Introdução a Mecânica Quântica

1. Insuficiência da Física Clássica
A aplicação da Mecânica e da Eletrodinâmica clássica aos edifícios atômicos e moleculares conduz rapidamente a conclusões insustentáveis, em total desacordo com a experiência. Assim, se as leis clássicas se aplicassem à um elétron gravitando em torno de um núcleo positivo, ele deveria irradiar continuamente ondas eletromagnéticas, em conseqüência, perderia energia até finalmente cair sobre o núcleo. Como sabemos, neste modelo tal como se encontra no átomo de hidrogênio, por exemplo, é estável e não irradia energia. Da mesma maneira é absolutamente impossível explicar a existência de moléculas a partir da Física Clássica. Esta situação foi o motivo de diversas tentativas no sentido de resolver as dificuldades encontradas. A teoria de Bohr para o átomo de hidrogênio (1910) é um exemplo de uma destas tentativas. Entretanto, como todas as teorias foram formuladas segundo os princípios da Física Clássica e sem possibilidade de generalização elas fracassaram completamente. Seria necessário repensar, então, toda a Física corpuscular.

Niels Bohr Foi o trabalho de Louis de Broglie que em 1924 lançou as bases de uma nova mecânica chamada ondulatória ou quântica (os dois qualificativos são sinônimos neste caso). Completada pelos trabalhos de Heisenberg, Schrödinger, Pauli, Dirac e outros mais, a Mecânica Ondulatória forma, em nossos dias, um conjunto coerente e apropriado ao tratamento de sistemas corpusculares necessitando, entretanto, de uma bagagem matemática considerável. Em 1924, Louis de Broglie, lembrando-se da natureza dualística dos fótons (sugerida por Einstein ao estudar o efeito fotoelétrico), e considerando que todos os fenômenos naturais envolviam certa forma de matéria e de radiação (ondas eletromagnéticas), sugeriu que assim como "as ondas de luz" tinham propriedades de partículas o inverso também deveria ser válido, isto é:

"A toda partícula com momento linear p estaria associada uma onda de comprimento , isto é : = h/p, onde h é a constante de Planck e p o momento linear da partícula. Esta relação implicaria que todos os corpos massivos ou partículas, tais como uma bola de bilhar e um elétron, teriam também propriedades de ondas, cujas características seriam regidas pela

devido a sua formulação matemática aparentemente complexa. como por exemplo o elétron. A natureza dualística da matéria era. quase ao mesmo tempo. quase dois séculos depois. essas teorias ainda constituem o esteio dos conceitos modernos da estrutura da matéria. de Broglie O comprimento de onda de De Broglie (= h/p) foi escolhido de tal modo que a órbita de raio r contivesse um número inteiro n de ondas de matéria. diferentemente de Heisenberg. Em 1926. idênticas quanto aos seus resultados. então seria de se esperar que a equação de d'Alembert também se aplicasse à . Heisenberg formulou sua teoria utilizando-se do cálculo matricial. " L. em 1925. Schroedinger. W. Ele tomou como base a equação de onda de d´Alembert que rege o movimento dos sistemas ondulatório no espaço e no tempo. De onde tiramos a quantização do momento angular. Ironicamente. E. ou seja. previamente postulado por Bohr.mesma teoria das radiações. Heisenberg desenvolveu uma nova teoria quântica baseada no princípio da correspondência sugerido por Bohr. Neste sentido. se comportam como ondas. a qual já era bem estabelecida. a qual tem a forma: Levando em conta que as partículas. átomos e moléculas. então. A existência de ondas de matéria sugeria a possibilidade de se construir uma equação de onda que explicasse naturalmente o comportamento dos elétrons. foi levado a formular uma nova mecânica dentro da teoria ondulatória. Formuladas de forma diferentes essas duas teorias são no entanto. Schroedinger publicou as suas idéias propondo uma nova teoria quântica. Hoje. sugestiva. essa teoria escapou à atenção de muitos pesquisadores.

é impossível descrever perfeitamente o estado de um sistema. este volume contém certamente o sistema. como por exemplo a posição e velocidade de um elétron no interior do átomo.. simultaneamente. Se o volume V é infinito. 2. mas sim o quadrado de seu módulo: 1 (* = imaginário conjugado de  ). representa a probabilidade de encontrar.. x2..descrição dos movimentos eletrônicos no átomo. nós conhecemos a posição e a velocidade de cada partícula. Em particular. esta função de onda não possui um significado físico. No caso da mecânica Newtoniana a cada instante. então . Princípios Gerais da Mecânica Quântica A Mecânica Clássica permite determinar a evolução de um sistema ao longo do tempo quando se conhece as condições iniciais e as forças agindo sobre o sistema. Na concepção clássica. a trajetória e a lei do movimento sobre esta trajetória.xN. De acordo com Max Born. para cada elemento que constitui o sistema. Pela Mecânica Quântica nós só podemos 3 . pode-se prever. em um dado ponto do espaço. Tudo que nós podemos conhecer sobre o movimento de um sistema de partículas se reduz a uma função complexa  dependente das coordenadas (x1.. uma partícula se encontra ou não.xN) das partículas e do tempo t. Esta condição fundamental chamada de condição de normalização da função de onda exige que a função seja de quadrado somável e em particular que ela seja zero no infinito. advindo daí o qualificativo ondulatório dado a esta mecânica. 2 a integração sendo realizada sobre todas as coordenadas.. de acordo com o princípio da incerteza de Heizenberg. No universo microscópio das partículas. . em um determinado instante. x2..xN) é dado por. no instante t as diversas partículas constituindo o sistema nos pontos de coordenadas x1. x2.. Podemos então dizer que uma tal mecânica é determinista e muito ambiciosa. Em outros palavras podemos dizer que a probabilidade de encontrar o sistema no instante t em um volume V do espaço (x1. Esta função é chamada função de onda..

por exemplo).  (x1.a nossa escala como se as partículas tivessem perdido sua individualidade e fossem substituídas por uma nuvem contínua de densidade igual ao quadrado do módulo da função de onda correspondente. Nesta equação E é a energia total do sistema. x2.g. Schrödinger (1926) mostrou que ela era solução de uma equação em derivadas parciais de segunda ordem.conhecer a probabilidade de encontrar a partícula no ponto considerado. visto que o sistema é isolado. resumindo assim.s) e i é a parte imaginária.6 x 10-27 c.. Tudo se passa então . à cada partícula se encontra associada uma função de onda.. onde ele forneceu igualmente suas regras de construção. O que leva a dizer que se repetirmos estas medidas simultaneamente sobre um número grande de sistemas idênticos e independentes (átomos em um gás diluído. Desta maneira. Esta função satisfaz a equação chamada de Equação de Schrödinger que pode ser escrita simbolicamente por: . Será indicado em seguida os pontos essenciais relativos à construção desta equação e à estrutura das funções de onda. a qual é constante. Schrödinger Para um sistema isolado. a função de onda pode ser separada da seguinte forma: 4 onde os termos e são os fatores espacial e temporal. O problema maior desta teoria é a determinação desta função de onda. obteremos 5 . tudo o que é possível saber sobre ela. h é a constante de Planck (6. Se multiplicarmos esta equação à esquerda por * e integrá-la em relação às variáveis espaciais. representa a densidade de presença da partícula.. E. H é designado um operador diferencial que transforma  .xN) é uma função de onda comportando apenas as variáveis espaciais.

Na prática. . As funções i de quadrado somável são ditas auto-funções do operador H cujas energias associadas Ei são denominadas de auto-valores deste operador. a condição de normalização exige que esta função seja de quadrado somável. A energia cinética é função das velocidades que por sua vez pode ser expressa em função das quantidades de movimento. pelos operadores diferenciais: . Em outros termos. substituindo na expressão clássica para a energia total de um sistema constituído de N partículas. assim. constrói-se o operador . pyj e pzj são as componentes do vetor quantidade de movimento da partícula j. a energia total E é a soma da energia cinética (T) e a da energia potencial (V).6 visto que  é normalizada. O estudo matemático das soluções da equação de Schrödinger mostra que esta condição é realizada somente para certos valores discretos de E. Como vimos. . as quantidades de movimento px associado as coordenadas cartesianas x. algumas vezes chamado Hamiltoniano. 9 A resolução da equação fornece a função de onda em termos do parâmetro E que é a energia total do sistema. isto é. 7 Para um sistema de partículas j de massas respectivas mj. 8 onde pxj . a energia inicial de um sistema não pode ser arbitrariamente imposta como na Mecânica Clássica.

como a seguir . são ortogonais. as mesmas regras de construção relativas ao operador Hamiltoniano associado à energia se aplicam à uma grandeza qualquer. 13 Na mecânica quântica substituímos as quantidade de movimento pelos seus operadores correspondentes. para introduzir a sua formulação para a Mecânica Quântica se baseou no modelo da Mecânica Ondulatória Clássica. A expressão clássica desta grandeza corresponde a um operador F. Interpretação da Mecânica Ondulatória e seus Postulados Schödinger. soluções da equação de Schroedinger acima. assume-se que a energia potencial é função somente das coordenadas : 12 Como a energia total do sistema (E) é igual a soma das energias cinética e potencial. por exemplos elétrons. A idéia básica era encontrar uma equação equivalente a equação de Hamilton para a mecânica clássica. o resultado da medida macroscópica sendo dada por 11 3. Na realidade.Pode-se mostrar igualmente que as funções de onda i . No caso de um sistema de N partículas. isto é: 10 onde mn é a delta de Dirac. O conhecimento da função de onda determina completamente o sistema no ponto de vista da mecânica quântica. temos que.

como a seguir 16 ou 17 .13) pode ser obtido usando a equação 15.14 Assim temos que 15 O operador energia equivalente ao clássico (eq.

a variação da integral de ação resulta em uma equação diferencial que. Portanto. já que a equação (3) é uma equação de vínculo ou condição que a função de onda deve satisfazer. . tem-se . considere a integral de ação: 20 em que é o operador Hamiltoniano atuando na função de onda . Desta forma a equação de Schrödinger pode ser deduzida da mesma maneira que a equação de Euler-Lagrange. discutimos o princípio de mínima ação ou princípio de Hamilton. espera-se que a variação de uma integral equivalente forneça uma equação que descreva completamente o sistema quântico. o problema quântico está vinculado à normalização da função de onda com apresentado na equação (3). Na mecânica clássica. Para formular o problema variacional na mecânica quântica. utilizando para isto o método variacional. O princípio de Mínima Ação e a equação de Schrödinger Na seção 3.onde é o operador Laplaciano relativo à partícula j.5) assume a forma 18 19 4. sabendo que . uma solucionada. será necessário a utilização do método dos multiplicadores de Lagrange para se efetuar a variação. Portanto. Assim. a qual será denominada de equação de Schrödinger. fornece todas as informações do sistema em estudo. Esta integral expressa o valor esperado da energia (E). isto é. Assim a equação de Schrödinger (eq. discutida na seção 3. Mas.

tem-se que (23) Neste caso o multiplicador de Lagrange  é uma constante.(21) ou ainda. Aplicando a variação na equação (22). . (25) que é a própria equação de Schrödinger não dependente do tempo. a condição S = 0 fornece duas equações diferenciais equivalentes. em que  é o multiplicador de Lagrange. (24) As funções de onda  e  variam de forma independente. . assim  = 0. (22) em que apenas subtraiu-se zero na equação (20). Desta forma. Reescrevendo a equação (23) obtemos. do tipo. Em resumo podemos escrever alguns dos postulados da nova Mecânica como. A todo sistema corresponde uma função de onda A função de onde deve ser de quadrado integrável e normalizada. ii. i.

De acordo com Schrödinger devido a dualidade onda-corpúsculo da matéria. a dualidade onda corpúsculo tanto para a luz quanto para o elétron. a quantização da radiação emitida por um corpo negro. para os quais a teoria de Newton ou mecânica Newtoniana não se aplicava. A primeira formulação para esta nova teoria foi proposta pelo físico austríaco Erwin Schrödinger em 1926.iii. Devido a fatos tais como. mesmo que uma partícula se mova em uma trajetória definida ela estará distribuída em todo o espaço como uma onda. Neste sentido.  (psi). uma onda na nova mecânica (mecânica quântica) equivaleria ao conceito de trajetória na mecânica clássica e seria representada por uma função denominada função de onda. Nesta mesma época Schrödinger propôs uma equação diferencial. A seguinte correspondência existe entre as variáveis dinâmicas e os seguintes operadores: Variáveis Operadores Aula 9 Introdução à Mecânica Quântica 1. assim como o princípio da incerteza de Heizenberg a nova mecânica deveria ter uma formulação compatível com estes fatos. a quantização do átomo de Bohr. nas . A equação de Schrödinger Nas seções anteriores mostramos a necessidade de se construir uma nova mecânica para os sistemas atômicos e moleculares.

(1) Leia aqui o artigo original de Schrödinger. na equação de Schrödinger. é denominado por Se o movimento da partícula é dependente do tempo a equação de Schrödinger assume a forma. Observe.coordenadas espaciais e no tempo cuja solução era a função de onda. (2) ou (3) onde o operador diferencial Laplaciano. Esta equação ficou conhecida como equação de Schrödinger. Soluções da Equação de Schrödinger Vimos que a equação de Schrödinger é uma equação diferencial cuja solução é uma função de onda. No caso de um movimento tri-dimensional tem-se que. 2. que para uma partícula de massa m se movendo em uma dimensão e sob a ação de um potencial V(x) tem a seguinte forma. que a energia (uma observável física) é representada por um operador diferencial. (4) ou de forma simplificada. (5) O operador H é denominado de operador Hamiltoniano. No caso de uma partícula de massa m se movendo em uma .

isto é. (9) Caso de uma Partícula Livre No caso de uma partícula livre temos que o operador energia. ou operador Hamiltoniano coordenada x. portanto ele deve ter significado físico que. (6) Sendo o potencial constante uma possível solução para esta equação. . O módulo da função de onda ao quadrado é uma grandeza não complexa. A e B são constantes representando as amplitudes de cada uma das ondas. a qual pode ser obtida por diferentes métodos dentro da teoria das equações diferenciais. e com isto calcular a energia total do sistema. Se a função de onda  é expressa como uma combinação linear de ondas planas como a seguir. é descrito pela derivada segunda da função onda em relação à . vamos aplicá-la na equação de Schrödinger para resolver o problema de uma partícula livre.8) é solução da equação de onda. pode-se determinar a energia do sistema resolvendo a equação de Schrödinger. (7) onde i é um número complexo imaginário. (8) Esta equação é uma combinação linear de duas ondas planas que se propagam em uma dimensão nas direções +x e –x. Como  é uma função complexa (imaginária) ela não deve ter significado físico e.dimensão e sobre a ação de um potencial constante (V) a equação de Schrödinger tem a forma. mede a probabilidade de se encontrar uma partícula na região do espaço delimitada pelo elemento de volume  e  +d. . é da forma. Pode-se mostrar que existem outras soluções mais gerais para a equação de Schrödinger acima. Para verificar se realmente esta função (eq. Vemos com isto que a solução da equação de Schrödinger é uma função de onda complexa. de acordo com Max Born. Apenas as grandezas ou observáveis reais têm significado físico e podem ser medidas em laboratório. portanto não pode ser medida em laboratório. Uma dessas soluções é a função formada por combinações lineares de funções complexas.

A equação (13) é exatamente igual a equação (10). (14) . temos que. Substituindo a equação (8) em (10) temos que. (12) reordenando o lado direito da equação acima.(10) Neste caso V(x) = 0. já que a partícula é livre e. (11) e Substituindo estes dois resultados na equação (7) temos que. portanto ela não está sobre a ação de qualquer tipo de potencial externo. (13) que pode ser rescrita por. mostrando assim que a função de onda (eq. 8) é uma autofunção do operador Hamiltoniano para uma partícula livre. cujo valor da energia é igual a.

.onde k é o número de ondas.