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EXTENSÃO DOS LÁBIOS

Poesia

Rui Miguel Duarte

2012

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Índice
Prefácio............................................................4 FRANKFURT-HAHN FLUGHAFEN..........8 MAGOS............................................................9 DA MATÉRIA DO POEMA........................11 LÁZARO SEM ABRIGO..............................12 NADA ONDE POUSAR O SONHO..........14 ELIAS..............................................................16 QUEM SEGURA A MÃO............................18 CIÊNCIA DO TOM......................................20 CRUCIFICAÇÃO..........................................21 À SOMBRA DA FIGUEIRA........................22 CEGO.............................................................24 AS CEREJAS..................................................25 AS BORRAS DO VINHO............................26 EXTENSÃO...................................................28 NOVO SALMO 91........................................29 O ÚLTIMO JANTAR DE D. GIOVANNI..30 PAI E FILHO.................................................31 RUTE..............................................................32 TRATADO DA LEVEZA.............................33 OS VELHOS..................................................34 ESQUINAS....................................................36 MULHER SOBRE OS PÉS...........................37 SANSÃO........................................................38 À SOMBRA....................................................39 CONFISSÃO..................................................40 MADRUGADA.............................................41 INTERVALO.................................................42 LIÇÃO DE VOO...........................................43 OS RIOS.........................................................44 NEVE..............................................................45 NO CABO ESPICHEL..................................46 OS CAVALOS...............................................47 ORAÇÃO DA CANANEIA........................48 SIDERAIS.......................................................50 AMIGOS........................................................51 UMA PALAVRA..........................................52 AGUARELA..................................................53 AMPULHETA...............................................54 ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI).....................56 BALADA DE VERÃO..................................57 RENOVO.......................................................58 FÁBULA DA ESPIGA..................................59 DE MANHÃ..................................................60 QUANDO SAÍRES DE ÍTACA...................62 DÁFNIS E CLOÉ..........................................63 ORFEU'N BLUES..........................................64 EXTENSÃO DOS LÁBIOS..........................66 O Autor..........................................................67

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PREFÁCIO

ALGUNS TRAÇOS SOBRE A VARIEDADE DOS REGISTOS

A extensão dos lábios é, de um modo simbólico – neste novo livro de Rui Miguel Duarte - uma disposição para abarcar vários referentes, para falar várias linguagens poéticas. À parte a “extensão” ser, na Linguística, o acto de tornar extensiva a

significação de uma palavra, o que serve na perfeição para percorrermos a variedade destes registos poéticos. Com efeito, a linguagem poética do autor, estende-se a diversos territórios, cujos registos narrativos da sua poesia podem tanger vários continentes. Usando a literatura um meio que lhe é externo, como ensinou Todorov (1), isto é, servindo-se da linguagem, os poemas deste novo livro “Extensão dos Lábios”, têm a literariedade própria dessa polivalência, são literatura e linguagem. Não é despiciendo, longe disso, numa leitura hermenêutica que o leitor possa fazer, ou tantas quantas queira fazer polissemicamente, que o livro comece com uma viagem, ou melhor, a espera para uma viagem e num lugar – um aeroporto - de onde podemos iniciar um extensão do espaço.

“Há uma correnteza à nossa frente / como um fluxo estagnado de um rio / nesta multidão” (Frankfurt-Hahn Flughafen).

E munido da redutibilidade da contradição - como diria Hegel – a qual faz parte da boa poesia, “com a gravidade do orbe aos ombros de Atlas” o poeta espera a sua viagem.

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Não obstante ser Atlas uma figura mitológica que está fixa, e por isso não pode viajar com o peso da esfera celestial sobre os ombros. No entanto, no final do primeiro poema fica-nos a impressão de que iremos estar perante um Ulisses, a caminho de Ítaca, com o revestimento das asas: . E por aí adiante, num registo de viagens.

“ Vêm do Oriente / do Oriente que perderam / na memória, do Oriente / rosto do sol / em busca de um novo rosto” ( Magos)

E o poema, indissociável do poeta, faz a sua viagem a descoberto, cara voltada ao sol:

“no meu poema há só o sol a prumo” (A Matéria do Poema).

E neste poema começamos a entrar no domínio do registo da própria estrutura da arte poética patente neste livro, como, de resto, nos anteriores livros do poeta. Vulnerável à descoberta da matéria com que o poema se entretece, Rui Miguel Duarte sai das torres de marfim, e expõe-se, admitindo que o seu “ poema não habita em torres de névoa”.

Cada poema neste livro é uma referência, existe sempre um poema anterior que justifica o seguinte, os referenciais não estão distantes uns dos outros e, no entanto, como no rio de Heraclito não mergulhamos duas vezes nas mesmas águas.

Surpreendem-nos D. Sebastião, Ulisses, Jonas no referente Társis, nas suas desventuras que não deixam de ter matéria genética do Lázaro às portas do Rico, nas margens do mundo, sendo que aquele bíblico protagonista da pobreza é uma figura datada, o sem-abrigo. Uma ode aos homens sozinhos, cuja solidão é a sua

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sombra, ainda que seja uma coroa que pode pesar na cabeça ou esmagá-la – como alertava Ezra Pound.

“Sozinho, preso ao fio / da velha roupa / à porta da mansão do banqueiro / é um estranho / e só tem de seu o meio degrau / em que está sentado” ( Lázaro sem Abrigo)

E por aí adiante, entre o “Nada onde Pousar o Sonho” e “Elias”, por exemplo, um poema referenciando outro, um texto decalcando outro, num “plágio” criador, como diria, novamente, Tzvetan Todorov.

“Quem está na montanha vê as coisas de cima / e a roupa do corpo parece-lhe durar / para sempre imune aos temporais / e ao alvoroço vacilante da multidão” (Elias)

Na subjectividade deste registo está o próprio poeta. O autor de “Extensão dos Lábios” tem uma visão, isto é, possui um ponto de vista sobre o que vê, daí a sua diegese. O poeta narra objectivamente e o seu discurso poético polivalente representa a acção e as palavras da sua visão.

“Os Gregos antigos / diriam que / a mão de Posídon / abalara a terra / porque da ofensa de Ulisses / ainda não lhe foi / aplacada a cólera” (Quem segura a mão)

Neste poema, datado sobre o sismo que abalou o Haiti em 2010, RMD “vê” e traz para perto de nós acções simbólicas da mitologia e da cultura grega. Mas não podemos esquecer que o poeta é, sobretudo, poeta de inspiração religiosa evangélica, por isso, no seu discurso poético contado, traz para perto do leitor outro tipo de acções da realidade cristã: a sua diegesis poiética faz-se assim

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representando, exempli gratia, a Crucificação de Cristo (Crucificação), o episódio do chamamento de Natanael sob a figueira (À sombra da figueira) ou a paráfrase poética do salmo 91 (Novo Salmo 91), ou ainda a figura de Rute “colhe / com os olhos que tem nas mãos / o que outros deixam ficar / ou não vêem colhe espigas soltas” (Rute). Poemas em que se percebe o conhecimento da Bíblia por parte do autor e “os olhos que tem nas mãos” para descrever o que vê. Mas existem outras estruturas de texto poético em que se ergue o conhecimento dos clássicos gregos, fruto da formação do poeta. E o poemário sai valorizado com as epígrafes, traduções directas do autor. Poderíamos prosseguir. Mas o melhor é o leitor descobrir por si mesmo.

J. T. Parreira

(1) “Poética”, Tzvetan Todorov, Teorema

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FRANKFURT-HAHN FLUGHAFEN
Há uma correnteza à nossa frente como um fluxo estagnado de um rio nesta multidão que processamos na raivosa inópia da espera de armas e bagagens e criança ao colo com a gravidade do orbe aos ombros de Atlas e a respiração turbulenta dos sismos nas vísceras o nosso clamor (há prioridade para a criança?) conhece a resposta: suportemos com o coração em lírios a espera pelas portas abertas do sonho revestido de asas que nos levará para a pátria 7/06/10

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MAGOS
“… perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?»” Lucas 2:2

Vêm do Oriente do Oriente que perderam na memória, do Oriente rosto do sol em busca de um novo rosto

que os astros lhes rascunharam nos fólios em estudos longos nas longas vigílias a indagar o silêncio que só o Oriente constrói

Vêem do Oriente com olhos de magos de encantadores de serpentes e tocadores de cordas de seda com outros olhos que vêem as transparências dos caminhos

Vêm perguntando aos céus em que aldeia do Ocidente transpostos os finos rasgões

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da noite poderiam ver o rei no berço o novo e diminuto rosto abrir-se

26/12/10

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DA MATÉRIA DO POEMA
“Subi ao alto, à minha Torre esguia, Feita de fumo, névoas e luar” Florbela Espanca, “Torre de névoa”

o meu poema não habita em torres de névoa não há espera matinal por D. Sebastião morreram todos eles para sempre e os seus corpos secaram nos dentes dos chacais em Alcácer-Quibir no meu poema não ardem baixo os luares sobre as águas

no meu poema há só o sol a prumo

não há Ítacas, Társis nem Índias de fuga ou nostalgia há a amplidão nítida dos rios que duma mão nascem e na outra desaguam

no meu poema há a outra margem uma terra toda inteira ainda sem nome nem padrão de descoberta

30/09/11

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LÁZARO SEM ABRIGO
“Está sozinho preso ao fio da velha roupa que espera outra noite, no espaço imóvel do silêncio” J. T. Parreira, in “Na rua”

Sozinho, preso ao fio da velha roupa à porta da mansão do banqueiro é um estranho e só tem de seu o meio degrau em que está sentado

Sozinho, ulcerado pelo vento e pela chuva e lambido pela língua dos cães sozinhos como ele, espera que noutra noite numa qualquer (se não for nesta), lhe caia da mesa uma côdea de pão dentro do espaço imóvel do silêncio da fome

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Sozinho, intruso às colunas que ladeiam a porta preso por um fio do velho cobertor que o banqueiro pisa ao entrar tem os joelhos cravados na laje de mármore da solidão e os olhos postos no céu aspergido de estrelas no seio do pai Abraão

26/11/09

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NADA ONDE POUSAR O SONHO
Não tendes nada onde pousar o sonho nem guitarras em que os dedos se exerçam fados e mornas a que deis as vozes

não há taças para brindar com o vinho de outros travessas onde dispor a fome que é vossa

onde se encobriram de vós do alcance dos vossos lábios? da ilusão que vos deixaram no lugar onde guardáveis o coração?

Não tendes nada nem um pedestal para repouso das estátuas em que se fizeram os vossos corpos as vossas mãos nem o mármore com que as esculpais

porque afinal não possuis o sonho fugiu-vos como de um urso selvagem virou-vos a face

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ao ver em vós a face esconsa do leproso ou o fluido turvo da vómito um resto de vinho rasca escorrente das vossas barbas em ressaca lenta da falta de sonho de música e canto

sem nada onde pousar o sonho mas com tudo onde pousar o tudo que é vosso, que a bófia e os cães vadios vos não arrancaram, que os astros vos não arderam — só o sono, um imenso e dolente sono

6/11/10

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ELIAS
Quem está na montanha vê as coisas de cima e a roupa do corpo parece-lhe durar para sempre imune aos temporais e ao alvoroço vacilante da multidão

quem está na montanha toca com a ponta dos dedos nos lumes do céu e maneja mais destramente o trovão, a majestosa imponência dos dedos de Deus

quem está na montanha de um gesto incendeia o altar do sacrifício e jorra o rio na água límpida das pedras

quem está na montanha domina as artes do discurso é mestre de ilusionismo bobo de feira tratador de ventos terramotos fogos doutor da mais cristalina sabedoria

quem está na montanha é paladino e chanceler da justiça da nação

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quem está na montanha da montanha pode cair e só numa gruta abscôndita na alma pode escutar o sussurro o harmonioso murmúrio da voz de Deus

12/09/10

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QUEM SEGURA A MÃO
a propósito do sismo no Haiti

Os Gregos antigos diriam que a mão de Posídon abalara a terra porque da ofensa de Ulisses ainda não lhe foi aplacada a cólera

Outros dizem ter sido a mão de outro Deus porque o povo deu a face e o coração a outro, ao Adversário e assim os dedos tocaram nas raízes da terra como se soltasse uma folha ao vento pois há uma cólera por aplacar

Não lhe sobra a pele os escombros em carne viva

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lançam ao espaço uma mão pedindo outra mão

Quem a segura?

15/1/10

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CIÊNCIA DO TOM
uma música soa clara na qual se encadeia um tom um tom vindo das ondas e que o vento deposita nas mãos

ao chegar aqui onde a possa reter, ganha um tom pastel se vinha clara, torna-se densamente crua

esta é a ciência das coisas simples como o ritmo dos regatos ou as cores das asas das borboletas

2/07/11

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CRUCIFICAÇÃO
“leaning forward against the thrust of the blades in the water, he began to row” Ernest Hemingway, The old man and the sea “debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar” (tradução de Jorge de Sena)

debruçado contra o impulso em que a cabeça flui separando-se do peito aberto em demanda do ar

ainda o pássaro se prevê no arco dos braços ainda a lâmina não perfurou a última resistência da água no flanco

e já as mãos se debruçam da coroa dos cravos nesse recontro universal que convoca o rosto húmido e olvida os membros lançados contra todo o corpo

o corpo que tudo desaprendeu apenas sabe que o cortou o sangue como os remos a água

23/07/11

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À SOMBRA DA FIGUEIRA
“«Antes de Filipe te chamar, quando estavas debaixo da figueira, já eu te tinha visto», respondeu-lhe Jesus.” Evangelho de João, 1:48

À sombra da figueira busca a raiz do Livro da Lei à sombra da lei da árvore de Israel medita no lume aceso pelos cordeiros no Templo com os dedos coloca o olhar sobre a ardência da menorah

à sombra da figueira come a trama dos dias e conhece de cor o aroma dos frutos

pastoreia os pensamentos tange-os das letras para longe deste campo passeia pelo Mar que o Senhor fez os pais atravessarem sem que uma gota de água lhes molhasse os pés e põe a mão sobre a cabeça do último egípcio que ainda respira à tona

à sombra da figueira faz morada no salão do palácio onde crepita a voz e o ceptro do Rei, o Messias que o povo espera

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constrói um reino e desfaz impérios

11/01/11

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CEGO
o dia estava tão belo e ele não o podia ver os dedos estendidos levavam os olhos e procuravam estrelas à vista desarmada

o mundo era tão belo povoado de árvores, rios e sombras e ele não o podia ver nos olhos que lhe restavam projectava pessoas às cores que podiam ver os ouvidos teciam ventos e seres voláteis que pousavam na sombra do seu ombro

ele não podia ver ele era uma dessas sombras do dia e do mundo que ele podia ver mas que não o podiam ver

5/08/11

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AS CEREJAS
rasgando o frio a fogo moldadas pelo sol ou então lágrimas dadas à incólume árvore de sangue, em paga dos seus trabalhos

ei-las no dia certo cume da Primavera e acume dos olhos inevitáveis, mais que a nossa vontade contrárias a toda a razão

as cerejas à boca reveladas

04/06/11

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AS BORRAS DO VINHO
Da cor que restante ao sangue deixam na língua lastro negro sorvido o último copo no fim da festa à hora de bebermos o adeus temos nos lábios a escória a morte do cigarro

que urge cuspir lançar de nós para a antiga geena para a sombra da terra amámos e de vinho nos amámos até ardermos o riso e a tristeza como o suor da testa enxugado

de tudo excluímos o excesso por ser precisamente excesso das ruas da cidade das praias e esplanadas das noites vertidas nos becos e nos degraus iniciais de cada porta de prédio

quisemos coar a corrente dos rios e ficou-nos só tudo margem sorvido o último trago de vinho sobrou-nos no fundo do copo no fundo

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de nós a borra

a hedionda órfã viúva borra sem-abrigo sem camisa sem sapatos sem desculpa borra

15/10/10

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EXTENSÃO
“…para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio” Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)

para navegar toda a água é oceano e o astrolábio é navio para cantar todo o corpo é peito e fornalha na voz

se quero rir tiro a máscara antiga se quero sonhar estendo o coração para lá das ruínas

para morrer tão pouco me basta que os olhos se calem sobre o teu flanco

para te amar uma ilha é ainda pouco só me chega a terra toda

09/10/11

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NOVO SALMO 91
As poeiras não entram na casa do Altíssimo todas as gangrenas e infecções podem incrustar-se no espaço ou partir-se nas pedras

eu é que não as temo as setas as pragas que espreitam à entrada da noite abro os olhos e o que vejo? a arma do caçador furtivo virou-se contra a própria mão que acciona o gatilho marcho por entre as colunas rígidas de exércitos empedernidos que se estilhaçam um por um os meus joelhos não se quebram e os meus pés marcham e pisam indolor um chão de inimigos

esquivam-se fogem os medos dos que me odeiam e ao alto de um monte sou transportado onde sobre a minha cabeça pousa como asas o sol do Senhor

12/04/11

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O ÚLTIMO JANTAR DE D. GIOVANNI
naquela noite a boca da estátua trouxe-lhe o frio para a mesa e tudo gelou, o vinho e a alma petrificaram

naquela noite D. Giovanni escolheu o jantar que quis, mesmo que o estômago e garganta lhe ardessem, jantou o mármore da culpa dos muitos delitos

em sua própria casa era ele quem servia e bebia o absinto

7/08/11

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PAI E FILHO

a cabeça do pai foi polida do bronze germinada de longas crinas de cavalo

a criança só conhece duas linguagens a do amor e a do medo quando os cabelos são estranhos prolongando os movimentos da guerra e a cabeça do soldado dói nos olhos da criança é invisível o pai não é ele que os escassos dedos tocam os braços são espadas e lanças os braços estreitos da morte

o filho não quer o bronze polido e despreza o reflexo do sol o filho só indaga os cabelos crespos e suados do querido pai

25/05/11

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RUTE
“Rute foi então para os campos e pôs-se a apanhar as espigas que os ceifeiros deixavam ficar” Rute 2:3 colhe com os olhos que tem nas mãos o que outros deixam ficar ou não vêem colhe espigas soltas como pontas de novelos

é o cuidado dos bicos longos do flamingo posto nos dedos Rute sabe que colhe onde não semeou nos campos de Booz sabe que colhe o pão que lhe disseminará na mesa de cada dia

mas não sabe que nesse gesto de ceifeira pobre semeia brasas de sol em outros olhos que têm mãos

29/10/11

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TRATADO DA LEVEZA

o poeta pousa sobre a face do mundo penas são no jogo do voo mas isentos de sossego a leveza logo pousa no vento pensando bem, a essência do poeta é alada o seu coração está nos espaços siderais a voz na nomeação das estrelas como um homem santo cujas mãos habitam na contemplação das sarças a que elas próprias lançaram o fogo do monte à escuta em cada grão que se solta rubro do crepitar de Deus o poeta toca com as asas na face do mundo deus longínquo que se chega e nos aproxima de nós 5/09/11

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OS VELHOS
“Como árvores plantadas na casa do SENHOR, eles florescem nos átrios do nosso Deus. Até na velhice darão frutos e hão-de manter-se sempre fortes e sadios” Salmo 92:14,15

Não pergunteis ao rio pelos velhos se nas suas águas se banharam e quantas vezes se nelas se banharam terão saído e dentro das margens entrado estão perdidos para vós aos velhos querei-los indemnes ao alcance dos olhos e dos ouvidos

interrogai o solo que os pés das videiras pisam que Qualidade confere firmeza à dureza débil dos seus corpos para nele deitarem as sombras das raízes, sem que se firam no cansaço das pedras

perguntai-lhes pelo vinho se com viço desce pelos ramos, se envelheceu na passagem das estações, só o fruto tem íntima uma voz

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para falar o que a fibra esconde as águas são mudas, elas simplesmente passam por dentro do tempo e atravessam o coração

se procurais os velhos pousai as aves das vossas perguntas sobre a vossa própria alma aí achareis os velhos que velhos sereis

15/08/11

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ESQUINAS
Fecharam-se sobre nós tantos livros quantas as vezes que morremos

viver estar acordado é sangrar continuamente a tinta no papel num livro que nunca cessa escrito a mãos e a boca vertido daquilo que reunimos e abrigamos nas pregas do olhar

viver estar acordado ser como o vento que ama o mar encrespado

é dobrar folhas é virar esquinas

4/12/11

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MULHER SOBRE OS PÉS
“Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada.” Evangelho de Lucas 10:42

há momentos em que a mulher se senta sobre os pés aos pés do Mestre e assenta os pensamentos sobre as flores do regaço

há momentos de recusa da orquestra para ouvir o silêncio na voz do Mestre, apenas o timbre azul da sabedoria que dela vem em água

há momentos de sorrir frágil abertamente fechar os olhos à largura toda do abraço dum irmão mais velho

momentos em que sacode o peso do mundo o pó dos trabalhos

então a própria morte se esquece de quem é e morre 08/03/11

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SANSÃO
os cabelos, os cabelos como noites varridas à ilharga dos cometas que passam em repentinos lumes pela boca de Dalila

os cabelos, os cabelos como noites fendidas pelas asas dos pássaros que fazem ninhos habituais nos seios de Dalila

os cabelos, os cabelos têm o volume de toda a força das marés, reduzem a escória bruta a pedra polida do rosto de Dagon

16/11/11

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À SOMBRA
“O SENHOR Deus fez crescer uma planta, mais alta do que Jonas, para lhe dar sombra e o confortar do seu desgosto.” Livro de Jonas, 4:6 O Senhor fez crescer uma planta o Senhor fez a planta cresceu para calar os gritos da minha alma para soprar sobre o fogo mais selvagem do que eu

a planta cresceu com ramos que amaciam o meio-dia deslizando pelos meus sonhos devolvendo-me as lágrimas que me abandonaram no ventre cheio de muitos cuidados

a planta cresceu amante dos meus cabelos, o amor perfeito

do tom grisalho do meu coração com ela me posso cobrir na sua sombra de água

19/11/11

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CONFISSÃO
passei sobre as árvores fiz-me familiar da nudez áspera dos picos transpus os ares de ilharga fria mordi nos lábios o sangue turvado estendi os braços e até estes quase me abandonaram

passei pelas entranhas do pesadelo deixando uma rasto de vento que teimava em se incrustar nos pés passei, febril, ferido por salteadores da noite

para ao cabo de tudo ao cabo do mar no orvalho da espuma te encontrar

17/09/11

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MADRUGADA
“O que precisa nascer aparece no sonho buscando frinchas no teto” Adélia Prado, “Alvará de demolição”

O que precisa nascer faz no tecto o soalho e abre frinchas onde colocámos os pensamentos

pois sobre as nossas cabeças jaz um chão de pedra ou magma onde busca a água e possui os minerais

desse chão nocturno de folhas fissuradas do sonho se levantam os ramos do inalcançável é lá que flutuam as aves

27/10/11

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INTERVALO
há um espaço em branco aqui, por baixo das copas cortado à espada, em finas fatias de sal

pois é de sal a minha lingua secou, e perdeu o fio que a ligava à claridade dos dias

que lhe resta senão ser hiante, de espanto ou de sede, à espera que um vento suave lhe explique que primeiramente aprenda a ser ouvido

talvez assim se salve talvez assim apague os intervalos que ainda ficaram

23/11/11

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LIÇÃO DE VOO
"trouxemos as nuvens para as nossas sandálias e voamos " João Tomaz Parreira, in "Lei do retorno"

trouxemos as nuvens para as nossas sandálias de andorinha para nos fazerem sombra no voo

mas as nuvens são fragmentos no céu recortadas por facas desconhecidas é que só uma coisa conhecemos: ser aves incessantes umbilicalmente incessantes para nós não há nuvens nem céu aberto de volta ao nosso ninho

lá onde se erigem as nossas janelas tudo o que somos é voo

12/11/11

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OS RIOS
Passam-nos por sob as bocas os rios passam incólumes e lá pousam as águas onde deixámos os olhos presos nas curvas dos cabelos e das coxas da amada

neles buscamos a paz que os vales cavaram buscamos a paz que se entregou ao enlace dos pensamentos que refulgem nas centelhas de luz à superfície e dão à luz o sol

cavalos de pele lisa são as águas dos rios afago nas bocas que queriam dizê-los e ampliá-los em verbos e nomes

mas o que há neles são águas quando os nossos olhos a tocam e os lábios delas se magoam é o corpo e alma todos que nelas nadam e passam e permanecem inocentes

9/04/11

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NEVE
Passa na rua um leopardo malhado as patas macias marcam a cadência do silêncio

o sol arrefeceu quando as nuvens irromperam em beijos à terra

Passa na rua um leopardo das neves o bafo frio gelando o ar

a cauda semeia o branco na rua sobre as árvores e às portas

o olho perde a íris e todo é esclera

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NO CABO ESPICHEL
amo os dias que terminam nos penhascos ali o sol põe-se completamente e também o vento no alto se completa ao bater em baixo as ondas de lá aos olhos me chegam reflexos gota a gota do fim desses dias penhascos que espreitam o mar são os teus olhos que me espreitam em longo horizonte há neles as estrelas que se prometem já quando se virar o céu quando se puser o sol e no muito que ainda há de sol cubro-me de perfeição. 22/05/11

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OS CAVALOS
Os cavalos passam pelo meio das manhãs transportando nas crinas o sol substancial as cores fortes do vento quando o galope se lhes afeita aos pés

são esculturas de vento explosões dum simples segundo que vai do passado para o futuro com eles o tempo não tem tempo eles criam o instante

30/07/11

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ORAÇÃO DA CANANEIA
“Da porção do teu dia dá-me dá-me apenas” Florbela Ribeiro, “Dá-me apenas”

Da porção do teu dia Dá-me apenas do que tenho em excesso de desejo

dá-me apenas do ardor que arrefece nos corpos lentos dos esposos dá-me apenas uma simulação de sol uma água ressequida das inúmeras pedras

dá-me só das estrelas que da noite caírem, estão perdidas ninguém há que saiba se por trás das montanhas ou da linha dos mares acharam casa talvez a névoa e o resto das auroras da tua voz

dá-me apenas a migalha do teu pão da porção do teu olhar

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serão o dia para mim

2/09/11

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SIDERAIS
procuro o espaço indistinto entre duas cores do arco-íris procuro o dedo que cravou as estrelas

24/11/11

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AMIGOS
os amigos vão para a guerra vão quando jovens mas vão sem idade coincidentes nos braços como Jónatas e David vão desapercebidos das trevas como Paulo e Silas sem entrarem nas sombras

vão unidos como dedos da mesma mão, que se a areia por eles passa se fecham mas se abrem se o vento os acomete de frente

os amigos, quando se entristecem é num só pranto quando celebram é um só o seu hino

para a guerra vão ou para a paz nas planícies ou nos penhascos são um só corpo que caminha com os dois pés se sobem ao céu são a ave e o seu voo

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UMA PALAVRA
“Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará curado” Evangelho segundo Lucas 7:7

Não mordo as palavras porque elas são espadas e as espadas não se mordem apontam-se aos ouvidos daqueles para quem elas palavras vão perfuram-lhes a vontade própria são palavras que fazem mover exércitos e tremer a terra

há quem as aponte aos meus ouvidos como vida e morte me apanham nunca desprevenido porque é minha pele e o meu peito respiram a vibração constante dessas palavras de ordem dessas vozes de comando e me fazem mover

mas só uma Tua palavra morde na garganta a minha apreensão só uma Tua palavra abrevia a distância entre mim e a minha súplica só ela cala todas as outras palavras 16/09/11

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AGUARELA
Deixei vir a água emergir-me da mão e projectei-a na tela na tela do silêncio cada dedo conferiu-lhe uma cor um aroma insolúvel

e é branco o silêncio mistura de todas as cores inconsúteis tom e harmonia de todas as sílabas branco no ar quente das palavras na língua viva da respiração

deixei vir a água escorrer gota a gota onde as sementes da dor já haviam germinado onde as andorinhas do amor já haviam as asas levantado

gota a gota a água bebe a tela embebe a terra e torna os muros da minha casa mais claros

29/08/11

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AMPULHETA
“Tes mains se joignent encore et prennent le sable fin que tes yeux laisseront glisser entre tes doigts” Nic Klecker

As areias do tempo passam pelos olhos e não ficam recorrem aos dedos para que num derradeiro assomo as prendam

as areias passam os dedos ficam as mãos essas não se precipitam detendo-se atrás mesmo que os olhos quase se deixem momentaneamente escorrer no engano da fina passagem do tempo

nós ficamos

as areias passam mas ainda marcam as nossas bem-aventuranças e as nossas dores

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e marcam os dedos lavram neles secura

talvez por inveja talvez porque nada mais saibam fazer

1/07/11

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ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI)
“Tudo está cumprido.” Evangelho segundo João 19:30

Para sempre se desfizeram os equívocos dos espelhos para sempre ficaram em branco os velhos teares

cobriram-se de pó as mãos que acendiam a chama o ar mudou no coração do eclipse

deixou de ser possível continuar a percorrer os extintos valados já não são navegáveis as águas de outrora tornaram-se salobras na pele

de espinhos cravados nas pupilas sentimos escorrer pelos dedos no suor e no sangue o fim o necessário fim

22/08/11

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BALADA DE VERÃO

“daquele modo que o verão tem de espalhar os cabelos” Eugénio de Andrade, “Sobre um Corpo”, in Véspera da Água

a manhã vem no sol profundo sobre as pedras

as pedras a pique nas espadas fundem-nos o bronze nos ombros

os ombros ondas da navegação dos cabelos espalhados no voo das gaivotas

as gaivotas que pintam a tarde de oiro que fundem a areia nos gumes

os gumes palpitantes dos risos debruçados sobre as brasas

essas brasas em que o vinho assa e as sardinhas se demoram até às estrelas

as estrelas pequenos e numerosos alfinetes cravados na noite sinais da manhã

28/08/11

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RENOVO
“Faço tudo novo” Jesus Cristo, Apocalipse 21:5

quando o meu corpo recebeu o abraço da mortalha como duma piton a morte pronunciou silêncio

quando veio o momento de descascar a alma nos dentes da corrupção como a pele duma cobra e rasgar o barro que me escondia a vista do sol

quando soltei as folhas como os ramos curvados para a generosidade do fruto

afoguei-me na noite turva e subverti-a em dia claro

4/08/11

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FÁBULA DA ESPIGA
A espiga tinha de se mostrar ao sol de esquecer o passado os dias da semente e as noites do caule

tinha de crescer de cortar rente o sono de abandonar no chão a sua névoa e seguir com o vento tinha de conhecer o segredo do céu

mostrar-se ao sol e seguir com o vento era-lhe necessário assim faz o ouro e à espiga restava aprender

tinha apenas de rasgar o tegumento e para lá do restolho

ser

13/08/11

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DE MANHÃ
“Un vague bonheur leur était élan et ménace” Nic Klecker, “Matin”, in Jadis au village (conto)

A manhã de Outono veio trazer prenúncios de Inverno e sombras de geada veio montado no raios oblíquos e conduziu as rodas das bicicletas uma em direcção à outra dele e dela

uma brisa fresca juntou-se ao encontro que seria a dois estavam eles conscientes do mistério do dia? foi-lhes ele anunciado na noite já distante? tê-la-ia ele visitado, ter-lhe-ia ela franqueado o ardor do umbral? ter-se-iam amado no corpo do sonho? as mãos eram jovens e virgens ainda seguravam os guiadores das bicicletas e os olhos de um faziam tangentes nos do outro decidiriam unir-se para o receio e a ousadia do salto para a existência e a aventura?

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os peitos respiravam ténues o mesmo ar de sol e gelo debruçados sobre as bicicletas os sentimentos eram felizes os corações abriam-se em ramos de flores para a beleza palpitante um do outro

14/08/11

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QUANDO SAÍRES DE ÍTACA
Quando saíres de Ítaca, Ulisses, os cavalos deixarão Ítaca vão todos contigo para um único galope na ágora de Ílion vão todos, as suas crinas cinza ondulam na vibração da cabeleira de Posídon

ficará Ítaca despovoada de cavalos e cavaleiros, nem os navios desfilarão nas avenidas marítimas da cidade ao partires de Ítaca, restará apenas o fio tenso do arco e do tear o fio denso do horizonte que a tua mão traçará estendida de um extremo ao outro do mar

sem cavalos, ficarão em Ítaca apenas homens a pé soldados de infantaria sem general 15/10/11

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DÁFNIS E CLOÉ
Cloé: Os meus olhos fremem de sol nos caracóis negros do meu amigo expõem o trigo torrado da sua pele, ele não sabe mas a flauta nos seus lábios despe-me os olhos

Dáfnis: a pele da minha amiga é um luar sobre as águas diante do seu seio me vejo nas ondas que beijam as praias de Lesbos um vento branco dormindo na lã

20/10/11

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ORFEU'N BLUES
pela galeria do metro vai Orfeu em busca da sua Eurídice tê-la-á deixado cair para ser tragada pelo torvelinho do ar frio que se instiga lá de cima da rua?

procura-a na galeria na luz mole dos olhos que reviram desdém procura perceber nos magotes de vozes um silêncio que soe à voz de Eurídice

por isso Orfeu toca o saxofone como um bailarino em busca do seu par

Orfeu estende o som na busca lança-o da galeria para a escadaria e desta para o túnel estende-a e recolhe-a no chegar e no partir de mais uma composição tão paciente e tão flexível a busca e tanto lhe dói e queima a boca que cada sopro no saxofone

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é a pronúncia do nome

Eurídice Eurídice Eurí-dice Eu-rí-di-ce

Orfeu toca para Eurídice ouvir toca uma marcha lenta uma modinha cega

13/12/11

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EXTENSÃO DOS LÁBIOS
Só os lábios respiram. Orlando Neves

Para onde se estendem os lábios para o exílio do som à beira das fráguas donde nascerá a palavra

estendem-se na respiração ar que entra ar que sai que semeia árvores nas nossas mãos e colhe pássaros de asas limpas

para onde se estendem os lábios sopra um vento que fala suavemente ouve-se o seu convite para longas conversas de amigos à mesa dos rios

para onde se estendem os lábios não cabem as saudades o mar deposita novas cores sobre os ombros tem ainda e sempre a mesma sedução a mesma canção modulada nas ondas

só os lábios respiram no sal dos dentes 15/01/12

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O Autor
Rui Miguel Duarte licenciou-se em Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Lisboa, em 1991, e doutorou-se em Literatura na Universidade de Aveiro, em 2006. Desenvolve actualmente pósdoutoramento. Foi docente nos Ensinos Superior e Básico em Portugal. Participou como tradutor na tradução interconfessional da Bíblia (A Bíblia para todos, Lisboa, Temas e Debates, 2009). Reside actualmente em França, junto à tripla fronteira com a Bélgica e Luxemburgo. Tem escrito e divulgado poesia em “blogs” e na rede social Facebook. Tem editado um "e-book" de poemas (7 canções de um pai para sua filha in http://www.scribd.com/doc/28175160/7-CANCOES-DE-UM-PAI-PARASUA-FILHA). E ainda dois livros de poesia (Muta uox, Sinapis Editores, 2011; Subida, Porto, Edium Editores, 2011). Mantém o “blog” Novas Criações, e colabora em Mar Ocidental e Liricoletivo.

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