do monstro se fecharam. Era impossível. Queria sua mulher. mas sem muita convicção no olhar. mas era difícil manter-se com o nariz próximo ao superior. Não conseguia mover-se um centímetro.. As energias faltaram. apontando com dificuldade para o mínimo pedaço de calda ainda exposto para fora do gelo..Tiago debateu-se procurando se soltar. — Quero a vampira. O tenente estava falando sério? Poderia estar delirando. — sussurrou mais uma vez.. Identificou uma constelação que vira no céu. que já os traíra no passado. suspendendo-o e açoitan-do-o com o vento frio. Aléxia! Lutou para manter os olhos abertos. Daria um jeito. Precisava de Aléxia. Não sabiam o que tinha acontecido ao tenente. O céu ficara estranhamente límpido. Os soldados-vampiros conseguiram improvisar uma maca proporcional ao seu tamanho de morcego-monstro. Queria apenas aliviar a dor que queimava em seu peito. Não precisava respirar. Sétimo abriu os olhos. senhor? — Ela ficou dentro do meu helicóptero.

Podemos segui-lo. vamos encontrá-lo. Não caía mais neve. seis no total. queria sentir-se ainda mais forte que o vampiro Tiago. Talvez. tímidas. O céu estava limpo e estrelas. chegando a projetar a sombra do vampiro robusto para dentro da casa. O covil tornou-se silencioso. demora o Sol raiar. Precisaram saquear uma loja de roupas para poderem transitar pelas ruas sem chamar mais atenção do que suas silhuetas pálidas chamavam por natureza. brilhavam. há de se livrar do Exército.CAPITULO 70 Não podemos deixá-lo sozinho! — reclamava Eliana. — Temos que descansar. — disse Fernando. já possuíam forma humana. Eu tenho um plano. — Tiago é um guerreiro valioso. Nem vocês sete juntos escaparam da caixa de prata. Sétimo matou muitos soldados. com seu sotaque português e voz gutural. Vou tirar Tiago da prisão. — Humpf! — expeliu Inverno. sem Tiago. o Exército teve baixas. Eliana estava agoniada e andava de lá para cá. não queria ceder. rompendo o silêncio. mas temos que salvar Tiago. Vampiros eram infinitamente menos sensíveis que os humanos. precisamos descansar. Inverno fizera a nevasca voltar. Onde quer que coloquem o vampiro. Protejam a mulher como pediu o mestre. Eu tenho um plano. Os vampiros vindos com Leonardo não interferiam na discussão. — participou Leonardo. O vampiro negro caminhou para fora da casa chegando à varanda. ele está só! Ele está só. Já tinham voltado para a casa em Osasco. já conseguiu nos derrotar. — redargiu Inverno. Os lobisomens. A lua crescente refletia a luz do Sol. seja impossível detê-lo. Empregamos nosso poder. forte e de abrangência nunca antes experimentada. Está cativo. — Fiquem aqui. — Podemos senti-lo. o líder dos lobisomens. — Ele pediu que a protegessemos. Preso peía prata. Viu tua tempestade?! Que coisa linda! E a nevasca que fiz cair! Mas viu o que aconteceu com Gentil? Não podemos confiar no diabo! Temos que descansar. — interveio Manuel. Não duvido disso. — Temos que aproveitar agora. é uma ameaça para todos nós... Tiago não precisa de proteção. — Ainda é cedo. Sétimo continua vivo. apenas olhando para os vampiros. César estava acocorado a um canto. O frio não chegava a incomodar demais. — redarguiu Baptista. Estamos mais fortes. contrariado. Inverno. A rua estava coberta por uma capa de neve. — Precisamos descansar. . — Estamos fracos. — Mas ele foi preso.

Enfiaria um molotov no rabo do bastardo e faria-o arrotar fogo e cuspir calor. Outros imóveis. protegidos do frio. Os olhos de Régis varreram a avenida forrada por um tapete branco de gelo. Impossível. caminhava devagar. cadavéricos. Poucos sabiam o que tinha acontecido ao tenente. com sangue vertendo pela boca. ergueu seu binóculo. O rádio chiou e a voz do colega Everaldo chegou pelo rádio. Em segundos um alarme disparou no quartel de Quitaúna. pele ligeiramente desbotada. sobre a capa de naylon verde-oliva. o destino de Brites era incerto. Fora fraco. Fica atento. silenciosos. Fora salvo.. Seria o frio? Levou o rádio à boca. Criaturas malévolas. de sobretudo. Os soldados sabiam que amanhã muitos caixões iriam para o solo encerrando na terra muitos colegas. o tenente Brites. Não tá me cheirando coisa boa. fechou os olhos e pousou o queixo nos joelhos. fazendo as juntas doerem de forma indescritível. Serviu para despistar o desconforto por uns segundos. Régis. Nos alojamentos dos soldados. Régis. Uns afirmavam que Brites continuava comandando tudo. Como não tinha visto aquele sujeito antes? Um homem negro.. — Fica atento. Certamente fora a ação dele. Para os sentinelas nas guaritas externas as horas arrastavam-se pesadamente. a ponta do nariz parecia pronta para partir e cair diante de seus olhos. Era isso. As informações vinham desencontradas e ninguém sabia ao certo onde estava o tenente. Um português. Sotaque luso. tinha um desejo crescente formando-se em seu pensamento. tem um cara chegando. Coberto por uma peça de naylon. — Ei! Régis. que mantinha os olhos esbugalhados. A água do rio ameaçava alcançar sua boca. levando a bordo soldados feridos ou desmaiados. No quartel. O último helicóptero partira para o Hospital das Clínicas. Não sabia se era içado por um maldito vampiro. Mas o tenente não recordava de sentir um coração batendo. — O de cima! Cá estou. contrastando com a face pálida. Régis bateu na trava do fuzil. Os sentinelas. Queria vê-lo bancando a geladeira ambulante depois disso.. pronto para entrar. Era isso que importava. que batia os dentes descontroladamente. O homem não o teria retirado do helicóptero sozinho. O grupo de Operações Especiais. o vampiro congelante. em direção ao portão. Cedera. Chegou a ceder quando o homem lhe estendeu a mão. Encantavam na mesma razão que apavoravam. se colocassem o filho da mãe numa jaula de prata. Lembrava da pele fria. como era mesmo? Geladeira do Diabo. — Alto lá. Um homem negro. que rendera o apelido à aquela cidade que surgira no Fantástico. que apenas levara os soldados para o hospital. Mas com aquela neve por todo lado. Se encontrasse aquele vampiro que diziam capaz de fazer nevar. Fora salvo. . O tenente batia o queixo. seria o primeiro soldado da fila a importuná-lo. Enfiou o cano pelo espaço de tiro. Brites não sabia se fora salvo por um homem ou por um vampiro. Algumas versões diziam que o tenente fora sugado pelas águas pardacentas do Pinheiros. — berrou. e mãos enfiadas nos bolsos. Lembrava que o homem pusera a mão de Brites em seu peito. Um dos helicópteros trouxera os vampiros aprisionados na batalha. a polvorosa instalada pela chegada dos homens de Brites começava a amenizar. tentavam manter os olhos abertos. que servia para aquecê-lo e abafar o odor fétido que o uniforme absorvera ao encharcar-se com a água podre do rio Pinheiros.CAPITULO 71 Lá algumas horas os caminhões tinham retornado ao quartel. Não era coincidência. deixando-o pronto para a ação. Estava isolado num canto da aeronave. Everaldo alertou as demais sentinelas pelo rádio. Se ingerisse uma gota daquela água envenenada. Riu sozinho. Estabanado. sabia como fazê-lo derreter aquela neve de uma vez só. Se tivesse a chance. Everaldo. Aquele homem não estava ali por acaso. Nas crônicas contadas de boca em boca. um dos sentinelas mais friorentos. Sua mão quase congelando no rio enfeitiçado. agasalhados e evitando o vento gelado que varria a avenida dos Autonomistas. fica esperto. as histórias começavam a se espalhar. a água gelada parecia ter infiltrado em seus ossos e congelado seus músculos. Versões fantásticas eram contadas. Um inimigo.. — Alto lá! — repetiu o soldado. não demoraria a encontrar seu fim. Os vampiros eram inimigos perigosos. Dentre eles. Agora os portões encontravam-se lacrados.

. ofuscando-lhe a visão. Centenas de disparos cadenciados. Seria a última chance do garoto escapar com vida daquela situação. Com os olhos chamejantes olhou mais uma vez para a sentinela. Um tiro entrou pelo olho e estourou parte de seu crânio. Régis sentiu o estômago embrulhar. não sentindo a cabeça bater forte no chão. Os portões verdes abriram-se em conjunto. percebeu o que acontecia. Não era um homem qualquer. O mal estar deu lugar ao nervosismo quando viu o homem levantar-se. mas corria para um desfecho doloroso. Era um vampiro! Fernando deixou os olhos acenderem. A prata queimava a carne e a dor era enlouquecedora. se via obrigado a recolocá-los. Dezenas de balas cruzando o corpo. filtrando mais luz. brasileiro! Abre o portão e me deixa passar! Fernando sorriu quando viu seu pedido atendido. Era a primeira vez que acertava um homem. desfalecendo completamente.mal libertara-se dos uniformes pesados. Quando tirou o braço da frente dos olhos. — O. Régis disparou três tiros. plano estava funcionando. com um hemisfério cerebral espalhando-se pela neve branca da avenida. Viu o homem tombar. Foi obrigado a fazer os olhos vermelhos voltarem ao negro. Ninguém levantava depois de ser atingindo em cheio por um fuzil. Holofotes foram acesos iluminando o corpo caído. Aquele alarme só podia significar uma coisa: vampiros! Como o homem de sotaque luso não parava de caminhar em direção ao portão. Bateu a neve de seu sobretudo. seu. Fernando gritou. Deu o primeiro passo quando foi surpreendido por dezenas de holofotes acesos ao mesmo tempo. Fernando apagou naquele exato momento. afundando na neve alva.

Os soldados desatrelaram o cabo de ferro o mais rápido que puderam. deixando o ar da noite entrar com o frio e espantar um pouco o fedor. Normalmente. o corpo estava retalhado. A ânsia dos soldados e a dificuldade em lidar com o peso de Fernando foram tamanhas que não tomaram o cuidado de deixá-lo longe de Tiago. evitou demonstrar surpresa. Agradeceu pelo destino conspirar a seu favor. com o auxílio de um cabo metálico engatado à nova cela. Contudo. Tiago viu uma cela completamente enegrecida e recoberta de sujeira. Era dali que vinha o cheiro do rio Pinheiros. A porta frontal do galpão correu. moído por balas. Acompanhava os soldados encostarem junto à sua cela o corpo de dom Fernando. deixaram o galpão rapidamente. Alguns vampiros capturados na batalha partilhavam do mesmo galpão. Na cela ao lado. As rodinhas da cela rangiam e os soldados faziam muita força para carregar o homem grande. uma ou outra abrigava dois vampiros. Podia ver o corpo de uma mulher. se é que isso seria possível. pendendo a cabeça para frente.CAPITULO 72 Tiago estava sentado no chão apertado da cela de prata. Apesar das celas vazias. aproximou as celas e abaixou-se o quanto pôde. protegendo o nariz contra o cheiro ruim que exalava da cela da vampira imunda. Os vampiros faziam algazarra. Ao levantar-se. Alguma coisa lhe dizia que Espelho precisaria muito mais daquele sangue do que ele mesmo. Vários ferimentos no braço de Fernando. Em certos momentos. Um cutucar na testa servia para confiar que ainda existia vida no moribundo. Uns gritavam. pois sentia o odor por toda parte. destroçado. o galpão quedava-se silencioso por dois ou três minutos. pois bastou o vampiro estender o braço para alcançar a grade do parceiro. . Assessorados por um sargento. Junto com vento. Criou um talho no próprio punho e deixou o sangue descer para a boca do vampiro até sentir-se fraco. A cela era pesada e de difícil manuseio. se alguém olhasse com atenção. O cheiro do rio podre parecia persegui-lo até o galpão do quartel. Ouvia o nome de Sétimo vez ou outra. Provavelmente estivera a bordo do helicóptero abatido e fora resgatada. veria que o buraco na parte posterior da cabeça. Não perderia mais sangue por ali. mas o espanto era grande. A vampira estava estranhamente imóvel. outros conversavam. boquiaberto. duas. Todos os vampiros acordados olharam para a porta. Usando força vampírica. O que o vampiro fazia ali? Estava desfigurado. Era bom que desse um jeito de escapar do cativeiro ou aquele seria seu fim. traziam o corpo de um vampiro. o ferimento no punho fechou como mágica. Um trilho largo de sangue enegrecido formava-se à passagem do novo capturado. Um bom número delas estava vazio. jogada ao fundo. depois voltava à algazarra. forte e de pele negra. Guiado pelo olfato. mas cuidou para que a distância não fosse demasiada. Por quanto tempo? Tiago não fazia idéia. Apagou. guardava corpos de dois vampiros carbonizados. mas podia reconhecê-lo. cambaleou um passo e bateu as costas contra as grades. Depositaram a cela ao lado do vampiro da ponta. Precisariam de muita energia para fugir dali. O ferimento fora provocado pela prata. Tiago. Caiu de joelhos. Os soldados. Entretanto. Foi sua vez de invadir a cela vizinha com seu braço forte. num canto. Espelho estava longe de ser um vampiro comum. Tiago conseguiu colocar o braço do vampiro dentro de sua cela e tomou o sangue que escapava. Mesmo desacordado. fechava. com um braço suspenso para fora do gradil. Agarrou a cabeça de Fernando e colocou a boca inerte junto à grade. por onde uma das inúmeras balas saiu. Tinha de ajudar Fernando a se recuperar. o cheiro de sangue. Apesar de parecer inteiro. Tiago sentiu os olhos acenderem-se. Tiago notou a pressa dos soldados. Tiago afastou um pouco as celas. levaria semanas para a completa cicatrização. o vampiro semimorto continuava imóvel.

As baixas foram muitas. coberta apenas por um.. Paola. alguns ouvindo música em alto volume. e sentia o corpo sofrer junto com Aléxia. Têm medo de mim. o vampiro ferido tinha gostado da ousadia. A vampira abriu os olhos e respirou fundo. seguido por Paola. A pele. Não poderiam ser descobertos agora. As balas de prata haviam castigado o couro e a carne dura de sua forma de morcego.. no amontoado de prédios próximos ao centro de Osasco. Os vampiros. O corpo estava com as feridas fechadas. peças de roupa da mulher. Depois de Aléxia. não pusera os pés para fora.CAPITULO 73 Anoitecia. Aqueles estúpidos não são de nada. Paola desobedecera seu aviso de não deixar o covil provisório. Os irmãos tinham voltado para traí-lo novamente. logo após a transformação. Paola e Danilo para organizar o ataque. Sétimo estava disponibilizando todo o dinheiro do covil para aquela investida. A vampira estava nua. ainda secreto. Beijou-a suavemente nos lábios. que vigiava. Envolveu o mestre com os braços e apertou-o contra seu corpo. Paola. Estranhamente. exceto Agnaldo. apesar de não suscetível ao frio.. quando recuperara sua forma humana. Não conseguiria combater. Como era linda! Os cabelos longos cheiravam bem. Danilo ficou encarregado de contatar os soldados do tráfico e tantos mercenários quanto fosse possível. sentindo a pele fria do vampiro.. — Sétimo. fazendo os vampiros voltarem-se para ele. O que estava acontecendo? Nunca se apaixonara assim pelas mulheres! Tão forte! Tão arrebatado! Tão. Vamos eliminá-los um a um. estava fraco e vulnerável. Sétimo chamou Agnaldo. e juntara-se ao bando. Estavam agrupados a um canto.lençol branco. — disse Sétimo. Paola estava sendo recrutada também. Sétimo abandonou o quarto. Levá-lo ao Vale Negro. os humanos viam seus medos tomando corpo e forma selvagem em atos executados no palco da vida real. Viver sua última Aventura. Beijou-o. não descoberto pelo Exército. onde era reproduzido o filme Drácula. Como de costume. Muitas armas se perderam no Shopping center com a explosão do furgão. ou teriam ganho do diabo o dom poderoso da sedução? Só podia ser isso! Puxou o lençol de cima do corpo de Paola. Não teria forças para enfrentar o Sol. Jogadas no chão. Sétimo refugiara-se com outros tantos no subsolo da mansão. O ódio ainda o consumia. Durante o dia. destruiremos os vampiros que nos atrapalharam na última noite. carnal. Os olhos atentos acompanhavam o jovem Jonathan Harker adentrar o castelo e ser recebido pelo mórbido conde. — Preciso de você. entre elas uma jaqueta negra com o característico crucifixo vermelho. O que tinham aquelas malditas brasileiras de tão encantador? Eram bruxas! Tinham enfeítiçado sua mente e o dominavam. Sétimo abaixou-se e beijou o ventre da vampira. Encostou a porta de metal pesado. Rompera o casulo no final da tarde. Era assustador! Essa paixão estava lhe fazendo mal. O covil estava silente. Chegava a primeira noite após a batalha.. a pele contraiu. O que era aquilo? Como se apaixonara tanto pelas duas? Nunca acontecera antes. Entretanto. Podia estar com a vampira para que ela aplacasse seu sofrimento. Uma ferida surgira em seu peito. O ódio o consumia também pelo fato dos petulantes soldados manterem Aléxia cativa. — Vamos trazê-la para o covil custe o que custar. Precisava de sangue. Agora.. Sétimo andou até o centro do salão de concreto. A vampira estava adormecida no chão de concreto frio. ainda tinham . arrepiando-se. Seu peito doía. O ser humano sempre foi fascinado pela figura assassina do vampiro. Duas horas depois.. pois as baixas foram tantas que se fazia necessário todo e qualquer reforço.. com o ator Gary Oldman no papel preferido dos espectadores. Todos os vampiros tinham acordado e aguardavam instruções. — Vamos resgatar Aléxia. tinha uma cor especial. Subiu lentamente o lençol até cobrir o corpo da mulher. apesar de empalidecida. apagados. — Somente com Aléxia ao meu lado terei paz para lutar. Contudo. Para buscá-lo. trazendo dor para sua forma humana. outros prestando atenção à TV. Aléxia era sua! Ninguém jamais o afastaria de suas vampiras! Foi ao cômodo ocupado por Paola. Que danassem os irmãos! Estava cego de ódio! Queria Aléxia de volta ao covil! Vampira maldita! Turvava-lhe o pensamento! Não teria paz enquanto não beijasse aqueles lábios carnudos e não sentisse novamente o gosto de sua pele. Podia ver o contorno sensual do corpo feminino.

Outros malucos faziam qualquer coisa por um bom dinheiro. . Danilo havia dito que não seria fácil ajuntar homens para enfrentar o Exército.muitas no subsolo da mansão. e os soldados contratados trariam armamento pesado. Seria tudo ou nada. Chegariam como loucos. fartamente abastecidos de sangue antes do confronto. mas conhecia um punhado de loucos que iriam adorar atirar contra os repolhos.

Sétimo queria disseminar os vampiros pelo mundo. — Concordo com a mulher. Estavam lã para detê-lo. estava vivo. Precisam no mínimo de duas a três noites para aceitar que são vampiros. — Temos que buscar Tiago. na esperança de que ele chegasse com sucesso. Fernando não tinha voltado. retornando da casa. Seu coração. — O que precisamos é de soldados. — disse Baptista. — comentou Acordador. Manuel. — Não podemos sair por aí fazendo vampiros. Ao menos.CAPITULO 74 No covil da City Bussocada. mas juntos. mas não basta. mas as lembranças iam crescendo em sua cabeça. Queria ser o mal caminhando pela noite. trazendo Tiago ou. Adormeceu involuntariamente. Lamentou seu dom não ter aprisionado Sétimo. Provavelmente estavam juntos. Vistes quantos homens tinha o Exército? Vistes quantos vampiros tinha o grupo de Sétimo? Precisamos de reforço. — Tua lábia é notória. Vivo e com Tiago. pois o sentir provinha da mesma direção onde encontrariam o brasileiro. Os vampiros acenderam os olhos. Sentiu. gajo? Achas que é só pedir que o Exército te dá? — provocou Inverno. Só queria seguir Tiago. a cada segundo da prorrogação dada pelo demônio. boas notícias. Presos. Só com ele poderemos confrontar Sétimo. Serão nosso batalhão. Sétimo era seu irmão. Gentil. se contaminava pelo arrependimento. Retirou as madeiras que bloqueavam a porta e deixou o ar da noite entrar. — Ele não voltou. — disse César. Eles nascem fracos. A luz do Sol refletida em esplendor reduzia os poderes vampíricos. Basta minha voz para que os mortos se levantem. Era sua missão. Queria ser mais que o demônio. — Precisamos de um plano. os vampiros também despertaram. — Deixai-me no cemitério mais próximo que faço soldados. eram dotados de poderes ainda mais fantásticos. — reclamou Baptista. Correu os olhos pelo cômodo escuro. Eliana despertou junto com os demais vampiros. Não tinha vontade para muitas coisas. . Queria destronar o rei das trevas. — E como pretendes apanhá-lo. porém deveria matá-lo. Traição. A lua cheia preocupava. Miguel foi o primeiro. Aquela confusão toda poderia ter chegado ao fim. Lua cheia. Não era o mesmo Miguel de antes da explosão. — disse Miguel. Acordam e me obedecem. pelo menos. Estrelas no céu. Tinham aguardado Fernando até o último segundo. Por sorte.

— Você entra aí. Entrou. — a mulher arrastou as costas na parede afastando-se da porta e caindo sentada no chão. Eu vi. por favor. Entrou atrapalhada. com lágrimas ainda caindo. Senta aqui. Não ficara para ver o resultado. mas recuperou a calma. Caminhou em direção à entrada do terreno.. sensível. compreensivo. doutor. Barulho de uma bacia metálica indo para o chão dentro da sala. — Eu vi. Era grande aquele um. Você viu. A enfermeira preparava a medicação para aliviar a dor de cabeça quando o homem teve uma parada respiratória repentina. atravessassem os tijolos ou removessem a terra. sempre educada e amigável. notando o olhar perturbado e o resmungo. — disse a mulher. Bateu na porta. Levantou-se e se afastou rapidamente.. Era feio. você precisa vir aqui. pelo amor de Deus. estendendo a mão para o homem. Agora. Bom sinal. Ana. Não tinha provado ainda toda a amplitude de seu poder.CAPITULO 75 Desceu do carro branco e postou-se no calçamento público. Grama molhada. preparou a garganta. arrancou o estetoscópio da mão do médico e agarrou-o pelo jaleco. dos infernos com doente escorrendo pelo ladrão. Inspirou fundo. olhando fixo para o paciente. Tinha tirado a roupa. Alexandre desvencilhou-se da enfermeira. com as primeiras lágrimas caindo. olhos abertos.. tirando os braços da frente.. Abaixou-se. nu. Tivera pressa da última vez. Mas notara que os irmãos estavam mais fortes. Perto dali. — Espera eu terminar.. Um corredor amplo. O doutor Alexandre impacientou-se. balbuciando coisas inaudíveis. Era só esperar que eles quebrassem os caixões. A enfermeira recostou-se à porta de uma sala. Que droga era aquela?! O morto. mas resolveu colaborar. Estalou os lábios. Preciso repetir a ausculta. S. ao menos até melhorar. o paciente estava acocorado num canto da sala. Vento frio. Velas crepitando. doutor. O ex-defunto balançou a cabeça. Ela estava em pânico. Seu exército estava acordando. meneou negativamente a cabeça. o paciente dado como morto estava ali. Mas entra lá e cuida dele. Logo. Alexandre ficou surpreso de início. por favor. Um calafrio cortou repentinamente o corpo do homem. os resmungos tomariam conta do lugar. Mas o que realmente importava é que era grande. Tanta gente em volta. Não tinha saco para surtos psicóticos ou coisas assim. Dera entrada com enxaqueca. — Tem mais alguém com o defunto? A enfermeira. acocorado no chão. O médico não conseguiu controlar. ou melhor. Fazia uso de drogas fortes para controle psiquiátrico. Ana. Era um doido varrido que precisava ser internado. Seu cabelo esvoaçava. Óbito. — Esse paciente morreu. Cruzes erguidas para o céu. O médico vasculhou o tórax. uma enfermeira com os olhos esbugalhados caminhava cambaíeante.. Poderia ter havido algum engano. O estetoscópio. Queria ficar ali. Esse homem precisa de um remédio. Portões largos e. Sua dor de ouvido teria de esperar. — Eu vi ele morrendo. O doutor aproximou-se devagarinho. Sem muitos anjos. Umas poucas estátuas. Expressão de lunático. Tristeza. — Você-precisa-vir-aqui! — disse nervosamente. cobrindo os olhos com as mãos. batendo os dentes e lançando um olhar psicótico para ele. De alguma coisa. deixando escapar um gemido de choro. Muro branco. Era jovem. — O senhor pode sentar nessa cama. — Doutor Alexandre. Tinha que ter paciência. Um nó no estômago. A enfermeira. até o meio do cemitério. Saíram sem explicar nada à paciente que estava deitada aguardando o exame. Ele sentou-se em um túmulo. acocorado. O homem fez menção de impedir. Tanta gente querendo ver o médico. trêmula. mas estava há doze horas naquele P. abertos. O sobretudo negro de tecido grosso ondulava conforme o vento açoitava suas costas. O médico girou a maçaneta. Impossível! O homem não tinha . levando o estetoscópio até o peito do paciente. Arvores secas. Deveria ser algo muito importante para tirar a mulher do sério. O grito retumbou pelas redondezas. Sabia que podia levantar os que tinham se deitado há até sete dias. Centenas de olhos se abriram. Sorriu. — disse o médico. Estaria ele também? O homem de baixa estatura caminhou entre as covas por cerca de quatro minutos.

em frente ao cemitério. em vez das lâminas. aberto. Do outro lado da rua da Saudade. tocando o chão cimentado. invadindo aquele novo cemitério. correndo como louca. subindo em direção a C. no quarteirão seguinte ao velório municipal. ainda debruçado.. Gente fugindo. uma multidão se juntava dentro do complexo do velório municipal. Um policial assassinado. Um arrepio subiu pela coluna. Era semelhante a uma tesoura. O cemitério era menor. Esperavam que o vampiro juntasse mais soldados. elas. por Deus. — disse o legista. A sala estava vazia. ou qualquer outra Unha da Viação Osasco. Levou a mão à boca. fosse a bordo da linha 61. Quem havia lhe dado o instrumento? O legista ficou ereto. Devido à neve que começava a subir. Precisaria submeter a vesícula a um estudo mais detalhado. Costa. Dali. Outra. os mortos acordaram!!! . daí a razão daquela aglomeração excepcional de gente coberta por abrigos pesados e lamentações. Os olhos varreram o cemitério. O ventre do examinado. — Obrigado. Viaturas da guarda municipal derrapavam no gelo e batiam contra o muro do cemitério. O legista analisava as vísceras. Outra mão estendeu-lhe o aparelho. abandonando o velório aos berros. a bordo do Guapiuva. mas abundante em túmulos e cheiro de morto novo. muito menos saído. A mão dançava apressada sobre as ferramentas. Os vampiros do rio D'Ouro olhavam impassíveis para o exército de gente morta que seguia Acordador..um coração batendo! Estava morto! A neve congelante cobria a cidade de Osasco. Seus mortos-vivos seguiam-no lentamente. mas. Executou o que queria. Novo arrepio. fosse em seu próprio carro.. dando-se conta de que uma batucada infernal enchia o corredor. debruçado sobre o cadáver. Numa das salas o legista de plantão realizava o exame de um cadáver.. apesar da neve fria e da noite assombrada. Tropeçou. se reparasse bem. mordido pela curiosidade. O policial não fora morto por tiros. poderiam de novo investir contra Sétimo e pôr fim naquela jornada. Na recepção. donos de uma tradicional casa comercial. Se espichasse o pescoço veria que a cena se repetia no prédio do IML. Quando Tiago estivesse de volta ao grupo.. ficava o IML de Osasco. Se prestassem atenção nos gritos dos fugitivos desvairados. Não podia perdê-lo. — Credo em cruz! — benzeu-se uma senhora na marquise. enfrentando a neve. Ser vampiro tinha dessas vantagens. Os infelizes eram muito populares. Choros de irmãos. O legista saiu correndo. aglomerando-se junto ao muro da parte mais baixa. no lado oposto da rua. Com a outra mão. Um trágico acidente automobilístico vitimara três pessoas de uma mesma família na rodovia Raposo Tavares. ergueu a cabeça. Com os mortos-vivos ajudando. sem localizar pelo tato a que queria. era possível?! As portas das geladeiras de conservar cadáveres. executariam a libertação. Acordador escalou o muro com facilidade. pessoas de duas ou três famílias aguardavam a liberação de corpos. o número de carros diminuíra drasticamente. Acordador chegava agora ao cemitério da Bela Vista. Pensava nessas coisas quando. poderia notar que gente. ocupavam as demais salas. quando o grito horrendo chamou-lhes a atenção. Uns conversavam. sem desviar os olhos do examinado. viu a cruz iluminada por um espectro azul em cima de uma grande igreja. forçavam os portões. apalpava a mesa de instrumentos ao lado. Anjos enfeitando as tumbas. com um monte de velas crepitando e saudando mortos e santos. Trinta metros para baixo. Saltou. trazia garras nas pontas. O fígado também. Tinha de identificar a causa mortis. encontraria um cenário insólito. atrapalhando a condução dos veículos. Um grito escapou da garganta. um pouco menor que o primeiro. com roupas livres da neve. tentando fugir do local assombrado. E da porta do cemitério. outros choravam. Crucifixos apontando para o céu. farejando o ar. primos e toda sorte de amigos e parentes ouviam-se pelos quatro cantos do velório. caindo espalhafatosamente. Outros caixões. Passou as costas da luva na testa. de outras famílias. Caminhou pelas alamedas. talvez não entendessem: — Fujam! Fujam! Os mortos.. Como. porém mais belo.. O defunto levantava a mão e lhe estendia outra ferramenta.. Ninguém tinha entrado. — Veio lá do cemitério. Pinçou um vaso sangüíneo. no chão. Peças negras de mármore sobre os túmulos. Imagens de Jesus por todos os lados. tomando café quente. partiriam para o lugar onde Tiago e Fernando estavam cativos. Abriu a porta de mais uma sala. A porta mantivera-se fechada. elas estavam sendo empurradas! Empurradas de dentro para fora!!! Quem passasse naquele momento pela rua da Saudade. Do alto do muro.

Era um vampiro. Perseguiria o vampiro. Imóvel. A luz da lua iluminou timidamente o interior do cárcere. estavam fechadas. queria ver o soldado estúpido perder a vida. Tiago notou algo interessante. muito. Destruí-lo. Deu um passo em direção a Aléxia. deixando a água limpar o corpo. mal conseguia manter-se em pé. A porta corrediça foi fechada. mas nenhuma nuvem.. A mulher era linda. ao primeiro raio de luz. Divertiam-se com os gritos da mulher. Acionaram um mecanismo. implacavelmente. Antes que a vampira fosse encerrada. O telhado do galpão abriu-se. Estava ferida. O soldado interrompeu o trabalho e olhava para a vampira de corpo exuberante. Deixou um sorriso brotar discreto no canto dos lábios. esguichando um jato forte contra a vampira. Um deles empunhava uma grossa mangueira de incêndio. Estava sendo limpa. deixando o ar da noite invadir ainda mais o ambiente. pois o vampiro não poderia ser pego pelo poder de Miguel. enraivecida. Aprisioná-lo em uma caixa de prata. Fitou Aléxia.CAPITULO 76 Um vento frio revolveu o cabelo de Tiago. Aléxia debatia-se. O sargento. encurvou-se. As peças pareciam dissolvidas por aquela sujeira podre e fedorenta colada à sua pele. — Cubram-na. Ele e Fernando estavam precisando de ajuda. Daria um jeito de roubar um lança-redes. Um odor fétido exalava da própria pele. O peito ferido doía. Os olhos abriram-se lentamente. mas ainda faltava muito para o nascer do Sol. Uma casca enegrecida desprendia-se de seu corpo e da jaula de prata turvando a enxurrada que corria pelo chão. encostando o corpo nas grades. Tiago viu um vampiro próximo transpirando. Riam. Sentia a carne arder. O vampiro estava despertando. Despiu-se. As feridas. que o encarava de forma sensual. Surpreendido. Aléxia sentia parte da roupa rasgar. Uma placa deslizou e foi içada para fora. Estava hipnotizado. A maldita tinha olhos de um verde impressionante. Tiago esfregou o rosto. batendo o coturno no assoalho. envolveram a cela com uma lona. Não conseguia desviar o olhar. mas a camiseta estava em frangalhos. seria morto para servir-lhe sangue. Os soldados engataram as barras de metal e arrastaram para o quadrado amarelo a cela da mulher. A porta do galpão estava aberta. Colocou-se em alerta. Um ferimento no peito da mulher indicava que ela estava fraca. Os soldados obedeceram. tremiam. aproximou-se. Por um instante. Os soldados deixaram o galpão. Assim que o soldado estivesse ao alcance de sua mão. Um perigo. A afronta a enlouquecia. Sétimo seria subjugado. Queimava. Estava sem energia. Serviria para refletir a luz do Sol assim que o astro-rei despertasse. dando a entender que poderia tocá-la sem perigo. A água que banhara a mulher escorria para fora. Soltou a ponteira metálica. mas aquela voz não era dela. desferiu-lhe um tapa na cara. ficando apenas dois. Parou. com a cabeça encostada na grade. pois ele mal havia se deitado. com a mão em cima da pele dolorida. ++++++++++++++++ . — Assim que o Sol nascer. e parecia estar de novo com os dois olhos inteiros. adentrando o galpão e notando a malícia no olhar da vampira que mantinha o soldado fisgado. Um pouco de confusão viria a calhar. alheios à tortura impingida à vampira. Dom Fernando ainda estava apagado. O estômago ardia. Queria ver Sétimo. Viu que o rapaz nem notara sua presença. Problema seria o novo confronto com Sétimo. Poucos soldados. Quando o soldado avançou mais um passo. Tiago olhou para os lados. Um cheiro de chuva chegando. Queria escapar. encarando os soldados. Estavam aferrados às grades. e a mangueira bateu no chão. A jaqueta de couro continuava íntegra. Tiago percebeu.. Com a ajuda de hastes metálicas. lembrou-se de Eliana. murmu-rante. Um espelho. Talvez não fosse um grande problema. Sabia que seus vampiros também já teriam despertado e certamente tramavam para resgatá-lo. Apesar de saber que a vampira pertencia ao grupo de Sétimo. Repetir a façanha de Tobia. O destino da vampira parecia selado. Gritos de mulher em seus ouvidos. A mão de Fernando tremeu. Precisava de sangue. Teria de tramar. Notou que alguns vampiros transpiravam. mas armados até os dentes. porém. olhando assustado para o sargento. Sentia-se fraca. Estrelas no céu. O soldado deu um segundo passo. Não tinha forças. Virou-se. destruam essa vampira! O militar se deslocava com o peito estufado. Mais cedo ou mais tarde.

Inverno estava se movendo. mas a de Hélio e de alguns outros vampiros lobisomens. A neve espalhou-se pelo piso do galpão. O galpão continuava vigiado por dois soldados e pelas câmeras de segurança. Os dois rapazes conversavam sobre futebol. Primeira noite de lua cheia do ciclo.. Estava infiltrado.. Nem ele nem os outros. Tiago levantou-se. seria trucidado. O sargento Tavares subiu as escadas e fechou-se na sala de controle.. Tiago. Pela neve sobrenatural que despencava. Tiago pressentia uma atmosfera perturbada. Levantou-se. vindo da sala de controle. Fernando observou-o.. até hoje me espanto com isso. O vampiro-lobo encurvou-se ainda mais. Hélio contorcia-se. Temia aceitar. onde ficava também o centro de processamento de dados. silencioso.. — Aquelas balas de prata não são brincadeira. não era difícil concluir que Inverno se aproximava. Os flocos entravam bailando ao sabor do vento. Caso se aproximasse da jaula. por assim dizer. A força vampírica era reduzida na primeira noite de lua cheia. O . A luz do Sol refletida de forma poderosa. olhando para Tiago. A pele dos vampiros ardiam suavemente. Tiago sorriu. — Obrigado pelo sangue. Certamente estivera presente ao ataque que o derrubara na noite passada. Sabia que seu grupo estava a caminho. o observava por uma fresta. As horas arrastavam-se. Pela porta entreaberta do galpão. — Novidades.. Temia apagar. Um militar desceu as escadas. praticamente.A noite avançava sem que Tiago conseguisse desenhar um plano de fuga. Um alvo perfeito. atento. Não colocava uma gota de sangue para dentro do corpo havia dias. Aproximou-se sorridente dos sentinelas. colocando os soldados de sobreaviso. Percebia que a vampira de olhos verdes. até mesmo a doce Eliana participara do banquete sanguinário no microônibus da Himalaia. mas o que Fernando dizia parecia verdade. Alguma coisa séria estava acontecendo. Esse nosso poder. mas o preço a pagar é alto. Não resistiria muito mais tempo. A cela que guardava Aléxia começou a cobrir-se de neve. Estou preso. Teve alta hospitalar agora há pouco. Olhou para os lados. descontraídos. Por que somos dominados por essa força do mal? Gostamos de matar.. Era um sargento. — Senhor? — Acabo de saber que o tenente Brites está a caminho. encoberta pela lona.. Soltou o ar devagar. ele também estava se misturando à atualidade. — informou o sargento Tavares. Essa é nossa natureza. Cara. — Sabe. Meu corpo não passa pelas barras. Seu plano estava dando certo. A fera sedenta de sangue falava mais alto. Duas gotas grossas de suor desprenderam-se de sua testa. Tiago nada respondeu. Estava vivo. A dor. viram caminhões passando acelerado. no fundo da cela. Fernando continuou: — E tu? Foste pego pela prata também? Não podes atravessar com aquela tua mágica? — Não.. Olhava fixamente para os soldados. O ar esfriava rapidamente. Não queria que seu corpo imponente despertasse a atenção dos soldados. Fernando também estava alerta. Não conseguiria conter a mutação. O vampiro Espelho abriu os olhos. estavam. Abaixou-se. do teto. cara. Foste salvo da morte. — Olhe! — espantou-se Tiago. Uma sirene ecoou pelo quartel. Dom Fernando inspirou prolongadamente. desaparecera. O telhado aberto deixava ver a lua cheia despontando. por que somos assim. malditos? Devíamos ser deuses. Sua roupa de couro parecia uma peneira. pois estes o tratavam com deferência. não é? Tiago concordou com o vampiro. Logo começaria a nevar. Uma aeronave já foi destacada para apanhá-lo o mais rápido possível no HC.. — O vampiro tem que fazer o que todo vampiro deve fazer. queimava. Notou que ele era superior aos soldados. Os vampiros estavam estranhamente calados. Tiago. Como Tiago continuava calado. Inverno! Estavam vindo! — É lindo. Flocos de neve desciam pela abertura. e o desejo de que seus vampiros estivessem próximos só aumentava. Seu estômago estava seco.

O soldado abriu a cela. mais calmo. pois o sargento estava ali. senhor! Devemos atirar? — Dá o molho de chaves! — disse o homem. Na sala de controle. assustados. visto que havia fogo na frente do veículo. — Rápido! Rápido! Ele fugiu e me trancou aqui! O vampiro negro! O maldito está fugindo! Eu arranco a cabeça de vocês se isso acontecer! O soldado mais alto correu para a parede onde ficavam as chaves da cela. O caminhão patinara na neve e batera em algo grande. extremamente debilitado. Novo arrepio percorreu o corpo do sargento Tavares quando viu o soldado introduzir a chave na tranca da cela.vampiro tramava algo. certamente. Tiago assustou-se ao ver os outros vampiros. recuaram vendo o sargento dirigir-se para a cela de um lobo. Já voltava com elas quando o sangue gelou ao ouvir um urro descomunal. aproximando-se da jaula do lobisomem!!! — Disparar! Disparar! — ordenou Tavares da escada. enquanto o colega erguia o fuzil em direção ao lobisomem. O vampiro tinha se recuperado e chacoalhava incansável a jaula de prata. levantando desengonçados. aqueles que se contorciam. pelo visto. afobados. O sargento começou a rir. Estava libertando! Em outras. que. Era uma confusão mental. Como conseguira enganar Tavares? Como escapara da prata? — Anda. O sargento chacoalhava a jaula apavorado. Um choque e uma explosão. soldado! Afaste-se! Via um rapaz muito próximo à cela do último vampiro capturado. — Os lobisomens. Quando voltou às telas que exibiam o cativeiro sentiu um arrepio. gritando e chacoalhando a cela. silencioso e esquecido da agonia e dos gritos. Alguns escorregavam no gelo e caíam. — Vamos. Como podia ser?! O sargento estava ali. menino! Vamos. tentando limpar a roupa e o fuzil. — Não abra a cela! Não abra! O soldado assustou-se. dois lobisomens se debatiam. Podia ver o corpo todo do sargento. ainda açoitados por arma invisível. comprimindo-se contra as grades. soldado! Anda! Ele está fugindo! Temos que capturá-lo! O soldado girou a chave. Puderam ver o caminhão descontrolado que ia em direção ao outro lado da rua. descendo com mais três soldados armados. Gritos de pavor chamaram a atenção. mas. o soldado obedeceu. Acionou o microfone e gritou: — Afaste-se. Os dois soldados do galpão notaram que o fogo já se extinguira e que os envolvidos no acidente eram orientados por outro sargento. permaneceriam no quartel. sargento! — Seu maluco! O que você fez?! — berrava o sargento Tavares. observando a tela que mostrava o acidente com o caminhão e a correria externa. um frio crescer em sua barriga. Os dois soldados correram para o calçamento externo. Estavam partindo em missão.. Tavares estava distraído. a cela estava ocupada por um vampiro de pele negra e de compleição avantajada. estendendo a mão. retorcida. trancafiado na cela de prata. As barras de prata poderiam não agüentar. A porta do galpão estava danificada. destravando as armas. mas de pé. incrédulos. Pareciam sofrer alguma dor.. Algo acontecia no galpão! Voltaram correndo. Um ribombar chamou sua atenção. que foi crescendo. Parecia esperar uma distração. sua tartaruga! Quer ver-me fatiado por essa fera? O soldado voltou a correr. pois os amigos poderiam estar em apuros. pensando ter ouvido os gritos do sargento Tavares chegando pelos altofalantes. junto aos monitores. Aquela voz conhecida era do sargento Tavares! — Seus imbecis! Como abandonaram a guarda?! Querem ir à corte?! Os soldados paralisaram: o sargento estava histérico. com garras afiadas escapando e cortando o ar. Vários tinham os braços recobertos de pêlos longos e escuros. na sua frente. enganado por um vampiro. — Rápido. deu um passo para fora. deixando a grade ir para a frente. diante de seus olhos. Algo havia se chocado contra a porta do galpão e deslizado. Estranhando. Os dois de guarda olharam para as escadas. — Cuidado. liberta! Pelo que o soldado lembrava. na frente deles. o que tentara invadir o quartel. . Os soldados. prontas para o tiro. Eram lobisomens! Um frio percorreu-lhe a espinha. Os ocupantes saltavam pela traseira assustados. Um riso sereno. O soldado colocou a chave na fechadura. Dentro de uma cela debatia-se um lobisomem.

A fera saltou e foi juntar-se a Hélio. enquanto o lobisomem saía lentamente da prisão prateada. Com sua força sobrenatural. Notou que Aléxia havia retirado a lona que encobria a sua e presenciava os acontecimentos. babando. . A garota parecia ter chorado muito nas últimas horas. Atravessou o galpão correndo e. — Mandem logo esses reforços para o cativeiro! Alerta geral! Os vampiros estão escapando! — gritava o sargento. Os vampiros começaram uma balbúrdia infernal. mas pode vir. com o cenho aguçado. — Tiago. impedindo a entrada de reforços. Queria o sargento. Fernando ainda sugava o sangue de Tavares. Essa parede não é feita de prata. cruzando o espaço entre eles e. Tiago decidiu tornar o cenário ainda mais perigoso para os humanos. incapazes de entrar. pelo rádio. pronto para o ataque. O garoto se arrependeria de ter nascido. empurrou a porta pesadíssima. — Eu sei. atravessando a parede como se fossem dois fantasmas. Os soldados saíram da letargia tarde demais. Caso os soldados entrassem. Soldados batiam na porta do galpão. A fumaça cedeu e vários soldados começaram a invadir o cativeiro. conduzindo-o para o fundo do galpão. Tiago deu a chave para uma vampira com cara cansada. vampiro. Quando abriram fogo o lobisomem saltou.. os dentes expostos na direção dos soldados paralisados pelo medo. com velocidade vampírica. fazia o braço de um soldado desaparecer em sua mandíbula. o lobo liberto. surpreendeu-o com a mão poderosa fechando sobre a garganta do militar. — Vamos embora. Tiago evocou seu dom. Hélio. destrancando a cela de outro lobisomem. Dom Fernando transformou-se no vampiro de pele negra. desapareceu da frente dos soldados e entregou a chave para Tiago.Os soldados. Quando os primeiros disparos acertaram a parede dos fundos. incógnitos. quando o sargento chegava ao chão. ouviram o clique da cela sendo des-travada. puxando Fernando pela mão. Os dois vampiros. a porta é pra lá. inertes. desarmou os dois. com duas patadas rápidas. Patrícia sorriu timidamente para ele. O sargento Tavares ria junto à cela. Tiago abriu a cela. Tiago correu e ergueu o vampiro. Só podiam ouvir os tiros.. Eram do Grupo de Operações Especiais e vinham com fuzis carregados de balas de prata. Perigo. correndo para a saída. desapareceram. Fernando. teriam de enfrentar muita dificuldade. Explosão junto à porta. ainda aturdidos.

parecia se aglomerar no portão. pois vinha da mesma direção. a vampira. repartia um baseado do bom com dois parceiros. Tiago escutou o uivo de um lobo. estava Danilo e o grupo contratado para a afronta. haviam tomado a vida dos soldados externos. conforme os tiros se aproximavam. junto a seu ombro. Um helicóptero passou baixo. fechou os braços e abaixou-se. derrubando dois soldados de sentinela na frente do quartel. Provavelmente. mais uma vez cobrindo e tomando a avenida dos Autonomistas. Antes dos primeiros tiros. A neve descia farta. com o rosto aturdido. Eram pagos para isso. afastara-se de Tiago e clamara por Aléxia. que na certa estaria sendo espicaçado pelos dentes dos monstros. Os tiros passaram sobre sua cabeça. talvez possamos usar a mulher para atingi-lo. Um cutucar insistente. Talvez. O frio apertava na razão em que a neve caía. Do lado esquerdo. Um grupo de vampiros já tinha aberto fogo. o manda-chuva do pedaço. Então. tentando aterrissar. Deveriam manter um elo muito forte. O vampiro. Apesar de serem adversários. Soldados corriam em pequenos grupos. mas eram mercenários. O vampiro urrou. O vampiro aquiesceu. compridos e escorridos. o combate aos vampiros ficaria mais organizado. Tiago sentiu os vampiros. Armas do Exército valiam uma grana no mercado negro. quase na testa. Havia pouco. levantando-se. — E a hora. delator.. Não se arriscaria a combater um quartel inteiro atrás do meu couro. Vamos ficar perto do galpão. Preocupado com a quantidade de soldados que fortificava a entrada do quartel. e não foram necessários dois minutos até alguma organização se fazer e os soldados começarem a revidar o fogo. Puseram-se a observar o cenário. — disse Sétimo. Disparos vinham do portão do quartel. Não sabia se estavam deixando o galpão. Holofotes foram colocados do outro lado da rua. o líder dos soldados do tráfico. Os mercenários sabiam que estavam na companhia de vampiros. estavam distantes. teve o crânio atravessado . posto que até o momento não tinham tido a chance de presenciar nenhuma demonstração vampiresca. Os traficantes revidaram. Pelos disparos. Ele tinha vindo atrás daquela vampira! Um ponto fraco! Sétimo tinha um ponto fraco! — Sétimo veio atrás da vampira que está no galpão! Achei um ponto fraco. quando tentava matá-lo.. Forçariam a entrada no quartel. mas achavam graça na revelação secreta de Danilo e não acreditavam muito nisso. por estratégia. Do lado direito de Sétimo estava Agnaldo e alguns vampiros que liderariam pequenos grupos durante a invasão. um helicóptero tinha passado baixinho e parecia decolar novamente. esperando pela ordem do garoto de cabelos loiros. Precisamos de armas. Sétimo há de vir buscar a vampira. A neve aos pés de Sétimo começou a ser arremessada para cima. Vê se pode! O baseado servia para aliviar a tensão pré-invasão. Será pego de surpresa. que vampiros estavam ali na frente? Sétimo?! A sensação vinha um pouco da região à direita. Um alvoroço formara-se. Aproveitariam a confusão toda e assaltariam o arsenal. Um garoto. Era Sétimo quem estava ali! Por quê? Viera atrás dele? Não era possível. — comentou com Fernando. Isac. Aléxia! Era isso! Era esse o nome que Sétimo chamava quando perdera a força no ar. Sétimo e seu séquito preparavam-se para a invasão. lobos e vampiros libertos representariam ajuda momentânea. E ações ousadas como aquela valiam para abrilhantar seus currículos entre a bandidagem. Certamente era Brites. calças estampadas e blusas grossas para suportar o frio da noite. Os soldados do tráfico viam uma vantagem além do pagamento. Espelho.. Com a chegada dele. Precisamos derrubar alguns soldados e roubar as armas. desatento. O vampiro saltou por cima da pick-up que servia de proteção e parou no meio da avenida dos Autonomistas. Um enxame verde-oliva. Algo tão sinistro que o vampiro maldito chegara a perder o interesse por Tiago. Assim. Riam. a coisa não estava calma do lado de fora.. Achavam que estavam na companhia de uma cambada de malucos que pagava uma bolada para cometer loucuras feito aquela. A maioria com cara assustada. mas ainda sobreviviam ao ataque do pelotão. Um dos mercenários. A sensação vinha da esquerda. Eliana estava com eles. além do portão. Se não podemos congelálo no tempo. O Exército começava a se organizar. Fora dos muros do quartel de Quitaúna. não teriam chance de prevenir o quartel sobre a invasão iminente. Os três davam tragadas longas e exalavam uma densa nuvem de fumaça.CAPITULO 77 Tiago e Fernando arrastaram-se até uma pilha de caixotes. Claro que sabiam que era perigoso.

ele pressentia que não tinha tempo a perder e via naquele momento um de seus maiores temores se concretizar.. Isac viu a cena de soslaio e continuou atirando. A viatura já tinha deixado o posto com as sirenes ligadas. Os vampiros estavam tentando destruir todos os soldados de um quartel. mano. Não estava muito clara. Eram burros. ou os vampiros acabariam com ele. Brites decolou no helicóptero. Isac tirou o baseado da boca e jogou na sarjeta. podia ver como se desenhava o ataque ousado dos pretensos invasores. O soldado estava a postos na metralhadora do helicóptero.. não fora atingida por um disparo sequer. um Land Rover. disparando incansavelmente. Sétimo concluiu sua mutação. O Brasil seria dominado por aquelas criaturas malditas. Um trem de passageiros se aproximava e cruzaria a linha de tiro. Os dois insistiriam na patrulha. No entanto. tornando o bulevar da prefeitura uma passarela branca.por um balaço de fuzil. Devido ao silêncio da madrugada. Ela precisava de energia. essa merda é da boa! Os traficantes começaram a rir e sentaram o dedo no gatilho. pois. dentro do galpão. Viu a pele do garoto loiro mudar de cor. Tobia entrou na loja de conveniência com seu novo sobretudo. mandando chumbo grosso para cima dos portões da base militar. saltem o muro. No entanto. Abriu a boca de dentes afiados e rugiu para os soldados. Luzes vermelhas acenderam próximas ao portão do quartel e um sinal sonoro começou a tilintar. seus pêlos arrepiaram-se.. Dois vampiros aproximaram-se e começaram a tomar o sangue do mortal. Estavam concentrados na frente dos portões.. Não poderia ficar de molho em casa com aquela guerra sombria aumentando em proporção a cada dia. O tenente havia deixado o hospital contra ordem médica. preto. quero fogo forte contra esses imbecis. Gemeu. Poucos carros aventuravam-se pelas ruas. É verdade que tinham a vantagem da surpresa e localizavam-se no topo de um ligeiro aclive. Estendeu as asas de morcego e exibiu o corpo musculoso.E. Brites hesitou em abrir fogo: . Deu proteção para que ela se aproximasse de um soldado agonizante e dele fizesse uma refeição. Os homens também estavam com os olhos esbugalhados. Uma viatura da polícia militar. se a neve descia do céu. O amado viera para fazê-la livre. A neve assombrada cobria toda a paisagem. não tinham chance de escapar. Repentinamente. Repentinamente. não quero prisioneiros. Os vampiros estavam abrindo fogo contra o Exército. brigando com a neve para não ir parar na guia. Estender-se sobre o tanque de combustível da motocicleta era extremamente dolorido. Os caçadores de vampiro subiram nas motos e ganharam o asfalto escorregadio. de dentes afiados e pontiagudos. — Aléxia! — urrou. Isac olhava para os parceiros ao lado. igual ao de Dimitri. foi possível aos caçadores de vampiro escutarem a transmissão que chegava. não haveria mais fronteiras. terminava seu abastecimento. e os analgésicos já não faziam efeito. avancem lateralmente pela avenida. sem interrupção. com armamento especial. Suas costelas doíam à beça. Cedo ou tarde. Foi o suficiente para a dupla trocar olhares significativos e deixar o posto o mais rápido possível... de costas para um muro. Hélio indicou as escadas. Os soldados eram derrubados velozmente pelos outros lobisomens e vampiros. Viu o garoto tirar a camiseta e asas de morcego começarem a brotar de suas costas. Inverno estava solto e aprontando. o Sol chegaria e seria o fim de todos os vampiros. Eram assassinos. Era hora de sugerir a volta do bom e velho Comodoro negro. mais soldados surgiam pela abertura. e pagou o combustível.. Metade dos soldados de cada pelotão deve ser de O. parou. mas sempre que achavam que poderiam escapar pelo buraco aberto pela explosão anterior. Não poderiam ficar ali a noite toda. Juntos. encontrariam mais pistas da atividade vampírica. assassinas por natureza. com o avançar da madrugada. protegida pelo corpo do lobisomem Hélio. passando a mão na lateral do tórax. — Sargento Santos. sem equipamento de captura. e essa era sua sorte. O sangue começou a espalhar-se pela calçada. Seriam esmagados. A vampira Aléxia. A voz de Sétimo chegou a seus ouvidos. mas parecia algo como um tiroteio em frente ao quartel de Quitaúna. Ou acabava com Sétimo. Assim que a aeronave ganhou altitude. — Porra. que pedia observação por período maior. num bloco só. Destaque dois pelotões pelos flancos. uma pele grossa agarrava-se aos braços. mas a estratégia não tinha mais pontos a favor. mas nada sabiam da arte da guerra. Vamos espremê-los e destruí-los. Tobia e Dimitri abasteciam as motocicletas num posto Texaco em frente ao viaduto metálico de Osasco. Distante dali. Dimitri ia em velocidade reduzida. Se vencessem o Exército brasileiro.

desceu o máximo que pôde. O helicóptero balançava. O maluco não ia sair da linha. Deu uma guinada no manche para a direita. que estavam ali para fazer barulho e. havia traçado sua estratégia. mas viu as luzes vermelhas acendendo alternadamente junto à cruz de Santo André. por onde os soldados saltariam o muro sem perda de tempo.não podia ouvir o tilintar do aviso de trem aproximando-se. Rapidamente. O ma-quinista não parecia disposto a interromper a marcha. no mínimo! Estou cansado de ver gente inocente morrendo. o general de Sétimo. Uma viria pela direita. já tá na hora. evitando as balas que vinham do quartel. O motor elétrico começou a funcionar. porém resistente. Brites viu o trem correndo sobre os trilhos. reduzindo lentamente. — Abaixe devagar. colado à pick-up. do contrário. Não haveria tempo: se o homem não desistisse naquele instante. tenho que ficar na frente do trem. Era um suicida! Estava a cem metros. filho. O trem estava a pouco mais de trezentos metros. — orientou ao soldado. Chegou a sentir o deslocamento de ar provocado pelo trem embaixo dos pés. perder a vida. — A essa hora. O maquinista estava freando. Indicou ao piloto. brandindo os braços. tenente. Pareciam aqueles pilotos de caça Zero. O maquinista. Avançou rápido e. solto no ar. que acenava com os braços erguidos. Não conseguiria frear. outra. Irritou-se. O cabo de aço estendeu-se e Brites foi arrastado para o ar. servindo apenas para encurralar definitivamente o ousado grupo de vampiros. O piloto do helicóptero esperou até o último segundo. — Compreendido. se for um trem de passageiros. O trem estava muito próximo. fazendo a aeronave deslizar em alta velocidade. e Brites finalmente alcançou o chão. Estava farto de mortes inúteis. Estava em superioridade bélica e estratégica. As tropas que Brites mandara organizar já estavam de prontidão nos muros de Quitaúna. um instante que poderia custar sua vida. — Baixe! Baixe mais! — Impossível. aflito. O sargento Santos ordenava o ataque. que já deixava o assento da metralhadora. Podia ter muita gente dentro da composição. Queria evitar mais uma tragédia por culpa daqueles vampiros assassinos. Tinha que ser visto. Não iria descarrilhar o trem por culpa daquele idiota. sem ação por um instante. Se tinham de entrar. senhor. Seria boa idéia o piloto tomar cuidado com fios de eletricidade que alimentavam a linha. melhor. fatalmente. pela esquerda. e Brites sentiu o corpo descendo. senhor! Brites deixou o assento e foi para o compartimento traseiro do helicóptero. retinindo contra o ferro dos trilhos. Acionou a buzina imediatamente. — Preparem a chave! Preparem a porra da chave ou vamos morrer aqui fora! — protestou Danilo. juntando-se ao soldado da metralhadora. — Irrrrá! — gritou Isac. — Não vamos conseguir. após cruzar a linha de tiro. o trem passaria por cima dele. escapando por centímetros do acidente fatal. Que droga era aquela? Um helicóptero logo acima da cabeça do homem! Buzinou novamente. doido pra apagar esses filhos da puta! Agnaldo. O soldado soltou mais o cabo. excitado. A tropa da esquerda se posicionaria de forma estratégica para evitar o fogo cruzado. Um vento congelante batia contra seu rosto e as luzes do trem aproximavam-se em alta velocidade. um soldado ocupou-se de erguer uma escada estreita. pelo que via. Acionou o freio manual. Ele não vai parar. desatento. Você consegue. Um som agudo. O coração disparou. levou quase um minuto para erguer a cabeça e perceber o homem no meio da linha. rápido e crescendo diante dos olhos do tenente. Para que lado correr? Brites parecia colado à linha. fazendo o cabo de aço oscilar como um pêndulo. Eu tô fervendo. Em segundos. Era hora do ataque-surpresa. Continuou. seria estraçalhado. entrariam matando o maior número de inimigos . estará vazio. penetrante. Prendeu um cinto e conectou-o a um cabo de aço. O helicóptero descreveu uma curva no céu. abaixado. Estava atônito. senhor. — Se vamos fazer alguma coisa. A vitória era certa. em ambas as tropas. — Mas tem o maquinista. ele sairia do cabo de aço para a cova. Fagulhas voando debaixo do trem. No instante seguinte. kamikazes. Esperaria o máximo de soldados se aglomerar no portão frontal do quartel. Um sinal pelo rádio. estava sobrevoando o quartel. Os vampiros nem aparentavam ser muitos. Quase perdera a vida e. Brites estava hipnotizado pela máquina que se aproximava. Um som agudo. o trem não conseguiria parar a tempo. se chegar até a linha. As travas produziram faíscas. O cabo de aço estava sendo içado. escapava da composição.

seis lobisomens o acompanhavam lentamente. Ouviu mais disparos. cortando a nuca. Protegidos pela lataria da pick-up. Instantes atrás. Fuzis israelenses cuspiam furiosamente uma rajada de tiros contra o portão do quartel. Não haveria intromissão mais oportuna. precisavam usar a chave certa. pois pressentiam a presença de inimigos. imponente. sobre quatro. furando a roupa. começaram a montar o aparato. Tiros estilhaçaram os vidros frontais e laterais. Seu poder realmente tinha se ampliado.possível. Sangue enchia o chão da cabine. num misto de dor e entorpecimento. Ajoelhou-se. Marchavam cercados por um exército incontável de mortosvivos levantados das tumbas. assim que os proprietários perdiam o domínio da direção. pareciam trancá-lo com o próprio corpo. Os poucos que se aventuravam na neve ficavam no meio do caminho. poderoso o suficiente para despertar mortos de até sete semanas. trouxe um equipamento para a calçada. Contornem o trem! Eles podem tentar fugir! Os soldados obedeceram ao comando do sargento Santos. Um tripé surgiu. Uma caixa de madeira. Com a ajuda de mais dois homens. Desespero. dentro da cabine. dando fim àquela estúpida tentativa de invasão ao quartel de Osasco. ainda com o freio acionado. A legião acordada compunha-se de crianças. Estavam próximos da dianteira do trem. para criar confusão. se inteirou do tiroteio. Com agilidade. que esfarelava a cada rajada do Exército. o peito e a perna doíam do lado direito. Leonardo vinha na frente em forma de lobo. pois. Um trem interpunha-se a eles e o quartel de Quitaúna. Eliana e César. atirou-se ao chão da sala de controle. Não demorou muito para que os bravos invasores fossem atingidos. além de um cortejo de sinistras criaturas sob o comando do vampiro Acordador. Os zumbis. mas vinha garboso. não se restringindo aos mortos de sete dias. para espalhar o horror sinistro. de tamanho certo. A tarefa havia consumido boa parte da noite. para matar soldados com roupa verde-oliva. Acordador visitara os cemitérios do Santo Antônio e da Bela Vista. O maquinista desmaiou. cada qual querendo alcançar a extremidade correspondente para vencer o obstáculo. depois de instantes. Sem tempo de pensar em nada. e acionou a máquina. Andavam devagar. movia-se sobre duas patas. Seria ferrada. Lentamente. mas não tinha tempo para fazer isso. macacada! — gritou Agnaldo. Precisavam avançar rumo a Quitaúna. O braço. após acordar os mortos no Santo Antônio. todos com rostos tristes e. ainda gritando. O maquinista gritou. — Somos vampiros. Só falta vencer a máquina da ponta e estariam em condições de avançar e fechar o cerco sobre os atiradores. Precisavam de algum tempo para voltar à ação. abriu a traseira da pick-up Toyota. Deitou-se completamente. para atracar-se com os vampiros do time oposto. revelou doze pequenos foguetes. como caminhavam os zumbis. Dom Manuel estava satisfeito. Às suas costas. — Dêem a volta. Frio dos diabos! Santos corria junto com seus homens. caindo imobilizados. a maioria. o trem voltou a mover-se. municiaram a chave. como esperado. logo após passar pelo apuro do maluco na linha. levantando-se e abrindo fogo contra os militares. tiveram de marchar até o cemitério da Bela Vista e de lá extrair precioso reforço para a contenda que se avizinhava. obedeciam com docilidade. César sabia que precisava envolver os pneus em correntes para continuar a dirigir. Um som estridente chamou a atenção. jovens e velhos.. Os soldados. Em resposta.. Um dos mercenários levantou-se e. que integrava a tropa que saía à esquerda do quartel e que também apanharia os vampiros por aquele lado.. Sabia que a invasão não seria boiada. A neve recobria o asfalto. As tropas. Atrás da matilha vinham os vampiros do rio D'Ouro. Iam para Quitaúna. Quando queria. que acabavam de saltar o muro para aproximar-se sorrateiramente do bando de vampiros franco-atiradores. Tinham abandonado também a Cherokee após a direção tornar-se impossível. atracados a um poste ou outro obstáculo qualquer. Ricocheteando e batendo no chão. os disparos penetravam o muro e a pick-up. — Manda vê. Nuvens de vapor escapavam de suas bocas e enfeitavam o caminho. aberta. bons vampiros que eram. Cacos desabaram sobre sua cabeça e uma enxurrada de vidro tomou o piso. Os fuzis pesados balançavam nas mãos dos homens. Para destrancar. Dispararam em corrida.. começaram a se arrastar de volta à pick-up. Os vidros estavam entrando em sua pele. em . Balas batendo no ferro. Um tiro feriu seu braço. coberto pelos parceiros. Um cilindro foi acoplado. Carros eram raridade àquela hora da madrugada. reunidos na entrada. não vamos morrer com esses tiros! Vamos entrar! Manda a chave!!! Cinco vampiros saltaram sobre a pick-up e fincaram um dos joelhos no chão. o maquinista. viam-se encurraladas pelos vagões intermináveis do trem.

perfeita. Acontecera exatamente o que previra. O lança-míssil disparou novamente. Estava colocando seus homens dentro do quartel. Gritos. Precisariam de cada vampiro apto a lutar. Precisavam deter os malditos invasores. Deixar claro que a partir dali quem mandava no mundo era o exército do vampiro Sétimo. Deixara Paola com Danilo e os vampiros. Nenhum vampiro resistiria a um ataque maciço. alguns já em avançado estado de decomposição. com traficantes e mercenários na carroceria. Mais gritos. Inadvertidamente. Tiveram um único segundo para aquele silêncio aterrador crescer até sufocar. os arruaceiros não teriam chance. Agnaldo conseguira o que queria. e explodiu contra um galpão. estava abobalhada. que se moviam sorrateiramente. como pedira Sétimo. enquanto uma dezena tombava. Queriam matar o maior número de soldados possível. Era estranho. tramando algo. Um quase-vivo. empolgado. Uma saraivada de balas bateu contra os soldados. por fora dos muros. Antes que o último vagão saísse da frente dos portões do quartel. deixando o muro da base militar em dois pontos. Sentiam que chegava a hora de abrir o portão e partir para o combate. As tropas que se imaginavam em vantagem. abrindo caminho. Estava ficando perigoso. avançaram pelo portão. O pequeno míssil cruzou a avenida e explodiu contra a massa de rapazes. Os protegidos safaram-se. na dianteira. Agnaldo deu voz de ataque. viram o trem que passava vagarosamente. Sétimo partira em busca de Aléxia. Era a chance para o massacre. . silvando. Resultado: a confusão e agitação de jovens loucos por aventura começaram a tumultuar e transformar o que estava organizado numa baderna incontrolável. puxando o gatilho. Surpreender e avançar. a balbúrdia formada pelos inexperientes soldados calou. Fumaça do outro lado da rua. A ordem era gastar os foguetes para causar medo. Os soldados respondiam. procurando estraçalhar o que restara dos veículos. caindo como uma onda. deixando a frente do quartel. eram ágeis e praticamente normais. só faltava ter o coração batendo. Os mercenários arrastaram o tripé para fora da proteção da pick-up. Tinham de deixar claro seu poder. Outra melhora que se observava em relação ao dom de Acordador era que os mortos acordados dentro de sete dias não pareciam mortos-vivos. prontos para cercar o grupo de vampiros inimigos. Fora isso. Em número reduzido o Exército os subestimaria. mais por instinto. Sargentos gritavam. Agnaldo sorriu. Mais tiros. Iriam procurar o arsenal e roubar mais armas. Duas pick-ups. O exército assombrado dos vampiros do rio D'Ouro passava em frente a um posto de abastecimento. abstraído. tentando conter os homens. Eram centenas. Vampiros e mercenários saltaram para a avenida. Outro foguete cruzou a avenida. Ordenou que os soldados abrissem fogo. Vitória! Estava satisfeito. Assim que o vagão deixasse o caminho livre. Os soldados corriam. explodindo repetidamente. avançando pelas laterais. Problemas. o que restara de proteção. enquanto os do outro lado da rua mal passavam de duas dúzias. A confiança entre os jovens agigantava-se. Um pequeno foguete veio de encontro ao portão. Já se aproximavam da vila militar e ouviam os disparos. era o velho Cesão de Amarração. confusão e morte. Parecia sempre ocupado em pensar. Mesmo o sargento Santos estava perdido. Queria que o atirador do lança-foguetes tivesse cobertura. disparando contra o que sobrara em frente ao quartel. dando passagem. Alguns correram. — Avançar! Avançar! — comandou Agnaldo. O último vagão a bloquear o campo de batalha aproximava-se e logo cruzaria a frente do quartel. mandariam a chave. prontas para encurralar o grupo de vampiros. assim que a arma disparou. Por um instante. Imaginavam que. liberando o ataque. A grande maioria nunca se envolvera num incidente daquela proporção.marcha claudicante. os soldados aglomeravam-se às centenas junto ao portão. O armamento dos mercenários rugia feroz. Era para isso que estavam ali. A entrada da base militar era fumaça e destruição. Antes do eficaz ataque do general Agnaldo. Queria participar. ansiosos e sem um comando coeso. Mais corpos mutilados. Movia-se normalmente e não se queixava de dor. Rapazes bradavam gritos de guerra. Uma explosão maior retumbou. Os lobos. Estava apenas muito mais silencioso e reservado do que o comum. A chance de morrer era pequena. para que ela ajudasse na invasão. Os olhos íupinos e vampíricos enxergaram os soldados. Agnaldo achara a intromissão mais que oportuna. Não contavam com aquilo. — Lá vai a chave! — gritou um do tráfico. Bastava observar César: quando acordado.

Abandonou o esconderijo e juntou-se à multidão de soldados. Um vento gelado invadiu o galpão. Tiros começaram a chegar. A vampira tinha um pedaço de metal que entrava pelas costas e saía no ombro. A vampira lançou um último olhar para trás. A mulher escondia-se atrás de um lobisomem. apanharia Paola e as colocaria fora dali. Sétimo deu as primeiras passadas. Um silvo cortante e crescente ao galpão. Apanhou as armas que mais lhe chamavam a atenção e voltou. Dom Fernando alcançou Tiago e abaixou-se. Hélio rolou pelo pavimento. pois os soldados que tentavam entrar também foram pegos de surpresa. O vampiro puxou o ferro. cercando o líder caído. Primeiro. Precisavam de armas. gritos. que voou pelo galpão. Segurou firme a mulher e decolou. estendidas e agitadas. aquecendo os membros. Estava se arriscando por ela. Sétimo.. mas para resgatar a garota. a parede dos fundos explodiu. Tiago olhou para a direita. precisou apenas localizar os fuzis junto aos que jaziam no chão. depois. Ambos sangravam. Retornaria como um raio para dar fuga a seu exército. salvar as mulheres. fazendo parte do galpão onde estiveram cativos voar pelos ares. chocando-se contra a porta corrediça. Tiago tinha uma boa oportunidade para atingi-lo. Repentinamente. . Quando Sétimo adentrou o galpão. Dom Fernando prontificou-se. O ponto fraco confirmava-se. mostrando as presas para Sétimo. Abriu um sorriso para seu protetor definitivo. Hélio ainda estava caído. Os olhos do vampiro alado acenderam-se como brasas sobrenaturais e queimaram tão intensos que o rubor chegou a refletir-se no rosto pálido da vampira. Tiago sabia que Sétimo estava dentro do galpão. vestindo a camiseta de um soldado. Aléxia estava num galpão com abertura no telhado. Ele me salvou. seu mestre. Às costas de Sétimo. Soldados vinham na direção do galpão. Olhou para Aléxia e voltou o rosto para o lobisomem. Aquele lobisomem. Sem vacilar. Tiago e Fernando viram quando Sétimo passou voando sobre suas cabeças. A dor incomodava seu ombro. Os som dos disparos cessaram. uma dupla de lobos enfurecidos grunhia. Apanharia os desprevenidos e tomaria suas armas. Os lobos finalmente viam uma chance de fuga. Os lobos recuaram. As explosões pareciam não ter fim. Sétimo deixou o cutucar guiá-lo. Transmutou as feições. despercebido na confusão. Alheio. Sétimo tomou a mulher nas mãos e estendeu as asas. Montara um ataque ousado ao quartel para buscar a vampira. O único ruído era o interminável chover de destroços. Corpos mutilados. Os parceiros de Hélio rosnaram ferozes. Sétimo estendeu as asas e farfalhou. talvez pudesse capturar a mulher e desnortear o vampiro. farfalhou-as. Libertaria Aléxia.. enquanto lobos digladiavam-se com os soldados que tentavam entrar.. Contudo. pequenas pedras que tinham se soltado do chão e da parede extinta e que voltavam ao solo. salvar seus homens. A vampira correu e abraçou seu criador. Sétimo resmungou e caminhou lentamente até alcançar o lobo. mas logo que a nuvem de poeira baixou. produziam uma ventania violenta. Ergueu o lobisomem pela garganta e desferiu um golpe no rosto da fera. assemelhando-se ao sargento Tavares. soldados choramingando. Sétimo foi arremessado contra o chão. Sétimo levantou-se. Se não pudesse dominá-lo. — Aléxia! — bradou a voz de trovão. Tiago sabia o que o vampiro queria: libertar a mulher. tão grande que batia nos joelhos. A mulher suplicara por outro vampiro! Sétimo bufou e inclinou-se. Explosões. A vampira Aléxia. Estendeu a mão para Aléxia. Seus soldados estavam avançando. não foi preciso tanto cuidado. sem aviso prévio. O vampiro caminhou para a saída do galpão. fazendo subir uma nuvem de poeira. deixando o lobo que a ajudara à própria sorte. visualizou a silhueta gigante do monstro alado..derrubando soldados. criando problemas. Sétimo sorriu. As explosões continuavam. Não estava ali para matá-lo. Estava ligado a ela. puxando a mulher para fora. Sétimo não esperava sua intromissão. confundindo os humanos. não posso deixá-lo. Sétimo apanhou Aléxia nos braços e saiu. O vampiro alado também urrou e mostrou os dentes. Uma explosão fenomenal atingiu a entrada do quartel. Precisava encontrar Paola e colocá-las fora de perigo. Os lobos ganiram assustados. desceu velozmente. — Espere. já esquecida de Hélio. As asas. e a vampira grunhiu. compadecida da situação. Tiago notou ferimentos no ombro de ambos os vampiros. e subiu com a garota no colo. Ela olhou para trás. Seria muita sorte a explosão ter dado cabo do vampiro. Dom Fernando. O corpo pesado da criatura alada bateu forte no chão. próximos da morte. protegendo-se de estilhaços. com Aléxia nos braços. Arrepiou-se ao vê-la descalça.

não podemos deixar ele escapar! Ele está ferido no ombro. para sua sorte. a morena de cabelos longos e corpo sensual. demonstrou grande capacidade de assimilar conhecimentos. Pontas de prata! Remontou a arma e estendeu ao rapaz. Tinha sido alvejado por muitas baias naquela noite. Abaixou-se. tocando o solo com suavidade. mas nenhuma de prata. gritou e tombou. Leonardo! Seus vampiros tinham chegado! Mais do que nunca. encerrar a guerra aos vampiros assassinos. Um lobo estava em cima do muro que separava o quartel da linha de trem e da avenida. Girou a cabeça. Os olhos acenderam. deixou os olhos acenderem e os dentes brotarem. Tinha um corte fundo na perna.. O desvio da força vampírica custou-lhe muita dor. Não conseguiu sustentar o vôo e despencou. Por sorte.. Algumas pessoas tinham expressões cadavéricas. — Fujam! Paola. Tinha visto aquilo uma vez durante a batalha do rio Pinheiros. Ergueu o rifle e mirou. Balas de prata. enraivecidos. — Vamos com cuidado. Um helicóptero se interpôs aos dois. Tiros! Protegeu as mulheres com o corpo parrudo. Os olhos buscaram o céu. Virou o fuzil compacto. Estava escuro. Olhou na direção do cutucar. ainda com as feições do sargento Tavares. estaria morto. rastejou até o rifle compacto. evadindo-se. tonto. Não naquele momento. vermelhos. O corpo ferido consumia velozmente a energia vampírica. precisava retardar Sétimo e. que planejavam tomar a Terra e espalhar o mal. O ouvido zumbia. Retomou o equilíbrio no meio da queda e evocou a magia vampírica. Um uivo o deteve. A cabeça girava. prejuízo pequeno. — O que está querendo? — perguntou Paola. Naquela noite. carregado com balas de prata. impressionado. Fernando. . Dor momentânea. Paola? A vampira anuiu com a cabeça. Não poderia atirar. Isso ratificava sua teoria: Sétimo estivera ali apenas para resgatar a vampira de ombro ferido.. Tomou-a nos braços e gritou aos soldados: queriam escapar da batalha. abaixando o corpo e soltando as vampiras no chão. Precisava de sangue. e nada! Que falta de sorte! A arma estava sem munição. Olhou ao redor e não encontrou Fernando. puxada por Aléxia. O vampiro. mas creio que não sente dor alguma. Aguçou a visão privilegiada. Apertou o gatilho. Olhou para o céu. Ele sabia escolher suas mulheres. Recostou-se a uma parede. correu para a estação de trem de Quitaúna em busca de abrigo. não eram balas de prata. — Vamos precisar de toda a energia que conseguirmos. a noite iluminou-se timidamente. Sangue. puxou o gatilho. Tiago caiu a cinqüenta metros. Tiros perdidos passavam de raspão. Estendeu-as. não conseguia concentrar-se no sentir.— É agora! — disse Tiago. — Aquele que esteve na mansão? — Ele. Soltou o rifle e bateu a cabeça no chão. Uma bala entrou queimando na perna. destravou o municiador e retirou o cartucho de balas. correndo ao lado da parceira. com a típica jaqueta de couro negro e o crucifixo rubro às costas. estava à beira da exaustão. e a arma cuspiu dezenas de projéteis. seguido por Fernando. provocado por um vergalhão. Procurava Sétimo. Sétimo. Precisamos de armas com munição especial. Tiago tinha que deixar de existir. O vampiro não podia escapar. com Aléxia e Paola nos braços. Tiago abandonou o esconderijo. Disparos transfixaram seu par de asas. Paola. Olhou para o céu. As asas estavam danificadas. pois assim que tocou o chão. — Vi quem atingiu nosso vampiro! É um folgado chamado Tiago. O vampiro mirou as asas de Sétimo. evitando expor-se. pois o lado direito do corpo estava doloridíssimo e amortecido.. Se fosse humano. — Ele não vai escapar. Lá estava o vampiro alado. Vagava em pensamento quando a parede à qual se apoiava voou pelos ares. saindo do esconderijo e desengatilhando o rifle. A cabeça doía. Os olhos cintilaram. Sétimo grunhiu. Sétimo aproximava-se de outra vampira. Sétimo estava lá. finalmente. Algo havia explodido contra a asa esquerda. — Vamos. largado no chão. Paola notou que estavam cercadas por um bando de gente esquisita. Pareciam zumbis! — Está forte. Precisava de sangue humano. Maldita prata!!! Apertou as mulheres. temendo soltá-las num espasmo de dor. — Aqui está! Tiago pegou o rifle. estava pousando. Lutando contra a inconsciência. A coisa tá feia.

Teria vindo para liquidar Tiago? Eliana ainda não sabia sentir. Sétimo rugiu. Sétimo rugiu. — Judas! Este golpe foi recebido como um beijo que já foi dado. És cria do Acordador. César continuava hipnotizado. tinham de aproveitar o momento e lutar com afinco... Sua garra afiada cortou o ar e atingiu a cabeça de um zumbi. clareando a noite. Não consigo encontrar Tiago. Pesadas nuvens encobriram o céu de Osasco. Os zumbis entenderam o recado. nunca vira um exército de mortos-vivos tão volumoso. pois! E não foste tu quem tramou contra nosso grupo e nos entregou a Tobia? — Cala-te. preparado. na frente deles. mas enervou-se. — Não. com o pescoço quebrado. Se vencer sem ti ao meu lado. Tinha de ir até o quartel e saber do rapaz. Manuel. está morto. Viu o vampiro desaparecer entre os zumbis. terei que te matar. Aquele era o alvo. Cada um que se aproximava tinha um membro arrancado ou o corpo mordido.Sétimo fechou as asas e encarou os vampiros que chegavam. César não deixou transparecer.. Caído a seu lado. Vencerei no final. abalroando Sétimo. O morto-vivo. traidor! — Ora. Manuel. interceptou o golpe e arremessou Sétimo contra os zumbis que vinham em sua direção novamente. traidor! Os olhos de Sétimo piscaram. O vampiro-monstro estava sendo rodeado pela legião de mortos-vivos. — Deixe-os brigar. O vampiro rolou no chão recoberto de gelo. indo bater contra um poste no canteiro central da avenida dos Autonomistas. Sétimo defendia-se com agressividade.. acendeu os olhos. César. pai! Junta-te a mim. o vampiro de baixa estatura. Sétimo inspirou profundamente. — Nunca serei morto. viu a estação ferroviária de Quitaúna e. O vampiro deslizou pela neve. fazendo revistas voarem para todos os lados. Tempestade evocou seu dom. César recuou dois passos. Ia se afastar. mas ficou hipnotizado pelos olhos vermelhos e felinos da fera. os que vinham. — Nunca. sei onde estás agora. Ele desvencilhou-se. Trovões começaram a roncar. corrigiram o curso da marcha assombrada para cima do monstro alado. mas será o último! O exército de acordados ainda marchava. rumando para o quartel. para perto de uma banca de jornais. César e Eliana. envolto pelo exército de zumbis. vamos buscar Tiago. voltaram. Um calafrio deslizou pela coluna. preso ao olhar penetrante de Sétimo. Sétimo ajoelhou-se levando a mão à boca atingida pelo murro de Manuel. — Irmãos malditos! Querem confronto? Darei a vocês combate. Procurou Eliana com os olhos e começou a caminhar ao largo da confusão.. pai. mas sempre poderei encontrar meu pai. Muitos mortos-vivos começaram a tombar com a aproximação das pick-ups que traziam os seguidores do monstro alado. atingindo a banca de jornais. de onde saía muita fumaça. Seus olhos estavam sobre a figura de Sétimo. Mesmo tendo vivido uma eternidade ao lado de Acordador. e relâmpagos surgiram no horizonte.. Queria atirar com a espingarda. rodopiou e caiu inerte. Do portão do quartel irromperam duas pick-ups com vampiros e traficantes a bordo. Manuel correu e. Disparos eram dirigidos contra a turba que se locomovia em direção a Sétimo. aumentavam cada vez mais.. Sétimo abriu o olho e chacoalhou a cabeça... Era assustador.. pai. Teu cheiro.. correu para cima de Sétimo.. e em dois segundos gotas pesadas despencavam do céu. Um helicóptero barulhento começou a se aproximar. Pararam a um novo grito de Acordador. — Ajuda-me. Não consigo rastrear meus irmãos. o demônio me sacaneou. Abriu a boca num rugido e. Golpeou a fera com tamanha tenacidade que a criatura tombou no gelo e deslizou. morto-vivo. recuperado do golpe. Sétimo estava bem ali. Os que já haviam passado.. arremessando para o ar aqueles que o queriam deter. o monstro gigantesco trazido à vida por seu sangue mortal... correu com velocidade vampírica. atingiu Manuel no estômago. Mesmo assim.. . preocuparam-se com Tiago. César.. o muro do quartel. com velocidade descomunal. A frente.. mas algo o impedia. percebendo que muita fumaça subia do quartel. desencandeando uma tempestade torrencial. após. — Pai! Vives!?! Sétimo pegou César e abraçou-o. César disparou.

Tinha que ajudar Eliana. Pistolas com munição de prata. até então atordoado. Fernando ergueu Tiago. Iria ignorar os zumbis e acabar com a raça dos vampiros traidores. Não queria que os vampiros se tornassem uma ameaça constante. Aqueles malditos portugueses eram traiçoeiros e tão antigos quanto seu mestre. e gotas mornas escorriam pelo rosto. não muita. ignorando as mulheres.. Aqueles malditos vampiros não fariam mais seguidores. Era o que interessava. Somente Leonardo destacava-se. começaram a notar aquela gente estranha. Os homens do monstro tinham chegado e atiravam sem parar. Estamos no meio da . permaneciam mortos por alguns segundos e logo o corpo começava a estremecer. Morreriam entre seus dentes afiados sem conseguir espalhar o mal vampírico pelo mundo. Os novatos. Estava nervoso. Fernando tocou os lábios de Tiago com os seus. Sétimo olhou para o helicóptero que jogava um facho de luz sobre o asfalto branco. Corpos mutilados. A dor foi desaparecendo rapidamente. César aproveitou para se livrar do contato visual com o vampiro. abriu fogo. Demorou até concluirem que eram cadáveres despertados por Acordador! Metros à frente. Tiago.O helicóptero. Dimitri checou as armas. Era como mágica. Fez o homem abrir os maxilares e despejou generosa quantidade de sangue na boca do rapaz. — Se sobrevivermos. Eles se levantavam e continuavam a luta. A chuva pesada tamborilava em sua cabeça de morcego. deparava-se com coisa nunca vista: mortos-vivos perambulando pelas ruas e vampiros com dentes enormes querendo tomar seu sangue. pairando sobre o imenso grupo de mortos-vivos e de vampiros. Aléxia e Paola adentraram o quartel. Leonardo e seus seis lobos seguidores desferiam bocadas e lutavam. Tobia fixou os olhos em Sétimo. — Vem. O sangue consumido por sua energia vampírica agora retornava ao corpo. Pedaços de gente voavam um lado para o outro. O ferimento na costela doía muito. regendo o ataque. e duas submetralhadoras embaixo do sobretudo. Com a neve caindo nos capacetes. Olhou para Tobia. Te arranjo um emprego com meu chefe quando essa zona acabar. Os traficantes revidaram. Não conseguiria voar. recuperava a consciência. — Tô gostando de ver. — Preciso de mais sangue. — Vamos acabar com Sétimo. A legião evocada por Acordador era incontável. Os homens largaram as motos e tiraram os capacetes. Sétimo franziu o cenho e voltou para a briga. Tiago estava perto. Granadas presas no colete à prova de balas. Preparou-se para o confronto. O vampiro estava bastante machucado e desde a explosão não conseguia se colocar de pé. Cerca de um quilômetro atrás. — Onde estão seus irmãos? — Sentes a tempestade? Isso diz que meus irmãos estão por todos os lados. ora por balas vindas de dois carros atravessados na avenida dos Autonomistas. mas os malditos mortos-vivos iam ao chão. Uma tropa passou marchando acelerado. quem te vê! De yupie metido a besta a assassino. assustando os inimigos. Agnaldo. comandando vampiros e mercenários que lhe haviam confiado suas vidas. A neve estava cada vez mais escorregadia devido à água que caía em abundância. obrigando a aeronave a manobrar para nova investida. Soltou o estojo da coxa metalizada e retirou as lanças com roscas nas extremidades. nos preocupamos com os outros. homens gemendo espalhavam-se na entrada. as motos de Tobia e Dimitri derraparam quando os dois se deram conta do que acontecia. Fernando atacara um soldado e resguardara o precioso líquido. Aléxia seguia o cutucar. mas teria de ser ignorado. As asas ainda doíam. Tinha que ser certeiro e destrutivo. Fernando debruçou-se sobre Tiago. Deu as costas e correu para o quartel. Uma ambulância do Exército se aproximava com a sirene ligada. tornando sua armadura letal à aproximação de qualquer vampiro. Sétimo o advertira sobre o perigo dos vampiros do rio D'Ouro. Os mortos-vivos estavam sendo trucidados ora por Sétimo. tentando atingir as pick-ups estacionadas. Agnaldo gritava enérgico. de igual para igual. — sentenciou o caçador com a armadura argentina. Vamos achar o que quer.. Pediu que o lança-foguetes fosse recarregado. irmão! Quem te viu. Sétimo envolvia-se em nova briga. os vampiros digladiavamse.

. eu. De costas. Não sei. provavelmente fruto de uma explosão... Os olhos vermelhos cintilantes. precisa ter visto os apuros que passei na África ajudando os amigos.. Fernando olhou para trás. Por mais que girasse os olhos. debruçou-se sobre o cadáver. — Como? — perguntou Eliana. abaixou-se. Eu poderia sobreviver à luz do dia. Fernando soltou Tiago. Ele vai queimar todos os . Mas isso não é nada. parecia até mesmo ligeiramente corado. amigo.. Sétimo está enfurecido. Estamos fracos. — Vem. Tiago olhou para os lados. Uma vampira surgiu num salto em cima do muro. vamos todos morrer. Tu. Se alimenta. — Ele vai acabar conosco. Acenou para a vampira. se escapar dessa batalha. Não viu nada. Nem eu tenho mais fobia a sangue.. colocando-se de pé. O sangue ainda está quente. Isso é possível? — Bá! Que temos aqui nesse chão molhado? Um morto-vivo perguntando a um vampiro se algo é possível! — exclamou Eliana. — Não falta muito para amanhecer. Uma peça bordada: Operações Especiais.. Uma trilha de sangue fresco. um novo encontro. Eliana aproximava-se de Tiago. Um rasgo no abdome. Eli. Olhos.guerra.. Tiago levantou o rosto para o arnigo. — Estamos no meio de um inferno. Atento. Tinha recuperado sua feição forte. Relaxou quando percebeu ser Eliana. ele é o único que pode caminhar durante a luz do Sol. olhos em cima da gente. — Problemas. César havia pulado o muro e vinha apressado. uma insígnia. Tiago. Vai. Ora pisava em grama.. Protegendo-o. Aquela sensação penetrante de olhos espreitando incomodavam o vampiro. — retificou Tiago. — Já estamos mortos. caminhando e puxando Tiago para o muro. Nas costas. cara. Fernando estava de costas para Tiago.. Vai acabar com o covil inteiro. Tens que beber mais sangue e tomar partida nessa briga. O corpo ainda quente. Precisamos nos juntar aos outros. — Como podem rir? — incomodou-se César. aproximando-se da dupla.. Quando Tiago voltou-se para Fernando. Tem vampiros atrás de nós. César apontou para o horizonte. que dizer você.. — Tem gente atrás de nós. duas mulheres vampiras com três lobos. não conseguia descobrir de onde vinha aquela impressão desconfortante. Virá durante o dia. Passavam em frente ao galpão com a parede traseira destruída. Tiago. Tiago alcançou-a. divertin-do-se. Eliana abaixou-se e apanhou duas pistolas presas na cintura do cadáver. ele tinha abandonado a forma do sargento e novamente era o vampiro de pele negra. onde estiveram cativos. não teremos uma nova chance. Fernando finalmente detectou o que o incomodava. Come rápido. próxima a Tiago. Eliana. Estava com o rosto muito pálido e sulcado.. sem nada dizer. Se ele escapar daqui. Fernando estacou. Não falta muito. — Como? — Não sei. — Vamos. Um soldado jazia. Tiago. Ele sabe sobre nosso covil. — Vai. cambaleante. A chuva batia forte na grama fofa aos seus pés. Precisava dar cobertura ao rapaz. Ele leu em meus olhos. o vampiro negro apressou-os: — Rápido.. rápido. Os tiros explodiam do lado de fora. A vampira desvirou o corpo do soldado com o pé. Tiago. e Tiago. ora pisava em lama. Olhos vampiros acompanhavam sua marcha. No galpão. — Sinto olhos. — Que mais falta acontecer? — perguntou a mulher. mas vocês não. — Sétimo. Algum objeto cortante fora arremessado em sua direção. Tiago riu. e inspirou fundo: — Mulheres.

espalhando-se por toda parte. Li? Vocês são sete vampiros! Onde vamos arranjar um lugar escondido da luz? O Sol não demora. Órgãos fétidos infestaram o chão. O ataque era maciço. nem vampiros conseguirão detê-lo. receber um golpe no peito e tombar ferido. Uma. — Sétimo é indestrutível! Nem balas. — Aléxia. enquanto o som da chuva ganhava volume. aproximava-se na chuva. tentando sufocá-lo. prendê-lo. Outro atingiu Sétimo. estendeu os braços para as mulheres. — Sétimo! O vampiro. — murmurou Tiago. Sétimo. Eliana escondeu as armas nas costas. poderia usá-lo para se alimentar. — Tobia. caminhando decidido. que. Aléxia e Paola espantaram-se. A outra fera desferiu-lhe uma mordida no ombro. Os irmãos caíam. mas era difícil vencer o lobo.inimigos com a luz do Sol! Ele leu nos meus olhos onde está nosso covil. Olhos nos olhos. — Pare! — retumbou a voz poderosa. Depois. Tiago limpou o sangue da boca com as costas das mãos. Zumbis pulavam em suas costas. continuavam a atacá-lo. — começou Aléxia. mesmo consumindo-se em chamas. Os lobos se dividiram e rodearam o trio inimigo. Também via o grande caçador de vampiros. usando velocidade vampírica. Miguel viu o braço de Baptista ser decepado e rodopiar.. A lâmina varreu o ar e. — Sétimo irá destruí-los. Duas vampiras. embora os irmãos evitassem aproximarem-se demais. ordenou: — Trucide-os. . Os lobos rosnaram enfurecidos. — Vamos para outro lugar. César conseguiu disparar. Eliana fora desarmada. a loira de olhos assustadoramente verdes e penetrantes. Tiago buscou Fernando com os olhos. Lamentou o sangue dos zumbis ser podre e inútil. do contrário. — Vocês não vão acabar com ninguém! Os três voltaram-se ao mesmo tempo. com os olhos brilhantes. Um deles acertou a pick-up em cheio. Gentil. partiu para cima de Eliana ao mesmo tempo que Tiago era atacado por Hélio e Aléxia. lentamente. Duas mulheres de Sétimo. César. investido de sua forma humana. Avançou para Inverno e quebrou-lhe o braço. Essa deve ser a tal Eliana. fazendo o vampiro soltar um grito estridente. Os vampiros voltarão a reinar e não mais serão caçados! Seremos soberanos! Ficaram em silêncio por um instante. jogou-o contra o chão. Viu Acordador. levando parte da carne e a arma. esturricando dois vampiros e quatro seres humanos. Sempre se intrometendo onde não é chamado. derrubando o lobisomem com um tiro certeiro.. Empunhava uma espada prateada e parecia se deslocar em câmera lenta.. os lobos recuaram. e pisou-lhe a cabeça. as bocarras salivantes escancaradas e os dentes afiados expostos. sorrindo. Tempestade ergueu o braço para o céu. capturado pelo próprio poder. Ah! Ah! Ah! Os lobos rosnaram. Aléxia. O vampiro estava paralisado. o tórax esguio e nu. sem saber ao certo se conseguiria evocar o dom. — Que lugar. — Você acertou nosso líder. Arrepiou-se de medo. rosnando. imóvel. Paola. Um por um. — continuou Aléxia. Obedecendo à vampira. Onde estava o vampiro? Por que não lhe dera proteção? Três lobos. Rasgou um mor-to-vivo agarrando-o pelos braços e puxando. Não temia o confronto. Queria acertar a testa daquela vampira que ria. Tiago ainda não estava recuperado. surpreso. — Sétimo nos contou a seu respeito. Assim que os lobos voltaram a rosnar e o primeiro deles atirou-se sobre o trio. Outra. decididos. fazendo-o tombar. e uma série de relâmpagos despencou. cercado por quase uma dúzia de mortos-vivos incendiados. Sétimo via um vampiro tombar congelado à sua frente. Paola viu Eliana esconder as armas. Passos firmes. aproximando-se de Sétimo com sua lendária espada de prata pura. tomará a Terra. Isso o tiraria do jogo por algum tempo. com violência.. viu passar um homem com armadura de prata. a vampira de corpo escultural e cabelos longos. O vampiro indestrutível estava prestes a encontrar seu fim. Temos que liquidar a raça de Sétimo e correr para aquele porão escuro! Não vai dar tempo de procurar um covil novo. — Vamos acabar com ele. Os três foram subjugados em poucos segundos.

Tiago. viram Tobia rasgando a distância a passos decididos. batendo os pés pesados no chão.. Espelho!!! Eliana aproveitou a distração momentânea e saltou adiante. O vampiro gritara. Ao impacto do primeiro tiro atravessando o corpo das amadas. Sétimo pulou para o gramado lamacento. Tiago sabia que Sétimo não havia recebido nenhum tiro naquele instante. A batalha durava muito mais do que o previsto. Seu coração estava tão unido ao das vampiras. braços e cabeça. a espada de Tobia bailou. A suspeita de um ponto fraco tornava-se realidade. Elas gritavam e xingavam ensandecidas. Sétimo surgiu imponente sobre o muro do quartel. sentiu um calafrio percorrer o corpo. as vampiras tombaram sem vida. voltando ao asfalto. . Caiu de joelhos. que sentia no próprio corpo o martírio impingido às crias. — Fernando! Solta-as! — Ora.. em mais uma tentativa frustrada de tomar-lhe a vida. enfraqueceremos Sétimo. Já afundava num prognóstico sombrio quando algo despertou-lhe a atenção. de ferimento recém-curado causado por bala de prata. As energias vampíricas estavam se esvaindo. tudo parecia desabar. Aproximou-se da pick-up? segurou um dos mercenários entre as mãos e abriu um ferimento no pescoço. Um ferimento igual ao de Aléxia. Quando Aléxia apresentara o ferimento no ombro. repetindo a tentativa. correndo em direção à fera alada. O vampiro de cabelos loiros e lisos. sugando o sangue com sofreguidão. Fernando agarrava firmemente as vampiras pela nuca. — .. estendendo as asas feridas e gritando enlouquecido.. Os tiros atravessaram o peito das vampiras. — Eliana. Uma idéia começava a se concretizar. ajoelhado. rindo alto. O visitante lhe dera armas para combatê-lo. Aléxia e Paola olharam para o lado. Sétimo? São duas! Dividamos! Sétimo urrou. Eliana repetiu os disparos. — murmurou.— Ah! Ah! Ah! Ora. vertendo sangue pela boca. Não susteve o corpo por muito tempo. — Aléxia! — urrou a fera... pois seus olhos injetados estavam fixos no irmão. das pernas. entre eles e o trio dominado. no entanto.. O calcanhar de aquiles do maldito vampiro não residia em seu próprio corpo.. enchendo a boca de barro e mato. Sentia-se capaz de evocar seu dom. da testa. Um urro selvagem cresceu às costas do trio. abocanhou o chão. Sangue brotava de seu peito. era Dom Fernando! Ele estava com as mulheres nos braços. atingindo o monstro na altura do pescoço. Tiago sorriu. Dom Fernando soltou-as. ora. mas elas não saíram do lugar. Sétimo não notou a aproximação do caçador de vampiros. Finalmente. Tiago! Teu fim se aproxima. Suas vampiras corriam perigo. sem entender como atravessara o corpo do vampiro como se este não existisse. batendo no meio das costas. Sétimo tirou as armas das mãos de Paola e arremessou-as para frente. ceifando o ar num arco certeiro. o monstro. Sangue e dor brotavam do peito. Como se estivessem em câmera lenta. ao lobo restante e rolou na grama. Uma suspeita. vira em seu peito uma cicatriz. O sangue fresco o havia reenergizado completamente. Aléxia e Paola foram envolvidas num abraço. Tinha que tirá-las dali. No meio da batalha. alcançando as armas lançadas por Fernando. se matarmos as vampiras. evitando a boca mortífera da fera assassina. encarava-o com raiva. Tiago lembrava-se perfeitamente: quando a cela de Aléxia estava encoberta.. recuperou a cena de quando Sétimo o levava para o céu. de corpo forte. Só tinha a dupla de lobos a detê-los. César atracou-se. pois! Que egoísmo é esse. e abraçou-a. — Paola! Olhou para o quartel. Quando o primeiro lobo atacou Tiago.. Num flash. tinha que salvá-las antes do nascer do Sol. envolveu as mulheres nos braços. Sétimo mostrara um igual no mesmo local do corpo. Um homem de armadura prateada saltou o muro. Estavam abraçadas a um homem negro. acertando pernas. Aquele não era Sétimo. Sétimo. Vendo o ferimento no ombro de Aléxia um frio percorreu sua coluna. Os lobos já não eram problema. Sétimo saltou sobre a pick-up e ensaiou um vôo desengonçado. Sétimo perdeu as forças. Assim que a fera de asas gigantes ajoelhou-se. Eliana ergueu as armas carregadas com bala de prata e disparou simultaneamente. Ela concordou.

estendeu a mão para o céu. correndo atrás dos vampiros.. Sem as nuvens negras encobrindo o céu.. — disse Fernando.. — murmurou. e. tornando-se letal às criaturas da noite. não havia perigo em usar seu dom. curvara-se naquela madrugada ao golpe do amor. recuando cinco passos. com o braço amputado. A criatura que nunca sucumbira às investidas do ódio. — Não vai escapar.. Desejava ter tempo para demolir mais um dos malditos do rio D'Ouro. Miguel virou-se para o horizonte. Leonardo. e. — Vamos rápido! Vamos rápido! — gritava Tiago. evitando escorregar no gelo. Espelho era seu novo alvo. Velocidade vampírica. O Sol logo estaria subindo no horizonte. uma armadilha mortal. As nuvens pesadas voltaram. A espada prateada separara definitivamente sua cabeça do corpo. via seu poder aumentado também. As nuvens de Tempestade vinham funcionando como um embuste. engasgado com o sangue. — Espelho! — gritou o caçador. a dor e a distração do vampiro fizeram a tempestade cessar. Os lobos paralisaram-se incrédulos ante o fim da criatura mais temida no meio vampírico. Manteve livres do poder seus irmãos. Sob o céu negro. Corriam todos pela avenida.— Tobia. poucos minutos restariam até que a luz queimasse todos. com isso. Sétimo e seu bando.. — murmurou Sétimo.. Tobia viu vultos desaparecendo rumo à batalha do lado de fora. perece sob a luz do Sol! Fora do galpão. O caçador sentia a adrenalina queimar as veias! Tinha destruído Sétimo! O Sol se encarregaria do resto. Contudo. com ele. gritava de dor. Fernando! Se não perece na ponta da espada. trazendo escuridão. as nuvens começaram a se dissipar. ganhando força. a temida luz solar começava a chegar à Terra. César e o menino-lobo. Os zumbis misturavam-se aos soldados do tráfico. Tempestade. Dissipando-se. Sétimo estava morto. — Precisamos de um carro. A respiração de Tobia exalava extensas nuvens de vapor. O corpo pesado tombou sem vida.. Não haveria tempo de chegar ao covil. ocupando os atiradores. Os olhos começavam a ganhar coloração vermelha devido ao ardor causado pela luz. — gemeu. — O Sol está raiando! Agnaldo gritava para seus homens. A pele ardia. A cabeça de Sétimo se separou do corpo. Tiago e Fernando sustentavam nos ombros o pesado corpo de Inverno. . Tiago. de joelhos. — Fernando. Tinham vencido Sétimo. — Não vou agüentar muito tempo. Miguel sorriu. — Paaaare! — gritou Gentil. os tiros cessaram. As nuvens estancaram. Um temor. superando a dor. Um pavor momentâneo despertou em todos os vampiros. rolando na grama molhada. Finalmente. Seus olhos já haviam voltado ao normal. Miguel deu partida no motor e Tiago os conduziu para casa. Tiago entendeu. Era hora de retirar-se. caminharam até a pick-up dos vampiros e retiraram todos os corpos paralisados da caçamba. Eliana. O fim parecia certo. — Tobia! — espantou-se Fernando. o horizonte vermelho se revelava. Os vampiros entreolharam-se. Tempestade.

fagulhas congeladas escapando da descarga de metralhadoras. tinham desaparecido. Inverno. e. não percebeu uma tênue claridade invadindo o covil. A estação de Quitaúna estava deserta. capturado pelo tempo. exausto. o som voltou ao mundo dos homens. De olhos fechados e adormecido. O vampiro Gentil. obtido no caminho à toca. O rosto maduro e de expressões firmes tinha traços cansados. Juntou-se aos lobos e encerrou-se em sono vampírico. com o braço estendido. repentinamente. Talvez tivesse saído vitorioso daquele campo de batalha. o troféu fabuloso: a cabeça do vampiro Sétimo. aproximando-se de um posto de gasolina em reforma. Miguel fechou os olhos e recolheu as presas. Estavam mirando os inimigos que. havia repousado os corpos na tumba escavada tempos atrás pelo vampiro Agnaldo. Estavam igualmente estáticas. que trouxera também seus irmãos lobisomens num carro so-bressalente. talvez estivesse se consumindo em culpa. Sétimo nascera com a sina de ser traído. quebrado apenas por uma brisa rápida que fez com que revistas voassem da pequena banca de jornais destruída pelo corpo pesado de Sétimo. O promissor general do exército de Sétimo tinha os músculos avantajados. avançavam e disparavam contra o grupo de vampiros e de mortos-vivos. Gentil sentia que o irmão Sétimo estava definitivamente morto. Tiago. tiros escapavam das armas. as nuvens iam desaparecendo. silenciosas. ali. Gotas de chuva suspensas no ar. o céu negro começava a limpar somente na região da avenida Paulista. O desespero tomou conta do cenário. o rosto sincero e a fala calma que demovia os brutos. sedentos por vingança e determinados a acabar com aquelas criaturas. lentas. Mas Miguel não era o mesmo. Pretendia queimá-la na primeira oportunidade. o lançador de mísseis estava pronto para disparar. Precaução nunca era de mais. +++++++++ Em frente ao quartel de Quitaúna. Os vampiros notaram que o Sol subia perigosamente segundo a segundo. também cedera ao sono vampírico. Pareciam uma gigantesca obra de arte 3-D. O Sol reinava no céu. Leonardo. foi o último a recostar-se no fundo do porão frio. buscando proteger o grupo na fuga. tornando-a intransitável. naquele porão. o foguete estraçalhou um amontoado de mortos-vivos. o vampiro Gentil. ouvindo César fincar as escoras do lado de fora. Era apenas a imagem daquele vampiro de cabelos cacheados e olhos serenos. uma tábua grossa atravessava e travava a porta. mágicas. O silêncio imperava. Montes de gelo tinham se acumulado nos cantos da avenida. Hélio e um lobo carregavam nas costas os corpos das vampiras terrivelmente feridas pela prata. Miguel tocou as costas na parede fria. Envergava a lindíssima armadura. desacordado durante quase todo o trajeto. Os soldados de Quitaúna. Sem a presença de Tempestade e seu dom assombrado. Gente rastejando.CAPITULO 78 Miguel. Era estranho que nada passasse em seu coração. Do lado de dentro. carregadas a galope na direção oposta à batalha. A previsão era de mais caos. não fosse a intervenção do vampiro Gentil. às costas. Se fosse o velho Miguel. antes de cair no sono vampírico. de quem sofria e buscava superação. O gelo impossibiltava a condução. as nuvens começaram a se mover. O céu encoberto por nuvens negras trazidas de volta num último esforço do vampiro Tempestade. Na cena da batalha. cerrou os olhos. Mortos-vivos estáticos. Estavam deformadas e talvez jamais se recuperassem. Num dia comum. ninguém se arriscava. — Segue! — ordenou. Os vampiros em pose de ataque. Apontava para um grupo de mortos-vivos e. de mãos dadas com Eliana. O helicóptero de Brites descia no meio da avenida dos Autonomistas. O lança-míssil explodiu. Vez ou outra um relâmpago. o encantador vampiro Gentil. com um joelho no chão e a mão protegendo as costelas doloridas. Na mão. repentinamente. Tinha sangue escorrendo no canto dos lábios. Alguns vampiros ficaram perdidos. As nuvens pesadas foram se extinguindo. procurando Espelho. Ainda mantinha o rosto bonito e doce que hipnotizava as mulheres. as ruas da região estariam tomadas pelos carros e coletivos. o tempo ainda estava paralisado. Agnaldo. ofuscado pelo Sol . Tobia fora pego quando saltava o muro do quartel. Entretanto. gritava mais uma ordem. que refletia as chamas ardentes. de aparência rígida. A brisa aumentou. ambos em pé. Empresas de transporte coletivo recusavam-se a liberar os carros. Dimitri estava caído.

. de costas. Agnaldo corria enlouquecido pela avenida. vencendo o muro do quartel. Bolhas negras surgiram no rosto e nos braços. — clamou Agnaldo. . As últimas gotas de chuva bateram no calçamento. A pele ardia e um filete de sangue escapava do canto dos olhos. Lágrimas vermelhas escorreram. As asas transformaram-se num amontoado de gravetos secos. Reuniu forças e disparou com velocidade vampírica. As vampiras sofriam também com a presença da luz solar. não morreria daquele jeito. Os olhos deformados focavam um campo restrito de visão. Sem um esconderijo seguro. O corpo de Sétimo era um esqueleto coberto por couro negro e ressecado. caso a criatura sobrevivesse à luz. com o corpo de Cristo pendendo. Agnaldo foi o único que alcançou refúgio. Gritavam de dor. pois da pele escapava fumaça. Hélio e o parceiro lobo fugiam com as vampiras. Arrombou a porta da frente e atirou-se no corredor principal da igreja. Viu Dimítri encurvado. Escapando da avenida. passando por uma agência do Banco do Brasil e entrando à direita. Os vampiros mais fracos gritavam. A caçada ao vampiro do D'Ouro teria que aguardar outra data. teriam o destino selado em pouquíssimos segundos. Caiu de joelhos e rastejou até perto do altar. Os mais fracos começaram a queimar. Tobia tocou o chão.. encontrou uma igreja católica. Os músculos se gaseificavam até que o couro grosso aderiu aos ossos do vampiro. esturricados. Os vampiros de Sétimo estavam mortos.. correndo. Onde estaria Sétimo? O corpo esquartejado do monstro alado começou a exalar grande quantidade de fumaça. — Perdão. com leve fumaça escapando pelas mangas da jaqueta negra. Precisava de abrigo. Esticou o braço para a imagem. Perto dali.. Sentiu a pele arder e os olhos queimarem. Queimavam.. Os olhos não encontraram Fernando. Ganhou a plataforma da estação ferroviária e correu até uma parede de vidro de onde assistia o bale infernal dos vampiros agonizantes. a carne estourando e os olhos explodindo das órbitas. Agnaldo orientou que buscassem abrigo. Não morreria ali. A pele colou aos ossos. um a um. antes de desfalecer. mantendo o crucifixo vermelho fixo no chão.que se levantava. cruzava o céu. dando à criatura um aspecto cadavérico.. O corpo murchou e os globos oculares afundaram. seguido pelos mais poderosos. Olhou para a cruz.

que você estivesse aqui na minha frente e que pudesse escolher entre ficar e partir. silencioso como de costume.. acordar os mortos sempre . — Nunca pensei que fosse dizer isto. Mais uma vez. Acordador. devido à sua diminuta estatura.. abraçando o vampiro. Um dom tão bonito. novamente. a barca tocou o fundo.CAPITULO 79 Madrugada. o vampiro parecia triste. A certa distância. No horizonte. que pena. que ia crescendo à medida que se aproximava. protegendo o rosto dos grãos movidos pela ventania. Fria e inoportuna. segurando o braço ferido. Eliana impressionou-se com a pele acinzentada e extremamente enrugada do barqueiro. A energia vampírica haveria de reabilitá-lo por inteiro durante a viagem. que balançava um pouquinho quando as ondas batiam. Tiago aproximou-se de Gentil e pousou as mãos nos ombros do vampiro. foi o primeiro a ir para a água. Um vento forte começou a levantar a areia. te devo a vida. Todos sabiam que a aventura na Terra tinha chegado ao fim. Uma garoa fina começou a despencar. caminhava calado. ninguém mais há de acordá-los. O corpo decapitado por aquele que os vampiros chamam Tobia.. meu amigo. surgiu a caravela. o diabo os levaria de volta à beira do rio para cumprirem sua Aventura. Tiago olhou para trás. raspando na areia. empurrada por remos-fantasmas. — Gentil. na barca. Caronte! Toca para o mar dos malditos! Não quero mais ficar nessa terra louca que os brasileiros construíram e que chamam de Brasil. Um ponto pequeno.. te vejo partir. A maré estava brava. praticamente restabelecido. — Queria tanto que isso fosse verdade. Baptista. que pena. Tobia. Da ilha próxima. mas já se encontrava fixo ao corpo.. e. soldados obedientes.. agitada. Os vampiros desciam da Cherokee. Lembrava-se de Sétimo destruído. permitindo a quem estava na areia enxergar a caravela e as águas escuras. quietos. Vou-me embora. mas obrigado. Pensando bem. No meio do corredor. o legendário caçador de vampiros. Tiago soltou-o. — Vai. Inverno. Façam boa viagem. amigo Gentil. sentimento que poucas vezes banhara sua alma desde a transformação em vampiro.. — murmurou Tiago. que singrava o mar dos mortos. — Meu criador. Relâmpagos acenderam o céu em disparos repetidos. como no primeiro episódio. O cheiro da noite era bom. Ele não respondeu. Calculavam que muitos outros vampiros também tivessem sido pegos pelo Sol e que seus corpos teriam explodido em chamas ou virado uma estátua grotesca composta por um amontoado de cinzas secas e mortas. Tiago enfiou a mão no bolso e arremessou ao mar cinco moedas de prata. chegava para levar seus passageiros de volta ao mundo oculto. Próximo das águas rasteiras que iam e vinham. ó brasileiros. encantada. Agora.. estendeu o braço. Mais uma vez. dando uma cusparada na água. Não era o mesmo vampiro sorridente e curioso que conhecera na primeira aventura. uma pequena barca vinha rápido. de alegria. lua linda! Caronte. o som das ondas arrebentando vinha em bom volume. Deixa descansar os mortos. O doce Miguel à frente. malditos. — . Tiago recuou dois passos. A Cherokee encostou no calçadão principal da cidade litorânea de Caraguá. o barqueiro. Um nevoeiro pesado formou-se com rapidez. A missão cumprira-se com a destruição de Sétimo. O velho parecia ter um milhão de anos. e a lua cheia brilhava mágica no alto do céu. apenas apreciava o ar da noite e a lua. algo incomodado. cabisbaixo. Feiticeiros! —praguejou o vampiro. O braço do vampiro não estava completamente recuperado.. seguidos pelos vampiros do rio D'Ouro. Olhou para o céu e gritou: — Adeus. Uma tristeza inesperada assaltou-lhe o peito.. arrepiou-se quando ouviu Baptista chamá-lo pelo nome. César e Eliana foram para a areia. — disse Baptista. Sabia que era hora da despedida. Baptista e Fernando eram os únicos que conversavam e riam. A caravela portuguesa. subindo e descendo ao sabor da maré agitada. Eliana e César assistiam em silêncio. Acordador foi o segundo e obrigou Caronte a debruçar-se no bordo. Os vampiros o cercaram. Eliana aproximou-se e abraçou-o. emocionado. — Um último encanto. encarando os vampiros. um corredor assombrado abriu-se no mar. Tiago. Tiago foi o primeiro a colocar o solado das botas no asfalto. lambendo a praia. A caravela ancorou. — de pé.

. Tem lugar para mais um desgraçado? O barqueiro estendeu o braço e chamou-o com o dedo. — Deixa ele ir. Só sabiam que não queriam mais cruzar o caminho daqueles vampiros. barqueiro. mãe. sem graça. aproximou-se de Eliana. Procurariam um lugar para viver. Não conheciam o próximo passo. — Brindaste a mim com teu sangue doce. Gentil foi à água e agarrou a mão do barqueiro. devo escusas. Tiago e Eliana ficaram na areia. Procura no castelo meu precioso tesouro. — Se o apuro chegar. — Vai com Deus. Li. te levaria comigo. nossa história. és um valoroso guerreiro... caminhou pela água. Não estavam preocupados com isso naquele . dois vultos no barco. aliviados ao ver a história dos vampiros do rio D'Ouro voltar para onde tudo começou. reza para não cruzarmos o caminho na terra dos perdidos. exigindo a paga. junto de Dom Afonso. Não gosto. Com roupa pesada e antiga e capuz que escondia o rosto. Levantou a mão e passou no rosto da mulher. toca para o mar dos malditos. Eliana arrepiou-se ao ouvir novamente o maldito chamando-a de mãe. Inverno deu as costas e enfiou as botas n'água. Uma moeda. me perdoa. Em seguida. toca para o mar dos malditos. O corredor aberto pelo barqueiro sucumbiu. Tiago e Eliana ficaram abraçados em silêncio por cinco minutos que pareceram uma eternidade. — Mãe. Nossos criados lá ficaram. vai ao D´Ouro e encontra nosso castelo. Sétimo está morto. ordenando que parasse. os vampiros do Rio D'Ouro ainda vivem lá. A caravela portuguesa desfraldou as velas-fantasmas e começou a arrastar-se para o horizonte. Sétimo e Afonso. — Quisera eu. No castelo encontrarás nosso passado.. César vasculhou os bolsos. entre lágrimas: — Não vai. Se ti-vesses te aliado a Sétimo teriam dominado esta terra. agarrou-se à borda da barca e saltou.. O barqueiro estendeu a mão ao passageiro e trouxe-o a bordo. a barca desapareceu. sim. também vão nesta barca. Ainda poderemos assombrar aquele castelo. Tiago abraçou-a. abraçados. mas reconheço. Vai precisar de mim para cumprir tua Aventura. Darão armas e ensinamentos para lutar. ó insolente. não chora. mas para o meu castelo no rio D'Ouro. A barca deslizou dois metros. mas ele. O barqueiro fez sinal com a mão. barqueiro. Procurou seu lugar e sentou-se. Os Sete estarão juntos na caravela. Caronte. Onde.. Voltará a ser meu querido irmão.. assistindo à barca voltar ao mar aberto. arremessando uma moeda prateada. pelo amor de Deus! — Toma. deitou a palma. Não sabiam o que o futuro reservava. deixando a névoa tomar toda a praia. Deixa. não com Caronte. tomando seu lugar. César correu. Inverno parou de frente para Tiago. com os olhos marejados também. Eliana pediu ao amigo.. podes não vê-lo. César. tchê! — gritou Tiago.. mostrando ao pretenso passageiro. — Vai. Gentil parou em frente a Tiago. irão juntos brigar no inferno para buscar suas almas.. a ti. Vim para te ajudar.... Se fosse cá eu mesmo.. barqueiro! Toca para o mar dos malditos. mas quando chegar tua vez de cumprir a Aventura. o vampiro negro. Ignorou a mão do barqueiro. Toca pro mar dos malditos. — Vai. e os remos começaram seu trabalho. Se sentires saudades.. Estavam aliviados com a morte de Sétimo.me foi uma diversão. Tiago teve a impressão de ver além dos cinco vampiros e do amigo Cesão. Inverno. Lembras? Não fui um bom filho. Caronte parecia enegrecer ainda mais a noite ao erguer os braços. vai para lá. barqueiro. Também tinha o coração partido.. Queria ser eu mesmo e não este arremedo de Guilherme. Espelho.. — Diz. Vai. — Não gosto de ti. Hei de ajudá-los. — Toca. Para que adiar? César correu até a água alcançar a cintura. A vampira manteve-se firme. o robusto vampiro de cabelos longos e castanhos. suavemente. para dentro da caravela e para o fundo do mar. ainda não sabiam.. desconcertado. A barca começou a deslizar para trás.... Mas até quando o dom de Acordador o manteria perambulando entre os vivos? Para que ser um zumbi? — Guria. Cesão. Quando aproximou-se da caravela. não mais temia o demônio. que continuava estendida. César sorriu.. — murmurou o amigo. meu irmão. — murmurou. Estendeu a mão para o barqueiro e subiu.

Tiago evocou o sentir.. Titi. Tiago botou a cabeça para fora. Nunca suspeitariam que eram vampiros. tinham que agir como eles. tirando a venda dos olhos de Eliana. até o fim dos dias. Pedira que Leonardo fizesse o mesmo. É o único lugar da cidade em que poderemos nos registrar e passar o dia protegidos do Sol. os hábitos. Que mantivesse os amigos vampiros longe de confusão. nunca mais faço isso! Voar à noite. Li? Não é má idéia. o general de Sétimo. Mais ninguém passou-lhe pela cabeça. Não sentiu Aléxia nem Paola. Não tinham o menor desejo de se proliferar. Os vampiros deixaram o homem para trás. Eliana. Você me deixa pensar? — Deixo.. Para misturar-se entre as pessoas. O cheiro do mar e da vila era inconfundível. para continuar entre eles. Vasculhou na placa traseira e encontrou a chave no esconderijo. quarenta anos.. Estavam no alto de um morro. Riram novamente. Eliana estava vendada e curiosa. Precisavam do líquido poderoso para caminhar sobre a Terra. Titi? Não demora a amanhecer. Tiago havia ligado para o Neco e. — Até que a morte nos separe.. A névoa desapareceu. seriam vampiros. ++++++++++++ O Cesna fretado sofria com a turbulência. Que mulher mais no mundo vai querer um marido vampiro? Riram e começaram a caminhar pela areia. se agora sobraram apenas eu e você. manobrando para decolar contra o vento forte. Só assim o sangue sempre estaria à mão. Os faróis do Cesna dançavam na pista. — Já vou avisando. Eliana sentiu um alívio. Tiago deu partida no veículo.. — Titi. tinham que falar como as pessoas. Olhou para trás. Apertaram-se um contra o outro e beijaram-se. O vampiro demorou muito para voltar. Estamos na rua do Maestro. Não localizava Agnaldo. Deveriam ser garças entre garças. Só depois do avião parar é que soltou o manche. Eram e. O carro parou e Tiago saltou. Vigiariam os homens. O comandante parecia ter a mesma sensação. — Vamos casar? — Casar?! — É. mas nunca esqueceriam a humanidade. Eliana estava quase quebrando a promessa quando sentiu Tiago pegando-a no colo. Que se virasse agora. A borracha dos pneus batendo na pista e o chacoalhar forte indicavam que tinham aterrissado.. era só esconder o rabo num canto e alimentar-se com discrição. — Vamos ficar juntos. tinham uma eternidade para se amar. — Tenho um lugar especial para a nossa primeira noite em Amarração. Se os vampiros não estivessem mortos. lá estava o jipe. Amanhã. Eram vampiros. Não espere ostentação e glamour. — É. O maldito deveria ter queimado ao Sol. Eliana apertava a mão do parceiro. Só isso de bom parecia ter acontecido: não se preocupar com a morte.. com um tempo desses?! Só com malucos pagando esse dinheiro todo! O comandante abriu a aeronave e ajudou a mulher descer.. — Gente. Aprenderiam com o tempo a ser vampiros poderosos.momento. é melhor a gente casar. — brincou Tiago. O mal era irreversível. — Até que a morte nos separe. Amarração. O jipe rumou para o centro velho. Ele já tinha o dinheiro. vamos adaptar meu suntuoso casebre. mas quanto tempo? — Uns trinta. como combinado. A caravela não existia. as mulheres de Sétimo. — Diz. quem sabe. Um pouco distante. — Casar. podia ver as luzes do povoado.. — Que pista péssima! Não tem nem torre de controle! — reclamava o aviador. — Onde vamos ficar. Estariam entre os humanos sem sede assassina. pedindo que não descobrisse os olhos. — Titi. . Desceram tão rápido que Tiago chegou a pensar que algo dera errado. Aprenderiam mais com seus dons na escuridão..

despencando como sangue estagnado. carregando a mulher no colo. A inscrição emendada grosseiramente. a gente vai fazer dele o lugar mais romântico de Amarração.Ela percebeu a tinta fresca na inscrição logo acima da marquise do velho estabelecimento abandonado. e os olhos vivazes inclinaram-se para as letras escarlates grafadas na placa de madeira. desaparecendo na escuridão com sua amada. batendo as asas de forma grácil e silenciosa. iria notar grossas gotas de tinta vermelha se desprendendo do letreiro. Uma coruja de penas pardacentas posou sobre a placa. feita com brocha e uma lata de tinta trazida no jipe. Os dois sorriram e se beijaram. Um espectro vermelho escapava dos olhos do casal apaixonado. enfeitando as paredes emboloradas e decrépitas da antiga construção. Titi. mas tudo bem.com . anunciava: — BEM-VINDOS AO LUXOR HOTEL. adentrou pela porta dupla. Do lado de fora. Tiago. de improviso. FIM fale com André Vianco: andrevianco@gmail. logo acima do nome do estabelecimento. se alguém passasse. A cabeça girou. — Não é nenhum Copacabana Palace.

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