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Grêmio 1983 - Operação Tóquio

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OPERAÇÃO TÓQUIO: 136 DIAS DE PREPARAÇÃO

Desde a conquista da Libertadores, no dia 28 de julho, até a final do Mundial, no dia 11 de dezembro, o Grêmio teria exatos 136 dias para se preparar. Foi uma verdadeira maratona, com 40 jogos neste período, mesclando a equipe titular e a reserva. Equipe titular que havia sofrido uma baixa importante. Nem mesmo a vaga assegurada na grande decisão de Tóquio foi suficiente para que o meia Tita desistisse da idéia de retornar ao Flamengo após a conquista da Libertadores. Eterno reserva de Zico no time da Gávea antes de ser emprestado ao Grêmio, Milton Queirós da Paixão, o “Tita”, viu na venda do Galinho de Quintino para a Udinese da Itália a grande chance de assumir a camisa 10 do rubro-negro carioca, um antigo sonho. A vontade do jogador aliada à pressão do Flamengo por seu retorno tornou impossível manter o atleta no Olímpico.

Com a iminente perda de um dos seus principais jogadores na campanha da Libertadores, o Grêmio tratou de buscar um substituto a altura. Acabou trazendo não apenas um, mas dois substitutos: os experientes Mário Sérgio e Paulo César Caju. Este último já havia atuado pelo Tricolor em 1979, vencendo o Estadual. Mário Sérgio atuava pela Ponte Preta, e Paulo César foi trazido do Aix em Provence, equipe do futebol francês. Estavam aí os dois reforços visando a final de Tóquio que fizeram a torcida esquecer Tita.

Toquiomania Após a conquista da Libertadores, a palavra “Tóquio” passou a fazer parte do cotidiano dos gremistas, e a conquista do Mundial, no final do ano, virou uma verdadeira obsessão. Não só para os dirigentes e jogadores do Tricolor mas, principalmente, para a torcida. Torcedores começaram a se mobilizar para fazerem parte deste momento inesquecível em solo japonês. Muitos trataram de vender bens pessoais para juntar os quase 3 milhões de cruzeiros (3 mil dólares) em um pacote de sete dias e vôo charter oferecido por diversas empresas de turismo da capital gaúcha. Quem não tinha condições, tratava de se associar ao clube na esperança de ser sorteado com uma das 80 passagens oferecidas em uma promoção de marketing organizada pelo Grêmio com o objetivo de chegar aos 80 mil sócios no ano em que completava 80 anos. Nos jogos disputados após a conquista da América, uma gigantesca bandeira do Japão destoava das demais no meio da torcida organizada Super Raça Gremista. As coisas do Japão passaram a significar símbolo de status entre a coletividade gremista. O consulado japonês em Porto Alegre, normalmente absorto em sua tranqüilidade habitual, passou a receber diariamente a visita de dezenas de torcedores em busca de informações sobre o país do sol nascente. Sair de lá com um simples panfleto já era suficiente. Até mesmo o restaurante Sakae´s, na época o único de culinária nipônica do estado, dobrou o número de clientes. Tudo graças à “Toquiomania” que tomou conta dos gremistas. Um envolvimento emocional impressionante visando a decisão do Mundial. Algo jamais visto na história do Clube. Estava criado um quadro de otimismo e motivação que, somado à indiferença dos alemães do Hamburgo, trazia a certeza da vitória.

Operação Tóquio Em meio à disputa do Campeonato Estadual, a direção gremista resolveu instalar a “Operação Tóquio”, dando completa atenção à partida com o Hamburgo. Inevitavelmente, a competição estadual passou a ter um grau de importância bem menor do que o habitual e o clube optou por utilizar uma equipe reserva na fase decisiva da competição. A decisão acabou alijando com as possibilidades do Tricolor de retomar a hegemonia estadual e o clube ficou na terceira colocação, atrás de Inter e Brasil de Pelotas. Entre as ações da direção gremista, houve um esquema de acompanhamento a fundo da equipe alemã, com o apoio da imprensa gaúcha e de gremistas radicados na Alemanha e uma excursão pela América Central. Com a proximidade da viagem para Tóquio, a diretoria gremista decidiu afastar o grupo da euforia que tomava conta dos torcedores gremistas em Porto Alegre e concentrou a delegação na cidade de Gramado, na Serra Gaúcha. Longe da agitação, o grupo trabalhou forte sob o comando do preparador físico Ithon Fritzen. Em um dos trabalhos, Mário Sérgio sofreu uma lesão na região glútea após uma queda e passou a ser dúvida. Além da lesão, o jogador acabou atingido por uma séria infecção intestinal responsável por uma debilitação física. Outro problema era Osvaldo, sentindo dores na coxa. Após o período em Gramado, o Grêmio desceu a serra para um último compromisso antes do início da viagem marcada para a tarde de segunda-feira. No sábado, a equipe reserva havia sido derrotada pelo Brasil de Pelotas, no Bento Freitas, dando adeus ao campeonato gaúcho, e no domingo, no Olímpico, em um amistoso de despedida, o time principal acabou derrotado pelo Novo Hamburgo pelo placar de 1 a 0. O resultado não abalou a confiança da torcida gremista que prometeu lotar o aeroporto Salgado Filho antes do embarque.

VIAGEM ATÉ O OUTRO LADO DO MUNDO
Dia 05 de dezembro de 1983, segunda-feira, 17h30, um vôo da Varig levando 170 passageiros, entre eles os atletas gremistas, decolava do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, tendo como destino final o aeroporto de Narita, no Japão. Com eles, embarcava a esperança de milhares de torcedores ansiosos com a decisão do Mundial Interclubes.

A despedida emocionada de centenas de gremistas no aeroporto da capital gaúcha fez com que o início de viagem fosse marcado por um clima de alegria e confiança. Ninguém demonstrava preocupação com o desgastante vôo. Porto Alegre - Rio de Janeiro – Lima A primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde a delegação trocou para um avião maior. No mesmo vôo, embarcaram os jogadores do time Estrelas da América, uma equipe com atletas e ex-atletas da América do Sul que faria jogos amistosos nos Estados Unidos.

As presenças de Rodolfo Rodriguez, Romerito, Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres e Figueroa, entre outros, causou rebuliço no avião. O zagueiro chileno, exInternacional, foi alvo das brincadeiras de gremistas e acabou tendo que vestir uma camisa do Grêmio, para alegria dos fotógrafos. O carteado foi a principal distração encontrada pelos passageiros para ocupar o longo tempo ocioso dentro da aeronave. Jogos animados entre atletas, torcedores e diretoria ocupavam as atenções dos demais. Poucos permaneciam em seus lugares, e a caminhada pelos corredores foi a alternativa para a bem-vinda esticada de perna. Depois da janta e com a chegada da madrugada, as luzes foram apagadas e a maioria, derrotada pelo cansaço, caiu no sono.

A chegada em Lima ocorreu por volta das 3h30 de terça-feira, com escala de uma hora para reabastecimento. Alguns passageiros se aventuraram a descer do avião para fazer compras no aeroporto, mas prontamente retornaram de mãos vazias reclamando dos altos preços cobrados pelos comerciantes locais. Lima - Los Angeles – Narita Por volta das 10h de terça-feira, dia 6, já com o sol brilhando do lado de fora da janela, foi servido o café da manhã. Muitos já estavam de volta ao carteado, acompanhado do chimarrão. O avião se aproximava de Los Angeles, nos Estados Unidos, local da última escala antes do trecho mais longo da viagem. Com o aeroporto de Los Angeles em reforma, os passageiros tiveram que aguardar em um local improvisado, dentro de um galpão inflável, até o anúncio da saída da nova aeronave. Dali para o Japão seriam mais 11 horas de vôo. A constante mudança no fuso horário acabou confundindo todo mundo. A discussão a respeito do horário durou um bom tempo. Uns tinham mudado o relógio para o horário do Peru, outros para os Estados Unidos, mas a maioria optou por não mexer. Na verdade, a discussão foi só mais um pretexto para passar o tempo.

O técnico Valdir Espinosa, sabidamente temeroso quando entra num avião, já deixara de ser o alvo das brincadeiras. Acostumado com os barulhos das turbinas e com as turbulências, passou algumas horas na cabine de comando, onde recebeu uma aula de pilotagem. De León, Mazarópi, Caio, Tonho e o próprio Espinosa, contavam com a presença de suas esposas no vôo. Uma concessão da diretoria gremista após apelo de Margarita, esposa do capitão uruguaio.
Delegação tricolor

Enfim, depois de intermináveis 36 horas de viagem, o avião levando a delegação gremista (foto) aterrissou no aeroporto de Narita, no Japão. Eram 2h da manhã de quarta-feira no Brasil, 14h no Japão.

Treinamentos em Tóquio Feito todo o trâmite de entrada no país, a delegação gremista sofreu o primeiro choque cultural tendo em vista o avanço tecnológico e as modernidades japonesas. Isso sem falar no idioma. Nenhum letreiro que não tivesse a tradução para o inglês poderia ser identificado. Sensível a estes problemas, a Toyota, patrocinadora do Mundial, colocou cinco tradutores à disposição da delegação 24 horas por dia. Com a ajuda deles, todos os problemas de alfândega foram solucionados até a delegação embarcar em um ônibus especial com destino ao local da concentração, no centro de Tóquio.

Um grande contingente de brasileiros aguardava no saguão do Hotel Prince pela chegada da delegação gremista. O trajeto de Narita até o hotel durou aproximadamente duas horas, um sacrifício pequeno para quem já havia passado 36 horas em deslocamento. A recepção foi carinhosa, ao estilo japonês, e animada, ao estilo brasileiro. A grande maioria dos gremistas preferiu subir para os quartos para tomar banho e descansar em uma cama de verdade. O delicioso jantar foi servido às 20h15, horário local. Uma hora depois, a programação distribuída pelo clube anunciava que os atletas deveriam se recolher aos aposentos. O principal objetivo agora era adaptar o organismo dos jogadores ao fuso horário local.

Hotel Prince

Depois de aproximadamente 11 horas de descanso, a delegação gremista despertou às 9h da manhã de quinta-feira para o desjejum no restaurante do hotel. Uma alimentação leve, para não interferir no treinamento marcado para o meio-dia em um centro de treinamento próximo ao hotel. O horário foi decidido pela comissão técnica por coincidir com o horário da partida de domingo. O estádio Nacional, local do jogo, só seria disponibilizado no sábado para um rápido reconhecimento do gramado.

Valdir Espinosa e Ithon Fritzen comandaram um trabalho leve tanto na parte técnica quanto física. Alguns jogadores demonstraram bastante desgaste depois da viagem de 36 horas. A baixa temperatura, em torno de 6°C, também não ajudava. O treinador gremista afirmou que manteria os trabalhos leves em todos os treinos até a partida pois o trabalho mais forte já havia sido realizado em Gramado. Tarciso sentiu dores musculares durante o vôo e foi observado pelo Departamento Médico. China ainda se recuperava de uma entorse no tornozelo e Mário Sérgio apresentava um quadro gripal. Porém, nenhum chegou a ser dúvida para o jogo. O ponto positivo do dia foi que ninguém mostrou problema de adaptação ao fuso horário.

O Estádio Nacional Inaugurado em 1958 para a disputa dos jogos asiáticos, o Estádio Nacional de Tóquio, até a Copa do Mundo de 2002, era o maior orgulho do país em matéria de futebol. Em 1964, foi palco dos Jogos Olímpicos e, três anos depois, sede da Universíade. Atualmente, recebe partidas do FC Tokyo e do Verdy Tokyo. Com capacidade oficial para 60.067 espectadores, o Estádio Nacional é um ponto de referência para os esportistas japoneses por sua localização central e privilegiada. Seu complexo esportivo, que conta com dois campos de baseball, fica ao lado do prédio do Arquivo Nacional, dentro do Meiji Jingu Gaien Park, uma área verde freqüentada por jovens em busca de lazer e exercícios físicos. Sábado, meio-dia, faltando 24 horas para o início da decisão, a delegação gremista desembarcou no local da partida para o reconhecimento do gramado. O mesmo seria feito pela equipe do Hamburgo horas depois. O gramado queimado pela neve do rigoroso inverno japonês deixou uma má impressão, mas que foi prontamente desfeita quando os atletas começaram a fazer a bola rolar. Apesar de duro, amarelado e desgastado pelo frio, o piso mantinha a qualidade para a prática de um bom futebol. Os jogadores acabaram optando pelo uso de travas de borracha nas chuteiras. Agora só restava ao Grêmio esperar as últimas horas antes da maior decisão de sua história.

DIAS NERVOSOS ANTECEDERAM A DECISÃO
A equipe de Zero Hora acompanhou o Grêmio ao Japão, registrando a tensão que marcou a véspera do grande jogo com os alemães O Grêmio saiu de Porto Alegre rumo à Tóquio na fim da tarde de 5 de dezembro de I983, uma segunda-feira. O ponteiro-direito Renato fez uma promessa no embarque: "Eu vou trazer esse titulo", disse o jogador. A viagem foi num DC-10, com 180 passageiros e 600 quilos de bagagem só do Grêmio. Houve escalas no Rio de Janeiro, em Lima e em Los Angeles, e durou 32 horas por causa também de um atraso logo na saída: uma criança acionou o alarme de incêndio quando o avião já estava na metade da pista e ele perdeu a pressurização, tendo que voltar ao pátio do Aeroporto Salgado Filho. Enquanto o fotógrafo escalado por Zero Hora, Luís Ávila, viajava com o Grêmio, o repórter já estava na Alemanha, observando o Hamburgo. O time alemão ainda jogou na quarta-feira a noite, dia 7, debaixo dos primeiros flocos de neve

daquele inverno europeu, e só viajou quinta-feira de manhã. Na tarde de quartafeira, o técnico Ernest Happel havia mostrado o teipe de uma partida do Grêmio a seus jogadores - a decisão da Copa Libertadores. O arrogante Happel, austríaco, solicitara especial atenção para um jogador: Tita. Happel não sabia que o jogador nem era mais no Grêmio, perguntou como ele estava e como resposta recebeu um está muito bem. No domingo, após a partida, o técnico estava uma fera.

Harttwig chega brincando

Vai ser um longo vôo", disse quinta-feira de manhã o talentoso meio-campo Magath, usando uma expressão alemã, `plusflug' (`vôo plus'), olhando distraído pela janela do seu automóvel Mercedes a neve que começava a cair em Hamburgo. O `Ha Es Fau,, HSV, Hamburg Sport Verein, chegou à Tóquio sexta-feira à noite, após escalas em Copenhague, Dinamarca, e Anchorage, Alasca. A delegação viajou sem uniforme, e o gozador meio-campo Jimmy Harttwig, negro e filho de um soldado norte-americano com uma alemã, saiu correndo na frente para fazer mais uma brincadeira: "Esses caras que vem ai são jogadores de futebol?" ,perguntou aos repórteres japoneses, e passado sem ser reconhecido com uma camisa xadrez. As duas delegações ficaram no mesmo hotel, o Prince do centro de Tóquio, perto de uma torre de TV semelhante a Eiffel, e que nos cartões postais faz muita gente confundir a capital do Japão com Paris. Os dois times tiveram um frio encontro no treino de reconhecimento do Estádio Nacional do Japão, sábado de manhã. Cada um teve uma hora para treinar e a grama baixa e entrelaçada estava seca, quase morta.

Espinosa acorda irritado
O técnico Valdir Espinosa acordou irritado, domingo, e foi tomar café no andar térreo do Prince Hotel: torradas com presunto, laranjada e um ovo frito (a 15 dólares, preço absurdo mas normal para o padrão japonês). O atacante César, um dos dois jogadores que acabaram nem ficando no banco de reservas (o outro foi Tonho), circulava cabisbaixo com um dos chaveiros que tinha mandado fazer, "César, o gol da Libertadores". Os outros três reservas que ficaram no banco foram Beto, Leandro e Robson. O Prince tinha sido local de pelo menos dez casamentos japoneses na noite de sábado, em seus diversos salões espalhados pelos 13 andares do prédio. O medico do Grêmio, Ziuton Bohmgahren, teve uma surpresa: reencontrou no saguão uma

blusa que havia esquecido sobre uma floreira, embora milhares de pessoas tivessem passado pelo local na noite anterior. Não era o movimento dos casamentos que tinha irritado Espinosa: ele continuava brabo era com Happel, que na véspera havia recusado ostensivamente a mão do seu colega brasileiro estendida em cumprimento. "Ele me paga", prometeu Espinosa, que jamais perdoou a afronta.

Renato quase briga com Caju
O Grêmio já havia treinado nos subúrbios de Tóquio na quarta-feira e na quinta ocorreu um incidente entre Renato e o meio-campo Paulo César Lima. Renato havia cobrado mais esforço do companheiro, que não gostou. "Eu tenho bagagem, garoto, eu sou da seleção brasileira que ganhou a Copa do Mundo de 1970", provocou PC. "E eu vou quebrar a tua cara", respondeu Renato, já pronto para partir para a briga. Outros jogadores, principalmente o goleiro Mazaropi e o zagueiro De León, conseguiram evitar o incidente. Na manhã do jogo, o roupeiro do Grêmio, Hélio, descobriu que tinha uma tarefa inesperada: achar uma loja aberta em Tóquio no domingo para comprar meias escuras. A TV exigia contraste total entre as duas equipes e o Hamburgo já havia concordado em jogar com o uniforme reserva: camisa branca, calções vermelhos e meias brancas.

Foi por isso que o Grêmio, com sua camiseta tricolor, jogou de calção branco e meias azul-escuro, numa estranha tonalidade azul que Hélio encontrou perto do hotel. O roupeiro do Hamburgo, o velho senhor Tominsky, tinha passado a noite de sábado descosturando o logotipo "BP" - da British Petroleum - do peito das camisetas alemãs, por exigência do patrocinador do jogo, a Toyota.

Ithon comenta a grande chance
Já na quinta-feira, num encontro casual, Valdir Espinosa tinha reunido os 18 jogadores no apartamento do preparador físico Ithon Fritzen. "Serão os 90 minutos mais importantes da vida de vocês e do próprio Grêmio", disse Espinosa. "Muitas gerações de gremistas, inclusive mortos, ajudaram o clube a chegar ate esse dia, e é por isso que esse jogo é tão importante", completou Ithon. "Não podemos perder essa chance". Meio-dia de domingo no Japão, zero hora de domingo em Porto Alegre: começa o jogo. O Grêmio sai na frente. O Hamburgo empata no fim. Antes da prorrogação, quando o Grêmio já havia esgotado as suas duas substituições, a pessoa mais calma da delegação era o vice-presidente de futebol, Alberto Galia. Gentilmente, ele foi ao vestiário para buscar um distintivo solicitado pelo jornalista alemão Peter Brandenberg. O resto da historia e conhecido: o Grêmio ganhou, o carnaval da vitória estourou em Porto Alegre, Espinosa cumpriu a decisão de pedir demissão depois do jogo, o time fez um jogo com o América, do México, em Los Angeles na volta, e houve desfile em carro dos bombeiros quando o grupo finalmente retornou a Porto Alegre. O mundo tinha sida pintado de azul.

VITÓRIA NA PRORROGAÇÃO
Grêmio 2 x 1 Hamburgo O Grêmio entrou no campo do Estádio Nacional de Tóquio, no dia 10, com um grande compromisso. Precisava vencer o Hamburgo da Alemanha, e comprovar que todo um trabaIho de direção estava certa. Apostavam nesse título depois da Libertadores e era imprescindível conquistá-lo. PRIMEIRO TEMPO De León escolheu o lado esquerdo do campo para o time gaúcho. O Hamburgo saiu com a bola com bons toques e muita movimentação dos jogadores. Mostrava-se mais à vontade e tinha um contra-ataque rápido. China fez o primeiro ataque a 1min e 18seg. Aos 4 min o Grêmio perde a primeira oportunidade de marcar um gol, no escanteio.

Até os 38 minutos, quando Renato fez o primeiro gol, o jogo foi escasso, sem qualidade, não envolvendo sequer os torcedores que acompanharam o time do Rio Grande do Sul. O Grêmio se caracterizava muito nervoso, impreciso. O gol em jogada de Paulo César Lima para Renato, que marcou, começou a dar o gosto de campeão ao time. Até então, individualmente, os atletas quase não tinham aparecido. Tarciso não acertava nas conclusões. Mário Sérgio sem participação direta em jogadas. Osvaldo fez apenas marcação. Paulo César Lima, em uma posição que não era a sua, praticamente se perdeu em campo. O primeiro tempo foi um jogo indefinido, sem jogadas de frente. O Grêmio não concluia e as jogadas eram lentas demais para uma equipe acostumada a atacar. O Hamburgo fazia uma marcação individual, provocando vários impedimentos e os gaúchos, talvez, nervosos pela situação, estavam muito imprecisos em seus arremates. Os alemães, por sua vez, tinham um contra-ataque rápido. Mesmo assim não passaram pela zaga. Mazaropi fez apenas uma defesa, aos 43 minutos.

SEGUNDO TEMPO Com o gol, o Grêmio entrou em campo com mais energia. Todos os jogadores pareciam mais decididos a segurar o marcador. Paulo César Lima, no primeiro minuto, sozinho já frente ao goleiro Stein poderia ter feito o segundo gol e consolidado a vitória, mas desperdiçou a oportunidade. A grande atuação a partir daí, ficou por conta do jogador Jakobs da Alemanha. Ele teve participações excelentes na área e evitou que todos os ataques adversários fossem concretizados. Aparecia nos momentos decisicos, como aos 7minutos quando China tentou o gol. Aos 10, a primeira e única falha do excelente juiz francês Michael Vautrot. Deixou de dar um pênalti de Hieronymus que derrubou Renato na área. O Jogo correu sem lances emocionantes. Quatro minutos depois o Hamburgo demonstrava já o cansaço de uma maratona de jogos. Não apresentava ataque. Espinosa faz suas duas substituições possíveis.

Aos 24 entra Caio para o lugar de Paulo César Lima. Aos 33, Bonamigo por Osvaldo. Caio marcou presença com dois ataques. Nesta fase, três cartões amarelos, primeiro para o goleiro Stein e depois para Caio e Mazaropi. Aos 39 do tempo complementar Renato fica na lateral do gramado com cãibras. Um minuto depois, uma confusão na área e acontece o empate através de Schröder. Faltavam apenas cinco minutos para a concretização do objetivo gremista. Mas uma bola alta, a arma dos alemães, falha do Grêmio prorrogou a festa. Com essa jogada, que pegou Mazaropi desprevenido, o Grêmio praticamente perdeu seu ritmo. O tempo regulamentar encerrou e Espinosa não podia mais fazer substituições.

PRORROGAÇÃO Antes do time entrar em campo na prorrogação, quando o jogo estava empatado em um gol, o técnico Espinosa pedia a seus jogadores que forçassem mais e fizessem marcação na frente. Logo no início, China começa a sentir a lesão no tornozelo. Mas isso provoca uma reação positiva no time. Em jogada de Caio, pelo lado esquerdo, Renato, novamente aparece oportunamente e marca o segundo e decisivo gol, aos 3 minutos. Mais dois cartões amarelos foram distribuídos, aos 13 para Renato, que acatou sem reclamar e aos 14 para Hartwig. O Grêmio que tratou daí em diante em apenas tocar a bola e resistiu bem posicionado. Mas na verdade, o dono da prorrogação foi o alemão Jakobs que apareceu em todas as posições. De zagueiro a centro avante na tentativa desesperada de tentar mais um empate e a decisão para os pênaltis. Não deu. Grêmio foi, então, o campeão do mundo.

RENATO CUMPRE TRATO E FAZ OS DOIS GOLS
O acordo feito pelo atacante com Mazaropi foi um dos detalhes com que os jogadores costuraram a vitória que se tornou inesquecível para os gremistas O primeiro gol com o pé direito, o segundo com o esquerdo - e Renato cumpriu o trato feito com Mazaropi antes do jogo. "Segura ai atrás e eu garanto lá na frente", propusera o atacante. "Ele se engajou no grupo e foi importantíssimo no jogo", lembra o antigo vice-presidente de futebol do Grêmio, Alberto Galia. Galia teve que resolver um problema entre a Libertadores e o Mundial: substituir Tita, que resolvera voltar ao Rio e ao Flamengo. Por isso, primeiro o Grêmio foi buscar Paulo César Lima. Mas Espinosa continuava querendo também Mário Sérgio, apesar de algumas resistências internas. O técnico foi ver um jogo do Hamburgo na Alemanha e voltou com uma frase pronta: "Com o Mário Sérgio vamos ser campeões do mundo". Ele dizia que a velocidade que o jogador daria aos atacantes desmontaria o mecanismo do Hamburgo. O Grêmio trouxe Mário Sérgio e ele realmente desmontou os alemães, alem de ter se divertido muito, com seu olhar vesgo e debochado: era bola para um lado e jogador do Hamburgo para outro. No fim ajudou também no meio do campo, enquanto China, machucado, só seguia jogando, heroicamente, porque as substituições do Grêmio já estavam esgotadas. O Vesgo só se irritou depois do jogo, quando descobriu que alguém tinha levado a sua medalha de campeão do mundo.

"Eu acho que só sentimos a importância do titulo quando voltamos a Porto Alegre, no meio daquela comemoração incrível da torcida", admite hoje Alberto Galia. "O calor era de queimar, e nos atiramos gravatas e camisas para os torcedores", lembra Mazaropi, chegando aos arrepios. "Um rapaz correu do lado do caminhão de bombeiros desde o aeroporto até o Olímpico, e nós pedíamos para subir, mas ele respondia, não, não, eu quero correr"'.

Mazaropi salva no último minuto
O goleiro Mazaropi jamais vai esquecer o último dos 120 minutos da decisão do Mundial. Escanteio contra o Grêmio. O zagueiro-central do Hamburgo, Jakóbs, está novamente no ataque e consegue cabecear a bola para o chão. Mazaropi se abaixa instintivamente, calculando que a bola, se vier para o gol, virá rasteira. E foi a sua sorte. "Eu só via um monte de pernas na minha frente e, quando enxerguei a bola, ela estava vindo pelo bico da pequena área, passando entre as pernas do De León", arrepia-se Mazaropi. "Foi numa fração de segundo, e como último recurso consegui fazer uma tesoura e defender com os dois joelhos - se ela entra, o Hamburgo empata e a decisão vai para os pênaltis".

O técnico Valdir Espinosa, um ano mais velho do que Mazaropi, tinha apenas 35 em dezembro de 1983. "Cada um ajudava o outro, todos respeitavam os seus limites e foi assim que ganhamos esse título que para mim foi o mais importante da vida", diz Espinosa pelo telefone, de sua residência no Rio de Janeiro. "O Casemiro perdeu a posição para o Paulo César Magalhães depois de uma lesão, por exemplo; na volta de Tóquio para Porto Alegre, ele entrou no time que jogou com o América, do México, em Los Angeles, e no fim veio me dizer que estava sem ritmo e foi bom não ter jogado contra os alemães. Sinceridade: esta foi outra palavra-chave para o Grêmio alcançar e superar o desafio de Tóquio, acredita Mazaropi. "Cheguei para o Grêmio em 1983 mesmo, e antes de um jogo em Santa Maria o Espinosa me chamou e disse que o goleiro que ia jogar era o Beto porque a minha inscrição para a Libertadores, fora do prazo, era incerta", recorda o goleiro. "Ele era o treinador, não precisava explicar nada, mas era assim que a coisa funcionava".

A visão de Espinosa antes e o vinho francês depois
Paulo César Magalhães não era apenas o jogador mais jovem ao Grêmio na decisão contra o Hamburgo: ele mesmo informa que também é o mais jovem de todos os campeões na história do mundial de clubes. Só no estádio ficou sabendo que ia jogar. "Eu era companheiro de quarto do Renato, que era superamigo do Espinosa, e de manhã perguntei: 'e dai, Renato, será que eu entro, o homem falou alguma coisa?'", lembra Paulo César. "Quando ele disse 'não sei, o Spina não me falou nada', achei que estava fora".

O outro jogador da posição, Casemiro, era mais experiente. Mas o pessimismo de Paulo César começou a desaparecer na saída do apartamento, domingo de manhã, quando encontrou Espinosa sozinho no corredor. "Eu ia tomar café, o Renato preferiu fica no quarto e vi o Espinosa saindo do quarto dele, a uns cinco metros", relata Pauto César. "Tremi, pensa, 'bom, agora ele vai dizer que estou fora', mas o Spina se virou e, quando me viu, olhou de um jeito que me deu confiança, botou a mão no meu ombro e perguntou 'como é que tu estás, negrinho?' Aí eu senti que ia jogar".

A confirmação, porém, só veio no vestiário do estádio, na preleção. "Depois disso, o Spina ainda falou comigo, com o De León e o Caio 'Soró' num canto do estádio, e contou que havia tido uma visão, um sonho, de que eu tinha que jogar para o Grêmio ser campeão", lembra Paulo César. Acusado de ser muito ofensivo, ele jogou como sempre - isto é, atacando. "No início do segundo tempo o Mário Sérgio meteu uma bola longa e eu quase fiz o gol, e aí mataria o jogo, mas um jogador deles conseguiu tirar de carrinho", recorda o lateral. "À noite, fizemos a festa da vitória no apartamento do Paulo César Lima, e foi a primeira vez na minha vida que tomei vinho francês".

A GLÓRIA DEPOIS DE 120 MINUTOS TENSOS
Este texto foi publicado por Zero Hora na madrugada do dia 11 de dezembro de 1983, na dez anos, na edição que circulou logo depois que o Grêmio se tornou campeão do mundo. O Grêmio conquistou o título inédito de campeão mundial interclubes de uma forma inesquecível e graças, principalmente, a dois verdadeiros heróis: Renato, que marcou dois golaços - aos 38 minutos do primeiro tempo e aos 3 minutos da prorrogação - e Mazaropi, que realizou defesas milagrosas e só não conseguiu evitar o empate dos alemães aos 41 minutos do segundo tempo, através de Schröder. Foi, enfim, uma vitoria maravilhosa e, sobretudo, justa pelo melhor desempenho gremista durante os 120 minutos. O Grêmio começou a partida de maneira inesperada para um time que treinou tanto e se preparou intensamente para ganhar o título mundial. Inesperada porque não conseguia fazer em campo nada do que havia planejado cuidadosamente durante todo o período que antecedeu a decisão. O time estava bem posicionado em campo, mas errava muitos passes.

O Hamburgo não chegava a ter o domínio do jogo, mas conseguiu criar lances perigosos diante de alguns erros defensivos do Grêmio, contornados pela boa presença de Mazaropi, ou pela atenção de Baidek como último zagueiro. Passados dez minutos, o Grêmio acalmou-se em campo e passou a trocar passes com acerto, mas só foi chutar a primeira bola contra o gol de Stein aos 18 minutos - Paulo Roberto, de longe, forte, mas para fora. GOLS - No entanto, o Grêmio começou a crescer em campo e, aos poucos, foi impondo seu jogo de toque e habilidade. Aos 38 minutos, numa jogada individual em que driblou seu marcador três vezes, Renato chegou a linha de fundo e bateu rasteiro entre a trave e o goleiro, fazendo 1 a 0. Esse gol, sim, estabeleceu outra condição na partida: o Grêmio se tornou o time mais tranqüilo, com mais técnica para realizar suas jogadas exatamente assim que começou o segundo tempo, inclusive criando várias oportunidades de gol.

Logo a um minuto, Mário Sérgio deixou Paulo César Magalhães na frente de Stein, mas demorou e houve tempo para que defesa conseguisse aliviar para escanteio. Aos quatro minutos Osvaldo lançou Tarciso, que também demorou e permitiu que Jakobs tocasse a escanteio. Aos oito minutos Renato driblou Schröder e foi derrubado por trás, na área - pênalti que o juiz francês Vautrot não marcou. O problema é que o Hamburgo ainda tinha forças para reagir e com freqüentes bolas altas sobre a área do Grêmio criava diversas dificuldades para a defesa gaúcha que resistiu como pode, até com alguns erros, consertados pelo companheiro mais próximo. Aos 41 minutos, em mais uma bola alta, Schröder acabou recebendo sozinho na pequena área, tendo tempo para o domínio e para o giro de pé direito - o 1 a 1 tirava o titulo que o Grêmio já merecia naquele momento. PRORROGAÇÃO - Os dois times estavam visivelmente cansados na prorrogação e se esperava um jogo lento. Mas o gol de Renato logo aos três minutos mudou a situação e o resto da partida foi disputado velozmente, com garra e disposição inesperadas para duas equipes esgotadas. Os alemães utilizaram a mesma bola alta do tempo regulamentar, mas desta vez o Grêmio resistiu bem e conquistou o título mais importante de sua história e do futebol gaúcho.

OS GOLS RENATO para o Grêmio, 1 a 0 aos 38 minutos do primeiro tempo, depois de três dribles sobre Schröder, o ponteiro-direito chutou forte de direita, cruzado, no canto esquerdo de Stein. SCHRÖDER para o Hamburgo, 1 a 1 aos 41 minutos do segundo tempo: Rolf cobrou uma falta sobre a área, Jakobs tocou de cabeça para Schröder, no meio da área, concluir certo. RENATO para o Grêmio, 2 a 1 aos três minutos do primeiro tempo da prorrogação: boa jogada de Caio pela esquerda - no cruzamento, Renato dominou no centro da área e completou de pé esquerdo.

O Rio Grande do Sul parou
O ponto de concentração da torcida gremista aconteceu na rua Érico Veríssimo, na esquina com a avenida Ipiranga, ao lado do prédio do jornal Zero Hora. A empresa disponibilizou um telão gigante para a transmissão da partida que reuniu aproximadamente 8 mil pessoas.

No Olímpico, centenas de conselheiros e familiares se reuniram no Salão Nobre do Conselho Deliberativo, enquanto outro grupo de gremistas das torcidas organizadas acompanhou em um pequeno televisor na sala do Departamento Eurico Lara.

Após o apito final, todos confraternizaram e seguiram a pé para o prédio da Zero Hora. Milhares de gremistas em todo o Estado invadiram a madrugada de domingo aos berros e buzinaços para comemorar a grande conquista. A festa seguiu durante toda a semana até o retorno da delegação, que reuniu milhares de pessoas nas ruas da capital para acompanharem de perto o desfile do caminhão do corpo de bombeiro trazendo os campeões mundiais. Um momento inesquecível para quem vivenciou e para quem só acompanhou as imagens anos depois. Grêmio Campeão do Mundo. Nada pode ser maior... Parabéns Grêmio. Parabéns torcedor gremista.

CARNAVAL EM DEZEMBRO
O Grêmio ganha o Campeonta Mundial de Clubes e brilha na entre-safra do futebol Na Espanha, com seu "futebol-maravilha", a seleção de Telê Santana perdeu a Copa do Mundo e os exigentes torcedores brasileiros foram implacáveis: de que adiantara formar um time de artistas se a vitória não viera? Em Tóquio, no último dia 11, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense exibiu seu jogo de muita aplicação e pouca inspiração e, ao ganhar por 2 a 1 do Hamburgo, da Alemanha, depois de uma prorrogação de 30 minutos, conquistou o título do Campeonato Mundial de Clubes.

Sempre exigentes, torcedores de outros times lamentavam a falta de grandes jogadas e toques mágicos ao longo de uma partida transmitida pela TV para milhões de espectadores em todo o planeta. Os gremistas não tinham do que se queixar: fiéis ao código das paixões do futebol, eles improvisaram um carnaval em dezembro para festejar, em Porto Alegre, o mais luminoso título já alcançado em toda a história do clube. "Qual o país que, vivendo uma crise de entre-safra como a que estamos atravessando, consegue fazer dois campeões mundiais em apenas três anos?", desafia Giulite Coutinho, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Em 1981, também em Tóquio, o Flamengo ganhou o Mundial de Clubes. Mas o desastre na Copa da Espanha e depois as desastradas atuações da seleção formada pelo técnico Carlos Alberto Parreira pareceram empurrar para o passado o feito do Flamengo - e deram aos brasileiros a impressão de que alguns anos passariam até a volta dos grandes títulos. Na quinta-feira, contudo, sob a ovação da torcida, os jogadores do Grêmio desembarcaram em Porto Alegre com as faixas de campeões mundiais. Avião fretado - Gremistas históricos reconhecem que o time atual não chega a ser brilhante, como é o caso do ex-presidente Emílio Medici. De qualquer modo, teve competência suficiente, além de muita valentia, para vencer um adversário que ganhou o campeonato europeu e acaba de ser eleito pela revista inglesa World Soccer a melhor equipe do ano em todo o mundo. Até o zagueiro uruguaio Hugo de León, capitão do Grêmio, pudesse erguer a taça em Tóquio, o time gaúcho teve de cumprir uma dura, demorada trajetória, durante a qual se viu compelido a mexer na equipe e nos cofres. O atacante Tita, por exemplo, um dos heróis da conquista

da Libertadores, em julho, foi requisitado pelo Flamengo, que o emprestara ao Grêmio, e abriu vaga para o veternao Paulo César Caju, responsável por uma bisonha atuação no jogo de Tóquio. Nos quatro meses que durou a preparação, p Grêmio gastou 300 milhoões de cruzeiros - quantia equivalente aos 300 000 dólares pagos pelos patrocinadores japoneses - em requintes como concentrar os jogadores na estância climática de Gramado, importar teipes de partidas do Hamburgo ou fretar um avião DC-100 para levar 300 pessoas a Tóquio. Enquanto espera que a repercussão da vitória desperte interesse de clubes de outros países por exibições da equipe, o Grêmio trata de resistir ao assédio que começa a desenhar-se, em dólares, sobre o pontadireita Renato, autor dos dois gols da decisão. "Sou jovem, estou no auge da minha carreira e tenho mais é que ganhar dinheiro", avisa Renato. Na semana passada, com a definição de vários campeonatos estaduais e o virtual encerramento da temporada futebolística de 1983, Renato era um dos astros de uma rarefeita constelação onde só o corintiano Sócrates reluz com brilho especial.

Medici acha que o futebol perde substância
Um gaúcho de 78 anos resolveu interromper seu retiro de verão no último dia 9, uma sexta-feira, para percorrer de carro, em companhia da mulher, os 424 quilômetros de asfalto que separam Dom Pedrito, perto da fronteira com o Uruguai, de Porto Alegre. Pouco antes da meia-noite de sábado, sentado siante do televisor, o ex-presidente Emílio Garrastazzu Medici não via nenhum exagero em mais uma exemplar exibição de amos ao futebol e, especialmente, ao Grêmio. "Na fazenda, a televisão não pega tão bem", explicou.

"O jogo foi muito duro, emocionante durante todo o tempo", comentou mais tarde. A prorrogação de 30 minutos submeteu-o a mais emoções, ao fim das quais se declarou "muito feliz". "Também, não é brincadeira: o Grêmio é o campeão do mundo", pondera. Medici ressalva que não é calouro em emoções do gênero - em 1981, o Flamengo, seu time no Rio, também trouxe a taça de Tóquio. Mas a vitória do Grêmio tem abor adicional de permitir alfinetas nos torcedores do Internacional,

velhos rivais. Assim, ele afirma que o Inter só ganhou o campeonato gaúcho porque o Grêmio preferiu poupar-se para o título mundial. O ex-presidente sustenta que o Grêmio já teve times melhores. "Os dos últimos anos, por sinal, eram superiores ao atual", compara. E, embora ressalve que ninguém pode impedir um jogadores de tomar o rumo que quiser", mostra-se preocupado com os rumores em torno da venda do ponteiro Renato a um clube italiano. Preocupa-o, aliás, a situação do futebol brasileiro, sangrado pela venda de craques ao exterior. "O futebol brasileiro não está bem", lamenta. "Está perdendo substância." Para Medici, o triunfo do Grêmio foi um caso isolado, não um sinal de recuperação de um futebol que vive uma fase de entre-safra. A vitória do Grêmio foi um caso isolado também no mundo das paixões futebolísticas do ex-presidente. São-paulino, amargou em São Paulo o triunfo do Corinthians. Flamenguista, sofreu no Rio com a vitória do Fluminense. Mas acha que o ano foi muito bom. "Afinal", diz, "sou torcedor do campeão do mundo."

CARNAVAL EM TÓQUIO
O Grêmio ganha o Campeonta Mundial de Clubes e brilha na entre-safra do futebol Mário Sérgio cadencia o jogo no meio-campo. China combate cada alemão que ameaça chegar próximo à área gremista. Baidek e De León afastam o perigo quando ele ronda o gol de Mazaropi. E todos põem Renato para correy. Pela ponta ou pelo meio, o jovem atacante gaúcho é o terror da zaga do Hamburgo na final do Campeonato Mundial Interclubes de 1983, em Tóquio. Ele faz a zaga alemã bater cabeça desde o apito inicial do juiz Michel Vautrot, com um repertório de dribles de deixar tonto até o mais brilhante lateral. Quanto mais o fraco Schröder. Aliás, os alemães têm motivos de sobra para estar zonzos. Hoje não enfrentam times argentinos e uruguaios, que fazem da raça sua única arma para vencer e que se acostumaram a decidir assim os mundiais interclubes. O Grêmio é diferente. Toca a bola de pé para pé. De Máiro Sérgio para Osvaldo. Daí, para Paulo César Caju - e a esticada longo para a arrancada de Renato.

O Hamburgo se limita apenas a alçar bolas sobre a área brasileira, sem saber como fugir da marcação adversária. Já a jogada de Renato se repete durante todo o primeiro tempo, deixando os 60 mil japoneses presentas ao estádios de olhos redondos como pequenas uvas negras, enquantos os torcedores gaúchos, que assistem à partida nos telões colocados na esquina das Avenidas Ipiranga e Érico Veríssimo, em Porto Alegre, abrem largos sorrisos emocionados. Afinal, o Grêmio nunca esteve tão próximo de se tornar o melhor time do planeta. Por isso, ninguém arreda pé, mesmo que já seja quase uma hora da manhã - a partida começou ao meio-dia de Tóquio. E o time tricolor volta ao ataque de novo com Renato. Sempre ele. Agora, o ponta invade a área, corta o lateral Schröder três vezes, para lá, para cá, e fuzila, mesmo sem ângulo. Gol do Grêmio. Os japoneses aplaudem, encantados com o que vêem. O baile sai do campo e incendeia Porto Alegre em um fantástico carnaval. No segundo tempo, a estratégia continua sendo a mesma. O Hamburgo tenta sair para

o ataque. Cada vez, porém, que a bola cai nos pés brasileiros, os jogadores do Hamburgo lembram-se do aviso do ex-zagueiro Schultz, que se notabilizou marcando Pelé nos anos 60. "é preciso muito cuidado, porque os brasileiros são capazes de lances imprevisíveis", alertou. Mas os alemães também são. Aos 40 minutos, em mais uma bola alçada na área gaúcha, Schröder sobe mais do que toda a zaga e escora de cabeça. É como se estivesse se vingando de todos os dribles que levou até agora. Com este empate inesperado, o jogo vai se decidir só na prorrogação. Não importa. Renato está no auge de sua forma, aos 21 anos, e pronto para correr mais trinta minutos. Por isso, o técnico Valdir Espinosa vai manter a estratégia usada durante os noventa minutos.

E, se na esquina da Ipiranga com a Érico Veríssimo o carnaval parou temporariamente, em campo ele continua em ritmo frenético. Aos três minutos da prorrogação, Renato dispara para cima de seu marcador. Nada parece ser capaz de detê-lo. Na entrada da área, corta para dentro e bate de pé esquerdo. É o gol que pode garantir o campeonato mundial. Mas ainda faltam 27 minutos para o Grêmio consolidar o título. O Hamburgo vai à frente desesperadamente. Busca novo empate a todo custo. Os brasileiros resistem. O toque de bola não importa mais. O Grêmio agora mostra que também dabe ter raça. De León afasta o atacante Hansen dando chutões para a frente. China esquece a dor no tornozelo contundido em um treino e não deixa o perigoso meia Magath jogar. O juiz Michel Vautrot apita o final do jogo. A festa toma conta de Porto Alegre. O mundo é do Grêmio.

RENATO - SUEI

PARA SER O MELHOR

Mário Sérgio foi o primeiro a perceber o que poderia acontecer na decisão do Mundial Interclubes, em Tóquio. Logo no início da preparação da equipe, ele deixou claro que a conquista passava necessariamente por meus pés. Eu era jovem - 21 anos -, tinha velocidade, explosão e podia me consagrar na partida do Japão.

Levei a sério. Na fase de preparação, eu era quem mais se esfoçava. Até nos dias de folga, treinava firme. Por isso cheguei tão bem a Tóquio. Aliás, toda a equipe chegou. Passamos um mês na cidade de Gamado nos preparando para a partida e até o Campeonato Gaúcho a diretoria deixou de lado - o Internacional foi o campeão naquele ano. O Grêmio queria demais aquele título. Mas houve momentos difíceis. Como quando tomamos o gol de empate. Estávamos muito cansados e tínhamos a taça nas mãos. Foi dura a recuperação. Logo no início da prorrogação, porém, Osvaldo me lançou e parti para cima do lateral Schröder. Cortei para dentro e ele deve ter pensado que eu iria repetir a jogada do primeiro gol, quando dei mais dois dribles. Por isso, chutei de pé esquerdo e, felizmente, consegui marcar. Como prêmio, ganhei o Toyota oferecido pelos organizadores ao melhor em campo. Mas vendi e rateei o dinheiro. Afinal, se fiz os gols, o Grêmio inteiro mereceu o título.

GRÊMIO LEVA COLORADOS AO DESESPERO
No início do ano, o Inter colecionava vários títulos a mais do que o Grêmio. A vantagem acabou em dezembro, quando o Tricolor conquistou o mundo

Quando 1983 começou, os torcedores do Grêmio ainda precisavam aturar as gozações dos colorados. Afinal, o Internacional tinha na coleção inúmeros títulos importantes a mais do que o rival – 28 a 22 em termos de Campeonatos Gaúchos e 3 a 1 em Brasileiros. Em julho daquele ano, o Tricolor conquistou a Taça Libertadores, equilibrando a situação. Cinco meses depois, chegaria finalmente a chance de virar o jogo. Para tanto, precisava derrotar o Hamburgo, da Alemanha, na disputa do Mundial Interclubes. O grande desfalque para a final em Tóquio era o meia Tita, cérebro da equipe que vencera a Libertadores, devolvido ao Flamengo. Para a vaga, o Grêmio contratou o habilidoso Mário Sérgio, de 33 anos. Outro reforço: o polêmico ponta-esquerda Paulo César Caju, de 34 anos. O centroavante Caio, então, passava para a reserva, com Tarciso saindo da ponta para o centro do ataque. No mais, Paulo César ganhara o lugar de Casemiro na lateral-esquerda. As estrelas da equipe dirigida por Valdir Espinosa eram o eficiente zagueiro uruguaio Hugo De León e o veloz e driblador ponta-direita Renato Portaluppi – que ainda não era conhecido como Renato Gaúcho. Pelo lado do Hamburgo, os destaques eram o zagueiro Jakobs e o apoiador Magath. O time comandado por Ernest Happel não contava com grandes craques, mas a vitória na final da Copa dos Campeões da Europa de 83 o credenciava como favorito para a partida contra o Grêmio.

Para levar a taça, os alemães tiveram que superar a poderosa Juventus, base da seleção italiana. Na equipe de Turim jogavam Zoff, Gentile, Cabrini, Scirea, Tardelli e Paolo Rossi, todos titulares na conquista da Copa do Mundo de 82, além de dois craques importados: o francês Michel Platini e o polonês Boniek. Na hora da decisão, porém, deu Hamburgo. Em jogo realizado em Atenas, Magath marcou o único gol, garantindo o título. O favoritismo não entrou em campo no dia 11 de dezembro. Se os nervosos jogadores do Grêmio erravam muitos passes no início, os alemães se limitavam a tocar a bola sem objetividade. O tempo foi passando e os times mostraram suas armas. Enquanto o Hamburgo insistia em lançar bolas altas sobre a área, facilitando o trabalho de Baidek e De León, os tricolores sempre arrumavam um jeito de encontrar o endiabrado Renato pela direita. Estavam certos, era a chave da vitória.

E tome drible no lateral-esquerdo Schröder. Involuntariamente, o alemão entrou no baile. Aos 38 minutos, Renato cortou para a direita, depois para a esquerda e novamente para a direita. O chute veio em seguida, com a bola entrando entre a trave esquerda e o goleiro Stein. Os boquiabertos japoneses presenciaram um gol de placa. Veio o segundo tempo. A entrada de Caio no lugar do apático Paulo César Caju, aos 24 minutos, fez com que os gaúchos ampliassem o domínio. Tudo levava a crer que outro gol sairia a qualquer momento. Só que o Grêmio começou a desperdiçar várias oportunidades de marcar e o Hamburgo passou a ameaçar, sempre insistindo nos cruzamentos sobre a área. Aos 41 minutos, a tática deu resultado: bola da esquerda e Schröder subiu mais do que os zagueiros para empatar a partida. Não há remédio, que venha a prorrogação! Renato não havia sido tão eficiente no segundo tempo, parecia que os alemães tinham encontrado a fórmula para anular suas arrancadas. Até que aos 3 minutos, Tarciso tocou de cabeça e o ponta se viu frente a frente com Jakobs. A ginga de corpo fez com que o zagueiro imaginasse que Renato iria chutar com o pé direito, só que veio o corte para dentro e o tiro com o outro pé. Stein só olhou a bola entrar no canto esquerdo. Era o gol do título. Daí para a frente, para desespero de alemães e colorados, o Hamburgo não teve forças para buscar nova reação. E o Rio Grande do Sul se vestiu de preto, branco e azul.

O RENATO NOME DA DECISÃO
Jovem. Impetuoso. Ousado. Vencedor. Os adjetivos caracterizamRenato Portaluppi, a principal figura do Grêmio na conquista do Mundial Interclubes de 1983. Com sua técnica, força e habilidade, deixou de queixo caído alemães e japoneses que ainda não conheciam suas arrancadas e seus dribles desconcertantes pela ponta direita.

Se aproveitando deste fator surpresa, Renato deitou e rolou em cima dos truculentos zagueiros do Hamburgo e marcou os dois gols da vitória gremista. O menino que trabalhava como padeiro deixou a pequena cidade de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, para se perpetuar na história como o jogador mais importante que já vestiu o manto tricolor.

Por telefone, Grêmio.Net conversou com momentos daquela conquista inesquecível.

Renato e relembrou

os principais

Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista no Japão? Renato: Sem dúvida foram os dois gols que eu fiz. Foi uma emoção muito grande ver a alegria de todo mundo. É até difícil descrever e destacar um momento em especial. Grêmio.Net: Em qual momento do jogo que você sentiu que o Grêmio ganharia o título? Renato: Foi no fim dos 90 minutos. Eu estava com câimbras, o China estava com o tornozelo inchado, tinha mais alguém que estava sentindo também. Mesmo assim, a galera tava afim de voltar para o jogo e voltar com tudo. Ali senti que levaríamos o título. Grêmio.Net: Quando o Hamburgo chegou ao empate, no final de jogo, você estava com câimbras fora de campo. O que você sentiu naquele momento? Chegou a temer que a vitória poderia escapar até porque o grupo estava sentindo bastante no aspecto físico?

Renato: Foi um momento complicado. Cheguei a temer se eu não voltasse para o gramado. Felizmente o Banha (massagista) fez uma massagem esperta e me deixou na boa. Grêmio.Net: Você foi escolhido o melhor em campo e recebeu um carro da Toyota. O que foi feito com o carro?

Renato: Havíamos combinado que se alguém ganhasse o carro, pegaria o valor em dinheiro e dividiria com o resto do grupo ou ficaria com o carro tirando o dinheiro do bolso para dividir com o pessoal. Eu optei pela primeira: peguei o dinheiro e dividi com o grupo.

Grêmio.Net: Você tem alguma história particular vivenciada durante esta estada no Japão que possa dividir com o pessoal do site? Renato: Foi um período muito legal. Os japoneses são gente finíssima e nós sacaneávamos eles direto. Mas me lembro de uma história em particular: na manhã de domingo, dia do jogo, antes da saída para o estádio, um dos intérpretes fornecidos pela Toyota tentou reunir o Espinosa e o treinador do Hamburgo (Ernst Happel) para uma foto no saguão do hotel. O técnico deles recusou o convite dizendo que não conhecia ninguém do Grêmio e que estava com pressa de sair para o estádio para ganhar o título e ir embora pra casa. Isso me irritou demais. Depois que eu fiz o segundo gol, corri para frente dele e gritei: “agora você conhece o Grêmio”. O interprete estava ao lado e traduziu na hora.

VALDIR ESPINOSA, APOSTA VITORIOSA
Valdir Ataualpa Ramirez Espinosa. Hoje em dia, o nome de um técnico consagrado dentro do futebol brasileiro. Em 1983, com apenas 36 anos de idade, um profissional em início de carreira em busca de oportunidade para mostrar sua competência. A oportunidade foi dada pelo Grêmio de Fábio Koff que, com sua visão futurista, acreditou nas potencialidades daquele jovem treinador que, anos antes, havia defendido o Grêmio como jogador. Com aval da direção, Espinosa assumiu no início

do ano, durante a pré-temporada em Gramado. Começava ali um dos trabalhos de maior sucesso de um treinador no comando do Clube. Por telefone, direto de Fortaleza, Espinosa atendeu a reportagem de Grêmio.Net e falou sobre aquele inesquecível momento em Tóquio. Grêmio.Net: Quando você assumiu o Grêmio, tinha alguma idéia de que poderia chegar até onde chegou conquistando o Mundial Interclubes? Espinosa: Eu tenho muito medo de avião e lembro que no dia da minha apresentação, em Gramado, falei para os jogadores no vestiário: “Façam uma sacanagem comigo. Me levem a Tóquio no fim do ano”. Não sei se eles tinham essa real idéia mas a verdade é que chegamos lá. Grêmio.Net: Mas quando você foi contratado, a direção gremista já tinha esse objetivo de chegar ao Japão no final do ano? Espinosa: Sim. Quando fui contratado, junto com outros companheiros, o Fábio Koff foi bem claro e disse: “Estes são os contratados e nós temos um título mundial para disputar no final do ano”. Grêmio.Net: Qual a importância desta conquista para sua carreira que estava começando? Espinosa: Se até hoje são poucos os clubes que chegaram a esta conquista no Brasil, também são poucos os treinadores. Valoriza muito o currículo de qualquer profissional. Ele fica muito mais forte. E a importância aumenta quando você conquista um título desta grandeza defendendo o time que você torce. Grêmio.Net: Como foi a preparação com relação ao Hamburgo? Como foi feito para tomar informações sobre o adversário?

Espinosa: Naquela época não tínhamos a facilidade que temos hoje em dia. Conseguimos apenas uma fita com a gravação de um jogo do Hamburgo trazida da Alemanha por um comandante da Varig que era gremista. Eu e o Ithon Fritzen fomos para Hamburgo ver uma partida contra o Werder Bremen. O acompanhamento da imprensa gaúcha também foi importante. Houve uma cumplicidade muito grande por parte de todo mundo. Não era só o Grêmio que estava em jogo, era o futebol brasileiro. Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista? Espinosa: São duas lembranças: antes do início da prorrogação, o De Leon, que era o capitão, chegou pra mim e disse: “Fica tranqüilo. Lá na área ninguém mais vai cabecear”.Ouvindo isso, o Renato chegou pra mim e falou: “Se lá atrás a defesa garante, pode deixar que lá na frente eu vou arrebentar”.

Grêmio.Net: Qual foi o momento mais difícil?

Espinosa: O gol do Hamburgo. O jogo já estava no final e isso levaria a decisão para uma prorrogação. Mas depois do que escutei do De Leon e do Renato não perdi a confiança. Grêmio.Net: Quando você teve a certeza de que o título seria nosso?

Espinosa: A gente sempre acreditou. O grupo era extraordinário. Com uma grande qualidade técnica, força e determinação. Talvez uma das maiores equipes que o Grêmio já teve em sua história. Nós não fomos para Tóquio para apenas disputar um jogo, fomos para buscar o título. Grêmio.Net: Como era sua relação com os atletas?

Espinosa: Havia uma amizade muito grande e muito respeito. Evidente que a experiência não é a mesma que tenho hoje mas sempre houve muito respeito. Tanto por parte dos jogadores quanto por parte do Koff, dos médicos, do Verardi. Havia uma cumplicidade muito grande e uma entrega por parte de todos. Grêmio.Net: Você tem alguma história curiosa vivida neste período no Japão que possa ser relembrada? Espinosa: Logo após o final do jogo, eu, o De Leon e o Renato, que havia sido eleito o melhor em campo, permanecemos no estádio para a entrevista coletiva enquanto o resto do grupo ia para o hotel. Quando chegamos de volta ao hotel, chamei todos os jogadores para o meu quarto e pedi três champanhas para comemorar. Quando o japonês trouxe a conta eu me apavorei. Não tinha como pagar. Chamei o Koff e disse: “Presidente, assina essa conta aqui pra mim”. Ele disse: “Tá bom. Deixa comigo”. (Risos) Isso que foram só três champanhas. Imagina se tivesse pedido mais?

O MUNDO É DO GRÊMIO
Inspirado pela garra e genialidade de Renato, o Grêmio arrancou uma maravilhosa vitória de 2 x 1 sobre o Hamburgo, da Alemanha, e conquistou seu lugar na galeria dos campeões mundiais de clubes Multidões iam embora, cansadas. Mas outras chegavam - num movimento de ondas sucessivas - e não deixavam o samba cair. Quem não aguentava mais, e nem queria abandonar a festa, tratava de se enrolar ali mesmo na bandeira tricolor e só foi acordar quando o sol já estava alto. Assim foi o carnaval da torcida do Grêmio, que se irradiou do cruzamento da avenida Érico Veríssimo com a Ipiranga - onde o povo assistiu aos 2x1 sobre o Hamburgo em telões ao ar livre - para todas as ruas de Porto Alegre. Naquela altura ainda se ouvia no Morro Santa Teresa os últimos acordes da torcida Garra Tricolor. Sem dúvida, tão cedo o Rio Grande do Sul não terá uma madrugada barulhenta como a de domingo último. Mas também é certo que jamais o Grêmio havia sido campeão do mundo antes. Toda a loucura do lado de cá do mundo correspondia ao que havia acontecido no lado de lá, no Estádio Nacional de Tóquio - a imagem luminosa do camisa 7 Renato, com sua maluquice genial, extasiava simultaneamente os lados opostos do planeta. Ele fez tudo que um jogador pode fazer dentro dos 90 minutos: atacou, defendeu, driblou, vibrou e... marcou os dois gois da vitória. Sua atuação confirmou uma profecia feita por Willy Schultz - exzagueiro do Hamburgo e marcador de Pelé nos anos 60 - na semana passada. "Muito cuidado", advertia. "Toda equipe brasileira é traiçoeira. De repente alguém inventa uma jogada que ninguém previa."

A metódica, repetitiva - e eficiente - equipe do Hamburgo poderia ter protagonizado outro resultado, se o Grêmio não tivesse Renato. É verdade que apresentava também o bom Mário Sérgio, cadenciando e lançando desde o meio; e o jovem Baidek, dono e senhor da área; ou o heróico China, correndo com o tornozelo dolorido. Mas trazia,principalmente, o Renato Portaluppi, 21 anos, que personificou os medos de Schultz com sua deliciosa loucura. Que outro jogador driblaria três vezes o atônito Schröeder e ainda chutaria para as redes praticamente sem ângulo? Era o mesmo que vive sendo multado e que, na semana passada, havia machucado o tornozelo do companheiro China ao atirá-lo numa piscina quase vazia. Na verdade, este gol - aos 37 do primeiro tempo - seria suficiente para desmontar o burocrático Hamburgo. No entanto, a persistência alemã aliada ao recuo do Gremio proporcionaram o empate através do mesmo Schröeder a apenas 5 minutos do final da partida. Um clima de tragédia pairou no ar durante os instantes que antecederam a prorrogação de meia hora. Mas logo aos 3 minutos o maluco deu o corte num alemão e completou com o pé esquerdo quando o goleiro Stein esperava uma bomba de direita. Não foi por acaso que ficou com o carro Toyota zero quilômetro - destinado ao melhor jogador em campo. O título mundial mostrou que o Grêmio - apesar da saraivada de críticas - estava no caminho certo quando concentrou forças no jogo de Tóquio em prejuízo, inclusive, do Campeonato Gaúcho. A conquista revelou - rebatendo ácidas críticas que se prolongaram por toda a temporada - que quatro meses de preparação física e emocional não são, afinal, excessivos. Somente quem tenha morado no Rio Grande nos últimos meses pode avaliar o que Tóquio representava para o Grêmio.

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