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O SR. ALOYSIO NUNES FERREIRA (Bloco/PSDB – SP. Para discutir.)– Sr. Presidente, Srs. Senadores, ao examinar o texto deste projeto de lei de conversão, veio à minha lembrança um episódio ocorrido há muitos anos, logo depois da eleição do Governador Franco Montoro para o Governo de São Paulo. Eu era Deputado Estadual, e recebemos a visita de um ilustre jurista francês – Robert Badinter, que anos depois foi Ministro da Justiça do Presidente Mitterrand e um dos grandes responsáveis pela abolição da pena de morte naquele país. Conversei com ele, Sr. Presidente, sobre os rumos que tomaria o País depois da transição democrática, tão bem presidida por V. Exa, e ele me disse o seguinte: que, na visão dele, o chamado conteúdo social da democracia brasileira, em grande parte, seria estabelecido pelo sistema tributário que a Constituinte iria adotar. Pois bem, Sr. Presidente, o sistema tributário que a Constituinte adotou e nós praticamos está longe de ser um sistema tributário que atenda aos fundamentos democráticos e igualitários da Constituição brasileira, à aspiração de igualdade da Constituição brasileira, porque é um sistema profundamente injusto, regressivo, especialmente nos chamados impostos indiretos, que incidem sobre a circulação de bens e de serviços. Estudo do IPEA mostra que esses impostos indiretos atingem os pobres na proporção de três vezes o impacto que têm sobre os mais ricos. É um sistema tributário em que quem ganha mais paga menos imposto, e quem ganha menos paga mais imposto. Uma das medidas contidas neste projeto de lei de conversão, introduzida nele pela Bancada do PSDB na Câmara, corrige essa desigualdade, essa injustiça ao desonerar os produtos que compõem a cesta básica dos impostos federais que sobre ela incidem: IPI, Cofins e PIS/PASEP, na mesma linha do que vendo feito em muitos Estados da Federação, e me refiro, com muito orgulho, ao Estado de São Paulo. É um projeto na direção da igualdade, da justiça e da correção da profunda regressividade do nosso sistema tributário, que é agravada pelo fato de que se distribuem presentes tributários, como regra de conduta de política econômica neste Governo, aos mais diferentes setores da economia brasileira. Quem grita mais leva mais. Já se contavam mais de R$160 bilhões, no ano passado, de benefícios tributários concedidos pelo Governo, que se diz de esquerda, que se diz de inspiração socialista, mas é o queridinho do grande capital, que é o Governo do PT. A maior parte das disposições que constam desses projetos, que são elaborados à guisa de uma política industrial coerente, mas que não passam de uma colcha de retalhos, reforça esse caráter de favorecimento da elite econômica – exercido, inclusive, de uma forma absolutamente desconexa, sem coerência, sem projeto a embasá-lo – que vem sendo adotado pelo Governo do PT. Nós não sabemos quanto vai custar esse projeto – 600 milhões são a previsão inicial –, quanto custará depois de passado pela tramitação da Câmara e da comissão especial, e submetido, hoje, à votação do Senado, com os contrabandos inseridos. Esse um ponto que eu gostaria de destacar. O outro ponto, Sr. Presidente, diz respeito a uma mudança na lei de licitações, que é introduzida de uma maneira muito sutil no projeto de lei de conversão.
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A sutileza vai ao ponto de, no avulso do PLV, quando se elenca a legislação citada, não há referência à Lei 8.666, de 1993, que é exatamente a lei de licitações. Aqui, no projeto que vamos votar, no artigo 73, nós vemos uma profunda entorse na lei das licitações, na medida em que, se confere ao Poder Executivo, mais especialmente, à autoridade do SUS, que é o Ministro da Saúde, o poder de dispensar de licitação à compra de serviços, de medicamentos e equipamentos destinados ao SUS, sob a alegação de que se trata de produtos submetidos a um contrato de transferência de tecnologia. Ora são produtos em fase de homologação e sem sua eficácia controlada. Isso o governo quer comprar! Ora, contrato de transferência de tecnologia é um assunto que diz respeito a empresas privadas. Uma empresa contrata com outra a transferência de tecnologia para fabricação de determinado bem ou determinado produto, sem se saber sequer, quando se firma o contrato, se a transferência vai efetivamente se efetivar, e muito menos sem saber qual será o beneficio social da modificação do procedimento resultante da transferência de tecnologia. Teremos, realmente, um produto melhor, mais barato mais eficiente? Não se sabe. Existe uma forma de sabê-lo, que é a licitação. Ora, o projeto de lei que vamos votar exime de licitação os artigos, as mercadorias, os serviços considerados essenciais pelo Ministro da Saúde. O que é essencial? Não sei. O Ministro vai decidir. O Ministro é quem vai decidir se compra da empresa A ou da empresa B, sem precisar justificar, sem precisar dizer em que isso beneficia a eficiência do serviço de saúde, sem aferir a qualidade do bem. É claro que haverá sempre uma justificativa burocrática. Mas o grave é que nós estamos abolindo a prática da licitação exatamente onde a licitação deve ser um procedimento mais requerido e mais exigido, que é a escolha do melhor produto possível para o serviço de saúde do nosso País. Já fizemos no passado recente, contra os votos da oposição, mudanças importantes no sistema de licitação no Brasil, na Lei das Licitações. Começou com as obras da Copa, criando-se o regime especial de licitação para as obras da Copa. Depois se criou também o regime especial de contratação para as obras do PAC, onde cabe tudo, evidentemente. Agora, cria-se um sistema especial de compras, abolindo a licitação, para compras de produtos para o SUS. No andar dessa carruagem, vamos acabar por aceitar a mudança da Lei das Licitações aos pedacinhos, aos pouquinhos por medida provisória. É isto que vai acontecer. Vejam V. Exas. o que diz o art. 73 do projeto de lei de conversão. Diz o seguinte:
Art. 73. O art. 24 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art.24............................................................. ............ ............................................................... XXXII – na contratação em que houver transferência de tecnologia de produtos estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS) [que produtos estratégicos são esses não se sabe], no âmbito da Lei nº 8.080 [que é a lei que criou o SUS], de 19 de setembro de 1990, conforme elencados em ato da direção nacional

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do SUS, inclusive quando da aquisição destes produtos durante as etapas de absorção tecnológica.[...]”

Nesses casos, o Ministro da Saúde pode dispensar licitação “durante as etapas de absorção tecnológica”. Nem é preciso que se efetive a absorção tecnológica. Basta você ter um contrato visando à absorção tecnológica, para a fabricação de determinado produto, que isso por si só já habilita o empresário a vender os seus produtos para o Ministério da Saúde com dispensa de licitação. É isso que vai ser votado daqui a pouco. Por isso é que o PSDB, em boa hora, apresentou destaque para tirar do texto esse artigo perigoso. É perigoso porque contradiz, afronta os princípios de impessoalidade que informam o capítulo Da Administração Pública da Constituição brasileira. É perigoso isso que vai ser instituído. Isso pode ser uma porta aberta para a fraude, para o favoritismo, que vai atingir aquilo que é mais preciso na vida do brasileiro: a saúde.

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