O CaFuÇu

Marcos Soares

etanoia
editora

O CaFuÇu
Marcos Soares

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Copyright © 2012, Marcos Soares Editora Léa Carvalho Capa MaLu Santos Ilustração da Capa Luiz Francisco (Lula) Revisão Camila Lopes e Flor de Lis Revisão Geral Marta Tavares Projeto gráfico MaLu Santos
Dados Internacionais para catalogação (CIP) S676c Soares, Marcos, 1970-. O Cafuçu / Marcos Soares. - Rio de Janeiro : Metanoia, 2012. 80 p. ; 18 cm. ISBN 978-85-63439-14-7 1. Ficção brasileira. I. Título. CDD – B869.3
Ficha Catalográfica elaborada pela bibliotecária Lioara Mandoju CRB-7 5331

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Bruto, modos selvagens, grosseiro na forma, mas de alma e coração que ama e é amado como todos os mortais.

ona Estela colocava uma rosa vermelha no quarto de Gustavo toda sexta-feira, religiosamente, desde que o seu filho tinha completado 18 anos. O objetivo era que o rapaz encontrasse a sua companheira. E hoje não seria diferente, muito pelo contrário, seria um dia especial, afinal, ele estava completando 28 anos e chegava de viagem de Cuba, onde cursava residência médica na Universidade de Havana, se especializando em medicina familiar. O rapaz se tornaria mais um “médico de pés descalços”, termo utilizado em Cuba e na China desde o governo do bibliotecário e ditador Mao Tsé Tung, durante a revolução comunista. O pai, Seu Santiago, engenheiro e presidente da Construtora Duarte Mourão, queria que ele fosse um cirurgião, mas sua vocação era promoção a saúde, voltado para ajuda humanitária, tendo como referência profissional o médico dos médicos, Dr. Bezerra de Menezes. Conheceu sua história na faculdade e se tornou um estudioso de suas obras, apesar de ser ateu.

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Uberlina era a empregada mais antiga da casa e uma das responsáveis pela criação do rapaz, chamado por ela de Doutor desde pequeno. Naquela manhã de uma sexta-feira de sol, Uberlina o avistou da janela junto com Dona Estela e ambas acenaram para ele. Gustavo veio acompanhado do pai e do motorista da família conhecido por Natal. A casa do bairro do Espinheiro da cidade do Recife dos belos carnavais de rua, estava alegre e Dona Estela feliz por rever o filho que estava há 2 anos fora de casa. Gustavo era o seu xodó, sempre atencioso e muito carinhoso com a mãe e com sua irmã de criação, Marta, casada com Feliciano, um homem sem escrúpulos, que bajulava o sogro para manter o emprego na construtora e se tornar presidente da Duarte Mourão. Gustavo era um belo rapaz, elegante, sorridente, tinha um metro e oitenta de altura, magro, frágil no olhar e suave ao tocar. Adorava comer pão doce com caldo de cana, hábito que adquiriu quando visitava seu avô materno no interior do Estado de Pernambuco. Também gostava de ir à padaria pela manhã e comprar jornal no jornaleiro da esquina, um homem tranquilo que amava o rádio, com quem passava horas proseando sobre política, economia e cultura. O único caderno deixado de lado durante as conversas era o de esportes, pois nunca teve habilidade para o futebol e sempre era dispensado das aulas de
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educação física, quando a atividade era jogar bola, na época do colégio. Mas gostava de tênis, aprendeu a jogar com um amigo francês. Quanto às revistas eróticas, voltadas para o público masculino, também não despertava sua atenção, nunca tinha comprado ou folheado uma revista de mulher pelada. Porém, no auge dos seus 18 anos, quando a sua carne tremia e se dilacerava buscando os prazeres do sexo, ele se refugiava em um dos “cinemas-gêmeos” do centro da cidade conhecidos por Ritz e Astor, ou como eram vulgarmente apelidados: “Ruth e Raquel”. Lá no escuro, em contato com outra pessoa ou coletivamente, jorrava o leite da vida e depois voltava para casa carregando chumbo na mente, exalando perfumes que não sabia a sua essência, apenas alguns nomes, que poderiam nem ser verdadeiros, naquele ambiente de conspiração e espera. Às vezes, encontrava um colega da faculdade que se prostituía, conhecido por Veneza. Esse colega abandonou o curso de medicina no quinto ano, partiu para a Itália e nunca mais regressou ao Brasil. Em uma dessas suas andanças no “Ruth”, ele acompanhou a aventura de um homem e uma mulher que entraram juntos para ver a reedição do filme “Garganta Profunda”. Em seguida, o homem que aparentava ter uns 70 anos começou a masturbá-la, atraindo homens com seus paus excitados que também acariciavam a mulher que
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tinha uma aparência de uns 30 e poucos anos, tocando em seus seios, apertando seus mamilos, toda sala escutava os seus gemidos, em seguida ela chupava alguns homens e eles se masturbavam ao mesmo tempo. O seu companheiro assistia tudo, se masturbando. Gustavo, discretamente, ficava recuado no corredor, totalmente excitado, masturbando um policial que fingia não estar prestando atenção na mão macia e veloz de Gustavo. Enquanto isso a mulher chegava ao orgasmo pelas mãos do seu companheiro e dos outros que também tocavam sua buceta. Em seguida ela respirava fundo, descia o vestido até o joelho, não usava calcinha, levantava-se da poltrona de mãos dadas com o com aquele homem que poderia ser seu marido ou amante, no escuro do cinema seu companheiro acendia um isqueiro para localizar a saída, descia a escadaria que dava acesso à rua, deixando para trás os altos gemidos do filme e sua platéia, passando pelo porteiro, um rapaz franzino que mascava chiclete e coçava o saco, como se fosse uma dama com seu cavalheiro sem olhar para trás. E juntos partiam sem respeitar os sinais de trânsito. Essa aventura ficou em seu subconsciente e, sempre que se lembrava, Gustavo se masturbava. Sua família o recebeu como uma criança recebe um presente de natal. E ao chegar a seu quarto, o rapaz sorriu mais uma vez e não se conteve:
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- Mamãe, faz dez anos que a senhora cultiva as rosas vermelhas querendo que eu me case. Talvez isso não aconteça, simplesmente porque não quero que deixe de cultivá-las. - Deixe de tolice, tome seu banho que sua irmã, seu cunhado e os convidados estão chegando para comemorarmos seu aniversário. Não alimente as tolices de sua mãe, com ou sem rosas irá casar, não faltarão moças da sociedade para fisgar um médico e herdeiro da Duarte Mourão, disse seu pai, se retirando do quarto. Os convidados estavam chegando; eram amigos da família, políticos e empresários de diversas áreas, alguns acompanhados de suas esposas e outros de suas amantes. Chegavam também alguns colegas de Gustavo da época da faculdade, menos seus amigos da muvuca; o Pedro, a Antonia, o Nelson, o Rodolfo, a Nana, a Gringa e o Renato, seu grande amigo da época do colegial, hoje um engenheiro civil casado com um americano. Gustavo não quis se indispor com os pais e por isso não questionou a ausência dos seus companheiros que fariam a diferença naquela data tão especial. Mas, como sempre foi um rapaz neutro para tomada de decisões, evitava se expor ou brigar declaradamente com alguém, procurava agir com a razão, sendo um apaziguador com todos que o rodeavam. Durante o almoço no jardim, ele foi questionado pelo seu cunhado Feliciano que já estava
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na hora dele se casar. Isso o deixou desconfortável, porque os homens latinos têm o hábito de casar cedo e ficarem medindo seus desempenhos sexuais. Sua irmã Marta o salvou da sabatina, levando-o para mostrar um aquário novo, presente dela para os pais. Era muito colorido, com diversos peixes ornamentais oriundos do Japão, cultura que a sua irmã apreciava quando namorou um japonês na época em que estudava na Universidade de São Paulo. Em meio ao reflexo das águas e aos movimentos dos peixes, ela abraçou o irmão fortemente e pediu para que ele ignorasse as provocações de seu marido. Depois que Gustavo se formou em medicina, a pressão para que ele se casasse aumentou, contudo, Marta percebeu que seu irmão não estava à procura de uma companheira. Durante toda a sua adolescência e juventude foi um exímio estudante e nunca apresentou uma namorada em casa, sempre foi discreto nas suas amizades, ia muito ao cinema da Fundação e a um bar no Recife Antigo ouvir blues e jazz. Era um garoto tranquilo e aparentemente resolvido. Todavia, para uma família dentro dos padrões sociais a que ele pertencia, era preciso dar uma resposta para os pais, os vizinhos, ao colunista social, aos colegas de trabalho e aos amigos dos pais, excetos aos seus próprios amigos, pois os poucos que tinha sabiam respeitá-lo.
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No dia seguinte, Seu Santiago levou Gustavo para conhecer uma mega construção que a Duarte Mourão estava construindo no novo pólo médico industrial da cidade. Ao chegarem, foram recebidos pelos engenheiros de plantão e pelos olhares dos mestres de obras e de todos serventes e auxiliares por onde eles passavam. Durante o percurso, um andaime cai do sexto andar com um dos pintores da obra, cujo nome era Benedito, mais conhecido por Dito pelos colegas de trabalho. Um negro de 1,84 de altura, cabelos extremamente crespos, olhos castanhos claros puxando para verde, lábios carnudos e dentes brancos, tórax liso, um nariz nada afilado, pés que remetia ao carregador de café de Cândido Portinari. Tinha também uma bunda de jogador de futebol, costas largas e bíceps volumosos. Um homem forte e atraente no andar, um autêntico africano, como diria o escritor americano James Baldwin. De imediato, Gustavo prestou os primeiros socorros, enquanto aguardavam a ambulância do serviço de atendimento médico de urgência. Dito não estava respirando e ele logo identificou que o pintor tinha sofrido uma parada cardíaca devido a ausência de respiração e pulsação, a inconsciência, a cianose e as pupilas que estavam dilatadas. O doutor afrouxou a camisa da vítima, fechou as narinas com o seu polegar e indicador para o ar não sair e colocou sua boca na boca
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