A corda mais dura da viola

É estranho como a gente se comove ao ouvir músicas. Nelas, os acontecimentos, as sensações, os ritmos da própria vida. Somos às vezes personagens de uma música que não nos conhece, e toda nossa vida está lá. Quando alguém diz de uma mulher, é essa a nossa mulher. Cantam uma história e é essa a nossa história. E toda a vida, ali: a falta de sentido, o riso, a lágrima, o amor, a angústia. O som de dez cordas e o cantar em vibrato – ouço Tião Carreiro, agora; e imagino o nascimento do vibrato: alguém que canta e se segura para não chorar. Quando cheguei a Vitória, vim cru. Então, não era nada, no ponto em que não somos nada mas podemos nos tornar qualquer coisa. Depois o tempo passa e encolhemos os ombros, passamos em gargalos. Daí, só podemos nos tornar uma única coisa. Algo singular, se tudo correr bem. Mas tenho a estranha convicção de que “correr bem” é ideal, uma abstração, e de que a morte é também o ápice de uma sensação de fracasso. E a viola que tocou então vai ser a mesma viola de agora. Mas, se os vãos (de uma vida ainda a acontecer) deixavam a viola ecoar, agora a viola passa. Mas raspa em feridas, desafina. No rosto apertamos as sobrancelhas porque a nota toca errada. Em Vitória a viola tocava, vinha do estômago das casas. Dos alpendres, com suas roupas penduradas, vinha das roupas amareladas, da poeira. Eu ria e chorava com alegria ao ouvi-la. Tudo podia ser incrível, e eu fazia com que fosse. Me emocionava quando o calçamento de uma rua sem placas era de pedra, ou quando um sino provinciano balançava no campanário. E confesso que a palavra “campanário” também me emocionava. Podia tornar-me qualquer coisa. E o tempo passa. São tantas as coisas em que podia me tornar, que não via motivo para tornar-me apenas uma delas. Meu funil por um momento parecia ter se virado ao contrário. Aí fui longe demais. Por isso volto à Vitória com a sensação de que errei, de que ainda estou errado. A ambição, me parece, vai sempre se tornar um erro. Ora porque nos frustramos, ora porque escolhemos algo e renunciamos a outras tantas existências. Ora porque renunciamos à ambição e nos deitamos para dormir um pouco mais. Foi a ambição, tenho certeza, que fez um primeiro homem comer veneno. E uma pergunta que o menino de Vitória faz hoje para o homem que volta à Vitória: a vida que então escolhi, hoje te ofende? Qualquer resposta é apenas uma justificativa. Aqui, a única verdade, a pergunta. Cada pergunta, assim como a gente, pode se tornar qualquer coisa, qualquer resposta. Talvez seja injusto colocá-la, assim, numa garrafa. Caminhando pelas ruas de Vitória, vivendo dos ares das praças, de romantismo. Minhas ambições eu chamava de sonhos. E eram grandes, demais para um homem, ridículos para uma cidade pequena, de cadeiras nas calçadas. Viciei-me ainda muito novo na pergunta: “O que vou ser quando crescer?”. Quase todos os dias me tornaria alguma coisa, não durando senão até o dia seguinte, quando, então, me tornaria outro tipo de herói. E o tempo passava. E a viola chorava me avisando, de dentro dos bares. Hoje, sou outro. Trabalhei de tudo, não me tornei nada. Virei vendedor. Fiz família, dinheiro, virei sócio-torcedor do São Paulo Futebol Clube. Tentei participar do Rotary, não consegui. E o tempo passou e continua vibrando, transformando toda

espalhadas. O tempo passa e não posso ouvir viola em público. o jogo ficou um a um. com uma barba rala. todo desejo em desistência. e me escorre pelos olhos. as rugas do rosto velho como músculos. Como se visse sangue. ouvia a música. Os erros estão ao largo do meu corpo. arrependidas. salgado. poeira.ambição em ceticismo. Como o jogador. esse homem que toca Tião Carreiro e Pardim.. presas a prendedores. Brasil e Tchecoslováquia. fingindo. Algumas roupas tentam voar. gira. Parece o violeiro cego. Há quanto tempo não me emociono? Sinto falta. a cidade cresceu e diminuiu. na cama ou quando meu filho faz uma pergunta que não ouço – minhas escolhas voltam. Diz de um empate entre Brasil e Tchecoslováquia. cresceu e diminuiu. Mas a viola continua tocando. Ouço a música. que de tão verdadeiro e honesto se tornou um mestre do drible. mas não ser mais essa música ainda me toca. de fissuras nos prédios. não sou mais essa música. . Apertado. O que fiz. outros nus. Parece falar de mim. a camisa aberta. Garrincha. Os dedos nos metais ainda doem. toca. nenhum dente na boca.. Sorrio para o cego. garrafas e mais garrafas com os gargalos estraçalhados. Eu sou tudo o que eu e a música evitávamos ser. por uma crueldade sentimental.. Sem saber se dissimulo melancolia. hoje. parece definir a forma do meu dedo. Quis que meu filho nascesse aqui. Vejo uma onda de ar vermelha. É terrível mudar tanto. de ruas paralelas inúteis. sentado na calçada. alguns de terno. Mas em Vitória não há músicos de rua. de algo inexistente. Ouço. um que é louco e veste cachecol. há inclusive um. O cego e o violeiro que um dia fui.. religioso. A viola aperta. e cada vez me reconheço menos. me acusa. Sou um marginal de mim mesmo e não posso voltar. Há em toda essa mentira algo puro. Antes. falava comigo. E mudar tanto. ainda me dói? Brasil e Tchecoslováquia diz de algo ido. alguns ainda deixam memórias. me assusto. me aponto o dedo e me acuso? São milhares de eus. Por que desejei tanto? Por que construí a vida me preparando para um terremoto que nunca viria? E agora? E agora. quando menos espero – no banho. em que me tornei? Por que me tornei o que não queria? Um homem finge ser cego e toca viola. Às vezes. Empurra a pele e não se move mais. deixaram cicatrizes. amarela. Ele para. de periferias abandonadas.. Nas praças há.. E agora. que o tempo passa. tanto. não importando o que as letras digam. que me vejo em forma de som. a música fala de mim. Giro meu anel de ouro. porque não posso chorar em público. Muita coisa mudou. que sorri de volta. Agora estou de volta a Vitória. Uma parte de todos que quis ser. É quente. Há. Está cheia de estrias. Há melancolia em cada canto de Vitória. sim.

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