tg.J!

iWPensamento
Criminológico
VOLUME 1
VOLUME 2
VOLUME 3
VOLUME 4
VOLUME 5
VOLUMf6
VOLUME 7
VOLUME 8
VOLUME 9
VOLUME 10
VOLUME 11

Introdução à
A/essandro Baratta
Difíceis GanhQs
Drogas e Juv1erm.-e"1'OIRi
Vera Ma/aguti
Punição
Georg
numinismo
a·i!R'·fPensamento
Criminológico
12
Coleção Pensamento Crüninológico
Alessandro De Giorgi
A lniséria governada através
do sistema penal
Tradução
Sérgio Lamarão
~
Instituto
Carioca de
Criminologia
Editora Revan
M!Uili'Pensamento
Criminológico
Direção
Prof. Dr. Nilo Batista
© 2006 Instituto Carioca de Criminologia
Rua Aprazível, 85
Rio de Janeiro - RJ 20241-270
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criminologia@icc-rio.org.br
Edição e distribuição
Editora Revan S.A.
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www.revan.com.br
Projeto gráfico
Luiz Fernando Gerhardt
Revisão
Sylvia Moretzsohn
Díagramação
lido Nascimento
Giorgi, Alessandro De.
A miséria governada através do sistema penal.
Alessandro De Giorgi. - Rio de Janeiro: Revan: ICC,
2006. (Pensamento criminológico; v. 12).
128p.
Inclui bibliografia
ISBN 85-7106-336-2
.1-. Direito penal
SUlnário
Prefácio à edição brasileira ......................................................... 5
Discussão à guisa de prefácio
Cárcere, pôs-fordismo e ciclo de produção da "canalha"
Dario Melossi ................................................................... 9
Introdução ................................................................................. 25
1
Regime disciplinar e proletariado fordista .............................. 33
Economia política do controle social ..................................... 33
Nascimento da sociedade industrial
e disciplinalTlento do proletariado .......................................... 39
Pena e subsunção real do trabalho ao capital ........................ 43
Encarceramento e desemprego na época fordista ................. 47
O limite da economia política da penalidade fordista .............. 55
Capítulo 2
Excesso pós-fordista e trabalho da multidão .......................... 63
Pôs-fordismo: o regime do excesso ...................................... 63
O excesso negativo ............................................................. 66
O excesso positivo .............................................................. 71
Multidão ............................................................................. 77
Capítulo 3
Governo do excesso e controle da multidão .......................... 83
Da disciplina da carência ao governo do excesso .................. 83
O controle como "não-saber" .............................................. 89
o controle da multidão ......................... ~ .............................. 92
O risco aprisionado ..................................................... 94
A metrópole punitiva ....... ...... ..... .... ........ ...... ........ ...... 102
A rede imbricada ........................................................ 105
Novas resistências ............................................................ 109
Bibliografia ................................................................................ 115
Prefácio à edição brasileira
Vera Malaguti Batista
Este livro de Alessandro De Giorgi atualiza o conjunto de reflexões que
oInstituto Carioca de Criminologia vem publicando ao longo dos últimos
dez anos. A Coleção Pensamento Criminológico tem como elo de articula-
ção a produção {eórica acerca da questão criminal que se opõe ao grande
movimento de criminalização da pobreza, gerado pelo processo de acumu-
lação de capital ao longo dos séculos.
Na etapa em que nos encontramos, de capitalismo de barbárie, pode-
mos observar a expansão do mercado em todas as direções, mas principal-
mente no esfacelamento das redes sociais de proteção coletiva do capitalis-···
mo industrial, do Estado Previdenciário ou Welfare State. No âmbito penal
há uma expansão análoga, no sentido de um crescimento sem precedentes
da pena de prisão. Como diria LOlc Wacquant, o outrora denominado mun-
do livre está sendo encarcerado ...
Alessandro De Giorgi aprofunda esta reflexão crítica acerca do
encarceramento em massa da força de trabalho excedente utilizando a eco-
nomia política da pena no desemprego pós-fordista. Uma das principais
qualidades deste livro é aproximar o marxismo do pensamento de Michel
Foucault. Aqui no Brasil ergueu-se uma parede entre essas duas escolas de
pensamento; esta parede é, a meu ver, ilusória. Tenho dito que, sem a
militância no Partido Comunista Francês
1
Foucault não poderia ter efetua-
do a reflexão que fez. A partir do marxismo frankfurtiano de Georg Rusche,
Foucault mergulha na integração histórica do sistema penal com o
disciplinamento do mercado de mão-de-obra.
Foucault investe no corpo como centro nevrálgico do poder, e também
do podê'r punitivo. Percebe-se em Vigiar e punir a apropriação da descrição
de Rusche acerca dos mecanismos de disciplinamento dos cárceres, suas
normas para a regulamentação do cotidiano na direção da constituição dos
corpos dóceis. Mais adiante, Foucault vai trabalhar com a idéia de biopoder,
este colossal dispositivo de apropriação e disciplinamento dos corpos, que
caminha junto ao assujeitamento massivo das almas.
5
:::
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De Gíorgi aposta nessa crítica materialista da pena: "o fio condutor da
economia política da pena é construído pela hipótese geral segundo a qual a
evolução das formas de repressão só pode ser entendida se as legitimações
ideológicas historicamente atribuídas à pena forem deixadas de lado". Seu
trabalho cumpre, então, a função fundamental de desativar o dispositivo do
dogma da pena. Existe nos dias de hoje uma polissemia de discursos, uma
saturação de informações que conduzem à transformação de toda a con-
flitividade social em problema penaL A discursividade vai acompanhando
então a pauta da reprodução deste capital de barbárie: a imigração é crimina-
lizada, bem como as estratégias de sobrevivência da pobreza em todas as
partes do mundo. As políticas criminais de droga, as operações "anti-cor-
rupção", as cruzadas contra o crime organizado e a lavagem de dinheiro são
nada mais nada menos do que expansão dos territórios de ocupação física e
virtual pelo capital financeiro soberano.
O autor avança também na crítica à contradição estrutural da sociedade
capitalista, a partir de Marx: o paradoxo entre a idéia da igualdade formal em
relação a uma desigualdade fundamental: "o objetivo, coerentemente, é o de
reproduzir um proletariado que considere (r s n ~ r i o Como justa retribuição
do próprio trabalho e a pena como justa medida dos seus próprios crimes",
diz ele acerca da ideologia retributiva-legalista do fordismo.
O trabalho de De Giorgi ultrapassa os limites da economia política da
penalidade fordista, quando a pós-industrialização se apresenta como uma
explicitação do excesso de mão-de-obra, o regime do excesso. Isto quer
dizer que temos que nos livrar das permanências subjetivas, da maneira de
pensar o mercado de trabalho e o sistema penal e encarar as transformações
a que o capital submete a mão-de-obra, o trabalho da multidão
l
. O demônlo
que o capital vídeo-financeiro persegue é o tempo livre da força de trabalho,
num modo de produção quejá descartou completamente as ilusões do pleno
emprego. É aí que o dogma da pena e a criminalização da pobreza e dos
conflitos sociais, da luta de classes, são discursos estratégicos à reprodu-
ção desse capital.
Nessa direção, a análise de De Giorgi aponta para os novos dispositivos
dirigidos "à contenção de uma população excedente e de um surplus de
I O conceito de multidão aqui utilizado, na trilha de Negri, abre espaço para uma
longa discussão a ser tomada no campo marxista. Pessoalmente, acredito que o
conceito não consegue dissociar-se da carga histórico-ideológica positivista da
expressão, tal como definido por Gustave Le Bon.
6
força de trabalho desqualificada; elas prescindem explicitamente da consu-
mação de um delito, das características individuais de quem está envolvido
nele e de qualquer finalidade reeducativa ou correcional, para orientar-se no
sentido da 'estocagem' de categorias inteiras de indivíduos considerados de
risco". Ele se vale então da idéia do cárcere atum'ial, a partir das "represen-
tações probabilísticas baseadas na produção estatística de classe, simula-
cros do real: imigrantes clandestinos, afro-americanos do gueto, tóxÍco-
dependentes, desempregados". É o atuariaJismo penal que vai produzir as
metrópoles punitivas.
Esta obra é de uma riqueza impressionante para nós que pensamos a
questão criminal na periferia do capitalismo, na nossa gigantesca instituição
de seqüestro, como vaticinou Raúl Zaffaroni, na sua busca das penas perdi-
das. Nós, os indignados, os resistentes a esse gigantesco projeto de
assujeitamento aos desígnios do capital, podemos contar com a munição
proposta pela presente retlexão, que transformou nossas favelas/prisões em
campos de extermínio e tortura, numa escala até então nunca vista. O livro
da Alessandro De Giorgi vem aprofundar e substancializar a nossa luta e a
nossa clareza acerca das funções reais do sistema penal e dos discursos
punitivos nos dias de hoje. Como se fora pouco, o Íivro vem com uma
genial interlocução, "discussão à guisa de prefácio", desenvolvida por Dario
Melossi, revigorando ainda mais a análise de De Giorgi, atualizando aquela
proposta pelo já clássico Cárcere efábrica. Regalai-vos, pois, criminólogos
e penalistas críticos brasileiros: esta obra tem novidades!
Rio de Janeiro, setembro de 2005.
7
à guisa de prefácio
Cárcere, pós-fordismo e ciclo de produção da "canalha"
Dario Melossí
Entre 1968 e 1975, produziu-se uma radical renovação nos estudos de
so(;iologia penaL Durante o ano de 1968 foi reeditada nos Estados Unidos a
6bta Punishment and Social Structure. Publicado pela primeira vez em.1939,
sóba assinatura conjunta de Georg Rusche e Otto Kirchheimer', Punishment
à'iÍd Social Structure foi o primeiro texto em inglês da famosa Escola de
Frankfurt, e em particular da sua representação institucional, o Instituto para
o Estudo das Ciências Sociais de Frankfurt. A publicação foi praticamente
concomitante à complexa e difícil transferência do lnstituto para Nova Iorque,
junto à Universidade de Columbia, provocada pelos acontecimentos pré-bé-
licos alemães e pela perseguição à sociologia, sobretudo à sociologia marxis-
ta praticada em grande parte por intelectuais de origem judaica, que eram os
principais protagonistas da produção do Instituto.
Já o ano de 1975 é marcado pela publicação daquela que foi provavel-
mente a obra mais conhecida de Michel Foucault, Surveiller et puni? Entre
essas duas datas, estende-se o último grande, período de agitações sociais
que ocorreram, com intensidade variada, em todos os países mais desenvol-
vidos (mas não apenas neles), e que no interior de cada um desses países
afetou não somente os principais núcleos da atividade produtiva - afábrica,
tal COlfÍO a conhecíamos até então -, mas também todas aquelas instituições
I Sobre os vários acontecimentos que interferiram na atormentada elaboração
deste texto, ver a introdução à edição italiana (D. Melossi, "Mercato deI lavoro,
disciplina, controllo sociale: una discussione deI testo di Rusche e Kirchheimer",
in G. Rusche e O. Kirchheinler, Pena e struttura sociale. Bolonha, II Mulino, 1978)
e a introdução à edição francesa (R. Levy e H. Zander, "Introduction", em G.
Rusche e O. Kirchheimer, Peine et structure sociale. Paris, Cerf, 1994). (N. do T.:
edição brasileira Punição e estrutura social. Rio de Janeiro, RevanfICC, 2
a
ed.,
2004, tradução e apresentação de Gizlene Neder].
2 Michel Foucault, Sorveg/iare e punire. Turim, Einaudi, 1977 [N. do T.: edição
brasileira Vigiar e pUllir: nascimento da Petrópolis, Vozes, 26
u
ed., 2002;
tradução de Raquel Ramalhete].
que, à época, foram descritas como "subalternas"3 à fábrica, em particular a
instituição carcerária.
O texto de Rusche e Kirchheimer, que na atmosfera imediatamente ante-
rior à guerra foi quase ignorado (salvo algumas louváveis exceções, registradas
mais no campo da história econômica do que no da criminologi(
4
), permitia
uma releitura da história da pena numa perspectiva marxista. O texto de
Foucault, a apenas sete anos de distância, oferecia a possibilidade não só de
dar a sua contribuição àquela interpretação, mas também de ir além dela,
ingressando num espaço que escapava dos esquemas mais rígidos da leitura
marxista
5
• Após o trabalho de Foucault, desenvolveu-se uma ampla literatu-
ra, sobretudo em língua inglesa, amplamente influenciada pelo reaparecimento
das hipóteses de Rusche e Kirchheimer, que procurou checar a veracidade
empírica da hipótese de uma relação entre variáveis estruturais fundamen-
tais, especialmente as de natureza socioeconômica, e a evolução das institui-
penais
6
.
Se, portanto, ainda em Donald Cressey, ao o levantamento de
campo de uma "sociologia da pena", relacionou um número de obras que
podiam ser contadas nos dedos de uma mão ou no máximo de duas
7
, no final
do século XXjá dispúnhamos de uma vasta literatura
8
• Um filão fundamental
dessa sociologia é exatamente aquele que De Giorgi iden.tifica como "econo-
mia política da pena", isto é, uma interpretação da história da penalidade na
qual o objeto fundamental consiste em !'clacionar as categorias de derivação
marxista à reconstrução dos processos de desenvolvimento das principais
instituições penais. Ao menos duas são as contribuições centrais do trabalho
3 Dario Melossi, "Istituzioni di controllo sociale e organizzazione capitalistica de!
lavoro: alcuni ipotesi di ricerca", in La questione criminale, 2, 1976, pp. 293-317,
in primis, naturalmente, aquelas que eram então chamadas de "instituições to-
tais", como em E. Goffman, Asylums. Turim, EinaÚdi, 1968 (cd. orig. 1961).
4 Para mas detalhes, ver as introduções citadas na nota l.
5 A minha leitura não concorda aqui com a de D. Garland, Pena e società moderna.
Milão, II Saggiatore, 1999 (ed. orig. 1990), capítulos IV ao VII.
6 Sobre esta literatura, remeto à exaustiva seção no texto de De Giorgi que se
segue Unfra, Capítulo 1).
7 D. R. Cressey, "Hypothesis in lhe Sociology of Punishment", in Sociology and
Social Research, 39, pp. 394-400.
8 Ver, além de D. Garland, Pena e società modema, cit., os ensaios na antologia
por mim organizada, The Sociology of Punis/unellt. Aldershot, Ashgate, 1998.
10
Giorgi apresenta aqui. A primeira é reconstruir o percurso da econo-
política da pena tal como vejo se desenvolvendo até os dias de hoje. A
é procurar fornecer uma contribuição original a esse desenvolvi-
!flen,to, estendendo-o do período que De Giorgi chama de "fordista" até o
afualmente consagrado como "pós-fordista".
.0 ponto de partida de De Giorgi, de uma perspectiva empírica, é absolu-
~ a r n e n t e macroscópico em termos de história das instituições penais. Desde
a primeira metade dos anos 1970, em particular no interior das instituições
penais dos Estados Unidos, assistimos a um impressionante crescimento
tanto da população penitenciária quanto da parcela da população que é sub-
ll1etida, de um modo ou de outro, às diversas autoridades definidas como
!'colTecionais". Esse crescimento é de tal monta que a probabilidade de um
homem afro-americano terminar sob o controle de uma dessas "autoridades
correcionais" no decorrer da sua vida já está se aproximando daquela de se
obter "cara" na brincadeira de "cara ou coroa".
Esse fenômeno, que mudou profundamente as frends anteriormente obser-
vadas, foi cada vez mais notado por um grande número ele observadores
9
,
~ a s as razões são muito complexas para serem exploradas exaustivamente.
E certo que na época elas não eram esperadas. Uma das conseqüências da
crítica radical às instituições totais e em particular às instituições carcerárias
que, note-se, OCOlTeram imediatamente al1tes desse aumento impressionante,
foi que, ainda no início dos anos 1970, tanto as principais orientações políti-
cas nos Estados Unidos e nos outros países desenvolvidos quanto as princi-
pais leituras dos fenômenos previam uma obsolescência mais ou menos ve-
loz da instituição carcerária, bem como um aumento dos sistemas de contro-
le extra-institucionais, "em comunidade", como se costumava dizer.
Assim, Andrew Scull pôde intitular um importante trabalho de sua lavra,
lançado em 1977, de Decarceration; Ivan Jankovic e eu pudemos escrever,
no mesmo ano, sobre a probation como a forma penal do futuro, enquanto o
9 Entre outros, ver N. Christie, Il business penitenziario. La via occidentale al
Gulag. Milão, Eleuthera, 1998 (ed. orig. 1993); M. Tonry, Malign Neglect: Race,
Crime and Punishment. Nova Iorque, Oxford University Press, 1995; M. Mauer,
Race to lncarcerate. Nova Iorque, The New Press, 1999; Lore Wacquant, Parola
d'ordine: tolleranza zero. La trasformazione dello stato penale nella società
neoliberale. Milão, Feltrinelli, 2000 (ed. orig. 1999), e o mesmo De Giorgi. Zero
Tolleranza. Strategie e pratiche della societá di cOlltrollo. Roma, DeriveApprodi,
2000. Ver também o número especial da revista Punishment and Society dedicado
ao tema "Mass Imprisonment in the United States" (2001).
11
reconhecido criminólogo - absolutamente não marxista - AI Blumstein es-
creveu sobre uma substancial "estabilidade" nas taxas de encarceramento,
remetendo-a a explicações funcionalístas, de inspiração durkheimiana
lO
• E no
entanto, o que já estava em curso naqueles anos era, ao contrário, o mais
notável aumento da população de detentos na história moderna das institui-
ções penitenciárias, que com toda razão poderia ser comparado ao "grande
internamento" sobre o qual Michel Foucault escreveu em História da loucu-
ra na Idade Clássica, a propósito da França do século XVIl
ll
. Mais uma vez
nos Estados Unidos, mas não apenas lá, depois da suspensão devida a uma
decisão da Corte Suprema entre 1972 e 1976, ocorreu uma retomada firme
na cominação e na condenação à pena capital, primeiro de modo mais ou
menos simbólico e em surdina, depois de maneira cada vez mais maciça até
atingir o número de 98 condenações executadas em 1999. É bem verdade
que esse movimento foi caracterizado desse modo tão ostensivo somente
nos Estados Unidos. Para os países europeus, verificou-se um certo aumen-
to nas taxas de encarceramento, mas nem de longe comparável ao 110rte-
americano, nem generalizado a todos os países (e com exceções bastante
relevantes, como a Alemanha c a Itália até o início dos anos 1990).
Os primeiros autores que procuraram dar conta desse fenômeno retoma-
ram alguns dos elementos desenvolvidos por aqueles que, alguns anos antes,
tinham diagnosticado um aumento da probation, e os usaram para explicar o
que estava acontecendo nas prisões. Talvez a contribuição mais importante
nesse sentido tenha sido a de Stanley Cohen, que escreveu sobre a tendência
do sistema correcional de "widening the lU!!" - "ampliar a rede" -, e também
sobre a nova lógica penitenciária vista enquanto uma lógica de "warehousing",
i.e., de "armazenamento" dos detentosl
2

Mas procedamos com ordem, ainda que de forma extremamente sintéti-
ca, ao percorrermos as etapas desta "economia política da pena". Segundo a
10 A. SeuIl, Decarceration. New Brunswiek (NJ), Rutgers University Press, 1977;
r. Jankovic, "Labor Market and Imprisonment", in Crime and Social Justice, 8,
1977, pp. 17-31; Dario Melossi, "Strategies of Social ControI in Capitalism: A
comment on reeent work", in Contemporary Crises, 4, 1980, pp. 381-402; A.
Blumstein e J. Cohen, "A Theory of the Stabilíty of Punishment", in Joumal of
Criminal Law and Criminology, 64, 1973, pp. 198-207.
II Michel Foucault, Storia della follia nell' età classica. Milão, Rizzoli, 1963 (ed.
orig. 1961). (N. do T.: edição brasileira História da loucura na Idade Clássica.
São Paulo, Perspectiva, 1989, tradução de José Teixeira Coelho NettoJ.
12 S. Cohen, Visions Social Controlo Cambridge, Polity Press, ·1985.
12
ótica que poderemos chamar de "neo-marxista", que procurei desenvolver
na seção que me foi confiada de Cárcere e fábrica 13, era possível aplicar a
grade interpretativa marxista clássica - derivada sobretudo do Livro Primei-
ro de O capital, centrada sobre a gênese do modo de produção capitalista e
na qual se destaca o conceito de "acumulação primitiva"I4 - à história da
instituição penitenciária. Essa instituição foi, de fato, criada contemporanea-
mente aos processos de acumulação primitiva ou original, nos lugares onde teve
início o modo de produção capitalista, numa conexão não casual e weberiana
com os locais onde o protestantismo se revestiu das suas formas mais radicais.
O cárcere tivera como antepassado a "casa de trabalho", espécie de ma-
nufatura reservada às massas que, expulsas dos campos, afluíram para as
cidades, dando lugar a fenômenos que preocupavam as elites mercantis (e
proto-capitalistas) da época: banditismo, mendicância, pequenos furtos e,
last but not [east, recusa a trabalhar nas condições impostas por essas elites.
A casa de trabalho um "proto-cárcere" que seria depois tomado como
modelo da forma moderna do cárcere no período iluminista, isto é, quando
oconeu a verdadeira "invenção penitenci:iria" não parecia ser outra coisa
senão uma instituição de adestramento forçado das massas ao modo de pro-
dução capitalista; afinal, para elas, esse modo de produção era uma absoluta
novidade (e nesse sentido, a casa de trabalho era uma instituição "subalter-
na" à fábrica).
Não por acaso, Cárcere e fábrica encerrava essa reconstrução ao final
histórico desse movimento originário, por volta da primeira metade do sécu-
lo XIX. Tratava-se, todavia, de uma leitura que, assim como no caso das
outras leituras "revisionistas", permitia reconstruir a história do cárcere da
perspectiva da crise da fábrica tradicional que se estava verificando naqueles
anos, e portanto da perspectiva da crise da relação entre cárcere e fábrica.
Do mesmo modo que, naquele momento, era possível desnaturalizar a fábri-
ca como ela era então conhecida, e vê-Ia inscrita no interior de uma parábola
que estava conhecendo o seu êxito final, era lógico aplicar esse mesmo modo
de pensar a uma instituição como a carceráría que fora criada - como mal
13 Dario Melossi, "Carcere e lavoro in Europa e in Italia nel periodo della formazione
deI modo di produzione capitalista", in Dario Melossi e Massimo Pavarini, Carcere
efabbrica. Bolonha, n Mulino, 1977 [N. do T.: edição brasileira Cárcere efábrica.
Rio de Janeiro, Revan/ICC, 2006, tradução de Sérgio Lamarão).
14 Karl Marx, II capitale, vol. I. Roma, Riuniti, 1964 (ed. orig. 1867) [N. do T.: edição
brasileira O capital: critica da economia politica. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1970-71,74. 6v.].
tínhamos descoberto! - juntamente com a fábrica. Por conseguinte, parecia
lógico que ela seguisse o seu destino. (Note-se, porém, que, como bem
havia esclarecido Bentham, na sua "Introdução" a um Panopticon que, nes-
se meio tempo, Foucault havia tomado famoso, o cárcere não era senão a
mais "completa" das instituições que "têm por finalidade manter muitas pes-
soas sob vigílância"l5, dos cárceres aos hospitais psiquiátricos, das manufa-
turas aos hospitais tout court, das escolas aos quartéis). Daí a hipótese,
elaborada sob diversas formas por vários autores, de que, assim como a
fábrica tomava-se cada vez mais social e se difundia para fora de muros bem
marcados - o início da transição ao pós-fordismo -, o cárcere teria seguido
esse mesmo percurso.
Portanto, não era tanto a pena pecuniária, como havia predito Kirchheimer,
que se colocaria como substituta do cárcere na época contemporânea, mas
sim as várias formas de controle extra-institucional que haviam surgido, já
há várias décadas, nos países de língua inglesa, e que pareciam se multipli-
car, sobretudo quando escrevíamos Cárcere e fábrica. A "crítica do cárce-
re", que emanava das revoltas generalizadas em todo o Ocidente (mas não
apenas nele), seja da literatura "revisionista", parecia colher, portanto, uma ori-
entação tendencial do próprio capitalismo em organizar-se não mais sob a for-
ma-fábrica e sob a forma-cárcere subalterna, mas sim através deformas de
controle "em comunidade", como então se dizia, in pri11lis, as várias formas de
probation, ou "confiança na prova", como a lei de 1975 traduziu em italiano. Tal
desenvolvimento parecia estar bem de acordo com um outro fenômeno que
se desenhava cada vez mais claramente naqueles anos e que está na base do
texto de Andrew ScuU, isto é, a "crise fiscal do Estado", no sentido em que
já haviam explicado Habermas e O'Connor
16
• De acordo com essa visão, o
Estado parecia não estar mais em condições de "núÍnter juntas" as funções
que garantiam, ao mesmo tempo, a legitimação e a acumulação, ou seja,
aquilo que depois passou à História como a "crise do Welfare State".
Porém, as coisas não caminharam exatamente desse jeito, pelo menos
nos Estados Unidos, em virtude do fenômeno, como já recordamos no iní-
15 Jeremy Bentham, Panopticoll, ovvero la casa d'ispezione. Veneza, Marsilio,
1983 (ed. orig. 1787). [N. do T.: edição brasileira O panóptico, Belo Horizonte,
Autêntica, 2000, tradução de Tomaz Tadeo da Silva].
16 J. Habermas, Legitimation Crisis. Boston, Beacon Press, 1975 [N. do T.: edição
brasileira A crise de legitimação no capitalismo tardio. Rio de Janeiro, Tempo
Brasileiro, 1980, tradução de Vamireh Chacon]; J. O' Connor, La crisiflscale delto
stato. Turim, Einaudi, 1977 (ed. orig. 1?73).
14
do acentuado aumento da população carcerária que começou exatamen-
naquele período. Para dizer a verdade - e isso dever ser sublinhado -, a
~ ... ~ ... ,- que' via na probatioll a forma de intervenção penal tendencialmente
rredominante revelou-se exata do ponto de vista da proporção relativa às
intervenções correcionais. Com efeito, o aumento do número de pessoas em
liberdade submetidas a controle foi amplamente superior, também nos Esta-
dos Unidos, ao número daquelas sob controle dentro das prisões. A veloci-
dade com que as várias formas de controle em liberdade aumentaram tam-
bém na Europa superou, sem dúvida, o aumento das detenções, dramático
nos EUA, e bem mais discreto nos países europeus.
Porém, o que não estava previsto era o aumento excepcional, ainda que
em virtude da grave crise fiscal dos anos 1970 e 1980, do compromisso
com o setor penal, de tal forma que Lorc Wacquant pôde descrever as trans-
formações ocorridas naqueles anos como uma verdadeira passagem do "Es-
tado social" para o "Estado penal"l7. O aumento nas formas de probatiol1
ocorria, pois, juntamente com um aumento dramático, nos Estados Unidos,
das outras penais mais e com um aumento da no
seu interior. Assim, quanto mais prisões, mais severos eram os regimes
detentivos e mais se lançava mão da pena capital.
Nas páginas que se seguem, Alessandro De Giorgi avança num terreno
ainda amplamente inexplorado, em língua italiana e em outras línguas, ten-
tando verificar a possibilidade de a "economia política da pena" dar conta
deste último período, disso que aconteceu a partir daquelas transformações
que comumente são localizadas nos primeiros anos da década de 1970 e que
ele reúne sob o termo de "pós-fordismo". Certamente sem estar fazendo
justiça à sua complexidade, para a qual remetemos o leitor às páginas do livro
propriamente dito, parece-me que a tese que De Giorgi apresenta pode ser
resumida na idéia de que, numa situação de expulsão permanente e estrutural
da força de trabalho do processo produtivo e, ao mesmo tempo, de pro-
funda transformação do modo pelo qual a força de trabalho vem sendo cons-
tituída na fase atuaI-, a "subalternidade" das principais instituições de con-
trole social em relação à fábrica está de algÍJm modo perdida e se teria torna-
do obsoleta. O ensinamento disciplinar não tem mais sentido na sociedade
pós-industrial/pós-fordista porque não há mais ensinamento a propor; por
isso, as instituições que foram criadas na modernidade com esse objetivo
perdem progressivamente a razão de ser. Resta apenas aquilo que Cohen
Lo"is Wacquant, Parola d'ordine: tolleranza zero, cito
chamou de warehousing, o "annazenamento" de sujeitos que não são mais úteis
e que, portanto, podem ser administrados apenas através da incapacitation, da
Ilcutralizazzione ["neutralização"], como se diz em italiano
l8

Essa afirmação é tanto mais verdadeira se considerarmos que aquilo que,
por um lado, é "excesso" de força de trabalho - com relação aos estratos
sociais expulsos da produção -, é, ao mesmo tempo, "excesso" de força
produtiva em relação ao tipo de força de trabalho que se tomou cada vez
mais central ao processo produtivo numa época na qual a profecia marxista
dos Grundrisse, de uma força de trabalho que vai desenvolver a função de
general intellect do capitaP9, parece enfim ter encontrado concretização.
Uma vez que a realidade atual do modo de produção vê como central a esse
processo um reservatório de capacidades intelectuais que excedem continu-
amente as possibilidades de exploração, controle e contenção da parte da
razão capitalista, qualquer forma de "disciplinamento", mesmo que do tipo
mais refinado, perde toda a razão de ser (se vocês me perdoem o nada casual
jogo de palavras).
A tese é fascinante, mas, parece-me, não completamente convincente. E
isso ocorre por múltiplas razões, algumas das quais podem provavelmente
ser resumidas na sua excessiva tendencialidade, no seu deslocamento talvez
para muito além do calor da (futura) observação, correndo o risco de perder
contato com o que podemos observar hoje, à nossa volta. Não é possível,
nas poucas páginas de um prefácio, confrontar completamente a riqueza da
análise de De Giorgi, menos ainda de um ponto de vista crítico. Oferecere-
mos apenas alguns temas de discussão.
Começamos olhando à nossa volta. Até alguns meses antes do 11 de
setembro de 200po, quem vagasse pelas ruas principais das metrópoles do
centro do Império - para usar uma metáfora que recentemente reencontrou
um uso intenso
21
- ou seja, Nova Iorque, Londres, as principais cidades da
Califórnia, teria visto em muitas vitrinas nas quais o Império orgulhosamente
18 T. Bandini, U. Gani, M. LMarugo e A. Verde, Crimillologia. Milão, Giuffre, 1999,
pp. 651-757.
19 Karl Marx, Lineamenti fondamentali delta critica deli 'economia política. Flo-
rença, La Nuova Italia, 1970 (ed. orig. 1857-1858). Ver sobretudo pp. 400-403.
• 20 Nesse momento já era mais do que claro, para quem quisesse ver, que estava
ocorrendo uma recessão de uma certa consistência nos Estados Unidos.
21 M. Hardt e A. Negri, Impero. Milão, Rizzoli, 2002 (ed. 2000) [N. do T.:
edição brasileira Império. Rio de Janeiro, 2001, tradução de Berilo Vargas].
16
suas mercadorias o cartaz "help wanted", "precisa-se de empre-
E a essa distraída observação corresponde o fato de que nestes mes-
,'ffios centros do Império a taxa de desemprego caíra quase aos seus mínimos
'hÚ;tóricos e isso por um período de tempo bastante longo, capaz até de
'colocar em dúvida, aos estudiosos dos ciclos econômÍcos, o primado da
década de 1960 como os anos de maior prosperidade do capitalismo recente.
É claro que aqueles cartazes de "help wantecf' nutrem um processo de de-
senvolvimento e de ocupação que foi definido, com um bruto mas eficaz
neologismo, de "macdonaldização"22.
Isso quer dizer que a oferta de trabalho certamente não se dirige para o
tipo de emprego perdido nos anos 1970 e 1980 - trabalhos relativamente
bem pagos, estáveis, sindicalizados, em grande parte masculinos, com bene-
fícios generosos de tipo assistencial (pensões e assistência médica) e cen-
trais ao processo produtivo -, mas sim para um novo tipo de emprego,
muitas vezes part-time, flexível, com pouca ou nenhlJma proteção, em gran-
de parte feminino e "marginal" ao percurso produtivo. Isso tanto é verdade
que uma das teses mais sérias propostas no interior da academia criminológica
norte-americana para explicar o inegável decréscimo da criminalidade na
segunda metade dos anos 1990 - tese alternativa ao estardalhaço feito a
propósito da "tolerância zero", tão característica da Nova Iorque de Rudolph
Giuliani e que foi reproduzida de modo mais ou menos análogo em quase
todas as outras grandes cidades norte-americanas no mesmo período!23 -
baseava-se exatamente no fato de que aqueles anos assistiram a uma oferta
sustentada de trabalho que se dirigia para os estratos sociais marginais, jo-
vens e em geral "étnicos de cor", que tinham sido os protagonistas, alguns
anos antes, de um inusitado aumento de violência, ligado às batalhas pelo
controle do crack entre as várias gangues
24

Isso, em outras e breves palavras, que acontece entre os anos 1970 e
1990, pode ser interpretado também como fase "cíclica", e em particular
como a fase descendente de um "ciclo longo" da economia, aquele tipo de
ciclo que é acompanhado por transformações muito profundas do modo de
produção capitalista em termos de setores económicos de ponta, tecnologias,
22 G. Ritzer, Ilmondo alla McDollalds. Bolonha, II Mulino, 1997 (ed. orig. 1993) .
23 A. De Giorgi, Zero Tolleranza. Strategie e pratiche della società di controlto, cit.
24 A. Blul1lstein e R. Rosenfeld, "Explaining Recent Trends in U.S. Homicide Rates",
in The Journal ofCriminal LaIV a/Ul Críminology, 88, 1998, pp. 1175-1216 (ver,
sobretudo, pp. 1210-121 R. "Crime Decline", in Context (no prelo).
'17
transformações SOCiaIS conexas etc.
25
. O que De Giorgi chama de "pós-
fordísmo" poderia também corresponder a uma fase cíclica da economia,
mais do que ao tipo de transformação "tópica" que parece transparecer das
suas palavras e da literatura na qual se inspira. Isso teria também conseqüên-
cias relevantes do ponto de vista das "estratégias do controle social", se é
que estamos nos referindo ao controle social de tipo formal e penal em par-
ticular, como me parece ser o caso de De Giorgi.
Mas avancemos na ordcm cronológica. Na passagem dos anos 1960
para os 1970 desenvolve-se um embate duríssimo em muitos países, em
particular nos Estados Unidos, que envolve o conjunto da "fábrica social",
como se dizia então. No que concerne aos EUA, devemos recordar a situa-
ção de insubordinação geral, aguda e contemporânea que afetava não tanto e
não somente as fábricas (como ocorria, cada vez mais, na Europa), mas
também as minorias étnicas, os estudantes, o Exército, os jovens em geral,
as mulheres. A "criminalidade" - que em alguns dos seus aspectos especial-
mente preocupantes para a classe média chamado street crime) havia au-
mentado sensivelmente no correr dos anos 1960 -- foi icada por conta da
referida insubordinação. A começar pelo primeiro mandato presidencial de
Richard Nixon, o martelamento da propaganda esteve na ordem do dia, asse-
melhando-se bastante àquilo a que fomos submetidos na Itália antes das
últimas eleições: o crime não é outra coisa senão a "ponta do iceberg" de
uma insubordinação e de uma falta de controle de "certos" estratos sociais
(nos quais, num códice não tão críptico, deviam ser reconhecidas as mino-
rias de cor, nos Estados Unidos, e os imigrados, na Itália) que colocam em
risco a ordem social e em relação aos quais é necessário tomar providências
para restaurar o bom tempo passado, que corre o risco de ir-se embora para
sempre se não houver uma intervenção imediata.
A repetição deste refrão por cerea de 20, 25 anos, conduziu a um tre-
mendo aumento da penalidade, a que já nos referimos acima (nos Estados
Unidos; na Itália, conforme se verá, por causa de algumas contradições de
certa importância neste campo, no interior da coligação conservadora que
25 Para a aplicação desta abordagem ao tema da exclusão pcnal, ver Dario Melossi,
"Punishment and Social Action: Changing Vocabularies 01' Punitive Motive Within
a Politicai Business Cycle", in Current Perspectives 0/1 Social Theory, 6, 1985, pp.
169-197; C. Vanneste, Les Chiffres des Prisolls. Paris: L'Harmattan, 2001. As con-
tribuições de Hobsbawm, Kalecki, Kondratieff e Schumpeter encontram-se entre
as mais conhecidas que podem ser remetidas, ainda que de modos diversos, a
essa perspectiva.
18
as eleições). Mas não foi só isso. Ela contribuiu também, ainda que
s.xrpbohcamente, para um processo de disciplinamento social geral, que foi
acompanhado por uma profunda reestruturação da economia. Vale recordar
que nos cerca de 20 anos da "virada", de 1973 aos primeiros anos da década
de 1990, o salário médio horário do trabalhador norte-amcricano foi reduzi-
do em aproximadamente 20%, e o motivo pelo qual a l·cnda das famílias
permaneceu basicamente a mesma foi a cntrada maciça e sem precedentes
das mulheres no mundo do trabalho assalariad0
21i

,Ao mesmo tempo, os estratos mais fortes da classe operária foram ex-
plllsos do processo produtivo e, por conseguinte, perderam a centralidade
de que no passado. Essa centralidade foi transferida para a
força de trabalho mtelectual que se tornou crucial no interior do novo pro-
"guiado" pela informática, mas que é mínima do ponto de
:1sta.ocupaclOnaJ, ao passo que a maior parte dos empregos teve luaar no
mtenor dos "serviços" que eram oferecidos às margens desta junta
va central e que, em grande medida, nada tinha a ver com um "tcrciário
avançado". isso sim, da oferta no mercado de todas atI Vl-
dades que anteriormente eram desenvolvidas, em grande parte, por meio do
doméstico não pago (que agora as mulheres executam, cada vez
mats, també/:t fora de casa), pelos serviços de restauração veloz, aqueles ao
encargo dos Jovens e dos velhos em toda uma série de serviços de entreteni-
mento - em resumo, exatamente a "macdonaldização".
seguros de que é possível afirmar, com relação especialmente a
estes ultulloS estratos sociais, que não existe mais "projeto de disciplinamento"
eles não constituem categorias "centrais" ao processo produtivo, no
sentido de que executam aquelas funções do "general intelect", em que
26 W. C. Peterson, The Silcnt Depressioll: The Fafe of lhe Americall Drcal11. Nova
Iorque, Norton, 1994; J. B. Schor, The Overworked American. Nova Iorque, Basic
Books 1991' Da" MI' "G 'M'
, ,tIO C OSSt, azctte 01 oraltty and Social Whip: Punishment,
and lhe Case 01' the USA, 1970-1992", in Social & Legal Studies, 2,
.93, pp. 259-279 (pode-se notar, en passant, como este é o "segredo" do extraor-
dmár" 'I d "-
. lllve e partlclpaçao 110 mercado de trabalho nos Estados Unidos que
hOJe e apresentado como um modelo a ser atingido pela economia italiana!). Esse
também é o motivo pelo qual, no último ensaio citado, eu propus relacionar as
taxas encarceramento na Itália com o nível da "performancc" requerida à classe
em seu conjunto determinada fase, ao invés de remetê-Ias apenas
a taxa de desemprego, como a literatura da "economia política da pena" geralmen-
te procede.
I
os conceitos de capital variável e capital fixo "entraram em colapso", por
assim dizer, em conjunto. Mas se cada vez faz menos sentido a distinção
entre capital fixo e capital variável, entre trabalho e trabalho
"improdutivo" - visto que, no final das contas, aqueles que mventam
algoritmos para o software continuam a ter necessidade de quem cozmhe
seus hambúrgueres, lave suas camisas e lhes garanta um certo relaxamento
à noite, diante de um aparelho de televisão ou em qualquer outro local - se,
em suma, é o mesmo "processo de vida real"27 que constitui a base da repro-
dução capitalista, como podemos afirmar que o emprego "pós-fordista" é
aquele emprego que não necessita mais de um aparato a
"fábrica social" em vias de desaparecimento, e que, por consegmnte, nao
requereria mais estratégias de "disciplinamento"?
Na minha opinião, o enorme processo de encarceramento que se verifi-
cou nos Estados Unidos nas "décadas da crise" - para citarHobsbawm
28
-
deveria ser reconsiderado a partir deste ponto de vista, ainda que não haja
nenhuma dúvida de que, no seu interior, tenhai11 convivido e ainda convivam
tendências de tipo meramente "detentivo-neutralizante" e tendências, ao con-
trário, de tipo "autoritário-ressocializante". As segundas, na minha opinião,
estão mais presentes exatamcnte em virtude da superação da fase mais nítida
de reestruturação da economia, nos anoS 1970 e 1980, e de retomada no
período posterior, no qual o tema da re-emissão de nova força trabalho n.o
interior de uma nova fase de desenvolvimento se impôs com maIOr peso. EIS
que nos anos 1990 começam a reaparecer preocupações que são apresenta-
das com todas as letras, como "neo-paternalístas", como nos trabalhos de
Mead
29
; eis também que na segunda metade de 2000, pela primei-
ra vez desde 1972, registrou-se uma diminuição na população de preso's30 (e
o uso da pena capital torna-se, novamente, matéria de discussão entre as
elites norte-americanas). EsSéS acenos de uma inversão de tendência na es-
fera do controle social pareceriam responder, segundo a leitura de longo
27 Karl Marx, Lineamenti fondamentali della critica deli 'economia política, cit.,
p.403.
28 Eric Hobsbawm, Il secolo breve. Milão, Rizzoli, 1995 (ed. orig. 1994). [N. do. T.:
edição brasileira A era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo,
Companhia das Letras, 1998, tradução de Marcos Santarrita). Vale destacar que
também para o aumento nas taxas de encarceramento o ano da virada é 1972.
29 L. Mead (ed.), The New Paternalismo Washington D. c., Brookings Institution
1997.
30 U. S. Department of Justice. Bureau of Justice Statistics, Prisoners in 2000.
20
"çiclo das hipóteses de Rusche e Kirchheimer que aqui são propostas, à in-
ocorrida por volta da metade dos anos 1990 no campo das relações
socioeconômicas, em direção a uma nova fase ascendente.
O que pretendo afirmar, em outras palavras, é que o cárcere parece per-
durar obstinadamente como uma espécie de grande portão de ingresso ao
contrato social, ou mesmo como introdução à forma de trabalho subordina-
do. É um pouco COlHO se a descoberta dos comerciantes holandeses (e de
outros similares), no inÍCio do século XVII - isto é, a descoberta de que eles
podiam "utilmente" "pôr para trabalhar", juntamente com os seus capitais,
os pobres, os mendigos, os vagabundos, os Iadrõezinhos, os rebeldes que o
processo de racionalização da agricultura estava expulsando dos campos -
continuasse a se reproduzir junto com a "colonização" capitalista de "novos
territórios", territórios que podiam estar dentro de uma jurisdição política e
soeml específica. Um exemplo dessa situação é o deslocamento dos negros
americanos do sul para o norte dos Estados Unidos entre o primeiro pós-
guerra e os anos 1950, ou a entrada em massa no mercado de trabalho das
mulheres, especialmente as de cor, dos anos 1970 em diante. Vale notar que
as taxas de encarceramento feminino nos Estados Unidos, embora ainda
bastante baixa em termos absolutos, aumentaram de modo sensivelmente
maior do que para os homens.
Há também as situações externas, como é o caso da imigração africana,
asiática, latino-americana e do Leste europeu para a América do Norte e a
União Européia. É como se, nas "margens" do desenvolvimento, o processo
de "acumulação primitiva" continuasse incessantemente no seu percurso de
"colonização" de "mundos" "outros"31. Se considerarmos, por exemplo, no
nosso pequeno mundo "italiano", o modo pelo qual o fenômeno da imigração
fez reviver, em certo sentido, a instituição carcerária - que no Centro-Norte
e com respeito a "usuários" específicos, como os menores de idade, está
literalmente se "especializando" na direção dos estrangeiros -, compreende-
se então como "a crise do cárcere" dos anos 1960 e 1970, as suas aparente-
mente manifestas obsolescência e antiguidade estão ligadas a um "público"
particular que vinha sendo concebido como "além" do cárcere. A situação
mudou de forma dramática a partir dos primeiros anos da década de 1990,
quando teve início um processo de imigração de alguma relevância (também
..
31 J. Habermas, Teoria dei agire comunicativo, vaI. 2. Bolonha, II Mulino, 1986
(ed. orig. 1981), pp. 951-1088 [N. do T.: edição brasileira Agir comunicativo e
razão destrancendentalizada. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2002, tradução
de Lúcia Aragão].
por causa naturalmente de mecanismos jurídicos particulares como os da
permissão de estadia, mas é dos efeitos sociais que aqui nos ocupamos e não
da sua legitimação jurídica).
Parece-me difícil, em suma, ignorar o caráter "cíclico" que tão bem des-
creve, embora não explique, esses fenômenos, também no que diz a
uma "filosofia da história" diversa, organizada em torno de uma sucessão de
transformações "tópicas". Em certos níveis de "poder", adquiridos pela for-
ça de trabalho - poder que ao mesmo tempo é de tipo político-tecnológico-
sindical no interior da esfera mais diretamente produtiva e de tipo político-
político, no seu exterior -, o trabalho se torna um limite ao desenvolvimento
capitalista, determinando portanto uma "crise" dentro da qual ocorre tanto
uma "reorientação" produtiva, em direção a um modo de produção que se
livre da hipoteca do poder do trabalho, quanto um notável redimensionamento
também do poder político da classe operária. Ao mesmo tempo instrumento
e sinal de tais processos de reestruturação, emerge uma nova classe
ria, ou novos setores da classe operária, exatamente como se
dizia no bojo da do desenvolvimento quer esse
desenvolvimento se dirija para o mercado de trabalho "interno" Uovens,
mulheres, ex-trabalhadores agrícolas, ex-pequenos proprietários e empresá-
rios), quer para o "externo" (países há pouco, e de vários modos, incorpora-
dos por um deseiwolvímento capitalista mais direto e dinâmico).
Esses novos segmentos sociais vão constituir uma "classe operária em
formação"32, e em formação pelo menos em dois sentidos: porque se está
inserindo no interior de processos de trabalho correspondentes a projetas
empresariais novos ou renovados (macdonaldização, transformações indus-
triais, "novo mercado"); e porque não tem nenhum sentido de si enquanto tal
(os clássicos teriam dito que lhes "falta consciência de classe"). É destino
comum desses setores da "classe operária em formação" serem normalmen-
te descritos - pelo ressentimento das "velhas" categorias operárias, ajudadas
nisso por vários tipos de agitadores e por comentaristas "autorizados", que
se encarregam de racionalizar este ponto de vista - como "excremento",
"classe perigosa", subproletariado, underclass, para usar um termo norte-
americano recente.
32 Sobre o caso italiano atual, ver a minha "Introdução", em Dario Melossi (org.),
Multicllltllralismo e sicurezza in Emilia-Romagna: Seconda parte. Quaderno n.
21-ab dei "Progetto Città Sicure". Bolonha, Regione Emilia-Romagna, 2001
(cittasíc.ure@regione.emilia-romagna.it).
22
Essas descrições se baseiam, naturalmente, também em "fatos reais"
visto que o processo de desenvolvimento capitalista ocorre geralmente ck
modo um tanto anárquico e irracional, e o deslocamento dos futuros operá-
rios do campo para as cidades não é nem automático nem indolor, provocan-
do fenômenos de inserção de alguns dos novos que chegam no interior dos
mercados do chamado "ilícito" (que, por outro lado, faz parte daquele mer-
cado "efetuaJ", no interior do qual também se necessita de mão-de-obra,
como ocorre hoje na Itália com a droga e a prostituição), e igualmente de
rejeição e de hostilidade da parte dos estratos sociais, também operários,
precedentes. Por conseguinte, o excremento, a classe perigosa, a 11l1derclass
será encerrada (e "cultivada") no interior de um sistema carcerário que,
reencontrando seus próprios hóspedes preferidos de sempre - ex-campone-
ses que se dirigem à cidade, mesmo que a sua cor, a sua língua ou a sua
religião sejam agora diferentes -, se sentirá renascer, reconhecendo nos no-
vos recém-chegados os próprios "eternos hóspedes", por assim dizer a linfa
vital da qual o sistema se nutre (não obstante a ingenuidade ocasional de um
ou outro que, tomando ao ela letra a forma do tentou
são, llesse meio tempo, hóspedes por assim dizer "inespera-
dos", mas isso acabou não dando certo!). Porém, como já acontecera no
passado com aqueles velhos operários (e os seus pais e os seus avós), que
agora maldizem a "incivilidade" dos recém-chegados, assim também estes
~ I t i m o s crescerão juntamente com o tipo de desenvolvimento em que foram
Imersos e encontrarão, de acordo com formas solidárias e organizativas, o
modo de considerar a si mesmos, e a outros como eles, não mais como
excremento mas como seres humanos, e daí a pouco também como seres
humanos dotados de um celta poder.
Como dizia uma palavra de ordem que circulava entre(;s trabalhadores
da província de Reggio Emilia, há cerca de um século atrás, "unidos somos
tudo/divididos somos canalha"33. Para que tal modo de pensar se torne um
modo de pensar largamente compartilhado, isso depende não somente do
esforço infatigável de organizadores e ativistas, mas também, e naturalmen-
te, dos acontecimentos registrados no desenvolvimento das forças produti-
vas (muito embora as duas coisas não possam ser separadas uma da outra).
O fato é que, quando isso acontecer, e la canaille não for mais a canalha,
este será também o momento em que novamente o cárcere será visto como
33 Material recolhido por ocasião da celebração do centenário da Câmara do
Trabalho de Reggio Emilia (2001).
um resíduo arcaico do passado e serão previstas novas "alternativas" puniti-
vas, "correcionais" e "reeducativas"; ao mesmo tempo, em algum canto do
mundo, as primeiras patrulhas em busca de Uma nova "canalha" estarão
começando a apressar-se, num incansável movimento, em direção aos con-
fins do contrato social/império.
24
Introdução
Paris, 1676.
Não obstante numerosas providências, todo o restante dos mendigos
continuou a viver em plena liberdade em toda Paris e nos subúrbios; eles
chegavam ali provenientes de todas as províncias do reino e de todos os
países da Europa. O seu número crescia dia após dia, até sc constituírem
como um povo independente, que não conhecia nem lei, nem religião, nem
autoridade, nem polícia; a crueldade, a baixeza, a libertinagem era tudo que
i-einava entre,eles. No dia 13, uma missa solene ao Espírito Santo foi cantada
na igreja da Pitié e no dia 14 a reclusão dos Pobres foi levada a bom termo
sem nenhuma perturbação.
Naquele dia toda Paris mudou ele aspecto, tendo a maior parte dos mendigos
se retirado para as províncias, e os mais espertos pensando em encontrar
sustento com as suas próprias forças. Houve, indubitavelmente, um ato da
proteção divina sobre esta grande iniciativa, porque não se poderia jamais
acreditar que se chegaria a um resultado tão feliz com tão pouco esforço I .
Nova Iorque, 1997.
Grafites e outros sinais da desordem estavam por toda parte. Durante os
anos 1970 e boa parte dos anos 1980, não havia um único vagão do metrô da
cidade que não estivesse completamente coberto daquilo que alguns,
Í,mpropriamente, definiam como uma forma de arte urbana, os grafites. As
~ s t a ç õ e s do metrô transformavam-se em bidonvilles para os llOmeless, e a
esmola alTogante crescia, exacerbando um clima de medo. Assim, mal você
colocava os pés em Manhattan, dava de cara com o estandarte não oficial da
cidade de Nova Iorque: a epidemia dos lavadores de carros. Bem-vindo a
Nova Iorque. Estes tipos tinham sempre nas mãos um trapo sujo, e empor-
Ic.L'Hôpital Général, opúsculo anônimo de 1676, citado por Michel Foucault in
Storia dellafoWa nell'età classica, trad. it. Milão, Rizzoli, 1998, pp. 459-460. (N.
"dq .T.: edição brasileira História da loucura na Idade Clássica. São Paulo,
Perspectiva, 1989, tradução de José Teixeira Coelho Netto].
25
calhariam o vidro do teu carro com algum líquido imundo, para depois pedir
dinheiro. Quem andasse pela Quinta Avenida, pela área dos negócios da alta
moda e dos edifícios chiques, esbarrava por toda parte com ambulantes não
autorizados e mendigos. Se voltasse ao metrô, deparava com artistas
equilibristas que se comportavam como vândalos, exigindo que os passageiros
lhes dessem dinheiro. Mendigos em todos os Nos trilhos, cidades de
papelão serviam de moradia aos homeless. Dominava a sensação de uma
cidade permissiva, de uma sociedade que autorizava coisas que não teriam
sido permitidas anos antes
2

A primeira impressão que se pode ter ao se ler os textos reproduzidos
acima é que pouca coisa mudou nos três séculos que separam a Paris do
Hôpital Gélléral da Nova Iorque da Zero Tolerance. O autor anônimo do
opúsculo do século XVII e o ex-chefe de polícia de Nova Iorque, que foi o
principal artífice das estratégias da Zero Tolerance, parecem se inspirar na
mesma filosofia: idêntico é o desprezo pór aquela pobreza extrema que, de
modo desabusado, ousa mostrar-se, contaminando o ambiente metropolitano;
idêntico o entrelaçamento entre motivos morais e alusões
idêntica a hostilidade contra tudo aquilo que perturba o quieto e ordenado
fluir da vida produtiva citadina, defendendo-a da infecção do não-trabalho,
do parasitismo econômico, do nomadismo urbano; idêntica, sobretudo, a
implícita equação entre marginalidade social e criminalidade, entre classes
pobres e classes perigosas. Todavia, a uma observação mais atenta, esta
impressão se revela completamente inexata.
O opúsculo anônimo se coloca historicamente no limiar da transição de
um regime de poder, que Michel FoucauJt define como "soberano", para um
modelo de controle de tipo "disciplinar". Diante do espetáculo da mendicância,
ta pobreza e da dissolução moral oferecido pelos pobres na Europa entre os
séculos XVII e XVIII, as estratégias do poder mudam lentamente, passando
de uma função negativa, de destruição e eliminação física do desvio, a uma
função positiva, de recuperação, disciplinamento e normalização dos
diferentes. É aqui que se inicia a era do "grande internamento". Pobres,
vagabundos, prostitutas, alcoólatras e criminosos de toda espécie não são
mais dilacerados, colocados na roda, aniquilados simbolicamente através da
destruição teatral dos seus corpos.
2 W. J. Bratton. "Crime is Down in NJ3w York City: Blame the Police", in N. Dennis
(cd.), Zero Tolerance. Policing a Free Society. Londres, Institute of Economic
Affairs, 1997, pp. 33-34.
26
De forma muito mais discreta, silenciosa e eficaz, eles são encerrados.
;Eles a ser internados porque se compreende que eles são passíveis
de uma massa que as nascentes tecnologias da disciplina podem
f01Ja1', plasmar, transformar em sujeitos úteis, isto é, emforça de trabalho.
Do "direito de morte" ao "poder sobre a vida", da neutralização violénta de
indivíduos "infames" à regulaçüo produtiva das populações que habitam o
urbano, é isso que, com vigor religioso, o autor anônimo do opúsculo
m:voca, ao mesmo tempo que anuncia precisamente o
lTiupr:Ji'irit?tf[3.
pIína e_ regll1ação dosgcupos humanos,

um sob:e a. vi.drt,- um
tecnologIaS de govell10 que contrapoem a dlsslpaçao e ao esbanjamento
(dos corpos, das energias, dos recursos, mas também do poder) uma gestão
racional das forças produtivas:
a adequaçuo da acumulação dos homens à do capital, a articulação
do elos grupos humanos com a das
produtivas e a repartição diferencial do lucro se tornaram possíveis
em parte devido ao exercício do biopoder, em suas formas e com os
proeedimentos os mais variados. O investimento do corpo vivo, a
sua valorização e a gestão distributiva das suas forças foram, naquele
momento, indispensáveis 4.
assim, modelo de controle social disciplinar que carac-
tenzará toda a fase de expansão da sociedade industrial, até o seu apogeu,
o período do capitalismo fordistgSerá, de fato, no decorrer da
pnmeIra metade do século XX que o projeto de uma perfeita articulação
disciplina dos corpos e governo das populações se completará, mate-
nahzando-se no regime econômico da fábrica, no modelo social do Welfare
-State e no paradigma penal do cárcere "correcional".
Zero Tolerance e as práticas de discurso que a acompanham já se situam
num contexto radicalmente mudado, marcado pela crise e pelo progressivo
3"Poder-se-ia dizer que o velho direito de fazer morrer ou deixar viver foi substituído
porum poder de fazer viver ou de rejeitar a mortc"(Michel Foucault, La volOl/là di
'dapere, it. Milão, Feltrinelli, 1997, p. 122) [N. do T.: edição brasileira História
a sexualzdade 1: vontade de saber. São Paulo, Graal, 1977, tradução de.María
Thereza da Costa Albuquerque e 1. A. Guilhon Albuquerque].
4 Idem, p. 125.
abandono do grande projeto disciplinar da modernidade capitalista. Aqui, as
tecnologias do disciplinamento não são mais um instrumento eficaz de controle
e governo da dissipação e do desperdício da força de trabalho (talvez porque
dissipação e desperdício não existam Pobres, desempregados, mendi-
gos, nômades e migrantes representam certamente as novas classes perigosas,
"os condenados da metrópole", contra quem se mobilizam os dispositivos de
controleS, mas agora são_empregada'Lestmtégij!)tçliferenteS nesse confrontÕd
Trata-se, antes de tudo, de
Esta é, de fato, bastante simRI-º3i numa metrópole produtiva, na qual a
contínua precarização do trabalho, o emprego - que se toma cada vez mais
flexível, Íncel10 e transitório -, e a constante Supe11JOsição entre econornia "legal"
e economias submersas, informais e também ilegais, determinam uma
progressi va solda entre trabalho e não-trabalho e entre classes laboriosas e classes
perigosas, a ponto de tomar qualquer distinção praticamente impossível. Trata-
a "periculosidade" das classes perigosas através de
técnicas de ]'irevenção do risco, que se articulam principalmente sob as formas
de vigilância, segregação urbana e contenção carcerária]
Se voltarmos o olhar às tecnologias de controle que emergem no ocaso
do século XX e anunciam a aurora do século XXI, podemos certamente
falar de um um internamento urbano, que
tem a forma do gueto, de um internamento penal, que tem a forma do cárcere,
e de um internamento global, que assume a forma das inumeráveis "zonas de
espera", disseminadas pelos confins internos do Impéri0
6
• Porém, diferen-
temente do internamento do qual nos fala Foucault, a sua reedição atuaI não
parece cultivar nenhuma utopia de tipo disciplinar. O novo se
configura mais do que qualquer outra coisa comofl!!na tentativa
lum espaço de contenção, de traçar um perímetro material ou imaterial em
! torno das populações que são "excedentes;";') seja a nível global, seja a nível
metropolitano, em relação ao sistema de Produção vigente.
5 S. Palidda, Polizia pos/moderna. Etnografia dei IlUOVO controlto sociale. Milão,
Feltrínellí,2000.
6 M. Hardt e A. Negri, Impero. 1l I1UOVO ordine della globalizzione, trad. iL Milão,
Rizzoli, 2002 [N. do T.: edição brasileira Império. Rio de Janeiro: Record, 2001,
tradução de Berilo Vargas]. Pensamos aqui, obviamente, nos processos de controle
implementados em relação aos migrantes. Sobre esse tema, ver particularmente S.
Mezzadra e A. Petrillo (org.), ] confilli delta Lavoro,
cittadinanw. Roma, Manifestolibri, 2000.
28
Aqui se detennina, por conseguinte, uma nítida separação entre biopolítica
disciplinaridade, na qual a primeira se expressa, paradoxalmente, através
negação da segunda. Resta a instalação biopolítica de um poder entendido
'mais como regulação de populações produtivas, como controle dos fluxos
da força de trabalho global num espaço tornado imperial, e menos como
aquela "anatomo-política do corpo" da qual nos fala Foucault, aquele "fazer
yiver" produtivo que integra, ao nível dos indivíduos singulares, a regulação
das populações no seu conjunto.
Também têrn menos espaço aquelas tecnologias de :·;ujeit(ficação que
perseguiam o objetivo de transformar os indivíduos por meio de um controle
'individualizado. Em outras palavras, filão se trata mais de "fazer viver ou
repelir a morte", mas talvez de "fazer através do repelir a
a morte", imposto a uma parte da força de trabalho global, parece
constituir-se hoje no pressuposto para "fazer viver" a produtividade social
conjunta do capitalismo pós-fordista. Falamos aqui de uma morte que se
concretiza na violência institucional dos dispositivos de controle que sustentar11
o domínio capitalista, de uma morte que incide sobre a existência afetiva,
social e econômíca dos indivíduos e que se apresenta como limitação das
como de como negação
do dll'elto de CIrcular hvremente.,Antes e ainda 111aIS do que da morte biológica,
falamos da morte como experiencia biográfica da força de trabalho con- \
temporânea, que se materializa na biografia dos migrantes que morrem nos I
confins da fortaleza européia, na tentativa de exercitar um "direito de fuga" (
nas biografias dos dois milhões de prisioneiros encerrados no gulag
.amencano ou nas daqueles para quem ohorizonte de vida tende a coincidiri
Gom a fronteira de um gueto.
. Michel Foucault reconstruiu a genealo..gia de um poder disciplinar que se
inscreve na formação do modo de produção capitalista e que se estende até à
época da sociedade industrial fordista. A disci plinaridade pode ser compreendida
a partir da constituição da produção industrial, do seu nascimento ao seu
Por sua vez, o desenvolvimento do capitalismo industrial não pode ser
se prescindim10s das estratégias de produção de subjetividade e de
.força de trabalho que se concretizam nas técnicas disciplinares. Mas aquilo que

·'7 Sobre "direito de fuga" (entendido, também, significativamente, como exercício
de uma "crítica prática" da divisão internacional do trabalho), ver S. Mezzadra,
"Migrazioni", in A. Zanini e U, Fadini Corg.), Lessico postfordista. Dizionario di
idee della fIlutazionc. Mijão, Feltrinelli, 2001, pp. 206-211; e S. Mezzadra, Diritto
di fuga. ciUadinallza. Verona, Ombreeorte, 2001.
29
temos hoje diante de nós é precisamente a superação do modelo capitalista
fordista para o qual aquelas tecnologias foram por tanto tempo destinadas
8

sinais inequívocos desta superação. Dispomos de descrições,
análises e definições que, sobretudo nos últimos dez anos, foram condensadas
numa já extensa literatura
9
• O termo "pós-fordismo" - em uso tanto na lin-
guagem sociológica, política e econômica, quanto no léxico comum - indica-
nos saltos de paradigma e transições radicais, que reescrevem a fundo a
nossa experiência da contemporaneidade. Ao mesmo tempo, emergem ten-
tativas de reconstrução das mutações que investem a geografia do controle
social. Termos como "sociedade de controle" e "sociedade da vigilância"
parecem indicar o epílogo e a superação do regime disciplinar, uma transição
que se consumiria a partir do esgotamento da estrutura produtiva fordista.
Todavia, enquanto o trabalho de Michel Foucault inscrevia a análise do
"controle disciplinar" diretamente na materialidade das relações de produção
capitalistas, nos processos de constituição do proletariado e nas formas de
produção de da força de trabalho industrial, as análises das
do "controle social" custam a assumir uma metodo-
análoga, limitando-se essencialmente a uma fenomenologia ele
Em outros termos, podemos afirmar que ã discÍ plinaridade se revela cada vez
mais inadequada com }elação às novas fõrmas de produção e impotente para
exercitar práticas de controle eficazes no confronto com as novas subjetividades
do não estamos em condições de reconduzir essa inadequação
e essa impotência aos processos de transformação em curso na produção.
Chegamos assim ao 9bjeto livro., que consiste na individualização
de algumas hipóteses para preencher este aparente vazio. O um
tanto ambicioso, consiste em iêíescrever algumas mutações OCOl:rldaS nas
formas do controle a partir da enrergência de un1:Í nova articulação das relações
de produção, perguntando-se de que modo as estratégias atuais de controle
se inscrevem no contexto produtivo entanto, fazer essa
8 "A abordagem foucaultiana permite ler o desenvolvimento da sociedade modema
e a relação nela existente entre Estado e sociedade até o momento histórico do
fordismo ( ... ) Mas é este, exatamcnte, o ponto crucial. Esta configuração é arrastada,
faz tempo, numa crise aparentemente sem saída, pelo desmoronamento do seu eixo
central, vale dizer, do valor social paradigmático da disciplina de fábrica de tipo
fordista" (L. Ferrari Bravo, "Sovranità", in Zanini e Fadini (org.), LessÍco postfordista,
cit., p.280).
9 .-: transição do fordismo ao pós-fordismo Ce as descrições desta transição) será
obJeto de uma seção posterior desta obra.
30
pergunta significa, necessariamente, fazer convergir a análise do controle
com aquela, complementar, da força de trabalho contemporânea, até o ponto
de fundir as duas.
Entra aqui em o "multidão", com o qual se
pretende exprimir o compósito, enraizado e múltiplo da força de trabalho
pós-fordista, em qual um conjunto de e
séparações, referenciáveis à classe operária, parece perder progressivamente
consistência. Vale dizer porém que o conceito de multidão não pretende aludir
a uma subjetividade auto-consciente, à emergência de um novo sujeito revolu-
cionário, ou à formação de uma identidade paradigmática da força de trabalho
contemporânea. Ao contrário, o termo multidão define um processo ele
subjetivação em andamento, um "tornar-se múltiplo" das novas formas de
trabalho sobre as quais convergem as tecnologias do controle pós-disciplinar.
Multidão indica, sobretudo, a impossibilidade de uma reductio ad IlllWrtOaS
diversas subjetividades produtivas comparáveis àquela que permitia individua-
lizar, na classe a forma de subjetividade hegcmônica durante a
cio capitalismo fonEsta.
A partir do conceito de multidUo veremos então que aquela que, à primeira
vista, se revela como inadequação das tecnologias disciplinares em relação
ao novo horizonte produtivo, configura-se, na realidade, como um excesso
daquilo que deve ser controlado (a nova força de trabalho social) no que
concerne aos dispositivos de controle, uma nova constituição do trabalho
que transgride continuamente as determinações e as formas de subjetivação
impostas pelo domínio. Será então possível construção de um
modelo de governo do excesso expressa pela multidão prõdlltiva pós-fordista
torna-se uma prioridade das atuais estratégias de preciso, porém,
articular estas transições seguindo uma certa ordem e situá-las num contexto
histórico mais geral.
A economia política da penalidade parece poder-nos oferecer esta possi-
bilidade. Trata-se de uma orientação da criminologia cl-ítica, de derivação princi-
palmente marxista e foucaultiana, que investigou, sobretudo a partir dos anos
1970, a relação entre economia e controle social, reconstruindo as coordenadas
da relação que parece manter juntas determinadas formas de produzir e
determinadas modalidades de punirlo. Como veremos, ela concentrou suas
10 O texto fundamental, do qual depois foram derivadas mais ou menos diretamente
todas as análises posteriores, é G. Rusche e O. Kirchheimer, Pena e struttura sociale,
trad. il. Bolonha, II Mulino, 1978 LN. cio T.: edição brasileira: Punição e estrutura
social, Rio de Janeiro, Revan/ICC, 2' cd., 2004, tradução e apresentação de Gízlene
Neder).
próprias análises particularmente nos nexos entre "cárcere e fábrica", entre
"encarceramento e desemprego", questionando a relação entre dinâmicas do
mercado de trabalho e estratégias repressivas no interior de um cenário fordista.
Mas os instrumentos críticos produzidos pela economia política da penalidade
- tanto por meio da reconstrução histórica do nascimento da penitenciária e
da reclusão quanto através da análise da relação atuaI entre economia e pena
- constituem uma herança significativa, que deve ser recolhida e levada em
conta para se empreender uma crítica do controle social pós-fordista.
Por conseguinte, gostaria de ter como ponto de partida a economia política
da penalidade para nela individualizar as diretrizes teóricas fundamentais e
investigar sua dupla dimensão histórica e contemporânea. Emergirão, assim,
alguns limites deste paradigma de análise, ligados em particular às
transformações que, nestes anos, afotaram a produção social. Será, pois,
necessário voltar nossas atenções para estas transformações, para nelas
colhermos as tendências e os efeitos no plano da subjetividade produtiva.
Apenas neste momento serão pesquisadas as formas de controle da multidão
através das quais um regime de governo do excesso começa a se revelar.
*
Parte deste trabalho constitui uma reelaboração de dois artigos: "OItre
I' economia politica deli a penalità: posfordisl11o e controIlo dellá moltitudine"
["Além da economia política da penalidade: pós-fordismo e controle da mul-
tidão"], in Dei de/itti e delle pene, 1-2,2000, e "Società di controIlo: lavori in
corso" ["Sociedade de controle: trabalhos em curso"], in DeriveAprodi, 20,
2001.
Desejo agradecer a Venere Bugliari, Richard Sparks, Stefania De Petris,
Thea Rinde, Dario Melossi e Sandro Mezzadra pelos seus preciosos co-
mentários.
32
Capítulo 1
Regime disciplinar e proletariado fordista
A primeirafill1çào era subtrair o tempo,
fazendo com que o tempo dos homens,
o tempo das suas vidas, se transformasse
em tempo de trabalho. A seglll1dafimçlio
consistia emfazer com o que o corpo
dos homens se tornasse força de trabalho.
Afilllçào de transformaçào do corpo
emforça de trabalho corresponde àfi<nçlio
de transformaçc7o do tempo em tempo de trabalho.
M. Foucault,
A verdade e as fo rlll as jurídicas
Economia política do controle social
A criminologia nasce como um saber inseparável das tecnologias de po-
der que remetem ao universo criminal. Ela é produto daquilo que Foucault
define como "civilização inquisitória". A sua genealogia faz parte do proces-
so histórico de transformação no sentido "governamental" da razão de Esta-
do que tomou forma entre os séculos XVIII e XIX. Neste período, a ciência
de governo se especializa e se diferencia em seu próprio interior, dando vida
a saberes sobre a população, tais como a estatística, a urbanística, a higiene,
a psiquiatria, a medicina social e a criminologia I J. O potencial "inquisitorial"
- que a criminologia acumula e, ao mesmo tempo, libera em relação ao des-
vio - produz, por conseguinte, uma ordem peculiar do discurso e um con-
junto de verdades que se concretizam historicamente nas figuras do homo
criminalis, do reincidente, do ambiente criminógeno e da classe perigosa
12

11 M. Foucault, "La governamentalità", trad. it . .in M. Foucault, Poteri e strategie.
Í:assaggetamenta dei carpi e ['elemento sfuggente CP. Della Vigna, org.). Milão,
.. Mimesis, 1994, pp. 43-67.
12 "A inquisição: fonua de poder-saber essencial à nossa sociedade. A verdade da
experiência é filha da inquisição do poder político, administrativo, judiciário de
to locar perguntas, de extorquir respostas, de recolher testemunhos, de contróI!'lr
afirmações, de estabelecer fatos - como a verdade das medidas e das proporções era
Ao longo de toda a primeira metade do século XX, a investigação crimi-
nológica permanece fortemente caracterizada por um saber a serviço do
"príncipe", incapaz de superar o estatuto epistemológico consolidado na fase
inicial da sua história. Esta marca fundamentalmente "tecnocrática", que
toma a criminologia uma verdadeira "ciência de polícia" (Polizeiwissensclwft),
dificulta por muito tempo a elaboração de teorias do controle social, ou
a de paradigmas de análises capazes de interrogar criticamente as
dinâmicas de reação social e institucional em relação ao desvio.
Apenas com o desenvolvimento das teorias do "etiquetamento" nos anos
1960 é que o poder punitivo faz o seu ingresso cfetivo no horizonte crimi-
nológico como universo de investigação parcialmente independente da cri-
minalidade". Os teóricos do "eticjuetamento" foram os primeiros a promo-
ver um processo de renovação crítica do saber criminológico, propondo
uma valorização do desvio enquanto diversidade estigmatizada pelos meCa-
nismos de poder. Porém, ao fazerem eles continuaram confinados aos
limites de uma perspectiva micro-sociológica.
"Revolucionário" sob certos () interacionísta - voltado
para uma da identidade desviante diante dos rituais de
e degradação social dos quais é objeto - não se fundamentava, porém, em
hipóteses abrangentes, relativas ao fundamento material do poder de "eti-
quetar" e reprimir. De um lado, o universo desviante descrito pelos labelling
theorists parece incapaz de produzir resistências ao poder que não sejam
totalmente individuais e quase sempre oportunistas. Por outro lado, o poder
de definição do desvio só encontra algum fundamento nos processos de
interação simbólica que têm lugar no microcosmo das instituições totais
l4
.
Esses aspectos tendem a prejudicar o potencial crítico da análise
"interacionista" em relação às estratégias punitivas, visto que restituem uma
filha de dike" (M. Foucault, I corsi ai College de France. I Resumées, trad. it. Milão,
Feltrinelli, 1999, p. 22) [N. do T.: edição brasileira Resumo dos cllrsos do College de
France: 197011982. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, tradução de Andréa Dahcr,
consultoria de Roberto Machado]. Sobre o nascimento da criminologia e sobre a sua
relação com a "governamentalidade" e a disciplina, ver P. Pasquino, "Criminology:
the Birth of a Special Saviour", in ldeology and COI1SciOUSlless, 7, 1980, pp. 17-33.
13 Sobre as teorias de etiquetamento, ver a coletânea de escritos publicados em E.
Rubington & M. \Veinberg (eds.) Deviance. The InteractionÍst Perspective. Nova
Iorque, MacMIIIan, 1973.
14 E. Goffrnan, Asylums, trad. it. Turim, Einaudi, 1968.
34
em do poder punitivo fundamentalmente des-historicizada e
A criminologia crítica começa, portanto, a denunciar a
de uma fundação materialista da análise dos processos institucionais
controle do desvio, isto é, de uma análise capaz de examinar criticamente
labellers (as instituições e as estratégias do poder punitivo) e também os
label/ed (aqueles que são os destinatários imediatos dos labellers). Esse es-
lúpulo político-intelectual determina, ou pelo menos agiliza, de modo signifi-
a entrada do marxismo na sociologia criminal, ocorrida entre o final
ela década de 1960 e o início dos anos 1970
15

São duas as principais direções de investigação que se delineiam neste
periodo. A primeira é constituída por um conjunto de estudos históricos que
descrevem o papel exercido pelos sistemas produtivos na afirmação históri-
c.adas relações de produção capitalistas
l6
• Uma história da pena, que até
aquele momento era representada como um progresso contínuo da civiliza-
ção jurídica em dircção à racionalidade e à humanização da punição, agora é
descrita como uma de com as quais a ordem
talísta i no suas formas de c
de classe. Já a di ele se orienta para as práticas
contemporâneas dos sistemas de controle c, sobretudo, do dispositivo carce-
,-::; "<
I: Ver sobretudo a crítica na perspectiva marxista feita por Alvin Gouldner aos
Zabelling theorists no seu Per la sociologia. Rinnol'o e critica della sociologia
dei /1ostri tempi, trad. it. Nápoles, Liguori, 1977. Seria simplista remeter as diver-
Sas orientações que se desenvolveram neste período no âmbito da criminologia
erítica apenas à influência teórica do marxismo. Surgem, por exemplo, correntes
que se consolidarão posteriormente no movimento abolicionista, e,
sobretudo, silo lançadas as bases para o nascimento das diversas criminologias
feministas. Para uma reconstrução da história da criminologia crítica em todas as
suas correntes (embora limitada ao contexto europeu), das suas origens até a
metade dos anos 1990, ver R. Van Swaningen, CriticaI Criminoiogy. Visiol1s fram
Europe. Londres, Sage, 1997.
... M. Foucault, Sorvegliare e punire, trad. it. Turim, Einaudi, 1976 [N. do T.:
edição brasileira Vigiar e punir: nascimento da prisc7o. Petrópolis, Vozes, 2002,
26" ed.; tradução de Raquel Ramalhete]; M. Ignatieff, Le origini del peninteziario.
··Sistema carcerario e rivoluzione industriaie inglese 1750-1850, trad. it. Milão,
• Mondadori, 1982; Rusche e Kirchheimer, Pena e struttura socia/e, cit.; D. Rothman,
The Discovery of the Asylum. Social Grder and Disorder ln the New Republic.
Boston, Little Brown, 1971; D. Melossi eM. Pavarini, Carcere e fabbrica.
)'lha, II Mulino, 1977 [N. do T.: edição brasileira Cárcere e fábrica. Rio de JaneltO,
Revan/ICC, 2006, tradução de Sérgio Lamarão].
rário. A análise se concentra, aqui, no papel desempenhado pelos aparelhos
repressivos em relação às dinâmicas económicas atuais e, em particular, em
relação ao funcionamento do mercado de trabalho nas sociedades industria-
lizadas.
A convergência dessas duas direções de investigação dá forma, final-
mente, a uma crítica materialista da penalidade. O fio condutor da economia
política da pcna é construído pela hipótese geral segundo a qual a evolução
das formas de repressão só pode ser entendida se as legitimações ideológi-
cas historicamente atribuídas à pena forem deixadas de lado. A penalidade
absorve uma função diversa e posterior em relação à função manifesta de
controle dos desvios e defesa social da criminalidade. Esta função "latente"
pode ser descrita situando-se os dispositivos de controle social no context<:
das transformações económicas que perpassam a sociedade capitalista e as
contradições que delas derivam. Tanto a afirmação histórica de determina-
das práticas punitivas quanto a permanência dessas práticas na sociedade
contemporânea devem ser reportadas às relações de produção dominantes,
às relações econômicas entre os sujeitos e às formas hegemónicas de orga-
nização do trabalho.
A penalidade se inscreve num conjunto de instituições jurídicas, políticas
e sociais (o direito, o Estado, a família), que se consolidam historicamente
em função da manutenção das relações de classe dominantes. Não é possível
descrever os processos de transformação que interessam a essas institui-
ções se não se levar em conta os nexos que ligam determinadas expressões
da dominação ideológica de classe no interior da sociedade às formas de
dominação material que se manifestam no âmbito da produção.
O controle do desvio enquanto legitimação aparente das instituições pe-
nais constitui, pois, uma construção socj91 por meio da qual as classes domi-
nantes preservam as bases materiais da sua própria dominação. As institui-
ções de controle não tratam a criminalidade como fenômeno danoso aos
interesses da sociedade em seu conjunto; ao contrário, por meio da reprodu-
ção de um imaginário social que legitima a ordem existente, elas contribuem
para ocultar as contradições internas ao sistema de produção capitalista. Em
outras palavras, numa sociedade capitalista o direito penal não pode ser co-
locado a serviço de um "interesse geral" inexistente: ele se torna, necessari-
amente, a expressão de um poder de classe.
Por outro lado, porém, o caráter complexo das relações entre estrutura
económica material e instituições punitivas não pode ser subestimado caso
se queira evitar a recolocação de um paradigma teórico abalado pelo
36
e pelo economicismo. Esse problema já era eficazmente ilus-
por Georg Rusche em seu já célebre artigo de 1933, no qual definia as
.• H.111U'<" teóricas da economia política da pena:
É necessário que não se confunda a independência teórica do fenó-
meno criminal e da luta conduzida contra ele, empreendida por meio
da argumentação histórica e econômica, com a completa clarifica-
ção do problema. As forças às quais se reconhece eficácia através
de uma análise deste tipo não são as únicas que contribuem para
determinar o objeto da nossa pesquisa, que, por conseguinte, é im-
17
perfeita e limitada em muitos aspectos .
A ligação entre economia e penalidade não deve ser, pois, considerada
corno resultado de um automatismo, como uma relação mecânica mediante
a qual a superestrutura ideológica da pena possa ser deduzida, de modo
linear, da estrutura material das relações de produção. Ainda que ocupe uma
posição de proeminência em relação a outros fatores sociais, o universo da
economia simplesmente contribui para definir a fisionomia histórica dos
diversos sistemas punitivos. Porém, de acordo com Rusche, esta perspec-
tiva materialista de análise da penalidade estava ausente de todas as corren-
tes criminológicas, de derivação sobretudo positivista, que lhe eram contem-
porâneas:
Elas não mantêm nenhuma ligação com a teoria económica, e por-
. tanto não se reportam à base material da sociedade, e nem sequer
são historicamente orientadas. Isso significa que elas pressupõem
uma constância na estrutura social que na realidade não existe e que
absolutizam de modo inconsciente, as condições sociais reais do
18
observador .
Trata-se, portanto, de superar uma dimensão teórica da criminologia
enquanto ciência da criminalidade, como saber-poder sobre as causas indi-
viduais e sociais do desvio, e de construir uma crítica histórico-económica
da formação dos sistemas repressivos. A emergência de formas
dás da penalidade é o resultado da convergência de forças culturms, polttt-
ê::is e sociais, que embora não sendo o reflexo necessário de determinadas
articulações das relações de produção, estão intimamente conectadas a es-
17 G. Rusche, "II mercato di lavam e l'esecuzione della pena. Riflessioni per una
sociologia deli a penale", trad. it. in La Questione crininale, 2, 1976, p. 522.
18 Idem, pp. 521-522.
sas últimas. A estrutura material da sociedade informa a geografia das rela-
de domínio e subordinação que aí prevalecem e, .ao mesmo tempo,
acelera o processo de consolidação das instituições sociais que reúnem con-
dições de favorecer a sua reprodução. A história da pena deverá, por conse-
guinte, tornar-se uma história econômica e social dos aparelhos
que se constituem como dispositivos das de classe. Ela
é "algo mais do que uma história do suposto desenvolvimento particular de
uma 'instituição' legal qualquer. Ela é a história das entre as 'duas
nações' [ ... ] que compõem a população, os ricos e os
Ocorre aqui, evidentemente, uma profunda ruptura com relação à
historiografia jurídico-penal tradicional. As transformações históricas da pena
representam não o resultado do progresso da sociedade, mas, pelo contrá-
rio, a evolução das estratégias com as quais a primeira das "duas nações"
sempre impôs sua própria ordem social à segunda. Contando com a contri-
buição de OUo Kirchheimer, Rusche escreverá a hist6ria destas duas
num livro de título PlIlliç{fo e estrutllra social. Publicada
essa obra por muito A economia
política da penalidade por aproximadamente 30 anos do hori-
zonte criminológico e sóciorógico. Apenas em 1969, com a reedição desse
livro, o programa te6rico de Rusche será finalmente retomado pela nascente
criminologia crítica.
Não é difícil compreender as razões do esquecimento e da posterior
redescoberta. O texto de Rusche e Kirchheimer vem à luz pela primeira vez
nos anos 1930, em circunstâncias históricas particularmente adversas ao
marxismo nos Estados Unidos e às ciências sociais na Europa. O advento
dos regimes totalitários após o segundo conflito mundial e de uma recons-
trução pós-bélica que enfatizará uma concepção tecnocrática dos proble-
mas sociais e, conseqüentemente, do desvio, certamente não estimulam o
desenvolvimento das perspectivas críticas apresentadas em Pwziçc70 e es-
trutura social. No entanto, no contexto muito diferente dos anos 1960 e
1970, parece finalmente estar colocado o espaço intelectual e político para
uma crítica materialista das instituições repressivas, um espaço no qual a
criminologia crítica e a economia política da pena ganham uma posição de
destaque.
19 Idem, pp. 528.
38
. Nascimento da sociedade industrial
e disciplinamento do proletariado
As hip6teses centrais de Rusche são duas. A primeira é que qualquer
sistema repressivo necessariamente, numa de pre-
o objetivo das penas é dissuadir os criminosos em
de violar as leis. Por outro Jado, porém, são as classes subordinadas que
cometem esses crimes - sobretudo contra a propriedade - e é para elas que
o sistema penal se seletivamente. A segunda hipótese é que as modali-
dades com as quais se concretiza () objetivo da variam historica-
mente em relação ao universo da economia e, sobretudo, à situação do mer-
.cado de trabalho:
Ensina a experiência que os delitos são cometidos, em sua maior
parte, por aqueles que pertencem às classes sobre as quais pesa uma
opressão social mais forte [ ... ] A pena, portanto, se não se quer
ele tal modo que as
crimi
racional comcter as para
não serem vítimas de punição .
As classes sociais despossuídas constituem, assÍm, o objetivo principal
das instituições penais. A hist6ria dos sistemas punitivos é, nessa perspecti-
va, uma hist6ria das "duas nações", isto é, das di versas estratégias repressi-
\'vas de que as classes dominantes lançaram mão através dos séculos para
íevitar as ameaças à ordem social provenientes dos subordinados.
, '. As diversas orientações da política penal se articulam a partir das condi-
materiais das classes pobres. Para serem eficazes, as instituições e
práticas repressivas devem impor, a quem ousa violar a ordem cOl1stitU'ída,
condições de existência piores do que as garantidas a quem se submeter a
.. cla. Numa economia capitalista, isso significa que será a condição do prole-
tariado marginal que determinará os rumos da política criminal e, por conse-
guinte, o regime de "sofrimento legal" imposto àqueles que forem punidos
por desrespeito às leis. Em outras palavras, "todo esforço em prol de uma
reforma no tratamento do delinqüente encontra o seu pr6prio limite na
àção do estrato proletário mais baixo, socialmente significativo, que a SOCle-
..... '''21
dade usa como parâmetro para quem comete açoes cnmll10sas .
Idem, pp. 523 ..
21 Idem, pp. 524.
A evolução da penalidade não é, portanto, o resultado de reformas sociais
e jurídicas cada vez mais ambiciosas e progressistas. Existe, de fato, um
limite estrutural a qualquer processo de reforma e civilização das penaS, e
este limite é representado pelo princípio da less eligibility (isto é, da menor
preferibilidade) da pena, ao qual todo sistema de repressão deve adequar-se.
Nas economias pré-capitalistas, a condição das classes marginais era
definida por fatores antes de tudo políticos, que estabeleciam as margens de
exploração da força de trabalho conforme uma estratificação social baseada
em laços de servidão e dependência pessoal das classes subalternas para
com as classes dominantes. Porém, com a afirmação do modo de produção
capitalista, a condição do proletariado se torna uma função principalmente
econômica: a condição material do proletariado é determinada diretarnente
no interior dos processos de organização e de divisão do trabalho.
São as dinâmicas invisíveis e anônimas do mercado que conferem à for-
ça de trabalho o seu "preço justo", e é uma lei econômica que orienta a
fixação do preço: quanto maior for a oferta de trabalhq, menor será o seu
valor e piores serão as condições do proletariado. Daí deriva, de acordo com
o princípio da less eligibility, que os períodos históricos em que ocorre um
sllIplus de força de trabalho serão necessariamente caracterizados por um
agravamento das penas.
As massas sem trabalho, que diante da fome e da necessidade tendem
a cometer delitos ditados pelo desespero, só podem ser contidas atra-
vés de penas cruéis. Numa sociedade onde os trabalhadores são escas-
sos, a execução penal tem uma função totalmente diversa. Quando
alguém que quer trabalhar encontra trabalho, o estrato social mais bai-
xo é formado por trabalhadores não qualificados e não por desempre-
gados que se encontram numa situação de necessidade. A execução
penal pode, assim, contentar-se em obrigar ao trabalho quem a ele se
recusa e ensinar aos delinqüentes que eles se contentem com o que é
suficiente para um trabalhador honesto vive/
2

O nascimento da prisão se coloca, portanto, na passagem de um regime
penal que aponta para a destruição do corpo do condenado, sobre o qual se
reflete o poder absoluto do monarca, para uma forma de punição que poupa
o corpo a fim de que, na sua produtividade, se evidencie o poder econômico
relativo do capitalista. Uma nova concepção do tempo, de um lado, e urna
22 Idem, pp. 526-527.
40
do princípio da troca de equivalentes, do outro, explicam a
':afirmação histórica paralela do contrato como fixação do tempo de trabalho
""ê:da sentença como fixação do tempo de reclusão
23

i
Punição e estrutura social desenvolve es'tas linhas teóricas e as emprega
na análise histórica dos regimes punitivos da Idade Média tardia até os anos
30 do século XX. Neste contexto, o conceito da less eligibílity recebe uma
elaboração mais complexa e é aplicado à análise de processos históricos tais
como a transição da economia feudal para o mercantilismo e, posteriormen-
te, o advento da Revolução Industrial.
A origem da pena detentiva está inserida no contexto das transformações
,;I>ociais que ocorreram na Europa nos séculos XVI e XVII. Naquele período,
ÚrlIa repentina redução demográfica, ligada em parte à Guena dos Trinta
Anos, havia determinado uma dramática carência de mão-de-obra, o que
resultou na elevação progressiva dos salários. Essa situação induziu os go-
vernos dos países europeus economicamente mais avançados a rever as
suas políticas em relação à pobreza. Amadurecia a idéia de que os pobres em
condições de trabalhar deveriam ser obrigados a fazê-lo. Através da imposi-
ção do trabalho, tornava-se possível ao mesmo tempo, a praga
social da vagabundagem e a praga econômica do aumento dos salários, pro-
yocado pela escassez de força de trabalho.
Essa nova filosofia inspira a construção das primeiras instituições desti-
nadas à reclusão dos pobres: Bridewell, na Inglaterra, Hôpital Général, na
!;'rança, e Zuchtlzaus e Spinhaus, na Holanda. A reclusão começa assim a ser
i'>f,0posta como estratégia para o controle das classes marginais. A sua utili-
independentemente das camadas da população às quais pode ser apli-
(pobres, vagabundos, prostitutas, criminosos), consiste no fato de que
Ilgora o çerpo é valorizado por encerrar uma potencialidade produtiva, e os
sistemas de controle têm início concentrando-se nas atitudes, na moralidade,
na alma dos indivíduos. Progressivamente, a detenção se afirmará como
2i':iA privação da liberdade por um período determinado preventivamente pela sen-
do tribunal é a forma específica na qual [ ... ] o direito penal moderno burguês-
'capitalista realiza o princípio da retribuição equivalente. Trata-se de um meio Ín-
}onsciente, mas profundamente ligado à idéia do homem abstrato e do trabalho
. humano abstrato medido pelo tempo" (K B. Pasohukanis, La teoria generale del
diritto e ii marxismo, trad. it. [N. do T.: edição portuguesa A teoria geral do
e o marxismo. Coimbra, Centelha, 1'972, tradução de Soveral Martins], in
Cerroni (org.), Teorie sovietiche deZ diritto. Milão. Giuffre, 1964, p. 230.
modalidade hegemónica da pUl1lçao, dando origem assim ao "grande
internamento" de que fala Foucault. No momento em que esta hegemonia
estiver definitivamente consolidada, o que vai mudar, segundo o princípio da
less eligibility, serão os regimes de reclusão, isto é, as condições de vida
impostas aos detidos.
Uma vez as humanitúrias desempenham um papel com-
pletamente secundário em tudo isso. As reformas sustam o passo, quando
não retrocedem, toda vez que o desemprego cresce, reduzindo novamente o
valor do trabalho. Um exemplo significativo é dado pela Inglaterra do início
do século XIX, quando um novo SU/1J1lls de força de trabalho orienta a política
penal no sentido da reintrodução de métodos punitivos cruéis e destrutivos,
que parecem decretar momentaneamente a falência dos ambiciosos projetos
iluministas de reforma:
Já tínhamos observado que o movimento reformador encontrou
um terreno fértil só porque os princípios humanitários em que se
coincidiam com as necessidades da economia da
mas nos para dar
essas novas o fundamento do qual nós havíamos partido
já havia, pelo menos em parte, deixado de existi/".
Quando a utilidade eeonômica dos novos sistemas punitivos é menor, as
mesmas medidas introduzidas pelo reformismo humanitário podem voltar a
assumir a crueldade que as reformas pareciam ter confiado ao passado:
O trabalho no cárcere torna-se, assim, um instrumento de tortura e
as autoridades mostravam-se cada vez mais hábeis em inventar novos
sistemas; ocupações de caráter exclusivamente punitivo tornavam-
se extl]}mamente fatigantes! prolongadas por períodos de tempo
• ,. _5
absolutamente lI1suportavcls .
No centro da análise de Ruscbe e Kirehheimer encontramos as trans-
formações descritas no primeiro livro do Capital. Na seção VII, Marx enfrenta
a questão da acumulação primitiva, estágio pré-histórico do capital, no qual o
sistema capitalista teve criadas as condições para o seu próprio desenvolvi-
mento, ou seja, a destruição do sistema de produção agrícola-artesanal e a
transformação do trabalho aí empregado em força de trabalho assalariada. A
contradição constitutiva deste proeesso fica logo clara: se de um lado o
24 Rusche e Kirchheimer, CiL, p. 153.
25Idem,p. 191.
çapital libera o trabalho dos vínculos servis e da dependência pessoal que,
i:l.té aquele momento, o haviam refreado, por outro sujeita-o a uma nova
. forma de subordinação. A "liberação" do trabalho advém de uma expropriação
"dos produtores que os submete a um nível mais alto de servilismo:
o movimento histórico que transforma os produtores em
operários assalariados se apresenta, de um lado, como sua libertação
da servidão e da coerção corporativa; e para os nossos historiógrafos
só existe esse lado. l'vlas, por outro lado, esses recém-
libertos só se tornam vendedores de si mesmos após terem sido
espoliados de todos os seus meios de produção e de todas as garantias
para a sua existência, oferecidas pelas antigas instituições feudais
26

As massas de camponeses em fuga após o cercamento dos campos diri-
gem-se para as cidades, engrossando as fileiras de vagabundos e pobres.
Esta força de trabalho em potencial, expropriada dos poucos meios de sustento
de que dispunha e separada violentamente do próprio ambiente, revela-se a
princípio de adaptar-se ús novas de e reluta em
se submeter ü nova do trabalho que se afirma nas fábricas.
Marx detém-se nas práticas repressivas que atingiam as massas expropriadas:
Os pais da atual classe operária foram punidos, num primeiro mo-
mento, ao serem transformados em vagabundos e em miseráveis. A
legislação tratou-os como delínqüentes voluntários e partiu do pres-
suposto de que dependia da sua boa vontade continuar a trabalhar
27
llas antigas condições não mais existentes .
Pena e subsunção real do trabalho ao capital
Uma vez mais, o problema é a constituição do proletariado, isto é, a
transformação do trabalho em capital produtivo de mais-valia. A afirmação
do regime de fábrica dirige o processo que Marx define como "subsunção
real" do trabalho: todas as formas do trabalho pré-capitalista são progressi-
vamente reduzidas à forma geral do "trabalho abstrato". Os produtores são
~ ~ s i m transformados em força de trabalho social e o trabalhador coletivo
sucede o trabalhador individual:
Com o desenvolvimento da submissão real do trabalho ao capital e,
por conseguinte, do modo de produção especificamente capitalista,
o verdadeiro agente do processo de trabalho total não é o trabalhador
26 Marx, fl capitale, ciL, p. 779.
27ldem, p. 797.
43
individual, mas sim uma força de trabalho cada vez mais combinada
socialmente, e as diversas forças de trabalho cooperantes que formam
a máquina produtiva total participam, de diversas maneiras, do proces-
so imediato de produção de mercadorias 28.
Qual foi então o papel das práticas punitivas no processo de subsunção
real do trabalho? E qual foi a função da prisão no controle das contradições
nas quais este processo se baseia?
Do ponto de vista da economia política da pena, a contribuição das insti-
tuições e das tecnologias da pena foi, nesse sentido, fundamental: a penitenciária
nasce e se consolida como instituição subalterna à fábrica, e como mecanismo
pronto a atender as exigências cio, nascente sistema de produção industrial. A
estrutura cm penitenciária, soo o'perfil tanto orgarlizativo quanto ideológico,
não pode ser compreendida se, paralelamente, não for observada a estrutura
dos locais de produção; é o conceito de disciplina do trabalho que deve ser
proposto aqui como termo que faz a mediação entre cárcere e fábrica. Todas
as instituições de reclusão que tomam forma no final do século XVIII co-
dividem uma idêntica lógica disciplinar que as torna complementares à fábrica:
Elas se caracterizam por serem incumbidas pelo Estado da sociedade
burguesa da gestão dos vários momentos da formação, produção e
reprodução do proletariado de fábrica; elas são um dos instrumentos
essenciais da política social do Estado, política que persegue o objetivo
de garantir ao capital uma força de trabalho que - por hábitos morais,
saúde física, capacidades intelectuais, conformidade às regras, hábito
à disciplina e à obediência etc. - possa facilmente adaptar-se ao
regime de vida na fábrica em seu conjunto e produzir, assim, a quota
máxima de mais-valia extraível em determinadas circunstânci:;ts29.
A prisão se consolida então como dispositivo orientado à produção e à
reprodução de uma subjetividade operária. Deve-se fOljar, na penitenciária,
uma nova categoria de indivíduos, indivíduos predispostos a obedecer, seguir
ordens e respeitar ritmos de trabalho regulares, e sobretudo que estejam em
condições de interiorizar a nova concepção capitalista do tempo como medida
do valor e do espaço como delimitação do ambiente de trabalho. Delineiam-
se aqui os contornos de uma economia política do corpo, de uma tecnologia
do controle disciplinar que age sobre o corpo para governá-lo enquanto
28 Marx, II capitale. Libro J. Capítulo VI. Inedíto, trad. it. Florença, La Nuova
Itália, 1969, p. 74.
29 Melossí e Pavarini, Carcere e fabbrica, cit., p. 70.
44
produtor de mais-valia e que, juntamente com outros corpos "cientificamente"
9rganizados, torna-se capital. Como escreve Melossi:
Tal disciplina é condição fundamental para a extração de mais-valia
e, portanto, o único ensinamento real que a sociedade burguesa tem
a propor ao proletariado. Se fora da produção pode imperar a ideologia
jurídica, no seu interior opera a servidão, a desigualdade. Mas o
local da produção é a ü1brica. Eis a razão pela qual a função insti-
tucional que primeiro a casa de trabalho e depois a prisão assumem
é o aprendizado, por parte do proletariado, da disciplina de fábríca
30

Mas a reconstrução do nascimento do cárcere e da sua função na formação
histórica do proletariado industrial constitui apenas uma vertente do problema.
A outra vertente é representada pelo papel que este dispositivo de controle
ciesenvolve na reproduçào da força de trabalho assalariada. Nesse sentido,
torna-se indispensável considerar tanto a dimensão instrumental quanto a
dimensão simbólica da instituição carcerária. A dimensão instrumental nos
permite iluminar as origens da penitenciária e as funções económicas imediatas
que ela assumia, sendo a delas a produção de uma força de trabalho
disciplinada e disponível à valorização capitalista. A dimensão simb6Hca, por
sua vez, permite-nos explicar o motivo do "sucesso histórico" aparente da
instituição carcerária. O cárcere representa a materialização de um modelo
ideal de sociedade capitalista industrial, um modelo que se consolida através
.do processo de "desconstrução" e "reconstrução" contínua dos indivíduos
no interior da instituição penitenciária. O pobre se toma criminoso, o criminoso
se torna prisioneiro e, enfim, o prisioneiro se transforma em proletário:
Porém, uma vez reduzido o prisioneiro a sujeito abstrato, uma vez
"anulada" a sua diversidade [ ... ], uma vez colocado diante das
necessidades materiais que não pode mais satisfazer al!,tünomamente,
tornado assim completamente dependente da/à soberania admi-
nistrativa, enfim, é imposta a este produto da máquina disciplinar a
única alternativa possível à própria destruição, à própria loucura: a
forma moral da sujeição, isto é, a forma moral do status de proletário.
Melhor dizendo: a forma moral de proletário é aqui imposta como a
única condição existencial, no sentido de única condição para a
sobrevivência do não-proprietári0
31

Melossi, "Criminologia e marxismo. AIle origini della questione penale nelÍa
società de 'Ii Capitale'''. ln La questione criminale, I, 2/1975, p. 328.
31 Melossi e Pavarini, Carcere e fabbrica, cit., p. 223.
45
Esta dinâmica da produção de subjetividade através do regime carcerário
nos conduz diretamente às reflexões de Althusser sobre os "aparelhos
ideológicos dé Estado". Segundo Althusser, é exatamente nos processos de
subjetivação dos indivíduos, ao perpetuar as relações de produção nas quais
a subordinação material dos sujeitos se 111 que se baseia o
funcionamento da
A instituição carcerária é pois, certamente, uma tecnologia repressiva,
uma vez que impõe ao detento uma situação de privação absoluta que faz
dele um sujeito totalmente dependente do aparelho de poder que o subordina.
Mas é também um poderoso dispositivo ideológico, uma vez que lhe impõe
a submissão ao trabalho como único caminho para sair desta condição. Revela-
se, assim, o paradoxo de um mecanismo que, de um lado, produz privação,
falta, carência, e, de outro, impõe as próprias engrenagens disciplinares como
remédio para esta condição.
A prisão cria o statlls de detento e, ao mesmo tempo, ao indivíduo
trabalho, obediência e disciplina constitutivos desse como
que devem ser fim de que possa, no
delas. Ela evoca nos uma representação
mesmos em relação à própria condição materiaL A privação extrema imposta
ao preso é, assim, representada como conseqüência óbvia e quase natural da
recusa da disciplina do trabalho
33
. O princípio da troca de equivalentes torna
a instituição carcerária ideologicamente aceitável, do mesmo modo que torna
"justo" um contrato de trabalho. Neste não há abuso ou excesso, mas sim
troca entre iguais e retribuição ao justo preço:
O conteúdo da pena (a execução) está, deste modo, ligada à sua
fonnajurídica, do mesmo modo que, na fábrica, a autoridade garante
I
. 34 /'
que a exp oração pode aSSUl11lr o aspecto de contrato .
Vemos emergir aqui uma contradição estrutural da sociedade capitalista:
a contradição entre uma igualdadefornzal e uma desigualdadefwulamental.
32 L. Althusser, Lo Stato e i suai apparafi, trad. it. Roma, Riuniti, 1997 [N. do T.: edição
brasileira. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos
de Estado. Rio de Janeiro, Graal, 1987, 3
a
ed, introdução crítica de J.A.Guilhon Albu-
querque, tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro].
33 Ver também a definição althusseriana de ideologia: "Na ideologia encontra-se
representado não o sistema das relações reais que governam a existência dos in-
divíduos, mas sim a relação imaginária destes indivíduos com as relações reais
nas quais eles vivem" (idem, pp. 185-186; itálico meu).
34 Melossi e Pavarini, Carcere e fabbrica, cit., p. 87.
46
é observável seja no universo econômico, no qual se exprime na relação
a esfera da circulação (igualdade) e a esfera da produção (desigualdade),
.;;eja na instituição carcerária, onde no o
. pfincípio de retribuição e as práticas dlsclphnares. A IdeologIa
legalista oculta a realidade de disciplina e violência que se produz no mtenor
da instituição penitenciária, assim como a ideologia .
esconde a realidade de exploração e subordinação que se produz na fábnca.
O: objetivo, coerentemente, é reproduzir um proletariado que conside.re o
salário como justa retribuiçt70 do próprio trabalho e a pena como Justa
medida dos seus próprios crimes.
Encarceramento e desemprego na época fordista
A partir da segunda metade dos anos 1970, a criminologia marxista começa
ri utilizar os conceitos da economia política da pena na análise dos sistemas
puhitivos contemporâneos. O paradigma materialista Kir-
chheimer tinham elaborado para descrever as transformaçoes hlstoncas da
penalidade é, para as entre sistema eco-
nômico fordista c da repress{ío penal.
A passagem da investigação histórica ii dimensão contemporânea
comporta, porém, dois problemas. O primeiro diz respeito à "tradução" dos
conceitos. Enquanto Rusche e Kirchheimer descreveram o processo de
da penalidade ao longo de um arco histórico que estende
ii afirmação do capitalismo, o horizonte deve redUZir-se agora a
h::lação entre economia e pena numa fase específica do capitalismo. Com? é
possível aplicar hipóteses concebidas numa
histórica ii análise das políticas penais na sociedade industnal ou pós-mdustnal?
segundo problema é de ordem metodológica e diz respeito à construção de
eficazes" da economia e da penalidade contemporâneas. Em
outras palavras, como podem ser individualizados instrumentos analíticos
âdequados para descrever a situação econômica atual, as estratégias repres-
;;ivas contemporâneas e o laço que as une?
O percurso teórico através do qual se consegue dar uma resposta. a essas
intelTogações está intimamente ligado às circunstfmcias históricas partIculares
que ocorreu este aggiomamento da da .. Estamos
no final dos anos 1970, nos Estados Unidos. E aqUI que se 111lcta, pouco
da publicação de Punishment and Social Structure, o processo de
atualização da perspectiva materialista.
A reestruturação capitalista está em curso já há alguns anos e seus primeiros
. efeitos começam a ser percebidos, sobretudo o aumento do desemprego que se
47
segue à expulsão de uma ampla fatia do trabalho desqualificado do setor indus-
trial. Começa-se a se falar em surplus population, isto é, uma força de trabalho
em excesso no que tange à capacidade de absorção do mercado de trabalho.
Essa força de trabalho se configura cada vez mais como uma reedição, no
capitalismo tardio, do "exército industrial de reserva" marxista. Trata-se de uma
massa de trabalho escassamente ou nada qualificada, expulsa pelo processo
produtivo porque é extremamente numerosa, mas ao mesmo tempo extrema-
mente eficaz como instrumento de eontrole das reivindicações salariais da
força de trabalho ativa. Ela é, portanto, a principal candidata ao posto de
"estrato proletário mais baixo" ao qual Rusche se referia em 1933.
Paralelamente, ocorre nos Estados Unidos uma significativa inversão de
tendência na política criminal. As taxas de encarceramento, que desde a
depressão de 1929 ao final dos anos 1960 foram mantidas em níveis par-
ticularmente baixos, a partir dos primeiros anos da década de 1970 começam
novamente a crescer, inaugurando uma tendência que assumirá proporções
cada vez maiores nos anos subseqüentes. A economia política da pena co-
meça, então, a investigar conjuntamente esses fenômenos, indagando se eles
eram ou se, ainda quc não fosse possível indivi-
dualizar, havia entre eles uma relação estruturaL
Um setor da criminologia marxista americana avança a hipótese de que o
aumento paralelo do desemprego e do encarceramento constitui o momento
inicial de um processo de redefinição conjunta da relação entre economia e
sistema repressivo. Delineia-se, assim, uma resposta aos problemas que se
colocavam antes. A solução consistirá em assumir o desemprego como pa-
râmetro da condição econômica e o encarceramento como medida da se-
veridade do sistema penal. Richard Quinney oferece uma interpretação efi-
caz das transformações em curso:
/'
Incapaz de absorver o sUlplus no interior da economia política, o capi-
talismo avançado pode apenas supervisionar e controlar uma população
que agora é supérflua [ ... ] O sistema penal é o recurso moderno para o
controle do surplus de trabalho produzido pelo capitalismo tardi0
35

Em 1977, Ivan Jankovic será o primeiro a tentar aplicar o paradigma de
Rusche e Kirchheimer à situação americana
36
• Ele parte de duas hipóteses. A
35 R. Quinney. Class, State and Crime. Nova Iorque, Longman, 1977, p. 131.
36 r. Jankovic. "Labor Market and Imprisonment", in Crime and Social Justice, 8,
1977, p. 17-31. Na realidade, merecem ser citadas pelo menos outras duas contribui-
muito anteriores à de Jankovic, mas não tão centrais do ponto de vista da sua
48
refere-se à "severidade" das penas: o agravamento das condições
isto é, o aumento do desemprego, cOITesponde a uma maior
das sanções penais, isto é, um incremento das taxas de encarcera-
O núcleo da argumentação está ancorado no princípio da less eligibility:
as penas se tornam tão pesadas que, por piores que sejam as condições
oferecidas ao trabalhador "livre", elas ainda são prcferíveis ao status de
criminoso "punido".
A segunda hipótese diz respeito à "utilidade" das penas com relação ao
mercado de trabalho. O recurso ao encarceramento desempenha a função
de "regulação" do slU1J1us de força de trabalho, com o objetivo implícito de
consolidar o exército industrial de reserva de que fala Marx. Nas palavras
do próprio Jankovic:
O que eu proponho é uma reformulação da hipótese da "severidade"
avançada por Rusche e Kirchheimer: quando a economia está em
crise, as penas são mais severas ( ... ) A segunda hipótese a ser veri-
ficada é aquela segundo a qual o aumento do encarceramento tem a
de reduzir o desemprcgo. Esta hipótese de "utilidade" sus-
tenta que os efeitos nas se refletem
no mcrcado de trabalho .
Jankovic separa nitidamente as suas análises do comportamento das taxas
de criminalidade. O pressuposto inicial é que estes fenômenos são observáveis
independentemente da criminalidade e que a relação entre desemprego e
sobre os desenvolvimentos posteriores da economia política da penalida-
A primeira é a de T. Sellin, "Research Memorando on Crime in the
Social Sciel1ce Research Cowzcil, Boletim 27, Nova Iorque, 1937. Essa publtcaçao e
porque, antes mesmo da publicação de Punishment and Social Structure,
éonfere destaque às intuições de Rusche (Sellin trabalha com o de
no capítulo VII (pp. 109 e ss.), SeIlin considera o conceIto da less eltglbzl!ty
um possível ponto de referência para os desdobramentos futuros da pesqUIsa
economia e sistema penal. A segunda contribuição é de L. T. Stern, "The Effect
the Depression on Prison Commitments and Sentences", in Joumal ofthe American
of Criminal Law and Criminology, vol. XXXI, 1940-1941, pp.
se propõe aqui, explicitamente, a testar as hipóteses de Georg Rusche,
se à depressão econômica nos Estados Unidos correspondeu um endureCI-
das condenações à pena de detenção (o case study conduzido por Stern
contudo, a duas penitenciárias do estado da Pensilvânia).
Jankovic, "Labor Market and Imprisonment", cit., pp. 20-21.
encarceramento é, por conseguinte, direta
38
. Todavia, examinando o caso
dos Estados Unidos entre 1926 e 1974, os resultados são ambíguos. De um
lado, é confirmada a hipótese da "severidade": encarceramento e desemprego
seguem, de fato, a mesma direção e esta tendência não é influenciada pelo
andamento das taxas de criminalidade. De outro, não se
nenhum impacto das taxas de encarceramento no mercado de
trabalho: a hipótese de um efeito imediato do aparelho repressivo em relação
ao sW7J1us de força de trabalho é desmentida. Com efeito, muito embora a
carcerária constituída em grande parte por
trata-se sempre de uma muito limitada para que ela possa exercer um
impacto significativo sobre as dimensões do exército industrial de reserva.
Entre os anos 1970 e 1980 entram em cena outros trabalhos que têm
como objetivo verificar as hipóteses de Rusche e Kirchheimer, e é uma vez
mais e sobretudo a criminologia crítica norte-americana que investiga a relação
entre desemprego e encarceramento. !vIas, também nesses casos, a hipótese
da severidade é sistematicamente confirmada e a da utilidade não encontra
base de
O fato é que, no em que essas análises, as medidas
não constituem (ainda) o único dispositivo institucional de regulação
do swplus de força de trabalho. Estamos, vale repetir, entre o final dos anos
1970 e os primeiros anos da década de 1980, quando a reestruturação indus-
38 É desse ponto de vista que a investigação de lankovic se distancia notavelmen-
te de outros estudos precedentes, os quais, embora tendo como hipótese uma
relação entre economia e encarceramento, assumiam que a criminalidade ali exer-
citasse um papel de mediação e que, conseqüentemente, fosse a verdadeira "cau-
sa" das mudanças do sistema repressivo. Ver, por exemplo, D. A. Dobbins e B. M.
Bass, "Effects of Unemployment on 'White and Negro Prison Admissions in
Louisiana", in lO/trllOl of Criminal Law, Criminology and Pofice Science, 48,
1958, pp. 522-525.
39 Ver, sobretudo, D. Greenberg, "The Dynamics of Oscillatory Punishment Pro-
cesses", in The lournal of Criminal Lmv and Criminology, 4, 1977, pp. 643-651;
e "Penal Sanctions in Poland: a Test of Alternative Models", in Social Problems,
XXVIII, 2, 1980, pp. 194-204; M. Yeager, "Unemployment and Imprisonment", in
The Joumal of Crimillal Lmv and Criminology, vol. 70,4, 1979, pp. 586-588; D.
Wallace, "The PoliticaI Economy of Incarceratiol1 Trends in late U. S. Capitalism:
1971-1977", in The Illsurgent Sociologis!, vol. XI, 1, 1980, pp. 59-65. Para uma
resenha que inclui trabalhos não considerados aqui, ver G. T. Chiricos & M.
Delone, "Labor Surplus and Imprisonment: A Review and Assessment of Theory
and Evidence", in Social Problems, vol. 39,4, 1992, pp. 421-446.
50
. , ..' ra mas ainda não produzira os efeitos dramáticos
trial certamente Ja se mlcm , c " 1 rb ., 1
ue só viriam a ocorrer no decênio seguinte. Alem diSSO, o assa to neo 1. eI.a
q W lf'are State ainda não se abatera violentamente sobre as classes margmms.
ao eJ' d'd concorrem, nessa
Isso significa que Estado e me 1 as . ., em certa
f
' 'l['l '1 do excesso de força de trabalho, dlvldmdo,
ase, p, , " cai na rede
medida, as tarefas. toda ct I '
d 1
'" "d'" o 1 de lve'lClle e
da penalidade. Parte e a e geu a c n . _ ," ., ,"
. 1 que de qualquer modo, começam a assumIr pUl1ltlvas,
soem" , Imposta aos
por exemplo, atraves da crescente .
. , '. d dos pr'()cedimentos de acesso,
CIarlOS e a' .
O criminólogo marxista Steven Spitzer descreve este processo COl:1
dade, quando afuma que o de
em socialjwzk e em social dynallllte. O pnmeIlo tc.uno a p. n
o ulação desempreaada Que representa um "detnto socml , mofenslvo e,I
p p aos do poder (e, portanto, passível de manobra por parte
do Welfare é a do ,
a ordem que deve sel
c,
. O incremento do
sistema . que
, I'! ao mas Sim ao ,
portanto, 19ac o .' ," d '1 constitlllda:
atinge alguns estratos sociaiS. a 01' en
minorias étnicas, imigrantes, Jovens margmms . ,
No âmbito da economia política da pena delineia-se, nesse momento, <l
tendência a abandonar as hipóteses "ortodoxas" por e
l
'etoluadas por Jankovic. A dificuldade de provar a eXlstenCIa de uma reblaç11ao
. . d de tra a 10
de funcionalidade imediata entre slstema repreSSIVO e merca. o ( 'd d
suaere interpretações mais articuladas da relação entre economl: e penal!, a e
e reavaliação dos elementos Ç.Xtra-econômicos. A r.elaçao a
estabelecida cada vez mais em termos qualitativos, medIante a analise
. ,,' Social Problems, voI.
40 S. Sptizer, "Toward a Marxian Theory of Devlance , ll1
22 5 1975 . 'd d
" . f' d" teraç'ío entre etmCl a e,
41 Para um interessante sflldy case sobre o e eIto a ll1 • < G T Cl iricos
. " d nos Estados Umelos, ver . ' 1
condição ocupaclOnal e IllVeIS e . c • " Assessment" in
e W D Bales "Unemployment and Pumshment: an Empmcal .,' c '0-
.., 701 724' G T Lessan "Macro-econOlD1C e
Criminology, voI. 29,1 4, 1991, pp.. - , . . ' '. Intlation Intluences
terminants of Penal Policy: the in Crime, Law
anel Imprisonment Rate Chang!Os 111 the Umted Sta . ' C I f' eld e E. E.
177 198' G S BrIdges' R. D. rutc 1 1
anel Social Change, 16, 1991, pp. - .'..: . 'I '. . White anel Nonwhite
Simpson "Crime Social Structure and Cnmmal PUl1lS lment. 345
, " ,,' " I 34 4 1987, pp. ss.
Rates of Impnsol1ment , 111 Soczal P/oblems, vo ., , ,
que convergem para a "qualificação" do desemprego: compo-
slçao etmca da população, relações de gênero, transformações abrangentes
do de trabalho etc
42
• A hipótese de UlTl papel imediato das práticas
na gestão do exército industrial de reserva parecia, pois, perder
plausIbIlIdade por conta da citada "divisão de trabalho" entre penalidade e welfare.
. Na r.ealidade, porém, uma conclusão desse tipo seria apressada. Nos úl-
tunos tnnta anos a situação nos Estados Unidos mudou profundamente, tanto
na vertente das políticas penais quanto na vertente das políticas sociais. O
aumento das de encarceramento, do qual Jankovic pôde entrever apenas
o começo, fOI tao lIltenso que levou a população carcerária ao nível mais alto
de toda a história contemporânea americana; o ataque neoliberal ao Estado
do social prosseguiu ininterruptamente, até determinar, de fato, a
substltUlçao do "Estado social" por Uln verdadeiro "Estado penal"43.
Partindo dessas transformações, Bruce Western e Katherine Beckett re-
colocaram a hipótese de uma relação de funcionalidade entre políticas penais
de trabalho nos Estados Unidos
44
• Retomando a hipótese da "uti-
lIdade das penas, eles sugerem que o enorme aumento das taxas de encar-
ceramento dos últimos anos exerceu um impacto sobre as taxas de
. por exemplo, S. L. Myers e W. J. Sabol, "Dnemployment and Racial Differences
ln in Review o! Black Political Ecol7omy, vol,. 16, 1-2, 1987, pp.
Para um exemplo maIS recente, que faz referência particular aos fatores
pohtlcos como elemento ,?e mediação da relação entre economia e penalidade, ver
D. Jac.obs.e R. E. Helms, Toward a Politicai Model ofIncarceration: A Time-Series
Examll1atlOn of Multiple Explanations for Prison Admission Rates" in American
Joumal of Sociology, 2, 1996, pp. 323-357. '
43 "A d I - A'
.esregu amentaçao economlca e a hiper-regulamentação penal caminham,
na lado a lado. O desinvestimento social implica o super-investimento
que o único instrumento em condições de fazer frente às
sUSCitadas pelo desmantelamento do Estado social e pela generaliza-
çao. ll1segurança material que, inevitavelmente, se difunde entre os grupos
colocados nas posições mais baixas da escala social" (L. Wacquant, Parola
d tolleral1za zero. La trasformazione dello stato penale nella società
neollberale, trad. it. Milão, Feltrinelli, 2000, p. 101).
44 B. Western e K. Beckett, "How DnreguJated is the D.S. Labor Market? The Penal
System as A Labor Market Institution", in American Joumal of Sociology CIV 4
1999, pp. 1030-1060. ' "
45 :oder-se-ia acrescentar um outro efeito do encarceramento de massa, que é
retirar os d t" d'
as es atlstlcas me lante o seu emprego na da
52
O caráter relativamente limitado das taxas de desemprego norte-americano
nos anos 1980 e 1990 teria sido causado não pelas políticas de flexibilização
e liberalização do mercado de trabalho (como sustenta a vulgata neoliberal),
mas sim pelo incremento vertical do encarceramento, que teria ocultado
uma parte da população desempregada, encerrando-a nas prisões americanas.
Por outro lado, porém, o efeito penalizante que o encarceramento exerce
sobre as possibilidades futuras de emprego da força de trabalho é tal que,
para poder manter os níveis atuais de desemprego, os Estados Unidos
deveriam intensificar o internamento em massa iniciado na segunda metade
dos anos 1970, alimentando assim uma espiral cujo fim é difícil de se ver.
Analisando a composição de classe da população carcerária dos Estados
Unidos, verificamos que a taxa de desemprego seria pelo menos dois pontos
lnais elevada do que a indicada pelas estatísticas oficiais. O aumento do
percentual parece ainda mais significativo se levarmos em conta a população
afro-americana: incluindo os detentos nas estatísticas, a variação neste caso
seria de 7%. Isso significa dizer que o encarceramento em massa teria reduzido
as taxas de desemprego dos afro-americanos em cerca de um terço. Enquanto
nos europeus sobrevivem de política social voltadas
para a das distorções do mercado de trabalho e para remediar as
desigualdades sociais daí resultantes, nos Estados Unidos se observa a
tendência a substituir essas medidas sociais por políticas penais. A gestão do
desemprego e da precariedade social parecer ter passado, em suma, do
universo das políticas sociais para o da política criminal.
Mas se os Estados Unidos exibem a realidade sem disfarces de uma gestão
repressiva das novas pobrezas que se materializa na progressiva convergência
entre precarização social e autoritarismo penal, hoje um cenário semelhante
parece desenhar-se também na Europa. Nas últimas duas décadas, as taxas
de encarceramento cresceram de forma aguda em todos os países europeus,
abatendo-se de modo desproporcional sobre a população desempregada, sobre
os tóxico-dependentes e, nos últimos anos, sobre os imigrantes. Também na
Europa, ademais, este processo de "hipertrofia" do sistema penal se produziu
segurança. A privatização dos cárceres é um fenômeno já consolidado nos Esta-
dos Unidos, onde prisioneiros e serviços de segurança privada representam um
dos mais promissores setores de emprego de mão-de-obra. Em suma, os pobres
encontram trabalho exatamente no prison-industrial COl11plex que nasce com o
objetivo de encarcerar outros pobres americanos. Sobre a transformação do
encarceramento em empresa, ver, necessariamente, N. Christie, 11 business
penitenzíario. La via occidentale dei Gulag. trad. it. Milão, Eleuthera, 1996.
53
paralelamente ii reestruturação do ll'e(fàre, numa singular sÍmbiose entre
eonstrução do Estado penal e destruição elas garantias sociais.
As análises críticas mais rccentes voltadas ao contexto europeu deixam
pouca à dúvida. Analisando o caso Stevcn Box c Chris Hale
puderam
direta
entre mercado ele
e de crise cconô-
n:ica, como o atravessado pela Inglaterra a partir dos primeiros anos da
decada ele 1970, correspondeu um incremento vertical das taxas de encarce-
rmnellto a uma maior punitividade do
A "radical" [ ... ] afirma que desemprego e encarceramento
estão mas ao invés de olhar a criminalidade e as condenações
como elementos de mediação entre as duas, ela concentrou-se na visão
de que "o produz criminalidade" e nas maneiras pelas quais
esta crença mt1uencla direta ou indiretamente as decisões elas cortes
os pareceres dos sociais c as da -\7 '
que pinUlll1 o
llcnte c CIIl de às cl'
. I" ,)
caplta ,.e e.stender a observação ao conjunto dos fatores ideológicos e cultu-
que InCIdem a relação entre economia e pena
4il
. O sistema punitivo
nao guarda autonomIa das dinâmicas ideológicas da sociedade: as instituições
e.. Crisis ane! lhe Rising Prison Population in Enb"land
and Wales", C IS' l
" ll1 rtlllC .al1G oela Justice, 17, 1982, pp.20-35; S. Box e C. Halc,
Unemp!oyment, Impnsonmenl and Prison Overcrowding", in Call1el11pora
r
v Cri-
ses, 9, 1985, e S. Box e C. Hale, "Unemployment, Crime and Imprison-
ment, and lhe Endunng Problem of Prisons Overcrowding", in R. Mathews e J.
Young (ed.), Cal(frontinfJ Crill1e. Londres 1986 !J!1 7')-99' C H'lle "E
• ,. L -,' , ,_. ___ , • (,. ,
PUl1lshmcnt and Impnsonment , ll1 COlltcmporary Crises, 13, 1989, pp.327-349.
47 S. Box. Crime and PliIlishmcnt. Londres McMillan EdllC'Hion
1987,p.158. ' L ,
4R Para .alguns. exemplos eleste "col1spiraciol1ismo", ver os trabalhos já citados de
Jankovlc, c Wallace e mais os seguintes: R. Vogel, "Capitalisrn and
111, Montlz(v vol. 34, lO, 1983, pp. 30-41; M. Colvin,
the Surplus Populatlon: lhe Lalent Functions of Imprisonment anel
We.lfare 10 Late U. S. Capitalism", in B. D. Maclcan (cd.). Thc PoliticaI Ecollom)' af
Cnme. Ontano, Hall, pp. 154-165. Para uma perspectiva
C. P:dél!;lS0n, Toward a J'vIarXIaIl Pcnology: Caplive Criminal Population as
Economlcs rhrcats and Resources", in Social Problems, vol. 31, 4, 1984.
54
do "Estado penal" eo-dividem e estereótipos dominantes, que,
por sua vez, são afetados pelas condições da economia. Agindo de modo
particularmente punitivo para eom as classes subordinadas, os operadores
do sistema penal não a necessidades abstratas do capital, das
. 11"lS e' Que eles tenham eles se limitam, isso qUaiS, 1,., . '1
a tomar dcci de acordo com sobre a
questão criminal e sobre as para enfrentá-la, entre elas a idéia de
que quem vive em de pobreza e preeariedade está mais inclinado a
cometer crimes.
A entre descmprego e encarceramcnto é por conseguinte,
por uma percepçâo da marginalidade social como ameaça à ordem constituída,
que se torna hegemónica nos períodos de crise económica:
Quando a crise económica se agrava, o Poder Judici<''irio manifesta
crescente preocupação com a possível ameaça à orderTl social, pro-
veniente til: , dos homens
rnais do das dos
negros mal do que í ... L e
aumentando o recurso ao encarceramcntu, sobretudu no de
delitos contra a na va de que uma
deste tipo tenha um efeito inibidor e incapacitador, e que, em conse-
49
qüência, possa neutralizar a ameaça .
o limite da economia política da penalidade fordista
Começa, assim, a delinear-se aquilo que nas primeiras páginas se anunciava
como o limiTe da economia política da penalidade. A tradução dos conceitos
de estrutura social e pena, nos termos ela relação entre desemprego e encar-
ceramento, que constitui uma constante ela criminologia marxista, restringe
indevidamente o campo de observação da relação entre eeonomia e dispositivos
de controle. As transformações que afetam, sobretudo a partir dos primeiros
anos da década de 1970, os dispositivos de controle da sociedade conte111-
porànea, não podem ser referenciadas apenas às mutações do mercado
trabalho e às taxas de desemprego. Na verdade, elas não constituem mms
uma representação adequada da dinâmica capitalista atual.
Em outras palavras, a evolução recente das tecnologias de controle
deve ser inserida no contexto dos processos de mutação que perpas-
------------------------------------------
49 S. Box c C Bale, "Uncmployment, Imprisonmcnt and Prisol1 Ovcrcroweling",
cit.,p.2l7.
55
san: a social" no seu conjunto. Estamos falando pois das
do trabalho, das formas de organização da ão
,modaltdades de exploração da força de trabalho
orem, do mesmo modo, deve-se também frisar que as taxas de
que certamente constituem um indicador plausível d
de um sistema penal, não são uma exemplificação exaustiv:
as de controle social que vemos desenvolver-se.
compreender em que sentido a economia olítica d'
penalidade fordlsta se revela inadequada para desc . , f p < a
d t'" < rever <IS ormas de produção
Ae su que_se delineiam no horizonte do controle social pós-fordísta
,s suas nao levam em conta os processos de transforma ão d .
h1rmtando-se à observação do tratamento penal do deSempr;go dOo
nao-tra a ho". '
O que devemos nos pergul1t . ' '" . ar e se este reduclOnismo" está f
tlvmnente presente na pe f e e-
R . I K' . . rspec lva materialista originalmente definida por
que
Poder-se-h ' .' cnmmo ogIa marXIsta?
, ., • < ate a margem extrema do ismo
ate o ponto de consecução da '. f d' . . ao pos- 01' lsmo que redesenha
em seu conjunto, a estrutura material da produção à qual a . . '
política da pena d" T < economIa
. se Inge. entamos, pois, aproximar-nos deste limiar
por um segundo ao paradigma de Rusche e Kirchheimer
de seus elementos que a criminologia marxista re
cen e parece deIxar parcialmente de lado. -
Nas páginas .iniciais de Puniçc10 e estrutura social propõe-se uma defini ã
geral do elo eXIstente entre relações de produção e c d _ ç o tormas e repressao:
Todo modo de produção tende a descobrir formas punitivas ue
às próprias relações de produção. É, pois, necessirio
anahsar a ongem e. o dos sistemas peRais, o uso e o abandono
de certas penas, a mtensIdade das práticas punitivas, assim como se
feno} menos pelas forças sociais, in primis
p r aque as economIcas e fiscais .
no citado artigo de 1933, Rusche individualizava, como
, .' as .m ,as contmgentes de transformação deste elo nas form -
SOCIaIS capItalIstas. açoes
50 Rusche K' hh' . e Irc elmer, Pena e struttura cit., p. 46.
56
No primeiro caso, delineia-se uma correspondência histórica e tendencial
. t;ntre relações de produção e sistemas de controle. No segundo, ficam claros
os termos em que esta relação se artícula ciclicamente diante de determinadas
circunstâncias históricas. Ademais, o princípio da less eligibility constitui,
de certo modo, o nexo de continuidade entre as tendências históricas de
longo prazo e as contingências particulares da relação. Independentemente
das situações específicas, tal princípio define as fronteiras nas quais a condição
de quem se submete voluntariamente à ordem constituída deve, em geral,
parecer preferível à de quem é punido por tê-la infringido,
Três elementos me parecem merecer aqui particular atenção. Em primeiro
lugar, a relação entre estrutura social e penalidade é dinâmica. Tanto de um
ponto de vista histórico quanto do da análise do presente, a relação se inscreve
num processo de contínua transformação que recusa qualquer representação
estática. O objeto da análise é constituído pela relação entre estrutura social
e formas de controle, respectivamente nas suas macro-trajetórias históricas
e nas suas micro-trajetórias cíclicas
s1
. Em outras palavras, se a análise da
história soei aI pré-capi talista e capi tali sta nos permite afirmar que cada sistema
de a formas de punir que correspondam às
relações de produção, a sobre o contexto capitalista nos permite
detectar as linhas ao longo das quais correspondência se modula de
quando em quando, em consonância com a mudança de determinados fatores
econômicos e sociais.
Além disso, a relação se revela complexa e tendencial. Por conta disso,
não é possível estabelecer uma ligação definida e irreversível: os termos nos
quais a relação se articula estão sujeitos a uma redefinição contínua, que
depende de circunstâncias políticas, sociais e culturais. Rusche fala expli-
citamente de correspondência entre sistemas de produção. e formas de punir
como uma tendência de longo prazer; e de forças sociais que influem sobre
aquela con·espondência. Enfim, o princípio da less eligibility não é traduzível
em um nexo imediato entre indicadores econômicos e indicadores penais, e
menos ainda, conseqüentemente, na simples relação entre taxas de desemprego
e taxas de encarceramento. É a situação do estrato proletário mais carente
que constitui o limite externo a qualquer reforma do regime penaL Isso significa
51 Sobre a necessidade de distinguir as "macro-trajetórias" e as "micro-trajetórÍ-
as" da relação entre economia e penalidade, ver sobretudo D. Melossi, "Punish-
ment and Social Action: Changing Vocabularies ofPunítive Motive Within a politicaI
Business , in Current 011 Social Theory, VI, 1985, p. 186.
57
que, l:a das nas quais a less eligibility opera, outros
fatores SOCIaIS ll1tervem para delInear a condição do proletariado e a sua
relação com o regime penaP2.
:Vale dizer que a expressão "a situação do estrato proletário mais baixo
socIalmente significativo" requer uma interpretação muito mais extensa do
que a permitida pela ao ou ao mercado de
Ela rc.mete, na realidade, à composição da força de trabalho, às formas de
da p:'odução e às de classe. em seu conjuntoS3 • Isto é,
mtroduzlr no nexo entre estrutura económica e controle social aquele
de transformações da produção que, ao definir a condição conjunta
da torça de trabalho contemporânea, inscreve este nexo no universo dos
modos de organização do trabalho, de governo, do conflito de classe e de
gestão da marginalidade social.
Podemos. então ampliar o horizonte do princípio da less eligibility e situá-
lo na encruz!lhada entre mercado de trabalho, governo do social e
Os dois meiros dctcrminam a I
(O estrato
que, por sua define o de das
de isso significa il também a vertente da
entre economia e pena. Não é de fato possível definir a "sianificat'-
vldade social" dos estratos marginais se não se levar em conta ta;bém ;s
ideológicos e culturais mediante os quais o "valor social" dos
dlversos segmentos da força de trabalho é socialmente definido.
. :-- esse ponto, torna-se possível desenvolver linhas interpretativas que não se
J ImItem a fornecer uma racionalização a po.'ite riori da correlação estatística entre
e encarceramento, mas que, ao contrário, coloquem estas COf-
entre os processos de mudança da ecol2Pmia em seu conjunto. Melossi
que estes processos têm um andamento cíclico e, por isso, refere-se a
polItIcai busÍness cycles:
52. Ver, este ponto, R. Lévy e H, Zander, "Introduction", in Rusche e
Klrchhelll1er, Peine et structllre sociale. Paris, Cerf, 1994. .
53 e a sustentar que o desemprego represen-
tana paI a. Rusche uma categona vlttual", mais do que uma entidade real e concre-
Com ISSO, OS autores pretendem, uma vez mais, evidenciar a importância da
dUl1ensã I' . . I '. .
o. po ltICO-SOCIa tanto no que dIZ respeito as transformações históricas
c?ncelto da less eligibility quanto no que concerne à noção de "correspo _
tendencial" entre relações de produção e pn'íticas penais. . n
Vet Wacquant, Parola d'ordille: tolleranza zero, ciL
58
O conjunto das condições SOClUIS e políticas associadas ao ciclo
político-económico não é determinado por este nem lhe é secundário.
Ao contrário, são essas que tornam possível o seu desenvol-
vimento, Em outros termos, o vínculo entre ciclo económico e fe-
nómenos político-sociais correlatos não é o produto de "leis" econó-
micas que sobredeterminam o valor de outras
vanaveís sociais. Ao contrário, o vínculo é resultado da obra de
atores sociais cUJo a interacão faz tluluar os indicadores económicos,
-> 55
seguindo uma trajetória quase oscilante .
A sucessão destcs delos redefine continuamente tanto os termos da relação
entre economia e penalidade quanto, e sobretudo, as formas de construção
social da própria relação, as quais se traduzeni por urna demanda social de
severidade penal e de intransigência para com o desvi 0 56. Em outras palavras,
durante os períodos de económica, de aumento de desemprego e
deterioração das condições de trabalho, entra em cena uma nova
Uma quc se mostra severa para com os fenómenos de desvio e
constitui terreno fértil para as de Imv aml orc/er
elites no . Este "clima moral" difuso na sociedade ser considerado
como o tcrmo de mcdiação entre dinâmicas da economia e práticas de controle:
A relação entrê economia e encarceramento não deveria ser concebida
como diretamente causal. Antes, dever-se-Ía conectar a mudança
económica com o clima moral que costumeiramente a acompanha,
admitindo que as orientações empreendidas pelas partes envolvidas
no conflito económico estejam profundamente relacionadas a atitudes
57
sociais mais gerais e historicamente determinadas .
Em períodos de crise económica, a criminalidade se torna o tema privile-
giado do discurso público, permitindo assim às elites políticas catalisar, sob
55 Melossi, "Punishment and Social Action", CiL, pp. 179-180.
56 "Tempos de depressão económica são também tempos de punição. Os políticos
deploram os hábitos imorais e dissipadores dos tempos passados, o aumento
espantoso das atividades criminosas e desviantes, a falência dos laços
institucionais e morais da sociedade. Às suas palavras fazem eco os m(us media
[ ... 1 Diz-se que os trabalhadores tenham passado o tempo a desperdiçar os seus
grandes salários e agora se pede a eles que, na austeridade sem brilho da sua
nova condição de desempregados, se arrependam. Agora é tempo de traçar uma
linha. É tempo de punir" (idem, p. 181).
57 D. Melossi, "Introduetion", The Sociology of Pllilishment. Socio-Structural
Perspectives. Aldershot, Ashgate, 1998, p., xxiv.
59
a forma do "pânico moral" produzido pelo aumento da criminalidade, inse-
guranças e medos cuja origem se situa mais longe do que nunca do seu
objeto imediat0
58
• Os processos de definição do desvio mudam radicalmente
de sinal durante os ciclos político-económicos recessivos. A práticas discur-
sivas sobre o fenómeno criminal que exaltam o respeito pela diversidade, a
importância da integração social dos desviantes e o papel ressocializante do
sistema punitivo, linguagens orientadas para a defesa social, a
neutralização do inimigo público e a necessidade de zerar a tolerância para
com o crime.
Quando falamos de ciclos de depressão económica, referimo-nos a um
conjunto de fatores que pertencem à esfera da economia sem, porém, esgo-
tar·-se no dado estatístico do desemprego. Para deflnir este conjunto de ele-
mentos, Melossi introduz o conceito de pelforl1lonce, que remete às condi-
ções gerais de trabalho, aos níveis salariais, aos padrões de vida e aos níveis
de exploração impostos pelo capital aos setores marginais da classe operária.
Os ciclos político-económicos em que se difunde o clima moral punitivo e a
de massa das classes
da
são caracterizados por uma
de trabalho:
Dever-se-ia estabelecer urna ligação direta entre a demanda ampliada
de pelformonce dirigida à classe operáçia e o aumento da pressão
penal sobre os estratos mais marginais da sociedade (a undercloss).
Esta pressão cria um efeito de "frustração social" que leva todos a
trabalhar mais, especialmente aqueles que estão tão próximos do
fundo asfonto de poder sentir os urros e os lamentos de quem é
surrado .
Voltamos assim à função subalterna das instituições de controle na orga-
nização capitalista do trabalho. O princípio da less eligibility sustenta e re-
força, mediante uma ameaça repressiva crescente, a demanda de pelformonce
que o poder económico dirige à classe operária. Como já acontecia nos albores
do sistema de produção capitalista, °objetivo seria constranger à disciplina
aquelas fatias do proletariado marginal que se mostram mais recalcitrantes
58 Idem, pp. xxv-xxvi. Sobre a insegurança e o medo como categorias existenciais
que definem a experiência do "cidadão global", ver Z. Bauman, La società
dell'incertezzo. trad. ít. Milão, Feltrinelli, 2000.
S9 D. "GazeUe of Morality and Social Whíp:
the Case ofthe Usa, 1970-1992", Ín Social &
60
para com as condições de precariedade e insegurança
impostas à força de trabalho pos-fordlsta.
Atingimos aqui o limiar extremo da economia política da. penali.dade fordis:a
, 1 . os referíamos anteriormente. Relendo Rusche e KIrchhelmer, atraves
aqua n . . 1"
das hipóteses de Melossi, acompanhamos esta corrente
xista até °declínio do fordismo, isto é, até a crise da economIa mdustnal
taylorista e a intensificação da pressão sobre a classe que
acompanhou o desdobramento desta cnse.
Aaora nos encontramos no limiar. Atrás de nós, o universo económico
da fábrica e o cárcere disciplinar, analisado pela economia política da à
nossa frente, a crise desse universo e um processo de
relações de produção em. curso que redesenha, em a
.da força de trabalho contemporânea, arrastan?o CO.11.S1
g
0 o regime dIsclplma:
e a estrutura da relação entre produção e dISPOSitIVOS de controle que ate
agora procuramos descrever.
61


s
Excesso
o
Capitulo 2
c trabalho da muUidao
o imperial e 0 res(duo negativo, a reca(da
da po/encia da 1Il1i1tich70. E /il7l parasira que
retira a sua vitalidadc da capacidade da
mll[tidao de criar sempre novas Jontes de ellergia
e de valOl: Um parasita que a
resistencia do seu ho.)pedeiro, podcndo colocar
em risco tambem a Slla pr6pria existencia.
o JWlciollamento do poder imperial esta
indissoluvelmente ligado ao seu decUllio.
M. Hardt e A. Negri, Imperio
do excesso
Antes de proceder a uma analise mais aprofundada dos processos de
da prodw;;ao e investigar as hovas coordenadas da relac;ao
entre essas transformac;6es e os processos de mudanc;a que afetam as
estrategias de controle, faz-se necessario estabelecer duas premissas.
A primeira, de ordem metodo16gica, diz respeito a utilidade do termo
"p6s-fordismo", ao qual recorro com tanta freqUencia neste trabalho. Como
dizia nas paginas introdut6rias, pas-fordismo e hoje uma expressao comum
tanto na lit;yratura economica (ao menos na nao ortodoxa) quanta no lexico
socio16gico e politico. Porem, a difusao de um termo, pOl' mais ampla que
seja, nao significa necessariamente ser sinonimo da sua eficacia explicativa e
da adequa<;ao para descrever os fenomenos a que se refere. "Pas" indica
sernpre urn processo de transic;ao "daquilo que nao e mais" para "aquilo que
ainda nao e"; isto e, denota dinamicas de transformac;6es que, se pOl' um lado
permitem pensar que nada e rnais como antes, pOl' outro nos surpreende
despreparados para clescrever a nova condic;ao em todos os seus aspectos.
sentido, p6s-fordismo e um termo que alude mais a determinadas
tendencias e ao espac;o indefinido que se estende entre 0 "nao mais" e 0 "nao
ainda", do que a consoliclaC;ao de um paradigma claramente definivel. Sera
portanto importante considerar as argumentac;6es presentes nas paginas que
se seguem como fruto da tentativa de identificar as tendencias paralelamente
63
observáveis nos universos da produção e do controle social e de explorar o
território, ainda confuso, no qual elas se desenvolvem.
A segunda premissa, ao contrário, diz respeito à necessidade de "qualificar"
o modo pelo qual é usado o conceito de pós-fordismo. O próprio fato de se
referir mais à percepção de tendências do que à identificação de um modelo
definido faz com que ele possa ser utilizado para descrever fenôme!10s diversos
entre si e muitas vezes até mesmo contraditórÍos60. Nestas páginas, o termo
pós-fordismo descreve processos de transformação do trabalho e da produção
que, sobretudo no curso dos anos 1990, situaram-se no centro do debate
político-intelectual amadurecido no âmbito do marxismo neo-obrerista
itaJian0
61
• Trata-se, certamente, de uma perspectiva parcial- mas talvez mais
útil que outras, sobretudo por sua atenção às dinâmicas de conflito que sempre
se entrelaçam às transformações da produção a iluminar aqueles aspectos
da transição pós-fordísta que parecem incidir, de modo mais significativo,
sobre o terreno do controle social.
Encontra-se, pois, em andamento um processo de transformação global
da economia que sanciona o esgotaillento do modelo il/(lllstrial fordista e
ao mesmo uma con de todo das cie
nova cnvolve, simultaneamente, os planos
em torno dos quais se desenvolveu o sistema capitalista ocidental a partir do
segundo pós-guerra. De um lado, no que concerne aos sistemas produtivos,
vemos consumar-se a progressiva "explosão" do paradigma taylorista de
organização do trabalho: a grande fábrica tende a desaparecer do horizonte
da metrópole pós-moderna. De outro, e contemporaneamente, consuma-se
a crise da estratégia fordista de regulação da dinâmica salarial, isto é, rompe-
se o círculo virtuoso que, durante boa parte do século XX, permitiu manter
e!n conjunto o rendimento operário, a produtividade social e o consumo de
massa. A tudo isso se acrescenta, tfze last but llOt lhe least, um processo de
uma interpretação "anglo-saxônica" do conceito de pós-fordísmo, ver, por
exemplo, W. Bonefeld e J. Holloway (eds.), Post-Fordism and Social Form. A
Marxist Debate 0/1 lhe Post-Fordist State. Londres, MacMillan, 1991; R. Burrows
e B. Loader (eds.), Towards a Post-Fordisl1l Welfare State? Londres, Routledge,
1994. Para uma ampla resenha do debate internacional, ver A. Amin, Post-Fordism.
A Reader. Oxford, Blackwell, 1994:
61 Os momentos mais significativos podem ser reconstruídos através das revistas
Luogo comune, DeriveApprodi, Vis à Vis e Futuro Anteriore, que
no decorrer desses anos serviram de espaço para o debate.
64
revisão radical das políticas keynesianas de apoio à despesa pública e de
intervenção pública na economia, que permitiam.
periodicamente, os precários equilíbrios das economIas capItalIstas oCldentms.
Nesse meio tempo, muda também a geografia da produção capitalista em
nível mundial. O capital não é mais apenas transnacional, móvel, capaz de
expandir-se e atravessar as fronteiras dos Estados, mas tam?ém globaL. Ele
criou um espaço de valorização sem confins, no eXIstem fronteiras,
instituições nacionais soberanas e delimitações terntonms do poder. O novo
território do capital global é o Império, um "espaço no qual c.irculam
fluxos de dinheiro, força de trabalho e informação, sUJeltos a reglmes de
controle diferenciados
62

A passagem de um regime de pleno emprego para uma condição em
o desemprego' representa um fato "estrutural", a passagem de uma economIa
> orientada para a produção para uma economia da informação, a passagem da
centralidade da classe operária para a constituição de uma força de trabalho
global (que, como veremos, assume as características c:e uma
não são fenômenos que perpassam somente os palses capitalistas
e os individualizados das suas forças de trabalho.
As profundas que ,. entre os ,. de
que prevalecem nas diferentes áreas geografIcas do .no
interior de suas províncias) não indicam, de fato, a de
diferenciados do desenvolvimento capitalista, como se estlvessemos dIante
de um modelo pós-fordista no "Primeiro Mundo", fordista no "Segund?'.' e
pré-fordista no "Terceiro". Essas diferenças são, acima de tudo, o efeIto
imediato das estratificações hierárquicas impostas à força de trabalho global
pelo domínio capitalista sobre a produtividade socia1
63
.
Limitando o nosso discurso às tendências que determinam os efeitos de
maior alcance sobre o plano da relação entre dinâmicas da produção e formas
do controle, gostaria de me deter principalmente em dois aspectos da
transformação em curso. O primeiro, que chamaria de "quantitativo", refere-
se à progressiva redução do nível de "emprego" da força de trabalh? e,
conseqüentemente, à drástica diminuição da demanda de trabalho VlVO,
expressa pelo sistema produtivo a partir pelo menos da segunda metade dos
anos 1970. O segundo, que chamaria de "qualitativo", diz respeito às mudanças
62 Hardt e cito
63
p.288.
65
ocon'idas nas formas da produção, na composição da força de trabalho, nos
processos de constituição das subjetividades produtivas e nas dinâmicas de
valorização capitalista em que elas estão imersas.
A entre estes aspectos da nos permite descrever a
do fordismo ao como a passagem de um
carência desenvolvimento de um de estra-
orientadas para a disciplina da carência) a um regime produtivo definido
pelo e).:cesso Ce conseqüentemente, pela de orientadas
para o controle do Seria, de todo impróprio pensar que
estas duas tendências (redução do trabalho necessário e mudanças nos pro-
cessos de produção) se manifestem independentemente uma da outra, como
se fossem os extremos opostos da transição pós-fordista. Ao contrário, elas
se inscrevem conjuntamente numa força de trabalho social afetada, con-
juntamente, por processos de transformação cujo efeito principal é exata-
mente a crise de um conjunto de disti cOllsolidadas. Pense-se nas dis-
ti entre trabalho e entre produção e entre
comunicativo.
de descrever estas tendências e os seus efeitos separa-
porque isso nos permitirá, por um lado, esclarecer em que sentido
se pode dizer que o pós-fordismo inaugura um regime de excesso e, por
outro, identificar o sujeito de tal excesso, a nova força de trabalho social,
aquela multidão produtiva sobre a qual, como veremos, se recortam as novas
estratégias do controle.
O excesso negativo
O primeiro dado, portanto, é que a economia pós-fordista parece depender
cada vez menos da quantidade de força de trabalho diretamente empregada
processo de produtivo. A introdução de novas-tecnologias (principalmente
mfom:áticas) diminuiu progressivamente o quantum de trabalho vivo neces-
sário à valorização do capital, até reduzi-lo a um mínimo:'
O progresso tecnológico informático não amplia a produção, mas a
reestrutura e a modifica através de um constante incremento de flexi-
bilidade. Tudo isso não cria emprego, mas, ao contrário, o destrói,
O desemprego não é mais, portanto, um fenômeno puramente
. I' 64
conJuntura, mas snn estrutural .
64 A. Fumagallí, "Aspettti dell'accumalazione flessibile in Italia", in S. Bo!Oglla e
A. FumagaIli Corg.), !l lavoro autollomo di seconda generazione. Scenari dei
posfordismo in Itália. Milão, Feltrinelli, 1997, pp. 137-138.
66
Este processo teve início no começo dos anos 1970 e constitui, por um
lado, a resposta capitalista à recusa operária da disciplina de fábrica, à
insubordinação e ao absenteísmo, à do trabalho assalariado
expressa pelos movimentos revolucionários dos anos 1960; por outro lado, a
reação do sistema empresarial e à dos
de bens
Já na metade dos anos 1980, a fábrica fordista se apresentava como um
deserto no qual o ecoar e das máquinas ao longo da
linha de foi substituído por
"inteligentes", que a de poucos
crescentes da de trabalho, expulsas dos contextos produtivos cm
reestruturação, foram, assim, alimentar ó exército da população desempregada,
não empregada e subempregada, ou preencher os vários nichos do setor
terciário, aqueles âmbitos complementares ao compartimento industrial, cada
vez maiS zados ade dos
dos rendimentos,
o
de incerteza, a
nibilidade absoluta à e as novas que se tornarão um
aspecto existencial, estrutural e paradigmático da nova força de trabalh0
68
. A
restrição dos espaços de acesso ao emprego regular, sobre o qual converge
o ataque político aos direitos sociais, produz uma hipertrofia das economias
submersas, dos circuitos produtivos paralelos aos quais aqueles que não têm
65 Pam uma análise (voltada para o caso italiano) da crise do paradigma fordista,
que leva em consideração tanto os aspectos ligados ii conflitualidgAe do trab.alho
quanto às disfunções internas ao sistema fordista derivadas da sua e, ainda,
às dinâmicas de saturação dos mercados que, posteriormente, aceleraram os pro-
cessos de reestruturação, ver mais uma vez Fumagalli, "Aspettti deli' accumulazione
flessibile in Italia", ciL
66 Uma descrição fascinante do processo de reestruturação que ocorreu na
partir dos anos 1970 e sobretudo dos efeitos sobre a subjetividade operária fOI
feita por M. Revelli, Lavorare ln Fiat. Da Valletta ad Agnelli a Romiti. Opera!
sindacati robot. Turi 111, Garzanti, 1989.
67 A. Gorz, Miserie del presente. Ricchezza dei possibile, trad. it, Roma,
Manifestolibri, 1998,
6" . "1' 'I" "d I" 1se"'uro !Jrecário
'o Para uma reconstrução dos efeitos )logra ICOS este c eVlr 11. b ' . .
e flexível, ver R. Sennct, L' Homo jZessibile. Le cOllsegllenze dei /lliOVO capitalis-
mo sulla vira personale, tmd. it. Milão, Feltrinelli, 2000.
67
garantia são obrigados a recorrer para se assegurar de fontes alternativas de
renda, Setores inteiros da produção começam, assim, a apoiar-se em mercados
não regulados, não tutelados, muitas vezes no limite da legalidade, em que
domina o trabalho intermitente, temporário, flexível às exigências contingentes
de empresas que, de acordo com a filosofia do just IIZ time e da lecm-pro-
duction, contratam fora fases isoladas do processo de produção, É a rees-
truturação do setor industrial que determina estes processos,
produtiva, descentramento, outsourcing, downsizJllg e terciarização deses-
truturam a força de trabalho operária, fragmentando-a cm um arquipélago de
trabalhadores atípicosó
9
.
Diante de uma verdadeira "deflagração" do trabalho, de uma recolocação
abrangente da produtividade social entre prestações ê ocasionais"
trabalho negro, interino e intermitente, diante da passagem de um trabalho
percebido como evento biográfico "narrável" para um trabalho vivido como
"fragmento", como necessidade do hoje, urgência do momento, bem, diante
de tudo isso ainda é possível definir o desemprego como falta de trabalho?
Na isso ljue temos o costume de chamar de
mui à falta de
emprego entendermos um conjunto de acesso a
detenninadm garantias, titularidade de um conjunto de direitos socialmente
reconhecidos - do qual o pós-fordismo expropriou a totalidade da força de
trabalho contemporânea. Talvez o "desemprego" então se configure hoje
mais propriamente como a abolição do "trabalho" específico, próprio do
capitalismo industrial, do trabalho ao qual nos referimos quando se diz que
uma mulher "não tem um trabalho" e dedica o seu tempo a criar os filhos, e
que "tem um trabalho", quando dedica apenas uma fração do seu tempo a
criar os filhos dos outros
70
.
Nesse sentido, o conceito de desemprego atravessa uma radical mudança
semântica (que, entretanto, afeta diretamente o plano da experiência social).
O desemprego deixa, de fato, de ser associável à idéia de "i natividade" para
se tornar uma medida oficial da fratura entre as inumeráveis "atividades"
69 Para uma análise dos efeitos de fragmentação e perda de segurança (econômi-
ca, cultural e existencial) que acompanha a transição do trabalho operário às
novas formas de trabalho "atípico", ver S. Bologna, "Dieci tesi per la definizzione
di uno statuto dei lavoro autônomo", in Bologna e Fumagalli (org.), Il lavora
autol1omo di secollda cit., pp. 13-42.
70 Miserie dei presente. Ricchezza del cit., p, 10.
68
d
. . st é aquelas que remetem à noção de trabalho no sentido
pro utlvas - I o , , , -' 1 'd
, ' ' d teI'mo _ nas quais os indiVIduas estao cont1l1uamente envo VI os,
propno o, ,.' 'h . d
e o limite imposto pelo sistema capitalIsta, a fun de que seja recon eCl o a
t
' 'dades o valor social de "trabalho". Em outros termos, o desemprego
essas a IV1 . l 1-
se configura como a margem de excesso da p,rodutividade em a?ao
, _ i'f'cial entre trabalho e emprego Imposta pelo dommlO capitalista
a separaçao mIl • < - ' • 1
, . d d O desaparecimento do emprego nao eqUlva e,
a SOCIe a e / f d'
na verdade, ao desaparecimento do trabalho. no pos- or o
trabalho, entendido como um conjunto de ações, :
d
' cad'l vez Inal'" até integrar toda a eXlstencla socw1.
pro utlvas, < < " <. ,-
Aquilo que experimentamos, efetivamente, é uma radIcal do
trabalho, assim concebido, de um sistema de governo dos dIreitos e da
cidadania ainda profundamente ligado ao conceito fordista de emprego,
A imposição da sociedade salarial se configura, como
articulação do nexO entre trabalho, e A do
acesso ao trabalho enquanto "emprego" excltll da cldar/al/w Cles-
centes de propriamente enquanto trabalhador (lSlO e,
1
como
ee
suficiente para ter acesso a uma
Delineia-se, nesse momento, uma profunda o
do direito à cidadania, à inclusão social e ao e a
trabalho, entendido como emprego, que não tem mms uma
Se até a segunda metade do século XX foi possível cOI:Stl:mr a cldadama
como conjunto de direitos do trabalho n:ediados .pelo d,uelto. ao
direitos que o compromisso fordista garantIr ,a
do ciclo trabalho_salário-consumo-cidadama, agora esta dmanuca nao e maiS
ímyginável. , ' ,
Emergem, assim, os primeiros contornos que.
regime do excesso, Excesso significa, neste sentIdo, que a dl:mrr:lca a
contemporânea excede
atribuição, reconhecimento e garantia da cldadama SOCIal. A CrIse do p
71 Ver por exemplo A. Gorz II lavoro debole. Oltre lc; società salarial
e
, trad. dit.
, , , o problema a
R L ro
1994 Porém é preciso não esquecer que mesmo
oma, avo, ., .' , t balho com
falta de reconhecimento de determinadas prátIcas SOCIaiS como . < ,
. , d 'd d ' conStitUI um terreno
tudo aquilo que daí deriva em termos de dIreIto e Cl a ama, .' tOdo
. ' d 'b lh Pensemos neste sen I ,
de conflito constante entre capital e força e tra a o. ' ' , . . recO-
. ' _ 1 d trabalho e nas lutas para o
nas críticas feministas da dlvlsao sexua o
. b II como trabalho
nheclll1ento do tra a 10
69
fordista-keynesiano e do Estado social que fora construído sobre aquele
pacto resolve-se numa crónica i nadequação por parte das instituições de
governo da sociedade cm garantir inclusc/o por meio do trabalho. A
entre constituição material da sociedade e formal das
é máxima. São todas as margens de entre
trabalho e O que permanece é um contínuo excesso da
durante o
institucionais destinados a
de governo da sociedade,
a exclusão social e a existencial eram a
de um déficit, de uma inadequação dos indivíduos para
com um sistema que, todavia, tinha garantir, graças aos
instrumentos políticos de mediação da relação entre economia e sociedade,
inclusão e cidadania virtualmente universais, hoje isso não é mais possíveL
instrumentos de medi parece haver
Do ponto de vista capitalista, podemos dizer que o Welfare State pertence
à fase histórica na qual era o capital que se manifestava como excesso sobre
a força de trabalho, O desenvolvimento histórico do capitalismo industrial
fordista necessita de aparatos de governo da população e de dispositivos de
controle social que permitam elevar ao nível das relações de produção uma
força de trabalho "carente", inadequada, relutante, Vimos, a propósito do
papel exercido pela prisão na produção do proletariado, que eram as carências,
as insuficiêneias, além da rebelião da força de trabalho, que se procurava
controlar, sob o manto da cooperação produtiva, do autocontrole dos
indivíduos, da capacidade de inserção no processo produtivo. Nesse mesmo
cenário se inscrevia também a lógica profundamente disciplinar do Welfare
State, que permeava todas as instituições sociais, em primeiro lugar a prisão,
Este tipo de dispositivo disciplinar cai por terra agora, e é o que se
mostra carente em relação a uma força de trabalho tornada flexível, nômade,
móvel: multidão, A multidão produtiva excede as relações de produção
capitalistas no momento em que vive diretamente a il1adequação do conceito
de trabalho-emprego e experimenta em si mesma a violenta negação dos
direitos de cidadania provocada por esta inadequação, Nesse sentido, podemos
falar aqui de um excesso negativo, evidenciando, por um lado, os efeitos da
70
- d 'u do poder e do que este excesso determina
exclusao a VlO enCh
, d' b lh e por outro o fato de que, neste processo, o
força tI a a o , 'negado, Isto é, este domínio se
domll110 do capital com a força de
revela em toda a sua
trabalho
o excesso
quea
da
do trabalho humano à , A
um aspecto da transfounaçao em ," , sobre os
incide, de fato, diretamente sobre as propnas do t 'do da prestação
processos de organização que a e o que o trabalho
t b' 1110 Desse de "qua ltatlvo ,
ue ra ci ' ., aI
tende a , , '
, " nado se tOln,u
d
' a relação 111stonca com um
a su , d' f' 'I te pode l'esolver-se no
, ' ,t criatiVO que I ICI men
pelformance comumeatlva, a o ." da lntureza"
ob'eto imediato do , momento produtivo que ena uma c
(aJvirtuan, ao invés de limitar-se a transformar o mundo natLllu:, ,
S
- e o tavlorismo como sua tradução orgamzatlva - se
e o c '" _ ,,' ';' direção do trabalho e
fundava sobre uma nítida separaçao entre cllaçào,. 1 h ,', tal fazendo
execução da tarefa, o pós-fordismo parece tornar este CIC o
da inovação e da criação os fundamentos de todo processo pro ' , ,
- ' A' ca ao longo das ftleu as
A repetição das operações, a coordel:açao Sll1CrOl:l. '- ';' ',f r uica são
produtivas pré-constituídas a partir ele cima e a subordmaçao na
tay lorista do trabalho que tendem a per er c ,
72 Essa vertente' é em si mesma controvertida: caso 'd ;-) emergem setores
- d d t rminados 'lmbltos ela pi o UÇdC
progressiva automaçao e e e . , . d terciário desqualificado)
a estes em to o o , '''t' 'o)
muitas vezes _ ". . , (ens",se no Sudeste àSla lC ,
ou até mesmo em "sistemas de produçao lntelloS p . .
em que a automação é quase inexistente, , "" d' 1993' e B.
" -[/ t tnd it TUrim, Emau 1, '
73 Ver sobretudo T 011no, Lo splnto 0)'0 a, < .' , jJrassi deZ modelo
, I' . IFiollC del favaro, e
Coriat, R/pe/lsare
giapponese, tmd, it. Bari, Oedalo, 1991.
empresa flexível pós-fordista. Ao contrário, eles representam verdadeiros
obstáculos à produtividade. A interdição imposta aos operários de se
comunicarem, que na fábrica fordista era sistematicamente acompanhada da
injunção de incrementar o rendimento conjunto dos mecanismos através de
parcializadas e perfeitamente sincronizadas no tempo e no espaço,
cede agora a vez para a do trabalho Illllltiskil/ed, cujo requisito principal
é exatamente a de não se repetir nunca, de não de
acordo com uma ordem predefinida:
Na da manufatura e depois o longo apogeu da fábrica
fordista, a atividadc de trabalho é muda. Quem tnlbalha, cala. A
produção é uma cadeia silenciosa, na qual é admitida apenas uma
relação mecânica e exterior entre antecedente e conseqüente, ao
mesmo tempo em que se impede qualquer correlação interativa entre
simultâneos ( ... ) Na metrópole pós-fordista, ao contrário, o processo
de trabalho material pode ser descrita, empiricamente, como conjunto
de atos lingUísticos, de interação simbólica.
Em parte, [isso ocorre] porquc a do trabalho vivo se
agora, ao lado do
c mas o
processo produtivo tcm com0
7
:'matéria-prima" o saber, a informação,
a cultura, as relações sociais .
O trabalho se torna lingüístico na medida em que a comunicação se toma
(sob a forma da mercadoria-informação) e o imelecto, entendido
como conjunto de faculdades comunicativas, expressivas e inventivas, torna-
se o /lOVO utensílio da produção Assim, os tempos e lucrares
que na sociedade-fábrica separavam o universo da produção da esfe;a da
reproduçãó são desestruturados: o trabalho, progressivamente, retira-se do
perímetro da instituição fechada. Ora, a produtividade não depende mais
tanto de uma gestão racional e economicamente eficaz dos recursos internos
à (dos seus fatores produtivos imediatos) quanto da capacidade
empresanal de colher, compreender, decodificar fluxos de conhecimento
resíduos de experiência social difusa - tais como modos, linguagens,
de relação (aquilo que se define como "externalidade posítiva") _ e conferir-
lhes valor. Nesse com à nova de trabalho imaterial,
torna-se cada vez mais problemática uma real separação entre tempo de
"Lavara e
p.181.
, in Zanini e Fadini
Lessico
72
trabalho e tempo de não-trabalho. De um lado, na realidade, o tempo de
reprodução da força de trabalho imaterial torna-se tempo diretamente
produtivo, uma vez que a empresa pós-fordista confere valor a competências,
habilidades, atitudes que se desenvolvem (ou melhor, que se constituem)
sobretudo durante o tempo de "não-trabalho". Por outro lado, o trabalho
imaterial se caracteriza exatamente como processo de produção daquelas
relações e comunicativas nas quais se desenvolvem competências,
habilidades e atitudes a serem valorizadas.
O devir lingUístico do trabalho traduz-se, assim, em produção de sentido,
comunicação e laço social, i.e., em produção de subjetividade, em modo de
subjetividade. Dissolve-se, destarte, a distinção tradicional entre estrutura
material da sociedade - entendida como universo da valorização capitalista
das subjetividades e superestrutura - entendida como universo de formação
daquelas mesmas subjetividades. Nas palavras de Negri e Hardt:
A superestrutura colocada trabalho e no universo em que vivemos
é um universo de redes lingUísticas produtivas. As linhas da produção
se cruzam e se confundeln !lO mesmo contexto
( ... ) da
as evoluem de
o capital constante tende a ser constituído e representado no interior
do capital variável que está nos cérebros, nos corpos e na cooperação
• 75
dos sujeitos produtIVOS .
Um exemplo significativo dos processos que estamos descrevendo é
representado pelo "logo"76. Na economia pós-fordista dos signos, o logo não
é mais apenas uma marca que permite distinguir um produto de outro, idêntico
mas de fabricação diversa. Ao contrário, ele encerra o valor lingUístico ou
imaterial do próprio produto, torna-o parte de um estilo vida e faz dele um
medillln da comunicação social. O logo contém em si uma experiência relacional
- veicula e produz subjetividades. Mas o que faz dele um dispositivo de
75 Hardt e Negri, Impero, ciL, pp. 356-357. Ver também M. Lazzarato, Lavoro
immateriale. Forme di vira e produzione di soggettività. Verona, Ombrecortc,
1997; P. Vimo, Mondanità. L'idea di "mondo" {ra sensibile e s/era
pubblica. Roma, Manifestolibri, 1994.
76 Ver, naturalmente, N. Klein, No Ecollomia globale e Illlova contestaziolle,
trad. it. Milão, Baldini&Castoldi, 2000 do T.: edição brasileira Sem A
tirania das marcas em Hill vendido. Rio de Janeiro, Record, tradu-
de
73
produção de subjetividades é precisamente o fato de que ele mesmo é o
resultado da valorização de subjetividades. Em outras palavras, para ser eficaz
- isto é, produtivo -, o deve poder captar, arrancar e interceptar
determinadas formas da relação social e valorizá-las como atributo de um
É nesse sentido que a empresa sta se caracteriza como
que valoriza fluxos de linguagem, símbolos c
transformando-os em mercadorias. Mas isso que a empresa valoriza
diretamente a esfera da do da existência social:
se consuma o fim da disti
da sociedade.
entre estrutura material e
De outra é a vida inteira a ser ao a do
momento em que são as faculdades humanas mais comuns que constituem
o núcleo da produtividade pós-fordista: capacidade de linguagem, faculdade
de expressão e invenção, propensão à comunicação e à afetividade.
A
Sea e a relacionalidade se tornaram elementos
constitutivos da produtividade, a cooperação social representa certamente a
sua forma de realização. Compreende-se, assim, por que o processo de
produção depende cada vez menos de prestações singularizadas às quais o
comando capitalista pode impor uma organização racional do alto, como
acontecia na fábrica taylorista. A cooperação produtiva entre os do
trabalho pós-fordista se furta a qualquer lógica disciplinar que pretenda vinculá-
la a uma repetição, a uma sincronização, a uma ordem cuja é antitética
ao processo de comunicar. A rede substitui a linha de montagem. A
em rede obtém e valoriza uma cooperação que se produz de baixo e se alimenta
de trocas lingüísticas e simbólicas, com relação às quais qualquer forma de
organização rígida representa um limite que dificulta o seu livre fluir.
Mas se isso é verdade isto é, se a produtividade do trabalho depende
cada vez mais daquilo que, no passado, seria definido como o universo do
nâo-traballlO, e se além disso é a cooperaçâo (e não a competição) entre os
sujeitos que constitui o pressuposto material deste sistema de produção -,
então, ao lado da crise das categorias tradicionais de que vimos falando,
perfila-se também a da "lei do valor". Quer dizer, do projeto capitalista de
medir, através do tempo de trabalho, o espaço do desenvolvimento humano
que permite à produtividade social exprimir-se. Torna-se impossível quantificar
74
. te o tempo e os recursos necessários à reprodução do utensílio
economlcamen / ' . 77
de trabalho hegemônico na produção pos-forchsta, o mtelecto . .
Marx prevê as transformações que vemos .desenvolver-se e a
nova capacidade produtiva social como generalmtellect. O !I1tellect
é, de acordo com a uma nova
emerge à
social:
O desenvolvimento do capital fixo mostra até que ponto o saber
social geral, knowledge, tornou-se .e, por
conseguinte, as condições do próprio processo VItal da SOCiedade
são passadas para o controle do General Intcllect" e de
acordo com ele, até o ponto ele as forças produtIvas :or:m
produzidas não apenas na forma do saber, como orgaos
imediatos da práxis social, do processo de vida real
de das
dc
I t
' COll1 'I va da
nos. e contrasan es <
capitalista. O comando empresarial se coloca diante p:"ocess<?s
d
,. externo como uma camisa de força que hlmta as mfl!1ltas
puro oml1110 , . d t '0
potencialidades da cooperação, ao mesmo tempo em que as encerra en [
da forma da valorização:
O trabalho vivo é organizado no interior da empresa, independen-
temente do comando capitalista e apenas num segundo tempo, e
formalmente, esta cooperação é sistematizada comando. A coo-
peração produtiva se coloca como precedente e mdependente d.a fun-.
ção empresarial. Portanto, o capital não se como
da força de trabalho, mas como registro e gesta? da
autônoma da força de trabalho. A funçflo progreSSIva do capItal esta
79
terminada .
d
forças da ciência e da
77 "De um lado ele [o capital] evoca, portanto, to as as .
< , • -" 'fim de tornar a
natureza bem como da combinação SOCIal e das relaçoes SOCIaiS, à 1
' . d' de trabalho ne a empre-
criação da riqueza (relativamente) Independente o tempo < .' " TI
" '" forças SOClalS aSSll
g
ado Por outro lado. ele pretende medir as glgantt:scas < - ' ·OS
. " .., l' 't que sao necessan
evocadas a
, medida do tempo e apnslOna-las nos 11111 es, ..
, . I "t I" de/la cnttca
I
.'.' "do (K Marx Linealllent! fonG amell a I
para conservar o va 01 Ja cna ., . 78 40"))
dell' economia política, trad. it. Florcnça, La Nuova !taha, 19 ,p. -"
78 Idem, p. 403.
79 Hardt e Negri, Illavoro di Dioniso, cit., p. 103.
75
o controle capitalista se exerce LI posteriori sobre esta nova força de
trabalho, não mais como determinação dos pressupostos organizativos que
tornam possível a produtividade social, mas como pura expropriação
(desvinculada, de fato, de uma troca de equivalentes tornada impossível) de
uma produtividade que tende, continuamente, a extrapolar as fronteiras da
valorização. Não há dúvida, ademais, que esta expropriação finalmente ocorra.
Não pretendemos, é certo, afirmar que agora a força de trabalho social esteja
materialmente livre do comando capitalista. Ao contrário, o que devemos
investigar é exatamente a formação de novas modalidades de controle da
força de trabalho imaterial, tornadas necessárias pelo desenvolvimento de
uma cooperação social que excede a relação capitalista.
Sabemos, por ora, que se trata de formas de controle que não remetem
mais a um domínio capitalista "interno" ao processo de trabalho, mas sim
que se articulam a partir de um comando externo e que, portanto, materializam
um poder mais "político" do que econômico do capi tal. Definiria como político
o controle que o capital exerce hoje sobre o trabalho exatamente para evidenciar
a retirada do domínio de um econômico fundado sobre
a idéia de troca de para se a uma relação puro comando.
No fordista, a valorização capitalista estava ligada a formas de orga-
nização científica da fábrica que permitiam maximizar o rendimento do trabalho
operário a partir do interior do processo produtivo. Hoje, a valodzação depende
da possibilidade de controlar de fora e de impor a forma da competição (e,
subrepticiamente, a lei do valor) a atitudes produtivas que, por sua natureza,
são cooperativas
80
.
O que definimos como "excesso pós-fordista" configura-se aqui como
excesso constante de potencialidades produtivas, de laços de cooperação, de
formas da comumcação com respeito às geografias da produção impostas
por uma racionalidade capitalista reduzida a domínio. O capital - não mais
em condições de governar ativamente, a partir de dentro, a produtividade
social, visto que esta excede as formas capitalistas de racionalização do real
-limita-se a exercitar um controle, a expressar-se como puro limite externo
em relação a uma cooperação produtiva que prefigura a sua obsolescência.
Eu falaria, portanto, de excesso pós-fordista para evidenciar, ao mesmo
80 "Com isso a contradição da exploração é deslocada para um nível altíssimo,
onde o sujeito principalmente explorado (aquele técnico-científico, o cyborg, o
operário é reconhecido na sua subjetividade criativa, mas controlado na
da que exprime" (ibidem, p. 105).
76
tempo, tanto os aspectos de hiper-inc1usão e centralidade do trabalho imaterial
no que concerne à produção pós-fordista, quanto ao fato de que esta força
de trabalho social alude, constantemente, à possibilidade de superar o
parasitismo do capitaL Isso prefigura um horizonte de produtividade livre e
de cooperação social não comandada.
Multidão
Pelo que foi dito até agora, poder-se-ia ter a impressão que existe uma
profunda separação entre aquilo que definimos excesso negat.ivo e excesso
positivo. Isto é, poder-se-ia pensar que os dOIS termos - refendos, respec-
tivarnente, a processos quantitativos c qualitativos de transformação do tra-
balho descrevem aspectos até mesmo contraditórios da transição em curso:
de um lado, a força de trabalho expulsa do processo produtivo, do outro, a
força de trabalhoi1iper-integrada; de um lado, massas de sujeitos
que excedem as exigências do sistema, do outro uma anstocrac.Ia do trabalho
imaterial que se coloca exatamente no seu centro. Indo-se maIS longe nessa
reflexão, poder-se-ia julgar que cxatamente a progressiva centralidade do
trabalho c de alta contribui para a
exclusão e a estratos da de trabalho que
apresentam como excesso com ao sistema
Se assim fosse, dever-se-ia talvez concluir que a transição ao pós-
fordismo representa uma vitória, provavelmente definitiva, do capital
a força de trabalho. O domínio capitalista abandonaria o terreno do. c.onfllto
contra o trabalho para deixar que ele se desenvolva entre os
trabalho. O mesmo raciocínio poderia ser estendido, em segUlda, a
composição global da força de trabalho: à crescente informatização da
produção em alguns países capitalistas dominantes contrap?:-se, de a
deterioração das condições de vida e trabalho naquelas reglOes do Impeno
onde a autOIllação não ocorreu.
Este ponto de vista não é novo e representa o :entral. da a;,gu-
mentação de todos aqueles que recusam a categona de ou
contestam que esta reúna condições suficientes para descrever o
das transformações que atingem a força de trabalho conten:poranea. Em
resumo, quando se fala de pós-fordismo estaríamos nos refermdo apenas a
uma elite restrita do trabalho informatizado, deixando de fora tanto parcelas
d
' "d . t s" quanto - e sobretudo
crescentes da força de trabalho os pmses omll1an e, . .
. .' . d ' "d . d "André Gorz sll1tetlza
- slstemas produtIVOS ll1telros os pmses omll1a os .
eficazmente esta perspectiva quando afirma que "é insensato
como fonte da da identidade e do desenvolvllnento de
77
I
todos um trabalho cuja função é a de com que haja cada vez mais
menos trabalho e salário para todos "81,
O nosso problema não é, certamente, contestar a validade destas
de fato, É indiscutível
,
crescentes
não a "liber-
caracterizadas pela i e
da an:plos setores da produção nos quais a infor-
matlzaçao nao se faz presente. E também verdade que o devir imaterial de
alguns circuitos produtivos tenha, no máximo, possibilitado que outros con-
textos da mais materiais do que nunca, ou que, final-
mente, o trabalho lmatenal seja a forma de trabalho que atualmente "comanda"
as outras.
De resto, é
que, embora possam
frente ús tcnd.2ncias cm curso,
- tais como
• • tempo de trabalho/tempo de não-
trabalbo -mantem a sua vlgencla do ponto de vista dos efeitos que concretamente
sobre os indivíduos. Em outras palavras, não se pode negar que
factual no qual a condição de desempregado, de empregada
ou de trabalhador temporário comporte conseqüências
reaiS, tanglvels e concretas sobre as experiências biográficas subjetivas.
afirmar que tudo isso seatém a uma percepção "feno-
menologlca do trabalho, a um ponto de vista que não nos permite colher o
excesso expresso peja força de trabalho contemporânea nem identificar o
seu "subversivo". O plano fenomenológico induz à reificação de
conceItos pela. capitalista, tais como desemprego,
excesso, salano, e a cons:dera-Ios como características constitutivas da força
de trabalho onde elas efetlvamente não estão. Não é no nível da fenomenologia
do tra?albo podemos compreender o significado do excesso pós-fordista,
mas SIm no l1lvel da sua "ontologia": são os pressupostos da produtividade do
trabalho que hoje excedem a relação capitalista e não as determinacões
concretas desta produtividadé
2
• No nível constitutivo, ontológico, a
81 Gorz, Miserie dei presente. Ricchezza dei possibile, cit., p. 66. Uma ampla
das análises que adotam esta perspectiva pode ser encontrada em Vis à
VIS, Altreragioni e Capital & Class.
82 A.Negri, Fabbriche deZ soggetto. Livorno, Sec. XXI, 1987 (sobretudo pp.131-138).
78
de trabalho contemporânea se configura como totalidade produtiva indistinta,
como conjunto de potencialidades cooperativas que escapam a qualquer
regulamentação: nesse sentido, ela é uma multidão.
Na teoria política clássica, o conceito de "multidão" se define em contra-,
ao de . No De Hobbes considera a incapacidade de dis-
entre povo e multidão como a estrada que leva à c,
temente, à queda dos governos. "Povo" é a entidade que exprime uma vontade
geral única por intermédio do querer de um único indivíduo que representa a
todos. "Multidão", ao é o conjunto indiferenciado dos sujeitos aos
quais uma única vontade e uma única nção podem ser referidas. A sedição
nasce não quando o povo se rebela contra o soberano;mas sim quando os
cidadãos se revoltam contra a cidade, isto é, quando a multidão se ao
pOVO
S3
.
Referido, portanto, à realidade produtiva contemporânea, o conceito de
multidão identificar uma de trabalhO dctcrmi-
expressa,
e
reprodução, emprego e Mas indica também,
e ao mesmo tempo, que nenhum sujeito hegemônico, nenhuma "vontade
individual" ou ação individual tem condições de exprimir e representar comple-
tamente a complexidade desta força de trabalho. Nesse sentido, o conceito de
multidão demonstra e supera a inadequação do conceito de classe, não tanto
porque a classe opebSria tradicional perde hoje a própria centralidade produtiva,
mas porque não é mais possível definir um lugar determinado de constituição da
subjetividade do trabalho, de tornar extrínseca a sua produtividade e de expressão
da sua conflitualidade, como era possível paro a classe operária fordista
M
.
O excesso negativo e o excesso positivo são entidades indistinguíveis
sob o perfil da sua potencialidade produtiva. Tnclusão e exclusão, emprego e
R3 Th. Hobbes, De Ove, xn, 8. O conceito de "multidão" também está presente em
N. Machiavelli, Discorsi sopra la prima deca de Tito Livio, l, 58, e em B. Spinoza,
Tractatus Políticlts, III, 2, 6, 9.
B4 "Multidão é a forma hodierna do trabalho vivo não uma Babel de identidades
dispersas, mas tampouco uma nova classe operária 'sob invólucros pós-modernos. É
um conjunto de subjetividades cujo impacto produtivo é diretamente proporcional à
sua capacidade relacional, lingUística e comunicativa, A linguagem, algo
comum, é colocada a serviço dos muitos, do ser social inteiro, formação indefil1lda,na
cooperação lingUística" (A. Zanini, "Multidão", in Zanini e Fadini Corg.], Lessu:o
pos(fordista. cit., p. 214).
79
não-emprego, são categorias que, repetimos, produzem efeitos absolutamente
reais, mas são impostas à multidão pela exterioridade do comando capitalista
e pelas estratégias de controle que contribuem para a sua reprodução.
O apagamento das delimitações do agir individual e coletivo que, durante
o período fordista, circunscreviam os lugares disciplinares de controle da
força de trabalho produz um espaço "liso" pós-fordista, no qual os dispo-
sitivos de poder não parecem mais se dirigir tanto para os indivíduos
mas sim à predisposição de "aparelhos de captura" capazes de controlar
fluxos de produtividade social que atravessam a multidão. Nas palavras de
Deleuze e Guattari,
O mais-trabalho e a organização capitalista no .seu conjunto passam
cada vez menos pelo cstriamento espaço-tempo correspondente ao
conceito físico-social de trabalho. Antes, é como se a alienação
humana fosse substituída no próprio mais-trabalho por uma "sujeição
maquinal" generalizada, de tal forma que se pode extrair uma mais-
valia independente de um tnlbalho qualquer (o menino, o
RS
o o de tele-escuta etc.) .
Parece-me que a todo o seu vez
que ela é para definir uma de trabalho social que se
- constitui com respeito a qualquer lógica do domínio empresarial. Multidão é
aquilo que antecede ao comando e que, potencialmente, escapa a ele; são
muitos aqueles que, quase sempre de forma latente, mas às vezes também
explicitamente, "transgridem" os regulamentos das instituições do poder e
sua filosofia de redução da complexidade. Lá onde o "povo" representa aquilo
que resta da multidão, uma vez que as instituições de governo da sociedade
tenham desenvolvido eficazmente os próprios dispositivos de domínio sobre
o real, a "multidão" exprime exatamente a crescente irredutibilidade dOJeal
85 G. Deleuze & F. Guattari, Apparati di cattura. Millepiani. Capitalismo e
schizofrenia. Seção IV, tmd. it .. Roma, Castelvecchi, 1997, p. 118 [N. do T: edição
brasileira Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v. 1. Rio de Janeiro, Editora 34.
1995, tradução de Aurélio Guerra e Célia Pinto Costa].
86 Negri evidenciava, num trabalho fundamental, datado de 1977, o nexo existente
cntre a força de trabalho, a ser entcndida, neste contexto, como classe operária, e
as formas da soberania política do Estado que se constitucionalizam a partir do
conceito de povo: "A força de trabalho que comparece como totalidade social se
configura como povo no interior do mecanismo de reprodução do capital: o povo
é a força de trabalho constitucionalizada no Estado da sociedade-fábrica" (A.
Negrí. La forma Stato. Per la crittica deli' economia delta costituzione.
Milão, 1977, p.
80
. ' . 1'f co e econôrnic0
86
às cate(Tonas do d0l1uI1l0 po I 1 . A.
t::> d '1 mento da teoria política à teona economlca
N
- o se pense que este es oca d
a ·t de povo e rnultídão no contexto a
.. ',. Inscrevendo os concel os
sep lrnpropllO. . , . f d· smo IJretendo evidençiar, de um lado, o
• • 7' do fordlsmo ao pos- 01' 1, ..' .' ..
tlanslçao . d hsse operána entidade umtanas,
1" 'a1eIo dos conceitoS e povo e c < • , •
dec 11110 par. .' '. d singular, sltuavelS
suscetíveis de reduct/O od 1lI1wn, ee f'ibriC'l) e sujeitáveis ao regime
. ,. determinados (Estac O-I1dÇàO < . <
em terntonos . <. • A • d s conceitos de multidão e produção
tíveis não representáveis e
,., 1 - entidades multlplas, lIle u, .' d
SOCla. .. 1. adas às llU'üS se torna necessário impor um novo regime e
desterntona lZ< ,. <"
controle: d r d des
O co
mando imperial não se exercita segundo as mo a 1 a .
< . de acordo com as
. . r . 'es do Estado moderno, maS SIm <
do controle biopolítico. Estas modalidades .tê!:,
mo a 1 a es . - d ser diSCiplInada
b'lse e objeto urna multidão produtlva que nao po e 1."
< '. "ontudo deve ser governac ct l1à sua
e normalIzada, mas que, c .'. . )elo sistema
A
idéia de Povo enquanto sUjeito I
, do
não funciona mais; em
é pela mobilidad
1
'7 pela
de
diferenciação perpétua da multidão . .
. ós fordismo se entrecruza, aSSI111, com o
A do estatal definida como complexo
progressIvo esgotamen o r . _ disciplinar da classe operária e com a
de estratégias de norma, erial construído com base no controle
emergência de um dOll1.l11l0 1.m
p
t 'ole "biopolítico" coloca-se num
biopolítico da multidão. T?daVla, sinoulares da força de trabalho
plano externo a puro comando. É
social, num d. 1 entre biopolítica e disciplinaridade
aqui que se detenmna a sepmaçao lU . . b II
com a qual eu acenava nas primeiras pagmas deste tra a ,o.
87 Hardt e
81
cit., p.
M
Capítulo 3
Governo do excesso e controle da multidão
Da da ao governo do excesso
Podemos, agora, começar a repensar a análise da relação entre dinâmicas da
produção e formas CÍQcontrole social a pmtir da emergência daquilo que definimos
como "excesso pós-fordista" e tendo como hipótese que as estratégias pós-
disciplinares orientadas para o controle da nova força de trabalho, da multidão,
convergem na formação de um regime de "govemo do excesso".
Esta hipótese se baseia, por um lado, na análise do esgotamento do papel
produtivo do comando capitalista que descrevemos até este mOlTlento e, por
outro, no fato de que um processo análogo também é observável no plano
das de controle social. Em outras parece-me que o fato
de o llomínio disciplinar ter urn menor controle dos processos lle
trabalho está uma crescente dos
aparatos e das estratégias de controle para com a multidão
Obviamente, movemo-nos no plano da tendência e o objetivo aqui é traçar
algumas linhas de transformação prováveis, e não descrever um paradigma
inteiramente desenvolvido. Ainda no terreno do controle social, do mesmo
modo que ocorre no contexto da produção, muitas vezes encontramos, à
frente de processos de mudança que prefiguram horizontes completamente
inéditos, a persistência de modelos, estratégias, práticas e instituições que
parecem atestar uma substancial continuidade entre passado e presente. No
fundo, política, tribunais e cárcere ainda constituem, praticamente em toda
a parte, as instituições fundamentais do controle social. Mas isso não deve
prejudicar o sentido de uma análise atenta aos fenômenos que se agitam sob a
supeIfícíe do presente para colher a tendência das transformações em curso.
Devemos, porém, deter-nos uma vez mais sobre aquele complexo de
estratégias e racionalidades que tem definido, até agora, a relação entre controle
social e sistema de produção capitalista. Isso é necessário porque, como já
foi visto, no processo de desenvolvimento do capitalismo industrial, desde a
acumulação primitiva até o fordismo, os dispositivos de controle exerceram
uma função fundamental de racionalização disciplinar da produção e de sujeição
da força de trabalho à valorização capitalista. E é exatamente o aparente
esgotamento desta função produtiva do controle que constitui o objeto do
nosso discurso.
83
Gostaria, portanto, de voltar a Foucault e em particular suas hipóteses
sobre a governamental idade, a discip1inaridade e o biopoder, Trata-se, de
fato, de conceitos que representam as coordenadas essenciais daquela
cartografia da modernidade e dos seus aparelhos de poder que se revelaram
instrumento indispensável para compreender as diversas articulações da
relação entre controle disciplinar e produção fordista, Essa cartografia, de
foi também atingida, e de modo significativo, pela economia política
da pena que descrevemos nas primeiras ptíginas deste trabalho,
O pensamento volta-se quase que instintivamente para Vigiar e punir, É
aqui, na reaJidade, que FoucauJt se ocupa especificamente da penalidade e
das Suas transformações, revelando uma atenção constante aos processos
de transformação da economia capitalista e aos seus efeitos sobre o universo
da punição, A pesquisa sobre o "nascimento da prisão" representa a
sistematização definitiva de análises e renexões que Foucault estava
empreendendo já havia tempo (devemos pensar sobretudo nos cursos
ministrados no College de France entre 1970 e 1974), e muitas vezes são os
materiais n50 sistemáticos que revelam as foucaultianas mais
a respeito das relações entre de prodUção e de
controleSl',
No centro do projeto foucaultiano encontra-se a tentativa de reconstrução
de uma genea10gia das tecnologias de poder que nos permite decodificar a
economia e as racionalidades internas aos sistemas de Controle, O objetivo
principal é, pois, analisar os processos históricos de transformação dos
dispositivos de repressão, perguntando sobretudo de que modo eles,
abandonando progressivamente uma lógica baseada na negação e na destruição
dos desvios, foram capazes de desenvolver uma função produtiva que os
torna partícipes do processo histórico de afirmação do capitalismo,
Os processos de formação das tecnologias disciplinares descritos em
Vigiar e punir constituem o contexto em que se dá a passagem do "suplício"
à "prisão", isto é, de um poder que destrói a um poder que transforma, Por
88 Numa conferência de 197 I, Foucault descrevia as linhas mais gerais da sua
investigação: "Pareceu-me interessante procurar compreender a nOSsa sociedade
e a nossa civilização através dos seus sistemas de exclusão, de rejeição, de recu-
sa, através daquilo que elas não querem, os seus limites, a obrigação de ter de
Suprimir um certo número de coisas, de pessoas, de processos, aquilo que elas
devem deixar cair no esquecimento, o seu sistema de repreSSão-supressão"
(Conversazione COll Michel Foucault, l!, coord, A, da1
Milão, Feltrinelli, 1997, p,38),
84
A' niverso disciplinar só pode ser compreendida no
sua vez, a emergencla do u, , 1 'o da afirmação da "governamen-
so mUlto mms amp o, , _
interior de um proces , ' as introdutórias, trata-se da translçao
talidade"89, Como se acenava nas pagm delo da soberania para uma prática
çle uma lógica do poder ,1:0 croverno", A ciência de governo
t' da nOV'l ClenCI,l o c
do poder que se nu le < b' ler 110 l'nterior do qual tomam 10rma
' I - d 1exo sa er-poc
redefine a artIcu açao o I ,_ 't' lar Contra um poder soberano
' '1' e a pnsao em par ICU , ._
'1S técnicas dlSClpltllares. t' ' s de cOl1lr'ole à conservaçao
e f . r '15 estra e(Jw
q
ue emprega os recursos e llld. lza < • 't' cena na idade clássica, uma
" ,. (J t'vas absolutas, en la <, _ fi
das propnas PI erraoa 1 "d' "(Je à populaçao e aos uxos
d ," overnamental que se llle:> "
concepção do po el g 1 d f" a "governamentalidade como
,. "um Foucau t c lllC <
produtivos que a perpasse, '" _ procedimentos, análises e
' 'd pelas ll1stltmcoes, ,
o conjunto constitul o . "t' exercitar uma forma mUlto
' t'fcas que peUnI em _
reflexões, calculos e aI. 1 d oder que tem como alvo a populaçao,
, 'to comp exa e p
específica e tambem mm , olítica e como instrumentos
como forma principal de sabe .. ' a p" 90 '
, '. ' d' ositIvos de segUI ançcl , ,
técmcos essenClàlS os lSp '., t a penetração da economm
j
'd d " pOlt"n o < ,
A "crovernamenta 1 a' e , to (Ie saberes relativos a
b . " . • 1." isto é cOI1Jun '. < ,
j
Jolítica na "razao de Estaoo " , O hto de a economIa
' /,' d"s SU'lS ,
correta de um ternt,ollo ú .!" , '110 permeando as suas estraté-
" 0l1'lhdade (e croveI ,
P
olítica se impwmr na raCI < , e:> t' , desse momento aovernar
' , '- "fica que, a par 11 , b
aias práticas e 1l1stltmçoes, slgm d 'es que derivam do novo con-
o , 'd fvamente os po er ,
um Estado e exercitar pro UI" potencialidades produtivas e 1l1-
' , Tará maXllnIZar as ,
ceito de soberama slgm lC _ ' d 11esse meio tempo meeamsmos
d opulaçao atlVan o ,
centivar o bem-estar a p , ' a estatística social, os recensea-
'fi -o dos resultados, tms como
deven lcaça , . 1
ntabilidade naCIOna , , '
mentos, a co 'A '. d d r influir mediante estrategms
h' " d conSClenChl e po e, A
A aquisição lstonca a Iações e sobre os fenome-
' 1 d as popu "
de governo raCIOna os pr 'I 'a constituição de novos re-
f . 11am (eterm1l1a
nos econômicos c?n Oll , lomerados de saber e de poder, q,ue
crimes de práticas' , lStO e, de novos
d
ag _ saúde a sexualidade, a hlgle-
o 'd erno' a pro uçao, a < , d
definem os obJetos o gov ,', io de auto-conservação, que se tra uz na
ne, Um poder fundado no pnnCl? d' uilo que constitui uma ameaça,
possibilidade sem limites de repnmir tu o aq, t 'i político e as nascentes
cede lugar a uma troca de saberes entre o SlS em,
b lho de M Dean, ' "ver sobretudo o amplo tra a '
89 Sobre a "governamentahdade , . . Londres, 1999,
' P , d Rule 1/1 Model/l , 65
Governmentallty, owel Qn ,_ lt Pote ri e Clt" p, '
m Foucau ,
90 Foucault, "La, 85
ciências sociais e biológicas a uma idéia de pod
s ",' ' er como motor dos proc
os, como SUjeIto atlvo de transformação da realidade
9j
es-
, O poder se torna então, progressi vamente reaula 10 -
ves das quais o governo da so ' d d' ',b ç, ,populaçoes atra-
, , ' .. ele a e e exercitado um aoverno 'd t'
que se mSll1ua na complexa intenç'lo entre f A' b pro LI IVO,
l)l
'o(lut' . 11 " ' , enomenos lJ[()ceSsos
e UXOS VItaIS que não elevem ser ,.'
constrangidos, mas sim dirioidos .]' eI. . obsL:lcuhzados e
Ainda segundo Foucault: b ., CaiU lza os e orgal1lzados eficazmente.
população-riqueza (nos seus diversos aspce-
concretos., carestia, despovoamento ócio-v '
dagem) constltlll uma das condi"ões IYlra a COI' 1 d agabUl:-
p l'f E ,. . "f ' , , I' 11açao a eCOnOITIIa
,sjt,a se desenvolve quando nos damos conta que
;xcl ,a le açao entre re::ursos e população não pode mais depender
USlvamente de um sistema de tipo rcaulal11entar' e c .. 92
A ... . b' (. oerclllvo .
pclssagem da soberallla como poder a .
um que ordena " Idade para
a I fi
racionalidadceconômica JO' 1 aCll1ilivada
tl
"'.lll
0
C . d I 1 (ta LH:tlCla de fTO\"""ll() ,'1
, "cne cnel '1 c I b "" .
'. ,U111 80 )crano quc se colOC"V'l ac' f'
cd' . ct , ( llTIa c ora
oman ava e substituída pela imanênch de que
interior dos processos que l'egula A . t' governo que se coloca no
. ( . S le erencns deste p d ,- - .
dei ta ;ão
e
p
enquanto
governamental" será ao c t·' " "
população-riqueza um or ('. 011 rauo, constItUldo pela tríade território-
, ganlsmo complexo um cor o . I
consome recursos limitados. ' p SOCIa que produz e
Paralelamente à formação d t . /
positivos e práticas de e ' a r'2
clO
;ullidade, consolidam-se dis-
s gUl ançd CllJ a funçao e garantir o COI'l'elo fu . nClOna-
91 MI' 'd .
e OSSI eVI enCIa, de forma muito a 1'0 r' d ' . -
transformadora do poder no seu t i p b
P
Ia a, a afIrmaçaodesta concepção
. es ue o so re o proc s h' "
ção do conceito de "controle social'" .e. so lstonco de consolida-
de "Estado" que doml'na 'lS c.;. .Estados Umdos (conceito alternativo ao
(, lenCIaS SOCIaIS europ'" ) O '
a capacidade do poder d . f . . etas. controle SOCIal condensa
e m Ol mar-se a respel to da . d d
suas relações produtivas em se s" .socIe a e, penetrando em
, u lenomenos culturaIS e e d' .
construção do consenso. Cf. D. Melossi '. . . m suas manlleas de
Polity Press, 1990. ' The State of Socml Controlo Cambridge,
92 M. Foucault I corsi ai C ll' I F
1999,p.78.' o ege ce 'rance. 1 Resumées, trad. iI. Milão, Feltrinelli,
86
mento do aparato "governamental" e preservar o princípio de maximização
económica sobre o qual ele é regido. Falando dos dispositivos de segurança,
Foucault se refere a um conjunto de práticas de controle e supervisão da po-
pulação, mas também à educação, aos que então despontavam, às
políticas de saúde pública, em suma, a tudo isso que permite a reprodução e a
"""",,,""'<1""'0 de de produtiva das
As estratégias de controle social, e em, particular as penalidades e a
criminal, integram igualmente estes aparatos de Aqui a análise da
governamentalidade se interliga à microfísica do poder disciplinar: as técnicas
disciplinares, como Foucault não se cansa de repetir, não constituem um
prima com relação 11 "governamentalidade", uma fase anterior a esta e colocada
a meio caminho entre o esgotamento do modelo da soberania e a origem da
nova ciência de governo. Ao contrário, o controle disciplinar é imanente à
governamentalidade e 11 biopolítica. Nele se condensa, na realidade, um con-
junto de tecnologias e práticas de sujeição dos corpos a partir das quais pode
forma uma do das
assume
da soberania. Tambérn ela participa da difusão de uma concepção e
produüva.:k> poder. Assim, pode finalmente consumar-se a superação do suplí-
cio em toda a sua teatralidade destrutiva, e o alvorecer de uma penalidade silen-
ciosa, discreta, que age com sistemática regularidade na penumbra das institui-
ções totais. A penalidade torna-se, portanto, um processo mediante o qual
produzem-se indivíduos cuja utilidade - tanto como singularidades quanto
como partes de uma população produtiva - se realiza no trabalh0
94
.
No entanto, o corpo permanece no centro. As diversas técnicas do poder
se exercem sobre o corpo, nele imprimindo as suas marcas. Sobre o corpo
93 Esta foi a definição que Foucault deu aos ::lpar::ltos de segurança
ministrada no College de France no dia 5 de abril de 1978: "Pó r em prática de mecanis-
moS de segurança ['H] mecanismos ou modos de intervenção do Estado cuja função
é garantir a segurança dos fenómenos naturais, dos processos económicos e
dos processos intrínsecos à população, torna-se o objetivo principal da raeio-
nalidade governamental" (citado em G. Burehell, "Governmental Rationality. An
Introduction", in Burchell, Gordon e Miller (cds.), The FOllcault Effect, cit., p.19).
94 "O corpo deve ser não mais marcado, mas sim adestrado e corrigido; o seu
tempo deve ser medido e plenamente utilizado; as suas forças, continuamente
aplicadas ao trabalho" (Foucault, I corsi ai College de France, cit., p. 40).
87
se consuma a violência espetacular do suplício de Damien, que ocupa as
primeiras páginas de Vigiar e punir; sobre o corpo se fundam agora as tec-
nologias disciplinares que anunciam o fim daquele suplício. O mesmo corpo
sobre o qual se materializava a ilimitada potência destrutiva e aniquiladora do
poder soberano agora se torna objeto peculiar do poder "governamental", o
núcleo sobre o qual convergem os novos saberes reguladores (as ciências
biológicas, a estatística, a medicina, a psiquiatria, a criminologia), as novas
instituições (escolas, quartéis, hospitais, hospícios, prisões), os novos regi-
mes de práticas (a investigação, a pesquisa, o exame, a terapia, a sentença).
A racionalidade do biopoder disciplinar e "governamental" certamente se
constrói, como se disse mais de LIma vez, sobre uma idéia produtiva do
poder. Mas esta produtividade não se explica se não se leva em conta um
elemento fundamental (que permanece enquanto tal até a crise do sistema de
produção fordista). Os dispositivos de poder e de controle devem ser ativados
produtivamente porque existe uma improdutividade social difusa à qual é
pôr um fim, uma latente dispersão de recursos que deve ser contida,
uma carência de cooperação produtiva que deve ser recuperada. As relações
capitalistas de excedem a de trabalho, convocam-na para for-
mas de cooperação em relação ;lS quais ela se revela inadequada,
da, de-socializada, carente. Para rCI1'lediar essas carências, o sistema capi-
talista teve de inventar "métodos de poder capazes de ampliar as forças, as
atitudes, a vida em geral, sem, no entanto, tornar mais difícil o assujeitamento"95.
A prisão e as demais instituições disciplinares materializam uma nova
concepção do espaço e do tempo aplicada aos corpos e ü população. A sin-
cronização dos gestos, a regulação das ll'Rlssas de indivíduos na indústria, a
relação corpo-máquina, são aspectos que exemplificam a racionalidade eco-
nômica peculiar que se afirma com a emergência da produção industrial e se
consolidará com o desenvolvimento do capitalismo fordista. As tecnologias
do controle disciplinar exprimem esta racionalidade, traduzindo-a em moda-
lidades específicas do punir
96
. As linhas desta evolução se articularão, simul-
taneamente, seja na fábrica, onde os princípios científicos de organização do
trabalho conferirão à direção o papel de propulsão e de governo da produtí-
95 Foucault, La volontli di sapere, cit., pp. 124- I 25.
96 "O tempo dos homens deve ser oferecido ao aparato de produção; é necessário
que este possa utilizar o tempo de vida, o tempo de existência dos homens. É por
isso e sob esta forma que o controle se exercita" (M. Foucault, "La verità c le
forme giuridiche", in Archivio Foucault, /l, Poteri, p. 1
88
. d f'b " a onde as políticas keynesianas de regulação da
'dade sep fora a a uC,,' d d . t ão
VI, .' d d definirão as coordena as a 111 ervenç-
relação entre economm e socle a e
•• 97
tatal noS processos SOCiaiS . . . d
es . I 70 das \'chções entre economia e socleda e e
, - d empresa legu aça ,. c I'
DJreçao a <,' , " O11'llidade "Governamental" na mec l-
I d
o expressam uma !UCI , , I::> , •
contro e 1;;, '.' disjJositivos cm condições de mItigar
'luto-constituem como ' ' .
da em que se .' f " 'i. . as de suprir determinadas faltas, de lI1tegrar o que
determmadas tl1SU IClcnCl", lfi aur'lrem como dispositivos de
.. " t' momento em que se COI I::> '
é deflCltano, a e o a for '1 de trabalho no confronto com a or-
disciplinanzcnlo das cm A j:b " eleve ser crovernada "cientifica-
ganização capitalista da produçao. ,\ .' l' d deve ser gover-
" ,', ias de produtividade, a soclec à e '
mente para suprir à carenc 'f" t s de inclusão devidas aos
. '1" )a1'a f'lzer [ell c", "
nada "Clentl leamen e I "d" . deve ser' ti'atado "cientificamente" para
. . d 'cado' o esvlO ' ,
deséqmlíbnos n:el l' . ';' e inteGração que se produzem quando
d' carenClaS de SOCla IzaçdO b
reme tar as, . . falham De um ponto de vista interno à econo-
as outras praticas de 1 'e'lo' cjue se 1)ossa sintetizar deste modo a
. l't' '1 elo controle soela , Cl t . . I'
mia po i IC, _' .. " .. , .. , Jrúticas do controle cltSClP mar
simbiose entre produçao, SOCI,11S t; I
durante o forc!Jsmo.
que se 'de e formas
. '1 ' : peruuntar quaIs
e do domínio b
se
constituem a partir d?
de raCIOnalidade . 1 . d strial do capitalIsmo e da transfor-
d
· d 1cerramento do CIC o 111 u
for lsmo, o el , f 'd' .t' em multidão. Isto é, chegamos ao
mação da força de trabalho pos: or das de croverno se recortam no hori-
t d perountar que novas pIU IC I::>
momen o e b .' d' 'ê lcia para um regime do excesso.
zonte da passagem de um regIme cl Cal I
".,. b"'r"
O controle como nao-sa... ., ., _
. .,. 'd' no )ara o pós-fordismo, marcada pela ti ansfol mel
A tranSlçao do for lS\ I" !f dão determina mudanças
- d f ' 'i de trabalho contemporanea em mLl I, . . ..
çao a OlÇ, .' r d' de "governamental" e dos diSpOSItiVOS
signifícati vas no terreno da 1 aCIOna.I:
1
.
de controle que asseguram a sua vlgenela.
I
. reSI)ectiva-
d
· . r . overnamental no qua se Situam,
97 A respeito do complexo ISClp lI1ar-g _ '. velfarista da sociedade,
. - I ,', da produçao e o governo " .
mente, a orgamzaçao tay '" de' "Na fábrica, o taylorismo radicaliza Clen-
Lazzarato escreve com multa plOplle a.. (, . duç'lo aoS esquemas sensO-
d
- d corpo a orgal1lsmo sua le , d -
tifícamente a re uçao o . . o ula 'ão em processos de repro uçao,
motores). O welfare articula e dlssemma li P p. .,. da família das mulheres e
d
.' - (controle e mstltulÇàO , ,
multiplicando as figuras a sUJelçao . Lavoro
'd d' e da velhIce
das da sau e, a
immateríale, cit., p. 121). 39
o excesso negativo é representado como um conjunto de subjetividades
que excedem a lógica "governamental", uma vez que acentuam a contradi-
ção entre uma cidadania social ainda baseada 110 trabalho e uma esfera pro-
dutiva que cada vez tem menos necessidade de trabalho vivo. O excesso
poslflVO se por seu turno, como conjunto de subjetividades que exce-
dem a racionalidade porque a entre uma
potencialidade produtiva ilimitada c cooperativa e um arranjo das relações de
produção que cria obstáculos à autonomia do comando capitalista, impondo
às de produção lima valorização baseada na competição,
Quando falo ele exclusão ele desemprego, de marginalidade, refe
c
rindo esses termos a aspectos de um excesso negCllivo, procuro evidenciar
dois pólos de uma contradição que parece insolúvel nas condições atuais, De
um lado, observamos uma sociedade cujas dinâmicas de inclusão são medi-
adas pelo trabalho entendido como emprego, como ocupação a tempo pleno,
garantida, continuada e cm resumo, uma sociedade que continua a
subordinar a titularidade dos direitos de cidadania e, em última
direito ii existência à concl trabalhador trabalhadora, De outro
emerge uma estrutura das de que se funda
exatamente na redução e na precarização do trabalho,
O acesso à renda, ii cidadania, à integração social e à própria existência
é, em outras palavras, subordinado ü satisfação de um requisito que desapa-
rece progressivamente do horizonte de possibilidades da constituição mate-
rial pós-fordista, Vejo aqui uma primeira vertente da contraclição, que as
atuais estratégias de controle se dispõem a conter, reprimir ou inibir devido
às suas conseqüências potencialmente subversivas da ordem social: a con-
tradição entre os requisitos que a constituição formal da cidadania requer
abstratamente, e os recursos que a constituição material pós-fordista pre-
dispõe concretamente,
QtJãndo falo de trabalho imaterial, de intelectualização da produção, de
trabalho lingüístico e de general imellect, referindo-os a aspectos cio e:rcesso
positivo, procuro delinear as características de lima contradição ulterior,
mas em tudo complementar à precedente, Refiro-me ü contradição entre
uma força de trabalho que possui, potencialmente, capacidades e atitudes
produtivas que permitiriam superar o comando e a organização capitalista cio
trabalho e um sistema de relações de produção que, ao contrário, se impõe
de fora, como domínio puro e comando parasitário, A contradição se define
aqui como excesso da atividade enquanto cooperação social produtiva
autônoma - sobre o traballzo - enquanto produção hetero-dirigida de mais-
90
cI
. 'cI I enraizando-se
. como conflito entre um potencial cle pro utlVl ac e ,'., .
valIa, . d 'JO vivo (comunicação, invençao, criatiVidade),
diretamente nas atitudes o cOIl , r d'lde vazia de empresa
/ 'fl"IO o comando capitalista, e uma raCIOna I < <
torna super < '
q
ue não obstante, a tudo se, , , _
, ," -,' lo nexo entre produçao e
Para tentar delinear as novas conhg:H'açoes ( I' I' .. de tnl)'llho
I
J'lrtll' novamente c <l orça "
devemos ' l
. dustrl' aI da chsse OIJerária, 11 multidão, ti nova c "i"
m ,," 'd /' d "lpltal Isso slgm 1-
produtivas d:l
cara anahsar dS .'! I' c se lI1scre-
d' 'r isto é a partir cio esgotamento da 101'111a (e poc el qu, '
:SCl
P
' de l'j'lll'l'for'ç'l de trabalho localizável no tempo e no espaço,
vw no corpo ' < , ' '.
1 f
' 'd eh I)rodução industnal torchsta,
c e 1m os p , , ' 1'1 d ode r
, ;- é de forma alcruma, secundana. O moc e o e p
A passagem !1dO , , b, t'tul'do sobre um. saber
1 '. d' sCII)!mares era cons 1
que informava as tecno OgI,lS 1 . ti' elos indivíduos e
• 1 • oso ., ( o corpo,
proful1Cto e llnmlCl u

O
do
de e
tava-se, por como .',. ' I . Era um
cisa como cartografia exata das dinatmcas produtl 1 10 interior da
" . do se tratava de Olgal1lZ,1- 01 ,
saber retirado do quan , ' b a forma de prática disCl-
fábrica, voltava a lmprumr-se sobre o COlpO, so
plinar e controle: " .' saber do ope-
Numa instituição como a fábrica, o trabalho e ". ue-
'ário sobre o próprio trabalho, os melhoramentos tec111coS: àS peq
1 a ões e descobertas, as micro-adaptações eles tmham con-
de no curso do seu trabalho eram
I '., ' .. cia subtraídos de sua pratIca e acumu à
o trabalho do operário vem
os p d ' '1' d· ou um certo sa el
P
ouco a pouco, um certo saber da pro utlVI( cl e, . 99
.. , , forço do controle '
técnico da produção que penmtlra um le .
• (T 'reaíme do excesso e exatamente
Mas o que acontece com a ,\0 b '1 d "cxtl"lir" este saber
, ' 't d .' 1stitUlçOes elo contIO e, e' .
a possibIlIdade, porpal e as lI, .. d' dllt'lvI'da(!e" de que fala
, 1 'd;- O "saber . a pIO "
cio corpo produtIVO da mu tI <lO, ' _ . t ,) d'l força de traba-
f
' t 'IS 111'10S (e nas men es c
Foucault, permanece lrmemen e n, ,c '
, ' . \' I ver R, Alquati, Lavoro e attivirà,
Sobre a distinção entre trabalho e àllVI( àC c, , M' 'f' ,tolibri 1997.
Per UlI 'anolisi dell(l schiavitii neomodenw, ,mi o;;S ,
. , '. . ,'d' '\ " clt, I), 160,
99 Foucault, "La venta c le fOI me glUl1 IC 1C, ,
91
lho pós-fordista, escapa aos dispositivos de controle recusa os seu '
tos de captura e s ' " , " ' , s apara-
e mostw III edutl vel as c'ltecrorias que
trabalho ' - ' b emprecram' valor-
d
' tempo de trabalho e tempo de
e repro uçao, ' , o
0
0
da carência podia ser definido, em termos fOllcallltíanos
chegado l.nlveIso no qual se desenvolvia um poder-saber, talvez
ao momento ele que o rec' -I •
rr 'd" ",llne l o excesso pós-fontista se (lua-
1 Ica ca a vez mms como terreno d ,. el
pelo nâo-saber As det'r 11' ,,_ , e exerclclO e um domínio caracterizado
ticas constituti ;'1S' ,,<.: I, ,concretas da mu ltidão, as suas caracterÍs-
pode dar v' I ,. f' o,s seus pOsslveIS c_omportarnentos, as interações às quais
pu
<' l!C a, as de, cooperaçao que constantemente alimenta esca-
< m a qua quer deÍll1lçao r cr' d ' • <
condição d - b o l,b,orosa parte dos aparelhos de controle, Esta
. _e nao-sa el qualifIca os dispositivos de contr I., ,,' "
uma funçao de supervis'Io d. r ' _ o e e os ollenta paI cl
contenção do excesso, L , e 11111taçao do acesso, de neutralização e de
O controle da
em tomo ela
les que ',. " '.' naque-
mbe' l' 'l" am, à passdgem de prallcas CQl1struídas sobre um
, , _ I G ISClp II1GJ para modalIdades de controle caracterizadas .
dlçao de não-saber, ' pO! uma con-
Não se trata de construir um novo paradicrma ou de I f 'o
de análise cio controle social. A;
as qua,is nos debruçamos afetam, de modo
re entle economIa e controle, e sugerem a oportunidad: de ' ' 'o
d
codI1Juntamente os instrumentos conceituais da economia política
a e, Trata-se po ',' . < pelIa 1-
, ,l,em" como Ja se repetÍu mUltas vezes, de rocessos de

all1da não claramente definíveis, É l'
a tendencJa que de' o'. o I ' ,o, no p ,l!10
vera seI co ocada a descnção das tecnolo
cr
' .. , .
que ganham forma a partir destas transformações, ",IaS de contlOle
foi por muito tempo como a exemplificação
, ,nte das tecnologIaS disciplinares de controle dos indi 'd A
Sua arqUltetura funde, plastícament 'b' .', VI uos,
ra histórica eficaz do proce d osa, e: e podel, e C?l:Stltu! uma metáfo-
dos cornos no espaço Nele
sso
e 01 n:,lçao das estrategws de organização
I:"' ' ,se concretiza ') utoph d' "
uma obsel'vabl'll'dade l'n' t <, mo elna e capitalIsta de
, , III errupta e o' . I
absoluta dos ' plll1Clpa mente, de uma transparência
nos olhos elo
tos porque sabe exatameme onde e quando que
92
atém
minuciosamente à norma porque não sabem exatamente de onde e quando
serão observados. Ora, justamente esta concatenação de saber e poder que
sintetiza toda a economia do sistema disciplinar parece estar sendo progres-
sivamente desarticulada para ceder lugar a tecnologias de controle que mi-
gram em direção a um regime de supervisão e contenção preventíva de
classes inteiras de sujeitos, renunciando, assim, a qualquer saber sobre os
indivíduos,
A metáfora do Pa/lopticol1 foi recentemente retomada em algumas análi-
ses sobre as transformações do controle na sociedade contemporânea, Sus-
tentou-se, por exemplo, que as atuais tecnologias de controle convergem
para a construção de um regime pós-panóptico, definível como Synopticol1,
Na "sociedade do contemporânea não seriam mais os poucos a
vigiar os muitos para obrigá-los a seguir as regras, mas sim os muitos, cons-
tantemente transformados em "público", que admirariam as façanhas dos
poucos e interiorizariam valores, atitudes e modelos de comportamento, tor-
nando-se assim indivíduos responsáveis e consumidores confiáveis
l
()(), Do
mesmo sustentou-se que o Pallopticoll estaria sendo progressivamente
substituído um modelo de controle no grupos sociais
restritos exercem um poder de
restritos
lOl
, Estas descrições, embora bastante entre si, parecem
concordar num ponto: o esgotamento da utopia disciplinar de um saber ab-
soluto do poder para com os indivíduos, e também o fato de que este grande
desenho da modernidade está sendo substituído hoje por tecnologias de con-
trole que renunciam explicitamente àquela utopia,
Se examinarmos as marcas desta renúncia, constataremos o vislumbre de
tecnologias de controle orientadas para o internamento, para a vigilância e para
a limitação do acesso, Nas páginas que se seguem pretendo oferecer alguns
primeiros elementos de descrição destas tecnologias, confelindo particular aten-
ção àqueles contextos em que me parece que elas começam a se manifestar de
forma mais definida: o cárcere atuarial
102
, a metrópole punitiva, a rede,
tOO T. Matbiesen, The Viewer Society: Michel Foucault's Panopticon Revisited, in
Theoretical Crilllinology, 1-2, 1997, pp, 215-234,
lOl R,
285-307,
Post-Panopticism, in ECOIlOllly (/Iul Society, vol. 29, 2, 2000, pp,
Hl2 O termo "aluarial", como veremos nas páginas que se seguem, remete aos
e às eCOn0l111CaS das empresas de seguro, Trata-se
de uma filosofia de cio risco e do
93
o risco aprisionado - Já é quase um lugar-comum colocar a crise do
fordismo por volta da primeira metade dos anos 1970, mais precisamente
em 1973, ano em que explode a crise do petróleo. rígidas
assim se prestam, obviamente, a muitas críticas, a primeira das quais é a que
afirma não ser nunca sociologicamente individualizar o momento
em se determinam dramáticas ou pas-
sagens de paradigma. Se de um lado esta crítica parece completamente razo-
ável com aos fenômenos do outro - no que concerne
às mutações ocorridas nas estratégias penais contemporâneas - não o é. Em
outras palavras, ocorre um momento de ruptura, claramente identificável
neste caso, que coincide exatamente com o período em que, embora de
modo discutível, tendemos a situar a crise do sistema fordista. E existe tam-
bém um lugar onde esta ruptura ocorreu: os Estados Unidos.
Durante o segundo pós-guerra, a população carcerúfÍa dos Estados Uni-
dos uma tendência constante à queda sobretudo, du-
rante os anos favorecida dc diversos fatores. O
"clima moral" que se dos direitos ci o
menta do Estado social e a introdução de formas de controle alternativas ao
cárcere certamente desempenharam um papel importante nessa direção.
Porém, na metade dos anos 1970 ocorreu lima radical inversão de tendência.
A população carcerária começa a crescer, primeiro gradualmente e depois de
forma acelerada. Passa-se de 400.000 presos em 1975 para 750.000 em
1985, chegando-se à cifra de mais de dois milhões em 1998 e esse cresci-
mento ainda não dá sinal de que vai parar.
O aprisionamento atingiu níveis jamais alcançados no arco de toda a his-
tória dos Estados Unidos, superando até mesmo os da África do Sul da
época do apartheid e da Rússia pós-comlll1ista. Nos Estados Unidos a média
de prisioneiros é cinco vezes superior à da Europa. E se acrescentarmos aos
detetltos todos aqueles que estão sujeitos a alguma forma de controle penal
extra-carcerário ou para-carcerário (medidas alternativas, probatiol1 ou parole),
verificamos que a população americana "penalmente controlada" conta, em
seu conjunto, com cinco milhões de indivíduos,
Seria inútil procurar nas taxas de criminalidade uma causa possível deste
processo de prisão em massa. A criminalidade nos Estados Unidos parece
ter seguido uma trajetória de substancial estabilidade no curso das últimas
décadas, para depois diminuir significativamente a partir da segunda metade
dos anos 1990. Um outro dado que não deve ser desprezado é que cerca de
um milhão - i.e., a metade dos presos americanos são acusados ele crimes
94
não violentos e, por menos graves: delitos contra a
de, contra a ordem pública, delitos que envolvem o consumo de substanCIas
e, no caso dos violações da disciplina sobre a
o
emer!le daí nos info"rma claramente que o 1l1-
Estados Unidos mais a uma lFl1dan-
çada
Se atentarmos para a
também em que
das de da nova
de controle do que à
Os afro-americanos constituem 12% da norte-americana, mas
já há dez anos eles representam a maioria absoluta da sua população
Em 1950, ela era constituída de 66% de brancos e 32% de negros. Quarenta
inverteram: os brancos representam pouco
a cerca de 60
l
,/0. Se
anos
número ficamos que,
os brancos detídos a entre os
nos essa relação a quase 7.000 por 1 Vale dizer que a
probabilidade de um afro-americano terminar na prisão é mais de sete
superior à de um branco. Traduzido em termos ainda mais claros, UI1; afro-
americano em três, na faixa etária compreendida entre 18 e 35 anos, esta preso
ou submetido a alguma medida alternativa ao cárcere. Estes dados nos falam
de uma guerra declarada à população negra pelo sistema repressivo norte-
america;o. De fato, para fornecer uma legitimação pública ao
de massa dos negros americanos, foi usada uma autêntica retónca l1uhtar
(war on crime, Oll drllgs, zero tolerallce)I03. /'
Esses dados devem ainda ser cruzados com os relativos à composição de
classe da população prisional, e o resultado disso é revelador. A expansão.do
sistema penal coincidiu, com um timing que se pode dizer quase
com a progressiva demolição do Estado social. Ao aumento do
encarceramento eorrespondeu, no mesmo período e com a mesma
uma redução também vertical do amparo às famílias pobres, da
social e da ajuda aos desempregados. Por exemplo, apenas no per;odo que
se estende de 1993 a 1998 registrou-se uma queda de 44% do' numero de
10:1 Ver J. l\1iller, Search um! Destro)'. Aji-icC//!-AmericC/11 .Males iI! the
Justice System. Cambridge, Cambridge Univcrsity Press, 1996.
95
famílias que recebem o amparo público para filhos dependentes (AFDC),
principal forma de subsídio aos pobres concedida pelo we(fare dos Estados
Unidos, Estudos recentes demonstram, além disso, que o aumento da seve-
ridade penal foi mais profundo exatamente nos estados norte-americanos
que primeiro se mobilizaram para reduzir as medidas de weifare (por exem-
plo, Texas, Califórnia, Lousiana, Arizona) 104, O fato de a população carcerária
ser constituída cm sua imensa maioria por pobres, desempregados c subem-
pregados não é nenhuma novidade; ao contrário, trata-se de uma constante
histórica que os recentes acontecimentos americanos serviram apenas para
evidenciar, O que mudou, porém, e de modo significativo, foi a relação entre
instituições sociais e instituiçõespt?nais na gestão da pobreza.
As "populações problemáticas", vale dizer o sllIplus de força de trabalho
determinado pela reestruturação capitalista pós-fordista, são geridas cada vez
menos pelos instrumentos de regulação "social" da pobreza e cada vez mais
pelos dispositivos de repressão penal do desvio. Deriva daí aquela transição "do
Estado social ao Estado penal" dc que fala Lo'lc \Vacquant, quando definc "a
irresistível ascensão do Estado penal americano" como uma cle
ela miséria funcional pela da salarial
e sub-remunerada", que se desenrola paralelamente à "concomitante reformulação
dos programas sociais no sentido punitivo"los. O mesmo \Vacquant nos adver-
te, porém, que estas tendências não dizem respeito apenas aos Estados Unidos
e que um novo "sentido comuru penal neoliberal" se difunde progressivamente
também na Europa. Não é difícil identificar os traços que parecem aproximar o
grande internamento europeu ao norte-ameríçano. Nos últimos dez anos as
taxas de aprisionamento aumentaram em cerca de 40% na Itália, Inglatena e
França, 140% em POltugal, 200% na Espanha e nos Países Baixos, Os únicos
países onde foi registrada uma ligeira contra-tendência foram a Alemanha, a
Áustria e a Finlândia.
Mas indo além dos aspectos quantitativos, eloqUentes ao demonstrar que o
encarceramento aumentou em todos os países europeus com uma rapidez que
pouco tem a invejar dos Estados Unidos, também aqui o aspecto mais significa-
tivo é representado pela composição da população carcerária. Se é verdade que
nos Estados Unidos o cárcere tende a se tornar cada vez mais "negro" e "po-
bre", os mesmos fenômenos também são observáveis nas prisões da Europa,
104 B. Western e K. Beckett, "Governing Social Marginality: Welfare, Incarcerntion,
and lhe Transformatiol1 of State Policy", in D. Garlund Mass lmprisollment,
Social Causes alld Londres, 200 I, pp, 35-50.
105 L. Wacquant, Parola d'ordine: tolleranza zero, p.70.
96
_ ., 'esentados em todos os sistemas carcerários
Os nligrantes. estao té hoje o percentual de migrantes no
europeus. Na ltálm, por e d la
SO
! l)'lra 30%. Esse dado é efetiva-
1
- . erana passou e 10."
total da popu açao CaIC t'l cl
ue
os miGrantes constituem apenas
, t se levarmos em con , 'b
mente preocupan e , '.' ' 106 Como no resto da Europa,
d
l' ão reSidente no paIs . .
cerca de 2% a popu clÇ, tIos I11Í
G
r'lntes é acompanhado, slste-
'I' I' , enclfceramen o C. b ' ' ,
também na Ita la o 1Ipel-' 1 t dos ,leSell1!Jreoados. Emerge da!,
. . . , 1 "-depene en es eu, b . .
matlcamente, pelo c os to;uco '. d . "três terços": um terço de 1l11l-
. d'C ética de um carcere os '
assim, a Imagem lam,a. < d ç. dentes e um terço de desempregados.
Grantes um terço de tOXICO- . . ,
b ' , •. , 'deI1acj'\S de cOl1J'unto da nova estrategm
- ort'll1to 'IS com ' . d'
Estas sao, P , , " . d fundo \ transição do for lsmo ao
, , 'c lle servem de pano e' , . .
siva euro-anlencancl l' ." " d 1" Todavia, é legltllTIO m-
. d "Estado socm1 ao Esta o pena . . ,
pós-forcllsmo e o ' . / ' d'f' . d'lS priticas disciplinares que jU co-
/ testa estrateGJ:l I el e, , .
dagar ate que pOI1 o .t:; • "'o é outn coisa senão a progreSSIVa
, . N f d o que exammanl0s na " ...,.
nhecwmos. o un o, ',..' t ' pelo disl)Ositivo dlsclphnm pClI
'd d I ç'ld'l pelo Cal cere, JS o e, . .
central! a e a can , , '. I _, b' 1\ o e dos orupos sociais margmats,
I' 10V'1 (e ti ,\ d 1 . b .
excellcncc na C:1 I , 1'.. vez mais em conseqüêncIa do au-
por sua vez, se amp hU11 de
da du e do
em suma,
massa se . Ü 'ontem )orâneo não é muito diferente do
pensar que o grande ll1ternmnento c f d I proieto disciplinar não tenha sido
1 d
' . eu e que no un o, o J •.
que Foucau t eSClev, , ' b' etivo dos dispOSitIVOS de con-
. t que amda uma vez. o o J
nem de longe extll: o e , . a de trabalho desqualificada.
tro1e seja o disciplmamento da fOlÇ, , -' observar-
_ " '. - aparece claramente, porem, se ' .
O caráter tlusono desta Impl essao _ . lS{)'II"lr o eXIJelÍmento carceráno
. l'd d d ontrole que pmece 11 , ,
mos a nova raCIona I a e o c . l' dade é o de risco. As
, . 't ualific::mte desta raciona I ..
em andamento. O cancelO q " . da vez mais como dispositivos de
, . a' s se caractell zam ca ,
novas estrategws pené l, _ , 'das l)opulações consideradas pOlta-
, /" d repressao pleventlva "d '
gestão do nscO e e d ," lal' criminosos perigosos indlVI uatS,
. N'" se trata e apllslOl' , 1 d
doras desse rISCO, ,la .' d' 'd 1 lTI'lS sim de gerir, ao !1lve e
1
· f t' de rISCO l\1 IV! ua, "
isto é, de neutra Izar a Oles , '" de (e de resto, não se esta
.' , roa de riSCO que Ilda se po, . .
populações mtelras, uma ca b .' t os descrevendo não é dlSCl-
interessado em) reduzir. A raclOnahdade que es am '
. t "al
107
pEnar, e sim a UCIII .
. ", t'" Quademi ISMU 2/
. "D' , vittimizzazlOne tra I 111lg
r
an I .
106 Ver S. PalIdda, eVlanza e
2001. Milão, Fondazione Cariplo, 2001. d t 'ole penal, ver M. Felley e J.
do modelo e con 1 of and
Notes on lhe M e J Simon
XXX.4, 1992, pp. 449-474; 1 • • ,
its 97
o recrutamento da carcerária ocorre com base na identifica-
(mas melhor seria dizer "invenção") das classes de sujeitos consideradas
de desviantes e para a ordem
constituída, Assim, não são mais tanto as dos
que o objeto) das
de
a classes
concretamente, que inteiras de indivíduos deixam virtu-
almente de cometer crimes para torl/arem, elas mesmas, cri
Devemos pensar ainda uma vez nos aos são
ativadas de controle e já totalmente inde-
seu concreto sua construção ao seu
tratamento) como classes de risco, agregados de peri-
go potencial. u-se e denunciou-se insistentemente que os "centros de
, que foram disseminados territórios da forta-
fato são
poucas
de formalmente,
o momento de inverter este raciocínio e de per-
guntarmos se não são os próprios centros ele detenção para migrantes que
constituem o novo modelo no qual, progressivamente, as prisões pós-fordistas
se inspirarão. Esses centros se configuram como dispositivos prepostos à con-
tenção de uma população excedente e de um surpllls de força de trabalho
desqualificada; eles prescindem explicitamente da consumação de um delito,
das características individuais ele quem está detido neles e de qualquer finalidade
reeducativa ou correcional, para orientar-se no sentido da "estocagem" de cate-
gorias inteiras de iI'ídivíduo'yconsideradas de risco, O cárcere atuarial, da
mesma maneira que o centro de detenção para migrm1tes, torna-se então, e
cada vez mais, uma zona de espera em que se procede à alocação dos indiví-
duos singulares às diversas classes de risco das quais deverão continuar a
fazer parte no futuro.
"Actuarial Justice: The New Criminal Law", ín D, Nelken (ed.), 171e
Futures of Crimillology, Londres, 1994, pp. 173-201; P. O'Malley, "Legal
Networks and Domestic Seeurity", in StlIdies i/l Law. Polítics alld Society, XII
1991, pp. 170-190; P. O'Malley, "Risk, Power and Crime Prevenlion", ín Eco/lomv
and XXI, 3, 1 pp, 252-275. '
108 Sobre este assunto, ver L. Morrís, Dangerolls C/asso The Underclass anel
Social Citizenship. Londres, Routledge, 1999.
98
. . d ' d' 'd ' reais da inte-
Por consegumte, a concretude o m IVI ue, eIS
. - ' 1 subs'j'tuídas por probabilísticas baseadas na
laçao SOCIa , sa. ,l < •
- "d .. j"'Cl'OS do local' clundestmos,
produçao estatlstlca e Slmu u ' ,
do gueto,
reclusão
d
' constantementc, novOS sabe-
mento as ,
res sobre os sujeitos, que, depois, eram reflexivamentc _ a.s mesmas
melhorar a sua de penetraçao da realldade -, o
a tudo isso, O
a
e o substitui construção ele categorias e formas ele individualização com-
pletamente arbitrárias, baseadas no de e
para a contenção dos riscos. , ,"
As determinações peculiares do sujeito, que as tecnologias dlsclplmares
dobrar e , silo por
tituem
- t' 109
contençao preven Iva .
A lógica atuarial evidencia, certamente, a penetração ele uma
gerencial no sistema de controle, uma os pi
cípios de economização dos recursos, de monetallzaçao dos IISCOS, e
tividade da relação custo-benefício
11o
, Mas o nestes
, . I A'''' ,F. ,1' ·ta" C'lda vez mms estranlu
constitui uma mClOnalidaG e eCO/lOilIlCa pOS-joj'( 1.1 " •
à complexidade do real c incapaz de penetrar a matéria a qual exerce o
domínio, ela substitui a regulação das forças sobre as qums desenvolve
pela redução ao mínimo das potencialidades que não controla, E. '
, , . . . . ,I' o cnl11moso do
a difIculdade crescente em dlstmgull o l Ü .
, b 11 1 ,.\ '011C)!·n·j'l 'lleüal do da econorma
llTeOular, o tra a 1a{ Ol c a ec 'b' '.
matque determina o reagrupamento da diversidade en,1 ?lass
e
pen,gosa,. Pcl-
rece-me que se torna possível aqui reconhecer uma afmldade partlculm en-
109 Para uma análise mais articulada da lógica atum'ia! e sua .' ._
'. • 'LI hvro Zero lolle/O/lGa,
penalidade contemporánea, penmto-me remeter <lO me .. . O
Strategie e pratiche delta societi! di cOlltrollo. Roma, DenveApprodl, 200 :.
c .. . I TI' C" ,. 1 Conte," A Crltlcal
110 Sobre estes aspectos do atuanaltsmo, ver . ay 01, lime /I ' .
Criminology ()f Market Societies. Cambridge, Polity Prcss, 1999.
99
tre um poder de controle incapaz de exercitar qualquer função disciplinar de
transformação dos sujeitos e uma racionalidade capitalista que, igualmente
distante das dinâmicas da produtividade social, projeta-se sobre a força de
trabalho pós-fordista sob a forma de controle externo puro.
Convém, por outro lado, reconhecer que a lógica securitária, na qual as
práticas do controle atuariai se inspi ram, não representa uma novidade abso-
luta. O Estado social pode ser, de fato, como um modelo de
regulação da sociedade que conjuga eficazmente o paradigma disciplJfmr'-ce
controle sobre os sujeitos com um sistema de socialização atum·ial dos riscos
que afetam as populações em seu conjunto. É a partir desta instalação
biopolítica que se compreende o nascimento dos sistemas sanitários nacio-
nais, da previdência social, das legislações sobre acidentes de trabalho. Em
todos esses casos uma lógica securitária ióforma e racionaliza os dispositi-
vos biopolíticos de regulação da população
lll
. O que hoje me parece decidi-
damente novo é o modo pelo qual a tecnologia securitária se conjuga às
novas estratégias de controle. Enquanto na tradução welfarista as técnicas
securitárias um mecanismo de regulação orientado para a
dos riscos coJetivos alimentavam 1'Or111:1S ele social
fundadas l1a na c na as técnicas atuarillis
de controle contemporâneas operam cxatamente na elireção oposta, limitan-
do, neutralizando· e desestruturando formas da interação social percebidas
como de risco. Ao combinar sistematicamente estratégias políticas que alí-
mentam a construção social de um imaginário da insegurança, do risco e da
ameaça criminal proveniente do "estrangeiro", as tecnologias atuariais se
revelam, ao mesmo tempo, um instrumento de contenção da força de traba-
lho excedente e um dispositivo simbólico de desconstrução dos elos sociais
da multidão pós-fordista.
O encarceramento de massa, sustentado por retóricas de guerra, inva-
são e assédio, permite atribuir ao excesso negativo a fisionomia da nova
classe perigosa e de de-socializar a multidão pós-fordista, substituindo os
laços de cooperação por aquilo que Pat O'Malley define como "novo
prudencialismo", um regime de desconfiança universal que impede o reco-
III É a François Ewald que devemos os estudos mais significativos sobre a rela-
ção entre a emergência da lógica atuarial e o nascimento do Estado social. F.
Ewald, L'État-Providence. Paris, 1 F. Ewald, "Norms, Discipline and
the Law", in 30, 1 pp. 136-161: F. "Insurancc anel
Risk", in BUfchell, Gordon & Miller The Fo/{colllr pp. J 97-210.
100
nhecimento recíproco dos indivíduos como parte de uma mesma força de
trabalho social 112 •
Estes processos de construção social da diversidade alg.o de risco
(dos lugares, das situações, dos indivídl:os e ll1telfos:
novas hierarquias na superfície da multIdão e lmpoem no
seu interior. Desse modo, a multiplicidade, a mistura de 11l1guagens, a Irredu-
tibilidade das em suma, todas aquelas características que nos
permitem definir a força de trabalho contemporâne.a como lI.ma
são redefinidas pelas estratégias de controle como fontes de ll1cer teza pe!-
manente, fobia do diferente e pânico pelo imprevisível I 13.
Hoje, a conservação da ordem social parece invocar, a
implementação de uma estratégia de controle de
mente aquelas formas de socialização e de cooperaçao socwl que antes
necessário alimentar uma vez que constituíam o fundamento da produtlvl-
d;de fordista. E isso acontece porque hoje aquelas formas de
escapam constantemente ao controle, fogem de qualquer cartografia .dISCI-
plinar e assumem a de eventos de risco, que devem ser eVitados
a prcçol14
112 Ver em particular P. Q'Malley, "Risk, Crime and Pru.dentialism K.
Stenson e R. Sullivan (eds.), Crime, Risk and JustIce. The Pollt/cs of CI /lne
Contral in Liberal Del1locracies. Devon, Willan, 2001, pp. 89-103.
113 Para uma descrição dos processos de construção do "estrangeiro" e da,
função quanto à reproduç,ão,de incerteza ex.istencial que legitil:1a o dOll111110,
ver Z. Bauman La società dell'incertezza, tmd. It. Bolonha, II Mulmo, 1999.
114 Neste insere-se também o processo de da, a
que assistimos na sociedade contemporânea. Estamos nos refenndo a]a
recolocação de "emergências" criminais que permitem, ao mesmo tem
p
?, construll
as novas classes perigosas (dar-lhes uma fisionomia reconhecível: pedofilos,
nistas fundamentalistas islâmicos, hackers, albaneses, nômades elc.) e
social em torno de novas medidas repressivas. Pode-se de ..
em dois sentidos: porque estas são cada vez
sobretudo porque, uma vez cessadas (isto é, do cenáno mass-mldmt1co,
seu único plano de existência), as medidas repressivas adotadas fazer-lhes
I
· d f·t d r mitação das liberdades que
frente permanecem em norma Izan o os e elos e I ... " ,."
daí derivam. Ver em pm1icular L. Blisset Project, Nemici delta Stato. C.mlllllalt 110S1l1
Ilella società di comrallo. Roma, Derive Approdl, 1999, e o meu
11
" . 19 2000 pp. 99-102.
towle de! contro o , ll1 "
101
A metrópole punitiva - constante na literatura
contemporânea, a cidade parece set candidata a representar o
das de controle mais das
na
cada vez mais
nar
116
• As práticas abandonam certamente o cárcere mas não
para difundir-se além do seu perín;'etro no interior do espaço urb;no, como
outros dele 17, mas
a tornar a
de punitiva, l1ias sim se transforma, mesma, em dispositivo de viailância
de .uma repressão que exerce, uma vez, não
?s mdtvlduos smgulares, mas inteiras de sujeitos. E ainda mais-
Importante, a cidade não parece fu:ucionar como um mecanismo orientado
nos indivíduos, a de valores disciplinares, n
de modelos de comportanãento regulados, a obediência a estilos de
VJda Perpassada rior uma multidão produtiva que foge às
categonas dlsclplmares de normalidade e patologia social, conformidade c
. . . operosidade e periculosidade, abarcando todas, mas sem se deixar
identificar com nenhuma delas,·a cldade pós-disciplinar aquilo que,
com talvez como uma "ordem' sem nprma" I IR. A
e punire,
116 M D . C' , /.
. aVls, ata { I quarzo. IndagclIrdo sul jiltllro ii! Los
Manifestolibri, 1999.
trad. ir. Roma,
117
por exemplo, S. Cohen, Puni tive City: Notes on lhe DispersaI of
Social Contrai", in COl1temporarv 3, 1979, pp.
118 Z B .
. auman. Work COllslllnerislIl,and rhe NeIV Poor. Buckingham,
University 2001, p. 85.
102
nova arquitetura urbana e as políticas de controle que nela se apóiam - quer
se chame tolerância zero ou Ileiglzbollrhoodwatch, ou ainda vigilância ele-
trônica ou - alimentam uma social totalmente
individuais de uma
de classes de indivíduos defini-
As 21.000 tele-cflmcras de circuito fechado que cstão instaladas nos
territórios urbanos da as torres direcionais de Los (mu-
nidas de sensibilidade à umidade e à
dos movimentos e, em casos, de escuta"l
biométrica das identidades nas
os detectores de metais que,
procedem a sistemáticas imateriais"120, enfim
todos estes dispositivos de não configuram um único, enorme e
O na realidade, os
"o
atual ( ... ] mas sim
Pelo contrário, as classificações atumiais produzidas por esses processos
que, por sua vez, as inspiram) não têm tanto a função de
a serem disciplinadas, reguladas ou "normalizadas"; sua funçao e mUlt? maIs
a de diferenciar as possibilidades de acesso a (ou de fuga de) determmadas
zonas da cidade.
Em outras palavras, estas tecnologias se erigem como proteção dos guetos
"voluntários" (centros comerciais, parques temáticos, aeroportos, gated
C01ll11111llities) e "involuntários" guetos propriamente ditos) que compõem
a cidade pós-fordista, garantindo o respeito aos critérios que regulam os
fluxos de entrada ou saída de uns e outros. Desse modo, elas "indicam" as
l7o-go-areas disseminadas pela metrópole e assinalam visualmente que existe
119 M. Davis, Geografí"e della pOlira. Los . l'illlllwgÍnario colletivo dei
disastro. Milão, Feltrinelli, 1999, p. 382. do T.: brasileira. do
medo. Los Angeles e a jábricaçâo de 11m desastre. Rio de Janeiro, Record, 2001,
tradução de Aluízio Pestana da Costa].
120 o. Sforia política dei filo Spil/Clto, trau. it. Verona, Ombrecorte, 200l.
121 D. Lyon, SlIrveillollce MOI/flOriu!! Li{e. Opcn
University Press, 2001, p. 54.
103
uma diferença fundamental entre "aqueles que la 'd d /
o aviso llo-go-area como 'eu _ " I Cl a e pos-moderna, lêem
nao quero entrar'" e "aqueles para q
se traduz por 'eu não posso sair'''122. uem no go
A metrópole ) / f 'd' ,
I os- 01 lsta Isola no seu interior es d I
desarticulam violentamente as l11uitíd-' . , " paços e rec usão que
ficial ente aquilo q I f ' oes, leplOduzlI1do uma separação arti-
ue c e :xcesso negativo e excesso positivo,
, clSPOSslbIlldadesdemo"Í'l' t' -
aSSIm criada uma escol a soc· ai ,,' v .1 en o e lI1teraçao:
I, ,menSlll a vel de 'lcOl'do c .
acesso aos lugares simbolicamente e/ou e ' " om a ele
.. .,. conomlcamente valonzados"'2:> A
deíll1ltlvamente de envernar as d " / ,'"
para transformar-se num apanto d I::> e, O espaço publIco
observ1veis ii ,I' t; " O' " e captura e vigilância de populações
< , ulS dncw. controle se 't·· r.. .
regula o encontro 111' ' I _ ma ena lZ,l lll.lrna arqllltetura que não
, ,IS o Impec e nao novern 't -
cu los a ela não dl'sc' l' 'b a a ln eraçao, mas cria obslâ-
, , . lp 111a as presenças mas t '. /
simbólicas e f' t', ' , ' , as orna 117V1S1VeiS, Barreiras
, ,lOn ellas materIaIs produzem assim exclusão e inclusão
DIante da lllcupacÍebdc de °ove"IJar rcu I' r' 1 •
tos da multidão, os I::> I . < , _ oU dr c ( iSClp. os comportamcn-
(O contlOlc urbano se limitam à vil::>uili'1I1Cl'U
de massa, v ,
no das
externas lJue mostram de '", ,
/ ' de um espaço imperial virtualmellte livre de front '_ _
tonas da força de trabalho crlob 1 b' '. ellas e as pressoes mlgra-
• b a so le os lImItes naciona' - R d I
aqUi os novos contornos do crueL -b ,: ' . IS, e esen lam-se
dispositivo carcerário colo I::> o ur ano que, em slmblOse mortal" Com o
<, ca-se como garante das est t /, d f
tação e separação hierárquica da f d _ '_ ra egIaS e ragmen-
mente a diferença e a o:ç1a e ttabalho, restabelecendo artificial-
, anCla SOCla entre "incluídos" e "exc1uídos"124,
123, cit., p, 70,
Razac, Stona política deZ filo spinafo cÍt 9 . ,
spazi VI/oti della metrojJO/i D' t. '.1'" p: 1. VCI tambem M, Ilardi, Negli
, ' IS 11Iz.lOl1e {Isordllle t' r I'
Tunm, BolIati Borin ahieri 1999 A 'P' ,I ac Imento {, ell IIltimo Homo,
I
" "", c, etnllo L'I citt' -I L' '
{, lInenSlOl/e urbana !leI mOIl I _ "a pen Ufa, echsse della
.,' . C,o contemporaneo, Bari, Dedalo, 2000.
" ' SO,bre d IdeIa de uma cqUlvalência funcional d
SimbIOse" entre Gueto e . L \V que escmboca numa verdadeira
'" vel ,acquant S b- ,
and Prison Mcet anel Mesh" il1 D Oe -I' d (d' ym 10051S: When Ohetto
e, ,di ,111 e ) 1\ A' '[ \- II _. ,
Vale dizer > ," 'ice. IlpUsonment, Clt., pp, 82-J20
, que em 1980 Dano Mclossí 'fia _ '
e prenunciava a das de ple loLlJaVa
como substitutos das d UI bana e de guetlzação
'I . e controle através do Cf D
I Per uno studio clelle cI'. ," Oltre
ventcsimo secolo'" r., I contlOllo socmle ncl dei
, , 111 LlI questIone 1
pp,277-361.
104
A reestruturação das cidades de acordo com linhas de fortificação e
perímetros de segurança dá consistência plástica à separação entre classes
perigosas e classes laboriosas que constitui o único terreno colocado à
disposição dos dispositivos de controle para conter o excesso da multidão. A
segregação dos migrantes nas cidades européias, a reclusão da força de
trabalho afro-americana, hispano-americana e oriental nas metrópoles dos
Estados Unidos e, em geral, a instituição de zonas urbanas de acessibilidade
diferenciada alimentam um regime da cujo objetivo é a
desestruturação da multidão, a ruptura daqueles laços de empatia e cooperação
que, do ponto de vista do domínio, representam um perigo extremo. O efeito
é a segmentação da multidão através de uma ecologia do medo que, na cidade,
se materializa na figura do estrangeiro, do imigrante, do desempregado, do
dependente de drogas,
A contenção do excesso negativo alimenta a sua construção social como
classe perigosa, como entidade imprevisível. Aí se evidencia o crepúsculo
ele um poder disciplinar que cultivava a ambição ele produzir sujeitos úteis, e
o alvorecer de um poder de controle que se limita a vigiar CUjaS
de vida não consegue colher. Em
o visto no contexto da social, é,
mais projetado do que material mais temido do que
mais evitado do que contrastado, mais prevenido do que suprimido,
Trata-se de uma esfera sociocognitiva completamente renovada, que
emerge do conflito bem delineado entre territórios governados e "ou-
. , 125
tros pengosos' ,
A atribuição de uma função de controle ao espaço - dissociada das carac-
terísticas individuais dos sujeitos, separada das formas específicas da interação
entre eles, indiferente às modalidades de socialização concreta dos indivídu-
os e fundada sobre a construção social de perigos cujas características fo-
gem a toda e qualquer compreensão precisa - evidencia até que ponto a
lógica do risco é o resultado de uma perda de contato sobre o real da parte
dos aparelhos de controle. Eles operam como pura inibição de processos de
interação que não governam, renunciando a qualquer função positiva, produ-
tiva e transformadora.
A rede imbricada Nesse meio tempo, a economia da rede reclama no-
vas formas de controle à altura das transformações que perpassaram a pro-
125 M,Lianos e and the End of Dcviancc, Thc InsLÍ-
tutional Environment", in TÍle British ]ollmal 2,2000, p, 274_
105
o
produtividade informatizada, o
da
representa o âmbito de máxima da
no qual se concretiza (ou se virtualiza)
mas também um terreno de conflito
procura agora assegurar comando
que lhe
além do trabalho [ ... J
suas
que estão acontecendo
cativos elo comunicativo
por que o controle se em torno da
. do quanto e do como tcr acesso, com base em quais requisitos e
com qUalS à às informações, à inovação, ao saber. O controle
se exercita não tanto mais sobre o uso concreto de determinados recursos _
são
torar, Controlar e censurar a comunicação e mais preci-
samente os comportamentos dos novos trabalhadores do imaterial
sujeitos que se apropriam elo e da capacidade de
adquirindo cada vez mais autonomia da organização do coman-
do, e cujo uso das redes e do computador pode, a qualquer momen-
to, tornar disfuncional, transformar-se em sabotagem, conexão das
lutas, "desobediência civil eletrônica" 127.
aqui, emergem algumas insanáveis, que
revelam a vulnerabIlidade e a estranheza das formas do domínio na sua rela-
com a nova de trabalho imaterial: de um lado, apenas o acesso
ul1lversal potencialmente indiscriminado e horizontalmente cO-dividido às
. ..,. -:- aos ao espaço virtual permite à produtividade
lmgmstlca e Imatenal expnmIr-se plenamente; cle outro lado, exatamente o
acesso e esta generalizada parecem minar os próprios fundamen-
tos da. expropriaç.ão e da valorização capitalista dos novos fatores produti-
vos, VIsto que pnvam ele sentido os mesmos conceitos de e
Technology
a /1(1 CirclI irs
Univcrsity or Illinois
Projcct, Nemici dei/o Stato, cit., p. 15.
127
106
of Slrugg/e in High-
1999, p. 122.
"propriedade". No momento em que estende o domínio para além da
esfera do real, projetando-o sobre a dimensão virtual, o capital lança, paradoxal-
mente, as bases para a própria continuamente novas
frentes em que se materializa o excedente da de trabalho
Por os trabalhadores do imaterial devem ser de
ter acesso a que possam colocar em a exclusividade de
uma relacionada aos de tratamento dos dados. O aCesso
a determinados informáticos deve ser subordinado à posse de uma
capaz de individualizar ou que demonstrem contar
com os requisitos que assegurem ao sistema um uso e não arris-
cado dos Voltam assim à mente as de Deleuze:
Nas sociedades de controle [ ... ] o essencial não é nem uma firma
nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma uma vez
que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras d.e ordem
l ... I. A do controle é feita de cifras que assmalam o
. encontramos mais diante
e
amostras
Estas estratégias de controle preventivo não no entanto, escapar
de uma contradição constitutiva, que as leva ao limite do
pretendem estabelecer um reginle da previsibilidade absoluta, d.a anteclpaçao
e da categorização, ali onde a produtividade da multidão se basew exatamente
no oposto, i.e., na imprevisibilidade, no inédito, no que não se repete. Por
outro lado, porém, estas estratégias não podem manter-se sempre dos
processos de comunicação e troca que animam os fluxos da Virtu-
al, configurando-se, conseqüentemente, como limite imposto ao livre desen-
rolar destes mesmos fluxos. Uma vez mais, porérn, este limite não pode ser
empurrado até se tornar imposição de uma verdadeira disciplina, porque esta
esgotaria os requisitos da própria produtividade.
A co-divisão horizontal de informações e o acesso indiscriminado aos
não-lugares nos quais elas são produzidas representam hoje as formas mais
128 G. Delcuze, "La soeietà dei controllo", in G. Deleuze, POW]J(l rlers, trad. it.
Macerata, Quodlibet, 2000, p. 239 lN. do T.: edição brasileira COllversações, 1972-
1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, tradução de Peter Pál Pelbart). Para uma
resenha dos problemas de controle causados pelo desenvolvimento da rede, ver
D. Thomas e B. Loader (eds.) Cybercrime. U/lV Enforcemcnl, ScclLriry {/nd Surl'eIl-
lance iI! the blj:or11wtioll Age. Nova Iorque, Routledge, 2000.
107
graves de atentado à apropriação capitalista dos meios de produção, e as
estratégias de controle tentam, em meio a contradições e paradoxos,
desta apropriação. Compreende-se, assim, por que não é exagerado
afIrmar que "a Internet é o mais importante bode expiatório dos nossos tem-
pos, a mãe de todas as novas emergências, ajihad que pressupõe e justifica
toda e qualquer guerra local"129.
Tudo isso nos reporta, significativamente, aos albores do modo de pro-
dução capitalista, quando na Inglaterra, na transição entre os séculos XVIII
e XIX, foi exatamente a difusão das manufaturas, das máquinas, dos esto-
ques de mercadorias e dos negócios o que constituiu o pressuposto do nas-
cimento da polícia moderna:
- constituídos por estoques, por matérias-primas, por
obJetos Importados, por máquinas, por oficinas - estão diretan:'lente
expostos ao roubo. Toda essa população de pobres, de desemprega-
dos, de pessoas que procuram trabalho, tem agora um contato dire-
to, físico, com as fortunas, com a riqueza. O roubo de navios, o
das e dos ues, os tornam-se
normais na no fina! do E exatamente o
grande problema do poder na Inglaterra nesta época é promover
mecanrsmos de controle que permitam proteger esta nova forma
. I d' 130
matena a nqueza .
Se essas novas exigências de controle determinaram o nascimento de
uma polícia como nós a conhecemos hoje e alimentaram formas de oraani-
zação do trabalho no interior da fábrica fordista em que, ao lado do Obj:tivo
da máxima produtividade, encontrava-se o do máximo controle sobre os
comportamentos operários, hoje talvez assistamos a uma evolução. Uma
renovada necessidade de controle se manifesta diante das novas formas de-'
produção da riqueza social e das novas possibilidades de apropriação dos
recursos: "enquanto a era que está chegando ao término se caracterizava
pelo controle da troca de bens, a nova era se caracteriza pelo controle da
troea de conceitos"13l.
Nel11ici dello Stato, cit., p. 11.
!30 Foucault, "La verità e le forme giuridiche", cit., p. 146. Sobre o nascimento da
polícia e sobre as transformações atuais ver ainda Palidda, Polida postoderna.
del /lUOVO cOlltrollo cit.
131 J. Rifkin, L'era dell'acesso. La
Mondadori, 2000, p. 76.
della New
trad. ir.
108
Emergem, assim, progressivamente, um controle preventivo - porque,
diferentemente da riqueza material, a riqueza imaterial só pode ser recupera-
da quando alguém se tenha apropriado ou feito uso dela -, 1..111:
difuso - porque, diferentemente dos recursos materiais, os recursos lmatenms
não se localizam num espaço determinado, constituindo antes fluxos,
éter e um controle atuarial - porque, diferentemente dos sujeitos da pro-
dução material, situáveis e disciplinarmente num espaço produ-
tivo definido, a multidão pós-fordista é uma entidade irredutível às formas de
singularização típicas da produção fordista e às .conceituais qu: se
baseiam nelas. A produtividade fundada no saber dos IIlUltos excede, enfIm,
o domínio fundado no nilo-saber do poder.
Novas resistências
Em La volontà di saperc, Foucault se detém· nas formas de resistência
que emergem na sociedade do controle biopolítico. Essas não se
enraízam, afirma ele, num "lugar da Grande Recusa", não delIneIam um
"ânimo de revolta", nem sequer um "foco de todas as rebeliões" sobre as
uma "lei pura do revolucionário". Elas se
espontâneas. selvagens, as, concertadas, estressantes,
irredutíveis, pontas ao compromisso, interessadas ou sacrificiais"132 .
As resistências ao governo do excesso estão em processo constante.
Embora nem sempre seja possível dar-lhes um nome, ou
se como tais, elas se desenvolvem numa molecuraridade de conflItos difusos.
É exatamente isso que, com o declínio da fábrica fordista e a implosão do
reaime de controle disciplinar, Foucault nos sugere, para dizer o menos,
lugar da "grande recusa" á qual associamos ,a forma _da
resistência e da insurgência operárias. Oriundos do penmetro de
disciplinm:es fechadas, os conflitos que surgem em novas estrate-
gias de controle pós-fordista se caracterizam pela de fOfl;1as,
pela irredutibilidade a qualquer práxis hegemôl:ica, pela hlbndaçao cont1l1ua
das práticas e pela amplitude com que se mal1lfestam.
Todo dispositivo de controle é constituído por um de práticas,
estratégias e discursos que dão corpo a uma economia e a uma
racionalidade específica do domínio. As resistências se localizam exatamen-
te naquela economia e naquela racionalidade para sabotá-las, subtraí-las, torná-
132 Foucault, "La volontà di , cit., p. 85.
109
Não se
por dentro, quase um axiOlTHl daquilo que
do nexo
11J
convém frisar, de que exista uma
e resistências, como
formas de rebelião que
ao contrário, de
se
mos, permitia a da seu enraizamento no espaço físico e
nas de que lhe conferiam vigor. Esta resistência podia
expnmIr-se como exodo dos lugares do controle, isto é, como desejo de retirar-
localização (evasão do cárcere, fuga da ou da instituição psiqui-
como desestrtltllraçlío por dentro (sabotagem industrial, prática do ob-
JctlVO, "atípicas" de greve), ou como prflxis de reapropriaçâo do espaço
destll1á-lo a um uso distinto do imposto pelo domínio (prMÍcas anti-psiqui-
../ atncas, ocupação das fábricas, comunidades anárquicas).
Os mecanismos ela organização disciplinar que tornaram possí-
vel a grandIOSIdade do taylorismo nos anos Sessenta e Setenta representa-
o elemento de força de uma classe que começava a dar vida a
pratIcas de auto-valorização dentro e contra o capital. Toda aquela preciosa
133 segundo é sempre no interior das relações de poder que as
reslstenclas se constituem. Não existe uma exterioridade absoluta da resistência
poder, visto que as r.elações de poder são dispersas, difusas e "ubíquas". É
este. um dos pontos mais controversos (mas, na minha opinião, também mais
fascll1antes) da aná.lise foucaultiana, sobre o qual se mede a difícil relação entre
Foucault e o marXIsmo ortodoxo, pela recusa, por parte do filósofo de
toda representação estática, monolítica e vertical dos aparelhos de
110
engrenagem de controle total sobre a força de trabalho se voltou, assim,
progressivamente, contra o domínio capitalista que a bavia montado e colo-
cado em ação. As mesmas posturas rígidas, as mesmas máquinas, as mes-
mas linhas de montagem, as mesmas sucessões hierárquicas que haviam
a alienação, a e a subordinação do corpo ao valor,
pcrmitiam agora, à classe exercitar um cfctivo cm
relação ao sistema produtivo. Quero dizer com isso que, dentro ou (ora da
produção, dentro ou (ora dos espaços definidos do controle, as resistências
nascem exatamente onde os poderes se apóiam, nutrindo-se daquelas
mesmas características que fazem deles poderes "eficazes".
Ora, as tecnologias do controle que vimos descrevendo nessas páginas
quase consumar estas margens de resistência, porque substitu-
em lugares, indivíduos e relações subjetivas reais por simulacros, i1uxos de
dados e números, estatísticas e não-lugares, com respeito aos quais é difícil
a de resistência. A tabela e o
das áreas ele risco da
com base
com base no grupo
são alguns exemplos de atuanals que tornar
qualquer resistência porque a anulam na sua dimensão subjetiva, isto é, de-
sestruturam aqueles sujeitos e aquelas formas de interação social que as tec-
nologias disciplinares pretendiam transformar e regular. Em outras palavras:
A classificação atuarial, com o seu sujeito sem centro, parece elimi-
nar, antecipadamente, a possibilidade de uma identidade, de um auto-
conhecimento crítico e de uma intersubjetividade. Ao invés de cons-
134
truir as pessoas, as práticas atuariais as desmantelam .
Todavia, talvez seja possível considerar tudo isso não como a submissão
definitiva das resistências da parte de um poder de controle que refinou os
próprios instrumentos de domínio, mas sim como a demonstração de uma
radical fetração do poder, de uma drástica perda de controle sobre as dinâmi-
cas sociais. A atuarialização, a vigilância, o internamento, as limitações de
acesso não impedem as resistências, simplesmente procuram ignorá-Ias,
colocando as práticas de controle num plano diverso, onde no lugar de sujei-
tos reais encontramos imagens deformadas.
134 J. Simon, "The Ideological Effect of Actuarial Practices", in La,v anel Society
RevielV, II, 411988, p. 795.
111
Então, é aqui que podemos identificar um nexo singular entre estratégias
de c?l1trole do excesso e formas de domínio do capital sobre a multidão pós-
fordIsta. Do mesmo modo que o comando do capital sobre a força de traba-
lho se sob a forma de simulacro, como contínua imposição de
que não compartilham nada com o caráter social e cooperativo da
for?a. de a que pretendem aplicar-se (trabalho e não-trabalho, pro-
dutivIdade e Improdutividade, emprego e desemprego), o controle do exces-
so se desenvolve através da imposição de categorias virtuais e transcenden-
.tais a classe perigosa, o clandestino, o sujeito de risco, o fotograma
e a Identidade biométrica.
/ Se, foi dito muitas vezes, a consolidação das relações
representa a resposta a uma ofensiva operária que tinha preju-
dIcado o processo da acumulação capitalista e a realização da mais-valia,
pensar que a mesma dinâmica esteja ocorrendo na passagem da
dIscIplIna para o controle. Agora, os sujeitos, a própria matéria sobrc as
as tecnologias disciplinares puderam se exercitar no
cedem a uma multidão que que cnnl procura se retirar
dos espa(,;os delimitados da para 110 tecido social em seu
conjunto. O que não é mais a definição disciplinar de espaços e
de cOl:trole dlstmtos dos espaços e dos tempos do não-controle, mas
SIm _o uma obsessão quase dese'sperada de vigilância total, de
gestao do impreVIsto, de antecipação do possível.
Quando afirmamos que o controle pós-fordista assume progressivamen-
te a forma de um simulacro, não pretendemos desmaterializá-lo, nem mes-
mo.subestimar a violência que o inspira e as conseqliências factuais que daí
As novas estratégias de segregação urbana, de destruição do espa-
ço publIco, de encarceramento de massa e de limitação do acesso à informa-
ção são fenômenos extremamente reais. Produzem sofrimento, isolamento,
desespero, chegando mesmo, muitas vezes, a -impor aquela "morte bioaráfi-
ca" a eu nas p:-imeiras páginas. É impossível negá-lo. A<;sim
como e lmposslvel nao ver ate que ponto este arsenal de violência do contro-
le que vemos desenvolver-se na sociedade contemporânea demonstra toda a
sua pobreza diante da riqueza das subjetividades produtivas que pretende
controlm·.
. _Aqui, a incapacidade de compreender e governar o real determina a tran-
slçao a um poder de controle do excesso que l1el0 é mais produçel0, mas sim
pura de (1'1 d d
< a, o o
da guerra humanitária, ele cuIti-
112
va a ilusão de constranger a multidão em categorias definidas, de dispô-la
segundo linhas hierárquicas, impondo-lhe uma ordem pré-concebida. Não
conseguindo exercer-se sobre o "tornar-se múltiplo" dos sujeitos, o governo
do excesso os cristaliza, atribuindo-lhes violentamente uma identidade pré-
definida de imigrante, desempregado, criminoso - necessária para tornar
possível o da vigilância. Mas à violência desta imposição de identida-
de acrescenta-se imediatamente uma outra, a distribuição das divcrsas clas-
scs de indivíduos nos não-lugares do controle: a imigração nas "zonas de
do Império, o desemprego nos guetos metropolitanos, a precarieda-
de nas dobras do trabalho negro, o desvio no cárcere, o trabalho imaterial
nas redes, as diversidades existenciais nas margens.
Porém, voltando o olhar para as formas de resistência emersas nos últi-
mos anos em várias frentes da identidade sexual ao trabalho, da imigração
aos direitos da cidadania -, descobrimos que elas se configuram exatamente
como práticas de contestação dos dispositivos que obrigam os indivíduos a
aceitar identidades e, como a colocar-se em
espaços nas resistências
que acabaram. por reconhecer que, através de processos
que definir de "auto-consciência", se
penso muito mais nas resistências que emergem no quotidíano silencioso das
formas de vida e das experiências biográficas individuais. Penso nas resis-
tências que se enraízam na corporeidade de um trabalho hiper-explorado e
precário, nas expectativas de vida confinadas num gueto urbano ou no dese-
jo de fuga que esbarra num confim artificia1. "Exemplos de espécie", diria
Foucault; emergências singulares, muitas vezes subterrâneas, quase sempre
ocultas ou tornadas invisíveis pelos dispositivos do controle pós-fordista,
mas que delineiam uma nova cartograf.9 das resistências biopolíticas.
Penso nos migrantes, cujo desejo de mobilidade, de subtração, de fuga,
esbarra diariamente nos dispositivos de controle e de localização forçada da
multidão, expressando uma "crítica prática" a eles 135. As políticas de contro-
le das migrações se traduzem numa expropriação sistemática dos desejos,
das motivações e das expectativas que inspiram os projetos migratórios. Na
metrópole pós-fordista, é retirada a palavra ao migrante, a linguagem e a
possibilidade de comunicar a própria condição existencial lhe são tolhidas,
reduzindo-o, assim, à afasia. Vemos desenvolver-se aqui, de modo exemplar,
a racionalidade dos dispositivos de controle pós-fordistas. Ao mesmo tempo
m Cf. Diritto di cit.
113
e perigosa, excesso positivo e excesso negativo,
os devem ser pnvados exatamente daquelas faculdades comuni-
catIvas, lmgüísticas c afetivas que deles uma subjetividade constitutiva
da f?rça de trabalho social. O objetivo é contrastar o auto-reconhecimento
de SI como da multidão, de impedir a de laços e de
. SOCIal e que possam elar corpo à Os
C?l1stltuem então uma.imagem paradigmática da multidão pós-fordista e in-
dIcam, sobretudo, as formas de resistência a que ela pode dar vida, dentro
do e contra o novo de "governo do excesso.
114
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