POTENCIALIZANDO A FUNÇÃO DOS BRISES SOLEILS: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA SIMPLIFICADA PARA AUXÍLIO À PROJETO

ABSTRACT

INTRODUÇÃO

Sustentabilidade é o equilíbrio entre as esferas sociais, econômicas e ambientais. Inúmeros são os caminhos que podem induzir uma melhoria neste sentido. Este trabalho pretende contribuir para a interface entre as variáveis ambientais e econômicas, atuando no ir que conhecemos como eficiência energética da edificação. Estatísticas mundiais demonstram que os edifícios (residências e comerciais) consomem em média 45%1 da energia produzida pelo planeta. No Brasil este número evoluiu de 39,7 em 1973 para 39,7% 19,7% em 20092. Estes números geram uma imensa responsabilidade para os arquitetos, os quais irão executar os projetos das futuras cidades e edificações neste século. O desafio será incrementado ainda pelo fato da necessidade urgente de se readaptar as edificações existentes aos conceitos contemporâneos de efici tes eficiência.

Figura 1 – Fonte: ONU

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SMITH, Peter F. Architecture in a Climate of Change: A guide to sustainable design. 2 Ed. Londres – GB. 2005 . Resenha Energética 2009. Ministério de Minas e Energia. Rio de Janeiro. 2009 .

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Observa-se que o modo de se produzir arquitetura irá ser profundamente alterado nas próximas décadas, de modo a atender às demandas energéticas e emissivas (CO2) compatíveis com este novo paradigma. Experiências e estudos neste sentido estão em processo de desenvolvimento ao redor do globo. Inúmeras denominações surgiram para classificar este modo de se pensar e produzir arquitetura: Green Design, Ecodesign, Arquitetura Verde, Arquitetura Eco-eficiente e Arquitetura Ecológica dentre outros. Cada termo possui uma definição própria e abordagens pouco diferentes, porém todos convergem para o mesmo tema: a adaptação da arquitetura em relação às condicionantes climáticas em busca de conforto ambiental e da eficiência energética. Tratar-se-á deste tipo arquitetônico como Arquitetura Bioclimática, a qual possui em seu significado etimológico a conexão de bio (vida) ao clima. “Uma boa arquitetura bioclimática é aquela que permite que o edifício se beneficie de ambientes internos próximos à zona de conforto para uma ampla margem de variação das condições exteriores, sem a utilização do recurso de condicionamento de ar artificial.” (IZARD, 1979) 3 O termo bioclimático está diretamente associado ao conforto térmico, predominando persistentemente sobre o conforto lumínico e acústico. A abordagem contemporânea deve considerar estes três elementos em harmonia, pois formam a base do que conhecemos como conforto ambiental. O bioclimatismo tem como base a arquitetura vernacular, a qual traduz sob a forma de edificações a capacidade de uma comunidade adaptar-se e habitar ao meio no qual está inserida. Cada região desenvolveu suas próprias técnicas construtivas e usos de materiais de modo a enfrentar as dificuldades locais de habitação. Estas foram desenvolvidas de forma empírica durante gerações e deram origem a identidade regional de cada arquitetura. Com o incremento da comunicação e de novas tecnologias (notadamente no período pós 2a Guerra Mundial), a arquitetura regional entrou em desuso, principalmente nos ambientes urbanos, dando lugar a uma arquitetura globalizada e, geralmente desconectada de sua realidade. Não por coincidência o período heróico da arquitetura brasileira deu-se na primeira fase do movimento moderno (pré 2ª Guerra Mundial), anterior portanto à utilização em grande escala dos sistemas de condicionamento de ar. “Sem dúvida alguma, foi o clima o fator físico que mais interferiu na arquitetura brasileira. O país situa-se quase que inteiramente entre o Equador e o Trópico de Capricórnio, estando sua parte meridional bastante próxima deste, apresentando assim temperaturas bastante elevadas durante o verão. Portanto o primeiro problema que se

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IZARD, Jean-Louis. ARQUITECTURA BIOBLIMÁTICA. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 1980.

colocava para os arquitetos era o de combater o calor e o excesso de luminosidade provenientes de uma insolação intensa” (BRUAND, 1981).4 O convite feito à Le Corbusier para participar do processo que culminaria com o Edifício do Ministério de Educação e Cultura terá um efeito fundamental sobre a geração de arquitetos, que se tornariam os protagonistas do heróico “Modernismo Brasileiro”. Esta influência não se dará apenas em um nível teórico e filosófico, mas também em um plano pragmático de soluções arquitetônicas e abordagens projetuais. A visão Corbusiana da arquitetura sempre contemplou soluções voltadas para o conforto ambiental. Algumas não funcionaram a contento como o mur neutralisant5 (parede neutralizante) aplicada à fachada da Cruz Vermelha de Paris em 1930. Por outro lado, o brise soleil (brisa e sol) idealizado para o projeto de urbanização de Argel teve sua aplicação prática e sua definição final por arquitetos brasileiros (BRUAND, 1981). Sua aplicação se deu de forma sistemática, transformando-se em um ícone da arquitetura moderna no Brasil. FUNÇÕES DO BRISE SOLEIL

A função básica do brise soleil é fornecer sombra às fenestrações do envelope (fachada) do edifício ao mesmo tempo em que permite a passagem de ventilação. Através da observação de sua geometria, os brises podem ainda desempenhar outras funções, sejam elas: a) Elemento difusor de iluminação natural. Ao atuar como elementos rebatedores de radiação luminosa, análogos ás bandejas de luz (light shelves). As bandejas de luz são uma evolução natural do brise soleil. Possuem como função primordial, diminuir a radiação que penetra no ambiente através do rebatimento desta em direção ao teto. A radiação difusa redirecionada potencializa a penetração de luz no interior do ambiente, contribuindo para o conforto lumínico e a otimização energética.

Figura 2 – Light Shelf. Fonte: ALCOA

BRUAND, Yves. ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA NO BRASIL. 4 Ed. SÃO PAULO: Editora Perspectiva, 2002. Mur Neutralisant – Consistiu na aplicação de uma fachada dupla de vidros com insuflamento de ar refrigerado ou aquecido em sua câmara interna. A idéia seria reaproveitada posteriormente, sendo conhecida atualmente como dupla pele ou “double skin”.
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b) Atenuadores Acústicos. Devido a suas características, os brises podem atuar como atenuadores sonoros de modo análogo às venezianas acústicas. Segundo Silva (1998) as venezianas acústicas têm seu uso basicamente aplicado no controle de ruídos industriais sendo normalmente executados sob medida, ao invés de produção em larga escala. O projeto é rudimentar, realizado praticamente sem o envolvimento de análise científico e baseado na experiência “prática” do engenheiro ou do fabricante. Observa-se que a utilização das venezianas acústicas tem sua utilização predominante no isolamento de ruídos de dentro para fora do ambiente e em nenhum caso a aplicação como atenuador de ruídos externos. Percebe-se então o potencial ainda a ser explorado ao incorporarmos este conceito ao projeto arquitetônico desde sua gênese.

Figura 3 – Acoustic Louvers. Fonte:AIROLITE

Metodologia

O objetivo deste trabalho se atém ao estudo de procedimentos simplificados que possam ser reproduzidos de modo intuitivo dentro de um escritório de arquitetura durante a etapa projetual. O objeto de análise são os brises soleils instalados na fachada norte do Ministério da Educação e Cultura (MEC) no Rio de Janeiro. Seu comportamento como elemento difusor de luz e atenuador acústico. Este foi escolhido por seu caráter icônico e simbólico dentro da arquitetura brasileira, assim como por sua localização central e conseqüente exposição ao tráfego intenso inerente ao Centro do Rio. O brise soleil original foi analisado em função de sua performance acústica e lumínica. Baseado na análise gráfica do desempenho acústico, foram inseridas “peças corretivas” ao perfil do brise. Uma vez atendidas às condições acústicas, foi proposta uma alteração do brise para que sua propriedade de difusão luminosa fosse incrementada. Desta forma, foram elaborados três cenários de análise.

Brise atual análise acústica análise lumínica

Brise com adaptação acústica análise acústica análise lumínica

Brise com adaptação “light shelf” análise acústica análise lumínica

Figura 4 – Fonte: Google Earth

A despeito do conhecimento de que uma via de tráfego possui uma fonte sonora linear, para efeito de simplificação, foi considerada uma seção transversal à Rua Araújo Porto Alegre de modo que a análise geométrica fosse bidimensional. Considerou-se um pavimento de andar médio da edificação (7º pavimento) e a fonte sonora foi posicionada no eixo da rua.

Figura 5

ANÁLISE DE DESEMPENHO ACÚSTICO SIMPLIFICADA

Para a análise acústica utilizou-se o método geométrico de traçado de raios (ray tracing)6, que consiste na emissão de vetores sonoros do emissor ao receptor e seus respectivos rebatimentos7.

Figura 6 – Ray tracing – Fonte: FUNKHOUSER

As ferramentas de modelagem acústica geométrica são geralmente utilizadas para projeto e simulações de ambientes tridimensionais. Engenheiros e arquitetos a utilizam junto à ferramentas CAD para predizer o comportamento sonoro de ambientes em etapa de projeto. A modelagem acústica também auxilia no desenvolvimento de efeitos de espacialização sonora em ambientes virtuais8. Por ser uma abordagem estritamente geométrica, foram descartadas as propriedades reflexivas acústicas dos materiais, a difração e o decaimento sonoro. Para efeito da simulação, o perfil do brise original foi simplificado para um perfil retangular e inserido no módulo da fachada. As proporções e medidas originais foram mantidas.

Figura 7

FUNKHOUSER, T. et al.: BEAM TRACING FOR INTERACTIVE ARCHITECTURAL ACOUSTICS, J. Acoust. Soc. Am., Vol. 115, No. 2, Fevereiro 2004 7 Para a análise gráfica foi utilizado o software Ecotect (Autodesk). 8 BEGAULT, D. R. 3D SOUND FOR VIRTUAL REALITY AND MULTIMEDIA, Nova York: Academic, 1994

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Esta etapa consistiu no disparo de raios bidimensionais (ray tracing) a partir da fonte sonora. Foram capturados dois momentos da emissão, respectivamente a 179 e a 186 milissegundos após o impulso sonoro. Os raios foram configurados para dois níveis de rebatimento e estão demonstrados através das cores: magenta para raios diretos, amarelo para o primeiro rebatimento e cinza para o terceiro.

Brise original.

Figura 8

Observa-se que dos 18 raios disparados em direção ao brise, 33% destes penetram diretamente no ambiente e 39% são rebatidos pelos brises para o interior da edificação. Como figura de mérito, caracterizamos estes números como alto grau de permeabilidade acústica.

Após a observação do ângulo de penetração direta, foram adicionadas duas peças ao brise. Esta intervenção considera o mínimo de obstrução possível tanto de ventilação quanto luminíca.

rebatedor sonoro rebatedor sonoro

Brise modificado (acústico).

Figura 9

Observa-se um incremento substancial no desempenho acústico do brise. A análise gráfica mostra que os vetores que penetram diretamente reduziram de 33% para 5%. O rebatimento dos raios para o interior da edificação não aparecem mais na simulação.

Uma vez atendida à otimização do desempenho acústico, busca-se potencializar a difusão luminosa através de elementos capazes de rebater a luz natural para o interior do ambiente.

rebatedor de luz

rebatedor de luz

Figura 10

A adição dos rebatedores de luz obedece à evolução acústica do brise, também buscando incorporar os ganhos do design anterior minimizando o nível de obstrução da ventilação natural.

Brise modificado (acústico/lumínico).

Figura 11

O desempenho “acústico” do desenho lumínico mantém o nível de desempenho do estudo anterior. ANÁLISE DE DESEMPENHO LUMÍNICO SIMPLIFICADO

Para a análise lumínica foram utilizados os softwares Ecotect (Autodesk) e Sketchup (Google). O material aplicado ao modelo possui as características RGB: 255, 255, 255 (branco total). A fonte luminosa foi posicionada nas condições solares de solstício (inverno e verão) e equinócio, compreendendo uma faixa de horário compreendida entre 9:00 e 17:00 em passos de 30 minutos.

Codificação gráfica: • As faixas amarelas representam os raios luminosos diretos e rebatidos. Os raios foram configurados para dois rebatimentos (bounces). Para maior clareza, apenas os brises e a superfície superior do conjunto estão configuradas como elemento rebatedor. • As áreas escuras representam a projeção sombreamento adicionado ao nível de luminosidade rebatido, possibilitando uma análise visual e imediata.

Solstício 21 de dezembro – faixa de sombreamento e luminosidade.

Brise original.

Para o solstício de verão, o desempenho dos três cenários apresenta-se similar, não havendo uma diferenciação clara do modelo “ótimo” para a absorção luminosa. Isto ocorre devido à posição vertical do sol neste período.

Figura 12

Brise modificado (acústico).

Figura 13

Brise modificado (acústico/lumínico).

Figura 14

Solstício 21 de junho – faixa de sombreamento e luminosidade.

Brise original.

Para o solstício de inverno, o desempenho do brise original não demonstra nenhuma capacidade de lançar luz sobre o ambiente interno.

Figura 15

Brise modificado (acústico).

O brise “acústico” trabalha melhor do que o original, porém sua contribuição não é significativa.

Figura 16

Brise modificado (acústico/lumínico).

Com os rebatedores de luz incorporados ao projeto do brise percebe-se uma melhoria significativa na penetração de luz para o ambiente.

Figura 17

Equinócio – faixa de sombreamento e luminosidade.

Brise original.

O desempenho comparativo entre os cenários analisados permanece similar ao atingido no solstício de inverno. O benefício é percebido ao longo de todo o ano.

Figura 18

Brise modificado (acústico).

Figura 19

Brise modificado (acústico/lumínico).

Figura 20

CONCLUSÂO

Esta experiência demonstra o potencial que os elementos sombreadores, sejam brises, varandas ou shaders em placas possuem para contribuir para o conforto acústico em ambientes urbanos. Faz-se necessário uma quebra de paradigmas pré-estabelecidos na mente de arquitetos e projetistas de que as condições de conforto sejam apenas embasadas no conforto térmico e na regulagem da temperatura. Elementos como a ventilação, a luz natural e a acústica tem passado ao largo das premissas básicas dos projetos arquitetônicos. A legislação edilícia retrocedeu em relação a estes aspectos durante os últimos anos e a indústria do setor, tal como reflexo da demanda, apresenta-se despreparada não apresentando soluções e alternativas. A simples revisão do projeto dos brises revelou a sua possível tríplice função. É um exemplo típico para a aplicação em projetos já erigidos ou em fase de retrofit. Ao incorporar soluções como estas, preferencialmente passivas e de baixa manutenção, o arquiteto estará agregando valor ao projeto e contribuindo para o que denominamos de arquitetura sustentável.

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