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As quatro práticas do ensino da Língua Portuguesa

Ligia Regina Klein
Ao iniciarmos esta lição sobre “As quatro práticas do ensino da Língua Portuguesa” vale a pena procedermos a uma pequena reflexão sobre a unidade teoria e prática. No exercício pedagógico – assim como em outras áreas – é muito comum verificarmos que se faz presente certo embate entre teoria e prática. Não raro ouvimos expressões do tipo “a teoria, na prática, é outra” ou “na teoria está tudo muito bonito, mas, na prática é muito diferente”. Essas expressões revelam uma compreensão de que teoria e prática são áreas autônomas, independentes uma da outra. Tal compreensão provavelmente se origina da frustração dos professores em situações em que a teoria não orientou devidamente a atividade prática e, por consequência, não se obteve o resultado esperado. Essa diferença entre o resultado esperado e o resultado realmente alcançado pode estar localizada em diferentes variantes da relação teoria e prática, entre as quais poderíamos citar – sem esgotar as possibilidades – a inadequação (total ou parcial) da teoria formulada, a inadequação entre a teoria proposta e as atividades propostas ou realizadas, a não compreensão suficiente, pelo professor, da teoria proposta ou, ainda, a não consideração, na proposta teórica, de variantes presentes na situação prática. A frustração quanto aos resultados esperados deveria levar a uma consistente e adequada análise da relação teoria e prática naquele contexto concreto. Entretanto, é mais frequente uma posição de repulsa em relação à teoria, como se esta necessariamente fosse produto de alguém que não conhece “a prática”. É evidente que há formulações teóricas descabidas, bem intencionadas, mas inadequadas, bem direcionadas, mas incompletas. Enfim, algo que alguém produz como teoria não necessariamente dará conta das situações práticas. De todo modo, é essa a função da teoria: analisar exaustivamente os objetos e situações práticas, apreendê-los nos seus elementos e relações mais relevantes e formulá-los teoricamente, para que outros sujeitos não precisem – necessariamente – passar pela experiência empírica de realizar o mesmo percurso de descoberta de um determinado caminho. Vamos exemplificar de uma forma bem simples: se alguém já conhece o

no suposto mapa. perguntando aqui e acolá. sofrer adaptações em relação a determinadas situações concretas. facilite a vida dos que precisam chegar ao mesmo lugar. Esse “mapa” é uma formulação teórica. sofrem variações e. é muito generoso que ele elabore um mapa do trajeto e. toda elaboração teórica tem a prática como ponto de partida. no entanto. o mapa terá perdido seu objetivo e haverá necessidade de produção de um novo mapa. por sua vez. essas alterações – se pequenas – em nada prejudicarão a eficácia orientadora do mapa. o qual. em face de transformações profundas. fechadas e que se aplicam igualmente a qualquer contexto. errando. abstrata. Do que foi dito acima. tanto pode realizar-se por descoberta empírica. Evidentemente. O percurso (prática) desse segundo sujeito será enormemente facilitado pelo auxílio da experiência alheia. no primeiro caso. tais alterações forem de certa relevância poderão exigir algumas adaptações naquele instrumento orientador. Observemos que o mapa (teoria) – que nasceu da experiência prática de um sujeito – presta-se a orientar a ação de outro sujeito. com regras rígidas. como pode apoiar-se na teoria e.Prática Educativa da Língua Portuguesa trajeto para um determinado lugar. porque já realizou a experiência empírica de – “quebrando a cabeça”. – encontrar o tal lugar. as formulações teóricas devem ser reelaboradas à luz dos novos elementos e condições postos pela nova configuração da realidade concreta. desse modo. evitar problemas que já foram resolvidos por outro sujeito. livrar-se-á das dificuldades de enfrentar um caminho desconhecido. No segundo caso. entretanto. Essas formulações oferecem orientações gerais que nos auxiliam no enfrentamento prático das situações cotidianas. mas substancial transformação do espaço. não meras alterações. assim. 14 . do caminho a ser seguido. Daí porque as formulações teóricas precisem. mas não é um manual. indo e vindo. se. É óbvio que a paisagem em que se desenvolve o percurso poderá sofrer pequenas ou grandes alterações. recomeçando etc. transformações profundas. podendo livrar-se da perda de tempo e dos incômodos de percurso feito às cegas. ou ainda se ocorrerem. teorizada – nesse exemplo – em forma de um mapa. que as condições práticas nem sempre são as mesmas. sem a orientação da teoria. Como os elementos dessa paisagem foram utilizados como referências. por sua vez. às vezes. Munido dessa “teoria” – que nada mais faz que expressar a experiência prática do outro – qualquer pessoa terá mais facilidade de realizar o percurso. A prática. é possível constatarmos que há uma união indissolúvel entre teoria e prática. Por isso pode-se dizer a expressão: a relação prática-teoria-prática. Alertemo-nos. uma vez que toda teoria é “formulação teórica sobre uma experiência prática” que visa orientar a atividade prática de outros sujeitos.

atividades específicas de sistematização de conteúdos específicos. o domínio mais amplo e rico da linguagem verbal. seja na escrita – explorando ao máximo os recursos linguísticos para atingir seu intento comunicacional em diferentes contextos. de KLEIN. recursos semânticos. propõe-se o desenvolvimento articulado de quatro práticas. Considerando que para a elaboração de um bom texto não basta identificar os recursos linguísticos. produção de textos (orais e escritos).As quatro práticas do ensino da Língua Portuguesa Recomenda-se. como um recurso fundamental de interação humana. R. Uma vez que o uso da linguagem verbal realiza-se na forma de discursos. Em outras palavras. no processo de constituição de sentido. pois. promovendo um processo de ensino-aprendizagem que supera a improdutiva memorização de regras gramaticais abstratas. Somente no contexto do texto (em duplo sentido. 2008 (artigo elaborado para fins didáticos. no contexto interno ao texto e no contexto em que o texto é produzido) é possível observar e compreender a função e as possibilidades de emprego desses recursos. Para trabalhar com o texto desde o início do processo de aquisição da escrita até as séries finais da Educação Básica. Por meio da repetição sistemática dessas quatro práticas é possível desenvolver qualquer conteúdo do ensino da língua. finalmente. Por essas razões. L. os textos têm a faculdade de apresentar os recursos da língua (recursos do código. a saber: leitura e interpretação de textos (orais e escritos). cuja unidade material denominamos de “texto”. também. ou seja. Uma importante preocupação do professor é conhecer bem (teórica e praticamente) cada objeto do processo de ensino-aprendizagem e dele extrair o objetivo e a orientação prática necessários à realização exitosa desse processo1. Cabe ressaltar que tal repetição 1 A reflexão acima foi extraída. Curitiba: UFPR. para o Curso de Pedagogia da UFPR). em qualquer momento da educação básica. O objetivo do ensino da língua é propiciar ao aluno. Somente a análise desses recursos em situação de uso real permite sua compreensão contextualizada. que a leitura dessas formulações sobre encaminhamentos práticos não seja desconectada das teorizações sobre o objeto do ensino da língua portuguesa e. o texto é o ponto de partida e de chegada do processo de ensino da língua. que o professor esteja atento à necessidade de adaptações em cada situação concreta. característica do ensino dito tradicional. análise linguística de textos e. 15 . Considerações Sobre a Unidade Teoria-Prática. tal objetivo implica promover a capacidade do aluno em elaborar textos de qualidade – seja na modalidade oral. recursos de articulação) em situação real de uso. na íntegra. é necessário entender como eles se articulam no interior do texto.

receitas. as determinações do contexto de produção do texto e de leitura deste na constituição dos significados. letras de música. interpretação de textos orais). situações e materiais para sua realização. entre outros. diários. revistas.). em situação de jogo. bem como da produção de textos (orais e escritos). narrativas. de diferentes situações e modalidades (individual. de estudo. contos. É importante frisar que as quatro práticas apontadas realizam-se de forma articulada de tal maneira que a abordagem dos conteúdos não se faça de modo esquemático ou por etapas. anedotas. o reconhecimento e as situações de uso dos recursos básicos da escrita (tais como grafia.). fábulas etc. debates. informações em geral. vários conteúdos articulados no texto: a oralidade. também. os recursos de estruturação do texto (coesão. informações científicas. direção da escrita. panfletos. os jogos e atividades lúdicas vão desempenhar um importante papel. de pesquisa. permitindo a repetição de conteúdos em contextos diferentes e sempre motivadores. placas. a relação oralidade/escrita. Nesse caso. nome e função no texto dos sinais de pontuação e acentuação e dos demais recursos gráficos). a fim de evitar uma possível monotonia nas atividades pedagógicas. a noção de representação. ao mesmo tempo.). poemas. de diferentes porta-textos e diferentes modalidades de discurso oral (livros. com diferentes objetivos (fruição. unidade temática etc. Na verdade. informação. de correspondência etc. de registro mnemônico. nome e valor fonético das letras e suas diferenças. 16 .). No caso da análise linguística e das atividades de sistematização. além da variação dos conteúdos enfatizados em cada momento. No caso da leitura e interpretação (lembrando que se faz. dissertações etc.Prática Educativa da Língua Portuguesa deve ser realizada para diversificar constantemente as estratégias. as quatro práticas mencionadas foram eleitas justamente porque permitem trabalhar. a variação pode se dar pela escolha e proposição de diferentes tipos de textos (correspondências. isso não significa que uma atividade exclua o trabalho com outros aspectos da língua escrita. coletiva etc. Embora em determinados momentos um ou outro conteúdo seja abordado de forma mais destacada. lendas. também é possível (e necessário) diversificar as estratégias empregadas. jornais. filmes. histórias.).

bem como trabalhar sua capacidade de interpretar a intenção do autor em um texto lido ou ouvido. sílabas e letras). analisar os recursos linguísticos disponíveis para a produção do significado pretendido.As quatro práticas do ensino da Língua Portuguesa Lembrando algumas orientações fundamentais:  o objetivo do ensino da língua. mas de:  na leitura e interpretação de um texto.  o texto é o elemento articulador de todas as atividades de ensino da língua. orações. ainda. isto é.  na produção de um texto. análise linguística e atividades de sistematização de conteúdos específicos.  a prática de sistematização dos conteúdos específicos – que é muito importante – também deve ser contextualizada e. com atividades complementares de sistematização.  para poder desenvolver várias possibilidades de uso dos recursos linguísticos. adequados àquilo que melhor realiza sua intenção ao dizer algo para alguém em determinada situação. desde as séries iniciais. produção de textos.  as quatro práticas fundamentais acima mencionadas constituem uma grande unidade pedagógica e devem ser desenvolvidas de forma articulada. quando for o caso. ou do texto à palavra ou. são fundamentais quatro práticas pedagógicas. do texto à letra ou à sílaba. é necessário trabalhar com diferentes tipos de textos.  não se trata de ir do texto à frase.  para esse trabalho de contextualização textual. derivar de situações-problema que emergirem das três outras práticas.  o trabalho com o texto não significa a ausência de trabalho com elementos menores do texto (parágrafos. Significa que cada um desses elementos deverá ser trabalhado no contexto do texto. palavras. períodos. a saber: leitura e interpretação. 17 . é tornar o aluno cada vez mais capaz de produzir textos (orais ou escritos) com qualidade. por isso. analisar os recursos linguísticos de que o autor lançou mão.

Vale notar. É a partir do confronto de textos que tratam do mesmo tema diferentemente que podemos construir os nossos pontos de vista. e como vai dizer. aqui. de análise linguística. pontuação etc. As questões da forma (grafia. Ao mesmo tempo em que desmontamos ou desvelamos as ideias contidas num texto. na perspectiva da funcionalidade dos seus elementos. Este trabalho de reconhecimento e análise servirá de base para a produção de textos dos alunos. no interior da mesma linguagem. a literária – mas todos os que concretizam um determinado discurso. Este trabalho de estrutura é chamado. por alguns autores. em outras palavras. deverá ter claro aquilo que vai dizer.. a dissertativa e a literária) mas. No que se refere à leitura. o aluno. para melhor realizar suas intenções. Eles deverão ter em mente duas perspectivas essenciais na sua produção: a unidade temática – o tratamento do mesmo tema ao longo do texto – e a unidade estrutural – a amarração entre as partes do texto. Significa. é importante perceber como as partes do mesmo se amarram.] será o nosso material verbal. Para alcançar maturidade na leitura. localizar e compreender a função dos elementos (pronomes. sobretudo. VIRMOND. Vale relembrar que sempre escrevemos para alguém ler. 1989) O texto [. não apenas um tipo de texto – normalmente a escola propõe uma linguagem única. são um pressuposto básico para o trabalho de argumentação. conjunções etc. fala e escrita: velhas atividades num horizonte novo (FARACO. Nesse sentido. Esta pluralidade deverá estar presente nos diversos tipos de linguagem (a informativa. advérbios. é preciso 18 .. nunca é demais reafirmar que todos os textos são objetos de consideração. KLEIN. A leitura e a análise contrastiva. assim. parágrafos a parágrafos etc. para quem vai dizer.) que servem para costurar frases a frases. sempre na busca de adequar melhor o seu discurso.) deverão ser trabalhadas sempre em subordinação a um trabalho mais amplo: o domínio da escrita. que estaremos sempre trabalhando com a gramática da língua – mesmo porque uma não existe sem a outra – porém.Prática Educativa da Língua Portuguesa Texto complementar Leitura. antes da sua produção.

O que se espera é que o professor crie um grau de complexidade cada vez maior na escolha dos textos e no trabalho com eles. 1990. os alunos perderão a “ingenuidade” diante do texto escrito. não é possível separar a fala da leitura ou da escrita. na medida em que as experiências dos alunos se aprofundem. Esse capítulo inclui a primeira sistematização sobre as unidades básicas do ensino de português contemplando a especificidade do processo de alfabetização. incluímos essa quarta prática. a prática da produção de textos e a prática da análise linguística. Como nas outras áreas do conhecimento. SCHAFASCHEK. Dessa forma. que se constituem no conteúdo da língua.. o domínio da língua não se dá por etapas. L. Esse artigo serviu de base para nossas próprias elaborações teóricas voltadas ao ensino da língua portuguesa.R. elaborada por Klein encontra-se no Currículo Básico de Santa Catarina (1989). 35-49. 1984.a a 8. João Wanderley. Assim. com o tempo. Ocorre que o artigo de Geraldi está orientado para o ensino de 5. como se pode observar.As quatro práticas do ensino da Língua Portuguesa alargar nossa experiência com ela.a séries e. de difícil acesso atualmente. A primeira publicação dessa sistematização. Dicas de estudo GERALDI. Alfabetização. Resta ainda tecer algumas considerações sobre a proposta de conteúdos de Língua Portuguesa. Rosicler. Campinas/Cascavel: Unicamp/Assoeste. KLEIN. deverão sempre ser trabalhadas juntas ao longo da escolarização do sujeito. a saber: a prática da leitura de textos. três das quatro práticas que propomos nessa lição. p. por exemplo. Apresenta. a prática que denominamos atividades de sistematização de conteúdos específicos. e com uma orientação adequada. em resposta às especificidades do processo de alfabetização. Não aborda. Essas práticas linguísticas. In: O Texto em Sala de Aula: Leitura & Produção. Uma vez que nossa produção orienta-se inclusive para o período dito de alfabetização. no sentido de percebê-lo como um objeto carregado de intenções. 19 . 49-69. Unidades Básicas do Ensino de Português. pressupõe um aluno que já domina minimamente a leitura/escrita. de forma muito pertinente e clara. p. In: Currículo Básico para a Escola Pública do Estado do Paraná. Curitiba: SEED. mas numa perspectiva de continuidade. portanto.

Assinale a alternativa que corresponde à relação teoria-prática: ( ( ( ) A teoria e a prática são independentes uma da outra. ) Uma teoria. o percurso concreto de produção de um dado conhecimento. que pode ser encontrado através do site <www. norteando a ação educativa. ) Teoria e prática são intimamente relacionadas: ora a prática oferece os elementos para a construção da teoria. quando bem formulada. ) Mesmo que a teoria seja adequada. uma área autônoma. porque. deverá ser reformulada sempre que a realidade concreta.Prática Educativa da Língua Portuguesa por ter se dado na forma de jornal. Quanto à validade e eficácia de uma teoria. por si mesmo. ainda que bem elaborada. Atividades 1. na prática os processos são muito diferentes daquilo que se vê na teoria. caso existam. é correto afirmar que: ( ( ) Uma teoria bem elaborada constitui uma verdade imutável que jamais deverá ser objeto de adaptações ou transformações. cada qual. ) A formulação da teoria antecede a atividade prática.pr. a que essa teoria se refere. do qual não houve reedição recente. ( 2. sofrer modificações substanciais.br/portals/portal/> ou nas bibliotecas da Secretaria de Educação do Paraná e Secretaria de Educação de Santa Catarina. ) A teoria é importante porque. daí indicarmos o livro da Secretaria de Estado da Educação do Paraná. sua aplicação às situações concretas deverá levar em conta as variantes específicas daquelas situações. ) A teoria não se aplica à prática. ( ( 20 .diaadiaeducacao. ora a teoria orienta a atividade prática.gov. orienta a prática sem que o sujeito precise refazer inteiramente. configurando.

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