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Introdução Esse artigo apresenta uma metodologia alternativa para determinação do tempo de reposição de fadiga e, em conseqüência, dos tempos

de fabricação – Takt Times – utilizados como parâmetros no planejamento industrial. A metodologia foi sendo construída a partir da instrução da demanda original e conduzida a partir do modelo de gestão de projetos em ergonomia, consolidado pela ação anterior. A organização, uma das maiores do seu segmento no mundo, questionava uma possível inadequação do seu método de alocação de tempos de reposição de fadiga por conta da modernização das instalações e equipamentos ocorrida nas últimas décadas. Muitas operações consideradas de risco do ponto de vista da saúde ocupacional tiveram sua severidade ocupacional reduzida, algumas praticamente eliminadas. Nesse novo cenário, onde por um lado temos a redução dos esforços físicos presentes nas atividades de trabalho e do outro o reconhecimento da amplitude do conceito de fadiga e o ganho de importância das questões relacionadas às relações industriais – legislação, normatização, sindicatos, etc. – abrem-se oportunidades para a ergonomia oferecer sua contribuição para a reformulação de toda sistemática de estudo de tempos e movimentos, sobretudo no que tange à alocação dos chamados tempos suplementares. Os tempos suplementares são tolerâncias, representadas por um percentual sobre o tempo total, que compensam eventuais variações das condições de trabalho. Portanto, se as condições gerais melhoram, conseqüentemente os fatores que provocam a flutuação dos tempos de ciclo tenderão a serem reduzidos ou, em alguns casos, até eliminados. 1. Encaminhamentos O trabalho em questão inicia-se pela análise ergonômica de 45 postos de trabalho – chamados de Centros de Custo (CC) – coordenados por um Ergonomista residente e segundo a combinação de ferramentas em Ergonomia e o uso da metodologia SPM, desenvolvida pelo Laboratório GENTE/COPPE/UFRJ. A metodologia SPM permite a verificação imediata dos processos de trabalho, caracterizando as ações e fornecendo elementos, a partir de uma priorização, para a formulação de um diagnóstico e eventuais recomendações. A apreciação ergonômica resultante forneceu os insumos necessários a identificação das variáveis de controle utilizadas na Tabulação SIC, outra ferramenta desenvolvida pelo Laboratório. A Tabulação SIC no nosso caso não foi usada apenas como ferramenta de priorização – como é comum em outros projetos de natureza similar – mas serviu nesse

projeto como variável (fator de atenuação) aplicada na fórmula “RFad” de cálculo de reposição de fadiga que será abordada ao longo do texto. A experiência nos mostra que cresce a participação dos ergonomistas na concepção dos diversos sistemas de trabalho, especialmente no setor industrial. Conforme vários estudos demonstram, (Hendrick, 2002; Santos, 2003; Zink, 2004) não apenas a introdução da ergonomia nos estágios pré-utilização dos sistemas pode promover mudanças positivas significativas para os usuários, como o custo de introdução dessas melhorias aumentam significativamente na medida que as etapas do ciclo de produção dos sistemas evolui. Para o caso em tela, o processo de Ergonomia incorporou uma avaliação prévia das condições de trabalho que chamamos de “Avaliação Ergonômica de Postos de Trabalho”, com características de um mapeamento geral das atividades – trabalho real – do ponto de vista da Ergonomia. Esse mapeamento consistiu de uma apreciação ergonômica funcional sobre 45 postos de trabalho em centros de custos, previamente definidos pelo setor responsável como “críticos” do ponto de vista dos riscos associados. (Figura 1)

Figura 1. Metodologia de Ergonomia de Concepção aplicada ao estudo em tela.

O segundo passo seqüencial no encaminhamento do estudo foi denominado de “Avaliação Técnica” para diferenciar o desenvolvimento do método de validação – nem todos os casos necessitam de tempos de recuperação de fadiga – ou cálculo de reposição de fadiga do processo de apreciação ergonômica preliminar destinado a identificação dos níveis de criticidade dos postos. A partir daí entramos na fase de desenvolvimento do método propriamente dito, sua testagem, validação e proposta de desdobramentos futuros. 2. Considerações gerais sobre a avaliação técnica As ações em ergonomia situam-se em uma posição de proporcionar uma finalidade, isto é, na possibilidade de criação de interfaces adequadas entre indivíduos e seus sistemas, estabelecendo assim uma relação ajustada entre os fatores humanos presentes nos ambientes de trabalho e os componentes implícitos em um sistema de produção – e conseqüentemente de trabalho (Sanders & McCormick, 1997). Nesta perspectiva, a atividade humana no trabalho tem a sua orientação dirigida para a busca de resultados e é organizada e regulada no interior de um grupo social. Como o resultado desta atividade é essencialmente econômica, esta é, em geral, organizada para atingir metas de acordo com um planejamento estratégico estabelecido a priori. É importante mencionar que ao nos referirmos a sistemas de trabalho, queremos nos referir ao um conjunto de elementos que devem estar em harmonia para o pleno funcionamento de uma atividade de trabalho. Assim, um ambiente de trabalho ou um equipamento complexo que possibilite a operacionalização de um processo de trabalho, deve ser aqui entendido como um sistema de trabalho, ao passo que uma ferramenta de trabalho, um posto de trabalho ou um painel de controle isolado seriam, nessa perspectiva, dispositivos de trabalho. Dessa maneira, pode-se entender uma atividade como a forma como este resultado é obtido considerando-se como é organizado o trabalho, a utilização de instrumentos e, principalmente, a forma como é executada. Complementando, observamos que nos últimos anos a ergonomia deixou de ser apenas um modelo de avaliação, pelo qual se produzem principalmente laudos e recomendações (na concepção de produtos ou equipamentos, por exemplo), mas uma busca de intervenção sistematizada em conjuntos complexos, que são caracterizados pela produção automatizada e informatizada. É fato notório que a modernização constante dos processos de trabalho vem reduzindo gradativamente a carga física presente nas atividades de trabalho, seja na empresa

em foco ou em outras organizações industriais do gênero. A introdução de ferramentas mais leves, a automatização de processos, a utilização de recursos de automação e sistemas de robótica, dificultam a comparação dos ciclos de trabalho atuais – e conseqüentemente os tempos de processamento e necessidade de reposição de fadiga – com aqueles de 30, 50 anos atrás, em processos onde o estado da arte se caracterizava pela mecanização como princípio motor, relevando-se os aspectos humanos das atividades de produção. Por outro lado, alguns condicionantes no plano sociotécnico passaram a ter uma importância até então relevada na programação e no planejamento industrial. O próprio conceito de fadiga também evolui do plano quase que exclusivamente físico e biológico para uma dimensão mais ampla, onde múltiplas variáveis físicas, sociais, psíquicas e até organizacionais atuam de forma combinada na composição do grau perceptível de fadiga por um indivíduo (Carayon, 1999). Além disso, as medições de consumo de energia, solicitações musculares mais extremas e outras formas de mensuração da fadiga humana, dificilmente conseguem eliminar ou atenuar convenientemente o fator subjetividade, seja na aplicação da técnica e mesmo na sua formulação. É fato reconhecido que a interpretação do analista tem alguma influência no resultado. Diversas razões podem aqui ser amealhadas para buscar uma justificativa: diferença dos graus de experiência dos diferentes analistas (homogeneidade apenas teórica e que os procedimentos aritméticos apenas distribuem a margem de erro sem assegurá-la); condições da aplicação (se forem normais, excepcionais ou adversas, um mesmo analista apresentará resultados divergentes dependendo da seqüência ou da forma de repetições); cooperação da força de trabalho, que ora depende de uma série de contingências e metodológicas em combinação nem sempre linear. No caso da mensuração do esforço requerido – e conseqüente fadiga que se reporta junto aos operadores, a objetividade está em que o consumo de oxigênio se constitui no fenômeno central deste processo. Assim sendo, aumentar a objetividade implica na utilização de técnicas de medição direta do consumo de oxigênio na execução das diversas tarefas laborais. Porém, no atual estado da técnica, as formas de mensuração têm naturezas laboratoriais e complementares, em geral de natureza invasiva, ou seja, envolvem a utilização de dispositivos de medição acoplados ao indivíduo. Além disso, essas técnicas falham por não captar a realidade do processo produtivo, configurando-se quase que como uma ação de simulação.

3. Construção do Método de Cálculo “RFad” O método RFad se construiu em quatro etapas subseqüentes, que serão abordadas individualmente: 1. 2. 3. 4.
3.1.

Matrizes Observacionais SPM Priorização por criticidade GUT Gravidade Ocupacional SIC Eligibilidades de situações

Elaboração de Matrizes de Observação A apreciação ergonômica, a partir de observações, ação conversacional, exame de

registros e da validação e restituição com os envolvidos na atividade (inclusive a mestria), geram os dados de impactos registráveis, aspectos causais, e seus respectivos itens de enquadramento normativo. A organização destes dados em matrizes de observação possibilita um tratamento agregado e estruturado ao conjunto das observações, conversações e exame de registros, bem comoSdas validações Técnicas em efetuadas. A tabela 1 mostra e restituições Ergonomia CE ERG um modelo esquemático da matriz observacional.
Conversas efetuadas
Pessoa 1 Pessoa 2

ico Específ

Matriz de inclusão
Organização do Trabalho Ambiente

Equipamentos
Asp 1 Asp 2

...
Pessoa n
Síntese (aspectos) Síntese (tópicos)

Síntese geral Anotações Observações

... Asp n Asp 1 Asp 2 ... Asp n Asp 1 Asp 2 ... Asp n … … … ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... … … … e1 e2 ... en o1 o2 ... on s1 s2 ... sn Σ (ej) = E Σ (oj) = O Σ (sj) = S Σ (E, O, S)

Tabela 1: Matriz observacional de um setor de trabalho (Vidal, 2003)
Curso de Especialização Superior de Ergonomia 2010 36 / 69

3.2. Priorização inicial Quando se trata de ordenação por premência de atuação nas situações, a ferramenta mais freqüente é a chamada Matriz de GUT. É uma matriz de priorização que possibilita, de forma consensual, classificar em ordem de prioridade os processos / problemas da situação examinada. É igualmente uma ferramenta construída para ordenar uma lista de itens que serão priorizados com base em critérios definidos por pesos. A ferramenta é composta por formulário, contendo uma escala de 1 (um) a 5 (cinco) para os fatores de Gravidade,

Urgência e Tendência, quantificando os processos de forma sistemática. Este formulário compreende uma tabela (Tabela 2) onde são registrados os processos / problemas da equipe e os valores atribuídos por ela, que classificará os processos prioritários.
Tabela 2: Matriz de GUT Grau Gravidade Situação extremamente grave Muito grave Grave Pouco grave Não tem gravidade Urgência Necessita de ação imediata Necessita ação com alguma urgência Necessita uma ação o mais cedo possível Pode esperar um pouco Não há pressa Tendência Piora rapidamente se nada for feito Piora em pouco tempo se nada for feito Piora em médio prazo se nada for feito Piora em longo prazo se nada for feito Não piora

5 4 3 2 1

Para o caso em tela foi feita uma adaptação da ferramenta GUT, na qual foram elencados e avaliados, a partir do mapeamento SPM, as variáveis de risco mais prevalentes.Em seguida, se adicionaram apreciações de sobrecarga de forma compartilhada entre analista e a situação observada. Cada linha representa a avaliação GUT quantificando a variável de estabelecimento (ambiente, equipamento e organização do trabalho) e as variáveis de julgamento (sobrecarga física e mental). A avaliação final é dada pela fórmula que se segue: AV Situação j =

Σ j=1, n [Gi * Ui * Ti]

3.3.

Gravidade Ocupacional A combinação da apreciação SPM com a avaliação GUT nos ajuda a determinar o

grau de gravidade ocupacional de cada posto de trabalho, ou índice “SIC” (Somatório dos Indicadores de Criticidade Ocupacional). A tabulação SIC ou simplesmente “SIC” é uma ferramenta dinâmica de suporte a tomada de decisão, construída literalmente pela atuação prática em ergonomia. O processo foi utilizado pela primeira vez durante os encaminhamentos regulares de um projeto de análise ergonômica em uma grande indústria de calçados Brasileira, com várias unidades em todo o país. Naquela ocasião, o grupo de trabalho encarregado das ações teve a necessidade de ajustar a proposta inicial de priorização das ações por critérios mais objetivos dos que seriam possíveis de serem apontados por uma aplicação da ferramenta GUT isoladamente.

Em outro exemplo, uma empresa têxtil no Rio de Janeiro, vinculada a uma marca famosa mundialmente, tivemos oportunidade de comprovar outra importante característica da ferramenta. Nesse caso, a flexibilidade de seu emprego, aliada à facilidade de treinamento para sua utilização, mostrou-se particularmente importante em situações onde os prazos sejam a maior restrição de um projeto. Em virtude de se tratar de uma ação corrente de demanda de cunho legal – adequação normativa oriunda do ministério público – tínhamos uma dupla restrição temporal, imposta em cascata pelas autoridades legais e a própria empresa demandante. Na empresa em foco, o SIC entra na composição das variáveis a serem empregadas na fórmula de cálculo do tempo de reposição de fadiga, uma vez que uma situação ergonomicamente bem agenciada é suscetível de reduzir a fadiga de forma contundente. Para obtermos o Índice SIC, utilizamos os resultados da apreciação ergonômica realizada de forma a extrairmos seus valores de cada situação de trabalho, de acordo com a caracterização de cada atividade, de forma estruturalmente similar ao realizado na avaliação GUT. A tabulação SIC determina o grau de risco ergonômico de cada posto de trabalho, portanto a partir da combinação de variáveis de diferentes matrizes (Matriz Observacional, Enquadramento Normativo e demais ferramentas de apreciação e de avaliação global das situações de trabalho). Em sua forma simplificada, o índice SIC ® nos é dado por: SIC = 0,015 * [ Apuração GUT] * [Numero de desconformidades ] A tabela 4 mostra o cálculo de um sistema de indexadores SIC em uma montagem de grandes proporções. De acordo com esta indicação, medidas de reformulação e treinamento, à luz da avaliação realizada devem ser encetadas sob indicativo de urgência.
Tabela 4: Exemplo de cálculo do Indicador SIC
P o sto C o n s tr a n g im e n t o s A ç ã o
E n q u a d r a m e n t oD e s c o n f o r m i d a d e s

GUT

SIC

D e s lo c a m e n t o c o n s ta n te d o 0 ,0 0 9 0 o p e r a d o r , p o is s ã o u tiliz a d a s N R 1 7 .1 . 2 .; N R O o p e ra d o r s e n te c a n s a ç o n o s 1 7 .6 .1 . ; N R do C .C .1 3 5 .4 m e m b ro s in f e rio re s a o f in a l 0 ,0 0 5 0 1 7 .6 .2 .a ; b ;c ; d ;e ;f tu rn o d e tra b a lh o . ; N R 1 7 .6 .3 . a ;b ; c . G ra n d e d is ta n c ia e n tr e a s m á q u in a s u t iliz a d a s n o 0 ,0 0 5 0

11

933

1 9 4 ,9 9 7

3.4.

Elegibilidades A fórmula de cálculo do tempo de reposição de fadiga somente deverá ser empregada

para os postos ou atividades de trabalho envolvendo potenciais de desgaste físico maior que

o estabelecido pelos critérios fisiológicos de capacidade. A fórmula irá combinar dados de estimativas de gasto energético laboral extraídos de tabelas da NR-15, com estimativas da média de consumo máximo de oxigênio (VO2 max) dos funcionários, além de outras variáveis como Índice de massa corporal, IMC), temperatura e umidade relativa do ar no local de trabalho (reunidos na mensuração IBUTG). Portanto, para determinar a necessidade de tempo de reposição de fadiga devem ser consideradas, além do gasto energético inerente à atividade, da duração da mesma e do grau de condição aeróbica individual, outras circunstâncias extrínsecas ao indivíduo e intrínsecas à natureza da atividade, tais como: a gravidade, a freqüência de movimentos com esforços consideráveis, a ocorrência de posturas forçadas, repetitividade, fatores ambientais diversos, vibrações, e outros constrangimentos que possam provocar lesões músculo-esqueléticas ou dores crônicas. Dentre estes arrolamos os fatores tipicamente ergonômicos, decorrentes do arranjo físico e organizacional da atividade de trabalho envolvida. 4. Critérios para Validação da Necessidade de Reposição de Fadiga Qualquer critério que envolva a estimativa de esforço humano já se configura uma tarefa impregnada de subjetividade. Portanto, a necessidade de se parametrizar os fatores que podem levar (ou não) a uma desconsideração dos tempos suplementares de reposição de fadiga dos tempos de fabricação, envolve uma flexibilização na interpretação de 2 (dois) fatores ambíguos contidos no processo: 1) A necessidade de se prevenir contra os riscos da atividade e inadequações de ordem ergonômica que podem trazer desconforto, fadiga e causar ou potencializar lesões e doenças ocupacionais; 2) A necessidade de se atualizar os parâmetros de avaliação de atividades de trabalho que não mais consistem das mesmas operações, cujos equipamentos foram modernizados e/ou ferramentas reduzidas no seu peso. Isso justifica uma revisão periódica da condição física da população-alvo e na composição dos tempos de produção, uma vez que estes tempos envolvem uma série de fatores combinados, alguns deles diretamente relacionados ao modo operatório, conteúdo do cargo ou natureza das tarefas. Ao associar as tabelas à condição física aeróbica dos trabalhadores (a ser estimada) deveremos encontrar valores máximos recomendáveis para o trabalho contínuo em função, também, da duração da jornada típica da fábrica. Os percentuais de VO2max admissíveis serão estipulados com base em estudos de Ästrand & Rodhal (1984), Monod(1994) e Moreira (2010), correspondendo aos valores da tabela 1.

Tabela 1 : Referenciais para a definição do percentual do consumo máximo de oxigênio tolerável em função da duração da jornada de trabalho,

%VO2max limites em função da duração da jornada Duração (horas) %VO2max 1 75 2 70 3 65 4 60 5 55 6 50 7 45 8 40 9 35

Existem várias formas de se determinar o nível de condicionamento físico, porém, em virtude do contexto do estudo, decidimos pela utilização de uma estimativa baseada em uma tabela de hábitos (Jackson, A.S. e col, 1992). Esta tabela nos fornece parâmetros de condicionamento físico de uma determinada população de trabalho (média) que deve então ser combinada com algumas variáveis definidas por consenso. A princípio, uma vez aprovado o valor desta fatoração, e não satisfeita a condição básica CE= 0,40 VO2max, torna-se necessária a definição do chamado “Work Rest Cycle”, ou o tempo de descanso por ciclo de trabalho (adaptado de Murrel, 1965), que pode ser calculado pela fórmula: R= Onde R= Tempo de Descanso (pausa) em minutos. T= Tempo total de trabalho em minutos entre paradas (almoço, café, saída). W= Consumo médio de energia no trabalho em Kcal/min (a partir das tabelas escolhidas sem os fatores de ajuste). S = Consumo médio de energia recomendado em Kcal/min (de acordo com as tabelas escolhidas e dos fatores de atenuação aplicados às mesmas). Fn = Fatores de Atenuação da condição ideal K = Constante de proporcionalidade. No caso K= 1,5 Kcal/min Nota: A variável “S” é um valor atenuado de consumo médio de energia no trabalho em Kcal/min, onde os fatores de atenuação (F) são multiplicados entre si, e corrigidos em sua intervariabilidade pelo divisor K. 5. Proposta Metodológica para Apropriação dos Limites de Fadiga A construção de uma metodologia deve partir, como o nome diz, de um ou mais conjunto de métodos, que define a lógica do encaminhamento. O Método RFad não possui estrutura autônoma de funcionamento, dependendo, portanto, de uma conjunto de técnicas T {W-S(F n)} K

ou métodos analíticos que permitem sua apropriação. O encadeamento das etapas ou dos diferentes métodos e técnicas envolvidas compõem então a lógica do processo, ou a metodologia geral. No nosso caso, partimos da definição de oito etapas: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.
5.1.

Escolha consensual das tabelas, fórmulas e parâmetros; Incorporação das variáveis redutoras para as taxas de consumo de energia, a partir da análise ergonômica (documento principal) e respectivos Índices de Criticidade (SIC) ; Definição dos índices e parâmetros de ajuste do VO2max; Cálculo dos limites máximos de metabolização a partir do VO2max; Aplicação dos índices das diferentes tabelas na fórmula de Murrell (Se o CE>x% VO2 Max, sendo “x” definido pelo tempo de atividade); Incorporação de um Plano de Ação para as oportunidades de melhoria (trade offs); Avaliação Periódica do processo resultante do ponto de vista da flutuação dos indicadores de epidemiologia, gestão operacional e do planejamento da produção; Promoção das alterações resultantes de Avaliação Periódica das tabelas.

Definição das Tabelas e Fórmulas As tabelas existentes de consumo energético possuem restrições de ordem sintática e

semântica. As restrições sintáticas se devem a sua aplicabilidade. Em particular, os índices são apresentados em kcal/hora, o que dificulta sua utilização no planejamento, que utiliza tempos fracionados e operações por ciclos. Podemos resolver isso transformando os valores de kcal/h em kcal/min. Por sua vez, as restrições semânticas impedem a modificação de variáveis que podem interferir diretamente nos resultados. É importante também assinalar que a tabela da NR 15 omite dois índices importantes: o índice de metabolismo basal e o consumo metabólico para posição estática (sem movimento). Esses dados servem de parâmetro para a comparação em relação a atividades de trabalho que, apesar de sua natureza operacional, assemelham-se a processos de trabalho estático de natureza administrativa devido a existência de longos períodos de atenção, observação ou simplesmente pausas forçadas pelo ritmo produtivo.

Tabela 2: Tabela de dispêndio energético em Kcal/min Atividade Repouso Leve Postura básica Sentado Sentado, movimentos moderados com braço e tronco Sentado, movimentos moderados com braço e pernas Dispêndio Kcal/min 1,67 2,08 2,50

Moderado

Pesado

De pé, trabalho leve, em máquina ou bancada. Envolvendo principalmente os braços De pé, trabalho leve, em máquina ou bancada. com alguma movimentação Sentado, movimentos vigorosos com braços e pernas De pé, trabalho moderado, em máquina ou bancada. com alguma movimentação Trabalho moderado de puxar ou empurrar Trabalho intermitente de movimentação de cargas médias Trabalho fatigante

2,50 2,92 3,00 3,67 5,00 7,33 9.17

5.2.

Incorporação das Variáveis de Conforto e Condicionamento De acordo com Ästrand & Rodhal (1984), Monod(1994) e McArdle, Katch e Katch

(2007), o ser humano tem seu nível de desempenho numa jornada de trabalho de oito horas limitado a 40% do seu consumo máximo de oxigênio (VO2max). Assim sendo, não se justifica aplicar as tabelas “puras” sem a devida compensação de fatores individuais. Na impossibilidade de se tratar essa questão individualmente, trabalhou-se de acordo com o escopo possível, baseado em uma amostra dos postos de trabalho da fábrica. O VO2max arbitrado foi a média dos valores estimados para os trabalhadores da fábrica, calculados a partir do questionário de Jackson, A.S. e col (1992), respondidos pelos funcionários, considerados valores médios para a massa corporal total, a estatura e o IMC. Portanto, em decorrência desse entendimento, utilizou-se a média de condição aeróbica do grupo avaliado, extraindo-se o fator de redução caso a caso. 5.3. Aplicação no modelo A aplicação do modelo segue os passos acima mencionados, quais sejam, o estabelecimento das correspondências com as tabelas legais, a definição dos índices e parâmetros a partir do VO2 MAX, a definição dos limites máximos de metabolização e a aplicação na fórmula de Murrel ajustada (Santos & Vidal, 2010). Os postos analisados relacionam-se às tabelas da NR. 15, para que sejam aplicados os cálculos de VO2 Max e, conseqüentemente, permitir a aplicação da tabulação SIC e, caso necessário, utilizar a fórmula de cálculo de reposição de fadiga. Os 45 postos analisados localizaram-se então nas faixas de índices de consumo energético de 2,5 a 3,67 kcal/min, sendo a maioria de 2,92 kcal/min.
5.3.1. Definição dos índices e parâmetros do VO2 Max

Para dar seqüência a determinação dos índices de VO2 Máx, foram feitas simulações utilizando-se dados extraídos do questionário de estimativa de VO2 Máx e aplicando-os sobre a planilha de consumo metabólico (Moreira). Esses dados definiram então os postos

que deveriam passar pela fórmula de Murrell para determinação do Tempo de reposição de fadiga. Assim sendo, os dados passantes na condição, a princípio, não entrariam na fórmula e não necessitariam de pausa para recuperação de fadiga. Um sumário dos dados resultantes, para um ciclo completo de trabalho (8 horas) , pode ser visto na Tabela 8 a seguir.
Tabela 3 : Resumo da aplicação do VO2 MAX nos 45 postos (Centros de Custo)

Legendas:

IMC = Indice de Massa Corporal

MCT = Massa Corporal Total (Kg)

IAF = Índice de Atividade Física

VO2Max: Volume Maximo de Oxigênio PAM: Potência Aeróbica Máxima

Nesse extrato da planilha de consumo energético foram considerados dados médios dos indivíduos, arbitrados a partir de uma faixa etária de maior comprometimento do ponto de vista fisiológico. A utilização de uma classe de operações com maior esforço (5,0 kcal/min) foi um artifício de cálculo para possibilitar uma situação não-passante para homens, já que em situações reais tais circunstâncias não existem. Devemos ressalvar que a utilização de dados médios para definição dos limites tende à obtenção de resultados aparentemente contraditórios. Como o cálculo emprega médias ponderadas para as diferentes variáveis da fórmula de cálculo, isso acaba refletindo nos resultados, já que a progressão dos valores não se mantém linear ao se fazer variar somente alguns fatores. A opção metodológica adotada para avaliação fisiológica foi emprego do método de Jackson e colaboradores (1992) a partir da equação que considera o levantamento da estatura e da massa corporal dos trabalhadores (IMC), por meio de registros já existentes no departamento médico da fábrica. Foi estimado o VO2max de uma amostra, com os valores médios de MCT e estatura da população de operários sendo adotados como referenciais. Para os homens, utilizaram-se 1,73m para a estatura e 80,5 kg para a MCT. Para as mulheres,

os referenciais foram de 1,60 m para a estatura e 66,6kg para a MCT. Os IMC médios adotados para homens e mulheres foram, respectivamente, de 26,9 e 26,02. Os resultados do questionário do IAF, aplicado pela equipe de ergonomia, apresentaram o valor médio de 3, tanto para os homens quanto para as mulheres. Esta média foi o índice considerado para os trabalhadores. A idade média de 45 anos serviu de referencial para os cálculos. Foram feitas estimativas para homens e mulheres separadamente. Como a norma NR-15, utilizada no Brasil para efeito de determinação de níveis de salubridade, trabalha com quilocalorias, os resultados das equações de Jackson (1992) para o VO2max, originalmente em ml.kg-1.min-1, foram convertidos para kcal.kg1.min-1, expressando a Potência Aeróbica Máxima (PAM) dos funcionários. Depois, em função da duração média da jornada (nove horas), foi identificado, por meio da equação de Moreira (2010), o percentual máximo que pode ser suportado em trabalho contínuo nessa jornada. Assim, ficaram estabelecidos os referenciais para selecionar os casos em que deveria haver, ou não, pausas no trabalho. A partir daí, as estimativas de gasto energético médio em cada posto foram baseadas na NR-15, e os resultados foram divididos pela massa corporal para a obtenção de valores em kcal.kg-1.min-1 e comparação com os referenciais já estabelecidos. Os trabalhadores que ultrapassavam o valor de referência foram enquadrado na categoria de “não passantes”, ou seja, necessitavam de pausa para recuperação e, portanto, teriam esse tempo de reposição de fadiga determinado pela equação de Murrell adaptada.
5.3.3.

Considerações Adicionais quanto aos limites máximos do VO2 Max

O referencial utilizado para a massa corporal é um valor médio encontrado na população de trabalhadores, calculado a partir do banco de dados do setor médico. A título de exemplo, pode-se supor que fosse encontrada uma média de 80,1kg. Como conseqüência da estimação do gasto energético, será calculado o intervalo de 95% de confiança e o raciocínio será desenvolvido considerando este referencial. O intervalo de 95% de confiança do custo energético laboral médio estimado entre 0,4111 e 0,4319 kj.kg-1.min-1 (aproximadamente 0,098 e 0,1kcal.kg-1.min-1) para uma massa corporal de 80,1kg equivale a um consumo de oxigênio entre 1,6 e 1,7 litros por minuto, ou uma potência aeróbica entre 7 e 7,4W/kg. Durante uma jornada de oito horas, a solicitação não deveria representar mais de 40% do VO2max dos trabalhadores. Isto significa que para suportar rotineiramente um trabalho

nessa duração e com essa carga, o ideal seria que os funcionários possuíssem uma potência aeróbica máxima (PAM) entre 17,5 e 18,5W/kg, o que corresponde a um consumo máximo de oxigênio entre 50 e 53ml. kg-1.min-1. Assim, tendo em vista a realidade constatada no presente estudo, em 2010, o tempo máximo recomendado de trabalho contínuo durante as jornadas seria de 463 minutos, com um repouso de 17 minutos de duração. Portanto, para garantir a manutenção do nível de desempenho esperado, os trabalhadores deveriam, a cada 7,7 horas de trabalho contínuo, descansar por 0,3 horas, o que ocorreria ao longo da jornada (pausas concedidas, micropausas, etc.). Para casos especiais, considerando os mesmos valores médios de solicitação energética e/ou de PAM dos trabalhadores, é recomendado que, seguindo prescrições de Monod (1992), sejam obedecidos os tempos máximos de atividade contínua apresentados na tabela 1. 5.3.4. Aplicação dos índices das diferentes tabelas na fórmula de Murrell Se o índice VO2 Max encontrado for maior que percentual recomendado por tempo na atividade conforme a tabela, utilizamos, na seqüência de aplicação do método RFad, a fórmula de compensação, que retorna o tempo mínimo de descanso ou repouso (rest) para cada ciclo de trabalho. É importante enfatizar que devemos descontar os tempos de máquina dos valores encontrados, pausas concedidas e almoço. Da mesma forma, o ciclo final do turno – quando o trabalho se encerra para cada dia – deve ser desprezado para efeito de compensação, já que não haverá outro ciclo após o tempo de repouso. Para exemplificar tomemos um ciclo contínuo de 240 minutos, imediatamente antes da parada de almoço. A atividade em questão consiste das seguintes características:
Atividade: Trabalho em pé, bancada, moderado, pouca movimentação: 3,67 Kcal/min Temperatura Efetiva: 26 IBUTG: Fator: 1,0. Condição Aeróbica (Constante Populacional Média): 4 : Fator: 0,97. Condição Física Média: Nível 0,25 a 0,30: Fator: 0,98. Condição Ergonômica: SIC: Moderado: Fator: 1,0.

Aplicando na fórmula de Murrell (1965), ajustada (Santos & Vidal, 2010), temos: T (W-S(Fn) R= K A unidade de medida kcal/min do numerador anula-se com o denominador e, portanto, continuando o processo, obtemos: =

O indicador SIC ®, cujas tabulações encontram-se em um dos anexos,também influi nos resultados. Isso pode ser explicado não somente pelo fato do mesmo constituir-se em um fator de atenuação – ou um multiplicador da fórmula – como também por estar diretamente relacionado às condições de trabalho em cada centro de custo. Conclusão O modelo de avaliação de fadiga envolve a necessidade de aplicação de um conjunto de formulas e cálculos. Como todo e qualquer construto matemático o modelo é uma aproximação da realidade com um nível de precisão suficiente para auxiliar decisões. No caso do modelo, há uma orientação assumida para parâmetros de centralidade (medias, equilíbrios e outros pontos de convergência clássica). Uma recomendação é a de evoluir de uma referencia central para uma compleição mais customizada, adequada a parâmetros individuais. Porém, deve-se avaliar a relação entre o custo desta precisão e o impacto da mesma. Em nosso entender este custo atual não é interessante, até porque constatamos os tempos normais de repouso mais que suficientes para a recuperação fisiológica. Antecipando possíveis questionamentos no tocante aos impactos cognitivos decorrentes da modernização dos postos, ressalvamos a natureza resiliente das ferramentas utilizadas, sobretudo o SIC, que permite considerar impactos cognitivos e organizacionais presentes nas diversas operações. Outrossim a estrutura fatorial possibilita a introdução de novos atenuadores capazes de movimentar a avaliação num sentido ou em outro. Ficou patente que a questão de gênero pode ser um diferencial, já que a maioria das situações não passantes ocorreram com os sujeitos do sexo feminino. Neste sentido e com o previsível aumento da proporção de mulheres nos postos de trabalho industriais, questões da cidadania tendem a criar obrigações de adaptações de postos a populações de gêneros, como já acontece percentualmente com portadores de necessidades especiais. Referências bibliográficas Ainsworth, E. Haskelll,W., Leon, A., Jacobs JR.,D., Montoye, H., Sallis, J. and Paffenbarger, R., Compendium of Physical Activities: classification of energy costs of human physical activities, Med. Sci. Sport. Exerc., v. 25, n. 1, p. 71-80, 1993.

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