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Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger Temporality and property in Heidegger’s Being and Time
[A] [I]

Cezar Luís Seibt
Docente da Universidade Federal do Para (UFPA), Cametá, PA - Brasil, e-mail: celuse@ufpa.br

[R] Resumo
Em Ser e Tempo, Martin Heidegger pretende mostrar e superar a objetificação realizada pela Metafísica retomando a questão do sentido do ser. Tal superação passa pela desconstrução do conceito de tempo, marca fundamental da compreensão tradicional da realidade e, inclusive, da compreensão do que seja o próprio ser humano. No lugar do tempo da ontologia da coisa, linear, sugere ele a temporalidade enquanto sentido do ser do Dasein. Este texto busca acompanhar o autor nesta diferenciação e mostrar a nova compreensão de ser humano que dela surge. Do tempo da coisa para o tempo do Dasein, da impropriedade para a propriedade. [P] Palavras-chave: Tempo. Temporalidade. Propriedade. Analítica existencial. Metafísica.
Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 22, n. 30, p. 247-266, jan./jun. 2010

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SEIBT, C. L.

Abstract
In Being and Time Martin Heidegger wants to show and overcome the Metaphysical objectification considering the question of sense of being. This overrun goes through the deconstruction of the concept of time, fundamental mark of the traditional understanding of reality and including the understanding of what the human being is. In place of the time of things ontology, linear, he suggests a sense of temporality as sense of being of Dasein. This text try to accompany the author in this differentiation and show the new understanding of human being that appears. From time of thing to the time of Dasein, from impropriety to property. [K] Keywords: Time. Temporality. Property. Existential analytic. Metaphysic.

Considerações introdutórias
O fio condutor do pensamento de Heidegger, sua meta, é a elaboração da questão do sentido do ser. Como a questão do ser só surge e repercute num ente determinado, que compreende e está disposto afetivamente, o ponto de partida deverá ser o esclarecimento deste ente, chamado Dasein. Heidegger acredita que, tornando mais originariamente acessível o ser deste ente, obtémse um horizonte seguro, um fundamento para a investigação do sentido do ser em geral, uma ontologia fundamental. Para isso a analítica do Dasein em Ser e Tempo é um caminho, um esforço neste sentido. Se esse caminho é correto ou até mesmo o único, somente é possível dizer depois que ele tiver sido percorrido. Tendo retornado à constituição originária do ser do Dasein, Heidegger (1998, § 83) se pergunta se esse caminho levou ou não ao que se pretendia. Tendo chegado à temporalidade, há algum caminho que leve dela até o sentido do ser em geral? O tempo originário se revela realmente como horizonte do ser? Ou seja, tendo procurado superar a visão de tempo tradicional em direção à temporalidade originária do ser humano, é possível agora repensar o ser para além da objetificação e presentificação tradicionais? Sabemos que Heidegger não completa a obra segundo o seu projeto inicial, alegando, sobretudo, uma insuficiência nos recursos da linguagem. Além do mais, Heidegger realiza nas obras posteriores uma mudança na perspectiva
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torna-se acessível a temporalidade própria. 11). Há uma passagem a ser realizada: dos entes que se manifestam no mundo para o próprio mundo. Melhor dizendo. mas o mundo. pela familiaridade com um determinado âmbito de abertura no mundo. Curitiba. Mas o próprio mundo está oculto. ao contrário. A questão é: como sair desse estado e conquistar novamente a si mesmo. ele mesmo. o fim das possibilidades. n. Como mostra Grondin (2007. desvelador de mundo. para a constituição originária do ser-no-mundo. que é atestada no ser-paraa-morte. evitar a fuga e encaminhar-se para a autenticidade? Por meio do estado que a angústia provoca. permanece oculto naquilo que se manifesta nele. O seu empenho tem sido uma luta com conceitos. ao comentar que a compreensão do ser se realiza a partir do cuidado e da fuga do cuidado. Ela revela novamente a finitude do Dasein. tem essa sua própria condição encoberta.. Mas isso não invalida a analítica existencial. e também aponta para o próprio mundo. com entendimentos que pressionam os estreitos limites de um pensamento que se move nas e a partir das possibilidades oferecidas pelo cotidiano e. p. Essa passagem para o mundo é operada por meio da descrição do ocultamento cotidiano em direção à propriedade. colocar o sentido do ser em questão é pretender repensar de outro modo o fundamento da nossa Rev. apesar das controvérsias sobre seu envolvimento político. v. Filos. reaver o ser humano na sua propriedade e originariedade. em Ser e Tempo.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 249 por meio da qual persegue o seu problema. ou seja. Pode-se escutar novamente a consciência que chama para si mesmo. no sentido de buscar o sentido do ser a partir do próprio ser e não mais pelo esclarecimento do Dasein. Empenha-se por reconquistar o Dasein para si mesmo. o problema fundamental que Heidegger tem em mente. Encontram-se coisas no mundo. Ela mostra que o Dasein enquanto mundo. p. por um modelo objetivista. Com a morte. jan. Não há dúvidas. 22./jun. para a propriedade. 247-266. § 40). Cotidianamente o ser humano está capturado pelas coisas que realiza. é a elaboração adequada da questão do sentido do ser. essa se mantém ainda necessária no caminho. 30. Mas em função de que esse é o problema de Heidegger e como ele chega ao Dasein por essa via? Em primeiro lugar. 2010 . mostra Heidegger (1998. que Heidegger é um autor cuja obra tem provocado um profundo impacto nas pesquisas e compreensões atuais em diversos âmbitos do conhecimento. Aurora. a razão disso é “a tendência do Dasein de entender o ser ‘sem o tempo’. acontecimentos. manifesta-se o ser culpado e aponta-se para a resolução. O fato de ser desvelador do mundo está velado. Como já dissemos. sobretudo. para a mundanidade do mundo. e ele explicita isso com frequência. como permanente presença”.

permanecer à mercê da tradição. [./jun. C.] primeiro eu não ‘sou’ ‘eu’. que forma mundo. encurtam-se as possibilidades de fundamentação da compreensão. o Dasein é o ‘a gente’. Heidegger percebe que há algo como uma determinação. e regularmente se mantém nisso. § 25 a 27). Heidegger encaminha o problema no sentido de buscar essas origens e fundamentos a partir de um paciente e perspicaz trabalho de desconstrução do modo de ser do ente que pergunta pelo sentido do ser. Dessa forma. Rev.. As possibilidades próprias lhe são subtraídas pela tradição. o Dasein já é sempre num mundo.. É preciso remontar às suas origens. às condições que sustentam o próprio pensamento. 30. é ser-no-mundo. o ser humano está ocupado com os entes. Como diz o próprio Heidegger (1998. mas como o modo finito e histórico no qual irremediavelmente se constitui a abertura. é clareira. de perguntar e escolher. 2010 . uma abertura. que transcende. Com base neste fato. compreensão e do nosso ser. eterna e a-histórica. Como tal. do âmbito em que nos movemos no mundo. Quando o Dasein descobre e aproxima para si o mundo. da compreensão e do discurso efetiva-se essa abertura do ser-no-mundo. que é e está na abertura. senão que sou os outros a maneira do ‘a gente’ (Man). e como uma quebra das dissimulações com as quais o Dasein se fecha frente a si mesmo. este descobrimento do ‘mundo’ e esta abertura do Dasein sempre se levam a cabo como um afastar de encobrimentos e obscurecimentos. Nela o Dasein tem a tendência de interpretar a si mesmo a partir do mundo da impessoalidade. no sentido do próprio si mesmo. Desde este e como este estou dado imediatamente a mim mesmo. Filos. do desoculto. Por meio da disposição afetiva. Imediatamente. um condicionamento no modo e nas possibilidades do pensamento metafísico. é uma abertura finita e histórica. nesse lidar o Dasein está sempre primeiro e em geral disperso e perdido na impessoalidade do ‘a gente’ (Das Man) (1998. Como ser-no-mundo. que já sempre tem uma compreensão prévia do ser. L. 247-266. os descobriu e familiarizou-se com eles. quando abre para si mesmo o seu próprio modo de ser. a partir dele instaura-se algum sentido. No entanto. privado do poder de dirigir a si mesmo. Aurora.250 SEIBT. jan. 22. que deverá ser entendida a partir da abertura finita do mundo e não pelo recurso a alguma entidade ou dimensão exterior. Entre os entes há um único a partir do qual se pode falar que há algo como ser. 153). v. mas é também a própria condição de possibilidade do desocultamento. p. Curitiba. Tal condição fáctica não é entendida de forma negativa.. Ser é o âmbito do aberto. Só o Dasein pode dizer que algo é. n. p.

não há sentido objetivo. contra a tentativa de toda atividade cotidiana de fugir dessa disposição. Realizada a descrição do modo de ser decaído na cotidianidade na primeira seção de Ser e Tempo. O encontro Rev. do tempo próprio. que deverá encaminhar a possibilidade do poder-ser próprio. a liberdade. liberta as possibilidades autênticas do conhecimento. Percebe que não há apoio em lugar nenhum. em Ser e Tempo. Descobre-se ele como a abertura finita do mundo. Essa transparência libera a verdade. decai e foge de si e nem percebe que cai e foge. Esse encobrimento é garantido no falatório. Mas por que há no Dasein essa tendência de decair. 30. encontra a si mesmo na sua originariedade. Isso significa que ele re-descobre o mundo.. n. v. Mas quando ele se re-descobre como ser-no-mundo. o Dasein está decaído e encoberto para si mesmo na sua constituição essencial como ser-no-mundo. de ser a condição de possibilidade do mundo./jun. e isso significa vir ao mundo mais uma vez. que não há fundamento como ponto de apoio objetivo. há um vazio. a finitude. Nas ocupações e preocupações o Dasein se perde de si mesmo. Podemos dizer que ele desencobre o encobrimento que aconteceu do fato de ele mesmo ser a condição de qualquer sentido. Filos. O ser deverá ser compreendido a partir do horizonte da temporalidade. ele pode descobrir que aí não há nada. por meio da angústia. que destrói a tranquilidade e normalidade das construções teóricas e práticas e desvela o fundamento finito da compreensão do homem com ser-aí. está voltada para o nada. de instalar-se no seu mundo? Heidegger dirá que é porque quando ele toma consciência do fundo do qual ele emerge. 2010 . de haver algo como mundo. 247-266. na curiosidade e na ambiguidade (§ 25 a 27). A coragem para a angústia é a coragem para experimentar a própria transparência. que seu fundamento é precário. 22. ao procurar compreender-se pelas raízes. O único apoio é seu ‘aí’ (Da). a temporalidade e a historicidade do Dasein. p. com isso. que Heidegger caracteriza como imprópria. na segunda a investigação será conduzida a partir da temporalidade. Como fazer então para que a singularidade da vida humana possa se mostrar? Isso é possível. A irrupção para o ser próprio se dá no encontro com a experiência da contingência: não há nada por trás. Curitiba. portanto. É preciso mostrar que na cotidianidade mantém-se encoberto esse fato originário do Dasein ser esse des-encobridor. Aurora. faz o indivíduo isolado cair fora das relações de familiaridade com o mundo e o confronta com a nudez do mundo e de si mesmo. como existente.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 251 Na cotidianidade. jan. torna transparente para si mesmo o seu modo de ser e. como já mostramos. A propriedade resiste à tendência da fuga. ou seja.

§ 46 a 53). pelo impessoal? Heidegger dirá (1998. embora imprevisível. portanto. para um ser absoluto. Aurora. é certa: a morte (1998. antecipando a possibilidade da morte. ao descobrir-se autenticamente para a morte. 2010 . Desligando-se do impessoal. C. Tal chamado vem do próprio Dasein.. ele vê sua situação e as possibilidades que essa lhe oferece. E a efetivação dessa possibilidade destrói qualquer outra possibilidade e. a própria existência. Tendo des-coberto o tempo. ninguém pode ser substituído e nem substituir outrem nesse acontecimento. 247-266. torna-se resoluto. o Dasein volta para si mesmo e seu próprio pensar para. L. Esse horizonte aberto do tempo mostra que coisas incertas nos aguardam no futuro. O Dasein Rev. com os entes simplesmente dados ou disponíveis e com a tradição não se dá a partir de uma verdade eterna. mas acontecimento. O sentido do ser não é algo persistente. depender de si mesmo. mas uma. dessa forma. ou consolar-nos com pensamentos de eternidade. espontaneidade e criatividade. Filos. descobre a inconsistência de tudo que é providenciado pelo impessoal e público. Tendo consciência dessa possibilidade. Visto a partir da temporalidade. a-temporal. o Dasein não se restringe em sua consciência ao momento presente. da liberdade e transcendência que produz iniciativa. pois podemos vivenciar o ‘passar’ do tempo. v. pensar a temporalidade do próprio pensar. consigo. a partir do tempo compreendido. dá-lhe uma nova perspectiva. jan. Precisa renunciar aos alívios providenciados pela cotidianidade e suportar a si mesmo. e lhe revela o seu ser culpado. o Dasein torna-se mais originariamente acessível para si mesmo. Mas ela já está presente a cada momento. 30. p. n. presente. afasta-se da multidão e toma suas decisões à luz da sua vida como um todo. O ser-para-o-fim está dentro da própria vida. E cada um tem de morrer a própria morte. mas se projeta no futuro e retrocede ao passado. Por isso. o Dasein chega à consciência da mortalidade e do tempo. Sendo adiante de si mesmo. A certeza da morte influi no modo como a vida é organizada. não pode mais haver fuga para fora do tempo. e toma uma decisão. E. ele liberta-se das amarras do ‘a gente’ (Das Man). § 54 a 60) que é pelo chamado da Consciência. O Dasein. para o que é estável e eterno. ou seja. Ela é aquela que diz que ele tem de optar por escolher. inclusive. e toma consciência do próprio poder-ser. mas exatamente enquanto modo de ser do ente que compreende e que tem seu ser implicado nesta compreensão.252 SEIBT. que nunca está total e irrecuperavelmente absorvido no ‘a gente’. O sentido do ser é o tempo (daí Ser e Tempo) e. a morte individualiza e mostra que não podemos repousar no tempo. 22./jun. Mas a partir de onde o Dasein pode escolher entre possibilidades diferentes daquelas concedidas pelo ‘a gente’. Curitiba.

o mundo espacial. a mundanidade do mundo. em primeiro lugar. pelos entes de que cuida. mundo não é mais a simples totalidade dos entes que compõem o espaço em que cada ser humano se move. p. Mundo é a abertura onde o mundo comum (dos entes e do espaço) pode aparecer e fazer sentido. a disposição afetiva.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 253 resoluto vai antecipadamente ao encontro de sua morte e remonta ao seu passado antes de decidir o que fazer no presente ou instante. 2010 . Filos. Assim./jun. o que é isso? Em Heidegger. Esse caminho todo mostrou que o ser-no-mundo do Dasein é cuidado e este está. 247-266. 30. de ser pura possibilidade. com isso. Mas ‘mundo’. e disso ele é capaz por meio da angústia. com que lida e está familiarizado. Curitiba. o presente é retirado da dispersão da ocupação imediata. e é retido no futuro e no passado. encontra suas raízes e liberta-se enquanto ser de possibilidades. num ir-e-vir entre a distração e o recolhimento e isso é tudo o que há. agora. evidenciando novos elementos que superaram. e de ter sobre si a carga da sua existência. como tal. ou seja. a partir da temporalidade e não do tempo. onde adquirem algum sentido. Nela ele ouve a voz do chamado da Consciência que o chama de volta às suas possibilidades próprias e lhe mostra o fato originário de ser sempre culpado. Assim. Não é. Deter-nos-emos agora na análise da segunda seção de Ser e Tempo. simplesmente. da historicidade e não da história. Aurora. Heidegger chama de ‘instante’ (Augenblick). jan. Mas essa não é a única possibilidade dele: ele tem uma potencialidade originária para perceber essa absorção e de voltar a si mesmo. por meio da resolução (Entschlossenheit). v. do seu próprio ser. Temporalidade e abertura própria As estruturas que compõe a abertura. esse fundamento sem fundo e. 22. que é um presente próprio. a clareira na qual as coisas e os acontecimentos podem se mostrar. do modo como normalmente o ser humano é no mundo). nu e sem lar. o Dasein vive. a compreensão. Heidegger quer. as compreensões tradicionais do ser humano e do próprio ser. O presente recolhido da dispersão por meio da resolução. n. faticamente já sempre distraído e absorvido em e pelo seu mundo.. a decaída e o discurso. O Dasein que se apropria de si mesmo. como um todo. deverão ser o primeiro alvo da Rev. a abertura do ser. reconhece esse abismo que ele mesmo é enquanto ser-no-mundo. mostrar o ‘fundo do mundo’. na qual Heidegger avança fazendo uma releitura das conquistas da primeira seção (descrição da cotidianidade. É o horizonte de sentido.

v. irresoluto. Haar (1990. quer dizer. O esclarecimento obtido não é suficiente. 22. por serem pensadas a partir do presente. 30. Filos. deverão ser retomados e revisados sob essa nova ótica da temporalidade originária. torna possível o resoluto.. confere sentido a todos os existenciais (a compreensão. é preciso partir não do tempo em sentido habitual. enquanto compreensão primária do Dasein. O compreender afetivamente disposto tem o caráter da decaída. mas do tempo enquanto historicidade. A compreensão decaída e animicamente afinada articula sua compreensão no discurso” (HEIDEGGER. L. Heidegger busca superar tanto a ideia do tempo como da história que herdamos da tradição. do ser humano enquanto presença. 61) diz que o ser-resoluto não torna possível a temporalidade. 1998. n. a disposição afetiva e a decaída). que compõem os momentos estruturais do cuidado e que Heidegger analisou inicialmente na primeira seção (intitulada de “Etapa preparatória da análise fundamental do Dasein”) a partir da cotidianidade. p. jan. possibilita e funda os fenômenos derivados da explicação. 2010 . porque orientado por um sentido temporal impróprio. Habitualmente se pensa a história como sucessão de fatos no tempo. possibilita radicalmente todos os modos de ser do Dasein. Curitiba. 352-353). p. disposição afetiva. mas sobretudo torna possível o autêntico e o inautêntico. Nesta passagem ele se apropria de si mesmo. Aurora. o que ele realiza no parágrafo 68./jun. Pensar o ser humano originariamente implica passar da história para a historicidade e do tempo para a temporalidade. Toda disposição afetiva é compreensiva. torna-se resoluto. na sua estrutura ‘espontânea’. análise interpretativa do Dasein cotidiano agora orientada a partir da temporalidade. Os existenciais da compreensão.254 SEIBT. p. decaída e discurso. Esses momentos se articulam assim: “Todo compreender tem um estado de ânimo. se apoia na presentificação. A temporalidade originária temporaliza. como simples sucessão de agoras. teorização e todas Rev. por sua vez. 247-266. A temporalidade da compreensão É o compreender que. no sentido do tempo enquanto presente. uma possibilidade de temporalização que funda ontologicamente a impropriedade que. mas a temporalidade. Para que se possa repensar o ser humano originariamente. A interpretação realizada na primeira seção traz em sua base o sentido temporal do ‘de início e na maior parte das vezes’. C.

que é um presente próprio. não optando pelo seu mais próprio poder-ser. Curitiba. Aurora. só é possível no horizonte de um futuro. o Dasein permanece na maior parte das vezes num estado irresoluto. O compreender que se temporaliza a partir da atualização projeta o poder-ser a partir da decaída no ‘mundo’ da ocupação e. Mas o poder-ser só é possível com base num futuro. p. Mas enquanto próprio. permanecendo instalado no cotidiano. como a razão pela qual a compreensão se dá a partir do impessoal. O compreender impróprio projeta-se para as ocupações imediatas e cotidianas e faz com que o Dasein venha a si nestas ocupações.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 255 as espécies de conhecimento e desconhecimento. Heidegger descobre o futuro temporalizado de forma imprópria. faz algo de si. Assim. Já o instante se temporaliza a partir do futuro próprio. O futuro impróprio tem um modo próprio de estar presente em meio aos objetos da ocupação que é a dispersão. corresponde ao futuro um presente que abre a situação por meio do ato resolutório (Entschluss). em primeiro lugar. o impróprio é um ‘estar à espera’ (Gewärtigen). ou ainda. v. 1998. No modo impróprio o Dasein espera que o futuro faça algo dele. 1998. consequentemente. Enquanto o futuro próprio tem o caráter de ‘antecipar’ ou ‘precursar’ (Vorlaufen). enquanto projeto. jan.. que se torna condição de uma autocompreensão projetiva. enquanto jogar-se em possibilidades. § 68a) nos mostra que o compreender é. Rev. mas que ele abre o ente para um comparecimento originário. e ao presente impróprio. um porvir. Mas./jun. p. p. pela resolução (Entschlossenheit). Filos. o presente é retirado da dispersão da ocupação imediata. “a temporalidade não se temporaliza constantemente desde o futuro próprio” (HEIDEGGER. Ele abre o poder-ser do Dasein no qual ele já sempre tem uma noção do que se passa consigo. E por isso “o precursar é um modo mais originário de estar voltado para a morte do que a preocupada espera por ela” (HEIDEGGER. 2010 . o estar à espera. no poder-ser de qualquer projeto. Mas está co-originariamente determinado pelo passado e pelo presente. Ao presente recolhido da dispersão por meio da resolução. Ele (HEIDEGGER. Heidegger chama de ‘instante’ (Augenblick). ele espera a si mesmo a partir do modelo das suas ocupações. Assim. o que não significa que nele possa ocorrer algo. e é retido no futuro e no passado. O projetar-se. a partir da não-resolução. 1998. Já o futuro temporalizado de forma própria se expressa na antecipação da morte. 30. n. 354). digamos assim. 22. enquanto no próprio ele se resolve e antecipa nas possibilidades e. de ‘atualização’ (Gegenwärtigen). 353). 247-266.

357). A temporalidade da disposição afetiva A disposição afetiva conduz o Dasein diante da sua condição de jogado no mundo. em oposição ao impróprio como ‘esquecimento’. Filos. expressando-se existencialmente na irresolução. Já mostramos que no compreender impróprio comparece um presente que está à espera. 1998. a compreensão tem seu sentido existencial no futuro. v. Mas a análise irá limitar-se ao medo e à angústia. o Dasein pode encontrar-se consigo num estado afetivo. Curitiba. 2010 . A ele pertence um ‘estar à espera’ que. 356). Mas o que está em jogo aqui é o fato de que o encobrimento ou desvelamento da condição de jogado só é possível se o Dasein constantemente ‘tem sido’. Como diz Heidegger no parágrafo 68b. 1998. A resolução precursora produz um retorno ao si-mesmo. o que significa. Mas deve haver. p. 356). Rev. E. “no antecipar-se o Dasein se re-toma (Wiederholt) a si mesmo. Como então o medo pode ser mostrado em sua temporalidade? O medo é sempre um estado de ânimo diante de um ente que de alguma forma significa uma ameaça. segundo a qual o compreender impróprio se temporaliza em sua temporalidade” (HEIDEGGER. presente e futuro) fecha o modo próprio do poder-ser. p. 247-266. possibilitando assumir aquilo que ele já é. por sua vez. Heidegger denomina ao passado próprio de ‘repetição’ (Wiederholung). p. para isso. enquanto tal. 22./jun. numa expressão. que não se antecipa por meio da resolução. 30. Aurora. p. assim como. O modo impróprio dos três êxtases (abertura para o passado. C. Assim a temporalidade do medo não é própria. um encontrar-se sempre afetado de um ou outro modo. o caracteriza como impróprio. já anteriormente apresentados. L. O esquecimento ignora o fato do poder-ser mais próprio e do estar jogado no mundo. um correspondente passado. Por meio do êxtase do ter sido (passado).. Heidegger reúne os três êxtases enquanto concorrem para o compreender impróprio: “o estar à espera que esquece e atualiza é uma unidade extática peculiar. adiantando-se em direção ao seu mais próprio poder-ser” (HEIDEGGER.256 SEIBT. Há que se mostrar que os estados de ânimo só são possíveis sobre a base da temporalidade. n. Mas qual a relação dos estados de ânimo com o tempo? – pergunta Heidegger (1998. Ou como diz o próprio Heidegger. Com isso dizemos que a disposição afetiva temporaliza-se a partir do passado. jan. é na condição de jogado que se funda a disposição afetiva.

No presente caso. 358). por sua vez. E enquanto pressupõe ontologicamente a ‘atualização’. Heidegger (1998. p. a partir da desocultação da condição de jogado como possibilidade de repetição. Nos estados de ânimo da ocupação cotidiana se mostra sobremaneira o poder do esquecimento. a afecção na atualização pode trazer o Dasein de volta a si mesmo enquanto ‘sido’. Ela retira a possibilidade de fundar a existência a partir das coisas que nos ocupam. tornando possível um modo próprio de ser. Isso é constatável na indiferença. § 68b) caracteriza como ‘descolorida indeterminação afetiva’. enquanto que a segunda. mas conduz a uma possível resolução. curiosidade e ambiguidade. surge da resolução./jun. e por isso atualiza (presentifica) o que primeiro aparece. 22. a partir do futuro da resolução. v. por isso. estando à espera. mas têm origens diferentes. será considerada somente a Rev. Curitiba. Neste estado. que Heidegger (1998.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 257 O medo “se constitui por um esquecimento de si. estar num modo de conversão (Hinkehr) ou aversão (Abkehr). Filos. 361) mostra que tanto o medo como a angústia se fundam no passado. jan. O primeiro se origina do presente perdido. 2010 . 1998. O mundo circundante comparece sem que o Dasein possa deter-se em alguma possibilidade. o ‘ante quê’ da angústia é o próprio ser-no-mundo. que mostra exatamente o cotidiano abandono esquecido da condição de jogado. n. p. pelo confuso escapar ante o próprio poder-ser fáctico em que o ameaçado ser-no-mundo se ocupa do ente à mão” (HEIDEGGER. com isso. Mas a angústia ainda não tem o caráter de instante. não um ente dentro do mundo. Dessa forma. acaba saltando de uma possibilidade para outra enquanto não assume nenhuma efetivamente como sua. p. A ocupação como um todo se torna presa do medo e. “a temporalidade do medo é um esquecimento que. 247-266. A temporalidade da decaída Na primeira seção a consideração da decaída levou à análise do falatório. mesmo o ‘estar à espera’ acaba por tornar-se confuso. Essa indiferença. Ela desencobre o familiar como originariamente estranho. é diferente da serenidade que. Qual então a relação entre a disposição afetiva e o tempo? É que somente um ente que já sempre tem sido pode ser afetado e. Aurora. 30.. porque se temporaliza a partir do esquecimento. 359). E a angústia? Diferentemente do medo. p. 1998. que pode manifestar-se inclusive numa ocupação agitada. faz presente” (HEIDEGGER.

p. n. junto com ela. Aurora. Nesse caso “o presente salta fora de seu futuro e ter-sido próprios” (HEIDEGGER. p. o que se opõe radicalmente ao instante. p. p. Mesmo a compreensão que o Dasein tem de si mesmo comporta-se dessa forma. diz ele que “o Dasein é arrastado pelo movimento do estar jogado. Trata-se. O Dasein precisa. 363). p. L. na curiosidade a compreensão não se orienta pelo fato de querer conhecer. portanto. responde Heidegger (1998. pois permite que o Dasein esteja em todos e em nenhum lugar. do presente impróprio na curiosidade. como instante retido. mas somente alimenta constantemente a avidez. p. então. 365). a originária ‘situação limite’ de estar voltado para a morte” (HEIDEGGER. Curitiba. Heidegger (1998. neste sentido. A constante novidade impede que o Dasein retorne a si mesmo. 364). Mas não podemos esquecer que sua condição fática é o encobrimento e que. visto que sua visão migra constantemente de um objeto para outro. que foge de um poder-ser próprio enquanto se mantém no impessoal. 1998. C. Ou. a condição de estar jogado se mantém fechada quanto ao ‘de onde’ e ao ‘como’. 2010 . 364). enquanto jogado no mundo se perde no ‘mundo’. senão que constitui a faticidade mesma do Dasein”. O presente só pode ser resgatado e trazido de volta da sua perda por meio do ato resolutório que pode “abrir. Como já foi mostrado. ser levado de forma própria diante de si mesmo enquanto na condição de jogado para poder compreender-se. E. Rev. curiosidade. enquanto jogado no mundo. em seu fático estar consignado àquilo de que há de se ocupar”. isto é. Onde se funda a temporalização do ‘saltar fora’ própria do presente? Na essência finita da temporalidade. pois não está à espera de uma possibilidade.. impropriamente vindoura. mantendo-o constantemente tranquilo. perde-se nele. O Dasein está de início e na maior parte das vezes em fuga da condição de jogado no mundo e do estar voltado para a morte. Ela é. “mas essa obstrução não é de modo algum o mero fato de não saber. Filos. a respectiva situação e.258 SEIBT. 247-266. jan. dito de outra forma por Heidegger (1998. mas simplesmente pela avidez do novo. 1998. Nele o Dasein está numa constante espera e esquecimento. 1998./jun. pois está pouco ligada à própria coisa. mais adiante. v. porque nela a temporalidade da decaída se torna mais facilmente visível (HEIDEGGER. p. Ela vive num constante desassossego que a alimenta e se transforma na ‘falta de paradeiro’. tranquilização essa que garante cada vez mais a tendência de saltar fora. 22. 363) diz que a curiosidade tem um modo específico de presentificar que constantemente ‘salta fora’. 365). 30.

Heidegger (1998. adiantando-se ou estando à espera. 247-266.. O modo próprio dessas temporalizações está no antecipar-se. É. jan. portanto. O futuro não é posterior ao ter-sido. como mostra Heidegger (1998. E como está fundado na unidade extática da temporalidade. diz que a temporalidade se temporaliza inteiramente em cada êxtase. na forma do instante ou da presentificação. Aurora. Curitiba. mas sem nunca se transpor para fora dela. 30. para se expressar e dizer as coisas com que se ocupa. 366). isto é. Mas o próprio discurso não se temporaliza a partir de algum êxtase determinado. v. na repetição e no instante. Já a decaída tem no presente seu enraizamento primário. 2010 . p. Rev. a unidade da estrutura do cuidado. um ‘como’ da existência. n. o compreender se arraiga primariamente no futuro. A temporalidade se temporaliza como futuro que está-sendo-sido e presentificante No parágrafo 71. no original alemão). 365).Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 259 A temporalidade do discurso É o discurso articulado que constitui a abertura plena do aí (“Da”. 365). a presentificação tem nele uma função constitutiva preferencial. uma maneira de ser que se caracteriza pela abertura pública. a fala. 22. todo discurso já é temporal em si mesmo. a disposição afetiva e a decaída precisam do discurso para poderem ser articulados. A temporalização não significa uma ‘sucessão’ dos êxtases. diz Heidegger (1998./jun. Filos. enquanto que a disposição afetiva se funda no ter-sido (passado) na forma de repetição ou esquecimento. Mas mesmo assim. p. enquanto que o impróprio está no estar à espera. mas da qual a existência tem a possibilidade de apropriar-se por meio do instante. p. Heidegger põe o sentido temporal da cotidianidade novamente em questão. o modo no qual ele se mantém ‘todos os dias’ durante a sua vida. p. nem este anterior ao presente. Ele nota também que os tempos verbais e os outros fenômenos verbais da linguagem estão arraigados na temporalidade originária da ocupação. A compreensão. Retomando o que foi mostrado até aqui. pelo fato de que o discurso usa a linguagem. Ela. faticidade e decaída. e isso quer dizer que a unidade extática da correspondente plena temporalização da temporalidade funda a integridade do todo estrutural constituído pela existência. como acontece com os outros existenciais da abertura. esquecimento e presentificação. é o modo em que o Dasein é de início e na maior parte das vezes. a cotidianidade.

30. Aurora. p. Com isso. C.. Considerações finais O texto se propôs investigar brevemente a descrição do modo de ser do existir humano feita por Martin Heidegger na sua obra Ser e Tempo./jun. compreensão é um fenômeno que pertence à constituição do Dasein. Procuramos evidenciar um dos fios condutores dessa obra. A analítica existencial realizada em Ser e Tempo procurou fazer a desconstrução e liberação do Dasein para o seu próprio modo de ser. em primeiro lugar. a partir dos entes com que lida e. Heidegger procura liberar o Dasein no seu ser próprio enquanto cuidado. Mas lembra que todos os esforços na elaboração da analítica existencial têm como finalidade abrir espaço para responder a questão do sentido do ser em geral. e este. Conclui que ainda será necessário conseguir uma suficiente elaboração da questão do sentido do ser em geral para poder alcançar suficientemente a cotidianidade por meio de uma determinação conceptual. 247-266. A partir desta. o saber histórico desliga-se da presentificação. Com isso torna-se visível a consideração do fato fundamental do Dasein ser essencialmente ser-no-mundo e que esse fato mantém-se oculto na cotidianidade e é retomado na medida em que. passando para a possibilidade do poder-ser próprio na resolução. 22. esclarece como ele se compreende no mundo. da temporalidade. L. embora de forma limitada e despretensiosa. a partir do impessoal e das possibilidades herdadas. ou seja. O foco da análise foi a apresentação do modo primeiro e geral em que o ser humano. apresentar a reflexão realizada em torno da possibilidade de apropriar-se de si mesmo. n.260 SEIBT. v. 386-387) pergunta-se sobre a suficiência ou não da explicação precedente sobre a temporalidade para esclarecer esse fenômeno. ele redescobre o seu ser originário. Isso só é possível abordando o fenômeno no qual se torna acessível a questão do ser. E Heidegger (1998. por sua Rev. Procuramos acompanhar Heidegger. em sequência. do poder-ser próprio. na aproximação da historicidade. E. publicada em 1927. Filos. a descrição do Dasein partindo da cotidianidade. a partir da temporalidade. Curitiba. em segundo lugar. se apresenta e que nosso autor chama de cotidianidade. e. 2010 . p. do decaído caráter público do tempo. o primeiro passo significa um esclarecimento desse ente para poder avançar para a questão do sentido do ser em geral. na compreensão. Por meio de uma hermenêutica do Dasein. jan. aqui chamado Dasein. e adquire o caráter de abertura resoluta. Dessa forma. ou seja.

. Por isso. A crítica à metafísica é uma crítica à compreensão tradicional do tempo. medição. da disposição afetiva. Assim. da decaída e do discurso. o pensamento contra o cálculo. que o reconheça como ser-no-mundo. um âmbito em que se exercita a libertação da linguagem da sua carga de conteúdos pré-estabelecidos e da sua determinação objetificadora. v. p. não no sentido de condenar o passado. É preciso. de objetificação. procuraremos retomar as ideias desenvolvidas considerando a reflexão realizada por alguns comentadores. 247-266. O universo do sentido soa de outra forma. sucessão de momentos indiferentes não corresponde à temporalidade do ser humano. 22. e situar-se no horizonte da fenomenologia hermenêutica. de tempo. recebendo seu sentido a partir da temporalidade. de enfrentar e diferenciar a temporalidade da coisa da temporalidade do ser humano. jan. n. já sempre compreendendo o ser. apresenta enormes dificuldades. As ciências humanas estão diante do desafio de conhecer o ser humano sem tornar-se presa da ontologia da coisa. Stein (2008.] no universo da liberdade humana. Não há como partir da física para estabelecer a temporalidade da existência humana. por meio da análise da temporalidade da compreensão. da vontade. solidifica um novo ‘paradigma’ que busca quebrar as amarras da tradição. Uma nova visão de ser humano emerge desse trabalho. de espaço.. A linguagem empregada nos textos. Filos. 2010 . transportar-se para fora do universo de objetos. Aurora. Heidegger. no que se refere à passagem do tempo para a temporalidade. nunca chegamos à temporalidade humana por meio da temporalidade dos objetos. O tempo das coisas. a partir das conquistas dos pensadores que o precederam e de seus contemporâneos. O ser do ser humano não pode ser compreendido pela comparação com o ser das outras coisas no mundo. A subjetividade não pode ser simplesmente reduzida à coisa. Heidegger procura mostrar. 30. mesmo para quem já está um pouco familiarizado com o pensamento do autor. p. inclusive em Ser e Tempo. da ação. de certa forma. deve poder alcançar um espaço originário para a questão do sentido do ser em geral./jun. na maneira de o homem ser no mundo existe uma idéia de lugar. mas de encontrar o próprio ser de possibilidades. medida pela ‘medida’ dos objetos que não tem o modo de ser do ser humano. A inteligibilidade do que seja o ser humano exige uma nova postura.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 261 vez. Curitiba. uma forma Rev.. 33) diz que [. que nada tem a ver com a temporalidade da coisa. na abertura do ser. da História.

Ele é historicidade” (STEIN. imparcialidade. existe “no espaço e no tempo. agora Dasein. v. Essa inversão não tem como conseqüência a redução da importância de tudo o que se dá no mundo físico. ainda. com as coisas e com os outros seres humanos./jun. presentificação. 2010 . 295). Curitiba. C. apresenta as consequências da consideração do tempo enquanto presença. limitado. Isso porque o ser humano. A marca fundamental desse pensamento é a finitude. para ele. 2008. 80). A linearidade do tempo é substituída pela dimensão ec-stática. indícios que apontam para o próprio acontecer do ente humano. 247-266. da sua condição indepassável. perde-se a especificidade deste ente. Ao propor a revisão da tradição e realizar sua crítica às ontologias tradicionais a partir do conceito de tempo. sua relação com a linguagem. jan. “não era apenas o caráter físico da sucessão do tempo que era suplantado. 30. Essa característica do ser humano foi omitida. mas pelo contrário. carregados de conteúdos e vícios. L. A propriedade. que são ideais da ontologia da coisa. Nessa desobjetificação do ser humano. escondida pela atenção ao modo de ser dos objetos. que Heidegger não apenas rompe a sucessividade do tempo do mundo. nova de encarar o ser humano. transparência total. como mostra Stein (2004. Olhando para o ser humano pelas lentes ajustadas para os objetos não humanos. os conceitos tradicionais. comentando a superação do tempo como sucessividade física atomicamente recortada. diferentemente da ontologia da coisa. p. Heidegger revoluciona na filosofia. p. mas a inverte de tal modo que sem o ser humano nada pode ser considerado como se dando no tempo. Quem sustenta todo conhecimento e ação é o próprio ser humano. sua finitude. finito. dotado de características temporais e caráter histórico. Filos. aproxima o ser humano. No seu pensamento. num primeiro momento. da compreensão autêntica e própria. Se. precisam ser substituídos por aquilo que Heidegger chama de ‘existenciais’.262 SEIBT. 293).. esquecida. mas se produzira uma desobjetificação do ser humano. ser-para-a-morte. p. transformando essencialmente o conceito de ser. da sua finitude radical. n. pela abertura de sentido na qual se apresenta o todo da condição humana. na medida em que cada existencial é uma concentração de instantes de temporalidade” (STEIN. 2004. insere o cosmos na própria dramaturgia da existência. do seu irremediável ser-para-a-morte. Rev. em todas as suas realizações. 22. Aurora. ou seja. Não há. p. mais tarde esclarece a possibilidade da superação em direção à propriedade. E.

diz e conhece é também temporal. da distensão para frente e para trás. 2004. O tempo somente ‘vê’ se há a temporalidade. 84). Curitiba. O tempo da sucessão de momentos. a presença do passado e do futuro. As coisas se manifestam. O ser tem uma relação íntima com o tempo. tudo o que ele pensa. para o passado histórico” (INWOOD. Ele se projeta no futuro e retrocede ao passado. é cego e surdo se não tiver. por assim dizer. aparecem no presente. permite a autenticidade do Dasein. Somente há transcendência onde não se está capturado pela imanência do presente. Diz o mesmo autor que o Dasein não se restringe em sua consciência ao momento presente. Sem a temporalidade do Dasein. não há algo. E a abertura que se realiza pela presença do passado por meio da memória e do futuro pelo projeto somente acontece num ente determinado chamado Dasein. delas não se diria que são. 2004. p. nem tempo. p. O tempo pensado a partir do presente não alcança sua dimensão originária enquanto tempo humano. É nele e através dele que há algo. fazer sentido. pelo fato de que ele não é “totalmente absorvido pelo presente nem pelo passado e pelo futuro imediatos” (INWOOD. n./jun. tema central do pensamento heideggeriano. Diferentemente. 30. histórico. pela temporalidade do Dasein. jan. O tempo presente. há cegueira e surdez. se não estiver preso em si mesmo. 2004. ou não se diria que há algo. que há sentido. o Dasein autêntico “olha prospectivamente para sua morte e retrospectivamente para o seu nascimento e.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 263 onde acontece o “refluxo do futuro e do passado sobre o momento presente” (STEIN. 2010 . para o passado e para o futuro. 2004. Assim o tempo adquire uma importância e um peso crucial para a questão do ser. mas elas não seriam o que são. se não houvesse a transcendência possível por causa da elasticidade. sendo o Dasein temporal. finito. no próprio presente. A temporalidade. O sentido do ser somente se revela a partir do Dasein e. É a temporalidade do Dasein que torna o mundo genuinamente temporal. 83). O presente não é independente do passado e nem do futuro. p. está capturado em si mesmo. da presencialidade. histórico. O Dasein é temporal. significado.. Essa dimensão ec-stática é que abre a possibilidade de pensar o tempo e permite que aconteçam objetos e eventos no tempo. v. ao presente. somente pode ‘ver’. p. 293). finito. 85). a historicidade. Rev. 22. ou seja. que abre o ‘tempo-do-mundo’ e desvela um mundo que perdura (INWOOD. Uma das ideias fundamentais aqui é a da abertura: ela somente existe se não se está preso à presença. 247-266. Aurora. p. Somente pela transcendência há algo. Filos. indo além de seu nascimento.

A responsabilidade pelo próprio destino. há seres humanos.264 SEIBT. por meio das suas decisões. C. 91) diz que “a maneira como organizo minha vida sem dúvida depende de minha certeza quanto ao fato de que vou morrer em algum momento e de minha incerteza com relação a quando vou morrer”. é retomado com a consciência da morte. Na morte ele é aquilo que fez de si mesmo. a condição própria do ser humano? Pöggeler (2001. Mas há aqui a indicação de que as coisas só têm significado a partir do momento em que há Dasein. é o momento mais pessoal. acaba-se o ser de possibilidades do Dasein. 30. A ‘minha’ morte individualiza.. introduz na sua vida a perspectiva da morte e. Na resolução. separa do impessoal. 88) diz que “[.] o tempo não é somente a condição teórica da possibilidade para que possamos fixar algo como algo no ‘agora’. Trata-se. omissões ou das decisões impessoais que ele permitiu que dirigissem sua vida. do horizonte de abertura temporal prévio que permite a posterior lida com o tempo das coisas. Não há nessa compreensão de tempo nenhuma rejeição da concepção de tempo que permite as ciências dos objetos. a mundanidade e. “começaram a história. mas a condição existencial para que se possa projetar um mundo em geral [.]”. 247-266.. A própria abertura se ‘mostra’ e domina-se a tradição ao invés de ser por ela dominado. 2010 . p. com isso. dominado pelo impessoal. Com a morte. pelo próprio ser. p. a significância. v. L./jun. Mas o que seria efetivamente a propriedade. 22. Curitiba. Somente quando há Dasein. termina com a minha morte. p. 226) alerta que “o próprio não é aquilo que é Rev. com o fim do tempo. p. o ser humano vive como se fosse eterno. em que somente eu participo. p. do tempo originário. elimina o perpétuo adiamento das decisões. Inwood (2004. 2004. quando se fala de temporalidade do Dasein. do movimento. 2004. em que sou isolado do envolvimento da multidão e da correspondente não responsabilidade pelas decisões na vida. Filos. Enquanto a finitude é mantida no esquecimento. característica própria da metafísica tradicional. o próprio tempo” (INWOOD. jan.. p. Aurora. ocultada pela postura cotidiana de apego aos objetos que se dão na abertura do mundo. da finitude. Sandbothe (2003. o Dasein “unifica a si mesmo ao mesmo tempo em que se abre” (INWOOD. pelo envolvimento com os objetos que se dão na abertura. n. Ao passar do tempo à temporalidade adquirese uma competência que evita que se seja dominado pelas determinações da tradição. Esse tempo originário é finito. Quando o Dasein reconhece a sua finitude. 101) e ao separar-se do imperativo da multidão pode tomar as decisões à luz da sua vida como um todo. livre da responsabilidade pelas decisões que fazem algo com a vida. que se torna possível quando se descobre a finitude.. de certo modo.. 85).

2003. como o esquecido e o dissimulado.). PÖGGELER. T. da ontologia fundamental. do tempo. Berlin: Akademie Verlag GmbH. Weimar: Verlag J. Como buscamos mostrar. mas também não pode ser descrito ao modo dos objetos. a disposição afetiva. fora do mundo. Tradução de Ana Cristina Alves. ed. M. assim. do Dasein. Mas é a experiência da verdade e do mundo. Da verdade como a abertura do ser. Zeit: von der Grundverfassung des Daseins zur Vielfalt der ZeitSprachspiele. Filos. Curitiba. 22. In: RENTCH. Martin Heidegger. 1998. Rev. como diz o mesmo autor. Lisboa: Instituto Piaget.Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger 265 buscado numa fuga romântica para o passado ou na imaginação de um futuro ilusório e afirmado obstinadamente contra a realidade”. A via do pensamento de Martin Heidegger. M. “aquilo que. A propriedade não é nenhum estado paradisíaco. 1-27. HAAR. a decaída e o discurso podem ser vistos da perspectiva da ontologia da coisa. Aurora. M. M. Tradução Jorge Eduardo Rivera. v. In: DIETER. SANDBOTHE. O. Sein und Zeit. 2004. de uma libertação para a faticidade. Ser y tiempo. tal como acontece na metafísica. p. Não é uma realidade objetiva. 247-266. 2010 .. suporta o ‘real’. 2007. A fenomenologia hermenêutica busca resgatar ‘aquilo que é’./jun.). fático. (Hg. na tradição. p. Mantém-se. p. Heidegger. nenhum modelo prévio ou ideal coletivo. Heidegger e a essência do homem. É. p. 2001. Lisboa: Instituto Piaget. INWOOD. J. na impropriedade e inautenticidade. a compreensão. jan. é que se conquista o horizonte prévio e originário onde as coisas e o tempo adquirem significado. Heidegger Handbuch. 2. B. 1990. (Hg. a originariedade. n. 30. ser-no-mundo finito. É a lembrança do esquecimento que esqueceu seu solo próprio. 2001. Referências GRONDIN. Santiago de Chile: Editorial Universitaria. entram no âmbito do sentido. A partir da temporalidade. São Paulo: Loyola. 226). T. Die Wiedererweckung der Seinsfrage auf der Weg einer phänomenologischhermeneutischen Destruktion. Por isso é que ele só pode ser achado por meio de um ‘olhar para dentro de aquilo que é’” (PÖGGELER. originário. 87-92. HEIDEGGER. por meio de uma desconstrução da tradição metafísica. Metzler.

22. . p. STEIN. 247-266. 2010 . Racionalidade e existência: o ambiente hermenêutico e as ciências humanas. Filos./jun. C. jan. Exercícios de fenomenologia: limites de um paradigma. Ijuí: UNIJUÍ. 2008. ed. Recebido: 20/09/2009 Received: 09/20/2009 Aprovado: 17/04/2010 Approved: 04/17/2010 Rev. v. Curitiba. 2.. 30. L. Ijuí: UNIJUÍ. n.266 SEIBT. 2004. Aurora. E.