A modernidade e o ocaso do social

Carlos A. Gadea* TOURAINE, Alain. Un nuevo paradigma para comprender el mundo de hoy. Buenos Aires: Paidós, 2006.

A

lguns anos atrás, Jean Baudrillard permitiu-me tomar contato, pela primeira vez, com um excitante diagnóstico acerca do suposto “ocaso do social”. Em um trabalho intitulado Cultura y simulacro, Baudrillard perguntava-se, por exemplo, se as sociedades modernas respondiam a um progressivo processo de socialização ou dessocialização, admitindo que aquelas instituições que balizavam os “progressos do social” (urbanização, trabalho, produção, escolarização etc.) pareciam agora produzir e destruir o social de forma simultânea. A expansão dos meios de comunicação e a informação não teriam conseguido mais do que neutralizar as relações sociais, atomizando o social em sentido profundo. Posteriormente, nas brilhantes reflexões de Zygmunt Bauman, foi possível encontrar os mesmos sintomas que definiriam nossa complexa contemporaneidade. Seu trabalho Modernidade líquida faz-nos deparar com uma modernidade em que as instituições e seus valores constitutivos parecem “derreter-se”, perdendo sua rigidez e solidez características, para assumirem um inovador estado de fluidez e flexibilidade. A “modernidade líquida” de Bauman é aquela em que as lealdades a crenças e grupos de pertença esfumam-se no contexto das transformações socioculturais e dos novos dilemas da globalização. Se alguém pretendesse achar possíveis semelhanças entre o pensamento de Baudrillard e as reflexões de Bauman acerca do destino do projeto histórico da modernidade, compreenderia que sua tarefa não é demasiadamente complicada. Mas, quais seriam os

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Carlos A. Gadea é Doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e Editor da Revista Ciências Sociais Unisinos. Endereço eletrônico: cgadea@unisinos.br.

Re s e nha

linha de pensamento e reflexão política que se achava sistematizada em uma obra anterior. Sem dúvida. Touraine (1965) foi reconhecido por sua definição de uma Sociologia cujo fundamento consistia em entender e explicar os movimentos sociais. ya no debemos pensar socialmente los hechos sociales” (TOURAINE. “ação social” e “emancipação”. p. apresenta algumas surpresas. 205 – 210 . Assim. Un nuevo paradigma para comprender el mundo de hoy. 105). as quais poderíamos situar junto às reflexões de Baudrillard e Bauman. Nos dois casos. a um intelectual cujo campo de análise estaria mais voltado para o “sujeito” da ação social. a radicalidade de suas atuais análises transcende algum possível traço de ingenuidade interpretativa ou posse de correção política. ou seja. intitulada ¿Podremos vivir juntos? Iguales y diferentes. “Este paradigma que se debilita se ha construido sobre la idea de que la sociedad no tiene otro fundamento que lo social” (idem. Nesse sentido. Mas. pareceria que muito poucos. p. o mundo do trabalho e os conflitos de classe foi cedendo o passo. sua mais recente obra. um modelo que 206 p. 2006. Touraine não pôde esconder sua posição intelectual como militante da “emancipação do sujeito”. O Touraine que estudava e teorizava sobre os movimentos sociais. 63). com o tempo. ao afirmar que “ya no podemos. Lembremos que Touraine foi um dos principais introdutores da categoria “movimento social” na academia. De fato. Touraine sugere que todo o corpo interpretativo em que a Ciência Social fundamentava sua organização e suas linhas de atuação já não é funcional para compreender o mundo de hoje. trata-se de brilhantes análises das mudanças sociais e culturais que as sociedades modernas experimentaram nas últimas três décadas. O que a última obra tem de diferente é uma evidente preocupação em incorporar nos diagnósticos uma postura metodológica que considera iniludível para a atualidade da Sociologia.Nº 12 – abril de 2008 pontos comuns entre esses autores e as atuais e lúcidas reflexões do sociólogo francês Alain Touraine? À simples vista. “democracia”. gerando uma importante discussão em torno dos fenômenos sociais que tinham como eixo de análise a ação social e a emancipação política. Não obstante. considero que seu último livro é uma clara continuação de ¿Podremos vivir juntos? Iguales y diferentes. com uma clara preocupação metodológica centrada nas categorias “modernidade”.

surgida com a industrialização. os Estados nacionais e as revoluções políticas do século XIX. já não é possível explicar o mundo em que vivemos com base nessas categorias. a destruição de uma visão social da vida social – representaria concordar com uma análise “não social” da realidade. 205 – 210 207 Re se nha . p. uma vez que. en el mundo en que ya hemos entrado. Hablábamos de ‘actores sociales’ y de movimientos sociales. É nesse ponto que Touraine expõe as noções centrais do novo p. conforme um paradigma de caráter cultural. Gadea representa e organiza a existência em termos econômico-sociais. a que conseguiria consolidar uma representação propriamente social da sociedade. A “primeira modernidade”. en la que las categorías culturales reemplazan a las categorías sociales. 15). apresentando o conjunto de fenômenos sociais sintomáticos de desintegração e ruptura dos vínculos sociais. tanto bajo una forma neocomunitaria como de apelación a un sujeto personal y de reivindicación de derechos culturales. a carência de mecanismos institucionais de regulação social. produção. seria. O processo de globalização. 27). tinha substituído a ordem religiosa e sua explicação do mundo por uma ordem política e um novo paradigma explicativo da realidade. Ao “ocaso do social”. à dessocialização e à crise de todos os valores “sociais” deve acrescentar-se uma nova imagem: “El incremento de las reivindicaciones culturales. en la que las relaciones de cada cual consigo mismo son tan importantes como lo fuera antaño la conquista del mundo” (idem. A “segunda modernidade”. tendremos que hablar con mayor frecuencia de sujetos personales y de ‘movimientos culturales’” (idem. Na segunda parte. o progressivo isolamento e a exclusão dos indivíduos são fatores que se apresentam como desencadeadores de uma maneira nova de pensar a realidade. então. verifica-se um esforço por “construir la imagen de una sociedad que ha llegado a ser ‘no social’. Segundo Touraine. com base em categorias como classe. a urbanização e a escolarização. Essa é a idéia central que Touraine aborda na primeira parte de seu livro. p. Essa é uma representação que Touraine considera em crise. entretida nas vicissitudes da formação dos Estados modernos. trabalho.A modernidade e o ocaso do social Carlos A. capital e mercado. já não são mais os problemas e conflitos próprios dessa “segunda modernidade” que se apresentam com mais intensidade. Afirmar que vivenciamos a “destruição da sociedade” – ou seja. na atualidade.

impossível de controlar. a modernidade é geradora de autênticas demandas de subjetivação. A descrição da “lógica instrumental” da modernidade não necessariamente sugeriria a desaparição dos atores sociais. a la soledad. La desocialización conduce a la destrucción de los lazos sociales. assinalando que o único valor que se possui é um princípio de resistência e legitimidade do comportamento: a defesa do direito de existir como indivíduo e de não estar fora do mundo. podemos afirmar que a racionalização da sociedade conduz ao fortalecimento da lógica da integração social. que “están impacientes por afirmarse y lograr el reconocimiento de su libertad de sujetos” (idem. já que aludem a problemas relacionados à sexualidade. sino al de la libertad creadora de cada individuo” (TOURAINE. portanto sociais. Invertendo a conhecida afirmação de Habermas acerca da “colonização do mundo da vida pelo sistema”. p. la modernidad no solamente no se encuentra debilitada por ello. pero al mismo tiempo libera de pertenencias y reglas impuestas. 2006. Em um mundo em movimento. afirmação e reconhecimento de aspectos culturais e de identidade pessoal. processo de individualização que defende os direitos de cada um de controlar os juízos de valor sobre como se comportar perante os 208 p. O que Touraine manifesta com sua afirmação acerca do “ocaso do social” é parte de um amadurecimento intelectual que tem em sua matriz metodológica uma concepção ambígua da modernidade histórica: “La ruina de las sociedades tiene. 307). na atualidade. a política. 103-104). Para aqueles que já tinham lido seu livro anterior. sino que se convierte en la única forma de resistencia a todas las formas de violencia y a ella corresponde reconstruir instituciones que no estarán ya al servicio de la sociedad […]. o mundo privado invade o público e a cultura. Touraine pareceria sugerir que. Recordando Foucault. não será demasiadamente inovador. do controle e. à religião e às diversas formas de vida. agora são eminentemente culturais. Segundo pode-se compreender. Touraine parece aderir a esses diagnósticos. à materialização de uma multiplicidade de mecanismos de poder asfixiantes para o indivíduo. tantos aspectos negativos como positivos. assim. a la crisis de identidad.Nº 12 – abril de 2008 paradigma. 205 – 210 . sin duda. p. como he dicho. Se esses direitos revestiam antes características políticas. Ahora bien.

31). a grande característica da modernidade: a contínua tensão entre um universo instrumental (sob os contornos racionalizadores da sociedade) e um universo simbólico (caracterizado pelas experiências de produção e afirmação dos sujeitos sociais). fuerzas de destrucción de los actores sociales que actúan invocando la necesidad natural y. Entre las dos se mantienen (o incluso se refuerzan) instituciones que se esfuerzan por dar forma a la autonomía de lo social” (idem. políticas. é notório seu interesse por analisar a potencialidade expressiva que subjaz à idéia de sujeito e ator social.8. p. uma Sociologia que não reconheça a noção de sujeito nem os aspectos culturais como de inevitável centralidade analítica. evidencia. então. Assistimos. Na base de suas análises. a idéia de que. p. figuras del sujeto (religiosas. uma vez mais.2007 p. é na análise dessas tensões que deve situarse uma Sociologia que defenda o campo de sua atuação. frente a ellas. que es cada vez más directamente opuesto a la idea de sociedad” (idem. reforçamo-nos – na condição de atores sociais – como sujeitos pessoais.7. É que. na atualidade. 103). para Touraine. “hoy sólo puede desarrollarse desembarazándose de ella. cada vez que houve algum tipo de retrocesso. para a Sociologia de Touraine. encontra-se. novamente. “existen. a socialização e a dessocialização. na atualidade. Touraine propõe. combatiéndola incluso. considerando-se que não é possível. duas: a racionalização e a subjetivação. mas. sem dúvida. Embora a modernidade tenha sido sempre impulsionada pela idéia de sociedade. por una parte. y apoderándose del sujeto. Isso.A modernidade e o ocaso do social Carlos A. 205 – 210 209 Re se nha .2007 Aprovado em 15. uma virada empírica que sugeriria uma conseqüente virada teórica e analítica. sim. Recebido em 10. sociales o morales) que resisten a lo que amenaza a la libertad. o universo instrumental e o universo simbólico. Para Touraine. uma observação de nossa contemporaneidade que não oferece uma única imagem. Gadea outros e consigo mesmo. Touraine tem transitado de uma Sociologia dos movimentos sociais para uma Sociologia do “sujeito” da ação social. a subjugação dos indivíduos e a liberdade dos sujeitos. a uma Sociologia sem sociedade? Talvez. Em seu último livro.

1997. Zahar. 210 p. Z. 1965. 2001. Modernidade líquida. Barcelona: Kairós. Sociologie de l’action.Nº 12 – abril de 2008 Referências bibliográficas BAUDRILLARD. BAUMAN. TOURAINE. Cultura y simulacro. Un nuevo paradigma para comprender el mundo de hoy. Paris: Seuil. 2006. __________. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. 205 – 210 . Rio de Janeiro: J. __________. ¿Podremos vivir juntos? Iguales y diferentes. 1978. A. J. Buenos Aires: Paidós.

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