SOUZA, Márcio. Breve História da Amazônia.

São Paulo: Marco Zero, 1993 SUMÁRIO Por que uma história da Amazônia? 9 Primeira Parte: A Amazônia Indígena 11 Segunda Parte: A Conquista 21 Terceira Parte: A Colonização 45 Quarta Parte: Soldados, cientistas e viajantes 75 Quinta Parte: A Amazônia e o Império do Brasil 95 Sexta Parte: A Cabanagem 109 Sétima Parte: O Ciclo da Borracha 127 Oitava Parte: A sociedade extrativa 145 Nona Parte: A fronteira econômica 159 Bibliografia 169 Agradecemos a colaboração das seguintes instituições: Fundação Biblioteca Nacional, Museus de Belém, Fundação Cultural do Município (Belém), Secretaria de Estado da Cultura do Pará, Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Pará, na pessoa de sua coordenadora Valdéa Cunha da Silva, Subsecretaria de Estado da Cultura do Amazonas, Fundação Universidade do Amazonas. Origens do homem Amazônico Pg. 11 As sociedades complexas da Amazônia Pg. 12 Caçadores e coletas Pg. 13 Os primeiros horticultores Pg. 13 Sambaquis a.C. (cultura) Pg. 14 Ilha de Marajó Pg. 15 Os Tuxauas de Santarém e Marajó Pg. 15 Chegada dos europeus no Séc. XVI Pg. 16 Cultura da selva tropical Pg. 16, 17, 18 Mitos e lendas Pg. 18 O legado econômico do passado Pg. 18 Indústria farmacêutica Pg. 19 O 1° europeu (Pizon) Pg. 21, 22 Frâncico Orellana (expedição) Pg. 22 O eldorado Pg. 23 As primeiras tentativas espanholas na Amazônia Pg. 23 Gonzalo Pizarro (expedição) Pg. 24 O cronista da expedição (Gaspar de Carvajal) Pg. 25 Orellana (com os Tuxauas guerreiros) Pg. 26 A revelação da Amazônia Pg. 29 Primeiros colonos (os alemães) Pg. 30 Outras tentativas espanholas (J. A. Maldonado) Pg. 30 P. Ursua, Guzman e L. de Aguiar Pg. 31 Antecedentes de um bárbaro Pg. 33 Importância dos relatos Pg. 34

Os Andes barram os espanhóis Pg. 34 Novas investidas européias Pg. 34 A reação lusitana Pg. 35 Pedro Teixeira Pg. 35 O choque cultural não cessará mais Pg. 35 A lógica da conquista formou a colonização Pg. 37 Cristianismo, Mercantilismo Pg. 38 A explicação teológica do direito colonial Pg. 39 A inquietante presença dos índios Pg. 40 O Padre Vieira na Amazônia Pg. 41 O legado dos cronistas e relatores (Lit. Colonial) Pg. 42 O modelo colonial holandês Pg. 46 Suriname Pg. 46 O modelo francês (colonização) Pg. 47 O modelo espanhol Pg. 49 Missionários e índios (doenças) Pg. 49 Mineração X ouro Pg. 50 O modelo português Pg. 51 A evolução da Administração portuguesa Pg. 52 União do território Pg. 52 A resistência dos povos indígenas (Tupinambá) Pg. 53 Portugal é anexado a Espanha Pg. 54 Pedro Teixeira Pg. 55 Samuel Fritz (Jesuíta) Pg. 56 Extrativismo Séc. XVII e XVIII (economia livre) Pg. 58, 59 Os Muras (Padre Sampaio - jesuíta) Pg. 59 Ajuricaba Pg. 60 Outras rebeliões na Amazônia Pg. 63 A Era Pombalina Pg. 64 Inquisição no Grão-Pará (Marquês de Pombal) Pg. 65 Francisco Xavier de M. Furtado Pg. 68 A Administração de Lobo D'Almada Pg. 69 Mário Ypiranga Monteiro (a colônia letárgica) Pg. 70 O equilíbrio econômico de mercantilismo na Amazônia Pg. 72 A colonização lusitana Pg. 72 Expropriação do índio Pg. 74 Outros cientistas Pg. 77 Paramaribo Pg. 82 Stedman e a mulata Joana (história de amor) Pg. 83 Muhuraida Pg. 84, 85, 86 Antônio Giuseppe Landi (arquiteto, desenhista, urbano) Pg. 88, 89 Alexandre R. Ferreira (cientista e naturalista) Pg. 90 Tapuias Pg. 91 A Amazônia portuguesa (Grão-Pará e R. Negro) Pg. 96 O cenário político no processo da independência Pg. 97 Arthur Reis Pg. 98 A repressão às idéias exóticas Pg. 100 Felipe Patroni Pg. 100 A notícia da independência chega a B. do Pará Pg. 102 A independência chega ao Rio Negro Pg. 105 Século XIX crise econômica na Amazônia Pg. 105, 106 Efeitos da regência no Grão-Pará e Rio Negro Pg. 110 Um golpe derruba o Visconde de Goiana Pg. 111 Prisão do Cônego Batista Campos Pg. 112 Fuga do Cônego Batista Campos Pg. 113 Rebelião na Barra do Rio Negro Pg. 113 A regência nomeia dois homens sanguinários Pg. 114 Conflito ideológico com a Igreja Católica Pg. 116 Nova fuga de Batista Campos Pg. 117

Guerra civil Pg. 117 Morte de Batista Campos Pg. 118 A queda de Belém do Pará Pg. 119 Os revolucionários divididos (Malcher, Francisco Vinagre) Pg. 120 O governo de Eduardo Angelim Pg. 121 A Cabanagem espalha-se pela Amazônia Pg. 122 A reação do regime do Rio de Janeiro Pg. 122 Lições de um banho de sangue (Cabanagem) Pg. 124 A indústria primitiva Pg. 128 Uma nova matéria-prima dos trópicos Pg. 129 Efeitos da economia do látex nas outras Amazônias Pg. 129 O escândalo do Putamaio Pg. 132, 133 A guerra da borracha no deserto acidental Pg. 133 O cosmopolitismo do ciclo da borracha Pg. 134 A ideologia do ciclo da borracha Pg. 135 Os componentes humanos da sociedade do látex Pg. 136 Um capitalismo de fronteira Pg. 136 Amazônia e a Administração Federal Pg. 137 Os coronéis da borracha e barrancos Pg. 138 O lado oculto do fastígio (Vandeville) Pg. 139 Euclides da Cunha, Plácido de Castro Pg. 140 A ostentação Pg. 140 Intérpretes da idade de ouro Pg. 142 A 1ª Universidade da Idade do Ouro Pg. 143 A quebra do monopólio Pg. 146 Retrato de um desastre (o fim do ciclo) Pg. 146 A reintegração difícil depois da I Guerra Mundial Pg. 147 Medidas de pouco impacto (contornar a crise) Pg. 148 Reflexos do tenentismo na Amazônia Pg. 149 Solidão e abandono (Amazônia) Pg. 150 Situação em Manaus nos anos 30 Pg. 151 Henry Ford na Amazônia - 1939 Pg. 151 Getúlio Vargas na Amazônia - 1940 Pg. 151 A Batalha da Borracha Pg. 152 SPEVEA - Criação Pg. 153 ICOMI Pg. 154 A Amazônia da redemocratização Pg. 155 Aspectos culturais Pg. 157 A operação Amazônia (ocupar e integrar) Pg. 159 Avanço das lutas sociais na Amazônia Colombiana Pg. 160 O retalhamento da Amazônia brasileira Pg. 160 Megaprojetos Pg. 161 Os 1ºs. grandes projetos Pg. 161 A Transamazônica Pg. 162 A Zona Franca de Manaus Pg. 163 A agressão ao Ecossistema Pg. 164 Os conflitos de terra Pg. 165 A dinâmica da sociedade Amazônica Pg. 166 O narcotráfico Pg. 166 Amazônia Legal Pg. 168 Por que uma história da Amazônia? Recentemente, quando organizava uma lista de livros de leitura obrigatória para meus alunos do curso Images of the Amazon, do Departamento de Espanhol e Português da Universidade Berkeley, defrontei-me com o fato de não existir um único livro de História da Amazônia. Para cobrir o assunto, fui obrigado a selecionar vários títulos, todos parciais, o que dificultou e aumentou a carga de trabalho dos estudantes. Existem obras de História do Amazonas, do Pará, do Acre, das regiões

muito desestimulante. há 24. que ressaltasse os aspectos dramáticos.800 a. ocupando e colonizando as Américas. o feito do senhor Roosevelt foi descobrir certo rio que todo mundo já conhecia. aos seus alunos. nem de longe. Finalmente. como espécie de roteiro de chegada a um pedaço imenso mas pouco conhecido da América do Sul. Um recente historiador norte-americano. que desejarem sinceramente entrar em contato com uma tradição magnífica e dolorosa. nos últimos tempos. como os índios e os caboclos. é um texto para ser lido por aqueles leitores curiosos.que decidi escrever este livro. por exemplo. deve ser compreendido na sua circunstância. surpreendentes e audaciosos de uma trajetória histórica carregada de dramas e muitos desencontros. seria uma obra de mais fôlego e exigiria bem mais esforço que este texto. Um outro aspecto que necessita ser ressaltado é que a História da Amazônia precisa ser escrita o mais urgentemente possível. a origem do homem na Amazônia foi cercada de muitas fantasias e teorias imaginosas.C. ou seus descendentes. PRIMEIRA PARTE A AMAZÔNIA INDÍGENA (2000 a. de outro lado. modestamente escrito e destinado apenas a servir de introdução. mas também aquelas que falam espanhol. É. quase todas as opiniões e propostas algumas absurdas . Uma verdadeira História da Amazônia. M. Para a presença do homem no Novo Mundo. mas a dispersão complica muito a vida daqueles que desejam apenas uma introdução geral e não pretendem se tornar especialistas. deliberadamente sintético. a lacuna existente. escrita com emoção e simpatia em relação a certos agentes sociais quase sempre esquecidos. portanto.) ORIGENS DO HOMEM AMAZÔNICO Desde o início tema de especulação. Tal qual a tentativa de explicar a presença humana no Novo Mundo. para os leitores em geral. como a geologia mostra que o continente americano já se encontrava em sua forma atual quando a humanidade apareceu. abrangendo não apenas a Amazônia brasileira. inglês e holandês. vazado numa linguagem de fácil compreensão. em livro que pretendia fazer a história do rio Amazonas. Essa lacuna é uma prova do quanto ainda precisam avançar os estudos amazônicos.000 anos. ignorou solenemente aspectos cruciais da conturbada vida política da Amazônia no alvorecer do século XX e introduziu um capítulo inteiro sobre as caçadas e as aventuras de Theodore Roosevelt. algumas delas excelentes. ex-presidente norteamericano que esteve pelas selvas do Mato Grosso e Rondônia no começo do século.pedido sempre frustrado . pode-se aceitar a hipótese de que migrantes atravessaram o estreito de Behring. é livro que vejo destinado aos professores do segundo grau. É provável que essas primeiras levas de migrantes . Não devemos esquecer que. É obra despretensiosa. se estes desejarem conhecer os grandes traços do processo histórico da região. Por tudo isso. acabaram chegando ao vale do rio Amazonas. Foi pensando nos alunos dos meus cursos e nos meus leitores que continuamente me pedem a indicação de um livro sobre o tema . Diga-se de passagem. em que buscou um estilo simples e descomplicado.para o futuro e o desenvolvimento da Amazônia foram sendo afoitamente apresentadas por gente sem nenhuma ou quase nenhuma experiência amazônica.C.amazônicas dos países hispânicos. Algumas dessas levas de migrantes asiáticos. sem didatismo. e por autor ou autores da região.S. Mas vou logo afirmando que este trabalho não preenche. Este livro. a teoria mais aceita é a de que o homem surgiu primeiro na Ásia e. aos universitários brasileiros. . como se isto fosse um importante momento da história regional. as marcas deixadas pelos homens na Amazônia suscitaram inúmeras hipóteses.

desde o período Pleistoceno.C. Para outros. aceitava-se como prova de adaptação ao trópico úmido o estilo de vida dos atuais povos indígenas. OS GRUPOS DE CAÇADORES E COLETORES Os escassos sinais de ocupação humana na Amazônia durante o período Pleistoceno. daí o aspecto físico oriental apresentado pelos índios. descendentes de Noé receberam de herança o Novo Mundo: Ophis ficou com o Peru e Jobal com o Brasil. também espanhol. Ainda recentemente. de serem cada uma elas mesmas". gerando um conjunto de comunidades humanas. que tiveram pouco contato entre si e. para completar as diferenças causadas pela separação. Na verdade. como bem afirmou o antropólogo Claude Lévi-Strauss: "Este grande e isolado segmento da humanidade consistiu de uma multitude de sociedades.). Além das explicações baseadas no espírito aventureiro dos antigos marinheiros. produto de uma diversificada contribuição biológica e cultural. o fidalgo Gregorio Garcia. de se colocarem à parte.cruzaram a grande floresta por volta de 15. as evidências arqueológicas ou documentais sobre as antigas sociedades complexas da Amazônia ou eram simplesmente negadas ou atribuídas à presença passageira de grupos andinos e mesoamericanos. hebreus e árabes. AS TEORIAS FANTÁSTICAS Muitas hipóteses imaginosas foram levantadas a propósito da ocupação humana da Amazônia. abrigos naturais e sambaquis. por exemplo.. dando início à colonização da Amazônia. escreveu alentado estudo mostrando as afinidades morais. falam das audaciosas viagens de certos navegantes do Oriente Próximo.C. Para Garcia. sem esquecer o suposto comércio que os habitantes da desaparecida Atlântida teriam mantido com a região. intelectuais e lingüísticas entre os judeus e os índios.000 anos atrás. ou Holoceno (100 mil a 10 mil a. o que limitava as possibilidades de os grupos humanos desenvolveram ali uma sociedade avançada. havia aquelas que apelavam para a especulação filosófica e religiosa. além de algumas das mais antigas sociedades sedentárias. Um passado formado por sociedades de grande complexidade econômica e sofisticação cultural. Para completar. os índios eram descendentes das dez tribos perdidas quando os assírios atacaram Israel em 721 a. como a elaborada pelo teólogo espanhol dom Arius Montanus. É importante observar que os antigos caçadores e coletores da Amazônia não eram exatamente primitivos em termos de tecnologia e estética. por sociedades de caçadores e coletores. como os fenícios. com a demonstração da existência de ocupação. maiores ou menores. em 499 d. cada uma delas distinta e nítida em sua identidade.1 AS SOCIEDADES COMPLEXAS DA AMAZÔNIA Até bem pouco tempo a região amazônica era considerada uma área de poucos recursos. Segundo ele. que criou em 1571 uma teoria baseada na Bíblia. ou Holoceno. mas também pouco lembravam .C. ainda que a população amazônica evidencie o seu estoque genético asiático. foram encontrados em algumas cavernas. ela resultou numa constelação bastante diferenciada de tipos físicos. há outras diferenças igualmente importantes causadas pela proximidade: o desejo de se distinguirem. donos de elaboradas culturas de tecnologia da pedra. fabricantes de cerâmica e agricultores equatoriais. Os mais recentes estudos começam a constatar que a Amazônia foi no passado um ambiente rico e diversificado de sociedade humanas. As mais curiosas. que vivem em pequenas aldeias e se organizaram a partir de uma economia de subsistência. a Amazônia teria sido alcançada pela expedição chinesa comandada pelo monge budista Hui Cheng. Em 1607.

Os principais sinais da transição foram localizados nos muitos sambaquis descobertos próximos à boca do Amazonas e no Orenoco. graças aos avanços na tecnologia do cultivo. no Mato Grosso. As camadas mais antigas não continham cerâmica.000 a.000 a.000 anos a. a partir de seus grupos estilísticos..000 e 4. foi um fator decisivo.000 a.000 a..000 a. Mas a adição da várzea na economia dos povos horticultores. além das provas etnográficas tradicionais. densamente povoadas. As figuras de animais são imediatamente reconhecidas nessas cerâmicas de fortes conotações antropomórficas. mas lentamente esse passado está vindo à tona comas descobertas de sítios de enterros cerimoniais e restos de aglomerados humanos. e em certas partes do baixo Amazonas. nos sambaquis da Guiana. Os primeiros habitantes da Amazônia formaram uma continuidade de alta sofisticação. Os primeiros amazônidas experimentaram um grande desenvolvimento por volta de 2.000 a.C. na costa do Suriname. os mamíferos aquáticos e as tartarugas. durante o primeiro milênio a.C. além de agricultura de amplo espectro.os povos indígenas atuais.000 a. porém as mais recentes apresentavam um conjunto de formas surpreendentes datadas de aproximadamente 4. utilizando técnicas de pintura e incisão.000 a 2.. ferramentas utilizadas para cavar petroglifos nas cavernas foram datadas entre 10.C.. transformando-se em sociedades hierarquizadas. É claro que pouco se sabe dos ritos antigos. É muito provável que essas sociedades baseassem suas economias na plantação de raízes como a mandioca.000 e 7.C. como de um período entre 8. as mais recentes teorias sobre a natureza das sociedades humanas de coletores e sua adaptação nos trópicos estão ganhando terreno a cada descoberta de novas evidências arqueológicas. . de plantas e de animais encontrados em cavernas e abrigos situados na Venezuela e no Brasil foram datados entre 6. que incluía os peixes. Restos de alimentos. na boca do Amazonas.000 a. é prova de que havia um intenso sistema de comércio de viagens de longa distância e de comunicação. estabelecendo uma vasta e variada rede de sociedades de subsistência sustentadas por economias especializadas em pesca de larga escala e caça intensiva.C. as sociedades de horticultores passam a marcar sua presença na região. que já vinha sendo cultivada desde pelo menos 5. e nos achados da localidade de Mina. Eis porque se pode afirmar hoje que a introdução do cultivo da mandioca na várzea. A existência de artefatos fabricados por certo povos. Fio por essa mesma época que as pequenas povoações de horticultores começaram a ganhar importância. associadas com uma cosmogonia que implica em abundância de caça. com os depósitos sazonais de fertilizantes naturais. fertilidade humana e poderes do xamã em se relacionar com as forças da natureza corporificadas pelos animais.C.. Esses achados e os exemplares de cerâmica encontrados nos sambaquis da localidade de Taperinha. encontrados em diversas áreas da região.C. aos poucos congregando um maior número de população. agora apresentando formas zoomórficas e motivos de decoração com figuras de animais.C. cultivando plantas e também criando animais. criou um rico suprimento de alimentos. OS PRIMEIROS HORTICULTORES A lenta transição da caça e coleta para a agricultura ocupou o período de 4. próximo a Santarém. bem como nas barrancas do rio Tapajós. foram datados. que supostamente são seus sobreviventes. e 3.C. O estilo da cerâmica. Por isso. são evidências de que as culturas amazônicas já cultivavam a arte da cerâmica pelo menos um milênio antes dos povos andinos. Abrangeram desde os paleoindígenas até os pré-ceramistas arcaicos e ceramistas arcaicos avançados. assim como a chegada da cultura do milho na mesma área de cultivo significou um maior excedente de alimentos para a estocagem. Outros artefatos de pedra encontrados nos antiplanos das Guianas venezuelanas e na República da Guiana.C. Na localidade de Abrigo do Sol. conforme provas encontradas no Orenoco. por exemplo. registrando a presença nessas áreas de povos coletores.000 e 2. baixo Amazonas. Por volta de 3. recebe fortes modificações.

No entanto. inclusive de escravos. As mulheres eram baixas e bem proporcionadas e os homens musculosos. fez com que os povos indígenas modernos retrocedessem para um tipo de vida anterior ao surgimento dessas economias intensivas. possuíam sistema intensivo de produção de ferramentas e cerâmicas. pelas atividades religiosas e viviam em habitações masculinas próximas ao centro cerimonial. Os homens eram responsáveis pela caça. Essas imensas populações. de alta densidade demográfica. A AMAZÔNIA NÃO ERA UM VAZIO DEMOGRÁFICO Quando os europeus chegaram. embora dez centímetros mais altos. uma plataforma de barro construída na ala oeste. Embora poucos sítios tenham sido escavados e as áreas de cemitérios tenham atraído saqueadores em busca das soberbas cerâmicas que serviam de urnas funerárias. e o uso de refrescos fermentados. já no período de dominação européia. do Solimões ou do altiplano boliviano mas o processo de despopulação. guerra. existiu uma população estimada entre quinhentas e mil pessoas..C. Ali. como o aluá. a Amazônia era habitada por um conjunto de sociedades hierarquizadas. Essa sociedade apresentava um alto desenvolvimento tecnológico e uma ordem social bem definida. foram criados e desenvolvidos por essas sociedades antigas. os restos arqueológicos são impressionantes. guerreiros que dominaram o rio Tapajós até o final do século XVII. Muitos dos hábitos e costumes posteriormente herdados pelos povos indígenas e pelas populações caboclas. a que mais se destaca é a do monte de Teso dos Bichos. os resultados são intrigantes e surpreendentes. mas provavelmente já estava extinta ou decadente por ocasião da chegada dos europeus. Teso dos Bichos deve ter mantido uma concentração humana por dois milênios sem maiores problemas. povoados e locais de culto. senhores da boca do Amazonas. Os tuxauas de Santarém. dos mundurucu e omágua. cuidavam do preparo da alimentação e habitavam casas coletivas. sem disputas ou superpopulação. recebiam tributos de seus súditos e contavam com numerosa força de trabalho. ou de Tupinambarana. no século XVI. e 1300 d.5 hectares. indicando uma dieta rica de proteína animal e comida de origem vegetal. A maior estrutura de sítios arqueológicos indicando a existência dessas civilizações antigas pode ser encontrada nos antiplanos da Amazônia boliviana. agricultura diversificada. que ocupavam o solo com povoações em escala urbana. O estudo dos esqueletos encontrados em teso dos Bichos mostra que os moradores da ilha eram muito parecidos com os amazônidas atuais.que se estendiam por quilômetros ao longo das margens do rio Amazonas. Dentre as escavações da ilha de Marajó. com quarenta sítios descobertos numa superfície de 10 a 15 quilômetros quadrados. Toda a povoação ocupava cerca de 2. exatamente um dos centros de uma poderosa sociedade de tuxauas. além de fazer canais e abrir lagos para viabilizar as comunicações fluviais. tais como os tuxauas de Marajó.C. entre 400 a. A preferência por certos peixes. Fazia parte de um complexo de povoados pertencentes a uma sociedade de tuxauas. era muito comum entre as gentes de Marajó. O mais conhecido deles encontra-se nos arredores da cidade de Santarém. e seus remanescentes foram obrigados a buscar a resistência. com suas cidades de vinte mil a cinqüenta mil habitantes. dos mura. uma cultura de rituais e ideologia vinculadas a um sistema político centralizado e uma sociedade fortemente estratificada. O que havia sido construído em pouco menos de dez mil anos foi aniquilado em menos de cem anos. Pará. que contavam com milhares de habitantes. ocorrido com a chegada dos europeus. deixaram marcas arqueológicas conhecidas como locais de "terra preta indígena". como o pirarucu. o isolamento ou a subserviência. Na ilha de Marajó. As mulheres se encarregavam-se dos trabalhos agrícolas. . soterrado em pouco mais de 250 anos e negado em quase meio milênio de terror e morte. O formato craniano prova que eram amazônidas e não andinos. de Tupinambarana. Essas sociedades foram derrotadas pelos conquistadores. Essa massa trabalhadora construiu enormes complexos defensivos. comandadas por poderosos tuxauas. floresceu uma das mais admiráveis civilizações do grande vale. no médio Orenoco e na ilha de Marajó.

como uma coisa uniforme. embora ambas as nações partilhassem de uma economia comum. e os nômades e frágeis Wai Wai. nunca foi habitada por outra cultura que não essa. O QUE É A CULTURA DA FLORESTA TROPICAL? Mas o que é a Cultura da Floresta Tropical? Como os níveis de complexidade cultural se estabeleceram de formas muito diferentes entre os povos das margens do Amazonas e aqueles do interior. baseadas na economia. que dominou durante muitos séculos o rio Solimões. os que viviam nas cabeceias dos rios ou em terras menos férteis. baseada na máxima exploração dos recursos alimentícios dos rios e lagos e. que cresce até mais ou menos 1 ou 1. a Cultura da Floresta Tropical deve ser definida a partir dos elementos comuns mais compartilhados. A Cultura da Floresta Tropical é um sistema social baseado na agricultura intensiva de tubérculos. floresceram por volta de 1500 d. De tal forma esses preconceitos foram disseminados que até mesmo certos autores bem-intencionados acabaram sucumbindo a eles. Assim. como também de estabelecer sociedades complexas e politicamente surpreendentes. e está tão profundamente vinculada ao cultivo que sua origem quase se torna indistinguível da origem da maioria das plantas cultivadas. ao tentar explicar a presença de populações complexas na região como fruto da migração ou influência dos Andes ou do Caribe. Portanto. Os povos da terra firme. Os últimos avanços da arqueologia na Amazônia vêm corroborar a tese de que a Cultura da Selva Tropical foi capaz não apenas de formar sociedades perfeitamente integradas às condições ambientais. procuraram emprestar à Cultura da Selva Tropical um certo primitivismo. em termos de evolução qualitativa. mostravam-se mais modestos em comparação com as nações do rio Amazonas. arraigados num extremo determinismo ambiental. Tais sociedades. técnicas de guerra sofisticadas. ao chegar. uma economia com produção de excedente e trabalho baseado num sistema de protoclasses sociais. habitantes dos altiplanos da Guiana. pelo cristianismo e pelas doenças. na caça de animais e pássaros da floresta. pode-se dizer. secundariamente. pela escravização. levando em consideração as afinidades entre os diversos povos. A Cultura da Selva Tropical é um exemplo do sucesso adaptativo das populações amazônicas. Havia uma grande diferença entre a grande nação Omágua.Foi durante os milênios que antecederam a chegada dos europeus que os povos da Amazônia desenvolveram o padrão cultural denominado de Cultura da Selva Tropical. sendo derrotadas pelos aracabuzes. chefiadas por tuxauas com autoridade coercitiva e poder sobre muitos súditos e aldeias. como bem indicam os artefatos arqueológicos encontrados na região. A Amazônia. a cultura da mandioca. com folhas longas em forma de palmas. os primeiros europeus encontraram sociedades compostas por comunidades populosas. e. de cor verde-escura.C. com mais de mil habitantes. O PASSADO NA MEMÓRIA DOS MITOS E LENDAS . sendo endêmico entre a baixa Califórnia e o norte da Argentina. estrutura religiosas hierárquicas e divindades que eram simbolizadas por ídolos e mantidas em templos guardados por sacerdotes responsáveis pelo culto. Essas sociedades foram registradas nas diversas crônicas e relatos de espanhóis e portugueses que as contataram em suas primeiras viagens ao longo dos grandes rios. Já tivemos a oportunidade de observar que velhos preconceitos. por estarem localizadas nas margens do ri o Amazonas e certos afluentes maiores. A mandioca (Manihot utilissima) é um arbusto alto. a Cultura da Floresta Tropical é. É um gênero exclusivo da América. um estágio de barbárie que fixava a Amazônia num patamar abaixo do Padrão Caribenho e muito distante do Padrão Andino. que são os econômicos.5 metro de altura. Mas a Cultura da Selva Tropical não se apresentava. assim como o são os Padrões Andino e Caribenho de Cultura em seus respectivos nichos ambientais. está provado que. foram as primeiras a sofrer os efeitos do contato com os europeus.

não começaram exatamente com os conquistadores europeus. As rotas comerciais que ligavam a selva amazônica às grandes civilizações andinas ainda continuam traçadas nas entranhas da mata virgem. Sem a utilização da roda ou animais de tração. como as guerras. Para se ter uma idéia da contribuição dos povos indígenas para a agricultura atual. portanto. o amendoim. Teríamos basicamente uma oferta de alcachofra. mas estará sendo dada a verdadeira razão para a valorização dos recursos naturais da Amazônia e o direito histórico de suas populações usufruírem dessas riquezas. ao dissipar as brumas ainda densas de um passado perdido. buscaram conhecer os segredos dos velhos pajés e encontraram indícios de que substâncias extraídas de plantas da floresta podiam curar ou controlar certas doenças. Os Estados Unidos. tal como a percepção que eles têm de seu passado e do uso de conhecimentos acumulados em milênios de experiência empírica seja algo mais que um conjunto de práticas primitivas e bárbaras. como os sonhos são sublimações de acontecimentos reais. Somente o mercado mundial do milho rende mais de US$ 12 bilhões anuais. 250 anos se passaram. Ou seja. marco central da literatura oral dos índios tariana. o maracujá e o abacate. É por essas rotas que um índio tukano do norte amazônico pode visitar seus parentes do sudoeste. as paixões e a aventura. a utilização dos recursos vegetais dos índios da floresta tropical fez com que a agricultura moderna fosse mais diversificada e de alta produtividade. algumas dezenas de pesquisadores intitulados de etno-botânicos. como a mostrar que. nozes e groselha. a batata doce. o tomate. o mamão. os povos indígenas descobriram e domesticaram mais da metade dos sete grãos alimentícios correntemente comercializados no mundo de hoje. com o reconhecimento cada vez maior das conquistas culturais e econômicas das antigas civilizações que povoaram a região antes dos europeus. a macaxeira. SEGUNDA PARTE A CONQUISTA INVENTANDO A AMAZÔNIA Entre a chegada dos primeiros europeus e o fim do sistema colonial. assim como as culturas já haviam atingido alturas. avelã. mas nenhum centavo é revertido em benefício dos povos indígenas que originalmente possuíam o conhecimento. além de parte substancial dos produtos agrícolas das prateleiras dos supermercados. basta imaginar como seria a nossa vida se apenas contássemos com espécimes nativas do hemisfério norte. não apenas ficará estabelecido um traço de união entre a selva e nossos supermercados e farmácias. . a pimenta. Nas últimas décadas. não é de se estranhar. o chocolate. em que um mundo acabou em horror e um outro começou a ser construído em meio ao assombro. escaparam de ser um país de groselhas para se transformar numa potência agrícola incomparável. A Amazônia foi inventada nesse tempo. porque antes era a terra do verão constante. Eis porque. apenas nos Estados Unidos. Outro segmento da economia moderna que muito tem lucrado com as milenares descobertas indígenas é a indústria farmacêutica. O LEGADO ECONÔMICO DO PASSADO Um jovem índio mehinaku disse certa vez que um mito é como um sonho sonhado por muitos e contado por bastante gente. reconhecidas apenas pelo olhar dos que sabem distinguir antigas veredas dissimuladas pelas folhagens. E. seguindo o mesmo curso que levava produtos da floresta ao Cusco e de lá trazia artefatos de ouro. Foram tempos de conflito e de muito sangue derramado. É o milho.Os mitos e lendas dos atuais povos indígenas ainda guardam certas lembranças desse passado perdido. o abacaxi. que o olhar de um índio sobre a floresta seja diverso do olhar de um estrangeiro. A comercialização de substâncias extraídas de plantas tropicais excede a US$ 6 bilhões dólares por ano. os dramas humanos mais intensos. tecidos e pontas de flecha de bronze. por exemplo. sementes de girassol. em que a conquista do norte amazônico pelos aruaque está fielmente descrita. Feitos heróicos dos tempos que se perdem nas brumas ressoam em épicos como a saga do tuxaua Buoopé e sua amada Cucuí. a baunilha.

Como era norma entre os conquistadores. mas sempre confrontando por bem-armados e ferozes nativos. onde se dizia que a canela crescia em grande profusão. era encontrar o fabuloso reino do El Dorado. em serviço. Assaltaram as populações indígenas. o mundo primevo da selva tropical e suas sociedades tribais densamente povoando a várzea e espalhando-se pela terra firme. A presença de água potável avançando mar afora foi interpretada por Pinzon como resultado da "correnteza de muitos rios a descer de montanhas". desembarcado algumas vezes. o outro lado da muralha andina. Primeiro. na qualidade de governador da província. FRANCISCO ORELLANA Foi um jovem espanhol da Estremadura. também. Os colonizadores pensaram em construir uma unidade produtiva. da cidade de Trujilo. mas só lograram demarcar uma fronteira econômica. Pinzon deu ao rio o nome de "Santa Maria de la Mar Dulce". o primeiro europeu a conduzir uma expedição pelo Mar Dulce descoberto pelo capitão Pinzon. mas é provável que ele tivesse alguma ligação com a família Pizarro e viesse da mesma província. Francisco Orellana conseguiu vencer os índios da costa equatoriana e fundou a cidade de Santiago de Guayaquil. O nome dele era Vicente Yañes Pinzon e tinha sido companheiro de Cristóvão Colombo. um capitão espanhol mandou seu galeão rumar ao sul. Era muito corajoso. Chegaram em busca de riqueza e se deram conta da falta de mão-de-obra. Esse ciclo começou muitas vezes. onde nascera por volta de 1511. No mesmo ano. Francisco Orellana. Em 1540. durante a qual se revelou um fiel partidário dos irmãos Pizarro e. O segundo objetivo. viajando para as Índias em busca de riqueza. singrando as águas do Caribe. pela Nicarágua. Pinzon mandou que o galeão apontasse para a terra e ancorou na boca daquele imenso rio. A água tinha perdido o azul-turquesa do oceano Atlântico e ganhado uma coloração pardacenta que reverberava em tons de bronze os raios do sol poente. como tantos outros espanhóis. de temperamento explosivo. Ele tinha velejado ao longo da atual costa brasileira. algumas tão grandes que facilmente poderiam ser confundidas com o continente. Gonzalo Pizarro chega a Quito. os europeus se mostraram extremamente repetitivos. País fabuloso. havia um labirinto de ilhas. Pinzon achou que tinha atingido a Índia. antes de tomar parte da conquista do Peru. Pizarro sonhava em romper com esse monopólio. Gonzalo Pizarro pensava em dois objetivos. com as populações indígenas pagando um preço elevado. Aparentemente ele deixou a Espanha ainda adolescente. e começa a organizar uma ambiciosa expedição para conquistar e tomar posse dos desconhecidos territórios orientais. mas a carência de mão-de-obra persistiu. Em 250 anos. situado em algum lugar do noroeste . O EL DORADO Uma das lendas mais persistentes e que mais incendiou a imaginação dos conquistadores foi a do El Dorado. Ele mandou que recolhessem amostras da água. até onde a vista alcançava. Sabemos muito pouco sobre a vida de Orellana. e há registro de sua passagem. Pinzon desembarcou onde hoje fica a cidade do recife e tomou posse daquela terra em nome do rei da Espanha. Em volta. Ele acreditava ter navegado para além da cidade de Catai e atingido um território não muito distante do Ganges. mais fantasioso mas não menos improvável que o território da canela.a terra em que se ia jovem e voltava velho. provou e ficou surpreso ao saber que navegava num mar de água potável. encontrar as terras do interior do continente. perdeu um olho. Embora o lucrativo negócio das especiarias estivesse em mãos dos portugueses. e se deu conta de que estava navegando em água doce. O PRIMEIRO EUROPEU Em 1499. a terra do sem-fim. A Amazônia como hoje a conhecemos é fruto dessa cega perseverança. apresaram escravos.

Pizarro perguntava onde ficavam os vales e as planícies. com lama e muitos rios para atravessar. dele se dizia ser tão rico e cheio de tesouros que. que existia mais abaixo do rio. chega depois da partida da expedição. a expedição sofre pesadas baixas. Pedro de Anzures liderou 300 espanhóis. Ao encontrar índios.000 índios da montanha. com algumas baixas. seguindo os espanhóis na Venezuela. mais de 100 índios já tinham morrido de frio e maltratos. Caminharam durante dois meses. Gonçalo Pizarro partiu de Quito. Orellana e seus seguidores estavam sem nada. Pizarro decidiu avançar com oitenta espanhóis a pé. Mas não se deve estranhar esse fato.amazônico.000 porcos. depois de muitas privações. Assim mesmo. e os que sobreviveram se alimentaram dos cadáveres dos que tinham morrido de fome. segundo a lenda. com os espanhóis tendo de comer os próprios cavalos e sucumbindo às doenças e à fome. que deu a Orellana o título de comandante geral das forças combinadas. A tropa era também reforçada por 4. inexplicavelmente. holandeses e irlandeses. Anzures também tinha ouvido falar do El Dorado. Invariavelmente Pizarro atiçava seus cães contra os índios ou matava um por um com requintes e crueldade. A lenda do El Dorado era tão recorrente nos primeiros anos da conquista da Amazônia que muitos aventureiros encontraram um destino trágico na sua busca. 2. A expedição resultou em sofrimentos terríveis. Mas. mas os índios não contavam com a brutalidade .000 cães de caça . Orellana segue em busca de seu líder. algumas moças mais bonitas de Cusco. Quando as condições realmente se tornaram difíceis. devido aos gastos para equipar seus 23 seguidores. Desde as primeiras semanas. e encontraram árvores de canela. por exemplo. muito rico. embora com pouco comida e ignorando as advertências das autoridades de Quito. as coisas ficaram ainda piores.000 índios e. franceses. chegando até a selva. porque os espanhóis tiveram experiências tão extravagantes no Novo Mundo que o El Dorado não parecia menos real. Finalmente. milhares de lhamas para transporte de alimentos. conduzindo 220 cavaleiros armados e encouraçados. os espanhóis acreditam nelas cegamente. Esta era uma história que qualquer um teria inventado para se ver livre daqueles arrogantes visitantes. que estava em Guaiaquil. O terreno era pantanoso. A EXPEDIÇÃO DE GONZALO PIZARRO Em fevereiro de 1541. Em menos de quinze dias. Francisco Orellana. Sir Walter Raleigh andou buscando esse país em sua última e desastrada expedição ao Orenoco. Embora as informações sobre o El Dorado tenham vindo exclusivamente de lendas indígenas. apenas com suas armas. Mas encontraram uma tribo que lhes falou de um reino poderoso. Morreram de fome 143 espanhóis e os outros chegaram a Cusco como mortos-vivos. sobrevivendo aos ataques de índios e logrando alcançar a tropa quando já estava quase passando fome. largamente utilizada ainda hoje. AS PRIMEIRAS TENTATIVAS ESPANHOLAS NA AMAZÔNIA Gonzalo Pizarro não foi exatamente o primeiro espanhol a organizar uma expedição para entrar na selva tropical. o que fragilizava os espanhóis. exausto e quase sem dinheiro. mas tão afastadas umas das outras que não ofereciam interesse econômico. Em busca do El Dorado também foram para as selvas outros europeus. como portugueses. mas foram recebidos com alegria por Gonzalo. 2. Chovia muito e a água enferrujava os equipamentos e limitava a visibilidade. A maioria dos índios morreu. Cavalgar num terreno como esse era impossível. o chefe da tribo recebia em todo o corpo uma camada de ouro em pó e a seguir se banhava num lago vulcânico. através das escarpas orientais dos Andes. dando origem à expressão "atirar aos cães". Em 1538. quando entraram na selva. mas os rigores da natureza o obrigaram a voltar.enormes e ferozes cães que os espanhóis atiçavam contra os índios. Pizarro decidiu voltar. 4. condenados a morrer no clima úmido e calorento da selva. mas esta era uma informação que ninguém sabia dar.

e o que vemos é uma linguagem mediadora para a ação missionária da conquista. Ele era um homem mergulhado na mística salvacionista da contra-reforma e procurava sempre reforçar suas próprias convicções. eles navegavam ainda pelo rio Napo e ouviram distante rumor de tambores. Mas os espanhóis não estavam no Novo Mundo para praticar a cautela e o senso comum. nos três dias seguintes. Orellana ia comandar sessenta homens. e alguns logo procuraram Orellana e argumentaram que a melhor opção seria seguir em frente. A gama de observações nesse relato é curiosamente ingênua. com os homens armados e prontos para repelir qualquer ataque. mas advertindo-o que deveria regressar em menos de quinze dias. mas os espanhóis atacaram com tanta ferocidade que a aldeia foi tomada em questão de minutos. Quando este se apresentou. era hora de voltar para Pizarro. toda a carga pesada e um pouco de comida. Orellana deu-lhe um abraço e presentes. A viagem estava sendo muito penosa e navegar contra correnteza não ia ser fácil. usando uma língua que ele tinha aprendido com índios do rio Coca. onde o consertaram. O bergantim foi carregado comas armas de fogo. que tinha vindo ao Peru para estabelecer o primeiro convento dominicano no país. Orellana demonstrou seu talento para idiomas e. Por isso. Quase dez meses depois.de Pizarro. e eles tiveram seu primeiro almoço decente em semanas. quando Orellana se ofereceu para embarcar no bergantim e descer o rio em busca de comida. Mas. no final da tarde. atravessaram uma região totalmente desabitada. É uma paisagem que não contém apenas novidades surpreendentes. embora navegassem em boa velocidade devido à correnteza. enfrentando duras provações. em "Relacion del Nuevo Descubrimiento del Famoso Rio Grande de las Amazonas". Descendo o grande rio. Para a sorte dos homens de Orellana. havia muita comida. o bergantim abalroou um tronco flutuante e um rombo se abriu no caso da embarcação. inclusive um cronista. O CRONISTA DA EXPEDIÇÃO Abrimos as páginas de frei Gaspar de Carvajal. eles ainda estavam no rio Napo. O mundo que Carvajal transforma em escritura é um mundo que se abre em suas surpresas para pôr à prova a vocação missionária. é no texto de frei Gaspar de Carvajal que podemos acompanhar a trajetória de Orellana. Dois dias depois. e puderam rebocar o bergantim para o seco. Mas estavam sem nenhuma comida e. Quando os índios voltaram. Mas o regresso não estava nos planos dos demais espanhóis. se consideradas do ponto de vista da cultura européia. já no terceiro dia de viagem. conseguiu que lhe indicassem o chefe. O chefe da tribo foi feito prisioneiro. e sobretudo. A Amazônia inaugurava-se para o Ocidente numa linguagem que a furtava inteiramente e que preferia a alternativa de uma convenção quase sempre arbitrária. No dia 1º de janeiro de 1542. O fato só não acabou com a viagem porque estavam perto da margem. foram dosadas por Carvajal com forte acento medievalista. Pizarro não tinha muitas opções e a mais razoável teria sido voltar. Pizarro aceitou. Há muitas noções que. conquistando sua confiança. uma limitação que não pode ultrapassar os dogmas da fé. baixando o rio. tinham perdido praticamente todos os índios trazidos de Quito e comido quase todos os porcos. eles encontraram a aldeia. De início. Para Orellana. frei Gaspar de Carvajal. Orellana ordenou uma severa vigilância. a paisagem não é senão paisagem para o destino maior do cristianismo sobre a terra. Esse ascetismo retórico está sempre a um passo do exercício de tapar os ouvidos aos gritos dos exterminados e escravizados. Orellana . coisas portentosas. A DESCIDA PELO REINO DOS TUXAUA GUERREIROS Carvajal conta que. mas também. conterrâneo de Orellana e Pizarro. e os que resistiram foram trucidados a tiros de arcabuz. em águas rasas. limitando o visível da região observada e ampliando os seus mistérios. bizarras alimárias. a partir do instante em que o bergantim levanta ferros. Os índios mostravam suas armas e não pareciam amigáveis.

Na primeira tentativa dos espanhóis de desembarcarem para conseguir comida. e essa política estava dando bons resultados. Tentaram um ataque. O que mais tinha espantado os espanhóis era a presença de mulheres entre os guerreiros. com enorme população. véspera de Corpus Christi. onde foram bem recebidos. Interrogado por Orellana. Carvajal comenta que "depois de Deus. A viagem prosseguiu. Os espanhóis foram. restringindo os desembarques ao mínimo necessário. que recebeu uma flechada na coxa e. Orellana pediu a ajuda de voluntários e mandou três emissários. que lhes ofereciam alimentos. as duas embarcações tinham deixado o território de Aparia e penetrado nas terras do chefe Machiparo. eles entraram no território da rainha Amurians. Mas alguns dias depois. sem deixar traço. Orellana sabia como se aproximar deles e aprendia rapidamente seus idiomas. que não foi cordial e combateu os espanhóis durante vários dias. assim. oferecido aves e tartarugas como presente e informado que eram enviados pessoalmente por Aparia. A eles!" E a situação se inverteu contra os índios. As margens do grande rio eram densamente povoadas. mas bastante hostil. que partiram de volta no dia 2 de fevereiro de 1542. a criança. com as águas escuras do Negro correndo por entre o amarelo do grande rio. em outra escaramuça. Suas aldeias eram feitas de pedra e somente mulheres podiam viver nelas. Essa foi uma das poucas ocasiões em que Orellana agiu como um típico conquistador espanhol. Depois desse incidente. Quando desejavam homens. quando não era morta. mereceram um ataque tão feroz que tiveram de disputar cada centímetro de chão até conseguir voltar aos barcos. até a absorção total. guiados até o aldeamento do grande chefe.resistiu. era criada e ensinada nas artes da guerra que elas tão bem conheciam. Ao partir. quase só de mulheres. Carvajal descreve o fenômeno do encontro das águas. mas raramente Orellana lograva desembarcar e conseguir alimentos. O nome de rio Negro foi dado pelo próprio Orellana. elas atacavam os reinos vizinhos e capturavam os guerreiros. cavalheiros. foram informados de que estavam no território do grande Aparia. Era uma área bastante. o seu entendimento das línguas foi o fator pelo qual nós não sucumbimos". mais tarde. Um índio que caíra prisioneiro no primeiro combate serviu de informante a respeito daquelas mulheres. . No final do dia. até mesmo a trair seu comandante. em chamas. reagrupando-se na floresta. ordenando que a aldeia fosse incendiada e mandando enforcar os prisioneiros. Como homem prático. Por volta da meianoite. No dia 3 de junho eles alcançaram a boca do rio Negro. sendo o único dos nomes que permanece até hoje. Orellana e seus homens nunca mais acampariam em aldeias indígenas. robustas e nuas. mas recuaram perante as armas de fogo. deixaram para trás alguns índios na ponta da corda e as casas. os espanhóis tomaram um pequeno povoado. A expedição prossegue e. cabelos longos amarrados em tranças. ele contou que as mulheres viviam no interior da selva e todo aquele território lhes pertencia. Carvajal as descreve como mulheres de alta estatura. Orellana dera ordens para que os índios fossem tratados com amizade. um poderoso chefe tribal. de onde começaram a recolher toda a comida que pudessem carregar. Quando finalmente entraram nas águas do grande rio. onde uma esquadra de canoas já os cercava. Em duas semanas. Entre os feridos estava frei Gaspar de Carvajal. no dia 7 de junho. mas os homens começaram a deixar claro que estavam dispostos a tudo. Se a criança nascida fosse mulher. pele branca. Orellana então gritou para os seus homens: "Vergonha! Vergonha. eles não são nada. uma flechada num dos olhos. os homens da aldeia regressaram e deram com os espanhóis ocupando suas casas. sempre com a ajuda dos índios. ou a "Grande Chefe". Se fosse homem. conforme já tinham sido avisados pelo chefe Aparia. era entregue ao pai. os índios atacaram e começaram a infligir algumas baixas aos espanhóis. que estavam dormindo. vestidas apenas com uma tanga. Num último esforço para manter um contato com Pizarro. após a missa de Corpus Christi. A história narrada pelo índio é a mesma que seria contada para sir Walter Raleigh e repetida 200 anos depois para o cientista Charles Marie de La Condamine. puderam descansar e de onde partiram em 24 de abril de 1542. Orellana aceitou liderá-los na viagem rio abaixo e decidiu mandar construir um barco maior. Emissários haviam interceptado os espanhóis.

depois de escapar das correntes do golfo do Paria. doente. e Orellana agora só pode contar com três navios. porque o bergantim menor se chocou contra um tronco. empenhou tudo o que tinha e armou quatro navios. ocupando vários postos na hierarquia eclesiástica de Lima. A expedição contava com poucos sobreviventes. costurando os velames e adicionando um convés superior e bombas rudimentares. 300 anos mais tarde. regressou ao Peru e viveu até os 80 anos. mais uma vez. onde já estava o bergantim menor. avançaram para o norte. antes de atingirem a boca do Amazonas. Ao chegar à boca do rio. sem falar da ambigüidade de Humbold a respeito do assunto. os ataques cessaram. os espanhóis tiveram sua última batalha com os índios. passou ao norte de Trindade e. eles tiveram dificuldades em navegar à vela. dividindo seus homens em duas tropas. Daí talvez a presença constante da história ao longo dos séculos. para ser consertado. pois normalmente só utilizavam flechas envenenadas para a caça. provavelmente o único túmulo digno dele. O bergantim maior.bem como para Spruce. Os espanhóis estavam exaustos e assustados com um tipo de arma que os súditos das mulheres guerreiras usavam. insuficientes para fundar uma colônia. O título lhe foi outorgado. Mulheres guerreiras comandadas por uma matriarca é um mito comum aos povos do rio Negro. durante dezoito dias eles trabalharam. A REVELAÇÃO DA AMAZÔNIA Como a narrativa de frei Gaspar de Carvajal vem provar. outro navio naufraga. Spruce e o historiador Southey. provocou as mesmas contradições que se repetiram ao longo do caminho da empresa desbravadora. e Orellana. Uma doença abate a tripulação quando param em Tenerife para abastecimento. levados pelas correntes. Mais tarde. Ao atingir a boca do rio Tapajós. seu primeiro ato de regressar à Espanha foi requerer ao rei título de governador das terras que tinha descoberto e que agora ele chamava de Nova Andalusia. foram atacados pelos índios. médio Amazonas e Orenoco. sem piloto ou mapas. Tanto os espanhóis . Tratava-se da flecha embebida em curare. Finalmente. mostrou seu talento de comandante. Orellana partiu assim mesmo. e o fato de os índios terem usado tal arma contra os espanhóis mostra muito bem o quanto estavam desesperados. confeccionando novos mastros. ele morre. Quando conseguiram navegador. Mal chegaram à terra. Orellana atinge o arquipélago de Marajó e tenta avançar rio Amazonas acima. Num dia qualquer do final de agosto. no dia 29 de agosto de 1542. Sem permissão para partir. Seu corpo é enterrado numa das margens do Amazonas. o grande rio nunca mais foi chamado de Mar Dulce. onde tivessem condições de realmente consertar as embarcações e prepará-las para a navegação no mar. buscaram um lugar deserto. Noventa e oito homens morrem neste porto. Mas a roda da fortuna girava agora contra ele. mas o rei não lhe forneceu recursos financeiros para equipar uma nova expedição. e foram bem recebidos. Quando a aventura de Orellana se tornou conhecida. perde-se no labirinto de ilhas e nem sequer consegue encontrar o braço principal do rio Amazonas. vendo seus homens à beira de uma rebelião e vislumbrando um futuro de miséria na Espanha. com uma força capaz de convencer La Condamine. que. começou a afundar e teve de ser levado a uma praia. que os fiscais reais consideraram inadequados para a empreitada. tratados e alimentados. no qual Orellana e Carvajal viajavam. faminto e desesperado. Quando a atingiram a boca do Tapajós. quase sem comida. depois de passar um bom período na Espanha. racial e social. e lhes era desconhecido. a revelação da Amazônia foi um verdadeiro impacto para os europeus. sem bússola. como em toda a América Latina. Todo o avanço que faziam com os panos contravento era perdido na preamar. Mesmo assim. Uma verdadeira colisão cultural. Orellana não esmoreceu: emprestou dinheiro. deu no porto de pesca da ilha chamada Cubágua. Finalmente. Agora era o rio das Amazonas. Quase acabou em desastre. Frei Gaspar de Carvajal. Nesse mesmo dia os barcos se separaram. eles deixaram o grande rio e. Quanto a Orellana. metade para consertar o barco e a outra para resistir ao ataque. Orellana. não para a guerra.

os espanhóis estavam ativos em busca do El Dorado. Em 1536. para evitar que a corrente fosse desfeita. ficou seqüestrada também a Amazônia. doenças. somente um ponto era comum entre o índio e o branco: a violência com que atacavam ou se defendiam. por onde perambulou quase um ano. e foi decapitado. dezenas de expedições descem dos Andes para a selva tropical. as sociedades indígenas deveriam ser erradicadas e os povos amazônicos destribalizados e postos a serviço da empresa colonial. o imperador Carlos V. vai pagar um alto preço pela sua participação na Comunhão dos Santos. E. um conflito de tamanha proporção como o que se operou na Amazônia. já era um ultraje inconsciente para o cristão civilizado. Ele. e no final os índios se rebelaram e assassinaram Ambrosio de Alfinger.quanto os outros europeus não haviam experimentado. Em 1541. encerrando. em busca de riquezas infinitas. o mais formidável cavaleiro do peru. A expedição durou um ano. Em nenhum momento Carvajal esboça qualquer referência a respeito da supremacia cultural do índio na Amazônia. Durante a expedição. cobrindo uma distância de 800 milhas. Entre 1530 e 1168(?). O alemão aprisionava os índios e os mantinha acorrentados pelo pescoço . que desceu . que dois anos depois comandou uma expedição de 200 espanhóis e alemães em direção à Amazônia.em série . obrigando o branco europeu a acatá-las sem seus métodos de sobrevivência e trato com a realidade. Milênios de formação cultural desenvolvida no trato da selva tropical separavam os povos indígenas dos europeus. Negaram ao índio o direito de ser índio. Foram. na Amazônia ele se tornou crônico. sucessor de Alfinger. outro alemão. OUTRAS TENTATIVAS ESPANHOLAS Enquanto isso. Assim. se nas áreas do litoral atlântico e pacífico esse conflito foi sumariamente esmagado. Em 1566 foi a vez de Juan Alvarez Maldonado. os alemães. outorgou aos comerciantes da cidade de Augsburg o direito de posse de uma parte da costa da Venezuela. além do contato com a tradicionalíssima cultura do Oriente. Em 1528. o contato jamais seria pacífico e uma coexistência bem-sucedida se tornaria impraticável em terras amazônicas. Alfinger mostrou-se extremamente cruel com os índios. encontrou a povoação alemã ocupada por piratas espanhóis. com exceção daqueles que ficavam nas pontas. Por meio desses escritos instala-se para sempre a incapacidade de reconhecer o índio em sua alteridade. As crônicas dos primeiros viajantes são de escrupulosa sobriedade em relação aos sofrimentos dos índios. a participação teutônica na conquista da Amazônia. enfrentando os mais terríveis obstáculos. assim. faminto e desorientado. da Espanha. Os alemães ali se estabeleceram sob a direção de Ambrosio de Alfinger. Por isso. viajou pelo rio Caquetá. atingindo os rios Vaupés e Caquetá. não foram espanhóis ou portugueses os primeiros europeus a tentar um modelo de colonização na Amazônia. fome e perigos. surpreendentemente. conduziu outra expedição. o que dificultava a soltura de qualquer um deles. George de Spires.a um grilhão e uma longa corrente. No mesmo ano as autoridades espanholas retiraram dos alemães a concessão daquele território. o selvagem. conduzido apenas pelas histórias contadas pelos índios sobre o fabuloso El Dorado. Contrariando as crônicas da conquista da América. Para o cronista. Ao voltar para o litoral da Venezuela. Por isso. embora não haja notícias de choques com os índios. A expedição não teve nenhum lucro e nem conseguiu estabelecer colonos na área. OS ALEMÃES: PRIMEIROS COLONOS Mais os fracassos de Pizarro e Orellana não foram suficientes para impedir que outros exploradores tentassem a sorte na Amazônia. era muito comum Alfinger mandar decapitar aqueles que ficavam cansados ou doentes. O fato de as sociedades indígenas transitarem satisfatoriamente pela região. E com o seqüestro da alteridade do índio. de nome Philip von Huten.

ao apresentarem o documento a Aguirre. sem encontrar ouro ou canela. onde constrói alguns botes e manda um grupo avançado coletar comida e conhecer o terreno. o terrível Lope de Aguirre. porque esses índios há muito negociavam peças de ouro por pedaços de ferro. Ursua não era um fidalgo. PEDRO DE URSUA. que levou sua tropa pelo rio Putumayo e terminou em Bogotá. chegou a Quito. com os portugueses. Guzman aceitou a proposta dos rebeldes e decidiu comandar a expedição. alguns homens tentaram se eximir. depois de abandonar Ursua e seus seguidores numa das margens do rio. Mas desde o início as coisas não andaram bem. que punia os amotinados e desertores. Por isso. O único na expedição que tinha um título era Fernando Guzman. .dos Andes com uma tropa bem-provisionada. até o dia que este mandou prender seu criado. Para completar. conhecia os desastres pelos quais as outras expedições tinham passado. não tinha essa distinção capaz de submeter seus homens. Aguirre achou pouco e não concordou. que decidira levar sua amante. mas não podia imaginar até onde iria a ferocidade de seus compatriotas. Maldonado consegue sobreviver e regressa a Lima três anos depois. Tudo começou quando uma população inteira de índios do litoral brasileiro. Aguirre veio. Ursua perguntou o que eles desejavam. Mas. este o assinou pondo ao lado de seu nome o epíteto de traidor. Para alguns historiadores. que só pensava em poder e agia por meio de surtos de selvageria e petulância. fugindo dos horrores que estavam acontecendo no litoral atlântico. irrompe uma rebelião que divide em duas a expedição. E. deixando claro que nenhum deles merecia o perdão das autoridades espanholas. Na mesma época realizou-se a expedição de Martin de Proveda. sempre inclinado a apoiar Ursua. Aguirre era um homem revoltado. onde pediram asilo. até que um dia Ursua atou sua rede numa margem do rio Putumayo. começa estabelecendo um posto às margens do rio Huallaga. Não era novidade associar ouro com os omágua. ao chegar à selva. mas a resposta foram golpes de espada que o feriram de morte. Mas havia muitos homens procurados pela Justiça por sedição. Por isso. É nesse momento que entra o verdadeiro responsável pela situação. dona Inez de Atienza. meio afastados dos outros. especialmente na terra dos omágua. provavelmente tupinambarana. Ursua não estava comandando uma expedição composta por aventureiros e conquistadores. Fernando de Guzman e o desvairado Lope de Aguirre. Daí em diante. Ursua sabia dos rigores do terreno. Quando Gusman optou pelo simples abandono de Ursua e seus partidários. e resolveu descansar. Ursua era um homem cauteloso. ele é obrigado a sufocar tentativas de motins e insubordinação. GUZMAN E LOPE DE AGUIRRE Mas a expedição mais famosa do período foi a realizada em 1560 por Pedro de Ursua. Já nas semanas iniciais. Esperou por um momento favorável. embora ele fosse um comandante rigoroso. E em pouco tempo os incidentes foramse transformando em revolta aberta. afirmando lealdade e tentando explicar o seu gesto sob a justificativa de que Ursua era um tirano. Esses índios contaram aos espanhóis que haviam encontrado muito ouro. e os sobreviventes são facilmente capturados pelos índios e mortos. O Peru tinha acabado de atravessar um período turbulento de guerra civil entre os espanhóis e agora tentava organizar uma administração. Mas. As duas partes lutam entre si com uma ferocidade que as leva à beira da extinção. então. e foi justamente entre esses descontentes que Ursua foi escolher. e tinham chegado a oferecer o mesmo tipo de barganha aos espanhóis. com outros homens de sua confiança. para completar a rebeldia. Aguirre apontou Guzman como príncipe do peru. não teve a mesma cautela na escolha de seus homens. a disciplina nunca foi totalmente estabelecida. Ursua. ao mesmo tempo que concedia pedaços de terra no território para os amotinados. Pedro de Ursua acredita nos relatos dos índios e resolve organizar uma expedição. Apavorados. mas por bandidos e assassinos. Eles estavam fugindo das atrocidades dos portugueses e tinham iniciado sua migração há dez anos. escrevendo uma carta ao rei.

Ao chegarem à boca do Juruá. o fato de certa forma explica o ódio que o homem tinha às autoridades peruanas. Insultado. como exemplo. IMPORTÂNCIA DOS RELATOS É durante a fase da conquista e da penetração que o relato pessoal e surpreso dos viajantes vai desempenhar na cultura o papel que a economia da coleta e pesquisa da selva representou para a economia da conquista. uma tropa de 200 soldados espanhóis deixou a cidade de Potosi. pois ninguém estava a salvo e. Como Aguirre não tinha dinheiro para pagar a multa. Aguirre esperou meses que o juiz deixasse o cargo e passou a segui-lo por todos os lugares. Aguirre rumou para o continente e tomou a localidade de Barburata. O inca Garcilaso de La Veja faz referência a um homem chamado Aguirre em certa passagem de sua obra. Um outro soldado. antes de cair morto. e sua expedição somente mereceu a atenção de um texto em 1623. Aguirre peticionou. Daí em diante. a pena sempre era a morte. e esse soldado era Aguirre. no momento em que chegam os soldados. em 1548. no caminho. em direção ao Peru. de onde logo avançou terra adentro. E busca um fim condizente consigo mesmo: acaba com a vida da filha a punhaladas. posteriormente. os índios não deveriam ser usados para tal serviço. em grande parte. acertando-o de leve. Seus dias de tirano aterrorizaram os habitantes. foi condenado a receber 200 chibatadas. cujo teor é considerado um testemunho de loucura e megalomania.ele grita. quando o padre Simão escreveu o excelente relato "La expedicion de Pedro de Ursua y Lope de Aguirre en la busca del El Dorado e Omágua". informando que preferia ser condenado à morte.Inez de Atienza teve sua garganta cortada pessoalmente por Aguirre. Mas as autoridades não lhe deram ouvido: ele foi atado a um cavalo. abandonado em sua tenda. se for a mesma pessoa. algum tempo depois.Este fechou as contas . e conta Garcilaso que ele fugiu de Cusco disfarçado de escravo negro. que também fez questão de executar todos os que haviam demonstrado qualquer sentimento em relação a Ursua.foram suas últimas palavras. Um deles. De Barburata. Aguirre reuniu seus homens e caíram sobre Guzman. Para se vingar. até atingir a localidade de Margarita. Foram esses relatos que serviram. e por considerar a chibata uma punição degradante. sarcástico. uma ilha do Caribe. ANTECEDENTES DE UM BÁRBARO Pouco se sabe da vida de Aguirre antes de ele aparecer na crônica negra da conquista. fazendo com que até mesmo aqueles homens duros e calejados hesitem diante do quadro. revoltado. em Cusco. uma tropa de espanhóis intercepta o esfarrapado exército e o desbarata. . Mas. quando o matou com golpes de espada. classificação e interpretação . o ensandecido Aguirre sabe que chegou sua vez. Logo no início ele assassinou o frade cronista. Sozinho. dispara seu arcabuz e acerta diretamente no peito de Aguirre. também enfurecido. e. para orientação. As autoridades resolveram escolher um soldado para receber a punição. A expedição desce o Amazonas em noventa e quatro dias. até encontrar-se frente a frente com seu desafeto. e mais setenta dias no mar. A viagem de Aguirre não teve um relator. De acordo com a lei. Quando já estava de aterrorizar Margarita. Aguirre mandou uma carta ao rei da Espanha. Aguirre desembarcou numa praia próxima a Margarita e atacou a vila de surpresa. dominando-a em pouco tempo. massacrando todos os seus partidários. apenas na companhia de sua filha. . Nessa carta Aguirre afirmava que pretendia tomar o Peru e se transformar num monarca. aponta o arcabuz e atira. Segundo Garcilaso. a sucessão de crimes e assassinatos é enorme. Amigos de Aguirre esconderam-no das autoridades.Errou o alvo . levado ao tronco. sob a menor suspeita. onde foi despido e açoitado. usando índios para transportar suas bagagens.

os espanhóis pareciam cansados e pouco preocupados com a Amazônia. Quando a Pedro Teixeira. Finalmente. Em 1615. seriam os holandeses. Em dez anos. por volta de 1620. A REAÇÃO LUSITANA Os portugueses logo se mostraram preocupados e resolveram agir. tal era o espírito de todas elas.quer fossem uma lição ou necessidade -.da região como literatura e ciência. OS ANDES BARRAM OS ESPANHÓIS No final do século XVI. Uma visão de deslumbrados que não esperavam conhecer tantas novidades. enunciando e formulando o direito de conquistar dos desbravadores europeus. é a vez dos ingleses se estabelecerem no Orenoco e. no entanto. Os primeiros. não era exatamente um homem religioso e 54 deles foram massacrados e os restantes feitos prisioneiros. anunciando a futura expressão do enigma regional numa peculiar escritura. em 1610. com a vitória surpreendente das tropas portuguesas em Aljubarrota. A Amazônia abria-se aos olhos do Ocidente com seus rios enormes dantes nunca vistos e a selva pela primeira vez deixando-se envolver. A sujeição de Portugal vai durar até 1640. seu nome ficou tão associado à região quanto o de Orellana. foram eles. várias povoações de europeus podiam ser encontradas na Amazônia oriental. em 1625. O governador de Belém toma os fortes de Orange e Nassau. Começaram a plantar açúcar e tabaco e a estabelecer contato pacífico com os índios. As narrativas dos primeiros viajantes imitaram essa perplexidade e. a dos ingleses nos rios Jarí e Paru. PEDRO TEIXEIRA Tanto os ingleses quanto os holandeses limitaram-se a estabelecer um posto colonial na boca do rio Essequibo. perscrutadores do fantástico e do maravilhoso. Assim. no rio Xingu. NOVAS INVESTIDAS EUROPÉIAS Mas é justamente no final do século XVI que os outros europeus vão redobrar suas tentativas de marcar presença na região.uma expedição que . Trabalhavam arduamente para manter e fazer prosperar suas colônias sul-americanas e caribenhas. sob o comando de Pedro Teixeira. já que ele foi o primeiro a realizar a viagem pelo Amazonas. confiando no fato de serem católicos. uma expedição comandada por Francisco Caldeira Castelo Branco expulsou os franceses do Maranhão e avançou para o norte. na baía do Guajará. fundando a cidade de Santa Maria de Belém. enquanto os portugueses se mostravam mais interessados em suas povoações no litoral sul do Brasil. franceses. derrotando forças combinadas de ingleses. irlandeses e holandeses vão aparecer e fundar fortificações e povoados. Pedro Teixeira. que permitiram o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis. os portugueses esmagam os últimos postos dos ingleses. irlandeses e holandeses ainda existentes. os franceses no Maranhão e os holandeses nos rios Gurupá e Xingu. Em 1604. como representação . do oceano Atlântico em direção aos Andes . os portugueses se tornaram os ocupantes indisputáveis da Amazônia. com a morte de Dom Sebastião. Orange e Nassau. Desde 1595. ofereciam ao mundo uma nova cosmogonia: dramaturgia de novas vidas ou espelho de novas possibilidades. Em 1850. depois da primeira viagem de sir Walter Raleigh ao Orenoco. Em 1599. chega a vez dos outros europeus. Numa das batalhas. Em 1623. no entanto. rei de Portugal. os ingleses demonstraram interesse em estabelecer plantações na Amazônia. a Espanha anexa o país e fica soberana toda a península ibérica. sir Thomas Roe navega rio Amazonas acima. tais como a dos irlandeses na Ilha dos Porcos. criando duas colônias na boca do rio. Ingleses. tropas irlandesas se entregam. franceses e holandeses. eles navegaram sem problemas através do rio Amazonas e estabeleceram dois fortes.

em "Nuevo Descubrimiento del Gran Rio de las Amazonas". La una de enanos. y son tributarios a estos Tupinambás (. Quase cem anos tinham se passado desde Orellana. entre otras. Quando a aventura espiritual passa a se exercitar como um plano de saque e escravização. Em todo caso. quando Pedro Teixeira despontou em Quito. de sorte. tinham morto os portugueses com morte violenta para cima de dois milhões de índios. este será apenas transferido da zoologia fantástica para um capítulo do direito canônico. É o momento em que a região vai ter seu universo pluricultural e mítico devassado e destruído. de que agora apenas se acham as relíquias. não veremos surgir um Bartolomeu de Las Casas que grite contra o genocídio como prática constante dos colonizadores. viuen. logística e organização dos portugueses. que se llama Guayazis. O escárnio do índio como ente primitivo e bárbaro instaura-se na moldura da paisagem paradisíaca. dos naciones.. recebido com muitas festas e mal-disfarçada desconfiança pelos espanhóis. O CHOQUE CULTURAL NÃO CESSARÁ MAIS É importante que nos detenhamos nesse choque da história para notarmos como os povos originários da Amazônia.. Mas é o próprio padre de Acuña quem vai relatar ter encontrado tropas de portugueses preadores de índios até mesmo nas lonjuras do Tapajós. que tudo tinham contra si. faziam deles quanto queriam. aparece nos relatos do século XVI como parte da conveniência em massacrar a realidade. . que chegando os brancos a alguma sua povoação. e se eles estimulados o matavam. fazendo pela primeira vez a descrição sucinta dos habitantes das margens do Amazonas. passam a ser o objeto do colonialismo na primeira e decisiva subjugação. e bastante para se mandar logo contra eles uma escolta. a la vanda del Sur en Tierra firme. de suerte quien no conociendo los quisiese seguir sus huellas. E. O padre Christobal de Acuña escreveu os relatos dessa expedição. todo esse vai-e-vem de europeus ensandecidos pela cobiça tinha sido pouco percebido. que havia tanta facilidade nos brancos em matar índios.. Eu só direi. e quão juntas as suas aldeias. mais humanista que os zelos legalistas dos preadores: "(. o padre Christobal de Acuña (1641) já havia reduzido o índio à categoria da zoologia fantástica: "Dizen que cercano á su habitación. desmontado pela catequese e pela violência e lançado na contradição. Os anos despreocupados dos povos indígenas tinham chegado ao fim. quão numerosas as suas povoações. João Daniel.foi exemplo de disciplina. la otra de una gente que todos ellos tienen los pies al reués. vítima da perseguição pombalina. como é possível pelo menos estabelecer a forma segundo a qual esses escritos constituíram uma primeira demonstração de expressão típica de uma região lançada na contradição? Afinal. em "Tesouro Descoberto do Rio Amazonas". o jesuíta João Daniel (1776).1 Esta exposição pública de uma suposta natureza aberrante do índio. de um aparente fatalismo tão contrário ao otimismo expansionista da contra-reforma. como em atar mosquitos. sem dúvida. fora os que cada um chacinava às escondidas. Llámanse Mutayus. força participante do ministério da região.)". e com tal excesso os índios? Podem ver a resposta nos autores que falam nesta matéria. com a circunstância de que estavam em tal desamparo e consternação os tapuias. posição que muito honra o pensamento espanhol.. quando acontece um desentendimento sério entre o destino terreno e a preparação do índio para o céu. os portugueses carregavam.. tan chicos como criaturas muy tiernas. como bem podemos notar no mais esclarecido dos cronistas.)"2 Contra aquele mundo anterior ao pecado original. E se os curiosos leitores perguntam: como se matavam tão livremente. era já caso de arrancamento. Deste cômputo se pode inferir quão inumeráveis eram os índios. Veremos. Para a maioria dos povos da Amazônia. caminaria siempre al contrário que ellos.) só desde o ano de 1615 té 1652. morrerá na prisão por representar uma corrente de pensamento mais próxima do Renascimento. como refere o mesmo Padre Vieira. que a ferro e fogo tudo consumia (. vinda de uma tradição medieval já identificada. será negada sempre sua alternativa como cultura. Durante a colonização como era o vale pensado? Como os relatores organizaram a figura da região? E. se é verdade que as coisas reveladas possuíam um valor além do relatório. O índio nunca terá voz.. debates escolásticos sobre a natureza humana do índio.

ao longo da conquista do vale pelos portugueses. os portugueses. quando lhes propõe os mistérios da fé. maias e astecas. mas como estes favores são mais raros. conquistadores ibéricos não foram sempre os demoníacos destruidores e assassinos da negra legenda. gritaram . Mesmo João Daniel. OS DIFERENTES MODELOS COLONIAIS DOS ESPANHÓIS E PORTUGUESES Os portugueses mais do que os espanhóis. Não somente os portugueses não se defrontaram com culturas militarmente organizadas como a dos incas. senão o diabo naquele sinal do estrondo. como procedem sempre os espanhóis. como descreve a legenda branca. Na empresa colonial.) Bem sei. souberam manipular o cristianismo como uma ideologia do mercantilismo. que podia ser algum anjo.. antes de chegar o prazo da sua torna viagem. e a prática da escravização daqueles homens desnudos e que pactuavam com o diabo era. Partilhando e alimentando-se dessa mística agressiva. fica menos verossímil este juízo". dos que estavam no fogo um grande estalo. E. e muitas outras semelhantes profecias bem se infere. eliminando sempre os pruridos iluministas que tentassem se infiltrar na visão da terra conquistada. sem se preocupar com a validade ou não do método da colonização portuguesa nos séculos XVI e XVII. porque o demônio lhes ensina o contrário (. e poucos os merecimentos para eles. Era conveniente que os relatos se aproximassem da natureza e se afastassem dos simulacros de assustadora humanidade. o outro. já que esse fato é hoje inexorável. especialmente em tapuia. e como era zelozíssimo. Os povos amazônicos tinham uma concepção mítica do mundo. não consegue escapar dessa certeza: "(. Essas observações seriam ociosas se levantadas do ponto de vista ético e se os seus efeitos já tivessem cessado. E quem lho disse. aí vem o padre! . lances de alucinação e febre de saque. sem ser esperado. e estalo do pau? Desta. estando os primeiros à roda de uma grande fogueira deu um pau. uma prática justa. nem os cavaleiros e santos da cruzada espiritual. porque daí a pouco espaço chegou.aí vem o padre.3 A LÓGICA DA CONQUISTA FORMOU A COLONIZAÇÃO Os conquistadores trabalhavam com paixão. O conquistador espanhol. como traziam uma concepção estruturada para se apossar da terra e nela se estabelecer como senhores. é equiparável a crueldade de um Bento Maciel Parente à ingenuidade de um Frei Gaspar . Mas as conseqüências ideológicas e históricas que disso se formaram merecem renovar a polemica que começou com o próprio frei Bartolomeu de Las Casas. e dispor estes. partiu outra vez para o centro do sertão a praticar outras nações. que já por si mesmo. é claro. e descido do mato uma nação. Eis que um dia. só podemos rever uma postura em relação aos seus efeitos.) Tinha este missionário praticado. sendo o fim preciso a conquista de novas regiões extrativistas e agrícolas. fazendo constantes apelos à idéia de serviço (de Deus e ao rei). Não se vê.e não se enganaram. Eles tinham que partilhar de tudo e nunca suscitar conceitos fora da mecânica teológica. em outro nível. que se estende muitas vezes em denúncias e acusações contra os leigos preadores e que. Era a luta entre o "logos" e o "homem autoritário". ampliou consideravelmente o seu significado. de cuja comunicação nasce o não acreditarem aos seus missionários. aqueles que estavam no limbo da luz divina.. A bem da verdade. o reverso da humanidade. se aproxima da etnografia como se conhece hoje. Eram selvagens concupiscentes e com poucos merecimentos. e já (por) pactos comunica muito com eles o diabo. os cronistas escreveram a interpretação necessária para os portugueses se tornarem verdadeiramente ofensivos. e as obrigações de católicos.em suas caravelas e na ponta de seus arcabuzes. uma teologia aguerrida. depois de arrumar. quando trata dos índios. Os índios estavam confinados ao capítulo da queda e da infidelidade teológica original. Os relatores não podiam escapar desse caráter nem podemos obrigá-los a contrariar uma estrutura fechada como a da empresa portuguesa. a prosa da verdade teológica do mundo sobre a terra e sua gente submetida. e ouvindo-o os tapuias... estreitando o corredor de observações dos relatores. para eles.

que colocaremos as vossas cabeças nos mastros (. frutas deliciosas e animais curiosos pareciam dizer o quanto a região deveria dobrar-se ao jugo colonial. E somente muitos anos mais tarde. a louvação da natureza que Deus doara aos conquistadores. que por viço se pode andar descalço. que formavam uma tribo só de mulheres guerreiras. é que foi possível levantar algo do véu que embotava as marcas originais da Amazônia originária. Essas narrativas não somente se identificavam com as marcas da colonização.. os filhos degradados da Torre de Babel. a posse dos colonizadores ibéricos já estava ungida nessas similitudes. E este Rei que pedia e tomava esta mercê. mas também com sua linguagem. devia ser louco. As narrativas contavam sobretudo aquilo que Deus havia designado na nomeação da Gênesis. pouco montuosa e tão branda. e relatadas todas as experiências: "(. separados e castigados da Comunhão dos Santos. criatura que vivia no espaço vazio deixado na memória pela dispersão da humanidade. A conquista permanece uma figura de retórica e a narrativa é fechada sobre si mesma. reconhecida com veemência o seu direito a ela: "Concordamos que há um só Deus. de um tuxaua da região do Sinu. sob a experiência de cientistas e viajantes ilustres. de ser o Senhor do Universo e que havia feito mercê destas terras ao Rei de Castela. vinha daqueles homens selvagens. Assim. É por meio desse jogo que a louvação da natureza exuberante tem início. são apanhados.4 Tudo é mantido exteriormente. pois dava o que não era seu. livres dessa preconceituosa teologia. este Papa somente poderia ser um bêbado quando o fez. que aqui devia ser o Paraíso de deleites. e foram de parecer que seria inabitável). ainda que carregados de preconceitos em relação ao clima e ao povo. Mas o índio também possuía memória que inquietava e. para que a linguagem reconhecida se transformasse em política. depois que a experiência mostrou o desengano.. isto é. render-se. Sendo os índios também derivados daquela humanidade esquecida da diáspora. houve autores que imaginarão. pois pedia o que era dos outros. Os conquistadores viram e observaram dos índios a vivência nas matas.de Carvajal. mas a região continuará a ser o que sempre foi. A INQUIETANTE PRESENÇA DOS ÍNDIOS O desfio. onde nossos primeiros Paes foram gerados". integrálos na empresa econômica da colonização. os ecos da simulação. se não dava ao hábito de louvar a natureza. capitulando virgem aos espanhóis e portugueses.) golfeira e muito criançola. Por isso. Bastava que o Papa decretasse solenemente um tratado. Assim como o rio era grande e as árvores possuíam realeza. e o nexo da analogia. Os relatores atravessaram este maravilhoso acervo humano sem ao menos se dar conta de que ele poderia dar algo ao futuro. na atual Colômbia. desconcertavam os conquistadores. toda cheia de grandíssimos arvoredos que testificam sua fecundia. Pois venham tomá-la. além de reconhecer e classificar o visível. A EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA DO DIREITO COLONIAL Terra golfeira e muito criançola. Deste clima e deste terreno debaixo da Zona tórrida (de que os antigos não tiveram notícia. châ. toda a espessura do exterior. As maravilhas naturais eram um sinal da certeza absoluta da transparência teológica do mundo. que fechava os olhos às chacinas e torturas perpetradas contra os índios para escrever fantasias sobre as lendárias "amazonas". exatamente aquilo que os povos indígenas preservavam fragmentariamente da primeira . A natureza amazônica surgia para o cronista da mesma forma primeira em que Deus a havia legado aos destinos do mercantilismo..)"5 Respostas como esta. cenário exótico. paraíso de deleites. sustentado e informado por essa prova que mantém a região a distância e louva o detalhe. doar-se ou integrar-se para que a empresa tivesse o sucesso que "El Rei" e o mercantilismo esperavam. mas quanto o que diz o Papa. era preciso trazê-los à força para a Aliança de Deus.. porém. levava os cronistas a desvanecer o direito de posse do índio.

6 Antonio Vieira assim revelava a diferença superficial dos interesses religiosos coma dinâmica comercial da província. É um dos raros momentos de variante . em que "os homens são uma gente a quem os rios lhes rouba a terra" e fala dos "destroços e roubo que os rios fizeram à terra". o conhecimento da natureza humana elaborado pelos doutores da Igreja e que se esgotava na graça divina. na "História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Grão-Pará". um fenômeno suficiente para escapar da similidade teológica. sorverem as palavras da nova lei trazida pelo cristianismo. padre João Daniel ou o capitão Symão Estacio da Sylveira especializaram os conhecimentos. põe em xeque as estruturas da sociedade européia. na sua "Descrição dos Estados do Maranhão. escapa dessa unidade o padre Antônio Vieira. que chegou ao Pará em 1655. Esse importantíssimo representante da crônica colonial brasileira fica profundamente escandalizado com a inércia e a promiscuidade da capital provincial do vale. para tudo ser moeda falsa". como se conhece hoje. feroz defensor que era da utopia jesuíta. Depois. múltipla e dividida. nos "Ensaios" de Michel de Montaigne (1580). obsoleta e feudal. ou seja. para dela extrair o "homem natural". e os novelos armam-se sobre muito. em Voltaire. e em José de Morais. e na novela de Voltaire (1767) "O Ingênuo. em Ruão. O melhor exemplo está no capítulo XXXI de "Dos Canibais". e segundo a linguagem econômica do mercantilismo. Encontramos essa viagem também em Maurício de Heriarte. Foi a partir da comparação idealizada desses bárbaros à margem do cristianismo com o cristão civilizado que a cultura européia do Iluminismo criou o conceito de "homem natural". pois a observação científica. Todos os cronistas trabalharam nesse sentido. na "Crônica da Missão dos Padres da Companhia e Jesus no Estado do Maranhão". do direito universal de todos os povos se unirem livremente em Cristo. imóvel e perfeita. da América do Norte. Antes de se opor aos baixos costumes dos colonos. versão leiga da natureza humana. perecível. Essa primazia da crítica de costumes em Vieira não é. um novo índio vestido pelos enciclopedistas. Esse rigor teológico domina em sua segurança todo o período da conquista: não refletir o que foi visto nos elementos "selvagens". ele mergulha nas impressões da natureza. que as novelas armam-se sobre nada. Frei Gaspar de Carvajal. que põe também em destaque esse privilégio teológico sobre a linguagem. em João Felipe de Betendorf. que engloba o que vê num texto de muitas citações e figuras de vizinhanças. um índio hurão. ao mesmo tempo segundo a forma teológica. só aparece no fim do período colonial. apesar de tudo. esses filhos desgarrados de Israel precisavam ouvir a boa nova. Os racionalistas do século XVIII sublimaram a voracidade da conquista do Novo Mundo. num outro extremo do costume literário de ver a região. mas o que os europeus sabiam da natureza humana. mais interessados em contabilizar os ganhos que embelezar o reino de Deus: "Novelas e novelos são duas moedas correntes desta terra: mas tem uma diferença. Como os judeus. revelando em suas páginas um sabor crítico muito especial. simplesmente pelo fato de levar a sério e às últimas conseqüências essas mesmas estruturas. em que realmente o índio permanece ainda distante. e mostram-se horrorizados comas diferenças de classe. ressurgido como legislador puro diante da legislação romana. índios tupinambás do Brasil visitam a Corte de Carlos IX. ele investe contra a corrupção moral dos colonos.nomeação teológica. Daí o rigor das investidas militares e a forma de crônica com projetos de observação etnográfica. Gurupá e o Rio das Amazonas". O PADRE ANTÔNIO VIEIRA De certo modo. subordinado tudo à prescrição da contra-reforma. Mas antes desse renascimento racionalista. História Verdadeira". Christobal de Acuña. Pará. No texto de Montaigne. sem olhar para os índios preados e descidos. o "selvagem" atravessou o projeto de restituir os fatos ao seu concatenamento teológico.

reserva natural da humanidade". após diversas tentativas . Discurso colonial e discurso preservacionista são aparições do mesmo estoque de arrogância. revelou com clareza o destino da colonização ibérica: uma moeda falsa circulando na região. também. O espírito simulador do discurso colonial legou o velho e gasto conceito de "Amazônia. Na costa do Brasil as tentativas iniciais de usar o braço indígena foram substituídas quase imediatamente pela importação de escravos africanos. O MODELO COLONIAL HONLANDÊS Em 1667 uma parte do território da Guiana. o processo histórico da Amazônia está perfeitamente inscrito no grande choque que foi a chegada dos europeus no continente americano. comandados por Crijnssen. Na mão esquerda. Do mesmo modo como em outras regiões marcadas pela conquista. é invadida e conquistada pelos holandeses. a história da Amazônia neste aspecto pouco parece diferir das outras histórias continentais. as bases ideológicas que lhe davam consistência. Apenas em algumas áreas da colonização. hoje esse tipo de discurso apresenta-se com a mesma retórica salvacionista e o mesmo esforço reducionista em relação aos nativos. como na Amazônia. TERCEIRA PARTE A COLONIZAÇÃO O CENÁRIO DA ECONOMIA COLONIAL O período colonial deixou traços profundos na Amazônia. o relatado do observado. pondo o cronista em situação delicada. A agricultura tropical de trabalho extensivo dos povos indígenas. sua permanência é hoje a comemoração do assalto indiscriminado à floresta. onde o trabalho escravo era impraticável. Perdendo suas bases agressivas. mas uma natureza de exuberância utilitária. No geral. essa literatura repete-se quatro séculos e meio depois. Contraditoriamente. O LEGADO DOS CRONISTAS E RELATORES A literatura colonial de crônicas e relações legou uma forma determinada de expressar a região. o processo de extermínio dos índios e a violação na natureza por uma lógica econômica ensandecida.nos discursos. das metáforas discrepantes que pintam tudo em levitações da gramática e do significado. Ao não distinguir propositadamente o visto do acontecido. o Suriname. Mas esse desagradável acidente. Sabe-se. os europeus continuaram tentando forçar os índios para dentro da lógica econômica da colonização. Ali. Os supostos avanços do século XX não foram capazes de destruir os laços da região com a terrível e fascinante experiência colonial. para que o homem das selvas nunca se liberte do primitivismo. particularmente curiosa e assustadoramente viva. ainda mais conformista e mistificadora que antes. não se coadunava com o extrativismo e a agricultura de trabalho intensivo dos europeus. Na mão direita. numa anacrônica dimensão equatorial do barroco. o bálsamo de um discurso que não é mais que a velha tradição do banquete de palavras. que a fúria de Vieira foi menos fruto da observação que uma irritação direta e justificativa em relação à vigarice de certos comerciantes quanto a seus interesses particulares. construindo-se quase sempre numa louvação desenfreada da natureza exuberante. As investidas dos conquistadores plasmaram as razões históricas e sintetizaram a controvertida trajetória dos modelos coloniais na região. Portugueses e espanhóis enfrentaram a escassez de mão-de-obra e encontraram nas culturas indígenas uma resistência muito grande para se adequar a uma economia de salários. importante num quadro sempre uniforme. altamente desenvolvida. abrindo as portas à sua exploração econômica. da transformação da selva em deserto e da tentação de vergar a espinha para as diversas ações retóricas de solidariedade que deseja congelar o primitivo.

café. que os holandeses montaram no Suriname. já existia uma sociedade de quatro mil habitantes. Em 1750. Tendo sido o Suriname confirmado como colônia da Zelândia-Netherlands. comandando um grupo de protestantes franceses refugiados na Holanda. que investiu e deu um novo impulso ao território. se comparado com os modelos agrícolas de outros territórios. mas as disposições do Tratado de Breda (1667) davam posse legal aos holandeses. centro urbano protegido pelo Forte Zelândia. Em maio de 1625. Nos dez anos seguintes. Muitos deles retornarão ao continente americano. até a linha do Maranhão. do ponto de vista territorial e fundiário. a sudeste. Finalmente. a expedição composta de oitocentos colonos desembarca na Guiana. O governador Van Sommelsdyck. La Ravardiere retorna com uma forte armada e ocupa a ilha do Maranhão. Novamente a instalação dos franceses é dificultada pela hostilidade dos nativos. a Sociedade do Suriname. em qualquer parte do mundo. . que ia da boca do Orenoco. Em 1603. os sobreviventes franceses embarcaram num navio holandês e regressam à Europa. Jessé de Forest e Louis le Maire. que haviam trocado sua possessão na ilha de Manhattan por aquele pedaço da Amazônia. Em 1623. fundado por Royville. Oito anos depois. produzindo dez mil toneladas de açúcar. um dos sócios da empresa. de onde os franceses foram expulsos em 1615 por tropas portuguesas. A expedição. cem toneladas de cacau e cinqüenta toneladas de algodão. com algumas tribos confederadas em luta contra as tribos Caribe da região de Caiena. A produtividade agrícola foi bastante aumentada com as drenagens em larga escala do litoral próximo a Paramaribo. Cacau. o Suriname foi vendido a uma empresa. mas não conseguiram impedir que a colônia entrasse em decadência. os holandeses ocuparam as fazendas deixadas pelos ingleses. A expedição. atraiu capitais de comerciantes de Amsterdã e garantiu o suprimento de braço escravo. O MODELO FRANCÊS Enquanto os ingleses e holandeses se limitaram a fundar pequenas colônias no estuário do rio Amazonas. como as fazendas da América do Sul. em 1683. cana-de-açúcar e algodão foram as culturas prediletas durante quase dois séculos. organizou a colônia. O cardeal Mazarino concede o território da Guiana a um grupo de doze nobres. limitase a recolher pau-brasil. em 1653. Finalmente. A alta produtividade e os lucros auferidos pelos colonos do Suriname com que os ingleses os atacassem. com poucos homens para enfrentar a hostilidade dos nativos. fundando a cidade de São Luís. Esses "Senhores Associados" vão dar tônica do modelo colonial francês. abriu novas áreas de colonização. encontra a região em plena guerra. cujo objetivo era o estabelecimento de colonos europeus e a conversão dos selvagens. Esse modelo de colônia-empresa.de colonização por parte de ingleses e franceses. são enviados pela Companhia das Índias Ocidentais para fazer reconhecimento e fundar colônias na costa da Guiana. que trabalhavam em pelo menos cento e oitenta fazendas agrícolas. inclusive de escravos. era em escala bem modesta. a França concebeu um ambicioso projeto de conquista do vasto território. sete mil toneladas de café. arma dois navios e chega ao Oiapoque em abril do ano seguinte. Mas a alta produtividade permitiu que comerciantes holandeses oferecessem seus produtos tropicais a preços que tiravam o sono de seus concorrentes. morre Jessé de Forest e os franceses não conseguem evitar envolver-se nas constantes lutas intertribais. participando da fundação da cidade de Nova Iorque. ao norte. René de Montbarrot recebe do Rei da França o título de Comandante Geral para o Amazonas e Trinidad. muitos fazendeiros britânicos abandonaram suas fazendas e fugiram para Tobago. Naquele mesmo ano. homem de grande experiência administrativa. levando seus capitais e escravaria. os franceses tentam a conquista de uma parte da Amazônia de forma mais organizada. o Suriname tinha aproximadamente quinhentas fazendas altamente industrializadas. Em outubro de 1624. comandada por La Ravardiere.

bem armada e treinada. Em meio a essas disputas mortais. nos vales de Sibundoy. que lhes deram três grandes pirogas. todos eles vivam na ilusão de seus títulos e no delírio orgulhoso de seus poderes feudais. Em pouco tempo a situação ficou insustentável e os índios. os franceses desistem de ocupar o vale do Amazonas. milhares de índios sucumbiram a epidemias de varíola. quase cem anos depois. Homens brutais e autoritários. em 1697. e. Em 1769 os missionários abandonados a área e os espanhóis e seus sucessores somente regressaram por volta de 1860. os oitocentos colonos se viram tratados quase como escravos e. O MODELO ESPANHOL Barrados pelas muralhas andinas que dificultavam a penetração no vale amazônico. com a valorização da borracha e de outros produtos do extrativismo. foram obrigados a pedir misericórdia aos índios. sob comando de Antônio de Albuquerque. Royville é assassinado em sua cama. os incas construíram uma estrada pavimentada que. será a única potência européia a manter um enclave colonial na Amazônia. perdidos nas mudanças do Renascimento. inclusive o Padre de La Mousse. dos aproximadamente dez mil índios que viviam ali no momento do contato. e o território compreendido entre o Oiapoque e o Araguari ficará em litígio por dois séculos. retoma as duas fortificações e prende todos os franceses. as primeiras tentativas aconteceram entre 1535 e 1596. os espanhóis praticamente abandonaram a região após sucessivos malogros ocorridos ainda no século XVI. ligava aquelas cidades incaicas a outras colônias incas no sopé dos Andes. No final do século XVIII. até que uma arbitragem do Conselho Federal Suíço se pronuncia. outros assassinatos e sumárias exceções. o comando da expedição acaba nas mãos de Vertaumont. que registraram em seus mitos aqueles primeiros encontros. Com essa expedição malograda. com a expedição . e não se deve estranhar que tenham tentado repetir na selva tropical o velho sistema feudal já em ruínas na Europa. que tentavam restabelecer suas identidades após o domínio incaico e recebiam os espanhóis como aliados. Poncet de Brétigny. Os colonos pagaram. do sul ao norte. Mas em nenhum momento os missionários foram recebidos pacificamente. muitos foram dizimados por enfermidades e. além da adesão das tribos carchi e imbabura. ocupa sem resistência os fortes portugueses do Paru e Macapá. entram novamente no vale do Amazonas. e na América: a Guiana dita francesa. A França. Royville. que pretendia fundar missão entre os índios. um contingente de soldados portugueses. Na área dos rios Putumaio-Caquetá e nas terras adjacentes às cordilheiras ocidentais. A entrada dos espanhóis se deu com a ajuda forçada dos povos de cultura quíchua que viviam na região no rio Napo. desesperados pelos constantes ataques e maus tratos. algumas semanas depois. sem esquecer o magnífico complexo megalítico que chegou até os dias de hoje. foram obrigados a praticar pilhagem contra os índios. uma vez na Guiana. Em 1669 vários padres foram mortos. deslocando-se de Quito e estabelecendo contatos com os povos indígenas daquelas paragens. mas a alegria dura pouco porque. Segundo a tradição oral dos índios de Narino. então. algumas missões religiosas se aventuraram apenas no século XVII. Na alta Amazona Colombiana. como os siona. Uma pequena tropa. Os franceses conseguiram se estabelecer em Caiena. estabelecendo um intercâmbio comercial e cultural. do ramo tucano ocidental. apenas um mil e quinhentos tinham sobrevivido.Os nobres senhores eram homens da Idade Média. A ocupação espanhola tem início em 1544. suas disputas degeneraram em mortes antes mesmo de desembarcarem na Amazônia. Durante o reino do inca Huayna-Cápac. depois de uma série de motins. no entanto. penetraram lentamente na região do Oiapoque. a favor do Brasil. Colômbia. quase mortos de fome e miséria. com as quais navegaram até o Suriname. onde pediram refúgio. um fidalgo cruel e vingativo. e. decidiram massacrar os franceses. sob ordens do governador Férolles. quase seguindo os passos dos antigos incas. em 1900. um preço altíssimo: seiscentos perderam a vida e os sobreviventes. várias expedições foram enviadas ao território compreendido pelos vales do Alto Napo e Misagualli. entre 1749 e 1762.

construíram fortificações. o que constituiu um dos aspectos peculiares a essa parte da Amazônia. será também interrompido durante longos anos nessa área. povoaram vilas e cidades e procuraram forçar a adesão dos elementos nativos para a ordem social da colônia. O MODELO PORTUGUÊS Sabemos que a expansão portuguesa em sua empresa colonial nos trópicos não foi mero transplante. exigindo o esforço conjunto dos grupos institucionais e segmentos da sociedade civil para consolidar. Os espanhóis. não tinham uma administração centralizada para organizadamente penetrar e ocupar a Amazônia. especialmente no rio Caquetá. união da vivência colonial lusitana com as coisas tropicais. burocratas e degredados. nobres menores. Por isso. A EVOLUÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA . E é por isso que o grande trabalho de transculturação da Amazônia pela colonização portuguesa é ainda hoje o fenômeno mais expressivo e duradouro. Assim. que não permitia qualquer intento colonizador mais planificado. como militares. no final do século XVI. centro misterioso do continente. especialmente jesuítas e franciscanos. O modelo espanhol de enclave militar de mineração não ajudou a expansão de seu domínio ao grande vale. Mas o projeto colonial dos castelhanos. Assim. Como afirmou Capistrano de Abreu. letrados. A região do Alto Orenoco-Rio Negro foi integrada ao programa colonial espanhol. Para completar. Mas a opção pela mineração não parecia errada num primeiro instante. que optou por um modelo colonizador que dava ênfase à mineração e deixava em segundo plano o extrativismo ou a agroindústria. o final do século XVI é particularmente turbulento nesse pedaço da América. utilizando de maneira prática os conhecimentos operacionais conquistados pelos colonizadores no curto espaço da penetração. encabeçada por Rodrigo de Avendano. para que assentamentos como o de Mocoa não se perdessem. iniciado no século XVI. Os sonhos delirantes do El Dorado sempre apontaram para o planalto guianês. por exemplo. Portugal não entregou a empresa colonial a homens de negócios. embora agisse com aparente imediatismo. Gonzalo de Oyón e a já conhecida loucura de Lope de Aguirre.de Francisco de Benalcázar. certeira e irreversível. funcionários graduados. naquelas áreas. os missionários vassalos à coroa espanhola trabalham com afinco na redução de índios. os espanhóis decidem-se pelo modelo de fortalezas militares e guarnições. ficando a tarefa de avançar pelas selvas e rios imensos aos missionários. No século XVIII. estendendo timidamente seus domínios na Amazônia apenas nas regiões vizinhas aos Andes. O problema era o frágil equilíbrio entre os poderes institucionais e civis. que vai ser decapitado pelo crime. Escolheu homens pertencentes aos quadros da hierarquia administrativa. nem bem o sítio de Mocoa começa a produzir ouro. A colonização portuguesa. Em 1559 é encontrado ouro nas povoações de Mocoa e San Juan de Trujillo. gerando sublevações e guerras intestinas como as de Hernandez Girón. no entanto. assentamentos mais permanentes e militarizados. Desde o início. mas em 1790 uma rebelião de todos os índios daquela área arruína com as missões. os portugueses aplicaram na Amazônia um sistema que tentava reduzir a colônia a um mero prolongamento produtivo do Reino. onde supostamente estariam o "lago" Parima e a "cidade" de Manoa. um processo que durará meio século e que os manterá nos contrafortes andinos. devido ao processo de crise progressiva em que entra o Estado colonial espanhol. as autoridades descobrem uma conspiração separatista. em grande parte foi obra de fusão. como resultado do movimento de expansão de grupos interessados na busca do EL Dorado e do trabalho dos missionários. com líderes dominados pelo que se denominou de variante americanizada do utopismo. pela geopolítica que pôs em disputa o território entre as potências européias que desejavam ficar com a Guiana. cuidava para que essa experiência fosse profunda.

A colonização portuguesa.Caeté. Era o início do processo de caboquização dos índios. composto por sete capitanias: quatro pertencentes a donatários . o território português na Amazônia era chamado de Estado do Maranhão e Grão-Pará. passam a dominar os povos indígenas frouxamente organizados em termos de unidade política. Com a fundação do Forte do Presépio de Santa Maria de Belém (1616). cujos rigores eram verdadeiros desafios. Em 1757 assume o fidalgo Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Mas eles não se limitaram às operações militares: além do estabelecimento de postos militares. apesar de receber reforços e constante apoio dos portugueses do Maranhão. Os portugueses. CONSOLIDAÇÃO DO TERRITÓRIO Entre 1600 e 1630. os portugueses violaram deliberadamente o tratado e se aproveitaram do fato de Portugal estar sob o domínio espanhol. expulsão dos outros europeus e ocupação colonial. e três diretamente pertencentes ao Rei . habitantes das margens do rio Amazonas e de seus afluentes próximos. os portugueses consolidaram o seu total domínio da boca do rio Amazonas. mandou tropas de resgate. estabelecimento do sistema de missões religiosas e organização política da colônia. A RESISTÊNCIA DOS POVOS INDÍGENAS Mas a implantação de um processo colonial não é tão simples quanto a aventura da conquista. É o momento do reajuste sócio-econômico dos grupos nativos aos padrões da exploração mercantil. e atravessaram a linha do Tratado de Tordesilhas. criação do sistema de Diretorias de índios e esforço para alcançar o avanço do capitalismo internacional. que sediavam bispados. irlandeses. fixando uma sociedade que vai mover todo o seu arsenal de medidas administrativas para organizar os povos indígenas e moldá-los às necessidades da economia européia. os tupinambá não estavam mais aceitando a presença dos portugueses e os colonos relutavam em se instalar em região tão insegura. O Maranhão e Grão-Pará contavam com duas cidades. José da Serra (1732-1736).Pará. o Marquês de Pombal. O resultado desse esforço será a destribalização dos grupos mais expostos. . e reunidos nas vilas e aldeias espalhadas de maneira estratégica. Avançaram para o norte. Não demorou muito para os portugueses começarem a ocupar território supostamente espanhol. crise e estagnação do sistema colonial. etc. moveu guerras justas e incentivou o descimento de índios para os centros coloniais.). O forte de Belém. e mais sete vilas e diversos lugarejos e freguesias espalhadas especialmente na parte oriental do vale. João de Abreu Castelo Branco (1737-1747) e Francisco de Mendonça Gurjão (1747-1751). Na boca do rio Amazonas. nas administrações dos Capitães-Generais João da Maia Gama (1722-1728). os próprios portugueses não estavam se entendendo: havia sinais de indisciplina e os índios aldeados começaram a perder o medo dos soldados. A desordem chegou a um ponto que os índios mataram alguns portugueses e cercaram o forte. Índia. com vivência colonial já formada (África. de 1757 a 1798. foram espalhando feitorias e missões. que politicamente vai de 1600 a 1823. O trabalho de dar combate e expulsar ingleses. O processo de aculturação e extermínio gradativo se instala. sob a desconfiança dos espanhóis. de 1800 a 1823. com o incentivo e beneplácito do próprio rei da Espanha. Cada governador de Belém cuidou de organizar bem-equipadas expedições de reconhecimento e ocupação. Sebastião José de Carvalho e Melo. Joanes (Marajó) e Cumã. até finalmente surgirem como trabalhadores livres numa economia extrativa colonial. de 1700 a 1755. pode ser assim dividida: 1600 a 1700. Alexandre e Sousa Freire (1728-1732). maranhão e Piauí. quando esses nativos foram retirados das mais diferentes culturas e modos de produção. Santa Maria de Belém e São Luís do Maranhão. Cametá. Mas a consolidação administrativa do território somente se daria durante o século XVIII. teve problemas para se sedimentar. Até 1757. irmão do homem mais poderoso de Portugal. franceses e holandeses ocupou os portugueses por quase dez anos. No início.

avançou pelas aldeias de Guanapus e Carapi. de acordo com as acusações dos franciscanos. Foram bem recebidos pelas autoridades e contaram que tinham partido de Quito coma tarefa de organizar uma missão entre os índios do rio Napo. Para completar o serviço. chegaram numa longa canoa. regressando ao Equador. Quando era governador do Ceará. Essa tropa caiu sem piedade sobre os tupinambá que estavam reunidos na aldeia fortificada de Iguape. Diogo ataca a aldeia do Caju. As autoridades do forte . Os franciscanos se chamavam Domingos de Brieba e Andrés de Toledo e fizeram um vivo relato da viagem. um homem de temperamento brutal. mandou prender 24 chefes e ordenou que fossem executados imediatamente. descrevendo os diversos encontros com tribos ao longo do Amazonas e como tinham recebido alimentos e ajuda dessas tribos. O aldeamento que Maciel Parente mantinha nas proximidades de seu engenho mais parecia um harém. com uma personalidade que pouco tinha a ver com o rotineiro pragmatismo e o espírito cauteloso que tanto caracterizavam os portugueses. o capitão Bento Maciel Parente conseguiu autorização do Governador-Geral do Brasil. comandou uma tropa de cem soldados portugueses e centenas de tapuios. Apesar de unidos sob o reino de Felipe IV. sangüíneo e exaltado. por exemplo. um terrível caçador de índios assumiu o governo do forte de Belém. os portugueses jogaram na ocupação do grande vale amazônico uma das cartadas decisivas para a manutenção de sua identidade nacional. destruindo-a completamente depois de fogo de bombardas e canhões. cada um deles teve os pés amarrados a duas canoas impulsionadas por remadores em direções opostas. Era Bento Maciel Parente. Os tupinambá estavam derrotados e muitos fugiram. Essa terrível matança ultrapassou os limites e os colonos mostraramse escandalizados. Francisco Caldeira Castelo Branco. preocupado. Maciel Parente não brincou em serviço. fazendo letra morta do Tratado de Tordesilhas. Jerônimo Fragoso de Albuquerque. Em 1637. decidiram descer a corrente e ver o que acontecia. enquanto alguns se renderam em Belém e foram alocados num campo de prisioneiros no rio Separara. todos espanhóis. queimando malocas e capturando índios. para servir de mão-de-obra aos colonos. mantendo uma guerra que durou ter anos e impediu que os portugueses avançassem em direção ao ocidente. mandando incendiar a aldeia e aprisionando muitos tupinambá para vender como escravos em São Luís. Os condenados deveriam ter o corpo rasgado ao meio pela tração de dois cavalos. Os administradores portugueses agiram com grande sagacidade política. Ao mesmo tempo. até chegar triunfalmente em Belém com uma leva de centenas de escravos. mas como não existiam tantos cavalos assim no forte. o governador do forte de Belém. até que em 1626. a maior povoação tupinambá da boca do Amazonas e. depois de suplantar uma desesperada resistência dos índios. armou uma tropa de oitenta soldados arcabuzeiros e seiscentos arqueiros tapuios e avançou de São Luís para o noroeste. E foi contra esse homem que os tupinambá novamente mostraram sinais de rebelião. Em 1619. dois frades franciscanos e seis soldados.Na mesma época. manda o comandante Diogo Botelho e uma tropa de duzentos homens esmagarem a rebelião. Os dois. no entanto. para surpresa dos colonos de Belém. os índios apresaram um bergantim na baía de Guajará e trucidaram quatorze portugueses. ocasionando a saída de Maciel Parente do posto. mas os índios mostraram-se ferozes e a maioria dos missionários desistiu. PORTUGAL É ANEXADO À ESPANHA É interessante como esses primeiros passos dos portugueses na Amazônia são coincidentes com o esforço de Portugal para não ser devorado pela Espanha. destruindo todos os povoados e malocas tupinambá que encontrou no caminho. migrando para o interior do vale do Xingu. Mas os índios não esmorecem e logo se reagrupam com as tribos do rio Guamá. massacra indiscriminadamente. o tratamento que dispensara aos índios tinha sido tão violento que os missionários franciscanos mandaram uma carta ao Rei denunciando-o por matar os nativos de fome e de manter várias índias como concubinas. Sete anos se passaram.

Em 28 de outubro de 1637. . Missas solenes. deixando para a posteridade um número considerável de informações preciosas sobre os povos indígenas que habitavam as margens do Napo e do Amazonas. restituindo à própria região suas experiências nela. Assim. suas milenares atividades agrícolas de sustentação. sob o comando de Pedro Teixeira. sua expedição é recebida com assombro e admiração pelos espanhóis. O braço indígena era largamente utilizado na exploração de produtos naturais . a população indígena tornar-se-ia logo uma das maiores fontes de mão-de-obra para o colonizador. Era fazer viver o novo mundo sua própria linguagem. Em 1689. o jesuíta Samuel Fritz. Pedro Teixeira trazia um observador espanhol. Jacomé tinha ficado preocupadíssimo com a chagada dos franciscanos de Quito e decidiu que havia surgido o momento de os portugueses avançarem pelo rio Amazonas. Quando Pedro Teixeira chega a Quito. e desconhecia que os espanhóis tinham descoberto os ardores nacionalistas do governador Jacomé de Noronha. Ao dar início à viagem de volta. Antes de partir. mas em prol dos interesses da economia portuguesa.drogas do sertão. para impedir a passagem de navios holandeses que desciam do Orenoco para comerciar com os omágua. consistiu em intensificar a expansão do domínio territorial. A mão-de-obra cabocla. E as ordens. Jacomé Noronha entregou a Pedro Teixeira ordens lacradas que só deveriam ser abetas quando atingissem o território dos omágua. A colonização portuguesa. Isso era organizar a vivência colonial no próprio contexto regional. que vai aparecer quase simultaneamente com a independência. em contraste com os mais facilmente adaptáveis indígenas do México e do Peru. o que prejudicava. Sendo o rio Negro uma das áreas mais densamente povoadas naquela época. que também foram homenageados com uma tourada que durou dois dias e da qual até os índios foram autorizados a participar e a matar o touro a flechadas. e o sucesso praticamente encerrou a fase de penetração. num contraposto da geopolítica americana contra o domínio político espanhol sob o Reino de Portugal. foi fruto dessa aculturação tão intensamente forçada pelos portugueses durante duzentos anos. Os portugueses também se preocuparam em fundar seu projeto colonial. quando abertas. tendo sido este aprisionado e remetido a ferros para Lisboa. naturalmente. que certamente não era partidário da presença de um rei Espanhol no trono português. o autor da idéia de armar uma expedição para explorar as terras ocidentais. diziam que avançassem o máximo possível em direção aos Andes e estabelecessem povoações e fortes que delimitassem o território português do espanhol. PEDRO TEIXEIRA Foi justamente o governador Jacomé de Noronha. Frei Teodoro foi o responsável pelo aldeamento dos índios tarumá na boca do rio Negro. a expedição portuguesa partiu do porto de Belém.de Belém enviaram os espanhóis para São Luís. o comandante Pedro da Costa Favela levanta a fortaleza da barra de São José do Rio Negro. No final. o surgimento do caboclo é a prova do sucesso da colonização. Em 1669. onde o governador Jacomé Raimundo de Noronha mandou prendê-los para esconder dos espanhóis de Quito o que tinham descoberto. durante boa parte de sua fase de penetração. SAMUEL FRITZ Mas o período de ocupação territorial não se encerraria sem que antes os portugueses se confrontassem com os espanhóis. o jesuíta Cristobal de Acuña. A colonização portuguesa preocupou-se em interpretar economicamente e depois demonstrar pela experiência concreta. As peripécias de Pedro Teixeira demonstram bem como os portugueses violaram o Tratado de Tordesilhas em quase 1500 milhas. e sua história é o retrato de como os europeus submeteram os pouco cooperativos indígenas da Amazônia. Cristobal de Acuña escreveu um relato bastante completo dos dez meses de viagem. em 16 de fevereiro de 1639. dando origem ao povoamento que no futuro seria a cidade de Manaus. Foi a mais bem-organizada de todas as expedições européias na região. recepções e muitas festas ocuparam os portugueses.

No dia 24 de dezembro de 1709. sem nenhum atendimento. em 1750. mas um surto de malária. Samuel Fritz vai continuar exercendo enorme influência entre os indígenas do Solimões. O século XVII tinha sido quase exclusivamente o século do Engenho de Açúcar. Certa noite um jacaré chegou a subir numa canoa. onde foi recebido e tratado pelos jesuítas. a febre passava e ele podia alimentar-se. o processo de sedimentação da conquista torna-se uma realidade. A solução encontrada foi a de orientar o processo colonial como um sistema defensivo. Os índios do Solimões tinham grande afeição por Samuel Fritz. mas isso não impediu que os portugueses insistissem em manter o território sob seu domínio. Aos trinta e cinco anos. mas sua saúde não fez progressos. Por isso. Samuel Fritz se retirasse para o ocidente e abandonasse a área. a sede secava-lhe a boca. mas que essa questão de fronteira deveria ser resolvida pelas autoridades de Madri e Lisboa. frei Manoel da Esperança. dentro do território demarcado por Pedro Teixeira. decidiu descer o Amazonas e encontrar os portugueses que. dom João V. Em 1687. já no século XVIII considerada primitiva e insegura. OS PORTUGUESES BUSCAM UMA ECONOMIA LIVRE DO EXTRATIVISMO Com a independência de Portugal. e sobre a viagem de retorno. A disputada fronteira da Amazônia ocidental somente foi fixada com a assinatura do Tratado de Madrid. A febre queimava-lhe o corpo. Quando o sol nascia. onde foi tratado com grande carinho. Fritz explicou que estava trabalhando aqueles índios pagãos em nome de Castela. O resultado da expedição. Oito meses depois. chegam de Lisboa ordens reais para que Samuel Fritz regresse. Duas semanas depois. enquanto tais autoridades não tivessem chegado a uma conclusão. um contingente de soldados portugueses desembarcou na localidade. e ele não conseguia dormir porque os jacarés saíam do rio e perambulavam pela aldeia. para tentar atacar o padre que estava na rede imobilizado pela febre. Fritz não teve outro remédio que se retirar para uma região onde hoje é território peruano. o governador do Pará escreveu ao Rei de Portugal que uma tropa de cento e cinqüenta soldados tinha sido enviada para acabar de uma vez por todas com a ousadia dos jesuítas espanhóis. ordenar a total expulsão dos jesuítas espanhóis que estavam entre os omágua e a prisão de Samuel Fritz. Fritz foi levado por índios para a missão dos mercedários. entre 1700 e 1755 os portugueses desistem de forçar a transformação dos índios em mão-de-obra para as plantações. além d destruição das missões e prisão de alguns missionários. Frei Manoel da Esperança aceitou o argumento. quando Fritz estava numa povoação nas proximidades de Tefé. Três anos haviam-se passado. e a prioridade é para a construção de uma rede de missões e aldeamentos. cuja proa estava dentro de sua barraca. obrigaram o missionário a ficar prostrado numa rede. agravado por inchaço nos pés e problemas de verminose. Com eles. que pelo menos assegurasse o domínio da área. Durante os primeiros anos do século XVIII. estavam coletando salsaparrilha na boca do Purus. mas exigiu que. não tivesse ele adoecido numa aldeia dos índios yumaragua. Ao tentar voltar para o trabalho missionário. Mas a realidade e as possibilidades da Amazônia exigiam um outro tipo de economia. segundo os índios. Durante três meses ele penou. mas era durante a noite que a moléstia lhe atormentava. reivindicando essas terras para Castela. a ponto de o próprio Rei de Portugal. as autoridades portuguesas o detiveram. Como Samuel Fritz estava fraco demais para enfrentar a viagem de dois meses pelos Andes. embora não tenha significado nenhuma vitória para Samuel Fritz. quase todos voltados . Provavelmente o jesuíta teria logrado sucesso. agora com todo o apoio real mas acompanhado de soldados portugueses. mandaram Samuel Fritz para Belém. Samuel Fritz conseguia levantar-se.da Bohemia. o Provincial dos carmelitas. foi a quase extinção dos omágua. na cidade de Silves. Os mercedários. Mas os portugueses não estavam preparados para oferecer uma alternativa econômica e nem o reino possuía capitais necessários para tal. era um homem robusto. ele deixou um relato importantíssimo para o conhecimento da região e de seus habitantes no ocaso de uma época de conquistas. começou a organizar missões no rio Solimões. recuperando a saúde. então. além da extrativa.

Mas nos primeiros anos do século XVIII os povos indígenas começam a esboçar novos tipos de resistência e a oposição armada. conseguiu aproximar-se de uma maloca mura e convenceu os índios a deixarem a floresta e virem morar na missão de Santo Antônio. aprisionando-os e seguindo para Belém. missionário jesuíta. É claro que os índios nem sempre receberam os europeus de braços abertos. passaram a odiar os portugueses. o padre João Sampaio. uma série de rebeliões indígenas ocorre na Amazônia. Os mura começaram os preparativos para a mudança. Eram exímios remadores e possuíam enorme capacidade de deslocamento. A produtividade da agricultura era alta. ocupando a região hoje chamada de Autazes. OS MURA Os índios mura tinham emigrado há pouco tempo para o rio Madeira. já que a ênfase era a manutenção do território. além de obrigar os empregadores a fornecer alimentação. ajudando na "conversão" de outros índios e trazendo-os para o povoado. destacam-se dois: a rebelião permanente dos mura e a insurreição das nações do rio Negro sob o comando do tuxaua Ajuricaba. gerando uma enorme tensão na região. . O salário era baixo. Uma legislação real de 1680 regulamentava da seguinte forma os índios trabalhadores. convenceu os índios a embarcarem num bergantim. Dentre os choques entre índios e portugueses. no mesmo lugar. a norma. que os distribuía aos colonos. pela primeira vez. Os primeiros vinte anos do século XVIII foram de subsídio para os colonos da Amazônia. No início. por sinal. deixando povoado em cinzas. A primeira medida foi atacar e destruir a colônia portuguesa da boca do Madeira. aproximadamente duzentos réis. com os índios demonstrando mudanças em suas táticas militares e. embora a organização do trabalho não tenha sido esquecida. uma nova carta real limitava ainda mais o contingente de mão-deobra. tanto dos portugueses quanto na época da Cabanagem. Mas não são apenas os colonos a se enfurecerem. os mura lhe deram combate com muitas baixas de ambos os lados. não hostilizaram diretamente os portugueses. Seis anos depois. na boca do Madeira. utilizando armas de fogo. os mura tornaram-se imbatíveis. essa política de ocupação não poderia durar muito. Padre Sampaio prometeu ferramentas. numa demonstração de que nunca se renderam ou foram derrotados.para a agricultura de sustentação. Ali. e um excedente para ser vendido sob orientação dos missionários. Um outro grupo de índios ficava inteiramente e à disposição dos missionários. entre o rio Solimões e o Madeira. O terceiro grupo ficava a serviço do governo. os mura continuam lá. era hostilidade e beligerança. Um grupo devia ficar nas povoações. Por volta de 1720. para praticar a agricultura de sustentação e garantir alimentos para os aldeados. utilizando largamente a experiência milenar dos próprios índios. apesar de todas as carnificinas que sofreram. o que fizeram com total sucesso. Autazes é uma região de igapós. ao estipular um salário para os trabalhadores indígenas. Isto significava limitar a utilização de mão-de-obra indígena pelos fazendeiros a apenas 20% dos índios disponíveis. O objetivo. onde os vendeu como escravos. No começo do século XVIII. no labirinto de florestas submersas. mas evitaram maiores contatos. dizendo emissário do padre Sampaio. então. Os colonos aos poucos vão-se enfurecendo com os missionários. Mas esta foi a época em que o missionário ganhou o espaço do conquistador. mas os empregadores relutavam em pagar. o que começou a criar ressentimentos e queixas entre os colonos. furos e pântanos. Quando a expedição do major João de Sousa d'Azevedo chegou ao Madeira para iniciar sua jornada até o interior do Mato Grosso. era dar ênfase na conversão espiritual dos índios e transformá-los em "índios-portugueses". No entanto. Até hoje. mas os preços internacionais não conseguiam pagar os investimentos. se eles embarcassem imediatamente. Quando os outros mura tomaram conhecimento do que tinha acontecido. especialmente os jesuítas. quando apareceu um colono português que se. roupas e alimentos.

O governador da província. arte que dominavam com criatividade. Eles tinham aprendido a não se apresentar de peito aberto contra as armas de fogo. por uma opção histórica. escreveu que os mura "eram inimigos cruéis e irreconciliáveis" e. durante esse período.. a menos que se movesse "uma guerra violenta (. o rio Negro era uma região densamente povoada. mais raramente.. mas não conseguiram esmagá-los. Como aruaque. informando dos ataques. mas Ajuricaba logrou unir as mais de trinta nações do vale do rio Negro. Em 1720 os portugueses começam a ouvir falar do tuxaua Ajuricaba. Ajuricaba exerceu em mais alto grau um dos talentos de sua cultura: a arte da diplomacia. Rapidamente ele foi unindo as diversas tribos sob uma confederação tribal. em 1723. a mais importante tribo do rio Negro. Um outro aspecto da liderança de Ajuricaba era a clareza com que ele sabia distinguir os diversos europeus que começavam a entrar em seu território..Durante cinqüenta anos os mura vão dar combate aos portugueses. até 1750 foram descidos à força três milhões de índios do rio Negro. gerando uma grande confusão na região. AJURICABA O exemplo mura foi seguido mais radicalmente pelos manau. organizavam rápidos ataques ou emboscadas e eram brilhantes arqueiros. Daí a pulverização dos povos indígenas. em cerca de quatro anos de trabalho de persuasão. os espanhóis. imediatamente manda uma carta para Lisboa. Mauricio de Heriarte escreveu em 1665 que aquela região era "habitada por inumeráveis pagãos. os franceses e. pelo Solimões. em grandes levas e com bastante violência." A resposta dos índios foi exemplar. eles destruíram todos os núcleos de colonos do médio rio Negro. que os fez presa fácil para os invasores europeus. Dessas posições. Poucas foram as experiências de confederação entre os índios em todo o continente americano. Os manau concentravam-se basicamente em duas posições no alto rio Negro e em diversas malocas pelo rio urubu e na localidade hoje chamada Manacapuru. ele se sentiu em condições de atacar os portugueses. Finalmente. Eles possuem um chefe (. ele não hostilizou os portugueses. e com o apoio de diversos outros povos. nós poderemos fazer dali um império e poderemos dominar todo o Amazonas e outros rios.) As aldeias e gentes desse rio são grandes e suas casas circulares e fortificadas por cercas. vinham os ingleses. o ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio. "Insuficiente dizer .. Se esse território for colonizado pelos portugueses. Do norte. atacando e destruindo povoações portuguesas. rechaçava qualquer tipo de poder centralizador. que lhe forneceram armas de fogo. Eles viajavam ao longo do Madeira.. os holandeses. Estima-se que mais de trinta mil mura perderam a vida." De fato. (. A vingança dos mura era um exemplo para outras tribos. com a utilização de um grande arco que eles seguravam com os pés para lançar uma flecha capaz de atravessar um boi ou rasgar uma armadura metálica. Ele negociou com os holandeses.). Várias expedições punitivas foram lançadas contra eles. João da Maia da Gama. contra dez mil colonos. De acordo com o padre João Daniel.) para acabar e destruir essa tribo".que alguns indivíduos tinham mais de mil índios e outros tinham tantos que sequer sabiam os nomes de cada um deles. através das montanhas do Parima e dos vales do Orenoco. cujo nome é Tabapari. Em seu relato. chumbo e armas brancas. A estrutura social das tribos da Amazônia. O que deixava era o fato de Ajuricaba .. e por povos culturalmente bastante avançados. o que não era uma tarefa fácil. Dos ingleses ele adquiriu pólvora. Ajuricaba também infligiu vários ataques às tribos que apoiavam os portugueses. os portugueses. obrigando os portugueses a se refugiarem no forte da Barra. pólvora e instrutores. eles continuaram atacando os portugueses. a maior personalidade indígena da história da Amazônia. até mesmo pelo médio rio Negro. O conhecimento das diferenças entre os europeus ajudou muito no êxito inicial do levante de Ajuricaba. que viajou pela região entre 1774 e 1775. que chamam de Rei. No começo. Mas os mura só aceitariam coexistir pacificamente com os brancos depois das enormes perdas populacionais ocorridas durante a Cabanagem.escreveu João Daniel . Do sul. e ele dirige várias tribos subjugadas ao seu domínio e é por elas obedecido com grande respeito.

ele nos fez um grande favor ao nos liberar da obrigação de tê-lo prisioneiro". Ajuricaba. pois logo a seguir alguns guerreiros dessa tribo deram de aparecer no Essequibo. e outras conseguidas por eles e tomadas de homens que foram até lá e intentaram assaltá-la. assustando os colonos holandeses.andar com uma bandeira da Holanda desfraldada em sua canoa. onde seriam vendidos como escravos.escreve Maia da Gama . Por essas dissimulações eles se arrogam a um maior orgulho e se julgam no direito de cometer todos os excessos e matanças". muito orgulhoso e arrogante. não estava interessado em se aliar a nenhum europeu. em 1714. viu o líder jurar obediência ao Rei de Portugal e recebeu a promessa de libertar cinqüenta escravos em troca do pagamento do resgate. são assassinas de meus vassalos e aliadas dos Holandeses. E nossa gente o surpreendeu em sua aldeia. o Rei teria nele um grande aliado. mas ele encetou uma defesa antes que o cerco se completasse. desobedecendo minhas ordens. Se Ajuricaba fosse convencido a trabalhar para os portugueses.. e tentaram matar os soldados. que se denominava governador de todas as tribos e que pessoalmente tinha-se declarado responsável por todos os agravos contra os portugueses. Os arquivos holandeses confirmam o contato com os manau. a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas enviou o comandante Pieter van der Heyden numa expedição à região do alto rio Branco. ele resolveu escapar e abandonar a aldeia acompanhado por alguns momentos. (. sob o comando do capitão João Paes do Amaral. comem carne humana.. . Quarenta desses serão trazidos para pagar os custos da expedição feitos pelo tesouro de Sua Majestade e mais trinta para a coletoria real". e relatou ao governador que ele era um homem ainda jovem.) Nossos homens saíram em perseguição e mantiveram escaramuças com ele cada vez que ele entrava nas vilas de seus aliados. A resposta de Lisboa foi autorizar o governador Maia da Gama a lançar uma expedição punitiva. até o levante de 1723. mal o jesuíta deixou o rio Negro. no entanto. Maia da Gama escreveu que "todas as tribos do rio e com exceção daquelas que estão conosco e contam com missionários. quando cessaram para sempre com a quase extinção da tribo guerreira. ele e seus homens se levantaram na canoa em que se encontravam acorrentados.) Esses bárbaros estão bem armados e amuniciados com armas dadas pelos holandeses. (. Esses tomaram de suas armas e bateram em alguns e mataram outros. Maia da Gama organiza uma poderosa força punitiva. mas os jesuítas tentaram uma solução negociada. Os portugueses descreveram assim o seu ato desesperado: "Quando Ajuricaba estava vindo como prisioneiro para a cidade. Por tudo isso nenhuma tropa os atacou até o momento por temerem suas armas e sua coragem. e o padre José de Sousa foi enviado ao rio Negro para propor uma conciliação. Essas incursões pelo extremo norte começaram a ficar comuns. desafiando a lei natural. O fato foi testemunhado por Miguel de Siqueira Chaves e Leandro Gemar de Albuquerque. Depois de alguns tiros de uma peça de artilharia que nossos homens tinham levado. porque. Pondo de lado a pena que sentimos pela perda de uma alma. E.. Eles não apenas têm o uso das armas mas também se entrincheiraram em cercados de pau e barro e com torres de vigilância e defesa. "Ficou decidido . O bárbaro chefe Ajuricaba e mais seis ou sete de seus chefes aliados foram finalmente presos e duzentos ou trezentos prisioneiros foram pegos junto com ele. Elas impedem a propagação da fé e continuamente roubam e assaltam meus vassalos. Ajuricaba então pulou no mar com um outro chefe e não reapareceu mais vivo ou morto. oficiais portugueses que comandavam tropas na área e por eles imediatamente reportado para Belém.. O padre conseguiu fazer Ajuricaba trocar a bandeira holandesa pela portuguesa. e já estava em suas águas. depois de receber a aprovação dos próprios jesuítas. Foi então que o grande líder manau fez o gesto que lhe deu entrada na História e no coração do povo da Amazônia. Van der Heyden deve ter-se encontrado com os manau. embora tenha recebido o dinheiro. Padre José de Sousa ficou muito impressionado com Ajuricaba.que eles primeiro dariam busca ao bárbaro e infiel Ajuricaba. os ataques recomeçaram e Ajuricaba nunca libertou os cinqüenta escravos. e vivem como bestas. Em 1728. Ajuricaba foi posto a ferros junto com outros guerreiros e transportados para Belém.

Como as punições para escravo recapturado eram severíssimas. uma das mais ricas e curiosas da Amazônia. mas sem êxito. a colônia vive em pé de guerra. Teodósio é preso e enviado para Lisboa. o século XVIII não seria exatamente uma era de paz. respondendo aos ataques com elaboradas táticas de guerra de guerrilha. em 1757. organizada a expensas de plantadores. Nessa terceira fase da empresa colonial. numa população de mais de trinta mil pessoas. que o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira realizou. aprendendo com eles a conhecer e a usar a natureza. fazia deles um alvo fácil para tais críticas. seis grandes grupos cimarrons vivem nas selvas do Suriname. Com a introdução de mão-de-obra escrava nas plantações e engenhos holandeses da Guiana. mas os cimarrons pouco sentiam o golpe. ataca as vilas de Lamalonga e Moeira e ocupa a ilha de Timoní. o que acabou obrigando os holandeses. especialmente os jesuítas. com a abolição do poder dos missionários sobre os índios e a laicização das missões.Ajuricaba pulou da canoa de seus opressores para as águas da memória popular libertando-se dos grilhões e ressuscitando como um símbolo de coragem. As expedições eram dispendiosas. verdadeira ação geral de busca de material para análise. começam a surgir comunidades de negros fugidos. representando a maior e mais bem-sucedida população de africanos a se adaptar ao continente americano. Novamente. os correspondentes dos brasileiros quilombolas. Os holandeses moveram todos os esforços para eliminar esse cimarrons. os índios do rio Negro novamente se rebelaram. Depois de alguns combates. mas a lição de Ajuricaba não é jamais esquecida. menos preocupado com lucro que com a preservação do território. tinha direcionado os índios para os missionários. tinham formado sociedades de características definidas. assim como o ouro e a cana-de-açúcar. que desmoralizavam os colonos europeus. considera que a ação dos missionários trouxe muito lucro para a Igreja em detrimento do Estado e dos colonos. Em 1729. transformadas agora em diretorias de índios. É claro que o poderio econômico apresentado pelas ordens missionárias. A rebelião é sufocada violentamente. apenas com Pombal. Eles pensaram numa alternativa fixadora que garantisse a posse da área. a primeira tentativa de estudo . Entre 1730 e 1740. a proporem um acordo de paz. iria ser realizada uma expedição agrícola e pecuária de certo vulto. os portugueses procuraram dar uma finalidade econômica mais clara para a região. Mais o norte. Embora o ciclo de garimpo vegetal. vivendo em harmonia com os índios. em Minas e Pernambuco. da coleta da droga do sertão. O governad0or Francisco Xavier de Mendonça Furtado. os portugueses não tinham um interesse mercantil firme ligado ao garimpo da mata. custavam mais de cem mil guildens. A ERA POMBALINA Em 1757. organizando expedições e tropas punitivas. OUTRAS REBELIÕES NA AMAZÔNIA Mas não foi apenas o rio Negro palco de rebeliões e sangrentos embates na Amazônia. os africanos escapavam para o interior da floresta. na administração do Marquês de Pombal. e no rio Negro. na possessão de terra ocupada pelos holandeses. É claro que o extrativismo. Desde então. em 1783. Desde 1670 eles tentam acabar com o problema. indo desde o enforcamento às amputações de membros e variadas formas de morte sob tortura. Na verdade. irmão do Marquês de Pombal. supostamente mais bem-equipados. Era uma perspectiva que deliberadamente esquecia que o próprio reino. e produzindo uma magnífica cultura. tenha convivido com as tentativas agrícolas do sistema missionário. denominados cimarrons. Foi pelo material recolhido no garimpo da selva. que vai de 1757 a 1797. sob o comando do manau Teodósio. conseguido finalmente em 1767. além de lucrativo. onde se reagrupavam em pequenos grupos. chegou a reunir cinqüenta holandeses e duzentos escravos. depois de um século de disputas. outro líder manau forma uma federação de tribos no rio Negro. Uma expedição. liberdade e inspiração. uma nova fase começa para a colônia. era um meio de usar as possibilidades econômicas naturais da região.

A VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO AO PARÁ Um dos exemplos mais claros das contradições internas da administração modernizadora do regime de Pombal foi o episódio da instalação da Inquisição no GrãoPará. porque há quatro anos os jesuítas estavam fora da Amazônia portuguesa. O colono alinhava-se com a metrópole pela sua atuação militar. não se pode dissociar sua presença no Grão-Pará como parte da estratégia pombalina. Gabriel Malagrida. sendo proibida a prática da tortura (tormentos). procurando implantar de forma revigorada as manifestações . civil e militar. O saldo dessa tradição beata não era favorável aos seus sonhos de modernização e Pombal assestou parte de suas baterias contra algumas forças poderosas da Igreja. índios e escravos negros. como fazendeiros. vendas de bens de raiz e tudo o mais respeitante à Companhia de Jesus. Gerava. queimado vivo em 1761. estes faziam parte da elite comercial e não apresentavam nenhum risco. divisões e jurisdições das terras e fazendas. e limitada as execuções na fogueira. Durante o regime pombalino ocorreram 22 autos-de-fé e a ênfase penal recaiu menos nas sanções religiosas que no confisco de bens e na execução de oposicionistas.1 Quanto aos cristãos-novos. O extrativismo embasava a análise do naturalista. criados. alguns mesmo fanáticos. sendo muito mais um instrumento de coerção do poder temporal do que uma ação religiosa de revigoramento doutrinário. o Marquês de Pombal. Atacando o que considerava anomalias de uma sociedade na qualquer comum a prática do curandeirismo e o uso cotidiano de supertições aprendidas com os tapuias. sempre manteve uma atitude contraditória em relação a certos instrumentos políticos da Igreja Católica. como foi o caso do Pe. que iria satisfazer o interesse de Portugal em conhecer e decifrar os recursos da Amazônia. é certo. senhores de engenho e membros da ata hierarquia religiosa. realizando um trabalho enciclopédico comissionado pela Corte portuguesa.e revelação científica do vale. que deveria ser incorporado ao Fisco e à Câmara Real". a Ordem Régia de 11 de junho de 1761 organizar uma Junta para proceder a venda dos "móveis e semoventes. Assim. e o catolicismo servira de base para a construção da nacionalidade lusitana. a Visitação ao Grão-Pará acontece num momento em que a Inquisição estava em declínio. já então em pleno assalto econômico e experimental posto em prática pelo Marques de Pombal. Na verdade. implicando e muitas vezes arruinando a vida de modestos funcionários públicos. a Inquisição no Grão-Pará vai tentar desalojar o legado das culturas indígenas do inconsciente dos colonos. enquistado em suas pequenas fortalezas e propriedades. oficiais mecânicos e artesãos. a Inquisição no Grão-Pará abateu-se sobre os mais humildes da colônia. como a Companhia de Jesus e o próprio Santo Ofício. como o malfadado Dom Sebastião. E. para resolver as questões e negócios referentes aos bens dos jesuítas. que Pombal considerava pouco civilizada. uma integração apenas militar. contribuindo largamente para o sucesso da empresa pombalina. trouxe aos europeus um vasto e sucinto material que se estende da etnografia à zoologia. fica a pergunta: qual o objetivo dessa Visitação do Santo Ofício? Atacar o que restava de influência dos jesuítas? Atemorizar os cristãos-novos por representarem um poder econômico capaz de criar dificuldades? Ou simplesmente combater os maus costumes e as heresias que supostamente grassavam na Capitania? A primeira hipótese não se justifica. Mas o extrativismo não era suficiente para formar uma sociedade permanente. Alexandre Rodrigues Ferreira. Como a Inquisição era uma pálida imagem do que tinha sido e transformada em instrumento coercitivo do poder. Foram poucos os casos de envolvimento de gente de cabedal. soldados. Sebastião José. A Companhia de Jesus foi expulsa de Portugal e colônias e o Santo Ofício teve em muito limitado os seus poderes. De qualquer modo. É claro que ele tinha consciência de que o reino de Portugal desenvolvera uma íntima ligação histórica com a Igreja. produzindo uma série de reis carolas.

. tais como o Governador. como a absorção de certos hábitos indígenas. desembarca em Belém. sodomia. acompanhadas pelo Cabido. Em setembro de 1763.. nascido em uma vila próxima a Coimbra.2 O caso do índio Antonio. cerca de 485 pessoas.. direta ou indiretamente. irmandades e confrarias. concedendo o perdão do confisco de bens àqueles que confessassem espontaneamente suas culpas ao Santo ofício..3 Centenas de índios.)". pelo crime de exercerem seus conhecimentos de medicina tribal e tentarem ajudar os colonos brancos com quem agora tinham de conviver. Eraizes deAruores Com asquais Não Sentindo Milhoras efazendolhe estaqueyxa. como Sabina e Antonio.) ecom effeito chegando aditaIndia logo queentrou nacazadelle denunciante immediatamente Sahio ou desceo pella escadaabaixo immediatamente Edisse que Cavassem nopatamar daescada que ahi haviaõ deaxar Osmalificios.. Uma procissão solene. a Câmara e um regimento militar. pela onda de intrigas e o clima torpe de delações que desfez famílias e destruiu amizades. Visitador do Santo Ofício. o Juiz de Fora.. Escavandose nolugar queslla apontaua Se desenterrou hum Embrulho dehum panno ja veho Ecarcumido emq'Estava huma Cabesa deCobra jararaca jamirrada de todo eSo Com OzoSos atestando adaindia que aquelles Eraõ Oz feitisos de queprocediaõ tantos dannos (. manter os políticos e comerciantes amedrontados e levar o pavor aos menos favorecidos.) Que havera Sete mezes Emeyo pouco mais oumenos achandose ella denunciante (Antonia Jeronima da Silva) na Sua Rossa do Ryo Maguary gravemente enferma devarias dores decabeça febres e Continuos Emuuimentos extraordinarios portodo OCorpo fallando Comella huns Indios forros (. A presença do Visitador em Belém. como foi o caso da índia Sabina: "(. considerados satânicos.. o grosso dos processos de Belém gira em torno de tratamentos "mágico-religiosos". funcionou como uma espécie de divisor de águas nos costumes e na cultura da região. práticas heréticas "luteranas" ou "judaicas".) deque apodia Curar deSuas Molestias Outro Indio chamado Antonio (. pela boataria.. o clero em geral.) dizendolhe que queria Consultar osSeos Pajés para lheseirem dizer omal que padecia para Saver como hauia ducuralas". foi dado ao público os Editos de Fé e da Graça.) O que tinha pera denunciar era O Seguinte QuehaveraSette annos poucos mais Ou Menos tendo elle experimentado Na Sua familia Ees crauatura grandes Mortandades Eentendendoque proccidiaõ de Seencontrarem pellas arvores de Cacao huns Embrulhos de Couzas desConhecidas (.) teveNoticia Eerapublico Nestacidade que humaIndia chamada Sabina Naõ temCerteza sehecazada seSolteira mas tem probabilidade que hacazada (.. sobressaltado pelo arbítrio. os Párocos. No dia 25 de setembro de 1763..) Eque esta denuncia afazia pordescargo de Sua Consciencia (. supostamente mais saudável e condizente com os ensinamentos da Igreja. As denúncias sobre tais ações de curandeirismo eram muitas... atingindo índios e negros. .. que saiu da Igreja das Mercês. agora tornava-se heresia... O Tribunal do Santo Ofício atingiu. Fernando da Costa de Ataíde Teive. O Marquês de Pombal. Além das acusações de adultério. o padre Giraldo José de Abranches. elle respondeo que as purgas EraõAindapoucas (.. sendo recebido com honras pelo governador D. também não foi muito diferente: "(. dando início aos trabalhos da Inquisição. que se aferrava a detalhes e a formalidades rituais. vislumbrou na Inquisição um meio perfeito para fazer uma correção nos rumos do Grão-Pará. além de todas as autoridades.. político habilíssimo.) tinahvirtude paradescobrir Edesfazer Ozfeitiços (. o Vigário Geral. tendo passado por postos eclesiásticos em São Paulo e Minas Gerais. além de servir para calar certos religiosos incômodos. desfilou solenemente até a Igreja Catedral.) Elhe deo abeber as raspas dehumas cascas. era homem rigoroso e cheio de melindres. O que antes era tolerado e até incentivado.. os Coadjutores. O padre Giraldo.da cultura ibérica.) Manoel de Souza Novais Natural Emorador desta cidade que vive de Suas RoSsas Cazado (. fornicação... O povo do Grão-Pará viveria mais de seis anos em clima de terror.. sob o olhar de enorme massa popular.. padeceram a perseguição da Inquisição. O Tribunal da Inquisição do Pará foi a sua terceira missão na América.

sendo um governo da fase colonial mais avançada. espalhando em plena selva as sua Braganças. Óbidos etc. com a obrigação de fazer obras de infra-estrutura. unem capitais do estado e particulares e fundam a "Companhia do Comércio do maranhão e Grão-Pará". ocupadas no trabalho de demarcação das fronteiras. se levarmos em conta o depoimento de Charles Marie de La Condamine. que os portugueses chamam "grão-Pará" ou seja "grande rio" na língua do Brasil. perto de quatorze meses após minha partida de Cuenca. (. obras executadas sob orientação de arquitetos europeus. os portugueses.O projeto modernizador de Pombal foi buscar um instrumento já decadente na Metrópole. A cidade de Barcelos. pôde arregimentar mão-de-obra . mas eficiente na colônia. "No dia 19 de setembro. Mas a cidade não correspondeu à expectativa. Uma Colônia moderna. eminências brancas perdidas entre o casario aconchegado. o Estado Colonial interveio diretamente na execução do plano pombalino. por determinação do governador Manuel da Gama Lobo d'Almada.. A capital paraense. Segundo o ouvidor Sampaio. a sede da capitania do Grão-Pará era uma das três melhores cidades da América Portuguesa. autor de lindas edificações oficiais. é criada a Capitania do Rio Negro. chegado ao Pará. preso. com artífices. sendo a sede da Capitania transferida para o Lugar da Barra. decide sugerir a divisão da Capitania. visando a racionalização administrativa e um maior controle territorial. antiga aldeia Mariuá. Barcelos possuía "bons edifícios". descrita nas palavras do historiador Augusto Meira Filho. Já em 1743."4 Dez anos depois da passagem do sábio francês.5 A EXPERIÊNCIA NA CAPITANIA DO RIO NEGRO Na grande experiência do rio Negro. aportamos a uma habitação dependente do colégio dos PP. no correr do litoral". Desde então os hábitos e as manifestações culturais dos povos indígenas foram entendidos como reflexos de mentes selvagens presas da ignorância. cooperar no fomento à lavoura e à agroindústria. um tanto tardiamente. com a pujante contribuição dos artistas Gronsfeld. Introduziu o cultivo do café. e saídos das matas do Amazonas. A administração de Lobo D'Almada (1779) foi o momento decisivo dessa experiência e. que mudou todos os nomes indígenas de núcleos populacionais. Por carta régia de 11 de junho de 1757. É o processo de "lusitanização" em marcha. na qualidade de sede do governo.) Afigurava-se-nos. no médio rio Negro. erguido curiosamente. O ESFORÇO MODERNIZADOR TARDIO Francisco Xavier de Mendonça Furtado. tímido. cana-de-açúcar. Schwebel e o já citado Landi. que até hoje embelezam a cidade. Jesuítas. Nas últimas décadas do século XVIII. "os edifícios distantes pareciam monumentos destacados no verde da mataria. casas risonhas. Pombais. Foi mesmo ensaiada a primeira estrutura industrial. para amordaçar definitivamente as culturas indígenas e instaurar a "salubridade" social e cultural através de severas punições. Para completar a ampla reforma estrutural da era pombalina. enriquecida pela construção de novos prédios públicos e particulares. a cidade possuía sua graça e personalidade. ruas bem alinhadas. cheguei à vista do Pará.. em 1791. a maior parte construída desde trinta anos em pedra e cascalho. depois de visitar o território do Grão-Pará. Encontramos uma cidade.. magníficas igrejas. ver-nos transportados à Europa. além e trazer escravos da África. Belém ostentava as inovações da era pombalina. instalada na cidade de Barcelos. recebe cuidados especiais.. aos poucos foi-se transformando na aglomeração urbana que na foz do Amazonas se tornou a grande metrópole do vale. refinada e lucrativa não condizia com pajelanças e colonos de um harém de índias adolescentes. Souseis. capazes apenas de produzir supertições. substituindo-os por nomes portugueses. que a visitou em 1774. que tinha surgido em torno do forte português. anil e algodão. especialmente a cidade de Belém. Todo esse esforço acaba por valorizar o Pará. serraria e estaleiro. a observar um desenho de Schwebel. como o bolonhês José Augusto Landi. com edificações condizentes para a acomodação das autoridades portuguesas e espanholas.

prosperar por uma geração inteira. como posto avançado da ocupação. Uma fase de incertezas que nunca se estabilizará politicamente. as obras de tear e roca. em relação ao extrativismo da borracha. nunca se sentirá capacitado no Amazonas a se emancipar como proprietário. sem marcar sua luta e nunca defendendo posições. Esses colonos. até sofrer com a necessidade cada vez maior de o mercantilismo racionalizar seus meios de produção. A COLÔNIA LETÁRGICA Na interessante crônica de Mário Ypiranga Monteiro. a chagada de um misterioso bergantim é suficiente para despertar a curiosidade do vilarejo: "Gente de todas as categorias dirigia-se apressadamente para a barreira ou descia à praia. soldados. é um homem geralmente desfibrado e incoerente. enleado ao poder da Coroa. as comunicações entre as Capitanias setentrionais e a Corte do Rio de Janeiro não eram fáceis. O último esforço do mercantilismo em enfrentar o capitalismo nascente colherá o colono em sua apatia. abandonar os lazeres domésticos. tráfego que se fazia ainda pelo processo serôdio e periclitante das embarcações a remo. crianças e cachorros afluem ao espetáculo inédito. Sobre essa massa servil o patrimonialismo irá crescer.6 Mário Ypiranga Monteiro faz ressurgir um pequeno mundo de puerilidades e pequenos orgulhos. com seus habitantes em eterna sesta. os administradores tiveram que enfrentar o paternalismo fechado dos missionários. O povoado é Manaus antes da Independência e do fastígio do látex: ". pobres e incultos. escravos carregadores d'água. Índios. um farrapo. os representantes das autoridades. não salvará o sistema de seu fim. O Espião do Rei. era vedado às damas. despido de espírito público. Só não apareciam saias porque. como burguês. sob pretextos fúteis. vingavam-se . envolvido nessa transformação. podemos penetrar nos enigmas e nos detalhes da monótona vida de uma população colonial portuguesa na Amazônia. sem contextura ideológica firme. buscando mais a acomodação aos novos status. as quais levavam semanas singrando as águas amarelas. com a expulsão dos jesuítas e a extensão de medidas atingindo todos os setores sociais da colônia. brancas ou mamelucas. esses descendentes dos conquistadores. invólucro biológico que a miscigenação inventou para enfrentar a região considerada insalubre ao homem da raça branca. Mulheres.. as que existiam. Assim é que. os bordados. E o colono-chefe-nilitar vai-se transformando num administrador sedentário. Principalmente o tráfego entre a cidade de Belém do Pará e o solitário e triste lugar que era a Barra. no texto de Mário Ypiranga. parece hoje curiosamente moderno e liberal. mais ardilosa que o cipoal da floresta virgem. vendedores de guloseimas e bugigangas. só se viam na Igreja. formando-se um estamento obediente aos interesses fiscais da Coroa e domesticado pela complicada malha jurídica e burocrática. mesmo à custa de perda e de degenerescência. Lobo D'Almada tinha assumido virtudes vigorosas em relação ao domínio espanhol e tornara o tratado de Tordesilhas obsoleto. naquela época de rígidos costumes. Mesmo a ríspida política colocada em prática. à missa. O colono. Em toda a Amazônia o espaço que se abre entre o colonizador e o colonizado é enorme. Do princípio militar da fundação. Elas. as tapeçarias. pessoas notáveis. o colono voltar-se-á para a defesa de seus minúsculos interesses pecuniários. preocupavam-se em desfrutar do imediatismo de uma sociedade indigente. Para estimular o programa com essa mão-de-obra. Lobo D'Almada tinha à mão os primeiros caboclos amazônicos. nas procissões oficiais de Corpus Christi ou nas visitas domingueiras. as orações. O colonizado é informe e encontra-se atravessado entre dois mundos contraditórios.indígena já preparada pelos missionários e pela miscigenação. legando a imagem do líder político regional típico.. fazendeiros e artífices aproximavam-se da metrópole pelas normas políticas centralizadoras e afastavam-se da massa pobre e informe dos colonizados. estabelecendo um modelo social que. nos primeiros anos do século XIX. Com a Revolução Industrial batendo em sua porta em busca de matérias-primas. entretanto. afrontando as tempestades do grandioso rio ou os imprevisíveis ataques partidos das margens desertas".

não poderia faltar. para a decoada da roupa suja dos patrões. existia. com mexericos no interior dos penates. que exprimisse certo grau de civilização. a imitação das formas políticas das nações coloniais européias mesclada ao liberalismo democrático norte-americano. O século XIX começava com a Amazônia abandonada e sem perspectivas. fazendo recrudescer a velha diferença entre caboclos e brancos. Sendo. galés remissos. porém. um botequim. quase cinqüenta anos de rotina e recuos. fazia-se a propaganda aberta da independência discutindo-se as personalidades de influência. Tudo era resolvido através das trocas. dos desocupados. na sua conferência em Frankfurt. A vida desta Manaus (Lugar da Barra) crepuscular não impressionava ninguém. a Amazônia era um reflexo passivo dos jogos internacionais e vítima da intolerância fiscal da metrópole. Esse botequim. não assegurou a sobrevivência da sociedade colonial portuguesa na América. uma terra que tinha sido espécie de laboratório agrícola florescente. na Barra de 1820. como precisou o naturalista suíço Hans Bluntschili. os portugueses conformaram-se em confiar no trabalho duro de seus servos mestiços e índios pacificados. nas águas da economia mercantil internacional em transformação. cidade do médio rio Negro que centralizava a administração colonial. desordeiros. Região difícil para a incipiente tecnologia da época. e tendo sido mais tarde substituído por um modelo extrativista exportador.. que se reuniam nos igarapés de São Vicente ou da Ribeira. A Amazônia como organismo harmônico. no entanto. aqui. dos mariolas. (. as raízes coloniais resistiram na Amazônia em seus alicerces superestruturais.. com entreposto em Barcelos. dos mexeriqueiros. na rua dos Armazéns no centro comercial da Barra. enriquecidos pelo ouro e com uma Igreja Católica mais ativa. índios e escravos. Recorrem as taxações excessivas sobre os produtos naturais e cultivados.) No botequim do sô Melgaço. Não qualquer florescimento espiritual nesses anos que antecedem a independência. São anos de graves incidentes políticos e a repressão se torna catastrófica e obscurantista. dos soldados. os homens se sedentarizavam e pareciam abandonados a uma eterna sorte de pioneiros esquecidos. Tudo isso desencorajava a produtividade. apesar da civilização. sofreu até o fim do século XVIII uma mudança estrutural impelida pelo capitalismo nascente. A região se desgarra e os sucessores de Lobo D'Almada não são capazes de solucionar os novos desafios. em 1918: . ponto de escada obrigatória de quem subisse ou descesse o grande rio. pois. Do rio negro havia saído o café para o Rio de Janeiro e São Paulo. Os moleques recadeiros encarregavam-se dos bilhetinhos amorosos das donas daquele tempo". dos assoalhadores de boatos. enfim de toda a companhia que vive na ociosidade.soberbamente desses escrúpulos sociais. Esta mudança. a colonização um processo de transculturação necessariamente mais lento e progressivo.8 Em contraste com os espanhóis. as abafadas e desesperadas inquietudes. até que uma crise administrativa e econômica se instala. com soluções vindas de cima para baixo. A COLONIZAÇÃO LUSITANA RECALCADA NA CULTURA O modelo colonial português. e levando a província à decadência. naqueles tempos. O equilíbrio do mercantilismo na Amazônia dura o quanto pode. aliciavam-se prosélitos". no despontar do novo século. atração da sociedade duvidosa da vila. Era. andar sempre de rastros. Agora. mais tarde a monocultura mais impotente e o sustentáculo econômico da monarquia brasileira. fomentava a inquietação. pela língua viperina das escravas lavadeiras. com uma educação menos reprimida. deformando-se por cima e reaparecendo num persistente fenômeno observado por quase todos os cientistas e viajantes que visitaram o vale no século XIX: uma sociedade voltada para o extrativismo para suprir as exigências do mercado externo e subordinada a importações para atender suas necessidades internas. estas estavam confinadas a uma taberna: "Dada a situação social da povoação da Barra. impotentes para superar o grande desafio regional. Dali irradiavam os disque-disque da época e ali sabiam do que ocorria diariamente no exterior. a aglomeração urbana que Mário Ypiranga descreve pouco tem a ver com as cidades do Sul do Brasil e mesmo com as comunidades espanholas. Daí.7 Quanto às intrigas políticas.

"9 Aquilo que o poder de observação de Bluntschili classifica de "traços de uma adaptação às condições naturais" pertence a essas vértebras culturais fincadas profundamente no corpo superestrutural da região pela colonização portuguesa. mas parece mais uma caricatura. do que a do negro". era o escravo da sociedade colonial. Esta região possui raça e vida própria. tendo expropriado do índio certas técnicas indispensáveis para a vida na Amazônia. mas infelizmente são apenas início de um equilíbrio. ficou estranha ao meu íntimo. QUARTA PARTE SOLDADOS. não se pode esquecer. combina bem o índio sério mas fiel. É a Amazônia da cultura da cachaça e da folha de zinco. Traços de uma adaptação às condições naturais podem se reconhecer. Em 1729. Belchior Mendes de Morais. Quando o remédio do salvacionismo cristão não surtia efeito.). CIENTISTAS E VIAJANTES A POSSE LEGITIMADA PELA CULTURA . inferior ao escravo africano. e as punições genocidas completavam o enfraquecimento indígena em sua rarefeita unidade. mulheres. com sua ubá e o seu arpão. as pessoas descendentes do ameríndio. com suas mercadorias vistosas mas sem valor e de mau gosto. Se de um lado os colonizadores encontravam a adesão pacífica de povos exauridos. ofereceu como herança a vergonha castradora que procura manter a região submetida a uma sociedade de caricatura. foram sufocadas pela repressão armada. A velha Amazônia milenar dos povos indígenas terminou nesse vendaval de pólvora e orações que durou dois séculos e meio de sofrimentos indescritíveis. Esta Amazônia quer ser uma filial da cultura da Europa. muito mais freqüentemente que o negro.. que Bluntschili recusa como solução. portanto. É tão bem estabelecida foi essa adaptação que o extrativismo desenfreado da borracha assentou suas raízes contraditórias naquelas fundações sociais que. mais dispendioso. "A outra Amazônia. o índio era um selvagem nu. vinte mil e oitocentos índios mura foram trucidados por um comando militar português. ou 'tapuia'. Hoje em dia.. em Uma Comunidade Amazônica. Com esta Amazônia (a dos índios e dos caboclos) combinam bem os rios grandes sem margens. Charles Wagley. "infelizmente são apenas início de um equilíbrio". pela inteligência e pelos sentidos. as florestas silenciosas e não cruzadas por estradas. E. um dos encarregados de fazer a repressão ao tuxaua Ajuricaba. e as suas formas de governo importadas da Europa e que não evoluíram. ao contrário dos negros. como já foi visto."É um país maravilhoso e harmônico que se aprende a compreender. outros recusavam essa aliança e mantinham o colonizador cercado e ameaçado. para enfrentar a resistência nativa. correspondentes às condições regionais. e a influência dela não pode conduzir nos trilhos escolhidos. significa 'baixa posição social'. não gostam que se mencione sua ascendência indígena (. mostra o que restou do conceito de indígena na memória popular da região: "Ser índio. jogavam tribo contra tribo. um símbolo não só de descendência escrava como também de origem social mais baixa. à benção. sabemos que foi tratada com os rigores de uma rebelião. nos tempos coloniais. velhos e crianças. na região do rio Negro. Evidentemente que a expropriação do índio não foi pacífica e as constantes rebeliões. nas suas significações. mas baseiam-se em efeitos de pura vanglória. com os seus palacetes modernos nas grandes cidades. nas palavras do naturalista. inaugura sua tarefa subindo pelo rio Urubu e destruindo aproximadamente trezentas malocas e dizimando a ferro e fogo mais de quinze mil índios entre homens. E a resistência do tuxaua Ajuricaba. capaz de pôr em xeque o seu modelo de integração colonial. Os portugueses aliviaram a Amazônia de sua identidade pluricultural. e todos os principais cabeças perderam a vida no final. a pólvora dos arcabuzes abria uma perspectiva. as características físicas de índios são. Os militares portugueses. Na sociedade amazônica o índio.10 Os portugueses sabiamente afastaram a única força suficientemente poderosa. Segundo os europeus.

o romance. É um racionalismo tímido. a objetividade nova que vem fazer desaparecer o relato e promover o texto à poesia. como os relatos etnográficos. especialmente no século XVIII. Em certas partes da língua inglesa. à ciência e ao romance. em suas mutações amazônicas. tratava-se de um barroco tardio. quando a conquista se transforma em colonização. com rotinas. Desse modo. outrora tão cultivado na Inglaterra de Fieldings. pode servir para a compreensão qualitativa de formas culturais. há mesmo uma quebra sutil com a tradição cristã. Para a maioria daqueles cientistas. eram reconhecidas como potências dignas de confiança. o que os impedia de perceber a existência de uma vida correndo com total intensidade. à moda católica tridentina. muito mais do que com os gestos desesperados dos conquistadores ou com a tenacidade dos colonos. nem mesmo Portugal. uma natureza hostil aos homens civilizados. é a necessária racionalidade que requer da velha similitude não mais o simples papel de revelar. Com a experiência colonial. dissecado.Um ponto comum na história cultural das Américas é a diversidade de relações que pode ser encontrada sob o significado geral que se denomina como experiência colonial. são manifestações ainda num estilo anacrônico para o quadro da cultura européia. MONTANDO O QUEBRA-CABEÇAS TROPICAL Os mais avançados dos observadores foram os sábios viajantes. empacotado e despachado para as mais diversas capitais do velho mundo. pouco foi de grande valia para os habitantes da Amazônia. É a Amazônia terra sem história. é o romance de peripécias com foros de expressão da vivência do autor. acometido dos mesmos anacronismos. no qual se podiam entrecruzar-se o fantástico e a linguagem da perplexidade. em alguns casos. não-profissional sem ser burguês. Suas vidas seriam modificadas. Na poesia. a arquitetura e a organização urbana. os textos científicos. habitada por nativos extremamente primitivo. Infelizmente. política e culturas próprias. tradições. que vinham palmilhar as paragens da selva tão ciosamente guardadas por eles. legitimandose uma possessão geográfica com imagens surpreendentes de submissão e essência européia redentora. foi através de formas culturais que o imaginário do Ocidente se convenceu da existência de um território chamado Amazônia. No pedaço português. dissocia-se numa forma que é ainda documento. é claro. deuses da antiguidade clássica perambulam a par com formalismo carregado e moralista do homem ibérico. instaura-se a racionalidade mercantil. não-especializado sem ser universalista. . mas poucos foram os que se importaram realmente com a sorte dos nativos ou com o fato de já existir. o domínio empírico do relato. que foi durante a conquista a forma de expressar literariamente a região ao mesmo tempo. em especial. de tudo o que foi observado. agora é tempo também de ordenar a Amazônia. o discurso político. Nas colônias espanholas. documento e relação -. amalgamada pelos sistemas coloniais com as sociedades tribais. uma civilização tipicamente amazônica. pelo menos no alvorecer do século XIX. no qual a teoria e a prática literária viam a região se estabelecer com semelhanças e afinidades e. geralmente cientistas sob comissão de algum potentado ou reino europeu. a poesia. pelas conclusões desses homens de ciência. por meio do inventário. Afinal. a arquitetura e o urbanismo medievais florescem com o viço de certas plantas no deserto. A ESCRITURA DA REDENÇÃO O relato. Espanhóis e portugueses relutavam muito em conceder passaporte a esses tipos extravagantes. E. No entanto. uma categoria que proliferou nos séculos XVIII e XIX. mas indiretamente por meio da poesia e. maneiroso e artificial. que tem permitido toda sorte de intromissão e arbitrariedade. começa a ser fabricado o renitente mito de que a Amazônia é um vazio demográfico. A Amazônia não foge à regra. Enfim. Com a onda de cientistas viajantes. nem mesmo a Espanha. sem vida política ou cultural. e o estudo das relações entre o Ocidente e seus Outros culturalmente dominados. toda a teoria do conhecimento da região acha-se modificada. relatado.

CHARLES MARIE DE LA CONDAMINE O primeiro cientista importante a atravessar a região foi o francês Charles de La Condamine, que vindo de Quito, em 1743, praticamente repetiu a rota de Francisco Orellana. O sábio francês se juntou ao jesuíta Maldonado e, no dia 11 de maio daquele ano, deixou a localidade de Tarqui e deslocou-se para Laguna, ainda no Equador, onde se une ao corpo da expedição. La Condamine faz estudos e observações sobre os povos indígenas, a flora e a fauna, sempre maravilhado com a profusão de novidades apresentadas pela exuberante natureza tropical. La Condamine foi o primeiro cientista a fazer a descrição de várias espécies desconhecidas dos europeus até então, como os boatos, o uso do curare e a borracha. É, também, o primeiro a confirmar a existência de uma ligação entre a bacia do Orenoco e a do Amazonas, ligação esta que será usada, muito depois, pelo cientista alemão Alexandre Von Humboldt. La Condamine também sentiu-se atraído pelo incidente com as Amazonas, relatado em cores dramáticas por Carvajal. Ele buscou de todas as formas maiores informações entre os índios e missionários, convencendo-se da existência dessas extraordinárias criaturas. Tão certo estava da existência das mulheres guerreiras que, certa vez, durante uma parada no rio Solimões, viu duas índias que desapareceram na selva tão logo ele tentou se aproximar, passando a considerar esse fato como um possível encontro com as Amazonas. Charles Marie de La Condamine publicou diversos estudos e um cuidadoso relato de sua viagem, além de ter elaborado, durante sua estadia em Caiena, um detalhado mapa da bacia amazônica, tão perfeito que pode ser usado ainda hoje. OS OUTROS CRONISTAS Outros seguiram os passos de La Condamine e, apenas entre 1790 e 1900, dezenas de viajantes e cientistas atravessaram a Amazônia, movidos pela curiosidade, pelo espírito de aventura, pela cobiça e pelo desejo de desvendar o desconhecido. Entre eles o cientista inglês Charles Waterton (1782-1865), que visitou o alto rio Branco; o austríaco Johann Natterer (1787-1843), que esteve entre os índios do alto rio Negro e casou-se com uma amazonense de Barcelos, com quem teve uma filha; o alemão Carl Friedrich Philip von Martius (1794-1868), que viajou pelo Solimões e descreveu a população indígena daquele rio; o alemão Johann Baptist von Spix (17811826), que viajou com von Martius e documentou a existência dos últimos manau; o inglês William John Burchell (1781-1963), que visitou o Tocantins e o Pará; o oficial da marinha inglesa Henry Lister Maw, que desceu o rio Amazonas, vindo do peru, assim como os seus colegas, tenentes William Smyth e Frederick Lowe, que desceram o rio Amazonas durante a Cabanagem; o missionário metodista dos Estados Unidos, Daniel Parish Kidder (1815-1891), que esteve em Belém durante a Cabanagem, e condenou os revoltosos, apesar de se dizer chocado com o tratamento que os riscos davam aos pobres e aos índios. O alemão sir Robert Hermann Schomburgk (1804-1865), que visitou os índios da Guiana Inglesa e do alto rio Negro, e seu irmão, Moritz Richard Schomburgk (1811-1890), que tentou escalar o monte Roraima; o príncipe Adalbert von Preussen, de Belém, que viajou pelo rio Amazonas de canoa; o francês Francis Louis Nompar de Caumont Laporte (1810-1880), que visitou as guianas inglesa, francesa e holandesa, além do rio Amazonas em sua parte oriental; o norte-americano William Edwards (1822-1909), cujas descrições do rio Solimões e dos índios aculturados despertam a atenção de Wallace e Bates; os ingleses Alfred Russel Wallace (1823-1913) e Henry Walter Bates (1825-1892), que navegaram pelo Amazonas até Manaus, de onde partiram em direções opostas. Bates visitou o Solimões, enquanto Wallace seguiu o rio Negro. Ambos realizaram um precioso trabalho científico, especialmente no campo da botânica; o matemático e botânico amador norte-americano Richard Spruce (1817-1893), que ouviu falar na expedição de Wallace e Bates, pegou um barco e veio encontrá-los em Santarém, onde ficou um ano coletando plantas; o oficial

da marinha de guerra dos Estados Unidos, William Lewis Herndom (1813-1857), que foi enviado pelo governo americano para investigar as potencialidades econômicas da Amazônia, viajou pelo rio Amazonas, vindo do Peru, relatando mais tarde, ao Congresso do Estados Unidos, que a região possuía enormes potencialidades e deveria ser colonizada por homens brancos, não por índios; o alemão dr. Robert Christian AvéLallement (1812-1884), eu esteve entre os mura do Madeira e os tucano de tabatinga; o inglês William Chandless (1829-1896), que explorou o território acreano, esteve no Purus e descobriu um tributário desse mesmo nome, que ganhou seu nome; o alemão Franz Keller (1835-1890), que visitou as corredeiras do rio Madeira e contatou os índios caripuna; o engenheiro norte-americano George Earl Church (1835-1910), que fez a primeira tentativa de construir a ferrovia Madeira-Mamoré; o cientista suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), professor da Universidade de Harvard, que, acompanhado da mulher, Elisabeth, viajou através do rio Amazonas, medindo o físico dos índios e deixando um relato com tinturas racistas; o geólogo norte-americano Herbert Huntington Smith (1851-1915), que estudou os insetos da região; o médico francês Jules Crevaux (1847-1882), pioneiro do tratamento da febre amarela, que viveu na Guiana Francesa e visitou a serra do Tumucumaque; o geógrafo francês HenriAnatole Coudreau (1859-1899), que viajou pela Guiana Francesa, pelo rio Branco e os rios Urubu e Trombetas, contatando diversas tribos, e considerava os índios seres inferiores que deveriam ser exterminados para dar espaço aos europeus civilizados, especialmente aos franceses; o alemão Paul Ehrenreich (1855-1914), que viajou pelo Purus e estudou as línguas dos povos indígenas.

OS SEDUZIDOS PELA SELVA Mas nem todos os viajantes, ou cientistas, apresentaram sinais de preconceito racial, ou arrogância eurocentrista. Alguns realmente se identificaram com a região, com o povo, dedicando suas vidas ao conhecimento e ao aprendizado. Os exemplos são inúmeros, como o bispo João de São José Queiroz, que deplorou o estado em que os povos indígenas se encontravam durante seu ministério, em 1761; o oficial de infantaria português Ricardo Franco de Almeida Serra (1750-1809), que se apaixonou pelos povos indígenas da Amazônia e se casou com uma jovem terena; o oficial do exército imperial brasileiro João Henrique Wilkens de Mattos (17841857), que lutou na Cabanagem mas se tornou um defensor dos caboclos e índios, denunciando o estado de degradação e decadência em que se encontravam o rio Negro e seus povos; o poeta Antonio Gonçalves Dias (1823-1864), que viveu seis meses entre os mawé, mura e mundurucu, mostrando-se solidário com esses povos; o canadense Charles Frederick Hartt (1840-1878) que estudou as culturas indígenas, escreveu uma síntese etnográfica da Amazônia e foi um dos primeiros a compreender a importância e a riqueza dos mitos indígenas; o carioca João Barbosa Rodrigues (1842-1894), que, ao lado de sua esposa Constança Rodrigues, fez o primeiro contato com os waimiri, no rio Negro, e deixou uma magnífica coleção de literatura oral dos índios; o conde italiano Ermanno Stradelli, que se apaixonou pelos povos do rio Negro, denunciou os abusos cometidos pelos missionários católicos e registrou o rico universo mitológico de diversas tribos, alguns desses registros em versos; o alemão Theodor KochGrunberg (1872-1924) que, viajou pelo alto rio Negro publicando mais tarde um estudo sobre a mitologia dos Tariana, tucano, makuxi e wapixana, revelando grande identificação e solidariedade com esses povos; o escritor brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909), que chefiou a Comissão Brasileiro-Peruana de Demarcação, viajou pelo rio Purus e escreveu um dos mais contundentes textos de denúncia da terrível exploração a que eram submetidos os seringueiros. AS TRANSFORMAÇÕES DO DISCURSO COLONIAL

E foi assim que, pela contribuição de tantos viajantes mas sem romper com a velha tradição da consciência de desigualdade, o discurso colonial passa a mudar na Amazônia a partir de 1750. Nessa época, que pode ser entendida como o instante em que os europeus se dão conta de que inventaram um mundo novo, o pensamento destacase da esfera do relato e experimenta mover-se fora da antiga similitude teológica da contrareforma. A expressão torna-se leiga e profana, e as narrativas perplexas já não são formas de conhecer, mas, antes, uma reflexão mais decidida sobre a colisão entre culturas e naturezas, que se escondiam e subitamente se revelaram no choque. Do mal iluminado local onde se estabeleceu essa colisão, a confusão começa a se dissipar. O tempo da fixação e da conquista está prestes a encerrar sua ação. Atrás de si restam apenas as fábulas lúdicas - fabulário cujos poderes de encanto crescem com essa racionalidade nova de semelhança e ilusão. Por toda a parte desenham-se as fábulas da região, mas, agora, sabe-se que são fábulas; é o tempo da necessidade de louvar a própria força e tentar a compreensão da ciência. Observemos essa nova perspectiva através de quatro europeus, de quatro personalidades que, na Amazônia, criaram obra pioneira. Cada um deles teve sua cota de aventuras, de mistérios e assombros. Primeiro, o escritor John Gabriel Stedman (17441797), autor de Joana or the Female Slave, um dos maiores sucessos literários do século XVIII; em segundo lugar, o poeta-soldado Henrique João Wilkens, cujo poema épico Muhuraida, sobre a guerra aos índios mura, substitui poeticamente as velhas analogias dos viajantes pioneiros; m terceiro, o desenhador de Bolonha, Antonio José Landi (1713), um dos plasmadores da cidade de Belém, modelo de cidade amazônica; e, finalmente, o cientista Alexandre Rodrigues Ferreira (1784-1815), que, por um sistemático inventário exaustivamente coletado, faz emergir a grande região ao sistema das observações científicas. John Gabriel Stedman nasceu na Escócia. Filho de uma família tradicional, ingressa nas armas como oficial da Scots Brigades, um destacamento a serviço da República Holandesa. Em 1772, foi transferido para o Suriname, para reforçar as tropas na guerra contra os "marrons". Stedman era um homem feito para a vida militar, de temperamento impulsivo, briguento e que adorava embriagar-se. Foi numa dessas noites de bebedeira que se apresentou como voluntário para lutar nas selvas da Guiana. Ganhou a patente de capitão e desembarcou em Pernambuco sob o comando do coronel Louis Henry Fourgeoud, mercenário suíço. Foi meio bêbado que ele viu pela primeira vez o casario de madeira, no estilo nórdico, e as ruas largas e retas da cidade que começavam desde o Forte Zelândia, passavam pelo Orangeplein, o palácio governamental, e chegavam ao fundeadouro, tudo isso no fumegante calor tropical. Paramaribo estava com 49 mil habitantes, a maioria escravos. Antes de seguir para a frente de combate, no rio Cottica, o jovem capitão convive com a melhor sociedade local. Entra, então, em contato com uma das mais cruéis sociedades escravocratas da época, presenciando cenas de barbaridade contra os escravos que aconteciam em qualquer lugar, no recesso dos lares ou em praça pública, onde se processavam os castigos mais monstruosos. Em seu diário, Stedman registra com indignação essas práticas. Certa feita, viu um negro ser executado a pancadas, após ter tido os ossos rompidos; em outra oportunidade, presenciou a prática do "vaso espanhol", tortura inventada por Aguirre e que consistia em amarrar a vítima com os braços por baixo dos joelhos, espancar de um lado até esfolar, jogar suco de limão nas feridas, virar para o outro lado e recomeçar a bater, até a morte. Era uma época, numa terra dominada por uma cultura discricionária. Paramaribo, situada na margem esquerda do rio Suriname, a 17 milhas da foz, era uma cidade cuidada com o desvelo maníaco e seus habitantes estritamente regulados em seu comportamento. As ruas eram ornadas de laranjeiras, limoeiros ou tamarindeiros, que lhe davam perfume e a enfeitavam na época da floração. As casas, construídas de madeira sobre base de tijolo, tinham dois ou três andares, sem janelas de vidro ou chaminés. Depois das seis da tarde, nenhum negro podia andar sem ter uma permissão especial. Há festas, danças, teatro, mas tudo muito comedido e apenas aos sábados. A prostituição de escravas funcionava ativamente todas as noites, com mulheres brancas que oferecem negras aos homens, por aluguel semanal.

O contraponto do romance impossível é feito por Quaco e sua pedagogia sobre uma terra impossível. ainda que filha bastarda de um fazendeiro branco. Stedman vai tecendo um painel revoltante de uma sociedade escravocrata. ela dá à luz a um menino. em que ele se desespera por não ter recursos para comprar Joana. seus olhos. movendo seus membros bem formados com uma graça acima do comum. empurrando os negros rebeldes para a Guiana Francesa. conforme ele mesmo contou: "Essa encantadora jovem eu a vi pela primeira vez na casa do senhor Denelly (. Publicado em Lisboa. representa um documento histórico inestimável. Ao longo de quinhentas páginas. As tinturas antiescravistas do autor. com o tom sentencioso dos narradores coloniais e um ar de superioridade em relação aos fazendeiros holandeses. com uma negra. de Henrique João Wilkens. ela tinha um corpo mais elegante que a natureza possa exibir. Seu rosto era cheio de modéstia nativa e de mais distinta doçura. de cuja senhora. restando apenas os apelos emocionais da narrativa. que só poderia ter saído da pena de um autor de língua inglesa escrevendo no século XVIII. Nos cinco anos seguintes. Na condição de ex-escrava e invocando a cor de sua pele. eram grandes e expressivos. ela diz que não pode acompanhá-lo e pede que Stedman a esqueça. pois os escravos esfregavam essa fruta no soalho. com o encarregado sentimentalismo de seu drama amoroso. testemunhas da bondade de seu coração. minucioso. Stedman. resultou em algo palatável para os leitores daquela época. com dias de felicidade. o drama tem início. era a mais notável favorita. Muhuraida. É o trabalho de um homem que se envolveu diretamente no contato com os mura. Stedman que.Nesses dias em Paramaribo. unindo as observações da natureza. Ele volta imediatamente a Paramaribo e enfrenta os meandros da burocracia colonial até lograr a liberdade da mulher que ama. de quinze anos de idade. O autor. volta para os braços de Joana. apesar do escuro de sua pele. negros como ébano. freqüentando as casas recendendo a limão. no ano de 1819. o nativo Quaco. suas faces se iluminavam de uma cor rosada. Joana confessa que só iria prejudicar o moço branco na sociedade branca da Europa. pela Imprensa Régia. holandês. Após cinco anos de pelejas com os "marrons". O final da narrativa é emblemático. repleto de observações. uma soma suficiente para alforriar Joana. de eventos. Através de uma carta. o absurdo de sua relação amorosa com uma mulher de cor e a misteriosa paisagem dos trópicos fazem da obra um exemplo único. os holandeses finalmente conseguem ocupar o rio Cottica. Seu cabelo era quase preto formando um penteado alto com aneizinhos com flores e broches de ouro". e a argumentação geral que é quase uma retórica. que une páginas de edulcorada narrativa amorosa com adstringentes momentos de descrição pseudocientífica.. Aparentemente essa mistura improvável. Foi na residência do senhor Demelly. quando era encarada. É nesse momento que Stedman recebe um dinheiro extra. Stedman vai sofrer na tentativa de comprar a alforria de Joana. mas Joana não pensa assim. no entanto. da elite judiciária da colônia. Seu nariz. abatido e inconsolável.) na qual almoçava todos os dias. dos costumes.. Stedman acaba conhecendo a mulata Joana. no segundo ano. Uma vez conseguido o objetivo. perfeitamente formado. embora pequeno. quando ela sorria revelavam duas filas de dentes brancos como neve das montanhas. parte do Suriname levando apenas o filho e as anotações que um dia vai transformar em livro vitorioso. perde-se no emaranhado de contradições de uma contingência histórica maior que sua própria compreensão. seu companheiro e mestre nas artes de sobreviver nos trópicos. introduz na narrativa um outro elemento. habitantes . Mais alto do que a média. quase trinta anos depois de sua confecção. índio aculturado. seus lábios ligeiramente proeminentes.1 A história de amor entre o capitão Stedman e a mulata Joana servirá de entrecho para um texto longo. O romance de Stedman e Joana amarra a narrativa de aventuras. entre um combate e outro. de separação e de tristezas. Joana. Desde o instante em que Demelly diz a Stedman que a moça é uma escrava. pensa em seguir com ela e o filho para a Europa. e o desespero cresce ainda mais quando. além de ser a primeira tentativa poética da região.

e os que habitam os bosques até ao ano de 1756 não consta que saíssem do rio Madeira.) Mas ainda os Carmelitas e os Mercedários intentaram. A poesia era uma epopéia com as marcas completas da predestinação imposta aos cristãos desde o princípio dos tempos.. já infestam o Amazonas. mas sempre sem efeito". Poseidon e Divina Providência. ferozes guerreiros que jamais aceitariam a dominação branca de suas terras e resistiram até o século XIX: "Entre várias nações gentias de Corso menos conhecidas. a verdade. Era sempre possível. e suas confluências todas. Muhuraida é um desses momentos de comparação. Em Muhuraida. A aventura marítima e evangelização. se aproximava das batalhas contra os mouros na África."3 Ao contrário do épico dos primórdios do projeto colonial português. a conquista se cumprira sem nenhum eufemismo. O épico estava sedimentado exatamente na justa necessidade de evangelização e semeadura do cristianismo que portugueses e espanhóis estavam determinados a realizar nos mundos descobertos. em rios. esse épico amazônico que não consegue mais abarcar esse universo aventureiro é cheio de predestinação. que bem merecida plena de talião (. Wilkens foi o Segundo-Comissário e em 1787. cada similitude da empresa mercantil lusitana vinha alojar-se no interior da vasta relação de conjunto da filosofia expansionista da Renascença. Quando João Wilkens escreveu seu poema. só se empregam em matar. as cabeças haviam rolado.. que possuía a ludicidade do infinito. O sangue havia jorrado. Entre o frondoso jorro de ornamentos e a glória portuguesa. os povoados. conforme depoimento de Alexandre Rodrigues Ferreira. João Wilkens abre a poesia e afirma que a conquista não suporta esse direito de ser marcada pela resistência dos índios. em busca de uma finalidade simbólica sobreposta ao visível. exigindo que sua expressão somente se arrebatasse quando submetida à prova da comparação. os infiéis estavam de joelhos. descobrir coisas surpreendentes nos mares misteriosos. isto é. de maneira que o grande feito dos descobridores fosse absoluto como os outros grandes feitos da humanidade. a empresa colônia já havia afundado suas raízes no mundo descoberto. buscando-os já nos bosques. Mirenhas. e da fidelidade muito típica do militar com pendores artísticos. trata da derrota dos mura. Observando as palavras de João Wilkens. por vezes.do rio Japurá. como os Maués. já que Deus havia dado ordens infinitas. pela cultura nacional ou.. reduzi-los. damo-nos conta de uma nova tensão. e muitas outras que habitam o rio Japurá. Não apenas por se tratar de uma obra medíocre. trazendo para o seu bojo a similitude pagã da cultura greco romana filtrada nos conventos medievais. ocupava o posto de Comandante Militar do quartel da antiga Vila de Ega. desempenhou uma campanha de resistência tão acirrada. e roubar indiferentemente os brancos como os índios domésticos. hoje Tefé. Muhuraida é um texto mais direto. A subjugação dos mura era um desses fatos que não mais possuíam a série de identidades que acalentavam as narrativas primeiras. sobretudo em Camões. somente quando o próprio feito se concretizasse pela força do poder. o certo é que a obra carrega essa corrupção estilística. Canto de glória e certeza. fruto talvez de um coração arrebatado pelos ócios da caserna. na sedimentação da segunda fase colonial. grandes personalidades e grandes destinos. A guerra havia sido: "Incursão terrível que se fez contra os Muhra. ciência e rosto fabuloso. pois não sendo antropófagos. é mais conhecida a grande nação Muhra. os já aldeados. (. Nos grandes épicos ibéricos. Argonautas e Almirantes Deus e deuses. Ituás. radicalmente. atacando as frentes de penetração. isto é.). explicando-lhes as verdades da religião. reminiscência das dificuldades numa terra difícil e paradisíaca. Era um feito que. que somente o extermínio completo os obrigaria a aceitar a subjugação do vale. antes do novo mundo. E esse conjunto ideológico é tão poderoso que o épico se arrebata e suplanta a própria reserva poética cristã. como o épico camoniano. objetivamente contundente e despido. na qual sofreram. nele já se pode observar todos os prenúncios da decadência interna da epopéia. os viajantes solitários. a poesia começa a .. pela ordem de El Rei.2 Este povo tão valoroso. e convocá-los ao grêmio da igreja.

esse esforço manifestou o signo da predestinação colonial . E. onde a conquista é uma necessidade que os portugueses exercem com competência e efeitos. da vaidade do inimigo. no fim. Que confirmam os fios inescrutáveis". Que as faces banha em lagrimas de gosto. sob pena de comprometer o promissor futuro da colonização portuguesa: "Tal do feroz Muhra agigantado Costume e certo. Que lhes concedeu o ente onipotente Por frívolos motivos vendo a terra De sangue tinta de humana injusta guerra". ficar sustificadas. que difundida / Nos corações. mas.. produz a própria figura de interpretação histórica e ideológica da região. Contudo. Essa relação mútua nada surpreende. invariável uso. / o sucesso.) das nações desenganadas / (.) Que ao averno conduz final perigo".. nas almas obstinadas. das nações desenganadas Da ponta. Que confirmam os fios inescrutáveis". que vai envolver os próximos poetas amazônicos. que difundida Nos corações. / que confirmam os fins inescrutáveis. e tão difuso Nos rios confluentes. João Wilkens não é neutro. escreve: "Nas densas trevas da gentilidade Sem tempo. "depois de ver nenhum século passado correr só pranto em abatido rosto". que habitado . Faz conhecer os erros. mas um futuro que se assemelhasse ao passado lusitano. preparando um futuro."nos impensados meios admiráveis..5 Há. Depois de ver nenhum século passado Correr só pranto em abatido rosto. Que do rio Madeira já espalhado Se vê em tal distância.. a afirmação portuguesa é de pedir o canto do "sucesso fausto inopinado". culto ou rito permanente. então.. É abertura para uma cantata de crueldade e catolicismo: "Invoco aquela luz. Por isso. sobrepondo-se à interpretação ideológica com grande pureza. De outro lado. a epopéia se colore de alegre saúde numa verdadeira batalha literária: "Canto o sucesso fausto inopinado. Parece que esquecidos da deidade Alheios vivem dela independente Abusando da mesma liberdade. assim.retirar-se do meio da História para entrar na sua futura era de transparência e de neutralidade aparente. / (. que faz celebrado / tudo o que a providência tem disposto". Temos. um mundo poético sem pudor. aquela luz. Essa inter-relação entre mecanismo colonial e esforço manifesto é tão essencial para a poesia do soldado João Wilkens quanto para a conquista.. Canto o sucesso. de um lado. / Abusando da mesma liberdade". A luz resplandecente apetecida Dos sustos. o mecanismo que move a conquista durante os longos anos de penetração e reconhecimento. pois somente a transparência assume já aquela forma singular. para que a glorificação cresça como ramagens naturais numa catedral de palavras artificiosas. e a perdida Graça adquirir.4 Assim começa João Wilkens o seu hino genocida. Limpa as lágrimas do semblante benévolo e arma-se de uma estética bem medida. vemos o poeta-soldado cantar ". nas almas obstinadas. tensa. propondo a ordem de El Rei para esses "que esquecidos da deidade / Alheios vivem dela independente. A poesia começava na região por um realismo absolutista. que faz celebrado Tufo o que a providência tem disposto Nos impensados meios admiráveis.6 João Wilkens canta a identidade e a diferença. E.

No plano da linguagem. relatórios e leis coloniais. manda contratar profissionais em diversos países da Europa para a execução de serviços técnicos durante o trabalho de demarcação na Amazônia. desenhista e naturalista Antonio Giuseppe Landi nasceu em Bolonha. Em 1750. Nada impedia as bárbaras sevícias A confiança achava o desengano De mão traidora.8 João Wilkens. com a assinatura do Tratado de Madri. A dor. O arquiteto. o pasmo. a visibilidade do genocídio passa pelo filtro e torna-se o discurso da dramática conquista. Landi segue comitiva do Capitão-General para a aldeia de Mariuá. acompanhado do astrônomo Angelo Brunelli. através da palavra simbólica. enfrentando a tensão. reproduzisse a figura inteira da aventura de sua sociedade. em 1753. dos decretos. mas. legalizada. Que as esperanças de paz. todas fictícias: Nada a fereza indômita abrandava. Os mesmos conceitos de tranqüila dominação caem sobre a terra.7 A estrutura do poema. chega a Lisboa. No ano seguinte. em golpe desumano". o mercantilismo vem gravado nele e. o sentimento. A cidade de Barcelos floresce. Que o poema. Ao formar-se. e ao confuso. permite ao poema uma sustentação razoavelmente firme no interior da epopéia em decadência. torna-se um dos mais renomados urbanistas de seu tempo. o susto. Graças a essa sustentação. na mesma superfície de contato. que pede. . Esse período italiano está registrado nos desenhos hoje pertencentes ao acervo da Biblioteca e Arquivo Comunal de Bolonha. Mariuá não passa de um aglomerado de casas de madeira e taperas. Em Alexandre Rodrigues Ferreira existe a mesma forma e ela desempenha o mesmo papel em nível das investigações científicas. converter-se no painel das estruturas. como os clássicos. Landi. Do empenho nada em fim mais resultava. lugar escolhido para acomodar as comitivas espanholas e portuguesas encarregadas de demarcação dos limites. nas suas trajetórias de formas. a grande força do poema épico do qual no passado servia Camões: "Mas minha casta Musa se horroriza. promessas e carícias. limitando a notícia e filtrando poeticamente a empresa colonizadora ("perplexo passageiro intimidado"). e através dele pode-se conhecer a conquista como um desenho completo. recompõe a sua pura estrutura. no fim. Perplexo passageiro intimidado. pretendia que a poesia. semipagã. o rei Dom João V. a mágoa se eterniza: Suspenda-se a pintura. Itália. mudando a feição urbana e transformando a aldeia numa pequena cidade de gosto europeu. a mesma pressa em justificar e afirmar escolhe as palavras. nos próximos seis anos. destemperada A Lira vejo. aos poucos vai se transformando num burgo atarefado. reproduzisse a textura espiritual do projeto colonial português: "Mil vezes reduzi-los se intentava Com dádivas. E isso não é uma propriedade exclusiva do poeta. Wilkens e Ferreira constituem a mesma configuração: a preocupação de ambos volteia sobre a Amazônia.Parece ser por ele. que enlutada Das lágrimas. de um bom gosto que surpreendia a todos os visitantes. esse processo simples de filtragem parece restituir aos olhos dos conquistadores. Seus bárbaros intentos vais logrando". Muhuraida é muito mais que um devaneio no interior da extensão histórica. próprio aos trópicos. O poema de João Wilkens é um dos grandes momentos da fixação portuguesa. da imaginação de Landi sairão magníficos projetos s que serão edificados. em 1713. eloqüente. em tantos detalhes quantas são as manifestações do espírito mercantil. de Portugal. depois Barcelos. A natureza e enfim vendo ultrajada. Vai-me faltando a voz. sendo aceito como membro da Academia Clementina de Bolonha.9 Seria importante observar as afirmações do poema em cada palavra. num estilo barroco arejado. E assim. onde participa dos preparativos das expedições até a partida para o Grão-Pará. sob os olhos do leitor. Procura-se a outro tom novo instrumento". ao lado dos esboços da história.

e guardou com desvelo as obras majestosas desse escultor de sonhos. os insetos. Alexandre Rodrigues Ferreira. harmoniosa em seus traços. era um homem frugal. Em Barcelos. Esse precioso e monumental trabalho sofreria muitos imprevistos adversos e nunca chegaria a atingir seu objetivo. e sua obra mais importante. em Minas. para servir de repouso para seus restos mortais. iniciada em 1748. recebem autorização para regressar a Lisboa onde encontrariam melhor aproveitamento profissional. Mas Belém. de 1784 a 1788. típica da região. a beleza de um mundo ainda sob o domínio da fábula. vibrante em suas cores. nas intrigas da corte. Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815). Rio Negro. seus edifícios são sinais de uma utopia e pedra. mas com os adornos finais desenhados por ele. Landi vai ser peça-chave no embelezamento da cidade de Belém. de poucos gastos. usou um sentimento nacional que já flamejava nos peitos nativos. Giuseppe Landi viveu intensamente. como que para mostrar o quanto se considerava um paraense. fazendo observações filosóficas e políticas. e prefere o calor. Ao término dos seis anos. formado em Coimbra. Guiseppe Landi deixou registrado o que significaram para sua vida esses seis anos no coração da Amazônia. a filha do senhor João Souza de Azevedo. uma viagem científica pelas capitais do Grão-Pará. foi especialmente escolhida pelo artista. Reconhecido com honrarias e altos postos. o banho de vindica. Em 1771 finalmente é inaugurada a Catedral. E. Pelos desenhos de Landi. Giuseppe Landi armou na pedra. a marca da colonização lusitana em seu mais alto ideal. na perspectiva dos séculos. empreende no reinado de Dona Maria I. cidade caprichosa. já que dedicada à sua protetora. a chuvarada recendendo terra molhada. do Rosário dos Homens Pretos. as plantas bizarras. No começo. pensa nos invernos rigorosos. com quem viveu até a morte. os pássaros coloridos de forma improvável. os silenciosos igapós. Mato Grosso e Cuiabá. um modo e uma maneira de ser que já não eram mais portugueses. a Igreja de Sant'Ana. Uma delas. a idéia de regressar à Itália não lhe saía da mente. Belém. Ali. brasileiro nascido na Bahia. das Mercês. Da mesma forma que o Aleijadinho. Por isso. no final do século XVIII. de Sant'Ana. inaugurado na gestão do CapitãoGeneral Dom Fernando da Costa de Athaide Teive. a mata reivindicou os edifícios e legou ao futuro os alicerces mal encobertos pela terra escura do vale do rio Negro. Visto hoje. para os telhados de barro avermelhado ou abrindo caminho para uma carruagem que passa ruidosamente com suas rodas sobre o calçamento de pedra cor de vinho. Landi e seu amigo Brunelli seguem para Belém. desde 1791. casa-se com moça da terra. a profusão de ilhas. o dr. o que levou o governador Xavier de Mendonça a comentar que o arquiteto Landi era um pão-duro. na argamassa e no cinzel. Da imaginação de Landi também seriam erguidas as Igrejas do Carmo. Vive no Amazonas durante quatro anos. que lá estão. era a terceira cidade da América portuguesa.com seus índios a olhar com assombro para os frontais. Personalidade rica em nuanças. o odor de beladona nas noites enluaradas e o vinho de açaí. Mas Giuseppe Landi não se sente mais europeu. Mas a Amazônia foi lhe seduzindo. pode-se ver que era uma cidade requintada. Muito do trabalho do naturalista Saint-Hilaire deve-se à usurpação de memórias originais de Ferreira. numa demonstração que não era exatamente o unha-de-fome que o antigo governador Xavier de Mendonça pensava. e teve muita sorte em seus empreendimentos. . o paraense nascido em Bolonha erigiu os arrebatamentos de um projeto colonial tendo como matéria-prima algo mais que pedra e massa. pesquisando os três reinos da natureza e coletando produtos para o Real Museu de Lisboa. E ele passou a se encantar com tudo: com as águas escuras do rio Negro. durante a invasão de Portugal. o que não pode exatamente ser dito de seu contemporâneo. ganhando-lhe a atenção. a obra de Ferreira teria parte de seu acervo requisitado pelas tropas napoleônicas. Muitas dessas obras receberam também ajuda financeira do próprio artista. marcos de uma concepção de mundo que não prosperou em sua completa floração. o Palácio Residencial dos Governadores. e um exemplo de planejamento urbano e concepção arquitetônica para os trópicos. A partir de 1761. nos sobressaltos das grandes cidades. soube corresponder ao amor de Landi.

também falam pouco. eram rudes infantes. Daí ser o aspecto de um tapuia o de um homem sério e melancólico. mas não raciocina. Ferreira fundamenta as primeiras subordinações funcionais. Como aquela mesma taciturnidade com que se deitam. toda a complexidade de um carnívoro descrito no Système Anatomique des Quadrupedes (1792). não se arredava do abismo da ignorância. Mas é um critério da nobreza. Ferreira dirigia-se ao cume do saber e dava um volume próprio ao visível. como assustava a taciturnidade dos tapuias. porém não reflete. Rio Negro. como cientista e naturalista. Ciência que perdia o poder de fundar um nexo entre esses homens indiferentes e a humanidade civilizada. reina o discurso estruturado da posse colonial. os seus espíritos não se acham exercitados pela filosofia nem iluminados . universalizante na prudência lusitana. bastava que o olhar recaísse nas espécies e reconhece o que era vivo e o que não era.10 Criando uma obra que se movia rumo à necessidade de ligar as funções naturais da região. as plantas. Não se vê neles uma demasiada atenção ao que se lhe diz. Enquanto nas narrativas dos desbravadores a representação era fechada. A articulação era uma fórmula. Na velha crônica. Um carnívoro deixa-se classificar em suas relações. única condição de defender a aparente função secreta da dominação colonial. um racionalismo da dignidade absolutista. não se podia outorgar o direito de possuir o chão que pisava. de Vicq d'Azyr. pois. que não deixa distinguir-se dos outros animais.O inventário de Alexandre Rodrigues Ferreira. Pelo que se vê. Diário da Viagem Filosófica. ele tem estomago. Na sua língua não há uma só expressão que designe a divindade. com ela acordam". a classificação de Ferreira seguidamente estremece ao defrontar-se com os "homens naturais". fora do tumulto das paixões. não são homens que desperdicem palavras. Acostumados a pensar pouco. aprende. Isto naturalmente deve acontecer ao homem constituído na infância da sociedade. A obtenção dos dados é linear e cientificamente criteriosa. Nem a ordem. O tapuia provocava um ínfimo e inquietador desnível na ciência de Ferreira. que se internava na secreta nervura da irracionalidade. posto que os naturais da terra estavam incapacitados de entendê-la: "Não é que lhes faltem acenos ou vozes para manifestarem seus gostos e dores. Alexandre Rodrigues Ferreira. fornece uma representação da simultaneidade da análise e do desenrolar da vivência na linguagem do tempo. pelas Capitanias do Grão-Pará. quanto à hierarquia dos reinos da natureza. O seu falar é tão lento como são lentas as suas cogitações. no trajeto entre uma gramínea e um artrópode. é verdade que algumas tribos não têm nenhum conhecimento de um ser supermo e nem praticam culto religioso. na sua "infância". estrutura dentária. aqui a linguagem pode dar vez a um caminho diferente. psicologizando o que antes era um sintoma teológico da primeira queda: "A respeito da religião. porém. possui uma linguagem mais aberta que a de seus antecessores: sua observação é profundamente articulada. estando em semelhante estado as potências intelectuais tão débeis. mas é que eles. O projeto de sua Viagem Filosófica resultaria numa enciclopédia que abrange o todo. Mato Grosso e Cuiabá é naturalismo. unindo. porque o interesse é de açambarcar tudo. A ciência de seu tempo já tornara o conceito de vida como fundamental. Ferreira reduzia o índio ao estatuto da criança. a antropologia. nem a beleza do universo fazem a menor impressão aos seus sentidos. a economia. Olha. ligando essa gama de realidade. A descoberta de um novo carnívoro não assustava. No entanto. enquanto o tapuia. Diário da Viagem Filosófica é uma afirmação clara: o que há é isto. a articulação ideológica estava justaposta e permanecia suspensa e esvaziada dos valores próprios da região. graças à preocupação estrutural tão cara ao século XVIII. O inventário de Alexandre Rodrigues Ferreira já não trata mais do que se vai descobrir. Não há vizinhança entre o tapuia epicurista (reiteradamente o índio é classificado assim) e o branco cristão. no comentário. tomai! Uma aparentemente incontestável afirmação. não mais cosmogonia. dos minerais às estruturas de produção da sociedade. como era do costume racionalista e universalizante da ilustração européia. E tudo é exatamente o que perfaz a articulação. não faz mais do que vegetar. os animais. Alexandre Rodrigues Ferreira é a sabedoria científica do mercantilismo em seu imediatismo. E a humanidade. Vive. numa busca para determinar o raio e referência do visível. e assim construir um caráter.

É o mesmo que quiséssemos encontrar neles o mesmo conhecimento quando crianças que quando homens". catalogado. classificado. levando a região a participar de uma episteme. Adquirindo uma "historicidade" para a paisagem. Giuseppe Landi e Alexandre Rodrigues Ferreira tentaram captar um saber que derrotasse o grande enigma proposto pela Amazônia. mas que destas suas disposições naturais não soube usar de outro modo com relação aos nossos costumes. ainda que na sua mais baixa categoria. deixa de assustar e provocar alucinações. A nova ordenação sobrepõe num único e igual momento os papéis que a aventura e a perplexidade do princípio desempenharam na linguagem mercantil desbravadora. E a resistência indígena recebe foros de imprudência e turbulência juvenis. uma catalogação marcada pela eficácia do racionalismo e tomada em uso numa nova força de ordenação epistemológica. evidentemente. aquelas plantas. encontra-se ordenado numa hierarquia. bem como das edificações de Landi. nunca tinha visto aqueles índios. a inferioridade do homem natural é uma conseqüência quase mecânica. levando ao fracasso o seu romance. Mas o que será classificar e promover deduções de um complexo? Será.pela revelação. Mas o europeu racionalista saberá que essa familiaridade será sempre aparente. e as coisas descobertas naquele mundo novo deviam tornar-se peças. enriqueceram tudo por valorizações da racionalidade científica. Depois desses homens. A ideologia liberada pelo conhecimento positivo. a Amazônia não mais será uma paisagem sem nome. se há uma exatidão indiscutível nas "Memórias sobre as cascas de paus que se aplicam para curtir couros". que a natureza assim havia disposto para um herói do seu tempo e do seu país. nem simplesmente convertido ou domesticado. Um mundo descrito. Wilkens e Ferreira. senão merecendo a morte. nem simplesmente convertido. Ao realizar essa construção a posteriori de uma visão filosófica da Amazônia. suscitava e mantinha os levantamentos de vendedores numa emergência.12 O espírito que moveu homens como Stedman. o tapuia não pode ser mais tolerado. os europeus finalmente ficaram cientes do nível de emergência que a nascente civilização tropical gerada no choque colonial instaurava. Eis aí a dificuldade posta de lado e o visionarismo teológico abdicado. . explicado. Se o rato do mato. aventurar-se nele. João Wilkens. As obras criadas por essas mentes fez da Amazônia uma grande forma em devir. quem não reflete nem discorre. encontraram uma casualidade. essa complicada e tentacular efígie equatorial. a Amazônia encontrava-se seqüestrada de sua propriedade primordial. por exemplo. atravessá-los para reconhecer gente e objetos que se tornarão familiares. Somente a resistência inesperada dos "homens naturais". Seria absurdo pretender que seja capaz de reconhecer a existência de um Ser invisível. proporcionando o nascimento de uma visão "histórica" da Amazônia. fixo e pré-determinado. que por suas próprias mãos adiantou". ela será gora um complexo a serviço das deduções empíricas. Este homem que não é só zoologia. Landi e Alexandre Rodrigues Ferreira está presente com a extensão da fixação colonial em todos os gestos dessas obras analisadas. nem generalidade teológica. Depois das páginas de Stedman. mus sylvestris americanus está perfeitamente classificado. A Amazônia era uma região difícil e por isso mesmo estimulante. Como consciência vazia e não abstrata. converterem-se em dados. a não-aceitação do índio como cultura pertinente ganha um sentido epistemológico. esses homens colocaram em dia as necessidades dos diversos projetos coloniais em crise.11 Por isso. aqueles costumes. Enquanto escritores como Stedman e Wilkens fizeram da palavra o som das trombetas que derrubaram as muralhas dessa Jericó de negros revoltados e índios ferozes. encontrar-se no meio de seus mistérios. O trabalho desses homens foi a grande tessitura empregada no âmago da implantação cultural do projeto colonial. fracionando essa unidade. Esses homens do século XVIII deram um sentido. a região já parecia domada. Ferreira. na qual a paisagem recebe finalmente um sentido. Muito menos Stedman podia contar com o caráter irreconciliável do mundo da colônia com a realidade européia. Eis como Ferreira conclui o seu comentário sobre a revolta de Ajuricaba: "Eis aqui resumida a história da vida e da morte de um índio. Foi o primeiro lance para superar o desafio fora dos apagados gestos de exotismo aventureiro.

naqueles tempos de vela. a Amazônia relegada ao abandono. de grande produtividade e sem o uso do braço escravo. era completada pela pecuária e a pesca. ao refletir as enormes mudanças políticas que ocorreram naquele país a partir de 1792. A cidade de Belém. tanto por laços familiares quanto por interesses comerciais e facilidades de navegação. Assim. e a Amazônia experimentara um surto de progresso material em três administrações. durante todo o século XIX. Nenhum deles estabeleceu uma política específica para a área. ao contrário do que ocorria no Brasil. Uma viagem de Belém a Lisboa. com sua apreciável estrutura urbana. que constituíram uma burguesia mercantil bastante amadurecida quanto a seus próprios interesses. E a íntima ligação também formou na Capitania do Grão-Pará e Rio Negro uma administração local de bom nível e um sistema educacional razoável. em alguns casos. de Caiena. Mas a libertação dos países amazônicos do domínio espanhol não trouxe maiores conseqüências para a Amazônia. essa agricultura não se desenvolvera de acordo com o modelo das grandes agroindústrias. no modelo pombalino. com economia de subsistência ou exclusivamente extrativa. a colonização na Amazônia não . menos pelo esforço revolucionário francês e mais pelo poder cada vez maior das classes dirigentes crioulas. O pavor causado pela possibilidade de contágio dessas "pavorosas idéias" levou os governos espanhol e português a extremos. ao alvorecer do século XIX. Rio de Janeiro e São Paulo. Essa economia agrária. contra os quase dois meses até São Luís e a jornada de três meses até o Rio de Janeiro. Manuel Bernardo de Melo e castro e Francisco de Souza Coutinho. por exemplo. que abastecia sem problemas os centros de consumo da região e exportava largamente. A Capitania do Grão-Pará e Rio Negro era um estado colonial bastante ligado a Portugal. Na América espanhola. somente tiveram uma política para a região Amazônica quando instados pelas decisões tomadas pelos portugueses e. era de aparente estabilidade política. Meio século de programas econômicos voltados para a agroindústria e a manufatura tinha criado uma poderosa classe de proprietários e comerciantes. permitindo ao menos aos filhos da elite uma boa perspectiva de futuro. durava cerca de vinte dias. depois. por brasileiros. anil e cacau. com ligação direta com Lisboa e a presença de um número muito grande de portugueses na região. os nascentes países hispânicos. Os investimentos portugueses haviam crescido desde 1750. impraticável na Amazônia. era uma demonstração de que já estavam longe os anos de conquista e penetração. infiltrando essa "mercadoria" altamente explosiva nas agitadas colônias espanholas e na conservadora colônia lusitana. Nos últimos anos do século XVIII. respectivamente dirigidas por Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Desde meados do século anterior. Minas Gerais. uma ativa delegacia revolucionária traduzia textos e imprimia panfletos para o português e espanhol.QUINTA PARTE A AMAZÔNIA E O IMPÉRIO DO BRASIL O CONTINENTE QUER A INDEPENDÊNCIA Os portugueses na Amazônia entraram no século XIX sofrendo um sobressalto: a febre independentista que varreu as Américas inglesa e espanhola. COMO ESTAVA A AMAZÔNIA PORTUGUESA? A situação da Capitania do Grão-Pará e Rio Negro. mas a partir de propriedades pequenas e médias. Mas. Pernambuco. como açúcar. algodão. como os engenhos nordestinos. o fermento da independência política começou a dar frutos mais cedo do que o esperado. sendo mesmo. em capitanias como Bahia. Esses homens de negócio exportavam uma pauta de produtos agrícolas muito diversificada. O interesse é que. Belém era a capital de um estado colonial separado do Brasil. Isto fazia com que os ricos e os políticos freqüentassem mais Portugal que o Brasil. a Guiana Francesa tornou-se a ovelha negra das possessões européias. especialmente na Ilha de Marajó.

nas batalhas de Roliça e Vimeiro. ainda que a situação geográfica por sua imponência aparentemente indicasse isso. em 1808. obrigando-os a uma rendição e posterior retirada. se desejassem acompanhar o surto que estava mudando a face do mundo íbero-americano. Sem oposição. chegado o momento. cheia de possibilidades. saboreando o gosto do triunfo militar. O príncipe Regente. Eis porque a Amazônia nunca cogitou autonomia completa. nomeia um governo para administrar o reino. Mas antes. encontraram uma cidade em declínio. chegava a Belém a notícia da capitulação de Caiena às tropas de granadeiros do Pará. mas enfrentam forte resistência dos portugueses.)1 . Em 1810. os franceses da Gironda entram pela Beira baixa. (. Caiena rendeu-se em poucas horas e os paraenses ocuparam a possessão francesa por oito anos. que os reduzirão e coangustarão a renderem com profusão de sangue as Baterias e Postos mais dignos do seu desvelo para disputarem a irrupção pelas estradas do continente. Em dezembro de 1808. campo fértil para proliferarem as idéias revolucionárias que traziam na bagagem. durante os anos de Revolução.) o Furriel de Granadeiros do Regimento de Infantaria nº Joaquim Antonio de Macedo expedido da Ilha de Caiena pelo Tenente Coronel Manoel Marques. regressando a Belém apenas em 1817. pelo general Francisco da Cunha Meneses e pelo príncipe Castro. guardando um exemplar da Declaração dos Direitos do Homem.. agora recebendo apoio dos ingleses. estavam voltando com verdadeiras bibliotecas revolucionárias. um destacamento de elite da guarnição de Belém embarca em vasos de guerra portugueses e ingleses. e Comandante em chefe de Caiena e Guiana Francesa. As autoridades coloniais portuguesas eram tão paranóicas a respeito da Revolução Francesa que. o Império do Brasil pouco poderia fazer. circunscrita às cidades maiores como Belém e Vila da Barra. finalmente derrotando os franceses. sob o comando do general Massena. que dirigia à Capital da Colônia. Oficial da Legião de Honra. com Ofícios para o Governador: nos quais este lê a participação de que se acha ocupado pelo dito brio dos ataques. sob o comando do general Junot. O CENÁRIO POLÍTICO NO PROCESSO DA INDEPENDÊNCIA Ao ser desfechado o processo para a independência. enquanto os espanhóis dividem-se em duas frentes uma ao norte e outra ao sul. realisticamente falando. tropas francesas.. Comissário de Imperador e Rei. jovens soldados.atingira ainda o interior. O Grão-Pará tem uma participação destacada na guerra de Portugal contra a França da Napoleão. as elites do Grão-Pará e Rio Negro sabiam que não havia possibilidade de transformar a região numa nação independente. Sob o comando do general Francisco Cunha. as tropas napoleônicas mais uma vez entram em Portugal. com uma economia estagnada. da qual e de todo aquele país efetivamente se apoderou no dia 14 de Janeiro por capitulação proposta por Victor Hugues.. composto pelo marquês de Abrantes. Em novembro de 1807. com a missão de ocupar a Guiana Francesa. apenas uma escolha: Portugal ou Brasil. documentos e panfletos revolucionários eram traduzidos ao português e contrabandeados para o Pará. Comandante do Corpo de Vanguarda destinado a hostilizar a Guiana Francesa. conde de Castro Marim. Os franceses tinham estabelecido em Caiena. e as tropas espanholas comandadas pelo marquês del Socorro. O fato foi vivamente descrito por Baena: "Assoma na cidade (. seguindo a direção do Tejo. se alguém fosse flagrado em Belém. se desejasse repetir o que havia sido feito no Maranhão com grande facilidade. uma oficina de impressão onde os textos. após a assinatura do Tratado de Paris. Mas os portugueses não se entregaram facilmente aos invasores franceses e espanhóis. em 1800. Dezessete anos depois. receberia a pena sumária de prisão perpétua. principalmente porque em termos militares. e assinada no dia 12 do dito mês. na manhã de 14 de fevereiro de 1809. De volta à província. partindo rumo ao Brasil na madrugada do dia 29 de novembro de 1807.. o exército português consegue reter as três frentes dos invasores. Dom João. a cena política era ampla. Restou-lhe. Por isso. invadem o território português.

. e que estas começassem a circular no Grão-Pará a partir de 1809.)"4 FELIPE PATRONI Em 30 de junho de 1820. em 24 de agosto.) ocorriam em Belém fatos que davam sinal bem vivo de que aquele clima se serenidade que caracterizava a colônia estava a findar. empregando todos os méis que lhe forem possíveis para cortar toda a comunicação que possa haver entre eles. o capitão Manoel Joaquim do Paço.. que aplicasse toda a sua energia para impedir que se repetisse na Amazônia portuguesa o que estava acontecendo na espanhola. rumo ao Rio de Janeiro. atirou-se à propaganda daquelas novidades escandalosas: negava a imortalidade de alma. impugnava a perpétua virgindade de Maria Santíssima e concitava os escravos a reclamar a liberdade. Acontece que. narrando a situação anterior à vinda do príncipe regente para o Brasil. consinta as mais pequenas relações dos Povos daquela Capitania com os das Províncias insurgidas espanholas.. E mal havia tomado posse. dizia um denunciante ao Conde da Barca.. todo adepto do iluminismo francês. que viera de Lisboa por ocasião da invasão francesa. "O Clube ou Sociedade dos Jacobinos e Pedreiros Livres". que começou sua gestão em 1817 e terminou em julho de 1820.3 A REPRESSÃO ÀS IDÉIAS EXÓTICAS O penúltimo Governador Geral do Grão-Pará. que desde os primeiros dias do século XIX mobilizavam inteligências e vontades pelo Brasil em fora. Nesse clube.. especialmente nativos. Um religioso. 3º. na residência do sogro do Ouvidor Joaquim Clemente da Silva Pombo. dera margem a uma tentativa de pronunciamento dos negros de Cametá -. Por nenhum modo Vmce. fizeram-se reuniões em que se discutiam as novidades políticas. como sabemos. "(. É especialmente necessário que Vmce. fazia-se principalmente pelos clubes. Arthur Reis recria o clima de crescente descontentamento na colônia. conde de Vila Flor. Fora iniciado nos clubes revolucionários em Caiena. já instalado em Vila da Barra: "2º. "A sementeira liberal. que ameaçara de punição religiosa quantos participavam das reuniões". O historiador Arthur Reis registra o impacto dessas idéias importadas da Paris do Temidor. pelas sociedades secretas.) para conter em respeito os mesmos insurgentes ou para os repelir no caso de agressão (. trazendo o jovem Felipe Patroni e a notícia do pronunciamento militar ocorrido no Porto. provocando um estado de intranqüilidade muito grande entre os moradores". combatia-se o Bispo D. coma suspeição de improbidade administrativa pairando sobre eles. Manuel de Almeida Carvalho. de permeio com os trabalhos de propaganda das idéias liberais. no dia 10 de dezembro daquele ano. Os ideais da Revolução Francesa eram extremamente atraentes para certas camadas de intelectuais e até mesmo empresariais. parte de Belém o conde de Vila Flor.. despachado vigário de Cametá. vinda de Lisboa. mandou instruções ao governador da Capitania de São José do Rio Negro. e das disposições hostis ou pacíficas a nosso respeito (. assim ele instruía o seu subalterno.2 No mesmo ensaio.. numa época conturbada demais para esse tipo de deslize. Sua doutrinação. . aporta em Belém.). Essa solução provisória encontrou muitas dificuldades para governar. com passagem por Caiena. (. seus membros eram fracos. Antonio José de Souza Manuel de Menezes. fez prioridade de sua administração os esforços para manter a colônia saneada de tais idéias exóticas. frei Luís Zagalo. Dizia-se pedreiro livre. tenha as mais exatas notícias e informações do progresso do espírito revolucionário nos países limítrofes da Capitania. da força armada que tem naquelas fronteiras. Em Belém. Funcionava lá. e direções dos Corpos. fruto da total insatisfação contra o poder absolutista.. a galera "amazonas". deixando no poder um Governo Interino de Sucessão. produzido efeito rápido. movimentos.Era inevitável que a presença da tropa de ocupação portuguesa em Caiena acabasse por facilitar o contato dos soldados e oficiais com certas idéias liberais. Entre outras coisas.

possuidor de um verbo poderoso e uma voz tonitruante. no qual passa a pregar a independência do Grão-Pará e Rio Negro. Felipe Patroni. Felipe Patroni. daria a tônica dos eventos que levariam à Independência do Brasil. especialmente de José Bonifácio. adequar o Governo de garantias expressas aos direitos do cidadão. Ao regressar. Mas Patroni não teve maior participação nos acontecimentos que levaram à deposição do Governo Interino. No final de 1822. O principal líder do movimento. embora defendessem as novas garantias individuais. Patroni era um panfletário relativamente moderado. quando a notícia de que Dom Pedro de Bragança tinha declarado o Brasil independente chegou ao Pará. No final de 1820. deportado para o Ceará e seu jornal é fechado. onde se graduou em Direito Civil e Canônico. o cônego Batista Campos em pouco tempo formou um grupo político expressivo. Dom Romualdo de Seixas. que teve esmagada sua experiência liberal pela Corte do Rio de Janeiro. Mas homens como Dom Romualdo Seixas e Antonio Corrêa de Lacerda. o que era mais importante. assumiu a presidência do Governo Revolucionário. por tentarem . em 1817. ainda estudante. nasceu em Belém. muito menos com a ousada proposta de Independência. desejava modificações políticas que abrissem maiores oportunidades aos nascidos na terra e. Apelavam para as autoridades locais que difundissem os valores da renovação. A ligação desses grupos poderosos com Portugal. no entanto. matricula-se na Universidade de Coimbra. e ele viu seu governo provisório. mobilizando a população.Felipe Patroni. o Grão-Pará não titubeou em aderir aos chamados liberais do Porto. De qualquer forma. Mas o mal já estava feito. O movimento social que ocorreu era a resposta paraense à Revolução de 1820. com uma pena capaz de terríveis invectivas contra o poder colonial. vinha ao encontro dos anseios de muitos brasileiros natos e daqueles soldados retornados de Caiena. Por isso. seu jornal reaparecia nas ruas. ser deposto e substituído por notórios "portugueses". futuro marquês de Santa Cruz. levado por sua personalidade entusiasmada. que ainda em abril de 1823 o coronel Pereira Vilaça condenasse 300 brasileiros à morte. agora sob a direção de um dos partidários da independência. o cônego João Batista Campos. no entanto. Muito mais inflamado que Patroni. legitimamente eleito. logo se tornou o propagandista da revolução liberal e seu catalisador no Grão-Pará. Fazer circular um jornal pregando idéias de independência era um pouco demais para os portugueses. A causa da independência ganha apoio popular. fruto do trabalho árduo dos partidários do liberalismo em Belém. deixando o governo militar colonial mais inseguro e dividido. deixa Coimbra e embarcar para Belém. Mas o povo não quis. Batista Campos agiu imediatamente. ocupando as ruas e. Personagem irrequieto. O Pará. portanto. em 1794. em 1816. em Belém. O jornal "O Paraense" não circula por muito tempo. Patroni funda o jornal "O Paraense". A ousadia de Patroni. não comungavam com esse grupo do qual Patroni era membro importante. demonstrando também uma grande capacidade de liderança. onde atua como catalisador do movimento para manter a Amazônia unida a esse Portugal novo. Fez seus primeiros estudos no Pará e. quase repetiu na América do Sul um "Canadá equatorial". já existia no Grão-Pará e Rio Negro um expressivo grupo político que não acreditava mais na continuidade do sistema colonial. expulsou o governador militar e promoveu eleições gerais para um governo provisório. Mas o projeto político de Batista Campos era muito ousado para o gosto do governo do Rio de Janeiro. Não se deve estranhar. com o apoio de alguns importantes comerciantes e militares nascidos na terra. quando o príncipe Dom João VI foi chamado a reassumir o trono em Portugal e a cidade do Porto se rebelou exigindo a instalação de uma Monarquia Constitucional. não tarda a descobrir o desejo recolonizador dos liberais vintistas e a perceber o desprezo dos portugueses por suas idéias. constitucionalista e liberal. nem bem Patroni deixava Belém. o desejo de independência. mas não esqueciam de realçar o respeito pela unidade com Portugal. um dos fundadores da moderna Amazônia. mas não existia nada parecido com liberdade de imprensa na colônia. que não hesitava frente à possibilidade de sofrer o mesmo destino de Pernambuco. e Felipe Patroni é preso.

o realismo das elites logo abafou a tentação de lutar pela manutenção do domínio português na região. fundeou na barra de Belém e anunciou que há quase um ano Dom Pedro I proclamara a independência do Brasil. comandando o brigue de guerra "Maranhão". Com um destacamento de 30 fuzileiros do "Maranhão". renderam-se sem maior resistência. INDEPENDÊNCIA E CONTINUÍSMO Mas a dinâmica política raramente segue os desejos dos idealistas. aquela em que o povo está sempre no limbo das decisões maiores. hegemonicamente portuguesa. No dia seguinte. Corria o mês de outubro de 1823. liderado pelo cônego Batista Campos e formado por intelectuais e alguns militares. mas Grenfell fez um erro de avaliação e decidiu que a ferocidade talvez fosse capaz de intimidar para sempre os mais exaltados. Batista Campos foi preso e os soldados revoltosos. Grenfell trazia ordens de afrontar o governo paraense. inclusive com a ameaça de bloqueio naval e bombardeio da cidade. tinha o apoio da Inglaterra e não esperava nenhuma oposição no Pará. sabendo que parte da elite do Grão-Pará era hostil à idéia de separar-se de Portugal. com falta de ar por estarem num espaço pequeno demais para tantos prisioneiros. como já foi visto. por falta de . Era a gota d'água para uma série de incidentes políticos que iriam lançar num turbilhão que durou dez anos. Cinco prisioneiros foram escolhidos aleatoriamente por Grenfell e sumariamente fuzilados. Grenfell reprimiu o levante com brutalidade. esta seria a única mudança visível que indicava o histórico momento. bem instruído pelos políticos do Rio de Janeiro. No Grão-Pará e Rio Negro. e mais soldados regulares. mas os sentinelas abrem fogo através das grades. apenas quatro haviam escapado. A NOTÍCIA DA INDEPENDÊNCIA CHEGA A BELÉM DO PARÁ No dia 10 de agosto de 1823 o capitão-tenente inglês John Pascoe Grenfell. O açodamento em aderir fez aparecer o gesto oportunista da classe dominante paraense. Mas o marinheiro inglês. tinham criado todo um corpo de funcionários e oficiais militares portugueses. paralisado por manobras paliativas. não parecia confiar neles. possuía um expressivo e inflamado grupo de partidários da independência. reconhecendo a independência como algo fatal e inexorável. provocando uma onda de pânico entre os prisioneiros. Desesperados. sem falar da maioria dos comerciantes e fazendeiros. condenada a coonestar. Belém. Grenfell desembarcou em Belém. Os anos de administração direta. se logo serviu para enfileirar a área ao regime do Rio de Janeiro. em troca da continuidade da Administração e do poder econômico. poderia curar. não perde tempo e resolve ocupar qualquer vácuo de poder. por que não portugueses leais aderirem ao Império do Brasil. mal armados e com pouca munição. separada do Brasil. Mas essa aparente esperteza. Por isso. eles tentaram escapar. E já que a Capitania do Grão-Pará e Rio Negro não apresentava maturidade social para se tornar um país. O movimento. ao descerem do mastro a bandeira de Portugal e fazerem subir o pavilhão do Império do Brasil. Grenfell estava a bordo do brigue "Maranhão" quando foi informado de que um grupo de soldados da guarnição de Belém. gerou ressentimento profundo e um descontentamento tão imenso que nenhum outro remédio. marchava com o objetivo de depor a junta governativa conservadora. sob a liderança do cônego Batista Campos. De certo modo a esperteza das elites de Belém inaugurava uma tradição incômoda na Amazônia. e Grenfell não parecia exatamente o homem talhado para promover o diálogo e trazer a concórdia àquela província tão dividida. O incidente atiçou ainda mais os sentimentos nacionalistas. Outros 253 foram mandados a ferros para o brigue "Palhaço". fazendo da Amazônia uma região politicamente frágil. Este era o quadro de agitação que o mercenário Grenfell encontrou ao desembarcar em Belém. a não ser o revolucionário. A presença do poder colonial era tão forte que a Amazônia pouco se beneficiou das mudanças liberalizantes que a vinda do príncipe regente acabou por provocar. abriu os olhos do povo. Por isso. onde foram encerrados num cubículo do porão.a adesão à Independência.

situação que vinha da administração portuguesa. a capitania vivia um dilema: não era exatamente uma capitania autônoma. Mas não podemos esquecer que era bastante satisfatória aos seus agentes. quando veio a Independência. ainda sob o impacto da valorização de diversos produtos tropicais. um índice bastante medíocre. Era como se nem os portugueses e muito menos os administradores do Rio de Janeiro soubessem realmente o que fazer da Capitania do Rio Negro. mas satisfatório. e ver essa sujeição ser mantida pelo regime imperial. A manutenção da sujeição administrativa dos tempos coloniais ao Pará provocou descontentamentos entre os amazonenses. Metade do século XIX se perdeu numa pavorosa convulsão política. a velha Capitania seria elevada à categoria de Província e atrelada ao Brasil como um reboque vazio. O CONTRADITÓRIO SÉCULO XIX NA AMAZÔNIA No geral. mas seus líderes políticos consideravam que era hora da região ganhar um novo status. território do Império e região da República. entre índios ferozes e tapuias domesticados. estava subordinada ao Pará. em detrimento dos brasileiros. levantes militares. a sofreguidão com que o regime de Pedro I compactuou com os mais empedernidos portugueses. Os políticos amazonenses reivindicavam a autonomia. O clima de satisfação pode ser melhor entendido no que diz respeito ao nível da renda. baseada na agricultura. Para começar. levando em consideração o caráter espoliativo do sistema e atribuindo-se o cálculo de valores somente aos homens livres. O continuísmo dos aproveitadores no poder levaria esse confronto ao ponto de ebulição: crises. A crise que se abateu na economia do Grão-Pará e Rio Negro. e que desceria ainda mais nos primeiros anos do regime imperial. Por tudo isso. quando os fatos da Independência aconteceram. era uma economia sem solidez. sob a direção de governantes pró-lusitanos. entre brancos e caboclos. Além do mais. . A economia. O povo da Amazônia pagou um preço tão alto para pertencer ao Brasil. e que tanto serviu para a fermentação das idéias de Independência. não era de espantar que a Amazônia na transição do sistema colonial para a Independência fosse um limbo de violências. para quem ali vivia. uma relação neocolonial imposta pelo sistema de poder nacional. a Amazônia brasileira foi sucessivamente colônia de Portugal. após tantos massacres contra os povos indígenas. de 1806 a 1819. As autoridades do Rio Negro submeteram-se imediatamente ao Império do Brasil. Desde os governos pombalinos existia um surdo confronto entre caboclos e reinóis. com a indefinição na administração do Grão-Pará. Desde 1820. pouco desenvolvida tecnicamente e muito dependente das atividades extrativas. depois de muito sangue derramado. Uma área que. É claro que renda é um conceito de difícil aplicação numa economia colonial como a do Grão-Pará e Rio Negro. que até hoje ainda não se recuperou do sacrifício. Entre 1800 e 1899. Somente em 1850. o século XIX foi em tudo surpreendente. embora fosse uma expansão que apresentava todas as desvantagens de uma economia colonial. Não era nada agradável. jogou a região num embate sangrento que a fez mergulhar num abismo do qual somente conseguiu sair com a economia da borracha. Mas. tornara-se demograficamente rarefeita e de difícil acesso. entrava no novo século em expansão. tais como o algodão e o cacau. nem de longe se compararia coma decadência e a penúria que a região sofreria nas mãos do indiferente governo do Rio de Janeiro.apoio popular. quando a região foi incorporada ao Grão-Pará. dando posse a uma Junta que governaria até 3 de dezembro de 1825. levando a acentuar os piores métodos do absolutismo. choques entre cabocos e portugueses. que resultou no trucidamento de 30% da população da região. a renda per capita era de aproximadamente 70 dólares dos Estados Unidos. um desafio quase insolúvel para a incipiente tecnologia da época. A INDEPENDÊNCIA CHEGA AO RIO NEGRO A notícia da Independência chegaria à Capitania do Rio Negro apenas a 9 de novembro de 1823. que aquela parcela considerável da Amazônia permanecesse na sujeição política que já ia para trinta anos.

SEXTA PARTE A CABANAGEM Os acontecimentos políticos e militares que constituíram a Cabanagem foram uma clara demonstração de que os agentes sociais da Amazônia estavam não apenas experimentando a desmontagem final do projeto colonial. com economia agrícola que se atolava na inoperância. em detrimento de outras províncias. peles e couros. sendo a mais gritante a opção do Império em seguir com o controle de certos produtos. como uma grande barca que começava a adernar pela incompetência.parte substancial dos engenhos. como açúcar. com o estatuto de Província libertando os amazonenses da sub-procuração fiscal de Belém do Pará. até a proclamação da República. além de gerar uma inflação que corroeu em 100% o valor do dinheiro e agravou o custo de vida nas cidades. A sorte é que. subjugada e colocada na periferia pela conivência de seus líderes. Em 1849. esqueceriam as agruras recentes e se vestiriam com os belos trajes dos personagens de "La Vie Parisienne". antes de se tornar rica com o látex. num artificialismo puramente conciliador. a renda per capita tinha caído para 49 dólares. nenhum investimento foi feito pelo Império na Amazônia. subservientes. De 1850. Como antigamente. os líderes amazônicos veriam não sem constrangimento. num primeiro momento. Alguns lampejos do velho e bom liberalismo aparecerão vez por outra nas vozes e posições de certos políticos do Amazonas e do Pará. no qual os ativos tinham sido destruídos . atingira 30% da população da Amazônia. perdendo cada vez mais mão-de-obra para o extrativismo da borracha. será o lugar da sonolência e de exílios (vários abolicionistas serão deportados para suas fronteiras). interessava-se avidamente por um produto da selva: a goma da borracha. Paris e Lisboa. para manter o privilégio da Bahia. logo os agregados pobres e sem graça da Casa de Bragança esqueceriam a Corte e passariam a falar com Londres. nos primeiros vinte anos da Independência. provocada pela guerra. Aviltados. A Amazônia Imperial. fazendas. a proclamação da República quase como uma repartição dos fatos da Independência. a não ser de insensibilidade política. que se confundia na época com a figura do comércio britânico. O antigo colono lusitano. com um quadro econômico desolador. longe do Rio de Janeiro. muitas vezes extorquindo os seus empregados e achando tal prática muito natural. uma terra que não mais provocará temores ao poder central. Antes que o estímulo externo viesse atuar sobre a atividade extrativa da borracha. café e algodão. as elites regionais se rearticularam apenas burocraticamente com o Império. demonstrando incapacidade para superar o tradicional relacionamento colonial por algo mais condizente com o estatuto de região pertencente a um país independente. Enquanto no sul o café reanimava os fazendeiros e fazia a alegria dos ingleses. que experimentara sopros de modernidade com Pombal. uma das mais baixas em toda a história regional. mas no geral os políticos da região transformam-se em títeres de uma sociedade posta à margem. plantações e criação de gado . ano em que o Amazonas se insere definitivamente no Império do Brasil. Para instalar o primeiro governo do Amazonas autônomo. o capitalismo internacional. torna-se um dissimulado político. essa unidade viverá uma situação de penúria. A manutenção das rotinas coloniais pode ser exemplificada de diversas formas. E. mesmo após 1850. a verdade é que essa solução não se apresentou como nenhuma medida transformadora. Tenreiro Aranha (homem de confiança da administração do Pará) será obrigado tomar recursos da província vizinha. Nem mesmo com as despesas dos serviços de rotina o Amazonas estava em condições de arcar sozinho. que adota o imediatismo como forma de sobreviver. A alta mortalidade. como especiarias da selva. No Rio Negro. mas que algo de muito profundo havia acontecido em seu componente humano e apontava para o nascimento de . de Pernambuco e Rio de Janeiro.e uma piora nas condições sanitárias. O braço do negro escravo era irrelevante nessa terra de pomar e óleo de tartaruga. que provocou surtos de epidemias nunca vistos desde os tempos da conquista. na Amazônia assistia-se à queda nas exportações de seus produtos tradicionais. Com isso.O mais grave é que o Império do Brasil via a Amazônia apenas como um espaço geopolítico. até se tornar num esbulho social e ecológico.

vingativa e sem nenhuma ligação com qualquer tipo de modelo político europeu. É por isso que essa revolução de índios mestiços. Foi o último suspiro. e que a seu pedido obtivera a demissão deste cargo por decreto de 22 do mesmo mês. transbordou como uma grande enchente das margens conhecidas da luta política e fez renascer o orgulho de uma Amazônia indígena. insurreições populares em Mato Grosso. tem início no que parece ser uma luta de proprietários brasileiros contra o continuísmo das oligarquias portuguesas aferradas ao poder. EFEITOS DA REGÊNCIA NO GRÃO-PARÁ E RIO NEGRO Durante todo o período de governo de Pedro I. sustentada demograficamente pelos novos amazônidas: os caboclos. ano da decretação da maioridade de Pedro II. para aos poucos se transformar numa explosão passional. Sua tarefa tinha de ser árdua e espinhosa".uma civilização original. a República do Piratini. desesperada. especialmente porque o espírito rebelde foi descendo às raízes. Assim foi a revolta de Pinto Madeira. infiltrando-se para baixo. quase sempre provocadas por grupos locais poderosos que usavam as massas em proveito de seus interesses particulares. até as camadas mais recalcadas da alma regional. o derradeiro estertor de um tempo sem possibilidade de volta. O Império do Brasil entrava numa fase de caos político. o núcleo íntimo e mais espezinho. trazendo a seu bordo o coronel José Maria da Silva Bittencourt. Goiás e Sergipe. Ceará. O ilustre cidadão que sempre pugnara pela independência e liberdade de sua pátria. motins em Minas com a queda do presidente da Província. em sua última fase. FABRICANDO O DESCONTENTAMENTO GERAL Foi visto que os primeiros anos da adesão à Independência do Brasil foram anos de lutas cruentas no Grão-Pará e Rio Negro. Ao retomar pela negatividade a identidade perdida pelo assalto colonial. para finalmente atingir o cerne indígena. Bahia. até mesmo uma ênfase na fase colonial e um certo viés conservador nas análises fizeram com que um fenômeno histórico tão importante. Em 1831. fundeou no porto de Belém a fragata Campista vinda da corte. os fatos que geraram a Cabanagem vão no sentido inverso ao da tradição política lusitana. o pouco conhecimento da cabanagem. as massas cabanas indicaram definitivamente não existir integração possível entre as sociedades tribais e as sociedades nacionais que nasceram da colonização européia.1 . um navio americano aporta em Belém. acabariam por levar os impasses políticos para o terreno do confronto armado. o clima é de constante agitação política no Grão-Pará. numa vã tentativa de dar sobrevida ao velho regime. em Crato. Em 7 de abril do mesmo ano. o levante em Salvador. dos esfarrapados colonos sem terra. sempre avessa aos confrontos e fiel seguidora das lições conciliadoras do mestre João das Regras. O certo é que no Grão-Pará e Rio Negro não foi possível qualquer tipo de composição de interesses. a Cabanada em Pernambuco e Alagoas. onde não havia mais qualquer possibilidade de diálogo. de natureza única nas Américas. Piauí. o virtuoso varão que no dia 7 de abril a regência provisória nomeara ministro e secretário dos negócios do império. a bibliografia excelente mas reduzida sobre o assunto. nomeado comandante das armas por decreto de 22 de abril e o visconde de Goiana. Domingos Antonio Raiol assim descreve os efeitos da Regência em Belém: "No dia 16 de junho. Os anos da Regência assistirão a muitas rebeliões. sufocadas com sangue. com a notícia da abdicação de Pedro I. perdendo-se assim um dos fios da meada do processo histórico da Amazônia. que saiu de sua letargia para dar o troco de dois séculos e meio de atrocidades. nomeado presidente da província por carta imperial de 17 de maio. A falência do projeto colonial português e a incapacidade dos representantes locais do poder absolutista em abrir a sociedade regional. vindo do Maranhão. era então quem vinha tomar as rédeas do governo do Pará. assume um governo regencial que vai ficar no poder até 1840. A Cabanagem. Infelizmente. lugar pouco indicado para a perseguição de algum tipo de conciliação. às seis horas da tarde. fosse reduzido a um simples hiato de anarquia social das massas incultas. Antes de mais nada.

lusitano e absolutista. por seus inimigos. espalhados pelos diferentes distritos. As massas populacionais. Para disfarçar a escravização dos índios. Foi em sua casa que os articuladores do golpe se reuniram e planejaram suas ações. fala-se na deposição de V. ambicionava tornar-se uma liderança e. representante das forças liberais.Mas do que árdua e espinhosa.Excia. procurava se distinguir pela virulência de suas palavras e a intolerância de seus gestos. desagregador e exaltado. esses empresários ofereciam um salário baixíssimo que nunca era pago. bem informado dos passos de seus adversários. que se considerava ordeiro. Batista Campos. mas sabia que algumas medidas precisavam ser tomadas para consolidar o Império e torná-lo distinto da colonização portuguesa. empurradas para a rua. para efetuar a prisão do líder da Sociedade Filantrópica. o que logo desagrada um bom número de homens poderosos. visconde de Goiana.. Os índios eram obrigados a trabalhar jornadas extenuantes. arrancando os desgraçados índios de uma sujeição despótica. tentou prevenir o visconde de Goiana: "Ontem comuniquei pessoalmente a V.2 UM GOLPE DERRUBA O VISCONDE DE GOIANA Os proprietários e membros dos grupos conservadores enfureceram-se com o que consideravam um ato desagregador da economia regional. os facciosos preparam-se para cometer algum grave atentado. Mas esses senhores destemperados estavam cegos para essa possibilidade. na mina prisão e na de alguns amigos meus". estabelecimentos que alguns empresários usavam com a conivência do governo para explorar o trabalho escravo de índios destribalizados. O mais agitado de todos era Marcos Martins. mandando extinguir as chamadas Roças Comuns e Fábricas Nacionais. sabia o governo que a situação da capital se agrava cada vez mais. embora os sinais ganhassem proporções assustadoras. Novamente. era militante ardoroso do partido Caramuru. esses homens foram para o largo do palácio. era homem de espírito tolerante. chefiava o partido conhecido por Filantrópico. Nascido no Pará e conhecedor de todos os homens de negócios. sendo alguns até interessados em tais estabelecimentos! Semelhante medida não podia por certo deixar de excitar o mais vivo descontentamento da parte daqueles que ficavam assim privados de uma tão fecunda fonte de riqueza". foi deposto por um golpe conservador. . Não sei com certeza o que pretendem fazer. Ao chegar a Belém. a passagem pelo governo do visconde de Goiana foi breve. identifica-se com o cônego Batista Campos e seus partidários.) Pois. O desembargador Bernardo José da Gama. os fatos assim o indicam. alcunhado por seus inimigos como anarquista. Marcos Martins. que era proibida desde os tempos coloniais. cerca de cem praças do 25º Batalhão. logo cedo. em breve romperiam séculos de submissão e se amotinaram sem medo de punição. 7 de agosto. eram grupos de proprietários facciosos que haviam que haviam se radicalizado a tal ponto que não controlavam mais o corpo social. os atos subversivos de que tinha notícia (. Ao mesmo tempo. No fundo. foram para a casa do cônego Batista Campos. moderado e. mais auxiliavam esta iníqua sujeição. extinguindo os governadores militares que.3 A carta.. Na manhã de domingo..Excia. embora peixe morto. Municiados. Para completar. recolonizador. decide extinguir os cargos de governador militar e resolve fazer algumas mudanças drásticas na organização de trabalho da província. Domingos Antonio Raiol comenta a questão: "O visconde de Goiana quis remediar esse grave mal. vigiados por guardas armados. foi confiscada e jamais chegou às mãos do governador. sob o comando do capitão José Coelho de Miranda Leão. sempre que podia. e neste intuito cuidou de dar pronta execução ao decreto de 28 de junho de 1830. no entanto. Dez dias após sua chegada. o corpo de artilharia deixou o quartel e saiu em marcha em direção ao Trem de Guerra (Arsenal). O cônego Batista Campos. Agora mesmo pessoa autorizada me diz que Marcos Martins dirigiu-se aos quartéis com o tenente-coronel Bittencourt e lá conferenciaram entre si e os oficiais. onde se encontrou com a guarda nacional e paisanos armados.

Com o apoio do ouvidor Manuel Bernardino de Souza Figueiredo. ocorreu na Barra. no baixo Amazonas.que a comarca do rio Negro ficasse desligada da província do Pará e do seu governo. homem de temperamento calmo. que deveria conduzi-lo a uma miserável povoação do rio Madeira. ambas as localidades na Capitania do Rio Negro. sucumbiu. para onde tiveram que mandar destacamentos da capital para debelar insurreições. o visconde de Goiana foi embarcado na fragata Campista e deportado para o Rio de Janeiro. hoje Manaus. Para completar. Profissional competente. Batista Campos e seus companheiros mantinham-se escondidos numa cidadezinha da freguesia de Faro. sua índole em tudo contrastava com o radicalismo reacionário do partido a que pertencia. coronel Joaquim Filipe dos Reis. o dr. os rebeldes reuniram-se num conselho para deliberar as providências que consideravam fundamentais: "1º . No dia 11 de agosto. O comandante militar. em torno do forte. sob o comando do 1º tenente da armada imperial Antonio Maximiano de Cabedo. singrou o rio Amazonas acima sem maiores problemas. começa a receber representantes da sociedade civil. Batista Campos. Tenta. saques e incêndios agitaram as ruas de Belém até que a noite fosse alta. enquanto outros liberais eram levados para Marabitanas. Quando a notícia do golpe ganhou as ruas. é morto a tiros de fuzil. Beja e Conde. foi arrastado para a prisão sem esboçar resistência. escrevendo cartas e procurando aliciar as populações das cidades adjacentes. O cônego estava sentado em uma cadeira. O cônego Batista Campos foi mandado a ferros para a escuna Alcântara. que prometia ser monótono. prontamente chega para saber o que estava acontecendo e encontra a tropa rebelada. reaparecendo meses depois na vila de Óbidos. Os outros companheiros do cônego que seguiam na mesma escuna lograram escapar e se refugiaram numa aldeia na confluência do rio Negro com o Solimões. no entanto. meio chuvoso. prisões. como Abaeté. O novo governador. . entregando-se aos sediciosos. O visconde de Goiana. ao interceptar alguns soldados. Ali. no Pará. conseguiu escapar. conter os excessos de rua e repor certas leis econômicas abolidas pela administração do visconde Goiana.PRISÃO DO CÔNEGO BATISTA CAMPOS Enquanto no palácio representantes dos conservadores apresentavam-se ao visconde de Goiana acompanhados do comandante das armas. agora sob comando do soldado Joaquim Pedro da Silva. sangrando. estreitando-se em todo o caso as suas relações comerciais. em vão. o cônego Batista Campos foi desembarcado e posto sob a guarda do tenente Boaventura Bentes. responsável pela entrega do prisioneiro ao presídio de São João do Crato. o golpe mereceu o repúdio de diversas comarcas e cidades do interior. a casa de Batista Campos era invadida. de onde foi retirado com brutalidade e atirado na rua. Na noite de 12 de abril de 1832 ouviu-se tocar o alarme no quartel. O quartel. ao saber da prisão de Batista Campos. Assassinatos de filantrópicos. Ao chegar na localidade de Amatari. que é escolhido presidente. filho de fazendeiros e graduado em Coimbra. Ferido. impor sua autoridade e. levando o cônego e outros prisioneiros. tornou-se um inferno. FUGA DE BATISTA CAMPOS A escuna Alcântara. REBELIÃO NA BARRA DO RIO NEGRO O primeiro sinal de que os acontecimentos na região haviam escapado das rédeas dos poderosos. era um médico bastante conceituado em Belém. empossado pelos golpistas. Marcelino José Cardoso. e exigiam sua deposição. o domingo cinzento. Enquanto o médico Marcelino José Cardoso procurava restaurar a ordem em Belém. uma série de choças e choupanas formavam uma vila de maioria indígena. no quarto. Muaná.

4º . com ordens de debelar o levante.2º .que se nomeasse temporariamente um comandante militar. e recebe a reprovação das autoridades da Regência por ter aceito o cargo de procurador. com dois canhões. Mas a rendição dos rebeldes da comarca do Rio Negro não significou uma trégua. em viagem através do Mato Grosso. praticamente esvaziando as cadeias. o militar era "brusco e intratável". e tinha sido presidente das províncias de Goiás. Domingos Simões da Cunha desembarca na Barra (Manaus) e consegue sem maiores problemas dominar a situação. enquanto o civil era "assomado e colérico". nomeado comandante das armas. O tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago. que havia facilitado a fuga do cônego Batista Campos. organizam nessa região do baixo Amazonas um dos focos de resistência rebelde durante todo o movimento da Cabanagem. No entanto. Por onde os dois passaram. A tentativa da comarca do Rio Negro em se tornar independência do Pará não dura muito. chegam a Belém na corveta Bertioga. o coronel José Joaquim Machado de Oliveira. onde também comandara as tropas. 6º . por ordem do governador daquela Província. para dar direção aos negócios civis e políticos da comarca. prender os revoltosos e restabelecer a ordem. enviado sem demora para o Rio de Janeiro. Um dos incidentes mais graves. deixaram um rastro de sangue. tendo o novo governador. assinando um decreto de anistia que perdoava todos os envolvidos nos incidentes anteriores. a quem ficaria pertencendo o regimento da força armada com o soldo da sua patente e com gratificação do costume.5 Não é sem prevenção que Lobo de Sousa assume o governo. Ao mesmo tempo. independentemente da coloração ideológica. para evitar ser interceptado pelos paraenses.enfim que se enviasse quanto antes à Corte um procurador com plenos poderes para tratar da aprovação destes atos". porque mais pareciam instigadores de revoltas do que autoridades legais". que mataram todos os brancos. Paraíba e Rio de Janeiro. Frei José do Inocentes é interceptado no Mato Grosso. Eram homens escolhidos a dedo. O procurador escolhido foi o carmelita Frei José dos Inocentes. era veterano de campanhas repressivas no sul e chegava de Pernambuco. 5º . ordenado o envio imediato de cinqüenta fuzileiros. seu primeiro ato é conciliador. A REGÊNCIA NOMEIA DOIS HOMENS SANGUINÁRIOS No dia 2 de dezembro de 1833.que se elegesse um governo temporário assim como um secretário. o governador. Abreu Lima comentou em sua "História do Brasil" essa falta de sensatez dos políticos da Regência: "Só o mau fado da província teria concorrido para semelhante nomeação: parece que de propósito se escolhiam agentes para dilacerar e não para governar o Pará. foi o assalto à Missão de Maués pelos índios mawé. fazendo da instabilidade uma espécie de rotina que infernizava a vida do norte do Império. Bernardo Lobo de Sousa. pelo que receberia ordenado dos cofres da fazenda nacional. nomeados pela regência.que se submetesse esta deliberação à decisão da assembléia geral legislativa e da regência.4 O comandante militar nomeado foi o mesmo Boaventura Bentes. vale ressaltar. dezenas de outros levantes foram acontecendo e sendo sufocados ao longo dos meses seguintes. pela experiência que tinham em reprimir movimentos populares. queimaram a Missão e. era deputado na assembléia geral legislativa. chefiados pelo tenente-coronel Domingos Simões da Cunha. Segundo depoimentos da época. A notícia do levante do Rio Negro provocou um grande abalo em Belém. prestando juramento perante a câmara municipal de bem cumprir e guardar os seus cargos.que se estabelecesse uma ou duas alfândegas onde melhor conviesse para impedir os extravios dos direitos nacionais e cuidar da arrecadação dos dízimos que dali em diante deveriam ser cobrados à boca do cofre da nova província. . paulista ligado aos Andradas e homem de confiança da Regência. dois homens para gerir os destinos do Grão-Pará e Rio Negro. a partir de então. 3º .

o governo deu instrução. Dom Romualdo. Ao levar à força para os quartéis e para as naves de guerra a chamada escória da sociedade.A anistia faz reaparecer em grande estilo o cônego Batista Campos. o bispo divulga uma pastoral condenando a Maçonaria. ainda não tinha engenho como agora tem. acusa o governo. os mamelucos e cafuzos. porque tudo desaparecia tão depressa como manteiga no focinho do cão. Batista Campos intensificou os ataques ao governo. surpreendido mas delicado com a demonstração de falta de controle emocional de seu adversário. que empresta veemência a tudo o que diz. recordando suas prerrogativas de conselheiro e instigando Lobo de Sousa com algumas frases sarcásticas que só fizeram piorar a situação. é um oposicionista incômodo. especialmente os desocupados. botina e fuzil. ainda não era Arre ano presta. Então ele era pobríssimo e entregue à sua nulidade. o que gerou um enorme descontentamento até mesmo entre os seus aliados conservadores. decretara o recrutamento para reforçar as tropas do Exército e da Marinha. No mesmo instante em que os quartéis se enchiam de jovens com aparência de índio. quase todo composto por membros da Maçonaria. filhos de pobres. então com setenta anos. Mas isso não foi imediatamente percebido. Muitos intrigantes se aproveitaram da situação para tentar um gesto drástico do governador contra Batista Campos. ainda não tinha a ilha do Tomé. conhecido das massas como "benze cacete".. um rancoroso desafeto do destemperado líder liberal. ainda não tinha os escravos do armador Fragoso. armas e munições justamente para quem supostamente não deveria: o povo. A sua conduta como sacerdote foi sempre a pior possível". mas se construiria no maior dos erros políticos de Lobo de Sousa. por menos importante que seja o assunto em que se debruça para esmiuçar. era aborrecido de sua família. "Conheço o padre Batista desde 1818. Lobo de Sousa perdeu a paciência com um dos discursos de Batista Campos. (. levanta-se e responde em tom elevado. Dom Romualdo de Souza Coelho. Na verdade. Lobo de Sousa contrata a pena de outra sotaina. mesmo os filhos de pequenos fazendeiros e da classe média.) Nunca ocupou emprego de responsabilidade de dinheiro. Lobo de Sousa andava mandando prender certos padres que apresentavam uma insistente identificação com as causas de índios e negros.. Para contrapor ao verbo inflamado do cônego. O recrutamento de jovens do povo agradou os aliados do governo. mas Lobo de Sousa começava a enfrentar dois problemas de maior vulto. Lobo de Sousa respondeu que a Maçonaria havia partido na vanguarda da luta pela Independência do Brasil. Lobo de Sousa baixou uma portaria ordenando o recrutamento à força de qualquer jovem. Seis meses depois. CONFLITO IDEOLÓGICO COM A IGREJA CATÓLICA O idoso bispo de Pará. quer dizer. Em 28 de maio de 1834. o padre Gaspar de Queirós. a indiada tapuia e todo e qualquer "mestiço e vagabundo". Lobo de Souza arranjava uma briga coma Igreja Católica. apresentada como uma espécie de anticristo e responsável por todos os males revolucionários que tinham assolado a Europa. de trabalhadores ou de gente sem eira nem beira. NOVA FUGA DE BATISTA CAMPOS . que logo reassume o cargo de conselheiro e passa a liderar a oposição ao novo governador. de perseguir a Igreja Católica. Primeiro. idoso e adoentado. atacando o cônego com palavras de baixo calão e ameaças.6 Numa das sessões do conselho. arcipreste. A ordem era trazer todo tipo de jovens. retirou-se de Belém e foi se refugiar na vila de Cametá. acusando Lobo de Sousa de tirania e mostrando que o exílio forçado do bispo era mais um exemplo da perseguição sistemática que os maçons moviam contra a Igreja Católica. como as pressões eram muitas. persistente. ao assumir o governador. Batista Campos. temeroso de algum ato insolente do governador. e responsabilizou o bispo se alguma rebelião acontecesse. Ainda não era rábula. recebendo fardamento. odiado de seus colegas.

O corte mal curado. aproximou-se de um quilombo na localidade chamada de Guaiabal. composta de 16 homens. Angelim. Aniceto. Sem poder procurar um médico. a quem Araújo havia prendido não fazia muito tempo. um dos campeões da Independência do Brasil. Entre os rebeldes estão jovem Eduardo Angelim. vigário da cidade. sob o comando de José Maria Nabuco de Araújo. às duas horas da tarde. sob as ordens de um dos futuros líderes da cabanagem. conhecido por Angelim. Alguns dias após o incidente de Guaiabal. A presença de Eduardo Nogueira. em busca dos rebeldes. ciente de que os negros tinham-se aliado aos índios e aos partidários do cônego Batista Campos. numa atitude impulsiva. com mudanças diárias de local de pouso. abandonada dias antes pelos revoltosos. O cônego Batista Campos. Batista Campos faleceu. a tropa de Vinagre retira-se para o interior da mata. senhor de escravos. Seguiram pelo rio Acará. Depois desse ato indesculpável e com apenas um homem ferido levemente. manda uma força de 300 homens atacar os quilombos do Turiaçu. um usineiro que se altera ao cônego Batista Campos desde os tempos da adesão do Pará à Independência. Certa noite. reunindo um número cada vez maior homens. Aos sessenta e cinco anos. James Inglis. fazendeiro. ao se barbear. muito bem treinada e com soldados experimentados e fiéis ao regime. conhecida pela dureza e resistência. não demorou muito para que Malcher e seu filho. alimentando-se mal e dormindo pouco. Batista Campos refugia-se nas matas. já são quase cem homens. Antonio Vinagre. a expedição comandada por James Inglis entra na fazenda Acará-Açu. já nesse momento inicial dos conflitos. era carregado por seus partidários de um esconderijo para outro. Manuel Vinagre morto e Eduardo Angelim fosse obrigado a fugir. A tropa se rende. o que pese a sua pouca idade. fossem presos. queimando em febre. Pela manhã. José Maria Nabuco de Araujo e seus soldados dormiam numa choupana. feriu-se com a navalha. de Félix Clemente Malcher. . em Barcarena. Em menos de um mês. avançando a seguir para os lados do rio Castanhal. A propriedade estava vazia. mas depois de dois dias não tinham encontrando ninguém. com o intento de acabar com os ousados revoltosos. exceto a capela. embora ainda cheio de vigor. Sem que as sentinelas percebessem. alguns estão feridos mas Nabuco de Araujo não tem a mesma sorte. um grupo de 50 homens. onde informantes diziam que os rebeldes estavam escondidos. Inglis manda incendiar tudo. transformou-se em gangrena. mata Nabuco de Araújo com um tiro à queima roupa. Na manhã do dia 22 de outubro. sendo rechaçada por um grupo de 40 quilombolas. Era uma forma pequena. mostra que o líder mais importante que a Cabanagem terá no futuro era um militante engajado desde a primeira hora. MORTE DE BATISTA CAMPOS Batista Campos vivia uma clandestinidade agitada. COMEÇA A GUERRA CIVIL O ataque e a morte de soldados governamentais no rio Acará mostravam que era uma guerra civil o que estava acontecendo na província. sob comando de um mestiço oriundo da Jamaica. quando foram cercados pelos rebeldes. Lobo de Sousa. aparece das matas. dormiu na casa de um amigo. é enviada pelo governo para prender o cônego e seus aliados. Essa tropa. mas capaz de ir às últimas conseqüências. entre tapuias. homem contraditório. O apelido Angelim lembrava a madeira do mesmo nome.Com a tentativa de prisão de um de seus colaboradores. surpreendentes a todos. Dominam as sentinelas e invadem a choupana. De fato. correndo. No dia 31 de dezembro de 1834. mas escreve uma carta a seus aliados para não aceitarem provocações e não entrarem em confronto armado com o governo. aquela era uma situação extremamente sacrificada. quilombolas e camponeses sem terra. A carta é interceptada e uma tropa. tendo recebido a extrema-unção d o padre Francisco da Silva Cravo.

. invade o Palácio do Governo. ele representou um instante em que certo segmento da classe dominante do Grão-Pará tomou consciência do que era preciso fazer para tornar a Província uma terra realmente livre da herança colonial. foram atirados à sarjeta. as janelas e os salões do Palácio do Governo se iluminam profusamente para festejar o desaparecimento do inimigo incorruptível! Roto este elo. Ao entrar no Palácio. caminhava em direção ao Largo do Quartel. galvanizou as esperanças da massa miserável. não dormira no Palácio. quase sem resistência. com roupas tingidas de vermelho. Não teve tempo de usálas.ainda hoje presta-lhe homenagem. não longe dali. tentou subir as escadas. em sepultura na capela-mor. Antonio Vinagre. Oposicionista mais por ser contrário a uma oligarquia ultradireitista do que propriamente por convicção. Lobo de Sousa. pelo tapuia Filipe. onde o povo . A princípio. a vasa e a escória. estava na casa de uma viúva. Lobo de Sousa parou e tentou fazer um discurso. o povo comemorava. sem ofensas ou gestos agressivos. no fundo. sua amante. quando viu uma patrulha. onde permaneceram até as duas da tarde. conta que . ao promover ações como o cerco à Igreja de Santa Luzia. Os cabanos davam-lhe passagem. bem como o de Santiago. o quartel dos corpos de caçadores e artilharia. foi mais um oportunista desastrado e um sonhador que. James Inglis. não foi molestado. Um tiro. tem início um dos momentos cruciais da história da Amazônia. Apenas o comandante Santiago estava no Palácio. pelo verbo. sendo a seguir atacado por outros cabanos que lhe findaram a vida a coronhadas e golpes de baionetas. sendo arrastado para a rua. O cônsul dos Estados Unidos. atingido pelo tiro certeiro disparado pelo índio Domingos Onça. no momento em que os católicos se reuniam para um ato religioso. Charles Jenks Smith.) Em contraste com aquele mutismo. cercam a casa e esperam amanhecer.de uma terra dita de gente sem memória . As prisões foram abertas enquanto grupos de homens armados. Quando o dia começou a clarear. Maria Amélia. Todos se recolhem a um mutismo tétrico. apontando uma pistola em cada mão. outra tropa. comandando uma tropa de "desclassificados". A QUEDA DE BELÉM DO PARÁ Na madrugada do dia 7 de janeiro de 1835. Bertino de Miranda assim relembra o fato: "Sua morte causa grande impressão na Capital. o mercado de Belém. Enquanto isso. Alguns oficiais são mortos a tiro. foi um homem desmesurado em suas contradições. sendo depois sepultados em cova rasa na capela do Senhor Jesus dos Passos. Como fazia regularmente. passando a arrastar os jovens em idade militar que saíam do templo. mas conseguiu fugir. O passatempo do cônego "benze-cacete" provoca uma comoção em toda a Amazônia. um dos jovens líderes cabanos. Para completar o serviço. o governo de Lobo de Sousa aguçava ainda mais os ódios. Lobo de Sousa deixou a casa da amante e caminhou em direção ao Palácio. sob o comando do crioulo Patriota. que lhe deu um tiro no peito. Não foi um teórico. Seu cadáver. matando representantes do governo deposto. esquecendo-se ele de que havia razões políticas e pessoais de sobre para a maior parte da sociedade do Grão-Pará desejar o seu fim. efetivamente. para defender a liberdade e a dignidade do povo pobre. sem entraves. (. Foi enterrado na Igreja de Barcarena. saltando pela janela para ser apanhado. acabou com o mercenário. Gritou para que se identificassem. certos do paradeiro do governador. mas não chegou a proferir nenhum som. Caiu aos pés da escada. Mas a prisão de Malcher e as mortes de Manuel Vinagre e Batista Campos pareciam indicar para Lobo de Sousa que a rebelião havia sido debelada. ambas vão afinal flutuar. Os cabanos. entra em Belém e toma. disparado pelo sapateiro Domingos. na preamar da anarquia". Parece que uma noite sombria desce sobre a cidade e abotoa todos os corações.7 Como se não bastasse a impressão deixada pela morte de Batista Campos. dos negros e índios. sendo interceptado por João Miguel Aranha. no dia seguinte a mesma tropa invadiu um bairro popular e levou cidadãos que saíam de suas casas.como o fez.. Os sinos dobram a finados. Para os lados do Ver-o-Peso. que retém. atravessavam a cidade. por exemplo. derrota a guarda e os homens procuram o governador Lobo de Sousa.

era forte. no dia 14 de agosto de 1835. Mas do outro lado da baía de Guajará. marcha contra o Palácio do Governo."cerca de 15 prisioneiros foram libertados e. e a liderança fica unicamente com Angelim. Eduardo transformouse num dos mais conhecidos tribunos. que chegou a Belém com apoio de navios de guerra ingleses e franceses. homem de pouca instrução. bonito e de uma vivacidade intelectual contagiante. fugindo da seca. era um usineiro. rancoroso e tão autoritário quanto o deposto presidente. No dia 23. o Angelim. sem forças para dominar o estado permanente de rebelião popular. É aclamado presidente da Província. mas finalmente é deposto em 21 de fevereiro. cerca de 20 comerciantes e outros perderam a vida". Durante uma semana. Em pouco tempo ele entrava em conflito com os outros líderes do movimento. sendo recebido por um juiz e vários correligionários. liquidou seus negócios e investiu tudo o que tinha numa pequena roça. pois era daqueles que se distinguiriam em qualquer sociedade em que vivesse. Esses homens não pertenciam exatamente a um exército comum: eram lavradores. os cabanos eram senhores da capital do Grão-Pará e Rio Negro. Os combates de rua recomeçam em Belém e Malcher ordena que vasos de guerra bombardeiem a cidade. sendo logo assassinado. seguiram para uma parte da cidade chamada Porto do Sol onde iniciaram o indiscriminado massacre de todos os portugueses que pudessem encontrar. lutam palmo a palmo. Eduardo Nogueira Angelim conseguira reunir cerca de três mil homens. dando aos panos a cor avermelhada. Às onze. Aprendeu a ler e escrever. com a rendição da última guarnição leal ao governo deposto. Filho de lavradores e nascido em Aracati. O jovem Angelim era muito popular na cidade de Belém. Em pouco tempo. levado por gênio insinuante e de palavra fácil. especialmente Francisco Vinagre. Malcher entra no Palácio. sabendo da ordem de prisão. sem deter a ofensiva dos revolucionários. tentava contemporizar. no entanto. Ceará. Todos concordavam que Eduardo estava predestinado a ser alguém. que havia saído da prisão não fazia uma semana. o Marechal Rodrigues conseguiu prender Francisco Vinagre e duzentos cabanos. para regularizar as roupas muito variadas. Eduardo Nogueira Angelim foi aclamado presidente. Francisco Vinagre é proclamado presidente. aproveitando todas as oportunidades para . Antonio Vinagre. No começo do mês de agosto. comandou aquela tropa de sertanejos no ataque a Belém. nas lutas políticas que começavam a dilacerar a província. e logo se mostrou ambicioso e aplicado. rua a rua. despejando mais de vinte mil tiros. em 1827. a quem tentou prender. a cidade finalmente está nas mãos dos cabanos. mas fica pouco tempo no poder. as tingiram em casca de muxuri fervida. OS REVOLUCIONÁRIOS DIVIDIDOS Malcher. sendo obrigado a entregar a cidade ao emissário da Regência. Dessa forma. onze navios de guerra da marinha do Brasil abrem fogo indiscriminado contra a cidade. em terra arrendada a Malcher. demitiu todos os funcionários públicos. mas logo percebeu que esse era um terreno quase exclusivo dos portugueses. Em outro ato. O Marechal Rodrigues. Francisco Vinagre. O GOVERNO DE EDUARDO ANGELIM Eduardo Francisco Nogueira. Seu espírito empreendedor o levara a tentar a fortuna no comércio. morre em combate. veio com os pais. Aos dezoito anos. Quando a cidade parecia perdida para os cabanos. Tudo parecia indicar que Eduardo logo seria um rico empresário agrícola. substituindo-os por outros da confiança dos revolucionários. o Marechal Manoel Jorge Rodrigues. Observando a prosperidade dos proprietários rurais. em bando. à espera do auxílio pedido à Regência e a vários presidentes de províncias. justamente a que estava no arsenal. índios e negros que. Por volta das seis horas da manhã. nomeando Francisco Vinagre comandante das armas. não se envolvesse ele. na costa ocidental da baía de Marajó. onde plantou com o apoio de lavradores contratados. estava com 21 anos quando.

encontraram o fim nas mãos dos próprios cabanos. era o nome que despontava em todas as ações vitoriosas no alto Amazonas. A REAÇÃO DO REGIME DO RIO DE JANEIRO Em abril de 1836. retomando Manaus no final de 1836. Ambrosio Aires. agora torna-se o grande caçador de rebeldes. Ambrosio Aires. militar de grande competência que já havia resistido aos cabanos entrincheirados na vila de Bararoá. abandonando a cidade. sem resistência. quase seco em seus gestos. Soares d'Andrea reorganiza o exército do Grão-Pará. subindo o Negro. pelas praias de Maués. Os cabanos vão resistir por dois longos anos. dirigindo-se para a ilha de Tatuoca. que também se assinava Pureza e Firmeza. onde ficaram bloqueados. um nome-de-guerra para alguém extremamente sóbrio. tomando o poder e mantendo-o por um tempo considerável". e mais de nove mil "brancos" embarcam nos navios da marinha brasileira. em nome da legalidade. arrasando povoados e tratando com brutalidade os índios. foi morto numa escaramuça com índios mura e seu corpo desapareceu na correnteza do rio. A CABANAGEM ESPALHA-SE PELA AMAZÔNIA Em breve. na baía de Santo Antonio. O Marechal Rodrigues. Segundo o coronel Gustavo Maraes Rego. sob o comando de Apolinário Maparajuba. A Cabanagem era uma guerra de libertação nacional. Mas os cabanos jamais apresentaram um projeto político. Os seus desmandos. derrotado. porque sabia como falar com aquela gentinha enfurecida com a qual entrou na Barra (Manaus). esmera-se na repressão. Embora agissem com extrema violência e seus líderes proclamassem violentos discursos contra os ricos e os portugueses. no médio rio Negro. A repressão levou três anos para acabar com todos os focos de rebelião. até o Içana. talvez a maior que o Brasil já conheceu. homem de origens obscuras. levantes armados de características desesperadas e messiânicas iam levando de roldão os prepostos do continuísmo colonial. A revolução da Cabanagem já era um fato irreversível. Angelim escapa. a violência sem freios da rebelião e a escala que a insurreição conseguiu. Este era um homem vitorioso que se tornava o mais recente senhor de Belém. o movimento se distinguia pela "efetiva e dominante participação das massas. acossados pelas diligentes investidas dos "legalistas". sob comando de Francisco Soares d'Andrea. agora que a petulância popular ia sendo retaliada. a ascensão de líderes dos mais baixos estratos da sociedade. uma frota conduzindo 2. bem armados e municiados. Autazes. desumanos e canibalísticos crimes para a mera satisfação de seus instintos bestiais". Um político amazonense contemporâneo da Cabanagem escreveu que Ambrosio Aires e seu companheiro Manuel Taqueirinha "praticaram impunemente. nos Autazes. executando prisioneiros. Os mawé e os mura sofreram terrivelmente nas mãos deles. além de desenvolver ações punitivas nos rios Negro. um modelo de sociedade ou um programa de reformas sociais. Pelas margens dos grandes rios. com um estilo direto e uma enorme capacidade de se comunicar com os cabanos mais humildes. dando início à "pacificação". Quando Ambrosio Aires tentava desalojar um grupo de revolucionários de uma ilha no baixo Madeira. uma tropa de mais de mil oitocentos homens seguem para levar a revolução ao alto Amazonas. desembarcou em Belém do Pará. Tapajós e Maués.reunir em torno de si grupos de populares a quem eletrizava com suas ousadas idéias políticas. em seu clássico estudo os aspectos militares da Cabanagem. os mais bárbaros. no entanto. Devia ser filho da terra.500 homens. incorporando muitos jovens de . ou se mostraram tentados a separar a Amazônia do resto do Império do Brasil. em nenhum momento os cabanos trataram de abolir a escravidão. em 6 de março de 1836. Maparajuba.

LIÇÕES DE UM BANHO DE SANGUE A Cabanagem. foi decretado que "todo homem de cor que for visto em qualquer distrito. meio portuguesa e meio indígena. Os efeitos da repressão à Cabanagem e a conseqüente rarefação populacional estão na origem de tudo. Numa de suas petições ao governo imperial. . pode ser chamado de leseira. é possível dizer que a população amazônica encontrou um estilo para resistir. custou a vida de mais de trinta mil pessoas. Esse estilo. a Cabanagem em nenhum momento resvalou para a guerra racial. que é a leseira amazonense. a Regência outorgou uma anistia a todos os participantes do movimento da Cabanagem. A tragédia da Cabanagem. em novembro de 1839. que é uma demonstração de superioridade cultural. deve ser preso imediatamente e enviado ao governo para dele dispor. foram menos ideológicos que comandantes militares que assumiram as rédeas de tarefas amargas na hora da ação. Para os que a entenderam como revolta racial. até do fisiologismo político das lideranças amazônicas. daí o baré. Mas o que significou para a Amazônia tantos sacrifícios. Ainda não há registro da nova acepção do termo. Reconhecendo que seu antecessor. uma maneira de enfrentar a voracidade de tantos projetos e até mesmo para sobreviver às elites regionais. A destruição da iniciativa política da sociedade cabocla gerou uma impotência que é a matéria-prima e ao mesmo tempo o produto de uma época de horrores e frustrações. solicita que seja votada sem demora uma anistia aos cabanos. A fim de retomar o processo produtivo. toma posse Bernardo de Souza Franco. debruçar-se sobre a Cabanagem é fundamental. a Cabanagem respondeu com as questões da aculturação provocadas pela colonização portuguesa e a ansiedade popular por uma nova identidade.boa família e educação. atento a vastidão dos terrenos que têm de ser explorados". Aos que a julgaram uma revolução social. Porque não bastam as explicações contingenciais que enfatizam a impotência generalizada das forças políticas locais a sucumbir frente a poderes avassaladores vindos de fora. como o foram as desordens rurais na França. decide que "difícil será concluir a guerra sem o emprego concorrente dos meios brandos e conciliatórios. tanto nacionais quanto internacionais. Angelim. Mas não apenas isso: o silêncio imposto pela desilusão e pela repressão matou no nascedouro a cultura solidária. com as jacqueries. que é também um conceito filosófico-existencial. Maparajuba. Ou a leseira marajoara. molenga e preguiçoso. sobre a qual se elegem e podem estabelecer seus contatos com os eleitores e lhes dar satisfação em suas aspirações e necessidades. ao submeter as gentes do Pará não logrou o mesmo Amazonas. Os grandes líderes. Mas já há leseiras plenamente identificadas. Por outro lado. Por tudo o que ocorreu depois da Cabanagem. Vinagre. tanto sangue derramado. a despopulação da Cabanagem contribuiu para reduzir a densidade eleitoral da Amazônia. que era a civilização cabocla. sem um motivo conhecido. Para os que se preocupam com as condicionantes históricas que montaram as diversas cenas políticas da região. como a política tem um aspecto demográfico. resultando no relacionamento desvantajoso da região com os núcleos de poder do país. e sua representação. como a leseira baré. atraindo-os com soldos não exatamente alto mas seguros numa terra de economia devastadas pela guerra. A Cabanagem também não foi um típico levante desesperado de camponeses. um quinto da população da região. Qualquer indivíduo de qualquer distrito que não seja regularmente empregado em trabalho útil será mandado às fábricas do estado ou alugado para quem dele necessitar". mas especificamente de Manaus. ser leso quer dizer ser tolo. Finalmente. Nos dicionários. e o seu esmagamento por uma força de ocupação vinda de fora explicam a suposta passividade política regional dos dias atuais. e permitiu o surgimento de uma cultura pragmática e alienada sobre a qual os políticos formaram suas bases. a não ser que seja culpado de algum crime. tanta teimosia e arrogância dos políticos do Rio de Janeiro? Por certo um fenômeno como a Cabanagem no se enquadra facilmente em qualquer modelo teórico. Em 1839.

E porque usavam o material para fazer seringas. já que as dificuldades da região tornavam impossível um controle rigoroso das fronteiras. A leseira põe em xeque a idéia de Karl Marx de que o homem cria os seus meios de sobrevivência através do controle e transformação da natureza. com a vinda de D. Os índios já conheciam suas propriedades. já era um comércio francamente . Por essa época. um novo uso da borracha veio acabar com o velho costume medieval de apagar traços de lápis em papel com miolo de pão. que supostamente desafiaram a lei da gravidade da terra. em uma segunda viagem à América. utilizarem o látex na fabricação de bolas miraculosas. Como forma de resistência. Os cientistas ficaram intrigados com essas bolas. observando os habitantes do Haiti. tão lenta que ninguém podia prever a importância que iria adquirir na segunda metade do século XIX. Foi somente em 1808. pois há uma exata medida de leseira em todos os escalões. No futuro muitas outras leseiras serão identificadas. numa lenta aceitação como produto comercial. garrafas e botas. Talvez porque a leseira seja uma forma de credulidade absolutista. que levava à loucura o Ministro Delfim Neto. Em 1800 acontecem as primeiras exportações clandestinas. o sábio francês Charles Marie de La Condamine. SÉTIMA PARTE O CICLO DA BORRACHA Os índios omágua chamavam de "hevé" uma matéria flexível. que essa interdição seria revogada. demonstrando a sofisticação de seu processo inventivo. especialmente econômicas. pode ser uma forma aguda de esnobismo ou uma ironia.que é essencialmente paraense. A borracha foi descoberta aos poucos como matéria-prima. a leseira é algo elusiva. Ela é às vezes pacífica. na Europa. por uma deferência da Coroa Portuguesa. Mas o que é a leseira? Como identificar tal estilo de resistência? Quando um nativo da Amazônia se olha no espelho. que é o ritmo regional. seringas. remete um comunicado à Academia de Ciências de Paris. mesmo os navios de nações aliadas eram vigiados e suas tripulações impedidas de vir à terra. Sim. Ou a distância aristocrática com que as comerciárias das lojas da Zona Franca de Manaus tratam os turistas apressados do sul. na Amazônia. ao responder os despachos ministeriais em versos alexandrinos. A INDÚSTRIA PRIMITIVA Os portugueses aproveitaram a velha manufatura indígena para estabelecerem uma comercialização restrita. em 1736. Portanto. É que os nativos da Amazônia sabem que a natureza não é passiva. visitando a América do Sul. vê lá no fundo de seus olhos um sinal de que não foi feito para obedecer certas leis. descrevendo rudimentarmente o processo de coleta e preparação de tais bolas e de outros objetos já correntemente usados pelos colonos portugueses. fabricada a partir da coagulação do leite de uma arvore. a leseira leva em consideração a termodinâmica das contingências políticas. como daquele Secretário de Fazenda do Amazonas. em todas as classes sociais em todas as almas. nas últimas décadas do século XIX. quando o "ciclo" tomou impulso. porque a leseira é uma prática existencial poderosa e foi a única arma que se mostrou eficaz para impedir que muitos projetos da ditadura militar fossem totalmente implantados. Como estava proibida a existência de máquinas e o trabalho de manufatura na colônia. os portugueses logo batizaram aquela árvore de seringueira. João VI. Uma possível explicação para o conceito de leseira está na idéia de que Descartes errou ao dizer que o senso comum era a coisa mais bem distribuída do mundo. Ou o cultivo de uma enganosa ingenuidade que parece inabalável em sua arte de desarmar a lógica formal. que ainda vai livrar a região de tanta solidariedade não solicitada. esses objetos manufatureiros escapavam do rigoroso controle das autoridades para atingirem outros países. Por isso. Como é sabido. outras vezes ostensiva. Na Amazônia pode ser a credulidade. os portugueses fechavam os portos brasileiros e. como bombas. É possível que esse rendoso contrabando remonte a épocas mais recuadas. mas nunca rápida demais a ponto de ferir o ritmo de banzeiro. O próprio Cristóvão Colombo dá a notícia de sua existência. Mas. Mas o comércio clandestino de manufatura de borracha já estava sedimentado. às escondidas.

a exportação de manufaturados predomina em relação à matéria-prima. Henry Bates. com excessos e bacanais. piorando o abastecimento pela decadência da agricultura de subsistência. Para alguns países. O crescimento da demanda. balata. absorver as outras formas da economia regional. o cientista Henry Bates faz um levantamento mais preciso da borracha e de suas peculiaridades. se tinha meios de burlar a alfândega portuguesa. EFEITOS DA ECONOMIA DO LÁTEX NAS OUTRAS AMAZÔNIAS O século XIX encontra as regiões amazônicas dos países hispânicos entregues ao trabalho de missionários católicos. Mas a Amazônia entraria num período tão próspero com o extrativismo da borracha que todos esses inconvenientes parecia irrelevantes. "A borracha chegou aos USA e. olarias. De atividade manufatureira. embora tenham apanhado amostras. anil. não deram maior destaque à seringueira em seus relatórios. segundo relatório de Tenreiro Aranha. seus territórios amazônicos contribuíram muito pouco difícil acesso para uma administração federal organizada para além dos Andes e direcionada para o Caribe e não ofereciam nenhum atrativo a curto prazo. tabaco. como garrafas e sapatos. fazer a destruição dos ovos de tartaruga e o fabrico das manteigas. todos querem um par de sapatos de borracha. extrair os produtos espontâneos. Trinta anos depois da revogação da interdição dos portos por D. o sucesso era crescente. e assim a indústria da borracha. que já começavam a merecer a importação de outras províncias. resinas aromáticas e plantas medicinais. bem como a existência de cabeças de gado leiteiro."1 Nesses primeiros anos de comércio da borracha. descrevendo com bastante fidelidade a obtenção do látex. O Amazonas. Wallace e Agassiz. censurava a absorção crescente da mão-de-obra no fabrico da borracha. registra algumas das atividades econômicas dessas missões. com o entusiasmo tão característico dos americanos. em 1800. que atendia apenas os grupos tribais e os povoados organizados em torno . tinha alguma agricultura. especialmente algodão. assim como o interesse dos mercados internacionais pela goma elástica em estado puro. Richard Spruce publica a primeira explicação sobre as técnicas de coleta. Os sapatos de borracha eram bem aceitos no mercado norte-americano. O comércio amazônico. Mas Tenreiro Aranha se queixava que as gentes "dividida em bandos. Mas nem todos os cientistas mostraram o mesmo interesse. ou para os matos. Humbold. O mesmo cientista revela que os índios exerciam um ativo comércio pelo rio. implantadas no período colonial. retrocederia para o extrativismo em rápida ascensão. Era um comércio limitado. para o florescente mercado europeu e norte-americano. atrofiara na caminhada aniquiladora que iria.2 A opção pelo extrativismo realmente trouxe vários aspectos negativos para a região. Cinco anos depois. para vender madeira. no que gastavam mais da metade do ano". para se dedicar o extrativismo. primeiro governador da Província do Amazonas. café. e de panos de algodão e pequenos estaleiros. cerceada pelas leis coloniais. mais tarde. além de atividade industrial. viajando de canoa. como o cultivo de frutas no Orenoco. em detrimento da produção de bens de consumo. que todos os anos iam às grandes praias.estabilizado. não conseguiria superar as proibições para a instalação de estabelecimentos industriais. o comércio de objetos de borracha tornara-se próspero e com um mercado em expansão. até 1820. num documento oficial de 1854. UMA NOVA MATÉRIA-PRIMA DOS TRÓPICOS Em 1850. como cordoarias. guaraná e cacau. fábricas de sabão. e os jornais daquele país comumente publicavam reclames oferecendo partidas desse artigo nos seguintes termos. as forças econômicas estavam deixando algumas atividades agrícolas e industrial. No entanto. os preços altos e a fuga de braços para a extração. João VI. a Venezuela e a Colômbia. com maiores riscos e privações. Com o rápido desenvolvimento tecnológico dos países industrializados logo o mercado internacional passaria a recusar os toscos produtos artesanais. esclarecendo detalhes da produção e natureza botânica. foram na mesma época percebidos pelo governador do Pará que. A Amazônia enviava regulares partidas de objetos manufaturados. como o Equador. Em 1852.

Como era típico nos negócios de Aranã. possuía uma sociedade amazônica mais desenvolvida no início do século XIX. No extremo ocidental. O ouro. mas a selva peruana já possuía uma intensa economia extrativa e uma estrutura administrativa razoável. Em 1839. com barcos a vapor. devido basicamente à cotação alta nos preços internacionais da balata e do pau-rosa. Mas os primeiros anos do século XIX são basicamente tempos de exploração. em 1922. A economia da Amazônia francesa será essencialmente extrativista. entra em contato com os colombianos do Putumaio. por exemplo. O governo colombiano. o grupo empresarial de Julio Cesar Araña. embora nunca afetada pelo extrativismo do látex. soldados indisciplinados. repetidas a exaustão. implanta um sistema de transporte fluvial. embora tenha contado com empresários extrativistas do porte de um Nicolas Suarez. e o século XIX será um dos períodos menos dramáticos da história da Guiana Francesa. ocasião em que foram seqüestrados trinta meninos e meninas. uma comissão de arbitragem . Em 1892 um empresário peruano. suas investidas econômicas confundiram-se com abusos e ocupação política e militar. Na madrugada do dia 1º de setembro de 1931. Mesmo viajantes como Crevaux (1877) e Coudreau (1888). nas águas dos negócios de Araña. A penetração da selva é feita através dos rios Napo e Putumaio. Os colombianos entraram na concorrência apenas em 1899. ligando o Putumaio ao Amazonas. apenas o Peru realmente se envolve na política do látex e. eram pessoas sem formação científica. a cidade de Leticia. Em 1934. participou do ciclo mais como vítima que beneficiária. contatando as tribos indígenas. Na Guiana Francesa. a Amazônia é assaltada por outra febre: ouro. um chefe político local ordena uma expedição punitiva contra os índios payagua. e experimentaria uma escalada que culminaria no chamado Conflito de Leticia. em troca da borracha. Em pouco tempo. dominava no final do século XIX até o rio Caquetá. mercadorias e transporte fluvial. chamado de o Rockefeller da borracha. por dominar uma parte navegável da bacia Amazônica a jusante. sendo a questão posteriormente negociada em Lima e Bogotá. A Bolívia.das missões. concedeu lote de 25m por 25m. por exemplo. Em julho de 1911. numa região que nenhum homem de posses escolheria para viver e fazer investimentos. Os missionários católicos desempenhavam um papel tão fundamental quanto nos demais países de língua espanhola. Desde essa época. A Amazônia era tão difícil e sem atrativos que alguns países tentaram realizar uma colonização forçada. desencadeando uma guerra. a maioria de descendência indígena. não conseguiram superar a mediocridade geral. Acontece que. com vida social restrita apenas às comunidades do litoral. a maioria em busca de ouro. mas só ficaram um ano. elabora um projeto para o seu território amazônico. no entanto. apenas ligeiramente mais intensa durante os últimos anos do século. de Iquitos. não se mostrou dadivoso aos franceses como o leite da seringueira aos brasileiros. atraindo um pequeno número de moradores. que escreveram muitos relatos medíocres onde registravam observações bastante superficiais. fornecendo dinheiro. Mas a maior parte desses aventureiros não tinha como objetivo ampliar o conhecimento da região. centrada na cidade de Iquitos. Julio Benevides. usando presidiários. um grupo de militares e civis peruanos tomou Leticia. barcos com a bandeira peruana singravam as águas do Putumaio. Por esse documento que restaurava os direitos territoriais da Colômbia. sem uma presença ativa da administração no interior da colônia. Centenas de expedições. fundada por peruanos em território colombiano. cortarão a bacia do Oiapoque. O esforço colombiano era um a reação ao avanço peruano na região. como país. até que fosse assinado o Tratado Salomón-Lozano. em 1896. estes últimos considerados aptos a suportar as inclemências de uma terra supostamente imprópria para pessoas civilizadas. forças colombianas entraram em choque com soldados peruanos em La Pradera. mestiços. Araña era dono das empresas colombianas. entregando Leticia a contragosto. O incidente do Acre fez com que a Bolívia perdesse um pedaço substancial de seu território amazônico para o Brasil. mulatos e negros. para incentivar o desenvolvimento de Leticia. O Peru. O Peru. com freqüentes choques entre os "brancos" e os índios. Mas os peruanos hesitaram até 1930. deverá ser devolvida.

o governo peruano foi obrigado a tomar uma atitude. O governo peruano criou um Serviço de Proteção aos Índios. Em pouco tempo. a Câmara dos Comuns deu o golpe final nos negócios de Araña e seus sócios. para investigar o caso do Putumaio. Lima e Manaus. foi a revelação da natureza dos negócios de Julio Cesar Araña. em Londres. mas influiu muito pouco na vida dos índios do Putumaio. que todas essas medidas serviram para dar celebridade ao duque de Nolfolk. avançando a fronteira do extrativismo. para a criação de uma reserva indígena no Putumaio. prostituição infantil e violação de mulheres. A GUERRA DA BORRACHA NO DESERTO OCIDENTAL Entre 1877 e 1879. A Companhia Peruana do Amazonas tinha muitos empresários ilustres entre seus investidores na Inglaterra e a comprovação de que praticava atrocidades contra indefesos indígenas atingiria reputações em Londres. Em Londres. Ao ficar alguns dias na localidade de El Encanto. levando mais de duzentos mandatos de prisão. o nordeste brasileiro sofre uma das piores secas de sua história. O governo britânico. ao próprio Hardenburg. e o Papa recomendou aos bispos da região que procurassem ajudar os povos indígenas e ampliassem o trabalho missionário. Brasil e Peru. Quando a história completa chegou ao conhecimento público. de Illinois. Estados Unidos.000 pessoas partem para a Amazônia. publica suas denúncias no "Truth". baixaria uma sombra de suspeita sobre a Câmara dos Comuns e provocaria quedas na Bolsa de Londres. Esse contingente humano vai servir de mão-de-obra nos seringais. No final da década estarão no Acre. Outro conflito grave. ocupando zonas ricas em seringueiras. remetendo um navio de guerra ao Putumaio. Hardenburg seguiu o conselho como pôde. Somente do Ceará. abala os ingleses. O duque de Norfolk estabeleceu um fundo. trazendo para a arena a Sociedade Anti-escravagista e de Proteção de Aborígines. recebendo o conselho de se afastar daquela área. . A 5 de novembro de 1912.internacional entregou oficialmente Leticia aos colombianos. ainda que contra-atacadas pelo poderio econômico de Julio Cesar Araña. que oito anos antes divulgara a monstruosa atuação do rei Leopoldo da Bélgica em seu feudo na África Central. É importante assinalar. foi apanhado por um destacamento policial peruano. para acalmar a crescente inquietação do púbico. Deixaria em maus lençóis o ministro britânico do Exterior. com torturas. nos moldes da experiência de Rondon. uma das sedes da Companhia Peruana do Amazonas. com juízes a bordo. As denúncias de Hardenburg. a Roger Casement. atravessando para o Napo. jornal que se tornara famoso por revelar as mazelas da sociedade eduardiana. a maioria desses cearenses entra pelo rio Purus. Walt Hardenburg. até se ver envolvido na disputa de fronteira entre colombianos e peruanos. Hardenburg sofreu agressões e ameaças de morte. fuzilamentos. para comparação com outros casos semelhantes. que acabou por se constituir num dos muitos escândalos que envolveram empresários na Amazônia. inclusive membros da Câmara dos Comuns. outra figura ligada às revelações da África Central. mas teve a sorte de deixar o Putumaio. que ele batizou de "paraíso do demônio". O outono de 1909 é ocupado pelo escândalo amazônico. Sir Edward Grey. o jovem aventureiro teve a oportunidade de conhecer o tratamento desumano dispensado aos índios uitoto que trabalhavam na coleta de seringa. nomeia o diplomata Sir Roger Casement. estava com 21 anos quando decidiu se aventurar pela selva amazônica. castigos corporais brutais. com todos os pavorosos detalhes colhidos por Casement. mais de 65. envolvendo diversas figuras dos meios financeiros de Londres. mandando apreender os arquivos da Companhia Peruana do Amazonas e abrindo um inquérito. acompanhado de um amigo. ainda sob a direção do legendário reverendo John Harris. acossados pelo flagelo natural e pela crise da economia agrícola. no rio Putumaio. Quando descia o rio Putumaio. A sociedade européia encontraria no escândalo do Putumaio um excelente artigo de consciência. Os alemães boicotaram a compra da borracha oriunda do Putumaio. território reivindicado pela Bolívia. privação de alimentos. A repercussão do escândalo do Putumaio provocou inúmeras reações.

das intenções dos empresários amazonenses. associam-se a grupos econômicos europeus e norte-americanos. Cada salto na cotação da bolsa de Londres que a borracha sofria era uma erupção na placidez provinciana. O comércio da borracha vinha proporcionar inquietudes inéditas. para o Brasil. Concretamente. sendo deposto no final do mesmo ano por uma flotilha da marinha brasileira. Os empresários brasileiros decidem enfrentar a ameaça apresentada por tão poderosa associação. para um ritmo trepidante e voraz. com três pequenos vapores. é certo. essa concepção é um tanto folhetinesca. com o apoio de políticos e empresários amazonenses. que se encarregaria de garantir o domínio boliviano no território e explorar os recursos naturais pelo prazo de dez anos. para ocupar o Acre. de algum modo conseqüência do primeiro. O COMEÇO DE UMA ERA DE RIQUEZAS Em meados do século XIX. provocando uma deterioração nas relações dos dois países. O segundo acontecimento. pelo preço de dois milhões de libras esterlinas. Em maio de 1899. produto de um salto brusco. Nos anos seguintes. com homens de pouca instrução militar. após prender o intendente boliviano. Passo a passo. gaúcho de São Gabriel. O cosmopolitismo do "ciclo da borracha". o navio de guerra norte-americano Wilmington parte do porto de Belém e ilegalmente navega rio amazonas acima. Juan de Dios Barrientos. ocupa o território e funda o Estado Independente do Acre. no qual concordavam em vender um território de 191. Evidentemente. fundando o Bolivian Syndicate. Uma nova psicologia obrigava as elites a já não se satisfazerem com a vida pacata e provinciana. No dia 6 de agosto de 1902. ampliando os costumes. sob o comando do general Olímpio da Silveira. um tanto burlesca. Nos próximos meses. manda uma poderosa força militar. Era uma demonstração. moverá guerra contra o exército boliviano. face e sinal de uma triste alienação. proclama novamente o Estado Independente do Acre. sob a iniciativa do Barão de Mauá. com suas vilas de poucas casas. assinado em 1867. refletindo a rapidez com que essa transformação da superestrutura realmente aconteceu. parece ter experimentado um vigor inesperado que a retirou do silencioso passado colonial. As linhas regulares foram iniciadas em 1852. rumo ao Acre. após os anos de pesadelo vividos com a Regência. entra na cidade de Xapuri e. o enriquecimento conjurava o marasmo e representava uma conquista do refinamento civilizado. autoridades bolivianas assinam o Tratado de Petrópolis. o aventureiro espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Aria. restaurando os mores. criando uma situação de fato naqueles territórios cobiçados. o mesmo que derrotara os rebeldes de Canudos e mandara degolar os prisioneiros. O primeiro acontecimento foi a criação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas. parece algo forçado. dois acontecimentos indicavam aos habitantes da Amazônia que eles estavam vivendo um novo tempo. A Amazônia. mas não deixa de ter um sabor de época. com estabilidade política e progresso econômico. O navio é interceptado perto de Manaus e o governo brasileiro protesta junto ao governo dos Estados Unidos. o jovem Plácido de Castro.Os bolivianos. intensificando o comércio entre as duas províncias brasileiras e o Peru. as circunstâncias não passavam de um furor do momento. comandado um exército de guerrilheiros recrutados entre seringueiros. Para uma região cansada de tanta agitação política. obrigar Plácido de Castro a depor as armas e levar a questão para a mesa diplomática. era como poder respirar sossegado. na historiografia esquemática que se escreve sobre ela. aproveitando a madrugada. impotentes para impedir a invasão brasileira.000 km2. . à frente de um exército de boêmios e artistas de teatro. Mesmo quando eram crônicas ou trágicas. temendo a ampliação do conflito. No dia 14 de julho de 1899. O sabor do folhetim nos mostra o quanto o valor do látex era capaz de deslizar até os mais remotos pensamentos. esse estrategista talentoso. foi o decreto imperial abrindo o rio Amazonas ao comércio de todas as nações. O governo brasileiro.

poeta e etnólogo por conta própria. mostrava-se inesgotável. Ermanno Stradelli. Enriquecidos pelo leite de uma árvore dadivosa. O produto da borracha e seu lucro cresciam mais depressa do que a população e do que todos os itens do extrativismo. Além do mais. Os caçadores de ouro acreditavam no instante. tapetes. diferente do dinheiro maldito do ouro. cintos. levantando um rico e precioso acervo literário e etnográfico.A IDEOLOGIA DO CICLO DA BORRACHA Havia um não manifesto sentido de eternidade na ideologia da borracha. cadeiras. como uma espécie de suporte ideológico do comércio. OS COMPONENTES HUMANOS DA SOCIEDADE DO LÁTEX As personalidades mais representativas do "ciclo da borracha" são predominantemente aventureiros. urbanizada e próspera. A seringueira. identificável entre as plantas da floresta espalhada por Deus no território amazônico. Goodyear. Uma indústria de miudezas domésticas para rápido consumo. As fábricas americanas e européias abriam suas linhas de produtos: bolas. valendo-se de uma frente única de seringueiros e seringalistas. símbolo do poder super-humano. por exemplo. Já o filão do ouro. O comércio da borracha. salva-vidas. sonhando com o fim da monocultura e com uma sociedade justa liberta das manobras do imperialismo. ampliando seu uso e sua tecnologia manufatureira. produto de um metal frio. era o corolário de uma alta taxa de demanda internacional do produto bruto. UM CAPITALISMO DE FRONTEIRA O rápido crescimento da produtividade da economia do látex. desaparece tão inesperadamente como surge. Então. na sua fase extrativa. O coronel da borracha. essa riqueza parecia trazer marcas benéficas. numa mitologia comum aos homens. é um símbolo da vida. ex-militar e ex-maragato. suspensórios. A exportação do produto natural começa a suplantar o produto manufaturado. A febre de lucro apresentava seus primeiros sintomas psicológicos na região. os resultados financeiros da borracha não eram bens de consumo. O também jovem comandante Plácido de Castro. como uma Paris dos Trópicos. ao contrário do filão de ouro. Para além da diferença e nuanças psicológicas. abandonavam o garimpo para viverem a fortuna ou sofrerem a derrota. O capitalismo inglês e norte-americano vai aos poucos "domesticando" a goma elástica. mas de capital. metropolitanas e românticas. homem de coragem e caudilho eficiente. ardiloso. não é privilégio de nenhuma área da terra. cria o sistema de vulcanização. Uma árvore regenera-se. O ouro pode surgir em qualquer terreno. sacos para água quente. Depois. também arrivista e ambicioso. pneumáticos para os veículos. como todos os vegetais. beneficia-se do progresso tecnológico e é arrastado pela última etapa da revolução industrial. da corrida do ouro em Klondyke. até que o filão exaurisse a última pepita. metal ardiloso e cruel. O jovem coronel-engenheiro Eduardo Ribeiro governando o Amazonas durante a nascente República. da bondade e da paz. promove uma guerra popular no território acreano. troca o seu palácio piacentino de Borgotaro pelas malocas indígenas do Amazonas. tendo decrescido o padrão de vida da mão-deobra porque um número pequeno de negociantes monopolizava os resultados. sonha com uma Manaus imensa. que se ativado um século antes estaria condenado ao marasmo. espartilhos. na prospecção. na razão direta do progresso dos parques fabris europeus e norte-americanos e . um vegetal que. que a torna diferente. preparava-se para reger uma era inteira. A miragem da riqueza fácil e abundante tomava força. Mc Intosch descobre a impermeabilização. capas impermeáveis. molas para portas. enquanto a borracha vem de um organismo vivo. ligas. multiplicase aos milhões. até infernal. a vibração e o espírito de modernidade as tornam agressivas. acreditava na exclusividade. um autentico conde italiano. movimentando um fabuloso erário público. que nasce e cresce. em 1844.

Quando veio a Independência. governador indicando para o Amazonas. foram invadidas por caçadores em busca da seringa. Eduardo Ribeiro. porque o novo regime não confiava naqueles políticos enfatuados que mais pareciam aristocratas. O clima do Far-West seria o visível nas capitais amazônicas subitamente emergidas das estradas de seringa. o látex redimia a ignorância. o amazonense Silvério Nery. sobretudo os coronéis de Manaus. no alvorecer da República. Regiões inteiras. sobretudo por barrar os especuladores locais do caminho do erário público. enriquecidos na aventura. Manaus foi a única cidade brasileira a mergulhar de corpo e alma na franca camaradagem dispendiosa da belle-époque. a estabilidade da borracha manter-se-ia firme. subordinando aos caprichos da hévea. por exemplo. O colono analfabeto assume ares de cosmopolita. com um . os agentes econômicos do Grão-Pará e Rio Negro sofreram as conseqüências da ordem imperial. matrona próspera. resolveram romper a órbita cerrada dos costumes coloniais. vigorosos e baixos ataques. experimentaram a tentação do internacionalismo e da irresponsabilidade burguesa da belle-époque. assume o poder. representante dos poderosos extrativistas. nem tampouco pelas limitações de seu saber. restabelece antigos sistemas administrativos e torna obrigatório o beneficiamento sumário da borracha em Manaus. em 1900. tão necessárias ao equilíbrio do comércio internacional do Brasil e para dar elasticidade ao orçamento federal. Os coronéis. antes vedadas pelas doenças. Os extrativistas não mais se sentiam tolhidas pela impossibilidade tecnológica de domar a região. As libras esterlinas não escolhiam grau de instrução ou escolaridade. pois para isso bastava um pouco de vivência. os coronéis. O golpe militar de 15 de novembro surpreende a Amazônia nesse sonho. para crescer e devorar as outras atividades e instaurar um período de sensacionalismos. a borracha em pélas atinge o primeiro lugar na pauta de exploração. rápido e regenerador. permitindo as reformas urbanas do Rio de Janeiro. E. entrega-se a si mesma na certeza de que o futuro estava garantido pelo monopólio da hévea. com a necessidade do produto natural. Contra as fronteiras e os perigos de um tradicionalismo aristocratizante. Com a borracha. na Amazônia. provocar dissabores aos cafeicultores.pela impossibilidade de o sistema extrativista inverter os capitais em indústrias. o mesmo não podendo ser dito da política. viriam os ideais do federalismo e a classe dominante regional. a construção das estradas de ferro no Centro-Sul e as ampliações das instalações portuárias da capital e de Santos. sofrerá. a atmosfera de isolamento e tentaram transplantar os ingredientes políticos e culturais da velha Europa. A ideologia do Far-West enfrentava os insetos e os males estranhos e mortais. de seus palacetes. inexistente nos políticos locais. arrogante e centralizadora. BELLE-ÉPOQUE TROPICAL Os coronéis da borracha. A república nomeou sucessivos interventores até ter certeza de que a Amazônia não corria o risco de se transformar numa nova Vendéia. no Sul. cresce também a cobiça: Por que deve o gênio ianque depender dos nativos semi-selvagens do Brasil para seus sapatos de borracha?"3 AMAZÔNIA E A ADMINISTRAÇÃO FEDERAL De 1847 a 1860. A velha letargia dos tempos de Pedro II é sacudida pelo novo compasso do mercado internacional. torce o nariz para a antiga vida tradicional. percorridas apenas por índios nômades e penetradas por solitários aventureiros. já que eles aparentemente encarnavam o ideal do progresso positivista. E instalaram alguns militares no poder. que não sabiam aproveitar a capacidade da economia da borracha para gerar divisas em libras esterlinas. Instalam-se governos provisórios no Pará e Amazonas. A desconfiança dos republicanos históricos em relação aos grupos políticos regionais provocará um permanente atrito. vivendo numa época de fastígio e menopausa. Se as incertezas provocadas pela chegada do regime republicano iria. até que. típico de fazendeiros. ao longo de seus dois períodos de governo. Invadirem a selva.

portanto. Para o pobre imigrante. Euclides da Cunha foi um pioneiro ao anunciar a estrutura aberrante. um misto de senhor de engenho e aventureiro vitoriano. a mulher estava integrada sob diversas formas de submissão. também o sexo seria um privilégio. De um certo ângulo. poucas vezes foi perturbado durante a sua vigência no poder. ou seringalista. por isso. O outro lado. a fortuna de Manaus e Belém. O lado festivo. Adornaram sua terra exótica com a venerável cultura européia. moderna e muito propícia a quem fora educado na rígida sociedade patriarcal portuguesa. A presença feminina no seringal era rara e quase sempre em sua mais lamentável versão. premidos pelas exigências de seu vigor. o palco para o vaudeville estava preparado e o cenário pronto. as estradas secretas. uma mobília. A face oficial do látex era a paisagem urbana. como o parnasianismo. a contra-partida feminina chegava sob a forma degradante da prostituição. pareciam perder a definição nacional e aspiravam ao estatuto de cidadãos do mundo. Havia. Numa sociedade carente de mulheres. onde imensas somas de dinheiro corriam livremente. A sociedade do látex tornar-se-ia uma sociedade falocrata. estavam bem protegidas. como em 1820. objeto de alto valor. além de suas esposas. mas não admitiam uma mulher como pessoa. uma justiça austera que cerceie os desmandos. Euclides da Cunha redescobre o seringueiro explorado: . ele pede "urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esforço do homem. como o parnasianismo parecia constar da mesma lista de panacéias contra a gonorréia. eram comercializadas a preço aviltante. a grande personagem dessa obra-prima da monocultura brasileira que foi o vaudeville do "ciclo da borracha". em número tão pequeno que mal chegavam para todos os homens. mesmo a peso do ouro. urbano. geralmente homens entre vinte e trinta anos. "nas paragens exuberantes das héveas e castilhões. Enquanto o coronel podia contar com as perfumadas cocottes.pé na cidade e outro no distante barracão central. UMA MORAL ELÁSTICA Os coronéis de barranco vibravam com as polacas e francesas. a capital coruscante de luz elétrica. Para os seringais isolados na floresta e presos a um trabalho rotineiro. uma forma qualquer de homestead que o consorcie definitivamente à terra". O LADO OCULTO DO FASTÍGIO Na última década do século XIX. O coronel da borracha. ela transformada em bem de luxo. O internacionalismo do lucro burguês e da ganância imperialista seduzia os broncos extrativistas. doentes. pareciam dispostos a recriar todas as delícias. em que a procura era maior que a oferta. civilizado. que procurou soterrar as grandes monstruosidades cometidas nos domínios perdidos. discrepâncias em sua atitude: era o cavaleiro citadino em Belém ou Manaus e o patriarca feudal no seringal. No Far-West ninguém é de ferro. A moral da burguesia internacional ganhava na região um novo corpo e podia ser distendida ao sabor dos interesses. Essa penosa contradição legou uma mentalidade utilitarista em relação à mulher. que era de bom-tom. escondidas no infinito emaranhado de rios. um item precioso na lista de mercadorias. Na sociedade tribal amazônica. Ele era o patrão. Com o extrativismo da borracha. o lado terrível. longe das capitais. mas as senhoras de respeito eram guardadas nos palacetes. o seringueiro era obrigado a optar pela sexualidade de homens confinados. seria o grande astro dessa comédia de boulevard. o aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo". Mulheres e Victor Hugo estavam no mesmo carregamento. A boa vida estava escudada por uma conveniente hipocrisia vitoriana. o dono e senhor absoluto de seus domínios. Mulheres velhas. Contra isso. que daria à mulher uma utilização tão aberrante quanto a forma de explorar a força de trabalho do seringueiro. Mas essa contradição nunca preocupou ninguém. cercadas de criada e ocupadas em afazeres mesquinhos.

vinham para dirigir os trabalhos da borracha. Pagou com a vida a ousadia de desafiar homens tão poderosos." O resto eram os índios. "Dominando a sociedade . italianos. o comandante do Exército Acreano que em 1902 conquistou o território cobiçado por um consórcio imperialista. mas a estrutura concentradora do seringal o levava a se tornar um escravo econômico e moral do patrão." Libertos dos sobressaltos gerados pelo fim do sistema colonial e distantes dos inconvenientes geralmente sofridos quando ainda eram pobres emigrantes.e as atividades da cidade. contestar o poder dos coronéis de barranco."(. um vai-e-vem contínuo. também ousou. Auguste Plane. representa ma das curiosidades de Manaus. "Os ingleses. enquanto os espanhóis.. Euclides da Cunha passou a ser considerado pelos coronéis com um pobre demente que não sabia o que dizia numa literatura intricada. encontravam-se os membros da aristocracia brasileira que. O teto. que parecia mais um grande centro europeu do que uma cidade tropical".bem iluminado. Ele combatia a monocultura cega da borracha. os nordestinos. uma diversificação agrícola por meios modernos usando adubos e máquinas para melhorar a produção. obra magistral do pintor De Angelis. e uma grande percentagem de estrangeiros. os mestiços. ou revendolhes a integridade orgânica a ressaltar-lhe das musculaturas inteiriças ou a beleza moral das almas varonis que a derrotam o deserto".) Considerando-os. emigravam para se dedicarem a outros tipos de negócios na Capital. Foi ele o primeiro a tentar. Afinal. os comerciantes e os financiadores controlavam a enxurrada de deserdados e aventureiros que chegavam. ou eram brancos." Os ingleses dominavam a comercialização da borracha e instalaram mesmo uma agência do London Bank for South America antes de qualquer outra casa bancária brasileira chegar a Manaus. Politicamente. ou passavam como tal. INTÉRPRETES DA IDADE DO OURO . Mas. degradava-se como ser humano. Os retirantes esfarrapados não maculavam a civilização das cidades. vislumbrava sua futura decadência e preocupava-se com o sistema retrógrado dos seringais. era uma espécie de assalariado de um sistema absurdo. sírios e libaneses. . não era apenas um chefe militar de forte liderança. Jean de Bonefous. é admirável. sem ao menos desembarcarem. Esse gaúcho íntegro e competente que. para a administração de seus bens precisavam de pessoal alfabetizado. na prática. Era aparentemente livre. quanto ao exterior. franceses.. viajante francês. A mais refinada das civilização chegou até o rio Negro. com "um movimento de veículos de toda a sorte.comenta João Nogueira da Mata. Endividado. era mais um vegetal do extrativismo. outro francês. isso podia significar a morte ou castigo corporais rigorosos. Plácido de Castro. No auge da corrida. Com essa visão crítica. conservamo-lo (. não conseguia mais escapar.. se dependiam de Londres. em suas terras no Acre. emocionava-se com o Teatro Amazonas: "A construção é majestosa. dá sua impressão do lado sorridente da sociedade da borracha. os negros de Barbados. O seringueiro. A libra-esterlina circulava como o mil-réis e os transatlânticos da Booth Line faziam linhas regulares entre a capital amazonense e Liverpool. alemães e portugueses. Se tentava a fuga. Sobre Manaus. tocavam no porto de Manaus. A OSTENTAÇÃO Sentados em seus escritórios. cento e cinqüenta mil indivíduos por semana. Belém pareceu-lhe Bordéis. retirante nordestino que fugia da seca e da miséria. os coronéis enriquecidos receberam de braços abertos os europeus.. a sala é elegante e ricamente decorada. os coronéis estavam culturalmente voltados para Paris. Definhava no isolamento. os coronéis.) são admiráveis: Vimo-los de perto. sintonizavam numa certa distância patriótica com o Rio de Janeiro. já a caminho dos seringais.informa o sociólogo Bradford Burns . Bem arejado. ao lado de miseráveis seringueiros. derrotou o Bolivian Syndicate e anexou o Acre ao Brasil.

o que levou esses grupos sociais atingidos pelos ataques a se organizarem em movimento guerrilheiro. que acolhiam temporadas líricas anuais. um corpo jurídico a serviço do latifúndio nos tempos do sindicalismo britânico. alguns países hispânicos optaram por militarizar sua política de ocupação da Amazônia. que aceleraram o processo de desagregação cultural dos povos indígenas da área. e de buscar expressão na mais moderna e dispendiosa forma de arte de seu tempo. criando estranhas justaposições. O poderio econômico da borracha foi capaz de tentar a elevação do nível educacional. é inquestionável a presença de José Veríssimo.O ciclo da borracha promoveu o desenvolvimento de uma cultura peculiar. Ferreira Pena. nos tempos da etiqueta precisa de Marcel Proust. como os da News Tribes. E. experimenta no período uma instabilidade política tão intensa que quase tornará crônica a debilidade de seus agentes governamentais para cuidar de uma região problemática como a Amazônia. sob a ditadura do general Rojas Pinilla. Já a Colômbia. autor de romances como O Coronel Sangrado e O Cacaulista. Na região do Caquetá. e nos estudos regionais ressaltam os nomes de Domingos Antonio Raiol. a Escola Universitária Livre de Manaus. acabou por introduzir na política regional um componente novo. através de um programa denominado Conquista del Sur. Nos anos 60. Com o pioneiro Silvino Santos. com um estado bastante limitado em suas possibilidades e mais voltado para outras áreas com maiores condições de desenvolvimento. Com o golpe militar de 1953. com a conseqüente criação do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas de El Paujil. Essa postura governamental permitiu a intensificação do trabalho de missionário católico. que sedimentou tradições dos velhos tempos lusitanos com um novo conjunto de influências importadas como item de consumo. passou a considerar a Amazônia como uma reserva territorial para o futuro. Apenas o Teatro Amazonas custou aos cofres públicos a quantia de quatrocentos mil libras esterlinas. E a Amazônia produziu escritores como o colombiano José Eustasio Rivera. Paulino de Brito e Raimundo Monteiro. ocorridos durante o ciclo da borracha. o estabelecimento de uma crise de longo prazo acabou por reduzir os projetos desses países para seus territórios amazônicos. foi o tempo do patriarcalismo em relação à família e aos agregados na era de Madame Bovary. criando no Amazonas a primeira universidade brasileira. Belém e Manaus mantiveram uma agitada vida cultural entre os anos de 1890 e 1914. que estabeleceu para a região uma proposta de colonização de fronteira. e poetas como Jonas da Silva. As duas cidades investiram na construção de óperas suntuosas. uma falta de refinamento que as roupas bem-talhadas não escondiam. A Venezuela. autor do romance La Voragine. No campo dos estudos literários. imagens da região foram guardadas para sempre em filmes como "No País das Amazonas" e "No Rastro do Eldorado". a guerrilha radicaliza-se. O pensamento crítico e o radicalismo desses colonos. . Assim. e de missionários protestantes. fazem com que a Colômbia apresentasse o movimento camponês provavelmente mais avançado da região amazônica. A Bolívia. como já desempenhavam um papel secundário durante o período de maiores lucros dos negócios da borracha. e brasileiros como Inglês de Sousa. a guerrilha. a hipocrisia sexual nos tempos dos desregramentos do Hell Fire Club. o cinema. pioneiro do naturalismo. mas o envio de tropas do exército consegue desarticular o movimento. por exemplo. Essa colcha de retalhos. que era a cultura do coronel de barranco escapava às suas contradições numa tentativa de redefinir-se como modelo social. durante o período chamado de La Violencia. entre 1950 e 1951. bandos de jagunços (chusmeros) e policiais passaram a atacar colonos e comerciantes progressistas. Lauro Sodre e Sant'Ana Nery. os venezuelanos elegeram um governo social-cristão. OITAVA PARTE A SOCIEDADE EXTRATIVISTA Após diversos incidentes de fronteira. Mas o fim da economia da borracha e a crise geral do extrativismo em muito dificultarão a expansão das sociedades nacionais desses países para a selva.

E. atolando-se aos poucos no marasmo tão característico das terras que viveram um fausto artificial. de bolsos vazios. De resto. para azar dos índios. procuram compreender a sua sorte dentro da sociedade brasileira. que mal despertava para a indústria. não podia concorrer com os capitalistas da Malásia. até dar-lhes o golpe de misericórdia. Quando a situação começou a ficar asfixiante. traídos pela natureza infiel. os vínculos com a Europa se desvanecem e. A partir de 1910 a queda do preço já era visível e os recursos em solvência. em abundância. o aventureiro inglês Henry Alexander Wickham conseguiu uma partida de setenta mil sementes de seringueira e enviou-as para Londres. mais uma vez. Os mercados mundiais transferiram sua preferência para o látex do Oriente. o estado peruano vai implantar bases de prospecção de petróleo que se tornarão operacionais em pouco tempo. pela primeira vez. que acreditaram na exclusividade. região da faixa equatorial e com clima semelhante ao amazônico. quando o capitalismo mundial atravessava um de seus momentos de frenesi. As mudas cresceram. as mudas foram transferidas. as comunicações são cortadas. A borracha. mais tarde. que viria com o fim da I Guerra Mundial. Os coronéis de barranco. Os conceitos monetaristas que dominavam a política econômica federal. de repente. de preço e custo operacional mais baixos. RETRATO DE UM DESASTRE Se bem que a memória folhetinesca tenha o "fim" do ciclo como uma repetição dramática da corrida inicial. a região torna-se um imenso território empobrecido. o governo federal tentou medidas de proteção no sentido de evitar a bancarrota regional. mas é no final do ano 50 que o governo de Lima vai supor ter encontrado a vocação de seu território amazônico: petróleo. Plantadas experimentalmente em Kew Garden. assistindo à cotação de preço cair e dependendo de um país essencialmente agrário. porque o anacrônico extrativismo jamais concorre com o capitalismo. Belém e Manaus. eram cidadelas vencidas e em processo de liquidação. a partir de 1910. que ofereciam. Com a crise do fim do monopólio. Durante o período colonial. transformaram-se em seringais ordenados como um bosque europeu e começaram a produzir. estas não constituíam sequer paliativo. sentiram-se. A QUEBRA DO MONOPÓLIO Trinta anos antes do apogeu do ciclo da borracha. O seringalista brasileiro. elas começariam a provocar dificuldades aos coronéis brasileiros. numa operação de contrabando à qual a lenda empresa lances de ação de espionagem. Em 1920. os estados amazônicos. as amazônicas não-brasileiras atravessaram o período da grande crise extrativista experimentando problemas idênticos aos nossos. ideologia cara aos estados brasileiros. os conflitantes anos do entre-guerra. matéria-prima de interesse dos mercados industriais altamente desenvolvidos. e estavam no negócio como extensão direta dos mercados mundiais. A Amazônia ficava sem os compradores. para o sudeste da Ásia. já que o interesse econômico . um produto final livre de impurezas. Por falta de interesse econômico. perduravam laços políticos formais. Quanto às medidas de salvação do governo federal. abandonado. a depressão foi um envolvente processo. pouca ligação possuía com o resto do país. bastante claro em seus sintomas. mas não o suficiente para que a elite do extrativismo o reconhecesse e esboçasse uma resistência. as orgulhosas metrópoles.O Peru também tentou algumas tímidas experiências de colonização. O monopólio estava quebrado por plantações racionalizadas e. ainda no regime extrativista. era agora dominada pelos plantadores do Ceilão. acabariam vencendo e abandonando os extrativistas. sem alternativa à vista. a região derrotada foi obrigada a se interessar pelas coisas do Brasil. No tempo da borracha. precários. A REINTEGRAÇÃO DIFÍCIL Depois da I Guerra Mundial.

o organismo paternalista criado para contornar a crise. Surpreendidas pela miséria. E. A Amazônia saía da ostentação para padecer as agruras da falta de importância política e insignificância eleitoral. navios lotados de arrivistas em fuga. com suas elites representando os blocos de poder em luta. como o mato assaltava as ruas calçadas com paralelepípedos importados. Essa reinversão era institucional e preocupada essencialmente com a produção de bens que estavam sendo substituídos. Isto é. como sua elite não estava afeita às lutas palacianas dos senhores da terra contra a burguesia industrial emergente. Nada de gráficos descendentes ou medidas inúteis. palacetes abandonados. O clima de corrupção que a estagnação alimentara agonizava nos decretos de expropriação do tenente libertário. as exigências da Amazônia extrapolavam. a memória prefere um apocalipse. Um trauma que colocou a região na posição reboquista da qual nunca mais se livrou. o governo do Amazonas foi deposto pelo tenente Ribeiro Júnior. Quanto à produção agrícola. passagens esgotadas. premidas pela decadência. as províncias falidas procuravam em pânico se inteirar de um Brasil convulso. como ainda extrapolam. morreria abandonado. a "Superintendência da Defesa da Borracha". Para elites políticas brasileiras que lutavam pelo poder. eternos pedintes e freqüentadores das ante-salas dos ministérios. na medida em que. REFLEXOS DO TENENTISMO NA AMAZÔNIA A brutal recessão que se seguiu acabou por gerar um clima de instabilidade. Sendo a borracha um bem do extrativismo. já que outras áreas brasileiras mais viáveis ao desenvolvimento imediato clamavam por soluções. em que seus problemas se tornaram crônicos. com um mercado que necessitava mais dos capitais que a borracha eventualmente poderia oferecer do que propriamente do produto in natura. ou não tiveram forças para escapar. Os que permaneceram. A Amazônia tentava entrar em compasso com o país exatamente no momento mais delicado. Em 1924. MEDIDAS DE POUCO IMPACTO Assim. Mas no resto da região a ruína chegou rapidamente. sem uma indústria capaz de sorver sua demanda. Belém. era como se todos se vingassem dos humilhantes sofrimentos. deveria participar desse processo de capitalização estimulado no plano nacional. um bem do "campo". apareceram os quadro da falência: suicídios. famílias inteiras em mudança. e o Brasil. Além do mais. que remontava aos tempos coloniais. contraditório.estava nos mercados internacionais. por nacionais. tomaram conta de Manaus. resistiu melhor. nos anos finais da década de 20. num mercado de produtos importados. por ser maior e possuir uma economia mais tradicional. foram contaminados pelos sintomas da miséria crescente durante os the roaring twenties. seus orgulhosos e empobrecidos chefes políticos. Os estados do sul. num mercado adverso para a relação campo-cidade. a produção agrícola sustentaria a arrancada industrial do país. As tropas do jovem tenente Ribeiro Júnior. pioraram as relações de intercambio entre o campo e o complexo urbano em rápida expansão. debandada de aventureiros. esta seria a grande fonte de excedente acumulado transferido para a indústria. os recursos e limitações estruturais do Brasil. a região iria sofrer um abandono de meio século. O fato foi além da política. Qualquer medida objetiva ficava para o futuro. Palacetes . agregaria o drama do extrativismo como um drama a ser resolvido pelos investimentos públicos. a caminho de diversas transformações estruturais. Mas a borracha perdia a corrida no preço de procura. engrossadas pelos funcionários públicos e miseráveis braçais. conservadora com pequenas migalhas para evitar a deterioração completa. Numa manhã calorenta de Manaus. orientariam a economia nacional para que uma parte do excedente global fosse reinvestida no mercado interno. a Amazônia deveria permanecer novamente fechada.

que carregava a maior parte da produção mundial da borracha. SOLIDÃO E ABANDONO A Amazônia transitava entre a solidão dos abandonos e as raras manifestações da caridade nacional. A impotência nacional em ajudar a Amazônia nesse transe fez com que a crise aguda gerada pela quebra do monopólio fosse sentida pelos mesmos efeitos da retirada abrupta de um sistema colonial. num processo que se completaria em 1930. de Manaus. com rápidas mudanças. Seringueiros viram-se livres. sem indústrias de bens duráveis. A desolação era completa. A AMAZÔNIA ULTRAPASSAVA AS POSSIBILIDADES DO BRASIL Enquanto o sul amadurecia. O Brasil de 1920 era um país agrário. voltou a ser uma aldeia quase totalmente habitada por índios. a região sofreu uma assustadora redução populacional e o índice de liquidez caiu praticamente a zero. ou atolava-se no marasmo. Durante esses anos. Daí os decretos de 1912 tentando programar. pelo poder. não era o tipo de matéria-prima que permitia o mínimo de dinamismo próprio em relação ao mercado mundial. que já estava despojado de seu domínio. depois. não podendo concorrer com as manobras do mercado internacional contra os seringais racionalizados. é obrigado a rever suas posições e reconhecer a realidade industrial. Cerca de dois milhões de habitantes sofriam. famílias faziam publicar notas de despedida e saíam apressadas. prevendo uma larga gama de serviços e investimentos públicos. Ou era mantida sob subordinação direta ou estava voltada ao desprezo. Ou ligava-se a borracha a uma estrutura dinâmica. mas nunca puderam voltar para o Nordeste. Decretos de um executivo preocupado com o mundo rural. Em Manaus. inicialmente de maneira tímida e. posterior ao governo Epitácio Pessoa. mesmo precária. semelhante ao fenômeno sulista. necessitava de crédito aberto do comércio e. a classe média. pelas páginas do Jornal do Comércio. atingidos pela tragédia em toda a Amazônia. A mais dolorosa melancolia: ter de refletir de maneira opaca a luta da burguesia brasileira pelo poder. Quando os coronéis acordaram do delírio e tentaram uma aliança. os empresários extrativistas viviam mergulhados no delírio da monocultura. quando somente soubera refletir os contornos culturais europeus para o consumo colonial. como a automobilística. Os palacetes começavam a ruir abandonados e as ruas enchiam-se de buracos. proletarizada. ao contrário do café. com tropas do Pará. Era um país que se preocupava mais com a saúva e o amarelão que com parques industriais. Os que permaneceram no vale depois do desastre foram obrigados a resistir com todas as forças. promovendo a instalação de uma economia competitiva. A borracha. A massa rural regredia para o sistema do trabalho de subsistência e para o regime de troca. no ano seguinte.foram invadidos e saqueados. Essa defasagem constante e tão característica da experiência amazônica oferecia amargos frutos. E a região. a cidade de Itacoatiara encolheu de dois mil habitantes para trezentos abandonados. sentiram que o panorama era outro e exigia funções novas para o extrativismo. novamente. pela primeira vez. deixando a colônia saqueada e sem perspectivas no futuro. Diariamente. É um acontecimento típico da década de 20. com as classes hegemônicas no poder. a situação voltou a ser controlada. descobre-se uma anomalia econômica em 1920. que se mantivera sempre surdo aos apelos de industrialização. Em poucas semanas. Toda a infra-estrutura . mais que foram contidos por um legislativo de forte tendência urbana. mas que seriam. que o Brasil não possuía. atingia níveis de indigência. barrados em sua execução pela negativa do Congresso Nacional em conceder a verba necessária. quando o poder federal. Iquitos. com o alto índice de desemprego. A elite amazônica não possuía alcance ideológico para preencher essa exigência nem o Brasil possuía recursos para mudar a órbita da região rumo a uma trajetória de auto-sustentação. até que. no Peru. entrou em colapso e ficou perseguindo o sonho do extrativismo. O empresário da borracha. com uma estrutura tão antiga que só por um milagre de mau gosto pôde se manter durante trinta anos. a valorização da Amazônia.

O único ato concreto de Vargas foi o desmembramento. A BATALHA DA BORRACHA Há apenas um intervalo nesses anos de marasmo: o esforço de guerra em 1942. isolaram-se.1 Em 1939. como que para provar que o negócio da borracha era um causa perdida para a Amazônia. estes porque não eram pagos (Plácido Serrano. Com a queda de 97% das áreas produtoras asiáticas nas mãos dos japoneses. para a bancarrota. muito proveitosa. Erros de administração e uma praga que atacou as árvores. A Amazônia abandonada era "a terra do futuro. com o fracasso da Fordlândia em produzir matéria-prima em nível de exportação. para a criação dos territórios do Amapá. através de acordos com o governo brasileiro. se desfazia dos próprios livros). para viver e não abandonar a liça. O Acre era território federal desde a República Velha. o Vale da Promissão na vida do Brasil de amanhã" . Henry Ford abandona seu investimento de 15 milhões de dólares. vivendo num isolamento de enlouquecer. Em Apóstolo e Santo Moderno. numa propriedade de um milhão de hectares cedidos pelo governo paraense. Uma geração toda naufragou intelectualmente". só alguns permaneceram fiéis às cogitações da inteligência. Amazonas e Mato Grosso. acabaram com o sonho de Henry Ford. Os estabelecimentos oficiais de ensino entraram a se despovoar de alunos e professores. GETÚLIO VARGAS NA AMAZÔNIA Em 1940.de serviços urbanos começou a entrar em colapso e o êxodo das populações interioranas acelerava esse processo. Falava de "exploração nacional das culturas. novos empregos e bons salários começavam a ser oferecidos pelos diversos escritórios ligados aos investimentos públicos da Campanha da Borracha. já que era bom negócio alugar casa para os funcionários dos diversos organismos que lidavam com a produção da hévea. desesperados na luta contra o meio. em 1943. Ao mesmo tempo que o país atravessava um duro racionamento motivado pela guerra. e aqueles porque não tinham estímulo e muitos nem dispunham de elementos com que se apresentar na classe. Djalma Batista traça um quadro da situação em Manais nos anos 30: "Os moços não tinham horizontes e os velhos só possuíam olhos lacrimejantes. Quando a guerra acabou. Rio Branco e Guaporé. A operação provocou indícios e possibilidades de um retorno aos velhos tempos. havia uma distribuição controlada pelos americanos. Se bem que os gêneros alimentícios escasseassem e um pequeno mas ativo mercado negro estivesse em franca atividade. concentração e fixação do potencial humano". no sentido de aumentar o estoque de borracha dos aliados. A Paris equatorial era agora uma Port-au-Prince ridícula. o ditador Getúlio Vargas visita a região e pronuncia em Manaus o "Discurso do Rio Amazonas". dos estados do Pará. fazendo surgir até uma tímida especulação imobiliária. Foram anos de euforia econômica. Os próprios homens de letras. emudeceram. mas não resistiram a três aniversários. . o dinheiro voltava a circular em Manaus e Belém. os Estados Unidos. Implantado no Pará. pois a Marcha para o Oeste integraria a região "no campo econômico da nação. O Amazonas submergia ao peso do determinismo histórico. ainda que os planos de assistência médica e higiene tivessem contribuído para melhorar as condições de vida da população interiorana.5 milhões de seringueiras plantadas no modelo asiático. esse projeto compunha-se de 3. na Amazônia. como fator de prosperidade e energia criadora". o preço pago em vidas humanas para a Batalha da Borracha foi incalculável. desencadearam uma operação em larga escala na Amazônia: a "Batalha da Borracha". impedindo que faltassem no mercado artigos de primeira necessidade. O ditador foi recepcionado com um banquete no salão nobre do Ideal Clube e suas palavras queriam marcar o fim da indigência.

100 toneladas. excluindo outras atividades. como a juta e a pimenta-do-reino. especialmente em Santarém e Parintins. quando a estrada Belém-Brasília começa a ser aberta. Essas escolas superiores seriam o embrião das duas futuras universidades estaduais. SINAIS DE RECUPERAÇÃO Em 1953 foi criada a SPVEA . para somente citar dois exemplos. menos como resultado global da expansão do capitalismo no Brasil que do resultado da falta de infra-estruturas sociais e de estradas e vias de acesso. como a Usina de Volta Redonda e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco.. . Esses dois produtos. A pimenta-do-reino estendeu-se pela Zona Bragantina. que toma corpo em plena II Guerra Mundial e vai assumir o poder político da região com a bandeira do desenvolvimento. A produção da fibra impõe-se a partir de 1941. mas também com forte presença em Manacapuru. A tributação do comércio e a nova política fiscal dotavam a administração pública dos estados de maior poder operacional. iniciava-se o processo de apropriação de recursos naturais por grupos econômicos internacionais. castanha-do-pará e madeiras de lei. A segunda geração. Em 1958. no Pará.A. votou nos representantes do otimista Brasil que saía da guerra e olhava para os interesses populares. Sob o impulso desses governos. Ao mesmo tempo. Depois de 1946. até atingir 54 mil em 1964. alguns empresários brasileiros e internacionais mostram-se interessados em adquirir terras na região. Além do mais. na verdade.Segundo uma comissão de inquérito do Congresso Constituinte. aproveitando a demanda internacional de fibras de juta. A Campanha da Borracha não era. a Amazônia começaria a sair do atoleiro. quando as plantações foram atacadas por pragas.Indústria e Comércio de Minérios S. e sua pequena integração ao país. A máquina burocrática seria desemperrada e uma reforma nos métodos de arrecadação fiscal ativaria as rendas dos estados regionais. subindo para 39 mil em 1960. as novas administrações procuravam reorganizar a economia extrativista. embora assim se apresentasse. direcionando esses créditos quase apenas para a borracha. em 1962. vivenciaram a crise do extrativismo. A SPVEA insistia no extrativismo. cerca de vinte mil trabalhadores morreram nos seringais. ganhou espaço no baixo Amazonas. a ICOMI . A primeira geração foi a do naufrágio: conservadora e comprometida com a economia extrativa. com o objetivo de se aplicarem em projetos de desenvolvimento. três por cento do total dos impostos recolhidos em todo o Brasil. na Amazônia. porque considerou o atraso da Amazônia. com a implantação do projeto de mineração no Amapá. pimenta-do-reino. A AMAZÔNIA DA REDEMOCRATIZAÇÃO Duas gerações. organizaram-se eleições livres e o povo. tornando a Amazônia o maior produtor dessa especiaria até 1970. configurando um número de baixas bem maior do que as sofridas pela FEB . que representaram diferentes posturas na vida regional. era a geração da política de massa e representava o jogo das aspirações populares e nacionalistas estancadas pelo golpe militar de 1964. é criada em 1955 a faculdade de Filosofia do Pará e. quando alcança 1. os seringais foram novamente abandonados para que os outros investimentos federais tivessem prosseguimento. implantados na Amazônia por imigrantes japoneses. um plano de valorização regional a longo prazo. a faculdade de Filosofia do Amazonas. bem como em linhas de crédito bancário. ganham expressão a partir dos anos 50. Com o modelo desenvolvimentista. introduzida na várzea dos rios. A SPVEA falhou completamente em sua tarefa de desenvolver a região.Força Expedicionária Brasileira na Itália.Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia. A juta. Com a queda de Getúlio Vargas e o restabelecimento da democracia representativa. Na década seguinte as fibras sintéticas reduziram a demanda da fibra de juta. mas conseqüência do esforço de manter a demanda de borracha e de outras matérias-primas da selva em nível satisfatório às exigências do mercado internacional dominado pelos Estados Unidos. e a concessão de 19 castanhais nativos para a Jarí Florestal.

minerais e madeireiras. Mas para isso os militares tiveram de cassar.1980. militares e políticos brasileiros derrubaram o presidente João Goulart. Depois do golpe militar de 1964. com sede em Manaus. no Pará. alcança um grande prestígio no período. com a criação do INPA . com uma economia internacional que havia enfrentado uma guerra e saído novamente organizada e ainda mais exigente. Bolívia. adotando legislações paranóicas. no Amazonas. Mas a Amazônia produziu artistas como Cláudio Santoro e Waldemar Henrique. o de Aurélio do Carmo. O movimento. Adolpho Ducke.Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. a crônica e o folclore estariam representados por Benedito Nunes. transformou-se numa ditadura que durou vinte anos. Chile. Em 1952. No campo da medicina tropical os nomes de Djalma Batista e Leonidas Deane estiveram ligados a diversos avanços científicos. Osvaldo Orico. materializada num corpo jurídico que foi adotado praticamente por todos os países do continente. exceto Cuba. torna-se um local privilegiado para a implantação de projetos econômicos. na música. Mário Ypiranga Monteiro e Nunes Pereira. A OPERAÇÃO AMAZÔNIA Em 1966. Os anos 50.Partido Social Democrático. NONA PARTE A FRONTEIRA ECONÔMICA Tomemos um período redondo: 1965 . ASPECTOS CULTURAIS O Museu Goeldi. Álvaro Maia. Mas o projeto de desenvolvimento posto em prática pelo governo Kubitschek apenas manteria a região numa posição de reserva. esses quinze anos representaram um grande teste para esse desafio. até mesmo países que conseguiram manter suas instituições. pintores como Ismael Nery. Abguar Bastos e Dalcídio Jurandir. Os políticos amazonenses eram do PTB . Peru. com o incentivo do governo federal. do PSD . o governo brasileiro reforça a pesquisa científica na região. os de Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho. Mas. a Amazônia foi ocupada pelo capital nacional e internacional. passaram por um período repressivo. aparecem as obras de Arthur César Ferreira Reis e Vicente Salles. A Amazônia. Nesses quinze anos a Amazônia foi aberta à expansão do capitalismo. Eneida. países como a Argentina. Eladio Lima e Kurt Nimuendaju foram os cientistas de maior destaque. os militares e seus tecnocratas decidiram ocupar e integrar a região Amazônica através de uma nova . OS ESTADOS DE SEGURANÇA NACIONAL No dia 1º de abril de 1964. seguindo a lógica de argumentos geopolíticos.Os governos mais representativos desses períodos foram. também passaram pela mesma experiência. Benedito Melo e Moacir Andrade. natureza e homem. perseguir e exilar as lideranças democráticas e populares da região. tão caros ao pensamento europeu e que serviram para sustentar conceitos com os de desenvolvimento e subdesenvolvimento. o paraense. poetas como Bruno de Menezes e Mário Faustino. escritores como Alfredo Ladislau.Partido Trabalhista Brasileiro. Se a História da Amazônia tem sido um permanente desafio às noções de progresso. entre outros. sob pretexto de livrar o Brasil do comunismo e da corrupção. Godofredo Hagman. seguindo as diretrizes de uma economia política elaborada por uma série de governos militares que pretendiam promover na região um modelo de desenvolvimento modernizante. Na historiografia. Os estudos literários. mostram uma tendência para fazer da economia brasileira um novo espaço para os grupos multinacionais. apesar de fundado em 1866. No lugar da Democracia foi instalada na América Latina a era da Segurança Nacional. Em 1970 a Democracia era uma exceção ao sul do rio Grande. e. Na América Latina. pelas grandes potencialidades hidrológicas.

arrendatários. uma estratégia foi montada. usando os incentivos fiscais para instalar um enclave exportador. metalurgia e siderurgia. exercitando a política financeira de incentivos fiscais. propondo os seguintes pontos: "1. respeitando a propriedade dos camponeses ricos que trabalharem a terra.) 5. era algo que chegava no momento certo. O RETALHAMENTO DA AMAZÔNIA BRASILEIRA Para evitar qualquer reação das forças tradicionais da Amazônia. Para levar à frente o projeto de ocupação e dotar a região de capital social básico. A partir do presidente Médici. em plena época do chamado Milagre Econômico. por exemplo. Títulos de propriedade para todos os que estiverem trabalhando na terra: colonos. mais de mil investidores tinham instalado projetos de criação de gado ao longo da estrada Belém-Brasília. mineração. (. parceiros. canalizaram os grandes projetos agropecuários. como indicavam alguns exemplos bem visíveis do outro lado da fronteira colombiana.. saiu de Belém para Manaus levando a bordo um expressivo grupo de empresários internacionais. OS PRIMEIROS GRANDES PROJETOS Uma das primeiras empresas a aderir. técnicos e funcionários e funcionários governamentais. perigoso de ser controlado e alvo da cobiça de outras nações se não fosse urgentemente ocupado pelo Brasil. decidem organizar um programa agrário. a Amazônia era um cenário ideal para movimentos subversivos. 2. utilizando os incentivos fiscais. Além da cobiça internacional. órgãos como a SUDAM.estratégia de desenvolvimento regional. Nos primeiros anos da "Operação Amazônia". gerenciar e coordenar as novas ações federais. etc. no início. PROTERRA e POLAMAZÔNIA. No início da década de 70. Reforma Agrária revolucionária. Além de usurpar a autoridade dos estados regionais sobre os seus territórios. esse modelo de desenvolvimento autoritário retalhou politicamente a região. a ponto de o governo do Pará exercer seus poderes apenas sobre 20% do estado. com base no apoio ao movimento guerrilheiro das FARC . o principal atrativo. o governo militar brasileiro não mediu esforços."1 "A Operação Amazônia".Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia. agregados. Foram criados órgãos como a SUDAM. mas basicamente uma área de agropecuária. A agropecuária seria. associada à Swift-Armour do Brasil. meeiros. Já no final de 1996. enquanto a SUFRAMA. pondo as novas instituições para fazer essa divisão na prática. após ocupação militar violenta do governo. Para os militares.. O transatlântico Rosa da Fonseca. AVANÇO DAS LUTAS SOCIAIS NA AMAZÔNIA COLOMBIANA No mesmo ano da "Operação Amazônia". instituindo a "Operação Amazônia". Proteção às comunidades indígenas e devolução de suas terras. usurpadas por latifundiários. fretado especialmente. SUFRAMA e INCRA. a Amazônia era então não mais uma região de economia extrativa. BASA. o governo passou a investir diretamente em megaprojetos. o governo de Brasília tentou atrair investidores para projetos agropecuários através de doações financeiras e renúncia fiscal. Desse passeio pelas águas do rio Amazonas. além da criação de um conjunto de instituições governamentais que ficariam encarregadas de planejar. fez de Manaus e da Amazônia Ocidental um nicho de projetos industriais eletro-eletrônicos e projetos agropecuários de menor porte. portanto. .. criando novas fontes de recursos através de órgãos como o PIN. posseiros. minerais e energéticos para a Amazônia Oriental. a Amazônia era um vazio demográfico. Essa famosa companhia. através dos quais seus burocratas e técnicos movimentam vultuosos recursos e a ditadura militar misturava numa só política o projeto de desenvolvimento com as idéias de ocupação e integração. os camponeses da região amazônica da Colômbia. foi a King Ranch of Texas.

no Rio de Janeiro. no prazo de vigência do contrato. mas. Em 1980. o marechal Castelo Branco. responsável desde 1956 pela exportação de manganês. Pará. no Amapá. outro bilhão de dólares para a Alumar. a Vale do Rio Doce. mas sem esquecer os demais interesses. Itoh. A Amazônia não conseguiu se situar como agente no mercado internacional. é um agente passivo.. ao ser inaugurada. a estatal Companhia Vale do Rio Doce lançou-se ao projeto Carajás. A justificativa principal dos militares era a integração nacional. concedeu três milhões e meio de hectares ao empresário norte-americano Daniel Ludwig. também no estado Pará. Ela é apenas um paciente nesse momento. além do Ministro do Planejamento. A Transamazônica era algo tão absurdo que até mesmo o ex-ministro Roberto Campos. por exemplo. os japoneses vão ter de volta o capital de risco que eles investiram a cada dois anos. que nós não conseguimos avaliar. mas ela não tem vontade. No dia 1º de setembro de 1970. considerou uma futilidade a construção da estrada. fator que faz com que nós.. o primeiro presidente militar após 64. Em 1975. ela estava orçada em dois e meio bilhões de dólares. Em 1974. que é de vinte anos. Estavam presentes na solenidade. Roberto Campos. Em menos de dez anos a selva reivindicou de volta quase todo o trajeto da Transamazônica. A ZONA FRANCA DE MANAUS A partir de 1967.) Hoje ainda é impossível calcular o valor global dessa sangria. as obras da Transamazônica foram iniciadas. ". Esse jogo é um jogo de altíssimo nível. sob o pretexto de que iriam apenas consumir 30% de energia elétrica. só com o subsídio da tarifa de energia. nove anos depois.2 A TRANSAMAZÔNICA Enfatizando os empreendimentos agropecuários. geremos um surto de dinheiro. Em 1967. para a exploração de vários minérios. ou seja. pelo governo brasileiro. Então esses empresários vêm para cá. já estava à frente de um dos primeiros empreendimentos em grande escala na Amazônia. mais de 1 bilhão de dólares.(. abrindo um período de perplexidade quanto à sua necessidade. têm lucro fantástico na relação de troca de mercadoria . tinha anunciado a construção de uma fábrica de alumínio em Belém e uma usina hidrelétrica em Tucuruí. não ajudava muito a reforçar os argumentos governamentais. não tem iniciativa. com relação a alguma mercadoria. que vai de um lado para o outro conforme batem os dois jogadores. um dos menores do modelo de integração da Amazônia. quando chega no Japão. O subsídio da energia da Albrás. para aquela gente que vem para cá. quando as obras da hidrelétrica começaram.estabeleceu uma fazenda de 180 mil acres em Paragominas. de gastar qualquer centavo na hidrelétrica de Tucuruí. a ICOMI. mas o traçado da Transamazônica.. em associação com a companhia japonesa C. na nova divisão internacional desse mercado. o governo federal investiu também em infra-estrutura. os dois extremos da mesa. um pioneiro de projetos como aquele. vale 2 vezes mais na primeira transformação industrial.. interesse até fundamental". sendo que quinhentos milhões de dólares foram para a empreiteira Camargo Correia como lucro líquido. de grandes interesses e. Mas os japoneses foram gentilmente dispensados. como que fechando um ciclo. para dar início ao Projeto Jari. o sr. que recebe subsídio do Estado. um outro empresário. Essa movimentação de bilhões de dólares foi chamada pelo sociólogo Lúcio Flávio Pinto de "fator amazônico". monopolizam fantásticas somas de dinheiro subsidiadas. imediatamente instalando uma série de indústrias e anunciando uma oferta de . pobres. ligando o Nordeste miserável à Amazônia pobre.o lingote de alumínio embarcado no porto de Vila do Conde. ela é apenas uma bola de pingue-pongue. construindo estradas e modernizando os sistemas de comunicação e transportes. absorvem. província mineral no território paraense. o que lhes deu uma poupança de setecentos milhões de dólares. em recepção no Palácio das Laranjeiras. Augusto Trajano de Azevedo Antunes. criticando duramente a falta de viabilidade econômica do projeto. já estava custando cinco bilhões e quatrocentos milhões de dólares. vai representar. um decreto presidencial transformou Manaus em Zona Franca.

que não foram convidados por nós a fazer nossa defesa.3 OS CONFLITOS DE TERRA Uma outra conseqüência terrível da política dos grandes projetos foi a expulsão dos camponeses e trabalhadores do extrativismo de suas pessoas e glebas. . a Amazônia Ocidental teve o seu quinhão da política de integração nacional. Acontece que quase todo o alarido em defesa da região amazônica está fundamentado na idéia de que o desmatamento significa uma ameaça para o clima de todo o planeta. A promessa de quarenta mil empregos não se cumpriu. mas o cerceamento da liberdade de expressão. Fases que exigiam um número de mão-de-obra. por volta do final da década de 70. e que do Amazonas somente aproveitaram a mão-de-obra e os privilégios institucionais. como extensões de grandes complexos. Exagerando: o homem aparece. imposto por um regime autoritário. No que toca à divisão do trabalho. as indústrias da Zona Franca operavam as fases finais de montagem e acabamento do produto. com o chamado efeito estufa. os argumentos preservacionistas tornam-se místicos e éticos e reduzem a Amazônia. mas ajudou a provocar uma explosão demográfica em Manaus. como predador. que as queimadas estariam ajudando. A AGRESSÃO AO ECOSSISTEMA Esse modelo de desenvolvimento regional baseado em grandes projetos. hoje atrelados como sócios minoritários. evitando cair no catastrofismo de certos defensores de nossa integridade. Ele nem poderia deixar de sê-lo. a um território sem tradição cultural ou história. A crítica ao desenvolvimento da Amazônia se volta assim não contra um modelo histórico. que precisa ser ocupado por suas boas intenções. a não ser que seja índio. mas contra todo e qualquer aproveitamento humano". Como tais fundamentos não são realmente provas científicas. é um cenário para fins de analisem que provavelmente existe no planeta Vênus. uma conjuntura favorável. com cargos simbólicos nas empresas altamente subsidiadas instaladas em Manaus. Aproveitando a legislação. Mas não se deve esquecer que o aquecimento planetário. produzido diretamente por tal modelo imposto pelo regime militar. como destruidor. a repressão e o sistemático assassinato de lideranças populares impediram que fossem denunciadas e combatidas na época. Mas sobre essa questão. Eram indústrias que tudo trouxeram de fora. entrou em atividade um parque industrial de "beneficiamento" produzindo em toda sua capacidade e operando numa área onde as facilidades eram. Fatheuer comenta que: "A ecologização total da Amazônia esvazia a região de suas características sociais. trata-se apenas de uma hipótese. como nenhum conjunto habitacional supostamente para pessoas de baixa renda recebeu. aproximadamente 10% da cobertura vegetal da região foi destruída irremediavelmente nos últimos vinte anos. Segundo os mais conservadores levantamentos. E a destruição da camada de ozônio. De cerca de cento e cinqüenta mil habitantes em 1968. deve-se ter uma visão correta. no modelo de equilíbrio ecológico. totalmente urbanizados. A participação de capital oriundo do tradicional extrativismo foi mínima e era possível notar. da tecnologia ao capital majoritário. as indústrias da Zona Franca são administradas de maneira direta e seu capital pouco é afetado pela disponibilidade local. a cidade pulou para seiscentos mil em 1975. no chamado Distrito Industrial. de outrora. grandes comerciantes do extrativismo. É fácil de compreender porquê. Para completar. e hipótese contestada por inúmeros especialistas em clima. todas as intervenções humanas são classificadas como prejudiciais. acabou por trazer graves conseqüências para a Amazônia e seu povo. E. essas indústrias se estabeleceram numa área da cidade de Manaus. O problema mais em evidência hoje. é o da degradação ambiental em processo acelerado. da mesma forma que os militares o fizeram. Com essa estrutura industrial altamente artificial. econômico e socialmente determinado de apropriação. na verdade. mas não na Terra. O ambientalista Thomas W. assim. As principais distorções hoje são bastante óbvias. onde receberam terrenos a preços irrisórios.quarenta mil empregos.

Milhares de famílias foram tiradas de seus lares e empurradas para a desagregação. Os conflitos de terra aumentaram de intensidade, a partir de 1970, gerando focos críticos como a região do "bico do papagaio", no sul do Pará, ou os estados de Rondônia e Acre. O crescimento da organização desses trabalhadores mereceu um reforço no sistema repressivo, com ameaças, prisões, deportações e, finalmente, o assassinato puro e simples com a conivência da polícia. Centenas de líderes camponeses tombaram sob as balas dos jagunços, como foram os casos dos sindicalistas Wilson Pinheiro e Chico Mendes, no Acre. Além dos trabalhadores, os povos indígenas sofreram inúmeras agressões e violências. Os paracanã, por exemplo, perderam seu território para a Transamazônica e para a hidrelétrica de Tucuruí. Os araweté, e os assurini ficaram ameaçados pelo complexo hidrelétrico de Altamira. Em toda a Amazônia os povos indígenas sofreram enormes abusos por parte do estado brasileiro, tendo esses anos de desenvolvimento econômico representado o ocaso para diversas culturas. Tanto a questão dos índios quanto os conflitos fundiários indicam que o modelo de desenvolvimento foi direcionado deliberadamente para uma ocupação territorial por parte de proprietários não-residentes na região, além de representarem a tendência de os projetos agropecuários predominarem sobre os industriais, o que significa a negação da Amazônia aos seus próprios habitantes. No final, esses grandes projetos acabaram por se tornar um esforço governamental para tentar fazer a indústria nacional sair da crise que se abateu a partir de 1981, provocando na Amazônia apenas um espasmo capitalista. A DINÂMICA DA SOCIEDADE AMAZÔNICA Como área econômica periférica mas dotada de unidade histórica e dinâmica cultural, a Amazônia já teve tempo de desenvolver instrumentos políticos e sociais capazes de articular, após algum tempo, uma reação competitiva em relação a tais "modelos externos". Porque sua economia é vez por outra condenada à auto-suficiência, especialmente nos períodos em que perde sua inserção no mercado internacional, a Amazônia parece tender ao isolamento. Nada mais falso. A Amazônia foi inventada para estar ligada ao mercado internacional, foi esta a principal diretriz do processo de colonização. Por isso, é uma região que facilmente desenvolve seu relacionamento com o exterior, se há vantagem nisso, como comprovam o garimpo e do narcotráfico, após o colapso dos grandes projetos. O NARCOTRÁFICO Em 1975, o general Rincón Quinones, do exército colombiano, foi assassinado quando trabalhava na investigação de ramificações dos negócios da cocaína dentro de sua própria corporação. Segundo a imprensa de Bogotá, os mandamentos do crime estavam entre os oficiais do próprio Ministério de Defesa. Essa teia de corrupção e conivência, que começou a esgarçar as estruturas da sociedade colombiana desde os anos 70, era fruto da valorização do produto, que chegava a ser vendido em Nova Iorque por vinte mil dólares o quilo, facilmente produzido com folhas que não custavam mais de duzentos dólares na selva. Mas a Colômbia era uma novata no ramo. O Peru, com uma cultura andina na qual a mastigação da folha de coca é parte essencial, já estava com laboratórios montados na selva amazônica desde o ciclo da borracha. Eis porque, nos anos 70, foi o único país a publicar suas estatísticas. Segundo os peruanos, quatro milhões de quilos de coca eram anualmente consumidos pelos índios; 770 mil quilos eram negociados legitimamente aos fabricantes de Coca-Cola, sendo outros 66 mil quilos para a indústria farmacêutica. Acontece que a produção anual peruana era de 15 milhões de quilos, significando que, aproximadamente, 75% eram destinados ao tráfico ilegal. Em 1979, as autoridades peruanas calcularam que os traficantes tinham faturado, exportando coca para os Estados Unidos, cerca de dois bilhões de dólares. Nenhuma atividade legal oferecia tamanho lucro, já que as exportações legítimas tanto do Peru quanto da Colômbia não excediam juntas um bilhão de dólares,

Mas o que deve ser ressaltado é que, na Amazônia, uma indústria tão importante como a da cocaína necessariamente acaba ficando nas mãos da elite política e social que domina as áreas de cultivo e produção. De outro lado, o contexto da indústria da cocaína nos anos 70 era o das leis de segurança nacional, por onde se pode perceber a existência de formas de pressão geradas pelos centros de consumo e a presença de uma corrente subterrânea que ligava a economia do narcotráfico amazônico com as tendências semelhantes de outras áreas da América do Sul e com a ampliação do negócio doméstico da cocaína nos Estados Unidos. Os efeitos perversos da economia da cocaína decorrem da rápida substituição dos cultivos tradicionais pelo da coca; encarecimento dos mesmos produtos agrícolas que precisam ser importados; e surgimento e influência de grupos de novos ricos fora da lei, afetando a estrutura social, e a poluição ambiental devido ao despejo dos componentes químicos usados no refino do produto. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DA AMAZÔNIA A Amazônia Legal, integrando os estados do Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, oeste do Maranhão, norte do Mato Grosso e norte do Tocantins, representa 59% do território brasileiro e 65% da Amazônia com um todo. Os outros países com territórios amazônicos são: Bolívia, Colômbia, Peru, Guiana, Venezuela, Suriname, Equador e França. O território da Amazônia Legal compreende cerca de 4.990.530 km2, com 11.248 km de fronteiras internacionais e 1.482 km de costa atlântica. O relevo e o solo da Amazônia são bastante diversificados, com zonas de planícies e grandes montanhas. Enquanto as várzeas do rio Amazonas estão entre oito a dez metros acima do nível do mar, há montanhas de 3.014 metros de altura, como o Pico da Neblina, ou Monte Roraima, com 2.875 metros. Um vasto cenário, ainda em formação, para a história de um povo em construção. Ere catu. Tupana rupi.* BIBLIOGRAFIA ACUÑA, Cristobal. Nuevo Descubrimiento del Gran Rio de Las Amazonas. Emecé editor, Buenos Aires, 1942. AGASIZ, Luiz e Elisabeth. Viagem ao Brasil, 1865-1866. Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, Belo Horizonte, 1975. AMAZONAS, Lourenço da Silva Araujo e. Dicionário Topográfico, Histórico, Descritivo da Comarca do Alto-Amazonas, Manaus, 1984. ARAÚJO, André Vidal de. Introdução à sociologia da Amazônia. Editora Sérgio Cardoso, Manaus, 1956. _______. Sociologia de Manaus, aspectos de sua aculturação. Edições Fundação Cultural do Amazonas, Manaus, 1974. _______. Estudos de pedagogia e antropologia sociais. Edições Governo do Estado do Amazonas, Manaus, 1967. ARNAUD, Expedito. Aspectos da legislação sobre os índios do Brasil. Museu Paraense Emílio Goeldi, publicação avulsa nº 22, Belém, 1973. BAENA, Antônio Ladislau Monteiro. Contemporâneo das eras da província do Pará. Universidade Federal do Pará, Belém, 1969. BARATA, Manoel. Formação histórica do Pará. Universidade Federal do Pará, Belém, 1973. BARATA, Manoel. Poder e independência do Grão-Pará. Conselho Estadual de Cultura do Pará, Belém, 1975. BASTOS, A. C. Tavares - O vale do Amazonas. Companhia Editora Nacional, 3ª edição, Brasiliana, volume 106, São Paulo, 1975. BATES, Henry Walter. The Naturalist on the River Amazon. University of California Press, California, 1962. BATISTA, Djalma. O complexo da Amazônia. Editora Conquista, Rio de Janeiro, 1976. _______. Apóstolo e santo moderno. Revista da Academia Amazonense de Letras, Manaus, 1946.

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