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É POSSÍVEL PENSAR LIVREMENTE? Segundo Schopenhauer, “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós”.

Não queria ele desencorajar o hábito da leitura, mas sim o hábito da leitura desacompanhada do pensamento crítico. Schopenhauer defendia a necessidade de pensar por conta própria, sem se deixar engolir pelo pensamento alheio, diminuindo o risco de nos tornarmos meros papagaios repetidores de idéias alheias. E quantos papagaios voam livremente por aí! Propagando as idéias alheias e bicando todos os que as questionam, visto que esta é sua única forma de defesa, já que não dominam as idéias que vivem a repetir e são incapazes de justificá-las. Pode-se dizer que Schopenhauer defendia o ato de pensar sem amarras, de pensar livremente. Mas o que exatamente significa pensar de forma livre? Livre de quê? Eu, pelo menos, só consigo pensar com base no que vejo, ouço e sinto. Evidente que posso imaginar, conjecturar e simbolizar, mas não consigo evitar que todos estes pensamentos sejam análogos a tudo o que sinto. Estou eu pensando livremente e sem amarras? Evidente que não. Para que pudesse pensar de forma absolutamente livre, eu teria de ser Deus, pois eu precisaria conter toda a realidade. Como não sou Deus, é a realidade que me contém, e portanto, estou sujeito às limitações que ela me impôe. Se o pensamento absolutamente livre nos é impossível, resta-nos saber o quão livre nosso pensamento pode ser. Algo impossível de determinar com precisão, pois só algo ou alguém olhando “de fora” poderia separar a livre convicção da alienação. Aquilo que não nos permite ser livres também não nos permite saber o quão livre somos. Se somos objetivamente livres, ainda que parcialmente, simplesmente não sabemos. Resta-nos uma liberdade limitada, subjetiva, que envolve apenas a liberdade que tenho de pensar diferentemente de outros que tem as mesmas limitações que eu. Pensar livremente, nesse caso, é pensar exclusivamente com base no que vejo, ouço, sinto e jamais com base no que os demais vêem, ouvem e sentem. E mesmo esta liberdade de pensamento, já tão precária, nos é inalcançável. Quantas estampagens recebi na infância, devidamente armazenadas mas nunca conscientemente relembradas? Quantos traumas, dificuldades, medos, sonhos, experiências, expectativas frustradas, paixões arrancadas e amores frustrados não afetam aquilo que penso hoje, sem que eu tenha a menor opção de me libertar destes fatores? Sem que eu sequer consiga ponderar devidamente sobre qual a influência deles sobre minhas escolhas e preferências, visto que toda ponderação será afetada por eles? Posso escolher o que quero pensar aqui e agora. Posso escolher o que vou ler, o que vou escrever, que filme assistir e a quem me darei ouvidos, mas não tenho como saber o quão grande é a influência do meu inconsciente neste processo, e segundo a psicologia e a neurologia atuais, essa influência é muito maior do que gostaríamos de admitir. Nosso pensamento não pode ser livre. Objetivamente e até certo ponto, somos todos alienados. Podemos, no máximo, pensar sem a influência de alguma idéia ou

não faz com que a razão deixe de ser uma limitação imposta a nós da qual não podemos escapar. Se só podemos pensar dentro da razão e da lógica. uma espécie de norma culta que. o que está fora delas é terra sem lei. o que dá no mesmo.leitecommangafazmal. o que por vezes chamamos de ”pensar livremente” nada mais é do que pensar única e exclusivamente dentro dos limites da razão. quando devidamente seguida. Ironicamente.br . mas não posso escapar de minhas próprias limitações humanas. O livre pensar seria assim ignorar tudo aquilo que foge à razão. Barth http://www. Carlos H. fora dela nenhum palpite é possível ou todo palpite é válido.pensamento alheio. não temos escolha quanto a ter ou não tal “liberdade”. Isto porém. permite a evolução do pensamento. Um dogma religioso é taxativo e define o certo e o errado de forma definitiva. neste sentido não passam de uma língua em comum na qual podemos comparar diferentes pensamentos.com. Elas estabelecem uma linguagem comum para que se possam comparar diferentes linhas de pensamento. Posso sair de uma gaiola e pensar livre das influências de uma doutrina religiosa ou livre de um sistema filosófico. a filosofia e a ciência. A razão. Ironicamente. pois se dentro desta gaiola não há certeza.