Autoria

Desde os primeiros cânones das Sagradas Escrituras, como o Cânon muratório, o terceiro
evangelho do Novo Testamento é reconhecido como de autoria de Lucas, o médico de homens e de
almas; o médico amado, como ficou conhecido (Cl 4.14). Irineu, um dos pais da Igreja, já citava o
Evangelho Segundo Lucas em suas obras, por volta do ano 180 d.C.
Lucas, grande amigo e companheiro de ministério do apóstolo Paulo (2Tm 4.11; Fm 24), é o único
autor gentio do Novo Testamento. Embora não tenha sido testemunha ocular da vida de Jesus Cristo,
andou com Deus, cheio do Espírito Santo, o qual o inspirou a escrever este Evangelho e o livro de
Atos e a servir como missionário até sua morte.
Lucas nos informa que seu trabalho foi beneficiado pela obra de outros (Lc 1.1), que ele consultou
várias testemunhas oculares (Lc 1.2), e que selecionou e dispôs as informações com extremo cui-
dado, sob a direção do Espírito Santo (Lc 1.3), a fim de instruir Teófilo quanto à fidedignidade da fé
em Jesus Cristo (Lc 1.4).
Propósitos
O Evangelho Segundo Lucas é especificamente endereçado a Teófilo, cujo nome significa “aquele
que ama a Deus”. Entretanto, o Espírito Santo ampliou em muito o alcance dessa obra, destinando-a
a todos aqueles que amam a Deus e desejam saber a verdade sobre Jesus Cristo, Seu Filho, nosso
Salvador. Lucas trata Teófilo por “excelentíssimo” o que reforça a idéia de que esse livro tinha como
principal objetivo um leitor em especial: Teófilo, um alto oficial do império romano que, segundo
historiadores renomados, desejoso de conhecer a verdade, patrocinou Lucas nesse projeto e inves-
tigação acurada de todos os fatos concernentes à vida e obra de Jesus Cristo; cujo ensino já invadia
Roma, convertendo multidões. Na mesma época surgiam vários relatórios falsos sobre Jesus e,
tanto Teófilo, quanto o próprio discípulo Lucas, tinham grande interesse em produzir um documento
histórico claro e verdadeiro sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré, o Cristo.
Embora particularmente destinado a Teófilo, o Evangelho Segundo Lucas se inclina para todos
os gentios. O autor revela interesse especial por detalhes médicos (Lc 4.38; 7.15; 8.55; 14.2; 18.35;
22.50). Há grande ênfase nos acontecimentos relacionados ao nascimento de Cristo. Curiosamente,
somente Lucas registra a anunciação a Zacarias e Maria, os cânticos de Isabel e Maria, o nascimento
e a infância de João Batista, o nascimento de Jesus, a visita dos pastores, a circuncisão de Jesus e
Sua apresentação no Templo, detalhes da infância de Jesus e até alguns dos pensamentos íntimos
de Maria, mãe de Jesus. Lucas demonstra grande interesse por fatos que se deram com indivíduos:
os relatos de Zaqueu (Lc 19.1-10); do ladrão que se arrepende (23.39-43), e nas parábolas do filho
perdulário (15.11-32) e do publicano arrependido (18.9-14). É Lucas quem nos relata a história
sobre o bom samaritano (10.29-37) e do ex-leproso agradecido (17.11-19). Lucas ainda dá especial
atenção à disciplina espiritual da oração: falar com Deus (Lc 3.21; 5.16; 6.12; 9.18, 28-29; 10.21; 11.1;
22.39-46; 23.34, 46). O Evangelho Segundo Lucas dá grande destaque às mulheres, algo incomum
na época (Veja os capítulos: 1, 2, 7.11-17, 36-50; 8.1-3; 10.38-42, 21.1-4; 23.27-31, 49). O livro
apresenta quatro belos cânticos, conhecidos como: o Magnificat de Maria (Lc1.46-55), o Benedictus
de Zacarias (Lc1.67-79), o Gloria in Excelsis Deo dos anjos (Lc 2.14) e o Nunc Dimitris de Simeão
(2.29-32). Lucas ainda reflete sobre o contraste da pobreza em relação à riqueza (1.52-53; 4.16-22;
6.20, 24-25; 12.13-21; 14.12-13; 16.19-31).
Este é o Evangelho do misericordioso Filho de Deus que oferece Salvação a toda humanidade
(19.10).
Data da primeira publicação
Considerando que os últimos capítulos do livro de Atos mostram Paulo em Roma, e que o Evan-
gelho Segundo Lucas foi publicado antes de Atos (At 1.1), podemos concluir que este Evangelho foi
escrito entre os anos 59 e 64 d.C., em Cesaréia, durante os dois anos em que Paulo esteve preso ali
por pregar a Palavra de Deus (At 24.27).
Introdução
O EVANGELHO SEGUNDO
LUCAS
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Lucas tinha completo domínio da língua grega da época. Seu vocabulário é amplo e rico, e seu
estilo, algumas vezes se aproxima do grego clássico, como ocorre logo no prefácio (Lc 1.1-40),
ao passo que em outras ocasiões assume um tom bem semítico (1.5 – 2.52), assemelhando-se
à Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para a língua grega). Seu vocabulário é sensível à
cultura e geografia de cada lugar sobre o qual narra fatos passados. Por exemplo, quando Lucas se
refere a Pedro num contexto judaico, emprega uma linguagem mais semítica que nos momentos em
que descreve Paulo, num contexto helenístico (grego).
Esboço geral de Lucas
1. Prefácio e objetivos da obra (1.1-4)
2. O Filho de Deus e a humanidade (1.5 – 4.13)
A. O nascimento de João Batista (1.5-25)
B. O nascimento do Filho do homem (1.26-56)
C. O advento de João Batista (1.57-80)
D. O advento do Filho de Deus (2.1-20)
E. Adoração ao bebê Jesus (2.21-38)
F. A infância de Jesus (2.39-52)
G. O batismo de Jesus (3.1-22)
H. A genealogia de Jesus (3.23-38)
I. A tentação do Filho de Deus (4.1-13)
3. O ministério do Filho de Deus (4.14 – 9.50)
A. O anúncio do Seu ministério (4.14-30)
B. A autoridade da Sua obra (4.31 – 6.11)
C. Sobre todos os demônios (4.31-37)
D. Sobre todas as doenças (4.38-44)
E. Sobre todos os discípulos (5.1-11)
F. Sobre toda a impureza (5.12-16)
G. Sobre todas as limitações (5.17-26)
H. Sobre todos os desprezados (5.27-39)
I. Sobre todas as deformidades (6.6-11)
4. Os colaboradores de Seu ministério (6.12-49)
A. A convocação dos discípulos (6.12-16)
B. O perfil dos discípulos (6.17-49)
5. As realizações do Seu ministério (7.1 – 9.50)
A. Ministração na doença (7.1-10)
B. Ministração na morte (7.11-17)
C. Ministração aos pecadores (7.36-50)
D. Ministração sustentada (8.1-3)
E. Ministração por parábolas (8.4-21)
F. Ministração nas tempestades (8.22-25)
G. Ministração sobre demônios (8.26-39)
H. Ministração no desespero (8.40-56)
I. Ministração pelos discípulos (9.1-9)
J. Ministração às necessidades (9.10-17)
K. Ministração de predições (9.18-50)
6. O Filho de Deus é rejeitado pelos homens (9.51 – 19.27)
A. Rejeição pelos samaritanos (9.51-56)
B. Rejeição das pessoas mundanas (9.57-62)
C. A comissão dos setenta e dois (10.1-24)
D. Rejeição de um teólogo (10.25-37)
E. Recepção em Betânia (10.38-42)
F. Ensino sobre a oração (11.1-13)
G. Rejeição por Israel (11.14-36)
H. Rejeição pelos fariseus e doutores (11.37-54)
I. Ensinos diante da rejeição (12.1 – 19.27)
J. Sobre a hipocrisia (12.1-12)
K. Sobre a avareza e cobiça (12.13-34)
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L. Sobre a fidelidade (12.35-48)
M. Sobre discórdias e sinais (12.49-59)
N. Sobre o arrependimento (13.1-9)
O. Sobre a falsidade (13.10-17)
P. Sobre o Reino de Deus (13.18-35)
7. Pregações para os corações endurecidos (14.1-6)
A. Sobre os que são convidados (14.12-14)
B. Sobre os que são indiferentes (14.15-24)
C. Sobre os que são indulgentes (14.25-35)
D. Sobre o amor de Deus (15.1-32)
E. Sobre a riqueza (16.1-31)
F. Sobre a necessidade do perdão (17.1-6)
G. Sobre a importância do serviço (17.7-10)
H. Sobre a gratidão (17.11-19)
I. Sobre o estabelecimento do Reino (17.20-37)
J. Sobre a oração (18.1-14)
K. Sobre o ingresso no Reino (18.15-30)
L. Sobre a Sua morte (18.31-34)
M. Sobre a Salvação (18.35 – 19.10)
N. Sobre fidelidade (19.11-27)
8. A Paixão do Filho de Deus (19.28 – 23.56)
A. Domingo (19.28-44)
B. Segunda-feira (19.45-48)
C. Terça-feira (20.1 – 21.38)
D. Autoridade contestada (20.1-8)
E. Autoridade revelada (20.9-18)
F. Autoridade resistida (20.19-40)
G. Autoridade demonstrada (20.41 – 21.4)
H. Discurso apocalíptico (21.5-38)
I. Quarta-feira (22.1-6)
J. Quinta-feira (22.7-53)
K. A Ceia do Senhor (22.7-38)
L. O jardim do Getsêmani (22.39-46)
M. Jesus é traído e preso (22.47-53)
N. Sexta-feira (22.54 – 23.55)
O. Jesus é negado por Pedro (22.54-62)
P. Jesus é ridicularizado (22.63-65)
Q. Jesus é levado ao Sinédrio (22.66-71)
R. Jesus é levado a Pilatos (23.1-5)
S. Jesus é levado a Herodes (23.6-12)
T. Jesus novamente diante de Pilatos (23.13-25)
U. A condenação e crucificação (23.26-49)
V. O sepultamento (23.50-55)
W. Sábado (23.56)
9. A vindicação do Filho de Deus diante dos homens (24.1-53)
A. Domingo: a vitória sobre a morte (24.1-12)
B. Jesus cumpre suas profecias (24.13-35)
C. O padrão da vida ressurreta (24.36-43)
D. O Senhor da Igreja (24.44-48)
E. O doador do Espírito Santo (24.49)
F. O Senhor exaltado eternamente (24.50-53).
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Diagrama do Conteúdo de Lucas
Alvo
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Cerca de 4 a.C a 33 d.C.
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Sinais e
Milagres
Parábolas
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Atividades Aflição
Buscando e Ensinando
Sacrificando
para Salvar
Samaria e
Peréia
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Galiléia Jerusalém
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Tabela Abba 4Prova.prn
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sexta-feira, 23 de maio de 2008 16:37:09
Composição 175 lpi a 45 graus
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O EVANGELHO SEGUNDO
LUCAS
Prefácio e dedicatória a Teóflo
1
Tendo em vista que muitos já se em-
penharam em elaborar uma narrativa
histórica sobre os eventos que se cumpri-
ram entre nós,
2
conforme nos transmitiram os que des-
de o princípio foram testemunhas ocula-
res dos fatos e servos dedicados à Palavra,
3
eu, pessoalmente, investiguei tudo em
minúcias, a partir da origem e decidi
escrever-te um relato ordenado, ó exce-
lentíssimo Teóflo.
1

4
E isso, para que tenhas plena certeza das
verdades que a ti foram ministradas.
Gabriel anuncia o nascimento de João
5
Na época de Herodes, rei da Judéia,
havia um certo sacerdote chamado Zaca-
rias, que fazia parte do grupo sacerdotal
de Abias. E Isabel, sua esposa, também
era uma das descendentes de Arão.
2

6
Os dois andavam em justiça aos olhos
de Deus e obedeciam de forma irrepre-
ensível a todos os mandamentos e dou-
trinas do Senhor.
3

7
Contudo, eles não tinham flhos, porque
Isabel era estéril, e ambos eram avançados
em idade.
8
Em certa ocasião, quando seu grupo
estava de serviço, Zacarias ministrava
como sacerdote diante de Deus.
9
Ele foi escolhido por sorteio, de acordo
com a tradição do sacerdócio, para ter
acesso ao altar do Santo dos Santos e ali
oferecer a queima do incenso.
4

10
E, chegando o momento da oferta do
incenso, uma multidão de pessoas estava
orando do lado de fora.
11
Foi então que um anjo do Senhor apa-
receu a Zacarias, à direita do altar do in-
censo.
12
Assim que Zacarias o viu, fcou perple-
xo e um grande temor o dominou com-
pletamente.
13
Entretanto, o anjo lhe assegurou: “Não
tenhas medo, Zacarias; eis que a tua sú-
plica foi ouvida. Isabel, tua esposa, te
dará à luz um flho, e tu lhe porás o nome
de João.
5

14
Ele te será motivo de grande felicidade
e regozijo. E muitos se alegrarão com o
seu nascimento.
1
A palavra grega anothen, traduzida por “origem”, quer dizer: “de cima”, “dos altos céus” (Jo 3.31; Tg 1.17), e se refere também
a uma análise criteriosa de “alto a baixo”, “do começo ao fim”. Teófilo, que em latim e grego significa “querido por Deus” ou
“aquele que ama a Deus”, foi um militar de alta patente do exército romano que, convertido ao Senhor, patrocinou a pesquisa e a
publicação deste relatório fiel sobre a vida e a obra de Jesus, livro que veio a tornar-se parte do cânon bíblico (livros inspirados por
Deus) do NT e cujo propósito, assim como João (Jo 20.31), é proporcionar a seus leitores plena certeza quanto aos tremendos
fatos relacionados à história de Cristo e à nossa salvação eterna.
2
Herodes, o Grande, reinou de 37 a 4 a.C. por toda a Samaria, Galiléia e grande parte da Peréia e da Celo-Síria (Mt 2.1). O tem-
po referido pelo texto situa-se entre os anos 7 e 6 a.C. Zacarias e Isabel eram ambos de ascendência sacerdotal, da linhagem de
Arão, grupo sacerdotal de Abias. Tradicionalmente, desde os tempos de Davi, os sacerdotes foram organizados em 24 grandes
divisões, sendo Abias um dos líderes das famílias dos sacerdotes (Ne 12.12; 1Cr 24.10).
3
Zacarias e Isabel não eram impecáveis, mas amavam ao Senhor de coração, e Deus observava essa “adoração interior” em
seus servos, a qual se refletia “exteriormente” no cumprimento irrepreensível dos preceitos religiosos (Fp 3.6) e, especialmente, no
relacionamento com as pessoas. Um grande contraste em relação às atitudes apenas “cosméticas” dos fariseus (Mt 5.20; 23.2-5).
4
Uma das grandes responsabilidades do sacerdote era manter o incenso queimando em louvor a Deus, no altar diante do
Santo dos Santos. Ele colocava ali incenso novo todas as manhãs, antes do sacrifício matinal, e, outra vez, logo após o sacrifício
vespertino (Êx 30.6-8). Era raro que um sacerdote tivesse o privilégio de ministrar ao Senhor no Santo dos Santos, pois eles eram
muitos e a determinação dessa tarefa se fazia por lançamento de sortes. Além disso, essa era uma experiência única na vida
de muitos sacerdotes (2Sm 6.7) que, por não estarem vivendo de acordo com a vontade de Deus, eram fulminados pela ira do
Senhor em pleno ato de ministração (Ne 11.1; Pv 16.33; Jo 1.7; At 1.26).
5
A expressão usada pelo anjo, traduzida por “não tenhas medo”, no hebraico tem o sentido de “não perder a confiança em
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1466
15
Pois ele será grande aos olhos do Se-
nhor, jamais beberá vinho nem qualquer
outra bebida fermentada, e será pleno do
Espírito Santo desde antes do seu nasci-
mento.
16
E conduzirá muitos dos flhos de Israel
à conversão ao Senhor, seu Deus.
6
17
Ele avançará na presença do Senhor,
no mesmo espírito e poder de Elias, com
o propósito de fazer voltar o coração dos
pais a seus flhos e os desobedientes à
sabedoria dos justos, deixando um povo
preparado para o Senhor”.
7
18
Então, Zacarias indagou do anjo:
“Como poderei certifcar-me disso? Pois
já sou idoso, e minha esposa igualmente
de idade avançada”.
8
19
Ao que o anjo lhe replicou: “Sou Ga-
briel, aquele que está permanentemente
na presença de Deus e fui encarregado
de vir para falar e transmitir-te estas boas
notícias.
9
20
Porém, eis que permanecerás em si-
lêncio, pois não conseguirás falar até o
dia em que venha a ocorrer tudo quanto
te revelei, porquanto não acreditaste nas
minhas palavras, as quais, no seu devido
tempo, se cumprirão”.
21
Enquanto isso, o povo estava aguar-
dando Zacarias e preocupava-se com o
fato de que demorasse tanto no santuá-
rio do Senhor.
10
22
Mas, ao sair, nenhuma palavra conse-
guia pronunciar; as pessoas perceberam
que ele tivera uma visão no santuário.
Zacarias tentava comunicar-se através de
sinais, permanecendo todavia mudo.
23
Ao completar seus dias dedicados ao
serviço, ele regressou para casa.
24
E, passado esse tempo, Isabel, sua espo-
sa, engravidou, mas durante cinco meses
ocultou-se das pessoas não saindo de casa.
25
E ela dizia a si mesma: “Isto é dádiva
do Senhor para mim! Eis que seus olhos
me contemplaram, para retirar de sobre
mim a grande humilhação que sentia
diante de todos”.
11

Gabriel anuncia o nascimento de Jesus
26
Então, no sexto mês, Deus enviou o
anjo Gabriel para Nazaré, uma cidade da
Galiléia,
Deus”, sendo uma palavra de encorajamento muito usada em toda a Bíblia (no verso 30 e em 2.10; 5.10; 8.50; 12.7,32; Gn 15.1;
21.17; 26.24; Dt 1.21; Js 8.1). O nome João deriva do hebraico antigo e significa: “O Senhor é bom e misericordioso”.
6
A grandeza de João seria reconhecida pelas qualidades de profeta precursor do Senhor, nazireu (Nm 6.3) e sacerdote. O per-
manente estado de plenitude e dependência do Espírito Santo capacitaria João a proclamar a Palavra de tal maneira que muitos
seriam convertidos de seus caminhos mundanos e formariam um povo de coração preparado para a vinda de Jesus Cristo e do
Reino de Deus (At 19.4). João cumpriu as profecias de Ml 3.1; 4.5,6 e as registradas em Is 40.3,4 (veja Lc 7.24-35). João também
se submeteu ao voto nazireu de abstinência de bebidas alcoólicas (Nm 6.1-4). Em seu caso, desde o ventre de sua mãe, como
Sansão (Jz 13.4-7) e Samuel (1Sm 1.11).
7
Não há qualquer possibilidade de Elias ter voltado na pessoa de João (Jo 1.21). A Bíblia não oferece nenhuma base textual
para as teorias da reencarnação ou mediunidade. Entretanto, João foi Elias na semelhança do seu amor e fidelidade ao Senhor
(Mt 11.14). Na sua mensagem poderosa e destemida, convocando os seres humanos ao mais sincero e absoluto arrependimento
de seu deliberado e contínuo afastamento de Deus.
8
À semelhança de Abraão (Gn 15.8), de Gideão (Jz 6.17) e de Ezequias (2Rs 20.8), Zacarias pediu um sinal (1Co 1.22), talvez
não da melhor maneira, mas o anjo o atendeu e nos deixou uma lição sobre jamais duvidar da Palavra do Senhor. Um estudo
comparativo de Abraão e Sara em relação a Zacarias e Isabel, focalizando especialmente Isaque e João, será de grande valor
(Gn 15 a 18).
9
O nome Gabriel em hebraico antigo significa: “o poderoso homem de Deus”. Apenas dois anjos têm seus nomes identificados
nas Sagradas Escrituras: Gabriel (Dn 8.16; 9.21) e Miguel (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7).
10
A multidão estava aguardando com apreensão e ansiedade que o sacerdote (Zacarias) saísse do Santo dos Santos para
proferir a tradicional bênção arônica (Nm 6.24-26). Entretanto, ele saiu mudo. Todo sacerdote tinha a obrigação de trabalhar
durante uma semana nas dependências do templo, uma vez a cada seis meses (vs. 23, 39).
11
Especialmente no AT, a ausência de filhos ou o empobrecimento eram considerados sinais do desfavor divino, ou de sérios
pecados ocultos, o que sujeitaria as pessoas ao castigo de Deus. No caso da infertilidade, toda a responsabilidade pela falta de
filhos e, portanto, pelo descontentamento divino, recaía sobre a mulher, a qual era vítima das mais variadas e deprimentes formas
de julgamento e rejeição por parte da comunidade e, muitas vezes, do próprio marido. Jesus e seus discípulos jamais aprovaram
esse tipo de teologia simplista e distante dos propósitos gerais de Deus para a humanidade (Gn 16.2; 25.21; 30.23; 1Sm 1.1-18;
Lv 20.20,21; Sl 128.3; Jr 22.30).
LUCAS 1
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1467 LUCAS 1
27
a uma virgem prometida em casamen-
to a certo homem chamado José, descen-
dente de Davi. E o nome da virgem era
Maria.
12

28
O anjo chegou ao lugar onde ela es-
tava e ao se aproximar lhe declarou:
“Alegra-te, mui agraciada! O Senhor está
contigo!”
13
29
Diante de tais palavras, Maria fcou
intrigada, imaginando qual poderia ser o
motivo daquele tipo de saudação.
30
Mas o anjo lhe revelou: “Maria, não te-
mas; pois recebeste grande graça da parte
de Deus.
31
Eis que engravidarás e darás à luz um
flho, a quem chamarás pelo nome de Je-
sus.
14

32
Ele será Grande, e será chamado Filho
do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o
trono de seu pai Davi,
15
33
e Ele reinará para sempre sobre o povo
de Jacó, e seu Reino nunca terá fm”.
16

34
Então, perguntou Maria ao anjo:
“Como acontecerá isso, pois jamais tive
relação sexual com homem algum?”
17

35
Então o anjo lhe esclareceu: “O Espíri-
to Santo virá sobre ti, e o poder do Altís-
simo te cobrirá com a sua sombra. E por
esse motivo, o ser que nascerá de ti será
chamado Santo, Filho de Deus.
18
36
Saiba também que Isabel, tua parenta,
dará à luz a um flho mesmo em idade
avançada, sendo que este já é o sexto mês
de gestação para aquela a quem julgavam
estéril.
37
Porquanto para Deus não existe nada
que lhe seja impossível!”
38
Diante disso, declarou Maria: “Eis aqui
a serva do Senhor; que se realize em mim
tudo conforme a tua palavra!” Em segui-
da o anjo partiu.
O encontro de Maria com Isabel
39
Durante aqueles dias, Maria preparou-
se e saiu rapidamente em viagem para
uma cidade da região montanhosa da
Judéia.
40
Chegou à casa de Zacarias e foi saudar
Isabel.
41
Assim que Isabel ouviu a saudação de
12
Lucas trata o assunto da concepção virginal de Jesus de forma clara e objetiva (observe os versos 27, 34 e 35 e Mt 1.18-25).
A fecundação foi obra do Espírito Santo que, ao cobrir Maria, na forma de uma sombra, gerou em seu ventre o embrião que
seria Jesus, a eterna segunda pessoa da Trindade. Jesus jamais deixou de ser Deus, mas Deus assumiu completamente corpo
e alma humanas, possibilitando que Jesus fosse plenamente homem e plenamente Deus a um só tempo (Jo 1.14). Maria havia
sido desposada, o que significa no judaísmo da época, uma espécie de noivado definitivo. Um compromisso de casamento sem
possibilidade de arrependimento. Qualquer infidelidade por parte da mulher a partir desse pacto matrimonial, era punida com a
pena de morte por apedrejamento para a virgem que cometera adultério e para o homem que a tivesse seduzido (Dt 22.23,24).
Maria e José eram descendentes diretos de Davi (vs.32,69 e 2.4).
13
Em algumas versões traduzidas a partir da Vulgata latina, conservou-se a palavra “Ave” (de onde teve origem a frase: “Ave
Maria”) uma expressão comum de saudação em latim, e que significa: “Salve!” ou “Seja Feliz!”, mais propriamente traduzida aqui
por “Alegra-te!” Outra expressão que aparece em algumas versões da Bíblia é: “cheia de graça”, numa referência ao favor de
Deus para com sua serva. A tradução e o sentido mais literal dessa frase nos originais gregos são: “tu que foste e permaneces
repleta do favor divino”.
14
O nome próprio “Jesus” deriva do hebraico antigo ( - Yeshua) e significa: “Josué”, que quer dizer: “Yahweh Salva” ou
“Jeová é o Salvador” (Mt 1.21).
15
“Grande” era um título de destaque dado a personalidades notáveis, especialmente aos imperadores da época. O anjo
comunica que o Reino de Cristo é imenso e jamais terá fim. A expressão hebraica traduzida por “Altíssimo” é igualmente um
título honroso, muitas vezes usado no AT e no NT em referência à pessoa de Deus (nos versos 35,76; 6.35; 8.28; Gn 14.19; 2Sm
22.14; Sl 7.10), e tem dois sentidos. Refere-se ao divino Filho de Deus e ao Messias (o Cristo, em grego). O messianato de Jesus
é claramente abordado nos versos 32b e 33. Quanto ao trono de Davi, que significa o comando do mundo, foi profetizado no AT
que seria entregue por Deus ao Messias, da descendência de Davi (2Sm 7.13,16; Sl 2.6,7; 89.26,27; Is 9.6,7).
16
A missão de Cristo como mediador um dia se encerrará (1Co 14.24-28) e dará lugar ao Reino unificado do Pai e do Filho que
durará eternamente (Sl 45.6; Rm 1.3,4; Fp 2.9-11; Hb 1.8; Ap 11.15).
17
Maria não se assusta tanto com o anjo quanto com as palavras dele. Entretanto, mesmo sendo uma jovem simples de
pequena aldeia do interior da Galiléia, não duvida da revelação divina que recebe, como ocorreu com o experiente teólogo e
dedicado sacerdote Zacarias. Maria apenas – compreensivelmente – desejava saber “como” tal evento se daria. Muito embora as
revelações comunicadas a Maria tenham sido ainda mais extraordinárias do que as anunciadas a Zacarias, a serva do Senhor não
precisou de provas ou sinais para aceitar, com alegria submissa, a missão que o Senhor lhe confiara.
18
Alguns séculos depois da ressurreição do Senhor, surgiram certos escritos seculares questionando o período da primeira
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1468 LUCAS 1
Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e
Isabel fcou plena do Espírito Santo.
19

42
E, com um forte grito, exclamou:
“Bendita és tu entre todas as mulheres, e
bendito é o fruto de teu ventre!
43
Mas, qual o motivo desta graça mara-
vilhosa, que me venha visitar a mãe do
meu Senhor?
44
Pois, no mesmo instante em que a tua
voz de saudação chegou aos meus ou-
vidos, o bebê que está em meu ventre
agitou-se de alegria.
45
Bem-aventurada é aquela que acredi-
tou que o Senhor cumprirá tudo quanto
lhe foi revelado!”
Magnifcat, o cântico de Maria
46
Então declarou Maria:
20
“Engrandece
minha alma ao Senhor,
47
e o meu espírito se regozija em Deus,
meu Salvador,
48
pois contemplou a insignifcância da
sua serva. Mas, de hoje em diante, todas
as gerações me chamarão bem-aventura-
da,
49
porque o Poderoso realizou maravi-
lhas a meu favor; Santo é o seu Nome!
50
A sua misericórdia estende-se aos que
o temem, de geração em geração.
51
Ele operou poderosos feitos com seu
braço; dispersou aqueles cujos sentimen-
tos mais íntimos são soberbos.
52
Derrubou governantes dos seus tro-
nos, mas exaltou os humildes.
53
Supriu abundantemente os famintos,
mas expulsou de mãos vazias os que se
achavam ricos.
21
54
Ajudou a seu servo Israel, recordando-
se da sua misericórdia infnda
55
a favor de Abraão e sua descendência,
para sempre, assim como prometera aos
nossos antepassados”.
22
56
E Maria permaneceu com Isabel por
cerca de três meses, quando então retor-
nou à sua casa.
23
Nasce João Batista
57
Ao se completar o tempo de Isabel dar
à luz, nasceu-lhe um flho.
58
Todos os seus vizinhos e parentes ou-
viram falar da grande misericórdia com
a qual o Senhor a havia contemplado e
muito se alegraram com ela.
59
No oitavo dia levaram o menino para
ser circuncidado, e desejavam dar-lhe o
nome do pai, Zacarias.
60
No entanto sua mãe tomou a palavra
e afrmou: “Não! O nome dele deverá ser
João”.
61
Ponderaram-lhe: “Mas ninguém há en-
juventude de Jesus, sobre o qual a Bíblia nada fala. Foram sugeridas várias hipóteses e uma delas levanta a possibilidade de
Jesus ter passado por uma fase em que teria cometido alguns pecados para se assemelhar ainda mais aos seres humanos. As
Sagradas Escrituras, entretanto, são claras em afirmar que Jesus nasceu Santo (a expressão hebraica original significa: separado
para habitação de Deus) e jamais cometeu um só pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). Não foi o nascimento
virginal de Jesus que o fez “Santo”, e muito menos, “Filho de Deus”. Esse foi o meio pelo qual o Filho, preexistente (que sempre
existiu), revelou Sua Deidade (Jo 1.1,14; Fp 2.6).
19
Lucas dá grande ênfase à ação do Espírito Santo, não apenas no evangelho, mas, especialmente no livro de Atos. Algumas
versões trazem a expressão “possuída” para descrever o quanto Isabel ficou cheia (em plenitude) do Espírito. Foi pelo Espírito
que Isabel reconheceu Maria como mãe do Redentor (v.43) e é só pelo Espírito Santo que o pecador pode conhecer a Cristo
como seu único, suficiente e eterno Salvador e Senhor (Jo 16.8,9).
20
Maria (e não Isabel como sugerem algumas versões), na plenitude do Espírito Santo, a exemplo de Ana (1Sm 2.1-10), louva
ao Senhor por sua graça e misericórdia para com todos, especialmente para com os humildes e desprotegidos. A tradição da
Igreja transformou esse cântico (salmo) num hino conhecido como Magnificat, pois na tradução desse texto em latim, na Vulgata,
a primeira palavra é “Magnificat”, que significa: “Engrandece”.
21
Maria, usando uma forma de expressão profética, refere-se às maravilhas que a vinda do Cristo (o Messias) produziria (Tg
5.1-6). Deus supre os “famintos” de bênçãos espirituais e bens materiais (de pão e justiça – Ef 1.3 com 1Sm 2.5), especialmente
quando eles aprendem o que é “temer ao Senhor” (viver em harmonia e respeito à vontade revelada de Deus na sua Palavra).
22
A expressão “seu servo”, em grego transliterado é paidos, e significa: “servo filho”. “Filhos de Deus” é uma expressão que,
em grego, se refere a outras duas palavras: tekna ou huioi. Além do servo Israel, também Davi e Cristo são como “servos” de Deus
(v.69; conforme At 3.13,26; 4.25,27,30). Israel, como o Servo de Yahweh (Jeová), tendo cumprido sua missão, cede seu lugar
ao Messias (Jesus Cristo) nas maravilhosas profecias sobre o “Meu Servo” (Is 41.8,9; 42.1; 44.1,2,21; 45.4). O cântico termina
garantindo que Deus será fiel às promessas que fez a Seu povo (Gn 22.16-18).
23
Maria ficou com Isabel, sua parenta e amiga querida, até o nascimento de João Batista, quando retornou para casa, em Nazaré.
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1469 LUCAS 1
tre teus parentes que se chame assim”.
62
Então, através de sinais, consultaram
o pai do menino que nome queria que
lhe dessem.
63
Ele pediu uma tabuinha e, para surpresa
de todos, escreveu: “O nome dele é João”.
24
64
No mesmo instante sua boca se abriu,
sua língua se soltou e ele começou a falar,
louvando a Deus.
65
Toda a vizinhança foi tomada de gran-
de temor e por toda a região montanhosa
da Judéia se comentavam esses fatos.
66
E aconteceu que todos quantos ouviam
falar dessas ocorrências fcavam imagi-
nando: “O que virá a ser este menino?”
Pois a boa mão do Senhor estava com ele.
Benedictus, o cântico de Zacarias
67
Então, seu pai Zacarias foi cheio do Es-
pírito Santo e profetizou:
25
68
“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
pois que visitou e redimiu o seu povo.
69
Ele concedeu poderosa salvação na
casa de Davi, seu servo.
26

70
Assim como prometera por meio dos
seus santos profetas desde a antiguidade.
71
Salvando-nos dos nossos inimigos e
das mãos de todos os que nos odeiam,
72
para demonstrar sua misericórdia aos
nossos antepassados e recordar sua santa
aliança,
73
o juramento que prestou ao nosso pai
Abraão.
74
Que nos resgataria da mão de todos
os nossos inimigos, a fm de o servirmos
livres do medo,
75
em santidade e justiça na sua presença,
durante todos os dias de nossas vidas.
76
Tu, menino, serás chamado profeta do
Altíssimo, pois marcharás à frente do Se-
nhor, para lhe preparar o caminho.
27

77
Para proclamar ao seu povo o conhe-
cimento da salvação, mediante o perdão
dos seus pecados.
78
E isso, por causa das profundas miseri-
córdias de nosso Deus, através das quais
dos céus nos visitará o sol nascente,
28

79
para iluminar aqueles que estão viven-
do em meio às trevas, e guiar nossos pés
no caminho da paz”.
29

80
E o menino crescia e se robustecia em
espírito; e viveu no deserto até o dia em
24
Na antiguidade judaica era usado um pedacinho de madeira coberto com cera e um buril (um pequeno instrumento de metal
usado para gravar textos e imagens em madeira), como uma espécie de livro de anotações. A importância dos nomes atribuídos
às pessoas é algo notável em toda a Bíblia. No início da Nova Dispensação, temos Zacarias – “Deus se recorda de Sua aliança”
(v.54); Isabel – “Deus é fiel”; João – “Deus é bom e misericordioso” (Mt 3.1); Maria – “aquela que guarda em seu coração”, e o
próprio Jesus – “Deus é o Salvador” (v.31; Mt 1.21).
25
A exemplo de Maria, com seu salmo, Zacarias também expressa sua alegria espiritual e louvor (agora com a voz livre do
sinal punitivo do anjo, devido ao cumprimento da promessa), por meio de um hino profético. Esse cântico ficou conhecido pela
Igreja como Benedictus, que em latim significa “Bendito” ou “Louvado seja”, pois se trata da palavra que inicia este hino na
Vulgata latina.
26
A salvação de Deus para Israel não se limitará à redenção nacional (v.71), mas, principalmente, à salvação espiritual
(vs.75,77). A expressão hebraica, aqui interpretada por “poderosa” se traduz literalmente por “chifre de boi”, numa alusão à força
e ao poder (conforme Dt 33.17; Sl 18.1-3; 22.21; 92.10,11; 132.17,18; Mq 4.13). Jesus – o Messias da Casa de Davi – tem poder
para salvar e libertar seu povo de todo tipo de opressão e escravidão.
27
João foi chamado profeta do Altíssimo, enquanto Jesus foi reconhecido como Filho do Altíssimo (v.32). O principal ministério
de João foi testificar de Cristo (Jo 1.7,29,32-36). O maior ministério do cristão é também ser testemunha de Jesus Cristo (At 1.8).
João recebeu a missão de preparar os caminhos do Senhor para sua primeira vinda, enquanto nós devemos apressar o glorioso
retorno de Cristo por meio do nosso testemunho e da evangelização de todos os povos (2Pe 3.11,12).
28
Assim como o sol nascente desvanece as trevas, Cristo aniquilou o poder e a culpa do pecado. Veja figuras de linguagem
semelhantes em: Nm 24.17; Is 9.2; 60.1. Ele conquistou o império que estava nas mãos de Satanás e destruiu o poder da morte
(Rm 5.12-21). O sacerdote Zacarias, não apenas exaltou seu filho, o profeta João, mas louvou o Messias Jesus que chegaria em
breve (vs.78,79).
29
Os que vivem nas trevas são os que estão perdidos, a caminho da morte (separação de Deus) eterna (Is 9.1,2; Mt 4.16).
A humanidade busca desesperadamente por paz, entretanto o que se vê é o aumento constante da violência e da brutalidade
entre pessoas e nações. O vocábulo “paz” no original grego (transliterado: irene), significa: “estado de descanso, tranquilidade
e segurança, devido a um harmonioso relacionamento entre Deus e a pessoa humana”. Jesus Cristo é o Príncipe da Paz e todos
os seus discípulos já podem desfrutar dessa Paz que será completa e mundial, quando o Senhor estabelecer seu Reino de forma
plena e definitiva na terra renovada (Ap 21.1).
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1470 LUCAS 1, 2
que havia de revelar-se publicamente a
Israel.
30

Nasce Jesus de Nazaré, o Cristo
(Mt 1.18-25)
2
Naquela época, César Augusto pu-
blicou um decreto, convocando para
um recenseamento, todos os moradores
das terras dominadas por seu império.
1

2
Este foi o primeiro cadastramento da po-
pulação de todo o império romano, quan-
do Quirino era governador da Síria.
2
3
E todos seguiam para as cidades onde ha-
viam nascido, a fm de serem arrolados.
4
Por isso, José também viajou da cidade
de Nazaré da Galiléia para a Judéia, até
Belém, cidade de Davi, porque pertencia
à casa e à descendência de Davi.
3
5
E partiu com o propósito de alistar-se,
juntamente com Maria, sua esposa pro-
metida, que estava grávida.
4

6
Enquanto estavam em Belém, chegou o
momento de nascer o bebê,
7
e ela deu à luz o seu primogênito. En-
volveu-o com tiras de pano e o colocou
sobre uma manjedoura, pois não havia
lugar para eles na hospedaria.
5

“Gloria in Exelsis Deo!”
8
Nas proximidades havia pastores que
estavam nos campos e que durante a noi-
te cuidavam dos seus rebanhos.
9
E aconteceu que um anjo do Senhor
apareceu a eles e a glória do Senhor relu-
zindo os envolveu; e todos fcaram apa-
vorados.
10
Todavia o anjo lhes revelou: “Não te-
mais; eis que vos trago boas notícias de
grande alegria, e que são para todas as
pessoas:
11
Hoje, na cidade de Davi, vos nasceu o
Salvador, que é o Messias, o Senhor!
6
12
Isto vos servirá de sinal: encontrareis
um recém-nascido envolto em panos e
deitado sobre uma manjedoura”.
13
E no mesmo instante, surgiu uma
30
Zacarias e Isabel, já idosos quando João nasceu; morreram quando ele era ainda muito jovem. Segundo historiadores e
arqueólogos, João teria sido levado para o deserto da Judéia, onde viveu cerca de trinta anos e muito aprendeu com os essênios
da região de Qunram. A semelhança de terminologia da sua pregação com os chamados Rolos do Mar Morto é notável. João
Batista começou seu ministério público com cerca de trinta anos, idade em que os profetas tinham, em geral, sua maioridade e
maturidade espiritual reconhecidas pelos conselhos de rabinos.
Capítulo 2
1
Lucas procura sempre relacionar sua narrativa aos grandes fatos históricos de seu tempo. César Augusto (30 a.C. a 14 d.C)
foi o primeiro e o maior dos imperadores romanos. Estabeleceu a chamada “Pax Romana”, trocou o sistema republicano por uma
forma imperial de governo, conquistou todo o mundo civilizado do Mediterrâneo e estabeleceu a idade áurea das artes, arquite-
tura e literatura romanas. No ano 27 a.C. o senado romano lhe concedeu o título de “augusto”, que em latim significa: “exaltado”
ou “digno de toda a reverência”. Embora os judeus estivessem isentos do serviço militar romano, e por isso não eram obrigados
a atender às convocações militares, não estavam livres de pagar os impostos, e esse recenseamento ou cadastramento visava
exatamente alistar todos os cidadãos e moradores sob o domínio romano, especialmente para recolhimento de impostos. Deus
usou o decreto de um imperador pagão para cumprir a profecia de Mq 5.2.
2
Quirino foi um oficial romano que coincidentemente trabalhou neste censo e em um segundo alistamento geral que ocorreu
de 6 a 9 d.C., registrado por Lucas em At 5.37, no qual Judas se levantou contra o governo romano da época, alegando que Deus
era o único e legítimo Rei de Israel, sendo, portanto, ilícito (um pecado) pagar impostos a qualquer outra autoridade.
3
Belém é a mesma cidade onde nasceu o rei Davi cerca de 1000 anos antes destes eventos (1Sm 17.12; 20.6) e se localizava
a uma distância aproximada de 10 km ao sul de Jerusalém. Naquela época, uma viagem de pelo menos três dias até Nazaré.
“Judéia”, era a maneira greco-romana de chamar a parte sul da Palestina, no passado abrangida pelo reino de Judá.
4
Na Síria, província romana na qual se localizava a Palestina, as mulheres acima de 12 anos deviam pagar um imposto indivi-
dual ao governo, e para isso tinham de ser cadastradas (recenseadas). Maria também pertencia à casa de Davi.
5
No ocidente e por motivos não históricos nos acostumamos a celebrar o natal (nascimento de Jesus Cristo) em dezembro.
Entretanto, segundo muitos historiadores e arqueólogos de prestígio, a data mais provável deve ter sido na primavera palestina
(entre maio e junho). Era costume entre as mães judias envolver os filhos recém-nascidos com tiras de tecido para que ficassem
bem agasalhados e protegidos. A cidade estava lotada com pessoas de todas as partes vindas para ser arroladas no censo. Maria
sentia as dores de parto e a única solução foi se acomodarem em um estábulo. Ao nascer, Jesus foi posto em uma manjedoura,
uma espécie de cocho onde se colocava o alimento dos animais.
6
Os líderes religiosos e o povo judeu estavam divididos em suas expectativas quanto à obra do Messias prometido. Uns
esperavam que ele fosse um grande líder militar e os livrasse do domínio romano. Outros desejavam cura para as enfermidades
e os muitos sofrimentos físicos. E, outros ainda, ambicionavam um Messias que os livrasse da fome e da pobreza. Contudo, a
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1471 LUCAS 2
grande multidão do exército celestial
que se juntou ao anjo e louvavam a Deus
entoando:
14
“Glória a Deus nos mais altos céus, e
paz na terra às pessoas que recebem a sua
graça!”
7

15
Quando os anjos partiram e foram
para os céus, os pastores combinaram
entre si: “Vamos até Belém, e vejamos
este acontecimento que o Senhor nos
deu a saber”.
16
Então correram até o local e chegando,
encontraram Maria e José, e o recém-
nascido deitado numa manjedoura.
17
E depois de o contemplarem, comuni-
caram a todos o que lhes fora revelado a
respeito daquele menino,
18
Ao ouvirem o que os pastores relata-
vam fcaram sobremodo assustados.
19
Maria, contudo, observava silenciosa
todos os acontecimentos, e refetia sobre
eles em seu coração.
20
Os pastores retornaram glorifcando
e louvando a Deus por tudo quanto ti-
nham visto e ouvido, assim como lhes
fora predito.
Jesus é apresentado no templo
21
Completando-se os oito dias para o
ritual de circuncisão do menino, foi-lhe
dado o nome de Jesus, o qual já havia
sido outorgado pelo anjo antes de Ele
nascer.
8

22
De igual modo, ao completar-se o tem-
po da purifcação deles, de acordo com
a Lei de Moisés, José e Maria levaram o
bebê Jesus até Jerusalém para apresentá-
lo a Deus no templo.
9
23
Assim como está escrito na Lei do
Senhor: “Todo primogênito nascido do
sexo masculino deverá ser dedicado ao
Senhor”.
24
Também um sacrifício deveria ser ofe-
recido, como proclama a Lei do Senhor:
“duas rolinhas ou dois pombinhos”.
10
“Nunc Dimittis”
25
Entrementes, havia um homem em Je-
rusalém chamado Simeão, homem justo
e piedoso e que almejava a consolação
de Israel; e o Espírito Santo estava sobre
Ele.
11

26
O Espírito Santo lhe havia revelado
missão prioritária do Cristo, anunciada pelos anjos, é que Ele viria resgatar a humanidade, pagando o preço pelo pecado: a morte
(Mt 1.21; Jo 4.42). A pessoa e a obra de Cristo neste mundo significam: maior glorificação de Deus Pai nos céus (17.4,5) e paz
divina eterna para todos os habitantes da terra que receberem seu Espírito com amor e sinceridade (v.14; Rm 5.1,2). A expressão
hebraica: “Senhor”, até a vinda de Cristo, era usada exclusivamente para se referir a Deus (At 2.36; Fp 2.11).
7
Um grande coral de anjos entoou um cântico de louvor a Deus. As primeiras palavras deste pequeno hino, registrado em
latim na Vulgata, são: Gloria in exelsis Deo! Os anjos exaltam a majestade de Deus em todo o universo, nos céus, onde Deus
habita (Mt 6.9). O mundo da época vivia sob a Pax romana, uma paz exterior e temporária, imposta por um imperador humano. Os
anjos anunciam a “Paz de Deus”, eterna e absoluta, garantida a todos quantos se agradam (recebem com gratidão, sinceridade
e lealdade) a graça de Deus (Lucas usa a palavra “agrado” em vários momentos 3.22; 10.21; 12.32). A “Paz de Deus” só pode
ser recebida por quem crer que Ele é o Único doador e Salvador. Em resumo: é um ato de fé (Rm 5.1). O Messias davídico era
chamado de “Príncipe da Paz” (Is 9.6). De outro lado, embora Cristo tenha prometido essa Paz aos seus discípulos (Jo 14.27),
Ele deixou bem claro que haveria lutas, aflições e tensões (Mt 10.34-36; Lc 12.49; Jo 16.33), pois manter a paz com Deus significa
viver em oposição diária a Satanás e seus ardis (Tg 4.4).
8
Jesus, o Filho de Deus, relacionou-se de perto com a Lei e a Velha Aliança. Nasceu, cresceu e foi educado sob a Lei para
resgatar todos os que estavam sob a Lei e suas consequências. Obedeceu a Lei e foi além, para nos ensinar a viver sob o espírito
da lei; ou seja, livres da formalidade da letra, mas conduzidos pelo Espírito de Deus, nosso Advogado e Orientador quanto ao que
devemos fazer para agradar ao Pai Celestial (Jo 14.25-27; Gl 4.4-5). Lucas usa muitas vezes a expressão “louvando ao Senhor”
(1.64; 2.13,28; 5.25,26; 7.16; 13.13; 17.15,18; 18.43; 19.37; 23.47; 24.53).
9
Depois de dar à luz a um filho, a mãe judia, precisava aguardar 40 dias (resguardo), para dirigir-se ao templo e oferecer os
sacrifícios chamados de “purificação”. Se fosse pobre e não pudesse comprar um cordeiro e uma rolinha (espécie de pombo
pequeno), como ocorreu com José e Maria, eram aceitáveis dois pombinhos (Lv 12.2-8; 5.11).
10
Belém distava de Jerusalém cerca de 10 km. Todos os primogênitos dos seres humanos e dos animais deviam, pela Lei,
serem consagrados (dedicados) ao Senhor (Êx 13.12-13). Os animais eram sacrificados, pois somente o sangue e a morte dos
inocentes podia pagar o preço dos pecados humanos. Cristo tomou sobre si esta penalidade (Is 53.6; 2Co 5.21) e se deu em
sacrifício único, suficiente e perpétuo. Os primogênitos humanos eram simbolicamente oferecidos aos cuidados do Senhor (Rm
8.29), e seus pais se obrigavam a educá-los para adorar e servir a Deus. Os filhos deviam seguir a fé dos pais durante toda a vida,
mas eram os levitas quem, de fato, dedicavam suas vidas inteiras ao serviço religioso diário, como ministros, representando a
adoração de todos os primogênitos masculinos de Israel (Nm 3.11-13; 8.17,18).
11
A consolação que os judeus piedosos (fiéis e adoradores sinceros de Deus) aguardavam era a vinda do Messias (Cristo,
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1472 LUCAS 2
que não morreria sem ter a oportunida-
de de ver o Cristo de Deus.
27
Movido pelo Espírito Santo, ele diri-
giu-se ao templo. Assim que os pais trou-
xeram o menino Jesus para realizarem
com Ele o ritual de consagração exigido
pela tradição da Lei,
28
Simeão o tomou em seus braços e lou-
vou a Deus, exclamando:
29
“Ó Soberano! Como prometeste, po-
des agora despedir em paz o teu servo.
30
Porquanto os meus olhos já contem-
plaram a tua Salvação,
12
31
a qual preparaste à vista de todos os
povos:
32
luz para revelação aos gentios, e para
glória do teu povo de Israel”.
33
O pai e a mãe do menino fcaram ad-
mirados com a proclamação feita a res-
peito dele.
34
Então Simeão os abençoou e revelou a
Maria, mãe de Jesus: “Eis que este meni-
no está destinado a ser o responsável pela
queda e pelo soerguimento de multidões
em Israel, e a ser um sinal de contradi-
ção,
35
de maneira que a intimidade dos pen-
samentos de muitos corações será reve-
lada. Quanto a ti, todavia, uma espada
traspassará a tua alma”.
13

As profecias de Ana
36
Estava também presente a profetiza
Ana, flha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era uma senhora de idade avançada; ti-
nha vivido com seu marido durante sete
anos depois de se casar,
14
37
e desde então permanecera viúva até
a idade de oitenta e quatro anos. Jamais
deixava o templo: adorava a Deus, jeju-
ando e orando dia e noite.
38
Havendo chegado ali, naquele exato
momento, deu graças a Deus e proclama-
va acerca do bebê Jesus para todos os que
anelavam pela redenção de Jerusalém”.
15
39
Depois de terem cumprido tudo quan-
to era requerido pela Lei do Senhor, re-
tornaram para a sua própria cidade, Na-
zaré, na Galiléia.
40
E o menino crescia e se fortalecia, tor-
nando-se pleno em sabedoria; e a graça
de Deus permanecia sobre Ele.
16
O menino Jesus no templo
41
Todos os anos seus pais viajavam até Je-
rusalém para celebrar a festa da Páscoa.
em grego) e a implantação de um Reino de justiça, paz e felicidade (vs. 26,38; 23.51; 24.21; Is 40.1,2; Mt 5.4). O Espírito Santo,
antes do evento de Pentecostes, vinha “sobre” as pessoas e as agraciava com sua presença por algum tempo. Após a ascensão
de Cristo, o Espírito vem “habitar”, ou, como no sentido original do AT, “tabernacular” permanentemente na vida do crente (Jo
14.16-18). Lucas dá grande atenção em seus textos à pessoa e ao tríplice ministério do Espírito Santo: Primeiro como condutor
da graça preveniente e sensibilizadora que leva o ser humano a buscar a Deus (Jo 16.8), em seguida, revelando a Cristo e
iniciando a obra salvadora do Senhor (Jo 3.5; Rm 8.9), e santificando a vida do crente e o preparando para herdar a vida eterna
com Cristo (Rm 8.14).
12
Todo aquele que tem uma fé viva e verdadeira na pessoa e na obra de Cristo pode, com toda a certeza e tranquilidade, morrer
em plena paz (1Jo 1.1 em relação a Gn 15.15). Simeão declama um salmo que se tornaria um hino da Igreja conhecido como:
Nunc dimittis, que são as primeiras palavras deste cântico em latim, como aparece na Vulgata, e significam: “Agora despede”.
Lucas, não sendo judeu, teve o cuidado de ressaltar a verdade de que a Salvação é uma graça disponível também aos gentios e
não apenas aos judeus (v.32; Mt 24.14; Mc 13.10; Ap 7.9).
13
Cristo veio para reabilitar o caído, consolar os que sofrem e restaurar os que se consideram perdidos. Aos que não se
acham necessitados, Cristo veio para, literalmente, “derrubar a casa” (em grego, ptõsis), pois Jesus é pedra de tropeço para os
incrédulos (20.17-18; 1Co 1.23; 1Pe 2.6-8). Jesus causa divisão entre o que prefere viver nas trevas e aqueles que atendem ao
apelo do seu amor (Jo 3.19), e entre o criminoso arrependido e o blasfemo (Lc 23.39-43). Lucas, pela primeira vez, fala sobre os
sofrimentos e o martírio de Cristo, salientando que sua mãe sofreria tanto quanto Ele, como se uma espada varasse seu coração.
No entanto não se tem notícia de que Maria tivesse ficado amargurada, ressentida com Deus ou amaldiçoasse seu destino.
14
A Bíblia apresenta outras profetizas: Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4.4), Hulda (2 Rs 22.14) e as filhas de Filipe (At 21.9). Curio-
samente, essa Ana do NT louvou a Deus pelo menino Jesus, assim como, a Ana do AT exaltou ao Senhor pelo menino Samuel.
Ambas foram divinamente inspiradas para revelar a Palavra de Deus. O nome “Ana” significa em hebraico antigo: “misericordiosa”
(1Sm 2.1-10).
15
Jerusalém é a cidade santa do povo escolhido de Deus (Is 40.2; 52.9). Neste texto representa a nação de Israel como um todo.
16
Lucas não menciona a vinda dos magos (astrônomos), o perigo da parte de Herodes, nem ainda a fuga para o Egito e a
viagem de retorno de lá (Mt 2.1-23).
42_Lucas_2012.indd 1472 16/03/2012 12:25:55
1473 LUCAS 2, 3
42
Assim sendo, no ano em que Ele com-
pletou doze anos de idade, eles subiram à
festa, de acordo com a tradição.
17
43
Encerradas as comemorações, voltan-
do seus pais para casa, o menino Jesus
fcou em Jerusalém, sem que eles notas-
sem.
44
Imaginando que Ele estivesse entre os
muitos companheiros de viagem, cami-
nharam por um dia inteiro. Então come-
çaram a buscá-lo entre os seus parentes e
conhecidos.
45
Como não conseguiam encontrá-lo,
retornaram a Jerusalém para procurá-lo.
46
Após três dias o acharam no templo,
sentado na companhia dos mestres, ou-
vindo-os e propondo-lhes questões.
47
Todos os que o ouviam fcavam mara-
vilhados com a sua capacidade intelec-
tual e com a maneira como comunicava
suas conclusões.
18
48
Assim que seus pais o avistaram, fca-
ram perplexos. Então sua mãe o inqui-
riu: “Filho, por que agiste assim conosco?
Teu pai e eu nos angustiamos muito à tua
procura!”
49
Então Ele lhes perguntou: “Por que me
procuráveis? Como não sabíeis que era
meu dever tratar de assuntos concernen-
tes ao meu Pai?”
50
Mas eles não compreenderam bem o
que lhes explicara.
19
51
Contudo, Ele seguiu com eles para Na-
zaré, pois lhes era obediente. Sua mãe,
entretanto, meditava silenciosamente em
seu coração sobre todos estes aconteci-
mentos.
52
E Jesus se desenvolvia em sabedoria,
estatura e graça na presença de Deus e de
todas as pessoas.
20
João Batista proclama a Palavra
(Mt 3.1-12; Mc 1.2-8)
3
No décimo quinto ano do reinado de
Tibério César, época em que Pôncio
Pilatos foi governador da Judéia; Herodes,
tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe, te-
trarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias,
tetrarca de Abilene, e
1
2
Anás e Caifás exerciam o ofício de
sumo sacerdotes. Foi nesse mesmo ano
que João, flho de Zacarias, recebeu uma
17
José e Maria tinham o zelo de cumprir tudo quanto a Lei requeria, e assim educavam o menino Jesus. Aos doze anos, a
tradição judaica considerava o jovem menino como “filho da lei”, e seu dever era aprender os preceitos mais amplos da Lei, para
no ano seguinte começar a cumprir as exigências cerimoniais relacionadas às festas, jejuns, orações e estudos teológicos. Jesus
estava certo de que seus pais sabiam da necessidade que ele tinha – no ano em que completava doze anos – de dedicar-se a
esse aprendizado e aprofundamento na cultura judaica junto aos rabinos e mestres da Lei do seu tempo.
18
Na época de Jesus as aulas eram gravadas na memória e no coração dos alunos, não havia as facilidades modernas dos
muitos livros, cadernos e computadores. As respostas orais dos alunos às seguidas perguntas dos mestres demonstravam
o quanto do ensino havia sido retido e compreendido. Jesus assombrou até os doutores de seu tempo com seu saber e
carisma pessoal.
19
Jesus tentou gentilmente lembrar seus pais terrenos sobre seu compromisso de obediência ainda maior a Seu Pai celeste,
e por isso contrapôs a expressão: “teu pai”, usada por Maria, com a frase: “meu Pai”. Aos doze anos Jesus já tinha grande com-
preensão sobre quem Ele era e qual sua missão na terra. Sua mãe, entretanto, procurou compreender o que havia se passado
ponderando tudo silenciosamente em seu coração, e assim agiria durante toda a vida de seu filho na terra. Lucas faz questão de
frisar que Jesus foi obediente aos seus pais e os seguiu para casa. Na época em que Lucas estava escrevendo seu Evangelho
(entre 60 e 70 d.C.), muitas lendas sobre a adolescência e a primeira juventude de Jesus circulavam por todo o império romano.
Uma delas dizia que Jesus passou por uma fase de rebeldia contra seus pais, bem como transformava pequenas peças de barro
em pássaros apenas para demonstrar seu poder. O problema, como sempre, é que muitos acreditaram mais na ficção do que
na realidade.
20
Lucas afirma a perfeita e completa humanidade pela qual Deus passou ao encarnar-se em Jesus de Nazaré, seu Filho. Como
qualquer pessoa, Cristo passou pelas diversas fases do desenvolvimento humano, porém sempre de forma brilhante, perfeito e
sem pecado. José, o pai terreno de Jesus, morreu quando Ele era ainda muito jovem, deixando para Ele toda a responsabilidade
de cuidar de Maria, sua mãe, e dos demais irmãos. E Jesus ajudou a sustentar sua família por muito tempo, trabalhando como
carpinteiro e pedreiro (Mc 6.3).
Capítulo 3
1
Tibério passou a ter autoridade sobre as províncias romanas por volta de 11 d.C, e Pilatos exerceu a suprema autoridade de
Roma na Judéia, entre os anos de 26 e 36 d.C, enquanto Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande) a exerceu na Galiléia e
Peréia, de 4 a.C. até 39 d.C. O “décimo quinto ano”, citado por Lucas, refere-se ao ano 25 ou 26 d.C.
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1474 LUCAS 3
palavra convocatória do Senhor, no de-
serto.
2

3
Então ele percorreu toda a região
próxima ao Jordão, proclamando um
batismo de arrependimento para perdão
dos pecados.
3
4
Assim como está escrito no livro das
palavras do profeta Isaías: “Voz do que
clama no deserto: ‘Preparai o caminho
do Senhor, tornai retas as suas veredas.
5
Pois que todo o vale será aterrado e todas
as montanhas e colinas, niveladas. As estra-
das tortuosas se transformarão em retas e
os caminhos acidentados serão aplanados.
6
E todos os seres viventes contemplarão
a salvação que Deus oferece’”.
7
João repreendia as multidões que vi-
nham para ser batizadas por ele: “Raça
de víboras! Quem lhes persuadiu a fugir
da ira vindoura?
4
8
Produzi, então, frutos que demonstrem
arrependimento. E não comeceis a cogi-
tar em vossos corações: ‘Abraão é nosso
pai!’. Pois eu vos asseguro que destas
pedras Deus pode fazer surgir flhos a
Abraão.
5

9
O machado já está posto à raiz das árvo-
res, e toda árvore que não der bom fruto
será cortada e jogada ao fogo”.
10
E as multidões lhe rogavam: “O que de-
vemos fazer então?”
11
Diante do que João as exortava: “Quem
tiver duas túnicas dê uma a quem não
tem nenhuma; e quem possui o que co-
mer, da mesma maneira reparta”.
12
Chegaram inclusive alguns publicanos
para ser batizados. E indagavam: “Mes-
tre, como devemos proceder?”
13
E João lhes respondeu: “Não deveis exi-
gir nada além do que vos foi prescrito”.
6

14
Então um grupo de soldados lhe in-
quiriu: “E quanto a nós, o que devemos
fazer?” E ele os orientou: “A ninguém
molesteis com extorsões, nem denuncieis
2
Embora Roma tivesse substituído o sumo sacerdote Anás, sucedido por seu filho Eleazar no ano 15 d.C., os judeus continuavam
a reconhecer sua autoridade (Jo 18.13; At 4.6), e por isso Lucas incluiu o nome dele junto com Caifás, a quem os romanos tinham
nomeado. Depois de 400 anos sem um profeta oficial, o Senhor convoca (chama) João para ser Sua voz e anunciar a vinda do
Messias. João foi o último dos profetas da Antiga Aliança, por isso seu estilo característico, um tanto diferente dos profetas do NT. O
chamado de Deus veio a João da mesma maneira como vinha aos profetas do AT (Jr 1.2; Ez 1.3; Os 1.1; Jl 1.1). A palavra “deserto”
nos originais, nem sempre se refere a uma região seca e arenosa, mas principalmente a um lugar desolado e desabitado.
3
João foi chamado por Deus para pregar arrependimento ao povo. Somente um coração contrito e quebrantado é caminho
pavimentado para a vinda de Jesus e a habitação do Espírito Santo. O batismo de João era um ato simbólico, no qual as pessoas
demonstravam publicamente sua compreensão e tristeza pelos erros e pecados cometidos, e a sincera disposição de buscar uma
vida em plena harmonia com a vontade de Deus. A morte do homem interior é a única maneira de revelar o caráter de Deus: a
Imago Dei (Imagem de Deus). Quanto mais parecidos com Deus, mais verdadeiramente humanos nos tornamos. A remissão total
dos pecados viria na Salvação de Deus: Jesus Cristo (v.6), que seria oferecida a todas as pessoas da terra e, por fim, virá a eterna
condenação dos rebeldes (v.7). Somente Jesus Cristo tem o poder de perdoar todos os nossos pecados e cancelar (pagando
por nós), a pena de condenação já decretada contra nós (Rm 8.1).
4
Deus mandou que João quebrasse a arrogância daqueles que imaginavam a salvação apenas como uma promessa heredi-
tária e mais nada. João lhes fala da única maneira capaz de os fazer acordar para a realidade. Advertindo-os severamente para o
fato de que estavam sendo enganados pela “mãe das víboras”: o Diabo. Eram, portanto, uma geração de serpentes venenosas
(Jo 8.44). Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que amam a Deus e aos seus semelhantes (Rm 8.14). A ira de Deus
manifestou-se no ano 70 d.C. quando toda Jerusalém foi destruída (21.20-23); e o será de maneira global, por ocasião do Juízo
final (Jo 3.36). Os arrogantes, os ímpios e todos aqueles que vivem longe de um arrependimento genuíno, e de uma vida cristã
sincera, estão diariamente sujeitos ao Juízo de Deus (v.9; Mt 7.19; 13.40-42).
5
Os frutos que surgem em função de um verdadeiro arrependimento diante de Deus são: O reconhecimento da responsabilida-
de pessoal e social. A disposição para evitar o mal. A prática espontânea de boas obras. A partilha amorosa e voluntária dos bens
pessoais com aqueles que mais necessitam. Um caráter honesto e justo em todos os relacionamentos e assuntos. Uma atitude
paciente em todas as situações. A prática da verdade. Um espírito alegre e otimista mesmo em meio às grandes dificuldades da
vida, compreendendo que a esperança não vem das pessoas, nem das coisas, mas de Deus, nosso Pai (1Tm 6.6). João usa um
trocadilho em hebraico, facilmente compreendido naquela época por seus conterrâneos. A palavra aramaica transliterada: “filhos”
banim, muito se assemelha à palavra “pedras” abanim, significando que Deus pode dar aos que carecem de dignidade humana,
a mais alta posição com Seu Filho.
6
Os publicanos eram agentes judeus contratados pelo império romano para receberem os impostos cobrados pelo governo.
Eram detestados pelo povo judeu por várias razões, entre as quais por colaborarem com o conquistador romano pagão e, por
muitas vezes fraudarem e oprimirem seus próprios irmãos (Lc 19.2,8). Entretanto, os publicanos que se arrependiam, passavam
a ter um comportamento honesto e justo.
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1475 LUCAS 3
falsamente. Contentai-vos com o vosso
próprio salário”.
7
João exalta a Jesus: o Caminho
(Mt 3.11-12; Mc 1.7-8; Jo 1.19-17)
15
A esta altura as pessoas estavam em
grande expectativa, imaginando em seus
corações se porventura João não seria o
Cristo.
16
Então João esclareceu a todos: “Eu, de
fato, vos batizo com água. Entretanto,
chegará alguém mais poderoso do que
eu, tanto que não sou digno sequer de
desamarrar as correias das suas sandá-
lias. Ele sim, vos batizará com o Espírito
Santo e com fogo.
8

17
Ele traz uma pá em suas mãos, a fm de
limpar a sua eira e juntar o trigo em seu
celeiro; todavia queimará a palha com o
fogo que jamais se apaga”.
9
18
E com muitas outras palavras João en-
tusiasmava as multidões e lhes pregava as
Boas Novas.
19
Contudo, quando João admoestou He-
rodes, o tetrarca, por causa de Herodias,
mulher do próprio irmão de Herodes, e
devido a muitas outras obras perversas
que havia praticado,
20
Herodes acrescentou a todas essas mal-
dades a de mandar João para a prisão.
10

O batismo e a ascendência de Jesus
(Mt 1.1-17; 3.13; Mc 1.9-11)
21
E ocorreu que, quando todo o povo
estava sendo batizado, da mesma manei-
ra Jesus o foi; e no momento em que Ele
estava orando, o céu se abriu
11

22
e o Espírito Santo desceu sobre Ele em
forma corporal, como uma pomba. E do
céu surgiu uma voz: “Tu és o meu Filho
amado; e em ti me agrado sobremaneira”.
23
Jesus tinha cerca de trinta anos de ida-
de quando iniciou seu ministério. Ele era,
como se dizia, flho de José; flho de Eli,
12

24
flho de Matate, flho de Levi, flho de
Melqui, flho de Janai, flho de José,
7
Os publicanos contavam com a cooperação de uma escolta romana para realizar o trabalho de coletar impostos. Era comum
os publicanos se juntarem aos soldados e armarem situações para defraudarem os judeus que deviam impostos ao governo. A
orientação clara de João é que, uma vez arrependido e comprometido com o Reino, o comportamento deve ser digno e ético.
Uma autoridade que teme a Deus jamais deveria usar seu cargo ou posição para intimidar com o propósito de extorquir, ou acusar
(denunciar) com objetivos escusos.
8
João tinha o ministério do arauto. Na cultura oriental da época, um proclamador adiantava-se à caravana do monarca com
o objetivo de anunciar a chegada de tão importante personalidade, a fim de que o povo se preparasse adequadamente para
recebê-lo. Normalmente as pessoas se vestiam com roupas de gala, arrumavam suas casas e decoravam a cidade de forma
festiva. Em termos espirituais, o arrependimento era a grande preparação para a vinda do Messias (o Cristo) e a inauguração
de um novo tempo, no qual Jesus concederia o Seu Espírito aos que nele cressem (Jo 3.3,5), o que veio a ocorrer a partir do
Pentecostes (At 1.5; 2.4,38). A expressão “fogo”, nos originais, está ligada ao Juízo (v.17; 12.49-53), ao Pentecostes (At 2.3) e às
provações (1Co 3.13).
9
A palha representa os infiéis e impenitentes (Rt 1.22), e o trigo, os justos e fiéis. Deus, em relação às pessoas, sempre faz
separação entre os que humildemente desejam Sua Graça e os arrogantes e rebeldes, que preferem uma vida de pecado, e,
consequentemente, seu salário. O vocábulo grego transliterado: “asbestõ”, significa uma qualidade do fogo que, devido à sua
fúria e poder de combustão, não pode ser apagado. Muitos judeus imaginavam que na vinda do Messias somente os pagãos
seriam julgados e condenados ao fogo eterno. Entretanto, João deixa bem claro que o Juízo vem para todos quantos não se
arrependem, inclusive os judeus de nascimento.
10
Esse foi Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, que mandou matar todas as crianças judias de Belém. Conforme
os escritos de Josefo, historiador judeu, João foi encarcerado em Maquero, a leste do mar Morto (Jo 3.22-24). Lucas antecipa a
narração deste fato para encerrar a seção sobre o ministério de João e iniciar sua descrição do ministério de Jesus (Mt 4.12; Mc
1.14), mais tarde faz breve menção à morte de João (9.7-9).
11
Lucas chama atenção para o fato de que Jesus estava em oração por ocasião do seu batismo, assim como o faz em muitos
momentos (5.16; 6.12; 9.18-29; 11.1; 22.32,41; 23.34,46), oferecendo aos seus discípulos um grande exemplo e demonstrando
sua total humanidade e dependência do Pai (Hb 4.15; 5.7). O Espírito assumiu uma forma corpórea (uma espécie de pombo),
para que os presentes pudessem reconhecer a Jesus como o Messias (Is 11.2,3; 42.1; Sl 2.7; Hb 1.5) e para sinalizar o início de
um tempo em que seus discípulos poderiam viver plenos do Espírito do Pai (4.1,14). Este evento demonstra que a Trindade está
presente no batismo e na vida do cristão sincero (Mt 28.19).
12
Lucas segue a linhagem de Maria, mãe natural de Jesus, e seu parentesco consanguíneo; enquanto Mateus destaca a
ascendência de José (o pai jurídico de Jesus). Tanto José, quanto Maria, pertenciam à Casa de Davi. Mateus preocupa-se em
demonstrar o parentesco de Jesus com Abraão, enquanto Lucas ressalta a importância de Maria na genealogia de Jesus e sua
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1476 LUCAS 3, 4
25
flho de Matatias, flho de Amós, flho
de Naum, flho de Esli, flho de Nagai,
26
flho de Máate, flho de Matatias, flho
de Semei, flho de José, flho de Jodá,
27
flho de Joanã, flho de Resa, flho
de Zorobabel, flho de Salatiel, flho de
Neri,
28
flho de Melqui, flho de Adi, flho de
Cosã, flho de Elmadã, flho de Er,
29
flho de Josué, flho de Eliézer, flho de
Jorim, flho de Matate, flho de Levi,
30
flho de Simeão, flho de Judá, flho
de José, flho de Jonã, flho de Eliaquim,
31
flho de Meleá, flho de Mená, flho de
Matatá, flho de Natã, flho de Davi,
32
flho de Jessé, flho de Obede, flho de
Boaz, flho de Salá, flho de Naassom,
33
flho de Aminadabe, flho de Admim,
flho de Arni, flho de Esrom, flho de
Peres, flho de Judá,
34
flho de Jacó, flho de Isaque, flho de
Abraão, flho de Terá, flho de Naor,
35
flho de Serugue, flho de Ragaú, flho
de Faleque, flho de Éber, flho de Salá,
36
flho de Cainã, flho de Arfaxade, flho
de Sem, flho de Noé, flho de Lameque,
37
flho de Matusalém, flho de Enoque,
flho de Jarede, flho de Maalaleel, flho
de Cainã,
38
flho de Enos, flho de Sete, flho de
Adão, flho de Deus.
Jesus vence o ataque satânico
(Mt 4.1-11; Mc 1.12,13)
4
Pleno do Espírito Santo, retornou
Jesus do Jordão e foi conduzido pelo
Espírito ao deserto,
1

2
onde enfrentou as tentações do Diabo
por quarenta dias. Durante todos esses
dias não comeu nada e, ao fm desse pe-
ríodo, estava faminto.
3
Indagou-lhe, então, o Diabo: “Se tu és o
Filho de Deus, ordena que esta pedra se
transforme em pão”.
2
4
Mas Jesus lhe contestou: “Está escrito:
‘Nem só de pão viverá o ser humano’”.
5
Então o Diabo o levou a um lugar mui-
to alto e lhe mostrou, em uma fração de
tempo, todos os reinos do mundo.
6
E lhe propôs: “Eu te darei todo o poder
sobre eles e toda a glória destes reinos,
porque me foram entregues e tenho au-
toridade para doá-los a quem bem en-
tender.
solidariedade com toda a humanidade em Adão. Não era nada comum descrever uma árvore genealógica pelo lado materno.
Todavia, Lucas se propusera a fazer uma narrativa o mais lógica e ordenada possível dos acontecimentos. Como já havia sido
muito franco e direto ao explicar a geração virginal de Jesus (1.34,35), fato ainda mais inusitado, não podia omitir a maneira como
a paternidade de Jesus ocorrera: de um lado, José, “como se dizia” ou “como se imaginava” (v.23; 4.22), ou seja, o pai juridica-
mente responsável por Jesus; e o Espírito de Deus que o gerou. Aos trinta anos de idade Jesus inicia seu ministério, assim como
era costume entre os levitas (Nm 4.47), quando um servo judeu era considerado maduro para os variados serviços religiosos.
Jesus cumpriu toda a Lei, e foi além.
Capítulo 4
1
Lucas é inspirado por Deus (aqui e no livro de Atos) para dar especial destaque à ação da terceira pessoa da Trindade – o
Espírito Santo – no mover do coração do Senhor e de seus discípulos para fazerem a vontade do Pai (1.35; 41.7; 2.25-27; 3.16,22;
4.14,18; 10.21; 11.13; 12.10,12). Durante toda a sua vida na terra, Jesus suportou fortes e complexas tentações, em algumas delas
a Bíblia não nos revela os detalhes. Todavia, esse embate mereceu especial destaque, pois esteve em questão todo o futuro dos
seres humanos. Os ataques do Diabo foram contra o Messias (o Ungido de Deus, Seu Filho), o cabeça da Nova Humanidade (Cl
2.15). Jesus foi tentado de forma extremamente sutil, ardilosa e não menos poderosa. Contudo, venceu por nós. Em contraste
com Adão (em hebraico: homem – Gn 2.20, enquanto Eva, significa: humanidade), que se tornou o cabeça da Velha Humani-
dade, pois não conseguiu obedecer ao Criador, embora vivendo em condições ideais; e caiu, cometendo o primeiro pecado da
humanidade, com consequências mortais, o qual acompanhará o gene de cada indivíduo humano, de geração em geração, até o
final dos tempos. O Segundo Adão (Jesus – o Novo Homem), venceu o Diabo em total fraqueza da carne. Adão havia inaugurado
a humanidade com toda a autoridade e glória do mundo (Gn 1.28-30), enquanto Jesus foi glorificado através do sofrimento, da
humilhação e da morte (Rm 1.4; Fp 2.9-11). O primeiro Adão não aceitou cumprir a vontade de Deus e fez prevalecer os seus
próprios desejos, rebelando-se contra a única restrição imposta a ele por Deus. O Segundo Adão, o Filho de Deus, aceitou, de
livre vontade, cumprir todos os desejos do Pai (Gl 4.4; Fp 2.6-8).
2
Após 40 dias em absoluto jejum, os originais hebraicos e gregos revelam que Jesus não apenas estava com “fome” (como
consta em algumas versões), mas sim que ele estava sôfrego de fome (esfomeado). O Diabo nem sempre é horrível e violento,
pois pode travestir-se de luz e justiça. Sua estratégia foi induzir Jesus a abdicar de sua condição humana, usar de seus poderes
divinos, e deixar o caminho do sofrimento inevitável. O Diabo sempre fará as tentações parecerem irresistivelmente atraentes.
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1477 LUCAS 4
7
Portanto, se prostrado me adorares, tu-
do isso será teu!”
3

8
Contudo Jesus lhe afrmou: “Está escri-
to: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a
Ele darás culto’”.
9
Em seguida o Diabo o levou para Jeru-
salém, e o colocou sobre a parte mais alta
do templo e o desafou: “Se tu és o Filho
de Deus, lança-te daqui para baixo.
10
Pois, como está escrito: ‘Aos seus an-
jos ordenará a teu respeito, para que te
protejam;
11
eles te sustentarão sobre suas mãos
para que não batas com teu pé contra al-
guma pedra’”.
4
12
Repreendeu-lhe Jesus: “Dito está! ‘Não
tentarás o Senhor teu Deus’”.
13
E assim, tendo concluído todo o tipo
de tentação, o Diabo afastou-se dele até
o tempo oportuno.
Jesus volta pleno do Espírito
(Mt 4.12-17; Mc 1.14-15)
14
Então, Jesus retornou para a Galiléia,
no poder do Espírito, e por toda aquela
região se espalhou sua fama.
15
Ensinava nas sinagogas e, de todos,
recebia manifestações de grande apre-
ciação.
Jesus é rejeitado pelos seus
(Mt 13.54-58; Mc 6.1-4)
16
Jesus viajou para Nazaré, onde havia
sido criado e conforme seu costume, num
dia de sábado, entrou na sinagoga. E posi-
cionou-se em pé para fazer a leitura.
17
Foi-lhe entregue o livro do profeta Isa-
ías. Desenrolando-o achou o lugar onde
está escrito:
5
18
“O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para pregar o Evange-
lho aos pobres. Ele me enviou para pro-
clamar a libertação dos aprisionados e a
recuperação da vista aos cegos; para res-
tituir a liberdade aos oprimidos,
19
e promulgar a época da graça do Se-
nhor”.
20
Em seguida, enrolou novamente o li-
vro, devolveu-o ao assistente e assentou-
se. E na sinagoga todos estavam com os
olhos fxos em sua pessoa.
21
Então Ele começou a pregar-lhes:
“Hoje se cumpriu a Escritura que acabais
de ouvir”.
6

22
E todos exclamavam maravilhas sobre
Ele, e estavam admirados com as pala-
vras de graça que saíam dos seus lábios.
Mas questionavam entre si: “Não é este o
flho de José?”
Entretanto, Jesus – o Novo Homem - apegou-se à Palavra de Deus e, citando a Torá (Lei), mais precisamente, passagens em
Deuteronômio (8.3; 6.13-16), enfatiza que o pão e a fartura material nada valem sem a bênção de Deus. Jesus não diz que não
podia fazer o que o Diabo lhe sugeria, mas sim que sua vontade maior era agradar ao Pai.
3
Uma tentação aparentemente inteligente, considerando que Jesus veio para dominar sobre todos os reinos da terra. Depois
deste lugar, Jesus foi conduzido ao canto sudeste da colunata do templo, o seu ponto mais alto (ou pináculo do templo), um
declive de cerca de 30 metros para o vale do Cedrom. Todavia, o ardil de Satanás estava no fato de tentar fazer com que Jesus
evitasse os sofrimentos do caminho da cruz, os quais veio especificamente suportar como única maneira, divinamente legal, de
libertar a humanidade do estigma do pecado (Mc 10.45), herança do Velho Homem. Pecado esse que somente poderia ser pago
(resgatado), com a morte (sacrifício) de um homem inocente (sem pecados). Uma vez que o Diabo não conseguiu iludir Jesus
apelando para as suas necessidades físicas, tenta seduzi-lo com toda a glória e poder que este mundo pode oferecer e que estão
(temporariamente) sob seu domínio, mas é novamente rechaçado (1Jo 5.19).
4
Satanás questiona a filiação de Jesus a Deus, cita as Escrituras corretamente (Sl 91.11-12), porém aplica o ensino de forma
tendenciosa e errônea, como fizera em Gn 3.1, e tenta fazer com que Jesus teste a fidelidade do seu Pai e chame a atenção do
público sobre sua pessoa de forma espetacular. O príncipe do mal é afastado quando Jesus reafirma sua total humanidade ao
usar a Palavra para confirmar que não cabe ao homem testar a Deus; e sua total divindade ao chamar a atenção de Satanás para
o fato de que ele não deveria estar provocando a Deus. Entretanto, o Diabo continuou tentando ao Senhor (o arrogante é surdo)
durante todo o seu ministério (Mc 8.33), até culminar com a prova maior, no Getsêmani (Jo 14.30; Lc 22.53).
5
Jesus foi para Nazaré cerca de um ano depois do início do seu ministério. Os acontecimentos narrados por João, de Jo 1.19
até 4.42, foram sintetizados por Lucas em Lc 4.13-14. Jesus voltou para sua terra natal apenas duas vezes (Mt 13.53-58 e 6.1-6).
Em ambos os casos se destaca a falta de fé daqueles que mais conviveram com Ele, mas o conheciam apenas como um jovem
e bom judeu do interior, que ajudava seu pai José a manter a família como carpinteiro e construtor (pedreiro). Os livros do AT
eram escritos em rolos de couro, guardados em lugar especial e honroso na sinagoga (como ainda ocorre em nossos dias), e
oferecidos, por um funcionário, ao pregador do dia ou a um mestre visitante (no caso de Jesus naquele dia). Jesus leu o texto de
Is 61.1,2 em hebraico e o pregou em aramaico, sua língua materna e de seus conterrâneos.
6
O texto do AT lido por Jesus descreve o ministério do Messias, na emancipação dos pobres, através da riqueza que há no
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1478 LUCAS 4
23
No entanto, Jesus lhes replicou: “Com
toda a certeza citareis a mim o conhecido
provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo!
Faze aqui em tua terra o que soubemos
que fzeste em Cafarnaum’”.
7

24
E continuou a falar Jesus: “Realmente
vos afrmo: Nenhum profeta é bem rece-
bido em sua própria terra.
25
No tempo de Elias, posso lhes afrmar
com certeza, que havia muitas viúvas em
Israel, quando o céu foi fechado por três
anos e meio, e grande fome ocorreu em
toda a terra.
26
Contudo, Elias não foi mandado a ne-
nhuma delas, senão somente a uma viú-
va de Sarepta, na região de Sidom.
8
27
Assim também, no tempo do profeta
Eliseu, havia muitos leprosos em Israel,
mas nenhum deles foi purifcado, a não
ser Naamã, o sírio”.
28
Então, todos os que estavam na sina-
goga foram tomados de grande raiva ao
ouvirem tais palavras.
9
29
E, levantando-se, expulsaram a Jesus
da cidade, levando-o até o topo da colina
sobre a qual a cidade havia sido edifca-
da, com o propósito de jogá-lo de lá, pre-
cipício abaixo.
30
Todavia, Jesus passou por entre eles, e
seguiu seu caminho.
10
O poder da Palavra de Jesus
(Mc 1.21-28)
31
Então Jesus desceu para Cafarnaum,
cidade da Galiléia, e, noutro sábado, co-
meçou a ensinar o povo.
32
E todos fcavam deslumbrados com o
seu ensino, pois que sua palavra era mi-
nistrada com autoridade.
33
Entrementes, na sinagoga, havia um
homem possesso de demônio, ou seja,
de um espírito imundo, que berrou com
toda a força:
11
34
“Ah! Que tu queres conosco, Jesus de
Nazaré? Vieste destruir a nós? Sei bem
quem tu és: o Santo de Deus!”
35
Mas Jesus o repreendeu, ordenando:
“Fica quieto e sai deste homem!” Ime-
diatamente o demônio jogou o homem
no chão, perante todos, e saiu dele sem
o ferir.
36
Todas as pessoas fcaram maravilhadas
e diziam umas às outras: “Que Palavra é
esta? Pois até aos espíritos demoníacos
Ele dá ordens com autoridade e poder, e
eles se vão?”
Evangelho (em grego: Boas Novas, Ef 1.3); dos cativos, através da libertação da Graça abundante (Gl 5.1,13); dos deficientes
visuais (em todos os sentidos), através do seu jugo, pois Ele toma para si o nosso fardo (Mt 11.28-30; 1Pe 5.7). Durante todo o
Evangelho, Lucas demonstra que Jesus, o Cristo (o Messias) foi Ungido (escolhido, separado), não apenas por um ritual da tradi-
ção judaica (Êx 30.22-31), mas pelo próprio Espírito de Deus. Sua missão foi proclamar um novo tempo da graça de Deus, no qual
as pessoas de toda a terra alcançariam a salvação (vida eterna) ao receberem a Palavra de Jesus Cristo em seus corações com
fé, amor e sinceridade (2Co 6.2). Jesus interrompe sua leitura antes de citar “o dia da vingança”, que ocorrerá com sua segunda
vinda no futuro iminente. A expressão grega, transliterada por: dektos (que significa: “aceitável”, “bem recebido”), refere-se não a
um ano civil de doze meses, mas a um período, a chamada Era Messiânica.
7
Embora Jesus tenha nascido em Belém, foi criado e passou toda a adolescência em Nazaré, na Galiléia (1.26; 2.39,51; Mt 2.23).
8
Sidom foi uma das mais antigas e importantes cidades da Fenícia, e localizava-se a cerca de 32 km ao norte de Tiro.
9
Jesus descreve a si como um dos profetas de Deus, que também haviam sido rejeitados pelos seus próprios e amados con-
cidadãos. Lucas faz ainda questão de observar a referência feita por Jesus à graça dispensada por Deus a uma mulher e a um
homem, ambos gentios, ou seja, que não eram judeus (1Rs 17.1-15; 2Rs 5.1-14). O que mais enfureceu os nazarenos, membros
da sinagoga, foi o fato de Jesus dizer que, quando Israel rejeitou o mensageiro da redenção, especialmente mandado por Deus,
este o enviou aos gentios, e que isso aconteceria uma vez mais, caso eles se recusassem a aceitar o ensino e a graça de Jesus
(10.13-15; At 13.46 Rm 9 e 11).
10
Lucas nos deixa em suspense quanto aos detalhes dessa saída de Jesus das garras de seus oponentes. Os originais revelam
que Jesus “saiu andando e seguiu para onde devia ir”. Algumas versões apenas traduzem por “...passando por eles, retirou-se.”
De qualquer forma, a grande lição deste evento é que o tempo de Jesus ainda não havia chegado, prova de que ele tinha plena
consciência e controle do momento exato no qual ofereceria sua vida em prol da humanidade, ninguém seria capaz de tirar a vida
do Senhor, ele, espontaneamente, a daria.
11
Para os povos pagãos a expressão “demônio”, significava apenas “um ser sobrenatural”, que podia ser “bom” ou “mau”.
Lucas, quis que os gentios o compreendessem corretamente e deixa claro que esse era mesmo um espírito maligno. Esses
demônios, ao se incorporarem a uma pessoa, podiam provocar distúrbios mentais (Jo 10.20), atitudes violentas (Lc 8.26-29),
doenças e enfermidades físicas diversas (13.11,16) e a própria rebelião contra Deus (Ap 16.14).
42_Lucas_2012.indd 1478 16/03/2012 12:25:56
1479 LUCAS 4, 5
37
E as notícias a respeito de Jesus se es-
palhavam por todas as regiões vizinhas.
O poder de Jesus sobre todo o mal
(Mt 8.14-17; Mc 1.29-34)
38
Saindo da sinagoga dirigiu-se Jesus à
casa de Simão. A sogra de Simão estava
atormentada, ardendo em febre, e rogaram
a Jesus que a ajudasse de alguma forma.
12

39
Estando Ele em pé próximo a ela,
inclinou-se e repreendeu aquela febre,
que no mesmo instante a deixou. Ela
rapidamente se levantou e passou a
servi-los.
40
Ao cair da tarde, o povo trouxe à presen-
ça de Jesus todos os que tinham diversos
tipos de doenças e Ele os curou, impondo
suas mãos sobre cada um deles.
41
Além disso, de várias pessoas saíam de-
mônios gritando: “Tu és o Filho de Deus!”
Ele, contudo, os repreendia e não permitia
que se expressassem, pois sabiam que Ele
era o Cristo.
Jesus ora em solitude ao amanhecer
(Mc 1.35-39)
42
Ao raiar do dia, Jesus foi para um lu-
gar solitário. De outro lado, as multidões
o procuravam, e assim que conseguiram
chegar ao local onde Ele estava, suplica-
ram para que não as deixasse.
43
Contudo, Ele ponderou: “É necessário
que Eu anuncie também as Boas Novas
do Reino de Deus em outras cidades, pois
precisamente para isso fui enviado”.
13

44
E assim, prosseguia pregando pelas si-
nagogas da Palestina.
14

Jesus convoca seus discípulos
(Mt 4.18-22; Mc 1.16-20; Jo 1.35-42)
5
E aconteceu que, num determinado
dia, Jesus estava próximo ao lago de
Genesaré, e uma multidão o espremia
de todos os lados para ouvir a Palavra de
Deus.
1

2
Ele observou junto à beira do lago dois
barcos, deixados ali pelos pescadores,
que havendo desembarcado, cuidavam
de lavar suas redes.
3
Então, entrou num dos barcos, o que
pertencia a Simão, e lhe solicitou que o
afastasse um pouco da praia. E, assentan-
do-se, do barco ensinava o povo.
2
4
Assim que acabou de ministrar, dirigiu-
se a Simão e aos demais, e lhes pediu: “Ide
para onde as águas são mais profundas e
lançai as vossas redes para a pesca!”
5
Ao que lhe replicou Simão: “Mestre,
tendo trabalhado durante a noite toda,
não pegamos nada. Todavia, confando
em tua Palavra, lançarei as redes.
3
6
Assim procederam e pegaram enorme
12
Ao contrário do que muitos teólogos pregam para defender especialmente a teoria do celibato, Pedro foi casado (1Co
9.5). Os três evangelhos sinóticos discorrem sobre esse milagre, mas apenas Lucas, por ser médico, acrescenta expressões
tipicamente técnicas, como: “com muita febre” ou “febre alta”.
13
Ao pôr-do-sol encerrava-se o Shabbãth (em hebraico: o sábado judaico), isso se dava por volta das 18h. Antes dessa hora,
conforme a tradição dos anciãos, os judeus eram proibidos de viajar mais que um quilômetro de distância, ou sequer carregar
um fardo. Somente a partir do entardecer do sábado as multidões podiam levar seus enfermos a Jesus, o que faziam ansiosa e
confiantemente em Cafarnaum, sendo por isso abençoadas por Jesus, com curas e outros milagres em profusão. Entretanto, a
missão do Senhor deveria continuar e sua graça ser estendida aos limites da terra. Os originais deixam transparecer o coração
compassivo de Jesus em sua despedida.
14
Algumas versões, utilizando manuscritos historicamente mais recentes, e os relatos paralelos de Mt 4.23; Mc 1.39, informam
que Jesus se dirigiu para a Galiléia. Entretanto, originais mais antigos, trazem “Judéia”, no sentido de toda a região da Palestina,
que inclui a Galiléia (Jo 2.13 – 4.3), e por isso o Comitê de Tradução da Bíblia King James optou por essa designação mais
abrangente e fiel aos melhores originais.
Capítulo 5
1
Lucas é o único dos evangelistas que se refere ao grande lago da Galiléia, que fica a 220m abaixo do nível do mar e mede 21
km de comprimento por 12 km de largura, chamando-o, de forma tecnicamente correta, de lago. Os demais escritores o chamam
de “mar da Galiléia”, e João o denomina por duas vezes de “mar de Tiberíades” (Jo 6.1; 21.1).
2
O barco de Pedro foi posicionado de forma estratégica de modo que Jesus pudesse ser visto e ouvido por toda a multidão.
Além disso, era costume judaico que um mestre ao ensinar, deveria fazê-lo assentado, bem como seus ouvintes, para que a
comunicação se desse da maneira mais confortável possível.
3
A palavra “Mestre”, em grego transliterado: epistata, só aparece em Lucas, e significa: “aquele que tem o direito de mandar”.
Quando todos os indicativos apontavam para um novo insucesso: o melhor horário para a pesca era durante a noite e não em
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1480 LUCAS 5
quantidade de peixes, tanto que as redes
começaram a se romper.
7
Por esse motivo acenaram aos seus
amigos no outro barco, para que viessem
ajudá-los. Eles chegaram e lotaram am-
bos os barcos, a ponto de começarem a
afundar.
4
8
Diante de tamanho evento, Simão se
prostrou aos pés de Jesus e declarou:
“Afasta-te de mim, Senhor, pois sou ho-
mem pecador!”
9
Porquanto, ele e seus companheiros
estavam maravilhados com a pesca que
haviam realizado,
5
10
assim como de Tiago e João, os flhos
de Zebedeu, que eram sócios de Simão.
Todavia, Jesus revela a Simão: “Não te-
nhas medo; a partir deste momento tu
serás um pescador de vidas humanas”.
6

11
Então, eles arrastaram seus barcos para
a praia, renunciaram a todas as coisas e
seguiram a Jesus.
7

Jesus cura um homem leproso
(Mt 8.1-4; Mc 1.40-45)
12
Estando Jesus em uma das cidades, eis
que um homem coberto de lepra veio
em sua direção. Assim que contemplou
a Jesus, ajoelhou-se e colocando o ros-
to rente ao chão, suplicou-lhe: “Senhor!
Se for da tua vontade, sei que podes me
purifcar”.
8

13
Jesus estendeu a mão, tocou nele e
proferiu: “Quero. Sê purifcado!” E, no
mesmo instante a lepra se retirou daque-
le homem.
14
Em seguida, Jesus lhe ordenou:“Não fa-
les sobre este acontecimento a ninguém;
porém, vai, mostra-te ao sacerdote e ofe-
rece pela tua purifcação os sacrifícios que
Moisés determinou, para servir de teste-
munho ao povo.
9

15
Contudo, as notícias a respeito de
Jesus se espalhavam ainda mais, de ma-
neira que multidões convergiam para
pleno dia; a experiência profissional de Pedro e de seus companheiros contra a inexperiência de Jesus no ramo, pois era um
carpinteiro ligado às artes e letras; o fato de terem trabalhado arduamente durante toda aquela noite e terem apenas sujado as
redes, Pedro decide obedecer à Palavra de Jesus. Preparou e lançou sua rede com esperança.
4
Curiosamente a expressão grega transliterada: buthizesthai (que significa: afundar), usada por Lucas, traduzida em algumas
versões por irem a pique e aqui por começarem a afundar, tem a ver com a mesma expressão usada em 1Tm 6.9, onde descreve
o mergulho para a perdição daqueles que ambicionam exclusivamente as riquezas materiais.
5
Pedro assombrou-se mais com sua falta de fé e indignidade do que com o evento em si. Ele tinha confiança em Jesus, mas
não tinha certeza absoluta de que o milagre se daria, ainda mais naquelas proporções. A reação de Pedro revela a atitude normal
de todas as pessoas ao chegarem sinceramente à conclusão de que são pecadores e indignos de permanecerem na presença
santa de Deus; portanto carentes e dependentes absolutamente da graça do Senhor (Ap 6.16). Desta mesma maneira se sentiram
os grandes líderes espirituais da antiguidade. Entre eles: Abraão (Gn 18.27); Jó (42.6) e Isaías (6.5).
6
É digno de nota o fato de Jesus haver escolhido seus discípulos entre homens que estavam dedicados a um trabalho árduo,
não entre líderes religiosos preguiçosos e desocupados. Contudo Pedro foi convocado duas vezes para servir a Cristo após duas
pescarias milagrosas. Primeiro para o discipulado e algum tempo mais tarde, para o apostolado (Jo 21.1-18), quando – uma vez
mais – achava-se indigno para o ministério.
7
Jesus já conhecia esses homens aos quais agora faz uma convocação formal (Jo 1.40-42; 2.1,2). Os originais e outras pas-
sagens dão a entender que eles não abandonaram tudo de forma irresponsável e tresloucada; mas sim que renunciaram a seus
lucros – especialmente os dessa última pescaria – e entregaram a administração da empresa a Zebedeu, pai de João e Tiago, ou
a outros membros da família (Mt 4.18-22).
8
A expressão original grega, muito usada em escritos médicos da época, e aqui traduzida como “lepra”, refere-se a uma
série de doenças e cânceres de pele. Os evangelhos sinóticos registram esse acontecimento de forma diferente: Mateus o
cita como parte de uma galeria de milagres (Mt 8.1-4). Marcos e Lucas o colocam como um dos primeiros sinais maravilhosos
realizados por Jesus no início de sua peregrinação pela Galiléia. O homem doente e transfigurado por uma doença que o excluía
socialmente, contrariando a Lei (Lv 13), busca a Jesus com todas as suas forças como única solução para seu grave problema.
Ele se aproxima do Senhor com fé, humildade e vontade de obedecer ao que Jesus lhe mandasse fazer; exatamente como todo
pecador arrependido deve agir. O perdão assim como a cura se materializam instantaneamente ao toque do Senhor, e o homem
renasce, livre do pecado e da enfermidade que o escravizavam.
9
Jesus tentava evitar que o povo interpretasse mal sua pessoa e ministério, pois muitos o aclamavam como grande curandeiro,
milagreiro e líder nacionalista revolucionário, que era a visão simplista que alimentavam quanto ao Messias prometido. Além
disso, suas atitudes começavam a irritar os líderes religiosos e provocavam neles enorme inveja e medo de perderem o poder
sobre o povo. Jesus manda que o homem vá apresentar-se ao sacerdote de plantão; e com isso, o estimula a guardar a Lei,
apresentar todas as provas de sua cura e receber a certidão ritual de purificação para que pudesse ser reintegrado à sociedade
(Mt 8.4; 16.20; Mc 1.44).
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1481 LUCAS 5
ouvi-lo e para serem curadas de suas
enfermidades.
16
Todavia, Jesus procurava manter-se
afastado, indo para lugares solitários,
onde fcava orando.
Jesus cura um homem paralítico
(Mt 9.1-8; Mc 2.1-12)
17
Num outro dia, quando Jesus minis-
trava, estavam sentados ali fariseus e
professores da Lei, vindos de todos os
povoados da Galiléia, da Judéia e de Jeru-
salém; e Ele tinha o poder de Deus para
realizar curas.
10
18
Chegaram, então, uns homens trazen-
do um paralítico numa maca e tentaram
fazê-lo entrar na casa, a fm de apresen-
tá-lo perante Jesus.
19
Não tendo sucesso nessa tentativa,
devido à grande multidão aglomerada,
subiram ao terraço e o baixaram em sua
maca, através de uma abertura no teto,
até o meio da multidão, bem diante de
Jesus.
11
20
Observando a fé que aqueles homens
demonstravam, Jesus declarou: “Ho-
mem! Os teus pecados estão perdoa-
dos”.
12

21
Diante disto, os escribas e os fariseus
começaram a cogitar: “Quem é este que
profere blasfêmias? Quem tem poder
para perdoar pecados, a não ser somente
Deus?”
13

22
Jesus, entretanto, tendo pleno dis-
cernimento do que estavam pensando,
questionou-lhes: “Que censurais em vos-
sos corações?
23
Que é mais fácil declarar: ‘Os teus pe-
cados estão perdoados’, ou ‘Levanta-te e
anda’?
14
24
Todavia, para que vos certifqueis de
que o Filho do homem tem na terra au-
toridade para perdoar pecados” – diri-
gindo-se ao paralítico declarou – “Eu te
ordeno: Levanta-te! Pega a tua maca e vai
para casa”.
25
Então, naquele mesmo instante, o
homem se levantou diante de todos os
presentes, pegou a maca em que estivera
prostrado e correu para casa louvando e
bendizendo a Deus.
15
26
E todos fcaram estupefatos e glorif-
10
Os fariseus (em hebraico original: separados), citados aqui por Lucas pela primeira vez, mas que já haviam questionado
o ministério e a pessoa de Jesus anteriormente, eram mestres autoritários e muito respeitados nas sinagogas. Formavam uma
confraria e um partido político, com mais de seis mil membros, espalhados por toda a Palestina. Eles se autodenominavam
“guardiões da Lei”. Pregavam que suas tradições e interpretações teológicas eram tão importantes quanto as Escrituras Sagradas
(Mc 7.8-13). Jesus já havia confrontado alguns líderes judaicos em Jerusalém (Jo 5.16-18). Agora o seguiram até uma casa em
Cafarnaum, com o objetivo de analisar suas palavras e vigiar seus movimentos. Os “escribas” (v.21) eram estudiosos com grande
habilidade para a escrita (arte rara na época, permitida apenas aos homens, e de muito prestígio). Eles eram responsáveis pelo
estudo, interpretação e ensino da Lei (escrita e oral) e das tradições judaicas. A maioria dos “escribas” pertencia ao partido
(popular) dos fariseus e os demais eram vinculados ao partido aristocrático dos saduceus.
11
O estilo palestinense de construção já havia incorporado a maneira greco-romana de cobrir as casas com uma espécie de
laje pré-moldada em ladrilhos de barro cozido (Mc 2.4).
12
A grande causa das doenças no mundo reside no pecado: nos cometidos por cada um de nós em função de nossas vonta-
des perversas (Jo 9.3), e naqueles praticados pela humanidade como um todo desde a Queda (Gn 3). O homem paralítico, pela
fé, reconhece o pecado como a raiz do seu problema e, por isso, obedece à ordem de Cristo. Os amigos revelam igualmente
grande fé em Jesus e amor ao amigo incapacitado, e não desistem ao primeiro obstáculo, pelo que também são abençoados.
Esse episódio nos leva a concluir que a oração e o esforço dos amigos e parentes em levar seus “atrofiados pelo pecado” ao
Senhor, serão eficazes e galardoados com alegrias espirituais.
13
Para os fariseus e os escribas (doutores da Lei), a blasfêmia (palavra que ultraja a Deus ou a religião), era o pecado mais
grave e terrível que alguém poderia cometer, sendo sujeito à pena de morte (Mc 14.64).
14
Aqui temos mais uma evidência da divindade de Jesus, pois ele conhece plenamente os pensamentos e os mais profundos
sentimentos de cada ser humano (Mc 2.8). Os corações das pessoas, quando não entregues ao Senhor, são levados a condenar
tudo o que se refere a Deus e à verdade. A cura para Deus é um ato muito mais fácil do que levar o homem a reconhecer seus
pecados e decidir por uma vida de adoração espontânea ao Criador. A restauração de um doente pode ser comprovada num
instante, mas a restauração da alma pode levar algum tempo, e somente Deus é capaz de atestar esse milagre (Mc 2.9-10).
15
A autoridade de Jesus não era humana, nem fora outorgada por líderes religiosos, mas sim de Deus. O vocábulo grego
transliterado: exousia, que significa: “proveniente de Deus” (Mt 28.18), enfatiza este atributo de Jesus. Seu título: “Filho do
homem”, bem como sua plena divindade, são prerrogativas exclusivas do Messias (o Cristo) prometido (Dn 7.13,14). A operação
de milagres e maravilhas é uma prova da presença do Rei e do Reino entre nós (10.9).
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1482 LUCAS 5
cavam a Deus; e, tomados de grande te-
mor, exclamavam: “Hoje vimos grandes
prodígios!”
Jesus torna um publicano em discípulo
(Mt 9.9-13; Mc 2.13-17)
27
Passados estes eventos, saindo Jesus,
encontrou-se com um publicano, cha-
mado Levi, sentado à mesa da coletoria,
e o convocou: “Segue-me!”
28
Levi levantou-se, abandonou tudo e
seguiu a Jesus.
16
Jesus num banquete com pecadores
(Mt 9.10-13; Mc 2.15-17)
29
Então Levi ofereceu a Jesus uma gran-
de festa em sua casa; e uma multidão de
publicanos e de outras pessoas estava à
mesa comendo com eles.
30
Os fariseus e seus escribas reclama-
ram dos discípulos de Jesus: “Por que
comeis e bebeis com os publicanos e
pecadores?”
31
Ao que Jesus lhes ponderou: “Os que
têm saúde não precisam de médico, mas
sim os enfermos.
32
Eu não vim para convocar os justos,
mas sim, para chamar os pecadores ao
arrependimento!”
17

Jesus é questionado quanto ao jejum
(Mt 9.14-17; Mc 2.18-22)
33
Em seguida eles lhe observaram: “Os
discípulos de João jejuam e oram com
grande frequência, assim como os dis-
cípulos dos fariseus; no entanto, os teus
vivem comendo e bebendo”.
18
34
Jesus então lhes propôs: “Podeis fazer
jejuar os convidados para o casamento,
enquanto está com eles o próprio noivo?
35
Contudo, dias virão, em que lhes será
tirado o noivo; naqueles dias, verdadei-
ramente, jejuarão”.
19

36
E lhes acrescentou esta parábola para
pensar: “Ninguém tira um remendo de
roupa nova e o costura sobre roupa velha;
16
Levi era o nome de família de Mateus (3.12; Mc 2.14), o apóstolo rico do colegiado de Jesus (Mt 10.3; At 1.13). Como “publica-
no”, chefe dos fiscais da coletoria de impostos para o governo romano, a serviço do tetrarca Herodes (Mt 9.9), era odiado pelo povo
judeu, pois os publicanos eram, em geral, desonestos e maldosos. Jesus havia ministrado em Cafarnaum durante algum tempo,
quando conheceu Levi e se tornaram amigos. Alguns discípulos de Jesus, que eram pescadores, voltaram a trabalhar em seu ramo
em certas ocasiões. Mateus tomou uma decisão só de ida. Sabia que o preço de seguir a Jesus implicaria em mudança total de vida
sem direito a volta, ainda que momentânea. Entretanto, Levi o fez com grande alegria de alma. E ao invés de o fazer em surdina, deu
uma grande festa “evangelística”, convidando todos os seus amigos para verem e conhecerem o Messias que lhe confiara a gloriosa
missão de proclamar Seu Reino e libertar a todos das ilusões e das amarras do pecado. Conta-se ainda que, após a ressurreição de
Jesus, Mateus foi um valoroso missionário em muitos lugares da Palestina e em terras distantes, onde morreu.
17
Os publicanos se davam bem com os “pecadores”. Enquanto os primeiros extorquiam e roubavam seus próprios irmãos
judeus; os outros, tratavam com desleixo os diversos preceitos cerimoniais exigidos pelos fariseus e escribas. Contudo, os dois
grupos não tinham paz nem desfrutavam de alegria real em seus corações. Enquanto os líderes religiosos e mestres da época
procuravam a salvação por meio da segregação, ou seja, “seleção natural dos mais dedicados no cumprimento formal das
inúmeras leis judaicas”, Jesus chegava com Seu Reino oferecendo a Graça de Deus aos que, de coração sincero, desejassem
simplesmente amar a Deus de verdade e viver este ato de adoração no dia-a-dia. Esta proposta de Deus tocou as almas espiritual-
mente famintas dos publicanos e pecadores, que não tiveram muita dificuldade para enxergar seus muitos erros, e arrependidos,
sentiram-se bem-vindos ao banquete de Jesus. Já os fariseus e escribas tinham grande dificuldade para reconhecer qualquer
pecado em si mesmos; e, por isso, ficaram fora da festa. Um dos principais temas das parábolas de Jesus sobre a salvação eterna
é: os que se julgam justos, separam-se da Graça Salvadora de Cristo (18.9-14; Mc 2.17).
18
João Batista não era o Filho de Deus. Porém, veio com uma missão poderosa e específica: preparar o coração da humanida-
de para a chegada de Cristo e a implantação do Reino de Deus. João foi criado e educado no deserto, junto a um grupo de judeus
teologicamente muito restritos e sérios em relação a Deus. Aprendeu a sobreviver com uma dieta limitada e austera, própria do
lugar que habitava, composta de uma espécie de gafanhotos (que até hoje são torrados e degustados pelo povo da região) e mel
silvestre. Seu ministério foi marcado por uma mensagem urgente, grave, forte e direta quanto ao arrependimento dos pecados,
mediante testemunho público e um ritual de passagem pelas águas, repleto de simbolismos ligados à implementação do Reino,
que se completaria com o batismo trazido por Jesus Cristo: o Filho de Deus. Os fariseus também pregavam um modo de vida
rigoroso (18.12). Mas Jesus aceitava convites para casamentos, banquetes e festas, pois tinha interesse em estar onde mais se
precisava dele: no coração daqueles que se reconhecem perdidos e necessitados da direção e do amor de Deus. Embora Jesus
rejeitasse todo o tipo de atitude apenas legalista e exterior, com finalidade de autoglorificação (Is 58.3-11), é fato que ele próprio
jejuava e orava muito em particular e defendia o jejum voluntário para benefício espiritual (Mt 4.2; 6.16-18).
19
Neste trecho, Jesus faz a primeira referência à sua morte. A tristeza e a vontade de estar com o Senhor levaria seus discípulos
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1483 LUCAS 5, 6
se o fzer, certamente estragará a roupa
nova; e, além disso, o remendo novo ja-
mais se ajustará à velha roupa.
37
Da mesma maneira, não há alguém
que coloque vinho novo em recipiente de
couro velho. Ora, se o fzer, o vinho novo,
ao fermentar, arrebentará o recipiente, se
derramará e danifcará o recipiente onde
fora colocado.
38
Ao contrário! O vinho novo deve ser
posto em um recipiente de couro novo.
39
Pois, pessoa alguma, depois de be-
ber o vinho velho, prefere o novo; por-
quanto se diz: ‘O vinho velho é bom o
sufciente!’”
20
Jesus é Senhor do Sábado
(Mt 12.1-14; Mc 2.23-28)
6
Em um certo dia de sábado, enquanto
Jesus caminhava pelos campos, onde
se plantavam cereais, seus discípulos
começaram a colher e a debulhar espi-
gas com as mãos, e se alimentavam dos
grãos.
1

2
Foi quando alguns dos fariseus os in-
quiriram: “Por que fazeis o que não é
permitido durante o sábado?”
3
Então Jesus os questionou: “Nem ao
menos tendes lido o que fez Davi, quando
teve fome, ele e os seus companheiros?
4
Pois ele entrou na casa de Deus e, to-
mando os pães da Presença, alimentou-se
do que apenas aos sacerdotes era permi-
tido comer, e os entregou de igual modo
aos seus amigos”.
5
E Jesus lhes asseverou: “O Filho do ho-
mem é Senhor do sábado!”
2

O homem da mão atrofada
(Mt 12.9-14; Mc 3.1-6)
6
Num outro sábado, Ele entrou na sina-
goga e iniciou o seu ensino; e estava ali
um homem cuja mão direita era atrofa-
da.
7
Os doutores da Lei e os fariseus esta-
vam ávidos para achar algum motivo
pelo qual pudessem acusar Jesus; e por
isso o observavam com toda a atenção, a
fm de perceber se Ele o haveria de curar
durante o sábado.
8
Todavia, Jesus tinha conhecimento do
que eles pensavam, mesmo assim pediu
ao homem da mão atrofada: “Levanta-
te, vem à frente e permanece em pé aqui
no meio”. E o homem se levantou e aten-
deu a Ele.
3

9
Jesus então dirigiu-se a eles: “Eu vos
apresento uma questão: O que é permi-
tido realizar no sábado: o bem ou o mal?
Salvar uma vida ou destruí-la?”
ao jejum e à oração até o seu glorioso retorno e o final dos tempos (Mt 28.20). A Igreja primitiva ensinou e praticou o jejum com
orações, especialmente nas épocas de provação e dificuldades (At 9.9; 13.2,3; 14.23).
20
Assim como seria tolice estragar uma veste nova para remendar outra roupa, o novo Caminho oferecido graciosamente por
Jesus, não pode ser remendado e estragado com os antigos rituais e obrigações cerimoniais, exclusivamente legalistas e exa-
gerados do judaísmo (como o fato de não mencionar o nome de Deus, apenas para evitar pronunciá-lo em vão). Ainda que o AT
esteja intimamente relacionado ao NT, que é o cumprimento das promessas registradas nas Sagradas Escrituras do AT, é preciso
cuidado para não se confundir profecias com o seu cumprimento, nem as sombras com a realidade (Gl 5.1-6). Somos livres em
Cristo, para adorar a Deus com toda a sinceridade de nossos corações, na beleza da santidade do Senhor (Rm 3.28).
Capítulo 6
1
Jesus e seus discípulos estavam em jornada de ministério, e passando por uma plantação de cereais, como era permitido
pela Lei (Dt 23.25), colheram algumas espigas para delas se alimentarem. Mas, as autoridades judaicas os censuraram por esta-
rem agindo assim durante o shabbãth (sábado judaico, que significa no hebraico original: tempo de paz, misericórdia, adoração
ao Criador, gozo espiritual e descanso), Jesus então vai lhes explicar que perante a Lei, atos de misericórdia (como este e os que
se seguirão), não apenas são permitidos, mas obrigatórios e prioritários sobre qualquer outra lei (Jo 7.23-24; ver Mc 2.14).
2
Nem Deus nem os doutores e intérpretes da Mishna (tratado das interpretações das leis sagradas judaicas), condenaram a
Davi por esta transgressão (Mt 12.4-8; Mc 2.23-25). Davi foi orientado por Deus para agir daquela maneira, a fim de preservar sua
vida e a de seus companheiros para servir ao Senhor. O mesmo Deus do Shabbãth (sábado judaico), tem o direito, como Autor do
mandamento, de interpretar suas exceções, não sendo engessado pela Lei, mas tendo-a sob o controle absoluto da Sua vontade.
Essa é a flexibilidade divina que se move em função da misericórdia e do amor.
3
Num claro gesto de contraste em relação aos líderes religiosos, que sorrateiramente foram espionar seus procedimentos,
Jesus age abertamente e sem receio. Pede para o homem sair do seu lugar e vir para o centro do salão de cultos da sinagoga,
onde todos poderiam ver e ouvir claramente o que se passava. Aquele que segue a Cristo deve ser sincero, franco e corajoso
(Mt 5.34-37; Tg 5.12).
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1484 LUCAS 6
10
E Jesus olha atentamente para cada um
dos que estão à sua volta e ordena ao ho-
mem: “Estende a tua mão!” O homem a
estendeu, e ela foi instantaneamente res-
taurada.
11
Contudo, eles fcaram enraivecidos e
começaram a tramar entre si sobre que
fm dariam a Jesus.
4

Jesus escolhe seus doze apóstolos
(Mc 3.13-19)
12
E ocorreu naquela ocasião que Jesus
se retirou para um monte a fm de orar,
e atravessou toda a noite em oração a
Deus.
5
13
Logo ao nascer do dia, convocou
seus discípulos e escolheu dentre eles,
doze, a quem também designou como
apóstolos:
6

14
Simão, a quem deu o nome de Pedro;
seu irmão André; Tiago; João; Filipe;
Bartolomeu;
15
Mateus; Tomé; Tiago, flho de Alfeu;
Simão, conhecido como Zelote;
16
Judas, flho de Tiago; e Judas Iscario-
tes, que se tornou traidor.
7

Jesus cura e liberta multidões
(Mc 4.23-25)
17
Então, desceu Jesus com os apóstolos
e parou num lugar plano. Estavam ali
reunidos muitos dos seus discípulos, e
uma enorme multidão vinda de toda a
Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro
e de Sidom,
8
18
pessoas que vieram para serem ensi-
nadas por Ele e curadas de suas doenças.
Aqueles que eram atormentados por es-
píritos impuros foram curados,
19
e cada pessoa da multidão procurava
4
Jesus já havia suportado muitos ataques e provocações dos fariseus, escribas e líderes religiosos (todos também líderes
políticos). Então Ele inverte as posições e passa a questionar seus oponentes e a todos na sinagoga (Mc 3.4). As autoridades
judaicas ficaram furiosas, pois não conseguiram resistir ao raciocínio brilhante, simples e cheio de compaixão do Senhor. E por
isso, começaram a planejar um meio de eliminá-lo (Jo 5.18; ver Mc 3.6). Os líderes religiosos precisam ter cuidado, pois a religião,
muitas vezes, transforma a justiça em transgressão, e o ilícito (planejar a morte ou a exclusão de um inocente), num ato legal
perante a lei (os estatutos).
5
Para o próprio Filho de Deus encarnado, a oração era a perfeita comunhão com o Pai. Por isso, Jesus, frequentemente se
dedicava a longos períodos de oração, muitas vezes em jejum, especialmente quando precisava tomar uma decisão importante.
O fato de Jesus dar tanta atenção a esse diálogo com Deus, deve nos servir de inspiração. Jesus passou aquela noite inteira
em oração e ao raiar do dia saiu para escolher, segundo a vontade soberana do Pai, aqueles discípulos que – cada qual com a
sua contribuição – seriam responsáveis pelos alicerces da Igreja (Ef 2.20), tarefa que desde o início foi distribuída a um grupo de
cristãos e não exclusivamente a uma pessoa.
6
A expressão em aramaico (o dialeto hebraico que Jesus falava), aqui transliterada por Shaliah, quer dizer “apóstolos” (em
grego: c vc `u:), e se refere a alguém que recebeu comissão e autoridade explícitas daquele que o enviou, todavia sem
o poder para transferir seus atributos para outra pessoa. Ou seja, “enviados com uma missão específica” (Mc 6.30; 1Co 1.1;
Hb 3.1). Entre a multidão que veio ouvir ao Senhor naquele dia, havia um grupo que o seguia regularmente e se dedicava aos
seus ensinos, havia ao todo cerca de 72 homens, considerando que esse fora o número de missionários que Jesus enviou em
missão evangelística (10.1,17). Mais tarde, logo após sua ascensão aos céus, cerca de 120 cristãos o aguardavam e adoravam
em Jerusalém (At 1.15).
7
Bartolomeu é o outro nome de Natanael (Jo 1.45). Judas, filho de Tiago (At 1.13), é chamado de Tadeu por Mateus e
Marcos. Todas as três listas citam Pedro em primeiro lugar e Judas Iscariotes no fim. O nome Iscariotes quer dizer: “homem
de Queriote”, sua cidade natal. Judas foi o único não galileu entre os Doze. Todos os evangelistas mencionam o ato de traição
de Judas. Somente Lucas ressalva que ele “se tornou traidor”, mostrando que alguém pode começar bem, mas terminar mal.
Contudo, enquanto há vida, há tempo para o arrependimento, como ocorreu com Pedro, que também traiu ao Senhor mas se
arrependeu e recebeu o pleno perdão de Deus (Mt 26.71-45; Jo 21.15-19).
8
É importante notar que Jesus teve um tempo particular com seus discípulos, no alto da montanha (Mt 5.1) e, em seguida,
desce para o planalto (ou planura), onde exorta a todos os fiéis na multidão, e aos discípulos em particular, a terem uma
vida na terra verdadeiramente à imagem de Deus (imago Dei), testemunhando ao mundo caído o projeto original de Deus
para a humanidade. Jesus proferiu naquele dia uma de suas mais profundas mensagens em relação ao comportamento
do verdadeiro filho de Deus: aquela pessoa que crê e é dirigida pelo Espírito do Senhor. O chamado Sermão do Planalto,
registrado resumidamente, sob a ótica de Lucas, é o mesmo e conhecido Sermão do Monte ou da Montanha (Mt 5 a 7).
Curiosamente, partes do sermão descrito por Mateus, podem ser encontradas em várias passagens de Lucas (11.2-4; 12.22-
31, 33, 34), o que demonstra o esforço de Jesus em fazer com que os crentes (da sua época e do futuro) compreendessem,
com clareza, o âmago do Evangelho e da vida com Deus.
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tocar nele, pois dele emanava poder que
curava a todos.
As bem-aventuranças
(Mt 5.1-12)
20
Então, dirigindo o olhar para os seus
discípulos, Jesus lhes declarou:
9

“Bem-aventurados vós, os pobres,
porquanto a vós pertence o Reino de
Deus.
10

21
Bem-aventurados vós, que agora ten-
des fome, porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós, que neste mo-
mento estais chorando, pois haveis de
sorrir.
22
Bem-aventurados sois, quando as
pessoas vos odiarem, vos expulsarem do
convívio delas, vos insultarem, e excluí-
rem vosso nome, julgando-o execrável,
por causa do Filho do homem.
23
Regozijai-vos nesse dia e saltai de alegria,
porquanto imensa é a vossa recompensa no
céu. Pois, desta mesma maneira, os seus an-
tepassados agiram contra os profetas.
11

Os pesares de Jesus
24
Porém, ai de vós, os ricos! Pois já ga-
nharam toda a vossa consolação.
25
Ai de vós, que viveis agora em fartura,
porque vireis a passar fome.
12
Ai de vós,
que agora rides, pois haveis de muito la-
mentar e prantear.
26
Ai de vós, quando todos vos louva-
rem! Porquanto, foi assim também que
agiram os vossos antepassados com os
falsos profetas.
Jesus ensina a amar aos inimigos
(Mt 5.38-48)
27
Contudo, tenho a declarar a vós outros
que me estais ouvindo: amai os vossos ini-
migos, fazei o bem aos que vos odeiam;
9
As beatitudes, bem-aventuranças ou ainda bênçãos de felicidade, não se restringem à pobreza material (v.20) e à fome física
(v.21). A narrativa de Mateus revela que Jesus referiu-se à pobreza “em espírito” (Mt 5.3) e à fome “de justiça” (Mt 5.6). A arrogância
e a utilização de quaisquer meios para se atingir a um fim almejado, parecem ser características demoníacas incorporadas pela
humanidade desde a Queda (Gn 3). Nos versículos seguintes Jesus apresenta o verdadeiro mapa da felicidade: A humildade
que troca os bens deste mundo pela herança incorruptível de Cristo (Fp 3.7,8; 1Pe 1.3-9); a fome que privilegia o Pão do Céu
em relação ao alimento físico (4.4; Jo 6.35); o arrependimento que lamenta profundamente o pecado a ponto de abandoná-lo
(2Tm 2.19); a piedade que se espelha no exemplo de Cristo, provoca – nos mundanos e falsos religiosos – o mesmo ódio que o
crucificou (2Tm 3.12). Em suma: Todo sacrifício por causa de Jesus Cristo e sua Igreja terá sua recompensa (prêmio, galardão)
aqui mesmo na terra, assim como no céu. O verbo no original grego indica que a ação se passa no presente e se estende por
todo o futuro: “vosso é o Reino” (no original grego: uµ..,c .c.. j ¡cc.`..c).
10
Jesus não está falando da pobreza em si, pois ela pode ser tanto uma maldição quanto uma bênção. Jesus está se referindo
à pessoa dos discípulos. Devem ser mesmo pobres (humildes), conscientes de que não têm recursos e que dependem de Deus
para realizar absolutamente tudo. Esse é o sentido que o AT dá a esta expressão, muitas vezes equivalente a “piedosos” (Sl 40.17;
72.2,4). Mateus ressalta o significado de “pobres de (ou em) espírito”. Os arrogantes, aqueles que se acham “ricos” e, portanto,
confiam sua estabilidade aos recursos financeiros e materiais que possuem, desenvolvem frequentemente uma auto-estima além
do normal (complexo de superioridade), menosprezando e usando as pessoas das quais se aproximam. Como se habituam a
comprar e conseguir tudo o que desejam, não conseguem receber a Graça do Reino, da qual os pobres e humildes tomam posse
com grande alegria e louvor a Deus.
11
Nesta passagem, Jesus não está ensinando sobre a questão do sofrimento universal, mas refere-se a um tipo de sofrimento
específico: “por causa do Filho do homem”. Ou seja, o preço da humilhação, perdas e dor, que o discípulo de Cristo paga por
desejar viver uma vida digna do Senhor, num mundo comandado pelas forças de Satanás, que influenciam o sistema geral de
valores e a moda (o estilo de vida) de todos os povos e culturas do planeta. Contudo, aqueles que sofrem por esse motivo devem
muito se alegrar, pois já são considerados por Deus como: bem-aventurados (no original grego: benditos, felizes). Pois foram
escolhidos, assim como os profetas do AT, para testemunho vivo da ignorância e da perdição humana em contraste com o amor
e a sabedoria de Deus.
12
Somente Lucas cita os “ais” de Jesus em relação à rebeldia instalada na alma dos seres humanos, inclusive nos religiosos.
A expressão original no grego é: uc., e indica profundo lamento por uma desgraça que poderia ser evitada. Jesus se refere aos
“ricos” (pessoas presunçosas e arrogantes, que depositam sua fé nos bens financeiros e materiais que são capazes de conquis-
tar a qualquer preço), e lhes garante que já receberam toda a recompensa que merecem. Jesus usa um verbo frequentemente
empregado, em sua época, em recibos de pagamento, significando: “Integralmente Pago!” Quando tudo quanto uma pessoa tem
é a sua riqueza mundana, estamos diante de um ser humano muito pobre mesmo. Jamais devemos confundir conforto material
com bem-aventurança (felicidade).
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28
abençoai aos que vos amaldiçoam, orai
pelos que vos acusam falsamente.
13
29
Ao que te bate numa face, oferece-lhe
igualmente a outra; e, ao que tirar a tua
capa, não o impeças de tirar-te também
a túnica.
14

30
Dá sempre a todo aquele que te pede;
e, se alguém levar o que te pertence, não
lhe exijas que o devolva.
31
Como quereis que as pessoas vos tratem,
assim fazei a elas da mesma maneira.
32
Pois se amais os que vos amam, que ga-
lardão pode haver nisso? Porquanto, até
mesmo os ímpios amam aqueles que os
amam.
33
E se fzerdes o bem aos que vos fazem o
bem, qual é o vosso mérito? Até os inféis
agem deste mesmo modo.
34
E ainda, se emprestais àqueles de quem
esperais receber de volta, qual é a vossa
recompensa? Também os incrédulos em-
prestam aos incrédulos, a fm de recebe-
rem seu retorno desejado
.15

35
Concluindo, amai os vossos inimigos,
fazei o bem e emprestai, sem se desesperar
por receber de volta. Então, sendo assim,
grande será o vosso prêmio, e sereis flhos
do Altíssimo. Porquanto Ele é bondoso até
mesmo para com os ingratos e ímpios.
36
Sede misericordiosos para com os ou-
13
O principal objetivo de Jesus, especialmente neste sermão, é conscientizar seus discípulos de que eles são filhos do Amor
e devem ter amor incondicional. Essa é a essência de Deus e do homem, todavia a alma dos seres humanos está ferida de
morte desde a Queda (Gn 3), e tornou-se arrogante, revoltada contra Deus, egoísta, ímpia, amargurada, insegura e desesperada.
Quando o Espírito Santo é recebido em nossos corações, uma transformação radical se inicia (conversão), o homem sai de si
mesmo, e, neste sentido, da influência escravizadora de Satanás, volta à comunhão (amizade) com o Pai – de onde jamais deve-
ria ter saído – e ganha paz, liberdade, poder, verdadeira compreensão do que é amar e ser amado, e a vida eterna por herança
com todos os seus tesouros. Em grego havia várias palavras para “amor”. Jesus não está pedindo que sintamos storge, “afeição
natural”, nem philia, “amor amizade”, nem muito menos eros, “amor romântico, erótico, sensual”. A expressão usada por Jesus
foi agape, que significa o amor perdão, misericórdia, graça, compreensão, paciência, sacrifício. O amor que Deus tem pela hu-
manidade e que Jesus demonstrou diante dos seus oponentes, carrascos e executores. Um amor justo, mas compassivo, que
não é atraído pelo mérito da pessoa amada, mas sim pelo fato de que o cristão recebe poder espiritual para “ser uma pessoa
amorosa, misericordiosa”; e, portanto, pode suportar e perdoar os demais seres humanos e suas ofensas. Mateus mostra que as
pessoas têm disposição natural para amar seu amigo e odiar seu inimigo (Mt 5.43), não é de admirar tantas guerras, terrorismos
e violência assolando o mundo em nosso século assim como o foi na antiguidade. Jesus, entretanto, vai além, para o cerne da
vontade de Deus, e revela que seu discípulo não pode ser seletivo quanto ao amor agape, mas deve amar inclusive o seu mais
odioso e repugnante inimigo. E não basta refrear os atos hostis ou vingativos, é preciso “fazer o bem aos que vos odeiam”. Não
é difícil imaginar a expressão no rosto daqueles discípulos, judeus nacionalistas e guerreiros, ao ouvir seu mestre dizendo que
deveriam ser pacíficos e cordiais com o dominador romano. E Jesus ainda acrescenta: abençoem os que os amaldiçoam; e orem
(só orem) por aqueles que falam mal a seu respeito, espalhando mentiras e calúnias.
14
A expressão grega original transliterada siagon, aqui e em várias versões traduzida por “face”, mais propriamente se refere
ao queixo. Portanto, Jesus está falando de levar um soco no lado do queixo. A reação natural diante de um ataque como esse, é
ferir o agressor da mesma maneira, aliás, como era previsto pela Lei (Êx 21.12-35). Jesus está se referindo à atitude; ou seja, ao
sermos decepcionados, traídos ou mesmo agredidos, não devemos guardar amargura contra a humanidade e generalizar uma
prevenção odiosa contra todas as pessoas; mas, sim, abrir-nos para novos relacionamentos (dar a outra face, mudar de lado).
Contudo, oferecer – literalmente – o rosto para um outro golpe nem sempre será a melhor maneira de cumprir esse mandamento.
Afinal, o próprio Senhor nos deu um exemplo ao ser golpeado no rosto (Jo 18.22-23). Quanto à capa (em grego: himation), que
era a roupa externa usual, e a túnica (em grego: chiton), normalmente a veste interna, elas representam alguns de nossos mais
importantes e necessários bens materiais. No entanto, Jesus nos ensina que – seremos felizes (benditos) – quando o amor agape
nos controlar, a ponto de não reagirmos com ódio, ou qualquer tipo de retaliação, quando alguém – por qualquer motivo – nos
privar ou roubar qualquer de nossos pertences, ainda que mais caros. Esse é um ótimo conselho diante do crescente número de
furtos e assaltos em nossos dias.
15
Mais uma vez é importante observar o “espírito do ensino” de Jesus, e não querer ser mais real do que o Rei, literalizando as
figuras de linguagem do mestre. Se os cristãos tivessem que agir, com total literalidade neste caso, haveria uma classe de “santos
indigentes” perambulando pelas cidades do mundo inteiro, e outra classe de “incrédulos e prósperos ladrões”. O que Jesus está
enfatizando é que seu discípulo, por amor, jamais deve perder o sentimento de colaboração, ajuda e graça. O cristão deve estar
sempre pronto a dar e a contribuir com todas as suas posses se for necessário. Entretanto, esse não é um ato meramente auto-
mático e sem reflexão, pois em muitos casos, dar não seria a melhor forma de amar. O verdadeiro amor – aquele que se preocupa
com a real felicidade da outra pessoa – deve ser o juiz que decidirá se devemos dar ou reter em cada uma das situações da vida,
e não a estima que temos por nossos bens. O verbo “dar” no grego original está num tempo contínuo, o que reforça a ideia de
que este não é um ato ou impulso de generosidade ocasional, mas sim uma atitude habitual. Um estilo de vida. Jesus resume
com sua regra de ouro: faça aos outros o que gostaria que as pessoas lhe fizessem. Esse é um princípio judaico ensinado desde
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1487 LUCAS 6
tros, assim como vosso Pai é misericor-
dioso para convosco.
16

Não cabe ao discípulo julgar o próximo
(Mt 7.1-5)
37
Não julgueis e não sereis julgados; não
condeneis e não sereis condenados; per-
doai e sereis perdoados.
38
Dai sempre, e recebereis sobre o vosso
colo uma boa medida, calcada, sacudida,
transbordante; generosamente vos da-
rão. Portanto, à medida que usares para
medir o teu próximo, essa mesma será
usada para vos medir.
17

Parábola do cego que conduz outro cego
39
Então, Jesus lhes propôs também uma
parábola: “É possível um cego guiar ou-
tro cego? Não acontecerá que ambos ve-
nham a cair em algum buraco?
18
40
O discípulo não pode estar acima do
seu mestre e; entretanto, todo aquele que
completar condignamente seu aprendi-
zado, será como seu mestre.
41
Por que reparas no cisco que está no
olho do teu irmão e não percebes o tron-
co que está no teu próprio olho?
42
Como poderás advertir a teu irmão
dizendo: ‘Irmão! Permita que eu tire o
muito antes do nascimento de Cristo. Entretanto, sempre fora pregado pelos sábios em sua forma negativa: “O que é odioso a ti,
não faz ao teu próximo: isto é a Torá inteira, o restante é comentário disto” (Hillel em Shabbãth 31.a). Jesus foi o primeiro a dar um
sentido totalmente positivo a este ensino áureo: não basta ao discípulo evitar atos que não gostaria que alguém praticasse contra
ele. Os cristãos devem ser pró-ativos na prática do bem. Jesus ilustra sua exortação para que os cristãos sejam mais humanos
(refletissem mais a imago Dei – imagem de Deus) do que os pagãos. Pois, até mesmo, pessoas que não professam qualquer
religiosidade ou fé em Deus, praticam certas virtudes. Amam aos que as amam, retribuem o bem que lhes é feito e emprestam,
especialmente se podem ter certeza de recebê-los de volta. O verbo original usado neste trecho indica um “emprestar sob juros”.
Se os cristãos assim procederem, não estão fazendo mais do que o mundo faz.
16
Em resumo, Jesus nos orienta a tomar seus mandamentos pelo lado positivo e de forma pró-ativa: “amai aos vossos
inimigos, fazei o bem e emprestai”. Como cristãos sempre devemos nos antecipar na prática e defesa do bem. O verbo grego
original, aqui transliterado por alpelpizo, é usado no sentido de “não desesperar-se”, e não com o significado de “sem esperar
nenhuma paga”, como aparece em várias versões bíblicas. Os cristãos devem emprestar, de forma justa, como um ato de louvor e
serviço a Deus e ao próximo, sem nunca se desesperarem por nada e por ninguém. O Senhor nos conclama a nunca servir, tendo
em vista uma recompensa – ainda que seja um galardão no céu – pois, se assim agirmos, estaremos simplesmente trocando o
egoísmo e a vaidade material pelo espiritual. Deus é benigno e misericordioso até para com os ímpios, pois lhes proporciona suas
boas dádivas, tais como o sol, a chuva, o solo fértil e a boa colheita, na expectativa de que essas almas – um dia – percebam seu
amor e salvação. O sonho de Deus é que todos os seus filhos fossem como Jesus é em relação ao seu Pai. A perfeição de Deus
deve ser nosso grande exemplo de vida (Mt 5.9,48).
17
O cristão não deve censurar, muito menos se entregar aos comentários sobre a vida de qualquer pessoa, com o propósito
de destruir sua reputação e levar ao desprezo o seu caráter. O julgamento dos motivos íntimos de alguém, bem como qualquer
vingança ou pena a serem aplicadas, pertencem ao Senhor (Rm 12.19). Entretanto, não estamos isentos da responsabilidade
de desenvolvermos senso crítico sobre tudo e todos, bem como discernirmos quanto ao certo e o errado (vs. 43-45). Afinal, foi
essa a escolha feita pela humanidade no jardim do Éden (Gn 3). Contudo, Jesus nos exorta a não agirmos com hipocrisia, como
é próprio dos incrédulos. O perdão, em vez de condenação, revela o verdadeiro amor cristão em exercício. Jesus salienta que
a pessoa perdoada e salva tem um coração aberto e generoso. Esse estilo de vida sensibilizará a Deus e aos homens, e uma
correspondência de bênçãos será inevitável. E não apenas na mesma proporção, mas tão abundante que transbordará. Jesus
tira essa metáfora a partir da maneira usada pela multidão que estava à sua volta naquele momento, para quantificar e qualificar
os grãos colhidos. A expressão grega aplicada aqui e transliterada por kolpon, tem a ver com as expressões: “boa medida” e
“generosamente”, referindo-se a uma espécie de bolsa, que se fazia ao dobrar parte da veste externa ou com uma peça de roupa
gasta, que ficava pendurada sobre o cinto, e era usada para guardar uma medida de trigo. Jesus relembra o antigo dito dos
sábios judeus: “Há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20.35).
18
Jesus faz uso de mais uma série de metáforas para ressaltar a importância de seus discípulos viverem acima da mediocridade
dos religiosos formais. Este trecho adverte a todos nós sobre o perigo de condenarmos alguém, esquecendo-nos de que também
somos réus de crimes semelhantes. Entretanto, a advertência maior é em relação aos líderes espirituais (Tg 3.1). Em primeiro
lugar, somente aquele que anda na luz e pode ver com nitidez (Jo 8.12; 1Jo 1.7) consegue evitar os perigos do caminho e
conduzir outros em segurança. Os jovens líderes devem ter paciência e humildade para esperar o devido tempo, quando serão
– se aprovados por Deus e pela vida – semelhantes aos seus mestres. Da mesma maneira, o discípulo de Jesus deve estabelecer,
como seu alvo pessoal, o ser semelhante a Ele. A expressão “bem instruído” (como aparece em algumas versões), vem do grego:
katartizo, que tem um significado mais amplo: “tornar digno” ou “completo”. É um termo normalmente usado para consertar algo
que foi quebrado (Mc 1.19), ou no sentido de “suprir plenamente” (como quando o mundo foi “plenamente formado” – Hb 11.3).
O discípulo de Jesus, tenha a experiência e a formação acadêmica que tiver, não pode relegar o mandamento do amor a segundo
plano, acreditando que – de alguma forma – está acima do nível de servo que deve seu amor a Deus e ao próximo.
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1488 LUCAS 6, 7
cisco do teu olho’, se tu mesmo nem se-
quer notas o tronco que repousa no teu
olho? Hipócrita! Retira, antes de tudo, a
trave do teu olho e, só assim, verás com
nitidez para tirar o cisco que está no olho
de teu irmão.
19

Parábola da árvore e seu fruto
(Mt 7.24-27)
43
Não existe árvore boa produzindo mau
fruto; nem inversamente, uma árvore má
produzindo bom fruto.
44
Pois cada árvore é conhecida pelos seus
próprios frutos. Não é possível colher-
se fgos de espinheiros, nem tampouco,
uvas de ervas daninhas.
45
Uma pessoa boa produz do bom te-
souro do seu coração o bem, assim como
a pessoa má, produz toda a sorte de coi-
sas ruins a partir do mal que está em seu
íntimo, pois a boca fala do que está reple-
to o coração.
20
A parábola do sábio e do insensato
(Mt 7.24-27)
46
E por que me chamais: ‘Senhor, Senhor’,
e não praticais o que Eu vos ensino?
47
Eu vos revelarei com quem se compara
àquela pessoa que vem a mim, ouve as
minhas palavras e as pratica.
48
É como se fosse um homem que, ao
construir sua casa, cavou fundo e frmou
os alicerces sobre a rocha. E sobrevindo
grande enchente, o rio transbordou e as
muitas águas avançaram sobre aquela
casa, mas a casa não se abalou, por ter
sido solidamente edifcada.
49
Entretanto, aquele que ouve as minhas
palavras e não as pratica, é como um ho-
mem que construiu sua casa sobre a ter-
ra, sem alicerces. No momento em que as
muitas águas chocaram-se contra ela, a
casa caiu, e a sua destruição foi total”.
21

Um centurião revela sua fé em Jesus
(Mt 8.5-13)
7
Havendo concluído suas instruções
aos discípulos e ao povo, Jesus entrou
em Cafarnaum.
2
E o servo de um centurião, a quem este
muito estimava, estava doente e à beira
da morte.
1
3
O centurião havia ouvido falar de Je-
sus e, por isso, lhe enviou alguns líderes
19
Jesus retoma outro antigo ensino dos rabinos judeus, com certo toque de humor, uma vez que usa a paródia para evidenciar
seu ponto de vista. Retrata o hipócrita com um enorme tronco (trave ou viga) projetando-se do seu olho, enquanto busca, cui-
dadosamente, tirar uma partícula do olho do seu irmão. Frequentemente as atitudes egoístas, arrogantes e preconceituosas dos
seres humanos chegam a ser hilariantes, devido ao evidente contra-senso por elas transmitido. Contudo, a lição apresentada por
Jesus é muito séria: a leve imperfeição ou erro de outras pessoas é frequentemente mais notado por nós, do que um grande defei-
to ou pecado em nós mesmos. O verbo “reparar” vem do original grego blepeis que significa: atenção e observação prolongadas.
Jesus nos exorta a um rígido auto-exame antes de nos lançarmos ao julgamento de qualquer um de nossos semelhantes.
20
Jesus frisa que o caráter de uma pessoa não pode ser alterado apenas por força de vontade ou pelas circunstâncias.
Somente o novo nascimento, que é a invocação e a habitação do Espírito de Deus em nossa alma (Jo 3.5; 15.5,16), pode
transformar a essência das pessoas e desenvolver um ser humano celestial (cidadão do Reino). Jesus nos faz lembrar do ensino
do profeta Jeremias, sobre a maldade que reside no coração do homem (Jr 17.9), acerca da qual Paulo também nos adverte (Rm
3.23), para nos legar um princípio fundamental ao conhecimento da pessoa humana: “a boca fala do que está repleto o coração”.
Ou seja, nossas palavras revelam quem somos na realidade, em nosso íntimo. Por isso, mais do que um cuidado com a língua,
precisamos avaliar corretamente o centro das nossas emoções e sentimentos (para os ocidentais modernos: o coração, mas no
oriente antigo: os intestinos). Portanto, no amor e nos negócios é bom ouvir muito, e bem, antes de celebrar sociedade.
21
Alguns discípulos já mostravam sinais de falsidade e deslealdade, pois o chamavam formalmente de “Senhor” (em grego:
kurios), que significa “mestre a quem se deve seguir com lealdade absoluta”, mas não praticavam o que Ele lhes ensinava. É
possível que Jesus tenha repetido este sermão em outra ocasião, porém com o mesmo sentido, pois em Mateus a diferença entre
os dois homens da parábola, é que escolheram terrenos diferentes para construir (Mt 7.24-27), e aqui, diferem quanto à maneira
de edificar sobre os terrenos. Embora Jesus esteja advertindo que um bom alicerce é vital nas horas de provação e dificuldades
proporcionadas pela vida, seu principal objetivo é alertar para o teste supremo, no Juízo final, quando somente sobreviverão
aqueles que estiverem firmados na Rocha, que é o Filho de Deus (1Co 3.11).
Capítulo 7
1
Um centurião era um oficial militar romano, em geral, responsável por um grupamento igual ou superior a 100 soldados. O
NT cita alguns centuriões notáveis, como esse homem de fé apresentado por Lucas (At 10.2; 23.17,18; 27.43). Embora gentio, os
próprios líderes judeus admiravam sua honradez, cooperação e sensibilidade (vs. 5,6).
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1489 LUCAS 7
religiosos dos judeus, pedindo que fosse
curar seu servo.
4
Então, aproximando-se de Jesus, apela-
ram-lhe com muitas súplicas: “Este é um
homem que merece que lhe concedas
esse favor,
5
pois trata nosso povo com elevada con-
sideração, e ele mesmo construiu nossa
sinagoga”.
6
Então Jesus seguiu com eles. Mas, ao
chegarem nas proximidades da residên-
cia, o centurião enviou-lhe alguns ami-
gos para lhe entregarem a seguinte no-
tícia: “Senhor, não te incomodes, porque
sei que não sou digno de receber-te sob o
teto da minha casa.
7
Por isso, nem mesmo me considerei
merecedor de ir ao teu encontro. Mas or-
dena, com uma só palavra, e o meu servo
será curado.
8
Pois eu também sou homem sujeito à
autoridade, e tenho soldados sob o meu
comando. Mando a um: vai, e ele vai; e
a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo:
faze isto, e ele o faz.
2

9
Ao ouvir esta declaração, Jesus muito se
admirou dele e, voltando-se para a mul-
tidão que o acompanhava, exclamou:
“Asseguro-vos que nem mesmo em Israel
encontrei uma fé como esta”.
10
E aconteceu que os homens que ha-
viam sido enviados, retornaram para a
casa do centurião, e ao chegarem lá, en-
contraram o servo dele totalmente cura-
do.
3

Jesus ressuscita um jovem na multidão
11
No dia seguinte, partiu Jesus para uma
cidade chamada Naim, e com ele cami-
nhavam seus discípulos e uma grande
multidão.
4
12
Ao se aproximar da porta da cidade,
estava saindo o enterro do flho único de
uma viúva; e grande multidão da cidade
a acompanhava.
13
Ao observá-la, o Senhor se compade-
ceu dela e a encorajou: “Não chores!”
5
14
E aproximando-se, tocou no esquife.
Então, os que o carregavam pararam. E
Jesus exclamou: “Jovem! Eu te ordeno:
levanta-te!”
15
No mesmo instante, o jovem que esti-
vera morto se pôs sentado, e começou a
conversar, e assim Jesus restituiu o jovem
à sua mãe.
6
16
Todos foram tomados de grande temor
e louvavam a Deus proclamando: “Gran-
de profeta foi levantado entre nós!” e
“Deus veio salvar o seu povo!”
17
Estas notícias a respeito de Jesus cir-
cularam por toda a Judéia e regiões cir-
cunvizinhas.
7
2
A fé que opera milagres, como a demonstrada por esse oficial romano, tem os seguintes componentes básicos: parte de um
coração profundamente humilde, consciente da sua insignificância e pecado, da santidade e do poder de Deus. É uma fé pura,
que não precisa da presença física de Jesus nem, muito menos, de outros elementos, mas apenas da sua Palavra (Tg 5.15-18).
Também não se restringe a qualquer nacionalidade, cor ou raça. Lucas nos revela que a fé do gentio foi não apenas aceitável,
mas elogiada pelo Senhor.
3
Em apenas duas ocasiões o NT registra que Jesus se admirou: nesta passagem - devido à fé que observou em um gentio - e,
em Nazaré, por causa da incredulidade de muitos dos seus amigos e parentes judeus (Mc 6.6).
4
Naim localizava-se a cerca de três quilômetros, a oeste de En-Dot, aproximadamente a um dia de viagem, a pé, de Cafarnaum.
5
O vocábulo grego usado aqui para se referir ao Senhor é kurios. O único com poder para extinguir toda a tristeza e dor dos
nossos corações, e expulsar a morte de nossas almas (1Co 15.55-57). O Senhor é movido pelo amor e por sua compaixão em
relação à morte do ser humano. Jesus sabia que o ente humano fora criado para viver eternamente em harmonia com Deus; e,
por isso, várias vezes, demonstra sua dor e indignação em relação à morte.
6
Conforme a tradição judaica, o jovem morto estava sendo conduzido num tipo de caixão aberto. Essa é a primeira de três oca-
siões citadas nos evangelhos em que Jesus ressuscitou alguém, as demais são: a filha de Jairo (8.40-56), e seu amigo Lázaro (Jo
11.38-44). Quadrato, pensador e historiador, que viveu no ano 125 d.C, em suas cartas a Adriano, relata o fato de que algumas das
pessoas curadas e ressuscitadas por Jesus ainda viviam em seu tempo e davam testemunho do Senhor. Curiosamente, vários
milagres de ressurreição de mortos narrados na Bíblia, ocorreram devido à participação de mulheres de fé, humildes, corajosas
e piedosas (1Rs 17.23; 2Rs 4.36; Jo 11.22,32; At 9.41; Hb 11.35).
7
Por mais de 400 anos o povo de Israel esperou pelo Messias prometido. João surge, vindo das regiões desérticas, com poder
e unção de Deus para anunciar a chegada do Messias. Diante dos inúmeros milagres de Jesus por toda a Palestina, e de sua
palavra e autoridade espiritual, as multidões começam a aclamá-lo como o Ungido (o Cristo), reconhecendo a presença de Deus
em Israel após gerações e gerações de silêncio.
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1490 LUCAS 7
João manda saber quem é Jesus
(Mt 11.2-6)
18
Então, os discípulos de João lhe relata-
ram todos esses acontecimentos. E João,
chamando dois deles,
19
enviou-os ao Senhor para lhe pergun-
tar: “És Tu aquele que estava para chegar
ou havemos de esperar outro?”
8

20
Assim que os discípulos de João se
aproximaram de Jesus lhe explicaram:
“João Batista mandou-nos para vos in-
dagar: ‘És Tu aquele que estava para che-
gar ou havemos de esperar outro?’”
21
E naquela mesma hora Jesus curou
muitos de doenças e todos os tipos de
sofrimento, bem como de espíritos malig-
nos, e concedeu visão a muitos que eram
cegos.
22
E, depois disto, declarou aos men-
sageiros: “Ide e relatai a João tudo o
que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os
aleijados andam, os leprosos são purif-
cados, os surdos ouvem, os mortos são
ressuscitados e o Evangelho é pregado
aos pobres.
23
E mais, bem-aventurado é aquele que
não se escandalizar por minha causa!”
9
Jesus confere honras a João
(Mt 11.7-19)
24
Havendo partido os mensageiros de João,
passou Jesus a testemunhar às multidões
acerca da pessoa e da obra de João: “Que
saístes a ver no deserto? Um caniço movido
de um lado para o outro pelo vento?
25
Que saístes a contemplar? Um cavalheiro
vestido de roupas fnas? Ora, os que vestem
roupas suntuosas se entregam ao luxo e vi-
vem em delícias estão nos palácios.
26
Afnal, que fostes observar? Um pro-
feta? Eu vos asseguro que sim, e muito
mais do que um profeta.
27
Este é aquele a respeito de quem está
escrito: ‘Eis que enviarei o meu mensa-
geiro à tua frente; pois ele preparará o teu
caminho diante de Ti’.
28
Eu vos afrmo que dentre os nascidos
de mulher não há um ser humano maior
do que João. Todavia, o menor no Reino
de Deus é maior do que ele”.
10

29
E todo o povo, inclusive os publica-
nos, ao ouvirem as palavras de Jesus,
reconheceram que o caminho de Deus
era justo, e se submeteram ao batismo
de João.
11
8
João estava no cárcere por ter colocado sua lealdade ao Senhor e sinceridade quanto à sua missão muito acima da
subserviência aos poderosos desta terra. Estava preocupado e ansioso para ver o Messias, a quem anunciara durante toda a sua
vida, e continuaria a fazer através dos seus discípulos, libertar Israel e estabelecer seu Reino.
9
Jesus respondeu para seu querido amigo João de maneira que ele, como profeta, entenderia bem e não teria qualquer dúvida:
através dos sinais e maravilhas que os profetas do AT haviam dito que acompanhariam o Messias (Is 29.18-21; 35.5,6; 61.1 e
Lc 4.18). Em nossos dias, essa confirmação é obra da fé, e entra em nossa alma com o Espírito Santo, quando – humildemente
– aceitamos a Palavra de Deus e recebemos a Cristo em nossos corações sem restrições. Jesus exorta a João e aos discípulos
dele a não duvidarem e com isso se “escandalizarem” (nos originais gregos: skandalizõ). O sentido original desta palavra tem a
ver com a ação das gaiolas para caçar passarinhos, “skandalon” é exatamente o mecanismo que dispara o alçapão e prende o
pássaro. Jesus receava que o tempo e a distância pudessem servir de “laço” skandalon para que seus amados amigos caíssem
na terrível e fatal armadilha da dúvida e do desânimo.
10
Jesus explica aos seus discípulos e à multidão quem era João, pois muitos o achavam apenas um pregador excêntrico.
Mas, Jesus faz isso de maneira muito especial. Começa perguntando o que as multidões tinham ido fazer no deserto. O povo
tinha ido ouvir a palavra de João e, muitos, arrependidos, já haviam passado pelo batismo. Jesus informa que ele era autêntico e
corajoso, como os maiores profetas de Deus. Não era uma vareta que se move ao sabor do vento das vontades de ninguém (Mt
14.3-5), nem tampouco um lacaio dos aristocratas; era um homem simples, talhado pela vida dura do deserto, onde havia se dis-
ciplinado ao extremo, e ensinava a todos quantos estavam afastados da santidade de Deus e necessitavam desesperadamente
de arrependimento e salvação. Jesus conclui declarando que João era aquele a quem Malaquias anunciara há mais de 400 anos
(Ml 3.1). Mais que um profeta, pois foi o precursor imediato de Cristo. Pregou sobre Ele e sua vinda e O revelou ao mundo. Jesus,
entretanto, salienta que os nascidos de novo (Jo 3.1-21), gozam do direito de serem Filhos de Deus (Jo 1.12). E isso faz com que,
o menor deles, seja maior do que qualquer membro da Antiga Aliança, da qual João foi o último e magnífico profeta.
11
A palavra de Jesus produziu em todas as pessoas e, particularmente, nos coletores de impostos, o reconhecimento dos seus
erros e, ao mesmo tempo, da Graça Salvadora de Deus. Havendo sido justificados, se submeteram de bom grado aos princípios
da Palavra e ao ensino de João.
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1491 LUCAS 7
30
Entretanto, os fariseus e os doutores
da lei rejeitaram o conselho de Deus para
eles próprios, e não se dispuseram a ser
batizados por ele.
12

31
“Sendo assim, a que compararei as
pessoas da presente geração?”, prosseguiu
Jesus, “Com que se assemelham?”
32
“Ora, são como crianças que fcam
sentadas na praça e gritam umas às ou-
tras: ‘Nós vos tocamos fauta, e vós não
dançastes; entoamos lamentações e vós
não chorastes’.
33
Assim tendes agido, pois veio João Ba-
tista, que não come pão e não bebe vi-
nho, e julgais: ‘Este está com demônio!’
34
Então chegou o Filho do homem, co-
mendo pão e bebendo vinho, e conde-
nais: ‘Eis aí um glutão e beberrão, amigo
de publicanos e pecadores!’
35
Todavia, os flhos da Sabedoria reco-
nhecem e acolhem as suas obras”.
13
Uma pecadora unge a Jesus
36
Tendo sido convidado por um dos fa-
riseus para jantar, Jesus foi à casa dele e
reclinou-se, como era o costume, junto
à mesa.
14

37
Assim que tomou conhecimento que
Jesus estava reunido à mesa, na casa do
fariseu, certa mulher daquela cidade,
uma pecadora, trouxe um frasco de ala-
bastro cheio de perfume.
38
E, posicionando-se atrás de Jesus, pros-
trou-se a seus pés e começou a chorar.
Suas lágrimas molharam os pés de Jesus,
mas ela, em seguida os enxugou com os
próprios cabelos, beijou-os e os ungiu
com o perfume.
39
Diante de tal cena, o fariseu que o havia
convidado falou consigo mesmo: “Se este
homem fora de fato profeta, bem saberia
quem nele está tocando e que espécie de
mulher ela é: uma pecadora!”
15

40
Então, voltou-se Jesus para o fariseu e
lhe propôs: “Simão, tenho algo para di-
zer-te”. Ao que ele aquiesceu: “Sim, Mes-
tre, dize-me”.
41
“Dois homens deviam a certo credor.
Um lhe devia quinhentos denários e o
outro, cinquenta.
12
“Doutores ou peritos” da lei foi a maneira como Lucas se referiu aos escribas e mestres da lei, que muitas vezes também
pertenciam ao partido dos fariseus (5.17; 10.35,37: 11.45,52; 14.3 e em Mt 22.35). Esses teólogos e juristas judeus, que tiveram
o privilégio de ouvir esse sermão diretamente dos lábios de Jesus, não conseguiram perceber que aquela Palavra de Deus era
dirigida a eles, e demonstraram que o livre arbítrio capacita o homem a anular o propósito divino de conceder-lhe a salvação.
13
Em geral, as pessoas demonstram um comportamento infantil em relação à decisão de se consagrarem a Deus e à verdade.
Elas agem como aquelas crianças da época de Jesus: se lhes era apresentado algo alegre, elas não se alegravam; se melancó-
lico, não se sensibilizavam. Não haviam se associado a João com seu conservadorismo e rigidez ascética em relação à Lei e à
devoção ao Senhor; nem tampouco aceitaram o convite de Jesus para um novo tempo de Graça, liberdade e plenitude espiritual
como membros do Reino. Preferiram acusar João e a Jesus de falsos e endemoninhados (Jo 7.20; 8.48; 10.20) e seguiram seus
próprios e danosos caminhos. Entretanto, Jesus deixa claro que os que são de Deus (Sabedoria), reconhecem as suas grandes
obras e maravilhas e atendem ao seu chamado (Jo 10.1-18).
14
Para os judeus, uma refeição era um convite de alto valor social, representava um selo de amizade e reconhecimento entre os
convidados. Como as mesas eram baixas, e ao redor havia uma série de divãs e almofadas, os convidados se reclinavam sobre
eles, com os pés pra trás, a fim de degustarem as iguarias que eram trazidas por escravos ou empregados. Estes, além de servi-
rem à mesa, cuidavam da recepção aos convivas, que incluía ungir com óleos e perfumes, lavar e enxugar os pés, especialmente
dos mestres da Torá (Lei). Alguns senhores ou patrões, dispensavam seus criados da cerimônia de recepção e a realizavam eles
próprios, numa atitude de elevada estima e consideração por seus amigos. Assim, a sala de refeição ficava, em geral, repleta de
pessoas; umas comendo e descansando, outras, entrando e saindo para servir aos comensais. É neste contexto que uma mulher,
desejosa de abandonar sua vida de prostituição e encontrar a paz (Jo 8.11), entra na sala em busca do Senhor, trazendo o melhor
que possuía: amor no coração, fé no Filho de Deus, arrependimento, desejo de mudar e adoração (um frasco caríssimo de óleos
aromáticos). Jesus estava reclinado, com os pés estendidos e distantes da mesa central. A mulher, não querendo se interpor entre
Jesus e o fariseu anfitrião, preferiu, humildemente, ungir os pés de Jesus à sua maneira, mas com especial e genuína devoção.
O frasco era feito de alabastro (uma rocha branca e fácil de moldar). Uma garrafa globular, com gargalo comprido, contendo
unguento (óleo) perfumado, cujo valor correspondia à cerca de 300 dias de trabalho braçal. O frasco (vaso) precisava ter seu
gargalo quebrado, e usava-se todo o conteúdo numa única aplicação. Ato semelhante foi realizado por Maria de Betânia, poucos
dias antes da crucificação (Jo 12.3).
15
Jesus é realmente o Salvador dos pecadores. A contradição é quase sempre marcante: para o fariseu, Jesus era um profeta
e deveria agir com o rigor e o legalismo que ele (fariseu) esperava de um profeta. Para a mulher, prostituta e pecadora, carente
de amor, perdão e consideração, Jesus era Deus encarnado, Senhor de misericórdias e da salvação; o único que tinha poderes
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1492 LUCAS 7, 8
42
Nenhum dos dois tinha com que pa-
gar, por isso o credor decidiu perdoar
a dívida de ambos. Qual deles o amará
mais?”
43
Replicou-lhe Simão: “Imagino que
aquele a quem foi perdoada a dívida
maior”. Ao que Jesus o congratulou: “Jul-
gaste acertadamente!”
44
Então, virou-se em direção à mulher
e declarou a Simão: “Vês esta mulher?
Entrei em tua casa, e não me trouxeste
água para lavar os pés, como é o costu-
me. Esta, porém, molhou os meus pés
com suas lágrimas e os enxugou com os
próprios cabelos.
45
Da mesma maneira, tu não me sau-
daste com um beijo na face, como é tra-
dicional; ela, todavia, desde que cheguei
não cessa de me beijar os pés.
46
E mais, tu não me ungiste a cabeça
com óleo, como era de se esperar, mas
esta mulher, com puro bálsamo, ungiu
os meus pés.
47
Por tudo isso, te asseguro: o grande
amor por ela demonstrado prova que
seus muitos pecados já foram todos
perdoados. Mas onde há necessidade de
pouco perdão, pouco amor é revelado.
48
Em seguida, Jesus afrmou à mulher:
“Perdoados estão todos os teus peca-
dos!”
49
Então, os demais convidados começa-
ram a comentar: “Quem é este que pode
até perdoar pecados?”
50
E Jesus revela à mulher: “A tua fé te sal-
vou; vai-te em permanente paz”.
16
As muitas discípulas de Jesus
8
Havendo passado esses acontecimen-
tos, caminhava Jesus por todos os po-
voados e cidades proclamando as boas
novas do Reino de Deus, e os Doze esta-
vam com Ele.
1

2
E também algumas mulheres que ha-
viam sido curadas de espíritos malignos
e doenças: Maria, conhecida como Ma-
dalena, de quem haviam saído sete de-
mônios;
3
Joana, esposa de Cuza, administrador
da casa de Herodes; Susana e muitas ou-
tras. Essas mulheres cooperavam no sus-
tento deles com seus bens.
2
A parábola do semeador
(Mt 13.1-9; Mc 4.1-9)
4
E ocorreu que uma grande multidão
se reuniu, e pessoas de todas as cidades
vieram ouvir a Jesus. Foi quando Ele lhes
propôs a seguinte parábola:
3

5
“Eis que um semeador saiu a semear.
Enquanto lançava a semente, parte dela
caiu à beira do caminho; foi pisoteada, e
as aves do céu a devoraram.
6
Outra parte caiu sobre as rochas e,
para perdoá-la e purificar sua vida. E Jesus olhou para a alma daquele ser humano e além do seu pecado, viu uma filha de Deus,
uma irmã e herdeira do seu Reino (Tg 2.1-5).
16
Jesus dá toda atenção à pobre mulher e a abençoa com paz. Nos originais, o verbo desta frase está no tempo presente
do indicativo, o que descreve um estado de “constante paz interior com Deus”. Literalmente: vai para dentro da paz. Os antigos
rabinos costumavam dizer: vai em paz aos mortos e vai para dentro da paz aos vivos. É importante notar, que o amor da mulher
não foi a causa da sua salvação, mas sim a consequência. O fruto de uma vida salva e consagrada ao Senhor. Só a fé em Jesus
nos salva do Diabo, do mundo e de nós mesmos.
Capítulo 8
1
Jesus havia concentrado seu ministério nas sinagogas em Cafarnaum. Mas agora voltava ao interior da Galiléia, ministrando
em todas as cidades ao longo deste segundo percurso. Quanto à primeira viagem missionária ver: 4.43,44; Mt 4.23-25; Mc
1.38,39. Em relação à terceira viagem veja: 9.1-6.
2
Lucas salienta a importância das mulheres no ministério de Jesus, como discípulas e cooperadoras financeiras daquele que
se fez pobre para nos fazer ricos (2Co 8.9). Maria Madalena, da cidade de Magdala, é normalmente confundida com a mulher
pecadora do cap.7, e com Maria de Betânia (Jo 11.1).
3
Jesus passa a dirigir seu ensino mais aos realmente interessados em se tornarem filhos de Deus e, como discípulos (não
apenas os Doze, mas todos – Mc 4.10), fazerem parte do seu Reino. Por isso, Jesus escolhe as metáforas e as parábolas para
comunicar as grandes e surpreendentes verdades sobre o estilo de vida dos cidadãos do Reino (Mt 13.3; Mc 4.2). Embora as
parábolas fossem histórias com fundos espirituais e morais fáceis de compreender, havia alguns elementos enigmáticos que
careciam de esclarecimento. Essa era a maneira como Jesus filtrava e atraía para si apenas os mais interessados, aquelas pes-
soas que continuavam a segui-lo não apenas pelas curas milagrosas, mas para entender melhor sua mensagem, com todos os
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1493 LUCAS 8
quando germinou, as plantas secaram,
pois não havia umidade sufciente.
7
Outra parte ainda, caiu entre os espi-
nhos, que com ela cresceram e sufoca-
ram suas plantas.
8
Todavia, uma outra parte, caiu em boa
terra. Germinou, cresceu e produziu
grande colheita, a cem por um”. Ten-
do concluído esta parábola, exclamou:
“Aquele que tem ouvidos para ouvir,
ouça!”
4

Jesus explica a parábola
(Mt 13.10-23; Mc 4.10-20)
9
Seus discípulos lhe perguntaram o que
Ele queria comunicar com aquela pará-
bola.
10
Ao que Ele lhes replicou: “A vós ou-
tros é concedido saber os mistérios
do Reino de Deus; aos demais, contu-
do, anuncio através de parábolas, para
que ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não
compreendam’.
5
11
Eis, portanto, o esclarecimento desta
parábola: A semente é a Palavra de Deus.
12
As que caíram à beira do caminho
representam todos os que ouvem, mas
então chega o Diabo e tira a Palavra do
coração deles, para que não venham a
crer e não sejam salvos.
13
As que caíram sobre as rochas sim-
bolizam os que recebem a Palavra com
alegria assim que a ouvem, contudo não
possuem raiz. Crêem por um período,
mas desistem no tempo da provação.
6
14
As que caíram entre os espinhos, sig-
nifcam os que ouvem; todavia, ao segui-
rem seu caminho, são sufocados pelas
muitas ansiedades, pelas riquezas e pelos
prazeres desta vida, e não conseguem
amadurecer.
15
No entanto, as que caíram em boa ter-
ra, são os que, de bom coração e com sin-
ceridade, ouvem a Palavra, a entesouram,
e com perseverança, frutifcam.
7

A parábola da luz manifesta
(Mc 4.21-25)
16
Não há ninguém que, depois de acen-
der uma candeia, a esconda debaixo de
um jarro ou a coloque sob a cama. Ao
contrário, coloca-a num lugar apropria-
do, de maneira que todos aqueles que en-
tram, vejam o resplandecer da luz.
8

detalhes sobre como viver sob a plena direção de Deus. Nas parábolas, os inimigos de Jesus não conseguiram achar declarações
claras e diretas para usar contra ele. A conhecida “parábola do semeador”, é uma das três histórias enigmáticas registradas em
todos os evangelhos sinóticos (Mt 13.1-23; Mc 4.1-20). As outras são: “a do grão de mostarda” (13.19; Mt 13.31,32; Mc 4.30-32)
e da “vinha” (20.9-19; Mt 21.33-46; Mc 12.1-12).
4
A narração de Lucas é mais sucinta que a de Mateus (13.8), e a de Marcos (4.8). Entretanto, a lição central é a mesma: a quan-
tidade da colheita depende da qualidade do terreno. Jesus exorta a todos que receberam capacidade espiritual para ouvir a voz de
Deus, abram completamente seu entendimento e vivam como cidadãos do Reino, ainda que neste mundo materialista e injusto.
5
Muitos ensinos e conceitos de vida transmitidos por Deus aos seres humanos são considerados – especialmente pelos incrédulos
– como grandes enigmas e mistérios. Dependemos das misericórdias do Senhor para recebermos a correta e clara revelação da
verdade (Mc 4.11; Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12). A citação de Isaías (Is 6.9), não quer dizer que há uma disposição divina de vetar o acesso ao
conhecimento da verdade para algumas pessoas. Mas essa é simplesmente uma triste constatação: todos aqueles que não estiverem
dispostos a receber e incorporar a mensagem de Jesus perceberão o quanto a verdade (o caminho da paz e da plena felicidade) es-
capou ao seu entendimento. E seu destino final fica subentendido na citação complementar de Mt 13.14,15 (veja também Mc 4.12).
6
Denomina-se “Palavra de Deus” toda a mensagem proveniente diretamente do Senhor. O principal objetivo do Diabo, até o
final dos tempos, será provar que Deus falhou em seus juízos e que a humanidade não quer nem precisa de Deus. O Diabo é o
pai da mentira e da arrogância (uma forma de mentira), e por isso, embora saiba do seu final no lago do fogo eterno, juntamente
com todos os seus correligionários, simpatizantes e “inocentes úteis” (aquelas pessoas que dizem que não se envolvem em
religião, pois não matam, não roubam, e ajudam o próximo quando possível; consideram a si mesmas tão boas que não precisam
de arrependimento, muito menos da salvação), não pode admitir que isso venha realmente a acontecer. O soberbo é também,
espiritualmente, surdo e cego. Mas existe um outro tipo de pessoa, cujo coração (terreno para o plantio da Palavra) se anima
com a mensagem de Jesus e com a amizade dos cristãos, e por algum tempo vive como crente. Entretanto sua fé é superficial e,
portanto, não própria do salvo. É semelhante a fé que Tiago chama de “morta” (2.17,26) e “inútil” (2.20).
7
Há um coração e uma alma comparáveis à terra fértil e irrigada. O Senhor ressalta que só a perseverança na fé – mesmo em
meio às lutas, derrotas e vitórias – é a marca do cristão, a prova da fé salvadora, que garante a vida eterna e proporciona os mais
belos frutos em palavras e, sobretudo, em ações concretas (1Co 16.13-14).
8
Jesus estimula seus discípulos a proclamarem a verdade em todas as partes (11.33; 12.2; Mt 5.15). A luz corresponde à
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1494 LUCAS 8
17
Porquanto não há nada oculto que não
venha a ser revelado, e nada escondido
que não venha a ser conhecido e trazido
à luz.
18
Assim sendo, vede, pois, como ouvis;
porque ao que tiver, mais se lhe concede-
rá; e ao que não tiver, até mesmo aquilo
que imagina possuir lhe será tirado”.
9
Os féis formam a família de Jesus
(Mt 12.46-50; Mc 3.31-35)
19
Então a mãe e os irmãos de Jesus vie-
ram para falar com Ele, entretanto, não
conseguiam aproximar-se dele, pois
grande era a multidão à sua frente.
10

20
Certa pessoa comunicou a Jesus: “Tua
mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam
ver-te”.
21
Contudo, Ele lhe replicou: “Minha mãe
e meus irmãos são aqueles que ouvem a
Palavra de Deus e a praticam!”
A tempestade é neutralizada por Jesus
(Mt 8.23-27; Mc 4.35-41)
22
E aconteceu que, em um daqueles dias,
ao entrar no barco, pediu Jesus aos seus
discípulos: “Passemos para a outra mar-
gem do lago”, e partiram.
23
Enquanto navegavam, Ele adormeceu.
E abateu-se sobre o lago uma grande
tempestade com fortes ventos, de modo
que o barco estava sendo inundado, e
eles corriam o risco de naufragar.
24
Então os discípulos correram para acor-
dá-lo, exclamando: “Mestre! Mestre, esta-
mos a ponto de morrer!” Ele se levantou
e repreendeu a tempestade e a violência
das águas. Tudo então se acalmou e houve
perfeita paz.
25
Jesus, no entanto, dirigiu-se aos seus
discípulos e indagou: “Onde está a vos-
sa fé?” Mas eles, amedrontados e mara-
vilhados, interrogavam uns aos outros:
“Quem é este que até aos ventos e às on-
das dá ordens, e eles lhe obedecem?”
11
A libertação de um endemoninhado
(Mt 8.28-34; Mc 5.1-20)
26
Zarparam então, para a região dos ge-
rasenos, que se localiza do outro lado do
lago, na fronteira da Galiléia.
27
Assim que Jesus desembarcou, foi ao
encontro dele um homem daquela ci-
dade, possesso de demônio que, fazia
muito tempo, não usava roupas, nem
habitava em casa alguma, mas vivia nos
sepulcros.
12
28
Ao contemplar Jesus, berrou, pros-
trou-se aos seus pés e exclamou com voz
forte: “Que desejas comigo, Jesus, Filho
semente (11), que é a Palavra de Deus. A pessoa que irradia a luz do Evangelho – através de uma conduta exemplar e pela
comunicação dos princípios bíblicos – cumpre bem seu propósito. Entretanto, para manter uma vida reluzente é fundamental:
ouvir e obedecer (41).
9
A verdade (semente) não assimilada, e, portanto, não colocada em prática no dia-a-dia será perdida. E mais, tudo quanto foi
conquistado, porém sem a compreensão da verdade, igualmente se perderá (19.26). Os discípulos deveriam dar toda a atenção
à prática da Palavra de Deus, não apenas para si próprios, mas especialmente por causa daqueles que estão perdidos e precisam
da graça do maravilhoso conhecimento do Senhor em suas vidas (Mc 4.24; Tg 1.19-22).
10
Alguns estudiosos questionam o fato de Jesus haver tido irmãos consanguíneos, filhos de Maria, sua mãe. Contudo as pro-
vas são incontestes neste caso (Mc 6.3). Entretanto, nem o mais estreito parentesco humano é maior e mais importante do que
a filiação de uma pessoa a Deus e seus relacionamentos dentro da família de Cristo. Por isso, os cristãos costumam se chamar
de “irmãos” (Mc 3.21,31,32; Jo 7.5).
11
Jesus notou a participação das forças malignas naquela tempestade inusitada, exatamente quando ele e seus discípulos
rumavam para a terra dos gerasenos (gadarenos ou ainda gergesenos). Um povo gentio, que vivia isolado, e que tinha como fonte
de renda a criação de porcos, animal considerado impuro pelos judeus em todos os sentidos. Com esse milagre, Jesus confirma
mais uma vez, seu poder sobre todas as forças impessoais. Ele as criou e as controla (Jo 1.3; Cl 1.17). “Onde está a vossa fé?”
Se estiver depositada em uma capacidade ou criação humana, como um bom barco com navegadores experientes, por exemplo,
poderá afundar. Se estiver na dedicação e nas obras morais e beneficentes, com certeza, as forças contrárias serão maiores.
Entretanto, se estiver firmada em Cristo: tranquilize-se e comece a desfrutar da bonança (Ef 2.8,9).
12
Mateus faz referência a dois endemoninhados (Mt 8.28). Entretanto, Marcos e Lucas ressaltam a ação daquele que se adian-
tou para interagir com Jesus (Mc 5.2). Esses homens, vítimas do domínio absoluto do demônio, foram ao encontro de Jesus para
maltratá-lo, no entanto, ao se aproximarem do Filho de Deus, prostraram-se diante do poder do Altíssimo e lhe suplicaram por mi-
sericórdia. Essas pessoas atormentadas viviam ainda mais isoladas, em lugares desolados que serviam de cemitérios (Mc 5.3).
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1495 LUCAS 8
do Deus Altíssimo? Imploro a Ti, não me
castigues!”
29
Porquanto Jesus ordenara ao espírito
imundo que abandonasse o corpo da-
quele homem. Diversas vezes o demônio
havia se apoderado dele. Mesmo com os
pés e as mãos acorrentados, e vigiado por
guardas, arrebentava as cadeias e os gri-
lhões, e era impelido pelo demônio para
lugares desolados.
30
Jesus lhe inquiriu: “Qual é o teu nome?”
Ao que ele replicou: “Legião!”, pois eram
muitos os demônios que tinham invadi-
do aquele homem.
13

31
E suplicavam a Jesus que não os man-
dasse para o Abismo.
32
Entrementes, uma grande manada
de porcos estava pastando naquela coli-
na. Os demônios imploraram que Jesus
lhes permitisse entrar nos porcos. E Jesus
consentiu.
33
Então, saindo do homem, os demô-
nios invadiram os porcos, e a manada
jogou-se precipício abaixo em direção
ao grande lago e todos os porcos se afo-
garam.
34
Ao observar tudo o que acontecera, as
pessoas responsáveis pelo cuidado dos
porcos fugiram e foram contar esses fa-
tos na cidade e pelos campos.
14
Um homem geraseno se torna discípulo
(Mt 8.34; Mc 5.14-20)
35
E ocorreu que o povo saiu para ver o
que tinha sucedido. Quando se aproxi-
maram de Jesus, viram aquele homem
de quem os demônios haviam saído,
assentado aos pés de Jesus, vestido e em
perfeito juízo, e todos fcaram apavora-
dos.
36
As pessoas que haviam testemunhado
todos os fatos, contaram também como
fora liberto aquele homem dos muitos
demônios que o haviam tomado.
15
37
Então, todo o povo da região dos gera-
senos rogou a Jesus para que se retirasse
de suas terras, pois estavam aterroriza-
dos.
38
Contudo, o homem de quem haviam
sido expulsos os demônios, implorava-
lhe que o deixasse ir com Ele; mas Jesus
despediu-se, recomendando-lhe:
39
“Volta para tua casa e compartilha
tudo quanto Deus fez por ti!” E assim
o homem partiu, e anunciou na cidade
inteira todas as obras que Jesus havia re-
alizado em sua vida.
16
A súplica do dirigente da sinagoga
(Mt 9.18-19; Mc 5.21-24)
40
Assim que Jesus regressou, a multidão
13
Os gentios, em geral, se referiam ao Senhor como “Deus Altíssimo” (1.24,32; 4.34; Gn 14.19; At 16.17). O reino de Satanás
não tem absolutamente nada em comum com o Reino de Deus (11.14-22), por isso o questionamento dos demônios, haja vista
que eles dominavam aquela região e, mais especificamente, aqueles homens. Jesus pergunta o nome do homem com quem
está falando, mas quem responde é “Legião” (palavra usada para identificar uma corporação romana com até 6000 soldados), o
chefe de uma multidão de demônios que havia tomado o corpo daquela pessoa; numa demonstração clara de posse e comando
daquela vida, cuja própria identidade havia sido confiscada.
14
O Abismo (lugar de confinamento de Satanás e dos espíritos malignos), sempre será o destino final dos demônios e das
almas incrédulas (Ap 9.1; 20.3). O desejo invejoso de Satanás é controlar a vida dos seres humanos, e isso ele buscará de todas
as maneiras até o final dos tempos. A criação de porcos era uma atividade econômica expressamente proibida pela Lei de Deus
em todo o território israelense (Lv 11.7-8). Entretanto, essa região, pertencia a Decápolis, território predominantemente gentílico.
Os demônios e a população do lugar perceberam que Jesus e suas palavras e maravilhas poderiam alterar todo o modus vivendi
(modo de vida) da cidade. Contudo, não foi Jesus quem matou os porcos, mas sim os próprios demônios, que no ímpeto de se
afastarem da santidade de Deus, para dominar e destruir desvairadamente, voltaram para o abismo e se afogaram no lago. Uma
clara ilustração do Juízo final.
15
O termo grego original: esõthe, é muito rico em significados paralelos, podendo ser traduzido como: “salvar”; “curar”;
“resgatar” e “libertar”. É a mesma expressão usada várias vezes no NT para descrever o novo relacionamento de ser humano
“resgatado” por Deus. No verso 48 temos um sentido duplo: salvação em relação à morte física e espiritual.
16
Contraste entre o pedido dos gerasenos e do homem liberto. A população valorizou os bens materiais acima dos espiri-
tuais. Ficaram com medo de perder sua fonte de renda, segurança e da destruição que Jesus poderia promover na cidade. E
preferiram permanecer oprimidos pelas forças malignas. O geraseno, salvo e curado, reconheceu em Jesus o Filho de Deus e
a fonte da vida; valorizou sua salvação acima de todos os bens, e teve pavor de voltar à vida antiga. Em seu coração, disposto
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o recebeu com grande júbilo, pois todos
o estavam aguardando com ansiedade.
41
Eis que se aproximou de Jesus um ho-
mem chamado Jairo, que era dirigente da
sinagoga local, e, prostrando-se aos pés
de Jesus, lhe implorou que fosse até a sua
casa.
42
Pois tinha uma flha única com cerca
de doze anos, que estava à beira da mor-
te. E, enquanto Ele caminhava, as multi-
dões o comprimiam.
A cura de uma mulher no caminho
(Mt 9.20-22; Mc 5.24-34)
43
Nas proximidades estava certa mulher
que, havia doze anos, vinha sofrendo de
hemorragia e já tinha gasto tudo o que
podia com os médicos, mas ninguém
fora capaz de curá-la.
44
Ela conseguiu se aproximar de Jesus,
por trás, e tocou na borda de seu manto,
quando no mesmo instante se lhe cessou
completamente a hemorragia.
45
Ao que Jesus indagou: “Quem tocou
em mim?” Como todos negassem, Pedro
pondera: “Mestre, a multidão se aglome-
ra e te espreme. E, ainda assim, desejas
saber quem te tocou?
46
Contudo, Jesus insistiu: “Certamente
alguém me tocou, pois senti que de mim
emanou poder!”
47
Então a mulher, compreendendo que
não haveria de passar despercebida, apro-
ximou-se tremendo e prostrou-se aos pés
de Jesus. E, diante de todo o povo, decla-
rou o motivo pelo qual o tocara daquela
maneira, e como naquele mesmo momen-
to fora totalmente curada.
48
Ao que Jesus lhe afrmou: “Filha! A tua
fé te curou; vai-te em perfeita paz”.
17

Jesus ressuscita a flha de Jairo
(Mt 9.23-25; Mc 5.35-43)
49
Falava Ele ainda, quando chegou
uma pessoa da casa do dirigente da si-
nagoga, informando: “Tua flha já está
morta. Não adianta mais incomodar o
Mestre”.
18
50
Ao ouvir tais notícias, Jesus declarou a
Jairo: “Não temas, tão-somente crê, e ela
será salva!”
51
Assim que chegou à casa de Jairo, não
permitiu que ninguém entrasse com Ele,
a não ser Pedro, João, Tiago, bem como, o
pai e a mãe da menina.
52
Enquanto isso, grande comoção atin-
giu a multidão, e todos choravam e se la-
mentavam por ela. Diante disto Jesus os
encorajou: “Não pranteeis! Ela não está
morta, mas dorme”.
19

53
E muitos zombavam dele, pois tinham
certeza de que ela estava morta.
a seguir e servir a Deus, aceitou com alegria a orientação missionária de Jesus e, a caminho de casa, pregou o evangelho em
várias cidades por toda Decápolis (liga das cidades livres, localizadas além do rio Jordão, caracterizadas pelo alto nível de cultura
grega, portanto, gentios).
17
Uma hemorragia crônica (fluxo de sangue) havia tirado a saúde e excluído aquela mulher da sociedade (tornando-a
impura segundo a Lei – Lv 15.19-30), por doze anos (Mt 5.25; Mt 9.20). Jesus sente e abençoa a fé demonstrada por ela,
curando sua enfermidade, e a restituindo ao convívio familiar e social através do testemunho público. Para uma pessoa que
passou tanto tempo sendo desprezada e humilhada, Jesus reserva uma palavra especial: “filha”, expressão de ternura que não
aparece em nenhuma outra citação de Jesus nos evangelhos. É a confiança na esperança (Jesus) que produz a ação (17.19),
e uma paz que independe das circunstâncias (7.50).
18
Jairo (nome que significa em hebraico: “Deus dará luz”), era responsável pela sinagoga local e um homem piedoso. Aparen-
temente o atraso de Jesus em socorrer a filha de Jairo cooperou para sua morte. Incidente semelhante ocorreu com Lázaro, um
grande amigo de Jesus (Jo 11.5,6). Esses são dois grandes temores humanos: o tempo e a morte. Para Deus, entretanto, estes
aspectos limitantes da vida não existem. A razão nos encoraja a crer no possível; a experiência afirma que ninguém voltou do
lugar dos mortos revelando detalhes sobre esse caminho (Lc 16.30); as emoções nos fazem sentir preocupados e assustados em
relação à morte (Sl 55.4). Mas Jesus nos afirma que confiando (confiança é a palavra hebraica para fé) nele, como nossa única e
suficiente esperança, testemunharemos que o finis da morte (o final de tudo) se transforma no prelúdio da vida verdadeira: plena
e eterna (Jo 11.25).
19
Jesus faz uma grande diferença entre a morte eterna e o estado de descanso temporário da alma, fora do corpo, enquanto
aguarda a volta de Cristo, e o final da era humana como a conhecemos hoje. A morte para Jesus é o estado de eterno banimento
da comunhão e das misericórdias de Deus. Destino este reservado para Satanás, seus anjos e todos aqueles que rejeitarem a gra-
ça salvadora do Senhor durante suas vidas. Sendo assim, Jesus adverte a Jairo de que sua filha não estava (permanentemente)
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1497 LUCAS 8, 9
54
Entretanto, Ele a tomou pela mão e,
em voz alta, lhe ordenou: “Menina, le-
vanta-te!”
55
Imediatamente o espírito dela retor-
nou, e no mesmo momento ela se levan-
tou, e Ele mandou que lhe dessem algo
para comer.
56
Os pais da menina fcaram maravi-
lhados, contudo Jesus lhes ordenou que
não contassem a ninguém o que se pas-
sara ali.
20
Jesus envia os Doze em missão
(Mt 10.1-15; Mc 6.7-13)
9
Havendo Jesus convocado os Doze,
concedeu-lhes poder e completa auto-
ridade para expulsar todos os demônios,
assim como para realizarem curas.
1

2
Igualmente os enviou para proclamar o
Reino de Deus e curar os doentes.
3
E lhes orientou: “Nada leveis convosco
pelo caminho: nem bordão, nem mochi-
la de viagem, nem pão, nem dinheiro e
nem mesmo uma túnica extra.
4
Na casa em que entrardes, ali perma-
necei até que chegue a hora da vossa
saída.
2

5
Porém, se não vos receberem, sacudi o
pó das vossas sandálias assim que sairdes
daquela cidade, como testemunho con-
tra aquela gente”.
3

6
E assim, partiram os Doze e percor-
reram todos os povoados, pregando o
evangelho e realizando curas por toda a
parte.
4

Herodes tenta encontrar Jesus
(Mt 14.1-12; Mc 6.14-29)
7
O tetrarca Herodes ouviu comentários
sobre o que estava ocorrendo e fcou
assustado, pois algumas pessoas divul-
gavam que João havia ressuscitado dos
mortos.
8
Outros, alegavam que Elias tinha ressur-
gido; e outros ainda falavam que um dos
profetas do passado havia voltado à vida.
9
Herodes, entretanto, afrmava: “Eu man-
dei decapitar a João; quem é, pois, este a
respeito do qual tenho ouvido tais coisas?”
E se empenhava por conhecê-lo.
5

morta. Mas, como ocorre com “os mortos no Senhor”, estava “adormecida” ou “descansando” (1Ts 4.13), na expectativa da res-
surreição. Jesus demonstra a veracidade das suas palavras, despertando a menina da morte, concedendo-lhe uma ressurreição
antes da ressurreição definitiva, e comprovando, uma vez mais, que para Deus não há impossíveis (Mt 5.38; Jo 11.11-14).
20
Jesus sempre se preocupou com a maneira como as pessoas o estavam recebendo, bem como a sua mensagem. Ele não
queria que o povo o seguisse de forma utilitarista, ou seja, somente a troco dos benefícios físicos que Ele proporcionava aos que
nele criam: saúde física e emocional, libertação dos demônios, segurança, alimentação (Jo 6.26) e até ressurreição. Pois todos
querem ir para o céu, mas ninguém deseja morrer (Lc 9.24). Desde a Criação no Éden, o plano de Deus é que o ser humano lhe
fosse um amigo leal, adorando-o como seu Criador e Pai. Uma comunhão que resulta em glória a Deus (Jo 5.44; Fp 3.11).
Capítulo 9
1
O Cristo (forma grega de: o Messias, em hebraico), Soberano do Novo Reino, compartilha seu “poder” (em grego: dunamis),
e sua “autoridade” (em grego: exousia), com seus “apóstolos”, termo que em grego significa: “enviados em lugar daquele que os
comissionou”, ou seja “embaixadores”. Essa é uma nova fase do ministério de Jesus, quando envia seus plenos representantes
para colocarem em prática o estilo de vida, proclamação, curas e maravilhas que haviam visto diariamente em sua pessoa (Mt
9.35). Essa foi também a terceira viagem pelas terras da Galiléia realizada por Jesus e seus discípulos (8.1).
2
A estratégia espiritual de Jesus para vencer o Diabo e o mundo – e que durante muito tempo foi seguida pela Igreja primitiva
– consistia em: sair em missão de proclamação do Evangelho por todo o mundo (Mt 28.16-20); manter um estilo de vida simples
sem preocupações materiais (Mc 6.8); confiar na generosidade da provisão divina; ter senso de urgência, remindo o tempo e
aproveitando bem todas as oportunidades para apresentar a Salvação em Cristo (1Co 7.29); fixar a base do seu ministério numa
casa hospitaleira – e não mudar de casa, buscando melhores acomodações. Jesus deu grande ênfase ao ministério da “Igreja
nas casas” (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 2).
3
Sacudir a poeira das sandálias era um ato simbólico praticado pelos judeus piedosos, ao retornarem à Palestina, e que neste
contexto significa uma expressão de relações cortadas, responsabilidade cessada, e um eloquente e derradeiro apelo ao arrepen-
dimento. Esse passou a ser um sinal de total repúdio pela rejeição da mensagem de Deus (10.11; Mt 10.14; At 13.51).
4
O objetivo principal de Jesus é trazer todos os seres humanos para o Seu Reino, visto que a humanidade está afastada de
Deus, perdida e condenada à morte eterna (Rm 3.23), e essa missão deve ser realizada levando em conta todas as necessidades
básicas das pessoas. O amor não separa o bem-estar espiritual e eterno do material e presente (1Jo 3.17).
5
Lucas não informa os detalhes sobre a morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.17-29), que ocorreu naquela época. En-
tretanto, Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande (Mt 2.1-19), perturbado pelo medo e remorso, ansiava ver se Jesus era
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1498 LUCAS 9
A primeira multiplicação dos pães
(Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15)
10
Entrementes, ao regressarem os após-
tolos, relataram a Jesus tudo quanto
tinham realizado. Então Ele os levou
consigo, e retiraram-se para uma cidade
chamada Betsaida.
11
Contudo, as multidões fcaram sa-
bendo, e o seguiram. Ele as acolheu, e
ensinava-lhes acerca do Reino de Deus, e
atendia a todos que tinham necessidade
de qualquer cura.
12
Ao cair da tarde, os Doze se aproxima-
ram de Jesus e lhe sugeriram: “Despede a
multidão para que possam ir aos campos
vizinhos e aos povoados, e encontrem
alimento e pousada, pois aqui estamos
em lugar desabitado”.
13
No entanto, Ele lhes ordenou: “Dai-
lhes vós algo com que possam se alimen-
tar”. Mas eles replicaram: “Não temos
nada além de cinco pães e dois peixes,
a não ser que compremos comida para
todo esse povo”.
14
Pois estavam ali reunidos cerca de cin-
co mil homens. Ele, então, orientou aos
seus discípulos: “Fazei-os sentar em gru-
pos de cinquenta pessoas”.
15
E assim procederam os discípulos, e
todos se assentaram.
16
Então, tomando os cinco pães e os dois
peixes, e erguendo o olhar em direção ao
céu, deu graças e os partiu. Em seguida,
entregou-os aos discípulos para que os
servissem para toda a multidão.
17
E aconteceu que todas as pessoas se
alimentaram até fcarem plenamente sa-
tisfeitas, e os discípulos recolheram doze
cestos repletos de pedaços que haviam
sobrado.
6

Pedro confessa que Jesus é o Cristo
(Mt 16.13-20; Mc 8.27-30)
18
Certa ocasião, estava Jesus orando em
particular, e com Ele estavam seus dis-
cípulos; então lhes indagou: “Quem as
multidões afrmam que sou Eu?”
7
19
Ao que eles replicaram: “Alguns comen-
tam que és João Batista; outros, Elias; e
ainda outros afrmam que és um dos pro-
fetas do passado que ressuscitou”.
20
“Mas vós”, inquiriu Jesus, “quem dizeis
que Eu Sou?” Então Pedro tomou a pala-
vra e declarou: “És o Cristo de Deus!”
8
Jesus prediz sua morte e ressurreição
(Mt 17.1-8; Mc 9.2-8)
21
Então Jesus os preveniu veemente-
mente e ordenou que a ninguém revelas-
sem esse fato.
22
E acrescentou: “Pois é necessário que o
Filho do homem passe por muitos sofri-
mentos e venha a ser rejeitado pelos líde-
res religiosos, pelos chefes dos sacerdotes
e pelos mestres da lei; seja assassinado e,
ao terceiro dia, ressuscite”.
9
João Batista, que ele assassinara (13.31; 23.8). Entretanto seu desejo de ver a Cristo só se concretizou no julgamento de Jesus
(23.8-12). Somente as pessoas que recebem a Cristo em seu coração, por meio de fé pura e sincera, ganham a capacidade de
vê-lo (9.27; 13.35; Jo 11.40). O “crer” sempre precede o “ver” no Reino de Deus. Tanto Herodes, quanto os judeus e qualquer
outra pessoa que procure um sinal de Deus, são exortados – antes de tudo – ao arrependimento sincero e à entrega da alma aos
cuidados do Senhor (Mt 12.38-42).
6
A multiplicação dos pães e peixes, além da ressurreição de Jesus, é o único milagre narrado nos quatro evangelhos (Mt
14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15). Esse evento marca o clímax do ministério do Senhor na Galiléia. Lembrava os judeus sobre o
milagre do maná no deserto. Identificava a Jesus como sendo o cumprimento da profecia de Moisés (Dt 18.18; Jo 6). Por isso, a
Igreja primitiva reconheceu neste milagre um paralelo com a última Ceia (22.19; Jo 6.48-58), fazendo com que os discípulos de
Cristo sejam o Novo Povo de Deus que, pela Páscoa e o Êxodo (saída do mundo pecaminoso), são conduzidos para a eterna
Terra Celestial (Hb 3 e 4).
7
Lucas dá especial atenção ao relato de Jesus em oração (conversando com o Pai): Antes do batismo; da escolha dos Doze;
da confissão de Pedro; da transfiguração e da traição.
8
Pedro era o porta-voz natural dos Doze. Há séculos, o Messias era aguardado com ansiedade (Cristo é a tradução grega
do termo hebraico: Mashiah), que significa: “o Ungido”. Expressão que na antiguidade se referiu ao Sumo Sacerdote (como na
Septuaginta – Lv 4.5), e depois designou o Rei (1Sm 2.10,35; Sl 2.2; Dn 9.25), e foi interpretado pelos doutores e mestres judaicos
– ao tempo de Jesus – como o Salvador e Libertador prometido, cuja vinda era considerada iminente.
9
O povo judeu nutria há séculos uma falsa expectativa em relação à figura do Messias. Esperavam um revolucionário, guerreiro
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1499 LUCAS 9
Tome a sua cruz e siga a Jesus
(Mt 16.24-28; Mc 8.34 – 9.1)
23
E Jesus proclamava às multidões: “Se
alguém deseja seguir-me, negue-se a si
mesmo, tome a sua cruz dia após dia, e
caminhe após mim.
24
Pois quem quiser salvar a sua vida, a
perderá; mas quem perder a sua vida por
minha causa, este a salvará.
25
Porquanto, de que adianta ao ser hu-
mano ganhar o mundo inteiro, mas per-
der-se ou destruir a si mesmo?
10
26
Se alguém se envergonhar de mim e
das minhas palavras, o Filho do homem,
igualmente, se envergonhará dele, quan-
do voltar em sua glória e sob as honrarias
do Pai e dos santos anjos.
27
Com certeza vos asseguro que alguns
que aqui se encontram, de modo algum
passarão pela morte antes de verem o
Reino de Deus”.
11

Alguns vêem a glória de Jesus
(Mt 17.1-13; Mc 9.2-13)
28
Passados quase oito dias após o pro-
nunciamento destas palavras, Jesus tomou
consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um
monte para orar.
29
Enquanto orava, a aparência do seu
rosto foi se transformando e suas roupas
fcaram alvas e resplandeceram como o
brilho de um relâmpago.
30
Então, surgiram dois homens que co-
meçaram a conversar com Jesus. Eram
Moisés e Elias.
31
Apareceram em glorioso esplendor e
falavam sobre a partida de Jesus, que es-
tava para se cumprir em Jerusalém.
32
Pedro e seus amigos estavam dormin-
do profundamente, mas despertaram de
súbito, e viram a fulgurante glória de Je-
sus e os dois homens que permaneciam
com Ele.
33
Quando estes iam se afastando de
Jesus, Pedro sugeriu: “Mestre, como é
bom que estejamos aqui! Vamos erguer
três tabernáculos: um será teu, outro
para Moisés, e outro, de Elias”. Mas
Pedro não sabia, ao certo, o que estava
propondo.
34
Entretanto, enquanto ele ainda falava,
uma nuvem surgiu e os encobriu, e gran-
de foi o temor que sentiram os discípulos
ao verem aqueles homens desaparecerem
dentro da espessa nuvem.
35
Então, dela propagou-se uma voz,
afrmando: “Este é o meu Filho, o Esco-
lhido; a Ele dai toda atenção!”
36
Passado o som daquela voz, Jesus
ficou só. Os discípulos, então, guar-
daram o que viram e ouviram somen-
te para si; durante aquele tempo não
compartilharam com ninguém o que
acontecera.
12
e estrategista militar, que libertaria Israel do império romano e instalaria seu reino de glória e poder a exemplo de Davi. Portanto,
em primeiro lugar, Jesus se revelou aos Doze e esforçou-se para que eles compreendessem bem quem Ele era e qual a sua
missão na terra. O próximo passo era comunicar essa revelação ao seu povo antes de Jesus se identificar publicamente (Mt 8.4;
16.20; Mc 1.34). Jesus gostava de se apresentar como “o Filho do homem”, pois essa expressão no original é uma clara indicação
do Messias profetizado em Daniel 7.13. A figura do Servo Sofredor (Is 53), é sobreposta à imagem do Messias (Mt 8.20) para
retratar adequadamente a pessoa e a obra de Jesus.
10
Seguir a Jesus exige sacrifício do ser humano: consagração, abnegação, dedicação, disciplina e absoluta obediência volun-
tária à Palavra de Deus. Lucas ainda dá ênfase ao aspecto da continuidade, ou seja, viver assim “dia após dia”, haja o que houver.
A imagem da crucificação era comum e clara para todos os discípulos. Era a maneira como o império romano executava os
traidores, criminosos e revolucionários da época. Contudo, Jesus assegura ao fiel, que ainda que lhe seja necessário dar a própria
vida em holocausto por amor a Deus, uma nova vida de paz e felicidade lhe será outorgada. Pessoas que aceitam o convite do
Senhor e decidem abandonar uma vida mundana (morrer para o mundo), passando a dedicar-se à obra de Cristo, são grandes
testemunhas desse milagre (viver para Cristo – Gl 2.19-20; Fp 1.21). Nenhuma outra declaração de Jesus recebeu tanto destaque
por parte dos quatro evangelistas (Mt 10.38,39; 16.24,25; Mc 8.34,35; Lc 14.26,27; 17.33; Jo 12.25).
11
A palavra grega heos (morte antes...), indica que Jesus não se refere aqui à sua segunda e gloriosa vinda (pois não haverá mor-
te depois – 1Ts 4.17). Jesus está falando da manifestação do início de um novo tempo do Reino: na ressurreição de Cristo e no dia
do Pentecostes. Alguns dos que ali estavam veriam o Rei ressurreto (1Co 15.5-6), enquanto os incrédulos só o verão em seu retorno
triunfal para o Juízo (Mc 14.62). Pedro, João e Tiago tiveram uma antecipação desta visão gloriosa cerca de uma semana depois.
12
Conforme estudos de respeitáveis arqueólogos e historiadores cristãos, o lugar onde ocorre o milagre da transfiguração é
o monte Hermom, cujo cume coberto de neve, acima de 2.740 metros de altura (Mc 9.2), pode ser avistado de muitas partes da
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1500 LUCAS 9
A cura de um menino possesso
(Mt 17.14-23; Mc 9.14-32)
37
No dia seguinte, assim que desceram
do monte, uma grande multidão veio ao
encontro de Jesus.
13

38
De repente, um homem surgiu do meio
da multidão clamando em alta voz : “Mes-
tre! Suplico-te que socorras meu flho, o
meu único flho!
39
Um espírito se apodera dele; e no mes-
mo instante faz o menino berrar, joga-o
no chão, provoca-lhe convulsões até
espumar pela boca, jamais o deixa por
muito tempo, e por meio de muitos feri-
mentos o está destruindo.
40
Roguei aos teus discípulos que expul-
sassem o espírito maligno, mas eles não
conseguiram”.
41
Então, declarou Jesus: “Ó geração sem
fé e perversa! Até quando estarei convos-
co e sofrerei com vossa incredulidade?
Trazei-me aqui o teu flho”.
14
42
Enquanto o menino caminhava em
sua direção, o demônio o lançou por ter-
ra, em convulsão. Porém Jesus repreen-
deu o espírito imundo, curou o menino
e o entregou de volta a seu pai.
43
Diante disto, todos fcaram pasmos pe-
rante o poder majestoso de Deus.
15

Jesus prediz a sua morte outra vez
(Mt 17.22-23; Mc 9.33-37)
E, enquanto todas as pessoas estavam
maravilhadas com seus feitos, todos pro-
digiosos, Ele comunicou aos seus discí-
pulos:
44
“Dai toda a vossa atenção às pala-
vras que vos passo a revelar: o Filho do
homem está prestes a ser entregue nas
mãos dos homens”.
45
Todavia, eles não conseguiam entender
o signifcado de tais palavras, pois foi-lhes
vedado esse entendimento, a fm de que
não as compreendessem. E tinham receio
de pedir mais explicações a Jesus a este
respeito.
Quem é o maior no Reino?
(Mt 18.1-5; Mc 9.33-41)
46
Emergiu entre os discípulos uma dis-
cussão sobre quem, dentre eles, seria o
maior.
47
Mas, Jesus, conhecendo os seus anseios
mais íntimos, tomou uma criança e a co-
locou em pé, ao seu lado.
48
Então afrmou: “Quem recebe esta
criança em meu Nome, recebe a minha
própria pessoa; e quem me recebe, está
recebendo Aquele que me enviou. Por-
Palestina, brilhando como ouro polido à luz do sol. Moisés e Elias, os grandes representantes da Lei e dos Profetas, aparecem em
glória, porém não como espíritos imateriais, e sim em forma corpórea como Jesus estava. Elias havia sido trasladado corporeamente
para o céu (2Rs 2.11), e o testemunho de Judas (Jd 9) dá a entender que Moisés fora ressuscitado da morte. A obra de Moisés havia
sido completada por seu discípulo Josué, assim como a de Elias por seu discípulo Eliseu (uma variação do nome Josué). Agora
estavam conversando com Jesus (nome grego correspondente a Josué, que em hebraico significa: “Deus Salvador” ou “Jeová é
Salvação”), e Lucas nos informa que o assunto era o exodon (em grego: a partida) de Jesus (2Pe 1.15): a obra redentora de Cristo
na cruz (sua morte) e, consequentemente, a sua ressurreição, ascensão e glória final. Esse encontro extraordinário, presenciado por
três apóstolos do Senhor, indica o momento exato do cumprimento de tudo quanto o AT prenuncia. A tipologia do Êxodo fornece o
pano de fundo; Jesus supera a Moisés na formação e no governo do Novo Israel de Deus, por ser o Filho (v.35; Hb 2.9,10). O título
“Escolhido” aparece nos rolos do mar Morto, ecoando Is 42.1; 23.35. O termo “Escolhido” corresponde à expressão “Amado” (Mt
17.5; 2Pe 1.17). Jesus, mediante o seu “êxodo” livrou o seu povo (seus seguidores) da escravidão do pecado que domina o nosso
sistema mundial, levando a bom termo a obra tanto de Moisés quanto de Elias (1Rs 19.16).
13
O milagre da transfiguração ocorreu à noite. No outro dia, após o grande êxtase no monte, Jesus e os discípulos descem
para o vale e reencontram a vida normal, cotidiana, com suas aflições, inquietações e necessidades básicas. Toda essa sequência
de acontecimentos demonstra a necessidade do serviço cristão ser uma extensão do culto. A permanência no monte, na contem-
plação ou busca de experiências, sem o esforço prático para melhorar a vida das pessoas no vale, e vice-versa, resulta em falta
de poder e autoridade. A possessão demoníaca afeta suas vítimas de maneiras diversas (Mt 17.15; Mc 9.17; 4.33; 8.28; 13.11,16).
Na vida deste jovem, o espírito maligno catalisou os efeitos nocivos da epilepsia amedrontando e confundindo as pessoas, e os
próprios discípulos de Jesus que haviam ficado no vale.
14
As pessoas estavam vendo os milagres de Jesus como maravilhas e oportunidades de se livrarem de situações incuráveis
ou insolúveis, mas não conseguiam ver nos prodígios das palavras e das realizações de Jesus os sinais da presença de Deus na
terra, entre seu povo. O lamento de Jesus é contra a incredulidade de todas as pessoas que se aproximam de Deus apenas para
testar seu poder, para assistir a um exemplo da ação extraordinária e especial do Criador. Esquecidas de que precisam de arre-
pendimento, buscam apenas uma solução rápida, prática e a baixo custo para seus problemas imediatos (Dt 32.5; Nm 14.27).
15
Jesus refletia de maneira tão clara a imagem de Deus (imago Dei), que as multidões admiravam nele a sublimidade e a
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1501 LUCAS 9
tanto, aquele que entre vós for o menor,
este sim, é grandioso”.
16

Jesus não aprova o sectarismo
(Mc 9.38-40)
49
Então replicou João: “Mestre, vimos
um homem expulsando demônios em
teu nome e nos dispusemos a tentar
impedi-lo, pois afnal, ele não caminha
conosco.
50
Jesus, entretanto, lhes advertiu: “Não
o proibais! Pois quem não é contra vós
outros, está a vosso favor”.
17
Jesus não é aceito pelos samaritanos
51
E ocorreu que, ao se cumprirem os dias
em que seria elevado aos céus, Jesus mani-
festou em seu semblante a frme resolução
de ir em direção a Jerusalém.
18
52
E, por isso, enviou mensageiros à sua
frente. Indo estes, chegaram a um po-
voado samaritano a fm de lhe preparar
pousada.
53
Contudo, o povo daquela aldeia não o
recebeu por notar que Ele estava priori-
tariamente a caminho de Jerusalém.
54
Diante de tal situação, os discípulos
Tiago e João, propuseram: “Senhor, que-
res que mandemos descer fogo do céu
para que sejam aniquilados?”
55
Mas Jesus, mirando-os, admoestou-
lhes severamente: “Não sabeis vós de que
espécie de espírito sois?
56
Ora, o Filho do homem não veio com
o objetivo de destruir a vida dos seres hu-
manos, mas sim para salvá-los!” E assim,
rumaram para um outro povoado.
19

O alto custo do discipulado
(Mt 8.19-22)
57
Quando estavam andando pelo cami-
nho, uma pessoa declarou a Jesus: “Eu te
seguirei por onde quer que andares”.
58
Mas Jesus lhe replicou: “As raposas
têm suas tocas e as aves do céu têm seus
ninhos, mas o Filho do homem não tem
onde repousar a cabeça”.
20

59
Entretanto, a outro homem fez um
realeza do Senhor (2Pe 1.16). Contudo, Jesus não se deixava envolver pelos louvores e bajulações do povo, e procurava sempre
lembrá-los de que rumava resoluto para entregar sua vida como holocausto para a salvação da humanidade, a quem sempre
muito amou (Jo 3.16).
16
A grandeza no Reino de Deus é proporcional ao serviço humilde, sincero e totalmente em louvor ao Senhor. É o próprio
significado da cruz (44,45; Fp 2.7,8). Essa polêmica surgiu algumas vezes entre os discípulos (22.24; Mc 10.35-45). O verdadeiro
e desinteressado amor é provado por sua operação em favor daqueles que são considerados pela sociedade como os mais
insignificantes. Esse amor será exaltado e premiado por Deus.
17
João responde (literalmente no original grego: “respondendo”) ao esclarecimento do Senhor sobre a grandeza de servir com
humildade no Reino, com mais uma questão: como pode alguém estranho ao seu grupo expelir demônios em nome de Jesus
(especialmente quando alguns discípulos não conseguiram)? Não é a posição oficial que mede a grandeza de uma pessoa,
mas sim a qualidade do seu propósito. Para os discípulos, preocupados, naquele momento, com a hierarquia e o fluxograma do
ministério, não bastava que aquela pessoa, possivelmente conhecida de Jesus (50), estivesse realizando prodígios em nome do
Senhor, era fundamental que fosse membro do grupo e se comportasse segundo “os estatutos” e a doutrina comuns. Esse tem
sido, há séculos, o erro de muitos cristãos. Jesus não diz que o homem era contra Ele, mas adverte que se aquela pessoa não
os estava prejudicando, certamente havia cooperado com eles de alguma forma, pois trabalhava pela mesma causa. Não pode
haver neutralidade na guerra contra o mal. Todo o homem que se opõe aos demônios e às suas influências, em nome de Jesus,
deve ser bem recebido, e não alvo de inveja e oposição.
18
Começa neste ponto a seção central do livro de Lucas que é concluída em 19.44 e focaliza especialmente o ensino de Jesus.
Lucas usa literalmente a expressão: “firmou o rosto para ir para Jerusalém”, numa alusão a Is 50.7, ressaltando a determinação
inabalável de Jesus em cumprir sua missão até o fim (13.22). Essa viagem a Jerusalém não é a mesma onde ocorreu a crucifica-
ção, porém marca o início de um período de ministério na Judéia, cuja cidade principal era Jerusalém.
19
Tiago e João eram conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3.17). À semelhança de Elias desejaram mais do que apenas
“sacudir o pó de suas sandálias” (2Rs 1.9-16). Entretanto, Jesus os alerta para o fato de pertencerem a outro espírito e demonstra
o tipo de amor que estava ensinando aos seus discípulos (Mt 5.44). Para alguns estudiosos, partes dos versos 55 e 56 foram intro-
duzidos por copistas ao longo dos primeiros séculos. No entanto, o Comitê de Tradução da KJ decidiu manter o texto inalterado
como vem sendo publicado originalmente desde 1611 e sobre os quais as novas descobertas nada apresentam em contrário.
20
Quais são as pessoas que não podem seguir a Jesus? As que valorizam a segurança e o conforto acima do Senhor. As que
dão total preeminência à família e aos amigos, muito acima do Salvador. As que permanecem contemplando o que deixam para
trás (a velha vida) enquanto caminham (Gn 19.26; Ef 5.17-24).
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1502 LUCAS 9, 10
convite: “Segue-me!” Ele, contudo, argu-
mentou: “Senhor, permite-me ir primei-
ramente sepultar meu pai”.
60
Todavia, insistiu Jesus: “Deixa os mortos
sepultarem os seus próprios mortos. Tu,
porém, vai e proclama o Reino de Deus”.
21
61
Outro ainda lhe prometeu: “Senhor, eu
te acompanharei, mas deixa-me primei-
ro despedir-me dos meus familiares”.
62
Ao que Jesus lhe asseverou: “Ninguém
que coloca a mão no arado, e fca con-
templando as coisas que deixou para
trás, é apto para o Reino de Deus”.
22
Jesus envia setenta e dois discípulos
10
Havendo passado estes aconteci-
mentos, o Senhor nomeou outros
setenta e dois; e os enviou de dois em
dois, adiante dele, a todas as cidades e lu-
gares que Ele estava prestes a visitar.
1

2
E lhes recomendou: “A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Rogai,
pois, ao Senhor da plantação que mande
obreiros para fazerem a colheita.
2
3
Portanto, ide! Eis que Eu vos envio
como cordeiros para o meio dos lobos.
3

4
Não leveis bolsa, nem mochila de via-
gem, nem sandálias; e a ninguém saudeis
longamente pelo caminho.
5
Assim que entrardes numa casa, dizei
em primeiro lugar: ‘Paz seja para esta
casa!’
4

6
Se morar ali um flho da paz, a vossa
bênção de paz repousará sobre ele; caso
não haja, ela voltará para vós.
7
Permanecei naquele domicílio. Comei e
bebei do que vos for oferecido, pois dig-
no é o trabalhador do seu salário. Não
andeis a mudar de casa em casa.
5

8
Quando entrardes em uma cidade e ali
21
Conforme as tradições e rituais fúnebres observados no judaísmo, se o pai daquele homem já estivesse morto, ele não po-
deria estar ali no meio do caminho, deveria estar se ocupando de todos os detalhes e cerimônias que envolviam um sepultamento
judaico naqueles dias. O que o homem pede na verdade, é um tempo para ficar em casa até que seu pai morra, para depois,
mais maduro e livre de certas obrigações, poder avaliar com calma as vantagens e desvantagens de aceitar o convite de Cristo.
Mas Jesus e o Reino têm urgência e necessitam de pessoas dispostas e resolutas. Jesus usa um jogo de palavras (em grego,
logioni, aplica-se duplamente ao sentido, físico e espiritual, da palavra: “morto”), para chocar aquele homem com a verdade de
que restarão muitas pessoas no mundo que não atenderão ao chamado de Deus para a vida eterna, e que, portanto, aos mortos
espirituais caberá cuidar dos rituais de um mundo que perece (Ef 2.1).
22
Esse trecho bíblico (9.57-62) se passa justamente “ao longo do caminho”. Enquanto Jesus viajava, Lucas nos conta alguns
dos muitos casos de pessoas que se apresentaram ou foram convidadas a seguir Jesus e fazer parte do Reino de Deus. Nos três
exemplos narrados por Lucas, todas as pessoas tinham uma razão para adiar ou recusar esse compromisso. Claramente tiveram
boas intenções, mas não haviam percebido a natureza das exigências que a nova vida e o Reino faz aos seres humanos que
habitarão a Nova Jerusalém. A missão de Cristo é mais urgente do que aquela que Elias estabeleceu para Eliseu (1Rs 19.20). Todo
trecho mostra que Jesus não exige aquilo que Ele mesmo – enquanto ser humano – não praticou ou suportou. Assemelhar-se ao
Mestre é o grande alvo e o preço do discipulado (6.40).
Capítulo 10
1
Os melhores e mais antigos manuscritos gregos de Lucas, nos informam que Jesus enviou 72 de seus discípulos (uma alusão
a Nm 11.16-17), em duplas (9.1-6; Mc 6.7; At 13.2; 15.27,39,40; 17.14; 19.22), com a missão de proclamar o Reino de Deus e fazer
novos arautos do Senhor (discípulos). Lucas salienta a universalidade do Evangelho (16 vezes), para os pecadores de todos os
povos e raças, tanto samaritanos como gentios e os próprios judeus (24.47). O número de discípulos demonstra que Jesus tinha
um grupo de seguidores fiéis de tempo integral muito maior do que os Doze mais próximos, e uma agenda repleta. Orientações
semelhantes foram dadas por Jesus aos Doze (Mt 9.37,38; 10.7-16; Mc 6.7-11; conforme Lc 9.3-5).
2
O campo (a seara) é enorme e a grande missão é fazer discípulos de Cristo em todas as nações, pois o Dia do Juízo se
aproxima (Mt 13.39, Jo 4.35; Ap 14.15). Esse é o desafio missionário: a grandeza da plantação e a urgência da missão. A oração
contínua para que Deus mande servos dedicados à obra. O “Ide” de Jesus é um apelo para todos os discípulos, cada qual com
seu dom e campo de ação (Rm 10.15; Rm 12).
3
A estratégia de Cristo é completamente diferente de qualquer outro imperador. Seus discípulos devem ser totalmente depen-
dentes do Onipotente Pastor na conquista pacífica do território de posse do inimigo.
4
Os discípulos não deveriam se preocupar com o sustento, muito menos com o acúmulo de bens. Não levariam sacos de
viagem (alforjes), nem um par extra de sandálias. Sua manutenção viria de Deus, através de pessoas generosas, que cuidariam
plenamente de suas necessidades. As saudações orientais tradicionais eram (e ainda o são em muitos lugares) prolongadas,
consumindo horas de conversa. Jesus adverte a todo cristão sobre o sentido de urgência e otimização do tempo. O tradicional
shalom, saudação hebraica que significa “paz e bem-estar”, passa a ter um sentido ampliado e mais profundo: reconciliação do
pecador com Deus (Rm 5.1,10; Ef 2.16; Cl 1.21,22).
5
Ordem de Jesus citada em 1Tm 5.18 como Escritura, numa indicação clara de que o livro de Lucas já era considerado inspi-
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1503 LUCAS 10
fordes bem recebidos, alimentai-vos do
que for colocado diante de vós.
9
Curai os doentes que houver na cidade
e proclamai-lhes: O Reino de Deus está à
vossa disposição!
10
No entanto, quando entrardes numa
cidade e não fordes bem recebidos, saí
por suas ruas e exclamai a todos:
11
‘Até a poeira da vossa cidade, que se
nos pegou às sandálias, sacudimos con-
tra vós outros!’ Apesar disto, sabei que o
Reino de Deus está próximo.
12
Eu vos asseguro que, naquele Dia, ha-
verá mais tolerância para Sodoma do que
para aquela cidade.
6

Ai daqueles que não se arrependem
(Mt 11.20-24)
13
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!
Porque se as maravilhas que foram re-
alizadas entre vós o fossem em Tiro e
Sidom, há muito tempo elas teriam se
arrependido, vestindo roupas de saco e
cobrindo-se de cinzas.
14
Contudo, no Juízo haverá menor ri-
gor para Tiro e Sidom do que para vós
outras.
15
E tu, Cafarnaum: serás, porventura,
elevada até ao céu? Não! Serás derrubada
até o Hades.
7
16
Portanto, qualquer pessoa que vos der
ouvidos, a mim está dando ouvidos; mas
aquele que vos rejeitar, estará rejeitando
a mim mesmo; e quem me rejeitar, rejei-
ta Aquele que me enviou”.
Os setenta e dois regressam felizes
17
Então, os setenta e dois discípulos re-
tornaram muito felizes e relataram: “Se-
nhor! Até os demônios se submetem ao
nosso comando, em teu Nome”.
18
Ao que Jesus lhes revelou: “Eu vi Sata-
nás caindo do céu como relâmpago.
19
Atentai! Eu vos tenho dado autoridade
para pisardes serpentes e escorpiões, as-
sim como sobre todo o poder do inimigo,
e nada nem ninguém vos fará qualquer
mal.
20
Contudo, regozijai-vos, não apenas
porque os espíritos vos obedecem, mas
sim porque os vossos nomes estão ins-
critos nos céus”.
8
A grande alegria de Jesus no Espírito
(Mt 11.25-27)
21
Naquele mesmo momento, Jesus exul-
tando no Espírito Santo exclamou: “Ó
Pai, Senhor do céu e da terra! Louvo a ti,
pois ocultaste estas verdades dos sábios
e cultos e as revelaste aos pequeninos.
rado (canônico). Os líderes cristãos devem receber justo sustento de todas as suas necessidades. Entretanto, não devem mudar
de casas (igrejas ou comunidades) apenas por interesses materiais ou melhor remuneração.
6
A proximidade do Reino tinha a ver com a pessoa de Cristo e de seus arautos (missionários), não em relação ao tempo (Mc
12.34). Apesar de Sodoma ter sido tão pecaminosa que Deus precisou destruí-la (Gn 19.24-28; Jd 7), o povo que ali estava tendo
o privilégio de ver e ouvir a Jesus, e os seus discípulos, estava contraindo culpa ainda maior, devido à sua incredulidade, a ser
cobrada no Dia do Juízo final. Tiro e Sidom, cidades gentílicas da Fenícia, ainda não haviam tido a oportunidade de receber a
mensagem de Cristo e observar seus milagres, oportunidade dada à maior parte da população da Galiléia. Privilégios maiores
sempre resultam em maior responsabilidade.
7
Cafarnaum foi o centro do ministério de Jesus na fronteira norte da Galiléia (Mt 4.13). Seus habitantes tiveram todas as
chances para verem e ouvirem a Jesus e, a maioria, não se arrependeu. Portanto, maior será sua condenação. A palavra “inferno”
vem do grego transliterado haidou ou “hades”, que corresponde à expressão hebraica do AT sheol, a qual significa: lugar dos
mortos ou sepulcro.
8
Os discípulos receberam poder e autoridade do Espírito de Deus, pela Palavra de Jesus, para expulsar demônios de todos
os tipos e derrotar a Satanás e seus terríveis ataques. Esse momento histórico, contemplado pelo Senhor (v.18), representou um
marco no ministério de Jesus com seus discípulos em relação ao estabelecimento do Reino de Deus. Jesus aproveita a euforia
dos discípulos para lhes advertir sobre o grande perigo da arrogância, soberba e orgulho, que acomete a todos aqueles que se
deixam inebriar pelas glórias do sucesso. Assim se deu a queda de Lúcifer, nome original do Diabo, em hebraico transliterado:
helel, que significa: “glorioso”, “luzente”; vocábulo que a Vulgata latina traduziu pela expressão: “estrela da manhã”. Evento este,
de tremendo impacto no universo e testemunhado por Jesus Cristo no céu (Is 14.12). Jesus previne aos seus discípulos para
manterem a humildade e o louvor a Deus por suas virtudes e realizações. Caso contrário, correm o risco de terem o mesmo
destino do império babilônico, rebaixado ao nível do pó, depois de ter sido exaltado como o mais poderoso entre os poderosos
reinos da terra. O próprio rei da Babilônia (região onde hoje se localiza o Iraque) foi usado pelos profetas do Senhor como
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1504 LUCAS 10
Amém, ó Pai, porque Tu tiveste a alegria
de proceder assim.
9
22
Tudo me foi entregue por meu Pai.
Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser
o Pai; e nenhuma pessoa sabe quem é o
Pai, senão o Filho e aqueles a quem o Fi-
lho o desejar revelar”.
10

23
Então, mirando os seus discípulos,
declarou-lhes em particular: “Bem-aven-
turados são os olhos de quem vê as revela-
ções que vós vedes.
11
24
Pois vos asseguro que muitos profetas
e reis almejaram ver o que estais vendo,
mas não viram; e ouvir o que ouvis e não
ouviram”.
A parábola do bom samaritano
25
Certa vez, um advogado da Lei levan-
tou-se com o propósito de submeter
Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre,
o que preciso fazer para herdar a vida
eterna?”
12

26
Ao que Jesus lhe propôs: “O que está
escrito na Lei? Como tu a interpretas?”
27
E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu
Deus, de todo o teu coração, de toda a
tua alma, de todas as tuas forças e com
toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Ama-
rás o teu próximo como a ti mesmo’”.
28
Então, Jesus lhe afrmou: “Respondes-
te corretamente; faze isto e viverás”.
13
29
Ele, no entanto, insistindo em justif-
car-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é
o meu próximo?”
14
30
Diante do que Jesus lhe responde as-
sim: “Certo homem descia de Jerusalém
para Jericó, quando veio a cair nas mãos
de alguns assaltantes, os quais, depois de
lhe roubarem tudo e o espancarem, fugi-
ram, abandonando-o quase morto.
31
Coincidentemente, descia um sacerdo-
te pela mesma estrada. Assim que viu o
homem, passou pelo outro lado.
32
Do mesmo modo agiu um levita; quan-
prefiguração da “besta”, que se reerguerá e comandará a Babilônia dos últimos dias (Ap 13.4; 17.3; segundo a descrição do
dirigente de Tiro em Ez 28). O próprio Satanás, ao admirar e exaltar seus atributos pessoais – deixando de considerar que todos
lhe foram concedidos por Deus, e para Sua glória – cogitou ser semelhante a Deus e por isso foi execrado da presença do Senhor,
banido dos céus e rebaixado às regiões do inferno com a violência e a velocidade de um raio. Portanto, a Salvação do ser humano
é mais importante que o poder para realizar maravilhas e vencer o Diabo. A Salvação nos mantém humildes diante dos grandes
feitos, e nos encoraja quando erramos e caímos. Ela registra o nosso nome no céu (Sl 69.28; Dn 12.1; Fp 4.3; Hb 12.23; Ap 3.5).
9
Uma das principais características do evangelho escrito por Lucas é mencionar a alegria e felicidade por mais de 20 vezes, o
cântico e a glorificação de Deus (1.64; 2.13; 2.28; 5.25; 7.16; 13.13; 17.15; 19.37; 24.53). Nossa maior alegria não deve estar nas
coisas nem nas pessoas, mas no fato de termos sido eleitos para a Salvação pelo amor onisciente de Deus, condição privilegiada,
que jamais será anulada (Ef 1.4), a qual devemos honrar. Jesus demonstra seu grande júbilo (em grego: agalliaõ, que significa:
“exultação”, “demonstração pública de gozo profundo”). O motivo de tamanho contentamento de Jesus foi testemunhar a re-
velação da justiça e bondade de Deus para com os humildes em detrimento dos arrogantes e soberbos. A alegria da redenção
(1.14,47; At 2.26; 1Pe 4.13), da qual o Espírito Santo é o agente do gozo espiritual (Gl 5.22 e Fp 4.4).
10
Deus entregou a Seu Filho, Jesus, a chave da reconciliação definitiva entre o Criador e a humanidade: o Evangelho (1Co
15.1-3). Essa revelação não vem dos pais (tradição judaica), mas do Pai em Cristo (Jo 14.6-11).
11
A fé abre a visão para a verdade, a realidade de Jesus, o Cristo (Messias), e o Reino. Enquanto, o pecado, cega a humani-
dade (Jo 9.39-41).
12
A palavra grega transliterada nomikos, significa originalmente: “advogado”, como consta da Bíblia King James desde 1611.
As versões posteriores usaram expressões como “intérprete”, ou ainda “perito na lei”. Tratava-se de um teólogo judeu, autoridade
na Lei (a Torá) de Deus (11.45) e que nesta passagem procura submeter Jesus à prova (Mt 4.7; Tg 1.3), mas é provado pelo
Senhor através de seus próprios argumentos legalistas.
13
Em outra situação Jesus agrupa os mandamentos formando um só (Mt 22.35-40; Mc 12.28-32 com base em Dt 6.5; Lv 19.18).
Se considerarmos que o amor tem quatro aspectos (coração, alma, forças e entendimento ou inteligência – como aqui e em Mc
12.30), ou apenas três (Dt 6.5; Mt 22.37; Mc 12.33), o princípio maior a ser observado é a ampla e irrestrita dedicação do nosso
ser a Deus. Esses dois mandamentos resumem toda a Lei (Rm 13.9). Como – após a Queda (Gn 3) – tornou-se impossível ao ser
humano, cujo pecado habita no coração, atingir esse padrão; Cristo o fez por nós: a dupla Lei do Amor (1Jo 4.7-19).
14
O advogado busca demonstrar o valor de sua questão. No entanto, oferece ainda mais elementos para que Jesus destrua
os argumentos da Lei e revele a verdade da Graça. A autojustificação ambicionada pelo mais rigoroso fariseu (18.9-14; Fp 3.6)
é negada na parábola do Bom Samaritano. A justiça do sacerdote, que representa a suprema autoridade religiosa, e a do levita
(que trabalhavam em parceria no templo a serviço de Deus) ainda que zelosos no cumprimento da Lei, omitem o verdadeiro
“amor de Deus” (11.42) e passam “de largo” (pelo outro lado da estrada) para evitar um contato frontal com aquele ser humano
(semelhante e próximo) mortalmente ferido.
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1505 LUCAS 10, 11
do chegou ao lugar, observando aquele
homem, passou de largo.
33
Mas um samaritano, estando de via-
gem, chegou onde se encontrava o ho-
mem e, assim que o viu, teve misericór-
dia dele.
15
34
Então, aproximou-se, enfaixou-lhe as
feridas, derramando nelas vinho e óleo.
Em seguida, colocou-o sobre seu próprio
animal, levou-o para uma hospedaria e
cuidou dele.
35
No dia seguinte, deu dois denários ao
hospedeiro e lhe recomendou: ‘Cuida
deste homem, e, se alguma despesa tiver-
des a mais, eu reembolsarei a ti quando
voltar’.
36
Qual destes três te parece ter sido o
próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes?
37
Declarou-lhe o advogado da Lei: “O
que teve misericórdia para com ele!” Ao
que Jesus lhe exortou: “Vai e procede tu
de maneira semelhante”.
A adoração de Marta e Maria
38
Caminhando Jesus e os seus discípu-
los, chegaram a um povoado, onde certa
mulher chamada Marta o recebeu em
sua casa.
16

39
Maria, sua irmã, fcou sentada aos pés
do Senhor, ouvindo o que Ele ensinava.
40
Marta estava inquieta, ocupada com os
muitos afazeres. E, aproximando-se de Je-
sus inquiriu-lhe: “Senhor, não te importas
de que minha irmã tenha me deixado só
com todo o serviço? Peça-lhe, portanto,
que venha ajudar-me!”
41
Orientou-lhe o Senhor: “Marta! Mar-
ta! Andas ansiosa e te afiges por muitas
razões.
42
Todavia, uma só causa é necessária.
Maria, pois, escolheu a melhor de todas,
e esta não lhe será tirada”.
O ensino de Jesus sobre a oração
(Mt 6.5-15; 7.7-12)
11
Certa ocasião, Jesus estava orando
em um determinado lugar; quan-
do concluiu, um dos seus discípulos lhe
solicitou: “Senhor, ensina-nos orar, assim
como João ensinou aos discípulos dele”.
1

2
Então, Ele passou a ensiná-los: “Quan-
do orardes, dizei: Pai! Santifcado seja o
teu Nome; venha o teu Reino;
2
3
o pão nosso de cada dia, continua nos
dando hoje e sempre.
4
Perdoa-nos os nossos pecados, pois assim
também devemos perdoar a todos que er-
15
Jesus usa de certa ironia ao eleger como o benfeitor da história um samaritano. Considerado pelos judeus da época como
o mais asqueroso dos hereges, excluído do direito de ser “próximo” do judeu, um pecador tanto em relação à doutrina como à
prática da religião (Jo 4.20); mesmo assim, era capaz de compadecer-se e ter misericórdia de um inimigo necessitado, sacrifican-
do-se e pagando alto preço para salvá-lo. Dois denários de prata correspondiam a dois dias de trabalho e eram suficientes para
custear cerca de dois meses numa hospedaria. Uma ilustração clara da obra de Cristo por nós (Rm 5.8).
16
Maria e Marta eram irmãs de Lázaro (Jo 11; 12.1-3), grandes amigos de Jesus. Viviam em Betânia, um povoado que ficava a
uma distância de quatro quilômetros de Jerusalém. Jesus ensina a Marta, e a nós, que frequentemente aplicamos nossas forças
e preocupações na performance (realizar, conquistar). Quando o correto, mais sábio e proveitoso é empenhar nossos sentidos a
ouvir e adorar o Senhor, assim como fez Maria. Esse princípio oferece o equilíbrio ideal em relação ao estímulo para o serviço que
aprendemos com a parábola do Bom Samaritano. Em vez da preocupação e ansiedade pelo servir um banquete digno do Senhor,
um prato seria suficiente; e Maria preferiu o banquete espiritual aos pés de Cristo: a melhor causa (At 6.2,4; Mc 10.45; Jo 4.32-34).
Capítulo 11
1
Jesus conversava (orava) com Deus costumeiramente (5.16; Mt 14.23; Mc 1.35) e, mais ainda em ocasiões especiais, como
em seu batismo (3.21), na escolha dos seus apóstolos (6.12), no Getsêmani (22.41). Os discípulos observaram essa prática
devocional e disciplina espiritual de Jesus e quiseram aprender como estabelecer esse nível de comunicação com Deus. Diante
desse desejo manifestado pelos discípulos, Jesus nos ensina um modelo de oração e não um mantra ou reza repetitiva. Por isso
temos uma sugestão em Mateus (Mt 6.9-13) no Sermão no Monte, e outra, de forma resumida, aqui.
2
Jesus ensina que devemos iniciar nossas orações expressando a mesma intimidade, carinho e respeito que uma criança
amorosa e obediente tem por seu pai. Mais uma vez Jesus faz um jogo com as palavras para demonstrar o quanto é fácil con-
fundir “religião formal” com “adoração sincera”. Jesus afirma que devemos nos dirigir a Deus como Abba (em aramaico, papai
ou paizinho querido – Mc 14.36; Rm 8.15. Gl 4.6), denotando assim o verdadeiro sentimento que há no coração de Deus para
com seus filhos. Sentimento este que deveria igualmente inundar nossa alma e que nos ajudaria a compreender melhor a pessoa
do Senhor e seu modo de agir na história. Os líderes religiosos judeus costumavam iniciar suas preces com a palavra hebraica
transliterada Abinu com o acréscimo de alguma expressão que significasse que Deus estava no céu. Este tipo de formalismo e
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1506 LUCAS 11
ram contra nós. E não nos deixes sucumbir
à tentação, mas livra-nos do Maligno”.
3
A parábola do amigo insistente
5
E acrescentou-lhes Jesus: “Imaginai que
um de vós tenha um amigo e que preci-
se recorrer a ele à meia-noite e lhe peça:
‘Amigo, empresta-me três pães,
6
porque um amigo meu acaba de che-
gar de viagem, e não tenho nada para lhe
oferecer’.
7
E o que estiver dentro da casa lhe res-
ponda: ‘Não me incomodes. A porta já
está fechada, e eu e meus flhos já esta-
mos deitados. Não posso me levantar e
dar-te o que me pedes’.
8
Eu vos afrmo que, embora ele não se
levante para dar-lhe o pão por ser seu
amigo, por causa da insistência se levan-
tará e lhe dará tudo o que precisar.
Jesus ensina perseverança na oração
(Mt 7.7-11)
9
Portanto, vos asseguro: Pedi, e vos será
concedido; buscai e encontrareis; batei e
a porta será aberta para vós.
10
Pois todo o que pede recebe; o que bus-
ca encontra; e a quem bate se lhe abrirá.
11
Qual pai, dentre vós, se o flho lhe
pedir um peixe, em lugar disso lhe dará
uma cobra?
12
Ou se pedir um ovo, lhe dará um es-
corpião?
13
Ora, se vós, apesar de serdes maus, sa-
beis dar o que é bom aos vossos flhos,
quanto mais o Pai que está nos céus
dará o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem!”
4
Uma casa dividida não prospera
(Mt 12.22-32; Mc 3.20-30)
14
De outra feita, Jesus expulsou um de-
mônio que estava mudo. Assim que o de-
mônio saiu, o homem falou, e a multidão
fcou maravilhada.
15
Entretanto, alguns deles O censuraram:
“Ora, ele expulsa os demônios pelo poder
de Belzebu, o príncipe dos demônios!”
protocolo – jamais requerido por Deus – tendia a colocar o ser humano numa posição de quase inacessibilidade a Deus. Um
tipo de relacionamento parecido com o que os pagãos tinham com seus deuses, e por isso precisavam lhes oferecer sacrifícios,
autoflagelos e mantras infindáveis a fim de obter um pouco da atenção e graça divinas.
3
Depois de certificar-se de que pode chamar a Deus de Pai (Jo 1.12), o discípulo deve exaltar o nome do Senhor. Os nomes
na antiguidade judaica tinham um significado intrínseco muito maior do que nos dias de hoje que resumia a totalidade do caráter
de uma pessoa. Por isso, Jesus mudou o nome de algumas pessoas quando foram convertidas, pois suas filosofias de vida (a
maneira de pensar e viver) haviam sido completamente alteradas ao se tornarem seguidoras de Cristo. Deus é Pai, que significa o
Criador: Aquele que dá origem ao ser humano. É nosso “paizinho” mas também é nosso Senhor, esse é o caráter de Deus (amor
e justiça) e merece toda a nossa reverência (de alma). Expressamos o Deus que vive em nós através de nossas atitudes (1Pe
1.14-21; 3.15). Logo em seguida, enquanto ora, o discípulo deve almejar a implantação do Reino de Deus na terra. Esse alvo de
Jesus deve ser a missão dos seus discípulos: que todos os povos, raças e culturas, sejam contemplados com a Salvação e que
um sistema global de amor e justiça permeie toda a terra (Mt 28.18-20). Devemos orar, pois essa missão cumpre-se parcialmente
quando uma pessoa aceita a Jesus como seu Salvador e Senhor pessoal, mas ainda esperamos pela total e perpétua remissão
de toda terra, quando Cristo voltar em glória. A oração continua, e agora o discípulo está pronto para, reconhecendo que Deus
é quem provê o sustento diário e eterno (em grego epiousion, que significa, “dia a dia”, “cotidiano”, “para amanhã e depois”),
suplicar agradecido pela provisão de amanhã enquanto coloca mãos à obra. Seu trabalho não visa apenas ganhar o sustento,
mas sim prestar glória ao Senhor e dar testemunho ao mundo (Jo 6.35 e 4.32 com Pv 30.8 e Ap 19.9). Esta perspectiva cristã do
trabalho faz toda a diferença. O pecado é considerado como uma dívida que precisa ser paga. Deus é o Criador de toda a terra e
da humanidade, portanto, tudo o que somos e temos pertence a Deus. Quando desobedecemos ao Senhor, estamos roubando
os direitos de Deus e ficamos em pecado (em dívida). Assim como o Senhor provê diariamente recursos para nosso sustento,
também nos oferece seu perdão em Jesus Cristo. Da mesma maneira, devemos estar dispostos a perdoar nossos semelhantes
todos os dias. Viver a vida cristã dentro desse padrão é correr o risco de ser tentado (em grego peirasmos que também significa
um tipo de “teste” ou “prova”) a todo o momento. Deus não “tenta” a ninguém, mas “prova” a todos os seus filhos (Mt 9.1; 6.9-15;
Dt 8.1-5; Tg 1.13; Hb 2.17); Jesus está nos ensinando a ficar alertas e fugir das inúmeras ciladas do Inimigo, que tem o objetivo
de nos persuadir a viver abaixo do padrão moral de Deus para nos condenar (1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22) e com isso,
neutralizar nossa missão de testemunharmos e implementarmos o Reino de Deus no mundo.
4
Lucas é o evangelho da oração e nos revela o apelo de Jesus para que sejamos ousados e perseverantes na oração (vs. 5-8),
nos oferecendo total garantia de que Deus responde às nossas súplicas (vs. 9-13). O argumento é que se nós que estamos sob a
influência do pecado universal (13.1-9), ainda assim, somos amorosos para com nossos filhos, quanto mais o Pai da humanidade
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1507 LUCAS 11
16
E outros ainda, apenas para prová-lo,
pediam dele um sinal do céu.
5
17
Mas, conhecendo Ele o que se lhes
passava pela mente, afrmou-lhes: “Todo
reino dividido contra si mesmo será ar-
ruinado; da mesma forma que uma casa
dividida contra si mesma ruirá.
18
Ora, se assim também Satanás estiver
dividido contra si mesmo, como é possí-
vel que seu reino subsista? Expresso-me
desta forma pois dizeis que Eu expulso
demônios por Belzebu.
19
Sendo assim, se Eu expulso demônios
por Belzebu, por quem os expulsam vos-
sos flhos? Por isso, eles mesmos serão os
vossos juízes.
20
Todavia, se é pelo dedo de Deus que
Eu expulso os demônios, então, com
toda certeza, é chegado o Reino de Deus
sobre vós.
21
Quando um homem forte, bem ar-
mado, guarda sua casa, seus bens estão
seguros.
6

22
Mas, quando alguém mais forte o ataca
e o vence, tira-lhe a armadura em que con-
fava e divide os bens que lhe restaram.
23
Toda pessoa que não está comigo, con-
tra mim está, e aquele que comigo não
ajunta, espalha.
7
A maneira de agir de Satanás
(Mt 12.43-45)
24
Quando um espírito sai de uma pes-
soa, passa por lugares áridos procurando
refrigério, mas não o encontrando, então
cogita: ‘Voltarei para a casa de onde saí’.
25
Assim que chega, encontra a casa var-
rida e em ordem.
26
Então vai e traz outros sete espíritos
piores do que ele, e entrando passam a
viver ali. E a situação fnal daquela pes-
soa torna-se pior do que a primeira”.
8
Felizes os que recebem a Palavra
27
Entrementes, enquanto Jesus comunica-
va esses ensinos, uma mulher da multidão
exclamou: “Bem-aventurada aquela que te
deu à luz, e os seios que te amamentaram!”
28
Ele, porém, afrmou: “Antes disso, mais
felizes são todos aqueles que ouvem a Pa-
lavra de Deus e lhe obedecem”.
9

O sinal de Jonas
(Mt 12.38-42)
29
Enquanto as multidões convergiam em
sua direção, Jesus passou a admoestar-lhes:
“Esta é uma geração perversa! Pede um si-
nal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será
concedido, a não ser o sinal de Jonas.
10
fica feliz em presentear seus filhos com os dons espirituais, sendo o primeiro e maior deles o dom da Salvação (1Co 12.13). Todo
crente em Jesus tem o Espírito Santo (At 1.8; Gl 5.22), mas quando pedimos para que o Espírito dirija nossas vidas abrimos a
alma para sua maravilhosa e completa ação (Ef 4.30 com 1Ts 5.19).
5
O sinal que tanto buscavam estava diante deles. Jesus acabara de expulsar o Mal e curar aquele homem cego, surdo e mudo
(Mt 2.22-30; Mc 3.20-27). Mas, os olhos dos legalistas, obscurecidos pelo pecado, não podiam enxergar as maravilhas realizadas
por Jesus em palavras e atitudes. Ao afirmar que Jesus exorcizava sob o poder do inferno (Mt 12.24), não compreendiam que
aquele esconjuro era a maior prova que Jesus agia pelo poder de Deus, pois que o reino do mal não está dividido. Os demônios
não lutam entre si, somente os homens agem assim. A expulsão do demônio evidencia a chegada do Reino de Deus e a derrota
do príncipe deste mundo.
6
O Reino de Deus havia chegado no sentido de o Rei estar presente na pessoa de Cristo (4.43) e de os poderes do mal estarem
sendo vencidos. O Diabo (também chamado de “valente” ou “homem forte”) prende e escraviza a todos que consegue dominar,
mas somente até a chegada de Jesus, que tem plena autoridade e poder para destruí-lo; bem como aos seus exércitos e resgatar
a humanidade (Cl 1.13; 2.15; Hb 2.14).
7
A neutralidade no Reino de Deus é inaceitável e impossível. Quem não apoia sinceramente a Jesus, seus ensinos e Igreja,
opõem-se ao Senhor. Entretanto é preciso cuidado para não censurar os que estão do lado de Cristo como se não estivessem.
Aquele obreiro citado em 9.50 não era membro do grupo dos Doze, nem dos setenta e dois, mas fazia a obra em nome de Jesus
e o Senhor não o condenou (Mc 9.38-39).
8
O ministério dos exorcistas judeus era ineficaz (v.19), pois afugentavam os demônios por algum tempo, mas não aceitavam o
Reino de Deus em seus corações (Mt 12.43-45). Quando uma pessoa é liberta da opressão do mal deve abrir seu coração para
que seja cheio do Espírito Santo de Deus: a única maneira de viver livre do controle do Diabo. Uma vida reformada, mas sem a
presença do Espírito Santo fica sujeita a ser novamente tomada pelo mal.
9
Maior privilégio do que ser a própria mãe de Jesus e compartilhar da humanidade de Deus é compreender e aceitar a men-
sagem salvadora de Jesus Cristo e participar do seu corpo espiritual (Tg 1.22).
10
O profeta Jonas ficou três dias “sepultado” no interior de um grande peixe e depois voltou à terra de Israel. Desta mesma
forma, Jesus seria ressuscitado depois de três dias do seu sepultamento (Mt 12.40; Jo 14.11; Jn 3.4).
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1508 LUCAS 11
30
Porquanto, assim como Jonas foi sinal
para os ninivitas, o Filho do homem o
será para esta geração.
31
A rainha do Sul se levantará, no dia do
Juízo, juntamente com os homens desta
geração e os condenará, pois ela veio dos
confns da terra para ouvir a sabedoria
de Salomão.
32
A população de Nínive se levantará, no
dia do Juízo, com esta geração e a con-
denará; pois eles se arrependeram com a
pregação de Jonas. Contudo, agora aqui
está quem é maior do que Jonas.
11
A parábola da candeia
(Mt 6.22-23)
33
Ninguém acende uma candeia e a coloca
em lugar onde fque escondida, nem debai-
xo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a
num local apropriado, para que os que en-
tram na casa possam ver seu luminar.
34
São os teus olhos a luz do teu corpo;
se teus olhos forem humildes, todo o teu
corpo será cheio de luz. Porém se teus
olhos forem malignos, todo o teu corpo
estará tomado pelas trevas.
12

35
Certifca-te, pois, que o fulgor que há
no teu interior não sejam trevas.
36
Portanto, se todo o teu corpo estiver
pleno de luz, sem ter nenhuma parte
dele em trevas, então ele estará verdadei-
ramente iluminado, assim como quando
a luz de uma forte candeia resplandece
sobre vós”.
Jesus condena a hipocrisia religiosa
37
Ao concluir essas palavras, um fariseu
o convidou para comer em sua compa-
nhia. Jesus, aceitando, foi e reclinou-se
junto à mesa conforme o costume.
13
38
Entretanto, o fariseu, notando que Je-
sus não se lavara de acordo com a tradi-
ção cerimonial que antecede às refeições,
fcou surpreso.
39
Então o Senhor lhe declarou: “Vós, fa-
riseus, purifcais o exterior do copo e do
prato; mas vosso interior está entulhado
de avareza e perversidade.
40
Insensatos! Aquele que criou o exterior
não criou igualmente o interior?
14
41
Portanto, dai ao necessitado do que
está dentro do prato, e vereis que tudo
vos será purifcado.
15
42
Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o
dízimo da hortelã, da arruda e de todas
as hortaliças e desprezais a justiça e o
amor de Deus; devíeis, contudo, praticar
essas virtudes, sem deixar de proceder
daquela forma.
43
Ai de vós, fariseus! Pois amais os luga-
res de honra nas sinagogas e as saudações
em público!
11
Gentios, como a rainha de Sabá (1Rs 10.1-10) e os ninivitas, testemunharão, no juízo, contra os incrédulos judeus; porque, ao
perceberem um pouco da glória de Deus, não endureceram ainda mais seus corações e se arrependeram de seus pecados. Entre-
tanto, os judeus estavam diante do fulgor da luz divina irradiada de Jesus Cristo e não conseguiam ver o Reino e a glória de Deus.
Todos têm alguma luz; todavia, a responsabilidade aumenta, conforme a intensidade da luz do evangelho (Jo 1.9; Rm 1.20; 2.5).
12
As pessoas que pedem sinais não precisam de mais luz e sim de ampliar sua percepção, a capacidade de ver e analisar
com olhos espirituais. A candeia tem o poder de iluminar todos aqueles que se aproximam dela, tanto mais quanto mais perto
estiverem. A luz de Cristo e de Sua Igreja jamais será apagada, mas continuará brilhando até os confins da terra, oferecendo a
oportunidade da Salvação a todos os povos, raças e culturas; atraindo para Si todos os que têm “olhos bons” (abençoados por
Deus), fazendo-os ingressarem no Reino e participarem da fulgurante luz de Cristo.
13
A expressão “fariseus” significa em hebraico “os separados”, e era usada para identificar uma seita político-religiosa que
lutava pela segregação da cultura judaica. Eles aguardavam a vinda de um Messias político, que obrigasse o povo a seguir todas
as leis e ordenanças da tradição rabínica e legalista criada por eles para explicar o AT. O ato cerimonial de se lavar (verbo grego:
baptizõ) várias vezes antes das refeições, não era ordenado na Lei, mas fora acrescentado pelos fariseus (Mt 7.3; Mt 15.9).
14
A mais perigosa insensatez é pensar que Deus se preocupa mais com as cerimônias exteriores do que com o sentimento
sincero da alma humana (Is 1.10-17). Jesus nos adverte para que não tentemos ser mais reais do que o Rei em nossos proce-
dimentos e relacionamentos. Os fariseus estavam dando muito mais atenção a formas rígidas de comportamento do que a uma
vida moral limpa e generosa para com Deus e os nossos semelhantes (Mc 7.20-23).
15
O amor sincero ao próximo, que se reflete em atitudes práticas e concretas de respeito, solidariedade e cooperação, é um
dos mais significativos atos de purificação espiritual e adoração a Deus. Os líderes religiosos e políticos devem ter muito cuidado
com a demagogia, pois é comum falarem do que não fazem. Exortam o povo às atitudes humanitárias e projetos sociais; contudo,
eles próprios não se desprendem de seus bens materiais, amor ao poder, egoísmo e vaidades (19.8).
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1509 LUCAS 11
44
Ai de vós, porque sois como sepulturas
que não são vistas, por sobre as quais os
homens andam sem o saber!”
16
Ai dos doutores da Lei!
45
Então, um dos advogados da Lei ad-
vertiu a Jesus: “Mestre, quando dizes es-
sas palavras, também nos ofendes a nós
outros!”
46
Todavia, Ele afrmou: “Ai de vós tam-
bém, advogados da Lei! Porque sobrecar-
regais as pessoas com fardos que difcil-
mente podem carregar; no entanto, vós
mesmos não levantais um só dedo para
ajudá-las.
17

47
Ai de vós! Porque edifcais os túmulos
dos profetas, sendo que foram os vossos
próprios antepassados que os assassina-
ram.
48
Assim, sois testemunhas e aprovais com
cumplicidade essas obras dos vossos an-
tepassados; porquanto eles mataram os
profetas, e vós lhes edifcais os túmulos.
49
Por isso, também, Deus advertiu em
sua sabedoria: ‘Eu vos enviarei profetas e
apóstolos, dos quais assassinarão alguns,
e a outros perseguirão’.
50
Pelo que, esta geração será considera-
da responsável pelo sangue de todos os
profetas, derramado desde o início do
mundo:
18
51
desde o sangue de Abel até o sangue de
Zacarias, que foi morto entre o altar e o
santuário. Sim, Eu vos asseguro, contas de
tudo isso deverão ser prestadas por esta
geração!
19
52
Ai de vós, advogados da Lei! Porque vos
apropriastes da chave do conhecimento.
Contudo, vós mesmos não entrastes nem
permitistes que entrassem aqueles que es-
tavam prestes a entrar”.
20
A trama para matar Jesus tem início
53
Enquanto Jesus se afastava dali, começa-
ram os fariseus e os mestres da Lei a criti-
cá-lo com veemência, buscando confundi-
lo acerca de muitos assuntos.
54
Tudo isso para tentar extrair de suas
16
Os judeus costumavam pintar seus túmulos com cal para que ninguém por acidente tropeçasse ou tocasse neles e, dessa
forma, ficasse contaminado ou “imundo cerimonialmente” por sete dias (Nm 19.16; Mt 23.27). Assim como tocar em um túmulo
resultava em “impureza”, Jesus afirma que associar-se aos “fariseus” (aos legalistas) podia levar à “impureza moral” e proclama
três maldições contra isso: Aqueles que colocam as normas e estatutos religiosos acima do amor a Deus (1Co 16.22) e da justiça
(Fp 3.9); aqueles que valorizam a honra e os elogios das pessoas acima da glória de Deus (Jo 12.43); e aqueles que contaminam
seus semelhantes ao invés de conduzi-los a Jesus Cristo e, portanto, à Salvação (Hb 12.15 com Tg 5.20).
17
Os advogados da Lei (peritos e intérpretes da Lei) sobrecarregavam o povo com regras e regulamentos acrescentados à Lei
original de Moisés (Mt 15.2), sem nada fazer para ajudar as pessoas a guardar essas leis (Mt 23.4). De outro lado, eles estavam
criando atalhos legais e normas especiais para se safarem incólumes da necessidade de eles próprios terem que cumprir tais
leis. Esses “homens da lei” eram demagogos. Honravam a memória dos profetas construindo ou reformando seus túmulos e
monumentos; porém, no íntimo e na prática, rejeitavam a Cristo e a proclamação dos ensinos dos profetas, da mesma maneira
como acontecera com seus antepassados.
18
O genocídio ocorrido em Israel entre os anos 66 e 70 d.C. foi o cumprimento dessa terrível advertência profética. Os exércitos
romanos dizimaram impiedosamente quase toda a nação judaica (21.20-24). Esse é um dos eventos históricos que demonstra a
implacável justiça de Deus contra aqueles que rejeitam seu conselho e mandamentos. Pior ainda será o castigo contra aqueles
que rejeitarem o Filho de Deus (20.14).
19
Os judeus suplicaram por profetas de Deus, mas quando eles chegaram – a exemplo de Jesus – foram perseguidos, injuria-
dos e assassinados. O sangue inocente de cada um desses homens de Deus será requerido pelo Senhor dessa geração incrédu-
la e perversa. Abel foi o primeiro servo do Senhor martirizado (Gn 4.8), considerado por Jesus como profeta. A morte de Zacarias
foi a última morte de um profeta do AT, levando em conta a sequência dos livros na ordem hebraica tradicional, começando com
o Gênesis e terminando em 2 Crônicas (2Cr 24.21-22). Jesus está afirmando que o sangue de todos aqueles que sofreram e
foram mortos por sua fidelidade a Deus seria requerido. As contas desses atos criminosos seriam prestadas pela geração que
compartilhou plenamente das atitudes que levaram a efeito a morte dos profetas (incluindo o próprio Filho de Deus).
20
O “Ai” final de Jesus vai para os escribas (advogados e intérpretes da Lei) e teólogos. Aqueles que dominam o conhecimento
e têm a responsabilidade de comunicar o saber à sociedade e apontar o Caminho de Deus ao povo. Tomaram posse da chave
da ciência que destrava o significado mais profundo das Escrituras. Mas, ao invés de tornar simples e prático o viver com Deus,
angustiavam o povo com a imposição de ordenanças e mitos teológicos. Por fim, esses próprios doutores da Lei, transformaram
a Bíblia num livro de obscuridades e foram enredados por suas próprias teorias místicas. Não conseguiam perceber a Graça, a
amplitude e o poder da Palavra de Jesus nem mesmo deixavam prosseguir no Caminho aqueles que se aproximavam da Verdade
(Jo 14.6) e do Reino de Deus.
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1510 LUCAS 11, 12
próprias palavras algum motivo para o
acusarem formalmente.
Os féis devem evitar a hipocrisia
12
Enquanto isso, uma multidão de
milhares de pessoas, aglomera-
va-se, a ponto de pisotearem uma às ou-
tras. Foi quando Jesus começou a ensinar
primeiramente aos discípulos, prevenin-
do-os: “Acautelai-vos com o fermento
dos fariseus, que é a hipocrisia.
1

2
Pois não existe nada escondido que não
venha a ser revelado, ou oculto que não
venha a ser conhecido.
3
Porque tudo o que dissestes nas trevas
será ouvido em plena luz, e o que sus-
surrastes ao pé do ouvido, no interior de
quartos fechados, será proclamado do
alto das casas.
2
Jesus ensina o temor do Senhor
4
Eu vos afrmo, meus amigos: não temais
os que podem matar o corpo; todavia,
além disso, nada mais conseguem fazer.
5
Contudo, Eu vos revelarei a quem de-
veis temer: temei Aquele que, depois de
matar o corpo, tem poder para lançar a
alma no inferno. Sim, Eu vos afrmo, a
esse deveis temer.
3

6
Não se costuma vender cinco pardais
por duas pequenas moedas? Entretanto,
nenhum deles deixa de receber o cuida-
do de Deus.
7
Portanto, até os fos de cabelo da vos-
sa cabeça estão todos contados. Não te-
mais! Valeis muito mais do que milhares
de pardais.
4
Testemunhe sua fé ao mundo
8
Digo-vos mais: todo aquele que me
confessar diante das pessoas, também o
Filho do homem o confessará diante dos
anjos de Deus.
9
No entanto, o que me negar diante dos
homens será negado diante dos anjos de
Deus.
10
Todo aquele que disser uma palavra
contra o Filho do homem será perdoado,
mas quem blasfemar contra o Espírito
Santo jamais receberá perdão.
5

11
Quando vos levarem forçados às sina-
gogas e perante governantes e autorida-
des, não vos preocupeis quanto à manei-
ra que deveis responder, nem tampouco
quanto ao que tiverdes de falar.
12
Porquanto, naquele momento, o Espí-
rito Santo vos ministrará tudo o que for
necessário dizer”.
6
1
Somente Lucas usa a expressão “multidão de milhares” (miríades) de pessoas, que deriva da palavra grega murias (dez mil).
Em Atos 19.19, “cinco miríades” correspondem a 50.000 denários. Entretanto, o termo é frequentemente usado de modo inde-
finido, referindo-se às grandes multidões que seguiam Jesus à toda parte. O fermento é a influência que corrompe (1Co 5.6). O
perigo da hipocrisia e arrogância não se limita aos fariseus e líderes religiosos, mas aos crentes em geral.
2
Nesse contexto, o sentido é que nada há escondido pela hipocrisia e arrogância que não venha a ser, de fato, transparecido ou
dado a conhecer pela convivência e ao longo do tempo. Assim também, como a Palavra de Deus traz à luz os segredos e as verdadei-
ras motivações da alma (Hb 4.12), o juízo final revelará tudo o que não for objeto de confissão, arrependimento e perdão (1Jo 1.9).
3
Durante os tempos de provação e perseguição, a fé dependerá da consciência clara em relação à infinita diferença que há
entre a simples morte física e a morte eterna da alma. Tememos ao Senhor por sua justiça implacável (Tg 4.12), mas nele confia-
mos, pois Ele é amor e governa sobre tudo e todos (Rm 8.28-39). Somente Deus tem em suas mãos o poder da vida e da morte.
Os versos 6 e 7 apresentam os fundamentos da nossa confiança. A palavra grega traduzida aqui por inferno é geenna, e não deve
ser confundida com outra expressão grega hades, que se refere ao nome genérico do lugar dos mortos (Mt 5.22). É importante
notar, que no NT, inferno é usado somente em Mateus, Marcos, nessa passagem de Lucas e em Tiago 3.6.
4
Deus dedica grande cuidado às pequenas criaturas, mesmo àquelas que, em geral, os seres humanos atribuem pouco
interesse e valor. Na época, os pardais faziam parte da alimentação dos pobres. Existem três palavras que denotam moedas
romanas: denarius (Mt 18.28), assarion (Mt 10.29) e kodrantes (ou centavo - Mt 5.26). O lepton era uma moedinha que valia
apenas metade de um centavo.
5
Aqui essa expressão tem uma aplicação mais ampla do que em Mt 12.31 e Mc 3.28,29. Desde os pensadores cristãos dos
primeiros séculos da Igreja (também chamados de “pais da Igreja”), essa passagem é compreendida como sendo uma adver-
tência à imperdoável apostasia daqueles que assumiram um compromisso de fé ao lado de Cristo e da Igreja (Hb 6.4-8), em
comparação com a palavra de rejeição a Cristo, própria daqueles que não têm fé, e, portanto, passível de perdão pela Salvação
ainda disponível a eles.
6
Não existe melhor advogado do que o Espírito Santo, nem melhor defesa do que um coração completamente controlado
pelo Senhor (1Pe 3.15).
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1511 LUCAS 12
Jesus condena a avareza
13
E aconteceu que, nesse ponto, um ho-
mem que estava no meio da multidão lhe
requereu: “Mestre, ordena a meu irmão
que divida comigo a herança”.
14
Porém Jesus lhe replicou: “Homem,
quem me designou juiz ou negociador
entre vós?”
7

15
Em seguida lhes advertiu: “Tende cau-
tela e guardai-vos de toda e qualquer
avareza; porquanto a vida de uma pessoa
não se constitui do acúmulo de bens que
possa conseguir”.
8

A parábola do rico insensato
16
E lhes propôs uma parábola: “As terras
de certo homem rico produziram com
abundância.
17
E ele começou a pensar consigo mes-
mo: ‘Que farei agora, pois não tenho
onde armazenar toda a minha colheita?’.
18
Então lhe veio à mente: ‘Já sei! Derru-
barei os meus celeiros e construirei ou-
tros ainda maiores, e ali guardarei toda a
minha safra e todos os meus bens.
19
E assim direi à minha alma: tens gran-
de quantidade de bens, depositados para
muitos anos; agora tranquiliza-te, come,
bebe e diverte-te!
20
Contudo, Deus lhe afrmou: ‘Tolo!
Esta mesma noite arrebatarei a tua alma.
E todos os bens que tens entesourado
para quem fcarão?’
21
Isso também acontece com quem pou-
pa riquezas para si mesmo, mas não é rico
para com Deus”.
9
Os féis não devem viver ansiosos
(Mt 6.25-34)
22
Então, dirigindo-se aos seus discípu-
los, Jesus os exortou: “Portanto, vos afr-
mo: não andeis preocupados com a vos-
sa própria vida, quanto ao que haveis de
comer, nem muito menos com o vosso
corpo, quanto ao que haveis de vestir.
23
Porquanto a vida é mais preciosa do
que o alimento, e o corpo, mais impor-
tante do que as roupas.
10
24
Observai os corvos, os quais não se-
meiam, nem ceifam, não possuem ar-
mazéns nem celeiros; contudo, Deus os
alimenta. Quanto mais valeis vós do que
as aves!
25
Quem de vós, por mais ansioso que
possa estar, é capaz de prolongar, por um
pouco que seja, a duração da sua vida?
26
Considerando que vós não podeis fa-
zer nada em relação às pequenas coisas
da vida, por que vos preocupais com to-
das as outras?
11
27
Olhai as fores do campo; elas não fam,
nem tecem. Eu, todavia, vos asseguro que
nem mesmo Salomão, em todo o seu es-
plendor, pôde se vestir como uma delas.
28
Ora, se Deus veste assim uma simples
erva do campo, que hoje vive e amanhã é
lançada ao fogo, muito mais dará a vós, ves-
tindo-vos de glória, homens fracos na fé!
7
Jesus não pode mediar um coração dominado pela avareza, para isso já existe a Lei (Dt 21.17), que promulgou a regra geral
de que um filho mais velho receberia o dobro da porção de um filho mais jovem. Essas eram questões comumente ajuizadas
pelos rabinos que, em muitos casos, recebiam uma porcentagem dos acertos firmados. Entretanto, esse homem estava comple-
tamente tomado pelo egoísmo e materialismo e precisava, portanto, em primeiro lugar, arrepender-se para entender as grandes
prioridades do Reino e poder aceitar de bom grado as orientações de Jesus.
8
A vida é muito mais do que possuir. O rico era louco porque não compreendia que as suas posses eram apenas emprestadas
(1Tm 6.17). Ninguém consegue poupar (guardar) as bênçãos de Deus apenas em benefício próprio (1Tm 6.18). A vida terrena
não tem mais valor do que a vida eterna. Conclusão: A única riqueza duradoura é receber o Espírito Santo, guardá-lo no coração
e investir seus dons em benefício do próximo e da sociedade (v.21 e Jo 17.3).
9
Tolo (insensato ou louco) é uma expressão de grande impacto em sua forma original, e procura demonstrar o disparate que há
em buscar segurança nos bens e riquezas deste mundo em detrimento da presença e bênçãos eternas de Deus (11.40 e Ef 5.17).
10
Jesus passa agora a ensinar àqueles que o amam e o seguem a maneira sábia de viver, em contraste com a visão
tresloucada do egoísta e avarento da parábola anterior. Embora nossa visão do futuro deva concentrar-se no Reino de Deus (v.32)
e na vida eterna, a vida terrena é decisiva para determinar nossa condição eterna (Mc 8.35-37).
11
A cada dia os seres humanos se preocupam mais e mais com a manutenção da boa saúde e o prolongamento da vida (Mt
6.27). O medo da morte é inversamente proporcional à certeza da salvação. Contudo, somente o Senhor é capaz de nos fazer
crescer, ainda que alguns centímetros, ou aumentar nossos dias de vida na terra (Is 38.1-8).
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1512
12
A expressão grega zeteite significa muito mais do que “indagar” como aparece em algumas versões. Seu sentido tem a ver
com uma busca obstinada e concentrada: “buscai”. Jesus explica que podemos aplicar todos os nossos esforços em ganhar
o mundo (títulos, bens, poder), ou o Reino de Deus. Aquele, entretanto, que “busca” o reino receberá tanto um quanto outro,
conforme a sua necessidade e o propósito do Pai para cada um dos seus filhos.
13
Desde a Criação o grande desejo do Pai é partilhar seu Reino com seus filhos, por isso, é com muita alegria e satisfação que,
agora, em Cristo, o Senhor pode realizar plenamente sua vontade. Jesus adverte que, nesse sentido, “temor” e “ansiedade” são
características dos incrédulos (verdadeiros “gentios” v.30), mas não dos “filhos” de Deus (minoria fiel). O Reino de Deus começa pela
soberania do Senhor sobre a vida dos seus súditos (Rm 14.17). Para nós, não acostumados aos regimes monárquicos, e com um
sistema político carente de verdadeiros homens e mulheres de Deus, fica um tanto difícil compreender esse tipo de nobre metáfora.
14
Lucas é o evangelista que mais enfatiza a ação social cristã, com vistas a oferecer aos pobres as mesmas condições medianas
da sociedade (3.11; 6.30; 11.41; 14.13,14; 16.9; 18.22; 19.8). Os bens e a riqueza que estiverem impedindo o cristão de buscar e
adentrar o reino devem ser doados aos mais necessitados (Mc 10.21-27; 1Tm 6.9,18). É fácil notar onde está depositado nosso
verdadeiro ideal de vida e paixão: onde nosso coração mais se dedica, cuida e zela.
15
Esse versículo é um resumo da parábola das dez virgens (Mt 25). Algumas versões trazem a frase “cingido esteja o vosso corpo”,
optando, nesse caso, por uma tradução mais literal do original. Essa expressão tem a ver com o antigo costume oriental de amarrar as
longas vestes à altura da cintura, a fim de possibilitar, em caso de necessidade, uma movimentação mais livre e acelerada. Jesus, por
certo, fez uma alusão ao fato dos cristãos deverem estar sempre prontos para servir, livres de qualquer embaraço (1Pe 1.13).
16
O Senhor continuará a ser o grande provedor dos seus servos (filhos e amigos) que se mantiverem “vigilantes”, “despertos”,
“preparados”, “prontos”, em contraste com os que estão “dormindo (mortos) em pecados” (Ef 5.14; 1 Ts 5.10). A morte (v.20) e o
glorioso retorno estão sempre iminentes (vv 36-40). As exigências do reino (atenção, prontidão e vigilância) são relevantes tanto
para os que morrem antes do Juízo como para os que estarão vivos naquele grande dia.
17
O “assaltante” é aquele que vem de sobressalto, repentinamente e surpreendendo a todos. Não há tempo para se preparar, é
preciso viver em condição de prontidão, pois a qualquer momento se dará o “assalto”. Esse era um meio de comunicar o estado
de alerta espiritual aos judeus cristãos, haja vista que o povo judeu sempre viveu – e vive – em estado de contínua atenção e
vigilância em relação aos ataques inimigos (21.34; 1Ts 5.2; 2Pe 3.10; Ap 3.3; 16.15).
18
Tanto as honrarias quanto os castigos, segundo o mérito pelo procedimento de cada um, não aguardam somente os após-
tolos; mas, a todos os servos do Senhor que viverem no intervalo histórico entre a ascensão e o glorioso retorno de Jesus Cristo.
Quanto maiores os privilégios, mais severa será a punição dos infiéis e incrédulos (Rm 2.12-16).
29
Não procurareis, pois, ansiosamente, o
que haveis de comer ou beber; não em-
penhareis o vosso coração nessas preo-
cupações.
12
30
Porquanto o mundo pagão é que pele-
ja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai
sabe perfeitamente que as necessitais.
31
Buscai, pois, em primeiro lugar, o Rei-
no de Deus, e todas as demais coisas vos
serão providenciadas.
32
Nada temais, pequeno rebanho, pois
de bom grado o Pai vos concedeu o seu
Reino.
13
33
Vendei os vossos bens e ajudai os que não
têm recursos; fazei para vós outros bolsos
que não se gastem com o passar do tempo,
tesouro acumulado nos céus que jamais se
acaba, onde ladrão algum se aproxima, e
nenhuma traça o poderá corroer.
34
Por isso, onde estiverem os vossos bens
mais preciosos, certamente aí também
estará o vosso coração.
14

A parábola do servo leal e do infel
35
Estejais prontos para servir, e conser-
vai acesas as vossas candeias.
15
36
Sede vós semelhantes aos servos, quan-
do esperam seu senhor voltar de um ban-
quete de casamento; para que, assim que
chegar e anunciar-se, possais abrir-lhe a
porta sem demora.
37
Felizes aqueles servos a quem o Se-
nhor, quando vier, os encontre vigilantes;
com toda a certeza vos asseguro que Ele
se vestirá para os servir, fará que se re-
clinem ao redor da mesa, e pessoalmente
irá ao encontro deles para servi-los.
16
38
Ainda que Ele chegue durante a alta
noite ou ao raiar do dia, bem-aventu-
rados os servos que o senhor encontrar
preparados.
39
Compreendei, entretanto isto: se o pai
de família soubesse a que hora havia de
vir o assaltante, não permitiria que a sua
casa fosse invadida.
17
40
Ficai também vós alertas, pois o Filho
do homem virá no momento em que
menos o esperais”.
41
Então, Pedro indagou: “Senhor, estás
propondo esta parábola para nós ou para
todas as pessoas?”
18
42
Ao que o Senhor lhe asseverou: “Quem
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1513
19
O galardão pela fidelidade em cumprir a vontade do Senhor será “honra” e “responsabilidade” ainda maiores. Os crentes e
líderes cristãos que levam uma vida sem disciplina no presente, enfrentarão a ira de Deus (Mt 7.15-27).
20
Jesus estabelece um contraste entre os líderes irresponsáveis (vv 45-47), e os demais cristãos, mal instruídos que se permi-
tem viver sob a direção do egoísmo, da arrogância e que duvidam das promessas gloriosas; todos receberão o justo castigo no
tribunal de Cristo (2Co 5.10). Certamente haverá um castigo para aqueles que deixam de cumprir seu dever. A responsabilidade
recai sobre aqueles que muito receberam (Am 3.2). As pessoas não serão castigadas apenas pelo mal que praticaram, mas
também pelo bem que deixaram de fazer (Tg 4.17). O fato de não conhecer a Palavra ou a ignorância não podem ser usados
como desculpa para evitar a punição futura, pois não existe ignorância moral absoluta (Rm 1.20; 2.14,15), e nossa ignorância faz
parte de nosso pecado.
21
Aqui o “fogo” é uma metáfora do Juízo que começou a “arder” na crucificação de Jesus Cristo. Jesus afirma também que
suportará o julgamento de Deus no lugar dos crentes, e estabelece um forte vínculo entre “batismo” e “morte” (Mc 10.38-39 e
1Jo 5.6-8). Jesus contemplava com horror o momento da cruz, mas com submissão total e resoluta à sua inevitável missão de
salvar a humanidade. Por isso, seu Espírito foi derramado com poder sobre todos os crentes (At 1.8; 2.1). Entretanto, aqueles que
rejeitarem o seu sacrifício e apelo serão condenados ao juízo do fogo eterno (3.16; Mt 25.46).
22
O poente ficava na direção do mar Mediterrâneo (1Rs 18.44). Os ventos do sul sopravam do deserto do Neguebe e tra-
ziam muito calor. Embora as pessoas, desde a antiguidade, soubessem compreender e usar esses indicadores atmosféricos
para prever climas, estações e tempos, não conseguiam perceber a gravidade da sua incredulidade e dos próprios pecados,
é, portanto, o administrador fel, que age
com bom senso, a quem seu senhor en-
carrega dos seus servos, para ministrar-
lhes sua porção de alimento no tempo
devido?
43
Feliz o servo a quem o seu senhor sur-
preender agindo dessa maneira quando
voltar.
44
Asseguro-vos que Ele o encarregará de
todos os seus bens.
45
Todavia, imaginai que esse servo pense
consigo mesmo: ‘Meu senhor tarda de-
mais a voltar’, e por isso comece a agredir
os demais servos e servas, entregando-se
à glutonaria e à embriaguez.
46
Entretanto, o senhor daquele servo
voltará no dia em que ele menos espera e
num momento totalmente imprevisível
e o punirá com todo o rigor e lhe conde-
nará ao lugar dos inféis.
19
47
Aquele servo que conhece a vontade de
seu senhor e não prepara o que ele dese-
ja, nem age para agradá-lo, será castigado
com extrema severidade.
48
Contudo, aquele que não conhece a
vontade do seu senhor, mas praticou o
que era sujeito a castigo, receberá poucos
açoites. A quem muito foi dado, muito
será exigido; e a quem muito foi confa-
do, muito mais ainda será requerido.
20
Jesus veio trazer fogo à terra
49
Eu vim para trazer fogo sobre a ter-
ra e como gostaria que já estivesse em
chamas!
21
50
Tenho, porém, que passar por um ba-
tismo; e muito me angustio até que ele
se consuma!
51
Pensai que Eu vim para trazer paz à
terra? Não, Eu vo-lo asseguro. Ao contrá-
rio, vim trazer separação!
52
De agora em diante haverá cinco em
uma família, todos divididos uns contra
os outros: três contra dois e dois contra
três.
53
Estarão em litígio pai contra flho e
flho contra pai, mãe contra flha e flha
contra mãe, sogra contra nora e nora
contra sogra”.
Discernindo o fnal dos tempos
54
Então admoestava Ele à multidão:
“Quando vedes surgir uma nuvem na
direção do pôr-do-sol, logo dizeis que é
sinal de chuva, e, de fato, assim ocorre.
55
Também, quando sentis soprar o vento
sul, proclamais: ‘Haverá calor!’, e aconte-
ce como previstes.
56
Hipócritas! Sabeis muito bem inter-
pretar os sinais da terra e do céu. Como
não conseguis discernir os sinais do tem-
po presente?
22
Buscar a paz enquanto há tempo
57
E por que não julgais também por vós
mesmos o que é justo?
58
Quando um de vós estiver caminhan-
do com seu adversário em direção ao
magistrado, fazei tudo o que estiver ao
vosso alcance para se reconciliar com
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a importância histórica daqueles momentos em que Deus andou sobre a terra na pessoa de Cristo, a chegada do Reino de
Deus, e muito menos, o terrível julgamento que se avizinhava com o massacre do povo judeu pelos exércitos de Roma e suas
consequências eternas.
23
Jesus nos ensina que acima das tradições religiosas e dos sistemas de leis de um povo, está a Palavra de Deus. Os sinais
dos tempos eram nítidos (como o são hoje) e uma decisão radical e urgente de arrependimento e volta à Palavra se fazia neces-
sária, mas as pessoas não conseguiam ver o terrível furacão do juízo tomando forma. É preciso acertar as contas antes que seja
tarde demais. A expressão grega lepton foi traduzida como “último centavo” e representava uma pequena moeda de cobre ou
bronze cujo valor correspondia à metade da kodrantes (um centavo).
Capítulo 13
1
Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, contemporâneo dos apóstolos de Cristo, em sua obra “Antiguidades”, os galileus
eram conhecidos como insurgentes, e Pilatos, por sua crueldade ilimitada.
2
Na antiguidade, especialmente no AT, acreditava-se que grandes desgraças aconteciam aos crentes que cometiam grandes
pecados. Esse, por exemplo, foi o argumento de alguns dos amigos de Jó (Elifaz em Jó 4.7; 22.5). Jesus, porém, adverte aos que
se acham “justos” sobre o pecado da arrogância espiritual e da auto-suficiência (18.9-14), pois não percebem a sua necessidade
de arrependimento diário. O pecado é inerente ao ser humano desde a Queda (Gn 3); contudo, Deus não usa o castigo conforme
a lógica humana (Jo 9.1,2).
3
Somente Lucas, em toda a Bíblia, cita esse acontecimento, observado por Jesus para lembrar a doutrina do pecado original
e a necessidade que todos temos de arrependimento.
4
Essa parábola tem um sentido muito amplo, pode referir-se a Israel como também a cada um de nós (Mc 11.14).
5
Os três anos citados por Jesus nessa parábola representam um período de vários séculos de graça e oportunidade que Deus
garantiu a Israel por ocasião da Aliança e que culminaram com a chegada e a proclamação do Evangelho (Cristo).
6
Deus exige frutos e não simplesmente folhas; vida e não somente palavras e promessas (Mt 7.21-27). A aparente demora no
juízo não significa indiferença ou inoperância, pelo contrário, é Deus usando de sua incomensurável paciência e bondade, na
esperança do fruto de arrependimento (3.8 com 2Pe 3.4-10). Todavia, mais cedo ou mais tarde a lâmina do machado da justiça
punitiva de Deus cairá com severidade sobre toda raiz de vida inútil, a qual não aceitou o enxerto da nova vida em Jesus (Mt 7.16;
ele; isso para que ele não vos conduza
ao juiz, e o juiz vos entregue ao ofcial
de justiça, e o ofcial de justiça vos jogue
no cárcere.
59
Eu vos asseguro que não saireis da
prisão enquanto não pagardes o último
centavo devido”.
23
Os impenitentes perecerão
13
Naquela mesma época, alguns
dos que estavam presentes foram
dizer a Jesus que Pilatos havia misturado
o sangue de alguns galileus com os pró-
prios sacrifícios que ofereciam.
1
2
Ao que Jesus lhes advertiu: “Julgais que
esses galileus fossem mais pecadores do
que todos os demais galileus, por have-
rem sofrido dessa forma?
3
Pois Eu vos asseguro que não! Todavia,
se não vos arrependerdes, todos vós, se-
melhantemente perecereis.
2

4
Ou pensais vós, que aquelas dezoito
pessoas, sobre as quais desabou a torre de
Siloé e as matou eram mais culpadas que
todos os outros habitantes de Jerusalém?
5
Com certeza não eram, Eu vo-lo afrmo.
Porém, se não vos arrependerdes, todos
vós, da mesma maneira perecereis.
3

A parábola da fgueira estéril
6
Em seguida, Jesus lhes propôs a seguin-
te parábola: “Certo homem possuía uma
fgueira cultivada em meio a uma gran-
de plantação de videiras; contudo, vindo
procurar fruto nela, não encontrou nem
ao menos um.
4

7
E, por isso, recomendou ao vinicultor:
‘Este é o terceiro ano que venho buscar
os frutos desta fgueira e não acho. Sen-
do assim, podes cortá-la! Para que está
ela ainda ocupando inutilmente a boa
terra?’.
5
8
O vinicultor, porém, lhe rogou: ‘Se-
nhor, deixa-a ainda por mais um ano, e
eu cuidarei dela, cavando ao seu redor e
a adubando.
9
Se vier a dar fruto no próximo ano,
muito bem; caso contrário, mandarás
cortá-la!’”.
6

Uma mulher é curada no sábado
10
Aconteceu em certo sábado, quando
Jesus estava ensinando numa das sina-
gogas,
11
que se aproximou uma mulher possu-
ída há dezoito anos por um espírito de
enfermidade que a mantinha doente. Ela
LUCAS 12, 13
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1515
Rm 11.16-24; Cl 1.6,10). O juízo deveria ter caído sobre Israel imediatamente após a crucificação do Filho de Deus, entretanto, o
Senhor concedeu – a pedido do Vinicultor – uma derradeira oportunidade especial que ocorreu entre o Pentecostes e a destruição
completa de Jerusalém (66-70 d.C.).
7
O chefe da congregação dos judeus (sinagoga) preocupou-se mais com sua tarefa de pôr ordem no serviço religioso
(culto) do que com a salvação (cura) de um ser humano (Êx 20.9,10). Passagens anteriores que relatam a dificuldade que
mestres e líderes judaicos tinham em compreender o significado do sábado, revelam a autoridade de Jesus Cristo sobre esse
dia (6.1-11; 14.1-6; Mt 12.1-8,11,12; Jo 5.1-18). Aqui se evidencia o significado do dia do descanso. Desde o princípio, o sábado
(em hebraico transliterado shabbãth – descanso no mais amplo e absoluto sentido da palavra), era profético, relembrando a
reconsagração da Criação à sua finalidade original, o que só se realizará de maneira completa por meio da derrota final de
Satanás (v.16). Essa vitória total é prevista na libertação da mulher de quem foi expulso o espírito de enfermidade (v.11,12),
cuja tradução literal e original da frase de Jesus seria: “foste libertada para permanecerdes livre”. Jesus usou o exemplo vivo
daquela mulher para deixar seu último ensino e a maravilha das suas ações de poder na congregação dos judeus. Jesus jamais
voltaria a uma sinagoga.
8
Jesus exalta o valor da mulher, ressaltando que ela, como todos os homens, é herdeira nacional e espiritual do Pai dos fiéis
(1Pe 3.6) e que, pela fé, viu sua busca de muito anos ser agraciada com o chamado (Jesus a viu e a chamou ao centro da congre-
gação) e o toque salvador (curador) do Senhor (v.12). Os líderes religiosos estavam dando mais valor e respeito aos animais de
carga do que aos seus semelhantes; e, por isso, Jesus afirmou que eram hipócritas, pois fingiam ter zelo pela Lei, mas tramavam
desmoralizá-lo e matá-lo.
9
Tanto nas plantações quanto na cozinha (onde a alimentação é preparada), como no mundo e nas almas humanas, a implan-
tação e o desenvolvimento da nova natureza do reino não podem permanecer ocultos ou tímidos. A vida do Espírito de Deus se
manifestará em todo indivíduo que aceitar a salvação de Jesus, depois se refletirá na congregação dos justificados pelo sangue
do Cordeiro (a Igreja) e, como consequência, afetará e influenciará o mundo todo (Ap 5.9). Em geral, árvores e aves simbolizam
nações, nessa passagem, Israel (Ez 17.23; 31.6; Dn 4.12,21) e os gentios salvos que – em Cristo – terão livre acesso ao Evangelho
e à mesma assembleia dos filhos de Deus (Ef 3.6).
10
No original, a expressão grega três satos significa uma grande quantidade de farinha (pouco mais de 10 quilos). A mesma
quantidade usada por Sara em Gn 18.6. No primeiro século da Igreja, a ignorância dos pagãos (gentios) em relação ao Reino de
Deus em Cristo era quase total. Entretanto, com o passar dos séculos, o Cristianismo se tornou a maior das religiões da terra.
caminhava encurvada, sem condição al-
guma de se endireitar.
12
Ao observá-la, Jesus pediu que viesse à
frente e lhe afrmou: “Mulher, estás livre
da tua enfermidade”.
13
Em seguida, lhe impôs as mãos; e na-
quele mesmo instante ela se endireitou, e
passou a glorifcar a Deus.
14
Entretanto, o dirigente da sinagoga,
indignado ao ver Jesus curando no sá-
bado, admoestou a multidão: “Há seis
dias em que se deve trabalhar; vinde,
portanto, nesses dias para serdes curados
e não no sábado!”
7

15
Então o Senhor exclamou: “Hipócri-
tas! Porventura, cada um de vós não de-
samarra, no sábado, o seu boi ou jumen-
to do estábulo e o leva dali para servir-
lhe água?
16
Sendo assim, por qual motivo não se
deveria libertar, em dia de sábado, esta
mulher, uma flha de Abraão, a quem Sa-
tanás escravizava por dezoito anos?”
8

17
Havendo Jesus pronunciado estas pa-
lavras, todos os seus oponentes se enver-
gonharam. De outro lado, o povo muito
se alegrava diante de todos os sinais mi-
raculosos que estavam sendo realizados
por Jesus.
A parábola do grão de mostarda
(Mt 13.31-32; Mc 4.30-32)
18
Então Jesus os questionou: “Com o
que se assemelha o Reino de Deus? Com
o que o compararei?
19
É parecido com o germinar do grão
de mostarda que uma pessoa semeou
em sua horta. O grão cresceu e se tornou
uma árvore, e as aves do céu armaram
ninhos sobre seus ramos”.
9

A parábola do fermento
(Mt 13.33)
20
Novamente Jesus levanta a questão: “A
que assemelharei o Reino de Deus?
21
É comparável ao trabalho do fermen-
to, que uma mulher misturou com três
medidas de farinha, e toda a massa fcou
levedada!”
10

Estreita é a porta do Reino
22
Mais tarde, seguiu Jesus a percorrer
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1516
11
Em algum momento entre os acontecimentos registrados em 11.1 e 13.21, Jesus partiu da Judéia para iniciar sua ministração
aos povos da Peréia e terras vizinhas (Mt 19.1; Mc 10 e Jo 10.40-42). Embora realizasse grande obra na Peréia e em muitas outras
terras, onde repetiu vários de seus ensinos e prodígios, seus olhos e coração estavam voltados para a Cidade Santa (terra das
profecias), para onde caminhava resoluto, ao encontro do seu destino final nesta terra em benefício da humanidade.
12
No verso 22 começa uma seção que vai até 16.13, com o objetivo de responder a duas questões especiais, que muito
preocupavam os teólogos da época de Jesus e de hoje: “Quem entrará no Reino de Deus?” e “Serão poucos ou muitos os que
terão esse acesso privilegiado?” Apesar das multidões que vinham à procura de curas e outras bênçãos, Jesus não é claro sobre
o número dos salvos, mas adverte que muitos tentariam buscar a salvação (entrar no Reino) depois de ser tarde demais (portas
fechadas). O verdadeiro salvo não é necessariamente o religioso e bem instruído, mas sim aquela pessoa que, arrependida de
sua condição mundana e pecadora, sente o desejo inesgotável de, em Cristo, lutar (no original grego transliterado agõnizõ – con-
centrar toda a atenção e força), pois a porta é estreita e não permite que passemos carregando nosso “Eu” nem o “mundo” (v.24).
Além disso, devemos passar com urgência – sem deixar essa decisão para amanhã – pois poderá não haver mais tempo (2Co
6.2). Imbuídos de toda a santificação, sem a qual não é possível ver o Senhor (Hb 12.14), e cheios do Espírito Santo (Rm 8.4). A
mesa no Reino se refere ao grande banquete messiânico (Mt 22.2; Ap 19.9) onde, para surpresa dos judeus ortodoxos e outros
legalistas, muitos gentios cristãos estarão presentes (Rm 11.11-25).
13
Herodes Antipas não admitia qualquer perturbação ou revolta nas suas terras, e Jesus estava na Transjordânia, que junta-
mente com a Galiléia, fazia parte da sua jurisdição.
14
Jesus refere-se a Herodes como a um animal sanguinário, astuto e traiçoeiro. A expressão “hoje e amanhã” era de uso
corrente entre os líderes semíticos e significava um período indefinido de tempo, mas determinado exclusivamente por quem
expressava a frase (4.43; 9.22). Jesus faz uma referência clara à conclusão da sua obra redentora na terra.
15
Jesus contemplava a parte final da sua vida de sacrifícios e tinha horror do que via, mas estava resoluto. Sua hora ainda não
havia chegado, e ele controlava cada momento que antecedia o seu próprio holocausto. Todavia ninguém o sangraria como a
qualquer cordeiro, ele daria sua vida no lugar de cada ser humano que aceitasse o seu sacrifício diante de Deus e se arrepen-
desse de seus pecados (Jo 1.12). Morreria em Jerusalém, como os grandes profetas de Deus que pregaram e foram mortos na
Cidade Santa antes dele (2.38; Jo 7.30; 8.20; de acordo com Jo 8.59; 10.39; 11.54).
16
Jesus lamenta-se profundamente por Jerusalém e pela nação israelense não haverem dado o devido valor aos muitos e
muitas outras cidades e povoados, ensi-
nando e caminhando em direção a Jeru-
salém.
11
23
Foi quando alguém lhe indagou: “Se-
nhor, haverão de ser poucos os salvos?”
24
E Ele lhes exortou: “Esforçai-vos por
adentrar pela porta estreita, pois Eu vos
asseguro que muitas pessoas procurarão
entrar e não conseguirão.
25
Quando o proprietário da Casa tiver
levantado e fechado a porta, e vós, do
lado de fora, começardes a bater, excla-
mando: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele,
contudo, vos responderá: ‘Não vos co-
nheço, nem sei de onde sois vós!’
26
E vós insistireis: ‘Comíamos e bebía-
mos reclinados ao redor da Tua mesa, e
pregavas em nossas ruas’.
27
No entanto, Ele vos afrmará: ‘Não vos
conheço, tampouco sei de onde sois. Re-
tirai-vos para longe de mim, vós todos os
que viveis a praticar o mal!’
28
Ali haverá grande lamento e ranger
de dentes, quando virdes Abraão, Isaque
e Jacó, bem como todos os profetas no
Reino de Deus, mas vós, porém, absolu-
tamente excluídos.
29
Pessoas virão do oriente e do ocidente,
do norte e do sul, e ocuparão seus lugares
à grande mesa no Reino de Deus.
30
Com toda a certeza, existem últimos
que virão a ser primeiros, e primeiros
que serão os últimos”.
12
O lamento profético de Jesus
(Mt 23.37-39)
31
Naquele mesmo momento, alguns fari-
seus aproximaram-se de Jesus e lhe avisa-
ram: “Parte agora mesmo e vai-te daqui,
pois Herodes intenta matar-te!”
13
32
Ele, entretanto, lhes ordenou: “Ide
anunciar a essa raposa que, hoje e ama-
nhã, expulso demônios e curo enfermos e,
no terceiro dia estarei pronto.
14

33
Contudo, prosseguirei meu caminho
hoje, amanhã e depois de amanhã. Af-
nal, nenhum profeta deve morrer fora de
Jerusalém!
15
34
Jerusalém, Jerusalém, que matas os
profetas e apedrejas os que te foram en-
viados! Quantas vezes Eu quis reunir os
teus flhos como a galinha reúne os seus
pintinhos debaixo das suas asas, mas vós
não o aceitastes!
16
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1517
grandes privilégios concedidos por Deus aos judeus (2Pe 3.9). Muitas foram às vezes em que Jesus esteve pregando sobre o
Reino em Jerusalém (Jo 2.13; 4.45; 5.1; 7.10; 10.22). Essa mesma exclamação de dor e lamento foi proferida na terça-feira da
Semana da Paixão (Mt 23.37,38).
17
Jesus faz um anúncio tremendo! Após sua morte e ressurreição o Espírito de Deus será retirado da Casa de Deus – o Templo
de Jerusalém – e será transferido para um outro templo, não feito de pedras ou por mãos humanas, composto dos salvos, os
crentes em Cristo (2Co 6.16; 1Pe 2.5). Deus abandonaria o seu Templo e sua Cidade (21.20,24; Jr 12.7; 22.5 de acordo com Zc
12.10; Ap 1.7; Is 45.23; Rm 14.11; Fp 2.10,11), e só seria novamente visto por Jerusalém no dia do seu glorioso retorno.
Capítulo 14
1
Os evangelhos registram sete milagres realizados por Jesus em dias de sábado, sendo que cinco deles aparecem em Lucas
e os outros dois são narrados por João (Jo 5.10; 9.14). Todas as refeições que os judeus fariseus comiam no sábado eram
preparadas no dia anterior conforme as normas da Lei por eles interpretadas.
2
Lucas chama a doença que o homem apresentava pelo nome médico em grego hidropisia, que se refere ao acúmulo de
líquidos e fluidos; afetava outras partes do corpo e provocava inchaço generalizado.
3
Manuscritos antigos e fiéis, assim como a KJ de 1611 trazem a expressão “jumento” ao invés de “filho” como aparece em al-
gumas versões. O Comitê de Tradução da KJ entende que essa variante combina melhor com a expressão “boi” que acompanha
a frase, e com o contexto mais amplo do ensino de Jesus (13.10-17). Em Dt 5.14 a Lei é determinada tanto para seres humanos
quanto para os animais. A ação de Jesus não seria permitida pela lei rabínica dos mestres judaicos, mas sim conforme a Lei
mosaica. A letra da Lei, para a pessoa legalista, nega o espírito da própria Lei (Rm 7.6), enquanto a autoridade do Espírito no
coração produz a verdadeira justiça da Lei (Rm 8.4). Esse era o ponto de vista que Jesus queria ensinar aos líderes religiosos de
sua época: a vida, o amor e a justiça são mais importantes do que milhares de regulamentos e decretos de lei.
4
Jesus já antevia as discussões insensatas por posições e poder na comunidade dos cristãos (22.24) e recomenda que o servo
entregue esse assunto ao Pai e aguarde sua promoção em paz, serviço e humildade.
5
Jesus não está falando apenas de boas maneiras, mas da vida espiritual, na qual a humildade é o primeiro requisito para a
exaltação, especialmente no Juízo final.
6
Deus não honrará os seus filhos segundo a prática mundana de exaltar aos que têm influência nesta vida, mas conforme o
testemunho de Cristo que se doou completamente, revelando uma atitude de total abnegação (Fp 2.6 de acordo com Tg 2.2-4).
35
Eis que a vossa Casa vos fcará desabi-
tada! E, com toda a certeza vos asseguro,
que não mais me vereis até que venhais a
proclamar: ‘Bendito o que vem em nome
do Senhor!”
17

Jesus cura um hidrópico no sábado
14
Certo sábado, chegando Jesus
para comer na casa de um impor-
tante fariseu, todos o observavam com
atenção.
1

2
E aconteceu que à frente dele estava
um homem doente, com o corpo todo
inchado.
2

3
Jesus indagou aos fariseus e aos mes-
tres na Lei: “É permitido ou não curar no
sábado?”
4
Eles, todavia, fcaram em silêncio. Je-
sus, por sua vez, tomando o homem pela
mão o curou e despediu-se dele.
5
Em seguida, lhes questionou: “Qual de
vós, se o seu jumento ou boi cair num
poço, não o salvará rapidamente, ainda
que seja dia de sábado?”
3

6
Diante disto, eles fcaram sem palavras
para responder.
Os humildes serão exaltados
7
Observando como os convidados es-
colhiam os lugares de maior destaque
ao redor da mesa, Jesus lhes propôs uma
parábola:
4
8
“Quando por alguém fores convidado
para um banquete de casamento, não
busques o lugar de honra; pois é possível
que tenha sido convidada também outra
pessoa, ainda mais digna do que tu.
9
Sendo assim, o anftrião que aos dois
convidou, se aproximará e te pedirá:
‘Dá o lugar onde estás a este’. Então, sob
grande humilhação, irás ocupar o último
lugar.
5

10
Por esse motivo, quando fores convi-
dado, dá preferência aos lugares menos
importantes, de forma que, quando
passar o anftrião do banquete, te saú-
de exaltando: ‘Amigo! Vem, assume um
lugar mais importante’. E assim serás
honrado na presença de todos os con-
vidados.
11
Portanto, todo o que se promove será
envergonhado; mas o que a si mesmo se
humilha receberá exaltação”.
6

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1518
7
Todas as nossas intenções e ações têm sua recompensa. Por isso, o cristão sábio é aquele que age de maneira a agradar a
Deus e obter sua aprovação na ressurreição dos justos. Há doutrinas que separam a ressurreição dos justos (1Co 15.23; 1Ts 4.16;
Ap 20.4-6) da ressurreição geral (1Co 15.12,21; Hb 6.2; Ap 20.11-15). Todavia, todos serão ressuscitados (Dn 12.2; Jo 5.28,29;
At 24.15). Os “justos” são os que forem justificados por Deus por causa do sacrifício expiatório de Jesus Cristo e que tiveram
comprovado sua fé mediante as suas ações na terra (Mt 25.34-40).
8
Era comum aos estudiosos das Escrituras associarem o reino futuro de Deus a um grande banquete (13.29; Is 25.6; Mt 8.11;
25.1-10; 26.29; ap 19.9). Jesus aproveita a manifestação deste homem para adverti-los, em forma de parábola, sobre o fato de
que nem todos entrariam no Reino de Deus.
9
Os homens deram uma série de desculpas falsas, uma vez que ninguém compra terras e propriedades sem ver, ou bois de
arado sem experimentá-los. Nem mesmo a rigidez das cerimônias matrimoniais dos antigos judeus privaria o jovem marido de
levar sua esposa ao banquete e atender ao convite do seu senhor.
10
A parábola do maravilhoso banquete (grande Ceia) nos ensina: Deus convida a humanidade para entrar em Seu Reino e cear
com Ele e seus amigos. Obviamente não há desculpas para não aceitar tal honra, e qualquer recusa será entendida como uma
afronta. O evangelho é ministrado de graça e tudo já está preparado para o grande evento. Os homens procuram eximir-se da
responsabilidade de atender ao convite do Senhor, pois preferem cuidar de suas propriedades terrenas a fazer parte do Reino (Jo
3.3,5); preferem trabalhar, ganhar, comprar e vender seus bens temporais a receber o Reino eterno de graça (Ef 2.8,9); preferem
seus relacionamentos no mundo, como o casamento, às bodas no céu. Assim que a Casa estiver com sua lotação preenchida,
virá o fim dos séculos e a completa implantação do Reino de Deus (Rm 11.25).
11
Jesus apreciava o uso das figuras de linguagem a fim de dar maior significado e amplitude aos seus ensinos. Aqui, ele
12
Então Jesus dirige-se ao que o havia
convidado e lhe exorta: “Quando deres
um banquete ou um jantar, não convi-
des os teus amigos, irmãos, ou parentes,
nem teus vizinhos ricos; se assim proce-
deres, eles poderão, da mesma maneira,
convi-dar-te, e desta forma sempre serás
re-compensado.
13
Pelo contrário, ao dares uma grande ceia,
convida os pobres, os defcientes físicos, os
mutilados e os que não podem ver.
14
Feliz serás tu, porque estes não têm como
te pagar. Entretanto, receberás tua régia re-
compensa na ressurreição dos justos”.
7
A parábola do grande banquete
(Mt 22.1-14)
15
Ora, ao ouvir tais ensinos, um dos que
estavam reclinados ao redor da mesa,
enunciou: “Feliz será aquele que partilhar
do pão no banquete do Reino de Deus!”
8
16
Jesus, contudo, declarou: “Certo ho-
mem estava preparando um notável ban-
quete e convidou muitas pessoas.
17
Próximo à hora do início da ceia, en-
viou seu servo para anunciar aos que
haviam sido convidados: ‘Vinde! Eis que
tudo está preparado para vós’.
18
Contudo, um por um, começaram
a declinar com desculpas. O primeiro
alegou: ‘Acabei de adquirir uma grande
propriedade, e preciso ir vê-la. Por favor,
queiras desculpar-me!’
19
Outro conviva explicou-se: ‘Acabei de
comprar cinco juntas de bois e preciso ir
experimentá-las. Rogo-te que me tenhas
por perdoado!’
20
E outro ainda argumentou: ‘Acabo de
me casar, e por esse motivo, não posso ir’.
9
21
Diante disso, voltou o servo e tudo
relatou ao seu senhor. Então, o dono da
casa irou-se sobremaneira e ordenou ao
seu servo: ‘Sai agora mesmo para as ruas
e becos da cidade e traze para aqui os po-
bres, os aleijados, os cegos e os coxos’.
22
Mais tarde lhe relatou o servo: ‘Tudo o
que o senhor mandou está feito confor-
me a tua vontade, mas ainda há lugar!’
23
Então ordenou o senhor ao seu servo:
‘Ide por vários caminhos e atalhos e os
que encontrar obriga-os a entrar, para
que a minha casa fque repleta.
24
Porquanto vos asseguro que nenhum
daqueles que previamente foram convi-
dados provará da minha ceia’”.
10

O custo de ser discípulo de Cristo
25
Milhares de pessoas acompanhavam
Jesus; então, dirigindo-se à multidão lhes
declarou:
26
“Se alguém deseja seguir-me e ama a
seu pai, sua mãe, sua esposa, seus flhos,
seus irmãos e irmãs, e até mesmo a sua
própria vida mais do que a mim, não
pode ser meu discípulo.
11

27
Da mesma forma, todo aquele que não
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1519
se vale de uma hipérbole vívida (exagero) para revelar que o ser humano deve amar a Deus (Cristo) de forma mais completa e
abnegada, que a si próprio e à sua família imediata (Mt 10.37). A expressão “aborrece” como aparece em algumas versões, tem
o sentido de “amar menos...” e significa submeter tudo, de forma absoluta, inclusive a própria pessoa, a um compromisso total
com Cristo (16.13).
12
A expressão grega original carregar a sua cruz aparece em algumas versões como tomar a sua cruz, mas tem o mesmo
sentido de seguir o exemplo de Cristo, consagrar-se absolutamente a Deus, não exatamente numa rebelião política ou militar
contra Roma, mas na causa do Reino, até o martírio. Em contraste com a vinda de Cristo para a salvação (Mt 11.28), devemos
segui-lo em todos os momentos, dia após dia, como discípulos fiéis. O custo do discipulado é a nossa rendição total ao Espírito
Santo em amor. Essa consagração deve ser maior e mais íntima do que todas as nossas afeições familiares (v.26), maior do que
todas as nossas vontades pessoais de carreira e sucesso (v.27), e maior do que nossa estima ao dinheiro, bens e poder (33).
Paulo compreendeu e pregava esse mistério (Fp 3.8).
13
Jesus é bem claro em nos advertir quanto à importância de não aceitarmos o compromisso do discipulado sem pensar bem
sobre seu alto custo e implicações eternas. Por isso não é correto pregarmos somente sobre as bênçãos de andarmos com Cristo;
devemos igualmente explicar a todos sobre a grande responsabilidade assumida com Deus por meio dessa decisão pessoal. O
perigo de uma decisão irresponsável e insincera é duplo: a zombaria pelo fracasso nesta vida, e a perda total na outra (Hb 2.1-3).
14
Jesus usa mais duas parábolas para frisar o custo de viver como cidadão do Reino na terra, bem como o preço que será
pago por todos aqueles que não aceitarem o convite do Senhor para o notável banquete. O ser humano sábio é como o rei cons-
ciencioso, que ao perceber o poder do Reino que se avizinha, não espera o confronto final, mas se rende e busca a paz.
15
Cristo compara o crente morno, espiritual e moralmente irresponsável, que não reflete sobre a importância da sua decisão de
seguir o Evangelho, com um tipo de sal que havia na Palestina no século I, o qual era tão impuro que perdia o pouco cloreto de
sódio que abrigava. Não servia para fertilizar o solo, nem mesmo para decompor-se de modo útil em meio ao esterco (Ap 3.16).
Capítulo 15
1
Os fariseus e os escribas (mestres da Lei) eram visceralmente contra os coletores de impostos (publicanos) e contra toda pes-
soa que não cumprisse rigorosamente as suas doutrinas e normas religiosas de comportamento. Referiam-se a essas pessoas
como “pecadores” (pessoas de má reputação). Cristo não apenas recebe o “pecador” como oferece a ele a Salvação (represen-
tada na partilha do pão). É importante lembrar que Jesus jamais participou do pecado, mas sempre amou aos pecadores e para
libertá-los das garras do pecado foi que Ele veio e entregou sua vida (3.12, vs. 4,8; Mc 2.15; At 11.3; 1Co 5.11; Gl 2.12).
2
Jesus responde ao questionamento dos legalistas com histórias de fundo teológico, filosófico e moral que contrapunham o
amor longânime de Deus ao exclusivismo dos fariseus, escribas e líderes religiosos. As três parábolas que se seguem: a do pastor
carrega a sua própria cruz e segue após
mim não pode ser meu discípulo.
12
28
Porquanto, qual de vós, desejando
construir uma torre, primeiro não se
assenta e calcula o custo do empreendi-
mento, e avalia se tem os recursos neces-
sários para edifcá-la?
29
Para não acontecer que, havendo pro-
videnciado os alicerces, mas não poden-
do concluir a obra, todas as pessoas que a
contemplarem inacabada zombem dele,
30
proclamando: ‘Este homem começou
grande construção, mas não foi capaz de
terminá-la!’
13
31
Ou ainda, qual é o rei que, pretenden-
do partir para guerrear contra outro rei,
não se assenta primeiro para analisar
se com dez mil soldados poderá vencer
aquele que vem enfrentá-lo com vinte
mil?
32
Se chegar à conclusão de que não po-
derá vencer, enviará uma delegação, es-
tando o inimigo ainda longe, e solicitará
suas condições de paz.
33
Assim, portanto, todo aquele dentre
vós que não renunciar a tudo quanto de
mais estimado possui não pode ser meu
discípulo.
14
34
Portanto, bom é o sal, mas ainda ele, se
perder o sabor, como restaurá-lo?
35
Não serve nem para o solo nem mes-
mo para adubo; será apenas lançado
fora. Aquele que tem ouvidos para ouvir,
ouça!”
15
Jesus come com os pecadores
15
E aconteceu que todos os peca-
dores, como os coletores de im-
postos e pessoas de má fama estavam se
reunindo para ouvir a Jesus.
2
Entretanto, os fariseus e os mestres da
Lei o censuravam murmurando: “Este
saúda e se mistura a pessoas desqualif-
cadas e ainda partilha do pão com elas”.
1
A parábola da ovelha perdida
(Mt 18.10-14)
3
Foi então que Jesus lhes propôs a se-
guinte parábola:
2
4
“Qual, dentre vós, é homem que, pos-
LUCAS 14, 15
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1520
que busca; a da mulher que sofre com a perda; e do pai que jamais deixa de amar e perdoa, ensinam o significado do arrependimen-
to (12.54). A volta dos que se extraviaram produz um enorme regozijo no coração de Deus (Lc 3.8; At 11.18; 26.20; Rm 2.4).
3
Referências ao pastor e o pastoreio eram comuns durante toda a história do povo judeu. Grandes líderes nacionais e profetas
apreciavam esse tema (Sl 23; Is 40.11; Ez 34.11-16). Algumas versões trazem a expressão “deserto”, todavia não tem a ver
com dunas de areia, mas com campos de pasto não cultivados (Jo 6.10). Jesus nos exorta, como cristãos, a “ir em busca” dos
perdidos – como maior estratégia de evangelização – e não simplesmente adotarmos uma postura insensível, crítica e punitiva
(14.21,23). Deus em Cristo é nosso maior exemplo de evangelista. Seu amor e persistência em procurar salvar a humanidade
ultrapassam a gravidade do pecado humano e a sua própria soberania intocável (Ez 34.6,11 em relação a Gn 3.9,10).
4
Jesus, em algumas ocasiões, valia-se da ironia para destacar o pecado e completa miopia espiritual daqueles que deveriam
ser homens de Deus perante seu povo. Os que se consideram justos não sentem a necessidade de se arrepender dos seus
pequenos delitos, e acabam pecando por sua arrogância, orgulho e insensibilidade.
5
Lucas faz referência a uma moeda grega (dracma) e não romana (denário). O valor monetário dessas moedas era próximo e
equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2). As casas da Palestina, na época de Jesus, não tinham janelas, e o chão era de barro, o
que tornava ainda mais difícil a localização de uma pequena moeda.
6
Um pai judeu podia dividir sua herança entre os filhos quando desejasse (garantindo ao filho mais velho o dobro de todos os
bens da família, conforme Dt 21.17 e outros textos da Torá), retendo para si, entretanto, as respectivas rendas que obtinha com
a propriedade, até sua morte. Contudo, era extremamente incomum dar ao filho mais novo a sua porção na herança mediante
qualquer solicitação. Jesus mostra filosoficamente que foi a humanidade, representada pela nação judaica, que insistiu para
deixar a companhia de Deus, retirando-se para regiões distantes, áridas e sombrias.
7
A intenção do filho de abandonar suas terras onde vivia com a família e sob os cuidados do seu pai, para viver em completa
liberdade, sem precisar prestar contas de seus atos, numa região distante, junto a um povo com outros costumes e cultura, fica bem
clara quando ele parte levando consigo tudo o que possuía, sem deixar para trás absolutamente nada à espera de um possível retor-
no. Queria ficar livre das orientações e restrições impostas pelo pai, gastando conforme o seu bel prazer (hedonismo) sua parte das
riquezas que a família havia conquistado, com trabalho árduo, ao longo de muito tempo de disciplina e força de vontade (Sl 107).
8
A maior das vergonhas e dos castigos para um judeu era ter que se aproximar ou lidar com porcos, pois desde a antiguidade
judaica esses animais representavam a impureza, a imundícia e o afastamento total de Deus (Lv 11.7).
suindo cem ovelhas e perdendo uma
delas, não deixa no campo as noventa e
nove e vai em busca da que se extraviou,
até que a encontre?
3
5
E assim que a encontra, coloca-a por
sobre os ombros cheio de júbilo
6
e ruma para casa. Ao chegar, reúne seus
amigos e vizinhos e anuncia: ‘Alegrai-vos
comigo, pois hoje encontrei minha ove-
lha perdida’.
7
Eu vos afrmo que, da mesma maneira,
haverá muito mais alegria no céu por um
pecador que se arrepende do que por no-
venta e nove justos que não carecem de
arrependimento.
4
A parábola da moeda perdida
8
Ou ainda, qual é a mulher que, pos-
suindo dez dracmas e, perdendo uma
delas, não acende uma candeia, varre
a casa e a procura diligentemente até
encontrá-la?
9
E, tendo-a achado, reúne suas amigas
e vizinhas e proclama: ‘Alegrai-vos co-
migo, porque agora achei minha dracma
perdida’.
10
Eu vos asseguro que, de igual modo,
há grande júbilo na presença dos anjos
de Deus por um pecador que se arre-
pende”.
5
A parábola do flho perdido
11
E Jesus continuou: “Um homem tinha
dois flhos.
12
O mais novo reivindicou do seu pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança a que te-
nho direito’. E consentindo, o pai repar-
tiu sua propriedade entre eles.
6
13
Não se passou muito tempo, e o flho
mais novo reuniu tudo o que tinha, par-
tindo para terras distantes; e lá esbanjou
todos os seus bens, vivendo de forma ir-
responsável.
14
Coincidentemente, após haver gasto
tudo o que possuía, abateu-se sobre toda
aquela região uma grande fome, e ele co-
meçou a passar muita necessidade.
7
15
Por esse motivo foi empregar-se com
um dos cidadãos daquela região, que o
mandou para o campo a fm de cuidar
dos porcos.
8
16
Ali, chegou a ter vontade de encher o
estômago com as vagens de alfarrobeira
com as quais os porcos eram alimenta-
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9
Os revezes, quedas, erros e toda sorte de insucessos representam grandes oportunidades para nos achegarmos ao Senhor,
confessarmos amarguras, ressentimentos, fraquezas e pecados, e abraçarmos uma nova perspectiva de vida que não se limita a
esta terra, nem a este tempo: é eterna. A Bíblia revela uma humanidade insensata afastando-se do seu Criador, desesperadamen-
te necessitada de recobrar o bom senso (cair em si).
10
No contexto cultural da época e, em respeito ao significado dos termos originais do texto bíblico, cada um dos elementos do
vestuário que o pai ordenou que fossem trazidos para seu filho maltrapilho (apenas um símbolo da sua condição espiritual), tinha
um significado maior, que não pode ficar ausente do texto correspondente em língua portuguesa. A longa veste representava
distinção, o anel de sinete era um símbolo de autoridade e tradição de família (Gn 41.42), e as sandálias demonstravam que ele
era filho do senhor daquelas terras, uma vez que os escravos andavam descalços. Um novilho era engordado (cevado) por anos,
na expectativa de ser abatido, assado e comido por todos, em uma ocasião memorável.
11
Morto ou perdido é o estado de uma pessoa que perdeu o contato com Deus (Rm 6.13; Ef 2.1) e, por isso, não participa mais
da vida de ressurreição e completo resgate em Cristo (Jo 11.25).
12
O amor misericordioso e perdoador do pai simboliza a divina misericórdia de Deus, e o ressentimento punitivo do irmão
mais velho assemelha-se à atitude legalista dos fariseus e líderes religiosos que se opunham aos pecadores, gentios e, muito
especialmente, a Jesus.
13
O irmão mais velho havia obedecido a seu pai por medo e mera obrigação ritual. Entretanto, colecionava cada amargura em
silêncio. O cabrito era considerado um alimento inferior, bem menos caro do que um novilho gordo. O preconceito e o ódio do
irmão mais velho não permitiram que ele reconhecesse em seu irmão mais novo o mesmo sangue de família, e, portanto, pudesse
também comemorar a sua salvação (livramento, cura).
14
O mesmo ocorre com muitos filhos de Deus; tudo está ao nosso dispor – todas as riquezas do Pai – em Cristo (Ef 1.3). A
inveja e a arrogância, contudo, impedem o seu amplo e completo usufruto.
dos, no entanto, ninguém lhe dava abso-
lutamente nada.
17
Foi quando, caindo em si, falou con-
sigo mesmo: ‘Quantos empregados de
meu pai têm comida com fartura, e eu
aqui, morrendo de fome!
9
18
Levantar-me-ei, tomarei o caminho de
volta para meu pai, e ao chegar lhe confes-
sarei: Pai, pequei contra o céu e contra ti.
19
Não sou mais digno de ser chamado
teu flho; trata-me como um dos teus
trabalhadores’.
20
E, logo em seguida, levantou-se e saiu
na direção do pai. Vinha caminhando ele
ainda distante, quando seu pai o viu e,
pleno de compaixão, correu ao encontro
do seu flho, e muito o abraçou e beijou.
21
Então, o flho lhe declarou: ‘Pai, pequei
contra o céu e contra ti. Não sou mais
digno de ser chamado teu flho!’
22
Entretanto, o pai ordenou aos seus
servos: ‘Trazei depressa a melhor roupa,
vesti-o com distinção, ponde-lhe o anel
de autoridade e as sandálias de flho.
10

23
Também trazei o novilho gordo e o
preparai. Comamos, façamos uma gran-
de festa e regozijemo-nos!
24
Porquanto este meu flho estava morto
e voltou à vida, estava perdido e foi en-
contrado’. E começaram a celebrar o seu
regresso.
11
25
Entrementes, o flho mais velho estava
no campo. Quando foi se aproximando
da casa do pai, ouviu o som da música e
das danças.
26
Então chamou um dos servos e inda-
gou-lhe sobre o que estava acontecendo.
27
Este informou: ‘Teu irmão regressou, e
teu pai mandou matar o novilho gordo,
porque o recebeu de volta são e salvo!’
28
Mas o flho mais velho encheu-se de
ira, e negou-se a entrar. Então o pai saiu
e insistiu com ele.
12
29
Porém ele replicou ao pai: ‘Há tantos
anos tenho trabalhado como um escra-
vo para ti sem nunca ter desobedecido a
uma só ordem tua. Contudo, tu nunca me
ofereceste nem ao menos um cabrito para
que pudesse festejar com meus amigos.
30
No entanto, chegando em casa esse
teu flho, que pôs fora os teus bens com
prostitutas, tu ordenaste matar o novilho
gordo para ele!’
13

31
Então, lhe arrazoou o pai: ‘Meu flho,
tu sempre estás comigo; tudo o que pos-
suo é igualmente teu.
14
32
Porém, nós tínhamos que celebrar
muito à volta deste teu irmão e regozijar-
mo-nos, porque ele estava morto e revi-
veu, estava sem esperança e foi salvo!’”
A parábola do administrador infel
16
E contou Jesus ainda aos seus dis-
cípulos: “Havia um homem rico
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1
Esta parábola tem forte ligação com a anterior. Aqui, um mordomo ou gerente de patrimônio é denunciado como esbanjador
(pródigo, defraudador, dissipador) dos bens do dono das terras e propriedades sobre as quais tinha o dever de bem administrar
e gerar lucros.
2
Uma antiga prática comercial judaica era aumentar excessivamente os preços, no caso de pagamentos a longo prazo. Isso
para evitar a cobrança de juros, o que não era permitido pela Torá, especialmente entre os judeus (Dt 23.19). Muitos estudiosos
defendem a tese de que o administrador procurou os devedores do seu patrão e, renegociando as dívidas com base em valores
justos, para pagamento à vista, conseguiu receber um alto volume de recursos financeiros, agradando e conquistando assim o
bom favor dos seus devedores, bem como satisfazendo os interesses do seu senhor.
3
Cem potes de azeite, ou como aparece em algumas versões: “cem cados de azeite”, correspondem à produção de aproxima-
damente 450 oliveiras. Cerca de 400 litros de azeite puro. Normalmente os administradores colocavam um preço ainda mais alto
no azeite, pois no caso de apropriação, por falta de pagamento, era costume adulterar o azeite com outros óleos para aumentar
o volume devolvido.
4
Cem tonéis de trigo, ou como aparece em algumas versões: “cem coros de trigo”, correspondem à produção de aproxima-
damente 100 acres de terra plantada. Cerca de 36.000 quilos de trigo colhido.
5
O que Jesus elogia não é, evidentemente, a desonestidade do administrador, mas sim a sua engenhosidade em usar os
problemas e as oportunidades que estavam presentes para se preparar para um futuro inóspito que ele antevia. Da mesma forma,
o cristão deveria investir todos os recursos que possui nesta vida no serviço de Deus e do Evangelho, em benefício dos seus
semelhantes, a fim de assegurar galardões e grandes recompensas no céu e na vida eterna. A expressão “filhos deste mundo”
(no original grego transliterado: tou aionos toutou) era uma frase comum para indicar o período anterior à vinda do Messias e o
Seu Reino. Os cristãos fiéis, “os filhos da luz”, devem dar mais valor e atenção à eternidade (Jo 8.12; 12.36; Ef 5.8).
6
O vocábulo grego original transliterado: adika, traduzido aqui, por algumas versões, como iníqua não indica uma falta de
justiça ou ética pessoal; mas, a característica geral desta era, portanto, “deste mundo” (sociedade) em que vivemos (v.11; 1Jo
5.19). O povo de Deus deve estar disponível e motivado para usar todos os recursos que o próprio Senhor lhe tem concedido, na
gloriosa tarefa de ajudar o próximo, e fazer discípulos de Cristo por meio da amizade sincera. A obra de amor ao próximo deve
ser realizada com fidelidade, quer seja com poucos ou com muitos recursos. Esses amigos, discípulos de Cristo, estarão no céu
(nos tabernáculos ou moradas eternas) e serão eternamente gratos por nossas atitudes de amor cristão. Dessa forma, as riquezas
acumuladas neste mundo podem ser investidas para conquistar benefícios eternos.
7
A lealdade e a fidelidade não são determinadas pelo montante confiado, mas pelo caráter da pessoa que faz uso dele (19.17;
Mt 25.21).
que mantinha um administrador; este
porém, foi acusado de estar esbanjando
os bens do seu patrão.
1
2
E aconteceu, que mandando-o chamar,
o interrogou: ‘Que é isso que chega a
mim a teu respeito? Presta contas da tua
administração, porquanto já não podes
continuar com essa responsabilidade!’
3
Diante disso, falou o administrador
consigo mesmo: ‘Meu senhor está me
despedindo. Que farei? Trabalhar na ter-
ra, não tenho força; quanto a viver esmo-
lando, tenho vergonha.
4
Já sei o que farei para que, quando per-
der o cargo de administrador, as pessoas
continuem a me receber em suas casas’.
2

5
Tendo chamado cada um dos seus de-
vedores, indagou ao primeiro: ‘Quanto
deves ao meu senhor?’
6
Replicou ele: ‘Cem potes de azeite’.
Ao que o administrador lhe autorizou:
‘Toma a tua conta, assenta-te depressa e
escreve cinquenta!’
3
7
Em seguida, questionou outro: ‘E tu,
quanto deves?’ Respondeu ele: ‘Cem
tonéis de trigo’. E o administrador lhe
orientou: ‘Toma a tua conta e escreve
oitenta!’
4
8
Então, o senhor elogiou aquele admi-
nistrador da injustiça, pois agiu com sa-
bedoria. Porquanto os flhos deste mun-
do são mais sagazes entre si, na conquista
dos seus interesses, do que os flhos da
luz em meio à sua própria geração.
5
9
Portanto, Eu vos recomendo: Usai as
riquezas deste mundo ímpio para ajudar
ao próximo e ganhai amigos, para que,
quando aquelas chegarem ao fm, esses
amigos vos recebam com alegria nas mo-
radas eternas.
6
10
Quem é fel no pouco, também é fel
no muito, e quem é desonesto no pouco,
também é desonesto no muito.
7
11
Assim, se vós não fores justos em li-
dar com as riquezas deste mundo ím-
pio, quem vos confará a verdadeira
riqueza?
12
Se, portanto, não vos tornastes dignos
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1523
8
Nessa vida nada nos pertence, somos apenas administradores (mordomos) dos bens do Senhor. No céu, entretanto, recebe-
remos nossa herança e o direito de possuí-la (Sl 24.1).
9
A palavra grega original para “servir” é douleuen, que significa “ser escravo” (Rm 1.1). Nem sempre a escravidão era cruel ou
jugo involuntário. Havia muitos senhores sábios e justos para com seus escravos, bem como algumas pessoas que se volunta-
riavam para servir com absoluta dedicação a certos senhores em troca de proteção e segurança. A expressão grega: mamõna, é
uma palavra de origem aramaica que significa tudo o que pode ser adquirido por meio das riquezas. Lucas, mais que qualquer
outro evangelista, destaca os “santos pobres” e o perigo do amor a Mâmon: o deus do dinheiro. Uma pessoa pode dedicar-se de
todo o coração ao serviço de um ou outro, mas não de ambos (Cl 3.5; Mt 6.24 conforme Tg 4.4).
10
Os fariseus apreciavam receber o louvor e os elogios das pessoas, especialmente por causa de sua cultura, aparente rigidez
religiosa e oratória (Jo 5.44; 12.43), mas Deus, que sonda os corações e o íntimo de cada ser humano, vê os motivos egoístas
que são abomináveis para Ele.
11
A vida e o ministério de João Batista, que preparou o caminho para Jesus, o Messias, marcou a linha divisória entre o AT
(a Lei e os Profetas) e o NT (o Evangelho da Nova Aliança – Hb 8.6-12 conforme Jr 31.31-34). No Evangelho, a salvação é dada
inteiramente pela graça, de modo que, mesmo não sendo judeus “zelosos da Lei”, como os fariseus, muitos estão – a cada
dia – entrando no Reino de Deus seguindo o difícil, estreito e desprezado Caminho de Cristo (14.27). É a vida e o ministério de
Cristo que trazem uma nova e derradeira oportunidade de salvação à humanidade caída (Nova Aliança). Cumprindo assim, nos
menores detalhes, toda a Lei (Antiga Aliança). Jesus ilustra o completo cumprimento da Lei e suas profecias, assegurando que
nem um pequeno traço gráfico (algumas versões o chamam impropriamente de “til” ao tentar uma correspondência com a língua
portuguesa) da menor letra do alfabeto hebraico se apagaria da Lei até que fosse cumprido (Mt 5.17-18).
12
Jesus toca sabiamente em um assunto delicado já naquela época. Os fariseus, apesar de todo o seu zelo e legalismo,
haviam se tornado extremamente permissivos em relação ao divórcio. Alguns mestres judaicos como Hillel concediam divórcio
pelos motivos mais triviais; por exemplo, se uma esposa deixasse queimar ou azedar o almoço do marido. Aquibá, outro jurista
fariseu, chegou ao ponto de permitir o divórcio a maridos que se queixaram da beleza de suas esposas e desejavam casar com
outra mais bonita. Além disso, apenas aos homens era dado o direito do divórcio. As mulheres eram obrigadas a permanecer
casadas enquanto os maridos as desejassem. Jesus notou que os fariseus haviam transformado a Lei numa zombaria e, por isso,
fazia questão de expor os juristas e religiosos da época ao ridículo de suas práticas injustas. Jesus ensinou que o alvo maior da
Lei não é o divórcio, mas sim orientar o casal para que se ame, respeite e viva em harmonia e companheirismo por toda a vida
terrena. Deus criou o casamento de modo que dois seres humanos se tornem um e dêem sequência à raça humana como uma
grande família (Gn 2.24). O divórcio nada mais é do que uma disposição por causa do egoísmo, insensibilidade e arrogância –
“dureza de coração” – a que chegaram os homens (Mc 10.5).
Descasar e casar de novo é uma alteração (adultério, deformação) da vontade original de Deus para o homem e a mulher; as-
sim como os fariseus estavam fazendo com toda a Lei. De passagem, Jesus estava defendendo publicamente a posição de João
a respeito do procedimento de Herodes Antipas para se unir a Herodias (Mt 14.1-4). Mateus revela mais sobre o ensino de Jesus
em relação ao divórcio (Mt 5.31,32; 19.9), tema que também aparece em outros textos bíblicos (Mc 10.11,12; 1Co 7.10,11).
de confança em relação ao que é dos ou-
tros, quem vos dará o que é vosso?
8
13
Nenhum servo pode devotar-se a dois
senhores; pois odiará um e amará outro,
ou dedicar-se-á a um e desprezará ao
outro. Jamais podereis servir a Deus e ao
Dinheiro!”
9
Jesus reprova a avareza
14
Os fariseus, conhecidos por sua ava-
reza, escutavam tudo isso e procuravam
ridicularizar a Jesus.
15
Ele, no entanto, lhes admoestou: “Vós
sois os que justifcais a vós mesmos à vis-
ta das pessoas, todavia Deus conhece o
vosso coração; pois àquilo que as pessoas
atribuem grande valor é detestável aos
olhos de Deus.
10

A Lei, os Profetas e o Reino
16
A Lei e os Profetas profetizaram até
João. Dessa época em diante estão sen-
do pregadas as Boas Novas do Reino de
Deus, e todos tentam conquistar sua en-
trada no Reino.
17
Contudo, é mais fácil os céus e a terra
desaparecerem do que cair um traço da
menor letra de toda a Lei.
11
Cuidado para não deturpar a Lei
(Mt 19.9; Mc 10.10-12)
18
Quem se separar de sua esposa e se
unir a outra mulher estará cometendo
adultério; assim como, o homem que se
casar com uma mulher divorciada estará
igualmente adulterando.
12

O rico avarento e Lázaro
19
Havia um certo homem rico que se
vestia de púrpura e de linho fníssimo e
que despendia todos os dias de sua vida
de forma regalada.
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13
Jesus conta uma outra história. Desta feita um homem rico e avarento vivia de forma perdulária. Insensível, não atentava para
as necessidades de Lázaro, um mendigo cujo nome em hebraico significa: “Deus me socorreu”, e que fora deixado na entrada
da mansão do homem rico. A palavra grega transliterada: esbebleto significa literalmente, “foi jogado”. Lucas, como médico, nos
informa sobre a extensão e a gravidade das feridas do pobre Lázaro, usando uma expressão médica, muito específica em grego,
e que só aparece aqui no NT “chagas”.
14
O Talmude menciona tanto o paraíso (23.43) quanto o lado de Abraão (tradicional e literalmente chamado de “seio de
Abraão”), como sendo o lar eterno dos justos. Estar junto a Abraão significa estar em um lugar de paz e felicidade (o verdadeiro
Shabbãth – repouso), para onde vão todos os justos após a morte e ficam aguardando o Dia do Senhor, a vindicação futura e
final. O rico avarento demonstra todas as características de um saduceu da época: riquezas, amor excessivo ao luxo, dinheiro e
bens materiais. Também não acreditavam na vida após a morte (At 23.8), e limitavam o cânon bíblico aos livros de Moisés (a Torá).
Em contraste com o “administrador astuto” e sua preocupação quanto ao seu futuro (v.4-9), este rico, como o “tolo” (12.16), foi
indiferente à sua própria condição e ao sofrimento dos seus semelhantes no presente, e não se preocupou com o juízo futuro.
Sua atitude quanto à vida ilustra bem o princípio revelado no v.15b.
15
Algumas versões trazem aqui a palavra “inferno”. Entretanto, Hades não é geena, como em Mt 5.22. Hades ou Sheol (em
hebraico), refere-se ao lugar para onde vão todas as almas após a morte física. O Hades é dividido em duas áreas: o paraíso e o
lugar de tormento, onde os ímpios esperam pelo Juízo final para a condenação (Ef 4.9; Ap 20.11-15). Que os tormentos começam
no Hades fica evidenciado pela lastimável situação desse rico avarento. O Hades inclui os castigos característicos do fogo do
inferno (lago de fogo e enxofre, Ap 20.10; agonia extrema, Ap 14.11; separação total e definitiva, Mt 8.12). O paraíso (seio de
Abraão – 22; 13.28) está separado por um abismo instransponível entre o mundo inferior e os “lugares celestiais” (2Co 12.4; Ap
2.7; 6.9). Nesta história o Senhor ensinou que existe plena consciência após a morte. A memória do passado não é anulada no
outro mundo. O inferno é um lugar de sofrimento eterno. Não existe uma segunda chance de salvação após a morte. É impossível
qualquer comunicação entre mortos e vivos. Todavia, há alguns teólogos que entendem de modo menos literal essa descrição
feita por Jesus sobre estar “no seio de Abraão” ou no Hades.
16
Os dois homens desejaram muito algumas coisas. O rico avarento desejou e amou suas riquezas e o glamour do luxo e do
poder, e recebeu tudo do que mais queria. Durante toda a sua vida perdulária, muitas vezes passou ao lado do mendigo, mas
jamais sentiu compaixão pelo seu semelhante atirado a uma situação tão degradante, sem forças nem qualquer auxílio. Lázaro
sonhava com uma oportunidade de vida digna, a cura física e qualquer alimento ou ajuda que viesse daquele seu semelhante
tão próximo e tão rico. Esperou até a morte pela realização dos seus sonhos, mas morreu em silenciosa esperança, resignado.
Aceitou a vontade de Deus até o fim. Entretanto, a vida não acaba na sepultura, e na eternidade, a situação desses dois seres
humanos sofreu grande inversão. O rico avarento, que jamais precisara pedir coisa alguma, agora experimenta o que significa
mendigar, e suplica algumas gotas de água a Abraão (a quem chama de Pai, mas em nome de quem nunca agiu como filho)
usando palavras semelhantes às que Lázaro usara para lhe implorar algumas migalhas de pão. Mesmo assim, considerava que
Lázaro poderia servi-lo. O inferno é um lugar de padecimento constante e eterno, de onde pode ser contemplado o que jamais
se alcançará (v.23), e de onde os condenados se lembrarão do passado com saudade insaciável e terrível remorso (v.25), como
uma espécie de sede sem alívio (v.24).
20
E havia também um outro homem,
chamado Lázaro, que coberto de chagas,
vivia a esmolar, e fora abandonado no
portão do homem rico.
13
21
Lázaro ansiava por alimentar-se ao
menos das migalhas que porventura
viessem a cair da mesa do rico. Até os
cães vinham lamber suas feridas.
22
E assim, chegou o dia em que o men-
digo morreu e os anjos o levaram para
junto de Abraão. Entretanto, o homem
rico também morreu e foi sepultado.
14

23
Mas no Hades, onde estava em tor-
mentos, ele olhou para cima e observou
Abraão ao longe, com Lázaro ao seu
lado.
24
Então, gritou: ‘Pai Abraão! Tem
compaixão de mim e manda a Lázaro
que molhe em água a ponta do dedo e
me refresque a língua, porquanto es-
tou sofrendo muito em meio a estas
chamas!’
15

25
No entanto, Abraão lhe replicou: ‘Fi-
lho, recorda-te de que recebeste todos os
teus bens durante a tua vida, e Lázaro foi
afigido por muitos males. Agora, entre-
tanto, aqui ele está sendo consolado, en-
quanto tu estás padecendo.
16

26
E, além do mais, foi colocado um
grande abismo entre nós e vós, de ma-
neira que os que desejem passar daqui
para vós outros não consigam, tampou-
co passem de lá para o nosso lado’.
27
Diante disso, suplicou: ‘Pai, então eu
te imploro que mandes Lázaro à casa de
meu pai,
28
pois tenho cinco irmãos. Permite que
ele os avise, a fm de que eles também
não venham para este terrível lugar de
sofrimento’.
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17
Referir-se a “Moisés e os Profetas” era um meio comum de mencionar todo o AT. O rico avarento não prestara atenção às
Escrituras e aos seus ensinamentos, e agora temia que seus irmãos caíssem no mesmo erro.
18
Lucas mostra que essa história não trata apenas do cuidado que devemos ter com nossos desejos, ambições e atitudes
durante esta vida. No final Jesus menciona sua ressurreição (v.31; 9.22) para fazer uma importante revelação: se a mente e o
coração de uma pessoa estiverem refratários ao Espírito do Senhor, e as Escrituras Sagradas forem rejeitadas, nenhum tipo de
prova – nem mesmo uma ressurreição – fará essa pessoa mudar de opinião (Jo 5.45-47). Nem a ressurreição de Lázaro, amigo
de Jesus, em Betânia, nem mesmo a de Cristo foram capazes de persuadir os arrogantes e legalistas líderes religiosos a se
arrependerem (Jo 11.47 – 12.11), mas no coração de muitas outras pessoas houve fé, e foram salvas.
Capítulo 17
1
Jesus se refere especialmente aos líderes religiosos e previne seus discípulos para evitarem qualquer escândalo (em grego:
skandala – que significa literalmente, “tentações ao pecado”). Lucas coloca esse texto numa sequência de advertências sobre o
uso das riquezas e o correto ensino das Escrituras. Todos os cristãos devem cuidar-se para não se tornarem “pedra de tropeço”.
Ou seja, motivo de desânimo espiritual ou pecado que afaste os mais novos na fé (de qualquer idade) ou os imaturos do Caminho
do Senhor (17.23; 21.8; Mt 18.6; Mc 9.43; Rm 14.13).
2
A palavra original, aqui traduzida por “repreende-o” tem o sentido de “corrigir com amor”. Jesus ensina que seus seguidores
devem perdoar tudo, em todos, e sempre (Mt 18.21). Como cristãos temos não somente a obrigação, mas o poder de perdoar
o arrependido, assim como Deus perdoa (15.1-32; Mt 6.14,15). Apesar de todas as dificuldades para cumprir esse mandamento
do Senhor, sua prática produz enormes, profundas e eternas bênçãos. Evidentemente, a fé é tão essencial para perdoar quanto
para pedir e receber perdão.
3
Os apóstolos imediatamente pediram mais fé ao Senhor para conseguirem cumprir o mandamento do perdão. Jesus nos
ensina que para cumprir essa ordenança e viver a vida cristã com coerência e frutos espirituais (abundância, plenitude, Jo 10.10),
não é necessário uma grande fé, mas fé em um grande Deus. Jesus usa a figura do grão (semente) de mostarda – que era prover-
bial por causa do seu pequeno tamanho – e substitui o conceito de maior ou menor fé, para a realidade de uma fé genuína. Se há
uma fé real, sem dúvida, os seus efeitos a seguirão. Jesus refere-se à figura da amoreira negra, muito usada pelos fariseus como
metáfora de solidez e tradição arraigada (diziam que as raízes desta árvore eram enormes e viviam até 600 anos) e assegura que
a fé pura e verdadeira poderia removê-la e plantá-la em pleno mar.
4
Muitas são as pessoas que imaginam que Deus pode se tornar nosso devedor por causa de boas obras praticadas, sacrifí-
29
Contudo, Abraão lhe afrmou: ‘Eles têm
Moisés e os Profetas; que os ouçam!’
17
30
Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão! Se
alguém dentre os mortos for ter com
eles, certamente se arrependerão’.
31
Abraão, concluindo, lhe afrmou: ‘Se
não ouvem a Moisés e aos Profetas, tam-
pouco se permitirão converter, ainda que
ressuscite alguém dentre os mortos!’
18

Aviso quanto aos escândalos
(Mt 18.6-7; Mc 9.42)
17
Então Jesus declarou aos seus dis-
cípulos: “É inevitável que fatos
ocorram que levem o povo a tropeçar na
fé, mas ai da pessoa por meio de quem
vêm os escândalos!
2
Seria melhor que tal pessoa fosse ati-
rada ao mar com uma pedra de moinho
amarrada ao pescoço, do que induzir um
destes pequeninos a pecar.
1

Repreender e perdoar os irmãos
(Mt 18.21-22)
3
Tende cuidado de vós mesmos. Se teu
irmão pecar contra ti, repreende-o e, caso
ele venha a se arrepender, perdoa-lhe.
4
Se, contra ti pecar sete vezes ao dia, e
por sete vezes vier a ter contigo, dizendo:
‘Arrependo-me do que fz’. Perdoa-lhe!”
5
Diante disso, pediram os apóstolos ao
Senhor: “Aumenta a nossa fé!”
2

6
Ao que encorajou-os o Senhor: “Se ti-
verdes fé do tamanho de uma semente de
mostarda, podereis dizer a esta amoreira:
‘Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela
vos obedecerá’.
3
7
Qual de vós, tendo um escravo arando
a terra ou apascentado as ovelhas, assim
que ele chegar do campo, o convidará:
‘Podes vir agora mesmo, reclina-te junto
à mesa para cear’?
8
Ao contrário. Conforme o costume di-
reis a ele: ‘Prepara o meu jantar, apronta-
te devidamente e então vem e serve-me
enquanto como e bebo; depois tu, come-
rás e beberás também’.
9
Porventura, deverá agradecer ao escra-
vo porque este fez o que lhe havia man-
dado?
10
Assim igualmente vós, depois de haver-
des realizado tudo quanto vos foi ordena-
do, dizei: ‘Somos servos inúteis, pois tão
somente cumprimos o nosso dever!’”
4
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cios, ofertas ou promessas cumpridas. Na verdade, nossa alegria deve estar em sermos recebidos como servos (escravos). Jesus
previne seus discípulos quanto ao uso correto da fé. Ou seja, com humildade. Não esquecendo da nossa condição primeira de
escravos sem direito. A palavra grega original: achreioi (inúteis), significa “que não dá dividendos”, isso quer dizer: “não há como
barganhar com Deus” (Mt 5.48; 1Co 9.16). Jesus relata como era a vida normal dos senhores e seus criados, mas ele próprio agia
com muito mais generosidade (12.37; 22.27).
5
A partir deste trecho Jesus segue sua jornada até Jerusalém, passando pela Peréia e ministrando ao longo do caminho até
chegar ao seu destino final (9.51; 13.22).
6
Caminhar sob o comando do Senhor é sempre a prova da fé pura e verdadeira que remove obstáculos (2Rs 5.10-15). Jesus
não queria chamar atenção sobre si, nem quebrar a Lei. Porém, é importante observar que somente depois de curadas as pesso-
as deviam ser apresentadas diante dos sacerdotes para a entrega de ofertas de gratidão a Deus (Lv 13.2,3; 14.2-32).
7
Os nove leprosos ingratos representam a atitude da maioria do povo judaico diante da pessoa e missão de Cristo. Os judeus
não suportavam os samaritanos há muito tempo (Jo 4.9). Contudo a doença e as crises sempre aproximam os inimigos. A
maneira agradecida e feliz com que o samaritano volta para louvar ao Senhor é um prenúncio do Evangelho chegando a todos
os povos da terra não judeus (gentios).
8
Jesus costumava abençoar as pessoas com essa frase, cuja palavra “curar”, também pode ser traduzida como “salvar”, ou
ainda “livrar”. Jesus gostava de usar o sentido ampliado dessa expressão em sua língua original para dar ênfase ao significado
completo da salvação trazida por ele. Os nove judeus também tiveram fé, pois foram curados. Mas esse homem teve fé e gratidão
e recebeu cura para o corpo e salvação para a alma. Ou seja, foi plenamente restaurado (7.50; 8.48,50; Mt 9.22).
9
Jesus usa a palavra parateresis, que no original grego quer dizer: “sinais” ou “ritos de culto” (Gl 4.10) para ensinar que sua
chegada e seu Reino não dependem de grandes manifestações exteriores como ocorreu na noite de Páscoa (Êx 12.42). Deste
momento em diante, as pessoas em todo o mundo receberiam Deus para habitar (tabernacular) em seus corações, sem quaisquer
ritos ou grandes manifestações cerimoniais. O sangue da salvação no madeiro, seria o do próprio Deus encarnado: Jesus Cristo.
10
Jesus faz muitas vezes uso de expressões enigmáticas, para que apenas aqueles cuja alma for tocada por Deus, o sigam e
obtenham a revelação. Assim, neste trecho, a expressão “entre vós” significa, ao mesmo tempo, que a experiência de receber o
Reino de Deus é um milagre que ocorre no interior do ser humano (Mt 23.26), e que o Reino já havia chegado e estava bem ali na
pessoa do seu Rei (19.11; 21.7; At 1.6). Jesus declara que não está no meio dos fariseus incrédulos; mas sim, que o Filho de Deus
já estava agindo no meio deles, convocando seus súditos e proclamando sua volta em poder e glória no final dos tempos.
11
Quando os exércitos de Roma invadiram Jerusalém e massacraram o povo judeu (cerca de 70 d.C), muitos discípulos
suplicaram desesperadamente pela volta de Cristo. Em épocas de guerras e grandes crises, os crentes desejam ver o grande
Dia do Senhor, pois isso significará para os cristãos de todas as raças, povos e nações, o fim do sofrimento, das angústias,
privações e perseguições.
12
Jesus prevê que os dias que antecederem ao seu glorioso retorno – repentino e brilhante como um relâmpago que corta
os céus – a situação espiritual e moral das pessoas será de absoluta indiferença. O mundo viverá uma completa permissividade
e apenas o poder econômico será reverenciado. A religiosidade da verdadeira teologia bíblica será esvaziada. Muitos destes
Jesus cura dez leprosos
11
A caminho de Jerusalém, passou Jesus
pela divisa entre Samaria e Galiléia.
5

12
Ao chegar num povoado, dez leprosos
foram em sua direção e fcaram a certa
distância.
13
Então, aos gritos, chamaram seu nome:
“Jesus! Mestre! Tem piedade de nós!”
14
Ao vê-los, ordenou-lhes: “Ide e mos-
trai-vos aos sacerdotes!” E aconteceu,
que enquanto eles caminhavam, foram
purifcados.
6

15
Um dos dez, observando que fora
curado, retornou, louvando a Deus em
alta voz.
16
E, prostrando-se, com o rosto em terra
aos pés de Jesus, muito lhe agradeceu; e
este era samaritano.
17
Então, Jesus questionou: “Não foram
purifcados todos os dez? Onde se en-
contram os outros nove?
18
Não se achou nenhum outro que vol-
tasse para render glória a Deus, a não ser
este estrangeiro?”
7

19
Então, Jesus declarou-lhe: “Levanta-te
e vai! A tua fé te salvou”.
8

A chegada do Reino de Deus
20
Certa vez, interrogado pelos fariseus
sobre quando se daria a vinda do Reino
de Deus, Jesus lhes explicou: “Não vem o
Reino de Deus com visível aparência.
9

21
Nem haverá anúncios: ‘Ei-lo aqui!’ Ou:
‘Lá está!’. Pois o Reino de Deus já está en-
tre vós!”
10
22
Depois declarou aos discípulos: “Che-
gará o tempo em que desejareis ver um
dos dias do Filho do homem, mas não o
vereis.
11

23
E vos dirão: ‘Ei-lo aqui!’ Ou: ‘Lá está
Ele!’. Não vades, tampouco os sigais!
12

24
Porquanto, a chegada do Filho do ho-
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sinais já são observados em países da Europa e em algumas partes dos Estados Unidos, conhecidos por sua tradição cristã
reformada e protestante, e como um dos maiores centros evangélicos do mundo. Nessa época, vários falsos profetas surgirão
e enganarão a muitos.
13
Mas os tempos seriam marcados pelo sangue de Cristo. Antes que a história continuasse até seu epílogo, era impreterível
o sacrifício do Filho de Deus para salvação do seu povo, e Jesus fez muitas vezes menção a esse ato histórico e decisivo na
vida dos discípulos e da Igreja por todas as gerações até a sua volta (5.35; 9.22,43; 12.50; 13.32,33; 18.32; 24.7 de acordo com
Mt 16.21).
14
Os dias de Ló (Gn 18.16 – 19.28) se repetirão, porém não de forma localizada, mas sobre todo o planeta. Então o Filho de
Deus aparecerá claramente visível para todas as pessoas, em todas as partes da terra (1Co 1.7; 2 Ts 1.7; 1Pe 1.7,13; 4.13). Os
cristãos sinceros imediatamente estarão com Cristo, os demais, infelizmente, continuarão a história de afastamento de Deus e
danação que escolheram trilhar (Jo 1. 11-14).
15
Na medida em que os dias se aproximam do glorioso retorno do Senhor, a sociedade relativisa e romanceia os princípios e
mandamentos da Palavra de Deus, e a fé tende à apostasia, mais vigilância e consagração serão necessárias aos cristãos fiéis. A
importância vital dessa preparação prévia para o grande Dia é um dos principais temas do ensino de Jesus Cristo sobre o final dos
tempos (12.35-48; Mt 25.1-3). Vigilância é a constante e disciplinada concentração no Senhor e na prática diária da sua Palavra.
Qualquer distração espiritual pode ser fatal, como ocorreu com a mulher de Ló. Nos tempos de Cristo, era costume subir nas
lajes planas das casas para descansar à brisa amena dos finais de tarde na Palestina. Entretanto, no dia da volta de Cristo, não
haverá tempo para buscar qualquer pertence. Tudo acontecerá num só instante. Mateus e Marcos se referiram da mesma forma à
queda de Jerusalém e de modo indireto ao final dos tempos (Mt 24.17,18; Mc 13.15). Entretanto, o texto se refere aqui ao glorioso
retorno de Jesus (v.30 de acordo com 21.21).
16
Independentemente do quanto duas pessoas sejam íntimas e da mesma família, não há qualquer garantia de que ambas
venham a ter o mesmo destino eterno. Uma pode ser levada ao Juízo e à condenação eterna, e a outra, à salvação e à vida eterna
com Cristo. A certeza da salvação deve estar no coração de cada pessoa que um dia aceitou sinceramente o sacrifício do Senhor
por seu resgate pessoal.
17
Jesus cita um antigo provérbio judaico em resposta à pergunta dos discípulos afirmando que esses eventos ocorrerão em
todas as partes do mundo. Os abutres percebem o cheiro de carniça a quilômetros de distância, muito tempo antes do último
suspiro de suas vítimas. Assim sendo, mesmo com o céu azul e limpo, os abutres já começam a se aproximar dos cadáveres dos
incrédulos para seu banquete final. Todavia, quando essa hora chegar, os cristãos sinceros já estarão na glória do Senhor, salvos
e exultantes. Uma alusão à carnificina que ocorrerá por ocasião do Armagedom (Ap 19.17-19).
mem, no seu Dia, será como o relâmpago
cujo esplendor da luz vai de uma à outra
extremidade do céu.
25
Antes, porém, se faz necessário que
Ele sofra muito e seja rejeitado por esta
geração.
13
26
Pois, assim como aconteceu nos dias
de Noé, também será nos dias do Filho
do homem.
27
As pessoas viviam comendo, bebendo,
unindo-se em matrimônio e sendo pro-
metidas em casamento, até o dia em que
Noé entrou na arca. Então sobreveio o
dilúvio e os destruiu a todos.
28
Da mesma forma ocorreu nos dias de
Ló. O povo dedicava-se a comer e beber,
comprar e vender, plantar e construir.
29
Todavia, no dia em que Ló abandonou
Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu e
destruiu a todos.
30
E, acontecerá exatamente assim, no Dia
em que o Filho do homem for revelado.
14
31
Portanto, naquele Dia, quem estiver
sobre a laje, não desça para recolher os
bens que estiverem dentro de casa. Se-
melhantemente, quem estiver no campo,
não deve retornar por motivo algum.
15
32
Lembrai-vos da esposa de Ló!
33
Quem tentar preservar sua vida perde-
la-á; mas quem perder a sua vida na rea-
lidade a manterá.
34
Eu vos asseguro que, naquela noite,
duas pessoas estarão numa cama; uma
será levada e a outra deixada.
35
Duas mulheres estarão no campo; uma
será tirada, e a outra deixada’.
16

36
Dois trabalhadores estarão no campo;
um será tomado, e o outro, deixado”.
37
Diante disso, lhe indagaram: “Onde se
dará tudo isso, Senhor?” Advertiu-lhes o
Senhor: “Onde houver um cadáver, ali se
ajuntarão os abutres!”
17

A parábola da viúva persistente
18
Então Jesus propôs uma parábola
aos seus discípulos, com a inten-
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1
Assim como a parábola do administrador infiel (16.1-8), essa também é uma “história enigmática de contraste”. Revela que,
se um magistrado que não teme ao Senhor, nem respeita ou teme a homem algum, pode ser levado a atender a petição de uma
pobre viúva por causa de sua insistência, quanto mais o fará o justo Juiz do universo (Tg 4.12). Os cristãos são encorajados a
permanecer fiéis e confiantes em suas orações a Deus, que no momento oportuno responde a todos como um Pai amoroso.
2
O juiz insensível da parábola não temia a Deus e muito menos aos homens. Não se preocupava com o bem-estar da sua
comunidade nem com o que as pessoas pensavam sobre ele. A viúva, especialmente no AT, representava – assim como os órfãos
– todo tipo de pessoa desamparada e carente de recursos (Sl 68.5; Lm 1.1).
3
A palavra grega original aqui traduzida por “aborrecer” é a mesma que Paulo usou ao se referir à disciplina que aplicava ao
próprio corpo por causa de Cristo: “esmurro o meu corpo” (1Co 9.27) e seu sentido mais literal é: “esbofetear”. As súplicas da
pobre viúva eram como “bofetadas” no rosto daquele juiz insensível. A oração que sempre alcança a resposta do Senhor é: isenta
de pecados não confessados (Tg 5.16); incessante (1Ts 5.17) e cheia de fé (1Jo 5.15).
4
A justiça de Deus sempre é feita, e será vista com clareza, por toda a terra no glorioso retorno de Jesus. A expressão “escolhi-
dos” tem sua origem num termo hebraico, particularmente usado no AT, para se referir a Israel, o povo eleito de Deus. Entretanto,
seu paralelismo com outra palavra hebraica muito significativa “servo” (1Cr 16.13; Sl 105.6; Is 65.9), une as ideias de “responsabi-
lidade” e “privilégio”. No NT a expressão tem seu conceito estendido à Igreja, como o Novo Israel de Deus (1Pe 2.9). Entretanto,
Jesus prediz que a sua volta se dará em momento de grande esfriamento espiritual sobre a terra, afastamento da teologia bíblica
e perseguição aos crentes sinceros. Nessa época será ainda mais necessário perseverar na oração e não esmorecer na fé leal a
Cristo, assim como no exemplo da viúva.
5
O jejum não era uma prática ordenada na Torá (Lei), a não ser o jejum do Dia da Expiação. Os fariseus, entretanto, haviam
instituído jejuns às segundas e quintas-feiras (Dt 14.22; Lc 5.33; Mt 6.16; 9.14; Mc 2.18; At 27.9). Da mesma forma, em relação ao
dízimo, os fariseus ofereciam a décima parte de tudo quanto produziam, recebiam ou ganhavam e não apenas do salário e de
algumas rendas, conforme prescrevia a lei mosaica.
6
A palavra “benevolente” vem do grego original transliterado hilastheti e quer dizer: “sê conciliado”, “expiado”, “indulgente”. No
NT e na Septuaginta essa expressão está relacionada com os atos no propiciatório, no Santo dos Santos do templo (Rm 3.25; Hb
9.5; Êx 25.17). O verbo aqui usado significa “ser propiciado” (1Jo 2.1-2). O publicano não evoca seu bom coração ou boas obras,
mas suplica a misericórdia do Senhor para lhe perdoar os pecados e receber suas orações e ações de graças.
7
Jesus enfatiza um dos pilares doutrinais da fé cristã: a justificação. O fariseu tenta justificar-se a si mesmo ao apresentar suas
ção de adverti-los quanto ao dever de orar
continuamente e jamais desanimar.
1
2
E lhes contou: “Em certa cidade havia
um juiz que não temia a Deus, tampouco
era sensível às necessidades das pessoas.
3
E havia, naquela mesma cidade, uma
viúva que frequentemente se dirigia a ele,
rogando-lhe: ‘Faze-me justiça na causa
que pleiteio contra meu adversário!’
2
4
Ele, por algum tempo, não a quis atender;
todavia, mais tarde considerou consigo
mesmo: ‘É bem verdade que eu não temo a
Deus, nem respeito à pessoa alguma;
5
contudo, como esta viúva me importu-
na, farei justiça a ela, para não acontecer
que, por fm, venha a me aborrecer ainda
mais’”.
3

6
Então, concluiu o Senhor: “Atentai à
resposta do juiz da injustiça!
7
Porventura Deus não fará plena justiça
aos seus escolhidos, que a Ele clamam de
dia e de noite, ainda que lhes pareça de-
morado em atendê-los?
8
Eu vos asseguro: Ele vos fará sua justiça,
e depressa. No entanto, quando o Filho
do homem vier, encontrará fé em algu-
ma parte da terra?”
4
A parábola do fariseu e do publicano
9
Para algumas pessoas que confavam em
sua própria justiça e menosprezavam os
outros, Jesus contou ainda esta parábola:
10
“Dois homens subiram ao templo para
orar; um era fariseu e o outro, publicano.
11
O fariseu, em pé, orava em seu íntimo:
‘Deus, eu te agradeço porque não sou
como os outros homens: roubadores,
corruptos, adúlteros; nem mesmo como
este cobrador de impostos.
12
Jejuo duas vezes por semana e dou o
dízimo de tudo quanto ganho’.
5
13
Entretanto, o publicano fcou à distância.
Ele sequer ousava olhar para o céu, mas ba-
tendo no peito, confessava: ‘Ó Deus, sê be-
nevolente para comigo, pois sou pecador’.
6
14
Eu vos asseguro que este homem, e
não o outro, foi para sua casa justifcado
diante de Deus. Porquanto todo aquele
que se vangloriar será desprezado, mas o
que se humilhar será exaltado!”
7
Jesus abençoa os pequeninos
(Mt 19.13-15; Mc 10.13-16)
15
O povo trazia-lhe também as crianças,
para que as abençoasse. Mas assim que
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qualificações morais e espirituais ao Senhor. Algumas, inclusive, acima do que a lei de Moisés ordenava. Entretanto, somente
Deus pode justificar o ser humano culpado e já condenado (Rm 1.17; 5.1). Ao tentar justificar-nos a nós mesmos, estamos sendo
falsos, mentirosos e desprezando a justiça da graça de Deus (Rm 3.20).
8
Jesus usa uma outra ilustração para explicar, particularmente aos discípulos, que tipo de pessoa herdará o Reino de Deus.
A recepção calorosa e protetora do Senhor às crianças – no original grego transliterado brephe, “infantes” – denota que as
principais virtudes desejadas por Deus no ser humano não são a instrução, compreensão e obediência irrefletida às leis; mas
sim, a relação de amor puro, confiante e sincero para com o Senhor (Mt 18.3; 19.14; Mc 10.15 de acordo com 1Pe 2.2). Qualquer
tentativa de obstruir ou impedir que crianças e pessoas simples do povo tenham essa relação verdadeira com Deus será
duramente castigada (17.1,2; Mt 18.1).
9
A expressão usada por Jesus tem o seguinte sentido original: “Tu sabes o que dizes?” Ou seja, somente alguém que reco-
nhece em Cristo a pessoa de Deus (Eu Sou), pode dirigir-se a ele por suas qualidades de lealdade, misericórdia e benevolência
sem cair no pecado da hipocrisia (Rm 7.18). Afinal, somente Deus é bom, todos os homens são pecadores e inclinados ao mal.
O jovem rico e religioso não percebeu que estava falando com Deus.
10
Jesus procura ser mais claro e, considerando o apego extremo daquele líder judeu ao cumprimento da Lei, o encoraja a cumprir
o décimo mandamento, pois sua avareza era maior do que seu amor a Deus. A renúncia a tudo, e a qualquer coisa, que possa
ocupar o lugar de primazia de Deus em nossa alma é condição sine qua non (latim: sem a qual não) para o discipulado (12.34).
11
Causas da tristeza e depressão de muitas pessoas: Negam-se a confiar plenamente em Deus e a corresponder às expectati-
vas do Senhor (Jo 3.3,5); rejeitam o único Mestre que verdadeiramente pode guiá-las pelos árduos caminhos desta vida (Jo 8.12);
afastam-se do único Caminho que pode conduzi-las à felicidade e vida eternas (Jo 14.6).
12
A ninguém foi dado o dom de salvar-se a si mesmo ou a qualquer outra pessoa. Essa é uma dádiva de Deus, outorgada atra-
vés do sacrifício vicário de Jesus Cristo em benefício exclusivo daqueles que sinceramente nele crêem (Jo 6.37). Poucos são os
ricos, mas todos amam o mundo e as coisas que o mundo oferece (1Jo 2.15). A renúncia de tudo por amor a Cristo é igualmente
impossível, tanto para pobres quanto para ricos, por isso dependemos da graça do Senhor e do seu toque milagroso em nossos
corações para abraçarmos com fé a salvação e nos convertermos dos nossos caminhos naturais de egoísmo e pecado.
os discípulos notaram isso, repreende-
ram aqueles que as haviam trazido.
16
Jesus, porém, chamando as crianças
para junto de si, ordenou: “Deixai vir a
mim os pequeninos e não os impeçais;
pois o Reino de Deus pertence aos que
são semelhantes a eles.
17
Eu vos asseguro com toda certeza: Quem
não receber o Reino de Deus como uma
criança, de maneira alguma entrará nele!”
8
Jesus e o rico que amava seus bens
(Mt 19.16-30; Mc 10.17-31)
18
Certo líder judeu indagou-lhe: “Bom
Mestre, que farei para herdar a vida eter-
na?”
19
Questionou-lhe Jesus: “Por que me
chamas bom? Ninguém é bom, senão
um, que é Deus!
9
20
Tu sabes os mandamentos: ‘Não adul-
terarás, não matarás, não furtarás, não
dirás falso testemunho, honra a teu pai
e a tua mãe’”.
21
Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso
tenho obedecido desde a minha ado-
lescência!”
22
Ao ouvir isto, exortou-lhe Jesus: “Con-
tudo, algo ainda te falta! Vende tudo o
que tens, reparte o dinheiro entre os
pobres e ganharás um tesouro nos céus.
Depois, vem e segue-me”.
10
23
Ao ouvir estas orientações, o jovem en-
tristeceu-se muito, pois era riquíssimo.
24
Jesus, observando o semblante abatido
daquele homem, exclamou: “Quão dif-
cilmente entrarão no Reino de Deus os
que possuem muitas riquezas!
11

25
Certamente, é mais fácil passar um ca-
melo pelo fundo de uma agulha do que
entrar um rico no Reino de Deus”.
26
E os que ouviram essas palavras ques-
tionaram: “Se é dessa maneira, quem po-
derá se salvar?”
12

27
Jesus lhes asseverou: “Tudo o que é
impossível aos seres humanos é possível
para Deus!”
28
Ao que Pedro se manifestou: “Eis que
nós deixamos nossa família e bens para
te seguirmos!”
29
Então Jesus lhes afrmou: “Com toda a
certeza Eu vos asseguro: Ninguém há que
tenha deixado casa, esposa, irmãos, pai
ou flhos por causa do Reino de Deus,
30
que não receba, no tempo presente,
muitas vezes mais, e, na era futura, a vida
eterna!”
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1530
13
Lucas destaca, pela primeira vez, a participação efetiva dos gentios (no caso, os romanos) em relação às perseguições e
ao martírio de Jesus Cristo.
14
Apesar desta ser a sétima predição feita por Jesus sobre seu holocausto (5.35; 9.22.44; 12.50; 13.32; 17.25), os discípulos
– como todos os judeus da época – esperavam há séculos a chegada de um Messias que venceria todos os inimigos de Israel
e se tornaria rei dos judeus, como Davi. E também compartilharia seu reinado de glória com seus seguidores leais. Honras e
autoridade seriam distribuídas entre os cooperadores mais próximos. Somente o Espírito Santo poderia lhes esclarecer quanto ao
novo e definitivo procedimento de Deus em relação a Israel e ao mundo (2Co 4.3,4 de acordo com Lc 24.26).
15
É possível que Bartimeu (Mc 10.46) tenha sido curado entre a velha Jericó (uma cidade de cananeus) e a nova Jericó
(construção que Herodes havia recentemente terminado). Mateus relata que dois cegos foram curados (Mt 20.30). É provável
que um deles tenha falado de forma mais incisiva e destacada, suplicando em favor de ambos e, por isso, Marcos e Lucas não
mencionam o outro.
16
O homem cego já tinha ouvido acerca dos rumores sobre o título messiânico que as multidões haviam consagrado a Jesus:
Filho de Davi, e que culminariam na sua entrada triunfal (como o Messias que seria proclamado rei pela vontade popular) em
Jerusalém (19.28). Esse agitar das massas judaicas começava a perturbar seriamente os governadores romanos, que permitiam a
livre manifestação religiosa dos povos por eles dominados, mas jamais, qualquer tipo de insubordinação política ou econômica.
17
Jesus parou em sinal de reprovação aos que, desprezando os apelos do mendigo cego, o repreendiam. Por outro lado, Bar-
timeu demonstrou de forma prática a parábola da “viúva persistente”. Ao homem que pedia “misericórdia” o Senhor pergunta em
que sentido prático a misericórdia do Filho de Davi poderia ajudá-lo. Mateus acrescenta que Jesus tocou os olhos do homem, mas
ambos mencionam que Jesus abençoou aquele homem com a palavra da cura completa, que pode ser traduzida como “salvação”,
o que significa uma cura do corpo e da alma. A fé daquele homem não produziu a cura, mas foi o meio pelo qual ele a recebeu. Daí
em diante, o homem podia ver, e vendo, já não chamava a Jesus de Filho de Davi – líder político e rei dos judeus – mas glorificava
a Deus, pois havia visto Seu Filho Jesus.
Capítulo 19
1
Em hebraico literal, o nome “Zaqueu” significa, “o justo”. Ele não era apenas um cobrador de impostos, mas uma espécie
de gerente geral de arrecadações, cargo esse mencionado só nesta passagem em toda a Bíblia. Jericó ficava na fronteira com a
Jesus prediz outra vez seu holocausto
(Mt 20.17-19; Mc 10.32-34)
31
E Jesus, chamando à parte os Doze,
lhes revelou: “Eis que estamos subindo
para Jerusalém, e tudo o que está escrito
pelos profetas sobre o Filho do homem
se cumprirá.
32
Ele será entregue aos gentios que zom-
barão dele, o insultarão, cuspirão nele, e
depois de muito açoitá-lo, o matarão.
13

33
Contudo, no terceiro dia Ele ressus-
citará!”
34
Os discípulos não compreenderam
nada do que fora dito. O signifcado des-
sas palavras ainda lhes estava oculto, e,
portanto, não podiam entender do que
Ele estava falando.
14
Um homem cego ganha a visão
(Mt 20.17-19; Mc 10.32-34)
35
Aconteceu que, ao aproximar-se Jesus
de Jericó, estava um homem cego senta-
do à beira do caminho, suplicando por
esmolas.
15

36
Assim que ouviu a multidão passando,
ele perguntou do que se tratava aquilo.
37
E informaram-lhe: “É Jesus de Nazaré
que vem passando!”
38
Então, o cego se pôs a exclamar: “Je-
sus! Filho de Davi, tem misericórdia de
mim!”
16

39
Os que caminhavam à frente o repre-
enderam para que se calasse; entretanto,
o homem gritava cada vez mais alto: “Fi-
lho de Davi, tem misericórdia de mim!”
40
Foi então que Jesus parou e ordenou
que aquele homem fosse trazido à sua
presença. E, tendo ele chegado bem pró-
ximo, Jesus perguntou-lhe:
41
“Que queres que Eu te faça?” Ao que
lhe respondeu o homem: “Senhor, eu
quero voltar a enxergar!”
42
Então Jesus lhe determinou: “Recupe-
ra a visão! A tua fé te curou”.
43
Naquele mesmo instante, o homem
recuperou a capacidade de ver e passou a
seguir a Jesus, glorifcando a Deus. Quan-
do toda a multidão observou o que acon-
teceu, da mesma forma rendia louvores ao
Senhor.
17

A salvação de Zaqueu, o publicano
19
Chegando a Jericó, atravessava Je-
sus a cidade.
2
Eis que um homem rico, chamado Za-
queu, chefe dos publicanos,
1
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1531
Transjordânia (Peréia), uma região próspera nessa época e Zaqueu ganhava uma porcentagem sobre o trabalho de todos os demais
publicanos do distrito. Zaqueu é um exemplo de que o impossível ao ser humano, é possível a Deus (18.24-47; Mc 2.14,15).
2
Havia um desejo no coração de Zaqueu e uma curiosidade por ver a Jesus muito diferente da inveja e maldade de Herodes
(9.9), ou da incredulidade de muitas pessoas da multidão (11.16,24). Era a mesma disposição e perseverança do cego (18.41).
Zaqueu subiu numa árvore robusta, de tronco curto, mas com longos e fortes galhos. Normalmente atingia dez metros de altura
(Am 7.14).
3
Embora Zaqueu sentisse um desejo irresistível de conhecer Jesus; de fato, Jesus já sabia quem era ele. A frase usada por
Jesus no original, não é apenas uma simples solicitação de pouso ou hospedagem, mas uma expressão enfática. Jesus entendia
sua visita a Zaqueu como parte da sua missão divina. Zaqueu respondeu com regozijo ao chamado do Senhor. Lucas faz 19
referências explícitas à alegria e ao gozo espiritual. Assim como seu amigo Paulo em sua carta aos filipenses (Fp 1.18).
4
Para a maior parte da multidão era mais fácil louvar a Deus pelo milagre da cura do cego Bartimeu (18.43), do que se regozijar
pelo milagre – ainda maior – da conversão de um rico avarento e pecador como Zaqueu (15.28,30).
5
O milagre da conversão sempre atinge a pessoa humana em seus pecados e recalques psicológicos mais crônicos,
transformando o caráter e os sentimentos à semelhança do Senhor (Imago Dei – à Imagem de Deus). Zaqueu passa a ver em
Cristo o grande valor e referencial da sua vida. Seus valores e ambições assumem prioridades celestiais e eternas. Zaqueu tira seu
foco do acumular egoísta de bens e amplia sua visão para a socialização do amor e dos recursos materiais. Suas capacidades
serão agora usadas para glorificar a Deus, em benefício do Reino, e não apenas para si mesmo. Zaqueu enxerga o mal que fazia e
decide indenizar a quem prejudicou além do que exigia a Lei, considerando sua antiga atitude como roubo e restituindo, portanto,
até quatro vezes mais (Êx 22.1; 2Sm 12.6; Pv 6.31).
6
A sociedade judaica costumava excluir os publicanos da comunhão nas sinagogas e os considerava como “pecadores”, e
não membros da família de Abraão (judeu verdadeiro). Jesus reconduz Zaqueu à sua condição de filho de Abraão – não apenas
pela linhagem – mas, sobretudo pelo seu “andar nos passos da mesma fé que teve Abraão” (Rm 4.12). O título messiânico: “Filho
do homem” (Dn 7.13) foi usado apenas por Jesus, citado nos quatro evangelhos, por Estevão (At 7.56) e na visão escatológica
de João (Ap 1.13).
7
A parábola das moedas de ouro (ou minas) tem o propósito de revelar aos discípulos que – ao contrário do que pensava o
povo – Jesus não iria completar a implementação do seu Reino terrestre ao chegar em Jerusalém.
8
Curiosamente, caso semelhante ocorreu no ano 4 a.C, relatado por Josefo em suas obras “Guerras” e “Antiguidades”, nas
quais narrou a história de Arquelau (irmão de Antipas) que viajou para Roma a fim de ser coroado e assinar os documentos de
posse sobre a Judéia. Os judeus, conhecendo seu caráter tirânico, pois havia massacrado cerca de 3.000 judeus na primeira
Páscoa após sua ascensão, mandaram uma delegação pedir que lhe fosse negado o reino. O imperador Augusto lhe concedeu
metade do território que estava sob a tutela de seu pai, Herodes, o Grande. Embora jamais lhe outorgasse o título de “rei”.
9
Em contraste com a história contada em Mt 25.14, a quantia é pequena e repartida igualmente para todos. A “mina” era uma
moeda grega de ouro e seu valor equivalia a 100 dracmas gregas, cada dracma (ou denário romano) correspondendo ao salário
3
buscava ver quem era Jesus; todavia,
sendo ele de pequena estatura, não o
conseguia, devido à afuência do povo.
4
Por esse motivo, correu adiante da mul-
tidão e subiu em uma fgueira brava para
observá-lo, pois Jesus ia passar por ali.
2

5
Quando Jesus chegou àquele local,
olhou para cima e o chamou: “Zaqueu!
Desce depressa, pois preciso fcar hoje
em tua casa”.
3

6
No mesmo momento desceu Zaqueu
apressado e o recebeu com enorme
alegria.
7
Todos, em meio à multidão, que pre-
senciaram o que se passou começaram a
murmurar: “Ele entrou na casa daquele
pecador e vai hospedar-se lá!”
4

8
Então, Zaqueu tomou a palavra e co-
municou a Jesus: “Eis a metade dos meus
bens Senhor, que estou doando aos po-
bres; e se de alguém extorqui alguma coi-
sa, devolverei quatro vezes mais!”
5

9
Diante disso, Jesus declarou: “Hoje,
houve salvação nesta casa, pois este ho-
mem também é flho de Abraão.
10
Porquanto o Filho do homem veio
buscar e salvar o que estava perdido”.
6

A parábola das moedas de ouro
11
Estando eles a ouvi-lo, Jesus passou
a expôr-lhes uma parábola, visto estar
próximo de Jerusalém e o povo imaginar
que o Reino de Deus ia se estabelecer ali
a qualquer momento.
7

12
E assim, contou-lhes Jesus: “Certo ho-
mem de nobre nascimento, partiu para
uma terra longínqua, com o objetivo de
ser coroado rei de um determinado reino
e regressar.
8

13
Convocou dez dos seus servos, a cada
um confou uma moeda de ouro e orien-
tando a todos lhes disse: ‘Fazei com que
esse dinheiro produza lucro até que eu
volte’.
9
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de um dia de trabalho braçal (15.8). Cada mina pagava cerca de três meses de trabalho. Dez minas equivaliam aproximadamente
a meio quilo de prata. E um talento, a cerca de 60 minas. Sendo assim, o montante total entregue a cada servo, equivalia ao
salário de quase três anos.
10
Os cristãos recebem do Senhor um investimento de poder em suas vidas. Os que buscarem no Evangelho dividendos espi-
rituais para si e para o próximo ficarão ainda mais ricos. Todavia, os que forem negligentes e preguiçosos, ou esbanjarem a graça
que lhes foi concedida se tornarão cada vez mais pobres, a ponto de perderem até mesmo o que já possuem.
11
Uma referência ao genocídio de Jerusalém em 70 d.C. O castigo dos que se rebelaram contra o Rei e ativamente se opuseram ao
Senhor foi muito mais severo que o aplicado ao servo negligente. Esse texto é também uma alusão escatológica ao Dia do Juízo.
12
Betfagé era uma aldeia situada a leste do cume do chamado monte das Oliveiras, a cerca de um quilômetro e meio de Jeru-
salém. Betânia, onde vivia Lázaro com suas irmãs, Marta e Maria, grandes amigos de Jesus (10.38 conforme Jo 11.1), era um ou-
tro povoado, no sopé do monte, a cerca de quatro quilômetros da cidade de Jerusalém (Jo 11.18). O monte das Oliveiras era uma
crista montanhosa com quase dois quilômetros de extensão, separada de Jerusalém pelo vale de Cedrom (Zc 14.4; Mc 11.1).
13
O povoado aqui se refere a Betânia. Em outros relatos temos a confirmação de que se tratava de um jumentinho saudável,
nunca antes montado (Jo 12.15 de acordo com Nm 19.2; 1Sm 6.7) acompanhado de sua mãe jumenta conforme o costume (Mt
21.7). Os evangelhos não revelam os nomes dos dois discípulos que foram buscar o jumentinho sob as ordens do Senhor, mas
confirmaram que tudo aconteceu como Jesus profetizara (22.13,21,34); como profeta, conhece o que se passa no íntimo das
pessoas (7.39 conforme Jo 1.47) e seu ensino está de acordo com Moisés e os profetas (24.6,26).
14
Entrementes, seus súditos o odiavam e
por isso mandaram uma delegação atrás
dele, protestando: “Não queremos que
este venha a reinar sobre nós!”
15
Contudo, ele tomou posse do reino e
voltou. Então mandou chamar os servos
a quem dera o dinheiro, a fm de verifcar
o quanto haviam lucrado.
16
O primeiro chegou e relatou: ‘Senhor,
a tua moeda de ouro rendeu dez vezes
mais!’
17
Ao que o senhor o elogiou: ‘Muito
bem, servo bom! E por teres sido leal no
pouco, governarás sobre dez cidades’.
18
Vindo o segundo servo, lhe declarou:
‘Senhor, a tua moeda de ouro produziu
cinco vezes mais lucro!’
19
E a este determinou: ‘Terás autoridade
sobre cinco cidades!’
20
Veio, então, o outro servo, explicando:
‘Eis aqui, Senhor, a tua moeda de ouro,
que eu envolvi num lenço e conservei
bem guardada!
21
Tive receio de ti, porquanto és um ho-
mem muito severo. Tira o que não pu-
seste e colhes o que não semeaste!’
22
Então o senhor o julgou: ‘Por tuas
próprias palavras eu o condenarei, servo
mau! Sabias que eu sou homem rigoroso,
que tiro o que não depositei e ceifo o que
não semeei.
23
Sendo assim, por que não investiu o
meu dinheiro no banco? E, então, no
meu retorno, o receberia com juros’.
24
Em seguida, dirigindo-se aos que esta-
vam presentes, ordenou: ‘Tirai-lhe a moe-
da de ouro e entregai-a ao que tem dez!’
25
Eles argumentaram: ‘Mas, senhor, ele já
possui dez vezes mais do que recebeu!’
26
Ao que ele proclamou: ‘Contudo, eu
vos asseguro que a quem tem, mais será
concedido, mas a quem não tem, até o
que tiver lhe será tirado.
10
27
E quanto àqueles, que se levantaram
contra mim, como inimigos, rejeitando
meu reinado sobre eles, trazei-os ime-
diatamente aqui e executai-os diante de
mim!’”
11
Jesus é conduzido em triunfo
(Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Jo 12.12-19)
28
Após haver proferido essas palavras,
Jesus seguiu adiante, subindo para Jeru-
salém.
29
Quando iam chegando aos povoados
de Betfagé e Betânia, que fcam próxi-
mos do conhecido monte das Oliveiras,
enviou dois dos seus discípulos, com a
seguinte instrução:
12
30
“Ide ao povoado que está adiante e, ao
entrardes, encontrareis um jumentinho
amarrado, sobre o qual ninguém jamais
montou. Desprendei-o e trazei-o aqui”.
13
31
Se alguém vos interrogar: ‘Por qual
motivo o soltais?’ respondereis desta ma-
neira: ‘Porque o Senhor precisa dele”.
32
E assim, os que haviam sido enviados
foram e acharam tudo conforme Ele lhes
tinha dito.
33
Quando eles estavam desamarrando o
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1533
14
Jesus decide entrar em Jerusalém montado num jumentinho assumindo publicamente sua filiação a Davi e, portanto, digno
do seu trono (1Rs 1.33,44). Porém, mais do que sucessor do reino de Davi, ele era o Messias a quem, quatrocentos anos atrás,
os profetas haviam anunciado (Zc 9.9). Todos os judeus da cidade, liderados por um incontável número de discípulos, conduziam
Jesus em procissão e o aclamavam como Rei dos judeus. A ressurreição de Lázaro e a cura do cego Bartimeu eram exemplos
recentes, mas muitas outras maravilhas e obras poderosas estariam incluídas – algumas registradas por João – ocorridas em
várias ocasiões em Jerusalém e na Galiléia (Mt 21.14; Jo 12.17).
15
Finalmente o povo unido reconhecia a divindade e majestade de Jesus (Mc 11.9 e Mt 21.4 com Sl 118.26). A paz messiânica
de Jeová vinda à terra (2.14) volta ao céu, onde estará entronizado o Cristo ressurreto. Essa paz foi rejeitada por Jerusalém (42)
e aguarda o glorioso retorno do Senhor para seu pleno cumprimento. Enquanto isso inunda de paz e gozo o coração dos que
aceitam o Espírito do Senhor (Is 9.6; Jo 14.27; Ef 2.13,14; Fp 4.7). É importante notar que, enquanto as multidões louvam a Deus,
aclamando Jesus como rei, o próprio Jesus chora e se lamenta pelo que sobrevirá à sua cidade amada (38-41), e os fariseus
manifestam um descontentamento que logo culminaria no julgamento e assassinato de Jesus (23.21,27).
16
Os fariseus e líderes políticos e religiosos dos judeus pedem para que Jesus ordene aos seus milhares de discípulos que parem
com aquela proclamação. Jesus lhes explica que o que estava acontecendo ali jamais teria fim. Ainda que todos se calassem, o es-
trondo das pedras, despencando do templo, contaria a triste história de quando Deus veio à terra e foi rejeitado pelos seus. Ninguém
entendeu o que Jesus estava dizendo, até que no ano 70 d.C., Jerusalém foi arrasada e não sobrou pedra sobre pedra.
17
Ao observar a cidade e o povo a quem tanto amou, sabendo do desenrolar da história, e de tudo quanto aquela gente,
seus filhos e netos, ainda sofreriam por causa de seus corações empedernidos (Nm 13 e 14; Ap 6.16,17), Jesus não suportou a
emoção e esvaiu-se em pranto derramando seu lamento na forma de lágrimas sobre o solo árido da Palestina. Jesus bem sabia
que sua entrada triunfal era, na verdade, o caminho do holocausto. A coroa que o aguardava era de espinhos e todos os seus
seguidores o abandonariam em breve aos carrascos.
18
Jesus profetizou detalhes sobre como se daria a invasão romana cerca de quarenta anos mais tarde. Os exércitos romanos,
durante anos, construíram trincheiras até sitiar toda a cidade. A descrição do Senhor lembra as predições do AT (Is 29.3; 37.33;
Ez 4.1-3). Deus, na pessoa de Jesus – o Messias prometido – achegou-se até seu povo amado, e eles não o reconheceram, e o
rejeitaram – assim como ocorre nos dias de hoje em toda a terra com relação ao Evangelho – (Jo 1.10,11 conforme Lc 20.13-16).
Aqui termina a seção central de Lucas sobre a ida de Jesus para Jerusalém iniciada em 9.51. O verso 45 começa a seção sobre
“Jesus no templo” que termina em 21.38, com a profecia sobre a invasão de Jerusalém e a destruição total do templo.
19
Marcos nos informa que essa chamada “purificação do templo” deu-se após a “entrada triunfal”, ou seja, na segunda-feira
jumentinho, os seus donos lhes indaga-
ram: “Por que estais soltando o jumenti-
nho?”
34
Diante do que replicaram: “Porque o
Senhor precisa dele!”
35
Então puderam trazê-lo até Jesus, co-
locaram os mantos de montaria sobre o
jumentinho e ajudaram Jesus a montá-
lo.
36
E assim, enquanto Ele seguia em pro-
cissão, o povo estendia os seus mantos
pelo caminho.
37
Ao chegar próximo da descida do
monte das Oliveiras, toda a multidão
dos discípulos começou a louvar a Deus
com grande alegria e em alta voz, por
todos os milagres que haviam visto. E
exclamavam:
14

38
“Bendito é o rei que vem em Nome do
Senhor! Paz no céu e glória nas maiores
alturas!”
15
39
Porém, alguns dos fariseus que esta-
vam no meio da grande multidão sugeri-
ram a Jesus: “Mestre! Repreende os teus
discípulos!”
40
Jesus, entretanto, lhes afrmou: “Eu vos
asseguro, se eles se calarem, as próprias
pedras clamarão!”
16
Jesus chora por Jerusalém
41
Quando ia chegando, assim que viu
a cidade, Jesus começou a chorar sobre
ela,
17
42
e proclamou: “Ah! Se tu compreendes-
ses neste dia, sim, tu também, o que traz
a paz! No entanto agora isto está enco-
berto aos teus olhos.
43
Virão dias em que teus inimigos te cer-
carão de trincheiras e, por todos os lados,
te ameaçarão, apertando o grande cerco
contra ti.
44
Também lançarão por terra, tu e os teus
flhos que estão dentro de ti. Não deixarão
em ti pedra sobre pedra, porque não reco-
nheceste a maravilhosa oportunidade que
tiveste com a visitação de Deus!”
18
Os profanadores da Casa de Deus
(Mt 21.12-17; Mc 11.15-19)
45
Mais tarde, entrando no templo, co-
meçou a expulsar os que ali estavam
negociando,
19

LUCAS 19
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1534
da Paixão. Jesus se deparou com os vendilhões no átrio exterior (espaço reservado aos gentios), onde os animais destinados aos
sacrifícios e ofertas eram vendidos, especialmente aos não judeus, por preços totalmente injustos e de forma contrária a Lei. João
menciona uma situação semelhante no início do ministério de Jesus (Jo 2,13-25), mas os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos
e Lucas) referem-se apenas a esse mesmo momento (Mt 21.12,13; Mc 11.15-17).
20
Os chefes dos sacerdotes faziam parte do concílio governamental dos judeus, chamado de Sinédrio, e procuravam uma
forma de matar Jesus sem causar comoção entre o povo (Mc 14.55; 20.19,20 conforme Jo 7.1; 11.53-57). A Casa de Oração
torna-se um covil de ladrões, quando: O Senhor da casa não é reconhecido como Deus (Ml 3.1); a adoração e o verdadeiro amor
são trocados pela avareza (Jr 7.11; 1Co 13); a casa do Senhor é tratada como se não pertencesse a ele (1Co 6.19); palavras e
petições egoístas tomam o lugar da verdadeira intercessão (Tg 4.2,3).
Capítulo 20
1
Jesus começa um longo dia de controvérsias (terça-feira da Paixão) sem perder seu ânimo e seu objetivo maior: salvar todos
os que nele cressem (Jo 1.12-14), ainda que esse esforço o levasse ao martírio. No domingo Jesus havia entrado em Jerusalém
sob aclamação do povo em procissão. Na segunda-feira expulsou os vendilhões do templo (Mc 11.19,20,27-33). Agora, os líderes
dos três mais importantes grupos religiosos e políticos de Israel (sacerdotes, escribas e os anciãos, ou “maiorais do povo”) e
que faziam parte do Sinédrio, a assembleia governante do povo judeu, mobilizam todas as forças na tentativa de pegar Jesus em
flagrante delito de desrespeito (blasfêmia) ou heresia quanto ao ensino das Escrituras. Esse seria o pretexto ideal para levá-lo a
um sumário julgamento seguido de execução.
2
Jesus se expôs perigosamente quando, de forma violenta, censurou a atitude das pessoas que – em parceria com sacerdotes
e líderes do Sinédrio – usavam o espaço do templo para negociar os animais (muitos com defeito e doentes) destinados às ofertas
e sacrifícios. Uma atitude dessas só poderia ser tomada por alguém com a autoridade de um líder maior do Sinédrio ou pelo
próprio Messias. Além de desafiar a autoridade dos principais líderes judaicos da época, Jesus também estava prejudicando os
lucros monetários advindos dessa operação sinistra. As autoridades judaicas constituídas da época já haviam inquirido João Ba-
tista sobre sua autoridade profética (Jo 1.19-25), e ao próprio Jesus, no começo do seu ministério (Jo 2.18-22). Agora, entretanto,
eles tinham que fazer algo rápido para desacreditar Jesus aos olhos do povo que o amava e exaltava como Messias. Um meio
seria apresentá-lo como um revolucionário radical e descontrolado, o que chamaria a atenção imediata de Roma.
3
Essa parábola é ampla e profunda em significados, como a maior parte do ensino do Senhor. A história nos faz pensar sobre Is
5.1-7 (a vinha refere-se a Israel), tem implicações messiânicas ao mesmo tempo em que é uma profecia sobre a Paixão de Cristo.
46
Repreendendo-os: “Está escrito! A mi-
nha Casa será Casa de oração. Porém vós
a transformastes num covil de esteliona-
tários!”
O povo ia ao templo ouvir Jesus
47
Todos os dias, Jesus ensinava no tem-
plo. Entretanto, os chefes dos sacerdotes,
os mestres da lei e os líderes do povo tra-
mavam algo para destruí-lo.
48
Contudo, não conseguiam encontrar
um meio para executar seus planos, pois
todo o povo estava absolutamente sob o
domínio das suas palavras.
20

A autoridade de Jesus é questionada
(Mt 21.23-27; Mc 11.27-33)
20
E aconteceu que, num daqueles
dias, enquanto Jesus estava ensi-
nando e evangelizando o povo no tem-
plo, aproximaram-se dele os chefes dos
sacerdotes, os mestres da lei e os líderes
religiosos,
1
2
e o questionaram nestes termos: “Dize-
nos: com que autoridade procedes como
tens feito? Ou melhor: quem te deu tal
autoridade?”
2

3
Replicou-lhes Jesus: “Da mesma forma
Eu vos questionarei; dizei-me:
4
o batismo de João tinha autorização do
céu ou dos seres humanos?”
5
Diante disso, eles discutiam entre si: “Se
afrmarmos: Do céu, ele nos indagará:
‘Então, por qual motivo não acreditastes
nele?’.
6
Por outro lado, se respondermos: Dos
seres humanos, todo o povo nos apedre-
jará, pois estão convictos de que João era
profeta”.
7
Por fm, alegaram que não sabiam.
8
Então, Jesus lhes respondeu: “Pois nem
Eu vos digo com que autoridade faço o
que faço!”
A parábola dos vinicultores maus
(Mt 21.33-46; Mc 12.1-12)
9
Em seguida, passou Jesus a expor ao
povo esta parábola: “Certo homem plan-
tou uma vinha, arrendou-a para alguns
vinicultores e saiu de viagem por longo
tempo.
3
10
Na época da colheita, ele enviou um
servo aos vinicultores, para receber a sua
parte nos lucros da vinha; no entanto, os
LUCAS 19, 20
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1535
Os servos que foram enviados aos vinicultores (trabalhadores especializados no cultivo e beneficiamento da uva em larga escala), re-
presentam todos os profetas que Deus enviou no passado (Ne 9.26; Jr 7.25,26; 25.4-7; Am 3.7; Mt 23.24; At 7.52; Hb 11.36-38). Como
normalmente ocorre nos contratos de meeiros, parte da renda obtida com a produção da safra deve ser encaminhada ao dono da
propriedade. Jesus usa essa metáfora para explicar a expectativa de Deus em relação à nossa produção espiritual e nos alertar quanto
aos dias de hoje. Vivemos na época da graça, quando Jesus Cristo viajou para terras distantes, mas voltará a qualquer momento para
acertar as contas com seus vinicultores. Somos alertados a não ter a mesma atitude dos judeus (Mt 25; Lc 12.35; 19.11).
4
Jesus profetiza que seria excluído da comunhão dos seus e morto de forma injusta e indigna (Jo 9.34; Hb 13.12).
5
Jesus profetiza que todas as honras da salvação e da herança eterna do Reino de Deus passariam para outras pessoas (os gen-
tios), por crerem no sacrifício vicário de Jesus Cristo, ganharão tudo quanto Israel perdeu (Rm 11.11; 22-25 conforme Lc 22.30).
6
Assim como um frágil vaso de barro se despedaça ao colidir contra a rocha pura. E, da mesma maneira, o vaso se espatifa
quando atropelado por essa rocha. Assim virá o Juízo sobre os que se opõem ao Evangelho e sobre aqueles que de Jesus, o
Messias, tentam se afastar (Is 8.14 de acordo com Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). Jesus cita Sl 118, que foi cantado por ocasião do
término da reconstrução dos muros de Jerusalém em 444 a.C. O verso 22 desse salmo refere-se à volta de Israel à Palestina e
seu estabelecimento como nação, o que só veio a ocorrer definitivamente em meados do século XX. Os religiosos e o povo fiel
esperavam uma renovação gloriosa do templo com a chegada do Messias. No entanto, Pedro nos revela que essa expectativa
se cumpriu na edificação espiritual do templo que é a Igreja, o Corpo Vivo de Cristo, onde Seu Espírito habita e nos prepara para
seu glorioso retorno (1Pe 2.4-9 de acordo com Jo 2.19-22; Ef 2.20-22).
7
Os escribas (mestres da lei) compreenderam muito bem que as profecias e admoestações tratavam particularmente de
Israel e deles como líderes do povo. Jesus ainda nos previne que tropeçar espiritualmente, por causa da miopia ou cegueira da
incredulidade, trará repentina destruição (despedaçamento) por causa do julgamento divino que ocorre também aqui na terra (um
grande exemplo foi a destruição de Jerusalém em 70 d.C.). Da mesma forma, todos os incrédulos que persistirem na dureza dos
seus pensamentos e sentimentos, até passar esse período da graça, no qual vivemos, serão levados pelo próprio Cristo ao Juízo
final e espalhados como a palha num vendaval.
8
Ao perceberem a irritação de Jesus contra tudo o que de errado estava ocorrendo no templo e o quanto ele estava sendo
identificado pelo povo como o Messias prometido, os líderes religiosos judaicos, tendo receio de tomar alguma atitude que pu-
desse provocar a revolta do povo contra eles, começaram a tentar – de todas as maneiras – levar Jesus a fazer algum comentário
contra o sistema vigente de dominação romana. Roma era implacável com qualquer manifestação de revolta e indisciplina política
por parte dos povos dominados e certamente separaria Jesus do povo se notasse qualquer insubordinação de um mestre judaico
em relação às leis romanas.
vinicultores, depois de o espancarem, o
mandaram embora de mãos vazias.
11
Diante do ocorrido, enviou-lhes outro
servo; mas eles, da mesma forma, a este
esbofetearam e depois de o humilharem,
o despediram sem nada.
12
Mandou ainda um terceiro servo, to-
davia, a este também, muito feriram e
expulsaram da vinha.
13
Então, disse o proprietário da vinha:
‘Que farei? Enviarei o meu flho amado; é
possível que a este respeitem mais’.
14
Contudo, assim que os vinicultores o
viram, tramaram entre si argumentando:
‘Este é o herdeiro! Ora, vamos matá-lo, e
assim, a herança caberá a nós’.
15
E, atirando o flho para fora da vinha,
o assassinaram. E, agora? O que lhes fará
o dono da vinha?
4

16
Virá e destruirá aqueles vinicultores
maus e dará a vinha a outros!” Quando o
povo ouviu isso, exclamou: “Que tal coi-
sa jamais ocorra!”
5
17
Porém, Jesus olhou bem nos olhos de
cada pessoa e indagou: “Então, qual é o
signifcado do que está escrito: ‘A pedra
que os construtores rejeitaram, esta veio
a ser a principal pedra angular’?
18
Todo o que bater contra esta pedra
será despedaçado, e aquele sobre quem
ela vier a cair será reduzido a pó!”
6

19
E, naquele mesmo instante, os mestres
da lei e os chefes dos sacerdotes tentavam
de alguma maneira prender a Jesus, pois
perceberam que fora contra eles que Ele
havia exposto esta parábola. Contudo,
temiam a reação do povo.
7

Tributos pagos a Deus e a César
(Mt 22.15-22; Mc 12.13-17)
20
Então, eles se dispuseram a vigiá-lo, e
para tanto, subornaram espiões que se
fngiram justos para apanhar Jesus em
qualquer eventual deslize verbal e com
isso poder entregá-lo à jurisdição e à
autoridade do governador.
8

21
E, por isso, os espiões lhe apresen-
taram a seguinte questão: “Mestre, sa-
bemos que falas e ensinas o que é corre-
to, e que não julgas pela aparência, mas
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9
Uma questão capciosa. Apoiar o pagamento dos impostos exigidos pelo gentio e dominador César seria uma decepção para
um povo que há 400 anos esperava pela vinda do Libertador e agora via em Jesus a figura desse Messias. Todavia, aconselhar
publicamente o não cumprimento da lei romana, seria um crime de insubordinação explícita e poderia atrair a indignação dos
oficiais de Roma.
10
Jesus pede uma moeda corrente e lhe entregam um denário (moeda romana de prata cujo valor correspondia a um dia de
trabalho de um soldado romano). Jesus chama a atenção da multidão para a figura cunhada na moeda. O retrato com o nome
de César identificava o proprietário daquela moeda. Então Jesus, demonstrando a mais ampla e profunda visão sobre a vida e o
relacionamento das pessoas com o Criador e com as criaturas, de forma absolutamente didática, ilustra seu ensino. A responsa-
bilidade civil e temporal abrange tudo quanto tenha a imagem do mundo. O Estado com suas leis e regulamentos, por exemplo
(Rm 13.1-7). Porém, há um outro lado. A responsabilidade espiritual e eterna que tem a ver com tudo aquilo que envolve a imagem
de Deus. A pessoa humana com sua alma, mente e sentimentos (Mt 22.37). A palavra grega original transliterada apodote significa
literalmente “pagar de volta”.
11
Os saduceus pertenciam a uma linhagem sacerdotal de aristocratas judeus que influenciavam decisivamente a política e a
economia israelense que não tinha adeptos entre os pobres. Eles não acreditavam na ressurreição e pregavam suas interpreta-
ções sobre a lei do levirato (Dt 25.5,6; At 23.6-8). Uma crença dos antigos judeus, que impunha à viúva o casamento com o irmão
do marido falecido, com o propósito de assegurar a continuidade da família, ou seja, da patrilinearidade (Gn 38.8).
12
A expressão grega original e literal traduzida por algumas versões como “era” e “mundo” é, na verdade, “século”. Expressão
que abrange todos esses sentidos. Jesus usou o estilo de vida dos saduceus (excessivamente preocupados com poder e dinhei-
ro) para se referir às pessoas materialistas e que adotam os valores deste mundo (comportamento modal da sociedade de cada
época), quer dizer, do presente século, como alvo e exemplo. Em contraste, Jesus menciona os “filhos da ressurreição”, cujos
valores e comportamento serão diferentes aqui e por toda a eternidade (Cl 3.1-4).
13
Na época de Jesus as Escrituras não eram divididas e numeradas em capítulos e versículos como hoje. Os mestres e estu-
diosos tinham que decorar os conceitos e citar quem e como tal assunto era tratado. A partir do ano 1244 d.C. a Bíblia começou a
ser dividida em capítulos para facilitar o estudo e apenas nos séculos XV e XVI passou também a ser subdividida em versículos nu-
merados. Jesus na verdade citou Êx 3.2 para fundamentar sua explicação quanto à realidade da ressurreição e da vida eterna.
ministras o caminho de Deus de acordo
com a verdade.
22
Pois bem. É certo pagar impostos a Cé-
sar ou não?”
9
23
Jesus percebeu a astúcia deles e lhes
ponderou:
24
“Mostrai-me um denário. De quem é a
imagem e a inscrição estampadas?” Ime-
diatamente replicaram: “De César!” Ao
que Ele lhes orientou:
25
“Dai, portanto, a César o que é de Cé-
sar e a Deus o que é de Deus!”
10

26
Não conseguiram apanhá-lo em palavra
alguma perante a multidão. E assombrados
com a sua resposta, fcaram em silêncio.
A verdade sobre a ressurreição
(Mt 22.23-33; Mc 12.18-27)
27
Alguns dos saduceus, que pregam que
não há ressurreição, chegaram para Jesus
com a seguinte questão:
28
“Mestre! Moisés nos legou por escrito
que, se morrer o irmão de alguém, sendo
aquele casado e não deixando flhos, seu
irmão deve se casar com a viúva e gerar
descendência ao falecido.
11
29
Pois bem! Havia sete irmãos. O primei-
ro casou-se e morreu sem deixar flhos.
30
O segundo e o terceiro, e mais tarde
os demais, da mesma forma, casaram-se
com ela;
31
e morreram os sete sucessivamente,
sem deixar nenhum flho.
32
Finalmente faleceu também a mulher.
33
Na ressurreição, de quem ela será es-
posa, visto que os sete foram casados
com ela?”
34
Então, Jesus lhes esclareceu: “Os flhos
deste século casam-se e são dados em ca-
samento;
35
todavia, os que forem julgados dignos
de tomar parte no mundo vindouro e
na ressurreição dos mortos não mais se
casarão nem serão prometidos para ma-
trimônio,
36
e também não podem mais morrer, pois
são como os anjos. São flhos de Deus, sen-
do igualmente flhos da ressurreição.
12
37
Quanto aos mortos ressuscitarem,
Moisés já o mostrou no relato da sar-
ça, no momento em que ele se refere ao
Senhor como ‘Deus de Abraão, Deus de
Isaque e Deus de Jacó’.
13

38
Portanto, Deus não é Deus de mortos,
mas sim de vivos, pois para Ele todos vi-
vem”.
LUCAS 20
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14
Jesus observa que passados vários séculos depois dos patriarcas, quando Deus se revela a Moisés, faz questão de apresen-
tar-se como Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êx 3; 6). Se esses homens não estivessem vivos o Senhor não poderia referir-se a
eles como seu Deus, dando a entender que eles ainda mantinham uma relação de culto e adoração ao Senhor mesmo após sua
morte na terra. Um argumento desses, firmado em Moisés, tocou profundamente a todos, em especial, aos fariseus (a maioria dos
escribas da época), que acreditavam na ressurreição e viviam divergindo teologicamente dos saduceus (At 23.6-8). A resposta de
Jesus foi tão brilhante que todos ficaram atônitos e maravilhados com a simplicidade, sabedoria e verdade do seu ensino.
15
Se o Messias fosse apenas o descendente humano de Davi, como seria possível um rei deste porte chamar alguém da sua
descendência de Senhor? Jesus aproveita o momento de grande atenção de todos para destacar a verdade sobre a sua pessoa
e ministério. Os adversários de Jesus foram obrigados a reconhecer que o Messias era também o Filho divino de Deus (Sl 110.1).
Estar à direita do rei é a maior demonstração de poder e soberania real, honras normalmente outorgadas somente ao seu filho e
sucessor. Cristo reina agora (22.16; 23.42; Jo 18.36; 1Co 15.24). Os inimigos do Senhor que serão todos vencidos são: a morte
(1Co 15.25,26), o pecado e as forças do mal (Cl 2.15; Hb 2.8).
16
Na hierarquia patriarcal dos antigos judeus, o filho mais velho não podia honrar o mais novo chamando-o de Senhor. Jesus
explica que essa é uma referência à preexistência e deidade de Cristo, o Messias (Mt 22.41; Mc 12.35). Sendo eterno, Jesus
antecede a Davi, como também é anterior a Abraão e sempre esteve com Deus (Jo 8.58).
17
Os escribas (mestres da lei que viviam da oferta do povo) procuravam representar as viúvas, como advogados, em suas
causas jurídicas junto às famílias e os requerimentos do templo, para tirarem vantagens financeiras ilícitas (12.47,48). A vida
religiosa não os fazia mais humildes, nem tampouco leais e verdadeiros. A importância do cargo que representavam, a cultura
que ostentavam e o louvor das multidões – ao longo de séculos sem submissão verdadeira à Palavra – os havia transformado
em pessoas avarentas, arrogantes, egoístas, fraudulentas e, portanto, hipócritas religiosos. A advertência de Jesus é clara e
assustadora também para os nossos dias.
Capítulo 21
1
O gazofilácio era o nome dado a uma seção do átrio das mulheres onde havia treze caixas para coleta de ofertas, com o
formato de trombeta. Cada uma tinha uma inscrição que indicava em qual uso específico sua arrecadação seria investida. Alguns
ricos contribuíam de forma generosa.
2
Lucas usa uma rara palavra grega penichra para salientar a condição de pobreza absoluta daquela mulher vestida de luto,
conforme a tradição judaica, o que indicava seu estado de viuvez. Ela ofertou duas lepta. O lepton (em grego), era uma moedinha
de cobre (a única moeda hebraica mencionada no NT, chamada perutah) e tinha um valor monetário irrisório (equivalente a um oi-
tavo de dólar atual e suficiente apenas para comprar dois pardais na época). Por isso a lei recomendava jamais colocar um lepton
39
Então, alguns dos mestres da lei se ma-
nifestaram exclamando: “Mestre, falaste
muito bem!”
40
E a partir daquele momento, ninguém
mais ousava lhe interrogar.
14

O Cristo é Senhor de Davi
(Mt 22.41-46; Mc 12.35-37)
41
Então Jesus lhes indagou: “Como
podem afrmar que o Cristo é flho de
Davi?
42
Sendo que o próprio Davi declara no
livro dos Salmos: ‘O Senhor disse ao meu
Senhor: Senta-te à minha direita,
15
43
até que Eu ponha os teus inimigos
como estrado para os teus pés’.
44
Desta forma, portanto, Davi lhe cha-
ma ‘Senhor’. Então como pode ser ele seu
flho?”
16
Jesus previne aos seus discípulos
(Mt 23.1-12; Mc 12.38-40)
45
E estando todo o povo a ouvi-lo, Jesus
advertiu aos seus discípulos:
46
“Tende cuidado com os mestres da lei.
Pois eles fazem questão de andar com
roupas especiais, e muito apreciam serem
saudados nas praças, ocupar as cadeiras
mais importantes nas sinagogas e os luga-
res de honra nos banquetes.
47
Contudo, eles devoram as casas das vi-
úvas, e, para não dar na vista, fazem lon-
gas orações. Sem dúvida, estes homens
sofrerão condenação mais severa!”
17
A oferta da viúva pobre
(Mc 12.41-44)
21
E erguendo os olhos, Jesus ob-
servou os ricos colocando suas
contribuições nas caixas para coleta de
ofertas.
1

2
Percebeu também que uma viúva pobre
ofertou duas pequenas moedas judaicas.
3
E exclamou: “Com toda certeza vos as-
seguro que esta viúva pobre contribuiu
mais do que todos eles juntos.
4
Porquanto todos os ofertantes deram
daquilo que lhes sobrava; esta, porém,
da sua extrema pobreza, deu tudo o que
tinha, todo o seu sustento!”
2
LUCAS 20, 21
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na caixa de caridade. Entretanto, conhecendo a condição de vida daquela senhora e seu coração, Jesus declara não apenas que
ela teria dado mais do que cada um dos ofertantes; mas, sim, literalmente, que ela deu mais do que todos aqueles contribuintes
somados. Jesus calculou o valor espiritual da oferta pelo que sobrou a cada um e a pobre viúva ofereceu o maior sacrifício.
3
Esse segundo templo (515 a.C.) havia sido completamente renovado por Herodes a partir de 19 a.C. e foi mais uma estraté-
gia política para reconciliar o povo judeu com seu rei que era idumeu, do que um ato de louvor e adoração ao Senhor, mesmo
considerando que Herodes mandou treinar cerca de mil sacerdotes como pedreiros e construtores, para edificarem o santuário
com todo o zelo religioso. A estrutura principal foi terminada no ano 9 a.C., mas toda a reconstrução foi concluída somente no
ano 64 d.C., pouco tempo antes da invasão romana. O templo ocupava uma área aproximada de 400 por 500 metros, sendo todo
revestido em ouro e prata. As pedras usadas para erigir a construção eram enormes blocos com cerca de 60 cm de altura por
5 metros de comprimento. Algumas dessas grandes pedras ainda podem ser vistas no chamado “muro das lamentações” em
Jerusalém. Contudo, esse muro fazia parte da infra-estrutura, e não propriamente do templo. Josefo faz a seguinte descrição em
relação às enormes pedras que adornavam o templo: “Tudo o que não era revestido de ouro, era do branco mais puro”. Herodes
ofereceu ao templo uma videira de ouro como obra de arte. Cada um de seus cachos era da altura de um homem e cada uva do
tamanho de uma melancia de ouro maciço.
4
A destruição de Jerusalém e, especialmente do templo, seria tão arrasadora que prefiguraria a destruição final do sistema
mundial no Dia do Juízo. Os exércitos romanos cercaram Jerusalém e no ano 70 d.C. invadiram a cidade santa, matando quase
toda a população. Destruíram e saquearam completamente o templo. Invadiram o santo dos santos e levaram para Roma o can-
delabro de ouro, a mesa dos pães da proposição e todos os objetos sagrados dos judeus, como um sinal de que haviam vencido
o Deus dos judeus. Além de não deixarem uma pedra em cima da outra (Mt 24.2), e rasparem até o ouro que havia nas junções
dos blocos de pedra, salgaram toda a cidade para que nem a grama voltasse a crescer naquele lugar.
5
Marcos esclarece que essa pergunta foi feita por quatro discípulos: Pedro, Tiago, João e André (Mc 13.3). Mateus apresenta a
questão de forma mais abrangente, incluindo um pedido de mais detalhes sobre o sinal do retorno de Jesus e consequentemente
do final dos tempos (Mt 24.3). Parte do discurso de Jesus refere-se ao final dos tempos e parte, especificamente, à destruição
de Jerusalém. Em Lucas a distinção entre os dois acontecimentos, considerando que a queda de Jerusalém faz parte das profe-
cias em relação ao fim do mundo, é mais clara que nos demais evangelhos. Jesus anunciou pessoalmente o fim das eras, mas
adiantou que esse terrível evento não se daria logo. Jesus expressa sua certeza na vitória final dos crentes fiéis, embora tivessem
que passar por períodos muito difíceis à frente. E termina com um desafio animador aos seus seguidores no sentido de perma-
necerem vigilantes e não se deixarem envolver pelas preocupações deste mundo. A linguagem usada pelo Senhor relembra
passagens do AT (2Cr 15.6; Is 8.21-22; 13.13; Jr 34.17) e enfatiza que ele estava descrevendo uma visitação divina.
6
Jesus adverte seus seguidores e discípulos para não se deixarem enganar pelos acontecimentos tumultuosos pelos quais
passaria a terra. Em épocas conturbadas apareceriam falsos cristos, ou seja, falsos messias (salvadores), afirmando ser como
Cristo (Eu Sou) e predizendo a data do final dos tempos. Todos os acontecimentos citados nos versos de 8 a 18 caracterizam a
era presente como um todo, além de serem sinais do final dos tempos (Mt 24.3,6; Mc 13.25).
7
As sinagogas serviam não apenas para o culto e o estudo religioso, mas também para a administração comunitária e para
aprisionar pessoas acusadas que aguardavam julgamento.
A queda do templo é profetizada
(Mt 24.1-2; Mc 13.1-2)
5
Alguns dos seus discípulos começaram
a falar com admiração sobre a magnif-
cência do templo, edifcado com enor-
mes pedras e portentosas obras de arte
dedicadas a Deus.
3

6
Então, lhes declarou Jesus: “Chegarão
os dias, nos quais, de tudo o que vedes
aqui não será deixada pedra sobre pedra
que não seja derrubada!”
4
Jesus revela os sinais do fm
(Mt 24.3-14; Mc 13.3-13)
7
Então indagaram de Jesus: “Mestre!
Quando acontecerá tudo isso? E que si-
nal haverá, quando tais eventos estiverem
para se cumprir?”
5

8
Esclareceu-lhes Jesus proferindo: “Cui-
dai para que ninguém vos iluda. Pois
muitas pessoas virão em meu nome, pro-
clamando: ‘Ele sou eu!’ E ainda: ‘Chegou
o fnal dos tempos!’ A estes não sigais!
9
Quando ouvirdes falar de guerras e re-
voluções, não vos apavoreis; pois é neces-
sário que estes fatos venham primeiro,
contudo o fnal dos tempos não ocorrerá
em breve”.
6
10
E acrescentou Jesus: “Porquanto, na-
ção se levantará contra nação, e reino
contra reino;
11
e haverá em muitos lugares enormes
terremotos, epidemias horríveis e devas-
tadora falta de alimentos. Então sucede-
rão eventos terríveis e surgirão podero-
sos fenômenos celestes.
12
Entretanto, antes que tudo isso aconte-
ça, vos prenderão e perseguirão. E assim
vos entregarão às sinagogas e aos cárce-
res, e sereis conduzidos à presença de reis
e governadores, e tudo isso por causa do
meu Nome.
7
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8
O Senhor concederia aos seus discípulos a oratória e um saber acima do normal para testemunhar diante das autoridades (At
6.9,10). O Espírito de Cristo (Mc 13.11) dará a mensagem e a coragem para proclamá-la (At 4.8-13; 6.3,10; 7.1).
9
É preciso muito cuidado para não interpretar literalmente metáforas e outras figuras de linguagem muito usadas na Bíblia.
Jesus não estava garantindo a integridade física dos seus discípulos, uma vez que ele mesmo avisou sobre a morte de alguns
(v.16). Mas, assegurou aos fiéis que, mesmo a morte, não lhes roubaria todas as honras e glórias para eles reservadas no céu. O
Senhor sempre está no controle da história e especialmente da vida de cada crente. O resultado final será sem dúvida o triunfo
eterno. O crente jamais sofrerá perda total e real, pois seu espírito receberá um novo e perfeito corpo na ressurreição (Fp 3.21).
10
A palavra grega para “alma” é psyche, de onde vêm as palavras “psiquiatria, psicologia”. A psique é a sede das emoções,
sentimentos, vontades, paixões, razão e entendimento, e por isso, a alma é diferenciada do corpo físico. A “psique” é o nosso “Eu
interior”, a essência da vida.Várias vezes essa palavra no grego denota a própria “pessoa” (At 2.41,43; 1Pe 3.20). A “psique” não
pode ser dissolvida com a morte. Corpo e espírito serão separados, mas espírito e alma podem apenas ser distinguidos, jamais
divorciados. A Bíblia nos ensina que o ser humano é constituído de três partes: O corpo, nossa parte física; a alma, constituída
pelas emoções e intelecto; e o espírito, que é nossa verdadeira e eterna natureza. Ao recebermos Jesus como Salvador pessoal,
nosso espírito – que estava morto por causa do pecado – é prontamente revivificado e, portanto, devemos passar a alimentá-lo
com a Palavra e cuidar para que, tendo um desenvolvimento saudável, possa cada vez mais viver em harmonia com o Espírito de
Deus. Esse é o mais amplo aspecto do Reino de Deus, o qual nosso Senhor deseja que se expanda dentro de nós e administre
as mais profundas dimensões do nosso caráter e personalidade. A disposição e a coragem para enfrentar lutas interiores,
perseguições e provações em geral são confirmações de que somos verdadeiramente salvos e, portanto, podemos ter essa
certeza e a paz decorrente (Mt 10.28).
11
Quando um exército cercava uma cidade o mais indicado era buscar refúgio dentro dos muros. Entretanto Jesus previne
seus discípulos para que fujam do centro da cidade e busquem segurança nos montes. Os muros de Jerusalém aguentaram
os fortes ataques dos exércitos romanos por cerca de três meses, quando então foram invadidos violentamente e todo o povo
chacinado (Mt 24.16).
12
Os dias da vingança eram a maneira profética de se expressar no AT para advertir os judeus em relação à justiça punitiva
de Deus, em consequência da incredulidade e da infidelidade dos líderes religiosos e do povo em relação ao Senhor (Is 63.4;
Jr 5.29; Os 9.7).
13
Na verdade, Jerusalém já vinha sendo dominada por nações gentias (em grego: ethnõn), há vários séculos, e esta
dominação ainda seria pior com a devastação dos romanos, as sucessivas guerras com os países árabes, as grandes guerras
mundiais, hoje com a forte presença gentílica na cidade; haja vista que a principal mesquita mulçumana na Palestina está situada
13
Porém, isso vos será uma oportunida-
de para que deis testemunho.
14
Assentai, portanto, desde agora, em
vosso coração que não deveis vos preo-
cupar com o que haveis de declarar em
vossa defesa.
15
Porque Eu colocarei as devidas pala-
vras em vossa boca e vos concederei sa-
bedoria, a que não conseguirão resistir
ou contradizer todos os que vierem a se
opor a vós.
8

16
Mas sereis traídos até por pais, irmãos,
parentes e amigos, e matarão alguns de
vós.
17
E por todos sereis odiados por causa
do meu Nome.
18
Contudo, não se perderá um único fo
de cabelo da vossa cabeça.
9
19
É na vossa perseverança que confr-
mais a salvação da vossa alma.
10
A destruição de Jerusalém
(Mt 24.15-28; Mc 13.14-23)
20
Quando virdes exércitos fechando o
cerco ao redor de toda Jerusalém, sa-
bei que é chegada a hora da sua abso-
luta destruição.
21
Então, os que estiverem na Judéia, refu-
giem-se nos montes, mas os que estiverem
na cidade saiam imediatamente, e os que
estiverem nos campos não venham para
ela.
11

22
Porquanto, estes serão os dias da vin-
gança, a fm de que se cumpra tudo o que
está escrito.
12

23
Ai das que carregam no ventre seus f-
lhos e daquelas que amamentam naque-
les dias! Porque haverá grande afição na
terra e ira contra este povo.
24
Eles sucumbirão ao fo da espada, e
muitos serão levados como prisionei-
ros para todas as nações. Jerusalém será
pisoteada pelos gentios, até que passe o
tempo de poderem agir assim.
13
O glorioso retorno de Jesus
(Mt 24.29-31; Mc 13.24-27)
25
E haverá sinais no sol, na lua e nas es-
LUCAS 21
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sobre as ruínas do templo no centro de Jerusalém, e no futuro com novas e poderosas invasões (Ap 11.2). Por outro lado, esse
também é o “tempo da oportunidade” (em grego: kairos). Um longo tempo da graça de Deus para que todos os não judeus
possam receber o Senhor e serem salvos (Mc 13.10; Lc 20.16; Rm 11.25). Contudo, o “tempo dos gentios” será encerrado logo
depois de terem sido cumpridos os propósitos do Senhor para os próprios gentios.
14
Continuam, a partir daqui, as profecias iniciadas no v.11, depois do parêntese aberto pelos versos 12 a 24. Como afirma
17.20, o significado dos sinais do glorioso retorno do Senhor, ainda que portentosos e espantosos (v.11), passará sem a verdadei-
ra compreensão por parte dos incrédulos. O próprio discípulo que for incauto ou infiel será apanhado como um pássaro por uma
armadilha. Essa terminologia apocalíptica do AT e dos escritos judaicos é muito utilizada para descrever convulsões políticas, ou
acerca do fim do mundo. Aqui devem ser considerados ainda os fenômenos cósmicos que ocorrerão (Is 13.10; 34.4; Ez 32.7).
15
Muitas das predições nesse discurso de Jesus têm a ver com a iminente destruição de Jerusalém que ocorreria em 70 d.C.,
mas consideram também que esse seria um dos grandes sinais quanto ao final dos tempos e o glorioso retorno de Jesus (Dn
7.13). Contudo, os discípulos do Senhor não devem ficar apavorados quando observarem esses sinais, mas erguer as cabeças,
olhar para cima, de onde virá a nossa redenção, a salvação completa e eterna de nossas almas e a dádiva de um novo corpo
glorificado (Rm 13.11; 1Jo 3.2).
16
Segundo descobriu-se nas análises dos rolos do monte Qunram a expressão “geração”, significa “a duração de uma vida” e
pretendia identificar “um tipo especial de pessoas”, como no AT: os maus (Sl 12.7) e os bons (Sl 14.5). Isso quer dizer que aquelas
pessoas que presenciarem os sinais dos grandes eventos são de uma geração que verá o cumprimento daquelas profecias
específicas, por exemplo, como ocorreu com a geração à qual Jesus profetizou sobre a destruição de Jerusalém, aqueles que
viram o cumprimento da profecia, faziam parte da “geração” que foi até o fim. Da mesma forma, aqueles que virem os grandes
sinais que antecederão o glorioso retorno de Jesus, haverão de ficar firmes até o fim. Tal como “última hora” (1Jo 2.18), “hoje” (Hb
3.7,15) ou “agora” (2Co 6.2), “geração” significa também a fase final da história da Salvação. A geração dos “fins dos séculos”
(1Co 10.11) que se estende da ressurreição de Jesus até a revelação pública do Reino (em grego: parousia) prestes a surgir, mas
cujo tempo cronológico é indeterminado.
17
O cumprimento da Palavra do Senhor é mais certo e seguro que a permanência do mundo ou do próprio universo (Mt 5.18).
18
A volta gloriosa de Jesus abrangerá todas as nações e a raça humana em geral. A queda de Jerusalém foi um evento locali-
zado e específico, aviso de Deus para o mundo, e parte dos sinais que apontam para o final dos tempos.
19
Os cristãos escaparão da destruição eterna por evidenciarem um viver próprio dos salvos: Corações livres de vícios carnais e
ambições mundanas (v. 34; Hb 2.3; 2Pe 3.10,11). Mentes e corações em sintonia com as profecias e os sinais bíblicos (Mt 24.33;
trelas. Na terra, as nações fcarão deses-
peradas, com medo do terrível estrondo
do mar e das ondas.
14
26
Muitas pessoas desmaiarão de terror,
preocupadas com o que estará sobrevin-
do às populações do mundo, pois os po-
deres do espaço sideral serão abalados.
27
Então, se observará o Filho do homem
vindo numa nuvem, com poder e por-
tentosa glória.
28
Sendo assim, quando esses fatos come-
çarem a surgir, exultai e levantai as vos-
sas cabeças, pois está muito perto a vossa
redenção!”
15

A parábola da fgueira
(Mt 24.32-44; Mc 13.28-37)
29
Em seguida, Jesus lhes propôs uma pa-
rábola: “Observai a fgueira, bem como
todas as demais árvores.
30
Assim que começam a brotar, perce-
bendo-o, reconheceis, por vós mesmos,
que o verão está chegando.
31
Da mesma forma, quando notardes
que estes eventos começam a ocorrer, sa-
bei que está próximo o Reino de Deus.
32
Com toda a certeza vos asseguro que
de modo algum passará esta geração sem
que todos estes fatos aconteçam.
16
33
Porquanto, o céu e a terra desaparece-
rão, contudo as minhas palavras de ma-
neira nenhuma passarão.
17
Devemos viver vigilantes
(Mt 24.42-44; Mc 13.33-37)
34
Tende cuidado de vós mesmos, para
que jamais vos suceda que o vosso co-
ração fque sobrecarregado com as con-
sequências da libertinagem, da embria-
guez e das ansiedades desta vida terrena,
e para que aquele Dia não se precipite
sobre vós, de surpresa, como uma ar-
madilha.
35
Pois ele certamente virá sobre todos os
que vivem na face de toda a terra.
18
36
Vigiai, portanto, em todo o tempo,
orando, para que possais escapar de
todos estes eventos que estão para acon-
tecer, e apresentar-vos em pé diante do
Filho do homem”.
19
37
Jesus passava o dia ensinando no tem-
plo; e ao pôr-do-sol caminhava até o
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1Ts 5.4). Vida com alegria espiritual, fruto da esperança em Cristo, sem desânimo (“exultai”, v.28; Tt 2.13). Estado de oração
constante (1Ts 5.17; 1Tm 2.8).
20
Jesus fez questão de passar sua última semana na terra ensinando no templo, desde o princípio do dia até o pôr-do-sol.
Desde a entrada triunfal até a Páscoa (de domingo até quinta-feira da Paixão). Após seus longos períodos de oração no monte
das Oliveiras, em Betânia, caminhava até a casa de Lázaro, onde pernoitava (Mt 21.17). Bem cedo, quando o povo chegava ao
templo para ouvi-lo, Ele já estava lá.
Capítulo 22
1
A palavra “Páscoa” era usada em dois sentidos: A refeição específica que se iniciava ao pôr-do-sol, no dia 14 do primeiro mês
do ano judaico (Lv 23.4,5), conhecido como nisã, e que corresponde aos meses de março e abril (Lv 23.4,5), e a semana que se
seguia à refeição da Páscoa (Ez 45.21), conhecida também como a Festa dos Pães (asmos), ou Festa dos Pães (sem fermento),
semana na qual a Lei proibia o uso de fermento (Êx 12.15-20; 13.3-7). Na época do NT, essa celebração nacional, religiosa e
política, com uma semana de duração, era reconhecida por ambos os nomes.
2
Desde sua derrota, quando tentou a Jesus de várias e poderosas formas (4.1), Satanás permaneceu sempre na defensiva, in-
fluenciando pessoas, circunstâncias e elementos da natureza para atacar o Senhor. Agora, aproveitando a permissão divina (v.31)
e a falta de fé sincera de Judas, bem como sua avareza, inveja e revolta exacerbadas, volta à ofensiva. Apenas nesta passagem
e durante a última ceia (Jo 13.27) essa expressão é usada no original grego.
3
Até esse momento não houve qualquer participação romana. Os guardas eram todos judeus, selecionados especialmente
entre os levitas e a serviço do Sinédrio, formado pelos principais sacerdotes (chefes dos sacerdotes), escribas (mestres da lei) e
os anciãos (líderes do povo).
4
A essa altura, todo o plano para assassinar Jesus estava tramado e em andamento. O maior receio dos inimigos de Cristo era
quanto a uma possível revolta das multidões que amavam Jesus e já o aclamavam como rei dos judeus. A grande oportunidade
seria durante a celebração da Páscoa, quando as ruas e estradas estariam desertas.
5
Conforme a lei e a tradição, o cordeiro pascal deveria ser sacrificado no dia 14 de nisã, entre 14h30 e 17h30, no átrio dos
sacerdotes. Era quinta-feira da semana da Paixão.
6
Preparar a Páscoa consistia em matar e assar o cordeiro conforme todas as instruções ritualísticas da lei e providenciar pão
sem fermento (asmo), ervas amargas e vinho.
7
Carregar água em potes era um serviço típico das mulheres, por isso um homem realizando esse trabalho seria fácil de ser
notado. Jesus precisava tomar todo cuidado para não ser capturado antes da ceia, momento tão significativo, o qual tanto dese-
monte chamado das Oliveiras, onde pas-
sava a noite.
20
38
Ao raiar do dia, todo o povo se dirigia
ao templo para ouvi-lo.
A conspiração para matar Jesus
(Mt 26.1-5; Mc 14.1-2)
22
A Festa dos Pães sem fermento,
chamada Páscoa, estava se apro-
ximando.
1

2
E os chefes dos sacerdotes e mestres da
lei procuravam um meio para matar Jesus,
todavia tinham grande receio do povo.
O pacto da traição
(Mt 26.14-16; Mc 14.10-11)
3
Então Satanás entrou em Judas, cha-
mado Iscariotes, que fora um dos doze
discípulos.
2

4
E Judas dirigiu-se aos chefes dos sacer-
dotes e aos ofciais da guarda do templo
e negociou com eles como lhes poderia
entregar Jesus.
3

5
A proposta muito os satisfez, e acorda-
ram em lhe dar dinheiro.
6
Judas aceitou e fcou aguardando uma
oportunidade, quando a multidão não
estivesse ao redor de Jesus, para então
entregá-lo sem tumulto.
4

Jesus e os discípulos na Páscoa
(Mt 26.17-19; Mc 14.12-16)
7
Finalmente, chegou o Dia dos Pães sem
fermento, no qual devia ser sacrifcado o
cordeiro pascal.
5

8
Então Jesus enviou Pedro e João, reco-
mendando: “Ide preparar-nos a Páscoa
para que a ceiemos juntos!”
6

9
E eles lhe perguntaram: “Onde desejas
que a preparemos?”
10
Ao que Ele lhes orientou: “Ao entrar-
des na cidade, encontrareis um homem
carregando um pote de água; segui-o até
à casa em que ele entrar
7
11
e comunicareis ao proprietário da
casa: ‘O Mestre manda indagar-te:
Onde é o salão de hóspedes no qual
poderei cear a Páscoa com os meus dis-
cípulos?’
12
Então ele lhes mostrará uma ampla sala
LUCAS 21, 22
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1542
jou partilhar com seus discípulos. Judas não devia ter conhecimento prévio do local da celebração. Entretanto, a maneira como
Jesus pede que os discípulos se apresentem ao dono da casa indica que além de conhecido, aquele homem era um seguidor de
Jesus. Vários estudiosos acreditam que essa casa pertencia aos pais de Marcos (At 12.12).
8
As profecias do Senhor sempre se cumprem cabalmente (19.32).
9
O evangelho segundo João (13.26-30) deixa claro que Judas já havia se retirado do cenáculo antes de Jesus haver compar-
tilhado o pão e o cálice da Ceia do Senhor, mas Lucas não se preocupa em mostrar quando Judas se ausentou do grupo dos
discípulos para ir cumprir sua traição. Jesus ansiava por comemorar essa Páscoa em comunhão com seus amados discípulos,
pois esta seria sua última oportunidade antes de ser sacrificado como o perfeito “Cordeiro pascal” (1Co 5.7) em resgate de todos
cristãos sinceros. Contudo, todos aqueles que durante todas as eras, por causa da fé que abraçaram, participaram desse me-
morial, também estarão com Cristo nas grandes “bodas” messiânicas do futuro (Ap 19.9). A Ceia, portanto, é a Páscoa cristã, e o
antegozo da futura festa messiânica, quando a noiva (a Igreja verdadeira) se unirá eternamente ao Noivo (Cristo – Ap 19.6).
10
Três grandes cálices de vinho foram tomados durante a Páscoa (a tradição judaica recomendava quatro cálices): dois antes
de ser servido o cordeiro, e o terceiro depois, quando Jesus explicou os novos significados do pão e do vinho instituindo a Ceia
como memorial a ser guardado por todos os cristãos até o seu glorioso retorno.
11
Assim como o ano judaico começava com a Páscoa, que era uma constante lembrança e proclamação de como Deus
redimiu Israel de séculos de escravidão gentílica (egípcia), da mesma forma, os cristãos fiéis deveriam observar as ordenanças
de Jesus e guardar a cerimônia da Ceia do Senhor, celebrando a libertação dos crentes do jugo do pecado e da morte eterna
mediante a obra expiatória de Jesus Cristo na cruz (1Co 1.9; 5.7; 16.22; Cl 1.13).
12
Deus está no controle do Universo, da história e do indivíduo. Suas profecias são todas infalíveis e anunciam prudência
aos sábios e perdição aos arrogantes. Deus em Cristo tem um plano de redenção que jamais enfrentará surpresas ou reveses
intransponíveis. Jesus desejava que as pessoas o tivessem compreendido melhor e obedecido suas orientações, mas sabia que
apenas alguns o seguiriam até o fim ao acreditar e receber o seu sacrifício oferecido por toda a humanidade (v.37; 24.25).
13
Já que haveria um traidor no grupo, e que o líder estava prestes a ser preso e morto, os demais quiseram aproveitar o
momento para definir quem era o mais importante para continuar a “obra revolucionária” do mestre. Os discípulos ainda não
estavam convertidos e não entendiam a amplitude da obra de Jesus Cristo. O termo “discussão” no original grego é “contenda”.
Os governantes da Síria, Egito e Roma (três dominadores clássicos de Israel) se autoproclamavam “benfeitores” do povo, ainda
no andar superior, toda mobiliada; ali fa-
zei os preparativos”.
13
E, seguindo, tudo encontraram con-
forme Jesus lhes havia predito e prepara-
ram a Páscoa.
8
A última Páscoa de Jesus
14
Quando chegou o momento, Jesus e os
seus discípulos se reclinaram à mesa.
15
Então, Ele lhes revelou: “Tenho dese-
jado ansiosamente comer convosco esta
Páscoa, antes da hora do meu sofrimen-
to!
16
Pois vos afrmo que não a comerei no-
vamente até que ela se cumpra no Reino
de Deus.
9
17
E, havendo pegado um cálice, Ele deu
graças e ordenou: Tomai do cálice e par-
tilhai entre vós;
10

18
pois vos declaro que, de agora em dian-
te, não mais beberei do fruto da videira,
até que venha o Reino de Deus”.
A Ceia do Senhor
(Mt 26.26-30; Mc 14.22-26; 1Co 11.23-25)
19
E, tomando um pão, havendo dado
graças, o partiu e o serviu aos discípu-
los, recomendando: “Isto é o meu corpo
oferecido em favor de vós; fazei isto em
memória de mim”.
11

20
Da mesma maneira, depois de cear,
pegou o cálice, explicando: “Este cálice
signifca a nova aliança no meu sangue,
derramado em vosso benefício.
21
Eis, contudo, que a mão daquele que
vai me trair está com a minha sobre a
mesa.
22
O Filho do homem certamente vai,
conforme o que está prescrito; todavia, ai
daquele por intermédio de quem Ele está
sendo traído!”
12
23
A partir de então, começaram a ques-
tionar entre si quem seria, dentre eles, o
que estava para fazer isto.
Seja o maior como quem serve
24
E surgiu também uma discussão entre
eles, acerca de qual deles deveria ser con-
siderado o mais importante.
25
Mas Jesus lhes ponderou: “Os reis das
nações são os senhores delas, e os que
exercem autoridade sobre os povos são
chamados de benfeitores.
13

26
Entretanto, vós não sereis assim. Ao
LUCAS 22
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1543
que na maioria das vezes isso não passasse de propaganda política enganosa, e servisse apenas para alimentar o ego insa-
ciável dos déspotas. Jesus, entretanto, convoca seus maiores e melhores discípulos para que sejam bons servos e cooperem
com todos os demais em amor e humildade. Infelizmente, muitas vezes, o único recurso de Deus para arrancar a arrogância
e o orgulho do coração humano é permitir que Satanás o “peneire” (v.31). Pedro e alguns dos discípulos precisaram passar
fortemente por essa provação. A grandeza do verdadeiro discípulo de Cristo está na sua humilde dedicação aos outros (9.46).
A palavra “servir” no original grego é: diakonõn, e significa: “servir às mesas” (At 6.2). Servir é apascentar os famintos espiri-
tuais (Jo 21.15-17).
14
Muitas tribulações, entre as quais: Tentações (4.13); adversidades (9.58) e rejeição (Jo 1.11). Algumas versões usam aqui
a palavra “tentações”, no entanto, a expressão no grego original é peirasmois, que significa “tribulações” ou “provações” (Tg
1.2,12), as quais serão compartilhadas por todos os discípulos de Cristo até sua volta gloriosa (Cl 1.24).
15
O contexto desta passagem demonstra que Jesus está se referindo à forma futura do reino (4.43; Mt 3.2). Da mesma maneira
que os discípulos compartilharam das provações do Senhor, assim também compartilharão do seu reinado (2Tm 2.12), governan-
do (julgando ou liderando) as doze tribos de Israel (Jz 2.16 e Mt 19.28).
16
Jesus se refere ao cantar do galo para sinalizar que sua profecia em relação à atitude covarde de Pedro (que até então tinha
uma auto-estima por demais elevada) aconteceria antes que aquela noite terminasse.
17
Os discípulos de Cristo precisariam estar atentos às épocas e aos tempos difíceis. De agora em diante não poderiam
mais contar com a bênção da hospitalidade onde quer que fossem. A grande oposição e perseguição futura exigiria que eles
estivessem preparados para pagar suas despesas de ministério. Jesus se refere à espada como mais uma figura de linguagem,
a fim de alertá-los quanto aos tempos perigosos que já estavam chegando. Assim como Paulo ao apelar a César (At 25.11) como
portador de espada (Rm 13.4).
18
Esse trecho da Bíblia já gerou muita polêmica. Em 1302 d.C. o papa Bonifácio VII assinou um documento (bula papal),
chamado em latim: Unam Sanctum, onde afirmava o direito divino da Igreja de exercer plenamente todos os poderes (espiritual e
material, civil e militar), interpretando literalmente essa palavra de Cristo. A separação do Mestre trouxe ao mundo, e especialmen-
te aos discípulos, ainda mais hostilidade. Entretanto, Jesus não está recomendando a compra de espadas (v.36; Mt 5.9,22,38),
mas assinalando sua crucificação e as sanguinárias perseguições que viriam em breve. As mais eficazes armas do cristão são:
o poder espiritual (6.10) e a oração (v.40). Quando os discípulos correm para mostrar-lhe as duas espadas que possuíam, Jesus
demonstra que elas poderão ser necessárias, mas não decisivas para vencer no seu reino, e encerra o assunto (v.51).
contrário, o maior entre vós seja como o
mais jovem, e aquele que governa, como
o que serve.
27
Porquanto quem é o maior: o que
está reclinado à mesa, ou o que serve?
Porventura, não é o que está reclinado à
mesa? Contudo, entre vós, Eu Sou como
aquele que serve.
28
Vós sois os que tendes permanecido
ao meu lado durante as minhas tribula-
ções.
14
29
Assim como meu Pai me outorgou um
Reino, Eu o designo a vós,
30
para que comais e bebais à minha
mesa no meu Reino; e vos assentareis em
tronos para governar as doze tribos de
Israel.
15
Jesus prediz a traição de Pedro
(Mt 26.31-35; Mc 14.27-31; Jo 13.36-38)
31
Simão, Simão, eis que Satanás já rece-
beu autorização para vos peneirar como
trigo!
32
Eu, entretanto, roguei por ti, para que
a tua fé não se esgote; tu pois, quando te
converteres, fortalece os teus irmãos!”
33
Mas Pedro replicou: “Senhor! Estou
pronto a ir contigo, tanto para a prisão
quanto para a morte”.
34
Contudo, predisse-lhe Jesus: “Asse-
guro-te, Pedro, que antes que o galo
cante hoje, três vezes negarás que me
conheces!”
16
Lutar pela vida e pelo Reino
35
Em seguida, Jesus os inquiriu: “Quan-
do Eu vos enviei sem bolsa, mochila de
viagem e outro par de sandálias, sentistes
falta de algo?” Ao que eles prontamente
replicaram: “De nada!”
17
36
Então, Jesus os adverte: “Agora, porém,
quem tem bolsa, pegue-a, assim como a
mochila de viagem; e quem não tem espa-
da, venda a própria capa e compre uma.
37
Pois vos asseguro que é necessário que
se cumpra em mim o que está escrito: ‘E
Ele foi contado com os transgressores’.
Sim, o que está escrito a meu respeito
está para se cumprir”.
38
Então os discípulos afrmaram: “Se-
nhor, eis aqui duas espadas!” Mas Jesus
lhes exortou: “É o bastante!”
18
LUCAS 22
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19
O local exato no monte das Oliveiras (Jo 18.2) é descrito, de forma mais judaica, por Mateus como Getsêmani (Mt 26.36), e
João o indica, mais teologicamente, como um olival (Jo 18.1). De qualquer maneira, tratava-se de um grande jardim, que ficava
localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras.
20
O objetivo de Satanás e seus demônios em relação aos cristãos é atingi-los da mesma maneira que o fez com Judas. Suas
armas vão das promessas de riquezas, sucesso e poder às terríveis provas e perseguições. Nesses momentos todas as fraquezas
humanas são alvos de seus ardis (ambição, inveja, arrogância, depressão, revolta, indolência, medo, dor, etc). É preciso orar e
desenvolver uma fé inabalável no Senhor (Rm 8.35-37).
21
Lucas destaca a forma adotada por Jesus para orar, pois o tradicional, para os judeus era a oração em pé. A oração de
joelhos expressava total submissão, adoração e insistência humilde (18.11).
22
Jesus sentiu de tal maneira as emoções humanas que teve uma crise aguda de hematidrose, que é a mistura de sangue ao
suor, nos casos de extrema angústia e severas alterações emocionais.
23
O servo do sumo sacerdote chamava-se Malco e foi Pedro quem lhe arrancou a orelha direita quando tentou matá-lo com
um golpe de espada (Jo 18.10). Jesus imediatamente restabeleceu a orelha daquele homem. Jesus não era um mero chefe de
uma das muitas facções revolucionárias que havia em Jerusalém e evitou que qualquer acusação verdadeira neste sentido fosse
alegada em seu inquérito no alto tribunal religioso e político do judaísmo.
Jesus sai para orar no monte
(Mt 26.36-46; Mc 14.32-42)
39
E, retirando-se, seguiu, como de cos-
tume, para o monte das Oliveiras; e os
discípulos o acompanharam.
19

40
Chegando ao lugar, Jesus lhes instruiu:
“Orai, para que não venhais a cair em
tentação”.
20

41
Então Ele se afastou deles à distância
de um tiro de pedra, ajoelhou-se e come-
çou a orar:
21

42
“Pai, se queres, afasta de mim este cá-
lice; entretanto, não seja feita a minha
vontade, mas o que Tu desejas!”
43
Foi então que apareceu-lhe um anjo
do céu que o encorajava.
44
E, em grande agonia, orava ainda mais
intensamente. E aconteceu que seu suor
se transformou em gotas de sangue cain-
do sobre a terra.
22
45
Assim que se levantou da oração e vol-
tou à presença dos discípulos, os encon-
trou adormecidos, exaustos de tristeza,
46
e exortou-lhes: “Por que estais dor-
mindo? Levantai-vos e orai! Para que
não venhais a cair em tentação”.
Jesus é preso
(Mt 26.47-56; Mc 14.43-50; Jo 18.1-11)
47
Enquanto Ele ainda falava, chegou
uma multidão seguindo a Judas, um dos
Doze. Este se aproximou de Jesus para
saudá-lo com um beijo.
48
Jesus, no entanto, lhe arguiu: “Judas,
por meio de um ósculo estás traindo o
Filho do homem?”
49
Ao perceberem o que se sucederia, os
que estavam com Jesus lhe propuseram:
“Senhor! Devemos atacá-los à espada?”
50
E um deles feriu o servo do sumo sacer-
dote, decepando-lhe a orelha direita.
23

51
Contudo, Jesus interveio e ordenou:
“Deixai-os. Basta!” E tocando a orelha
do homem, Ele o curou.
52
Então, voltando-se Jesus para os chefes
dos sacerdotes, os ofciais da guarda do
templo e os líderes do povo que haviam
chegado para prendê-lo, inquiriu-lhes:
“Viestes contra mim com espadas e va-
ras, como se Eu estivesse liderando uma
rebelião?
53
Todos os dias Eu estive convosco no
templo e não estendestes as mãos contra
mim. Contudo, esta é a vossa hora, quan-
do as trevas dominam”.
Pedro nega a Jesus
(Mt 26.69-75; Mc 14.66-72; Jo 18.15; 25-27)
54
Então, prenderam a Jesus, o levaram
e o fzeram entrar na casa do sumo sa-
cerdote. Pedro, entretanto, os seguia à
distância.
55
Mas, quando acenderam um fogo no
meio do pátio e se sentaram ao redor
dele, Pedro assentou-se com eles.
56
Uma criada o viu sentado ali à luz do
fogo e olhando fxamente em seu rosto
o acusou: “Este homem também estava
com Ele!”
57
Contudo, Pedro negou, assegurando-
lhe: “Mulher, não o conheço!”
58
Pouco depois, um homem também o
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24
Jesus foi submetido a dois inquéritos preliminares nas casas de Anás (Jo 18.19-23) e de Caifás, o sumo sacerdote (v.54;
Jo 11.49), e finalmente, depois do amanhecer (para ser legal, conforme a tradição judaica), diante do Sinédrio (as mais altas
autoridades religiosas e políticas do judaísmo na época). Entretanto, este tribunal não tinha poderes para aplicar a pena de morte
sem autorização expressa do procurador romano em exercício (Jo 18.31).
25
Tendenciosamente o Sinédrio acusa Jesus de se autoproclamar o Messias (o Libertador). Essa era a única acusação formal
que poderia levar Pilatos a condenar Jesus à pena de morte. Admitir que era rei implicaria que Cristo estava em rebelião contra
o Estado romano (23.2). A assembleia dos sacerdotes e mestres judaicos não estava à procura da verdade, apenas desejava
arrancar de Jesus uma confissão condenatória que satisfizesse os líderes político-religiosos dos judeus. Para os verdadeiros
interessados Jesus podia revelar-se por meio das muitas profecias messiânicas a seu respeito (24.44; Mc 14.62-64).
Capítulo 23
1
Todo o conselho (o Sinédrio ou toda a assembleia) é o mesmo grupo dos principais líderes político-religiosos dos judeus que
já haviam se reunido ao raiar do dia (22.66; Mt 26.59; 27.1,2). Pilatos era governador romano e tinha seu principal quartel-general
em Cesaréia, mas ficava em Jerusalém durante as comemorações anuais da Páscoa. Pois Roma tinha receio de que uma possível
revolução pudesse ocorrer por ocasião da mais importante celebração da liberdade do povo judaico (Mc 15.1).
2
Multidões seguiam a Jesus, mas ele as ensinava sobre o Reino de Deus. Jesus se apresentava como o Messias prometido,
o Filho de Deus, mas não como um político revolucionário, do tipo que sempre surgia em Jerusalém, especialmente nas celebra-
viu e afrmou: “Tu também és um deles!”
Mas Pedro o contradisse: “Homem, eu
não sou!”
59
Então, havendo passado cerca de uma
hora, outro homem o identifcou: “Com
toda a certeza, também este homem, es-
tava com ele, porquanto também é gali-
leu!”
60
Ao que Pedro exclamou: “Homem,
não sei do que estás falando!” E falava ele
ainda, quando o galo cantou.
61
E aconteceu que o Senhor encontrou-
se com Pedro e o olhou diretamente nos
olhos. Então Pedro se lembrou da pala-
vra que o Senhor lhe havia predito: “An-
tes que o galo cante hoje, tu me negarás
três vezes”.
62
Então Pedro, retirando-se dali, chorou
amargamente.
Jesus é humilhado e torturado
63
Os homens que haviam detido a Jesus
começaram a zombar dele e a espancá-lo.
64
Vendaram seus olhos e escarneciam:
“Profetiza-nos: quem é que te esbofeteou?”
65
E lhe dirigiam muitas outras palavras
infames, blasfemando.
Jesus diante dos líderes judeus
(Mt 26.57-68; Mc 14.53-65)
66
Logo que o dia clareou, reuniu-se todo
o Sinédrio, tanto os chefes dos sacerdotes
quanto os mestres da lei, e Jesus foi con-
duzido à presença dos maiores líderes do
povo, onde o interrogaram:
24

67
“Se tu és o Cristo, declara-o a nós!” En-
tão Jesus lhes respondeu: “Se vo-lo disser,
não acreditareis em mim.
68
Assim como, se Eu vos questionar,
tampouco me atendereis.
69
No entanto, a partir de agora, o Filho
do homem estará assentado à direita do
poder soberano de Deus!”
70
Ao que todos lhe inquiriram: “Ora, en-
tão Tu és o Filho de Deus?” Então, Jesus
lhes afrmou: “Vós dizeis que Eu Sou”.
71
Diante disso, exclamaram todos: “Por
que precisamos de mais testemunhas?
Posto que acabamos de ouvir a confssão
da sua própria boca!”
25
Jesus diante dos líderes romanos
(Mt 27.1-2,11-14; Mc 15.1-5; Jo 18.28-38)
23
Então todo o conselho dos princi-
pais líderes do povo judeu levan-
tou-se e conduziu Jesus a Pilatos.
1

2
E ali passaram a acusá-lo, alegando:
“Encontramos este homem subvertendo
a nossa nação. Inclusive, proibindo o pa-
gamento de impostos a César e se dizen-
do o Messias, o Rei!”
3
Diante disso, lhe interrogou Pilatos: “És
tu o rei dos judeus?” Replicou-lhe Jesus:
“De fato, é como dizes!”
4
Então Pilatos declarou aos chefes dos
sacerdotes e às muitas pessoas reunidas:
“Não vejo neste homem motivo algum
para acusação!”
2

5
Todavia, eles insistiam cada vez mais,
exclamando: “Ele amotina o povo, pre-
LUCAS 22, 23
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1546
ções da Páscoa. Pilatos percebeu que se Jesus fosse quem os líderes judeus estavam alegando, jamais o denunciariam, pois
eram os mais interessados num motim do povo contra Roma. Jesus afirma ser rei, mas explica a Pilatos que seu Reino não é
deste mundo (Jo 18.33-38). Historiadores afirmam que Pilatos ficou extremamente impressionado com o carisma e a “Imago Dei”
(imagem de Deus, divindade) que a pessoa de Jesus refletia.
3
Pilatos estava acuado. Se condenasse a Jesus, perderia sua dignidade e sua consciência jamais o perdoaria. Caso não o
fizesse, os líderes judeus poderiam levar o fato ao desconfiado imperador Tibério e ele se arriscaria a perder a posição e talvez a
própria vida. Ao notar que Jesus era natural da Galiléia, mandou o caso para Herodes (com quem tinha rixas), pois seu quartel-
general ficava em Tiberíades, região do mar da Galiléia, e viera a Jerusalém pelo mesmo motivo de Pilatos.
4
Herodes (Antipas) era um homem supersticioso e atormentado. Os apelos de João Batista ao seu arrependimento ainda
ecoavam em sua mente perturbada pelo remorso (3.19), e o faziam acreditar que Jesus poderia ser João reencarnado. Jesus,
entretanto, nada mais tinha a acrescentar.
5
Essa capa de aparência luxuosa, era na verdade, um velho manto militar, cuja cor púrpura era sinal de realeza. Marcos
acrescenta que forçaram uma coroa de espinhos venenosos sobre a cabeça do Senhor (Mc 15.17), tudo com a finalidade de
menosprezar sua pessoa e real majestade (Mt 27.28).
6
Alguns manuscritos de Mateus trazem a curiosa informação que o primeiro nome de Barrabás (em aramaico: “filho de Abba”),
era também Jesus (Mt 27.16). Esse fato coopera para ilustrar a morte vicária de Cristo. O Jesus, homem incrédulo e mundano, é
aceito e beneficiado pela justiça dos homens. Enquanto isso, Jesus, o Cristo, Filho de Deus, homem justo e abençoador, morre
inocente em seu lugar (Mt 27.15-20; Mc 15.6-1; Jo 18.39-40).
gando por toda a Judéia, desde a Galiléia,
onde começou, até aqui”.
6
Ao ouvir isto, Pilatos quis saber se aquele
homem era de fato galileu.
7
Ao ser informado que era da jurisdição
de Herodes, estando este, naqueles dias,
em Jerusalém, lho enviou.
3
Jesus é interrogado por Herodes
8
Assim que Herodes viu a Jesus, expres-
sou grande satisfação, pois havia muito
que desejava conhecê-lo, por ter ouvido
falar sobre sua fama; tinha também a ex-
pectativa de vê-lo fazer algum sinal.
4

9
E de muitas maneiras o questionava; Je-
sus, entretanto, nada lhe respondia.
10
Os chefes dos sacerdotes e os mestres
da lei estavam presentes, e o acusavam
com grande eloquência.
11
Porém Herodes, assim como os seus
soldados, acabaram por ridicularizá-lo
e zombar dele. Obrigaram-no a vestir-
se com uma capa de aparente realeza e o
mandaram de volta a Pilatos.
5
12
Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos,
que viviam em clima de inimizade, fr-
maram um pacto de reconciliação.
Pilatos interroga Jesus outra vez
(Mt 27,15-26; Mc 15.6-15; Jo 18.39-19.16)
13
Então, Pilatos convocando os chefes
dos sacerdotes, todas as demais autori-
dades judaicas e o povo,
14
ponderou-lhes: “Entregaste-me este ho-
mem como amotinador do povo; todavia,
tendo-o interrogado na vossa presença,
nada constatei contra Ele dos crimes de
que o acusais.
15
Tampouco Herodes encontrou alguma
falta nele, pois no-lo mandou de volta. E
não existe nada digno de morte realizado
por Ele.
16
Portanto, após submetê-lo a açoites,
libertá-lo-ei!”
17
Pois, conforme a tradição, ele deveria
dar liberdade a um detento judeu por
ocasião da Páscoa.
18
Contudo, todo o povo gritou a uma voz:
“Acaba com este! Solta-nos Barrabás!”
6
19
Ora, Barrabás havia sido condenado e
estava na prisão por causa de uma re-
belião na cidade e por ter cometido um
assassinato.
20
Mas Pilatos desejava soltar a Jesus e
voltou a argumentar com a multidão.
21
Eles, entretanto, gritavam ainda mais:
“Crucifca-o! Crucifca-o!”
22
Então, pela terceira vez, declarou ao
povo: “Que mal fez este homem? De fato,
motivo algum encontrei contra Ele para
condená-lo à morte. Sendo assim, depois
de açoitá-lo, soltá-lo-ei!”
23
Mas a multidão reivindicava insisten-
temente aos brados que Ele fosse crucif-
cado. E o clamor do povo prevaleceu.
24
E assim, Pilatos resolveu dar-lhes o
que desejavam.
25
Libertou o homem que havia sido lan-
LUCAS 23
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7
Simão era natural da cidade de Cirene, localizada na Líbia, a oeste do Egito e na costa norte da África, foi pai de Alexandre e
Rufo (Mc 15.21 de acordo com Rm 16.13). Houve uma sinagoga de cirineus em Jerusalém (At 6.9; 11.20). Os romanos obrigavam
os condenados à crucificação a carregar nas costas a parte horizontal da cruz – uma viga de madeira maciça chamada de
“antena” ou “trave” – até o lugar do suplício final.
8
Jesus aproveita suas últimas forças físicas para avisar aos seus discípulos em Jerusalém sobre o terrível Dia da Vingança, o
qual chegaria por meio da invasão romana cerca de 40 anos mais tarde e que culminaria com a destruição total do templo e a
chacina de todas as pessoas que permaneceram na cidade.
9
Conhecendo o coração das mães, Jesus as adverte de que melhor seria não ter filhos, a vê-los padecer e serem mortos das
maneiras mais cruéis e imagináveis (1Co 7.25-35 com Jr 16.1-4), como de fato ocorreu no ano 70 d.C. O horror foi de tal ordem
que as pessoas pediam para morrer sem passar pelas torturas e atrocidades impingidas pelos exércitos romanos ensandecidos
(Os 10.8; Ap 6.16).
10
Jesus cita um velho provérbio popular para explicar que se o desespero toma conta das pessoas quando a boa vontade do
Senhor ainda está viçosa (“árvore verde”), como será no Dia do Julgamento, quando o Senhor “secar” sua paciência e misericór-
dia para com Israel e toda a incredulidade?
11
A Caveira, como consta dos originais em grego, era o nome de um monte com o formato de um grande crânio humano.
Algumas versões fizeram uma adaptação do nome em latim: “Calvária” e o traduziram por “Calvário”, um termo mais elegante,
porém impreciso (Mc 15.22-24).
12
Quaisquer bens que uma pessoa condenada à pena de morte levasse consigo eram arrancados dela pelos algozes. Sem
saber (Jo 19.23-24), os soldados estavam cumprindo as profecias do milenar Salmo 22. Da mesma maneira cumpria-se Is 53.12.
Jesus revela o coração misericordioso do Pai diante do ser humano pecador e infiel, o qual ele ama infinitamente (Jo 3.16) e o
perdoará enquanto estiver agindo sem o conhecimento do seu Evangelho (At 3.17; 17.30).
13
Os quatro evangelistas mencionam a inscrição condenatória afixada no alto da cruz, acima da cabeça de Jesus. Entretanto é
João (Jo 19.20), e não Lucas, quem afirma – nos melhores originais em grego – que a inscrição estava nas três principais línguas
do mundo na época: hebraico, latim e grego. Ao agir ironicamente contra os líderes judaicos, Pilatos, sem perceber, anunciava ao
mundo que ali estava o Rei dos judeus (Mc 15.26).
çado na prisão por causa da rebelião que
causara e do homicídio que cometera,
mas por quem clamava o povo. E entre-
gou Jesus à vontade deles.
Jesus a caminho do Gólgota
(Mt 27.32; Mc 15.21)
26
Então, o retiraram dali e enquanto o le-
vavam, agarraram Simão de Cirene, que es-
tava chegando do campo, e jogaram a trave
da cruz sobre seus ombros, obrigando-o a
carregá-la e caminhar atrás de Jesus.
7
27
E uma grande multidão seguia a Ele,
inclusive muitas mulheres que choravam
e pranteavam em desespero.
28
Porém, Jesus, dirigindo-se a elas, as pre-
veniu: “Filhas de Jerusalém, não choreis
por mim; antes, pranteai, por vós mesmas
e por vossos flhos!
8
29
Porquanto eis que estão chegando os
dias em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os
ventres que jamais geraram e os seios que
nunca amamentaram!
30
Então clamareis às montanhas: ‘Caí
sobre nossas cabeças!’ E às colinas: ‘Co-
bri-nos!’
9
31
Pois, se fazei isto com a árvore verde, o
que acontecerá quando ela estiver seca?”
10
32
E eram levados com Ele dois outros
homens, ambos criminosos, a fm de se-
rem executados.
A crucifcação
(Mt 27.33-44; Mc 15.22-32; Jo 19.17-27)
33
Quando chegaram a um lugar conhe-
cido como Caveira, ali o crucifcaram
com os criminosos, um à direita e o ou-
tro à sua esquerda.
11

34
Apesar de tudo, Jesus dizia: “Pai, per-
doa-lhes, pois não sabem o que estão
fazendo!” A seguir, dividiram entre si as
vestes de Jesus, tirando sortes.
12

35
Uma grande multidão estava presente
e a tudo observava, enquanto as auto-
ridades o ridicularizavam, exclamando:
“Salvou os outros! Pois agora salve-se a si
mesmo, se é de fato o Cristo de Deus, o
Escolhido!”
36
Da mesma forma os soldados se apro-
ximaram e também dele zombavam. Ofe-
recendo a Ele vinagre.
37
E o provocavam: “Se tu és o rei dos ju-
deus, salva-te a ti mesmo!”
38
Também havia sido afxada uma ins-
crição acima dele, onde se lia: ESTE É O REI
DOS JUDEUS.
13
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14
Na Septuaginta (a tradução grega do AT) a palavra “paraíso” significava um “jardim imenso e perfeito” (Gn 2.8-10; Ne 2.8).
No NT, essa palavra é usada somente aqui, em 2Co 12.4 e Ap 2.7. Refere-se ao lugar de plena felicidade e repouso (o perfeito
shabbãth), entre a morte e a ressurreição (Lc 16.22; 2Co 12.2).
15
Jesus havia sido colocado na cruz na “hora terceira”, ou seja, às nove horas (Mc 15.25). Do meio-dia às três da tarde ocorreu um
fenômeno assustador e escuridão espessa, como um eclipse total do sol, que foi observado sobre toda a região da Palestina. A “hora
sexta” citada em Jo 19.14 tem a ver com o sistema romano de designar as horas (6 horas), quando Pilatos comunicou sua decisão.
16
No templo, o Lugar Santo era separado do Santo dos Santos (onde o Espírito de Deus estava presente para receber a ado-
ração e as ofertas do seu povo), por uma longa cortina de tecido. No momento da morte de Jesus, o Espírito de Deus se retira do
templo. A cortina (véu) é partida ao meio, de cima a baixo. Esse ato simbólico de Deus indicou que Seu Espírito não estaria mais
no templo. Daquele momento em diante, o acesso a Ele e à vida eterna, seria exclusivamente pela fé no sacrifício vicário (sangue)
de Jesus Cristo, Seu Filho (Hb 9.3,8; 10.19-22). O tabernáculo e a Casa de Deus (templo) deixaram de ser os lugares da habitação
de Deus, que passou a viver no espírito de cada ser humano que sinceramente crê e segue a Jesus (Jo 4.21).
17
Mateus e Marcos apresentam o centurião romano, responsável geral pela execução de Jesus, constatando em voz alta
que: “este homem era inegavelmente o Filho de Deus”. Lucas observa que ele bradou literalmente: “este homem era o Justo!”
Para muitos estudiosos, “Justo” e “Filho de Deus”, neste contexto, teriam sido termos similares. Os pilares do império romano
começavam a demonstrar seus primeiros sinais de rendição ao Espírito do Senhor. Séculos mais tarde toda Roma – de uma
forma ou de outra – seria cristã.
18
Um profundo espírito de arrependimento arrebatou a todos os presentes indistintamente. Entretanto, os judeus sentiram todo
o peso do remorso e maior pavor em relação ao futuro. Deixaram o local da crucificação arrasados e, conforme a tradição judaica,
batiam nos próprios peitos como sinal de profunda angústia e desolamento. Esse estado de alma preparou milhares de pessoas
para a grande demonstração de arrependimento no dia do Pentecostes, marcando o início da Igreja de Jesus Cristo (At 2.37-41).
A oração final de Jesus havia sido respondida (v.34).
19
Não era permitido às mulheres se aproximarem dos atos de crucificação. Entretanto, a mãe de Jesus (Jo 19.25-27) e várias
outras discípulas, que o acompanhavam desde o início do ministério na Galiléia, juntamente com muitos discípulos, não abando-
naram Jesus na cruz (Mt 27.55,56; Mc 15.40,41; Jo 19.25 conforme Lc 24.10).
20
José de Arimatéia era um verdadeiro discípulo de Jesus. Entretanto, como Nicodemos (Jo 19.29), agia em secreto,
“aguardando o Reino de Deus”, mesmo assim – manifestou-se contrário à decisão do Sinédrio – e arriscou sua posição e a
39
Um dos criminosos que ali estavam
crucifcados esbravejava insultos contra
Ele: “Não és tu o Messias? Salva-te a ti
mesmo e a nós também!”
40
Mas o outro criminoso o repreendeu,
afrmando: “Nem ao menos temes a
Deus, estando sob a mesma sentença?
41
Nós, na verdade, estamos sendo exe-
cutados com justiça, pois que recebe-
mos a pena que nossos atos merecem.
Porém, este homem não cometeu mal
algum!”
42
Então, dirigindo-se a Jesus, rogou-lhe:
“Jesus! Lembra-te de mim quando en-
trardes no teu Reino”.
43
E Jesus lhe assegurou: “Com toda a
certeza te garanto: Hoje mesmo estarás
comigo no paraíso!”
14

Jesus entrega sua vida na cruz
(Mt 27.45-56; Mc 15.33-41; Jo 19.28-30)
44
E já era cerca de meio-dia, quando as
trevas cobriram toda a terra até as três
horas da tarde;
15

45
o sol perdera seu brilho. E o véu do
santuário rasgou-se ao meio.
16

46
Então, Jesus bradou com voz forte:
“Pai! Em tuas mãos entrego o meu espí-
rito”. E havendo dito isto, expirou.
47
O centurião, constatando o que tinha
acontecido, glorifcou a Deus, exclaman-
do: “Verdadeiramente, este homem era
justo!”
17
48
E todas as multidões que haviam afu-
ído, a fm de presenciar aquele aconteci-
mento, ao verem isso, retiraram-se aos
prantos, batendo nos peitos.
18
49
No entanto, todos aqueles que o conhe-
ciam, inclusive as mulheres que o haviam
seguido desde a Galiléia permaneceram,
ainda que à certa distância, observando
atentamente todos esses fatos.
19
O sepultamento de Jesus Cristo
(Mt 27.57-61)
50
E eis que havia certo homem, chama-
do José, natural de Arimatéia, uma cida-
de da Judéia, e membro do Sinédrio, que
era bom e justo.
51
Ele não havia concordado com o ve-
redicto, tampouco com o proceder dos
outros, e aguardava o Reino de Deus.
20
LUCAS 23
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1549
própria vida ao tomar a iniciativa de solicitar uma audiência urgente com Pilatos para pedir que lhe entregasse o corpo de
Jesus para os devidos preparativos dos funerais, com todas as honras e cerimoniais judaicos. Esses rituais eram proibidos pelo
Sinédrio, no caso de criminosos executados. E assim, cumpriu-se mais uma profecia acerca de Jesus, o Cristo (Is 53.9).
21
O “Dia da Preparação” para os judeus é a sexta-feira, dia em que todo o trabalho, a alimentação e os preparativos para os
cerimoniais do sábado são finalizados (essa prática ritual é rigorosamente guardada até nossos dias entre os judeus religiosos).
22
As discípulas do Senhor o acompanharam até a conclusão do seu sepultamento. Mais tarde, esse testemunho seria de gran-
de valia para refutar as alegações, especialmente por parte dos gnósticos docetas (filósofos que negavam a morte de Cristo), e
de vários incrédulos, que alegavam que elas haviam ido para o túmulo errado, ou que os discípulos haviam roubado e escondido
o corpo de Jesus com a finalidade de propagar uma ideia mística da ressurreição.
23
Apesar da forte oposição dos líderes do Sinédrio, que tentaram de todas as maneiras influenciar Pilatos, quanto ao martírio
e sepultamento de Cristo (Jo 19.21-22), o fato é que Jesus teve um funeral digno de príncipe. Ocupou uma rica sepultura, nunca
antes usada, construída na rocha por José de Arimatéia. Muitos metros de tecido, e grande quantidade de custosas especiarias
aromáticas foram usados no preparo do seu corpo para o sepultamento. Cerca de 34 quilos de mirra e aloés foram consumidos
apenas naquela primeira tarde (Jo 19.39). E muito mais foi comprado, para ungir seu corpo e o sepulcro, logo na aurora do
primeiro dia da semana, quando as discípulas do Senhor voltassem para lá.
Capítulo 24
1
Conforme o horário judaico, o primeiro dia da semana (domingo) começava logo após o pôr-do-sol do sábado. As mulheres
puderam então comprar os perfumes e especiarias e preparar os unguentos e bálsamos que seriam usados na conclusão dos
preparativos do corpo de Jesus e do túmulo para o sepultamento conforme a tradição judaica (Mc 16.1). As mulheres saíram
bem cedo na manhã do domingo, quando ainda estava escuro (Jo 20.1), e chegaram ao túmulo sob os primeiros raios da aurora
(Mt 28.1; Mc 16.2).
2
Normalmente se fechavam os túmulos com uma grande pedra para evitar que vândalos e animais pudessem perturbar os
corpos ali sepultados. Entretanto, as autoridades romanas haviam lacrado o túmulo, onde depositaram o corpo de Jesus com o
selo de Roma e um grupo de soldados foi destacado para vigiar a área do sepulcro (Mt 27.62-66).
3
Os anjos tinham aparência humana, mas suas vestes irradiavam uma luz intensa como a do dia claro. Fenômeno semelhante
ocorreu no evento da transfiguração, como um prenúncio da ressurreição (9.29,32; At 1.10; 10.30). Mateus e Marcos descrevem
apenas um anjo (Mt 28.2; Mc 16.5), mas era comum aos autores dos evangelhos dar ênfase às pessoas que tomavam a palavra
nos eventos narrados. Além disso, em certas ocasiões, cada um dos evangelistas teve sua atenção voltada para um ou outro
aspecto específico, o que evidencia a total independência dos relatos.
4
Os anjos procuram encorajar a fé das mulheres. O Senhor havia predito todos esses acontecimentos aos seus discípulos
e discípulas muitas vezes e de diversas maneiras (9.22). Agora, mais do que nunca, era importante crer. Elas estavam vendo
as ataduras de linho e o lenço (em grego: soudarion) que envolvera a cabeça do Senhor, tudo arrumado de um jeito que ser
52
Foi à presença de Pilatos e pediu-lhe o
corpo de Jesus.
53
Então, tirando-o da cruz, o envolveu
em um lençol de linho, e o depositou
num túmulo cavado na rocha, no qual
ainda ninguém havia sido sepultado.
54
Era o Dia da Preparação, e estava para
começar o sábado.
21
55
As mulheres que vinham seguindo a
Jesus desde a Galiléia, acompanharam
José, e contemplando o túmulo, viram
como o corpo de Jesus fora colocado na-
quele local.
22
56
Em seguida, foram para casa e prepa-
raram perfumes e bálsamos. E no sába-
do, descansaram, em obediência ao man-
damento.
23
Jesus Cristo ressuscitou!
(Mt 28.1-10; Mc 16.1-8; Jo 20.1-9)
24
No primeiro dia da semana, logo
ao raiar da aurora, as mulheres le-
varam ao sepulcro as especiarias aromá-
ticas que haviam preparado.
1

2
E encontraram removida a pedra do
sepulcro;
3
todavia, quando entraram, não mais
acharam o corpo do Senhor Jesus.
2

4
Ficaram pasmas, sem saber o que fazer.
De repente, dois homens com roupas que
reluziam como a luz do sol se colocaram
ao lado delas.
3

5
Atemorizadas, as mulheres inclinaram
o rosto para o chão e nesse momento
os homens lhes questionaram: “Por que
procurais entre os mortos Aquele que
vive?
4
6
Ele não está aqui. Ressuscitou! Lembrai-
vos de como vos preveniu, enquanto ain-
da estava convosco na Galiléia:
7
‘É impreterível que o Filho do homem
seja entregue nas mãos de pecadores, e
seja crucifcado, e ressuscite no terceiro
dia’”.
LUCAS 23, 24
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1550
humano algum sequer teria forças para romper aquelas amarras fúnebres, mesmo assim não conseguiam, de imediato, acreditar
plenamente na ressurreição de Jesus (Jo 20.5-8).
5
Depois do ato de traição de Judas, a expressão “os Onze” passou a ser usada em referência ao grupo dos apóstolos (At 1.26;
2.14). Judas já estava morto quando o Cristo ressurreto se encontrou com seus apóstolos pela primeira vez, no entanto, o grupo
continuava, em muitas ocasiões, a ser chamado de “os Doze” (Jo 20.24). Os “demais” ou “outros” se refere aos muitos discípulos
e discípulas que vinham seguindo o Senhor desde a Galiléia.
6
Maria Madalena é citada em primeiro lugar na maioria das listas das discípulas do Senhor (Mt 27.56; Mc 15.40 conforme
Jo 19.25). Foi também a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado (Jo 20.13-18). Joana (8.3) é mencionada apenas por Lucas
nesta ocasião, e Marcos é o único que acrescenta Salomé (Mc 16.1). Maria, mãe de Tiago (16.1), é “a outra Maria” de Mt 28.1. A
ausência de Maria, mãe do Senhor, pode ser explicada pelo fato de que ela, mais que todos, confiava nas palavras do seu filho e
aguardava com João – o discípulo amado – o cumprimento das profecias e da ressurreição de Jesus (Jo 19.27).
7
Os apóstolos e discípulos estavam longe de acreditar no evento da ressurreição com base no testemunho emocionalmente
descontrolado daquelas discípulas (Jo 20.25). A expressão leros nos originais gregos, traduzida aqui por “delírio”, e, em algumas
versões por “loucura”, significa literalmente “tolice” ou “esquisitice”.
8
João nos informa que ele também estava com Pedro nessa emocionante corrida até o sepulcro (Jo 20.3-9).
9
O domingo da ressurreição simboliza a era da nova criação. A época da Graça e o início do final dos tempos com a iminente
volta de Cristo em glória. Emaús era uma pequena vila, hoje desconhecida, mas seu nome significa “lugar das águas termais” ou
“águas que curam”, e para lá caminhavam desconsolados dois discípulos do Senhor: Cléopas (v.18) e, segundo vários estudio-
sos, o próprio Lucas. A medida de distância romana “sessenta estádios”, corresponde a cerca de onze quilômetros.
10
Tinham certeza de que era um profeta de Deus, por suas palavras poderosas e milagres indiscutíveis (At 7.22). Entretanto,
eles esperavam que ele também fosse o Messias (Dt 18.15,18) e libertasse o povo de Israel da opressão romana (1.68; 2.38;
21.28,31 conforme Tt 2.14; 1Pe 1.18). E por isso estavam muito decepcionados.
8
Então, se lembraram das palavras de
Jesus.
9
E, ao voltarem do sepulcro, elas com-
partilharam tudo o que lhes acontecera
aos Onze e a todos os outros.
5

10
As mulheres que relataram todos esses
fatos aos apóstolos foram Maria Mada-
lena, Joana e Maria, mãe de Tiago, bem
como as demais que com elas estavam.
6
11
Entretanto, eles não acreditaram nelas,
as palavras daquelas mulheres lhes pare-
ciam um delírio.
7

12
Contudo, Pedro levantou-se e saiu
correndo até o sepulcro. Ao chegar, abai-
xando-se, viu as faixas de linho e mais
nada; então afastou-se e voltou perplexo
com o que acontecera.
8

Jesus surge no caminho de Emaús
(Mc 16.12-13)
13
E, naquele mesmo dia, dois deles esta-
vam caminhando em direção a um po-
voado chamado Emaús, que fcava a cer-
ca de onze quilômetros de Jerusalém.
9
14
E iam dialogando sobre todos os fatos
recentemente ocorridos.
15
Enquanto trocavam idéias e discutiam,
o próprio Jesus se aproximou de ambos e
começou a caminhar com eles;
16
entretanto, os olhos deles foram impe-
didos de reconhecê-lo.
17
Então, Ele lhes questionou: “O que vos
preocupa e sobre o que ides discutindo
durante vossa jornada?” E eles pararam
entristecidos.
18
No entanto, um deles, chamado Cléo-
pas, replicou-lhe: “És o único, porven-
tura, que tendo estado em Jerusalém,
ignoras os acontecimentos destes últimos
dias?”
19
Ao que Ele lhes indagou: “Quais?” E
eles começaram a lhe explanar: “Ora, o
que ocorreu a Jesus, o Nazareno, que era
varão profeta, poderoso em obras e pala-
vras diante de Deus e de todo o povo,
10

20
e como os chefes dos sacerdotes e as
nossas autoridades o entregaram para ser
condenado à pena de morte, e o crucif-
caram;
21
e nós acreditávamos que fosse Ele
quem havia de trazer a total redenção a
Israel. Mas, hoje já é o terceiro dia desde
que tudo isso aconteceu.
22
É verdade também que algumas mu-
lheres, seguidoras conosco, nos assusta-
ram. Porquanto foram de madrugada ao
sepulcro,
23
mas não encontraram o corpo de Je-
sus. Contudo, voltaram e nos relataram
que tiveram uma visão de anjos, que lhes
asseguraram que Ele vive!
24
De fato, alguns outros seguidores entre
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1551
11
Assim como a maioria das pessoas em nossos dias, os discípulos não conseguiram acreditar nas evidências do túmulo
vazio, nem na declaração explícita dos anjos, nem no testemunho respeitável das discípulas que acompanharam Jesus desde a
Galiléia; nada convence, a não ser a própria pessoa de Cristo (v.30). Isso significa que ninguém se convencerá da ressurreição
e do senhorio de Cristo, a menos que o Espírito Santo venha e toque a cada pessoa em sua individualidade com o poder da fé
(At 2.38; Rm 6.23; Ef 2.8).
12
O vocábulo grego edei, conforme os originais bíblicos, tem o sentido de “era necessário” ou “imperioso”. O que significa
que tudo quanto se passou com Jesus Cristo fora consequência do propósito divino e da Palavra de Deus, que estão acima de
toda a justiça e compreensão humanas. A esperança messiânica concentra seu amor e atenção sobre as glórias eternas, sem se
deixar abater pela dor da Paixão (9.43; Fp 2.5-11).
13
Tudo indica que se Jesus não tivesse sido convidado a entrar, teria continuado seu caminho. O Senhor jamais força sua
entrada no coração humano. Ele se apresenta e aguarda ansioso o convite para habitar em nosso espírito e nos abençoar com
um novo nascimento e uma nova vida (Ap 3.20; Jo 10.9).
14
Essa passagem lembra a Ceia, onde o “partir do pão” é termo comum para a Ceia (At 2.42) e simboliza o fato de que sem
Jesus Cristo à cabeça da mesa não pode haver verdadeira comunhão (1Co 10.16).
15
Os “olhos impedidos” de antes (v.16) recebem o milagre da visão espiritual e são “abertos”. Almas e corações “tolos” e
“lentos” (v.25) passam a “queimar” (v.32) com amor e disposição urgente para proclamar a Salvação de Cristo ao mundo.
16
E Jesus, apesar de tudo, fez questão de aparecer a Simão (Jo 21.15-19), o primeiro discípulo da lista de aparecimentos de
1Co 15.5.
17
Temos base bíblica para afirmar que o corpo ressurreto tem a aparência do corpo anterior, todavia sua substância geral é
de um estado especial e tênue. Jesus apareceu entre eles, por trás das espessas portas trancadas (Jo 20.19,26), evidenciando
nós foram ao sepulcro e encontraram
tudo exatamente como as mulheres
haviam informado; porém não viram
a Ele”.
11

25
Então, lhes admoestou Jesus: “Ó to-
los de entendimento e lentos de coração
para crer em tudo quanto os profetas já
declararam a vós!
26
Ora, não era imprescindível que o
Cristo padecesse para que entrasse na
sua glória?”
12

27
Então, iniciando por Moisés e discor-
rendo sobre todos os profetas, explanou-
lhes o que a seu respeito constava em
todas as Escrituras.
28
Ao se aproximarem do povoado para
o qual se dirigiam, Jesus fez como quem
ia continuar a caminhada, seguindo mais
à frente.
29
Porém eles muito insistiram, rogando-
lhe: “Fica conosco, pois é tarde, e o dia já
está chegando ao fm!” Então, Ele entrou
para fcar com eles.
13
30
E aconteceu que, quando estavam
reclinados ao redor da mesa, tomando
Ele o pão, deu graças, partiu-o e o deu
a eles;
14
31
neste mesmo instante, se lhes abriram
os olhos, e o reconheceram; Ele, contudo,
desapareceu diante dos olhos deles.
32
E questionaram-se entre si: “Porventu-
ra não nos queimava o coração, quando
Ele, durante a nossa jornada, nos falava,
quando nos explicava as Escrituras?”
15
33
E, na mesma hora, levantando-se, re-
tornaram para Jerusalém, onde encon-
traram reunidos os Onze e outros segui-
dores com eles,
34
os quais anunciavam: “É verdade! O Se-
nhor ressuscitou e apareceu a Simão!”
16
35
Então os dois comunicaram o que ha-
via ocorrido no caminho e como Jesus
fora reconhecido por eles enquanto par-
tia o pão.
Jesus aparece aos discípulos
(Jo 20.19-23)
36
E aconteceu que, estando ainda con-
versando sobre esses fatos, o próprio
Jesus apareceu entre eles e lhes saudou:
“Paz seja convosco!”
37
Eles fcaram atônitos e aterrorizados,
pensando que estivessem vendo um
espírito.
38
Todavia, Ele lhes exortou: “Por que es-
tais apavorados? E por qual motivo so-
bem dúvidas ao vosso coração?
39
Observai as minhas mãos e meus pés
e vede que Eu Sou o mesmo! Tocai-me e
comprovai o que vos afrmo. Por que um
espírito não tem carne nem ossos, como
percebeis que Eu tenho.
17
40
E havendo dito isto, passou a mostrar-
lhes as mãos e os pés.
LUCAS 24
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1552
que seu corpo era de uma ordem diferente (Mc 16.12). As marcas dos cravos e da lança podiam ser vistas no corpo de Cristo
(Jo 20.27), pois era exatamente o mesmo corpo do Senhor antes da morte, composto de carne e ossos (v.39). Expressões como:
“Tocai-me” ou “Apalpai-me”, colocam por terra os argumentos gnósticos (1Jo 1.1). Essas são indicações que nos fazem crer que
sem dúvida reconheceremos perfeitamente nossos amados na ressurreição (1Co 15.44). A tradicional saudação hebraica, com
sotaque galileu: Shãlôm, que traz o sentido geral de “paz com saúde e conforto”, foi recebida com surpresa e alegria pelos discí-
pulos e agora adquire o sentido completo e messiânico de: Graça (Rm 1.7), Vida (Rm 8.6) e Justiça (Rm 14.17).
18
O cânon hebraico do AT é formado de três grandes divisões, sendo que o livro dos Salmos era o primeiro livro da terceira
sessão, chamada de “Escritos”, o que revela que Jesus Cristo, o Messias, fora predito em todo o AT.
19
O AT retrata o Messias como um profeta que sofreria (Sl 22; Is 53), mas ressuscitaria no terceiro dia (Sl 16.9-11; Is 53.10,11
conforme Jo 1.17 e Mt 12.40). A predição da morte e da ressurreição de Jesus Cristo está conectada à essência da resposta do
ser humano (o arrependimento – At 5.31; 10.43; 13.38; 26.18) e do seu benefício resultante (o perdão – Is 49.6; At 13.47; 26.22,23),
a começar de Jerusalém (At 1.8).
20
O poder para cumprir a missão de pregar a todas as nações (v.47) é uma referência à promessa do Espírito Santo, que é
a própria pessoa do Cristo, habitando e agindo na vida do cristão fiel, e que se cumpriria a partir do relato de At 2.4 (Jl 2.28,29
conforme Mt 28.18-20 e At 1.8).
21
Jesus acompanhou seus discípulos até uma aldeia próxima a Betânia, no monte das Oliveiras (19.29; Mt 21.17).
22
Bem diferente dos seus desaparecimentos anteriores (4.30; 24.3; Jo 8.59), esse “até logo” do Senhor se dá à vista de todos,
no jardim das Oliveiras, de forma saudosa e tranquila, subindo ao céu numa nuvem (At 1.9). Não é ainda a exaltação do Senhor
(Jo 20.17), mas o fim de um tempo histórico. Jesus não mais aparecerá fisicamente ao mundo até seu glorioso retorno (At 1.11).
23
A terrível tristeza com o afastamento de Jesus na cruz e no sepulcro é agora perfeitamente substituída pelo júbilo glorioso da
presença do Espírito do Senhor nos corações de todos os discípulos, produzindo alegria e poder (At 2.46; 5.41).
24
E naqueles dias, imediatamente após a ascensão de Jesus Cristo, os cristãos (expressão com a qual as pessoas se referiam
aos seguidores do Senhor e que significa em grego: “pequenos cristos” ou “crentes”), costumavam reunir-se diariamente no
templo (At 2.46; 3.1; 5.21,42), no qual muitas salas ficavam à disposição para meditação, oração e estudo das Escrituras (2.37).
41
E tão repletos de alegria e surpresa
estavam, que não conseguiam acreditar
no que viam. Por isso, Jesus lhes pediu:
“Tendes aqui algo para comer?”
42
E eles lhe ofereceram um pedaço de
peixe assado.
43
E pegando aquele pedaço de peixe o
comeu na presença de todos.
Jesus esclarece as Escrituras
44
Em seguida, Jesus lhes explicou: “São
estas as palavras que Eu vos ensinei
quando ainda estava entre vós: Era ne-
cessário que se cumprisse tudo o que a
meu respeito está escrito na Lei de Moi-
sés, nos Profetas e nos Salmos!”
18

45
Então, se lhes abriu o entendimento para
que pudessem compreender as Escrituras.
46
E lhes afrmou: “Está escrito que o
Cristo haveria de padecer e ressuscitar
dos mortos no terceiro dia,
19

47
e que em Seu Nome seria pregado o
arrependimento para o perdão dos pe-
cados a todas as nações, começando por
Jerusalém.
48
E vós sois testemunhas destes fatos.
49
Eis que Eu sobre vós envio a promessa
de meu Pai; contudo, permanecei na ci-
dade, até que sejais revestidos do poder
do alto!”
20

Jesus é elevado ao céu
(Mc 16.19-20)
50
Tendo-os levado até as proximidades
de Betânia, Jesus ergueu as mãos e os
abençoou.
21

51
E, enquanto os abençoava, ia-se retirando
da presença deles, sendo elevado ao céu.
22

52
Então, eles o adoraram e voltaram para
Jerusalém plenos de felicidade.
23
53
E reuniam-se constantemente no pátio
do templo, bendizendo a Deus.
24
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